Uma pintura que fala connosco

Há cinco anos, em 2007, escrevi sobre a pintura de João Vaz de Carvalho. Tinha ido ao encontro do seu universo criador e o resultado foi uma emoção que o tempo não deixou mais de ampliar, como se a arte, nessa comunhão profunda entre o seu objecto -- a invenção plástica como produto de um sonho que parece um destino -- e o olhar de quem vê, prolongasse o sentimento estético da surpreendente descoberta do autor. Essa apropriação é uma viagem onírica, se quiserem, pois o percurso criador de João Vaz de Carvalho é todo ele dirigido a uma realidade que não se compraz na imutabilidade do tempo e do espaço. Então, fiz corpo com o imaginário desmedido que as telas de João Vaz de Carvalho, e anotei: “Detenhome diante da pintura de JVC e é sempre o mesmo fascínio. Uma leitura cromática surpreendente, o universo onírico de objectos que têm vida e movimento, uma “irreal realidade”, como diria Umberto Eco, que se eleva do quotidiano. É preciso abrir os olhos e mergulhar nos mil detalhes da sua pintura objectivada, aqui e ali por uma ironia de raiz surrealista, em que se dissolvem vidas marcadas por desejos excessivos de fugir ao cerco do cinzentismo, angústias de rotina banalizadas, horizontes a um tempo de fuga e de sonho, malabaristas que às vezes saem do espaço doméstico, instrumentos de trabalho e artefactos do quotidiano ou emergência de uma sociedade de consumo que a roda dos dias anima. E, subtilmente, a doce referência de mundos perdidos mas que, por serem primordiais, se mantêm intactos na reserva da memória do autor. A pintura de João Vaz de Carvalho tem vida própria, conta histórias ou permite que os olhos que a vêem a construam na diversidade das leituras possíveis. Há sempre, nas metáforas desta pintura, uma profunda humanidade na relação humana que gravita à volta das coisas, dos animais e das pessoas, uma dança da vida que se abre à navegação do mundo. Tudo isto é parte inteira de uma aventura criadora marcada por uma coerência estética alicerçada na busca de fantástico. E nesse eterno recomeço, a reinvenção das cores. Uma paleta infinita. Como o pensamento ou “a liberdade livre” da poesia. João Vaz de Carvalho construiu uma biografia nas artes plásticas. Singularizou-se, edificou uma obra, criou um estilo, aquilo que escreveu um dia Malraux (“As Vozes do Silêncio”) quando disse que “a pintura tende muito menos para ver o Mundo do que para, a partir dele, criar um outro” assinalando que a arte não é outra coisa senão “aquilo pelo qual as formas se tornam estilo”. É esse o desafio pelo qual a pintura de JVC se afirma: reinvenção de um mundo, o seu. É assim que na sua pintura as formas tomam vida e as figuras parece participarem nela, interrogando-nos com as suas ora doces, ora inquietantes, perplexidades. E, com tal força, que a realidade, como acontece na dimensão mítica surrealizante, não cabe em si própria, e, por isso, talvez, olho para a pintura de João Vaz de Carvalho e lembro-me de quadros de um nome grande do surrealismo (tão esquecido, diga-se!), Henrique Manuel, que fez da pintura a vida toda. No percurso criador, há tempos dentro do tempo e caminhos que desvendam outros caminhos. João Vaz de Carvalho converge numa obra em que a literatura infantil ocupa lugar destacado como ilustrador, isto é, autor da caligrafia plástica das histórias, leituras sensíveis e de grande imaginação. Nessa qualidade o seu nome viajou por cima das fronteiras e alcançou galardões dos mais ilustres, como o Ilustrarte.

Lembro-me desde sempre do João Vaz de Carvalho, que a minha geração e os mais novos, os do seu tempo, tratam com companheirismo e afectuosamente por Joca. Estou a vê-lo, menino e moço, pela mão do avô, memória referencial da música fundanense, como o pai, aliás foi também nome da vida musical fundanense, quando a terra era uma vila contida na harmonia de horizontes humanos de grande identidade, e parece-me estar a ouvir outra vez velhos sons dos ofícios e dos comércios, geografias de escala próxima de vizinhança e amizades, e risos de crianças subindo das ruas e das praças, talvez suaves sonoridades musicais elevando-se no ar. Imagino tudo isso na folha branca onde escrevo, mas podia o sonho ser, afinal, breve aceno de festa colectiva pelo acontecimento cultural que é a presença de João Vaz de Carvalho na sua terra, com as suas telas, o seu esplendor cromático, as suas figuras tão pontuadas de fantástico e inteligente ironia. Como escrevi, uma e outra vez, era tempo do Fundão poder ver a pintura de João Vaz de Carvalho e partilhar o êxito do seu percurso. É agora. Ainda bem. Fernando Paulouro Neves

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