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",aprender, açoes nobres de homens nobres

13¯
"
Basta, pois, quanto a amizade. Nossa próxima tareía sera discutir o prazer.
LIVRO X
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Depois destes assuntos de·emos tal·ez passar a discussao do prazer. Com
eíeito, julga-se que ele esta intimamente relacionado com a nossa natureza humana,
e por essa razao, ao educar os jo·ens, nós os go·ernamos com os lemes do prazer e
da dor. L também se pensa que comprazer-se com as coisas apropriadas e detestar
as que se de·e tem a maior iníluência possí·el sobre o carater ·irtuoso. Porque
essas coisas nos acompanham durante a ·ida inteira, com um peso e um poder
próprios tanto no que toca a ·irtude como a ·ida íeliz, ja que os homens escolhem
o que é agrada·el e e·itam o que é doloroso, e sao elas, segundo parece, as que
menos con·iria omitir em nossa in·estigaçao, especialmente por serem objeto de
muitas contro·érsias.
Alguns, com eíeito, dizem que o prazer é o bem, enquanto outros aíirmam,
pelo contrario, que ele é absolutamente mau - uns, sem dú·ida, na con·icçao de
que essa é a ·erdade, e outros julgando que tera melhor eíeito em nossa ·ida
denunciar o prazer como coisa ma, ainda que ele nao o seja. Porquanto a maioria
das pessoas ,pensam eles, se inclinam para o prazer e sao suas escra·as, e por isso
de·eriam ser conduzidas na direçao contraria, a íim de alcançarem o estado
intermediario.
Mas isso, seguramente, nao é correto. Com eíeito, os argumentos em torno
de sentimentos e açoes merecem menos coníiança do que os íatos e assim quando
entram em conílito com os íatos da percepçao, eles sao desprezados, ao mesmo
tempo que desacreditam a própria ·erdade: se um homem que diíama o prazer é
surpreendido uma ·ez a busca-lo, isso parece pro·ar que ele merece ser preíerido a
todas as coisas, porque a maioria das pessoas nao sabe íazer distinçoes.

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Teógnis, 35, (N. do T.)
Os argumentos ·erdadeiros aíiguram-se, pois, extremamente úteis, nao só
para a ciência mas para a própria ·ida, porque, como se harmonizam com os íatos,
nós lhes damos crédito, e destarte estimulam os que os compreendem a ·i·er de
acordo com eles.
Quanto a essas questoes, basta. Passemos agora em re·ista as opinioes que
têm sido expressas a respeito do prazer.
2
Ludoxo pensa·a que o prazer é o bem porque ·ia todos os seres, tanto
racionais como irracionais, tender para ele, e porque em todas as coisas aquilo para
que se dirige a escolha é excelente, e o mais ·isado pela escolha é o maior dos bens.
L assim, o íato de todas as coisas se mo·erem para o mesmo objeto indica·a que
para todas era esse o maior dos bens ,porque cada coisa, argumenta·a Ludoxo,
encontra o seu bem próprio, da mesma íorma que encontra o seu alimento
adequado,, e aquilo que é bom para todas as coisas e a que todas elas ·isam é o
bem por excelência.
Seus argumentos íoram aceitos nao tanto por si mesmos como pela
excelência do seu carater. Passa·a por ser um homem de nota·el autodomínio, e
por isso se julga·a que ele nao aíirmasse tais coisas como amigo do prazer, mas
porque essa era a ·erdade. Acredita·a Ludoxo quê um estudo do contrario do
prazer nao conduzia com menos e·idência a mesma conclusao: assim como a dor é
em si mesma um objeto de a·ersao para todas as coisas, o seu contrario de·e ser
um objeto de preíerência. Ora, o mais genuíno objeto de preíerência é aquilo que
escolhemos por si mesmo e nao por causa de outra coisa ou com ·istas nela, e o
prazer é reconhecidamente dessa natureza, pois que ninguém indaga com que íim o
sente, implicando destarte que ele é em si mesmo um objeto de escolha. Além
disso, Ludoxo argumenta·a que o prazer, quando acrescentado a um bem qualquer,
como, por exemplo, a açao justa ou temperante, o torna mais digno de escolha, e
que o bem só pode ser acrescido por si mesmo.
Lste argumento parece mostrar que ele é um dos bens, mas que nao o é mais
do que um outro qualquer, pois qualquer bem é mais digno de escolha quando
acompanhado de um outro do que quando sozinho. L é mesmo por um argumento
desta espécie que Platao
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demonstra !"#$ %&'$ o bem o prazer. Diz ele que a ·ida
aprazí·el é mais deseja·el quando acompanhada de sabedoria do que sem ela, e
que, se a mistura é melhor, o prazer nao é o bem, porque o bem nao pode tornar-se
mais deseja·el pela adiçao do que quer que seja. Ora, é claro que nao só o prazer,
mas nenhuma outra coisa pode ser o bem se a adiçao de uma das coisas que sao
boas em si mesmas a torna mais deseja·el. Que é, entao, que satisíaz este critério, e
em que, ao mesmo tempo, podemos participar· L alguma coisa dessa espécie que
estamos procurando.
la quem objete a isso dizendo que o íim ·isado por todas as coisas nao é
necessariamente bom, mas podemos estar certos de que tais pessoas nao íazem
mais do que disparatar. Porquanto nós dizemos que aquilo que todos pensam é a
·erdade, e o homem que atacar essa crença nao tera outra coisa mais digna de
crédito para sustentar em lugar dela. Se íossem criaturas irracionais que desejassem
as coisas de que íalamos, tal·ez hou·esse alguma ·erdade no que eles dizem: mas,
se seres inteligentes também as desejam, que sentido pode ter tal opiniao· Sem
embargo, tal·ez mesmo nas criaturas iníeriores exista algum bem natural mais íorte
do que elas e que a, oriente para o bem que lhes é próprio.
1ampouco parece correto o argumento sobre o contrario do prazer Dizem
que, se a dor é um mal, nao se segue daí que o prazer seja um bem: porque um mal
se opoe a outro c ambos ao mesmo tempo se opoem ao estado neutro. Ora, isto é
bastante certo, mas nao se aplica as coisas de que estamos tratando. Porque, se
tanta o prazer como a dor pertencessem i classe dos males, ambos de·iam ser
objetos de a·ersao, ao passo que. se pertencessem a classe das coisas neutras,
nenhum seria objeto de a·ersao ou ambos o seriam em igual grau. Mas a ·erdade

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Filebo, 60. (N. do T.)
e·idente é que os homem e·itam uma como um mal e escolhem o outro como um
bem. Lssa de·e ser, portanto, a natureza da oposiçao entre os dois.
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L, por outro lado, se o prazer nao é uma qualidade, também nao se conclui
daí que ele nao seja um bem, porque tampouco sao qualidades a ati·idade ·irtuosa,
nem a íelicidade. Dizem, no entanto, que o bem é determinado, enquanto o prazer
é indeterminado, ·isto admitir graus. Ora, se é pela obser·açao do sentimento de
prazer que pensam assim, o mesmo sera ·erdadeiro da justiça e das outras ·irtudes,
no tocante as quais dizemos sem hesitar que as pessoas de um certo carater o sao
mais ou menos e procedem mais ou menos de acordo com essas ·irtudes,
porquanto uma pessoa pode ser mais ou menos corajosa, e também é possí·el agir
de maneira mais ou menos justa ou temperante. Mas, se o juízo desses pensadores
se baseia nos di·ersos prazeres, seguramente eles nao estao apontando a causa
·erdadeira, se de íato alguns prazeres sao estremes e outros, mesclados. L, por
outro lado, se a saúde admite graus sem ser indeterminada, por que nao sucederia o
mesmo com o prazer· A mesma proporçao nao é encontrada em todas as coisas,
nem uma determinada proporçao sempre na mesma coisa: pode ela aírouxar e, sem
embargo, persistir até um certo ponto, e pode também diíerir em grau. Por
conseguinte, o caso do prazer também pode ser dessa espécie.
Por outro lado, eles alegam
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que o bem é períeito, ao passo que o
mo·imento e as geraçoes sao imperíeitos, e procuram mostrar que o prazer é um
mo·imento e uma geraçao. Mas nem mesmo isso parece ser ·erdade. Com eíeito,
pensa-se que a rapidez e a lentidao sao características de todo e qualquer
mo·imento, e se um mo·imento como o dos céus nao tem rapidez nem lentidao
em si mesmo, tem-nas em relaçao a outra coisa, mas do prazer nada disso é
·erdadeiro. Porquanto, se é certo que podemos (#)*'+,&'-!#%$ depressa assim como
podemos encolerizar-nos depressa, nao é possí·el %&!./'$ *'+,&'$ depressa, embora se
possa andar, crescer, etc., rapidamente. Lm outras pala·ras: podemos passar

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Platão, Filebo, 53-54. (N. do T.)
depressa ou lentamente a um estado de prazer, porém nao mostrar rapidamente a
ati·idade do prazer, isto é, sentir prazer.
Ainda mais: em que sentido pode ele ser uma geraçao· Nao se crê que uma
coisa qualquer possa pro·ir de outra coisa qualquer, mas que uma coisa se encontra
como que dissol·ida naquela de que pro·ém, e a dor seria a destruiçao dessa coisa
cuja geraçao seria o prazer.
Dizem, também
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, que a dor é a ausência daquilo que é coníorme a
natureza, e que o prazer é o preenchimento dessa íalta. Mas tais sensaçoes sao
corporais. Se, pois, o prazer é o preenchimento daquilo que esta de acordo com a
natureza, o que sente prazer sera aquilo em que ocorre o preenchimento da íalta, a
saber, o corpo. Mas nao se acredita que seja assim, portanto, o preenchimento nao
é prazer, embora possamos sentir prazer quando ele ocorre, assim como
sentiríamos dor ao ser operados.
Lsta doutrina parece basear-se nas dores e prazeres associados a nutriçao, e
no íato de que as pessoas que pre·iamente soíreram míngua de alimentos e esta
lhes íoi dolorosa sentem prazer ao ser preenchida a íalta. Mas isso nao acontece
com todos os prazeres: os prazeres do aprender e, entre os que nos proporcionam
os sentidos, os do olíato, e também muitos sons e sensaçoes ·isuais, além das
recordaçoes e das esperanças, nao pressupoem dor. De onde, pois, se gerariam
estes· Nao ha·ia, no seu caso, nenhuma íalta a preencher.
Lm resposta aos que argumentam com os prazeres ·ergonhosos, podemos
dizer que esses nao sao agrada·eis. Pelo íato de certas coisas agradarem a pessoas
de constituiçao ·iciosa, nao de·emos supor que elas também sejam agrada·eis a
outros, assim como nao raciocinamos dessa íorma a respeito das coisas que sao
sauda·eis, doces ou amargas para os doentes, nem atribuímos a brancura as que
parecem brancas aos que soírem dos olhos. Ou, entao, poder-se-ia responder que
os prazeres sao deseja·eis, porém nao os pro·indos dessas íontes, assim como a
riqueza é deseja·el, porém nao como recompensa da traiçao, e como a saúde nao o

140
Ibid., 31-32,42. (N. do T.)
é a custa de comer toda e qualquer coisa. Ou tal·ez os prazeres diíiram em espécie,
pois os que pro·êm de íontes nobres sao diíerentes daqueles cujas íontes sao ·is, e
nao se pode sentir o prazer do homem justo sem ser justo, nem os prazeres do
músico sem ser músico, e assim por diante.
L também o íato de um amigo ser diíerente de um adulador parece mostrar
com toda a e·idência que o prazer nao é um bem ou que os prazeres diíerem em
espécie, porque se acredita que um busca o nosso con·í·io com a mira no bem e o
outro ·isando ao nosso prazer, e um é censurado pela sua conduta, enquanto o
outro é lou·ado, partindo-se do princípio de que os dois buscam o nosso con·í·io
com íinalidades diíerentes. Além disso, ninguém preíeriria ·i·er a ·ida inteira com
o intelecto de uma criança, por mais prazer que lhe proporcionassem as coisas que
agradam as crianças, nem comprazer-se na pratica de algum ato proíundamente
·ergonhoso, ainda que jamais ti·esse de soírer em conseqüência.
Por outro lado, ha muitas coisas que de·emos desejar com todas as ·eras,
ainda que nao nos tragam nenhum prazer, como a ·ista, a memória, a ciência, a
posse das ·irtudes. Nao íaz diíerença que essas coisas sejam necessariamente
acompanhadas de prazer: de·eríamos escolhê-las mesmo que nenhum prazer
resultasse daí.
Parece claro, portanto, que nem o prazer é o bem, nem todo prazer é
deseja·el, e que alguns prazeres sao realmente deseja·eis por si mesmos, diíerindo
eles dos outros em espécie ou quanto as suas íontes. Quanto as opinioes correntes
a respeito do prazer e da dor, é suíiciente o que dissemos.
4
Ver-se-a com mais clareza o que seja o prazer, ou que espécie de coisa seja,
se tornarmos a examinar a questao partindo do começo.
A sensaçao ·isual parece ser completa em todos os momentos, pois nao lhe
íalta nada que, surgindo posteriormente, ·enha completar-lhe a íorma, e o prazer
também parece ser dessa natureza. Porque ele é um todo, e jamais se encontra um
prazer cuja íorma seja completada pelo seu prolongamento. Pela mesma razao, nao
é ele um mo·imento, pois todo mo·imento ,o de construir, por exemplo, requer
tempo, íaz-se com ·istas num íim, e íica completo quando realizou a coisa ·isada.
Só íica completo, por conseguinte, quando se encara o tempo na sua totalidade ou
no momento íinal. Lm suas partes e durante o tempo que estas ocupam, todos os
mo·imentos sao incompletos e diíerem em espécie do mo·imento inteiro e uns
dos outros. Com eíeito, o ajustamento das pedras umas as outras diíere da
caneladura da coluna, e ambas as coisas diíerem da construçao do templo. L a
construçao é completa ,pois nada lhe íalta com relaçao ao íim que se tinha em
·ista,, mas o preparo da base e do trígliío é incompleto, por ser a produçao de uma
parte apenas. Diíerem eles, portanto, em espécie, e em nenhum momento dado é
possí·el encontrar um mo·imento completo quanto a íorma, mas só no tempo
encarado em sua totalidade.
O mesmo se pode dizer no tocante ao andar e a todos os outros
mo·imentos. Porque, se a locomoçao é um mo·imento de um lugar para outro,
também nela existem diíerenças de espécie - ·oar, caminhar, saltar, etc. L nao é
só isso, senao que no próprio caminhar existem diíerenças de espécie, porque o
"donde" e o "para onde" nao sao os mesmos na pista de corridas considerada como
um todo e em cada uma de suas partes, nem nas di·ersas partes, e tampouco é a
mesma coisa percorrer esta linha e aquela, pois o que se percorre nao é apenas uma
linha, mas uma linha que se encontra em determinado lugar, e o lugar desta é
diíerente do lugar daquela.
Lm outra obra
141
discutimos o mo·imento com precisao, mas parece que ele
nao é completo em todo e qualquer momento, e os numerosos mo·imentos sao
incompletos e diíerentes em espécie, ja que o "donde" e o "para onde" dao a cada
um a sua íorma própria. Mas quanto ao prazer, sua íorma é completa em todo e
qualquer momento. L e·idente, pois, que o prazer e o mo·imento diíerem um do
outro, e o prazer de·e ser uma das coisas que sao inteiras e completas. Isso também

141
Física, VI-VIII. (N. do T.)
é indicado pelo íato de nao ser possí·el mo·er-se senao dentro do tempo, mas
sentir prazer, sim, porquanto aquilo que ocorre num momento é um todo.
Lstas consideraçoes deixam bem claro, pois, que nao têm razao os
pensadores segundo os quais ha um mo·imento ou uma geraçao de prazer, pois
que mo·imento e geraçao nao podem ser atribuídos a todas as coisas, mas apenas
as que sao di·isí·eis e nao constituem "todos". Nao ha geraçao da sensaçao ·isual,
nem de um ponto, nem de uma unidade, nem qualquer destas coisas é um
mo·imento ou uma geraçao. Logo, tampouco ha mo·imento ou geraçao no prazer,
·isto que ele é um todo.
Ja que cada sentido é ati·o em relaçao ao seu objeto, e um sentido em
condiçoes de higidez age de maneira períeita em relaçao aos mais belos dentre os
seus objetos ,pois o ideal da ati·idade períeita parece ser desta natureza, e tanto íaz
dizer que ela própria é ati·a como o órgao em que reside,, segue-se que, no tocante
a cada sentido, a melhor ati·idade é a do órgao em melhores condiçoes com relaçao
aos mais belos de seus objetos.
L essa ati·idade sera a mais completa e a mais aprazí·el, porque, existindo
embora prazer para cada sentido, e nao menos para o pensamento e a
contemplaçao, o mais completo é o mais aprazí·el, e o de um órgao em boas
condiçoes com relaçao aos mais nobres de seus objetos é o mais completo, e o
prazer completa a ati·idade.
Lntretanto, ele nao a completa da mesma maneira que a combinaçao de
objeto e sentido, ambos bons, assim como a saúde e o médico nao sao na mesma
acepçao as causas de um homem ser sadio. ,L e·idente que o prazer pode
acompanhar qualquer sentido, pois íalamos de espetaculos e de sons como sendo
agrada·eis. Nao menos e·idente é que ele é experimentado acima de tudo quando o
sentido se encontra nas melhores condiçoes e em ati·idade com reíerência a um
objeto apropriado, quando tanto o percipiente como o objeto sao os melhores
possí·eis, ha·era sempre prazer, por estarem presentes o agente e o paciente
requeridos., O prazer completa a ati·idade, nao como o íaz o estado permanente
que lhe corresponde, pela imanência, mas como um íim que sobre·ém como o ·iço
da ju·entude para os que se encontram na ílor da idade. Na medida, pois, em que
tanto o objeto inteligí·el ou sensí·el como a íaculdade discriminadora ou
contemplati·a íorem tais como con·ém, a ati·idade sera acompanhada de prazer,
pois quando o íator ati·o e o passi·o se mantêm inalterados e guardam a mesma
relaçao um para com o outro, o mesmo resultado segue-se naturalmente.
Como explicar, entao, que ninguém esteja sempre contente· Dar-se-a o caso
de que nos eníastiemos· A ·erdade é que todos os seres humanos sao incapazes de
uma ati·idade contínua, e essa é a razao de nao ser contínuo também o prazer, pois
ele acompanha a ati·idade. Certas coisas nos deleitam quando sao no·as, porém
menos quando deixam de sê-lo, e por esse mesmo moti·o: a princípio a mente é
estimulada e desen·ol·e intensa ati·idade em relaçao a elas, como íazemos com o
sentido da ·ista quando olhamos alguma coisa com atençao. Mas depois a nossa
ati·idade se relaxa, e por isso também o prazer é embotado.
Dir-se-ia que todos os homens desejam o prazer porque todos aspiram a
·ida. A ·ida é uma ati·idade, e cada um é ati·o em relaçao as coisas e com as
íaculdades que mais ama: por exemplo, o músico é ati·o com o ou·ido em
reíerência as melodias, o estudioso com o intelecto em reíerência a questoes
teóricas, e da mesma íorma nos outros casos. Ora, o prazer completa as ati·idades,
e portanto a ·ida que eles desejam. L muito justo, pois, que aspirem também ao
prazer, ·isto que para cada um este completa a ·ida que lhe é deseja·el. Mas quanto
a saber se escolhemos a ·ida com ·istas no prazer ou o prazer com ·istas na ·ida, é
uma questao que podemos deixar de parte por ora. Com eíeito, os dois parecem
estar intimamente ligados entre si e nao admitir separaçao, ja que sem ati·idade nao
surge o prazer, e cada ati·idade é completada pelo prazer que a acompanha.
5
Por esta razao, também os prazeres parecem diíerir em espécie. Porquanto
as coisas que diíerem em espécie sao, pensamos nós, completadas por coisas
diíerentes ,·emos que isto é ·erdadeiro tanto dos objetos naturais como das coisas
criadas pela arte: animais, ar·ores, uma pintura, uma estatua, uma casa, um
utensílio,, e pensamos, da mesma íorma, que ati·idades diíerentes em espécie sao
completadas por coisas diíerentes em espécie. Ora, as ati·idades do pensamento
diíerem em espécie das dos sentidos, e dentro de cada uma dessas classes existem,
por sua ·ez, diíerenças especííicas, logo, os prazeres que as completam também
diíerem do mesmo modo entre si.
Isto é coníirmado pelo íato de estar cada prazer estreitamente ligado a
ati·idade que ele completa. Com eíeito, cada ati·idade é intensiíicada pelo prazer
que lhe é próprio, ·isto que cada classe de coisas é mais bem julgada e le·ada a
precisao por aqueles que se entregam com prazer a correspondente ati·idade: por
exemplo, sao os que se comprazem no raciocínio geométrico que se tornam
geometras e compreendem melhor os di·ersos teoremas, e analogamente os que
gostam de música, de arquitetura, etc., íazem progressos nos respecti·os campos
porque se comprazem neles. L assim os prazeres intensiíicam as ati·idades, e o que
intensiíica uma coisa lhe é congênere, mas coisas diíerentes em espécie têm
propriedades diíerentes em espécie.
Mais e·idente se torna isto quando consideramos que as ati·idades sao
impedidas pelos prazeres pro·enientes de outras íontes. Com eíeito, as pessoas que
gostam de tocar ílauta sao incapazes de acompanhar um argumento quando ou·em
um ílautista, porquanto o som desse instrumento lhes da mais prazer do que a
outra ati·idade, e assim, o prazer que acompanha a música anula a ati·idade
raciocinati·a. Isso acontece da mesma íorma em todos os outros casos, quando
estamos ati·os em relaçao a duas coisas simultaneamente, a ati·idade mais aprazí·el
desaloja a outra, e isso tanto mais quanto mais aprazí·el íor, de tal modo que
chegamos a abandonar a outra. L por isso que quando nos deleitamos
extraordinariamente com alguma coisa nao nos dedicamos a nada mais, e íazemos
uma coisa só quando a outra nao nos causa grande prazer: por exemplo, no teatro
as pessoas que gostam de doces os comem em maior quantidade quando os atores
sao medíocres. Ora, como as ati·idades se tornam mais precisas, mais duradouras e
melhores por eíeito do prazer que lhes é próprio e sao prejudicadas pelos prazeres
estranhos, é e·idente que essas duas espécies de prazer sao bem distintas uma da
outra. Porquanto os prazeres estranhos têm mais ou menos o mesmo eíeito que as
dores próprias, ·isto que estas também destroem as ati·idades correspondentes:
por exemplo, se um homem acha desagrada·el ou penoso escre·er ou íazer contas,
ele nao escre·e nem íaz contas, porque a ati·idade lhe é penosa.
Destarte, uma ati·idade soíre eíeitos contrarios por parte de seus prazeres e
dores próprios, isto é, daqueles que sobre·êm em ·irtude de sua própria natureza.
L dissemos que os prazeres estranhos têm mais ou menos o mesmo eíeito que a
dor: eles também destroem a ati·idade, só que nao no mesmo grau.
Ora, assim como as ati·idades diíerem com respeito a bondade ou maldade,
e umas sao dignas de escolha, outras de·em ser e·itadas e outras ainda sao neutras,
o mesmo sucede com os prazeres, pois cada ati·idade tem o seu prazer próprio. O
prazer próprio a uma ati·idade digna é bom, e o próprio a uma ati·idade indigna é
mau, assim como os apetites que têm objetos nobres sao lou·a·eis e os que têm
objetos ·is sao culpa·eis. Mas os prazeres que acompanham as ati·idades sao mais
próprios destas do que os desejos, pois os segundos estao separados delas tanto
pelo tempo como pela natureza, enquanto os primeiros estao intimamente unidos
as ati·idades e é tao diíícil distinguir os primeiros das segundas que se poderia até
discutir a hipótese de ser a ati·idade a mesma coisa que o prazer. ,No entanto, o
prazer nao parece ser o pensamento ou a percepçao. Isso seria estranho, mas, como
nunca andam um sem o outro, alguns julgam que sejam a mesma coisa.,
Assim, pois, como diíerem entre si as ati·idades, também diíerem os
prazeres correspondentes. Ora, a ·ista é superior ao tato em pureza, e o ou·ido e o
olíato ao gosto, portanto, os prazeres correspondentes também sao superiores, e os
do pensamento estao acima de todos estes. L dentro de cada uma das duas espécies
alguns sao superiores a outros.
Pensa-se que cada animal tem um prazer próprio, assim como tem uma
íunçao própria, a saber, o que corresponde a sua ati·idade. Isto se torna e·idente
quando obser·amos as espécies uma por uma. Cao, ca·alo e homem têm prazeres
diíerentes e, como diz leraclito, "os asnos preíeririam as ·arreduras ao ouro
142
",
porque o alimento é mais agrada·el do que o ouro para eles.
Destarte, os prazeres dos animais diíerentes em espécie também diíerem
especiíicamente, e é de supor que os de uma determinada espécie nao diíiram entre
si. Mas ·ariam em nao pequeno grau, pelo menos no caso dos homens, as mesmas
coisas deleitam algumas pessoas e causam dor a outras, e sao penosas e odiosas a
estes, mas agrada·eis e estima·eis aqueles. Isso também sucede com as coisas
doces: as mesmas coisas nao parecem doces a um íebricitante e a um homem com
saúde - nem quentes a um homem íraco e a um homem robusto. O mesmo se da
em outros casos. Mas em todas as coisas, o que parece a um homem bom é
considerado como sendo realmente tal. Se isto é correto como se aíigura ser, e a
·irtude e o homem bom como tais sao a medida de todas as coisas, serao
·erdadeiros prazeres os que lhe parecerem tais, e ·erdadeiramente agrada·eis as
coisas em que ele se deleitar. Se as coisas que ele acha eníadonhas parecem
agrada·eis a outros, nao ha nada de surpreendente nisso, pois os homens podem
ser per·ertidos e estragados de muitos modos, e tais coisas nao sao realmente
agrada·eis, mas só o sao para essas pessoas e outras nas mesmas condiçoes. Das
que reconhecidamente sao ·ergonhosas, e·identemente nao se de·eria dizer que
sao prazeres, sal·o para um gosto per·ertido, mas das que sao consideradas boas,
que espécie de prazer ou que prazer particular de·eríamos dizer que sao próprios
do homem· A resposta nao é clara pela consideraçao das correspondentes
ati·idades· O prazeres seguem a estas. Quer, pois, o homem períeito e supramente
íeliz tenha uma, quer mais ati·idades, diremos que os prazeres que completam
essas ati·idades sao, %.'/(.#$%&!%01$os prazeres próprios do homem, e o resto só o sera
de maneira secundaria e parcial, como o sao as ati·idades.



142
Fragmento 9, Diels. (N. do T.)
6
Agora que terminamos de íalar das ·irtudes, das íormas de amizade e das
·ariedades de prazer, resta discutir em linhas gerais a natureza da íelicidade, ·isto
aíirmarmos que ela é o íim da natureza humana. Nossa discussao sera mais concisa
se começarmos por sumariar o que dissemos anteriormente.
Dissemos
143
, pois, que ela nao é uma disposiçao, porque, se o íosse, poderia
pertencer a quem passasse a ·ida inteira dormindo e ·i·esse como um ·egetal, ou,
também, a quem soíresse os maiores iníortúnios. Se estas conseqüências sao
inaceita·eis e de·emos antes classiíicar a íelicidade como uma ati·idade, como
dissemos atras
144
, e se algumas ati·idades sao necessarias e deseja·eis com ·istas em
outra coisa, enquanto outras o sao em si mesmas, é e·idente que a íelicidade de·e
ser incluída entre as deseja·eis em si mesmas, e nao entre as que o sao com ·istas
em algo mais. Porque a íelicidade nada íalta: ela é auto-suíiciente. Ora, sao
deseja·eis em si mesmas aquelas ati·idades em que nada mais se procura além da
própria ati·idade. L pensa-se que as açoes ·irtuosas sao desta natureza, porquanto
praticar atos nobres e bons é algo deseja·el em si mesmo.
1ambém se acredita que as recreaçoes agrada·eis sejam dessa natureza. Nao
as escolhemos tendo em ·ista outra coisa, uma ·ez que antes somos prejudicados
do que beneíiciados por elas: tais ati·idades nos le·am a negligenciar nossos corpos
e nossos bens materiais. Mas a maioria das pessoas que consideramos íelizes
buscam reíúgio nesses passatempos, e por isso as pessoas habeis em proporciona-
los sao altamente estimadas nas cortes dos tiranos. 1ornam-se agrada·eis
companheiros nas ocupaçoes ía·oritas do tirano, e essa é a espécie de homem que
ele precisa ter ao seu lado.
Ora, acredita-se que essas coisas participem da natureza da íelicidade porque
os déspotas entretêm com elas os seus lazeres, mas tal·ez essa espécie, de gente nao
pro·e nada, porque a ·irtude e a razao, das quais decorrem as boas ati·idades, nao
dependem da posiçao despótica, nem os prazeres do corpo de·eriam ser

143
1095 b 31 — 1096 a 2, 1098 b 31 — 1099 a 7.(N. do T.)
144
1098 a 5-7. (N. do T.)
considerados mais deseja·eis porque neles se reíugiam tais pessoas, que nunca
experimentaram um prazer puro e generoso, e os meninos também julgam que as
coisas que eles próprios prezam sao as melhores. L de crer, pois, que assim como
diíerentes coisas parecem ·aliosas aos meninos e aos homens íeitos, também se dê
o mesmo com os homens maus e os bons. Ora, como muitas ·ezes sustentamos
145
,
realmente ·aliosas e aprazí·eis sao aquelas coisas que sao tais para o homem bom, e
para cada homem a ati·idade que concorda com a sua disposiçao de carater é a
mais deseja·el, de modo que para o homem bom sao essas as que concordam com
a ·irtude.
A íelicidade nao reside, por conseguinte, na recreaçao, e seria mesmo
estranho que a recreaçao íosse o íim, e um homem de·esse passar trabalhos e
suportar agruras durante a ·ida inteira simplesmente para di·ertir-se. Porque, numa
pala·ra, tudo que escolhemos, escolhemo-lo com a mira em outra coisa - sal·o a
íelicidade, que é um íim em si. Ora, esíorçar-se e trabalhar com ·istas na recreaçao
parece coisa tola e absolutamente iníantil. Mas di·ertir-nos a íim de poder esíorçar-
nos, como se expressa Anacarsis, parece certo, porque o di·ertimento é uma
espécie de relaxaçao, e necessitamos de relaxaçao porque nao podemos trabalhar
constantemente. A relaxaçao, por conseguinte, nao é um íim, pois nós a culti·amos
com ·istas na ati·idade.
Pensa-se que a ·ida íeliz é ·irtuosa. Ora, uma ·ida ·irtuosa exige esíorço e
nao consiste em di·ertimento. L dizemos que as coisas sérias sao melhores do que
as risí·eis e as relacionadas com o di·ertimento, e que a ati·idade da melhor entre
duas coisas - quer se trate de dois elementos do nosso ser, quer de duas pessoas
- é a mais séria. Mas a ati·idade na melhor é /*%#$2+(.#$superior e participa mais da
natureza da íelicidade. Além do que, uma pessoa qualquer - até um escra·o -
pode íruir os prazeres do corpo nao menos que o melhor dos homens, mas
ninguém considera o escra·o partícipe da íelicidade - a nao ser que também o

145
1099 a 13, 1113a 22-33, 1166 a 12, 1170 a 14-16, 1176 a 15-22. (N. do T.)
considere partícipe da ·ida humana. Com eíeito, a íelicidade nao reside em tais
ocupaçoes, mas, como ja dissemos
146
, nas ati·idades ·irtuosas.
¯
Se a íelicidade é ati·idade coníorme a ·irtude, sera razoa·el que ela esteja
também em concordancia com a mais alta ·irtude, e essa sera a do que existe de
melhor em nós. Quer seja a razao, quer alguma outra coisa esse elemento que
julgamos ser o nosso dirigente e guia natural, tornando a seu cargo as coisas nobres
e di·inas, e quer seja ele mesmo di·ino, quer apenas o elemento mais di·ino que
existe em nós, sua ati·idade coníorme a ·irtude que lhe é própria sera a períeita
íelicidade. Que essa ati·idade é contemplati·a, ja o dissemos anteriormente
14¯
.
Ora, isto parece estar de acordo nao só com o que muitas ·ezes
asse·eramos
148
, mas também com a própria ·erdade. Porque, em primeiro lugar,
essa ati·idade é a melhor ,pois nao só é a razao a melhor coisa que existe em nós,
como os objetos da razao sao os melhores dentre os objetos cognoscí·eis,, e, em
segundo lugar, é a mais contínua, ja que a contemplaçao da ·erdade pode ser mais
contínua do que qualquer outra ati·idade. L pensamos que a íelicidade tem uma
mistura de prazer, mas a ati·idade da sabedoria íilosóíica é reconhecidamente a
mais aprazí·el das ati·idades ·irtuosas, pelo menos, julga-se que o seu culti·o
oíerece prazeres mara·ilhosos pela pureza e pela durabilidade, e é de supor que os
que sabem passem o seu tempo de maneira mais aprazí·el do que os que indagam.
Além disso, a auto-suíiciência de que íalamos de·e pertencer principalmente
a ati·idade contemplati·a. Porque, embora um íilósoío, assim como um homem
justo ou o que possui qualquer outra ·irtude, necessite das coisas indispensa·eis a
·ida, quando esta suíicientemente pro·ido de coisas dessa espécie o homem justo
precisa ter com quem e para com quem agir justamente, e o temperante, o corajoso
e cada um dos outros se encontram no mesmo caso, mas o íilósoío, mesmo
quando sozinho, pode contemplar a ·erdade, e tanto melhor o íara quanto mais

146
1098 a 16, 1176 a 35 — 1176 b 9. (N. do T.)
147
Cf. 1095 b 14— 1096 a 5, 1141 a 18 — 1141 b3, 1143 b 33— 1144 a 6, 1145 a 6-11. (N. do T.)
148
1097 a 25 — 1097 b 21, 1099 a 7-21, 1173 b 15-19, 1174 b 20-23, 1175 b 36— 1176 a 3. (N. do T.)
sabio íor. 1al·ez possa íazê-lo melhor se ti·er colaboradores, mas ainda assim é ele
o mais auto-suíiciente de todos.
L essa ati·idade parece ser a única que é amada por si mesma, pois dela nada
decorre além da própria contemplaçao, ao passo que das ati·idades praticas sempre
tiramos maior ou menor pro·eito, a parte da açao.
Além disso, pensa-se que a íelicidade depende dos lazeres, porquanto
trabalhamos para poder ter momentos de ócio, e íazemos guerra para poder ·i·er
em paz. Ora, a ati·idade das ·irtudes praticas exerce-se nos assuntos políticos ou
militares, mas as açoes relati·as a esses assuntos nao parecem encerrar lazeres.
Principalmente as açoes guerreiras, pois ninguém escolhe íazer guerra, nem
tampouco a pro·oca, pelo gosto de estar em guerra, e um homem teria a tempera
do maior dos assassinos se con·ertesse os seus amigos em inimigos a íim de
pro·ocar batalhas e matanças. Mas a açao do estadista também nao encerra lazeres,
e - além da açao política em si mesma - ·isa ao poder e as honras despóticas, ou
pelo menos a íelicidade para ele próprio e para os seus concidadaos - uma
íelicidade diíerente da açao política, e e·identemente buscada como sendo
diíerente.
Portanto, se entre as açoes ·irtuosas as de índole militar ou política se
distinguem pela nobreza e pela grandeza, e estas nao encerram lazeres, ·isam a um
íim diíerente e nao sao deseja·eis por si mesmas, enquanto a ati·idade da razao,
que é contemplati·a, tanto parece ser superior e mais ·aliosa pela sua seriedade
como nao ·isar a nenhum íim além de si mesma e possuir o seu prazer próprio ,o
qual, por sua ·ez, intensiíica a ati·idade,, e a auto-suíiciência, os lazeres, a isençao
de íadiga ,na medida em que isso é possí·el ao homem,, e todas as demais
qualidades que sao atribuídas ao homem sumamente íeliz sao, e·identemente, as
que se relacionam com essa ati·idade, segue-se que essa sera a íelicidade completa
do homem, se ele ti·er uma existência completa quanto a duraçao ,pois nenhum
dos atributos da íelicidade é incompleto,.
Mas uma tal ·ida é inacessí·el ao homem, pois nao sera na medida em que é
homem que ele ·i·era assim, mas na medida em que possui em si algo de di·ino, e
tanto quanto esse elemento é superior a nossa natureza composta, o é também a
sua ati·idade ao exercício da outra espécie de ·irtude.
Se, portanto, a razao é di·ina em comparaçao com o homem, a ·ida
coníorme a razao é di·ina em comparaçao com a ·ida humana. Mas nao de·emos
seguir os que nos aconselham a ocupar-nos com coisas humanas, ·isto que somos
homens, e com coisas mortais, ·isto que somos mortais, mas, na medida em que
isso íor possí·el, procuremos tornar-nos imortais e en·idar todos os esíorços para
·i·er de acordo com o que ha de melhor em nós, porque, ainda que seja pequeno
quanto ao lugar que ocupa, supera a tudo o mais pelo poder e pelo ·alor.
L dir-se-ia, também, que esse elemento é o próprio homem, ja que é a sua
parte dominante e a melhor dentre as que o compoem. Seria estranho, pois, que
nao escolhesse a ·ida do seu próprio ser, mas a de outra coisa. L o que dissemos
atras
149
tem aplicaçao aqui: o que é próprio de cada coisa é, por natureza, o que ha
de melhor e de aprazí·el para ela, e assim, para o homem a ·ida coníorme a razao é
a melhor e a mais aprazí·el, ja que a razao, mais que qualquer outra coisa, 3$ o
homem. Donde se conclui que essa ·ida é também a mais íeliz.
8
Mas, em grau secundario, a ·ida de acordo com a outra espécie de ·irtude é
íeliz, porque as ati·idades que concordam com esta condizem com a nossa
condiçao humana. Os atos corajosos e justos, bem como outros atos ·irtuosos, nós
os praticamos em relaçao uns aos outros, obser·ando nossos respecti·os de·eres
no tocante a contratos, ser·iços e toda sorte de açoes, bem assim como as paixoes,
e todas essas coisas parecem ser tipicamente humanas. Dir-se-ia até que algumas
delas pro·êm do próprio corpo e que o carater ·irtuoso se prende por muitos laços
as paixoes.

149
1169 b 33, 1176 b 26. (N. do T.)
A sabedoria pratica também esta ligada ao carater ·irtuoso e este a sabedoria
pratica, ja que os princípios de tal sabedoria concordam com as ·irtudes morais e a
retidao moral concorda com ela.
Ligadas que sao também as paixoes, as ·irtudes morais de·em pertencer a
nossa natureza composta. Ora, tais ·irtudes sao humanas, por conseguinte,
humanas sao também a ·ida e a íelicidade que lhes correspondem. A excelência da
razao é uma coisa a parte. Dela de·emos contentar-nos em dizer isto, porquanto
descre·ê-la com precisao é tareía maior do que exige o nosso propósito. Sem
embargo, ela também parece necessitar de bens exteriores, porém pouco, ou, em
todo caso, menos do que necessitam as ·irtudes morais.
Admitamos que ambas necessitem de tais coisas em grau igual, embora o
trabalho do estadista se ocupe mais com o corpo e coisas que tais, porque a
diíerença quanto a isso sera pequena, mas naquilo de que precisam para o exercício
de suas ati·idades ha·era grande diíerença. O homem liberal necessita de dinheiro
para a pratica de seus atos de liberalidade e o homem justo para a retribuiçao de
ser·iços ,pois é diíícil enxergar claro nos desejos, e mesmo os que nao sao justos
aparentam o desejo de agir com justiça,, e o homem corajoso necessita de poder
para realizar qualquer dos atos que correspondem a sua ·irtude, e o temperante
necessita de oportunidade: pois de que outro modo poderíamos reconhecer tanto a
ele como a qualquer dos outros·
1ambém se discute sobre se é a ·ontade ou o ato que é mais essencial a
·irtude, pois supoe-se que esta en·ol·e tanto uma como outro. L é e·idente que
sua períeiçao en·ol·e a ambos, mas os atos exigem muitas coisas, e tanto mais
quanto maiores e mais nobres íorem. O homem que contempla a ·erdade, porém,
nao necessita de tais coisas, ao menos para o exercício de sua ati·idade, e pode-se
dizer até que elas lhe ser·em de obstaculo, quando mais nao seja para a própria
contemplaçao. Mas, enquanto homem que ·i·e no meio de outros homens, ele
escolhe a pratica de atos ·irtuosos: por conseguinte, necessita também das coisas
que íacilitam a ·ida humana.
Mas que a íelicidade períeita é uma ati·idade contemplati·a, coníirma-o
também a seguinte consideraçao. Admitimos que os deuses sejam, acima de todos
os outros seres, bem-a·enturados e íelizes: mas que espécie de açoes lhes
atribuiremos· Atos de justiça· Nao pareceria absurdo que os deuses íirmassem
contratos, restituíssem depósitos e outras coisas do mesmo jaez· Atos de coragem,
entao, arrostando perigos e expondo-se a riscos, porque é nobre proceder assim·
Ou atos de liberalidade· A quem íariam eles dadi·as· Muito estranho seria se os
deuses realmente ti·essem dinheiro ou algo dessa espécie. L em que consistiriam os
seus atos de temperança· Nao sera ridículo lou·a-los por isso, uma ·ez que nao
têm maus apetites·
Se as analisassemos uma por uma, as circunstancias da açao se nos
mostrariam tri·iais e indignas dos deuses. Nao obstante, todos supoem que eles
4/4&)$ e, portanto, sao ati·os, nao podemos concebê-los a dormir como Lndimiao.
Ora, se a um ser ·i·ente retirarmos a açao, e ainda mais a açao produti·a, que lhe
restara a nao ser a contemplaçao· Por conseguinte, a ati·idade de Deus, que
ultrapassa todas as outras pela bem-a·enturança, de·e ser contemplati·a, e das
ati·idades humanas, a que mais aíinidade tem com esta é a que mais de·e participar
da íelicidade.
Mostra-o também o íato de nao participarem os animais da íelicidade,
completamente pri·ados que sao de uma ati·idade dessa sorte. Com eíeito,
enquanto a ·ida inteira dos deuses é bem-a·enturada e a dos homens o é na medida
em que possui algo dessa ati·idade, nenhum dos outros animais é íeliz, uma ·ez
que de nenhum modo participam eles da contemplaçao. A íelicidade tem, por
conseguinte, as mesmas íronteiras que a contemplaçao, e os que estao na mais
plena posse desta última sao os mais genuinamente íelizes, nao como simples
concomitante mas em ·irtude da própria contemplaçao, pois que esta é preciosa em
si mesma. L assim, a íelicidade de·e ser alguma íorma de contemplaçao.
Mas o homem íeliz, como homem que é, também necessita de prosperidade
exterior, porquanto a nossa natureza nao basta a si mesma para os íins da
contemplaçao: nosso corpo também precisa de gozar saúde, de ser alimentado e
cuidado. Nao se pense, toda·ia, que o homem para ser íeliz necessite de muitas ou
de grandes coisas, só porque nao pode ser supremamente íeliz sem bens exteriores.
A auto-suíiciência e a açao nao implicam excesso, e podemos praticar atos nobres
sem sermos donos da terra e do mar. Mesmo desírutando ·antagens bastante
moderadas pode-se proceder ·irtuosamente ,isso, alias, é maniíesto, porquanto se
pensa que um particular pode praticar atos dignos nao menos do que um déspota
- mais, até,. L é suíiciente que tenhamos o necessario para isso, pois a ·ida do
homem que age de acordo com a ·irtude sera íeliz.
Sólon nos deu, tal·ez, um esboço íiel do homem íeliz quando o descre·eu
150

como moderadamente pro·ido de bens exteriores, mas como tendo praticado ,na
opiniao de Sólon, as mais nobres açoes, e ·i·ido coníorme os ditames da
temperança. Anaxagoras também parece supor que o homem íeliz nao seja rico
nem um déspota quando diz que nao se admiraria se ele parecesse a maioria uma
pessoa estranha, pois a maioria julga pelas exterioridades, uma ·ez que nao percebe
outra coisa.
L assim, as opinioes dos sabios parecem harmonizar-se com os nossos
argumentos. Mas, embora essas coisas também tenham um certo poder de
con·encer, a ·erdade em assuntos praticos percebe-se melhor pela obser·açao dos
íatos da ·ida, pois estes sao o íator decisi·o. De·emos, portanto, examinar o que ja
dissemos a luz desses íatos, e se esti·er em harmonia com eles aceita-lo-emos, mas
se entrarem em conílito admitiremos que nao passa de simples teoria.
Ora, quem exerce e culti·a a sua razao parece desírutar ao mesmo tempo a
melhor disposiçao de espírito e ser extremamente caro aos deuses. Porque, se os
deuses se interessam pelos assuntos humanos como nós pensamos, tanto seria
natural que se deleitassem naquilo que é melhor e mais aíinidade tem com eles ,isto
é, a razao,, como que recompensassem os que a amam e honram acima de todas as
coisas, zelando por aquilo que lhes é caro e conduzindo-se com justiça e nobreza.

150
Heródoto, I, 30. (N. do T.)
Ora, é e·idente que todos esses atributos pertencem mais que a ninguém ao
íilósoío. L ele, por conseguinte, de todos os homens o mais caro aos deuses. L
sera, presumi·elmente, também o mais íeliz. De sorte que também neste sentido o
íilósoío sera o mais íeliz dos homens.
9
Se estes assuntos, assim como a ·irtude e também a amizade e o prazer,
íoram suíicientemente discutidos em linhas gerais, de·emos dar por terminado o
nosso programa· Sem dú·ida, como se costuma dizer, onde ha coisas que realizar
nao alcançamos o íim depois de examinar e reconhecer cada uma delas, mas é
preciso íazê-las. No tocante a ·irtude, pois, nao basta saber, de·emos tentar possuí-
la e usa-la ou experimentar qualquer outro meio que se nos antepare de nos
tornarmos bons.
Ora, se os argumentos bastassem em si mesmos para tornar os homens
bons, eles teriam íeito jus a grandes recompensas, como diz 1eógnis, e as
recompensas nao íaltariam. Mas a ·erdade é que, embora pareçam ter o poder de
encorajar e estimular os jo·ens de espírito generoso, e preparar um carater bem-
nascido e genuinamente amigo de tudo o que é nobre para receber a ·irtude, eles
nao conseguem incutir nobreza e bondade na multidao. Porquanto o homem
comum nao obedece por natureza ao sentimento de pudor, mas unicamente ao
medo, e nao se abstém de praticar mas açoes porque elas sao ·is, mas pelo temor
ao castigo. Vi·endo pela paixao, andam no encalço de seus prazeres e dos meios de
alcança-los, e·itando as dores que lhes sao contrarias, e nem sequer íazem idéia do
que é nobre e ·erdadeiramente agrada·el, ·isto que nunca lhe sentiram o gosto.
Que argumento poderia remodelar essa sorte de gente· L diíícil, senao impossí·el,
erradicar pelo raciocínio os traços de carater que se in·eteraram na sua natureza, e
tal·ez nos de·amos contentar se, estando presentes todas as iníluências capazes de
nos melhorar, adquirimos alguns lai·os de ·irtude.
Ora, alguns pensam que nos tornamos bons por natureza, outros pelo habito
e outros ainda pelo ensino. A contribuiçao da natureza e·identemente nao depende
de nós, mas, em resultado de certas causas di·inas, esta presente naqueles que sao
·erdadeiramente aíortunados. Quanto a argumentaçao e ao ensino, suspeitamos de
que nao tenham uma iníluência poderosa em todos os homens, mas é preciso
culti·ar primeiro a alma do estudioso por meio de habitos, tornando-a capaz de
nobres alegrias e nobres a·ersoes, como se prepara a terra que de·e nutrir a
semente. Com eíeito, o que se deixa dirigir pela paixao nao ou·ira o argumento que
o dissuade, e, se o ou·ir, nao o compreendera. L como persuadir a mudar de ·ida
uma pessoa com tal disposiçao· Lm geral, a paixao nao parece ceder ao argumento,
mas a íorça. L, portanto, uma condiçao pré·ia indispensa·el a existência de um
carater que tenha certa aíinidade com a ·irtude, amando o que é nobre e detestando
o que é ·il.
Mas é diíícil receber desde a ju·entude um adestramento correto para a
·irtude quando nao nos criamos debaixo das leis apropriadas, pois le·ar uma ·ida
temperante e esíorçada nao seduz a maioria das pessoas, especialmente quando sao
jo·ens. Por essa razao, tanto a maneira de cria-los como as suas ocupaçoes
de·eriam ser íixadas pela lei, pois essas coisas deixam de ser penosas quando se
tornaram habituais. Mas nao basta, certamente, que recebam a criaçao e os
cuidados adequados quando sao jo·ens, ja que mesmo em adultos de·em pratica-
las e estar habituados a elas, precisamos de leis que cubram também essa idade e, de
modo geral, a ·ida inteira, porque a maioria das pessoas obedece mais a necessidade
do que aos argumentos, e aos castigos mais do que ao sentimento nobre.
Por isso pensam alguns que os legisladores de·eriam estimular os homens a
·irtude e instiga-los com o moti·o do nobre, partindo do princípio de que aqueles
que ja íizeram considera·eis progressos, mercê da íormaçao de habitos, serao
sensí·eis a tais iníluências, e que con·iria impor castigos e penas aos que íossem de
natureza iníerior, enquanto os incura·elmente maus seriam banidos de todo. O
homem bom ,pensam eles,, ·i·endo como ·i·e com o pensamento íixo no que é
nobre, submeter-se-a a argumentaçao, ao passo que o homem mau, que só deseja o
prazer, sera corrigido pela dor, como uma besta de carga. L por isso dizem também
que as dores iníligidas de·em ser as que íorem mais contrarias aos prazeres que
esses homens amam.
De qualquer íorma ,como dissemos
151
, o homem que queremos tornar bom
de·e ser bem adestrado e acostumado, passando depois o seu tempo em ocupaçoes
dignas e nao praticando açoes mas nem ·oluntaria, nem in·oluntariamente, e se
isso se pode conseguir quando os homens ·i·em de acordo com uma espécie de
reta razao e ordem, contanto que esta tenha íorça - se assim é, o go·erno paterno
em ·erdade nao tem a íorça ou o poder coerciti·o necessarios ,nem, em geral, os
tem o go·erno de um homem só, a menos que se trate de um rei ou algo
semelhante,, mas a lei tem esse poder coerciti·o, ao mesmo tempo que é uma regra
baseada numa espécie de sabedoria e razao pratica. L, embora o comum das
pessoas detestem os 5#)&!%$que contrariam os seus impulsos, ainda que com razao,
a lei nao lhes é pesada ao ordenar o que é bom.
Unicamente ou quase unicamente no Lstado espartano o legislador parece
ter-se ocupado com questoes de educaçao e de trabalho. Na maioria dos Lstados
esses assuntos íoram omitidos e cada qual ·i·e como lhe apraz, a moda dos
ciclopes, "ditando a lei a esposa e aos íilhos
152
". Ora, o mais certo seria que tais
coisas se tornassem encargo público e que a comunidade pro·esse adequadamente
a elas, mas, uma ·ez que as negligencia, con·ém que cada homem auxilie seus íilhos
e amigos a seguirem os caminhos da ·irtude, e que tenham o poder ou pelo menos
a ·ontade de íazê-lo.
Do que íicou dito parece concluir-se que ele poderia íazê-lo melhor se se
tornasse capaz de legislar. Porquanto o controle público é e·identemente exercido
pelas leis, e o bom controle por boas leis. Que sejam escritas ou nao, parece nao ·ir
ao caso, nem tampouco que sejam leis pro·endo a educaçao de indi·íduos ou de
grupos - assim como isso também nao importa no caso da música, da ginastica e
outras ocupaçoes semelhantes. Pois que, assim como nas cidades têm íorça as leis e
os tipos predominantes de carater, nas íamílias a têm ainda mais os preceitos e os

151
1179 b 31 — 1180a5.(N.doT.)
152
Odisséia, IX, 114 ss. (N. do T.)
habitos do pai, de·ido aos laços de sangue e aos beneíícios que ele coníere,
porquanto os íilhos têm desde o princípio uma aíeiçao natural e uma disposiçao
para obedecer. Além disso, a educaçao pri·ada le·a ·antagem a pública, como é
também o caso do tratamento médico pri·ado, pois, embora de um modo geral o
repouso e a abstençao de alimento íaçam bem as pessoas íebris, pode nao ser assim
no caso de um doente particular, e é de supor que um pugilista nao prescre·a o
mesmo estilo de luta a todos os seus alunos. Parece, pois, que os detalhes sao
obser·ados com mais precisao quando o controle é pri·ado, pois cada pessoa tem
mais probabilidades de receber o que con·ém ao seu caso.
Mas quem melhor pode atender aos detalhes é um médico, um instrutor de
ginastica ou qualquer outro que tenha o conhecimento geral do que é apropriado a
cada um ou a determinada espécie de pessoas ,pois com razao se diz que as ciências
·ersam sobre o uni·ersal,. Isso nao impede que algum detalhe particular possa ser
bem atendido por uma pessoa sem ciência que haja estudado cuidadosamente, a luz
da experiência, o que sucede em cada caso, assim como certas pessoas parecem ser
os melhores médicos de si mesmas, embora nao saibam tratar as outras. Nao
obstante, hao de concordar que o homem que deseja tornar-se mestre numa arte ou
ciência de·e buscar o uni·ersal e procurar conhecê-lo tao bem quanto possí·el,
pois que, como dissemos, é com ele que se ocupam as ciências.
L, se é pelas leis que nos podemos tornar bons, seguramente o que se
empenha em melhorar homens, sejam estes muitos ou poucos, de·e ser capaz de
legislar. Porquanto reíormar o carater de qualquer um - do primeiro que lhe
colocam na írente - nao é tareía para qualquer um, se alguém pode íazer isso, é o
homem que sabe, exatamente como na medicina e em todos os outros assuntos que
exigem cuidado e prudência.
Nao con·ém, pois, indagar agora de quem e como se pode aprender a
legislar· Por·entura sera, como em todos os outros casos, dos estadistas· A
·erdade é que esse assunto íoi considerado como íazendo parte da estadística. Ou
ha·era uma diíerença maniíesta entre a estadística e as outras ciências e artes· Nas
outras, ·emos que as mesmas pessoas as praticam e se oíerecem para ensina-las,
como, por exemplo, os médicos e os pintores. Mas, enquanto os soíistas
pretendem ensinar política, nao sao eles que a praticam, e sim os políticos, que
parecem íazê-lo graças a uma espécie de habilidade ou experiência, e nao pelo
raciocínio. Com eíeito, ninguém os ·ê escre·er ou íalar sobre a matéria ,conquanto
essa íosse, tal·ez, uma ocupaçao mais nobre do que preparar discursos para os
tribunais e a Assembléia,, e também nao consta que eles costumem íazer estadistas
de seus íilhos ou de seus amigos. Mas seria de esperar que o íizessem, se isso lhes
íosse possí·el, pois nao poderiam legar as suas cidades nada de melhor do que uma
habilidade dessa sorte, ou transmiti-la aos que lhes sao caros se preíerissem guarda-
la no seu meio. No entanto, a contribuiçao da experiência parece nao ser pequena,
de outra íorma eles nao poderiam tornar-se políticos por participarem da ·ida
política. Donde se conclui que os que ambicionam conhecer a arte da política
necessitam também da experiência.
Mas aqueles soíistas que proíessam a arte parecem estar muito longe de
ensina-la. Com eíeito, para exprimir-nos em termos gerais, esses homens nem
sequer sabem que espécie de coisa ela é, nem sobre o que ·ersa. De outro modo,
nao a teriam classiíicado como idêntica a retórica ou mesmo iníerior a esta, nem
julgariam íacil legislar mediante uma compilaçao das leis mais-bem reputadas.
Dizem que é possí·el selecionar as melhores leis, como se esse próprio trabalho de
seleçao nao requeresse inteligência e como se o bom discernimento nao íosse a
mais importante de todas as coisas, tal qual sucede na música.
Com eíeito, embora as pessoas experimentadas em qualquer campo julguem
com acerto das obras que se produzem nele e compreendam por que meios e de
que modo essas obras sao realizadas, e que coisas se harmonizam com outras
coisas, os inexperientes de·em dar-se por muito íelizes quando podem julgar se a
obra íoi bem ou mal íeita, como no caso da pintura. Ora, as leis sao, por assim
dizer, as "obras" da arte política: como é possí·el, entao, aprender com elas a ser
legislador ou julgar quais sejam as melhores· Os próprios médicos nao parecem
íormar-se pelo estudo dos li·ros. Nao obstante, as pessoas procuram indicar nao
apenas os tratamentos, mas como podem ser curados e de·em ser tratados certos
tipos de gente, distinguindo os ·arios habitos do corpo, mas, embora isso pareça
ser útil aos experimentados, para os inexperientes nao tem nenhum ·alor.
L certo, pois, que embora as compilaçoes de leis e constituiçoes possam
prestar ser·iços as pessoas capazes de estuda-las, de distinguir o que é bom do que
é mau e a que circunstancias melhor se adapta cada lei, os que perlustram essas
compilaçoes sem o socorro da experiência nao possuirao o reto discernimento ,a
menos que seja por um dom espontaneo da natureza,, embora tal·ez possam
tornar-se mais inteligentes em tais assuntos.
Ora, os nossos antecessores nos legaram sem exame este assunto da
legislaçao. Por isso, tal·ez con·enha estuda-lo nós mesmos, assim como a questao
da constituiçao em geral, a íim de completar da melhor maneira possí·el a nossa
íilosoíia da natureza humana. Lm primeiro lugar, pois, se alguma coisa íoi bem
exposta em detalhe pelos pensadores que nos antecederam, passemo-la em re·ista,
depois, a luz das constituiçoes que nós mesmos coligimos, examinaremos que
espécies de iníluências preser·am e destroem os Lstados, que outras têm os
mesmos eíeitos sobre os tipos particulares de constituiçao, e a que causas se de·e o
íato de serem umas bem e outras mal aplicadas. Após estudar essas coisas teremos
uma perspecti·a mais ampla, dentro da qual tal·ez possamos distinguir qual é a
melhor constituiçao, como de·e ser ordenada cada uma e que leis e costumes lhe
con·ém utilizar a íim de ser a melhor possí·el.