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Matéria - A Tarde

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P OLÍTICA

SALVADOR DOMINGO 10/3/2013

PARTIDOS A sigla que a ex-ministra Marina Silva procura legalizar levanta a bandeira da honestidade na política

Rede surge defendendo ética e ecologia

Se quiser disputar as eleições de 2014, a Rede Sustentabilidade, partido da ex-ministra do Meio Ambiente Marina Silva e candidata derrotada à Presidência da República, em 2010, pelo Partido Verde, terá que coletar 500 mil assinaturas até outubro deste ano em nove estados da Federação. É o pré-requisito básico para ser legalizado, segundo as regras atuais da legislação eleitoral. A Rede será o destino de vários políticos insatisfeitos com os rumos que a direção nacional do PV deu a essa legenda, principalmente sua aproximação em relação ao Palácio do Planalto. Mesmo antes da regularização, o futuro novo partido já começa a dividir opiniões em todo o Brasil: há quem vê nele certo oportunismo, outros uma nova proposta relacionada às questões ambientais. Hoje, A TARDE publica dois artigos, um do professor da Universidade Federal da Bahia Júlio César Sá da Rocha e outro do cientista político Camilo Aggio, que revelam parte desta polêmica. DA REDAÇÃO

Desafios atuais da Rede
Julio Cesar de Sá da Rocha
Professor Ufba
julior@ufba.br

A Rede, a corrupção e a política brasileira
nacional pautado na incorporação de amplos setores na cena política, contrapondo-se ao sistema vigente da democracia Schumpeteriana. Entende Schumpeter a democracia como um regime no qual o povo tem a oportunidade de aceitar ou recusar as pessoas designadas para governar –escolhidos mediante o maior apoio junto aos eleitores. Bom pontuar, como indica o italiano Antonio Negri, “as multidões” estão buscando novas formas de sociabilidade na pós-modernidade (ou modernidade tardia) e novas formas de participação, vide Ocupe Wall Street, Primavera Árabe e Fórum Social Mundial. De fato, se historicamente no passado o PCB teve participação relevante nas lutas históricas nacionais e se caracterizava como partido de quadros; o PT na atualidade configura-se como maior partido de massas da esquerda brasileira; a Rede pode se tornar um “partido de multidão”, de caráter difuso, “ampliando o presente para expandir o futuro” (Boaventura), sem deixar de mencionar que a nossa sociedade é “em rede” (Castells). Enfim, todas estas questões impõem reconceitualizar o conceito de democracia e a própria democracia, com a ampliação de espaços de atuação direta de cidadania. Por sua vez, avançar no entendimento de sustentabilidade para que tenha um caráter emancipatório e possa chegar às multidões, com políticas afirmativas aos povos e comunidades tradicionais, segmentos historicamente excluídos. O desafio esta posto, não para atender a dinâmica eleitoral de curto prazo ou a disputa por uma burocracia partidária, mas que venha a rede ampliar o presente para resgatar utopias e sonhos perdidos no tempo e que ofereça futuro.

No último dia 16 de fevereiro, em Brasília, estabeleceu-se as bases de um novo espaço da política nacional, capitaneado, dentre outros pela ex-senadora, ex-ministra do meio ambiente e candidata à presidência Marina Silva. Neste sentido, milhares de pessoas de diferentes origens deram passo decisivo para a proposta de criação da mais nova organização partidária brasileira: a Rede Sustentabilidade. De fato, foi etapa inicial para apoios na construção de um "partido novo", segundo seus idealizadores, contando com forte presença de participantes virtuais do movimento nova política. Mas, necessário pontuar que existem elementos que precisam ser percebidos como: por um lado, o incomodo de setores políticos tradicionais pelo surgimento de propostas diferenciadas: horizontalidade, limitação de tempo de mandatos parlamentares, candidaturas avulsas, conselho de acompanhamento formado por cidadãos, revisão estatutária com prazo estipulado, utilização intensa das mídias sociais etc. Por outro, observa-se o maior deslocamento nos últimos anos de setores da esquerda brasileira para elaboração de um projeto político: segmentos significativos do PT, PSOL, PV, PDT, PSB, dentre outros partidos e movimentos sociais estão a caminho de uma proposta de reconfiguração do cenário político nacional: um partido não par-

tido que baseia sua atuação na busca de consenso, que não quer necessariamente “oposição ou situação”, mas ter “posição”. Isto não significa que a agremiação não tem uma carga ideológica posta, a própria concepção da sustentabilidade oferece uma carga valorativa que orienta mudança no padrão do desenvolvimento. Não se trata como alguns querem a repetição da composição dos grupos que acompanharam a construção da campanha presidencial de Marina há quatro anos, mas a formação de um novo bloco histórico (na linguagem de Antonio Gramsci) e um projeto alternativo

Camilo Aggio
Doutorando em Poscom/Ufba

Não se trata da repetição da composição dos grupos que atuaram na construção da campanha presidencial de Marina

A Rede pode se tornar um “partido de multidão”, de caráter difuso, “ampliando o presente para expandir o futuro”

Com o novo partido de Marina Silva institucionaliza-se, enfim, o discurso político mais recorrente na sociedade brasileira: a corrupção, os benefícios e as regalias dos políticos eleitos são o grande mal que assola o país. A Rede, como é chamado o novo partido da ex-ministra do meio-ambiente do governo Lula, adota bandeiras caras ao trajeto político de Marina Silva, como o conceito de sustentabilidade aplicada à economia e uma gama de questões ambientais. Mas a Rede não é uma nova versão do PV, portanto, não é por conta da agenda ambiental que tornou-se tema tão recorrente do debate público nos últimos meses. Seu diferencial está, justamente, no entendimento de que será o antídoto para o que vem tirando a política do país do trilho do bem-estarsocial,daretidãoeda ética: nada de corruptos, de fichas sujas e às favas com os que querem tornar o exercício da representação pública um projeto pessoal de vida! Nada de 20 ou 32. 16 anos é o máximo de tempoqueummembrodopartido pode acumular no exercício de mandatos. No discurso público - esse que toma a forma não apenas da circulação de coberturas, ideias e juízos na imprensa, mas também, e principalmente, aquele que visita a comunicação ordinária e cotidiana de nós pobres mortais - parece haver uma grande convicção: acabando com a corrupção, cortando todos os benefícios que os representantes eleitos gozam nos âmbitos do executivo e legislativo e restringindo o número de vezes que os sujeitos podem se eleger, o problema político do país está resolvido. Algumas dessas reivindicações, inclusive, têm formas

bem definidas, como a idéia de remunerar um parlamentar de acordo com a renda de sua profissão de origem. Isso significa que o empresário receberia seu salário de empresário, a empregada de empregada, o pedreiro de pedreiro e, bom, me parece que o sem-terra ou o sem-teto desempregado, nada receberia. Na esteira dessa proposta, claro, vem também as restrições ou banimentos de auxílios a moradia, transporte, alimentação e etc. Excetuandoosexagerosedevaneios das propostas mais radicais, creio que as reivindicações procedem. Não procedessem, o Congresso não teria votadopelofimdos14e15salários - ainda que a medida respeite, essencialmente, um cálculo es-

Nada de 20 ou 32, 16 anos é o máximo de tempo que um membro do partido pode acumular no exercício de mandatos

Nada é mais legítimo do que criar mecanismos de combate à corrupção e conter a gastança dos políticos

tratégico para conter a hemorragia que torna a imagem pública do congresso cada vez mais anêmica. Qualquer um sabe o absurdo que são os benefícios que recebem os parlamentares brasileiros - para ficar só no âmbito dos parlamentos. Os congressistas brasileiros são o segundo mais caro do mundo. Também, pudera, até benefício paletó recebem. Uma afronta ao bom-senso e a razoabilidade num país que, em pleno século XXIaindalutaparaerradicarum problema medieval. Então volto à minha questão inicial: parece que a corrupção adentrou de uma forma no sistema político e na esfera da discussão pública que a política parece se resumir a seu combate. Isso sob o ponto de vista pragmático ou teórico, é completamente nocivo. Nada é mais legítimo do que criarmecanismosdecombateà corrupção e conter a gastança absurda de nossos representantes eleitos durante seus mandatos. Mas, parece que estamos trocando a parte pelo todo: Em que universo a política se tornará mais eficiente pelo simples fato de não haver mais corrupção ou de os representantesganharemumsalário mínimo sem benefícios? A resposta é tão básica que não creiosernecessáriogastarmais caracteres para responder. A Rede, de Marina, parece apostar nessa unilateralidade. Parece que, ao invés de expandir a mono-agenda ambiental, resolveu criar uma outra mono-agenda paralela. Ética e retidão, me parecem premissas fundamentais, mas é muito pouco para definir uma opção de representação política. Isso me faz lembrar dos candidatos que usam como única plataforma sua "honestidade" para convencer eleitores. Num país em que pressuposto vira diferencial, precisamos, mais do que nunca, de cautela e reflexão. É mais complicado, eu sei, mas não há melhor caminho.

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