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38 PERIGO DE DESASTRE

FERROVIÁRIO

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38.1 CONCEITO, OBJETIVIDADE JURÍDICA E SUJEITOS DO


CRIME

O art. 260 do Código Penal descreve o delito:

“impedir ou perturbar serviço de estrada de ferro: I – destruindo, danificando


ou desarranjando, total ou parcialmente, linha férrea, material rodante ou de
tração, obra-de-arte ou instalação; II – colocando obstáculo na linha; III –
transmitindo falso aviso acerca do movimento dos veículos ou interrompendo
ou embaraçando o funcionamento de telégrafo, telefone ou radiotelegrafia; IV –
praticando outro ato de que possa resultar desastre”.

A pena é reclusão, de dois a cinco anos, e multa.

A norma confere proteção à incolumidade pública, à segurança e à tranqüilidade da


coletividade em relação ao meio de transporte referido.

Sujeito ativo é qualquer pessoa que realiza uma das condutas incriminadas. Sujeito
passivo é o Estado, a comunidade e também a pessoa que ficar exposta à situação de
perigo.

38.2 TIPICIDADE

O caput do art. 260 contém a forma típica fundamental do crime de perigo de desastre
ferroviário. O § 1º descreve, como resultado qualificador, o desastre ferroviário. O § 2º
descreve o desastre culposo. Incidem também, por força do que dispõe o art. 263, as
normas do art. 258, que descrevem como resultados qualificadores a lesão corporal e a
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morte.

38.2.1 Conduta e elementos do tipo

No tipo há dois núcleos, representados pelos verbos impedir e perturbar. Impedir é


colocar obstáculo, é obstruir, é fazer com que não aconteça alguma coisa. Perturbar é
colocar dificuldades, é atrapalhar, dificultar, causar transtorno para alguma coisa.

O objeto da conduta recai sobre o serviço de estrada de ferro. Por estrada de ferro
entende-se “qualquer via de comunicação em que circulem veículos de tração mecânica,
em trilhos ou por meio de cabo elétrico”, segundo a define a norma do § 3º do art. 260,
incluídos, portanto, os serviços dos chamados metrôs, ônibus elétricos e bondes, além dos
relativos às ferrovias.

Assim, realiza o tipo quem impede ou perturba o funcionamento de um dos serviços


relativos a esses meios de transporte.

Todavia é de se observar que a conduta somente pode ser realizada através de um


dos meios de execução descritos nos incisos I a IV do art. 260.

O inciso I menciona destruição, danificação ou desarranjamento, ainda que parcial,


de linha férrea, material rodante ou de tração, obra-de-arte ou instalação. Destruir é
eliminar. Danificar é inutilizar ou deteriorar a estrutura da coisa. Desarranjar é estragar,
modificando o funcionamento, por exemplo, com a retirada de peças ou dispositivos
indispensáveis a seu funcionamento. Linha férrea é o conjunto formado pelos trilhos
montados sobre os dormentes assentados sobre uma faixa de terra. Material rodante são os
vagões que se deslocam sobre a linha férrea ou os veículos que se movem sob os cabos
elétricos. Tração são os veículos que conduzem os rodantes. Obra-de-arte são as
construções edificadas para a sustentação da linha férrea, tais como pontes, túneis, aterros
etc. Instalações são as demais edificações, aparelhos, equipamentos que integram o
conjunto de obras do sistema ferroviário.

No inciso II, o meio de execução consiste na colocação de obstáculo na linha por


onde se desloca o veículo. Obstáculo será qualquer objeto capaz de impedir ou dificultar a
circulação do trem, provocando seu descarrilamento.

Outro meio de execução do crime é a transmissão de falso aviso sobre movimento


dos veículos. Nessa modalidade, o agente leva o operador do veículo a uma situação de erro
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sobre a existência de outro veículo vindo em sua direção e, de conseqüência, a tomar


decisão que coloca em risco a segurança do funcionamento do serviço, numa situação de
perigo de colisão com outro veículo ou obstáculo.

Também se realiza a conduta através da interrupção ou do embaraço do


funcionamento de telégrafo, telefone ou radiotelegrafia. Ao interromper ou embaraçar o
normal funcionamento desses meios de comunicação, o agente também deixa os
responsáveis pela condução dos veículos privados do conhecimento da realidade, daí
podendo resultar perigo de acidente. É o que consta do inciso III.

No inciso IV, o preceito contém a norma de encerramento: “praticando outro ato


de que possa resultar desastre”. Impõe a norma, ao julgador, a realização de interpretação
analógica, reconhecendo a tipicidade do fato quando a conduta do agente se realizar
através de um ato que, análogo aos descritos nos incisos anteriores, tiver potencialidade
para ocasionar um desastre. Desastre é o acidente grave, que coloca em perigo vidas,
integridades físicas ou o patrimônio das pessoas.

O crime é doloso. O agente deve estar consciente do que faz, consciente do perigo
que cria, e agir com vontade livre de impedir ou perturbar o serviço de estrada de ferro,
mediante um dos meios de execução descritos nos incisos I a IV.

38.2.2 Consumação e tentativa

Há crime consumado quando, em razão de uma das condutas realizadas pelo


agente, surge a situação de perigo para um número indeterminado de pessoas. É quando
há o perigo de ocorrer o desastre que, por ser concreto, deve ser cabalmente demonstrado.

A tentativa é possível quando, apesar da realização da conduta, não se instala a


situação de perigo concreto por circunstâncias alheias à vontade do agente.

38.2.3 Desastre ferroviário doloso e desastre ferroviário


preterdoloso

O § 1º do art. 260 descreve, sob a denominação desastre ferroviário, o tipo


qualificado, sancionado com reclusão, de quatro a doze anos e multa: “se do fato resulta
desastre”.

O desastre deve decorrer, necessariamente, de uma das condutas realizadas pelo


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agente, e pode ter sido previsto e desejado por ele ou apenas causado por negligência sua.
Indispensável, por isso, a demonstração do nexo causal entre a conduta e o desastre.

Será um crime integralmente doloso, se a pretensão efetiva do agente, ao realizar a


conduta, era causar o desastre. Será preterdoloso se sua finalidade era simplesmente a de
impedir ou perturbar o serviço ferroviário, mas, por imprudência, negligência ou
imperícia, acabou por dar causa ao resultado mais gravoso.

A pena cominada é a mesma para as duas hipóteses, mas o juiz, ao aplicar a pena,
deverá levar em conta a presença ou não do elemento subjetivo na produção do desastre.

38.2.4 Desastre ferroviário culposo

No § 2º do art. 260 do Código Penal, a norma pune a conduta culposa da qual


decorra desastre. Assim, o crime de perigo de desastre ferroviário sem a causação de
desastre não é punível na modalidade culposa. Quando o agente cria – sem querer, nem
aceitar, agindo, pois, com negligência – a situação de perigo, dele não decorrendo o efetivo
desastre, o fato é atípico.

Só há modalidade típica culposa se, de conduta negligente, imprudente ou imperita,


sendo previsível objetivamente, ocorre o desastre, o qual, como já se disse, é o acidente
grave que, em estrada de ferro, expõe a perigo direto um número indeterminado de
pessoas e bens materiais. Indispensável o nexo causal entre a conduta culposa e o desastre.
A pena é detenção, de seis meses a dois anos.

38.2.5 Formas qualificadas pelo resultado

Determina o art. 263 do Código Penal que, se do desastre doloso ou do desastre


culposo resultar lesão corporal ou morte, será aplicada a norma do art. 258.

Por isso, se do desastre causado pela conduta dolosa do agente decorrer lesão
corporal de natureza grave, a pena será aumentada de metade. Se resultar morte, será
aplicada em dobro.

Se do desastre culposo decorrer lesão corporal – leve, grave ou gravíssima –, a pena


será aumentada de metade. Se sobrevier morte, será aplicada a pena do homicídio culposo,
aumentada de um terço.
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38.3 AÇÃO PENAL

A ação penal é de iniciativa pública incondicionada. A suspensão condicional do


processo penal só será possível quando se tratar de desastre ferroviário culposo, inclusive
quando qualificado pelo resultado lesão corporal.