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Uma visi­ta muito impor­tan­te

O

padre Lau­rent de Mau­bert aca­ba­ra de cear, quan­do, de manei­ra impre­vis­ta, mate­ria­li­zou-se à sua fren­te a figu­ ra de um homem. Pouco a pouco, a forma, a prin­cí­pio impre­ci­sa e algo diá­fa­na, tor­nou-se sóli­da, e o mestre conde de Saint-Ger­main, sor­ri­den­te ante o sur­pre­so padre, per­gun­tou com a voz suave e bem modu­la­da se podia sen­tar-se. O pre­la­do, muito embo­ra fosse dis­cí­pu­lo do mestre, sem­ pre se sur­preen­dia com essas súbi­tas apa­ri­ções; pro­cu­ran­do dis­far­çar ao máxi­mo o assom­bro, que não pas­sou des­per­ce­bi­do aos olhos do conde, cur­vou a cabe­ça em reve­ren­te cum­pri­men­ to e, jun­tan­do as pal­mas das mãos em fren­te ao peito, sau­dou em voz baixa: — Salve, mestre! Sua bên­ção! O conde colo­cou a mão direi­ta na cabe­ça do pre­la­do: — Paz em teu cora­ção, meu filho. Paz a todos os seres! O mestre tirou a com­pri­da capa, que ­cobria parte de seu corpo robus­to, colo­cou-a no braço da pol­tro­na e dando um de seus doces sor­ri­sos, os olhos banha­dos por suave luz, olhou de fren­te para seu dis­cí­pu­lo, ­depois sen­tou-se cal­ma­men­te, con­vi­ dan­do o outro a fazer o mesmo. — É abso­lu­ta­men­te neces­sá­rio que te acos­tu­mes a me cha­mar pelo meu títu­lo, quan­do esti­ver­mos com mais ­alguém, para que não trans­pa­re­ça minha ori­gem. — Per­dão, mestre! — o pre­la­do deu um sor­ri­so tími­do e reti­fi­cou: — Per­dão, conde! — Assim é ­melhor.

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hoje. no rei­na­do de Louis XVI. pela sua pure­za. em que podem usar esses cor­pos para os mais dife­ren­tes tra­ba­lhos. muito embo­ra o mestre tives­se lhe dito. que já o ser­via por lon­guís­si­mo tempo. des­preo­cu­pa­do em ten­tar com­preen­der as ati­tu­des de seu mes­tre. Roger. isen­tos de todos os dese­jos e emo­ções. outro gran­de mis­té­rio era o conde vir usan­do por mais de qua­tro­cen­tos anos o mesmo corpo. por diver­sas vezes. A nobre­za está dete­rio­ra­da em suas bases e o des­con­ten­ta­men­to é geral. meu ­senhor — o padre ado­tou uma pos­tu­ra humil­de. — Estou sen­tin­do no ar o refle­xo de uma tra­gé­dia que se apro­xi­ma. A Flor de Lys 21 . enor­me para nós. Ele e seu cria­do par­ti­cu­lar. o obe­de­cia incon­di­cio­nal­men­te.1 Não era ape­nas para o padre Lau­rent que um gran­de mis­té­rio cer­ca­va a figu­ra do conde. de onde viera e tam­pou­co sua enor­me for­tu­na. dei­xou de espe­cu­lar e. Sua apa­rên­cia sem­pre jovem intri­ga­va os mais afoi­tos. sem­pre foram alvo das mais cri­te­rio­sas inves­ti­ga­ções. não des­gas­tam seu corpo astral. nem que­ rer maio­res expli­ca­ções para fatos tão insig­ni­fi­can­tes. O final desta trama toda se avi­zi­nha rapi­da­men­te. que bus­ca­vam des­ven­dar tão intri­gan­te mis­té­rio. ­ Daí o tempo. e atual­men­te sua repen­ti­na apa­ri­ção. per­gun­tou: — Sabes per­fei­ta­men­te qual é a situa­ção atual? — Sei. Tal mis­té­rio o padre Lau­rent nunca enten­de­ra.A: Os mestres de Sabe­do­ria. sua intro­mis­são nos negó­cios do Esta­do no rei­na­do de Louis XV. O conde ajei­tou-se ­melhor na pol­tro­na e fitan­do seu dis­cí­ pu­lo. De con­cre­to. encar­na­dos. seu trân­si­to livre no palá­cio real. e seus repe­ti­dos coló­quios par­ti­cu­la­res com a rainha Maria Anto­nie­ta.Já ­haviam se pas­sa­do dez anos de con­vi­vên­cia entre mes­tre e dis­cí­pu­lo. Apa­re­cer e desa­pa­re­cer de um ambien­te fecha­do era um deles. — A rea­le­za perde a cada dia seu poder. 1 — N. ape­nas sua apa­ri­ção na corte do rei Louis XIV. às vezes apa­re­cen­do e desa­ pa­re­cen­do de forma inex­pli­cá­vel. e ­ depois de algu­mas inves­ti­ga­ções par­ti­cu­la­res. não che­gan­do a con­clu­são algu­ ma. e prin­ci­pal­men­te seus veí­cu­los infe­rio­res — corpo eté­ri­co e corpo denso. quan­do em corpo físi­co. que não deve­ria se preo­cu­par. e nes­ses lon­gos anos o padre Lau­rent ainda não havia se acos­tu­ma­do com­ple­ta­men­te com os modos mis­te­rio­sos do conde de Saint-Ger­main. sua inti­mi­da­de com o todo-pode­ro­so Car­deal Riche­lieu. sem nada encon­tra­rem de con­cre­to sobre a sua ori­gem.

pois inú­me­ras vezes te aler­tei sobre a pla­ni­fi­ca­ção que venho rea­li­zan­do há sécu­los. não é certo? — Exa­ta­men­te! Por esse moti­vo. ­senhor? — Sabes muito bem. — Estou aten­to e dis­pos­to a fazer o que for pre­ci­so. — Será que posso ser de algu­ma uti­li­da­de. Apro­xi­ma-se uma tre­men­da tem­pes­ta­de e tudo e todos irão ­sofrer as con­se­qüên­cias. per­dão. — Podes. ou ­melhor. sou um dos res­pon­sá­veis pelos acon­te­ci­men­tos que advi­rão. — E que deu mar­gem a inú­me­ras espe­cu­la­ções. — Sabia que podia con­tar com meu dis­cí­pu­lo. o ­senhor conde. ­senhor? — tor­ nou Lau­rent a insis­tir. e mais: tudo já foi pla­ni­fi­ca­do e ela­bo­ra­do pelos Diri­gen­tes do pla­ne­ta. ­jamais a minha! — Ótimo — disse o conde —. o que orde­nais? O conde sor­riu. — E o que pode­mos fazer. é claro. um sor­ri­so doce e ao mesmo tempo tris­te. — Ótimo! — repe­tiu o mestre. meu filho — o mestre ado­tou uma pos­tu­ra pater­nal cari­nho­sa —.— Acre­di­tas que estás pre­pa­ra­do para aqui­lo que terá que ser feito? — Que seja feita a vossa von­ta­de. meu filho. — Virão tem­pos ter­rí­veis e deve­mos estar pre­pa­ra­dos para enfren­tá-los. deter­mi­nar. pois o que vou rela­tar é de suma impor­tân­cia. ou quase nada para evi­tar o pior. — E o padre escu­ta­va aten­ta­men­te. meu filho. disso tenho cer­te­za. tive que ado­tar cer­tas pos­tu­ras e ati­tu­des que des­nor­tea­ram até ­alguns ami­gos mais ínti­mos. — Meu filho — come­çou —. — Nada. vou expli­car por alto uma parte do plano. — Como assim. com tudo aqui­lo que irá acon­te­cer e que venho pla­ne­jan­do há algum tempo. O conde fez ligei­ra pausa. de forma indi­re­ta. — Como já dis­ses­tes que nada há para ser feito. e seu olhar pene­tran­te fitou o 22 Roger Feraudy . vamos aos fatos! Estou aqui em Paris para que possa cola­bo­rar. o que pode ser feito? — insis­tiu o padre. — Só espe­ro poder cum­prir a con­ten­to tudo que meu mestre. — E o que dese­jais que eu faça? — Pres­ta bas­tan­te aten­ção.

e con­ti­nuou sua expla­na­ção: — Como dizia. não é exato? — ata­ lhou Lau­rent de forma tími­da.A: Cris­tian Rosen­kreutz foi uma das encar­na­ções do conde. cria­da para modi­fi­car con­cei­tos anti­gos e levan­tar uma peque­na parte do véu ocul­to.A: Sa-Hor.2 Os seres que encar­na­ram na época dessa migra­ção e vive­ram nessa colô­nia atlan­te. época das Cru­za­das. fez uma de suas migra­ções para as cos­tas do Barat­zil. bem como a Ordem Rosa­cruz. — A época que se apro­xi­ma. na Sexta Sub-raça. porém. e terão um papel impor­tan­tís­si­mo no futu­ro.000 anos. é um perío­do gêmeo. outra vez na Terra da Cruz de Estre­las. que a His­tó­ria deno­mi­na­rá de Época do Ter­ror. ­depois de inú­me­ras encar­na­ções. Edi­to­ra do Conhe­ci­men­to. agora. fun­da­dor dessa cida­de eté­ri­ca. reu­ni­ram-se. da época em que o povo atlan­te. o últi­mo 40. que pos­ sui estrei­ta rela­ção com um dos cha­cras pla­ne­tá­rios. um mestre atlan­te. A Ordem dos Tem­plá­rios é um exem­ plo dessa refor­ma. 4 — N. ­senhor — disse o pre­la­do.4 — Não vamos agora divul­gar meus peque­nos segre­dos — res­pon­deu o conde. não deu o resul­ta­do que espe­rá­va­mos. pre­ci­sa­men­te no Pla­nal­to Cen­tral do Bra­sil. Houve outra época gêmea.padre Lau­rent. — Seria ino­por­tu­no per­gun­tar que época gêmea foi essa? — Por volta do sécu­lo XII. 2 — Vide obra do mesmo autor A Terra das Ara­ras Ver­me­lhas. exis­tem tam­bém as épo­cas ­gêmeas. com exal­ta­ção da nobre­za da cava­la­ria. 3 — N. Será ali. apro­vei­tan­do peque­na pausa feita pelo conde. — Ordem Rosa­cruz que vós crias­tes. a Sexta Sub-raça atlan­te. entre sério e diver­ti­do. na Fran­ça. ou ­ melhor. — Não enten­do. hoje chamado Bra­sil. — Assim como exis­tem as almas ­gêmeas. Aus­tral-Ame­ri­ca­na. ­ depois da ver­ti­ca­li­za­ção do eixo ter­rá­queo. no Pla­nal­to Cen­tral do Bra­sil irá nas­cer. por inú­me­ras ­razões que não impor­tam agora.3 comu­ni­da­de esta que será germe e mode­lo de ­ outras comu­ni­da­des que irão subs­ti­tuir as for­mas de gover­no ­atuais. ou aca­dia­na. embo­ra possa não pare­cer. há cerca de A Flor de Lys 23 . que pla­ne­ja­mos o nas­ci­men­to da pri­mei­ra comu­ni­ da­de em estrei­ta cor­re­la­ção com a cida­de eté­ri­ca diri­gi­da pelo Grão-Sacer­do­te Sa-Hor. ten­ta­mos implan­tar uma nova fór­mu­la de moral reli­gio­sa. onde é nar­ra­da essa migra­ção e a his­tó­ria desse povo.

mas sim garan­tir que os egos esco­lhi­dos para esse tra­ba­ lho futu­ro pos­sam ter. mas com nosso auxí­lio. ante­ci­pa­da. É essa a pre­ser­va­ção de que te falo. Foi o padre Lau­rent quem que­brou o silên­cio: — Pode­ríeis dar-me maio­res deta­lhes? — No momen­to certo. com­bi­na­das às do local deter­mi­na­do. pro­pi­ciar as vibra­ções neces­sá­rias que. Por­tan­to. mui­tas mor­tes. Pre­ser­va­ção espi­ri­tual e elei­ção. meu filho. Evi­tar que a morte súbi­ta. ­alguns seres. mudan­ça de sub-raça. Mas quan­do falo em pre­ser­var. Pre­ser­ var o bom carma que cada um deles irá alcan­çar nesta vida. ficou olhan­do para o dis­cí­pu­lo. Esses ­nobres serão caça­dos. impe­din­do que todo o carma daque­les esco­lhi­dos para tra­ba­lhos futu­ros se con­cre­ti­ze. pois eles serão como que aju­dan­tes de ­ordens daque­les que dete­rão os des­ti­ nos dessa comu­ni­da­de. nesta vida. o que seria absur­do. refi­rome ao que fare­mos no sen­ti­do de trans­for­mar mau carma em bom carma. Have­rá muita dor e sofri­ men­to. neste país. revol­ta­do com tan­tos pri­vi­lé­gios. bem como fica­rás saben­ do o nome das pes­soas que que­re­mos pre­ser­var. todas as opor­tu­ni­da­des para cres­cer espi­ri­tual­men­te e atin­gir um esta­do pro­pí­cio ao que têm a rea­li­zar. Estou sepa­ran­do o joio do trigo. nessa encar­na­ção futu­ra. Esses esco­lhi­dos pre­ci­sam ter. um desen­car­ne natu­ral. De acor­do com seus car­mas. possa rom­per o ciclo nor­mal da vida. para poder. sim. nesta vida atual. encar­nam para dar um impul­so evo­lu­ti­vo em toda a sub-raça.5 que virão pre­pa­rar vibra­to­ria­men­te a vinda de um novo Ava­tar. é neces­sá­ rio que eles ­tenham esgo­ta­do todas as vibra­ções nega­ti­vas de vidas pas­sa­das. O povo. pos­sam criar um campo mag­né­ti­co vibra­cio­nal ade­qua­do aos nos­sos pro­pó­si­tos. uni­dos às suas almas ­gêmeas.dos Seten­ta Ser­vi­do­res. impie­do­sa­men­te. O mestre calou-se e. Evi­den­te­men­te não falo em pre­ser­va­ção à morte físi­ca. e mor­tos atra­vés de um ins­tru­men­to que será inven­ta­do para esse fim. a todo final de ciclo. elei­ção para exe­cu­tar um tra­ba­lho já pla­ne­ja­do há sécu­los. se suble­va­rá e irá des­tro­nar o rei e toda a nobre­za. eu os darei. 24 Roger Feraudy . apro­vei­tan­do e exal­tan­do o que exis­te 5 — Os Seten­ta Ser­vi­do­res são egos de adian­ta­da evo­lu­ção que. aten­to. devem ser pre­ser­va­dos. não por pro­te­cio­nis­mo. e isso é abso­lu­ta­men­te neces­sá­rio. — O ­senhor diz pre­ser­var? Será então que have­rá mui­tas mor­tes? Ou ainda guer­ras de exter­mí­nio? — Have­rá. Um tra­ba­lho lento.

Vosso dese­jo é meu dese­jo. vossa von­ta­de. A Flor de Lys 25 . o padre Lau­rent Mau­bert ajoe­lhou-se em fren­te a seu mes­tre. de gran­de impor­tân­cia. Entre todas essas pre­ ser­va­ções que citei. deve­rei agir dire­ta­men­te ou. ser­vin­do aos nos­sos inte­res­ses. — Curvo-me ante vossa inco­men­su­rá­vel sabe­do­ria e entre­ go-me total­men­te à vossa sobe­ra­na von­ta­de. de forma geral. Dito isto. mestre. Tão mis­te­rio­sa­men­te como havia apa­re­ci­do. a minha von­ta­de. como sem­pre. de forma indi­ re­ta. — Só uma per­gun­ta. das mor­tes e car­ni­fi­ci­nas. meu filho. Só posso te adian­tar que como meu dis­cí­pu­ lo esco­lhi­do. da medo­nha con­fu­são. — Como disse.de ­melhor em cada um daque­les que foram esco­lhi­dos para o tra­ba­lho do ter­cei­ro milê­nio. — Pois faz. No momen­to. terás um impor­tan­te papel em todo o desen­ro­lar dos acon­te­ci­men­tos. — Creio que posso com­preen­der agora o que deve­rá ser feito — disse Lau­rent. é o sufi­cien­te e o que posso te reve­lar. com­pe­ne­tra­do. — Muito bem. será tira­da uma lição que ser­vi­rá aos pro­pó­si­tos dos Diri­gen­tes do Pla­ne­ta. o aben­çoou. ele será muito impor­tan­te na Ingla­ter­ra. meu filho — e um bri­lho diver­ti­do pas­sou pelos olhos do conde. Quero que cui­des o ­melhor que pos­sas desse peque­ni­no ser. Nada de deta­lhes. não inter­vin­do nos des­ti­nos cár­mi­cos? — Como já disse. No futu­ro pró­xi­mo. Quero que agora pre­vi­ nas teus dois dis­cí­pu­los e con­tes muito por alto o que te reve­lei. sabe­rás no momen­to exato todo o pla­ne­ja­ men­to e con­se­cu­ção de nosso tra­ba­lho. exis­ti­rá uma par­ti­cu­lar. Do pró­prio caos que se segui­rá. no momen­to exato sabe­rás de todos os deta­lhes. o conde de Saint-Ger­main desa­pa­re­ceu como por encan­to. que colo­can­do a mão direi­ta em sua cabe­ça. — Assim o farei. irá nas­cer uma crian­ ça que te será entre­gue. meu filho. — Quan­do de posse dos deta­lhes e do nome dos per­so­na­ gens.

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