ROBERT MANDROU: da crise do satanismo o abandono do crime de feitiçaria. MANDROU, Robert (1968).

Magistrats et sorciers en France au XVIIe siècle: une analyse de psychologie historique. Paris. Plon.

As notas produzidas aqui tem mais do que qualquer outra coisa, um caráter cronológico. Visa recuperar a especificidade e a ordem de eventos que são ordenados desta forma devido à necessidade de detalhar o percurso jurídico que transforma a ordem legal expressa por éditos reais para uma outra, expressa em código. Esta forma de codificação acaba por produzir uma miríade de questões dentre as quais interessam mais do que as demais a extinção da estrutura de apelo que caracterizava a jurisdição da intervenção dos magistrados e, por outro lado, o desfazimento da ordem eclesiástica como fonte de orientação criminológica. Ambos os aspectos dizem respeito, antes de mais nada, aos contornos novos relativos à jurisdição, cuja forma e dinâmica sofrem alterações decisivas durante o reinado de Louis XIV e vêm a definir, por via da forma absolutista que lhe e peculiar, fronteiras rigorosas relativas a fenômenos de imaginação, crença, e religiosidade. Este movimento particular de construção de um Estado absoluto, talhado em dispositivos que determinam o modo de circulação de entes, pessoas e objetos segundo uma fórmula mediadora presente em todos os níveis de relacionamento público é, até aonde compreendo, a gênese de muitos dos problemas que esta pesquisa enfrenta. Até porque, todas as distinções futuras a serem constituídas com relação ao universo das associações livres e ao mundo religioso partem, de uma forma geral deste marco-zero que anula, inclusive qualquer reconhecimento positivo dos objetos de crença. SÉCULO XVII: demonopatia Quadro inicial: a crise de três conventos importantes, em Aix, Loudun e Louviers, “(...) ce sont les trois phases successives d’un même scandale où se trouvent impliqués nonnes e directeurs de conscience, où se trouvent condamnés des prêtres

l avie religieuse et mystique et les conceptions juridiques se trouvent étroitement liées. Grandier. pour éclairir les conceptions des historiens du XIXe siècle. O caso insolúvel de Madeleine Demandols de la Palud serve de pilar para todos os desdobramentos já descritos. Entendendo haver um surto de possessões durante os séculos XVI-XVII. O mesmo padre foi julgado e condenado em terminado em 30 de abril de 1611 em um processo que durou de fins de fevereiro a fins de abril do ano em questão.”(1968. Cette étude historiograhpique n’entre pas dans les cadres de ce travail. o mesmo Mandrou é responsável por um trabalho cuidadoso que cerca todo o domínio do absolutismo louisiano. plus tard. et non celles de narrateurs qui ont.“L’historiographie recente de ces procès. que todos os movimentos de cada um dos . Jeanne des Anges et Madeleine Bavent. outro fenômeno cuja relevância merece ser considerada – felizmente. en ces matières entre toutes délicates. 1. particulièrement celui de Loudun. 199). travaillé sur ces dossiers avec préoccupations diverses: eles n’avaient parfois qu’un lointain rapport avec l’explication historique proprement dite. Vale mencionar. é importante salientar porque os casos de Aix.”(198) Aix-en-Provence. 196) Os episódios mais importantes desta história do século XVII se dão justamente nas barbas dos eventos da Fronda. et importante. serait un travail passionant.qui ont suscite contre eux de haines passionnés: Gaufridy. Boullé (et Picard) face à Madeleine Demandols. e este ponto não pode ser deixado de lado. Il convient donc se borner à ces seuls traits originaux. Loudun e Louviers merecem destaque. où la politique. O caso de Aix –en-Provence s e dá em 1611 parte da acusação de um padre ter envolvido as noviças com o véu do satanismo exatamente por ter sido enfeitiçado pelo príncipe dos sortilégios (op.. Última década do reinado de Henry IV.cit. qui vise reconstituer seulement les prises de conscience des juristes contemporaines.

Louis Gaufridy é formalmente acusado de influir sobre o estado de saúde de Madeleine. tant spiritual que temporels qui me pourraient être conférés de la part de Dieu. saint . o que constitui o pecado que é. Madeleine é levada às Ursulinas de Aix. particulièrement de mon patron saint Jean-Baptiste. por causa de seu interesse ocupam uma posição ambígua na hierarquia da igreja dado que. notório conhecedor da atividade de exorcismo. Louis Gaufridy. No verão de 1610 a mesma Madeleine é confiada ao irmão Michaelis. Vale notar que a confissão de Gaufridy. de la vierge Marie. às vésperas do Natal ela começa a acusar seu confessor de Marselle. Ao mesmo tempo. A partir de repetidos mal-estares noturnos – sintomatologia clássica de eventos demoníacos e de feitiçaria . como contatar o próprio Satã sem ter a alma tingida por ele? (VIDE PÁGINAS 232-233). de tous les Saints et Saintes de Paradis. processo que teria se dado desde sua chegada ao convento.processos é fortemente acompanhado por padres exorcistas e afins. Em 1609 Madeleine apresenta. que são antes de tudo interessados nos fenômenos de possessão diabólica e que. à forma de uma leitura tomasina dos juros. assim como a carta que estabelece os termos da relação com o diabo tem dois pontos ressaltados por Mandrou. ainda 1606. O primeiro ponto diz respeito aos poderes de encantamento que são transferidos do diabo ao assecla. pela proximidade que cultivam com o próprio diabo. O mesmo Gaufridy é julgado. a alienação de algo que não pertence ao agente. Assim Gaufridy enuncia seu pacto com diabo. renonce à tous les biens. por escrito: “Je. tendo começado em 1605. se tornam perigosamente especialistas em seus sortilégios a ponto de ser quase que impossível distinguir o conhecimento sobre o diabo da ação exercida pelo mesmo. ao mesmo tempo. O diretor do convento. O caso de Madeleine Demandols dura cinco anos. condenad e morto no final de abril do mesmo ano de 1611. Afinal. conferindo uma certa noção pragmática à justificativa que alguém poderia utilizar ao buscar o pacto como recurso. alucinações diabólicas e. além dos terrores noturnos. ele mesmo sendo constantemente acusado por Madeleine quando diante da irmã Ursulina Louise Capeau. o método de transferência e. As atividades de exorcismo não se davam em ambientes privados.

decorrente de uma série de mediações que constitui o processo como tal. E este tópico é central porque reformula o pecado da renúncia daquilo que. coincide neste ponto vindo a constituir uma espécie de nódulo jurídico no qual repousa o problema. em tese é de Deus. Afinal. É preciso atentar que. ou a alienação de Deus por via da cobrança de juros que é. Gaufridy renuncia a algo que ele não pode renunciar pois os bens que ele abdica são frutos da Providência. Lido de outra forma. de fazer os feiticeiros e possuídos serem visitados por médicos. por fim. o que marca a dimensão do contagio por contingüidade e influência.”(201). é junto ao sabá que se encontra Gaufridy como personagem deste processo. A decisão individual com relação aos rumos do processo é. estando na verdade comprimida ao caso. Assim. no mais a cobrança de um tempo futuro que não pertence ao homem. Nisto é possível perceber a forma pela qual um ato jurídico começa a ser preenchido pela sucessão de observações parciais que compõem um inquérito. dado que lesionada pela ação maléfica de Gaufridy. O crime de alienação. desse então. excepté la valeur des sacreents pour le regard de ceux qui les recvront.Pierre. ser uma formalidade ordinária ao tempo de colecionar os casos confirmados de exorcismo. propiciando a tomada de decisão a partir da visão sinótica que o quadro referencial define. Seu estatuto até este ponto é o de vítima. reúne uma junta de diferentes práticas disciplinares a fim de atestarem com distanciamento e método o fato ocorrido. a remissão ao culto do sabá não está absolutamente descartada. um ato de colagem entre partes discretas que reúnem em seu término a unidade perdida pela forma do evento sem testemunhas qualificadas. O que faz o exorcismo como procedimento? – “Os exorcismos precedem e então preparam os procedimentos judiciais que podem. O processo é um agenciamento coletivo. de acordo com o estado de sofrimento de Madeleine. e de proceder nos interrogatórios conduzidos pelos chefes de acusação. saint Paul et saint François et me donne corps et âme à vous Lucifer icy présent avec tous les biens que je posséderay. O primeiro desdobramento do caso se dá no isolamento de Madeleine. O ato de alienação de si. acaba por ser a .”(206).

O passo dado em direção a Urbain Grandier. assume ares de movimento conspiratório. No final das contas. o processo resolve em identificar não somente a identidade dos responsáveis como em qualificar o grau e a natureza da responsabilidade. antes de mais nada uma menção retrospectiva que indica como o caso deve ser interpretado. atestar que o evento tal como qualificado pela ordem jurídica. . seu precedente. No caso o papel da avaliação de médicos e juízes implica em. O caso de Loudun repete o mesmo drama relativo o caso de Aix. é uma outra junta de avaliação que avalia a junta anterior. é mais do que justificável. Em seguida. letrado.. Louviers. Este. padre de renome. o que se torna muito perigoso quando o que se atesta é a influência do demônio. tal como é de se esperar. um deles inclusive prefaciado por Jean-Marie Charcot oferecem o binômio documentação ainda não editada com a avaliação do caso desde um outro ponto de vista que não o da identificação do evento. Entre os anos de 1629 e 1631. na forma de uma bibliografia psicológica nascente. membro da nobreza local e parente do cardeal Richelieu.qualificação mediada de uma forma imediata. Loudun1. por exemplo. cura de Saint-Pierre-du-Marthe. Jeanne des Anges fora prioresa de um convento de Ursulinas – mais uma vez . após ser levado ao Parlamento de Paris com a finalidade de se defender diante da justiça. de fato aconteceu. digo. Comparar diferentes leituras de Joana D’Arc. por exemplo. Este tipo de livro que trabalha casos de evidências miraculosas de um outro ponto de vista – que é o oposto do ponto de vista do outro – é define em grande parte o tipo de bibliografia que a pesquisa demanda. Os livros de Gabriel Legué. apontando para um caso logo anterior. lembrando do livro de Leon Dennis. aproximação que cria. antes de tudo. Madeleine Bavent 1 Robert Mandrou faz remissão à forma como o caso de Loudun chama a atenção no século XIX. Jeane des Anges acusa Urbain Grandier. veio a seguir em confrontos com outra personagem de nome Mignon. bom predicador e confessor e figura conhecida. sofre a acusação em 1629. É a própria Jeanne des Anges quem se aproxima da figura de Madeleine Demandols. prima de Sourdis (arcebispo de Bordeaux). a acusação.

sobre a permanência dos fenômenos de possessão. à la place des démons envoyés par Satan. la possédé n’a rien signé. Mas ainda assim. estaríamos a dois capítulos da emergência do espiritismo – o capítulo seguinte divide um momento propriamente religioso em que a querela do jansenismo oferece uma conformação política dos exercícios polêmicos religiosos também presentes na questão dos escândalos (o padre Tranquille tem papel na questão Aix-LoudunLouvier. Ce dédoublement des fonctions est important pour les juges et pour les « experts » qui les assistent. sorcière jurée . la sorcière est. en droit. mais un intercesseur qui assume la charge d’exercer. e ao mesmo tempo chamarmos a atenção para aquilo que Mandrou não chega a considerar com a devida cautela. até onde posso compreender. assim como seu desdobramento em outras formas de codificação que ocupam o lugar da demonologia. plus communes. » (235) (entre as páginas 246 e 261 existe uma listagem e uma breve análise de outros casos de contágio demoníaco) Robert Mandrou ressalta algumas peculiaridades importantes para que os fenômenos de possessão e contagio sejam devidamente avaliadas.Da peculiaridade dos casos do século XVII (até 1640) “Dans le procédures traditionnelles. esta derrubada pela medicina como forma jurisdicionada de atuação policial. Mais les choses se compliquent au début du XVIIe siècle lorsque les possédées dénoncent non pas une intervention diabolique directe. segundo a historiografia do mesmo Mandrou. Nisso implica termos em perspectiva o que há de propriamente singular. l’œuvre maléfique. Même le redoutable Sprenger distinguait à la fin du XVe siècle les possédées sorcières. exatamente aquela que . e também na segunda geração jansenista. reconstituir ainda que minimamente os passos que dão forma a um debate público sobre possessão e seus agentes cumpre uma etapa fundamental dado que. théologiens ou médecins. et n’es donc pas complice. par le pacte. un Léviathan ou un Asmodée tentateurs. a saber. la distinction ne pose pas de problèmes. L’Église revendiquant les simples possédées et livrant à la justice séculière les seuls sorciers jurés.

que não é outra coisa que a alteração nas operações que condizem ao sentido. ao isolarmos fatore singulares que caracterizam os processos de exorcismo no XVII. isolamos também outras regularidades emergentes que acompanham as transformações daquilo que opera como poder. a possessão demoníaca deixa de ser fruto de agência direta do demônio e passa pela mediação de outrem – assim como as mulheres que figuram nos casos relatados são moças bem nascidas.. os conventos ursulinos livres à intervenção do demônio e a rivalidade entre clérigos que não somente se entre-acusam como também geram evidências e conduzem investigações contra inimigos proclamados (caso de Grandier e Mignon no affaire Ludun) são incorporados como novos eixos problemáticos em querelas relativas à possessão demoníaca. . especialmente em Catherine Maire. pautado pela temática da terapêutica secular traçada pelo advento do mesmerismo e a cura magnética que traça novos problemas a respeito da agência de forças invisíveis.. Não é por acaso que. o assalto satânico aos conventos ursulinos (o caso de serem devotas de Santa Úrsula também não é examinado pela historiografia por vezes demasiado abrangente de Mandrou) apresenta algumas personagens e consequências que apontam para conformações inéditas da relação entre religião e magistratura. da mesma forma que atenta 2 Convém perseguir o padre Tranquille na bibliografia disponível sobre o século XVII-XVIII. Em muitos sentidos. No caso.). não pertencendo às classes populares/servis. a emergência da figura do padre-feiticeiro. uma e outra de alto valor e rendimento para a empresa antropológica. Nisso. Assim. vide tanto Robert Darnton quanto Roy Porter). Robert Mandrou e (. assim como a situação de novos dispositivos de relação que postos em um ambiente político diferenciado. assim como tem um momento propriamente científico. traduz em novos termos a temática do animismo como religião natural e instaura dispositivos técnicos de mediação inéditos à vida moral (sobre isso. a historiografia que Mandrou produz fica ao meio do caminho daquela produzida por MacFarlane e Gauchet. que considero possivelmente duas abordagens metodologicamente opostas na confecção de uma história política da religião.culmina nos casos de Saint Médard 2 ). Isto porque Mandrou aponta para uma alteração na ordem das mentalidades.

por sair do mundo relega a ao mundo a mera politica (Gauchet) quanto para a compreensão de que se trata de um jogo de acusações formais cujo plano ritual de uma atividade política se configura. então) conduz o sistema demonológico para um ponto em que as divergências confessionais e doutrinais. EvansPritchard). à necessidade de entender a relação entre Grandier e Mignon. a mesma ordem que culmina em alterações importante em disciplinas exotéricas como a alquimia. Mignon não precisa atestar qualquer relação entre Grandier e Lúcifer. obviamente de decidir querelas somente diante de um público especializado.para complexos de aliança que fazem da acusação demonologicamente informada a performance de relações de antagonismo e aliança. Não se trata mais. ainda que possa recorrer à acusação para desacreditar um padre que até o episódio de Loudun era de completa lisura. mas criar mecanismos de correspondência que permitam haver um vocabulário comum e um sistema objetivo o suficiente para que a variedade de pessoas envolvidas possa não . Parte do problema que evoca uma ordem epistemológica. especialmente na fórmula le christianisme est la religion de la sortie de la religion. tanto do ponto de vista de uma religião que. aplicando à historiografia um enquadramento muito característico das etnografias do funcionalismo britânico (notadamente. Gauchet proporciona considerações relativas à ontologia cristã com relação ao divórcio entre o mundo e o extra-mundo. por exemplo. Se MacFarlane está exclusivamente preocupado com relações funcionais de parentesco e afinidade que conduzem a média das acusações de feitiçaria em Essex num período logo anterior. é o que nos leva. o que demanda inclusiva um novo passo em direção ao vulgo. assim como a tênue linha que discrimina pessoa e ordem religiosa. Ocorre que a superinflação dos processos que investigam possessões demoníacas que levam a longos procedimentos de exorcismo (feitos em público. extraindo desdobramentos nada irrelevantes da dicotomia presente na obra de Louis Dumont. divergência e heresia também constituem o cenário em que o que está em jogo é tanto a existência do demônio – quando o confronto se dá em ambientes fora da ordem eclesiástica – quanto a veracidade de um fenômeno em questão em que está presente uma pessoa que conduz o caso. é a resolução pública de problemas. intimamente.

e a elaboração de um regime procedimental coletivo que se comunica em público para fins de averiguação de fenômenos sobrenaturais abre a guarda para o passo seguinte. A resolução de problemas relativos aos mistérios. um dos fatores decisivos para a emergência da química moderna. A indisposição entre Grandier e Mignon. a Graça e o Mal participam. arbitra contra Grandier por ter sido responsabilizado por seu antagonista quanto à publicação de um panfleto intitulado Cordonnière de Loudun. vale dizer. des preuves de la possession. “Les discussions des théologues ne se situent pas sur le plan de la critique des temoignes et n’envisagent guère les problèmes de procédure: l’emprisionement de Grandier ches ses ennemis. as questões relativas à Providência. igualmente em público. que traz em seu seio este tipo de carga. Mandrou é taxativo ao informar que uma dos problemas relativos aos processos de exorcismo. em especial dos três escândalos. Coube ao Parlamento de Paris controlar este tipo de evento. o do abandono do crime de feitiçaria. Esta é. tout cela n’a guère mentionné. De alguma forma. Entenda-se que dos diversos saberes que envolvem a teologia. os escândalos de Aix-en-Provene. ainda envolve figuras de responsabilidade como seria o próprio cardeal Richelieu que. talvez. segundo Bensaude-Vincent e Stengers. la présence parmi les exorcistes de clercs poitevins en procès avec lui pendant les anées précédents. por fim. mas um materialismo racional e comunicável com experimentos reproduzíveis. da gama entabulada no quadro do mistérios. a saber. submetendo o alvo das perquirições a outras consequências importantes. tal como podemos entender. a marca de Lavoisier. Loudun e Louviers se adiantem em um século este passo. reside no fato de não somente serem públicos mas de se transformarem em algo como um espetáculo. Le problème essential est celui de l’exorcisme. Mas o século em que este tipo de evento assumiu ares de publicidade permite a criação de uma atmosfera em que cizânias internas à Igreja Católica e a exposição de indisposições entre protestantes e católicos sejam debatidos entre as partes. Eis. Jusqu’à la . que atacava a pessoa do cardeal. Não o objeto enquanto matéria. por exemplo.somente acompanhar o debate mas aplicar fórmulas postas em questão.

por exemplo. não é outra coisa senão a relação entre jansenismo. que seja inesgotável ou um problema insolúvel.”(269) (semiótica demonológica: páginas 270-277) De uma forma geral. com é possível perceber. para utilizar o jargão de Catherine Maire. e mesmo no que diz respeito ao caso jansenista. Mas é que. convulcionários. . O que o estado absoluto faz. Não é que ela não tenha fim. de acordo com os termos que ela mesmo promove. O jogo de provas e contraprovas que contaminam as querelas religiosas – e aqui o caso é geral. jesuítas. é porque trata-se de uma querela potencialmente infinita. ela não tem a necessidade de atingir um fim dado que é a cizânia que ela mesmo promove corresponde às finalidades mais bem acabadas dos envolvidos. O Estado Absolutista é. o espetáculo do exorcismo participa. dissent les théologiens le 16 février 1620. no limite. les dénnonciations proferées sans cesse pas les nonnes ont géné ces hommes d’Église qui n’ignorent pas les décisions recentes de la Faculté de théologie de Paris condamnant en 1625. céticos e os poderes ao redor determinando os riscos e a veracidade dos eventos ao redor de De Paris e Saint-Médard. (O terceiro incluído: os dois campos da medicina (277-284)) Arbitrar: a intervenção do Parlamento de Paris Por qual razão seria necessário uma arbitragem a mais nos casos escandalosos de possessão? Como é possível imaginar.mort de Grandier. no final das contas. 1620 et 1625 la pratique des exorcismes dénonciateurs: “On ne doit jamais admettre les démons à accuser autrui. um médium com propriedades muito características. é interromper esta relação de conflito caracteristicamente ritual com a finalidade de impor uma estância média de conciliação forçada – na configuração da intolerância do soberano definida por Koselleck. da Reforma na Contra-Reforma. moins encore employer les exorcismes pour connaître les fautes de quelq’un et pour savoir s’il est magicien”. de um jogo muito delicado e que contorna algumas das formas da Reforma e da Contra-Reforma – e. a querela do jansenismo.

a tríade formada pelos casos de Aix-Loudun-Louviers carrega a chaga inadmissível do conflito religioso em público. o que vemos é um sistema acusatório que em muito excede a diferença de denominações. O último passo de Mandrou para finalmente dissertar sobre a extinção do crime de feitiçaria está na decisão tomada pelo Parlamento de Paris em intervir na questão dos escândalos. por exemplo. mas todo um movimento concêntrico à constituição de um Estado que arbitre todas as relações públicas. muito semelhantes às alianças políticas regionais em partidos políticos brasileiros nos quais há contradições entre escalas de relação. Desde o momento em que Madeleine Demadols acusa Gaufridy. Nisso. não sem profundas diferenças. produzindo comunhão de esforços muito particulares. Vale notar que não é a questão da feitiçaria somente que movimenta as peças ao redor do caso.Estas propriedades não impedem. O movimento mais evidente. outras sortes de mediação que comparativamente vieram a ser reconhecidas como mediunidade. como bem ressalta Koselleck está na elaboração de mecanismos de interrupção da ordem religiosa para fins de constituição de uma nova ordem civil. vindo a ser produzido em uma rede mais fina e sutil. alternativamente. diretórios nacionais produzem alianças impossíveis em nível regional e viceversa. interna à própria Igreja Católica. e propriamente civil. Como podemos notar. e a mesma história se repete com Jeanne des Anges e Urbaine Grandier. a saber. o conflito religioso. entendendo aqui a intervenção dos escândalos em geral. como criação de um novo problema. um protestante pode estar mais perto de um católico específico da mesma forma que a Igreja Católica não pode estar em acordo com a Luterana. que o Estado moderno não possa participar com algum protagonismo da história das religiões de possessão que articulam. . dentre elas as que configuram a demonologia como solução ou. contudo. assim como para o julgamento dos casos de feitiçaria. Paris estava já envolta com uma série de discussões. redesenhando aquilo que transtornara a vida europeia nos últimos séculos. Os exorcistas das diversas denominações e ordens acabam criando um empecilho grave para a percepção das atividades diabólicas. Nisso.

muito simplório. Ora fala coisas de mais com poucas palavras. o religioso não parece ser pródigo na arte da comunicação. cabe entender que o século XVII é também o século em que o argumento iluminista penetra nas políticas de Estado. “Le monde parlamentaire parisien de l’époque. O caso é que o domínio público sobre temas os mais diversos incluem a percepção mais bem acabada dos casos de possessão demoníaca e demonologia em geral. E então descobrimos porque Lavoisier serve de nexo para toda esta história. É muito complexo. scientifique.Entendendo que a querela religiosa mobiliza todo este tipo de expediente. quotidiennes pour quelques-uns. Cabe perguntar até que ponto os magistrados e o círculo de relações das quais participavam estavam de fato informados a respeito do tema. où se discutent tous les sujets de l’actualité. quanto para novas ações oriundas de denominações protestantes. e já é possível abstrair este movimento com mais segurança.316) sobre médicos e parlamentares. présidents. parece ser impossível entrar em acordo de um ponto de vista religioso exatamente porque. hebdomadaires le plus solventes. tanto para a hierarquia do poder eclesiástico. vindo a constituir um embaraço a mais. Ancien Régime francês: . vois politique. comme les Dupuy. littérraire. definindo inclusive o que faz um réu. Não é difícil perceber que este modo comunicativo é decisivo tanto para as novas formas da atividade científica quanto para as novas práticas econômico-financeiras. ne participent à ces réunions. sobre teólogos e parlamentares. Nunca adequado a uma comunicação que situe os interlocutores no plano de um entendimento racional e mutualmente consentido. de um ponto de vista que segue algumas das linhas principais do Iluminismo. ou um caso diante o pecúlio público. conseillers. avocats. Isso aponta para o problema dos jogos de comunicação que lança bases sobre as quais decisões são tomadas publicamente. ora não parece dizer coisa alguma. Isso porque. est intimement mêlé à l avie “académique”: il n’y a pas de salon scientifique parisien dans lequel les magistrats n’aient leurs entrées.”(p.

rien qui vaille comme preuve de la présence diabolique. 329) Interessante ver que o único sintoma levado a sério é o mesmo que constitui o ato pentecostal por excelência. vale notar – fizeram somente estudar e buscar sinais da atividade demoníaca nos casos em questão. A ênfase no universo da comunicação oral como les “preuves” du caractère . Donc tout l’opposé de ce qu’affirment à la même époque les médecins “possessionistes” multipliant surnaturel présenté par ces phénomènes. aucun n’est donné par le médecins comme “marque infaillible” et valable: les deux seuls pour lesquels ils admettraient une intervention diabolique sont les don des langues et le rejet de produits avalés. Isso porque a novidade dos três escândalos do século XVII implica na transformação do sistema de possessão. ou bien une définition de tempérament. alternando a relação diabólica direta para com o feiticeiro ou feiticeira. inclusive alguns participaram (como André du Val) . justamente o caso com implicações políticas regionais mais delicadas. Tout le reste se réduit à un “effet naturel”. a forma pela qual estes estudiosos se portaram acrescentaram uma postura nova aos hábitos do julgamento de casos relativos à feitiçaria: a cautela. de uma vítima possuída cuja possessão é intermediada por alguém também possuído atuando por contágio evidencia a delicadeza do processo que tem. Assim. Como é reconhecido pela bibliografai a respeito. segundo vemos na síntese da medicina libertina da época: “Au total. não há muito o que anotar no que diz respeito ao que produziram como novidade. Ainda assim.É mais ou menos óbvio que estudantes de teologia na Sorbonne tenham criado interesse em casos como o de Loudun dado a durabilidade do processo do qual. ressaltaram exatamente a forte impressão e a veracidade inquestionável do caso de Loudun.”(pg. por fim. sur les dix indices choisis pas le clerc nîmois. para uma relação mediada em que pesasse a acusação promovida por uma vítima da sedução do feiticeiro. dans certaines conditions bien définies. O fato de haver um elemento a mais de acusação. Estes mesmos teólogos que circulavam nos mesmos círculos que parlamentares – que cumpriam a função judiciária. uma sintomatologia delicada.

. Ao menos não se levarmos em conta esta “ante-sala” da modernidade que é o absolutismo. uma vez alterada.definidor da vida da religião da era moderna não parece ser. assim como a busca de constantes que transponham o evento da possessão permite que o mesmo seja comparado com outra sorte de sofrimentos. a regularidade de elementos contraposto à raridade do evento demoníaco. como a melancolia e. a histeria. posteriormente. Marcas substantivas. o que cria um outro tipo de problema. entra em cena a série de problemas relativos à qualificação da observação dos fenômenos de possessão. parece reforçar não somente a raridade dos fenômenos que de fato demandam exorcismo como diminuem fortemente o repertório reconhecido como diabólico. um engodo. pois são duas formas . quando ela passa de éditos para o sistema de código pleno.. A escala da comparação. Uma vez que esteja posto à mesa a qualificação do evento segundo sua natureza ou sobrenatureza. ainda em 1624: apelo automático em julgamentos de feitiçaria e proibição de ordálios de quaisquer formas. Ao mesmo tempo a contraposição entre possessionistas e libertinos evoca a necessidade de contrabalancear o jogo entre os fenômenos naturais e os sobrenaturais – sendo notoriamente sobrenatural falar uma língua que é impossível ter aprendido. Nisso. (VIDE HUME SOBRE OS MILAGRES) lista de libertinos interessantes: Cyrano de Bergerac Guy Patin SOBRE A NOVA JURISPRUDÊNCIA FRANCESA – 1640 em diante. o que em nada nos diz se esta é uma vitória ou uma derrota do diabo. atenuação das penas. o Parlamento de Paris e a constituição de uma nova ordem jurídica. sanção contra juízes subalternos que viessem a violar a posição assumida pelo Parlamento de Paris. cada uma dessas posturas que são traduzidas como forma jurídica – vale o esforço de definir o que viria a ser uma forma jurídica e. por fim. De uma forma ou de outra. trata-se de uma vitória do Iluminismo sobre a ordem eclesiástica.

Mas no que diz respeito às formas jurídicas. polemização e em grande medida. Mas o que é mais importante. cabe lembrar que não operam como mera fala. como se dá no vínculo entre direito criminal e atividade científica moderna na produção de um código específico de um sistema evidenciário. ou a o diabo como questão é também outra coisa. ne répresentent plus que les traces effacées d’une ancienne tradition définitiveemnte reniée par la magistrature. charlatans et empoisonneurs. pour démontrer l’erreur des magistrats. é a reedição de um velho problema. de forma indissociável. bien des polygraphes savants discutent encore de toutes ces questions. “(368) . derniers héritiers des suppôts de Satan. pêniblement même: dans la première moitié du XVIIIe siècle. e é a razão de ser destas notas. orientação. pourtant faux sorciers. ou de menor repercussão: o procès des spirites. Boguet et Bodin. ou então o que pode ser compreendido como governo. quero crer. “La délimitation exacte qui disqualifie le crime et le réduit peu à peu au simple délit commis par les escrocs. ou mesmo no plano das idéias – coisa que. custo acreditar que tenha de fato merecido atenção para além da má vulgarização do platonismo. Conceitos que ordenam a forma pública da esfera pública. ao menos desde a alta idade média opera como uma questão que transita para além da questão do diabo. s’est faite lentement. a saber. como simbolismo. traz consigo outra carga trazida à tona pela historiografia de Carlo Ginzburg: as práticas de possessão que ele mesmo chama de xamanismo euroasiático que. assim como comunica suas decisões podem sofrer desdobramentos outros. os movimentos iniciados no seio do absolutismo e algo que veio ser de alguma forma banal. E é este movimento que conecta. pillant Lancre. charlatans ou diseurs de bonne aventure. o que fazer com a feitiçaria que para além da questão demoníaca. No caso. a discussão acerca dos conceitos transita em grande parte na criação de sentido.diferentes – daquilo que virá a ser o modo de centralização da administração.

SURTO DE 1655-1660 traz consigo um outro problema que diz respeito à ordem jurisdicional das províncias. um participante de algum culto do sabá.A marca dos surtos do segundo cinquênio do século XVII. Ainda que estivessem de alguma forma cientes das decisões e dos mandatos emitidos pelo Parlamento de Paris. é entre a aceitação e a resistência ao que veio a ser decidido em Paris que o jogo se dá. especialmente no que dizia respeito à lenta abolição do acolhimento do crime de feitiçaria aliada aos casos de possessão. não diz respeito tanto às possessões em massa quanto diz respeito a um processo acusatório que reproduz a novidade dos processos de Aix-Loudun-Louviers: a intermediação possessora. a política e a economia. atingindo também a linguagem. Assim. contudo. Estatística aproximada dos casos em que houve absolvição em maior número que de condenações: Pg. todos os julgamentos feitos em solo francês. sendo ele um feiticeiro. violando de vez a forte diferenciação da dinâmica da vida nas províncias. a relação entre parlamentos merece atenção exatamente porque é a autonomia da decisão concernente à existência e modalidade de malefícios que a constitui. isto é. de que o médium do diabo opera em seu ugar. ao mesmo tempo em que a Coroa começa a se mover para desenhar o ato centralista definitivo com relação ao que virá a ser o poder judiciário: a elaboração de um código que presida todas as tomadas de decisão. Vale lembrar o quanto a Revolução Francesa ampliará o modelo jurídico. 296-397 .

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