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Entrevista_Lia Diskin_Duas Práticas

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Entrevista: Lia Diskin

“O nirvana não é minha aspiração, quero apenas continuar o que estou fazendo”
A professora Lia Diskin conta sua trajetória desde os tempos de estudante, quando tinha Jorge Luis Borges como professor; e reflete sobre os dias de hoje, neste mundo em que ficou mais difícil meditar

André Gravatá
Foto retirada da internet

"Nós, ocidentais, colocamos muitas comportas entre as coisas, por uma necessidade de compreensão do que é essa dinâmica tão incessante do viver. Então fazemos repartições cognitivas – criamos disciplinas. E instâncias de tempo – passado, presente, futuro. Simplesmente criamos tudo isso para digerir essa voragem tão estonteante que é a vida."

A voz da professora Lia Diskin é impregnada de serenidade e sotaque espanhol. Nasceu na Argentina e se formou em jornalismo, com especialização em crítica literária, pelo Instituto Superior de Periodismo José Hernandez, em Buenos Aires. No seu escritório, em São Paulo, na Associação Palas Athena, fundada por ela e amigos, Diskin tem uma biblioteca com títulos que vão de Edgar Morin a Dalai Lama. Suas contribuições intelectuais já foram reconhecidas internacionalmente, tanto que recebeu medalha da Associação Cultural Internacional Gibran (Acigi) por “acrescentar ao progresso do Ocidente a Sabedoria do Oriente”. E suas contribuições para um mundo mais equilibrado são rotineiramente reconhecidas pelos vários alunos que frequentam os cursos da Palas Athena ou a ouvem em palestras. Diskin também é Coordenadora do Comitê Paulista para a Década de Paz – um programa da Unesco – e exaluna de Jorge Luis Borges. Em entrevista, conta como é viver em busca de uma maior clareza na mente. Como surgiu seu interesse por filosofias orientais?

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entre nuvens. onde está o sal? Está embaixo? Está em cima? Você pode localizar?” O sal na água é como o sentido último das coisas. Então fala: “mexa o conteúdo do copo com uma colher. Em Borges há muito fortemente um processo de busca entre espelhos. depois de terminar a universidade.Quando eu estava no meio do curso universitário. em Uttar Pradesh. ou ia para a luta armada. você não pode localizá-lo. O sentido último da vida está presente em todas as coisas. Um jornalista recria informações. E instâncias de tempo – passado. colocamos muitas comportas entre as coisas. ainda havia o regime militar. Não acreditava no poder transformador dos hippies no campo social. um jovem que quer saber qual o sentido final da existência e onde esse sentido se encontra. Qual era o foco dos seus estudos? 2 . pois ela era armada e nunca concordei com a ideia de mecanismos violentos como ferramentas de transformação. Essas escrituras também são conhecidas como os Himalaias da alma. no início da década de 70. Essa coisa assim tão vertiginosa que é a vida. o paradoxal é quase um congelador do pensamento. Obviamente. na Argentina. nenhum tipo de entendimento. Também não via a luta armada como uma alternativa. Então nós fazemos repartições cognitivas – criamos disciplinas. orientais. Então fui estudar no Oriente. filosófica e meditativa. veja. ocidentais. Imagine como isso era. porque. de fato. sempre recuam. Você vai ter que. Há histórias como a de Svetaketu. mas obviamente promotores de reflexão. O oriental se sente incentivado com o paradoxo. a vida não é algo tão definido. Você reconhece o sal. Simplesmente criamos tudo isso para digerir essa voragem tão estonteante que é a vida. Para nós. São textos muito simples. ainda muito jovem. Assim como Borges. Ele se sente convidar a avançar sobre o paradoxo. futuro. Fui estudar as Upanixades. por uma necessidade de compreensão do que é essa dinâmica tão incessante do viver. e um jornalista não é apenas um copiador de informações. Na época. Agora. Toda a literatura de Borges trabalha com essas nuances nas quais as fronteiras jamais são rígidas. Nenhuma delas fazia sentido para mim. jamais são palpáveis. ou uma sopa de feijão. Nós. O que quer uma jovem que estava ingressando na vida profissional. entre coisas cujos contornos não estão muito bem definidos. numa atividade que tem a criatividade e a liberdade como bases? Estava me formando em jornalismo. dá significado para elas. de fácil compreensão. aos 23 anos. presente. O pai de Svetaketu pede que ele coloque sal dentro de um copo de água. que são textos de ordem introspectiva. E grande parte dessa decisão foi inspirada. O fato nu e cru simplesmente não consegue criar nenhum tipo de relevância. Qual é a relação das reflexões de Borges com o pensamento oriental? Há muitas. o pensamento oriental trabalha o paradoxo com muita facilidade. contextualiza fatos. não interessa em que conteúdo. de alguma maneira. Tinha Ernesto Sabato e Borges como professores de crítica literária. por Jorge Luis Borges – estudei crítica literária com Borges. no norte da Índia. só tinha duas alternativas: ou me engajava em movimentos hippies. Quando a senhora fez sua primeira viagem para a Índia? Em 1974. quase que incentivada. que pinçam conceitos dos Vedas [escritos sagrados do hinduísmo]. na época não existia possibilidade nenhuma de vislumbrar caminhos e horizontes promissores. cultivar uma qualidade que permita reconhecer esse sentido último das coisas diluído em todas as coisas – da mesma maneira que a língua consegue distinguir algo salgado independentemente de você estar comendo uma bolacha. Como foram as aulas com Borges? Lamento ter estudado com ele numa época em que era tão jovem e ainda não dava sentido nem significado a nada.

perto do Himalaia. Por mais admiração que eu tenha por alguém. e quando a gente fala de meditação. você pode encontrar diversidade e os extremos maiores – os extremos ascetismos e as extremas abordagens devassas. Interagimos constantemente. olhando. Meditar não é narcotizar a mente ou entrar numa dimensão que não seja factível e acessível a todos os seres humanos. não está fora de nós. A senhora começou a meditar já na primeira vez que foi para a Índia? Sim. você sempre está mediado pelo pensamento. Consequentemente. Aí começamos uma relação que dura até hoje. mas também das fontes filosóficas que se deram na Índia. de maneira que você não fica perturbado pelo pensamento. construindo uns aos outros. O meio nos molda. Uma pluralidade de grupos étnicos. por um sistema de ideias de um filósofo determinado. Continuamente. Todo mundo estava prostrado e eu continuava em pé. Em 1992. a diversidade deixa de ser apenas tolerada. A capacidade da Índia de conviver com a pluralidade me fascina. Uma pluralidade de divindades. ou Cristo. não necessariamente há isso. é formada por cartografias de aproximação da realidade. elas começaram em 1986. fiquei parada. Há uma pluralidade de línguas – são 16 oficiais. aí você já não está criando um espaço de liberdade para poder gerir e gerar seus pensamentos. Naquela época. o que mudou na sua vida? Houve um aumento na capacidade de me compreender. crenças e costumes. autoconstruindo.Dediquei-me não apenas ao estudo do Budismo. prostrar-se não é meu primeiro movimento. para mim. Na meditação. Você se confronta diretamente 3 . Quando o conheci. Nessa época. não sabia o que fazer. Nela. nós mudamos o meio. quando fui para Dharamshala. Há uma compreensão muito ampla da diversidade de caminhos a trilhar. depois mais outros seis. Nesse tipo. O cenário. Ele viu meu estado de constrangimento e começou a rir. Falou: “fica tranquila. como na cognitiva. por exemplo. é preciso desmistificar um pouco toda essa imagem que foi criada sobre essa prática. a senhora já tinha aulas com o Dalai Lama? Não. não era uma figura tão conhecida e emblemática no mundo todo. de compreender os seres humanos e o cenário onde estamos. mas minimamente você tem autonomia interna para geri-los e orientá-los numa direção. e vira algo que é promovido. Desde que a senhora começou a meditar. éramos quatro ocidentais vivendo por longos períodos. Em frente a ele. ele tomou conhecimento que eu estava regressando e me chamou. trouxe-o para a América do Sul pela primeira vez. Quando estava me preparando para voltar ao Brasil. A meditação me deu um espaço de compreensão que não tinha alcançado por meio de outras vias. Na Índia. estamos construindo. Adquirir a competência de conviver com a diversidade é muito fascinante – assim. Meditar é adquirir uma estabilidade na mente. do estudo. Em Dharamshala. nosso encontro foi extremamente divertido. mas a todos os ocidentais. porque as pessoas percebem que com a diversidade elas enriquecem seus repertórios. Logicamente. não se preocupe”. mas formando um estado de amorosidade no qual você procura de algum modo se aproximar ou se unir com aquilo que você chama de Buda. Essa não é minha maneira de ser. há muitas modalidades de meditação que permitem acessos diferenciados. que é outra modalidade de meditação. Primeiro passei seis meses. logicamente. há um objeto de adoração. costumam se prostrar perante ele. da diversidade de maneiras de se aproximar da realidade. Ele não ministrava as aulas apenas para mim. coisa que sempre me maravilhou pelo fato da Índia jamais ter condenado ninguém a tomar cicuta (como aconteceu com Sócrates) pelas ideias que tinha. seja o que for. A não ser que você faça uma meditação de cunho devocional. Comecei a rir de nervoso. depois mais três. A filosofia. As pessoas. As duas coisas existem – e ninguém é condenado pelas suas ideias. Sua Santidade ainda não tinha ganhado o Nobel da Paz.

hoje em dia é mais difícil meditar? O excesso de ofertas do mundo é um dificultador para a meditação. Quanto mais jovem. mas nós temos dificuldades em entender isso. Infelizmente. um estado de libertação total do sofrimento]. mas isso não tem nada a ver com a realidade. Minha aspiração é continuar o que já estou fazendo. mas não tenho a menor ideia do que seja o nirvana [no Budismo. Um pianista. ficou muito gravado em nós o martírio medieval. de tempos em tempos. com tantos estímulos a toda hora. Voltar-se para o mundo interior é um caminho tortuoso ou é mais fácil do que parece? É incrível. oito horas de pesquisa por dia. Quais são esses efeitos? As pessoas adquirem mais estabilidade física. Isso não é sequer a minha aspiração. Além da mente. problemas cardíacos e digestivos. Há pesquisadores que investem o dia inteiro no estudo de uma única partícula. sete. tem que dedicar energia. a gente aceita isso numa boa. Explico: se você quer ser um cientista. seu objetivo sempre foi uma maior clareza na mente? O que me interessa é a liberdade de pensamento. Isso requer uma disciplina. Realmente sinto uma imensa satisfação em fazer o que estou fazendo: trabalhar com grupos sociais. um maior equilíbrio no ritmo biológico. nem por riquezas. Quem medita é fundamentalmente uma pessoa feliz. Tive experiências de enlevo. Mentiria para você se dissesse que minha aspiração é o nirvana. quando não mais. mais natural é o deslumbramento com a quantidade de estímulos oferecidos. um envolvimento e uma dedicação que não é a minha. desmistificar todo o caminho. Mas penso que justamente por essa razão temos que ser mais inteligentes e.com a experiência da sua realidade. Há muitos trabalhos de pesquisa hoje em dia que apontam efeitos da meditação em estados de ruptura de equilíbrio do corpo – como depressão. tem que passar horas e horas do seu dia para chegar a ser um virtuoso. Não é. em qualquer área. da abdicação da vida. 4 . E não é nada disso. Mas no caminho da meditação e da vida espiritual há a imagem de que é um processo maçante. na maneira como você enxerga. sofrido. por exemplo. No mundo da ciência. o nirvana é uma experiência de transcendência do mundo físico. com grupos de jovens. a meditação também afeta o corpo. não pode ser estendida para todos. colocar todas essas ideias à disposição. A senhora acha que. das artes e letras. Nessa busca por experiências meditativas. Que às vezes se dedica anos a fio numa pesquisa. fazer uma limpeza nas nossas cabeças e estruturas emocionais assim como limpamos periodicamente nossos computadores. não está fazendo isso para ninguém. E ninguém se horroriza com essa situação. Mas alguém que se volta a questões meditativas e investe várias horas por dia para exercitar uma maior familiaridade com os sistemas mentais já provoca quase um horror nas pessoas. da realidade que você enxerga. as doenças se tornam menos frequentes. você vai ter que dedicar seis.

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