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OS DESABAFOS DE MARIA DA LUZ

Paulo Cardoso e Maria da Luz Louro (Outubro 2011 – Maio 2012) Capa de: Nuno Cardoso
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Índice
Introdução: .................................................................................................................................... 3 50 – Crónica / O sonho ou o pesadelo de Sá Carneiro (18-10-2011) ......................................... 4 51 – Crónica / Mais pobres (25-10-2011) ................................................................................... 7 52 – Crónica / FMI (01-11-2011) ................................................................................................ 9 53 – Crónica /PIIG’s em queda (08-11-2011) ........................................................................... 12 54 – Crónica /Os Deuses devem estar loucos (15-11-2011) ...................................................... 15 55 – Crónica /Também somos gente (22-11-2011 não gravada) ................................................ 18 56 – Crónica /Orçamento rasca ou à rasca (29-11-2011) .......................................................... 21 57 – Crónica /A dívida da corrupção (06-12-2011) ..................................................................... 24 58 – Crónica /Acesso bloqueado (13-12-2011) ........................................................................... 27 59 – Crónica / Natal agridoce (20-12-2011) ................................................................................ 31 60 – Crónica / Balanço ou falhanço (27-12-2011) ....................................................................... 34 61 – Crónica / Pobres, velhos e desalojados (03-01-2012) ......................................................... 37 62 – Crónica / e agora Portalegre? (10-01-2012)........................................................................ 40 63 – Crónica / tachos são para os amigos (17-01-2012) ............................................................. 43 64 – Crónica / Desemprego é crime (24-01-2012) ...................................................................... 46 65 - Crónica / quem vê TV… (31-01-2012) .................................................................................. 49 66 - Crónica / A regra de ouro (07-02-2012) ............................................................................... 52 67 - Crónica / Pieguices (21-02-2012) ......................................................................................... 55 68 - Crónica / Interioricídio (28-02-2012) ................................................................................... 58 69 – Crónica / Emigração e imigração (06-03-2012) ................................................................... 61 70 - Crónica / A crise no Feminino (13-03-2012) ........................................................................ 64 71 - Crónica / Ser ou não ser desempregado (20-03-2012) ........................................................ 67 72 - Crónica / A Educação não en/direita (27-03-2012) ............................................................. 70 73 - Crónica / Selva política (10-04-2012) ................................................................................... 73 1

74 - Crónica / Gorduras da direita (17-04-2012) ......................................................................... 76 75 - Crónica / Segurança Social (24-04-2012) ............................................................................. 79 76 - Crónica / Europa em desconstrução (01-05-2012) .............................................................. 82 77 - Crónica / Emprego em desconstrução (15-05-2012) ........................................................... 85 78 - Crónica / Portugal afunda (22-05-2012) .............................................................................. 88

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Introdução:
O convite da Rádio Portalegre repetiu-se. Num cenário de crise profunda as crónicas começaram a ter um caracter mais interventivo em relação às primeiras que tinham uma preocupação temática. A necessidade de passar uma mensagem diferente daquelas que sistematicamente ouvimos e lemos na comunicação social branqueando a realidade obrigou a um tipo de discurso que ajuste as opiniões permitindo o contraditório. Claro que para tal contou como sempre a postura que advém da vontade de gritar por mudança.

E porque as crónicas só são possíveis graças à existência deste espaço na Rádio Portalegre, aos seus promotores, profissionais e em especial ao vasto auditório que ouviu com atenção esta terceira edição de crónicas é-lhes dedicada com um carinho muito especial. Paulo Cardoso

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50 – Crónica / O sonho ou o pesadelo de Sá Carneiro (18-10-2011) Caros ouvintes, é uma evidência que temos um Presidente e um governo maioritário de direita. O sonho de Sá Carneiro cumpriu-se e com a vantagem de Portugal estar inserido numa União Europeia, também ela de direita. Mas do sonho ao pesadelo vai um pequeno passo. Tudo o que fora dito em campanha relativamente a reformas do estado, competência e mérito, transformou-se em aumentos de impostos e trapalhadas. Muito recentemente, até um prémio de 500€ foi cortado de forma vergonhosa aos alunos que integram os quadros de excelência das nossas escolas. Os portugueses estão a começar a perceber que o acordo da Troika é mais uma tragédia grega. A desculpa do memorando de entendimento não nos serve, visto que o aumento de impostos é mais 41% do que o acordo do memorando e há mais 64% de cortes que o previsto nas pensões, prestações sociais, educação e saúde. Sem uma estratégia de recuperação da economia, o resultado vai ser mais recessão. Sem crescimento, não vamos sair deste ciclo vicioso tal como acontece com a Grécia. Vamos ter privatizações de sectores estratégicos ao desbarato, a destruição de bens públicos essenciais como a educação, a saúde, os transportes públicos e a segurança social.

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Tudo isto é o resultado de um governo sem estratégia comandado por uma Comissão Europeia à deriva num mar turbulento em que quem dita as ordens é a Sr.ª Merkel. Nada do que vos estou a dizer é novidade, tudo isto foi aqui dito anteriormente. Depois de assistirmos a Cavaco Silva criticar as agências de rating, imitando agora a esquerda, este continua a insistir em que não se pode renegociar a dívida, contudo já lá vamos com duas restruturações e a fazer contas se não precisamos de um segundo resgate. Afinal quem falou a verdade sobre o acordo? Com um tratado de Lisboa morto em especial no que toca aos assuntos económicos, estamos perante uma crise do euro e do projeto europeu. Entretanto, assistimos a uma Comissão Europeia apática e patética, prometendo medidas como a emissão de eurobonds e a criação de uma Agência Europeia de dívida. No entanto, sem as realizar, deixa agravar mais a situação da europa já fragilizada pela especulação e um BCE subalterno. Durão Barroso anuncia medidas que a esquerda exigia mas tardam em ser aplicadas, um dia pode ser tarde… PS, PSD e CDS rejeitaram uma auditoria à dívida, mas afinal de que é que eles têm medo? Estão todos comprometidos, não é? Assim como no aumento dos bens essenciais e na escandalosa privatização do principal bem público que é a água. Também não posso deixar de falar no buraco da Madeira que a par do BPN fazem parecer os submarinos de Paulo Portas uma pequena extravagância. Claro que muitos já dizem que Alberto João Jardim
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vai passar impune, como os envolvidos na fraude do século do BPN e no caso Portucale que envolve o BES e uma quantia de um milhão de euros que foi parar à conta do CDS sem se saber como. Perante este arranque calamitoso do governo Passos Coelho/Paulo Portas e das incoerências de Cavaco Silva, vejo-me forçada a questionar se será este o sonho ou o pesadelo de Sá Carneiro… Para terminar não posso deixar de congratular-me pela atribuição do prémio Nobel da Paz de 2011 a três mulheres ativistas, duas liberianas e uma iemenita. A coragem delas é um exemplo para todo o mundo, demonstrando que é possível lutar pelos nossos direitos. Aproveito para dizer que estive presente na manifestação dos indignados porque estou indignada com a situação do país, da Europa e do mundo!

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51 – Crónica / Mais pobres (25-10-2011) Caros ouvintes, recentemente o Presidente do Banco Mundial apontou para uma subida de 36% dos preços dos bens alimentares em relação a 2010. Esta subida, em mais 10% pode empurrar para a pobreza extrema mais 10 milhões de pessoas. Os resultados estão à vista, há um aumento de pobreza na ordem dos 40% e o aumento das desigualdades é recordista em Portugal. O número mais marcante tem a ver com a taxa de pobreza infantil, entre nós, tem a oitava maior taxa entre os países da OCDE. Duas em cada cinco crianças são pobres. Acresce o fato de Portugal ser o segundo país da OCDE com menor taxa de fertilidade. A falta de apoios de programas de natalidade e o aumento do custo de vida, também contribuiu para a baixa natalidade, somando-se o aumento de divórcios. Quanto mais aumentam as desigualdades mais aumenta a pobreza. Do resultado absurdo destas políticas nomeio aqui uma que tem a ver com casais com uma vida organizada e que caindo nas malhas da crise chegam até a ficar sem os filhos perdendo o direito à parentalidade. Assistimos também ao aumento da precariedade e do desemprego que vai atingir os 13,4% em 2012 e estes são fatores que fazem aumentar a pobreza, sem esquecer que um milhão de idosos vivem com menos de 280€. É natural o aumento de pedidos de ajuda, em especial porque milhares de desempregados não recebem subsídio. Mais de 70 mil famílias ficaram sem abono e até Fevereiro de 2011 o número de casais desempregados teve um aumento de 185,5%. Em Portalegre, segundo a Cáritas, 900 famílias solicitam apoio, o que nos diz que
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um em cada cinco cidadãos precisa de ajuda. Este indicador é dramático porque o número ou já aumentou ou vai aumentar nos próximos tempos. Não temos só uma taxa alta de suicídio, as povoações, também elas estão a morrer e os responsáveis por este distrito não têm feito nada para inverter esta situação. Por isso é importante pensarmos em fazer escolhas e que sejam de mudança. Aquilo a que assistimos é precisamente o contrário. Já sabemos da intenção do governo de encerrar treze Extensões de Centros de Saúde, de fundir oito Centros de saúde, da supressão das ligações regionais na linha do Leste e do encerramento do ramal de Cáceres. Tudo isto em nome de uma crise os défices financeiros provocados por défices de justiça. Passos Coelho também já se refere ao monstro da dívida pública sem explicar que Cavaco Silva é um dos grandes responsáveis, como disse Miguel Cadilhe. Mas aquilo de que o Primeiro-Ministro não fala é do monstro das parcerias público privadas, do monstro criminoso dos offshore e do monstro das mordomias e dos tachos dos boys. Para satisfazer a gula dos agiotas mercados capitalistas, a crise que já existia desde o século dezanove, está a agravar-se e o ataque feito à vida das pessoas, é de uma crueldade sem precedentes. Portugal está a ser conduzido para um beco sem saída recheado de hipocrisias e demagogias como o fato de a Presidência da República ser poupada nos sacrifícios recebendo 15 milhões de euros. E então o combate à pobreza?
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52 – Crónica / FMI (01-11-2011)

Caros ouvintes, muitos recordam-se com certeza de uma canção do José Mário Branco chamada “FMI”. Num dos versos ouvia-se, “FMI Não há truque que não lucre ao FMI”… Muitos não se esquecem dos efeitos da intervenção do FMI outrora em Portugal e garanto-vos, também não se vão esquecer da intervenção atual. O argumento de quem pede emprestado, tem de se sujeitar… devia ser contraposto com o argumento da decência e de que de forma nenhuma a usura, o abuso, pode substituir a democracia. O sistema financeiro está a mandar no sistema político e este é problema da crise. Por isso, defendo que o FMI é o “Judas” do capitalismo. Passo a explicar: Numa crónica minha, fiz questão de apresentar as atrocidades do FMI no Peru, fiz questão de explicar que onde o FMI entra a desgraça aumenta. Com a premissa de regular as contas de países subdesenvolvidos, o FMI foi expulso de muitos países e resta-lhe por ora, a Europa para saquear e reverter as políticas a favor dos impérios económicos. É a política de uma Europa centralista que acabou com a Grécia e não vai ficar por aqui. Fora o que cobra em juros, ficamos a saber agora que em Portugal já faturou 655 milhões em comissões à troika. Esta verba não era conhecida em documento nenhum e este assunto foi habilmente escondido aos portugueses.

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Claro que o FMI não está sozinho neste assalto à economia portuguesa, o BCE vai ter Mario Draghi como presidente do Banco Central Europeu. Mario Draghi foi vice-presidente da Goldman Sachs, enquanto este grupo financeiro ajudava o então governo grego a falsificar as contas do seu orçamento, num período marcado pela crise das dívidas e pelo colapso da economia da Grécia. A mesma Goldman Sachs que manda no mundo e, por acaso onde se notabilizou António Borges, agora a trabalhar para o FMI. Este português, aqui do nosso distrito, ficou conhecido pela defesa do subprime e dos mercados especulativos… Afinal tudo tem a sua explicação, não tem? O que não tem explicação é o caso dos cortes não atingirem as grandes fortunas. Pior, é sabermos que esta sangria não vai ter resultados positivos a não ser para o FMI e para os grandes grupos económicos. Grupos como a Goldman Sachs que pretendem os países bastante endividados criando juros abusivos e dívidas impagáveis, para poderem extorquir através das privatizações, empresas públicas a preço de saldo. A privatização da água, o petróleo do século XXI, é um dos desígnios do FMI que trabalha para muitas multinacionais entre elas a Bechtel. Ao mesmo tempo conseguem desbaratar os salários e aumentar a precariedade. Estamos nas mãos de abutres económicos que não olham a meios para desmantelar o sistema social. Conseguem ainda convencer os menos esclarecidos que gastamos acima das possibilidades e de que tudo isto é inevitável. O argumento do peso do estado é um truque.
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Sabemos que devemos gerir bem mas o peso do nosso estado não é o problema principal tal como não é a dívida pública. O maior problema segundo relatórios da OCDE é a corrupção e essa não vem de quem vive do trabalho. A Grécia já faliu, o perdão de parte da dívida é a marca do fracasso da Troika. A seguir vamos nós… Sem uma renegociação da dívida estamos condenados, porque tal como na Grécia este acordo é impagável. Não é admissível que Passos Coelho queira uma renegociação para salvar a banca e não faça o mesmo para salvar Portugal. Exige-se uma auditoria à dívida, PS, PSD e CDS estão de mãos dadas impedindo os portugueses de saberem toda a verdade. Estamos nas mãos do terrorismo económico comandado pelo FMI.

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53 – Crónica /PIIG’s em queda (08-11-2011) Caros ouvintes, há duas semanas atrás fiz questão de referir que estamos mais pobres. Confirmando as minhas palavras, Passos Coelho veio a público dizer que “só saímos da crise empobrecendo”… Parece inacreditável ouvir esta afirmação de um licenciado em Economia, porque na verdade vamos mesmo empobrecer, mas não vamos sairmos da crise, vamos é, ficar ainda mais endividados e tal como a Grécia, dependentes de mais resgates e de mais austeridade. Este tem sido o resultado das medidas da Troika e com Portugal não vai ser diferente. A Grécia, agora no centro das atenções quando apenas representa 2% do PIB Europeu, tal como nós, é vítima dos delírios entre Paris e Berlim, branqueados por economistas incompetentes que dão cobertura aos assaltos em curso. Escudados na crise, defendem privatizações de empresas públicas, entrega de serviços públicos a privados e pasme-se, quando temos cortes desnorteados na Educação, o governo PSD/CDS reforça o orçamento para o ensino privado a pagar por todos nós. Para os menos atentos estas opções políticas são manifestamente a ideologia de direita que protege os grandes grupos económicos. Ao contrário, carrega-se nos contribuintes e asfixia-se a Economia. Depois, enquanto poupa as grandes fortunas, os títulos e as ações, assistimos à extinção criminosa do IDT. A Federação Nacional dos Médicos criticou a extinção do Instituto da Droga e da Toxicodependência, enaltecendo o trabalho importante, reconhecido e elogiado a nível internacional. Esta é mais uma semelhança com as medidas Gregas que fizeram disparar o número
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de suicídios e a taxa de toxicodependência entre outros problemas sociais. Entretanto vamos empobrecendo com a ajuda de um BPN sem fundo, mas vendido ao desbarato, à custa de gastos irracionais já aqui referidos por diversas vezes como os submarinos, estádios do euro que são uma dor de cabeça e os buracos colossais da Madeira agora varridos para debaixo do tapete. São as irresponsabilidades de sucessivos governos repartidas por PS, PSD e CDS. Estes partidos não se opuseram às pensões vitalícias dos parlamentares nem ao escândalo das parcerias público privadas. Ao contrário, assistiram impávidos à fuga de 100 mil milhões de euros para offshore nos últimos dez anos. Hoje cifra-se em 6 milhões e seiscentos mil euros por dia, um autêntico roubo organizado. E a par destas injustiças, as hipocrisias continuam a dominar. Enquanto Passos Coelho defende que temos de empobrecer, Cavaco Silva é um dos chefes de estado mais gastadores da Europa. Será que é para ajudar a empobrecer? Da mesma forma como os nossos governantes têm sido coniventes com as malfeitorias da União europeia, também não questionam como é que o BCE emprestou a 1% à Hungria e não pôde emprestar a Portugal… De há um ano para cá tenho dito insistentemente que as medidas da Europa estão erradas. Acertei e até Cavaco Silva descobriu agora esta realidade que PS,PSD e CDS não admitiram. Tal como em Portugal, o Partido Socialista da Grécia, alia-se à direita assumindo as políticas de direita da Europa. Por cá o PS não é governo nem oposição e tal como não faz uma
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escolha coerente com a sua génese assumidamente socialista continua a legitimar políticas de direita. Agora por falta de medidas ajustadas, o euro está em perigo e adivinham-se dias negros para os PIIGS, países periféricos em queda. Termino, desejando à Rádio Portalegre e aos seus profissionais um feliz aniversário já que amanhã esta estação soma 22 anos de emissões regulares. Parabéns.

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54 – Crónica /Os Deuses devem estar loucos (15-11-2011) Caros ouvintes, Peter Sutherland, presidente da Goldman Sachs disse e passo a citar: "Sou um banqueiro a fazer o trabalho de Deus". Este é apenas um desabafo de quem sabe que quem manda no mundo são os impérios capitalistas e não os governos eleitos pelos povos. São eles, também, que ajudam a promover políticos para vencerem eleições e a influenciarem o tipo de políticas a implementar. manifestação Recentemente, dos indignados, quando em assistimos países, à grande das muitos uma

mensagens referia que os que estão indignados são 99% e apenas 1% são aqueles que lucram e dominam a seu belo prazer. No poder político federal não instituído, mas real, temos Durão Barroso que deu provas de ser um bom “pau mandado” na

aceitação da invasão do Iraque. A burguesia é o motor desta máquina capitalista, sustentada na opinião pública por comentadores e economistas “bem instalados”, que nos dão a entender qual o caminho para o céu e para o inferno…Os bispos portugueses na recente Conferência Episcopal denunciaram que "se há paraísos fiscais, também há infernos de pobreza". Mas como podemos levar a sério esta europa que tem um Presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso, que não serviu nem como primeiro-ministro? Victor Constâncio, Vicepresidente do BCE, que não foi exemplar como regulador atento no Banco de Portugal; Mario Draghi, agora Presidente do
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BCE acusado de ter ajudado a ocultar o défice grego e segundo se comenta agora, também, o italiano para poder entrar no euro. António Borges Diretor do FMI para a Europa, que foi vice-presidente e diretor-geral da Goldman entre 2000 e 2008. A mesma Goldman Sachs que foi acusada de atuações menos corretas, chegando mesmo a ser condenada por fraude. O império financeiro é uma escola que permite a muitos economistas e gestores atingir cargos de poder um pouco por todo o mundo. O próprio presidente do Banco Mundial, Robert Zoelick, foi diretor-geral da Goldman. Talvez por isso, Cavaco Silva que tem sido assertivo na crítica à troika, não deixa de revelar a sua cumplicidade quando constatamos que na visita aos EUA não deixou de realçar os portugueses que trabalham nas grandes instituições financeiras como sendo os verdadeiros diplomatas. Afinal a diplomacia está nos mercados financeiros… Portugal não é exceção e também está nas mãos desta instituição, no que respeita a colocar dívida portuguesa no mercado, acompanhamento das ações e até de recomendações como se pode deduzir da compra de empresas portuguesas. Não deixa de ser interessante verificar que o atual secretário de Estado adjunto do primeiro-ministro, Carlos Moedas, também passou pela Goldman, no departamento europeu de fusões e aquisições, hoje tem a cargo o acompanhamento da aplicação do memorando com a troika…

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Resumindo, estes senhores que ao mesmo tempo são responsáveis por crises financeiras, ainda nos querem fazer crer que zelam pelos nossos interesses. É disto mesmo que a troika nos quer convencer, depois dos fracassos e atrocidades que têm cometido pelo mundo fora. Sendo certo que após o cumprimento do plano da troika só podemos estar mais pobres e endividados. Concluindo, se o presidente da Goldman Sachs Peter

Sutherland diz que faz o trabalho de Deus e se as escolhas de pessoas para cargos de responsabilidade, recaem sobre as pessoas que aqui mencionei e foi uma amostra, então os Deuses devem estar loucos...

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55 – Crónica /Também somos gente (22-11-2011 não gravada) Caros ouvintes, o Presidente da Cáritas afirmou que o OE atinge os mais desprotegidos que são os que menos culpa têm da crise. Acrescentou ainda que este não é um orçamento de equidade. E tem razão, vivemos num distrito com uma taxa de desemprego alta e sem meios próprios para inverter a situação. O resultado é o êxodo de pessoas e a tomada de consciência de que, por cá, já não há futuro. Como tenho defendido, as medidas da troika estão erradas, se falharam na Grécia, conduzindo os Gregos à situação dramática em que se encontram, por que razão devemos acreditar que em Portugal vai ser diferente. Infelizmente, vamos assistir à deterioração da sociedade, à ruína do país cada vez mais endividado e caminhamos a passos largos para o desastre económico e social. As evidências estão aí, cresce o número de famílias que entram em rutura e entregam as suas casas aos bancos. As medidas de Passos e Paulo Portas são de uma violência extrema, agora o corte de 50% nos passes sociais dos idosos e estudantes são mais um ataque aos mais necessitados a par do congelamento das pensões a partir de 274€. Entretanto Passos Coelho em nome de uma pretensa

competitividade apelou à “moderação salarial” no setor privado, a pedido da troika, liderada pelo FMI. Mais uma vez e porque foi alertado para os perigos dessa medida, dá o dito por não dito e aparentemente recuou. Mas enquanto a troika impõe cortes salariais
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e diminuição das pensões em países como Irlanda, Grécia e Portugal, o FMI distribui pelos seus ex-funcionários pensões que chegam a ultrapassar os 7 mil euros mensais vitalícios. O absurdo continua a dominar, seguir esta indicação de cortes salariais vai provocar um grande rombo nas contribuições ao estado. Mas enquanto as leis laborais estão na forja, os patrões querem mais trabalho gratuito e não optam por redução salarial. É interessante analisar o que o presidente do Conselho Económico e Social (CES), Silva Peneda, diz sobre este assunto. Apela para que as medidas apontem para o combate à Economia paralela que representa 20% do PIB nacional. Defende ainda que a verdadeira reforma da administração pública deve passar pela transferência de serviços públicos para o interior do país. Mas das declarações de Silva Peneda o que destaco mais, é uma evidência que muitos governantes têm ignorado. Diz o dirigente e faço questão de citar: "Porque é que tudo o que é serviço público tem que estar centralizado em Lisboa? Não há nenhuma política que justifique esta concentração, em que todos estão a acotovelar-se, enquanto o resto do país se vai transformando num deserto". Isto sim, caros ouvintes, pode ser a alavanca necessária para uma saudável e necessária reforma da administração pública. Entretanto a realidade é a oposta e o governo PSD/CDS, aposta em reduzir serviços públicos, abandonar de vez o distrito e continuamos a assistir ao desaparecimento de empregos como vai acontecer na Vitalis e na Fenesteves.

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Por tudo isto, é importante lutarmos pelo distrito e o dia 24 de Novembro é um momento importante para mostrarmos que estamos indignados. A população de Avis deu-nos um bom exemplo de como a lutar é possível travar as injustiças. Os habitantes do Bairro do Atalaião em Portalegre também já deram provas disso, quando com a sua luta impediram o fecho da extensão do Centro de Saúde do Atalaião. Lutar pelo distrito é mostrar que gostamos da nossa terra, das nossas gentes e que exigimos respeito porque também somos gente.

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56 – Crónica /Orçamento rasca ou à rasca (29-11-2011)

Caros ouvintes, mais uma vez recorro a Joseph Stiglitz fazendo minhas as palavras do Nobel da Economia quando, na passada quinta-feira, afirmou que a “'Austeridade é suicídio económico”. Da mesma forma, afirmo que a aprovação do O.E. é igualmente um suicídio. Mais, é um ato criminoso! Um orçamento que prevê uma taxa de crescimento média de cerca de 1% até 2050, é uma promessa de miséria a 40 anos. A recessão agrava-se com o PIB a contrair-se mais 0,4% no terceiro trimestre. Estes dados revelam que a política do Governo / troika, está a ter efeitos catastróficos na economia e anuncia o avolumar do desemprego. É uma ficção e é o próprio PSD e CDS quem o reconhecem, ao não inscreverem as projeções económicas de 2013 e 2014 nas Grandes Opções do Plano. Está à vista que o país encalhou e vai afundar. O Ministro da Economia disse que em matéria de desemprego é altura de "deixar de remar contra a maré". Percebemos que a receita do Governo é mesmo deixar afundar o barco, enquanto o endividamento público vai subir 15% durante o programa da troika. Os portugueses pagam 8.000 milhões de euros para em 2014 estarmos a pagar cerca de 9 mil milhões. O PIB caiu 1,7 por cento. Menos exportações, menos poder de compra, mais desemprego, é tudo o que podemos esperar em 2012. A OCDE revela um cenário mais pessimista do que o governo e a Comissão Europeia apresentaram para 2012. Segundo a OCDE a contração do PIB vai rondar os 3,2% e a taxa de desemprego vai chegar aos 13,8%.
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Enquanto os rendimentos de capital ficaram isentos da sobretaxa, colocam os portugueses a trabalhar gratuitamente 20 dias por ano num claro retrocesso ao século dezanove. Este governo não tem propostas de crescimento, nem sequer tem uma aposta para a agricultura e pescas, os nossos recursos naturais. Este orçamento asfixia as pessoas e dá brindes aos grupos económicos. A recente notícia de que o governo PSD/CDS baixa para metade as taxas cobradas às operadoras móveis pelo uso do espectro radioelétrico, é tirar aos pobres para dar aos ricos… Corta-se nos passes sociais e extingue-se o IDT, só por isto se percebe o cunho ideológico do governo PSD/CDS que corta na saúde e na educação, mas reforça as verbas a transferir para as escolas privadas, deixando um país à sua sorte. Há alternativas para evitar o roubo dos subsídios, mas PS, PSD e CDS preferem fazer jogos políticos brincando com as vidas das pessoas. Depois temos a desorganização do governo com trapalhadas e tomadas de posição indignas de governantes. O Secretário de Estado do Emprego, Pedro Silva Martins afirmou que o Salário Mínimo Nacional até não é assim tão baixo, defendendo que é mediano; Paula Teixeira da Cruz e os seus boys na justiça, Paulo Núncio, dirigente do CDS e secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, requisitou um assessor ao Centro de Estudos Fiscais, aumentando-lhe o salário em 2000 euros. É o mesmo que assinou um despacho mais favorável aos grupos económicos na tributação dos dividendos, à margem do parecer que os serviços das Finanças aconselhavam. Apesar de se ter corrigido, o Ministro da Economia,
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Álvaro Santos Pereira não para de nos surpreender ao afirmar, “ Em 2012 sairemos da crise". Depois vem aquilo que não tem desculpa, nem correção, ao dizer que se as mulheres tiverem a mesma produtividade que os homens, até podem ganhar o mesmo salário. Mas o que é isto? Donde é que vem este tipo de gente que considera a mulher um trabalhador inferior? Vem a talhe de foice e não posso deixar de enaltecer todas as mulheres que continuam a lutar pelo fim da descriminação de género e que comemoraram essa luta no passado dia 25 de Novembro, assim como todos os que puderam no dia 24 dizer não a este Orçamento rasca ou à rasca.

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57 – Crónica /A dívida da corrupção (06-12-2011)
Caros ouvintes que ninguém tenha dúvidas, a crise da dívida, é a crise do euro e da europa. As medidas tomadas não vão resolver este problema e vamos assistir ao processo inverso da União Europeia, com Sarkozy e Merkel a criarem novas regras. Na passada sexta-feira, Merkel recordou no parlamento alemão os “enormes benefícios” que a Alemanha retirou da moeda comum. Agora dizem que somos todos responsáveis e andámos a gastar acima das possibilidades… Mas quem é que sustentou estas políticas e a dependência das pessoas, e do Estado, na banca? Quem é que não geriu bem os fundos europeus? Quem é que ganha acima da média europeia e tem tido um nível de vida acima da média europeia? Quem permitiu o BPN, quem se calou perante o buraco da Madeira? É interessante analisar a denúncia de um relatório recente da "Transparência Internacional", que aponta a "corrupção no sector público" como fator da crise da dívida, ou seja, a corrupção está na origem da dívida pública. Mas até aqui não vejo novidade, ainda há pouco tempo Alberto João Jardim mostrou como se faz um ajuste direto garantindo a quem quer, mais uma despesa para aumentar o buraco financeiro perante o silêncio do governo. Soubemos também como foi possível, Paulo Portas lesar o estado em quase 200 milhões de euros nas contrapartidas militares das viaturas Pandur. E este, é precisamente o valor que o governo espera encaixar em 2012, com a subida das taxas moderadoras para o dobro. Só as contrapartidas militares e as parcerias público-privadas chegam para explicar a situação em que nos encontramos.
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Mas afinal o que é a dívida? Por que razão PS, PSD e CDS não querem uma auditoria da dívida? Não seria honesto saber o pagamos, a quem pagamos e porque pagamos? A troika emprestanos os 78 mil milhões, que não vão resolver os problemas do país. A certeza é, de que vamos ficar ainda mais endividados, porque sem desenvolvimento e com a devolução de 113 mil milhões de euros à troika só nos pode deixar ainda mais pobres, sem solução e o resultado vai ser uma astronómica dívida de trinta mil milhões de euros. O O.E. foi aprovado com a entrega de 12 mil milhões € à banca privada deixando de fora a CGD. Não vimos medidas sérias e arrojadas, sobrou a irresponsabilidade do aumento do IVA na restauração entre outras atrocidades nos salários de quem trabalha. O governo ouviu propostas sérias, mas que não interessam aos responsáveis pela crise dos quais dou aqui alguns exemplos: A tributação das mais-valias urbanísticas daria mil milhões de euros; A tributação do património de luxo, 0,6% para fortunas superiores a um milhão de euros e de 1% para superiores a três milhões, daria mais mil milhões de euros; Uma taxa efetiva de 25% para o sector bancário daria quatrocentos milhões de euros; A taxação extraordinária dos prémios dos gestores em 75% daria mais vinte e cinco milhões de euros. Se não há receitas é porque não querem! É mais fácil para Passos Coelho e Paulo Portas o arrepio das suas promessas e do populismo que demonstraram na oposição, carregar nos mesmos de sempre e arrasar a economia portuguesa.

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Por tudo isto, defendo que estamos perante a dívida das injustiças, dos que pagam sem culpa e ainda por cima, é importante denunciar, que estamos a pagar a dívida da corrupção.

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58 – Crónica /Acesso bloqueado (13-12-2011)
Caros ouvintes, o conhecido cantor Sérgio Godinho, no seu vastíssimo reportório, conta com uma composição cujo título é “Acesso Bloqueado”. Este tema aplica-se bem aos dias de hoje. Traz-me à lembrança o que se passa com os jovens que cada vez mais, vão desistindo de estudar por falta de meios económicos, entre outras dificuldades. Mas também, do acesso aos cuidados de saúde, cada vez mais difíceis e com a gravidade reconhecida, mas infelizmente ignorada até nos doentes crónicos. As contrariedades que vão criar às populações isoladas são também um acesso bloqueado a milhares de portugueses, privados dos serviços públicos administrativos, com a extinção, sem sapiência, de Juntas de Freguesia, em especial no mundo rural e injustificada no campo orçamental. Nas acessibilidades que nunca foram famosas, por exemplo o trajeto para Elvas é uma aberração e agora o pouco que nos restava é cobrado, falo da A23, não esquecendo que nos deixaram o IC13 por acabar. Esperava-se que com o passar dos anos e uma integração europeia que prognosticava progresso, estivéssemos melhor. Puro engano, hoje o caminho-de-ferro está condenado e a rodovia está mais cara. Não bastava o acesso à A23 ser através de um trajeto que passa pela Barragem do Fratel, como os custos da sua utilização serem elevados. Cavaco Silva recebeu, em tempos, uma comitiva da Assembleia Municipal de Portalegre e mostrou-se sensível aos problemas do
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distrito. Contudo parece ter-se esquecido quando promulgou a taxação da A23, concretizando um antigo sonho de Santana Lopes e contrariando as razões que criaram as SCUT, “Sem Custos para o Utilizador”, há 14 anos. Inclusive a A23 passou a ser uma das SCUT mais caras do país. Também vai ser difícil para os estrangeiros que queiram visitar ou comercializar com Portugal, dado que o sistema de cobrança é exclusivamente eletrónico. Verdade seja dita, se o governo enganou muitos portugueses com o que disse na campanha eleitoral e o que faz na prática, neste caso, PSD e CDS têm o aval do eleitorado para estas medidas. Mas quem votou neste governo não tem a noção dos efeitos negativos na economia na vida das pessoas e das empresas. Não existe sequer um estudo das contas do impacto para a atividade económica e do desemprego que vai surgir por via destas medidas. E vamos a contas, alguém acredita que as portagens vão dar a receita que esperam? Mera ilusão, a realidade pura e dura diz-nos sim que os custos da sinistralidade rodoviária continuam a ser superiores a 4 mil milhões de euros/ano. No entanto, as concessionárias, quer paguemos ou não, vão ter sempre o dinheiro do estado garantido. Dizem-nos que existe um regime de discriminação positiva para as populações e para as empresas locais. Após 10 passagens em pórticos, estes beneficiários têm um desconto de 15% no valor da taxa de portagem. Mas eu digo que esta é apenas uma manobra de diversão porque o que devíamos exigir era a devolução da estrada que tínhamos no lugar da A23 e a ferrovia. O que ninguém comenta é o fato de as estradas nacionais com alguma idade e limitação estarem sujeitas a um maior desgaste com
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todas as complicações até ao nível da segurança rodoviária. As estradas de Portugal já disseram que querem também portagens nos IC’s e IP’s. Depois de desmantelarem a ferrovia querem obrigarnos a pagar qualquer acesso quando já temos um imposto sobre combustíveis bastante alto. Com esta lógica, qualquer dia ainda estão a taxar os acessos aos rios às praias…

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59 – Crónica / Natal agridoce (20-12-2011)
Caros ouvintes, enquanto a Alemanha poupou 13 mil milhões com a crise do euro e as cimeiras caminham de fracasso em fracasso, por cá fazemos um cabaz com o que nos é possível para a consoada. Enquanto o FMI arrecada milhões com juros, por cá, corta-se na alimentação e os doentes cortam nos medicamentos. O Natal apesar de festivo, sempre sofreu da inevitável revelação das desigualdades e do paradoxal espírito de fraternidade à mistura de hipocrisia, da necessidade de partilhar e do egoísmo. Resultado de uma sociedade que oscila entre a humildade, os beneméritos e a ostentação dos gananciosos. Aproveito a época natalícia, para dar voz, àqueles que representam esta quadra e não àqueles que de forma hipócrita desejam boas festas expurgando a consciência. Os bispos portugueses, numa recente nota pastoral sobre a atual situação do país intitulada, “Crise discernimento e compromisso”, onde evocam a dignidade humana e o bem comum, apontam que as políticas devem ter estes conceitos como base e, resumindo, apelam à sustentabilidade da sociedade contra a idolatria do lucro e da ostentação. A Conferência Episcopal Portuguesa «lembra que o trabalho e o emprego é «base indispensável de sobrevivência e dignificação humana; a sua garantia é urgente, mesmo exigindo mais criatividade e solidariedade prática para chegar a todos». São palavras assertivas, mas ao contrário o governo não tem um projeto, nem medidas estruturais e sem soluções, incentiva-nos à
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imigração, afinal as “gorduras” a cortar são as pessoas. Depois, ainda nos deparamos com práticas deploráveis de trabalho escravo no Alentejo, como denunciou recentemente o Bispo de Beja, em locais visitados ultimamente por Cavaco Silva. Segundo dados do Eurostat, os gregos e portugueses são dos que mais trabalham em horas na UE. Por isso, a prenda do governo aos patrões, de mais horas de trabalho gratuito, só pode ser classificada de cruel. Tudo porque Passos Coelho e Paulo Portas são os mandarins dos ataques de Angela Merkel que quer impor nestes países o trabalho escravo. Depois de milhares de portugueses sentirem o corte de parte do subsídio de Natal este ano, a promessa é, de que para o ano, será um corte total para todos e o mais grave é que se prevê a repetição desta prática nos anos posteriores. A certeza que temos é que com este assalto e a venda de Portugal ao estrangeiro, vamos ficar ainda mais pobres e endividados. A honestidade é algo que todos prezamos e a prenda que este governo nos deixa no sapatinho é um monte de promessas impossíveis de cumprir e a falta de coragem de confessarem que abriram as portas aos abutres para nos canibalizarem até à última gota. Na Grécia os professores ficam traumatizados com alunos a desmaiarem nas aulas com fome, na França os sem-abrigo são expulsos por Sarkozy dos centros das cidades e o Reino Unido estuda a hipótese de ter de repatriar os Britânicos do nosso País. Portugal, como sabemos, está mais pobre que a Grécia e dispenso antevisões. Por todas estas razões peço ao “Pai Natal”
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que redistribua toda a riqueza acumulada por aqueles que de forma gananciosa a estão a usurpar. Os mercados financeiros são o instrumento dos homens mais ricos do mundo que saqueiam a humanidade e no doce dia de Natal, vão estar refastelados a dar vivas ao capitalismo e a comentarem, pobrezinhos dos que não querem trabalhar e dos incumpridores e, por isso, merecedores de um Natal de agrura e azedume. Termino, pedindo a todos coragem, saúde e desejando que este Natal seja, ao menos rico em fraternidade. E como ouvi no novíssimo trabalho dos Deolinda – “ Feliz Natal, não hoje mas um ano inteiro…”

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60 – Crónica / Balanço ou falhanço (27-12-2011)
Caros ouvintes, no final de ano é comum ouvirmos o, já, corriqueiro balanço, evocando e recordando os bons e maus registos da vida pública. Não vos quero maçar com tais delongas, mas sim, fazer o verdadeiro balanço que é o resultado final do ano de 2011. Na última crónica fiz questão de alertar para o fato de alunos gregos desmaiarem nas aulas resultado das medidas da troika. A Europa democrática e solidária da foi trocada e da por falta uma de Europa das desigualdades, xenofobia solidariedade.

Atualmente, até assistimos aos sem-abrigo a serem escorraçados das zonas nobres das cidades de francesas. Também tomámos conhecimento de que em Madrid, os famélicos são multados em 750€ por procurarem comida nos contentores de lixo. Estes cenários mostram as consequências negativas das políticas de uma Europa dominada pela direita e que por isso entrou numa profunda crise. Os resultados, infelizmente, mostram um país, uma Europa, com governantes incompetentes e sem soluções. O resultado é um país à venda e um povo empobrecido enganado por promessas não cumpridas à mistura com trapalhadas e contradições. Fomos invadidos pela crise, somos governados pela troika e não temos governantes com medidas para sair dela. Pior, os mesmos, nem aceitam as propostas da Esquerda que provou ter razão e o resultado vai ser ainda pior. Neste Natal com os habituais rituais de hipocrisia, percebemos bem quem recebeu as prendinhas: A privatização de 12 mil milhões de euros de dinheiro público, e a transferência dos fundos de pensões, nestas condições, são um
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claro benefício para a banca, com os portugueses a pagar. Os grupos económicos esfregam as mãos com mais 23 dias de trabalho por ano e, de borla. E os novos desempregados também foram presenteados com redução de tempo e cortes no subsídio de desemprego em 75%. Enquanto isso, os jovens têm a garantia da exploração. Ao contrário, o estado português adquiriu um Mercedes no valor de 134 mil euros para transportar algumas individualidades, como Durão Barroso… Na assistência também não vamos bem, assistimos a cortes perigosos na saúde e os soldados da paz vivem dias negros. A maior parte das corporações está à beira da falência e a assistência às populações está em risco, quando se gastou inutilmente dinheiro em submarinos. E de que serviu salvar o BPN, um banco cavaquista na falência, também responsável pela grave situação do país e vendido ao desbarato, depois de se ter lá enterrado quatro mil e quinhentos milhões de euros obrigando os portugueses a sacrifícios inúteis? Mas por que razão temos de pagar pelo falhanço de políticas desastrosas de políticos incompetentes, pelos roubos como o do BPN, pelos submarinos que não servem para nada e pelas loucuras de Alberto João Jardim? Por esta razão, vamos vendendo o nosso património e os nossos jovens, no futuro vão vender o quê? Os nossos governantes desistiram do país, colocaram-no à venda e pedem-nos para emigrar. Aqui, no Alto-Alentejo talvez nos entreguem a Espanha; Campo Maior que já teve nove lagares tem de ir a Albuquerque em Espanha onde fica o lagar mais próximo. Isto é só um exemplo…
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O balanço tem que ser, forçosamente, negativo quando as políticas europeias adotadas pelos partidos que nos têm governado são políticas da economia do desastre, sem reformas estruturais e viradas para os interesses dos grandes grupos financeiros. Os prémios Nobel, como tenho referido várias vezes, têm-no afirmado insistentemente, mas tal não interessa aos donos do mundo. Resta-me desejar a todos e a todas muita saúde, felicidades e que tenham muita coragem para lutar com determinação neste novo ano de 2012 que se aproxima.

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61 – Crónica / Pobres, velhos e desalojados (03-01-2012)
Caros ouvintes, foi notícia de final do ano de 2011 o fato de termos a segunda menor taxa de natalidade da União Europeia. É o apontamento da mais baixa natalidade desde que há registo. “O que é preciso para que nasçam mais crianças em Portugal?” Esta pergunta, da autoria de Cavaco Silva em campanha eleitoral, parece ter ficado sem resposta e sem resultados à vista. Antes pelo contrário, depois de eleito, decretou medidas que pioraram a situação. A pergunta foi até alvo de muitas piadas, mas o assunto é muito grave e pelos vistos nem o Presidente da República o levou a sério. É que a gravidade não passa só pelo envelhecimento da população com todas as consequências inerentes, mas também pelas causas próprias deste problema. Digo isto, porque a principal causa tem a ver com a precariedade, os salários miseráveis dos jovens explorados e tempo de trabalho a mais, sem direitos. Tudo isto com a responsabilidade de Cavaco Silva que deu o aval às políticas antissociais praticadas por sucessivos governos. Nessa mesma ocasião, Cavaco Silva, de visita à Guarda, declarou que “um país sem crianças é um país sem futuro” e já apontava o caminho de Espanha como uma oportunidade. Por falar nisso, ainda está bem fresco na nossa memória o apelo de Passos Coelho à emigração. Curioso foi descobrir que afinal as vagas ou empregos disponíveis são muito limitados. Entretanto mais de cem mil portugueses emigraram este ano deixando o país mais esvaziado. Para aumentar a incoerência destas propostas, não bastavam as notícias que revelam a falta de respeito pelos trabalhadores
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consulares e professores na Suíça, também no final do ano de 2011 assistimos à deportação do Canadá de uma família originária dos Açores. Igualmente no fim do ano ficámos a saber que o governo retirou a garantia de um teto para muitos inquilinos com aumentos de rendas e despejos estilo “simplex”. O novo regime de arrendamento aprovado em Conselho de Ministros vai expulsar as pessoas das suas casas, sem resolver estes problemas já antigos tanto para senhorios como para inquilinos, porque nunca se apostou na reabilitação urbana. Este aumento de rendas é mais um encargo sobre as famílias e acréscimo de dificuldades numa altura que já se sabe ser a pior. A somar a isto já não bastava a tragédia em torno das dificuldades de pagar as prestações à banca e a respetiva entrega das habitações. Será também por isto que há o incentivo à imigração, já que neste país até viver debaixo da ponte é perigoso, não vá ela cair… Enquanto o governo deixa a maioria dos portugueses entregues à sua sorte, vira as atenções e preocupações com os privilégios fiscais para zona franca da Madeira. Passos Coelho enviou um pedido de revisão do regime fiscal da zona franca da Madeira para a Comissão Europeia, tendo em vista a distribuição de dividendos pelas empresas sediadas no Centro Internacional de Negócios da Madeira e a aplicação de uma taxa reduzida de IRC a estas empresas. Enquanto em 2009 apertávamos o cinto, das 3.000 destas empresas, 2.930 não pagaram impostos e nada parece mudar neste campo.
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E é assim, sempre com surpresas de mau gosto, da dupla Passos Coelho / Paulo Portas que começamos o ano de 2012 com o coração apertado pelos efeitos da austeridade, que além de não ajudar a nossa economia, antes pelo contrário, ainda nos vai deixar pobres, velhos e desalojados.

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62 – Crónica / e agora Portalegre? (10-01-2012)
Caros ouvintes, a crise europeia tem ocupado muitas das minhas crónicas, mas tal não significa que me esqueça do distrito, apesar de ter denunciado muitas vezes a falta de atenção para com o nosso distrito como a recente constatação de que Portalegre é o distrito do país que perde mais verbas das transferências do Orçamento de Estado para 2012, recebendo menos 5,1 por cento do que em 2011. Esta redução de verbas está a provocar a “asfixia financeira” dos municípios, a liquidação de direitos consagrados na constituição e o empobrecimento das populações com menos apoios sociais. Hoje não posso deixar de salientar a situação da Câmara de Portalegre e o orçamento reduzido que foi aprovado com os votos e declarações incoerentes do costume. Isto é sinal de mais dificuldades e de previsível deficiente funcionamento para a nossa cidade. Estamos a pagar erros das governações centrais, locais, com políticas erradas e de oposições comprometidas. Quando as notícias do desemprego e os números são dramáticos e as notícias da possibilidade de criação de alguns postos de trabalho não são só uma raridade, como para esta cidade, são como o “pão para a boca”. Quando ouvimos números fantásticos nas taxas de ocupação hoteleira, ainda recentemente nos apercebemos dos problemas no Hotel S. Mamede. Notícias como a da aprovação do terreno para a Escola da GNR é também uma esperança de que acabe essa novela em torno do Centro de Instrução. Ninguém pode ignorar a importância desta Escola, ainda mais, quando em
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Portalegre tudo parece desmoronar. Não fosse a Escola da GNR e o Politécnico, Portalegre resumir-se-ia ao Hospital. Mais uma vez temo que o investimento público para Portalegre seja mera propaganda. Ainda muito recentemente um Secretário de Estado anunciou em Castelo de Vide uma autoestrada para Portalegre quando se sabe perfeitamente que tal não existe. A comprovar os meus receios, temos ainda o IC13 por acabar e, mais, em Janeiro de 2008 foi anunciado que a Barragem do Pisão ia avançar em 2009,ora até hoje tudo continua na mesma. Custa-me perceber que à imagem do que aconteceu com o CAEP, PS e PSD, tudo fazem para quererem ser os autores dos projetos, quando na verdade deviam ter decoro por serem os responsáveis pelo atraso desta cidade e sobretudo os campeões da demagogia eleitoral. Têm faltado projetos de desenvolvimento, a Zona Industrial é mais Comercial do que outra coisa. A Quinta da Saúde está ao abandono, o centro histórico a ruir com promessas de reabilitação urbana que não passam do papel e temos uma cidade suja e quase às escuras. A Rua do Comércio é bem a imagem de marca da nossa situação. A sinalética é enganadora, não existe Campismo, nem Estação, já que o apeadeiro passou, simplesmente, a transporte de mercadorias. Temos um distrito sem caminho-de-ferro para passageiros, isto é inacreditável! As gentes de Portalegre merecem mais e neste sentido, quero aqui destacar a brilhante prestação da portalegrense Dina Nobre que, a par de outros portalegrenses vão mantendo o orgulho de sabermos que ainda temos quem lute por Portalegre. Ser notícia por bons
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motivos é extremamente importante. Daqui envio à Dina Nobre os meus sinceros parabéns não só pela sua preciosa voz, mas, acima de tudo, por ter coragem de, com ela, prestigiar a Cidade de Portalegre. Por último, deixo no ar a seguinte questão: Para onde caminhamos Portalegre?

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63 – Crónica / tachos são para os amigos (17-01-2012)
Caros ouvintes, Passos Coelho um reconhecido “boy” do PSD desde a “Jota”, disse em campanha eleitoral que não cortava subsídios, não subia impostos e que com ele o Governo deixava de ser uma agência para empregar os amigos do Partido, dando a entender que não existiriam favores e cargos partidários, os chamados “boys”. Pois bem, Passos Coelho em equipa com Paulo Portas que apregoa aos sete ventos, mérito, competência e responsabilidade, conseguiram o pleno e falharam em tudo, menos na distribuição de tachos. O Conselho de Administração da Caixa Geral de Depósitos passou de sete para onze elementos. Foi aqui que o desfile dos tachos se tornou mais visível com as nomeações para a CGD. “Fernando Faria de Oliveira, chairman, ex-secretário de Estado do PSD; António Nogueira Leite, vice-presidente da CGD, conselheiro económico do presidente do PSD; Norberto Rosa, vice-presidente da CGD, exsecretário de Estado em Governos PSD; Nuno Fernandes Thomaz, vogal da comissão executiva da CGD, CDS-PP e ex-secretário de Estado de Santana Lopes; Manuel Lopes Porto, presidente da mesa da assembleia-geral da CGD, presidente da Assembleia Municipal de Coimbra, eleito nas listas do PSD; Rui Machete, vice-presidente da mesa da assembleia-geral da CGD, ex-presidente do PSD” (http://www.esquerda.net/artigo/multiplicam-se-os%E2%80%9Cboys%E2%80%9D-do-psd).

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As recentes nomeações, por parte da Ministra Assunção Cristas que distribuiu três tachos para a nova administração das Águas de Portugal, onde, segundo o relatório de contas de 2010, cada administrador executivo obteve uma remuneração mensal de 8.952 euros incluindo várias regalias. O Governo nega, mas os convites para a EDP de Eduardo Catroga, Celeste Cardona, Braga de Macedo, Paulo Teixeira Pinto, Rocha Vieira e Ilídio Pinho, são mais um punhado de nomeações partidárias, depois de um negócio de milhões na venda da participação do Estado na EDP ao Grupo chinês Three Gorges. O negócio pelos vistos tinha mais pormenores. Eduardo Catroga nomeado como presidente do Conselho Geral e de Supervisão da EDP vai receber 639 mil euros por ano ou seja, um salário de 45 mil euros mensais. E acreditem, vamos sentir a crueldade destes números nas faturas chocantes da EDP. Recordo aqui que Catroga foi o mentor do programa do PSD e por coincidência estava presente na festança da assinatura da venda da EDP. Respondeu ser natural a sua nomeação. Claro! Foi quem no tempo de Cavaco Silva alterou o estatuto da EDP de empresa pública, para Sociedade Anónima, só nos espanta Catroga não perceber porque vai trabalhar com Celeste Cardona, afinal nem para ele tudo é natural. Este passo é semelhante ao de Ferreira do Amaral que também com Cavaco Silva deu o monopólio à Lusoponte e depois, Ferreira do Amaral lá foi direitinho para a Administração da Lusoponte. As inacreditáveis coincidências dos lugares de Administração em tantos outros casos são sempre a “casualidade” de um cartão de
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militante que transforma o partido numa agência de emprego. A dança das cadeiras estende-se um pouco por todo o país, com desavenças aqui e ali pela disputa dos melhores lugares, sendo que, ainda sobra para as Jotas do PSD e CDS na esperança de que um deles, daqui amanhã, seja outro Passos Coelho, sem currículo mas, mais um caso de um Jota de sucesso, mesmo que nunca tenha feito nada. Lia-se e ouvia-se na campanha do PSD, “Portugal precisa de mudar”. E mudou, mais sacrifícios para o contribuinte e mudança de tachos. O que não mudou foi a habitual promiscuidade entre os interesses públicos e os interesses privados. Passos Coelho e Paulo Portas esqueceram-se do programa, das promessas, mas não se esquecem que carreirismo e tachos são para os amigos…

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64 – Crónica / Desemprego é crime (24-01-2012)
Caros ouvintes, a semana passada tivemos um recorde histórico no desemprego. Tem sido uma avalanche imparável que um dia sem aviso nos bate inacreditavelmente à porta. Sem dúvida que o fecho de firmas e empresas, vítimas de uma economia cruel têm um grande peso, mas tal deve-se à falta de acerto nas políticas económicas e sociais. As origens são várias e a precariedade a partir de 2003 agravou-se com mais exploração e facilidade em despedir melhor para pagar menos. Muitos jovens estão hoje obrigados a fazer mais do que as oito horas diárias sem remuneração extra e muitos postos de trabalho são eliminados desta forma. Com o aumento do desemprego, aumenta a oferta de mão-de-obra e diminui o salário associado às reformas laborais, o trabalho está a ser transformado numa nova forma de escravatura antes encoberta e agora legalizada. Formalmente foi aprovado o Bullying Laboral já muito utilizado pelos grupos económicos. Em 2007 assistiu-se a um agravar de medidas que desprotegeram ainda mais quem trabalha e agora em 2012 veio a cereja em cima do bolo. Recuámos um século de progresso e quando criticamos a forma como muitos países asiáticos tratam os seus trabalhadores, hoje estamos a aproximarnos desses modelos. O caso é sério e a desculpa de que são medidas para o crescimento, competitividade e emprego, só pode ser apelidada de hipocrisia e acreditar em tal, é pura idiotice porque o que vai acontecer é o agravar da economia. À falta de soluções, o governo convida a emigrar sem dizer para onde nem como, isto é, cada um fica entregue à sua sorte. Os que não são atingidos
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suspiram de alívio e ainda se sentem agradecidos por manterem os seus empregos. Apesar de espoliados e com o coração na mão, muitos ainda perguntam: Se o país está em crise porque não mandam os desempregados trabalhar? E onde, pergunto eu? A tirar o lugar a outro trabalhador? Esquecem-se que esse vai ser o método para criar mais desemprego e precariedade. Atualmente a mão-de-obra já está barata, só falta ser de borla. Por exemplo com tantos professores no desemprego porque não os colocam nas escolas, sempre saiam mais baratos… Pura hipocrisia! E os que lá estão iam para o desemprego? Recentemente assistimos ao despedimento dos 800 formadores e dos 200 funcionários dos centros Novas Oportunidades e sabemos que não ficamos por aqui… O populismo da direita trata estes assuntos desta forma perigosa e muitos embalam nesta melodia hipnótica. Não percebem que desta forma não se resolve o problema. A solução está na criação efetiva de emprego dinamizando a Economia, só possível com uma política fiscal justa, combatendo a corrupção. Os partidos que têm governado o país, não têm querido resolver estes problemas e por isso estamos como estamos, graças às políticas de direita que governam a Europa. A falta de decoro e a hipocrisia parecem não ter limites, depois de serem os autores da precariedade extrema dos jovens ainda nos querem convencer que são os mais velhos os culpados como referiu recentemente um deputado alinhado com o governo. O direito ao trabalho está consagrado no artigo 58º da Constituição da República e é uma responsabilidade do Governo. Este direito vem também
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consagrado na Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia e na Declaração Universal dos Direitos Humanos. Os desempregados além de não serem criminosos e de não terem escolhido essa condição, muitos descontaram durante muitos anos para outros. Entretanto os que continuam a trabalhar fazem o mesmo. Aqueles que não o puderam fazer devem ser alvo do espírito de solidariedade, garantindo assim um estado saudável e equilibrado. O desempregado é uma vítima e não é um criminoso, o desemprego sim, é crime!

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65 - Crónica / quem vê TV… (31-01-2012)
Caros ouvintes, negar o acesso à informação e à cultura foi uma das formas de Salazar, no esplendor da sua mediocridade deixar o povo na ignorância. De Hugo Chávez a Sílvio Berlusconi, todos exploraram o potencial da comunicação social e só os mais desatentos não percebem a força deste meio. Parecia ultrapassada a censura, mas o trio Cavaco Silva, Sousa Lara e Santana Lopes mostraram o quão importante foi, desconsiderar José Saramago o único prémio Nobel português da literatura. Foram vários os episódios que levantaram os fantasmas da censura depois do 25 de Abril e o mais recente foi o fim do espaço na Antena 1 “Esse tempo”, onde se destacava a cineasta Raquel Freire. Esta declarou ter sido informada “que o conteúdo político das crónicas, não agradava à direção da RDP”. Além da discussão sobre a televisão pública que tem sido controversa, durante vários anos, ficou patente a forma deliberada e absurda como a transmissão com sinal terrestre foi mais fraca nos canais públicos, favorecendo os privados. Rececionar os canais de televisão analógica no interior do país, exigiu sempre um esforço acrescido e tecnicamente criticável por decisões que dificultavam a receção, favorecendo ou conduzindo o acesso ao sistema pago - pay-tv. A TV Digital está a substituir o sistema analógico e a deixar sem solução os que resistiram ou não conseguiram pagar os canais digitais por cabo ou satélite. A Televisão Digital Terrestre, TDT, vai obrigar muitos a fazer investimentos caros se quiserem continuar a
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ver TV. As operadoras esfregam as mãos, “premiadas” assim pela inevitabilidade dos contratos. Estas empresas são bem conhecidas por serem recordistas de queixas de utentes que desde a qualidade do serviço, às manobras escandalosas da faturação, sustentam ainda contratos perversos e difíceis de anular. Por que razão os diversos canais da RTP não estão disponíveis no TDT? E o canal Parlamento que é pago com o Orçamento da Assembleia da República e que devia estar disponível igualmente? Ao contrário do que acontece noutros países europeus, a oferta de canais públicos é reduzida e escandalosa; Senão vejamos os exemplos do Reino Unido com 16 canais públicos, a Alemanha 14, a Itália 13, a Grécia 9 e a Dinamarca com oito. O mais grave ainda é percebermos que o serviço público está ameaçado por gente mal preparada e mal-intencionada. Dois terços do território nacional não tem cabo disponível, mais de dois milhões de portugueses vivem abaixo do limiar da pobreza, por isso, estamos na presença de um crime social que agrava as desigualdades. A par deste crime, temos a vergonhosa campanha com publicidade enganosa e o péssimo arranque da TDT em Portugal, considerada já a pior da Europa e totalmente controlada pela PT. Em suma, o sistema digital tem menos cobertura e aqueles que com o apagão ficam sem sinal, continuam a pagar uma taxa na fatura da EDP. Não há moralidade, perdeu-se o respeito por todos nós, em especial pelas populações do interior do país. PSD e CDS que criticaram o PS acumulam a responsabilidade de permitirem este ataque às pessoas. Continuam os grupos económicos, através
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das Televisões privadas e das operadoras a saírem favorecidos neste processo nada transparente e socialmente criminoso. Se a atual situação já é difícil, a aposta do digital em tempos de crise, é mais um quebra-cabeças para os orçamentos familiares. Está criado mais um imposto disfarçado para ver televisão. Neste autêntico assalto, é caso para dizer como a velhinha música dos TAXI, quem vê TV sofre mais que no WC…

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66 - Crónica / A regra de ouro (07-02-2012)

Caros ouvintes, no passado dia 30 de Janeiro, em Bruxelas, quando muitos esperavam uma resposta para a crise europeia, restou a “regra de ouro”, esta consiste na obrigação dos estados não ultrapassarem o défice de 0,5% e é mais uma medida sem sentido e bastante previsível quanto ao seu falhanço. Traduzindo, as regras são as do despedimento e do abuso como afirmou D. Januário Torgal, ao acusar o governo de tratar os trabalhadores por conta de outrem como se fossem “os assassinos do país”. O desenvolvimento é baseado numa brutal exploração e são os jovens quem estão a pagar bem caro, a incompetência dos governantes, pois um em cada três jovens está desempregado. A austeridade não vai resolver nenhum problema, antes pelo contrário e o FMI vem alertar para os perigos da austeridade como se não fosse responsável e um dos que lucram com as medidas da troika. Recordo, aos mais distraídos que os resultados estão à vista, os famosos PEC’s já eram medidas exigidas pela União Europeia e o fracasso dessas medidas repete-se com o fracasso da troika, na Grécia e em Portugal. As taxas de juro de Portugal aproximam-se perigosamente das da Grécia e distanciam-se das dos países periféricos. A Europa está bloqueada, mas diz bem alto que dá passos e toma medidas. A verdade é que não reconhece que a atual situação, tem responsáveis e políticas erradas. Não se percebe como continuam as mesmas pessoas e as mesmas políticas. O resultado só pode ser a repetição de mais fracassos.
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Portugal fechou 2011 com a taxa de desemprego em 13,6%, donde resultaram 1.700 pessoas desempregadas, todos os meses. Este é um reflexo da degradação do mercado de trabalho e Portugal está entre os países da zona euro onde o desemprego subiu mais e registou o quarto maior aumento da taxa de desemprego, segundo dados do Eurostat. A palavra de ordem é privatizar e vender ao desbarato. Enquanto isso, o governo enterra mais 600 milhões no BPN, dilatando um buraco de 5,3 milhões e vendido pela ridícula e escandalosa quantia de 40 milhões. Para coordenar a Comissão para regular as privatizações, vem o Social-democrata António Borges, Este coincidências… Um antigo gestor do Goldman Sachs!

economista, famoso por defender o subprime que originou a crise, é também um grande crítico da presença do estado na economia e não exclui a privatização da CGD. Deixou o FMI há poucos meses e já tem a pasta de vender Portugal sem sabermos quanto vai o governo pagar em honorários. Em Portugal a regra de ouro é fechar e não bastava o que nós temos em risco de fechar como é o caso das Tapeçarias que voltam a estar em perigo de encerrar, colocando, desta forma, em risco um ex-libris de Portalegre. O governo encerra mais serviços públicos no distrito, deixando as nossas gentes mais isoladas, abandonadas e desprotegidas. O Alentejo tem a 2ª taxa mais alta de idosos a viverem sozinhos e a 1ª em lares num país que é um dos cinco mais envelhecido do mundo. O abismo social atinge também a cultura e as dificuldades do Teatro d’ o Semeador de Portalegre com três décadas de
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existência que até esta data tem sobrevivido à falta de atenção pela cultura, contudo vê agora em perigo a sua existência. Este distrito está a parar, a fechar e a ficar isolado até nas acessibilidades. Ao contrário do que alguns defenderam e propuseram o resultado é este, a degradação social e económica. Quando este é o maior flagelo da europa, onde a pobreza e o desemprego aumentam, esperava-se que o combate a estas matérias fosse a regra de ouro e não a um défice que ninguém vai conseguir cumprir. São estas regras que não sendo de ouro têm, elas sim, a reles classificação de lixo.

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67 - Crónica / Pieguices (21-02-2012)

Caros

ouvintes,

depois

de

nos

chamar piegas e desta vez sem pedir desculpas, Passos Coelho desabafou que considera ganhar pouco mas não se queixa… Depois de o governo apostar na recessão atacando os rendimentos dos portugueses, o ministro das Finanças queixa-se de que “a taxa de poupança em Portugal tem vindo a reduzir-se. É baixa quando comparada com a de outros países da Zona Euro”. Ao governo que insiste em transformar os seus disparates em insultos, o Eurostat respondeu: Em 2010, mais de um quarto dos portugueses estavam em ameaçados de pobreza ou exclusão social. Os números divulgados revelam que 2,7 milhões de portugueses estavam confrontados com pelo menos uma forma de exclusão social, o risco de pobreza e situação de privação material. Em 2010, os números eram ligeiramente superiores à média europeia de 25,3%, valor superior ao registado em 2009 (24,9%). Temos, efetivamente, um aumento de pobreza e exclusão social, e não de pieguices, mas senhores ouvintes, como é que podemos poupar? A verdade é que nove meses depois da chegada da troika tudo falha! Volto a referir e não é demais, as palavras de D. Januário Torgal Ferreira, comentando o facto de 25% dos portugueses viverem em risco de pobreza, o qual afirmou que “ há dinheiro para muito disparate e para muita injustiça”. Salientando que “a questão social é vista no país como a malga de sopa, como uma solidariedade
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ultrajante”; este declarou, ainda, que se sente “desassossegado”, porque está a assistir “ao rigor do corte e da insensibilidade”. E por falar em malga de sopa, enquanto Passos Coelho e Paulo Portas transformam o país no Estado-sopa-dos-pobres, damos conta da fome nas escolas, algo que também se passa para os lados do berço da cultura ocidental. Entretanto o governo acena com 47 milhões para a sopa dos pobres, num país em que a realidade das pensões traduz menos de 50% da média europeia. Entretanto, saem do país 10 enfermeiros, por dia e empresas internacionais recrutam mão-de-obra em Portugal. Na Suíça emigrantes portugueses recém-chegados a Lausanne foram vistos às portas de uma instituição de apoio social, à espera de uma sopa e de um aconchego quente. Um deles relatou o caso de um companheiro que perdera 15 kg devido à fome. Os portugueses chegam às centenas, sem contactos, sem apoios, dormindo nas ruas e estações. Será que para Passos Coelho, estes portugueses que convidou a emigrar são piegas? Ao contrário, o governo enterra mais 600 milhões no BPN que ofereceu por 40 e recusa-se a explicar ao parlamento mais esta destruição de dinheiro público: afinal quem é piegas? Mas não é nada piegas ao permitir lesar o Estado em 140 milhões de euros entregues de mão beijada aos novos acionistas da EDP e da REN. Termino aqui as “pieguices” com a frase de Carlos Oliveira, um jovem empresário, do PSD, promovido a secretário de Estado do Empreendedorismo, Competitividade e Inovação. Segundo ele, quem cria emprego são as empresas e os Jovens não devem gastar
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energias a lamentar-se. Claro que não é com tolices destas que se resolve o problema do desemprego que se situa já nos 14%, onde os jovens são precisamente os mais atingidos, com uma taxa alarmante de 35,4%. Na Grécia, o grito mais ouvido é não aguentamos mais! A troika e o governo estão cegos e insistem estupidamente em medidas que nos endividam mais e criam muito sofrimento. Este grito vai ser também ouvido em Portugal e não o tomem por pieguice! A resposta começou no passado dia 11, no Terreiro do Paço!

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68 - Crónica / Interioricídio (28-02-2012)
Caros ouvintes, em pleno carnaval a troika veio auditar o plano português e dizer que está tudo bem. É claro que só pode ter sido mais uma brincadeira de carnaval… Estamos mais pobres, mais endividados e a receita fiscal diminui apesar da subida de impostos. Só encontro uma explicação para estar tudo bem: é garantido que devemos de juros à troika quase 10 mil milhões de euros. Somos o país cuja dívida mais aumentou; em conjunto com a Espanha somos o país da OCDE onde o desemprego e a desigualdade mais aumentou e a garantia é de que no final do plano da troika deveremos mais 40 mil milhões. Afinal, se está tudo bem é para aqueles que vão ganhar com estes juros abusivos. Mas a prova de que tudo está mal, também passa pelo interior do país onde o censo de 2011 mostra que na última década todos os distritos perderam população, no total de quase 100 mil pessoas, fruto de políticas erradas dos partidos que têm governado o país e que não só o conduziram ao atual desastre económico e social com aumento de pobreza, desemprego, abandono das terras de cultivo, à fuga para o litoral e a uma nova vaga de imigração e emigração. Com a capa da troika e da crise assistimos ao desmantelamento dos serviços públicos e em muitos casos com prejuízos ainda maiores, como no caso das antigas Scuts em que o estado se arrisca a perder ainda mais com este negócio, já que as parcerias público-privadas continuam intocáveis. As populações do interior além de terem piores acessibilidades são obrigadas a deslocar-se dezenas de
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quilómetros para terem acesso à Justiça, à Educação e à Saúde. A par das pessoas, também a economia do interior está comprometida e não há quem resista por cá ou quem queira arriscar investir no interior. Para inverter a nossa situação, é necessário promover a coesão nacional, defendendo a constituição portuguesa. O fim dos ataques ao Estado Social, a suspensão do encerramento de serviços públicos e a anulação do aumento das taxas moderadoras nos hospitais e centros de saúde; É imperioso a suspensão das portagens nas “autoestradas SCUT” sem alternativas decentes (A25, A24, e A23); Colocar fim aos cortes na Educação (bolsas e subfinanciamento das escolas e universidades), que já provocaram o abandono escolar de milhares de jovens, que prejudicam a relação ensino-aprendizagem e colocam dificuldades acrescidas às escolas, politécnicos e universidades das regiões do interior de que são polos de desenvolvimento; apostar no investimento público que crie emprego, apoie a fixação das populações, em particular dos jovens que beneficiaram do ensino secundário, profissional e superior, uma geração qualificada a quem os nossos governantes só sabem apontar a saída do país; Exigir apoio do Estado (governo e autarquias) aos projetos e agentes culturais (associações culturais, grupos de teatro, cineclubes, músicos, artistas plásticos, artesãos) e ao seu intercâmbio e partilha com outras culturas, de modo a valorizar social e economicamente as potencialidades das atividades criativas das populações e o imenso património natural, histórico e cultural das regiões do interior de Portugal; E perante os ataques ao
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poder local e à proximidade das populações devemos exigir a sujeição a Referendo Local de qualquer proposta de extinção ou fusão de freguesias. José Seguro descobriu no passado sábado que se não existir um novo olhar pelo interior, este pode morrer. O Secretário-geral do PS parece ter acordado tarde, o interior está a morrer e às mãos da troika. É imperioso a elaboração de um mapa de serviços públicos, sem o qual, por exemplo, não pode existir um verdadeiro e justo mapa judiciário. Sem esta preocupação aquilo a que assistimos é o “desprezo pelo interior do país” como afirmou recentemente Cecília Honório no Parlamento.

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69 – Crónica / Emigração e imigração (06-03-2012)
Caros ouvintes, o choque da notícia de um emigrante natural do Ervedal, que morreu na Bélgica após ter sido abandonado pelos colegas, leva-me a abordar o assunto de uma das minhas crónicas anteriores, na qual referi as dificuldades por que passam cidadãos portugueses na Suíça. Infelizmente o caso é transversal a outras regiões, para onde se encaminham aqueles que desesperadamente tentam uma solução fora de portas. Há casos de fome entre emigrantes portugueses recém-chegados a França e à Alemanha. A Missão Católica em Augsburg, na Alemanha, e a Misericórdia de Paris, registam casos de grandes dificuldades, também, devido aos problemas de desemprego em França e à falta de qualquer apoio, deixando muitos completamente à deriva, vítimas de redes que vivem do trabalho ilegal. O provedor da Misericórdia de Paris descreveu casos de portugueses que têm de optar entre comer ou ter aquecimento em casa no Inverno, porque depois têm de pagar as faturas da eletricidade e do gás. Também no Luxemburgo há cada vez mais portugueses chegam à procura de trabalho. O presidente da Confederação das Comunidades Portuguesas no Luxemburgo alertou para o facto de muitos dormirem dentro dos carros e não passarem fome porque a proteção social tem intervindo nestes casos. De Londres também nos chegam relatos de portugueses que traídos pelas ofertas,
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aparecem a dormir no carro e até na rua. Para agravar este cenário começam a aparecer mulheres portuguesas que são forçadas a abandonar os filhos em Portugal com todas as consequências que podemos depreender. Por cá não estamos melhor e se o governo incentiva à Emigração também faz da imigração interna uma forma de exclusão social. Um exemplo disso é o facto de o governo querer obrigar os professores a candidatarem-se a horários de 6 horas com salários de cerca de 300 euros mensais, a 300km de distância da sua residência. E claro, se recusarem a colocação, ficam impedidos de se candidatar durante um ano. Este tipo de mobilidade selvagem faz parte do rol de disparates e injustiças do governo de Passos Coelho / Paulo Portas. Isto mostra bem que as palavras do deputado João Almeida são um aviso para quem não concorda com as propostas do seu Governo, tem como solução a rua… “Quem não está bem mude-se”, é esta a frase de ordem da maioria absoluta de direita que se sente dona do Estado e se acha no direito de despejar as pessoas com uma mobilidade que sentenceia a união das famílias, das suas vidas ao perderem o emprego. Não há limites geográficos, eles passam fronteiras… Um funcionário de Portalegre pode ser colocado no Porto ou em Bragança sem o seu acordo e sem ser acautelada a sua situação familiar. Sem emprego, a solução, o incentivo do governo é sair do país e sujeitar-se às condições que já referi. Entretanto as empresas de trabalho temporário e as máfias continuam a beneficiar da conjetura onde acontece de tudo, inclusive casos como o da

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máfia romena que falsificava documentos portugueses para conseguir obter o RSI. São este tipo de políticas que destroem um país e a vida das pessoas… Os mercados financeiros continuam a fazer chantagem para rapinarem o que resta e até quando? Até quando as pessoas quiserem, antes do 25 de Abril as pessoas também se cansaram de emigrar e de ter de ir lutar para as colónias. As pessoas cansaramse de ver desaparecer as famílias, de os ver sofrer, as pessoas cansaram-se de tanto autoritarismo. A crise irá aumentar até onde permitirmos porque a última palavra é sempre das pessoas. Fez agora 25 anos da morte de José Afonso, ele que também foi um emigrante e na sua Canção do Desterro (Emigrantes), cantou: “Ganho a camisa, tenho uma fortuna, em terra alheia, sei onde ficar. Eu sou como o vento que foi e não veio Maria Bonita, onde vamos morar.”

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70 - Crónica / A crise no Feminino (13-03-2012)
Caros ouvintes o dia mundial da mulher comemorouse mais uma vez em todo o mundo. Dias antes, no programa “Prós e Contras”, sob o tema resignação ou luta, os convidados foram todos homens. Isto mostra bem o quanto falta para equilibrar esta sociedade, onde seis em cada dez pessoas que vivem sós são mulheres e ao contrário do que seria espectável, em pleno século XXI, o mundo feminino ficou chocado com as recentes declarações do novo cardeal português no Vaticano. Manuel Monteiro de Castro remete as mulheres para a vida doméstica e reprodutora, são sinais a que não podemos ficar indiferentes e eles atestam que o clima de crise favorece o populismo e o conservadorismo, mostram que há muito a fazer em matéria de mentalidade. Estamos muito longe de uma sociedade que respeita as mulheres, da mutilação genital à violência doméstica, atravessamos corredores violentos que passam pelo assédio e descriminação laboral, onde as mulheres a par dos jovens são os mais atingidos com a flexibilização laboral. A violência nas mulheres também se traduz na prostituição à mistura com tráfico de mulheres, escravas sexuais, facto registado com o recente crescimento acentuado no nosso país. Segundo a APAV, 83% dos casos de pedidos de ajuda por violência doméstica, partiram de mulheres vitimadas. Na justiça não estamos melhor e recentemente, duas sentenças judiciais chocaram a sociedade portuguesa pelo machismo que acarretam, ao arrepio de toda a legislação. A frase “ O feminismo nunca matou ninguém mas
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o machismo mata todos os dias, infelizmente, continua a ter peso pelos números de mulheres que morreram assassinadas em consequência de violência conjugal. Não posso deixar de mencionar o sucesso obtido pelo BE na aprovação do seu projeto de lei que visa reforçar os mecanismos legais de proteção às vítimas de violência doméstica através de uma maior aplicação das pulseiras eletrónicas. Na afirmação feminina 65% de licenciadas são mulheres e o número de doutoradas duplicou, mas para alcançarem as suas metas, são conquistas a pulso que aos poucos começam a ter resultados, apesar de todas as contrariedades, onde ser mãe significa uma barreira, quando devia imperar a máxima que cuidar das mães é cuidar dos filhos. Quando se sabe que para ganhar tanto quanto um homem, uma mulher tem que trabalhar mais quatro meses, é o reflexo de um país onde a disparidade de salários entre os sexos ainda nos indigna. Um ano de trabalho rende a um homem, em média, pouco mais de 17 mil euros, para uma mulher ganhar o mesmo, teria que trabalhar 18 meses. A disparidade salarial entre os sexos atinge os 22%. Sem querer fazer comparações, é pena que exemplos como o de Maria de Lurdes Pintassilgo, não seja seguido por outras governantes. Temos o contrário, de Thatcher a Angela Merkel, não vemos manifestações de defesa das mulheres, estas duas mulheres são bem o exemplo de que ser mulher com poder, não significa necessariamente um contributo para a causa feminista que não pode ser reduzida a uma causa de mulheres, é uma causa humana e é um princípio democrático. Desengane-se quem quer fazer do dia
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da mulher mais uma efeméride para futilidades e alerto as mulheres, que aproveitar este dia para imitar os homens no seu pior, não é a forma de honrar mulheres que deram a vida pela causa feminina. Enquanto existirem mulheres humilhadas, este será sempre um dia de luta pelos direitos das mulheres para que não morram mais mulheres em vão. Se um dia conseguirmos o respeito por todas as mulheres, este dia será sempre comemorado para ninguém se esqueça que a história da humanidade foi construída com muita luta e coragem de mulheres que nunca se renderam ao machismo.

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71 - Crónica / Ser ou não ser desempregado (20-03-2012)
Caros ouvintes, as informações de

emigrantes portugueses burlados e a passar dificuldades continuam a fazer notícia, a preocupar os seus familiares e não só. Desta vez, foi um grupo de cerca de 30 portugueses que trabalham na Mauritânia para a Construtora do Tâmega, com ordenados em atraso e dificuldades em regressarem a Portugal com a ameaça do desemprego no ar. Apesar do impacto das palavras crise e “troika”, o verdadeiro trauma está no termo desempregado. Ouvimos falar do desemprego, mas muito poucos falam do que sentem os desempregados. Todos os dias milhares de homens e mulheres, jovens e idosos, enchem os serviços da segurança social, centros de emprego e outros são empurrados para cursos, nos centros de formação. Nestes grupos há vítimas de empresas que forjam falências com planos cirúrgicos para contornarem a lei; Também há aqueles cujos negócios faliram, vítimas de uma economia cruel e aqueles que, por problemas de integração, recebem um mísero apoio. Deixando o tema da formação para outra abordagem, onde temos como fase final os explorados dos estágios sem renumeração, vou referir-me apenas à condição daqueles que são vistos pela sociedade como pessoas de menor preço e até por muitos, como
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mandriões. Muitos foram despedidos selvaticamente, para serem trocados por jovens mais à mão de explorar. Muitos são os que estão nesta situação, com formação profissional e provas dadas de dedicação. Por isso afirmo, um país que desperdiça esta mão-deobra é um país mal governado. Os desempregados não cometeram nenhum crime e como disse recentemente a deputada Mariana Aiveca, só lhes falta terem pulseira eletrónica. Na sua maioria pagam o preço de um sistema que não funciona ou da ganância insaciável do capital. Muita gente ignora que o desempregado além de estar excluído de várias coisas elementares como garantir um teto, sente o estigma da forma como é visto e de não poder garantir sequer, a sua subsistência a curto prazo. A sensação de impotência e até de inaptidão para se integrar na sociedade atiram a maioria destas vítimas para um problema acrescido, porque muitos não conseguem evitar largos períodos de depressão, arrastando consigo as próprias famílias. Depois, surge também a revolta contra a impunidade dos oportunismos, das ofertas armadilhadas e ainda as recomendações hipócritas dos defensores do empreendedorismo perigoso nesta economia atrofiada e acorrentada. Mais do que substituir gerações, interessa ao poder económico, substituir modelos e fomentar a precariedade com doses gritantes de exploração. É a receita dos impérios que só pensam na acumulação de riqueza a todo o custo. Colocar as gerações, umas contra as outras é mais um dos truques do capitalismo, tal como a precariedade sustentada por empresas de trabalho temporário. Segundo dados recentes do Eurostat relativos ao último trimestre de
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2011, Portugal bate recordes na queda de salários e na destruição de emprego, com o emprego a cair 3,1%. Números e mais números e o que o Eurostat ainda não consegue dizer é, como se sente um desempregado… Mas a Cáritas alerta para o facto de o desemprego atirar pessoas para a situação de sem-abrigo. Obrigados a apresentações periódicas inflexíveis, infelizmente infrutíferas e à procura ativa de emprego frustrante, agora os novos desempregados vão ver os valores e o tempo de desemprego reduzido. Quando mais falta o apoio é quando ele é cortado, mas não é para qualquer um… que o digam os que estão pendurados do estado e do governo sugando-nos a todos… Também na Suíça, vinte professores de português ficaram no desemprego o que originou uma grande manifestação da comunidade portuguesa naquele país. Por cá temos oportunidade de os seguir no próximo dia vinte e dois.

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72 - Crónica / A Educação não en/direita (27-03-2012)

Caros

ouvintes, a

deputada

Ana

Drago visitou o distrito de Portalegre com particular atenção às Escolas TEIP, Territórios Educativos de Intervenção Prioritária do Distrito, em Ponte de Sôr e Portalegre respetivamente. A visita teve como objetivo observar de perto a realidade escolar, de forma particular neste contexto de crise económica e social que o país atravessa, pois são certamente as populações mais frágeis, com maiores dificuldades e as escolas do interior quem são mais atingidas. A preocupação é extensiva às escolas onde são encerrados os Centros Novas Oportunidades, uma decisão que apanhou muitos de surpresa, sem orientação da tutela e sem uma alternativa para a educação de adultos. As direções das escolas transmitiram as suas preocupações confessando estarem comprometidos alguns avanços e melhorias, num sistema que tem ainda muito para melhorar. Mas Nuno Crato anunciou logo no início do mandato que ia implodir a Educação com novas medidas. As medidas necessárias tardam, como a alteração do estatuto do aluno promovido pelo PS com a almofada do CDS. E o que se vê são cortes e mais cortes, sem uma alternativa que garanta o funcionamento regular da educação. Passamos a ter uma educação diminuída e retrógrada, com a disciplina de Formação Cívica a ser excluída do currículo escolar, sem que o Ministério da
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Educação tenha pedido opinião aos pais, alunos e professores; Sem se fazer um balanço dos anos transatos e perceber o que devia ser mudado, numa matéria tão importante para a formação em prol da democracia e da participação estudantil. O mesmo se passa com EVT, A Educação Visual e Tecnológica, uma disciplina de sucesso, integradora de saberes que articula o saber e saber fazer. Costuma-se dizer que a EVT "dá mais vida à vida nas escolas". Esta disciplina é um exemplo de que a reforma curricular traduz um regresso ao passado salazarento onde só se valorizava o saber “ler, escrever e contar”, interessava inclusive, cidadãos sem capacidade crítica. Os cortes desta reforma curricular não são aleatórios, têm alvo certo – as áreas de trabalho do pensamento crítico, da articulação de saberes, e de ensino artístico e de trabalho das competências criativas. Para Nuno Crato, tudo isso é esbanjamento… O parecer do Conselho Nacional de Educação diz que a proposta de Nuno Crato "não só restringe o âmbito do currículo, como altera o seu equilíbrio interno, afeta a extensão e contradiz alguns dos seus próprios pressupostos". Para os conselheiros, o Governo não explica nem as razões nem a oportunidade desta revisão, feita "num prazo tão curto em relação à revisão anterior". Ficamos apenas a saber que vamos ter um sistema de ensino mais teórico, mais pobre e mais barato. Assim o investimento feito nas escolas públicas nos últimos anos está agora comprometido e o futuro do ensino ameaçado. Tudo isto resulta da falta de estudos, debates sérios e da auscultação aos profissionais e aos restantes interessados. No lugar
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de se acautelar o futuro, temos a intenção febril de cortar na educação como se fosse uma gordura maligna, mas já em relação à escola privada o governo não se evitou de aumentar as verbas que o estado dá para sustentar um sistema de ensino que é só para alguns! Um estudo recente da Universidade do Porto concluiu que os alunos provenientes da escola privada têm, em média, pior desempenho académico. Percebe-se bem o alvo desta Educação da direita que vai trazer ainda, desemprego nos técnicos operacionais, docentes e sobretudo mais insucesso escolar e um futuro hipotecado. Temos um governo de direita que entorta…

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73 - Crónica / Selva política (10-04-2012)
Caros ouvintes, a atualidade política

nacional está centrada na discussão das alterações laborais, subsídios e discussão do Orçamento Retificativo de um governo de lapsos. O governo PSD/CDS prepara mais um duro golpe, em especial na lei dos despedimentos, agora um exclusivo nas mãos da entidade empregadora sem critérios e com muita subjetividade contrariando o artigo 53º da Constituição da República Portuguesa. Cada vez mais vai ser a lei da selva, ou queres ou vais embora. Neste pacote de maldades temos também, redução de feriados, férias, descanso compensatório e o corte para metade do valor pago pelas horas extraordinárias; a redução das indemnizações por despedimento, tudo isto a somar aos escandalosos cortes nos apoios sociais e à doença. Os trabalhadores são esmagados e humilhados e a alteração mais profunda é o regime do despedimento por inadaptação de forma mais simples e barata. Este conceito que já existe desde 2003, quando Bagão Félix justificou a alteração das leis laborais com a necessidade de dinamizar as empresas, a economia e a criação de emprego. O resultado foi bem o contrário e agora voltam ao ataque com os mesmos argumentos fantasiosos e até delirantes, quando ainda conseguem afirmar que estão a defender os trabalhadores e em rigor, estão a tornar a vida das pessoas num inferno, porque nunca sabem quando podem acompanhar os seus filhos e a sua
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família. Estas alterações são apenas salvo-condutos para os exploradores e o que se perspetiva é embaratecer o valor do trabalho e contribuir para a exploração e acumulação de riqueza dos grandes grupos, porque inclusive, estas medidas não favorecem os empresários em geral. O problema como muitos dizem, não está nas leis do trabalho, está na economia, na falta de apoio às empresas e nos custos de produção que nada têm a ver com salários mas sim com aumentos de combustíveis e energia entre outros. Se na precariedade e tempo de trabalho já somos campeões, por que razão o governo ainda quer agravar mais a vida de quem trabalha? É o regresso ao tempo da ditadura em que o interesse da empresa se sobrepunha a todos os outros. A aposta assenta na eternização da precariedade e na selvajaria laboral, substituindo trabalhadores por outros, com menos direitos e menos salário. “Os sacrifícios não servem para nada, este Governo agrava a dívida e destrói o país" (F.L). Mais grave, sentimos que somos enganados e até gozados, agora Miguel Relvas veio desmentir Passos Coelho que já não acredita no regresso aos mercados como estava previsto... A falta de verdade do governo que diz hoje uma coisa e amanhã faz outra, anunciou cortes nos subsídios em 2012 e 2013 e agora afirma que “eventualmente” os subsídios serão repostos em 2015 de forma gradual... Isto tudo à boleia da U.E. que falou em cortes dos subsídios a título permanente. Mas esta postura dúbia da U.E já não nos espanta, quando se percebe o cinismo de uma entidade que diz estranhar o grave crescimento do desemprego acima do que estava previsto… As medidas de austeridade saem
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como um coelho da cartola e a decisão de suspender as reformas antecipadas foi mais uma rasteira manhosa de enganar quem trabalha há muitos anos. Ironicamente, o despedimento por inadaptação poderá ainda ser a única medida que pode ajudar os trabalhadores; isto se, conseguirmos despedir este governo que falha nas promessas eleitorais e na governação. A única medida que nos oferecem é mais crise social e afinal além de ficarmos mais endividados, tudo indica mais um empréstimo. Só por isto, o PSD e CDS devem ser despedidos por inadaptação!

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74 - Crónica / Gorduras da direita (17-04-2012)

Caros

ouvintes,

o

governo

de

maioria

PSD/CDS foi muito expedito a comunicar aos portugueses que era necessário cortar nas “gorduras” do estado. Passou um ano de presença da troika e a “dieta” aplicada no lugar de atingir as “gorduras, corta na carne, no músculo e bate no osso”… Desde o desmantelamento de serviços públicos essenciais e do mais que previsto abandono das populações com a extinção de juntas de freguesia, assistimos com preocupação aos problemas na saúde e educação, entre outros. Enquanto professora não posso deixar de manifestar as minhas preocupações sobre o futuro do ensino quando se pretende aumentar o número de alunos por turma e diminuir a área por aluno, das escolas. O novo Regulamento de ação social condena os que ainda lutam por permanecer no ensino superior; os alunos do ensino superior viram o governo somar aos 20 mil estudantes que perderam a bolsa, a expulsão de 11 mil estudantes do sistema de ação social escolar. Feitas as contas, mais de 30 mil estudantes deixaram de poder contar com o apoio do Estado para finalizarem os seus cursos, ao mesmo tempo que, em média, 100 alunos abandonam diariamente o Ensino Superior por razões económicas. Nuno Crato persiste na sua ideia de implosão da Educação e contraria sem dar ouvidos, os apelos da OCDE que já alertou para

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os maus resultados do ensino e para os perigos decorrentes da destruturação de todo o sistema de ensino. E se nos apoios sociais muitos alunos viram cortados apoios, porque também foram atingidos no abono de família, uma dupla penalização; também nos apoios da saúde assistimos a um desígnio de barrar o acesso à saúde. Com o fecho de centros de saúde, redução de horários e os insuportáveis custos, leva a que muitos estejam agora afastados dos tratamentos e como afirmam os clínicos, cada vez mais as pessoas chegam já em condições extremas. Depois de fecharem a Maternidade de Elvas com o argumento de ter poucos partos, agora ouvimos o anúncio do fecho da MAC que é tão só o ex-libris na matéria. Também, não podemos ficar indiferentes às medidas enviesadas, anunciadas por Mota Soares, onde o executivo irá impor uma “diferenciação nas baixas conforme a sua duração". Com esta medida, o governo argumenta que pretende combater as baixas fraudulentas, que refere, serem mais comuns quando respeitam a períodos inferiores a 30 dias. Na realidade está a colocar em causa o correto tratamento dos doentes e a afirmar que os médicos não são honestos. A lista de medidas irresponsáveis é extensa e chocante, mas o que nunca se esperava é que com todos os cortes, o Ministro Paulo Macedo ainda coloque em causa o SNS, o que levou António Arnaut, considerado o “pai” do Serviço Nacional de Saúde a exigir a demissão deste governante. Arnaut adiantou ainda que “no dia em que o SNS for posto em causa e as pessoas começarem a morrer
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por falta de assistência médica, vai haver um levantamento popular, porque há um limite para o sofrimento”. Ou como afirmou à Lusa, o padre Lino Maia, “a implosão do SNS é o fim de tudo”; é a morte dos mais carenciados, dos mais pobres, dos mais desfavorecidos”. Nesta cruzada pela privatização torna-se mais que evidente a tendência para beneficiar os setores privados como fazem na educação ao tirar dinheiro ao ensino público e oferecê-lo ao privado; destruturar a saúde e a segurança social para acenar com um “conselho”: faça um seguro! As gorduras da direita são o sistema público, o privado, digo financeiro, está pronto para a engorda…

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75 - Crónica / Segurança Social (24-04-2012)

Caros ouvintes, a Segurança Social foi ao longo de muitos anos a garantia e salvaguarda da existência de um apoio para quem precisa. É certo de que nem tudo corria bem e muito havia a melhorar. Quem suporta a existência desta importante instituição são todos os portugueses que na sua vida ativa descontam e mais tarde ou mais cedo beneficiam deste apoio sem ter que dar lucro a privados para tal. É por isso de espantar que depois de o Governo apresentar um Orçamento de Estado que previa um saldo positivo até 2030, venha agora afirmar que a sustentabilidade da Segurança Social está comprometida. É por isso que o ministro Mota Soares veio agora acenar com um sistema misto de pensões. Obsessão com austeridade é ameaça às pensões e esta antiga pretensão da direita a avançar no atual quadro de austeridade, com aumento de desemprego e de empresas a fechar significa a liquidação da Segurança Social. Senão vejamos, o Estado recebe menos contribuições mas continua a pagar as pensões de quem se reforma de acordo com os atuais cálculos. Com um período contributivo longo, o défice nas contas da Segurança Social eternizar-se-á durante anos e anos. Depois ainda temos o lado perverso das empresas que despedem e ficam a dever, obrigando ainda a Segurança Social a ressarcir os lesados muitas vezes por insolvências fraudulentas. Outro paradoxo deste governo é querer entregar ao sistema bancário através das suas seguradoras a gestão parcial da reforma
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da generalidade dos cidadãos. Então, se os bancos fizeram tudo para se livrarem do fundo de pensões dos seus funcionários, a prova de que são incapazes de gerir a reforma de alguns milhares de trabalhadores, como é que podemos esperar que possam garantir a gestão parcial da generalidade dos cidadãos? A esta mãozinha que o Governo PSD/CDS quer dar ao setor financeiro a somar a outras, vem contradizer o FMI que defende que a Segurança Social não coloca em causa as contas públicas dados que as despesas estão abaixo da média dos países da OCDE. No entanto temos de reconhecer que o Governo não consegue explicar como desapareceram 300 milhões de euros em cinco meses. Amanhã é o dia da liberdade e todos vão fazer os seus discursos em defesa da democracia esquecendo por um dia que a censura regressou que as condições de vida dos portugueses pioraram e que a justiça se tornou numa palavra rendilhada… Não podemos abandonar os desempregados que pagaram para ter um apoio. É urgente salvar as 170 mil famílias que não conseguem pagar as prestações da casa ao final do mês e os cerca de um milhão e 200 mil desempregados. Para tal Não precisamos de mais um empréstimo como o que se avista de 16 mil milhões de euros, não precisamos de endividar ainda mais o país. O que é necessário é um programa de salvação nacional que proteja “a economia do abuso” que coloca em risco toda a vida social. Por cá os responsáveis da crise não são condenados e quem paga são sempre os mesmos, os mais fracos que cada vez são mais fracos e mais numerosos.
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Enquanto pensarmos Abril, não podemos colocar em causa a liberdade; enquanto defendermos Abril, não podemos deixar cair o que é a última trincheira de um povo que sofre, a Segurança Social.

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76 - Crónica / Europa em desconstrução (01-05-2012)
Caros ouvintes quero neste dia especial, saudar os trabalhadores de todo o mundo. Comemoramos hoje o 1º de Maio com um sabor amargo porque nunca os tão trabalhadores estiveram

ameaçados, já que atualmente a palavra de ordem é o desemprego. O projeto Europeu que se arvorou de social acabou por destruir a base de subsistência das pessoas que é o trabalho. O argumento da crise não serve de desculpa porque, recordemos que antes deste cenário Durão Barroso e companhia tentaram implementar a “Diretiva Bolskein”, sobre a liberalização da prestação de serviços e o aumento do limite máximo de horas de trabalho semanal para 60 horas. O projeto europeu neste formato está a destruir o espírito de proteção social, enquanto a Comissão Europeia continua a propagandear confiança, ao mesmo tempo que revela a sua cegueira perante a realidade. Durão Barroso continua encalhado nos Eurobonds, uma medida que já devia ter sido aplicada, tal como uma taxa sobre a especulação financeira, mas o presidente da Comissão Europeia apenas adotou esta narrativa e não toma medidas… Só a evasão fiscal para offshore, ronda os 27 mil milhões de euros que é mais que todos os orçamentos europeus juntos. E isto passa-se impunemente desde a Suíça ao Luxemburgo e aqui bem perto na Madeira. As medidas que conhecemos estão envenenadas e a destruir a Europa, onde o
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governo holandês de direita é a primeira vítima do Tratado Orçamental que defenderam. Ironia do destino caiu um dos maiores defensores da austeridade, o primeiro-ministro Mark Rutte. Este chegou a pedir mão pesada para os incumpridores e a equacionar a criação de um euro restrito às economias do Norte da Europa. Esta situação está a matar as economias dos países mais fragilizados e para piorar este cenário, foi votada a redução do pacote de ajuda financeira com a aprovação do PS, PSD e CDS. Jean Claude Juncker tenta agora uma nova aliança – MerkHollande, quando se adivinha uma anunciada mudança com a eleição de François Hollande omitindo que a preocupação não reside apenas no Tratado Orçamental, mas também em acabar com o acordo de Schengen ao arrepio do espírito de união europeia. O investimento público está estrangulado, o setor bancário não devolve à economia o que recebe do Estado e do Banco Central Europeu. Assim, ninguém pode ignorar que a Europa está à beira de uma convulsão e a evolução das crises dos chamados PIIGS, os países periféricos a entrar numa espiral recessiva já anunciada também em Espanha que envolverá toda a Europa. Segundo Vítor Gaspar, os portugueses estão preparados para mais sacrifícios… Será que este governante não consegue perceber o que dizem pessoas que estão no terreno como o Sr. Presidente da Cáritas? Será que os seus conhecimentos teóricos não chegam para perceber que estamos no limite? Eu desafio o Sr. Ministro a explicar qual é o limite do desemprego que o país suporta; qual é o nível de miséria que se pode tolerar e até que ponto vão esticar a corda sem ela rebentar…

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Estamos perante um segundo resgate, sinal do falhanço das políticas do governo e da troika. Tudo isto porque ficámos reféns dos mercados usurários, amarrados a juros extorsionários que nos fazem pagar 34 mil milhões de euros para um empréstimo de 78 mil milhões, quando a diminuição de um ponto percentual nestes juros libertaria oito mil milhões de euros. Por esta razão, tinha sido tão importante renegociar a dívida já que este memorando é incomportável, não é de gente séria. Oito mil milhões de euros é o orçamento da Saúde e mais do que tudo o que gastamos no nosso sistema educativo. É o dinheiro necessário para reinvestir na economia, apoiar as pequenas e médias empresas que têm capacidade para criar emprego. Estes juros são abusivos e deviam ser combatidos, ou melhor, condenados criminalmente. Como escreveu Miguel Portas em Fevereiro de 2005, criticando a estratégia europeia e antevendo o que se está a passar, «”o modelo social europeu” será um conto que os nossos pais um dia contarão aos nossos filhos» …

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77 - Crónica / Emprego em desconstrução (15-05-2012)
Caros ouvintes, quando parece que já ouvimos tudo, acabamos por ouvir declarações que provam que não há limite para o disparate e verbalizar como o fez Passos Coelho dizendo que o desemprego pode ser uma oportunidade, é ultrapassar o limite do ridículo e da indecência. Isto depois dos números que não foram apresentados no parlamento e até 2016 revê em alta o desemprego. Com o nome pomposo de DEO (Documento Estratégia Orçamental) que nem Cavaco Silva conhece, o governo prevê cenários piores sem ter dado conhecimento ao país. A confirmar este panorama, o presidente da Federação Portuguesa da Indústria, Ricardo Pedrosa Gomes anunciou mais de cem mil desempregados até ao fim do ano no setor da Construção Civil. Este dado vai ter ainda impactos fortíssimos noutros setores e no estado, porque vai aumentar os custos à Segurança Social a somar à quebra de receitas. Segundo a OIT as políticas de austeridade em vários países estão a destruir o emprego e o crescimento económico. Como resultado, em 2011 contabilizaram-se, em todo o mundo, 196 milhões de desempregados e estima-se um número de 202 milhões neste ano e de 207 milhões em 2013, quando tudo indica que o crescimento
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económico nos próximos dois anos não vai conseguir atenuar este problema. O mercado de trabalho está por isso estagnado e em desconstrução e a desregulamentação das leis do trabalho, a par da austeridade são os grandes responsáveis pelo fraco crescimento. Esta análise da OIT sobre os países que optaram por estas políticas vem atestar as opções erradas de sucessivos governos em Portugal. Na verdade, desde essa altura, estes governos apostaram na destruição do mercado de trabalho, destruindo a economia. A estratégia devia ter sido colocar o emprego no topo das prioridades, impedir a precariedade e o abuso da exploração laboral que provoca desemprego. Assim, apenas se enriquecem os grupos económicos que apostam na ganância da acumulação de riqueza a todo o custo num cenário em que vale tudo. As recentes alterações das leis laborais comprovam a aposta nesta estratégia errada. Assim, além de se destruir emprego, ainda se faz querer que são os funcionários públicos, os reformados, os desempregados e aqueles que ainda têm um salário minimamente digno os culpados da crise. O primeiro-ministro desvaloriza os números do desemprego e afirma que temos de estar preparados para assistir ainda a um aumento, quando já se assiste a um recorde de 15,3%. No lugar de tomar medidas para resolver este problema, promove-se a política do dividir para reinar; colocam-se trabalhadores contra trabalhadores, desempregados contra desempregados e aponta-se o setor público como bode expiatório. Desta forma promove-se a exploração, a precarização, os trabalhadores são ameaçados e as pessoas manipuladas face à necessidade e à oferta de oportunidades de forma ilícita.
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A austeridade destrói o emprego, a economia e torna-se cada vez mais insuportável porque aumenta a dívida e deixa o país mais pobre. O recente dado da derrapagem orçamental é, para os que ainda duvidavam, a prova cabal de que este governo e a troika falham a cada dia que passa; a receita fiscal está a diminuir e as contas a ficarem mais desequilibradas. Por outro lado, tomamos conhecimento que do dinheiro que o Estado português recebeu da troika, 18 mil milhões, estão depositados em bancos privados à espera que o Ministério das Finanças dê luz verde à sua utilização, enquanto assistimos à falta de investimento e de pagamentos, por parte do estado devedor. Para terminar, recomendo a leitura ou o visionamento do Documentário “Donos de Portugal” que mostra como surgiram as grandes fortunas do país, o seu relacionamento com o poder político e a razão pela qual ainda mandam neste país…

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78 - Crónica / Portugal afunda (22-05-2012)
Caros ouvintes, a situação da Europa agrava-se, mais uma vez o nobel da Economia, Paul Krugman, dá o aviso perante o cenário da Grécia mal interpretado por uns e aproveitado de forma chantagista por outros. Nunca a democracia na Europa esteve tão fraca, isto porque temos os mercados financeiros a decidir pelos povos e neste caso na Grécia, onde a democracia nasceu há 2500 anos. Portugal e outros sete países europeus estão em recessão, fruto da diminuição de riqueza. O governo diz-nos que está a trabalhar para sairmos dela, mas os números da maioria das instituições internacionais - como é o caso da Comissão Europeia, apontam cenários piores e dizem que estamos a caminhar para uma recessão mais acentuada. É o resultado de políticas erradas assentes num memorando que destrói as pessoas, a economia e endivida ainda mais o país. Sem criação de emprego e crescimento económico não sairemos da recessão. Então, pergunto eu, para que servem os sacrifícios? O desemprego continua a subir assustadoramente, o produto Interno Bruto (PIB) português caiu 2,2 por cento nos três primeiros meses do ano em comparação com o primeiro trimestre do ano passado e 0,1 por cento face aos últimos 3 meses do ano passado;
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na educação já temos despedimentos coletivos e devido ao negócio ruinoso das SCUTs, para a introdução de portagens, o Estado vai ter de pagar mais de dois mil milhões de euros só no que respeita a duas concessões à Mota Engil. Endividado, destruído e pobre, Portugal caminha na peugada da Grécia, também ela atirada, por políticas de direita, para o abismo e condena as próximas gerações. Tal como na Grécia o memorando cria desemprego e destrói os sectores produtivos, enfim, a economia em geral. A austeridade da troika coloca em perigo o euro e a própria U.E. Quem não ouviu os alertas sobre o que podia acontecer à Grécia, também não os ouve em relação a Portugal. E ao mesmo tempo que a crise produz mais pobres, fecha empresas e privatiza o que é público, crescem as desigualdades numa crise que não é para todos. Que o digam os presidentes das vinte maiores empresas do PSI 20 cotadas em bolsa; cada presidente ganhou mais 5,3% que no ano anterior apesar da cotação dessas empresas ter caído 28% em 2011. Segundo um estudo recente divulgado no Jornal “O Público”, tais administradores ganham em média 44 vezes mais que o trabalhador da mesma empresa, o dobro do que acontece na vizinha Espanha, cuja situação já está a disparar os alarmes em Bruxelas. Enquanto isso, o futuro de Portugal está a ser marcado pela saída de 57 mil jovens do país e de mais de 80 portugueses por dia. Nas vésperas de mais um dia da cidade, esta crónica marca o fim de mais um ciclo dos “Desabafos” da Rádio Portalegre. Esta foi uma oportunidade de poder fazer chegar aos ouvintes as minhas
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opiniões, os meus desabafos. Ao longo destas crónicas fiz alertas para os problemas da economia, da educação e da saúde entre outros problemas sociais. O tempo passa e as minhas preocupações confirmam-se, como é o caso da recente notícia de que há muitos doentes do foro psiquiátrico que deixam de tomar a medicação adequada por falta de dinheiro. Este e outros avisos fizeram parte das minhas escolhas no sentido de levar informação a este vasto auditório e de apelar ao debate e à reflexão dos assuntos que mexem com as nossas vidas. Sem esquecer este maravilhoso grupo de profissionais da Rádio Portalegre, é para os ouvintes, que envio um abraço fraterno!

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