A POESIA ENTRE O SURREALISMO E A POESIA Diálogo entre Claudio Willer e Floriano Martins CW - Oswald de Andrade, você se refere bem

criticamente a ele, neste livro e em outros lugares. Recentemente, tive acessos de prazer com a releitura de Memórias sentimentais de João Miramar e de Serafim Ponte Grande. Aquelas metonímias todas de Memórias, ninguém fazia aquilo, ninguém fez, foi o que houve de mais moderno e transgressivo naquele momento. Serafim, então, aqueles manifestos anarquistas… E a própria idéia de Antropofagia, nela havia lugar para Surrealismo, para uma incorporação de Surrealismo que não foi levada adiante, nem por Oswald, que preferiu ser, em suas palavras, "casaca de ferro do Partido Comunista", nem por mais ninguém. Poeta bem oswaldiano, para mim, é o Piva, bem mais que marioandradino. Antropófago e, mais notadamente em Coxas, repleto de alusões que ainda não foram percebidas a essas duas narrativas em prosa de Oswald. E em passagens como Exu comeu tarobá de Quizumba, que você colocou em O Começo da Busca, onde cita Jorge de Lima, mas refere-se a esse aspecto do nosso modernismo. Não se trata, nisso que estou apontando, do "surrealismo à brasileira" de Murilo, mas de uma ampliação da subversão. Vejo sementes disso dentro dessa obra múltipla, fragmentária, desigual, dando tiros em todas as direções, trocando temas e tratamentos literários (Miramar, p. ex., pedia tratamento realista, pelo que ele relata, história de crise burguesa), porém inquieta e subversiva de Oswald. FM - Oswald propiciou inúmeras polêmicas. A busca das "fontes puras do primitivismo", ele entendia como possibilidade única de despir a arte de "convencionalismos e sofisticações". Tento entender a idéia de convencional, mas penso a que tipo de sofisticação nos teria levado o Futurismo tão cultuado por ele e Mário de Andrade. Claro que fazia média quando dizia dos poetas que o sucederam: "são todos superiores a mim". E a própria escritura paródica que perseguia na poesia implicava ao menos em uma busca de sofisticação estilística. Reconheço uma certa aproximação no lance de imagens de Quizumba (RP, 1983), como afirmas, mas podemos pensar, com o próprio Roberto Piva, naquela "experiência alquímico-futurística da cidade" que aproxima Paulicéia Desvairada (MA, 1922) e Paranóia (RP, 1964). Nos dois casos são aproximações parciais. A poesia de Oswald e Mário está aquém dos desdobramentos imagéticos e sintáticos alcançados por Piva, sem falar que a vertente anárquica deste último está mais ligada a Dadá, de onde inclusive surgiu a noção de um canibalismo que depois seria absorvida pela Antropofagia. Tampouco creio que houvesse espaço para Surrealismo ali, pois já a Semana de 22 era fruto das afinidades de Mário e Oswald com Marinetti, ou seja, já se desenhava, dentre outros equívocos, uma idéia de nacionalismo que iria dar em extremistas como Plínio Salgado. Curioso é observar que, nos anos 50, despertavam a atenção de Oswald novos poetas como Thiago de Mello e Geir Campos - o mesmo Oswald que considerava Ledo Ivo "um caso típico do soldado do Exército do Pará". Acho que o Franklin de Oliveira tem razão naquela observação de que "todo mau poeta é mau pensador". Oswald era um polemista sem sustentação alguma. Evidente que aqui não nos interessa essa ingenuidade do Murilo de um "surrealismo à brasileira". Mas se vamos separar afirmações e atos que denunciam o caráter de um autor e a própria obra, mesmo aí não vejo em Oswald, no construtivismo frustrado de uma poética, nada que o aproxime do Surrealismo. Basta ler Os dentes do dragão (1990), recolha de entrevistas, para compreender melhor obsessões e oscilações estéticas deste poeta. CW - É. Em Oswald há o melhor e o pior, e nem um nem outro tem continuidade, ambos são fragmentários. Nas apreciações críticas de seus contemporâneos, está o pior dele. E o capítulo do que o Modernismo ignorou, ou do que passou por cima, ou ao lado, é extenso. Inclusive do que já havia de inovador e transgressivo acontecendo aqui, entre simbolistas, por exemplo. Futurismo, a ideologia da modernidade enquanto tal, o moderno adotado como valor, é claro que são coisas que não há como aceitar, mas os manifestos iniciais do Futurismo são de uma irreverência colossal. Se ao menos houvessem adotado isso para valer, já seria algo. Agora, sobre Surrealismo no Brasil, na primeira metade do século XX, enxergo duas, como diria - ...visões? leituras? histórias? Uma, de que não houve Surrealismo, ou quase não houve, quer fosse por inadequação (Antonio Candido, José Paulo Paes), ou por causa de um ambiente cultural tacanho, provinciano, católico, positivista, de um nacionalismo estreito, etc. A outra, mais explícita no que Sérgio Lima publicou em Órganon e em Surrealismo e Novo Mundo, e em certa medida em Valentim Facciolli, é de que houve Surrealismo, sim, mas não foi incorporado à História, não foi adequadamente registrado também porque o ambiente cultural era tacanho, provinciano, católico, positivista, de um nacionalismo estreito, etc… Sem poupar ambiente cultural, parece-me que em O Começo da Busca você não chega a adotar nem bem uma, nem bem a outra dessas versões ou interpretações. FM - Talvez caiba dizer que a grande obra do Futurismo são os manifestos. Marcel Duchamp foi quem mencionou que o Futurismo era "um impressionismo do mundo mecânico", ou seja, aquela coisa da retina funcionar como "uma inesgotável fonte de prazer" que, no dizer de Max Ernst, caracterizava o Impressionismo, vale para o Futurismo, desde que pensemos que os futuristas tinham olhos apenas para um mundo mecânico ("Escutar os motores e

ao resgate do que é excêntrico. O que em um era pleno exercício de liberdade. lembrando que a mesma "não é racional". Vi um documentário na TV. as pesquisas de Nepomuceno foram deixadas para trás e o nome de Villa-Lobos . mas essa maneira de olhar cabe para muitos outros aspectos. pergunto.tipos realmente estranhos . que Breton e Mário de Andrade tinham pensamentos opostos acerca da analogia. Caberá recuperá-la a partir de uma leitura lúcida dos acontecimentos. aspecto que. E coloco isto aqui reafirmando essa condição da arte de antecipar a história. Campos de Carvalho. “Surrealismo à brasileira” . Roldan-Roldan refira-se à arte como "um grito de libertação".Em suma. por sinal. músico que seguramente teria participado da Semana de Arte Moderna se acaso não tivesse morrido dois anos antes. e o que o surrealismo fez foi procurar sistematizá-la. Agora. mas lembrando que uma antevisão dessa "degradação da identidade". de um “surrealismo à brasileira”. no tempo e no espaço. e ao que ele deixou de enxergar. catolicismo exacerbado. esse estranhíssimo Jarbas Medeiros de Minas Gerais. Havia um certo acanhamento em nossa ruptura. ou viu de modo disfarçado. constituindo-se assim em "um dos maiores perigos da poesia modernista". Roldan-Roldan de Campinas . do que ficou à margem. Um bando de intelectuais levando Blaise Cendrars para conhecer as cidades mineiras (Ouro Preto e cercanias) não é recuperação do barroco. A história do Brasil é o registro colossal de um acúmulo de farsas. também o Mário de Andrade foi um notável autor de manifestos. é a isto que eu queria chegar: aqui não houve a “correia de transmissão” de que fala Breton com relação ao que o Simbolismo tinha de mais subversivo. ao tentar recuperar as pistas de circulação do Surrealismo entre nós não posso sair a afirmar que tudo é Surrealismo. ao que não viu. que assina Mafalda Cataraz . jamais percebendo a condição convulsiva que lhe indicaria Breton. frutos de uma mesma falha de visão. As versões de existência e inexistência de Surrealismo no Brasil são complementares. que Mário de Andrade situa como uma das contribuições centrais do Modernismo. nacionalismo limitador etc. não-declarado: literatura licenciosa brasileira do século XIX.nem do que havia de mais excêntrico em nosso Simbolismo . O Surrealismo entranhou-se em toda a criação artística que melhor expressa o século XX. tanto maquiando o que se resgata. francamente. em parte.por exemplo. Às tuas referências podemos acrescentar a . reconhecendo que fazer isso. pois. quanto se adotou pra valer. não gostaram do anti-beletrismo de Lima Barreto (e vice-versa) . Por exemplo. quanto deixando escapar o que foge a essa tipificação. mais se acomodaram ao ambiente do que propriamente romperam com ele. em matéria de reconstituição de Surrealismo no Brasil. Enfim. diria que estou pensando em voz alta . ambos aparando certos vícios conceituais. ainda há muito a ser feito. é uma tarefa ciclópica. no outro não passava de mera substituição da "coisa vista pela imagem evocada". observando. foi Octavio Paz. Mas cabe ao poeta romper com isso. ou melhor. Eu queria voltar ao nosso Modernismo. Rosário Fusco. que quem fez isso. tomando um autor mais recente. reconstituir correias de transmissão com relação a subversões locais. ou. e de modo bem parcial. A ficção do primeiro está por merecer uma leitura que não ponha à margem a condição erótica. O segundo interessa sobretudo pelas abordagens críticas. Sabendo. independente da qualidade de sua música . em nossa transgressão. e que o Jarbas Medeiros situe o progresso como uma "mentira vital". antes. sobre o Modernismo. dar-lhe sentido político. O Brasil não lhe ficou alheio. você consegue enxergar essas correias de transmissão nos surrealismos de outros países latino-americanos? Inclusive com relação a uma ramificação importante e influente do Simbolismo.além de não haverem reparado em Souzândrade. Me atrai quando falas que os modernistas "viram de modo disfarçado.se estivesse falando em vez de escrever. Pois bem. já vinha sendo feita por um Alberto Nepomuceno.reproduzir seus discursos"). conforme já observei em outras ocasiões. não transferindo aos mesmos nossos desejos ou preconceitos. A opção pelo excêntrico nos leva a uma leitura caricatural da cultura.teríamos mais componentes de uma subversão à brasileira. não? Tanto em um caso como no outro. Claro que o ambiente era pautado por essa mescla de provincianismo. em termos de fazer coincidir com a ação o discurso dos manifestos? Mas pensemos nessa relação entre Modernismo e Surrealismo. a loucura campeava na Belle époque. quem sabe. superestimando-o. E nossos modernistas. FM . de alguma maneira. nesse ou naquele país. do que se possa imaginar. etc. seja porque não havia barroco algum a ser recuperado como sobretudo porque o barroco não se manifestou nas obras modernistas. base. Sei que mencionas apenas a literatura licenciosa. não-declarado". como a de Bernardo Guimarães (em Oswald de Miramar e Serafim dá para perceber que sim. E procedendo-se. não? Ele não pode ser a medida do ambiente em que circula. por exemplo. ainda. o R. que ele viu isso). Mas havia uma rejeição enorme.A leitura do excêntrico permite certa mitificação. possui uma dimensão muito mais abarcadora. Acho interessante que o R. Até que ponto. Basta pensar que a pesquisa na criação artística. Por outro lado.se tomarmos o que é discrepante hoje . onde se dizia que nossos rapazes haviam recuperado o barroco. É um duplo equívoco.ou então. conforme você aponta. CW . sobretudo provocada pelo que tu mesmo já chamaste de "caipirismo brasileiro disfarçado de nacionalismo". preexistente ao surrealismo. que vem a ser o modernismo de Rubén Darío? Será que estou sendo claro em minha pergunta? Aliás. que Roldan-Roldan menciona como sendo "uma das mais deploráveis características de nossa época" já a encontramos nos romances de ficção científica. na mesma medida em que houve uma subversão francesa.um excêntrico. Mário manifestou-se acerca da beleza apenas compreendendo a distinção existente entre o "belo artístico" e a "beleza da natureza".acabou sendo a grande referência de nossa entrada da modernidade.

gostei de você estar sabendo do Jarbas e do Roldan-Roldan. Recorde que Breton não falava espanhol . talvez iniciando o estudo que falta sobre movimentos poéticos na América Latina.Que beleza! Com essas observações. por vezes até inventando antecedentes para o Surrealismo na América Hispânica. vindo daí uma completa falta de visão acerca do que se passava com a poesia em toda a extensão do idioma. O chileno Ludwig Zeller chamou a atenção para a poesia de Rosamel del Valle. não foram buscadas. o grupo surrealista Mandrágora não estabelecia vínculos de espécie alguma com essa tradição. não de idéias intelectuais mas sim de vivências profundas". por exemplo. ainda quero entrar na diversidade da expressão propriamente literária. mas antes discricionário. fizeram outro tipo de conexão…! Sou contra um tipo de visão meio religiosa de surrealismo. Vicente Huidobro. assim mesmo. no plural) ibero-americanos e para esse colossal Surrealismo português à margem do Surrealismo. o que não ocorreu com a espanhola. Precisamos dedicar futuramente algumas linhas a cada um deles. Aliás.chilenos. E cabe mencionar que justamente o Surrealismo se fez mais forte naqueles artistas que souberam adotar uma postura crítica. apenas como realização de princípios ou fundamentos. como situa o argentino Girondo e sobretudo o chileno Huidobro. E diz ainda: "a realidade americana. A essa historicidade dos surrealismos correspondem grandes momentos de lucidez. esta poesia soube renovar-se. Diz ele que o Surrealismo sempre lhe foi uma boda e não um protesto: "não me serviu para rejeitar o mundo. No entanto.na maior parte delas. mas sim para celebrá-lo". Enrique Molina diz que "a poesia deve nascer. Tal celebração. Mas prossigamos nessa questão da diversidade de histórias e situações dos surrealismos. Fato é que essa "correia de transmissão" não ocorreu entre nós. como o faz Stefan Baciu. Rosamel del Valle. ela diz respeito a um diálogo entre Surrealismo e um passado local. naquele momento. Agora. relacionaram-se com um contexto. envolvendo nomes de um lado e outro. que. assim possibilitando desdobramentos que enriquecem o assunto. No Peru havia ainda um gesto mais exacerbado de ruptura. o grande pai da modernidade que é Pablo de Rokha deu à poesia chilena seus melhores e piores versos. Sempre. Contudo. Também sou contra todo tipo de inquestionabilidade. prenunciações etc. E não é verdade que o desinteresse era mútuo. Ah sim. não no sentido de o expressarem (o que seria determinismo). Logo em seguida teríamos Huidobro. na pluralidade das escritas surrealistas.é algo fundamental e que tem escapado à nossa historiografia. essas conexões com outras culturas foram feitas em grande parte graças ao Benjamin Péret. e não só no atacado ou em forma de diagrama. ao mesmo tempo os surrealistas latino-americanos propriamente ditos não tinham nada a ver com isso. Interessa aí traçar uma distinção entre visão crítica e rejeição a priori. Luis Cernuda e Federico García Lorca influenciaram largamente a poesia hispano-americana. o grupo Poesía Buenos Aires estava interessado no Brasil. Um exemplo solto: Blaise Cendras vir ao Brasil e nos apresentar a riqueza subversiva de um Príncipe do Fogo. . havia uma interação. Murilo Mendes. O argentino Francisco Madariaga tem uma distinção entre Surrealismo na Europa e na América Latina que me parece fundamental mencionar aqui. como se costuma dizer. Complementares? Sim. deve ser observada criteriosamente. E ficaríamos aqui enumerando situações idênticas. e muitos outros latino-americanos embeberam-se de geração 27 espanhola.nem demonstrou nenhum interesse em aprendê-lo -. Antenadíssimo. e da relação de cada movimento ou manifestação com os seus particulares contextos literários e sociais. Chegou a publicar livros do mesmo. seu fundamental aporte surrealista. Reconstitui-los isso é trazer algo de importante ao conhecimento da relação entre literatura e sociedade. por exemplo.o que não ocorreu entre Brasil e Portugal. através de Raúl Gustavo Aguirre e principalmente de Rodolfo Alonso. ao mesmo tempo em que ele jamais se manifestou a respeito dessa literatura. Aliás. havia assimilado. Poetas como Juan Ramón Jiménez. As conexões que mencionas não existem intencionalmente. eu me pergunto se o verbo é este mesmo. como no restante da bibliografia. Minimiza a presença do Surrealismo no grupo Contemporâneos e estabelece falsas conexões. sempre com interesses políticos que visavam mantê-lo na pauta do dia. sim. subversões marginalizadas. adotar posturas críticas com relação a isso ou aquilo. no entanto. Ou como o próprio Molina sugere: uma distinção entre Baudelaire e Mallarmé. Jorge de Lima. Paz não foi parcial. Dessas conexões vistas a posteriori são exemplos o venezuelano José Antonio Ramos Sucre e o peruano José María Eguren. Juan Larrea e Gerardo Diego. e isso vale para os surrealismos (é. bem tratada em sua antologia. tais como César Vallejo. Por uma análise histórica podemos localizá-las.ficção de um Adolfo Caminha. por sua vez. você está continuando e detalhando o ensaio de O Começo da Busca. Já nos anos 20. CW . À frente. Que coisa estranha . Tal observação nos permite uma releitura de Lugones e Borges. E.O roteiro dessas conexões a serem revistas . examinando-os no detalhe. já cumpre com a rebelião que os europeus deveriam levar adiante através de seus ataques ao racionalismo". Veja o caso da biblioteca do Mário de Andrade. com seus excessos. eu acho até natural a existência de uma relação entre Espanha e América Hispânica . Neruda e Díaz-Casanueva. Octavio Paz é de uma geração posterior à dos primeiros poetas surrealistas. reagir. Nos anos 50. Se entendi bem tua colocação. e publicaram na revista homônima poemas de Drummond.e acho que Ángel Pariente registrou isso corretamente. FM . por exemplo. com inúmeros exemplares de livros hispano-americanos devidamente autografados. mas de interagir. No caso do Chile. desde que percebamos as distinções. imagética surrealista . anotadas pela primeira vez .

fica evidente. por terem personalidade própria. imprimindo um ritmo bem distinto da ruptura já provocada pela inserção do verso livre.O que vejo nesses seus comentários. que todos eles mereciam ter mais obras publicadas aqui…). E também. além da consistência indispensável. cuja obra poética foi toda escrita em prosa. então. Jorge Gaitán Durán. um sui generis por excelência. O último comentário que eu teria. o que. ampliando o que se pode entender por “surrealismo”. por sinal . amplia e mantém aceso o ânimo surrealista. assim completando minha participação nessa nossa conversa. Quanto à diversidade do Surrealismo. a intensidade passional evidente em César Moro. a combinação de furor. Não chega a ser um desdobramento pelo simples fato de que isoladamente a perspectiva estética não interessa ao Surrealismo. evidentemente por confundir-se ou sobrepor-se em parte a esse continente do que está à margem. o levantamento e o estudo do excêntrico em literatura. Revista Agulha # 23. Há. por exemplo. este venezuelano tão bem evocado por ti. E há ainda outro aspecto. a ironia e a vocação até satírica de Juan Calzadilla. acabaram estabelecendo vínculos . lirismo e sarcasmo em Piva. e isto em âmbito continental. Trata-se de um vasto material crítico que vem sendo disponibilizado com atualizações bimestrais e que bem poderia já estar sendo utilizado por professores de literatura em nossas universidades. sim. Francisco Pérez Perdomo . constituam um repertório não percebido por críticos. de ensaios. De certo modo. Isso que chamo de diversidade dentro do Surrealismo ficaria mais evidente ainda se houvesse sido possível incluir alguém como o venezuelano Pérez Perdomo. da parte da imprensa impressa. Fortaleza/São Paulo. portanto do diverso. Também já poderia contar com o apoio. não é apenas uma possibilidade de ampliação do estudo sobre Surrealismo. há um amplo espectro que o livro apenas ajuda a descortinar. Somente uma cegueira crítica muito particular não permite a leitura de José Antonio Ramos Sucre. sem os costumeiros prejuízos de escolas ou mesmo igrejas literárias. contudo. Não se trata simplesmente de recolher matérias interessantes e publicá-las. as saudáveis influências do Surrealismo na obra de outros tantos (José Lezama Lima. os dominicanos Domingo Moreno Jiménes e Franklin Mieses Burgos. em termos de difusão.O que estamos fazendo na Agulha não tem equivalente em nossa imprensa cultural. daquilo ainda não incorporado ao repertório dos críticos e aos cardápios dos estudos literários. E sobretudo estamos buscando temas e colaboradores que. Nenhum desses poetas disse amém cegamente às origens parisienses do movimento. que extravasa a linha e segue praticamente em busca do infinito. sem dúvida. diria até de dimensões enciclopédicas. FM . sem dúvida um hiper-romântico. assim como. do insuficientemente lido. é sobre a diversidade da poesia surrealista. É uma tolice pensar que essa ficção tenha representado uma rejeição ao realismo sem influência do Surrealismo. Souberam fazer uma inestimável leitura.Outra estranheza envolvendo o Surrealismo relaciona-se com o realismo mágico da prosa de ficção hispanoamericana. não nos deixando de fora uma vez mais. Pois bem. e de modo mais sistemático na Banda Hispânica. ao mesmo tempo. por essa seleção. Inclusive caberia observar. ali se encontra particularizada uma ambientação hispano-americana. no pólo oposto. indo ao detalhe. onde acabamos abarcando desde Jarbas Medeiros até José Antonio Ramos Sucre. que esses aspectos todos estejam ligados ao Surrealismo. entrevistas. aí incluindo a possibilidade de antologias pessoais. E em termos de compromissos existenciais bem sabemos a querela que envolve autores ligados a essa tendência. Ou então. e. No caso da Banda Hispânica. que hoje encontramos em um José Kozer. poetas com personalidade própria . Poetas como o equatoriano César Dávila Andrade.cujo livro Los venenos fieles (1963) necessita ser recuperado -. isso é feito em Agulha. essa medida do verso. o guatemalteco Luis Cardoza y Aragón.distintos em cada caso . o do verso de corte longo. Já observei que futuramente o material que se encontra disponível pode ser convertido em livros múltiplos. inclusive volumes monotemáticos sobre determinados autores. Enfim. É algo maior. algo como o Retorno de Nietzsche de Raúl Henao (belo poeta. os argentinos Carlos Latorre e Olga Orozco. Não quero dizer. uma presença marcante na literatura latino-americana que diz respeito à prosa poética. depoimentos etc.com o Surrealismo.talvez por isso mesmo. editores e jornalistas de uma maneira geral. Como essas aproximações ou recuperações não foram feitas até hoje. CW . amparando a complexa tarefa de refazer todo um país de um estado de mendicância cultural. passando por Adolfo Caminha. todos são poetas surrealistas. Minha preocupação é bem outra: que sejam discutidos sem preconceito algum. confirma-se o mais importante: a inexistência de um segmento irreflexo do Surrealismo na América Latina. a rigor. mantendo particularidades essenciais à defesa estética de cada um. Evidente que se pode pensar em novas edições ampliadas ou mesmo em um segundo volume. dentre inúmeros outros. centrada na poesia e no ensaio. de uma maneira ampla e sem vício ou acomodação de ordem alguma. abril de 2002 . são exemplos dessa diversidade que mencionas. Estamos sistematizando possibilidades de leituras críticas acerca de nossa realidade. a partir do que se pode perceber nas páginas de O Começo da Busca. do não-catalogado. caberia observá-la à luz da poesia do chileno Pablo de Rokha ou do argentino Enrique Molina. Blanca Varela). é natural que nos ressintamos de muitas ausências. claro. De qualquer forma.. Dessa diversidade faz parte o pathos.

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