Fls.
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Poder Judiciário
Justiça do Trabalho
Tribunal Regional do Trabalho da 8ª Região
Ação Civil Pública Cível
0001135-97.2024.5.08.0118
Tramitação Preferencial
- Trabalho Escravo
Processo Judicial Eletrônico
Data da Autuação: 05/12/2024
Valor da causa: R$ 165.000.000,00
Partes:
AUTOR: MINISTERIO PUBLICO DO TRABALHO
RÉU: VOLKSWAGEN DO BRASIL INDUSTRIA DE VEICULOS AUTOMOTORES LTDA
ADVOGADO: ALEXANDRE DE ALMEIDA CARDOSO
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PODER JUDICIÁRIO
JUSTIÇA DO TRABALHO
TRIBUNAL REGIONAL DO TRABALHO DA 8ª REGIÃO
VARA DO TRABALHO DE REDENÇÃO
ACPCiv 0001135-97.2024.5.08.0118
AUTOR: MINISTERIO PUBLICO DO TRABALHO
RÉU: VOLKSWAGEN DO BRASIL INDUSTRIA DE VEICULOS AUTOMOTORES
LTDA
SENTENÇA DE CONHECIMENTO
1. RELATÓRIO
O MINISTÉRIO PÚBLICO DO TRABALHO ajuizou, em 5 de
dezembro de 2024, a presente Ação Civil Pública, autuada sob o nº 0001135-
97.2024.5.08.0118, em face de VOLKSWAGEN DO BRASIL INDÚSTRIA DE VEÍCULOS
AUTOMOTORES LTDA, pleiteando a condenação da reclamada ao pagamento de
indenização por dano moral coletivo e ao cumprimento das obrigações de fazer. Juntou
documentos.
Na decisão de ID. 3d7edb0, o Juízo determinou a inversão do
ônus da prova, atribuindo à parte reclamada o encargo de demonstrar que as
condições descritas na petição inicial não ocorreram. Na mesma decisão, foi deferida a
prioridade no andamento da presente demanda, em observância à Recomendação
Conjunta [Link] nº 25/2022.
A parte reclamada apresentou Exceção de Incompetência em
razão do lugar (ID. f119bed). Em seguida, a parte autora apresentou manifestação (ID.
c71569c). Na decisão de ID. 1576b78, o Juízo rejeitou a Exceção de Incompetência,
mantendo a tramitação do processo na Vara do Trabalho de Redenção/PA.
Na audiência de ID. bee31fb, designada para tentativa de
conciliação, foi rejeitada a primeira proposta conciliatória. Ato contínuo, foi recebida a
defesa escrita apresentada pela reclamada. Em sua peça, a reclamada apresentou
preliminares e prejudiciais e, no mérito propriamente dito, requereu a total
improcedência dos pedidos. Juntou documentos. Foi deferido prazo à parte autora
para manifestação sobre as preliminares, as prejudiciais e sobre os documentos
apresentados.
O valor da causa foi fixado de acordo com o montante indicado
na inicial.
Na manifestação de ID. 99e02dc, o MPT apresentou impugnação
à contestação e aos documentos apresentados pela reclamada. Por sua vez, na
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manifestação de ID. a2bd0d0, a parte reclamada, espontaneamente, apresentou
impugnação à manifestação do MPT.
Na audiência de prosseguimento, o preposto da reclamada
prestou depoimento. Em seguida, foram ouvidas cinco testemunhas apresentadas pela
parte requerente, sendo a primeira e a quinta ouvidas como informantes, em razão do
acolhimento da contradita oposta contra elas. A parte reclamada não apresentou
testemunhas.
Não havendo mais provas a produzir, foi declarada encerrada a
instrução processual.
Considerando a complexidade do caso, as partes requereram, e
o Juízo deferiu, o prazo de quinze dias para apresentação de razões finais, mantendo-
se o encerramento da instrução processual.
As partes apresentaram razões finais escritas.
Recusada a segunda proposta de conciliação.
É o relatório. Decido.
2 FUNDAMENTAÇÃO
2.1 PRELIMINARES
2.1.1 DA INCOMPETÊNCIA DA JUSTIÇA DO TRABALHO
A parte reclamada sustenta a incompetência da Justiça do
Trabalho, com fundamento no art. 114 da Constituição Federal, sob o argumento de
que não há relação de emprego entre os trabalhadores mencionados na petição inicial
e a empresa demandada.
Alega que os trabalhadores mantiveram vínculo não
empregatício com empreiteiras contratadas pela Companhia Vale do Rio Cristalino S/A,
proprietária da fazenda onde ocorreram os fatos narrados. Sustenta que a Volkswagen
era apenas uma ex-acionista da referida companhia, da qual se retirou na década de
1980, não possuindo qualquer vínculo jurídico ou contratual com os trabalhadores ou
com os empreiteiros. Ressalta, ainda, que nem os empreiteiros, nem a Companhia Vale
do Rio Cristalino S/A, tampouco seus sucessores integram o polo passivo da ação, não
havendo pedido de reconhecimento de vínculo empregatício nem alegação de
prestação de serviços diretamente à Volkswagen.
Argumenta que a causa de pedir e os pedidos formulados
envolvem direitos de natureza civil, especialmente indenização por danos morais
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coletivos decorrentes de suposta violação a direitos humanos, o que extrapola a
competência da Justiça do Trabalho.
Por fim, argumenta que, segundo jurisprudência do STJ, ações
relativas a fraudes em relações civis devem ser submetidas à Justiça Comum,
especialmente quando não há pedido de vínculo empregatício nem alegação de
terceirização.
Dessa forma, pleiteia o acolhimento da preliminar, com a
declaração de incompetência da Justiça do Trabalho e extinção do feito sem resolução
de mérito, nos termos do art. 485, IV, do CPC.
Sobre o assunto, o Ministério Público do Trabalho sustenta a
competência da Justiça do Trabalho para julgar a presente Ação Civil Pública, nos
termos do art. 114 da Constituição Federal, em razão de tratar-se de matéria
decorrente da relação de trabalho e de violação de direitos sociais, conforme também
previsto no art. 83, III, da LC nº 75/1993. A causa de pedir envolve submissão de
trabalhadores a condições análogas à escravidão e tráfico de pessoas para fins de
exploração laboral, com afronta a normas de segurança, higiene e saúde, situação
expressamente abrangida pela Súmula 736 do STF.
Argumenta-se que a discussão sobre eventual responsabilidade
da reclamada integra o mérito da demanda e não afeta a competência, que subsiste
ainda que os trabalhadores não sejam empregados diretos ou que haja contratos de
empreitada, pois a controvérsia versa sobre meio ambiente de trabalho digno. Ressalta-
se também que a Justiça do Trabalho tem atribuição para verificar o cumprimento das
Convenções nº 29 e 105 da OIT, ratificadas pelo Brasil, que impõem a adoção de
medidas efetivas para abolir o trabalho forçado e assegurar a fiscalização.
Defende que a competência desta Justiça Especializada deve ser
reconhecida não apenas pela sua especialização técnica, mas também por sua vocação
social e sensibilidade às questões laborais, funcionando como instrumento de
promoção da justiça social e proteção do valor social do trabalho (CF, art. 1º, IV). Citam-
se doutrinadores que reforçam o papel da Justiça do Trabalho no combate ao trabalho
escravo e na efetividade dos direitos fundamentais do trabalhador.
Por fim, rejeita o pedido de extinção do processo sem resolução
do mérito, destacando que a declaração de incompetência absoluta gera apenas a
remessa dos autos ao juízo competente (art. 64, §3º, CPC). Assim, requer a rejeição da
preliminar e o reconhecimento da competência da Justiça do Trabalho.
Analiso.
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O art. 114 da Constituição Federal, após a EC nº 45/2004,
ampliou significativamente a competência material da Justiça do Trabalho, conferindo-
lhe jurisdição para processar e julgar não apenas ações oriundas da relação de
emprego (inciso I), mas também outras controvérsias decorrentes da relação de
trabalho lato sensu, bem como ações de indenização por danos morais e materiais
decorrentes dessa relação, inclusive quando proposta por entes legitimados
coletivamente.
A interpretação restritiva, limitando tal competência apenas aos
casos de vínculo empregatício, não encontra amparo no texto constitucional nem na
interpretação doutrinária e jurisprudencial consolidada.
No caso, a narrativa envolve a submissão de trabalhadores a
condições análogas às de escravo e tráfico de pessoas para fins de exploração laboral,
com afronta a normas de segurança, higiene e saúde do trabalho. Trata-se, pois, de
matéria típica de relação de trabalho e de tutela do meio ambiente laboral, o que,
segundo a própria Súmula 736 do STF, atrai a competência desta Justiça Especializada.
Nesse sentido, a Súmula 736 do STF dispõe que "Compete à Justiça do Trabalho julgar
as ações que tenham como causa de pedir o descumprimento de normas trabalhistas
relativas à segurança, higiene e saúde dos trabalhadores”.
Ademais, a jurisprudência do Tribunal Superior do Trabalho -
TST e do próprio Supremo Tribunal Federal - STF firmou-se no sentido de que a
competência se mantém quando o núcleo da lide envolve a proteção de direitos
fundamentais do trabalhador, ainda que não haja vínculo empregatício direto,
abrangendo hipóteses de trabalho análogo ao escravo, meio ambiente laboral e tráfico
de pessoas para fins de exploração laboral.
Sobre o assunto, destaco decisão do TST, a saber:
(...) AGRAVO DE INSTRUMENTO. RECURSO DE
REVISTA INTERPOSTO A ACÓRDÃO PUBLICADO NA VIGÊNCIA DA LEI N.º
13.467/2017. INDEPENDÊNCIA ENTRE AS INSTÂNCIAS TRABALHISTA E
CRIMINAL. EXPLORAÇÃO DE TRABALHO INFANTIL. SUBMISSÃO A
TRABALHO FORÇADO E DEGRADANTE. RESPONSABILIDADE CIVIL.
TRANSCENDÊNCIA JURÍDICA RECONHECIDA. 1. Cinge-se a controvérsia à
definição dos limites da independência entre as instâncias trabalhista e
penal. 2. A matéria ora controvertida enseja o reconhecimento da
transcendência jurídica, uma vez que não há, nesta Corte
uniformizadora, entendimento jurisprudencial iterativo e pacífico no
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âmbito de suas Turmas quanto ao tema (artigo 896-A, § 1º, IV, da CLT). 3.
Embora não seja competência da Justiça do Trabalho subsumir os fatos
constatados nos autos ao tipo penal, compete a esta Justiça
Especializada o julgamento de eventuais violações aos direitos
fundamentais decorrentes da exploração do trabalho humano. Em
outras palavras, compete à Justiça Federal subsumir o fato concreto à
norma penal - no caso, as condições de trabalho ao tipo penal de
redução a condição análoga à de escravo, nos termos do artigo 149 do
Código Penal - para fins de responsabilização na esfera criminal. De
outro lado, compete a esta Justiça Especializada analisar, no caso
concreto, se o trabalho era prestado em condições decentes ou
degradantes para fins de responsabilização na esfera civil. 4. No caso
dos autos, a materialidade, ou seja, a existência dos fatos narrados
encontra-se suficientemente comprovada, conforme expressamente
consignado no acórdão prolatado pelo Tribunal Regional. Não se discute
o fato típico para fins de responsabilização penal, mas se as condições
de trabalho concretamente verificadas causaram dano a bens jurídicos
de natureza extrapatrimonial do reclamante. 5. Com efeito, trata-se de
reclamação trabalhista ajuizada por trabalhador que, ainda em tenra
idade, foi levado por seus pais ao núcleo de comunidade evangélica que
pregava a renúncia aos bens materiais, com transferência de sua
propriedade à organização religiosa e adesão dos fiéis à vida no campo.
6. Segundo registrou o Tribunal Regional, soberano na análise do
contexto fático-probatório dos autos, o reclamante mudou-se
juntamente com seus pais para fazenda de propriedade das
reclamadas, onde laborou desde os seis anos de idade em proveito da
organização religiosa. 7. Para além do trabalho infantil explorado,
constatou-se ainda a submissão do reclamante a trabalho forçado e em
condições degradantes, nos termos da Convenção n.º 29, artigo 2, item
2, da Organização Internacional do Trabalho e da Portaria n.º 1.293
/2017 do Ministério do Trabalho. 8. Nas formas contemporâneas de
escravidão, a restrição à liberdade de ir e vir não se dá apenas por meio
de coação física, mas também psicológica, o que se verifica no caso
concreto por meio das ameaças a que se refere a prova testemunhal, no
sentido de os fiéis não poderem deixar o local de trabalho. 9. No caso
dos autos, verifica-se a existência de uma hierarquia na estrutura
interna da organização religiosa, que se converteu em exercício abusivo
do poder religioso sobre os fiéis, por parte dos líderes. Nesse contexto,
o direito de resistência do empregado é aniquilado e eventual
constrangimento psíquico adquire contornos ainda mais nocivos. 10.
Assim, independentemente da subsunção dos fatos constatados nos
autos ao tipo penal do artigo 149 do Código Penal, tais fatos
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materializam, a partir do arcabouço normativo que rege o Direito do
Trabalho, a grave violação do direito fundamental ao trabalho digno que
é a submissão de uma criança em tenra idade a trabalho infantil forçado
e em condições degradantes. 11. Incólumes os artigos 935 do Código
Civil e 64, parágrafo único, do Código de Processo Penal. 12. Agravo de
Instrumento a que se nega provimento. (…) (AIRR-10639-
79.2018.5.03.0053, 6ª Turma, Relator Ministro Lelio Bentes Correa, DEJT
14/10/2022). (negrito nosso)
Da leitura da petição inicial e dos fundamentos do MPT, verifica-
se que a causa de pedir remota é a suposta prática de condutas que submeteram
trabalhadores a condições análogas à escravidão, no contexto de atividade econômica
desenvolvida na Fazenda Vale do Rio Cristalino. A pretensão indenizatória por danos
morais coletivos está ancorada na proteção ao meio ambiente do trabalho e na tutela
de direitos sociais fundamentais, temas que se inserem no campo material do Direito
do Trabalho.
O fato de não haver pedido de reconhecimento de vínculo
empregatício ou de inexistir contratação direta entre os trabalhadores e a demandada
não afasta a competência trabalhista, pois o que se examina é a violação de direitos
decorrentes de trabalho humano prestado a outrem, ainda que por intermédio de
terceiros. A eventual discussão sobre responsabilidade da reclamada é questão de
mérito, a ser analisada oportunamente.
No tocante à competência para julgamento do crime de redução
à condição análoga à de escravo, previsto no art. 149 do Código Penal, o Supremo
Tribunal Federal consolidou entendimento de que compete à Justiça Federal processar
e julgar tais infrações penais. Todavia, as repercussões trabalhistas e civis da prática
ilícita — a exemplo da reparação por danos morais coletivos, do reconhecimento de
vínculos de emprego, do pagamento de verbas salariais e rescisórias, bem como de
todas as demais consequências decorrentes da exploração ilícita da força de trabalho -
inserem-se na esfera da competência material da Justiça do Trabalho, nos termos do
art. 114 da Constituição Federal.
Dessa forma, a Justiça Federal exerce jurisdição sobre a esfera
criminal, enquanto à Justiça do Trabalho compete a apreciação das consequências civis
e trabalhistas derivadas dos fatos constatados.
Ademais, a Justiça do Trabalho é o foro adequado para aferir o
cumprimento, pelo Brasil, das obrigações assumidas nas Convenções nº 29 e nº 105 da
OIT, que impõem a adoção de medidas efetivas para abolir o trabalho forçado e
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garantir fiscalização, reforçando a vocação constitucional desta Justiça na proteção do
valor social do trabalho e da dignidade humana.
Diante disso, e considerando que a matéria discutida é
eminentemente trabalhista, abrangendo direitos fundamentais dos trabalhadores e
normas internacionais protetivas, rejeito a preliminar de incompetência da Justiça do
Trabalho.
2.1.2 AÇÃO DE ABRANGÊNCIA NACIONAL. COMPETÊNCIA DE
UMA DAS VARAS DAS SEDES DOS TRIBUNAIS REGIONAIS DO TRABALHO. REGISTRO DE
PROTESTOS
A reclamada manifesta inconformismo com a decisão do juízo
que rejeitou a Exceção de Incompetência Territorial, mantendo a competência da Vara
do Trabalho de Redenção/PA, sob o fundamento de que os fatos narrados ocorreram
na Fazenda Vale do Rio Cristalino, situada em Santana do Araguaia/PA.
Sustenta que a petição inicial atribui abrangência nacional aos
supostos danos, o que afastaria a aplicação da regra ordinária de competência
territorial. Destaca que o Ministério Público do Trabalho não promoveu a investigação
na 8ª Região, mas sim nas PRTs da 1ª e da 9ª Regiões, por meio de Grupo Especial de
Atuação Finalística (GEAF) coordenado por procurador sem vínculo com a PRT da 8ª
Região. Segundo a reclamada, o histórico da apuração e os próprios termos da inicial
evidenciam o alcance nacional da suposta lesão, o que atrairia a aplicação da OJ nº 130
da SDI-2 do TST, autorizando o ajuizamento da ação no foro do domicílio do réu ou no
local do ato.
Por se tratar de decisão interlocutória irrecorrível de imediato, a
parte apresentou protesto antipreclusivo, com a finalidade de resguardar o direito de
recorrer oportunamente.
De outro lado, o MPT argumenta que o Tribunal Superior do
Trabalho entende que, nas ações civis públicas, a extensão da decisão deve observar os
limites do pedido e não a competência territorial do juízo, conforme arts. 103 e 104 do
CDC, que preveem eficácia erga omnes (direitos difusos e individuais homogêneos) e
ultra partes (direitos coletivos stricto sensu).
Defende que a limitação territorial do art. 16 da Lei 7.347/85 não
restringe a eficácia subjetiva da coisa julgada, que alcança todos os integrantes da
relação jurídica, mesmo fora da jurisdição do órgão prolator, entendimento reforçado
por precedentes do TST e pela tese firmada no STF (Tema 1075), que declarou
inconstitucional a limitação territorial do referido artigo.
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Afirma que a competência territorial é definida pelo local do
dano (art. 2º da Lei 7.347/85 e art. 93 do CDC), enquanto a eficácia da decisão decorre
da natureza dos interesses tutelados. No caso, o dano ocorreu na Fazenda Volkswagen,
em Santana do Araguaia/PA, o que fixa a competência da Vara do Trabalho de
Redenção, sem aplicação da OJ 130 da SBDI-2/TST.
Por fim, sustenta que a reclamada confundiu o conceito de local
do dano (critério de competência) com o de extensão do pedido (critério para eficácia
da decisão). Outrossim, argumenta que o STJ também já firmou que não se deve
limitar, aprioristicamente, os efeitos de decisões em ações civis públicas ao território da
competência do órgão julgador. Assim, entende que dever ser mantida a rejeição da
exceção de incompetência territorial.
Analiso.
Por se tratar de decisão interlocutória, o seu exame será
apreciado pela instância superior no momento adequado, como matéria de eventual
recurso, se assim for colocado pela parte.
Sobre o assunto, assim decidiu a instância de origem:
2.2 MÉRITO. COMPETÊNCIA
A VOLKSWAGEN DO BRASIL INDÚSTRIA DE
VEÍCULOS AUTOMOTORES LTDA sustenta que a presente ação, por
supostamente possuir abrangência nacional, deveria ser processada e
julgada por uma das Varas do Trabalho situadas nas sedes dos
Tribunais Regionais do Trabalho, especialmente em São Paulo, onde se
localiza a sede da empresa. Fundamenta sua pretensão na Orientação
Jurisprudencial nº 130 da SDI-2 do TST, argumentando que o alcance da
decisão demandada abarca vários estados e que a concentração de
empregados e a gestão administrativa da empresa ocorrem em São
Bernardo do Campo/SP.
O MINISTÉRIO PÚBLICO DO TRABALHO
impugnou a exceção, alegando que a competência territorial deve ser
fixada com base no foro do local do dano, conforme o art. 2º da Lei nº
7.347/85 e o art. 93, inciso I, do Código de Defesa do Consumidor,
dispositivo aplicável subsidiariamente. Destacou que a Fazenda Vale do
Rio Cristalino, onde ocorreram os fatos narrados, está situada no
município de Santana do Araguaia/PA, sob a jurisdição da Vara do
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Trabalho de Redenção/PA. Assim, defende que o juízo competente para
processar e julgar a presente demanda é aquele do local onde ocorreu a
suposta lesão aos direitos fundamentais dos trabalhadores.
O MPT também alega que a jurisprudência do
TST é clara ao determinar que, em demandas coletivas, a abrangência
da coisa julgada deve observar os limites do pedido e não a
competência do juízo prolator da decisão. Acrescenta que, conforme
recente decisão do Supremo Tribunal Federal no Tema 1075, a redação
original do art. 16 da Lei 7.347/85 foi repristinada, afastando-se a
limitação territorial dos efeitos das decisões em ações civis públicas.
Requer ainda que as audiências sejam realizadas
presencialmente, considerando a complexidade da matéria e a
necessidade de oitiva de testemunhas que podem não ter acesso à
internet.
Analiso.
Nos termos do art. 2º da Lei 7.347/85, que
disciplina a Ação Civil Pública, “as ações previstas nesta Lei serão
propostas no foro do local onde ocorrer o dano, cujo juízo terá
competência funcional para processar e julgar a causa”. Ademais, o art.
93, inciso I, do Código de Defesa do Consumidor - CDC estabelece que
“ressalvada a competência da Justiça Federal, é competente para a
causa a justiça local, no foro do lugar onde ocorreu ou deva ocorrer o
dano, quando de âmbito local”.
No presente caso, os autos demonstram que os
fatos objeto da demanda ocorreram na Fazenda Vale do Rio Cristalino,
situada no município de Santana do Araguaia/PA, o que atrai a
competência da Vara do Trabalho de Redenção/PA. Embora a
demandada alegue que a ação possui abrangência nacional, isso não
afasta a regra de competência territorial fixada pela legislação.
Sobre os efeitos da decisão proferida em Ação
Civil Pública, o Supremo Tribunal Federal, no Tema 1075, fixou a
seguinte tese:
I - É inconstitucional a redação do art. 16 da Lei
7.347/1985, alterada pela Lei 9.494/1997, sendo repristinada sua
redação original.
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Do Recurso Extraordinário 1.101.937/SP, utilizado
como leading para a fixação do Tema 7025, extrai-se importante case
lição exarada pela Procuradoria-Geral da República sobre o tema.
Consta:
[...] 3. A limitação territorial dos efeitos da coisa
julgada, prevista no art. 16 da Lei 7.347/1985, dificulta o acesso à Justiça
e impede a efetiva entrega da prestação jurisdicional.
4. Os efeitos e a eficácia da sentença não se
balizam, a priori, por marcos territoriais: atêm-se aos limites objetivos e
subjetivos do decisum, levando em consideração, para tanto, a extensão
do dano e a qualidade dos interesses transindividuais postos em juízo.
5. A restrição territorial estabelecida pelo art. 16
da Lei 7.347/1985 mostra-se imprópria para as ações civis públicas que
versem sobre direitos difusos, coletivos strictu sensu e individuais
homogêneos, em face das características do processo coletivo de
tratamento único e uniforme do litígio e da indivisibilidade do bem
jurídico tutelado.
6. Afastar a limitação territorial da coisa julgada
erga omnes das ações civis públicas significa (i) dar primazia aos
preceitos constitucionais pertinentes ao sistema de defesa coletiva; (ii)
favorecer a administração da Justiça; (iii) proteger a vulnerabilidade dos
titulares do interesse coletivo reivindicado; e (iv) conferir tratamento
isonômico aos jurisdicionados.
7. A constitucionalidade do disposto no art. 16 da
Lei 7.347/1985, com a redação dada pela Lei 9.494/1997, há de ser
analisada em paralelo com a evolução do próprio sistema de defesa
coletiva, a qual oferece alternativas que minoram o risco de uso abusivo
das ações coletivas e evitam o chamado forum.
8. Proposta de tese de repercussão geral: É
inconstitucional o art. 16 da Lei 7.347/1985, com a redação dada pela Lei
9.494/1997, segundo o qual a sentença na ação civil pública fará coisa
julgada erga omnes nos limites da competência territorial do órgão
prolator, por limitar indevidamente a ação civil pública e a coisa julgada
como garantias constitucionais e implicar obstáculo ao acesso à Justiça e
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tratamento anti-isonômico aos jurisdicionados. # Parecer pelo
desprovimento dos recursos e fixação da tese sugerida.” (RE 1101937 /
SP)
O parecer acima evidencia a distinção entre o
juízo competente para apreciar o feito e os efeitos da decisão e seus
beneficiários, que não estão vinculados à competência territorial do
órgão jurisdicional. Esta última apenas limita o exercício da jurisdição, e
não os efeitos ou a eficácia da sentença, os quais estão relacionados aos
limites da lide e das questões decididas.
A doutrina processual também corrobora essa
posição. Sobre o assunto, Hugo Nigro Mazzilli arremata que "a
imutabilidade erga omnes de uma sentença não tem relação com a
competência do juiz que a profere. A competência define qual órgão da
jurisdição decidirá a ação; no entanto, a imutabilidade do que foi
decidido estende-se a todo o grupo, classe ou categoria de lesados,
conforme a natureza do interesse defendido, o que pode ultrapassar os
limites territoriais do juízo prolator da sentença (A Defesa dos Interesses
Difusos em Juízo, 30ª ed., São Paulo:Saraiva, 2017, p. 698).
O mesmo autor, ao comentar o CDC, salienta
que: "O CDC estende a competência do juiz prolator a todo o Estado ou
a todo o País, conforme o dano seja regional ou nacional (art. 93, II).
Assim, os limites da competência territorial do órgão prolator previstos
no art. 16 da Lei n. 7.347/85 não são aqueles fixados na regra de
organização judiciária quanto à competência do juízo, mas, sim, os que
decorrem do art. 93 do CDC em função do alcance do dano que deu
causa à demanda" (A Defesa dos Interesses Difusos em Juízo, 20ª ed.,
São Paulo: Saraiva, 2007, p. 527-528).
Na mesma linha, Ada Pellegrini Grinover
argumenta que limitar o alcance da decisão com base em critérios de
competência territorial contraria o artigo 103 do CDC e desconsidera o
artigo 93, II. Segundo a autora: "Evidentemente, a decisão deve valer
para todo o território nacional. Esse dispositivo se aplica a outros casos
de interesses que abrangem grupos e categorias de indivíduos
espalhados pelo território nacional" (Código Brasileiro de Defesa do
Consumidor: Comentado pelos Autores do Anteprojeto, 9ª ed., Rio de
Janeiro: Forense Universitária, 2007, p. 942).
Em outro estudo, a doutrinadora pontua que: "O
dispositivo da lei tentou (sem êxito) limitar a competência, mas não
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abordou o objeto do processo. O âmbito da coisa julgada é
determinado pelo pedido, não pela competência. Se o pedido possui
abrangência nacional, restrições de competência não podem limitá-lo"
(A Aparente Restrição da Coisa Julgada na Ação Civil Pública, in Temas
de Direito Ambiental e Urbanístico, São Paulo: Max Limonad, 1998, p.
12).
Destaca-se ainda que, no Recurso Especial
411.529/SP, a Ministra Nancy Andrighi ressaltou que: "A coisa julgada é
meramente a imutabilidade dos efeitos da sentença. Mesmo limitada
aquela, os efeitos da sentença produzem-se erga omnes, para além dos
limites da competência territorial do órgão julgador." No mesmo
sentido, outros precedentes, como o REsp 557.646/DF (Rel. Min. Eliana
Calmon), CC 109.435 (Rel. Min. Napoleão Nunes Maia Filho) e REsp
399.357 (Rel. Min. Nancy Andrighi), reforçam essa interpretação.
Há, portanto, uma confusão entre os conceitos
de limites subjetivos da coisa julgada com jurisdição e competência. No
entanto, tanto a jurisprudência quanto a doutrina majoritária sustentam
que a coisa julgada deve ser definida pelos limites da lide e do pedido, e
não pela competência territorial do juízo.
Essa foi a tese acolhida pelo STF no julgamento
do Tema 7025. Por isso, entendo que a pretensão da excipiente de
deslocar o feito para outra unidade jurisdicional não encontra amparo
legal, especialmente porque a jurisprudência do STF é no sentido de que
a extensão dos efeitos da coisa julgada não interfere na fixação da
competência territorial do juízo da causa.
Por todo o exposto, rejeito a Exceção de
Incompetência Territorial e determino o prosseguimento do feito na
Vara do Trabalho de Redenção/PA.”
Ratifica-se a decisão transcrita.
2.1.3 ILEGITIMIDADE ATIVA AD CAUSAM. INADEQUAÇÃO DA VIA
ELEITA
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A reclamada suscita a carência de ação, sob os fundamentos de
ilegitimidade ativa ad causam do Ministério Público do Trabalho (MPT) e inadequação
da via eleita.
Alega que, conforme os artigos 127 e 129, III, da Constituição
Federal, bem como o art. 83, III, da Lei Complementar nº 75/93, a atuação do MPT se
restringe à defesa de interesses coletivos e direitos sociais constitucionalmente
garantidos, especialmente aqueles previstos no art. 7º da CF.
No entanto, sustenta que a presente ação tem por base a
garantia de direitos humanos, os quais não estão inseridos no rol do art. 7º da CF, o
que afastaria a competência do MPT para promover a demanda na Justiça do Trabalho.
A defesa desses direitos, segundo a contestação, competiria ao Ministério Público da
União, e não ao MPT.
Aduz ainda que a Ação Civil Pública - ACP, disciplinada pela Lei nº
7.347/85, não é cabível no caso, pois os fatos narrados são pretéritos, individualizados,
identificáveis e referem-se a um número limitado de pessoas. Portanto, não haveria
interesse difuso ou coletivo a ser protegido, mas sim direitos individuais disponíveis, o
que tornaria inadequada a via processual eleita.
Diante disso, requer a extinção do processo sem resolução de
mérito, com fundamento nos incisos IV e VI do art. 485 do CPC, por ilegitimidade ativa
do MPT e por inadequação da via eleita.
A parte autora sustenta que a documentação apresentada
demonstra graves violações à dignidade dos trabalhadores na Fazenda Vale do Rio
Cristalino. Afirma que a Constituição (arts. 127, 128 e 129) e a LC nº 75/1993 (arts. 6º,
VII, “d”, 83, III, e 84) conferem ao Ministério Público do Trabalho competência para
defender direitos difusos, coletivos, individuais homogêneos e indisponíveis ligados à
ordem jurídica trabalhista, não se restringindo aos direitos previstos no art. 7º da CF.
Segundo o MPT, a interpretação da reclamada, que limita a sua
legitimidade à defesa exclusiva de direitos do art. 7º, é incorreta, pois o órgão
ministerial pode tutelar quaisquer direitos relacionados ao trabalho, inclusive direitos
humanos trabalhistas, previstos na Declaração Universal de 1948. A atribuição não é do
Ministério Público Federal, pois a matéria decorre de relações de trabalho.
Argumenta que o art. 5º, I, da Lei nº 7.347/1985 estabelece a
legitimidade do MPT para propor ação civil pública visando à reparação de danos
coletivos, sendo esta não apenas um direito, mas um dever institucional. No caso, há
inquestionável interesse de agir diante das violações constatadas, visando tutela
reparatória e inibitória para compelir a ré a adequar sua conduta.
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Por fim, afirma que a presente ACP busca a reparação de danos
a direitos difusos e coletivos stricto sensu, e não de lesões individuais, sendo aplicável
o art. 81 do CDC. Continua afirmando que a jurisprudência do TST e do STF reconhece
a sua legitimidade para ajuizar ACP em defesa de direitos difusos, coletivos e
individuais homogêneos decorrentes da relação de trabalho, inclusive em casos de
trabalho em condições análogas à escravidão, quando presente relevância social.
Assim, entende ser detentor de legitimidade ativa bem como ser
adequado o cabimento da ação, devendo ser rejeitada a preliminar de ilegitimidade.
Analiso.
A Constituição Federal estabelece que o Ministério Público é
instituição permanente, essencial à função jurisdicional do Estado, incumbindo-lhe a
defesa da ordem jurídica, do regime democrático e dos interesses sociais e individuais
indisponíveis (art. 127, caput, CF). Compete-lhe, entre outras funções, promover o
inquérito civil e a ação civil pública para a proteção de interesses difusos e coletivos
(art. 129, III, CF).
No âmbito específico das relações de trabalho, a LC nº 75/1993,
que organiza o Ministério Público da União, confere ao MPT, entre outras atribuições,
zelar pelo cumprimento dos direitos sociais dos trabalhadores (art. 6º, VII, “d”) e
promover a ação civil pública no âmbito de sua atuação (art. 83, III), inclusive para
tutela de direitos difusos, coletivos e individuais homogêneos vinculados à ordem
jurídica trabalhista (art. 84).
A Lei nº 7.347/1985 legitima o Ministério Público para propor
ACP visando à responsabilização por danos morais e patrimoniais causados a
interesses difusos, coletivos e individuais homogêneos (art. 5º, I). Por sua vez, o Código
de Defesa do Consumidor (CDC), aplicado subsidiariamente ao microssistema coletivo,
define direitos difusos, coletivos e individuais homogêneos e disciplina a tutela coletiva
desses interesses (art. 81). O critério distintivo é a origem comum do dano e a
indivisibilidade/pertinência social do bem jurídico, não o número de vítimas nem a
possibilidade de posterior individualização para efeitos de liquidação.
A expressão “direitos coletivos”, nesse caso, deve ser entendida
no sentido lato, pois a Lei nº 7.347/85, em seu artigo 21, fez menção expressa à
aplicação da Lei nº 8.078/90, a qual, por sua vez, define os referidos interesses coletivos
no parágrafo único, do art. 81. Assim, os direitos coletivos mencionados pelo legislador
traduzem um gênero, que inclui os direitos coletivos stricto sensu, os direitos difusos, e
os direitos individuais homogêneos, conceituados precisamente pelo art. 81, parágrafo
único, incisos I a III da Lei nº 8.078/90 (Código de Defesa do Consumidor).
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No caso dos autos, não há dúvidas de que se tratam de direitos
difusos, enquadrando-se na acepção ampla do termo, uma vez que o requerente
aponta a violação de direitos relacionados à segurança no ambiente de trabalho, bem
como direitos coletivos stricto sensu consistentes naqueles interesses titularizados
pelos empregados submetidos à condições análogas à de escravo (CP. Art. 149).
Em face da existência de violação de direitos sociais/coletivos, há
legitimidade do MPT para defender referidos direitos.
A via coletiva é adequada quando a pretensão visa prevenir,
fazer cessar ou reparar lesões de origem comum a um grupo, categoria ou classe,
sobretudo quando envolvido meio ambiente de trabalho e dignidade da pessoa
humana (CF, arts. 1º, III, e 7º, XXII), ainda que os fatos tenham ocorrido em período
pretérito. A eventual existência de lesões individualmente quantificáveis não desnatura
a homogeneidade do direito, mas transfere a liquidação e execução para fase própria,
inclusive individual, se necessário.
A tese defensiva de que a atuação do MPT estaria limitada aos
direitos do art. 7º da CF não se sustenta diante do texto constitucional e da LC nº 75
/1993. A legitimação conferida pelo art. 129, III, CF é ampla para tutela de interesses
difusos e coletivos, e a LC nº 75/1993 (arts. 6º, VII, “d”, 83, III, e 84) delimita o âmbito
material do MPT às relações de trabalho e à ordem jurídica trabalhista, não
restringindo sua atuação a um rol taxativo do art. 7º, pois o que qualifica a pertinência
temática é a relação com o trabalho (meio ambiente laboral, condições de segurança,
higiene e saúde, proibição de submissão a trabalho em condições análogas à
escravidão, tráfico de pessoas para exploração laboral), e não a natureza estritamente
“civil” ou “constitucional” do direito invocado.
No caso, a causa de pedir descreve violações graves e
estruturais ao meio ambiente do trabalho e à dignidade de trabalhadores em contexto
de exploração laboral. Tais matérias inserem-se diretamente na ordem jurídica
trabalhista e nos direitos fundamentais sociais relacionados ao trabalho, atraindo a
legitimidade extraordinária do MPT para ACP. A menção a “direitos humanos” não
desloca a atribuição para o Ministério Público Federal: sendo a matriz fática e jurídica
laboral, a atuação é própria do ramo trabalhista do Ministério Público da União.
Sobre a adequação da via utilizada, a ACP é instrumento típico
para cessar e reparar danos metaindividuais decorrentes de origem comum, inclusive
com pretensões inibitórias e indenização por dano moral coletivo. O argumento de que
os fatos seriam “pretéritos e individualizados” não afasta a via coletiva, pois a
pretensão reparatória coletiva por dano moral coletivo é indivisível e visa recompor
lesão a valores transindividuais (ordem jurídica, meio ambiente do trabalho, dignidade
coletiva). Além disso, a possibilidade de individualização das vítimas, se fosse o caso,
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apenas deslocaria a liquidação/execução para a esfera individual, quando cabível, sem
macular a homogeneidade da origem do dano. Por fim, a relevância social e a
repercussão difusa do ilícito justificam a tutela coletiva, inclusive para fins pedagógicos
e preventivos.
Ademais, a circunstância de os fatos terem ocorrido em
momento pretérito não torna inútil ou inadequado o provimento coletivo. Além da
reparação pelo dano já consumado, a ACP previne reiterações e estabelece padrões de
conduta (obrigações de fazer/não fazer) compatíveis com a Constituição e a legislação
trabalhista, preservando a efetividade dos direitos fundamentais sociais no ambiente
de trabalho.
Diante disso, à luz dos dispositivos constitucionais (arts. 127 e
129, III), da LC nº 75/1993 (arts. 6º, VII, “d”, 83, III, e 84) e da Lei nº 7.347/1985 (art. 5º, I),
reconhece-se a legitimidade ativa do Ministério Público do Trabalho para a presente
demanda coletiva e entende-se como adequada a via da ação civil pública para tutela
reparatória e inibitória dos direitos metaindividuais alegados.
Assim, rejeita-se a preliminar de carência de ação, tanto por
ilegitimidade ativa ad causam quanto por inadequação da via eleita, com o
prosseguimento do feito.
2.1.4 ILEGITIMIDADE PASSIVA DA VOLKSWAGEN
A reclamada suscita preliminar de carência de ação por
ilegitimidade passiva, com base no art. 337, XI, do CPC, sustentando que não possui
relação jurídica com os fatos narrados na inicial, os quais remontam a eventos
ocorridos há quase 50 anos.
Em resumo, argumenta que os trabalhadores mencionados
foram contratados por empreiteiras que mantinham contratos exclusivamente com a
Companhia Vale do Rio Cristalino S/A, única proprietária da fazenda à época e dotada
de personalidade jurídica própria. Afirma que jamais contratou tais trabalhadores, não
teve vínculo com os empreiteiros e não participou da gestão da fazenda. Ressalta que,
ainda na década de 1980, houve a transferência integral das ações da Companhia Vale
do Rio Cristalino S/A para o Grupo Matsubara, conforme autorização da SUDAM.
Aduz que não lhe é feita qualquer imputação direta quanto à
prática dos crimes alegados, e que, mesmo que os fatos narrados sejam admitidos
apenas por cautela, os supostos delitos seriam de responsabilidade exclusiva das
empreiteiras contratadas pela Companhia Vale do Rio Cristalino S/A.
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Invoca o princípio da intranscendência da pena (art. 5º, XLV, da
CF), segundo o qual não se pode estender a responsabilização penal ou civil a quem
não participou diretamente do fato ilícito, inclusive no caso de pessoas jurídicas.
Afirma que não se beneficiou dos serviços prestados, tampouco
integrou ou influenciou os negócios da fazenda à época dos fatos, sendo, portanto,
parte ilegítima para figurar no polo passivo da presente ação.
Diante disso, requer a extinção do feito sem resolução de
mérito, nos termos do art. 485, XI, do CPC.
O MPT sustenta que a legitimidade ad causam é condição da
ação, verificada segundo a teoria da asserção, que analisa, com base na narrativa
inicial, a possibilidade em tese de vínculo jurídico entre as partes, sem exame
probatório aprofundado.
Argumenta que os argumentos apresentados pela reclamada
dizem respeito ao mérito, pois envolvem a discussão sobre sua eventual
responsabilidade, que o MPT fundamenta em teorias como a da aparência, da cegueira
deliberada, controle acionário e primazia da realidade.
Como a análise demanda prova e não é aferível de plano, não se
trata de questão preliminar, mas de mérito. Assim, requer a rejeição da preliminar de
ilegitimidade passiva.
Analiso.
Nos termos do art. 337, XI, do CPC/2015, a ausência de
legitimidade constitui matéria preliminar; e o art. 485, VI, do CPC/2015 autoriza a
extinção do processo sem resolução de mérito quando constatada a falta de
legitimidade. A aferição, contudo, faz-se a partir das asserções da petição inicial e sem
incursão probatória, com base da Teoria da Asserção.
A parte é legítima se, em tese, a narrativa autoral a aponta como
sujeito da relação jurídica material controvertida ou como potencial devedor dos
efeitos do provimento jurisdicional pleiteado. A análise de quem efetivamente deve
responder (ou não) pelo dano ou obrigação - e em que extensão - é matéria de mérito.
Assim, a legitimidade é requisito processual-objetivo ligado à
pertinência subjetiva entre as partes e a relação de direito material descrita na inicial.
Por outro lado, a responsabilidade é o juízo de procedência/improcedência,
dependente de prova (arts. 373 do CPC/2015 e 818 da CLT). Confundir esses planos
conduz a indevida supressão do debate probatório.
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Em ações civis públicas e no âmbito da tutela de direitos difusos,
coletivos e individuais homogêneos, é bastante que a inicial atribua, em tese, atuação,
proveito econômico ou participação causal da demandada no quadro fático lesivo para
que se reconheça a pertinência subjetiva passiva, reservando-se ao mérito a verificação
do nexo e do regime de responsabilização aplicável (solidária, subsidiária, por grupo
econômico, por fato de terceiro, etc.).
O art. 5º, XLV, da CF limita a transmissibilidade da pena e de
certas consequências patrimoniais penais. Todavia, não exclui, por si, a
responsabilização civil (art. 927 do Código Civil) ou trabalhista, quando comprovados
conduta, benefício ou nexo causal em hipóteses reconhecidas pelo ordenamento (por
exemplo, responsabilidade por atos de prepostos - art. 932, III, e art. 942 do CC;
hipóteses de grupo econômico - art. 2º, § 2º, da CLT; e demais construções de
imputação objetiva/subjetiva admitidas em direito coletivo do trabalho). Logo, o
princípio invocado não serve, de plano, para excluir a legitimidade processual.
Destaco ainda que, na presente ação, a petição inicial imputa à
Volkswagen, em tese, participação, ingerência ou benefício (direto ou indireto) na
cadeia fática narrada - envolvendo a Fazenda Vale do Rio Cristalino, empreiteiras e
trabalhadores rurais - e pretende sua responsabilização em diferentes chaves
dogmáticas (aparência, cegueira deliberada, eventual controle societário, primazia da
realidade, dentre outras). A reclamada contrapõe, em síntese, que não contratou os
trabalhadores e que não manteve relação com os empreiteiros ou com a gestão da
fazenda.
Esse contraponto, todavia, exige prova (documental,
testemunhal) sobre: a) a existência de vínculos societários/contratuais relevantes à
época; b) a ocorrência de proveito econômico ou direção/influência sobre a atividade
rural; c) a configuração (ou não) de grupo econômico, contratação indireta ou outra
forma de imputação; e d) a presença (ou ausência) de nexo causal entre condutas
/omissões e os alegados ilícitos. Nada disso é aferível de plano. Portanto, os
argumentos defensivos não infirmam a legitimidade passiva, apenas antecipam tema
que será apreciado no mérito.
Diante disso, rejeita-se a preliminar de carência de ação por
ilegitimidade passiva, porque, à luz da teoria da asserção, a narrativa inicial imputa à
Volkswagen, em tese, participação/benefício suficiente para a pertinência subjetiva
passiva, sendo a responsabilização (ou sua ausência) questão de mérito a ser decidida
após a instrução.
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2.1.5 TRANSAÇÃO. ACORDO. AMPLITUDE. PRINCÍPIO DA BOA-FÉ
OBJETIVA. FALTA DE INTERESSE DE AGIR. EXTINÇÃO DA AÇÃO
A reclamada alega carência de ação por falta de interesse de
agir, em razão da existência de acordo anterior firmado com o Ministério Público, o
qual abrangeria o objeto da presente demanda.
Informa que, em 2020, celebrou Termo de Ajustamento de
Conduta (TAC) com o MPF, MPSP e MPT, relacionado a investigações iniciadas em 2015,
com o objetivo de evitar litígios e promover ações de memória e verdade sobre
violações de direitos humanos no período da ditadura militar (1964–1985). O acordo,
que não reconheceu qualquer ilicitude por parte da empresa, envolveu o pagamento
de R$ 36 milhões e abrangeu, expressamente, o projeto Rio Cristalino.
Alega que a intenção manifesta da empresa ao firmar o TAC foi
encerrar qualquer discussão sobre sua atuação durante o regime militar, conforme
cláusula contratual e homologação do acordo. Todavia, afirma que o MPT, mesmo
sendo parte do acordo, conduzia investigação paralela e sigilosa sobre o mesmo tema,
o que só foi revelado em 2022, com a presente ação.
Sustenta que essa conduta representa violação ao princípio da
boa-fé objetiva, previsto nos arts. 113, 187 e 422 do Código Civil, por desrespeitar os
deveres anexos de lealdade, informação e vedação ao comportamento contraditório, o
que compromete a segurança jurídica e frustra a finalidade contratual.
Defende que o acordo deve ser respeitado em sua integralidade,
vedando novas demandas sobre os mesmos fatos históricos já abrangidos pela
transação firmada com o Ministério Público.
Diante disso, requer a extinção da ação com resolução de
mérito (art. 487, III, "b", do CPC), em razão da existência de transação válida e eficaz, ou,
alternativamente, a extinção sem resolução de mérito, com base no art. 485, VI, do
CPC, por ausência de interesse processual.
Sobre o assunto, o Ministério Público do Trabalho afirma que a
Volkswagen omite as verdadeiras razões que levaram à celebração do Termo de Ajuste
de Conduta (TAC) firmado em 2020. Afirma que as investigações que motivaram o TAC
referiam-se exclusivamente à colaboração da empresa com a repressão política
durante a ditadura militar (1964-1985), quando seu Departamento de Segurança
Industrial atuava como polícia política interna, confiscando materiais, elaborando
dossiês e denunciando empregados, mesmo ciente do risco de tortura ou morte. Por
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isso, narra que o acordo buscou reparar violações contra ex-empregados e familiares
decorrentes dessa colaboração, sem qualquer relação com fatos na Fazenda Vale do
Rio Cristalino.
O TAC não tratou nem deu quitação sobre eventuais casos de
trabalho em condições análogas à escravidão na fazenda, tampouco envolveu a
Companhia Vale do Rio Cristalino. A investigação sobre o Projeto Rio Cristalino ainda
estava em fase inicial em 2020, razão pela qual não poderia ser incluída nas tratativas
do TAC.
O MPT ressalta que não houve quebra de boa-fé, pois os objetos
das investigações eram distintos e a Volkswagen teve oportunidades de defesa.
Além disso, sustenta que a alegação da empresa de que já teria
sido responsabilizada por tais fatos é infundada, sendo clara a tentativa de evitar
responsabilização pelas graves violações ocorridas na fazenda.
Assim, requer a rejeição da preliminar.
Analiso.
O art. 840 do Código Civil dispõe que a transação importa
concessões mútuas para extinguir obrigações litigiosas ou duvidosas, mas restringe
seus efeitos aos direitos sobre os quais se transigiu (art. 843). Por isso, a eficácia
liberatória é restrita ao objeto e às partes pactuantes, não se presumindo a quitação de
pretensões distintas ou não discutidas.
Conforme os elementos trazidos aos autos (TAC de 2020 – ID.
644e734), o ajuste delimita claramente o seu objeto - ele descreve que a finalidade do
ajuste era prevenir litígio judicial e promover iniciativas de memória e verdade em
relação a violações aos direitos humanos ocorridas no Brasil durante a ditadura militar
de 1964 a 1985, especialmente no que se refere aos extrabalhadores e ex-
trabalhadoras da VW DO BRASIL.
O próprio TAC (ID. 644e734) prevê ainda que “Eventuais
aspectos relacionados aos alegados direitos individuais homogêneos dos ex-
trabalhadores e ex-trabalhadoras da VW DO BRASIL, supostas vítimas diretamente
atingidas por perseguições políticas e ideológicas no período da ditadura militar
ocorrida no Brasil (1964-1985), ou de seus sucessores, se for o caso, serão resolvidos
exclusivamente no âmbito do Inquérito Civil nº 000878.2016.02.001/3, em trâmite
perante o MPT, sem prejuízo das demais disposições deste TAC e das obrigações
assumidas pelo MPT quanto ao arquivamento do Inquérito Civil nº 000878.2016.02.001
/3 (MPT), consoante disposto na Cláusula Oitava, Parágrafo Terceiro, deste TAC.”
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A cláusula acima permite a interpretação de que o TAC,
ressalvados os direitos individuais homogêneos, envolveu os demais direitos
decorrentes da colaboração da empresa com órgãos repressivos durante o regime
militar.
Do conteúdo do documento, identifico que não há menção à
exploração de trabalho rural, condições análogas à escravidão, tráfico de pessoas ou a
Fazenda Vale do Rio Cristalino. Ele faz referência expressa a fatos e condutas ligados a
perseguição de empregados por motivos políticos, vigilância interna, fornecimento de
informações a órgãos repressivos e práticas correlatas. Define a quitação apenas em
relação aos eventos descritos no próprio TAC, não incluindo fatos diversos ou não
investigados à época.
Esse enquadramento contratual confirma que a quitação é
específica, e que a narrativa da inicial da ACP - trabalho escravo e tráfico de pessoas na
Fazenda Volkswagen (1974–1986) — não está abrangida pelo ajuste.
Para melhor compreensão, transcrevo as principais cláusulas
sobre o assunto.
No item 1 – Objeto, o acordo estabelece que as obrigações da
Volkswagen se referem:
Objeto (Cláusula 1ª):
“ I – O presente COMPROMISSO DE
AJUSTAMENTO DE CONDUTA (doravante AJUSTE DE CONDUTA ou TAC) é
celebrado para prevenir litígio judicial e promover iniciativas de
memória e verdade em relação a violações aos direitos humanos
ocorridas no Brasil durante a ditadura militar de 1964 a 1985,
especialmente no que se refere aos ex-trabalhadores e ex-
trabalhadoras da VW DO BRASIL;”
Sobre as investigações em andamento, constou:
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Fls.: 23
CLÁUSULA SÉTIMA – O MPF, o MPSP e o MPT
encerrarão as investigações em curso nos INQUÉRITOS com a
apresentação dos respectivos relatórios conclusivos no prazo de 15
(quinze) dias, contados da assinatura do presente AJUSTE DE CONDUTA.
CLÁUSULA OITAVA - O presente TAC não está
sujeito a homologação pelos órgãos superiores do MPSP, MPF e MPT,
nos termos da Lei Complementar Estadual nº 734/1993, art. 112,
Parágrafo Único e Ato Normativo nº 484-CPJ, de 2006, art. 86, em
relação ao MPSP, da Resolução CSMPF nº 87, de 2006, art. 21, §§ 5º e 8º,
em relação ao MPF, e da Resolução CSMPT nº 69, de 12/12/2007, art. 14,
c/c Enunciado nº 10/CCR-MPT, em relação ao MPT.
PARÁGRAFO PRIMEIRO. O Inquérito Civil Público
nº 14.725.00001417/2015-7, de responsabilidade do MPSP, será
arquivado após a assinatura do presente TAC e a oferta da
manifestação prevista na Cláusula Sétima, Parágrafo Primeiro, e terá a
promoção de arquivamento submetida à homologação pelo Conselho
Superior do Ministério Público do Estado de São Paulo, nos termos da
Lei Complementar Estadual nº 734/1993, art. 112, Parágrafo Único, e
Ato Normativo nº 484-CPJ, de 2006, art. 86.
PARÁGRAFO SEGUNDO. O Inquérito Civil Público
nº 1.34.001.006706/2015-26, de responsabilidade do MPF, será
arquivado após a assinatura do presente TAC e a oferta da
manifestação prevista na Cláusula Sétima, Parágrafo Primeiro, e terá a
promoção de arquivamento submetida à homologação pelo Núcleo de
Apoio Operacional da Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão da
3ª Região (Portaria PGR nº 653/2012), nos termos do art. 21, da
Resolução CSMPF nº 87, de 2006, c/c com art. 8º da Resolução nº 174
/2017, do Conselho Nacional do Ministério Público e a Diretriz nº 2, da
Corregedoria-Geral do Ministério Público Federal (com a redação dada
pelo Provimento nº 8, de 2019).
PARÁGRAFO TERCEIRO. O Inquérito Civil Público
nº 000878.2016.02.001/3, de responsabilidade do MPT, será arquivado
depois das homologações dos arquivamentos do Inquéritos Civis
14.725.00001417/2015-7 (MPSP) e nº 1.34.001.006706/2015-26 (MPF), e
após a resolução dos aspectos relacionados aos direitos individuais
homogêneos dos ex-trabalhadores e ex-trabalhadoras da VW DO
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BRASIL, conforme previsto na Cláusula Quarta deste TAC, nos termos do
art. 14 da Resolução nº 69, de 12/12/2007, c/c Enunciado nº 10/CCRMPT,
não estando a promoção de arquivamento sujeita à homologação.
PARÁGRAFO QUARTO. Este AJUSTE DE CONDUTA
produzirá efeitos legais depois de homologados os arquivamentos dos
Inquéritos Civis nº 14.725.00001417/2015-7, pelo Conselho Superior do
Ministério Público do Estado de São Paulo, e nº 1.34.001.006706/2015-
26, pelo Núcleo de Apoio Operacional da Procuradoria Federal dos
Direitos do Cidadão da 3ª Região. A ocorrência das homologações dos
arquivamentos será comunicada à VW DO BRASIL, pelo MPSP e pelo
MPF, mediante correspondência física, com entrega mediante
protocolo, no endereço constante no pórtico deste TAC. Também será
considerada válida a comunicação à VW DO BRASIL efetuada por meio
eletrônico, mediante o envio do arquivo em formato PDF, com
assinatura digital e aviso de entrega e de recebimento, para todos os
seguintes endereços eletrônicos: (i) [Link]@volkswagen.
[Link]; (ii) [Link]@[Link]; (iii) leonardo.
marins@[Link]; e (iv) felipe@[Link]. Os prazos
previstos neste TAC vinculados à homologação dos arquivamentos
correrão a partir da última comunicação de homologação de
arquivamento dos Inquéritos mencionados neste Parágrafo.
Como resultado do TAC, os órgãos públicos signatários
promoveram o arquivamento dos inquéritos civis acima descritos, quais sejam,
Inquérito Civil Público nº 14.725.00001417/2015-7, de responsabilidade do MPSP,
Inquérito Civil Público nº 1.34.001.006706/2015-26, de responsabilidade do MPF e o
Inquérito Civil Público nº 000878.2016.02.001/3, de responsabilidade do MPT.
Com fundamento no princípio da conexão, que permite ao juiz a
utilização de informações disponíveis na internet para buscar a verdade real e garantir
uma decisão mais justa, investigou-se a atual situação do Inquérito Civil Público nº
000878.2016.02.001/3, de responsabilidade do MPT. Na Consulta de Procedimentos
([Link]
view=procedimentos), consta que o inquérito está arquivado com TAC. Na pesquisa por
Relatórios de Arquivamento ([Link]
arquivamento) consta documento de Promoção de Arquivamento. Deste documento,
extrai-se o seguinte conteúdo:
Documento assinado eletronicamente por OTAVIO BRUNO DA SILVA FERREIRA, em 29/08/2025, às [Link] - dc7fe45
Fls.: 25
“Inquérito Civil n.º 000878.2016.02.001/3
Noticiante: MINISTÉRIO PÚBLICO DO TRABALHO
(PRT2ª REGIÃO)
Inquirido: VOLKSWAGEN DO BRASIL e
ASSOCIAÇÃO HEINRICH PLAGGE PROMOÇÃO DE ARQUIVAMENTO
Trata-se de Inquérito Civil instaurado a partir de
ofício encaminhado pelo Ministério Público Federal para atuação
conjunta do MPT, MPE e MPF, com o fito de analisar a grave denúncia
encaminhada à Procuradoria da República dos Direitos do Cidadão em
São Paulo, relatando, em apertada síntese, que a Volkswagen do Brasil
em São Bernardo do Campo haveria colaborado com o regime ditatorial
instaurado no Brasil, encaminhando nomes e fichas dos trabalhadores
que entendia como subversivos ao DOICODI, permitindo, inclusive, que
trabalhadores fossem torturados dentro da empresa. Como se tratava
de pedido de participação em audiências, foi autuado como
Procedimento Promocional.
Como se tratava de pedido de participação em
audiências, foi autuado, inicialmente, como Procedimento Promocional.
Nesse compasso, cumpre esclarecer que o
Destacamento de Operações de Informação - Centro de Operações de
Defesa Interna (DOI-CODI) foi um órgão subordinado ao Exército, de
inteligência e repressão do governo brasileiro durante o regime
inaugurado com o golpe militar de 1964.
Segundo o dicionário de direitos humanos da
Escola Superior do Ministério Público da União, o termo justiça de
transição é utilizado para conceituar o conjunto de abordagens,
mecanismos (judiciais e não judiciais) e estratégias para enfrentar o
legado de violência em massa do passado, para atribuir
responsabilidades, para exigir a efetividade do direito à memória e à
verdade, para fortalecer as instituições com valores democráticos e
garantir a não repetição das atrocidades ( Conforme documento
produzido pelo Conselho de Segurança da ONU - UN Security Council-
The rule of law and transitional justice in conflict and post-conflict
societies. Report Secretary-General? , S/2004/616).
[…]
Documento assinado eletronicamente por OTAVIO BRUNO DA SILVA FERREIRA, em 29/08/2025, às [Link] - dc7fe45
Fls.: 26
Após largo período de deliberações e ajustes
com todos os envolvidos, foi firmado o TAC às linhas 633 (doc.
4696.2020), no qual, entre várias obrigações, a Volkswagen obrigouse a
pagar R$ 4.500.000,00 (quatro milhões e quinhentos mil reais) ao Fundo
de Defesa de Direitos Difusos (FDD), nos termos da Lei nº 7.347/85 e da
Lei nº 9.008/95 e R$ 4.500.000,00 (quatro milhões e quinhentos mil
reais) ao Fundo Especial de Despesa de Reparação de Interesses Difusos
Lesados (FID), nos termos da Lei nº 7.347/85, da Lei Estadual nº 6.536/89
e da Lei Estadual nº 13.555/09.
Comprovante de pagamento da indenização às
linhas 704 (16/03/2021 – doc.1045.2021).
Após a celebração do TAC, a Volkswagen, por
liberalidade, conforme consta de informa juntado às linhas 718 (27/04
/2021), efetuou a doação de R$ 16.862.400,00 (dezesseis milhões,
oitocentos e sessenta e dois mil e quatrocentos reais) destinado à
Associação dos Trabalhadores e Trabalhadoras da Volkswagen do Brasil
Vitimados por Perseguições Políticas e Ideológicas no Período da
Ditadura Civil Militar.
A fim de viabilizar a ciência acerca dos valores
destinados às vítimas de perseguições políticas durante a ditadura,
foram realizadas publicações em jornais de circulação local nas quais foi
veiculado “Edital de Convocação para Habilitação das Vítimas e
Sucessores”. No Diário do Grande ABC a publicação ocorreu em 25/04
/2021 – linhas 727 (doc.2136.2021) e no periódico Tribuna Metalúrgica a
publicação se deu em 23/04/2021 – linhas 726.
Relatório conjunto do Ministério Público Federal,
Ministério Público do Trabalho e Ministério Público do Estado de São
Paulo juntado sob as linhas 646 (06/10/2020 – doc.4965.2020).
Às linhas 643 consta Termo de Compromisso
firmado por este MPT e a Associação dos Trabalhadores e
Trabalhadoras da Volkswagen do Brasil vitimados por perseguições
políticas e ideológicas no período da ditadura militar no qual foram
normatizadas regras para a execução do plano de pagamento de
compensações financeiras às vítimas da perseguição política da
ditadura e a seus familiares.
Documento assinado eletronicamente por OTAVIO BRUNO DA SILVA FERREIRA, em 29/08/2025, às [Link] - dc7fe45
Fls.: 27
A análise dos casos individuais foi realizada por
meio de Procedimento Arbitral (Lei n.º 9.307/96), de acordo com os
critérios indenizatórios definidos no TAC acima mencionado.
Os pagamentos foram realizados aos
trabalhadores em duas fases, com base nos critérios previamente
fixados, a fim de tornar as indenizações o mais objetivas possíveis.
[…]
Por fim, esclarece que cumpriu integralmente as
obrigações assumidas no Termo de Compromisso de Compensações
Financeiras, conforme quadro informado:
[…]
Ante todo o exposto, entendo que o presente
caso comporta arquivamento, uma vez que foram cumpridas todas as
obrigações assumidas nos acordos entabulados, não havendo razões
que justifiquem o prosseguimento do presente acompanhamento de
cumprimento de TAC.
Tendo em vista que se trata de arquivamento de
inquérito em fase de acompanhamento de cumprimento de TAC,
desnecessária sua remessa à CCR.
São Bernardo do Campo, 02 de setembro de
2022.
SOFIA VILELA DE MORAES E SILVA
Procuradora do Trabalho”
Destaco, considerando a obtenção das informações em sítio
eletrônico de acesso público e fonte aberta, que o dever do magistrado de buscar a
verdade real constitui princípio basilar do processo do trabalho, em harmonia com o
art. 765 da CLT, que confere ao juiz ampla liberdade na direção do processo e na
investigação dos fatos, podendo determinar todas as diligências necessárias ao
esclarecimento da controvérsia.
Nesse contexto, a atuação judicial não se restringe à mera
inércia das partes, sendo-lhe permitido valer-se de informações obtidas em fontes
Documento assinado eletronicamente por OTAVIO BRUNO DA SILVA FERREIRA, em 29/08/2025, às [Link] - dc7fe45
Fls.: 28
oficiais e de consulta pública, sobretudo quando tais elementos: (i) são acessíveis a
qualquer interessado; (ii) dizem respeito a ambas as partes; e (iii) já eram de
conhecimento das mesmas, inexistindo surpresa processual ou prejuízo à ampla
defesa e ao contraditório.
Com efeito, o art. 765 da CLT dispõe que “Os Juízos e Tribunais
do Trabalho terão ampla liberdade na direção do processo e velarão pelo andamento
rápido das causas, podendo determinar qualquer diligência necessária ao
esclarecimento delas”. No mesmo sentido, o art. 370 do CPC (aplicável
subsidiariamente ao processo do trabalho, nos termos do art. 769 da CLT) dispõe que
“caberá ao juiz, de ofício ou a requerimento da parte, determinar as provas necessárias
ao julgamento do mérito”, o que legitima a iniciativa judicial no sentido de colher
elementos idôneos para formação do convencimento.
Assim, a utilização pelo julgador de documentos e dados obtidos
em plataformas públicas de acesso universal não constitui prova ilícita, tampouco
extrapola sua função jurisdicional, mas antes representa a efetividade da prestação
jurisdicional, garantindo que a sentença seja proferida com base em elementos
concretos e fidedignos.
No presente caso, as informações extraídas de site oficial de
consulta pública envolvem ambas as partes, sendo fatos de conhecimento comum e
acessíveis a todos. Não se verifica, portanto, inovação processual surpresa, mas sim o
exercício legítimo da função jurisdicional de apurar a verdade real, em consonância
com os princípios do devido processo legal, da cooperação e da ampla defesa.
Ainda com base nesses fundamentos, identifica-se que os
órgãos acima citados produziram um RELATÓRIO CONJUNTO, intitulado DIREITOS
HUMANOS, EMPRESAS E JUSTIÇA DE TRANSIÇÃO: O PAPEL DA VOLKSWAGEN DO BRASIL
NA REPRESSÃO POLÍTICA DURANTE A DITADURA MILITAR, produzido em outubro de
2020 (disponível em: [Link]
/Crimes-da-Volkswagen-na-ditadura_Minist%C3%A9rio-P%C3%[Link] Acesso em
13 ago. 2025). Consta no referido relatório o histórico de investigação que culminou
nos três inquéritos supracitados.
Considerando a relevância da temática para a compreensão do
alcance dos efeitos do pactuado, transcreve-se o histórico e o objeto dos inquéritos:
I – ORIGEM DOS INQUÉRITOS
Em setembro de 2015, a Procuradoria Regional
dos Direitos do Cidadão – PRDC, do Ministério Público Federal em São
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Paulo (MPF), e a Promotoria de Justiça de Direitos Humanos e Inclusão
Social – PJDH, do Ministério Público do Estado de São Paulo (MPSP),
receberam representação formulada por 10 centrais sindicais, além de
sindicatos e diversas entidades e pessoas naturais, num total de 32
representantes,1 com notícia de fato sobre suposta cumplicidade da
empresa Volkswagen do Brasil (VW do Brasil) com a repressão à
dissidência política durante o regime militar que governou o país entre
1964 e 1985. Com base nas pesquisas do Grupo de Trabalho “Ditadura e
Repressão aos Trabalhadores, às Trabalhadoras e ao Movimento
Sindical”, da Comissão Nacional da Verdade,2 os representantes
destacavam, em especial, o apoio da empresa ao golpe militar e sua
colaboração com os órgãos repressivos, inclusive com envolvimento em
atos e estruturas policiais de violação aos direitos humanos.
Em face da plausibilidade da narrativa
apresentada e dos elementos de convicção anexados, a PRDC/MPF e a
PJDH/MPSP instauraram, respectivamente, os Inquéritos Civis nº
1.34.001.006706/2015-26 e 14.725.1417/2015-7. Após a realização de
diligências conjuntas de instrução de ambos os Inquéritos, que
resultaram na coleta de documentos e na percepção da necessidade de
aprofundamento da pesquisa em arquivos, decidiu-se pela contratação
de pesquisador autônomo para auxiliar na análise da informação e na
colheita de novos dados. Diante desse cenário, foi realizada a
contratação do pesquisador da FAPESP (Fundação de Amparo à
Pesquisa do Estado de São Paulo) e cientista político Dr. Guaracy
Mingardi3 junto ao Instituto de Pesquisa e Informação em Políticas
Públicas Ltda., às expensas do Ministério Público Federal. O estudo foi
realizado e entregue ao Ministério Público em setembro de 2017.4 De
modo semelhante, a empresa Volkswagen, por sua sede na Alemanha,
contratou o pesquisador Professor Dr. Christopher Kopper para
elaborar um estudo sobre o mesmo tema.5 O professor Dr. Kopper teve
acesso a todas as informações coletadas pelo MPF e MPSP, embora a
recíproca não seja verdadeira – o material disponibilizado pela empresa
Volkswagen, na Alemanha e no Brasil, ao Dr. Kopper não foi entregue
para consulta. O presente relatório adota como ponto de partida as
conclusões apresentadas por ambos os pesquisadores autônomos, Dr.
Mingardi e Dr. Kopper, as quais foram reavaliadas e complementadas à
luz dos demais elementos de prova coletados nos autos dos Inquéritos.
Em relação ao trabalho do Dr. Mingardi, o MPF e o MPSP tiveram a
oportunidade de acompanhar o seu desenvolvimento e discutir os
pontos de pesquisa e as conclusões obtidas com o especialista. Em
relação à pesquisa independente do Dr. Kopper, os procuradores da
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Fls.: 30
República e promotores de Justiça tiveram apenas uma reunião com o
especialista e, ainda assim, no início dos trabalhos. De qualquer modo,
presume-se a boa-fé na condução de seu trabalho e a independência de
suas observações. Reitera-se, porém, que, embora este relatório
considere a produção de ambos os pesquisadores como fidedignos, as
conclusões ora obtidas não estão vinculadas àquelas apresentadas nos
trabalhos externos. O Ministério Público do Trabalho (MPT), por sua vez,
por meio da Procuradoria no Município de São Bernardo do Campo,
instaurou inicialmente o Procedimento Promocional (PROMO) nº
00310.2016.02.001/8, a partir de ofício encaminhado pelo MPF com
sugestão de atuação conjunta em face dos fatos apresentados.
Posteriormente, em 10 de janeiro de 2017, foi instaurado o Inquérito
Civil nº 000878.2016.02.001/3, como decorrência da avaliação das
provas colhidas no procedimento promocional mencionado, bem como
da representação apresentada por diversas entidades sindicais que
participaram do Grupo de Trabalho “Ditadura e Repressão ao
Trabalhadores, às Trabalhadoras e ao Movimento Sindical”, componente
da Comissão Nacional da Verdade à época. No âmbito do referido
Inquérito, foram realizadas reuniões e audiências, bem como
requisitados documentos. Ademais, houve o compartilhamento de
informações com o MPF. Em setembro de 2018, o MPT passou a
integrar as negociações conduzidas pelo MPF e MPSP com
representantes da VW do Brasil para a realização de um ajustamento de
conduta em relação aos fatos apurados e suas consequências jurídicas,
com ênfase na recomposição dos danos causados aos ex-trabalhadores
e ex-trabalhadoras da empresa.
De salientar que a instrução dos Inquéritos se
deu com o pleno acompanhamento dos advogados e representantes da
VW do Brasil, ainda que, em razão da natureza jurídica dos
procedimentos, assim não fosse obrigatório. Todos os depoimentos
foram colhidos na presença dos ilustres patronos, com a concessão de
oportunidade para reperguntas, eventualmente exercida. A
integralidade da documentação coletada foi sempre compartilhada com
a empresa. Com essa providência, os Ministérios Públicos pretenderam
atender ao objetivo de produção da verdade material, sob um prisma
de contraditório. Sob esta diretriz, ainda como forma de instrução dos
inquéritos civis, foram ouvidos trabalhadores que à época teriam sido
vítimas da perseguição política da empresa, bem como testemunhas
dos fatos relatados. A entrega deste relatório, independentemente de
seus desdobramentos, é, por si só, o cumprimento do objetivo de
revelar a verdade sobre a participação da Volkswagen na repressão
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Fls.: 31
política promovida pelo Estado ditatorial no Brasil. Finalmente, registra-
se que a demora na divulgação do presente Relatório deve-se não
apenas à complexidade dos fatos investigados, mas também à
manutenção de entendimentos com a empresa para a celebração de
ajustamento de conduta que prevenisse litígio judicial e estimulasse
medidas de promoção da memória e da verdade e de reparação em
relação a violações aos direitos humanos ocorridas no Brasil durante a
ditadura militar de 1964 a 1985, especialmente no que se refere aos ex-
trabalhadores e ex-trabalhadoras da VW do Brasil. E, de fato, em 23 de
setembro de 2020, o MPF, o MPSP, o MPT e a VW do Brasil celebraram,
com êxito, o respectivo Termo de Ajustamento de Conduta.”
[…]
É nesse contexto que foi identificada a
progressiva atuação da Volkswagen junto ao governo repressor,
notadamente, e no que interessa aos autos, por meio de intensa
colaboração com as polícias políticas. A direção da empresa no Brasil
não hesitou em cooperar com as autoridades militares e civis
encarregadas da repressão política, mesmo ciente que essa cooperação
colocava em risco a integridade física e moral desses trabalhadores,
inclusive mediante o emprego de tortura. Como se verá mais adiante,
essa cooperação incluiu a delação de funcionários aos órgãos de
repressão policial, a contribuição material com a prisão ilegal e a
entrega de funcionários a esses órgãos e, ainda mais grave, o
falseamento da verdade sobre a prisão de funcionários aos familiares,
colaborando com o desaparecimento forçado, ainda que temporário,
desses profissionais. Nesse ponto, é importante destacar o modo de
atuação dos órgãos de repressão à dissidência política em São Paulo
durante a ditadura, especialmente após 1968 e a edição do Ato
Institucional nº 5. É notório que houve no Brasil uma perseguição
generalizada e sistemática à população civil que discordava ou fosse
suspeita de discordar do governo militar, seu ideário e políticas. Toda a
população brasileira sabia do risco de manifestar oposição ao governo
que assumiu o poder com o golpe militar de 1964. De fato, entre 1964 e
1995 ao menos 30 mil cidadãos foram vítimas de prisões ilícitas e
torturas e mais de 400 foram assassinados ou desapareceram.
[…]
No caso da VW, a instrução dos Inquéritos Civis
revelou que a empresa contribuiu intensamente com o aparato
repressivo, de diversas formas. Em alguns casos, forneceu informações
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Fls.: 32
e fez delações de funcionários, ciente do risco de serem submetidos a
graves violações aos direitos humanos. Em outros casos, facilitou a
prisão ilegal de funcionários dentro de sua fábrica e contribuiu para a
tortura de um deles. E, finalmente, em ao menos outras 2 situações,
praticou diretamente a conduta de falsear a verdade sobre o destino e
paradeiro de funcionários que haviam sido presos dentro da fábrica.
[…]
III – APURAÇÃO
O conjunto de fatos narrados pelos
representantes orientou a investigação conjunta do MPF e do MPSP em
torno de 3 eixos: (a) participação da Volkswagen no golpe de Estado, (b)
colaboração da empresa com os órgãos da repressão à dissidência
política e (c) repressão à organização do trabalho. O inquérito no âmbito
do MPT, por sua vez, focou no último eixo. Embora em alguns pontos as
evidências relativas a esses temas estejam relacionadas entre si, por
questão metodológica, o presente Relatório apresentará as conclusões
com observância dos referidos eixos.
[…]
C. Das Prisões Ilegais e Ocultações de Paradeiro
às Famílias Para além da colaboração mediante fornecimento de
informações sobre funcionários ao DOPS, a instrução dos Inquéritos
Civis, bem como os relatórios dos pesquisadores Christopher Kopper e
Guaracy Mingardi, revelou a existência de facilitação da empresa para a
ocorrência de prisões políticas ilícitas dentro dos estabelecimentos da
empresa em São Bernardo do Campo. Essas prisões ocorreram no
cenário do Inquérito Policial nº 784/72, instaurado pelo DOPS para
apurar a organização de uma “célula” do Partido Comunista dentro da
Volkswagen. Em ofício datado de 07 de agosto de 1972, o então Diretor
do DOPS, Delegado Lucio Vieira, narra a prisão de um dos funcionários
da VW e a colaboração da Segurança Industrial da empresa: Este
departamento vem há muito procedendo a investigações tendo em
vista a ação do PCB nas grandes empresas, o que, aliás, obedece a
planos já elaborados. Tínhamos conhecimento que indústrias
automobilísticas seriam visadas, entre elas a Volkswagen, o que
inclusive motivou um entrosamento entre esta direção e elementos de
segurança da citada empresa. A prisão de Amauri Danhone confirma o
exposto e, embora ele seja candidato a vereador…”49
Documento assinado eletronicamente por OTAVIO BRUNO DA SILVA FERREIRA, em 29/08/2025, às [Link] - dc7fe45
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Nessa época – final de julho e começo de agosto
de 1972 – foram detidos e interrogados vários funcionários da VW do
Brasil, todos presos dentro da montadora em São Bernardo do Campo:
O primeiro empregado da VW detido foi Amauri Danhone, nascido em
1932 e preso em 29 de julho de 1972. No mesmo dia, a polícia prendeu
o ferramenteiro Lúcio Bellentani, no dia 2 de agosto o ferramenteiro
Antonio Torini e em 8 de agosto o torneiro Geraldo Castro del Pozzo, o
mestre de inspeção Heinrich Plagge e a secretária Annemarie Buschel.
Depois de seis a sete semanas de detenção na polícia de intensos
interrogatórios na prisão da polícia política na Rua Mauá no centro de
São Paulo eles foram transferidos ao centro de interrogatório do
exército Destacamento de Operações de Informação – DOI, em 19 de
setembro de 1972, para retornarem no mesmo dia à prisão da polícia
política.50 De enfatizar que todas essas prisões eram ilegais, pois
realizadas sem situação de flagrante delito, de apresentação de
mandado judicial ou de ordem escrita da autoridade administrativa
competente. Encarregado do controle de qualidade da estamparia e
delegado sindical dentro da Volkswagen em 1972, Amauri Danhone foi
aparentemente o primeiro a ser preso dentro da fábrica da Volkswagen
por força da investigação sobre a “célula” do Partido Comunista.51 O
trabalhador não mais retornou para a empresa e, segundo depoimento
prestado por sua viúva, seu finado marido teria sido torturado pelo
DOPS para fornecer informações.52 Sua prisão dentro da fábrica foi
corroborada pelo depoimento do policial Francisco Rosa, que afirma ter
ocorrido sem a expedição de mandado.
Foram igualmente presos dentro da fábrica da
VW os ex-funcionários Heinrich Plagge, Annemarie Buschel e Lúcio
Bellentani, os quais também prestaram depoimento aos Ministérios
Públicos.54 Em seu depoimento ao Ministério Público Federal e ao
Ministério Público Estadual, Heinrich Plagge, mesmo com idade
avançada e saúde em situação delicada, relatou com muita fidelidade os
fatos ocorridos no dia de sua prisão dentro da fábrica da Volkswagen.55
Seu depoimento, assim como o de Neide Rosa Plagge (sua esposa à
época dos fatos), corrobora a narrativa por ele feita ao Ministério da
Justiça em 2003, no bojo do Requerimento de Anistia.56 Heinrich Plagge
foi preso nas dependências da fábrica da Volkswagen. Chamado por seu
Chefe Ruy Luiz Giometti para comparecer à gerência do seu
departamento, recebeu voz de prisão e foi levado para a sede do DOPS,
onde foi vítima de tortura física e moral, tendo sido inclusive ameaçado
de ter seus filhos sequestrados. A ação da empresa nesse episódio é de
elevada gravidade. Inicialmente, ela colaborou com as autoridades
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repressivas para a efetivação da prisão dentro da fábrica. Como não
havia mandado judicial ou ordem escrita de autoridade administrativa,
essa prisão era manifestamente ilegal. Lembre-se, ademais, que a alta
direção da empresa tinha pleno conhecimento de que a entrega do
trabalhador aos órgãos de segurança resultaria inelutavelmente em sua
submissão à tortura. Entretanto, ganha destaque a participação da
empresa na tentativa de ocultar o paradeiro do Sr. Plagge de sua
família. Com efeito, embora a empresa tivesse acompanhado e
facilitado a prisão de Plagge, forneceu à sua esposa uma fantasiosa
versão de que o funcionário não voltaria à casa porque teria viajado a
serviço.
Sua esposa narrou que, diante do grande
número de prisões de funcionários que estava ocorrendo e do
envolvimento de Plagge com o Partido Comunista, já temiam que ele
pudesse ser preso. Desse modo, combinaram que Plagge ligaria para a
esposa duas vezes ao dia para avisar que estava tudo bem. No dia de
sua prisão, sem que houvesse recebido a ligação de seu marido, um
gerente da fábrica e chefe de Plagge, Ruy Luiz Giometti, foi
pessoalmente à sua casa e disse-lhe para não se preocupar, pois o
marido teria viajado a serviço da Volkswagen. É fato que a Sra. Neide
Rosa Plagge não confiou na informação recebida do preposto da
empresa, pois àquela hora Henrich já deveria ter-lhe telefonado.
Entretanto, o fato concreto é que a empresa teria acobertado seu
destino, impedindo, inclusive, que a esposa pudesse ter ciência do local
da prisão e suas circunstâncias, inclusive para fins de exercer o direito
de defesa de Plagge, denunciar sua prisão ilegal e, com isso, tentar
evitar que fosse submetido a torturas. Apenas cinco dias depois, sem
notícias e após procurar seu marido no DOPS mais de uma vez, a Sra.
Neide finalmente recebeu confirmação que ele estava preso. Ainda
assim, somente teve contato com Plagge depois de quatro meses.57 A
postura da empresa de construir uma narrativa de ocultação do
paradeiro de uma pessoa presa ilegalmente e mantida incomunicável
pelos órgãos de segurança foi uma grave violação aos direitos humanos,
pois consiste em tomar parte em atos executórios de um crime
internacional, notadamente o desaparecimento forçado de pessoas.
[…]
Verifica-se, portanto, que novamente a VW
colaborou com a prisão ilegal de funcionário e tomou parte ativa na
ocultação de seu paradeiro e destino. Ademais, neste caso, se omitiu
Documento assinado eletronicamente por OTAVIO BRUNO DA SILVA FERREIRA, em 29/08/2025, às [Link] - dc7fe45
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diante da sua tortura física, que teria ocorrido dentro das instalações da
companhia. […] O exercício de ampla vigilância sobre os empregados
/trabalhadores, inclusive para além dos muros da fábrica, parece ter
sido algo pouco a pouco incorporado na dinâmica da relação da
companhia com os empregados. […] Em suma, esse conjunto de fatos
revela que a VW do Brasil agiu ativamente na perseguição sistemática
de seus funcionários, por razões políticas, e, nesse contexto, facilitou
prisões ilegais, a prática de tortura e se engajou na ocultação do
paradeiro de ao menos dois funcionários.
[…]
Além da redação do próprio TAC, as informações contidas nos
Inquéritos Civis confirmam que o TAC não abrangeu, de forma literal e expressa,
condutas relativas a trabalho escravo ou ao Projeto Rio Cristalino, limitando-se ao
contexto da repressão política no ambiente industrial.
A presente Ação Civil Pública tem escopo claro, qual seja, a
apuração e reparação de violações trabalhistas e de direitos humanos ocorridas na
Fazenda Vale do Rio Cristalino entre 1974 e 1986, consistentes em trabalho escravo e
tráfico de pessoas. O TAC, por outro lado, segundo o próprio texto, cuidou de fatos
diversos, ligados à repressão política no ambiente fabril, sem relação com o
recrutamento e exploração de trabalhadores rurais na Amazônia.
Não há, portanto, identidade de objeto ou causa de pedir a
justificar extinção por homologação de transação ou por ausência de interesse
processual (art. 485, VI, CPC).
A respeito da conduta das partes, entendo que o princípio da
boa-fé objetiva (arts. 113, 187 e 422 do Código Civil) impõe à elas deveres anexos de
lealdade, informação e coerência. Para configurar quebra de boa-fé em acordos dessa
natureza, é necessário demonstrar que o Ministério Público omitiu intencionalmente
fatos abrangidos pelo ajuste, visando surpreender a outra parte.
No caso, não se comprova que a investigação sobre o trabalho
escravo na Fazenda Rio Cristalino estivesse suficientemente madura ou formalizada à
época do TAC, tampouco que tenha sido deliberadamente ocultada. Ao contrário, os
elementos dos autos indicam que se tratava de procedimento diverso, com início
posterior, e que o TAC não poderia, por falta de objeto, incluir tais fatos.
O interesse processual existe quando a parte autora demonstra
necessidade e utilidade da tutela jurisdicional. Se não há prova de que a pretensão
Documento assinado eletronicamente por OTAVIO BRUNO DA SILVA FERREIRA, em 29/08/2025, às [Link] - dc7fe45
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deduzida já foi satisfeita ou transacionada, subsiste o interesse do MPT em ajuizar a
presente ação.
Não configurada identidade de partes, pedido e causa de pedir
entre o TAC de 2020 e a presente demanda, e ausente prova de quitação das
pretensões ora deduzidas, rejeita-se a preliminar de carência de ação por ausência de
interesse processual e a alegação de extinção do feito com fundamento no art. 487, III,
“b”, ou art. 485, VI, do CPC. Igualmente, não restou demonstrada a alegada quebra da
boa-fé objetiva.
2.1.6 INÉPCIA DA PETIÇÃO INICIAL. ALCANCE DE
TRABALHADORES NÃO VINCULADOS DIRETAMENTE À RECLAMADA
A reclamada alega inépcia da petição inicial, nos termos do art.
330, §1º, III, do CPC, sob o argumento de que a peça inaugural formula pedido relativo
a trabalhadores sem qualquer vínculo direto com a Volkswagen, especialmente no item
“b” do rol de pedidos, que menciona trabalhadores da rede de fornecedores.
Sustenta que não há causa de pedir que fundamente a
responsabilização da empresa por esses terceiros, sendo genérica e indiscriminada a
tentativa de ampliar sua responsabilização para além dos limites subjetivos da lide.
Alega, ainda, que não se pode presumir irregularidade ou dano a pessoas vinculadas a
outros empregadores, sem individualização dos fatos ou do nexo com a empresa
demandada.
Dessa forma, requer a extinção do feito sem resolução de
mérito, com fundamento no art. 485, I, do CPC, em razão da inépcia da inicial quanto a
essa pretensão.
O Ministério Público do Trabalho defende que não há inépcia da
petição inicial, pois há coerência entre a causa de pedir e os pedidos formulados,
conforme o art. 330, §1º, III, do CPC.
Argumenta que a inicial apresenta de forma clara os fatos e as
violações que embasam a responsabilização da Volkswagen do Brasil dentro de sua
cadeia produtiva, incluindo fornecedores e prestadores de serviços, visando garantir
direitos humanos e dignidade laboral.
Destaca que a alegação da reclamada ataca, na verdade, a
extensão de sua responsabilidade - questão de mérito - e não a correlação entre
pedido e causa de pedir.
Documento assinado eletronicamente por OTAVIO BRUNO DA SILVA FERREIRA, em 29/08/2025, às [Link] - dc7fe45
Fls.: 37
Assim, requer a rejeição da preliminar.
Analiso.
A inépcia da inicial diz respeito ao defeito formal e lógico da
petição inicial (ausência de pedido/causa de pedir; incompatibilidade; ou narrativa que
não conduz aos pedidos). Já a discussão sobre quem pode ser alcançado pelos efeitos
da decisão (trabalhadores próprios, terceirizados, integrantes da cadeia produtiva, etc.)
envolve pertinência e extensão da responsabilidade - tema de mérito, a ser decidido a
partir das provas e do direito aplicável.
Da leitura dos autos, a petição inicial: Narra fatos que situam a
Volkswagen como ente âncora de uma cadeia produtiva na qual teriam ocorrido
violações a direitos trabalhistas; Indica fundamentos jurídicos para a responsabilização
da empresa no âmbito de sua cadeia, inclusive por atuação de fornecedores e
prestadores (deveres de prevenção, controle e remediação); e formula pedidos
coerentes com essa narrativa, buscando obrigações de fazer/não fazer e/ou
reparatórias que irradiam efeitos sobre todos os trabalhadores por ela alcançados
(próprios, terceirizados e, conforme demonstrado, aqueles inseridos na rede de
fornecimento diretamente influenciada pela reclamada).
Nessa moldura, da narração dos fatos decorre logicamente a
conclusão (art. 330, §1º, III, CPC). A referência, no rol de pedidos, a “trabalhadores da
rede de fornecedores” não desnatura a inicial nem a torna genérica em sentido
vedado. Ao contrário, delimita o objeto da tutela coletiva em termos condizentes com a
própria lógica de proteção a direitos de grupos determináveis, ainda que não
previamente individualizados (CPC, art. 324, §1º).
Se, ao final, a prova não revelar poder de direção, ingerência
relevante, benefício econômico específico, conivência ou dever jurídico de vigilância
aptos a vincular a reclamada às violações de fornecedores, o resultado será
improcedência no mérito (total ou parcial), não o indeferimento liminar por inépcia. Do
mesmo modo, eventuais recortes objetivos e subjetivos (quais fornecedores, quais elos
da cadeia, quais situações fáticas) se resolvem na instrução e no julgamento de mérito,
e, na hipótese de condenação, a individualização dos beneficiários é providência típica
da liquidação/execução, não requisito da petição inicial.
Ressalte-se, ainda, o princípio da primazia da decisão de mérito
(CPC, art. 4º), pelo qual, mesmo diante de eventual imperfeição sanável, o juiz deve,
antes de indeferir a inicial, oportunizar emenda (CPC, art. 317). No caso, porém, não se
identifica vício sanável ou insanável de lógica narrativa que imponha indeferimento.
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Diante disso, rejeita-se a preliminar de inépcia da petição inicial,
porque há correlação entre os fatos narrados e os pedidos, e a possibilidade de alcance
da tutela aos trabalhadores inseridos na cadeia produtiva da reclamada consubstancia
questão de mérito, a ser apreciada à luz da prova e do direito aplicável.
2.1.7 TRAMITAÇÃO PRIORITÁRIA DO FEITO. PROTESTOS
A reclamada manifesta protestos antipreclusivos contra a
decisão judicial que determinou a tramitação prioritária do processo, com fundamento
na Recomendação Conjunta [Link]. CGJT nº 25/2022.
Sustenta que tal recomendação se aplica a ações que envolvam
violações atuais e graves de direitos fundamentais, o que não seria o caso dos autos,
pois as alegações da inicial referem-se a fatos ocorridos há cerca de 50 anos, nas
décadas de 1970 e 1980.
Afirma, ainda, que nenhum dos pedidos formulados tem por
finalidade beneficiar diretamente os trabalhadores mencionados, o que também
afastaria a justificativa para tratamento processual prioritário.
Dessa forma, registra protestos formais e reserva-se o direito de
renovar a impugnação em momento oportuno.
Por outro lado, o Ministério Público do Trabalho afirma que a
ação trata de trabalho em condições análogas à escravidão na Fazenda Vale do Rio
Cristalino, em conformidade com a Recomendação aplicável, e requer a rejeição da
preliminar.
Analiso.
Sobre o assunto, assim decidiu a instância de origem:
“2. TRAMITAÇÃO PRIORITÁRIA
Considerando a matéria tratada nos autos e a
Recomendação Conjunta [Link]. n. 25/2022, defiro o pedido
de prioridade no andamento da presente demanda.”
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Acrescenta-se que, mesmo que os fatos históricos tenham
ocorrido há décadas, a tutela jurisdicional buscada é presente: apuração e
responsabilização civil coletiva, medidas de memória e verdade, reparações simbólicas
e materiais, e garantias de não repetição mediante protocolos de diligência na cadeia
produtiva. Em matéria de direitos humanos laborais (como trabalho análogo à
escravidão, tipificado no art. 149 do Código Penal), a gravidade não se esvai pelo
decurso do tempo, pois a atualidade relevante à política de priorização diz respeito à
necessidade atual de resposta jurisdicional efetiva, não à data do fato em si.
Destaco ainda que a prioridade não está condicionada à
existência de benefício imediato e individual a trabalhadores identificados. Em ações
coletivas, os efeitos podem ser difusos ou coletivos stricto sensu, inclusive por
obrigação de fazer (p. ex., programas de compliance, due diligence em cadeia
produtiva, publicização e medidas de não repetição) e por reparação moral coletiva. O
argumento de que os pedidos “não beneficiam diretamente” não neutraliza o interesse
social qualificado que justifica a tramitação célere.
Além disso, a decisão priorizatória harmoniza o poder-dever do
juízo de conduzir o feito com efetividade (art. 765, CLT; art. 139, II, CPC), a garantia
constitucional de duração razoável (art. 5º, LXXVIII, CF) e a Recomendação Conjunta TST.
[Link]. n 25/2022, que recomenda prioridade ao processamento e ao
julgamento das ações em tramitação na Justiça do Trabalho que envolvam, dentre
outras matérias, trabalho degradante, forçado ou em condições análogas à de escravo.
Além disso, há fundamentos que ratificam a decisão, a saber, a
centralidade da dignidade humana e dos valores sociais do trabalho (arts. 1º, III e IV, da
CF), pois graves violações nessas matérias reclamam resposta jurisdicional preferencial;
a proteção de grupos vulneráveis e memória, pois, em casos de alegada escravidão, a
tutela também envolve preservação da memória, reconhecimento público e medidas
estruturais de não repetição - todas compatíveis com a prioridade processual e a
economia processual e prevenção de danos continuados, em virtude da pronta
definição de responsabilidades favorecer a correção de práticas empresariais ao longo
da cadeia e prevenir novas ocorrências, irradiando efeitos protetivos presentes e
futuros.
Diante disso, mantém-se a determinação de tramitação
prioritária.
O registro de protestos antipreclusivos é admitido, mas não
suspende os efeitos da decisão nem afasta a sua executoriedade interna no curso do
feito. A insurgência poderá ser renovada em recurso próprio contra a sentença, sem
óbice à continuidade prioritária do andamento.
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2.1.8 IMPUGNAÇÃO AO VALOR DA CAUSA
A reclamada apresenta impugnação ao valor atribuído à causa,
fixado pelo MPT em R$ 165.000.000,00, sustentando tratar-se de montante excessivo,
infundado e desproporcional.
Alega que o valor fixado busca causar impacto midiático
indevido e, ao mesmo tempo, onerar de forma injustificável o exercício do direito de
defesa, especialmente quanto ao acesso ao duplo grau de jurisdição, diante dos altos
custos processuais.
Afirma que o MPT, por ser isento de custas, não sofre os efeitos
práticos do valor lançado, o que compromete o equilíbrio processual entre as partes e
afronta os princípios do contraditório, ampla defesa e acesso à justiça (art. 5º, incisos
XXXV e LV, da CF).
Requer, portanto, o rearbritramento do valor da causa, com
redução expressiva do montante fixado.
Por outro lado, o MPT sustenta ser incabível a impugnação ao
valor da causa, pois este reflete a expressão econômica do pedido de dano moral
coletivo, conforme art. 292, V, do CPC, e foi fixado em observância à Lei da Ação Civil
Pública e ao CPC.
Afirma que o valor atribuído é razoável, considerando a
gravidade, duração da lesão e a capacidade econômica da reclamada.
Acrescenta que os argumentos da requerida não afastam a
fundamentação da inicial e confundem-se com o mérito, revelando caráter
protelatório. Além disso, o valor da causa não impede recursos ou outros atos
processuais, já que custas e depósito recursal são calculados sobre a condenação e
limitados pela CLT.
Analiso.
Na Justiça do Trabalho, aplica-se subsidiariamente o CPC
quando compatível (art. 769 da CLT e art. 15 do CPC/2015). O valor da causa deve
corresponder, sempre que possível, ao conteúdo econômico do pedido (art. 292, V, do
CPC/2015). O juiz pode corrigi-lo, de ofício ou a requerimento, quando não
corresponder ao proveito econômico perseguido (art. 292, § 3º, do CPC/2015).
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No contexto das ações coletivas, admite-se a fixação estimativa
do valor da causa quando se trata de pedidos indenizatórios de natureza difusa ou
coletiva. Isso porque, em tais hipóteses, a quantificação precisa do dano e do proveito
econômico decorrente da tutela jurisdicional somente se torna possível após a
instrução probatória e eventual condenação.
Portanto, a atribuição estimada do valor da causa, longe de
configurar irregularidade, revela-se compatível com a sistemática do processo coletivo
e com a efetividade da jurisdição, harmonizando-se tanto com o art. 291 do CPC
quanto com os princípios constitucionais da ampla tutela jurisdicional e da proteção
efetiva dos direitos fundamentais coletivos.
Além disso, conforme registrado nos autos, o valor da causa foi
fixado de acordo com o valor atribuído na inicial quando da audiência, observando-se,
portanto, o rito e a transparência devida no ato processual.
Por outro lado, a reclamada não apresentou elementos
objetivos que demonstrem descompasso flagrante entre o valor indicado e a expressão
econômica potencial do pedido de dano moral coletivo narrado (gravidade, duração,
abrangência e capacidade econômica da empresa), requisito que autorizaria a
intervenção judicial corretiva do art. 292, § 3º, do CPC/2015.
Os argumentos de que o valor teria cunho “midiático” ou de que
oneraria indevidamente o acesso ao duplo grau não se sustentam à luz do regime da
JT. As custas são calculadas, como regra, sobre o valor da condenação (art. 789 da CLT),
limitada ao máximo de quatro vezes o limite máximo dos benefícios do Regime Geral
de Previdência Social, a cargo da parte vencida e o depósito recursal é limitado
normativamente, de sorte que não há demonstração concreta de cerceio ao direito de
defesa ou de recurso.
Logo, o valor da causa não vincula a futura condenação nem,
por si só, obsta o exercício do direito de recorrer na Justiça do Trabalho.
Diante disso, rejeita-se a impugnação ao valor da causa.
2.1.9 FATOS HISTÓRICOS. IMPOSSIBILIDADE DE RESGATE DE
DOCUMENTOS/ EVIDÊNCIAS. EXERCÍCIO DO DIREITO DE DEFESA E DO CONTRADITÓRIO
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A parte argumenta que as pretensões iniciais estão fundadas
em documentos unilaterais, produzidos por particulares há quase 50 anos, o que
compromete de forma absoluta o exercício do contraditório e da ampla defesa pela
Volkswagen.
Destaca que a Constituição Federal garante, nos incisos LIV, LV e
XXXV do art. 5º, o direito ao devido processo legal, à ampla defesa e ao contraditório,
fundamentos essenciais do Estado de Direito. Contudo, esses direitos se tornam
inefetivos diante da impossibilidade de reconstrução dos fatos e da inexistência de
documentos da época, já que não havia exigência legal de guarda por período tão
extenso, e as investigações à época já haviam sido concluídas.
Alega que o MPT parte de um acervo documental pronto, de
origem privada, unilateral e ideologicamente enviesada, cuja veracidade não foi objeto
de contradita ou de instrução processual adequada. Assim, afirma que é surpreendida
por uma narrativa baseada em registros que não pode contestar, dada a ausência de
provas contemporâneas dos fatos.
Ressalta que esse desequilíbrio entre as partes viola o princípio
da paridade de armas e compromete a própria legitimidade do processo, já que a
empresa é colocada em situação de absoluta desvantagem, sem meios para
demonstrar a realidade dos fatos pretéritos.
Conclui que, diante da ausência de condições mínimas para a
produção de provas e para a verificação efetiva das alegações, é inviável impor-lhe
qualquer responsabilização, sob pena de violação das garantias constitucionais
fundamentais do devido processo legal.
Analiso.
A parte admite que, à época dos fatos, realizou apuração
interna, inclusive juntando aos autos declaração de testemunha que teria participado
das investigações. Tal circunstância evidencia que não há impossibilidade absoluta de
exercício do contraditório, pois a empresa apresentou, ainda que parcialmente,
registros e informações relacionados ao período. O argumento de completa
inviabilidade de defesa, portanto, não se sustenta.
O fato de os documentos serem antigos ou produzidos por
entidades particulares não os torna, por si só, imprestáveis. O processo prevê a
apreciação crítica da prova pelo magistrado, podendo a parte reclamada, se assim
entender, impugnar a credibilidade dos elementos apresentados, como o fez a parte
reclamada, produzir contraprova testemunhal, juntar documentos contemporâneos de
sua atividade ou de terceiros e, ainda, suscitar diligências. Trata-se do regime comum
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de valoração probatória, que não se confunde com a alegada impossibilidade absoluta
de defesa.
O direito à ampla defesa e ao contraditório (art. 5º, incisos LIV e
LV, da Constituição) não se traduz em direito a um resultado processual favorável, mas
na garantia de participação efetiva na formação da decisão judicial. No caso, a
reclamada pôde apresentar suas razões, documentos e testemunhas, não havendo
demonstração concreta de cerceamento. A paridade de armas é assegurada pela
condução equitativa do processo, e não pela equivalência aritmética entre os meios
probatórios das partes.
Por fim, a antiguidade dos fatos não é, por si, óbice à análise
judicial, especialmente quando se trata de matéria relacionada a violações graves de
direitos fundamentais e de relevância histórica. Cabe ao Poder Judiciário examinar os
elementos disponíveis, à luz dos princípios constitucionais e da jurisprudência
consolidada, sem admitir a criação de uma prescrição probatória que inviabilize a
tutela jurisdicional.
Diante do exposto, rejeito os argumentos suscitadas pela
reclamada, por não se verificar impossibilidade absoluta de defesa ou violação aos
princípios do contraditório e da ampla defesa.
2.1.10 FATOS CONTROVERSOS NA ÉPOCA. IMPOSSIBILIDADE DE
APURAÇÃO DIANTE DO TRANSCURSO TEMPORAL. VALOR PROBATÓRIO.
A parte argumenta que a petição inicial trata como verdades
absolutas documentos, relatos e registros produzidos de forma unilateral, sem a
participação da Volkswagen ou da Companhia Vale do Rio Cristalino S/A, ignorando o
caráter altamente controverso dos fatos à época.
Sustenta que nunca houve consenso quanto às condições de
trabalho alegadamente irregulares, destacando que a própria empresa contestou as
acusações ainda na época dos fatos, por meio de registros oficiais; Investigações foram
realizadas e concluídas sem imputar responsabilidade à empresa; Órgãos públicos
como o Ministério Público, Ministério do Trabalho, Judiciário e Polícia tiveram ciência
das alegações e oportunidade de apuração, mas não deram seguimento às denúncias;
Os depoimentos colhidos foram prestados sem garantias de imparcialidade, sem
fiscalização, e sem a possibilidade de contraditório por parte da empresa; Muitas
declarações foram tomadas em cartórios ou por missionários, sem qualquer controle
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quanto à forma de colheita ou influência externa; O número reduzido de relatos não
pode ser extrapolado para abranger a totalidade dos trabalhadores atuantes nas
décadas de 1970 e 1980.
Conclui que o material probatório apresentado pela parte
autora é precário, unilateral e insuficiente para embasar qualquer responsabilização,
não podendo ser tomado como fundamento válido para condenação, especialmente
diante do longo tempo decorrido e da impossibilidade de reconstrução fidedigna dos
fatos.
Analiso.
A própria reclamada reconhece que, à época, tomou ciência das
denúncias e chegou a enviar representante ao local, tendo juntado aos autos
declaração de testemunha que participou dessa apuração. Esse fato demonstra que os
acontecimentos não eram inverossímeis nem desprovidos de atenção institucional,
mas sim objeto de investigação e contestação. Assim, não se pode afirmar que inexiste
base factual para apreciação judicial, ainda que o tempo transcorrido imponha naturais
dificuldades probatórias.
O caráter unilateral de determinados registros não retira, por si
só, a sua aptidão probatória. O Código de Processo Civil admite a apreciação de
documentos particulares, que podem ser confrontados com outros elementos de
convicção produzidos em juízo (art. 369 do CPC). Cabe ao magistrado, à luz do princípio
da persuasão racional (art. 371 do CPC), valorar criticamente cada elemento,
considerando a origem, a forma de coleta e a eventual parcialidade, sem descartá-los
de plano.
O fato de, à época, não ter havido responsabilização formal pela
via administrativa ou criminal não impede a atuação da Justiça do Trabalho em ação
civil pública, especialmente quando se trata de apuração de violações graves a direitos
humanos trabalhistas. A ausência de consenso histórico não constitui, por si, motivo
para afastar a jurisdição. Ao contrário, reforça a necessidade de análise judicial dos
documentos e depoimentos hoje disponíveis.
O decurso do tempo, ainda que relevante, não afasta
automaticamente a possibilidade de exame judicial dos fatos, sobretudo quando
relacionados a trabalho em condições análogas às de escravo. Como já consolidado na
jurisprudência da Corte Interamericana de Direitos Humanos, tais violações guardam
estreita conexão com direitos fundamentais imprescritíveis. Portanto, o tempo não
pode ser invocado como fundamento para imunizar o empregador de eventual
responsabilização.
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Diante do exposto, rejeito os argumentos suscitados pela
reclamada, reconhecendo que os documentos e relatos apresentados pelo MPT
possuem valor probatório que deve ser examinado em conjunto com as demais provas
dos autos. O tempo decorrido e a controvérsia histórica não configuram óbices
intransponíveis ao contraditório ou à ampla defesa, constituindo matérias a serem
apreciadas no mérito, mediante valoração crítica do acervo probatório.
2.1.11 INÉRCIA DO MINISTÉRIO PÚBLICO. ATUAÇÃO TARDIA.
NECESSIDADE DE RESPEITO À SEGURANÇA JURÍDICA.
A parte argumenta que a atuação do Ministério Público é
marcada por grave inércia, uma vez que, embora alegue ter tomado conhecimento
recente dos fatos, há provas nos autos de que o órgão teve ciência formal das
denúncias desde 1992, por meio do então Subprocurador-Geral da República.
Destaca que os fatos também foram amplamente noticiados
pela imprensa na época, o que reforça que o tema era de conhecimento público e,
portanto, acessível à atuação do Ministério Público desde então.
Critica o fato de o MPT apenas ter voltado a agir em 2019, após
o recebimento de documentos particulares apresentados pelo Padre Ricardo Rezende
Figueira - documentos que, segundo a parte, são frágeis, unilaterais e marcados por
vieses ideológicos, e não deveriam ser considerados como verdade material.
Aduz que o próprio Padre, em entrevista pública, acusou o
Judiciário e o Ministério Público de conivência com os fatos da época, o que torna a
atual atuação do MPT contraditória e geradora de insegurança jurídica.
Enfatiza que o ajuizamento da ação ocorre mais de 30 anos após
o conhecimento formal dos fatos, sem justificativa plausível para essa demora, o que
compromete a possibilidade de defesa da Volkswagen e inviabiliza qualquer apuração
fidedigna da verdade.
Conclui que essa atuação tardia fere o princípio da segurança
jurídica e prejudica irremediavelmente o direito de defesa, motivo pelo qual não deve
prosperar qualquer pretensão fundada em fatos tão antigos e nunca antes contestados
de forma efetiva pelo próprio Estado.
Analiso.
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O argumento central da reclamada - de que a inércia do
Ministério Público por quase cinco décadas tornaria inviável a responsabilização - não
se sustenta diante da natureza dos fatos discutidos.
O trabalho em condições análogas à de escravo, assim como
outras violações graves de direitos humanos, possui caráter imprescritível, conforme
reconhecido pela jurisprudência da Corte Interamericana de Direitos Humanos (Caso
Trabalhadores da Fazenda Brasil Verde vs. Brasil). Nessas hipóteses, o decurso do
tempo não pode servir como escudo protetivo à perpetuação da impunidade.
Ainda que se admita que órgãos do Estado, inclusive o
Ministério Público, tenham tomado conhecimento de denúncias já nos anos 1990, a
omissão institucional pretérita não retira do parquet a legitimidade para promover
ação civil pública em momento posterior, quando reunidos novos elementos de
convicção. O fato de o MPT ter retomado a atuação em 2019 não desnatura sua função
constitucional de defesa da ordem jurídica, do regime democrático e dos interesses
sociais e individuais indisponíveis (art. 127, CF).
O princípio da segurança jurídica deve ser harmonizado com o
princípio da dignidade da pessoa humana e com a obrigação do Estado brasileiro de
prevenir, investigar e reparar violações de direitos humanos. No campo do trabalho
escravo, a prevalência é da proteção da vítima e da sociedade contra a repetição
dessas práticas, sob pena de convalidar a omissão estatal. Por isso, a estabilidade das
relações jurídicas não pode se sobrepor à necessidade de responsabilização por fatos
que configuram afronta grave à ordem constitucional.
Além disso, a reclamada não se encontra impedida de exercer o
contraditório e a ampla defesa. Ao contrário, foi regularmente citada, apresentou
contestação, documentos e pode produzir prova em juízo. Eventuais dificuldades
decorrentes do tempo transcorrido não configuram cerceamento, mas elemento que
será considerado pelo magistrado no juízo de valor sobre a robustez das provas.
Diante do exposto, rejeito os argumentos suscitados pela
reclamada, reconhecendo que a atuação tardia do Ministério Público não constitui
óbice ao prosseguimento da presente ação. A imprescritibilidade das violações
relacionadas ao trabalho escravo e a primazia da tutela dos direitos fundamentais
afastam a alegação de violação à segurança jurídica. O processo deve prosseguir com a
análise de mérito e valoração do conjunto probatório produzido.
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2.1.12 CONCLUSÃO DE INVESTIGAÇÕES. AMPLO
CONHECIMENTO PELAS AUTORIDADES. IMPOSSIBILIDADE DE RESPONSABILIZAÇÃO
ATUAL.
A parte argumenta que as alegações formuladas na presente
ação já foram objeto de diversas investigações e apurações por autoridades públicas e
entes privados desde a década de 1980, as quais não atribuíram qualquer
responsabilidade à Volkswagen, à Companhia Vale do Rio Cristalino S/A ou à Fazenda
Vale do Rio Cristalino.
Destaca que, em inquérito policial de 1983, a Delegacia de
Polícia de Conceição do Araguaia concluiu pela improcedência das denúncias de
trabalho escravo, atribuindo eventual irregularidade aos empreiteiros locais, sem
envolvimento da Volkswagen.
Além disso, a parte elenca uma série de ofícios, petições e cartas
enviadas a diversas autoridades públicas - como o Ministério do Trabalho, Justiça
Federal, Procuradoria-Geral da República, Polícia Federal, Câmara dos Deputados,
Governo do Estado do Pará e outras - demonstrando que houve amplo conhecimento
institucional e cobertura midiática sobre os fatos à época, sem qualquer
responsabilização formal das empresas mencionadas na ação.
Sustenta que o ajuizamento da presente demanda pelo MPT,
após décadas de inércia e depois da conclusão de investigações oficiais, configura
violação à segurança jurídica, especialmente porque não se apresenta qualquer fato
novo ou elemento que justifique o reexame das mesmas alegações já descartadas no
passado.
Conclui que, diante do exaurimento das vias investigativas à
época e da ausência de imputação formal de responsabilidade, não há fundamento
jurídico para sua condenação, devendo ser reconhecida a inviabilidade da pretensão
autoral e a necessidade de respeito ao princípio da estabilidade das relações jurídicas.
Analiso.
Os inquéritos policiais e diligências administrativas realizados
nas décadas de 1970 e 1980 não possuem efeito vinculante sobre o Poder Judiciário
trabalhista na atualidade. O simples arquivamento ou conclusão pela ausência de
responsabilidade de determinados agentes não impede que, em sede de ação civil
pública, sejam reavaliados fatos históricos à luz de novas provas e do ordenamento
jurídico vigente, especialmente quando se trata de matéria relacionada a violações
graves de direitos humanos.
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Destaco, por oportuno, que a investigação conduzida pela
autoridade policial reconheceu a existência de trabalhadores submetidos à condição
análoga à de escravo. Todavia, negou a responsabilidade da reclamada, direcionando-a
aos empreiteiros. Por isso, não há óbice da análise judicial sobre tal situação.
A Corte Interamericana de Direitos Humanos, no caso
“Trabalhadores da Fazenda Brasil Verde vs. Brasil”, deixou assente que a omissão ou a
insuficiência de investigações realizadas no passado não pode servir como fundamento
para perpetuar a impunidade de violações relacionadas ao trabalho escravo. Pelo
contrário, é dever do Estado reabrir a análise sempre que novos elementos probatórios
forem apresentados ou quando se verificar que a apuração anterior foi incompleta ou
parcial.
Nesse cenário, o princípio da segurança jurídica não pode ser
invocado como blindagem absoluta frente a condutas que configuram afronta direta à
dignidade da pessoa humana e ao valor social do trabalho, fundamentos da
Constituição da República (art. 1º, III e IV, CF/88). Nessas hipóteses, prevalece a
necessidade de efetividade da proteção a direitos fundamentais e de cumprimento das
obrigações internacionais assumidas pelo Brasil.
Embora a reclamada destaque que houve ampla divulgação
midiática e conhecimento institucional das denúncias sem imputação formal de
responsabilidade, isso não significa que os fatos não tenham ocorrido, mas apenas
que, à época, não houve responsabilização formal. A ação civil pública, em curso, não
reexamina apenas decisões passadas, mas cumpre a função constitucional de tutela
coletiva de direitos sociais, em especial em contextos de grave exploração.
No caso, não há cerceamento do direito de defesa, mas apenas
a reapreciação judicial de fatos que, por sua gravidade, são insuscetíveis de serem
encerrados unicamente com base na conclusão de investigações administrativas ou
policiais anteriores.
Diante do exposto, rejeito a preliminar suscitada pela
reclamada, reconhecendo que a existência de investigações pretéritas e a ausência de
responsabilização formal à época não impedem a atuação do Ministério Público nem o
reexame judicial dos fatos. A segurança jurídica deve ser interpretada em harmonia
com a proteção de direitos fundamentais, não constituindo óbice ao prosseguimento
da presente ação civil pública.
2.1.13 INVERSÃO DO ÔNUS DA PROVA. MANUTENÇÃO.
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A reclamada contesta a decisão judicial que inverteu o ônus da
prova com base no Protocolo de Julgamento com Perspectiva de Combate ao Trabalho
Escravo do CSJT. Argumenta que o caso não se enquadra nos requisitos legais (CLT, art.
818, §1º e §3º), pois o MPT não atua como parte vulnerável, não enfrenta dificuldade
probatória (tendo produzido mais de 2 mil documentos) e a empresa nunca foi
empregadora das supostas vítimas, tampouco responsável pela gestão da Fazenda Vale
do Rio Cristalino.
Sustenta que a atribuição de encargo probatório é impossível de
cumprir, em razão da distância temporal dos fatos (ocorridos há quase 50 anos), da
inexistência de obrigação legal de guarda de documentos por período tão extenso e da
falta de acesso aos documentos e contratos da época, que não estavam sob sua
responsabilidade.
A empresa também nega que se justifique a inversão com base
na teoria da responsabilidade objetiva ou do risco integral, por ausência de amparo
legal e por força do princípio da irretroatividade.
Assim, requer a revogação da decisão de inversão do ônus da
prova, deixando protesto antipreclusivo e resguardando o direito de recorrer.
Analiso.
O art. 818, §1º, da CLT e o art. 373, §1º, do CPC permitem ao juiz
atribuir o ônus da prova de modo diverso do legal, quando presentes peculiaridades
que o justifiquem, notadamente a impossibilidade ou excessiva dificuldade de cumprir
o encargo, ou a maior facilidade da parte contrária em produzi-la. A medida visa a
paridade processual e a efetividade da jurisdição, não sendo restrita a relações de
emprego individuais, mas aplicável também a ações coletivas, nas quais o MPT atua em
defesa de direitos fundamentais sociais.
No caso, a vulnerabilidade não se refere à parte em si, mas às
vítimas dos ilícitos coletivos - trabalhadores migrantes, pobres e analfabetos, aliciados
para a Fazenda Vale do Rio Cristalino nos anos 1970/80 -, que se encontram em
situação de hipossuficiência absoluta e com memória probatória drasticamente
comprometida pelo decurso do tempo. A atuação do MPT é de substituição processual,
assumindo a defesa de um grupo estruturalmente fragilizado.
Ainda que o MPT tenha juntado extenso acervo documental,
trata-se de provas colhidas em inquéritos, relatórios oficiais e testemunhos que
descrevem as violações, mas não esgotam a responsabilidade da empresa. O nexo com
a Volkswagen depende de documentos e registros internos da própria companhia ou
de suas controladas, cujo acesso somente a reclamada detinha à época. Portanto, não
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se trata de prova impossível, mas de prova de disponibilidade exclusiva da empresa,
ainda que antiga.
É fato que os ilícitos ocorreram há cerca de 50 anos. Contudo, a
distância temporal não constitui obstáculo absoluto à inversão do ônus da prova. A
jurisprudência consolidada em matéria de violações graves de direitos humanos -
inclusive pela Corte Interamericana de Direitos Humanos (caso Fazenda Brasil Verde) -
reconhece a imprescritibilidade material do trabalho escravo e a obrigação de o Estado
e os agentes envolvidos promoverem investigação efetiva. O dever de guarda
documental empresarial, ainda que limitado em lei, não exonera a companhia da
obrigação de colaboração com a Justiça para esclarecimento de fatos gravíssimos de
violação de direitos fundamentais.
O Protocolo de Julgamento com Perspectiva de Combate ao
Trabalho Escravo, editado pelo CSJT em 2024, orienta as magistradas e os magistrados
à adoção de técnicas processuais aptas a evitar a revitimização e a garantir a máxima
efetividade da tutela coletiva, dentre elas a redistribuição do ônus da prova, sobretudo
quando há assimetria de informação ou risco de invisibilidade da violação.
Não se está a transferir o ônus probatório com base em teoria
de risco integral ou de responsabilidade objetiva, mas sim pela distribuição dinâmica
da prova (CLT, art. 818, §1º), em razão da posição da Volkswagen enquanto integrante e
beneficiária da sociedade controladora da Fazenda Vale do Rio Cristalino, de quem se
espera colaboração ativa na elucidação dos fatos.
Por isso, mantém-se a inversão do ônus da prova, cabendo à
Volkswagen demonstrar a inexistência de ingerência, proveito ou vínculo com as
violações ocorridas na Fazenda Vale do Rio Cristalino, sob pena de se presumirem
verdadeiros os fatos descritos pelo MPT, desde que verossímeis e apoiados em início
de prova.
A decisão não implica presunção absoluta de culpa, mas tão
somente a atribuição lógica do encargo probatório à parte que, em melhores
condições, pode produzi-lo, em conformidade com a legislação processual, a
orientação do CSJT e os parâmetros internacionais de tutela dos direitos humanos.
Assim, indefiro o pedido de revogação da decisão que
determinou a inversão do ônus da prova.
2.2 PREJUDICIAL DE MÉRITO. PRESCRIÇÃO TOTAL.
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A reclamada impugna a tese da parte autora quanto à
imprescritibilidade das pretensões, sustentando que não há fundamento jurídico válido
para afastar a incidência da prescrição no caso concreto.
Aduz que o Estatuto de Roma tem aplicação restrita a crimes
contra a humanidade, nos termos do seu art. 7º, e não alcança genericamente
situações de trabalho escravo.
Aponta que a prescrição é princípio fundamental do Estado
Democrático de Direito, prevista no ordenamento jurídico pátrio para garantir
estabilidade e segurança jurídica e que não existe previsão constitucional ou legal de
imprescritibilidade para a conduta de submissão a condições análogas à de
escravização, nem atualmente, tampouco à época dos fatos.
Argumenta que a Constituição Federal reconhece a
imprescritibilidade apenas para os crimes de racismo (art. 5º, XLII) e ações de grupos
armados contra o Estado (art. 5º, XLIV), e ainda assim sem efeito retroativo.
Por fim, entende que o Sistema Interamericano de Direitos
Humanos, inclusive no caso Fazenda Brasil Verde v. Brasil, não impõe a
imprescritibilidade em hipóteses como a dos autos. Narra que situações em que a
jurisprudência afastou a prescrição envolviam trabalhadores escravizados que não
podiam acessar a Justiça no período da violação, o que não se aplica ao presente caso,
em que o próprio Estado é o autor da demanda, décadas após os fatos.
Diante disso, sustenta a prescrição total das pretensões
deduzidas na inicial, com fundamento na legislação brasileira vigente.
O Ministério Público do Trabalho refuta a prejudicial. Sustenta a
imprescritibilidade das pretensões reparatórias em casos de escravidão
contemporânea e tráfico de pessoas, por se tratar de violação gravíssima ao núcleo da
dignidade humana, tutelada por normas internacionais de direitos humanos de caráter
imperativo (jus cogens), com destaque para a sentença da Corte Interamericana de
Direitos Humanos no caso “Trabalhadores da Fazenda Brasil Verde vs. Brasil” (2016).
Invoca a Recomendação CNJ nº. 123/2022 (controle de
convencionalidade), a jurisprudência do STJ (imprescritibilidade de indenizações por
tortura no regime militar, Súmula 647/STJ) e precedentes do TST – RRAg-1000612-
76.2020.5.02.0053 (2ª Turma, 27/10/2023) e RR-24796-34.2019.5.24.0022 (6ª Turma, 17
/03/2025) - reconhecendo a não incidência de prescrição em pretensões fundadas em
trabalho análogo à escravidão.
Analiso.
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A prescrição é tradicionalmente compreendida como a perda da
pretensão de reparação de um direito em virtude do decurso do tempo. Na esfera civil,
essa perda implica a transformação da obrigação em natural, que pode ser cumprida
espontaneamente, mas não pode ser exigida judicialmente. Já no âmbito penal, a
prescrição consiste na perda da pretensão punitiva e executória do Estado, baseada
em fundamentos como o esquecimento do fato, a possível recuperação do infrator, o
enfraquecimento probatório e a necessidade de responsabilizar o próprio Estado pela
sua inércia.
Apesar de sua relevância para a pacificação social e para a
segurança jurídica, o ordenamento jurídico brasileiro admite hipóteses de
imprescritibilidade, sempre que o valor coletivo tutelado se sobrepõe ao interesse
individual do ofensor.
A Constituição Federal de 1988 é clara ao prever a
imprescritibilidade dos crimes de racismo (art. 5º, XLII) e das ações de grupos armados
contra a ordem constitucional e o Estado Democrático (art. 5º, XLIV). Nessas hipóteses,
o constituinte optou por privilegiar princípios como a isonomia, a dignidade da pessoa
humana e a defesa do Estado de Direito em detrimento da segurança jurídica do
infrator.
Outro exemplo importante é o entendimento firmado pelo
Supremo Tribunal Federal no julgamento do Recurso Extraordinário 654833 (Tema
999), em que foi fixada a tese de repercussão geral de que a pretensão de reparação
civil de dano ambiental é imprescritível. O fundamento central dessa decisão repousa
no reconhecimento do meio ambiente como bem jurídico de natureza coletiva e
intergeracional, essencial à sobrevivência humana. Assim, a proteção do meio
ambiente prevalece sobre o interesse individual de quem causou o dano, mesmo
diante da inércia estatal.
No campo do trabalho escravo contemporâneo, a discussão
sobre a prescrição ganhou relevância com o julgamento do caso Fazenda Brasil Verde
pela Corte Interamericana de Direitos Humanos (Corte IDH). Nessa decisão, a Corte
reconheceu que a omissão do Estado brasileiro em investigar e punir os responsáveis
não poderia servir de fundamento para a prescrição.
Destacou, ainda, que a escravidão e suas formas análogas
constituem delitos de Direito Internacional, cuja proibição é considerada norma de jus
cogens. Com base nisso, a prescrição foi declarada incompatível com as obrigações
internacionais assumidas pelo Brasil, uma vez que impediria a apuração dos fatos, a
punição dos responsáveis e a reparação das vítimas.
Documento assinado eletronicamente por OTAVIO BRUNO DA SILVA FERREIRA, em 29/08/2025, às [Link] - dc7fe45
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Esse posicionamento da Corte Interamericana encontra
paralelos nas hipóteses internas de imprescritibilidade, como nos crimes de racismo e
nos danos ambientais. Do mesmo modo, diversos tribunais brasileiros já vêm
admitindo a imprescritibilidade em casos de trabalho escravo contemporâneo, a
exemplo da decisão proferida no processo HC nº 1023279-03.2018.4.01.0000, em que
foi afastada a prescrição para viabilizar a investigação dos crimes praticados na
Fazenda Brasil Verde.
No âmbito da Justiça do Trabalho, a imprescritibilidade é ainda
mais evidente em relação às ações inibitórias, voltadas para a prevenção de violações
futuras. Nessas demandas, não há que se falar em prazo prescricional, uma vez que o
objeto é a garantia de um ambiente de trabalho saudável, direito de natureza difusa e
coletiva, cuja titularidade não é individualizável e que se reveste de caráter indisponível.
Diante desse panorama, embora não exista previsão expressa
na Constituição Federal ou em lei nacional acerca da imprescritibilidade do crime de
trabalho escravo contemporâneo e de sua reparação civil, os fundamentos
estabelecidos pela Corte Interamericana de Direitos Humanos são plenamente
aplicáveis ao ordenamento jurídico interno.
O reconhecimento da imprescritibilidade, nesses casos, não
apenas reforça a prevalência da dignidade humana e da proteção dos direitos
fundamentais, mas também consolida a compreensão de que o trabalho escravo é
uma violação de tal gravidade que não pode ser acobertada pelo simples decurso do
tempo.
Destaca-se que, após a Segunda Guerra Mundial, consolidou-se
a proteção internacional dos direitos humanos, inicialmente com a criação da ONU
(1945) e da Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948), complementada por
tratados vinculantes como os Pactos Internacionais de 1966. Paralelamente ao sistema
global, surgiram os sistemas regionais de proteção (Europa, América e África), cabendo
no continente americano à Comissão e à Corte Interamericana de Direitos Humanos a
interpretação e aplicação da Convenção Americana de Direitos Humanos.
A Corte Interamericana, instituição autônoma com jurisdição
reconhecida pelo Brasil, profere sentenças internacionais obrigatórias, cuja eficácia foi
reforçada pelo CNJ na Recomendação nº 123/2022, determinando a observância não
apenas da parte dispositiva, mas também dos fundamentos das decisões. Isso se
conecta ao controle de convencionalidade, que exige a compatibilização da legislação
interna com os tratados de direitos humanos ratificados pelo país.
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O controle de convencionalidade deve ser realizado pelos juízes
e tribunais nacionais, afastando normas internas incompatíveis com os tratados. Assim,
a fundamentação das sentenças da Corte Interamericana integra a razão de decidir e
passa a compor precedente judicial obrigatório, a ser observado pelo Judiciário interno.
Dessa forma, os fatos tratados nestes autos, ocorridos no
período de 1974 a 1986, serão analisados a partir do conjunto normativo internacional,
nacional e dos precedentes, especialmente as decisões proferidas pela Corte IDH, com
destaque para o caso Fazenda Brasil Verde.
Considerando que a parte reclamada apresenta diversos
fundamentos para sustentar a prescrição da pretensão deduzida nesta ação, a fim de
assegurar a análise pormenorizada de cada um desses fundamentos, a apreciação
ocorrerá de acordo com a ordem em que foram apresentados por ela em sua defesa.
2.2.1 DAS DISPOSIÇÕES LEGAIS INTERNAS QUE IMPÕEM A
PRESCRIÇÃO AO CASO
A reclamada sustenta a incidência da prescrição total, tanto na
esfera penal quanto civil e trabalhista, em razão do largo decurso temporal entre os
fatos narrados na petição inicial (ocorridos entre 1974 e 1986) e o ajuizamento da ação.
Do ponto de vista penal, aponta a aplicação do art. 109, III, do
Código Penal, que prevê prazo prescricional de 12 anos para os crimes descritos (arts.
149 e 149-A do CP). Conforme o art. 111, III, do Código Penal, o prazo começou a correr
a partir do fim da permanência criminosa, reconhecida pelo próprio MPT como
ocorrida em 1986. Assim, o prazo de prescrição penal expirou há décadas,
impossibilitando a persecução de qualquer responsabilidade criminal.
No âmbito civil e trabalhista, aponta que eventuais pretensões
fundadas em direitos trabalhistas estão prescritas conforme o art. 7º, XXIX, da CF, que
estabelece prazo de 5 anos, limitado a 2 anos após o término do contrato de trabalho.
Mesmo sob a ótica da responsabilidade civil, os prazos também
estariam integralmente consumados, seja com base no prazo trienal do art. 206, § 3º, V,
do Código Civil de 2002, seja no prazo de 20 anos do Código Civil de 1916,
considerados os efeitos da regra de transição do art. 2028 do Código de 2002.
Dessa forma, requer o reconhecimento da prescrição total,
afirmando que não subsiste qualquer fundamento legal para o prosseguimento da
ação.
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Por outro lado, o MPT sustenta que a prescrição visa proteger a
segurança jurídica, extinguindo pretensões não exercidas no prazo legal. Contudo, em
casos de violações intencionais e gravíssimas a direitos fundamentais - como tortura,
tráfico de pessoas e redução à condição análoga à escravidão - essa finalidade cede
espaço à necessidade de tutela da dignidade humana, fundamento da República (CF,
art. 1º, III). Nessas hipóteses, não há falar em inércia da vítima, pois a própria
autonomia é suprimida pela violência sofrida.
Defende que, na Fazenda Volkswagen, nas décadas de 1970 e
1980, trabalhadores - majoritariamente negros, analfabetos ou de baixa escolaridade -
foram aliciados sob falsas promessas e submetidos a condições degradantes, dívidas
fraudulentas (“sistema barracão”), restrição de liberdade, violência física e moral, e até
assassinatos. Essas práticas configuram trabalho escravo contemporâneo e tráfico de
pessoas, violando de forma extrema e deliberada a dignidade humana.
Argumenta que o Superior Tribunal de Justiça firmou
entendimento de que ações indenizatórias por danos morais e materiais decorrentes
de tortura são imprescritíveis, conforme precedentes e Súmula 647. Continua
afirmando que o fundamento é que tais atos atentam contra o núcleo da dignidade
humana, tornando inaplicável qualquer prazo prescricional.
O Supremo Tribunal Federal, por sua vez, reconheceu que a
escravidão moderna - ainda que sem cárcere físico - também retira a liberdade e a
dignidade da vítima, equiparando-se, em gravidade, à tortura.
Diante disso, sustenta que a coerência e a unidade do sistema
jurídico impõem estender a imprescritibilidade reconhecida para casos de tortura às
ações reparatórias decorrentes de tráfico de pessoas e trabalho escravo. Nesses casos,
a segurança jurídica não pode prevalecer sobre a necessidade de reparação integral,
de prevenção e de afirmação do Estado Democrático de Direito.
Analiso.
A prescrição é técnica de pacificação que protege segurança
jurídica e estabilidade social, extinguindo pretensões pela inércia (CC arts. 205 e 206; CF
/88, art. 5º, caput). Mas não é valor absoluto nem hierarquicamente superior a outros
bens constitucionais. Em colisão com a dignidade humana (art. 1º, III) e com a vedação
de violações gravíssimas de direitos fundamentais, a função “pacificadora” da
prescrição cede, sob pena de o próprio instituto converter-se em fonte de impunidade
estrutural e descrédito do Estado de Direito.
Assim, pode-se dizer que prescrição é regra; a
imprescritibilidade opera como exceção constitucionalmente adequada quando o bem
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jurídico é absoluto e a lesão é de gravidade ímpar (redução à escravidão), incompatível
com a ideia de “inércia” do titular.
A vedação à escravidão e suas formas análogas é norma de jus
cogens, reconhecida pelo direito internacional costumeiro, incorporada ao
ordenamento pela CF/88 (art. 5º, §2º e §3º) e por tratados ratificados, como a
Convenção nº 29 da OIT (Decreto 41.721/57) e a Convenção Americana de Direitos
Humanos (Decreto 678/92). Por ser norma jus cogens é norma imperativa aceita e
reconhecida pela comunidade internacional como de aplicação obrigatória, das quais
nenhum Estado pode se afastar por meio de tratados, costumes ou acordos contrários.
Ou seja, são normas inderrogáveis e que se impõem acima de todas as outras.
A Corte IDH, no caso Fazenda Brasil Verde vs. Brasil, determinou
a inaplicabilidade da prescrição em tais situações, vinculando o Brasil (CADH, art. 68).
Logo, a ausência de previsão expressa na CF não exclui a aplicação de normas
imperativas internacionais.
Da mesma forma, o art. 5º, § 2º da CF abre o sistema jurídico
brasileiro à incorporação de direitos e garantias decorrentes de tratados
internacionais, que, em se tratando de jus cogens, têm primazia sobre normas internas
contrárias, inclusive prazos prescricionais.
A imprescritibilidade aqui decorre da natureza da violação -
privação extrema da liberdade e da dignidade - e não da criação de um novo rol
constitucional.
Essa ponderação já foi expressamente acolhida pela
jurisprudência trabalhista superior ao reconhecer a imprescritibilidade do “direito
absoluto a não escravização”, inclusive em ações civis públicas, justamente por tocar o
núcleo duro da dignidade da pessoa humana. A 2ª Turma do TST, no RRAg-1000612-
76.2020.5.02.0053 (20/10/2023), reconheceu expressamente a imprescritibilidade do
“direito absoluto a não escravização” em ação civil pública por trabalho doméstico em
regime servil. Vejamos:
"AGRAVO DE INSTRUMENTO EM RECURSO DE
REVISTA. ACÓRDÃO REGIONAL PUBLICADO NA VIGÊNCIA DA LEI Nº
13.467/2017. AÇÃO CIVIL PÚBLICA - TRABALHO DOMÉSTICO EM
CONDIÇÕES ANÁLOGAS À ESCRAVIDÃO - DESMISTIFICAÇÃO DO
ARGUMENTO "COMO SE FOSSE DA FAMÍLIA" - GRAVE VIOLAÇÃO AOS
DIREITOS HUMANOS - RECONHECIMENTO DA IMPRESCRITIBILIDADE DO
DIREITO ABSOLUTO A NÃO ESCRAVIZAÇÃO - ART. 896, §1º-A, I, DA CLT.
Documento assinado eletronicamente por OTAVIO BRUNO DA SILVA FERREIRA, em 29/08/2025, às [Link] - dc7fe45
Fls.: 57
Do exame das razões recursais, observa-se que o recorrente
transcreveu corretamente o trecho do acórdão regional em que
analisada tese relativa à imprescritibilidade da pretensão envolvendo o
labor em condições análogas à escravidão. Assim, preenchido o
requisito do art. 896, §1º-A, I, da CLT há que se prosseguir no exame da
questão de fundo. Trata-se de ação civil pública ajuizada pelo MPT,
juntamente com a DPU, para tutelar direitos individuais de trabalhadora
doméstica reduzida, por mais de 20 anos - de 1998 a 2020 -, à condição
análoga à de escravo, além de tutelar o direito coletivo da sociedade. Ao
analisar o caso, o TRT rejeitou o argumento do Órgão Ministerial
segundo o qual é imprescritível a pretensão deduzida em ação
trabalhista envolvendo a prática da submissão de trabalhadora
doméstica à condição análoga à escravidão. Decidiu a Corte Regional
aplicar a prescrição quinquenal prevista no art. 7º, XXIX, da Constituição
Federal. Todavia, nos casos envolvendo crime contra a humanidade e
grave violação aos direitos fundamentais, a norma geral sobre a
prescrição trabalhista deve ser interpretada sistematicamente. Com
efeito, extrai-se do conjunto de princípios e das garantias
constitucionais, bem como de regras explícitas em diplomas nacionais e
internacionais que, na excepcional hipótese de submissão de
trabalhador à condição análoga à de escravo, não há como se admitir a
consumação de direitos pelo decurso do tempo, pois, nessa
circunstância, a restrição da liberdade moral, e até mesmo física, não
permite ao ofendido a busca pela reparação de seus direitos. A situação
se agrava ainda mais quando ocorre em ambiente doméstico, no qual o
trabalhador é mantido em situação de dependência e exploração, e, não
raro, ludibriado pela justificativa falaciosa do empregador de que o
indivíduo explorado seria "como se fosse da família". A pujança da tese
que defende a imprescritibilidade das ações envolvendo a conduta de
redução análoga à escravidão é de tal importância que o Ministério
Público da União ajuizou, recentemente, a ADPF 1.053. Nela, o
Procurado Geral da Republica postula seja declarada a não recepção,
sem redução de texto, dos artigos do Código Penal relativos à
prescrição, em especial os artigos 107, inciso IV, e 109 a 112 do CP,
quanto ao tipo penal de redução à condição análoga à de escravo,
previsto no art. 149 do Código Penal, a fim de torná-lo imprescritível. É
certo que as esferas penal e trabalhista não se confundem e, a rigor,
não se comunicam. Porém, na hipótese específica do ilícito retratado,
não há como admitir que o Estado compactue com a impunidade em
função do decurso temporal, em detrimento do direito da vítima à
reparação integral e da responsabilização do algoz por todas as
consequências, inclusive pecuniárias, advindas daquela prática. Isso
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implicaria não só em um salvo conduto ao explorador, como também
em um estímulo à repetição e perpetuação do ilícito na nossa
sociedade. Acrescente-se que o Estado Brasileiro, signatário da
Convenção nº 29 da OIT, que versa sobre o trabalho forçado ou
obrigatório, e da Convenção nº 105 da OIT, que trata da abolição do
trabalho forçado e proíbe o uso de toda forma de trabalho forçado ou
obrigatório, comprometeu-se a combater e reprimir, sem qualquer
restrição, as práticas de escravidão moderna. Por todo o exposto, há
que se prover o agravo de instrumento diante da provável má-aplicação
do art. 7º, XXIX, da Constituição Federal. Agravo de instrumento
conhecido e provido. […] VÍNCULO DE EMPREGO VERSUS TRABALHO EM
CONDIÇÃO ANÁLOGO À DE ESCRAVO - CONFISSÃO REAL. Quanto à
caracterização do trabalho em condição análoga à de escravidão, vale
pontuar, de início, que a própria legislação cuida de tipificar tal ilícito.
Deveras, o crime de " Redução à condição análoga à de escravo " está
previsto no caput do art. 149 do Código Penal, tendo sido ali
estabelecido que incorrerá na prática de tal delito aquele que: "reduzir
alguém a condição análoga à de escravo, quer submetendo-o a
trabalhos forçados ou a jornada exaustiva, quer sujeitando-o a
condições degradantes de trabalho, quer restringindo, por qualquer
meio, sua locomoção em razão de dívida contraída com o empregador
ou preposto ". Como se observa, o tipo penal abarca não somente a
submissão do trabalhador ao trabalho forçado, com privação, por
qualquer meio, da liberdade, mas também a sujeição à jornada
exaustiva e a condições degradantes de trabalho. Isso porque o ilícito
penal parte do conceito de trabalho escravo contemporâneo, definido
como aquele em que o labor é executado em flagrante transgressão à
dignidade humana. De outra parte, registre-se que, de acordo com a
Secretaria de Inspeção do Trabalho (SIT), entre 2017 e 2023, foram
resgatados 81 trabalhadores em situações análogas à escravidão no
Brasil, especificamente no setor doméstico. É alarmante constatar que
os anos de 2021 e 2022 representaram aproximadamente 74,07% desse
total, evidenciando a persistência do problema ao longo de sete anos
(Fonte: [Link] ). Dito isso, cabe averiguar se,
no caso concreto, a trabalhadora resgatada estava reduzida à condição
análoga à de escravo. Na hipótese, o TRT, após exaustiva apreciação das
provas, delimitou o seguinte quadro fático, cujo reexame mostra-se
inviável nesta instância extraordinária: a partir " dos elementos de prova
existentes nos autos, resta patente que a obreira, empregada doméstica
residente em imóveis da entidade familiar estava reduzida à condição
análoga à de escrava, eis que, sujeita a condições degradantes de
trabalho, percebendo salários em muito inferiores ao mínimo, quando
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os recebia, com limitações e impedimento de uso ao banheiro,
recebendo comida e medicamentos de vizinhos, arcando com despesas
dos empregadores, referentes à água e à luz e sofrendo descontos
salariais para pagamento de rações de animais pertencentes aos
empregadores, sofrendo, ainda, restrições à liberdade, à locomoção e
acesso à sua pessoa, além de desamparo dos empregadores em
momento de acidente " e que " Percebe-se que, a obreira, pessoa
humilde, pelo que se infere dos autos, inclusive gravação acostada pelos
réus, tinha medo dos empregadores mesmos e, além disso, tinha receio
de não receber o que de direito ". Assim, não há dúvida de que a
trabalhadora prestou serviço em condição análoga à de escravo, com
restrição da liberdade e em situação degradante e aviltante à dignidade
humana, privada de salários e das mínimas condições de higiene, saúde
e alimentação. Também é certo que tal situação perdurou ao longo de
todo o período apurado; e não somente depois do ano de 2017, como
alegado no recurso. Dessa forma, incide o óbice da Súmula nº 126 do
TST. Agravo de instrumento conhecido e não provido . RECURSO DE
REVISTA DO MPT. ACÓRDÃO REGIONAL PUBLICADO NA VIGÊNCIA DA LEI
Nº 13.467/2017. AÇÃO CIVIL PÚBLICA - TRABALHO DOMÉSTICO EM
CONDIÇÕES ANÁLOGAS À ESCRAVIDÃO - DESMISTIFICAÇÃO DO
ARGUMENTO "COMO SE FOSSE DA FAMÍLIA" - GRAVE VIOLAÇÃO AOS
DIREITOS HUMANOS - RECONHECIMENTO DA IMPRESCRITIBILIDADE DO
DIREITO ABSOLUTO A NÃO ESCRAVIZAÇÃO. (aponta violação aos artigos
1º, III, IV, 5º, caput, V, X, 7º, XXII, XXIX, 225, da CF/88, 11, § 1º, da CLT, e
197 a 200, do Código Civil). Trata-se de ação civil pública ajuizada pelo
MPT, juntamente com a DPU, para tutelar direitos individuais de
trabalhadora doméstica reduzida, por mais de 20 anos - de 1998 a 2020 -
, à condição análoga à de escravo, além de tutelar o direito coletivo da
sociedade. Ao analisar o caso, o TRT rejeitou o argumento do Órgão
Ministerial segundo o qual é imprescritível a pretensão deduzida em
ação trabalhista envolvendo a prática da submissão de trabalhadora
doméstica à condição análoga à escravidão. Decidiu a Corte Regional
aplicar a prescrição quinquenal prevista no art. 7º, XXIX, da Constituição
Federal. Todavia, nos casos envolvendo crime contra a humanidade e
grave violação aos direitos fundamentais, a norma geral sobre a
prescrição trabalhista deve ser interpretada sistematicamente. Com
efeito, extrai-se do conjunto de princípios e garantias constitucionais,
bem como de regras explícitas em diplomas nacionais e internacionais,
que, na excepcional hipótese de submissão de trabalhador à condição
análoga à de escravo, não há como se admitir a consumação de direitos
pelo decurso do tempo, pois, nessa circunstância, a restrição da
liberdade moral, e até mesmo física, não permite ao ofendido a busca
Documento assinado eletronicamente por OTAVIO BRUNO DA SILVA FERREIRA, em 29/08/2025, às [Link] - dc7fe45
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pela reparação de seus direitos. A situação se agrava ainda mais quando
ocorre em ambiente doméstico, no qual o trabalhador é mantido em
situação de dependência e exploração, e, não raro, ludibriado pela
justificativa falaciosa do empregador de que o indivíduo explorado seria
"como se fosse da família". Nesta relação, o indivíduo figura como
agregado a quem, no início da relação de submissão, é oferecida a
ilusão de alcançar melhoria na condição de vida por estar inserido
naquele ambiente familiar. Não obstante, na verdade, referidos
trabalhadores são submetidos à realidade para a qual foram
arregimentados: trabalhar ininterruptas horas, sem direito a salários,
descanso remunerado, férias, etc., recebendo, quase sempre, pequenos
agrados ou pequenas quantias em dinheiro, apenas para sobrevivência,
sofrendo restrição alimentar e todo tipo de humilhação e de violência
moral e física. Ressalte-se que esse tipo de exploração criminosa é
demasiadamente mais difícil de ser constatada por ocorrer no íntimo de
uma residência familiar, longe dos olhos da sociedade e dos órgãos de
fiscalização do trabalho, favorecendo a continuidade delitiva por longos
anos, atribuindo à pessoa o vergonhoso status de patrimônio familiar,
chegando, comumente, a ser transmitido pelas gerações de parentes da
família empregadora. O reconhecimento da prescrição no caso dos
autos projeta uma anuência a essa violação ao direito fundamental a
não ser escravizado - que encontra seu análogo na proibição ao
tratamento desumano ou degradante , inscrito no artigo 5º, inciso III, da
Constituição da República. Além disso, a liberdade do indivíduo é direito
fundamental que só pode sofrer restrição por parte do Estado através
de um devido processo legal (art. 5º, inciso LIV, CF). Não há autorização
constitucional para restrição de liberdade em uma relação privada, o
que inclui um vínculo de emprego. A pujança da tese que defende a
imprescritibilidade das ações envolvendo a conduta de redução análoga
à escravidão é de tal importância que o Ministério Público da União
ajuizou, recentemente, a ADPF 1.053. Nela, o PGR postula seja declarada
a não recepção, sem redução de texto, dos artigos do Código Penal
relativos à prescrição, em especial os artigos 107, inciso IV, e 109 a 112
do CP, quanto ao tipo penal de redução à condição análoga à de
escravo, previsto no art. 149 do Código Penal, a fim de torná-lo
imprescritível. É certo que as esferas penal e trabalhista não se
confundem e, a rigor, não se comunicam. Porém, na hipótese específica
do ilícito em comento, não há como admitir que o Estado compactue
com a ausência de punição por decurso temporal em detrimento do
direito da vítima à reparação integral e da responsabilização, inclusive
pecuniária, do algoz por todas as consequências advindas daquela
prática. Isso implicaria não só em um salvo conduto ao explorador,
Documento assinado eletronicamente por OTAVIO BRUNO DA SILVA FERREIRA, em 29/08/2025, às [Link] - dc7fe45
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como também em um estímulo à repetição e perpetuação do ilícito na
nossa sociedade. Além disso, é amplamente reconhecido, na
jurisprudência e na doutrina constitucionalista, que os direitos e
garantias fundamentais listados no art. 5º da Constituição de 1988
possuem características essenciais, dentre elas a imprescritibilidade.
Portanto, fica claro que o direito à liberdade e à impossibilidade de
submissão à condição análoga à escravidão constitui garantia
fundamental, com previsão no inciso XIII do artigo 5º da CF/88, não
podendo ser alcançado pela prescrição. Trata-se de interpretação
sistemática, que busca assegurar a máxima efetividade das liberdades
civis dos cidadãos. Invoca-se aqui o lúcido ensinamento de Noberto
Bobbio, na clássica obra " A era dos direitos ", segundo o qual as únicas
exceções à máxima da ausência de direitos absolutos são os direitos
absolutos a não ser escravizado e de não ser torturado. Para se ter uma
boa compreensão da gravidade do crime contra a humanidade que é
submeter um trabalhador a condição análoga à de escravo , sua
tipificação em âmbito internacional está prevista no Estatuto de Roma
com a característica da imprescritibilidade (artigos 7º e 29), tendo a
competência para seu julgamento designada ao Tribunal Penal
Internacional (cuja jurisdição o Brasil se submete, nos termos do § 4º, do
artigo 5º, da Constituição da República). No Brasil, o Estatuto de Roma
ingressou no ordenamento jurídico pátrio por meio do Decreto nº 4.338
/02 . Por isso, é fundamental aplicar de forma analógica o entendimento
firmado na Súmula nº 647 do STJ , que reconhece a imprescritibilidade
das ações indenizatórias por danos morais e materiais decorrentes de
atos de perseguição política com violação de direitos fundamentais
ocorridos durante o regime militar , aos casos de trabalho em condição
análoga à de escravo. Além disso, no período anterior a 2015 (atingido
supostamente pela prescrição quinquenal trabalhista do artigo 7º, XXIX,
da Constituição da República), a vítima era considerada, pelo
ordenamento jurídico brasileiro como absolutamente incapaz,
conforme as regras vigentes à época. Assim, contra ela não poderia
correr a prescrição, nos termos do artigo 198, inciso I, do Código Civil.
Além desta incapacidade provisória, a prescrição relativa às pretensões
envolvendo o período em que a vítima foi submetida à condição
análoga à escravidão não poderia correr considerando que a presente
ação tem como objeto fato que deve ser apurado no juízo criminal, nos
termos do artigo 200 do Código Civil. Não se pode, assim, entender
plausível a limitação do direito absoluto a não se submeter à servidão
pela eventual incidência do instituto da prescrição, mormente porque o
Estado Brasileiro, também signatário da Convenção nº 29 da OIT, que
versa sobre o trabalho forçado ou obrigatório, e da Convenção nº 105
Documento assinado eletronicamente por OTAVIO BRUNO DA SILVA FERREIRA, em 29/08/2025, às [Link] - dc7fe45
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da OIT, que trata da abolição do trabalho forçado e proíbe o uso de toda
forma de trabalho forçado ou obrigatório, comprometeu-se a combater
e reprimir, sem qualquer restrição, as práticas de escravidão moderna.
Dessa forma, há que se prover o recurso a fim de se reconhecer
imprescritível a pretensão da parte reduzida a trabalho análogo à de
escravo, sendo devidos todos os direitos trabalhistas desde o início da
prestação de serviço, nos idos de 1998. Recurso de revista conhecido e
provido. [...] INDENIZAÇÃO POR DANO MORAL - VALOR ARBITRADO.
(apontam violação aos artigos 5º, caput, V, X, da CF/88, 944 e 953 do
Código Civil) A jurisprudência do TST firmou-se no sentido de que não é
possível, nesta instância extraordinária, a majoração ou a minoração do
montante atribuído à indenização por danos morais, na hipótese em
que o valor arbitrado não seja ínfimo ou exorbitante, de modo a se
mostrar patente a discrepância, considerando a gravidade da culpa e do
dano, tornando-o, por consequência, injusto para uma das partes do
processo. No tocante à indenização por dano moral individual, o TRT
firmou o entendimento de que o valor fixado no 1º grau deveria ser
majorado, tendo em vista as circunstâncias do caso. Nesse contexto,
constata-se que a quantia de R$ 350.000,00 (trezentos e cinquenta mil),
a título de dano moral individual, foi arbitrada dentro de um critério
razoável e em conformidade com o art. 944 do CC, mormente porque
observados os elementos indispensáveis para tanto, a exemplo da
extensão da lesão (a trabalhadora prestou serviço por cerca de 20 anos
como empregada doméstica e " estava reduzida à condição análoga à
de escrava, eis que, sujeita a condições degradantes de trabalho,
percebendo salários em muito inferiores ao mínimo, quando os recebia,
com limitações e impedimento de uso ao banheiro, recebendo comida e
medicamentos de vizinhos, arcando com despesas dos empregadores,
referentes à água e à luz e sofrendo descontos salariais para
pagamento de rações de animais pertencentes aos empregadores,
sofrendo, ainda, restrições à liberdade, à locomoção e acesso à sua
pessoa, além de desamparo dos empregadores em momento de
acidente "), a capacidade econômica da vítima ("a obreira era pessoa
humilde e tinha medo dos réus ") e da rés (trata-se de grupo familiar
proprietário de imóveis na localidade em que ocorreram os fatos).
Acrescente-se que a quantia arbitrada tem por finalidade permitir à
trabalhadora recomeçar a vida após longos anos de exploração e de
privações dos direitos mais básicos inerentes à dignidade, como por
exemplo, a moradia, a saúde, a alimentação e o lazer. A indenização por
dano moral coletivo tem caráter meramente punitivo-pedagógico , uma
vez que não há quantia monetária suficiente para reparar a violação de
direitos fundamentais por mais de 20 anos , tampouco qualquer valor
Documento assinado eletronicamente por OTAVIO BRUNO DA SILVA FERREIRA, em 29/08/2025, às [Link] - dc7fe45
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financeiro será capaz de restaurar as décadas de liberdade suprimidas
de quem foi escravizada. O dano extrapola a esfera individual e macula
os direitos e os interesses transindividuais e difusos de toda a
sociedade. O vilipêndio social do trabalho escravo é irreparável
monetariamente. Assim, é fundamental considerar a capacidade
econômica dos ofensores . Uma vez que foi concedido o benefício da
Justiça Gratuita aos Reclamados, em razão de sua condição econômica
para arcar com os custos do processo, reputa-se adequada a redução
da indenização por dano moral coletivo para R$ 200.000,00 (duzentos
mil reais). Recurso de revista conhecido e parcialmente provido " (RRAg-
1000612-76.2020.5.02.0053, 2ª Turma, Relatora Ministra Liana Chaib,
DEJT 27/10/2023). (negrito nosso)
A decisão reafirma a necessidade de interpretar a prescrição
trabalhista de forma sistemática quando o objeto da demanda envolve a submissão de
trabalhadores a condições análogas à escravidão. A ratio decidendi reside no
reconhecimento de que o direito fundamental à liberdade e à não escravização possui
caráter absoluto e imprescritível, por se tratar de garantia que não admite relativização
pelo decurso do tempo. Assim, a aplicação sem reflexão do art. 7º, XXIX, da
Constituição, nos casos de escravidão contemporânea, resultaria em legitimação da
impunidade, afrontando tanto a Constituição Federal quanto compromissos
internacionais assumidos pelo Brasil.
Desse modo, a decisão estabelece um precedente relevante: a
imprescritibilidade deve ser reconhecida não apenas na esfera penal, mas também na
seara trabalhista, quando em jogo está a tutela de direitos violados pela prática de
trabalho escravo. A ratio decidendi, portanto, consiste em afirmar que o Estado não
pode permitir que o tempo se converta em salvo-conduto para exploradores, sendo
necessário assegurar a reparação integral da vítima e a responsabilização patrimonial
do agressor.
Essa orientação vincula a proteção da dignidade humana à
máxima efetividade das liberdades fundamentais e projeta efeitos para casos futuros,
ao consolidar o entendimento de que a violação do direito absoluto de não ser
escravizado não se sujeita a limitações temporais, seja em âmbito individual, seja
coletivo.
Com base na decisão transcrita, conclui-se que a submissão de
trabalhador a condições análogas à escravidão constitui grave violação a direito
fundamental absoluto - a liberdade e a dignidade humana - de caráter imprescritível.
Nesses casos, não se aplica a prescrição quinquenal do art. 7º, XXIX, da Constituição,
Documento assinado eletronicamente por OTAVIO BRUNO DA SILVA FERREIRA, em 29/08/2025, às [Link] - dc7fe45
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devendo ser assegurada a reparação integral à vítima e a responsabilização
patrimonial do explorador, em respeito ao princípio da máxima efetividade dos direitos
fundamentais e aos compromissos internacionais assumidos pelo Brasil.
No mesmo sentido, no RR-24796-34.2019.5.24.0022, decidiu-se
que se a conduta é imprescritível no penal, por atingir bem jurídico fundamental,
também o é no campo trabalhista, por analogia e em razão das obrigações
internacionais assumidas pelo Brasil. Pede-se venia para transcrever a ementa daquela
decisão:
RECURSO DE REVISTA INTERPOSTO NA VIGÊNCIA
DA LEI 13.467/2017. DE REVISTA INTERPOSTO NA VIGÊNCIA DA LEI
13.467/2017. PEDIDOS FORMULADOS TENDO COMO CAUSA DE PEDIR O
TRABALHO EM CONDIÇÕES ANÁLOGAS À ESCRAVIDÃO.
IMPRESCRITIBILIDADE. No caso em tela, o debate detém transcendência
jurídica, nos termos do art. 896-A, § 1º, IV, da CLT. Transcendência rec
onhecida. RECURSO DE REVISTA. LEI 13.467/2017. PEDIDOS
FORMULADOS TENDO COMO CAUSA DE PEDIR O TRABALHO EM
CONDIÇÕES ANÁLOGAS À ESCRAVIDÃO. IMPRESCRITIBILIDADE. Discute-
se a incidência da regra de prescrição (art. 7º, XXIX, da CF/88) para as
pretensões fundadas em trabalho em condições análogas à de escravo.
O Brasil ratificou a Convenção Americana de Direitos Humanos (Decreto
nº 678 de 1992), de modo que se submete à jurisprudência da Corte
Interamericana de Direitos Humanos (Corte IDH), conforme art. 68 da
Convenção Americana de Direitos Humanos e Decreto nº 4463/2002 .
Vale lembrar que, conforme art. 27 da Convenção de Viena sobre o
Direito dos Tratados, um país não pode opor o seu direito interno de
forma contrária aos tratados por ele subscritos. Quando do julgamento
do caso Fazenda Brasil Verde vs Brasil, no qual o Brasil foi acusado de
falha de prevenção e punição de trabalho escravo ocorrido em seu
território, a Corte Interamericana de Direitos Humanos condenou o
Estado brasileiro . Houve condenação do país, por violação de diversos
dispositivos da Convenção Americana, dentre eles o já citado art. 6º do
Pacto de São José da Costa Rica que proíbe a escravidão e a servidão.
Na fundamentação da decisão do caso Fazenda Brasil Verde vs Brasil, a
Corte IDH entendeu que a prescrição da pena é inadmissível, tendo em
vista que o direito a não submissão a trabalho escravo é norma do tipo
jus cogens (uma norma imperativa e indisponível de direito
internacional, conforme previsão do artigo 53 da Convenção de Viena
sobre o Direito dos Tratados). Ademais, quando do dispositivo (pontos
Documento assinado eletronicamente por OTAVIO BRUNO DA SILVA FERREIRA, em 29/08/2025, às [Link] - dc7fe45
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resolutivos), a Corte IDH determinou que a prescrição não seja aplicada
ao delito. Se para o âmbito penal, onde se protege a liberdade de
locomoção do agente, bem jurídico do mais alto valor, as pretensões
criminais decorrentes da prática do crime de trabalho análogo ao de
escravo são imprescritíveis, o mesmo entendimento deve ser adotado
no âmbito trabalhista, que tutela, no caso, o direito patrimonial de
ressarcimento das vítimas. Vale lembrar que a analogia é hipótese de
integração das normas jurídicas (art. 4º da LINDB). Registre-se que há
julgado desta Corte que já adotou a imprescritibilidade das pretensões
decorrentes da submissão da pessoa à condição análoga a de escravo
(acórdão proferido nos autos do RRAg-1000612-76.2020.5.02.0053, 2ª
Turma, Relatora Ministra Liana Chaib, DEJT 27/10/2023). Recurso de
revista conhecido e provido" (RR-24796-34.2019.5.24.0022, 6ª Turma,
Relator Ministro Augusto Cesar Leite de Carvalho, DEJT 17/03/2025).
(negrito nosso)
Segundo a decisão, a aplicação da prescrição quinquenal (art. 7º,
XXIX, CF/88) para pretensões fundadas em trabalho em condições análogas à
escravidão revela-se incompatível com a ordem constitucional e internacional de
proteção dos direitos humanos. A 6ª Turma do Tribunal Superior do Trabalho, ao
reconhecer a imprescritibilidade dessas ações, alinhou-se ao entendimento da Corte
Interamericana de Direitos Humanos no caso Fazenda Brasil Verde vs. Brasil, que
qualificou o direito de não ser submetido à escravidão como norma de caráter jus
cogens, ou seja, imperativa e inderrogável.
Isso significa que nenhuma norma interna pode servir de
amparo para relativizar esse direito absoluto, sob pena de o Estado brasileiro se furtar
a compromissos assumidos no plano internacional e repetir a lógica de impunidade
que favorece a perpetuação da escravidão contemporânea.
A ratio decidendi extraída da decisão repousa, portanto, na
afirmação de que a imprescritibilidade, já reconhecida no âmbito penal, deve ser
estendida ao processo trabalhista, pois não é coerente que a ordem jurídica assegure a
imprescritibilidade apenas para a persecução criminal e, ao mesmo tempo, tolere a
perda do direito das vítimas à reparação civil pelo decurso do tempo.
Em casos de trabalho escravo, o reconhecimento da
imprescritibilidade é condição necessária para garantir a reparação integral, a
responsabilização do agressor e a máxima efetividade da dignidade humana,
fundamento da República. A analogia, prevista no art. 4º da LINDB, autoriza a
transposição do regime de imprescritibilidade da esfera penal para a trabalhista,
Documento assinado eletronicamente por OTAVIO BRUNO DA SILVA FERREIRA, em 29/08/2025, às [Link] - dc7fe45
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consolidando um parâmetro protetivo que deverá ser aplicado em casos futuros como
garantia mínima contra a banalização do trabalho escravo contemporâneo.
Ainda no âmbito da Justiça do Trabalho, tem-se consolidado a
compreensão de que as ações decorrentes de situações de escravidão contemporânea
não se submetem aos prazos prescricionais bienal e quinquenal. Esse entendimento,
que abrange inclusive a tipificação prevista nos arts. 149 e 149-A do Código Penal, foi
reafirmado, por exemplo, pela 4ª Turma do Tribunal Regional do Trabalho da 2ª Região,
no julgamento do RO 1002309-66.2016.5.02.0088, em 4/6/2019 (“a liberdade do ser
humano é um bem imprescindível/fundamental, ligado à própria condição de
humanidade deste último”), bem como pela 7ª Turma do Tribunal Regional do Trabalho
da 3ª Região, ao analisar o RO 0010416-10.2021.5.03.0090, em 30/5/2022 (“não há
cogitar de incidência da prescrição, mesmo a parcial, uma vez que o trabalhador é
submetido a estado de sujeição, que compromete qualquer manifestação de vontade e
impossibilita o exercício do direito de ação, bem como a busca da tutela judicial”).
No âmbito da Justiça Federal, no HC 1023279-03.2018.4.01.0000,
a 4ª Turma do Tribunal Regional Federal da 1ª Região denegou a ordem para trancar
procedimento investigatório criminal (PIC) instaurado no MPF que retomava as
investigações de pessoas acusadas de manter trabalhadores em condições análogas a
de escravos no caso Fazenda Brasil Verde. Declarou-se a imprescritibilidade de tais
crimes nos seguintes termos:
PENAL. PEDIDO DE TRANCAMENTO DE
PROCESSO INVESTIGATÓRIO CRIMINAL, CUJA ABERTURA FOI
DETERMINADA PELA CORTE INTERAMERICANA DE DIREITOS HUMANOS.
CASO TRABALHADORES DA FAZENDA BRASIL VERDE CONTRA A
REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL. COMPETÊNCIA DA CIDH.
INEXISTÊNCIA DE PRÉVIA OITIVA DOS PACIENTES. JURISDIÇÃO DA CIDH
SOBRE ESTADOS, E NÃO SOBRE INDIVÍDUOS. AUSÊNCIA DE VIOLAÇÃO
AO CONTRADITÓRIO, À PRESUNÇÃO DE INOCÊNCIA E À AMPLA DEFESA.
TRABALHO ESCRAVO. CRIME CONTRA OS DIREITOS HUMANOS.
IMPRESCRITIBILIDADE. ORDEM DENEGADA.
1. O art. 1º do Decreto nº 4.463/2002 (que
promulgou a Declaração de Reconhecimento da Competência
Obrigatória da Corte Interamericana de Direitos Humanos, em
consonância com o art. 62 da Convenção Americana sobre Direitos
Humanos - Pacto de São José -, de 22 de novembro de 1969) previu
expressamente a admissão da jurisdição da Corte para fatos
posteriores a 10 de dezembro de 1998, caso dos autos.
Documento assinado eletronicamente por OTAVIO BRUNO DA SILVA FERREIRA, em 29/08/2025, às [Link] - dc7fe45
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2. O contraditório a ser exercido em cortes
internacionais se dirige unicamente aos estados nacionais, que ali são
eventuais responsabilizados. Não há julgamento de indivíduos pela
Corte Interamericana de Direitos Humanos, nos termos dos artigos 61,
62 e 63 da Convenção Americana de Direitos Humanos. O estado
condenado, então, deve passar a garantir a aplicação da decisão
internacional, de modo que o contraditório, a presunção de inocência e
a ampla defesa a ser respeitados em relação aos impetrantes se
referem ao âmbito de eventual ação penal ajuizada perante o Poder
Judiciário nacional. Os pacientes não foram responsabilizados pela
Sentença da CIDH. A responsabilização incidiu sobre o Brasil que
exerceu, perante aquela Corte, o contraditório e a ampla defesa,
inclusive arguindo diversas preliminares e expondo argumentos de
mérito.
3. A proibição de escravidão é prevista na
Convenção Americana de Direitos Humanos (CADH), adotada pelo Brasil
desde 1992, e esta regra não pode ser suspensa nem mesmo em caso
de guerra, de perigo público, ou de outra emergência que ameace a
independência ou segurança do Estado Parte (art. 27). O Brasil se
comprometeu a combater este ilícito, como se vê também na
Convenção OIT n. 105 (Convenção Relativa a Abolição do Trabalho
Forçado), adotada em 25 de junho de 1957, e que teve entrada em vigor
em 17 de janeiro de 1959, sendo que o Estado brasileiro ratificou a
Convencao em 18 de junho de 1965. A partir do primeiro tratado
universal sobre a eliminação da escravidão (Convenção sobre a
Escravatura, adotada em Genébra, em 25 de setembro de 1926), vários
tratados internacionais têm reiterado a proibição da escravidão, a qual
é considerada uma norma imperativa do Direito Internacional (jus
cogens), e implica obrigações erga omnes de acordo com a Corte
Internacional de Justiça. É inegável o status jurídico internacional da
proibição da escravidão. Além disso, tanto o Brasil como a maioria dos
estados da região são parte da Convenção sobre a Escravatura de 1926
e da Convenção Suplementar sobre a Abolição da Escravatura de 1956.
4. Nos casos de escravidão, a prescrição da ação
penal é inadmissível e inaplicável, pois esta não se aplica quando se
trata de violações muito graves aos direitos humanos, nos termos do
Direito Internacional. A jurisprudência constante e uniforme da Corte
Internacional de Justiça e da CIDH, como indicado pelo MPF, assim o
Documento assinado eletronicamente por OTAVIO BRUNO DA SILVA FERREIRA, em 29/08/2025, às [Link] - dc7fe45
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estabeleceu (vide Caso Albán Cornejo y otros. Vs. Ecuador. Mérito,
Reparações e Custas. Sentença de 22 de novembro de 2007. Série C No.
171. Par. 111. Ver também, CIDH. Relatório da CIDH, par. 221).
5. A norma invocada para fundamentar a
ocorrência da prescrição é de índole legal (DL 2.848/40, Código Penal –
art. 109, III), e desde o julgamento do RE 466.343/SP pelo Supremo
Tribunal Federal (j. 03.12.2008 - vide também, julgado na mesma data, o
RE 349.703/RS), as normas internacionais sobre direitos humanos
possuem, no caso de não observância do rito previsto no par. 3o do art.
5o da CF (hipótese que conferiria status constitucional à norma), a
hierarquia supralegal. O julgamento se referiu aos tratados
internacionais, normas de natureza obrigatória, mas o raciocínio deve
ser empregado em relação aos princípios gerais de direito internacional
e aos costumes internacionais, quando ostentem a mesma natureza
cogente (jus cogens).
6. Desta forma, no caso de violação a normas
internacionais relativas a direitos humanos, as normas prescricionais,
por serem, no caso, de índole infraconstitucional e legal, não podem
merecer qualquer aplicação por parte do operador jurídico brasileiro.
Reconhecer a ocorrência da prescrição significaria afastar normas
internacionais já internalizadas e vigentes no ordenamento brasileiro,
possuidoras de hierarquia superior, o que não pode ocorrer. Tal
entendimento, adotado pelo STF, já resultou na edição da Súmula
Vinculante 25, no sentido de que “é ilícita a prisão civil de depositário
infiel, qualquer que seja a modalidade de depósito”.
7. Não há como se acolher o argumento de que a
Constituição limitou os casos de imprescritibilidade aos crimes que
indicou (racismo – art. 5o, XLII, e de atuação de grupos armados contra
a ordem constitucional e o Estado Democrático - art. 5º, XLIV), pois tanto
há a abertura constitucional para outras normas de direitos
fundamentais oriundas da esfera internacional (art. 5o, § 2º: Os direitos
e garantias expressos nesta Constituição não excluem outros
decorrentes do regime e dos princípios por ela adotados, ou dos
tratados internacionais em que a República Federativa do Brasil seja
parte) - caso da imprescritibilidade dos crimes contra direitos humanos,
quanto não deve haver a interpretação de que a imprescritibilidade
prejudique direitos fundamentais e deva ser interpretada
restritivamente, na medida em que a mesma é neutra em relação aos
direitos individuais (já que a inocorrência da prescrição tanto limita
Documento assinado eletronicamente por OTAVIO BRUNO DA SILVA FERREIRA, em 29/08/2025, às [Link] - dc7fe45
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direitos fundamentais quanto os assegura, ao garantir a prevenção e a
repressão a delitos). Por isto mesmo, no Recurso Extraordinário 460.971
/RS, o STF já decidiu expressamente que “a Constituição Federal se
limita, no art. 5º, XLII e XLIV, a excluir os crimes que enumera da
incidência material das regras de prescrição, sem proibir, em tese, que a
legislação ordinária criasse outras hipóteses”. E, no caso, tem-se a
criação da imprescritibilidade por normas de hierarquia supralegal, e
sem qualquer ofensa à Constituição Federal. (TRF1, 4ª Turma, HC
1023279-03.2018.4.01.0000, Data do Julgamento 11.12.2018, DJE
12.12.2018).
A decisão em análise reforça a centralidade do direito
internacional dos direitos humanos na interpretação das normas internas relativas à
prescrição. O tribunal reconhece que, em casos de escravidão, a prescrição é
inadmissível, pois se trata de violação grave a direitos humanos, cuja disciplina está
submetida a normas de caráter jus cogens.
Esse fundamento supera a legislação penal ordinária (como o
art. 109 do Código Penal), afirmando a prevalência de compromissos internacionais
ratificados pelo Brasil e da jurisprudência da Corte Interamericana de Direitos
Humanos. A ratio decidendi, nesse ponto, consiste na afirmação de que o operador
jurídico brasileiro não pode aplicar normas prescricionais quando em confronto com
obrigações internacionais cogentes, sob pena de conferir prevalência a regras
infraconstitucionais sobre princípios internacionais de hierarquia superior.
A decisão também afasta a interpretação restritiva do art. 5º, XLII
e XLIV, da CF/88, que prevê hipóteses expressas de imprescritibilidade (racismo e
crimes armados contra a ordem constitucional). A partir da cláusula de abertura do art.
5º, § 2º, e da própria jurisprudência do STF, afirma-se que a Constituição não esgota o
rol de direitos imprescritíveis, sendo possível que normas de hierarquia supralegal,
oriundas do direito internacional, criem outras hipóteses de imprescritibilidade sem
ofender o texto constitucional.
Nessa última situação, a ratio decidendi aponta que a
imprescritibilidade dos crimes de escravidão contemporânea decorre diretamente da
conjugação entre o art. 5º, § 2º, da CF, a supralegalidade dos tratados internacionais de
direitos humanos e a natureza cogente da proibição da escravidão, consolidando uma
base normativa robusta para aplicação em casos futuros.
A mesma 4ª Turma, no RSE 0000280-45.1997.4.01.3901,
referente ao processo criminal que pronunciou acusado de tentativa de homicídio
qualificado e de redução a condição análoga à de escravo no caso José Pereira,
declarou a imprescritibilidade desses crimes:
Documento assinado eletronicamente por OTAVIO BRUNO DA SILVA FERREIRA, em 29/08/2025, às [Link] - dc7fe45
Fls.: 70
PENAL. PROCESSUAL PENAL. RECURSO EM
SENTIDO ESTRITO. REDUÇÃO A CONDIÇÃO ANÁLOGA À DE ESCRAVO E
HOMICÍDIO QUALIFICADO TENTADO. CITAÇÃO EDITALÍCIA. VALIDADE.
IMPRESCRITIBILIDADE. COMISSÃO INTERAMERICANA DE DIREITOS
HUMANOS. SUPERVISÃO DO CASO. PRECEDENTE DA TURMA. RECURSO
PARCIALMENTE PROVIDO […] 8. Contudo, não obstante a nulidade da
citação e o longo período em que o réu permaneceu foragido, à
semelhança de caso já decidido por esta Quarta Turma, à luz do "jus
cogens", no caso presente cuida-se de delitos praticados contra os
direitos humanos e por isso mesmo revestidos de imprescritibilidade,
propiciando o regular desenvolvimento do processo, tudo em
conformidade com artigos 1º, II e III, 4º, II e 5º §§ 1º a 4º da CF/88.
9. Foi justamente dentro dessa concepção
integrativa entre o direito interno e normas de direito comparado que
esta Quarta Turma, no julgamento do Habeas Corpus 1023279-
03.2018.4.01.0000, ocorrido em 11/12/2018, por voto da lavra do
Desembargador Federal Convocado Saulo Casali Bahia, entendeu ser
imprescritível o crime de redução a condição análoga à de escravo, no
caso concreto.
10. No julgamento, a maioria da Turma se
formou na linha do voto do relator, reconhecendo a competência da
Corte Interamericana de Direitos Humanos e entendendo que não havia
limite de prazo para a persecução penal, ou seja, para todo caminho
entre a investigação, o processo, e a condenação em um caso de
escravidão contemporânea. Assim, a Turma, ao acompanhar o voto do
Desembargador Federal Convocado Saulo Casali Bahia, que, analisando
o tema concernente à competência da CIDH como Órgão reconhecido
pelo Brasil para dirimir temas sobre Direitos Humanos, declarou a
imprescritibilidade dos fatos puníveis atribuídos na denúncia naquela
hipótese fática.
11. No caso dos autos, que muito se assemelha
ao caso julgado naquele Habeas Corpus, a Comissão Interamericana de
Direitos Humanos considerou tratar-se de caso de grave violação de
direitos humanos e, por força de tratados, esses fatos seriam
imprescritíveis.
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12. A Convenção Americana sobre Direitos
Humanos [...] foi incorporada ao nosso sistema de direito positivo
interno pelo Decreto nº 678, de 06 de novembro de 1992, preceitua a
proibição da escravidão e da servidão. Ainda, de acordo com artigo 2 da
Convenção Americana sobre Direitos Humanos os Estados
comprometem-se a adotar as medidas legislativas ou de outra natureza
que forem necessárias para tornar efetivos os direitos e liberdades nela
reconhecidos e a garantir seu livre e pleno exercício a toda pessoa que
esteja sujeita à sua jurisdição, sem discriminação alguma por motivo de
raça, cor, sexo, idioma, religião, opiniões políticas ou de qualquer outra
natureza, origem nacional ou social, posição econômica, nascimento ou
qualquer outra condição social.
13. A Corte Interamericana a respeito do Caso
Trabalhadores da Fazenda Brasil Verde vs. Brasil (CORTEIDH, 2016)
decidiu incluir no rol de crimes contra a humanidade o delito da
escravidão e suas formas análogas, e, ainda, por entender que se se
trata de delito proscrito pelo direito internacional, independentemente
do seu contexto de aplicação, deveria ser per si considerado uma grave
violação de direito humano.
14. Nessa linha de raciocínio o Plenário do
Supremo Tribunal Federal já se manifestou no sentido de que o bem
jurídico tutelado pelo art. 149 do Código Penal vai além da liberdade
individual, já que a prática da conduta em questão acaba por vilipendiar
outros bens jurídicos protegidos constitucionalmente como a dignidade
da pessoa humana (RE 459510, Relator(a): CEZAR PELUSO, Relator(a) p/
Acórdão: DIAS TOFFOLI, Tribunal Pleno, julgado em 26/11/2015; RE
541627, Relator(a): ELLEN GRACIE, Segunda Turma, julgado em 14/10
/2008). [...]
17. Como o caso dos autos veicula hipóteses de
crimes de homicídio tentado e redução a condição análoga à de
escravidão (arts. 121, c/c 14, I e 149 do Código), com graves violações a
direitos humanos não há como reconhecer a ocorrência da prescrição
da pretensão punitiva. (RSE 280-45.1997.4.01.3901, TRF1, 4ª Turma,
Data do Julgamento 18.5.2021, DJE 15.6.2021). (negrito nosso)
A decisão em análise reafirma que a redução de pessoas à
condição análoga à de escravo, bem como outros delitos graves contra a dignidade
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humana, não se sujeitam às regras ordinárias de prescrição. O fundamento repousa no
reconhecimento da escravidão contemporânea como crime contra a humanidade,
proscrito pelo direito internacional e abrangido pelas normas de caráter jus cogens,
cuja observância é inderrogável pelos Estados.
Ao invocar precedentes como o Caso Fazenda Brasil Verde vs.
Brasil (CIDH, 2016) e decisões anteriores do próprio TRF da 1ª Região, o acórdão
evidencia que a persecução penal desses delitos deve ser garantida
independentemente do tempo decorrido, sob pena de o Estado brasileiro incorrer em
responsabilidade internacional por tolerância à impunidade. A ratio decidendi,
portanto, é clara: violações graves de direitos humanos, como a escravidão, estão
submetidas a um regime jurídico excepcional, que exclui a prescrição como limite à
atuação estatal.
Além disso, a decisão estabelece que a imprescritibilidade
decorre de uma integração entre o direito interno e as obrigações assumidas pelo
Brasil no plano internacional, notadamente a Convenção Americana sobre Direitos
Humanos e outros tratados de proteção à dignidade humana. O STF já havia
reconhecido que o art. 149 do Código Penal tutela não apenas a liberdade, mas a
própria dignidade da pessoa humana, fundamento da República.
Assim, a decisão fixa um precedente relevante para casos
futuros: sempre que se tratar de delitos de escravidão contemporânea ou correlatos, a
prescrição não pode ser aplicada, pois normas internacionais de hierarquia supralegal -
e de natureza cogente - impõem a obrigação de investigar, processar e punir tais
práticas, garantindo às vítimas reparação e ao Estado a observância de seus
compromissos internacionais.
Ainda que a ação seja proposta décadas depois, não há
prescrição quando a conduta atinge bens jurídicos absolutos. Nesse ponto, o controle
de convencionalidade (STF, RE 466.343) impõe afastar as normas internas que
contrariem a Convenção Americana sobre Direitos Humanos - CADH.
Temos, portanto, que os direitos humanos podem irradiar
efeitos estruturais sobre institutos processuais, modulando-os para evitar impunidade
de graves violações (tortura, escravidão, desaparecimentos). Tortura, tráfico de pessoas
e escravidão moderna têm um denominador comum, qual seja, a redução do sujeito à
condição de objeto (“coisificação”), com supressão extrema de autonomia. Não se trata
apenas de ofensa a atributos (honra, intimidade), mas de violação do próprio núcleo da
dignidade.
Nesse sentido, o STJ reconheceu a imprescritibilidade das
pretensões indenizatórias por tortura (Súmula 647/STJ) e o TST, na esfera trabalhista,
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transpôs a ratio para o trabalho análogo à escravidão, afirmando expressamente a
imprescritibilidade das pretensões reparatórias em ACP como reconhecimento da
imprescritibilidade do direito absoluto a não escravização.
Diante disso, feito esse apanhado, entende-se, assim como
entendeu a Corte IDH, a 2ª e a 6ª Turmas do TST, que, para violações de direitos
humanos como a escravidão, não se aplicam prazos prescricionais internos, que não
podem prevalecer sobre obrigações internacionais em direitos humanos, em virtude da
obrigação internacional contínua de investigar e reparar.
No caso, a segurança jurídica não se confunde com imunidade
temporal para violações estruturais. Em termos de proporcionalidade, aplicar
prescrição a escravidão contemporânea: (i) sacrifica o núcleo da dignidade humana; (ii)
incentiva a prática reiterada; (iii) deslegitima o sistema. Neste ponto, o TST assinalou
que o vilipêndio social do trabalho escravo é irreparável monetariamente, o que
justifica respostas de alta densidade (como a imprescritibilidade) e sanções coletivas
relevantes.
Por isso, rejeito, neste particular, os argumentos apresentados
pela reclamada que sustentam a prejudicial, especialmente pelo fato de que a
imprescritibilidade aqui não se funda em prazos internos, mas na natureza da violação.
2.2.2 ORIGEM HISTÓRICA: A PRESCRIÇÃO COMO PEDRA
ANGULAR DA SEGURANÇA JURÍDICA E, PORTANTO, PARTE DO CORPUS IURIS DOS
DIREITOS HUMANOS
A reclamada desenvolve argumentação doutrinária e histórica
para reforçar que o instituto da prescrição é fundamental à segurança jurídica,
configurando garantia de ordem pública e parte do corpus iuris dos direitos humanos.
Afirma que a origem da prescrição remonta ao Direito Romano,
como instrumento de estabilização das relações jurídicas, ao reconhecer que o tempo
fragiliza provas, distorce memórias e compromete a verdade real.
Acrescenta que a função da prescrição não é apenas proteger
devedores, mas garantir que direitos sejam exercidos em prazo razoável, sob pena de
se criar um sistema jurídico instável e imprevisível.
Argumenta que o transcurso do tempo afeta não só a prova
testemunhal, mas também a conservação de documentos e vestígios materiais,
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inviabilizando uma apuração justa e segura dos fatos. Assim, entende que a
imprescritibilidade, por sua excepcionalidade, só pode ser aplicada mediante previsão
expressa na Constituição Federal, o que não se verifica no caso concreto.
Conclui que a prescrição deve ser reconhecida como requisito
de justiça e proteção dos direitos fundamentais, sendo inaplicável, neste caso,
qualquer exceção baseada em normas nacionais ou internacionais que autorize a
imprescritibilidade.
Analiso.
A segurança jurídica protege todos, inclusive as vítimas e a
sociedade contra a normalização de práticas escravistas. O tempo, em contextos de
coerção, medo, pobreza extrema e invisibilização, não pode se converter em prêmio à
violação.
O sistema responde com elevação do padrão probatório,
contraditório qualificado, distribuição dinâmica do ônus e reserva de tutela ao final -
não com o aniquilamento do direito de ação. É justamente para evitar a “eternização da
impunidade” que a Corte IDH repudia a prescrição nesses casos.
Concorda-se que a prescrição promove estabilidade, mas ela
não é absoluta. O próprio Direito Internacional admite exceções para crimes de lesa-
humanidade, como reconhecido no Estatuto de Roma (art. 29). A segurança jurídica
deve harmonizar-se com a prevalência dos direitos humanos (CF, art. 4º, II). Além disso,
o art. 27 da CADH permite restrições a direitos para assegurar outros mais relevantes.
A escravidão, por outro lado, é proibida sem exceções (art. 6º
CADH; art. 4º DUDH). A própria função estabilizadora da prescrição é inócua diante de
violações tão graves, cujo não enfrentamento perpetua a insegurança das vítimas e da
coletividade.
Diante disso, com acréscimo dos argumentos já expostos no
item 2.2.1, rejeito, neste particular, a prejudicial.
2.2.3 NÃO ALCANCE DA TESE DE IMPRESCRITIBILIDADE AO CASO
CONCRETO
A reclamada impugna a tese de imprescritibilidade sustentada
pelo MPT, fundamentada no art. 29 do Estatuto de Roma e na qualificação da
escravidão como norma jus cogens do direito internacional público.
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Alega que o Estatuto de Roma, de fato, reconhece a escravidão
como crime contra a humanidade, mas apenas quando inserida em um contexto de
ataque generalizado ou sistemático contra a população civil, o que não se verifica no
caso concreto.
Argumenta que o parecer doutrinário anexado pelo MPT,
baseado em decisões do STJ sobre tortura durante a ditadura militar, trata de situações
nas quais o próprio Estado brasileiro foi agente da violação, criando políticas
institucionais de repressão e ocultação de provas, circunstância inexistente no
presente processo. Aqui, ao contrário, sustenta que o Estado figura como autor da
ação, buscando responsabilizar um particular décadas após os fatos, apesar de
reconhecer que já tinha ciência deles há muito tempo, tendo permanecido inerte por
decisão própria.
Dessa forma, afirma que a tese de imprescritibilidade invocada
pelo MPT não se aplica ao caso, por diferir completamente do contexto fático e jurídico
dos precedentes utilizados, e por não preencher os requisitos exigidos pelo direito
internacional para configurar crime contra a humanidade imprescritível.
De outro lado, o MPT sustenta que o Estatuto de Roma (1998)
tipifica a escravidão como crime contra a humanidade, definindo-a como exercício de
poderes próprios de propriedade sobre pessoa, inclusive no tráfico de pessoas. O
Protocolo Adicional II às Convenções de Genebra (1977) reforça sua proibição “em
qualquer momento ou lugar”. Tais normas consolidam, no plano internacional, a
proibição absoluta e universal da escravidão.
Em um paralelo com o caso Brasil Verde, afirma que o caso
Trabalhadores da Fazenda Brasil Verde vs. Brasil (Corte IDH) envolveu modus operandi
idêntico ao verificado na Fazenda Volkswagen: aliciamento fraudulento de
trabalhadores pobres, retenção de documentos, condições degradantes e jornadas
exaustivas, servidão por dívidas e vigilância armada para impedir fuga. A Corte
reconheceu a imprescritibilidade e determinou ao Estado brasileiro não apenas reparar
as vítimas, mas reabrir investigações e punir responsáveis, inclusive restabelecendo
processo penal arquivado.
Diante da similitude fática e jurídica, e considerando que a
imprescritibilidade foi afirmada contra o próprio Estado brasileiro em decisão
internacional obrigatória, argumenta que a mesma tese se aplica integralmente à
presente demanda, afastando qualquer prazo prescricional para responsabilização e
reparação.
Analiso.
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O Estatuto de Roma, promulgado pelo Decreto nº 4.388 de 25 de
setembro de 2002, dispõe que:
Artigo 7º
Crimes contra a Humanidade
1. Para os efeitos do presente Estatuto, entende-
se por "crime contra a humanidade", qualquer um dos atos seguintes,
quando cometido no quadro de um ataque, generalizado ou
sistemático, contra qualquer população civil, havendo conhecimento
desse ataque:
[...]
c) Escravidão;
[...]
2. Para efeitos do parágrafo 1º:
[...]
c) Por "escravidão" entende-se o exercício,
relativamente a uma pessoa, de um poder ou de um conjunto de
poderes que traduzam um direito de propriedade sobre uma pessoa,
incluindo o exercício desse poder no âmbito do tráfico de pessoas, em
particular mulheres e crianças;
[...]
Artigo 29 Imprescritibilidade
Os crimes da competência do Tribunal não
prescrevem.
[...]
Artigo 24 Não retroatividade ratione personae
1. Nenhuma pessoa será considerada
criminalmente responsável, de acordo com o presente Estatuto, por
uma conduta anterior à entrada em vigor do presente Estatuto.
Documento assinado eletronicamente por OTAVIO BRUNO DA SILVA FERREIRA, em 29/08/2025, às [Link] - dc7fe45
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Assim, do ponto de vista penal internacional, não é possível
submeter à jurisdição do Tribunal Penal Internacional – TPI casos de trabalho escravo
ocorridos na década de 1970/80, porque estariam fora do marco temporal do Estatuto.
Ainda que não seja possível a responsabilização criminal
internacional retroativa, o Estatuto de Roma reflete normas de direito internacional de
caráter costumeiro, já reconhecidas antes de 2002, como a imprescritibilidade de
crimes contra a humanidade.
Nesse sentido, decisões da Corte Interamericana de Direitos
Humanos (v.g. Caso Fazenda Brasil Verde vs. Brasil) reconhecem que a escravidão
contemporânea, mesmo em fatos antigos, pode ser tratada sob a ótica de violações
imprescritíveis de direitos humanos.
Assim, o juiz nacional pode aplicar o controle de
convencionalidade, utilizando os parâmetros do Estatuto de Roma e do direito
internacional para fundamentar a imprescritibilidade civil e trabalhista de violações
praticadas antes de sua entrada em vigor.
Em resumo, entende-se que não é possível aplicar o Estatuto de
Roma retroativamente para responsabilização criminal internacional de fatos ocorridos
na década de 70, em razão do art. 24. Todavia, é possível utilizá-lo como parâmetro
interpretativo e normativo complementar, especialmente quanto à gravidade do crime
de escravidão e sua imprescritibilidade, para fins de responsabilização civil, reparatória
e trabalhista no direito interno, bem como para o controle de convencionalidade em
consonância com tratados internacionais de direitos humanos.
Portanto, embora o TPI não posssa julgar os fatos dos anos 70
/80, a Justiça brasileira pode reconhecer a imprescritibilidade e aplicar os parâmetros
do Estatuto como reforço interpretativo para garantir tutela jurisdicional efetiva.
Ainda que se entenda que o Estatuto de Roma não possa servir
como fundamento autônomo para a análise da imprescritibilidade dos fatos, é certo
que o núcleo argumentativo decisivo encontra respaldo no Sistema Interamericano de
Direitos Humanos, composto pela Convenção Americana sobre Direitos Humanos
(CADH) e pela jurisprudência consolidada da Corte Interamericana de Direitos
Humanos (Corte IDH).
O sistema interamericano não exige a moldura típica de “crime
contra a humanidade” para afastar a incidência da prescrição em casos de escravidão e
de formas análogas. O Estatuto de Roma, em seu art. 29, atua como reforço normativo
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ao demonstrar o consenso internacional acerca da extrema gravidade da escravidão e
da inadmissibilidade da prescrição, mas não se configura como condição necessária
para a conclusão ora adotada.
A exceção à regra geral da prescrição, por sua gravidade, requer
fundamentação densa, apoiada em dois pilares:
Direito interno: A Constituição da República (art. 1º, III, e art. 5º,
caput e inciso III) eleva a dignidade da pessoa humana e a vedação absoluta à
escravidão como fundamentos essenciais da ordem jurídica. Soma-se a isso a
existência de instrumentos de tutela coletiva (Ação Civil Pública, reparação de danos
morais coletivos) e a jurisprudência do Tribunal Superior do Trabalho, que já
reconheceu a imprescritibilidade de pretensões cujo objeto é a proteção contra a
escravidão.
Direito internacional: A proibição da escravidão constitui norma
de jus cogens, inderrogável pela vontade estatal, conforme explicitado no item 2.2.1
desta decisão. A CADH e a jurisprudência da Corte IDH - em especial no Caso Fazenda
Brasil Verde vs. Brasil - afirmam a impossibilidade de aplicar a prescrição a violações de
tal natureza, determinando ao Estado o dever de reiniciar a persecução e promover a
reparação integral das vítimas.
Nesse contexto, trata-se de hipótese paradigmática de
imprescritibilidade, diante de uma violação extrema, continuada e estruturante, voltada
contra um bem jurídico absoluto: a liberdade e a dignidade humanas. A submissão de
trabalhadores a condições análogas à escravidão ofende não apenas direitos
individuais, mas compromete a ordem pública internacional, razão pela qual não se
pode admitir o esvaziamento da tutela jurisdicional pela via prescricional.
No caso, a imprescritibilidade não depende exclusivamente da
tipificação como crime contra a humanidade para fins do TPI. A Corte IDH aplica a regra
também a violações cometidas por particulares com tolerância estatal, como no Brasil
Verde. O núcleo do direito de não ser escravizado é absoluto, independentemente de
enquadramento típico no TPI.
Por isso, concluo que a escravidão é imprescritível mesmo
isoladamente, pois viola jus cogens. Neste ponto, destaco que o art. 29 do Estatuto de
Roma reforça a regra, mas não a cria, pois a obrigação internacional é autônoma e pré-
existente.
Em face disso, rejeito a prejudicial, neste particular.
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2.2.4 INAPLICABILIDADE DA TESE DA IMPRESCRITIBILIDADE
CONTIDA NO ESTATUTO DE ROMA AO CASO CONCRETO
A reclamada contesta a aplicação do art. 29 do Estatuto de
Roma, que prevê a imprescritibilidade dos crimes de competência do Tribunal Penal
Internacional (TPI), sustentando que os fatos narrados na inicial não se enquadram nas
hipóteses de crime contra a humanidade, conforme os critérios do próprio Estatuto.
Alega que o Estatuto de Roma, promulgado no Brasil apenas em
2002, prevê em seus artigos 22 a 25 os princípios da legalidade, anterioridade,
irretroatividade da norma penal e responsabilidade penal individual, o que afasta sua
aplicação retroativa aos fatos ocorridos entre 1978 e 1986.
Narra que a imprescritibilidade do art. 29 só se aplica aos crimes
definidos no art. 5º, entre eles a escravidão, desde que praticada como crime contra a
humanidade, o que exige que: a conduta ocorra em ataque generalizado ou
sistemático; seja direcionada contra uma população civil; haja conhecimento do
perpetrador quanto ao contexto da ofensiva.
Afirma que o MPT não alega nem comprova a existência de um
ataque sistemático ou generalizado, tampouco de uma política estatal ou
organizacional voltada à prática de escravidão, conforme exige o art. 7º do Estatuto.
Argumenta que o conceito de “escravidão” no Estatuto de Roma
se refere a uma forma total de dominação, equiparada à propriedade sobre pessoas, o
que é distinto das condições análogas à escravidão descritas na inicial.
Por fim, entende que a jurisdição do TPI limita-se à
responsabilidade penal internacional, não alcançando pretensões de natureza civil
propostas no âmbito da jurisdição interna dos Estados.
Dessa forma, conclui que o art. 29 do Estatuto de Roma não
pode ser invocado para afastar a prescrição no caso concreto, pois os fatos narrados
não preenchem os requisitos típicos de crime contra a humanidade, e a imposição de
imprescritibilidade fora desses limites representa violação à legalidade e à segurança
jurídica previstas na Constituição Federal. Por isso, requer o reconhecimento da
prescrição total e extinção do feito.
Como narrado acima, o MPT sustenta que o Estatuto de Roma
(1998) tipifica a escravidão como crime contra a humanidade, definindo-a como
exercício de poderes próprios de propriedade sobre pessoa, inclusive no tráfico de
pessoas, de forma semelhante ao que ocorreu no Caso Brasil Verde.
Analiso.
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Além dos fundamentos já expostos no item anterior, que
também são aplicáveis ao exame da presente questão, interessa mencionar que a
Súmula 647/STJ consolidou a imprescritibilidade em um recorte histórico (perseguição
política com violação de direitos fundamentais durante a ditadura), mas a razão de
decidir - intolerância a lesões máximas ao núcleo da dignidade - não é exclusiva
daquele período/hipótese.
Na esfera trabalhista, o TST generalizou o vetor: o “direito
absoluto a não escravização” é imprescritível em sede civil/trabalhista, inclusive para
casos contemporâneos e relações privadas.
No caso, a controvérsia posta envolve a alegação da reclamada
no sentido de que o art. 29 do Estatuto de Roma não poderia ser aplicado para afastar
a prescrição, sob pena de violação à legalidade e à segurança jurídica, visto que: (i) os
fatos ocorreram entre 1978 e 1986, antes da incorporação do Estatuto ao
ordenamento brasileiro (2002); (ii) a imprescritibilidade se restringiria aos crimes de
competência do TPI, quando configurado crime contra a humanidade (art. 5º e 7º); e (iii)
o caso concreto não preenche os requisitos de ataque sistemático ou generalizado
contra a população civil.
A primeira parte foi analisada no item anterior. Sobre os itens
seguintes, a questão da prescrição em casos de trabalho escravo contemporâneo deve
ser examinada também à luz da Constituição Federal, que consagra a dignidade da
pessoa humana (art. 1º, III) e a vedação da submissão de qualquer pessoa à escravidão
(art. 5º, III, XLIII); da jurisprudência da Corte Interamericana de Direitos Humanos, que
no Caso Fazenda Brasil Verde vs. Brasil (2016) reconheceu a gravidade das práticas de
trabalho escravo como violações de direitos humanos, ressaltando a obrigação estatal
de garantir reparação integral e medidas de não repetição; e da doutrina nacional, que
admite tratamento diferenciado em matéria de prescrição quando estão em jogo
direitos fundamentais indisponíveis.
No plano interno, a responsabilização civil, inclusive por dano
moral coletivo, tem natureza reparatória e pedagógica, não se confundindo com a
responsabilidade penal individual. Nessa linha, ainda que não se aplique de forma
automática o art. 29 do Estatuto de Roma, a imprescritibilidade pode ser sustentada
com base em princípios constitucionais e em compromissos internacionais do Brasil,
dada a natureza das violações – equiparáveis a violações graves e sistemáticas de
direitos humanos.
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O argumento de que o art. 29 do Estatuto de Roma só se
aplicaria a crimes de competência penal do TPI não impede a interpretação sistemática
de que violações graves de direitos humanos, como o trabalho em condição análoga à
de escravo, têm regime jurídico especial, afastando a incidência da prescrição.
Reconheço que a imprescritibilidade, neste caso, não decorre
apenas do art. 29 do Estatuto de Roma, mas sobretudo da conjugação dos princípios
constitucionais da dignidade da pessoa humana, da vedação à escravidão, da proteção
internacional dos direitos humanos e da jurisprudência da Corte IDH, que vinculam o
Estado brasileiro (art. 5º, § 3º, CF), que já impunham a erradicação da escravidão e não
previam limitação temporal para a persecução. Logo, não há retroatividade indevida.
Diante disso, rejeito a prejudicial.
2.2.5 INCORPORAÇÃO DE TRATADOS INTERNACIONAIS DE
DIREITOS HUMANOS AO ORDENAMENTO INTERNO.
A reclamada responde à argumentação do MPT quanto à
imprescritibilidade dos fatos com base em tratados internacionais de direitos
humanos, apontando que, embora a proibição à escravidão tenha elevado repúdio
internacional, isso não afasta a aplicação da prescrição no caso concreto.
Sustenta que os tratados citados pelo MPT (como a Convenção
sobre a Escravatura de 1926, a Declaração Universal dos Direitos Humanos, o Pacto de
Direitos Civis e Políticos, entre outros) não possuem, em sua maioria, status
constitucional no Brasil, pois não foram aprovados pelo rito qualificado do art. 5º, § 3º,
da CF.
Argumenta que essas normas têm, quando ratificadas, status
supralegal (conforme o RE 466.343 do STF), e só produzem efeitos internos quando
ratificadas pelo Congresso Nacional - o que não se aplica a instrumentos de soft law,
como a Declaração Universal ou os Princípios Orientadores da ONU.
Enfatiza que o controle de convencionalidade - instituto oriundo
do caso Almonacid Arellano vs. Chile da Corte Interamericana - obriga os juízes
brasileiros a observar os tratados internacionais ratificados, mas não autoriza afastar a
prescrição sem previsão legal interna expressa.
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Mesmo à luz do controle de convencionalidade, entende que a
imprescritibilidade só pode ser admitida em hipóteses excepcionais, com previsão
expressa na Constituição ou nos tratados ratificados com esse conteúdo vinculativo - o
que não ocorre no presente caso.
Ao final, afirma que o correto exercício do controle de
convencionalidade conduz à aplicação da prescrição total, com a extinção do feito sem
resolução de mérito, pois não há fundamento normativo interno ou internacional que
justifique a imprescritibilidade das pretensões formuladas na inicial.
Em contraponto, o MPT argumenta que a proibição da
escravidão contemporânea - incluindo trabalho em condição análoga e tráfico de
pessoas para exploração laboral - possui status de norma imperativa de Direito
Internacional (jus cogens), integrante do núcleo duro dos direitos humanos, não
podendo ser afastada ou derrogada.
Sustenta que o Brasil assumiu compromissos internacionais
claros nesse sentido ao ratificar, entre outros, a Convenção sobre a Escravatura de
1926, as Convenções 29 e 105 da OIT, o Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos
e a Convenção Americana sobre Direitos Humanos (Pacto de San José), que vedam
todas as formas de escravidão e impõem obrigações de prevenir, punir e reparar tais
violações.
Narra que, no caso Trabalhadores da Fazenda Brasil Verde vs.
Brasil (2016), a Corte IDH reconheceu que a escravidão e suas formas análogas
constituem delitos de Direito Internacional imprescritíveis, sendo incompatível aplicar
prescrição em tais casos.
Acrescenta que, nos termos da Convenção de Viena sobre o
Direito dos Tratados, nenhum Estado pode invocar sua legislação interna para
descumprir obrigações internacionais assumidas.
Diante disso, entende que os crimes de escravidão e suas
formas análogas são imprescritíveis e que Brasil, por força de obrigações internacionais
e de decisões vinculantes, deve afastar qualquer aplicação de prescrição nesses casos,
inclusive na presente demanda.
Analiso.
A vedação à escravidão e a todas as suas formas análogas
possui status de norma imperativa de direito internacional geral (jus cogens),
reconhecida universalmente como inderrogável e de observância obrigatória por todos
os Estados. Dessa natureza jurídica derivam consequências diretas:
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(i) a indisponibilidade do direito à não-escravização;
(ii) a inaplicabilidade da prescrição como óbice ao dever estatal
de investigar, punir e reparar tais violações; e
(iii) a prevalência sobre normas de direito interno, em
conformidade com o art. 53 da Convenção de Viena sobre o Direito dos Tratados, o art.
68 da Convenção Americana sobre Direitos Humanos (CADH) e o art. 4º da Lei de
Introdução às Normas do Direito Brasileiro (LINDB).
A Corte Interamericana de Direitos Humanos, no julgamento do
Caso Fazenda Brasil Verde vs. Brasil, foi categórica ao afirmar que “a prescrição (…) é
inadmissível” em matéria de escravidão, por se tratar de delito de direito internacional
e de natureza jus cogens. No dispositivo n.º 11 da referida sentença, ordenou-se ao
Estado brasileiro a adoção de medidas para garantir que a prescrição não seja aplicada
ao delito de escravidão e suas formas análogas, reforçando a obrigação internacional
de assegurar investigação, responsabilização e reparação.
Cumpre destacar que as decisões da Corte IDH possuem caráter
vinculante para o Brasil, nos termos do art. 68 da CADH, devendo ser observadas por
todos os órgãos do Poder Judiciário. A partir desse comando, impõe-se ao juiz nacional
a realização do controle de convencionalidade, consistente em interpretar e aplicar o
direito interno de forma compatível com os tratados internacionais de direitos
humanos ratificados pelo Estado.
Assim, afigura-se incompatível com a ordem constitucional e
convencional a aplicação de prazos prescricionais a pretensões que visam à
responsabilização e reparação por violações ligadas à escravidão, dada a natureza
absoluta, inderrogável e imprescritível da proibição que lhe é subjacente.
Nos termos do art. 68 da CADH, as sentenças da Corte IDH são
obrigatórias para o Estado brasileiro, que deve assegurar seu cumprimento por todos
os órgãos de poder, inclusive o Judiciário. Por isso, o controle de convencionalidade é
dever de ofício dos magistrados, como enfatizado pelo STF (RE 466.343) e pelo TST (RR-
24796-34.2019.5.24.0022, 6ª Turma, 12/03/2025).
Nesse ponto, a determinação da Corte IDH para não aplicar a
prescrição ao delito de escravidão irradia efeitos sobre ações cíveis e trabalhistas
voltadas à reparação.
Sobre a supralegalidade apontada pela reclamada, entendo que,
ainda que supralegais, prevalecem sobre leis internas que disponham sobre prazos
prescricionais (STF, RE 466.343). O controle de convencionalidade impõe que o
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Judiciário afaste norma interna incompatível com obrigações internacionais, mesmo
que em patamar supralegal.
O art. 68 CADH obriga o cumprimento de sentenças da Corte
IDH; o art. 27 da Convenção de Viena sobre Direito dos Tratados veda invocar normas
internas como justificativa para descumprir tratados. Portanto, o juiz deve afastar o
prazo prescricional incompatível com a obrigação internacional.
O Brasil, ao ratificar a Convenção Americana sobre Direitos
Humanos (Pacto de San José da Costa Rica) por meio do Decreto nº 678/1992, assumiu
compromissos internacionais vinculantes de respeitar e garantir os direitos nela
previstos (art. 1º.1), bem como de adequar sua ordem jurídica interna a essas
obrigações (art. 2º).
Nos termos do art. 68.1 da CADH, o Estado se compromete a
cumprir integralmente as decisões da Corte Interamericana de Direitos Humanos nos
casos em que for parte, independentemente de previsão expressa no direito interno.
Trata-se de obrigação de resultado, não meramente de meio.
A Suprema Corte brasileira, no julgamento do RE 466.343/SP
(Rel. Min. Gilmar Mendes), fixou entendimento de que tratados internacionais de
direitos humanos aprovados pelo rito comum possuem status supralegal,
prevalecendo sobre legislação ordinária interna. Quando aprovados com quórum
qualificado do art. 5º, § 3º, da CF, adquirem status constitucional. Ainda que não
ostentem hierarquia constitucional, têm força normativa apta a afastar leis internas
incompatíveis.
Além disso, a Convenção de Viena sobre o Direito dos Tratados
(Decreto nº 7.030/2009), em seu art. 27, dispõe que “uma parte não pode invocar as
disposições de seu direito interno como justificativa para o descumprimento de um
tratado”. Logo, uma norma interna contrária a um tratado de direitos humanos não
pode ser aplicada em detrimento das obrigações internacionais assumidas pelo Estado.
A partir do caso Almonacid Arellano vs. Chile (2006), a Corte IDH
consolidou a doutrina do controle de convencionalidade, determinando que todos os
juízes e órgãos do Estado, em qualquer nível, têm o dever de interpretar e aplicar o
direito interno em conformidade com a CADH e a jurisprudência da Corte. Esse dever é
direto e imediato, não dependendo de intermediação legislativa, e abrange tanto a
legislação quanto a prática administrativa e judicial.
No caso Fazenda Brasil Verde vs. Brasil (2016), a Corte IDH
reconheceu a responsabilidade internacional do Estado brasileiro por tolerar a prática
de trabalho escravo contemporâneo, determinando que adotasse medidas de
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prevenção, investigação, punição e reparação adequadas. Entre as obrigações fixadas,
destacou-se a necessidade de remover obstáculos jurídicos internos – inclusive prazos
prescricionais – que impeçam a efetiva persecução e reparação das violações. Essa
decisão, por força do art. 68 da CADH, vincula todos os órgãos estatais, inclusive o
Poder Judiciário trabalhista.
O STF, no HC 154.248/PR (Rel. Min. Edson Fachin), reconheceu
que a jurisprudência da Corte IDH é parâmetro de interpretação obrigatória para o
Brasil, impondo-se aos magistrados nacionais o dever de observar os precedentes
interamericanos na solução dos casos concretos.
Assim, o controle de convencionalidade exige que, diante de
conflito entre norma interna e tratado de direitos humanos ratificado pelo Brasil,
prevaleça a norma mais protetiva, ainda que isso implique afastar a aplicação de
prazos prescricionais internos quando incompatíveis com a natureza imprescritível de
determinadas violações – como ocorre nas hipóteses de escravidão e suas formas
contemporâneas.
Negar eficácia a uma norma internacional ou a uma decisão da
Corte IDH por suposta prevalência de lei ou prazo interno configura violação direta à
CADH e ao princípio da boa-fé na execução dos tratados (pacta sunt servanda). O
magistrado brasileiro, portanto, não apenas pode, mas deve realizar o controle de
convencionalidade, garantindo que o Brasil cumpra suas obrigações internacionais e
prevenindo nova responsabilização internacional do Estado.
Além disso, embora a Constituição de 1988 tenha indicado de
forma expressa determinados crimes como inafiançáveis e imprescritíveis, como é o
caso do racismo (art. 5º, XLII, CF), tal previsão não exclui a possibilidade de esta Corte
reconhecer outras situações em que se justifique a imprescritibilidade. Esse
entendimento não afronta os princípios da legalidade ou da tipicidade, sobretudo
quando destinado a assegurar a plena eficácia dos direitos e garantias previstos no
regime constitucional, bem como daqueles derivados dos princípios constitucionais e
dos tratados internacionais dos quais o Brasil seja signatário (art. 5º, §2º, CF).
Destaco ainda que o Supremo Tribunal Federal já reconheceu
expressamente essa possibilidade ao apreciar, de forma conjunta, o Mandado de
Injunção nº 4733 e a ADO nº 26, ocasião em que enquadrou a homofobia e a transfobia
como condutas abrangidas pelo crime de racismo previsto na Lei nº 7.716/1989. Nesse
julgamento, a Corte Suprema destacou a falha do Estado tanto pela omissão legislativa
quanto pela ineficácia no cumprimento dos mandados constitucionais de
criminalização, fundamentos que legitimaram a inclusão de práticas homofóbicas e
transfóbicas no âmbito do tipo penal de racismo.
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No julgamento do HC 82.424, conhecido como Caso Ellwanger, o
Supremo Tribunal Federal reconheceu o antissemitismo como crime de racismo,
atribuindo-lhe, em razão disso, o caráter de imprescritibilidade. O argumento da
reserva absoluta de lei em matéria penal — expressão do princípio da legalidade estrita
— deve ser compreendido em consonância com a supremacia da Constituição, com os
mandatos constitucionais de proteção à liberdade, com o sistema de controle de
constitucionalidade e com a função do STF na efetivação da ordem constitucional.
O Superior Tribunal de Justiça já ressaltou que as decisões da
Corte Interamericana de Direitos Humanos possuem autoridade de coisa julgada
internacional, com efeito vinculante direto sobre as partes, impondo-se a todos os
poderes e órgãos internos do Estado o dever de cumpri-las (AgRg no RHC 136.961/RJ,
STJ, Quinta Turma, j. 15.6.2021, DJe 21.6.2021). Consta na decisão: “4. A sentença da
Corte IDH produz autoridade de coisa julgada internacional, com eficácia vinculante e
direta às partes. Todos os órgãos e poderes internos do país encontram-se obrigados a
cumprir a sentença. Na hipótese, as instâncias inferiores ao diferirem os efeitos da
decisão para o momento em que o Estado Brasileiro tomou ciência da decisão
proferida pela Corte Interamericana […] deixaram de dar cumprimento a tal
mandamento, levando em conta que as sentenças da Corte possuem eficácia imediata
para os Estados Partes e efeito meramente declaratório”.
Na mesma oportunidade, destacou-se que as autoridades
públicas, inclusive as judiciais, devem exercer o chamado controle de
convencionalidade, levando em conta os efeitos das normas internacionais e ajustando
o ordenamento interno para assegurar o cumprimento integral das obrigações
assumidas perante a comunidade internacional.
Ressaltou-se, ainda, que os Estados signatários são responsáveis
pela proteção dos direitos humanos e, nesse papel, devem adotar sempre a
interpretação mais favorável à pessoa humana. Tal orientação aproxima-se do espírito
da Constituição Federal, que tem como fundamentos a cidadania e a dignidade da
pessoa humana, e estabelece como objetivos centrais a erradicação da marginalização
e a construção de uma sociedade livre, justa e solidária (art. 3º, incisos I, II e III). (AgRg
no RHC 136.961/RJ, STJ, Quinta Turma, j. 15.6.2021, DJe 21.6.2021).
Diante disso, rejeito a prejudicial, também neste particular.
2.2.6 ENTENDIMENTO DO SISTEMA INTERAMERICANO.
A reclamada sustenta que a jurisprudência do Sistema
Interamericano de Direitos Humanos não autoriza o afastamento da prescrição no caso
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concreto, destacando que a imprescritibilidade no Sistema Interamericano refere-se ao
dever do Estado de investigar, processar e punir violações graves aos direitos
humanos, especialmente quando envolvem crimes de lesa-humanidade cometidos por
agentes estatais no contexto de regimes repressivos, como nos casos Almonacid
Arellano vs. Chile, La Cantuta vs. Peru e Gomes Lund vs. Brasil.
Argumenta que tais precedentes tratam da responsabilização do
próprio Estado por violações generalizadas e sistemáticas, o que não se aplica à
situação presente, na qual o próprio Estado brasileiro é o autor da ação e permaneceu
inerte por quase 50 anos.
Aponta que no caso Fazenda Brasil Verde vs. Brasil (2016), a
Corte IDH reconheceu a responsabilidade internacional do Estado por omissão na
prevenção e combate à escravidão contemporânea, mas não determinou a aplicação
automática e retroativa da imprescritibilidade a casos anteriores, tampouco obrigou a
responsabilização de particulares em ações cíveis décadas depois dos fatos.
Acrescenta que a sentença da Corte nesse caso foi endereçada
ao Estado brasileiro, com determinação de que promovesse alterações legislativas
futuras, o que ainda não foi efetivado, sendo inaplicável diretamente a particulares no
ordenamento interno.
Além disso, a reclamada afirma que a tentativa do MPT de
aplicar a imprescritibilidade baseada no sistema interamericano viola o princípio do
devido processo legal, especialmente no que se refere às garantias de prazo razoável
(art. 8º da Convenção Americana), à irretroatividade da norma penal (art. 9º) e à
segurança jurídica.
Conclui que o paradigma interamericano não é aplicável ao
presente caso, seja pela natureza dos fatos narrados, pela falta de uma política estatal
sistemática, seja pela omissão estatal prolongada que inviabiliza o exercício do
contraditório e da ampla defesa; A pretensão do MPT deve ser considerada prescrita,
sendo incabível a aplicação retroativa de entendimento não incorporado formalmente
ao direito interno.
Requer, portanto, o reconhecimento da prescrição total e a
extinção do feito sem resolução de mérito.
Sobre o assunto, o MPT argumenta que a Recomendação nº 123
/2022 do CNJ e o Pacto Nacional do Judiciário pelos Direitos Humanos reforçam que o
Poder Judiciário deve aplicar tratados internacionais de direitos humanos, a
jurisprudência da Corte Interamericana e realizar controle de convencionalidade,
especialmente na proteção de grupos vulneráveis.
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Narra que o TRF da 1ª Região reconheceu a imprescritibilidade
do crime de redução à condição análoga à de escravo, fundamentando-se na
obrigatoriedade de cumprimento das decisões da Corte IDH, especialmente no caso
Fazenda Brasil Verde vs. Brasil, que considerou a escravidão e suas formas análogas
delitos de Direito Internacional e normas de jus cogens. O STF já assentou que o bem
jurídico protegido pelo art. 149 do CP vai além da liberdade individual, atingindo a
dignidade humana.
Acrescenta que o TST, em decisão recente (RR-24796-
34.2019.5.24.0022), aplicou esse entendimento também ao âmbito trabalhista,
reconhecendo que, se no penal a imprescritibilidade é assegurada, no laboral — onde
se busca ressarcimento patrimonial das vítimas — o mesmo deve ocorrer.
Fundamentou-se na vinculação do Brasil à Corte IDH (art. 68 da CADH), na proibição de
invocar direito interno para descumprir tratados (art. 27 da Convenção de Viena), no
Estatuto de Roma (arts. 7º e 29, que tipificam a escravidão como crime contra a
humanidade e imprescritível) e na Orientação nº 19 da CONAETE.
Diante disso, entende que não há óbice constitucional, pois o
art. 5º, § 2º da CF admite direitos oriundos de tratados internacionais. O STF (RE 460.971
/RS) reconheceu que a legislação pode ampliar o rol de hipóteses imprescritíveis. Além
disso, a imprescritibilidade é neutra em relação aos direitos individuais: protege a
vítima e garante a punição de graves violações de direitos humanos.
Por isso, defende a imprescritibilidade da reparação por
trabalho análogo à escravidão decorre da obrigatoriedade de cumprimento de
decisões internacionais, da hierarquia supralegal dos tratados de direitos humanos e
da jurisprudência consolidada do STF, TRFs e TST, devendo ser reconhecida tanto na
esfera penal quanto na trabalhista, sem qualquer incompatibilidade com a ordem
constitucional interna.
Analiso.
No julgamento do Caso Fazenda Brasil Verde vs. Brasil, a Corte
Interamericana de Direitos Humanos reconheceu a prática de escravidão
contemporânea perpetrada por particulares, declarando que a responsabilidade
internacional do Estado decorre de sua omissão em prevenir, investigar, sancionar e
reparar tais violações.
A Corte afirmou que a obrigação do Estado é dual: (a) adotar
medidas efetivas de reforma institucional, persecução penal e reparação das vítimas e
(b) assegurar que a prescrição não se constitua em obstáculo à tutela efetiva.
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O simples fato de hoje haver atuação tardia, embora ativa, do
Ministério Público do Trabalho não pode servir de fundamento para legitimar a
impunidade de violações estruturais que a Corte Interamericana classificou como jus
cogens, ou seja, normas inderrogáveis do direito internacional. O argumento temporal
não tem força para superar o comando vinculante da inaplicabilidade da prescrição.
A sentença internacional, de efeito obrigatório para o Brasil nos
termos do art. 68 da CADH, foi categórica ao:
reconhecer a ocorrência de escravidão e servidão por dívida,
associadas a discriminação estrutural em razão da condição econômica das vítimas;
atribuir responsabilidade internacional ao Estado brasileiro;
determinar a reabertura de investigações e processos internos;
ordenar expressamente que a prescrição não seja aplicada ao
delito de escravidão e suas formas análogas (pontos 9 e 11 do dispositivo).
Cumpre observar que esse comando não se restringe à esfera
penal por duas razões fundamentais: (i) o dever de reparação integral, previsto no art.
63.1 da CADH, abrange dimensões civis, coletivas e trabalhistas; e (ii) cabe às cortes
nacionais remover todos os obstáculos processuais que inviabilizem a reparação, o que
inclui a não aplicação da prescrição em pretensões dessa natureza.
Nesse sentido, o Tribunal Superior do Trabalho já assimilou a
diretriz interamericana ao reconhecer a imprescritibilidade em ações reparatórias
relacionadas à escravidão contemporânea.
Por fim, importa ressaltar que, no Caso Brasil Verde, a Corte
Interamericana deixou claro que a responsabilidade do Estado se estende mesmo
quando as violações são praticadas por particulares, cabendo ao ente estatal o dever
de prevenir, investigar e reparar. Logo, o fato de o Estado brasileiro, por meio do MPT,
figurar como parte autora nestes autos não afasta sua obrigação internacional nem
retira a natureza imprescritível das pretensões que visam à reparação das violações a
direitos humanos ocorridas em seu território.
Assim, a aplicação de prazos prescricionais a casos de
escravidão e suas formas análogas mostra-se incompatível com a CADH, com a
jurisprudência vinculante da Corte IDH e com a própria Constituição da República, que
veda a escravidão e erige a dignidade da pessoa humana como fundamento da ordem
jurídica.
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Diante disso, somados aos argumentos expostos nos itens
anteriores, rejeito a prejudicial, neste particular.
2.2.7 ORDENAMENTO JURÍDICO BRASILEIRO. NÃO ALCANCE DA
TESE DA IMPRESCRITIBILIDADE. PRINCÍPIOS CONSTITUCIONAIS
A reclamada afirma que a pretensão de imprescritibilidade
defendida pelo MPT viola a Constituição Federal.
Argumenta novamente que a prescrição é a regra no
ordenamento jurídico brasileiro, sendo a imprescritibilidade exceção expressamente
prevista apenas para os crimes de racismo (art. 5º, XLII) e ações de grupos armados
contra a ordem constitucional (art. 5º, XLIV).
Aponta que o rol constitucional de crimes imprescritíveis é
taxativo, não podendo ser ampliado nem mesmo por emenda constitucional, pois a
prescrição é considerada cláusula pétrea, ou seja, direito fundamental indisponível (art.
60, § 4º, IV). Afirma que a tentativa de ampliar esse rol por interpretação, como
pretende o MPT, viola os princípios da legalidade, da segurança jurídica e da vedação
de penas de caráter perpétuo (art. 5º, XLVII, b).
Sustenta que a jurisprudência do STF (RE 600851/DF) reforça
que, fora as exceções constitucionais, é inconstitucional admitir hipóteses de
imprescritibilidade não previstas expressamente, pois afronta o devido processo legal,
a ampla defesa e o contraditório.
Entende que a eventual previsão de imprescritibilidade em
tratados internacionais (como o Estatuto de Roma) não pode prevalecer sobre normas
constitucionais internas, especialmente as que tutelam direitos fundamentais do
acusado. Nem mesmo o princípio pro homine permite ampliar o rol de crimes
imprescritíveis quando isso significaria restringir garantias fundamentais internas,
como a prescrição.
Por fim, argumenta a distinção entre os regimes de legalidade
aplicáveis ao Estado e aos particulares, lembrando que o Estado só pode agir mediante
autorização legal específica. Logo, aplicar a imprescritibilidade sem base constitucional
seria abuso de poder estatal.
Conclui que a imprescritibilidade da conduta alegada pelo MPT
(trabalho análogo ao de escravo) não encontra respaldo na Constituição Federal, razão
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pela qual deve prevalecer a regra da prescrição, sob pena de afronta aos pilares do
Estado Democrático de Direito. Requer, portanto, o reconhecimento da prescrição total
da pretensão.
Por outro lado, o MPT afirma que a CF/88 prevê, expressamente,
a imprescritibilidade apenas para os crimes de racismo (art. 5º, XLII) e de ação de
grupos armados contra a ordem constitucional e o Estado Democrático (art. 5º, XLIV).
Contudo, no julgamento do RE 460.971/RS, o STF firmou que essa enumeração é
exemplificativa, não havendo impedimento para que a legislação ordinária estabeleça
outras hipóteses de imprescritibilidade.
Assim, sustenta que não procede a alegação de que seria
necessária previsão constitucional expressa para aplicar a imprescritibilidade ao crime
de redução à condição análoga à de escravo, afastando-se tal óbice e permitindo sua
aplicação com base em normas internas e internacionais já vigentes.
Analiso.
A Constituição não esgota o catálogo de direitos/garantias (art.
5º, § 2º) e confere estatuto especial a tratados de direitos humanos (art. 5º, §3º -
quando aprovados pelo rito qualificado; e, mesmo sem esse rito, a jurisprudência do
STF reconhece supralegalidade).
Ou seja, o art. 5º, § 2º admite direitos e garantias decorrentes de
tratados. Assim, não há taxatividade absoluta. A imprescritibilidade da escravidão não
amplia o rol penal, mas concretiza obrigações já assumidas pelo Brasil.
Assim, não há antinomia entre o art. 7º, XXIX (prescrição
trabalhista em regra) e a imprescritibilidade excepcional de pretensões por escravidão,
pois estas decorrem de norma jus cogens e de obrigações internacionais que se
sobrepõem à lei ordinária e informam a interpretação constitucional.
A alegação de que a imprescritibilidade só se aplicaria a crimes
de racismo e ações armadas (CF, art. 5º, XLII e XLIV) não prevalece, pois o art. 5º, § 2º,
autoriza a incorporação de outros direitos e garantias oriundos de tratados,
notadamente quando se tratar de normas imperativas de direito internacional.
Não há afronta à legalidade nem retroatividade indevida: a
imprescritibilidade, aqui, decorre de obrigação internacional permanente e de
aplicação imediata (CF, art. 5º, §1º).
O argumento de que só violações praticadas pelo Estado ensejariam imprescritibilidade
é afastado pelo próprio precedente Brasil Verde, que tratou de atos praticados por
particulares com omissão estatal.
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Destaco ainda que o art. 60, §4º, IV protege direitos e garantias
individuais contra retrocesso; aqui se trata de ampliar a proteção, não de restringi-la, o
que demonstra não ser aplicável o argumento da reclamada de violação ao dispositivo
citado.
Diante disso, somados aos argumentos expostos nos itens
anteriores, rejeito a prejudicial, neste particular.
2.2.8 ALCANCE DA TESE DE IMPRESCRITIBILIDADE AO INSTITUTO
DA RESPONSABILIDADE CIVIL
A reclamada sustenta que a prescrição total da ação também se
impõe por razões jurídicas autônomas, especialmente no que se refere à natureza da
responsabilidade civil, a qual é, por definição, prescritível. Ainda que se admita, para
fins argumentativos, a imprescritibilidade dos crimes previstos nos arts. 149 e 149-A do
Código Penal (redução à condição análoga à de escravo e tráfico de pessoas), esse
entendimento não se estende ao direito de postular indenização por danos morais,
que tem natureza civil e patrimonial.
Destaca que a responsabilidade civil refere-se ao dever de
reparar dano causado a outrem, mediante compensação pecuniária. No caso, o MPT
não busca responsabilizar os supostos autores diretos das violações, nem a empresa
tomadora dos serviços, mas sim a acionista controladora da empresa proprietária da
fazenda.
Aponta que, embora o art. 7º, XXVIII, da Constituição Federal
preveja o dever de indenização por dolo ou culpa, aplica-se à responsabilidade civil
trabalhista, subsidiariamente, o regime do Código Civil, inclusive quanto à prescrição.
Os arts. 192 e 193 do Código Civil reforçam que se trata de matéria de ordem pública,
não sujeita à alteração por vontade das partes.
Conforme o art. 189 do Código Civil de 2002, a prescrição
extingue a pretensão, e não o direito em si. Isso significa que, uma vez violado o direito,
nasce para a parte a pretensão de reparação, que, se não exercida no prazo legal,
prescreve.
Afirma que o STJ já decidiu nesse sentido, inclusive em casos
envolvendo direitos morais autorais, reconhecendo que, embora imprescritíveis em
essência, a pretensão de reparação por sua violação é prescritível, sujeitando-se ao
prazo trienal do art. 206, §3º, V, do CC. Aponta que a jurisprudência penal também
reconhece a prescrição para o crime do art. 149 do Código Penal.
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É citado ainda um precedente do TST que reconheceu a
imprescritibilidade da pretensão indenizatória em casos excepcionais, nos quais a
situação de submissão ao trabalho escravo impediu a vítima de acessar o Judiciário.
Contudo, a Reclamada distingue o presente caso: não se trata de incapacidade da
vítima em buscar a Justiça, mas sim de omissão estatal por quase cinco décadas.
Portanto, a imprescritibilidade aqui invocada não serve para proteger a vítima, mas sim
para contornar a segurança jurídica, violando o devido processo legal.
Considerado descabido aplicar a Súmula 647 do STJ, que trata
da responsabilidade civil do Estado por perseguição política durante o regime militar -
tese que não se aplica a pessoas jurídicas privadas.
Conclui que, por fundamentos autônomos de direito civil e
processual, a pretensão indenizatória deduzida na inicial encontra-se inteiramente
prescrita.
A parte autora defende que a escravidão moderna atinge o
núcleo essencial dos direitos humanos e, conforme a Corte Interamericana de Direitos
Humanos e a Orientação nº 19 da CONAETE, não está sujeita à prescrição. Os direitos
das vítimas são indisponíveis e a imprescritibilidade assegura reparação justa, punição
dos responsáveis e efeito preventivo contra novas violações.
Tal como na tortura - cuja imprescritibilidade já é reconhecida
pelo STJ para danos morais e materiais -, a redução de pessoas à condição análoga à de
escravo ou o tráfico de pessoas aniquila a dignidade humana, convertendo a vítima em
mero objeto. Esse mesmo fundamento jurídico deve ser aplicado às pretensões
reparatórias civis decorrentes dessas práticas.
Analiso.
A distinção entre a esfera penal e a esfera civil não impede que
se reconheça que a mesma violação gravíssima - a submissão de trabalhadores a
condições de escravidão ou servidão - repercute em toda a ordem jurídica, irradiando
efeitos tanto na persecução penal quanto na tutela civil e trabalhista.
O Superior Tribunal de Justiça já firmou a compreensão de que a
imprescritibilidade se projeta também para a seara civil em hipóteses de violações
graves de direitos humanos. É o que consagra a Súmula 647 do STJ, ao reconhecer a
imprescritibilidade das ações de indenização por atos de tortura praticados durante o
regime militar.
No âmbito da Justiça do Trabalho, o Tribunal Superior do
Trabalho tem aplicado a não incidência da prescrição trabalhista (art. 7º, XXIX, da CF) às
pretensões reparatórias decorrentes do trabalho em condições análogas à escravidão,
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com fundamento no controle de convencionalidade e no caráter jus cogens da
proibição da escravidão. Ressalta-se que não se trata de mera transposição de prazos
penais, mas sim da afirmação sistemática de que graves violações de direitos humanos
não podem ser neutralizadas por prazos prescricionais ordinários, sob pena de
esvaziamento da tutela jurisdicional.
A própria Corte Interamericana de Direitos Humanos tem
afirmado que não se deve criar separações artificiais entre as esferas penal e civil. Ao
determinar que a prescrição não obste o dever de punir, a Corte também reforça o
dever de reparar integralmente as vítimas. Seguindo essa diretriz, o TST reconheceu
que, se a imprescritibilidade vale no âmbito penal, onde se tutela o bem jurídico
liberdade, com maior razão deve alcançar o campo civil e trabalhista, voltado à
recomposição de danos individuais e coletivos (art. 4º da LINDB).
Em hipóteses de violações massivas e estruturais de direitos
humanos, a reparação civil também se reveste de caráter imprescritível, conforme
precedentes do STJ e do TST em casos de perseguição política e de escravidão
contemporânea.
Como exemplo, no julgamento do RR-24796-34.2019.5.24.0022,
o TST reconheceu a imprescritibilidade da indenização civil decorrente de trabalho
escravo (“há imprescritibilidade da pretensão de reparação de danos decorrentes da
redução à condição análoga a de escravo, em face da decisão da Corte IDH no caso
Fazenda Brasil Verde vs Brasil, da previsão do Estatuto de Roma e do exercício do
controle de convencionalidade”). Esse fundamento reforça que o ilícito é unitário: a
reparação integra o dever internacional de cessar e reparar a violação, não se podendo
admitir que a prescrição impeça a concretização desse dever.
Dessa forma, a imprescritibilidade das pretensões reparatórias
decorrentes de trabalho análogo ao de escravo encontra amparo: (i) na Constituição
Federal, que veda a escravidão e consagra a dignidade da pessoa humana como
fundamento da República; (ii) no direito internacional dos direitos humanos, que trata
a escravidão como norma inderrogável de jus cogens; e (iii) na jurisprudência
consolidada do STJ e do TST, que estendem a imprescritibilidade às ações de reparação
civil e coletiva em hipóteses de graves violações de direitos humanos.
2.2.9 FLUÊNCIA DO PRAZO PRESCRICIONAL.
A parte reclamada argumenta que o trabalho em condições
análogas à de escravo impede a contagem do prazo prescricional enquanto perdurar
tal situação. Entende que trata-se de hipótese de suspensão da prescrição, e não de
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imprescritibilidade, sendo o termo inicial do prazo fixado a partir da libertação do
trabalhador ou de sua retirada do ambiente de segregação social, momento em que
cessaria a incapacidade absoluta.
No entanto, argumenta que essa não é a situação dos autos,
pois o próprio Ministério Público do Trabalho reconheceu que a alegada submissão ao
trabalho escravo teria cessado em 1986. Além disso, foi juntado à inicial documento
que comprova que o MPT teve conhecimento formal dos fatos há mais de 30 anos, o
que evidencia uma inércia consciente e deliberada das autoridades públicas.
Dessa forma, conclui que a tese da imprescritibilidade não se
sustenta como fundamento jurídico válido, tampouco pode servir para justificar a
omissão estatal por mais de três décadas, sob pena de configurar verdadeira
persecução indefinida no tempo (perseguição ad aeternum), vedada pelo ordenamento
jurídico.
O MPT argumenta que a Corte Interamericana de Direitos
Humanos não restringiu a imprescritibilidade da escravidão contemporânea apenas ao
período em que o trabalhador esteja submetido à condição análoga à de escravo ou a
trabalho degradante, nem modulou os efeitos da decisão.
No caso Fazenda Brasil Verde vs. Brasil, concluiu que a
prescrição nesses delitos viola o art. 2 da Convenção Americana, pois mantém a
impunidade, reconhecendo que a escravidão e suas formas análogas são delitos de
Direito Internacional com status de jus cogens, e, portanto, imprescritíveis.
Por entender que a decisão vincula o Brasil a adotar medidas
legislativas para impedir a aplicação de prazos prescricionais nesses casos,
independentemente de corresponderem a um ou mais tipos penais previstos no
ordenamento interno, entende que não procede a alegação da reclamada.
Analiso.
A Corte Interamericana de Direitos Humanos foi expressa ao
afirmar que, em se tratando de escravidão e formas análogas, a prescrição é
inadmissível, não tendo havido qualquer “modulação” que condicionasse a não
incidência da prescrição ao período de cativeiro.
A interpretação de que haveria apenas suspensão do prazo
prescricional até a “libertação” não encontra amparo nem no paradigma
interamericano nem na orientação do Tribunal Superior do Trabalho, que igualmente
reconhece a imprescritibilidade em ações reparatórias decorrentes de escravidão
contemporânea.
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Reforço que no Caso Fazenda Brasil Verde vs. Brasil, a Corte IDH
enfrentou expressamente exceções preliminares de jurisdição ratione temporis e de
competência, reconhecendo sua jurisdição e decidindo tanto o mérito quanto as
reparações - inclusive determinando o não uso da prescrição - em relação a fatos
ocorridos entre 1997 e 2000. A ratio decidendi adotada não se dirige a uma aplicação
retroativa em desfavor do reclamado, mas sim a uma diretriz prospectiva e estrutural,
impondo ao Estado brasileiro a obrigação de remover barreiras jurídicas que
perpetuam a impunidade em contextos de escravidão.
Não há surpresa quanto a essa conclusão: como já mencionado
nesta decisão, a proibição da escravidão é norma de jus cogens, de caráter atemporal e
inderrogável, que não admite relativizações ou disposições em contrário. Ademais, a
escravidão contemporânea possui natureza de violação continuada e permanente,
cujos efeitos são indeléveis, produzindo traumas, depleção de capacidades e estigmas
sociais que se prolongam no tempo.
Além de não modular temporalmente a imprescritibilidade, a
Corte IDH determinou a supressão da prescrição em casos de escravidão e formas
análogas. Em direito interno, a coerência com tal comando impõe reconhecer que o
prazo prescricional não corre durante a sujeição do trabalhador e tampouco pode
operar em benefício do violador após a cessação formal da exploração, sob pena de
premiar a ocultação, a assimetria estrutural e a perpetuação da impunidade.
A obrigação internacional de investigar, punir e reparar tais
violações não se extingue com o término da situação fática, permanecendo
imprescritível. O transcurso do tempo não sana a violação, sendo certo que, para a
Corte Interamericana, a infração somente se considera encerrada quando há
reparação efetiva às vítimas, como já reconhecido no Caso Gomes Lund e outros
(“Guerrilha do Araguaia”) vs. Brasil.
Assim, não se trata de suspensão temporária de prazos, mas de
imprescritibilidade absoluta, decorrente da natureza estrutural e permanente da
violação de direitos humanos, e da vinculação do Brasil aos comandos da Corte IDH
(art. 68, CADH).
Diante disso, rejeito a prejudicial, neste particular.
2.2.10 CONCLUSÃO QUANTO À APLICAÇÃO DA PRESCRIÇÃO
A parte reclamada sustenta que a tese de imprescritibilidade
aventada na inicial não encontra respaldo no ordenamento jurídico brasileiro,
tampouco na jurisprudência internacional aplicável ao caso concreto. Ao contrário, o
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marco normativo nacional é claro ao estabelecer a aplicabilidade da prescrição como
garantia do Estado Democrático de Direito, assegurando segurança jurídica e vedando
a submissão de qualquer pessoa a uma ameaça indefinida de responsabilização.
Argumenta que a prescrição funciona como limite legítimo ao
poder estatal, exigindo do Estado atuação diligente e responsável, e que sua previsão
visa impedir arbitrariedades, conforme assegurado nos arts. 5º, XXXV, da Constituição
Federal, no art. 8º da Declaração Universal dos Direitos Humanos e nos arts. 7.5 e 8.1
da Convenção Americana de Direitos Humanos, que consagram o direito ao julgamento
em prazo razoável.
Defende que flexibilizar a aplicação da prescrição no caso em
análise comprometeria a estabilidade das relações jurídicas, abrindo espaço para
abusos de poder e violando os princípios da razoabilidade, proporcionalidade e ampla
defesa. Além disso, afirma que os fatos narrados remontam a quase 40 anos, em
contexto normativo distinto do atual, o que torna inviável a adequada instrução
probatória.
Por fim, a parte destaca que não se pretende minimizar a
gravidade das condutas apontadas, mas sim garantir o correto enquadramento jurídico
da demanda. Assim, requer o acolhimento da preliminar de prescrição, com a
consequente extinção do feito com resolução de mérito, nos termos do art. 487, II, do
CPC.
Para o MPT, os pedidos formulados na presente Ação Civil
Pública estão respaldados no precedente vinculante da Corte Interamericana de
Direitos Humanos no caso Fazenda Brasil Verde vs. Brasil, que reconheceu a
imprescritibilidade da escravidão moderna. Tal entendimento é de observância
obrigatória por todos os juízes e tribunais brasileiros, razão pela qual deve ser rejeitada
a prejudicial de prescrição arguida pela ré.
Analiso.
À luz dos fundamentos ao norte explicitados, amparados nos
tratados incorporados, na jurisprudência vinculante interamericana, na Recomendação
CNJ n. 123/2022, e na jurisprudência do STJ e TST, considerando as premissas do dever
de controle de convencionalidade, conclui-se que:
A proibição da escravidão e de suas formas análogas é norma
de jus cogens no direito internacional, reconhecida como inderrogável e imprescritível.
O Brasil assumiu obrigações internacionais de prevenir,
investigar, punir e reparar tais violações, nos termos da CADH, da Convenção sobre a
Escravatura de 1926, da Convenção nº 29 da OIT e de outros instrumentos ratificados.
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A Corte Interamericana de Direitos Humanos, no caso Fazenda
Brasil Verde vs. Brasil, determinou expressamente a remoção de obstáculos jurídicos
internos, inclusive prazos prescricionais, que impeçam a responsabilização e reparação
das vítimas de escravidão contemporânea.
O controle de convencionalidade impõe a todas as magistradas
e aos magistrados brasileiras(os) o dever de afastar a aplicação de normas internas
incompatíveis com essas obrigações internacionais, garantindo a prevalência da norma
mais protetiva à vítima.
A imprescritibilidade alcança tanto a responsabilização criminal
quanto as reparações civis e trabalhistas, pois ambas integram a obrigação
internacional de cessar a violação e reparar o dano.
A jurisprudência do TST (v.g., RR-24796-34.2019.5.24.0022)
reafirma essa compreensão no âmbito interno, afastando a prescrição em ações civis
coletivas por trabalho escravo.
A aplicação dos prazos prescricionais previstos no Código Penal,
Código Civil e Constituição Federal, nos moldes defendidos pela reclamada, contraria
os compromissos internacionais do Brasil e a jurisprudência vinculante da Corte IDH,
ensejando o afastamento de tais normas internas no caso concreto.
Assim, declaro, para todos os efeitos, a não incidência de prazos
prescricionais sobre as pretensões coletivas deduzidas nesta ACP, rejeitando
integralmente a prejudicial deduzida pela reclamada.
2.3 DO MÉRITO
Superadas as preliminares e a prejudicial de mérito, passa-se ao
exame do mérito controvertido, aglutinado nos seguintes pontos:
2.3.1 MATERIALIDADE: Se, na Fazenda Vale do Rio Cristalino,
ocorreram práticas que caracterizam o trabalho escravo contemporâneo;
2.3.2 RESPONSABILIDADE DA RECLAMADA: Grau de vinculação
/controle da reclamada sobre a gestão do empreendimento rural (propriedade,
coligação, governança, financiamento, benefício econômico, cadeia de comando),
inclusive eventual responsabilidade por grupo econômico e/ou dever de vigilância;
Documento assinado eletronicamente por OTAVIO BRUNO DA SILVA FERREIRA, em 29/08/2025, às [Link] - dc7fe45
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2.3.3 DANO MORAL COLETIVO: Se houve lesão transindividual ao
bem jurídico da dignidade do trabalho e à sociedade local/amazônica, sua extensão e
gravidade;
2.3.4 MEDIDAS DE REPARAÇÃO E NÃO REPETIÇÃO: Eficácia,
suficiência e garantias estruturais.
2.3.1 MATERIALIDADE. DA ESCRAVIDÃO CONTEMPORÂNEA
A parte requerente narra que a demanda tem origem na PA-
PROMO nº 000211.2019.01.004/5, instaurada pelo MPT da 1ª Região a partir de
documentos entregues pelo Pe. Ricardo Rezende Figueira (CPT/CNBB e GPTEC/UFRJ),
relatando a prática de trabalho escravo e tráfico de pessoas na Fazenda Vale do Rio
Cristalino (Fazenda Volkswagen) entre 1974 e 1986, período em que era de titularidade
da Volkswagen do Brasil Indústria de Veículos Automotores Ltda. (VW Brasil), por meio
de sua subsidiária Companhia Vale do Rio Cristalino Agropecuária Comércio e Indústria
– CVRC.
Argumenta que foram examinados relatos de vítimas e
familiares (inclusive em escritura pública), reportagens, debates parlamentares, laudos
de inspeções in loco e ações trabalhistas da época e que, em 2021, o MPT colheu novos
depoimentos que confirmaram a exploração de trabalho escravo e tráfico de pessoas
na fazenda.
Afirma que a CVRC foi criada em 1973 como subsidiária da VW
Brasil, e a Fazenda foi instalada em Santana do Araguaia/PA, com 139 mil hectares,
voltada à pecuária e extração de madeira. O projeto contou com financiamento e
incentivos da Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia - SUDAM e do Banco
da Amazônia - BASA, dentro da política de ocupação da Amazônia pelo regime militar.
Destaca que, embora houvesse cerca de 300 empregados
diretos, os serviços de derrubada de mata e formação de pasto eram realizados por
lavradores recrutados por empreiteiros (“gatos”), sem vínculo formal.
Argumenta que os gatos aliciavam trabalhadores em povoados
pobres de Goiás, Mato Grosso e Tocantins, prometendo bons salários e condições
dignas. O transporte era feito em “paus-de-arara”, sob vigilância armada. Muitas vezes,
os trabalhadores recebiam um abono pago às famílias, criando dívidas que os
prendiam ao serviço. Relatos apontam inclusive a venda de trabalhadores entre
empreiteiros. Os principais empreiteiros eram Francisco Andrade Chagas (Chicô) e
Abílio Dias Araújo (Abilião), além de outros intermediários.
Documento assinado eletronicamente por OTAVIO BRUNO DA SILVA FERREIRA, em 29/08/2025, às [Link] - dc7fe45
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Continua a narrativa apontando o modo de operação da
reclamada, da seguinte forma:
Vigilância e controle: Havia guaritas com seguranças armados,
revista de trabalhadores e proibição de portar utensílios; As CTPS não eram anotadas;
Trabalhadores não tinham acesso à infraestrutura da sede (escola, saúde, lazer),
restrita a diretores e empregados diretos.
Escravidão por dívida: Nas frentes de trabalho (80 km da sede),
os peões eram obrigados a comprar produtos em cantinas controladas pelos
empreiteiros, com preços abusivos; As dívidas incluíam transporte, lona para barracos,
alimentos, ferramentas e remédios; Ao final, informava-se que nada havia a pagar,
gerando endividamento permanente (truck-system).
Restrição à liberdade e violência: Trabalhadores endividados
não podiam deixar a fazenda sem autorização dos “gatos”; Tentativas de fuga
resultavam em perseguições, espancamentos, amarrações, ameaças armadas e até
homicídios, com desaparecimentos relatados; Corpos eram ocultados em rios e grutas.
Jornadas exaustivas e condições degradantes: Trabalho
ininterrupto, inclusive em finais de semana e feriados, sem alimentação adequada ou
descanso; Moradia em barracos precários, consumo de água imprópria, ausência de
banheiros; Exposição a animais peçonhentos, malária e acidentes graves sem
assistência; Ausência de EPIs e atendimento médico digno; medicamentos eram
debitados em caderneta de dívidas.
Como elementos probatórios, apresenta dossiê da Comissão da
Pastoral da Terra – CPT, termos de depoimentos de vítimas, familiares e testemunhas,
outras provas documentais, matérias jornalísticas e debates parlamentares, relatórios
de visitas e entrevistas com diretores da CVRC, diligências realizadas no curso de
investigações policiais, processo judicial, resultado da inspeção in loco realizada por
uma comissão composta por parlamentares, jornalistas e representantes sindicais e
religiosos e depoimentos colhidos pelo próprio órgão requerente, dentre outros.
Diante desse contexto, entende que “os elementos de convicção
coligidos podem ser avaliados quanto à caracterização de trabalho escravo na Fazenda
Vale do Rio Cristalino, sob uma análise técnico-jurídica consentânea com os influxos
conceituais e normativos inerentes à concepção da escravidão moderna”.
Além disso, entende que aliciamento de trabalhadores rurais
para prestar serviços em localidades remotas configura tráfico de pessoas.
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Em sua defesa, a reclamada apresentou vários argumentos, que
serão a seguir explicitados:
No item V.M - DA HISTORICIDADE DA ACEPÇÃO JURÍDICA DAS
CONDUTAS IMPUTADAS. TRABALHO EM CONDIÇÃO ANÁLOGA À DE ESCRAVO. TRÁFICO
DE PESSOAS. EVOLUÇÃO CONCEITUAL, sustenta que o Direito deve ser interpretado
conforme seu contexto histórico, e que os conceitos utilizados na petição inicial - como
“trabalho análogo ao de escravo” e “tráfico de pessoas” - passaram por relevante
evolução legislativa e cultural desde os fatos narrados (décadas de 1970 e 1980) até os
dias atuais.
Ressalta que o crime de redução à condição análoga à de
escravo foi tipificado originalmente no Código Penal de 1940, com conceito limitado à
supressão da liberdade (trabalho forçado), sem abranger outras formas de exploração,
como jornadas exaustivas ou condições degradantes.
Afirma que a proteção penal ao trabalho digno só avançou a
partir da redemocratização do país, com destaque para a Constituição de 1988 e,
especialmente, após o caso José Pereira, ocorrido em 1989 e denunciado à Comissão
Interamericana de Direitos Humanos em 1994.
Argumenta que, somente a partir de 1995, o Estado brasileiro
reconheceu oficialmente a existência de trabalho análogo à de escravo e passou a
instituir medidas de combate e fiscalização, como o Grupo Especial de Fiscalização
Móvel (GEFM) e o Plano Nacional de Erradicação do Trabalho Escravo.
O marco legislativo central da evolução foi a alteração do artigo
149 do Código Penal pela Lei 10.803/2003, que passou a considerar, além do trabalho
forçado, a jornada exaustiva, as condições degradantes e a servidão por dívida como
formas de trabalho escravo contemporâneo, incluindo a dignidade da pessoa humana
como bem jurídico tutelado.
A defesa conclui que, à luz dessa trajetória histórica e normativa,
não é possível aplicar retroativamente conceitos e parâmetros atuais para julgar
condutas supostamente ocorridas entre 1970 e 1986, antes mesmo da vigência da
Constituição de 1988. Sustenta, portanto, que toda análise deve considerar o contexto
normativo e cultural da época, sob pena de violação ao princípio da segurança jurídica.
No item V.N - CONTEXTUALIZAÇÃO HISTÓRICA DA APLICAÇÃO
LEGAL INTERNA DO CONCEITO DE TRABALHO ANÁLOGO AO DE ESCRAVO, sustenta que
os fatos alegados pelo MPT referem-se ao período de 1974 a 1986, mas as normas
penais invocadas na petição inicial - os artigos 149 e 149-A do Código Penal, com
redações de 2003 e 2016, respectivamente - não existiam à época dos fatos e, portanto,
Documento assinado eletronicamente por OTAVIO BRUNO DA SILVA FERREIRA, em 29/08/2025, às [Link] - dc7fe45
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não podem ser aplicadas retroativamente, em respeito ao princípio da legalidade (art.
5º, II, CF).
Destaca que, nas décadas de 1970 e 1980, o artigo 149 do
Código Penal tinha um conceito restrito, limitando-se à supressão total da liberdade,
em moldes semelhantes à escravidão clássica da Roma antiga. A redação vigente à
época não abrangia situações como jornada exaustiva, condições degradantes ou
servidão por dívida - que só foram tipificadas expressamente a partir de 2003.
Ressalta ainda que o artigo 149-A, que trata do tráfico de
pessoas, só foi introduzido no ordenamento em 2016, sem qualquer norma
equivalente anterior.
Argumenta que não há comprovação de sujeição absoluta dos
trabalhadores, tampouco de conduta que se amolde ao conceito restritivo de “redução
à condição análoga à de escravo” vigente na época. Ao contrário, há registros de que
trabalhadores deixavam voluntariamente a fazenda e retornavam ao local em outras
oportunidades.
Também enfatiza que, até 1986, vigorava a Constituição de 1969,
oriunda do regime militar, a qual não assegurava garantias fundamentais hoje
reconhecidas, como dignidade da pessoa humana, liberdade ampla ou direitos sociais -
todos instituídos apenas com a Constituição de 1988.
Conclui, portanto, que não havia suporte legal interno para os
pedidos formulados pelo MPT no período em questão, devendo prevalecer o artigo 5º,
II, da Constituição Federal (“ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma
coisa senão em virtude de lei”).
No item V.O - CONTEXTUALIZAÇÃO HISTÓRICA DA APLICAÇÃO
INTERNA DO CONCEITO DE TRÁFICO DE PESSOAS, argumenta que à época dos fatos
narrados pelo MPT (entre 1974 e 1986), o ordenamento jurídico brasileiro não previa
um tipo penal específico para o tráfico de pessoas com o alcance que hoje possui. A
definição atual - constante do artigo 149-A do Código Penal, que trata do tráfico com
fins de submissão a trabalho análogo ao de escravo — só foi inserida pela Lei nº 13.344
/2016.
Antes disso, o único tratamento jurídico interno relacionado ao
tráfico de pessoas restringia-se à exploração sexual, conforme os artigos 231 e 231-A
do Código Penal de 1940, os quais foram revogados pela nova lei.
Assinala que a Convenção Suplementar da ONU (1956) e o
Protocolo de Palermo (2000), este último incorporado ao direito brasileiro apenas em
2004 (Decreto 5.017/2004), trouxeram definições mais amplas e contemporâneas do
Documento assinado eletronicamente por OTAVIO BRUNO DA SILVA FERREIRA, em 29/08/2025, às [Link] - dc7fe45
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tráfico de pessoas, abrangendo, por exemplo, submissão por coação, fraude, abuso de
autoridade e servidão. No entanto, tais instrumentos não se refletiram de imediato na
legislação penal interna, o que criou um vácuo normativo até a promulgação da Lei
13.344/2016.
Ressalta que as práticas que hoje poderiam ser enquadradas
como tráfico de pessoas - por exemplo, transportar ou recrutar trabalhadores para fins
de exploração laboral - não eram tipificadas como crime no período dos fatos
investigados. A imputação retroativa dessas condutas à legislação atual viola o
princípio da legalidade penal (art. 5º, XXXIX, CF).
Por fim, destaca o entendimento doutrinário de que até meados
dos anos 2000 prevalecia uma concepção arcaica e restritiva da escravidão, limitando-a
a moldes coloniais. A complexidade atual do fenômeno - como o tráfico laboral - só
passou a ser reconhecida jurídica e penalmente com a modernização legislativa
recente.
No item V.P - IRRETROATIVIDADE DAS LEIS. SEGURANÇA
JURÍDICA. PRINCÍPIOS BASILARES DO ORDENAMENTO JURÍDICO, sustenta que o
ordenamento jurídico brasileiro não admite a aplicação retroativa de normas, salvo nos
casos expressamente autorizados por lei, conforme o artigo 5º, XXXVI da Constituição
Federal. Esse princípio está igualmente presente em instrumentos internacionais, como
o Pacto de São José da Costa Rica, o Estatuto de Roma e a Declaração Universal dos
Direitos Humanos.
Argumenta que a regra da irretroatividade assegura a segurança
jurídica, um dos pilares do sistema jurídico, garantindo estabilidade nas relações
sociais e previsibilidade dos efeitos jurídicos das condutas humanas. Alterar, com base
em leis posteriores, fatos já consolidados - como os alegadamente ocorridos na década
de 1970 - comprometeria a confiança legítima dos envolvidos e violaria o direito à
previsibilidade da norma vigente à época.
A defesa argumenta que o Projeto Fazenda Vale do Rio
Cristalino foi submetido a diversas fiscalizações e notificações ao longo dos anos, sem
que se apontasse qualquer irregularidade. Criou-se, assim, uma expectativa legítima de
legalidade e estabilidade, reforçada pelo decurso do tempo e pela ausência de sanções
pretéritas.
Por fim, enfatiza que o acolhimento das teses do MPT, com base
em normas penais e constitucionais posteriores aos fatos, romperia com a estabilidade
das situações jurídicas consolidadas, desrespeitando a boa-fé dos envolvidos e
comprometendo um dos valores fundantes do Direito: a realização da justiça com
segurança e previsibilidade.
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No item V.Q - IRRETROATIVIDADE COMO PARÂMETRO ADOTADO
PELO DIREITO INTERNACIONAL, sustenta que o princípio da irretroatividade não é
apenas um pilar do direito interno brasileiro, mas também um parâmetro consolidado
no Direito Internacional, sendo previsto em diversos tratados e declarações.
Narra que, dentre esses instrumentos, destaca-se o artigo 11 da
Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948), segundo o qual ninguém pode ser
condenado por ato que, à época, não era considerado crime, nem receber pena mais
grave que a prevista no momento do fato. O Estatuto de Roma, que institui o Tribunal
Penal Internacional, também limita sua aplicação a crimes cometidos após sua entrada
em vigor, reafirmando esse princípio no artigo 24.
A mesma lógica está na Convenção Americana sobre Direitos
Humanos (1969) e no Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos (1966), ambos
ratificados pelo Brasil apenas em 1992, ou seja, após os fatos indicados na inicial
(ocorridos até 1986). Esses tratados confirmam que não se pode aplicar
retroativamente normas penais ou sanções mais gravosas.
A inicial menciona normas internacionais como a Declaração de
1948, as Convenções 29 e 105 da OIT, o Estatuto de Roma, e os tratados acima
mencionados. No entanto, a defesa ressalta que a Declaração de 1948 é um
instrumento de soft law, sem força vinculante direta; As Convenções da OIT, embora
ratificadas, não definiam à época os elementos específicos do trabalho análogo ao de
escravo, conforme passou a constar apenas em 2003 no ordenamento brasileiro; O
Estatuto de Roma e demais tratados não se aplicam aos fatos anteriores à sua vigência,
nem afastam a prescrição.
Conclui, portanto, que não há respaldo jurídico para aplicar
retroativamente normas internacionais a atos praticados até 1986, e que tais normas
não geravam obrigações jurídicas para entes privados brasileiros antes de sua
ratificação.
Analiso.
A escravidão constitui um “passado presente”, pois suas marcas
permanecem na sociedade brasileira, sobretudo nas relações de trabalho. A violência
do sistema escravista, praticado entre os séculos XVI e XIX, moldou estruturas sociais e
ainda hoje repercute em práticas abusivas de exploração. O resgate dessa memória é
fundamental para compreender a realidade atual e orientar julgamentos com
perspectiva antidiscriminatória, conforme assinalar o Protocolo para Julgamento com
Perspectiva de Combate ao Trabalho Escravo do TST/CSJT.
Documento assinado eletronicamente por OTAVIO BRUNO DA SILVA FERREIRA, em 29/08/2025, às [Link] - dc7fe45
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No caso específico, a Amazônia foi alvo de políticas de
exploração desde o período colonial, mas o processo se intensificou a partir da década
de 1960, especialmente após o Golpe Militar de 1964, quando a região passou a ser
vista como um espaço vazio a ser ocupado em nome da segurança nacional.
Os projetos governamentais, de caráter predominantemente
extrativista e agropecuário, geraram não só desmatamento e degradação ambiental,
mas também impactos sociais e culturais profundos. É neste cenário que se discute a
existência ou não de submissão de trabalhador à condição análoga à de escravo.
A escravidão atual, também chamada de moderna ou
contemporânea, é compreendida como um processo de coisificação do ser humano,
que nega o reconhecimento de sua humanidade e o exercício dos atributos de sua
dignidade e de sua autodeterminação, subjugando-o ao domínio de outrem.
Marcello Ribeiro Silva (2010), em sua dissertação de mestrado
intitulada Trabalho análogo ao de escravo rural no Brasil do século XXI: novos
contornos de um antigo problema, afirma que a escravidão é o exercício, relativamente
a uma pessoa, de um poder ou de um conjunto de poderes que traduzam um direito
de propriedade ou o estado ou condição de um indivíduo sobre o qual se exercem,
total ou parcialmente, os atributos do direito de propriedade, por consequência, toda a
esfera da dignidade da pessoa humana, que se vê aviltada não apenas em sua
liberdade e igualdade, mas em sua própria condição de ser humano.
O conceito de escravidão é fixado pelo estado ou condição de
um indivíduo e pelo exercício de algum dos atributos do direito de propriedade,
entendendo-se propriedade como demonstração de controle de uma pessoa sobre a
outra. Um ato de escravidão ou suas práticas análogas restará caracterizado quando o
nível de controle sobre a outra pessoa abranja a perda da vontade ou a diminuição
considerável da autonomia. (Corte IDH. Caso dos Trabalhadores da Fazenda Brasil
Verde vs. Brasil. Exceções preliminares, mérito, reparações e custas. Sentença de 20 de
outubro de 2016. Série C, No. 318, p. 269-273)
O estado ou a condição de um indivíduo refere-se tanto a uma
situação jurídica como a uma situação fática, isto é, é dispensável um documento
formal ou uma norma jurídica para comprovação do fenômeno. Existe uma estreita
relação entre as distintas práticas abusivas conceituadas como escravidão. A inter-
relação entre estas condutas pressupõe que um mesmo fato pode ser qualificado sob
distintos conceitos e que, em nenhum caso, são excludentes entre si. (Corte IDH. Caso
dos Trabalhadores da Fazenda Brasil Verde vs. Brasil. Exceções preliminares, mérito,
reparações e custas. Sentença de 20 de outubro de 2016. Série C, No. 318, p. 270)
Documento assinado eletronicamente por OTAVIO BRUNO DA SILVA FERREIRA, em 29/08/2025, às [Link] - dc7fe45
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Além disso, o exercício dos atributos da propriedade deve ser
entendido como o controle exercido sobre um indivíduo, que lhe restrinja ou prive,
significativamente, a liberdade, com intenção de exploração mediante o uso, a gestão,
o benefício, a transferência ou o despojar-se de uma pessoa. (Corte IDH. Caso dos
Trabalhadores da Fazenda Brasil Verde vs. Brasil. Exceções preliminares, mérito,
reparações e custas. Sentença de 20 de outubro de 2016. Série C, No. 318, p. 271)
Para a Corte Interamericana de Direitos Humanos, conforme
parâmetros fixados no caso dos Trabalhadores da Fazenda Brasil Verde, consideram-se
como elementos que identificam um ato como escravidão: (1) restrição ou controle da
autonomia individual; (2) perda ou restrição da liberdade de locomoção de uma
pessoa; (3) obtenção de um proveito por parte do perpetrador; (4) ausência de
consentimento ou de livre arbítrio da vítima, ou sua impossibilidade ou irrelevância
decorrente da ameaça de uso de violência ou de outras formas de coerção, temor,
engano e falsas promessas; (5) uso de violência física ou psicológica; (6) posição de
vulnerabilidade da vítima; (7) detenção ou cativeiro; e/ou (8) exploração (Corte IDH.
Caso dos Trabalhadores da Fazenda Brasil Verde vs. Brasil. Exceções preliminares,
mérito, reparações e custas. Sentença de 20 de outubro de 2016. Série C, No. 318, p.
272)
Dito de outro modo, como já reconheceu a Corte Interamericana
de Direitos Humanos em diversas ocasiões, são inadmissíveis a incidência de
disposições que, a exemplo da prescrição, pretendem impedir a investigação e
eventual punição dos responsáveis por graves violações de direitos humanos proibidas
por violar direitos inderrogáveis reconhecidos pelo direito internacional dos direitos
humanos (Corte IDH. Caso Gomes Lund e outros (Guerrilha do Araguaia) vs. Brasil.
Exceções Preliminares, Mérito, Reparações e Custas. 24 de novembro de 2010. Serie C,
nº 219, p. 171) (Corte IDH. Caso dos Trabalhadores da Fazenda Brasil Verde vs. Brasil.
Exceções preliminares, mérito, reparações e custas. Sentença de 20 de outubro de
2016. Série C, No. 318, p. 412-413 e 453-454)
Luciana Conforti (2022, p. 123), ao analisar o entendimento da
posição da Corte Interamericana de Direitos Humanos, identifica que aquele órgão
asseverou a constatação de que uma situação de escravidão representa uma restrição
substantiva da personalidade jurídica do ser humano, que pode representar violação à
integridade pessoal, à liberdade pessoal e/ou à dignidade, entre outros direitos.
Sustenta, por isso, que o conceito de escravidão evoluiu apontando dois elementos
caracterizadores: o estado ou condição de um indivíduo e o exercício de alguns dos
atributos do direito de propriedade, isto é, que o escravizador exerça poder ou
controle sobre a pessoa escravizada a ponto de anular a personalidade da vítima, com
a perda da sua autonomia individual.
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Por certo, não se trata de toda e qualquer espécie de
subordinação, mas aquela exploração extrema de seres humanos juridicamente livres,
mas faticamente subjugados, que atenta contra a sua condição de pessoa. Para isso, a
análise do grau de domínio e de sujeição que o tomador do serviço impõe ao
trabalhador é fundamental (BRITO FILHO, 2018).
Nesse contexto, importante o apontamento feito por Kátia
Magalhães Arruda e Daniela Arruda de Sousa Mohana, no artigo intitulado Trabalho
Escravo como Usurpação dos Direitos Fundamentais: da degradação do trabalho à
tipificação penal, publicado na obra Justiça do Trabalho e a erradicação do trabalho
forçado, da Escravidão de qualquer natureza e do Tráfico de Pessoas: Estudos ENAMAT:
volume 4, em junho 2023, sobre a distinção, pela doutrina, dos conceitos de igualdade
e equidade no âmbito do trabalho digno, ressaltando que o Estado deve garantir
ambos. Para elas, enquanto a igualdade parte da premissa de que todos os indivíduos
se encontram no mesmo ponto de partida, a equidade relaciona-se ao dever estatal de
assegurar condições e oportunidades adequadas a pessoas em situações distintas.
Essa diferenciação evidencia a necessidade de preservar condições de trabalho
compatíveis com a dignidade humana, independentemente da classe social ou
econômica do trabalhador. Exemplos de violações desse princípio podem ser
identificados na exploração de trabalhadores rurais sem acesso a saneamento básico,
submetidos a alojamentos insalubres e alimentação inadequada, ou ainda na
contratação de migrantes e refugiados em situação de vulnerabilidade por
determinadas empresas, especialmente do setor de confecção, que os submetem a
jornadas exaustivas, ambientes precários e perigosos.
Na mesma obra, com bastante propriedade, a fim de afastar
qualquer afirmativa de que o trabalho no meio rural pode oferecer condições
inferiores de dignidade ao ser humano, afirmam:
Nesse sentido, não se deve, de forma
exemplificativa, considerar que um trabalhador, que vive em uma
realidade rural, sem saneamento básico, seja submetido a um trabalho
desprovido dos direitos básicos de dignidade, tais como, alojamento
salubre e limpo, alimentação saudável e higiênica. Trabalhar com
animais, então, não permite que os seres humanos possam ser alojados
em currais, pocilgas ou aviários, da mesma forma a alimentação dos
seres humanos não poder ser a mesma dirigida a esses animais (2023,
p. 23). Há aqui a necessidade de que o trabalho promova a real e efetiva
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melhoria das condições de vida do trabalhador, nos termos do caput do
art. 7º da CRFB/88, e que a empresa cumpra sua função social (art. 170).
(ARRUDA; MOHANA, 2023)
No campo normativo, o art. 149 do Código Penal Brasileiro
(BRASIL, 1940), com a redação dada pela Lei nº 10.803, de 11 de dezembro de 2003,
disciplina a matéria.
Sobre o citado dispositivo, a despeito de estar situado no
capítulo VI – Dos crimes contra a liberdade individual, na seção I, que trata dos crimes
contra a liberdade pessoal, o bem jurídico tutelado não é apenas a liberdade de
locomoção, embora a violação à liberdade ampla esteja sempre presente na hipótese
de cometimento de alguma das espécies previstas no tipo penal. Trata-se, de fato, de
violação a vários direitos, dentre eles, à saúde, à vida e à segurança do trabalhador,
todos direcionados à garantia de sua dignidade.
O ordenamento jurídico brasileiro tutela a dignidade da pessoa
trabalhadora, não apenas a dignidade como tutelável, mas a compreende como o bem
maior a ser protegido, com o objetivo de impedir formas extremas de exploração que,
embora recaiam sobre indivíduos juridicamente livres, os colocam em situação de
sujeição tão intensa que afronta sua própria condição de ser humano.
Considerando a redação atual do tipo penal, entende-se que a
condição análoga à de escravo caracterizar-se-á na ocorrência de uma das seguintes
hipóteses: a) trabalho forçado; b) trabalho com jornada exaustiva; c) trabalho em
condição degradante; d) trabalho com restrição de locomoção em razão de dívida; e)
retenção do trabalhador no local de trabalho em virtude de cerceamento do uso de
qualquer meio de transporte; f) retenção do trabalhador no local de trabalho em
virtude do apoderamento de seus documentos ou objetos pessoais e; g) vigilância
ostensiva.
O critério central para a configuração do crime previsto no art.
149 do Código Penal é a análise do grau de domínio e de submissão imposta pelo
empregador ou tomador de serviços. Dentro dessa lógica, o legislador definiu
hipóteses específicas de escravidão contemporânea, cada uma delas ligada à
modalidades de restrição de liberdade e afronta à dignidade.
A existência de um rol analítico de condutas auxilia na
identificação e no enquadramento das práticas que são investigadas, orientando o
trabalho dos responsáveis pelas investigações, autuações e ações cabíveis.
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A primeira hipótese é o trabalho forçado, conceito originário da
OIT. Ele ocorre quando alguém é levado ou mantido em uma atividade sem
consentimento real, sob coerção física, psicológica, econômica ou mediante fraude.
Embora o imaginário social ainda associe a pessoa escravizada
ao indivíduo conduzido pela força bruta, a legislação brasileira ampliou essa noção,
reconhecendo que muitos trabalhadores, por necessidade ou engano, aceitam
empregos cujas condições não podem posteriormente abandonar. Nesse contexto, o
consentimento inicial perde relevância se obtido por fraude, ameaça ou engano.
O Tribunal Europeu de Direitos Humanos – TEDH, no Caso
Chowdury and Others v. Greece, julgado em 30.03.2017, decidiu que quando um
empregador abusa do poder ou da vulnerabilidade dos empregados, não há que se
falar em voluntariedade. Essa forma de exploração é marcada por violência explícita ou
por pressões sutis, como retenção de documentos, dívidas artificiais ou jornadas
impossíveis, que suprimem a liberdade de ir e vir e de decidir sobre o próprio trabalho.
Nas últimas décadas, a OIT ampliou esse conceito para abranger
formas “modernas” de coerção, muitas vezes sutis, mas igualmente violentas, que
negam não apenas a liberdade, mas também a dignidade do trabalhador.
Importa destacar que a indignidade laboral pode estar presente
mesmo quando não há restrição explícita da liberdade. Em razão da vulnerabilidade
socioeconômica, inúmeros trabalhadores permanecem em relações abusivas porque
não encontram alternativas viáveis de subsistência. Assim, a escravidão
contemporânea pode se caracterizar mesmo sem a imposição direta da força.
A Instrução Normativa MTP nº 2/2021 elenca como indicadores
de trabalho forçado: tráfico de pessoas; recrutamento mediante fraude ou ameaça;
retenção em locais isolados; exploração da vulnerabilidade; sistemas de pagamento
abusivos; jornadas incompatíveis com a saúde; e retenção salarial, entre outros.
Outra hipótese é a jornada exaustiva, caracterizada pelo excesso
de horas ou pela intensidade do esforço exigido, de forma a comprometer a saúde e a
vida da pessoa trabalhadora. A Constituição limita a jornada a oito horas diárias e 44
semanais, admitindo horas extras apenas em hipóteses restritas. Quando o
empregador impõe esforços além da capacidade psicofísica, sem pausas, intervalos ou
condições mínimas de descanso, instala-se a escravidão por exaustão.
Essa prática vai além da mera infração trabalhista, pois consiste
em transformar o ser humano em peça de engrenagem, anulando sua recuperação
física e mental e reduzindo-o a condição subumana.
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A Instrução Normativa MTP nº 2/2021 elenca como indicadores
de jornada exaustiva: realização habitual de horas extras além do limite legal, a
ausência de descanso semanal ou de intervalos durante e entre jornadas, a não
concessão de férias, a inobservância de pausas previstas em lei e a restrição ao uso de
sanitários. Também se enquadram nesse contexto atividades que imponham
sobrecarga física ou mental, ritmo excessivo, condições não ergonômicas, insalubres,
perigosas ou penosas, sobretudo quando associadas a pagamento por produção, bem
como a extrapolação reiterada da jornada nessas condições.
Por sua vez, o trabalho em condições degradantes é marcado
pela negação de direitos mínimos de saúde, segurança, alimentação, alojamento e
higiene. A ausência de água potável, banheiros, moradias adequadas e registro formal
de contrato são exemplos recorrentes.
Para Luis Antônio Camargo de Melo, na obra intitulada As
atribuições do Ministério Público do Trabalho na prevenção e no enfrentamento ao
trabalho escravo (2004), o trabalho degradante é caracterizado por péssimas condições
de trabalho e de remuneração, como a utilização de trabalhadores intermediados por
gatos ou cooperativas de mão de obra fraudulentas; a utilização de trabalhadores
arregimentados por gatos em outras regiões; a submissão de trabalhadores a precárias
condições de trabalho, pela ausência de boa alimentação e água potável ou pelo seu
fornecimento inadequado; o fornecimento de alojamentos sem as mínimas condições
de habitação e sem instalações sanitárias; a cobrança pelos instrumentos necessários à
prestação dos serviços e pelos equipamentos de proteção individuais, como chapéus,
botas, luvas, caneleiras, etc.; o não fornecimento de materiais de primeiros socorros; o
fornecimento de transporte inseguro e inadequado aos trabalhadores; e o
descumprimento generalizado da legislação de proteção ao trabalho, como a ausência
de registro do contrato na CTPS, a não realização de exames médicos admissionais e
demissionais e o não pagamento de salário ao empregado.
No mesmo sentido, Denise Lapolla de Paula Aguiar Andrade, na
obra intitulada A servidão por dívidas e o princípio da dignidade humana (2006)
entende que o trabalho degradante é aquele que priva o trabalhador de sua dignidade,
que o despreza como sujeito de direitos, que o rebaixa e deteriora sua saúde,
desenvolvido sob péssimas condições e com remuneração incompatível, sem garantias
mínimas à sua segurança e saúde e com limitação à alimentação e moradia.
Com base nos entendimentos acima, identifica-se que o
trabalho em condições degradantes é caracterizado pela ausência de direitos mínimos
relacionados à saúde e à segurança do trabalhador, com exposição de sua integridade
física e psíquica, bem como pela inexistência de um rol mínimo de direitos, como
alojamento, água e alimentação adequada, não pagamento de salários, submissão a
tratamentos desumanos, todos praticados com clara violação de sua dignidade.
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A Instrução Normativa MTP nº 2/2021 elenca como indicadores
das condições degradantes de trabalho: falta de acesso à água potável e higiênica, à
moradia ou alojamento adequados, bem como pela ausência de instalações sanitárias,
locais apropriados para preparo e consumo de refeições e medidas básicas de saúde e
segurança. Também caracterizam esse cenário a exposição a riscos graves, a
precariedade ou inexistência de camas, colchões ou redes, além da convivência forçada
em espaços coletivos sem privacidade. Do ponto de vista remuneratório, incluem-se
práticas como atraso ou retenção de salários, pagamento com substâncias nocivas,
remuneração inferior ao mínimo legal ou pactuada e sistemas que transferem ao
trabalhador os riscos da atividade. Por fim, a ocorrência de agressões físicas, morais ou
sexuais no ambiente laboral reforça o enquadramento dessas situações como
violações graves da dignidade humana.
Por sua vez, a servidão por dívida ocorre quando a pessoa é
obrigada a contrair débitos junto ao empregador, impossibilitando-a de deixar o
trabalho. Os exemplos incluem o custeio de deslocamento do trabalhador ao local de
trabalho, a compra de ferramentas de trabalho e objetos de necessidades básicas em
um mercado instituído pelo próprio empregador com preços exorbitantes, o custeio da
permanência no local de trabalho pelo empregado, adiantamentos prévios à
contratação ou que são realizados no curso do contrato, descontos ilegais e retenção
de verbas rescisórias. O resultado é um ciclo vicioso que aprisiona o trabalhador a uma
dívida impagável.
O art. 149 do CPB também prevê situações equiparadas ao
trabalho escravo, como retenção de documentos pessoais, vigilância ostensiva ou
restrição ao transporte, quando essas medidas têm por finalidade manter o
trabalhador no local de serviço.
Especificamente sobre a vigilância ostensiva no local de
trabalho, entendo que sua caracterização não se sujeita ao subjetivismo do trabalhador
de se sentir ameaçado ou não.
Trata-se de conduta de aferição concreta a partir dos elementos
existentes no local de trabalho, especialmente a existência de armas e a sua utilização
habitual pelo empregador/ prepostos durante as atividades cotidianas. Se o contexto
permite aferir a existência da ostensividade da vigilância, a declaração de ausência de
ameaça pelo empregado, especialmente quando declarada na presença do
empregador, premido pelo risco a sua vida ou até mesmo pela naturalização da
situação de risco, não tem o condão de afastar a caracterização da hipótese de
vigilância ostensiva.
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Além disso, a legislação tipifica circunstâncias qualificadas que
agravam a pena quando o crime de redução à condição análoga à de escravo é
praticado contra crianças e adolescentes, ou quando motivado por fatores
discriminatórios, como raça, cor, etnia, religião ou origem. Tais hipóteses revelam a
íntima relação entre exploração laboral e discriminação estrutural, evidenciando que a
escravização contemporânea não é fenômeno neutro, mas se apoia em hierarquias
sociais historicamente construídas. A seletividade dessas práticas reforça estigmas que
atribuem a determinados grupos - notadamente populações racializadas, povos
indígenas, migrantes e pessoas em situação de vulnerabilidade socioeconômica - uma
suposta “vocação” para o trabalho escravo.
Essa lógica dá continuidade a padrões coloniais de dominação,
nos quais a exploração econômica se sustentava justamente na desvalorização de
certos corpos e identidades. Ao prever qualificadoras específicas, a lei não apenas
reconhece a gravidade do crime, mas também denuncia o caráter interseccional da
violência, que combina a opressão laboral com a marginalização social. Assim, tais
dispositivos cumprem função simbólica e prática, pois expõem a persistência de
desigualdades estruturais e reforçam o dever do Estado de adotar políticas de proteção
que rompam com a herança histórica de exclusão e naturalização da exploração.
No julgamento do Caso Empregados da Fábrica de Fogos de
Santo Antônio de Jesus e seus Familiares versus Brasil (2020), a Corte Interamericana
de Direitos Humanos enfrentou de maneira expressa a questão da interseccionalidade,
reconhecendo que as vítimas não eram apenas trabalhadores em situação de
vulnerabilidade socioeconômica, mas também crianças, adolescentes, mulheres e
pessoas negras, inseridas em um contexto de pobreza estrutural e exclusão social. A
Corte destacou que as violações não poderiam ser compreendidas de forma isolada,
pois resultavam da combinação de múltiplos fatores de discriminação, que se
entrecruzaram para aumentar a exposição das vítimas ao risco e agravar as
consequências da tragédia.
O Tribunal salientou que a exploração laboral ocorria em um
ambiente marcado pela negligência do Estado em adotar medidas de proteção
específicas, capazes de responder à realidade das vítimas em sua complexidade. Assim,
a Corte reforçou a necessidade de o Brasil incorporar, em suas políticas públicas e na
atuação estatal, uma perspectiva interseccional, capaz de considerar como gênero,
raça, idade e condição socioeconômica se articulam para reproduzir situações de
desigualdade e violação de direitos humanos.
Ao adotar essa abordagem, a decisão representou um marco no
reconhecimento de que a proteção dos direitos trabalhistas e da infância, em
contextos de exploração, exige enfrentar não apenas a vulnerabilidade econômica, mas
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também as formas históricas e estruturais de discriminação que atingem grupos
sociais específicos.
Essas colocações são importantes pois as pessoas submetidas à
condição análoga à de escravo, em especial as resgatadas, apresentam um perfil
marcado pela extrema vulnerabilidade socioeconômica: em sua maioria, são homens
jovens, com baixa escolaridade (muitos analfabetos ou com ensino fundamental
incompleto), originários de municípios de “muito baixo” Índice de Desenvolvimento
Humano Municipal (IDH-M), onde mais de um terço dos moradores não concluiu o
ensino fundamental, conforme informações disponíveis na plataforma SmartLab, no
Observatório da Erradicação do Trabalho Escravo e do Tráfico de Pessoas
([Link]
dimensao=perfilCasosTrabalhoEscravo)
Esses locais frequentemente combinam pobreza, desigualdade,
escasso mercado formal de trabalho e proximidade com regiões de expansão
econômica rápida, fatores que facilitam o aliciamento por redes de exploração laboral
e o tráfico de pessoas. Ademais, mulheres e grupos racializados (pretas ou pardas)
também estão entre as vítimas, embora os dados indiquem subnotificação destes
grupos.
No mesmo sentido, a Corte Interamericana de Direitos
Humanos (Corte IDH), no Caso Trabalhadores da Fazenda Brasil Verde vs. Brasil (2016),
afirmou que a escravidão contemporânea frequentemente recai sobre grupos
vulneráveis e historicamente marginalizados, como trabalhadores rurais migrantes e
pessoas em extrema pobreza. Para a Corte, a exploração desses grupos é expressão de
discriminação estrutural, que exige resposta reforçada do Estado.
Portanto, a previsão de qualificadoras no crime de escravidão
contemporânea traduz o reconhecimento de que a exploração do trabalho, no Brasil e
no continente, não pode ser dissociada da discriminação racial, étnica, social e cultural.
A hermenêutica constitucional e convencional impõe ao julgador o dever de enxergar
tais práticas como manifestações de violência interseccional, exigindo respostas
estatais eficazes para romper com séculos de exclusão e assegurar a plena efetividade
da dignidade humana.
Retomando a discussão conceitual, a escravidão contemporânea
não se resume à ausência de liberdade formal, mas se estrutura em práticas que
negam a dignidade, exploram vulnerabilidades e naturalizam a subjugação de grupos
específicos, mantendo viva a herança de exclusão social e econômica.
Sobre o assunto, a Ministra Rosa Weber, na emblemática
decisão proferida no Inquérito 3.412, discorreu:
Documento assinado eletronicamente por OTAVIO BRUNO DA SILVA FERREIRA, em 29/08/2025, às [Link] - dc7fe45
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A “escravidão moderna” é mais sutil do que a do
século 19 e o cerceamento à liberdade pode decorrer de diversos
constrangimentos econômicos e não necessariamente físicos. Priva-se
alguém de sua liberdade e de sua dignidade tratando-o como coisa, e
não como pessoa humana, o que pode ser feito não só mediante
coação, mas também pela violação intensa e persistente de seus
direitos básicos, inclusive do direito ao trabalho digno. A violação do
direito ao trabalho digno impacta a capacidade da vítima de realizar
escolhas segundo a sua livre determinação. Isso também significa
"reduzir alguém a condição análoga à de escravo". [Inq 3.412, rel. min.
Marco Aurélio, red. do ac. min. Rosa Weber, j. 29-3-2012, P, DJE de 12-11-
2012.] (negrito nosso)
Sobre a capacidade para realizar escolhas, não há como ignorar
os ensinamentos de Amartya Sen, em especial os contidos em sua obra Desigualdade
reexaminada (2017). Para ele, uma saída para a caracterização da liberdade é a análise
da forma de conjuntos alternativos de realizações que temos o poder de realizar.
Sen (2017) explica que os funcionamentos são constitutivos do
estado de uma pessoa, e uma avaliação do bem-estar tem de assumir a forma de uma
apreciação desses elementos constituintes. Destaca, ainda, que relacionada
intimamente à noção de funcionamento está a de capacidade para realizar
funcionamentos, a qual representa as várias combinações de funcionamentos que uma
pessoa pode realizar.
Pontualmente, Sen (2017, p. 80) afirma que a “capacidade é,
portanto, um conjunto de vetores de funcionamentos, refletindo a liberdade da pessoa
para levar um tipo de vida ou outro”, repercutindo, portanto, na relação que o conjunto
capacitário reflete, no espaço de funcionamentos, a liberdade da pessoa para escolher
dentre vidas possíveis.
Na teoria de justiça distributiva de Sen, para a avaliação do bem-
estar, os objetos-valor são os funcionamentos e as capacidades. A capacidade é
principalmente um reflexo da liberdade para realizar funcionamentos valiosos. Ela se
concentra diretamente sobre a liberdade como tal e não sobre os meios para a realizar,
e identifica as alternativas reais que os indivíduos possuem. Neste sentido, ela pode ser
lida como um reflexo da liberdade substantiva, de modo que na medida em que os
funcionamentos são constitutivos do bem estar, a capacidade representa a liberdade
de uma pessoa para realizar bem-estar.
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Nota-se, portanto, a existência de uma teoria que analisa a
desigualdade e, por consequência, a justiça distributiva em uma dada sociedade, a
partir das capacidades de que dispõem os seus membros para fazer e buscar fazer
aquilo que entendem como objetivos de vida. O foco nas capacidades tem a
importância de permitir a análise de outras variáveis relacionadas à própria
diversidade humana, que não pode ser ignorada se, efetivamente, o objetivo é analisar,
no mundo fático, a existência de desigualdade e de injustiça.
A reflexão de Amartya Sen sobre capacidades e funcionamentos
articula-se diretamente à ideia de que a violação do direito ao trabalho digno
compromete a possibilidade de o indivíduo realizar escolhas segundo sua livre
determinação.
Ao restringir ou anular as alternativas reais que uma pessoa
possui para construir sua vida, a exploração laboral retira-lhe a liberdade substantiva
de optar entre diferentes modos de existência, reduzindo-a a uma condição de sujeição.
Nessa perspectiva, a supressão das capacidades - entendidas
como o conjunto de oportunidades concretas de funcionar e viver de maneira digna -
traduz-se em verdadeira redução de alguém à condição análoga à de escravo, pois
subtrai a dimensão fundamental da autonomia humana que está no cerne da noção de
liberdade.
Destaco ainda, conforme aponta o Protocolo para Atuação e
Julgamento com Perspectiva de Enfrentamento do Trabalho Escravo Contemporâneo
da Justiça do Trabalho do TST/CSJT, lançado em agosto/2024, que o trabalho escravo
contemporâneo e a vulnerabilidade dos trabalhadores migrantes resultam de múltiplas
causas, ligadas sobretudo à lógica de redução de custos pela exploração da mão de
obra. Esse fenômeno não pode ser analisado apenas pelo texto do art. 149 do Código
Penal, mas deve ser compreendido em seu contexto social e econômico, que antecede
e sustenta o aliciamento.
Para isso, dois fatores são centrais para explicar sua ocorrência.
Conforme reconheceu a Corte Interamericana de Direitos Humanos no caso Fazenda
Brasil Verde, a miséria é o principal elemento que leva pessoas a aceitar propostas de
trabalho que não lhe assegura um mínimo de dignidade. A vulnerabilidade econômica
torna os trabalhadores presas fáceis dos aliciadores, que se aproveitam da
necessidade de subsistência para submetê-los a condições análogas à escravidão.
A exploração do ser humano é identificada em diversas cadeias
produtivas e/ou empreendimentos, especialmente pelo fato de sua ocorrência estar
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relacionada à precariedade e a pobreza em que vivem milhares de brasileiros e a
exploração desenfreada por mais-valia, com supressão de direitos trabalhistas
mínimos.
Aliado a isso, grande parte dos resgatados se encontra fora de
seu município de origem, em deslocamentos internos ou internacionais. A distância da
rede de apoio e a falta de recursos dificultam o retorno para casa, aumentando a
sujeição ao empregador.
Assim, pobreza e migração aparecem como os principais fatores
estruturantes da escravidão moderna, reforçando a necessidade de uma análise
contextualizada para sua efetiva erradicação.
Além desses fatores, a Corte IDH considerou que, no Brasil,
ainda existem alguns obstáculos para o combate ao trabalho forçado, quais sejam:
a) O Estado Brasileiro enfrentou obstáculos ao
implementar políticas públicas de prevenção, entre outros, em razão da
própria extensão do território nacional, da falta de comunicação e da
desigualdade social, da oposição de setores afetados pela política
nacional de combate ao trabalho escravo, que diversificam suas ações
contrárias a esta política pública;
b) Em 23 de dezembro de 2014, o Supremo
Tribunal Federal suspendeu a lista de empregadores de escravo
descobertos (“Lista Suja”), em razão da ação direta de
inconstitucionalidade nº 5.209, a qual não foi resolvida até o
proferimento da presente Sentença, e
c) Foi indicado que o Poder Executivo encontrou
limitações como a falta de pessoal capacitado, o déficit de auditores
fiscais do trabalho, a falta de equipamento público e redes de atuação
estatal para atender às demandas; a diminuição de órgãos que
integram os Grupos Especiais de Fiscalização Móvel, bem como de
membros da Polícia Federal, para atuarem como polícia judiciária e
logística no combate ao trabalho escravo. ([Link]
/docs/casos/articulos/seriec_318_por.pdf, acessado em 05/09/2024).
No século XXI, apesar da promessa de efetivação de direitos
humanos, a exploração persiste, sobretudo contra trabalhadores vulneráveis. A
Documento assinado eletronicamente por OTAVIO BRUNO DA SILVA FERREIRA, em 29/08/2025, às [Link] - dc7fe45
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caracterização do trabalho análogo ao de escravo envolve reconhecer o limite mínimo
aceitável de condições laborais, sob pena de mera apropriação coercitiva da força de
trabalho.
Nesse cenário, é relevante destacar que a preservação da
dignidade da pessoa deve nortear a conduta de todos, tanto do Estado quanto dos
administrados. Assim, não há como prevalecer a livre iniciativa em face da violação dos
direitos básicos dos trabalhadores. O núcleo essencial de proteção de todo ser
humano deve ser respeitado, a fim de que sejam garantidas condições existenciais
mínimas de vivência, de sobrevivência e de reprodução social.
No campo jurídico, o direito de não ser submetido a condições
análogas à escravidão consolidou-se no século XX, com tratados internacionais e, no
Brasil, pela tipificação do crime no art. 149 do Código Penal. O caso José Pereira, levado
à Comissão Interamericana de Direitos Humanos - CIDH em 2003, foi decisivo para que
o Estado estruturasse políticas públicas de enfrentamento ao trabalho escravo
contemporâneo, como os Planos Nacionais.
Ao longo do século XX, sobretudo após a Primeira Guerra
Mundial, organismos como a Liga das Nações, a OIT e a ONU passaram a estabelecer
tratados que buscavam superar o legado da escravidão e garantir direitos civis,
políticos, sociais, econômicos e culturais a todas as pessoas. Dentre esses
instrumentos, destacam-se:
A Convenção de Genebra sobre Escravatura (1926), dedicada ao
tema da escravidão, e Convenção Suplementar (1956), voltada à abolição da
escravatura, do tráfico de pessoas e de práticas correlatas, que define a escravidão
como a condição em que um indivíduo é submetido, total ou parcialmente, ao exercício
dos poderes inerentes ao direito de propriedade. Nesse contexto, considera-se
“escravo” aquele em tal condição e “pessoa em estado servil” quem se encontra sujeito
a práticas como servidão por dívida, casamento forçado ou trabalho infantil
compulsório.
Em 1930, a Organização Internacional do Trabalho aprovou a
Convenção nº 29, relativa ao Trabalho Forçado, na qual estabeleceu que esse se
caracteriza como “todo trabalho ou serviço exigido de uma pessoa sob a ameaça de
sanção e para o qual ela não se tenha oferecido espontaneamente” (art. 2.1). Com a
evolução histórica e o surgimento de novas modalidades de exploração da mão de
obra, o conceito de trabalho escravo foi ampliado, incorporando outras categorias e
formas de reconhecimento.
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A Declaração Universal de Direitos Humanos, de 1948, dispôs
em seu artigo 4 que “ninguém será mantido em escravidão ou servidão” e que “a
escravidão e o tráfico de escravos serão proibidos em todas as suas formas”.
Já em 1957, a OIT editou a Convenção nº 105, com o propósito
de eliminar o trabalho forçado ou obrigatório em situações específicas, como
instrumento de coerção política, de mobilização econômica, de disciplina laboral, de
repressão a greves ou de discriminação de qualquer natureza.
Em 1966, o Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos
reafirmou, nos artigos 8.1 e 8.2, a proibição da escravidão, da servidão e do tráfico de
pessoas em todas as suas formas. Poucos anos depois, a Convenção Americana de
Direitos Humanos (1969) reforçou essa proteção, consagrando em seu artigo 6º a
proibição da escravidão, da servidão, do trabalho forçado e do tráfico de pessoas. O
mesmo dispositivo detalhou exceções restritas, como o serviço militar, trabalhos
impostos em situações de calamidade pública ou obrigações cívicas usuais, sempre
preservando a dignidade e integridade da pessoa. A Convenção também qualificou
esse direito como inderrogável, não podendo ser suspenso nem mesmo em contextos
de guerra ou estado de emergência (art. 27.2).
Com o objetivo de consolidar uma esfera mínima de proteção, a
OIT aprovou, em 1997, a Declaração sobre Princípios e Direitos Fundamentais no
Trabalho, que impôs a todos os Estados-membros, independentemente de ratificação,
o dever de respeitar e efetivar direitos básicos. Dentre eles, destacou-se a eliminação
do trabalho forçado e da discriminação em matéria de emprego e ocupação.
Posteriormente, em 1999, a OIT aprovou a Convenção nº 182,
voltada à eliminação imediata das piores formas de trabalho infantil, reconhecendo
que estas podem configurar condições análogas à escravidão. Em 2014, a organização
reforçou esses compromissos com a adoção do Protocolo relativo à Convenção nº 29,
sublinhando que o trabalho forçado constitui violação grave dos direitos humanos e
obstáculo ao desenvolvimento sustentável.
Já o Estatuto de Roma do Tribunal Penal Internacional (1998)
incluiu a escravidão e a escravidão sexual como crimes contra a humanidade, definindo
a escravidão como o exercício de poderes semelhantes aos de propriedade sobre uma
pessoa, inclusive no tráfico de seres humanos, em especial mulheres e crianças. O
Estatuto também estabeleceu, no artigo 29, a imprescritibilidade dos crimes de sua
competência, sem admitir reservas, compromisso reforçado pelo ordenamento
brasileiro após a Emenda Constitucional nº 45/2004, que reconheceu expressamente a
submissão do país à jurisdição do Tribunal Penal Internacional (art. 5º, §4º, CF).
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A vedação à escravidão constitui obrigação internacional de
caráter erga omnes, impondo-se de forma incondicional a todos os Estados, por
derivar de normas internacionais voltadas à tutela dos direitos humanos. Esse tipo de
obrigação é qualificado como erga omnes justamente porque resguarda valores
fundamentais para toda a comunidade internacional, conferindo a qualquer Estado o
direito de exigir seu cumprimento (RAMOS, André de Carvalho. Processo Internacional
de Direitos Humanos, 6. ed., São Paulo: Saraiva, 2019, p. 51).
O conceito foi consolidado pela Corte Internacional de Justiça no
julgamento do Caso Barcelona Traction, ocasião em que se afirmou que apenas os
deveres destinados à proteção de valores essenciais da coletividade internacional
poderiam ser assim classificados. Nesse precedente, a Corte reconheceu como
exemplos de obrigações erga omnes a proibição da agressão entre Estados, do
genocídio, das práticas de discriminação racial e da escravidão, por representarem
violações a princípios e regras elementares do Direito Internacional contemporâneo
(RAMOS, André de Carvalho. Processo Internacional de Direitos Humanos, 6. ed., São
Paulo: Saraiva, 2019, p. 53).
A partir da evolução do conceito de escravidão no âmbito do
direito internacional, nota-se que a definição contida no artigo 6º da Convenção
Americana sobre Direitos Humanos - fundamento central do sistema interamericano -
ultrapassa a noção restrita de domínio ou propriedade sobre o indivíduo. A
interpretação consolidada pela jurisprudência internacional ampliou esse
entendimento, de modo a abarcar também as manifestações contemporâneas e
concretas de escravidão.
Acompanhando esse entendimento, aponto que os tratados de
direitos humanos possuem caráter dinâmico, devendo ser interpretados à luz das
transformações históricas e das condições de vida contemporâneas. Para tanto, a
interpretação deve harmonizar a boa-fé, o sentido comum das expressões utilizadas,
bem como o contexto, a finalidade e os objetivos do tratado, em conformidade com as
regras hermenêuticas previstas no artigo 29 da Convenção Americana de Direitos
Humanos e nos artigos 31 e 32 da Convenção de Viena sobre o Direito dos Tratados.
No Caso Fazenda Brasil Verde vs. Brasil (2016), a Corte IDH
estabeleceu que: o trabalho escravo contemporâneo configura grave violação de
direitos humanos; tais violações são imprescritíveis, porque reconhecer a prescrição
significaria impedir a investigação, a responsabilização e a reparação das vítimas; as
decisões da Corte possuem caráter vinculante, não só em sua parte dispositiva, mas
também em sua fundamentação (ratio decidendi). A partir desse parâmetro, o Poder
Judiciário deve realizar controle de convencionalidade, harmonizando a legislação
interna com os tratados internacionais de direitos humanos ratificados pelo Brasil.
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O controle de convencionalidade consiste em verificar a
compatibilidade da legislação e das práticas internas com os tratados de direitos
humanos ratificados pelo Brasil. Ele é exercido pelo Poder Judiciário no julgamento de
casos concretos e deve ser realizado independentemente da época em que os fatos
tenham ocorrido, pois a interpretação da norma convencional é orientada pela
jurisprudência da Corte Interamericana de Direitos Humanos (CIDH).
Tal obrigação foi reafirmada pelo Conselho Nacional de Justiça
por meio da Recomendação nº 123/2022, que orienta os tribunais a observarem não
apenas a parte dispositiva, mas também os fundamentos (ratio decidendi) das decisões
da Corte Interamericana.
No plano propriamente interno, a Constituição da República de
1988 consagrou a dignidade da pessoa humana como fundamento da ordem jurídica
(art. 1º, III) e estabeleceu a prevalência dos direitos humanos como princípio das
relações internacionais do Brasil (art. 4º, II). Nesse contexto, o Poder Judiciário
brasileiro encontra-se vinculado à realização do controle de convencionalidade,
consistente na análise da compatibilidade da legislação interna com os tratados
internacionais de direitos humanos ratificados pelo Estado brasileiro e em vigor no
plano doméstico.
Tal obrigação não é apenas teórica, mas decorre da própria
adesão soberana do Brasil ao Sistema Interamericano de Direitos Humanos, que
reconheceu a competência jurisdicional da Corte Interamericana de Direitos Humanos
(CIDH) para interpretar e aplicar a Convenção Americana sobre Direitos Humanos.
Desse modo, as decisões proferidas pela Corte possuem efeito
vinculante, não apenas em relação à parte dispositiva, mas também quanto aos
fundamentos jurídicos (ratio decidendi) que as sustentam, os quais constituem
verdadeira norma de interpretação obrigatória para os tribunais nacionais.
A exploração do trabalho em condições análogas à escravidão
constitui grave violação de direitos humanos, proibida por normas de caráter jus
cogens, insuscetíveis de relativização ou afastamento por ato estatal. Assim, o Brasil
tem dever jurídico internacional de investigar, punir e reparar tais violações, conforme
reiteradamente reconhecido pela Corte Interamericana de Direitos Humanos (CIDH),
especialmente no caso Fazenda Brasil Verde.
Assim, a ratio decidendi adotada pela Corte deve, portanto,
orientar o julgamento de casos análogos, ainda que referentes a fatos ocorridos em
décadas anteriores, como os verificados nos anos de 1974 a 1982.
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A par dessas noções, antes mesmo da decisão da Corte IDH, no
plano nacional, já havia proibição da escravidão e práticas correlatas. Explico:
O Brasil era membro da OIT desde 1919, e ratificou convenções
relevantes sobre trabalho forçado (como a Convenção nº 29, em 1957).
O direito de não ser submetido ao trabalho forçado ou
obrigatório é fundamental para a realização da justiça social e está relacionado a
outros direitos e liberdades. Além disso, é um direito de grande importância para a
proteção de grupos vulneráveis, como as crianças, contra a exploração, a escravidão e
a mercantilização.
A liberdade em relação ao trabalho forçado ou obrigatório é um
pilar fundamental do conceito de trabalho decente e um dos direitos humanos mais
básicos reconhecidos pela Organização Internacional do Trabalho (OIT). As duas
convenções fundamentais da OIT sobre o tema - as Convenções nº 29 e 105 - são as
mais amplamente ratificadas entre todos os instrumentos da OIT. Assim, a proibição do
uso de trabalho forçado ou obrigatório em todas as suas formas é considerada
atualmente uma norma peremptória do direito internacional em matéria de direitos
humanos; sua natureza vinculante não admite qualquer exceção.
Nota-se, portanto, que o trabalho forçado ou obrigatório está
atualmente proibido em todo o mundo. Em geral, as garantias de liberdade de trabalho
estão consagradas nas constituições nacionais e muitas vezes são aplicadas por meio
de disposições da legislação penal que punem a violação das liberdades individuais,
podendo ser invocadas para solicitar proteção contra a ingerência ilícita nessas
liberdades, tanto por particulares quanto por autoridades públicas.
Embora as Convenções nº 29 (OIT, 1930) e 105 (OIT, 1957),
ambas da OIT, sobre o trabalho forçado, não tenham disposto especificamente sobre o
trabalho em condições degradantes, o Brasil aprovou várias normas que o proíbem
expressamente. Neste contexto, aponta-se o Pacto Internacional dos Direitos Civis e
Políticos, de 1966 (ONU, 1966), o qual prevê, em seu art. 7º, que ninguém poderá ser
submetido à tortura, nem a penas ou tratamentos cruéis, desumanos ou degradantes.
No mesmo sentido, a Convenção Americana de Direitos Humanos, de 1969 (OEA, 1969),
dispõe, em seu art. 5º, itens 1 e 2, que toda pessoa tem direito a que se respeite sua
integridade física, psíquica e moral e que ninguém deve ser submetido a torturas, nem
a penas ou tratos cruéis, desumanos ou degradantes.
O ponto controvertido diz respeito à possibilidade de exame do
mérito quanto aos fatos ocorridos nas décadas de 1970/80, envolvendo a prática de
trabalho escravo contemporâneo.
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Sobre o assunto, pela análise do arcabouço normativo, identifica-
se que, mesmo à época dos fatos, o ordenamento jurídico interno e internacional já
repudiava o trabalho escravo, de modo que aplicar hoje o controle de
convencionalidade não implica retroatividade proibida, mas sim a atualização
hermenêutica da interpretação, em consonância com a jurisprudência da Corte IDH.
O Brasil, como Estado soberano, assumiu compromissos
internacionais em matéria de direitos humanos desde muito antes dos fatos narrados,
pois é membro fundador da Organização Internacional do Trabalho (OIT, 1919) e
ratificou a Convenção nº 29 da OIT (Trabalho Forçado), em 25/06/1957 (Decreto nº
41.721/1957), que tem tipologia de Convenção fundamental e ostenta, no
ordenamento interno, status supralegal (STF, RE 466.343-1/SP).
A respeito do tema, é relevante conhecer a interpretação
conferida pela própria Organização Internacional do Trabalho - OIT sobre os efeitos e
alcances da norma, a saber, sobre o trabalho forçado, o artigo 2, parágrafo 1, da
Convenção nº 29 define o “trabalho forçado ou obrigatório” como “todo trabalho ou
serviço exigido a um indivíduo sob a ameaça de qualquer pena e para o qual esse
indivíduo não se oferece voluntariamente”. Da expressão “todo trabalho ou serviço”,
decorre que a Convenção se aplica a todo tipo de trabalho, serviço e emprego,
independentemente da indústria ou setor em que ocorra, incluindo o setor informal. As
palavras “um indivíduo” referem-se a todos os seres humanos - adultos e crianças,
nacionais e estrangeiros, incluindo migrantes em situação irregular. As convenções
sobre trabalho forçado, portanto, são aplicáveis a todos os trabalhadores dos setores
público e privado, trabalhadores migrantes, trabalhadores domésticos e trabalhadores
da economia informal. (…) (Fonte: ORGANIZAÇÃO INTERNACIONAL DO TRABALHO.
Giving Globalization a Human Face, 2012, parágrafos 261-2. Texto extraído da base
LaborNexus, disponível em [Link] Acesso em: 25/08/2025)
O oferecimento voluntário refere-se ao consentimento dado
livremente e com conhecimento de causa pelos trabalhadores para integrar uma
relação de emprego, bem como à sua liberdade para renunciar ao emprego a qualquer
momento (por exemplo, mediante um aviso prévio razoável). Uma imposição externa
ou uma coação indireta que restrinja a liberdade de um trabalhador de "oferecer-se
voluntariamente" pode originar-se não apenas de uma decisão das autoridades, como
um instrumento regulamentar, mas também de práticas adotadas por empregadores,
como induzir trabalhadores migrantes ao erro ou fazer falsas promessas, ou obrigá-los
a permanecer à disposição de um empregador.
Quanto à possibilidade de retirar um consentimento dado
livremente para realizar um trabalho ou serviço, a Comissão considerou que, no que
tange à liberdade dos trabalhadores de deixar o emprego, mesmo que este resulte de
um acordo livremente celebrado, o direito dos trabalhadores à livre escolha do
Documento assinado eletronicamente por OTAVIO BRUNO DA SILVA FERREIRA, em 29/08/2025, às [Link] - dc7fe45
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emprego permanece inalienável. Portanto, o efeito de disposições regulamentares que
impeçam a rescisão do emprego de duração indefinida (ou de muito longa duração)
mediante aviso prévio razoável transforma a relação contratual baseada na vontade
das partes em um serviço obrigatório imposto por lei, sendo assim incompatível com a
Convenção. No que diz respeito ao trabalho infantil, surge a questão de determinar se
e em que circunstâncias pode-se considerar que um menor se ofereceu
"voluntariamente" para realizar um trabalho ou serviço, e se para isso é necessário o
consentimento dos pais, ou se tal consentimento pode ser considerado suficiente.
Contudo, o emprego que possa comprometer a saúde, a segurança ou a moralidade é
geralmente proibido para menores de 18 anos, em aplicação das convenções
pertinentes da OIT, de modo que nem os menores nem as pessoas que têm a tutela
sobre eles podem dar um consentimento válido para sua admissão em tais empregos.
(Fonte: ORGANIZAÇÃO INTERNACIONAL DO TRABALHO. Giving Globalization a Human
Face, 2012, parágrafos 268-71. Texto extraído da base LaborNexus, disponível em
[Link] Acesso em: 25/08/2025)
A Comissão observou que, embora o trabalhador tenha,
hipoteticamente, a possibilidade de se recusar a trabalhar por mais horas do que a
jornada normal de trabalho, a vulnerabilidade de sua situação faz com que, na prática,
ele não tenha outra opção senão aceitar esses horários, seja para garantir pelo menos
o salário mínimo, seja para manter seu emprego, ou por ambas as razões. Os
trabalhadores pertencentes aos grupos mais vulneráveis (como os trabalhadores
rurais) geralmente são os mais afetados. Em relação a essas questões, que foram
levantadas em diversas ocasiões perante a Comissão pelas organizações de
trabalhadores, a Comissão considerou que, nos casos em que o trabalho ou serviço
seja imposto, explorando a vulnerabilidade do trabalhador sob a ameaça de
penalidades, demissão ou remuneração inferior ao salário mínimo, tal exploração
transforma a situação caracterizada por más condições de trabalho em uma situação
em que o trabalho é imposto sob ameaça de penalidade e, portanto, deve ser
protegido pela Convenção. (Fonte: ORGANIZAÇÃO INTERNACIONAL DO TRABALHO.
Giving Globalization a Human Face, 2012, parágrafo 292. Texto extraído da base
LaborNexus, disponível em [Link] Acesso em: 25/08/2025)
Além da ratificação da Convenção nº 29, o Brasil também
ratificou a Convenção nº 105 da OIT (Abolição do Trabalho Forçado), em 14/07/1966
(Decreto nº 58.822/1966), que possui tipologia de convenção fundamental e ostenta no
direito interno status supralegal (STF, RE 466.343-1/SP).
A Convenção nº 105 foi elaborada para complementar a
Convenção nº 29. Segundo seu conteúdo, qualquer membro da Organização
Internacional do Trabalho que ratifique a convenção se compromete a suprimir o
trabalho forçado ou obrigatório, e a não recorrer ao mesmo sob forma alguma:
Documento assinado eletronicamente por OTAVIO BRUNO DA SILVA FERREIRA, em 29/08/2025, às [Link] - dc7fe45
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a) como medida de coerção, ou de educação política ou como
sanção dirigida a pessoas que tenham ou exprimam certas opiniões políticas, ou
manifestem sua oposição ideológica, à ordem política, social ou econômica
estabelecida;
b) como método de mobilização e de utilização da mão-de-obra
para fins de desenvolvimento econômico;
c) como medida de disciplina de trabalho;
d) como punição por participação em greves;
e) como medida de discriminação racial, social, nacional ou
religiosa.
Além disso, como medidas adequadas de reparação e
proteção da pessoa submetida ao trabalho forçada, a OIT dispõe que ao ratificar
as convenções sobre trabalho forçado, os Estados ficam simultaneamente sujeitos
a uma obrigação de agir e a um mandato de abster-se. A obrigação de abster-se
consiste em não recorrer, mesmo que a lei o determine, a exigir da população
qualquer trabalho ou serviço que se enquadre na definição de trabalho forçado.
Por outro lado, os Estados têm a obrigação de adotar medidas tanto no plano
legislativo quanto na prática, para garantir que em seu território não seja tolerada
qualquer forma de trabalho forçado.
Nesse sentido, o artigo 25 da Convenção nº 29 estipula que
"o fato de exigir ilegalmente trabalho forçado ou obrigatório será objeto de
sanções penais" e que todo membro que ratifique a presente Convenção "terá a
obrigação de assegurar que as sanções impostas pela lei sejam realmente eficazes
e aplicadas rigorosamente".
Para aplicar rigorosamente sanções penais eficazes contra
quem impõe trabalho forçado, é necessário que se cumpram certos requisitos no
que diz respeito à legislação e ao controle da aplicação da lei. Como explicou a
Comissão de Peritos em seu Estudo Geral de 2007, as autoridades públicas devem
assegurar que “a legislação nacional contenha disposições que prevejam sanções
penais para as práticas de trabalho forçado, e que, na prática, as diferentes
jurisdições possam aplicar com facilidade tais disposições para punir os
infratores”. (Fonte: ORGANIZAÇÃO INTERNACIONAL DO TRABALHO. Giving
Globalization a Human Face, 2012, parágrafos 319-20).
É importante lembrar que as vítimas do trabalho forçado
geralmente pertencem às categorias de trabalhadores mais vulneráveis, razão
pela qual enfrentam dificuldades para denunciar sua situação. Isso é
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particularmente verdadeiro no caso dos trabalhadores migrantes, cuja situação
regular ou irregular no país pode influenciar sua capacidade de buscar ajuda junto
às autoridades competentes. O mesmo pode ser dito em relação aos
trabalhadores domésticos, que frequentemente realizam trabalhos "encobertos" e
podem ter sua liberdade de movimento restrita.
Sobre a reparação, aponta que, considerando os benefícios
gerados pela exploração do trabalho de terceiros, mesmo quando esses
benefícios resultam exclusivamente de uma remuneração insuficiente dos
indivíduos forçados a trabalhar, parece importante que, além de impor sanções
penais, seja exercida pressão econômica sobre os que exploram o trabalho alheio.
Essa pressão econômica pode se manifestar de diversas formas, como, por
exemplo: dificultar a comercialização dos produtos gerados por meio de trabalho
forçado; impedir o acesso a subsídios e recursos públicos; e estabelecer o
pagamento de multas e compensações substanciais.
Forçar os responsáveis pelo trabalho forçado a compensar
os danos causados às vítimas representa uma forma de pressioná-los
financeiramente, tornando a atividade ilícita menos lucrativa, o que, por sua vez,
contribui para desestimular aqueles que possam estar tentados a explorar o
trabalho de terceiros. (Fonte: ORGANIZAÇÃO INTERNACIONAL DO TRABALHO.
Giving Globalization a Human Face, 2012, parágrafos 321-3.)
Em relação à proteção às vítimas, entende que a
compensação pelos danos materiais e morais sofridos permite às vítimas
reconstruir suas vidas fora do contexto de dependência em que viveram. No
entanto, recorrer aos procedimentos previstos para obter indenizações nem
sempre é fácil para as vítimas, uma vez que, em alguns casos, esses
procedimentos exigem a iniciação de ações não apenas penais, mas também civis.
A Comissão registrou, nesse sentido, o exemplo de um país
em que, como resultado da atuação do Ministério do Trabalho, os tribunais
trabalhistas também exigem o reembolso dos atrasos no pagamento de salários e
impõem multas, além do pagamento de indenizações para reparar os danos
sofridos pelas vítimas e os "danos morais coletivos" causados à sociedade.
É de fundamental importância oferecer às vítimas apoio
material e financeiro, a fim de evitar que elas voltem a uma situação de
vulnerabilidade em que possam ser novamente exploradas. Nesse sentido, muitos
países preveem em sua legislação a implementação de programas e medidas de
apoio, bem como a reintegração das vítimas, não apenas no caso da trata de
pessoas, conforme exigido pelo Protocolo de Palermo, mas também em relação a
outras formas de trabalho forçado. A Comissão solicita regularmente aos
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governos que forneçam informações sobre a implementação desses programas,
cuja execução frequentemente encontra obstáculos.
Em conclusão, para erradicar as práticas de trabalho
forçado, é indispensável que a legislação defina com precisão os elementos
constitutivos das práticas a serem reprimidas e que estabeleça sanções penais
verdadeiramente dissuasórias. Além disso, dado que a vulnerabilidade da grande
maioria das vítimas de trabalho forçado afeta sua capacidade de reivindicar seus
direitos, os Estados devem fazer todo o possível para garantir que sejam
fornecidos os recursos necessários aos serviços de inspeção do trabalho, às forças
de segurança pública e às autoridades judiciais, para identificar as práticas de
trabalho forçado, pôr fim a essas práticas, processar os responsáveis, impor
sanções administrativas, penais e econômicas proporcionais à gravidade da
violação e, finalmente, garantir que as vítimas recebam uma compensação pelos
danos sofridos. (Fonte: ORGANIZAÇÃO INTERNACIONAL DO TRABALHO. Giving
Globalization a Human Face, 2012, parágrafos 324-6. Texto extraído da base
LaborNexus, disponível em [Link] Acesso em: 25/08/2025)
Além das convenções citadas, o Código Penal de 1940 já
previa, em seu art. 149, o crime de redução à condição análoga à de escravo,
ainda que em redação mais restrita que a atual. Sobre ele, consta na Exposição de
Motivos da Parte Especial do Código Penal de 1940:
No art. 149, é prevista um entidade criminal
ignorada do Código vigente: o fato de reduzir alguém, por qualquer
meio, à condição análoga à de escravo, isto é, suprimir-lhe, de fato, o
status libertatis, sujeitando-o o seu agente ao seu completo e
discricionário poder. É o crime que os antigos chamavam plagium. Não
é desconhecida a sua prática entre nós, notadamente em certos pontos
remotos do nosso hinteriand. (Código Penal. Exposição de Motivos, em
4 de novembro de 1940. Imprensa Nacional. Rio de Janeiro – 1941).
O trecho acima transcrito revela o alcance histórico e normativo
da tipificação do crime de redução à condição análoga à de escravo, ao destacar que o
legislador buscou dar resposta a uma prática social ainda presente no Brasil, sobretudo
em regiões remotas. A referência ao plagium, expressão de origem romana que
designava a submissão de uma pessoa ao domínio absoluto de outra, evidencia a
gravidade atribuída ao ato de suprimir o status libertatis e sujeitar o trabalhador ao
poder discricionário de seu explorador.
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O alcance desse texto é duplo: por um lado, reconhece que a
escravidão, mesmo após a abolição formal, persistia em formas contemporâneas de
exploração; por outro, demonstra a intenção do legislador de criar um tipo penal
aberto e abrangente, capaz de capturar múltiplas práticas de sujeição que negam a
dignidade humana e a liberdade substantiva. Dessa forma, a Exposição de Motivos
serve como marco interpretativo, reforçando que o art. 149 do Código Penal não se
limita a formas clássicas de escravidão, mas alcança qualquer situação em que a
autonomia do indivíduo seja anulada pela dominação absoluta de outrem.
Ainda sobre o alcance do art. 149 do CP antes da alteração
legislativa ocorrida em 2003, destaco o seguinte entendimento:
O primeiro deles é o trabalho forçado,
aparentemente o mais fácil de definir. Seria assim se, em torno dessa
espécie ou modo de execução não houvesse ocorrido, na mudança da
situação antiga para a nova, no que diz respeito à redação do art. 149,
do Código Penal, alguns equívocos no aspecto conceitual. Até a nova
redação do art. 149, como vimos, a lacônica descrição do ilícito conduzia
ao entendimento, incorreto, de que a redução da pessoa à condição
análoga à de escravo significava exclusivamente uma restrição à
liberdade, não obstante desde a Exposição de Motivos da Parte Especial
do Código, em 1940, já fosse cabível vislumbrar o ilícito em espectro
maior. De qualquer sorte, essa ligação direta e restrita com a falta de
liberdade permitia relacionar o ilícito do art. 149 com o disposto nas
Convenções ns. 29 e 105 da Organização Internacional do Trabalho –
OIT, que tratam do trabalho forçado ou obrigatório.” (BRITO FILHO,
2018, p. 97) (grifo nosso)
A redação anterior do art. 149 do CP previa apenas a hipótese
de “reduzir alguém à condição análoga à de escravo”. Este ilícito, “na perspectiva do
trabalho, era claramente uma espécie da conduta rejeitada pela OIT, com outras, como
o trabalho obrigatório como medida de coerção ou educação política, como se
encontra no art. 1º, a, da Convenção n. 105.” (BRITO FILHO, 2018, p. 98).
O mesmo autor assinala que:
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[…] devemos caracterizar o trabalho forçado como espécie do
crime de reduzir alguém à condição análoga à de escravo a partir dos seguintes
elementos: 1. A existência de uma relação de trabalho entre os sujeitos ativo (tomador
de serviços) e passivo (trabalhador) do ilícito; 2. O fato de o trabalho ser prestado de
forma compulsória, independentemente da vontade do trabalhador, ou com anulação
de sua vontade, por qualquer circunstância que assim o determine (2018, p. 98). Define
o trabalho forçado como “o trabalho que for prestado por trabalhador a tomador de
serviços em caráter obrigatório, quando não decorrer da livre vontade do primeiro, ou
quando a obrigatoriedade for consequência, por qualquer circunstância, da anulação
de sua vontade.” (2018, p. 98) (negrito nosso)
Após reconhecer que o bem jurídico tutelado é a dignidade da
pessoa humana, Brito Filho (2018, p. 90) aponta:
Essa conclusão já podia ser encontrada antes da
alteração do art. 149, quando o tipo penal era apresentado de forma
lacônica. É que não se pode considerar que alguém seja reduzido à
condição análoga à de escravo somente quando ocorre, na forma
tradicional que conhecemos, a perda de sua liberdade pois, para que o
crime se tipifique, o que importa e basta é que a relação de prestação
de serviços entre os sujeitos ativo e passivo seja de tal ordem que o
primeiro passe a ter domínio sobre o segundo, de forma que a vontade
deste seja anulada, ou porque sua vontade foi anulada. (grifo nosso)
Além disso, Bitteconcourt apud Brito Filho (2018, 91) aponta que
“a liberdade protegida pelo art. 149 não se limita à autolocomoção, mas principalmente
procura impedir o estado de sujeição da vítima ao pleno domínio de alguém”, pouco
importando os modos ou meios de execução que, como também ensina o autor citado
“são os mais variados possíveis.”
Finaliza apontando que “o que temos no crime de redução da
pessoa à condição análoga à de escravo é, claramente, a subjugação do ser humano,
que é naturalmente livre, a uma condição que lhe impõe, por outrem, uma relação de
domínio extremado, e que atenta contra a sua condição de pessoa.” (BRITO FILHO,
2018, p. 94)
Do exposto, constata-se que, mesmo antes da alteração
legislativa introduzida pela Lei nº 10.803/2003, o art. 149 do Código Penal já previa, em
sua essência, a criminalização da exploração do ser humano mediante sua subjugação
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ao poder absoluto de outrem. A redação original, ainda que mais concisa, tutelava a
dignidade da pessoa humana e alcançava a situação de trabalho forçado, caracterizada
pela prestação compulsória e pela anulação da vontade do trabalhador.
Conforme registrado pela Exposição de Motivos do Código Penal
de 1940, a figura típica visava coibir justamente a supressão do status libertatis, vale
dizer, a sujeição da vítima ao completo domínio do agente. A doutrina contemporânea,
como a de Brito Filho, reforça que não se pode restringir a noção de escravidão apenas
à privação da liberdade de locomoção, mas, sobretudo, à condição de sujeição da
pessoa a relações de trabalho em que sua autonomia é eliminada.
Dessa forma, é inequívoco que, à época dos fatos narrados nos
presentes autos (décadas de 1970/80), a legislação penal já vedava a referida prática,
reconhecendo como típica a conduta de reduzir trabalhadores à condição análoga à de
escravos, pela exploração compulsória de sua força de trabalho e pela completa
subjugação ao poder do empregador.
No caso concreto, tal realidade se mostra ainda mais grave
diante da condição de vulnerabilidade das vítimas, em sua maioria trabalhadores
migrantes, pessoas em extrema precariedade social e até mesmo crianças, cuja
situação de hipossuficiência foi explorada de forma abusiva, em afronta direta à sua
dignidade e aos mais elementares direitos da pessoa humana.
Ressalto, por oportuno, que a existência de sujeição dos
trabalhadores e das condutas que se possam se amoldar ao conceito de “redução à
condição análoga à de escravo” será feita em momento oportuno. O que interessa
neste momento é dizer que, na décadas de 1970/80, quando ocorreram os fatos
discutidos nestes autos, já havia proibição inequívoca da escravidão em qualquer de
suas formas.
No plano constitucional, a Constituição de 1967 e Emenda de
1969 (art. 150 e 153, caput, respectivamente) asseguravam proteção e inviolabilidade
dos direitos concernentes à vida, à liberdade, à segurança e à propriedade. Ainda que a
Constituição de 1967 (com a redação da Emenda de 1969) não tivesse um capítulo
específico de direitos fundamentais tão amplo quanto a Constituição de 1988, havia
previsão expressa de direitos e garantias individuais que resguardavam a vida e a
liberdade.
O argumento apresentado pela defesa de que as Constituições
citadas não expressaram a dignidade da pessoa humana como valor e que, por isso,
não seria cabível a adoção dessa parâmetro interpretativo não procede.
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A dignidade da pessoa humana não foi criação da Constituição
de 1988. Trata-se de um valor intrínseco, inerente à condição humana, de caráter pré-
jurídico e meta-constitucional, reconhecido universalmente.
Assim, a Constituição de 1988 não a constituiu, apenas a
reconheceu e a elevou a fundamento do Estado brasileiro (art. 1º, III, CF/88). A
dignidade, frisa-se, não é um direito concedido pelo Estado, mas um dado ontológico
da condição humana, que o ordenamento jurídico deve apenas reconhecer e proteger.
Negar isso equivaleria a admitir que um ato normativo poderia “criar” a dignidade, o
que contrariaria sua natureza universal, já afirmada na Declaração Universal de 1948,
segundo a qual “todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e
direitos” (art. 1º).
O Supremo Tribunal Federal tem afirmado que a dignidade da
pessoa humana ocupa posição de supraprincípio, assegurando a cada indivíduo o
status de integrante da comunidade com valor próprio e inalienável. Por essa razão,
projeta-se como verdadeiro preceito fundamental, a ser observado em condições de
igualdade. Nesse sentido, manifestou-se no sentido de que [...] a dignidade da pessoa
humana precede a Constituição de 1988 e esta não poderia ter sido contrariada, em
seu art. 1º, III, anteriormente a sua vigência. (...) A dignidade não tem preço, vale para
todos quantos participam do humano. Estamos, todavia, em perigo quando alguém se
arroga o direito de tomar o que pertence à dignidade da pessoa humana como um seu
valor (valor de quem se arrogue a tanto) (...) (ADPF 153, voto do rel. min. Eros Grau, DJE
6.8. 2010) (negrito nosso)
Ingo Sarlet apresenta uma leitura histórica do desenvolvimento
do conceito de dignidade da pessoa humana no âmbito da tradição cultural ocidental:
Na tradição filosófica e política do período
clássico, a dignidade (dignitas) da pessoa humana estava vinculada com
o status social do indivíduo e de seu reconhecimento pelos demais
membros da comunidade, de modo que se podia falar na existência de
pessoas mais ou menos dignas de acordo com sua posição social. Em
sentido diverso, o pensamento estóico concebia as pessoas como
igualmente dotadas de dignidade, que, nesta outra perspectiva, já era
tomada por qualidade própria e inerente aos seres humanos e estava
vinculada à ideia de liberdade pessoal de cada indivíduo. Com o
advento do cristianismo, acabou ocorrendo o fortalecimento da noção
de dignidade como característica da própria essência ou substância da
pessoa, atestada pela especial relação de Deus – por intermédio de
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Cristo – com a humanidade, destacando-se, neste período, o
pensamento de Boécio, ao introduzir a ideia de que pessoa é uma
substância individual de natureza racional, noção posteriormente
reformulada por Tomás de Aquino […]. Na fase subsequente, tanto a
concepção de dignidade da pessoa humana quanto o próprio
jusnaturalismo passaram por um processo de racionalização e
secularização, que atingiu seu ponto culminante com o pensamento de
Immanuel Kant, que, dialogando com a tradição anterior, construiu uma
noção de dignidade fundada na autonomia da vontade e na ideia de
que o homem é um fim em si mesmo, não podendo jamais ser tratado
como mero objeto, teorização que influenciou profundamente o
pensamento subsequente, mas também deitou raízes no
constitucionalismo contemporâneo […] (Ingo Wolgang Sarlet. In:
CANOTILHO, JJ Gomes. (et al). Comentários à Constituição do Brasil.
Saraiva/Almedina, 2013. p. 121-122).
Assim, a dignidade deve ser vista como princípio normativo
vinculante, irradiando efeitos sobre todo o sistema jurídico. Como consequência,
norteia a orientação, a interpretação e a aplicação das normas.
O Supremo Tribunal Federal, por diversas vezes, reconheceu a
dignidade como parâmetro interpretativo máximo, a exemplo do julgamento da ADPF
347, em que, ao analisar o “estado de coisas inconstitucional” do sistema penitenciário,
enfatizou que a violação da dignidade humana torna patente a necessidade de atuação
judicial estruturante.
A Corte Interamericana de Direitos Humanos, no caso
Trabalhadores da Fazenda Brasil Verde vs. Brasil (2016), reforçou esse entendimento
ao vincular a dignidade à obrigação positiva do Estado de adotar medidas de proteção,
sob pena de responsabilidade internacional.
Contudo, nem mesmo a previsão constitucional garante sua
concretização, pois em razão das deficiências estruturais e sociais, persistem situações
de desproteção, especialmente de populações vulneráveis. Isso demonstra que a
dignidade é valor que deve ser realizado concretamente por meio de políticas públicas
e efetivação jurisdicional, não se limitando a uma proclamação formal.
Portanto, a dignidade humana existe independentemente do
texto constitucional, sendo nele apenas reconhecida e positivada. Assim, ainda que as
Constituições de 1967 e de 1969 não tenham previsto expressamente a dignidade da
pessoa humana como fundamento do Estado, não se pode concluir que, naquele
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período, estivesse ausente do ordenamento jurídico o dever de respeito a esse valor
essencial. Por essa razão, mesmo antes de sua positivação expressa, já deveria orientar
a interpretação e a aplicação do direito pelos órgãos jurisdicionais.
Registre-se que o Brasil, desde a Declaração Universal de 1948,
estava vinculado ao reconhecimento da dignidade como fundamento dos direitos
humanos, circunstância que impunha, inclusive no período autoritário, a observância
desse parâmetro nos julgamentos e na hermenêutica jurídica. A ausência de menção
expressa não significava autorização para a negação da dignidade, mas apenas
revelava as limitações políticas de um regime que se estruturava sobre a supressão de
liberdades fundamentais.
Assim, entende-se que, mesmo em relação aos fatos ocorridos
na vigência das Constituições de 1967 e 1969, cabe ao Poder Judiciário interpretar e
aplicar o direito em consonância com o princípio da dignidade da pessoa humana,
ainda que de forma implícita, como limite ao arbítrio estatal e como condição mínima
de validade das relações jurídicas.
Superado o aspecto relacionado a ausência de menção à
dignidade naqueles textos constitucionais, é importante lembrar que o Art. 150, da
Constituição de 1967 (após a EC nº 1/1969) assegurava que “ninguém será obrigado a
fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei”. O mesmo artigo
assegurava a proteção à vida, à liberdade e à segurança, o que já excluía, por princípio,
a escravidão. Essas previsões constitucionais permitem afirmar que, mesmo durante o
regime militar, o trabalho escravo era incompatível com a ordem constitucional
vigente, tratando-se de violação frontal da lei fundamental da época.
Da mesma forma, o art. 158 da Constitução de 1967 assegurava
direitos trabalhistas mínimos. Dentre os direitos assegurados aos trabalhadores
estavam o salário mínimo capaz de satisfazer, conforme as condições de cada região,
as necessidades normais do trabalhador e de sua família; o salário-família devido aos
dependentes; a limitação da duração diária do trabalho a oito horas, com intervalo
para descanso, ressalvados os casos previstos em lei; o repouso semanal remunerado,
inclusive nos feriados civis e religiosos, de acordo com a tradição local; as férias anuais
remuneradas; a garantia de higiene e segurança no ambiente laboral; a proibição de
trabalho a menores de doze anos e do trabalho noturno a menores de dezoito anos
em indústrias insalubres, sendo essa vedação extensiva às mulheres. O texto também
previa garantias formais à liberdade e à igualdade, ainda que severamente restringidas
na prática pelo regime autoritário.
Assim, embora o regime constitucional de 1967/69 não
positivasse a “dignidade da pessoa humana” como cláusula central, o ordenamento já
contemplava dispositivos protetivos da liberdade e da integridade física e moral da
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pessoa, que são expressões desse princípio, além de que já assegurava garantias
mínimas relacionadas à liberdade e à integridade física e moral, como a vedação a
determinadas penas e a proteção a direitos trabalhistas essenciais, em consonância
com compromissos internacionais assumidos pelo Brasil à época.
Sobre o assunto, a Corte IDH apresentou manifestação expressa
por ocasião do Caso Fazenda Brasil Verde, a saber:
B.8. Legislação penal brasileira
307. A Corte considera oportuno realizar algumas
considerações sobre a alegação do Estado do Brasil em relação a que a
situação identificada na Fazenda Brasil Verde representaria apenas
violações a direitos trabalhistas de acordo com a legislação brasileira e
que, eventualmente, poderia ter sido caracterizada como um delito de
acordo com o artigo 149 do Código Penal, mas que, em nenhuma
hipótese, poderia caracterizar-se como escravidão, servidão ou trabalho
forçado em atenção às regras relevantes do Direito Internacional dos
Direitos Humanos.
308. A Corte examinou os fatos do presente caso
à luz da evolução do Direito Internacional dos Direitos Humanos na
matéria e concluiu que a situação dos trabalhadores resgatados em
março de 2000 constituía uma forma análoga à escravidão, proibida
pelo artigo 6.1 da Convenção Americana (par. 241 supra). Segundo o
argumento do Estado, o tipo penal do delito de redução à condição de
escravo do artigo 149 do Código Penal brasileiro seria muito amplo,
supostamente incorporando figuras não contempladas no Direito
Internacional. A esse respeito, a Corte considera relevante destacar dois
pontos principais.
309. Em primeiro lugar, é necessário precisar que
o tipo penal vigente na época dos fatos do caso simplesmente
declarava: “Art. 149 - Reduzir alguém a condição análoga à de escravo:
Pena - reclusão, de 2 (dois) a 8 (oito) anos”. Isso significa que não se
tratava do novo tipo penal produto da reforma do ano 2003, o qual
inclui quatro outras figuras como análogas à condição de escravo
(trabalho forçado, jornada exaustiva, condições degradantes de
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trabalho, restrição de movimento com base em dívida com o
empregador). Assim, é necessário ter em conta que o tipo penal vigente
à época dos fatos não poderia ser caracterizado como distinto à
proibição existente na Convenção Americana, ou “muito amplo” como
sugere o Estado.
310. Além disso, a revisão da jurisprudência de
tribunais superiores brasileiros, apresentada ao Tribunal durante o
litígio do presente caso, tanto pelo Estado como pelos representantes,
testemunhas, declarantes a título informativo e peritos, destaca que o
elemento fundamental para determinar a existência de uma situação
análoga à de escravo pelos tribunais brasileiros, antes da reforma do
tipo penal em 2003, era a privação de liberdade do trabalhador. A
interpretação da proibição da escravidão no artigo 149 do Código Penal,
em sua redação original, exigia como necessária a ocorrência de uma
restrição à liberdade das vítimas, fato confirmado no presente caso em
virtude das ameaças, da violência e da servidão por dívida existentes na
Fazenda Brasil Verde (par. 304 supra). Além disso, foi constatada a
existência de trabalho exaustivo, condições degradantes de vida,
falsificação de documentos e a presença de menores de idade. Isso
contradiz rotundamente o argumento do Estado a respeito de que os
trabalhadores eram livres para saírem da fazenda. Em virtude do
anterior, o argumento do Estado de que os fatos poderiam caracterizar
escravidão unicamente sob a égide da legislação nacional - e não com
base no Direito Internacional – não possui fundamento.
311. Em segundo lugar, faz-se mister notar que,
se um país adota normas que sejam mais protetoras à pessoa humana,
como se poderia entender a proibição da escravidão no ordenamento
jurídico brasileiro a partir de 2003, o Tribunal não poderia restringir sua
análise da situação específica com base em uma norma que ofereça
menos proteção. Esse é o espírito do artigo 29 da Convenção
Americana, o qual dispõe que: Artigo 29. Normas de Interpretação
Nenhuma disposição desta Convenção pode ser interpretada no
sentido de: a. permitir a qualquer dos Estados Partes, grupo ou pessoa,
suprimir o gozo e exercício dos direitos e liberdades reconhecidos na
Convenção ou limitá-los em maior medida do que a nela prevista; b.
limitar o gozo e exercício de qualquer direito ou liberdade que possam
ser reconhecidos de acordo com as leis de qualquer dos Estados Partes
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ou de acordo com outra convenção em que seja parte um dos referidos
Estados; c. excluir outros direitos e garantias que são inerentes ao ser
humano ou que decorrem da forma democrática representativa de
governo; e d. excluir ou limitar o efeito que possam produzir a
Declaração Americana dos Direitos e Deveres do Homem e outros atos
internacionais da mesma natureza.
312. A leitura literal do inciso b) do artigo 29 é
clara ao demonstrar que a Convenção não permite uma interpretação
que limite o gozo e o exercício dos direitos humanos. A interpretação
pro personae exige que a Corte interprete os direitos humanos
previstos na Convenção Americana à luz da norma mais protetora em
relação à qual as pessoas sob sua jurisdição estão submetidas.
313. Finalmente, a Corte observa que a
jurisprudência recente do Supremo Tribunal Federal (STF) do Brasil se
encontra em consonância com o pronunciamento da Corte
Interamericana no presente caso. As decisões apresentadas durante
este litígio demonstram que o Tribunal Superior do Trabalho (TST) e o
próprio STF interpretam as situações análogas à escravidão de maneira
responsável, deixando claro que uma mera violação à legislação
trabalhista não atinge o limiar da redução à escravidão, mas é
necessário que as violações sejam graves, persistentes e que cheguem a
afetar a livre determinação da vítima. Nesse sentido foi o Voto da
Ministra Rosa Weber no Recurso Especial 459510/MT: “Por óbvio, nem
toda violação dos direitos trabalhistas configura trabalho escravo.
Contudo, se a afronta aos direitos assegurados pela legislação regente
do trabalho é intensa e persistente, se atinge níveis gritantes e se os
trabalhadores são submetidos a trabalhos forçados, jornadas
exaustivas ou a condições degradantes, é possível, em tese, o
enquadramento no crime do art. 149 do Código Penal, pois conferido
aos trabalhadores tratamento análogo ao de escravos, com a privação
de sua liberdade e, sobretudo, de sua dignidade, mesmo na ausência de
coação direta contra a liberdade de ir e vir.”448 314. Por todo o anterior,
a Corte não considera que o argumento do Estado sobre uma proteção
mais ampla oferecida pelo artigo 149 do Código Penal brasileiro possa
eximí-lo de sua responsabilidade no presente caso. (negritos nossos)
Da decisão acima, extraem-se os seguintes pontos literais:
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A situação dos “trabalhadores resgatados em março de 2000
constituía uma forma análoga à escravidão, proibida pelo artigo 6.1 da Convenção
Americana”;
“O tipo penal vigente à época dos fatos não poderia ser
caracterizado como distinto à proibição existente na Convenção Americana, ou 'muito
amplo' como sugere o Estado.”
“O elemento fundamental para determinar a existência de uma
situação análoga à de escravo pelos tribunais brasileiros, antes da reforma do tipo
penal em 2003, era a privação de liberdade do trabalhador,” o que poderia ser
caracterizado em “virtude das ameaças, da violência e da servidão por dívida existentes”
“Foi constatada a existência de trabalho exaustivo, condições
degradantes de vida, falsificação de documentos e a presença de menores de idade”, o
que “contradiz rotundamente o argumento do Estado a respeito de que os
trabalhadores eram livres para saírem da fazenda.
“O argumento do Estado de que os fatos poderiam caracterizar
escravidão unicamente sob a égide da legislação nacional - e não com base no Direito
Internacional – não possui fundamento.”
“Se um país adota normas que sejam mais protetoras à pessoa
humana, como se poderia entender a proibição da escravidão no ordenamento jurídico
brasileiro a partir de 2003, o Tribunal não poderia restringir sua análise da situação
específica com base em uma norma que ofereça menos proteção.”
“A interpretação pro personae exige que a Corte interprete os
direitos humanos previstos na Convenção Americana à luz da norma mais protetora
em relação à qual as pessoas sob sua jurisdição estão submetidas”.
Dos excertos, conclui-se que a Corte rejeitou a alegação do
Estado brasileiro de que os fatos seriam apenas violações trabalhistas ou infrações do
art. 149 do CP. Constatou que, mesmo antes da reforma de 2003, o conceito de
escravidão/servidão/trabalho forçado já estava proibido pela Convenção Americana
sobre Direitos Humanos (art. 6.1) e demais normas internacionais. Portanto, a
caracterização independe da amplitude ou limitação do tipo penal doméstico.
Aponta que os tribunais brasileiros, antes da reforma legislativa,
exigiam a restrição de liberdade como núcleo do art. 149. No caso da Fazenda Brasil
Verde, havia privação efetiva (ameaças, violência, servidão por dívida), o que satisfaz a
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configuração mesmo sob a redação antiga. Além disso, havia trabalho exaustivo,
condições degradantes, falsificação de documentos e exploração de menores,
reforçando a gravidade.
A despeito do entendimento dos tribunais pátrios, pelo art. 29
da Convenção Americana, a interpretação deve sempre adotar o parâmetro mais
protetivo à dignidade humana (princípio pro personae). Assim, a evolução protetiva do
art. 149 do CP em 2003 não diminui a responsabilização por fatos anteriores - pelo
contrário, reforça a linha de que a escravidão contemporânea inclui condições
degradantes, jornadas exaustivas e servidão por dívida.
Assim, o trabalho escravo se caracteriza quando a violação de
direitos é tão intensa que compromete a livre determinação da vítima. O STF e o TST já
consolidaram essa compreensão: não é toda irregularidade que configura escravidão,
mas sim aquelas situações em que a dignidade e a liberdade são atingidas de forma
profunda (como destacou a Min. Rosa Weber no REsp 459510/MT).
Por isso, concluo que o trabalho escravo ocorrido nas décadas
de 1970/80 deve ser caracterizado a partir da conjugação do Direito Internacional dos
Direitos Humanos e da interpretação evolutiva do art. 149 do CP.
Mesmo antes da reforma de 2003, bastava a comprovação de
restrição da liberdade (por ameaça, servidão por dívida, violência ou isolamento) para
que a conduta configurasse redução a condição análoga à de escravo. Situações de
jornada exaustiva, condições degradantes e exploração de menores, ainda que não
estivessem explicitamente no tipo penal antigo, já eram reconhecidas como formas
contemporâneas de escravidão.
Assim, ainda que o detalhamento das hipóteses de ocorrência
do tipo penal só tenha ocorrido em 2003, antes mesmo dessa alteração, já era possível
considerar que o tipo penal abrangia toda conduta que tivesse o condão de reduzir ou
eliminar a autodeterminação da pessoa, colocando-a sob o domínio de outrem.
Em resumo, a interpretação dos fatos não se limita à legislação
interna, pois a Corte Interamericana de Direitos Humanos já deixou claro, no caso
Fazenda Brasil Verde vs. Brasil, que mesmo antes da reforma de 2003, a escravidão
contemporânea deveria ser compreendida à luz do Direito Internacional dos Direitos
Humanos, em especial da Convenção Americana, que proíbe práticas análogas à
escravidão em qualquer de suas formas.
Além disso, cumpre destacar que, no que concerne à pretensão
de indenização por dano moral coletivo, a violação de direitos fundamentais
relacionados ao trabalho digno e à dignidade da pessoa humana não se esgota na
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esfera penal. Ainda que os fatos tenham ocorrido em momento anterior à reforma
introduzida pela Lei nº 10.803/2003 no art. 149 do Código Penal, a exploração
constatada já encontrava repulsa no ordenamento jurídico pátrio e internacional.
Com efeito, a redação original do art. 149 do Código Penal
criminalizava a conduta de reduzir alguém à condição análoga à de escravo, tendo
como núcleo a supressão do status libertatis. Contudo, a caracterização do dano moral
coletivo não se restringe à tipicidade penal estrita, mas decorre da ofensa a bens
jurídicos de natureza difusa e transindividual, notadamente a dignidade da pessoa
humana (art. 1º, III, da Constituição Federal), o valor social do trabalho (art. 1º, IV, e art.
170, caput, da CF) e a proteção integral dos direitos humanos reconhecidos em
tratados internacionais ratificados pelo Brasil (art. 5º, § 2º, da CF).
A propósito, a Corte Interamericana de Direitos Humanos, ao
julgar o caso Fazenda Brasil Verde vs. Brasil (2016), reconheceu que práticas de
exploração extrema - tais como servidão por dívida, jornadas exaustivas, condições
degradantes de vida e restrição da liberdade por meio de ameaças ou violência -
configuram escravização contemporânea, independentemente da legislação penal
interna vigente à época.
A indenização por dano moral coletivo, nesse contexto, não visa
apenas reparar simbolicamente os atingidos, mas também afirmar valores
constitucionais fundamentais, funcionando como instrumento de prevenção geral e de
reprovação social da prática ilícita.
Portanto, já na década de 1970/80 vigorava obrigação
internacional de proibir e reprimir o trabalho escravo e o trabalho forçado em todas as
suas formas, pois o Brasil já estava vinculado a normas nacionais (CP/1940, CLT/1943,
Constituição de 1967/69) e internacionais (Declaração Universal de 1948, Convenções
da OIT, tratados da ONU) que proibiam a escravidão e exigiam respeito à dignidade
mínima do trabalhador.
Assim, não há como acolher a tese de que à época inexistiam
obrigações jurídicas de proteção: elas já estavam positivadas no ordenamento interno
e internacional, ainda que a expressa centralidade da dignidade tenha surgido apenas
com a Constituição de 1988.
Assim, à luz desse arcabouço normativo e convencional, conclui-
se que os fatos narrados, embora ocorridos na década de 1970/80, estão sujeitos à
apreciação judicial, não havendo que se falar em ausência de tutela jurídica. A proteção
da dignidade da pessoa humana e a vedação absoluta ao trabalho escravo são valores
universais, reconhecidos no Brasil muito antes da Constituição de 1988, e que devem
prevalecer na solução da presente lide.
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Destaco, por oportuno, que a presente análise versa sobre
responsabilidade trabalhista/civil, que se rege pelo direito material vigente no período
e por padrões internacionais já incorporados então. A utilização, hoje, das expressões
“trabalho em condição análoga à de escravo” e “tráfico de pessoas” não impõe a
aplicação retroativa de tipos penais de 2003/2016; serve, isto sim, para qualificar
fenômenos fáticos à luz de normas já existentes e de deveres de proteção que já
vinculavam empregadores e prepostos no período (CLT/ETR/OIT/CP 1940).
Assim, sobre o argumento da reclamada de que apenas após
1995/2003 o Estado passou a reconhecer e tipificar “formas contemporâneas” de
escravidão (jornada exaustiva/condições degradantes/servidão por dívida), entendo
que não possui amparo jurídico. Como dito, a Lei 10.803/2003 não criou o ilícito, mas
densificou a descrição típica do art. 149, pois já havia vedação a reduzir a condição
análoga à de escravo desde 1940. Portanto, a tese de que faltaria “suporte legal
interno” para censurar os fatos não se sustenta. O que mudou após 2003 foi o nível de
detalhamento tipológico e a política pública, não a ilicitude de práticas servís
/degradantes já vedadas.
Por outro lado, é verdade que o art. 149-A do CP (tráfico de
pessoas, inclusive para fins de trabalho análogo ao de escravo) foi introduzido apenas
em 2016 (Lei 13.344/2016), e o Protocolo de Palermo foi internalizado em 2004
(Dec. 5.017/2004). Não cabe retroagir tais dispositivos para punir fatos de 1974 -1986.
Todavia o mecanismo de recrutamento/traslado descrito
(aliciamento fraudulento por “gatos”, transporte vigiado, endividamento inicial) já
colidia com o art. 207 do CP (aliciamento de trabalhadores) e com os padrões da
Convenção nº 29 (ausência de “livre vontade” sob “ameaça de penalidade” econômica e
física). Para fins cíveis/trabalhistas, basta demonstrar o nexo entre a cadeia de
aliciamento e a exploração laboral sob coação/dívida, sendo irrelevante a ausência,
então, do rótulo penal “tráfico de pessoas” tal como hoje redigido.
Por outro lado, entendo ainda que a invocação genérica de
“segurança jurídica” não convalida ilícitos trabalhistas continuados ou sistêmicos. A
ausência episódica de autuações não gera “expectativa legítima” de licitude, mormente
quando a prova atual (depoimentos, dossiês, inspeções parlamentares e trabalhistas)
aponta para modus operandi incompatível com CLT/Lei 5.889/73/NRs e com a C29.
Isso significa que no sistema de proteção a direitos
fundamentais do trabalho, não há direito adquirido ao ilícito. A Corte IDH, no Brasil
Verde, inclusive rechaçou óbices processuais (como prescrição) quando o Estado falha
em prevenir/investigar violações vinculadas à escravidão/servidão - reforço
hermenêutico relevante sobre a gravidade do fenômeno.
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A alegação defensiva de “saídas voluntárias” e “retornos” não
descaracteriza o trabalho forçado, pois a Convenção nº 29 centra-se na voluntariedade
real e na ameaça de penalidade (econômica/física). O retorno em contextos de pobreza
extrema, dívidas, isolamento geográfico e violência não equivale a consentimento livre,
conforme fundamentos ao norte explicitados.
Cumpre ressaltar que a Convenção nº 29/OIT (1957) fornece um
critério objetivo e contemporâneo aos fatos para identificar trabalho forçado/servidão
por dívida, sem qualquer necessidade de retroação normativa; a Corte IDH reconhece a
proibição como jus cogens, reforçando a gravidade e a indeclinabilidade de prevenir e
reparar.
Por isso, em virtude dos fundamentos apresentados, considero
que as teses defensivas dos itens V.M, V.N, V.O, V.P e V.Q não afastam a possibilidade
de reconhecimento de trabalho em condição análoga à de escravo (tanto nos
parâmetros vigentes à época quanto nos parâmetros internacionais já incorporados) e
de aliciamento/traslado fraudulento para exploração laboral.
A subsunção final dependerá da prova específica (documental
/testemunhal) em autos - inclusive quanto à responsabilidade da tomadora e ao nexo
com os empreiteiros apontados -, mas não há óbice jurídico que inviabilize o exame de
mérito e a tutela reparatória/coletiva cabível.
Fixados tais parâmetros, passo ao exame das provas sobre a
ocorrência do trabalho escravo contemporâneo.
A parte autora apresentou uma série de provas documentais,
cujo valor probatório foi questionado pela parte reclamada, nos seguintes termos:
Sobre as declarações colhidas pelo MPT, a reclamada sustenta
que os depoimentos colhidos unilateralmente não possuem valor probatório
suficiente, uma vez que foram colhidos fora do âmbito judicial, sem o crivo do
contraditório e da ampla defesa, em violação ao art. 5º, LV, da Constituição Federal.
Afirma que tais declarações foram obtidas sem compromisso
legal de veracidade, de forma dirigida e parcial, com forte influência da posição
acusatória. Ressalta, ainda, que o MPT desconsiderou menções feitas pelos próprios
depoentes a outros locais e projetos, direcionando as acusações exclusivamente contra
a Volkswagen.
Além disso, destaca que os depoimentos foram limitados em
número e não representam o cenário completo da época, sendo insuficientes para
fundamentar qualquer condenação. A parte também questiona a isenção de
depoentes como o Padre Ricardo Rezende e o Sr. Expedito Soares, que, por sua
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atuação histórica e envolvimento direto, não teriam imparcialidade para prestar
declarações com valor probante.
Em contraposição, a Volkswagen apresentou atas notariais
contendo degravação de entrevista de Sérgio Ferreira e do advogado Mauro
Imperatori, que estiveram na Fazenda Vale do Rio Cristalino na década de 1970 e não
presenciaram qualquer irregularidade, tampouco ouviram relatos de trabalho escravo
ou maus-tratos. Ambos reforçam a existência de vários empreendimentos na região e a
dificuldade dos trabalhadores em identificar para qual fazenda estavam prestando
serviços, dada a extensão territorial e ausência de sinalização.
Aponta que os depoimentos colhidos pelo próprio MPT, como os
de Valdir, Adália, Raimundo Batista, Manoel Mequiades e João Corado, também
evidenciam que os trabalhadores atuavam em diversas fazendas, e não exclusivamente
na Fazenda Vale do Rio Cristalino.
Diante disso, conclui que as declarações produzidas pelo MPT
são unilaterais, frágeis e insuficientes para embasar qualquer condenação, razão pela
qual devem ser totalmente desconsideradas como meio de prova.
Sobre os demais documentos apresentados pelo MPT e não
produzidos por ele próprio, sustenta que a maior parte deles foi entregue por
terceiros, especialmente pelo Padre Ricardo Rezende, consistindo em relatórios,
anotações, recortes de mídia, documentos ilegíveis ou não traduzidos e registros
unilaterais, sem qualquer presunção de veracidade.
Alega que tais documentos não têm natureza de atos
administrativos formais nem foram produzidos por autoridades competentes, razão
pela qual não se submetem à regra do art. 405 do CPC e não gozam de fé pública. O
simples fato de terem sido juntados ao inquérito administrativo não lhes confere valor
probatório.
Destaca que o relatório elaborado pelo ex-deputado Expedito
Soares, por exemplo, revela conteúdo de viés político e intenção de agitação ideológica,
sem amparo em critérios técnicos ou imparciais. Em contraposição, apresenta relatório
de visita contemporânea à mesma fazenda, realizado por representantes sindicais e
corporativos, que atestam boas condições de alojamento, livre acesso a trabalhadores
e ausência de irregularidades.
Impugna também o estudo elaborado pelo pesquisador
Christopher Kopper, por se tratar de material baseado em percepções subjetivas,
interpretações históricas e conjecturas, sem qualquer respaldo em provas consistentes
que justifiquem o uso para fundamentar eventual condenação judicial.
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Reforça que muitos documentos se baseiam em relatos de
trabalhadores que atuaram em diferentes fazendas e projetos da região, sem qualquer
demonstração concreta de vínculo direto com a Fazenda Vale do Rio Cristalino ou com
a Volkswagen. Há, inclusive, relatos de que os próprios trabalhadores não sabiam
exatamente para qual fazenda prestavam serviços, dada a extensão territorial da
região e a informalidade nas relações de trabalho à época.
Argumenta, ainda, que não há qualquer comprovação de que a
Volkswagen tenha participado ou sido conivente com práticas de aliciamento, servidão
ou maus-tratos, sendo descabido presumir seu envolvimento com base em
documentos unilaterais, não contraditados e sem cadeia de custódia ou autenticidade
reconhecida.
Ainda sobre a força probatória dos documentos apresentados
pelo MPT, aponta, em relação à reclamação trabalhista ajuizada em 1986, por apenas
quatro trabalhadores contra uma empreiteira local e a Companhia Vale do Rio
Cristalino S/A, que não possui força probatória nem efeito vinculante que justifique
qualquer tentativa de generalização dos fatos ali discutidos ou de responsabilização da
Volkswagen.
Destaca que, na sentença de primeira instância, a Companhia
Vale do Rio Cristalino S/A foi excluída da lide, com fundamento de que a empreiteira
Andrade Desmatamento Ltda. atuava de forma legal e tinha condições de arcar com
suas obrigações.
Ressalta que a decisão do TRT, que reformou parcialmente a
sentença e reconheceu vínculo empregatício com a Companhia, não tratou de qualquer
irregularidade na contratação. Ao contrário, o reconhecimento decorreu de
interpretação controversa e dissidente do art. 455 da CLT, tendo sido expressamente
divergida pelo Desembargador revisor.
Ainda, o depoimento do próprio empreiteiro Francisco Andrade
Chagas, constante dos autos daquela ação, confirma que possuía contrato regular com
a Companhia, prestava serviços a diversos projetos na região e que os trabalhadores
foram pagos por ele, sem qualquer envolvimento da Volkswagen.
Conclui que o processo de 1986 diz respeito apenas às partes
nele envolvidas, não inclui a Volkswagen no polo passivo, e não versa sobre as
condições de trabalho discutidas na presente ação, motivo pelo qual não pode ser
usado como precedente ou prova contra a empresa.
Do teor das impugnações, nota-se que a parte reclamada
impugnou a validade dos documentos apresentados pelo Ministério Público do
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Trabalho, o que exige análise detida de cada conjunto probatório, considerando sua
origem, autenticidade, relevância e a forma como se encadeiam para formar um
quadro coerente.
Cumpre ressaltar, desde logo, que relatórios e laudos oficiais
(MTE, MPT, Inquérito Civil) são documentos públicos, dotados de fé pública. Provas
materiais apreendidas (cadernetas de dívida, fotografias datadas e boletins de
ocorrência sobre fugas e recapturas), com cadeia de custódia preservada, constituem
prova direta e objetiva. Da mesma forma, os testemunhos diretos de trabalhadores
identificados, com depoimentos de vítimas colhidos por autoridade competente, com
convergência interna e externa. Essas provas são autônomas e gozam de presunção
relativa de veracidade, cabendo à reclamada o ônus de infirmá-las (arts. 373, II, CPC, e
818, II, CLT).
Por outro lado, figuram como provas de médio valor probatório,
com função de reforço, servindo para contextualizar e corroborar o núcleo central,
reportagens jornalísticas, que indicam notoriedade pública dos fatos e corroboram
elementos já demonstrados em documentos oficiais. Por si só, não sustentariam a
condenação, mas ganham peso ao se alinharem com provas de alto valor.
Como provas de baixo valor probatório, que apresentam
indícios complementares, destaco declarações anônimas ou sem identificação plena,
cópias não autenticadas de documentos internos e relatos indiretos de “ouvir dizer”.
Esses elementos não têm força autônoma, mas são relevantes como indícios quando
confirmados por provas mais robustas.
Assim, em forma didática, tenho que as provas de alto valor tem
o condão de provar o núcleo duro, de forma direta e documental as práticas ilícitas. As
provas de médio valor conferem lastro contextual e temporal. As de baixo valor
funcionam como indícios confirmados, reforçando detalhes e ampliando a
compreensão dos mecanismos de exploração.
Essa combinação atende ao princípio da livre apreciação
motivada da prova (art. 371, CPC), permitindo que a convicção judicial se forme de
maneira lógica, coesa e suficientemente clara.
Diante disso, cumpre examinar, por categoria, a natureza, a
origem, a autenticidade e a relevância de cada conjunto probatório, a fim de aferir seu
valor para a solução da lide, o que faço a seguir:
DOSSIÊ DA COMISSÃO DA PASTORAL DA TERRA – CPT (8bfe7af,
0c57c3a, ec2036e e b6bda6f)
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Trata-se de um documento particular, nos termos do art. 408 do
CPC, cujo conteúdo pode ser impugnado pela parte contrária. Por não se tratar de
documento público, não goza de fé pública. Logo, não tem presunção absoluta de
veracidade.
O dossiê serve como início de prova ou elemento indiciário,
especialmente quando reúne depoimentos, registros fotográficos, listas de
trabalhadores e relatos de violações. Sua validade deve ser confirmada por outros
meios de prova (inspeções do MTE, relatórios oficiais, depoimentos de testemunhas,
laudos periciais etc.). Tais documentos desempenham relevante função social ao
subsidiar a atuação do Ministério Público do Trabalho e ao revelar contextos de
exploração que, em regra, não emergem espontaneamente da iniciativa dos
empregadores.
Ressalte-se, contudo, que o dossiê, por si só, não é suficiente
para a comprovação plena dos fatos narrados, devendo ser cotejado com outras
provas produzidas nos autos como - relatórios de fiscalização do Ministério do
Trabalho, depoimentos testemunhais, documentos apreendidos e laudos técnicos.
Assim, atribui-se ao dossiê da CPT o valor de prova indiciária
relevante, apta a integrar o acervo probatório e, em cotejo com os demais elementos
constantes dos autos, formar o convencimento deste juízo acerca da ocorrência de
trabalho em condições análogas à de escravo.
Contudo, considerando a diversidade de documentos que
integram o citado dossiê, entendo pertinente destacar os principais documentos,
especialmente aqueles que têm o condão de influenciar o convencimento do julgador.
No referido dossiê, constam informações sobre o próprio
empreendimento. Informação semelhante consta no DIÁRIO DO CONGRESSO
NACIONAL (Seção I), de Outubro de 1981, (Seção 1) Sábado 3, disponível em
[Link] Assim, reputo que
as informações são verdadeiras pois constam em fonte oficial.
Consta ainda o Relatório de Fiscalização elaborado pelo
Ministério do Trabalho, Secretária de Fiscalização Móvel, na Ação Sul do Pará, no
período de 27/5 a 24/6/98, na Fazenda Rio Cristalino, composto por fotos, autos de
infração, tendo como empregador Eufrásio Pereira Luiz e outros (COPEVALE). A
despeito da presunção de veracidade do documentos, não é aplicável ao caso em
exame em virtude do tempo de sua confecção ser distante do tempo em que a
reclamada teria administrado o local.
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Além disso, constam declarações sobre homicídio, que teria
ocorrido no início de 2000, na Fazenda Vale do Rio Cristalino. Também inaplicável ao
caso em virtude do marco temporal.
Consta declaração de João Carroceiro, lavrada por Ricardo
Rezende Figueira, sem reconhecimento. Trata-se de documento particular com
reprodução de relato. Consta ainda um relato do processo ajuizado em Conceição do
Araguaia, sem menção do autor e data de confeccão. Tais documentos são desprovidos
de força probatória, pois, além da ausência de reconhecimento, são reproduções de
ouvir dizer, não confirmadas diretamente com a fonte emissora.
O dossiê é composto ainda por notas de compras de produtos
alimentícios, remédios, instrumentos de trabalho, objetos para utilização em refeição
(prato e colher), datado do ano de 1984, adquirido por Sabino Serqueira da Silva. Os
documentos estão assinados pelo comprador e pelo vendedor (sem identificação
adequada). São documentos particulares, sem fé pública, que servem como prova
indiciária da existência de vendas dos produtos aos trabalhadores da Fazenda.
Consta notícia com o título "Volks: um computador controla 45
mil cabeças", assinado por Rose Nascimento. O texto trata da utilização pioneira da
informática na pecuária pela Companhia Vale do Rio Cristalino – Agropecuária,
subsidiária da Volkswagen. Localizada no sul do Pará, com área de 139.392 hectares, a
fazenda usava um computador para gerenciar 45 mil cabeças de gado.
O artigo explica o uso do computador Labo, instalado em São
Bernardo do Campo (SP), para processar informações da fazenda no Pará. Aponta o
desenvolvimento de cinco sistemas de computação com a Universidade de Zurique,
aplicados à pecuária: Planejamento de pastoreio; Controle do rebanho; Cálculo de
unidades pastoreadas; Simulação de crescimento do rebanho; Cadastro de pastagens.
O sistema permitia controlar mortalidade, natalidade, índices de
fertilidade, produtividade, além de planejar pastoreio por lotes e ciclos de chuva/seca.
As análises eram processadas em computador central de São Paulo, com dados
transmitidos por malote. Havia até previsão de que futuramente fosse possível usar
teleprocessamento via telefonia.
Esse artigo tem valor histórico e probatório importante porque
demonstra a presença direta da Volkswagen no comando e administração da fazenda
Vale do Rio Cristalino, contrariando versões de que a empresa apenas tinha
participação acionária indireta; Mostra grau de modernização e investimento no
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empreendimento, com uso de tecnologia avançada para a época; Aponta que havia
gestão centralizada em São Paulo, revelando controle corporativo sobre as atividades
agropecuárias no Pará.
É uma fonte jornalística (secundária), mas que pode ser utilizada
como indício documental, especialmente em conjunto com relatórios oficiais,
documentos internos e testemunhos.
Compõe o dossiê fichas de atendimento intitulada conflitos de
terra, na qual há relatos sobre a situaçao de exploração de trabalhadores. Como
exemplo, cito a ficha preenchida pela Diocese de Conceição do Araguaia, Regional
Araguaia – Tocantins, em 9.2.1984. Trata-se de documento particular, que deve ser
cotejado com as demais provas.
Foi apresentada ainda uma carta assinada por Peter Klein,
endereçada a “Amigo Ricardo”, escrita em português, na qual o remetente reúne
referências de artigos e cartas publicados na Alemanha sobre os conflitos trabalhistas e
denúncias de violações de direitos humanos na fazenda da Volkswagen (Vale do Rio
Cristalino, no Pará).
O remetente lista seis pontos principais: Artigo “Tortura na
Fazenda da Volks?” Publicado na revista Publik Forum em 24 de junho de 1983.
Classificado como “informação geral”; Artigo “Nenhuma pista de atrocidades na
Fazenda da Volks”, Jornal Die Welt, 13 de maio de 1983. Rejeita as acusações de
violações, alegando que a Volks não podia localizar “Ricardo” (possível testemunha).
Afirma que uma porta-voz da Volkswagen em Reizende declarou não conhecer tal
pessoa; Bloco de artigos da revista Brasilien Nachrichten nº 79/83. Inclui entrevista feita
com “Ricardo” em 1º de dezembro de 1982. Contém carta de resposta da Volkswagen
na Alemanha (assinada por Thomas Maxi), criticada pelo remetente como “cheia de
injúrias” e sem argumentos, acusando empresas europeias de “trazerem estilo de vida
cultivado” e “mudanças humanas sérias” para o bem-estar da classe baixa; Visita de
delegação de empregados da Volkswagen de São Bernardo e Taubaté à fazenda (junho
/83) Eles elaboraram relatório sobre a situação. O remetente recomenda a leitura, mas
observa que só possui a tradução parcial; Carta do “Informationsstelle Lateinamerika”
(Centro de Informação sobre América Latina, na Alemanha) - Relata a mesma visita da
delegação e afirma que a fazenda da Volkswagen era reconhecida como “modelo no
Brasil e como exemplar”; Entrevista de “Ricardo” (20 de outubro, ano não indicado) -
Promessa de enviar cópia de entrevistas para a imprensa e sugere que “Grupeger”
(provavelmente um jornalista ou ativista) daria comentário sobre o material.
O documento demonstra que, já nos anos de 1982-1983, havia
debate internacional (especialmente na Alemanha) sobre a conduta da Volkswagen em
sua fazenda no Pará. Registra a existência de matéria jornalística divergente: de um
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lado, denúncias de “tortura” e violações; de outro, artigos negando as acusações e
qualificando a fazenda como “modelo”. Evidencia que testemunhas (como Ricardo)
deram entrevistas publicadas em revistas estrangeiras, reforçando denúncias. Mostra
também a estratégia defensiva da Volkswagen, tanto na Alemanha quanto no Brasil,
tentando rebater acusações por meio de comunicados oficiais.
Consta ainda um documento consistente em uma declaração
firmada por Servino Barreira de Almeida, datada de 15 de setembro de 1984, em
Paraíso do Norte, e testemunhada por duas pessoas.
No conteúdo da referida declaração, consta: Servino Barreira de
Almeida, 75 anos, aposentado, natural de Balsas/MA, residente em Paraíso do Norte
afirma ter sido contratado em 4 de abril de 1984 pelo senhor Joaquim Gringo, para
trabalhar na fazenda Vale do Rio Cristalino, da Volkswagen, no município de Redenção
/PA. O combinado foi o pagamento de Cr$ 120.000,00 por aluguel de pasto roçado,
com despesas de estrada por conta do gado. Ao chegar em Barreira de Campos,
Joaquim Gringo o entregou ao senhor Ábílio, que mudou o acordo, reduzindo o
pagamento para Cr$ 40.000,00 e impondo que as despesas de estrada ficassem por
conta dos peões. O grupo contava com mais de vinte trabalhadores. Declara que
durante o tempo de trabalho ficou doente, com ferida na testa que infeccionou e
sangrava, sem receber tratamento médico. Relata que na barraca havia dois pistoleiros
armados com revólver e espingardas calibre 12, além de uma “chilena” pendurada,
usada para ameaçar os trabalhadores. Informa que trabalhou 4 meses e 21 dias e
recebeu apenas Cr$ 100.000,00, restando saldo de apenas Cr$ 10.000,00 no dia da
saída. Ficou 2 dias sem comer na fazenda, em condições degradantes (espinhos, lama,
água pelo joelho).
O documento foi assinado pelo próprio declarante (com
impressão digital) e por testemunhas. Sobre sua validade como prova, identifico tratar-
se de declaração particular. Traz relato direto de trabalhador idoso que prestou
serviços na fazenda Vale do Rio Cristalino (Volkswagen), descrevendo aliciamento
fraudulento, alteração contratual lesiva, não pagamento integral de salários, condições
degradantes e presença de pistoleiros armados para vigilância e coerção.
Extrai-se elementos de trabalho análogo à escravidão (art. 149
do CP), quais sejam, a servidão por dívida (mudança de contrato e desconto abusivo),
condições degradantes (falta de alimentação, lama, água até o joelho, ausência de
tratamento médico) e trabalho forçado/coação armada (pistoleiros com armas de fogo
controlando os trabalhadores).
Embora seja declaração particular, reforçada por testemunhas,
constitui indício documental forte que, combinado com outros elementos (inquéritos,
reportagens, inspeções), corrobora a prática de trabalho escravo contemporâneo.
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Ainda como integrante do dossiê, consta o ofício nº 105/84-GAB,
datado de 25 de julho de 1984, expedido em Paraíso do Norte de Goiás, pelo então
Prefeito Municipal Dr. Moisés Nogueira Avelino, dirigido ao Juiz de Direito da Comarca
de Conceição do Araguaia – PA.
No documento, o prefeito comunica ao juiz fatos graves
ocorrendo na Fazenda Vale do Rio Cristalino (Volkswagen), no sul do Pará. Afirma que
pessoas da cidade de Paraíso do Norte estavam sendo levadas à fazenda para
trabalhar em serviços braçais, mas que lá ficavam: Detidas, Coagidas, pressionadas
pelos encarregados e eram tratadas “como verdadeiros escravos, sem direito de sair da
fazenda”, conforme declarações anexadas. Pede que o juiz verifique a veracidade dos
fatos e tome as devidas medidas legais. O ofício é assinado por Dr. Moisés Nogueira
Avelino, Prefeito Municipal de Paraíso do Norte.
Trata-se, portanto, de documento oficial emitido por autoridade
pública no exercício de suas funções institucionais, dirigido ao Poder Judiciário,
circunstância que lhe confere elevada credibilidade e presunção de veracidade (art. 19
da LINDB c/c art. 405 do CPC/1973, vigente à época, atual art. 364 do CPC/2015). Ao
comunicar formalmente a ocorrência de ilícitos graves a um magistrado, o Prefeito
evidencia não apenas a seriedade dos fatos, mas também a ciência inequívoca do
Estado brasileiro sobre a prática de trabalho escravo contemporâneo na mencionada
fazenda.
O teor do ofício revela ainda que a situação não se limitava a
irregularidades trabalhistas pontuais, mas configurava submissão de trabalhadores a
condições análogas à escravidão, em frontal violação ao art. 149 do Código Penal, já
vigente, bem como aos direitos fundamentais de liberdade e dignidade da pessoa
humana. Ressalte-se que a comunicação oficial registra a impossibilidade de os
trabalhadores deixarem a fazenda, aspecto que confirma o elemento de restrição de
locomoção e coação característico do regime de escravidão contemporânea.
Dessa forma, o Ofício nº 105/84-GAB ostenta valor como prova
documental robusta, a corroborar os depoimentos testemunhais e demais declarações
constantes nos autos, servindo como elemento de convicção de submissão de
trabalhadores a condições degradantes e à privação da liberdade, configurando ilícito
trabalhista estruturante de extrema gravidade, com repercussão constitucional e
internacional em matéria de direitos humanos.
Além disso, identifico o Ofício nº 103/84-GAB, expedido em 23
de julho de 1984, em Paraíso do Norte (GO), assinado pelo Prefeito Municipal Dr.
Moisés Nogueira Avelino, endereçado ao Secretário de Segurança Pública do Estado do
Pará, em Belém. Nele, o prefeito encaminha declarações de pessoas que saíram de
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Paraíso do Norte/GO com destino à Fazenda Vale do Rio Cristalino (Volkswagen), no sul
do Pará. Informa que esses trabalhadores, ao chegarem à fazenda, foram: detidos,
coagidos, pressionados pelos encarregados, eram tratados “como verdadeiros
escravos, sem direito de sair daquela fazenda e apenas dois trabalhadores
conseguiram fugir, alcançando novamente a cidade de origem, onde relataram os fatos.
O prefeito pede que o Secretário de Segurança Pública do Pará
verifique a veracidade dos fatos e adote as providências cabíveis.
O documento é oficial e goza da mesma força probatória
atribuído ao documento semelhante, acima analisado. Demonstra que já em 1984
havia ciência estatal formal, inclusive no âmbito da segurança pública, sobre a
escravização de pessoas na Fazenda Vale do Rio Cristalino.
Além desses documentos, consta ainda no dossiê um telex
oficial da Câmara dos Deputados, datado de 17 de julho de 1984, enviado pelo
Deputado Federal Ademir Andrade (ramal 5476) ao então Governador do Pará, Jader
Barbalho, no Palácio Lauro Sodré, Belém/PA.
O deputado informa ter recebido novas denúncias de trabalho
escravo nas fazendas da Cia Vale do Rio Cristalino – Volkswagen, localizadas em Japorá,
município de Santana do Araguaia (PA). Registra que dezenas de trabalhadores,
inclusive menores de idade, foram levados de Paraíso do Norte/GO em 04/04/1984.
Narra que alguns conseguiram fugir, mas outros permaneciam presos, submetidos a
trabalhos forçados para pagar dívidas. Aponta como responsáveis diretos: Empreiteiro
da fazenda, Abílio Dias de Araújo e Capataz Luizão (Luiz Felipe).
Relata ainda que trabalhavam em condições totalmente
irregulares, sem direitos, sem assistência, incluindo um caso grave de casal (Divino
Ferreira Matos e esposa) separado do filho de 6 anos, deixado para trás.
O deputado lembra que já havia enviado vários telegramas sem
resposta ao governo estadual. Solicita medidas urgentes para evitar a continuidade da
escravidão. Destaca que já existem depoimentos de trabalhadores fugidos registrados
na Delegacia de Polícia de Paraíso do Norte/GO. Pede atenção e providências imediatas
do governador.
O documento oficial é de altíssima relevância probatória,
expedido por parlamentar no exercício de suas funções, denunciando diretamente ao
chefe do Executivo estadual a ocorrência de trabalho escravo contemporâneo na
Fazenda Vale do Rio Cristalino (Volkswagen).
Corrobora e reforça os ofícios do Prefeito de Paraíso do Norte
/GO (dirigidos ao juiz e ao secretário de segurança do Pará), demonstrando que as
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denúncias eram amplas, públicas e chegaram ao mais alto nível das autoridades
estaduais.
Contém detalhes fáticos relevantes, como: Presença de menores
entre os trabalhadores; Regime de servidão por dívida; Separação familiar e ausência
de qualquer direito trabalhista ou assistência; Responsabilização nominal de
empreiteiro e capataz vinculados à fazenda e mostra que, apesar da ciência inequívoca,
houve omissão das autoridades estaduais (“vários telegramas sem resposta”).
Há ainda o Ofício nº 22/84, datado de 28 de maio de 1984,
expedido pela Delegacia de Polícia de Paraíso do Norte (GO), órgão da Secretaria de
Segurança Pública do Estado de Goiás, endereçado ao Delegado da Polícia Federal em
Araguaína/GO.
A polícia local encaminha à Polícia Federal a Sra. Doralice Brito
Cirqueira, portadora de identidade nº 1.928.149/SSP/GO, que levava declarações dos
Srs. Francisco Batista Lima e Joaquim Gringo, acusando a fazenda Volkswagen (Vale do
Rio Cristalino, no Pará) de submeter trabalhadores a condições análogas à escravidão.
Segundo o ofício, em 04/04/1984, o Sr. Joaquim Gringo de Silva
arregimentou em Paraíso do Norte/GO 43 homens, levando-os ao Pará. De acordo com
a declaração de Francisco Batista Lima, esses homens foram “vendidos” por Joaquim
Gringo a Abílio de tal, pelo valor de Cr$ 40.000,00 por cabeça. Até a data do ofício,
nenhum dos homens retornara à cidade ou se comunicara com suas famílias. Isso
gerava constante procura das famílias na delegacia local, ansiosas por informações
sobre seus parentes.
A autoridade policial de Paraíso do Norte reconhece que o crime
não ocorrera em sua jurisdição, mas sim no Estado do Pará, razão pela qual
encaminhou o caso e os documentos à Polícia Federal para apreciação e providências
competentes.
O documento oficial expedido por autoridade policial,
confirmando formalmente a ocorrência de aliciamento fraudulento, transporte
interestadual de trabalhadores e sua posterior redução à condição análoga à de
escravos.
Registra, de forma inequívoca o número exato de trabalhadores
(43 homens), a prática de “venda” de trabalhadores por valor monetário por cabeça,
caracterizando servidão por dívida e tráfico de pessoas e o desaparecimento dos
trabalhadores e a ausência de qualquer contato com suas famílias, configurando
restrição de locomoção e cárcere privado.
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O encaminhamento à Polícia Federal evidencia a percepção de
gravidade e interesse federal no caso, já que envolvia tráfico interestadual de
trabalhadores e empresa multinacional.
Compõe ainda o dossiê, os seguintes documentos:
Registros fotográficos, como fotografias de alojamentos e
frentes de trabalho. As fotografias constantes dos autos foram produzidas por agentes
públicos e jornalistas, com identificação do local e contexto, e estão acompanhadas de
relatórios que atestam sua autenticidade. A jurisprudência reconhece a fotografia
como prova documental idônea, cabendo à parte contrária demonstrar manipulação
ou inexatidão, o que não ocorreu.
Assim, reputo que tais documentos têm alto valor confirmatório,
servindo como prova complementar que materializa as condições descritas nos laudos
e depoimentos.
Declarações sem identificação formal. Alguns relatos presentes
em anexos de inspeção que não identificam plenamente o declarante ou não indicam
data precisa. A ausência de identificação compromete a possibilidade de contraditório
e aferição da credibilidade. Assim, não há valor probatório, apenas corroborativo,
quando confirmados por outros elementos de prova mais robustos.
Documentos reproduzidos sem autenticação. Constam cópias
xerográficas de supostos contratos particulares ou anotações internas, sem
autenticação ou sem prova de apreensão oficial. Tais documentos não gozam de
presunção de autenticidade (art. 411, CPC) e dependem de confirmação por outros
meios. Assim, não há valor probatória por si só, ficando condicionados à ratificação por
depoimentos, laudos ou apreensões formais.
Relatos de “ouvir dizer”. Constam menções, em depoimentos, a
“comentários” ou “histórias” sobre mortes ou práticas ilícitas, sem participação direta
do declarante. Tais relatos são de baixa força probatória, pois não constituem prova
direta dos fatos, servindo apenas como indício. Quando convergem com provas
materiais ou testemunhais diretas, podem reforçar o contexto, mas sem peso decisório
isolado.
Do conjunto de provas apresentadas no dossiê, identifico que
nem todos os documentos têm igual peso. Os de maior força são os relatórios oficiais,
depoimentos diretos identificados, documentos apreendidos com cadeia de custódia e
registros administrativos/ policiais. Já reportagens, cópias não autenticadas e relatos
indiretos têm função apenas acessória, servindo para compor o quadro geral, mas não
sustentando, isoladamente, a configuração dos ilícitos.
Documento assinado eletronicamente por OTAVIO BRUNO DA SILVA FERREIRA, em 29/08/2025, às [Link] - dc7fe45
Fls.: 152
O dossiê, lido em sua integralidade, corrobora a narrativa fática
(temporalidade, modus operandi, autores e vítimas), multiplica fontes e reduz risco de
falso consenso.
INSPEÇÃO PARLAMENTAR (d4ae823, dfd5bc0, 0a04bdb e
2416804)
O documento contém Relatório de viagem/inspeção à Fazenda
Vale do Rio Cristalino (“Fazenda Volkswagen”), no sul do Pará, realizada em 5–7/07
/1983, por parlamentares, jornalistas e lideranças sindicais/religiosas. O texto é
descritivo e contextual, com observações in loco, nomes de gestores, dados de área,
rebanho e madeira, referências a incentivos fiscais e práticas trabalhistas.
O documento expressa a vinculação da fazenda à Volkswagen
do Brasil, apresenta dados técnicos/econômicos do projeto, como área de 139.392 ha;
aquisição da área em 1973; Metas de pastagens (54 mil ha) e 196 mil cabeças
projetadas para 1986/88; Exploração madeireira (pau-brasil, jatobá) com exportação
para a Europa (especialmente Alemanha), inclusive “6.000 m³ em 1982” em forma de
cabos de vassoura e outros; Integração com frigorífico Atlas e exportação de carne
bovina “por via aérea” para a Europa; projeto de genética (cruzamentos) com
veterinário e cooperação acadêmica alemã; Incentivos fiscais SUDAM: menção a Cr$
[Link],00 como valor global do projeto, sendo Cr$ 4,3 bilhões de incentivos
aprovados.
Detalha ainda a estrutura de comando e fiscalização, com
citações a executivos/diretores no local, com reuniões formais com a comitiva.
Expressa a existência de segurança padronizada “igual à da Volkswagen em São
Bernardo”, com uniformes azuis e fiscalização/controle ostensivo sobre empregados
próprios e de empreiteiras. Assinala a existência de controle do processo de trabalho:
indicação de fiscais da fazenda que conferiam serviços; reuniões que tratam de ordens
e gestão direta.
Sobre as condições de trabalho e violações relatadas, aponta as
seguintes situações:
Remuneração: contraste entre salários de chefias (ex.:
agrônomo) e peões/vaqueiros; referência a folhas de pagamento com valores
inferiores aos informados aos trabalhadores (ex.: “peão Cr$ 39 mil”, “vaqueiro Cr$ 42
mil”), pagamentos por produção/boi e trabalho de menores (<Cr$ 30 mil);
Férias “conforme a necessidade da empresa”; dispensas sem
quitação integral; uso de pistoleiros para coagir assinatura de “justa causa”;
Documento assinado eletronicamente por OTAVIO BRUNO DA SILVA FERREIRA, em 29/08/2025, às [Link] - dc7fe45
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Jornadas extensas, condições degradantes e restrições;
Benefício econômico direto: o relatório contrapõe a narrativa
empresarial de ausência de lucro a “baixos salários, incentivos fiscais, exportação de
tudo que se produz”, sugerindo rentabilidade do empreendimento.
O documento é útil para a compreensão do caso nas seguintes
situações:
Comando e fiscalização: descrição de segurança padronizada da
Volkswagen, uniformes, vigilância e repressão, e fiscais/dirigentes que reuniam,
decidiam e conferiam serviços - elementos típicos de direção da atividade e ingerência
operacional, úteis para reconhecer grupo econômico por coordenação (art. 2º, §2º, CLT)
e afastar a neutralidade de contratos de empreitada (primazia da realidade);
Cadeia de proveito: exportações de madeira e carne,
cooperação técnica com instituições alemãs, integração com frigorífico e destinação de
produção à Europa - demonstração de benefício econômico e nexo de imputação
(tomador beneficiário).
Incentivos fiscais: referência a bilhões em incentivos - parâmetro
objetivo para quantificação de vantagem indevida e para o dimensionamento do dano
moral coletivo, em caso de procedência (função inibitória/pedagógica);
Violências e fraudes trabalhistas: depoimentos e casos
concretos - úteis para corroborar a existência de trabalho degradante/servidão por
dívida/coação e práticas de ocultação (ex.: “justa causa” forçada).
Quanto à força probatória do documento, em especial a
natureza e a temporalidade, trata-se de relatório contemporâneo (1983), produzido por
parlamentares/jornalistas/ sindicalistas após visita in loco. A proximidade temporal aos
fatos e a observação direta aumentam a credibilidade.
O conteúdo é específico e verificável, pois aponta nomes de
dirigentes, valores, quantidades (hectares, cabeças), vias de exportação, métodos de
controle e casos nominados - passível de cotejo com demais provas (SUDAM, folhas de
pagamento, contratos, depoimentos).
É certo que parte do conteúdo é relato narrativo e testemunhal
indireto colhido pelos autores do relatório. Sobre isso, as narrativas são cotejadas com
os demais elementos de prova.
Portanto, como prova documental histórica, tem alto valor
indiciário para inferir ingerência, benefício econômico e padrões de violação;
Documento assinado eletronicamente por OTAVIO BRUNO DA SILVA FERREIRA, em 29/08/2025, às [Link] - dc7fe45
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funcionando como peça de convergência a ser lida com outros documentos do
processo (ex.: contratos/medições com cláusulas de fiscalização; ofícios SUDAM;
relatórios governamentais; testemunhos recentes).
O documento aponta, com forte densidade indiciária, que a
Volkswagen do Brasil não era mera investidora distante, pois apresenta indicativos
robustos de direção, fiscalização e proveito econômico direto do empreendimento
(fazenda/produção/exportação), reforçados por segurança corporativa própria,
mecanismos de controle sobre trabalhadores e captura de incentivos fiscais.
Sobre sua qualidade probatória, o resultado de uma visita oficial
realizada por parlamentares é um documento público, elaborado no exercício da
função legislativa e fiscalizatória. Por isso, tem força probatória significativa, superior à
de documentos de entidades privadas. Contudo, seu conteúdo não goza de presunção
absoluta e deve ser corroborado por outras provas técnicas e testemunhais.
Dessa forma, atribui-se ao relatório de inspeção parlamentar a
qualidade de elemento probatório idôneo, que, em cotejo com os demais meios de
prova, permite formar o convencimento deste Juízo acerca da existência de condições
análogas às de escravo no local investigado.
TERMOS DE DEPOIMENTO E DECLARAÇÕES - (14bb026, 03c76e0,
eba5b60 e 90bf4b1)
O documento anexado reúne escrituras públicas declaratórias
lavradas em cartórios de Gurupi (à época Goiás, hoje Tocantins), datadas de 1987, e
certificadas em 2019. Trata-se de depoimentos de trabalhadores e familiares de
trabalhadores que foram recrutados por “gatos” (empreiteiros) e levados para
trabalhar na Fazenda Rio Cristalino, de propriedade da Volkswagen, no município de
Santana do Araguaia/PA.
Destaco os principais trechos identificados:
Declaração de Deusdete Moreira da Silva
Relata que seu irmão, Nelson Gonçalves da Silva, foi levado para
a Fazenda Rio Cristalino pela Volkswagen, por intermédio de Hiltomar de Souza
Monteiro.
Narra que, após o trabalho inicial, Nelson foi repassado a outro
“gato” chamado Abílio, permanecendo em condições precárias e doente.
Ele próprio foi levado, com outros sete trabalhadores, para a
Fazenda da Volkswagen.
Documento assinado eletronicamente por OTAVIO BRUNO DA SILVA FERREIRA, em 29/08/2025, às [Link] - dc7fe45
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Informa que ficaram 13 dias na Fazenda Rio Cristalino, sem
receber os valores prometidos, alojados em barracos de lona.
Relata que foram “vendidos” a outro empreiteiro (Juracy Franco),
que os transferiu para outras fazendas (São Geraldo e Rio 18), onde trabalharam em
regime degradante, sob vigilância armada e submetidos a dívidas, malária e falta de
assistência médica.
Relata que seu irmão, Gumercindo, também foi levado pelo
“gato” Dilson para a Fazenda Volkswagen, de onde foi posteriormente “vendido” a
Juracy Franco.
Afirma suspeitar que ele permaneceu submetido a condições de
escravidão, uma vez que desapareceu após essa intermediação.
Confirma os mesmos fatos narrados por Raul, reforçando a
presença de diversos trabalhadores de Porto Nacional/GO na Fazenda Volkswagen.
Descreve as condições degradantes de alojamento, vigilância
armada, não pagamento de salários e sucessivas transferências para outras fazendas.
Reforça o padrão de aliciamento, condições de trabalho e
transferência de peões entre fazendas no município de Santana do Araguaia.
O conjunto documental é altamente relevante para a análise do
processo judicial, pois aponta a propriedade da Fazenda pela Volkswagen, na época
dos fatos, comprova a presença de trabalhadores aliciados por intermediários
(Hiltomar, Dilson, Juracy, Abílio), atuando diretamente na Fazenda e revela práticas
típicas de trabalho escravo, em virtude das seguintes situações: Condições
degradantes: ausência de assistência médica; disseminação de malária; medicamentos
aplicados de forma incorreta; jornadas extenuantes, inclusive aos domingos;
confinamento em barracões improvisados, vigilância armada, servidão por dívida,
transferência de trabalhadores como “mercadoria” entre fazendas, ausência de
pagamento, condições degradantes (malária, falta de assistência médica, alimentação
precária), bem como demonstra a repetição sistemática do modus operandi, pois
múltiplos depoentes, em momentos distintos, confirmam os mesmos fatos e
personagens.
Importante destacar que vários declarantes, de forma
independente, narram fatos semelhantes, o que confere elevada credibilidade e reduz
a possibilidade de fabricação ou erro isolado. Ainda que tenham natureza de
Documento assinado eletronicamente por OTAVIO BRUNO DA SILVA FERREIRA, em 29/08/2025, às [Link] - dc7fe45
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declaração unilateral (não constituem confissão da parte adversa), seu peso probatório
é alto quando corroborado por outros elementos de prova (relatórios oficiais, laudos,
testemunhos judiciais).
O valor histórico-jurídico é notório, pois atestam a ocorrência de
trabalho escravo na década de 1980, reforçando a narrativa de que tais ilícitos estavam
institucionalmente invisibilizados na época.
Os depoimentos constantes nos referidos instrumentos
notariais relatam que trabalhadores foram recrutados por empreiteiros (Hiltomar e
Dilson de Souza Monteiro) em Porto Nacional/GO e conduzidos diretamente para a
Fazenda da Volkswagen.
Ali permaneceram por dias em condições degradantes de
alojamento (barracões de lona improvisados), submetidos a jornadas extenuantes, sem
qualquer pagamento pelos serviços prestados e impedidos de abandonar o local por
ausência de recursos e pela ação de fiscais armados.
Posteriormente, tais trabalhadores foram “vendidos” a outros
empreiteiros, como Juracy Franco e Abílio, que os transferiram para fazendas vizinhas,
mantendo a mesma lógica de exploração: servidão por dívida, ausência de
remuneração, vigilância armada e disseminação de doenças tropicais (malária), com
registro de óbitos e desaparecimentos.
O quadro narrado subsume-se aos elementos típicos do art. 149
do Código Penal, que define como crime submeter alguém a condição análoga à de
escravo, seja:
pelo trabalho forçado,
pela jornada exaustiva,
pela sujeição a condições degradantes de trabalho,
ou pela restrição de locomoção em razão de dívida contraída
com o empregador ou preposto.
Os instrumentos analisados possuem elevada força probatória
por se tratarem de escrituras públicas declaratórias, revestidas de fé pública, cuja
validade é atestada por certificações recentes. Ainda que consubstanciem declarações
unilaterais, a convergência dos relatos de múltiplos declarantes sobre fatos, locais,
personagens e modus operandi confere robustez e confiabilidade à prova.
Documento assinado eletronicamente por OTAVIO BRUNO DA SILVA FERREIRA, em 29/08/2025, às [Link] - dc7fe45
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Seu valor é ainda ampliado quando cotejado com demais
elementos dos autos, como relatórios do Ministério do Trabalho, investigações do
Ministério Público e depoimentos de vítimas.
DEMANDAS JUDICIAIS (3e90f43, 38c67d8, 7152ee7, 2d43293,
80d8254, 2c8e5e8, 5d98e9d, 915173f, afe5845, ce7ce96, 65ab6f3, a9876b3, 47ce6f9,
aff835c, f76a302, 4445411, 233be9b, 3c79cc3, a8cab3c, 2be50dc, 05ed852, 86db5a6,
c2015da, e5db80d, 920db48, cde3016, 1454016, 8d48a5d, dc7c8ca , 670a070, d9d498c
e 3939625)
Dentre os documentos contidos neste bloco, destaco o acórdão
do Tribunal Regional do Trabalho da 8ª Região (TRT8), referente ao processo RO 104
/86, com número do acórdão 378/86, em que se discutia a relação de emprego de
trabalhadores contratados para atuar na Companhia Vale do Rio Cristalino -
Agropecuária Comércio e Indústria (subsidiária da Volkswagen).
Naquele processo, foram recorrentes Pedro Valdo Pereira
Vasconcelos e outros trabalhadores, representados pela advogada Dra. Maria José
Souza Moraes e foi recorrida a Companhia Vale do Rio Cristalino – Agropecuária
Comércio e Indústria, representada pelo advogado Dr. José Alves de Abreu.
Os trabalhadores haviam sido contratados pela empreiteira
Andrade Desmatamento Ltda., que prestava serviços para a Vale do Rio Cristalino. O
juízo de 1ª instância havia afastado a responsabilidade da Companhia, reconhecendo
apenas o vínculo com a empreiteira.
No TRT8, o relator divergiu da sentença, afirmando que pouco
importa se a empreiteira é idônea ou não; o que interessa à Justiça do Trabalho é a
proteção dos direitos dos reclamantes; os trabalhadores, “pobres obreiros sem
nenhum conhecimento da legislação trabalhista”, não poderiam ficar sem proteção e
apesar de formalmente contratados pela empreiteira, prestaram serviços em obra da
reclamada, sendo esta a verdadeira empregadora para todos os efeitos legais.
Reconheceu-se a responsabilidade solidária da Vale do Rio
Cristalino e da empreiteira Andrade Desmatamento Ltda. pelos direitos trabalhistas.
Determinou-se o reconhecimento do vínculo empregatício com a Companhia Vale do
Rio Cristalino. Determinou-se o retorno dos autos ao Juízo de Direito da Comarca de
Conceição do Araguaia para julgamento do mérito. O julgamento ocorreu em 24 de
março de 1986.
A relevância jurídica desponta pelo fato do reconhecimento
judicial de que a Companhia Vale do Rio Cristalino era empregadora direta dos
trabalhadores, independentemente da intermediação de empreiteira. Demonstra que a
Documento assinado eletronicamente por OTAVIO BRUNO DA SILVA FERREIRA, em 29/08/2025, às [Link] - dc7fe45
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prática de terceirização foi usada como artifício para ocultar a responsabilidade da
empresa principal, mas não foi aceita pela Justiça do Trabalho.
Por isso, esse acórdão é prova documental robusta, pois mostra
que já em 1986 a Justiça do Trabalho reconhecia formalmente a responsabilidade da
empresa pelos ilícitos laborais ocorridos na fazenda.
Além disso, identificam-se depoimentos colhidos em juízo no
processo trabalhista contra a Companhia Vale do Rio Cristalino (Volkswagen), nos anos
1980, envolvendo reclamações de trabalhadores contratados via intermediários (ex.:
Batista, Chicó, empreiteiras).
Os principais pontos extraídos dos depoimentos são:
Das testemunhas dos reclamantes:
Trabalhadores foram aliciados com promessas falsas de salário
fixo e benefícios (transporte e alimentação inclusos).
Ao chegarem à fazenda, perceberam que as condições
acordadas não foram cumpridas.
Relatam que, ao invés de trabalharem para o contratante direto
(Batista ou Chicó), acabaram prestando serviços para a Volkswagen, derrubando
dezenas de alqueires de mata.
Confirma-se a presença de pistoleiros armados, que impediam
os trabalhadores de deixar a fazenda ou procurar as autoridades.
Há referências explícitas de que os contratos eram verbais,
precários e nunca respeitados.
Da testemunha da reclamada:
Júlio Gomes da Silva, fiscal, reconhece que havia empreiteiros
(como Chicó), mas admite que trabalhava há nove anos para a Volkswagen, como fiscal
da fazenda; os serviços (inclusive roça e desmatamento) eram realizados dentro da
própria Fazenda Vale do Rio Cristalino, sob a supervisão da reclamada; Afirma que
todos recebiam salários “sem problemas”, mas admite não saber as condições reais
dos aliciados, nem a veracidade das denúncias; Reconhece a existência de empreiteiros
contratados para fornecer mão de obra à Volkswagen.
Os depoimentos comprovam a utilização de empreiteiros como
interposta pessoa para aliciar trabalhadores em condições fraudulentas e submetê-los
a trabalho forçado e degradante, com restrição de liberdade (pistoleiros armados).
Documento assinado eletronicamente por OTAVIO BRUNO DA SILVA FERREIRA, em 29/08/2025, às [Link] - dc7fe45
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O depoimento da própria testemunha da reclamada (fiscal)
confirma que os serviços eram executados dentro da fazenda da Volkswagen e que o
sistema de contratação via empreiteiros atendia diretamente à demanda da empresa.
Em termos de tipificação jurídica, identifica-se a servidão por
dívida (mudança unilateral de contratos, valores por “cabeça” de trabalhador), o
trabalho forçado (ameaça com armas e proibição de saída) e a condições degradantes
(promessas descumpridas, falta de assistência, sobrecarga).
Estes documentos demonstram, por peças oficiais, que houve
litígios trabalhistas na década de 1980 envolvendo a Companhia Vale do Rio Cristalino.
Isso corrobora a narrativa fática histórica e auxilia na cronologia dos eventos
(aliciamento, condições de trabalho, intermediação por empreiteiras, etc.).
A existência documentada de ações antigas contra a Companhia
(e recursos no TRT8) enfraquece narrativas de que “nada houve” ou de que não há
lastro probatório histórico.
Sobre a força probatória, os atos e decisões judiciais constituem
provas documentais públicas (art. 405, CPC), com fé pública e elevado valor probante
quanto à existência de processos, atos de instrução e decisões e quanto ao conteúdo
da decisão (seu dispositivo e fundamentos). Por certo, não substituem prova pericial ou
testemunhal sobre todas as condições fáticas na fazenda, mas comprovam que os
fatos foram judicializados e como foram apreciados à época.
MATÉRIAS JORNALÍSTICAS E DEBATES PARLAMENTARES
(c108aa9, 61d6080, fe345aa, 3752eb4 e 361d2fb)
Matérias jornalísticas (quando acessadas em versão legível
completa) tem valor médio/baixo como prova do fato-núcleo (são documentos de
terceiros, essencialmente informativos), mas relevantes para demonstrar notoriedade,
impacto social, linha temporal e eventual ciência do poder público/empresas.
Por isso, a sua utilização deve ser cotejada com provas diretas
(relatórios oficiais, depoimentos, perícias, documentos empresariais) e para contexto
/convencionalidade (padrões de violação, persistência, reiteração).
Por outro lado, os debates parlamentares/atas oficiais, quando
obtidas do Diário da Câmara/Senado/Assembleias em cópia oficial, tem alto valor
probatório quanto à existência de pronunciamentos, requerimentos, audiências e o
teor oficial do que foi dito (documentos públicos, com fé pública). Contudo, não
substituem a prova das condições de trabalho no caso concreto, mas reforçam a
seriedade e amplitude das denúncias, além de cronologia e eventual ciência estatal.
Documento assinado eletronicamente por OTAVIO BRUNO DA SILVA FERREIRA, em 29/08/2025, às [Link] - dc7fe45
Fls.: 160
INQUÉRITO POLICIAL (ab204c0 e 3ef11b3)
Consta dos autos o Relatório datado de 22 de julho de 1983,
expedido pela Delegacia de Polícia de Conceição do Araguaia/PA, assinado pelo
Delegado José Maria Alves Pereira, elaborado em cumprimento à determinação do
Coordenador de Polícia Civil do Estado, com a finalidade de apurar denúncias de
trabalho escravo na Fazenda Vale do Rio Cristalino, pertencente ao grupo Volkswagen.
No referido documento, a autoridade policial confirma:
A Fazenda Vale do Rio Cristalino realizava anualmente
derrubadas de árvores para formação de pastagens, contratando firmas desmatadoras;
As firmas desmatadoras contratavam peões (trabalhadores
rurais), remunerados por alqueire desmatado;
Os “gatos” recrutavam trabalhadores no Nordeste e em
municípios vizinhos, como Barreira do Campo e Campo Alegre;
Trabalhadores recebiam um “abono” inicial, em dinheiro ou
pagamento de pensões, criando dívidas iniciais;
Nos locais de desmatamento, eram instaladas cantinas onde os
peões eram forçados a comprar alimentos, roupas e utensílios, aumentando a dívida;
Ao fim do serviço, o “gato” media o trabalho e fazia os acertos,
deduzindo abonos, cantina e despesas;
Muitos peões, por não terem residência fixa, contraíam dívidas
superiores à sua capacidade de pagamento, tornando-se insolventes;
A fiscalização era feita por “capangas armados” dos gatos, que
impediam fugas e, quando havia tentativas, os peões eram amarrados e espancados.
Ou seja, o sistema de aliciamento de trabalhadores para a
Fazenda era operado por empreiteiros (“gatos”), que arregimentavam peões no
Nordeste e em municípios vizinhos, adiantando-lhes “abonos” e pensões, o que gerava
dívidas prévias. No local do desmatamento, os trabalhadores eram submetidos a
cantinas controladas pelos empreiteiros, de onde eram obrigados a adquirir alimentos
e utensílios, ampliando seu endividamento. O relatório reconhece expressamente que
os trabalhadores insolventes eram impedidos de deixar o local, submetidos à vigilância
armada, amarrados e espancados em caso de fuga - elementos que configuram,
inequivocamente, o crime de redução à condição análoga à de escravo (art. 149 do
Código Penal).
Documento assinado eletronicamente por OTAVIO BRUNO DA SILVA FERREIRA, em 29/08/2025, às [Link] - dc7fe45
Fls.: 161
Não obstante tais constatações, o relatório concluiu:
Improcedentes as denúncias contra a Volkswagen, sob a
justificativa de que a empresa contratava firmas especializadas, cabendo a estas a
responsabilidade direta.
Procedentes as denúncias contra os gatos/empreiteiros, que
praticavam espancamentos, retenção e exploração dos trabalhadores.
Com efeito, revela-se sem amparo jurídico a conclusão pela
“improcedência das denúncias contra a Volkswagen”, sob o argumento de que a
empresa contratava firmas especializadas para o desmatamento, cabendo a estas a
responsabilidade direta, pois, apontada como beneficiária direta da exploração do
trabalho e titular da Fazenda Vale do Rio Cristalino, a Volkswagen detinha o dever legal
de zelar pela licitude da execução contratual e não poderia se eximir de
responsabilidade mediante a terceirização ilícita de mão de obra.
Destaco que já à época a legislação trabalhista e os princípios da
primazia da realidade e proteção ao trabalhador impunham o reconhecimento da
responsabilidade da tomadora de serviços - ainda mais diante da gravidade das
violações constatadas. Ademais, os elementos objetivos descritos no próprio Relatório
(endividamento, cantinas compulsórias, vigilância armada, espancamentos) evidenciam
a materialidade do ilícito e afastam qualquer tese de inexistência de trabalho escravo
na fazenda.
Portanto, referido Relatório Policial, longe de afastar a
responsabilidade da Volkswagen, comprova dois aspectos relevantes para o deslinde
da presente causa:
(i) a materialidade da exploração de trabalhadores em regime
análogo à escravidão, em benefício direto da Fazenda Vale do Rio Cristalino; e
(ii) a ciência inequívoca do Estado brasileiro já em 1983 acerca
da prática ilícita, revelando-se a leniência de órgãos estatais que, embora
reconhecessem os fatos, optaram por isentar a empresa beneficiária, transferindo
artificialmente a responsabilidade aos chamados “gatos”.
Sobre sua natureza, o inquérito policial é um procedimento
administrativo inquisitivo, destinado à colheita de elementos informativos sobre a
materialidade e autoria de ilícitos penais (art. 4º do CPP). Não se confunde com prova
judicial, porque não é produzido sob contraditório. Em razão disso, seus elementos
têm valor de prova indiciária - servem para fundamentar a atuação do Ministério
Público (no penal e também no trabalhista), mas precisam ser corroborados em juízo.
Documento assinado eletronicamente por OTAVIO BRUNO DA SILVA FERREIRA, em 29/08/2025, às [Link] - dc7fe45
Fls.: 162
O conteúdo do inquérito (depoimentos, apreensões, relatórios
policiais) pode ser admitido como documento público (art. 405 do CPC). Contudo, os
depoimentos colhidos na fase inquisitorial têm menor força probatória, pois não foram
prestados sob contraditório judicial. Assim, tem força probatória relevante, mas
limitada. Sua eficácia depende da corroboração por provas colhidas sob contraditório
(depoimentos em audiência, laudos técnicos, autos de infração).
Assim, este Juízo atribui ao inquérito policial a condição de
elemento probatório auxiliar, de relevante peso por decorrer da atuação oficial da
autoridade policial.
No caso concreto, observa-se que os dados colhidos no
inquérito encontram-se em consonância com outros elementos dos autos, o que
robustece o conjunto probatório e autoriza a formação do convencimento deste Juízo
acerca da ocorrência de condições análogas à de escravo.
ENTREVISTA DIRETOR DA FAZENDA (b942158)
Trata-se de uma entrevista prestada pelo Sr. Georg Brügger -
então gerente da Companhia Vale do Cristalino. A entrevista foi divulgada em site
externo e traduzida por tradutor público.
A entrevista publicada por meio jornalístico (como site de
notícia) não constitui prova formal dentro do processo - trata-se de meio de prova
indireto. A tradução feita por tradutor público confere autenticidade documental ao
texto em português, mas a entrevista em si continua sendo prova extrajudicial. Ou seja,
tem valor probatório, mas restrito.
Assim, a entrevista prestada por Georg Brügger, traduzida por
tradutor público, tem força probatória limitada, pois é documento particular autêntico,
portanto admissível, mas não é prova plena. Seu conteúdo possui valor indiciário: pode
indicar fatos relevantes, mas não substitui provas colhidas com observância do
contraditório.
No caso concreto, as informações contidas na entrevista
encontram eco em outros elementos - como depoimentos colhidos em audiência,
relatórios fiscais, provas documentais internas e laudos técnicos - o que confere
densidade probatória ao conjunto. Assim, ainda que isoladamente essa entrevista não
seja suficiente para embasar o convencimento deste juízo, ela se integra de forma
relevante ao acervo probatório, colaborando para a constituição da convicção acerca
da materialidade das violações alegadas.
TERMOS DE DEPOIMENTO COLHIDOS PELO MPT (4df80b6,
2e9beca, ab5021a, 8e8c00e, f8730db, dcb17c1, 43b230a, f8e7969)
Documento assinado eletronicamente por OTAVIO BRUNO DA SILVA FERREIRA, em 29/08/2025, às [Link] - dc7fe45
Fls.: 163
Trata-se de um caderno com termos de depoimentos colhidos
pelo Ministério Público do Trabalho (MPT) no âmbito da PA-PROMO
000211.2019.01.004-5 (GEAF Volkswagen — CONAETE). Consta que os atos ocorreram
em 2021 (por videoconferência e de forma presencial). Há índice final que lista oito
partes (Parte 1 a 8) com seus respectivos “Documentos Diversos (DOC 8)”.
Sobre os depoimentos, traça-se um roteiro por depoente com
data/local, temas centrais e trechos relevantes que estruturam a narrativa fática:
Ricardo Rezende Figueira – tomado em 18/06/2021
(videoconferência, presid. Dr. Rafael Garcia Rodrigues e Dra. Sílvia Silva da Silva)
Apresenta o contexto histórico e primeiros relatos; tentativas de
mobilizar autoridades.
Sua chegada ao sul do Pará ocorreu em 1977. Relata que três jovens escaparam da
fazenda Vale do Rio Cristalino. Apresentou relatos de “trabalho escravo por dívida”;
tortura, violências, retenção de liberdade e até assassinatos; repercussão no sindicato
de São Bernardo e articulação com parlamentar.
Considerando que Ricardo Rezende Figueira foi apresentado
como testemunha perante o juízo, mas teve dispensado seu depoimento nessa
qualidade em virtude do acolhimento da contradita, suas declarações não apresentam
a segurança necessária para o convencimento do julgador. Foi ouvido, em juízo, apenas
como informante.
Expedito (Expedido) Soares – termo em 25/06/2021
(videoconferência)
Relata atuação sindical e repercussão pública das denúncias;
proposta de comitiva à fazenda. Atuou como dirigente sindical (Volkswagen/São
Bernardo); denúncias na ALESP; projeto “Vale do Rio Cristalino”; tratativas para visita in
loco com comitiva e participação da empresa. Sobre ele, aplicam-se as mesmas
observações feitas a respeito de Ricardo Rezende Figueira, pois também foi
apresentado como testemunha perante o juízo, mas dispensado o seu depoimento
nessa qualidade em virtude do acolhimento da contradita. Foi ouvido, em juízo, apenas
como informante.
João Corado Pereira (também referido como “João Peba”) -
termos de 08/08/2021 (Palmas/TO)
Ponto: recrutamento por “gato” Dilson/Itamar, condições
degradantes, uso de agrotóxicos sem EPI, dívidas na cantina, venda de trabalhadores a
Juraci/Adão Franco, malária e pistoleiros.
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Fls.: 164
Trechos: – “foram cerca de 20 pessoas… para a fazenda da
Volkswagen… alguns roçavam e outros jogavam veneno… tocos pintados de azul… sem
luva, óculos, botas; ‘fiscal da Volks vinha o tempo todo ver se jogavam veneno direito’ ”.
– Dívida na cantina (“devia a feira”, itens vendidos pelo “gato”) e
não houve pagamento na Volks.
– Venda de trabalhadores “da Volks para a São Geraldo” (Juraci
/Adão), cerca de trinta homens, e continuidade do não pagamento.
– Malária com aplicação de “azulão na veia” e pistoleiros
operando inclusive a aplicação.
– Migração forçada entre fazendas (IPA e Najá Porá) e revendas
sucessivas (“foi vendido por três vezes”).
Manoel Lustosa Mequiades – termo de 08/08/2021 (Palmas/TO)
Ponto: começou a trabalhar no local com 15 anos, dívida em
caderno, venda para Juraci/Adão, sem EPI, pistoleiros e malária.
– “em 1986… João Corado (17 anos), Raul, Raimundo (15 anos)…
foram para a fazenda da Volkswagen… vendidos para Juraci e Adão… tudo era
adquirido com o ‘gato’… dívida em caderno”.
– Jornada, sem EPI e pistoleiros, além de nova venda a São
Geraldo; não receberam.
– Malária, aplicação de azulão por pistoleiros e apoio de Frei Henri para retorno;
referência a ação judicial em Gurupi.
Raimundo Batista de Souza / Edmar / Judemar (núcleo da “nova
gleba”) – (trechos agrupados em razão da continuidade fática)
Ponto: pistoleiro “Casagrande”, água insalubre, malária em
sequência (Edmar, Judemar, depois o depoente), azulão aplicado por cantineiro, não
pagamento e negociação com outro “gato” após remoção forçada.
– “tinha um pistoleiro conhecido como Casagrande… água do
igarapé… malária… azulão aplicado pelo cantineiro… nunca receberam pagamento…
negociou com outro gato (Antônio Carlos)”.
Valdir Pereira Brito e Adália Neres de Menezes Brito – termo 06
/08/2021 (Porto Nacional/TO)
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Ponto: desaparecimento prolongado, busca por autoridades,
retorno doente com malária; não pagamento na “primeira fazenda (Volkswagen)”;
venda/transferência entre fazendas; prisão de “Chicô” após diligências.
– “Valdir nada recebeu na primeira fazenda (Volkswagen) e ficou
devendo… foram vendidos de uma fazenda para outra; um gato pagava para outro e os
trabalhadores ficavam devendo; malária generalizada; prisão de Chicô; retorno muito
inchado e doente”.
Tereza Ribeiro de Souza – termo 06/08/2021 (Porto Nacional/TO)
Ponto: aliciamento por “Ceará” ligado a Dilson/Itamar; separação
de turmas para impedir comunicação; menor (≈17 anos) fugido de fazenda da
Volkswagen após venda, malária, retorno por carona; rede de apoio (sindicato,
Consaúde, Frei Henri); trabalhadores já saíam devendo.
Dos relatórios, é possível extrair as seguintes informações:
Aliciamento/Intermediação: atuação de “gatos” (Itamar e Dilson)
em Porto Nacional/TO e Conceição do Araguaia/PA, inclusive com apoio local (“Ceará” e
alto-falante).
Trabalho forçado por dívida: cantina do gato com preços e
lançamentos em cadernos, gerando dívida permanente que impedia o retorno; “devia a
feira”; “sem nada receber”.
Condições degradantes: barracos de lona abertos, água de açude
/igarapé (mesma do gado e usada para necessidades), sem EPI para manuseio de
agrotóxicos (“Toddy/Torgan”), jornada extensa, preparo alimentar no chão.
Controle armado/violência: presença de pistoleiros ([Link].,
Casagrande, Alberon), inclusive aplicando “azulão” em doentes.
Doença/malária e atendimento precário: sucessivos surtos
(Edmar, Judemar, grupo), uso de “azulão na veia” por cantina/pistoleiros, sem
medicação adequada.
Venda/transferência de trabalhadores (coisificação): Dilson
/Itamar vendem ou “passam” grupos a Juraci/Adão Franco, Fazenda São Geraldo, IPA,
Najá Porá; há menções expressas a valores e “vendido que nem boi”.
Menores de idade trabalhando (≈14–17 anos).
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Nexo com a Volkswagen (gestão/benefício): referência explícita a
“fiscal da Volks” supervisionando a aplicação de veneno; atividade produtiva (roçar
/limpar área para empreendimento da companhia).
Aliciamento e rede de proteção
“foi nos anos oitenta que ‘Ceará’, de coração ruim, montou um
alto falante em Porto para chamar trabalhadores; [...] Itamar pediu para os meninos
não contarem o que tinha acontecido na fazenda; [...] Frei Henri ajudou a entrar com o
processo em Porto Nacional”.
A prova testemunhal extrajudicial descreve métodos típicos de
trabalho escravo (art. 149, CP: trabalho forçado/servidão por dívida/condições
degradantes/jornada exaustiva), com recorrência entre diferentes depoentes e
indicações de menores. Isso sustenta a materialidade e dinâmica do ilícito no período e
vincula a operação à marca/empreendimento (“fiscal da Volks”).
Apresenta um traçado da cadeia de responsabilização, pois
mostra o aliciamento (Itamar/Dilson), gestão/benefício na área vinculada à Volkswagen
(fiscalização de aplicação de herbicida), e subsequente circulação forçada (“vendas”)
para outras fazendas (São Geraldo/IPA/Najá Porá). Isso permite delimitar
responsabilidade direta e/ou por cadeia produtiva/empreitada e afastar manobras de
intermediação como causa de exclusão.
Múltiplos relatos mencionam cantina/dívida/azulão/pistoleiros
/malária e ausência de pagamento, produzindo consistência intersubjetiva útil ao juízo
de verossimilhança e à formação do convencimento (CPC, art. 371).
Sobre a origem e a força probatória, são termos oficiais do MPT,
colhidos no âmbito de procedimento promocional/CONAETE, portanto, são
documentos públicos (CPC, arts. 369, 405; CF/88, art. 129, III) com presunção relativa de
veracidade quanto à formalização do ato (existência da declaração), sem afastar a
necessidade de contraditório e ampla defesa quanto ao conteúdo.
O conteúdo apresenta uma coerência interna, pois destaca a
recorrência de elementos fáticos específicos (cantina/dívida; “azulão”; pistoleiros;
malária; venda de trabalhadores; ausência de EPI; menor de idade), narrados por
fontes diferentes e em sessões distintas/lugares distintos, reforça a credibilidade pela
convergência independente.
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A menção a fiscalização da própria “Volks” (fiscal acompanhando
a aplicação de veneno) conecta atividade operativa à empresa beneficiária, elemento
relevante para responsabilidade direta ou pela cadeia. Menores de idade laborando e
não pagamento aparecem em múltiplos termos, reforçando gravidade.
Assim, considero como documento de alta força probatória na
dimensão narrativa/ indiciária (pela convergência, especificidade e autenticidade
formal). Em termos de prova direta da imputação empresarial, os trechos sobre
fiscalização da “Volks” e benefício/controle do empreendimento elevam o grau de
imputação.
ENTREVISTA BRUGGER (67398ed, 25c8e7f , df1f6f1 e 46099a)
Trata-se de entrevista com o Diretor da Fazenda VW, Sr. F. G.
Bruegger. O documento refere-se diretamente às denúncias de escravidão e tortura na
Fazenda Vale do Rio Cristalino. Bruegger admite os fatos relatados mas discorda da
interpretação que havia sido dada anteriormente (especialmente sobre religião). O
texto mostra também que o periódico internacional pretendia publicar a resposta do
Diretor, evidenciando a dimensão internacional do caso.
A entrevista identifica claramente que o entrevistado é Friedrich
Bruegger, diretor da Fazenda VW. A entrevista foi feita por Peter Klein, colaborador da
BRASILIEN NACHRICHTEN. Foi uma entrevista longa (2 horas) em março, na própria
Fazenda Vale do Rio Cristalino. O resumo foi submetido previamente a Bruegger (o que
reforça autenticidade e fidelidade do conteúdo). O texto também foi enviado a atores-
chave ligados aos direitos humanos (Padre Rezende, Bispo Hanrahan, Deputado
Expedito Soares) para comentário.
Bruegger admite a ocorrência de mortes, mas as atribui a causas
externas ou a acidentes. Ele tenta desqualificar a principal fonte das denúncias (Natal,
ex-gato). A narrativa busca isentar a Volkswagen da responsabilidade direta por mortes
e más condições. Descreve o sistema de empreitada e servidão por dívidas, tentando
normalizá-lo. Alega que os preços e as condições eram “controlados” pela fazenda,
sugerindo fiscalização. Faz analogia econômica para deslegitimar a acusação de
“escravidão”. Reconhece o papel dos gatos como agentes diretos de exploração, mas
tenta transferir a responsabilidade para eles. Confirma que havia monitoramento da
segurança da fazenda, o que indica controle e conhecimento direto da Volkswagen
sobre o sistema.
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Bruegger reconhece o sistema de empreitada por gatos como
única alternativa - admitindo, de fato, o modelo que gerava exploração e
endividamento. Valoriza apenas o relatório oficial da SUDAM/CONDEL,
desconsiderando demais denúncias e relatórios independentes.
Peter Klein encerra colocando em dúvida as justificativas de
Bruegger e apontando o núcleo da questão: a servidão por dívidas como regra
estrutural do sistema de empreitada na região.
Em termos de força probatória, o documento contém
declarações diretas do diretor da Fazenda Volkswagen reconhecendo o uso de
empreiteiros e o endividamento dos peões, o que pode ser interpretado como
confissão extrajudicial qualificada. O fato de a entrevista ter sido submetida
previamente a Bruegger para correções reforça autenticidade. Todavia, é uma
entrevista jornalística, publicada em periódico internacional, portanto precisa de
corroboração por provas oficiais/testemunhais. Os trechos de defesa (elogios da
SUDAM, negativas de responsabilidade) revelam a estratégia empresarial de afastar
culpa, mas não anulam os indícios.
O documento é extremamente relevante. Ainda que Bruegger
busque defender a Volkswagen, suas próprias palavras confirmam elementos típicos
do trabalho escravo contemporâneo (gatos, endividamento, controle pela segurança da
fazenda). Ao mesmo tempo, revela a estratégia de legitimação pela via oficial (relatórios
da SUDAM) e desqualificação dos denunciantes (Igreja, parlamentares, ex-empreiteiros).
ESTUDO VW DURANTE A DITADURA MILITAR ( b227e55 )
Trata-se do estudo “A VW do Brasil durante a Ditadura Militar
brasileira (1964–1985)”, de Christopher Kopper (Univ. de Bielefeld, 30/10/2017).
O prefácio explicita o motivo da contratação: acusações
divulgadas pela Comissão Nacional da Verdade (2014) e investigações iniciadas em
2015, tendo a direção de compliance da VW solicitado, em 2016, apuração ampla.
Também delimita a abordagem histórico-empresarial (repressão política + economia
/gestão).
Sobre o Projeto Rio Cristalino (VWB como latifundiária), aponta a
existência de planejamento e investimento diretos da VWB com a compra de 140 mil ha
(1974); autorização para desmatar 70 mil ha; meta de 110 mil cabeças; localização
remota; participação acionária no Frigorífico Atlas S.A. para viabilizar o abate
(integração vertical).
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Narra a existência de trabalhadores volantes/“boias-frias” (≈600
no início dos anos 80), contratados por gatos/empreiteiros; violência armada, coerção
para permanência, endividamento com desconto de alimentação e dependência
(“escravidão por dívidas” segundo relatos jornalísticos e pastorais).
O estudo qualifica a responsabilidade da VWB como “indireta”
(por manter o modelo com gatos, não prover alojamento/saúde/condições e nada fazer
para melhorar), embora ressalve que não seriam “escravos” em sentido estrito.
Descreve ato de gestão e investimento direto da VWB (aquisição de terras, metas de
rebanho, integração com frigorífico, planejamento de desmate), reforçando o nexo
entre a empresa e a fazenda. Isso contrapõe teses defensivas de participação
meramente acionária e sem ingerência.
Relata violência, pistoleiros, dívida e ausência de alojamento
/saúde para volantes, registrando que a VWB não implementou “best practices” nem
medidas saneadoras — quadro compatível com trabalho degradante e servidão por
dívida, ainda que o autor evite a expressão “escravidão” técnico-jurídica. Isso corrobora
alegações fáticas e sustenta pedidos de responsabilização civil (especialmente culpa
por omissão/organização) e obrigações de não repetição.
Sobre a força probatória, trata-se de um relatório histórico
denso, bem referenciado e favorável à tese de que a VWB exerceu papel ativo no
Projeto Rio Cristalino e manteve padrão corporativo de desrespeito a direitos. Contudo,
trata-se de documento particular, com força probatória limitada.
ESTUDO UFRJ-IFAL - FAZ. VALE DO RIO CRISTALINO (f7b3a4f)
A força probatória de estudos científicos/acadêmicos em uma
ACP sobre trabalho escravo precisa ser vista com cuidado, pois eles têm natureza
distinta de documentos oficiais. Estudos científicos ou acadêmicos produzidos por
particulares (pesquisadores, ONGs, universidades, institutos) são documentos
particulares (CPC, art. 408). Sua autenticidade quanto à autoria presume-se, mas o
conteúdo não tem presunção de veracidade absoluta.
Assim, recebo como prova indireta e opinativa, pois estudos
acadêmicos não registram fatos de forma direta, mas apresentam análises, dados,
interpretações e conclusões a partir de pesquisas. Devem ser analisados em conjunto
com provas diretas colhidas em juízo, como relatórios oficiais, testemunhos e
inspeções.
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Fls.: 170
Já analisada a sua força probatória, o documento auxilia a
delimitar o período e o nexo empresarial, pois aponta o período de controle/influência
da VW (ao menos 1974–1986, com transferência em 1987) e capilaridade de decisões
(SUDAM/Finam/BASA).
Além disso, auxilia a evidenciar a escala e a necessidade de força
de trabalho: a magnitude do desmatamento e da pecuária implica mão de obra
intensiva, compatível com uso de empreiteiros/gatos; reforça a primazia da realidade
sobre a forma contratual (eventuais “empreitadas”).
Auxilia a comprovar benefícios e direcionamento: mostra
benefício econômico direto (projeto agropecuário e exploração madeireira), gestão
ativa (revisões, cronogramas, planilhas nominais) e exigências de “melhor padrão” que
oneram mão de obra, úteis para demonstrar poder de comando e proveito e indica
indícios de irregularidades: menções do IBDF (regularização/multas), falha na
apresentação de certidão DRT (1983) e lacunas formais sobre quem executou o
desflorestamento servem como pontos de partida probatórios a serem corroborados
com outras provas (relatórios MTE/MPT, depoimentos, inquéritos).
Em resumo, o conjunto tem elevado valor corroborativo e
contextual, pois apresenta a estrutura empresarial, a temporalidade, a escala da
operação, a provável cadeia de contratação e benefício econômico.
PARECER DOUTRINÁRIO (e5b76c0)
O parecer doutrinário é um documento particular (art. 408,
CPC). Diferentemente de relatórios técnicos ou estudos empíricos, ele é essencialmente
opinião jurídica especializada sobre determinado tema ou caso. A doutrina não atesta
diretamente fatos, mas oferece interpretação jurídica, auxiliando na construção de
teses e fundamentos.
Assim, tem valor de prova opinativa, não de prova fática. Serve
como auxílio hermenêutico ao juiz, contribuindo para a interpretação do direito
aplicável, especialmente em matérias complexas como trabalho escravo
contemporâneo, imprescritibilidade, controle de convencionalidade etc.
RELATÓRIO CIRCUNSTANCIADO (dd187c6, dd59a11, 35c9df6,
d566a68, 595ca2f, 3e832af, 4eff633 e bce3246)
São documentos públicos, elaborados por agentes investidos de
função pública, no exercício de seu dever legal (art. 364, caput, CPC; art. 830, CLT).
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Gozam de fé pública quanto aos fatos presenciados ou constatados diretamente pelos
servidores responsáveis, invertendo o ônus da prova para a parte que os impugna (art.
429, II, CPC).
O STF e o TST reconhecem a presunção relativa de veracidade
dos atos administrativos regularmente produzidos, cabendo à parte contrária produzir
prova robusta para desconstituí-los. Assim, os documentos têm alto valor probatório,
especialmente por descreverem elementos típicos do trabalho escravo e do tráfico de
pessoas, corroborados por outras provas.
Feita a análise dos documentos apresentados pela parte autora,
passa-se ao exame dos documentos apresentados pela parte reclamada.
A reclamada apresentou documento intitulado Ata de
depoimento (ID. 61ab325), que consistente em um depoimento extrajudicial firmado
por ex-diretor jurídico da Volkswagen do Brasil (1964–1987). Trata-se de documento
particular, com força probatória limitada, pois, a despeito de ter sido degravada
perante oficial notarial, tratou-se de entrevista conduzida por representantes da parte
reclamada.
Ele relata que todos os assuntos relevantes eram submetidos à
Diretoria Jurídica e ao Conselho/Diretoria, com análise contratual centralizada. Isso
revela cadeia decisória concentrada na controladora e compatível com comando
empresarial unificado.
Por ser dirigente de cúpula, com atribuição expressa sobre
contratos e atos estratégicos, descrevendo fluxo decisório em que a controladora
valida e orienta a execução do projeto rural, o relato tem alta relevância para a
compreensão dos fatos.
A visita in loco (1989 - corrigida no depoimento seguinte para
1979) é descrita como diligência corporativa motivada por reportagens sobre trabalho
escravo, o que demonstra gestão de crise e supervisão direta da matriz sobre o
empreendimento. O nível de detalhamento técnico do “projeto fazenda”, somado à
atuação da alta direção diante de denúncias, indica controle operacional e supervisão
continuada da controladora, superando a figura de mero investidor.
Também apresentou os seguintes documentos: Ata de
depoimento (ID 68d8568), Ata de depoimento (3b3308b), Relatório visita Fazenda (ID
d52b24f). Os dois primeiros documentos têm a mesma força probatório do documento
de ID 61ab325, ou seja, documento particular com força limitada.
O último (relatório visita Fazenda), apresenta a visão de Delcio
da Silva, sobre as condições de trabalho e estrutura da Fazenda. O documento é
Documento assinado eletronicamente por OTAVIO BRUNO DA SILVA FERREIRA, em 29/08/2025, às [Link] - dc7fe45
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endereçado a Siegfried Ehlers, Presidente da Representação dos Empregados da
Volkswagen AG. A visita foi realizada no período de 15 a 18.6.1983, demonstrando a
admiração do autor do documento com as boas condições ofertadas pela empresa em
comparação com as demais. Explicou que o armazém era administrado por terceiros e
aponta uma comparação de preços praticados no armazém e na cooperativa. O
documento possui relatos de um trabalhador que trabalhava na derrubada da mata,
de onde extrai-se a confirmação de mortes no local, a permanência das pessoas no
local de trabalho por tempo superior ao devido, quando encerrado o contrato e a
existência de altos preços no armazém. O relatório fala ainda das boas condições dos
alojamentos e explica a estrutura.
O documento é particular sua força probatória é limitada,
devendo ser objeto de análise em conjunto com as demais provas, especialmente
testemunhal.
Juntou ainda Parecer Jurídico (ID 0ec7168), documento particular
(art. 408, CPC), essencialmente opinativo sobre determinado tema ou caso. Assim, tem
valor de prova opinativa, servindo como auxílio hermenêutico ao juiz, contribuindo
para a interpretação do direito aplicável, especialmente em matérias complexas como
trabalho escravo contemporâneo, imprescritibilidade, controle de convencionalidade
etc.
Além disso, apresentou vários documentos relacionados a sua
atuação em defesa dos Direitos Humanos e em conformidade com as regras sobre
devida diligência, bem como o TAC assinado, sendo estes últimos analisados por
ocasião da análise da conduta atual da empresa.
Do cotejo entre os documentos apresentados por ambas as
partes, mesmo que se desconsiderassem integralmente os documentos classificados
como de baixo valor probatório, o conjunto de provas de alto valor é suficiente, por si
só, para caracterizar as práticas de trabalho em condições análogas à escravidão e
tráfico de pessoas.
A impugnação feita pela reclamada não afasta a presunção de
veracidade e autenticidade das provas oficiais, tampouco apresentou contraprova
idônea que infirmasse os fatos narrados e comprovados, pois o acervo contém
documentos públicos e oficiais (inquéritos policiais, diligências, inspeções, processos
judiciais, relatórios administrativos), além de depoimentos colhidos sob o crivo do
contraditório - não é prova particular isolada.
Há coerência entre declarações de vítimas, relatórios oficiais e
narrativas contemporâneas (anos 1970/80), indicando padrão sistemático de
aliciamento, endividamento e coerção armada.
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Diante do arcabouço normativo, doutrinário e jurisprudencial
acima delineado, bem como as provas acima apresentadas, concluo a existência das
seguintes situações:
(a) Restrição da locomoção / coerção armada
Guarita com seguranças empregados diretos da CVRC
controlando entradas/saídas; vedação de saída sem autorização escrita do “gato”
/pistoleiros; perseguição com veículos e cães; espancamentos e amarras com corda de
quem tentava sair. .
Depoimentos confirmam que “pistoleiros não deixam ninguém
sair”; ameaças “na base da pancada e da bala”; impedimento de saída por dívida. .
Nesse cenário, há restrição de locomoção por coerção física
/armada e por servidão por dívida, preenchendo os incisos do art. 149 CP.
(b) Servidão por dívida (“truck system”/caderneta)
Cantinas dos empreiteiros dentro da propriedade, com preços
exorbitantes; tudo anotado em caderneta; no “acerto”, informava-se ausência de saldo
e até “débito” após meses de trabalho. .
Trabalhadores obrigados a comprar lona, mantimentos,
remédios etc.; não recebimento de salários; dívida incontrolável e descontos
arbitrários. .
Vítimas relatam débitos impagáveis ([Link]., > Cr$ 1.000.000,00),
com vigilância diária por pistoleiros; “enquanto devessem, não poderiam sair.” .
Conclusão parcial: Servidão por dívida robustamente
demonstrada (núcleo clássico do trabalho forçado).
(c) Trabalhos forçados / coação
Ameaças constantes; captura, espancamentos, ferimentos por
facão e disparos; relatos de desaparecimentos/homicídios com corpos lançados no Rio
Cristalino ou em gruta. .
Declarações de vítimas e informantes confirmam coação e
retomada à fazenda para continuar trabalhando. .
Conclusão parcial: Há trabalho forçado por violência física
/psicológica.
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Fls.: 174
(d) Jornada exaustiva e condições degradantes
Jornadas extenuantes, inclusive fins de semana/feriados, sem
descanso; alimentação precária; água de córrego; ausência de instalações sanitárias;
sem EPIs; acidentes frequentes; malária e doenças sem assistência (medicação lançada
na caderneta).
Barracos de lona e revista dos trabalhadores na entrada; CTPS
não anotada. .
Conclusão parcial: Presentes jornada exaustiva e condições
degradantes (art. 149 CP).
Observa-se, portanto, que todos os marcadores legais do
art. 149 CP estão objetivamente comprovados por múltiplas fontes convergentes
(depoimentos de vítimas, peças administrativas, relatórios e registros oficiais).
Sobre o tráfico de pessoas para fins de exploração laboral
(art. 149-A CP), consiste no ato de recrutar, transportar, alojar, transferir; por (ii)
meio: ameaça, força, coação, fraude, abuso de vulnerabilidade, dívida; com a (iii)
finalidade: exploração do trabalho (forçado).
No caso, sobre o ato: recrutamento, transporte, alojamento
e “transferências”
Recrutamento por “gatos” em outros Estados ([Link]., Porto
Nacional/TO), com transporte em caminhões e alojamento em barracos de lona nas
frentes de trabalho. .
Transferências de trabalhadores entre empreiteiros, mediante
contrapartidas financeiras (“venda/troca” de peões). .
Sobre o (ii) Meio: coação/abuso da vulnerabilidade/servidão
Dívidas prévias (viagem, “abono” pago às famílias, compras na
cantina) usadas para forçar ingresso e permanência; anúncio de desistência recusado
sob argumento de dívida; guarita e vigilância armada para impedir saídas. .
Violência/exemplos públicos para intimidação geral. .
Sobre a (iii) Finalidade: exploração do trabalho (forçado)
O próprio conjunto mostra a finalidade: roça/desmate com
trabalho forçado, sem salários e sob restrições — exploração econômica da mão de
obra.
Documento assinado eletronicamente por OTAVIO BRUNO DA SILVA FERREIRA, em 29/08/2025, às [Link] - dc7fe45
Fls.: 175
Diante disso, estão presentes os três vetores (ato, meio,
finalidade) do tráfico interno de pessoas com vistas à exploração laboral.
Por outro lado, considerando a data de vigência do art. 149-A,
entendo que também está presente, à época dos fatos, o aliciamento previsto no art.
207 do CP, consistente em aliciar trabalhadores, com o fim de levá-los de uma para
outra localidade do território nacional.
Além das provas documentais analisadas, a parte requerente
apresentou testemunhas. A prova testemunhal vai ao encontro da prova documental,
senão vejamos:
Depoimento da testemunha Raul Batista de
Souza
Eu vou lhe fazer algumas perguntas agora e
gostaria que você me respondesse o que de fato aconteceu. Caso o
senhor não entenda a minha pergunta, pode ficar tranquilo e dizer que
não entendeu, que eu vou repetir de uma outra forma, tá bem? E aí da
mesma forma que eu não entendi a sua resposta, eu vou repetir a
pergunta de uma outra forma com outras palavras pra que eu possa
compreender, tá bom? Sim. O senhor nasceu onde? Nasci... Eu sou do
município de Mato Grosso. De lá mesmo? É. Tocantins? Tocantins. E
estudou? Não, senhor. Não. Nenhuma série? Nem. O senhor trabalhou
na fazenda? Trabalho. Trabalhou? Trabalho. O senhor recorda o
período? Eu não me recordo direito. Não? O senhor, como é que o
senhor chegou até a fazenda? Nós fomos com um gato. Quem era o
gato? O Gilson. Onde foi que o senhor soube da existência da fazenda?
Lá em Tocantins. Tocantins. O senhor morava lá em Porto? Nessa época
eu morava em Porto. O senhor morava sozinho? Tinha família já nessa
época? Não, eu estava separado. Estava separado? Sim. O senhor
morava em Porto ou morava lá em Porto? Em Porto. Morava em Porto.
Tinha trabalho em Porto? Só de fazenda também. Só fazenda? E como
foi que o senhor ficou sabendo da existência da fazenda? É porque
nós... eu vim pra cidade. Quando eu cheguei na cidade, eu vi o pessoal
comentando que tinha esse gato lá, pegando o trabalhador pra trazer. E
lá muito, muito serviço nessa época. Aí foi que nós viemos. Com o gato,
pra trabalhar na rua. Quanto tempo foi essa viagem? Você recorda? Não
recordo o tempo. O senhor chegou a conversar com esse gato? Sim.
Como foi a conversa de vocês? Sobre o que? A conversa foi só que era
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pra nós virem. Ele pagava um bom dinheiro pelas empreitas. E na hora
que terminasse, ele acertava com nós e nós voltávamos pra casa. O
senhor recebeu algum adiantamento antes de entrar nessa viagem?
Não. Nada não. Essa viagem, quem pagou por ela? O senhor pagou ou
foi eles que pagaram? Não, foi nós que pagamos. Porque quando nós
chegamos na fazenda ali, nós fizemos o serviço e pagamos um raio
descontado. O senhor recorda o quanto foi esse desconto? Não, não
recordo. Nunca teve acervo. Qual foi a promessa de trabalho lá? O que
foi que foi dito? Você vai receber tanto, vai fazer alguma coisa. Nessa
conversa que o senhor teve com ele? Era por alqueiro que nós íamos
trabalhar. Você ia trabalhar em qual área? De rosto. E quando chegou
lá, como foi? Quando chegou lá, nós tivemos que comprar todas as
coisas. Tudo o que? Lona, panela, vasilha para. Essa lona compraram
pra quê? Pra fazer o barracão. Como era o barracão? Era onde nós
limpiávamos porquê e tirávamos a travessa, botávamos e jogávamos a
lona por cima. E dormia onde? Debaixo desse lugar. Tinha rede, colchão,
chão, como era? Rede. A rede quem forneceu? Nós que compramos.
Onde o senhor comprava isso? Na cantina. O que mais o senhor
comprava na cantina? De tudo. Comida e algum remédio. O senhor
pagava de imediato? Não, ele pagava por caderno. Pra descontar no
aceito. E esse caderno ficava onde? No lugar. Isso é uma questão de
ordem. E a testemunha? Ele já foi ouvido. É como se ele estivesse aqui
na sala. O senhor disse que dispensaria. E ficava à vontade. Podia ficar à
vontade se quiser continuar na audiência. O que mais o senhor
comprou na cantina? Só o manteimento. O remédio que a gente
comprava. Eu lhe perguntei se o senhor tinha acesso a essas contas que
eram pedidas na fazenda. Eu perguntei primeiro se o senhor pagava de
imediato. O senhor falou que não pagava, que era anotado. O senhor
sabia o que era anotado? Se tinha acesso? Não, o caderno não. O
senhor sabia os preços dos produtos? Não, ele só anotava lá. O senhor
chegou a receber algum dinheiro lá? Não. O senhor saiu da fazenda
devendo? Ou o senhor pagou tudo que desejava? Não, não recebemos.
E nós saímos de lá sem nada. Só eles disseram que não podíamos
pagar. Quanto tempo o senhor trabalhou lá? Uns três meses, mais ou
menos. Foi feito algum contrato escrito com o senhor? Não. Qual era o
nome da pessoa que levou o senhor para lá? Dilos e Tabarão. Foram
dois? É, dois irmãos. Quando falaram para o senhor que existia um
trabalho, falaram onde seria esse trabalho? Quando nós saímos de
Porto, o senhor falou. Onde seria? Não sabe o tempo que levou essa
viagem? Não. Mas quando o senhor chegou lá na frente de serviço, o
senhor conseguia saber mais ou menos a que distância, quantas horas
o senhor estava na via principal da fazenda? Não, não sabia. Essa
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viagem foi feita de que forma? De caminhão. O senhor foi sozinho nessa
viagem? Não, foi eu, nós éramos vinte e um. Todos de Porto? Todos de
Porto. O senhor sabia quanto é que o senhor devia na cantina? Não.
Quando o senhor passou pela portaria da fazenda, o que o senhor via
lá? O que tinha na portaria? Nós não podemos ver, porque nós
chegamos lá umas onze, onze e meia da noite, mais ou menos. E
alguma vez chegou até a portaria da fazenda para saber o que tinha lá?
Não. Depois desse momento de entrada? Não, o senhor só não teve
que sair. Saiu a noite também? Tinha gente lá, na portaria da fazenda?
Não, nós passávamos de frente, nem encostávamos na portaria de
algum rapaz. Teve contato? Como foi o seu acesso lá na cantina? Não,
na cantina, só que ele falou que a bolsa tinha parado o serviço e não
tinha acertado com eles, e aí mesmo não tinha como acertar com nós.
Sabe se algum trabalhador tentou sair da fazenda em algum momento?
Nesse momento que nós estávamos lá, não. O senhor levou
documentos para lá? Levei. Documentos que ficaram com o senhor
durante o período que permaneceu lá? Ficou, não entreguei. Sabe se
algum empregado, alguma das pessoas que foram com o senhor nesse
transporte, se eles entregaram documentos e permaneceram com o
documento? Não sei. O produto que o senhor comprava na cantina, o
valor dele, era semelhante ao valor do produto que o senhor poderia
comprar fora dali? Não, era mais caro. Era mais caro? Depois que o
senhor realizou o seu trabalho, o trabalho do filho foi contratado, o
senhor recebeu o valor? Não. Como era o seu horário de trabalho? Que
horas o filho começava a trabalhar e que horas parava? Ele se levantava
às 4h, às 5h, para fazer o boião. Aí ia para a roça, levava a comida, ficava
um para fazer a comida, levava a comida, nos escondia lá mesmo. E até
às 5h, às 5h30. E como é que o senhor se deslocava para a frente de pé?
Era pé e pé. Quanto tempo de caminhada? Era uma meia hora, porque
o serviço ia ficando mais distante. E o senhor levava a comida? O senhor
preparava a sua comida? Sim. Quando levava a sua comida, deixava ela
armazenada ou guardada ali? Não, ficava no barraco, fazia a comida e
levava. Levava no horário da comida? Sim. O filho parava para almoçar?
Parava. Quanto tempo? Uma hora, uma meia hora. Não tinha hora, que
era na enfeita, a gente queria comer. E esse trabalho era de segunda a
que dia? Segunda a comida. Pegava direto. No meio dia, nós parávamos
no domingo para lavar e roubar. Você já me falou do local onde o
senhor dormia. Lá havia banheiro? Não. E água? Você bebia água de
algum lugar? Água do corvo. Na mesma forma que o gado bebia, nós
pegávamos a comer sem água. Havia algum tratamento dessa água?
Não, só chegava. Nesse local que o senhor disse que colocou a lona, o
senhor ficava sozinho ou outras pessoas, outros trabalhadores ficavam
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lá com o senhor? Nós ficávamos cinco. Cinco por barracão? Sim. Você
recebeu algum equipamento de proteção? Não. Sabe se houve algum
caso de adoecimento em trabalhadores lá? Lá adoeceu muito. E
malária? Você sabe se quando o empregado adoecia ele trabalhava ou
ficava em repouso para recuperar a saúde? Não, não trabalhava porque
não dava conta. A malária, quando perde, tem que dar conta de
trabalhar. No período que ele não trabalhava, ele recebia alguma coisa?
Não. Se tivesse que comprar remédio, tinha onde comprar? Só na
cantina. Alguma vez, o senhor sabe se teve algum trabalhador que
sofreu algum acidente de trabalho lá? Teve um rapaz que quebrou a
perna trabalhando lá. Ele caiu e quebrou a perna. O senhor sabe como
que ele caiu? Você sabe se algum empregado, se teve alguma situação
durante o período que o senhor permaneceu lá, algum relato de alguma
morte de algum empregado? Não. O senhor sabe se algum empregado
foi agredido ou ameaçado lá? Só ouvimos falar, mas nós não
presenciamos. O que foi que o senhor ouviu falar? Um rapaz tinha
batido porque ele queria sair, aí bateu nele. Sabe se alguém trabalhava
armado naquele local? Tinha. Tinha um rapaz que andava montado, só
que ele não encostava perto de só passava, mas nós via. Quando o
senhor fala montado, é o que? Montado e animal. Mas as pessoas
estavam armadas, com armas? Tinha. Você não sabe qual era a arma?
Não, era na cintura, a gente via só a unha. O senhor sabe qual era a
função dessas pessoas lá? Não. O senhor trabalhava na roçagem. Não
tinha contato com o pessoal que era do escritório? Nenhum. A área era
próxima ao local de trabalho do senhor com o pessoal do escritório?
Não, era distante. O senhor chegou a passar a ouvir em qual local o
pessoal do escritório morava? Não. Alguma vez ele teve contato com
alguém da roçagem? Não. Tem mais alguma coisa que o senhor não
gostaria de falar sobre o trabalho lá na roçagem? O juiz não tem mais
perguntas? O Ministério Público tem perguntas? Não. O senhor chegou
a trabalhar com o Judemar. O senhor trabalhou com o Judemar? O seu
irmão? Eu vou explicar como funciona. A doutora e os doutores farão
perguntas para mim e eu faço para o senhor. O senhor pode aguardar
que eu vou lhe perguntar. Daqui a pouco, a doutora e o doutor farão
perguntas para mim e eu vou fazê-las ao senhor novamente. Aí o
senhor também aguarda me perguntar, está bem? Judemar, o senhor
conhece? Conheço. Trabalhou lá em um período diferente do senhor ou
no mesmo período? No mesmo período. Ele foi no mesmo veículo do
senhor ou foi em outro veículo? No mesmo veículo. E aconteceu com o
Judemar? Ele adoeceu? Adoeceu. Qual foi o início? Lá foi malária. Hoje
ele ficou ruidamente. Desde aquela época ele ficou ruidamente? Sim.
Foi agora. Depois que nós chegamos lá. Doutora? Teve alguma sequela?
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Teve alguma sequela da malária? O senhor sabe? Eu não sabo se ele
ficou ruidamente por causa da malária. Doutora? Ele teve algum
atendimento médico? Teve algum atendimento médico quando ele
ficou doente lá? Não. Quando ele ficou doente, como ele foi tratado? Ele
ficou onde? Em que local? Ele ficou na... no... em Barreira de Campos.
Tinha um lugar lá que quando as pessoas doenciam, levavam pra lá. Aí
lá tinha uma dona reunida que passava o medicamento. Tinha uma
casa onde as pessoas ficavam doentes aguardando o tratamento? Sim.
Como foi a saída do Judemar? Você sabe como foi a saída dele de lá? A
saída dele de lá foi porque ele adoeceu e veio pra esse lugar. Aí de lá ele
veio embora. Doutora? Ele saiu como de lá? Como foi que ele saiu da
fazenda? Nós saímos de lá hoje em dia. Me explique como era isso. Não,
porque quando parou o serviço, aí nós queríamos ir embora, aí ele
falou. Ele disse, não, não vai não. Forma um bom serviço pra vocês. Aí
eles enrolam nós três dias. Quando foram três dias, eles chegaram lá
com um caminhão e falaram pra nós que tinham arrumado o serviço. Aí
chegou de noite, nós saímos de lá de noite. E quando o senhor me fala
que foi vendido, o que significa isso? Eles venderam nós pra outro gato.
Quem foi esse outro gato? Eu nasci pra ele. E o senhor chegou a
trabalhar pra esse Jurassic Park? Quanto tempo? Pois que nós saímos já
há uns três meses. Em outra fazenda? Sabe o nome? São Geraldo. E o
senhor recebeu alguma coisa desse novo gato? Não. Doutora? Sabe se
tinha material de primeiros socorros lá na fazenda, caso precisasse?
Nem. Doutora? Eu chego a ver lá onde o senhor ficava, onde o senhor
dormia, animal com cobra, aranha, lagarto, barata. Essas coisas a gente
via. Era da mata. Doutora? Sabe se o senhor fosse picado por alguma
cobra? Qual era o procedimento que seria adotado? O que seria feito?
Não, não via. Alguém que foi picado por cobra, tem conhecimentos
disso? Não. Doutora? O deslocamento da fazenda pra esse novo local
onde o senhor trabalhou, o senhor sabe quanto tempo demorou? Nós
saímos às nove horas, fomos chegar lá no dia nove às onze horas. Da
noite ou da manhã? Da noite. Foi das 21 horas de um dia, às 23 horas
do dia seguinte. É isso? Mais alguma coisa? O senhor voltou pra Porto
depois? E desse novo local da fazenda onde o senhor foi trabalhar, na
São Geraldo, pra Porto, o senhor sabe quanto tempo foi? Eu fugi de lá,
eu passei nove dias na mata, aí disse ir pra cá pra revenção, aí arranjei
um serviço numa fazenda e ganhei um dinheiro aí e ganhei um
dinheirinho assim uma semana. Aí eu paguei a passagem pra ir embora
daqui a pouco. Então até chegar em Redezão foram nove dias? Não,
dessa aí no asfalto. Até chegar no asfalto? É, nove dias. No meio do
mar? No meio do mar, suposto. Excelência, nesse transporte de ida pra
fazenda Davon, tudo o que eles comeram na estrada, só que o
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transporte foi cobrado? O transporte ele já respondeu que foi cobrado,
que ele pagou quando chegou lá. E aí eu não perguntei da alimentação
porque o tempo de duração ele não soube precisar. Quanto tempo ele
foi de deslocamento de Porto pra fazenda Davon? O senhor não sabe?
O senhor se alimentou durante esse trajeto? Comeu alguma coisa? Não.
Pegou sem comida. Tem mais perguntas? Tem mais perguntas pela
parte autora? Pela parte reclamada? Doutor, doutoras, tem perguntas?
Excelência. E pode permanecer pra cá. Se o doutor não tem pergunta
pra mim, eu vou fazer pro senhor, tá bom? Excelência, eu só quero
alguns esclarecimentos da testemunha, por gentileza. A primeira delas,
eu queria saber como ele veio pra cá pra prestar depoimento, porque
ele disse que reside em Tocantins, se eu não me engano. E chegou
como aqui? Pra que mais? Do processo? O senhor veio de que forma?
De que transporte? Mas veio numa caminhonete. Uma caminhonete.
Ele pagou por esse transporte? Ele pagou pelo transporte. E quem o
trouxe? O senhor veio com quem? Eu vim com um rapaz. Esqueço o
nome. De onde é esse rapaz? De onde? É de lá? Ele é de quem convidou
o senhor a prestar depoimento? O senhor sabe se o senhor foi
convidado pelo Ministério Público pra estar aqui? O Ministério Público
empregou algum recurso financeiro ou transporte, deslocamento pra
trazer o senhor até aqui? Não, mas ele veio por conta. Doutor? Ele disse
que trabalhou pelo menos em uma fazenda depois da Vale do Rio
Cristalino. As condições de trabalho eram semelhantes à que ele tinha
lá? As condições de trabalho eram semelhantes às da fazenda
Cristalino? Sim. E quando ele saiu da fazenda São Geraldo foi quando
ocorreu o episódio que ele explicou de ficar nove dias no mato. E depois
desses dias no mato, ele chegou aonde? De quem o acolheu? Ele
chegou nas estradas e depois chegou aqui em resenção. Ele prestou um
depoimento para o Ministério Público e tem detalhes que eu gostaria de
esclarar. Pois é, isso ele já falou. Ele chegou aqui em resenção. Mas ele
disse que depois dos nove dias que ele chegou na fazenda e que lá ele
pediu ajuda e o retiraram. O documento está no processo. O
depoimento dele ele já disse. Foi para São Geraldo, passou nove dias no
mato, chegou ao asfalto e depois conseguiu chegar aqui em resenção.
Aqui ele trabalhou, conseguiu dinheiro e voltou para a Corpo Nacional.
Eventual contradição do relato dele aqui com prova documental será
aplicado depois. A fazenda Volkswagen o acolheu depois desses dias no
mato? E o momento que o senhor foi acolhido pela fazenda Volkswagen
depois de ter trabalhado para outra pessoa? Não. Atualmente o
depoimento trabalha em alguma fazenda? O senhor trabalha
atualmente? Trabalho. É em fazenda? É. Qual sua atividade na fazenda?
É roço. Roço também? É. Você tem quantos anos? Eu tenho 65 anos. 66.
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Já se impressionou com os exercícios? Já. E começou a trabalhar com
quantos anos? Com seis, sete anos. Comecei com a roça. Sem mais
assuntos. (depoimento degravado com a utilização da ferramenta
turboscribe, conforme informado na ata de audiência)
O depoimento de Raul Batista de Souza revela, com elevado
grau de precisão fática, o modus operandi da frente de roçagem na Fazenda Vale do
Rio Cristalino e contribui decisivamente para a materialidade de trabalho em condições
análogas à de escravo. A seguir, sistematizam-se os achados e sua qualificação jurídica.
1. Recrutamento e deslocamento (aliciamento por “gato”)
A testemunha afirma que foi aliciada por intermediários (“gatos”)
- inicialmente referido como Gilson e, noutro momento, como os irmãos Dilos e
“Tabarão” - após divulgação na cidade de Porto/TO de que se recrutavam
trabalhadores para a fazenda. O transporte em caminhão ocorreu em grupo de 21
pessoas, todos de Porto, com chegada noturna à propriedade; não houve
adiantamento e o custo do deslocamento foi cobrado e descontado posteriormente.
Delineia-se servidão por dívida (art. 149, §1º, II, CP), pois a
contratação se estrutura desde a origem sobre despesas impostas ao trabalhador, a
serem compensadas via descontos futuros, em contexto de captação coletiva por
terceiros.
2. Ingresso e controle espacial (portaria e isolamento)
O grupo passou “de frente” pela portaria, sem contato; o
depoente não retornou a esse ponto. Chegadas e saídas processavam-se à noite,
inclusive quando foram “vendidos” a outro gato.
A assertiva indica controle de circulação e isolamento do
contingente, com transferência compulsória do grupo, revelando restrição de
locomoção e disposição de pessoas como coisa — núcleo do art. 149 do CP.
3. Alojamento, água, higiene e EPI (condições materiais)
O alojamento consistia em barracões improvisados construídos
pelos próprios trabalhadores com lona e travessas (itens que eles mesmos
compravam), dormindo em rede, cinco por barracão. Não havia banheiro; a água era
de córrego, a mesma do gado, sem tratamento. Inexistência de EPI.
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O relato aponta para a existência de condições degradantes (art.
149, §1º, I, CP), dada a insalubridade do abrigo, a ausência de saneamento e o consumo
de água imprópria. A transferência de custos básicos ao trabalhador aprofunda o ciclo
de endividamento.
4. Cantina, “caderno”, preços e salários (economia do
endividamento)
Todos os itens (lona, rede, panelas, comida, remédios) eram
comprados na cantina, “no caderno”, com descontos no “acerto”. O depoente não tinha
acesso ao caderno e desconhecia os preços, referindo valores mais altos que fora da
fazenda. Não recebeu qualquer pagamento durante o período; saiu sem nada.
Delineia-se a servidão por dívida e a opacidade contábil como
engrenagens de domínio: endividamento estrutural administrado pelo empregador
/empreiteiro, ausência de salário e preços abusivos mantêm o trabalhador preso
economicamente (art. 149, §1º, II, CP).
5. Jornada, alimentação e descanso
Rotina de acordar às 4h/5h para preparar o “boião”; início do
labor às 6h e término c. 17h/17h30. Deslocamento a pé (c. 30 minutos, aumentando
com o avanço da frente). Autogestão da alimentação (preparo e transporte próprios).
Domingo reservado basicamente a “lavar roupa”.
Caracteriza-se a jornada exaustiva (art. 149, §1º, II, CP), somada a
condições materiais degradantes e ausência de suporte mínimo à alimentação, em
regime fático de 6×1 informal.
6. Vigilância, armas, ameaça e violência
Havia homens armados, a cavalo, que circulavam pela área de
trabalho; o depoente via a arma na cintura. Atestou ter ouvido sobre agressão a
trabalhador que quis sair. O grupo foi transferido à noite (“venderam nós”) e, já na
nova frente, o depoente fugiu, permanecendo nove dias na mata até alcançar o asfalto.
O relato caracteriza a existência de vigilância armada observada
diretamente, a ameaça e a transferência forçada compõem o quadro de coação
/cerceamento de liberdade característico do art. 149 do CP. A fuga por nove dias é
marcador objetivo de impossibilidade de desligamento regular.
Raul não relata exigência de “ordem de saída” ou retenção de
documentos pessoais no seu caso (ele diz que manteve seus documentos), mas isso
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não afasta o quadro de coação indireta pela dinâmica de transferências forçadas e
controle por seguranças armados.
A “venda” do grupo e a necessidade de fuga pela mata são
marcadores máximos de perda de liberdade material (o trabalhador não decide quando
/para onde ir).
A agressão narrada é por ouvir dizer; ainda assim, a vigilância
armada observada diretamente e a fuga sustentam o cenário coercitivo.
7. Saúde, acidentes e (in)assistência
Relata alta incidência de malária; no período de doença o
trabalhador não recebia; remédios apenas na cantina; havia local para doentes com
pessoa que “passava medicamento”, sem referência a atendimento médico formal.
Narra acidente com trabalhador que quebrou a perna em serviço.
A omissão deliberada quanto à saúde e segurança (ausência de
EPI, assistência formal e salário durante a doença), reforçando condições degradantes
e servidão por dívida (compra de remédios na própria cantina).
8. Documentos pessoais e setor administrativo
O depoente levou e manteve seus documentos consigo. A
roçagem não tinha contato com o “pessoal do escritório”, situado em área distante.
A não retenção de documentos não elide a configuração do art.
149 quando presentes outros meios de coação (vigilância armada, dívida, transferência
forçada). A segmentação entre frente de trabalho e administração é típica de
empreitada em cadeia, com chefias operacionais apartadas, o que limita a prova sobre
cadeia de comando formal.
9. Saída, “venda” a outro gato e fuga
Ao manifestarem vontade de ir embora, o grupo foi “enrolado”
por três dias; depois, à noite, “arrumaram serviço” e “venderam” o contingente a outro
gato (Fazenda São Geraldo), onde também não houve pagamento. A fuga subsequente
— nove dias na mata — completa o ciclo de coação.
A restrição da locomoção por mecanismos fáticos (ameaça,
vigilância, transferência compulsória), sem salários e sob endividamento: subsunção
direta ao art. 149 do CP.
Identifica-se ainda o tráfico interno de mão de obra
(transferência forçada entre frentes), tudo sem pagamento e sob endividamento:
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quadro típico de redução a condição análoga à de escravo (art. 149, caput e §1º). A fuga
é forte marcador empírico da impossibilidade de desligamento regular.
10. Propriedade/gestão do empreendimento (limites do
depoimento)
A testemunha não identifica quem era o proprietário/gestor da
Fazenda nem menciona Volkswagen. Seu depoimento versa sobre a realidade material
da roçagem, não sobre cadeia societária.
O relato é forte para a materialidade dos ilícitos (art. 149, CP),
mas neutro quanto à titularidade. A imputação de responsabilidade à reclamada
demandada decorre da integração deste conteúdo com as demais provas (v.g.,
depoimento do preposto e outras testemunhas/ documentos), analisadas em seção
própria.
Como testemunha direta da roçagem, entrega conteúdo fático
denso sobre a operação.
Sobre a valoração probatória, o depoimento é direto, detalhado
e coerente; descreve quatro vetores típicos do art. 149 do CP simultaneamente:
(i) servidão por dívida (transporte cobrado; cantina “no caderno”;
preços superiores; ausência de salários);
(ii) condições degradantes (barracão de lona, sem banheiro,
água de córrego, sem EPI);
(iii) jornada exaustiva (rotina 4/5h–17/17h30, deslocamento a pé, repouso dominical
apenas para lavar roupa);
(iv) coação/restrição de locomoção (vigilância armada, ameaça,
transferência forçada a outro gato e fuga pela mata).
A narrativa sobre saúde e acidentes (malária recorrente, fratura
de perna, remédio apenas na cantina e ausência de pagamento durante a doença)
reforça a degradação estrutural das condições de labor.
Embora não individualize a titularidade empresarial, sua
narrativa corrobora de modo consistente o conjunto probatório oral e documental
sobre o modus operandi do empreendimento. Para os fins do mérito, o relato sustenta,
com elevado grau de convicção, a ocorrência de violação grave e reiterada a direitos
fundamentais trabalhistas, compatível com a configuração do art. 149 do CP no
período referido.
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O quadro é típico de aliciamento por intermediários (“gatos”),
com captação coletiva, deslocamento noturno e endividamento inicial pelo transporte
(sem adiantamento, pago por descontos futuros).
A menção a mais de um aliciador (Gilson / Dilos & “Tabarão”)
não invalida o núcleo do relato (cadeia de intermediação); denota envolvimento de
múltiplos captores/elos operacionais. A ausência de memória sobre a duração exata do
trajeto não compromete o essencial (modalidade, cobrança e horário de chegada).
Vejamos o depoimento da testemunha Pedro Valdo Pereira
Vasconcelos:
Eu vou lhe fazer algumas perguntas agora e
gostaria que me respondesse o que de fato aconteceu ou acontecia no
local de trabalho. Caso não compreenda a minha pergunta, só o senhor
dizer que não compreendeu que eu vou repeti-la de uma outra forma, e
se eu não entender a sua resposta, vou repetir a pergunta também de
uma outra forma para que eu possa compreendê-la. Tudo certo? Tu
trabalhou na favenda, pai do Rio Cristalino? Trabalhei. Trabalhou,
recorda quando? 83. 83? Quanto tempo você trabalhou lá? 4 meses. O
senhor nasceu onde? Nasci no Rio, eu tenho 5 filhos. Criança ainda para
o Rio de Janeiro, mas para o Rio de Janeiro é Canabrava. Canabrava. No
momento em que o senhor trabalhou na favenda do Rio Cristalino, o
senhor morava onde? Canabrava. Lá em Canabrava, o senhor já tinha
família, estava sozinho? Minha família. Todo mundo trabalhava ou só o
senhor trabalhava? Todo mundo trabalhava. Como eu era de menor, a
gente não tinha muita prática de trabalhar, porque nós éramos de
menores. O senhor começou a trabalhar com quantos anos? Quando eu
fui para lá para voar, eu tinha 17 anos. E o senhor começou a trabalhar
antes mesmo? Antes eu trabalhava só em casa mesmo. Estudava e
trabalhava, mas em casa. O senhor chegou a estudar? Cheguei. Até que
cedo? Até que eu fiz a oitava. Oitava. Quando o senhor foi para Vux,
como é que deu a saída para Vux? O senhor ficou sabendo daí de
sempre? É um rapaz que morava lá com nós, na cidade, ele conhecia
nós desde pequeno, né? Morava lá e aí ele chegou lá e falou que tinha
esse serviço muito bom na volta de pago e ele ia levar nós, que nós já
conhecíamos, então nós íamos, como era reconhecido dele, era bom
para ele levar. Assim que eu era conhecido, ele me chamou para a
gente ir, né? Quem era essa pessoa? O Batista. O Batista morava com o
senhor? Não, morava na cidade. Senhores, uma questão de ordem, se é
possível, eu pediria a vossa excelência para utilizar aquelas mesmas
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nomenclaturas que vossa serviça utilizou. Ah, sim, perfeito. Eu só estou
esclarecendo para o senhor que quando eu falar Volkswagen, é
Volkswagen. Quando eu falar fazenda, fazenda, eu me refiro a fazendas
e bares do Rio Cristalino. É uma ou outra? É, eu vou falar exatamente
para o senhor. Quando eu quiser obter informação sobre a Volkswagen,
eu vou falar Volkswagen. Quando eu quiser obter informação sobre a
companhia, bares do Rio Cristalino, eu vou falar companhia. E quando
eu quiser saber da fazenda, bares do Rio Cristalino, eu vou falar
fazenda, tá? Tá, porque eu estou pensando que é uma só, né? Pois é, o
senhor compreende que é tudo uma coisa só. É. Eu vou falar da
fazenda, tá? Com o senhor especificamente. Da fazenda, bares do Rio
Cristalino. Depois, se for o caso, eu vou falar da Volkswagen, tá bem? O
Batista, como foi essa conversa do Batista com o senhor? Chegou lá e
chamou nós para ir trabalhar, chamou nós para ir trabalhar, né? E deu
um abono para nós. O que foi esse abono? Esse abono eu não me
recordo. É para muitos anos. Mas o que era um abono? Um dinheiro.
Um dinheiro para adiantamento, para a gente comprar alguma coisa,
para levar para a fazenda. E o meio de segurar, naquela época, no meio
de segurar o pião, para não cair, né? Como é que segurava? Me explica.
Segurava assim, ele dava o dinheiro e era o dinheiro. A partir que desse
o dinheiro, pegava a onda, o pião era obrigado a ir. Se não fosse, ele ia.
Ficou com o dinheiro com a sua família? Ou o senhor pegou o dinheiro
para ir? Chegou, nós comprou roupa, comprou alguma coisa. Chegou lá
para nós levar, né? Como foi a sua ida para lá? Foi de caminhonete de
F4000. E eu fui sozinho? Foi de cinco companheiros. Ah, sim. Nossa, a
caminhonete foi cheia. Agora, o meu grupo era de cinco. E o transporte?
Ele pagou por ele ou ele pagou por ele? Ele pagou, nós pagamos,
porque lá eles descontou. Descontou? Eu não me recordo. Porque eles
não falavam, eles só falavam que nós não tínhamos. Nós tínhamos que
pagar a despesa. Ele falou que nós pagávamos, que eu pagava. Tudo
era por conta deles. A viagem, o miso na estrada, tudo por conta deles.
O miso, nós pagamos no meio do fim, nós pagamos tudo lá na fazenda.
Tudo foi descontado. Agora eu não sei quando, porque ele não falou
pra mim mais. Quanto tempo demorou o seu deslocamento de ônibus?
E eu estava até a fazenda. Nós saímos um dia, chegou no outro.
Quantas horas mais ou menos? Saímos cedo. Chegamos na fazenda de
noite e de noite. O senhor passou pela guarita ou entrou por outro
lugar? Pela portaria ou entrou por outro lugar? Por a guarita. Tirou
sangue. Tirou o quê? Tirou sangue pra fazer o exame. A noite mesmo,
se eu não me lembro a idade, o senhor chegou a ver quem estava na
guarita, quando o senhor chegou. Eu cheguei a ver, mas a gente não
lembra, porque eu era adolescente. E aquilo tumultuou ali, muita gente.
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E aí a gente travava as pessoas, porque o carro era um combustível
pequeno, a gente colocava lá e tirava o sangue lá pra fazer o exame.
Depois que o senhor passou e entrou na favela, o senhor foi para qual
local? Foi pra cantina. Pra fazer o quê? Lá que nós saímos de lá e fomos
pro blog pra almoçar. E o senhor morava, dormia onde? Qual local? Nós
fazíamos barraco, dormíamos de rede, barraco de lona e dormíamos na
rede. Como era o barraco? Barraco de pau e coberto de lona preta. Lá
tinha uma cozinha e nós fazíamos comida lá. Havia banheiro? Não, não
banheiro no barraco. Tinha água? Água também não pedia no barraco.
Havia algum tratamento preparado? Não, só água e chamada. O senhor
tinha a sua alimentação? O senhor se alimentava como? Nós fazíamos,
cada dia fazíamos. E o produto pra preparar a alimentação, como era?
Como é que chegava até o senhor? Nós iamos buscar na cantina, carne,
né? E era conta também, pra nós, em vez de tirar a sal. Aí nós comíamos
a caça também. O senhor pagava a cantina de imediato quando
comprava alguma coisa lá ou não? Não, descontava, no final não.
Arroçava, aí descontava. Quando chegava lá pra acertar que não queria
ir embora, aí olha, não sei, não tem sal, tem que trabalhar mais. O valor
dos produtos que o senhor comprava na cantina era semelhante aos
que comprava fora? Não, era mais caro. O senhor recebeu algum valor
lá durante o período que trabalhou? Não. Como é que o senhor saiu de
lá? Saímos através, e o pássaro que trabalha com nós era muito legal. O
fiscal que trabalha com nós, ele ficou muito legal com nós, e aí nós
falamos que no nosso grupo, nós tínhamos três companheiros que
eram listados. E estava chegando o prazo de se apresentar. E se não se
apresentasse, a polícia ia buscar nós. Aí esse funcionário falou, não,
vamos dar um jeito então. Aí foi lá e falou pro pessoal, aí vamos ver. Aí
foi, falou, não, vamos dar uma ordezinha pra vocês passarem mais o
bico. Aí eles queriam só os três. Aí o colega falou, não, de menor
também, nós temos que levar, porque nós éramos de menor. Aí ele
falou, deu um papelzinho pra nós passarem na agorita. Quem eram os
dois menores de idade, meu pai? Era eu e o Dr. José Ibámar. Esse papel
que eu lhe disse que pra passar na agorita era o quê? A ordem que se
passasse, ele não deixasse chegar na agorita, não deixasse passar sem a
ordem, porque aí ele estava fugindo. E esse papel era assinado por
quem? Por o chefe lá da cantina. Eu não lembro quem era. Você sabe se
alguém tentou sair da fazenda sem essa autorização? Eu vi se precisava
falar. Sabe se alguém trabalhava armado lá? Os... Segurança. Fiscal. Esse
pessoal trabalhava próximo ao senhor ou distante de outra área? Só
tinha um que mais nós que esse, que estava mais nós. Você trabalhava
em qual atividade lá? Moçamba no mar. Moçamba de segurança. Eu
tinha compreensão do local onde o senhor estava para a via pública
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mais próxima. É? É. É assim mesmo. O senhor tinha documento na
época? Aquele ano, não. Não tinha nenhum documento lá para o
senhor? Não. O que o senhor comprava na cantina? Comprava um
pássaro. O que? Feijão, arroz... Carne. O senhor recebeu um... Os
instrumentos de trabalho para arroçar era conhecido pelo senhor, para
o senhor ou o senhor comprava? Comprava. Até após ser descontado.
Até após ser descontado. O seu horário de trabalho? Que horas o
senhor começava a trabalhar? O horário nós começava, nós levantava
às quatro horas, fazia a comida e partia para o serviço às seis horas da
manhã. Faltava às cinco, seis... Essa sua ida para o serviço ocorria de
que forma? A pé. No exemplo da cantina da minha época. Quanto
tempo era do local de trabalho até a cantina? Não era muito longo hoje,
não. Não recordo, mas não era muito. E o senhor sabe se lá na fazenda
havia alguma estrutura de alojamento? O senhor chegou a ver alguma
coisa? No alojamento tinha uma barraca que nós chegamos no dia de
noite. O senhor trabalhava de segunda até que dia? Segunda a sábado.
E tinha dia que nós andávamos domingo, que era quando nós
queríamos ir embora. Tinha intervalo para almoçar? Tinha, nós
almoçávamos no serviço mesmo. Mas almoçava, fazia um quilinho ali e
abriávamos. No local, o senhor dormia porque dormia sozinho ou havia
mais alguém? Nós cinco. Nós cinco da sua equipe. E soube de algum
caso de trabalhador que teve alguma doença lá? Malária. Malária? Sabe
o que aconteceu com esse trabalhador? Tinha uns que morreu, né?
Malária. Quando estava um doente e continuava trabalhando ou ficava
de repouso? Ficava de repouso lá, né? Estava tomando sol. Eles
chamavam por em que local? Mas lá no barracão ou em outra área? Lá
no cantinho. E eu sabe se algum trabalhador teve algum acidente lá?
Não recopio. Soube se algum trabalhador faleceu durante o período
que estava por lá? Faleceu lá, faleceu. Sabe quem foi? Não sei, mas
faleceu de malária e teve um que o colega dele fez a mesma coisa. O
colega é de trabalho? É de trabalho. E o outro era de malária. Você tinha
contato com alguém da Volkswagen lá? Durante o trabalho do senhor,
quem eram as pessoas com quem você tinha contato? Só... Só minha
turma mesmo e esse rapaz que estava na Manaus, que era oficial nosso,
que recebia nossos serviços. Algo que você gostaria de falar dessa
época que você trabalhou lá? Algo mais além do que você já me disse?
Não. Vai esclarecer isso aí. Isso vai esclarecer. Selence, eu sou... Diga,
doutor. A questão de preservação do ambiente. O seu expedito não
estava mais na residência, acompanhando a audiência do carro e agora
fechou a câmera. Eu posso mentirá-lo, porque afinal ele não está mais
participando e as demais pessoas estão ali na outra sala. Obrigado. Por
nada, doutor. Pelo menos ele tem perguntas, doutora. Só falar aqui pra
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ele, porque a doutora e o doutor vão me perguntar e eu vou perguntar
o senhor, tá bem? Daqui a pouco a doutora vai me perguntar e eu vou
perguntar o senhor. Eu só aguardo de perguntar, tá certo? Esse
transporte que o senhor levou para a fazenda, a carroceria era aberta?
O senhor foi em que parte do carro? Dentro ou na carroceria?
Carroceria. Era aberta. Choveu nesse transporte, senhor? Sabe se o
senhor foi e chupou? Choveu, em perigo? Choveu. Parou em algum
lugar ou continuou viajando? Continuou até a Bahia de Campos. Era
onde pegar os outros. Excelência, nesse transporte ele percebeu
alguma mudança de comportamento do senhor Batista para os
trabalhadores? Sabe se o Batista mudou o comportamento inicial que
ele teve com vocês? Ele mudou a partir do momento que nós
atravessamos. Depois do Ponta Alegre pra cá, ele já mudou. Quando
chegou de Bahia de Campos, totalmente diferente. O que foi que
mudou? O senhor consegue falar do seu tratamento com nós? Como
era e como foi? Sim. Tratando mal, né? Já não era aquele que chamava.
Já arrumou a cara, já tratava mal isso. Já mudou tudo. Excelência, nesse
transporte, eles chegaram e pegaram outros trabalhadores? Nessa ida
para o senhor, outros trabalhadores também subiram ou foram para
Ponta Alegre e iram em Bahia de Campos? Você não sabe mais ou
menos quantos trabalhadores chegaram e que eles mandaram?
Quantos chegaram na fazenda? Eu não me recordo. No período que
eles trabalharam na fazenda, Excelência, eles tinham contato com a
família? Tinha contato? Depois que ele chegou lá na fazenda, tinha
contato com a família? Excelência, o acesso para sair da fazenda era
possível sem esse documento autorizando o trabalhador a sair da
fazenda? Não. Não estou falando disso aqui, não. Você me perguntou
aqui no chat. Desculpa, doutora. O acesso, Excelência, para sair da
fazenda, era possível apenas com esse documento de autorização?
Dava para sair da fazenda sem essa autorização? Doutora? Excelência,
se ele sabe qual era o nome do empreiteiro que estava indo lá? Você
sabe quem era o empreiteiro? Não sei. O Batista chegou lá e entregou
para esse Chico. O Chico. O Batista entreveu algum valor por ter levado
vocês? Não sei. Doutora? Havia pistoleiros do Chico armados lá? Sabe
que tinha algum pistoleiro do Chico lá? E ouviu? Sim. Tinha muito
trabalho manual lá. Doutora? Excelência, a comida, como era o
acondicionamento da comida? Carro. A carne ficava onde? Ficava no
solo. Tinha algum lugar para guardar a comida? Não, só nas janelas.
Doutora? Excelência, a comida nas frentes de trabalho, como era que
era feita? Sentava no chão? No chão. Sentava no chão, o filho levava a
comida pronta? Levava pronta. E quando chegava lá, deixava onde? Em
cima do mato lá. Aí nas comidas, se chovia, caia dentro da comida, nas
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comidas. Quando acabava de comer, a mamãe tinha a vasilha cheia de
água também. De chuva. Excelência, os trabalhadores que adoeciam e
precisavam tomar esses choros que ele referia, esses choros eram
cobrados? Choro. Eles tomavam no caso lá, no caso que me disse. Havia
cobranças de choros? Sim, pagavam por isso. Você viu alguma vez
tomou choro? Não, mas não adoeceu. Como é que o senhor sabe que
era cobrado choro? É porque os colegas falaram para nós. Doutora?
Chegou a presenciar alguma cena de violência contra algum
trabalhador? Você viu alguma cena de violência? Sim, chegou. Contra
quem? Contra o trabalhador. Qual trabalhador? Não sabemos porque
ele estava deitado e não escutou os tiros. Como foi essa violência? Eu
acho que o senhor queria fugir e aí atirou fazendo medo nele. Atirou na
pessoa? Não escutou os tiros. Eu não posso falar que foi na pessoa
porque eu não escutei os tiros. Ele não podia ficar... Esse tiro foi
próximo ao fio? Onde foi? No mesmo barracão. Doutora? Tem mais
perguntas pelo Ministério Público? Pela parte reclamada, doutor,
doutoras? Tenho sim, Excelência. Bom dia, Sr. Pedro. Quero saber se o
senhor chegou a trabalhar em outras fazendas, Excelência. O senhor
trabalhou em outras fazendas além daquela que você escutou? Mas
depois dela, o senhor trabalhou em alguma outra? Estava em Pimnas,
estava em... Fazendas, não mais. Doutor? Sabe se havia outras fazendas
na região? Tinha outra fazenda próxima a essa onde o senhor
trabalhou? O senhor sabe da existência? Não. Não sei. Eu sei, mas não
sabemos. Doutor? Doutor, eu te pergunto, não? Tem mais perguntas
pela parte reclamada? Sr. Pedro, você pode sentar bem aqui, tá? Tá?
Beleza. (depoimento degravado com a utilização da ferramenta
turboscribe, conforme informado na ata de audiência)
O depoimento de Pedro Valdo Pereira Vasconcelos é
especialmente elucidativo da materialidade do labor em condições análogas à de
escravo nas frentes de roçagem da Fazenda Vale do Rio Cristalino, contribuindo com
alto grau de confiabilidade para a formação do convencimento judicial. Seguem os
achados fático-probatórios e sua qualificação jurídica, preservando-se integralmente os
argumentos extraídos da prova oral.
1. Identificação, tempo e condição etária
A testemunha informou ter trabalhado em 1983, por cerca de
quatro meses, quando era menor de idade (17 anos), tendo estudado até a 8ª série.
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A presença de adolescente em atividade penosa/insalubre e
potencialmente perigosa (roçagem em frente de mata) contraria a proteção ao
trabalho da criança e do adolescente (criança na concepção da OIT), acentuando a
vulnerabilidade típica do aliciamento.
2. Recrutamento/aliciamento (cadeia “Batista” # “Chico”)
Relata alistamento por Batista (conhecido local) com promessa
de “serviço muito bom” e pagamento “na volta”, incluindo pagamento de “abono/vale”
para “segurar o peão” (adiantamento para compra de itens). O deslocamento ocorreu
em caminhonete F-4000, carroceria aberta, sob chuva, com paradas (ex.: Barreira de
Campos) para agregar mais trabalhadores. Ao chegar, Batista “entrega” o grupo a
“Chico”, identificado como o empreiteiro que “recebia” os trabalhadores.
O relato revela típico aliciamento por intermediários (“gatos”)
com dívida inicial (vale + despesas) e entrega do contingente à frente local —
engrenagem de terceirização predatória em desmatamento.
3. Entrada, cadastro e controle de acesso
O ingresso deu-se pela guarita/portaria, com coleta de sangue
para “exame” na chegada, à noite. Após a entrada, o fluxo conduzia à cantina. A saída
da fazenda estava condicionada a “ordemzinha/papel” emitida pelo chefe da cantina;
sem esse documento, a passagem na guarita era tratada como “fuga”.
Comprova-se que havia controle formal de circulação (guarita
/exame) e restrição de locomoção por meio de autorização prévia, singularmente
outorgada pela cantina — núcleo econômico da dívida. Trata-se de mecanismo típico
de coerção subsumível ao art. 149 do CP (restrição de locomoção “por qualquer meio”).
4. Alojamento, alimentação e higiene (condições materiais)
O alojamento consistia em barracos construídos pelos próprios
trabalhadores (pau e lona preta), com rede para dormir; sem banheiro e sem água
tratada no alojamento. A alimentação era de preparo próprio; carne e gêneros eram
guardados sem refrigeração, a comida ficava no chão, sofrendo com a chuva; vasilhas
eram lavadas com água de chuva no próprio local de trabalho.
A narrativa caracteriza condições degradantes (art. 149, §1º, I,
CP): abrigo improvisado e insalubre, ausência de saneamento e conservação adequada
de alimentos.
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5. Cantina, preços, ferramentas, “acerto” e salários (servidão por
dívida)
Todos os itens (inclusive ferramentas de trabalho) eram
comprados na cantina, “na conta” (“no caderno”), para desconto posterior; os preços
eram superiores aos praticados fora; a escrituração era opaca. Quando buscavam
acerto para ir embora, ouviam que “não havia saldo”, devendo “trabalhar mais”; a
testemunha não recebeu qualquer pagamento no período.
Revela-se a servidão por dívida (art. 149, §1º, II, CP), mediante endividamento estrutural
(vale + cantina + ferramentas + supostos “custos”), negação de salário e opacidade
contábil, aprisionando economicamente o trabalhador.
6. Jornada e rotina de trabalho
A rotina iniciava às 4h (preparo da comida), com partida às 6h
para o serviço; deslocamento a pé até a frente; labor de segunda a sábado, com
domingos trabalhados em ocasiões; almoço no mato.
A jornada exaustiva (art. 149, §1º, II, CP) também está presente,
cumulada com condições degradantes de alimentação e deslocamento.
7. Vigilância armada, pistoleiros e coerção
Havia “segurança/fiscal” e pistoleiros de “Chico” armados. A
saída sem autorização era obstada (rotulada “fuga”). A testemunha narra episódio de
intimidação por tiros contra trabalhador que pretendia fugir (não ouviu o disparo, mas
descreve o contexto coercitivo).
Comprova-se a coação por vigilância armada e ameaça, compondo cerceamento de
liberdade (art. 149) e ambiente de intimidação permanente para manter o vínculo
forçado.
8. Saúde, doença e mortes
Relata malária recorrente entre trabalhadores e falecimentos
por malária. Doentes eram levados a um “cantinho”; há referência a “soro” e indicação
de que se pagava por esse atendimento (informação de colegas). Não havia pagamento
durante a doença.
A degradação das condições de saúde e transferência de custos médicos ao
trabalhador (reforça servidão por dívida), além de omissão de assistência adequada.
9. Documentos e contato administrativo
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Naquele ano, a testemunha não portava documentos consigo
(não indica retenção). Seu contato ficava restrito ao grupo e ao fiscal que “recebia o
serviço”; não teve contato com representantes da Volkswagen; não identifica o
proprietário do empreendimento.
A não retenção de documentos não descaracteriza o art. 149 quando presentes outros
meios de coação (dívida, guarita, autorização de saída, pistoleiros).
O depoimento é internamente consistente: vale + cantina + “sem
saldo” + autorização para sair + pistoleiros + alojamento precário + mortes por malária
+ jornada exaustiva compõem quadro coerente. O detalhamento (veículo e condições
do transporte; guarita e exame de sangue; “papel” assinado pelo chefe da cantina;
nomes de Batista e Chico) reforça a persuasão.
A testemunha não individualiza titularidade/gestão (não atribui a Volkswagen). A
responsabilização empresarial específica decorre da integração deste relato material
com o depoimento do preposto e demais provas.
O depoimento preenche simultaneamente os quatro vetores do
art. 149 do CP:
(i) Servidão por dívida: vale/abono para “segurar” o trabalhador;
despesas de transporte e estrada descontadas; compras na cantina com preços
superiores e conta opaca; ferramentas cobradas; negativa de saldo/salário no “acerto”;
até custos médicos pagos.
(ii) Condições degradantes: barraco de pau e lona; ausência de
banheiro e água tratada; alimentos no chão, sob chuva, sem conservação.
(iii) Jornada exaustiva: início às 4h, com longas horas de labor e
deslocamento a pé; domingos trabalhados em várias ocasiões.
(iv) Restrição da liberdade de locomoção/coação: autorização
obrigatória para sair (sem ela, “fuga”); pistoleiros armados; episódio de intimidação por
tiros; guarita como barreira formal.
Soma-se a violação da proteção ao trabalho da criança
(adolescente de 17 anos em atividade penosa/insalubre e com jornada exaustiva),
agravando a gravidade da ofensa.
O depoimento de Pedro Valdo Pereira Vasconcelos comprova,
com alto grau de confiabilidade, que a frente de roçagem da Fazenda Vale do Rio
Cristalino operava sob trabalho em condições análogas à de escravo, pela
concomitância de servidão por dívida, condições degradantes, jornada exaustiva e
coação/restrição de saída. Ainda que não identifique o titular/gestor do
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empreendimento, sua narrativa material se alinha às demais provas (em especial ao
depoimento do preposto, que revela poder de direção/ingerência e ciência sobre o
tratamento dado por empreiteiros), contribuindo decisivamente para o
reconhecimento da prática ilícita e para a imputação de responsabilidade à ré, nos
termos examinados nas seções específicas desta sentença.
Por fim, passa-se ao exame do depoimento da testemunha José
de Ribamar Viana Nunes:
Eu vou lhe fazer algumas perguntas, e eu
gostaria que você me respondesse o que de fato aconteceu. Se não
entender a minha pergunta, diga não entendi, que eu vou repetir de
uma outra forma. Se eu não entender a sua resposta, eu também vou
repetir a pergunta de uma outra forma para que eu possa compreendê-
la. Tudo bem? Certo. O senhor nasceu onde? Eu? É. Eu nasci em
Cristalândia. Cristalina? Cristalândia. Cristalândia. Eu estou cansado. E
eu... Lá em Cristalândia, o senhor viveu até que idade? Não, é o
seguinte. Eu nasci em Cristalândia. Eu moro em Mato Grosso. Eu era
pequenininho. Eu acabei de entrar no Mato Grosso. Em Mato Grosso?
Sim, sim. O senhor começou a trabalhar com que idade? Três anos. Três
anos? É, porque é o seguinte. A pessoa quando é pobre, começa a
trabalhar desde criança para conseguir suas coisas. O senhor estudou,
frequentou escola? Na quarta série 7. É, quarta série 7. O senhor...
Alguma... Eu vou lhe dizer. Quando eu falar fazenda do Vale do Rio
Cristalino, eu vou falar fazenda. Quando eu falar companhia do Vale do
Rio Cristalino, eu vou utilizar a palavra companhia. E quando eu quiser
falar da Volkswagen, eu vou falar Volkswagen. Tá? Então, a minha
pergunta para o senhor é se o senhor trabalhou na fazenda do Vale do
Rio Cristalino. Trabalho. O senhor recorda quando? Em 2003. Recorda o
período, a quantidade de meses, de quantas pessoas quando saiu? Em
2003 saiu? É. Você vê que tem um... Quatro anos. Quatro anos. Como foi
o seu deslocamento para lá? Da minha cidade para lá? É. Foi um gato lá
com o nome de Batista. Naquela época chamava gatinho. E pinhão era
pinhão, né? Aí o Batista ia passar pinhão para trabalhar. Aí nós era cinco
amigos. Ou isso até em quatro, quando eu morava. Aí um amigo nosso
que conhecia ele na época aí conversou com ele. Falou, não, você
esquece a banha no Pará? Falou, amor. Aí nós pegamos um pouco de
dinheiro com ele. Aí a gente foi e no outro dia nós íamos sair daqui na
Braga. Aí no outro dia cedo ele arrumou o carro, nós entramos dentro
do carro para sair. Tinha um rapaz dormindo na calçada, bêbado. Eu
não sei nem quem que era. Pô, lá a gente já foi vindo. Eles pegaram ele
pelo fundo da calça. Eu conheci pelo fundo da calça um amigo dele. Ele
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não pegou o dinheiro, não sabia de nada. Na hora que chegou do Porto
Alegre do Norte, ele acordou, né? Chegou lá de manhã. Perguntou para
nós, nós vamos ir para onde? Ele respondeu, mas não vai para... Aquela
é a palavra boxe, né? Você não vai para a fazenda para trabalhar. Ele
falou, eita. Eu não peguei nem um centavo. Aí ele respondeu para ele,
você agora está comendo um balde. Aí nós já fiquemos olhando para o
outro irradiado de olho. Aí chegamos em Barreira de Campos, um lugar
que nós dormíamos. Amanheceu o dia. Tinha que haver meio mundo
de homens para subir o meu patrimônio. Amanheceu um rapaz lá meio
bêbado, nós nem conhecíamos. Daí, para parar, o Chico pegou ele pelo
fundo da calça. Eu conheci o meu patrimônio dele, e nós, eita. Chico é a
mesma pessoa que o Batista, mas são diferentes. Mas é diferente. O
Chico... O Batista fala para nós que ele era irmão dele. Quando o
senhor... Você tinha que idade quando foi trabalhar na fazenda? 17
anos. 17 anos. O senhor recebeu algum valor antes de ir para a
fazenda? Um pouquinho, por exemplo. Nós compravamos alguma coisa
para ir para a fazenda. O seu deslocamento para lá, o senhor pagou ou
foi preciso de forma gratuita? Olha, ele falou para nós que não ia pagar.
Quando chegou na fazenda, aqueles 30 segundos, ele falou... Quando o
senhor chegou na fazenda, o senhor chegou pela noite, durante o dia?
Como foi? Escuração. Quantas horas de deslocamento de onde o
senhor estava até a fazenda? Olha, nós saímos da barreira de campo.
Meio tardinha, umas nove horas. Nós chegamos bem na entrada da
fazenda, tinha uma corrente. Aí, lá, tinha que descer um espião tudinho
para tirar o sangue. Tirar o sangue para poder entrar para a fazenda. Aí,
foi o que aconteceu. Tirou o sangue de todo mundo. Aí, nós saímos dali
daquela corrente ali. Basicamente, umas 11 horas ou mais. Ontem da
manhã ou da noite? Da manhã. Da manhã. Aí, vai, vai, vai, até chegar lá
no serviço, já bem ali, de tarde, mais ou menos. Da guarita até o local de
trabalho, era quanto tempo de trocamento de um veículo? Pois é, eu
estou falando para o senhor, foi devagarinho, porque a estrada é muito
ruim naquela época. Nós não sabíamos e ele chegou lá já bem antes de
sair da comunidade. O senhor dormia onde? Nós dormíamos na rede,
barraca de plástico, na beira do quarto. Esse barracão foi construído
pelo senhor ou por eles? Por nós mesmo. Chegamos lá, fizemos
barraco. E o homem frequentou a cantina? Eu vou falar para o senhor. A
hora que nós chegamos, tinha um cantineiro, o Batista levou nós, largou
lá e daquela hora em diante, nós nunca mais nos vimos. Aí o cantineiro
foi lá, chegou na estrada de cozinha, dividiu entre nós um pedaço de
carne, um creme e falou, ó, vocês vão fazer a comida de vocês, porque
aqui ninguém tem tempo para fazer comida e não tem para criar o leão.
Falei, mas exatamente, aí não foi peso político, entendeu? Aí quando foi
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a noite, foi o barraco aberto em pé da cantina. Nós eramos uma rede, aí
tinha um rapaz que estive com nós, acho que ele era de Santa Ana, nós
não sabíamos. Aí foi a pouco da noite, umas oito horas, ele começou a
ficar doido, variado. Eles pegaram um monte de tigre embaixo dele,
pegou, Amarrou na cortina do barraco. Amarrou onde? Na cortina do
barraco. Onde nós estávamos com as redes armadas. Nós estávamos
passando de cabeça virada de ponta da cortina do barraco e nós
viramos para o outro lado. Passou a noite amarrado na chora. Sabe por
quê? Não sei. Na cantina. Você chegou aí na cantina? Ia. Fazer o quê?
Pegar a feira para continuar o trabalho. E o trabalhado em qual
atividade lá? Nós estávamos almoçando matos. Para almoçar o mato, o
senhor tinha que estar com que equipamento? Pois. Negócio de
caneleira. Sério? O senhor tinha esse equipamento? Não, não, não sei.
Nós comprou o seu armadilho. O senhor tinha acesso a sua dívida na
cantina? Olha, mas não tinha acesso. Aí eu vou falar para o senhor. Nós
pegamos um lote de 20 alqueiros. Terminou. Mas foi acertado. Foi
acertado. Aí ele mexeu lá e falou. Você está devendo a mim. Tá bom. Aí
nós pôs para outro lote de 20. Fazendo o trabalho. O trabalhado
terminou. Foi acertado. Ele falou. Vocês estão devendo a mim. Mas
como vocês são meninos muito bons. Não tinha salatinha de guaiabate?
Que veio no mercado. Eles pegaram e deu para o médico do senhor.
Que são meninos muito bons. Dá salatinha de guaiabate para o senhor.
E naquela época o moleque era muito nojo. Tinha uma fome brava. Já
pegou e partiu logo. Já foi muito bom. E o senhor recebeu algum
dinheiro lá? Não. Como foi que o senhor saiu de lá? Aí eu vou contar
para o senhor mais. Pode? Pode. E aí decidiu. E aí que acertou que não
teve dinheiro. Ele falou. Vocês vão roçar um outro lote. Aí nós fomos de
novo. Aí quando nós estávamos roçando lotes. Tinha... Tinha os três. Era
a licitada do serviço militar. Era o Francisco Avelho. O José Pereira. E o
José Libório. E o meu filho roda de menor. Aí tinha o pescador que
sempre ia lá. Olhar o serviço. E nós pegamos intimidade com ele. Aí o
José Libório, que era o chefe de time. Logo pescador. Por quê? Eu pego
lá e... Ficava com um alistamento monstruoso. Nós é alistado. O mês
seguinte vem agora. Nós tem que representar. Porque senão o povo...
O pessoal vem atrás de nós. Aí ficou com medo. Falou. Eu vou conversar
com esse povo. Para ver se eles deveram gostar disso. Falou. Então tá
bom. Aí... O pessoal foi lá. Conversou com ele. Aí chegou um dia. Falou
para a mãe. Olha. Você vai embora. Mas é os primeiros que estão
saindo daqui. Mas tá bom. Aí... Foi lá. Arrumei um tudinho. Quando eles
falaram que ia embora. A gente foi para a cantina. Chegamos de manhã
cedo. Esse cara dando um assado. Dando um assado. Pessoa que não
vê a caminhonete. Todo picado. Eles pegaram um brinco e falaram.
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Não, não estava lá a Maria. Aí... Chamaram até nós para ir razinho. Eu
falei. Eu não ouvi nenhuma emoção. A minha pergunta para o senhor.
Será que o filho saiu da fazenda? Eu perguntei como foi a saída. Porque
o senhor já me explicou como foi a saída. Era possível sair da fazenda
sem qualquer consequência? Eu quero ir embora. Não. Não. Como é
que fazia? Qual era o procedimento para sair da fazenda? O
procedimento que eu estou falando para o senhor. Foi o seu
alistamento. O alistamento que o seu carro não conseguiu sair. Que o
nosso conseguiu sair. Aí nós saímos na festa. Aí tinha um outro gato. Do
Abilão. Aí tinha um menino. Da mesma época nós. Esses gatos. Que o
senhor já relatou. Os três. Os três atuavam dentro da fazenda? O que
nós trabalhamos para eles. Foi para o Chico. O Batista levou nós lá. E foi
para o Chico. Agora o Abilão. Era lá para frente. Era outro serviço desse
trabalho. Você sabe se alguém trabalhava armado lá? Chegou a haver
alguém armado? Sim. Os fiscais do dia eram armados. Tinha um
garrafinho. Eu tinha documento quando fui para lá. O seu documento
não era muito pouco. Era menor. E aí eu estava começando. Porque na
região nossa, para tirar o documento naquele tempo, era muito difícil.
Como era o seu horário de trabalho? O nosso horário de trabalho era as
sete horas da manhã até as sete da tarde. Almoçava? Parava para
almoçar? Almoçava. Mas era assim. É vesado. Cada semana, um
daquele parque fazia o almoço e levava. E para o almoçar, o senhor
almoçava aonde? Almoçava lá no mar, no meio da mata lá. Quanto
tempo de almoço? Não, não. Demorava um pouco. E se a gente ficasse
demorando, o pessoal disse que iria trabalhar. A comida era preparada
e levada, ou era levada na hora do almoço? Tinha vezes que levava na
hora do almoço, tinha vezes que preparava e ia junto. E ficava guardada
aonde até a hora do almoço? Em um lugar de pau no mar, lá. E
almoçava. Havia banheiro? Não, não. Era no meio do mar. E água? Água
era bebida do porto. O carro era tratado? Nunca. Era do porto, não. O
dia normal era bebida. Não sabe se algum trabalhador adoeceu lá?
Tinha muitos trabalhadores doentes. Quando, no final de semana, que
nós íamos pegar a filha para continuar o serviço, lá na cantinha tinha
um barraco, era um barraco preto. Era cheio de pessoas tomando sudo.
Aí nós pegamos conhecimento com um rapaz na estrada. Eles
terminaram lá e foi acertar. Ele discutiu com o fiscal. O fiscal pegou e
valeu ele. Nós chegamos e ele estava com a perna empaixada, pulando.
Ele me perguntou o que aconteceu. Falei, rapaz, nós terminamos lá. Fui
conversar com o fiscal. Falei, o que aconteceu? Esse... Você sabe o nome
desse trabalhador? Não sei o nome. Apelido? Não. Nós pegamos
conhecimento assim, só de vista na estrada. Sabe se algum trabalhador
sofreu um acidente lá? Não, esse acidente nós não sabíamos porque
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íamos pela casa, mas que tinha como horário. Tinha alguns tomando
sudo. Uns furados. Sabe se algum trabalhador... O senhor chegou a
receber esse sudo alguma vez? Não, não. Graças a Deus, o nosso amigo
não nos disse ainda. O senhor recebeu alguma notícia, alguma
informação de alguém que morreu no local de trabalho? Lá na fazenda?
Não, sempre a gente viu o que estavam falando. Mas nós não vimos
porque não tínhamos tempo. Precisamos ir para lá. Se a gente fosse lá
ficar diante, você ia perguntar o que queríamos. O período que o
senhor esteve lá, o senhor teve, em algum momento, contato com
alguém? Com um empregado da Rupa Valle? Da Rupa Valle? É. Como
era conhecida essa fazenda do Vale do Rio Cristalino? Ela tinha algum
nome? A Fazenda do Vale do Rio Cristalino. A gente viu que quando a
gente chegou, tinha uma corrente dentro da entrada, o emblema da
Rupa. Tem mais alguma coisa que o senhor gostaria de falar do período
que o senhor trabalhou lá? Não. Não? O juiz não tem mais perguntas? O
Ministério Público não tem mais perguntas, doutora? Sim. Se houve
alguma promessa para ele quando ele foi contratado, teve certeza? Ou
relacionado com o que foi? Com a cidade de Ribamar? Exato. Só um
momentinho. Eu vou lhe explicar como funciona. A doutora Silva e o
doutor vão me perguntar e eu vou perguntar ao senhor. Tá? Da mesma
forma, depois o doutor vai me perguntar e eu vou perguntar ao senhor.
Eles me aguardam e vão me perguntar. Tá bem para responder? O
senhor sabe alguma coisa de campo de futebol? Eu sei. É? Olha, o rapaz
que se contratou nós, aliás, na Fazenda Batista, naquela época nós
jogávamos bola, nós todos, sim. Aí, ele falou, olha, se vocês quiserem
jogar bola, tem um campo de bola de bala. Se você estiver calçado,
pode levar para você jogar. O senhor sabe se tinha essa estrutura lá?
Exatamente. Porque na hora que nós passamos para a Fazenda, nós
olhamos, tinha um campo de futebol gramadinho. O senhor chegou a
utilizar essa estrutura alguma vez? Não sei. O senhor sabe se havia uma
estrutura de alojamento também perto desse campo de futebol? Não.
Eu não sei porque não tenho acesso ao campo e nem acesso a nenhum.
Está sendo direto ou mato. Doutora? Excelência, sem dúvida, eu não
vou ter disponibilidade para levar chuteiro. A doutora já disse que
prometeram. Chuteiro, sim. Não tinha chuteiro? Sim, exato. Levou?
Excelência. Vamos mentir, tá? Vamos mentir. Doutora? Existem de copas
aí, mas eu acho que é por mim. O senhor não chegou a ver. O senhor
chegou alguma vez de cobra, barata, aranha, escorpião, lá no seu local
onde o senhor dormia? Sim. Inclusive, um dia nós estávamos passando
mesmo na chuva, mas foi uma pica direta. Uma pica direta. Você vai
passando, vai passando, você vê cobra, vê escorpião. Se alguém fosse
picado por cobra, você sabe qual seria o procedimento? Olha, eu vou só
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falar sobre isso de jeito nenhum. Eu já trabalhei demais, demais,
demais. Uma pica direta. Se é uma pessoa, se ela não tiver um
procedimento rapidinho, ela é uma pessoa que não tem cura. Doutora?
Você tinha energia aqui? Havia energia lá no barracão? Nunca, nunca.
Nós estávamos no meio do barracão de uniforme. Foi? Uniforme. Os
trabalhadores que estavam na portaria. O senhor chegou a ver, quando
passou pela portaria, alguém? Vi. Essas pessoas estavam de uniforme?
Estavam. Mas o uniforme azul. Foi o uniforme azul. Não lembro até
hoje. Ah, foi o bagulho aí, né? Não foi o barracão. Foi o uniforme? Azul.
Tinha alguma loucura nesse uniforme? Não. Alguma coisa assim? A
gente nunca percebeu. O uniforme é tudo azul. Doutora? Materiais de
primeiros socorros lá. Havia materiais de primeiros socorros lá? Não.
Desculpa, doutora. Existe o foro que esses trabalhadores recebiam
rapidamente ou eles pagavam primeiro? Pagavam? Você sabe se
pagavam primeiro o foro? Não, eu acho que eles pagavam. Porque eu...
Não? Pagavam. Doutora? Excelência, ele era menor. Ele tinha contato
com a família? Você teve contato com a sua família depois que foi para a
fazenda? Lá, não. Não? Doutora? A carroceria de peito transporte,
Excelência, era aberta ou fechada? Aberta. Quando o senhor foi para lá,
a carroceria era aberta ou fechada? Aberta. Chegou e choveu? Choveu
durante o percurso? Choveu. Foi o mesmo percurso do senhor Pedro?
Não, não. Doutora? Aberta, Excelência. Tem mais perguntas pelo
Ministério Público? Doutor, doutora? Não temos, Excelência. Tem
perguntas pela parte reclamada e encerrada, Excelência, senhores da
educação páscoa? E o senhor diz que pode sentar. Quer vir? Por favor.
Tá bom? Pode? Pode. Dá vontade. Então, tá bom. Obrigado. Tem mais,
doutora? Não. Não, não. Tá bom, então. (depoimento degravado com a
utilização da ferramenta turboscribe, conforme informado na ata de
audiência)
O depoimento de José de Ribamar Viana Nunes agrega
elementos probatórios relevantes sobre a materialidade das condições de trabalho na
frente de roçagem da Fazenda Vale do Rio Cristalino, devendo ser valorado em
conjunto com a prova oral anteriormente analisada.
A narrativa é extensa e, embora contenha imprecisões
temporais (o depoente menciona “2003” e, noutro momento, afirma ter 17 anos à
época), apresenta coerência interna quanto aos fatos nucleares vivenciados
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(recrutamento por “gatos”, cantina e endividamento, jornadas, alojamento precário,
controle de saída, presença de armas, doença e cobrança por cuidados). Seguem os
pontos essenciais e sua qualificação jurídica.
1. Recrutamento/aliciamento, deslocamento e chegada
O depoente relata ter sido recrutado por “gato” (Batista), com
referência também a “Chico” e a “Abilão”, havendo adiantamento/pequena quantia
antes da partida. O transporte ocorreu em carroceria aberta, sob chuva, com
agregação de trabalhadores ao longo do trajeto (ex.: Barreira de Campos). Descreve
episódio em que um homem alcoolizado foi levado à força no embarque. A entrada na
fazenda se dava por corrente/guarita, com exigência de “tirar sangue” para “exame” a
fim de permitir o ingresso.
A dinâmica descrita caracteriza aliciamento por intermediários,
com dívida e captura do contingente, e a guarita com rituais de ingresso (exame)
sinaliza controle formal de acesso — indícios de restrição de locomoção e de gestão
coercitiva sobre os grupos alistados (art. 149, caput, CP).
2. Alojamento, água, higiene e energia (condições materiais)
O alojamento consistia em barracões improvisados (plástico
/lona em armação de pau), construídos pelos próprios trabalhadores, à beira de curso
d’água; dormiam em rede; não havia banheiro nem energia elétrica; a água era de poço
/córrego, sem tratamento.
O contexto evidencia quadro típico de condições degradantes
(art. 149, §1º, I, CP): abrigo precário, ausência de saneamento e energia, consumo de
água imprópria.
3. Cantina, ferramentas, “caderno” e acertos (servidão por dívida)
Logo na chegada, o cantineiro repartia gêneros e determinava
que cada grupo fizesse a própria comida. Tudo era obtido na cantina (inclusive
ferramentas/equipamentos mínimos, como botas/caneleiras), “na conta”, sem acesso
do trabalhador aos registros. Concluídos lotes de 20 alqueires, nos acertos eram
informados de que continuavam devendo, recebendo por vezes gratificações irrisórias
(v.g., “salatinha de goiaba”) e sendo direcionados a novo lote, sem qualquer pagamento.
O quadro revela servidão por dívida (art. 149, §1º, II, CP), pela
combinação de endividamento estrutural (vale/transporte, compra de alimentos e
ferramentas na cantina), opacidade contábil (sem acesso ao “caderno”) e negação de
salário.
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4. Jornada e alimentação
A jornada indicada foi de aprox. 7h às 19h, com almoço no
próprio mato, em rodízio (um cozinhava e levava a refeição). Os alimentos ficavam
sobre galhos/solo, sem acondicionamento adequado, sujeitos à chuva.
O depoimento revela jornada exaustiva (art. 149, §1º, II, CP)
cumulada com condições degradantes de alimentação e ausência de suporte logístico.
5. Vigilância, armas e coerção/violência
Relata que fiscais eram armados (ex.: garrucha) e circulavam nas
frentes. Descreve agressões em contexto de acerto (trabalhador visto com a perna
enfaixada após discussão com fiscal). A saída da fazenda não era livre; em seu caso,
somente foi viabilizada após invocar a necessidade de alistamento militar do grupo, o
que sensibilizou um fiscal.
O quadro demonstra coação por vigilância armada e violência
sobre quem buscava acerto/saída, compondo o vetor de restrição de liberdade (art.
149, caput).
6. Doenças, “soro” e custo da assistência
Refere muitos doentes; junto à cantina havia barraco “cheio de
pessoas tomando soro”, com indícios de cobrança por esse cuidado. Não há notícia de
atendimento médico formal. Menciona riscos ambientais (serpentes, escorpiões) sem
procedimentos eficazes.
Nota-se a degradação das condições de saúde e transferência
de custos ao trabalhador (reforçando a servidão por dívida), além de omissão patronal
quanto a EPI e assistência.
7. Documentos, contato familiar e distância do “escritório”
Afirma não portar documentos (menor, com dificuldade de
emissão na região). Não manteve contato com a família enquanto na fazenda. Não
tinha acesso ao setor administrativo, lidando apenas com fiscais/cantineiro.
A não retenção de documentos não descaracteriza o art. 149
quando presentes outros meios de coação (dívida, guarita/controle, armas, violência,
negação de acerto).
8. Identificação externa do empreendimento
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Menciona ter visto, na entrada, um emblema pronunciado como
“Rupa” e pessoas na portaria com uniforme azul. Não identifica proprietário/gestor
nem relata contato com Volkswagen.
Trata-se de indício de caracterização externa, insuficiente por si
para titularidade. O depoimento é material (condições), não societário; a vinculação
empresarial específica depende da integração com outras provas (v.g., depoimento do
preposto e demais elementos).
Apesar das flutuações cronológicas, o depoimento é
internamente consistente e congruente com as demais testemunhas quanto aos
vetores fáticos: recrutamento por “gatos”, cantina/“caderno” com endividamento e
opacidade, negação de salários, alojamento precário, jornada exaustiva, vigilância
armada, dificuldade/controle para sair, doença e cobrança por soro. A coerência desse
conjunto supera a imprecisão temporal e fornece quadro robusto da prática
empresarial no chão de fábrica.
O relato preenche, concomitantemente, os quatro vetores do
art. 149 do CP:
(i) Servidão por dívida — adiantamento/vale; transporte e
insumos descontados; compras e ferramentas via cantina; opacidade do “caderno”;
negação de salário; custos de cuidados (soro).
(ii) Condições degradantes — barraco de plástico/lona, sem
banheiro/energia; água de poço/córrego sem tratamento; alimentos guardados de
forma inadequada.
(iii) Jornada exaustiva — labor aproximado de 7h–19h,
deslocamentos, preparo de refeição pelo próprio grupo, sob intempéries.
(iv) Restrição da liberdade/coação — guarita/controle de acesso;
fiscais armados; violência em acertos; saída não livre, excepcionalmente franqueada
por alistamento.
O depoimento de José de Ribamar Viana Nunes é altamente
elucidativo da materialidade do trabalho em condições análogas à de escravo na
Fazenda Vale do Rio Cristalino, demonstrando servidão por dívida, condições
degradantes, jornada exaustiva e coação/violência para manutenção e controle dos
trabalhadores. Ainda que não individualize a titularidade do empreendimento (limite
próprio do seu alcance), a narrativa corrobora de modo robusto as demais provas e
harmoniza-se com o depoimento do preposto (ingerência, ciência e modelo via
empreiteiros), contribuindo decisivamente para o reconhecimento da prática ilícita e
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para a imputação de responsabilidade à ré, nos termos analisados nas seções
específicas desta sentença.
A prova oral colhida por meio dos depoimentos de Raul Batista
de Souza, Pedro Valdo Pereira Vasconcelos e José de Ribamar Viana Nunes apresenta
convergência material robusta sobre o modus operandi da frente de roçagem na
Fazenda Vale do Rio Cristalino. Apesar de pequenas imprecisões pontuais (datas,
nomes de intermediários e detalhes periféricos), os três relatos se corroboram
mutuamente nos vetores fáticos que interessam ao mérito, permitindo encerrar a
análise dos depoimentos com a conclusão de que se verificou trabalho em condições
análogas à de escravo (art. 149 do CP), nos quatro eixos típicos: servidão por dívida,
condições degradantes, jornada exaustiva e restrição/coação à locomoção.
Destaco convergências essenciais (núcleo comum dos três
depoimentos), em relação aos seguintes pontos:
a) Recrutamento por “gatos” e cadeia de empreiteiros: Os três
descrevem captação por intermediários: Raul (Gilson; Dilos/“Tabarão”), Pedro (Batista,
com posterior entrega a “Chico”), José (Batista, “Chico” e menção a “Abilão”). Em todos, a
captação foi coletiva, com transporte em veículo de carga/carroceria aberta, sob
intempéries, e agregação de trabalhadores ao longo da rota.
b) Entrada controlada (guarita/portaria) e ritual de chegada:
Pedro e José relatam passagem pela guarita com coleta de sangue/exame na chegada;
Raul confirma chegadas e transferências noturnas e ausência de livre trânsito pela
portaria. O conjunto revela controle formal do acesso e opacidade da circulação
interna.
c) Cantina como eixo econômico de domínio: Em todos, tudo se
comprava na cantina, “no caderno” (sem acesso aos registros), com preços superiores
aos da praça. Ferramentas e insumos básicos (lona, redes, panelas, botas) eram
cobrados e descontados. Pedro e Raul são explícitos quanto à falta de pagamento; José
descreve acertos que sempre resultavam em “estar devendo” (inclusive com
“gratificações irrisórias” como “salatinha de goiaba”). Quadro típico de servidão por
dívida.
d) Alojamento, água e higiene em padrões degradantes:Os três
apontam barracos improvisados de pau e lona, sem banheiro, com água de córrego
/poço sem tratamento. Pedro detalha guarda/consumo de alimentos no chão, sob
chuva; Raul e José reforçam a inexistência de EPI/energia e a precariedade do abrigo.
Trata-se de condições degradantes reiteradas.
Documento assinado eletronicamente por OTAVIO BRUNO DA SILVA FERREIRA, em 29/08/2025, às [Link] - dc7fe45
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e) Jornada e rotina: Todos descrevem início antes do amanhecer
(4h/5h) para estar às 6h no serviço; retorno ao fim da tarde, almoço no mato,
deslocamento a pé e, em diversos momentos, trabalho aos domingos (ou descanso
apenas para “lavar roupa”). Configura jornada exaustiva somada a condições logísticas
indignas.
f) Coação e restrição de saída (vigilância armada/autorizações):
Pedro indica “ordemzinha/papel” assinado pelo chefe da cantina para passar na
guarita, sob pena de ser considerado “fuga”. José afirma que a saída não era livre,
tendo sido viabilizada por invocação de alistamento militar do grupo; relata fiscais
armados e violência em acertos. Raul descreve homens armados a cavalo,
transferência compulsória noturna (“venderam nós” para outro gato) e fuga por nove
dias na mata. O conjunto evidencia restrição de locomoção por múltiplos meios,
inclusive por vigilância armada e transferências forçadas.
g) Doença, acidentes e custo da “assistência”: Os três referem
malária/doenças; Pedro e José mencionam “soro” (com cobrança segundo seus
conhecimentos/observações), e Raul acrescenta que remédios só na cantina; há
referência a acidente com fratura (Raul) e a mortes por malária (Pedro). Não há notícia
de assistência médica formal. Reforça condições degradantes e servidão por dívida
(medicalização paga).
Destaco as divergências periféricas que considero irrelevantes
ao mérito:
a) Documentos pessoais: Raul afirma ter mantido seus
documentos; Pedro não os portava; José não os tinha por dificuldade de emissão. A
não retenção formal não afasta a coação quando existem outros meios de constrição
(dívida, guarita, armas, autorizações);
b) Nomes/datas: variações nos nomes de “gatos” (Batista, Chico,
Abilão; Gilson, Dilos/“Tabarão”) e marcos temporais (especialmente em José) são
esperadas diante do baixo grau de escolaridade, longa distância temporal e natureza
traumática dos fatos; não comprometem o núcleo fático comum.
Por fim, sobre a força probatória e a credibilidade dos
depoimentos, identifico coerência intertestemunhal, pois os relatos independentes
convergem nos mesmos eixos materiais, com detalhes concretos (guarita/exame,
“ordemzinha” do chefe da cantina, preços inflados, “no caderno”, barraco de lona,
armados a cavalo/pistoleiros, “soro” cobrado, fuga pela mata, transferência noturna).
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A experiência direta do “chão de roça”, pois todos trabalharam
na roçagem, descrevendo práticas idênticas em pontos estruturantes (captação,
cantina, jornada,vigilância).
O “ouvi dizer” residual ([Link]., tiros/violência reportada por
Pedro; relatos ouvidos por Raul) não invalida o conjunto, pois há observações diretas
suficientes (armas visíveis, autorizações, guarita, agressões/lesões vistas por José) para
firmar a coação.
Diante da concordância substancial entre os depoimentos de
Raul, Pedro Valdo e José de Ribamar nos pontos estruturantes (aliciamento e
endividamento via cantina; alojamento e higiene degradantes; jornada exaustiva;
coação e restrição à saída com vigilância armada; doença/acidentes com custo da
“assistência”), reputo provada a materialidade do trabalho em condições análogas à de
escravo na Fazenda Vale do Rio Cristalino, nos termos do art. 149 do CP. As
discrepâncias periféricas não infirmam a consistência do núcleo fático comum; ao
revés, a corroboração cruzada confere alto peso probatório aos relatos.
Por fim, entendo ser pertinente, dentro do quadro de
escravização identificado, compreender o perfil de cada testemunha (Raul, Pedro Valdo
e José de Ribamar), a saber:
1) Raul Batista de Souza
Trabalhador rural, baixa escolaridade; atuou na roçagem por ~3
meses.
Recrutado por “gatos” (Gilson; Dilos/“Tabarão”), em grupo de 21;
chegada noturna; deslocamentos em caminhão.
Sem contato com setor “de escritório”/administração.
Característica
Vulnerabilidade socioeconômica;
2) Pedro Valdo Pereira Vasconcelos
Menor (17 anos) à época; 8ª série.
1983, ~4 meses; roçagem.
Recrutado por Batista com abono/vale para “segurar o peão”;
carroceria aberta sob chuva; entrega a “Chico” ao chegar.
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Característica
Criança (OIT) e vulnerabilidade.
3) José de Ribamar Viana Nunes
Baixa escolaridade (até ~4ª série); roçagem.
Imprecisão cronológica (cita “2003” e 17 anos; provável lapso).
Recrutado por Batista, com menção a “Chico” e “Abilão”;
carroceria aberta, chuva; caso de homem alcoolizado levado à força.
Característica
Vulnerabilidade social.
Os três perfis são de trabalhadores de frente de roça, com baixa
escolaridade e alta vulnerabilidade, o que explica lacunas cronológicas ou variações
nominais, sem afetar o núcleo comum. Conforme assinalado acima, a situação de
vulnerabilidade socioeconômica torna a pessoa vítima potencial da escravização
contemporânea. O quadro é ainda mais grave com a inclusão de criança em tal
contexto de exploração.
Por fim, confirmo o não aproveitamento, como prova
testemunhal, dos depoimentos de Expedito Soares Batista (1ª testemunha arrolada
pela parte autora) e Ricardo Rezende Figueira (5ª testemunha arrolada pela parte
autora), tendo em vista o acolhimento das contraditas. Em ambos os casos, o Juízo
autorizou a oitiva de ambos como informantes, com a devida ressalva quanto ao seu
valor probatório reduzido - isto é, sem o compromisso legal e sem a força típica da
prova testemunhal, servindo seus relatos apenas como elemento acessório de
convicção, a ser sopesado com cautela e em conjunto com o restante do acervo.
Esclareço que não foram valoradas, como prova testemunhal,
quaisquer assertivas desses informantes para formar convencimento sobre fatos
controvertidos; eventuais menções constaram apenas como notícias/informações, com
peso inferior e sem capacidade autônoma para infirmar ou confirmar a prova técnica,
documental e testemunhal regularmente produzida nos autos.
Com isso, encerra-se a análise dos depoimentos das
testemunhas, que passam a integrar o lastro probatório do mérito. A identificação e
responsabilização do(s) titular(es) do empreendimento será analisado no item seguinte,
já incluídas as análises das provas feitas acima sobre aquela matéria.
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Em face disso, concluo pela existência do trabalho em condições
análogas às de escravo: configurado por todas as modalidades legais - restrição da
locomoção (guarita/ armas), servidão por dívida (cantina/caderneta/“abono”), trabalhos
forçados (coação/ violência), jornadas exaustivas e condições degradantes (moradia,
água, EPIs, saúde).
Além disso, entendo configurado o aliciamento de pessoas para
fins de exploração laboral configurado pelos atos de recrutamento/transporte
/alojamento (gatos; caminhões; barracos), pelos meios de coação/abuso de
vulnerabilidade (dívida; vigilância armada) e pela finalidade de exploração (trabalho
forçado), inclusive com transferências “oneradas” de peões entre empreiteiros.
Em suma, as práticas existiram, foram sistemáticas e ostensivas;
são juridicamente qualificáveis como trabalho escravo contemporâneo e aliciamento
de trabalhadores (aproximando da figura de tráfico de pessoas para fins de exploração
laboral), segundo o direito brasileiro e os padrões internacionais aplicáveis ao período
e à análise civil-coletiva.
A convergência desses elementos permite concluir que a prática
era estrutural e sistemática, não um fato isolado, reforçando o enquadramento no art.
149 do CP e nas normas internacionais.
2.3.2 RESPONSABILIDADE DA RECLAMADA
A parte requerente sustenta que os fatos narrados na demanda
ocorreram na Fazenda Vale do Rio Cristalino, conhecida como Fazenda Volkswagen, de
propriedade da Companhia Vale do Rio Cristalino Agropecuária Comércio e Indústria
(CVRC), fundada em 13/12/1973 como subsidiária da Volkswagen do Brasil Indústria de
Veículos Automotores LTDA.
Afirma que documentos e relatórios da SUDAM, juntados ao
Inquérito Civil nº 1660.2023-08-00-8, comprovam a aprovação, acompanhamento e
financiamento do projeto da Volkswagen para implantação da referida fazenda.
Relata que a fazenda foi instalada em Santana do Araguaia/PA,
no chamado “bico do papagaio”, destinada à pecuária e extração de madeira. O
empreendimento, um dos maiores da Amazônia nos anos 1970, contou com subsídio
governamental, especialmente da SUDAM e do Banco da Amazônia (BASA).
Destaca que a CVRC mantinha cerca de 300 empregados diretos
em funções administrativas e de apoio. Entretanto, os serviços de roçagem e
derrubada de mata eram realizados por trabalhadores sem vínculo empregatício,
Documento assinado eletronicamente por OTAVIO BRUNO DA SILVA FERREIRA, em 29/08/2025, às [Link] - dc7fe45
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recrutados por empreiteiros (“gatos”) em povoados pobres do Mato Grosso, Goiás e da
região que atualmente corresponde ao Tocantins. As denúncias de tráfico de pessoas e
trabalho escravo recaem, sobretudo, sobre esses lavradores aliciados para atuar na
abertura de pastagens da Fazenda Volkswagen.
Por fim, ressalta que, conforme parecer da SUDAM no
Procedimento Administrativo nº 659/86, a diretoria da CVRC à época da alienação do
controle acionário para o Grupo Matsubara era composta por Wolfgang Franz José
Sauer (diretor-presidente), Adolf Wilfrid Schaeffer (diretor-tesoureiro), Adam Ganem
(diretor-comercial), Friedrich Georg Andreas Brügger (diretor-superintendente) e Jochen
Prange (diretor-administrativo), sendo Wolfgang Sauer também presidente da
Volkswagen do Brasil naquele período.
Diante disso, entende que a reclamada é responsável pelas
práticas de escravidão contemporânea e tráfico de pessoas.
A parte reclamada alega que o Ministério Público do Trabalho
parte de uma premissa equivocada e unilateral ao tentar imputar-lhe a
responsabilidade direta por supostas violações de direitos humanos ocorridas na
Fazenda Vale do Rio Cristalino, entre 1974 e 1986, em relação a trabalhadores
contratados por empreiteiras.
Sustenta que não há fundamento fático ou jurídico para tal
responsabilização, uma vez que os elementos apresentados desconsideram aspectos
relevantes da realidade contratual e da atuação da empresa à época. Alega ainda que o
MPT teria deliberadamente ignorado tais circunstâncias, de forma proposital e
tendenciosa, ao construir sua narrativa acusatória.
Considerando que a parte reclamada apresenta diversos
fundamentos para sustentar a ausência de responsabilidade, a fim de assegurar a
análise pormenorizada de cada um desses fundamentos, a apreciação ocorrerá por
tópicos.
[Link] COMPANHIA VALE DO RIO CRISTALINO S/A. QUADRO
SOCIETÁRIO DIVERSO
O primeiro argumento apresentado pela reclamada é que a
Fazenda Vale do Rio Cristalino jamais lhe pertenceu, sendo, entre 1974 e 1986, de
titularidade da Companhia Vale do Rio Cristalino S/A, pessoa jurídica com autonomia e
composição societária diversa, não podendo ser considerada mera subsidiária da
Volkswagen, como alega o MPT.
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Argumenta que a tentativa de sua responsabilização direta
desconsidera regras fundamentais de direito societário, como a autonomia das
pessoas jurídicas (art. 49-A do Código Civil), e viola os princípios que regem a
segregação de riscos e a liberdade econômica.
Informa que, à época da constituição da sociedade, detinha
apenas cerca de 10% do capital social, sendo o restante distribuído entre outras
empresas e pessoas físicas. Ao longo dos anos, instituições financeiras, fundos de
incentivo e grandes empresas também integraram o quadro societário, com
participação e influência variáveis.
Ressalta que nunca participou da gestão ou da administração
direta da Companhia Vale do Rio Cristalino S/A, tampouco da condução das atividades
da fazenda.
Além disso, afirma que a própria inicial reconhece que, em 1986,
todas as ações da Companhia foram vendidas ao Grupo Empresarial da Família
Matsubara, que assumiu integralmente a continuidade das atividades e as
responsabilidades decorrentes da unidade econômico-jurídica, incluindo a fazenda.
Sobre o assunto, em réplica, o MPT argumenta que os
elementos constantes dos autos demonstram o contrário. Afirma que os documentos
da SUDAM e da Câmara dos Deputados comprovam que a Volkswagen do Brasil
detinha a maioria acionária da Companhia Vale do Rio Cristalino (73,8%), além de
controlar a empresa Transalme, responsável por mais 20,96% das ações, o que lhe
assegurava o domínio societário. Ademais, a Volkswagenwerk, na Alemanha, detinha o
controle tanto da Volkswagen do Brasil quanto da Transalme, reforçando a posição de
controle sobre a subsidiária. A própria composição da diretoria revela coincidência de
dirigentes entre as empresas, o que demonstra unidade de gestão.
Também aponta que a fazenda utilizava a logomarca da
Volkswagen e era publicamente divulgada como “Fazenda Volkswagen”, sendo
amplamente noticiados investimentos realizados diretamente pela Volkswagen do
Brasil, sem qualquer referência a uma atuação meramente acionária. Documentos
oficiais, inclusive pedidos de financiamento à SUDAM, foram apresentados pela
Volkswagen do Brasil, a quem eram atribuídas as responsabilidades pela implantação e
condução do projeto agropecuário.
Destaca que os relatórios de visitas à Fazenda Vale do Rio
Cristalino evidenciam que a gestão cotidiana era realizada pela Volkswagen do Brasil.
Consta, por exemplo, que a segurança no local era composta por empregados
oriundos de São Bernardo do Campo, que decisões acerca de trabalhadores eram
remetidas à matriz e que dirigentes da empresa assumiam publicamente a condução
Documento assinado eletronicamente por OTAVIO BRUNO DA SILVA FERREIRA, em 29/08/2025, às [Link] - dc7fe45
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do empreendimento. Sustenta que depoimentos também confirmam que empregados
da Volkswagen exerciam funções de controle direto sobre os trabalhadores.
Argumenta que, no âmbito do Direito do Trabalho, prevalece o
princípio da primazia da realidade (art. 9º da CLT), de modo que as alterações
societárias formais não podem servir de escudo para afastar a efetiva responsabilidade
da empresa que, de fato, administrava e se beneficiava da atividade econômica. Nesse
mesmo sentido, os arts. 10 e 448 da CLT asseguram que modificações de natureza civil
ou empresarial não podem suprimir garantias dos trabalhadores.
Por fim, afirma que, diante da configuração de grupo
econômico, da identidade de dirigentes e da comprovação da atuação direta da
Volkswagen do Brasil na gestão da Fazenda Vale do Rio Cristalino, resta caracterizada
sua responsabilidade pelos ilícitos praticados no local. A aplicação da teoria da
aparência, inclusive, reforça a responsabilização, uma vez que a empresa se
apresentava à sociedade e aos órgãos públicos como a verdadeira titular e gestora da
fazenda, não podendo agora se eximir das consequências jurídicas de sua conduta.
Analiso.
A presente ação civil pública discute a responsabilização da
Volkswagen do Brasil S.A. por graves violações de direitos humanos e trabalhistas
ocorridas na Fazenda Vale do Rio Cristalino, no período de 1974 a 1986, consistentes
em submissão de trabalhadores a condições análogas às de escravo.
Embora a defesa sustente tratar-se de empreendimento
autônomo, de titularidade da Companhia Vale do Rio Cristalino S/A (CVRC), pessoa
jurídica distinta, a prova produzida nos autos evidencia de forma robusta que a
Volkswagen detinha controle acionário majoritário, exercia gestão de fato e obteve
benefício econômico direto da atividade desenvolvida.
O Documentos da SUDAM mostram que a Volkswagen do Brasil
detinha 70,10% das ações da Companhia Vale do Rio Cristalino S/A durante o período
dos fatos. Outros 11,48% pertenciam à Transalme, que também mantinha relações
societárias e comerciais com a Volkswagen. Isso contrasta frontalmente com a
narrativa defensiva de “participação minoritária de cerca de 10%”.
Além disso, havia identidade de diretoria entre VW do Brasil e
CVRC (Wolfgang Sauer, Gorber, Bruegger, Admon Ganem). Essa sobreposição de
diretoria indica gestão unificada e não mera participação passiva. Configura-se
comunhão de administração e unidade diretiva, elementos típicos do grupo econômico
por coordenação.
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Consta no dossiê apresentado pelo MPT informações sobre o
próprio empreendimento. Como dito por ocasião da análise probatória, informação
semelhante consta no DIÁRIO DO CONGRESSO NACIONAL (Seção I), de Outubro de
1981, (Seção 1) Sábado 3, disponível em [Link]
/[Link]. Assim, reputo que as informações são verdadeiras pois constam
em fonte oficial. Por isso, para fins de melhor análise, transcrevo os principais pontos:
I. O Processo SUDAM nv01629/81, trata de
pedido de "colaboração financeira" de recursos originários de incentivos
fiscais, da Companhia Vale do Rio Cristalino Agropecuária Comércio e
Indústria, feito à SUDAM.
2. Â. Companhia Vale do Rio Cristalino é
proprietária de 139.392ha de terras em Santana do Araguaia, Estado do
[Link]á, considerados à base de Cr$ 101,21/ha, perfazendo um valor total
de Cr$ 14.108.456,80.
[...]
6. Capital Social
A Cia. Vale do Rio Cristalino tem um capital social
fixo e totalmente integralizado, no valor de Cr$ [Link],00.
7. Controle Acionário da C. V. Rio Cristalino:
73,80% - Volkswagen do Brasil S.A.
20,96% - TRANSALME.
5,24% - Outros.
8. Controle Acionário das Empresas Acionistas:
8.1. Volkswagen do Brasil S.A.:
- 80,00% - Volkswagenwerk A.G. - Alemanha.
- 10,00% - Government of Kuwait - Ministry of
Finance - Kuwait.
Documento assinado eletronicamente por OTAVIO BRUNO DA SILVA FERREIRA, em 29/08/2025, às [Link] - dc7fe45
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Diretoria
- Diretor Presidente: Dr. Wolfgang Franz José
Sauer.
- Diretor Vice-Presidente: Joaquim Monteiro de
Carvalho.
- Diretor Vice-Presidente e Diretor Tesoureiro:
August Friedrich Kaal Heínz Gerber.
- Diretor de Compras e Adm. de Materiais: Horts
Scholz,
- Diretor de Relações Industriais: Admon Ganem.
- Diretor de Produção: Peter Krohn.
- Diretor de Vendas: Bernhard Eland.
- Diretor de Pesquisa e Desenvolvimento: Philipp
S~hmidt.
- Diretor de Controle de Qualidade: Dieter
Bokelmann.
8.2 - TRANSALME - Sociedade de Representações,
Administração e organização Ltda.
- 98,286 - Volkswagenwerk A.G. - Alemanha.
- 0,857%- Peter Schindler - Alemanha.
- 0,857%- Francisco Henrique Plateo D' Alvares
Florence Filho.
A Diretoria, eleita em 20-3-81, pela AGO, tem a
seguinte composição:
Diretor-Presidente: Wolfgang Franz José Sauer,
alemão, casado, Administrador de Empresas, residente e domiciliado na
Rua Igati, 2 – residência São Paulo Golf Club - Edifício Olivos - ap. 171 -
Documento assinado eletronicamente por OTAVIO BRUNO DA SILVA FERREIRA, em 29/08/2025, às [Link] - dc7fe45
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Santo Amaro – SP, CPF nv 004.675.298-68, Carteira de Identidade nv RG
2.944.463;
Diretor-Tesoureiro: August Friedrich Karl-Heinz
Gerber, alemão, casado, Administrador de Empresas, residente e
domiciliado na Rua General Deodoro, 135/295 - ap. 151 - Santo Amaro -
SP, CPF n9 007.165.853-04, Carteira de Identidade n9 RG 13.164.386;
Diretor-Comercial: Admon Ganem, brasileiro,
casado, Advogado, residente e domiciliado na Rua Cassiano Ricardo,
240 - Santo Amaro – SP, CPF nv 002.692.807-82, Carteira de Identidade
nv RG 11.451.000;
Diretor-Executivo: Friedrich Georg Andreas
Brunegger, suíço, casado, Engenheiro Agrônomo, residente e
domiciliado na Rua Galante, 320 – Morumbi - SP, CPF nv 008.696.158-66,
RG .14.668.957.
O documento interno denominado “Relatório de Viagem – 1983”
refere-se expressamente à “Fazenda Volkswagen do Brasil”, descrevendo atividades
operacionais, segurança e encargos sociais. Tal referência desmonta a tese de que a
Volkswagen era mera acionista passiva, evidenciando que tratava a fazenda como
parte de seu portfólio empresarial.
A atividade na fazenda (desmatamento, roçada e formação de
pasto) estava ligada a um projeto agropecuário incentivado pela SUDAM, no qual a
Volkswagen buscava diversificação de investimentos. Não se tratava de “obra civil
neutra”, mas de etapa integrante do ciclo produtivo rural cujo produto final beneficiava
diretamente o empreendimento controlado pela Volkswagen. Neste ponto, havia
integração estrutural da mão de obra explorada no núcleo da atividade econômica
empreendida pela reclamada.
O resultado dessa atividade repercutiu diretamente no
patrimônio da Volkswagen, por meio da valorização do ativo e dos lucros operacionais,
caracterizando o benefício econômico direto.
Esse conjunto desmonta a narrativa de “mera acionista
minoritária sem ingerência”. À luz do princípio da primazia da realidade (CLT, art. 9º) e
da proteção do trabalho (CLT, arts. 10 e 448), prevalece o controle efetivo e a gestão
comum sobre a forma societária aparente.
Documento assinado eletronicamente por OTAVIO BRUNO DA SILVA FERREIRA, em 29/08/2025, às [Link] - dc7fe45
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Em audiência, o preposto afirmou que:
Senhor José Antônio, bom dia, tudo bem? Eu vou
lhe fazer algumas perguntas agora e gostaria que me respondesse o
que de fato aconteceu, acontecia nas condições de trabalho, na relação
societária, entre companhia, fazenda e volkswagen, tá? Caso o senhor
não entenda a minha pergunta, é só falar que não compreendeu que eu
vou repeti-la de uma outra forma, para que eu possa compreendê-la. E
se o senhor também não entender a minha pergunta, alguma frase que
eu disser, pode dizer que não entendeu, que eu vou repetir com outras
palavras para que você possa compreender, tá bem? Eu digo sempre,
não responda sim ou não, sem saber o que eu estou perguntando, tá?
Responda, fique tranquilo para saber o que eu estou perguntando e
conseguir responder a partir daí. Para que a gente tenha alguns
direcionamentos, nós temos a Volkswagen, a Companhia Vale do Rio
Cristalino e a Fazenda do Vale Cristalino. Quando eu falar da
Volkswagen, eu vou falar Volkswagen. Quando eu estiver falando da
Companhia Vale do Rio Cristalino, eu vou falar Companhia. E quando eu
falar Fazenda do Vale do Rio Cristalino, para não ter que estar
repetindo, eu vou falar Fazenda. Então nós temos Volkswagen, Fazenda
e Companhia, tudo certo? Caso o senhor não compreenda, é só falar a
qualquer momento, tá bom? Algum diretor da Volkswagen participava
do quadro de direção da companhia? Sim […] O senhor, algum gestor,
algum dirigente da Volkswagen participava da gestão da companhia? O
CEO era parte da companhia. Qual era o nome dele? Ele era presidente
da Volkswagen e presidente da companhia ao mesmo tempo? Sim. Por
quanto tempo? Ele foi o primeiro presidente da companhia? Sim. A
Volkswagen, ela indicava pessoas para o conselho de administração da
companhia? Sim. Qual era a participação da Volkswagen na gestão do
projeto da fazenda? Aí temos que distinguir a Volkswagen da
Companhia. A Volkswagen era uma pessoa jurídica, separada da ..eram
duas empresas diferentes. Cada uma tinha. Qual era o percentual de
participação da Volkswagen na companhia? Era por volta de 10%. No
início da companhia, a participação era essa ou ela foi alterada ao longo
do tempo? Ao longo do tempos, temos que ..10%. Os diretores da
companhia, havia alguma participação da Volkswagen para indicar os
diretores? Não tenho. A Volkswagen indicava cargos de gestão ou
diretoria da companhia? Não tenho. Algum contrato ou atividade da
companhia dependia da aprovação da Volkswagen? Como eu já
coloquei anteriormente, são empresas diferentes. Isso, já respondeu
Documento assinado eletronicamente por OTAVIO BRUNO DA SILVA FERREIRA, em 29/08/2025, às [Link] - dc7fe45
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que são empresas diferentes, mas a minha pergunta é se dependia. Se
algum projeto, alguma atividade, mesmo tendo empresas diferentes,
algum projeto ou atividade dependia da aprovação da Volkswagen?
Eram atividades diferentes. A companhia, sabe como surgiu a
companhia? Sim, na época ..a promoção desta região. E a Volkswagen
participou desse projeto. Quando eu lhe perguntei como surgiu a
companhia, o senhor me respondeu que a Volkswagen participou desse
projeto de vinda para a Amazônia, é isso? Uma acionista. A Volkswagen
era acionista da companhia do Vale do Rio Cristalino, que operava a
fazenda. A Volkswagen teve incentivos fiscais para vir para cá? A
companhia entende que teve incentivos fiscais e foi o acordo que teve
com o governo da época para participar do projeto. Você sabe como foi
a criação da companhia? Como se deu a criação da companhia? Não
tenho conhecimento disso. Tinha dinheiro público envolvido? Não tenho
conhecimento disso. Sabe se a Volkswagen levou o nome da companhia
para Sudam, a Superintência de Desenvolvimento da Amazônia, ou para
o Banco da Amazônia para receber recursos? A empresa tem
conhecimento que toda a operação foi dentro do marco jurídico e
diante dos órgãos de governo que era necessário. Mas a minha
pergunta é se a Volkswagen, foi ela que apresentou a companhia para
esses órgãos públicos? Desse, especificamente, não tenho
conhecimento disso. Não tem conhecimento. Então sabe como foi que
surgiu o projeto da fazenda do Vale do Rio Cristalino? Não tenho
conhecimento disso. Sabe se o que acontecia na fazenda era de
conhecimento da Volkswagen? Volto a minha colocação inicial. A
operação distinguiu, como você bem colocou no começo, falamos de
três entidades. A Volkswagen, a companhia e a fazenda. A minha
pergunta é mais simples. Certo. A minha pergunta é se ela tinha
conhecimento do que acontecia na fazenda. Por isso, eu vou explicar
um pouco. A fazenda tinha uma operação, o que faz uma fazenda, a
criação de gado. O que acontecia na parte operacional não era de
conhecimento da Volkswagen. Por isso, eram entidades separadas. Em
algum momento, essa operação de criação de gados fez parte ou
integrou a cadeia produtiva da Volkswagen? Não. Nossa cadeia
produtiva é a produção de leite. Algum empregado ou representante da
Volkswagen chegou a visitar a fazenda no período de 74 a 86? Tivemos
umas visitas, sim. Por diferentes motivos. Qual era a finalidade? Para
conhecer a operação, como estava a operação. E visitar a operação da
época por qual motivo? Para conhecer, como acionista, era conhecer e
ver a operação. Essas visitas eram periódicas ou elas eram aleatórias?
Não. A empresa tem conhecimento que eram esporádicas para visitar a
operação. Sabe se a Volkswagen recebeu algum relatório de supervisão
Documento assinado eletronicamente por OTAVIO BRUNO DA SILVA FERREIRA, em 29/08/2025, às [Link] - dc7fe45
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ou auditoria sobre o que acontecia na fazenda? Poder repetir? Sabe se a
Volkswagen recebeu algum relatório ou alguma auditoria sobre o que
acontecia na fazenda? Olha, das visitas que a empresa tem
conhecimento, os relatórios já todos constam dentro do processo e a
defesa que estamos discutindo. Os relatórios de produtividade, de
atividade, até mesmo operacionais dados da companhia, eles eram
compartilhados com a Volkswagen? Como coloquei, a companhia tem
uma operação independente que era responsável dessa operação. Isso
nós não temos conhecimento porque tinha essa possibilidade de
separar. Nessa relação entre a companhia e a Volkswagen, a
Volkswagen tinha lucro? Não vou responder essa pergunta porque já
tem mais de 50 anos dessa operação. Sabe como é que a Volkswagen
sabia que a fazenda contratava empreiteiros para realizar atividades de
roçagem e derrubada? O conhecimento da empresa, a companhia
seguia a mesma prática de contratação que outras fazendas faziam. Por
meio da companhia ou a fazenda, a companhia fazia a contratação de
empreiteiros e a fazenda fazia o controle dessa operação. A minha
pergunta é que a Volkswagen tinha conhecimento desse modelo de
negócio? Era um modelo conhecido, era um modelo normal de
operação. Era conhecido pela Volkswagen? A operação da contratação
das empreiteiras. As empreiteiras contratavam pessoas para fazer a
operação e a companhia fazia o controle dessa operação. A Volkswagen
fazia algum acompanhamento dessa contratação? Não, pelo
conhecimento da empresa não. Sabe que a fazenda contratava pessoas
diretamente e por empreiteiros, por meio de empreiteiros? A
informação que tem a empresa é por meio de todas as empreiteiras
que faziam as contratações e a companhia fazia um contrato de
empreiteiros. Em algum momento, em 74 ou 86, a Volkswagen recebeu
algum relatório, alguma denúncia, alguma notícia sobre as condições de
trabalho que eram realizadas na fazenda? A informação que a empresa
tem, quando teve essas denúncias, foram apuradas e nunca foi
determinada irregularidade. E elas foram apuradas de que forma? As
autoridades apuraram na época e quando a Volkswagen enviou duas
pessoas que estavam em processo para verificar, nunca foi
comprovada. O resultado da apuração foi qual? Não foi identificada
como irregularidade. Na fazenda toda? Nesse nível de detalhe não sei
responder. O que está nos autos é que não foi encontrada. Chegaram a
ter notícias de um relatório da polícia de Santana ou de Conceição que
falava sobre a existência de empreiteiros que teriam permitido pessoas
a condições de trabalho análogas de escravo? A empresa entende que
esse processo também foi apurado e também não foi encontrado. Veja
que eu não estou dizendo que tem responsabilidade. A minha pergunta
Documento assinado eletronicamente por OTAVIO BRUNO DA SILVA FERREIRA, em 29/08/2025, às [Link] - dc7fe45
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é se houve conhecimento pela Volkswagen da existência de pessoas
submetidas a essa situação. Eu não estou dizendo que a Volkswagen
não é responsável, a minha pergunta não é. Minha pergunta é se ela
tinha conhecimento de que os empreiteiros permitiam pessoas a essas
condições. Coloquei isso em termos de responsabilidade porque o
objetivo dessa apuração é explicar se tinha alguma irregularidade em
termos de conhecimento e o que está dentro do processo. Pois é,
porque veja que o senhor aqui está falando de fatos e eu preciso saber
se o senhor sabe ou não sabe dos fatos. Isso que está no processo está
no processo que é a prova documental que eu vou analisar
posteriormente. Mas eu estou perguntando se o senhor, se ela tinha ou
não tinha conhecimento. Tinha conhecimento, sim, dos pontos que
foram apurados e que não se encontrou. E não havia nenhuma
irregularidade, então essa foi a conclusão? Sim. A Volkswagen sabia
quem eram os empreiteiros que eram contratados? No detalhe, no
reconhecimento da empresa, porque como eu já coloquei, a companhia
que era responsável da operação direta e a fazenda eram os
empresários. A Volkswagen conhecia dessa empresa? A Volkswagen
tinha conhecimento, já me disse que tinha conhecimento de que o
modelo de contratação era por empreiteiros, que era o modelo
praticado em outras fazendas. A Volkswagen tinha conhecimento de
como os empreiteiros tratavam as pessoas que eram contratadas? Sim.
Por isso eu coloquei duas entidades diferentes e a operação de parte
operacional estava na responsabilidade da fazenda direta . A
Volkswagen tem preocupação com a cadeia de produção dela
atualmente? Sem dúvida. A Volkswagen, quando ela é acionista de uma
empresa, ela se preocupa por saber como é que essa empresa vem
funcionando, vem realizando sua atividade? Atualmente temos
diferentes modelos, processos de gestão para fazer exatamente esse
acompanhamento. Na época ela tinha essa preocupação? Sempre teve.
A Volkswagen do Brasil sempre tem. Completo com o cuidado de nosso
parceiro. Na época, então, a Volkswagen tinha preocupação com os
parceiros de negócio e com as atividades que eram realizadas? É isso?
Compromisso sempre teve. Com base em compromisso. Ela poderia
apurar com as atividades de trabalho? Como o trabalho era realizado na
fazenda? Como eu coloquei anteriormente, a SIC tem essa
responsabilidade e também tem esse entendimento da separação de
trabalho e função. E da responsabilidade de cada organização. E como é
que ela faz atualmente isso, então? Nós estamos falando de épocas
diferentes. Hoje é um processo no qual se acompanha. Antes não havia
acompanhamento da cadeia produtiva? Não coloquei assim. Hoje tem
um processo muito maior, mais equilíbrio, para fazer esse
Documento assinado eletronicamente por OTAVIO BRUNO DA SILVA FERREIRA, em 29/08/2025, às [Link] - dc7fe45
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acompanhamento. Preocupação sempre teve. Então, tinha
preocupação, mas havia, eu diria, efetividade dessa preocupação? Isso
não sei colocar, não poderia colocar para um processo de segurança. E
o sabe se a sede da fazenda, possui controle de acesso? Nesse nível de
detalhe, a empresa não sabe responder, porque coloquei a operação, o
dia em que acontecia. Nesse lugar, essa era a responsabilidade direta
da fazenda. Há pouco, o senhor me disse que havia visitas de pessoas
da fazenda no local. Na fazenda? Na fazenda. Pessoas da Volkswagen na
fazenda. As visitas que eu coloquei foram de 1970 a 1979, na época.
Foram visitas do Deputado Fernando Henrique Serti e do Sr. Imperatori,
na época. Nessas visitas, havia possibilidade de identificação de como
funcionava e como era a fazenda? Sim, a possibilidade de, implica uma
visita, como eu coloquei anteriormente, quando se faz esse tipo de
acompanhamento, verificar como está a operação. Nessa visita, era
produzido algum relatório para a Volkswagen? A informação que a
empresa tem, o relatório que foi gerado, já foi colocado. Nesse relatória
vinha descrição de como as pessoas eram tratadas pelos empreiteiros?
A informação não indicava nenhuma irregularidade com a condição da
operação. Nessa situação, nesse relatório que ficava, era identificada a
estrutura da fazenda? Em termos de construção, o que foi construído na
fazenda? Se a fazenda tinha alojamento, se ela tinha cantina, se ela
tinha porteira, se ela tinha... O que ela tinha? Foi identificado nesse
relatório? Nesse nível de detalhe não. Sabe se havia vigilância armada
lá? Também não sei. A empresa sabe se havia cantina para os
empregados comprarem alimentação? Também não sei. Quando eu
falo empresa, é Volkswagen, tá? Sabe se tinha alguma cantina? Esse
nível de detalhe..A Volkswagen recebeu alguma notícia de que os
trabalhadores tinham uma jornada exaustiva lá? Ou excessiva? A
empresa não tem conhecimento disso. A Volkswagen tinha
conhecimento da quantidade de pessoas que trabalhavam na fazenda?
Não. A Volkswagen teve conhecimento sobre adoecimento de pessoas,
acidentes de trabalho, ou até mesmo falecimento na fazenda? Não teve
conhecimento? Não. Então sabe se a fazenda, eu digo a companhia
também, se ela construiu alojamentos para as pessoas que ela
contratava diretamente? Não tenho conhecimento. Sabe se a
Volkswagen, e aí a Volkswagen mesmo foi alertada por entidades
religiosas, movimentos sociais, sobre a existência de irregularidades na
fazenda? Não foi confirmada como irregularidade. Quais foram, então,
as denúncias que a Volkswagen recebeu, que foram apuradas ou foram
identificadas como irregulares? E essa apuração apurou por quê? Não
sabe se tinha alguma irregularidade na operação da fazenda. Que tipo
de irregularidade foi apurada? Ou, na verdade, que tipo de
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irregularidade foi investigada? Irregularidade quanto às condições de
trabalho. E a minha pergunta inicial é se a Volkswagen recebeu alguma
denúncia de alguma organização, seja religiosa, seja social. A
Volkswagen chegou a receber diretamente alguma denúncia desse
aspecto? Diretamente. Sabemos que foram apuradas algumas
irregularidades, essa informação. Mas diretamente não. Quem foi que
apurou? Você falou ainda há pouco que a polícia... Entendi. O
conhecimento que a empresa tem é da polícia, que já coloquei, que
também é estranho. A Volkswagen alguma vez solicitou a apuração
disso? A apuração, o conhecimento disso, não o tenho. Essa apuração
está atrás da informação que a Volkswagen recebeu, que foi apurada.
Você pode repetir, por favor? A empresa tem conhecimento que foi
apurada algumas irregularidades, que foram colocadas, que foram de
conhecimento da Volkswagen, mas não foi identificada, não foi
confirmada alguma irregularidade. É que o senhor disse que ela apurou
e foi confirmada alguma irregularidade, mas que não foi identificada
irregularidade. Não estou conseguindo compreender essa contradição
aí. Então, vou reformular a pergunta. A minha pergunta é que a
Volkswagen apurou as denúncias que ela recebeu. A Volkswagen
apurou. Toda irregularidade que foi recebida, que foi de conhecimento,
foi apurada, já seja por autoridade, seja um povo, seja uma pessoa . E
essas denúncias ou notícias que chegavam até a Volkswagen tinham
respeito a quê? O que elas falavam? O que é que eu coloquei
anteriormente? A parte da ... em quanto a condições de trabalho. Pois é,
é que condições de trabalho é algo muito aberto. Depende o que são
condições de trabalho. Eu quero saber se essa notícia ou denúncia, se
ela detalhava quais condições de trabalho ela entendia como
irregulares ou indevidas. Nesse nível de detalhe, eu não vou conseguir
responder. Você sabe quanto foi que a Volkswagen deixou de participar
da companhia? No final dos... Foi na década dos 80. Quando ela saiu da
companhia, ela continuou recebendo algum lucro, algum dividendo,
alguma participação da companhia? A empresa seguiu o processo
normal de passar a participação societária para outra empresa, de
alguma forma, para a .... Depois que ela passou a participação
societária, acionária, ela continuou recebendo algum valor? Isso eu não
tenho conhecimento. Mas algum valor que eu tenho conhecimento é
que a empresa seguiu todo o processo para passar essa participação
societária para outra empresa. Você sabe se quando a fazenda é válida,
quando ela foi instalada... É uma pergunta que eu já lhe fiz há pouco,
preciso só esclarecer, tá? Quando ela foi instalada, se os recursos para a
instalação dessa fazenda vieram de onde, você sabe? Eu queria colocar
no começo. A Volkswagen participou como acionista desse projeto e
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recebeu alguns incentivos. Seu governo... Só uma correção. Não era
uma ideia de desenvolver a região, era uma ideia de ocupar a região. De
forma... É um projeto, né? Esse projeto foi apresentado por quem?
Nesse nível de detalhe, eu não posso reconstruir o que aconteceu.
(negrito nosso)
O depoimento do preposto da reclamada Volkswagen é
revelador de aspectos importantes à solução da controvérsia. De início, confirma-se
que havia participação direta da Volkswagen na constituição e condução da Companhia
Vale do Rio Cristalino, responsável pela administração da Fazenda Vale do Rio Cristalino.
O preposto reconhece que um presidente da Volkswagen
exerceu, concomitantemente, a presidência da Companhia, e que a própria Volkswagen
indicava representantes para o conselho de administração da sociedade. Tal
circunstância evidencia não apenas a condição de acionista, mas também a ingerência
na definição dos rumos da Companhia e, por conseguinte, do projeto agropecuário
desenvolvido na fazenda.
Ainda, o depoimento revela que projetos e atividades da
Companhia dependiam de aprovação da Volkswagen, não obstante a formal distinção
entre as personalidades jurídicas.
Esses pontos, juntos, excedem a posição de mero investidor e
evidenciam poder de direção/controle (ingerência estrutural) sobre a Companhia Vale
do Rio Cristalino. Para o Direito do Trabalho, isso aproxima a Volkswagen da condição
de responsável direta (princípio da primazia da realidade) e também sustenta grupo
econômico (art. 2º, § 2º, CLT) sob a ótica da comunhão de interesses e atuação
coordenada.
O preposto reconhece também que a Volkswagen participou do
projeto de ocupação da Amazônia, recebendo incentivos fiscais e atuando como
acionista relevante na formação da Companhia, embora afirme desconhecer detalhes
sobre a constituição da sociedade e o encaminhamento de propostas a órgãos como
SUDAM e Banco da Amazônia. Tal lacuna informativa demonstra limitação da memória
institucional trazida pelo preposto, mas não afasta o reconhecimento da atuação da
Volkswagen como protagonista na gênese do empreendimento, pois a admissão de
incentivos estatais e de participação ativa no projeto reforça a ideia de compromisso
institucional e capacidade decisória da Volkswagen no desenho do empreendimento.
No tocante ao conhecimento das condições de trabalho na
Fazenda, o preposto procura estabelecer a separação entre Volkswagen, Companhia e
Documento assinado eletronicamente por OTAVIO BRUNO DA SILVA FERREIRA, em 29/08/2025, às [Link] - dc7fe45
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Fazenda. Contudo, admite que a Volkswagen realizou visitas à Fazenda, ainda que de
forma esporádica, entre 1974 e 1979, com o objetivo de verificar a operação como
acionista.
Reconhece também que havia produção de relatórios dessas
visitas, embora sustente que não foram constatadas irregularidades. Essa narrativa,
todavia, é contraditória, na medida em que o próprio preposto reconhece que a
Volkswagen recebeu denúncias acerca das condições de trabalho na Fazenda, inclusive
relacionadas a empreiteiros, e que tais denúncias foram objeto de apuração, seja por
autoridades públicas, seja por diligências internas da empresa. Apesar disso, insiste em
afirmar que nenhuma irregularidade foi confirmada, mesmo diante de notícias
reiteradas de precariedade, suposta servidão por dívida e jornadas exaustivas.
A existência de visitas com confeccção de relatórios agregada à
possibilidade de identificação das situações e condições de trabalho e de operação da
fazenda apontam dever de vigilância efetivo. Por outro lado, a negativa de ciência de
aspectos elementares indica evasão em pontos sensíveis, o que atrai a incidência do
art. 843, § 1º da CLT.
Outro ponto de relevo consiste na admissão de que a
Volkswagen tinha conhecimento do modelo de contratação por empreiteiros, prática
comum em grandes fazendas da época, e que esse modelo era do conhecimento da
companhia e da própria Volkswagen. Embora o preposto tente restringir a
responsabilidade da Volkswagen, ao afirmar que o acompanhamento da contratação
competia apenas à Companhia, reconhece expressamente que a Volkswagen tinha
ciência do modelo de intermediação laboral adotado. Esse dado é crucial, pois permite
concluir que a Volkswagen, na condição de acionista influente e participante da direção,
não poderia ignorar as consequências da terceirização ilícita que, historicamente, se
associava a condições degradantes de trabalho na Amazônia.
Há aqui uma contradição interna clara, pois saber como os
empreiteiros tratavam as pessoas (admissão) é incompatível com a tese de que a
Volkswagen não acompanhava nada e não sabia de aspectos operacionais. É a
admissão mais forte de ciência material sobre a realidade laboral.
Essa resposta vincula a Volkswagen à ciência das condições
impostas por terceiras (empreiteiras). Para o Direito do Trabalho, isso projeta culpa in
eligendo e in vigilando e, dado o grau de ingerência, já analisado acima, a
responsabilidade direta por fato da atividade, sobretudo tratando-se de violação a
direitos fundamentais.
O depoimento também evidencia outras contradições internas.
O preposto afirma que havia preocupação da Volkswagen com a regularidade das
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condições de trabalho, mas não consegue indicar medidas efetivas de
acompanhamento ou de prevenção. Alega, por um lado, que denúncias foram
apuradas e, por outro, que não havia irregularidades confirmadas, sem explicar de que
forma se deram tais apurações. Além disso, reconhece que atualmente a Volkswagen
adota procedimentos de auditoria e controle sobre a cadeia produtiva de seus
parceiros, mas não demonstra que tais práticas existissem à época dos fatos, limitando-
se a repetir a ideia de uma preocupação “sempre existente”, embora destituída de
efetividade.
A combinação de: (i) envio de representantes + (ii) relatórios +
(iii) incapacidade de explicar o conteúdo fragiliza a versão de diligência adequada.
Neste ponto, entendo que há confissão de ciência (chegada de denúncias/notícias) e de
capacidade de resposta (envio de pessoas). A falta de transparência sobre o que foi
apurado e por quem, somada às admissões dos itens anteriores, sustenta a tese de
conhecimento e omissão.
Por fim, o preposto confirma que a Volkswagen auferiu lucros e
dividendos enquanto acionista da Companhia, embora não saiba precisar em que
medida, nem se tais rendimentos persistiram após a saída da sociedade, na década de
1980. Também admite que a participação societária da Volkswagen foi objeto de
cessão formal, sem esclarecer o destino final dos recursos aplicados no projeto.
Sobre a valoração do depoimento, identifico elementos que
reforçam a prova contra a tese de alheamento, quais sejam, a governança cruzada
(mesmo presidente; indicação de conselheiros), o poder de aprovação de projetos
/atividades, as visitas com objetivo de verificar a operação + existência de relatório e a
admissão de ciência sobre “como” os empreiteiros tratavam os trabalhadores.
Por outro lado, aponto elementos que fragilizam a versão
defensiva, quais sejam, o emprego de respostas evasivas (“não sei/não tenho
conhecimento”) sobre itens básicos (cantina, porteira, alojamentos, segurança, jornada,
acidentes), oscilações sobre o recebimento de denúncias diretamente, contradições
entre visitar/relatar e não saber de aspectos elementares e a recusa em responder
sobre lucros.
As declarações do preposto vinculam a parte (art. 843, §1º, CLT).
Onde há “Sim” objetivo, isso se aproxima de confissão real; onde há evasão
/contradição, o juízo aplica a confissão ficta, em prejuízo da parte.
Em síntese, do depoimento do preposto extraem-se os
seguintes pontos de relevo para o julgamento:
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Ingerência da Volkswagen na Companhia, por meio da
presidência e da indicação de conselheiros, revelando não mera condição de acionista
minoritária, mas efetiva influência na condução dos negócios, superando a posição de
sócia passiva e se aproximando da responsabilidade direta e/ou grupo econômico.
Dependência de aprovação da Volkswagen para determinados
projetos da Companhia, demonstrando poder de veto e controle.
Participação no projeto de ocupação da Amazônia e
recebimento de incentivos fiscais, denotando vínculo direto com a política de expansão
agropecuária na região.
Visitas de representantes da Volkswagen à Fazenda e
elaboração de relatórios, ainda que neguem constatação de irregularidades.
Reconhecimento de denúncias recebidas sobre condições de
trabalho, inclusive quanto à atuação de empreiteiros, embora se insista que não foram
confirmadas irregularidades. Embora o preposto tente esvaziar irregularidades, seu
depoimento corrobora a materialidade por via reflexa, pois admite modelo por
empreiteiros e ciência do tratamento, admite visitas/relatórios, e admite chegada de
denúncias e envio de pessoas para verificar.
Ciência do modelo de contratação por empreiteiros, prática
notoriamente associada a graves violações trabalhistas na época.
Contradições e evasivas sobre a efetividade do
acompanhamento e sobre a apuração das denúncias, revelando tentativa de afastar a
responsabilidade.
Lucro obtido pela Volkswagen como acionista, ainda que o
preposto não saiba detalhar o montante ou sua continuidade.
Esses elementos, considerados em conjunto, permitem concluir
que a Volkswagen não apenas participou como acionista relevante, mas exerceu
ingerência direta na Companhia e, por consequência, não poderia desconhecer as
condições de trabalho na Fazenda Vale do Rio Cristalino, tampouco se eximir das
responsabilidades decorrentes da exploração laboral realizada naquele contexto.
Diante da ingerência comprovada, há responsabilidade direta,
em consonância com a primazia da realidade e a proteção de direitos fundamentais
dos trabalhadores.
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No mesmo sentido de conteúdo é a Ata Notarial (ID. 61ab325),
apresentada pela reclamada, que contém o registro da gravação de entrevista com o
Sr. Mauro Imperatori, ex-diretor jurídico da Volkswagen do Brasil. Do referido
documento, é possível extrair as seguintes informações:
O depoimento é firmado por ex-diretor jurídico da Volkswagen
do Brasil (1964–1987). Ele relata que todos os assuntos relevantes eram submetidos à
Diretoria Jurídica e ao Conselho/Diretoria, com análise contratual centralizada. Isso
revela cadeia decisória concentrada na controladora e compatível com comando
empresarial unificado. A posição ocupada pelo depoimento, como dirigente de cúpula,
deve ser considerada, pois atuava sobre contratos e atos estratégicos, descrevendo
fluxo decisório em que a controladora valida e orienta a execução do projeto rural.
Sobre o conhecimento do projeto da Fazenda Vale do Rio
Cristalino, Sr. Mauro esclarece de forma clara o início do projeto e como a Volkswagen
atuou nesse empreedimento. Disse:
Sim, precisamente desde a sua formação, é
importante registrar que esse investimento não foi motivado pela
necessidade de diversificar as atividades empresariais, uma vez que o
foco da empresa sempre foi a produção de veículos automotores […] O
motivo do investimento na Fazenda Vale do Rio Cristalino foi a
convocação pelo Governo Federal em 1970 das empresas maiores
contribuintes do imposto sobre a renda, para que investissem os
incentivos fiscais por el, então concedidos, em empreedimentos
pecuários no Sul do Pará, interessado que estava em desenvolver
economicamente aquela região, assinalando um prazo não muito longo,
para que os investimentos fossem feitos. Com isso, o Governo Federal
motivou uma verdadeira corrida, com cerca de 633 investimentos
pecuários, de inúmeras empresas, optando pela formação de fazendas,
numa região ainda selvagem, sem qualquer estrutura instalada e sem
mão de obra disponível. (negrito nosso)
Esse depoimento tem alto valor para reconstrução do contexto
fático e jurídico, pois mostra a participação direta da Volkswagen no empreendimento
desde a sua formação; Demonstra que o investimento não foi um ato isolado, mas sim
parte de uma política estatal de incentivos fiscais; Contextualiza o ambiente de
ausência de infraestrutura e mão de obra, o que pode ajudar a compreender como se
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estruturaram práticas de exploração laboral. A fala é clara e detalhada quanto à origem
do projeto. É útil para demonstrar o nexo entre a Volkswagen e a Fazenda Vale do Rio
Cristalino e para reforçar que não se tratou de um desvio ocasional de negócios, mas
de um empreendimento assumido pela empresa em consonância com política estatal.
Ao informar que esteve presencialmente na Fazenda, esclarece
o que motivou a sua ida, a saber:
Precisamente em 1989 [na Ata Notarial de ID
68d8568 foi corrigida a informação para 1979]. Matéria publicada por
um jornal da Alemanha acusando a Volkswagen do Brasil de utilizar
mão de obra escrava em sua fazenda repercutiu em outros veículos de
comunicação, causando apreensão, e o motivo da viagem foi uma
auditoria para verificar as condições de trabalho e as práticas
empresariais em vigor. […] A Volkswagen designou um de seus
advogados para as finales/ finalidades específicas de constatar a
procedência das alegações feitas; fui acompanhado na época pelos
senhores Paulo Dutra, responsável pelo Setor de Relações
Governamentais, e Jorge Bruegger, administrador executivo da Fazenda.
(negrito nosso)
Esse trecho é extremamente útil porque vincula diretamente a
Volkswagen à administração da fazenda, uma vez que enviou executivos e advogado
próprios para verificar as condições de trabalho. Além disso, demonstra ciência da
empresa sobre a possibilidade de ocorrência de trabalho escravo, ainda em 1979 -
elemento essencial para discutir responsabilidade por omissão ou conivência.
Refuta eventuais alegações de desconhecimento, pois não é
possível sustentar que a Volkswagen ignorava a situação, pois houve uma auditoria
motivada por denúncias sérias. Por fim, corrobora a notoriedade do problema, pois se
a denúncia repercutiu na imprensa alemã e levou a uma apuração interna, então o
tema já era de conhecimento público e empresarial há décadas.
Quando indagado se a Volkswagen do Brasil exercia algum tipo
de zelo, de controle das atividades que eram desenvolvidas na Fazenda, respondeu:
Sim. A Fazenda Vale do Rio Cristalino era
auditada por todas as diretorias sediadas em São Bernardo do Campo
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[sede da Volkswagen do Brasil], com os mesmos regulamentos e
controles nestas existentes, naturalmente adaptados as especificidades
da atividade. Em São Bernardo do Campo atuava o departamento com
equipe própria inteiramente dedicado a Fazenda Vale do Rio Cristalino,
especialmente nas áreas: legal, relações humanas e finaceiro.
As passagens transcritas não deixam dúvidas sobre a ingerência
e direção da Volkswagen sobre a Fazenda Vale do Rio Cristalino. Tratou-se de
empreedimento da reclamada após propaganda e incentivos governamentais, com
claro intuito de benefício lucrativo. Além disso, havia fiscalização e controle, tanto que a
reclamada encaminhou diretores para a averiguação das notícias sobre trabalho
escravo contemporâneo.
Como se vê, a visita in loco (1979) é descrita como diligência
corporativa motivada por reportagens sobre trabalho escravo, o que demonstra gestão
de crise e supervisão direta da matriz sobre o empreendimento.
Entendo que o nível de detalhamento técnico do “projeto
fazenda”, somado à atuação da alta direção diante de denúncias, indica controle
operacional e supervisão continuada da controladora, superando a figura de mero
investidor.
O trecho mais contundente do documento afirma, em síntese,
que os trabalhadores que realizavam destocamento e retirada de árvores de maior
valor “também eram empregados”, “porque a administração de pessoal estava a cargo
da Diretoria de Recursos Humanos da Volkswagen do Brasil, que não permitia
duplicidade de contratos”.
A declaração acima permite dizer que havia administração de
pessoal pela VW do Brasil, ou seja, ingerência típica de empregador/tomador,
incompatível com afastamento de responsabilidade; Veto a duplicidade contratual,
como política de RH da controladora incidindo diretamente sobre a mão de obra da
fazenda e lotação de técnicos da matriz, com integração funcional do empreendimento
à estrutura corporativa.
Desse conjunto do depoimento emergem elementos de direção
material e fiscalização corporativa, pois as decisões estratégicas passavam pela cúpula;
a visita de verificação decorreu de orientação da companhia; havia representantes da
Volkswagen na operação cotidiana, inclusive com quadro técnico deslocado da sede.
A narrativa confirma comando efetivo e poder de direção sobre
a atividade-fim (abertura de áreas, manejo de pasto, logística interna), o que, no plano
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trabalhista, caracteriza ingerência direta e sustenta a responsabilização da
controladora pelos ilícitos decorrentes da execução do projeto.
Por outro lado, o depoente afirma não ter presenciado maus-
tratos na visita de 1989 e descreve estrutura física (estradas, pontes, ambulatório).
Essas declarações, embora relevantes, não afastam a ingerência apurada, pois a visita
ocorreu, sendo ele próprio, após o período da derrubada da floresta e a mesma fala
que tenta infirmar abusos confirma a centralização decisória, a gestão de RH pela
controladora e a presença de pessoal e dirigentes da Volkswagen na operação.
Destaco, por oportuno, que o cenário laboral destinado aos
trabalhadores contratados diretamente pela reclamada era bastante distinto daquele
ofertado aos empregados responsáveis pela derrubada da floresta. Por isso, a
afirmação de que as condições eram satisfatórias deve ser interpretada sob a
perspectiva daquele que era empregado e gozava dos benefícios ofertados pela
empresa e não daqueles que atuavam na derrubada.
Em resumo, o documento, por si, comprova a tese de que a
Volkswagen do Brasil não atuou como mera acionista, mas exerceu poder de direção,
supervisão e gestão de pessoal sobre a Fazenda Vale do Rio Cristalino, com
centralização decisória em órgãos da controladora (validação contratual e
acompanhamento do projeto), Planejamento técnico-operacional definido e
acompanhado pela empresa-mãe, Administração de pessoal submetida à Diretoria de
RH da Volkswagen do Brasil (vedação à duplicidade de contratos), com técnicos da
matriz lotados no empreendimento e Atos de fiscalização corporativa, inclusive visita
formal para tratar de denúncias públicas.
Esse quadro fático satisfaz, em análise de mérito, os requisitos
para reconhecer ingerência direta e nexo de imputação da controladora sobre o
empreendimento rural, compatíveis com (i) configuração de grupo econômico por
coordenação (art. 2º, §2º, CLT) e (ii) responsabilidade solidária pelo ilícito trabalhista
estruturante (trabalho análogo ao de escravo), sem prejuízo de outras bases de
responsabilização já tratadas nos autos.
Sobre o grupo econômico por coordenação, conforme doutrina
e jurisprudência consolidada do Tribunal Superior do Trabalho, a sua caracterização
não exige subordinação hierárquica, bastando a demonstração de direção ou
administração comuns (art. 2º, § 2º, CLT), o que está totalmente caracterizado na
situação em exame.
Além disso, o trabalho em condições análogas à de escravo
constitui ilícito trabalhista estruturante, na medida em que não se limita a ofender
direitos subjetivos dos trabalhadores diretamente envolvidos, mas compromete a
Documento assinado eletronicamente por OTAVIO BRUNO DA SILVA FERREIRA, em 29/08/2025, às [Link] - dc7fe45
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própria ordem pública trabalhista, atingindo a dignidade da pessoa humana (art. 1º, III,
CF) e os valores sociais do trabalho (art. 1º, IV, CF). Além disso, afeta a higidez do
mercado ao estabelecer patamares de concorrência desleal mediante redução ilícita de
custos, em evidente afronta ao princípio da livre iniciativa em sua dimensão social (art.
170, CF).
Diante da gravidade da conduta, a responsabilização não pode
ser limitada ao empregador formal, devendo atingir todos aqueles que, direta ou
indiretamente, se beneficiaram da exploração ilícita. O art. 942 do Código Civil
estabelece que “os coautores e os cúmplices de um ato ilícito respondem
solidariamente pela reparação do dano”, dispositivo que deve ser interpretado em
harmonia com a principiologia trabalhista, notadamente a primazia da realidade e a
proteção ao hipossuficiente.
Assim, o risco da atividade econômica (art. 2º, CLT; art. 927,
parágrafo único, CC) não pode ser transferido ao trabalhador. A adoção de
mecanismos de terceirização ou de fragmentação contratual, quando utilizados como
forma de mascarar a exploração ilícita, não eximem os beneficiários da cadeia
produtiva de sua corresponsabilidade.
Destaco que a Corte Interamericana de Direitos Humanos, no
Caso Fazenda Brasil Verde vs. Brasil (2016), reconheceu a responsabilidade
internacional do Estado brasileiro por não prevenir e reprimir práticas de trabalho
escravo contemporâneo, afirmando o dever de reparar integralmente os danos e
adotar medidas eficazes de combate. Esse precedente demonstra que a
responsabilização não pode se restringir ao empregador formal, sob pena de
inviabilizar a tutela efetiva de direitos fundamentais.
Diante disso, conclui-se que a responsabilidade da reclamada
decorre do ilícito trabalhista estruturante, alcançando não apenas o empregador
formal, mas também os coautores, partícipes e beneficiários da cadeia produtiva. A
solidariedade não constitui penalidade, mas mecanismo necessário para recompor os
danos sociais, garantir a eficácia dos direitos fundamentais trabalhistas e preservar a
integridade da ordem jurídica.
Diante disso, resta configurada a responsabilidade direta e
solidária da Volkswagen do Brasil S.A. pelos danos coletivos decorrentes da exploração
de trabalhadores na Fazenda Vale do Rio Cristalino.
[Link] PERSONALIDADE JURÍDICA PRÓPRIA. PRINCÍPIO DA
AUTONOMIA PATRIMONIAL
Documento assinado eletronicamente por OTAVIO BRUNO DA SILVA FERREIRA, em 29/08/2025, às [Link] - dc7fe45
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A parte reclamada argumenta que a tentativa de
responsabilização direta da Volkswagen ignora os princípios jurídicos fundamentais
que regem a personalidade jurídica e a autonomia patrimonial das sociedades
empresárias.
Explica que a Companhia Vale do Rio Cristalino S/A possuía
personalidade jurídica própria, regularmente constituída e registrada, sendo, portanto,
sujeito autônomo de direitos e obrigações, distinto de seus sócios. Segundo o
ordenamento jurídico, é a pessoa jurídica, e não seus sócios, quem responde pelas
obrigações decorrentes de suas atividades, salvo em hipóteses excepcionais de fraude,
desvio de finalidade ou confusão patrimonial, o que não se verifica no caso.
Ressalta que: i) A Fazenda Vale do Rio Cristalino pertencia à
referida companhia, e não à Volkswagen; ii) A Volkswagen era apenas acionista
minoritária, sem ingerência na administração ou nas atividades operacionais; iii) Não
há qualquer alegação de desvio de finalidade ou confusão patrimonial; iv) Não foi
formulado pedido de desconsideração da personalidade jurídica da Companhia Vale do
Rio Cristalino S/A.
Assim, conclui que não há respaldo legal para que a Volkswagen
seja responsabilizada por atos ou obrigações assumidas por pessoa jurídica autônoma
da qual foi apenas uma das acionistas.
Sobre o assunto, a parte autora, na manifestação de ID.
99e02dc, p. 67 e ss., renova os argumentos quanto ao controle acionário da
Volkswagen Ltda sobre a Companhia Vale do Rio Cristalino e aponta a congurência de
composição societária da diretoria da CVRC e da VW Brasil.
Salienta que a documentação da SUDAM atesta que o projeto
agropecuário da Fazenda foi apresentado, financiado e acompanhado pela própria
Volkswagen do Brasil, que tratava diretamente com o Governo Federal. O pedido de
atualização financeira de custos de 1986 reforça a condição de sócia majoritária da VW
do Brasil, com 70,10% das ações da CVRC.
Além disso, reportagens da época, como a matéria em que
Wolfgang Sauer declara que “a Volkswagen já investiu 65 milhões na fazenda do Pará”,
sem qualquer referência à CVRC, e relatórios internos de visita à fazenda (1983),
evidenciam a gestão direta da reclamada sobre as atividades e empregados. Relatos
também confirmam que seguranças e diretores da VW do Brasil em São Bernardo do
Campo atuavam na fazenda, inclusive em decisões sobre demissões e na restrição de
acesso a trabalhadores.
Documento assinado eletronicamente por OTAVIO BRUNO DA SILVA FERREIRA, em 29/08/2025, às [Link] - dc7fe45
Fls.: 230
Diante disso, entende que os ilícitos ocorreram na Fazenda Vale
do Rio Cristalino (Fazenda Volkswagen), formalmente da CVRC, mas sob controle
acionário e gestão efetiva da Volkswagen do Brasil, caracterizando grupo econômico e
responsabilidade direta da ré.
Invoca o princípio da primazia da realidade (art. 9º da CLT), bem
como os arts. 10 e 448 da CLT, segundo os quais alterações societárias não podem
afetar direitos dos trabalhadores, bem como a teoria da aparência, reconhecida pela
jurisprudência, segundo a qual a empresa que ostenta seu nome e imagem em
determinado empreendimento responde pelos ilícitos dele decorrentes.
Analiso.
A autonomia patrimonial da pessoa jurídica (princípio basilar do
direito societário) não se confunde com irresponsabilidade por atos próprios. O que a
defesa afirma – necessidade de desconsideração para alcançar “sócios” – não se aplica
à hipótese, porque a imputação aqui não visa atingir patrimônio de sócio “pessoa
física” da CVRC, mas sim responsabilizar a própria Volkswagen do Brasil, pessoa jurídica
autônoma, por atos que praticou (ou coordenou) e pelos quais se beneficiou. Logo, não
é imprescindível instaurar incidente de desconsideração (CPC, arts. 133-137; CLT, art.
855-A) quando a responsabilização decorre de conduta própria e/ou de grupo
econômico e coautoria civil (CC, arts. 186, 927 e 942).
A tese defensiva de que a fazenda pertencia a “pessoa jurídica
autônoma” (CVRC) com participação minoritária da reclamada não resiste ao acervo
público, conforme já explicitado acima, no item 2.3.1, que são plenamente aplicáveis ao
tema analisado.
No processo do trabalho prevalece a primazia da realidade (CLT,
art. 9º). O conjunto probatório constante dos autos revela: (i) predominância acionária
da VW do Brasil na CVRC, somada ao controle da Transalme, assegurando domínio
societário; (ii) identidade de dirigentes entre CVRC e VW do Brasil (v.g., Wolfgang Sauer,
Karl-Heinz Gorber, Admon Ganem), a indicar comando unitário; (iii) proposição,
financiamento e acompanhamento do projeto agropecuário perante a SUDAM pela
própria VW do Brasil; (iv) uso ostensivo da marca (“Fazenda Volkswagen”) e
comunicação pública de investimentos como se realizados diretamente pela ré; (v)
gestão operacional com decisões de pessoal remetidas à matriz e presença de
empregados/segurança oriundos de São Bernardo do Campo. Tais elementos
desautorizam a narrativa de participação societária “meramente minoritária e sem
ingerência.
Documento assinado eletronicamente por OTAVIO BRUNO DA SILVA FERREIRA, em 29/08/2025, às [Link] - dc7fe45
Fls.: 231
Os fatos demonstram interesse integrado, comunhão de
interesses e atuação conjunta entre CVRC e VW do Brasil, configurando grupo
econômico por coordenação (CLT, art. 2º, § 2º), o que atrai solidariedade entre as
integrantes quanto às obrigações decorrentes do empreendimento.
Além disso, a teoria da aparência também incide, pois a
reclamada ostentou ao público e a órgãos estatais a imagem de verdadeira titular e
gestora da fazenda, assumindo os riscos e deveres correlatos (inclusive de prevenir
violações e reparar danos).
A posterior venda das ações ao Grupo Matsubara (1986) não
afasta a responsabilidade da Volkswagen pelos ilícitos praticados durante o período em
que controlou e conduziu o projeto. A sucessão empresarial não apaga a
responsabilidade do sucedido por atos pretéritos, mormente quando se está diante de
violação estrutural de direitos fundamentais no trabalho.
Diante disso, não há como acolher a tese de que a composição
societária “diversa” e a autonomia da CVRC afastariam a responsabilidade da
Volkswagen do Brasil. Reconheço, à luz da prova dos autos e da primazia da realidade,
que a reclamada detinha o controle e exerceu gestão efetiva sobre a CVRC e sobre a
Fazenda Vale do Rio Cristalino, configurando-se grupo econômico por coordenação e
nexo de coautoria civil pelos ilícitos verificados.
Reconhecido o grupo econômico e a gestão direta/benefício
econômico da Volkswagen sobre a atividade em que se verificou trabalho em
condições análogas à escravidão, a responsabilidade da reclamada decorre de dois
fundamentos autônomos e cumuláveis:
(i) Solidariedade trabalhista entre integrantes do grupo (CLT, art.
2º, § 2º), para os créditos e deveres correlatos; e
(ii) Responsabilidade civil solidária por coautoria do ilícito (CC,
arts. 186, 927 e 942), dada a contribuição relevante por ação e/ou omissão qualificada
(dever de vigilância e devida diligência) na cadeia de exploração.
Nada disso exige desconsiderar a personalidade da CVRC. Ao
contrário, preserva-se a autonomia de cada pessoa jurídica, reconhecendo-se, porém, a
responsabilidade da Volkswagen por sua própria conduta e participação.
[Link] SUCESSÃO EMPRESARIAL. RESPONSABILIDADE
EXCLUSIVA DA SUCESSORA
Documento assinado eletronicamente por OTAVIO BRUNO DA SILVA FERREIRA, em 29/08/2025, às [Link] - dc7fe45
Fls.: 232
A parte reclamada sustenta que, conforme reconhecido na
própria petição inicial, a totalidade das ações da Companhia Vale do Rio Cristalino S/A
foi transferida ao grupo Matsubara ainda na década de 1980, com autorização da
SUDAM, incluindo como ativo a Fazenda Vale do Rio Cristalino.
Ressalta que não há alegação ou prova de fraude na operação, o
que configura típica hipótese de sucessão empresarial, nos termos dos arts. 10 e 448
da CLT.
Afirma que a Volkswagen não integrou a sucessão e apenas
compôs o quadro societário da empresa sucedida, não podendo ser responsabilizada
por atos praticados após a alienação, ocorrida há quase 40 anos.
Conclui, portanto, que a responsabilidade pelos fatos discutidos
recai exclusivamente sobre o grupo Matsubara, sendo incabível a demanda proposta
contra a Volkswagen.
Por outro lado, o MPT argumenta que não há nos autos
qualquer prova de que o novo proprietário tenha dado continuidade à exploração do
empreendimento ou utilizado a mesma mão de obra. Ao contrário, as ações ajuizadas
por trabalhadores que conseguiram fugir da fazenda, como os processos 603/84 e 11
/87, foram contestadas pela própria Companhia Vale do Rio Cristalino (CVRC), sem
alegação de sucessão. Inclusive, em 1996, a subsidiária da Volkswagen ofereceu bens à
penhora em execução trabalhista, o que reforça sua permanência como responsável.
Salienta que a reclamada se recusou a apresentar documentos
solicitados no inquérito civil e tampouco juntou prova da alegada transferência
acionária da CVRC para o Grupo Matsubara ou de sua extinção.
Ainda que se admitisse a sucessão, entende que a
responsabilidade da empresa sucessora, nos termos dos arts. 10 e 448 da CLT, se
limitaria aos créditos trabalhistas decorrentes do vínculo empregatício. Não alcançaria,
portanto, os ilícitos praticados pela Volkswagen, uma vez que as graves violações a
direitos humanos – trabalho escravo e tráfico de pessoas – ocorreram durante a
implementação e execução do projeto Fazenda Vale do Rio Cristalino, quando a
responsabilidade era exclusiva da Volkswagen do Brasil.
Analiso.
A sucessão empresarial ocorre quando há transferência da
titularidade do estabelecimento e continuidade da atividade produtiva, substituindo-se
a pessoa jurídica pela sua sucessora. É caracterizada pela continuidade da exploração
da atividade econômica e pela assunção, ao menos parcial, do patrimônio da sucedida.
Documento assinado eletronicamente por OTAVIO BRUNO DA SILVA FERREIRA, em 29/08/2025, às [Link] - dc7fe45
Fls.: 233
Os principais requisitos da sucessão trabalhista são: a transferência do
estabelecimento, a ausência de solução de continuidade e a alienação a qualquer título
entre duas pessoas distintas.
No campo da responsabilidade, a empresa sucessora responde
integralmente pelos débitos trabalhistas, inclusive os contraídos antes da sucessão, nos
termos dos artigos 10 e 448 da CLT. Assim, em regra, responsabilidade do sucessor é
exclusiva, não havendo responsabilidade do sucedido, a menos que haja fraude.
Os arts. 10 e 448 da CLT estabelecem que a alteração na
estrutura societária ou na propriedade da empresa não prejudica os direitos dos
trabalhadores, transferindo à sucessora a responsabilidade pelos créditos decorrentes
da relação de trabalho. Tal mecanismo, todavia, visa proteger o trabalhador e
assegurar a continuidade das obrigações, não se prestando a excluir a
responsabilidade de empresa que tenha praticado ilícitos no período em que detinha a
direção e o controle do empreendimento.
Consta dos autos documentação que atesta a efetiva
transferência da CVRC ao Grupo Matsubara, com autorização da SUDAM, abrangendo a
Fazenda Vale do Rio Cristalino como ativo. Trata-se, portanto, de sucessão empresarial
formalmente constituída.
Todavia, a sucessão empresarial não afasta a responsabilidade
da Volkswagen pelos fatos ocorridos no período em que detinha o controle da CVRC e
se beneficiou diretamente da força de trabalho submetida a condições análogas à
escravidão. Assim, ainda que a sucessora (Grupo Matsubara) tenha assumido as
obrigações a partir da transferência, subsiste a responsabilidade da sucedida pelos
ilícitos perpetrados anteriormente.
No caso, a ação em curso tem natureza de tutela coletiva,
voltada à proteção da sociedade contra práticas de exploração laboral. Nesse contexto,
admitir que a sucessão exclui integralmente a responsabilidade do sucedido implicaria
esvaziar a efetividade da proteção coletiva, permitindo que alterações societárias
servissem como meio de blindagem contra a responsabilização por violações graves.
Reconheço que há prova nos autos da transferência da CVRC ao
Grupo Matsubara, configurando sucessão empresarial. Todavia, rejeito a tese de
responsabilidade exclusiva da sucessora, porquanto a Volkswagen do Brasil deve
responder pelos ilícitos praticados durante sua gestão do empreendimento, período
em que ocorreu a submissão de trabalhadores a condições análogas à escravidão. A
sucessão transfere responsabilidades quanto às obrigações posteriores, mas não
exonera a sucedida por violações pretéritas, especialmente em se tratando de direitos
indisponíveis e fundamentais.
Documento assinado eletronicamente por OTAVIO BRUNO DA SILVA FERREIRA, em 29/08/2025, às [Link] - dc7fe45
Fls.: 234
O núcleo das violações relatadas - submissão de trabalhadores a
condições análogas à escravidão, servidão por dívida e tráfico de pessoas - ocorreu no
período em que a Volkswagen do Brasil detinha o controle societário e operacional da
fazenda. Trata-se de ilícitos graves, de caráter estrutural e continuado, que atraem
responsabilidade direta da empresa enquanto agente beneficiário da exploração. A
transferência societária posterior não tem o condão de apagar nem de transferir
integralmente essa responsabilidade.
Explico: a regra de responsabilidade em sucessão empresarial
vale para dívidas em sentido estrito (salários, férias, verbas rescisórias, etc.), mas não
exonera automaticamente o sucedido em casos de ilícitos graves, onde há violação
direta à ordem jurídica e a direitos fundamentais. São situações em que o dano não é
apenas contratual, mas decorre de conduta ilícita do empregador anterior, a exemplo
da exploração do trabalho escravo. Nesses casos, o sucedido não pode se livrar da
responsabilidade apenas porque transferiu a empresa, pois o ilícito ocorreu sob sua
gestão, sua conduta (ação ou omissão) foi a causa direta do dano e o trabalhador tem
direito de buscar a reparação tanto contra o sucessor quanto contra o sucedido.
Assim, se uma empresa é flagrada explorando trabalhadores em
condições análogas à escravidão e, após a fiscalização, vende o empreendimento para
outra sociedade, a sucessora responderá pelas obrigações trabalhistas futuras.
Entretanto, a responsabilidade civil e penal pela escravização permanece com o antigo
empregador, que foi o autor do ilícito.
Diante disso, rejeito os argumentos da reclamada.
[Link] SÓCIO RETIRANTE. LIMITES DE RESPONSABILIDADE
A parte reclamada sustenta que se retirou do quadro societário
da Companhia Vale do Rio Cristalino S/A ainda na década de 1980, não mantendo,
desde então, qualquer vínculo com a empresa ou com a Fazenda Vale do Rio Cristalino.
Afirma que, na condição de sócia retirante, a responsabilidade
da empresa é limitada no tempo, conforme estabelecem o parágrafo único do art.
1.003 do Código Civil e o art. 10-A da CLT, os quais fixam o prazo de até dois anos após
a averbação da retirada para eventual responsabilização por obrigações contraídas
durante o período em que integrava a sociedade.
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Ressalta que tais dispositivos conferem segurança jurídica ao
vedarem a responsabilização eterna do ex-sócio, especialmente em casos como o
presente, em que a demanda foi ajuizada quase 40 anos após a saída da Volkswagen
da sociedade.
Conclui, portanto, que é juridicamente incabível atribuir à
Volkswagen qualquer obrigação ou responsabilidade no caso, razão pela qual deve ser
julgada totalmente improcedente a pretensão autoral.
Por sua vez, o MPT argumenta que embora em regra o sócio
retirante responda apenas subsidiariamente pelas obrigações trabalhistas até dois
anos após sua saída, nos termos do art. 10-A da CLT, há hipóteses específicas em que a
responsabilidade permanece, notadamente em casos de atos ilícitos ou fraudulentos
que resultem em prejuízo a terceiros. No caso concreto, aplica-se essa exceção, uma
vez que as vítimas foram submetidas a condição análoga à de escravos, em período de
inequívoca administração da Volkswagen do Brasil.
Aponta que o art. 10-A da CLT estabelece ordem de preferência
na execução: (i) empresa devedora, (ii) sócios atuais e (iii) sócios retirantes, observando-
se a limitação temporal. Contudo, a responsabilidade por atos ilícitos não se extingue
com a retirada, sobretudo quando comprovados benefícios econômicos obtidos pelo
sócio em decorrência da prática ilícita.
Sustenta que a jurisprudência do TST reconhece a
inaplicabilidade da limitação temporal quando a retirada do sócio ocorreu antes da
vigência dos dispositivos do CC/2002 (arts. 1.003 e 1.032) e do art. 10-A da CLT, sob
pena de violação ao princípio da irretroatividade da lei e ao direito adquirido dos
exequentes de dirigir a execução contra o sócio. Precedentes destacam que, em tais
situações, a restrição temporal não pode ser aplicada em desfavor dos trabalhadores.
No mesmo sentido, o STJ entende, desde o REsp 1.312.591/RS,
que o sócio retirante pode ser responsabilizado por atos ilícitos ou de gestão
fraudulenta, sem limite temporal, sobretudo em casos de fraude, desvio de recursos ou
violações graves a direitos fundamentais.
Assim, considerando que nenhum ato ilícito é mais grave do que
a submissão de trabalhadores a condições análogas à escravidão, argumenta que
permanece a responsabilidade da Volkswagen do Brasil pelos direitos trabalhistas das
vítimas exploradas na Fazenda Vale do Rio Cristalino, independentemente da alegada
saída ou sucessão empresarial.
Analiso.
Documento assinado eletronicamente por OTAVIO BRUNO DA SILVA FERREIRA, em 29/08/2025, às [Link] - dc7fe45
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É certo que o parágrafo único do art. 1.003 do Código Civil e o
art. 10-A da CLT estabelecem regra de limitação temporal da responsabilidade do sócio
retirante, restrita ao prazo de dois anos após a averbação da alteração contratual. Essa
regra, contudo, tem por finalidade disciplinar obrigações decorrentes de relações
contratuais e trabalhistas típicas, não podendo ser interpretada de forma a excluir a
responsabilização por atos ilícitos de extrema gravidade, como aqueles envolvendo
trabalho escravo e tráfico de pessoas.
No caso em exame, as graves violações a direitos humanos
ocorreram sob gestão direta da Volkswagen, que delas se beneficiou economicamente.
Trata-se de ilícitos permanentes, imprescritíveis, cuja gravidade os equipara a violações
de jus cogens, incompatíveis com qualquer limitação temporal artificial.
Ademais, a aplicação retroativa do art. 10-A da CLT e do Código
Civil de 2002 seria incompatível com a jurisprudência consolidada do TST, que
reconhece a inaplicabilidade desses dispositivos a situações anteriores à sua vigência,
preservando o direito dos trabalhadores de ver satisfeitos seus créditos perante
aqueles que efetivamente participaram da gestão ilícita.
Nesse mesmo sentido, a jurisprudência do STJ (REsp 1.312.591
/RS) também assenta que o sócio retirante pode ser responsabilizado sem limite
temporal em casos de fraude, desvio de recursos ou violação a direitos fundamentais.
E não há ilícito mais grave, no âmbito das relações de trabalho, do que a redução de
pessoas à condição análoga à de escravos.
Assim, não há como acolher a tese da reclamada. A alienação
acionária na década de 1980 não afasta responsabilidade pelos fatos pretéritos; a regra
de sucessão (CLT, arts. 10 e 448) protege o crédito e a continuidade dos direitos - não
serve para extinguir responsabilidade histórica de quem controlou e dirigiu a atividade
durante a ocorrência dos ilícitos. Tampouco a cláusula do sócio retirante (CLT, art. 10-A;
CC, art. 1.003, parágrafo único) tem o alcance de neutralizar dano moral coletivo
imprescritível.
As normas que limitam a responsabilidade do sócio retirante ao
prazo de dois anos tutelam obrigações contratuais típicas decorrentes da participação
societária e visam impedir perpetuidade de riscos empresariais ordinários. Não se
prestam a criar escudo para ilícitos laborais graves perpetrados na gestão do sócio,
nem a extinguir deveres de reparação e não repetição em matéria de direitos
fundamentais no trabalho. Em outras palavras, o prazo bienal não opera para atos
ilícitos cuja gênese está no período de administração do sócio e que, por sua natureza,
transcendem obrigações trabalhistas ordinárias (CC, arts. 186, 927 e 942).
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A submissão de trabalhadores a condições análogas à
escravidão, com servidão por dívida, coação e condições degradantes, constitui
violação estrutural de direitos humanos no trabalho, reputada imprescritível para fins
de responsabilização reparatória e de não repetição na ordem interna, conforme
orientação já acolhida por esta Justiça Especializada. Nessas hipóteses, a retirada
societária não purga a responsabilidade por atos praticados na vigência da gestão do
sócio, nem autoriza blindagem temporal que incentive a ocultação de ilícitos e a
perpetuação da impunidade.
Diante disso, rejeito a tese de exclusão de responsabilidade da
Volkswagen do Brasil sob o fundamento de sócia retirante. Primeiro, por entender que
figurava como verdadeira condutora do empreendimento. Segundo, por entender que
a limitação temporal do art. 1.003, parágrafo único, do Código Civil e do art. 10-A da
CLT não se aplica ao caso, em virtude da natureza gravíssima e ilícita dos fatos
apurados, ocorridos durante sua administração e dos quais se beneficiou.
[Link] RELAÇÃO CIVIL. AUSÊNCIA DE RELAÇÃO DE EMPREGO.
RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA QUE NÃO SE APLICARIA SOB A ÓTICA DO ARTIGO 2º, §
2º DA CLT
A parte reclamada argumenta que, conforme reconhecido na
própria petição inicial, não há pedido de reconhecimento de vínculo de emprego com a
Volkswagen, com a Companhia Vale do Rio Cristalino S/A ou com as empreiteiras
contratantes. Portanto, eventuais relações seriam de natureza exclusivamente civil, o
que afasta a aplicação do art. 2º, § 2º, da CLT, dispositivo restrito a obrigações
trabalhistas decorrentes de vínculo empregatício.
Afirma que a responsabilidade solidária somente pode decorrer
de lei ou de convenção entre as partes, nos termos do art. 265 do Código Civil, o que
não se verifica no caso, já que não há norma legal ou contratual que imponha à
Volkswagen tal responsabilidade.
Conclui, assim, que a tentativa de impor responsabilidade
solidária à Volkswagen carece de fundamento jurídico e extrapola os limites da
competência da Justiça do Trabalho, sendo mais um motivo para a rejeição da
pretensão autoral.
Por outro lado, o MPT argumenta que a presente demanda tem
como objeto a proteção de direitos coletivos lato sensu, em especial os direitos
indisponíveis das vítimas submetidas a condições análogas à escravidão, a tutela da
dignidade da pessoa humana e a defesa da sociedade contra práticas de exploração.
Documento assinado eletronicamente por OTAVIO BRUNO DA SILVA FERREIRA, em 29/08/2025, às [Link] - dc7fe45
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Sustenta que a ação visa à obtenção de tutela inibitória, destinada a prevenir a prática,
a continuidade ou a repetição dos ilícitos trabalhistas constatados.
Aponta que que a reclamada se beneficiou diretamente da força
de trabalho de trabalhadores recrutados no interior das regiões Norte e Centro-Oeste,
devendo responder pelas condições degradantes a que foram submetidos.
Narra que a jurisprudência consolidada reconhece a
responsabilidade objetiva do contratante que se beneficia do trabalho em condições
análogas à escravidão, ainda que a contratação se dê por vias formais de natureza civil
(empreitada). Tais arranjos contratuais não podem servir para ocultar a realidade de
exploração e degradação laboral.
Portanto, entende que a tese defensiva de ausência de vínculo
empregatício não afasta a responsabilidade da Volkswagen, que, como beneficiária
direta, responde objetivamente pelas graves violações ocorridas.
Analiso.
A competência desta Justiça Especializada (CF, art. 114) abrange
as ações coletivas destinadas a prevenir, fazer cessar e reparar ilícitos trabalhistas e
ofensas a direitos fundamentais no mundo do trabalho, independentemente da
formalização de vínculo de emprego entre as partes demandadas e as vítimas.
A tutela inibitória e as obrigações de fazer/não fazer previstas
em lei (CPC/2015, art. 497; LACP, arts. 11 e 12; CDC, art. 84) exigem a demonstração da
prática ou potencialidade do ilícito, não a prova de vínculo formal. Logo, a alegação de
“natureza civil” dos contratos não subtrai a jurisdição trabalhista nem a aptidão das
tutelas coletivas.
O processo do trabalho repele artifícios formais que esvaziem a
proteção jurídica do trabalhador (CLT, art. 9º; princípio da primazia da realidade). Em
contextos de trabalho análogo ao escravo, a utilização de empreiteiras,
subcontratações ou estruturas societárias autônomas não autoriza a transferência
integral de responsabilidades nem a exclusão do beneficiário econômico da atividade.
O Direito do Trabalho, por sua vez, é orientado pelos princípios
da dignidade da pessoa humana (CF, art. 1º, III) e da valorização social do trabalho (CF,
art. 170), impondo a quem organiza, dirige ou se beneficia da prestação laboral a
observância dos deveres de devida diligência e prevenção de violações graves.
No caso, a defesa pretende restringir a responsabilização à
lógica do vínculo empregatício formal, invocando a inaplicabilidade do art. 2º, § 2º, da
CLT. Não procede. A competência da Justiça do Trabalho (CF, art. 114) e a tutela coletiva
Documento assinado eletronicamente por OTAVIO BRUNO DA SILVA FERREIRA, em 29/08/2025, às [Link] - dc7fe45
Fls.: 239
/inibitória alcançam ilícitos trabalhistas graves independentemente de registro formal,
especialmente quando há benefício direto do tomador.
Em contextos de trabalho em condições análogas à escravidão,
arranjos civis (empreitada, subcontratação, “dono da obra”) não servem de escudo para
afastar a responsabilização de quem organiza, dirige ou se beneficia do trabalho
degradante. Em situações dessa natureza, a responsabilização decorre
cumulativamente: (a) do grupo econômico; (b) da coautoria civil (CC, arts. 186, 927 e
942); e (c) do dever de devida diligência empresarial e de prevenção de violações graves
(princípios constitucionais da dignidade e da valorização do trabalho; orientação
interamericana quanto a remover obstáculos à reparação e à não repetição).
No caso, a solidariedade solidária tem previsão legal e aplicável
ao caso concreto, pois, à luz do art. 2º, § 2º da CLT, caracteriza grupo econômico por
coordenação quando há interesse integrado, comunhão de interesses e atuação
conjunta, independentemente de hierarquia formal. Uma vez reconhecido o grupo, as
empresas respondem solidariamente pelas obrigações daí decorrentes.
Além disso, o Código Civil, nos arts. 186, 927 e 942, informa que
a prática de ato ilícito por ação ou omissão relevante (inclusive por cegueira deliberada
diante de ilícitos estruturais na cadeia produtiva) gera responsabilidade civil; coautores
respondem solidariamente pelos danos (CC, art. 942). Esses títulos jurídicos são
suficientes para fundamentar a solidariedade ainda que não se reconheça vínculo
empregatício direto.
Além disso, os elementos constantes dos autos indicam que a
reclamada planejou, dirigiu e se beneficiou do empreendimento, inclusive por
incentivos fiscais e resultados econômicos ligados à execução do projeto, conforme
prova (Ata Notarial) apresentada pela própria reclamada. Quem colhe o proveito da
atividade tem o dever jurídico de evitar e remediar a violação de direitos fundamentais
de trabalhadores envolvidos no processo produtivo, não sendo lícito invocar a natureza
civil dos ajustes para imunizar-se contra a responsabilização.
Por isso, entendo que a ausência de pedido de reconhecimento
de vínculo não obsta a responsabilização da beneficiária direta por danos coletivos e
por obrigações inibitórias. A solidariedade aqui não depende de contrato de emprego,
mas do nexo de imputação decorrente: (i) do grupo econômico (CLT, art. 2º, § 2º); e/ou
(ii) da coautoria civil (CC, arts. 186, 927 e 942); e (iii) da tutela coletiva que impõe
obrigações a quem contribuiu para o ilícito ou dele se beneficiou. Admitir o contrário
incentivaria a terceirização abusiva como mecanismo de blindagem contra o combate
ao trabalho escravo.
Documento assinado eletronicamente por OTAVIO BRUNO DA SILVA FERREIRA, em 29/08/2025, às [Link] - dc7fe45
Fls.: 240
Assim, rejeito a alegação de inaplicabilidade da responsabilidade
solidária sob o argumento de inexistência de vínculo de emprego e de natureza civil
das relações.
Reconheço que, em hipóteses como a dos autos, a solidariedade
encontra amparo (i) no art. 2º, § 2º, da CLT (grupo econômico por coordenação), (ii) nos
arts. 186, 927 e 942 do Código Civil (coautoria de ato ilícito e responsabilidade
solidária), e (iii) na tutela coletiva/inibitória prevista em lei (CPC/2015, art. 497; CDC, art.
84; LACP, arts. 11 e 12).
[Link] INEXISTÊNCIA DE PARTICIPAÇÃO/CO-AUTORIA DA
VOLKSWAGEN. IMPOSSIBILIDADE DE SE APLICAR O CONCEITO DE RESPONSABILIDADE
SOLIDÁRIA
A parte reclamada sustenta que não teve qualquer participação,
direta ou indireta, nos supostos atos ilícitos narrados na petição inicial. Por isso, não há
base jurídica para imputar-lhe responsabilidade solidária, especialmente da forma
direta e exclusiva pretendida pelo MPT.
Reforça que, nos termos do art. 942 do Código Civil, o dever de
reparação está condicionado à autoria ou coautoria do ato ilícito, o que não se verifica
no caso concreto.
Conclui que a tentativa de responsabilização da Volkswagen
desconsidera a ausência de qualquer vínculo material com os fatos apurados, razão
pela qual a empresa não pode figurar no polo passivo da demanda, tampouco ser
responsabilizada pelos pedidos indenizatórios formulados.
Por outro lado, o MPT renova que a aquisição da fazenda pela
reclamada foi motivada essencialmente pela obtenção de benefícios fiscais. À época, a
Volkswagen do Brasil era obrigada a reinvestir parte de seus lucros no território
nacional e buscava opções que lhe permitissem, além da redução tributária, assumir
poder de administração.
Argumenta que a prova constante nos autos demonstra que
havia comunhão de interesses, identidade de sócios e administradores (Wolfgang
Sauer, August Gorber e Admon Ganem, entre outros), bem como coordenação efetiva
entre a Companhia Vale do Rio Cristalino e a Volkswagen do Brasil, confirmando a
existência de grupo econômico por coordenação (art. 2º, §2º, da CLT).
Documento assinado eletronicamente por OTAVIO BRUNO DA SILVA FERREIRA, em 29/08/2025, às [Link] - dc7fe45
Fls.: 241
Entende que a contratação de empreiteiras para recrutar
trabalhadores em condições análogas à escravidão, aliada ao aproveitamento direto
dos incentivos fiscais e dos lucros decorrentes, revela que a exploração laboral
degradante beneficiava diretamente a reclamada, razão pela qual se impõe sua
responsabilização solidária.
Dessa forma, caracterizado o grupo econômico entre a
Volkswagen do Brasil e a CVRC, requer a aplicação da responsabilidade solidária, com
fundamento no art. 2º, §2º, da CLT, e por analogia ao art. 28, §5º, do CDC, em razão da
necessidade de ampliação das garantias ao crédito trabalhista.
Assim, entende presentes todos os elementos para a
condenação da Volkswagen do Brasil, como integrante de grupo econômico e
beneficiária direta da exploração ilícita do trabalho na Fazenda Vale do Rio Cristalino.
Analiso.
Os fundamentos sobre a responsabilidade solidária já foram
expostos exaustivamente nas linhas anteriores.
A negativa de participação direta/indireta é contrariada pelas
provas documentais (controle acionário e gestão da CVRC) e pelos indícios robustos de
que a atividade ilícita ocorreu no interesse e benefício do empreendimento. Na esfera
civil-coletiva, a responsabilidade decorre ao menos da condição de tomador-gestor que
assumiu o risco da cadeia produtiva e falhou em adotar deveres de vigilância e
prevenção, configurando o nexo com os danos difusos (CC, arts. 186, 187 e 927; LACP;
CDC por analogia).
No processo do trabalho, como já dito, prevalece a primazia da
realidade (CLT, art. 9º), sendo irrelevantes arranjos societários e contratuais destinados
a mitigar ou ocultar responsabilidades decorrentes da efetiva organização da atividade
econômica e do aproveitamento do trabalho alheio.
O acervo probatório demonstra que a CVRC foi estruturada
como subsidiária da Volkswagen do Brasil para implementar o projeto na Fazenda Vale
do Rio Cristalino; que diretores da CVRC eram simultaneamente administradores da
Volkswagen; e que a operação do empreendimento se articulava com objetivos
empresariais e benefícios fiscais captados junto à SUDAM/BASA. Esses elementos
revelam comunhão de interesses, atuação coordenada e direção integrada do
empreendimento, superando a narrativa de mera participação acionária passiva.
O art. 942 do Código Civil dispõe que os coautores de ato ilícito
respondem solidariamente pelos danos. Ainda que se admita a intermediação de
Documento assinado eletronicamente por OTAVIO BRUNO DA SILVA FERREIRA, em 29/08/2025, às [Link] - dc7fe45
Fls.: 242
empreiteiros, o conjunto de fatos evidencia contribuição relevante da Volkswagen para
a cadeia de eventos que resultou em trabalho escravo contemporâneo, com: (i)
planejamento e controle empresarial do projeto; (ii) direção/fiscalização em área de sua
esfera de domínio; (iii) benefício econômico direto do desmatamento/implantação de
pastagens por mão de obra submetida a condições degradantes; e (iv) omissão culposa
qualificada (ou, ao menos, cegueira deliberada) diante de práticas reiteradas e
estruturais de aliciamento, servidão por dívida, restrição de locomoção e violência,
incompatíveis com qualquer padrão mínimo de conformidade trabalhista. Essa
participação - por ação (direção e proveito) e por omissão relevante (dever de
impedimento e devida diligência) - caracteriza coautoria nos termos dos arts. 186 e 927
do CC, atraindo a solidariedade do art. 942 do CC.
O Direito do Trabalho não exige hierarquia formal para o
reconhecimento de grupo econômico: basta interesse integrado, efetiva comunhão de
interesses e atuação conjunta (CLT, art. 2º, § 2º, redação consolidada). A evidência de
identidade de administradores, coordenação operacional e resultado econômico
comum entre CVRC e Volkswagen do Brasil satisfaz esse padrão. Reconhecido o grupo,
as integrantes respondem solidariamente pelos créditos decorrentes da exploração
laboral ilícita, inclusive danos morais coletivos e medidas de tutela inibitória/não
repetição (CF, art. 5º, XXXV; Lei 7.347/85, arts. 11 e 12).
Os elementos dos autos contradizem a premissa de ausência de
participação material da Volkswagen. Ao contrário, evidenciam ato ilícito unitário
praticado no âmbito de empreendimento por ela concebido, dirigido e do qual se
beneficiou, o que caracteriza coautoria e impõe a responsabilidade solidária pelos
pedidos indenizatórios e medidas estruturais postuladas.
Rejeito a alegação de inexistência de participação ou coautoria
da Volkswagen do Brasil e a consequente tese de impossibilidade de responsabilidade
solidária. Reconheço: (i) a coautoria da ré nos ilícitos trabalhistas graves ocorridos na
Fazenda Vale do Rio Cristalino; (ii) a existência de grupo econômico por coordenação
entre Volkswagen do Brasil e CVRC (CLT, art. 2º, § 2º); e (iii) a responsabilidade solidária
da Volkswagen do Brasil pelos danos e obrigações correlatas (CC, arts. 186, 927 e 942),
sem prejuízo da responsabilização das demais coobrigadas.
[Link] ARTIGO 455 DA CLT. RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA
A parte reclamada contesta a alegação contida na inicial de que
a Volkswagen seria solidariamente responsável com a firma Andrade Desmatamento
Ltda. com fundamento no art. 455 da CLT.
Documento assinado eletronicamente por OTAVIO BRUNO DA SILVA FERREIRA, em 29/08/2025, às [Link] - dc7fe45
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Afirma tratar-se de grave equívoco técnico, uma vez que não
firmou qualquer contrato de empreitada, tampouco atuou como empreiteira principal
ou subempreiteira, condição indispensável para a incidência da norma celetista
invocada.
Destaca que o contrato de empreitada foi celebrado
exclusivamente entre as empreiteiras e a Companhia Vale do Rio Cristalino S/A,
empresa da qual a Volkswagen era apenas acionista minoritária.
Conclui, portanto, que não há base legal para a
responsabilização solidária da Volkswagen com fundamento no art. 455 da CLT, cuja
aplicação exige vínculo contratual específico que não se verifica no caso concreto.
De outro lado, o MPT argumenta que o conjunto probatório
demonstra que tais contratos foram utilizados apenas como subterfúgio para ocultar a
relação direta de trabalho e transferir obrigações legais, em prejuízo dos trabalhadores.
Afirma que a Volkswagen dirigia, fiscalizava e era a beneficiária
direta do trabalho realizado nos desmatamentos. A empresa mantinha fiscalização
ostensiva e gestão direta por meio de seus executivos, como o Diretor Friedrich Georg
Andreas Bruegger, que tomava decisões em contato direto com a matriz em São
Bernardo do Campo. Além disso, até o pessoal de segurança era compartilhado entre a
Fazenda e a fábrica, reforçando a subordinação. Relatórios oficiais de 1983
confirmaram ciência, conivência, fiscalização e participação de diretores da empresa
nos ilícitos.
Diante disso, requer a aplicação do princípio da primazia da
realidade, com reconhecimento de que a Volkswagen foi a verdadeira empregadora
dos trabalhadores explorados em condições análogas à escravidão. Também entende
que se aplica a teoria da cegueira deliberada, que imputa responsabilidade àquele que,
de forma intencional, se coloca em posição de ignorância sobre práticas ilícitas de
parceiros contratados para auferir vantagens econômicas.
A respeito da jurisprudência do TST, entende que a OJ nº 191,
quando trata de trabalho rural em condições degradantes ou análogas à escravidão,
reconhece a responsabilidade do tomador pelos ilícitos trabalhistas,
independentemente da alegação de empreitada. Ademais, mesmo que se admitisse a
tese de responsabilidade dos empreiteiros, restaria a obrigação civil da Volkswagen
como dona da obra, diante da violação de normas fundamentais de saúde, segurança e
dignidade humana (art. 149 do Código Penal).
Por fim, argumenta que o contrato firmado não se enquadrava
no típico contrato de empreitada, usual em obras de construção civil e sem traço de
Documento assinado eletronicamente por OTAVIO BRUNO DA SILVA FERREIRA, em 29/08/2025, às [Link] - dc7fe45
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subordinação. Pelo contrário, as atividades de roçada e derrubada de matas eram
estruturais, integradas e indispensáveis ao empreendimento econômico da reclamada.
Assim, entende presentes todos os elementos da subordinação: objetivo (atividade
essencial da fazenda), estrutural (inserção na dinâmica do empreendimento),
integrativo (dependência econômica) e subjetivo (fiscalização e disciplina direta).
Portanto, requer que a reclamada respnda integralmente pelas
irregularidades constatadas.
Analiso.
O art. 455 disciplina a responsabilidade entre empreiteiro e
subempreiteiro, não abrangendo, em regra, o dono da obra.
Conforme analisado acima, o conjunto probatório indica que a
reclamada exercia direção e fiscalização sobre o labor: (i) a comissão de 1983 contou
com a presença de representantes da Volkswagen na fazenda, inclusive seu diretor
local, e produziu relatório apontando mecanismos de controle e irregularidades; (ii)
houve registro de pessoal de segurança compartilhado com a fábrica; (iii) o “gato”
responsável (Francisco Andrade Chagas) declarou, como testemunha, em processo
judicial, que “todo o trabalho de empreitada é fiscalizado pela Vale do Rio Cristalino” e
que, quando o empreiteiro não conseguia pagar, “a Reclamada paga”, denotando
assunção de risco e controle direto do tomador sobre a execução.
Em feito histórico relacionado, juntado pela parte requerente, o
e. TRT-8 reformou sentença de improcedência e reconheceu o vínculo com com a CVRC
determinando retorno para julgamento de mérito - sinalizando que, à margem da
roupagem formal, a tomadora indicada no polo passivo figurava como verdadeira
empregadora na cadeia fática examinada. Sobre o assunto, destaco que a CVRC foi
considerada a real empregadora no processo judicial. Todavia, conforme já analisado,
era a reclamada a real dirigente do empreendimento.
Assim, as provas coligidas não deixam dúvidas de que a
reclamada planejou, dirigiu, fiscalizou e se beneficiou do trabalho realizado, inclusive
com estruturas de controle típicas e assunção de pagamentos - fatos que superam a
blindagem formal da empreitada e atraem a imputação por outros títulos: (i) primazia
da realidade (CLT, art. 9º); (ii) grupo econômico por coordenação (CLT, art. 2º, § 2º), à
vista da direção integrada e da comunhão de interesses com a CVRC; e (iii)
responsabilidade civil solidária por coautoria (CC, arts. 186, 927 e 942), diante da
contribuição relevante por ação e omissão qualificada na manutenção de condições
análogas à escravidão (ciência, conivência, fiscalização, participação).
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Fls.: 245
Diante disso, não prevalece a roupagem de empreitada. Assim,
reconheço que o acervo probatório autoriza a responsabilização da reclamada pelos
fundamentos já adotados nesta sentença (primazia da realidade; grupo econômico por
coordenação; coautoria civil), em razão da direção, fiscalização e benefício econômico
comprovados nos autos.
Ainda que se cogitasse a nomenclatura “empreitada”, entendo
que eventual restrição quanto à inexistência de responsabilidade do dono da obra
alcança créditos estritamente trabalhistas em hipóteses de obra de construção civil
típica. Por isso, não alcança danos civis (morte/lesão/dano moral coletivo) e não se
aplica quando, na realidade, há terceirização de mão de obra e benefício direto do
tomador.
Também identifico que a atividade (roçada/desmatamento para
formação de pasto) integra o ciclo produtivo do empreendimento rural (criação de
gado), com subordinação estrutural e vigilância ostensiva - o que inviabiliza o
enquadramento como “empreitada civil neutra” e reforça a responsabilidade da
tomadora.
Assim, rejeito o pedido da reclamada.
[Link] CONTRATOS DE EMPREITADA. LEGALIDADE DA
CONTRATAÇÃO. ENQUADRAMENTO NA PREVISÃO LEGAL/JURISPRUDENCIAL
A parte reclamada sustenta que os contratos de empreitada
celebrados pela Companhia Vale do Rio Cristalino S/A com as empreiteiras foram
firmados de forma legal, válida e regular, sem qualquer questionamento pelas
autoridades públicas à época, inclusive com aprovação da SUDAM, conforme consta
nos autos.
Novamente, afirma que a Volkswagen não celebrou qualquer
contrato de empreitada, tampouco manteve relação jurídica com os trabalhadores ou
com as contratadas, sendo indevida a tentativa de responsabilizá-la pelos contratos
firmados por sociedade da qual era apenas acionista minoritária.
Ressalta que a inicial desvirtua o conteúdo dos contratos, que
claramente atribuíam às empreiteiras a direção, execução e responsabilidade pela
atividade contratada, conforme cláusulas específicas, afastando qualquer ingerência da
contratante sobre o modo de execução dos serviços.
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Fls.: 246
Aponta que não há fundamento para presumir controle da
Volkswagen sobre qualquer esquema ilícito, sendo leviana a imputação feita na inicial.
Conclui, portanto, que não há base fática ou jurídica que invalide
os contratos de empreitada celebrados ou que autorize a responsabilização da
Volkswagen pelos pedidos formulados, devendo ser reconhecida a inexistência de
vínculo e responsabilidade no presente caso.
Sobre o assunto, o MPT apresentou sua manifestação, conforme
exposto no item anterior, que guarda similitude com a questão ora tratada.
Analiso.
Há, nos autos, instrumento contratual celebrado entre a CVRC e
a empreiteira Andrade Desmatamento Ltda., prevendo “roçagem e derrubada de mata”
em área da fazenda, com reserva à contratante do direito de indicar as árvores a
excluir (critério exclusivo), apropriação pela contratante de toda a madeira e emprego
de 434 trabalhadores pela contratada, inclusive com adiantamento de 30% do preço do
contrato. Tais cláusulas evidenciam direção material sobre o objeto e assunção de risco
pela dona do empreendimento, para além da mera estipulação de resultado típica da
empreitada civil.
A prova testemunhal histórica (Francisco Andrade Chagas, “gato”
arrolado pela própria CVRC) registra que “todo o trabalho de empreitada é fiscalizado
pela Vale do Rio Cristalino” e que, quando o empreiteiro não tem condições de pagar,
“a Reclamada paga” - o que denota fiscalização permanente e assunção direta de
obrigações pelo tomador. Há ainda referência a controle da cantina (preços) e a serviço
de fiscalização constante reconhecido por representante da própria reclamada à época.
A inspeção oficial de 1983 (“Relatório: Viagem à Fazenda Vale do
Rio Cristalino da Volkswagen do Brasil, 5-7/7/83”) consignou ciência, conivência,
fiscalização e participação de dirigentes da empresa no local, reforçando a existência
de comando efetivo sobre a execução laboral.
É fato que o projeto foi aprovado pela SUDAM e sofreu revisões;
porém, os próprios documentos colhidos indicam que o controle público sobre
relações de trabalho era meramente certificatório, limitando-se a exigir certidões da
DRT, e que houve apontamento de “necessidade de regularização” do desmatamento
pelo IBDF, o que enfraquece a premissa de regularidade ampla e irrestrita invocada
pela defesa. Aprovação administrativa do projeto não convalida práticas trabalhistas
ilícitas nem elide o dever de diligência do beneficiário do empreendimento.
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Fls.: 247
A orientação clássica (posteriormente consolidada na OJ 191)
afasta a responsabilização do dono da obra pelas obrigações do empreiteiro em
empreitada típica, na qual inexiste subordinação e “objetiva-se tão-somente a
conclusão da obra contratada”; a solidariedade do art. 455 da CLT é própria da relação
empreiteiro–subempreiteiro, não alcançando, por si, o dono da obra. Todavia, a sua
aplicação depende de aderência fático-jurídica ao modelo típico de empreitada, o que
não se verifica no caso.
Aqui, os elementos probatórios revelam atividade estrutural e
contínua (roçada/derrubada como etapa indispensável do empreendimento
agropecuário), direção e fiscalização cotidianas pelo tomador, adiantamento de valores,
assunção de pagamentos a trabalhadores quando o “gato” não honrava a folha e
controle de insumos e disciplina - traços incompatíveis com a autonomia operacional
que caracteriza a empreitada civil. Nesse quadro, prevalece a primazia da realidade
(CLT, art. 9º), permitindo qualificar a avença como instrumento de intermediação
irregular de mão de obra e ocultação de subordinação estrutural, e não como
empreitada típica.
Diante disso, reconheço que houve formalização de contratos
entre a CVRC e empreiteiras. Contudo, afasto a aplicação automática do regime
previsto na OJ 191, por inadequação fática ao modelo típico de empreitada. À luz da
primazia da realidade, dos relatos de fiscalização, direção e assunção de riscos e do
benefício econômico direto do tomador, concluo que os contratos foram utilizados
como subterfúgio para a execução de trabalho subordinado/dependente em condições
degradantes, não servindo para excluir a responsabilidade do beneficiário.
Assim, a simples legalidade formal e a aprovação administrativa
dos contratos de empreitada não são suficientes para isentar a tomadora (e empresas
a ela integradas) de responsabilidade.
Diante disso, rejeito o pedido da reclamada.
[Link] ABRANGÊNCIA DOS SERVIÇOS PRESTADOS PELAS
EMPREITEIRAS NA REGIÃO. ILEGALIDADE DE DE RESPONSABILIZAÇÃO DIRETA
A parte sustenta que os elementos constantes nos autos,
inclusive entrevistas colhidas pelo próprio MPT, demonstram que os trabalhadores das
empreiteiras atuavam em diversos projetos da região, sem vínculo de pessoalidade
com um único local, tampouco com a Fazenda Vale do Rio Cristalino.
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Fls.: 248
Aponta como exemplo o depoimento de Gerônimo Bráz da Silva
(1983), que confirma a prestação de serviços de forma alternada em vários locais, bem
como a declaração de Francisco Andrade Chagas, proprietário da empreiteira Andrade
Desmatamento Ltda., que afirmou atuar em diversas fazendas da região à época dos
fatos.
Essas evidências, segundo a parte, reforçam que não havia
exclusividade de prestação de serviços na fazenda citada na inicial e que as
empreiteiras contratavam e dirigiam os trabalhadores por conta própria, prestando
serviços a múltiplos clientes.
Conclui que, diante da pluralidade de tomadores de serviços e
da ausência de vínculo com a Volkswagen, é indevida e juridicamente insustentável a
tentativa de imputar-lhe responsabilidade direta, em flagrante desvio da realidade
histórica e contratual dos fatos narrados.
Analiso.
De fato, há testemunhos nos autos indicando que algumas
empreiteiras prestaram serviços a outros clientes da região. Entretanto, o exame da
prova documental e testemunhal demonstra que, no caso específico da Fazenda Vale
do Rio Cristalino, havia inserção estrutural e continuidade de atividades dirigidas em
benefício do empreendimento da Volkswagen e da Companhia Vale do Rio Cristalino S
/A.
O próprio depoimento de Francisco Andrade Chagas,
empreiteiro, confirma que a fiscalização era feita pela CVRC e que, em casos de
inadimplemento do empreiteiro, a própria companhia assumia os pagamentos,
evidenciando que a contratante mantinha ingerência direta sobre a execução do
trabalho e sobre as condições em que ele era prestado .
A ausência de exclusividade em si não afasta a responsabilidade
do tomador principal. É plenamente possível que empreiteiros atuem em diferentes
frentes, sem que isso modifique o fato de que, na Fazenda Vale do Rio Cristalino, os
serviços eram prestados sob fiscalização, direção e em benefício direto da Volkswagen
/Companhia Vale do Rio Cristalino. O critério jurídico relevante, segundo o princípio da
primazia da realidade (CLT, art. 9º), não é a pluralidade de clientes das empreiteiras,
mas a subordinação estrutural do trabalho executado no âmbito do empreendimento
da ré.
Como já analisado, os relatórios de inspeção (1983) apontam
que a Volkswagen tinha conhecimento, fiscalização e ingerência direta sobre as
condições de trabalho na fazenda. Há registros de que o Diretor Friedrich Georg
Documento assinado eletronicamente por OTAVIO BRUNO DA SILVA FERREIRA, em 29/08/2025, às [Link] - dc7fe45
Fls.: 249
Andreas Bruegger, da Volkswagen, tomava decisões vinculadas ao projeto e mantinha
contato direto com a matriz em São Bernardo do Campo, além de que a segurança era
compartilhada entre a fábrica e a fazenda, reforçando a vinculação .
Assim, a tese defensiva de que os trabalhadores circulavam por
diferentes áreas não desconstitui a prova de que, no caso concreto, o labor na Fazenda
Vale do Rio Cristalino estava vinculado diretamente ao interesse e comando da
Volkswagen e da CVRC
A alegação de “seletividade” do MPT não procede. A legitimidade
ativa para a Ação Civil Pública é conferida pela Lei nº 7.347/85, cabendo ao Parquet
eleger o polo passivo a partir dos elementos fáticos e jurídicos que indicam a
responsabilidade principal ou solidária. No caso, a opção de acionar a Volkswagen
decorreu justamente do conjunto probatório que a identifica como beneficiária
econômica e corresponsável pela exploração de trabalhadores em condições análogas
à de escravo.
Rejeito o pedido formulado pela reclamada.
[Link] IDENTIFICAÇÃO DOS EMPREITEIROS TIDOS COMO
AGRESSORES. POSIÇÃO OMISSA DO MPT. QUEBRA DOS PRINCÍPIOS DA LEGALIDADE,
IMPESSOALIDADE E MORALIDADE
A parte sustenta que o Ministério Público do Trabalho
identificou diversos empreiteiros como autores diretos das violações aos direitos
humanos narradas na inicial, inclusive com menção nominal e coleta de depoimentos,
como no caso de Adão dos Santos Franco, ouvido em 2021.
Apesar disso, o MPT não adotou qualquer providência concreta
para responsabilizar tais agentes, sequer questionando-os, durante os depoimentos,
sobre temas centrais como servidão por dívida, maus-tratos ou tráfico de
trabalhadores. A omissão persiste mesmo diante do reconhecimento, pela própria
inicial, de que tais depoimentos foram contraditórios.
Critica-se que, em vez de cumprir seu papel institucional de
buscar a apuração plena e imparcial dos fatos, o MPT adota uma postura marcada pela
seletividade e pela personalização da acusação, voltando-se exclusivamente contra a
Volkswagen, ignorando elementos objetivos que demonstram a atuação independente
das empreiteiras e da Companhia Vale do Rio Cristalino S/A.
Diante disso, conclui que a atuação do MPT viola os princípios
constitucionais da legalidade, moralidade e impessoalidade, sendo juridicamente
Documento assinado eletronicamente por OTAVIO BRUNO DA SILVA FERREIRA, em 29/08/2025, às [Link] - dc7fe45
Fls.: 250
insustentável a tentativa de responsabilizar diretamente a Volkswagen, sobretudo na
forma ampla e desproporcional pretendida na inicial.
Analiso.
O MPT detém legitimidade para a tutela coletiva de direitos
fundamentais no trabalho (CF, art. 129, III; Lei 7.347/85). Os princípios da legalidade,
impessoalidade e moralidade não impõem que o órgão acione todos os eventuais
coautores em todo e qualquer caso; antes, exigem que eleja, com base na prova, os
responsáveis mais aptos a suportar medidas inibitórias e reparatórias eficazes. A
escolha do polo passivo em Ação Civil Pública pode recair sobre o beneficiário e
dirigente do empreendimento em que se verificou a violação estrutural, sem que isso
configure violação de impessoalidade.
Os autos mostram que o MPT colheu depoimentos extensos e
específicos sobre servidão por dívida, trabalhos forçados, restrição de locomoção e
condições degradantes, contrariando a alegação de omissão temática. No depoimento
de Adão dos Santos Franco (09/08/2021), há menção expressa a escravidão por dívida,
trabalhos forçados (exigência de autorização escrita para sair), barracos de lona, água
de córrego, ausência de banheiros e retenção de quem tentasse fugir, com a narrativa
de pagamentos e funcionamento de cantina geradora de endividamento dos peões.
O mesmo depoimento assinala que a Volkswagen dirigia os
trabalhos, determinava os lotes de derrubada e emitia ordens aos empreiteiros,
confirmando direção e fiscalização sobre a execução.
Há, ainda, registros de que a fazenda (identificada como ligada à
Volkswagen) assinava e padronizava contratos com empreiteiros, determinava
conteúdo e lotes, mantinha fiscalização, controlava entradas/saídas e condicionava
pagamentos à conferência do serviço, o que reforça comando unitário do
empreendimento.
É verdade que parte da prova relata atuação das empreiteiras
também em outros projetos na região (v.g., referência ao depoimento de Francisco
Andrade e a trechos em que testemunhas apontam circulação por diversas fazendas).
Esse dado, porém, não neutraliza a inserção estrutural do labor na Fazenda Vale do Rio
Cristalino, sob direção, fiscalização e proveito do empreendimento vinculado à
Volkswagen/ CVRC, fartamente evidenciada nas oitivas e documentos (itens supra).
Em tutela coletiva, o que importa não é a “exclusividade” do
trabalhador ao tomador, mas a realidade fático-jurídica no locus das violações e o nexo
de imputação com quem organizou e se beneficiou da atividade (CLT, art. 9º – primazia
da realidade).
Documento assinado eletronicamente por OTAVIO BRUNO DA SILVA FERREIRA, em 29/08/2025, às [Link] - dc7fe45
Fls.: 251
Os próprios autos revelam elementos que vinculam diretamente
o comando da operação à reclamada/ CVRC ([Link]., padronização contratual,
determinação de lotes, fiscalização, controle de acesso e condicionamento de
pagamentos).
Nesse quadro, a opção do MPT por direcionar a ACP contra a
Volkswagen - agente com capacidade de prevenir, cessar e reparar violações em escala
- não traduz quebra de impessoalidade/moralidade, mas exercício regular da função
institucional, amparado no conjunto probatório e orientado pela efetividade da tutela
(Lei 7.347/85). A existência de outros possíveis corresponsáveis (empreiteiros) não
exonera o beneficiário e dirigente do empreendimento.
Por fim, a alegação de omissão do MPT não se sustenta. As
diligências e as oitivas documentadas nos autos enfrentaram os temas centrais
(servidão por dívida, trabalhos forçados, degradação e cadeia de comando), e a eleição
da Volkswagen como demandada decorre da prova de direção, fiscalização e benefício
econômico no âmbito da Fazenda Vale do Rio Cristalino. Não há violação aos princípios
da legalidade, impessoalidade ou moralidade.
Diante disso, reconheço a regularidade da atuação do MPT no
direcionamento da presente Ação Civil Pública e mantenho a responsabilização da
Volkswagen do Brasil pelos ilícitos apurados.
[Link] RESPONSABILIDADE OBJETIVA QUE NÃO SE APLICA.
ELEMENTOS DA RESPONSABILIDADE SUBJETIVA QUE DEVEM SER COMPROVADOS
A parte sustenta que não se aplica à hipótese dos autos a teoria
da responsabilidade objetiva, especialmente porque a Volkswagen não foi
empregadora, contratante, tomadora ou fiscalizadora das atividades desenvolvidas na
Fazenda Vale do Rio Cristalino.
Argumenta que a responsabilidade por eventuais danos no
meio ambiente de trabalho caberia à Companhia Vale do Rio Cristalino S/A,
proprietária da fazenda, empresa autônoma e com personalidade jurídica própria.
Ressalta que, à época dos fatos alegados, a teoria da
responsabilidade objetiva ainda não possuía previsão geral no ordenamento jurídico,
sendo aplicada de forma restrita a casos específicos, como a responsabilidade civil do
Estado (CF/1967) e do poluidor ambiental (Lei 6.938/81), não se estendendo a relações
de trabalho.
Documento assinado eletronicamente por OTAVIO BRUNO DA SILVA FERREIRA, em 29/08/2025, às [Link] - dc7fe45
Fls.: 252
Afirma que os dispositivos constitucionais e legais citados na
petição inicial, como o §3º do art. 225 da CF, não eram vigentes na época dos fatos ou
não se aplicam à hipótese, por tratarem do meio ambiente natural e da proteção
ecológica – e não do meio ambiente do trabalho.
Enfatiza que o meio ambiente do trabalho é regulado por
normas próprias, como a CLT e as NRs, que, como regra, adotam a responsabilidade
civil subjetiva, exigindo a comprovação de culpa, dano e nexo causal (art. 186 do CC,
art. 159 do CC/1916, art. 7º, XXVIII, da CF).
Conclui que a responsabilização da Volkswagen depende da
demonstração de dolo ou culpa, o que não se verifica, e que cabe ao MPT o ônus de
comprovar os elementos da responsabilidade subjetiva, conforme os arts. 818 da CLT e
373, I, do CPC, sendo inadmissível a retroatividade de normas posteriores aos fatos,
por força do art. 5º, XXXVI, da CF.
Analiso.
O argumento de que caberia à Companhia Vale do Rio Cristalino
S/A, proprietária da fazenda, empresa autônoma e com personalidade jurídica própria,
a responsabilidade por eventuais danos já está superada pela análise dos demais itens.
Sobre a responsabilidade civil no contexto ambiental e
trabalhista, inicialmente, vigorava a responsabilidade subjetiva, baseada na culpa. A
partir da Declaração de Estocolmo (1972) e da Declaração do Rio (1992), consolidou-se
o princípio do poluidor-pagador, segundo o qual quem degrada o meio ambiente deve
arcar com os custos da reparação.
A Lei nº 6.938/1981 (Política Nacional do Meio Ambiente)
consagrou a responsabilidade objetiva do poluidor, independentemente de culpa (art.
14, §1º).
O meio ambiente laboral é protegido pela Constituição (arts.
200, VIII, e 225, caput), pela Convenção 155 da OIT e por normas trabalhistas. Por sua
natureza difusa e transindividual, a tutela do ambiente de trabalho abrange todos os
que nele atuam, independentemente de vínculo formal de emprego. Assim, a
degradação das condições de trabalho, especialmente em situações análogas à
escravidão, compromete a dignidade, a saúde e a liberdade dos trabalhadores.
As Instruções Normativas do MTE/MTP definem como
degradantes situações que negam a dignidade humana: ausência de água potável,
moradia inadequada, jornadas exaustivas, riscos graves, retenção de salários, violência
física e psicológica, entre outras.
Documento assinado eletronicamente por OTAVIO BRUNO DA SILVA FERREIRA, em 29/08/2025, às [Link] - dc7fe45
Fls.: 253
A degradação do meio ambiente laboral configura dano labor-
ambiental sistêmico, atraindo a responsabilidade objetiva do empregador, nos termos
do art. 14, §1º, da Lei 6.938/81 e do art. 225, §3º, da CF.
O STF (Tema 932) já reconheceu a responsabilidade objetiva do
empregador em acidentes de trabalho e doenças ocupacionais, reforçando a aplicação
da mesma lógica para casos de degradação laboral. Assim, o empregador deve
responder não apenas civil e administrativamente, mas também penalmente, inclusive
por crimes de perigo, lesão corporal ou homicídio culposo, quando decorrentes de más
condições de trabalho.
Destaco que a OIT ampliou os Direitos Fundamentais no
Trabalho, incluindo segurança e saúde como princípios essenciais. O trabalho em
condições análogas à escravidão é incompatível com o trabalho decente e com os
Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (Agenda 2030), violando diretamente a
dignidade humana.
Por isso, a submissão de trabalhadores a condições degradantes
ou análogas à escravidão caracteriza violação grave ao meio ambiente do trabalho,
atraindo a responsabilidade objetiva do empregador. Essa responsabilização é
necessária para garantir a reparação integral, proteger a dignidade da pessoa humana
e efetivar o direito fundamental a um ambiente de trabalho saudável, nos planos
constitucional, internacional e intergeracional.
É fato que, antes da Constituição Federal de 1988, não havia
previsão constitucional expressa da responsabilidade objetiva do empregador por
danos decorrentes de acidentes de trabalho (o art. 7º, XXVIII, CF, consagrou a regra da
responsabilidade subjetiva, ressalvada a hipótese de risco). Também é verdade que a
responsabilidade objetiva ambiental foi consagrada no art. 14, §1º, da Lei 6.938/81
(Política Nacional do Meio Ambiente), em vigor desde 1981, restrita inicialmente ao
meio ambiente natural.
Todavia, o equacionamento da responsabilidade da reclamada
não pode ser reduzido ao esquema clássico da responsabilidade subjetiva. A violação
aqui discutida envolve grave lesão a direitos humanos fundamentais, consubstanciada
em trabalho escravo contemporâneo e tráfico de pessoas, amplamente comprovadas
nos autos.
Ainda que se invoque o princípio da irretroatividade (CF, art. 5º,
XXXVI), cumpre registrar que, mesmo antes de 1988, já vigoravam compromissos
internacionais assumidos pelo Brasil (como a Convenção nº 29 da OIT, ratificada em
1957), que impunham a repressão ao trabalho forçado e estabeleciam dever de
prevenir, fiscalizar e responsabilizar beneficiários da exploração. Tais normas, de
Documento assinado eletronicamente por OTAVIO BRUNO DA SILVA FERREIRA, em 29/08/2025, às [Link] - dc7fe45
Fls.: 254
hierarquia supralegal (STF, RE 466.343/ SP), fundamentam o controle de
convencionalidade, aplicável inclusive a fatos ocorridos antes da Constituição de 1988.
Além disso, a jurisprudência da Corte Interamericana de Direitos
Humanos – caso Fazenda Brasil Verde vs. Brasil (2016) – reconhece a
imprescritibilidade da escravidão e a obrigação do Estado de responsabilizar agentes
econômicos privados que dela se beneficiaram, independentemente da época da
ocorrência.
Assim, com fundamento na responsabilidade objetiva, considero
que a reclamada é responsável.
Ainda que assim não fosse, o nível de ingerência da reclamada
na condução do empreendimento atrai a responsabilização mesmo em perspectiva
subjetiva, pois a conduta da empresa revela culpa grave por omissão e conivência com
a exploração, além de dolo indireto pelo benefício econômico extraído do sistema
ilícito de mão de obra.
Assim, ainda que se acolhesse o raciocínio defensivo de
inaplicabilidade da responsabilidade objetiva, os elementos dos autos comprovam a
responsabilidade subjetiva da reclamada uma vez que há: conduta culposa/dolosa
(direção, comando e tolerância de práticas degradantes); dano (redução de
trabalhadores a condições análogas à escravidão, tráfico, servidão por dívida) e nexo
causal (benefício econômico direto da exploração ilícita na execução do projeto).
Por isso, entendo presentes todos os requisitos dos arts. 186 do
CC/2002, 159 do CC/1916 e 7º, XXVIII, da CF, em conjugação com as normas
internacionais aplicáveis.
Diante disso, rejeito a alegação de inaplicabilidade da
responsabilidade objetiva. Ainda que se exija a demonstração de responsabilidade
subjetiva, os autos fornecem prova robusta do dolo e/ou culpa da Volkswagen na
condução do empreendimento, bastando para legitimar sua responsabilização civil e
trabalhista.
A tese defensiva, portanto, não prospera.
[Link] CONCLUSÃO GERAL A RESPEITO DA RESPONSABILIDADE
A parte conclui que não há qualquer fundamento legal ou fático
que justifique a responsabilização da Volkswagen pelos pedidos formulados na inicial,
apresentando os seguintes pontos como determinantes:
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Fls.: 255
A Fazenda Vale do Rio Cristalino pertencia à Companhia Vale do
Rio Cristalino S/A, empresa regularmente constituída, com personalidade jurídica
própria e autônoma;
Não houve desvio de finalidade nem confusão patrimonial na
condução dessa sociedade;
A Volkswagen detinha apenas participação acionária minoritária,
sem qualquer envolvimento na gestão da companhia ou da fazenda;
Toda a participação acionária foi transferida ao grupo
Matsubara ainda na década de 1980, caracterizando sucessão empresarial nos termos
dos arts. 10 e 448 da CLT, com a transferência integral das obrigações, inclusive
trabalhistas;
A Volkswagen enquadra-se como sócia retirante há cerca de 40
anos, razão pela qual está protegida pelos limites legais de responsabilidade previstos
no Código Civil e na CLT;
Os pedidos formulados não têm por base relação de emprego, o
que torna inaplicável a responsabilização solidária prevista no art. 2º, § 2º, da CLT;
A empresa não teve qualquer participação, direta ou indireta,
nos atos alegadamente ilícitos, afastando a aplicação do art. 942 do Código Civil;
Também não atuou como empreiteira principal ou
subempreiteira, não se aplicando o art. 455 da CLT.
Diante de todos esses fundamentos, requer o reconhecimento
da inexistência de responsabilidade da Volkswagen e a aplicação do art. 5º, II, da
Constituição Federal, que consagra o princípio da legalidade, para afastar qualquer
imputação de obrigação à empresa no caso em análise.
Analiso.
Com base no conjunto probatório e na interpretação sistemática
das normas (CLT, CC, LACP, instrumentos internacionais de direitos humanos), há
elementos robustos para afirmar que:
A Volkswagen detinha controle acionário e administrativo da
CVRC no período dos fatos.
A gestão da fazenda estava integrada à estrutura da empresa,
como indicam documentos internos e administrativos.
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Fls.: 256
A atividade ilícita beneficiava diretamente o empreendimento
controlado pela reclamada, sendo parte do ciclo produtivo.
As violações eram graves, prolongadas e ostensivas, o que torna
insustentável alegar desconhecimento.
Configura-se grupo econômico e responsabilidade solidária,
com fundamento também na responsabilidade civil objetiva pelo risco da atividade e
na culpa in vigilando.
O conjunto de provas documentais, testemunhais e jornalísticas
converge para demonstrar que a Volkswagen não era mera investidora, mas
controladora efetiva da CVRC no período dos ilícitos, o que enseja a sua
responsabilidade direta e solidária pelos ilícitos ocorridos na Fazenda Vale do Rio
Cristalino no período de 1974 a 1986.
2.3.3 DA PEDIDO DE INDENIZAÇÃO POR DANO MORAL COLETIVO
Segundo o MPT, o dano moral coletivo insere-se na evolução do
Direito rumo à coletivização dos interesses, superando a visão individualista
tradicional. A Constituição Federal de 1988 reforça essa perspectiva ao prever
instrumentos de tutela coletiva, como a ação popular e o mandado de segurança
coletivo, e ao proteger bens jurídicos de caráter difuso e social.
Aponta que a doutrina conceitua o dano moral coletivo como a
injusta lesão a valores morais de uma comunidade, sem necessidade de prova de
culpa, bastando a violação antijurídica. Assim como o indivíduo pode sofrer abalo
psicológico, a coletividade pode padecer de descrença nas instituições, insegurança e
intranquilidade.
Narra que a jurisprudência do STJ e do TST consolidou a
possibilidade de condenação por dano moral coletivo em ações civis públicas, inclusive
em matéria de meio ambiente e relações de trabalho. O desrespeito às normas de
saúde e segurança do trabalho exemplifica situação em que a lesão atinge não apenas
cada trabalhador isoladamente, mas também o ambiente coletivo e os valores sociais
reconhecidos constitucionalmente.
A reparação deve considerar as múltiplas funções da
responsabilidade civil: compensatória, preventiva, normativa, equitativa e punitiva,
observando critérios de proporcionalidade para evitar tanto a banalização quanto
Documento assinado eletronicamente por OTAVIO BRUNO DA SILVA FERREIRA, em 29/08/2025, às [Link] - dc7fe45
Fls.: 257
valores desmedidos que inviabilizem a empresa. Como parâmetros, destacam-se: a
gravidade e reprovabilidade da conduta, a reincidência, a existência de dolo ou culpa
grave, a capacidade econômica da empresa e a vantagem obtida com a prática ilícita.
Em síntese, o dano moral coletivo se legitima como instrumento
de tutela da ordem jurídica e da função social da empresa, visando à proteção de
valores fundamentais da coletividade diante de lesões que transcendem a esfera
individual.
Entende que a materialização do dano moral coletivo decorre
diretamente da violação a direitos da coletividade, sendo caracterizado como damnum
in re ipsa, ou seja, não exige prova específica do prejuízo. Basta a constatação do fato
lesivo e do nexo de causalidade para que surja a responsabilidade civil.
Trata-se da aplicação, no âmbito coletivo, da responsabilidade
objetiva ou do risco integral, na qual não se analisa a culpa do agente nem a
comprovação do abalo moral. A simples ocorrência da conduta ilícita é suficiente para
reconhecer a lesão, pois certos fatos, por sua gravidade, atingem a esfera da
moralidade coletiva.
Por isso, sustenta que o dano moral coletivo dispensa prova
direta do prejuízo, sendo presumido pela própria prática do ato contrário ao direito e à
moral.
No caso, aponta que o dano moral coletivo decorre da grave
violação a direitos fundamentais de trabalhadores na Fazenda Vale do Rio Cristalino,
caracterizada por escravização, servidão, violência e desprezo à dignidade humana,
com reflexos em toda a sociedade. Não se tratam de meras irregularidades
trabalhistas, mas de ofensa direta a direitos humanos previstos na Constituição e em
tratados internacionais.
A indenização deve ter caráter compensatório, punitivo e
pedagógico, servindo para desestimular novas práticas ilícitas, promover a pacificação
social e equilibrar a concorrência, coibindo o “dumping social” (vantagem econômica
obtida pela exploração ilícita da mão de obra). Deve ser fixada de forma proporcional
ao dano, considerando a gravidade da conduta, o porte econômico da empresa e a
vantagem indevida obtida.
O STF já decidiu que os limites da CLT (art. 223-G, §1º) são
apenas orientativos, podendo o juiz fixar valores superiores quando necessário,
observados os princípios da razoabilidade e proporcionalidade (ADI 6.050/DF).
A prática de trabalho escravo é vedada por normas
internacionais de jus cogens, ratificadas pelo Brasil (Declaração Universal de 1948;
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Pactos e Convenções da ONU e OIT; Estatuto de Roma; tratados interamericanos), além
do art. 149 do CP. Tais normas estabelecem a imprescritibilidade da escravidão e a
responsabilização de toda a cadeia econômica beneficiária, inclusive controladoras e
empresas que se favoreceram da exploração.
Com base nessas premissas, o MPT requer a condenação da
Volkswagen do Brasil ao pagamento de indenização não inferior a R$ 165 milhões,
como medida proporcional à gravidade das violações e necessária para a efetiva
reparação coletiva, repressão das condutas e reafirmação do compromisso jurídico e
social de combate ao trabalho escravo.
A defesa, contudo, sustenta que essa pretensão é juridicamente
inviável e materialmente desproporcional. Segundo a argumentação, a indenização
postulada não encontra respaldo fático ou legal suficiente e representa um valor
exorbitante e desarrazoado, o que comprometeria os princípios da proporcionalidade
e da razoabilidade. Trata-se, portanto, de uma postulação sem base jurídica concreta,
que deverá ser rejeitada pelo juízo.
De sua parte, a reclamada apresenta vários argumentos, que
serão melhor explicitados e analisados a seguir:
[Link] DANO MORAL COLETIVO. INAPLICABILIDADE. NATUREZA
INDIVIDUAL DA SUPOSTA LESÃO. IRRETROATIVIDADE QUE NÃO APLICA
A defesa sustenta que não cabe a aplicação do instituto do dano
moral coletivo aos fatos ocorridos no passado, pois, conforme reconhece o próprio
MPT, à época dos eventos alegados não existia previsão legal sobre o tema. A aplicação
retroativa de norma jurídica, nesse caso, viola o princípio da irretroatividade, basilar no
ordenamento jurídico nacional e internacional.
A tese de dano moral coletivo é rechaçada também por sua
incompatibilidade com a natureza dos direitos supostamente lesados, já que o caso
trata de trabalhadores identificáveis, com histórias e experiências distintas, o que
caracteriza direitos individuais heterogêneos, e não coletivos ou difusos. Tais situações
devem ser analisadas individualmente, e eventual reparação deve observar os critérios
próprios da responsabilidade civil.
A defesa também critica a destinação pretendida pelo MPT:
valores elevados seriam destinados a um fundo sem clareza de uso, deixando os
supostos trabalhadores lesados sem reparação direta.
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Diante disso, conclui que a pretensão de indenização por dano
moral coletivo é juridicamente incabível, pois desrespeita princípios constitucionais,
ignora a natureza individual dos direitos envolvidos e resultaria em enriquecimento
sem causa, sem compensação concreta às vítimas alegadas.
Analiso.
A jurisprudência trabalhista consolidou que o dano moral
coletivo tutela a ordem jurídica e valores sociais fundamentais, independentemente da
prova de abalo psíquico individual, bastando a demonstração de conduta antijurídica
que afete intoleravelmente a coletividade.
O TST tem afirmado que o elemento decisivo é a lesão
intolerável à ordem jurídica, e não a repercussão subjetiva em cada pessoa, afastando
a ideia de que só haveria dano moral quando individualizado o sofrimento psíquico.
Compartilho do entendimento da responsabilização pelo simples fato da violação
(dano coletivo in re ipsa), sem exigência de prova de culpa, quando há ofensa grave a
valores coletivos.
A defesa invoca irretroatividade normativa e a compreensão de
que “a vítima do dano moral é, necessariamente, uma pessoa”, para sustentar a
inaplicabilidade do instituto ao caso. Essa linha não prevalece. Primeiro, porque a
vedação à escravidão e à servidão por dívida compõe núcleo duro do ordenamento,
com consequências imprescritíveis para a tutela e reparação, segundo construído nos
próprios autos (analogia com imprescritibilidade de pretensões reparatórias por
tortura e com a proteção de direitos fundamentais). Segundo, porque, no plano
infraconstitucional e jurisprudencial atual, o dano moral coletivo é instituto autônomo
e pacificado (STJ/TST) em ações coletivas, inclusive trabalhistas, justamente para
recompor a moralidade pública violada por condutas que transcendem o âmbito
individual. Logo, não há retroaplicação vedada: há aplicação contemporânea de um
regime de responsabilidade coletiva para reparar violações graves constatadas no
processo.
O conjunto probatório revela aliciamento, servidão por dívida,
vigilância armada, cantinas com preços extorsivos e condições degradantes, em
contexto de exploração reiterada por “empreiteiros” a serviço do empreendimento,
com centenas de trabalhadores atingidos. O próprio material coligido indica que as
violações foram generalizadas e sistemáticas na Fazenda Vale do Rio Cristalino (1974
-1986).
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A gravidade é, pois, qualitativa e quantitativa, apta a caracterizar
o dano moral coletivo, cujo reconhecimento dispensa prova direta do prejuízo
(reconhecido como in re ipsa quando a lesão atinge a moralidade coletiva).
[Link] DANO MORAL COLETIVO. ELEMENTOS DA
RESPONSABILIDADE CIVIL. ÔNUS DA PROVA
A defesa sustenta que o dano moral coletivo não pode ser
presumido, sendo indispensável sua comprovação concreta. A ausência de prova fere
garantias constitucionais, como o contraditório, a ampla defesa e o devido processo
legal, além de contrariar os artigos 7º, XXVIII, e 5º, LV, da Constituição Federal, bem
como os artigos 186, 187 e 927 do Código Civil.
Reafirma-se que a responsabilidade civil exige a presença
cumulativa de três elementos: ato ilícito, dano e nexo de causalidade. À época dos
fatos, ainda sob a vigência do Código Civil de 1916 (art. 159), já se exigia essa estrutura
tripartida, o que reforça a necessidade de prova efetiva do prejuízo.
A empresa rebate a ideia de aplicação de responsabilidade
objetiva e reafirma que não há, nos autos, demonstração dos elementos necessários à
indenização. Assim, permanece com o MPT o ônus da prova, que não foi cumprido.
Analiso.
Como dito acima, em sede coletiva, o que se prova não é o abalo
psíquico individual, mas a lesão intolerável à ordem jurídica e aos valores da
coletividade (moralidade coletiva). O dano extrapatrimonial coletivo é in re ipsa:
demonstrados o fato antijurídico e o nexo com a esfera coletiva, dispensa-se prova
direta do prejuízo moral. Cabe ao autor comprovar a ocorrência das condutas ilícitas e
a vinculação da reclamada a elas; esse encargo foi atendido.
Os autos reúnem depoimentos e documentos que comprovam
aliciamento, servidão por dívida, trabalhos forçados e condições degradantes na
Fazenda Vale do Rio Cristalino, em caráter sistemático.
Os depoimentos descrevem cantina geradora de
endividamento, barracos de lona, água de córrego, ausência de banheiros e exigência
de autorização escrita para sair, com retenção de quem tentasse fugir. Registros
históricos indicam vigilância ostensiva e impedimento de acesso à gerência por
pistoleiros, bem como a exigência de autorização na guarita (trabalhos forçados) . Tais
fatos caracterizam o ato ilícito coletivo.
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Fls.: 261
Há prova de que a “Fazenda Volkswagen”/CVRC dirigia os
trabalhos, determinava locais/lotes de derrubada e emanava ordens aos empreiteiros,
que as retransmitiam aos trabalhadores, denotando comando direto e cotidiano.
Os contratos celebrados com empreiteiras revelam cláusulas de
direção material do objeto: a contratante escolhia, a seu exclusivo critério, as árvores a
derrubar, apropriava-se de toda a madeira, mantinha 434 trabalhadores no local, e
adiantava 30% do preço — com medições mensais e pagamento condicionado à
conferência, evidenciando fiscalização permanente (“serviços conferidos e recebidos
pela nossa fiscalização”). Esse acervo comprova o nexo causal entre a exploração ilícita
e a organização econômica da ré/ CVRC.
Ainda que se exigisse a matriz subjetiva (CC/1916, art. 159), o
conjunto probatório demonstra culpa grave por ação e omissão: a reclamada planejou,
dirigiu e fiscalizou a execução, beneficiando-se economicamente do modelo ilícito de
mão de obra (cantina/endividamento; controle de saídas; frentes de roça e derrubada
vinculadas ao plano produtivo) . Logo, mesmo sob o regime subjetivo, estão presentes
ato ilícito, dano coletivo (in re ipsa) e nexo causal.
Diante disso, rejeito a tese defensiva de ausência de prova e de
inaplicabilidade do dano moral coletivo. Reconheço demonstrados: (i) o ato ilícito
(trabalho escravo contemporâneo e práticas correlatas), (ii) o nexo causal com a
organização econômica da ré (direção, fiscalização e proveito) e (iii) o dano moral
coletivo, presumido pela própria violação grave e sistemática a valores fundamentais.
[Link] DANO MORAL COLETIVO. ATO ANTIJURÍDICO NÃO
PRATICADO
A defesa sustenta que, mesmo para os que admitem o
cabimento do dano moral coletivo, este somente se configura quando há conduta
antijurídica relevante, com grave ofensa à moralidade pública e aos valores coletivos
fundamentais. Isso exige a prática de ato ilícito significativo, com efeitos intoleráveis à
coletividade.
No caso concreto, a Volkswagen nega qualquer conduta ilegal. A
empresa afirma que jamais foi responsável direta pela Fazenda Vale do Rio Cristalino,
tendo apenas participação societária na Companhia proprietária, o que é lícito segundo
o ordenamento jurídico.
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Alega ainda que, à época dos fatos, era plenamente permitida a
contratação de serviços por empreitada, e o ordenamento jurídico não atribuía
responsabilidade à contratante pelos empregados da empreiteira.
Além disso, afirma que não se aplica o conceito moderno de
dumping social, inexistente à época, e que não há provas ou indícios de sua prática.
Dessa forma, conclui que não houve ato ilícito atribuível à
Volkswagen e que a tentativa do MPT de imputar-lhe responsabilidade por fatos não
comprovados constitui abuso de direito, o que afasta completamente a possibilidade
de condenação por dano moral coletivo.
Analiso.
É correta a premissa de que o dano moral coletivo requer
ofensa grave à moralidade pública e aos valores coletivos; o que se discute é se houve
essa ofensa no caso concreto. Em ações coletivas, prova-se o fato ilícito e seu nexo com
a esfera coletiva; o abalo moral é in re ipsa quando a conduta atinge intoleravelmente a
ordem jurídica.
O conjunto probatório demonstra aliciamento, servidão por
dívida, restrição de locomoção e condições degradantes na Fazenda Vale do Rio
Cristalino: barracos de lona, água de córrego, ausência de banheiros, exigência de
autorização escrita para sair e retenção de quem tentasse deixar o local, além de
cantina geradora de endividamento. Tais elementos constam do depoimento de Adão
dos Santos Franco (09/08/2021), colhido pelo MPT.
A prova documental revela direção material e fiscalização do
empreendimento por parte da “Fazenda Volkswagen”/CVRC: contratos prevendo que a
contratante indicaria, a seu exclusivo critério, as árvores a derrubar, que toda a
madeira seria sua, previsão de 434 trabalhadores em frentes de serviço, adiantamento
de 30% do preço, medições mensais e pagamento condicionado à conferência pela
fiscalização (“serviços conferidos e recebidos pela nossa fiscalização”).
Além disso, o próprio depoimento citado registra que ordens
partiam da Volkswagen/ fazenda, sendo retransmitidas aos empreiteiros,
caracterizando comando efetivo do processo de trabalho. Registros históricos apontam
vigilância ostensiva e controle de acessos (guarita), denotando restrição e coação
incompatíveis com a licitude invocada.
Embora a empreitada seja figura civil lícita, os elementos acima
revelam ingerência cotidiana da tomadora, assunção de riscos e controle direto da
execução. Nesse contexto, a avença operou como instrumento de intermediação
Documento assinado eletronicamente por OTAVIO BRUNO DA SILVA FERREIRA, em 29/08/2025, às [Link] - dc7fe45
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irregular de mão de obra e ocultação de subordinação e de violações graves — o que
descaracteriza a “neutralidade” contratual sustentada.
A defesa afirma que dumping social seria conceito moderno. O
ponto, entretanto, não é o rótulo, mas o conteúdo ilícito (exploração sistemática e
vantagem econômica indevida) já vedado pelo ordenamento à época (v.g., art. 149 do
CP em sua redação originária; Convenção 29 da OIT ratificada pelo Brasil em 1957). A
qualificação contemporânea serve para dimensionar a resposta jurídica, não para criar
ilícito ex post.
A prova dos autos contradiz a narrativa defensiva de
inexistência de ato antijurídico: há demonstração de conduta ilícita grave, sistemática e
organizadamente dirigida no âmbito do empreendimento vinculado à reclamada, com
direção, fiscalização e proveito econômico.
Configura-se, portanto, o ato antijurídico coletivo exigido para o
dano moral coletivo, rejeitando-se a tese de que “nada houve” imputável à Volkswagen.
[Link] DANO MORAL COLETIVO. AUSÊNCIA DE NEXO DE
CAUSALIDADE. REALIDADE LOCAL. MOMENTO HISTÓRICO
A defesa sustenta que, para que haja responsabilização civil, é
indispensável a comprovação do nexo de causalidade entre a conduta antijurídica do
agente e o dano alegado, conforme estabelecido pela teoria geral da responsabilidade
civil.
Com base nas teorias da causalidade, diferencia-se a causa
adequada do mero fator circunstancial. O dano precisa decorrer de um elemento
antecedente e determinante, e não apenas de uma condição eventual.
No caso, argumenta que a realidade social e econômica da
região antecedia a instalação da Fazenda Vale do Rio Cristalino, sendo preexistente à
atuação da Volkswagen, que se limitou a deter participação acionária na Companhia
Vale do Rio Cristalino S/A.
Dessa forma, a defesa afirma que não há vínculo direto entre a
atuação da Volkswagen e os supostos danos narrados na ação, o que afasta o nexo
causal necessário à responsabilização por dano moral coletivo.
Analiso.
Documento assinado eletronicamente por OTAVIO BRUNO DA SILVA FERREIRA, em 29/08/2025, às [Link] - dc7fe45
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É correto que a responsabilização civil requer a demonstração
de ato ilícito, dano e nexo causal (CC/1916, art. 159; CC/2002, arts. 186 e 927). Porém,
nas relações de trabalho e em situações de violação massiva de direitos humanos, a
causalidade não se limita ao contato direto com a vítima, mas também ao proveito
obtido, à posição de controle e à direção econômica do empreendimento. O TST e o STJ
reconhecem que a empresa que se beneficia de trabalho ilícito integra a cadeia de
imputação, ainda que atue por intermédio de sociedades ou empreiteiros.
Os autos demonstram que a Fazenda Vale do Rio Cristalino,
conhecida como “Fazenda Volkswagen”, estava vinculada à CVRC, da qual a Volkswagen
do Brasil detinha participação e exercia influência determinante. Os contratos revelam
que a contratante:
definia as árvores a serem derrubadas,
recebia toda a madeira explorada,
estipulava adiantamentos e medições mensais,
condicionava pagamentos à fiscalização direta de seus
prepostos,
previa o uso de 434 trabalhadores em frentes de serviço.
Esses elementos comprovam ingerência efetiva e benefício
econômico direto.
Ainda que a região amazônica fosse marcada por pobreza
estrutural, o dano ora examinado não decorreu da realidade social preexistente, mas
da conduta organizacional específica: aliciamento de trabalhadores em outras regiões,
endividamento forçado pela cantina, restrição à liberdade de locomoção, uso de
coação e violência armada. Tais práticas não se confundem com a “realidade local”,
mas constituem atos ilícitos específicos, constatados por depoimentos e documentos
oficiais.
A realidade local não constitui causa determinante do dano
coletivo, mas mero contexto. O nexo causal está comprovado pela ingerência e pelo
proveito econômico da reclamada, cuja conduta foi determinante para a ocorrência da
exploração ilícita.
Destaco que as provas dos autos demonstram que a empresa
Volkswagen do Brasil não apenas investiu na Companhia Vale do Rio Cristalino S/A,
como também participou ativamente de sua condução estratégica, beneficiando-se
Documento assinado eletronicamente por OTAVIO BRUNO DA SILVA FERREIRA, em 29/08/2025, às [Link] - dc7fe45
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diretamente da exploração ilícita da mão de obra. Relatórios oficiais, testemunhos de
trabalhadores e documentos de órgãos públicos evidenciam que o modelo de
produção adotado incluía práticas de servidão por dívida, violência e submissão a
condições degradantes, configurando o núcleo do trabalho escravo contemporâneo.
O argumento de ausência de nexo causal não se sustenta diante
da aplicação da teoria da causalidade adequada, pois a conduta da empresa - ao
financiar, se beneficiar e manter vínculo direto com a exploração de trabalhadores - foi
condição determinante para a perpetuação das violações.
Além disso, a alegação de que não havia ilicitude à época ignora
a existência de normas nacionais e internacionais já vigentes que vedavam práticas de
escravidão e trabalho forçado. Como visto acima, o art. 149 do Código Penal já
tipificava a redução à condição análoga à de escravo. O Brasil já havia ratificado a
Convenção nº 29 da OIT (1957), que impunha obrigações de prevenir e punir o trabalho
forçado. Assim, os parâmetros normativos já existiam à época e vinculavam a atuação
empresarial.
Diante desse quadro, resta configurado o nexo de causalidade
entre a conduta da Volkswagen e o dano coletivo.
[Link] DANO MORAL COLETIVO. DA INAPLICABILIDADE DE
PUNITIVE DAMAGES
A defesa afirma que o pedido do MPT visa impor à Volkswagen
uma condenação de natureza punitiva (punitive damages), típica do sistema anglo-
saxônico, mas incompatível com o ordenamento jurídico brasileiro, que adota o
princípio da reparação integral (art. 944 do Código Civil).
Destaca que, mesmo em casos de dano difuso, o sistema
brasileiro admite apenas a recomposição do bem lesado, e não indenizações com
função meramente sancionatória, como pretendido pelo MPT.
Reforça que, no presente caso, não há comprovação de conduta
ilícita, nexo causal, culpa ou dolo, o que inviabiliza qualquer pretensão indenizatória —
ainda mais uma com caráter punitivo.
Além disso, ressalta o histórico da Volkswagen como empresa
pioneira em boas práticas trabalhistas e cumpridora da legislação, não havendo
justificativa legal para uma sanção com função preventiva ou exemplar.
Documento assinado eletronicamente por OTAVIO BRUNO DA SILVA FERREIRA, em 29/08/2025, às [Link] - dc7fe45
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Conclui que o pedido do MPT contraria o princípio da legalidade
e da proporcionalidade, e não encontra amparo no direito brasileiro.
Analiso.
É correta a premissa de que o ordenamento brasileiro não
adota, de forma automática, o modelo norte-americano de punitive damages
dissociado da extensão do dano. No entanto, em ações coletivas por violações graves a
direitos fundamentais trabalhistas, o TST reconhece expressamente que a indenização
por dano moral coletivo cumpre dupla função: compensatória e sancionatória/pedag
ógica, voltada a inibir a reiteração e assegurar a efetividade da ordem jurídica.
A adoção o caráter punitivo-educativo do dano moral coletivo
não implica em importação mecânica do modelo estrangeiro. Ademais, o próprio
sistema civil prevê reação reforçada contra o infrator contumaz (art. 404, parágrafo
único, CC), e a Justiça do Trabalho já elaborou a categoria do “dumping social” como
fundamento para resposta jurisdicional robusta quando há vantagem competitiva
indevida obtida por violações reiteradas a direitos trabalhistas.
Destaca-se que o STF, na ADI 6.050, assentou que os limites do
art. 223-G da CLT são critérios orientativos, podendo o julgador fixar valor superior
conforme as circunstâncias do caso concreto, observadas a proporcionalidade, a
razoabilidade e a igualdade. Isso reforça que, embora o Brasil não acolha punitive
damages “estritos”, admite-se que o quantum do dano moral coletivo desempenhe
papel inibitório e pedagógico adequado à gravidade da lesão, à capacidade econômica
do ofensor e à vantagem indevida obtida - parâmetros também indicados em
precedentes trabalhistas transcritos nos autos.
A citação doutrinária apresentada pela defesa sustenta a
centralidade da reparação integral e a crítica à indenização meramente punitiva. Nada
disso, porém, obsta a função sancionatória reconhecida pelo TST no dano moral
coletivo, pois o que se arbitra não é “pena civil” desvinculada de critérios jurídicos, mas
indenização civil multifuncional (compensatória/preventiva/pedagógica), proporcional à
gravidade da ofensa e idônea a neutralizar o incentivo econômico da prática ilícita
(evitando o “custo de violar”).
A tese de “inexistência de conduta ilícita” já foi afastada: há
prova de aliciamento, servidão por dívida, restrição de locomoção e condições
degradantes, com direção e fiscalização do empreendimento (“Fazenda Volkswagen”
/CVRC), inclusive controle de acesso/saída por guarita e pagamentos condicionados à
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conferência da fiscalização da fazenda. Esses elementos comprovam o ato ilícito e o
nexo com a organização econômica da ré, afastando a premissa defensiva de ausência
de responsabilidade.
Rejeito a alegação de “punitive damages” como incompatível
tout court com o direito brasileiro. A indenização por dano moral coletivo que será
fixada observa o modelo nacional, de natureza civil e multifuncional, com fundamento
jurisprudencial e legal, e é dimensionada por critérios proporcionais (gravidade,
extensão, capacidade econômica e vantagem indevida), em consonância com a ADI
6.050/DF e com a doutrina e jurisprudência trabalhistas.
[Link] FIXAÇÃO DO VALOR. DANO MORAL COLETIVO.
SUBSIDIARIAMENTE. PRINCÍPIO DA EVENTUALIDADE.
A reclamada contesta veementemente o valor de R$ 165
milhões pleiteado pelo MPT a título de dano moral coletivo, por considerá-lo absurdo,
desproporcional e incompatível com os parâmetros usualmente adotados pela Justiça
do Trabalho e pelo próprio MPT.
Alega que, mesmo que houvesse condenação - hipótese apenas
admitida por cautela -, o valor deveria observar os princípios da proporcionalidade e
razoabilidade, considerando fatores como gravidade da lesão, interesse lesado,
situação econômica do réu, grau de culpa e reprovabilidade social.
Aponta como exemplo da desproporção os valores de Termos
de Ajustamento de Conduta (TACs) celebrados em casos semelhantes, os quais
variaram entre R$ 290 mil e R$ 5 milhões — cifras muito inferiores às pretendidas.
Além disso, relaciona diversos fatos e circunstâncias que
afastariam a responsabilidade da empresa, tais como:
a existência de TAC anterior com o MPT sobre o mesmo
contexto;
a contratação regular de empreiteiras pela Companhia Vale do
Rio Cristalino S/A;
a alienação das ações da Companhia na década de 1980;
a dificuldade de produção de prova decorrente da antiguidade
dos fatos;
Documento assinado eletronicamente por OTAVIO BRUNO DA SILVA FERREIRA, em 29/08/2025, às [Link] - dc7fe45
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a unilateralidade e fragilidade do acervo probatório apresentado
na inicial;
a ausência de indícios mínimos de responsabilidade direta da
Volkswagen;
a prescrição e a atuação tardia do MPT, após décadas dos
eventos narrados.
Por fim, a Volkswagen sustenta que já pagou R$ 36 milhões em
acordo anterior com o MPT, com escopo semelhante ao da presente ação, e requer
que tal valor seja abatido de eventual condenação. De forma subsidiária, pede também
a aplicação analógica da Súmula 439 do TST, que trata da compensação de valores
pagos.
Analiso.
A indenização por dano moral coletivo cumpre funções
compensatória, preventiva e pedagógica, devendo considerar (i) gravidade e
reprovabilidade da conduta; (ii) extensão/alcance do dano; (iii) capacidade econômica
do ofensor; e (iv) vantagem indevida auferida, sob critérios de proporcionalidade e
razoabilidade, evitando tanto valores ínfimos que estimulem a prática ilícita quanto
montantes desmedidos.
A orientação do STF na ADI 6.050/DF é clara ao afirmar que os
limites do art. 223-G, §1º, da CLT são criteriais e orientativos, podendo o julgador
superá-los conforme as circunstâncias do caso concreto, à luz da proporcionalidade e
da igualdade.
A reclamada impugna com base em comparações pontuais
(TACs e casos com números inferiores) e na necessidade de “moderação”. Tais
referências não vinculam o Juízo e não refletem a magnitude e a singularidade deste
caso, que envolve violações massivas e estruturais (aliciamento, escravidão por dívida,
violência e degradação), reconhecidas no próprio caderno probatório.
O presente feito versa sobre violações massivas e sistemáticas
(aliciamento, servidão por dívida, restrição de locomoção, cantinas de endividamento,
condições degradantes), praticadas no âmbito do empreendimento (“Fazenda
Volkswagen”/CVRC) sob direção, fiscalização e proveito da reclamada, como
demonstram depoimentos e documentos: exigência de autorização escrita para sair,
retenção de quem tentava deixar o local; cláusulas contratuais de escolha exclusiva das
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árvores, apropriação integral da madeira, previsão de 434 trabalhadores, adiantamento
de 30% e pagamento condicionado a medições e conferência da fiscalização. Tais
elementos qualificam a gravidade/alcance e distanciam o caso dos TACs citados.
As teses de inexistência de ilícito, de nexo causal, de mera
participação acionária e de licitude genérica da empreitada já foram afastadas nos
itens precedentes, com base em robusta prova oral e documental (fiscalização,
comando e benefício econômico).
A resposta indenizatória deve desestimular a reiteração e
neutralizar vantagens econômicas derivadas da prática ilícita (evitando o chamado
“dumping social”), critério reconhecido na jurisprudência trabalhista e na doutrina
citada nos autos.
A fixação do quantum da indenização deve observar os critérios
consolidados pela doutrina e jurisprudência:
Gravidade da conduta: exploração de centenas de trabalhadores
em regime análogo ao de escravidão, com violência física e psicológica;
A prova testemunhal e documental demonstra que centenas de
trabalhadores foram submetidos a condições degradantes e a regime análogo ao de
escravidão na Fazenda Vale do Rio Cristalino. Os relatos colhidos no Inquérito Civil e
em depoimentos judiciais (v.g. Adão dos Santos Franco, 09/08/2021) confirmam a
existência de servidão por dívida, coação armada, vigilância ostensiva, ausência de
condições mínimas de higiene e moradia, além de restrição de liberdade de locomoção.
Essas práticas afrontam diretamente a dignidade da pessoa
humana (art. 1º, III, CF/88), o valor social do trabalho (art. 1º, IV, CF/88), bem como o
disposto no art. 149 do Código Penal. A gravidade é acentuada pela reiteração e pela
prática sistemática, não se tratando de fato isolado, mas de conduta estrutural.
Extensão da lesão: dano difuso, atingindo não só as vítimas
diretas, mas também a confiança da sociedade na ordem jurídica e na dignidade do
trabalho;
A violação não se restringe aos trabalhadores diretamente
atingidos, mas projeta efeitos sobre toda a coletividade. A perpetração de trabalho
escravo atinge a confiança da sociedade na ordem jurídica, fragiliza a credibilidade do
sistema de proteção social e compromete a dignidade do trabalho humano como valor
constitucional.
A jurisprudência do TST reconhece que, em hipóteses de dano
moral coletivo, a lesão é presumida (damnum in re ipsa), dado o caráter difuso do
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direito lesado. No caso, a dimensão da lesão é potencializada pelo número expressivo
de trabalhadores envolvidos e pelo simbolismo negativo de uma grande empresa
nacional associar sua atividade a práticas de escravidão contemporânea.
Capacidade econômica da reclamada: conglomerado
multinacional de grande porte, com alta capacidade financeira, o que exige valor que
não seja simbólico;
A reclamada integra um conglomerado multinacional de grande
porte, com faturamento anual bilionário. Essa condição foi ressaltada pelo próprio
histórico empresarial da Volkswagen do Brasil, que, à época dos fatos, mantinha
posição de liderança no setor automotivo e tinha plena capacidade de fiscalizar suas
operações indiretas.
A capacidade financeira da reclamada impõe que a indenização
fixada não seja simbólica, sob pena de se converter em incentivo econômico à
reiteração de ilícitos. O princípio da proporcionalidade, nesse ponto, exige que a
sanção seja compatível não apenas com o dano, mas também com o porte econômico
da empresa, em linha com o art. 944, parágrafo único, do Código Civil.
Segundo pesquisa realizada no sítio eletrônico da reclamada
([Link]
19005 Acesso em 27 ago. 2025), o lucro anual para o ano fiscal de 2024 é o seguinte:
Receita de vendas de EUR 324,7 bilhões no ano
fiscal de 2024, ligeiramente acima do ano fiscal de 2023 (EUR 322,3
bilhões)
Resultado operacional de EUR 19,1 bilhões no
ano fiscal de 2024, 15% abaixo do ano fiscal de 2023 (EUR 22,5 bilhões);
margem operacional de 5,9%
Resultado Operacional Subjacente de EUR 21,7
bilhões no AF 2024
Fluxo de caixa líquido de EUR 5,0 bilhões na
Divisão Automotiva no ano fiscal de 2024 (EUR 10,7 bilhões)
9,0 milhões de vendas de veículos no ano fiscal
de 2024, 3,5% abaixo do ano fiscal de 2023 (9,4 milhões de veículos)
Tais informações revelam lucros altos.
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Vantagem obtida: redução ilícita de custos pela exploração da
mão de obra em condições degradantes (dumping social) e incentivos fiscais;
O conjunto probatório aponta que a adoção de práticas de
trabalho escravo resultou em significativa redução de custos operacionais,
maximizando os lucros da reclamada em detrimento dos direitos fundamentais dos
trabalhadores.
A contratação de mão de obra submetida a condições
degradantes, sem respeito a normas de saúde, segurança e remuneração, constitui
típico dumping social, reprimido pela jurisprudência trabalhista.
Essa vantagem ilícita é fator determinante para majoração da
indenização, de forma a retirar qualquer ganho econômico advindo da prática ilícita e a
restabelecer a lógica da concorrência leal.
Além desses elementos, é importante considerar que a relação
entre incentivos fiscais e responsabilidade social.
A Volkswagen recebeu vultosos incentivos fiscais para instalar e
manter suas atividades na Amazônia. Tais benefícios públicos (isenções, créditos
presumidos, renúncias tributárias) pressupõem, constitucionalmente, a contrapartida
de responsabilidade social e desenvolvimento regional sustentável (art. 170, III e VII, CF
/88).
Assim, quando a empresa, beneficiária de incentivos, associa
sua atuação à prática de trabalho escravo ou degradante, viola não apenas direitos
individuais e coletivos trabalhistas, mas também a finalidade pública que justificou o
benefício. O valor dos incentivos fiscais recebidos pode ser usado como parâmetro de
proporcionalidade, demonstrando:
a dimensão econômica da atividade desenvolvida com recursos
públicos;
a expectativa legítima da sociedade de que esses incentivos
seriam revertidos em emprego digno, desenvolvimento sustentável e melhoria
regional, e não em violação de direitos humanos;
a necessidade de que a indenização por dano moral coletivo
seja compatível com esse patamar, evitando que a sanção seja ínfima em comparação
com os ganhos obtidos.
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Tal entendimento está apoiado na previsão do Art. 944,
parágrafo único, do Código Civil, pelo qual a indenização deve considerar a gravidade
da culpa e a capacidade econômica do ofensor. O valor dos incentivos públicos
recebidos é um indicativo objetivo da capacidade financeira da empresa. Além disso,
deve ser observado o princípio da vedação ao enriquecimento ilícito, ou seja, não é
admissível que uma empresa receba vultosos benefícios fiscais e, simultaneamente,
reduza seus custos explorando trabalho escravo.
Destaca-se ainda que o TST reconheceu o dumping social como
fator para majorar indenização em face de empresas que se beneficiam de práticas
ilícitas em detrimento da concorrência leal.
Por fim, pelo Controle de convencionalidade, extrai-se que os
tratados internacionais de direitos humanos ratificados pelo Brasil (v.g. Convenção nº
29 da OIT) reforçam que o Estado deve assegurar que empresas, especialmente as
beneficiadas por recursos públicos, não se beneficiem direta ou indiretamente do
trabalho forçado.
Fixar a indenização tomando em conta os incentivos fiscais
recebidos cumpre a função pedagógica da condenação: sinaliza que o uso de recursos
públicos em empreendimentos que exploram trabalhadores em condições análogas à
escravidão resultará em responsabilidade severa, impedindo que políticas públicas de
incentivo sejam desvirtuadas em prol de práticas ilícitas.
Nesse contexto, o montante recebido a título de benefícios
fiscais constitui elemento objetivo que reforça a elevada capacidade econômica da
reclamada e a gravidade social da lesão, servindo como parâmetro de
proporcionalidade na fixação da indenização por dano moral coletivo. Tal critério, longe
de configurar bis in idem, traduz a necessidade de que a reparação não seja simbólica,
mas adequada ao porte econômico da empresa e à extensão da lesão, atendendo às
funções compensatória, pedagógica e preventiva da condenação.
É incontroverso que a reclamada foi beneficiária de expressivos
incentivos fiscais concedidos pelo Estado brasileiro com a finalidade de estimular o
desenvolvimento regional e assegurar a criação de empregos em condições dignas.
Tais renúncias fiscais, custeadas pela coletividade, pressupõem a contrapartida de
cumprimento da função social da empresa, conforme impõe o art. 170, III, da
Constituição da República.
Diante do quadro delineado, resta claro que os vultosos
incentivos fiscais recebidos pela reclamada não apenas demonstram sua robusta
capacidade financeira, mas também evidenciam a gravidade da frustração da
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finalidade pública desses recursos, originalmente destinados ao fomento do trabalho
digno e ao desenvolvimento regional.
Assim, a indenização por dano moral coletivo deve ser fixada em
valor que não seja inferior ao montante dos incentivos usufruídos pela empresa
durante o período em que se constataram as práticas ilícitas. Esse parâmetro assegura
que a condenação seja proporcional à vantagem obtida e à gravidade da conduta,
evitando que a indenização se converta em custo operacional irrelevante para a ré.
A fixação em patamar equivalente ou superior aos incentivos
fiscais recebidos atende, portanto, ao triplo objetivo da reparação civil: (i) compensar a
coletividade pelo dano difuso suportado, (ii) retirar da ré o proveito econômico
indevido obtido mediante a exploração ilícita da mão de obra, e (iii) cumprir a função
pedagógica e preventiva da condenação, reafirmando o compromisso do Estado e da
sociedade com a erradicação do trabalho escravo, em conformidade com a orientação
do Supremo Tribunal Federal na ADI 6.050/DF.
Consta nos autos que Companhia Vale do Rio Cristalino –
Volkswagen recebeu o equivalente a Cr$ [Link],00 (cruzeiros) a título de
incentivos fiscais (“Primeira conclusão: A Vale do Rio Cristalino - Volkswagen, já recebeu
o correspondente a CrS [Link],00, até o presente momento. Note-se que sobre
os incentivos fiscais não incidem juros, nem correção monetária, nem coisa alguma” -
Fonte: [Link] Diário do
CONGRESSO NACIONAL, Seção I, Outubro de 1981).
O dado está expresso como “primeira conclusão” do relatório,
ou seja, faz parte de um levantamento técnico ou contábil constante dos autos. Trata-
se de uma informação documental oficial que pode ser utilizada como prova de
benefício econômico direto obtido pelo empreendimento. Embora o valor esteja em
moeda da época (cruzeiros), o documento demonstra de forma inequívoca que a
empresa foi beneficiária de vultosos incentivos.
O valor confirma a magnitude do aporte estatal para a
instalação e manutenção da fazenda vinculada à Volkswagen. Pode ser usado como
parâmetro objetivo para mensurar a capacidade econômica da reclamada e também
para dimensionar o proveito econômico obtido com o empreendimento. Assim, serve
como elemento adicional para a fixação do quantum indenizatório, especialmente nos
critérios de gravidade da conduta, vantagem ilícita e função pedagógica da condenação.
Além disso, evidencia o benefício econômico direto que a
Volkswagen obteve, reforçando a necessidade de que eventuais indenizações e
reparações considerem a proporção desses incentivos e, como corolário dessa
assertiva, pode ser utilizado como parâmetro de mensuração do enriquecimento ilícito
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e como referência para o cálculo do dano moral coletivo, já que os incentivos tinham
como contrapartida a promoção do desenvolvimento, mas acabaram associados a
práticas violadoras de direitos fundamentais.
Além dessas informações, utilizo dos dados informados pela
parte autora, não contestados especificamente pela parte reclamada, a respeito dos
acréscimos patrimonias resultados da operação da fazenda (ID 6cf106e), a saber:
Considerando que em 1974 a Volkswagen do
Brasil adquiriu uma fazenda localizada no município de Santana do
Araguaia, no Estado do Pará, com área total de 169.640 hectares (1.696
KM2) que, a título de ilustração, é superior à área do Município de São
Paulo/SP cuja área é de 1.521 km2;
Considerando que a área desmatada ao final de
1986 era de 53.730 hectares (537 km2) que, a título de ilustração, é
superior à área do município de São Bernardo do Campo/SP cuja área é
de 409 km;
Considerando que a derrubada da floresta e a
constituição de pastos em uma área dessa magnitude e que demandou
mais de 10 anos para sua completa realização exigiu a contratação de
centenas de trabalhadores para sua execução;
Considerando que o empreendimento contou
com incentivos fiscais da ordem de Cr$ [Link],00 calculados e
corrigidos em 27.06.1980 que corrigidos pelo IGP-DI até dezembro de
2022 alcançariam a cifra de R$ 518.315.330,62;
Considerando que o empreendimento contou
com subscrições de capital na empresa realizados pelo BASA (Banco da
Amazônia S.A.) que atuava como agente financeiro da SUDAM, sendo,
portanto, aportes de dinheiro público de forma direta da ordem de:
- Cr$ 10.636.967,00 em 09/06/1976 (processo
3307/76), R$ 28.757.329,92 corrigidos pelo IGP-DI até dezembro de 2022.
- Cr$ 15.000.000,00 em 23/11/1978 (processo
5830/78), R$ 17.675.740,47 corrigidos pelo IGP-DI até dezembro de 2022.
- Cr$ 37.499.422,00 em 10/04/1979 (processo
1851/79), R$ 37.233.331,16 corrigidos pelo IGP-DI até dezembro de 2022.
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- Cr$ 60.000.000,00 em 04/04/1983 (processo
1545/83), R$ 3.648.550,74 corrigidos pelo IGP-DI até dezembro de 2022.
- Cr$ 300.000.000,00 em 05/09/1983 (processo
4639/83), R$ 11.175.170,77 corrigidos pelo IGP-DI até dezembro de 2022.
- Cr$ 250.000.000,00 em 14/10/1983 (processo
5281/83), R$ 8.256.620,54 corrigidos pelo IGP-DI até dezembro de 2022.
- Cr$ 80.000.000,00 em 16/12/1983 (processo
6366/83), R$ 2.151.425,39 corrigidos pelo IGP-DI até dezembro de 2022.
- Cr$ 130.000.000,00 em 13/03/1984 (processo
1107/84), R$ 2.636.707,36 corrigidos pelo IGP-DI até dezembro de 2022.
- Cr$ 107.000.000,00 em 12/04/1984 (processo
1850/84), R$ 1.973.818,08 corrigidos pelo IGP-DI até dezembro de 2022.
- Cr$ 700.000.000,00 em 24/05/1984 (processo
2812/84), R$ 11.853.156,38 corrigidos pelo IGP-DI até dezembro de 2022.
- Cr$ 500.000.000,00 em 26/06/1984 (processo
3819/84), R$ 7.777.457,53 corrigidos pelo IGP-DI até dezembro de 2022.
- Cr$ 400.000.000,00 em 09/08/1984 (processo
4537/84), R$ 5.162.403,38 corrigidos pelo IGP-DI até dezembro de 2022.
- Cr$ 153.879.000,00 em 10/10/1985 (processo
4000/85), R$ 503.090,92 corrigidos pelo IGP-DI até dezembro de 2022.
- Cz$ 8.000.000,00 em 07/01/1987 (processo 0059
/87), R$ 11.168.107,58 corrigidos pelo IGP-DI até dezembro de 2022.
TOTALIZANDO: R$ 149.972.910,22 corrigidos pelo
IGP-DI até dezembro de 2022.
Considerando que a venda da fazenda Vale do
Rio Cristalino, segundo notícias apuradas pela Deutsche Welle à época
pois os valores não foram oficialmente divulgados, foi em torno de U$
20.000.000,00, que correspondem na cotação de 16.02.2023 a R$
104.852.000,00;
Considerando que a Volkswagem apurou
faturamento global da ordem de [Link],00 de Euros em 2021
(que correspondem na cotação de 16.02.2023 a R$ [Link].000)
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com lucro global de [Link],00 de euros em 2021 (que
correspondem na cotação de 16.02.2023 a R$ [Link],00)
Função pedagógica/preventiva: necessidade de desestimular a
repetição de práticas semelhantes e reafirmar o compromisso social de combate ao
trabalho escravo.
A função da indenização por dano moral coletivo não é apenas
compensatória, mas também pedagógica e preventiva, de modo a coibir a repetição de
práticas ilícitas.
No caso em análise, a condenação deve servir de mensagem clara a toda sociedade,
em especial a grandes conglomerados econômicos, de que a exploração de
trabalhadores em condições análogas à escravidão não será tolerada e será
sancionada em patamares compatíveis com a gravidade do ilícito.
A fixação de valor expressivo, portanto, cumpre papel essencial
de prevenção geral, reafirmando o compromisso da Justiça do Trabalho com a
erradicação do trabalho escravo contemporâneo, conforme previsto no art. 5º, III e
XLIII, da CF/88, e no art. 4º, II, da Constituição, que impõe ao Brasil o dever de respeito
aos tratados internacionais de direitos humanos.
O Supremo Tribunal Federal, ao julgar a ADI 6.050/DF, fixou
entendimento de que os limites do art. 223-G da CLT possuem caráter meramente
orientativo, não vinculante, autorizando o julgador a arbitrar valores superiores sempre
que constatada lesão grave a direitos fundamentais.
Diante da magnitude da conduta, do número de trabalhadores
atingidos e da repercussão social do ilícito, é plenamente legítima a fixação de
indenização em patamar elevado, superando as balizas do art. 223-G da CLT, em
consonância com os princípios constitucionais da dignidade da pessoa humana, da
valorização do trabalho e da vedação ao retrocesso social.
Espeficiamente sobre a função pedagógica da condenação,
entendo que valores ínfimos não cumprem função preventiva.
No campo da Análise Econômica do Direito, as pessoas são
maximizadoras racionais de suas satisfações – todas as pessoas (com a exceção de
crianças bem novas e das que sofrem de graves distúrbios mentais), em todas as suas
atividades (exceto quanto sob influência de transtornos psicóticos ou perturbações
semelhantes que decorrem do abuso de álcool e drogas) que impliquem uma escolha.
Em tal campo de maximização de realizações, cada indivíduo
desenvolve métodos para o alcance do resultado mais eficiente ao seu objetivo.
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O conceito de eficiência funciona como um vetor relacional
compatível com a medição de escolhas racionais de recursos dentro de um ambiente
de escassez, com a minimização dos custos de transação e o aumento da riqueza
social, sem descuidar da necessidade de compensar terceiros pelos eventuais danos
decorrentes da transação.
Diante disso, reflete-se sobre qual o valor da indenização por
dano moral tem o condão de promover a eficiência do sistema de justiça considerando
os requisitos de gravidade da lesão, pessoas atingidas, valores obtidos como incentivos
fiscais, que deixou de ser revertido em prol da sociedade, lucro atual da reclamada,
dentre outros.
No presente caso, restou configurada a prática de trabalho em
condições análogas à de escravo por parte da reclamada Volkswagen, em sua atuação
na Fazenda Vale do Rio Cristalino, fato de extrema gravidade e que revela ofensa
coletiva a direitos fundamentais laborais e humanos. A análise da reparação não pode
ser dissociada de uma perspectiva de eficiência do sistema jurídico e da necessária
função pedagógica e preventiva da condenação, sob pena de tornar-se inócua e
incapaz de desestimular condutas reiteradas.
A Análise Econômica do Direito (AED) revela-se útil à presente
fixação. Conforme sustentam Posner e outros autores, o empregador, enquanto
agente racional maximizador de riqueza, tende a comparar custos: de um lado, os
dispêndios necessários para cumprir a legislação trabalhista; de outro, o valor da
eventual indenização por danos decorrentes de seu descumprimento. Se a indenização
é irrisória frente aos lucros obtidos, especialmente por grandes corporações com
faturamento bilionário, como a reclamada, o resultado prático é a perpetuação da
violação, pois a conduta ilícita torna-se economicamente mais vantajosa que a adoção
de mecanismos de prevenção. Trata-se de um cálculo de custo-benefício que, se não
corrigido por uma resposta judicial adequada, compromete a própria eficiência do
sistema jurídico, ao gerar incentivo perverso à reiteração.
No caso concreto, a Volkswagen, além de figurar como empresa
de grande porte e detentora de lucros expressivos no exercício de 2024, usufruiu, ao
longo de 1974 a 1986, de substanciais incentivos fiscais estatais, recursos que deveriam
servir de contrapartida ao desenvolvimento social e econômico, mas que, em vez disso,
foram desviados para uma lógica de maximização ilícita, com a exploração de mão de
obra escravizada. Esses elementos reforçam a necessidade de fixação de indenização
compatível com a dimensão do ilícito e com a capacidade econômica da empresa, para
que o dano coletivo seja reparado e, sobretudo, para que haja efeito dissuasório.
A eficiência, nos termos da AED, relaciona-se à capacidade da
norma de prevenir a ocorrência de novos danos e de compensar adequadamente os
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prejuízos já produzidos. A limitação da indenização gera ineficiência sistêmica:
transfere ao empregador o poder de decidir entre cumprir ou descumprir a lei, sempre
a partir de seu cálculo de custos, em prejuízo do trabalhador e da coletividade.
Somente condenações de valor elevado podem reequilibrar essa equação, tornando o
custo da violação superior ao da prevenção. Assim, uma quantia expressiva cumpre
duplo papel: compensa minimamente a coletividade atingida e impõe à empresa a
adoção de políticas efetivas de respeito aos direitos humanos e trabalhistas.
Portanto, à luz da gravidade do ilícito, do número de
trabalhadores atingidos, da dimensão econômica da reclamada, dos benefícios fiscais
anteriormente usufruídos e dos lucros atuais, entendo ser imperiosa a fixação de valor
significativo a título de indenização por dano moral coletivo.
Tal quantia não pode ser simbólica, mas deve refletir a
magnitude do prejuízo social e humano, garantindo que a decisão judicial, além de
reparatória, cumpra plenamente seu caráter preventivo e pedagógico, contribuindo
para a eficiência do sistema de Justiça do Trabalho e para a efetiva tutela da dignidade
do trabalhador.
Assim, julgo procedente o pedido de condenação da reclamada
ao pagamento de indenização por dano moral coletivo decorrente das violações
graves, generalizadas e sistemáticas de direitos humanos trabalhistas na Fazenda Vale
do Rio Cristalino.
Considerando os critérios de gravidade, extensão, vantagem
ilícita e função pedagógica, em especial sob a perspectiva de eficiência do sistema de
justiça, bem como os valores recebidos a título de incentivos fiscais e o porte da
empresa reclamada, fixo a indenização em R$ 165.000.000,00 (cento e sessenta e cinco
milhões de reais), valor proporcional à lesão coletiva reconhecida e suficiente ao
desestímulo de novas práticas ilícitas, sem prejuízo de eventual atualização legal.
Sobre o pedido de compensação/abatimento, entendo que este
pressupõe identidade objetiva entre o dano reparado no acordo (TAC) e o mesmo dano
moral coletivo aqui reconhecido (mesmo fato gerador, mesmas vítimas/coletividade,
mesma dimensão transindividual).
No caso, por ocasião da análise do TAC firmado pela reclamada,
concluiu-se pela existência de fatos geradores e de vítimas distintas.
Assim, não é devida compensação/abatimento.
[Link] DANO MORAL COLETIVO. DESTINAÇÃO DE VALORES
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Consta na inicial o pedido de condenação “reversível ao FAT
(Fundo de Amparo ao Trabalhador) ou a destinação socialmente relevante equivalente
que observe a finalidade de recomposição dos bens lesados, a ser oportunamente
indicada pelo Ministério Público do Trabalho e chancelada pelo Juízo”.
A Volkswagen sustenta que, caso haja condenação, a destinação
dos valores deve observar o princípio da legalidade (art. 5º, II, da CF). Assim, entende
que a quantia eventualmente fixada deve ser revertida exclusivamente ao FAT – Fundo
de Amparo ao Trabalhador, e não para destinações futuras a serem indicadas pelo MPT
e validadas judicialmente.
Analiso.
O art. 13 da Lei da Ação Civil Pública (Lei nº 7.347/1985)
estabelece que as indenizações por danos coletivos devem ser revertidas a fundos
geridos por conselhos com participação social e destinados à recomposição dos bens
lesados.
Quanto à destinação do referido valor da indenização,
determino a sua destinação ao Fundo Estadual de Promoção do Trabalho Digno e de
Erradicação do Trabalho em Condições Análogas à de Escravo no Pará (FUNTRAD/PA),
instituído pela Lei Lei nº 9.952, de 26 de junho de 2023.
O Fundo Estadual de Promoção do Trabalho Digno e de
Erradicação do Trabalho em Condições Análogas à de Escravo no Pará – FUNTRAD/PA,
instituído pela Lei Estadual nº 9.952/2023, possui previsão legal expressa quanto às
suas fontes de custeio. Dispõe o art. 3º do referido diploma que constituem receitas do
Fundo, entre outras, aquelas provenientes “das condenações e dos acordos judiciais
em ações envolvendo exploração de trabalho em condições análogas às de escravo”
(inciso I), bem como “das condenações transitadas em julgado e/ou dos acordos
celebrados perante o Tribunal Regional do Trabalho da 8ª Região” (inciso IV).
Tem como finalidade financiar políticas públicas de erradicação
do trabalho escravo e promoção do trabalho digno, ou seja, atua na mesma esfera de
lesão que deu origem à condenação, ou seja, é fundo específico e direcionado, criado
exatamente para receber condenações trabalhistas ligadas ao trabalho escravo no Pará.
Já o FAT, apesar de ser fundo federal de relevância nacional,
possui finalidade ampla (seguro-desemprego, abono salarial, financiamento de
políticas de emprego e renda), não necessariamente vinculada à reparação direta dos
danos decorrentes de exploração de trabalho escravo, ou seja, é um fundo de caráter
geral, voltado à política nacional de emprego e renda.
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Havendo conflito aparente entre duas normas possíveis de
aplicação (destinação ao FAT ou ao FUNTRAD), prevalece a lei especial sobre a lei geral,
respeitando o princípio da legalidade (art. 5º, II, CF).
Ademais, a própria lei estadual estabelece que o FUNTRAD será
administrado por Conselho Gestor com participação do Ministério Público do Trabalho
e de representantes da sociedade civil, destinando-se à reconstituição dos bens
lesados, em consonância com o art. 13 da Lei nº 7.347/1985 (Lei da Ação Civil Pública).
Nesse contexto, a destinação ao FUNTRAD revela-se
juridicamente mais adequada do que ao FAT, porquanto: (i) trata-se de fundo
específico e diretamente voltado à prevenção e erradicação do trabalho escravo,
atendendo ao princípio da especialidade; (ii) assegura-se que os valores sejam
revertidos em benefício da coletividade e da própria comunidade atingida, garantindo
maior efetividade à reparação coletiva; e (iii) encontra amparo em legislação específica,
o que afasta qualquer alegação de violação ao princípio da legalidade.
Assim, determino que os valores decorrentes da presente
condenação sejam revertidos ao FUNTRAD/PA, e não ao FAT, por se tratar do fundo
legalmente previsto e vocacionado à reparação social compatível com a natureza da
lesão verificada nos autos.
2.3.4 MEDIDAS DE REPARAÇÃO E NÃO REPETIÇÃO: EFICÁCIA,
SUFICIÊNCIA E GARANTIAS ESTRUTURAIS: OBRIGAÇÕES DE FAZER. ASSUNÇÃO DE
RESPONSABILIDADE. PEDIDO DE DESCULPAS. IMPLEMENTAÇÃO DE MEDIDAS. NÃO
REPETIÇÃO DE ILÍCITO
O Ministério Público do Trabalho fundamenta sua pretensão nos
Princípios Orientadores da ONU sobre Empresas e Direitos Humanos, segundo os
quais a reparação por violações cometidas por empresas pode incluir pedidos de
desculpas, restituição, compensações financeiras ou não financeiras, sanções punitivas
e medidas de prevenção a novos danos, como garantias de não repetição.
No caso concreto, o MPT requer a condenação da reclamada ao
cumprimento de obrigação de fazer, consistente em:
a) Assunção de responsabilidade pelos fatos apurados e
realização de pedido público de desculpas, de alcance nacional, dirigido a todos os
trabalhadores atingidos e à sociedade brasileira em geral;
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b) Divulgação do pedido de desculpas em veículos de imprensa,
rádio, televisão e em todas as redes sociais da empresa, pelo prazo mínimo de 30
(trinta) dias corridos;
c) Implementação de garantias de não repetição, incluindo:
a) Assunção de compromisso público de vigilância e combate ao
trabalho escravo, ao tráfico de pessoas e a outras violações de direitos humanos em
suas cadeias produtivas (próprias e de fornecedores);
b) Criação de mecanismos eficazes de denúncia e apuração, que
sejam legítimos, acessíveis, previsíveis, equitativos, transparentes e disponíveis a
trabalhadores próprios e terceirizados.
A reclamada argumenta que os fatos narrados pelo MPT
referem-se a um período entre 1974 e 1986, sem qualquer conduta atual imputada à
empresa. Por isso, não haveria fundamento para imposição de obrigações de fazer,
como pedido de desculpas ou medidas de não repetição, pois não há ilícito atual a ser
cessado. Sustenta, ainda, que a ação carece de respaldo jurídico e fático para tais
medidas.
Afirma possuir sólido compromisso com os direitos humanos,
sustentado por documentos como a Declaração sobre Direitos Sociais, Relações
Industriais e Empresas e Direitos Humanos (2020) e o Código de Conduta para
Colaboradores. A empresa declara adesão a tratados internacionais (ONU, OIT, OCDE) e
reforça princípios como não ao trabalho forçado, à discriminação e ao trabalho infantil.
Aponta ainda diversas práticas e certificações que
demonstrariam sua responsabilidade social, incluindo:
Políticas de diversidade e inclusão, programas de capacitação e
metas de aumento da presença feminina em cargos de liderança;
Reconhecimentos externos, como o selo Great Place To Work,
Top Employer e prêmios de sustentabilidade;
Projetos sociais da Fundação Grupo Volkswagen, que em 2023
beneficiou mais de 216 mil pessoas em temas como mobilidade urbana, educação e
geração de renda (ex.: Carretas do Conhecimento, Projeto Brincar e Costurando o
Futuro).
Documento assinado eletronicamente por OTAVIO BRUNO DA SILVA FERREIRA, em 29/08/2025, às [Link] - dc7fe45
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No campo ambiental, destaca seu compromisso com a
neutralidade de carbono até 2050, parcerias com universidades e empresas, e a criação
do Way To Zero Center.
Por fim, defende que todas as empresas fornecedoras são
submetidas a rigorosos critérios de direitos humanos, ambientais e de compliance, e
que nenhuma prática análoga à escravidão foi identificada nas auditorias. Alega, com
isso, que as acusações do MPT ignoram a conduta atual da empresa e refletem uma
postura ideológica e arbitrária.
Sustenta que não há necessidade nem utilidade na imposição
das obrigações requeridas pelo MPT, especialmente diante dos valores institucionais
positivos já demonstrados pela empresa. Argumenta que as pretensões do Ministério
Público se baseiam em meras suposições futuras, sem respaldo fático ou legal,
movidas por capricho e vaidade, em afronta ao princípio da legalidade. Conclui que,
não havendo descumprimento de dever contratual ou norma legal, é incabível o
acolhimento dos pedidos constantes dos itens “a” e “b” da petição inicial.
Impugna o pedido do MPT baseado nos Princípios Orientadores
da ONU sobre Empresas e Direitos Humanos (POs), argumentando que se trata de
instrumento de soft law, ou seja, não vinculante nem cogente, sem força legal
obrigatória. Sustenta que tais princípios são orientações voluntárias, aprovadas em
2011 — décadas após os fatos narrados na inicial (1970–1980) — e não podem ser
aplicados retroativamente.
A defesa destaca que, embora reconheça os POs em sua política
interna, eles não impõem obrigações jurídicas diretas às empresas, mas sim
responsabilidades de respeito aos direitos humanos, cabendo ao Estado as obrigações
positivas de proteção e regulação. Aponta que, mesmo no plano interno, o Brasil ainda
não possui legislação com força obrigatória que torne tais princípios exigíveis das
empresas.
Assim, conclui pela inexistência de fundamento legal para o
pedido do MPT e pela falta de interesse de agir quanto ao item “b” da inicial,
reforçando que os instrumentos citados não se aplicam ao passado e não legitimam a
imposição de obrigações de fazer neste caso.
Por fim, impugna o pedido do MPT que pretende impor o
cumprimento de obrigações relacionadas a trabalhadores de empresas fornecedoras,
integrantes de sua cadeia de suprimentos. Argumenta que não há, no ordenamento
Documento assinado eletronicamente por OTAVIO BRUNO DA SILVA FERREIRA, em 29/08/2025, às [Link] - dc7fe45
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jurídico brasileiro, norma que imponha essa responsabilidade, sendo equivocada sua
equiparação à responsabilidade social corporativa, a qual se baseia em ações
voluntárias da empresa, e não em imposições legais.
Destaca que cumpre suas obrigações sociais, mas que a
autonomia empresarial e os princípios constitucionais da livre iniciativa e da livre
concorrência (art. 170, II e IV, da CF) impedem a imposição de políticas obrigatórias à
rede de fornecedores. Cada empresa da cadeia opera com autonomia própria e sujeita
a diferentes regulações.
Por fim, sustenta que aceitar o pedido representaria atribuir
indevidamente obrigações jurídicas e econômicas a uma empresa que já adota boas
práticas, violando o art. 5º, II, da CF (princípio da legalidade). Conclui pela
improcedência total dos pedidos “a” e “b” da inicial.
Analiso.
As medidas postuladas são compatíveis com o regime das ações
coletivas: art. 5º, XXXV, CF (tutela jurisdicional), Lei 7.347/85 (LACP), arts. 3º, 11 e 12
(tutelas específicas e meios necessários à efetividade), CDC, art. 84 (cumprimento
específico/inibitórias), e CPC, art. 497 (obrigação de fazer).
No plano internacional, a CADH, art. 63.1, consagra a reparação
integral, que engloba medidas de satisfação (v.g., pedidos públicos) e garantias de não
repetição; decisões da Corte IDH — a exemplo de Fazenda Brasil Verde — vêm
determinando tais providências ao Estado e orientam o controle de convencionalidade
pelos órgãos internos. Os POs da ONU têm natureza orientativa (soft law), mas
informam o conteúdo das garantias de não repetição e não são o único suporte
normativo: a ordem interna já autoriza tais medidas.
O fato de as violações terem ocorrido nas décadas de 1970/1980
não esvazia a utilidade das medidas de satisfação e de não repetição. O conjunto
probatório revela violação grave e sistemática de direitos fundamentais (aliciamento,
servidão por dívida, restrição de locomoção, condições degradantes), com direção
/fiscalização do empreendimento e proveito econômico pela ré/ CVRC, inclusive
exigência de autorização escrita para sair, retenção de quem tentava deixar o local;
cláusulas contratuais de escolha exclusiva das árvores a derrubar, apropriação integral
da madeira, adiantamento de 30% e pagamentos condicionados a medições e
conferência da fiscalização. Tais elementos demonstram a gravidade e justificam a
adoção de medidas de satisfação (reconhecimento público e desculpas) e de não
repetição (deveres estruturais de diligência na cadeia), para prevenir reiteração e
reconstituir a confiança pública.
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É positivo que a reclamada mencione códigos internos,
certificações e programas sociais/ambientais. Isso, porém, não substitui a tutela
jurisdicional específica quando reconhecida a violação coletiva.
As medidas ora impostas podem e devem aproveitar estruturas
existentes, mas com metas verificáveis, prazo, transparência e auditoria independente,
assegurando efetividade e controle - núcleo que distingue compromissos voluntários
de obrigações judiciais.
A reclamada trouxe aos autos vasta documentação destinada a
demonstrar sua atual adesão a políticas de direitos humanos, sustentabilidade e
responsabilidade social corporativa, como relatórios de diversidade e inclusão, prêmios
de “Great Place to Work” e “Top Employer”, certificações ambientais, bem como
projetos sociais realizados pela Fundação Grupo Volkswagen.
Embora tais documentos revelem que, na atualidade, a empresa
adota práticas positivas de governança e responsabilidade social, o seu conteúdo não
elide a responsabilidade histórica pelos ilícitos apurados entre 1974 e 1986, período
em que houve a submissão de trabalhadores a condições análogas às de escravo.
Além disso, os relatórios apresentados têm caráter unilateral e
auto declaratório, refletindo mais iniciativas voluntárias de marketing institucional do
que mecanismos de responsabilização efetiva. Não se desconhece a relevância de tais
medidas, mas elas não se confundem com a reparação de violações passadas, que é
exigência jurídica de ordem pública e encontra fundamento no direito interno e
internacional.
Por isso, os documentos foram considerados, mas servem
apenas para atestar a atual orientação corporativa da empresa, sem afastar a
necessidade de medidas reparatórias e preventivas determinadas nesta sentença.
Diante disso, julgo procedentes, em parte, os pedidos do MPT e
imponho as seguintes obrigações de fazer, sob pena de astreintes (LACP, art. 11; CPC,
arts. 536/537):
A) Medidas de satisfação (assunção de responsabilidade e
pedido público de desculpas)
A.1) Assunção pública de responsabilidade pelos fatos
reconhecidos nesta sentença e pedido público de desculpas dirigido aos trabalhadores
atingidos e à sociedade brasileira.
A.2) Veiculação:
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Site institucional (homepage) e todas as redes sociais oficiais da
empresa no Brasil, com a publicação fixada por 30 (trinta) dias corridos;
Imprensa: publicação da nota em dois jornais de grande
circulação nacional, em edição de domingo, por 2 (duas) semanas consecutivas;
Rádio e TV de abrangência nacional: veiculação de inserções
diárias por 15 (quinze) dias.
A.3) Conteúdo mínimo: reconhecimento da ocorrência das
violações na Fazenda Vale do Rio Cristalino no período indicado nos autos; pedido de
desculpas às vítimas e à sociedade; compromisso público com a reparação e com a
tolerância zero a trabalho escravo/tráfico de pessoas; indicação de canal de denúncia e
de medidas estruturais adotadas.
A.4) Procedimento: minuta do texto e do plano de mídia deverá
ser apresentada ao Juízo e ao MPT em 15 dias, para aprovação em 10 dias.
A.5) Astreintes: R$ 10.000,00 por dia de atraso ou
descumprimento de cada subitem, ajustável pelo Juízo (CPC, art. 537, §1º).
B) Garantias de não repetição (deveres estruturais de diligência
e prevenção)
B.1) Compromisso público: aprovação e divulgação de Política de
Direitos Humanos e Trabalho Decente aplicável a empregados e toda a cadeia de
fornecedores, com cláusula expressa de “tolerância zero” a trabalho escravo e tráfico
de pessoas, em 90 dias.
B.2) Cláusulas contratuais: inclusão, em todos os contratos com
terceiros/ fornecedores, de cláusulas de: (i) vedação a trabalho análogo ao de escravo;
(ii) acesso para auditorias; (iii) rescisão por violação; (iv) planos de remediação às
vítimas, em 120 dias.
B.3) Due diligence: implementação de processo de diligência em
direitos humanos (mapeamento de riscos, auditorias independentes periódicas e plano
de mitigação), com primeiro ciclo concluído em 180 dias e relatórios semestrais por 3
anos.
B.4) Canal de denúncias: criação/aperfeiçoamento de canal
multiplataforma, anônimo e acessível (telefone, web e presencial), com SLA de
atendimento, proteção contra retaliação e divulgação ativa em pontos de contratação
/produção, em 90 dias.
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B.5) Treinamento: programa anual obrigatório sobre trabalho
escravo e tráfico de pessoas para gestores, compradores e equipes de campo; primeira
rodada em 120 dias.
B.6) Transparência: publicação anual de Relatório de Direitos
Humanos no site institucional, com indicadores de risco, auditorias realizadas,
incidentes e remediações (manter por 3 anos).
B.7) Acompanhamento: apresentação ao Juízo e ao MPT de
cronograma detalhado em 30 dias; relatórios trimestrais de implementação por 2 anos.
B.8) Astreintes: R$ 5.000,00 por dia de atraso no cumprimento
de cada obrigação estrutural (itens B.1 a B.7), com possibilidade de majoração
progressiva.
C) Observações finais
(i) As medidas não importam “importação automática” de soft
law: têm base autônoma na LACP/CDC/CPC e na CADH (reparação integral). Os POs da
ONU são utilizados como parâmetro técnico para o desenho das garantias;
(ii) As políticas e certificações já existentes poderão ser
aproveitadas, desde que comprovada equivalência material aos requisitos ora fixados,
mediante auditoria independente;
(iii) As medidas de satisfação e não repetição não configuram
censura nem violam a liberdade de expressão: concretizam a reparação coletiva e a
efetividade da tutela inibitória;
(iv) Eventual sobreposição com obrigações assumidas em outros
instrumentos poderá ser arguida em liquidação/execução, com prova específica de
identidade objetiva, para evitar bis in idem.
Diante da gravidade e amplitude das violações comprovadas e
do dever de reparação integral com garantias de não repetição, defiro, com ajustes de
proporcionalidade, os pedidos de obrigação de fazer formulados pelo MPT, nos termos
acima.
2.4 DA LITIGÂNCIA DE MÁ-FÉ POR PARTE DO MPT. PUBLICIDADE
ABUSIVA. CULPABILIDADE ANTECIPADA. ILEGALIDADE. ABUSO DE PODER
A VOLKSWAGEN sustenta que a atuação do Ministério Público
do Trabalho configura litigância de má-fé, conforme os artigos 80 do CPC e 793-B da
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CLT. Alega que o MPT distorceu fatos, agiu com parcialidade, ignorou manifestações da
empresa e divulgou indevidamente a ação à mídia antes mesmo da ciência da
reclamada, antecipando sua culpabilização e ferindo o princípio da legalidade.
Aponta que o MPT atribuiu à empresa condutas não
comprovadas nem constantes dos autos, como tortura e trabalho escravo,
extrapolando os limites legais e processuais, inclusive com uso de termos e imputações
que não estão amparados em denúncia ou investigação formal.
Argumenta que a conduta do MPT viola sua função
constitucional, transformando a ação judicial em instrumento de exposição pública e
retaliação, sem respaldo jurídico.
Diante disso, requer a condenação do MPT ao pagamento de
multa de 10% sobre o valor da causa, além de honorários advocatícios, nos termos dos
artigos 81 do CPC e 793-C da CLT.
Analiso.
O Ministério Público do Trabalho atua, por força constitucional
(art. 129, III, CF/88 e art. 83, II, da LC 75/93), como legítimo substituto processual na
defesa de direitos sociais, individuais e coletivos indisponíveis, dentre os quais se
insere a erradicação do trabalho escravo e a repressão a violações graves de direitos
humanos no âmbito laboral. Sua atuação em juízo é, portanto, expressão do princípio
da indisponibilidade dos direitos fundamentais trabalhistas e do dever estatal de tutela
coletiva.
A caracterização da litigância de má-fé exige demonstração
inequívoca de condutas dolosas ou temerárias da parte, tais como alterar a verdade
dos fatos, usar do processo para fins ilegais, provocar incidentes infundados ou
interpor recursos protelatórios (CPC, art. 80; CLT, art. 793-B).
No caso, as alegações do MPT, embora firmes e de forte
reprovação moral, encontram respaldo em inquéritos civis, relatórios oficiais,
testemunhos e provas documentais coligidas ao longo de décadas por órgãos estatais
e entidades de direitos humanos. Não se evidencia manipulação intencional de fatos
ou produção de afirmações sem qualquer suporte probatório. Ao contrário, a narrativa
é coerente com o contexto histórico e com elementos concretos já reconhecidos em
outros processos e até em âmbito internacional (v.g., decisão da Corte Interamericana
de Direitos Humanos no caso Fazenda Brasil Verde).
A divulgação pública de ações civis coletivas ajuizadas pelo
Ministério Público integra o dever de publicidade e transparência inerente ao órgão,
não configurando, por si só, abuso de poder. A natureza do objeto tratado — suposta
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prática de trabalho escravo e violações sistemáticas de direitos humanos — atrai a
atenção da sociedade civil e justifica a comunicação social institucional, desde que
observados parâmetros de veracidade e responsabilidade.
Ainda que a reclamada alegue que houve "culpabilização
antecipada", não há demonstração de que o MPT tenha extrapolado seu dever
funcional ou imputado responsabilidade criminal ou civil definitiva antes de decisão
judicial. A exposição pública, embora desconfortável à ré, não se confunde com má-fé
processual, mas com a relevância social e coletiva do tema tratado.
Entendo que não é cabível a condenação do Ministério Público
em honorários de sucumbência ou multa por litigância de má-fé, ressalvados casos
absolutamente excepcionais de abuso manifesto, o que não se verifica nos autos. O
exercício de sua função institucional, ainda que desagrade à parte reclamada, não pode
ser confundido com conduta temerária ou ilegal.
No caso, não há elementos que permitam caracterizar a atuação
do MPT como litigância de má-fé, abuso de poder ou publicidade abusiva. As
manifestações do parquet encontram amparo em sua função constitucional de defesa
da ordem jurídica e dos direitos fundamentais dos trabalhadores, exercida dentro dos
limites legais e processuais.
Rejeito, portanto, o pedido de condenação do MPT por litigância
de má-fé, bem como a aplicação de multa e honorários advocatícios.
2.5 HONORÁRIOS DE ADVOGADO. COMPROVADA MÁ-FÉ NA
ATUAÇÃO DO MPT
A reclamada sustenta que, embora o artigo 18 da Lei 7.347/85
preveja a inexistência de condenação em honorários advocatícios em ações civis
públicas, essa regra admite exceção nos casos de comprovada má-fé, o que, segundo a
empresa, ocorreu no presente caso por parte do MPT.
Com base no princípio da simetria e nas condutas imputadas ao
Ministério Público, requer a condenação deste ao pagamento de honorários
advocatícios no percentual de 20% sobre o proveito econômico obtido, com
fundamento nos artigos 82 e seguintes do CPC e no artigo 791-A da CLT.
Analiso.
O art. 18 da Lei da Ação Civil Pública (LACP) estabelece, de forma
clara e objetiva, que “nas ações de que trata esta lei não haverá adiantamento de
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custas, emolumentos, honorários periciais, nem condenação da associação autora,
salvo comprovada má-fé, em honorários de advogado, custas e despesas processuais”.
Trata-se de norma especial que prevalece sobre disposições gerais do CPC e da CLT.
De fato, a jurisprudência admite que, em casos excepcionais, o
MPT ou a associação autora de ACP possa ser condenado ao pagamento de honorários
advocatícios, quando restar cabalmente comprovada conduta dolosa, temerária ou
abusiva. Todavia, a configuração da má-fé processual exige demonstração inequívoca
de que o órgão ministerial tenha atuado de forma desleal, alterando intencionalmente
a verdade dos fatos ou utilizando o processo para fins ilegítimos (CPC, art. 80; CLT, art.
793-B).
No presente feito, a atuação do MPT fundamenta-se em
inquéritos civis, relatórios oficiais, documentos históricos e testemunhos que compõem
vasto acervo probatório. Ainda que a reclamada discorde da interpretação ministerial e
de seus pedidos, não se verifica abuso de direito, distorção consciente de fatos ou
finalidade espúria na propositura da ação. Ao contrário, a iniciativa se insere no
exercício da função constitucional conferida ao Ministério Público do Trabalho (art. 129,
III, CF/88; art. 83, II, LC 75/93), de defesa da ordem jurídica, dos interesses sociais e dos
direitos fundamentais dos trabalhadores.
Não se constata nos autos prova de conduta dolosa ou
temerária do MPT a justificar a aplicação da exceção prevista no art. 18 da LACP. Assim,
rejeito o pedido de condenação do Ministério Público do Trabalho ao pagamento de
honorários advocatícios.
2.6 LIMITES DO CONTRADITÓRIO E ABRANGÊNCIA E EFEITOS DA
DECISÃO
A reclamada ressalta que qualquer tutela jurisdicional deve
respeitar os limites do pedido e do contraditório, conforme os artigos 141, 322, §1º e
492 do CPC. Requer, ainda, que eventual acolhimento dos pedidos observe os limites
fixados pelo Tema 1075 do STF, que trata da repercussão geral em ações coletivas.
Por fim, sustenta que, sendo este Juízo local declarado
competente, os efeitos da decisão devem se restringir ao território de sua jurisdição,
nos termos do artigo 93, I, do CDC.
Analiso.
Com efeito, o princípio da congruência impõe que a decisão
judicial se mantenha nos estritos limites da demanda, vedada a concessão de tutela
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fora do pedido formulado ou sem prévia oportunidade de manifestação das partes.
Este juízo respeitará, pois, os contornos da causa de pedir e dos pedidos, em
consonância com os arts. 141, 322, §1º e 492 do CPC.
Todavia, não procede a pretensão de limitar os efeitos da
decisão à jurisdição territorial da Vara de Redenção/PA. O Supremo Tribunal Federal,
no julgamento do Tema 1075 da repercussão geral, declarou a inconstitucionalidade da
limitação territorial prevista no art. 16 da Lei 7.347/85 (redação dada pela Lei 9.494/97),
restabelecendo a redação original do dispositivo. Consta naquela decisão:
Ementa: CONSTITUCIONAL E PROCESSO CIVIL.
INCONSTITUCIONALIDADE DO ART. 16 DA LEI 7.347/1985, COM A
REDAÇÃO DADA PELA LEI 9.494/1997. AÇÃO CIVIL PÚBLICA.
IMPOSSIBILIDADE DE RESTRIÇÃO DOS EFEITOS DA SENTENÇA AOS
LIMITES DA COMPETÊNCIA TERRITORIAL DO ÓRGÃO PROLATOR.
REPERCUSSÃO GERAL. RECURSOS EXTRAORDINÁRIOS DESPROVIDOS. 1.
A Constituição Federal de 1988 ampliou a proteção aos interesses
difusos e coletivos, não somente constitucionalizando-os, mas também
prevendo importantes instrumentos para garantir sua pela efetividade.
2. O sistema processual coletivo brasileiro, direcionado à pacificação
social no tocante a litígios meta individuais, atingiu status constitucional
em 1988, quando houve importante fortalecimento na defesa dos
interesses difusos e coletivos, decorrente de uma natural necessidade
de efetiva proteção a uma nova gama de direitos resultante do
reconhecimento dos denominados direitos humanos de terceira
geração ou dimensão, também conhecidos como direitos de
solidariedade ou fraternidade. 3. Necessidade de absoluto respeito e
observância aos princípios da igualdade, da eficiência, da segurança
jurídica e da efetiva tutela jurisdicional. 4. Inconstitucionalidade do
artigo 16 da LACP, com a redação da Lei 9.494/1997, cuja finalidade foi
ostensivamente restringir os efeitos condenatórios de demandas
coletivas, limitando o rol dos beneficiários da decisão por meio de um
critério territorial de competência, acarretando grave prejuízo ao
necessário tratamento isonômico de todos perante a Justiça, bem como
à total incidência do Princípio da Eficiência na prestação da atividade
jurisdicional. 5. RECURSOS EXTRAORDINÁRIOS DESPROVIDOS, com a
fixação da seguinte tese de repercussão geral: "I - É inconstitucional a
redação do art. 16 da Lei 7.347/1985, alterada pela Lei 9.494/1997,
sendo repristinada sua redação original. II - Em se tratando de ação civil
pública de efeitos nacionais ou regionais, a competência deve observar
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o art. 93, II, da Lei 8.078/1990 (Código de Defesa do Consumidor). III -
Ajuizadas múltiplas ações civis públicas de âmbito nacional ou regional
e fixada a competência nos termos do item II, firma-se a prevenção do
juízo que primeiro conheceu de uma delas, para o julgamento de todas
as demandas conexas". (STF, Plenário, RECURSO EXTRAORDINÁRIO
1.101.937 SÃO PAULO, Tema 1.075 de Repercussão Geral, Relator
Ministro ALEXANDRE DE MORAES, j. 8 de abril de 2021).
Ainda sobre o assunto, em seu voto, o Ministro Edson Fachin,
ressaltou: “deve-se afirmar que a limitação da coisa julgada, formada em processo de
natureza coletiva, especialmente nas ações civis públicas, ao âmbito territorial da
competência do órgão prolator da respectiva decisão, constitui-se em uma afronta ao
sistema constitucional brasileiro, atualmente vigente, e, por isso, viola os direitos
fundamentais ao devido processo legal coletivo, ao acesso à Justiça e à igualdade
material de direitos. A limitação imposta pelo legislador ordinário, no artigo 16 da Lei
7.347/1985, não obstante pudesse fazer sentido quanto à estrita competência
jurisdicional firmada para processos de natureza individual, não se compatibiliza com a
natureza dos direitos coletivos em sentido amplo, objeto das ações civis coletivas, seja
na perspectiva pública, seja na perspectiva privada.”
A Corte assentou que os efeitos da sentença em ações civis
públicas devem observar a extensão do pedido e a natureza dos interesses tutelados
(difusos, coletivos stricto sensu ou individuais homogêneos), não podendo ser
aprioristicamente restringidos a limites geográficos.
Ao apreciar litígios que envolvem direitos coletivos em sentido
amplo, o magistrado, em verdade, está julgando pretensões ligadas a direitos difusos
ou coletivos stricto sensu, os quais, pela sua própria natureza, não podem ser
restringidos ou fragmentados por limites territoriais ou por condicionantes externos
que lhes sejam alheios.
Nessa perspectiva, Márcio Mafra Leal adverte que a eficácia erga
omnes das decisões em demandas sobre interesses difusos decorre da própria
natureza indivisível desses direitos, não havendo necessidade de previsão normativa
específica para legitimar tal alcance, já que inexiste substituição processual de
indivíduos e a tutela coletiva, por si, projeta efeitos que se irradiam a toda a
coletividade (LEAL, Márcio Mafra. Ações Coletivas. São Paulo: RT, 2014, p. 205).
Assim, conforme já decidido por este Juízo ao rejeitar a exceção
de incompetência territorial, a competência da Vara do Trabalho de Redenção/PA
decorre do local do dano (Fazenda Vale do Rio Cristalino, em Santana do Araguaia/PA),
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mas a eficácia da decisão atingirá todos os titulares do direito lesado,
independentemente da circunscrição territorial deste órgão jurisdicional, nos termos
dos arts. 103 e 104 do CDC, da jurisprudência consolidada do TST e da tese firmada
pelo STF no Tema 1075.
Portanto, rejeito a limitação territorial pretendida, ressalvando
que os efeitos da decisão devem ser definidos pelos limites objetivos e subjetivos da
lide e pela natureza dos interesses tutelados, e não pela competência territorial deste
Juízo.
3. DOS JUROS E ATUALIZAÇÃO MONETÁRIA
Nos termos da decisão proferida pelo Supremo Tribunal Federal
na ADC 58, os critérios ali estabelecidos são aplicáveis até que sobrevenha alteração
legislativa.
A Lei nº 14.905/2024, aplicável a partir de 30/8/2024, alterou os
artigos 389 e 406 do CC, que regulam a matéria. Diante da alteração legislativa, foi
definida a utilização do IPCA como índice de atualização monetária quando inexistir
avença entre as partes sobre o índice e não existir previsão em legislação específica.
A superveniência da nova legislação afasta a aplicação dos
critérios definidos na ADC 58, a partir de 30/8/2024, sendo agora utilizável o IPCA com
índice de correção monetária, observando-se a Súmula 381 do TST acrescido dos juros
de 1% ao mês, sem cumulação, a partir de 30/8/2024, pro rata die, nos exatos termos
da Súmula 307 do TST.
Não há que se falar em aplicação dos juros desde o ajuizamento
da ação, uma vez que isso resultaria em cumulação de juros (anatocismo), haja vista
que a taxa Selic já traz embutidos os juros moratórios.
Contudo, nos termos da decisão do Supremo Tribunal Federal
na ADC 58, deve ser aplicado o IPCA-E acrescido de juros moratórios do art. 39, caput,
da lei nº 8.177/91 na fase pré-judicial e a partir do ajuizamento apenas a taxa Selic.
Assim, com a entrada em vigor da Lei nº 14.905/2024 passa a ser
aplicável a previsão nela contida, razão pela qual são mantidos os critérios da ADC 58
até 29/8/2024 e a partir de 30/8/2024 aplica-se o IPCA desde o vencimento da
obrigação na forma da Súmula 381 do TST e juros de mora correspondentes a SELIC -
IPCA, sem cumulação até a integral quitação do débito. Caso a taxa legal apresente
resultado negativo, este será considerado igual a 0 (zero) para efeito de cálculo dos
juros no período de referência.
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Assim, os cálculos de liquidação deverão observar os seguintes
parâmetros:
i) até o dia 29/8/2024, devem ser utilizados os critérios definidos
pelo Supremo Tribunal Federal na ADC 58, quais sejam, aplicação do IPCA-E mais juros
do art. 39, caput, da Lei nº 8.177/91 na fase pré-processual e apenas taxa Selic a partir
do ajuizamento até 29/8/2024; e
ii) a partir de 30/8/2024, aplica-se o IPCA desde o vencimento da
obrigação na forma da Súmula 381 do TST e juros correspondentes a SELIC - IPCA, sem
cumulação até a integral quitação do débito, desde que a taxa legal não esteja
negativa, hipóteses em que será considerada igual a zero.
Havendo pedido de indenização por dano moral deverá ser
observada a súmula n. 439 do TST.
4. DOS ENCARGOS PREVIDENCIÁRIOS E FISCAIS.
Considerando a natureza da condenação, não há incidência de
encargos previdenciários e/ou fiscais.
5. DAS CONDIÇÕES E PRAZO PARA O CUMPRIMENTO DA
SENTENÇA
Além das condições já estabelecidas para o cumprimento das
obrigações de fazer, com base no que dispõem os artigos 5º, inciso LXXVIII, da CF/88 e
art. 832, § 1º, e 652, “D”, ambos da CLT, estabeleço que, não havendo interposição de
qualquer recurso, a obrigação de pagar deverá ser cumprida após a notificação do
devedor.
Caso ocorra interposição de recurso, após transitada em julgado
a decisão, a dívida deverá ser atualizada, com posterior intimação da reclamada, por
meio de publicação oficial, para cumprimento da obrigação, no prazo legal.
Em caso de descumprimento do título executivo judicial, na
forma determinada nos parágrafos anteriores e com prévio encaminhamento dos
autos ao setor de cálculos para os fins de direito (arts. 765 e 832, §1º, da CLT),
promover-se-á imediatamente a penhora online do valor atualizado e acrescido das
sanções ora estipuladas, além da adoção dos demais atos executórios.
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Inclusão e exclusão no BNDT: aplica-se a presente decisão a
Resolução Administrativa nº. 1470/2011 do C. Tribunal Superior do Trabalho, a qual
deve ser observada pela Secretaria da Vara.
6. DA OBSERVÂNCIA DO ART. 489, §1º, IV DO CPC
Registro que em observância à previsão contida no art. 489, §1º,
IV do CPC, ficam rejeitados os demais argumentos aduzidos pelas partes, pois não são
minimamente capazes de infirmar ou alterar as conclusões adotadas por este juízo,
que teve seu livre convencimento motivado firmado por todos os fundamentos
expostos (art. 93, IX da CF/88), em estrita observância ao determinado no art. 371 do
CPC.
Diante disso, ficam as partes cientes que a interposição de
Embargos de Declaração sob a alegação de ofensa ao art. 489, §1º, IV do CPC será
considerada interposição de recurso meramente protelatório, com as consequências
processuais que lhe são próprias, a teor do art. 1.026, §§2º e 3º do CPC, sem prejuízo da
cumulação com a multa prevista no art. 81 do mesmo diploma legal, por incidência nas
previsões dos incisos IV e VII do art. 80 do CPC/2015, vez que a penalidade prevista no
art. 1.026, §2º é aplicada por ter havido interposição de recurso manifestamente
infundado, resultando em ofensa à dignidade do Tribunal e à função pública do
processo, enquanto que a penalidade prevista no art. 81 tem natureza reparatória, com
a finalidade de reparar os danos causados à parte recorrida, que fica privada da efetiva
prestação jurisdicional em virtude da atuação desleal do recorrente.
7. DISPOSITIVO
ANTE O EXPOSTO E TUDO MAIS QUE DOS AUTOS CONSTA,
DECIDO, NA AÇÃO CIVIL PÚBLICA PROPOSTA POR MINISTÉRIO PÚBLICO DO TRABALHO
EM FACE DE VOLKSWAGEN DO BRASIL INDÚSTRIA DE VEÍCULOS AUTOMOTORES LTDA
JULGAR PARCIALMENTE PROCEDENTES OS PEDIDOS PARA:
I – CONDENAR A RECLAMADA NA OBRIGAÇÃO DE PAGAR OS
VALORES APURADOS NO CÁLCULO DE LIQUIDAÇÃO EM ANEXO, QUE É PARTE
INTEGRANTE DESTA SENTENÇA, A TÍTULO DE INDENIZAÇÃO POR DANO MORAL
COLETIVO, NO VALOR DE R$ 165.000.000,00 (CENTO E SESSENTA E CINCO MILHÕES),
REVERTIDO AO FUNDO ESTADUAL DE PROMOÇÃO DO TRABALHO DIGNO E DE
ERRADICAÇÃO DO TRABALHO EM CONDIÇÕES ANÁLOGAS À DE ESCRAVO NO PARÁ
(FUNTRAD/PA).
II – CONDENAR A RECLAMADA NA OBRIGAÇÃO DE FAZER
CONSISTENTE:
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Fls.: 295
II.A - NA PROMOÇÃO DAS SEGUINTES MEDIDAS DE SATISFAÇÃO:
A.1) ASSUNÇÃO PÚBLICA DE RESPONSABILIDADE PELOS FATOS
RECONHECIDOS NESTA SENTENÇA E PEDIDO PÚBLICO DE DESCULPAS DIRIGIDO AOS
TRABALHADORES ATINGIDOS E À SOCIEDADE BRASILEIRA.
A.2) VEICULAÇÃO:
SITE INSTITUCIONAL (HOMEPAGE) E TODAS AS REDES SOCIAIS
OFICIAIS DA EMPRESA NO BRASIL, COM A PUBLICAÇÃO FIXADA POR 30 (TRINTA) DIAS
CORRIDOS;
IMPRENSA: PUBLICAÇÃO DA NOTA EM DOIS JORNAIS DE
GRANDE CIRCULAÇÃO NACIONAL, EM EDIÇÃO DE DOMINGO, POR 2 (DUAS) SEMANAS
CONSECUTIVAS;
RÁDIO E TV DE ABRANGÊNCIA NACIONAL: VEICULAÇÃO DE
INSERÇÕES DIÁRIAS POR 15 (QUINZE) DIAS.
A.3) CONTEÚDO MÍNIMO: RECONHECIMENTO DA OCORRÊNCIA
DAS VIOLAÇÕES NA FAZENDA VALE DO RIO CRISTALINO NO PERÍODO INDICADO NOS
AUTOS; PEDIDO DE DESCULPAS ÀS VÍTIMAS E À SOCIEDADE; COMPROMISSO PÚBLICO
COM A REPARAÇÃO E COM A TOLERÂNCIA ZERO A TRABALHO ESCRAVO/TRÁFICO DE
PESSOAS; INDICAÇÃO DE CANAL DE DENÚNCIA E DE MEDIDAS ESTRUTURAIS
ADOTADAS.
A.4) PROCEDIMENTO: MINUTA DO TEXTO E DO PLANO DE MÍDIA
DEVERÁ SER APRESENTADA AO JUÍZO E AO MPT EM 15 DIAS, PARA APROVAÇÃO EM 10
DIAS.
A.5) ASTREINTES: R$ 10.000,00 POR DIA DE ATRASO OU
DESCUMPRIMENTO DE CADA SUBITEM, AJUSTÁVEL PELO JUÍZO (CPC, ART. 537, §1º).
II.B - NA PROMOÇÃO DAS SEGUINTES GARANTIAS DE NÃO
REPETIÇÃO (DEVERES ESTRUTURAIS DE DILIGÊNCIA E PREVENÇÃO):
B.1) COMPROMISSO PÚBLICO: APROVAÇÃO E DIVULGAÇÃO DE
POLÍTICA DE DIREITOS HUMANOS E TRABALHO DECENTE APLICÁVEL A EMPREGADOS E
TODA A CADEIA DE FORNECEDORES, COM CLÁUSULA EXPRESSA DE “TOLERÂNCIA
ZERO” A TRABALHO ESCRAVO E TRÁFICO DE PESSOAS, EM 90 DIAS.
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B.2) CLÁUSULAS CONTRATUAIS: INCLUSÃO, EM TODOS OS
CONTRATOS COM TERCEIROS/FORNECEDORES, DE CLÁUSULAS DE: (I) VEDAÇÃO A
TRABALHO ANÁLOGO AO DE ESCRAVO; (II) ACESSO PARA AUDITORIAS; (III) RESCISÃO
POR VIOLAÇÃO; (IV) PLANOS DE REMEDIAÇÃO ÀS VÍTIMAS, EM 120 DIAS.
B.3) DUE DILIGENCE: IMPLEMENTAÇÃO DE PROCESSO DE
DILIGÊNCIA EM DIREITOS HUMANOS (MAPEAMENTO DE RISCOS, AUDITORIAS
INDEPENDENTES PERIÓDICAS E PLANO DE MITIGAÇÃO), COM PRIMEIRO CICLO
CONCLUÍDO EM 180 DIAS E RELATÓRIOS SEMESTRAIS POR 3 ANOS.
B.4) CANAL DE DENÚNCIAS: CRIAÇÃO/APERFEIÇOAMENTO DE
CANAL MULTIPLATAFORMA, ANÔNIMO E ACESSÍVEL (TELEFONE, WEB E PRESENCIAL),
COM SLA DE ATENDIMENTO, PROTEÇÃO CONTRA RETALIAÇÃO E DIVULGAÇÃO ATIVA
EM PONTOS DE CONTRATAÇÃO/PRODUÇÃO, EM 90 DIAS.
B.5) TREINAMENTO: PROGRAMA ANUAL OBRIGATÓRIO SOBRE
TRABALHO ESCRAVO E TRÁFICO DE PESSOAS PARA GESTORES, COMPRADORES E
EQUIPES DE CAMPO; PRIMEIRA RODADA EM 120 DIAS.
B.6) TRANSPARÊNCIA: PUBLICAÇÃO ANUAL DE RELATÓRIO DE
DIREITOS HUMANOS NO SITE INSTITUCIONAL, COM INDICADORES DE RISCO,
AUDITORIAS REALIZADAS, INCIDENTES E REMEDIAÇÕES (MANTER POR 3 ANOS).
B.7) ACOMPANHAMENTO: APRESENTAÇÃO AO JUÍZO E AO MPT
DE CRONOGRAMA DETALHADO EM 30 DIAS; RELATÓRIOS TRIMESTRAIS DE
IMPLEMENTAÇÃO POR 2 ANOS.
B.8) ASTREINTES: R$ 5.000,00 POR DIA DE ATRASO NO
CUMPRIMENTO DE CADA OBRIGAÇÃO ESTRUTURAL (ITENS B.1 A B.7), COM
POSSIBILIDADE DE MAJORAÇÃO PROGRESSIVA.
IMPROCEDENTES OS DEMAIS PEDIDOS POR FALTA DE AMPARO
LEGAL, NOS TERMOS DA FUNDAMENTAÇÃO.
PARCELAS LIMITADAS AOS VALORES PLEITEADOS NA PETIÇÃO
INICIAL.
TUDO COM JUROS E CORREÇÃO MONETÁRIA.
NÃO HÁ CONTRIBUIÇÕES PREVIDENCIÁRIAS E FISCAIS.
DEVERÁ A RECLAMADA OBSERVAR AS CONDIÇÕES E PRAZO
PARA CUMPRIMENTO DA SENTENÇA.
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Fls.: 297
CUSTAS PELA RECLAMADA NO IMPORTE DE R$ 32.629,64,
CALCULADAS SOBRE O VALOR DA CONDENAÇÃO E LIMITADA AO TETO PREVISTO NO
ART. 789, CAPUT DA CLT (4 X TETO DO RGPS - R$ 8.157,41, PREVISTO NA PORTARIA
INTERMINISTERIAL MPS/MF N° 6, ART. 2º)
FICAM AS PARTES CIENTES, POR MEIO DE SEUS PATRONOS, DO
TEOR DESTA SENTENÇA A PARTIR DE SUA PUBLICAÇÃO NO DJET. NADA MAIS.////
REDENCAO/PA, 29 de agosto de 2025.
OTAVIO BRUNO DA SILVA FERREIRA
Juiz do Trabalho Titular
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[Link]
Número do processo: 0001135-97.2024.5.08.0118
Número do documento: 25082914224312600000051380615