TRIBUNAL DE CONTAS DO ESTADO PROCESSO TC N.

º 05797/06 Objeto: Prestação de Contas de Gestor de Convênio Relator: Auditor Renato Sérgio Santiago Melo Responsável: Maria José Alves de Araújo Oliveira Interessados: Sonia Maria Germano de Figueiredo e outros Advogados: Dr. Johnson Gonçalves de Abrantes e outros EMENTA: PODER EXECUTIVO ESTADUAL – ADMINISTRAÇÃO DIRETA – CONVÊNIO – AJUSTE FIRMADO COM ASSOCIAÇÃO COMUNITÁRIA MUNICIPAL – CONSTRUÇÃO DE AÇUDE – PRESTAÇÃO DE CONTAS – APRECIAÇÃO DA MATÉRIA PARA FINS DE JULGAMENTO – ATRIBUIÇÃO DEFINIDA NO ART. 71, INCISO II, DA CONSTITUIÇÃO DO ESTADO DA PARAÍBA, E NO ART. 1º, INCISO I, DA LEI COMPLEMENTAR ESTADUAL N.º 18/1993 – Recursos eminentemente estaduais – Inserção no termo de ajuste de cláusula estabelecendo apenas a consulta prévia de preços – Diretiva consignada no regulamento da unidade administrativa – Instrumento regulatório aprovado através de decreto estadual – Ausência do devido procedimento de licitação – Descumprimento ao disposto no art. 37, inciso XXI, da Constituição Federal – Normas materialmente inconstitucionais – Inexecução de serviços previamente estabelecidos – Falta de monitoramento e manutenção da barragem – Não envio da prestação de contas final do ajuste. Afastamento incidental da aplicabilidade do decreto e do regulamento. Irregularidade das contas. Aplicação de multa. Fixação de prazo para pagamento. Expedição de comunicado a autoridades. Determinação. Encaminhamento de cópia da decisão para outro feito. Assinação de lapsos temporais para adoções de providências. Recomendações. Representação. ACÓRDÃO APL – TC – 00156/13 Vistos, relatados e discutidos os autos da prestação de contas da Sra. Maria José Alves de Araújo Oliveira, gestora do Convênio n.º 073/2006, celebrado em 23 de agosto de 2006 entre o Estado da Paraíba, através do Projeto Cooperar, e a Associação de Desenvolvimento Comunitário de Araruna – ADECA, localizada no Município de Araruna/PB, objetivando a construção de um açude na comunidade CACIMBINHA, acordam os Conselheiros integrantes do TRIBUNAL DE CONTAS DO ESTADO DA PARAÍBA, com a declaração de impedimento do Conselheiro André Carlo Torres Pontes e a impossibilidade de participação da votação do Conselheiro Arnóbio Alves Viana, que esteve ausente justificadamente da sessão anterior, após pedido de vista do Conselheiro Fernando Rodrigues Catão, em sessão plenária realizada nesta data, em: 1) Por unanimidade, na conformidade da proposta de decisão do relator, com fundamento na Súmula n.º 347 do Supremo Tribunal Federal – STF, AFASTAR INCIDENTALMENTE A APLICABILIDADE do Decreto Estadual n.º 26.865, de 23 de fevereiro de 2006, e do

TRIBUNAL DE CONTAS DO ESTADO PROCESSO TC N.º 05797/06 Regulamento do Projeto Cooperar, de 22 de fevereiro do mesmo ano, ambos publicados no Diário Oficial do Estado – DOE de 24 de fevereiro de 2006. 2) Por unanimidade, na conformidade da proposta de decisão do relator, JULGAR IRREGULARES as referidas contas. 3) Por unanimidade, na conformidade da proposta de decisão do relator, APLICAR MULTA à Presidente da Associação de Desenvolvimento Comunitário de Araruna – ADECA, Sra. Maria José Alves de Araújo Oliveira, inscrita no Cadastro de Pessoa Física – CPF sob o n.º 441.624.304-97, no valor de R$ 2.000,00 (dois mil reais), com base no que dispõe o art. 56 da Lei Complementar Estadual n.º 18/1993 – LOTCE/PB. 4) Por unanimidade, na conformidade da proposta de decisão do relator, FIXAR o prazo de 30 (trinta) dias para recolhimento voluntário da penalidade ao Fundo de Fiscalização Orçamentária e Financeira Municipal, conforme previsto no art. 3º, alínea “a”, da Lei Estadual n.º 7.201, de 20 de dezembro de 2002, com a devida comprovação do seu efetivo cumprimento a esta Corte dentro do prazo estabelecido, cabendo, igualmente, à Procuradoria Geral do Estado da Paraíba, no interstício máximo de 30 (trinta) dias após o término daquele período, velar pelo inteiro cumprimento da deliberação, sob pena de intervenção do Ministério Público Estadual, no caso de inércia, tal como previsto no art. 71, § 4º, da Constituição do Estado da Paraíba, e na Súmula n.º 40 do eg. Tribunal de Justiça do Estado da Paraíba – TJ/PB. 5) Por unanimidade, na conformidade da proposta de decisão do relator, OFICIAR ao Excelentíssimo Governador do Estado da Paraíba, Dr. Ricardo Vieira Coutinho, bem como ao atual Coordenador Geral do Projeto Cooperar, Dr. Roberto da Costa Vital, informando as referidas autoridades acerca da inaplicabilidade do Decreto Estadual n.º 26.865, de 23 de fevereiro de 2006, e do Regulamento do Projeto Cooperar, de 22 de fevereiro do mesmo ano. 6) Por unanimidade, na conformidade da proposta de decisão do relator, DETERMINAR ao gestor do Projeto Cooperar, Dr. Roberto da Costa Vital, que se abstenha de afastar o dever constitucional e legal de licitar por meio da inserção de cláusulas nos termos dos convênios celebrados, notadamente quando os recursos envolvidos forem provenientes do tesouro estadual, sob pena de responsabilidade futura. 7) Por unanimidade, na conformidade da proposta de decisão do relator, ENCAMINHAR cópia desta decisão à Diretoria de Auditoria e Fiscalização – DIAFI para subsidiar a análise das contas do gestor do Projeto Cooperar, relativas ao exercício financeiro de 2013, notadamente no tocante ao estabelecido nos itens “5” e “6” supra. 8) Por maioria, vencidos os votos dos Conselheiros Fernando Rodrigues Catão e Arthur Paredes Cunha Lima, na conformidade da proposta de decisão do relator, dos votos dos Conselheiros Antônio Nominando Diniz Filho e Umberto Silveira Porto, bem como do voto de desempate do Conselheiro Presidente Fábio Túlio Filgueiras Nogueira, ESTABELECER o lapso temporal de 60 (sessenta) dias para que o Coordenador Geral do Projeto Cooperar,

TRIBUNAL DE CONTAS DO ESTADO PROCESSO TC N.º 05797/06 Dr. Roberto da Costa Vital, adote as medidas cabíveis, com vistas à recuperação das falhas detectadas na construção do açude na comunidade CACIMBINHA, localizada no Município de Araruna/PB, haja vista o disposto no art. 618 da Lei Nacional n.º 10.406/2002 (Código Civil brasileiro), pois a vigência do convênio foi até o dia 23 de fevereiro de 2009 e a obra ainda não foi entregue pela empresa executora dos serviços, concorde destacado pelos inspetores da Corte, fl. 481. 9) Por unanimidade, na conformidade da proposta de decisão do relator, FIRMAR também o termo de 60 (sessenta) dias, desta feita, para que o Diretor Presidente da Agência Executiva de Gestão das Águas do Estado da Paraíba – AESA, Dr. Moacir Barbosa da Veiga Filho, demonstre as providências em relação ao monitoramento das condições operacionais do açude, consoante estabelecido no art. 5º, inciso IV, da Lei Estadual n.º 7.779/2005. 10) Por unanimidade, na conformidade da proposta de decisão do relator, ENVIAR recomendações no sentido de que os convenentes, nos futuros ajustes, não repitam a irregularidade apontada nos relatórios dos técnicos desta Corte de Contas e observem, sempre, os preceitos constitucionais, legais e regulamentares pertinentes. 11) Por unanimidade, na conformidade da proposta de decisão do relator, com fulcro no art. 71, inciso XI, c/c o art. 75, caput, da Constituição Federal, REMETER cópia das peças técnicas, fls. 479/482, 485/487, e 516/518, dos pareceres do Ministério Público Especial, fls. 490/491 e 520/524, e desta decisão à augusta Procuradoria Geral de Justiça do Estado da Paraíba, destacando, na representação, a inconstitucionalidade do Decreto Estadual n.º 26.865/2006 e do Regulamento do Projeto Cooperar, ambos publicados no Diário Oficial do Estado – DOE de 24 de fevereiro de 2006, com vistas à adoção das medidas pertinentes. Presente ao julgamento o Ministério Público junto ao Tribunal de Contas Publique-se, registre-se e intime-se. TCE – Plenário Ministro João Agripino João Pessoa, 27 de março de 2013

Conselheiro Fábio Túlio Filgueiras Nogueira
PRESIDENTE

Auditor Renato Sérgio Santiago Melo
RELATOR

Presente:
Representante do Ministério Público Especial

TRIBUNAL DE CONTAS DO ESTADO PROCESSO TC N.º 05797/06 RELATÓRIO AUDITOR RENATO SÉRGIO SANTIAGO MELO (Relator): Cuidam os presentes autos da análise da prestação de contas da Sra. Maria José Alves de Araújo Oliveira, gestora do Convênio n.º 073/2006, celebrado em 23 de agosto de 2006 entre o Estado da Paraíba, através do Projeto Cooperar, e a Associação de Desenvolvimento Comunitário de Araruna – ADECA, localizada no Município de Araruna/PB, objetivando a construção de um açude na comunidade CACIMBINHA. Os peritos da Divisão de Controle de Obras Públicas – DICOP, com base nos documentos encartados aos autos, emitiram relatório inicial, fls. 479/482, evidenciando, sumariamente, que: a) o montante conveniado, após os sete termos aditivos, foi de R$ 604.847,13, sendo R$ 514.120,06 oriundos do Projeto Cooperar e R$ 90.727,07 relativos à contrapartida da associação; b) as liberações dos valores originários do Estado da Paraíba somaram R$ 426.352,34; c) a vigência do acordo, depois dos sete termos aditivos, foi de 23 de agosto de 2006 a 23 de fevereiro de 2009; d) a empresa BIANA CONSTRUÇÕES E SERVIÇOS LTDA. foi contratada pela associação comunitária pelo valor de R$ 426.665,15; e) a importância aplicada atingiu R$ 428.249,76 (R$ 426.374,76 pagos à construtora e R$ 1.875,00 despendidos com encargos bancários); e f) os documentos de despesas e a Anotação de Responsabilidade Técnica – ART foram anexados aos autos. Em seguida, os técnicos da unidade de instrução destacaram que: a) a ADECA não apresentou regularmente a prestação de contas ao Projeto Cooperar; e b) a associação e a empresa BIANA CONSTRUÇÕES E SERVIÇOS LTDA. deveriam ser consideradas inabilitadas, a primeira para celebrar futuros convênios e a segunda para firmar contratos. Complementado a instrução do feito, fls. 485/487, os analistas da DICOP mencionaram que a associação realizou pesquisa de preço de acordo com o estabelecido no Decreto Estadual n.º 26.865/2006. Além disso, com base em inspeção in loco realizada nos dias 29 e 30 de março de 2010, apontaram que os pagamentos efetuados, R$ 426.374,76, estavam compatíveis com os serviços executados e que o açude estava com um considerável volume de água. Por fim, evidenciaram que os serviços ainda não tinham sido concluídos, que a obra demonstrava estar paralisada a muito tempo e que o Projeto Cooperar deveria enviar a prestação de contas final do ajuste. Remetido o feito ao Ministério Público junto ao Tribunal, este sugeriu o chamamento aos autos das responsáveis pela assinatura do convênio, inclusive para pronunciamento acerca da ausência de procedimento licitatório, fls. 490/491 e 492 – verso. Realizadas as citações dos antigos Coordenadores Gerais do Projeto Cooperar, Dr. Hildon Régis Navarro Filho, fls. 494/495, e Dra. Sonia Maria Germano de Figueiredo, fls. 496/497, como também da Presidente da Associação de Desenvolvimento Comunitário de Araruna – ADECA , Sra. Maria José Alves de Araújo Oliveira, fls. 498/499 e 510/511, apenas esta última deixou o prazo transcorrer in albis.

TRIBUNAL DE CONTAS DO ESTADO PROCESSO TC N.º 05797/06 A Dra. Sonia Maria Germano de Figueiredo mencionou, resumidamente, fls. 502/506, que: a) a presidente da associação realizou pesquisa de preços em atendimento às normas descritas no Decreto Estadual n.º 26.865/2009; b) a vigência do convênio findou no dia 21 de fevereiro de 2009 sem a liberação total dos recursos, como também sem a conclusão dos serviços; c) a gestora do convênio não enviou a prestação de contas final do acordo, motivo pelo qual foi instaurada Tomada de Contas Especial; d) a comissão constituída pelo Projeto Cooperar responsabilizou a presidente da associação, Sra. Maria José Alves de Araújo Oliveira, a empresa contratada, na pessoa do seu procurador, Sr. Audy Lopes Fernandes, e o engenheiro civil, Dr. José Cirilo Sobrinho, pelas irregularidades detectadas; d) as providências necessárias foram adotadas, quais sejam, registro da ADECA no Cadastro de Inadimplentes do Estado da Paraíba – CADIN/PB e envio do procedimento para a Procuradoria Geral do Estado, com vistas ao ajuizamento da devida ação de cobrança; e e) a Agencia Executiva de Gestão das Águas do Estado da Paraíba – AESA foi comunicada para monitorar a referida barragem, concorde previsto no art. 5º da Lei Estadual n.º 7.779/2005. Já o Dr. Hildon Régis Navarro Filho, asseverou, sumariamente, fl. 507, que a prestação de contas final não poderia ser enviada, uma vez que a Tomada de Contas Especial estava na Procuradoria Geral do Estado. Enviado o feito à DICOP, os seus especialistas, com base nas citadas peças de defesa e em nova diligência ocorrida nos dias 10 e 11 de outubro de 2011, elaboraram relatório, fls. 516/518, onde ratificaram seu entendimento acerca da ausência de irregularidades na prestação de contas inicial do convênio. Todavia, no que tange à situação do AÇUDE CACIMBINHA, constataram que a calha de drenagem estava obstruída devido ao crescimento de vegetação, como também que as pedras de proteção do maciço da barragem estavam se desprendendo, não existindo, portanto, evidências da realização de qualquer serviço de manutenção, correção e monitoramento, fato que merecia a devida atenção por parte da AESA. O Ministério Público Especial, ao se manifestar conclusivamente acerca da matéria, fls. 520/524, pugnou pela (o): a) regularidade com ressalvas das contas em análise; b) envio de representação ao Poder Legislativo e ao Poder Executivo do Estado da Paraíba, tendo em vista o disposto no art. 45 da Lei Complementar Nacional n.º 101/2000; c) assinação de prazo à AESA para que demonstre as providências adotadas em relação às condições operacionais da barragem, devido ao estabelecido na Lei Estadual n.º 7.779/2005; e d) encaminhamento de determinação ao Projeto Cooperar para que o mesmo se abstenha de transferir o dever constitucional de licitar por meio de inserção de cláusulas nos convênios firmados. A egrégia 1ª Câmara deste Sinédrio de Contas, em sessão realizada no dia 28 de junho de 2012, através do Acórdão AC1 – TC – 01414/12, fls. 527/529, publicado no Diário Oficial Eletrônico do TCE/PB de 09 de julho do mesmo ano, fl. 530, diante da possibilidade de declaração de inaplicabilidade do Decreto Estadual n.º 26.865/2006, decidiu avocar o caso para o colendo Tribunal Pleno.

TRIBUNAL DE CONTAS DO ESTADO PROCESSO TC N.º 05797/06 Solicitação de pauta, conforme fls. 532/533 dos autos. É o relatório. PROPOSTA DE DECISÃO AUDITOR RENATO SÉRGIO SANTIAGO MELO (Relator): Inicialmente, é importante destacar que os convênios são modos de descentralização administrativa e são firmados para a implementação de objetivos de interesse comum dos participantes, consoante nos ensina o mestre Hely Lopes Meirelles, in Direito Administrativo Brasileiro, 28 ed, São Paulo: Malheiros, 2003, p. 386, in verbis:

Convênios administrativos são acordos firmados por entidades públicas de
qualquer espécie, ou entre estas e organizações particulares, para realização de objetivos de interesse comum dos partícipes.

Da análise dos autos, constata-se que a Coordenadora do Projeto Cooperar à época, Dra. Sonia Maria Germano de Figueiredo, repassou para a ASSOCIAÇÃO DE DESENVOLVIMENTO COMUNITÁRIO DE ARARUNA – ADECA, localizado no Município de Araruna/PB, a faculdade de realizar apenas pesquisa de preços com 03 (três) firmas especializadas, consoante CLÁUSULA TERCEIRA, INCISO II, ALÍNEA “B”, do instrumento de Convênio n.º 073/2006, fls. 03/08, in verbis:

CLÁUSULA TERCEIRA: DAS OBRIGAÇÕES DAS PARTES CONVENENTES I. (...) II. Caberá à ASSOCIAÇÃO: a) (omissis) b) Realizar pesquisa de preços escrita e no mínimo 03 (três) firmas do ramo pertinente ao objeto do convênio, cuja condição para sua validade é o julgamento processado por comissão composta de 03 (três) membros associados, sendo um deles o presidente da entidade, além da avaliação do ato por técnico do Cooperar;

Ademais, concorde exposto na CLÁUSULA TERCEIRA, INCISO II, ALÍNEA “C”, do supracitado termo de convênio, verifica-se que o procedimento implementado pela presidente da associação comunitária rural, fls. 101/190, teve como base o regulamento elaborado pelo Projeto Cooperar em 22 de fevereiro de 2006, que estabeleceu normas para aplicação dos recursos repassados para as entidades comunitárias. O referido regulamento, aprovado pelo Decreto Estadual n.º 26.865, de 23 de fevereiro de 2006, determinou em seu art. 2º que as

TRIBUNAL DE CONTAS DO ESTADO PROCESSO TC N.º 05797/06 entidades comunitárias deveriam realizar apenas uma pesquisa de preços a, no mínimo, 03 (três) empresas do ramo inerente ao objeto pactuado, verbatim:

Art. 2º. As entidades comunitárias deverão proceder à pesquisa de preços escrita a, no mínimo, 03 (três) firmas do ramo pertinente ao objeto do Convênio, cuja condição para sua validade é o julgamento processado por comissão composta de (03) membros associados, sendo um deles o Presidente da entidade, além da avaliação do ato por técnico do Projeto Cooperar. Parágrafo único. Da pesquisa de preços, poderão participar apenas firmas que atenderem aos requisitos deste artigo e apresentarem, em envelope lacrado separadamente, proposta e documentação, devendo ser aberto primeiro o envelope contendo a documentação: I – Habilitação jurídica com a comprovação de: a) cédula de identidade; b) registro comercial, no caso de empresa individual; c) ato constitutivo, estatuto ou contrato social em vigor, devidamente registrado, em se tratando de sociedades comerciais; d) inscrição do ato constitutivo, com prova de pleno exercício da diretoria, no caso de sociedades civis; II – Regularidade Fiscal com a comprovação de: a) prova de inscrição no cadastro de contribuintes estadual ou municipal, relativo ao domicílio ou sede da Empresa, pertinente ao seu ramo de atividade e compatível com o objeto contratual; b) prova de regularidade com a Fazenda Federal, Estadual e Municipal do domicílio ou sede da Empresa ou outra equivalente, na forma da lei, em original ou cópia autenticada; c) prova de regularidade relativa à Seguridade Social (CND) e ao Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS), demonstrando situação regular através de Certidões dentro do prazo de validade, em original ou cópia devidamente autenticada; III – Qualificação Técnica com a comprovação de: a) 02 (dois) atestados de Capacidade Técnica, em original ou cópia autenticada, fornecidos por entidades públicas; b) declaração de que não emprega menor de 16 (dezesseis) anos, salvo na condição de aprendiz (inc. XXXIII do art. 7º da Constituição Federal).

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Do exame dos referidos instrumentos normativos (Decreto Estadual n.º 26.865, de 23 de fevereiro de 2006, e Regulamento do Projeto Cooperar, de 22 de fevereiro do mesmo ano, ambos publicados no Diário Oficial do Estado – DOE de 24 de fevereiro de 2006), fica evidente que, mesmo admitindo-se a mencionada unidade administrativa como uma das entidades descritas no art. 119 da Lei Nacional n.º 8.666/1993, situação que não ocorre na realidade, o instrumento regulatório elaborado pelo Projeto Cooperar não seguiu as disposições consignadas no referido dispositivo, verbum pro verbo:

Art. 119. As sociedades de economia mista, empresas e fundações públicas e demais entidades controladas direta ou indiretamente pela União e pelas entidades referidas no artigo anterior editarão regulamentos próprios devidamente publicados, ficando sujeitas às disposições desta lei. Parágrafo único. Os regulamentos a que se refere este artigo, no âmbito da Administração Pública, após aprovados pela autoridade de nível superior a que estiverem vinculados os respectivos órgãos, sociedades e entidades, deverão ser publicados na imprensa oficial. (grifo ausente no original)

Com efeito, como é do conhecimento de todos, a Constituição Federal é superior ao restante do ordenamento jurídico pátrio, não podendo seus dispositivos serem dispensados ou alterados pelo legislador infraconstitucional. Portanto, consoante estabelece o art. 37, inciso XXI, da Lei Maior, as obras, serviços, compras e alienações serão contratadas mediante procedimento de licitação pública que assegure igualdade de condições a todos os concorrentes, exceto os casos especificados na legislação pátria. Vejamos o disciplinado na Lex Legum:

Art. 37. A administração pública direta e indireta de qualquer dos Poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios obedecerá aos princípios da legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência e, também, ao seguinte: I – (...) XXI – ressalvados os casos especificados na legislação, as obras, serviços, compras e alienações serão contratados mediante processo de licitação pública que assegure igualdade de condições a todos os concorrentes, com cláusulas que estabeleçam obrigação de pagamento, mantidas as condições efetivas da proposta, nos termos da lei, o qual somente permitirá as exigências de qualificação técnica e econômica indispensáveis à garantia do cumprimento das obrigações. (grifo inexistente no original)

TRIBUNAL DE CONTAS DO ESTADO PROCESSO TC N.º 05797/06 Também é cediço que a Carta da República estabelece, na repartição das competências legislativas, as matérias próprias de cada um dos entes da federação, sendo as regras atinentes às normas gerais de licitação e contratação, em todas as modalidades, para as administrações públicas diretas, autárquicas e fundacionais da União, Estados, Distrito Federal e Municípios, de competência privativa da União, concorde determina o seu art. 22, inciso XXVII, senão vejamos:

Art. 22. Compete privativamente à União legislar sobre: I – (...) XXVII – normas gerais de licitação e contratação, em todas as modalidades, para as administrações públicas diretas, autárquicas e fundacionais da União, Estados, Distrito Federal e Municípios, obedecido o disposto no art. 37, XXI, e para as empresas públicas e sociedades de economia mista, nos termos do art. 173, § 1º, III;

Por conseguinte, é importante salientar que as hipóteses infraconstitucionais de dispensa e inexigibilidade de licitação são taxativas e estão disciplinadas no Estatuto das Licitações e dos Contratos Administrativos. Assim sendo, o regulamento elaborado pela antiga gestora do Projeto Cooperar e o Decreto Estadual n.º 26.865/2006 ferem frontalmente o estabelecido no texto constitucional e na citada norma infraconstitucional (Lei Nacional n.º 8.666/1993), haja vista que dispensaram indevidamente a realização de procedimento licitatório por parte de associações. Neste sentido, também merece ênfase o fato de que a apreciação da constitucionalidade de leis e atos normativos não é prerrogativa exclusiva do Poder Judiciário. Conforme entendimento sumulado em 13 de dezembro de 1963 e ratificado em diversas oportunidades pelo Supremo Tribunal Federal – STF (Súmula n.º 347), os Pretórios de Contas podem, no exercício de suas atribuições, apreciar a constitucionalidade das normas exaradas pelo Poder Público. Trata-se, pois, de incidente de constitucionalidade (controle difuso ou aberto), onde os Sinédrios de Contas, no caso concreto, afastam a aplicabilidade de uma lei ou de um ato normativo maculado formal ou materialmente de inconstitucionalidade e utilizam, como vigentes, as demais normas existentes no ordenamento jurídico ao tempo anterior à edição do preceito vergastado. Acerca da matéria, trazemos à baila a doutrina de Valdecir Fernandes Pascoal, que, em sua obra intitulada Direito Financeiro e Controle Externo: teoria, jurisprudência e 370 questões de concursos públicos (atualizado com a lei de responsabilidade fiscal – LRF). 4. ed. rev., ampl. e atual. Rio de Janeiro: Impetus, 2004, p. 155, assim se manifesta, verbo ad verbum:

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Quando examinamos as regras relacionadas ao controle efetuado pelos Tribunais de Contas, especialmente os artigos 70 e 72, constatamos que a própria Lei Maior conferiu ao Tribunal de Contas a possibilidade de analisar a aplicação de recursos públicos à luz do princípio da legalidade. Princípio da legalidade está posto nos referidos dispositivos constitucionais, como sinônimo de ordenamento jurídico. Assim, tendo-se em conta que todas as normas que compõem o ordenamento jurídico (leis, decretos, resoluções, portarias, etc.) devem estar de acordo com a Lei Maior, com a Constituição Federal, ou seja, considerando o princípio da supremacia do texto constitucional, o Tribunal de Contas, no exercício de suas atribuições, poderá apreciar, in concreto, a constitucionalidade de determinada lei ou ato do Poder Público, deixando de aplicá-los por manifesta afronta à Constituição Federal ou Estadual.

Especificamente quanto ao objeto do convênio, os inspetores desta Corte destacaram que o açude comunitário localizado na comunidade CACIMBINHA não estava concluído, tendo em vista a inexecução do sangradouro e do “rock-fill”. Além deste fato, os analistas da unidade de instrução enfatizaram que as calhas de drenagem estavam obstruídas com o crescimento da vegetação, como também que já tinha ocorrido o desprendimento de pedras de proteção do maciço da barragem, evidenciando, deste modo, a falta de realização de quaisquer serviços de correção, manutenção e monitoramento. Com efeito, as mencionadas eivas, podem comprometer a estrutura da barragem, motivo pelo qual o atual Coordenador Geral do Projeto Cooperar, Dr. Roberto da Costa Vital, deve adotar as medidas cabíveis, com vistas à recuperação das falhas detectadas na construção do açude na comunidade CACIMBINHA, localizada no Município de Araruna/PB, notadamente diante do disposto no art. 618 da Lei Nacional n.º 10.406/2002 (Código Civil brasileiro), pois a vigência do convênio foi até o dia 23 de fevereiro de 2009 e a obra ainda não foi entregue pela empresa executora dos serviços, concorde destacado pelos inspetores da Corte, fl. 481, Além disso, o Diretor Presidente da Agência Executiva de Gestão das Águas do Estado da Paraíba – AESA, Dr. Moacir Barbosa da Veiga Filho, deve demonstrar as providências em relação ao monitoramento das condições operacionais do açude, consoante estabelecido no art. 5º, inciso IV, da lei que instituiu a mencionada agência reguladora (Lei Estadual n.º 7.779/2005), ad literam:

Art. 5º Compete à AESA: I – (...) IV – fiscalizar, com poder de polícia, a construção e as condições operacionais de poços, barragens e outras obras de aproveitamento hídrico, os usos dos recursos hídricos superficiais e subterrâneos e da infra-estrutura hídrica pública nos corpos de água de domínio estadual e, mediante delegação expressa, nos de domínio da União que ocorrem em território paraibano;

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No que tange à prestação de contas, os peritos do Tribunal evidenciaram que a associação não encaminhou o documento final ao Projeto Cooperar. Vale ressaltar que, conforme peças encartadas aos autos, a ex-gestora do aludido projeto estadual, Dra. Sonia Maria Germano de Figueiredo, determinou a realização de Tomada de Contas Especial e que o relatório da comissão, emitido em 23 de maio de 2009, fls. 467/472, dentre outras constatações, atribuiu à representante da ADECA a responsabilidade pelo não envio de documentos pendentes, quais sejam: a) comprovante de recolhimento do Imposto Sobre Serviços de Qualquer Natureza – ISSQN incidente sobre os pagamentos da 2ª, 3ª e 4ª medições; b) termos aditivos de valor e de prazo ao contrato; e c) Certidão Negativa de Débito – CND, referente à baixa do Cadastro Específico no Instituto Nacional do Seguro Social – CEI n.º 42.300.06493/71, fls. 467/472. Assim, diante da transgressão a disposição normativa do direito objetivo pátrio, decorrente da conduta da gestora do Convênio n.º 073/2006, Sra. Maria José Alves de Araújo Oliveira, além do julgamento irregular das contas em apreço, resta configurada a necessidade imperiosa de imposição de multa no valor de R$ 2.000,00, prevista no art. 56 da Lei Orgânica do TCE/PB (Lei Complementar Estadual n.º 18, de 13 de julho de 1993), sendo a representante da associação comunitária enquadrada no seguinte inciso do referido artigo, verbum pro verbo:

Art. 56. O Tribunal poderá também aplicar multa de até Cr$ 50.000.000,00 (cinqüenta milhões de cruzeiros) aos responsáveis por: I – (omissis) II – infração grave a norma legal ou regulamentar de natureza contábil, financeira, orçamentária, operacional e patrimonial;

Ante o exposto, proponho que o TRIBUNAL DE CONTAS DO ESTADO DA PARAÍBA: 1) Com fundamento na Súmula n.º 347 do Supremo Tribunal Federal – STF, AFASTE INCIDENTALMENTE A APLICABILIDADE do Decreto Estadual n.º 26.865, de 23 de fevereiro de 2006, e do Regulamento do Projeto Cooperar, de 22 de fevereiro do mesmo ano, ambos publicados no Diário Oficial do Estado – DOE de 24 de fevereiro de 2006. 2) JULGUE IRREGULARES as contas da Sra. Maria José Alves de Araújo Oliveira, gestora do Convênio n.º 073/2006, celebrado em 23 de agosto de 2006 entre o Estado da Paraíba, através do Projeto Cooperar, e a Associação de Desenvolvimento Comunitário de Araruna – ADECA, localizada no Município de Araruna/PB, objetivando a construção de um açude na comunidade CACIMBINHA.

TRIBUNAL DE CONTAS DO ESTADO PROCESSO TC N.º 05797/06 3) APLIQUE MULTA à Presidente da ADECA, Sra. Maria José Alves de Araújo Oliveira, inscrita no Cadastro de Pessoa Física – CPF sob o n.º 441.624.304-97, no valor de R$ 2.000,00 (dois mil reais), com base no que dispõe o art. 56 da Lei Complementar Estadual n.º 18/1993 – LOTCE/PB. 4) FIXE o prazo de 30 (trinta) dias para recolhimento voluntário da penalidade ao Fundo de Fiscalização Orçamentária e Financeira Municipal, conforme previsto no art. 3º, alínea “a”, da Lei Estadual n.º 7.201, de 20 de dezembro de 2002, com a devida comprovação do seu efetivo cumprimento a esta Corte dentro do prazo estabelecido, cabendo, igualmente, à Procuradoria Geral do Estado da Paraíba, no interstício máximo de 30 (trinta) dias após o término daquele período, velar pelo inteiro cumprimento da deliberação, sob pena de intervenção do Ministério Público Estadual, no caso de inércia, tal como previsto no art. 71, § 4º, da Constituição do Estado da Paraíba, e na Súmula n.º 40 do eg. Tribunal de Justiça do Estado da Paraíba – TJ/PB. 5) OFICIE ao Excelentíssimo Governador do Estado da Paraíba, Dr. Ricardo Vieira Coutinho, bem como ao atual Coordenador Geral do Projeto Cooperar, Dr. Roberto da Costa Vital, informando as referidas autoridades acerca da inaplicabilidade do Decreto Estadual n.º 26.865, de 23 de fevereiro de 2006, e do Regulamento do Projeto Cooperar, de 22 de fevereiro do mesmo ano. 6) DETERMINE ao gestor do Projeto Cooperar, Dr. Roberto da Costa Vital, que se abstenha de afastar o dever constitucional e legal de licitar por meio da inserção de cláusulas nos termos dos convênios celebrados, notadamente quando os recursos envolvidos forem provenientes do tesouro estadual, sob pena de responsabilidade futura. 7) ENCAMINHE cópia desta decisão à Diretoria de Auditoria e Fiscalização – DIAFI para subsidiar a análise das contas do gestor do Projeto Cooperar, relativas ao exercício financeiro de 2013, notadamente no tocante ao estabelecido nos itens “5” e “6” supra. 8) ESTABELEÇA o lapso temporal de 60 (sessenta) dias para que o Coordenador Geral do Projeto Cooperar, Dr. Roberto da Costa Vital, adote as medidas cabíveis, com vistas à recuperação das falhas detectadas na construção do açude na comunidade CACIMBINHA, localizada no Município de Araruna/PB, haja vista o disposto no art. 618 da Lei Nacional n.º 10.406/2002 (Código Civil brasileiro), pois a vigência do convênio foi até o dia 23 de fevereiro de 2009 e a obra ainda não foi entregue pela empresa executora dos serviços, concorde destacado pelos inspetores da Corte, fl. 481. 9) FIRME também o termo de 60 (sessenta) dias, desta feita, para que o Diretor Presidente da Agência Executiva de Gestão das Águas do Estado da Paraíba – AESA, Dr. Moacir Barbosa da Veiga Filho, demonstre as providências em relação ao monitoramento das condições operacionais do açude, consoante estabelecido no art. 5º, inciso IV, da Lei Estadual n.º 7.779/2005.

TRIBUNAL DE CONTAS DO ESTADO PROCESSO TC N.º 05797/06 10) ENVIE recomendações no sentido de que os convenentes, nos futuros ajustes, não repitam a irregularidade apontada nos relatórios dos técnicos desta Corte de Contas e observem, sempre, os preceitos constitucionais, legais e regulamentares pertinentes. 11) Com fulcro no art. 71, inciso XI, c/c o art. 75, caput, da Constituição Federal, REMETA cópia das peças técnicas, fls. 479/482, 485/487, e 516/518, dos pareceres do Ministério Público Especial, fls. 490/491 e 520/524, e desta decisão à augusta Procuradoria Geral de Justiça do Estado da Paraíba, destacando, na representação, a inconstitucionalidade do Decreto Estadual n.º 26.865/2006 e do Regulamento do Projeto Cooperar, ambos publicados no Diário Oficial do Estado – DOE de 24 de fevereiro de 2006, com vistas à adoção das medidas pertinentes. É a proposta.

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