18 | DESTAQUE | PÚBLICO, DOM 30 DEZ 2012

ENSAIO

Vamos cerebrar 2013?
Na meia-noite de segunda-feira não haverá nada para festejar. A não ser que conseguimos sobreviver a 2012, e que 2013 se arrisca a ser pior ainda. Não havendo nada para celebrar, podemos apesar de tudo “cerebrar” esta passagem de ano. Esse é o desafio dos próximos parágrafos.
Rui Tavares
ano que acabou foi o último em que se comemorou oficialmente o feriado que representa a República e o feriado que representa a autodeterminação nacional. Não foi por acaso. Mas o ano que aí vem poderá ser o do desmantelamento de uma parte importante do edifício construído após o 25 de abril, um desmantelamento intencional e premeditado. Os pilares desse edifício eram: uma noção do público como aquilo que pertence a todos; a equidade como forma de conseguir um progresso social harmonioso; a solidariedade como cimento da nossa comunidade nacional; a ação executiva como forma de recuperar o atraso nacional na economia e noutros domínios. Com mais ilusão ou realismo, e graus de sucesso variável, estes objetivos materializaram-se na educação, na saúde, na segurança social, na europeização do país, na ciência e na cultura, nos hábitos urbanos e nos costumes liberais. Durante 30 anos beneficiaram deles milhões de cidadãos. Há quem diga que esse era um Portugal “de esquerda”, fruto de uma Constituição socializante. Tirando algum folclore da época, não era. Tratava-se apenas de um ideal para um Portugal moderno, atualizado para os direitos económicos e sociais de que entretanto já usufruíam os cidadãos da maior parte dos países desenvolvidos. Os desideratos da Constituição “socialista” do Portugal de 1974-75 são pouco diferentes dos da Segunda Carta de Direitos (Second Bill of Rights) que Franklin Roosevelt pro-

O

pôs aos americanos em janeiro de 1944, 30 anos antes. E uma maioria de gente nos países democráticos concorda que estes são simplesmente os pilares de uma sociedade civilizada. Claro: é preciso reconhecer que houve sempre uma minoria ativa contra esta visão do “Estado social”. Tirando partido da situação política, é ela que está no poder em Portugal.

O ponto em que estamos
Um a um, o Governo atual recusa os princípios que listei acima (com exceção dos direitos civis e políticos, a que regressarei no fim do texto). De resto, desaparece a noção do público, ficando somente o Estado reduzido às funções policiais e judiciárias, mínimas e/ou medíocres. Em segundo lugar, a equidade é apenas uma palavra que aparece na Constituição para criar empecilhos aos governantes. A solidariedade será substituída pela caridade, se possível desempenhada por terceiros, e reservada aos casos pessoais miseráveis ou desesperados. E, finalmente, a ação política executiva

Todos os governos da austeridade, por essa Europa fora, fazem o que têm a fazer contrariados ou renitentes. Calhou-nos em azar um governo inebriado

limita-se simplesmente a operar cortes e a fazer privatizações. Além destes traços mórbidos, o nosso Governo ainda tem uma trágica particularidade. Todos os governos da austeridade, por essa Europa fora, fazem o que têm a fazer contrariados ou renitentes. Calhou-nos em azar um governo inebriado. Inebriado pela sua crassa ignorância; inebriado pelo seu inusitado poder; inebriado pelas vantagens que as suas clientelas retiram da situação. O ano de 2012 foi elucidativo em relação a isto, como em relação à tática de avanços e paragens sucessivas, um stop-and-go que parece copiado dos manuais de ações político-militares: enunciar uma meta que deixa a população em estado de choque, caso haja oposição atribuir esse anúncio a um mal-entendido, e por último avançar para um objetivo paralelo. Não vale a pena fornecer aqui uma lista de ilustrações, da RTP à TAP, da TSU às “propinas no secundário”. Os escândalos do ministro Relvas, as gaffes do consultor Borges, os estados de alma do partido de Paulo Portas, a cadência pausada de Vítor Gaspar ou a própria ignorância constitucional de Pedro Passos Coelho não mudam em nada a direção deste Governo.

O que significa isto
Para quem se opõe politicamente a esta deriva não há trabalho mais importante do que pensar o próximo ano e avaliar as suas condicionantes e saídas. Para que esse exercício tenha sucesso, só há uma precondição: acabar com as precondições. A oposição a este Governo tem sido verdadeiramente minada por um ridículo jogo de pretextos, uma bir-

ra infantil entre atores políticos que representam os seus papéis como se ainda não tivessem percebido o que está em jogo. Enquanto falam de alternativas de governo com a boca, vão cavando as diferenças entre si com os pés. O tempo que estamos a viver é um tempo no qual a política habitual é uma política irresponsável. Ora a política habitual, em Portugal, ainda é feita por políticos “de carreira” em partidos que estão ora funcionarizados, ora clientelizados. Neste cenário, um partido é como uma empresa cujo ramo de negócio é a gestão da frustração de cada eleitor com o partido que é vizinho do lado. As margens são

curtas, mas vão dando para o gasto e para manter a casa. Qualquer desvio à norma é considerado um risco e severamente punido pelos guardiões do templo. Devo por isso corrigir uma afirmação que fiz atrás, e adicionar outra. A correção é de que este Governo não nos caiu em azar. Foi a pequenez e a desorientação da nossa política que lhe abriu a porta. A adição é para notar que o chamado “Estado social” não apenas nasceu com a democracia, como lhe é coextensivo; diminuir o Estado social, num país como Portugal, será diminuir a democracia. Os direitos civis e políticos ficam sob pressão com os direitos económicos e sociais. Para

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O Governo, escreve Rui Tavares, usa a troika como um pretexto para desmantelar as conquistas sociais da democracia
LUÍS CARREGÃ DIÁRIO DAS BEIRAS

sair desta situação, teremos de ampliar uns e outros.

Regresso ao futuro
Estamos a viver uma crise do sistema global; poderá Portugal ter um programa para si e para esta crise? Creio que a resposta é afirmativa e que esse programa passará por um regresso aos três “D” que fundaram a nossa II República. Em primeiro lugar, descolonizar: ironicamente, desta vez para nós e não para os outros. Descolonizar significa libertar o país da troika e encerrar este interregno o mais depressa possível. A discussão entre os partidos de oposição sobre “rasgar o memorando” não é neste mo-

mento mais do que um bloqueador de conversa. Toda a gente entende que libertar o país da troika passará por uma negociação, e que essa negociação terá de ser bilateral. Os recursos para essa negociação poderão passar por: 1) deter a fuga de capitais e potenciar o aforramento, através, por exemplo, de um sistema de títulos fiscais que permitirá ao contribuinte pagar impostos do ano corrente ou futuro contra um benefício; 2) preparar um perdão da dívida em termos como estes: a cada euro pago corresponderá um euro perdoado — não muito diferente do haircut de 50% de que beneficiaram os gregos; 3) encerrar o memorando, permitindo assim a

Portugal transitar rapidamente para o guarda-chuva do mecanismo OMT anunciado por Mario Draghi em setembro passado, o que terá como resultado uma descida acentuada dos juros da nossa dívida. Em segundo lugar, desenvolver. Desenvolver significa o contrário desta obsessão com a diminuição dos custos unitários de trabalho, e a sua substituição por um plano de qualificação e especialização da nossa economia. Alguns exemplos. Significa dar enfâse ao setor cooperativo e associativo, para apoiar e proteger pequenas e médias empresas e profissionais a título individual. Significa criar um banco “bom” — um Banco de Operações

Mutualistas —, combinando os esforços do Estado, das fundações e do setor privado, e que tenha nos seus estatutos o apoio aos setores económicos de mais futuro e valor acrescentado. Significa sobretudo cuidar das partes mais vulneráveis da sociedade, o que pode passar por aprovar um Estatuto do Idoso que confira direitos específicos (e recurso judicial para os obter) a uma camada crescente da nossa população. Ou ter como desígnio a erradicação da pobreza infantil no nosso país, através da criação de um sistema de bolsa-escola. Democratizar, por último — ou deveria dizer por primeiro? Nada disto é possível sem uma vontade cívica de renovar e reabrir a nossa democracia. Essa vontade cívica será sentida de forma diferente por cada um, mas passa certamente por superar a partidocracia sem prescindir dos partidos como pedras fundamentais do sistema político, antes criando plataformas e momentos que sacudam os partidos do seu torpor. Essas plataformas e esses momentos estão aparecendo, mas são ainda insuficientes para desestruturar o carreirismo, o clientelismo e o feudalismo autoritário da nossa política. Tenho sugerido que a experimentação com um sistema de primárias abertas a todos os cidadãos, a começar pelas eleições locais, poderia permitir a entrada da sociedade civil no processo político monopolizado pelos aparelhos partidários, reforçando até a própria militância partidária. Democratizar, desenvolver e descolonizar significam também, no seu conjunto, que Portugal tenha ideias claras sobre a União Europeia. Por interesse próprio e por ideal, Portugal deve estar na primeira linha da exigência por uma democracia europeia. Deve chamar até si, já em 2013 e 2014, os candidatos a presidente da Comissão Europeia, para que eles nos exponham publicamente os seus programas. Em 2015 haverá provavelmente uma Convenção Europeia para reescrever os tratados, e antes disso terá de haver um grande debate nacional sobre o que queremos da Europa, feito com tempo para mobilizar os nossos aliados noutros países para a criação de um Senado Europeu na qual todos os Estados-membros tenham os mesmos direitos de votos. Esta é uma batalha que pode ser ganha; mas, caso não haja Senado, também podemos fazer nós próprios, a partir de 2016, por exemplo, um grande debate para a eleição dos chefes da nossa re-

presentação no Conselho. Portugal pode e deve inovar na União.

O dilema de 2013
Nada disto, é claro, será feito pelo atual Governo. Por isso, seria bem-vindo se 2013 nos trouxesse um governo novo. Mas não se vê que governo novo poderá ser. Esse é o nosso dilema e o fim do meu contributo para cerebrar 2013. A posteridade julgará um governo que está a desvirtuar a República, a destruir o Estado social e a vender património de todos em negócios privados; um governo que mantém ministros que envergonham a ética pública e devem fazer algures uma cruzinha por cada jornalista que os atrapalhou e que caiu; um governo cujo número 2 não acerta numa conta, cujo número 3 se cala perante o desnorte da União Europeia e cujo primeiro-ministro desconhece, às vezes, o simples bom senso; um governo que é já responsável pela maior calamidade económica e social das últimas décadas, que usa a troika como um pretexto para desmantelar as conquistas sociais da democracia; um governo que não pretende ficar por aqui e cujos efeitos se tornarão em breve irreversíveis. Mas a posteridade julgará também aqueles que não fizeram tudo o que estava ao seu alcance para deter esta catástrofe. É isso que em 2013 devemos exigir a nós mesmos. Que encontremos, no respeito pelas diferenças e pela democracia, num espírito de transparência e inclusão, as vias de libertar o país deste interregno no mais curto prazo possível — ou, pelo menos, de mostrar a este Governo que há limites. Mas façamos mais, e encontremos forma de chegar aos 48 anos do 25 de abril, àquele dia em que finalmente teremos tido mais tempo de democracia do que de ditadura, orgulhosos pelo que soubemos fazer em conjunto.

Memória de 2012
Ao pensar em 2012 lembraremos os que ainda estavam entre nós quando este ano começou. Miguel Portas. Bernardo Sassetti. Manuel António Pina. Fernando Lopes. Paulo Rocha. Ou que estavam perto de nós, porque eram como da família: Oscar Niemeyer, Antonio Tabbuchi. Sentiremos os que fazem dolorosamente falta a cada um de nós. Respiraremos fundo. E, ao abrir o novo ano, contaremos com todos os que ficam para dobrar este cabo das tormentas e fazer dele um cabo da boa esperança.

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