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JÚLIO CÉSAR FERNANDES DE FREITAS CPI — Direito das minorias “Existe, no sistema político-jurídico brasileiro, um verdadeiro estatuto

constitucional das minorias parlamentares, cujas prerrogativas – notadamente aquelas pertinentes ao direito de investigar , devem ser preservadas pelo Poder Judiciário, a quem incumbe proclamar o alto significado que assume, para o regime democrático, a essencialidade da proteção jurisdicional a ser dispensada ao direito de oposição, analisado na perspectiva da prática republicana das instituições parlamentares. A norma inscrita no art. 58, § 3º, da Constituição da República destina-se a ensejar a participação ativa das minorias parlamentares no processo de investigação legislativa,sem que, para tanto, mostre-se necessária a concordância das agremiações que compõem a maioria parlamentar. O direito de oposição, especialmente aquele reconhecido às minorias legislativas, para que não se transforme numa prerrogativa constitucional inconseqüente, há de ser aparelhado com instrumentos de atuação que viabilizem a sua prática efetiva e concreta no âmbito de cada uma das Casas do Congresso Nacional. A maioria legislativa não pode frustrar o exercício, pelos grupos minoritários que atuam no Congresso Nacional, do direito público subjetivo que lhes é assegurado pelo art. 58, § 3º, da Constituição e que lhes confere a prerrogativa de ver efetivamente instaurada a investigação parlamentar, por período certo, sobre fato determinado. Precedentes: MS 24.847/DF, rel. min. Celso de Mello. A ofensa ao direito das minorias parlamentares constitui, em essência, um desrespeito ao direito do próprio povo, que também é representado pelos grupos minoritários que atuam nas Casas do Congresso Nacional. (...) O requisito constitucional concernente à observância de 1/3 (um terço), no mínimo, para criação de determinada CPI (CF, art. 58, § 3º), refere-se à subscrição do requerimento de instauração da investigação parlamentar, que traduz exigência a ser aferida no momento em que protocolado o pedido junto à Mesa da Casa legislativa, tanto que, ‘depois de sua apresentação à Mesa’, consoante prescreve o próprio Regimento Interno da Câmara dos Deputados(art. 102, § 4º), não mais se revelará possível a retirada de qualquer assinatura. Preenchidos os requisitos constitucionais (CF, art. 58, § 3º), impõe-se a criação da Comissão Parlamentar de Inquérito, que não depende, por isso mesmo, da vontade aquiescente da maioria legislativa. Atendidas tais exigências (CF, art. 58, § 3º), cumpre, ao Presidente da Casa legislativa, adotar os procedimentos subseqüentes e necessários à efetiva instalação da CPI, não se revestindo de legitimação constitucional o ato que busca submeter, ao Plenário da Casa legislativa, quer por intermédio de formulação de Questão de Ordem, quer mediante interposição de recurso ou utilização de qualquer outro meio regimental, a criação de qualquer comissão parlamentar de inquérito. A prerrogativa institucional de investigar, deferida ao Parlamento (especialmente aos grupos minoritários que atuam no âmbito dos corpos legislativos), não pode ser comprometida pelo bloco majoritário existente no Congresso Nacional, que não dispõe de qualquer parcela de poder para deslocar, para o Plenário das Casas legislativas, a decisão final sobre a efetiva criação de determinada CPI, sob pena de frustrar e nulificar, de modo inaceitável e arbitrário, o exercício, pelo Legislativo (e pelas minorias que o integram), do poder constitucional de fiscalizar e de investigar o comportamento dos órgãos, agentes e instituições do Estado, notadamente daqueles que se estruturam na esfera orgânica do Poder Executivo. A rejeição de ato

” (MS 26. envolvendo um Boeing 737-800.)’ (fls. julgamento em 25-4-2007. min. portanto. pelo Plenário da Câmara dos Deputados. notadamente quando os atos do Parlamento transgridem direitos. que objetiva instituir Comissão Parlamentar de Inquérito destinada a ‘investigar as causas. da América Excel Aire. É importante reconhecer. Plenário. da superveniência do acolhimento. constitui direito insuprimível dos cidadãos da República. que o inquérito parlamentar pretendido pelas minorias legislativas que atuam na Câmara dos Deputados. finalmente. por isso mesmo.441.. 14/2007.) e um jato Legacy. que. proferida em sede de recurso interposto por Líder de partido político que compõe a maioria congressual. em sede recursal. prerrogativas e garantias assegurados pela Constituição da República. conseqüências e responsáveis pela crise do sis ema de tráfego aéreo brasileiro. como se sabe. 1986. de modo inaceitável. o próprio significado do regime democrático. notadamente. 17v. consideradas as razões que venho de expor. ainda que resultantes de votações unânimes ou majoritárias. em face. espaço possível reservado ao mistério. defiro o pedido de medida liminar. até mesmo. Tenho para mim. não há. não tem o condão de justificar a frustração do direito de investigar que a própria Constituição da República outorga às minorias que atuam nas Casas do Congresso Nacional. Paz e Terra). teria o condão de justificar a frustração do direito de investigar que a própria Constituição da República reconhece às minorias parlamentares. mais do que representar prerrogativa desses grupos minoritários. até o julgamento final do presente mandado de segurança. grifei). pois. nos modelos políticos que consagram a democracia. de quem não pode ser subtraído o conhecimento da verdade e o pleno esclarecimento dos fatos que tanto prejudicam os superiores interesses da coletividade. da Gol (vôo 1907. que a rejeição do ato de criação da CPI. pelo Plenário da Câmara dos Deputados. do Senhor Líder do Partidos dos Trabalhadores. levam-me a reconhecer configurado o requisito da plausibilidade jurídica da pretensão exposta pelos ora impetrantes. deliberações parlamentares majoritárias (ou. unânimes) não se qualificam como fatores de legitimação de atos eventualmente inconstitucionais que delas resultem. se tal fosse possível. vulnerando. com especial atenção para o trágico acidente ocorrido em 29-9-2006. cautelarmente. o cidadão tem direito à informação. ainda que por expressiva votação majoritária. .de criação de Comissão Parlamentar de Inquérito. rel. não se revestem de autoridade suficiente para convalidar os vícios gravíssimos da inconstitucionalidade. e tendo em consideração as razões expostas. em face das gravíssimas conseqüências que vêm afetando a regularidade do sistema de tráfego aéreo neste País. 01/2007. a perversão das Instituições. considerado o próprio significado do regime democrático. por outro lado. por expressiva maioria. em lição magistral (O Futuro da Democracia. no regime democrático. A presente decisão. Celso de Mello. necessárias à análise do pedido de medida cautelar. Em uma palavra: deliberações parlamentares. desencadeada após o acidente aéreo ocorrido no dia 29 de setembro de 2006. com mais de uma centena de vítimas (. DJE de 18-12-2009. para determinar. a vontade de um dos Poderes constituído culminaria por subverter a supremacia da Constituição. que o requisito pertinente ao periculum in mora mostra-se evidenciado na espécie. É que. consoante adverte Norberto Bobbio. Todas as considerações que venho de fazer. eis que nada pode justificar.) “Nem se diga. do Recurso n. Cumpre registrar. pelo Plenário da Câmara dos Deputados. o imediato desarquivamento do Requerimento n. limita-se a paralisar os efeitos da deliberação plenária da Câmara dos Deputados proferida na Sessão Extraordinária de 21-3-2007. Sendo assim. de que resultou o arquivamento do pedido de criação e instauração da Comissão Parlamentar de Inquérito em causa. pois..

não se revelar constitucionalmente viável. inciso I. rel. art. Na realidade. Celso de Mello. § 2º. Comissão Parlamentar de Inquérito. Não há razão para a submissão do requerimento de constituição de CPI a qualquer órgão da Assembléia Legislativa. Deliberação do Plenário da assembléia legislativa. cuja publicação – referida no art. A garantia da instalação da CPI independe de deliberação plenária.) "Ação direta de inconstitucionalidade. portanto. decisão monocrática. pelas minorias legislativas. do Senado ou da Assembléia Legislativa. Plenário. em nosso sistema político-jurídico. até final decisão do Supremo Tribunal Federal. rel. Pedido julgado procedente para declarar inconstitucionais o trecho ‘só será submetido à discussão e votação decorridas 24 horas de sua apresentação. esta medida liminar. min. constante do § 1º do artigo 34. A garantia assegurada a um terço dos membros da Câmara ou do Senado estende-se aos membros das assembléias legislativas estaduais – garantia das minorias. e’. da Constituição do Brasil. Eros Grau. deferir ‘a instalação e o funcionamento provisórios da CPI (. que se tornem irreversíveis as conseqüências resultantes da desconstituição do Ato da Presidência dessa Casa do Congresso Nacional que havia reconhecido a criação de mencionada CPI. Observância compulsória pelos estados-membros. DJ de 20-4-2007. a esta Suprema Corte. min. do direito constitucional à investigação parlamentar (CF. 58. estritamente." (MS 26. até final julgamento do Supremo Tribunal Federal. porém ao próprio parlamento o seu destino. do Regimento Interno da Assembléia Legislativa do Estado de São Paulo. pelo Supremo Tribunal Federal. por isso mesmo.)’ (fls..441-MC. O Parlamento . e o inciso I do artigo 170. § 1º. dependerá da eventual concessão. Criação. Requisito que não encontra respaldo no texto da Constituição do Brasil. § 3º. Criação de Comissão Parlamentar de Inquérito: requisitos constitucionais. Assinalo. 35. obsta. § 3º) – mandado de segurança concedido. além de realçar a densidade jurídica do pedido formulado pelos impetrantes. do Regimento Interno da Câmara dos Deputados – deverá aguardar o julgamento final desta ação de mandado de segurança. A Constituição do Brasil assegura a um terço dos membros da Câmara dos Deputados e a um terço dos membros do Senado Federal a criação da comissão parlamentar de inquérito. julgamento em 29-3-2007. Os requisitos indispensáveis à criação das comissões parlamentares de inquérito estão dispostos. desse modo. É que não existem. deixando. mediante simples provimento de caráter liminar. Simetria.impedindo. DJ de 9-4. seja da Câmara. nem o funcionamento precário de Comissão Parlamentar de Inquérito. por necessário.2007. subsistente o Ato da Presidência em questão (que entendera válida a criação da CPI em causa). Precedentes. Mantém-se. Violação do artigo 58. cuja instalação. em ordem a definir a extensão da presente medida cautelar.. julgamento em 1º-8-2006. no âmbito do Congresso Nacional.) "Comissão Parlamentar de Inquérito – direito de oposição – prerrogativa das minorias parlamentares – expressão do postulado democrático – direito impregnado de estatura constitucional – instauração de inquérito parlamentar e composição da respectiva CPI – tema que extravasa os limites interna corporis das casas legislativas – viabilidade do controle jurisdicional – impossibilidade de a maioria parlamentar frustrar." (ADI 3.619. Artigos 34. e 170. que se tornem definitivos e irreversíveis os efeitos (juridicamente negativos) decorrentes da deliberação plenária da Câmara dos Deputados. O modelo federal de criação e instauração das comissões parlamentares de inquérito constitui matéria a ser compulsoriamente observada pelas casas legislativas estaduais. o exercício. nem a instituição provisória. 11). no artigo 58 da CB/88. deste mandado de segurança. ambos da Consolidação do Regimento Interno da Assembléia Legislativa do Estado de São Paulo.

adotar os procedimentos subseqüentes e necessários à efetiva instalação da CPI. julgamento em 22-6-2005. que se revela possível. ainda que já instaurados. Plenário. o exercício. nem mesmo da maioria de alguns grupos políticos. está vinculada. não só o poder de representação política e a competência para legislar. de modo inaceitável e arbitrário. art. “(. Isso significa que democracia não é o governo da maioria das elites. ao Presidente da Casa legislativa.” (MS 24. no inquérito parlamentar. DJ de 14-12-2007.. MS 24. Já nos acostumamos a ouvir que democracia é governo da maioria. para viabilizar-se no âmbito das Casas legislativas. são aqueles que efetivamente fazem a lei mas nem sempre defendem os interesses da população. julgamento em 22-6-2005. assim define democracia direta: três lobos e uma ovelha votam em quem vai ser o jantar. Democracia não é apenas o governo da maioria. cabe lembrar o dito que. DJ 4-8-2006). Atendidas tais exigências (CF. MS 24. § 3º) – tem. Celso de Mello. nem da maioria das corporações. Plenário. inquéritos policiais ou processos judiciais. que traduz atribuição inerente à própria essência da instituição parlamentar. julgamento em 7-122007. culmine por frustrar e nulificar. A democracia legítima não é despótica. A democracia moderna é mais do que apenas uma vontade majoritária. min. min. cumpre. decisão monocrática. O direito de investigar que a Constituição da República atribuiu ao Congresso Nacional e às Casas que o compõem (art. e sim da maioria do povo. do poder constitucional de fiscalização e de investigação do comportamento dos órgãos. 58. o instrumento mais expressivo de concretização desse relevantíssimo encargo constitucional. unicamente. Plenário. de modo taxativo.848 e MS 24. também. o mandato para fiscalizar os órgãos e agentes do Estado. rel. deferida ao Parlamento não pode ser comprometida pelo bloco majoritário existente no Congresso Nacional e que. rel.847.. A instauração do inquérito parlamentar. muitas vezes.849. 58.. min. rel. Mas é mais que isso. DJ 13-10-2006. A propósito. com humor.) Legitimidade passiva ad causam do Presidente do Senado Federal – autoridade dotada de poderes para viabilizar a composição das comissões parlamentares de inquérito. que. no texto da Carta Política: (. agentes e instituições do Estado. pois mesmo a maioria não pode escravizar a minoria.831. por efeito de sua intencional recusa em indicar membros para determinada comissão de inquérito parlamentar (ainda que fundada em razões de estrita conveniência político-partidária). os limites materiais e as exigências formais estabelecidas pela Constituição Federal. MS 24. DJ 29-9-2006. O estatuto constitucional das minorias parlamentares: a participação ativa. a quem assiste o direito de fiscalizar o exercício do poder. em torno dos mesmos fatos.405.recebeu dos cidadãos. nem da maioria dos grupos econômicos.845. Celso de Mello. nesse processo de fiscalização.. No mesmo sentido: SS 3.846. rel. min. no Congresso Nacional. dado o seu caráter autônomo (RTJ 177/229 – RTJ 180/191-193). § 3º). Ellen Gracie. Celso de Mello. dos grupos minoritários. notadamente daqueles que se estruturam na esfera orgânica do Poder Executivo. não lhe cabendo qualquer apreciação de mérito sobre o objeto da investigação parlamentar. e democracia representativa: as ovelhas elegem quais serão os lobos que vão escolher quem será o jantar. julgamento em 22-6-2005. à satisfação de três (03) exigências definidas. respeitados. mas. MS 24. A prerrogativa institucional de investigar.). pelo Legislativo (e pelas minorias que o integram). É o governo .

que se faz de acordo com a vontade da maioria do povo. mas desde que respeitados os direitos da minoria. colhida de maneira direta (plebiscito. eleições) ou de maneira indireta (pelo sistema representativo). .