ANUAL ESTADUAL MATUTINO CENTRO DIREITO CIVIL PROF: TARTUCE DATA: 24/02/2010

Princípio da Função Social da Família artigo 226 da CF/88 A família é a base da sociedade (célula mater) e, por isso, deve ser interpretada de acordo com o contexto social e sua evolução, o que abrange o avanço tecnológico e as diversidades regionais. A palavra "função social" quer dizer "finalidade coletiva" (Orlando Gomes) e os negócios jurídicos, inclusive os familiares, devem ser interpretados conforme os usos do lugar da celebração (art. 1131, CC), incluindo as diversidades regionais. Exemplo: informativo 421 do STJ (o pai que batiza o filho sem convidar a mãe para o batismo comete ato ilícito, podendo ser condenado a indenização por Danos Morais). O Princípio da Função Social da Família possibilita o reconhecimento das novas entidades familiares, conforme tópico a seguir. 3- CONCEPÇÃO CONSTITUCIONAL DE FAMÍLIA Segundo o art. 226, CF, a família pode decorrer dos seguintes institutos: a) Casamento; b) União Estável (entre o homem e a mulher, devendo a lei facilitar sua conversão em casamento). Pelo que consta da CF/88, união estável não é igual a casamento, pois coisas iguais não são convertidas umas nas outras; mas não há hierarquia entre os dois institutos, são apenas categorias distintas c) Família Monoparental é aquela constituída por qualquer dos pais e seus descendentes. Por exemplo, um pai solteiro que vive com três filhos. Segundo o entendimento majoritário da doutrina e também da jurisprudência (STJ), o rol do art. 226, CF é exemplificativo (numerus apertus), e não taxativo (numerus clausus), pois são admitidas outras manifestações familiares: d) Família Anaparental (Sérgio Rezende de Barros). É a família sem pais. Exemplo: o STJ já concluiu que o imóvel em que
1

Art. 113. Os negócios jurídicos devem ser interpretados conforme a boa-fé e os usos do lugar de sua celebração.

1

OFENSA NÃO CARACTERIZADA AO ARTIGO 132. onde se pretende a declaração de união homoafetiva. portanto. mas a tendência é o seu reconhecimento como família. de 3 relacionamentos distintos. 4. Os dispositivos legais limitam-se a estabelecer a possibilidade de união estável entre homem e mulher. Ex. In http://www.asp?numreg=199400371578&pv=010000000000&tp=51 RECURSO ESPECIAL Nº 820. contudo. POSSIBILIDADE JURÍDICA DO PEDIDO.606/MG2). a integração mediante o uso da analogia. se a magistrada que presidiu a colheita antecipada das provas estava em gozo de férias. E ainda de acordo com o informativo 421 do STJ o companheiro homoafetivo pode ser beneficiário de previdência privada. se for o caso. quanto a possibilidade jurídica do pedido. 1. não haveria vedação legal para o reconhecimento da união homoafetiva como família. (REsp 820. quais sejam. ARTIGOS 1º DA LEI 9. POSSIBILIDADE DE EMPREGO DA ANALOGIA COMO MÉTODO INTEGRATIVO.RJ (2006/0034525-4) RELATOR : MINISTRO ANTÔNIO DE PÁDUA RIBEIRO EMENTA. sem. que o magistrado de primeiro grau entenda existir lacuna legislativa. a fim de alcançar casos não expressamente contemplados.724 DO CÓDIGO CIVIL. 5. DO CPC. mas cuja essência coincida com outros tratados pelo legislador. assim não procedeu. Poderia o legislador. caso desejasse.gov. PROCESSO CIVIL. TJ/RJ. ainda não foi expressamente regulada. proibir a união entre dois homens ou duas mulheres. Existem Julgados reconhecendo a União Homoafetiva como família no TJ/RS. de modo a impedir que a união entre pessoas de idêntico sexo ficasse definitivamente excluída da abrangência legal. uma vez que a matéria. e) Família Isossexual ou Homoafetiva ( expressão de Maria Berenice Dias) é a família constituída entre pessoas do mesmo sexo. passa a viver com uma mulher que tem 5 filhos de relações distintas. pois constituem família (REsp 57.278/96 E 1. No STF está em curso a ADPF132 RJ que pretende que todas as regras relativas à união estável sejam aplicadas por analogia à união homoafetiva.stj. máxime porque diferentes os pedidos contidos nas ações principal e cautelar.ANUAL ESTADUAL MATUTINO CENTRO DIREITO CIVIL PROF: TARTUCE DATA: 24/02/2010 residem duas irmãs solteiras é bem de família. quando da prolação da sentença. não existe vedação legal para o prosseguimento do feito. de vários relacionamentos (os meus. Segundo o STJ. 3.: um homem que tem 3 filhos. os seus e os nossos filhos). 5. o fato é que. conquanto derive de situação fática conhecida de todos. AÇÃO DECLARATÓRIA DE UNIÃO HOMOAFETIVA. corresponde a inexistência de vedação explícita no ordenamento jurídico para o ajuizamento da demanda proposta. 2 3 2 .475 . Ao julgador é vedado eximir-se de prestar jurisdição sob o argumento de ausência de previsão legal. para a hipótese em apreço. A despeito da controvérsia em relação à matéria de fundo. dês que preencham as condições impostas pela lei. ALEGAÇÃO DE LACUNA LEGISLATIVA. havendo decisão do STJ no sentido de tratar-se de uma entidade familiar. devendo ser julgado pela Vara de Família. Não há ofensa ao princípio da identidade física do juiz.br/webstj/processo/Justica/detalhe. 2. inclusive para a adoção de filhos. por maioria. O entendimento assente nesta Corte. f) Família pluriparental ou mosaico é aquela que tem várias origens.TJ/MG e TJ/SP. utilizar expressão restritiva. Contudo.723 E 1.475/RJ setembro 20083). É possível. convivência pública. Na Doutrina não há no momento entendimento majoritário. para todos os fins. Recurso especial conhecido e provido. Admite-se. duradoura e contínua. PRINCÍPIO DA IDENTIDADE FÍSICA DO JUIZ. 6.

os afins em linha reta. configurada na convivência pública. 3 . III . CUIDADO: a pessoa casada pode ter união estável. II . Art.o adotado com o filho do adotante. O casamento estabelece comunhão plena de vida. VI .1 Conceito e natureza jurídica. afirma que o casamento é um contrato especial de Direito de Família (Silvio Rodrigues) essa corrente não prevalece. É reconhecida como entidade familiar a união estável entre o homem e a mulher.CASAMENTO 4. V . Além disso. 6 Art. 1511 do CC4. com base na igualdade de direitos e deveres dos cônjuges.521. c) Teoria Mista ou Eclética.os ascendentes com os descendentes. a principiologia contratual é diferente em relação à principiologia do casamento. O casamento é vínculo jurídico existente entre o homem e a mulher caracterizado pela afetividade e visando uma comunhão plena de vida. Não podem casar: I . pois casamento é mais que instituição e o Estado Brasileiro é laico. 1. Isso pode ser percebido pelos princípios do casamento a saber: 1ª Monogamia ou União exclusiva. 1. Art.os irmãos. unilaterais ou bilaterais. b) Teoria Contratualista. o casamento é um contrato na formação com regras especiais é uma instituição quanto ao conteúdo trata-se de um negócio jurídico especial segundo entendimento majoritário da doutrina (Eduardo de Oliveira Leite e FMB).o cônjuge sobrevivente com o condenado por homicídio ou tentativa de homicídio contra o seu consorte. contínua e duradoura e estabelecida com o objetivo de constituição de família. 4 5Art.511. pois não podem casar as pessoas casadas artigo 1521 inciso VI do CC5. 1. Quanto a sua natureza jurídica surgem 3 correntes: a) Teoria Institucionalista Casamento é instituição com forte carga moral e religiosa (Professora Maria Helena Diniz) essa corrente não prevalece. IV . seja o parentesco natural ou civil.ANUAL ESTADUAL MATUTINO CENTRO DIREITO CIVIL PROF: TARTUCE DATA: 24/02/2010 4.723. VII .o adotante com quem foi cônjuge do adotado e o adotado com quem o foi do adotante. até o terceiro grau inclusive.as pessoas casadas. pois o conceito de contrato ainda é relacionado a um conteúdo patrimonial o que não ocorre no casamento. e demais colaterais. desde que separada de fato (artigo 1723 §1ª do CC6).

III. Capacidade Matrimonial e Impedimentos do A incapacidade para casar é genérica. 1.ANUAL ESTADUAL MATUTINO CENTRO DIREITO CIVIL PROF: TARTUCE DATA: 24/02/2010 2ª Princípio da liberdade de escolha do outro cônjuge que decorre da autonomia privada. Pessoas que. 1. 1517). CC10 que.523 não impedirão a caracterização da união estável.520. Parágrafo único. 10 Art. espíritos e patrimônio (formação de um condomínio entre os cônjuges) – Rolf Madaleno. 3o São absolutamente incapazes de exercer pessoalmente os atos da vida civil: I . não tiverem o necessário discernimento para a prática desses atos. não puderem exprimir vontade (art. CC8) (Já que casamento é negócio jurídico). sendo essa a idade núbil para homens e mulheres (art. 1. não puderem exprimir sua vontade.520. 3ª Princípio da comunhão plena de vida ou comunhão indivisa (artigo 1511 do CC): o casamento gera uma união de corpos.521. não se confundindo com os impedimentos que são específicos (legitimação capacidade especial para negocio jurídico). 1. enquanto não atingida a maioridade civil. 3. exigindo-se autorização de ambos os pais. § 1o A união estável não se constituirá se ocorrerem os impedimentos do art. por causa transitória ou definitiva. 1. sem discernimento para a prática dos atos da vida civil (art. São incapazes para o casamento: 1. aplica-se o disposto no parágrafo único do art.631. para evitar imposição ou cumprimento de pena criminal ou em caso de gravidez. mesmo por causa transitória.os que. II . para evitar imposição ou cumprimento de pena criminal ou em caso de gravidez. ou de seus representantes legais. 8 Art. 3º. 4 . CC9). por enfermidade ou deficiência mental. 9 III . quanto aos menores de 16 anos. Pode acontecer as duas hipóteses ao mesmo tempo: estupro com violência presumida e resultado gravidez. 2. esse princípio não é absoluto diante da existência dos impedimentos matrimoniais (artigos 1521 do CC). 4. CC7).517. Prevê o art.os que. 3º. O homem e a mulher com dezesseis anos podem casar. § 2o As causas suspensivas do art. será permitido o seu casamento por autorização judicial. Menores de 16 anos. 1. mentes. será permitido o casamento de quem ainda não alcançou a idade núbil (art. 1. 7 Art.os menores de dezesseis anos. não se aplicando a incidência do inciso VI no caso de a pessoa casada se achar separada de fato ou judicialmente. Excepcionalmente. Se houver divergência entre os pais.2 Casamento. Enfermos e deficientes mentais.517. II.

procede-se mediante ação penal pública condicionada à representação. A ação penal era privada e o casamento funcionava como forma de perdão tácito do crime. 12 Art. Obs: Posição do prof.reclusão. não tem o necessário discernimento para a prática do ato. Quanto aos impedimentos matrimoniais (casos específicos) houve uma alteração estrutural. 11 5 . por enfermidade ou deficiência mental. das hipóteses legais confrontando-se o CC/16 com o CC/02. não pode oferecer resistência. estaria revogado na menção à pena criminal (Maria Berenice Dias).reclusão. Entretanto para outra corrente não haveria revogação sendo possível casamento se menor demonstrasse discernimento para tanto. o Direito Penal prevalece sobre o Direito de Família. tratando o artigo 217-A do CP11 do estupro de vulnerável. Nos crimes definidos nos Capítulos I e II deste Título. por qualquer outra causa. Tartuce: Conceito de vulnerável não pode ser flexibilizado. Já o conceito de hipossuficiente pode ser flexibilizado. Ter conjunção carnal ou praticar outro ato libidinoso com menor de 14 (catorze) anos: Pena . 217-A.015/2009 a segunda corrente foi vencida. Procede-se. § 4o Se da conduta resulta morte: Pena . mediante ação penal pública incondicionada se a vítima é menor de 18 (dezoito) anos ou pessoa vulnerável.ANUAL ESTADUAL MATUTINO CENTRO DIREITO CIVIL PROF: TARTUCE DATA: 24/02/2010 Assim parte da doutrina já entendia que o artigo 1520 do CC.reclusão. Com a Lei 12. § 1o Incorre na mesma pena quem pratica as ações descritas no caput com alguém que. não pode ser discutido. conforme tabela a seguir: Estupro de vulnerável Art. entretanto. Esses conceitos foram explorados inclusive na CPI da pedofilia. § 2o (VETADO) § 3o Se da conduta resulta lesão corporal de natureza grave: Pena . ou que. 225. pois. de 8 (oito) a 15 (quinze) anos. Parágrafo único. o artigo 225 parágrafo único do CP12 passou a prever que a ação penal é pública incondicionada. de 10 (dez) a 20 (vinte) anos. de 12 (doze) a 30 (trinta) anos. portanto o casamento não é possível.

De três tipos de impedimentos o Código de 2002 reproduziu apenas um tipo.de quem não completou a idade mínima para casar.do menor em idade núbil. Os impedimentos matrimoniais podem ser conhecidos de ofício por qualquer juiz (de paz.do incapaz de consentir ou manifestar. Causas suspensivas do 14 casamento artigo 1523 . Equipara-se à revogação a invalidade do mandato judicialmente decretada. É permitido aos nubentes solicitar ao juiz que não lhes sejam aplicadas as causas suspensivas previstas nos incisos I. Se o juiz. Art. envolvem ordem pública e. irmãos. para o excônjuge e para a pessoa tutelada ou curatelada. ascendentes. provando-se a inexistência de prejuízo. enquanto não cessar a tutela ou curatela. portanto podem ser opostos até a celebração do casamento por qualquer pessoa capaz (artigo 1522 do CC16). quando não autorizado por seu representante legal.556 a 1. por qualquer pessoa capaz. III . tiver conhecimento da existência de algum impedimento. enquanto não fizer inventário dos bens do casal e der partilha aos herdeiros. ou inexistência de gravidez.por vício da vontade. ou da dissolução da sociedade conjugal. (Princípio da Operabilidade) a) Impedimentos Matrimoniais artigo 1521 do CC Geram a nulidade absoluta do casamento (artigo 1548 do CC15) além de impedirem a sua celebração.pelo enfermo mental sem o necessário discernimento para os atos da vida civil.por incompetência da autoridade celebrante.550. enquanto não houver sido homologada ou decidida a partilha dos bens do casal. Os impedimentos podem ser opostos. Impedimentos dirimentes relativos ou de ordem privada. uma modalidade em um trabalho de facilitação.548. cunhados ou sobrinhos. no caso do inciso II. será obrigado a declará-lo 13 6 .523. 16 Art. 1. É nulo o casamento contraído: I . Impedimentos impedientes. nos termos dos arts. VI .a viúva. 1. 15 Art. até dez meses depois do começo da viuvez. respectivamente. Parágrafo único.558. V . Não devem casar: I . III e IV deste artigo. a nubente deverá provar nascimento de filho. ou o oficial de registro.522. e não estiverem saldadas as respectivas contas. 1. II . É anulável o casamento: I . sem que ele ou o outro contraente soubesse da revogação do mandato. IV . o consentimento.o divorciado. Causas de anulabilidade artigo 155013. 1. que geravam o casamento irregular.o tutor ou o curador e os seus descendentes. IV . com a pessoa tutelada ou curatelada. na fluência do prazo. Código Civil de 2002 Impedimentos matrimoniais artigo 1521. até o momento da celebração do casamento. III . e não sobrevindo coabitação entre os cônjuges. para o herdeiro. ou a mulher cujo casamento se desfez por ser nulo ou ter sido anulado.por infringência de impedimento. Parágrafo único. II . Parágrafo único. 14 Art. 1. de modo inequívoco.ANUAL ESTADUAL MATUTINO CENTRO DIREITO CIVIL PROF: TARTUCE DATA: 24/02/2010 Código Civil de 1916 Impedimentos dirimentes absolutos de ordem pública.realizado pelo mandatário. II .o viúvo ou a viúva que tiver filho do cônjuge falecido.

para impedir o casamento (artigo 1522 parágrafo único do CC).ANUAL ESTADUAL MATUTINO CENTRO DIREITO CIVIL PROF: TARTUCE DATA: 24/02/2010 de direito) ou oficial de registro civil. razão moral evitando-se o incesto. Não podem casar: a1) ascendentes e descendentes até o infinito (impedimento decorrente de parentesco consangüíneo) duas são as razões desse impedimento. 7 . razão biológica evitando-se problemas genéticos na prole (eugenia. evitar tal expressão por ser uma expressão nazi-facista).