Andrea D’Atri

Pão e Rosas
Paoeroaao Pae
Andrea D’Atri
Pão e Rosas
identidade de gênero e antagonismo
de classe no capitalismo
R
L U Z
EDIÇÕES ISKRA
S
Gênero
Paoeroaao Pae
Copyright desta edição©Edições Iskra, 2008
Título original: Pan y Rosas. Pertenencia de género
y antagonismo de clase en el capitalismo
Diretor editorial Luis Siebel
Coordenação editorial Simone Ishibashi
Equipe de tradução Miriam Rouco, Marina Fuser, Fernanda Figueira
Revisão de tradução Guillerme Salgado Rocha, Luciana Machado
Diagramação Liliana Ogando Calo
Capa Ana Tossato
Todos os direitos reservados. Nenhuma parte deste livro pode ser
utilizada ou reproduzida sem a expressa autorização da editora.
1
a
edição: março de 2008
EDIÇÕES ISKRA
Praça Américo Jacomino, 49
05437-010
Vila Madalena, São Paulo-SP
Tel.: (11) 3673-0531
Paoeroaao Pae
Prefácio à edição em português
Agradecimentos
Introdução
1. Revoltas e direitos civis
2. Burguesas e proletárias
3. Entre a filantropia e a revolução
4. Imperialismo, guerra e gênero
5. As mulheres no primeiro Estado operário
da História
6. Entre Vietnã e Paris, os corpetes à fogueira
7. Diferença de mulher, diferenças de mulheres
8. Pós-Modernidade, Pós-Marxismo,
Pós-Modernismo e Pós-Feminismo
A modo de conclusão
Documentos Anexos
Bibliografia
9
13
17
31
43
57
69
87
103
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163
193
Sumário
Paoeroaao Pae
À Ana Maria Layño, minha mãe,
por ter me dado a liberdade
de ser uma mulher distinta dela e diferente,
também, da mulher que ela queria que eu fosse
Paoeroaao Pae
Paoeroaao Pae
Prefácio
à edição em português
As mulheres chegaram ao poder? Pela primeira vez na
história — quando publicamos a edição em português do Pão e
Rosas — se conjectura que uma mulher possa ser a próxima
presidente dos Estados Unidos da América. Recentemente, na
Argentina, Cristina Fernández de Kirchner foi eleita presi-
dente. O Chile é governado por uma mulher, bem como a
Alemanha, e o mesmo acontece em países tão remotos como a
Libéria. O destino de milhares de iraquianos é decidido por
uma mulher tão poderosa como Condoleeza Rice, e outras
mulheres não só ocupamos ministérios da Saúde e Ação Social,
como também os de Economia ou de Segurança em distintos
governos.
Mas enquanto o mundo assiste a esse acontecimento e os
meios de comunicação prognosticamque se inaugura o “século
das mulheres”, a vida de milhões de seres humanos, majorita-
riamente mulheres e meninas, transcorre entre as piores
humilhações que se pode imaginar. Aumenta o trabalho precário
das mulheres, chegando em alguns casos à escravidão; o
negócio da prostituição e o tratamento dado às mulheres e
meninas não deixamde crescer, amparados por redes mafiosas
que envolvem funcionários, forças repressivas e o Estado. A
Paoeroaao Pae
violência sexista encontrou, inclusive, novas denominações,
como a do femicídio, coma qual se tenta descrever o horror dos
crimes contra as mulheres, os quais são antecedidos por tor-
turas e violações sexuais, seguidos por impunidade e silêncio.
As mulheres terem chegado ao poder não possibilitou que
isso deixasse de ocorrer, mostrando uma vez mais — como se
fizesse falta — que o problema não é só uma questão de gênero.
A barbárie que ameaça milhões de seres humanos, mas
particularmente as mulheres e crianças, é também o resultado
da combinação do patriarcado ancestral com a selvageria
imposta pelo mais moderno sistema capitalista.
Esse sistema econômico funciona, melhor ainda, sob a
envoltura dos regimes democráticos, que apenas recentemente
dão passos na participação das mulheres nos parlamentos,
ministérios, tribunais, exércitos e, inclusive, nos mais altos
cargos do poder executivo. Para milhões de mulheres, entre-
tanto, a igualdade nos marcos deste sistema capitalista se
apresenta como uma utopia inalcançável. Igualdade comquem?
Não há igualdade sequer com o companheiro que, ao nosso
lado, sofre também a exploração imposta pela minoria de
proprietários dos meios de produção. Jamais se alcançará a
igualdade com essa minoria que vive na abundância enquanto
existir a propriedade privada, dividindo a sociedade em uns
poucos que têm tudo e uma imensa maioria que só possui a
força de seus braços para se manter na vida.
Hoje, duas classes se enfrentam para definir o futuro da
humanidade: a burguesia imperialista e o proletariado. Como
afirmou a revolucionária Rosa Luxemburgo, diante dessa
situação só se pode esperar “socialismo ou barbárie”. Mas para
construir o socialismo a classe trabalhadora não só necessita de
toda a sua força, toda a sua resolução, toda a sua audácia, como
também se desfazer das ficções com que a classe dominante
encadeia seu pensamento para mantê-la domesticada. Entre as
ficções das quais é necessário que a classe operária se liberte, se
encontram os preconceitos sexistas que mantêm a submissão,
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Paoeroaao Pae
a humilhação e os maus-tratos às mulheres, embrutecendo
também os homens explorados que legitimam, justificam e
reproduzemtais costumes.
Esperamos que agora, quando se acabam de cumprir os 90
anos da Revolução Russa, e este trabalho é publicado em sua
versão em português, as reflexões aqui plasmadas sejam um
pequeno incentivo que anime as novas gerações a se incorporar
à luta consciente por um mundo liberado das cadeias que hoje
pesam, duplamente, sobre as costas de milhões de mulheres.
Andrea D’Atri
Buenos Aires, fevereiro de 2008
PRE F ÁCI O 11
Paoeroaao Pae
Paoeroaao Pae
Agradecimentos
Este pequeno ensaio é produto de um grande esforço
pessoal, já que foi escrito em horas de descanso, após a minha
jornada de trabalho e de minha atividade como militante
revolucionária. Por isso, gostaria de ressaltar que não seria
possível terminá-lo sem a colaboração, compreensão, compa-
nhia e o estímulo de outras mulheres às quais gostaria de
agradecer em especial.
A primeira que merece o meu reconhecimento é Celeste
Murillo, que com os seus conhecimentos de História e do
idioma inglês aportou com informações fundamentais para
escrever algumas destas páginas. Os resultados de sua
pesquisa bibliográfica, realizada com entusiasmo e espírito de
colaboração, se refletem especialmente nas elaborações sobre
a primeira onda do feminismo e as lutas operárias do início do
século XX.
No entanto, sua colaboração não foi somente técnica. No
último ano, compartilhamos cotidianamente as reflexões, os
contratempos e os êxitos de colocar em pé a agrupação de
mulheres Pão e Rosas, na qual reunimos estudantes, trabalha-
doras, profissionais, ativistas e militantes revolucionárias. Esta
Paoeroaao Pae
tarefa, que ambas impulsionamos com otimismo, gerou entre
nós não somente um amável trato de camaradagem, mas
também uma profunda amizade.
Outras companheiras de militância, como Andrea Robles e
Paula Bach, realizaram leituras críticas dos primeiros
rascunhos que me ajudaram a repensar algumas questões
particulares e aprofundar alguns aspectos. Inclusive, estas
páginas devem um reconhecimento às conversas informais, às
sérias elaborações programáticas e às muitas horas de dis-
cussões acaloradas que com um grupo de mulheres do Partido
de Trabajadores por el Socialismo (PTS) empreendemos há
vários anos. Além das companheiras já mencionadas, desse
grupo de mulheres também participaram Gabriela Liszt, Ruth
Werner, Susana Sacchi, Graciela López Eguía e outras com-
panheiras.
Mas, ainda que todas estas colaborações sejam indis-
pensáveis, este trabalho não seria possível sem a presença e o
estímulo constante de Laura Liffschitz, a quem agradeço
por sua crítica construtiva e sua amizade e a quem devo muito
mais que o fato de ter levado a frente o sonho deste pequeno
livro.
Não obstante, nenhuma destas mulheres tem relação com
as debilidades e erros que possam haver neste trabalho. Disso,
somente eu sou inteiramente responsável.
Em homenagem a estas “mulheres terríveis” com as quais
compartilho a luta cotidiana por um mundo sem exploração
e opressão, e em homenagem, também, aos milhões de
“mulheres terríveis” que lutam em seu dia a dia contra a
exploração e a opressão em todas as suas manifestações; torno
minhas estas palavras de Lênin que, recordando a Comuna de
Paris
1
, escreveu:
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1
A História da Comuna de Paris e a participação das mulheres nessa
luta heróica é relatada no capítulo “Burguesas e proletárias”.
Paoeroaao Pae
Mulheres e crianças de atétreze anos lutaramnaComunade Paris,
ombro a ombro com os homens. E não poderá ser de outro modo
nas batalhas futuras pela derrubada da burguesia. As mulheres
proletárias não verão passivamente como a burguesia, bem
armada, massacra os operários, mal armados ou desarmados.
Tomarão as armas como fizeram em 1871 e das atuais ‘nações
atemorizadas’, ou mais corretamente, do atual movimento
operário desorganizado mais pelos oportunistas que pelos
governos, surgirá sem dúvida alguma, mais cedo ou mais tarde,
mas com a mais absoluta certeza, uma liga internacional das
nações terríveis do proletariado revolucionário.
2
Como Lênin, minhas companheiras e eu também compar-
tilhamos dessa certeza.
PÃO E ROS AS 15
2
Vladimir Lênin, Las enseñanzas de la Comuna, Bs. As., Anteo, 1973.
Paoeroaao Pae
Paoeroaao Pae
Introdução
CLASSE E GÊNERO
Ainda hoje comemoramos todo 8 de março, o Dia
Internacional da Mulher. Entretanto, no meio de tanta
propaganda de flores e bombons, permanece oculta - para a
grande maioria - a origemdesta comemoração que se remete à
ação organizada por mulheres operárias do século XIX,
reivindicando seus direitos: em8 de março de 1857, as operárias
de uma fábrica têxtil de Nova Iorque declararam greve contra
as extenuantes jornadas de doze horas e os salários miseráveis.
As manifestantes foramatacadas pela polícia.
Meio século mais tarde, no mês de março de 1909, 140 jovens
morreram queimadas na fábrica têxtil onde trabalhavam em
condições desumanas. Nesse mesmo ano outras 30 mil
operárias têxteis nova-iorquinas se declararam em greve e
foramreprimidas pela polícia. Apesar da repressão, as operárias
ganharam o apoio dos estudantes, sufragistas, socialistas e
outros setores da sociedade.
Poucos anos mais tarde, no começo de 1912, na cidade de
Lawrence, Massachusetts (EUA), eclodiu uma greve que ficou
Paoeroaao Pae
conhecida como Pan y Rosas (Pão e Rosas), protagonizada
tambémpor operárias têxteis que sintetizavam, nesta consigna,
suas demandas por aumento de salário e por melhores
condições de vida
1
. Nesta luta o comitê de greve instala creches
e refeitórios comunitários para os filhos das operárias, com o
objetivo de facilitar a participação das trabalhadoras no
conflito. A organização Industrial Workers of the World
inaugura reuniões de crianças no sindicato para discutir
porque suas mães e pais estão em greve. Após vários dias de
conflito, enviam-nos a outras cidades, onde são recebidos por
famílias solidárias com a luta operária. Um primeiro trem
transporta 120 crianças. No momento em que o segundo
tremestá prestes a sair, a polícia lança mão da repressão contra
as crianças e as mulheres que as acompanham. Este episódio
fez com que o conflito chegasse aos jornais de todo o país e
ao parlamento, aumentando a solidariedade para com as
grevistas.
Já em 1910, durante um Congresso Internacional de
Mulheres Socialistas, a alemã Clara Zetkin
2
havia proposto que
se estabelecesse o 8 de março como o Dia Internacional da
Mulher, em homenagem àquelas que levaram adiante as
primeiras ações organizadas de mulheres trabalhadoras contra
a exploração capitalista.
Sete anos depois da instauração do Dia da Mulher, em sua
comemoração na Rússia — em fevereiro de 1917, para o calen-
dário ortodoxo-, as operárias têxteis de Petrogrado tomaramas
ruas exigindo “pão, paz e liberdade”, marcando assim o início
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1
Pode-se ler o poema Pan y Rosas, canção popular do movimento
operário norte-americano, entre os documentos anexos ao final deste
trabalho.
2
Clara Zetkin (1857 -1933), dirigente do Partido Social-democrata
Alemão, organizadora de sua seção feminina. Fundou o jornal La
Igualdad e lutou contra a direção de seu partido, quando esta se alin-
hou com a burguesia nacional, votando os créditos de guerra no
Parlamento, na Primeira Guerra Mundial.
Paoeroaao Pae
da maior revolução do século XXque desemboca na tomada do
poder pela classe operária, no mês de outubro do mesmo ano.
Como vemos, o Dia Internacional da Mulher conjuga, então,
as questões de classe e de gênero que mais de umséculo depois
seguem em debate tanto entre marxistas como no movimento
feminista.
OPRESSÃOE EXPLORAÇÃO
Para as marxistas revolucionárias a questão da opressão das
mulheres se insere na história da luta de classes e, por isso,
nossa posição teórica é a mesma que a de nossa luta: junto
aos/as explorados/as e oprimidos/as pelo sistema capitalista. Se
o fazemos desde a perspectiva do materialismo dialético e
histórico é porque, como disse John Holloway,
estavamos buscando uma teoria de mundo que se encaixasse com
nossa experiência, com nossa oposição à sociedade existente.
Estávamos buscando não tanto uma teoria da sociedade, mas uma
teoria contra a sociedade.
3
Acreditamos que o marxismo nos dá as ferramentas para
compreender este mundo, aspirando a sua transformação.
Já algumas especialistas em Estudos da Mulher tem apon-
tado que
é absolutamente necessário encarar uma análise de classe no
tratamento histórico do feminismo”, acrescentando que “o
feminismo burguês seria a exposição da consciência de sua
opressão por parte da mulher burguesa que se colocará em
igualdade como homemnos terrenos político, legal e econômico,
I NT RODUÇÃO 19
3
John Holloway, “La pertinencia del marximo hoy”, emEl pensamiento
sobre la crises de D. Kanoussi (organizador), México, U.A.P., 1994.
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ANDRE A D’ AT RI 20
no marco da sociedade burguesa. Ofeminismo operário, por sua
vez, proporia a superação da subordinação social à qual está
submetida, seja socialista, anarquista ou comunista.
4
No mesmo sentido, marcando estas diferenças de classe na
análise da opressão das mulheres, nos encontramos comoutras
autoras que apontamque
se todas as mulheres são oprimidas pelo sistema patriarcal em
vigor na quase totalidade das sociedades contemporâneas, não o
são pelas mesmas razões, além do que, há oprimidas que
oprimeme é importante ressaltar isto.
5
Desde uma perspectiva marxista, consideramos a
exploração como a relação entre as classes que faz referência à
apropriação do produto do trabalho excedente das massas
trabalhadoras por parte da classe possuidora dos meios de
produção. Trataria-se, nesse caso, de uma categoria que tem
suas raízes nos aspectos estruturais econômicos. Enquanto
poderíamos definir a opressão como uma relação de submissão
de um grupo sobre outro por razões culturais, raciais ou
sexuais. Ou seja, a categoria de opressão se refere ao uso das
desigualdades para colocar em desvantagem um determinado
grupo social. Daí sustentamos que se nós mulheres integramos
diferentes classes sociais em luta, por isso, não constituímos
uma classe diferente, mas simumgrupo policlassista.
Mesmo assim, consideramos que a exploração e a opressão
se combinamde diversas maneiras. Opertencimento de classe
de um sujeito delimitará os contornos de sua opressão. Por
exemplo, ainda que a impossibilidade legal de exercer o direito
sobre o próprio corpo seja uniforme para muitas mulheres do
4
Mary Nash, “Nuevas dimensiones en la historia de la mujer” em Pre-
sencia e protagonismo: aspectos de la historia de la mujer de M. Nash
(comp.) Barcelona, Ed. del Serbal, 1984.
5
Andrée Michel, El feminismo, México, F.C.E., 1983.
Paoeroaao Pae
mundo no plano formal do corpus jurídico, não são equivalentes
- no plano do real - as práticas ilegais possíveis e suas previsíveis
conseqüências para quem tem acesso ao clandestino aborto
asséptico por posição econômica, social e até nível educativo, e
para quemdeve morrer por hemorragias e infecções, vítimas de
uma ordempatriarcal comdescarado rosto capitalista.
Ou seja, ainda que se possa afirmar que o conjunto das
mulheres padece de discriminações legais, educacionais,
culturais, políticas e econômicas, o certo é que existem evi-
dentes diferenças de classe entre elas que moldaramemforma
variável não só as vivências subjetivas da opressão, mas
também e, fundamentalmente, as possibilidades objetivas de
enfrentamento e superação parcial ou não destas condições
sociais de discriminação.
OPRIMIDAS EXPLORADAS E OPRIMIDAS QUE OPRIMEM
No começo do século XXI lutar pelos direitos das mulheres
parecia algo já socialmente admissível e “politicamente correto”,
ao passo que a maioria dos governos do mundo, em diferentes
níveis institucionais, temincorporado a problemática de gênero
nas secretarias de Estado, comissões de trabalho, agendas e
organismos multilaterais.
Existem fatos que são irrefutáveis. Não podemos negar, por
exemplo, a realidade de umfenômeno conhecido como “teto de
cristal”, expressão com a qual se aponta o fato de que nós
mulheres, tanto emâmbitos acadêmicos como trabalhistas, não
ascendemos a cargos mais altos na mesma proporção que os
homens, ainda que cumprindo os mesmos requisitos de
capacitação e desempenho.
Tambémé sabido que na grande maioria dos países de todos
os continentes, nós mulheres recebemos umsalário equivalente
a 60% ou 70% do total recebido pelos homens que realizam o
mesmo trabalho. Esta diferença aumenta ainda mais na medida
I NT RODUÇÃO 21
Paoeroaao Pae
em que aumenta a escala salarial, ou seja, entre os cargos
gerenciais e diretivos a discriminação contra as mulheres é
maior.
Como é possível notar, a opressão das mulheres se manifesta
de diversos modos, emtodas as classes sociais. Mas a metade da
humanidade não é repartida igualmente entre as distintas
classes: nós mulheres somos maioria entre os explorados e
pobres deste mundo e uma ínfima minoria, quase inexistente,
entre os poderosos donos das multinacionais que nos condenam
a essa exploração e pobreza. Éumfato categórico que ainda que
nós mulheres sejamos mais de 50% da população mundial,
constituímos os 1.3 bilhões de pobres do planeta e, por outro
lado, somente 1% da propriedade privada mundial está nas
mãos de mulheres.
É certo que as duplas, triplas e múltiplas cadeias que pesam
sobre as mulheres trabalhadoras - sejam operárias, assa-
lariadas, trabalhadoras rurais oudesempregadas -, não pode ser
um argumento utilizado com o propósito de mascarar a
opressão que a metade da humanidade sofre, seja qual for a
classe à qual se pertença. Porém, se colocamos a perspectiva de
classe é porque consideramos que a opressão de todas as
mulheres obtéma “legitimidade” que necessita emumsistema
baseado na exploração da enorme maioria da humanidade por
uma pequena minoria de parasitas capitalistas, um sistema no
qual a perpetuação das hierarquias e as desigualdades são
partes fundamentais de seu funcionamento.
Atualmente, a desigualdade hierarquizada entre mulheres e
homens, que até o começo do século XX era justificada sem
pudor com apelações a uma suposta “ordem natural”, aparece
distorcida após alguns supostos “triunfos do sexo frágil”. Mas
este novo discurso acerca da conjeturada liberação feminina já
alcançada, faz referência exclusivamente a algumas mulheres e
a determinados aspectos parciais de suas vidas e direitos,
ocultando que a questão da opressão de gênero está entrelaçada
indissoluvelmente tambémà questão da exploração de classes.
ANDRE A D’ AT RI 22
Paoeroaao Pae
Mostrando tambémque, emúltima instância, o suposto respeito
pelas diferenças e a igualdade não são mais que retórica emum
sistema social no qual prevalece uma das mais abjetas
hierarquizações dicotômicas: a que estabelece que milhões de
pessoas são condenadas a vender suas forças de trabalho para
que uns poucos saciem sua sede de lucros cada vez mais
exorbitantes.
Se não for pela questão de classe como se explica a opressão
de gênero, enquanto Ivanna Trump se converte em uma
empresária independente no mundo dos negócios, ou Hillary
Clinton se senta no poderoso senado norte-americano, e por
outro lado 60 milhões de meninas ainda não têm acesso à
educação?
Oséculo XXviu mulheres presidentes, primeiras-ministras,
membros de gabinetes de governo, soldadas e oficiais,
cientistas, artistas e esportistas, empresárias e profissionais
bem-sucedidas. É tambémo século da pílula anticoncepcional,
da minissaia e da calça jeans, da moda unisex e dos eletro-
domésticos. Mas não nos esqueçamos que o século XXtambém
foi testemunha das 50 milhões de mulheres que morreram
todos os anos por abortos clandestinos, das milhares de
mulheres mutiladas e assassinadas por políticas de “limpeza
étnica”, de milhões de mulheres desempregadas, vivendo em
níveis que se encontramabaixo dos índices de pobreza.
Calcula-se que no chamado “Terceiro Mundo”, morrem600
mil mulheres jovens por ano durante a gravidez e o parto. Para
cada uma delas, há outras 30 que sofrem infecções, lesões e
incapacidades pelas mesmas causas. Quer dizer que pelo menos
18 milhões de jovens mulheres por ano sofremdanos durante a
gravidez e o parto, que levamalgumas à morte.
Assim, quando uma mulher de trinta anos de idade em
“igualdade” com os homens pode “exercer seu direito” a ser
oficial da forças conjuntas da OTANque bombardeiamos países
semicoloniais, oupode morrer, na mesma idade, emuma aldeia
africana por causa da AIDS é um paradoxo, e é inclusive cínico
I NT RODUÇÃO 23
Paoeroaao Pae
falar do avanço e progresso da mulher. Não deveríamos falar de
diferentes mulheres? São por acaso iguais as vidas das mulheres
empresárias, operárias, dos países imperialistas e das
semicolônias, das brancas e das negras, das imigrantes ou
refugiadas?
Supor que somente por seremmulheres há algo que vincula
MargarethThatcher comas desempregadas inglesas, as empre-
gadas domésticas da Argentina, ou as operárias mexicanas é,
em última instância, cair no reducionismo biológico da
ideologia patriarcal dominante que as mesmas feministas
criticam seriamente. Falar de gênero assim, portanto, é fazer
uso de uma categoria abstrata, vazia de sentido e impotente
para a transformação que queremos levar adiante.
CAPITALISMOE PATRIARCADO:
UMMATRIMÔNIOBEMSUCEDIDO
Muitas feministas hoje se colocamestas questões. Há as que
dizem inclusive que um feminismo de classe teria que
hierarquizar e valorizar de diferentes maneiras os problemas
comos quais as mulheres se enfrentam. Desse modo, dizem, por
cima da condenação do sistema patriarcal, deveria estar a
condenação do Banco Mundial e do Fundo Monetário Interna-
cional, responsáveis por uma crescente pobreza e pela redução
dos serviços públicos. Acrescentando que a melhor ajuda que
as feministas podem oferecer às mulheres do Terceiro Mundo
é condenar, desde uma posição abertamente antiimperialista,
todas as intervenções “humanitárias” que não servemmais que
aos interesses das grandes potências.
6
Entretanto, ainda que existam tentativas como esta, que
buscam aproximar as questões de gênero e de classe e suas
ANDRE A D’ AT RI 24
6
Alizia Stürtze, “Feminismo de clase”, <www.rebelion.org>
Paoeroaao Pae
interseções para repensar o feminismo, são poucas as mulheres
que tentam desenvolver este pensamento à luz do marxismo.
Porque hoje, quando o termo pós-moderno já está fora de moda,
continuar defendendo os princípios do marxismo parece algo
mais do que arcaico.
Entretanto, renegando as modas às quais estão sujeitas as
intelectuais progressistas para condenar com diferentes
palavras e categorias o mesmo que é condenado pelos
reacionários - a revolução operária que pode acabar com o
domínio capitalista — defendemos que apesar de não ter surgido
com o capitalismo, a opressão das mulheres adquire sob este
modo de produção traços particulares, convertendo o
patriarcado em um aliado indispensável para a exploração e a
manutenção do status quo.
O capitalismo, baseado na exploração e na opressão de
milhões de indivíduos em todo planeta, conquistando para a
ampliação de seus mercados não apenas povos inteiros, mas
tambémterras virgens e locais inóspitos introduziuas mulheres
e as crianças em sua maquinaria de exploração. Ainda que
tenha colocado milhões de mulheres no mercado trabalhista
destruindo os mitos obscurantistas que as condenavam a
permanecer exclusivamente no âmbito privado da casa, dá as
condições para explorá-las duplamente, com salários menores
que os dos homens para que, desse modo, possam diminuir
tambémo salário dos outros trabalhadores.
Ocapitalismo, como desenvolvimento da tecnologia, tornou
possível a industrialização e, portanto, a socialização das tarefas
domésticas. Entretanto, se isso não ocorre é precisamente
porque no trabalho doméstico não remunerado reside uma
parte dos lucros do capitalista que assimé eximido de pagar aos
trabalhadores e às trabalhadoras pelas tarefas que corres-
pondem a sua própria reprodução como força de trabalho
(alimentação, roupas, etc). Alentar e sustentar a cultura
patriarcal segundo a qual os afazeres domésticos são tarefas
“naturais” das mulheres, permite que esse “roubo” dos capita-
I NT RODUÇÃO 25
Paoeroaao Pae
listas seja mascarado e tambémo trabalho doméstico que recai
fundamentalmente sobre as mulheres e suas filhas se torne
invisível.
Ainda que nunca antes como no capitalismo se criaram as
condições científicas, médicas, sanitárias que nos permitiriam
enquanto mulheres a dispor de nossos próprios corpos, este
direito ainda não nos pertence. Odesenvolvimento dos métodos
anticoncepcionais, como as pílulas, os dispositivos intra-
uterinos, as ligações de trompa e inclusive a possibilidade do
aborto asséptico e sem complicações para a saúde são fatos
inquestionáveis. Se nós mulheres não podemos dispor de nosso
próprio corpo, decidir por não ter filhos, ou quando e quantos
filhos ter, é pelo fato de que a Igreja, em cumplicidade com o
Estado capitalista, continua se impondo sobre as nossas vidas.
Isso porque a possibilidade de separar o prazer da reprodução
leva a uma liberdade que é perigosa para a classe dominante.
Questionar a maternidade como único e privilegiado caminho
para a auto-realização das mulheres, questionar que a
sexualidade tenha como único fim a reprodução e questionar,
assimmesmo, que a sexualidade seja entendida somente como
ato heterossexual, põe em risco as normas com as quais o
sistema regula nossos corpos. Os corpos que o sistema de
exploração só concebe como força de trabalho, como corpos
submetidos aos estereótipos de beleza, como corpos separados
e alienados transformados em uma mercadoria a mais no
mundo das mercadorias.
LUTAS DE MULHERES E LUTA DE CLASSES
Mas com o surgimento e desenvolvimento do capitalismo,
não apenas aumenta a exploração e a opressão das mulheres,
como também ocorrem mudanças profundas na resistência e
na luta das mulheres contra essas amarras. No final do século
XVIII, com as revoluções burguesas, surge o feminismo como
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Paoeroaao Pae
I NT RODUÇÃO 27
movimento social e corrente teórica, ideológica e política. Este
movimento percorre os séculos XIX e XX adquirindo distintas
formas, chegando até nossos dias convertido em diferentes
correntes teóricas, em práticas diversas e múltiplas
experiências de organização.
Quase desde o início, como desenvolvimento do capitalismo
e a aparição de uma poderosa classe operária antagônica à
burguesia dominante, se instala o debate em torno desta
contradição que marca o sistema capitalista para as mulheres, e
que concentra nosso interesse - e que foi apontado pela
marxista Evelyn Reed nos seguintes termos: “Sexo contra sexo
ou classe contra classe? ”
7
Nós, marxistas revolucionárias, defendemos que a luta de
classes é o motor da história, e a classe operária acaudilhando as
massas pobres e ao conjunto dos setores oprimidos é o sujeito
central da revolução social, que nos libertará da escravidão
assalariada e todo tipo de opressão, atacando ao capitalismo em
seu coração, paralisando seus mecanismos de exploração e
destruindo sua maquinaria de guerra contra as classes
subalternas.
7
Evelyn Reed (1905-1979), militante do Socialista Workers Party dos
EUA por mais de 40 anos. Evelyn conheceu os militantes do SWP no
final dos anos 1930 e se instalou, em 1939, no México, onde frequen-
tou o entorno do revolucionário russo León Trotsky que estava exi-
lado nesse país. Foi membro do Comitê Central do SWP desde 1959
até 1975 e participou ativamente na imprensa dessa organização
trotskista norte-americana, o semanário The Militant e a revista teó-
rica International Socialist Review. Mas a contribuição mais substan-
cial de Evelyn Reed foi, sem dúvida, o conjunto de seus escritos sobre
a libertação da mulher, nas quais aplica o método do materialismo
histórico na análise da origem da opressão das mulheres na socie-
dade de classes, mostrando a indispensável articulação entre o com-
bate pelos direitos das mulheres e por derrotar o capitalismo. Entre
suas conferências, publicadas em espanhol encontramos “Sexo con-
tra sexo ou classe contra classe?”, “Como a mulher perdeu sua auto-
nomia e como poderá reconquistá-la”, “A mulher e a família: uma
visão histórica”.
Paoeroaao Pae
ANDRE A D’ AT RI 28
Hoje, essa classe conta com milhões de mulheres em suas
fileiras. O capital produz essa e outras tantas contradições. A
burguesia cria e recria permanentemente o seu próprio
sepultamento. É nossa convicção que as mulheres da classe
operária serão parte fundamental nessas batalhas futuras, pela
derrota total da classe exploradora.
Há pouco tempo na Argentina nós mulheres fomos
protagonistas dos bloqueios de rua com os movimentos de
desempregados, das ocupações de fábricas que produzem sob
controle operário, das assembléias nos bairros que
questionaram o pode estabelecido, das inumeráveis lutas e
mobilizações que cruzaram este território. Nós mulheres nos
colocamos em luta por nossos direitos em todo o mundo. Há
mulheres à frente de todo os movimentos sociais que eclodiram
na América Latina na última década. São centenas de jovens
mulheres que enfrentaram ao imperialismo nos encontros
antiglobalização e nas marchas mundiais contra a guerra do
Iraque. A poucos dias de imprimir esse estudo, mais de meio
milhão de mulheres marcharam em Washington em defesa do
direito ao aborto, atualmente em perigo pela política
reacionária de Bush. Mesmo assim, há setores do movimento
feminista que resistem em ser integrados ao sistema, institu-
cionalizados ou a se tornar ONGs, negociando uma menor
radicalização por pequenas cotas de poder.
8
Destas histórias de inumeráveis lutas de mulheres femi-
nistas, operárias, camponesas e militantes revolucionárias,
queremos apreender as mulheres de hoje para empreender as
tarefas que temos que nos colocar. Tendo como eixo de nosso
trabalho esta intersecção entre gênero e classe, apresentamos
então o papel das mulheres e do feminismo nos distintos
acontecimentos e períodos fundamentais em que pode dividir-
se a história dos séculos XIX e XX.
8
Fontenla e Bellotti: “Feminismo e neoliberalismo”, apresentação apre-
sentada na 15º jornada sobre Feminismo e Neoliberalismo pelas inte-
grantes da ATEM, Buenos Aires, 1997.
Paoeroaao Pae
Muitos temas importantes foram deixados de lado, outros
mereciam extensão e aprofundamento maior. Não sou
historiadora nemescritora profissional. Oriento-me pelo desejo
de colaborar, com este pequeno grão de areia, à luta das
mulheres por sua emancipação. Minhas expectativas estarão
mais que satisfeitas se depois de ler este trabalho, as autoras
verdadeiramente fundamentais do marxismo e do feminismo
foremrelidas e suas elaborações repensadas sob a luz de nosso
tempo, como objetivo de combater a opressão. Essencialmente
meu desejo é prestar uma modesta colaboração a todas as
mulheres que se colocam na perspectiva da enorme e
gratificante tarefa revolucionária de “carregar sobre suas costas
essas partículas do destino da humanidade”.
Andrea D´Atri
Buenos Aires, fevereiro de 2004
I NT RODUÇÃO 29
Paoeroaao Pae
Paoeroaao Pae
1
Revoltas
e direitos civis
“Mulher, desperta!
As badaladas da razão se fazemecoar
por todo o universoReconhece teus direitos!”
Olympe de Gouges
PÃO, CANHÕES E REVOLUÇÃO
Na época das lutas contra o absolutismo feudal e pela
consolidação da burguesia como classe dominante, uma onda
de revoltas camponesas percorreu a Europa. Desde o século
XVI, as revoltas eclodiram ininterruptamente e só terminaram
com a constituição dos modernos Estados nacionais, já
inaugurado o século XIX. As mulheres foram protagonistas
dessas rebeliões que irrompiam, conduzindo as massas,
freqüentemente, ao uso da violência. Muitas vezes, elas mesmas
estavam à frente.
Em 1709 e 1710, no despontar do século XVIII, as donas de
casa de Essex, os mineiros de Kenigswood e pescadores de
Tyneside, na Inglaterra, protagonizaramconflitos contra as suas
condições de existência. Em 1727, o mesmo se deu com os
mineiros de estanho de Cornwall e os de carbono de
Gloucestershire. Em1766, as revoltas se estenderampor toda a
Grã-Bretanha. Na França, em1725, houve revoltas emCaen, na
Normandia e emParis. Em1739 e 1740 os motins se estenderam
por Burdeos, Caen, Bayeaux, Angulema e Lille. Em 1747, as
massas despertaramemToulouse e emGuyenne. Em1752, em
Paoeroaao Pae
Arlès, Burdeos e Metz; em 1768, em El Havre e Nantes.
Finalmente, em 1774 e 1775, a chamada “guerra das farinhas”
se estendeu por todo o norte da França.
Esses motins impuseram os impostos populares e também
levantaram reivindicações políticas. As taxas de rendas e
impostos, a escassez de alimentos, a perda de direitos e o
atropelo dos senhores constituíram os motivos centrais das
rebeliões. Também foram muito comuns as revoltas prota-
gonizadas pela elevação do preço do trigo e do pão, pela
competição de operários estrangeiros que ameaçavam as
possibilidades de trabalho dos nativos oucontra as especulações
dos comerciantes que monopolizavamos produtos emescassez
no mercado.
Segundo o historiador E. P. Thompson, as mulheres eram,
com freqüência, as principais causadoras dos motins. Assim o
relata:
Emdezenas de casos, ocorre o mesmo: as mulheres apedrejando
um comerciante pouco popular com suas próprias batatas, ou
combinando astutamente a fúria com o cálculo de que eram, de
certo modo, mais imunes às represálias das autoridades que os
homens.
Os mecanismos de ação se assemelhavamemtodos os casos:
Aação espontânea empequena escala podia ser derivada de uma
espécie de vaia ou gritaria ritual em frente à loja do vendedor,
da intersecção de carros de grão ou farinha ao passar por um
centro populoso, ou da simples congregação de uma multidão
ameaçante.
1
No trabalho citado, Thompsonrelata numerosos casos como,
por exemplo, quando, em 1693, as mulheres se dirigiram ao
mercado de Northampton com facas escondidas em seus
ANDRE A D’ AT RI 32
1
Thompson, E. P., La formación histórica de la clase obrera, Barcelona,
Laia, 1977.
Paoeroaao Pae
corpetes para forçar a venda de grão ao preço que elas mesmas
estabeleceram. Segundo informes da época, o povo de Stockton
se alçou, em 1740, incitado por uma senhora armada com um
pedaço de pau e uma corneta. Entre as histórias, está tambéma
de umjuiz de paz que, emuma oportunidade, se queixou de que
as mulheres incitaram os homens à luta e que, como “perfectas
furias”, golpearam-no pelas costas.
Na França, em 5 de outubro de 1789, as mulheres de Les
Halles e Saint Antoine, dois bairros populosos de Paris, exigiram
pão em frente à sede do Município e marcharam até Versalles,
onde moravam os reis, convertendo a marcha em um
dos motores das mobilizações revolucionárias que em breve
desembocaram no que marcou a História com o nome de
Revolução Francesa.
Como ocorreu em outros processos históricos, a grande
Revolução Francesa, que envolveu todas as classes, todos os
setores sociais emsua luta contra o absolutismo, começou com
uma revolta dirigida pelas mulheres dos bairros pobres de Paris.
Nos permitimos aqui um excerto de um texto de Alexandra
Kollontai, que coloca o papel das mulheres ao longo de todo o
processo revolucionário:
As mulheres do povo nas províncias de Delfinado e da Bretanha
foram as primeiras a atacar a monarquia.(...). Participaram nas
eleições dos deputados para os Estados Gerais e seu voto foi
reconhecido unanimemente. (...). As mulheres de Angers
redigiram um manifesto revolucionário contra o domínio e a
tirania da casa real, e as mulheres proletárias de Paris partici-
paramna tomada da Bastilha, onde penetraramcomas armas na
mão. Rose Lacombe, Luison Chabry e Renée Ardou organizaram
uma manifestação de mulheres que se dirigiu a Versalhes e
levaram Luís XVI a Paris sob estrita vigilância. (...). As peixeiras
do mercado mandaram especialmente uma delegação aos
Estados Gerais para ‘animar os deputados e lembrar-lhes das
reivindicações das mulheres’. ‘Não se esqueçamdo povo!’, gritou
a delegada aos 1200 membros dos Estados Gerais, ou seja, à
RE V OLTAS E DI RE I T OS CI VI S 33
Paoeroaao Pae
ANDRE A D’ AT RI 34
Assembléia Nacional Francesa. (...). Porém, muito tempo após a
consolidação da revolução, a memória das ‘cruéis e sanguinárias’
tecelãs assombrava as noites da burguesia. Quem eram, pois,
essas tecelãs, essas fúrias, como faziamquestão emchamá-las os
aprazíveis e pacíficos contra-revolucionários? Eram artesãs,
camponesas, operárias em domicílio ou de manufaturas, que
sofriam cruelmente de fome e todo tipo de males, que odiavam a
aristocracia e o Ancien Régime de todo coração e com todas suas
forças. Frente ao luxo e ao esbanjamento da nobreza arrogante e
ociosa, reagiram com um instinto de classe seguro e apoiaram a
vanguarda militante por uma nova França, em que homens e
mulheres tivessem direito ao trabalho e onde as crianças não
morressemde fome. Para não perderemtempo inutilmente, essas
honradas patriotas e essas zelosas operárias continuaram
tricotando suas meias, não só em todas as festas em todas as
manifestações, mas também durante as reuniões da Assembléia
Nacional, bem como aos pés da guilhotina, ao assistir às
execuções capitais. Por outro lado, não tricotavam essas meias
para si mesmas, mas para os soldados da Guarda Nacional —
convertidos emdefensores da revolução.
2
Os jornais da época descrevem as imagens de algumas
mulheres heróicas das manifestações de 1789 que deram
origemà Revolução, como
essa jovem de 18 anos, flagrada em combate vestida de homem
ao lado de seu amante, e uma carvoeira que, após o assédio, está
à procura do cadáver de seu filho, respondendo com altivez aos
que estranham sua serenidade: ‘Em que lugar mais glorioso
poderia buscá-lo? Ele deu a vida por sua pátria, não é por acaso
bem-aventurado?’
3
2
Kollontai, A., Mujer, historia y sociedad. Sobre la liberación de la mujer,
México, Fontamara, 1989.
3
Duhet, P. M., Las mujeres y la revolución (1789-1794), Barcelona, Pe-
nínsula, 1974.
Paoeroaao Pae
Marie Louise Lenöal, que depois se tornou deputada da
Assembléia Nacional, comenta os episódios:
A primeira concentração constituída unicamente por mulheres
ocorreu às oito da manhã em frente à casa parlamentar, com o
intuito de averiguar a razão pela qual era tão difícil conseguir pão
e a tão alto preço; outras clamavam insistentemente para que o
Rei e a Rainha viessemse instalar emParis…
4
Segundo outro testemunho da época, as mulheres
atam cordas às rodas dos canhões, mas ao se tratar de rodas de
canhões de barco, dita artilharia é de difícil locomoção. Então as
mulheres confiscamcarruagens, carregamnestas seus canhões e
amarram-nos por cabos, carregam pólvora e balas de canhão;
umas dirigem os cavalos, outras, sentadas sobre os canhões,
levamnas mãos o temeroso pavio e outros instrumentos letais. Ao
iniciar sua marcha desde os Campos Elíseos, seu número já
ultrapassara as 4.000, escoltadas por 400 ou500 homens, armados
comtudo o que podiamencontrar…
5
As mulheres da região de Grenoble, por sua vez, enviaram
uma carta ousada ao rei:
Não podemos nos dispor a criar filhos destinados a viver em um
país submetido ao despotismo.
6
Também houve mulheres cujos nomes transcenderam a
História, como Madame Roland ou a jornalista e escritora
Louise Robert-Kévalio, que simpatizavam com a ala moderada
RE V OLTAS E DI RE I T OS CI VI S 35
4
Lenöal, M. L., Evenement de Paris et de Versailles par une des dames qui
a eu l’honneur d’etre de la Deputation a l’Assamblee Nationale, citado
por P. M. Duhet em op. cit.
5
Periódico Les revolutions de Paris Nº 13, citado por P. M. Duhet em op.
cit.
6
Citado por A. Lasserre en La participation collective des femmes a la
Revolution Francaise, Paris, 1906.
Paoeroaao Pae
dos girondinos. OuThéroigne de Mericourt, que chamouo povo
a tomar as armas, participou na Tomada da Bastilha, e a
Assembléia Nacional entregou-lhe uma espada emrecompensa
por seu valor. Segundo diz a lenda, no mesmo 5 de outubro de
1789 antecipou-se à manifestação que se dirigia a Versalhes e
entrou na cidade a cavalo, vestida de vermelho, tentando
ganhar as mulheres para a causa revolucionária.
AS CIDADÃS REIVINDICAMIGUALDADE
Em1789, quando a Assembléia Nacional vota a “Declaração
dos Direitos do Homem e do Cidadão”, dois documentos sobre
as mulheres vêmà tona. Em1º de janeiro de 1789 conhece-se o
folheto anônimo “Petição das mulheres ao Terceiro Estado e ao
Rei”. O outro, que leva o título de “Caderno das queixas e
reivindicações das mulheres”, assinado por uma tal Madame B.
B., aponta emumde seus parágrafos:
Uni-vos, filhas de Caux, e suas cidadãs das províncias regidas por
costumes tão injustos como ridículos; ide até o pé do trono,
suplicai ajuda de todos ao seuredor; clamai, solicitai a abolição de
uma lei que as condena à miséria desde que nasceis…
7
Os manifestos mais conhecidos pelos direitos das mulheres
da época são “Ensaio sobre a admissão das mulheres no direito
cidadão”, de Marquês de Condorcet
8
, e “Direitos da mulher e da
cidadã”, da lendária Olympe de Gouges, de 1790 e 1791,
ANDRE A D’ AT RI 36
7
Mme. B. B., Cahiers des doleances et reclamation des femmes, citado
por P. M. Duhet em op. cit.
8
É interessante ressaltar que o Marquês de Condorcet, um dos homens
que se coloca mais resolutamente a favor das mulheres em sua luta
por conquistar a igualdade de direitos civis, conclui o seu famoso en-
saio reivindicando o direito ao voto apenas para aquelas que possuem
bens, ou seja, as proprietárias.
Paoeroaao Pae
respectivamente.
9
Olympe se chamava, na realidade, Marie
Gouze. Nasceu em 1748, e em 1765 casou-se com um oficial
chamado Pierre Aubrycomcomo qual, provavelmente, teve um
filho. Mais tarde se lançou em uma carreira como escritora,
principalmente de obras de teatro. Em 1791, quando o rei foi
detido, declarou:
Não basta fazer com que caia a cabeça de um rei para matá-lo.
Após a sua morte, continua vivendo ainda por muito tempo;
pelo contrário, só terá morrido de fato quando a sua queda
sobreviver.
Propôs, em um folheto, realizar um referendo sobre as
seguintes alternativas: governo republicano único e indivisível,
governo federativo ou governo monárquico. Por este motivo,
ela foi presa e guilhotinada em3 de novembro de 1793.
Não só na França surgiamas reivindicações pelos direitos das
cidadãs. Na Inglaterra, no mesmo período, Mary Wollstonecraft
publicava sua Reivindicação dos direitos da mulher, em 1792,
se queixando de que “nós, mulheres, não somos consideradas
mais que fêmeas e não parte da espécie humana”
10
. Mary
Wollstonecraft não se atémà reivindicação de direitos políticos;
manifesta-se contra a hipocrisia da sociedade e contra a
desigualdade. Nasceu na Inglaterra em 1759, educada por um
pastor protestante. Seu primeiro trabalho foi como professora,
experiência que a levou a escrever Pensamentos sobre a edu-
cação das jovens. Defensora da Revolução Francesa, em Paris,
aderiu aos girondinos. Outras obras de sua autoria são Reflexões
sobre a Revolução Francesa, Cartas da Noruega e uma novela
RE V OLTAS E DI RE I T OS CI VI S 37
9
O manifesto “Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã” de
Olympe de Gouges está entre os documentos anexos, no final deste
trabalho.
10
Wollstonecraft, M., Vindicación de los derechos de la mujer, Bs.As.,
Perfil Libros, 1998.
Paoeroaao Pae
póstuma intitulada Mary ou a desgraça de ser mulher. Faleceu
muito jovem, durante o parto de sua filha Mary.
11
No mesmo período, John Wilkes (1727-1797) também desen-
volveu sua atividade. Político e escritor inglês, chegou a ser
deputado e prefeito de Londres. Esse lutador pelas liberdades
civis dirigiu um movimento de reforma democrática, sendo
expulso do Parlamento justamente por publicar um folheto
intitulado Ensaio sobre a mulher.
Na mesma França, houve outros homens que aderiram à
causa feminista, como, por exemplo, Labenette, membro do
Clube dos Cordeleiros, que em 1791 fundou o Jornal dos
Direitos do Homem, cujo lema era: “Cada vez que as ataque, eu
as defenderei”. No jornal publicou artigos como este:
As mulheres que possuemmais inteligência e conhecimentos que
seus maridos, emvez de permaneceremenclausuradas emsuas
casas, deverão se consagrar aos negócios da comunidade, e os
maridos permaneceremnos lares atendendo às crianças.
12
Não obstante, teve que publicar emalguma oportunidade:
Alguns de meus leitores masculinos ontemameaçaramdeixar de
ler meu jornal se insistisse em meu propósito de continuar
defendendo as mulheres…
13
ANDRE A D’ AT RI 38
11
Sua filha, Mary Godwin, que após se casar com o poeta Shelley, ficou
conhecida mundialmente por sua novela Frankenstein, certa vez
disse: “Mary Wollstonecraft foi um desses seres que só aparecem uma
vez por geração, para lançar sobre a humanidade um raio de luz
sobrenatural. Primeiro brilha, depois parece escurecer e os humanos
pensam que se apagou, mas repentinamente se reanima para brilhar
eternamente.”
12
Journal des Droits d l’Homme Nº 14, citado por P. M. Duhet em op. cit.
13
Idem.
Paoeroaao Pae
LIBERDADE, FRATERNIDADE E DESIGUALDADE
DE CLASSE E DE GÊNERO
As mulheres dos bairros operários de Paris tornam-se
protagonistas das mobilizações populares em janeiro de 1792,
rebelando-se pela escassez e carestia do açúcar. Um ano mais
tarde, em1793, uma revolta iniciada pelas lavadeiras retoma as
taxas populares, exigindo medidas contra os monopolizadores e
especuladores.
Durante todos estes anos, apesar de estarem excluídas de
qualquer tipo de participação na luta armada, as mulheres da
burguesia e outras mulheres dos setores populares urbanos
desenvolveram sua militância contra as forças contrarevolu-
cionárias em clubes femininos que, bem como as sociedades
fraternais constituídas pelos homens, atacavam duramente o
clero e a nobreza, chegando inclusive a fazer comque algumas
mulheres — como na associação das jovens de Nantes — jurassem
jamais se casar comaristocratas. Nos clubes revolucionários de
mulheres, se destacaram figuras como Rose Lacombe — junto à
lavadeira Pauline Léonie, fundadora do Clube das Cidadãs
Revolucionárias — que, em certa ocasião, ocupou a sede da
Assembléia Nacional com uma multidão de desempregadas
parisienses, perguntando o que o governo pensava em fazer
para atenuar a miséria das trabalhadoras.
Mas, finalmente, com o retorno da reação, perdem os
direitos civis conquistados. Após as primeiras tentativas de
organização das mulheres nos clubes patrióticos e revolu-
cionários, o império de Napoleão freou o movimento, repri-
mindo toda manifestação pública e fechando os clubes. Em
seu Código Civil de 1804, que inspirou toda a legislação
européia da época, e que ainda se expressa nos códigos civis
das nações semicoloniais como as nossas, trazia a idéia de que
a mulher é propriedade do homem e sua principal tarefa é
a produção de filhos.
RE V OLTAS E DI RE I T OS CI VI S 39
Paoeroaao Pae
ANDRE A D’ AT RI 40
É notável que na Revolução Francesa a questão da mulher
se converteu, pela primeira vez, em questão política. O
feminismo surgiu, poderosamente, como movimento político
que reivindicava a igualdade de direitos para as mulheres,
projetando o eco do discurso burguês da igualdade abstrata de
todos os cidadãos perante à lei. Direitos dos homens e também
das mulheres, nos marcos do projeto político igualitário do
Iluminismo. O feminismo supõe a radicalização desse projeto,
mostrando a contradição existente entre a igualdade universal
proclamada e a ausência real de direitos civis e políticos para a
metade da sociedade civil. As mulheres, que nessa luta se
autodenominaram “o terceiro estado do Terceiro Estado”,
lutaram por sua inclusão na nascente cidadania. Pois como
mostra a feminista Cristina Molina Petit: “A Ilustração não
cumpre suas promessas: a razão não é a Razão Universal. A
mulher fica de fora como aquele setor que as luzes não querem
iluminar.”
14
Tendo à frente as mulheres da burguesia e das classes
médias educadas, seguidas por amplos setores de mulheres do
povo, que defendiam ardentemente a Revolução, o movimento
era a expressão da contradição flagrante que estava conduzindo
o desenvolvimento do capitalismo: a educação e o nível cultural
das mulheres burguesas por umlado, e por outro a participação
crescente das mulheres dos setores populares na produção, não
correspondiam com a discriminação social e legal às quais
ambas estavam sujeitas. Juntas, então, em clubes revolu-
cionários, petições e mobilizações, lutaram pelo pão, pelo
trabalho e por seus direitos civis. Da mesma maneira o fizeram
as diferentes classes sociais “para acertar contas radicalmente
com os senhores do passado”
15
.
14
Cristina Molina Petit, Dialéctica feminista de la Ilustración, Madrid,
Anthropos, 1994.
15
León Trotsky, Resultados y perspectivas: las fuerzas motrices de la re-
volución, Bs. As., Ed. Cepe, 1972
Paoeroaao Pae
A gigantesca soma de esforços foi necessária para esta-
belecer a unidade da nação e subleva-la contra o despotismo
feudal. Como diz León Trotsky em sua análise comparada das
grandes revoluções,
a grande Revolução Francesa é, de fato, uma revolução nacional.
Mais do que isso: aqui se manifesta em sua forma clássica a luta
mundial da ordem social burguesa pelo domínio, pelo poder e
pela vitória indivisa dentro do marco nacional.
16
Arrastando consigo as massas populares, a burguesia
se desfez da aristocracia em um gesto revolucionário sem
precedentes.
Mas a conquistada “igualdade” dos cidadãos frente ao Estado
é expressão do domínio burguês que, no entanto, nega ouoculta
que a sociedade está integrada por classes sociais estruturadas
de maneira antagônica. Já nos tempos da Revolução Francesa, o
jacobino Chaumette declarava:
O indigente não obteve com a Revolução mais que o direito a
reclamar de sua pobreza.
17
Por isso a unidade entre as classes dirigida pela burguesia
revolucionária, que na época permite constituir ummovimento
enormemente progressivo para o conjunto da sociedade,
acabando com a nobreza e com a aristocracia, se tornará seu
contrário, ao longo da história da luta de classes e, portanto,
também ao longo do desenvolvimento do feminismo do século
XIX até os nossos dias. O antagonismo de classes e o enfren-
tamento, inclusive entre distintas burguesias nacionais em
RE V OLTAS E DI RE I T OS CI VI S 41
16
Idem.
17
Pierre Chaumette (1763-1794), revolucionário francês. Formou parte
da comuna insurrecional que se constituiu em 9 de agosto de 1792 e
foi um dos organizadores da insurreição contra os girondinos. Atacado
por Robespierre por seu ateísmo e suas posições políticas radicaliza-
das, foi o inimigo mais encarniçado dos proprietários e dos ricos.
Paoeroaao Pae
ocasião das guerras mundiais, dividirão permanentemente os
movimentos de libertação das mulheres e daí por diante,
mostrando que a perspectiva de classe não pode estar ausente
quando lutamos contra a opressão patriarcal.
No final do século XVIII, quando as massas populares
participaram do movimento revolucionário dirigido pela
burguesia contra a nobreza, as mulheres dos bairros operários
foram as que centralmente se mobilizaram pelo pão, enquanto
as mulheres instruídas das classes médias e da burguesia
legitimavam suas reivindicações de liberdade por meio de
folhetos, proclamações, petições e organizações que defendiam
sua posição acerca da necessidade da igualdade de direitos.
Enquanto as mulheres pobres se mobilizavam contra a
carestia, eis que surgia o feminismo como fenômeno político e
ideológico, reivindicando os direitos civis e políticos para as
mulheres em igualdade com os homens — independência da
tutela do marido, acesso à educação, direito à participação
política etc. Ainda que as idéias propostas pelos setores mais
liberais não fossemsentidas pela maioria das mulheres do povo,
não obstante a ideologia patriarcal da classe dominante havia
instalado uma contradição que até hoje não tem resolução:
considerando-as as principais responsáveis pela alimentação
cotidiana da família, empurraram as mulheres dos setores
populares — principalmente na França e na Inglaterra — a
participar, e muitas vezes dirigir, as taxações populares e os
motins pelo pão.
Essas primeiras revoltas e a participação nas lutas revolu-
cionárias possibilitaram às mulheres dos setores populares a
experiência da ação social e política coletiva, rompendo o cerco
do lar. Junto à crítica ilustrada de um setor de mulheres
burguesas e instruídas, a uma política masculina e burguesa
que excluía dos diretos civis até mesmo as mulheres da classe
dominante, serão experiências que não transcorreramemvão,
o que demonstrará o transcurso do século XIX.
ANDRE A D’ AT RI 42
Paoeroaao Pae
2
Burguesas
e proletárias
“Se a nação francesa não mais fosse
composta por mulheres,
que nação terrível seria.”
Correspondente da Times emParis, 1871
MÁQUINAS A VAPOR, TEARES E MULHERES
Desde meados do século XVIII até meados do século XIX, nos
países europeus mais desenvolvidos persiste a produção
artesanal, se expande a modalidade de trabalho por tarefa
realizada pelos trabalhadores, fundamentalmente pelas
mulheres operárias emseus próprios lares (manufatura domés-
tica), desenvolvendo rapidamente a indústria têxtil, sobretudo a
do algodão. As mulheres casadas e as solteiras encontraram
espaço na produção doméstica e nas primeiras fábricas de
tecidos, bemcomo no serviço doméstico e na agricultura.
Para além da poderosa tendência à proletarização das
mulheres durante o período, algumas historiadoras, como Joan
Scott, advertemque a mulher trabalhadora
foi produto da revolução industrial, não tanto porque a meca-
nização lhes gera trabalhos onde antes não havia (ainda que, sem
dúvida, esse foi o caso em certas regiões), mas porque em seu
transcurso, converteu-se emuma figura problemática e visível.
1
1
Joan Scott, “La mujer trabajadora en el siglo XIX” em Historia de las
mujeres en Occidente, de G. Duby y M. Perrot; Barcelona, Taurus, 1994.
Paoeroaao Pae
ANDRE A D’ AT RI 44
Ou seja, ainda que anteriormente houvesse mulheres
trabalhando no campo, em setores do artesanato e no serviço
doméstico, com a revolução industrial a categoria de “mulher
trabalhadora” instala-se como tema de discussão da ciência,
política, religião, educação etc.
Figura problemática também porque sua simples existência
questionava a idéia de feminilidade da ideologia patriarcal
dominante e projetava um dilema entre o “dever ser” de sua
feminilidade e o trabalho assalariado, marcando a ferro e fogo
oposição antagônica entre o lar e a fábrica, a maternidade e a
produtividade, os valores tradicionais e a modernidade imposta
pelocapital. A“mulher trabalhadora” dáinícioaprofundos debates
entreos quedefendiamoseudireitoàinserçãonaproduçãosocial
e os que desestimavama participação comargumentos baseados
emposições libertárias e profundamente sexistas.
Os socialistas revolucionários também fizeram eco das
contradições que criava o capital sobre a mulher e a família.
Marx, por exemplo, defendia emOCapital:
A maquinaria, ao tornar inútil a força do músculo, permite o
emprego de operários sem força muscular ou sem o condiciona-
mento físico completo, que possuam, por sua vez, grande flexi-
bilidade emseus membros. Otrabalho da mulher e da criança foi,
portanto, o primeiro grito da implementação capitalista da ma-
quinaria. Deste modo, aquele instrumento gigantesco criado para
eliminar trabalhoeoperários, seconvertiaimediatamenteemmeio
de multiplicação do número de assalariados, colocando todos os
indivíduos da família operária, sem distinção de idade ou de sexo,
sob a dependência imediata do capital. Os trabalhos forçados a
serviçodocapitalista chegarampara invadir e usurpar, nãoapenas
o lugar designado às brincadeiras infantis, como tambémao posto
do trabalho livre dentro da esfera doméstica, rompendo com as
barreiras morais, invadindo a órbita que envolve o próprio lar.
2
2
Karl Marx, El Capital, México, F.C.E., 1992.
Paoeroaao Pae
As cifras falam por si mesmas frente ao novo fenômeno da
força de trabalho feminina. Por exemplo, entre 1851 e 1861
trabalhavam, aproximadamente, 25%das mulheres britânicas.
Desse elevado número, a maioria pertencia à classe operária e
ao campesinato. Ocenso de 1851 indica que, emLondres, havia
mais de 140 mil mulheres maiores de 20 anos trabalhando como
serventes, 125 mil na confecção de vestidos e sapatos, 11 mil
professoras e 9 mil trabalhavam na indústria da seda.
Em sua análise magnífica do sistema capitalista, Marx
constata:
Por oposição ao período manufatureiro, o plano da divisão do
trabalho agora baseia-se no emprego do trabalho da mulher, do
trabalho de crianças de todas as idades, de operários não
qualificados, sempre e quando factível; em uma palavra, de
trabalho barato, ‘cheap labour’ como chamam os ingleses. Isto
não só em toda a produção combinada em grande escala,
empregando ou não maquinaria, mas também na dita indústria
doméstica, ocorrendo o mesmo nas casas dos próprios operários
que abrigam pequenas oficinas. Esta chamada indústria do-
méstica moderna não tem mais que o nome em comum com a
antiga, que pressupunha a existência de um artesanato urbano
independente, de uma economia rural também independente e,
sobretudo, de umlar operário. A indústria doméstica se converte
emuma prolongação da fábrica, da manufatura oudo bazar. Além
dos operários fabris, dos operários das manufaturas e dos
artesãos, concentrados no espaço e postos colocados sob sua
tutela direta, o capital passa a se movimentar por meio de fios
invisíveis, outro exército de operários, disperso nas grandes
cidades e no campo.
3
Desde 1802, com a Lei de Fábricas promulgada pelo
Parlamento inglês, as relações de trabalho foram regula-
mentadas, especialmente das crianças e das mulheres. Segue-se
BURGUE S AS E PROL E T ÁRI AS 45
3
Idem.
Paoeroaao Pae
uma série de leis em todo o continente que, em meados do
século, já estabeleciamlimite de doze e, emalguns casos, de dez
horas por jornada de trabalho; proibiam o trabalho noturno e
aos sábados à tarde, bem como os realizados em lugares
particularmente perigosos. Também foram estabelecidas
normas sanitárias, higiênicas e de segurança. Mas logo, a partir
da década de 1890, as mulheres ascenderam aos cargos de
inspetoras de fábricas, podendo controlar por elas mesmas o
cumprimento dessas normativas supostamente ao seu
benefício.
AS TRABALHADORAS SE ORGANIZAMPARA LUTAR
Do ponto de vista da organização das trabalhadoras, é
preciso ressaltar que, já em 1788, as tecelãs manuais de
Leicester conformaram na Inglaterra uma irmandade clan-
destina que utilizava a destruição das máquinas de fiar como
forma de protesto. Essas mulheres mais tarde se filiaram ao
sindicato de tecelões de Manchester, constituído princi-
palmente por homens, participando conjuntamente de uma
greve em 1818. Depois foram expulsas do sindicato, pois
segundo os documentos testemunhais do grêmio, algumas delas
“se negavama respeitar as normas”.
Em 1874 surge a Women´s Trade Union League
4
, que
contribui coma fundação de mais de 30 sindicatos de mulheres.
Se as mulheres se organizaram de maneira independente
dos homens, isto ocorre não tanto por inspiração feminista,
mas porque grande parte dos sindicatos tratava de proteger os
empregos e os salários de seus afiliados, mantendo as mulheres
por fora de suas organizações e, inclusive, lutando contra sua
incorporação ao mercado de trabalho. Para explicar a atitude
dos dirigentes sindicais quanto à inserção das mulheres
ANDRE A D’ AT RI 46
4
Liga dos Sindicatos de Mulheres (N. da A.)
Paoeroaao Pae
na produção, bastam as palavras do sindicalista Henry
Broadhurstque. Ele disse, no Congresso de Sindicatos Britânicos
de 1877, que os membros das respectivas organizações tinham
o dever
como homens e maridos, de dedicar todos os seus esforços para
manter as condições para que suas esposas se mantivessem em
sua esfera própria no lar, ao invés de seremimpelidas a competir
por sua subsistência comos homens grandes e fortes do mundo.
5
As mulheres, pelos baixos salários que lhes eram impostos,
constituíammais uma ameaça do que umpotencial aliado para
os homens trabalhadores. Esse foi, historicamente, o papel que
a classe patronal destinouàs mulheres trabalhadoras: convertê-
las em exército que pressione objetivamente contra os
interesses dos homens trabalhadores, competindo com seus
salários mais baixos pelas mesmas tarefas, tendendo ao
rebaixamento dos salários do conjunto da classe, chegando a
ameaçar diretamente a força de trabalho masculina com o
desemprego.
Não obstante, apesar de serem exploradas pela patronal,
oprimidas socialmente e abandonadas pelas mais importantes
organizações sindicais, as mulheres operárias protagonizaram
verdadeiros acontecimentos da luta de classes do século. Dentre
as principais lutas, podemos citar os motins de Nottingham de
1812, pelo afixamento do preço da farinha; a greve dos operários
de Lyon, que tornam as sedas ovais, dirigida por Philomène
Rosalie Rozan; a greve das operárias que fabricam fósforos de
Londres de 1888, organizada por fora dos sindicatos masculinos,
na qual conseguiram impor suas reivindicações; a greve das
tipógrafas de Edimburgo, que em um panfleto intitulado “Nós,
as mulheres”, clamaram por seu direito a imprimir em nome
BURGUE S AS E PROL E T ÁRI AS 47
5
Henry Broadhurst, “Discurso ante el Congreso de Sindicatos Británi-
cos (1877)”, citado por J. Lewis em Women in England, 1870-1950:
Sexual divisions and social change, London, Wheatsheaf Books, 1984.
Paoeroaao Pae
da igualdade entre os sexos e a famosa greve das operárias
têxteis de Nova Iorque, de 8 de março de 1857, duramente
atacada pela polícia e que deu origem, décadas mais tarde, à
comemoração do Dia Internacional da Mulher, como abor-
damos na introdução.
No início do século XX ainda não se vislumbravam grandes
mudanças nas miseráveis condições de trabalho e de existência
das operárias. As lutas proletárias de maior destaque no
continente americano, protagonizadas por mulheres remetem
aos primeiros anos deste século. Exemplo é a experiência de
greve das operárias têxteis nova-iorquinas de 1909, que também
citamos na introdução. Naquele ano, as condições desumanas
de trabalho levaram 30 mil operárias têxteis de Nova Iorque à
greve. Muitas delas eram apenas adolescentes, o que fez com
que ficasse conhecida como “a greve das meninas”. Uma de suas
dirigentes, Clara Lechmil, tinha apenas 23 anos quando lançou
a consigna “Se não for agora, então quando?”, recebendo gritos
e aplausos de aprovação na reunião do sindicato do qual fazia
parte. Em 23 de novembro, Clara incitou suas companheiras
com estas palavras: “Estou cansada de tanto falar. Já que sou
uma das que sofremcomestas condições, voto pela greve geral”.
Rapidamente a greve teve a adesão de 40 mil trabalhadoras,
mesmo sendo somente mil afiliadas ao sindicato. Nos cinco dias
que se seguiram, o sindicato incorporou 19 mil novas filiadas.
6
A polícia reprimiu duramente as operárias desde o primeiro
dia de greve, inclusive quando reivindicaram o pagamento dos
dias parados. Àmedida que a greve avançava, a opinião pública
fez comque a polícia se retirasse parcialmente dos piquetes. Um
dos momentos mais importantes desta luta das trabalhadoras
têxteis foi a mobilização de 3 de dezembro diante da prefeitura
da cidade, pela retirada da polícia das ruas. Mas nessa mesma
marcha a repressão torna a acontecer, ferindo as mulheres que
ANDRE A D’ AT RI 48
6
Artigo da época, publicado no jornal NewYork Times, que faz referência
a esta greve, está entre os documentos anexos ao final deste trabalho.
Paoeroaao Pae
dirigiama manifestação. Finalmente, após os acontecimentos, a
polícia limita seu operativo. A greve despertou enorme solida-
riedade dos estudantes e de toda a comunidade; os jornais
acompanharam o dia-a-dia dos acontecimentos. Segundo
relatos dos jornais da época, nos piquetes dos grevistas a maior
parte do tempo transcorria entre canções revolucionárias e de
vitória, a maioria emrusso, pois grande parte das operárias era
imigrante desse país.
Porém, não seria possível entender a magnitude da greve
sem saber que, segundo censo de 1905, havia 70.242 traba-
lhadoras que fabricavam roupa de mulher, das quais 40.077 se
concentravamna cidade de Nova Iorque. Destas, 31%cobravam
menos de seis dólares por semana. Adiferença de salários entre
homens e mulheres trabalhadoras era um abismo: enquanto
45%das mulheres da indústria recebiamsalário estimado em6
ou 7 dólares por semana, entre os homens o montante era de 16
a 18 dólares.
Estas e muitas outras lutas heróicas deixaram gravados na
História nomes como Mama Jones, que organizou por quase 50
anos os mineiros dos EUA; Tia Molly Jackson, também desta-
cada dirigente sindical norte-americana; Annie Bessant,
dirigente da greve das operárias fabricantes de fósforos; Jean
Deroin e Pauline Roland, que construíram uma Federação de
Associações Operárias com adesão de 104 organizações
7
,
BURGUE S AS E PROL E T ÁRI AS 49
7
Jean Deroin (1805-1894) se ligou em um primeiro momento ao saint-
simonismo, depois de Fourier e Cabet (socialistas utópicos). Colaborou
com o jornal A voz das mulheres, criou o Clube de Emancipação das
Mulheres e lutou pela igualdade de direitos. Em 1849 apresenta ilegal-
mente, sua candidatura à Assembléia Legislativa com a simpatia dos
operários. Com Pauline Roland funda a Associação de Institutores e Ins-
titutrices Socialistas, na tentativa de federar as associações operárias na
União de Associações para lutar contra o capitalismo e chegar a uma
sociedade socialista pela via pacífica. Por essa tentativa, ambas as
mulheres foram condenadas a seis meses de prisão. Finalmente, teve
que exilar-se em Londres, onde faleceu. Pauline Roland (1805-1852)
também foi discípula dos saintsimonianos. Era contra o matrimônio e
Paoeroaao Pae
escrava Isabel
8
, Elizabeth Gurley Flynn
9
, Clara Lechmill e
Louise Michel, uma das mais inflamadas heroínas da Comuna
de Paris, de quemfalaremos mais à frente.
INCENDIÁRIAS E SENHORAS DE SOMBRINHA
Entre as mulheres da classe operária brilha o nome de
Louise Michel. Sua biografia ilustra a vida das mulheres
lutadoras da época. Nasceu em 1830, filha de uma servente.
Recebeu educação e se tornou professora. Em 1869 foi secre-
tária da Sociedade Democrática de Moralização, tendo por
finalidade ajudar os trabalhadores. Durante a Comuna de Paris,
ANDRE A D’ AT RI 50
considerava que a libertação da mulher não podia se desligar da luta do
proletariado por sua emancipação. Sob o Império, foi acusada de parti-
cipar na resistência ao golpe de Estado e foi condenada à deportação na
Argélia. Por intermédio de George Sand e de Béranger, foi perdoada
meses depois, mas faleceu em Lyon, em seu retorno à França, por mo-
tivo de doença e necessidades.
8
Conhecida como Sojourner Truth (a Verdade Ambulante), em uma oca-
sião, respondendo a um orador que havia ridicularizado as mulheres —
afirmando que por serem débeis e indefesas, não mereciam o direito
ao voto —, ela, que havia sido escrava, subiu no estrado e proclamou:
“Os homens afirmam que a mulher precisa de ajuda para subir em um
veículo, que é necessário levá-la nos braços para atravessar a rua e que
há que ceder-lhe o melhor lugar. Ninguém jamais me ajudou a subir em
um veículo, nem a atravessar a rua, nem me ofereceram o melhor lugar
e por acaso não sou uma mulher? Vejam os meus braços! Arei, plantei e
recolhi a colheita e não há homem que possa fazê-lo melhor. Por acaso
não sou uma mulher? Pude trabalhar como um homem, e comi como um
homem quando tinha o que comer. Também pude suportar o chicote
como eles! Por acaso não sou uma mulher?”
9
Elizabeth Gurley Flynn tinha só 22 anos quando foi enviada pela Indus-
trial Workers of the World para substituir os ativistas presos durante a
greve de Pão e Rosas, protagonizada pelas operárias e operários têxteis
de Massachusetts. Aos 16 anos, fez seu primeiro discurso, intitulado “O
que o socialismo há de fazer pelas mulheres”. Era reconhecida por sua
política de defesa operária, sua militância a favor dos presos políticos e
sua luta pelos direitos das mulheres, como a igualdade salarial, o direito
ao voto e as campanhas pelo controle da natalidade.
Paoeroaao Pae
impulsionou o Clube da Revolução e suas milícias armadas.
Quando a Comuna foi derrotada, entre milhares de comba-
tentes mortos, deportados e fuzilados, Louise Michel foi con-
denada a dez anos de exílio.
No julgamento sumário que a condenou, declarou:
Pertenço por inteiro à Revolução Social. Oque peço de vocês, que
se dizem o Conselho de Guerra, que se dizem meus juízes, que
não negam constituir a Comissão de Graça, é o campo Satory,
onde pereceram nossos irmãos. Terão que me excluir da socie-
dade se lhes disserem que o façam. Pois bem, o Comissário da
República temrazão. Posto que, ao que parece, todo coração que
bate pela liberdade não tem mais direito que a um pouco de
chumbo, clamei pela minha parte! Se vocês me deixarem viver,
não deixarei de clamar por vingança e denunciarei, em justiça
aos meus irmãos, os assassinos da Comissão de Graça.
10
Deportada à colônia francesa de Nova Calcedônia, colaborou
com os que lá lutavam pela independência política. Dois anos
após o seu regresso à França, em 1881, foi processada por
organizar uma manifestação de desempregados que culminou
na expropriação de comércios. Diz-se que nessa ocasião Louise
levava, pela primeira vez, um estandarte negro, cor depois
apropriada como símbolo de luta pelos anarquistas. Por essa
manifestação obteve nova pena de seis anos. Morreu em 1905,
enquanto dava uma conferência para trabalhadores em
Marselha. Sua vida é exemplo de heroísmo e devoção à luta
contra a exploração. Mas Louise não foi a única mulher que
participou valentemente nas memoráveis jornadas da Comuna
de Paris de 1871.
Quando as forças inimigas do exército prussiano cercaram
Paris a fome obrigou a cidade a se render, após um longo sítio,
em 28 de janeiro de 1871. Duas semanas mais tarde, a
Assembléia Nacional Francesa votou a favor da paz. O povo
BURGUE S AS E PROL E T ÁRI AS 51
10
Louise Michel, Mis recuerdos de La Comuna, México, Século XXI, 1973.
Paoeroaao Pae
parisiense denunciou então a Assembléia reacionária que
concertara uma paz humilhante para a nação francesa e a
Guarda Nacional Parisiense se negou a entregar as armas.
Então, a Assembléia, diante da rebeldia de seu próprio exército
e do povo de Paris, se mudou para Versalhes com o intuito de
submeter, desde aí, a capital rebelde.
Arebelião do povo de Paris instalou, em18 de março de 1871,
um poder revolucionário comunal e exortou o resto dos mu-
nicípios franceses a imitar seu exemplo e a unir-se em uma
federação. Alçando uma bandeira de cor vermelha no mastro do
ajuntamento, o primeiro governo operário e popular da História
em pouco tempo decretou a separação da Igreja do Estado, a
revogação de todos os cargos do governo, o comprometimento
dos parlamentares a não receberem mais que o salário de um
trabalhador e a igualdade de direitos para as mulheres.
Enquanto isso, Adolphe Thièrs, eleito chefe do poder
executivo, acelerou o ataque contra os rebeldes com o aval dos
prussianos. A resistência da gloriosa Comuna de Paris só
se quebrou após semanas de lutas sangrentas, que desen-
cadearamatrozes represálias e custaramentre 10 e 20 mil vidas,
convertendo-se emuma das repressões mais cruéis registradas
pela História.
Valiosas mulheres participaram ardentemente da Comuna,
empunhando armas, resistindo contra as tropas de Thièrs e dos
prussianos, até que a derrota lhes impôs a morte em combate
ou as deportações e os fuzilamentos. Os jornais da época des-
crevem as communards com palavras como estas:
Uma delas, de 19 anos, portando um fuzil, se bateu como um “de-
mônio”, ou, por exemplo, “vi uma jovem filha vestida de guarda
nacional marchar com a cabeça erguida entre os prisioneiros
cabisbaixos. Estamulher, grande, seus longos cabelos loiros pairan-
do sobre suas costas, desafiou a todo o mundo comumolhar.”
11
ANDRE A D’ AT RI 52
11
Publicado na revista Time, durante os acontecimentos. Em Le Site de
la Commune de Paris (1871), <http://perso.club-internet.fr/lacomune>
Paoeroaao Pae
Eram trabalhadoras, mulheres dos bairros populares,
pequenas comerciantes, professoras, prostitutas e “subur-
banas”. As mulheres se organizaramemclubes revolucionários,
como o Comitê de Vigilância das Cidadãs ou a União de
Mulheres para a Defesa de Paris, da mesma maneira que
outrora fizeram as mulheres na Revolução Francesa de 1789.
Diferentemente das mulheres que participaram da Grande
Revolução, desta vez, é que as que assimo quiseram, contaram
comas armas que os proletários parisienses não lhes negaram,
como haviamfeito os revolucionários burgueses.
12
Em um interessante trabalho de investigação sobre a
Comuna de Paris, o brasileiro Sílvio Costa destaca os nomes
de uma multiplicidade de mulheres que participaram em
diferentes organizações e tarefas revolucionárias.
Dentre as mulheres deste período, a mais conhecida foi a ativista
socialista Louise Michel, fundadora da União de Mulheres para a
Defesa de Paris e de Apoio aos Feridos e membro da Primeira
Internacional. Também se destacam Elizabeth Dimitrieff, mili-
tante socialista e feminista; André Leo, responsável pela publi-
cação do jornal La Sociale; Beatriz Excoffon, Sophie Poirier e Anna
Jaclard, militantes do Comitê de Mulheres para a Vigilância;
Marie-Catherine Rigissart, que comandou um batalhão de
mulheres; Adélaide Valentin, que chegou ao cargo de coronel e
Louise Neckebecker, capitã da companhia; Nathalie Lemel, Aline
Jacquier, Marcelle Tinayre, Otavine Tardif e Blanche Lefebvre,
fundadoras da União de Mulheres, sendo a última executada
multitudinariamente pelas tropas reacionárias e Joséphine
Courbois, que lutou em 1848 nas barricadas de Lyon onde era
conhecida como a “rainha das barricadas”. Deve-se citar ainda
Jeanne Hachette, Victorine Louvert, Marguerite Lachaise,
Josephine Marchais, Leontine Suétens e Natalie Lemel.
13
BURGUE S AS E PROL E T ÁRI AS 53
12
O texto original de uma proclamação do Comitê de Cidadãs está entre
os documentos anexos no final deste trabalho.
13
Silvio Costa, Comuna de Paris: o proletariado toma o céu de assalto,
São Paulo, Ed. Anita Garibaldi, 1998.
Paoeroaao Pae
ANDRE A D’ AT RI 54
São apenas alguns nomes das centenas de mulheres que,
anonimamente, engrossaram a lista de mártires da causa
proletária mundial como vítimas da repressão burguesa. Muitas
mulheres capturadas depois da derrota foram acusadas de
“incendiárias”. Nas palavras de umhistoriador do período:
Algumas fontes fazemalusões às incendiárias, les pétroleuses, que
atearam fogo a edifícios públicos durante a Semana Sangrenta
final da Comuna. Estas histórias parecemser fruto do alarmismo
antifeminista de inspiração governamental e a maioria dos
correspondentes estrangeiros presentes não acreditava nelas.
Não obstante, as tropas governamentais executaramcentenas de
mulheres de maneira sumária, e algumas, inclusive, foram
torturadas até a morte, por serem suspeitas de ser pétroleuses.
Contudo, apesar do fato de que, mais tarde, muitas outras
mulheres foram acusadas de ser incendiárias, os conselhos de
guerra não encontraram nenhuma culpada desse delito. Sem
dúvida, há provas que indicam que, durante os últimos dias, as
mulheres agüentaram mais tempo nas barricadas que os
homens.
14
Como não é difícil perceber, a unidade com as mulheres
burguesas nas barricadas era impossível. Duas classes se
enfrentavamabertamente e as mulheres se alinharamsegundo
seus interesses de classe emumou outro lado da linha de fogo.
Em Paris, operários e operárias resistiram ao selvagem e
vergonhoso ataque do exército comandado pela burguesia
francesa, com a qual colaborou o até então inimigo prussiano,
libertando os prisioneiros de guerra para que se alistassem e
combatessem contra o próprio proletariado francês em armas.
As mulheres e os homens da burguesia que fugiram de Paris
frente ao poder operário que se erguia, pondo emxeque os seus
privilégios de classe, colaboraramcomo agentes e informantes
do governo repressor. Quando sobreveio a derrota dos heróicos
14
Allan Todd, Las revoluciones. 1789-1917, Madrid, Alianza, 2000.
Paoeroaao Pae
communards, as mulheres da burguesia retornaram ao lar e
passearam pelas ruas de Paris, com louvor pelo retorno da
“ordem”, molhando — segundo algumas gravações da época — a
ponta da sombrinha no sangue ainda fresco dos homens e
mulheres que, tragicamente, se converteramemmártires.
Eis que no século XIX as contradições que apareciam em
gérmen durante o século anterior desabrocham em toda a sua
dimensão. O proletariado demarca sua entrada na História
como classe bem diferenciada, que se rebela contra a
exploração selvagem do capital. Como demonstraram essas
lutas, entre as centenas de greves, motins, sabotagens e revoltas
do movimento operário do século XIX, a História deste século é
a da desintegração da frente única entre burgueses e
proletários, que juntos lutaram contra o clero e a aristocracia,
constituindo os modernos Estados capitalistas.
Em 1830, com a primeira crise econômica do século,
propagaram-se a miséria e o descontentamento, o que cons-
tituiu um dos pilares da revolução social, que se estendeu por
todo o continente europeu, dando origem a uma onda de
revoluções que ficaramconhecidas como as revoluções de 1848.
A contradição de interesses e o antagonismo entre as classes se
impõempela primeira vez na História comtoda a magnitude. O
proletariado, outrora aliado da burguesia contra o absolutismo
feudal, se transformou abertamente empotencial inimigo.
A burguesia, acovardada pelo temor que inspira o prole-
tariado em armas, já se revela impotente para levar a cabo sua
missão histórica:
No ano de 1848, a burguesia já era incapaz de cumprir um papel
comparável [ao de 1789]. Não era suficientemente disposta nem
audaz para assumir a responsabilidade da eliminação revolu-
cionária da ordem social que se contrapunha à sua dominação.
Entretanto, pudemos constatar o porquê. Sua tarefa consistia —
disso tinha a mais clara consciência — emincluir no velho sistema
garantias necessárias, não para sua dominação política, mas
BURGUE S AS E PROL E T ÁRI AS 55
Paoeroaao Pae
ANDRE A D’ AT RI 56
simplesmente a uma repartição do poder com as forças do
passado. A burguesia havia tirado algumas lições das expe-
riências da burguesia francesa: estava corrompida pela sua
traição e amedrontada por seus fracassos. Não apenas tratava
muito bem de empurrar as massas ao assalto contra a velha
ordem, mas buscava um apoio na velha ordem, com o intuito de
rechaçar as massas que empurravam-na à frente.
15
Esse rechaço contra as massas se transformou em rios de
sangue na Comuna de Paris e já não havia como voltar atrás. No
novo período histórico que se perfilava no horizonte, tal como
descrevem diversas autoras, tanto nas lutas como nas novas
formas de organização social, as mulheres trabalhadoras e dos
setores populares constituíram uma vanguarda importante
entre essas massas, que “empurravam à frente” uma luta na
qual enfrentavam outras mulheres que haviam sido, outrora,
suas aliadas.
15
León Trotsky, Resultados y perspectivas: las fuerzas motrices de la re-
volución, Bs. As., Cepe, 1972.
Paoeroaao Pae
3
Entre a filantropia
e a revolução
“A lei que escraviza a mulher, privando-a de instrução,
oprime tambéma vós, homens proletários.
A vós, operários, que sois concretamente as vítimas da
desigualdade e da injustiça, cabe a vós, pois, estabelecer
enfimsobre a terra a primazia da justiça
e da igualdade absoluta entre o homeme a mulher.
Será obra dos proletários franceses proclamar os direitos
da mulher, como fora tarefa dos homens de 1789
a proclamação dos direitos do homem.”
Flora Tristán
DIREITO AOVOTOOUBENEFICÊNCIA?
Pela agudização do antagonismo de classes, sobre o qual nos
referimos no capítulo anterior, a frente de luta das mulheres por
seus direitos se divide em duas grandes tendências. Enquanto
as mulheres pertencentes às classes dominantes se rebelavam
contra a desigualdade de direitos formais sobre os homens de
sua mesma classe — mas apenas em poucas ocasiões se
solidarizavam com as mulheres das classes subalternas —, as
mulheres pertencentes à classe operária e setores populares
impulsionavam, fundamentalmente, as lutas de sua classe pela
obtenção de seus direitos e, nesse marco, reivindicavam seus
direitos como mulheres.
1
A primeira tendência se expressou
1
“Particularmente nos EUA, as demandas por igual direito ao sufrágio
para as mulheres brancas foi defendido pela direção feminista sobre o
Paoeroaao Pae
organicamente em associações liberais, democráticas e socie-
dades filantrópicas. A segunda, em organizações socialistas
utópicas e nos movimentos sociais do século XIX, fundamen-
talmente protagonizados pela crescente classe operária.
Não obstante, apesar das diferenças entre os distintos grupos
e setores sociais, dos diversos postulados e reivindicações,
podemos enfatizar que a questão da mulher estava à luz do dia,
convertendo-se em tema de grande repercussão na vida social
da época. Tal como afirma uma especialista na história das
mulheres:
A repetida irrupção dos feminismos, da Revolução Francesa à
Primeira Guerra Mundial, sua imprensa e suas associações, suas
táticas e suas alianças, suas reivindicações e as hostilidades que
provocam na Europa e nos Estados Unidos, são testemunhos de
que neste século “a questão da mulher” se converte emobjeto de
amplíssimas discussões públicas e no terreno de luta em muitos
grupos sociais e políticos.
2
Omovimento que tinha como protagonistas as mulheres das
classes dominantes foi denominado por distintas especialistas
como “feminismo burguês”. Essas mulheres, majoritariamente
identificadas coma luta pelos direitos civis — particularmente o
direito ao voto — ou com lutas reformistas pelo bem-estar das
mães solteiras, a educação para as jovens etc, impulsionaram
uma florescente imprensa feminista e inúmeras associações
que denunciavam, centralmente, as desigualdades no âmbito
familiar e conjugal, como o direito de decisão do marido em
ANDRE A D’ AT RI 58
pretexto de que, assim como os homens negros não tinham direito ao
voto, tampouco não o tinham as filhas brancas da burguesia (usado
como um argumento humilhante). Seu racismo e o apoio que muitas
de suas líderes deram à continuação da escravidão fizeram delas decla-
radas inimigas da classe operária.” (Guia Nº. 11, League for a Commu-
nist Revolutionary International, 1995).
2
Ana María Kappeli, “Escenarios del feminismo” em Historia de las mu-
jeres de Occidente, op. cit.
Paoeroaao Pae
todos os assuntos da vida familiar, a pátria potestad*, o direito
de administração do marido sobre a propriedade de sua esposa
etc. Outros motivos de repúdio eram as injustiças às quais se
viam submetidas as mães solteiras e seus filhos, o negado
acesso à educação superior, ao sufrágio e à elegibilidade
política. Inclusive, ainda que não fossemdemandas específicas
do setor social ao qual pertenciam as mulheres integrantes do
movimento, duas entre as reivindicações mais importantes
foramo direito a salário igual pelo mesmo trabalho e a demanda
pelas leis de regulamentação da prostituição.
Os movimentos filantrópicos, como a Associação de Jovens
Cristãs e a União de Temperança de Mulheres Cristãs, acen-
tuaram, essencialmente, a luta pela educação das jovens, a
qualificação profissional, alojamento para mulheres solteiras e
outras obras de beneficência, muitas vezes acompanhando suas
ações com uma forte mensagem evangelizadora. Suas
reivindicações e pressões foram fatores que possibilitaram o
estabelecimento da obrigatoriedade do ensino primário para
ambos os sexos emtoda a Europa.
Como um dos ritos fundacionais do período e do amplo e
extenso movimento feminista, podemos citar a Convenção de
Seneca Falls (EUA), realizada em 1848, na qual se lançou a
campanha pelo sufrágio feminino.
3
Também em meados do
século XIX, na Inglaterra, foram criadas associações femininas
que apoiaram a candidatura de Stuart Mill, um defensor dos
direitos civis das mulheres. Em 1884, a francesa Hubertine
Auclert, fundadora do jornal A Cidadã, escreve às feministas
norte-americanas, pedindo ajuda à luta que levavam adiante as
feministas em seu país. O resultado da relação foi a criação do
ConselhoInternacional daMulher (ICW), cujoprimeiroencontro
E NT RE A F I L ANT ROPI A E A RE V OLUÇÃO 59
*
Pátria potestad é um termo em latim, que no terreno jurídico se refere
ao poder do pai sobre o filho. Na Argentina como fimda ditadura a pátria
potestad passou a ser compartilhada entre o pai e a mãe. Antes disso toda
a decisão relativa ao menor de idade era tomada legalmente pelo pai.
3
Ler a Declaração da Convenção de S. Falls entre os documentos anexos.
Paoeroaao Pae
reuniu 66 norte-americanas e oito européias em Washington,
em 1888.
4
Em apenas um ano de seu primeiro encontro, o ICW
convocou uma segunda reunião internacional em Londres, da
qual participaram 5 mil mulheres, que representavam 600 mil
feministas das diversas seções afiliadas. Já em 1882, Auclert
utilizou o termo “feminista” em seu jornal para descrever a si
mesma e suas partidárias, umnome que logo se estendeua todo
o movimento.
As associações feministas, freqüentemente vincularamsuas
atividades à luta pela paz internacional e à defesa dos povos
oprimidos. Em 1848, quando foi celebrado em Bruxelas o 1º
Congresso Internacional pela Paz, participaram inúmeras
associações pacifistas, compostas exclusivamente por mulhe-
res, do mesmo modo que muitas organizações feministas
tambémse sentiramconvocadas por essa bandeira.
Como podemos constatar, as feministas se diversificavam
em diversas correntes, com diferentes objetivos. Enquanto
algumas baseavamas reivindicações no conceito de igualdade,
inspiradas nos ideais revolucionários da classe burguesa —
levando, porém, ao extremo a extensão dos direitos civis, no que
tange à questão de gênero — outras se assentavam nas
especificidades genéricas, recuperando a idéia de feminilidade
em suas dimensões físicas, psíquicas e culturais, em uma
perspectiva de luta reivindicativa, clamando por reformas ao
Estado para o bem-estar das mulheres. Em suas origens, a
primeira concepção serviu como fundamento aos movimentos
sufragistas. A segunda teve como base o aporte das mulheres à
sociedade, especialmente por seu papel maternal, conseguindo
importantes melhoras no plano da saúde, da educação e da
previdência social.
ANDRE A D’ AT RI 60
4
Em uma carta dirigida à norte-americana Susan Anthony, datada
de 27 de fevereiro de 1888, a francesa Hubertine Auclert utiliza a
palavra “feminista”, respondendo ao convite para participar do con-
gresso de mulheres que finalmente realizou-se em Washington, na-
quele mesmo ano.
Paoeroaao Pae
Segundo algumas autoras, as correntes divergentes desse
feminismo burguês do fim do século XIX e início do século XX
podemser denominadas como “individualistas” e “relacionais”.
O feminismo “individualista”, que se remete, predominante-
mente, à cultura anglo-americana, se baseia na luta das
mulheres pela existência independente da família, aspirando à
emulação de um modelo de indivíduo emancipado que —
segundo as detratoras dessa corrente — era um modelo mas-
culino. Esse tipo de feminismo outorgava prioridade política,
em sua luta reivindicativa, à igualdade de direitos. Por outro
lado, o feminismo “relacional” se baseia no dimorfismo sexual
e na idéia de responsabilidades específicas e complementares
relacionadas com o dimorfismo, para homens e mulheres. Tais
fundamentos constituíram a base para amplas reivindicações
no que tange à proteção da maternidade.
A contradição paradoxal entre a igualdade como conceito
universal (a igualdade de direitos entre os indivíduos de gêneros
diferentes, baseada em sua igualdade como seres humanos,
membros de uma mesma espécie) e a diferença de gênero no
sentido particular da identidade, que pode ser identificado,
ainda que de forma embrionária, no feminismo do século XIX,
se lançou como uma contradição quase irrecuperável na
segunda onda do feminismo da década de 1970, no século XX,
como veremos mais a frente. Contudo, a contradição entre
igualdade e diferença atravessa as elaborações teóricas e a
prática política do movimento feminista dos nossos dias.
REFORMA OUREVOLUÇÃO?
Sobre o que veio a ser denominado “feminismo operário” ou
“feminismo socialista”, podemos diferenciar, por um lado, os
setores reformistas, que admitiam a cooperação entre o capital
e o trabalho como condição que melhoraria a situação da classe
operária e, portanto, do conjunto dos oprimidos — entre eles, as
E NT RE A F I L ANT ROPI A E A RE V OLUÇÃO 61
Paoeroaao Pae
mulheres. Por outro, encontramos os socialistas revolucio-
nários, que defendiam que só a supressão da exploração do
capitalismo e a construção de outra sociedade podemlibertar a
classe operária da escravidão assalariada — e comisto, também
os grupos que soframalgumtipo de opressão.
Entre os primeiros, estamos com os socialistas utópicos,
como Saint Simon, Fourier, Cabet, Owen, que reivindicavam a
união livre entre os sexos, frente às idéias tradicionais sobre o
amor e o matrimônio. Daí, a constituição de falanstérios ou
comunidades nas quais se procurava colocar em prática os
princípios igualitários. Fourier — considerado por Engels o
primeiro a denunciar as condições de opressão vivenciadas
pelas mulheres — dizia, aludindo com ironia à hipócrita
ideologia burguesa:
O adultério, a sedução, honram os sedutores e são considerados
de bom tom… mas, pobre menina! Que crime atroz é o
infanticídio! Para preservar a honra, a sociedade obriga a mulher
a destruir a evidência da sua desonra; não obstante, quando
sacrifica o filho ante os preconceitos da sociedade, esta é
considerada mais culpada, sacrificando-a aos perjúrios da lei…
Neste círculo vicioso envolve todo o mecanismo da civilização…
O que significa a mulher jovem senão uma mercadoria colocada
à venda, à espera do primeiro partido que lhe faça uma oferta
para se tornar o seu dono exclusivo? Assim como na gramática,
duas negações constituem uma afirmação, pode-se dizer que no
matrimônio, duas prostituições constituem uma virtude… Os
progressos sociais e as mudanças de períodos operam-se na
lógica direta do progresso das mulheres rumo à liberdade; e as
decadências da ordem social se operam em razão da diminuição
da liberdade das mulheres…
5
Na segunda metade do século XIX, o socialismo revolu-
cionário entra em cena. A opressão da mulher é contemplada
ANDRE A D’ AT RI 62
5
Citado por Marx y Engels em La Sagrada Familia, Barcelona, Akal.
Paoeroaao Pae
por essa tendência, como já mencionamos, como uma
conseqüência da divisão da sociedade em classes, do sur-
gimento da propriedade privada na História, situação agravada
pelo modo de produção capitalista. Marx e Engels defendiamno
Manifesto do Partido Comunista, frente as acusações da classe
dominante contra os comunistas:
Querer abolir a família? Até os mais radicais se indignam com
este infame desígnio dos comunistas. Sobre que bases descansa a
família atual, a família burguesa? No capital, no lucro privado. A
família, plenamente desenvolvida, não existe para ninguémalém
da burguesia; mas encontra seu complemento na supressão
forçosa de toda família para o proletariado e na prostituição
pública.
6
Permitimos-nos aqui tomar uma extensa citação do mesmo
Manifesto, cujos autores definemclaramente qual a posição dos
comunistas sobre os filhos e a mulher:
Acusam-nos de querer abolir a exploração dos filhos pelos seus
pais? Confessamos este crime. Dizem, porém, que destruímos os
vínculos mais íntimos, substituindo a educação doméstica pela
educação social. E vossa educação não é também determinada
pela sociedade, pelas condições sociais coma qual educais vossos
filhos, pela intervenção direta ouindireta da sociedade através da
escola etc? Os comunistas não inventaram esta ingerência da
sociedade na educação; não fazem mais que modificar o seu
caráter e arrancar a educação da influência da classe dominante.
As declamações burguesas sobre a família e a educação, sobre os
doces laços que unem os pais com seus filhos, tornam-se mais
repugnantes à medida que a grande indústria destrói todo vínculo
de família para o proletariado e transforma as crianças emmeros
artigos de comércio, emmeros instrumentos de trabalho. Mas eis
que vós, os comunistas, quereis estabelecer a comunidade das
E NT RE A F I L ANT ROPI A E A RE V OLUÇÃO 63
6
Marx e Engels, Manifiesto del Partido Comunista, Bs. As., Anteo, 1985.
Paoeroaao Pae
mulheres!, grita emcoro a burguesia. Para o burguês, sua mulher
não passa de um instrumento de produção. Diz-se que os
instrumentos de produção devem ser de utilização comum e,
naturalmente, não podem por menos pensar que as mulheres
terão a mesma sorte. Não suspeitam que isso implica,
precisamente, acabar com essa situação da mulher como mero
instrumento de produção. Nada mais grotesco, por outro lado,
que o horror ultramoral que inspira os nossos burgueses à
suposta comunidade oficial das mulheres que atribuem aos
comunistas. Os comunistas não têm necessidade de introduzir a
comunidade das mulheres, o que quase sempre existiu. Nossos
burgueses, não satisfeitos em ter à sua disposição as mulheres e
as filhas de seus operários, para não mencionar a prostituição
oficial, sentem um prazer singular em traírem-se mutuamente.
O matrimônio burguês é, na realidade, a comunidade das
esposas. Em suma, pode-se acusar os comunistas de querer
substituir uma comunidade hipocritamente dissimulada das
mulheres, por uma comunidade franca e oficial. É evidente, por
outro lado, que com a abolição das atuais relações de produção,
desaparecerão a comunidade das esposas e o que desta deriva-
se, ou seja, a prostituição oficial e privada.
7
Conseqüentemente, com sua prédica, Marx e Engels
defenderam, nos sindicatos e na Associação Internacional dos
Trabalhadores — mais conhecida como 1ª Internacional —, os
direitos políticos e econômicos das mulheres, ainda em
enfrentamento aberto contra as posições reacionárias de outras
correntes pequeno-burguesas e reformistas que influenciavam
setores do proletariado. Acorrente do anarco-socialista francês
Proudhon, por exemplo, defendia que a mulher tinha apenas
dois possíveis destinos: dona de casa ou prostituta e por isso
opunha-se à incorporação das mulheres na produção. Marx e
Engels tambémenfrentaramo programa político reformista de
Ferdinand Lassalle para o Partido Operário Alemão, no qual,
ANDRE A D’ AT RI 64
7
Idem.
Paoeroaao Pae
entre outras questões, se rechaçava a inserção da mulher na
produção, o que foi combatido por Marx emsua célebre Crítica
ao Programa de Gotha.
8
Marx e Engels impulsionaram a criação da União de
Mulheres, seção feminina da 1ª Internacional, sob a direção de
Elizabeth Dimitrieff, enviada como representante dessa
organização à Comuna de Paris em 1871. Lá, como vimos,
Elizabeth participou ativamente na organização das mulheres
em defesa da cidade. Na 1ª Internacional também merece
destaque a organizadora sindical inglesa Henriette Law, que foi
membro do Conselho Geral.
Apesar dos antecedentes, só em 1891, no fim do século, o
Partido Social-democrata Alemão inclui em seu programa a
igualdade de direitos entre o homem e a mulher. Clara Zetkin
organiza a seção feminina do partido e publica o jornal A
Igualdade, o mais importante canal de expressão das mulheres
socialistas da época. Tornaremos a nos encontrar com essa
mulher, quando, no início do século XX, enfrenta a direção e a
maioria de seupartido por defender uma postura revolucionária
diante da Primeira Guerra Mundial.
A PROLETÁRIA DOPROLETÁRIO
Com o século XIX e, como símbolo emblemático da luta das
mulheres e da classe operária, nasce, em 1803, Flora Célestine
Thérese Tristán, filha de um diplomata peruano-espanhol
radicado em Paris. Flora foi filha ilegítima, o que a privou do
direito à herança coma morte de seupai, ocorrida quando ainda
E NT RE A F I L ANT ROPI A E A RE V OLUÇÃO 65
8
No Congresso celebrado de 22 a 27 de maio de 1875 em Gotha, se uni-
ficaram as duas organizações operárias alemãs existentes no mo-
mento: o Partido Operário Social-democrata, dirigido por Liebknecht
e Bebel, e a União Geral dos Operários Alemães, organização condu-
zida por Lassalle, para formar uma única organização, o Partido
Socialista Operário da Alemanha.
Paoeroaao Pae
era adolescente. A partir desse momento, sua vida mudou
drasticamente: de uma posição social elevada passa a viver
na miséria, como as classes trabalhadoras. Trabalha como
doméstica para uma família burguesa, pois rompe com seu
precoce matrimônio. Também trabalhou como babá e dama de
companhia.
Ambas as experiências, o casamento e o mundo do trabalho,
são elementos importantes de sua história que transparecem
emsua obra. Comos filhos, foge do marido, farta da embriaguez
e dos maus-tratos que ele lhe dispensa. Mais tarde, sua decisão
se reafirma quando o marido tenta estuprar sua filha de apenas
12 anos. Emcarta à sua filha, escreve:
Te juro que lutarei por ti, que te farei ummundo melhor. Tu não
serás nemescrava nempária.
9
Segundo sua biógrafa Yolanda Marco:
Ainda que não chegue a formulações semelhantes às do amor
livre, Flora é plenamente consciente de que o matrimônio
significa a apropriação da mulher pelo homem. Por isso,
propunha a liberdade de divórcio e a livre escolha do marido por
parte das mulheres, sem que os interesses econômicos dos pais
das jovens intervenham no matrimônio. Sem dúvida, para ela, o
matrimônio é antagônico ao amor, já que repudia que “as
promessas do coração... sejamassimiladas aos contratos que têm
por objeto a propriedade”.
10
Para Flora Tristán,
o homem mais oprimido pode oprimir a outro ser, que é sua
mulher. A mulher é a proletária do próprio proletário.
11
ANDRE A D’ AT RI 66
9
Citado por Yolanda Marco na introdução à edição de Feminismo y
Utopía, México, Fontamara, 1993.
10
Idem.
11
Flora, Tristán, “Unión Obrera”, en Feminismo y Utopía; México, Fon-
tamara, 1993.
Paoeroaao Pae
Ela vê como indissoluvelmente ligadas as tarefas da eman-
cipação da mulher e do proletariado. Por influência do
pensamento dos socialistas utópicos, concebe a educação como
a chave libertadora dos setores oprimidos. Para Flora, não será
possível a emancipação dos operários enquanto as mulheres
não tiverem acesso à educação, pois elas, em seu atraso
cultural, são as primeiras a impedir que o marido se dedique à
luta política ou social.
Mas apesar de Flora ter alguns elementos emcomumcomo
pensamento dos socialistas utópicos, suas elaborações estão na
metade do caminho entre estes e os socialistas científicos. Para
sua biógrafa, Flora Tristán
tem em comum com os utópicos o pacifismo, a apelação às
classes superiores como meio de mudar a situação da classe
trabalhadora e a não incorporação à sua análise da economia
política clássica.
12
Semdúvida, seupensamento é contraditório, pois, ao mesmo
tempo, afirma que a emancipação da classe operária será obra
dos trabalhadores e só poderá contar com o respaldo de outros
setores sociais que também são vítimas dos privilégios da pro-
priedade, aproximando-se das idéias elaboradas pelo marxismo
clássico.
Outro aspecto emque ela supera o pensamento dos utópicos,
se colocando à frente, inclusive de Marx, é no que tange à
necessidade de uma organização internacional da classe
operária. Sua obra União Operária, publicada em1843, não só é
anterior ao Manifesto Comunista, como também precede em
mais de uma década a fundação da Associação Internacional
dos Trabalhadores, conhecida como a 1ª Internacional. No
trabalho, escrito em linguagem que inaugura o estilo agitativo
do publicismo operário, Flora defende:
E NT RE A F I L ANT ROPI A E A RE V OLUÇÃO 67
12
Idem.
Paoeroaao Pae
ANDRE A D’ AT RI 68
Os operários, durante duzentos anos ou mais, junto aos
burgueses, lutaram valente e descarnadamente contra os privi-
légios da nobreza e pelo triunfo de seus direitos. Porém, chegou o
dia da vitória, ainda que ficasse reconhecida a igualdade de
direitos para todos, de fato, clamaram apenas para eles próprios
todos os benefícios e as vantagens desta conquista.
13
Para que os direitos da classe operária sejam respeitados,
propõe a criação de uma associação de trabalhadores de caráter
mundial.
Flora foi pioneira na análise da relação entre gênero e classe
e na luta pelo internacionalismo proletário. Ela não dissocia a
causa da mulher da causa de toda a classe operária. Dirige-se,
portanto, ao proletariado, para que liberte as mulheres de sua
escravidão milenar, ao mesmo tempo em que se liberta a si
mesmo da opressão social da qual padece. Por suas posições
políticas e sua luta em favor da emancipação do proletariado e
das mulheres, foi reivindicada por Marx e Engels emsua obra A
Sagrada Família. A oposição e a indiferença que encontrou em
sua luta pelos direitos da mulher e dos trabalhadores levaram-
na a dizer:
Tenho quase todo o mundo contra mim. Os homens, porque peço
pela emancipação da mulher, os proprietários porque reivindico
a emancipação dos trabalhadores.
14
13
Idem.
14
Citada por E. Thomas em Les femmes en 1848, París, P.U.F., 1948.
Paoeroaao Pae
4
Imperialismo,
guerra e gênero
“Enquanto durar a guerra, as mulheres do inimigo
tambémserão o inimigo”
Jane Misme
MULHERES E NAÇÕES
Já mencionamos que no Partido Social-Democrata Alemão —
o mais importante da 2ª Internacional —, Clara Zetkin dirigiu a
organização das mulheres e também um dos membros que
enfrentaram a direção do partido no que tange à Primeira
Guerra Mundial. Junto com Clara Zetkin, cabe destacar a
presença de uma grande revolucionária chamada Rosa
Luxemburgo. Ela considerava, também, que a situação de
opressão vivida pelas mulheres poderia se transformar me-
diante a revolução proletária. Participa com Clara, sua
camarada e amiga, da Internacional das Mulheres Socialistas e
colabora com o jornal feminino A Igualdade, enquanto elabora
tambémrenomados artigos sobre economia.
1
Com posição diante da guerra imperialista, oposta pelo
vértice à de Clara Zetkin e Rosa Luxemburgo, nos deparamos
1
Rosa Luxemburgo (1870-1919) adere em 1887 ao Partido Socialista
Revolucionário, em Varsóvia. Procurada pela polícia, se abriga em Zu-
rique, onde cria laços indissolúveis com o movimento revolucionário.
Presa em 1904. Foi presa em diversas ocasiões em Berlim, em Varsóvia
Paoeroaao Pae
ANDRE A D’ AT RI 70
comas feministas da família Pankhurst. Emmeline Pankhurst e
suas filhas, Sylvia e Christabel, que nos primeiros anos do século
XX foram as principais porta-bandeiras da luta pelo voto na
Inglaterra, lutando também para elevar o nível da educação
dos trabalhadores. Em 1904 obtiveram o apoio do Partido
Trabalhista, que apresentou projeto de lei a favor do voto
feminino no Parlamento, mas foi derrotado. Em 21 de junho de
1908 impulsionaram uma mobilização de 400 mil sufragistas
pelas ruas de Londres, dando início a ações diretas. Destruíram
caminhões dos correios, vitrines, incendiaram igrejas e
comércios e foram presas. Uma de suas seguidoras morreu
pisoteada por um cavalo, quando, nas célebres corridas de
Derby, se colocou diante do Príncipe de Gales reivindicando o
direito ao voto.
Emmeline Pankhurst nasceu em Manchester em 1858, em
uma família de industriais reformistas, sendo educada emParis.
Casada comumadvogado membro de uma sociedade sufragista
fundada por Stuart Mill, forjou-se como feminista sufragista. Em
1903, com as filhas Christabel e Sylvia, fundou a União Social e
Política das Mulheres, e desde 1905 decidiu pelo emprego de
métodos ilegais e violentos para atrair a atenção do público e do
poder político. Presa em várias oportunidades, Emmeline
impulsionou greves de fome, de sede e de sono em sinal de
protesto, e defendeu-se sozinha nos tribunais.
e em Breslau. Em 1914 se opõe à guerra e luta para que os socialistas
alemães se sublevem diante da política traidora de seus dirigentes.
Funda o grupo Spartacus, rompendo com o Partido Social-Democrata
Alemão, organização na qual militara até então. Quando eclode a
Revolução Russa de 1917, acompanha atentamente o processo, da
cadeia, professando admiração e respeito por Lênin e Trotsky, apesar
de manter algumas diferenças políticas, essencialmente acerca da
idéia de partido. O grupo Spartacus se transforma no Partido Comu-
nista Alemão, com a adesão de Rosa à nova Internacional Comunista.
Após as sublevações do proletariado alemão em 1918 e 1919, sangren-
tamente esmagadas, Rosa se recusa a fugir e é assassinada junto com
o revolucionário Karl Liebneckt. Ela tinha apenas 49 anos.
Paoeroaao Pae
O direito ao voto era luta abraçada, também, por alguns
setores de trabalhadoras. Já em 1901, as operárias de uma
fábrica de algodão em Lancashire levantaram a bandeira do
direito ao voto, relacionando-a ao fim da discriminação e da
exploração, apresentando ao Parlamento um petitório com 29
mil assinaturas. Os proprietários da fábrica de algodão
alegavam não pagar salários adequados às mulheres porque
não queriam incentivá-las “a sair do lugar que lhes pertencia,
em casa, cuidando dos filhos”. A luta das Pankhurst estava,
inicialmente, ligada de certo modo às reivindicações das
trabalhadoras. Mas a guerra mundial desatada em 1914
transformou a luta de Emmeline Pankhurst, que se colocou a
serviço do governo britânico. Diante desse giro político, sua
filha Sylvia dela se distancia unindo-se ao socialismo operário.
A jovemSylvia, aos 24 anos, já havia renunciado aos estudos
universitários no Royal College, e cumpria sua primeira pena.
Em1911, comapenas 29 anos, publica o primeiro livro, História
do movimento das mulheres sufragistas. Já começava a divergir
da União fundada por sua mãe, por considerar que estava se
distanciando dos princípios socialistas. Como início da Primeira
Guerra Mundial, se aprofundaram as divergências: Sylvia era
pacifista e não concordava como forte apoio que a União deu ao
governo britânico na guerra. Ela própria objeta:
Quando li o jornal que a senhora Pankhurst e Christabel levavam
à Inglaterra para uma campanha de recrutamento, me pus a
chorar. Para mim, isso era uma traição trágica ao movimento.
(...). Organizamos uma Liga pelos direitos das esposas dos
soldados e marinheiros para obter melhores pensões. Também
fizemos campanha pelo salário igual (...). Trabalhamos continua-
mente pela paz, enfrentamos uma dura oposição de velhos
inimigos, e lamentavelmente, às vezes de velhos amigos.
O sentimento era justificado: a União Social e Política das
Mulheres, que publicava o jornal La Sufragette, substitui o
nome de seu veículo de imprensa por La Brittannia, cujo lema
I MPE RI AL I S MO, GUE RRA E GÊ NE RO 71
Paoeroaao Pae
passoua ser “Pelo Rei, pelo País, pela Liberdade”. Sylvia, ao lado
da amiga Charlotte Despard, logo fundouo Women’s Peace Army
(Exército de Mulheres pela Paz), e se dedicou com devoção à
militância nas fileiras do Partido Trabalhista, no qual publicou
umjornal para as mulheres trabalhadoras.
As atividades de Sylvia se centraramempercorrer os bairros
operários, organizar as mulheres trabalhadoras e lutar por suas
demandas. Tudo isso conduziu-a a questionar profundamente
a linha que defendia na União Política e Social das Mulheres,
dirigida por sua mãe e sua irmã Christabel. Sua irmã aspirava
pela total independência dos partidos políticos integrados por
homens, e foi uma das que mais exerceu pressão para que o
setor dirigido por sua irmã Sylvia se distanciasse defini-
tivamente da União.
Evidentemente, a ruptura estava marcada pela polarização
social recorrente no país. Entre 1911 e 1914, todos os setores
chave do proletariado britânico estavamemgreve, ao passo que
a burguesia se dispunha a iniciar a guerra imperialista. Em
meio à situação, o grupo de Sylvia continuou impulsionando a
campanha pelo voto feminino, lutava pelo salário igualitário e
mantinha posição pacifista. Posições em enfrentamento abso-
luto com as da União, que defendia ser preciso suspender as
reivindicações setoriais das mulheres para apoiar o governo que
embarcara na guerra.
Sylvia tambémapoiou fervorosamente a Revolução Russa de
1917, chegando a visitar a União Soviética, onde conheceu
Lênin. A viagem lhe custou uma prisão de cinco meses em seu
retorno a Inglaterra, acusada de sedição por seus artigos “pró-
comunistas”. A influência da Revolução Russa se expressa até
mesmo no nome do jornal que dirigia: a partir de julho de 1917
passou a se chamar O encouraçado das mulheres. Sylvia,
inclusive, ganhou o apelido de “Pequena Senhorita Rússia”. Em
1918, quando o direito ao voto se ampliou, comportando
algumas mulheres maiores de 30 anos, Sylvia denunciou que
esse direito, não obstante, era restrito a mulheres proprietárias,
ANDRE A D’ AT RI 72
Paoeroaao Pae
universitárias etc. E ainda que tenha sido fundadora do Partido
Comunista inglês, Sylvia abandonou a militância anos mais
tarde, horrorizada com as purgas realizadas pelo regime
stalinista contra toda oposição. Na década de 1930, apoiou a
revolução espanhola, depois ajudou os judeus perseguidos pelo
regime nazista na Alemanha. Faleceu em 1960, sem chegar a
ver o ressurgimento do movimento feminista no mundo, no que
ficou conhecido como a segunda onda.
Recordamos de Sylvia as seguintes palavras:
Queria despertar essas mulheres submergidas entre as massas
para que sejam não apenas pessoas mais afortunadas, mas
combatentes por si próprias... que se rebelem contra suas
terríveis condições, exigindo para si e para suas famílias sua parte
dos benefícios da civilização e do progresso.
No início do século XX, estrepitosos estilhaços de vidro e
bombas incendiárias mostram ao mundo as radicais
mobilizações femininas que pugnavampelo direito ao sufrágio.
Em 5 de julho de 1914, uma grande mobilização sufragista
eclodiu em Paris em honra do Marquês de Condorcet, que,
como já mencionamos, defendeu a incorporação das mulheres
ao direto cidadão em 1790. A mobilização se transformou em
poderosa demonstração da demanda pelos direitos políticos das
mulheres. Também no mesmo ano, em Londres, marcham 53
mil mulheres pelo direito ao voto.
Este movimento, não obstante, é parcialmente derrotado
com a declaração da Guerra Mundial. A guerra bloqueia o
movimento democrático pela emancipação, que se perfilava em
alguns países centrais da Europa, ameaçando se converter em
grande movimento feminista igualitarista. Eis que, além dos
limites impostos pela repressão e pela censura dos governos
embarcados na guerra, a maioria das organizações feministas
decidiu participar voluntariamente no serviço à sua pátria,
suspendendo suas demandas para cumprir os deveres exigidos
pelo patriotismo, dando provas de respeitabilidade a seus
I MPE RI AL I S MO, GUE RRA E GÊ NE RO 73
Paoeroaao Pae
respectivos governos nacionais. Aquelas que persistiramemseu
pacifismo não puderam dar uma saída organizada ao
movimento pelo boicote dos nacionalistas belicistas de ambos
os sexos. Em 1915 ocorreu o Congresso Internacional pela
Futura Paz, em La Haya, do qual participaram feministas
pacifistas de diversos países. Foi criado um Comitê Interna-
cional de Mulheres pela Paz Permanente, que envia delegadas a
todo o mundo. Na França, porém, a representante eleita é
expulsa do Conselho Nacional de Mulheres Francesas sob a
acusação de “feminista a serviço de Guilherme” (em alusão ao
governo da Alemanha). Enquanto isso, a maioria do movimento
feminista mundial se dedicava a contrair empréstimos
nacionais, denunciar os desertores e ajudar na campanha por
fundos para a guerra.
2
Emmeline e sua filha, Christabel Pankhurst, por exemplo,
dedicaram-se ao recrutamento de voluntárias. “A situação é
grave. As mulheres devem ajudar a resolvê-la”, diziam as
pancartistas da impressionante marcha de 17 de julho de 1915,
convocada sob o lema “Direito a servir”. A antiga reivindicação
do voto feminino transformou-se em arma a serviço da guerra:
“Voto nas heroínas, assimcomo nos heróis”, foi a nova forma de
reivindicar esse direito.
A mobilização, organizada pelas Pankhurst, com a ajuda do
recentemente criado Ministério de Armamento, é símbolo da
mais aguda divisão que alcançou o movimento feminista: já não
eram burguesas em enfrentamento com proletárias; mas
mulheres burguesas de um país em enfrentamento com as
mulheres burguesas deoutropaís, quedessemodorompiamcom
a curta, porémprogressiva tradiçãointernacional domovimento.
Lembremos que, até 1914, o feminismo aparecia ainda como
movimento internacional que lutava pela reivindicação comum
ANDRE A D’ AT RI 74
2
Um cartaz de propaganda britânico pregava: “Joana d´Arc salvou a
França. Mulheres da Grã-Bretanha salvai vosso país ao empréstimo
de guerra.”
Paoeroaao Pae
dosufrágio. Opacifismo, proclamadopelas diversas organizações
da internacional feminista, desaparece justamente no momento
em que estoura a guerra mundial, o que se transforma em uma
prova de fogo para o movimento. Momento em que, além
de suspender as reivindicações, as feministas dos países
beligerantes rompem alianças internacionais a favor de um
nacional-feminismo que exorta as mulheres a servir à pátria, se
disciplinando, desse modo, de acordo com os interesses das
burguesias nacionais.
MULHERES INTERNACIONALISTAS
3
Em 1891, quando as mulheres dos países mais avançados
começavam a sair às ruas reivindicando o direito ao voto, o
Partido Social-Democrata Alemão, umdos mais importantes da
2ª Internacional, pautava em seu programa a igualdade de
direitos entre o homem e a mulher. Como observamos, Clara
Zetkin foi a organizadora da seção feminina do partido, que
reuniu mais de 175 mil mulheres em suas fileiras. Ela cumpriu
grande papel no momento crucial da Primeira Guerra Mundial,
quando a maioria do Partido Social-Democrata Alemão, indo
contra todos os princípios proletários revolucionários, aprovou
a participação na guerra na qual milhares de operários se
enfrentaramnas trincheiras comoutros milhares de operários,
rompendo a unidade internacional da classe emuma guerra na
qual as burguesias nacionais se enfrentavam umas às outras,
por seus próprios interesses.
I MPE RI AL I S MO, GUE RRA E GÊ NE RO 75
3
Trata-se de uma reelaboração da conferência realizada no Centro Cul-
tural Rosa Luxemburgo, de Buenos Aires, no mês de outubro de 2003,
em ocasião do aniversário da Revolução Russa. A transcrição da
conferência foi publicada na íntegra no jornal eletrônico Rebelión
<www.rebelion.org>, com o título “Uma análise do papel de destaque
das mulheres socialistas na luta contra a opressão e das mulheres
operárias no início da Revolução Russa”.
Paoeroaao Pae
Naquele período, as mulheres se incorporaram à produção
em todos os países que participaram da guerra. Em toda a
Europa, as mulheres entrarammassivamente nas fábricas, nas
empresas e nas oficinas do Estado. Não é um dado menor para
poder entender, também, o papel das mulheres na Revolução
Russa, como veremos mais à frente. Porém, ainda que
ascenderam como nunca antes ao mundo da produção, a
situação das mulheres durante a guerra foi verdadeiramente
insuportável. As jornadas extenuantes de trabalho — inclusive
na indústria pesada — que se estendiam aos lares, agravaram a
saúde das mulheres e aumentaram os índices de mortalidade.
As condições de vida pioraram pela inflação, a escassez e a
miséria. A neurose e as doenças mentais se propagaram, em
conseqüência das privações, esgotamento e angústia por
esposos, filhos e irmãos, que estavam na frente de batalha.
O resultado foi que, na maior parte dos países interventores,
eclodiram violentos motins de mulheres contra a guerra e a
inflação. Em 1915, as trabalhadoras de Berlim organizaram
manifestação massiva rumo ao Parlamento contra a guerra. Em
Paris, em 1916, as mulheres atacaram lojas e saquearam
depósitos de carvão. Em junho de 1916, na Áustria, houve uma
insurreiçãodetrês dias, naqual as mulheres tambémcomeçaram
a se manifestar contra a guerra e a inflação. Após a declaração de
guerra, durante a mobilização das tropas as mulheres se
estendiam nos trilhos de trem para atrasar a saída dos soldados.
Na Rússia, em 1915, as mulheres instigaram distúrbios que se
propagaramde São Petersburgo e Moscou a todo o país.
Procurando explicar o levante das trabalhadoras contra a
guerra nos principais países e procurando tirar conclusões das
lutas para enfrentar a guerra mundial, Clara Zetkin lança um
chamado às mulheres socialistas e convoca uma conferência
internacional que, de 26 a 28 de março de 1915
4
, se reúne em
ANDRE A D’ AT RI 76
4
Essa conferência de mulheres socialistas contra a guerra foi realizada
seis meses antes da tão conhecida Conferência de Zimmerwald, na
Paoeroaao Pae
Berna. Participaram 70 delegadas alemãs, francesas, inglesas,
holandesas, russas, italianas e suíças, que discutiram a traição
de seu próprio partido que havia decidido participar da guerra.
A resolução adotada pela conferência condenou a guerra
capitalista sob a consigna de “guerra à guerra”.
Depois, presa e doente do coração, Clara Zetkin já não pôde
mais intervir ativamente na luta. Após a proibição do uso da
palavra em público em 1916, é expulsa do Partido Social-
Democrata Alemão, e comoutros 20 mil militantes formamum
grupo que se opõe à linha majoritária da social-democracia
alemã.
Aconferência de Berna é a terceira organizada por mulheres
socialistas. As anteriores, de Stuttgart em1907 e de Copenhague
em1910, se pronunciarampelo sufrágio feminino, emdefesa da
I MPE RI AL I S MO, GUE RRA E GÊ NE RO 77
qual a ala revolucionária da 2ª Internacional se pronunciou contra a
guerra imperialista, frente à traição de seu partido mais importante,
o Partido Social-Democrata Alemão. De 5 a 8 de setembro de 1915,
ocorreu em Zimmerwald (Suíça) essa conferência socialista interna-
cional, considerada por muitos a primeira reunião geral dos socialistas
internacionalistas após o início da guerra. A posição dos bolcheviques
(o partido russo da 2ª Internacional) consistiu na imediata criação de
uma nova internacional. Lênin defendia que os socialistas deviam
romper com a colaboração com os governos burgueses, que era ne-
cessária a mobilização das massas contra o social-chauvinismo e a
transformação da guerra em guerra revolucionária. Mas sua posição
foi rechaçada por 19 votos contra 12. Rosa Luxemburgo e Clara Zetkin
não puderam participar, pois estavam presas na Alemanha por sua
oposição à guerra, sendo saudadas pela conferência. Mais tarde, de
24 a 29 de abril de 1916, em Kienthal, próximo a Berna, os internacio-
nalistas tornaram a se reunir, como em Zimmerwald. Lênin procla-
mou novamente a decadência da 2ª Internacional e sua irremediável
dissolução. Posteriormente, aqueles que mantiveram os princípios re-
volucionários do internacionalismo proletário fundaram os partidos
comunistas e a 3ª Internacional. De ambas as reuniões participou Inês
Armand (1875 -1920). Filha de pai inglês e mãe francesa, Inês casa-se
com um russo, em 1893. Bolchevique desde 1904, migra em 1909, e
torna-se amiga pessoal de Lênin no exílio. Representa os bolcheviques
em Bruxelas em 1914, em Zimmerwald e em Kienthal. Em seu retorno
a Rússia, em 1917, passa a trabalhar na Internacional Comunista e
morre em 1920, vítima de cólera.
Paoeroaao Pae
luta pela manutenção da paz, contra a carestia de vida, o
problema da Finlândia submetida à repressão do czarismo e os
seguros sociais para a mulher e o filho. Uma das resoluções de
Copenhague mostrava as causas da guerra “nas contradições
sociais criadas pelo sistema de produção capitalista”, e que não
se esperava a manutenção da paz
mais que pela ação enérgica e consciente do proletariado e pelo
triunfo do socialismo. O dever das mulheres socialistas é
colaborar com a obra de manutenção da paz, de acordo com o
espírito dos congressos internacionais socialistas.
Também no último congresso, de 1910, a proposta de Clara
Zetkin tornou oficialmente o 8 de março como o Dia Interna-
cional da Mulher. Mas o terceiro congresso, o de Berna, se
transformou na primeira conferência socialista internacional
cujo eixo central era a oposição à guerra emcurso.
Como observamos, a tradição de amizade internacional que
regia os diversos grupos do movimento de mulheres
desintegrou-se frente à prova da guerra mundial. O interna-
cionalismo e a luta contra a guerra ficaram, exclusivamente,
nas mãos dos socialistas revolucionários, e aquelas que se
colocaram à frente na luta contra a guerra foram as mulheres
revolucionárias, como Clara Zetkin, Rosa Luxemburgo, Inês
Armand, Nadezna Krupskaia e outras.
A causa das mulheres se expressa, novamente, durante a
guerra, indissoluvelmente ligada à da classe operária. Rosa
Luxemburgo, diante da guerra e da posição traidora da social-
democracia, enfatizou:
Esta guerra mundial significa umretrocesso à barbárie. Otriunfo
do imperialismo conduz à destruição da civilização, esporadica-
mente durante uma guerra moderna, e até o final, se o período
de guerras mundiais que começou agora for levado até suas
últimas conseqüências. Deparamo-nos hoje com as eleições, tal
como havia previsto Engels 40 anos atrás: ou bem o triunfo do
ANDRE A D’ AT RI 78
Paoeroaao Pae
imperialismo e com ele a degeneração, a diminuição da popu-
lação, um vasto cemitério; ou a vitória do socialismo, resultado
da luta consciente da classe operária internacional trabalhando
contra o imperialismo e seu método, a guerra.
A bancarrota da 2ª Internacional, na qual estavam afiliados
os partidos social-democratas, era nítida. Sua colaboração com
a burguesia nacional dos Estados beligerantes levou ao
massacre de milhões de operários, que combatiam nas
trincheiras pela defesa dos interesses de seus patrões e atraiu
enormes misérias para as mulheres. Clara Zetkin disse, em
1919: “A velha Internacional morreu na vergonha: jamais poderá
ser ressuscitada.” Ela foi, posteriormente, uma das delegadas da
3ª Internacional, fundada por Lênin com as diversas organi-
zações internacionalistas existentes.
LIBERDADE NA GUERRA, OPRESSÃONA PAZ?
No curso da guerra e, ainda depois de finalizada, estendeu-
se a idéia de que as mulheres buscavam grandes conquistas
em sua emancipação, pois o conflito transformara as relações
entre os sexos. Eis que enquanto durou a guerra, mulheres
camponesas e pequenas comerciantes assumiram as tarefas
compulsivamente abandonadas pelos homens. Por outro lado,
as novas indústrias de guerra, onde se fabricavamas munições
e as armas modernas, multiplicavam a oferta de postos de
trabalho por causa da enorme produção emmarcha. Pela força
da necessidade, a guerra eliminou momentaneamente as
barreiras que separavam trabalhos masculinos e femininos.
Não obstante, as “conquistas” do gênero feminino foram
efêmeras. A ordem patriarcal do capitalismo só se viu alterada
circunstancialmente pela necessidade de força de trabalho,
utilizandoas mulheres paramover as máquinas quesustentavam
os lucros capitalistas em tempos de “escassez de homens”.
I MPE RI AL I S MO, GUE RRA E GÊ NE RO 79
Paoeroaao Pae
Quando os soldados voltaram das frentes de batalha, tiveram
prioridade nos postos de trabalho, e as proclamações libertárias
no que tange à libertação feminina ressoaram em sons de
clarinetas, que chamavam às mulheres de volta ao lar. Na
Inglaterra, por exemplo, enquanto perdurou o enfrentamento
bélico, foram habituais os acordos negociados entre os
sindicatos e as empresas. Por meio do concerto e da reforma
social foi aceito o trabalho das mulheres nas fábricas sob o
regime conhecido como substituição, segundo o qual as
mulheres podiam ocupar os postos “masculinos”, mediante o
compromisso de se retiraremdepois da guerra.
Enquanto ocupavam os postos disponíveis nas fábricas e
empresas, foram essas novas mulheres trabalhadoras as
primeiras a criticar a guerra; as mulheres da burguesia
entregavamo movimento feminista de mãos atadas à defesa da
nação. As primeiras, por meio do furto de alimentos nas lojas ou
no campo, o aprovisionamento ilegal no mercado negro e outras
medidas de sabotagem, provocaram enormes distúrbios. Em
alguns casos, foram instigadoras de motins por fome,
transformando as cidades em cenários de verdadeira guerra
civil. Na França, em1917, costureiras e as mulheres que faziam
a munição constituírammaioria entre os grevistas.
Quando a guerra termina, a desmobilização das mulheres da
frente de batalha e da fábrica é acompanhada de forte cam-
panha de propaganda contra a mulher libertada e o feminismo,
reforçando, os discursos oficiais, os elogios às mães e às donas
de casa. Não por acaso, é o momento no qual se inaugura a
celebração do Dia das Mães, ainda hoje comemorado em todo
o mundo.
Por outro lado, o sufrágio feminino surgiu na Europa
naquele momento, no fimda guerra, como uma das concessões
das quais os governos liberais e reformistas lançaram mão
para tentar impedir a revolução proletária em potencial,
estabelecendo firmes regimes de democracia burguesa após a
disputa. Assimconstata León Trotsky:
ANDRE A D’ AT RI 80
Paoeroaao Pae
I MPE RI AL I S MO, GUE RRA E GÊ NE RO 81
Aderrota da revoluçãode 1848 debilitouos operários ingleses; pelo
contrário, a revolução russa de 1905 fortaleceu-os subitamente.
Após as eleições gerais de 1906, o Labour Party conformou, pela
primeira vez no Parlamento, uma importante fração de 42
membros. Desse modo, manifestava-se nitidamente a influência
da revolução russa de 1905. Em1918, mesmo antes de terminar a
guerra, uma nova reforma eleitoral ampliava consideravelmente
o quadro de eleitores operários e concedia pela primeira vez o
direito ao voto às mulheres. O próprio Mr. Baldwin [Stanley,
político inglês conservador, três vezes primeiro ministro, Nota da
Autora] provavelmente não negaria que a revolução russa de
1917 tenha dado o principal impulso a esta reforma. A burguesia
inglesa achava possível, por este meio, evitar uma revolução.
5
Entre as duas guerras mundiais, a classe operária viveu
inúmeras experiências históricas. Durante todo o período,
ocorre o auge econômico dos dourados anos 20, com o
desenvolvimento da produção em grande escala, a conso-
lidação da União Soviética como estado operário, fruto da
revolução proletária de 1917, o crack econômico de 1929, com
a quebra da Bolsa de Nova Iorque e a grande depressão, o
desemprego, o fascismo, as frentes populares, a heróica
revolução espanhola, o surgimento do sindicalismo de massas
nos EUA etc. A situação das mulheres não fica alheia a esses
acontecimentos da luta de classes.
A experiência revolucionária da Espanha, na década de
1930, demonstrou uma vez mais que as grandes conquistas de
direitos democráticos embeneficio das mulheres só ocorreram
por causa do levante revolucionário contra toda a ordem
existente. Em1931, como início do processo revolucionário na
Espanha, as mulheres conquistaram o direito ao sufrágio
naquele país. Porém, logo em 1936, com a reanimação da
agitação revolucionária entre as massas, a vitória eleitoral da
Frente Popular e a extensão de uma amplíssima onda de greves
5
León, Trotsky, A dónde va Inglaterra, Bs. As., El Yunque, 1974.
Paoeroaao Pae
em toda a Espanha, acompanhada de ocupações de terras,
legaliza-se o direito ao aborto, emmeio a uma situação emque
o poder ficara, de fato, nas mãos dos comitês e das milícias
operárias. Quando, em 1934, ocorre a heróica insurreição dos
operários das Astúrias, que se apossamdo território, mas ficam
isolados e são derrotados pelas tropas franquistas após vários
combates, as esposas e filhas dos mineiros e operários
participaramda luta, integrando-se aos comitês e empunhando
armas.
Nesse período florescem os jornais femininos comunistas e
anarquistas. Com a criação das milícias populares, favorece-se
a inserção das mulheres nas frentes de batalha, mas a partir de
setembro de 1936, coma proibição das milícias e a perseguição
dos revolucionários, o governo republicano da Frente Popular
se empenha emorganizar umexército regular como intuito de
frear o armamento e a organização autônoma de operários e
camponeses. Isto trará como conseqüência o esmagamento de
anarquistas e simpatizantes do trotskismo, além do envio de
mulheres à retaguarda.
Um retrato vivo dessas jornadas, da valorosa ação das
mulheres operárias, das diferentes atitudes tomadas pelas
organizações políticas em relação às mulheres, e do pérfido
papel que cumpriuo stalinismo na heróica passagemda história
operária mundial, faz parte das memórias da dirigente de
coluna de um batalhão do Partido Operário de Unificação
Marxista (POUM)
6
, Mika Etchebéhère. Em Minha guerra da
Espanha, a argentina Mika relata em páginas cheias de
heroísmo, emoção, reflexões e sentimentos profundos, como
chega da França ao país, com seu esposo, para participar das
jornadas revolucionárias espanholas, incorporando-se a uma
coluna do POUM. Pouco tempo depois sua chegada, o marido
ANDRE A D’ AT RI 82
6
O POUM, Partido Operário de Unificação Marxista, era uma corrente
próxima ao trotskismo, liderada por Andreu Nin, que surgiu da fusão
da antiga oposição de esquerda espanhola ao Partido Comunista e o
Paoeroaao Pae
morre em batalha e ela coloca-se à frente da coluna, vencendo
os preconceitos dos milicianos e ganhando seu respeito na luta.
Outra das mulheres que merece destaque na revolução
espanhola é Carlota Durany Vives, que foi secretária de Andreu
Nin, dirigente do POUM. Carlota integrou a Comissão Diretiva
do Sindicato Mercantil, despendendo intenso trabalho nas
greves do grêmio. Aqueles que a conheceram contam que, por
sua grande atividade revolucionária e personalidade, os
anarquistas do sindicato fizeram o impossível para atraí-la às
suas fileiras. Em sua casa foi celebrada a conferência
clandestina de fundação do POUM, em29 de setembro de 1935,
o que a tornou o principal alvo da polícia secreta stalinista em
Barcelona. Em plena guerra civil, Carlota começou a escrever
breves artigos para o jornal Emancipação, órgão de imprensa
do Secretariado Feminino do POUM, de onde extraímos estes
parágrafos:
Em 19 de julho, as mulheres se lançaram às ruas com um
entusiasmo insuperável para lutar junto aos seus companheiros,
para atender os feridos, para doar seu sangue. Mas não se pode
viver meses e meses com essa tensão. Pouco a pouco, nos
acostumamos como que antes exaltava nosso entusiasmo, e a vida
cotidiana, com suas necessidades e preocupações, mina nosso
ardor revolucionário... Esta é, precisamente, a tarefa da mulher!
Criar constantementeonovo, oespíritorevolucionário. Aatmosfera
espiritual é produzida pela mulher... E a mulher tem outra tarefa
de suma importância: edificar a base revolucionária na futura
geração... Desde muito pequena, a criança deve aprender que os
outros não vivem exclusivamente para ela. Deste sentimento
comunitário resultará mais tarde a consciência de classe.
7
I MPE RI AL I S MO, GUE RRA E GÊ NE RO 83
Bloco Operário e Camponês da Catalunha, dirigido por Maurín. O
POUM rompe definitivamente sua relação com o trotskismo quando
adere à Frente Popular durante a revolução espanhola.
7
Carlota Durany Vives, “El doble papel de la mujer”, Emancipación, 29
de maio de 1937.
Paoeroaao Pae
ANDRE A D’ AT RI 84
A repressão desatada pelos stalinistas se empenhava,
particularmente, na aniquilação dos militantes do POUM.
Prenderam Carlota, que anteriormente tinha ficado presa por
várias semanas, cinco dias antes das tropas fascistas, a mando
do general Franco, entrarem em Barcelona. Quando a
prenderam, deixaram seu filho de três anos abandonado na
casa, o qual foi depois acolhido por vizinhos. Colocaram-na em
um automóvel e a levaram a uma estrada, enquanto a
interrogavame a insultavampara que lhes dissesse onde estava
seu companheiro. Limitou-se a responder, repetidas vezes, que
só sabia que ele estava na frente de batalha, o que enfureceu
ainda mais seus seqüestradores. Eles começaram uma
simulação de fuzilamento. Carlota foi finalmente levada a uma
dependência da polícia secreta stalinista, comoutras mulheres
do POUM, de onde pôde escapar antes desse lugar cair nas
mãos dos fascistas. Foi o tempo preciso para reencontrar seu
filho e tomar um caminhão preparado pelo Comitê de
Evacuação do partido, que a transportou até a fronteira com a
França. Só depois de 35 anos, suas cinzas regressaram a seu
país e foram lançadas ao mar na Costa Brava.
Mas o fascismo não foi só um fenômeno político espanhol.
Era a expressão política do grande capital monopolista que
substituiuo regime democrático burguês por formas ditatoriais.
No que tange às mulheres, o fascismo considerava que sua
emancipação era perversa ideologia anti-regime e apátrida.
Para os nazistas na Alemanha, por exemplo, ser mãe era o
objetivo central que deviam ter as mulheres, porém não era
desejável para todas. Defendiam que 20% da população
germânica eram indesejáveis para assumir a paternidade, já
que não pertenciamà “raça pura”. Introduziu-se a esterilização
forçada, aplicada em homens e mulheres, por causas como
debilidade mental, epilepsia, esquizofrenia, síndrome maníaco-
depressiva, ser negro, judeu, cigano etc. Essa política demo-
gráfica resultou no que veio a ser chamado de “gravidez de
protesto”, procurada pelas mulheres jovens antes de serem
Paoeroaao Pae
submetidas à operação de esterilização. Os índices de emprego
feminino na Alemanha fascista demonstram outra faceta da
crueldade do regime nazista:
Durante a Segunda Guerra Mundial, cerca de 2,5 milhões de
mulheres estrangeiras se incorporaram ao trabalho na indústria
e na agricultura alemãs, junto a um número muito maior de
homens; a maioria deles procedentes dos países do leste da
Europa, sendo estes obrigados a trabalhar pela força. Quanto
mais baixo era seu ‘valor racial’, maior era a proporção de
mulheres trabalhadoras do grupo nacional correspondente e,
particularmente na indústria pesada de munições.
8
A resistência ao fascismo também foi testemunha do
alistamento das mulheres. Na URSS, as mulheres participaram
ativamente defendendo seu território contra a invasão do
exército nazista. Pouco após o início da Segunda Guerra
Mundial, foi criado o Comitê Antifascista de Mulheres Soviéticas,
que recebeu a solidariedade das mulheres da Inglaterra, dos
EUA, da Índia, da Áustria etc. Na Iugoslávia, mais de 100 mil
mulheres se alistaramentre os partidários e o exército de Tito.
Na França, as mulheres foram parte da resistência maqui,
criando redes nas empresas nas quais trabalhavam, atuando
como correios e agentes de informação, organizando a luta nos
campos de concentração e em combate. Na Itália havia cerca
de 35 mil mulheres na resistência armada e mais de 70 mil
fizeram parte dos grupos de defesa femininos voluntários,
sofrendo tortura, prisões, deportações, fuzilamentos ou morte
em combate.
Durante a Segunda Guerra Mundial, os estereótipos
femininos que haviamsurgido durante o período da guerra de
1914 se repetem: a mulher trabalha nas fábricas de arma-
mento e munições a serviço da pátria ou é a mãe protetora que
I MPE RI AL I S MO, GUE RRA E GÊ NE RO 85
8
Bock, G., “Políticas sexuales nacionalsocialistas e historia de las mu-
jeres” em Historia de las mujeres de Occidente, op. cit.
Paoeroaao Pae
cuida do lar na ausência do soldado. Na Inglaterra, as
empresas privadas foram proibidas de empregar mulheres
entre 20 e 30 anos, encaminhando-as a empresas controladas
pelo Estado para ingressar nas fábricas de armamento, caso
necessário. Em 1944, na indústria e nos serviços auxiliares da
defesa civil havia 2 milhões de trabalhadoras, contingente
superior ao período prévio à guerra. Nos EUA, as mulheres,
por meio de campanhas de imprensa e de rádio, e as 10
milhões de norte-americanas que trabalhavam em 1941
passaram a ser 18 milhões em 1944.
9
Porém, terminada a guerra, as mulheres tiveram que
novamente retornar ao lar. Na Inglaterra e nos EUA, por
exemplo, desapareceram as creches criadas para facilitar o
trabalho das mulheres. Dessa vez as mulheres repetiram a
experiência do fimda Primeira Guerra Mundial, mas commaior
resistência por parte das operárias e empregadas que
se recusavam a deixar os postos de trabalho. Um “mal-estar”
instalou-se nas mulheres que não queriam reduzir-se
novamente ao papel de mães, esposas e consumidoras, o que
encontrará ressonância nos movimentos feministas de massas
que surgiriamanos mais tarde, especialmente nestes países.
ANDRE A D’ AT RI 86
9
Um cartaz norte-americano mostra uma mãe com um filho e um bebê
em seus braços. A legenda reza: “É menino! Dêem 10% de seu salário
para a guerra!” Outro diz: “Mulheres: há trabalho a fazer e uma guerra
a ganhar”.
Paoeroaao Pae
5
As mulheres no primeiro
Estado operário da História
“No lugar do matrimônio indissolúvel baseado na servidão da
mulher, eis que surge a união livre, fortalecida pelo amor
e pelo respeito mútuo de dois membros do Estado operário,
iguais por seus direitos e por seus deveres.
No lugar da família egoísta e individualista, vemos advir
a grande família universal dos trabalhadores,
na qual todos os trabalhadores, homens e mulheres,
serão, sobretudo, camaradas.”
Alexandra Kollontai
PÃO, PAZ, LIBERDADE E DIREITOS
PARA AS MULHERES
A análise da situação da mulher na União Soviética merece
um capítulo à parte. Com a revolução proletária de outubro de
1917, tendo à frente o Partido Bolchevique, as mulheres sovié-
ticas conquistaramdireitos indispensáveis, antes das mulheres
dos países capitalistas mais avançados do mundo.
No livro História da Revolução Russa, León Trotsky relata,
com estas palavras, a participação das mulheres trabalhadoras
nos acontecimentos de fevereiro de 1917, a partir dos quais teve
início o processo revolucionário que culminou em outubro do
mesmo ano:
Em 23 de fevereiro era o Dia Internacional da Mulher. Os social-
democratas se propunhama festejá-lo de forma tradicional: com
Paoeroaao Pae
assembléias, discursos, manifestos etc. Não passava pela cabeça
de ninguém que o Dia da Mulher pudesse converter-se no
primeiro dia da revolução. Nenhuma organização fez um
chamado à greve para esse dia. A organização bolchevique mais
combativa de todas, o Comitê do bairro operário de Viborg,
aconselhou que não se fizesse greve. As massas — como relata
Kajurov, um dos militantes operários do bairro — estavam
frenéticas: cada movimento de greve ameaçava converter-se em
choque aberto. (...). No dia seguinte, ignorando as orientações
dadas, as operárias de algumas fábricas têxteis se declararamem
greve e enviaram delegadas ao setor metalúrgico, pedindo-lhes
que aderissemao movimento. (...).
Já era de se esperar que, em caso de manifestações operárias, os
soldados seriamtirados dos quartéis contra os trabalhadores. (...).
É evidente, pois, que a Revolução de Fevereiro começou pela
base, vencendo a resistência das próprias organizações revolu-
cionárias; coma particularidade de que esta espontânea iniciativa
partiu de um impulso do setor mais oprimido e coibido do prole-
tariado: as operárias do ramo têxtil, dentre as quais pressupõe-se
que muitas eramcasadas comsoldados. As filas cada vez maiores
na porta das padarias encarregaram-se de dar o último empurrão.
No dia 23, cerca de 90 mil operárias e operários se declararamem
greve. Seu espírito combativo se exteriorizava emmanifestações,
comícios e confrontos com a polícia. O movimento teve início
no bairro fabril de Viborg, propagando-se aos bairros de
Petersburgo. (...). Manifestações de mulheres nas quais
perfilavam somente operárias se dirigiam em massa à Câmara
Municipal pedindo pão. Era como pretender o impossível. Saíram
a reluzir emdiversas partes da cidade bandeiras vermelhas, cujas
consignas clamavamque os trabalhadores queriampão, mas não
queriam, em troca, a autocracia ou a guerra. O Dia da Mulher
ocorreu com êxito, comentusiasmo e semvítimas. (...).
ANDRE A D’ AT RI 88
Paoeroaao Pae
No dia seguinte, o movimento grevista, longe de decair, ganha
mais força: em 24 de fevereiro a greve abrange cerca da metade
dos operários industriais de Petrogrado. Os trabalhadores se
apresentampela manhã nas fábricas, mas se recusama entrar no
trabalho, organizam comícios e na saída dirigem-se em
manifestação ao centro da cidade. Novos bairros e novos grupos
da população aderiram ao movimento. O grito de “pão!”
desaparece ou é substituído por “abaixo a autocracia!” e “abaixo
a guerra!”. (...).
No dia 25, a greve fortaleceu-se ainda mais. Segundo os dados do
governo, neste dia cerca de 240 mil operários estiveram
presentes. Os elementos mais atrasados se expressampor trás da
vanguarda; já adere à greve um número considerável de
pequenas empresas; paralisam-se as vias, fecham-se os estabe-
lecimentos comerciais. No transcurso desse dia, a greve ganha a
adesão dos estudantes universitários. Ao meio-dia, milhares de
pessoas afluem rumo à catedral de Kazan e às ruas adjacentes.
Procuram organizar comícios nas ruas, produzem choques
armados coma polícia. Aguarda montada abre o fogo. Umorador
cai ferido. (...).
O soldado da cavalaria se eleva por cima da multidão, e seu
espírito se ergue separado do grevista pelas quatro patas da besta.
Uma figura vista desde baixo aparece sempre mais ameaçadora e
terrível. A infantaria está ali mesmo, ao lado, mas próxima e
acessível. Amassa tenta se aproximar, olhá-la nos olhos, envolvê-
la com seu alento inflamado. A mulher operária representa um
grande papel na aproximação entre os operários e os soldados.
Com maior audácia que o homem, penetra nas fileiras dos
soldados, pega os fuzis com suas mãos, implora, quase ordena:
‘Desviem as baionetas e venham conosco’. Os soldados se
comovem, se envergonham, parecem inquietos, vacilam; um
deles se decide: as baionetas desaparecem, as fileiras se abrem,
estremece no ar um urra entusiasta e agradecido; os soldados se
AS MUL HE RE S NO PRI ME I RO E S TADO OPE RÁRI O DA HI S T ÓRI A 89
Paoeroaao Pae
ANDRE A D’ AT RI 90
vêem cercados de gente que discute, repreende e incita: a
revolução dera outro passo à frente. (...).
Os operários não se rendem, não retrocedem, queremconseguir
o que lhes pertence, ainda que seja sob uma chuva de chumbo, e
com eles estão as operárias, as esposas, as mães, as irmãs, as
namoradas. (...). Assim amanheceu sobre a Rússia o dia da
derrubada da monarquia dos Romanov. (...).
A revolução soa como indefesa aos coronéis, verbalmente
decididos, porque ainda é terrivelmente caótica: por todos
os lados, movimentos sem objetivos, torrentes confluentes,
turbilhões humanos, figuras assombradas, capotes desabro-
chados, estudantes que gesticulam, soldados semfuzis, fuzis sem
soldados, meninos que disparamao vento, clamor de milhares de
vozes, turbilhão de rumores desenfreados, alarmes falsos,
alegrias infundadas; parece que bastaria entrar nesse caos de
espada na mão para destruí-lo sem deixar rastros. Mas é um
grosseiro erro de visão. O caos não é nada mais que aparência.
Sob este caos, opera-se irresistível fortalecimento das massas em
umnovo sentido. As incalculáveis multidões ainda não definiram,
com suficiente clareza, o que querem; mas estão impregnadas
de um ódio ardente pelo que não querem. Em suas costas,
já carregam uma derrota histórica irreparável. Não há como
voltar atrás.
1
Anteriormente dissemos que as mulheres, durante a
Primeira Guerra Mundial, se incorporaram massivamente à
produção, pela escassez de força de trabalho masculina. Na
Rússia, durante a guerra, quando mobilizaramquase 10 milhões
de homens — em sua maioria camponeses —, as mulheres se
converteram em operárias agrícolas, chegando a representar
72% dos trabalhadores rurais. Nas fábricas, passaram de 33%
da força de trabalho em 1914, a 50% em 1917. Essas mulheres
1
León Trotsky, Historia de la Revolución Rusa, Madrid, Sarpe, 1985.
Paoeroaao Pae
trabalhadoras, fundamentalmente as operárias têxteis, em 23
de fevereiro de 1917 tomaramas ruas, reivindicando pão, paz e
liberdade.
Sob o governo provisório de Kerensky
2
, que se constituiu
como resultado da revolução de fevereiro que derrotou o czar,
as mulheres russas conquistaram o direito ao voto e à elegibi-
lidade. Direito promulgado em 20 de julho de 1917. Nos países
mais desenvolvidos do mundo, como Inglaterra e EUA, foi
conquistado em1918 e 1920, respectivamente.
Porém, enquanto as mulheres operárias foram a vanguarda
das mobilizações revolucionárias de fevereiro, as mulheres
mais instruídas — liberais burguesas e nobres — na noite do
assalto ao Palácio de Inverno conformaram um Batalhão
Feminino que tentoudefender a sede do governo czarista frente
aos operários insurrectos.
Coma revolução proletária de outubro de 1917, as mulheres
soviéticas conquistaram, antes das mulheres dos países
capitalistas o direito ao divórcio, ao aborto, à eliminação do
poderio matrimonial, à igualdade entre o matrimônio legal e o
concubinato etc. Na elaboração da nova legislação, a revolu-
cionária Alexandra Kollontai cumpriu papel preponderante:
primeira mulher eleita pelo Comitê Central do Partido Bolche-
vique em 1917 e a primeira a ocupar cargo de governo no novo
Estado: Comissária do Povo para a Saúde. Em 1922, foi a
primeira mulher embaixadora no mundo, carreira diplomática
que a afastou de Moscou até 1945.
3
AS MUL HE RE S NO PRI ME I RO E S TADO OPE RÁRI O DA HI S T ÓRI A 91
2
Alexandre Kerensky (1881-1970), chefe do governo provisório, após
a derrubada do czar, de fevereiro a outubro de 1917, segundo o calen-
dário ortodoxo russo. Foi destituído pela revolução operária dirigida
pelo partido bolchevique, que estabeleceu o poder dos conselhos
operários (soviets).
3
Alexandra Kollontai (1872-1952), intelectual, filha de um general.
Membro do partido desde 1899, bolchevique em um primeiro mo-
mento e depois menchevique até 1915, quando volta às fileiras do
bolchevismo. Emigra aos EUA durante a guerra, e retorna à Rússia
Paoeroaao Pae
ANDRE A D’ AT RI 92
Porém, a conquista mais importante da revolução não foram
as leis, mas ter assentado as bases para pleno e verdadeiro
acesso da mulher aos domínios culturais e econômicos.
4
De
pouco teria servido o direito ao voto se as mulheres — escravas
domésticas, segundo a definição de Lênin— continuassemsendo
únicas a arcar comas obrigações do ambiente familiar, as mais
limitadas no acesso à educação, as que não tinham nenhum
acesso à produção.
5
As tarefas domésticas, realizadas pelas mulheres, no lar, de
maneira individual e isolada, deviamser substituídas, segundo
os revolucionários, por um sistema de serviços sociais garan-
tidos pelo Estado: creches, jardins de infância, lavanderias e
refeitórios coletivos, hospitais, cinemas, teatros.
A absorção completa das funções econômicas da família pela
sociedade socialista, ao unir toda uma geração pela solidariedade
e pela assistência mútua, devia proporcionar à mulher, e
conseqüentemente, ao casal, uma verdadeira emancipação do
jugo secular. Enquanto esta obra não for concretizada, 40 milhões
de famílias soviéticas continuarão sendo, emsua grande maioria,
durante a revolução, ocupando altos cargos de governo. Alexandra
Kollontai foi autora de As bases sociais da questão feminina, A família
e o Estado comunista, A nova moral e a classe operária.
4
Entre os documentos anexos está um discurso de Lênin, dirigente da
Revolução Russa, de 1920, alentando a participação das operárias na
condução e administração do Estado soviético.
5
“O direito eleitoral não suprime a causa primordial da servidão da
mulher na família e na sociedade e não soluciona o problema das rela-
ções entre ambos os sexos. A igualdade, não formal, mas real da mul-
her, só é possível sob um regime em que a mulher da classe operária
seja a possuidora de seus instrumentos de produção e distribuição,
participe em sua administração, tendo a obrigação de trabalhar nas
mesmas condições que todos os membros da sociedade trabalhadora.
Ou seja, esta igualdade só é possível de se realizar mediante a derrota
do sistema capitalista e sua substituição pelas formas econômicas comu-
nistas.” (Teses para a propaganda entre as mulheres, III Congresso da
Internacional Comunista).
Paoeroaao Pae
vítimas dos costumes medievais, da servidão e da histeria da
mulher, das humilhações cotidianas do filho, das superstições de
umpara com o outro.
6
FILOSOFIA DE SACERDOTE, PUNHODE GENDARME
Não obstante, tal como aponta o dirigente da revolução russa
León Trotsky, não foi possível tomar por assalto a antiga família.
Por desgraça, a sociedade foi demasiadamente pobre e
demasiadamente pouco civilizada. Os recursos reais do Estado
não correspondiam aos planos e às intenções do partido
comunista. A família não pode ser abolida: é preciso substituí-la.
A verdadeira emancipação da mulher é impossível no terreno da
miséria socializada. Aexperiência revelou nitidamente esta dura
verdade, formulada há cerca de 80 anos por Marx.
7
Alémda imperiosa necessidade econômica, que restringiu o
desenvolvimento da socialização dos serviços, tais como
creches, lavanderias, refeitórios etc, a afirmação da burocracia
stalinista no poder do Estado após a morte de Lênindesenterrou
o velho culto à família, pois o novo regime tinha a necessidade
de uma hierarquia estável das relações sociais, e de uma
juventude disciplinada por 40 milhões de lares que servem de
apoio à autoridade e ao poder.
8
Como não podia ser diferente, a desigualdade crescente
entre uma camada de administradores e membros do partido e
o conjunto da classe operária soviética se expressava também
entre as mulheres.
AS MUL HE RE S NO PRI ME I RO E S TADO OPE RÁRI O DA HI S T ÓRI A 93
6
León Trotsky, La revolución traicionada, Bs. As., Claridad, 1938.
7
Idem.
8
Idem.
Paoeroaao Pae
ANDRE A D’ AT RI 94
A condição de mãe de família, comunista respeitada, que tem
uma empregada doméstica, um telefone para fazer seus pedidos
aos armazéns, um carro para o transporte etc, em nada se
assemelha às condições da operária que vai ao mercado, cozinha,
leva seus filhos ao jardim de infância. Nenhuma etiqueta
socialista pode ocultar esse contraste social, que não é menor ao
que diferencia em todo país do Ocidente a dama burguesa da
mulher proletária.
9
Apartir de 1926, sob o regime de Stalin, se institui novamente
o matrimônio civil como única união legal. Mais tarde é abolido
o direito ao aborto, junto à supressão da seção feminina do
Comitê Central e seus equivalentes nos diversos níveis de
organização partidária. Em 1934, é proibida a homossexua-
lidade e a prostituição se converte em delito. Não respeitar à
família se converte emconduta “burguesa” ou“esquerdista” aos
olhos da burocracia termidoriana.
10
Stalin declara em1936:
Oaborto que destrói a vida é inadmissível emnosso país. Amulher
soviética tem os mesmos direitos que o homem, mas isso não a
exime do grande e nobre dever que a natureza lhe designou: é
mãe, concebe a vida.
Quão distantes estão essas palavras das pronunciadas por
Trotsky, que dizia:
Opoder revolucionário deu a toda mulher o direito ao aborto, um
de seus direitos cívicos, políticos e culturais essenciais enquanto
durar a miséria e a opressão familiar, digam o que disserem os
eunucos e as solteironas de ambos os sexos.
9
Idem.
10
Entre os documentos anexos, está um texto sobre a defesa dos direitos
da mãe e do filho na URSS, sob o regime stalinista, que revela a ido-
latria à família e ao papel materno das mulheres, contrariando por
completo o espírito emancipatório e igualitário da Revolução Russa e
dos dirigentes bolcheviques revolucionários.
Paoeroaao Pae
Ao criticar os argumentos reacionários que esgrime a
burocracia para reinstalar a proibição do aborto acrescenta:
Filosofia de sacerdote que dispõe, inclusive, de punho de
gendarme.
11
O retrocesso nas conquistas revolucionárias é
acompanhado pela implementação da pena de morte a partir
dos 12 anos, a autorização da tortura e dos fuzilamentos
massivos e arbitrários, que acabaram com a geração de velhos
bolcheviques e com todos aqueles que se atreveram a
expressar oposição ao regime stalinista. Anos mais tarde, em
1944, aumentamas consignações familiares, foi criada a ordem
da “Glória Materna” para a mulher que tivesse entre sete e
nove filhos, e o título de “Mãe Heróica” para quemtivesse mais
de dez. Os filhos ilegítimos voltam a essa condição, abolida em
1917 e o divórcio se converte emumtrâmite custoso e cheio de
dificuldades.
MULHERES OPOSICIONISTAS
Em1938, LeonTrotsky defendeuque era necessário retomar
as bandeiras revolucionárias sob outra Internacional. A III
Internacional, estrangulada pela política de Stalin, cumpria
papel cinicamente contra-revolucionário, traindo abertamente
a classe operária mundial.
Da mesma maneira que Marx e Engels combateram no
interior da I Internacional para manter o espírito revolucio-
nário, Rosa Luxemburgo, Clara Zetkin, Lênin e Trotsky ten-
taram manter o fio de continuidade com essas experiências,
abandonando a II Internacional quando a maioria aceitou
participar da guerra imperialista, um dos máximos dirigentes
AS MUL HE RE S NO PRI ME I RO E S TADO OPE RÁRI O DA HI S T ÓRI A 95
11
Idem.
Paoeroaao Pae
da revolução de outubro abandonava a III Internacional, que
havia se degenerado irremediavelmente frente às provas da
história.
A IV Internacional surgiu, então, declarando em seu
programa que
uma política correta é composta por dois elementos: uma atitude
inflexível frente ao imperialismo e suas guerras, e a capacidade
de desenvolver umprograma à luz da experiência das massas.
12
Por sua especial atenção aos setores mais explorados da
classe operária, não por acaso a IV Internacional bordou em
suas bandeiras a consigna de “A frente a mulher trabalhadora!
A frente a juventude!”. Emseu programa lê-se:
As organizações oportunistas, por sua própria natureza, centram
principalmente sua atenção nas camadas superiores da classe
operária, e, por conseguinte, ignoram tanto a juventude como a
mulher trabalhadora. Agora, o declínio do capitalismo desfere
seus golpes mais fortes à mulher, enquanto trabalhadora e
enquanto dona de casa.
13
Antes da fundação da IV Internacional, os oposicionistas ao
regime de Stalin eram perseguidos, presos e assassinados. Na
época dos processos fraudulentos de Moscou, instigados pelo
regime stalinista contra os principais dirigentes da revolução de
1917 e contra todos aqueles que se opunham à sua política,
as mulheres foram entre 12% e 14% dos comunistas detidos
em campos de concentração, sob acusações de sabotagem,
espionageme “trotskismo”. Entre os milhares de oposicionistas
deportados, desterrados, presos e fuzilados, encontramos os
ANDRE A D’ AT RI 96
12
Extratos do documento A agonia do capitalismo e as tarefas da IV
Internacional, de 1938, mais conhecido como Programa de Transição.
A parte sobre a juventude e a mulher trabalhadora está entre os
documentos anexos no final deste trabalho.
13
Idem.
Paoeroaao Pae
seguintes nomes em destaque: Eugenia Bosch, Nadejda Joffe,
Tatiana Miagkova, dentre muitas outras mulheres que valen-
temente travaram sua luta contra o stalinismo sob as piores
condições.
Eugenia Boschnasceuem1879 e em1900 se filiouao partido
social-democrata russo, alinhando-se com a ala esquerda dos
bolcheviques desde 1903. Em 1913, é deportada por suas
atividades revolucionárias e dois anos mais tarde consegue
escapar e refugiar-se nos EUA. Em seu regresso à Rússia, após
a revolução de fevereiro de 1917, desempenhou papel dirigente
no levante de Kiev e na guerra civil. Logo estava entre os
assinantes da “Declaração dos 46”, na qual 46 membros do
partido bolchevique criticavama posição da direção stalinista.
14
Eugenia se suicidou em1924, aos 45 anos de idade, como gesto
de protesto contra a burocracia.
Nadejda era filha de Adolfo Joffe, grande amigo de Trotsky
até sua morte. Viveu sua primeira infância em Viena, onde
seu pai preparava a difusão do jornal Pravda na Rússia, e
convivia como filho de Trotsky, León Sedov, que tinha a mesma
idade. De volta à Rússia em 1917 — onde seu pai foi um dos
diplomáticos mais iminentes da jovem república soviética
15
-,
aderiu às juventudes comunistas. Em 1924, sempre junto a
León Sedov, aderiu à oposição de esquerda dentro dessa
organização.
Após o suicídio de seu pai, como gesto de protesto contra o
regime stalinista e a ilegalidade da oposição de esquerda em
1927, participou de atividades clandestinas, sendo presa e
AS MUL HE RE S NO PRI ME I RO E S TADO OPE RÁRI O DA HI S T ÓRI A 97
14
Declaravam que o país estava ameaçado pela ruína econômica, por-
que a maioria da direção (Politbureau) não tinha nenhuma política
nesse sentido e não via a necessidade da planificação da indústria.
Protestavam também contra o burocratismo. Trotsky não assina essa
declaração, ainda que os seus autores tomem algumas de suas posi-
ções. Entre os mais conhecidos, estão Preobajensky, Smirnov, Belovo-
dorov e Serebriakov.
15
Adolfo Joffe foi embaixador na Alemanha nas vésperas da revolução
de novembro de 1918 e depois embaixador na China.
Paoeroaao Pae
ANDRE A D’ AT RI 98
deportada em 1928. Em 1934, convencida pelo exemplo e
influência de Christian Rakovsky
16
— que decidiu capitular ao
regime stalinista, invocando a ameaça nazista contra a União
Soviética —, Nadejda o imita. Logo lamenta ter tomado a
iniciativa e se retrata. Presa novamente em1936, não é libertada
definitivamente até 20 anos depois. Seu companheiro, Pavel
Kossakovsky, foi fuzilado em um campo de concentração em
Kolyma
17
, em 1938. Quando liberada, em 1956, se consagra à
luz da memória de seu pai e de seus camaradas e funda a
associação Memorial.
18
Ahistória de Tatiana Miagkova (1897 - 1937) é outro exemplo
do que ocorria com aqueles que aderiam às idéias de Trotsky
opondo-se à burocracia stalinista. Tatiana é uma entre 6 mil
trotskistas assassinados em 1937, somente no porto de
Magadan.
19
Ainda estudante, participou da ação revolucionária e foi
presa. Libertada pela revolução de fevereiro de 1917, aderiu ao
16
Christian Rakovsky (1837-1941). Socialista romeno-búlgaro, membro
do Comitê Central do partido bolchevique após a revolução de 1917 e
presidente do Conselho de Comissários do Povo da Ucrânia. Foi embai-
xador da URSS na França de 1925 a 1927. Principal dirigente da oposi-
ção de esquerda na Rússia desde que Trotsky fora enviado ao exílio,
capitula em 1934, depois de anos de perseguição e reclusão em condi-
ções subumanas nos campos de concentração do regime stalinista.
17
Região no extremo oriental da Sibéria.
18
Em 1988, na Casa da Aviação, em Moscou, presidiu reunião de mais
de mil pessoas consagrada a León Trotsky e aos seus. Lá conheceu
Pierre Broué, diretor do Institute Leòn Trotsky com sede na França
e um dos historiadores do partido bolchevique e do movimento trots-
kista internacional de maior peso. Nadejda possibilitou, nessa oportu-
nidade, o encontro de dois netos de Trotsky, irmão e irmã, separados
havia mais de meio século, Aleksandra e Sieva. Bastante ativa, parti-
cipou de inúmeros congressos e conferências e realizou com Sieva
Volkov e Pierre Broué um ciclo de conferências sobre Trotsky, nos
EUA. Era grande oradora, cheia de fogosidade e de humor, formada —
como se dizia — no vento da tundra.
19
Cidade e porto da URSS na Sibéria Oriental, zona industrial e de jazi-
das auríferas.
Paoeroaao Pae
partido bolchevique em1919. Durante a ocupação da cidade de
Kiev pelas tropas do general czarista Denikin, passou à
clandestinidade para assegurar o contato comos destacamentos
do Exército Vermelho em retirada. Publicou suas memórias
desse período na revista Letopis Revolioutsii, de fevereiro de
1926. Após o fimda guerra civil recomeçou estudos emMoscou
e depois se estabeleceu na Ucrânia.
Em 1926, aderiu à “Oposição Unificada”, constituída por
Trotsky, Zinoviev e Kamenev
20
e é excluída do Partido Comu-
nista russo, em 1927, por ser “trotskista”. Em 1928, foi enviada
ao exílio em Astrakán, sobre o mar Cáspio. Lá continuou sua
atividade de oposicionista: com outros membros exilados da
oposição, organizou um grupo que se reunia em seu depar-
tamento; recrutou jovens da região para a oposição, reproduziu
e difundiu documentos da oposição entre os membros do
Partido Comunista e jovens comunistas de Astrakán, propôs
levantar um fundo de ajuda aos exilados. Tornou-se secretária
de Christian Rakovsky, o principal dirigente da oposição na
União Soviética após a expulsão de Trotsky, em fevereiro de
1929. Acusada de ter reeditado e difundido um folheto da
oposição foi condenada ao exílio por três anos no Cazaquistão.
Seu marido, Comissário do Povo para as Finanças da República
da Ucrânia, foi visitá-la para tentar convencê-la a renunciar a
suas opiniões e à atividade oposicionista.
Tatiana Miagkova foi exilada comoutras duas oposicionistas:
Sônia Smirnova e Maria Varchavskaia. Esta, que até seu último
dia manteve a integridade de suas posições políticas, conta que
Tatiana Miagkova, ao longo de longas e difíceis discussões com
AS MUL HE RE S NO PRI ME I RO E S TADO OPE RÁRI O DA HI S T ÓRI A 99
20
Zinoviev, Kamenev e Trotsky, em junho de 1926, conformam a oposi-
ção unificada, que se levanta contra a teoria do socialismo em um só
país, de Stalin; contra a política de Bukhárin sobre os camponeses e o
“avanço ao socialismo a passos de tartaruga”. Também se definem
pelo retorno à democracia operária no interior do partido. Zinoviev e
Kamenev capitulam no ano seguinte no XV Congresso do PC para
poder continuar no partido.
Paoeroaao Pae
seu marido, acabou se rendendo aos seus argumentos renun-
ciando publicamente às atividades políticas. Em1931, se estabe-
lece em Moscou com o marido, neste momento funcionário do
aparato do comitê executivo central do PCUS. Porém, ainda que
Tatiana Miagkova tenha interrompido a atividade política,
continuou expressando opiniões que não haviam mudado. Em
12 de janeiro de 1933 é presa novamente e condenada a três
anos de prisão e isolamento.
Em 28 de maio de 1936, conferência especial da NKVD —
nome da polícia secreta stalinista, depois denominada GPU e
mais tarde, KGB — condenou Tatiana Miagkova a cinco anos em
umcampo de concentração na região de Magadan, lugar que os
deportados chamavam de “crematório branco”. Nesse mesmo
momento, chegavamtambéma Magadanas duas velhas amigas
trotskistas de Tatiana, Smirnova e Varchavskaia. A filha de
Tatiana escreve sobre estes acontecimentos:
Reuniram-se em Magadan, todos os trotskistas, todos os
opositores, todos os homens capazes de defender seu ponto de
vista e de opor seu ponto de vista à direção suprema do país.
Depois, enviaram-na a outro campo mais ao norte. Em um
dia do outono de 1937 um comboio é detido próximo ao acam-
pamento onde ela vivia. Entre os prisioneiros transportados,
reconhece umamigo trotskista. Quis dizer-lhe algo através das
relhas de arado, mas um guarda empurrou-a e ela protestou.
Segundo os relatos de uma de suas vizinhas, insultouos guardas
aos gritos:
Fascistas, mercenários fascistas, eu sei que seu poder não se
regateia sequer às mulheres ou às crianças, mas logo chegará o
fimde vossa arbitrariedade!
O veredicto lhe reprova ser “uma trotskista desarmada”, de
“estabelecer sistematicamente laços com os trotskistas”, de ter
feito greve de fome por seis meses e, finalmente, a conferência
especial da NKVD. Foi condenada ao fuzilamento.
ANDRE A D’ AT RI 100
Paoeroaao Pae
A sentença é executada imediatamente. Alguns dias antes, a
conferência especial havia condenado seu amigo a ser fuzilado.
Ele era o número 49 de uma lista de trotskistas condenados à
morte naquele dia por participar de manifestação em protesto
contra o tratamento aos deportados, por fazer greve de fome e
realizar atividades “trotskistas”. Overedicto estipula:
Poliakov Benjamim Moiseevitch é acusado de ser membro do
comitê trotskista contra-revolucionário e de ter participado da
manifestação contra-revolucionária de Vladivostok. É o organi-
zador de uma revolta no transcurso de seu traslado a Nagaievo.
Organizou o recrutamento de participantes da greve de fome
participando da mesma. Redigiu e assinou petitórios e decla-
rações contra-revolucionárias. Recusa-se a trabalhar.
O historiador Birioukov, que esteve em Magadan em 1990
investigando o caso de Tatiana Miagkova e seus camaradas,
escreveu à sua filha:
A história da maneira como foram enviados 6 mil presos
trotskistas a Kolyma (e não 200, como escrevi anteriormente) e
de como estes últimos tentaram fazer justiça para si mesmos
(reivindicando o status de prisioneiros políticos), como tentaram
continuar seu combate ao stalinismo e como, porfim, foram
aniquilados durante estes anos é uma história grandiosa que
contrasta como fundo de tragédia nacional da época. Eo destino
de sua mãe é umpequeno elo desta história horrorosa.
A “história horrorosa”, sem dúvida, não podia durar
eternamente. A burocracia que usurpou a bandeira da
revolução de outubro finalmente sucumbiu na podridão da
história. Emumprocesso marcado por contradições, derrubou-
se frente à corrosão de uma profunda crise econômica e da
mobilização das massas no fimda década de 1980.
Não obstante, com o desvio político dos processos
revolucionários e o avanço da restauração capitalista, novas
misérias se somaram às já existentes, para os trabalhadores da
AS MUL HE RE S NO PRI ME I RO E S TADO OPE RÁRI O DA HI S T ÓRI A 101
Paoeroaao Pae
ex-União Soviética, especialmente para as mulheres. O
desemprego, a fome e a inflação provocaram o maior índice de
alcoolismo, violência, máfias criminosas e outras misérias sem
precedentes na Rússia. Além disso, milhões de mulheres nas
ruas com os filhos, vivendo abaixo da linha de pobreza e
considerável aumento da prostituição e tráfico de mulheres aos
países ocidentais.
O capitalismo revelou-se não como o paraíso que se vendia
nas publicidades pró-ocidentais. As conquistas da revolução de
1917 foram marginalizadas pela burocracia stalinista; sem
dúvida, sequer o terror termidoriano de Stalin pôde varrê-las
definitivamente, o que só começou com a restauração capita-
lista. Porém, ainda que os efeitos imediatos sejamdevastadores,
a queda do maior aparato contra-revolucionário do século XX
significou a liberação da energia de milhões de explorados e
oprimidos na ex-URSS e em todo o mundo, aprisionada na
camisa de força imposta por esta direção traidora.
Nas experiências das mulheres soviéticas há fonte de
tradições históricas na qual podemos beber os milhões de
mulheres de todo o mundo que, nas garras do capitalismo, só
conhecemos opressão e miséria. E, por isso, lhe declaramos
guerra até a morte.
ANDRE A D’ AT RI 102
Paoeroaao Pae
6
Entre Vietnã e Paris,
os corpetes à fogueira
“Opessoal é político”
consigna do movimento feminista da segunda onda
BOOMECONÔMICOE BABY-BOOM
O resultado da Segunda Guerra Mundial reconfigurou a
economia e a política internacional.
1
Com o fim da guerra, a
coexistência pacífica do imperialismo acordada com o
stalinismo, significou um verdadeiro pacto para evitar que os
processos revolucionários que emergiam nos países centrais
que haviam participado da contenda questionassem a ordem
vigente. Adestruição massiva de forças produtivas que resultou
da guerra imperialista e papel do stalinismo no desvio e na
derrota da revolução nos países centrais da Europa durante o
pós-guerra constituíramas condições que possibilitaram o que
ficou conhecido como o “boom” do pós-guerra. Ainda que tenha
resignado seu domínio em quase um terço do globo, dada a
quantidade de países do Leste europeuque se integraramà área
1
“O ponto mais alto da hegemonia norte-americana se deu quando o
mundo emergiu da Segunda Guerra Mundial e foi reconhecida a Ordem
de Yalta e Potsdam. Este repousava na superioridade econômica e mili-
tar dos EUA, no marco da derrota militar dos imperialismos do eixo
e da enorme decadência dos aliados: Inglaterra e França. Mas junto
a esse aspecto contava com um instrumento fundamental que era a
Paoeroaao Pae
ANDRE A D’ AT RI 104
de influência da União Soviética, o imperialismo teve nesses
anos um crescimento econômico sem precedentes.
2
O cresci-
mento econômico permitiu a cooptação do proletariado nos
países centrais por meio da criação de grandes setores operários
privilegiados pela manutenção e reprodução do consumo a
partir dos benefícios sociais e do endividamento.
Desse modo, sob o chamado “estado de bem-estar”, as
mulheres, fundamentalmente dos países centrais, conquis-
taram enormes direitos quanto à maternidade, configurando
importante legislação social neste terreno. Mães solteiras,
mulheres da classe operária, viúvas e esposas abandonadas se
converteramnos grupos privilegiados pela política maternalista
regida por algumas reformas que modificaram o direito
trabalhista, o seguro de saúde, a beneficência, o direito da
família, a legislação fiscal etc. O direito ao voto foi incorporado
colaboração contra-revolucionária de Moscou e do aparato stalinista
mundial, como contenção do proletariado e dos movimentos de liberta-
ção nacional. Este acordo permitiu o assentamento da hegemonia norte-
americana no pós-guerra.” (J. Chingo y E. Molina: “La guerra de los
Balcanes y la situación internacional” em Estrategia Internacional
Nº 13, 1999).
2
“Assim, não só as guerras atuaram reduzindo a composição orgânica
do capital, mas o disciplinamento da classe operária, propiciado pelo
stalinismo e pela colaboração posterior das próprias tropas de ocupa-
ção norte-americana, permitiram um aumento enorme das taxas de
mais-valia. Estes dois fatores, queda da composição orgânica do capital
e altas taxas de mais-valia, estiveram, a nosso ver, na base do enorme
aumento da taxa de lucro que permitiu o boom. Do mesmo modo, o es-
tabelecimento da hegemonia quase absoluta do imperialismo norte-
americano no fim da segunda guerra foi fator que evidentemente não
foi alcançado logo de primeira e se converteu em elemento fundamental
de estabilização do conjunto da economia. Também não podemos des-
cartar que o desenvolvimento posterior da Alemanha e do Japão (seus
futuros competidores) e sua reconstrução foram impulsionadas pelo
próprio imperialismo norte-americano, respondendo em grande me-
dida à necessidade política de desterrar o perigo da revolução.” (Paula
Bach: “Robert Brenner y la economía de la turbulencia global: algunos
elementos para la crítica”, em Estrategia Internacional, Nº 13, 1999).
Paoeroaao Pae
na maioria das constituições dos países do mundo. Por outro
lado, a expansão econômica própria do período permitiu a
presença crescente das mulheres no mercado de trabalho e,
como conseqüência, a maior inclusão nos âmbitos culturais e
políticos. As mulheres se integrarammassivamente à educação
e à produção, o que implica a reconfiguração das relações
familiares, relações entre os gêneros e papel estereotipado da
dona de casa.
Entretanto, ainda que a pressão das feministas tenha sido
importante, é necessário reconhecer, fundamentalmente, que
esse mesmo Estado impulsionou uma nova política sobre a
família de tendência pró-natalista. Os custos da maternidade e
todos os benefícios salariais com a família foram parte da
importante redistribuição das crescentes rendas nacionais que
viabilizarama materialização dos benefícios.
O fim da guerra deflagrou notável aumento da taxa de
natalidade nos países centrais da Europa. Os avanços da
medicina por um lado e, por outro, a melhoria significativa da
alimentação e da higiene, possibilitaram a redução dos riscos
de mortalidade para mães e recém-nascidos, engendrando o
que nos EUAficou conhecido como o baby—boom. Pouco depois,
a partir dos últimos anos da década de 1950, a tendência se
inverte: as novas possibilidades de alimentação do bebê
encurtaramo período de amamentação, permitindo que a tarefa
fosse realizada por outras pessoas, capazes de substituir a
progenitora, liberando a mãe para atividades extradomésticas
como o trabalho e o estudo. Por outro lado, o maior desen-
volvimento científico, que permitiu o aperfeiçoamento dos
anticonceptivos hormonais e dos dispositivos intra-uterinos
(DIU), conferiu às mulheres maior decisão sobre a reprodução.
O lar das classes médias e dos setores mais acomodados do
proletariado sofreu durante o período importante transfor-
mação estrutural: as novas moradias contavam com cozinhas
emambientes separados, banheiros equipados e todas as redes
de serviços (gás, água, eletricidade), eliminando algumas das
E NT RE VI E T NÃ E PARI S , OS CORPE T E S À F OGUE I RA 105
Paoeroaao Pae
tarefas mais pesadas dos afazeres domésticos. Tambémo uso de
eletrodomésticos significou alívio a outras tantas. Tudo isso
permitiu liberar as mulheres, material e ideologicamente, para
a produção de bens e serviços. Isso foi necessário, por sua vez,
para aumentar o salário familiar. Otrabalho feminino, inclusive
a inserção das mulheres das classes médias no mercado como
força de trabalho, sobretudo nos setores de serviços e oficinas,
converteu-se em um salário adicional à família, permitindo a
ascensão social e maior obtenção de bens de consumo,
aumentando o bem-estar e a qualidade de vida.
Em última instância, o produto final da transformação do
papel tradicional das mulheres em seu lar se materializa “na
desvalorização funcional do casamento e da família como
desígnio, a desinstitucionalização e a precarização do vínculo
conjugal.”
3
Essa mudança profunda nas relações entre os
gêneros incitou uma transformação na subjetividade feminina,
que ficou conhecida como o “mal-estar das mulheres”. A
mudança é interpretada por algumas autoras como o motivo
“subjetivo” que origina o movimento feminista da segunda
onda.
Mas o boomeconômico e a conseqüente estabilidade da luta
de classes não durarameternamente.
Até o final dos anos 1960, com o fim do boom capitalista e o
ascenso dos anos 1968-76, retoma-se a perspectiva de que com a
luta do proletariado no ocidente contra os governos imperialistas,
contra a burocracia stalinista no leste e contra as burguesias pró-
imperialistas nas semicolônias, fortalecem-se as tendências ao
enfrentamento com os pilares da ordem de Yalta. Como
conseqüência disto, ressurgemas tendências à independência de
classe que se expressa nos cordões industriais chilenos, na
assembléia popular boliviana, nos conselhos de inquilinos e
ANDRE A D’ AT RI 106
3
Lefaucher, N., “Maternidad, familia, Estado” em Historia de las muje-
res de Occidente, op. cit.
Paoeroaao Pae
soldados na revolução portuguesa etc. Semdúvida, pode-se dizer
que a ordem de Yalta e suas direções apoiadoras se debilitaram,
mas todavia não foramderrotadas. Oprocesso revolucionário foi
desviado no centro e esmagado de maneira contra-revolucionária
na América Latina.
4
Durante o período em que ressurgiu a luta de classes, em
ambos os hemisférios, um novo movimento de libertação da
mulheres resplandece, de forma massiva nos países centrais
influenciando pequenos setores de mulheres das classes médias
nos países periféricos.
LIBERDADE, IGUALDADE E SONORIDADE
5
Frente a um cenário marcado por greves econômicas e
políticas, lutas contra a opressão nacional, manifestações
estudantis, das minorias negras e homossexuais e o poderoso
movimento contra a guerra imperialista no Vietnã, as mulheres
entramemcena na política internacional. Umnúmero cada vez
maior de mulheres passa a participar de campanhas pelo direito
ao aborto e aos anticoncepcionais, pelo estabelecimento
suficiente de cheches, contra toda restrição legal à igualdade.
Denunciamo sexismo na política, no trabalho, na educação, na
mídia e na vida cotidiana.
6
E NT RE VI E T NÃ E PARI S , OS CORPE T E S À F OGUE I RA 107
4
Albamonte, E. y Sanmartino, J., “La historia del marxismo y su conti-
nuidad leninista-trotskista es la del álgebra de la revolución proleta-
ria” em Estrategia Internacional Nº 10, 1998.
5
Grande parte do conteúdo deste capítulo e do próximo é uma reelabo-
ração do meu artigo “El feminismo y la democracia radical... mente li-
beral”, publicado em Lucha de Clases Nº 1, novembro de 2002.
6
Em 1968, algumas mulheres norte-americanas outorgaram a coroa de
Miss América a uma ovelha e jogaram sutiãs, faixas e cílios postiços
em uma dita “lixeira da liberdade”. Em 1970, um grupo de mulheres
francesas colocou uma coroa de flores no Arco do Triunfo em honra à
Paoeroaao Pae
Ainda que o movimento feminista ressurgisse funda-
mentalmente entre estudantes e donas de casa de classe média,
as suas reivindicações, combinadas com as crescentes contra-
dições do sistema capitalista, permitiram mobilizar setores
muito mais amplos. Uma das principais consignas do
movimento massivo de mulheres foramas de “salário igual por
trabalho igual” e contra a dupla jornada que sobrecarrega as
mulheres comas tarefas domésticas após a jornada de trabalho
fora de casa.
Como vimos, desde 1945 ocorria em todos os países
proliferação de leis, regulamentações, decretos nacionais e
internacionais que proclamavam, entre outras coisas, o direito
a salário igual por trabalho igual. Não obstante, a diferença
entre os salários masculinos e os femininos prevalece até 1968,
quando a diferença diminui, para em 1975 chegar a uma
margem entre 25% e 35%, de acordo com o país. Neste ano, as
mulheres que trabalham fora de casa realizam o triplo do
trabalho doméstico levado a cabo pelos homens. Quanto aos
postos ocupados no mercado de trabalho, as mulheres estão
particularmente representadas no setor terciário (comércio,
banco, serviços), prevalecendo como ínfima minoria nas
indústrias manufatureiras, na construção, nas obras públicas e
transportes.
Em 1966, nos EUA, Betty Friedan funda a Organização
Nacional de Mulheres (NOW), que reuniu centralmente
mulheres de classe média, casadas e com filhos. Em 1971 a
organização passa a ter mais de 10 mil membras apesar de no
ano de sua fundação sofrer uma ruptura por mulheres jovens e
solteiras que deramà luz a ummovimento mais radicalizado, o
Movimento de Libertação das Mulheres (WLM). Grande
conquista do movimento norte-americano de mulheres,
impulsionada de maneira conjunta pela NOW e WLM foi a
ANDRE A D’ AT RI 108
esposa desconhecida do soldado desconhecido e, junto a ela, outra
com a seguinte frase: “A cada dois homens, um é uma mulher”.
Paoeroaao Pae
jurisdição imposta às companhias de telégrafos e telefones para
que pagassem as diferenças retroativas de salário — em relação
ao salário masculino — correspondente às empregadas mulhe-
res, cifra que chegou a vários milhões de dólares.
Outro ponto importante do ataque das mulheres foram as
políticas sobre direitos reprodutivos, aborto e violência sexual.
Em 1971, 365 mulheres famosas alemãs publicaram em uma
revista que haviam abortado. Isto deu vazão a uma declaração
de apoio de 86.500 assinaturas de mulheres que confessavam
ter feito o mesmo, apresentada ao Ministério Federal da Justiça.
Finalmente, em1974, é permitido o aborto livre durante os três
primeiros meses de gravidez sob algumas restrições. Ao mesmo
tempo, na França, 343 mulheres célebres afirmavam publica-
mente ter realizado abortos voluntários e, no ano seguinte, se
somaram 345 médicos que declaravam tê-lo praticado. O
Movimento pela Liberalização do Aborto e da Contracepção na
França abriu numerosas clínicas ilegais de aborto até 1975,
quando o direito foi legalizado.
7
Para alémdas lutas pelos direitos democráticos o feminismo
da segunda onda se interessoupela reconstrução da história das
mulheres, as origens da opressão e as implicações das dife-
renças de gênero emtodas as áreas. Isso abriuamplo campo nas
universidades que, a partir dessa época, incorporaram os
Estudos de Gênero, Estudos das Mulheres, ou também
denominados Estudos Feministas no âmbito acadêmico.
8
As
feministas acadêmicas questionaram os postulados da antro-
pologia, psicanálise, sociologia, economia e história. Essas
ciências funcionavam como veículos dos preconceitos mais
E NT RE VI E T NÃ E PARI S , OS CORPE T E S À F OGUE I RA 109
7
A solicitação, chamada de “as 300 sem-vergonhas” está reproduzida
com suas assinaturas entre os documentos anexos.
8
As historiadoras, por exemplo, questionaram a História por esta ter
sido descrita, essencialmente, pelos homens (History) e apelaram à
construção de uma história das mulheres (Herstory). Em inglês, a pa-
lavra History soa da mesma maneira que His Story (história dele). Daí
a contraposição com o nome de Herstory, de her story (história dela).
Paoeroaao Pae
ANDRE A D’ AT RI 110
tradicionais contra as mulheres. E novamente ressurgem os
sentimentos internacionalistas: em1976, feministas de diversos
países se reúnememBruxelas para o Tribunal Internacional de
Denúncias de Crimes Contra as Mulheres.
Influenciadas pelas experiências e contato com a literatura
proveniente dos países centrais, muitas latino-americanas —
sobretudo de classe média — deraminício à formação de grupos
de reflexão (conscientização) e ativismo pelos direitos das
mulheres.
9
Mas o movimento de conjunto nunca chegou a ser
massivo como nos países centrais. Osurgimento desses grupos
se deu no marco de uma aguda radicalização da luta de classes
que na América Latina se manifestou no ascenso operário e
popular, cujas principais expressões foram os cordões
industriais chilenos, a semi-insurreição do Cordobaço, na
Argentina, as mobilizações estudantis — principalmente em
Tlatelolco (México), considerada a experiência mais aguda — e
a entrada em cena de numerosos movimentos de guerrilha
urbana e camponesa. Os grupos feministas latino-americanos,
portanto, se viram envolvidos rapidamente pela aguda luta de
classes que exigia definições e compromissos. Como afirma
Leonor Calvera emsua história do feminismo argentino:
No sentido dos enfrentamentos, a maré do partidarismo que nos
cercava não deixou de nos golpear fortemente no interior do
grupo: reproduzimos velhos antagonismos tradicionais e inven-
tamos outros. As análises tomavam cada vez menos a mulher
como eixo e centravam-se nos esquemas de classe.
10
Mais tarde, em meados dos anos 1970, a derrota desse
ascenso da luta de classes a partir da contra-revolução
sangrenta nos países latino-americanos inaugurou o curso de
9
Entre os documentos anexos reproduzimos alguns panfletos de grupos
feministas da Argentina das décadas de 1970 e 1980.
10
Leonor Calvera, Mujeres y Feminismo en Argentina, Bs. As., Grupo Edi-
tor Latinoamericano, 1990.
Paoeroaao Pae
uma nova ofensiva imperialista na região, depois conhecida
como “neoliberalismo”. Os regimes ditatoriais que se assen-
taram em grande parte de nosso continente impediram o
desenvolvimento do movimento feminista, não só pela
instauração de uma ideologia reacionária baseada na defesa da
tradição e da família, mas também pela perseguição política e
pelo terrorismo de Estado, com seqüelas de torturas, exílios
forçados, prisão, desaparecimentos e assassinatos de ativistas
sociais, estudantis e políticos. A polarização social vivida por
nossos países também se traduzia nas visões lançadas sobre o
feminismo: a direita considerava as feministas subversivas e
contestatórias; a esquerda, pelo contrário, pintava-as de
“pequeno-burguesas”.
Apesar de alguns grupos realizarem ações durante os
regimes totalitários e outras mulheres manterem reuniões de
reflexão e estudo em meio a um clima de hostilidade, o certo é
que o movimento feminista latino-americano recupera o
protagonismo logo no início dos anos 1980, coma derrubada das
ditaduras e a instauração dos novos regimes democráticos
burgueses em toda a região. As ditaduras conseguiram cortar,
emgrande medida, os fios de continuidade coma etapa anterior.
Os planos iniciais do feminismo dos anos 1970 tornama ser eixo
de discussão. Em certo sentido, instalados os regimes
democráticos, os anos do terror obrigaramas feministas latino-
americanas a “voltar ao início”.
RADICAIS E SOCIALISTAS CONTRA OPATRIARCADO
A perspectiva mais geral do movimento feminista dos anos
1970 é antiinstitucional. Por isso, não pode ser interpretada
senão no marco do movimento insurrecional vivido em todo o
mundo com o Maio Francês, o Outono Quente italiano, as
mobilizações estudantis e pacifistas nos EUAcontra a Guerra do
Vietnã, a Primavera de Praga, o Cordobaço na Argentina etc.
E NT RE VI E T NÃ E PARI S , OS CORPE T E S À F OGUE I RA 111
Paoeroaao Pae
Somente na década de 1980 o movimento feminista iniciará o
processo de reconciliação com instituições, universidade,
partidos políticos e Estado, deslocando-se das mobilizações de
rua rumo a outros âmbitos. Mas, por enquanto, as diferentes
tendências dentro do movimento feminista se definiam em
torno das diversas interpretações de opressão, por conseguinte,
pelos métodos empregados na luta contra essa opressão.
As tendências mais radicalizadas foram impulsionadas
por mulheres que provinham de outras organizações ou movi-
mentos de emancipação, com experiências políticas e mili-
tantes de esquerda. Muitas eram marxistas, mas repudiavam a
discriminação à qual se viamsubmetidas emsuas organizações
políticas. Constituíram movimentos autônomos e radicais,
porque consideravam que sua luta era contra um sistema
patriarcal, sendo necessário transformá-lo profundamente, e os
partidos de esquerda não faziam mais que reproduzi-lo, como
se deixava entrever da experiência do chamado “socialismo
real” e da experiência pessoal que cada uma viveunos exércitos
guerrilheiros e emoutras organizações partidárias de esquerda.
As feministas radicais se diferenciavam do denominado
“feminismo liberal” que apenas se restringia a reformas que
incluíssem as mulheres no mesmo sistema, tendo em vista
equiparar seus direitos aos direitos adquiridos pelos homens,
permitindo o acesso das mulheres aos mesmos cargos de poder
que, até o momento, haviam sido de exclusivo domínio mas-
culino. Não obstante, algumas mulheres aderiram ao que
ficou conhecido por “feminismo da igualdade”, segundo o qual
o gênero é contextualizado como social, não determinado pela
anatomia, rechaçando o determinismo biológico do “sexo” ou
a “diferença sexual”, utilizados habitualmente para justificar a
discriminação das mulheres. Em outras palavras, para as
feministas da igualdade biologia não significa destino. Pelo
contrário, trata-se de lutar para eliminar as diferenças de
gênero socialmente construídas, pois tais diferenças refor-
çariama exclusão e a opressão das mulheres quando o objetivo
ANDRE A D’ AT RI 112
Paoeroaao Pae
era — por meio de diversas vias — colocar-se empé de igualdade
comos homens.
As raízes do feminismo da igualdade se remetem ao
pensamento da Ilustração e ao conceito de universalidade. Essa
corrente se demarca nas estruturas racionais comuns a todos os
sujeitos, sob a exigência de que toda norma pode ser univer-
salizada. O feminismo da igualdade é a crítica que procura
externar os estandartes da burguesia revolucionária do final do
século XVIII, que proclamava a liberdade, a igualdade e a
fraternidade enquanto redigia a Declaração Universal dos
Direitos Humanos e se perpetuava com o poder do Estado. As
mulheres da Revolução Francesa, que se atreveram a questio-
nar as bandeiras burguesas que não contemplavam seus
direitos como cidadãs, são as avós diretas das feministas da
igualdade da segunda onda.
Feministas de diversas tendências no início da segunda onda
do movimento encontraramfundamento para suas posições na
concepção política da igualdade. Ainda que com diferentes
ideologias, feministas liberais, socialistas e radicais lutavam
pela igualdade a partir de suas próprias concepções. Por um
lado, liberais e socialistas exaltavam um feminismo reivin-
dicativo, ou seja, incorporavam as demandas específicas das
mulheres em ideologias mais globais. As liberais defendendo a
necessidade de reformas no capitalismo para melhorar a
situação das mulheres e as socialistas propondo a revolução
socialista como política global dentro da qual se incluiriam as
demandas específicas das mulheres. As feministas radicais, pelo
contrário, defendiam posição inversa: se norteavam pela
necessidade da abolição do patriarcado, transformando o
feminismo em teoria política para a compreensão global do
sistema social.
11
E NT RE VI E T NÃ E PARI S , OS CORPE T E S À F OGUE I RA 113
11
Segundo Amélia Valcárcel, as feministas se organizavam em torno de
duas grandes tendências: “As que esperavam a libertação dentro de
políticas globais, que ficaram conhecidas como feminismo reivindica-
tivo, e as que globalizavam o próprio feminismo como teoria política,
Paoeroaao Pae
ANDRE A D’ AT RI 114
As feministas radicais adaptaraminclusive alguns elementos
da teoria marxista a uma nova concepção da opressão das
mulheres, baseada na idéia central de que elas próprias são
uma classe social. Esta última tendência tem como máximas
expoentes Kate Millet e Shulamith Firestone.
12
Kate Millet
elabora uma concepção em termos de política sexual em que
aponta o caráter de construção política do patriarcado como
legitimador da ordem social vigente. Defende que, apesar de
diferentes transformações históricas, o patriarcado é a coluna
vertebral de todas as formas políticas do Ocidente. Millet
redefine política como o conjunto de relações e compromissos
estruturados de acordo com o poder, em virtude da qual um
conjunto de pessoas é controlado por outro grupo. Feminista
radical, Millet distingue por sua vez sexo e gênero, afirmando
que a sexualidade é uma função moldada pela cultura, se
propondo a demonstrar que não há necessidade biológica ou
“correspondência” inevitável entre o primeiro e o segundo
termo, senão modos culturais de relacioná-los. A sociedade
organiza as diferenças entre homens e mulheres não só por
meios legais, mas tambéma partir de atividades socializadoras
mais sutis e inclusivas. Define o patriarcado como política
sexual exercida fundamentalmente pelo coletivo dos homens
sobre o coletivo das mulheres, levando-a a afirmar que “a
dependência econômica faz com que a afiliação [das mulheres,
N. da A.] a qualquer classe seja tangencial, indireta e temporal.”
13
Shulamith Firestone, por sua vez, autora de A dialética do
sexo, defende que
o materialismo histórico é a concepção do curso histórico que
busca a causa última e a grande força motriz dos acontecimentos
feminismo radical.” A. Valcárcel, Sexo y filosofía. Sobre “mujer” y
“poder”, Bogotá, Anthropos, 1994.
12
As obras paradigmáticas desse movimento são Política Sexual, de Kate
Millet, e Dialética da Sexualidade, de Shulamith Firestone.
13
Kate Millet, Política Sexual; s/r.
Paoeroaao Pae
na dialética do sexo: na divisão da sociedade em duas classes
biológicas diferenciadas comfins reprodutivos e nos conflitos de
determinadas classes entre si; nas variações existentes nos
sistemas de matrimônio, reprodução e educação dos filhos,
criadas por determinados conflitos; no desenvolvimento com-
binado de outras classes fisicamente diferenciadas (castas); e na
divisão arcaica do trabalho baseado no sexo e que evolucionou a
umsistema (econômico—cultural) de classes.
14
O que vai levá-la a levantar a hipótese de que a tecnologia
permitirá libertar a mulher da opressão imposta a partir de seu
corpo, graças ao desenvolvimento dos métodos anticonceptivos
e da reprodução extra-uterina. Mas ao defender que a divisão
central da sociedade é a divisão entre dois sexos (classes),
subentende-se que a opressão específica das mulheres está
relacionada de maneira direta à sua biologia, em que a desi-
gualdade aparece assimilada novamente emtermos naturais. O
patriarcado segundo essa versão é estabelecido como estrutura
de poder generalizada e a-histórica.
Outras autoras, dentro da vertente conhecida como
feminismo materialista, partemda premissa de que as mulheres
não são um grupo natural cuja opressão se deve à sua própria
natureza biológica, mas que conformariam uma categoria
social. Para essas autoras as mulheres também constituiriam
uma classe social, mas com interesses comuns, baseados em
sua condição específica de exploração e opressão de gênero, ou
seja, como produto de relação econômica e de construção
ideológica que reforça a submissão. Ofeminismo socialista, por
sua vez, procura combinar a análise marxista das classes coma
análise da opressão da mulher, acentuando o conceito de
patriarcado e do desenvolvimento histórico dessa forma de
organização das relações familiares nos distintos modos de
produção. As feministas socialistas, diferentemente das
E NT RE VI E T NÃ E PARI S , OS CORPE T E S À F OGUE I RA 115
14
Shulamith Firestone, La dialéctica del sexo, Barcelona, Kairós, 1976.
Paoeroaao Pae
ANDRE A D’ AT RI 116
feministas radicais, continuaram a entender o problema da
desigualdade como questão absolutamente social: priorizaram
o conceito de divisão sexual do trabalho — divisão que originaria
uma conotação de desigualdade social entre ambos os sexos — e
definiramo patriarcado como o conjunto de relações sociais da
reprodução humana que se estruturam de tal modo que as
relações entre os sexos são relações de domínio e subordinação.
Para essa corrente, a submissão das mulheres na esfera da
reprodução é logo transferida ao mundo da produção, fazendo
com que a participação das mulheres no processo produtivo se
dê em condições de inferioridade. Muitas alegaram que a
situação de opressão é originária e modelo para as demais
situações de desigualdade e dominação, como as de classe.
Outras, seguindo as elaborações de Engels, sustentaram a
existência de um matriarcado anterior à existência das
sociedades divididas emclasses e conceberama opressão como
relação que só aparece com esse antagonismo fundamental
produzido pela possibilidade do excedente.
As diferentes concepções acerca da origemda desigualdade
e da opressão implicam diferentes estratégias políticas na luta
pela igualdade. Enquanto as feministas liberais optariam pela
inserção no aparato de Estado, emcargos de poder e instituições
de regimes e governos, com o propósito de instalar reformas
tendentes à igualdade, as feministas socialistas defenderiam,
estrategicamente e por diversos matizes, a necessidade de uma
revolução anticapitalista. Umfio condutor certamente enlaça as
distintas vertentes: por vias reformistas ou revolucionárias
todas estão de acordo emquerer desterrar as diferenças entre os
sexos para chegar à igualdade. A ambição sem dúvida foi
rebatida poucos anos mais tarde. Em meados dos anos 1970, a
perspectiva de uma nova tendência, conhecida como feminismo
da diferença, iniciava sua entrada no movimento.
Paoeroaao Pae
7
Diferença de mulher,
diferenças de mulheres
“Reunir as mulheres não era suficiente, éramos diferentes.
Reunir as mulheres gays não era suficiente, éramos diferentes.
Reunir as mulheres negras não era suficiente, éramos diferentes.
Reunir as mulheres negras lésbicas não era suficiente,
éramos diferentes.
Cada uma de nós tinha suas próprias necessidades, objetivos e
alianças muito diversas. A sobrevivência advertia a algumas de nós
que não podíamos nos permitir definir a nós mesmas comfacilidade,
nemao menos nos restringir emuma definição estreita...
Foi preciso certo tempo para darmos conta de que nosso lugar era
precisamente a casa da diferença, mais que a segurança de uma
diferença emparticular”
Audré Lorde
A OFENSIVA IMPERIALISTA VARRE TUDO
1
O processo revolucionário que sacudiu o Oriente e o
Ocidente simultaneamente entre 1968 e o início dos anos 80 foi
fechado mediante concessões às massas, reformas nos países
centrais e por golpes contra-revolucionários e sangrentos nos
países periféricos. Para tornar isso possível as classes
dominantes contaram com a colaboração das direções do
stalinismo, da social-democracia e do nacionalismo burguês,
que impuseram desvios, derrotas e traições à mobilização
revolucionária e que permitiu ao imperialismo se rearmar e, no
1
Este capítulo se baseia em uma reelaboração da proposta apresentada
na II Conferência Internacional “La Obra de Carlos Marx y los desafíos
Paoeroaao Pae
ANDRE A D’ AT RI 118
início da década de 1980, lançar uma contra-ofensiva
econômica, política e militar contra o seu próprio proletariado,
as massas semicoloniais e os estados operários burocratizados.
Foi o início do que veio a ser chamado de a “ofensiva neoli-
beral”. Por meio do “neoliberalismo”, tambémconhecido nesse
período como reaganismo-thatcherismo
2
, a burguesia mundial
tentou sair da crise estrutural que primava no sistema
capitalista nos últimos anos.
A derrota da Argentina na Guerra das Malvinas de 1982 foi
um dos elementos que atuaram como disciplinador para o
continente latino-americano e todo o mundo semicolonial,
situação que teve continuidade com a derrota do Iraque na
Guerra do Golfo de 1991. A lição que se tirou dessa experiência
foi de que não se podia enfrentar o imperialismo, pois era
“invencível”. Também, a guerra suja da “contra”, armada pelos
EUA na Nicarágua e a capitulação e cooptação das direções dos
exércitos guerrilheiros da região, mediante pactos e acordos que
desarticularama revolução na América Central, terminaramde
fechar o quadro da ofensiva imperialista que fragmentou e
colocou o movimento operário e popular na defensiva. Na
América Latina, foi um período marcado pelas “transições à
democracia”, tendo como pano de fundo o terror semeado pelas
ditaduras militares e as derrotas impostas às massas pelo
imperialismo. A “democracia” se converteu na política privi-
legiada do imperialismo norte-americano ao nosso continente,
como resposta defensiva diante da emergência da mobilização
independente das massas contra os próprios regimes ditatoriais,
que já estavam profundamente desprestigiados. A década
del siglo XXI”. Esta proposta ampliada foi publicada no Panorama
Internacional www.ft.org.ar e na revista Luta de Classes Nº 2/3, abril
2004, com o título “Feminismo Latinoamericano: entre la insolencia
de las luchas populares y la mesura de la institucionalización”.
2
Ronald Reagan, do Partido Republicano, foi o presidente norte-ameri-
cano deste período, e Margareth Thatcher a primeira-ministra britâ-
nica do Partido Conservador.
Paoeroaao Pae
seguinte, a dos anos 90, foi o período em que a transferência de
riquezas da América Latina aos EUA e à Europa atingiu cifras
escandalosamente siderais: cerca de 1 bilhão de dólares em
lucros, pagamentos de juros da dívida, excedentes comerciais e
pagamentos de regalias, somados à venda de ações das
empresas mais lucrativas e a transferência do controle de
importantes fatias dos mercados internos. Para chegar à situação
atual, em que as 200 maiores multinacionais concentram nada
menos que um quarto da produção mundial. Apenas os 200
magnatas mais poderosos possuemfortuna pessoal que supera o
lucro anual de 2, 5 milhões de pessoas. Enquanto isso, na Europa
dos anos 80, os governos “social-democratas” recém-eleitos
como o de François Mitterrand na França ou o de Felipe
González na Espanha se convertiam em furibundos agentes do
capital, dando início aos ataques às conquistas do movimento
operário e das massas que perduraram e se acentuaram nos
anos 1990. A burocracia da União Soviética e dos países do leste
europeu, por sua vez, entregava-se de pés e mãos atados ao
imperialismo, facilitando a abertura dos mercados e a restau-
ração capitalista diante da debacle econômica pelo sufoco das
dívidas externas.
Neste marco sociopolítico em que também se configurou a
ofensiva ideológica que se sintetiza na idéia do “fim da história
e das ideologias”, o movimento feminista começou sua
transformação de “insurrecional” a “institucional”, partindo
para a conquista de novos espaços nos regimes políticos, insti-
tuições do Estado, universidade, partidos burgueses e até nos
organismos multilaterais de financiamento.
Em nosso continente, a partir de 1981 surgem os Encontros
Feministas da América Latina e do Caribe, que a cada dois ou
três anos reúnem as feministas na reflexão política sobre a
situação do movimento e na elaboração de novas linhas de ação.
3
Não obstante, a academização, a incorporação às instituições dos
DI F E RE NÇA DE MUL HE R , DI F E RE NÇAS DE MUL HE RE S 119
3
No final de 2002, ocorreu o IX Encontro, na Costa Rica.
Paoeroaao Pae
ANDRE A D’ AT RI 120
regimes políticos e dos diferentes estamentos de governo e o
processo de criação das ONGs são as operações mais impor-
tantes que começam a reconfigurar o movimento feminista no
período produzindo também, junto a uma ampla gama de novas
experiências, ações e saberes, sua incipiente fragmentação e
crescente cooptação. As críticas e as diferenças no que tange às
concepções teóricas, aos fundamentos e às práticas no interior
do próprio movimento não tardarão a aparecer. Aruptura entre
“autônomas” e “institucionalizadas” é uma das expressões
mais agudas que adquire a crítica interna.
Aprincípio, a questão da “dupla militância”, entendida como
o compromisso como feminismo por umlado e organizações ou
movimentos políticos não especificamente feministas foi umdos
debates fundamentais. Os encontros que se estenderam ao
longo da década de 1980 pautavam-se por essas discussões:
alémda dupla militância, a participação emdiferentes correntes
dentro do feminismo que expressavam diferentes heranças
ideológicas e políticas, a discussão acerca da prática dos grupos
de autoconsciência ou de “levar” a consciência a outros grupos
de mulheres de setores populares etc. Bedregal alega:
Tudo isto eram manifestações e expressões de diferentes
concepções políticas expressas desde o primeiro encontro, era
luta política de projetos políticos e filosóficos, mas que se ocul-
tavam em uma aparente homogeneidade e pelo desejo de uma
espécie de irmandade romântica de mulheres que temdificultado
reconhecermos, para além do discurso declarativo, como
distintas, pensantes e atuantes de diversos projetos e de uma
identidade de gênero mais facilmente centrada tanto nas vítimas
do sistema patriarcal quanto nas construtoras de novas culturas.
4
A década de 1980, para as latino-americanas e caribenhas,
culmina no IVEncontro, realizado emTaxco, México: umgrupo
4
Ximena Bedregal, “Los encuentros feministas: Lilith y todo el poder
UNO”, em <www.creatividadfeminista.org>
Paoeroaao Pae
de mulheres elabora umdocumento crítico no qual descrevem
com agudeza os “mitos” do movimento feminista que segundo
as signatárias impedem o desenvolvimento do movimento. O
documento tem grande repercussão. Ali se expressava o
manifesto de que
o feminismo tem um longo caminho a percorrer, já que o que
aspira realmente é a uma transformação radical da sociedade, da
política e da cultura. Hoje o desenvolvimento do movimento
feminista leva-nos a repensar certas categorias de análises e as
práticas políticas às quais temos nos pautado.
Mais adiante, no mesmo documento, anunciam os “mitos”
que nos impedem de valorizar as diferenças no interior do
movimento e dificultam a construção de um projeto político
feminista. São os seguintes:
1. A nós, feministas, não interessa o poder; 2. Nós,
feministas, fazemos política de outra maneira; 3. Todas as
feministas somos iguais; 4. Existe uma unidade natural pelo
simples fato de sermos mulheres; 5. O feminismo só existe
como uma política de mulheres para mulheres; 6. O pequeno
grupo é o movimento; 7. Os espaços de mulheres garantempor
si só umprocesso positivo; 8. Porque eu mulher sinto, é válido;
9. O pessoal é automaticamente político; e 10. O consenso é
democracia. Para concluir que
estes dez mitos geraram uma situação de frustração, auto-
complacência, desgaste, ineficiência e confusão, que muitas de
nós feministas detectamos e reconhecemos que existe e que está
presente na imensa maioria dos grupos que hoje fazem política
feminista na América Latina.
Propõemàs feministas latino-americanas:
Não neguemos os conflitos, as contradições e as diferenças.
Sejamos capazes de estabelecer uma ética das regras do jogo do
feminismo, firmando um pacto entre nós, que nos permita
DI F E RE NÇA DE MUL HE R , DI F E RE NÇAS DE MUL HE RE S 121
Paoeroaao Pae
avançar em nossa utopia de desenvolver em profundidade e
extensão o feminismo na América Latina.
5
Os mitos denunciados no documento de Taxco impediam o
desenvolvimento das discussões políticas mais profundas,
enquanto o movimento ia se reconfigurando de uma maneira
que não tratava de incluir todas e que, sem dúvida, não podia
criticar-se. Mas, apesar da repercussão que teve o documento,
os mitos continuaram vivos em grande parte do movimento,
inclusive nos dias de hoje, enquanto o próprio movimento, os
encontros, os fóruns e outras instâncias de reagrupamento
internacionais foram se elitizando por causa da crescente
pauperização das massas emnossos países.
No final da década, já eram notáveis os problemas que
impediam, segundo algumas mulheres, o avanço do movimento
feminista no sentido de uma “transformação radical da
sociedade, da política e da cultura.” As divergências que se
esboçavam, apesar das tentativas de homogeneização, de
obturação da crítica e de “irmandade romântica”, fizeram-se
mais iniludíveis no calor da aparente inevitabilidade da onda de
demissões, privatizações e o ataque ao nível de vida das massas
em nosso continente, que foi maior durante a década de 1990.
Para muitas feministas, o processo agudo de institucionalização
que permeou o feminismo dos países centrais e mais tarde
impactou tambémo nosso continente, implicou a cooptação do
movimento por parte do patriarcado, o que demonstrava que a
ANDRE A D’ AT RI 122
5
O documento “Del Amor a la Necesidad” foi elaborado coletivamente
durante a oficina sobre Política Feminista na América Latina Hoje, do
IV Encontro Feminista Latino-Americano e do Caribe, Taxco, México,
21 de outubro de 1987. Entre as participantes estavam Haydée Birgin
(Argentina), Celeste Cambría (Peru), Fresia Carrasco (Peru), Viviana
Erazo (Chile), Marta Lamas (México), Margarita Pisano (Chile),
Adriana Santa Cruz (Chile), Estela Suárez (México), Virginia Vargas
(Peru) e Victoria Villanueva (Peru). Assinaram: Elena Tapia (México),
Virginia Haurie (Argentina), Verónica Matus (Chile), Ximena Bedregal
(Bolívia), Cecilia Torres (Equador) e Dolores Padilla (Equador).
Paoeroaao Pae
luta pela igualdade não questionava as próprias bases do
sistema que oprimia as mulheres. Essa crítica levou muitas
mulheres a pensar o que depois ficou conhecido por feminismo
da diferença.
Se a busca da igualdade deu margem à cooptação do
movimento feminista, agora as feministas da diferença se
propunham a destacar e revalorizar os aspectos que dife-
renciavam profundamente as mulheres dos homens que
construíramo mundo de opressão e injustiça.
Assim, com a bancarrota das esperanças ilustradas de paz e
progresso moral, assistimos ao surgimento da mulher como um
Outro, agora positivamente conotado. Esse conceito da mulher
adquire distintos caracteres segundo os pressupostos essencialis-
tas ou construtivistas do pensamento que lhe assume: a mulher
como o biologicamente Outro, como mãe nutricia e natureza
fértil frente ao homemgeneticamente destinado à agressividade;
o feminino como o pré-lógico e inexpressável na linguagem
corrente versus a razão masculina; a mulher como construção
cultural do patriarcado, com valores positivos apesar de
derivados da marginalização etc.
6
REVALORIZAÇÃODOFEMININO
Neste marco, o feminismo da diferença tentará demonstrar
que a simbolização dos dados morfológicos da diferença dos
sexos ocorreu sob umolhar hierárquico, que privilegia o corpo
masculino em detrimento do corpo feminino. A partir dessa
perspectiva, toda luta pela igualdade será catalogada de
assimilacionista a uma ordem androcêntrica, que considera
valioso e respeitável só o que concerne aos homens. Ou seja, o
DI F E RE NÇA DE MUL HE R , DI F E RE NÇAS DE MUL HE RE S 123
6
Alicia Puleo, “En torno a la polémica igualdad / diferencia”, Cátedra
de Estudos de Gênero, Universidade de Valladolid, mimeo.
Paoeroaao Pae
igualitarismo reproduziria a desvalorização da feminilidade em
sua aspiração por conseguir a equiparação com os direitos que
o patriarcado outorga exclusivamente aos homens.
Ofeminismo da diferença acusará o feminismo da igualdade
de se ater ao discurso do Um e do Outro do pensamento
falocêntrico. Porque se no sistema patriarcal o homemse instala
como modelo do universal (ser humano = homem), ser mulher
então é ser o Outro, ou seja, algo diferente e inferior que o Um
que funciona como norma. A crítica específica que se lança
sobre o feminismo da igualdade é que aspira que a mulher se
constitua no Mesmo (que o Um) e essa aspiração formaria parte
da dominação, seria funcional a ela. Tratar-se-ia de uma
permissão que o sistema patriarcal outorga às mulheres; uma
cilada da mesma lógica falocêntrica, pois o próprio sistema
patriarcal está constituído pelo Um, que exerce a supremacia e
pelo Outro inferior que luta por ser o Mesmo que o Um
eternamente, semêxito.
Assimilando a consigna Blackis Beautiful (negro é bonito) dos
movimentos anti-racistas norte-americanos oua do orgulho gay,
as feministas da diferença propunham uma nova interpretação
positiva e revalorizadora da feminilidade. Partindo de uma
crítica radical à psicanálise, especialmente em sua vertente
lacaniana, o feminismo da diferença se propõe a pensar
filosoficamente a diferença sexual, considerada como fundante,
que é ocultada nos discursos da filosofia, da ciência, da
psicanálise e da religião, todos estes discursos do pensamento
falocêntrico. Esse ocultamento atuaria para encobrir que todos
os seres humanos são nascidos mulher, que o feminino é o
primordial negado; negação a partir da qual se constitui o sujeito
oprimido pelas leis da linguagem. A conseqüência política que
então se deriva disto é de que é necessário exaltar a diferença,
não lutar por obter a “mesmidade”, que só levaria as mulheres
a um“ficar pra trás”, “ser segundas” dos homens.
Emsuma, podemos dizer que — ainda commúltiplos matizes
entre diversas autoras e tendências — o feminismo da diferença
ANDRE A D’ AT RI 124
Paoeroaao Pae
coloca essencialmente uma idealizada e louvável feminilidade
intrínseca ao ser mulher. Destacando a maternidade como
própria das mulheres — e, por conseguinte, supostas qualidades
positivas associadas, como a não-violência-, ressaltando a
relação da mulher com a natureza por oposição ao mundo da
cultura masculina e chegando a defender a necessidade de um
mundo de mulheres não contaminado pelo masculino —
inclusive o separatismo como opção político-sexual —, as
feministas da diferença levantamemconjunto que a libertação
das mulheres depende da criação e do desenvolvimento de uma
contracultura feminina.
Célia Amorós, renomada filósofa defensora da igualdade,
chama essa valoração voluntarista de “a valoração estóica”,
considerando-a uma armadilha da ingenuidade do oprimido.
Emuma de suas conferências realizadas emBuenos Aires, dizia
comforte tomirônico:
Se vai reconhecer como valioso aquilo que já foi reconhecido
historicamente como valioso, ainda que as mulheres agora
decidamque o valioso é lavar panelas ou pratos.
Depois, acrescenta:
Se queremos consolar a nós mesmas, assando frangos ao forno
por todas as frustrações que temos na vida social, pensando que
assar frangos é a própria essência da realização e da criatividade,
como dizem certas revistas e assumem certas feministas,
naturalmente está no seu direito; agora bem, terá que saber que
assimnão se transformamas coisas.
7
Uma das críticas fundamentais ao feminismo da diferença é
de que ao negar a existência de algo que possa se qualificar de
“genericamente humano”, conclui-se em um dualismo onto-
lógico irredutível. Se não existe humano sem sexualismo,
DI F E RE NÇA DE MUL HE R , DI F E RE NÇAS DE MUL HE RE S 125
7
Celia Amorós, Mujer: participación, cultura política y Estado, Bs. As.,
Ediciones de la Flor, 1990.
Paoeroaao Pae
conclui-se na impossibilidade lógica e ontológica “do humano”,
ou seja, na negação de um universal que possa transcender a
diferença dos sexos. Aconseqüência teórica mais importante da
negação é o retorno ao essencialismo biologicista, tão com-
batido pelas feministas da igualdade nos princípios da segunda
onda. O feminismo da diferença não faria outra coisa senão
ontologizar as diferenças construídas socialmente e por meio
das quais as mulheres são submetidas à discriminação de
gênero. De outro ponto de vista, o feminismo da diferença é
criticado por condenar as mulheres de maneira irremissível à
marginalização. Se os sistemas de dominação propõem um
dilema para os oprimidos, a integração ao sistema por meio da
admissão de suas demandas de igualdade ou da marginalização
de subculturas ouguetos emfunção das diferenças, o feminismo
da igualdade teria como conseqüência inevitável o primeiro, e o
feminismo da diferença condenaria inexoravelmente às
mulheres ao segundo.
É certo que mais tarde diversas autoras falaram de
igualdade na diferença ou diferença na igualdade para tentar
conciliar duas vertentes que se consideravam contraditórias e
emenfrentamento. À disjuntiva igualdade/diferença dentro do
feminismo pode-se dizer que fora refutada como falsa antítese,
colocando que o contrário da igualdade é a desigualdade e não
a diferença, enquanto o que se opõe à diferença é a identidade
e não a igualdade. Desse novo ponto de vista entende-se que
defender a igualdade sem levar em conta as diferenças pode
implicar a aceitação das desigualdades sociais de certas
pessoas ou grupos, tal como ocorre com o direito formal
burguês. Pelo contrário, a igualdade desejada não estaria
baseada em semelhanças ou identidades entre grupos ou
pessoas, mas na valoração igualitária das diferentes
experiências particulares. No entanto, a tentativa conciliadora
nada mais é que uma tentativa, muitas vezes eclética, de reatar
laços entre as duas tendências mais importantes do feminismo
da segunda onda.
ANDRE A D’ AT RI 126
Paoeroaao Pae
A discussão entre a igualdade e a diferença no feminismo
não parece ter saído nos termos em que se projeta. Quando o
horizonte da discussão não transcende os marcos estreitos do
sistema de dominação carece de sentido ou, emoutras palavras,
adquire o sentido de uma contradição irresolúvel. Para resolver
a questão é necessário antes de qualquer coisa definir qual o
horizonte histórico e social em que se insere atualmente a
opressão das mulheres. Então, inevitavelmente, nos deparamos
com o horizonte do Estado, que longe de ser neutro para o
desenvolvimento da liberdade, da igualdade e da fraternidade,
é umEstado capitalista, ou seja, baseado na exploração de uma
classe por outra.
O Estado moderno capitalista consegue se divorciar “mais e
mais” da sociedade que lhe concebeu, como bemdiz Engels, só
à custa de eliminar de algummodo as distinções de nascimento,
de classe, de educação e de profissão. O Estado burguês
consegue esse divórcio separando as esferas da política e da
economia de maneira fetichista; separando o ser humano em
homem (burguês) por um lado e cidadão pelo outro. Sua
proclamaçãodequetodocidadãoéigual perantealei éamáxima
expressão da liberdade e da igualdade jamais alcançada nos
marcos de umsistema baseado na exploração de uma classe por
outra. Claro que, enquanto proclama a igualdade jurídica entre
os cidadãos, o Estado permite que — na vida real dos homens e
mulheres — as diferenças baseadas na propriedade, na educação
etc, continuem existindo. Em última instância, a existência das
diferenças reais constitui a base pela qual se faz necessária sua
própria existência como Estado. Ou seja, se o Estado pode pro-
clamar a universalidade é porque abstrai os elementos parti-
culares da existência social. Visto isso, não haveria contradição
entre a proclamada igualdade e a desigualdade real: ambos os
aspectos são mutuamente dependentes.
Enquanto as posturas liberais defendem a luta pela igual-
dade jurídica sem questionar os fundamentos desse marco
legal, o marxismo apontará permanentemente a contradição
DI F E RE NÇA DE MUL HE R , DI F E RE NÇAS DE MUL HE RE S 127
Paoeroaao Pae
ANDRE A D’ AT RI 128
entre o “como se” da igualdade para o direito e as condições
reais profundamente desiguais da existência. Odireito, para os
marxistas, é concebido sempre como “o direito à desigualdade”;
como diz Marx na Crítica do Programa de Gotha:
O direito só pode consistir, por natureza, na aplicação de uma
medida igual; mas os indivíduos desiguais (e não seriam
indivíduos diferentes se não fossemdesiguais) só podemse medir
sempre pelo mesmo parâmetro, sempre e quando lhe enfoque
desde um ponto de vista igual, sempre e quando lhe observem
somente umaspecto determinado...
8
Por isso, homens e mulheres são considerados pelo Estado
como seres genéricos, ou seja, integrantes de uma univer-
salidade obtida mediante a abstração de suas vidas reais e
individuais. Não poderia ser diferente. Para medir as diferenças
é necessário partir de um padrão de igualdade; para sanar as
desigualdades, é necessário considerar o horizonte de um
mesmo direito. A igualdade e a liberdade, em última instância,
encontram seu fundamento último na existência da proprie-
dade privada e das classes sociais antagônicas.
Marx expressa a contradição entre os ideais da revolução
burguesa e a própria existência da propriedade privada emsua
crítica à Declaração Universal dos Direitos Humanos:
... a liberdade é o direito de fazer e tentar obter tudo o que não
prejudica os outros. Os limites dentro dos quais umpode se mover
semprejudicar os outros estão definidos pela lei, como uma estaca
demarca o limite entre dois campos. Trata-se, porém, da liberdade
do homem como algo isolado, fechado em si mesmo. (...) Mas o
direito de liberdade não reside na unificação dos homens, que
precede a distância entre homem e homem. É o direito desta
distância, o direito do indivíduo limitado que se limita a si mesmo.
Aaplicação prática do direito à liberdade é o direito à propriedade
8
Karl Marx, Crítica del Programa de Gotha; Bs. As., Compañero, 1971.
Paoeroaao Pae
privada. De que se trata o direito à propriedade privada? (...) Pois
bem, o direito à propriedade é o direito de gozar e dispor da
própria riqueza, arbitrariamente, sem levar em conta os outros
homens, independentemente da sociedade: é o direito ao egoísmo.
Essa liberdade individual e sua aplicação são o fundamento da
sociedade civil. Através dela, cada homempercebe no outro não a
realização, mas a limitação de sua liberdade.
9
Entender a luta pela emancipação das mulheres unicamente
como busca pela igualdade inclusiva no sistema tende ao
reformismo: pressupõe a existência de um sistema perfectível
com relação às mulheres, cujo coração — que continua a ser
profundamente hierárquico — não é questionável. Ocapitalismo
é o primeiro modo de produção na história que possibilita que os
sujeitos sejam emancipados de todo vínculo comunitário e se
transformem em cidadãos livres, capazes de vender a si
mesmos (sua força de trabalho) no mercado. O contrato será a
expressão das novas relações sociais: as que se estabelecem
entre indivíduos “livres” na sociedade civil para a consecução
de determinados fins. Liberdade que em seu exercício tanto
oculta a profunda desigualdade que existe entre a mulher e o
homem no contrato matrimonial, como também oculta a
desigualdade entre a burguesia e a classe operária no contrato
de trabalho.
Mas as feministas da diferença não apresentaram nenhuma
alternativa: dando as costas ao Estado e confortando-se nas
relações entre mulheres e a criação de uma nova cultura
feminina contra-hegemônica aos valores tradicionais do
patriarcado, têmcolaborado coma despolitização do movimento
feminista e em seu distanciamento das lutas sociais, onde
sempre inevitavelmente há mulheres. Dizer que não queremos
nos integrar ao Estado capitalista e patriarcal não é o suficiente
para acabar com ele. Para isto, é necessário enfrentá-lo e
destruí-lo. Nesse caminho, a busca por melhores formas de
DI F E RE NÇA DE MUL HE R , DI F E RE NÇAS DE MUL HE RE S 129
9
Karl Marx, La cuestión judía, Bs. As., Need, 1998.
Paoeroaao Pae
existência, mais igualitárias, nos marcos estreitos desta
sociedade de exploração para os milhões de mulheres do mundo
é importante. Mas não é o suficiente, enquanto nossos corpos,
nossos desejos, nossas próprias vidas continuam submetidas à
exploração, à discriminação e à submissão, surgidas das
relações de propriedade e garantidas pelo Estado do qual não
podemos escapar utopicamente.
As feministas da igualdade foramacusadas pelas feministas
da diferença serem cooptadas pelo patriarcado em troca de
algumas migalhas, pequenos privilégios por pertencer a alguns
lugares demarcados no poder para muito poucas. Mas as
feministas da diferença também defendem — por omissão — o
sistema capitalista que se recusam a enfrentar, elegendo uma
vida autônoma, à “margem” do sistema, privilegiando as redes
de solidariedade e as vivências pessoais particulares ao invés da
política ativa contra o mesmo. Porque ainda que não queiramos
enxergar, ainda que a solidariedade entre algumas mulheres
funcione como uma bolha indestrutível, onde a vida pode ser
quase como sonhamos, o sistema continua ali impedindo o
direito ao aborto, garantindo menores salários para as mulheres
por igual trabalho e fazendo comque as mulheres sejamas mais
pobres entre os pobres do planeta.
INTERSECÇÃODE MÚLTIPLAS DIFERENÇAS
Enquanto isso, no seio do movimento, as mulheres negras e
as mulheres lésbicas acusavamo feminismo de ser umdiscurso
imperialista que pretendia representar os interesses de todas as
mulheres a partir da posição exclusiva e particular das mulheres
brancas anglo-saxônicas de classe média e heterossexuais. Suas
experiências não coincidiam com as de outras mulheres, suas
situações de opressão não eramidênticas, seus vínculos comos
homens também eram diferentes; inclusive, muitas vezes os
vínculos eram privilegiados frente a relação com outras
ANDRE A D’ AT RI 130
Paoeroaao Pae
mulheres de etnias, classes ou nações diferentes. O discurso
feminista era criticado por seu essencialismo: sob a definição
unívoca de mulher, pretendia-se encontrar uma experiência
unificadora para todas as mulheres. A discussão se desloca,
então, da diferença de gênero às diferenças entre as próprias
mulheres. Isto inaugurou um enorme questionamento sobre
diversos tópicos no movimento feminista: o heterossexismo, o
racismo, o colonialismo, as alianças políticas com outros
movimentos sociais etc.
No terreno teórico, coma explosão das múltiplas diferenças
privilegiaram-se os estudos localizados em detrimento das
teorias sociais inclusivas. O multiculturalismo derivou, então,
nos estudos de gênero e no próprio movimento feminista com
seu respeito à diversidade, porém, arrastando consigo a
renúncia a todo “horizonte de universalidade”. Soltando as
amarras das estruturas sociais, das determinações históricas e
econômicas, as diferenças não foramcompreendidas — segundo
os novos estudos culturais — a partir de uma teoria capaz de
desmascarar a opressão das portadoras e portadores de
“identidades desrespeitadas”, como vítimas de uma ideologia à
qual estavamsujeitos por seu poder repressivo.
Omulticulturalismo escapando ao reducionismo econômico
tambémse distancia da política. Despojou as identidades de sua
ancoragem em determinadas relações necessárias de
colaboração social: transformou os “produtores” culturais em
“consumidores” culturais, transtornou as identidades emmeras
diferenças textuais, discursivas; exaltou os valores, as
experiências e mesmo as opiniões dos grupos subordinados,
assumindo que eram em si mesmos progressistas, e que
surgiam diretamente da experiência de subordinação. Os
estudos sobre a vida cotidiana são a expressão acadêmica, por
exemplo, da concepção de “dar voz” aos oprimidos, pois essa
voz, ao ter sido silenciada mediante os mecanismos da opressão,
da subordinação e da exclusão dos discursos dominantes é, em
si mesma, autêntica por definição.
DI F E RE NÇA DE MUL HE R , DI F E RE NÇAS DE MUL HE RE S 131
Paoeroaao Pae
ANDRE A D’ AT RI 132
No decorrer da segunda onda do movimento feminista
observamos como a diferença, a princípio, era uma construção
social contra a qual deveria rebelar-se a se converter em
natureza biológica ponderável. Mais tarde, coma irrupção das
diferenças no seio do movimento feminista a diferença foi
recategorizada como absolutização da identidade. Da crítica
aos modos de produção e ao sistema patriarcal passa-se à
crítica da justiça. Como afirma Daniel Bensaïd, já não se trata
de questionar a exploração, mas a alienação generalizada. Ou
seja, a exploração aparecerá como mais um tipo de alienação
no sistema capitalista do final do século e, por fim, a questão da
reapropriação social não ocupará o centro dos programas
políticos pela emancipação.
10
Este lugar estará ocupado agora
pela demanda de uma aceitação cada vez maior das diferenças
alienadas na marginalização social, como se tratasse de um
processo gradual de evolução sem sobressaltos e, portanto,
pacífico, à libertação de cada indivíduo que integra a sociedade.
Como diz Slavoj Zizek:
Então, nossas batalhas eletrônicas pairam sobre os direitos das
minorias étnicas, os gays e as lésbicas, os diferentes estilos de vida
e outras questões desse tipo, enquanto o capitalismo continua sua
marcha triunfal.
11
O fenômeno da explosão das diferenças no interior do
feminismo levouà inclusão de diversas vírgulas e etecéteras em
definições sem hierarquia acerca das identidades. Assim
ocorrem, então, os termos classe, etnia, orientação sexual, idade
etc. Quanto mais etecéteras se acrescentamnas definições mais
progressismo. O conceito de classe social ressurgiu no
feminismo, mas dessa vez considerado mais uma variável entre
tantas outras para definir a identidade dos grupos e dos sujeitos.
10
Daniel Bensaïd, Les irreductibles; mimeo, traducción de Rossana Cor-
tez para el CEIP León Trotsky, 2001.
11
Slavoj Zizek, Reflexiones sobre el multiculturalismo, Bs. As., Paidós, 1998.
Paoeroaao Pae
Ao colocar no mesmo nível as diferenças de gênero, de
orientação sexual, de etnia etc, com as de classe, o multi-
culturalismo empreende a tarefa que — segundo o autor citado
anteriormente — consiste em tornar invisível a presença
inalterável do capitalismo. Que as determinações de classe se
situememumplanodeigualdadecomas demais significaocultar
o papel chave desempenhado pela economia na estruturação da
sociedade; ou seja, encoberta em um plano de equivalências o
uso primordial que o capitalismo faz das diferenças (e assim da
opressão de gênero e da subordinação de diferentes grupos por
razões culturais, étnicas, de orientação sexual etc) para
resguardar o status quo de sua dominação sistêmica.
É a “repressão” do papel chave que desempenha a luta eco-
nômica, o que mantémo âmbito das múltiplas lutas particulares,
comseus contínuos deslocamentos e condensações. A política de
esquerda, que projeta “cadeias de equivalências” entre as diversas
lutas tem absoluta correlação com o abandono silencioso da
análise do capitalismo no sistema econômico global, com a
aceitação das relações econômicas capitalistas como um marco
inquestionável.
12
Para o pensamento marxista, pertencer a uma classe não
pode simplesmente se agregar a outras múltiplas e diversas
identidades, pois é o eixo emtorno do qual as outras identidades
se articulame adquiremsua definição concreta. As identidades
que o sistema entende como subordinadas (mulher, negro,
homossexual etc) só adquirem significação social concreta
quando relacionamseu vínculo comuma classe social, sendo a
classe o eixo que determina a vivência particular de cada sujeito
de sua própria subordinação identitária. A articulação das
diversas determinações de gênero, sexualidade, etnia etc, está
fundada na estreita articulação que existe entre exploração e
opressão sob o domínio do capital. É certo que cada sujeito
DI F E RE NÇA DE MUL HE R , DI F E RE NÇAS DE MUL HE RE S 133
12
Idem.
Paoeroaao Pae
é uma combinação particular de múltiplas características, há
diversos espaços de identidade, mas só uma leitura liberal pode
levar à interpretação de que a sociedade existente é o resultado
de uma somatória de indivíduos com múltiplas características
identitárias. Negar-se a compreender a totalidade do sistema
capitalista como estrutura leva, necessariamente, à impossibili-
dade de questioná-lo profundamente e por fim, de subvertê-lo.
Se o matrimônio, por exemplo, é uma instituição que por
meio do contrato sexual subordina as mulheres aos homens,
também é certo que o casamento de uma mulher com um
homemda classe possuidora dos meios de produção a exime da
possibilidade de ser explorada. Pelo contrário, as mulheres que
devem vender sua força de trabalho carregarão nas costas as
duplas cadeias às quais este sistema capitalista as submete,
como mulheres e como trabalhadoras. Neste caso, a opressão e
a exploração se conjugam de forma dramática; já no caso das
mulheres que se casamcomhomens da classe possuidora, muito
pelo contrário, a relação de opressão as eximemda exploração.
Como marxistas, não é a noção de diferença o que questio-
namos, mas sua naturalização biológica ou sua absolutização.
Inclusive, o relativismo que enfocam as diversas identidades,
igualmente respeitáveis. Como afirma o marxista inglês Terry
Eagleton, ninguémtemuma determinada pigmentação da pele
porque outros tenham outra, ninguém tem um sexo porque há
outros que possuem um diferente, é certo que milhões de
pessoas estão na “posição” de assalariados porque há poucas
famílias no mundo que concentram em suas mãos os meios de
produção. Ambas as categorias (burguês/ proletário, ou
explorador/explorado) se relacionammutuamente de maneira
tal que só abolindo o vínculo específico (capital/trabalho) será
possível abolir a “identidade” subordinada, de um modo que
não é igual para as outras identidades.
13
Emuma sociedade sem
ANDRE A D’ AT RI 134
13
“...ninguém tem uma espécie de pigmentação de pele porque outro tem
outra, ou é homem porque alguém mais seja mulher, no sentido de que
Paoeroaao Pae
DI F E RE NÇA DE MUL HE R , DI F E RE NÇAS DE MUL HE RE S 135
opressão de nenhum tipo, podemos imaginar as mulheres em
uma posiçãoigualmente hierarquizada que os homens, omesmo
para negros e brancos ou heterossexuais e homossexuais. Mas
haverá mulheres e homens, peles de todas as cores e orientações
sexuais das mais diversas, coexistindoemharmonia. Ouseja, não
é necessária a eliminação de uns ou outros para a eliminação da
situação de opressão (é precisamente disso que se trata!). Não há
possibilidade, semdúvida, de pensar analogamente a igualdade
de “reconhecimento” para burgueses e proletários. São cate-
gorias identitárias mutuamente necessárias e excludentes.
Libertar a humanidade da escravidão assalariada significa,
irremediavelmente, combater o sistema em suas raízes
revolucionando-o. A emancipação da classe operária tende à
eliminação de todas as classes. Buscar o “reconhecimento” da
classe explorada significa eliminar a propriedade privada, ou
seja, a própria classe exploradora.
Só com a revolução social que ponha em questionamento
essa relação, é possível construir as condições de possibilidade
para a eliminação de todas as hierarquias e valores comos quais
sustentam-se as diferenças, elevando-as à busca por suas
máximas potencialidades, que transcendam as prisões meta-
físicas do direito civil igualitário e as masmorras úmidas e
obscuras das putrefatas relações de exploração, impostas à
maioria da humanidade por uma minoria parasitária.
uma pessoa só é trabalhador sem terra porque outros são latifundiá-
rios.” Terry Eagleton, Las ilusiones del posmodernismo, Bs. As., Pai-
dós, 1998.
Paoeroaao Pae
Paoeroaao Pae
8
Pós-Modernidade,
Pós-Marxismo,
Pós-Modernismo
e Pós-Feminismo
“Existe outro ponto de partida normativo
para a teoria feminista que não requeira a reconstrução ou
a atualização de umsujeito feminino que não pode representar,
e muito menos emancipar, o conjunto de seres corpóreos
que se encontramna posição cultural de mulheres?”
Judith Butler
OS ANOS 90: ONGS E TECNOCRACIA DE ESQUERDA
A década de 1990 começou com a derrota do Iraque na
Guerra do Golfo, nas mãos de uma enorme coalizão militar de
potências imperialistas, o que, por sua vez, permitiu redobrar o
ataque sobre o resto do mundo semicolonial. Aprofundaram-se
a “abertura” das economias aos monopólios internacionais e a
transformação de países como os nossos em “mercados emer-
gentes”, que só servirampara a rápida “emergência” de capitais
especulativos.
Diante da semelhante espoliação imperialista, os organis-
mos financeiros internacionais constataram o inevitável: o
ataque provavelmente despertaria a resposta daqueles que
perderam tudo. A “governabilidade” foi o nome que os tecno-
cratas encontraram para o problema que se aproximava.
Paoeroaao Pae
Governabilidade, traduzida como o conjunto de condições
necessárias para sustentar o processo de reformas, evitando a
irrupção dos movimentos de massas e que incluía a necessidade
de estabelecer relações “frutíferas” para o desenvolvimento
sustentável com os movimentos sociais e suas organizações.
Desse modo, acompanhando as privatizações dos serviços do
Estado, o desemprego crescente e a precarização do trabalho,
tanto o Banco Mundial como outros organismos financeiros
internacionais começam a projetar reformas visando ao
financiamento na relação comas organizações sociais. Quando
a maior parte do programa “neoliberal” já fora implementada, o
Banco Mundial priorizou o financiamento de programas sociais
sob os lemas da participação e transparência, reapropriando-se
sempre que necessário dos discursos críticos. As organizações
não governamentais foram as executoras privilegiadas de seus
projetos assistencialistas focalizados.
O Banco Mundial, tal como o resto das agências de
financiamento, cumpriu no período um papel político e ideo-
lógico muito importante em relação ao controle social. Os
intelectuais outrora esquerdistas se transformaram em tecno-
cratas progressistas, que assumiram a responsabilidade de
colaborar comos projetos de governabilidade, desenvolvimento
sustentável etc. Esses “pós-marxistas” na administração das
ONGs não colaboraram com a redução do impacto econômico
de maneira substancial, mas por sua vez contribuíramenorme-
mente emdesviar a população da luta por seus direitos.
A cooptação alcançou cifras indiscutíveis: segundo dados da
OECD, em 1970 as ONGs dos países latino-americanos
receberam 914 milhões de dólares; em 1980, a cifra subiu para
2, 368 bilhões de dólares e em 1992, se aproximou da casa dos
5, 200 bilhões. Isto significa que, em 20 anos, o dinheiro
destinado às ONGs aumentou em mais de 500%. A esses
números somam-se os subsídios outorgados pelos governos “do
norte”, que de 270 milhões que dispuseramemmeados dos anos
70, elevaram sua cifra a 2.5 bilhões no princípio dos anos 1990.
ANDRE A D’ AT RI 138
Paoeroaao Pae
Em termos gerais, as estatísticas da OECD nos falam de um
aporte estatal e privado às ONGs de cerca de 10 bilhões de
dólares, o que representa umquarto da ajuda bilateral global.
1
Muitas feministas com certo prestígio no movimento,
conhecimentos específicos e trajetória política na reivindicação
dos direitos das mulheres, tomaramparte na tecnocracia que se
somou aos organismos multilaterais, às agências de financia-
mento, ao Banco Mundial e às milhares de ONGs, que se
transformaram também em plataformas para o lançamento de
carreiras pessoais. Outras se mantiveram à beira dos
financiamentos e criticaram duramente essas tendências, mas
sua voz foi minoritária e sua luta — ainda que de caráter reivin-
dicatório — só encontrou ressonância no vazio que as cercava.
As feministas autônomas da ATEM
2
, na Argentina,
denunciavam, com estas palavras, o processo de formação das
ONGs que impregnou o movimento:
A maioria destas ONGs formadas por técnicas e profissionais
trabalha com as mulheres de ‘setores populares’, de bairros
pobres. Apresentam-se como mediadoras entre as agências de
financiamento e os movimentos de mulheres e formulam
programas, brindando serviços que vão desde oficinas e cursos de
todo tipo à distribuição de alimentos, à organização de setores
populares, planificação familiar (controle da natalidade) etc. Essa
relação, que implica diferenças de classe, de poder e de acesso ao
manejo de recursos, gera vínculos hierárquicos e tensões entre as
mulheres das ONGs e dos movimentos em que trabalham, além
das competências entre as profissionais pelos financiamentos.
3
O neoliberalismo, por meio de mecanismos como estes
despolitizou os movimentos sociais, inclusive o feminismo.
PÓS - MODE RNI DADE , PÓS - MARXI S MO, PÓS - MODE RNI S MO E PÓS - F E MI NI S MO 139
1
Cifras de 1992.
2
ATEM, Associação de Trabalho e Estudo da Mulher, Buenos Aires.
3
Fontenla, M. e Bellotti, M., “ONGs, financiamiento y feminismo”, em
Hojas de Warmi Nº 10, Barcelona, 1999.
Paoeroaao Pae
Como apontam muitas feministas autônomas, as ONGs
acabaram sendo confundidas com o próprio movimento, seus
projetos financiados seus trabalhos pagos se confundiram com
“ações”, como se fossem as próprias ações que os movimentos
realizam como reivindicações, exigências e denúncias na luta
por uma transformação radical. Em síntese, as políticas
neoliberais que começaramna década de 1980 e atingiramseu
ponto culminante durante a década de 1990 fizeram com que o
movimento feminista se fragmentasse e se privatizasse.
PERFORMATIVIDADE, PARÓDIA
E DEMOCRACIA RADICAL
Acompanhando este processo, em relação às elaborações
teóricas, durante a década de 90 as tendências pós-
estruturalistas adquirirammaior influência. Alémda amplíssima
variedade de posições teóricas, ideológicas e inclusive dos
compromissos militantes em relação aos movimentos sociais,
quem teve maior difusão e preponderância no debate feminista
do período foi Judith Butler.
Judith Butler é professora de Filosofia no Departamento de
Retórica e de Literatura Comparada da Universidade da
Califórnia, Berkeley. Já adquiriu notoriedade em âmbitos
acadêmicos e movimentos de ativistas e seus livros têm sido
traduzidos para outros idiomas. O livro que mais gerou debate
foi O gênero em disputa, publicado em inglês em 1990 e
traduzido para o espanhol quase uma década mais tarde. No
prefácio da edição de 1999 emespanhol Butler sustenta que seu
propósito é criticar a suposta heterossexualidade do feminino e
que o fará a partir da ótica do pós-estruturalismo, ou seja,
mediante a desconstrução das categorias de sexo, gênero,
desejo etc. Ela se pergunta de que maneira as práticas sexuais
não normativas põememdúvida a estabilidade do gênero como
categoria de análise.
ANDRE A D’ AT RI 140
Paoeroaao Pae
Segundo Butler, as minorias seriam respeitadas caso sejam
transformadas as estruturas culturais valorativas subjacentes à
dicotomia normativa homossexual—heterossexual. A solução
alternativa a este binarismo — em que a homossexualidade é o
correlato desvalorizado da construção da heterossexualidade —
radicaria então na prática negativa de desconstrução que
implica desmascarar a repressão fundante e excludente que
estaria na base de toda identidade. Por isso, apresenta como
conclusão as linhas gerais de sua Teoria da Performatividade de
Gênero, defendendo que só as práticas paródicas transformam
as categorias do corpo, o sexo, o gênero e a sexualidade.
Inscritanoirracionalismofilosóficocontemporâneo(tal como
se desenvolve a partir de Nietzsche e Heidegger como críticos da
metafísica da substância e é seguido por Derrida, com o pós-
estruturalismo desconstrutivista), e incorporando diferentes
aspectos dogirolingüísticopropiciadopor Wittgensteine Austin,
seu trabalho consistirá em trazer uma crítica genealógica
de inspiração foucaultiana às categorias de identidades,
investigando os interesses políticos que há em designar como
origem e causa das mesmas aquilo que considera o efeito das
instituições, das práticas e dos discursos. Seu objetivo é
responder à questão:
Me perguntei então: qual configuração de poder constrói o sujeito
e o Outro, nessa relação binária entre homens e mulheres e a
estabilidade interna desses termos?
4
Mas o que transcende o texto e outorga-lhe lugar
significativo no debate acadêmico e político é que se emoldura
na discussão sobre as alternativas à globalização e à luta pelo
reconhecimento de novos movimentos sociais que estariam
surgindo como resposta ao pensamento único, e sua materia-
lização empolíticas neoliberais.
PÓS - MODE RNI DADE , PÓS - MARXI S MO, PÓS - MODE RNI S MO E PÓS - F E MI NI S MO 141
4
Butler, J., El género en disputa. El feminismo y la subversíon de la iden-
tidad, Bs. As., Paidós, 2000.
Paoeroaao Pae
Sua busca de uma estratégia desconstrutiva do princípio
binário de inteligibilidade sexual tenta responder ao contexto
histórico no qual se reformula, segundo a autora, a necessidade
de múltiplos eixos de luta contra a opressão. Segundo Chantal
Mouffe, a pergunta que se faz Butler sobre a agência abre novas
possibilidades políticas:
Em Gender Trouble, Judith Butler se pergunta: ‘Que nova forma
de política emerge quando a identidade como uma base comum
já não constrange o discurso da política feminista?’ Minha
resposta é que visualizar a política feminista dessa maneira abre
uma oportunidade muito maior para uma política democrática
que aspire à articulação das diferentes lutas contra a opressão. O
que emerge é a possibilidade de um projeto de democracia
radical e plural.
5
As profundas controvérsias que suscitou no movimento
feminista e emoutros âmbitos devem-se às radicais conclusões
e à sua estranha proposta de subversão política. O marco de
discussão no qual se desenvolvemas novas teorias é o do debate
centrado, fundamentalmente, no que foi denominado “pós-
marxismo”, que sustenta a idéia de uma democracia radical e
pluralista, algo que a feminista Nancy Fraser denominou
“a condição pós-socialista”. Enquanto o multiculturalismo
difundia-se uma concepção positiva das diferenças de
identidades para promover sua inclusão, uma nova concepção
emerge definindo as identidades como construções discursivas
repressivas e excludentes. Judith Butler é um exemplo
paradigmático do segundo enfoque. Para esta autora a categoria
mulher como representação de valores e características
determinadas é normativa e, portanto, excludente. Seu posicio-
namento político frente a esta disjuntiva — a diferença da
resposta que tenta o multiculturalismo — não passa pela
combinação “politicamente correta” das diversas intersecções
ANDRE A D’ AT RI 142
5
Mouffe, Ch., El retorno de lo político, Barcelona, Paidós, 1999.
Paoeroaao Pae
PÓS - MODE RNI DADE , PÓS - MARXI S MO, PÓS - MODE RNI S MO E PÓS - F E MI NI S MO 143
que constituem o sujeito em suas múltiplas identidades. Ela
proclamará, ao contrário, dispensa absoluta de toda identidade.
Em seu artigo Problemas de los géneros, teoria feminista y
discurso psicoanalítico, sustenta:
Existe outro ponto de partida normativo para a teoria feminista
que não requeira a reconstrução ou a atualização de um sujeito
feminino que não pode representar, e muito menos emancipar, o
conjunto de seres corpóreos que se encontram na posição
cultural de mulheres?
6
A pergunta é retórica porque Butler já tem uma posição
a respeito. Sua resposta é que a crítica do sujeito — tal como
formulada pelo pós-estruturalismo — não deve limitar-se
à reabilitação de suas múltiplas determinações inter-
relacionadas, no sentido do sujeito de coalizão pluralista que
defende o multiculturalismo: a identidade é fictícia. O corpo
generizado não tem status ontológico por fora dos atos que o
constituem. Os discursos sociais sobre a superfície de corpo
criam a falsa convicção de uma identidade, de uma essência
interior, a posteriori. O resultado dessa repetição atual é a
aparição da substância, convertendo o gênero aparentemente
em uma expressão natural dos corpos. A repetição institu-
cionaliza o gênero, tornando-o rígido novamente. Para Butler:
...atos e gestos, desejos atuados e articulados criama ilusão de um
núcleo interior e organizativo do gênero, uma ilusão mantida
discursivamente para regular a sexualidade dentro do marco
obrigatório da heterossexualidade reprodutiva.
7
A ordem simbólica é pressuposta como o âmbito da
existência social que se reproduz nos gestos constantemente
6
Butler, J., “Problemas de los géneros, teoria feminista y discurso psi-
coanalítico” em Feminismo/ Pós-modernismo de Linda Nicholson
(comp.), Bs. As., Feminaria, 1992.
7
Idem.
Paoeroaao Pae
ANDRE A D’ AT RI 144
reiterados, ritualizados, a partir dos quais os sujeitos assumem
seu lugar nessa ordem. Então, fica aberta a possibilidade de
modificar os contornos simbólicos da existência por meio da
performance de atuações deslocadas parodicamente. Fica claro
que quando fala de “paródia”, Butler não supõe a existência de
um original a ser imitado. Pelo contrário, a paródia é a
expressão de que o original não existe, é a paródia da noção de
uma identidade original. As figuras lésbicas butch/femme etc são
as produções que se apresentam como imitação de uma
identidade de gênero que nunca existiu. No deslocamento
mesmo dessas significações, segundo Butler, sugere-se a
abertura à resignação e contextualização das identidades de
gênero. Em uma entrevista a Regina Michalik, da revista
feminista Lola Press, a filósofa estadunidense disse:
Para mim, queer é uma expressão que deseja que alguém não
tenha que apresentar uma carteira de identidade antes de entrar
emuma reunião. Os heterossexuais podemunir-se ao movimento
queer. Os bissexuais podem unir-se ao movimento queer. Ser
queer não é ser lésbica. Ser queer não é ser gay. É um argumento
contra a especificidade lésbica na qual, se sou lésbica, tenho que
desejar de certa forma, ou se sou gay, tenho que desejar de certa
forma. Queer é umargumento contra certa normativa, da qual se
constituiu uma identidade lésbica e gay adequada.
Nas palavras da teórica feminista Rosi Braidotti:
Ao atacar a ficção normativa de coerência heterossexual Butler
demanda que as feministas produzamtodo umconjunto de novos
gêneros da não coerência.
8
O anti-essencialismo desconstrutivista de Butler em seu afã
por eliminar as identidades pressupõe um sinal de igual entre
as mesmas, sem perguntar-se quais são as que se arraigam na
sustentação do status quo de uma ordem de dominação
8
Braidotti, R., Sujetos nómades, Bs. As., Paidós, 2000.
Paoeroaao Pae
determinada e quais são as que, ao reivindicar-se, se opõem às
relações sociais de opressão existentes. Para Butler, isto é assim
porque, seguindo Foucault, sustenta que os sujeitos se
constituem por meio da exclusão; ou seja, as políticas de
subjetivação encerramnecessariamente as práticas da sujeição.
Sempre que se constituir um sujeito, se constituirá o objeto
como a exclusão normativa e necessária para a existência do
primeiro. E toda resistência ao poder será sempre, inevita-
velmente, um novo discurso de poder, no pleno sentido
foucaultiano.
A liberação das mulheres na nova teoria pós-moderna
poderia ser interpretada melhor como a liberação da própria
identidade que é o verdadeiro opressivo. Nema sociedade, nem
o patriarcado, nem o gênero... nem sequer os homens!, teriam
responsabilidade alguma na definição da opressão da metade
do planeta. Se devemos, nós mulheres, nos emancipar de algo,
segundo Butler, é da pesada definição ontológica repressiva e
excludente de nossa identidade “mulher”. Segundo as palavras
da própria autora de Gender Trouble, a transformação, então, é
subversiva pelo seguinte:
... a proliferação paródica impede à cultura hegemônica e à sua
critica afirmar a existência de identidades de gênero essencia-
listas ou naturalizadas. Ainda que os significados de gênero
adaptados nestes estilos paródicos, evidentemente formam parte
da cultura hegemônica misógina, de todas as maneiras se
desnaturalizam e mobilizam através de sua recontextualização
paródica. Enquanto imitações que efetivamente alteram o
significado do original, imitamo mito da originalidade emsi.
9
Para JudithButler, há o que define como um“riso subversivo”
como efeito das práticas paródicas. A autora subestima o
potencial subversivo do desempenho comrelação à constituição
dos sujeitos generizados ou as identidades de gênero a ponto de
PÓS - MODE RNI DADE , PÓS - MARXI S MO, PÓS - MODE RNI S MO E PÓS - F E MI NI S MO 145
9
Butler, J., op.cit.
Paoeroaao Pae
ANDRE A D’ AT RI 146
não colocar a reestruturação total dessa ordem hegemônica
simbólica, que tem seu fundamento em uma ordem social
historicamente determinada de exclusões, apropriações e
opressões materiais. Este é o nó do pensamento butleriano com
o qual se enlaça a política de uma democracia pluralista, pois,
segundo Chantal Mouffe:
Oobjetivo de uma política democrática, portanto, não é erradicar
o poder, senão multiplicar os espaços onde as relações de poder
estarão abertas à contestação democrática. Na proliferação destes
espaços no intuito de criar as condições de um autêntico
pluralismo dos comportamentos de luta, tanto no domínio do
estado como no da sociedade civil, insere-se a dinâmica inerente
à democracia radical e pluralista.
10
A tese butleriana, segundo a qual não há separação
dicotômica entre a luta econômica e a luta “meramente cultu-
ral”, porque a forma social da reprodução sexual é inerente ao
núcleo mesmo de relações sociais de produção — no sentido de
que a família heterossexual é a base das relações capitalistas de
propriedade, intercâmbio, exploração etc — a conduz a sustentar
que, então, a luta específica contra a heterossexualidade
normativa — de alcançar seus objetivos de emancipação —
abalaria o modo de produção.
No entanto, emsuas elaborações ao colocar como horizonte
teórico e prático a democracia radical e pluralista não deixam
de transcender o político cultural. O político não consistiria
a defesa dos direitos de determinadas identidades pré-
constituídas, senão a precariedade e a transformação
permanente de ditas identidades. Essa prática política
questionaria a democracia, convertendo-a em radical e
pluralista. Mas para isso, é óbvio, teve que renunciar
previamente a toda pretensão de eliminar o poder, tal como
10
Mouffe, Ch., op.cit.
Paoeroaao Pae
sustentam também os politólogos autodenominados pós-
marxistas.
Apolítica, entendida nestes termos, converte-se emumjogo
com o poder, ao modo dos jogos infantis de esconde-esconde: a
indefinição, a não aceitação de determinadas identidades e o
nomadismo, supostamente, obrigariam o poder a novas e
móveis definições excludentes ouseja, desestabilizando-o. Esse
modelo de democracia radical não consiste, então, na inclusão
total das diferenças, o que seria impossível. Ainda que sempre
haja identidades e grupos discriminados, o objetivo político é
não permitir que a discriminação fique estruturalmente fixa
nem seja a base discursiva da discriminação a priori. O ideal
máximo a que pode aspirar a sociedade democrática é que
nenhum agente social se dê o direito de representação da
totalidade e, pelo contrário, cada um está disposto a aceitar as
particularidades e limitações de suas próprias reivindicações.
Segundo as palavras de Mouffe, os agentes sociais devem
reconhecer que é impossível eliminar o poder existente emsuas
mútuas relações.
Como assinalam algumas de suas críticas, Butler não
concorda com nenhum projeto que busque estabelecer as
normas ou requerimentos da vida política antecipadamente,
antes que a ação política em si. Para Butler, o significante
político é politicamente efetivo precisamente na razão de sua
impossibilidade de descrever ou representar de modo completo
aquele que nomeia. Seguindo as elaborações dos pós-marxistas
Ernesto Laclau e Chantal Mouffe, sustenta que, como tais
significantes são sempre incompletos em si mesmos, podem e
devem ser perpetuamente rearticulados entre si permitindo a
produção de novas posições subjetivas e novos significantes.
Aqui radica o potencial político e teórico democrático radical.
Para a filósofa norte-americana, deixar a categoria “mulheres”
aberta, sem referências fixas ou determinadas, possibilita o
desafio de sua transformação e resignação permanente para o
feminismo.
PÓS - MODE RNI DADE , PÓS - MARXI S MO, PÓS - MODE RNI S MO E PÓS - F E MI NI S MO 147
Paoeroaao Pae
CONSUMISMO, INDIVIDUALISMOE CETICISMO
Pelo contrário, sustentamos que a lógica do capital integra,
reabsorve, inclui e neutraliza as diferenças, mercantilizando-as
como posições desejáveis de vários consumidores. O noma-
dismo, mais que constatar-se como a subversão das convenções
estabelecidas, constitui-se no embasamento de uma insacia-
bilidade permanente que retroalimenta adequadamente o
consumismo dos incluídos. Sendo assim, a performance e a
mudança permanente das posições de identidades, mais do que
converterem-se em ferramentas perturbadoras do discurso
hegemônico se transformam em nichos clientelares de novos
mercados; uma diversidade semdiferenças específicas, ou seja,
uma constelação de singularidades fetichizadas.
Butler situa-se na discussão igualdade—diferença, que
atravessa a história teórica, prática e programática do movi-
mento feminista, desconhecendo seus fins. Como ressalta a
argentina Maria Luisa Femenías:
Se não há gênero diferente de sexo, nem há diferença sexual
binária como dado do corpo, nem há descontinuidade reificada,
nemtampouco igualdade oudiferença homologáveis, e todas elas
são somente construções lingüísticas prescritivas e práticas
confirmatórias, não há dilema algum em definitivo. Tanto
Beauvoir como Irigaray fracassaramex initio e Butler ‘soluciona’
o dilema por simples desconhecimentos de seus fins.
11
Como bem enfatiza Terry Eagleton, grande parte do pós-
modernismo é “politicamente opositor, mas economicamente
cúmplice”. Apontar a artilharia contra a concepção universalista
do homem abstrato, contra os valores absolutos e a metafísica
do cidadão é somente um aspecto da luta teórica e ideológica
ANDRE A D’ AT RI 148
11
Femenías, M. L., Sobre sujeito y género. Lecturas feministas desde
Beauvoir a Butler, Bs. As., Catálogos, 2000.
Paoeroaao Pae
que está colocada. O sistema capitalista sustenta esse aspecto
na pluralidade do desejo e da fragmentação da produção social.
Toda singularidade do valor é de uso da economia é subsumida
à abstração universalizável do valor de troca. Toda parti-
cularidade dos sujeitos individuais é subsumida no direito e na
justiça sob a figura do cidadão. Questionar só essa arbitra-
riedade da universalização no plano jurídico e político acarreta
a sustentação indiscutível de suas bases materiais enraizadas
nas estruturas econômicas das relações sociais de produção.
O feminismo e todo movimento emancipatório devem levar
em conta essa perspectiva quando, mais do que nunca, o
capitalismo se transformou em um sistema total(itário) em
escala planetária. Disse Slavoj Zizek:
Hoje, a teoria crítica — sob a roupagem de ‘crítica cultural’ — está
oferecendo o último serviço ao desenvolvimento irrestrito do
capitalismo, ao participar ativamente no esforço ideológico de
fazer invisível a presença deste: em uma típica ‘crítica cultural’
pós-moderna, a mínima menção de capitalismo enquanto
sistema mundial tende a despertar a acusação de ‘essencialismo’,
‘fundamentalismo’ e outros delitos.
12
O feminismo, se pretende retomar as bandeiras da
emancipação das mulheres de toda a opressão, não deveria
aceitar os fins impostos pela armadilha pós-moderna. Orecurso
à ameaça totalitária baseada nos universalismos com o qual os
defensores da democracia plural fazem frente às posições da
esquerda, não tem destino; pelo contrário, obriga a revisar a
história do totalitarismo que sempre, indefectivelmente, se
sustenta na suspensão da legalidade a partir de uma postura de
identidade particular, ou seja, na eliminação de toda pretendida
universalidade.
Na perspectiva do materialismo dialético e histórico,
tampouco a universalidade desse sistema é neutro: encerra a
PÓS - MODE RNI DADE , PÓS - MARXI S MO, PÓS - MODE RNI S MO E PÓS - F E MI NI S MO 149
12
Zizek, S., Reflexiones sobre el multiculturalismo, Bs. As., Paidós, 1998.
Paoeroaao Pae
contradição da exploração de uma classe por outra. Tomar
partido na contradição pela classe explorada é a única via para
alcançar a universalidade da emancipação de toda dominação.
Não há solução à armadilha da universalidade moderna a partir
das particularidades de identidades. Nem sequer com o noma-
dismo permanente das figuras paródicas de Butler, que
escapariam a toda reivindicação de identidade. Sempre haverá
cooptação dos elementos mais revulsivos dos movimentos
sociais enquanto não questionarem as bases fundacionais do
sistema capitalista. Reduzindo a luta a meras batalhas pelo
reconhecimento não alcança.
Se Butler teoriza sobre sexo/gênero é por seu interesse em
pensar as condições de possibilidade de uma democracia
radical. E, vice-versa: sua elaboração sobre a democracia
embasa-se na tentativa de pensar o “espaço” político radical
onde possam ser incluídos também os corpos que hoje “não”
importam. Mas sua preocupação política opera nos marcos
nunca explicitados do sistema capitalista, onde a exploração
é indizível e a produção é meramente simbólica. Esse capita-
lismo impossível de pronunciar é o limite inquestionável da
ima-ginação política, o “não dito” e, portanto, incapaz de ser
desconstruído.
Um sistema onde, ademais, qualquer tentativa de oposição
se verá limitada a uma mera rearticulação do horizonte do
incluído, mas no mesmo ato se verá constrangido a atuar como
um novo discurso regulador. Butler sustenta-o explicitamente
no livro escrito com Laclau e Zizek, no qual diz:
... isto sucede quando pensamos que encontramos um ponto de
oposição à dominação e logo nos damos conta de que esse mesmo
ponto de oposição é o instrumento através do qual opera a
dominação, e que sem querer fortalecemos os poderes de
dominação através de nossa participação na tarefa de opormo-
nos. A dominação aparece com maior eficácia precisamente
como seu ‘Outro’. O colapso da dialética nos dá uma nova
ANDRE A D’ AT RI 150
Paoeroaao Pae
perspectiva porque nos mostra que o mesmo esquema pelo qual
distinguem-se dominação e oposição dissimula o uso instru-
mental que a primeira faz da última.
13
Para Judith Butler, os limites democráticos do liberalismo
são questão de ordemquantitativa. No mesmo livro sustenta:
O que eu entendo como hegemonia é que seu momento norma-
tivo e otimista consiste, precisamente, nas possibilidades de
expandir as possibilidades democráticas, para os fins chaves do
liberalismo, tornando-os mais inclusivos, mais dinâmicos e mais
concretos.
14
A prática política dos movimentos sociais — na única
concepção que entende a autora, ou seja, como movimentos
sociais de identidades — deveria ter como objetivo a expansão
dos fins do “cidadão” e do “humano” em um sistema que
entende os direitos humanos e cidadãos como pilares funda-
mentais do funcionamento democrático, mas que ao definir
seus conteúdos regula e portanto exclui, produzindo o abjeto.
Essa expansão só poderia garantir-se esvaziando o conteúdo
político de qualquer significado préfixado, porque toda
significação que se pretende universal será fatalmente
particular e assimrepressiva no ato performativo de definir sua
identidade. Para isso, é necessário aceitar a semiotização da
política, uma operação que os autores de Contingencia,
hegemonía e universalidad dão por certo. Mas seu ponto de
partida, não por suas debilidades, é menos construído que
outros, como, por exemplo, o de supor a política como a ação de
cidadãos abstratamente iguais em um Estado também despo-
jado de seu caráter de classe.
PÓS - MODE RNI DADE , PÓS - MARXI S MO, PÓS - MODE RNI S MO E PÓS - F E MI NI S MO 151
13
Butler, Laclau e Zizek, Contingencia, hegemonía y universalidad, FCE,
Bs. As., 2003.
14
Idem.
Paoeroaao Pae
ANDRE A D’ AT RI 152
A diferença cumpre o papel, nas elaborações butlerianas
precisamente de um“fetiche teórico que repudia as condições de
sua própria emergência”, para utilizar uma expressão da
própria autora. Mas sempre que há uma norma, ou seja, um
âmbito da ordem da validez onde esse factum é significado,
compreendido. Não há possibilidade de nomear a diferença se
não é por referência a umsistema de normas que operamsobre
a mera artificialidade, outorgando-lhe significância. A
“ideologização” da diferença como “diferença” é a conse-
qüência de um processo histórico—construtivo cuja estrutura
alcançada atuará de maneira a regular a posteriori, apagando
os rastros de sua origem. Como um“fetiche teórico que repudia
as condições de sua própria emergência”, as formas não
heterossexuais da sexualidade serão o abjeto, as marcas de
identificação pertinentes dos corpos que não importam,
enquanto a heterossexualidade obrigatória aparecerá emcena
apresentando a si mesma como norma a-histórica, natural e
imutável. Emsua indivisível e inquestionável presença apaga o
processo histórico transcorrido por meio de aberrações cruéis
e sanguinárias pelas quais o desejo foi regrado, reprimido e
ordenado segundo uma racionalidade que entende a
sexualidade como reprodução e a reprodução como mera
reprodução de força de trabalho. Porque
o possuidor da força de trabalho é umser mortal. Portanto, para
que sua presença no mercado seja contínua, como requer a
transformação contínua de dinheiro em capital, é necessário
que o vendedor da força de trabalho se perpetue “como se
perpetua todo ser existente pela reprodução.”
15
Asemiosis infinita que Butler defende como ideal a alcançar
com a democracia radical e plural já está presente. Não é outra
que a imagem fetichista que oferece a sociedade civil, o
15
Karl Marx, El Capital, FCE, México, p. 125.
Paoeroaao Pae
mercado, aquela forma de manifestar-se que tem a prática
eminentemente humana. Um mercado livre, onde homens
livres intercambiam as mercadorias que circulam de maneira
ininterrupta (infinita?). Aí é onde a imagem aparente obtura a
inteligibilidade dos mecanismos da extração de mais-valia. A
circulação livre e infinita de mercadorias é o outro lado da
moeda da exploração. A democracia dos cidadãos livres,
fraternos e iguais, tem necessariamente que incluir, como
contrapartida para sua realização, a existência de uma classe
que expropria historicamente a humanidade dos meios de
produção. O contrato de trabalho entre homens livres e iguais
oculta a exploração, ao mesmo tempo que é a forma necessária
que adquire no modo de produção capitalista nos estados
“modernos” burgueses. Mas o juiz e a polícia cancelam a
semiosis infinita da igualdade cidadã, quando a propriedade
privada e a liberdade do contrato de trabalho vêm-se
ameaçadas pela ação das classes subalternas. A aparência
voluntária do contrato encobre a violência da expropriação
originária; a democracia, sob a aparentemente livre eleição dos
representantes, disfarça a dominação de aceitação também
voluntária.
Judith Butler eleva a modelo ideal (universal) precisamente
a “universalidade irrealizada”, condição estrutural do Estado
baseado na exploração capitalista. Jamais poderia ser “mais
inclusão” o objetivo pragmático de uma política emancipatória
que reconhecera o jogo de espelhos do capital e do Estado, ou
seja, que a expropriação e a exploração são o “lado oculto”
intrinsecamente fundido com a Declaração Universal dos
Direitos do Homem e do Cidadão. Para Butler suas escassas
aspirações libertárias a fazem defender que
o compromisso com uma concepção de democracia que tenha
futuro, que se mantenha não restringida pela teleologia e que não
seja equivalente a nenhuma de suas realizações exige uma
PÓS - MODE RNI DADE , PÓS - MARXI S MO, PÓS - MODE RNI S MO E PÓS - F E MI NI S MO 153
Paoeroaao Pae
demanda diferente, uma demanda que postergue permanen-
temente a realização.
16
Os abjetos, pelo contrário, não adaptados coma postergação
infinita, sonhamos com as alas que sabemos enraizadas em
nossos próprios ventres de casulos.
ANDRE A D’ AT RI 154
16
Butler, Laclau, Zizek, op.cit.
Paoeroaao Pae
A modo de conclusão
“Vejo que a mulher pode. Pode fazer mais que lavar,
passar e cozinhar emcasa para os filhos.
Eu acho que é real. Estou sentindo isso agora e o estou vivendo.
Descobri meu lado adormecido e agora que está despertado,
não penso emparar.”
1
Célia Martinez
MILHÕES DE MULHERES CONDENADAS À BARBÁRIE
Atualmente, ainda que as feministas tenham participado e
conseguido introduzir modificações nas legislações de mui-
tíssimos países pelo mundo quanto ao divórcio, a participação
nos cargos públicos eletivos, etc., a realidade indica que ainda
estamos muito longe de ter solucionado comas leis as situações
concretas que vivemos nós mulheres, especialmente as mais
pobres.
Só no continente latino-americano o aborto clandestino
continua sendo a primeira causa de morte materna; são 6.000
mulheres que morrem anualmente por complicações relacio-
nadas a abortos inseguros. Emtodo o mundo 500.000 mulheres
morrem a cada ano por complicações na gravidez e no parto e
500 mulheres por dia morrem por abortos clandestinos. Ao
contrário do que se imagina, no início do século XXI vivemos
1
Reportagem com Celia Martínez, operária da fábrica Brukman de Bue-
nos Aires, ocupada e colocada para funcionar pelas trabalhadoras
desde 18 de dezembro de 2001.
Paoeroaao Pae
uma atitude cada vez mais feroz do fundamentalismo católico
em aliança com os Estados e o poder político contra os direitos
sexuais, reprodutivos e o direito ao aborto, enquanto vêmà tona
cada vez mais casos de abuso sexual contra meninos, meninas
e jovens perpetrados pelos membros da Igreja.
Outros fundamentalismos religiosos praticam a extirpação
do clitóris e a costura dos lábios vaginais de meninas e
adolescentes, que serão arrancados pelo noivo na “noite de
núpcias”. Há mais de 110 milhões de mulheres e meninas com
os órgãos genitais mutilados, e a cada ano são mais 2 milhões
de mulheres que devem passar por este rito cruel.
A América Latina e o Caribe, por sua vez, registram os
índices mais altos de violência contra as mulheres: o homicídio
representa emnosso continente a quinta causa de morte, sendo
que 70%das mulheres padecemde violência doméstica, e 30%
reportamque sua primeira relação sexual foi forçada. Calcula-
se que 80%das agressões permanecememsilêncio, já que não
são denunciadas por medo ou pela certeza de que a denúncia
não será levada em conta. Uma em cada três mulheres no
mundo sofre maus tratos. Segundo as estatísticas a cada oito
segundos uma mulher é vítima de violência física.
Bemmais que 400 mulheres foramassassinadas nos últimos
dez anos em Ciudad Juárez (México), fazendo dessa cidade
fronteiriça um lamentável exemplo de femicídio, impunidade,
misoginia e barbárie. No outro extremo do continente, na
província de Buenos Aires, calcula-se que em 120.000 lares as
mulheres sofremmaus-tratos, sendo que no decorrer de umano
são cometidos mais de 50 homicídios de mulheres pelas mãos
de seus parceiros.
Em algumas culturas os crimes de honra são considerados
legítimos, pelos quais as mulheres repudiadas por seus maridos
são humilhadas e até assassinadas com amputações, queima-
duras etc. Em alguns países como a China, a Indonésia,
Bangladesh, Coréia do Sul etc., os infanticídios e abortos são
seletivos e 99%das vítimas são meninas. Na Índia matam-se as
ANDRE A D’ AT RI 156
Paoeroaao Pae
mulheres que ficam viúvas e se transformam em una carga
social. Na zona andina, é tradição dos povos originários que as
mulheres não tenham direito a herdar a terra. Presenciamos
recentemente, a raiz do levante operário e popular que derrubou
o governo do presidente boliviano, Sánchez de Losada, no qual
as mulheres não podem participar em igualdade de condições
aos homens nas assembléias e reuniões. Em muitos casos, o
costume que se reitera é que as mulheres permaneçam atrás
dos homens, sentadas no chão e que, ao pedir a palavra para
intervir, se lhes é negado este direito, para exercê-lo devam
impor-se decididamente, levantando a voz de maneira audaz.
Na Argentina, calcula-se que ocorrem entre 5.000 e 8.000
estupros por ano. Segundo as especialistas em violência, em
todo o mundo um em cada cinco dias de ausência feminina no
ambiente de trabalho é conseqüência de um estupro ou de
violência doméstica. Enquanto isso, o “turismo sexual” nos
países mais pobres do mundo se transformou emuma indústria
bastante rentável para cafetões, traficantes de mulheres e
meninas e exploradores sexuais. Não obstante, nos locais onde
o mercado do sexo é um delito, antes dos clientes, a culpa é
sempre das mulheres emsituação de prostituição.
Em 2003, 13 milhões de crianças morreram de fome no
mundo: é umnúmero seis vezes maior que o total de vítimas da
Primeira Guerra Mundial entre 1914 e 1918. A maioria dessas
crianças são meninas dos países do chamado Terceiro Mundo.
Dos 960 milhões de analfabetos existentes no mundo 70% são
mulheres. E por cada homem que emigra dos países pobres ou
envolvidos emguerras e conflitos, há três mulheres. Elas são as
principais vítimas dos conflitos ficando viúvas ou órfãs em
frente às suas casas, perdendo tudo e tendo que escolher entre
emigrar ou enfrentar a crueldade dos estupros, que muitas
vezes fazem parte das operações de guerra, tendo seus corpos
transformados embotimpara o inimigo.
Como já dissemos na introdução, as mulheres constituem
70% das 1,5 milhões de pessoas que vivem em condições
A MODO DE CONCLUS ÃO 157
Paoeroaao Pae
absolutas de pobreza em todo o mundo. As camponesas são
chefes de um quinto dos lares rurais e em algumas regiões até
de mais de um terço, mas só são proprietárias de cerca de 1%
das terras, enquanto 80%dos alimentos básicos para o consumo
é produzido por mulheres. Só na América Latina 154 milhões de
mulheres são as mais pobres entre os pobres.
O valor e o volume do trabalho doméstico não remunerado
variam de 35% a 55% do produto interno bruto dos países. A
produção doméstica representa até 60% do consumo privado.
E este trabalho não remunerado recai quase absolutamente
sobre as mulheres e as meninas. Segundo relatos da OIT a taxa
de desemprego urbano no continente latino-americano no final
de 2002 chegou a 17 milhões de pessoas, afetando de maneira
especial as mulheres. Por outro lado, as mulheres que tra-
balhamo fazememuma situação cada vez mais precária: não só
ganham um salário entre 30 e 40% menor que os homens pelo
mesmo trabalho, como também a grande maioria não têm
seguro social nemdireito à aposentadoria.
ESTAMOS DE PÉ
Mas assimcomo as exorbitantes cifras do horror e os relatos
da barbárie que milhões de mulheres pelo mundo ainda
continuam sofrendo em suas sinistras realidades, não é menos
certo que nós mulheres estamos de pé e continuamos sendo, em
muitos casos, protagonistas indiscutíveis da resistência e do
enfrentamento contra esta mesma barbárie, como demonstra-
ram recentemente, as mulheres camponesas, as mulheres
aymaras e as trabalhadoras mineiras bolivianas, nas jornadas
de outubro de 2003, que culminaram na queda do presidente
Sánchez de Losada.
Aeclosão dos modelos econômicos “neoliberais”, no final do
século XX, deu lugar ao ressurgimento da mobilização no
mundo, seguido pela tentativa de diálogo do feminismo com
ANDRE A D’ AT RI 158
Paoeroaao Pae
outros movimentos sociais. A participação das feministas nas
mobilizações mundiais contra a globalização em cada uma das
cúpulas de governos imperialistas, organizações multilaterais
e outras reuniões nas quais os poderosos tentam definir, em
grande medida, os destinos da humanidade, são umfato inédito
dos últimos anos.
O mesmo ocorreu na Argentina, durante as jornadas de
dezembro de 2001 — uma das expressões mais agudas da luta de
classes do período —, emque as feministas tornarama aparecer
com suas bandeiras distintivas em meio às mobilizações
populares que derrubaram o governo de De La Rúa, para
depois, a partir de então, se aproximar das trabalhadoras que
tomaram as fábricas — como as operárias de Brukman —, das
mulheres dos movimentos de desempregados que fecharamas
ruas e viadutos e as assembléias populares, organizadas nos
bairros das cidades mais importantes do território nacional.
Por outro lado, a “conversão” e a autocrítica de muitas
feministas “institucionalizadas”, recolocando os fundamentos
de sua prática,— para além da autenticidade ou do oportunismo
de suas novas posições — foram parte das novidades do último
período que não passaram em branco. Importantes setores do
feminismo hoje rechaçamo caminho da auto-exclusão que, em
diversas ocasiões, dividiu o movimento feminista das mulheres
mobilizadas que lutampor seus direitos.
QUEREMOS NOSSODIREITO AOPÃO,
MAS TAMBÉMÀS ROSAS
Mas se o feminismo não almeja transformar a realidade,
padecida por milhões de mulheres que desconhecem suas
premissas, mas enfrentamno cotidiano a fome, a exploração, a
violência, o abuso e as humilhações, este será reduzido às
elaborações acadêmicas, aos lobbies políticos, provendo
A MODO DE CONCLUS ÃO 159
Paoeroaao Pae
160 ANDRE A D’ AT RI ANDRE A D’ AT RI 160
“quadros” à tecnocracia de gênero que se incorporou aos
estamentos governamentais e aos organismos multilaterais.
Será que é possível seguirmos o caminho da unidade e da
compreensão de que não haverá emancipação das mulheres
desta barbárie em que vivemos se não acabamos com este
sistema que explora e oprime milhões reproduzindo o
patriarcado ao seu próprio proveito? Quantas serão as femi-
nistas pensam que “temos que embarcar no trem do futuro
socialista”
2
? Isso é o que aspiramos os que acreditamos que as
mulheres e os homens que constroem tudo, as mulheres e os
homens que produzem a riqueza do mundo que lhes é expro-
priada pelos capitalistas, são aqueles que podem acabar com
este sistema de exploração.
Ainda que o imperialismo tenha desenvolvido novas formas
de opressão e aumentado o peso das amarras que pesam sobre
a vida das mulheres, a experiência das mulheres que dirigiram
as revoltas da farinha, das mulheres dos bairros pobres de Paris
que dirigiram a Revolução Francesa, das commands de 1871, a
experiência das operárias têxteis do início do século XX, das
mulheres na Revolução Russa, as experiências de tantas
mulheres que têm lutado ao longo da história estão vivas nas
mulheres do mundo que ainda hoje continuam se levantando
contra a ordemvigente.
O patriarcado e o capitalismo constituíram uma união
indissolúvel emque a fome e o abuso, o desemprego e a violên-
cia, a exploração e a opressão pairam sobre as mulheres do
mundo de um modo sinistro. Por isso, pensamos que hoje
permanece atual a frase dita pela socialista norte-americana
Louise Kneeland em 1914: “O socialista que não é feminista
carece de amplitude. Quem é feminista e não é socialista carece
de estratégia.”
2
Alda Facio, “Globalización y Feminismo”, documento apresentado no
IXEncontro Feminista Latino-Americano e do Caribe, Costa Rica, 2002.
Paoeroaao Pae
A MODO DE CONCLUS ÃO 161
Para finalizar, faço minhas as palavras do revolucionário
russo Leon Trotsky que escreveu emseu testamento:
Posso ver a grama verde e brilhante pelo vidro, o céu azul e claro
acima, e a luz do sol irradiando em todas as partes. A vida é bela.
Que as futuras gerações livrem-na de todo o mal, opressão e
violência e possamgozá-la plenamente.
3
Nossa tarefa torna a vida mais bonita, porque sabemos que
nosso combate diário tem esse objetivo: a emancipação das
mulheres para lutar pela revolução social em igualdade de
condições a todos os oprimidos e explorados; a revolução social
para iniciar o caminho da libertação definitiva das mulheres e
de toda a humanidade, hoje aprisionadas pelas cadeias do
sanguinário capital.
3
Trotsky, L., Testamento, 1940, s/r.
Paoeroaao Pae
Paoeroaao Pae
Documentos
Anexos
Paoeroaao Pae
Paoeroaao Pae
Declaração
dos direitos da mulher
e da cidadã
Olympe de Gouges, 1789
Para ser decretado pela Assembléia Nacional em suas
últimas sessões ou na próxima legislação.
PRÊAMBULO
As mães, filhas, irmãs, representantes da nação, pedem que
constituam-nas em assembléia nacional. Por considerar que a
ignorância, o esquecimento ou o desprezo pelos direitos da
mulher são as únicas causas dos males públicos e da corrupção
dos governos, estas resolveram expor em uma declaração
solene os direitos naturais, inalienáveis e sagrados da mulher a
fimde que esta declaração, constantemente presente para todos
os membros do corpo social lhes recorde sem cessar seus
direitos e seus deveres, a fim de que os atos do poder das
mulheres e os do poder dos homens possamser, a todo instante,
comparados com o objetivo de toda instituição política e sejam
mais respeitados por ela, a fim de que as reivindicações das
cidadãs, fundadas a partir de agora em princípios simples e
indiscutíveis, se dirijamsempre à manutenção da constituição,
dos bons costumes e da felicidade de todos.
Em conseqüência, o sexo superior tanto na beleza como na
coragem, quanto aos sofrimentos maternais se refere,
reconhece e declara, na presença e sob os auspícios do Ser
Supremo, os seguintes Direitos da Mulher e da Cidadã.
Paoeroaao Pae
I
A mulher nasce livre e permanece igual ao homem em
direitos. As distinções sociais só podemestar fundadas emuma
utilidade comum.
II
O objetivo de toda a associação política é a conservação dos
direitos naturais e imprescritíveis da Mulher e do Homem; estes
direitos são a liberdade, a propriedade, a segurança e,
sobretudo, a resistência à opressão.
III
O princípio da soberania que reside essencialmente na
Nação não é mais do que a reunião da Mulher e do Homem:
nenhumcorpo, nenhumindivíduo pode exercer autoridade que
não emane destes.
IV
A liberdade e a justiça consistem em devolver tudo o que
pertence aos outros; assim, o exercício dos direitos naturais da
mulher só tem por limites a tirania perpétua que o homem lhe
opõe; estes limites devemser corrigidos pelas leis da natureza e
da razão.
V
As leis da natureza e da razão proíbem todas as ações
prejudiciais para a Sociedade: tudo o que não está proibido por
estas leis, prudentes e divinas, não pode ser impedido e
ninguémpode ser obrigado a fazer o que elas não ordenam.
VI
A lei deve ser a expressão da vontade geral; todas as Cidadãs
e Cidadãos devemparticipar de sua formação pessoalmente, ou
por meio de seus representantes. Deve ser a mesma para todos;
ANDRE A D’ AT RI 166
Paoeroaao Pae
todas as cidadãs e todos os cidadãos por serem iguais a seus
olhos, devem ser igualmente passíveis de serem admitidos em
todos os postos e empregos públicos, conforme suas capacida-
des, e semmais distinção que a de suas virtudes e seus talentos.
VII
Nenhuma mulher se encontra eximida de ser acusada,
detida e encarcerada nos casos determinados pela Lei. As
mulheres obedecem como os homens a esta Lei rigorosa.
VIII
As leis só devemestabelecer penas estritas e evidentemente
necessárias e ninguémpode ser castigado mais que emvirtude
de uma Lei estabelecida e promulgada anteriormente ao delito
e legalmente aplicada às mulheres.
IX
Sobre toda a mulher que tenha sido declarada culpada cairá
todo o rigor da Lei.
X
Ninguém deve ser molestado por suas opiniões, assim tal
como a mulher tem o direito de elevar-se à forca; deve ter
tambémigualmente o de subir à tribuna, contanto que suas ma-
nifestações não alterema ordempública estabelecida pela Lei.
XI
A livre expressão dos pensamentos e das opiniões é um dos
direitos mais preciosos da mulher, posto que esta liberdade
assegura a legitimidade dos pais comrelação a seus filhos. Toda
a cidadã pode, portanto, decidir livremente ser mãe de umfilho
semque umpreconceito bárbaro a force a dissimular a verdade;
com a exceção de responder pelos abusos dessa liberdade nos
casos determinados por lei.
DOCUME NT OS ANE XOS 167
Paoeroaao Pae
XII
A garantia dos direitos da mulher e da cidadã implica uma
utilidade maior; esta garantia deve ser instituída para a
vantagem de todos e não para utilidade particular daquelas a
quemé confiada.
XIII
Para a manutenção da força pública e para os gastos de
administração, as contribuições da mulher e do homem são as
mesmas; participam em todos os benefícios pessoais, em todas
as tarefas penosas, portanto, devem participar na distribuição
dos postos, empregos, cargos, dignidade e outras atividades.
XIV
As Cidadãs e Cidadãos têm o direito de comprovar por si
mesmos ou por meio de seus representantes a necessidade da
contribuição pública. As Cidadãs unicamente podem prová-la
se admite uma divisão igual, não somente na fortuna, mas
também na administração pública, e se determinem a quota, a
base tributária, a arrecadação e a duração do imposto.
XV
A massa das mulheres, reunida com a dos homens para a
contribuição, temo direito de pedir contas de sua administração
a todo agente público.
XVI
Toda a sociedade em que a garantia dos direitos não esteja
assegurada, nem a separação dos poderes determinada, não
tem constituição; a constituição é nula se a maioria dos indi-
víduos que compõema Nação não cooperou emsua redação.
XVII
As propriedades pertencem a todos os sexos reunidos ou
separados; são, para cada um, um direito inviolável e sagrado;
ANDRE A D’ AT RI 168
Paoeroaao Pae
ninguémpode ser privado dela como verdadeiro patrimônio da
natureza a não ser que a necessidade pública, legalmente
constatada, o exija de maneira evidente e sob a condição de uma
justa e prévia indenização.
EPÍLOGO
Mulher, desperta; as badaladas da razão se fazem ouvir em
todo o universo, reconhece seus direitos. Opoderoso império da
natureza deixou de estar rodeado de preconceitos, fanatismo,
superstição e mentiras. A chama da verdade dissipou todas as
nuvens da ignorância e da usurpação. O homem escravo redo-
brou suas forças e precisou apelar às tuas para romper suas
correntes. Mas uma vez emliberdade, temsido injusto comsua
companheira. Oh, mulheres, mulheres! Quando deixarás de
estar cega? Que vantagem obteve da revolução? Um desprezo
mais marcado, um desdém mais visível. [...] Quaisquer que
sejam as dificuldades que a oponham, podes superá-las; basta
apenas desejá-lo.
DOCUME NT OS ANE XOS 169
Paoeroaao Pae
Proclamação
do Comitê de Cidadas
da Comuna de Paris
1
Paris, 13 de abril de 1871
Considerando,
Que é dever e direito de todos combater pela grande causa
do povo, a Revolução.
Que o perigo é imediato e o inimigo está às portas de Paris.
Que a união faz a força, e na hora do perigo supremo todos os
esforços individuais devem
unir-se para formar uma resistência coletiva de toda a
população à qual nada poderá resistir.
Que a Comuna, em representação do grande princípio que
proclama a dissolução do todo o privilégio, deve considerar
como justas as reivindicações de todo o povo, sem diferença de
sexo, diferença criada e mantida pela necessidade de anta-
gonismos sobre os quais repousam os privilégios das classes
dominantes.
Que o triunfo da luta atual tem por objetivo a supressão dos
abusos e em um porvir próximo a renovação social total,
assegurando o reinado do trabalho e da justiça, e por
conseqüência o mesmo interesse para os cidadãos e para as
cidadãs.
Que o massacre dos defensores de Paris pelos assassinos de
Versalhes exaspera ao extremo à massa de cidadãs e as
impulsiona à vingança.
1
O original em Francês está publicado no Le Site de la Commune de
Paris (1871), <http://perso.club-internet.fr/lacomune>
Paoeroaao Pae
Que um grande número delas resolveu que no caso em que
o inimigo venha a invadir as portas de Paris combater e vencer
ou morrer pela defesa de nossos direitos comuns.
Que uma importante organização do elemento revolu-
cionário é uma força capaz de dar apoio efetivo e vigoroso à
Comuna de Paris e que não pode conquistar mais que com a
ajuda e a participação do governo da Comuna.
Por conseguinte:
As delegadas das cidadãs de Paris exigem da Comissão
Executiva da Comuna:
dar a ordemaos prefeitos de colocar à disposição dos comitês
de bairro e do Comitê Central instituído pelas cidadãs para a
organização da defesa de Paris, uma sala nas prefeituras de
diversos bairros ou então, emcaso de impossibilidade, umlocal
separado, aonde os comitês possampermanecer.
definir como mesmo fimumgrande local emque as cidadãs
possamfazer reuniões públicas.
imprimir às custas da Comuna as circulares, cartazes e
avisos que os ditos comitês julgaremnecessário propagar.
Assinam, pelas cidadãs delegadas, membros do Comitê
Central de Cidadãs:
Adélaide Valentin, Noëmie Colleville, Marcand, Sophie
Graix, Joséphine Pratt, Céline Delvainquier, Aimée
Delvainquier, Elizabeth Dimitrief.
DOCUME NT OS ANE XOS 171
Paoeroaao Pae
Declaração
de Seneca Falls
EUA, 1848
Considerando,
Que está convencionado que o grande preceito da natureza é
que “o homem há de perseguir sua verdadeira e substancial
felicidade; Blackstone em seus comentários assinala que posto
que essa lei da natureza é contemporânea à humanidade e foi
criada por Deus, tem primazia evidente sobre qualquer outra.
Éobrigatório que emtoda a terra, emtodos os países e emtodos
os tempos; nenhuma lei humana tem valor se a contradiz, e
aquelas que são válidas derivamtoda sua força, todo o seu valor
e toda a sua autoridade direta e indiretamente dela, em
conseqüência”.
DECIDIMOS: Que todas as leis que sejam conflituosas de
alguma maneira com a felicidade verdadeira e substancial da
mulher, são contrárias ao grande preceito da natureza e não têm
validade, pois este preceito temprimazia sobre qualquer outro.
DECIDIMOS: Que todas as leis que impeçam que a mulher
ocupe na sociedade a posição que sua consciência lhe dite, ou
que a coloquem em uma posição inferior a do homem, são
contrárias ao grande preceito da natureza e, portanto, não tem
força nemautoridade.
DECIDIMOS: Que a mulher é igual ao homem — assim o
pretendeu o Criador — e que pelo bemda raça humana exige-se
que seja reconhecida como tal.
DECIDIMOS: Que as mulheres deste país devem ser
informadas quanto as leis sob as quais vivem, que não devem
Paoeroaao Pae
seguir proclamando sua degradação, declarando-se satisfeitas
comsua atual condição nemsua ignorância, afirmando que tem
todos os direitos que desejam.
DECIDIMOS: Que posto que o homempretende ser superior
intelectualmente e admite que a mulher o é moralmente, é seu
preeminente dever animá-la a que fale e pregue em todas as
reuniões religiosas.
DECIDIMOS: Que a mesma proporção de virtude, delicadeza
e refinamento no comportamento que se exige da mulher na
sociedade, seja exigida ao homeme as mesmas infrações sejam
julgadas com igual severidade, tanto para o homem como para
a mulher.
DECIDIMOS: Que a acusação de falta de delicadeza e de
decoro, que com tanta freqüência é culpada a mulher quando
dirige a palavra empúblico, provém, e commuita má intenção,
dos que com sua assistência fomentam sua aparição nos
cenários, nos concertos e nos circos.
DECIDIMOS: Que a mulher tem se mantido satisfeita
durante tempo demasiado dentro de limites determinados
que alguns costumes corrompidos e uma deturpada inter-
pretação das Sagradas Escrituras determinaram para ela e que
já é hora que se mova num meio mais amplo do que o Criador
lhe designou.
DECIDIMOS: Que é dever das mulheres deste país garantir o
sagrado direito de voto.
DECIDIMOS: Que a igualdade dos direitos humanos é
conseqüência do fato de que toda a raça humana é idêntica
quanto à capacidade e responsabilidade.
DECIDIMOS, PORTANTO: Que sendo sido investida pelo
Criador com os mesmos dons e com a mesma consciência de
responsabilidade para exercê-los, está demonstrado que a
mulher, igualmente ao homem, tem o dever e o direito de
DOCUME NT OS ANE XOS 173
Paoeroaao Pae
promover toda causa justa por todos os meios justos; e no que se
refere aos grandes temas religiosos e morais resulta seu direito
emcompartilhar comseus irmãos seus ensinamentos, tanto em
público como em privado, por escrito ou de palavra, ou através
de qualquer meio adequado, emqualquer assembléia que valha
a pena celebrar; e por isso uma verdade evidente que emana dos
princípios de implantação divina da natureza humana, qualquer
costume ou imposição que lhe seja adversa, tanto se é moderna
como se leva à grisalha sanção da antiguidade, deve ser
considerada como una evidente falsidade e contrária à
humanidade.
Na última sessão Lucretia Mott expôs e falou da seguinte
decisão:
DECIDIMOS: Que a rapidez e o êxito de nossa causa
dependem do zelo e dos esforços, tanto dos homens como das
mulheres, para derrubar o monopólio dos púlpitos e para
conseguir que a mulher participe eqüitativamente nos dife-
rentes ofícios, profissões e negócios.
ANDRE A D’ AT RI 174
Paoeroaao Pae
As grevistas contam
aos ricos seus sofrimentos
1
NewYork Times, dezembro de 1909
EMUMA REUNIÃOAJUDAMÀS GREVISTAS TÊXTEIS
“Também, é verdade que eu ganho 15 dólares por semana”,
disse a pequena Clara Lemlich ontem a tarde diante de cento e
cinqüenta mulheres de buen pasar reunidas no Clube Colony,
na Avenida Madison com a Rua 13º, convidadas pela Srta.
Elizabeth Marbury e a Sra. Egerton L. Winthrop, para escutar as
representantes das jovens grevistas, que lhes contamsua versão
da luta que se encontra emsua quarta semana.
“ Não comecei a greve porque eu não ganhava o suficiente”,
seguiu contando a jovem da zona Leste para a audiência da
Quinta Avenida, “fiz greve para que todas ganhem o suficiente.
Não foi por mim, foi pelas outras”.
Falarammais grevistas, enquanto várias mulheres e homens
simpatizantes, e logo as senhoras Philip M. Luding e Elise De
Wolf, passaram dois chapéus que juntaram mais de 1.300
dólares. Anunciou-se, também, que os Shubert doariam50%da
arrecadação de umde seus teatros de Nova York durante toda a
semana seguinte às grevistas...”
1
Reprodução de alguns fragmentos de umartigo do jornal The NewYork
Times, no qual se relatamaspectos da greve das operárias têxteis nova-
iorquinas de 1909, encabeçada por Clara Lechmil. Ooriginal eminglês
foi traduzido especialmente para esta edição por Celeste Murillo.
Paoeroaao Pae
ASrta. Dreier que esteve na luta durante semanas, disse que
contaria algo sobre o que aconteceu antes que da greve ser
declarada oficialmente em 22 de novembro. Antes disso,
algumas das 40.000 operárias mais valentes, a maioria meninas,
haviam unido-se ao sindicato. Até 22 de novembro o sindicato
dificilmente reunia mil membros.
“Essas meninas que foram tão valentes ao unirem-se ao
sindicato, descobriram que as despediam somente por essa
razão”, continuo. “Um montão de jovens foram despedidas por
pedir que outras se unissemao sindicato. Uma fabrica despediu,
de uma só vez, cento e quarenta operárias somente porque
haviam se filiado ao sindicato. Foram jogadas uma por uma e
logo em grupos, e os membros do sindicato viram que teriam
que arriscar tudo, que deviamlutar e ganhar, ou render-se”.
“Todavia, existem 7.000 meninas afora. Os empregadores
estão determinados a não reconhecer o sindicato. A batalha
entre estas jovens e os empregadores começou. A questão é
quemganhará: os empregadores que temmuito dinheiro ou as
jovens que não têmnada...”
ANDRE A D’ AT RI 176
Paoeroaao Pae
Pão e Rosas
1
James Oppenheim, 1911
Enquanto vamos marchando, marchando através do belo dia
ummilhão de cozinhas escuras e milhares de cinzas fábricas têxteis
são tocados por umradiante sol que assoma repentinamente
já que o povo nos ouve cantar: Pão e rosas! Pão e rosas!
Enquanto vamos marchando, marchando,
lutamos tambémpelos homens
já que esses são filhos de mulheres,
e os protegemos maternalmente
Nossas vidas não serão exploradas desde o nascimento até a morte
os corações padecemde fome, assimcomo os copos
dê-nos pão, mas tambémdê-nos rosas!
Enquanto vamos marchando, marchando,
grande quantidade de mulheres mortas
vão gritando a través do nosso canto seu antigo pedido de pão;
Seus espíritos fatigados no conheceram a arte, o amor e a beleza
Sim, é pelo pão que lutamos, mas tambémlutamos por rosas!
A medida que vamos marchando, marchando,
trazemos conosco dias melhores.
Olevantamento das mulheres significa
o levantamento da humanidade.
Já basta da agonia do trabalho e do edo folgado:
dez que trabalhampara que umrepouse
Queremos compartilhar as glórias da vida: pão e rosas, pão e rosas!
Nossas vidas não serão exploradas desde o nascimento até a morte;
os corações padecemfome, assimcomo os corpos
pão e rosas, pão e rosas!
1
Adaptação do Original em inglês (T. da A.).
Paoeroaao Pae
Este poema foi escrito em dezembro de 1911, por James
Oppenheim, um poeta e ativista filiado ao sindicato combativo
IWW(Industrial Workers of the World). Segundo a investigação
de Jim Zwick, tanto na história dos EUA, como na consciência
popular, o slogan“pão e rosas” está associado à famosa greve das
operárias têxteis de Lawrence — Massachusetts, de 1912. Tanto
é assim, que esta greve é conhecida como a greve de “pão
e rosas”. Não existe documentação direta do uso do slogan
por parte das operárias, mas se diz que o poema de James
Oppenheim foi inspirado por um cartaz que levavam as mani-
festantes em greve que dizia “queremos o pão, mas queremos
tambémas rosas”. Todavia, a realidade é que a primeira vez que
o poema foi publicado foi em dezembro de 1911, um mês antes
da greve. Em13 de julho de 1912, foi reimpresso por The Survey
e em 4 de outubro do mesmo ano foi publicado no The Public,
um semanário progressista editado em Chicago, que tinha
influência em setores do movimento operário. Em 1915 o
poema foi publicado em “O grito pela justiça: Antologia de
Literatura de Protesto Social”.
Desde 1911 até 1915 existiram, então, três fontes de criação
diferentes do poema:
1911, The Amerian Magazine: segundo James Oppenheim,
“Pão para todas mas rosas também” era um slogan das
mulheres do Oeste.
Outubro de 1912, The Public: slogan atribuído às mulheres
sindicalistas de Chicago. Esta não contradizia Oppenheim, já
que Chicago era considerado parte do Oeste, e no centro-oeste
como hoje emdia.
1915, Antologia de Literatura de Protesto Social: nesta versão,
a frase é atribuída às operárias têxteis de Lawrence, e adquire e
seguinte forma: “Queremos o pão, mas tambémas rosas”.
Esta última versão foi a que permaneceu. Segundo Zwick,
existem razões para pensar que a atribuição de The Public às
trabalhadoras de Chicago era correta. Chicago era a sede da
Liga Nacional Sindical de Mulheres e o slogan pode ter sido
ANDRE A D’ AT RI 178
Paoeroaao Pae
DOCUME NT OS ANE XOS 179
utilizado em sua campanha pelas 8 horas e durante a greve do
vestido em Chicago, entre 1910 e 1911. The Public apoiou o
movimento e a liga publicava avisos na revista.
Outra referência indica que em 1907, Mary MacArthur, da
Liga Inglesa Sindical de Mulheres visitou os EUA para apoiar o
crescente movimento das operárias. Em Chicago, disse que as
mulheres deviam trabalhar por algo mais que por aumentar
seus salários. Sua mensagemfoi resumida por uma citação que
usou em seu discurso: “Se tem dois pedaços de pão, vende um e
compra flores, o pão é o alimento do corpo, as flores são boas
para a mente”. É muito provável que o slogan das mulheres de
Chicago venha daí.
Paoeroaao Pae
Às operárias
1
Vladmir Illich Lênin, 1920
Camaradas: as eleições para o Soviet de Moscou
2
teste-
munham a consolidação do partido bolchevique no seio da
classe operária.
As operárias devemconstituir a parte mais ativa nas eleições.
O poder dos soviets é o único que aboliu pela primeira vez as
velhas leis burguesas, as leis infames que consagravam a
inferioridade legal da mulher e os privilégios do homem, em
especial no matrimônio e em suas relações com os filhos.
Opoder dos soviets é o único no mundo que aboliupela primeira
vez, enquanto poder dos trabalhadores, todos os privilégios
que ligados à propriedade mantinham-se em proveito do
homem no direito familiar, mesmo nas repúblicas burguesas
mais democráticas.
Ali, onde há proprietários de terras, capitalistas e
comerciantes, não pode haver igualdade entre o homem e a
mulher, nemainda perante a lei.
Ali, onde não há proprietários de terras, nem capitalistas,
nem comerciantes, ali o poder dos soviets constrói uma nova
vida sem esses exploradores, ali há igualdade do homem e da
mulher ante a lei.
Mas isto, no entanto não é suficiente.
1
Compare este discurso de Lênin de 1920, com o documento de 1953
que anexamos a seguir, onde o estado operário há quase três décadas
se encontrava sob o regime da burocracia do Kremlin.
2
Soviet é a palavra em russo com a qual se designam os conselhos dos
operários.
Paoeroaao Pae
A igualdade ante a lei, no entanto, não é a igualdade frente à
vida.
Nós esperamos que a operária conquiste não só a igualdade
ante a lei, mas também frente à vida, frente ao operário. Para
isso, é necessário que as operárias tomem maior participação
na gestão das empresas públicas e na administração do Estado.
Administrando, as mulheres farão rapidamente sua apren-
dizagem e alcançarão os homens.
Elejam então mais mulheres comunistas ou sem partido
para o Soviet! Pouco importa que uma operária honesta, sensata
e consciente em seu trabalho, pertença ou não ao Partido:
elejam-na para o Soviet de Moscou!
Que haja mais operárias no Soviet de Moscou! Que o
proletariado de Moscou demonstre que está pronto para fazer
tudo e que faz tudo para lutar até triunfar sobre a velha
desigualdade, até a vitória, contra a velha depreciação burguesa
da mulher!
O proletariado não poderá emancipar-se completamente
semter conquistado a liberdade completa para as mulheres.
DOCUME NT OS ANE XOS 181
Paoeroaao Pae
A proteção dos direitos
da mãe e do filho na URSS
Krasnopolski e G. Sverdlov, 1953
Aproteção dos interesses da mãe e do filho pelo Estado — um
dos princípios constitucionais da União Soviética — se reflete
também na regulamentação jurídica das relações entre os
membros da família: entre os conjugues, os pais e os filhos, ou
outros membros da família.
Há que demonstrar em detalhe que os interesses da mulher
como mãe — seja esta com os filhos ou futura mãe — estão tão
melhor assegurados quanto mais sólidas e constantes sejam as
relações entre os esposos. Garante, ante a tudo, tal solidez nas
relações a existência da família. Precisamente a família
assegura as condições normais para o nascimento e a educação
dos filhos, cria as premissas mais favoráveis para que a mulher
cumpra com seu nobre e alto dever social de mãe.
Amulher soviética está vitalmente interessada emque as leis
contribuam na solidez da família, na harmonia e na
compreensão entre os conjugues. A este objetivo, perseguem
justamente as leis soviéticas sobre o matrimônio e a família.
Aorientação de nossas leis no sentido de coadjuvar a criação
de relações familiares sólidas, inabaláveis, se manifesta já em
normas que regem o ato inicial do surgimento da família, o
enlace matrimonial.
A lei vigente dispõe, que só o matrimônio oficialmente
registrado engendra os direitos e obrigações próprias dos
conjugues. (...).
Paoeroaao Pae
Eu Abortei!
1
Declaração das “300 sem-vergonhas”
da França
Le Nouvel Observateur, 5 de abril de 1971
“Um milhão de mulheres abortam a cada ano na França. O
fazem em condições perigosas devido à clandestinidade e por
essa razão são condenadas quando esta operação, praticada sob
controle médico, é mais simples. Temos mantido silêncio sobre
essas milhões de mulheres. Declaro que souuma delas. Declaro
que fiz umaborto. Assimcomo reivindicamos o livre acesso aos
métodos contraceptivos, reivindicamos o aborto livre”.
ASSINAM:
J. Abba-Sidick, J. Abdalleh, Monique Anfredon, Catherine
Arditi, Maryse Arditi, Hélène Argellies, Françoise Arnoul,
Florence Asie, Isabelle Atlan, Brigitte Auber, Stéphane Audran,
Colette Aubry, Tina Aumont, L. Azan, Jacqueline Azim,
Micheline Baby, Geneviève Bachelier, Cécile Ballif, Néna
Baratier, D. Bard, E. Bardis, Anne de Bascher, C. Batini, Chantal
Baulier, Hélène de Beauvoir, Simone de Beauvoir, Colette Biec,
M. Bediou, Michèle Bedos, Anne Bellec, Loleh Bellon, Edith
Benoist, Anita Benoit, Aude Bergier, Dominique Bernabe,
Jocelyne Bernard, Catherine Bernheim, Nicole Berheim, Tania
Bescond, Jeannine Beylot, Monique Bigot, Fabienne Biguet,
1
Publicado em <http://eklektik<2.free.fr/343.htm> A tradução do ori-
ginal em francês foi realizada por Celeste Murillo, especialmente para
esta publicação.
Paoeroaao Pae
Nicole de Boisanger, Valérie Boisgel, Y. Boissaire, Séverine
Boissonnade, Martine Bonzon, Françoise Borel, Ginette
Bossavit, Olga Bost, Anne-Marie Bouge, Pierrette Bourdin,
Monique Bourroux, Bénédicte Boysson-Bardies, M. Braconnier-
Leclerc, M. Braun, Andrée Brumeaux, Dominique Brumeaux,
Marie-François Brumeaux, Jacqueline Chambord, Josiane
Chanel, Danièle Chinsky, Claudine Chonez, Martine Chosson,
Catherine Claude, M.-Louise Clave, Françoise Clavel, Iris Clert,
Geneviève Cluny, Annie Cohen, Florence Collin, Anne
Cordonnier, Anne Cornaly, Chantal Cornier, J. Corvisier,
Michèle Cristorari, Lydia Cruse, Christiane Dancourt, Hélène
Darakis, Françoise Dardy, Anne-Marie Daumont, Anne Dauzon,
Martine Dayen, Catherine Dechezelle, Marie Dedieu, Lise
Deharme, Claire Delpech, Christine Delphy, Catherine
Deneuve, Dominique Desanti, Geneviève Deschamps, Claire
Deshayes, Nicole Despiney, Catherine Deudon, Sylvie Diarte,
Christine Diaz, Arlette Donati, Gilberte Doppler, Danièle
Drevet, Evelyne Droux, Dominique Dubois, Muguette Durois,
Dolorès Dubrana, C. Dufour, Elyane Dugny, Simone Dumont,
Christiane Duparc, Pierrette Duperrey, Annie Dupuis,
Marguerite Duras, Françoise Duras, Françoise d’Eaubonne,
Nicole Echard, Isabelle Ehni, Myrtho Elfort, Danièle El-
Gharbaoui, Françoise Elie, Arlette Elkaïm, Barbara Enu,
Jacqueline d’Estrée, Françoise Fabian, Anne Fabre-Luce, Annie
Fargue, J. Foliot, Brigitte Fontaine, Antoinette Fouque-
Grugnardi, Eléonore Friedmann, Françoise Fromentin, J.
Fruhling, Danièle Fulgent, Madeleine Gabula, Yamina Gacon,
Luce Garcia-Ville, Monique Garnier, Micha Garrigue,
Geneviève Gasseu, Geneviève Gaubert, Claude Genia, Elyane
Germain-Horelle, Dora Gerschenfeld, Michèle Girard, F. Gogan,
Hélène Gonin, Claude Gorodesky, Marie-Luce Gorse, Deborah
Gorvier, Martine Gottlib, Rosine Grange, Rosemonde Gros,
Valérie Groussard, Lise Grundman, A. Guerrand-Hermes,
Françoise de Gruson, Catherine Guyot, Gisèle Halimi, Herta
Hansmann, Noëlle Hanry, M. Hery, Nicole Higelin, Dorinne
ANDRE A D’ AT RI 184
Paoeroaao Pae
Horst, Raymonde Hubschid, Y. Imbert, L. Jalin, Catherine Joly,
Colette Joly, Yvette Joly, Hermine Karagheuz, Ugne Karvelis,
Katia Kaupp, Nanda Kerien, F. Korn, Hélène Kostoff, Marie-
Claire Labie, Myriam Laborde, Anne-Marie Lafaurie,
Bernadette Lafont, Michèle Lambert, Monique Lange, Maryse
Lapergue, Catherine Larnicol, Sophie Larnicol, Monique
Lascaux, M.-T. Latreille, Christiane Laurent, Françoise
Lavallard, G. Le Bonniec, Danièle Lebrun, Annie Leclerc, M.-
France Le Dantec, Colette Le Digol, Violette Leduc, Martine
Leduc-Amel, Françoise Le Forestier, Michèle Leglise-Vian, M.-
Claude Lejaille, Mireille Lelièvre, Michèle Lemonnier,
Françoise Lentin, Joële Lequeux, Emmanuelle de Lessps, Anne
Levaillant, Dona Levy, Irène Lhomme, Christine Llinas, Sabine
Lods, Marceline Loridan, Edith Loser, Françoise Lusagne, M.
Lyleire, Judith Magre, C. Maillard, Michèle Manceaux, Bona de
Mandiargues, Michèle Marquais, Anne Martelle, Monique
Martens, Jacqueline Martin, Milka Martin, Renée Marzuk,
Colette Masbou, Celia Maulin, Liliane Maury, Edith Mayeur,
Jeanne Maynial, odile du Mazaubrun, Marie-Thérèse Mazel,
Gaby Memmi, Michèle Meritz, Marie-Claude Mestral,
Maryvonne Meuraud, Jolaine Meyer, Pascale Meynier, Charlote
Millau, M. de Miroschodji, Geneviève Mnich, Ariane
Mnouchkine, Colette Moreau, Jeanne Moreau, Nelly Moreno,
Michèle Moretti, Lydia Morin, Mariane Moulergues, Liane
Mozere, Nicole Muchnik, C. Muffong, Véronique Nahoum,
Eliane Navarro, Henriette Nizan, Lila de Nobili, Bulle Ogier, J.
Olena, Janine Olivier, Wanda Olivier, Yvette Orengo, Iro Oshier,
Gege Pardo, Elisabeth Pargny, Jeanna Pasquier, M. Pelletier,
Jacqueline Perez, M. Perez, Nicole Perrottet, Sophie Pianko,
Odette Picquet, Marie Pillet, Elisabeth Pimar, Marie-France
Pisier, Olga Poliakoff, Danièle Poux, Micheline Presle, Anne-
Marie Quazza, Marie-Christine Questerbert, Susy Rambaud,
Gisèle Rebillion, Gisèle Riboul, Arlette Reinert, Arlette Repart,
Christiane Rebeiro, M. Ribeyrol, Delye Ribes, Marie-Françoise
Richard, Suzanne Rigail Blaise, Marcelle Rigault, Danièle
DOCUME NT OS ANE XOS 185
Paoeroaao Pae
Rigaut, Danièle Riva, M. Riva, Claude Rivière, Marthe Robert,
Christiane Rochefort, J. Rogaldi, Chantal Rogeon, Francine ère,
Marthe Robert, Christiane Rochefort, J. Rogaldi, Chantal
Rogeon, Francine Rolland, Christiane Rorato, Germaine
Rossignol, Hélène Rostoff, G. Roth-Bernstein, C. Rousseau,
Françoise Routhier, Danièle Roy, Yvette Rudy, Françoise Sagan,
Rachel Salik, Renée Saurel, Marie-Ange Schiltz, Lucie Schmidt,
Scania de Schonen, Monique Selim, Liliane Sendyke, Claudine
Serre, Colette Sert, Jeanine Sert, Catherine de Seyne, Delphine
Seyrig, Sylvie Sfez, Liliane Siegel, Annie Sinturel, Michèle Sirot,
Michèle Stemer, Cécile Stern, Alexandra Stewart, Gaby Sylvia,
Francine Tabet, Danièle Tardrew, Anana Terramorsi, Arlette
Tethany, Joëlle Thevenet, Marie-Christine Theurkauff,
Constance Thibaud, Josy Thibaut, Rose Thierry, Suzanne
Thivier, Sophie Thomas, Nadine Trintignant, Irène Tunc, Tyc
Dumont, Marie-Pia Vallet, Agnès Van-Parys, Agnès Varda,
Catherine Varlin, Patricia Varod, Cleusa Vernier, Ursula Vian-
Kubler, Louise Villareal, Marina Vlady, A. Wajntal, Jeannine
Weil, Anne Wiazemsky, Monique Wittig, Josée Yanne, Catherine
Yovanovitch, Annie Zelensky.
2
ANDRE A D’ AT RI 186
2
Se destacam em negrito alguns dos nomes que provavelmente sejam
os mais familiares para nossas leitoras.
Paoeroaao Pae
Panfleto
de grupos feministas da argentina
1
Irmã:
Dona de casa
Estudante
Operária
Empregada
Profissional
NÃO ESTÁS SOZINHA. Teus problemas não são individuais:
são parte da opressão da mulher.
Por uma real liberação.
Feminismo emmarcha.
UFA — (União Feminista Argentina)
Sem data — Entre 1970 e 1976
1
Estes documentos foram extraídos de “Feminismo por feministas.
Fragmentos para una historia del feminismo argentino 1970-1996”,
Travesías Nº5, Bs. As., CECYM, 1996.
Paoeroaao Pae
8 de março de 1975
Dia Internacional da Mulher
Este dia adquire grande significado porque em 1975 foi
instituído pelas Nações Unidas: “Ano Internacional da Mulher”.
Isto significa que em todos os países as mulheres estarão
organizadas para conquistarem muitos dos direitos que ainda
não temos.
Somos o setor da humanidade que mais sofre discriminação:
-dos 40 milhões de analfabetos, 60% são mulheres
-a crise econômica mundial provoca demissão emmassa de
mulheres
-até nos países mais ricos a mulher ganha menos que o
homem
-em todos a consideram um ser inferior, um cidadão de
segunda categoria quando se trata de falar de seus direitos, mas
capaz de todos os sacrifícios quando se trata de seus direitos.
A FRENTE DE LUTA PELA MULHER se formou para que
todas as mulheres argentinas levantemos nossas vozes contra
as discriminações que sofremos.
MULHER: se não lutamos por nossos direitos, ninguém o
fará por nós.
BASTA: de desigualdades legais, educativas, trabalhistas e
sociais.
UNAMO-NOS: não deixemos que os problemas que cremos
individuais nos separem. SOMENTE UNIDAS SEREMOS FOR-
TES. Lembremos que somos 51% da população.
LUTEMOS: nós mulheres devemos exigir
1) igualdade “real” frente as leis
2) igualdade de possibilidades na sociedade
Paoeroaao Pae
DOCUME NT OS ANE XOS 189
3) sistemas de segurança social que impeçam a discri-
minação trabalhista e o desemprego que afeta as mulheres
4) lei que garantisse o nível de emprego feminino para
compensar as demissões provocadas pela sanção da Lei de
Contratos de Trabalho
5) campanhas de alfabetização e capacitação em todos os
campos
6) livre escolha da maternidade
7) creches regionais e gratuitas a cargo do Estado
8) divórcio absoluto a solicitação de uma das partes
9) salário para a dona de casa
FRENTE DE LUTA PELA MULHER
A gravidez não desejada é ummodo de escravidão.
Basta de abortos clandestinos.
Pela legalização do aborto.
Feminismo emmarcha.
UFA (União Feminista Argentina)
Sem data — entre 1970 e 1976
Paoeroaao Pae
Consignas que foram cantadas no ato
de 8 de março de 1984 em Buenos Aires
Borombombón, borombombón, 8 de março semrepressão
Não somos meninas, não somos senhoritas. Somos
mulheres, mulheres feministas
Há que lutar, há que lutar, pelo divórcio vincular
Olelé, olalá, que seja indistinta a pátria potestad
Aborto clandestino, não é nosso caminho.
Legalização é nossa decisão.
Vamos companheiras lutar por igualdade
Na fábrica e na oficina
Que seja igual salário por igual trabalho.
Defendamos nossos corpos e nossas vidas.
Basta de mercenários da medicina.
Queremos parir e abortar semriscos.
Maternidade livre e consciente.
Descriminalizar o aborto.
Lugar de Mulher
8 de março de 1984
Paoeroaao Pae
Passagem à mulher trabalhadora!
Passagem à juventude!
1
Quarta Internacional, 1938
A derrota da revolução espanhola organizada por seus
“dirigentes”, a vergonhosa bancarrota da Frente Popular na
França e o escândalo das estafas jurídicas de Moscou são três
fatos que, em seu conjunto, dão ao Comintern um golpe irre-
mediável que, de passagem, fere gravemente seus aliados, os
social-democratas e os anarco-sindicalistas. Isto não significa,
decerto, que os membros dessas organizações devam girar
instantaneamente para a Quarta Internacional. A geração mais
velha, que sofreu terríveis derrotas, abandonará em grande
parte o movimento.
Ademais, a Quarta Internacional não pretende em absoluto
converter-se em um asilo para revolucionários inválidos,
burocratas e arrivistas decepcionados. Pelo contrário, são
necessárias medidas preventivas estritas contra uma eventual
afluência ao nosso partido de elementos pequeno-burgueses,
agora dominantes no aparato das velhas organizações: é preciso
um grande período de prova para os candidatos que não sejam
operários, e especialmente aos antigos burocratas do partido;
proibição de que ocupem postos de ata responsabilidade antes
1
No documento “A agonia do capitalismo e as tarefas da Quarta inter-
nacional”, mais conhecido como o Programa de Transição foi escrito
definitivamente em 1938, dois anos antes do assassinato de Leon
Trotsky pelas mãos de um agente stalinista. O que aqui se reproduz, é
um dos últimos itens deste programa.
Paoeroaao Pae
de três anos, etc. Na Quarta Internacional não há, nem haverá
lugar para o arrivismo, a úlcera das velhas Internacionais. São
aqueles que desejemviver para o movimento, e não a expensas
do movimento, que terão acesso a nós. Os operários revolu-
cionários devem sentir-se os donos. As portas de nossa organi-
zação estão abertas de maneira seletiva.
Há muito que inclusive dentre os operários que num
momento adiantaram-se às primeiras fileiras, não são poucos
os fatigados e decepcionados. Permanecerão, ao menos durante
o período próximo, na periferia. Quando um programa ou uma
organização se esgota, esgota-se com eles a geração que os
carregou sobre seus ombros. O movimento se revitaliza com a
juventude, livre de responsabilidades sobre o passado. AQuarta
Internacional presta uma atenção especial à jovem geração do
proletariado. Em toda sua política se esforça por inculcar à
juventude a confiança em sua própria força e no futuro. Só o
fresco entusiasmo e o espírito de ofensiva da juventude podem
devolver aos melhores elementos da geração mais velha a
caminho da revolução. Assimtemsido, e assimseguirá sendo.
As organizações oportunistas, por sua natureza, centramsua
atenção principalmente nas camadas superiores da classe
operária, e, por conseguinte, ignoramtanto a juventude como a
mulher trabalhadora. Agora bem, o declínio do capitalismo
assesta seus golpes mais fortes sobre a mulher, como
assalariada e como dona de casa. As seções da Quarta Interna-
cional devembuscar suporte entre as camadas mais exploradas
da classe operária e, por conseguinte, entre as trabalhadoras.
Aqui encontramreservas inesgotáveis de entrega, abnegação e
disposição ao sacrifício.
Abaixo com a burocracia e o arrivismo! Passagem à
juventude! Passagem à mulher trabalhadora! Estas consignas
estão escritas na bandeiras da Quarta Internacional.
ANDRE A D’ AT RI 192
Paoeroaao Pae
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Zizek, Slavoj (1998): Reflexiones sobre El multiculturalismo,
Bs. As., Paidós.
DOCUME NT OS ANE XOS 197
Paoeroaao Pae
Paoeroaao Pae
Esta obra foi composta em Walbaum SSi, com texto
em corpo 9,7/13,3, e impressa na Ferrari Editora e Artes
Gráficas em papel pólen soft 80 g/m
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para a Edições Iskra,
em março de 2008, com tiragem de 1000 exemplares.
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Andrea D’Atri

Pão e Rosas

identidade de gênero e antagonismo de classe no capitalismo

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Gênero

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Copyright desta edição © Edições Iskra, 2008 Título original:

Pan y Rosas. Pertenencia de género y antagonismo de clase en el capitalismo
Luis Siebel Simone Ishibashi Miriam Rouco, Marina Fuser, Fernanda Figueira Guillerme Salgado Rocha, Luciana Machado Liliana Ogando Calo Ana Tossato

Diretor editorial Coordenação editorial Equipe de tradução Revisão de tradução Diagramação Capa

Todos os direitos reservados. Nenhuma parte deste livro pode ser utilizada ou reproduzida sem a expressa autorização da editora.

1a edição: março de 2008

EDIÇÕES ISKRA Praça Américo Jacomino, 49 05437-010 Vila Madalena, São Paulo-SP Tel.: (11) 3673-0531

os corpetes à fogueira 8. As mulheres no primeiro Estado operário da História 6. Pós-Modernismo e Pós-Feminismo Documentos Anexos Bibliografia A modo de conclusão 7. diferenças de mulheres . Pós-Marxismo. Entre a filantropia e a revolução 4. Revoltas e direitos civis 3. Pós-Modernidade.Paoerosas1_7:Layout 1 28/2/2008 22:49 Page 5 Sumário 13 17 31 43 57 69 87 103 117 137 155 163 193 9 Agradecimentos Introdução Prefácio à edição em português 2. Imperialismo. Burguesas e proletárias 1. guerra e gênero 5. Diferença de mulher. Entre Vietnã e Paris.

Paoerosas1_7:Layout 1 28/2/2008 22:49 Page 7 À Ana Maria Layño. da mulher que ela queria que eu fosse . minha mãe. por ter me dado a liberdade de ser uma mulher distinta dela e diferente. também.

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e outras mulheres não só ocupam os ministérios da Saúde e Ação Social. forças repressivas e o Estado. na Argentina. chegando em alguns casos à escravidão. e o mesmo acontece em países tão remotos como a Libéria. A .Paoerosas8_11:Layout 1 28/2/2008 22:52 Page 9 Prefácio à edição em português As mulheres chegaram ao poder? Pela primeira vez na história — quando publicamos a edição em português do Pão e Rosas — se conjectura que uma mulher possa ser a próxima presidente dos Estados Unidos da América. amparados por redes mafiosas que envolvem funcionários. Aumenta o trabalho precário das mulheres. bem como a Alemanha. Mas enquanto o mundo assiste a esse acontecimento e os meios de comunicação prognosticam que se inaugura o “século das mulheres”. o negócio da prostituição e o tratamento dado às mulheres e meninas não deixam de crescer. O Chile é governado por uma mulher. como também os de Economia ou de Segurança em distintos governos. O destino de milhares de iraquianos é decidido por uma mulher tão poderosa como Condoleeza Rice. Cristina Fernández de Kirchner foi eleita presidente. a vida de milhões de seres humanos. Recentemente. transcorre entre as piores humilhações que se pode imaginar. majoritariamente mulheres e meninas.

A barbárie que ameaça milhões de seres humanos. toda a sua audácia. tribunais. Para milhões de mulheres. Esse sistema econômico funciona. Entre as ficções das quais é necessário que a classe operária se liberte. Jamais se alcançará a igualdade com essa minoria que vive na abundância enquanto existir a propriedade privada. sob a envoltura dos regimes democráticos. duas classes se enfrentam para definir o futuro da humanidade: a burguesia imperialista e o proletariado. Hoje. ministérios. mas particularmente as mulheres e crianças. sofre também a exploração imposta pela minoria de proprietários dos meios de produção. seguidos por impunidade e silêncio. exércitos e. a igualdade nos marcos deste sistema capitalista se apresenta como uma utopia inalcançável. . com a qual se tenta descrever o horror dos crimes contra as mulheres. dividindo a sociedade em uns poucos que têm tudo e uma imensa maioria que só possui a força de seus braços para se manter na vida. se encontram os preconceitos sexistas que mantêm a submissão. é também o resultado da combinação do patriarcado ancestral com a selvageria imposta pelo mais moderno sistema capitalista. ao nosso lado. melhor ainda. Igualdade com quem? Não há igualdade sequer com o companheiro que. inclusive. entretanto. As mulheres terem chegado ao poder não possibilitou que isso deixasse de ocorrer. Mas para construir o socialismo a classe trabalhadora não só necessita de toda a sua força. nos mais altos cargos do poder executivo.Paoerosas8_11:Layout 1 28/2/2008 22:52 Page 10 10 ANDREA D ’ AT R I violência sexista encontrou. Como afirmou a revolucionária Rosa Luxemburgo. os quais são antecedidos por torturas e violações sexuais. mostrando uma vez mais — como se fizesse falta — que o problema não é só uma questão de gênero. diante dessa situação só se pode esperar “socialismo ou barbárie”. que apenas recentemente dão passos na participação das mulheres nos parlamentos. novas denominações. como a do femicídio. como também se desfazer das ficções com que a classe dominante encadeia seu pensamento para mantê-la domesticada. toda a sua resolução. inclusive.

Paoerosas8_11:Layout 1 28/2/2008 22:52 Page 11 PREFÁCIO 11 a humilhação e os maus-tratos às mulheres. Esperamos que agora. quando se acabam de cumprir os 90 anos da Revolução Russa. Andrea D’Atri Buenos Aires. sobre as costas de milhões de mulheres. justificam e reproduzem tais costumes. fevereiro de 2008 . as reflexões aqui plasmadas sejam um pequeno incentivo que anime as novas gerações a se incorporar à luta consciente por um mundo liberado das cadeias que hoje pesam. duplamente. embrutecendo também os homens explorados que legitimam. e este trabalho é publicado em sua versão em português.

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compreensão.Paoerosas12_15:Layout 1 29/2/2008 00:17 Page 13 Agradecimentos Este pequeno ensaio é produto de um grande esforço pessoal. gostaria de ressaltar que não seria possível terminá-lo sem a colaboração. Os resultados de sua pesquisa bibliográfica. na qual reunimos estudantes. No último ano. se refletem especialmente nas elaborações sobre a primeira onda do feminismo e as lutas operárias do início do século XX. que com os seus conhecimentos de História e do idioma inglês aportou com informações fundamentais para escrever algumas destas páginas. No entanto. após a minha jornada de trabalho e de minha atividade como militante revolucionária. trabalhadoras. sua colaboração não foi somente técnica. Por isso. os contratempos e os êxitos de colocar em pé a agrupação de mulheres Pão e Rosas. ativistas e militantes revolucionárias. compartilhamos cotidianamente as reflexões. realizada com entusiasmo e espírito de colaboração. já que foi escrito em horas de descanso. A primeira que merece o meu reconhecimento é Celeste Murillo. companhia e o estímulo de outras mulheres às quais gostaria de agradecer em especial. Esta . profissionais.

Inclusive. Susana Sacchi. Mas. Além das companheiras já mencionadas. desse grupo de mulheres também participaram Gabriela Liszt. Outras companheiras de militância. realizaram leituras críticas dos primeiros rascunhos que me ajudaram a repensar algumas questões particulares e aprofundar alguns aspectos. e em homenagem. nenhuma destas mulheres tem relação com as debilidades e erros que possam haver neste trabalho. Não obstante. este trabalho não seria possível sem a presença e o estímulo constante de Laura Liffschitz. escreveu: 1 A História da Comuna de Paris e a participação das mulheres nessa luta heróica é relatada no capítulo “Burguesas e proletárias”. Disso. estas páginas devem um reconhecimento às conversas informais. Graciela López Eguía e outras companheiras. aos milhões de “mulheres terríveis” que lutam em seu dia a dia contra a exploração e a opressão em todas as suas manifestações. . que ambas impulsionamos com otimismo. somente eu sou inteiramente responsável. gerou entre nós não somente um amável trato de camaradagem. mas também uma profunda amizade. Ruth Werner. Em homenagem a estas “mulheres terríveis” com as quais compartilho a luta cotidiana por um mundo sem exploração e opressão. recordando a Comuna de Paris1. como Andrea Robles e Paula Bach. ainda que todas estas colaborações sejam indispensáveis. a quem agradeço por sua crítica construtiva e sua amizade e a quem devo muito mais que o fato de ter levado a frente o sonho deste pequeno livro. às sérias elaborações programáticas e às muitas horas de discussões acaloradas que com um grupo de mulheres do Partido de Trabajadores por el Socialismo (PTS) empreendemos há vários anos.Paoerosas12_15:Layout 1 29/2/2008 00:17 Page 14 14 ANDREA D ’ AT R I tarefa. torno minhas estas palavras de Lênin que. também.

bem armada. As mulheres proletárias não verão passivamente como a burguesia. mal armados ou desarmados.. uma liga internacional das nações terríveis do proletariado revolucionário. Tomarão as armas como fizeram em 1871 e das atuais ‘nações atemorizadas’. 1973. do atual movimento operário desorganizado mais pelos oportunistas que pelos governos. Anteo. E não poderá ser de outro modo nas batalhas futuras pela derrubada da burguesia. surgirá sem dúvida alguma. mas com a mais absoluta certeza. minhas companheiras e eu também compartilhamos dessa certeza. As. ou mais corretamente.Paoerosas12_15:Layout 1 29/2/2008 00:17 Page 15 P ÃO E ROSAS 15 Mulheres e crianças de até treze anos lutaram na Comuna de Paris. Las enseñanzas de la Comuna. 2 Vladimir Lênin. 2 Como Lênin. massacra os operários. Bs. mais cedo ou mais tarde. . ombro a ombro com os homens.

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a origem desta comemoração que se remete à ação organizada por mulheres operárias do século XIX. Apesar da repressão.Paoerosas16_29:Layout 1 28/2/2008 22:58 Page 17 Introdução CLASSE E GÊNERO Ainda hoje comemoramos todo 8 de março. permanece oculta . o Dia Internacional da Mulher. 140 jovens morreram queimadas na fábrica têxtil onde trabalhavam em condições desumanas. na cidade de Lawrence. Entretanto. Meio século mais tarde. sufragistas. as operárias ganharam o apoio dos estudantes. socialistas e outros setores da sociedade. no começo de 1912. no meio de tanta propaganda de flores e bombons. Nesse mesmo ano outras 30 mil operárias têxteis nova-iorquinas se declararam em greve e foram reprimidas pela polícia. eclodiu uma greve que ficou . Poucos anos mais tarde. as operárias de uma fábrica têxtil de Nova Iorque declararam greve contra as extenuantes jornadas de doze horas e os salários miseráveis. Massachusetts (EUA). reivindicando seus direitos: em 8 de março de 1857. As manifestantes foram atacadas pela polícia.para a grande maioria . no mês de março de 1909.

paz e liberdade”. com o objetivo de facilitar a participação das trabalhadoras no conflito. em homenagem àquelas que levaram adiante as primeiras ações organizadas de mulheres trabalhadoras contra a exploração capitalista. em sua comemoração na Rússia — em fevereiro de 1917. Clara Zetkin (1857 -1933). aumentando a solidariedade para com as grevistas. enviam-nos a outras cidades. quando esta se alinhou com a burguesia nacional. as operárias têxteis de Petrogrado tomaram as ruas exigindo “pão. votando os créditos de guerra no Parlamento. Após vários dias de conflito. a polícia lança mão da repressão contra as crianças e as mulheres que as acompanham. . canção popular do movimento operário norte-americano. No momento em que o segundo trem está prestes a sair. a alemã Clara Zetkin2 havia proposto que se estabelecesse o 8 de março como o Dia Internacional da Mulher.Paoerosas16_29:Layout 1 28/2/2008 22:58 Page 18 18 ANDREA D ’ AT R I conhecida como Pan y Rosas (Pão e Rosas). Este episódio fez com que o conflito chegasse aos jornais de todo o país e ao parlamento. Nesta luta o comitê de greve instala creches e refeitórios comunitários para os filhos das operárias. Um primeiro trem transporta 120 crianças. protagonizada também por operárias têxteis que sintetizavam. Já em 1910. Sete anos depois da instauração do Dia da Mulher. na Primeira Guerra Mundial. durante um Congresso Internacional de Mulheres Socialistas. organizadora de sua seção feminina. dirigente do Partido Social-democrata Alemão. Fundou o jornal La Igualdad e lutou contra a direção de seu partido. onde são recebidos por famílias solidárias com a luta operária. A organização Industrial Workers of the World inaugura reuniões de crianças no sindicato para discutir porque suas mães e pais estão em greve. para o calendário ortodoxo-. suas demandas por aumento de salário e por melhores condições de vida1. entre os documentos anexos ao final deste trabalho. marcando assim o início 1 2 Pode-se ler o poema Pan y Rosas. nesta consigna.

1994. como disse John Holloway. em El pensamiento sobre la crises de D. aspirando a sua transformação. o Dia Internacional da Mulher conjuga. OPRESSÃO E EXPLORAÇÃO Para as marxistas revolucionárias a questão da opressão das mulheres se insere na história da luta de classes e. com nossa oposição à sociedade existente. Como vemos. acrescentando que “o feminismo burguês seria a exposição da consciência de sua opressão por parte da mulher burguesa que se colocará em igualdade com o homem nos terrenos político.P.Paoerosas16_29:Layout 1 28/2/2008 22:58 Page 19 I NTROD UÇÃO 19 da maior revolução do século XX que desemboca na tomada do poder pela classe operária. México. John Holloway. U. Já algumas especialistas em Estudos da Mulher tem apontado que é absolutamente necessário encarar uma análise de classe no tratamento histórico do feminismo”. Se o fazemos desde a perspectiva do materialismo dialético e histórico é porque.. estavamos buscando uma teoria de mundo que se encaixasse com nossa experiência. Kanoussi (organizador). 3 . mas uma teoria contra a sociedade. então.A.3 Acreditamos que o marxismo nos dá as ferramentas para compreender este mundo. por isso. as questões de classe e de gênero que mais de um século depois seguem em debate tanto entre marxistas como no movimento feminista. Estávamos buscando não tanto uma teoria da sociedade. “La pertinencia del marximo hoy”. no mês de outubro do mesmo ano. legal e econômico. nossa posição teórica é a mesma que a de nossa luta: junto aos/as explorados/as e oprimidos/as pelo sistema capitalista.

México. por isso. F. a categoria de opressão se refere ao uso das desigualdades para colocar em desvantagem um determinado grupo social.. proporia a superação da subordinação social à qual está submetida.5 5 Mary Nash. nos encontramos com outras autoras que apontam que no marco da sociedade burguesa. além do que.) Barcelona. raciais ou sexuais. marcando estas diferenças de classe na análise da opressão das mulheres. Mesmo assim. de uma categoria que tem suas raízes nos aspectos estruturais econômicos. Nash (comp. O pertencimento de classe de um sujeito delimitará os contornos de sua opressão. ainda que a impossibilidade legal de exercer o direito sobre o próprio corpo seja uniforme para muitas mulheres do 4 se todas as mulheres são oprimidas pelo sistema patriarcal em vigor na quase totalidade das sociedades contemporâneas. Por exemplo. 1983. consideramos a exploração como a relação entre as classes que faz referência à apropriação do produto do trabalho excedente das massas trabalhadoras por parte da classe possuidora dos meios de produção. por sua vez.C. Ou seja.Paoerosas16_29:Layout 1 28/2/2008 22:58 Page 20 20 ANDREA D ’ AT R I No mesmo sentido. 1984.E. consideramos que a exploração e a opressão se combinam de diversas maneiras. seja socialista. Daí sustentamos que se nós mulheres integramos diferentes classes sociais em luta. há oprimidas que oprimem e é importante ressaltar isto. . mas sim um grupo policlassista. anarquista ou comunista. Andrée Michel. del Serbal. não constituímos uma classe diferente. Trataria-se. O feminismo operário. Enquanto poderíamos definir a opressão como uma relação de submissão de um grupo sobre outro por razões culturais. não o são pelas mesmas razões. nesse caso.4 Desde uma perspectiva marxista. “Nuevas dimensiones en la historia de la mujer” em Presencia e protagonismo: aspectos de la historia de la mujer de M. Ed. El feminismo.

social e até nível educativo.as práticas ilegais possíveis e suas previsíveis conseqüências para quem tem acesso ao clandestino aborto asséptico por posição econômica. não ascendemos a cargos mais altos na mesma proporção que os homens. a realidade de um fenômeno conhecido como “teto de cristal”. Esta diferença aumenta ainda mais na medida . por exemplo. educacionais. mas também e. Não podemos negar. ainda que se possa afirmar que o conjunto das mulheres padece de discriminações legais. políticas e econômicas. tanto em âmbitos acadêmicos como trabalhistas. as possibilidades objetivas de enfrentamento e superação parcial ou não destas condições sociais de discriminação. expressão com a qual se aponta o fato de que nós mulheres. comissões de trabalho. vítimas de uma ordem patriarcal com descarado rosto capitalista.no plano do real . ao passo que a maioria dos governos do mundo. OPRIMIDAS EXPLORADAS E OPRIMIDAS QUE OPRIMEM No começo do século XXI lutar pelos direitos das mulheres parecia algo já socialmente admissível e “politicamente correto”. e para quem deve morrer por hemorragias e infecções. em diferentes níveis institucionais. ainda que cumprindo os mesmos requisitos de capacitação e desempenho. nós mulheres recebemos um salário equivalente a 60% ou 70% do total recebido pelos homens que realizam o mesmo trabalho. Existem fatos que são irrefutáveis. agendas e organismos multilaterais.Paoerosas16_29:Layout 1 28/2/2008 22:58 Page 21 I NTROD UÇÃO 21 mundo no plano formal do corpus jurídico. fundamentalmente. não são equivalentes . culturais. o certo é que existem evidentes diferenças de classe entre elas que moldaram em forma variável não só as vivências subjetivas da opressão. Ou seja. tem incorporado a problemática de gênero nas secretarias de Estado. Também é sabido que na grande maioria dos países de todos os continentes.

em todas as classes sociais.Paoerosas16_29:Layout 1 28/2/2008 22:58 Page 22 22 ANDREA D ’ AT R I em que aumenta a escala salarial.3 bilhões de pobres do planeta e. Mas este novo discurso acerca da conjeturada liberação feminina já alcançada. um sistema no qual a perpetuação das hierarquias e as desigualdades são partes fundamentais de seu funcionamento. Porém. ou seja. entre os cargos gerenciais e diretivos a discriminação contra as mulheres é maior. somente 1% da propriedade privada mundial está nas mãos de mulheres. a opressão das mulheres se manifesta de diversos modos. aparece distorcida após alguns supostos “triunfos do sexo frágil”. triplas e múltiplas cadeias que pesam sobre as mulheres trabalhadoras . É certo que as duplas. faz referência exclusivamente a algumas mulheres e a determinados aspectos parciais de suas vidas e direitos. . entre os poderosos donos das multinacionais que nos condenam a essa exploração e pobreza. assalariadas. Atualmente. constituímos os 1. a desigualdade hierarquizada entre mulheres e homens. por outro lado. Mas a metade da humanidade não é repartida igualmente entre as distintas classes: nós mulheres somos maioria entre os explorados e pobres deste mundo e uma ínfima minoria. não pode ser um argumento utilizado com o propósito de mascarar a opressão que a metade da humanidade sofre. É um fato categórico que ainda que nós mulheres sejamos mais de 50% da população mundial.sejam operárias. trabalhadoras rurais ou desempregadas -. Como é possível notar. seja qual for a classe à qual se pertença. que até o começo do século XX era justificada sem pudor com apelações a uma suposta “ordem natural”. ocultando que a questão da opressão de gênero está entrelaçada indissoluvelmente também à questão da exploração de classes. quase inexistente. se colocamos a perspectiva de classe é porque consideramos que a opressão de todas as mulheres obtém a “legitimidade” que necessita em um sistema baseado na exploração da enorme maioria da humanidade por uma pequena minoria de parasitas capitalistas.

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Mostrando também que, em última instância, o suposto respeito pelas diferenças e a igualdade não são mais que retórica em um sistema social no qual prevalece uma das mais abjetas hierarquizações dicotômicas: a que estabelece que milhões de pessoas são condenadas a vender suas forças de trabalho para que uns poucos saciem sua sede de lucros cada vez mais exorbitantes. Se não for pela questão de classe como se explica a opressão de gênero, enquanto Ivanna Trump se converte em uma empresária independente no mundo dos negócios, ou Hillary Clinton se senta no poderoso senado norte-americano, e por outro lado 60 milhões de meninas ainda não têm acesso à educação? O século XX viu mulheres presidentes, primeiras-ministras, membros de gabinetes de governo, soldadas e oficiais, cientistas, artistas e esportistas, empresárias e profissionais bem-sucedidas. É também o século da pílula anticoncepcional, da minissaia e da calça jeans, da moda unisex e dos eletrodomésticos. Mas não nos esqueçamos que o século XX também foi testemunha das 50 milhões de mulheres que morreram todos os anos por abortos clandestinos, das milhares de mulheres mutiladas e assassinadas por políticas de “limpeza étnica”, de milhões de mulheres desempregadas, vivendo em níveis que se encontram abaixo dos índices de pobreza. Calcula-se que no chamado “Terceiro Mundo”, morrem 600 mil mulheres jovens por ano durante a gravidez e o parto. Para cada uma delas, há outras 30 que sofrem infecções, lesões e incapacidades pelas mesmas causas. Quer dizer que pelo menos 18 milhões de jovens mulheres por ano sofrem danos durante a gravidez e o parto, que levam algumas à morte. Assim, quando uma mulher de trinta anos de idade em “igualdade” com os homens pode “exercer seu direito” a ser oficial da forças conjuntas da OTAN que bombardeiam os países semicoloniais, ou pode morrer, na mesma idade, em uma aldeia africana por causa da AIDS é um paradoxo, e é inclusive cínico

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falar do avanço e progresso da mulher. Não deveríamos falar de diferentes mulheres? São por acaso iguais as vidas das mulheres empresárias, operárias, dos países imperialistas e das semicolônias, das brancas e das negras, das imigrantes ou refugiadas? Supor que somente por serem mulheres há algo que vincula Margareth Thatcher com as desempregadas inglesas, as empregadas domésticas da Argentina, ou as operárias mexicanas é, em última instância, cair no reducionismo biológico da ideologia patriarcal dominante que as mesmas feministas criticam seriamente. Falar de gênero assim, portanto, é fazer uso de uma categoria abstrata, vazia de sentido e impotente para a transformação que queremos levar adiante. CAPITALISMO E PATRIARCADO: UM MATRIMÔNIO BEM SUCEDIDO Muitas feministas hoje se colocam estas questões. Há as que dizem inclusive que um feminismo de classe teria que hierarquizar e valorizar de diferentes maneiras os problemas com os quais as mulheres se enfrentam. Desse modo, dizem, por cima da condenação do sistema patriarcal, deveria estar a condenação do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional, responsáveis por uma crescente pobreza e pela redução dos serviços públicos. Acrescentando que a melhor ajuda que as feministas podem oferecer às mulheres do Terceiro Mundo é condenar, desde uma posição abertamente antiimperialista, todas as intervenções “humanitárias” que não servem mais que aos interesses das grandes potências.6 Entretanto, ainda que existam tentativas como esta, que buscam aproximar as questões de gênero e de classe e suas
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Alizia Stürtze, “Feminismo de clase”, <www.rebelion.org>

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interseções para repensar o feminismo, são poucas as mulheres que tentam desenvolver este pensamento à luz do marxismo. Porque hoje, quando o termo pós-moderno já está fora de moda, continuar defendendo os princípios do marxismo parece algo mais do que arcaico. Entretanto, renegando as modas às quais estão sujeitas as intelectuais progressistas para condenar com diferentes palavras e categorias o mesmo que é condenado pelos reacionários - a revolução operária que pode acabar com o domínio capitalista — defendemos que apesar de não ter surgido com o capitalismo, a opressão das mulheres adquire sob este modo de produção traços particulares, convertendo o patriarcado em um aliado indispensável para a exploração e a manutenção do status quo. O capitalismo, baseado na exploração e na opressão de milhões de indivíduos em todo planeta, conquistando para a ampliação de seus mercados não apenas povos inteiros, mas também terras virgens e locais inóspitos introduziu as mulheres e as crianças em sua maquinaria de exploração. Ainda que tenha colocado milhões de mulheres no mercado trabalhista destruindo os mitos obscurantistas que as condenavam a permanecer exclusivamente no âmbito privado da casa, dá as condições para explorá-las duplamente, com salários menores que os dos homens para que, desse modo, possam diminuir também o salário dos outros trabalhadores. O capitalismo, com o desenvolvimento da tecnologia, tornou possível a industrialização e, portanto, a socialização das tarefas domésticas. Entretanto, se isso não ocorre é precisamente porque no trabalho doméstico não remunerado reside uma parte dos lucros do capitalista que assim é eximido de pagar aos trabalhadores e às trabalhadoras pelas tarefas que correspondem a sua própria reprodução como força de trabalho (alimentação, roupas, etc). Alentar e sustentar a cultura patriarcal segundo a qual os afazeres domésticos são tarefas “naturais” das mulheres, permite que esse “roubo” dos capita-

médicas. Questionar a maternidade como único e privilegiado caminho para a auto-realização das mulheres. sanitárias que nos permitiriam enquanto mulheres a dispor de nossos próprios corpos.Paoerosas16_29:Layout 1 28/2/2008 22:58 Page 26 26 ANDREA D ’ AT R I listas seja mascarado e também o trabalho doméstico que recai fundamentalmente sobre as mulheres e suas filhas se torne invisível. é pelo fato de que a Igreja. este direito ainda não nos pertence. põe em risco as normas com as quais o sistema regula nossos corpos. Se nós mulheres não podemos dispor de nosso próprio corpo. com as revoluções burguesas. como também ocorrem mudanças profundas na resistência e na luta das mulheres contra essas amarras. Isso porque a possibilidade de separar o prazer da reprodução leva a uma liberdade que é perigosa para a classe dominante. decidir por não ter filhos. como corpos submetidos aos estereótipos de beleza. os dispositivos intrauterinos. Os corpos que o sistema de exploração só concebe como força de trabalho. as ligações de trompa e inclusive a possibilidade do aborto asséptico e sem complicações para a saúde são fatos inquestionáveis. questionar que a sexualidade tenha como único fim a reprodução e questionar. LUTAS DE MULHERES E LUTA DE CLASSES Mas com o surgimento e desenvolvimento do capitalismo. Ainda que nunca antes como no capitalismo se criaram as condições científicas. No final do século XVIII. que a sexualidade seja entendida somente como ato heterossexual. como as pílulas. continua se impondo sobre as nossas vidas. assim mesmo. em cumplicidade com o Estado capitalista. como corpos separados e alienados transformados em uma mercadoria a mais no mundo das mercadorias. não apenas aumenta a exploração e a opressão das mulheres. surge o feminismo como . O desenvolvimento dos métodos anticoncepcionais. ou quando e quantos filhos ter.

publicadas em espanhol encontramos “Sexo contra sexo ou classe contra classe?”. nas quais aplica o método do materialismo histórico na análise da origem da opressão das mulheres na sociedade de classes. Evelyn conheceu os militantes do SWP no final dos anos 1930 e se instalou. Evelyn Reed (1905-1979). mostrando a indispensável articulação entre o combate pelos direitos das mulheres e por derrotar o capitalismo. no México. defendemos que a luta de classes é o motor da história. militante do Socialista Workers Party dos EUA por mais de 40 anos. marxistas revolucionárias. se instala o debate em torno desta contradição que marca o sistema capitalista para as mulheres. atacando ao capitalismo em seu coração. “Como a mulher perdeu sua autonomia e como poderá reconquistá-la”. e a classe operária acaudilhando as massas pobres e ao conjunto dos setores oprimidos é o sujeito central da revolução social. 7 . sem dúvida. e que concentra nosso interesse . ideológica e política. chegando até nossos dias convertido em diferentes correntes teóricas.e que foi apontado pela marxista Evelyn Reed nos seguintes termos: “Sexo contra sexo ou classe contra classe? ” 7 Nós. “A mulher e a família: uma visão histórica”. com o desenvolvimento do capitalismo e a aparição de uma poderosa classe operária antagônica à burguesia dominante. o conjunto de seus escritos sobre a libertação da mulher. Foi membro do Comitê Central do SWP desde 1959 até 1975 e participou ativamente na imprensa dessa organização trotskista norte-americana. Mas a contribuição mais substancial de Evelyn Reed foi. em 1939. paralisando seus mecanismos de exploração e destruindo sua maquinaria de guerra contra as classes subalternas. o semanário The Militant e a revista teórica International Socialist Review. Quase desde o início. onde frequentou o entorno do revolucionário russo León Trotsky que estava exilado nesse país. em práticas diversas e múltiplas experiências de organização. Entre suas conferências. Este movimento percorre os séculos XIX e XX adquirindo distintas formas.Paoerosas16_29:Layout 1 28/2/2008 22:58 Page 27 I NTROD UÇÃO 27 movimento social e corrente teórica. que nos libertará da escravidão assalariada e todo tipo de opressão.

operárias. apresentamos então o papel das mulheres e do feminismo nos distintos acontecimentos e períodos fundamentais em que pode dividirse a história dos séculos XIX e XX. Buenos Aires. das ocupações de fábricas que produzem sob controle operário. 8 Fontenla e Bellotti: “Feminismo e neoliberalismo”. Há mulheres à frente de todo os movimentos sociais que eclodiram na América Latina na última década.8 Destas histórias de inumeráveis lutas de mulheres feministas. pela derrota total da classe exploradora. das assembléias nos bairros que questionaram o pode estabelecido. O capital produz essa e outras tantas contradições. camponesas e militantes revolucionárias. É nossa convicção que as mulheres da classe operária serão parte fundamental nessas batalhas futuras. Nós mulheres nos colocamos em luta por nossos direitos em todo o mundo. das inumeráveis lutas e mobilizações que cruzaram este território.Paoerosas16_29:Layout 1 28/2/2008 22:58 Page 28 28 ANDREA D ’ AT R I Hoje. institucionalizados ou a se tornar ONGs. mais de meio milhão de mulheres marcharam em Washington em defesa do direito ao aborto. essa classe conta com milhões de mulheres em suas fileiras. A poucos dias de imprimir esse estudo. apresentação apresentada na 15º jornada sobre Feminismo e Neoliberalismo pelas integrantes da ATEM. . 1997. negociando uma menor radicalização por pequenas cotas de poder. Tendo como eixo de nosso trabalho esta intersecção entre gênero e classe. Há pouco tempo na Argentina nós mulheres fomos protagonistas dos bloqueios de rua com os movimentos de desempregados. há setores do movimento feminista que resistem em ser integrados ao sistema. atualmente em perigo pela política reacionária de Bush. queremos apreender as mulheres de hoje para empreender as tarefas que temos que nos colocar. A burguesia cria e recria permanentemente o seu próprio sepultamento. São centenas de jovens mulheres que enfrentaram ao imperialismo nos encontros antiglobalização e nas marchas mundiais contra a guerra do Iraque. Mesmo assim.

Andrea D´Atri Buenos Aires. Essencialmente meu desejo é prestar uma modesta colaboração a todas as mulheres que se colocam na perspectiva da enorme e gratificante tarefa revolucionária de “carregar sobre suas costas essas partículas do destino da humanidade”. as autoras verdadeiramente fundamentais do marxismo e do feminismo forem relidas e suas elaborações repensadas sob a luz de nosso tempo.Paoerosas16_29:Layout 1 28/2/2008 22:58 Page 29 I NTROD UÇÃO 29 Muitos temas importantes foram deixados de lado. com este pequeno grão de areia. Oriento-me pelo desejo de colaborar. à luta das mulheres por sua emancipação. Minhas expectativas estarão mais que satisfeitas se depois de ler este trabalho. outros mereciam extensão e aprofundamento maior. Não sou historiadora nem escritora profissional. fevereiro de 2004 . com o objetivo de combater a opressão.

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Caen. uma onda de revoltas camponesas percorreu a Europa. em 1725. as massas despertaram em Toulouse e em Guyenne. as revoltas eclodiram ininterruptamente e só terminaram com a constituição dos modernos Estados nacionais. na Normandia e em Paris. freqüentemente. houve revoltas em Caen. As mulheres foram protagonistas dessas rebeliões que irrompiam. Na França. protagonizaram conflitos contra as suas condições de existência. em . Muitas vezes. Bayeaux.Paoerosas30_42:Layout 1 28/2/2008 23:03 Page 31 1 Revoltas e direitos civis “Mulher. desperta! As badaladas da razão se fazem ecoar por todo o universoReconhece teus direitos!” Olympe de Gouges PÃO. as revoltas se estenderam por toda a Grã-Bretanha. conduzindo as massas. ao uso da violência. Desde o século XVI. elas mesmas estavam à frente. Em 1766. os mineiros de Kenigswood e pescadores de Tyneside. Em 1727. CANHÕES E REVOLUÇÃO Na época das lutas contra o absolutismo feudal e pela consolidação da burguesia como classe dominante. Em 1747. Angulema e Lille. na Inglaterra. as donas de casa de Essex. já inaugurado o século XIX. Em 1752. Em 1709 e 1710. Em 1739 e 1740 os motins se estenderam por Burdeos. no despontar do século XVIII. o mesmo se deu com os mineiros de estanho de Cornwall e os de carbono de Gloucestershire.

a chamada “guerra das farinhas” se estendeu por todo o norte da França. as mulheres eram.. Também foram muito comuns as revoltas protagonizadas pela elevação do preço do trigo e do pão. Segundo o historiador E. Esses motins impuseram os impostos populares e também levantaram reivindicações políticas. No trabalho citado. por exemplo. da intersecção de carros de grão ou farinha ao passar por um centro populoso. Finalmente. a escassez de alimentos. mais imunes às represálias das autoridades que os homens. P. em El Havre e Nantes.Paoerosas30_42:Layout 1 28/2/2008 23:03 Page 32 32 ANDREA D ’ AT R I Arlès.1 Os mecanismos de ação se assemelhavam em todos os casos: Thompson. em 1774 e 1775. ou combinando astutamente a fúria com o cálculo de que eram. ocorre o mesmo: as mulheres apedrejando um comerciante pouco popular com suas próprias batatas. Laia. 1977. de certo modo. a perda de direitos e o atropelo dos senhores constituíram os motivos centrais das rebeliões. P. as principais causadoras dos motins. em 1693. Burdeos e Metz. Assim o relata: Em dezenas de casos. ou da simples congregação de uma multidão ameaçante. As taxas de rendas e impostos. E. Thompson. quando. . Barcelona. La formación histórica de la clase obrera. com freqüência. Thompson relata numerosos casos como. as mulheres se dirigiram ao mercado de Northampton com facas escondidas em seus 1 A ação espontânea em pequena escala podia ser derivada de uma espécie de vaia ou gritaria ritual em frente à loja do vendedor. em 1768. pela competição de operários estrangeiros que ameaçavam as possibilidades de trabalho dos nativos ou contra as especulações dos comerciantes que monopolizavam os produtos em escassez no mercado.

). Luison Chabry e Renée Ardou organizaram uma manifestação de mulheres que se dirigiu a Versalhes e levaram Luís XVI a Paris sob estrita vigilância. incitado por uma senhora armada com um pedaço de pau e uma corneta. Entre as histórias.).(. está também a de um juiz de paz que. se queixou de que as mulheres incitaram os homens à luta e que. convertendo a marcha em um dos motores das mobilizações revolucionárias que em breve desembocaram no que marcou a História com o nome de Revolução Francesa. como “perfectas furias”... Como ocorreu em outros processos históricos.. As mulheres de Angers redigiram um manifesto revolucionário contra o domínio e a tirania da casa real.Paoerosas30_42:Layout 1 28/2/2008 23:03 Page 33 REV OLTAS E DIREITOS CIVIS 33 corpetes para forçar a venda de grão ao preço que elas mesmas estabeleceram. As peixeiras do mercado mandaram especialmente uma delegação aos Estados Gerais para ‘animar os deputados e lembrar-lhes das reivindicações das mulheres’. à .). Participaram nas eleições dos deputados para os Estados Gerais e seu voto foi reconhecido unanimemente. ‘Não se esqueçam do povo!’. Nos permitimos aqui um excerto de um texto de Alexandra Kollontai. Na França. o povo de Stockton se alçou. ou seja. onde penetraram com as armas na mão. que coloca o papel das mulheres ao longo de todo o processo revolucionário: As mulheres do povo nas províncias de Delfinado e da Bretanha foram as primeiras a atacar a monarquia. onde moravam os reis. a grande Revolução Francesa. em 1740. exigiram pão em frente à sede do Município e marcharam até Versalles. em uma oportunidade.. gritou a delegada aos 1200 membros dos Estados Gerais. começou com uma revolta dirigida pelas mulheres dos bairros pobres de Paris. que envolveu todas as classes. (. Segundo informes da época. golpearam-no pelas costas. as mulheres de Les Halles e Saint Antoine. em 5 de outubro de 1789. dois bairros populosos de Paris. e as mulheres proletárias de Paris participaram na tomada da Bastilha.. todos os setores sociais em sua luta contra o absolutismo.. Rose Lacombe. (.

Porém. operárias em domicílio ou de manufaturas. historia y sociedad. ao assistir às execuções capitais. camponesas. e uma carvoeira que. . essas tecelãs. Barcelona. como faziam questão em chamá-las os aprazíveis e pacíficos contra-revolucionários? Eram artesãs. muito tempo após a consolidação da revolução. Mujer. mas também durante as reuniões da Assembléia Nacional. essas honradas patriotas e essas zelosas operárias continuaram tricotando suas meias. M.2 essa jovem de 18 anos.). como Assembléia Nacional Francesa.. não tricotavam essas meias para si mesmas. México. Duhet.Paoerosas30_42:Layout 1 28/2/2008 23:03 Page 34 34 ANDREA D ’ AT R I Os jornais da época descrevem as imagens de algumas mulheres heróicas das manifestações de 1789 que deram origem à Revolução. reagiram com um instinto de classe seguro e apoiaram a vanguarda militante por uma nova França. (. Península. Sobre la liberación de la mujer. bem como aos pés da guilhotina. Quem eram. Para não perderem tempo inutilmente. que sofriam cruelmente de fome e todo tipo de males. está à procura do cadáver de seu filho. a memória das ‘cruéis e sanguinárias’ tecelãs assombrava as noites da burguesia. essas fúrias. 1974. Frente ao luxo e ao esbanjamento da nobreza arrogante e ociosa. que odiavam a aristocracia e o Ancien Régime de todo coração e com todas suas forças. A. não é por acaso bem-aventurado?’ 3 2 3 Kollontai. em que homens e mulheres tivessem direito ao trabalho e onde as crianças não morressem de fome.. Las mujeres y la revolución (1789-1794).. Por outro lado. pois.. 1989. não só em todas as festas em todas as manifestações. após o assédio. flagrada em combate vestida de homem ao lado de seu amante. respondendo com altivez aos que estranham sua serenidade: ‘Em que lugar mais glorioso poderia buscá-lo? Ele deu a vida por sua pátria. P. mas para os soldados da Guarda Nacional — convertidos em defensores da revolução. Fontamara.

carregam nestas seus canhões e amarram-nos por cabos.. Citado por A. Duhet em op. que simpatizavam com a ala moderada 4 5 6 Lenöal. mas ao se tratar de rodas de canhões de barco. Lasserre en La participation collective des femmes a la Revolution Francaise. Ao iniciar sua marcha desde os Campos Elíseos. que depois se tornou deputada da Assembléia Nacional. Periódico Les revolutions de Paris Nº 13. 1906. seu número já ultrapassara as 4. escoltadas por 400 ou 500 homens. outras. cit. armados com tudo o que podiam encontrar…5 Segundo outro testemunho da época. M. Então as mulheres confiscam carruagens. Duhet em op. dita artilharia é de difícil locomoção. como Madame Roland ou a jornalista e escritora Louise Robert-Kévalio. citado por P. comenta os episódios: A primeira concentração constituída unicamente por mulheres ocorreu às oito da manhã em frente à casa parlamentar. M. L. umas dirigem os cavalos. com o intuito de averiguar a razão pela qual era tão difícil conseguir pão e a tão alto preço. .6 Também houve mulheres cujos nomes transcenderam a História. Paris. levam nas mãos o temeroso pavio e outros instrumentos letais. outras clamavam insistentemente para que o Rei e a Rainha viessem se instalar em Paris…4 atam cordas às rodas dos canhões. sentadas sobre os canhões. enviaram uma carta ousada ao rei: Não podemos nos dispor a criar filhos destinados a viver em um país submetido ao despotismo. as mulheres As mulheres da região de Grenoble. Evenement de Paris et de Versailles par une des dames qui a eu l’honneur d’etre de la Deputation a l’Assamblee Nationale. M. carregam pólvora e balas de canhão. citado por P. cit.000.Paoerosas30_42:Layout 1 28/2/2008 23:03 Page 35 REV OLTAS E DIREITOS CIVIS 35 Marie Louise Lenöal. por sua vez.

Segundo diz a lenda. Ou Théroigne de Mericourt. solicitai a abolição de uma lei que as condena à miséria desde que nasceis…7 Os manifestos mais conhecidos pelos direitos das mulheres da época são “Ensaio sobre a admissão das mulheres no direito cidadão”. no mesmo 5 de outubro de 1789 antecipou-se à manifestação que se dirigia a Versalhes e entrou na cidade a cavalo. as proprietárias. da lendária Olympe de Gouges. aponta em um de seus parágrafos: Uni-vos. tentando ganhar as mulheres para a causa revolucionária. e “Direitos da mulher e da cidadã”. citado por P. assinado por uma tal Madame B. cit. dois documentos sobre as mulheres vêm à tona. ide até o pé do trono. filhas de Caux. participou na Tomada da Bastilha. Cahiers des doleances et reclamation des femmes. de 1790 e 1791. suplicai ajuda de todos ao seu redor. quando a Assembléia Nacional vota a “Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão”. B. conclui o seu famoso ensaio reivindicando o direito ao voto apenas para aquelas que possuem bens. ou seja. e suas cidadãs das províncias regidas por costumes tão injustos como ridículos. vestida de vermelho. O outro. 7 8 Mme. e a Assembléia Nacional entregou-lhe uma espada em recompensa por seu valor. AS CIDADÃS REIVINDICAM IGUALDADE Em 1789.. B.. É interessante ressaltar que o Marquês de Condorcet. que leva o título de “Caderno das queixas e reivindicações das mulheres”.Paoerosas30_42:Layout 1 28/2/2008 23:03 Page 36 36 ANDREA D ’ AT R I dos girondinos. clamai. de Marquês de Condorcet 8. M. Duhet em op. B. que chamou o povo a tomar as armas. um dos homens que se coloca mais resolutamente a favor das mulheres em sua luta por conquistar a igualdade de direitos civis. . Em 1º de janeiro de 1789 conhece-se o folheto anônimo “Petição das mulheres ao Terceiro Estado e ao Rei”.

principalmente de obras de teatro. . pelo contrário. Mary Wollstonecraft não se atém à reivindicação de direitos políticos. Nasceu na Inglaterra em 1759. em 1792. ela foi presa e guilhotinada em 3 de novembro de 1793. em Paris. só terá morrido de fato quando a sua queda sobreviver. Por este motivo. em um folheto. no mesmo período. Nasceu em 1748. realizar um referendo sobre as seguintes alternativas: governo republicano único e indivisível.9 Olympe se chamava. quando o rei foi detido. Propôs. educada por um pastor protestante. Perfil Libros. provavelmente. e em 1765 casou-se com um oficial chamado Pierre Aubrycom com o qual. declarou: Não basta fazer com que caia a cabeça de um rei para matá-lo.Paoerosas30_42:Layout 1 28/2/2008 23:03 Page 37 REV OLTAS E DIREITOS CIVIS 37 respectivamente. não somos consideradas mais que fêmeas e não parte da espécie humana” 10. governo federativo ou governo monárquico. no final deste trabalho. continua vivendo ainda por muito tempo. manifesta-se contra a hipocrisia da sociedade e contra a desigualdade. experiência que a levou a escrever Pensamentos sobre a educação das jovens. Mais tarde se lançou em uma carreira como escritora. Vindicación de los derechos de la mujer. teve um filho. M. Cartas da Noruega e uma novela 9 10 O manifesto “Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã” de Olympe de Gouges está entre os documentos anexos. Em 1791.. 1998. aderiu aos girondinos. Seu primeiro trabalho foi como professora. na realidade.. Outras obras de sua autoria são Reflexões sobre a Revolução Francesa. Mary Wollstonecraft publicava sua Reivindicação dos direitos da mulher. mulheres. Wollstonecraft. se queixando de que “nós. Na Inglaterra. Não só na França surgiam as reivindicações pelos direitos das cidadãs. Bs. Após a sua morte. Defensora da Revolução Francesa. Marie Gouze.As.

mas repentinamente se reanima para brilhar eternamente. Mary Godwin. Esse lutador pelas liberdades civis dirigiu um movimento de reforma democrática. e os maridos permanecerem nos lares atendendo às crianças.12 No mesmo período. No jornal publicou artigos como este: As mulheres que possuem mais inteligência e conhecimentos que seus maridos. M. certa vez disse: “Mary Wollstonecraft foi um desses seres que só aparecem uma vez por geração. depois parece escurecer e os humanos pensam que se apagou. teve que publicar em alguma oportunidade: 11 12 13 Sua filha. que em 1791 fundou o Jornal dos Direitos do Homem. citado por P. Duhet em op. por exemplo. houve outros homens que aderiram à causa feminista.Paoerosas30_42:Layout 1 28/2/2008 23:03 Page 38 38 ANDREA D ’ AT R I póstuma intitulada Mary ou a desgraça de ser mulher. que após se casar com o poeta Shelley. em vez de permanecerem enclausuradas em suas casas. durante o parto de sua filha Mary. . ficou conhecida mundialmente por sua novela Frankenstein. como. Alguns de meus leitores masculinos ontem ameaçaram deixar de ler meu jornal se insistisse em meu propósito de continuar defendendo as mulheres…13 Não obstante. membro do Clube dos Cordeleiros. chegou a ser deputado e prefeito de Londres. cujo lema era: “Cada vez que as ataque. Labenette. Primeiro brilha. John Wilkes (1727-1797) também desenvolveu sua atividade.11 Na mesma França. deverão se consagrar aos negócios da comunidade. Político e escritor inglês. para lançar sobre a humanidade um raio de luz sobrenatural. Faleceu muito jovem. cit. Idem.” Journal des Droits d l’Homme Nº 14. sendo expulso do Parlamento justamente por publicar um folheto intitulado Ensaio sobre a mulher. eu as defenderei”.

as mulheres da burguesia e outras mulheres dos setores populares urbanos desenvolveram sua militância contra as forças contrarevolucionárias em clubes femininos que. finalmente. Em seu Código Civil de 1804. em 1793. trazia a idéia de que a mulher é propriedade do homem e sua principal tarefa é a produção de filhos. que inspirou toda a legislação européia da época. FRATERNIDADE E DESIGUALDADE DE CLASSE E DE GÊNERO As mulheres dos bairros operários de Paris tornam-se protagonistas das mobilizações populares em janeiro de 1792. Um ano mais tarde. atacavam duramente o clero e a nobreza. uma revolta iniciada pelas lavadeiras retoma as taxas populares. ocupou a sede da Assembléia Nacional com uma multidão de desempregadas parisienses. com o retorno da reação. fundadora do Clube das Cidadãs Revolucionárias — que. o império de Napoleão freou o movimento. reprimindo toda manifestação pública e fechando os clubes. apesar de estarem excluídas de qualquer tipo de participação na luta armada. Mas. exigindo medidas contra os monopolizadores e especuladores. Nos clubes revolucionários de mulheres. em certa ocasião. perdem os direitos civis conquistados. e que ainda se expressa nos códigos civis das nações semicoloniais como as nossas. bem como as sociedades fraternais constituídas pelos homens.Paoerosas30_42:Layout 1 28/2/2008 23:03 Page 39 REV OLTAS E DIREITOS CIVIS 39 LIBERDADE. perguntando o que o governo pensava em fazer para atenuar a miséria das trabalhadoras. Após as primeiras tentativas de organização das mulheres nos clubes patrióticos e revolucionários. chegando inclusive a fazer com que algumas mulheres — como na associação das jovens de Nantes — jurassem jamais se casar com aristocratas. se destacaram figuras como Rose Lacombe — junto à lavadeira Pauline Léonie. rebelando-se pela escassez e carestia do açúcar. Durante todos estes anos. .

Resultados y perspectivas: las fuerzas motrices de la revolución. então. Dialéctica feminista de la Ilustración.. poderosamente. 1994. lutaram pelo pão. nos marcos do projeto político igualitário do Iluminismo. Cepe. O feminismo supõe a radicalização desse projeto.” 14 Tendo à frente as mulheres da burguesia e das classes médias educadas. Juntas. 1972 . As. 14 15 Cristina Molina Petit. petições e mobilizações. não correspondiam com a discriminação social e legal às quais ambas estavam sujeitas. As mulheres. o movimento era a expressão da contradição flagrante que estava conduzindo o desenvolvimento do capitalismo: a educação e o nível cultural das mulheres burguesas por um lado. que nessa luta se autodenominaram “o terceiro estado do Terceiro Estado”. projetando o eco do discurso burguês da igualdade abstrata de todos os cidadãos perante à lei. em questão política. em clubes revolucionários. pelo trabalho e por seus direitos civis. seguidas por amplos setores de mulheres do povo.Paoerosas30_42:Layout 1 28/2/2008 23:03 Page 40 40 ANDREA D ’ AT R I É notável que na Revolução Francesa a questão da mulher se converteu. Madrid. Bs. lutaram por sua inclusão na nascente cidadania. O feminismo surgiu. e por outro a participação crescente das mulheres dos setores populares na produção. mostrando a contradição existente entre a igualdade universal proclamada e a ausência real de direitos civis e políticos para a metade da sociedade civil. Pois como mostra a feminista Cristina Molina Petit: “A Ilustração não cumpre suas promessas: a razão não é a Razão Universal. que defendiam ardentemente a Revolução. León Trotsky. Da mesma maneira o fizeram as diferentes classes sociais “para acertar contas radicalmente com os senhores do passado” 15. A mulher fica de fora como aquele setor que as luzes não querem iluminar. Anthropos. pela primeira vez. como movimento político que reivindicava a igualdade de direitos para as mulheres. Ed. Direitos dos homens e também das mulheres.

de fato. acabando com a nobreza e com a aristocracia. revolucionário francês. Já nos tempos da Revolução Francesa.Paoerosas30_42:Layout 1 28/2/2008 23:03 Page 41 REV OLTAS E DIREITOS CIVIS 41 A gigantesca soma de esforços foi necessária para estabelecer a unidade da nação e subleva-la contra o despotismo feudal. Formou parte da comuna insurrecional que se constituiu em 9 de agosto de 1792 e foi um dos organizadores da insurreição contra os girondinos. Como diz León Trotsky em sua análise comparada das grandes revoluções. pelo poder e pela vitória indivisa dentro do marco nacional. ao longo da história da luta de classes e. portanto. nega ou oculta que a sociedade está integrada por classes sociais estruturadas de maneira antagônica. que na época permite constituir um movimento enormemente progressivo para o conjunto da sociedade. O antagonismo de classes e o enfrentamento. foi o inimigo mais encarniçado dos proprietários e dos ricos. Pierre Chaumette (1763-1794). no entanto. se tornará seu contrário. Arrastando consigo as massas populares.16 Por isso a unidade entre as classes dirigida pela burguesia revolucionária. uma revolução nacional. Atacado por Robespierre por seu ateísmo e suas posições políticas radicalizadas. o jacobino Chaumette declarava: O indigente não obteve com a Revolução mais que o direito a reclamar de sua pobreza. . inclusive entre distintas burguesias nacionais em 16 17 Idem. Mais do que isso: aqui se manifesta em sua forma clássica a luta mundial da ordem social burguesa pelo domínio. também ao longo do desenvolvimento do feminismo do século XIX até os nossos dias. a burguesia se desfez da aristocracia em um gesto revolucionário sem precedentes.17 a grande Revolução Francesa é. Mas a conquistada “igualdade” dos cidadãos frente ao Estado é expressão do domínio burguês que.

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ocasião das guerras mundiais, dividirão permanentemente os movimentos de libertação das mulheres e daí por diante, mostrando que a perspectiva de classe não pode estar ausente quando lutamos contra a opressão patriarcal. No final do século XVIII, quando as massas populares participaram do movimento revolucionário dirigido pela burguesia contra a nobreza, as mulheres dos bairros operários foram as que centralmente se mobilizaram pelo pão, enquanto as mulheres instruídas das classes médias e da burguesia legitimavam suas reivindicações de liberdade por meio de folhetos, proclamações, petições e organizações que defendiam sua posição acerca da necessidade da igualdade de direitos. Enquanto as mulheres pobres se mobilizavam contra a carestia, eis que surgia o feminismo como fenômeno político e ideológico, reivindicando os direitos civis e políticos para as mulheres em igualdade com os homens — independência da tutela do marido, acesso à educação, direito à participação política etc. Ainda que as idéias propostas pelos setores mais liberais não fossem sentidas pela maioria das mulheres do povo, não obstante a ideologia patriarcal da classe dominante havia instalado uma contradição que até hoje não tem resolução: considerando-as as principais responsáveis pela alimentação cotidiana da família, empurraram as mulheres dos setores populares — principalmente na França e na Inglaterra — a participar, e muitas vezes dirigir, as taxações populares e os motins pelo pão. Essas primeiras revoltas e a participação nas lutas revolucionárias possibilitaram às mulheres dos setores populares a experiência da ação social e política coletiva, rompendo o cerco do lar. Junto à crítica ilustrada de um setor de mulheres burguesas e instruídas, a uma política masculina e burguesa que excluía dos diretos civis até mesmo as mulheres da classe dominante, serão experiências que não transcorreram em vão, o que demonstrará o transcurso do século XIX.

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Burguesas e proletárias
“Se a nação francesa não mais fosse composta por mulheres, que nação terrível seria.”

Correspondente da Times em Paris, 1871

MÁQUINAS A VAPOR, TEARES E MULHERES Desde meados do século XVIII até meados do século XIX, nos países europeus mais desenvolvidos persiste a produção artesanal, se expande a modalidade de trabalho por tarefa realizada pelos trabalhadores, fundamentalmente pelas mulheres operárias em seus próprios lares (manufatura doméstica), desenvolvendo rapidamente a indústria têxtil, sobretudo a do algodão. As mulheres casadas e as solteiras encontraram espaço na produção doméstica e nas primeiras fábricas de tecidos, bem como no serviço doméstico e na agricultura. Para além da poderosa tendência à proletarização das mulheres durante o período, algumas historiadoras, como Joan Scott, advertem que a mulher trabalhadora
foi produto da revolução industrial, não tanto porque a mecanização lhes gera trabalhos onde antes não havia (ainda que, sem dúvida, esse foi o caso em certas regiões), mas porque em seu transcurso, converteu-se em uma figura problemática e visível.1

1

Joan Scott, “La mujer trabajadora en el siglo XIX” em Historia de las mujeres en Occidente, de G. Duby y M. Perrot; Barcelona, Taurus, 1994.

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Ou seja, ainda que anteriormente houvesse mulheres trabalhando no campo, em setores do artesanato e no serviço doméstico, com a revolução industrial a categoria de “mulher trabalhadora” instala-se como tema de discussão da ciência, política, religião, educação etc. Figura problemática também porque sua simples existência questionava a idéia de feminilidade da ideologia patriarcal dominante e projetava um dilema entre o “dever ser” de sua feminilidade e o trabalho assalariado, marcando a ferro e fogo oposição antagônica entre o lar e a fábrica, a maternidade e a produtividade, os valores tradicionais e a modernidade imposta pelo capital. A “mulher trabalhadora” dá início a profundos debates entre os que defendiam o seu direito à inserção na produção social e os que desestimavam a participação com argumentos baseados em posições libertárias e profundamente sexistas. Os socialistas revolucionários também fizeram eco das contradições que criava o capital sobre a mulher e a família. Marx, por exemplo, defendia em O Capital:
A maquinaria, ao tornar inútil a força do músculo, permite o emprego de operários sem força muscular ou sem o condicionamento físico completo, que possuam, por sua vez, grande flexibilidade em seus membros. O trabalho da mulher e da criança foi, portanto, o primeiro grito da implementação capitalista da maquinaria. Deste modo, aquele instrumento gigantesco criado para eliminar trabalho e operários, se convertia imediatamente em meio de multiplicação do número de assalariados, colocando todos os indivíduos da família operária, sem distinção de idade ou de sexo, sob a dependência imediata do capital. Os trabalhos forçados a serviço do capitalista chegaram para invadir e usurpar, não apenas o lugar designado às brincadeiras infantis, como também ao posto do trabalho livre dentro da esfera doméstica, rompendo com as barreiras morais, invadindo a órbita que envolve o próprio lar. 2
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Karl Marx, El Capital, México, F.C.E., 1992.

outro exército de operários. de uma economia rural também independente e. em uma palavra. de um lar operário. sobretudo. A indústria doméstica se converte em uma prolongação da fábrica. . da manufatura ou do bazar. 11 mil professoras e 9 mil trabalhavam na indústria da seda. 125 mil na confecção de vestidos e sapatos. o plano da divisão do trabalho agora baseia-se no emprego do trabalho da mulher. a maioria pertencia à classe operária e ao campesinato. com a Lei de Fábricas promulgada pelo Parlamento inglês. ‘cheap labour’ como chamam os ingleses. O censo de 1851 indica que. especialmente das crianças e das mulheres. Segue-se 3 Por oposição ao período manufatureiro. concentrados no espaço e postos colocados sob sua tutela direta. Esta chamada indústria doméstica moderna não tem mais que o nome em comum com a antiga. havia mais de 140 mil mulheres maiores de 20 anos trabalhando como serventes. ocorrendo o mesmo nas casas dos próprios operários que abrigam pequenas oficinas. Por exemplo. 25% das mulheres britânicas. Isto não só em toda a produção combinada em grande escala. em Londres. Além dos operários fabris. entre 1851 e 1861 trabalhavam. dos operários das manufaturas e dos artesãos. Desse elevado número.3 Idem. de operários não qualificados. disperso nas grandes cidades e no campo. mas também na dita indústria doméstica. as relações de trabalho foram regulamentadas. o capital passa a se movimentar por meio de fios invisíveis. de trabalho barato. Marx constata: Desde 1802. que pressupunha a existência de um artesanato urbano independente. do trabalho de crianças de todas as idades. empregando ou não maquinaria. Em sua análise magnífica do sistema capitalista. sempre e quando factível. aproximadamente.Paoerosas43_56:Layout 1 28/2/2008 23:07 Page 45 B URGUESAS E PRO LETÁRIAS 45 As cifras falam por si mesmas frente ao novo fenômeno da força de trabalho feminina.

é preciso ressaltar que. em meados do século. as tecelãs manuais de Leicester conformaram na Inglaterra uma irmandade clandestina que utilizava a destruição das máquinas de fiar como forma de protesto. de dez horas por jornada de trabalho. Depois foram expulsas do sindicato. que contribui com a fundação de mais de 30 sindicatos de mulheres. participando conjuntamente de uma greve em 1818.) . inclusive. higiênicas e de segurança. constituído principalmente por homens. Se as mulheres se organizaram de maneira independente dos homens. algumas delas “se negavam a respeitar as normas”. isto ocorre não tanto por inspiração feminista. podendo controlar por elas mesmas o cumprimento dessas normativas supostamente ao seu benefício. já estabeleciam limite de doze e. já em 1788. a partir da década de 1890. bem como os realizados em lugares particularmente perigosos. pois segundo os documentos testemunhais do grêmio. lutando contra sua incorporação ao mercado de trabalho. Mas logo. em alguns casos. Para explicar a atitude dos dirigentes sindicais quanto à inserção das mulheres 4 Liga dos Sindicatos de Mulheres (N. AS TRABALHADORAS SE ORGANIZAM PARA LUTAR Do ponto de vista da organização das trabalhadoras. da A. Em 1874 surge a Women´s Trade Union League 4. Também foram estabelecidas normas sanitárias. mantendo as mulheres por fora de suas organizações e. mas porque grande parte dos sindicatos tratava de proteger os empregos e os salários de seus afiliados.Paoerosas43_56:Layout 1 28/2/2008 23:07 Page 46 46 ANDREA D ’ AT R I uma série de leis em todo o continente que. proibiam o trabalho noturno e aos sábados à tarde. Essas mulheres mais tarde se filiaram ao sindicato de tecelões de Manchester. as mulheres ascenderam aos cargos de inspetoras de fábricas.

Dentre as principais lutas. pelo afixamento do preço da farinha. que em um panfleto intitulado “Nós. Wheatsheaf Books. constituíam mais uma ameaça do que um potencial aliado para os homens trabalhadores. a greve das tipógrafas de Edimburgo. organizada por fora dos sindicatos masculinos. ao invés de serem impelidas a competir por sua subsistência com os homens grandes e fortes do mundo. Não obstante. historicamente. de dedicar todos os seus esforços para manter as condições para que suas esposas se mantivessem em sua esfera própria no lar. 1870-1950: Sexual divisions and social change. que os membros das respectivas organizações tinham o dever como homens e maridos.5 As mulheres. as mulheres operárias protagonizaram verdadeiros acontecimentos da luta de classes do século. oprimidas socialmente e abandonadas pelas mais importantes organizações sindicais. que tornam as sedas ovais. London. bastam as palavras do sindicalista Henry Broadhurstque. citado por J. Lewis em Women in England. podemos citar os motins de Nottingham de 1812. o papel que a classe patronal destinou às mulheres trabalhadoras: convertêlas em exército que pressione objetivamente contra os interesses dos homens trabalhadores. dirigida por Philomène Rosalie Rozan. na qual conseguiram impor suas reivindicações. competindo com seus salários mais baixos pelas mesmas tarefas. 1984. a greve dos operários de Lyon. no Congresso de Sindicatos Britânicos de 1877. Ele disse. chegando a ameaçar diretamente a força de trabalho masculina com o desemprego. “Discurso ante el Congreso de Sindicatos Británicos (1877)”. as mulheres”. a greve das operárias que fabricam fósforos de Londres de 1888. clamaram por seu direito a imprimir em nome 5 Henry Broadhurst. . pelos baixos salários que lhes eram impostos. tendendo ao rebaixamento dos salários do conjunto da classe.Paoerosas43_56:Layout 1 28/2/2008 23:07 Page 47 B URGUESAS E PRO LETÁRIAS 47 na produção. apesar de serem exploradas pela patronal. Esse foi.

de 8 de março de 1857. Já que sou uma das que sofrem com estas condições. Muitas delas eram apenas adolescentes. que faz referência a esta greve. que também citamos na introdução. Rapidamente a greve teve a adesão de 40 mil trabalhadoras. Nos cinco dias que se seguiram. como abordamos na introdução. tinha apenas 23 anos quando lançou a consigna “Se não for agora. Um dos momentos mais importantes desta luta das trabalhadoras têxteis foi a mobilização de 3 de dezembro diante da prefeitura da cidade. o que fez com que ficasse conhecida como “a greve das meninas”. No início do século XX ainda não se vislumbravam grandes mudanças nas miseráveis condições de trabalho e de existência das operárias. Em 23 de novembro. As lutas proletárias de maior destaque no continente americano. pela retirada da polícia das ruas. ferindo as mulheres que 6 Artigo da época. recebendo gritos e aplausos de aprovação na reunião do sindicato do qual fazia parte.6 A polícia reprimiu duramente as operárias desde o primeiro dia de greve. mesmo sendo somente mil afiliadas ao sindicato. Uma de suas dirigentes. inclusive quando reivindicaram o pagamento dos dias parados. o sindicato incorporou 19 mil novas filiadas. publicado no jornal New York Times. Naquele ano. voto pela greve geral”. está entre os documentos anexos ao final deste trabalho. então quando?”.Paoerosas43_56:Layout 1 28/2/2008 23:07 Page 48 48 ANDREA D ’ AT R I da igualdade entre os sexos e a famosa greve das operárias têxteis de Nova Iorque. as condições desumanas de trabalho levaram 30 mil operárias têxteis de Nova Iorque à greve. Clara incitou suas companheiras com estas palavras: “Estou cansada de tanto falar. À medida que a greve avançava. Exemplo é a experiência de greve das operárias têxteis nova-iorquinas de 1909. à comemoração do Dia Internacional da Mulher. a opinião pública fez com que a polícia se retirasse parcialmente dos piquetes. Mas nessa mesma marcha a repressão torna a acontecer. décadas mais tarde. protagonizadas por mulheres remetem aos primeiros anos deste século. duramente atacada pela polícia e que deu origem. Clara Lechmil. .

entre os homens o montante era de 16 a 18 dólares. Segundo relatos dos jornais da época. ambas as mulheres foram condenadas a seis meses de prisão. Estas e muitas outras lutas heróicas deixaram gravados na História nomes como Mama Jones. 7 Jean Deroin (1805-1894) se ligou em um primeiro momento ao saintsimonismo. Com Pauline Roland funda a Associação de Institutores e Institutrices Socialistas. Por essa tentativa. Tia Molly Jackson. Em 1849 apresenta ilegalmente. A diferença de salários entre homens e mulheres trabalhadoras era um abismo: enquanto 45% das mulheres da indústria recebiam salário estimado em 6 ou 7 dólares por semana. havia 70.077 se concentravam na cidade de Nova Iorque. Era contra o matrimônio e .Paoerosas43_56:Layout 1 28/2/2008 23:07 Page 49 B URGUESAS E PRO LETÁRIAS 49 dirigiam a manifestação. também destacada dirigente sindical norte-americana. os jornais acompanharam o dia-a-dia dos acontecimentos. depois de Fourier e Cabet (socialistas utópicos). que construíram uma Federação de Associações Operárias com adesão de 104 organizações7. pois grande parte das operárias era imigrante desse país. que organizou por quase 50 anos os mineiros dos EUA. Annie Bessant. Finalmente. Colaborou com o jornal A voz das mulheres. criou o Clube de Emancipação das Mulheres e lutou pela igualdade de direitos. a polícia limita seu operativo. não seria possível entender a magnitude da greve sem saber que. Jean Deroin e Pauline Roland. segundo censo de 1905. nos piquetes dos grevistas a maior parte do tempo transcorria entre canções revolucionárias e de vitória. dirigente da greve das operárias fabricantes de fósforos. Finalmente. Pauline Roland (1805-1852) também foi discípula dos saintsimonianos. sua candidatura à Assembléia Legislativa com a simpatia dos operários.242 trabalhadoras que fabricavam roupa de mulher. onde faleceu. 31% cobravam menos de seis dólares por semana. na tentativa de federar as associações operárias na União de Associações para lutar contra o capitalismo e chegar a uma sociedade socialista pela via pacífica. das quais 40. teve que exilar-se em Londres. Porém. A greve despertou enorme solidariedade dos estudantes e de toda a comunidade. a maioria em russo. após os acontecimentos. Destas.

por motivo de doença e necessidades. o direito ao voto e as campanhas pelo controle da natalidade. de quem falaremos mais à frente. Clara Lechmill e Louise Michel. e comi como um homem quando tinha o que comer. Elizabeth Gurley Flynn9. em seu retorno à França. intitulado “O que o socialismo há de fazer pelas mulheres”. como a igualdade salarial. Em 1869 foi secretária da Sociedade Democrática de Moralização. Por intermédio de George Sand e de Béranger. 8 9 . plantei e recolhi a colheita e não há homem que possa fazê-lo melhor. Sua biografia ilustra a vida das mulheres lutadoras da época. Também pude suportar o chicote como eles! Por acaso não sou uma mulher?” Elizabeth Gurley Flynn tinha só 22 anos quando foi enviada pela Industrial Workers of the World para substituir os ativistas presos durante a greve de Pão e Rosas. Durante a Comuna de Paris. Era reconhecida por sua política de defesa operária. Nasceu em 1830. que havia sido escrava. Conhecida como Sojourner Truth (a Verdade Ambulante). em uma ocasião. ela. considerava que a libertação da mulher não podia se desligar da luta do proletariado por sua emancipação. Recebeu educação e se tornou professora. foi perdoada meses depois. nem a atravessar a rua. sua militância a favor dos presos políticos e sua luta pelos direitos das mulheres. INCENDIÁRIAS E SENHORAS DE SOMBRINHA Entre as mulheres da classe operária brilha o nome de Louise Michel. protagonizada pelas operárias e operários têxteis de Massachusetts. não mereciam o direito ao voto —. nem me ofereceram o melhor lugar e por acaso não sou uma mulher? Vejam os meus braços! Arei. filha de uma servente. Sob o Império. tendo por finalidade ajudar os trabalhadores. Ninguém jamais me ajudou a subir em um veículo. uma das mais inflamadas heroínas da Comuna de Paris. foi acusada de participar na resistência ao golpe de Estado e foi condenada à deportação na Argélia. Por acaso não sou uma mulher? Pude trabalhar como um homem. que é necessário levá-la nos braços para atravessar a rua e que há que ceder-lhe o melhor lugar. subiu no estrado e proclamou: “Os homens afirmam que a mulher precisa de ajuda para subir em um veículo. Aos 16 anos. fez seu primeiro discurso. mas faleceu em Lyon. respondendo a um orador que havia ridicularizado as mulheres — afirmando que por serem débeis e indefesas.Paoerosas43_56:Layout 1 28/2/2008 23:07 Page 50 50 ANDREA D ’ AT R I escrava Isabel8.

que não negam constituir a Comissão de Graça. cor depois apropriada como símbolo de luta pelos anarquistas. O que peço de vocês. declarou: Deportada à colônia francesa de Nova Calcedônia. enquanto dava uma conferência para trabalhadores em Marselha. um estandarte negro. que se dizem o Conselho de Guerra. entre milhares de combatentes mortos. Duas semanas mais tarde. foi processada por organizar uma manifestação de desempregados que culminou na expropriação de comércios. . deportados e fuzilados. em justiça aos meus irmãos. Quando a Comuna foi derrotada. Dois anos após o seu regresso à França. México. Morreu em 1905.Paoerosas43_56:Layout 1 28/2/2008 23:07 Page 51 B URGUESAS E PRO LETÁRIAS 51 impulsionou o Clube da Revolução e suas milícias armadas.10 Louise Michel. os assassinos da Comissão de Graça. clamei pela minha parte! Se vocês me deixarem viver. em 1881. pela primeira vez. não deixarei de clamar por vingança e denunciarei. Mis recuerdos de La Comuna. Posto que. o Comissário da República tem razão. Diz-se que nessa ocasião Louise levava. após um longo sítio. que se dizem meus juízes. Mas Louise não foi a única mulher que participou valentemente nas memoráveis jornadas da Comuna de Paris de 1871. em 28 de janeiro de 1871. é o campo Satory. Pois bem. 1973. ao que parece. Louise Michel foi condenada a dez anos de exílio. Século XXI. onde pereceram nossos irmãos. Quando as forças inimigas do exército prussiano cercaram Paris a fome obrigou a cidade a se render. No julgamento sumário que a condenou. todo coração que bate pela liberdade não tem mais direito que a um pouco de chumbo. Por essa manifestação obteve nova pena de seis anos. O povo 10 Pertenço por inteiro à Revolução Social. Terão que me excluir da sociedade se lhes disserem que o façam. Sua vida é exemplo de heroísmo e devoção à luta contra a exploração. a Assembléia Nacional Francesa votou a favor da paz. colaborou com os que lá lutavam pela independência política.

fr/lacomune> . <http://perso. A rebelião do povo de Paris instalou. empunhando armas. Valiosas mulheres participaram ardentemente da Comuna. “vi uma jovem filha vestida de guarda nacional marchar com a cabeça erguida entre os prisioneiros cabisbaixos.Paoerosas43_56:Layout 1 28/2/2008 23:07 Page 52 52 ANDREA D ’ AT R I parisiense denunciou então a Assembléia reacionária que concertara uma paz humilhante para a nação francesa e a Guarda Nacional Parisiense se negou a entregar as armas. o primeiro governo operário e popular da História em pouco tempo decretou a separação da Igreja do Estado. Enquanto isso. um poder revolucionário comunal e exortou o resto dos municípios franceses a imitar seu exemplo e a unir-se em uma federação. acelerou o ataque contra os rebeldes com o aval dos prussianos. a revogação de todos os cargos do governo. grande. Então. resistindo contra as tropas de Thièrs e dos prussianos. se bateu como um “demônio”. ou. seus longos cabelos loiros pairando sobre suas costas. Alçando uma bandeira de cor vermelha no mastro do ajuntamento. Os jornais da época descrevem as communards com palavras como estas: Uma delas. Em Le Site de la Commune de Paris (1871).”11 11 Publicado na revista Time. se mudou para Versalhes com o intuito de submeter. Adolphe Thièrs. durante os acontecimentos. até que a derrota lhes impôs a morte em combate ou as deportações e os fuzilamentos. que desencadearam atrozes represálias e custaram entre 10 e 20 mil vidas. eleito chefe do poder executivo. o comprometimento dos parlamentares a não receberem mais que o salário de um trabalhador e a igualdade de direitos para as mulheres. a Assembléia. desafiou a todo o mundo com um olhar. por exemplo. diante da rebeldia de seu próprio exército e do povo de Paris.club-internet. portando um fuzil. desde aí. A resistência da gloriosa Comuna de Paris só se quebrou após semanas de lutas sangrentas. convertendo-se em uma das repressões mais cruéis registradas pela História. de 19 anos. a capital rebelde. Esta mulher. em 18 de março de 1871.

13 12 13 O texto original de uma proclamação do Comitê de Cidadãs está entre os documentos anexos no final deste trabalho. Adélaide Valentin. a mais conhecida foi a ativista socialista Louise Michel. Silvio Costa. Marie-Catherine Rigissart. militantes do Comitê de Mulheres para a Vigilância. que comandou um batalhão de mulheres. Beatriz Excoffon. mulheres dos bairros populares. Aline Jacquier. Comuna de Paris: o proletariado toma o céu de assalto. responsável pela publicação do jornal La Sociale. Nathalie Lemel. Anita Garibaldi. Diferentemente das mulheres que participaram da Grande Revolução. Sophie Poirier e Anna Jaclard. como haviam feito os revolucionários burgueses. 1998. Dentre as mulheres deste período. Leontine Suétens e Natalie Lemel. fundadoras da União de Mulheres. Marguerite Lachaise. como o Comitê de Vigilância das Cidadãs ou a União de Mulheres para a Defesa de Paris.Paoerosas43_56:Layout 1 28/2/2008 23:07 Page 53 B URGUESAS E PRO LETÁRIAS 53 Eram trabalhadoras. prostitutas e “suburbanas”. Otavine Tardif e Blanche Lefebvre. Ed. o brasileiro Sílvio Costa destaca os nomes de uma multiplicidade de mulheres que participaram em diferentes organizações e tarefas revolucionárias. Victorine Louvert. As mulheres se organizaram em clubes revolucionários.12 Em um interessante trabalho de investigação sobre a Comuna de Paris. militante socialista e feminista. capitã da companhia. . desta vez. André Leo. que lutou em 1848 nas barricadas de Lyon onde era conhecida como a “rainha das barricadas”. da mesma maneira que outrora fizeram as mulheres na Revolução Francesa de 1789. é que as que assim o quiseram. Deve-se citar ainda Jeanne Hachette. Marcelle Tinayre. pequenas comerciantes. que chegou ao cargo de coronel e Louise Neckebecker. professoras. Josephine Marchais. São Paulo. fundadora da União de Mulheres para a Defesa de Paris e de Apoio aos Feridos e membro da Primeira Internacional. Também se destacam Elizabeth Dimitrieff. sendo a última executada multitudinariamente pelas tropas reacionárias e Joséphine Courbois. contaram com as armas que os proletários parisienses não lhes negaram.

Contudo. os conselhos de guerra não encontraram nenhuma culpada desse delito. Estas histórias parecem ser fruto do alarmismo antifeminista de inspiração governamental e a maioria dos correspondentes estrangeiros presentes não acreditava nelas. Sem dúvida. operários e operárias resistiram ao selvagem e vergonhoso ataque do exército comandado pela burguesia francesa. libertando os prisioneiros de guerra para que se alistassem e combatessem contra o próprio proletariado francês em armas. foram torturadas até a morte. Não obstante.Paoerosas43_56:Layout 1 28/2/2008 23:07 Page 54 54 ANDREA D ’ AT R I São apenas alguns nomes das centenas de mulheres que. com a qual colaborou o até então inimigo prussiano. 2000. . anonimamente. 1789-1917. pondo em xeque os seus privilégios de classe. colaboraram como agentes e informantes do governo repressor. Nas palavras de um historiador do período: Algumas fontes fazem alusões às incendiárias. as tropas governamentais executaram centenas de mulheres de maneira sumária. as mulheres agüentaram mais tempo nas barricadas que os homens. Alianza. mais tarde. Em Paris. Madrid. Muitas mulheres capturadas depois da derrota foram acusadas de “incendiárias”. Las revoluciones. engrossaram a lista de mártires da causa proletária mundial como vítimas da repressão burguesa. inclusive. les pétroleuses. a unidade com as mulheres burguesas nas barricadas era impossível. por serem suspeitas de ser pétroleuses. As mulheres e os homens da burguesia que fugiram de Paris frente ao poder operário que se erguia. há provas que indicam que. apesar do fato de que. muitas outras mulheres foram acusadas de ser incendiárias. Quando sobreveio a derrota dos heróicos 14 Allan Todd. Duas classes se enfrentavam abertamente e as mulheres se alinharam segundo seus interesses de classe em um ou outro lado da linha de fogo.14 Como não é difícil perceber. e algumas. durante os últimos dias. que atearam fogo a edifícios públicos durante a Semana Sangrenta final da Comuna.

tragicamente. a História deste século é a da desintegração da frente única entre burgueses e proletários. O proletariado. O proletariado demarca sua entrada na História como classe bem diferenciada. Sua tarefa consistia — disso tinha a mais clara consciência — em incluir no velho sistema garantias necessárias. a burguesia já era incapaz de cumprir um papel comparável [ao de 1789]. propagaram-se a miséria e o descontentamento. Como demonstraram essas lutas. Não era suficientemente disposta nem audaz para assumir a responsabilidade da eliminação revolucionária da ordem social que se contrapunha à sua dominação. o que constituiu um dos pilares da revolução social. que juntos lutaram contra o clero e a aristocracia.Paoerosas43_56:Layout 1 28/2/2008 23:07 Page 55 B URGUESAS E PRO LETÁRIAS 55 communards. A contradição de interesses e o antagonismo entre as classes se impõem pela primeira vez na História com toda a magnitude. motins. com louvor pelo retorno da “ordem”. se converteram em mártires. entre as centenas de greves. que se rebela contra a exploração selvagem do capital. sabotagens e revoltas do movimento operário do século XIX. A burguesia. as mulheres da burguesia retornaram ao lar e passearam pelas ruas de Paris. Em 1830. dando origem a uma onda de revoluções que ficaram conhecidas como as revoluções de 1848. mas . Entretanto. outrora aliado da burguesia contra o absolutismo feudal. não para sua dominação política. constituindo os modernos Estados capitalistas. pudemos constatar o porquê. acovardada pelo temor que inspira o proletariado em armas. Eis que no século XIX as contradições que apareciam em gérmen durante o século anterior desabrocham em toda a sua dimensão. já se revela impotente para levar a cabo sua missão histórica: No ano de 1848. com a primeira crise econômica do século. se transformou abertamente em potencial inimigo. que se estendeu por todo o continente europeu. molhando — segundo algumas gravações da época — a ponta da sombrinha no sangue ainda fresco dos homens e mulheres que.

Bs. A burguesia havia tirado algumas lições das experiências da burguesia francesa: estava corrompida pela sua traição e amedrontada por seus fracassos.Paoerosas43_56:Layout 1 28/2/2008 23:07 Page 56 56 ANDREA D ’ AT R I Esse rechaço contra as massas se transformou em rios de sangue na Comuna de Paris e já não havia como voltar atrás. suas aliadas. outrora. com o intuito de rechaçar as massas que empurravam-na à frente. 1972. Cepe. No novo período histórico que se perfilava no horizonte. as mulheres trabalhadoras e dos setores populares constituíram uma vanguarda importante entre essas massas. Não apenas tratava muito bem de empurrar as massas ao assalto contra a velha ordem. As. Resultados y perspectivas: las fuerzas motrices de la revolución. que “empurravam à frente” uma luta na qual enfrentavam outras mulheres que haviam sido. tal como descrevem diversas autoras. tanto nas lutas como nas novas formas de organização social. . mas buscava um apoio na velha ordem.15 15 León Trotsky. simplesmente a uma repartição do poder com as forças do passado..

Paoerosas57_68:Layout 1 28/2/2008 23:19 Page 57 3 Entre a filantropia e a revolução “A lei que escraviza a mulher. oprime também a vós. fundamentalmente. nesse marco. as mulheres pertencentes à classe operária e setores populares impulsionavam. operários. Será obra dos proletários franceses proclamar os direitos da mulher. estabelecer enfim sobre a terra a primazia da justiça e da igualdade absoluta entre o homem e a mulher. pois. as demandas por igual direito ao sufrágio para as mulheres brancas foi defendido pela direção feminista sobre o . A vós. privando-a de instrução.1 A primeira tendência se expressou 1 “Particularmente nos EUA. Enquanto as mulheres pertencentes às classes dominantes se rebelavam contra a desigualdade de direitos formais sobre os homens de sua mesma classe — mas apenas em poucas ocasiões se solidarizavam com as mulheres das classes subalternas —. que sois concretamente as vítimas da desigualdade e da injustiça.” Flora Tristán DIREITO AO VOTO OU BENEFICÊNCIA? Pela agudização do antagonismo de classes. cabe a vós. a frente de luta das mulheres por seus direitos se divide em duas grandes tendências. reivindicavam seus direitos como mulheres. as lutas de sua classe pela obtenção de seus direitos e. homens proletários. sobre o qual nos referimos no capítulo anterior. como fora tarefa dos homens de 1789 a proclamação dos direitos do homem.

League for a Communist Revolutionary International.Paoerosas57_68:Layout 1 28/2/2008 23:19 Page 58 58 ANDREA D ’ AT R I organicamente em associações liberais. “Escenarios del feminismo” em Historia de las mujeres de Occidente. majoritariamente identificadas com a luta pelos direitos civis — particularmente o direito ao voto — ou com lutas reformistas pelo bem-estar das mães solteiras. convertendo-se em tema de grande repercussão na vida social da época. suas reivindicações e as hostilidades que provocam na Europa e nos Estados Unidos. sua imprensa e suas associações. da Revolução Francesa à Primeira Guerra Mundial. Não obstante.” (Guia Nº. op. 1995). como o direito de decisão do marido em pretexto de que. Ana María Kappeli. dos diversos postulados e reivindicações. suas táticas e suas alianças. as desigualdades no âmbito familiar e conjugal. fundamentalmente protagonizados pela crescente classe operária. centralmente. impulsionaram uma florescente imprensa feminista e inúmeras associações que denunciavam. em organizações socialistas utópicas e nos movimentos sociais do século XIX. tampouco não o tinham as filhas brancas da burguesia (usado como um argumento humilhante). a educação para as jovens etc. 2 . apesar das diferenças entre os distintos grupos e setores sociais. são testemunhos de que neste século “a questão da mulher” se converte em objeto de amplíssimas discussões públicas e no terreno de luta em muitos grupos sociais e políticos. Tal como afirma uma especialista na história das mulheres: A repetida irrupção dos feminismos. 11. A segunda. 2 O movimento que tinha como protagonistas as mulheres das classes dominantes foi denominado por distintas especialistas como “feminismo burguês”. podemos enfatizar que a questão da mulher estava à luz do dia. democráticas e sociedades filantrópicas. Essas mulheres. assim como os homens negros não tinham direito ao voto. cit. Seu racismo e o apoio que muitas de suas líderes deram à continuação da escravidão fizeram delas declaradas inimigas da classe operária.

. Os movimentos filantrópicos. O resultado da relação foi a criação do Conselho Internacional da Mulher (ICW). como a Associação de Jovens Cristãs e a União de Temperança de Mulheres Cristãs. fundadora do jornal A Cidadã.Paoerosas57_68:Layout 1 28/2/2008 23:19 Page 59 E N T RE A FILA NTRO PIA E A REV OLUÇÃO 59 todos os assuntos da vida familiar. o direito de administração do marido sobre a propriedade de sua esposa etc. na qual se lançou a campanha pelo sufrágio feminino. na Inglaterra. Em 1884. ao sufrágio e à elegibilidade política. que no terreno jurídico se refere ao poder do pai sobre o filho. foram criadas associações femininas que apoiaram a candidatura de Stuart Mill. realizada em 1848. um defensor dos direitos civis das mulheres. podemos citar a Convenção de Seneca Falls (EUA). o negado acesso à educação superior. acentuaram. duas entre as reivindicações mais importantes foram o direito a salário igual pelo mesmo trabalho e a demanda pelas leis de regulamentação da prostituição. Na Argentina como fim da ditadura a pátria potestad passou a ser compartilhada entre o pai e a mãe. Outros motivos de repúdio eram as injustiças às quais se viam submetidas as mães solteiras e seus filhos. pedindo ajuda à luta que levavam adiante as feministas em seu país. essencialmente. Falls entre os documentos anexos. Antes disso toda a decisão relativa ao menor de idade era tomada legalmente pelo pai. a luta pela educação das jovens. escreve às feministas norte-americanas.3 Também em meados do século XIX. alojamento para mulheres solteiras e outras obras de beneficência. Inclusive. Suas reivindicações e pressões foram fatores que possibilitaram o estabelecimento da obrigatoriedade do ensino primário para ambos os sexos em toda a Europa. a francesa Hubertine Auclert. a pátria potestad *. ainda que não fossem demandas específicas do setor social ao qual pertenciam as mulheres integrantes do movimento. Como um dos ritos fundacionais do período e do amplo e extenso movimento feminista. Ler a Declaração da Convenção de S. muitas vezes acompanhando suas ações com uma forte mensagem evangelizadora. a qualificação profissional. cujo primeiro encontro * 3 Pátria potestad é um termo em latim.

4 Em apenas um ano de seu primeiro encontro. o ICW convocou uma segunda reunião internacional em Londres.Paoerosas57_68:Layout 1 28/2/2008 23:19 Page 60 60 ANDREA D ’ AT R I reuniu 66 norte-americanas e oito européias em Washington. a primeira concepção serviu como fundamento aos movimentos sufragistas. datada de 27 de fevereiro de 1888. do mesmo modo que muitas organizações feministas também se sentiram convocadas por essa bandeira. As associações feministas. quando foi celebrado em Bruxelas o 1º Congresso Internacional pela Paz. ao extremo a extensão dos direitos civis. compostas exclusivamente por mulheres. inspiradas nos ideais revolucionários da classe burguesa — levando. com diferentes objetivos. da qual participaram 5 mil mulheres. 4 Em uma carta dirigida à norte-americana Susan Anthony. Como podemos constatar. freqüentemente vincularam suas atividades à luta pela paz internacional e à defesa dos povos oprimidos. recuperando a idéia de feminilidade em suas dimensões físicas. psíquicas e culturais. da educação e da previdência social. . participaram inúmeras associações pacifistas. A segunda teve como base o aporte das mulheres à sociedade. que representavam 600 mil feministas das diversas seções afiliadas. em 1888. especialmente por seu papel maternal. conseguindo importantes melhoras no plano da saúde. porém. Em suas origens. clamando por reformas ao Estado para o bem-estar das mulheres. respondendo ao convite para participar do congresso de mulheres que finalmente realizou-se em Washington. as feministas se diversificavam em diversas correntes. em uma perspectiva de luta reivindicativa. Auclert utilizou o termo “feminista” em seu jornal para descrever a si mesma e suas partidárias. Em 1848. no que tange à questão de gênero — outras se assentavam nas especificidades genéricas. Já em 1882. Enquanto algumas baseavam as reivindicações no conceito de igualdade. um nome que logo se estendeu a todo o movimento. naquele mesmo ano. a francesa Hubertine Auclert utiliza a palavra “feminista”.

a contradição entre igualdade e diferença atravessa as elaborações teóricas e a prática política do movimento feminista dos nossos dias. que se remete. que admitiam a cooperação entre o capital e o trabalho como condição que melhoraria a situação da classe operária e. aspirando à emulação de um modelo de indivíduo emancipado que — segundo as detratoras dessa corrente — era um modelo masculino. O feminismo “individualista”. as correntes divergentes desse feminismo burguês do fim do século XIX e início do século XX podem ser denominadas como “individualistas” e “relacionais”. no século XX. Esse tipo de feminismo outorgava prioridade política. como veremos mais a frente. em sua luta reivindicativa. à igualdade de direitos. se lançou como uma contradição quase irrecuperável na segunda onda do feminismo da década de 1970. baseada em sua igualdade como seres humanos. podemos diferenciar. à cultura anglo-americana. para homens e mulheres. Tais fundamentos constituíram a base para amplas reivindicações no que tange à proteção da maternidade. as . que pode ser identificado. predominantemente. membros de uma mesma espécie) e a diferença de gênero no sentido particular da identidade. os setores reformistas.Paoerosas57_68:Layout 1 28/2/2008 23:19 Page 61 E N T RE A FILA NTRO PIA E A REV OLUÇÃO 61 Segundo algumas autoras. no feminismo do século XIX. portanto. A contradição paradoxal entre a igualdade como conceito universal (a igualdade de direitos entre os indivíduos de gêneros diferentes. Contudo. o feminismo “relacional” se baseia no dimorfismo sexual e na idéia de responsabilidades específicas e complementares relacionadas com o dimorfismo. por um lado. se baseia na luta das mulheres pela existência independente da família. ainda que de forma embrionária. Por outro lado. REFORMA OU REVOLUÇÃO? Sobre o que veio a ser denominado “feminismo operário” ou “feminismo socialista”. do conjunto dos oprimidos — entre eles.

aludindo com ironia à hipócrita ideologia burguesa: Na segunda metade do século XIX. duas negações constituem uma afirmação. pode-se dizer que no matrimônio. quando sacrifica o filho ante os preconceitos da sociedade. e as decadências da ordem social se operam em razão da diminuição da liberdade das mulheres…5 Citado por Marx y Engels em La Sagrada Familia. Fourier. encontramos os socialistas revolucionários. honram os sedutores e são considerados de bom tom… mas. Cabet. sacrificando-a aos perjúrios da lei… Neste círculo vicioso envolve todo o mecanismo da civilização… O que significa a mulher jovem senão uma mercadoria colocada à venda. não obstante. Daí. também os grupos que sofram algum tipo de opressão.Paoerosas57_68:Layout 1 28/2/2008 23:19 Page 62 62 ANDREA D ’ AT R I mulheres. Akal. estamos com os socialistas utópicos. que defendiam que só a supressão da exploração do capitalismo e a construção de outra sociedade podem libertar a classe operária da escravidão assalariada — e com isto. . Entre os primeiros. como Saint Simon. a sociedade obriga a mulher a destruir a evidência da sua desonra. duas prostituições constituem uma virtude… Os progressos sociais e as mudanças de períodos operam-se na lógica direta do progresso das mulheres rumo à liberdade. Owen. a constituição de falanstérios ou comunidades nas quais se procurava colocar em prática os princípios igualitários. Por outro. A opressão da mulher é contemplada 5 O adultério. o socialismo revolucionário entra em cena. frente às idéias tradicionais sobre o amor e o matrimônio. pobre menina! Que crime atroz é o infanticídio! Para preservar a honra. à espera do primeiro partido que lhe faça uma oferta para se tornar o seu dono exclusivo? Assim como na gramática. a sedução. Fourier — considerado por Engels o primeiro a denunciar as condições de opressão vivenciadas pelas mulheres — dizia. que reivindicavam a união livre entre os sexos. Barcelona. esta é considerada mais culpada.

Marx e Engels defendiam no Manifesto do Partido Comunista. 1985. Mas eis que vós. Sobre que bases descansa a família atual. substituindo a educação doméstica pela educação social.Paoerosas57_68:Layout 1 28/2/2008 23:19 Page 63 E N T RE A FILA NTRO PIA E A REV OLUÇÃO 63 por essa tendência. como uma conseqüência da divisão da sociedade em classes. quereis estabelecer a comunidade das Marx e Engels. Manifiesto del Partido Comunista. Dizem. no lucro privado. tornam-se mais repugnantes à medida que a grande indústria destrói todo vínculo de família para o proletariado e transforma as crianças em meros artigos de comércio. não existe para ninguém além da burguesia. do surgimento da propriedade privada na História. que destruímos os vínculos mais íntimos. pelas condições sociais com a qual educais vossos filhos. Anteo. cujos autores definem claramente qual a posição dos comunistas sobre os filhos e a mulher: Acusam-nos de querer abolir a exploração dos filhos pelos seus pais? Confessamos este crime. As declamações burguesas sobre a família e a educação. porém.6 Permitimos-nos aqui tomar uma extensa citação do mesmo Manifesto. sobre os doces laços que unem os pais com seus filhos. A família. como já mencionamos. As. frente as acusações da classe dominante contra os comunistas: Querer abolir a família? Até os mais radicais se indignam com este infame desígnio dos comunistas. os comunistas. plenamente desenvolvida.. mas encontra seu complemento na supressão forçosa de toda família para o proletariado e na prostituição pública. em meros instrumentos de trabalho. pela intervenção direta ou indireta da sociedade através da escola etc? Os comunistas não inventaram esta ingerência da sociedade na educação. Bs. E vossa educação não é também determinada pela sociedade. a família burguesa? No capital. não fazem mais que modificar o seu caráter e arrancar a educação da influência da classe dominante. 6 . situação agravada pelo modo de produção capitalista.

desaparecerão a comunidade das esposas e o que desta derivase. É evidente. grita em coro a burguesia. A corrente do anarco-socialista francês Proudhon. pode-se acusar os comunistas de querer substituir uma comunidade hipocritamente dissimulada das mulheres. por outro lado. Marx e Engels também enfrentaram o programa político reformista de Ferdinand Lassalle para o Partido Operário Alemão. 7 mulheres!. precisamente. acabar com essa situação da mulher como mero instrumento de produção. por outro lado.Paoerosas57_68:Layout 1 28/2/2008 23:19 Page 64 64 ANDREA D ’ AT R I Conseqüentemente.7 Idem. os direitos políticos e econômicos das mulheres. sentem um prazer singular em traírem-se mutuamente. Marx e Engels defenderam. com sua prédica. a prostituição oficial e privada. ainda em enfrentamento aberto contra as posições reacionárias de outras correntes pequeno-burguesas e reformistas que influenciavam setores do proletariado. Os comunistas não têm necessidade de introduzir a comunidade das mulheres. que o horror ultramoral que inspira os nossos burgueses à suposta comunidade oficial das mulheres que atribuem aos comunistas. defendia que a mulher tinha apenas dois possíveis destinos: dona de casa ou prostituta e por isso opunha-se à incorporação das mulheres na produção. nos sindicatos e na Associação Internacional dos Trabalhadores — mais conhecida como 1ª Internacional —. a comunidade das esposas. Em suma. para não mencionar a prostituição oficial. Não suspeitam que isso implica. não podem por menos pensar que as mulheres terão a mesma sorte. sua mulher não passa de um instrumento de produção. por uma comunidade franca e oficial. por exemplo. na realidade. que com a abolição das atuais relações de produção. Diz-se que os instrumentos de produção devem ser de utilização comum e. não satisfeitos em ter à sua disposição as mulheres e as filhas de seus operários. . o que quase sempre existiu. naturalmente. Nossos burgueses. no qual. O matrimônio burguês é. ou seja. Nada mais grotesco. Para o burguês.

o Partido Socialista Operário da Alemanha. Tornaremos a nos encontrar com essa mulher. dirigido por Liebknecht e Bebel. Apesar dos antecedentes. Lá. para formar uma única organização.8 Marx e Engels impulsionaram a criação da União de Mulheres. o Partido Social-democrata Alemão inclui em seu programa a igualdade de direitos entre o homem e a mulher. . enviada como representante dessa organização à Comuna de Paris em 1871. Clara Zetkin organiza a seção feminina do partido e publica o jornal A Igualdade. organização conduzida por Lassalle. no fim do século. Na 1ª Internacional também merece destaque a organizadora sindical inglesa Henriette Law. que foi membro do Conselho Geral. quando. o que foi combatido por Marx em sua célebre Crítica ao Programa de Gotha. sob a direção de Elizabeth Dimitrieff. no início do século XX. se unificaram as duas organizações operárias alemãs existentes no momento: o Partido Operário Social-democrata. se rechaçava a inserção da mulher na produção. ocorrida quando ainda 8 No Congresso celebrado de 22 a 27 de maio de 1875 em Gotha. filha de um diplomata peruano-espanhol radicado em Paris. A PROLETÁRIA DO PROLETÁRIO Com o século XIX e. e a União Geral dos Operários Alemães. Flora Célestine Thérese Tristán. Flora foi filha ilegítima. como símbolo emblemático da luta das mulheres e da classe operária. nasce. enfrenta a direção e a maioria de seu partido por defender uma postura revolucionária diante da Primeira Guerra Mundial. Elizabeth participou ativamente na organização das mulheres em defesa da cidade. em 1803. seção feminina da 1ª Internacional. como vimos.Paoerosas57_68:Layout 1 28/2/2008 23:19 Page 65 E N T RE A FILA NTRO PIA E A REV OLUÇÃO 65 entre outras questões. o mais importante canal de expressão das mulheres socialistas da época. só em 1891. o que a privou do direito à herança com a morte de seu pai.

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era adolescente. A partir desse momento, sua vida mudou drasticamente: de uma posição social elevada passa a viver na miséria, como as classes trabalhadoras. Trabalha como doméstica para uma família burguesa, pois rompe com seu precoce matrimônio. Também trabalhou como babá e dama de companhia. Ambas as experiências, o casamento e o mundo do trabalho, são elementos importantes de sua história que transparecem em sua obra. Com os filhos, foge do marido, farta da embriaguez e dos maus-tratos que ele lhe dispensa. Mais tarde, sua decisão se reafirma quando o marido tenta estuprar sua filha de apenas 12 anos. Em carta à sua filha, escreve:
Te juro que lutarei por ti, que te farei um mundo melhor. Tu não serás nem escrava nem pária.9

Ainda que não chegue a formulações semelhantes às do amor livre, Flora é plenamente consciente de que o matrimônio significa a apropriação da mulher pelo homem. Por isso, propunha a liberdade de divórcio e a livre escolha do marido por parte das mulheres, sem que os interesses econômicos dos pais das jovens intervenham no matrimônio. Sem dúvida, para ela, o matrimônio é antagônico ao amor, já que repudia que “as promessas do coração... sejam assimiladas aos contratos que têm por objeto a propriedade”.10 o homem mais oprimido pode oprimir a outro ser, que é sua mulher. A mulher é a proletária do próprio proletário.11
9 10 11

Segundo sua biógrafa Yolanda Marco:

Para Flora Tristán,

Citado por Yolanda Marco na introdução à edição de Feminismo y Utopía, México, Fontamara, 1993. Idem. Flora, Tristán, “Unión Obrera”, en Feminismo y Utopía; México, Fontamara, 1993.

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Ela vê como indissoluvelmente ligadas as tarefas da emancipação da mulher e do proletariado. Por influência do pensamento dos socialistas utópicos, concebe a educação como a chave libertadora dos setores oprimidos. Para Flora, não será possível a emancipação dos operários enquanto as mulheres não tiverem acesso à educação, pois elas, em seu atraso cultural, são as primeiras a impedir que o marido se dedique à luta política ou social. Mas apesar de Flora ter alguns elementos em comum com o pensamento dos socialistas utópicos, suas elaborações estão na metade do caminho entre estes e os socialistas científicos. Para sua biógrafa, Flora Tristán
tem em comum com os utópicos o pacifismo, a apelação às classes superiores como meio de mudar a situação da classe trabalhadora e a não incorporação à sua análise da economia política clássica.12

Sem dúvida, seu pensamento é contraditório, pois, ao mesmo tempo, afirma que a emancipação da classe operária será obra dos trabalhadores e só poderá contar com o respaldo de outros setores sociais que também são vítimas dos privilégios da propriedade, aproximando-se das idéias elaboradas pelo marxismo clássico. Outro aspecto em que ela supera o pensamento dos utópicos, se colocando à frente, inclusive de Marx, é no que tange à necessidade de uma organização internacional da classe operária. Sua obra União Operária, publicada em 1843, não só é anterior ao Manifesto Comunista, como também precede em mais de uma década a fundação da Associação Internacional dos Trabalhadores, conhecida como a 1ª Internacional. No trabalho, escrito em linguagem que inaugura o estilo agitativo do publicismo operário, Flora defende:
12

Idem.

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Para que os direitos da classe operária sejam respeitados, propõe a criação de uma associação de trabalhadores de caráter mundial. Flora foi pioneira na análise da relação entre gênero e classe e na luta pelo internacionalismo proletário. Ela não dissocia a causa da mulher da causa de toda a classe operária. Dirige-se, portanto, ao proletariado, para que liberte as mulheres de sua escravidão milenar, ao mesmo tempo em que se liberta a si mesmo da opressão social da qual padece. Por suas posições políticas e sua luta em favor da emancipação do proletariado e das mulheres, foi reivindicada por Marx e Engels em sua obra A Sagrada Família. A oposição e a indiferença que encontrou em sua luta pelos direitos da mulher e dos trabalhadores levaramna a dizer:
Tenho quase todo o mundo contra mim. Os homens, porque peço pela emancipação da mulher, os proprietários porque reivindico a emancipação dos trabalhadores.14

Os operários, durante duzentos anos ou mais, junto aos burgueses, lutaram valente e descarnadamente contra os privilégios da nobreza e pelo triunfo de seus direitos. Porém, chegou o dia da vitória, ainda que ficasse reconhecida a igualdade de direitos para todos, de fato, clamaram apenas para eles próprios todos os benefícios e as vantagens desta conquista.13

14

13

Citada por E. Thomas em Les femmes en 1848, París, P.U.F., 1948.

Idem.

guerra e gênero “Enquanto durar a guerra. sua camarada e amiga. onde cria laços indissolúveis com o movimento revolucionário. oposta pelo vértice à de Clara Zetkin e Rosa Luxemburgo. também. Procurada pela polícia. cabe destacar a presença de uma grande revolucionária chamada Rosa Luxemburgo. em Varsóvia . nos deparamos 1 Rosa Luxemburgo (1870-1919) adere em 1887 ao Partido Socialista Revolucionário. as mulheres do inimigo também serão o inimigo” Jane Misme MULHERES E NAÇÕES Já mencionamos que no Partido Social-Democrata Alemão — o mais importante da 2ª Internacional —. Foi presa em diversas ocasiões em Berlim. Junto com Clara Zetkin. que a situação de opressão vivida pelas mulheres poderia se transformar mediante a revolução proletária. Clara Zetkin dirigiu a organização das mulheres e também um dos membros que enfrentaram a direção do partido no que tange à Primeira Guerra Mundial.1 Com posição diante da guerra imperialista. enquanto elabora também renomados artigos sobre economia. Ela considerava. Participa com Clara. em Varsóvia. da Internacional das Mulheres Socialistas e colabora com o jornal feminino A Igualdade.Paoerosas69_86:Layout 1 28/2/2008 23:28 Page 69 4 Imperialismo. se abriga em Zurique. Presa em 1904.

Em 1914 se opõe à guerra e luta para que os socialistas alemães se sublevem diante da política traidora de seus dirigentes. mas foi derrotado. Sylvia e Christabel. Em 1903. Casada com um advogado membro de uma sociedade sufragista fundada por Stuart Mill. dando início a ações diretas. Uma de suas seguidoras morreu pisoteada por um cavalo. lutando também para elevar o nível da educação dos trabalhadores. Ela tinha apenas 49 anos. e defendeu-se sozinha nos tribunais. sangrentamente esmagadas. organização na qual militara até então. quando. nas célebres corridas de Derby. Funda o grupo Spartacus. acompanha atentamente o processo. se colocou diante do Príncipe de Gales reivindicando o direito ao voto. essencialmente acerca da idéia de partido. e em Breslau. Rosa se recusa a fugir e é assassinada junto com o revolucionário Karl Liebneckt. Emmeline impulsionou greves de fome. professando admiração e respeito por Lênin e Trotsky. Destruíram caminhões dos correios. vitrines. Emmeline Pankhurst e suas filhas. fundou a União Social e Política das Mulheres. incendiaram igrejas e comércios e foram presas. de sede e de sono em sinal de protesto. em uma família de industriais reformistas. Quando eclode a Revolução Russa de 1917. e desde 1905 decidiu pelo emprego de métodos ilegais e violentos para atrair a atenção do público e do poder político. . com a adesão de Rosa à nova Internacional Comunista. sendo educada em Paris. O grupo Spartacus se transforma no Partido Comunista Alemão. da cadeia. Emmeline Pankhurst nasceu em Manchester em 1858.Paoerosas69_86:Layout 1 28/2/2008 23:28 Page 70 70 ANDREA D ’ AT R I com as feministas da família Pankhurst. que nos primeiros anos do século XX foram as principais porta-bandeiras da luta pelo voto na Inglaterra. forjou-se como feminista sufragista. apesar de manter algumas diferenças políticas. Em 21 de junho de 1908 impulsionaram uma mobilização de 400 mil sufragistas pelas ruas de Londres. que apresentou projeto de lei a favor do voto feminino no Parlamento. com as filhas Christabel e Sylvia. Em 1904 obtiveram o apoio do Partido Trabalhista. rompendo com o Partido Social-Democrata Alemão. Após as sublevações do proletariado alemão em 1918 e 1919. Presa em várias oportunidades.

e cumpria sua primeira pena. sua filha Sylvia dela se distancia unindo-se ao socialismo operário. relacionando-a ao fim da discriminação e da exploração. apresentando ao Parlamento um petitório com 29 mil assinaturas. GUERRA E GÊNERO 71 O direito ao voto era luta abraçada. Diante desse giro político.Paoerosas69_86:Layout 1 28/2/2008 23:28 Page 71 I MPERIALISMO. isso era uma traição trágica ao movimento. por considerar que estava se distanciando dos princípios socialistas. às vezes de velhos amigos. se aprofundaram as divergências: Sylvia era pacifista e não concordava com o forte apoio que a União deu ao governo britânico na guerra. Também fizemos campanha pelo salário igual (. publica o primeiro livro. Em 1911. História do movimento das mulheres sufragistas. Com o início da Primeira Guerra Mundial. O sentimento era justificado: a União Social e Política das Mulheres. Ela própria objeta: Quando li o jornal que a senhora Pankhurst e Christabel levavam à Inglaterra para uma campanha de recrutamento.. também. A luta das Pankhurst estava. ligada de certo modo às reivindicações das trabalhadoras.. em casa. Para mim. Os proprietários da fábrica de algodão alegavam não pagar salários adequados às mulheres porque não queriam incentivá-las “a sair do lugar que lhes pertencia. já havia renunciado aos estudos universitários no Royal College. com apenas 29 anos. A jovem Sylvia. substitui o nome de seu veículo de imprensa por La Brittannia. inicialmente. enfrentamos uma dura oposição de velhos inimigos.). Trabalhamos continuamente pela paz.).. que se colocou a serviço do governo britânico. Já em 1901. Já começava a divergir da União fundada por sua mãe. Organizamos uma Liga pelos direitos das esposas dos soldados e marinheiros para obter melhores pensões. Mas a guerra mundial desatada em 1914 transformou a luta de Emmeline Pankhurst. e lamentavelmente. aos 24 anos. as operárias de uma fábrica de algodão em Lancashire levantaram a bandeira do direito ao voto. me pus a chorar. (. cujo lema .. cuidando dos filhos”. que publicava o jornal La Sufragette. por alguns setores de trabalhadoras.

Tudo isso conduziu-a a questionar profundamente a linha que defendia na União Política e Social das Mulheres. e foi uma das que mais exerceu pressão para que o setor dirigido por sua irmã Sylvia se distanciasse definitivamente da União. o grupo de Sylvia continuou impulsionando a campanha pelo voto feminino.Paoerosas69_86:Layout 1 28/2/2008 23:28 Page 72 72 ANDREA D ’ AT R I passou a ser “Pelo Rei. quando o direito ao voto se ampliou. dirigida por sua mãe e sua irmã Christabel. não obstante. . chegando a visitar a União Soviética. inclusive. todos os setores chave do proletariado britânico estavam em greve. Sylvia denunciou que esse direito. Em meio à situação. ao lado da amiga Charlotte Despard. Em 1918. Posições em enfrentamento absoluto com as da União. comportando algumas mulheres maiores de 30 anos. Entre 1911 e 1914. onde conheceu Lênin. Sylvia. As atividades de Sylvia se centraram em percorrer os bairros operários. Sylvia também apoiou fervorosamente a Revolução Russa de 1917. ganhou o apelido de “Pequena Senhorita Rússia”. ao passo que a burguesia se dispunha a iniciar a guerra imperialista. pela Liberdade”. Sua irmã aspirava pela total independência dos partidos políticos integrados por homens. A influência da Revolução Russa se expressa até mesmo no nome do jornal que dirigia: a partir de julho de 1917 passou a se chamar O encouraçado das mulheres. Sylvia. no qual publicou um jornal para as mulheres trabalhadoras. e se dedicou com devoção à militância nas fileiras do Partido Trabalhista. que defendia ser preciso suspender as reivindicações setoriais das mulheres para apoiar o governo que embarcara na guerra. lutava pelo salário igualitário e mantinha posição pacifista. logo fundou o Women’s Peace Army (Exército de Mulheres pela Paz). era restrito a mulheres proprietárias. pelo País. organizar as mulheres trabalhadoras e lutar por suas demandas. Evidentemente. acusada de sedição por seus artigos “prócomunistas”. a ruptura estava marcada pela polarização social recorrente no país. A viagem lhe custou uma prisão de cinco meses em seu retorno a Inglaterra.

exigindo para si e para suas famílias sua parte dos benefícios da civilização e do progresso. apoiou a revolução espanhola. depois ajudou os judeus perseguidos pelo regime nazista na Alemanha. Este movimento. ameaçando se converter em grande movimento feminista igualitarista. a maioria das organizações feministas decidiu participar voluntariamente no serviço à sua pátria. suspendendo suas demandas para cumprir os deveres exigidos pelo patriotismo. A guerra bloqueia o movimento democrático pela emancipação. horrorizada com as purgas realizadas pelo regime stalinista contra toda oposição. E ainda que tenha sido fundadora do Partido Comunista inglês.Paoerosas69_86:Layout 1 28/2/2008 23:28 Page 73 I MPERIALISMO. defendeu a incorporação das mulheres ao direto cidadão em 1790. que. como já mencionamos. que se perfilava em alguns países centrais da Europa. é parcialmente derrotado com a declaração da Guerra Mundial. sem chegar a ver o ressurgimento do movimento feminista no mundo. estrepitosos estilhaços de vidro e bombas incendiárias mostram ao mundo as radicais mobilizações femininas que pugnavam pelo direito ao sufrágio. GUERRA E GÊNERO 73 universitárias etc. Sylvia abandonou a militância anos mais tarde. Recordamos de Sylvia as seguintes palavras: No início do século XX. além dos limites impostos pela repressão e pela censura dos governos embarcados na guerra. dando provas de respeitabilidade a seus Queria despertar essas mulheres submergidas entre as massas para que sejam não apenas pessoas mais afortunadas. marcham 53 mil mulheres pelo direito ao voto. Em 5 de julho de 1914. Faleceu em 1960.. em Londres. uma grande mobilização sufragista eclodiu em Paris em honra do Marquês de Condorcet. Na década de 1930. Eis que. que se rebelem contra suas terríveis condições. Também no mesmo ano. mas combatentes por si próprias.. no que ficou conhecido como a segunda onda. A mobilização se transformou em poderosa demonstração da demanda pelos direitos políticos das mulheres. não obstante. .

Aquelas que persistiram em seu pacifismo não puderam dar uma saída organizada ao movimento pelo boicote dos nacionalistas belicistas de ambos os sexos. denunciar os desertores e ajudar na campanha por fundos para a guerra. porém progressiva tradição internacional do movimento. que desse modo rompiam com a curta. Lembremos que. foi a nova forma de reivindicar esse direito.2 Emmeline e sua filha. Em 1915 ocorreu o Congresso Internacional pela Futura Paz. Foi criado um Comitê Internacional de Mulheres pela Paz Permanente.Paoerosas69_86:Layout 1 28/2/2008 23:28 Page 74 74 ANDREA D ’ AT R I respectivos governos nacionais. organizada pelas Pankhurst. por exemplo. Enquanto isso. A mobilização. porém. “A situação é grave. com a ajuda do recentemente criado Ministério de Armamento. diziam as pancartistas da impressionante marcha de 17 de julho de 1915. assim como nos heróis”. A antiga reivindicação do voto feminino transformou-se em arma a serviço da guerra: “Voto nas heroínas. Christabel Pankhurst. até 1914. em La Haya. a maioria do movimento feminista mundial se dedicava a contrair empréstimos nacionais. As mulheres devem ajudar a resolvê-la”. do qual participaram feministas pacifistas de diversos países. o feminismo aparecia ainda como movimento internacional que lutava pela reivindicação comum 2 Um cartaz de propaganda britânico pregava: “Joana d´Arc salvou a França. é símbolo da mais aguda divisão que alcançou o movimento feminista: já não eram burguesas em enfrentamento com proletárias. dedicaram-se ao recrutamento de voluntárias. Mulheres da Grã-Bretanha salvai vosso país ao empréstimo de guerra. mas mulheres burguesas de um país em enfrentamento com as mulheres burguesas de outro país. Na França. a representante eleita é expulsa do Conselho Nacional de Mulheres Francesas sob a acusação de “feminista a serviço de Guilherme” (em alusão ao governo da Alemanha).” . convocada sob o lema “Direito a servir”. que envia delegadas a todo o mundo.

3 Trata-se de uma reelaboração da conferência realizada no Centro Cultural Rosa Luxemburgo. proclamado pelas diversas organizações da internacional feminista. por seus próprios interesses. no mês de outubro de 2003.org>. com o título “Uma análise do papel de destaque das mulheres socialistas na luta contra a opressão e das mulheres operárias no início da Revolução Russa”.rebelion. quando as mulheres dos países mais avançados começavam a sair às ruas reivindicando o direito ao voto. desse modo. aprovou a participação na guerra na qual milhares de operários se enfrentaram nas trincheiras com outros milhares de operários. Ela cumpriu grande papel no momento crucial da Primeira Guerra Mundial. o Partido Social-Democrata Alemão. . Como observamos. O pacifismo. pautava em seu programa a igualdade de direitos entre o homem e a mulher. rompendo a unidade internacional da classe em uma guerra na qual as burguesias nacionais se enfrentavam umas às outras. de acordo com os interesses das burguesias nacionais. além de suspender as reivindicações.Paoerosas69_86:Layout 1 28/2/2008 23:28 Page 75 I MPERIALISMO. A transcrição da conferência foi publicada na íntegra no jornal eletrônico Rebelión <www. em ocasião do aniversário da Revolução Russa. se disciplinando. de Buenos Aires. Momento em que. MULHERES INTERNACIONALISTAS3 Em 1891. desaparece justamente no momento em que estoura a guerra mundial. Clara Zetkin foi a organizadora da seção feminina do partido. o que se transforma em uma prova de fogo para o movimento. quando a maioria do Partido Social-Democrata Alemão. GUERRA E GÊNERO 75 do sufrágio. um dos mais importantes da 2ª Internacional. que reuniu mais de 175 mil mulheres em suas fileiras. as feministas dos países beligerantes rompem alianças internacionais a favor de um nacional-feminismo que exorta as mulheres a servir à pátria. indo contra todos os princípios proletários revolucionários.

nas empresas e nas oficinas do Estado. as mulheres se incorporaram à produção em todos os países que participaram da guerra. as mulheres entraram massivamente nas fábricas. em 1915. esgotamento e angústia por esposos. em 1916. Clara Zetkin lança um chamado às mulheres socialistas e convoca uma conferência internacional que. na . na Áustria. Em 1915. também. a escassez e a miséria. As condições de vida pioraram pela inflação. o papel das mulheres na Revolução Russa. Em Paris. durante a mobilização das tropas as mulheres se estendiam nos trilhos de trem para atrasar a saída dos soldados. eclodiram violentos motins de mulheres contra a guerra e a inflação. em conseqüência das privações. Após a declaração de guerra. ainda que ascenderam como nunca antes ao mundo da produção. Não é um dado menor para poder entender. A neurose e as doenças mentais se propagaram. as mulheres instigaram distúrbios que se propagaram de São Petersburgo e Moscou a todo o país. agravaram a saúde das mulheres e aumentaram os índices de mortalidade. Em toda a Europa. na qual as mulheres também começaram a se manifestar contra a guerra e a inflação. de 26 a 28 de março de 1915 4. se reúne em 4 Essa conferência de mulheres socialistas contra a guerra foi realizada seis meses antes da tão conhecida Conferência de Zimmerwald. houve uma insurreição de três dias. filhos e irmãos. as mulheres atacaram lojas e saquearam depósitos de carvão. na maior parte dos países interventores.Paoerosas69_86:Layout 1 28/2/2008 23:28 Page 76 76 ANDREA D ’ AT R I Naquele período. O resultado foi que. As jornadas extenuantes de trabalho — inclusive na indústria pesada — que se estendiam aos lares. a situação das mulheres durante a guerra foi verdadeiramente insuportável. as trabalhadoras de Berlim organizaram manifestação massiva rumo ao Parlamento contra a guerra. como veremos mais à frente. Procurando explicar o levante das trabalhadoras contra a guerra nos principais países e procurando tirar conclusões das lutas para enfrentar a guerra mundial. Em junho de 1916. Porém. que estavam na frente de batalha. Na Rússia.

presa e doente do coração. em Kienthal. os internacionalistas tornaram a se reunir. . Em seu retorno a Rússia. De 5 a 8 de setembro de 1915. pois estavam presas na Alemanha por sua oposição à guerra. Inês casa-se com um russo. Lênin proclamou novamente a decadência da 2ª Internacional e sua irremediável dissolução. Lênin defendia que os socialistas deviam romper com a colaboração com os governos burgueses. em 1917. russas. holandesas. Posteriormente. Mais tarde. Após a proibição do uso da palavra em público em 1916. Bolchevique desde 1904. ocorreu em Zimmerwald (Suíça) essa conferência socialista internacional. de 24 a 29 de abril de 1916. que era necessária a mobilização das massas contra o social-chauvinismo e a transformação da guerra em guerra revolucionária. vítima de cólera. Representa os bolcheviques em Bruxelas em 1914. se pronunciaram pelo sufrágio feminino. considerada por muitos a primeira reunião geral dos socialistas internacionalistas após o início da guerra. Filha de pai inglês e mãe francesa. que discutiram a traição de seu próprio partido que havia decidido participar da guerra. migra em 1909. Rosa Luxemburgo e Clara Zetkin não puderam participar. como em Zimmerwald. passa a trabalhar na Internacional Comunista e morre em 1920. sendo saudadas pela conferência. aqueles que mantiveram os princípios revolucionários do internacionalismo proletário fundaram os partidos comunistas e a 3ª Internacional. Depois. em defesa da qual a ala revolucionária da 2ª Internacional se pronunciou contra a guerra imperialista. Clara Zetkin já não pôde mais intervir ativamente na luta. em Zimmerwald e em Kienthal. inglesas. francesas. é expulsa do Partido SocialDemocrata Alemão. Participaram 70 delegadas alemãs. De ambas as reuniões participou Inês Armand (1875 -1920). A posição dos bolcheviques (o partido russo da 2ª Internacional) consistiu na imediata criação de uma nova internacional.Paoerosas69_86:Layout 1 28/2/2008 23:28 Page 77 I MPERIALISMO. próximo a Berna. e com outros 20 mil militantes formam um grupo que se opõe à linha majoritária da social-democracia alemã. de Stuttgart em 1907 e de Copenhague em 1910. e torna-se amiga pessoal de Lênin no exílio. Mas sua posição foi rechaçada por 19 votos contra 12. frente à traição de seu partido mais importante. A conferência de Berna é a terceira organizada por mulheres socialistas. em 1893. As anteriores. o Partido Social-Democrata Alemão. italianas e suíças. GUERRA E GÊNERO 77 Berna. A resolução adotada pela conferência condenou a guerra capitalista sob a consigna de “guerra à guerra”.

esporadicamente durante uma guerra moderna. Também no último congresso. o de Berna. e que não se esperava a manutenção da paz mais que pela ação enérgica e consciente do proletariado e pelo triunfo do socialismo. durante a guerra. e até o final. Nadezna Krupskaia e outras. O dever das mulheres socialistas é colaborar com a obra de manutenção da paz. tal como havia previsto Engels 40 anos atrás: ou bem o triunfo do . Uma das resoluções de Copenhague mostrava as causas da guerra “nas contradições sociais criadas pelo sistema de produção capitalista”.Paoerosas69_86:Layout 1 28/2/2008 23:28 Page 78 78 ANDREA D ’ AT R I luta pela manutenção da paz. A causa das mulheres se expressa. Mas o terceiro congresso. Como observamos. Rosa Luxemburgo. se o período de guerras mundiais que começou agora for levado até suas últimas conseqüências. enfatizou: Esta guerra mundial significa um retrocesso à barbárie. novamente. e aquelas que se colocaram à frente na luta contra a guerra foram as mulheres revolucionárias. diante da guerra e da posição traidora da socialdemocracia. contra a carestia de vida. O internacionalismo e a luta contra a guerra ficaram. nas mãos dos socialistas revolucionários. a tradição de amizade internacional que regia os diversos grupos do movimento de mulheres desintegrou-se frente à prova da guerra mundial. de acordo com o espírito dos congressos internacionais socialistas. o problema da Finlândia submetida à repressão do czarismo e os seguros sociais para a mulher e o filho. indissoluvelmente ligada à da classe operária. de 1910. Inês Armand. Deparamo-nos hoje com as eleições. O triunfo do imperialismo conduz à destruição da civilização. a proposta de Clara Zetkin tornou oficialmente o 8 de março como o Dia Internacional da Mulher. Rosa Luxemburgo. como Clara Zetkin. se transformou na primeira conferência socialista internacional cujo eixo central era a oposição à guerra em curso. exclusivamente.

em 1919: “A velha Internacional morreu na vergonha: jamais poderá ser ressuscitada. Pela força da necessidade. posteriormente. Não obstante. ou a vitória do socialismo. as “conquistas” do gênero feminino foram efêmeras. na qual estavam afiliados os partidos social-democratas. No curso da guerra e. que combatiam nas trincheiras pela defesa dos interesses de seus patrões e atraiu enormes misérias para as mulheres. Clara Zetkin disse. pois o conflito transformara as relações entre os sexos. um vasto cemitério. estendeuse a idéia de que as mulheres buscavam grandes conquistas em sua emancipação. Eis que enquanto durou a guerra. uma das delegadas da 3ª Internacional. multiplicavam a oferta de postos de trabalho por causa da enorme produção em marcha. Sua colaboração com a burguesia nacional dos Estados beligerantes levou ao massacre de milhões de operários. as novas indústrias de guerra. a guerra. era nítida. LIBERDADE NA GUERRA. a diminuição da população. resultado da luta consciente da classe operária internacional trabalhando contra o imperialismo e seu método. OPRESSÃO NA PAZ? imperialismo e com ele a degeneração. utilizando as mulheres para mover as máquinas que sustentavam os lucros capitalistas em tempos de “escassez de homens”. fundada por Lênin com as diversas organizações internacionalistas existentes.” Ela foi. A ordem patriarcal do capitalismo só se viu alterada circunstancialmente pela necessidade de força de trabalho. GUERRA E GÊNERO 79 A bancarrota da 2ª Internacional. onde se fabricavam as munições e as armas modernas. ainda depois de finalizada. . Por outro lado.Paoerosas69_86:Layout 1 28/2/2008 23:28 Page 79 I MPERIALISMO. a guerra eliminou momentaneamente as barreiras que separavam trabalhos masculinos e femininos. mulheres camponesas e pequenas comerciantes assumiram as tarefas compulsivamente abandonadas pelos homens.

ainda hoje comemorado em todo o mundo. foram habituais os acordos negociados entre os sindicatos e as empresas. Na Inglaterra. Quando a guerra termina. transformando as cidades em cenários de verdadeira guerra civil. Enquanto ocupavam os postos disponíveis nas fábricas e empresas. Em alguns casos. como uma das concessões das quais os governos liberais e reformistas lançaram mão para tentar impedir a revolução proletária em potencial. os elogios às mães e às donas de casa. a desmobilização das mulheres da frente de batalha e da fábrica é acompanhada de forte campanha de propaganda contra a mulher libertada e o feminismo. o aprovisionamento ilegal no mercado negro e outras medidas de sabotagem. foram instigadoras de motins por fome. no fim da guerra. mediante o compromisso de se retirarem depois da guerra. enquanto perdurou o enfrentamento bélico. Por outro lado. estabelecendo firmes regimes de democracia burguesa após a disputa. por exemplo. em 1917. Assim constata León Trotsky: . por meio do furto de alimentos nas lojas ou no campo. tiveram prioridade nos postos de trabalho. reforçando. Por meio do concerto e da reforma social foi aceito o trabalho das mulheres nas fábricas sob o regime conhecido como substituição. provocaram enormes distúrbios.Paoerosas69_86:Layout 1 28/2/2008 23:28 Page 80 80 ANDREA D ’ AT R I Quando os soldados voltaram das frentes de batalha. os discursos oficiais. o sufrágio feminino surgiu na Europa naquele momento. As primeiras. segundo o qual as mulheres podiam ocupar os postos “masculinos”. foram essas novas mulheres trabalhadoras as primeiras a criticar a guerra. Na França. é o momento no qual se inaugura a celebração do Dia das Mães. costureiras e as mulheres que faziam a munição constituíram maioria entre os grevistas. e as proclamações libertárias no que tange à libertação feminina ressoaram em sons de clarinetas. as mulheres da burguesia entregavam o movimento feminista de mãos atadas à defesa da nação. Não por acaso. que chamavam às mulheres de volta ao lar.

. Bs. Trotsky.Paoerosas69_86:Layout 1 28/2/2008 23:28 Page 81 I MPERIALISMO. as frentes populares. A experiência revolucionária da Espanha. 1974. Desse modo. o desemprego. na década de 1930. o surgimento do sindicalismo de massas nos EUA etc. Em 1918. pela primeira vez no Parlamento. A situação das mulheres não fica alheia a esses acontecimentos da luta de classes. A dónde va Inglaterra. O próprio Mr. manifestava-se nitidamente a influência da revolução russa de 1905. a classe operária viveu inúmeras experiências históricas. uma importante fração de 42 membros. Baldwin [Stanley. ocorre o auge econômico dos dourados anos 20. Após as eleições gerais de 1906. a consolidação da União Soviética como estado operário. o crack econômico de 1929. As. mesmo antes de terminar a guerra. o fascismo. político inglês conservador. com a quebra da Bolsa de Nova Iorque e a grande depressão. o Labour Party conformou. evitar uma revolução. Nota da Autora] provavelmente não negaria que a revolução russa de 1917 tenha dado o principal impulso a esta reforma. a heróica revolução espanhola.5 León. uma nova reforma eleitoral ampliava consideravelmente o quadro de eleitores operários e concedia pela primeira vez o direito ao voto às mulheres. a revolução russa de 1905 fortaleceu-os subitamente. GUERRA E GÊNERO 81 Entre as duas guerras mundiais. as mulheres conquistaram o direito ao sufrágio naquele país. A burguesia inglesa achava possível. com o desenvolvimento da produção em grande escala. El Yunque. Durante todo o período. Porém. demonstrou uma vez mais que as grandes conquistas de direitos democráticos em beneficio das mulheres só ocorreram por causa do levante revolucionário contra toda a ordem existente. a vitória eleitoral da Frente Popular e a extensão de uma amplíssima onda de greves 5 A derrota da revolução de 1848 debilitou os operários ingleses. com a reanimação da agitação revolucionária entre as massas. pelo contrário. fruto da revolução proletária de 1917. Em 1931. por este meio. três vezes primeiro ministro.. logo em 1936. com o início do processo revolucionário na Espanha.

Quando. favorece-se a inserção das mulheres nas frentes de batalha.Paoerosas69_86:Layout 1 28/2/2008 23:28 Page 82 82 ANDREA D ’ AT R I em toda a Espanha. emoção. Isto trará como conseqüência o esmagamento de anarquistas e simpatizantes do trotskismo. Com a criação das milícias populares. com seu esposo. reflexões e sentimentos profundos. as esposas e filhas dos mineiros e operários participaram da luta. para participar das jornadas revolucionárias espanholas. mas a partir de setembro de 1936. Em Minha guerra da Espanha. integrando-se aos comitês e empunhando armas. com a proibição das milícias e a perseguição dos revolucionários. legaliza-se o direito ao aborto. Partido Operário de Unificação Marxista. o governo republicano da Frente Popular se empenha em organizar um exército regular com o intuito de frear o armamento e a organização autônoma de operários e camponeses. Nesse período florescem os jornais femininos comunistas e anarquistas. nas mãos dos comitês e das milícias operárias. ocorre a heróica insurreição dos operários das Astúrias. Um retrato vivo dessas jornadas. a argentina Mika relata em páginas cheias de heroísmo. faz parte das memórias da dirigente de coluna de um batalhão do Partido Operário de Unificação Marxista (POUM)6. e do pérfido papel que cumpriu o stalinismo na heróica passagem da história operária mundial. era uma corrente próxima ao trotskismo. mas ficam isolados e são derrotados pelas tropas franquistas após vários combates. da valorosa ação das mulheres operárias. acompanhada de ocupações de terras. o marido 6 O POUM. além do envio de mulheres à retaguarda. Pouco tempo depois sua chegada. Mika Etchebéhère. das diferentes atitudes tomadas pelas organizações políticas em relação às mulheres. como chega da França ao país. incorporando-se a uma coluna do POUM. liderada por Andreu Nin. que se apossam do território. em 1934. em meio a uma situação em que o poder ficara. que surgiu da fusão da antiga oposição de esquerda espanhola ao Partido Comunista e o . de fato.

dirigido por Maurín. vencendo os preconceitos dos milicianos e ganhando seu respeito na luta. A atmosfera espiritual é produzida pela mulher. precisamente. para atender os feridos. a tarefa da mulher! Criar constantemente o novo. as mulheres se lançaram às ruas com um entusiasmo insuperável para lutar junto aos seus companheiros. e a vida cotidiana. os anarquistas do sindicato fizeram o impossível para atraí-la às suas fileiras. Desde muito pequena. Carlota Durany Vives. a criança deve aprender que os outros não vivem exclusivamente para ela.. Outra das mulheres que merece destaque na revolução espanhola é Carlota Durany Vives. 29 de maio de 1937.Paoerosas69_86:Layout 1 28/2/2008 23:28 Page 83 I MPERIALISMO. com suas necessidades e preocupações...7 7 Bloco Operário e Camponês da Catalunha. Mas não se pode viver meses e meses com essa tensão. o que a tornou o principal alvo da polícia secreta stalinista em Barcelona. para doar seu sangue. Carlota integrou a Comissão Diretiva do Sindicato Mercantil. Esta é. que foi secretária de Andreu Nin. Aqueles que a conheceram contam que. despendendo intenso trabalho nas greves do grêmio. GUERRA E GÊNERO 83 morre em batalha e ela coloca-se à frente da coluna. mina nosso ardor revolucionário. O POUM rompe definitivamente sua relação com o trotskismo quando adere à Frente Popular durante a revolução espanhola. dirigente do POUM. “El doble papel de la mujer”. nos acostumamos com o que antes exaltava nosso entusiasmo. o espírito revolucionário. Emancipación. em 29 de setembro de 1935. Carlota começou a escrever breves artigos para o jornal Emancipação. Em sua casa foi celebrada a conferência clandestina de fundação do POUM.. Pouco a pouco. Em plena guerra civil. Deste sentimento comunitário resultará mais tarde a consciência de classe. de onde extraímos estes parágrafos: Em 19 de julho. órgão de imprensa do Secretariado Feminino do POUM. .. por sua grande atividade revolucionária e personalidade. E a mulher tem outra tarefa de suma importância: edificar a base revolucionária na futura geração..

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A repressão desatada pelos stalinistas se empenhava, particularmente, na aniquilação dos militantes do POUM. Prenderam Carlota, que anteriormente tinha ficado presa por várias semanas, cinco dias antes das tropas fascistas, a mando do general Franco, entrarem em Barcelona. Quando a prenderam, deixaram seu filho de três anos abandonado na casa, o qual foi depois acolhido por vizinhos. Colocaram-na em um automóvel e a levaram a uma estrada, enquanto a interrogavam e a insultavam para que lhes dissesse onde estava seu companheiro. Limitou-se a responder, repetidas vezes, que só sabia que ele estava na frente de batalha, o que enfureceu ainda mais seus seqüestradores. Eles começaram uma simulação de fuzilamento. Carlota foi finalmente levada a uma dependência da polícia secreta stalinista, com outras mulheres do POUM, de onde pôde escapar antes desse lugar cair nas mãos dos fascistas. Foi o tempo preciso para reencontrar seu filho e tomar um caminhão preparado pelo Comitê de Evacuação do partido, que a transportou até a fronteira com a França. Só depois de 35 anos, suas cinzas regressaram a seu país e foram lançadas ao mar na Costa Brava. Mas o fascismo não foi só um fenômeno político espanhol. Era a expressão política do grande capital monopolista que substituiu o regime democrático burguês por formas ditatoriais. No que tange às mulheres, o fascismo considerava que sua emancipação era perversa ideologia anti-regime e apátrida. Para os nazistas na Alemanha, por exemplo, ser mãe era o objetivo central que deviam ter as mulheres, porém não era desejável para todas. Defendiam que 20% da população germânica eram indesejáveis para assumir a paternidade, já que não pertenciam à “raça pura”. Introduziu-se a esterilização forçada, aplicada em homens e mulheres, por causas como debilidade mental, epilepsia, esquizofrenia, síndrome maníacodepressiva, ser negro, judeu, cigano etc. Essa política demográfica resultou no que veio a ser chamado de “gravidez de protesto”, procurada pelas mulheres jovens antes de serem

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submetidas à operação de esterilização. Os índices de emprego feminino na Alemanha fascista demonstram outra faceta da crueldade do regime nazista:

A resistência ao fascismo também foi testemunha do alistamento das mulheres. Na URSS, as mulheres participaram ativamente defendendo seu território contra a invasão do exército nazista. Pouco após o início da Segunda Guerra Mundial, foi criado o Comitê Antifascista de Mulheres Soviéticas, que recebeu a solidariedade das mulheres da Inglaterra, dos EUA, da Índia, da Áustria etc. Na Iugoslávia, mais de 100 mil mulheres se alistaram entre os partidários e o exército de Tito. Na França, as mulheres foram parte da resistência maqui, criando redes nas empresas nas quais trabalhavam, atuando como correios e agentes de informação, organizando a luta nos campos de concentração e em combate. Na Itália havia cerca de 35 mil mulheres na resistência armada e mais de 70 mil fizeram parte dos grupos de defesa femininos voluntários, sofrendo tortura, prisões, deportações, fuzilamentos ou morte em combate. Durante a Segunda Guerra Mundial, os estereótipos femininos que haviam surgido durante o período da guerra de 1914 se repetem: a mulher trabalha nas fábricas de armamento e munições a serviço da pátria ou é a mãe protetora que
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Durante a Segunda Guerra Mundial, cerca de 2,5 milhões de mulheres estrangeiras se incorporaram ao trabalho na indústria e na agricultura alemãs, junto a um número muito maior de homens; a maioria deles procedentes dos países do leste da Europa, sendo estes obrigados a trabalhar pela força. Quanto mais baixo era seu ‘valor racial’, maior era a proporção de mulheres trabalhadoras do grupo nacional correspondente e, particularmente na indústria pesada de munições.8

Bock, G., “Políticas sexuales nacionalsocialistas e historia de las mujeres” em Historia de las mujeres de Occidente, op. cit.

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cuida do lar na ausência do soldado. Na Inglaterra, as empresas privadas foram proibidas de empregar mulheres entre 20 e 30 anos, encaminhando-as a empresas controladas pelo Estado para ingressar nas fábricas de armamento, caso necessário. Em 1944, na indústria e nos serviços auxiliares da defesa civil havia 2 milhões de trabalhadoras, contingente superior ao período prévio à guerra. Nos EUA, as mulheres, por meio de campanhas de imprensa e de rádio, e as 10 milhões de norte-americanas que trabalhavam em 1941 passaram a ser 18 milhões em 1944.9 Porém, terminada a guerra, as mulheres tiveram que novamente retornar ao lar. Na Inglaterra e nos EUA, por exemplo, desapareceram as creches criadas para facilitar o trabalho das mulheres. Dessa vez as mulheres repetiram a experiência do fim da Primeira Guerra Mundial, mas com maior resistência por parte das operárias e empregadas que se recusavam a deixar os postos de trabalho. Um “mal-estar” instalou-se nas mulheres que não queriam reduzir-se novamente ao papel de mães, esposas e consumidoras, o que encontrará ressonância nos movimentos feministas de massas que surgiriam anos mais tarde, especialmente nestes países.

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Um cartaz norte-americano mostra uma mãe com um filho e um bebê em seus braços. A legenda reza: “É menino! Dêem 10% de seu salário para a guerra!” Outro diz: “Mulheres: há trabalho a fazer e uma guerra a ganhar”.

LIBERDADE E DIREITOS PARA AS MULHERES A análise da situação da mulher na União Soviética merece um capítulo à parte. No lugar da família egoísta e individualista. camaradas. com estas palavras. Os socialdemocratas se propunham a festejá-lo de forma tradicional: com . PAZ. homens e mulheres. na qual todos os trabalhadores. antes das mulheres dos países capitalistas mais avançados do mundo. fortalecida pelo amor e pelo respeito mútuo de dois membros do Estado operário. Com a revolução proletária de outubro de 1917. a partir dos quais teve início o processo revolucionário que culminou em outubro do mesmo ano: Em 23 de fevereiro era o Dia Internacional da Mulher.Paoerosas87_102:Layout 1 28/2/2008 23:38 Page 87 As mulheres no primeiro Estado operário da História “No lugar do matrimônio indissolúvel baseado na servidão da mulher. tendo à frente o Partido Bolchevique. a participação das mulheres trabalhadoras nos acontecimentos de fevereiro de 1917. No livro História da Revolução Russa. as mulheres soviéticas conquistaram direitos indispensáveis. serão. León Trotsky relata. eis que surge a união livre. sobretudo. vemos advir a grande família universal dos trabalhadores. iguais por seus direitos e por seus deveres.” Alexandra Kollontai 5 PÃO.

). a autocracia ou a guerra. Saíram a reluzir em diversas partes da cidade bandeiras vermelhas. pedindo-lhes que aderissem ao movimento.). Nenhuma organização fez um chamado à greve para esse dia. Seu espírito combativo se exteriorizava em manifestações. cujas consignas clamavam que os trabalhadores queriam pão. discursos. que a Revolução de Fevereiro começou pela base. com entusiasmo e sem vítimas. aconselhou que não se fizesse greve. O movimento teve início no bairro fabril de Viborg... As filas cada vez maiores na porta das padarias encarregaram-se de dar o último empurrão.Paoerosas87_102:Layout 1 28/2/2008 23:38 Page 88 88 ANDREA D ’ AT R I assembléias. . Era como pretender o impossível. dentre as quais pressupõe-se que muitas eram casadas com soldados. com a particularidade de que esta espontânea iniciativa partiu de um impulso do setor mais oprimido e coibido do proletariado: as operárias do ramo têxtil... (. As massas — como relata Kajurov. comícios e confrontos com a polícia. Manifestações de mulheres nas quais perfilavam somente operárias se dirigiam em massa à Câmara Municipal pedindo pão.). pois. em caso de manifestações operárias. manifestos etc. No dia seguinte. No dia 23. (.).. (.. as operárias de algumas fábricas têxteis se declararam em greve e enviaram delegadas ao setor metalúrgico. o Comitê do bairro operário de Viborg..). os soldados seriam tirados dos quartéis contra os trabalhadores. mas não queriam. propagando-se aos bairros de Petersburgo. O Dia da Mulher ocorreu com êxito. É evidente.. vencendo a resistência das próprias organizações revolucionárias.. Não passava pela cabeça de ninguém que o Dia da Mulher pudesse converter-se no primeiro dia da revolução. cerca de 90 mil operárias e operários se declararam em greve. em troca. (. Já era de se esperar que.. (. A organização bolchevique mais combativa de todas. um dos militantes operários do bairro — estavam frenéticas: cada movimento de greve ameaçava converter-se em choque aberto. ignorando as orientações dadas.

(. se envergonham. ganha mais força: em 24 de fevereiro a greve abrange cerca da metade dos operários industriais de Petrogrado. A guarda montada abre o fogo. as fileiras se abrem. mas próxima e acessível. A mulher operária representa um grande papel na aproximação entre os operários e os soldados. a greve fortaleceu-se ainda mais. Segundo os dados do governo. O soldado da cavalaria se eleva por cima da multidão. O grito de “pão!” desaparece ou é substituído por “abaixo a autocracia!” e “abaixo a guerra!”. paralisam-se as vias. organizam comícios e na saída dirigem-se em manifestação ao centro da cidade. Procuram organizar comícios nas ruas. Ao meio-dia. e seu espírito se ergue separado do grevista pelas quatro patas da besta. já adere à greve um número considerável de pequenas empresas. No transcurso desse dia.. milhares de pessoas afluem rumo à catedral de Kazan e às ruas adjacentes. Os elementos mais atrasados se expressam por trás da vanguarda. pega os fuzis com suas mãos. o movimento grevista. ao lado. estremece no ar um urra entusiasta e agradecido. Com maior audácia que o homem. um deles se decide: as baionetas desaparecem. neste dia cerca de 240 mil operários estiveram presentes.. Os soldados se comovem. envolvêla com seu alento inflamado. olhá-la nos olhos. os soldados se . A infantaria está ali mesmo.). a greve ganha a adesão dos estudantes universitários. (. parecem inquietos. quase ordena: ‘Desviem as baionetas e venham conosco’. Um orador cai ferido. implora..Paoerosas87_102:Layout 1 28/2/2008 23:38 Page 89 AS M U L H E R E S N O P R I M E I R O ES TADO OPERÁRIO DA HISTÓRIA 89 No dia seguinte. A massa tenta se aproximar. Os trabalhadores se apresentam pela manhã nas fábricas. penetra nas fileiras dos soldados. Uma figura vista desde baixo aparece sempre mais ameaçadora e terrível. produzem choques armados com a polícia. longe de decair. fecham-se os estabelecimentos comerciais. Novos bairros e novos grupos da população aderiram ao movimento. mas se recusam a entrar no trabalho.). No dia 25.. vacilam.

. opera-se irresistível fortalecimento das massas em um novo sentido. com suficiente clareza.Paoerosas87_102:Layout 1 28/2/2008 23:38 Page 90 90 ANDREA D ’ AT R I vêem cercados de gente que discute.. soldados sem fuzis. Sarpe. quando mobilizaram quase 10 milhões de homens — em sua maioria camponeses —. (. querem conseguir o que lhes pertence.. capotes desabrochados. alegrias infundadas. A revolução soa como indefesa aos coronéis. alarmes falsos. as namoradas. 1985. parece que bastaria entrar nesse caos de espada na mão para destruí-lo sem deixar rastros. turbilhões humanos. Em suas costas. já carregam uma derrota histórica irreparável. porque ainda é terrivelmente caótica: por todos os lados. chegando a representar 72% dos trabalhadores rurais. Madrid. Não há como voltar atrás. (. o que querem. repreende e incita: a revolução dera outro passo à frente. . Sob este caos. As incalculáveis multidões ainda não definiram. e com eles estão as operárias. as mulheres se converteram em operárias agrícolas.). Mas é um grosseiro erro de visão. meninos que disparam ao vento. Nas fábricas. Essas mulheres 1 León Trotsky. (. estudantes que gesticulam. O caos não é nada mais que aparência. fuzis sem soldados. Assim amanheceu sobre a Rússia o dia da derrubada da monarquia dos Romanov. a 50% em 1917. movimentos sem objetivos. Os operários não se rendem.). verbalmente decididos. passaram de 33% da força de trabalho em 1914. torrentes confluentes.. pela escassez de força de trabalho masculina. turbilhão de rumores desenfreados. Historia de la Revolución Rusa.). ainda que seja sob uma chuva de chumbo.1 Anteriormente dissemos que as mulheres. as irmãs. não retrocedem. figuras assombradas. clamor de milhares de vozes. mas estão impregnadas de um ódio ardente pelo que não querem.. durante a guerra. Na Rússia.. se incorporaram massivamente à produção. durante a Primeira Guerra Mundial. as mães. as esposas.

à igualdade entre o matrimônio legal e o concubinato etc. as mulheres russas conquistaram o direito ao voto e à elegibilidade. a revolucionária Alexandra Kollontai cumpriu papel preponderante: primeira mulher eleita pelo Comitê Central do Partido Bolchevique em 1917 e a primeira a ocupar cargo de governo no novo Estado: Comissária do Povo para a Saúde. Porém. chefe do governo provisório. quando volta às fileiras do bolchevismo.3 2 3 Alexandre Kerensky (1881-1970). enquanto as mulheres operárias foram a vanguarda das mobilizações revolucionárias de fevereiro.Paoerosas87_102:Layout 1 28/2/2008 23:38 Page 91 AS M U L H E R E S N O P R I M E I R O ES TADO OPERÁRIO DA HISTÓRIA 91 trabalhadoras. intelectual. carreira diplomática que a afastou de Moscou até 1945. Em 1922. como Inglaterra e EUA. foi a primeira mulher embaixadora no mundo. as mulheres mais instruídas — liberais burguesas e nobres — na noite do assalto ao Palácio de Inverno conformaram um Batalhão Feminino que tentou defender a sede do governo czarista frente aos operários insurrectos. Com a revolução proletária de outubro de 1917. reivindicando pão. à eliminação do poderio matrimonial. Foi destituído pela revolução operária dirigida pelo partido bolchevique. após a derrubada do czar. que estabeleceu o poder dos conselhos operários (soviets). fundamentalmente as operárias têxteis. Na elaboração da nova legislação. respectivamente. filha de um general. Sob o governo provisório de Kerensky 2. Emigra aos EUA durante a guerra. antes das mulheres dos países capitalistas o direito ao divórcio. segundo o calendário ortodoxo russo. Membro do partido desde 1899. Direito promulgado em 20 de julho de 1917. paz e liberdade. foi conquistado em 1918 e 1920. e retorna à Rússia . ao aborto. Alexandra Kollontai (1872-1952). que se constituiu como resultado da revolução de fevereiro que derrotou o czar. de fevereiro a outubro de 1917. em 23 de fevereiro de 1917 tomaram as ruas. Nos países mais desenvolvidos do mundo. bolchevique em um primeiro momento e depois menchevique até 1915. as mulheres soviéticas conquistaram.

esta igualdade só é possível de se realizar mediante a derrota do sistema capitalista e sua substituição pelas formas econômicas comunistas. mas real da mulher. lavanderias e refeitórios coletivos. de 1920.5 As tarefas domésticas. “O direito eleitoral não suprime a causa primordial da servidão da mulher na família e na sociedade e não soluciona o problema das relações entre ambos os sexos.4 De pouco teria servido o direito ao voto se as mulheres — escravas domésticas. uma verdadeira emancipação do jugo secular. III Congresso da Internacional Comunista). ocupando altos cargos de governo. 40 milhões de famílias soviéticas continuarão sendo. mas ter assentado as bases para pleno e verdadeiro acesso da mulher aos domínios culturais e econômicos. não formal. A família e o Estado comunista. ao unir toda uma geração pela solidariedade e pela assistência mútua. as que não tinham nenhum acesso à produção. segundo a definição de Lênin — continuassem sendo únicas a arcar com as obrigações do ambiente familiar. Ou seja. hospitais. em sua grande maioria. Enquanto esta obra não for concretizada. cinemas. realizadas pelas mulheres. a conquista mais importante da revolução não foram as leis. dirigente da Revolução Russa. A igualdade. só é possível sob um regime em que a mulher da classe operária seja a possuidora de seus instrumentos de produção e distribuição. as mais limitadas no acesso à educação.Paoerosas87_102:Layout 1 28/2/2008 23:38 Page 92 92 ANDREA D ’ AT R I Porém. jardins de infância. alentando a participação das operárias na condução e administração do Estado soviético. participe em sua administração. teatros. A nova moral e a classe operária. e conseqüentemente. segundo os revolucionários. 4 5 durante a revolução. de maneira individual e isolada. .” (Teses para a propaganda entre as mulheres. deviam ser substituídas. ao casal. Alexandra Kollontai foi autora de As bases sociais da questão feminina. devia proporcionar à mulher. tendo a obrigação de trabalhar nas mesmas condições que todos os membros da sociedade trabalhadora. por um sistema de serviços sociais garantidos pelo Estado: creches. no lar. A absorção completa das funções econômicas da família pela sociedade socialista. Entre os documentos anexos está um discurso de Lênin.

e de uma juventude disciplinada por 40 milhões de lares que servem de apoio à autoridade e ao poder. 1938.7 Além da imperiosa necessidade econômica. refeitórios etc. tais como creches. a afirmação da burocracia stalinista no poder do Estado após a morte de Lênin desenterrou o velho culto à família. não foi possível tomar por assalto a antiga família. das humilhações cotidianas do filho. Os recursos reais do Estado não correspondiam aos planos e às intenções do partido comunista. que restringiu o desenvolvimento da socialização dos serviços. A experiência revelou nitidamente esta dura verdade. da servidão e da histeria da mulher. La revolución traicionada. Por desgraça.6 FILOSOFIA DE SACERDOTE. PUNHO DE GENDARME Não obstante. tal como aponta o dirigente da revolução russa León Trotsky. . lavanderias. Idem. As. pois o novo regime tinha a necessidade de uma hierarquia estável das relações sociais. A família não pode ser abolida: é preciso substituí-la. a sociedade foi demasiadamente pobre e demasiadamente pouco civilizada. Bs.. A verdadeira emancipação da mulher é impossível no terreno da miséria socializada.Paoerosas87_102:Layout 1 28/2/2008 23:38 Page 93 AS M U L H E R E S N O P R I M E I R O ES TADO OPERÁRIO DA HISTÓRIA 93 vítimas dos costumes medievais. a desigualdade crescente entre uma camada de administradores e membros do partido e o conjunto da classe operária soviética se expressava também entre as mulheres. formulada há cerca de 80 anos por Marx. Claridad. 6 7 8 León Trotsky. Idem. das superstições de um para com o outro.8 Como não podia ser diferente.

Em 1934. leva seus filhos ao jardim de infância.10 Stalin declara em 1936: O aborto que destrói a vida é inadmissível em nosso país. cozinha. é proibida a homossexualidade e a prostituição se converte em delito. junto à supressão da seção feminina do Comitê Central e seus equivalentes nos diversos níveis de organização partidária. que revela a idolatria à família e ao papel materno das mulheres. políticos e culturais essenciais enquanto durar a miséria e a opressão familiar. se institui novamente o matrimônio civil como única união legal. que dizia: O poder revolucionário deu a toda mulher o direito ao aborto. está um texto sobre a defesa dos direitos da mãe e do filho na URSS. um telefone para fazer seus pedidos aos armazéns.9 Quão distantes estão essas palavras das pronunciadas por Trotsky. concebe a vida. contrariando por completo o espírito emancipatório e igualitário da Revolução Russa e dos dirigentes bolcheviques revolucionários. . Nenhuma etiqueta socialista pode ocultar esse contraste social. Não respeitar à família se converte em conduta “burguesa” ou “esquerdista” aos olhos da burocracia termidoriana. sob o regime stalinista. A mulher soviética tem os mesmos direitos que o homem. que não é menor ao que diferencia em todo país do Ocidente a dama burguesa da mulher proletária. digam o que disserem os eunucos e as solteironas de ambos os sexos.Paoerosas87_102:Layout 1 28/2/2008 23:38 Page 94 94 ANDREA D ’ AT R I A partir de 1926. um de seus direitos cívicos. mas isso não a exime do grande e nobre dever que a natureza lhe designou: é mãe. comunista respeitada. sob o regime de Stalin. Idem. em nada se assemelha às condições da operária que vai ao mercado. A condição de mãe de família. um carro para o transporte etc. que tem uma empregada doméstica. Mais tarde é abolido o direito ao aborto. 9 10 Entre os documentos anexos.

. em 1944. de punho de gendarme. a autorização da tortura e dos fuzilamentos massivos e arbitrários. Da mesma maneira que Marx e Engels combateram no interior da I Internacional para manter o espírito revolucionário. traindo abertamente a classe operária mundial. foi criada a ordem da “Glória Materna” para a mulher que tivesse entre sete e nove filhos. aumentam as consignações familiares. Rosa Luxemburgo. abandonando a II Internacional quando a maioria aceitou participar da guerra imperialista.11 Idem. um dos máximos dirigentes 11 Filosofia de sacerdote que dispõe. cumpria papel cinicamente contra-revolucionário. Clara Zetkin. inclusive. abolida em 1917 e o divórcio se converte em um trâmite custoso e cheio de dificuldades. A III Internacional. e o título de “Mãe Heróica” para quem tivesse mais de dez. MULHERES OPOSICIONISTAS Em 1938.Paoerosas87_102:Layout 1 28/2/2008 23:38 Page 95 AS M U L H E R E S N O P R I M E I R O ES TADO OPERÁRIO DA HISTÓRIA 95 Ao criticar os argumentos reacionários que esgrime a burocracia para reinstalar a proibição do aborto acrescenta: O retrocesso nas conquistas revolucionárias é acompanhado pela implementação da pena de morte a partir dos 12 anos. Lênin e Trotsky tentaram manter o fio de continuidade com essas experiências. que acabaram com a geração de velhos bolcheviques e com todos aqueles que se atreveram a expressar oposição ao regime stalinista. Leon Trotsky defendeu que era necessário retomar as bandeiras revolucionárias sob outra Internacional. Os filhos ilegítimos voltam a essa condição. estrangulada pela política de Stalin. Anos mais tarde.

Na época dos processos fraudulentos de Moscou. espionagem e “trotskismo”. Agora. instigados pelo regime stalinista contra os principais dirigentes da revolução de 1917 e contra todos aqueles que se opunham à sua política. . ignoram tanto a juventude como a mulher trabalhadora. encontramos os 12 As organizações oportunistas. A parte sobre a juventude e a mulher trabalhadora está entre os documentos anexos no final deste trabalho. por conseguinte. de 1938. que havia se degenerado irremediavelmente frente às provas da história. A IV Internacional surgiu. centram principalmente sua atenção nas camadas superiores da classe operária. por sua própria natureza. Idem. então. sob acusações de sabotagem. e a capacidade de desenvolver um programa à luz da experiência das massas. não por acaso a IV Internacional bordou em suas bandeiras a consigna de “A frente a mulher trabalhadora! A frente a juventude!”. os oposicionistas ao regime de Stalin eram perseguidos. o declínio do capitalismo desfere seus golpes mais fortes à mulher. Entre os milhares de oposicionistas deportados. enquanto trabalhadora e enquanto dona de casa. desterrados. as mulheres foram entre 12% e 14% dos comunistas detidos em campos de concentração. presos e assassinados. declarando em seu programa que Por sua especial atenção aos setores mais explorados da classe operária. Em seu programa lê-se: uma política correta é composta por dois elementos: uma atitude inflexível frente ao imperialismo e suas guerras. presos e fuzilados. mais conhecido como Programa de Transição.Paoerosas87_102:Layout 1 28/2/2008 23:38 Page 96 96 ANDREA D ’ AT R I da revolução de outubro abandonava a III Internacional.12 Antes da fundação da IV Internacional.13 13 Extratos do documento A agonia do capitalismo e as tarefas da IV Internacional. e.

Trotsky não assina essa declaração. Smirnov. ainda que os seus autores tomem algumas de suas posições. alinhando-se com a ala esquerda dos bolcheviques desde 1903. Em 1924. Viveu sua primeira infância em Viena. Nadejda Joffe. De volta à Rússia em 1917 — onde seu pai foi um dos diplomáticos mais iminentes da jovem república soviética15-. Tatiana Miagkova. Adolfo Joffe foi embaixador na Alemanha nas vésperas da revolução de novembro de 1918 e depois embaixador na China. estão Preobajensky. Entre os mais conhecidos. como gesto de protesto contra a burocracia. aos 45 anos de idade. . e convivia com o filho de Trotsky. Em seu regresso à Rússia. porque a maioria da direção (Politbureau) não tinha nenhuma política nesse sentido e não via a necessidade da planificação da indústria. desempenhou papel dirigente no levante de Kiev e na guerra civil. dentre muitas outras mulheres que valentemente travaram sua luta contra o stalinismo sob as piores condições. Em 1913.14 Eugenia se suicidou em 1924. participou de atividades clandestinas. Protestavam também contra o burocratismo. é deportada por suas atividades revolucionárias e dois anos mais tarde consegue escapar e refugiar-se nos EUA. sempre junto a León Sedov. na qual 46 membros do partido bolchevique criticavam a posição da direção stalinista. sendo presa e 14 15 Declaravam que o país estava ameaçado pela ruína econômica. Logo estava entre os assinantes da “Declaração dos 46”.Paoerosas87_102:Layout 1 28/2/2008 23:38 Page 97 AS M U L H E R E S N O P R I M E I R O ES TADO OPERÁRIO DA HISTÓRIA 97 seguintes nomes em destaque: Eugenia Bosch. Belovodorov e Serebriakov. grande amigo de Trotsky até sua morte. León Sedov. Após o suicídio de seu pai. como gesto de protesto contra o regime stalinista e a ilegalidade da oposição de esquerda em 1927. aderiu às juventudes comunistas. que tinha a mesma idade. Eugenia Bosch nasceu em 1879 e em 1900 se filiou ao partido social-democrata russo. onde seu pai preparava a difusão do jornal Pravda na Rússia. aderiu à oposição de esquerda dentro dessa organização. Nadejda era filha de Adolfo Joffe. após a revolução de fevereiro de 1917.

participou da ação revolucionária e foi presa. Cidade e porto da URSS na Sibéria Oriental.19 Ainda estudante. 19 Em 1988.18 A história de Tatiana Miagkova (1897 . convencida pelo exemplo e influência de Christian Rakovsky16 — que decidiu capitular ao regime stalinista. formada — como se dizia — no vento da tundra. Presa novamente em 1936. não é libertada definitivamente até 20 anos depois. Em 1934. aderiu ao 16 17 18 Christian Rakovsky (1837-1941). em Moscou. na Casa da Aviação. Quando liberada. Seu companheiro. Região no extremo oriental da Sibéria. zona industrial e de jazidas auríferas. Aleksandra e Sieva. nos EUA. Lá conheceu Pierre Broué. depois de anos de perseguição e reclusão em condições subumanas nos campos de concentração do regime stalinista. se consagra à luz da memória de seu pai e de seus camaradas e funda a associação Memorial. Principal dirigente da oposição de esquerda na Rússia desde que Trotsky fora enviado ao exílio. Nadejda o imita. diretor do Institute Leòn Trotsky com sede na França e um dos historiadores do partido bolchevique e do movimento trotskista internacional de maior peso.1937) é outro exemplo do que ocorria com aqueles que aderiam às idéias de Trotsky opondo-se à burocracia stalinista. Pavel Kossakovsky. Tatiana é uma entre 6 mil trotskistas assassinados em 1937. cheia de fogosidade e de humor. separados havia mais de meio século. em 1956. Libertada pela revolução de fevereiro de 1917. Socialista romeno-búlgaro. em 1938. capitula em 1934. . Bastante ativa. membro do Comitê Central do partido bolchevique após a revolução de 1917 e presidente do Conselho de Comissários do Povo da Ucrânia. Logo lamenta ter tomado a iniciativa e se retrata. presidiu reunião de mais de mil pessoas consagrada a León Trotsky e aos seus. Nadejda possibilitou. invocando a ameaça nazista contra a União Soviética —. Foi embaixador da URSS na França de 1925 a 1927.Paoerosas87_102:Layout 1 28/2/2008 23:38 Page 98 98 ANDREA D ’ AT R I deportada em 1928. foi fuzilado em um campo de concentração em Kolyma17. irmão e irmã. o encontro de dois netos de Trotsky. Era grande oradora. participou de inúmeros congressos e conferências e realizou com Sieva Volkov e Pierre Broué um ciclo de conferências sobre Trotsky. somente no porto de Magadan. nessa oportunidade.

Kamenev e Trotsky. em fevereiro de 1929. passou à clandestinidade para assegurar o contato com os destacamentos do Exército Vermelho em retirada. aderiu à “Oposição Unificada”. o principal dirigente da oposição na União Soviética após a expulsão de Trotsky. Tatiana Miagkova foi exilada com outras duas oposicionistas: Sônia Smirnova e Maria Varchavskaia. Publicou suas memórias desse período na revista Letopis Revolioutsii. em junho de 1926. propôs levantar um fundo de ajuda aos exilados. conformam a oposição unificada. Em 1926. de fevereiro de 1926. de Stalin. Acusada de ter reeditado e difundido um folheto da oposição foi condenada ao exílio por três anos no Cazaquistão. Também se definem pelo retorno à democracia operária no interior do partido. recrutou jovens da região para a oposição. reproduziu e difundiu documentos da oposição entre os membros do Partido Comunista e jovens comunistas de Astrakán. Seu marido. que se levanta contra a teoria do socialismo em um só país. sobre o mar Cáspio. contra a política de Bukhárin sobre os camponeses e o “avanço ao socialismo a passos de tartaruga”. ao longo de longas e difíceis discussões com 20 Zinoviev. Em 1928. . que até seu último dia manteve a integridade de suas posições políticas. Lá continuou sua atividade de oposicionista: com outros membros exilados da oposição. foi enviada ao exílio em Astrakán. em 1927.Paoerosas87_102:Layout 1 28/2/2008 23:38 Page 99 AS M U L H E R E S N O P R I M E I R O ES TADO OPERÁRIO DA HISTÓRIA 99 partido bolchevique em 1919. Tornou-se secretária de Christian Rakovsky. Durante a ocupação da cidade de Kiev pelas tropas do general czarista Denikin. organizou um grupo que se reunia em seu departamento. por ser “trotskista”. Comissário do Povo para as Finanças da República da Ucrânia. constituída por Trotsky. conta que Tatiana Miagkova. foi visitá-la para tentar convencê-la a renunciar a suas opiniões e à atividade oposicionista. Após o fim da guerra civil recomeçou estudos em Moscou e depois se estabeleceu na Ucrânia. Esta. Zinoviev e Kamenev capitulam no ano seguinte no XV Congresso do PC para poder continuar no partido. Zinoviev e Kamenev20 e é excluída do Partido Comunista russo.

acabou se rendendo aos seus argumentos renunciando publicamente às atividades políticas. enviaram-na a outro campo mais ao norte. KGB — condenou Tatiana Miagkova a cinco anos em um campo de concentração na região de Magadan. chegavam também a Magadan as duas velhas amigas trotskistas de Tatiana. a conferência especial da NKVD. Smirnova e Varchavskaia. de “estabelecer sistematicamente laços com os trotskistas”. mas logo chegará o fim de vossa arbitrariedade! O veredicto lhe reprova ser “uma trotskista desarmada”. Foi condenada ao fuzilamento. mercenários fascistas. Em um dia do outono de 1937 um comboio é detido próximo ao acampamento onde ela vivia. mas um guarda empurrou-a e ela protestou. todos os homens capazes de defender seu ponto de vista e de opor seu ponto de vista à direção suprema do país. Nesse mesmo momento. Em 12 de janeiro de 1933 é presa novamente e condenada a três anos de prisão e isolamento.Paoerosas87_102:Layout 1 28/2/2008 23:38 Page 100 100 ANDREA D ’ AT R I seu marido. insultou os guardas aos gritos: Fascistas. neste momento funcionário do aparato do comitê executivo central do PCUS. Porém. finalmente. todos os trotskistas. se estabelece em Moscou com o marido. todos os opositores. Quis dizer-lhe algo através das relhas de arado. depois denominada GPU e mais tarde. Segundo os relatos de uma de suas vizinhas. eu sei que seu poder não se regateia sequer às mulheres ou às crianças. continuou expressando opiniões que não haviam mudado. Depois. de ter feito greve de fome por seis meses e. lugar que os deportados chamavam de “crematório branco”. A filha de Tatiana escreve sobre estes acontecimentos: Reuniram-se em Magadan. Entre os prisioneiros transportados. ainda que Tatiana Miagkova tenha interrompido a atividade política. Em 28 de maio de 1936. . Em 1931. conferência especial da NKVD — nome da polícia secreta stalinista. reconhece um amigo trotskista.

A burocracia que usurpou a bandeira da revolução de outubro finalmente sucumbiu na podridão da história. como tentaram continuar seu combate ao stalinismo e como.Paoerosas87_102:Layout 1 28/2/2008 23:38 Page 101 AS M U L H E R E S N O P R I M E I R O ES TADO OPERÁRIO DA HISTÓRIA 101 A sentença é executada imediatamente. derrubouse frente à corrosão de uma profunda crise econômica e da mobilização das massas no fim da década de 1980. foram aniquilados durante estes anos é uma história grandiosa que contrasta com o fundo de tragédia nacional da época. O veredicto estipula: O historiador Birioukov. Recusa-se a trabalhar. escreveu à sua filha: Poliakov Benjamim Moiseevitch é acusado de ser membro do comitê trotskista contra-revolucionário e de ter participado da manifestação contra-revolucionária de Vladivostok. Ele era o número 49 de uma lista de trotskistas condenados à morte naquele dia por participar de manifestação em protesto contra o tratamento aos deportados. Redigiu e assinou petitórios e declarações contra-revolucionárias. . E o destino de sua mãe é um pequeno elo desta história horrorosa. para os trabalhadores da A história da maneira como foram enviados 6 mil presos trotskistas a Kolyma (e não 200. sem dúvida. com o desvio político dos processos revolucionários e o avanço da restauração capitalista. por fazer greve de fome e realizar atividades “trotskistas”. que esteve em Magadan em 1990 investigando o caso de Tatiana Miagkova e seus camaradas. novas misérias se somaram às já existentes. a conferência especial havia condenado seu amigo a ser fuzilado. Em um processo marcado por contradições. não podia durar eternamente. Alguns dias antes. porfim. como escrevi anteriormente) e de como estes últimos tentaram fazer justiça para si mesmos (reivindicando o status de prisioneiros políticos). Organizou o recrutamento de participantes da greve de fome participando da mesma. É o organizador de uma revolta no transcurso de seu traslado a Nagaievo. Não obstante. A “história horrorosa”.

a fome e a inflação provocaram o maior índice de alcoolismo. sequer o terror termidoriano de Stalin pôde varrê-las definitivamente.Paoerosas87_102:Layout 1 28/2/2008 23:38 Page 102 102 ANDREA D ’ AT R I ex-União Soviética. a queda do maior aparato contra-revolucionário do século XX significou a liberação da energia de milhões de explorados e oprimidos na ex-URSS e em todo o mundo. O capitalismo revelou-se não como o paraíso que se vendia nas publicidades pró-ocidentais. aprisionada na camisa de força imposta por esta direção traidora. Além disso. . vivendo abaixo da linha de pobreza e considerável aumento da prostituição e tráfico de mulheres aos países ocidentais. nas garras do capitalismo. E. máfias criminosas e outras misérias sem precedentes na Rússia. violência. o que só começou com a restauração capitalista. especialmente para as mulheres. Porém. lhe declaramos guerra até a morte. milhões de mulheres nas ruas com os filhos. As conquistas da revolução de 1917 foram marginalizadas pela burocracia stalinista. Nas experiências das mulheres soviéticas há fonte de tradições históricas na qual podemos beber os milhões de mulheres de todo o mundo que. só conhecemos opressão e miséria. sem dúvida. ainda que os efeitos imediatos sejam devastadores. O desemprego. por isso.

significou um verdadeiro pacto para evitar que os processos revolucionários que emergiam nos países centrais que haviam participado da contenda questionassem a ordem vigente. A destruição massiva de forças produtivas que resultou da guerra imperialista e papel do stalinismo no desvio e na derrota da revolução nos países centrais da Europa durante o pós-guerra constituíram as condições que possibilitaram o que ficou conhecido como o “boom” do pós-guerra. dada a quantidade de países do Leste europeu que se integraram à área 1 “O ponto mais alto da hegemonia norte-americana se deu quando o mundo emergiu da Segunda Guerra Mundial e foi reconhecida a Ordem de Yalta e Potsdam. Este repousava na superioridade econômica e militar dos EUA. Mas junto a esse aspecto contava com um instrumento fundamental que era a . a coexistência pacífica do imperialismo acordada com o stalinismo. no marco da derrota militar dos imperialismos do eixo e da enorme decadência dos aliados: Inglaterra e França.1 Com o fim da guerra. Ainda que tenha resignado seu domínio em quase um terço do globo.Paoerosas103_116:Layout 1 28/2/2008 23:41 Page 103 6 Entre Vietnã e Paris. os corpetes à fogueira “O pessoal é político” consigna do movimento feminista da segunda onda BOOM ECONÔMICO E BABY-BOOM O resultado da Segunda Guerra Mundial reconfigurou a economia e a política internacional.

” (J. não só as guerras atuaram reduzindo a composição orgânica do capital. o estabelecimento da hegemonia quase absoluta do imperialismo norteamericano no fim da segunda guerra foi fator que evidentemente não foi alcançado logo de primeira e se converteu em elemento fundamental de estabilização do conjunto da economia. “Assim. mas o disciplinamento da classe operária. Também não podemos descartar que o desenvolvimento posterior da Alemanha e do Japão (seus futuros competidores) e sua reconstrução foram impulsionadas pelo próprio imperialismo norte-americano. Nº 13. na base do enorme aumento da taxa de lucro que permitiu o boom.2 O crescimento econômico permitiu a cooptação do proletariado nos países centrais por meio da criação de grandes setores operários privilegiados pela manutenção e reprodução do consumo a partir dos benefícios sociais e do endividamento. respondendo em grande medida à necessidade política de desterrar o perigo da revolução. Chingo y E. 1999). mulheres da classe operária. a legislação fiscal etc. viúvas e esposas abandonadas se converteram nos grupos privilegiados pela política maternalista regida por algumas reformas que modificaram o direito trabalhista. a beneficência. estiveram. conquistaram enormes direitos quanto à maternidade. sob o chamado “estado de bem-estar”. o direito da família. permitiram um aumento enorme das taxas de mais-valia. Mães solteiras. a nosso ver. o seguro de saúde. O direito ao voto foi incorporado 2 colaboração contra-revolucionária de Moscou e do aparato stalinista mundial. Molina: “La guerra de los Balcanes y la situación internacional” em Estrategia Internacional Nº 13. configurando importante legislação social neste terreno. propiciado pelo stalinismo e pela colaboração posterior das próprias tropas de ocupação norte-americana. o imperialismo teve nesses anos um crescimento econômico sem precedentes. fundamentalmente dos países centrais. Desse modo. como contenção do proletariado e dos movimentos de libertação nacional. queda da composição orgânica do capital e altas taxas de mais-valia. Este acordo permitiu o assentamento da hegemonia norteamericana no pós-guerra.Paoerosas103_116:Layout 1 28/2/2008 23:41 Page 104 104 ANDREA D ’ AT R I de influência da União Soviética. Estes dois fatores. em Estrategia Internacional. . Do mesmo modo. 1999). as mulheres.” (Paula Bach: “Robert Brenner y la economía de la turbulencia global: algunos elementos para la crítica”.

banheiros equipados e todas as redes de serviços (gás. possibilitaram a redução dos riscos de mortalidade para mães e recém-nascidos. a maior inclusão nos âmbitos culturais e políticos. O fim da guerra deflagrou notável aumento da taxa de natalidade nos países centrais da Europa. Os avanços da medicina por um lado e. eletricidade). o que implica a reconfiguração das relações familiares.Paoerosas103_116:Layout 1 28/2/2008 23:41 Page 105 E N T R E V I E T N Ã E PARIS. Pouco depois. capazes de substituir a progenitora. conferiu às mulheres maior decisão sobre a reprodução. a partir dos últimos anos da década de 1950. o maior desenvolvimento científico. a tendência se inverte: as novas possibilidades de alimentação do bebê encurtaram o período de amamentação. que permitiu o aperfeiçoamento dos anticonceptivos hormonais e dos dispositivos intra-uterinos (DIU). que esse mesmo Estado impulsionou uma nova política sobre a família de tendência pró-natalista. ainda que a pressão das feministas tenha sido importante. Os custos da maternidade e todos os benefícios salariais com a família foram parte da importante redistribuição das crescentes rendas nacionais que viabilizaram a materialização dos benefícios. OS CORPETES À FOGUEIRA 105 na maioria das constituições dos países do mundo. liberando a mãe para atividades extradomésticas como o trabalho e o estudo. Por outro lado. a expansão econômica própria do período permitiu a presença crescente das mulheres no mercado de trabalho e. O lar das classes médias e dos setores mais acomodados do proletariado sofreu durante o período importante transformação estrutural: as novas moradias contavam com cozinhas em ambientes separados. é necessário reconhecer. permitindo que a tarefa fosse realizada por outras pessoas. a melhoria significativa da alimentação e da higiene. relações entre os gêneros e papel estereotipado da dona de casa. Por outro lado. Entretanto. água. fundamentalmente. por outro. eliminando algumas das . As mulheres se integraram massivamente à educação e à produção. como conseqüência. engendrando o que nos EUA ficou conhecido como o baby—boom.

A mudança é interpretada por algumas autoras como o motivo “subjetivo” que origina o movimento feminista da segunda onda. “Maternidad. Estado” em Historia de las mujeres de Occidente. Mas o boom econômico e a conseqüente estabilidade da luta de classes não duraram eternamente. retoma-se a perspectiva de que com a luta do proletariado no ocidente contra os governos imperialistas. com o fim do boom capitalista e o ascenso dos anos 1968-76. na assembléia popular boliviana. familia. fortalecem-se as tendências ao enfrentamento com os pilares da ordem de Yalta. Como conseqüência disto. que ficou conhecida como o “mal-estar das mulheres”. ressurgem as tendências à independência de classe que se expressa nos cordões industriais chilenos. . N. nos conselhos de inquilinos e 3 Lefaucher. Até o final dos anos 1960. Isso foi necessário. por sua vez. op. O trabalho feminino. permitindo a ascensão social e maior obtenção de bens de consumo. Também o uso de eletrodomésticos significou alívio a outras tantas. contra a burocracia stalinista no leste e contra as burguesias próimperialistas nas semicolônias.. para aumentar o salário familiar. para a produção de bens e serviços. inclusive a inserção das mulheres das classes médias no mercado como força de trabalho. a desinstitucionalização e a precarização do vínculo conjugal.” 3 Essa mudança profunda nas relações entre os gêneros incitou uma transformação na subjetividade feminina. aumentando o bem-estar e a qualidade de vida. o produto final da transformação do papel tradicional das mulheres em seu lar se materializa “na desvalorização funcional do casamento e da família como desígnio. Em última instância. converteu-se em um salário adicional à família. Tudo isso permitiu liberar as mulheres. material e ideologicamente. cit.Paoerosas103_116:Layout 1 28/2/2008 23:41 Page 106 106 ANDREA D ’ AT R I tarefas mais pesadas dos afazeres domésticos. sobretudo nos setores de serviços e oficinas.

y Sanmartino. “La historia del marxismo y su continuidad leninista-trotskista es la del álgebra de la revolución proletaria” em Estrategia Internacional Nº 10. mas todavia não foram derrotadas. 1998. lutas contra a opressão nacional. no trabalho. soldados na revolução portuguesa etc. mente liberal”.Paoerosas103_116:Layout 1 28/2/2008 23:41 Page 107 E N T R E V I E T N Ã E PARIS. E. faixas e cílios postiços em uma dita “lixeira da liberdade”. na educação. Denunciam o sexismo na política. um novo movimento de libertação da mulheres resplandece. J. Um número cada vez maior de mulheres passa a participar de campanhas pelo direito ao aborto e aos anticoncepcionais. OS CORPETES À FOGUEIRA 107 Durante o período em que ressurgiu a luta de classes. algumas mulheres norte-americanas outorgaram a coroa de Miss América a uma ovelha e jogaram sutiãs. Sem dúvida. Em 1968. novembro de 2002. das minorias negras e homossexuais e o poderoso movimento contra a guerra imperialista no Vietnã. um grupo de mulheres francesas colocou uma coroa de flores no Arco do Triunfo em honra à . Grande parte do conteúdo deste capítulo e do próximo é uma reelaboração do meu artigo “El feminismo y la democracia radical. contra toda restrição legal à igualdade. pelo estabelecimento suficiente de cheches.4 LIBERDADE. na mídia e na vida cotidiana.. O processo revolucionário foi desviado no centro e esmagado de maneira contra-revolucionária na América Latina.. de forma massiva nos países centrais influenciando pequenos setores de mulheres das classes médias nos países periféricos. pode-se dizer que a ordem de Yalta e suas direções apoiadoras se debilitaram. Em 1970. manifestações estudantis.6 4 5 6 Albamonte. IGUALDADE E SONORIDADE 5 Frente a um cenário marcado por greves econômicas e políticas.. em ambos os hemisférios. as mulheres entram em cena na política internacional. publicado em Lucha de Clases Nº 1.

um é uma mulher”. Grande conquista do movimento norte-americano de mulheres. Como vimos. que reuniu centralmente mulheres de classe média. Em 1966. na construção. Uma das principais consignas do movimento massivo de mulheres foram as de “salário igual por trabalho igual” e contra a dupla jornada que sobrecarrega as mulheres com as tarefas domésticas após a jornada de trabalho fora de casa. o Movimento de Libertação das Mulheres (WLM). combinadas com as crescentes contradições do sistema capitalista. de acordo com o país. Quanto aos postos ocupados no mercado de trabalho. desde 1945 ocorria em todos os países proliferação de leis. Neste ano. a diferença entre os salários masculinos e os femininos prevalece até 1968.Paoerosas103_116:Layout 1 28/2/2008 23:41 Page 108 108 ANDREA D ’ AT R I Ainda que o movimento feminista ressurgisse fundamentalmente entre estudantes e donas de casa de classe média. Betty Friedan funda a Organização Nacional de Mulheres (NOW). outra com a seguinte frase: “A cada dois homens. banco. para em 1975 chegar a uma margem entre 25% e 35%. junto a ela. nas obras públicas e transportes. serviços). o direito a salário igual por trabalho igual. nos EUA. entre outras coisas. Não obstante. . regulamentações. Em 1971 a organização passa a ter mais de 10 mil membras apesar de no ano de sua fundação sofrer uma ruptura por mulheres jovens e solteiras que deram à luz a um movimento mais radicalizado. decretos nacionais e internacionais que proclamavam. as suas reivindicações. casadas e com filhos. as mulheres estão particularmente representadas no setor terciário (comércio. permitiram mobilizar setores muito mais amplos. quando a diferença diminui. as mulheres que trabalham fora de casa realizam o triplo do trabalho doméstico levado a cabo pelos homens. impulsionada de maneira conjunta pela NOW e WLM foi a esposa desconhecida do soldado desconhecido e. prevalecendo como ínfima minoria nas indústrias manufatureiras.

na França. no ano seguinte. de her story (história dela). Isto deu vazão a uma declaração de apoio de 86. essencialmente. Daí a contraposição com o nome de Herstory. 343 mulheres célebres afirmavam publicamente ter realizado abortos voluntários e. aborto e violência sexual. Essas ciências funcionavam como veículos dos preconceitos mais 7 8 A solicitação. Finalmente. incorporaram os Estudos de Gênero. questionaram a História por esta ter sido descrita.7 Para além das lutas pelos direitos democráticos o feminismo da segunda onda se interessou pela reconstrução da história das mulheres. em 1974. O Movimento pela Liberalização do Aborto e da Contracepção na França abriu numerosas clínicas ilegais de aborto até 1975. Isso abriu amplo campo nas universidades que. quando o direito foi legalizado. Em 1971. Outro ponto importante do ataque das mulheres foram as políticas sobre direitos reprodutivos. Ao mesmo tempo. Em inglês. cifra que chegou a vários milhões de dólares. ou também denominados Estudos Feministas no âmbito acadêmico. a palavra History soa da mesma maneira que His Story (história dele). As historiadoras. .8 As feministas acadêmicas questionaram os postulados da antropologia. economia e história.500 assinaturas de mulheres que confessavam ter feito o mesmo. é permitido o aborto livre durante os três primeiros meses de gravidez sob algumas restrições. sociologia.Paoerosas103_116:Layout 1 28/2/2008 23:41 Page 109 E N T R E V I E T N Ã E PARIS. OS CORPETES À FOGUEIRA 109 jurisdição imposta às companhias de telégrafos e telefones para que pagassem as diferenças retroativas de salário — em relação ao salário masculino — correspondente às empregadas mulheres. Estudos das Mulheres. por exemplo. 365 mulheres famosas alemãs publicaram em uma revista que haviam abortado. psicanálise. a partir dessa época. apresentada ao Ministério Federal da Justiça. pelos homens (History) e apelaram à construção de uma história das mulheres (Herstory). as origens da opressão e as implicações das diferenças de gênero em todas as áreas. chamada de “as 300 sem-vergonhas” está reproduzida com suas assinaturas entre os documentos anexos. se somaram 345 médicos que declaravam tê-lo praticado.

As análises tomavam cada vez menos a mulher como eixo e centravam-se nos esquemas de classe. Leonor Calvera. cujas principais expressões foram os cordões industriais chilenos.10 Mais tarde.Paoerosas103_116:Layout 1 28/2/2008 23:41 Page 110 110 ANDREA D ’ AT R I tradicionais contra as mulheres. feministas de diversos países se reúnem em Bruxelas para o Tribunal Internacional de Denúncias de Crimes Contra as Mulheres. Grupo Editor Latinoamericano. O surgimento desses grupos se deu no marco de uma aguda radicalização da luta de classes que na América Latina se manifestou no ascenso operário e popular. E novamente ressurgem os sentimentos internacionalistas: em 1976. Influenciadas pelas experiências e contato com a literatura proveniente dos países centrais. na Argentina. portanto. a semi-insurreição do Cordobaço. Os grupos feministas latino-americanos. Bs. Mujeres y Feminismo en Argentina. 1990. Como afirma Leonor Calvera em sua história do feminismo argentino: No sentido dos enfrentamentos. muitas latino-americanas — sobretudo de classe média — deram início à formação de grupos de reflexão (conscientização) e ativismo pelos direitos das mulheres. se viram envolvidos rapidamente pela aguda luta de classes que exigia definições e compromissos. a derrota desse ascenso da luta de classes a partir da contra-revolução sangrenta nos países latino-americanos inaugurou o curso de 9 10 Entre os documentos anexos reproduzimos alguns panfletos de grupos feministas da Argentina das décadas de 1970 e 1980. as mobilizações estudantis — principalmente em Tlatelolco (México). a maré do partidarismo que nos cercava não deixou de nos golpear fortemente no interior do grupo: reproduzimos velhos antagonismos tradicionais e inventamos outros..9 Mas o movimento de conjunto nunca chegou a ser massivo como nos países centrais. As. considerada a experiência mais aguda — e a entrada em cena de numerosos movimentos de guerrilha urbana e camponesa. em meados dos anos 1970. .

. A polarização social vivida por nossos países também se traduzia nas visões lançadas sobre o feminismo: a direita considerava as feministas subversivas e contestatórias. mas também pela perseguição política e pelo terrorismo de Estado. a Primavera de Praga. pintava-as de “pequeno-burguesas”. estudantis e políticos. Por isso. não pode ser interpretada senão no marco do movimento insurrecional vivido em todo o mundo com o Maio Francês. os fios de continuidade com a etapa anterior. a esquerda. RADICAIS E SOCIALISTAS CONTRA O PATRIARCADO A perspectiva mais geral do movimento feminista dos anos 1970 é antiinstitucional. instalados os regimes democráticos. com a derrubada das ditaduras e a instauração dos novos regimes democráticos burgueses em toda a região. Em certo sentido. as mobilizações estudantis e pacifistas nos EUA contra a Guerra do Vietnã. com seqüelas de torturas. As ditaduras conseguiram cortar. pelo contrário. depois conhecida como “neoliberalismo”. os anos do terror obrigaram as feministas latinoamericanas a “voltar ao início”. exílios forçados. OS CORPETES À FOGUEIRA 111 uma nova ofensiva imperialista na região. não só pela instauração de uma ideologia reacionária baseada na defesa da tradição e da família. Os planos iniciais do feminismo dos anos 1970 tornam a ser eixo de discussão. o Cordobaço na Argentina etc. em grande medida. Os regimes ditatoriais que se assentaram em grande parte de nosso continente impediram o desenvolvimento do movimento feminista.Paoerosas103_116:Layout 1 28/2/2008 23:41 Page 111 E N T R E V I E T N Ã E PARIS. o Outono Quente italiano. prisão. desaparecimentos e assassinatos de ativistas sociais. o certo é que o movimento feminista latino-americano recupera o protagonismo logo no início dos anos 1980. Apesar de alguns grupos realizarem ações durante os regimes totalitários e outras mulheres manterem reuniões de reflexão e estudo em meio a um clima de hostilidade.

rechaçando o determinismo biológico do “sexo” ou a “diferença sexual”. pelos métodos empregados na luta contra essa opressão. algumas mulheres aderiram ao que ficou conhecido por “feminismo da igualdade”. trata-se de lutar para eliminar as diferenças de gênero socialmente construídas. segundo o qual o gênero é contextualizado como social. Não obstante. por conseguinte. haviam sido de exclusivo domínio masculino. As tendências mais radicalizadas foram impulsionadas por mulheres que provinham de outras organizações ou movimentos de emancipação. até o momento. pois tais diferenças reforçariam a exclusão e a opressão das mulheres quando o objetivo . As feministas radicais se diferenciavam do denominado “feminismo liberal” que apenas se restringia a reformas que incluíssem as mulheres no mesmo sistema. Constituíram movimentos autônomos e radicais. não determinado pela anatomia. deslocando-se das mobilizações de rua rumo a outros âmbitos. Em outras palavras. Muitas eram marxistas. como se deixava entrever da experiência do chamado “socialismo real” e da experiência pessoal que cada uma viveu nos exércitos guerrilheiros e em outras organizações partidárias de esquerda. Mas. sendo necessário transformá-lo profundamente. universidade. com experiências políticas e militantes de esquerda. tendo em vista equiparar seus direitos aos direitos adquiridos pelos homens. as diferentes tendências dentro do movimento feminista se definiam em torno das diversas interpretações de opressão. permitindo o acesso das mulheres aos mesmos cargos de poder que.Paoerosas103_116:Layout 1 28/2/2008 23:41 Page 112 112 ANDREA D ’ AT R I Somente na década de 1980 o movimento feminista iniciará o processo de reconciliação com instituições. porque consideravam que sua luta era contra um sistema patriarcal. e os partidos de esquerda não faziam mais que reproduzi-lo. mas repudiavam a discriminação à qual se viam submetidas em suas organizações políticas. partidos políticos e Estado. para as feministas da igualdade biologia não significa destino. por enquanto. utilizados habitualmente para justificar a discriminação das mulheres. Pelo contrário.

que se atreveram a questionar as bandeiras burguesas que não contemplavam seus direitos como cidadãs. As liberais defendendo a necessidade de reformas no capitalismo para melhorar a situação das mulheres e as socialistas propondo a revolução socialista como política global dentro da qual se incluiriam as demandas específicas das mulheres. Feministas de diversas tendências no início da segunda onda do movimento encontraram fundamento para suas posições na concepção política da igualdade. Essa corrente se demarca nas estruturas racionais comuns a todos os sujeitos. As mulheres da Revolução Francesa. e as que globalizavam o próprio feminismo como teoria política. As raízes do feminismo da igualdade se remetem ao pensamento da Ilustração e ao conceito de universalidade. defendiam posição inversa: se norteavam pela necessidade da abolição do patriarcado. Ainda que com diferentes ideologias. são as avós diretas das feministas da igualdade da segunda onda. incorporavam as demandas específicas das mulheres em ideologias mais globais. feministas liberais. a igualdade e a fraternidade enquanto redigia a Declaração Universal dos Direitos Humanos e se perpetuava com o poder do Estado. As feministas radicais.11 11 Segundo Amélia Valcárcel. liberais e socialistas exaltavam um feminismo reivindicativo. ou seja. as feministas se organizavam em torno de duas grandes tendências: “As que esperavam a libertação dentro de políticas globais. OS CORPETES À FOGUEIRA 113 era — por meio de diversas vias — colocar-se em pé de igualdade com os homens. socialistas e radicais lutavam pela igualdade a partir de suas próprias concepções.Paoerosas103_116:Layout 1 28/2/2008 23:41 Page 113 E N T R E V I E T N Ã E PARIS. que proclamava a liberdade. sob a exigência de que toda norma pode ser universalizada. que ficaram conhecidas como feminismo reivindicativo. . O feminismo da igualdade é a crítica que procura externar os estandartes da burguesia revolucionária do final do século XVIII. Por um lado. pelo contrário. transformando o feminismo em teoria política para a compreensão global do sistema social.

se propondo a demonstrar que não há necessidade biológica ou “correspondência” inevitável entre o primeiro e o segundo termo. Millet redefine política como o conjunto de relações e compromissos estruturados de acordo com o poder. baseada na idéia central de que elas próprias são uma classe social. levando-a a afirmar que “a dependência econômica faz com que a afiliação [das mulheres. . de Shulamith Firestone. defende que o materialismo histórico é a concepção do curso histórico que busca a causa última e a grande força motriz dos acontecimentos 12 13 feminismo radical. Valcárcel. Sexo y filosofía. afirmando que a sexualidade é uma função moldada pela cultura. em virtude da qual um conjunto de pessoas é controlado por outro grupo. e Dialética da Sexualidade. 1994.] a qualquer classe seja tangencial. mas também a partir de atividades socializadoras mais sutis e inclusivas. Esta última tendência tem como máximas expoentes Kate Millet e Shulamith Firestone. Sobre “mujer” y “poder”. N. o patriarcado é a coluna vertebral de todas as formas políticas do Ocidente. Bogotá. A sociedade organiza as diferenças entre homens e mulheres não só por meios legais.” A. de Kate Millet. apesar de diferentes transformações históricas. s/r. indireta e temporal. Política Sexual. Defende que.Paoerosas103_116:Layout 1 28/2/2008 23:41 Page 114 114 ANDREA D ’ AT R I As feministas radicais adaptaram inclusive alguns elementos da teoria marxista a uma nova concepção da opressão das mulheres. autora de A dialética do sexo. senão modos culturais de relacioná-los.” 13 Shulamith Firestone. Feminista radical.12 Kate Millet elabora uma concepção em termos de política sexual em que aponta o caráter de construção política do patriarcado como legitimador da ordem social vigente. Define o patriarcado como política sexual exercida fundamentalmente pelo coletivo dos homens sobre o coletivo das mulheres. As obras paradigmáticas desse movimento são Política Sexual. Kate Millet. da A. Millet distingue por sua vez sexo e gênero. Anthropos. por sua vez.

O patriarcado segundo essa versão é estabelecido como estrutura de poder generalizada e a-histórica. O feminismo socialista.14 O que vai levá-la a levantar a hipótese de que a tecnologia permitirá libertar a mulher da opressão imposta a partir de seu corpo. nas variações existentes nos sistemas de matrimônio. OS CORPETES À FOGUEIRA 115 na dialética do sexo: na divisão da sociedade em duas classes biológicas diferenciadas com fins reprodutivos e nos conflitos de determinadas classes entre si. como produto de relação econômica e de construção ideológica que reforça a submissão. Kairós. acentuando o conceito de patriarcado e do desenvolvimento histórico dessa forma de organização das relações familiares nos distintos modos de produção. diferentemente das 14 Shulamith Firestone. subentende-se que a opressão específica das mulheres está relacionada de maneira direta à sua biologia. As feministas socialistas. mas com interesses comuns. 1976. partem da premissa de que as mulheres não são um grupo natural cuja opressão se deve à sua própria natureza biológica. em que a desigualdade aparece assimilada novamente em termos naturais. Para essas autoras as mulheres também constituiriam uma classe social. procura combinar a análise marxista das classes com a análise da opressão da mulher. Barcelona. graças ao desenvolvimento dos métodos anticonceptivos e da reprodução extra-uterina.Paoerosas103_116:Layout 1 28/2/2008 23:41 Page 115 E N T R E V I E T N Ã E PARIS. mas que conformariam uma categoria social. por sua vez. La dialéctica del sexo. baseados em sua condição específica de exploração e opressão de gênero. Outras autoras. no desenvolvimento combinado de outras classes fisicamente diferenciadas (castas). . reprodução e educação dos filhos. ou seja. dentro da vertente conhecida como feminismo materialista. Mas ao defender que a divisão central da sociedade é a divisão entre dois sexos (classes). criadas por determinados conflitos. e na divisão arcaica do trabalho baseado no sexo e que evolucionou a um sistema (econômico—cultural) de classes.

conhecida como feminismo da diferença. em cargos de poder e instituições de regimes e governos. . a perspectiva de uma nova tendência. as feministas socialistas defenderiam. sustentaram a existência de um matriarcado anterior à existência das sociedades divididas em classes e conceberam a opressão como relação que só aparece com esse antagonismo fundamental produzido pela possibilidade do excedente. Enquanto as feministas liberais optariam pela inserção no aparato de Estado.Paoerosas103_116:Layout 1 28/2/2008 23:41 Page 116 116 ANDREA D ’ AT R I feministas radicais. Um fio condutor certamente enlaça as distintas vertentes: por vias reformistas ou revolucionárias todas estão de acordo em querer desterrar as diferenças entre os sexos para chegar à igualdade. continuaram a entender o problema da desigualdade como questão absolutamente social: priorizaram o conceito de divisão sexual do trabalho — divisão que originaria uma conotação de desigualdade social entre ambos os sexos — e definiram o patriarcado como o conjunto de relações sociais da reprodução humana que se estruturam de tal modo que as relações entre os sexos são relações de domínio e subordinação. a submissão das mulheres na esfera da reprodução é logo transferida ao mundo da produção. a necessidade de uma revolução anticapitalista. Muitas alegaram que a situação de opressão é originária e modelo para as demais situações de desigualdade e dominação. A ambição sem dúvida foi rebatida poucos anos mais tarde. como as de classe. seguindo as elaborações de Engels. Em meados dos anos 1970. com o propósito de instalar reformas tendentes à igualdade. As diferentes concepções acerca da origem da desigualdade e da opressão implicam diferentes estratégias políticas na luta pela igualdade. Outras. fazendo com que a participação das mulheres no processo produtivo se dê em condições de inferioridade. iniciava sua entrada no movimento. estrategicamente e por diversos matizes. Para essa corrente.

diferenças de mulheres “Reunir as mulheres não era suficiente. reformas nos países centrais e por golpes contra-revolucionários e sangrentos nos países periféricos. Reunir as mulheres negras não era suficiente. éramos diferentes.. A sobrevivência advertia a algumas de nós que não podíamos nos permitir definir a nós mesmas com facilidade. éramos diferentes. derrotas e traições à mobilização revolucionária e que permitiu ao imperialismo se rearmar e. nem ao menos nos restringir em uma definição estreita. que impuseram desvios. éramos diferentes.Paoerosas117_135:Layout 1 28/2/2008 23:49 Page 117 7 Diferença de mulher. Cada uma de nós tinha suas próprias necessidades. da social-democracia e do nacionalismo burguês.. no 1 Este capítulo se baseia em uma reelaboração da proposta apresentada na II Conferência Internacional “La Obra de Carlos Marx y los desafíos . Para tornar isso possível as classes dominantes contaram com a colaboração das direções do stalinismo. mais que a segurança de uma diferença em particular” Audré Lorde A OFENSIVA IMPERIALISTA VARRE TUDO1 O processo revolucionário que sacudiu o Oriente e o Ocidente simultaneamente entre 1968 e o início dos anos 80 foi fechado mediante concessões às massas. éramos diferentes. objetivos e alianças muito diversas. Reunir as mulheres gays não era suficiente. Reunir as mulheres negras lésbicas não era suficiente. Foi preciso certo tempo para darmos conta de que nosso lugar era precisamente a casa da diferença.

Por meio do “neoliberalismo”. mediante pactos e acordos que desarticularam a revolução na América Central.Paoerosas117_135:Layout 1 28/2/2008 23:49 Page 118 118 ANDREA D ’ AT R I início da década de 1980. política e militar contra o seu próprio proletariado. pois era “invencível”. tendo como pano de fundo o terror semeado pelas ditaduras militares e as derrotas impostas às massas pelo imperialismo. armada pelos EUA na Nicarágua e a capitulação e cooptação das direções dos exércitos guerrilheiros da região. foi o presidente norte-americano deste período. do Partido Republicano. foi um período marcado pelas “transições à democracia”.org. terminaram de fechar o quadro da ofensiva imperialista que fragmentou e colocou o movimento operário e popular na defensiva. como resposta defensiva diante da emergência da mobilização independente das massas contra os próprios regimes ditatoriais. a burguesia mundial tentou sair da crise estrutural que primava no sistema capitalista nos últimos anos. as massas semicoloniais e os estados operários burocratizados. Na América Latina. 2 . A derrota da Argentina na Guerra das Malvinas de 1982 foi um dos elementos que atuaram como disciplinador para o continente latino-americano e todo o mundo semicolonial. que já estavam profundamente desprestigiados. Também. e Margareth Thatcher a primeira-ministra britânica do Partido Conservador. com o título “Feminismo Latinoamericano: entre la insolencia de las luchas populares y la mesura de la institucionalización”. lançar uma contra-ofensiva econômica. A década del siglo XXI”. também conhecido nesse período como reaganismo-thatcherismo2. A lição que se tirou dessa experiência foi de que não se podia enfrentar o imperialismo. Esta proposta ampliada foi publicada no Panorama Internacional www. a guerra suja da “contra”. situação que teve continuidade com a derrota do Iraque na Guerra do Golfo de 1991. Ronald Reagan.ar e na revista Luta de Classes Nº 2/3. abril 2004. A “democracia” se converteu na política privilegiada do imperialismo norte-americano ao nosso continente. Foi o início do que veio a ser chamado de a “ofensiva neoliberal”.ft.

na Costa Rica. dando início aos ataques às conquistas do movimento operário e das massas que perduraram e se acentuaram nos anos 1990. na Europa dos anos 80. . somados à venda de ações das empresas mais lucrativas e a transferência do controle de importantes fatias dos mercados internos. por sua vez.3 Não obstante. a partir de 1981 surgem os Encontros Feministas da América Latina e do Caribe. o movimento feminista começou sua transformação de “insurrecional” a “institucional”. os governos “social-democratas” recém-eleitos como o de François Mitterrand na França ou o de Felipe González na Espanha se convertiam em furibundos agentes do capital. Em nosso continente. Enquanto isso. excedentes comerciais e pagamentos de regalias. 5 milhões de pessoas. universidade. a dos anos 90.Paoerosas117_135:Layout 1 28/2/2008 23:49 Page 119 D I F E R E N Ç A D E M U LHER . foi o período em que a transferência de riquezas da América Latina aos EUA e à Europa atingiu cifras escandalosamente siderais: cerca de 1 bilhão de dólares em lucros. Neste marco sociopolítico em que também se configurou a ofensiva ideológica que se sintetiza na idéia do “fim da história e das ideologias”. a incorporação às instituições dos 3 No final de 2002. instituições do Estado. partindo para a conquista de novos espaços nos regimes políticos. pagamentos de juros da dívida. Para chegar à situação atual. que a cada dois ou três anos reúnem as feministas na reflexão política sobre a situação do movimento e na elaboração de novas linhas de ação. facilitando a abertura dos mercados e a restauração capitalista diante da debacle econômica pelo sufoco das dívidas externas. ocorreu o IX Encontro. DIF EREN ÇAS DE M ULHERES 119 seguinte. em que as 200 maiores multinacionais concentram nada menos que um quarto da produção mundial. Apenas os 200 magnatas mais poderosos possuem fortuna pessoal que supera o lucro anual de 2. a academização. entregava-se de pés e mãos atados ao imperialismo. partidos burgueses e até nos organismos multilaterais de financiamento. A burocracia da União Soviética e dos países do leste europeu.

Paoerosas117_135:Layout 1 28/2/2008 23:49 Page 120 120 ANDREA D ’ AT R I regimes políticos e dos diferentes estamentos de governo e o processo de criação das ONGs são as operações mais importantes que começam a reconfigurar o movimento feminista no período produzindo também. A princípio. Bedregal alega: Tudo isto eram manifestações e expressões de diferentes concepções políticas expressas desde o primeiro encontro. A ruptura entre “autônomas” e “institucionalizadas” é uma das expressões mais agudas que adquire a crítica interna. sua incipiente fragmentação e crescente cooptação. a participação em diferentes correntes dentro do feminismo que expressavam diferentes heranças ideológicas e políticas. entendida como o compromisso com o feminismo por um lado e organizações ou movimentos políticos não especificamente feministas foi um dos debates fundamentais. era luta política de projetos políticos e filosóficos.4 A década de 1980. aos fundamentos e às práticas no interior do próprio movimento não tardarão a aparecer. México: um grupo 4 Ximena Bedregal. pensantes e atuantes de diversos projetos e de uma identidade de gênero mais facilmente centrada tanto nas vítimas do sistema patriarcal quanto nas construtoras de novas culturas. Os encontros que se estenderam ao longo da década de 1980 pautavam-se por essas discussões: além da dupla militância. As críticas e as diferenças no que tange às concepções teóricas. ações e saberes. culmina no IV Encontro. a questão da “dupla militância”. junto a uma ampla gama de novas experiências. a discussão acerca da prática dos grupos de autoconsciência ou de “levar” a consciência a outros grupos de mulheres de setores populares etc. realizado em Taxco. mas que se ocultavam em uma aparente homogeneidade e pelo desejo de uma espécie de irmandade romântica de mulheres que tem dificultado reconhecermos. “Los encuentros feministas: Lilith y todo el poder UNO”. como distintas. para além do discurso declarativo.creatividadfeminista.org> . em <www. para as latino-americanas e caribenhas.

e 10. 4. 8. Para concluir que estes dez mitos geraram uma situação de frustração. 3. 9. desgaste. que nos permita . as contradições e as diferenças. O pessoal é automaticamente político. 2. autocomplacência. Nós. Os espaços de mulheres garantem por si só um processo positivo. 5. firmando um pacto entre nós. O pequeno grupo é o movimento. o feminismo tem um longo caminho a percorrer. Propõem às feministas latino-americanas: Não neguemos os conflitos. que muitas de nós feministas detectamos e reconhecemos que existe e que está presente na imensa maioria dos grupos que hoje fazem política feminista na América Latina.Paoerosas117_135:Layout 1 28/2/2008 23:49 Page 121 D I F E R E N Ç A D E M U LHER . Existe uma unidade natural pelo simples fato de sermos mulheres. 6. é válido. já que o que aspira realmente é a uma transformação radical da sociedade. O consenso é democracia. Todas as feministas somos iguais. 7. no mesmo documento. anunciam os “mitos” que nos impedem de valorizar as diferenças no interior do movimento e dificultam a construção de um projeto político feminista. Ali se expressava o manifesto de que Mais adiante. da política e da cultura. DIF EREN ÇAS DE M ULHERES 121 de mulheres elabora um documento crítico no qual descrevem com agudeza os “mitos” do movimento feminista que segundo as signatárias impedem o desenvolvimento do movimento. fazemos política de outra maneira. O feminismo só existe como uma política de mulheres para mulheres. Sejamos capazes de estabelecer uma ética das regras do jogo do feminismo. Hoje o desenvolvimento do movimento feminista leva-nos a repensar certas categorias de análises e as práticas políticas às quais temos nos pautado. A nós. ineficiência e confusão. não interessa o poder. feministas. Porque eu mulher sinto. São os seguintes: 1. O documento tem grande repercussão. feministas.

Paoerosas117_135:Layout 1 28/2/2008 23:49 Page 122 122 ANDREA D ’ AT R I Os mitos denunciados no documento de Taxco impediam o desenvolvimento das discussões políticas mais profundas.” As divergências que se esboçavam. Cecilia Torres (Equador) e Dolores Padilla (Equador). do IV Encontro Feminista Latino-Americano e do Caribe. . apesar das tentativas de homogeneização. inclusive nos dias de hoje. Adriana Santa Cruz (Chile). Virginia Haurie (Argentina). enquanto o próprio movimento. Viviana Erazo (Chile). 21 de outubro de 1987. Celeste Cambría (Peru). enquanto o movimento ia se reconfigurando de uma maneira que não tratava de incluir todas e que. segundo algumas mulheres. não podia criticar-se. o processo agudo de institucionalização que permeou o feminismo dos países centrais e mais tarde impactou também o nosso continente. fizeram-se mais iniludíveis no calor da aparente inevitabilidade da onda de demissões. os fóruns e outras instâncias de reagrupamento internacionais foram se elitizando por causa da crescente pauperização das massas em nossos países. Virginia Vargas (Peru) e Victoria Villanueva (Peru). Entre as participantes estavam Haydée Birgin (Argentina). Ximena Bedregal (Bolívia). apesar da repercussão que teve o documento. de obturação da crítica e de “irmandade romântica”. No final da década. privatizações e o ataque ao nível de vida das massas em nosso continente. Marta Lamas (México). que foi maior durante a década de 1990. sem dúvida. Estela Suárez (México). da política e da cultura. Para muitas feministas. Fresia Carrasco (Peru). os mitos continuaram vivos em grande parte do movimento.5 O documento “Del Amor a la Necesidad” foi elaborado coletivamente durante a oficina sobre Política Feminista na América Latina Hoje. os encontros. Assinaram: Elena Tapia (México). o avanço do movimento feminista no sentido de uma “transformação radical da sociedade. implicou a cooptação do movimento por parte do patriarcado. Verónica Matus (Chile). Margarita Pisano (Chile). Mas. o que demonstrava que a 5 avançar em nossa utopia de desenvolver em profundidade e extensão o feminismo na América Latina. México. Taxco. já eram notáveis os problemas que impediam.

agora as feministas da diferença se propunham a destacar e revalorizar os aspectos que diferenciavam profundamente as mulheres dos homens que construíram o mundo de opressão e injustiça. mimeo. Universidade de Valladolid. que considera valioso e respeitável só o que concerne aos homens. como mãe nutricia e natureza fértil frente ao homem geneticamente destinado à agressividade. Assim. Esse conceito da mulher adquire distintos caracteres segundo os pressupostos essencialistas ou construtivistas do pensamento que lhe assume: a mulher como o biologicamente Outro. com valores positivos apesar de derivados da marginalização etc. “En torno a la polémica igualdad / diferencia”. que privilegia o corpo masculino em detrimento do corpo feminino. assistimos ao surgimento da mulher como um Outro. Ou seja. DIF EREN ÇAS DE M ULHERES 123 luta pela igualdade não questionava as próprias bases do sistema que oprimia as mulheres. . toda luta pela igualdade será catalogada de assimilacionista a uma ordem androcêntrica. Cátedra de Estudos de Gênero. o feminino como o pré-lógico e inexpressável na linguagem corrente versus a razão masculina. A partir dessa perspectiva.6 REVALORIZAÇÃO DO FEMININO Neste marco. agora positivamente conotado. com a bancarrota das esperanças ilustradas de paz e progresso moral.Paoerosas117_135:Layout 1 28/2/2008 23:49 Page 123 D I F E R E N Ç A D E M U LHER . Se a busca da igualdade deu margem à cooptação do movimento feminista. o feminismo da diferença tentará demonstrar que a simbolização dos dados morfológicos da diferença dos sexos ocorreu sob um olhar hierárquico. Essa crítica levou muitas mulheres a pensar o que depois ficou conhecido por feminismo da diferença. o 6 Alicia Puleo. a mulher como construção cultural do patriarcado.

Em suma. uma cilada da mesma lógica falocêntrica. não lutar por obter a “mesmidade”. A crítica específica que se lança sobre o feminismo da igualdade é que aspira que a mulher se constitua no Mesmo (que o Um) e essa aspiração formaria parte da dominação. o feminismo da diferença se propõe a pensar filosoficamente a diferença sexual. que só levaria as mulheres a um “ficar pra trás”.Paoerosas117_135:Layout 1 28/2/2008 23:49 Page 124 124 ANDREA D ’ AT R I igualitarismo reproduziria a desvalorização da feminilidade em sua aspiração por conseguir a equiparação com os direitos que o patriarcado outorga exclusivamente aos homens. sem êxito. todos estes discursos do pensamento falocêntrico. considerada como fundante. podemos dizer que — ainda com múltiplos matizes entre diversas autoras e tendências — o feminismo da diferença . algo diferente e inferior que o Um que funciona como norma. Porque se no sistema patriarcal o homem se instala como modelo do universal (ser humano = homem). negação a partir da qual se constitui o sujeito oprimido pelas leis da linguagem. Tratar-se-ia de uma permissão que o sistema patriarcal outorga às mulheres. Assimilando a consigna Black is Beautiful (negro é bonito) dos movimentos anti-racistas norte-americanos ou a do orgulho gay. seria funcional a ela. “ser segundas” dos homens. A conseqüência política que então se deriva disto é de que é necessário exaltar a diferença. especialmente em sua vertente lacaniana. Esse ocultamento atuaria para encobrir que todos os seres humanos são nascidos mulher. que o feminino é o primordial negado. da ciência. que é ocultada nos discursos da filosofia. O feminismo da diferença acusará o feminismo da igualdade de se ater ao discurso do Um e do Outro do pensamento falocêntrico. que exerce a supremacia e pelo Outro inferior que luta por ser o Mesmo que o Um eternamente. pois o próprio sistema patriarcal está constituído pelo Um. as feministas da diferença propunham uma nova interpretação positiva e revalorizadora da feminilidade. ou seja. da psicanálise e da religião. Partindo de uma crítica radical à psicanálise. ser mulher então é ser o Outro.

como dizem certas revistas e assumem certas feministas. considerando-a uma armadilha da ingenuidade do oprimido. conclui-se em um dualismo ontológico irredutível. terá que saber que assim não se transformam as coisas. cultura política y Estado. Ediciones de la Flor. Bs.7 Celia Amorós. Se não existe humano sem sexualismo. DIF EREN ÇAS DE M ULHERES 125 coloca essencialmente uma idealizada e louvável feminilidade intrínseca ao ser mulher.Paoerosas117_135:Layout 1 28/2/2008 23:49 Page 125 D I F E R E N Ç A D E M U LHER . . pensando que assar frangos é a própria essência da realização e da criatividade. assando frangos ao forno por todas as frustrações que temos na vida social. as feministas da diferença levantam em conjunto que a libertação das mulheres depende da criação e do desenvolvimento de uma contracultura feminina.. ainda que as mulheres agora decidam que o valioso é lavar panelas ou pratos. ressaltando a relação da mulher com a natureza por oposição ao mundo da cultura masculina e chegando a defender a necessidade de um mundo de mulheres não contaminado pelo masculino — inclusive o separatismo como opção político-sexual —. Mujer: participación. 7 Se queremos consolar a nós mesmas. Em uma de suas conferências realizadas em Buenos Aires. por conseguinte. 1990. como a não-violência-. dizia com forte tom irônico: Se vai reconhecer como valioso aquilo que já foi reconhecido historicamente como valioso. agora bem. renomada filósofa defensora da igualdade. As. Célia Amorós. supostas qualidades positivas associadas. Destacando a maternidade como própria das mulheres — e. acrescenta: Uma das críticas fundamentais ao feminismo da diferença é de que ao negar a existência de algo que possa se qualificar de “genericamente humano”. naturalmente está no seu direito. chama essa valoração voluntarista de “a valoração estóica”. Depois.

a integração ao sistema por meio da admissão de suas demandas de igualdade ou da marginalização de subculturas ou guetos em função das diferenças. mas na valoração igualitária das diferentes experiências particulares. O feminismo da diferença não faria outra coisa senão ontologizar as diferenças construídas socialmente e por meio das quais as mulheres são submetidas à discriminação de gênero. enquanto o que se opõe à diferença é a identidade e não a igualdade. a igualdade desejada não estaria baseada em semelhanças ou identidades entre grupos ou pessoas. É certo que mais tarde diversas autoras falaram de igualdade na diferença ou diferença na igualdade para tentar conciliar duas vertentes que se consideravam contraditórias e em enfrentamento. o feminismo da diferença é criticado por condenar as mulheres de maneira irremissível à marginalização. De outro ponto de vista. e o feminismo da diferença condenaria inexoravelmente às mulheres ao segundo.Paoerosas117_135:Layout 1 28/2/2008 23:49 Page 126 126 ANDREA D ’ AT R I conclui-se na impossibilidade lógica e ontológica “do humano”. de reatar laços entre as duas tendências mais importantes do feminismo da segunda onda. Desse novo ponto de vista entende-se que defender a igualdade sem levar em conta as diferenças pode implicar a aceitação das desigualdades sociais de certas pessoas ou grupos. colocando que o contrário da igualdade é a desigualdade e não a diferença. . Pelo contrário. Se os sistemas de dominação propõem um dilema para os oprimidos. a tentativa conciliadora nada mais é que uma tentativa. muitas vezes eclética. À disjuntiva igualdade/diferença dentro do feminismo pode-se dizer que fora refutada como falsa antítese. No entanto. ou seja. tão combatido pelas feministas da igualdade nos princípios da segunda onda. tal como ocorre com o direito formal burguês. A conseqüência teórica mais importante da negação é o retorno ao essencialismo biologicista. na negação de um universal que possa transcender a diferença dos sexos. o feminismo da igualdade teria como conseqüência inevitável o primeiro.

separando o ser humano em homem (burguês) por um lado e cidadão pelo outro. Então. continuem existindo. Claro que. na educação etc. que longe de ser neutro para o desenvolvimento da liberdade. nos deparamos com o horizonte do Estado. Quando o horizonte da discussão não transcende os marcos estreitos do sistema de dominação carece de sentido ou. da igualdade e da fraternidade. o marxismo apontará permanentemente a contradição . como bem diz Engels. é um Estado capitalista.Paoerosas117_135:Layout 1 28/2/2008 23:49 Page 127 D I F E R E N Ç A D E M U LHER . Enquanto as posturas liberais defendem a luta pela igualdade jurídica sem questionar os fundamentos desse marco legal. se o Estado pode proclamar a universalidade é porque abstrai os elementos particulares da existência social. Visto isso. enquanto proclama a igualdade jurídica entre os cidadãos. não haveria contradição entre a proclamada igualdade e a desigualdade real: ambos os aspectos são mutuamente dependentes. Sua proclamação de que todo cidadão é igual perante a lei é a máxima expressão da liberdade e da igualdade jamais alcançada nos marcos de um sistema baseado na exploração de uma classe por outra. Em última instância. de classe. Ou seja. O Estado burguês consegue esse divórcio separando as esferas da política e da economia de maneira fetichista. baseado na exploração de uma classe por outra. só à custa de eliminar de algum modo as distinções de nascimento. ou seja. Para resolver a questão é necessário antes de qualquer coisa definir qual o horizonte histórico e social em que se insere atualmente a opressão das mulheres. a existência das diferenças reais constitui a base pela qual se faz necessária sua própria existência como Estado. DIF EREN ÇAS DE M ULHERES 127 A discussão entre a igualdade e a diferença no feminismo não parece ter saído nos termos em que se projeta. inevitavelmente. o Estado permite que — na vida real dos homens e mulheres — as diferenças baseadas na propriedade. O Estado moderno capitalista consegue se divorciar “mais e mais” da sociedade que lhe concebeu. de educação e de profissão. em outras palavras. adquire o sentido de uma contradição irresolúvel.

(. Os limites dentro dos quais um pode se mover sem prejudicar os outros estão definidos pela lei. como diz Marx na Crítica do Programa de Gotha: O direito só pode consistir. A igualdade e a liberdade.. integrantes de uma universalidade obtida mediante a abstração de suas vidas reais e individuais. encontram seu fundamento último na existência da propriedade privada e das classes sociais antagônicas. O direito. Compañero. Marx expressa a contradição entre os ideais da revolução burguesa e a própria existência da propriedade privada em sua crítica à Declaração Universal dos Direitos Humanos: . A aplicação prática do direito à liberdade é o direito à propriedade Karl Marx. As. fechado em si mesmo. é necessário considerar o horizonte de um mesmo direito. Trata-se. É o direito desta distância. como uma estaca demarca o limite entre dois campos.. porém. ou seja. da liberdade do homem como algo isolado.8 Por isso... sempre e quando lhe enfoque desde um ponto de vista igual. por natureza. é concebido sempre como “o direito à desigualdade”. o direito do indivíduo limitado que se limita a si mesmo. Bs. a liberdade é o direito de fazer e tentar obter tudo o que não prejudica os outros. sempre e quando lhe observem somente um aspecto determinado. para os marxistas. 8 . que precede a distância entre homem e homem. homens e mulheres são considerados pelo Estado como seres genéricos.. para sanar as desigualdades.. Crítica del Programa de Gotha.) Mas o direito de liberdade não reside na unificação dos homens.Paoerosas117_135:Layout 1 28/2/2008 23:49 Page 128 128 ANDREA D ’ AT R I entre o “como se” da igualdade para o direito e as condições reais profundamente desiguais da existência. em última instância.. 1971. Não poderia ser diferente. mas os indivíduos desiguais (e não seriam indivíduos diferentes se não fossem desiguais) só podem se medir sempre pelo mesmo parâmetro. na aplicação de uma medida igual. Para medir as diferenças é necessário partir de um padrão de igualdade.

independentemente da sociedade: é o direito ao egoísmo. o direito à propriedade é o direito de gozar e dispor da própria riqueza. Dizer que não queremos nos integrar ao Estado capitalista e patriarcal não é o suficiente para acabar com ele. O capitalismo é o primeiro modo de produção na história que possibilita que os sujeitos sejam emancipados de todo vínculo comunitário e se transformem em cidadãos livres. O contrato será a expressão das novas relações sociais: as que se estabelecem entre indivíduos “livres” na sociedade civil para a consecução de determinados fins. As. Nesse caminho. DIF EREN ÇAS DE M ULHERES 129 Entender a luta pela emancipação das mulheres unicamente como busca pela igualdade inclusiva no sistema tende ao reformismo: pressupõe a existência de um sistema perfectível com relação às mulheres.. a busca por melhores formas de 9 privada.. cada homem percebe no outro não a realização. têm colaborado com a despolitização do movimento feminista e em seu distanciamento das lutas sociais. . onde sempre inevitavelmente há mulheres. De que se trata o direito à propriedade privada? (. como também oculta a desigualdade entre a burguesia e a classe operária no contrato de trabalho. Need. Bs. Mas as feministas da diferença não apresentaram nenhuma alternativa: dando as costas ao Estado e confortando-se nas relações entre mulheres e a criação de uma nova cultura feminina contra-hegemônica aos valores tradicionais do patriarcado. cujo coração — que continua a ser profundamente hierárquico — não é questionável.Paoerosas117_135:Layout 1 28/2/2008 23:49 Page 129 D I F E R E N Ç A D E M U LHER . capazes de vender a si mesmos (sua força de trabalho) no mercado. Essa liberdade individual e sua aplicação são o fundamento da sociedade civil. mas a limitação de sua liberdade. Liberdade que em seu exercício tanto oculta a profunda desigualdade que existe entre a mulher e o homem no contrato matrimonial..) Pois bem. Para isto. arbitrariamente. sem levar em conta os outros homens. 1998.9 Karl Marx. é necessário enfrentá-lo e destruí-lo. Através dela. La cuestión judía.

surgidas das relações de propriedade e garantidas pelo Estado do qual não podemos escapar utopicamente.Paoerosas117_135:Layout 1 28/2/2008 23:49 Page 130 130 ANDREA D ’ AT R I existência. nossos desejos. seus vínculos com os homens também eram diferentes. suas situações de opressão não eram idênticas. onde a vida pode ser quase como sonhamos. garantindo menores salários para as mulheres por igual trabalho e fazendo com que as mulheres sejam as mais pobres entre os pobres do planeta. privilegiando as redes de solidariedade e as vivências pessoais particulares ao invés da política ativa contra o mesmo. Suas experiências não coincidiam com as de outras mulheres. ainda que a solidariedade entre algumas mulheres funcione como uma bolha indestrutível. Porque ainda que não queiramos enxergar. mais igualitárias. INTERSECÇÃO DE MÚLTIPLAS DIFERENÇAS Enquanto isso. no seio do movimento. o sistema continua ali impedindo o direito ao aborto. pequenos privilégios por pertencer a alguns lugares demarcados no poder para muito poucas. elegendo uma vida autônoma. muitas vezes os vínculos eram privilegiados frente a relação com outras . à discriminação e à submissão. as mulheres negras e as mulheres lésbicas acusavam o feminismo de ser um discurso imperialista que pretendia representar os interesses de todas as mulheres a partir da posição exclusiva e particular das mulheres brancas anglo-saxônicas de classe média e heterossexuais. As feministas da igualdade foram acusadas pelas feministas da diferença serem cooptadas pelo patriarcado em troca de algumas migalhas. Mas as feministas da diferença também defendem — por omissão — o sistema capitalista que se recusam a enfrentar. nossas próprias vidas continuam submetidas à exploração. Mas não é o suficiente. enquanto nossos corpos. à “margem” do sistema. nos marcos estreitos desta sociedade de exploração para os milhões de mulheres do mundo é importante. inclusive.

porém. Soltando as amarras das estruturas sociais. o colonialismo. O multiculturalismo escapando ao reducionismo econômico também se distancia da política. Despojou as identidades de sua ancoragem em determinadas relações necessárias de colaboração social: transformou os “produtores” culturais em “consumidores” culturais. da diferença de gênero às diferenças entre as próprias mulheres. discursivas. da subordinação e da exclusão dos discursos dominantes é. como vítimas de uma ideologia à qual estavam sujeitos por seu poder repressivo. e que surgiam diretamente da experiência de subordinação. classes ou nações diferentes. Os estudos sobre a vida cotidiana são a expressão acadêmica. as experiências e mesmo as opiniões dos grupos subordinados. as diferenças não foram compreendidas — segundo os novos estudos culturais — a partir de uma teoria capaz de desmascarar a opressão das portadoras e portadores de “identidades desrespeitadas”. A discussão se desloca. da concepção de “dar voz” aos oprimidos. No terreno teórico. DIF EREN ÇAS DE M ULHERES 131 mulheres de etnias. transtornou as identidades em meras diferenças textuais. nos estudos de gênero e no próprio movimento feminista com seu respeito à diversidade. ao ter sido silenciada mediante os mecanismos da opressão. assumindo que eram em si mesmos progressistas. pois essa voz. . com a explosão das múltiplas diferenças privilegiaram-se os estudos localizados em detrimento das teorias sociais inclusivas. em si mesma. pretendia-se encontrar uma experiência unificadora para todas as mulheres. as alianças políticas com outros movimentos sociais etc. por exemplo. então.Paoerosas117_135:Layout 1 28/2/2008 23:49 Page 131 D I F E R E N Ç A D E M U LHER . autêntica por definição. das determinações históricas e econômicas. arrastando consigo a renúncia a todo “horizonte de universalidade”. O multiculturalismo derivou. então. O discurso feminista era criticado por seu essencialismo: sob a definição unívoca de mulher. o racismo. Isto inaugurou um enorme questionamento sobre diversos tópicos no movimento feminista: o heterossexismo. exaltou os valores.

com a irrupção das diferenças no seio do movimento feminista a diferença foi recategorizada como absolutização da identidade. Como diz Slavoj Zizek: Então. Ou seja. Como afirma Daniel Bensaïd.11 O fenômeno da explosão das diferenças no interior do feminismo levou à inclusão de diversas vírgulas e etecéteras em definições sem hierarquia acerca das identidades. etnia. pacífico. 10 11 Daniel Bensaïd. Quanto mais etecéteras se acrescentam nas definições mais progressismo. a exploração aparecerá como mais um tipo de alienação no sistema capitalista do final do século e. Paidós. os diferentes estilos de vida e outras questões desse tipo. traducción de Rossana Cortez para el CEIP León Trotsky. por fim. à libertação de cada indivíduo que integra a sociedade. Slavoj Zizek. nossas batalhas eletrônicas pairam sobre os direitos das minorias étnicas. Bs. . 2001. mimeo. os gays e as lésbicas. enquanto o capitalismo continua sua marcha triunfal. a princípio. como se tratasse de um processo gradual de evolução sem sobressaltos e. mas a alienação generalizada. Mais tarde. então.Paoerosas117_135:Layout 1 28/2/2008 23:49 Page 132 132 ANDREA D ’ AT R I No decorrer da segunda onda do movimento feminista observamos como a diferença.. idade etc. Da crítica aos modos de produção e ao sistema patriarcal passa-se à crítica da justiça. portanto.10 Este lugar estará ocupado agora pela demanda de uma aceitação cada vez maior das diferenças alienadas na marginalização social. orientação sexual. Reflexiones sobre el multiculturalismo. já não se trata de questionar a exploração. a questão da reapropriação social não ocupará o centro dos programas políticos pela emancipação. 1998. O conceito de classe social ressurgiu no feminismo. As. era uma construção social contra a qual deveria rebelar-se a se converter em natureza biológica ponderável. Assim ocorrem. mas dessa vez considerado mais uma variável entre tantas outras para definir a identidade dos grupos e dos sujeitos. Les irreductibles. os termos classe.

A política de esquerda. está fundada na estreita articulação que existe entre exploração e opressão sob o domínio do capital. que projeta “cadeias de equivalências” entre as diversas lutas tem absoluta correlação com o abandono silencioso da análise do capitalismo no sistema econômico global.12 Idem. Que as determinações de classe se situem em um plano de igualdade com as demais significa ocultar o papel chave desempenhado pela economia na estruturação da sociedade. de orientação sexual. o multiculturalismo empreende a tarefa que — segundo o autor citado anteriormente — consiste em tornar invisível a presença inalterável do capitalismo. com as de classe. étnicas. de orientação sexual etc) para resguardar o status quo de sua dominação sistêmica. É certo que cada sujeito 12 É a “repressão” do papel chave que desempenha a luta econômica.Paoerosas117_135:Layout 1 28/2/2008 23:49 Page 133 D I F E R E N Ç A D E M U LHER . . homossexual etc) só adquirem significação social concreta quando relacionam seu vínculo com uma classe social. sendo a classe o eixo que determina a vivência particular de cada sujeito de sua própria subordinação identitária. o que mantém o âmbito das múltiplas lutas particulares. As identidades que o sistema entende como subordinadas (mulher. pois é o eixo em torno do qual as outras identidades se articulam e adquirem sua definição concreta. Para o pensamento marxista. negro. sexualidade. A articulação das diversas determinações de gênero. com a aceitação das relações econômicas capitalistas como um marco inquestionável. etnia etc. de etnia etc. ou seja. DIF EREN ÇAS DE M ULHERES 133 Ao colocar no mesmo nível as diferenças de gênero. encoberta em um plano de equivalências o uso primordial que o capitalismo faz das diferenças (e assim da opressão de gênero e da subordinação de diferentes grupos por razões culturais. pertencer a uma classe não pode simplesmente se agregar a outras múltiplas e diversas identidades. com seus contínuos deslocamentos e condensações.

já no caso das mulheres que se casam com homens da classe possuidora. Como marxistas. há diversos espaços de identidade. ou explorador/explorado) se relacionam mutuamente de maneira tal que só abolindo o vínculo específico (capital/trabalho) será possível abolir a “identidade” subordinada. no sentido de que .13 Em uma sociedade sem 13 “. igualmente respeitáveis. ninguém tem uma determinada pigmentação da pele porque outros tenham outra. à impossibilidade de questioná-lo profundamente e por fim. de um modo que não é igual para as outras identidades. ninguém tem um sexo porque há outros que possuem um diferente. muito pelo contrário. o relativismo que enfocam as diversas identidades. Neste caso..Paoerosas117_135:Layout 1 28/2/2008 23:49 Page 134 134 ANDREA D ’ AT R I é uma combinação particular de múltiplas características.. é uma instituição que por meio do contrato sexual subordina as mulheres aos homens. também é certo que o casamento de uma mulher com um homem da classe possuidora dos meios de produção a exime da possibilidade de ser explorada. Pelo contrário. a opressão e a exploração se conjugam de forma dramática. a relação de opressão as eximem da exploração. Ambas as categorias (burguês/ proletário. Se o matrimônio. como mulheres e como trabalhadoras. não é a noção de diferença o que questionamos. por exemplo. mas sua naturalização biológica ou sua absolutização. Negar-se a compreender a totalidade do sistema capitalista como estrutura leva. é certo que milhões de pessoas estão na “posição” de assalariados porque há poucas famílias no mundo que concentram em suas mãos os meios de produção. as mulheres que devem vender sua força de trabalho carregarão nas costas as duplas cadeias às quais este sistema capitalista as submete. de subvertê-lo. mas só uma leitura liberal pode levar à interpretação de que a sociedade existente é o resultado de uma somatória de indivíduos com múltiplas características identitárias. necessariamente. Como afirma o marxista inglês Terry Eagleton. Inclusive.ninguém tem uma espécie de pigmentação de pele porque outro tem outra. ou é homem porque alguém mais seja mulher.

A emancipação da classe operária tende à eliminação de todas as classes. .. São categorias identitárias mutuamente necessárias e excludentes. sem dúvida. peles de todas as cores e orientações sexuais das mais diversas. elevando-as à busca por suas máximas potencialidades. ou seja. impostas à maioria da humanidade por uma minoria parasitária.Paoerosas117_135:Layout 1 28/2/2008 23:49 Page 135 D I F E R E N Ç A D E M U LHER . combater o sistema em suas raízes revolucionando-o. Mas haverá mulheres e homens. 1998. Só com a revolução social que ponha em questionamento essa relação. o mesmo para negros e brancos ou heterossexuais e homossexuais. de pensar analogamente a igualdade de “reconhecimento” para burgueses e proletários. As. Bs. não é necessária a eliminação de uns ou outros para a eliminação da situação de opressão (é precisamente disso que se trata!). uma pessoa só é trabalhador sem terra porque outros são latifundiários. podemos imaginar as mulheres em uma posição igualmente hierarquizada que os homens. Buscar o “reconhecimento” da classe explorada significa eliminar a propriedade privada. DIF EREN ÇAS DE M ULHERES 135 opressão de nenhum tipo. Não há possibilidade. coexistindo em harmonia. Paidós. irremediavelmente. é possível construir as condições de possibilidade para a eliminação de todas as hierarquias e valores com os quais sustentam-se as diferenças. a própria classe exploradora. Libertar a humanidade da escravidão assalariada significa. que transcendam as prisões metafísicas do direito civil igualitário e as masmorras úmidas e obscuras das putrefatas relações de exploração.” Terry Eagleton. Ou seja. Las ilusiones del posmodernismo.

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Pós-Modernismo e Pós-Feminismo “Existe outro ponto de partida normativo para a teoria feminista que não requeira a reconstrução ou a atualização de um sujeito feminino que não pode representar. Pós-Marxismo. permitiu redobrar o ataque sobre o resto do mundo semicolonial. que só serviram para a rápida “emergência” de capitais especulativos. os organismos financeiros internacionais constataram o inevitável: o ataque provavelmente despertaria a resposta daqueles que perderam tudo. e muito menos emancipar. por sua vez.Paoerosas136_154:Layout 1 28/2/2008 23:54 Page 137 8 Pós-Modernidade. Aprofundaram-se a “abertura” das economias aos monopólios internacionais e a transformação de países como os nossos em “mercados emergentes”. nas mãos de uma enorme coalizão militar de potências imperialistas. o que. Diante da semelhante espoliação imperialista. o conjunto de seres corpóreos que se encontram na posição cultural de mulheres?” Judith Butler OS ANOS 90: ONGS E TECNOCRACIA DE ESQUERDA A década de 1990 começou com a derrota do Iraque na Guerra do Golfo. A “governabilidade” foi o nome que os tecnocratas encontraram para o problema que se aproximava. .

200 bilhões. A esses números somam-se os subsídios outorgados pelos governos “do norte”. tal como o resto das agências de financiamento. tanto o Banco Mundial como outros organismos financeiros internacionais começam a projetar reformas visando ao financiamento na relação com as organizações sociais. O Banco Mundial. cumpriu no período um papel político e ideológico muito importante em relação ao controle social. que assumiram a responsabilidade de colaborar com os projetos de governabilidade. Quando a maior parte do programa “neoliberal” já fora implementada. traduzida como o conjunto de condições necessárias para sustentar o processo de reformas. elevaram sua cifra a 2. o desemprego crescente e a precarização do trabalho. Desse modo. Esses “pós-marxistas” na administração das ONGs não colaboraram com a redução do impacto econômico de maneira substancial. em 1970 as ONGs dos países latino-americanos receberam 914 milhões de dólares. 368 bilhões de dólares e em 1992. acompanhando as privatizações dos serviços do Estado. A cooptação alcançou cifras indiscutíveis: segundo dados da OECD. desenvolvimento sustentável etc. evitando a irrupção dos movimentos de massas e que incluía a necessidade de estabelecer relações “frutíferas” para o desenvolvimento sustentável com os movimentos sociais e suas organizações. . que de 270 milhões que dispuseram em meados dos anos 70.Paoerosas136_154:Layout 1 28/2/2008 23:54 Page 138 138 ANDREA D ’ AT R I Governabilidade. Os intelectuais outrora esquerdistas se transformaram em tecnocratas progressistas. Isto significa que. em 1980. se aproximou da casa dos 5. o dinheiro destinado às ONGs aumentou em mais de 500%. reapropriando-se sempre que necessário dos discursos críticos.5 bilhões no princípio dos anos 1990. As organizações não governamentais foram as executoras privilegiadas de seus projetos assistencialistas focalizados. em 20 anos. mas por sua vez contribuíram enormemente em desviar a população da luta por seus direitos. a cifra subiu para 2. o Banco Mundial priorizou o financiamento de programas sociais sob os lemas da participação e transparência.

de bairros pobres. de poder e de acesso ao manejo de recursos.3 O neoliberalismo. P Ó S . denunciavam. o processo de formação das ONGs que impregnou o movimento: A maioria destas ONGs formadas por técnicas e profissionais trabalha com as mulheres de ‘setores populares’. financiamiento y feminismo”.M A R XI S M O. na Argentina. tomaram parte na tecnocracia que se somou aos organismos multilaterais. e Bellotti. ao Banco Mundial e às milhares de ONGs. “ONGs. M. Outras se mantiveram à beira dos financiamentos e criticaram duramente essas tendências. às agências de financiamento. P ÓS-MODERNISMO E P ÓS-FEMINISMO 139 Em termos gerais. M. ATEM. Apresentam-se como mediadoras entre as agências de financiamento e os movimentos de mulheres e formulam programas. com estas palavras.M O D E R N I D A D E .Paoerosas136_154:Layout 1 28/2/2008 23:54 Page 139 P Ó S . Buenos Aires. além das competências entre as profissionais pelos financiamentos. 1 2 3 Cifras de 1992. Essa relação. Barcelona.1 Muitas feministas com certo prestígio no movimento. em Hojas de Warmi Nº 10. . 1999. que se transformaram também em plataformas para o lançamento de carreiras pessoais. brindando serviços que vão desde oficinas e cursos de todo tipo à distribuição de alimentos. gera vínculos hierárquicos e tensões entre as mulheres das ONGs e dos movimentos em que trabalham.. à organização de setores populares. as estatísticas da OECD nos falam de um aporte estatal e privado às ONGs de cerca de 10 bilhões de dólares. mas sua voz foi minoritária e sua luta — ainda que de caráter reivindicatório — só encontrou ressonância no vazio que as cercava. por meio de mecanismos como estes despolitizou os movimentos sociais. o que representa um quarto da ajuda bilateral global. planificação familiar (controle da natalidade) etc. inclusive o feminismo. que implica diferenças de classe. Fontenla. As feministas autônomas da ATEM2. Associação de Trabalho e Estudo da Mulher. conhecimentos específicos e trajetória política na reivindicação dos direitos das mulheres.

. ideológicas e inclusive dos compromissos militantes em relação aos movimentos sociais. exigências e denúncias na luta por uma transformação radical. desejo etc. PARÓDIA E DEMOCRACIA RADICAL Acompanhando este processo. Ela se pergunta de que maneira as práticas sexuais não normativas põem em dúvida a estabilidade do gênero como categoria de análise. as ONGs acabaram sendo confundidas com o próprio movimento. mediante a desconstrução das categorias de sexo. publicado em inglês em 1990 e traduzido para o espanhol quase uma década mais tarde. seus projetos financiados seus trabalhos pagos se confundiram com “ações”. O livro que mais gerou debate foi O gênero em disputa. durante a década de 90 as tendências pósestruturalistas adquiriram maior influência. Berkeley. Judith Butler é professora de Filosofia no Departamento de Retórica e de Literatura Comparada da Universidade da Califórnia. gênero. as políticas neoliberais que começaram na década de 1980 e atingiram seu ponto culminante durante a década de 1990 fizeram com que o movimento feminista se fragmentasse e se privatizasse. em relação às elaborações teóricas. ou seja. No prefácio da edição de 1999 em espanhol Butler sustenta que seu propósito é criticar a suposta heterossexualidade do feminino e que o fará a partir da ótica do pós-estruturalismo. Além da amplíssima variedade de posições teóricas. como se fossem as próprias ações que os movimentos realizam como reivindicações. Já adquiriu notoriedade em âmbitos acadêmicos e movimentos de ativistas e seus livros têm sido traduzidos para outros idiomas. Em síntese. quem teve maior difusão e preponderância no debate feminista do período foi Judith Butler. PERFORMATIVIDADE.Paoerosas136_154:Layout 1 28/2/2008 23:54 Page 140 140 ANDREA D ’ AT R I Como apontam muitas feministas autônomas.

El feminismo y la subversíon de la identidad. defendendo que só as práticas paródicas transformam as categorias do corpo. Seu objetivo é responder à questão: Me perguntei então: qual configuração de poder constrói o sujeito e o Outro. o gênero e a sexualidade.M A R XI S M O.Paoerosas136_154:Layout 1 28/2/2008 23:54 Page 141 P Ó S . 2000. e sua materialização em políticas neoliberais. com o pósestruturalismo desconstrutivista). . investigando os interesses políticos que há em designar como origem e causa das mesmas aquilo que considera o efeito das instituições. o sexo.M O D E R N I D A D E . 4 Butler. P ÓS-MODERNISMO E P ÓS-FEMINISMO 141 Segundo Butler. El género en disputa. as minorias seriam respeitadas caso sejam transformadas as estruturas culturais valorativas subjacentes à dicotomia normativa homossexual—heterossexual.. As. Paidós. das práticas e dos discursos. apresenta como conclusão as linhas gerais de sua Teoria da Performatividade de Gênero. A solução alternativa a este binarismo — em que a homossexualidade é o correlato desvalorizado da construção da heterossexualidade — radicaria então na prática negativa de desconstrução que implica desmascarar a repressão fundante e excludente que estaria na base de toda identidade. J. e incorporando diferentes aspectos do giro lingüístico propiciado por Wittgenstein e Austin. Inscrita no irracionalismo filosófico contemporâneo (tal como se desenvolve a partir de Nietzsche e Heidegger como críticos da metafísica da substância e é seguido por Derrida. P Ó S . Por isso. Bs. nessa relação binária entre homens e mulheres e a estabilidade interna desses termos? 4 Mas o que transcende o texto e outorga-lhe lugar significativo no debate acadêmico e político é que se emoldura na discussão sobre as alternativas à globalização e à luta pelo reconhecimento de novos movimentos sociais que estariam surgindo como resposta ao pensamento único.. seu trabalho consistirá em trazer uma crítica genealógica de inspiração foucaultiana às categorias de identidades.

El retorno de lo político. Enquanto o multiculturalismo difundia-se uma concepção positiva das diferenças de identidades para promover sua inclusão. Seu posicionamento político frente a esta disjuntiva — a diferença da resposta que tenta o multiculturalismo — não passa pela combinação “politicamente correta” das diversas intersecções 5 Mouffe. excludente. Segundo Chantal Mouffe. no que foi denominado “pósmarxismo”. Barcelona. Paidós. Ch. portanto. Judith Butler se pergunta: ‘Que nova forma de política emerge quando a identidade como uma base comum já não constrange o discurso da política feminista?’ Minha resposta é que visualizar a política feminista dessa maneira abre uma oportunidade muito maior para uma política democrática que aspire à articulação das diferentes lutas contra a opressão. uma nova concepção emerge definindo as identidades como construções discursivas repressivas e excludentes. . a necessidade de múltiplos eixos de luta contra a opressão. Judith Butler é um exemplo paradigmático do segundo enfoque. a pergunta que se faz Butler sobre a agência abre novas possibilidades políticas: Em Gender Trouble. que sustenta a idéia de uma democracia radical e pluralista.5 As profundas controvérsias que suscitou no movimento feminista e em outros âmbitos devem-se às radicais conclusões e à sua estranha proposta de subversão política. Para esta autora a categoria mulher como representação de valores e características determinadas é normativa e.. O marco de discussão no qual se desenvolvem as novas teorias é o do debate centrado.Paoerosas136_154:Layout 1 28/2/2008 23:54 Page 142 142 ANDREA D ’ AT R I Sua busca de uma estratégia desconstrutiva do princípio binário de inteligibilidade sexual tenta responder ao contexto histórico no qual se reformula. 1999. fundamentalmente. segundo a autora. algo que a feminista Nancy Fraser denominou “a condição pós-socialista”. O que emerge é a possibilidade de um projeto de democracia radical e plural.

convertendo o gênero aparentemente em uma expressão natural dos corpos. Ela proclamará. no sentido do sujeito de coalizão pluralista que defende o multiculturalismo: a identidade é fictícia.. desejos atuados e articulados criam a ilusão de um núcleo interior e organizativo do gênero. Idem..atos e gestos. dispensa absoluta de toda identidade. teoria feminista y discurso psicoanalítico” em Feminismo/ Pós-modernismo de Linda Nicholson (comp. . tornando-o rígido novamente. uma ilusão mantida discursivamente para regular a sexualidade dentro do marco obrigatório da heterossexualidade reprodutiva. Os discursos sociais sobre a superfície de corpo criam a falsa convicção de uma identidade. teoria feminista y discurso psicoanalítico. As. Em seu artigo Problemas de los géneros. de uma essência interior.. “Problemas de los géneros. e muito menos emancipar. A repetição institucionaliza o gênero. sustenta: Existe outro ponto de partida normativo para a teoria feminista que não requeira a reconstrução ou a atualização de um sujeito feminino que não pode representar. Sua resposta é que a crítica do sujeito — tal como formulada pelo pós-estruturalismo — não deve limitar-se à reabilitação de suas múltiplas determinações interrelacionadas.7 7 Butler.. P Ó S . 1992. O corpo generizado não tem status ontológico por fora dos atos que o constituem. O resultado dessa repetição atual é a aparição da substância. ao contrário. J. a posteriori.M A R XI S M O.Paoerosas136_154:Layout 1 28/2/2008 23:54 Page 143 P Ó S . Feminaria. P ÓS-MODERNISMO E P ÓS-FEMINISMO 143 que constituem o sujeito em suas múltiplas identidades.M O D E R N I D A D E . o conjunto de seres corpóreos que se encontram na posição cultural de mulheres? 6 A pergunta é retórica porque Butler já tem uma posição a respeito.). Bs. Para Butler: A ordem simbólica é pressuposta como o âmbito da existência social que se reproduz nos gestos constantemente 6 .

da revista feminista Lola Press. Os bissexuais podem unir-se ao movimento queer. Butler não supõe a existência de um original a ser imitado. da qual se constituiu uma identidade lésbica e gay adequada. se sou lésbica. Ser queer não é ser lésbica. As. tenho que desejar de certa forma. Queer é um argumento contra certa normativa. ritualizados. Então. Paidós. As figuras lésbicas butch/femme etc são as produções que se apresentam como imitação de uma identidade de gênero que nunca existiu. Bs. Os heterossexuais podem unir-se ao movimento queer. .. Pelo contrário. sugere-se a abertura à resignação e contextualização das identidades de gênero. sem perguntar-se quais são as que se arraigam na sustentação do status quo de uma ordem de dominação 8 Ao atacar a ficção normativa de coerência heterossexual Butler demanda que as feministas produzam todo um conjunto de novos gêneros da não coerência. a filósofa estadunidense disse: Para mim. No deslocamento mesmo dessas significações. tenho que desejar de certa forma. R.Paoerosas136_154:Layout 1 28/2/2008 23:54 Page 144 144 ANDREA D ’ AT R I reiterados. Em uma entrevista a Regina Michalik. segundo Butler. ou se sou gay. queer é uma expressão que deseja que alguém não tenha que apresentar uma carteira de identidade antes de entrar em uma reunião. É um argumento contra a especificidade lésbica na qual. a partir dos quais os sujeitos assumem seu lugar nessa ordem. Sujetos nómades. 2000. Fica claro que quando fala de “paródia”.8 Braidotti. Nas palavras da teórica feminista Rosi Braidotti: O anti-essencialismo desconstrutivista de Butler em seu afã por eliminar as identidades pressupõe um sinal de igual entre as mesmas. é a paródia da noção de uma identidade original. a paródia é a expressão de que o original não existe.. fica aberta a possibilidade de modificar os contornos simbólicos da existência por meio da performance de atuações deslocadas parodicamente. Ser queer não é ser gay.

A liberação das mulheres na nova teoria pós-moderna poderia ser interpretada melhor como a liberação da própria identidade que é o verdadeiro opressivo. Sempre que se constituir um sujeito. segundo Butler. A autora subestima o potencial subversivo do desempenho com relação à constituição dos sujeitos generizados ou as identidades de gênero a ponto de 9 Butler. um novo discurso de poder. sustenta que os sujeitos se constituem por meio da exclusão. a transformação. Para Butler. inevitavelmente. Se devemos. Segundo as palavras da própria autora de Gender Trouble. então. teriam responsabilidade alguma na definição da opressão da metade do planeta. J. P ÓS-MODERNISMO E P ÓS-FEMINISMO 145 determinada e quais são as que. de todas as maneiras se desnaturalizam e mobilizam através de sua recontextualização paródica.9 Para Judith Butler.cit. se constituirá o objeto como a exclusão normativa e necessária para a existência do primeiro.. nos emancipar de algo.. há o que define como um “riso subversivo” como efeito das práticas paródicas. E toda resistência ao poder será sempre.. imitam o mito da originalidade em si. . Enquanto imitações que efetivamente alteram o significado do original. isto é assim porque.. a proliferação paródica impede à cultura hegemônica e à sua critica afirmar a existência de identidades de gênero essencialistas ou naturalizadas. nem sequer os homens!.M A R XI S M O.M O D E R N I D A D E . se opõem às relações sociais de opressão existentes. nem o patriarcado. Nem a sociedade. P Ó S . no pleno sentido foucaultiano. é da pesada definição ontológica repressiva e excludente de nossa identidade “mulher”. ou seja. nem o gênero. nós mulheres. Ainda que os significados de gênero adaptados nestes estilos paródicos. ao reivindicar-se. evidentemente formam parte da cultura hegemônica misógina. é subversiva pelo seguinte: . as políticas de subjetivação encerram necessariamente as práticas da sujeição.. seguindo Foucault. op.Paoerosas136_154:Layout 1 28/2/2008 23:54 Page 145 P Ó S .

Essa prática política questionaria a democracia. convertendo-a em radical e pluralista. tal como 10 Mouffe.Paoerosas136_154:Layout 1 28/2/2008 23:54 Page 146 146 ANDREA D ’ AT R I não colocar a reestruturação total dessa ordem hegemônica simbólica. apropriações e opressões materiais. exploração etc — a conduz a sustentar que. intercâmbio. senão multiplicar os espaços onde as relações de poder estarão abertas à contestação democrática. que tem seu fundamento em uma ordem social historicamente determinada de exclusões. então. porque a forma social da reprodução sexual é inerente ao núcleo mesmo de relações sociais de produção — no sentido de que a família heterossexual é a base das relações capitalistas de propriedade. op. Ch. No entanto. segundo Chantal Mouffe: O objetivo de uma política democrática. em suas elaborações ao colocar como horizonte teórico e prático a democracia radical e pluralista não deixam de transcender o político cultural. Na proliferação destes espaços no intuito de criar as condições de um autêntico pluralismo dos comportamentos de luta. segundo a qual não há separação dicotômica entre a luta econômica e a luta “meramente cultural”.. Mas para isso. teve que renunciar previamente a toda pretensão de eliminar o poder. não é erradicar o poder. Este é o nó do pensamento butleriano com o qual se enlaça a política de uma democracia pluralista. senão a precariedade e a transformação permanente de ditas identidades. O político não consistiria a defesa dos direitos de determinadas identidades préconstituídas. é óbvio. . tanto no domínio do estado como no da sociedade civil.cit.10 A tese butleriana. a luta específica contra a heterossexualidade normativa — de alcançar seus objetivos de emancipação — abalaria o modo de produção. portanto. insere-se a dinâmica inerente à democracia radical e pluralista. pois.

entendida nestes termos. o objetivo político é não permitir que a discriminação fique estruturalmente fixa nem seja a base discursiva da discriminação a priori. A política. ao modo dos jogos infantis de esconde-esconde: a indefinição. Segundo as palavras de Mouffe. . Butler não concorda com nenhum projeto que busque estabelecer as normas ou requerimentos da vida política antecipadamente.M A R XI S M O. cada um está disposto a aceitar as particularidades e limitações de suas próprias reivindicações. converte-se em um jogo com o poder. a não aceitação de determinadas identidades e o nomadismo. os agentes sociais devem reconhecer que é impossível eliminar o poder existente em suas mútuas relações. Para a filósofa norte-americana. sem referências fixas ou determinadas. o que seria impossível. podem e devem ser perpetuamente rearticulados entre si permitindo a produção de novas posições subjetivas e novos significantes. desestabilizando-o. P Ó S . Ainda que sempre haja identidades e grupos discriminados. supostamente. P ÓS-MODERNISMO E P ÓS-FEMINISMO 147 sustentam também os politólogos autodenominados pósmarxistas. então. sustenta que. Aqui radica o potencial político e teórico democrático radical. Seguindo as elaborações dos pós-marxistas Ernesto Laclau e Chantal Mouffe. possibilita o desafio de sua transformação e resignação permanente para o feminismo. deixar a categoria “mulheres” aberta. Para Butler. como tais significantes são sempre incompletos em si mesmos.Paoerosas136_154:Layout 1 28/2/2008 23:54 Page 147 P Ó S . antes que a ação política em si.M O D E R N I D A D E . pelo contrário. Como assinalam algumas de suas críticas. na inclusão total das diferenças. o significante político é politicamente efetivo precisamente na razão de sua impossibilidade de descrever ou representar de modo completo aquele que nomeia. Esse modelo de democracia radical não consiste. O ideal máximo a que pode aspirar a sociedade democrática é que nenhum agente social se dê o direito de representação da totalidade e. obrigariam o poder a novas e móveis definições excludentes ou seja.

As. mais do que converterem-se em ferramentas perturbadoras do discurso hegemônico se transformam em nichos clientelares de novos mercados. e todas elas são somente construções lingüísticas prescritivas e práticas confirmatórias. sustentamos que a lógica do capital integra. nem há descontinuidade reificada. prática e programática do movimento feminista. a performance e a mudança permanente das posições de identidades. Como ressalta a argentina Maria Luisa Femenías: Se não há gênero diferente de sexo. Catálogos.. 2000. M. Bs.. ou seja. Butler situa-se na discussão igualdade—diferença.11 Como bem enfatiza Terry Eagleton. Sendo assim. não há dilema algum em definitivo. uma constelação de singularidades fetichizadas. mercantilizando-as como posições desejáveis de vários consumidores. reabsorve. uma diversidade sem diferenças específicas. inclui e neutraliza as diferenças. INDIVIDUALISMO E CETICISMO Pelo contrário. O nomadismo. mais que constatar-se como a subversão das convenções estabelecidas. . Sobre sujeito y género. Apontar a artilharia contra a concepção universalista do homem abstrato. Tanto Beauvoir como Irigaray fracassaram ex initio e Butler ‘soluciona’ o dilema por simples desconhecimentos de seus fins.Paoerosas136_154:Layout 1 28/2/2008 23:54 Page 148 148 ANDREA D ’ AT R I CONSUMISMO. constitui-se no embasamento de uma insaciabilidade permanente que retroalimenta adequadamente o consumismo dos incluídos. grande parte do pósmodernismo é “politicamente opositor. contra os valores absolutos e a metafísica do cidadão é somente um aspecto da luta teórica e ideológica 11 Femenías. nem tampouco igualdade ou diferença homologáveis. mas economicamente cúmplice”. Lecturas feministas desde Beauvoir a Butler. L. desconhecendo seus fins. que atravessa a história teórica. nem há diferença sexual binária como dado do corpo.

O recurso à ameaça totalitária baseada nos universalismos com o qual os defensores da democracia plural fazem frente às posições da esquerda. P Ó S . Reflexiones sobre el multiculturalismo.. na eliminação de toda pretendida universalidade. O sistema capitalista sustenta esse aspecto na pluralidade do desejo e da fragmentação da produção social. Na perspectiva do materialismo dialético e histórico. Paidós. . obriga a revisar a história do totalitarismo que sempre. ou seja. a teoria crítica — sob a roupagem de ‘crítica cultural’ — está oferecendo o último serviço ao desenvolvimento irrestrito do capitalismo. Toda singularidade do valor é de uso da economia é subsumida à abstração universalizável do valor de troca. O feminismo e todo movimento emancipatório devem levar em conta essa perspectiva quando.M O D E R N I D A D E . mais do que nunca. não tem destino.. indefectivelmente. ao participar ativamente no esforço ideológico de fazer invisível a presença deste: em uma típica ‘crítica cultural’ pós-moderna. não deveria aceitar os fins impostos pela armadilha pós-moderna. Toda particularidade dos sujeitos individuais é subsumida no direito e na justiça sob a figura do cidadão. pelo contrário. S. P ÓS-MODERNISMO E P ÓS-FEMINISMO 149 que está colocada. Bs.Paoerosas136_154:Layout 1 28/2/2008 23:54 Page 149 P Ó S . Disse Slavoj Zizek: O feminismo. o capitalismo se transformou em um sistema total(itário) em escala planetária. se sustenta na suspensão da legalidade a partir de uma postura de identidade particular. ‘fundamentalismo’ e outros delitos. Questionar só essa arbitrariedade da universalização no plano jurídico e político acarreta a sustentação indiscutível de suas bases materiais enraizadas nas estruturas econômicas das relações sociais de produção.12 Zizek.M A R XI S M O. se pretende retomar as bandeiras da emancipação das mulheres de toda a opressão. tampouco a universalidade desse sistema é neutro: encerra a 12 Hoje. 1998. As. a mínima menção de capitalismo enquanto sistema mundial tende a despertar a acusação de ‘essencialismo’.

O colapso da dialética nos dá uma nova . Tomar partido na contradição pela classe explorada é a única via para alcançar a universalidade da emancipação de toda dominação..Paoerosas136_154:Layout 1 28/2/2008 23:54 Page 150 150 ANDREA D ’ AT R I contradição da exploração de uma classe por outra. Um sistema onde. no qual diz: . Mas sua preocupação política opera nos marcos nunca explicitados do sistema capitalista.. E. onde a exploração é indizível e a produção é meramente simbólica. portanto. vice-versa: sua elaboração sobre a democracia embasa-se na tentativa de pensar o “espaço” político radical onde possam ser incluídos também os corpos que hoje “não” importam. que escapariam a toda reivindicação de identidade. ademais. Esse capitalismo impossível de pronunciar é o limite inquestionável da ima-ginação política. Sempre haverá cooptação dos elementos mais revulsivos dos movimentos sociais enquanto não questionarem as bases fundacionais do sistema capitalista. A dominação aparece com maior eficácia precisamente como seu ‘Outro’. mas no mesmo ato se verá constrangido a atuar como um novo discurso regulador. isto sucede quando pensamos que encontramos um ponto de oposição à dominação e logo nos damos conta de que esse mesmo ponto de oposição é o instrumento através do qual opera a dominação. Butler sustenta-o explicitamente no livro escrito com Laclau e Zizek. incapaz de ser desconstruído. e que sem querer fortalecemos os poderes de dominação através de nossa participação na tarefa de opormonos. Não há solução à armadilha da universalidade moderna a partir das particularidades de identidades. Se Butler teoriza sobre sexo/gênero é por seu interesse em pensar as condições de possibilidade de uma democracia radical. Reduzindo a luta a meras batalhas pelo reconhecimento não alcança. qualquer tentativa de oposição se verá limitada a uma mera rearticulação do horizonte do incluído. Nem sequer com o nomadismo permanente das figuras paródicas de Butler. o “não dito” e.

Idem. o de supor a política como a ação de cidadãos abstratamente iguais em um Estado também despojado de seu caráter de classe.13 Para Judith Butler. é necessário aceitar a semiotização da política. Bs. Mas seu ponto de partida. para os fins chaves do liberalismo. Essa expansão só poderia garantir-se esvaziando o conteúdo político de qualquer significado préfixado. os limites democráticos do liberalismo são questão de ordem quantitativa. é menos construído que outros. como. Laclau e Zizek. ou seja. P ÓS-MODERNISMO E P ÓS-FEMINISMO 151 perspectiva porque nos mostra que o mesmo esquema pelo qual distinguem-se dominação e oposição dissimula o uso instrumental que a primeira faz da última.14 A prática política dos movimentos sociais — na única concepção que entende a autora.. P Ó S . Butler. FCE. como movimentos sociais de identidades — deveria ter como objetivo a expansão dos fins do “cidadão” e do “humano” em um sistema que entende os direitos humanos e cidadãos como pilares fundamentais do funcionamento democrático.M O D E R N I D A D E . não por suas debilidades. precisamente. por exemplo. uma operação que os autores de Contingencia. tornando-os mais inclusivos. porque toda significação que se pretende universal será fatalmente particular e assim repressiva no ato performativo de definir sua identidade.Paoerosas136_154:Layout 1 28/2/2008 23:54 Page 151 P Ó S . Para isso.M A R XI S M O. 2003. No mesmo livro sustenta: O que eu entendo como hegemonia é que seu momento normativo e otimista consiste. produzindo o abjeto. mais dinâmicos e mais concretos. nas possibilidades de expandir as possibilidades democráticas. hegemonía y universalidad. mas que ao definir seus conteúdos regula e portanto exclui. 13 14 . Contingencia. As. hegemonía e universalidad dão por certo.

México. nas elaborações butlerianas precisamente de um “fetiche teórico que repudia as condições de sua própria emergência”. p. outorgando-lhe significância. 125. um âmbito da ordem da validez onde esse factum é significado. Mas sempre que há uma norma. Portanto. El Capital. como requer a transformação contínua de dinheiro em capital. FCE. apagando os rastros de sua origem. enquanto a heterossexualidade obrigatória aparecerá em cena apresentando a si mesma como norma a-histórica. Em sua indivisível e inquestionável presença apaga o processo histórico transcorrido por meio de aberrações cruéis e sanguinárias pelas quais o desejo foi regrado. é necessário que o vendedor da força de trabalho se perpetue “como se perpetua todo ser existente pela reprodução. Como um “fetiche teórico que repudia as condições de sua própria emergência”. Porque o possuidor da força de trabalho é um ser mortal. natural e imutável.Paoerosas136_154:Layout 1 28/2/2008 23:54 Page 152 152 ANDREA D ’ AT R I A diferença cumpre o papel. Não é outra que a imagem fetichista que oferece a sociedade civil. reprimido e ordenado segundo uma racionalidade que entende a sexualidade como reprodução e a reprodução como mera reprodução de força de trabalho. ou seja. compreendido. .”15 A semiosis infinita que Butler defende como ideal a alcançar com a democracia radical e plural já está presente. A “ideologização” da diferença como “diferença” é a conseqüência de um processo histórico—construtivo cuja estrutura alcançada atuará de maneira a regular a posteriori. o 15 Karl Marx. as formas não heterossexuais da sexualidade serão o abjeto. para utilizar uma expressão da própria autora. as marcas de identificação pertinentes dos corpos que não importam. para que sua presença no mercado seja contínua. Não há possibilidade de nomear a diferença se não é por referência a um sistema de normas que operam sobre a mera artificialidade.

sob a aparentemente livre eleição dos representantes. a existência de uma classe que expropria historicamente a humanidade dos meios de produção. Para Butler suas escassas aspirações libertárias a fazem defender que o compromisso com uma concepção de democracia que tenha futuro. ao mesmo tempo que é a forma necessária que adquire no modo de produção capitalista nos estados “modernos” burgueses. disfarça a dominação de aceitação também voluntária. A aparência voluntária do contrato encobre a violência da expropriação originária. P ÓS-MODERNISMO E P ÓS-FEMINISMO 153 mercado. Judith Butler eleva a modelo ideal (universal) precisamente a “universalidade irrealizada”. Um mercado livre. como contrapartida para sua realização. condição estrutural do Estado baseado na exploração capitalista. que a expropriação e a exploração são o “lado oculto” intrinsecamente fundido com a Declaração Universal dos Direitos do Homem e do Cidadão. Mas o juiz e a polícia cancelam a semiosis infinita da igualdade cidadã.M O D E R N I D A D E . tem necessariamente que incluir. que se mantenha não restringida pela teleologia e que não seja equivalente a nenhuma de suas realizações exige uma . a democracia. onde homens livres intercambiam as mercadorias que circulam de maneira ininterrupta (infinita?). quando a propriedade privada e a liberdade do contrato de trabalho vêm-se ameaçadas pela ação das classes subalternas. Jamais poderia ser “mais inclusão” o objetivo pragmático de uma política emancipatória que reconhecera o jogo de espelhos do capital e do Estado. A democracia dos cidadãos livres. aquela forma de manifestar-se que tem a prática eminentemente humana. fraternos e iguais. O contrato de trabalho entre homens livres e iguais oculta a exploração. P Ó S .Paoerosas136_154:Layout 1 28/2/2008 23:54 Page 153 P Ó S .M A R XI S M O. ou seja. Aí é onde a imagem aparente obtura a inteligibilidade dos mecanismos da extração de mais-valia. A circulação livre e infinita de mercadorias é o outro lado da moeda da exploração.

cit. demanda diferente. op. Zizek.Paoerosas136_154:Layout 1 28/2/2008 23:54 Page 154 154 ANDREA D ’ AT R I Os abjetos.16 16 Butler. pelo contrário. uma demanda que postergue permanentemente a realização. não adaptados com a postergação infinita. . sonhamos com as alas que sabemos enraizadas em nossos próprios ventres de casulos. Laclau.

Descobri meu lado adormecido e agora que está despertado. Em todo o mundo 500.Paoerosas155_161:Layout 1 28/2/2008 23:58 Page 155 A modo de conclusão “Vejo que a mulher pode. especialmente as mais pobres. . passar e cozinhar em casa para os filhos.” 1 Célia Martinez MILHÕES DE MULHERES CONDENADAS À BARBÁRIE Atualmente. ocupada e colocada para funcionar pelas trabalhadoras desde 18 de dezembro de 2001.. Ao contrário do que se imagina. Pode fazer mais que lavar. são 6. não penso em parar. a realidade indica que ainda estamos muito longe de ter solucionado com as leis as situações concretas que vivemos nós mulheres. operária da fábrica Brukman de Buenos Aires.000 mulheres que morrem anualmente por complicações relacionadas a abortos inseguros. etc. ainda que as feministas tenham participado e conseguido introduzir modificações nas legislações de muitíssimos países pelo mundo quanto ao divórcio. Só no continente latino-americano o aborto clandestino continua sendo a primeira causa de morte materna. Estou sentindo isso agora e o estou vivendo. no início do século XXI vivemos 1 Reportagem com Celia Martínez.000 mulheres morrem a cada ano por complicações na gravidez e no parto e 500 mulheres por dia morrem por abortos clandestinos. Eu acho que é real. a participação nos cargos públicos eletivos.

Outros fundamentalismos religiosos praticam a extirpação do clitóris e a costura dos lábios vaginais de meninas e adolescentes. queimaduras etc. na província de Buenos Aires. já que não são denunciadas por medo ou pela certeza de que a denúncia não será levada em conta. Bem mais que 400 mulheres foram assassinadas nos últimos dez anos em Ciudad Juárez (México). Segundo as estatísticas a cada oito segundos uma mulher é vítima de violência física. sendo que 70% das mulheres padecem de violência doméstica.Paoerosas155_161:Layout 1 28/2/2008 23:58 Page 156 156 ANDREA D ’ AT R I uma atitude cada vez mais feroz do fundamentalismo católico em aliança com os Estados e o poder político contra os direitos sexuais. enquanto vêm à tona cada vez mais casos de abuso sexual contra meninos. reprodutivos e o direito ao aborto. No outro extremo do continente. e 30% reportam que sua primeira relação sexual foi forçada. Calculase que 80% das agressões permanecem em silêncio.000 lares as mulheres sofrem maus-tratos. fazendo dessa cidade fronteiriça um lamentável exemplo de femicídio. que serão arrancados pelo noivo na “noite de núpcias”. Bangladesh.. meninas e jovens perpetrados pelos membros da Igreja. Coréia do Sul etc. calcula-se que em 120. misoginia e barbárie. impunidade. Em alguns países como a China. os infanticídios e abortos são seletivos e 99% das vítimas são meninas. A América Latina e o Caribe. e a cada ano são mais 2 milhões de mulheres que devem passar por este rito cruel. Na Índia matam-se as . a Indonésia. por sua vez. sendo que no decorrer de um ano são cometidos mais de 50 homicídios de mulheres pelas mãos de seus parceiros. registram os índices mais altos de violência contra as mulheres: o homicídio representa em nosso continente a quinta causa de morte. Em algumas culturas os crimes de honra são considerados legítimos. pelos quais as mulheres repudiadas por seus maridos são humilhadas e até assassinadas com amputações. Há mais de 110 milhões de mulheres e meninas com os órgãos genitais mutilados. Uma em cada três mulheres no mundo sofre maus tratos.

nos locais onde o mercado do sexo é um delito. Em muitos casos. Na zona andina. E por cada homem que emigra dos países pobres ou envolvidos em guerras e conflitos. se lhes é negado este direito. Sánchez de Losada. em todo o mundo um em cada cinco dias de ausência feminina no ambiente de trabalho é conseqüência de um estupro ou de violência doméstica. para exercê-lo devam impor-se decididamente. ao pedir a palavra para intervir. antes dos clientes. as mulheres constituem 70% das 1. 13 milhões de crianças morreram de fome no mundo: é um número seis vezes maior que o total de vítimas da Primeira Guerra Mundial entre 1914 e 1918.000 e 8. A maioria dessas crianças são meninas dos países do chamado Terceiro Mundo. Presenciamos recentemente. Como já dissemos na introdução.Paoerosas155_161:Layout 1 28/2/2008 23:58 Page 157 A MODO DE CONCLU SÃO 157 mulheres que ficam viúvas e se transformam em una carga social.000 estupros por ano. sentadas no chão e que. Segundo as especialistas em violência. Dos 960 milhões de analfabetos existentes no mundo 70% são mulheres. levantando a voz de maneira audaz. calcula-se que ocorrem entre 5. há três mulheres. traficantes de mulheres e meninas e exploradores sexuais. perdendo tudo e tendo que escolher entre emigrar ou enfrentar a crueldade dos estupros. Enquanto isso. o costume que se reitera é que as mulheres permaneçam atrás dos homens. a raiz do levante operário e popular que derrubou o governo do presidente boliviano. Em 2003. o “turismo sexual” nos países mais pobres do mundo se transformou em uma indústria bastante rentável para cafetões. é tradição dos povos originários que as mulheres não tenham direito a herdar a terra. Na Argentina. a culpa é sempre das mulheres em situação de prostituição. que muitas vezes fazem parte das operações de guerra. Não obstante. no qual as mulheres não podem participar em igualdade de condições aos homens nas assembléias e reuniões.5 milhões de pessoas que vivem em condições . tendo seus corpos transformados em botim para o inimigo. Elas são as principais vítimas dos conflitos ficando viúvas ou órfãs em frente às suas casas.

ESTAMOS DE PÉ Mas assim como as exorbitantes cifras do horror e os relatos da barbárie que milhões de mulheres pelo mundo ainda continuam sofrendo em suas sinistras realidades. protagonistas indiscutíveis da resistência e do enfrentamento contra esta mesma barbárie. As camponesas são chefes de um quinto dos lares rurais e em algumas regiões até de mais de um terço. deu lugar ao ressurgimento da mobilização no mundo.Paoerosas155_161:Layout 1 28/2/2008 23:58 Page 158 158 ANDREA D ’ AT R I absolutas de pobreza em todo o mundo. como também a grande maioria não têm seguro social nem direito à aposentadoria. Só na América Latina 154 milhões de mulheres são as mais pobres entre os pobres. as mulheres aymaras e as trabalhadoras mineiras bolivianas. O valor e o volume do trabalho doméstico não remunerado variam de 35% a 55% do produto interno bruto dos países. mas só são proprietárias de cerca de 1% das terras. A eclosão dos modelos econômicos “neoliberais”. A produção doméstica representa até 60% do consumo privado. seguido pela tentativa de diálogo do feminismo com . afetando de maneira especial as mulheres. Segundo relatos da OIT a taxa de desemprego urbano no continente latino-americano no final de 2002 chegou a 17 milhões de pessoas. nas jornadas de outubro de 2003. que culminaram na queda do presidente Sánchez de Losada. como demonstraram recentemente. as mulheres que trabalham o fazem em uma situação cada vez mais precária: não só ganham um salário entre 30 e 40% menor que os homens pelo mesmo trabalho. E este trabalho não remunerado recai quase absolutamente sobre as mulheres e as meninas. enquanto 80% dos alimentos básicos para o consumo é produzido por mulheres. não é menos certo que nós mulheres estamos de pé e continuamos sendo. no final do século XX. Por outro lado. as mulheres camponesas. em muitos casos.

em diversas ocasiões. padecida por milhões de mulheres que desconhecem suas premissas. organizadas nos bairros das cidades mais importantes do território nacional. a exploração. Por outro lado. organizações multilaterais e outras reuniões nas quais os poderosos tentam definir. aos lobbies políticos. a violência.— para além da autenticidade ou do oportunismo de suas novas posições — foram parte das novidades do último período que não passaram em branco. A participação das feministas nas mobilizações mundiais contra a globalização em cada uma das cúpulas de governos imperialistas. mas enfrentam no cotidiano a fome. a “conversão” e a autocrítica de muitas feministas “institucionalizadas”. O mesmo ocorreu na Argentina. os destinos da humanidade. este será reduzido às elaborações acadêmicas. o abuso e as humilhações.Paoerosas155_161:Layout 1 28/2/2008 23:58 Page 159 A MODO DE CONCLU SÃO 159 outros movimentos sociais. QUEREMOS NOSSO DIREITO AO PÃO. a partir de então. Importantes setores do feminismo hoje rechaçam o caminho da auto-exclusão que. se aproximar das trabalhadoras que tomaram as fábricas — como as operárias de Brukman —. para depois. são um fato inédito dos últimos anos. em que as feministas tornaram a aparecer com suas bandeiras distintivas em meio às mobilizações populares que derrubaram o governo de De La Rúa. das mulheres dos movimentos de desempregados que fecharam as ruas e viadutos e as assembléias populares. provendo . recolocando os fundamentos de sua prática. dividiu o movimento feminista das mulheres mobilizadas que lutam por seus direitos. MAS TAMBÉM ÀS ROSAS Mas se o feminismo não almeja transformar a realidade. durante as jornadas de dezembro de 2001 — uma das expressões mais agudas da luta de classes do período —. em grande medida.

Quem é feminista e não é socialista carece de estratégia. pensamos que hoje permanece atual a frase dita pela socialista norte-americana Louise Kneeland em 1914: “O socialista que não é feminista carece de amplitude. O patriarcado e o capitalismo constituíram uma união indissolúvel em que a fome e o abuso. são aqueles que podem acabar com este sistema de exploração. das commands de 1871. das mulheres dos bairros pobres de Paris que dirigiram a Revolução Francesa. documento apresentado no IX Encontro Feminista Latino-Americano e do Caribe. Ainda que o imperialismo tenha desenvolvido novas formas de opressão e aumentado o peso das amarras que pesam sobre a vida das mulheres. 2002. Costa Rica. as experiências de tantas mulheres que têm lutado ao longo da história estão vivas nas mulheres do mundo que ainda hoje continuam se levantando contra a ordem vigente.Paoerosas155_161:Layout 1 28/2/2008 23:58 Page 160 160 ANDREA D ’ AT R I “quadros” à tecnocracia de gênero que se incorporou aos estamentos governamentais e aos organismos multilaterais. a experiência das operárias têxteis do início do século XX. a experiência das mulheres que dirigiram as revoltas da farinha. . Por isso. “Globalización y Feminismo”. o desemprego e a violência. as mulheres e os homens que produzem a riqueza do mundo que lhes é expropriada pelos capitalistas. Será que é possível seguirmos o caminho da unidade e da compreensão de que não haverá emancipação das mulheres desta barbárie em que vivemos se não acabamos com este sistema que explora e oprime milhões reproduzindo o patriarcado ao seu próprio proveito? Quantas serão as feministas pensam que “temos que embarcar no trem do futuro socialista” 2? Isso é o que aspiramos os que acreditamos que as mulheres e os homens que constroem tudo. das mulheres na Revolução Russa. a exploração e a opressão pairam sobre as mulheres do mundo de um modo sinistro.” 2 Alda Facio.

opressão e violência e possam gozá-la plenamente. s/r. hoje aprisionadas pelas cadeias do sanguinário capital.Paoerosas155_161:Layout 1 28/2/2008 23:58 Page 161 A MODO DE CONCLU SÃO 161 Para finalizar. porque sabemos que nosso combate diário tem esse objetivo: a emancipação das mulheres para lutar pela revolução social em igualdade de condições a todos os oprimidos e explorados.3 3 Trotsky. e a luz do sol irradiando em todas as partes. Que as futuras gerações livrem-na de todo o mal. 1940. a revolução social para iniciar o caminho da libertação definitiva das mulheres e de toda a humanidade. Posso ver a grama verde e brilhante pelo vidro. L. . faço minhas as palavras do revolucionário russo Leon Trotsky que escreveu em seu testamento: Nossa tarefa torna a vida mais bonita. o céu azul e claro acima. A vida é bela. Testamento..

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os seguintes Direitos da Mulher e da Cidadã. a todo instante. fundadas a partir de agora em princípios simples e indiscutíveis. Em conseqüência.Paoerosas162_200:Layout 1 29/2/2008 00:09 Page 165 Declaração dos direitos da mulher e da cidadã Olympe de Gouges. a fim de que as reivindicações das cidadãs. o sexo superior tanto na beleza como na coragem. comparados com o objetivo de toda instituição política e sejam mais respeitados por ela. filhas. PRÊAMBULO As mães. irmãs. constantemente presente para todos os membros do corpo social lhes recorde sem cessar seus direitos e seus deveres. representantes da nação. estas resolveram expor em uma declaração solene os direitos naturais. inalienáveis e sagrados da mulher a fim de que esta declaração. o esquecimento ou o desprezo pelos direitos da mulher são as únicas causas dos males públicos e da corrupção dos governos. reconhece e declara. Por considerar que a ignorância. quanto aos sofrimentos maternais se refere. 1789 Para ser decretado pela Assembléia Nacional em suas últimas sessões ou na próxima legislação. . na presença e sob os auspícios do Ser Supremo. se dirijam sempre à manutenção da constituição. pedem que constituam-nas em assembléia nacional. dos bons costumes e da felicidade de todos. a fim de que os atos do poder das mulheres e os do poder dos homens possam ser.

todas as Cidadãs e Cidadãos devem participar de sua formação pessoalmente. IV A liberdade e a justiça consistem em devolver tudo o que pertence aos outros. sobretudo. V As leis da natureza e da razão proíbem todas as ações prejudiciais para a Sociedade: tudo o que não está proibido por estas leis. prudentes e divinas. II O objetivo de toda a associação política é a conservação dos direitos naturais e imprescritíveis da Mulher e do Homem. não pode ser impedido e ninguém pode ser obrigado a fazer o que elas não ordenam. a propriedade. Deve ser a mesma para todos. estes direitos são a liberdade. As distinções sociais só podem estar fundadas em uma utilidade comum. assim. nenhum indivíduo pode exercer autoridade que não emane destes. a resistência à opressão. VI A lei deve ser a expressão da vontade geral. estes limites devem ser corrigidos pelas leis da natureza e da razão. III O princípio da soberania que reside essencialmente na Nação não é mais do que a reunião da Mulher e do Homem: nenhum corpo. a segurança e. . o exercício dos direitos naturais da mulher só tem por limites a tirania perpétua que o homem lhe opõe.Paoerosas162_200:Layout 1 29/2/2008 00:09 Page 166 166 ANDREA D ’ AT R I I A mulher nasce livre e permanece igual ao homem em direitos. ou por meio de seus representantes.

XI A livre expressão dos pensamentos e das opiniões é um dos direitos mais preciosos da mulher. X Ninguém deve ser molestado por suas opiniões.Paoerosas162_200:Layout 1 29/2/2008 00:09 Page 167 D OCUMENTOS ANEXOS 167 todas as cidadãs e todos os cidadãos por serem iguais a seus olhos. . devem ser igualmente passíveis de serem admitidos em todos os postos e empregos públicos. VII Nenhuma mulher se encontra eximida de ser acusada. VIII As leis só devem estabelecer penas estritas e evidentemente necessárias e ninguém pode ser castigado mais que em virtude de uma Lei estabelecida e promulgada anteriormente ao delito e legalmente aplicada às mulheres. decidir livremente ser mãe de um filho sem que um preconceito bárbaro a force a dissimular a verdade. portanto. IX Sobre toda a mulher que tenha sido declarada culpada cairá todo o rigor da Lei. posto que esta liberdade assegura a legitimidade dos pais com relação a seus filhos. detida e encarcerada nos casos determinados pela Lei. com a exceção de responder pelos abusos dessa liberdade nos casos determinados por lei. deve ter também igualmente o de subir à tribuna. Toda a cidadã pode. assim tal como a mulher tem o direito de elevar-se à forca. e sem mais distinção que a de suas virtudes e seus talentos. As mulheres obedecem como os homens a esta Lei rigorosa. contanto que suas manifestações não alterem a ordem pública estabelecida pela Lei. conforme suas capacidades.

devem participar na distribuição dos postos. a base tributária. portanto. não tem constituição. XV A massa das mulheres. dignidade e outras atividades. nem a separação dos poderes determinada. as contribuições da mulher e do homem são as mesmas. esta garantia deve ser instituída para a vantagem de todos e não para utilidade particular daquelas a quem é confiada. empregos. XIII Para a manutenção da força pública e para os gastos de administração. tem o direito de pedir contas de sua administração a todo agente público. reunida com a dos homens para a contribuição. para cada um. XVII As propriedades pertencem a todos os sexos reunidos ou separados. XVI Toda a sociedade em que a garantia dos direitos não esteja assegurada. . em todas as tarefas penosas. a constituição é nula se a maioria dos indivíduos que compõem a Nação não cooperou em sua redação.Paoerosas162_200:Layout 1 29/2/2008 00:09 Page 168 168 ANDREA D ’ AT R I XII A garantia dos direitos da mulher e da cidadã implica uma utilidade maior. mas também na administração pública. cargos. um direito inviolável e sagrado. XIV As Cidadãs e Cidadãos têm o direito de comprovar por si mesmos ou por meio de seus representantes a necessidade da contribuição pública. e se determinem a quota. As Cidadãs unicamente podem prová-la se admite uma divisão igual. participam em todos os benefícios pessoais. não somente na fortuna. a arrecadação e a duração do imposto. são.

o exija de maneira evidente e sob a condição de uma justa e prévia indenização. legalmente constatada. tem sido injusto com sua companheira. EPÍLOGO Mulher. A chama da verdade dissipou todas as nuvens da ignorância e da usurpação. [. . as badaladas da razão se fazem ouvir em todo o universo. superstição e mentiras. Mas uma vez em liberdade. podes superá-las. mulheres. basta apenas desejá-lo.. mulheres! Quando deixarás de estar cega? Que vantagem obteve da revolução? Um desprezo mais marcado.] Quaisquer que sejam as dificuldades que a oponham.. reconhece seus direitos. fanatismo. O homem escravo redobrou suas forças e precisou apelar às tuas para romper suas correntes.Paoerosas162_200:Layout 1 29/2/2008 00:09 Page 169 D OCUMENTOS ANEXOS 169 ninguém pode ser privado dela como verdadeiro patrimônio da natureza a não ser que a necessidade pública. O poderoso império da natureza deixou de estar rodeado de preconceitos. desperta. Oh. um desdém mais visível.

Que o triunfo da luta atual tem por objetivo a supressão dos abusos e em um porvir próximo a renovação social total. sem diferença de sexo. Que é dever e direito de todos combater pela grande causa do povo.Paoerosas162_200:Layout 1 29/2/2008 00:09 Page 170 Proclamação do Comitê de Cidadas da Comuna de Paris1 Paris.fr/lacomune> . assegurando o reinado do trabalho e da justiça. e por conseqüência o mesmo interesse para os cidadãos e para as cidadãs. diferença criada e mantida pela necessidade de antagonismos sobre os quais repousam os privilégios das classes dominantes. Que a Comuna. Que o massacre dos defensores de Paris pelos assassinos de Versalhes exaspera ao extremo à massa de cidadãs e as impulsiona à vingança. 13 de abril de 1871 Considerando. e na hora do perigo supremo todos os esforços individuais devem unir-se para formar uma resistência coletiva de toda a população à qual nada poderá resistir. a Revolução. Que a união faz a força. <http://perso. Que o perigo é imediato e o inimigo está às portas de Paris.club-internet. 1 O original em Francês está publicado no Le Site de la Commune de Paris (1871). deve considerar como justas as reivindicações de todo o povo. em representação do grande princípio que proclama a dissolução do todo o privilégio.

. uma sala nas prefeituras de diversos bairros ou então. Céline Delvainquier. imprimir às custas da Comuna as circulares. cartazes e avisos que os ditos comitês julgarem necessário propagar. definir com o mesmo fim um grande local em que as cidadãs possam fazer reuniões públicas. Sophie Graix. Assinam. um local separado. Por conseguinte: As delegadas das cidadãs de Paris exigem da Comissão Executiva da Comuna: dar a ordem aos prefeitos de colocar à disposição dos comitês de bairro e do Comitê Central instituído pelas cidadãs para a organização da defesa de Paris. em caso de impossibilidade. Joséphine Pratt. membros do Comitê Central de Cidadãs: Adélaide Valentin.Paoerosas162_200:Layout 1 29/2/2008 00:09 Page 171 D OCUMENTOS ANEXOS 171 Que um grande número delas resolveu que no caso em que o inimigo venha a invadir as portas de Paris combater e vencer ou morrer pela defesa de nossos direitos comuns. Que uma importante organização do elemento revolucionário é uma força capaz de dar apoio efetivo e vigoroso à Comuna de Paris e que não pode conquistar mais que com a ajuda e a participação do governo da Comuna. Noëmie Colleville. aonde os comitês possam permanecer. Aimée Delvainquier. Elizabeth Dimitrief. Marcand. pelas cidadãs delegadas.

são contrárias ao grande preceito da natureza e. É obrigatório que em toda a terra. em conseqüência”. ou que a coloquem em uma posição inferior a do homem. nenhuma lei humana tem valor se a contradiz. em todos os países e em todos os tempos. não tem força nem autoridade. tem primazia evidente sobre qualquer outra. portanto. DECIDIMOS: Que todas as leis que impeçam que a mulher ocupe na sociedade a posição que sua consciência lhe dite.Paoerosas162_200:Layout 1 29/2/2008 00:09 Page 172 Declaração de Seneca Falls EUA. DECIDIMOS: Que todas as leis que sejam conflituosas de alguma maneira com a felicidade verdadeira e substancial da mulher. são contrárias ao grande preceito da natureza e não têm validade. Blackstone em seus comentários assinala que posto que essa lei da natureza é contemporânea à humanidade e foi criada por Deus. pois este preceito tem primazia sobre qualquer outro. que não devem . Que está convencionado que o grande preceito da natureza é que “o homem há de perseguir sua verdadeira e substancial felicidade. 1848 Considerando. DECIDIMOS: Que as mulheres deste país devem ser informadas quanto as leis sob as quais vivem. todo o seu valor e toda a sua autoridade direta e indiretamente dela. DECIDIMOS: Que a mulher é igual ao homem — assim o pretendeu o Criador — e que pelo bem da raça humana exige-se que seja reconhecida como tal. e aquelas que são válidas derivam toda sua força.

afirmando que tem todos os direitos que desejam. tanto para o homem como para a mulher. e com muita má intenção. PORTANTO: Que sendo sido investida pelo Criador com os mesmos dons e com a mesma consciência de responsabilidade para exercê-los. declarando-se satisfeitas com sua atual condição nem sua ignorância. dos que com sua assistência fomentam sua aparição nos cenários. nos concertos e nos circos. DECIDIMOS: Que é dever das mulheres deste país garantir o sagrado direito de voto. DECIDIMOS: Que a mesma proporção de virtude.Paoerosas162_200:Layout 1 29/2/2008 00:09 Page 173 D OCUMENTOS ANEXOS 173 seguir proclamando sua degradação. é seu preeminente dever animá-la a que fale e pregue em todas as reuniões religiosas. está demonstrado que a mulher. DECIDIMOS: Que posto que o homem pretende ser superior intelectualmente e admite que a mulher o é moralmente. que com tanta freqüência é culpada a mulher quando dirige a palavra em público. DECIDIMOS: Que a mulher tem se mantido satisfeita durante tempo demasiado dentro de limites determinados que alguns costumes corrompidos e uma deturpada interpretação das Sagradas Escrituras determinaram para ela e que já é hora que se mova num meio mais amplo do que o Criador lhe designou. provém. igualmente ao homem. delicadeza e refinamento no comportamento que se exige da mulher na sociedade. seja exigida ao homem e as mesmas infrações sejam julgadas com igual severidade. DECIDIMOS. tem o dever e o direito de DECIDIMOS: Que a igualdade dos direitos humanos é conseqüência do fato de que toda a raça humana é idêntica quanto à capacidade e responsabilidade. DECIDIMOS: Que a acusação de falta de delicadeza e de decoro. .

e no que se refere aos grandes temas religiosos e morais resulta seu direito em compartilhar com seus irmãos seus ensinamentos. deve ser considerada como una evidente falsidade e contrária à humanidade. qualquer costume ou imposição que lhe seja adversa. profissões e negócios. e por isso uma verdade evidente que emana dos princípios de implantação divina da natureza humana. tanto dos homens como das mulheres. para derrubar o monopólio dos púlpitos e para conseguir que a mulher participe eqüitativamente nos diferentes ofícios. tanto em público como em privado. por escrito ou de palavra. . em qualquer assembléia que valha a pena celebrar.Paoerosas162_200:Layout 1 29/2/2008 00:09 Page 174 174 ANDREA D ’ AT R I promover toda causa justa por todos os meios justos. tanto se é moderna como se leva à grisalha sanção da antiguidade. ou através de qualquer meio adequado. Na última sessão Lucretia Mott expôs e falou da seguinte decisão: DECIDIMOS: Que a rapidez e o êxito de nossa causa dependem do zelo e dos esforços.

também. Winthrop. que os Shubert doariam 50% da arrecadação de um de seus teatros de Nova York durante toda a semana seguinte às grevistas.300 dólares. encabeçada por Clara Lechmil. “ Não comecei a greve porque eu não ganhava o suficiente”. Luding e Elise De Wolf. para escutar as representantes das jovens grevistas. no qual se relatam aspectos da greve das operárias têxteis novaiorquinas de 1909. é verdade que eu ganho 15 dólares por semana”. disse a pequena Clara Lemlich ontem a tarde diante de cento e cinqüenta mulheres de buen pasar reunidas no Clube Colony. O original em inglês foi traduzido especialmente para esta edição por Celeste Murillo.” 1 Reprodução de alguns fragmentos de um artigo do jornal The New York Times. e logo as senhoras Philip M. que lhes contam sua versão da luta que se encontra em sua quarta semana.. “fiz greve para que todas ganhem o suficiente. .. convidadas pela Srta. Egerton L. dezembro de 1909 EM UMA REUNIÃO AJUDAM ÀS GREVISTAS TÊXTEIS “Também. passaram dois chapéus que juntaram mais de 1. Falaram mais grevistas. foi pelas outras”. Elizabeth Marbury e a Sra. enquanto várias mulheres e homens simpatizantes. na Avenida Madison com a Rua 13º.Paoerosas162_200:Layout 1 29/2/2008 00:09 Page 175 As grevistas contam aos ricos seus sofrimentos1 New York Times. Não foi por mim. seguiu contando a jovem da zona Leste para a audiência da Quinta Avenida. Anunciou-se.

haviam unido-se ao sindicato.Paoerosas162_200:Layout 1 29/2/2008 00:09 Page 176 176 ANDREA D ’ AT R I “Todavia. A Srta. ou render-se”. Uma fabrica despediu.000 meninas afora. cento e quarenta operárias somente porque haviam se filiado ao sindicato. Foram jogadas uma por uma e logo em grupos..000 operárias mais valentes. disse que contaria algo sobre o que aconteceu antes que da greve ser declarada oficialmente em 22 de novembro. que deviam lutar e ganhar. Até 22 de novembro o sindicato dificilmente reunia mil membros. Antes disso. Os empregadores estão determinados a não reconhecer o sindicato. existem 7. descobriram que as despediam somente por essa razão”. a maioria meninas. A questão é quem ganhará: os empregadores que tem muito dinheiro ou as jovens que não têm nada. de uma só vez. “Um montão de jovens foram despedidas por pedir que outras se unissem ao sindicato. continuo. e os membros do sindicato viram que teriam que arriscar tudo.” “Essas meninas que foram tão valentes ao unirem-se ao sindicato. A batalha entre estas jovens e os empregadores começou. Dreier que esteve na luta durante semanas.. algumas das 40. .

1911 Enquanto vamos marchando. o amor e a beleza Sim. marchando. da A. assim como os copos dê-nos pão. trazemos conosco dias melhores. mas também lutamos por rosas! A medida que vamos marchando. é pelo pão que lutamos. Seus espíritos fatigados no conheceram a arte. mas também dê-nos rosas! Enquanto vamos marchando. assim como os corpos pão e rosas. . lutamos também pelos homens já que esses são filhos de mulheres. pão e rosas! Nossas vidas não serão exploradas desde o nascimento até a morte. marchando através do belo dia um milhão de cozinhas escuras e milhares de cinzas fábricas têxteis são tocados por um radiante sol que assoma repentinamente já que o povo nos ouve cantar: Pão e rosas! Pão e rosas! Enquanto vamos marchando. grande quantidade de mulheres mortas vão gritando a través do nosso canto seu antigo pedido de pão. pão e rosas! 1 Adaptação do Original em inglês (T. O levantamento das mulheres significa o levantamento da humanidade. Já basta da agonia do trabalho e do edo folgado: dez que trabalham para que um repouse Queremos compartilhar as glórias da vida: pão e rosas. marchando.).Paoerosas162_200:Layout 1 29/2/2008 00:09 Page 177 Pão e Rosas1 James Oppenheim. os corações padecem fome. marchando. e os protegemos maternalmente Nossas vidas não serão exploradas desde o nascimento até a morte os corações padecem de fome.

Chicago era a sede da Liga Nacional Sindical de Mulheres e o slogan pode ter sido . como na consciência popular. Em 1915 o poema foi publicado em “O grito pela justiça: Antologia de Literatura de Protesto Social”. a frase é atribuída às operárias têxteis de Lawrence. The Public: slogan atribuído às mulheres sindicalistas de Chicago. que tinha influência em setores do movimento operário. já que Chicago era considerado parte do Oeste. Não existe documentação direta do uso do slogan por parte das operárias. Tanto é assim. um mês antes da greve. que esta greve é conhecida como a greve de “pão e rosas”. 1915. mas se diz que o poema de James Oppenheim foi inspirado por um cartaz que levavam as manifestantes em greve que dizia “queremos o pão. três fontes de criação diferentes do poema: 1911. Esta última versão foi a que permaneceu. mas também as rosas”. Segundo a investigação de Jim Zwick. Desde 1911 até 1915 existiram. o slogan “pão e rosas” está associado à famosa greve das operárias têxteis de Lawrence — Massachusetts. então. foi reimpresso por The Survey e em 4 de outubro do mesmo ano foi publicado no The Public. e no centro-oeste como hoje em dia.Paoerosas162_200:Layout 1 29/2/2008 00:09 Page 178 178 ANDREA D ’ AT R I Este poema foi escrito em dezembro de 1911. mas queremos também as rosas”. um poeta e ativista filiado ao sindicato combativo IWW (Industrial Workers of the World). Segundo Zwick. Antologia de Literatura de Protesto Social: nesta versão. Outubro de 1912. de 1912. a realidade é que a primeira vez que o poema foi publicado foi em dezembro de 1911. Em 13 de julho de 1912. e adquire e seguinte forma: “Queremos o pão. Esta não contradizia Oppenheim. “Pão para todas mas rosas também” era um slogan das mulheres do Oeste. Todavia. um semanário progressista editado em Chicago. tanto na história dos EUA. existem razões para pensar que a atribuição de The Public às trabalhadoras de Chicago era correta. The Amerian Magazine: segundo James Oppenheim. por James Oppenheim.

Em Chicago. vende um e compra flores. Mary MacArthur. as flores são boas para a mente”. . The Public apoiou o movimento e a liga publicava avisos na revista. entre 1910 e 1911. da Liga Inglesa Sindical de Mulheres visitou os EUA para apoiar o crescente movimento das operárias. o pão é o alimento do corpo. É muito provável que o slogan das mulheres de Chicago venha daí.Paoerosas162_200:Layout 1 29/2/2008 00:09 Page 179 D OCUMENTOS ANEXOS 179 utilizado em sua campanha pelas 8 horas e durante a greve do vestido em Chicago. Outra referência indica que em 1907. Sua mensagem foi resumida por uma citação que usou em seu discurso: “Se tem dois pedaços de pão. disse que as mulheres deviam trabalhar por algo mais que por aumentar seus salários.

todos os privilégios que ligados à propriedade mantinham-se em proveito do homem no direito familiar. onde há proprietários de terras. com o documento de 1953 que anexamos a seguir. em especial no matrimônio e em suas relações com os filhos. Soviet é a palavra em russo com a qual se designam os conselhos dos operários. Ali. ali o poder dos soviets constrói uma nova vida sem esses exploradores. as leis infames que consagravam a inferioridade legal da mulher e os privilégios do homem. nem comerciantes. ali há igualdade do homem e da mulher ante a lei. nem ainda perante a lei. O poder dos soviets é o único no mundo que aboliu pela primeira vez. onde não há proprietários de terras. enquanto poder dos trabalhadores. . As operárias devem constituir a parte mais ativa nas eleições. 1 2 Compare este discurso de Lênin de 1920. no entanto não é suficiente. mesmo nas repúblicas burguesas mais democráticas. O poder dos soviets é o único que aboliu pela primeira vez as velhas leis burguesas. 1920 Camaradas: as eleições para o Soviet de Moscou2 testemunham a consolidação do partido bolchevique no seio da classe operária. nem capitalistas. Ali. capitalistas e comerciantes. Mas isto.Paoerosas162_200:Layout 1 29/2/2008 00:09 Page 180 Às operárias1 Vladmir Illich Lênin. não pode haver igualdade entre o homem e a mulher. onde o estado operário há quase três décadas se encontrava sob o regime da burocracia do Kremlin.

as mulheres farão rapidamente sua aprendizagem e alcançarão os homens. sensata e consciente em seu trabalho. Nós esperamos que a operária conquiste não só a igualdade ante a lei. . frente ao operário.Paoerosas162_200:Layout 1 29/2/2008 00:09 Page 181 D OCUMENTOS ANEXOS 181 A igualdade ante a lei. mas também frente à vida. Para isso. contra a velha depreciação burguesa da mulher! O proletariado não poderá emancipar-se completamente sem ter conquistado a liberdade completa para as mulheres. não é a igualdade frente à vida. no entanto. Administrando. até a vitória. Elejam então mais mulheres comunistas ou sem partido para o Soviet! Pouco importa que uma operária honesta. é necessário que as operárias tomem maior participação na gestão das empresas públicas e na administração do Estado. pertença ou não ao Partido: elejam-na para o Soviet de Moscou! Que haja mais operárias no Soviet de Moscou! Que o proletariado de Moscou demonstre que está pronto para fazer tudo e que faz tudo para lutar até triunfar sobre a velha desigualdade.

A mulher soviética está vitalmente interessada em que as leis contribuam na solidez da família. ante a tudo. A lei vigente dispõe.Paoerosas162_200:Layout 1 29/2/2008 00:09 Page 182 A proteção dos direitos da mãe e do filho na URSS Krasnopolski e G. A orientação de nossas leis no sentido de coadjuvar a criação de relações familiares sólidas. (. A este objetivo. perseguem justamente as leis soviéticas sobre o matrimônio e a família. ou outros membros da família. cria as premissas mais favoráveis para que a mulher cumpra com seu nobre e alto dever social de mãe. Precisamente a família assegura as condições normais para o nascimento e a educação dos filhos. se manifesta já em normas que regem o ato inicial do surgimento da família. 1953 A proteção dos interesses da mãe e do filho pelo Estado — um dos princípios constitucionais da União Soviética — se reflete também na regulamentação jurídica das relações entre os membros da família: entre os conjugues. tal solidez nas relações a existência da família. na harmonia e na compreensão entre os conjugues. inabaláveis. . que só o matrimônio oficialmente registrado engendra os direitos e obrigações próprias dos conjugues.. os pais e os filhos.. o enlace matrimonial. Sverdlov. Garante. Há que demonstrar em detalhe que os interesses da mulher como mãe — seja esta com os filhos ou futura mãe — estão tão melhor assegurados quanto mais sólidas e constantes sejam as relações entre os esposos.).

Monique Bigot. Brigitte Auber. Chantal Baulier. Aude Bergier. Nicole Berheim. Cécile Ballif. Hélène Argellies. Maryse Arditi. praticada sob controle médico. Batini. Michèle Bedos. reivindicamos o aborto livre”.free. Anne de Bascher. Néna Baratier. Anne Bellec. Abba-Sidick. M. L. Fabienne Biguet.htm> A tradução do original em francês foi realizada por Celeste Murillo.Paoerosas162_200:Layout 1 29/2/2008 00:09 Page 183 Eu Abortei!1 Declaração das “300 sem-vergonhas” da França Le Nouvel Observateur. Edith Benoist. Hélène de Beauvoir. Françoise Arnoul. Jocelyne Bernard. 1 Publicado em <http://eklektik<2. Simone de Beauvoir. Declaro que sou uma delas. Bard. especialmente para esta publicação. Florence Asie. Anita Benoit. Tania Bescond. ASSINAM: J. D. Jacqueline Azim. Abdalleh. Temos mantido silêncio sobre essas milhões de mulheres. Catherine Bernheim. Jeannine Beylot. Declaro que fiz um aborto. Loleh Bellon. Micheline Baby. Bediou. . Bardis. Colette Biec. Tina Aumont.fr/343. Azan. C. Colette Aubry. Dominique Bernabe. J. Stéphane Audran. Monique Anfredon. O fazem em condições perigosas devido à clandestinidade e por essa razão são condenadas quando esta operação. Catherine Arditi. Assim como reivindicamos o livre acesso aos métodos contraceptivos. Geneviève Bachelier. é mais simples. 5 de abril de 1971 “Um milhão de mulheres abortam a cada ano na França. Isabelle Atlan. E.

A. Monique Bourroux. Catherine Deneuve. Geneviève Gaubert. Françoise de Gruson.Paoerosas162_200:Layout 1 29/2/2008 00:09 Page 184 184 ANDREA D ’ AT R I Nicole de Boisanger. Rosemonde Gros. M. Martine Gottlib. Annie Dupuis. Michèle Cristorari. Anne-Marie Bouge. Olga Bost. Valérie Boisgel. M. Martine Chosson. Lydia Cruse. Fruhling. Claire Deshayes. M. Isabelle Ehni. Valérie Groussard. Françoise Clavel. Danièle Chinsky. Pierrette Duperrey. Barbara Enu. Arlette Elkaïm. Dominique Brumeaux. Jacqueline Chambord. Christiane Dancourt. Y. Christine Delphy. Françoise Elie. J. Nicole Higelin. Catherine Claude. Chantal Cornier. Eléonore Friedmann. Pierrette Bourdin. Gisèle Halimi. Elyane Germain-Horelle. Séverine Boissonnade. Gogan. Corvisier. Françoise Dardy. Françoise Duras. Myrtho Elfort. Ginette Bossavit. Gilberte Doppler. Geneviève Gasseu. Marie-François Brumeaux. Noëlle Hanry. Iris Clert. Elyane Dugny. Herta Hansmann. BraconnierLeclerc. Jacqueline d’Estrée. Annie Cohen. Hélène Gonin. Christine Diaz. F. Nicole Despiney. Arlette Donati.-Louise Clave. Muguette Durois. Anne Cornaly. Dorinne . Dora Gerschenfeld. M. Monique Garnier. Christiane Duparc. Claudine Chonez. Evelyne Droux. Dufour. Antoinette FouqueGrugnardi. Catherine Guyot. Martine Bonzon. J. Claire Delpech. Foliot. Deborah Gorvier. Hery. Rosine Grange. Dolorès Dubrana. Andrée Brumeaux. Hélène Darakis. J. Dominique Dubois. Catherine Dechezelle. Marie Dedieu. Françoise Borel. Josiane Chanel. Anne-Marie Daumont. Lise Deharme. Danièle Drevet. Michèle Girard. Luce Garcia-Ville. Bénédicte Boysson-Bardies. Florence Collin. Annie Fargue. Geneviève Deschamps. Madeleine Gabula. Claude Gorodesky. Danièle Fulgent. C. Geneviève Cluny. Françoise Fabian. Braun. Boissaire. Dominique Desanti. Micha Garrigue. Anne Cordonnier. Marguerite Duras. Nicole Echard. Françoise d’Eaubonne. Anne Dauzon. Guerrand-Hermes. Martine Dayen. Yamina Gacon. Brigitte Fontaine. Danièle ElGharbaoui. Simone Dumont. Lise Grundman. Françoise Fromentin. Catherine Deudon. Sylvie Diarte. Marie-Luce Gorse. Anne Fabre-Luce. Claude Genia.

J. Danièle Poux. Michèle Manceaux. Violette Leduc. Hélène Kostoff. Nelly Moreno. AnneMarie Quazza.-T. Latreille. Iro Oshier. Imbert. Edith Mayeur. Ariane Mnouchkine. Marceline Loridan. Marie-Christine Questerbert. de Miroschodji. Hermine Karagheuz. Sophie Pianko. Perez. M. Mariane Moulergues. Elisabeth Pargny. Anne Martelle. Françoise Le Forestier. Véronique Nahoum. Françoise Lavallard. Colette Masbou. Annie Leclerc. Judith Magre. Lila de Nobili. M. Olena. Delye Ribes. Milka Martin. Michèle Moretti. Danièle . Bernadette Lafont. Françoise Lusagne. Yvette Orengo. Danièle Lebrun. Monique Lange. Jeanna Pasquier. Jacqueline Perez. Arlette Reinert. Françoise Lentin. Christiane Laurent. Christiane Rebeiro. Anne Levaillant. Janine Olivier. Michèle Lambert. Catherine Joly. Catherine Larnicol. Micheline Presle. Michèle Lemonnier.Claude Lejaille. Edith Loser. Susy Rambaud. Jalin. C. Dona Levy. Marie-Claude Mestral. Lydia Morin. Bona de Mandiargues. Gisèle Rebillion. Nicole Muchnik. Suzanne Rigail Blaise. Yvette Joly. Mireille Lelièvre. Myriam Laborde. Emmanuelle de Lessps. Gisèle Riboul. Gege Pardo. Arlette Repart. Irène Lhomme. Liliane Maury. Olga Poliakoff. Christine Llinas. Katia Kaupp. Colette Moreau. M.France Le Dantec. Maryvonne Meuraud. Muffong. Ribeyrol. Liane Mozere. G. Anne-Marie Lafaurie. Pascale Meynier. Jeanne Maynial. Elisabeth Pimar. Le Bonniec. Michèle Meritz. M. F. Y. M. Maillard.Paoerosas162_200:Layout 1 29/2/2008 00:09 Page 185 D OCUMENTOS ANEXOS 185 Horst. Jeanne Moreau. Martine Leduc-Amel. Henriette Nizan. Joële Lequeux. Korn. Jolaine Meyer. odile du Mazaubrun. Monique Lascaux. Raymonde Hubschid. Colette Le Digol. Geneviève Mnich. Charlote Millau. Gaby Memmi. Marie-France Pisier. Pelletier. Celia Maulin. MarieClaire Labie. Nicole Perrottet. Michèle Marquais. Eliane Navarro. Nanda Kerien. M. M. Marie Pillet. Monique Martens. Renée Marzuk. C. L. Ugne Karvelis. Maryse Lapergue. Jacqueline Martin. Michèle Leglise-Vian. Lyleire. Marie-Françoise Richard. Sophie Larnicol. Bulle Ogier. Wanda Olivier. Colette Joly. Marie-Thérèse Mazel. M. Sabine Lods. Marcelle Rigault. Odette Picquet.

Josy Thibaut. Rogaldi. Lucie Schmidt. Wajntal. Marthe Robert. J. Michèle Sirot. Danièle Roy. Marie-Pia Vallet. Marthe Robert. Françoise Sagan. A. Agnès Varda. Francine ère. C. Irène Tunc. Danièle Riva. Michèle Stemer. Anana Terramorsi. Cleusa Vernier. Rose Thierry. Alexandra Stewart. Patricia Varod. Francine Tabet. Jeannine Weil. Liliane Sendyke. Monique Selim. Chantal Rogeon. Christiane Rochefort. J. Sylvie Sfez. Riva. Annie Zelensky. Joëlle Thevenet. Monique Wittig. Françoise Routhier. Marie-Ange Schiltz. G. Marina Vlady. Arlette Tethany. Cécile Stern. Yvette Rudy. Catherine de Seyne. Agnès Van-Parys. Suzanne Thivier. Catherine Varlin. Colette Sert. Scania de Schonen. Danièle Tardrew. Hélène Rostoff. Nadine Trintignant. Rousseau. Francine Rolland. . Rachel Salik. Annie Sinturel. Renée Saurel. Constance Thibaud. Louise Villareal. Chantal Rogeon. Claude Rivière. Anne Wiazemsky. Rogaldi. Gaby Sylvia. M. Tyc Dumont. Josée Yanne. Germaine Rossignol. Sophie Thomas. Ursula VianKubler. Jeanine Sert. Claudine Serre. Catherine Yovanovitch.2 2 Se destacam em negrito alguns dos nomes que provavelmente sejam os mais familiares para nossas leitoras. Marie-Christine Theurkauff. Delphine Seyrig. Christiane Rochefort. Roth-Bernstein.Paoerosas162_200:Layout 1 29/2/2008 00:09 Page 186 186 ANDREA D ’ AT R I Rigaut. Christiane Rorato. Liliane Siegel.

Fragmentos para una historia del feminismo argentino 1970-1996”. Feminismo em marcha. 1996. Bs. As. UFA — (União Feminista Argentina) Sem data — Entre 1970 e 1976 1 Estes documentos foram extraídos de “Feminismo por feministas. CECYM.Paoerosas162_200:Layout 1 29/2/2008 00:09 Page 187 Panfleto de grupos feministas da argentina1 Irmã: Dona de casa Estudante Operária Empregada Profissional NÃO ESTÁS SOZINHA. .. Teus problemas não são individuais: são parte da opressão da mulher. Por uma real liberação. Travesías Nº5.

A FRENTE DE LUTA PELA MULHER se formou para que todas as mulheres argentinas levantemos nossas vozes contra as discriminações que sofremos. um cidadão de segunda categoria quando se trata de falar de seus direitos. BASTA: de desigualdades legais. mas capaz de todos os sacrifícios quando se trata de seus direitos.Paoerosas162_200:Layout 1 29/2/2008 00:09 Page 188 8 de março de 1975 Dia Internacional da Mulher Este dia adquire grande significado porque em 1975 foi instituído pelas Nações Unidas: “Ano Internacional da Mulher”. Lembremos que somos 51% da população. ninguém o fará por nós. SOMENTE UNIDAS SEREMOS FORTES. MULHER: se não lutamos por nossos direitos. Isto significa que em todos os países as mulheres estarão organizadas para conquistarem muitos dos direitos que ainda não temos. LUTEMOS: nós mulheres devemos exigir 1) igualdade “real” frente as leis 2) igualdade de possibilidades na sociedade . educativas. 60% são mulheres -a crise econômica mundial provoca demissão em massa de mulheres -até nos países mais ricos a mulher ganha menos que o homem -em todos a consideram um ser inferior. trabalhistas e sociais. UNAMO-NOS: não deixemos que os problemas que cremos individuais nos separem. Somos o setor da humanidade que mais sofre discriminação: -dos 40 milhões de analfabetos.

Basta de abortos clandestinos.Paoerosas162_200:Layout 1 29/2/2008 00:09 Page 189 D OCUMENTOS ANEXOS 189 3) sistemas de segurança social que impeçam a discriminação trabalhista e o desemprego que afeta as mulheres 4) lei que garantisse o nível de emprego feminino para compensar as demissões provocadas pela sanção da Lei de Contratos de Trabalho 5) campanhas de alfabetização e capacitação em todos os campos 6) livre escolha da maternidade 7) creches regionais e gratuitas a cargo do Estado 8) divórcio absoluto a solicitação de uma das partes 9) salário para a dona de casa FRENTE DE LUTA PELA MULHER A gravidez não desejada é um modo de escravidão. UFA (União Feminista Argentina) Sem data — entre 1970 e 1976 . Feminismo em marcha. Pela legalização do aborto.

Queremos parir e abortar sem riscos. 8 de março de 1984 Lugar de Mulher . Somos mulheres. mulheres feministas Há que lutar. olalá. Maternidade livre e consciente. pelo divórcio vincular Olelé.Paoerosas162_200:Layout 1 29/2/2008 00:09 Page 190 Consignas que foram cantadas no ato de 8 de março de 1984 em Buenos Aires Borombombón. não é nosso caminho. não somos senhoritas. Descriminalizar o aborto. 8 de março sem repressão Não somos meninas. há que lutar. borombombón. Vamos companheiras lutar por igualdade Na fábrica e na oficina Que seja igual salário por igual trabalho. que seja indistinta a pátria potestad Aborto clandestino. Legalização é nossa decisão. Defendamos nossos corpos e nossas vidas. Basta de mercenários da medicina.

Pelo contrário. a vergonhosa bancarrota da Frente Popular na França e o escândalo das estafas jurídicas de Moscou são três fatos que. 1938 A derrota da revolução espanhola organizada por seus “dirigentes”. decerto. em seu conjunto. Ademais. mais conhecido como o Programa de Transição foi escrito definitivamente em 1938. dois anos antes do assassinato de Leon Trotsky pelas mãos de um agente stalinista. 1 . fere gravemente seus aliados. de passagem. burocratas e arrivistas decepcionados. que os membros dessas organizações devam girar instantaneamente para a Quarta Internacional. e especialmente aos antigos burocratas do partido. A geração mais velha. que sofreu terríveis derrotas. é um dos últimos itens deste programa. agora dominantes no aparato das velhas organizações: é preciso um grande período de prova para os candidatos que não sejam operários. Isto não significa. são necessárias medidas preventivas estritas contra uma eventual afluência ao nosso partido de elementos pequeno-burgueses. os social-democratas e os anarco-sindicalistas. proibição de que ocupem postos de ata responsabilidade antes No documento “A agonia do capitalismo e as tarefas da Quarta internacional”. abandonará em grande parte o movimento. O que aqui se reproduz. dão ao Comintern um golpe irremediável que.Paoerosas162_200:Layout 1 29/2/2008 00:09 Page 191 Passagem à mulher trabalhadora! Passagem à juventude!1 Quarta Internacional. a Quarta Internacional não pretende em absoluto converter-se em um asilo para revolucionários inválidos.

Na Quarta Internacional não há. entre as trabalhadoras. Agora bem. e. centram sua atenção principalmente nas camadas superiores da classe operária. As portas de nossa organização estão abertas de maneira seletiva. ao menos durante o período próximo. e não a expensas do movimento. o declínio do capitalismo assesta seus golpes mais fortes sobre a mulher. Quando um programa ou uma organização se esgota.Paoerosas162_200:Layout 1 29/2/2008 00:09 Page 192 192 ANDREA D ’ AT R I de três anos. por sua natureza. Permanecerão. que terão acesso a nós. na periferia. não são poucos os fatigados e decepcionados. Em toda sua política se esforça por inculcar à juventude a confiança em sua própria força e no futuro. As organizações oportunistas. Assim tem sido. por conseguinte. como assalariada e como dona de casa. A Quarta Internacional presta uma atenção especial à jovem geração do proletariado. . etc. esgota-se com eles a geração que os carregou sobre seus ombros. nem haverá lugar para o arrivismo. Aqui encontram reservas inesgotáveis de entrega. Abaixo com a burocracia e o arrivismo! Passagem à juventude! Passagem à mulher trabalhadora! Estas consignas estão escritas na bandeiras da Quarta Internacional. abnegação e disposição ao sacrifício. São aqueles que desejem viver para o movimento. Só o fresco entusiasmo e o espírito de ofensiva da juventude podem devolver aos melhores elementos da geração mais velha a caminho da revolução. O movimento se revitaliza com a juventude. a úlcera das velhas Internacionais. Os operários revolucionários devem sentir-se os donos. ignoram tanto a juventude como a mulher trabalhadora. por conseguinte. Há muito que inclusive dentre os operários que num momento adiantaram-se às primeiras fileiras. e assim seguirá sendo. As seções da Quarta Internacional devem buscar suporte entre as camadas mais exploradas da classe operária e. livre de responsabilidades sobre o passado.

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Paoerosas162_200:Layout 1 29/2/2008 00:09 Page 198 .

e impressa na Ferrari Editora e Artes Gráficas em papel pólen soft 80 g/m2 para a Edições Iskra. .3. com tiragem de 1000 exemplares. em março de 2008.Paoerosas162_200:Layout 1 29/2/2008 00:09 Page 200 Esta obra foi composta em Walbaum SSi.7/13. com texto em corpo 9.

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