Esta é uma herança que o Pará vai deixar para todas as gerações.

PROF. Esp.: AUGUSTO TRINDADE (Historiador)

Pretendemos sobretudo resgatar os valores culturais da cidade de Belém com os seus prédios, monumentos e logradouros públicos de uma fase áurea vivida no final do século XIX e início do XX, que teve como sustentáculo econômico a borracha, fazendo com que a mesma vivesse a “Belle Époque”, ou, época bela. Proporcionando ao aluno valorizar um pouco daquilo que nos foi deixado por nossos ancestrais.

A PORTA DE ENTRADA DA CIDADE

Forte do Presépio, hoje Forte do Castelo.
Aos 12 de janeiro de 1616, Francisco Caldeira Castelo Branco funda a cidade de Belém, a partir de um forte de madeira, daqui os portugueses saíram para conquistar a Amazônia e de onde se avista em seu entorno a baía do Guajará, com seu intenso frenesi de barcos, na doca do ver-o-peso, o mercado de ferro, a praça do relógio e logo ao lado do forte a primeira rua a ladeira do Castelo, primeira rua de Belém.

“Alfredo então avançou pela proa e saltou na calçada pisando o chão da cidade (...) Deveria fingir indiferença, mostrar que era menino habituado a ver Belém. Mas durou pouco essa prudente resolução deixou-se caminhar entregue ao seu deslumbramento (...). BGP. D. J.

A Maior Feira Livre da América Latina

A Doca do Ver-o-Peso, sinônimo de evolução e desenvolvimento onde era parada obrigatória para registrar a entrada e saída de mercadorias, como a borracha, além dos produtos oríundos da produção agrícola e pesqueira. Servia também indiscutivelmente para as gaiolas apinhadas de imigrantes que se deslocavam para o interior das matas para explorar a borracha, a baía do Guajará tinha uma navegação a vapor intensa.

O Mercado de Ferro, Francisco Bolonha, obra arquitetônica nos moldes ingleses de mais impressionante beleza onde se verifica uma intensa rotina comercial de diversos produtos exóticos de nossa fauna e flora, onde a pedido do Intendente Antônio Lemos buscava-se aproximar o povo dos costumes europeus.

Boulevard Castilhos França e o complexo da Alfândega em que o protagonista chega a casa dos Alcântaras em que se percebe o ambiente de hipocrisias e a preocupação com as aparência e seu Virgílio é demitido da Alfândega por participar de negócios excusos.

Uma cidade que no apogeu da exportação da borracha, tinha lojas do mesmo padrão das melhores do velho mundo, como a "Paris n'América". Esta com suas belas escadas em ferro fundido, trazidas da Europa, sempre tinha a última moda de Paris. Era a preferida da Sociedade belenense.

Endereço simbólico, da opulência e fartura em que viveram D. Inácia e S. Virgílio Alcântara, antes da crise política que acabou destituindo Antônio Lemos.

D. Inácia garante que o emprego de administrador de S. Virgílio no Mercado de São Braz é graças a participação assídua aos eventos sociais em Belém da Belle Époque.

Não se pode deixar de mencionar as Praças da República e a de Batista Campos que tentam resgatar através da flora ali disposta a exuberância de nossas florestas. Na Praça da República podemos verificar fontes artificiais que demonstram o aspecto europeu em plena efervescência dos anos 1910, muitos também chamam-na de Largo da Pólvora. A de Batista Campos tenta oferecer um clima de romantismo aos frequentadores habituais, ornada de lagos artificiais, os quais eram atravessados por pequenas pontes de madeira, Lemos mandou importar da Inglaterra gansos e cisnes para habitar os lagos, mas que na época da guerra (1939-1945), a população acabou depredando os animais.

A Praça do Relógio é um dos cartões postais que servem de marco para expor a presença do estilo europeu, principalmente o inglês cuja procedência do mesmo, exibindo aos visitantes uma visão clássica da cidade

O teatro da Paz, inaugurado em 1874 representa um marco arquitetônico para exibição de peças teatrais e óperas em plena floresta como é também seu semelhante o teatro Amazonas. No seu interior apresenta um aspecto de ferradura com a capacidade para abrigar 780 lugares onde já se apresentaram diversos artistas nacionais e internacionais.

magnífico Palácio do Presidente é sem dúvida um dos melhores edifícios do Brasil; desejaram que o Imperador tivesse um igual no Rio de Janeiro”.

“O

Palácio do governo Lauro Sodré, antiga residência dos governadores provinciais, Palácio dos Despachos, hoje Museu do Estado do Pará. Foi obra de Antônio José Landi em 1772, mas, sofreu reformas substanciais à época do apogeu da borracha, hoje abriga um grande acervo de obras de artistas plásticos da região e de viajantes que aqui deixaram suas impressões sobre a terra.

Palácio Antônio Lemos também conhecido como Palacete Azul, onde funcionava a Intendência da Cidade é responsável pela guarda de grandes peças do mobiliário, decorativas e luminárias, isto porque hoje é ocupado pelo Museu de Arte de Belém, mas também funciona a sala de despachos da prefeitura da cidade.

O Museu de Arte Sacra-MAS, formado

pelo conjunto arquitetônico da Igreja de São Francisco Xavier e pelo Colégio de Santo Alexandre, que desde a expulsão dos jesuítas em 1760, tornou-se sede do Arcebispado. Fazem parte do Museu 320 peças sacras, originárias do espólio jesuítico, outras 200 peças vindas de coleções particulares.

“...já pela hora da transladação, seu Virgílio, sob o peso da romaria passando pelas três janelas, receou que a casa, esta, fosse cair ao sopro das bocas que rezavam, cantavam, falavam, riam. (...) BGP- D. J.

Basílica de Nossa Senhora de Nazaré está situada no mesmo local onde o caboclo Plácido encontrou a imagem da virgem de Nazaré, que deu início à devoção nazarena em Belém. Começou como uma singela capela, em 1774. Hoje é um dos símbolos mais importantes do Círio de nossa Senhora de Nazaré, a maior manifestação religiosa do mundo católico.

Ponto turístico mais citado por quem lembra de Belém, o Museu Paraense Emílio Goeldi dá à cidade uma feição única. Encravado num dos bairros centrais, Nazaré, são cinco hectares de área verde. Esse microcosmo da floresta Amazônica resiste bravamente ao progresso que alcançou a cidade. Reconhecido há tempos como um dos mais importantes centros de pesquisa científica do Brasil, dedica-se ao estudo da flora e fauna Amazônica.

O suporte econômico da borracha, que por uma geração (1890-1912), pouco mais de 20 anos, a figura do mecenas à renascença do intendente (prefeito) Antônio José Lemos, (1897-1910), o engenheiro Francisco Bolonha e algumas famílias mais ricas: Faciola, Pinho, Paes, Barreto, Montenegro entre outras permitiram a Belém, luxos hoje lendários e algumas decorações dos Teatros, palácios, mercados, praças e até caixas d’água e postes, arquiteturas ecléticas constituindo os vestígios da Belle Époque belemense, que hoje fazem parte apenas de uma época de abundância, bem estar e requintes sociais.

Ficam assim expostos alguns elementos fundamentais da história de nossa terra, numa memória dilapidada pelo progresso, fala-se do fausto e da riqueza, da miséria e da pobreza, mas sobretudo das diversas estórias contadas pelo povo, alguns falando com saudosismo e outros com profundo pesar, e mesmo assim não seria possível expor em diversas enciclopédias todos esses episódio.

As características dominantes na sociedade e, mesmo, na cultura brasileira e regional. O teatro, a música, a literatura, as artes plásticas e decorativas – Art Nouveau -, assim como boas maneiras (cultivo da língua francesa e a presença do piano nas mansões e nas casas de classe média, etc) distanciava o mundo dos seringalistas, aviadores e prósperos comerciantes dos seringueiros e das classes mais baixas. A intensidade com que a elite da Amazônia cultivou as regras emanadas da Belle Époque, e mesmo os monumentos arquitetônicos, como também as demais representações estéticas peculiares à transição vivida no mundo contemporâneo (passagem do século XIX para o XX), não bastaram para esconder o artificialismo presente na adoção desses modelos pela elite regional.

Bruno de Menezes nasceu em Belém, no bairro do Jurunas, no dia 21 de março de 1893, numa casa de família humilde. O pai, Dionísio Cavalcante de Menezes, (pedreiro). A mãe, Maria Balbina da Conceição Menezes, (doméstica). Bruno aprendeu a ler e escrever com a figura paterna e prosseguiu a iniciação nas letras em uma escolinha particular, perto de sua residência.

Tornou-se imortal como membro da Academia Paraense de Letras, onde foi presidente entre os anos de 1956 e 1958. Pertenceu ao I.H.G.Pa., à Sociedade Amigos de Belém, ao Instituto Brasileiro de Educação, Ciência e Cultura e à Comissão Permanente de Folclore. Faleceu no dia 02/06/1963, em Manaus, quando participava de um congresso sobre folclore. “Soube que após a sua participação no congresso, ele dançou e se divertiu muito. Ele morreu feliz”, segundo Maria de Belém Menezes (filha).

Batuque não representa uma simples publicação com conteúdo regional, mas é, sobretudo, um passo para o movimento renovador, que viria traçar novos moldes para os versos brasileiros, e alimentar a luta pela nacionalização dos assuntos, reagindo à importação da cultura enlatada tão presente nos estilos parnasiano e simbolista. Entramos em contato com a atualidade das coisas, ouvindo a voz do nosso povo, aprendendo e conhecendo, através da pintura, os ambientes caseiros, a linguagem, o ritmo, as tradições populares, como a condução de mastros festivos, pretos velhos bebendo cachaça, mulatas “passarem fogueiras”, pajés fumarem liamba. Batuque retrata a feição de nosso folclore, e reflete o sentimento de nossas tradições, ambos desvirtuados por uma falsa consciência de sermos originários de uma civilização latina, representada, em nossos contexto histórico, pelos portugueses, que alguns insistem em exaltar, tentando negar ou dar importância secundária à presença da cultura africana em nossa formação étnica, cultural e social.

"BATUQUE é um retrato de Belém, história do Umarizal, da Pedreira e da Cremação, do cais e das velhas docas. O subúrbio e o terreiro, em suas páginas, estão dançando e cantando. A obra, por isso, tem uma saborosa força nativa e o poeta nos transmite a vida brasileira que ele viu, gozou e viveu nesta Belém tão sua. BATUQUE tem uma importância histórica e literária na poesia brasileira, sobretudo na poesia da Amazônia. O poema atravessa a cidade como um igarapé de maré cheia... Batuque faz parte da nossa cidade, como a Sé, a lembrança de Angelim, a tacacazeira, o Ver-oPeso. Em muitos versos falam os devotos do Mastro do Divino, sussurram os namorados, sob o jasmineiro, na velha Dois de Dezembro ou na Vila da Barca, ouve-se a reza da Tia Ana das Palhas, "que foi do tempo dos cabanos". É o tom grosso dos estivadores, o movimento dos meninos empinando papagaios e correndo atrás dos cordões e bumbás nas noites de São João. BATUQUE tem uma importância histórica e literária na poesia brasileira, sobretudo na poesia da Amazônia.“
(Jornal da "Folha do Norte", Belém 24.10.1960)

Liamba! Teu fumo foi fuga do cativeiro, Trazendo atabaques rufando pra dansas, Na magia guerreira do reino de Eixú.
Liamba! Na tontura gostosa na quebreira vadia que sentem os teus “defumados”, estaria toda a “fôrça” dos Santos Pretores que vieram da outra banda do mar?

O que tu põe no teu corpo que ele chêra até no vento? Tu não é rosa nem cravo nem jasmim nem ubganti... O que tu é é a Frôzina que tem tudo que tem as ôtra mulhé ...

Batuque, portanto, como marco literário, introduzindo na literatura paraense os ideais renovadores da Semana de Arte Moderna, explorando o verso livre, a temática inovadora, o negro que já foi amostrado na senzala por Castro Alves, no Brasil colonial feito pelas sátiras de Gregório. Como fator de discriminação e dor na poética de Cruz e Sousa, agora como elemento ativo e efetivo presente na formação etno-cultural, com raízes profundas, acrescentando-se ainda, a melodia, os ritmos que enriquecem a nossa tradição cultural e que tão bem foram incluídos no poema pelo autor, e que fluem com beleza e originalidade à medida que lemos os versos, a leitura nos faz lembrar muitas cantigas de nosso folclore, há, ainda, a plasticidade da presença africana em nossa cultura, pela pintura que o autor permite fazer com a exploração da linguagem cabocla que o mesmo, por ser um andarilho e conhecedor de nosso folclore tão bem dominava.

BÊNÇÃO Meu São Jorge milagroso grande Santo protetor que lutaste com o tinhoso pela graça do Senhor. No meu cavalo valente levando a lança na mão São Jorge foi um repente que dominou o dragão. São Jorge sendo um soldado lutou em favor da cruz pelo sangue derramado do nosso pai que é Jesus. São Jorge hoje está no céu tem na lua seu altar coberto com branco véo quando é noite de luar.

São Jorge nos dê seu manto nos olhe por vosso bem São Jorge querido Santo para sempre e sempre Amén!

A urbe paraense ainda está por descobrir o imenso potencial de sua cultura popular, ainda timidamente representada nos museus. Mesmo assim, é pulsante o orgulho do povo daquela região ao mostrar seus ritos, mitos e danças, patrimônio resgatado e exposto em perfeita sintonia com o lugar. Um dos mais curiosos exemplos na esteira do que poderíamos chamar de propagação de cultura são os passeios de barco, feitos por companhias de turismo pela orla da cidade, com música, dança e culinária locais. Medidas como essa vêm reforçar a diversidade e as peculiaridades do folclore nortista.
JOSÉ AUGUSTO TRINDADE – Professor História