BRIGITTE MONTFORT

LOU CARRIGAN

SECRETÍSSIMO

SECRETÍSSIMO UM Um pouco de judô Os pois japoneses pareciam muito satisfeitos, sem dúvida porque se tinham encontrado um ao outro e podiam falar sua própria língua nada menos que no centro de Nova Iorque. Um deles, miúdo e delgado, cujos diminutos olhos negríssimos brilhavam de astúcia, devia ter uns cinqüenta anos e estava ataviado com o clássico yudogi, ou quimono dos praticantes de judô. Na cintura, o distintivo de sua categoria: cinturão de listras vermelhas e brancas. Isso queria dizer que já ultrapassara a categoria de “faixa-preta”. Era o mestre e diretor técnico do dojo, o professor Tamaki Kurita, sexto Dan. O outro japonês devia ter uns trinta e cinco anos. Era um tanto mais alto, mais atlético, elegante, de expressão muito agradável. Suas feições eram bem delineadas e seus olhos, maiores que os comuns em sua raça, eram apenas ligeiramente oblíquos. Não havia nenhuma astúcia neles. Somente uma notável inteligência natural, repousada; parecia capaz de compreender tudo com um só olhar. Também envergava um yudogi, mas a faixa que o cingia era preta, simplesmente. — Este é o tatami para alunos — acabou de explicar o mestre Kurita. — Agora os veremos em treinamento. Tenho muito bons discípulos. — Algum deles é japonês? — Não. Você será o único... se lhe agradar o meu dojo.

— Estou certo de que me agradará. Francamente, não esperava encontrar nada assim em plena Nova Iorque. Kurita sorriu e indicou a saída daquela parte do ginásio. Transpuseram um curto corredor, iluminado de vermelho suave, e entraram em outra sala, algo menor. Detiveram-se uns segundos junto à porta, enquanto Kurita esperava cortesmente que o novo aluno- sócio provável recreasse a vista contemplando as instalações, que eram simples, mas bastante agradáveis. No centro, o grande tatami em tom verde-claro, bem esticado, limpíssimo, nem duro nem mole, sobre o qual alguns judocas faixa-preta praticavam o randori, ou a técnica de luta com ambos os contendores de pé. Vários outros alunos, sentados sobre as pernas dobradas a um lado do tatami. acompanhavam os movimentos dos pares de antagonistas. Ao redor, paredes pintadas de branco, nas quais havia belas gravuras japonesas: flores, pássaros de alegre e variado colorido, judocas em fases diversas da luta, montanhas nevadas, cerejeiras em flor... Quadros com princípios e regras do judô, explicação das categorias e conhecimentos técnicos que exigia cada uma. Sobre o tatami pendia uma grande lâmpada, que lançava luz clara e bem matizada exclusivamente para a lona. A um lado, um pequeno tanque iluminado por sua própria água, de um verde fulgurante. — Um bonito e tranqüilo ambiente — murmurou o novo aluno. — Espero que todos saibam apreciá-lo. — Em geral, sim. Os americanos, honra lhes seja feita, costumam fazer bem as coisas. Quando resolvem aprender o judô, põem nisto todo o seu interesse e sabem cingir-se a todas as regras e detalhes. Venha: quero que conheça seus futuros companheiros... se e que está decidido.

à esquerda do mestre e um pouco mais atrás. O visitante sentou-se também sobre as pernas. saudaram-se com uma inclinação profunda. e inclinou-se cerimoniosamente. como ficou demonstrado há algumas semanas no México. Kurita foi sentar-se no centro. Pressinto que minha permanência em Nova Iorque será muito mais agradável do que esperava. com os dedos paralelos ao corpo. numa saudação que foi imitada por todos os presentes. Kurita subiu ao tatami. Ambos aproximaram-se do tatami e esperaram que todos os pares de contenderes percebessem a presença do mestre Kurita. Quando isto ocorreu. Frente a frente. olhando para todos os lados. convidandoo a precedê-lo. Durante uns segundos. Passe primeiro. Mas o outro moveu negativamente a cabeça. Quando se endireitou. Dan ou grau de mestre . mestre. Kurita olhou um momento o visitante.. Em seguida. eles foram sentar-se com os demais. Espero. após saudar-se mutuamente como final da luta. enquanto o mestre apenas movia os olhos. que a 1 Ni-Dan = faixa preta. — Por favor. reinou silêncio no dojo. — Obrigado. 2º. Kurita olhou o visitante e indicou o tatami.— Estou. logo acompanhado pelo visitante. ele colocou ambas as mãos nos joelhos. defrontando os alunos.. Todos sabemos e admitimos que os judocas japoneses são os melhores do mundo. naturalmente. portanto. Por fim. — Senhoras e senhores: vamos ter a honra de contar com um novo sócio que nos chega com a categoria de NiDan1.

Imediatamente.. suarento. — O senhor Murayama fará agora alguns exercícios de aquecimento muscular. Colocaram-se num ponto do vasto tatami. seu quimono as duas listras negras. É só. desafiava um deles. E a cada nome o recém-apresentado e o novo aluno se saudavam. Decorridos três minutos. Quando estiver preparado. Kurita mencionou seus respectivos nomes. ornando um a um seus alunos. num gesto cortês. para inclinar-se e corresponder à saudação geral. Minutos mais tarde. deixando ver na borda de. desafiará uru dos presentes. desgrenhado. concedendo atenção especial a suas articulações.. Dan. Kurita foi sentar-se a um lado do tatami e Minoru Murayama dedicouse a seus exercícios ginásticos de aquecimento. Doutor em Medicina pela Universidade Imperial de Tóquio. Apresentolhes o senhor Minoru Murayama. os alunos o imitaram.. o judoca americano. Espero — sorriu levemente — que lhe seja demonstrado que o professor Kurita tem excelentes alunos. Tornou a saudar. Alguns tornaram a sentar-se e outros prosseguiram com suas lutas. Muito lhes agradeço a atenção. saudaramse com inclinações profundas e passaram ao ataque.presença do nosso convidado de hoje será muito útil a todos para o aperfeiçoamento técnico desta academia. foi correspondido e levantou-se. senhoras e senhores. pedindo . distintivo do 2º.. Depois. aproximava-se da linha de judocas sentados e. que se pos de pé incontinenti. Minoru Murayama apoiou as mãos no solo. sempre com lentas e cerimoniosas inclinações. De igual a igual. levantava uma das mãos. Quando a apresentação individual terminou Kurita ergueu a mão. sorridente.

houve uma nova saudação de agradecimento mútuo e o americano foi sentar-se. — Desculpe-me. 2 San = Senhor.paz. Ela ergueu-se rapidamente. Murayama San — sorriu ela. como um anjo. quando este se colocou diante dela.. comentando com seu companheiro da direita a técnica formidável do novo colega. depois levantou-o mais que depressa para os olhos azuis.. San-Dan2. de modo que. de um suave tom dourado. como à procura de uma nova vítima. — O senhor não me conhecia. Um grau mais que o novo aluno. Murayama dispunha-se a atacar novamente. — De qualquer modo. — A culpa foi minha: impedi que visse o distintivo de meu grau. olhando para a linha dos judocas. ainda sorrindo. em japonês. Dan. ou seja. com um sorriso entre ufano e polido. estando sentada.. Usa-se depois do nome . Por fim. ensolarado. — Perdão. Seus luminosos olhos azuis fitaram um tanto surpreendidos os negros olhos do japonês.. — murmurou.. de modo que se via seu belo pescoço flexível. A mais jovem. após uma queda sensacional. indicando-a com a mão estendida e as sobrancelhas um pouco arqueadas em discreta expressão interrogativa. dirigiu-se para uma das três mulheres incluídas entre os judocas sentados. Minoru Murayama permaneceu de pé. apareceram então as três listras bordadas em seda preta: 3º. — Está muito bem. quando. na borda do seu yudogi. de aspecto mais belo e delicado. Este baixou o olhar para as três listras.. Tinha os cabelos negríssimos apanhados na nuca.

— Todos vimos que não teve culpa. A mulher olhou amavelmente o japonês e riu com simpatia.— Não. ainda parecendo consternado. não gostaria que miss Montfort se sentisse culpada. não tinha visto o grau. — Oh. Foi a primeira a se dar conta de que. Está desculpado.. Pode estar certo de que Brigitte já esqueceu por completo este “grave” . Desculpe. Foi exclusivamente minha. Espero que miss. Realmente. senhor Murayama! Ela é a criatura mais encantadora do dojo. mas lamento o ocorrido. — Bem. enquanto ela tornava a sentar-se. na verdade. Na verdade. — Obrigado. uma pessoa rara. os orientais levam demasiado a sério estas coisas. junto à qual ele se sentara. — Rancor? Brigitte? Ora vamos. senhor Murayama. o erro tinha sido dela. Estava profundamente mortificado e todos puderam dar-se conta disso.. — Como queira... Por fim. não.. uma excelente amiga. Espero que miss Montfort não me guarde rancor. A mulher olhou-o mais surpreendida que se tivesse visto uma baleia voando. — O senhor é extremamente gentil. ele também se sentou. Mas também todos se tinham dado conta de que sua falta de cortesia fora completamente involuntária. miss. Devia ter-me certificado. — Não se preocupe tanto — murmurou outra das mulheres. — Montfort? — Sim: Montfort.. depois de hesitar um instante. Minoru Murayama ficou de pé.

. como o senhor mostrou desejo de lutar com ela.. — Tornara que assim seja. Há nove anos que pratico o judô. não sua juventude. coisa muito diferente... Eu o preveni. Não é ainda muito jovem miss Montfort para possuir esse grau? Bem. que fez um gesto mostrando o centro do tatami. por ser ela tão jovem e o San-Dan nada freqüente. tudo é especial. Mmm. senhor Murayama. viu miss Montfort colocar-se diante dele. indicando-o com a mão estendida e uma expressão interrogativa nos sorridentes olhos azuis. porém. O japonês virou rapidamente a cabeça e. com efeito. E. Tome a mim..” E se não me engano. Dan. estou certa de que não demora a vir desafiá-lo. Ele se levantou quase de um salto e defrontou Brigitte.. por exemplo. mais fulgurantes decerto que qualquer raio. esse raio de sol já vai cair em cima do senhor.. Mas uma mulher é.. — Pois o senhor pode contar com esse “completo perdão” — tornou a rir a mulher. Os . Nós aqui.. Asseguro-lhe que Brigitte merece o terceiro grau. — Eu não estava pensando o contrário. Sei muito bem que no Japão um homem pode atingir o grau de faixa-preta aos quinze anos. sou mais velha que Brigitte e não faz muito que consegui o 1º.incidente... Apenas.. — O que lhe surpreende é seu sexo.. Terceiro Dan. chamamos Brigitte de “raio de sol que nos ilumina a alma. — De fato. quero dizer... fazendo um pouco de brincadeira com o rebuscado estilo japonês... Com ela.. surpreendi-me um pouco. — Acha que sim? Isso significaria na verdade o completo perdão por minha falta.

Dan.. E quase se podia perceber a malícia que brilhava em seus olhos oblíquos. Minoru Murayama ficou algo perplexo um instante. Ele parecia perguntar-se por quê? Eram ambos especiais. saudaram-se e.. que naquele instante se apoiava cinicamente nela.. interromperam a peleja. pensando já em como agiria. golpeando por trás a perna esquerda do japonês.. saudaram-se e foram rapidamente sentar-se. Mas justamente por isso poderia derrubar a adversária com uma simples entrada de perna. réplica simples. isto é. Nada de enganos: estava diante de um 3º. equivale ao som do gongo nos rounds de boxe. e pela lapela esquerda. com efeito. acaso? Olhou o mestre Kurita. E o raio. Murayama aproximou-se de miss Montfort e deixou que ela lhe agarrasse regularmente o quimono. A entrada simples. ao ver de quem se tratava.. pela manga direita. quando tornaram a olharse. à altura do cotovelo. abandonando a costumeira inexpressividade oriental para olhá-lo com incontido interesse. Um dos alunos sentados exclamou alegremente: — Hajime!3 Os que estavam lutando perceberam a presença de dois novos contenderes no tatamig e. 3 . enquanto começava a erguer-lhe o braço direito. Lançou a perna direita por entre as dela. De certo modo.dois foram para lá. pareceu vir de lugar nenhum: a perna esquerda de Brigitte desapareceu de onde estava e tornou a aparecer. girando para dar-lhe as costas. que se havia acomodado melhor em seu lugar.. Assim fez. Fez o mesmo. Murayama caiu de Voz japonesa que significa “Ataquem” e que precede todos os combates formais. Tinham sido deixados sozinhos.

colocou o pé direito na virilha esquerda de Brigitte. passou a perna direita por Ippon. num golpe seco. sem soltar a lapela de seu quimono. Mas esta vez de modo muito mais efetivo: não só derrubaria sua oponente como lhe aplicaria uma chave de braço.. que lhe fez uma leve saudação de cabeça e tornou a estender as mãos para ele. ou combinação. A adversária saltou para frente e caiu a seu lado. virou-o de cabeça para baixo. com o tempo justo para soltar Brigitte com sua mão esquerda e batê-la no tatami. que começou a sujeitar também com a mão direita. Saltou. o golpe ficou decidido: Ude-Hishigi-Hiza-Gatame. Também se obtém a vitória por dois Wazari. Junto com a batida de sua mão na lona ouviu-se uma voz exclamando: — Ippon!4 Minoru Murayama levantou-se velozmente e olhou sua contendora.costas. por Kiken Gachi. como um saco. por Sogo-Gachi. ou abandono.. este não estava em posição adequada para receber a chave. embora com o braço preso. por Ansoku Gachi. de modo que. E assim aconteceu. ou nãocomparecimento do adversário. pode-se ganhar por Fusen Gachi. quer dizer a 25ª. puxando-a para o chão pelo braço esquerdo. chave de braço. para proteger-se da queda. obrigando-a a desistir da luta. Num instante. O mesmo que o nocaute do boxe. Ela flexionou o braço direito seguro por Murayama. mas pronto para ser flexionado. colocou-se por trás dele. ou desclassificação. cada um valendo meio ponto. para a qual se parte da posição de pé. 4 . equivale a ponto e com ele se obtém a vitória em combates regulamentares. Finalmente. Combate nulo é Iquiwake. Outra vez se agarraram e o japonês planejou rápido a retribuição da queda.

agarrando-se. ele fintou para a esquerda e. puxando o braço direito de Murayama e bloqueando a perna do mesmo lado com sua esquerda. Ainda estavam ambos no chão. com um baque saco contra a lona. Yoko-Otoshi. e a esquerda puxava cm circulo a manga direita dela. sutemi ou movimento de sacrifício.cima de sua nuca. Deixou-se cair para trás. Com um giro para a esquerda e inclinando-se. evoluções de estudo. Deve-se esperar algo mais. movimento de quadris que traduzido significa “Tempestade na Montanha”. numa fração de segundo. alguns giros. Agarraram-se novamente. Duas tentativas. girando sobre a ponta do pé esquerdo e colocando o quadril direito contra o ventre de Brigitte. puxando-a para cima pelo quimono. mudou para a direita. firmou o pé no chão e puxou-lhe o quimono para cima. finalizando-a com perfeição. provocando assim a queda lateral do 10º. bloqueando-lhe completamente a cabeça. Miss Montfort tornou a ser o raio de chega de lugar nenhum. — Ippon! Novamente em guarda.. quando Brigitte iniciou velozmente a chave cruzada de braço. Miss Montfort caiu de costas diante dele. como ocorre com os sutemis. a queda não significa grande coisa. imperturbável. E assim foi.. — Ippon! — tornou-se a ouvir. ao mesmo tempo que sua mão direita subia. Em princípio. O japonês levantou-se. Ficou estendida ao . Ude-Hishigi-JujiGatame. provocando assim um poderoso estrangulamento efetuado ao contrário das regras normais: Hasami-Jime. Murayama conseguiu por fim o Yama-Arashi. sobretudo quando o que a força também cai. Murayama bateu com a mão na lona e Brigitte soltou-o imediatamente.

depois a seus companheiros em geral. — Sou eu quem lhe deve agradecer — murmurou ele.lado de Murayama. a menor que o japonês optasse por abandonar a luta. Kurita levantou-se. Dali saudou. Os assistentes aplaudiram entusiasticamente os dois contendores. miss Montfort ergueu um braço e olhou sorridente para Minoru Murayama. antes de saltar sobre suas sapatilhas especiais. saudou também e se encaminhou para ela. Dan e aprendeu judô no Japão. que continuaram aplicando chaves diversas. e Brigitte soltou-lhe o braço.. enquanto com as duas mãos puxava para baixo. Murayama San. A ruptura do cotovelo era inevitável. miss Montfort. com as clássicas batidas na lona.e à borda do tatami. — Não estive mal? Ora vamos. a atenção de todos os alunos e do mestre Kurita esteve concentrada nas demonstrações daqueles dois hábeis contendores. cada vez com mais astúcia. mas esta apenas há alguns meses aqui.. 5 Sen-sei = Mestre . — Não esteve mal.5. Claro que o senhor é excelente mestre. — Muito obrigada. ainda não me pode ensinar o suficiente. apertando-lhe o cotovelo contra o próprio abdome e forçando-o para cima. miss Montfort. Sen-Sei. Murayama tornou a sentar-se e Brigitte dirigiu-s. cada vez estudando-se mais a fundo.. Por fim. Murayama San é 2º. Assim fez ele. — Muito obrigado. — Ippon! Durante mais cinco minutos. primeiro em direção ao mestre Kurita. com o braço direito deste entre suas duas pernas dobradas. que suava ainda mais copiosamente que ela.

Coisa difícil de compreender para quem visse aquele corpo esbelto. Tirou as calças. que usava durante os treinos.. sim. de linhas suaves e harmoniosas. delicado.. Dirigiu-se ao vestiário das alunas. o sutiã. distraída. foi a seu armário. encolheu os ombros ao não ver ninguém e tirou o quimono.. Sentia-se completamente em forma. Nove Ippons contra três de Murayama é um resultado magnífico.. cheia de força. o título mundial esteve durante muito tempo em de um judoca que não é japonês. Entretanto. — O caso de Anton Geesink foi.. enfrentarei essas provas. — Oh. — Eu sei. Poderia ser dentro de quinze dias. miss Montfort. depois fria. Até logo.. Oh. não é assim? — Com efeito. os japoneses ficaram com a quase totalidade dos títulos. — A verdade que esteve muito bem. — Sim. — Então. — Ele é um adversário duro e bem preparado. um acidente. — riu Brigitte. Tudo voltou ao seu curso normal. — Ótimo. Sen-Sei. — Um detalhe muito digno de ser tomado em conta. — Claro: é japonês. primeiro com água quente. . no México.. ajustada. apenas — replicou Kurita.. Entrou. desfrutando de antemão o maravilhoso banho que ia tomar..— Às vezes me pergunto se tenho ainda algo a lhe ensinar — sorriu o nipônico. ficando com a fina malha negra. Não se resfrie. — Quer dizer que me considera preparada? — Claro que sim. — Não faz muito. Completamente nua. Dan. Mas o que lhe queria dizer é que insisto em apresentá-la nas provas para o 4º... a malha.. vá ao chuveiro.

disposta a passar ao ataque. com a batida saca de ambos os braços. Algo brilhante. Como cravada no chão. O impulso do salto fora tal. O animalejo continuava silvando. junto aos pés da . que a linda judoca nua caiu três metros mais longe. O repulsivo animal passou rente à sua perna direita. por instinto. tirando a toalha. E assim. Levantou-se imediatamente e olhou de olhos arregalados a víbora. que estava levantando a cabeça. pálida. que tinha empalidecido bruscamente. atenuando o impacto. reagindo de pronto.. o perigoso réptil saltou contra suas pernas. aproximando-se. por alguma razão também ela . passou junto a seu rosto. Esperou serenamente que a víbora estivesse mais perto e começasse a erguer a cabeça. Sssstttsssttt. E. Afinal. silvando.petrificada Brigitte. deslizando pelos brilhantes ladrilhos.. como uma bala. DOIS Uma víbora fora do ninho Brigitte esquivou-se do bote da cobra. súbito.. que se revolvia no chão. Brigitte deixou-a chegar. petrificada. longo e fino.. de costas. Sssstttsssttt... Então.Abriu a porta do armário. Uma víbora de espécie venenosa. como se estivesse ainda no tatami. enquanto enrolava e dobrava a toalha.. onde ficou. roçando-a com a cauda. contemplou a víbora que se agitava furiosamente sobre os ladrilhos. moveu-se com rapidez fulminante. Algo que se contorceu em sua trajetória até ao chão. Sssstttsssttt. agitando freneticamente a cauda e voltando-se de novo para ela.. emitindo o silvo ameaçador.

girando no ar. correndo. quando Brigitte correu ao armário. Pequena. E estava ainda girando no ar. soltou um grito agudíssimo e saiu do vestiário. a totalidade dos sócios estava no corredor. cruzando o quimono ao peito. que tirou rapidamente a faixa preta e precipitou-se para o vestiário. apoiada à parede. A cobra tornava a aproximar-se. seguido por seu novo aluno. tremendo. Houve um movimento instintivo de recuo.. mas alvo muito fácil para “Baby”. enquanto vestia apressadamente o quimono. tirou sua bolsa e desta a pistolinha de coronha de madrepérola. Brigitte era a imagem viva do terror. sempre lhe apontando a pequena cabeça. À frente vinha o mestre Kurita.. irritadíssima. como certa vez havia demonstrado6. — Miss Montfort — mestre Kurita segurou-a pelos ombros —. deixou cair esta. Uma cobra horrível. a mais perigosa espiã do mundo. Minora Murayama.. Do corredor. por favor! Que está lhe acontecendo? — É. que inopinadamente tornou a guardar a pistolinha na bolsa. que mais parecia um brinquedo. destravou-a e fez pontaria. enviando-o ao outro extremo do vestiário. exceto da parte de Murayama. acalme-se. apanhou o quimono. alcançou em cheio o réptil na cabeça.. Quando chegaram junto a ela. e a cada coleio seu a mão armada se movia. de cujo limiar olhou para 6 ver: VÍBORA SEM NINHO . silvando ainda mais ameaçadoramente. Praticamente.. seus gritos deviam ter chegado até aos confins da academia. sempre dando gritos. gritando...era uma víbora. procedentes dos tatamis.. Com um certeiro golpe de toalha. uma cobra no vestiário. e logo em seguida apareceram vários judocas.

reptando para a saída. — murmurou ele. procurando em todas as direções. com a faixa e atirando agora o réptil contra a parede. onde a víbora se agitava. tinham imitado o novo colega. fazendo girar a faixa dobrada. fortíssima. — Volte! — gritavam-lhe. de modo que ele pode golpeá-lo ainda mais certeiramente na cabeça. Quando alcançaram a porta. atirando-a contra as portas de vidro fosco dos chuveiros. sem saber por que. rapidamente.. Com o novo impacto. finalmente. tirando suas faixas.. — Creio que essa espécie é venenosa. mas logo após ficava completamente imóvel. seguido de vários judocas. olhos muito abertos. apanhou um tamborete branco por uma perna e.. Deixou Brigitte aos cuidados de algumas alunas e correu a reunir-se com Murayama. lançando nova lambada.dentro... lançou uma lambada à cabeça da víbora. que. quando o ofídio já pouco se agitava. fazendo-o ir de um lado para outro e. Golpeou-o várias vezes mais. Murayama apontava para o interior do vestiário. — melhor chamarmos a Polícia. Volte! Está maluco? Murayama acabava de entrar no vestiário e avançava diretamente para a cobra.. A víbora ainda agitou a cauda..! Mas o japonês não voltou. — Não se aproximem. com um canto do assento.. — Ela vai mordê-lo. — Feche a porta — sugeriu alguém. esmigalhou-lhe a cabeça. achatando-o centra o solo. .. — Chamaremos a Polícia. o animal perdeu parte de sua rapidez. Súbito. — Tome cuidado! — gritou-lhe Kurita.

assim como alguns judocas. — Quem o matou? — O novo sócio. Pode ficar tranqüila.. obrigada... — Fui uma tola. Apareceu de repente. Mas assustei-me tanto. — Era lógico que gritasse.. Não deveria ter gritado assim. — conseguiu sorrir. Minoru Murayama.. — Não. — Miss Montfort. que a tinha visto. alarmando a todos. já não há perigo. Quer tomar alguma coisa? Um pouco de uísque ou conhaque... que. Foram-se afastando. como.. Vamos ver esse. O diretor da academia bateu carinhosamente no ombro de Brigitte.. não aconteceu nada. por gentileza. Não deve sentir-se culpada por ter reagido corno qualquer pessoa o faria. — Morto? — exclamou o diretor.. — O animal já está morto...? — estranhou outro.Kurita entrou no vestiário. enquanto os de corredor soltavam exclamações. mas. Voltem aos dojos. informandose do ocorrido. — Uma víbora aqui! Mas. miss Montfort. graças a Deus! Por favor. excitados. conseguiu abrir caminho até Brigitte. fazendo comentários. — Oh. O diretor da academia chegou correndo do andar de cima e. Já estou tranqüila.. senhores. Tamaki Kurita apareceu junto a ele e olhou com simpatia para Brigitte. já mais tranqüila. — Era uma víbora — disse um dos sócios. que começaram a felicitar excitadamente Murayama.. Isto é incrível. animal. sorrindo não sem esforço.. ... Por favor. tranqüilize-se... não... ainda tinha lágrimas nos magníficos olhos. — Está bem? A cobra chegou a mordê-la? — Oh..

. Landis. — Mas se houver outras. isso não pode ser. Talvez seja mesmo melhor avisar a Polícia. — Se eu fosse você — disse a outra —. — Horrível. ... — Mrs. Isto é inaudito. — Não sei como teve coragem para enfrentá-la. não! Nada de entrar aí. — Seria horrível.. descalça. Vamos vê-la. ainda estaria tremendo. A víbora tinha sido colocada no tamborete com o qual o japonês a matara.. Vamos ao vestiário. com as sensacionais pernas nuas.. não estamos numa selva. No interesse da própria academia. Brigitte entrou no vestiário. querida — sorriu Brigitte —. Eu pensei que ia desmaiar. Landis tem razão — concordou Bower. Foi um acidente e não lhe devemos dar maior importância. vivamente. — Não. Minoru Murayama e alguns judocas que tinham ficado. mas apertando bem o quimono contra o peito. vamos. Já lhe passou o susto? — Já. enquanto não me jurarem que não há mais serpentes! E você faria bem em imitar-me. — Eu. — Embora não seja possível que haja mais. — murmurou Brigitte. Essa cobra terá escapado de algum lugar.. — insistiu Mrs.— Talvez haja mais cobras — tremeu a voz de Mrs. e súbito olhou para Murayama. — Não quero lhe causar aborrecimentos. Bower. Landis. voltaram a cabeça. nada de Polícia. Os outros acompanharam-na. olhando-a... Afinal. — Vamos. — Pois eu quero vê-la agora.. Mr. — opôs-se Brigitte. — É conveniente que entremos nós primeiro — disse o diretor.

. os demais deram uma busca no vestiário. — Obrigado por sua compreensão. Não tenho intenção de dar maior importância a este incidente. Onde a encontrou. — Daremos uma olhadela — disse Bower. durante alguns minutos. — Enquanto isso.— O japonês é valente — comentou um dos circunstantes. Saí correndo. — Você precisava ter visto como ele atacou a cobra. Despi-me... os empregados e eu daremos uma batida mais completa — prometeu Bower. enquanto Brigitte permanecia junto à porta. Mas conviria verificar se não há mais nenhuma outra por aqui. Por mim. apanhei a toalha e. se prefere utilizar o vestiário dos cavalheiros. com a atitude de quem faz o possível para mostrar-se valente. depois peguei o quimono. Houve risos e. — Por favor. — Não. miss Montfort.. E perdoe se. não. miss Montfort? — Não sei. ouvi um silvo junto a meus pés. — Não dêem tanta importância ao caso. Embora eu não creia: já teria aparecido. vão permitir que eu tome meu banho sem espectadores? Houve mais risos e todos abandonaram o vestiário.. Brigitte fechou a porta. Estava no chão. miss Montfort.. sorriu ironicamente e resolveu que tinha chegado o momento de meter-se debaixo do chuveiro. abri meu armário.. . Só sei que a vi... pouco à vontade.. — disse Murayama. A verdade é que não sei bem como tudo aconteceu. — Tudo está dito — sorriu ela... estou certo de que eles o cederão com gosto.. Não havia muito por onde procurar entretanto. Só não quero ir para o chuveiro com uma víbora. Talvez eu a tenha golpeado com a toalha. parece. — Essa noite. nada aconteceu. súbito. — Cavalheiros.

caminhando a seu lado. Murayama San. quando a porta do vestiário masculino se abriu e apareceu Minoru Murayama.. Vestindo trajo de rua. estou muito envergonhada — sorriu ela... — Bom lugar para uma víbora. — Acredite que não sou de dar gritos por qualquer coisa. Afinal de contas.. Tomou pelo corredor que levava ao tatami dos faixas-pretas e. que estive pensando a seu respeito? Foi muito valente. — Oh. Salve. sorriu -de um modo muito agradável e aproximou-se dela.. Em seguida. Talvez não muito alto. — Embora eu me pergunte por que. eu não chamaria uma víbora venenosa de “qualquer coisa”. — Ainda está em tempo. que o olhava com expressão amistosa. Nós a jogamos no incinerador. como surpreendido. E parece-me que ainda não lhe agradeci.. quando matei a víbora. — Qualquer coisa? — Murayama arqueou as sobrancelhas. mas sua estatura devia distingui-lo entre os homens de sua raça. — Bem. — brincou o japonês. sorridente. Tinha um ar sério e repousado. Nem sei como tive a lembrança de apanhar o . Não ficará nem rasto. espero que se tenha recuperado completamente do susto. — Pode ter certeza de que jamais corri tanto em minha vida. já estava a salvo por seus próprios meios. — Miss Montfort — disse em seu impecável inglês —.. o japonês parecia ainda mais atlético e elegante. despedindo-se das colegas que tinham decidido prolongar mais sua prática de judô aquele dia.Meia hora mais tarde saía do vestiário.. que a olhou vivamente. mal tinha dado alguns passos.

.. Suponho que foi o pudor instintivo de toda mulher.. — Pena. onde se viam mais de vinte carros. — Digo que é uma pena que tenha vindo de carro. — O que é que compreende. — Oh... — Lá está o meu — indicou-o Brigitte.. — Sem dúvida. O seu.. Talvez em outra ocasião. não? — Assim é. .quimono. O meu é um velho Ford alugado. Parece que estamos indo para a garagem. não. sim. agora compreendo.. — Ah. ouvi alguns cavalheiros comentarem a seu respeito. do último modelo. Um Cadillac. — Verdade? Espero que tenham sido comentários simpáticos. Não me surpreende que prefira ir no seu carro. Murayama deu-lhe passagem ante o lanço de escada que descia para a garagem subterrânea. O que me pagam pelo velho destino a obras de caridade. — Compreendo: com o que lhe dão pelo antigo. Gostaria de oferecer-lhe o meu.. como sempre. — E.. perto da saída. — O senhor é muito amável. — Como? Não compreendo. — Não. — Troco-o cada ano — sorriu ela: — vendo o velho e compro o modelo seguinte. no vestiário. Murayama San? — Bem. e mais uns quantos dólares..

Comecei a admirá-la no tatami. Dan é lógico. Digamos que o corpo funciona como o instrumento de uma mente. Porque. E vou admirando-a cada vez mais.. a rapidez mental com que antecipa os movimentos do adversário. especial... Não são freqüentes numa jovem tão. Uma mente especial é indispensável à perfeita compreensão do judô. Terei o prazer de vê-la amanhã também? — Amanhã? Não. — Como? — espantou-se o nipônico. capacidade mental de compreender o judô.. Ou não? — Talvez não seja tão lógico.. — Creio que é essa a palavra... de modo que o fato de ser agora do 3º. meu amigo.. aliás. miss Montfort.. tão. de oportunidade. seus. mas não da maneira corno a vi fazer.. Claro que não estou falando de judocas. Coisa que. — Muito grata! ela tornou a rir. por favor! Está me deixando constrangida! — Desculpe.— Totalmente.. não me surpreende. Não é comum encentrar alguém com a sua. — Delicada? — riu Brigitte.. comuns. — Mas. Creio que não. é evidente que o judô não se pratica só com o corpo. — Murayama San. Qualquer pessoa pode praticar o judô.. — Pratica também a esgrima? .. Devo dizer-lhe que ainda não saí de minha surpresa ante seus conhecimentos de judô. Tenho aula de esgrima. esta jovem delicada que está à sua frente começou a praticar o judô aos sete anos. quando ainda era louca por caramelos e bonecas. Seu senso de equilíbrio.

Sou jornalista. trabalha! — Pois trabalho. Além de outras coisas de que não me lembro. a equitação. Não lhe bastam meus artigos: está sempre solicitando minha presença para colaborar com ele na paginação e coisas assim. Paga-me bastante bem.. o surf.. Nada pior para uma mente sadia que o ócio... — Incrível... Finalmente. — balbuciou o japonês.. — Pensava o quê? — Que fosse uma milionária mais ou menos. — Realmente admirável. Desculpe. com efeito. Eu pensava que fosse. — Sou um pouco de tudo isso que está pensando! — admitiu. o esqui aquático.. Brigitte ficou um instante pensativa... além disso.... — Perdoe-me. Boa noite. Trabalho num jornal matutino e algumas noites meu chefe exige que eu vá ajudá-lo... . Tolice minha não a ter identificado imediatamente. Estava certo de que tinha ouvido o seu nome antes: Brigitte Montfort.. o japonês estava atônito.. mas preciso ir.... Não me diga que. Não está de acordo? — Sim.. — Não sabia.... o pára-quedismo. pois li muitos artigos seus. bem. Um momento. Murayama San. — Fantástico. pôs-se a rir. sim... Montfort. o tênis. mas é um tirano. — E tem tempo para tudo isso? — Vou me arranjando. sim. Não foi proposto seu nome para o Prêmio Pulitzer de jornalismo deste ano? — Parece-me que sim..— E o caratê. a natação.. caprichosa. Claro! Lembro-me agora.

aquele som que se produzia dentro do carro. mas também de contato.... não lhe guardo rancor. invisível para ela. reagiu em seguida e continuou calçando a luva. — Brigitte estendeu-lhe a mão. Enquanto isso. viram o delgadíssimo fio que ia da ignição a qualquer coisa que estava por baixo do painel. Estava calçando a primeira. ouvindo aquele tênue som. ficou imobilizada. Por um instante. Riram os dois. depois de se colocar ao volante. Brigitte. quando a seus finíssimos ouvidos começou a chegar. . abriu o compartimento junto ao painel de controle e sacou as luvas. que sentira o volante muito frio em suas mãos. — Espero que não me guarde rancor pelo nove ippons. Devia ser uma bomba-relógio. Só reagiu quando ela voltou-se. Então ele correu para onde estava o seu Ford alugado. Segurança antes de tudo.— Adeus. Ligeiramente pálida. que deixou o nipônico como cravado no chão. calçou a outra. depois. A pessoa que a colocara ali queria ter plena certeza de que. por fim. enquanto em seu cérebro soava o sinal de alarma. a bomba continuava a emitir seu tique-taque. o artefato explodiria quando miss Montfort estivesse dentro do carro. Enquanto isso. soltaram suas mãos e Brigitte dirigiu-se a sou carro. — Aceitará uma revanche no próximo dia em que nos encontrarmos aqui? — Naturalmente! — Então — sorriu Murayama —. Os maravilhosos olhos azuis iam de um lado a outro do painel e. caminhando daquele modo sensacional. que parecia o tique-taque de um relógio. fascinado.. com toda a clareza. de um ou de outro modo.

a fim de ligar o motor. Segurou-a com dois dedos e virou-a para a direita. com uma forte vibração. tossindo fortemente. Ela suspirou profundamente. — Miss Montfort! — exclamou.Tique-taque. abriu a porta. veio correndo um homem de macacão azul. Pela rampa de sarda. terminou de ajustar bem as luvas e adiantou a mão direita para a chave de contato. do qual saía uma espessa nuvem de fumaça branca. orientando-o para a saída da garagem. Todo o interior do carro estava cheio daquela fumaça. Sem hesitar. que deixara no bloco da ignição. que já estava manobrando seu carro. gritando. Suas pernas tinham subido até ao assento atrás do volante o as meias. Por um instante no local discretamente iluminado brilhou uma luz amarelo-vermelha e o estampido ressoou surdamente entre as paredes de concreto. Isto é. freou em seco e virou a cabeça ao ouvir a explosão. tique-taque. procedente da cabina de onde controlava o ingresso àquela garagem particular. aos borbotões. Mas a esta altura. TRÊS Tentativa à bomba Minoru Murayama. na pano dianteira. tique-taque. estavam ligeiramente . Brigitte estava estendida de bruços por cima do assento contíguo. para o Cadillac de miss Montfort. de modo que ele nada pode ver dentro quando chegou junto ao veículo. o japonês precipitava-se para o lugar onde se havia produzido a explosão. cobrindo o rosto com as mãos.

Ela estava com os olhos e o rosto cheios de lágrimas.chamuscadas.. O porteiro da garagem chegou junto a eles assustadíssimo. Depressa! — Sim. ocultando o rosto em seu peito. Três sócios da academia. depois se dedicava a limpar-lhe o rosto com a toalha. que tinham descido em busca de seus carros. segurando-a por um braço. da qual. abraçando-se ao japonês.sustinha-se de pé. de olhos arregalados. mas . com Murayama a seu lado.. os olhos cheios de lágrimas. correndo rampa acima. Viu a já pequena quantidade de fumaça que saia do carro da Brigitte. novamente. enquanto Murayama fazia Brigitte beber um pouco de água. com um copo de água e uma toalha. puxandoas. mas dedicou-se imediatamente a esta. correram para eles quando viram a fumaça e a cena.. Ela continuava tossindo espasmodicamente. o diretor da academia de judô. que atava pálido como um morto. quase a arrastando em posição vertical. .. Pode finalmente cingirlhe a cintura com um braço e os ombros com o outro.. Quando regressou. Bower começou a tartamudear perguntas que ninguém respondeu. — E uma toalha. Sim senhor! O homem afastou-se. Murayama segurou-a pelas pernas. fazendo-a deslizar para a porta. vinha acompanhado de Bower.. a muito querida miss Montfort era a principal personagem. tossindo sem cessar. provocadas pela irritante fumaça branca. que aconteceu? — Vá buscar água. acabando do tirá-la do carro. pendendo de seu pescoço. que agora estava apoiada em outro carro. — disse-lhe o japonês. Murayama afastou-a dali. de modo que sua maquilagem ligeiríssima tinha-se estropiado. — Que.

Eu sou médico.. sim. Brigitte? Vou chamar o médico da academial Murayama moveu negativamente a cabeça. Acabou de limpar o rosto de Brigitte... sem responder. Quando voltou. ou qualquer coisa do gênero. E acho que tem razão em querer avisar a Policia. já respirando com normalidade. miss Montfort — aconselhou. — Não é necessário.. Uma brincadeira de mau-gosto.. sinto muito. isso é impossível. tinha o cenho carregado. mas vou ter que apresentar uma denúncia à Policia.. Mas. — Sim. — Santo Deus! Ma-mas isso. De um petardo. que se recuperava rapidamente. que aconteceu? O japonês não deu resposta. e Murayama entregou o copo vazio ao porteiro da garagem. mister Bower. O porteiro voltou com mais água e Murayama. meteu-se dentro e deu uma olhadela. sem dúvida. Depois foi até ao . com força.— Que foi que houve? — Que fumaça é essa? — Você está bem. entregou o copo a Brigitte. — Como a da víbora? — perguntou Murayama. — Que está dizendo? — exclamou o diretor. Começou a tossir novamente. — Só conseguirá irritar ainda mais a garganta. — Mister Bower — disse ela —. Creio que. — É melhor que não fale por enquanto.. — Oh. mister Forrest. Forrest foi ao Cadillac. com o sinal que trouxesse mais água. parece ter havido uma explosão. Algo explodiu em seu carro. do qual já não saia fumaça..

não. — Mas.. — Creio que não. mister Bower. — Crê... — Despedido. Não sei. não ficaria nem vestígio de miss Montfort. está claro.. — murmurou Forrest. Se isto tivesse funcionado bem. — Por quê? — Bom. Richard? — Não. cara amiga.. por Deus. — Está despedido! — vociferou Bower. agora. perdendo a compostura.. Sempre há um louco que quer vingar-se de alguma coisa.. mas diria que se trata de cartuchos de dinamite. Isto já aconteceu a alguns jornalistas.. — Entrou algum desconhecido hoje.carro. — Não sei se lhe importa alguma coisa o fato de que eu .. Parece que o aparecimento da víbora não foi uma casualidade... Bower virou-se vivamente para o porteiro. sócios da academia — comentou um destes. alguma coisa falhou. é horrível! — espantou-se Bower. nem todos a estimam como nos. — Não sou exatamente um perito nestas coisas — declarou —. Felizmente. — Ao que parece. — o homem estava muito pálido. — Quem terá querido me fazer isto? — tremeu a voz de Brigitte. — Deixe-o tranqüilo. mister Bower — atalhou Brigitte.. o melhor é avisar a Polícia. isto é. para tomar café.. — Evidentemente — pronunciou-se outro dos sócios —. Trazia na mão um pacote. Um louco.. Não sei. — Mas aqui só entramos nós.. A verdade é que saí um momento. que mostrou aos presentes.. entendeu? Fique sabendo que. entrou nele e dois minutos mais tarde tornou a sair..? Que quer dizer com isso? — Eu. Vejam o arame da conexão: estava ligado à ignição do carro..

E eu já estou bem. De acordo? — Ora essa! — exclamou Forrest.continue pertencendo a esta academia. — Vou entregá-la aos meus amigos. — Entretanto.. resolve isto. talvez fosse melhor que desistisse de ir ao seu jornal esta noite. Eles farão .. apenas isso.. está falando sério? — É que me parece.... — Atentam duas vezes contra sua vida num só dia e ainda diz que não aconteceu nada! — Um louco. — Levo-a com o maior prazer — aceitou o japonês. Algum irresponsável. — Oh. cavalheiros. Deveria pedir proteção à Policia.. poderá levar-me a meu apartamento? Tenho que mudar de roupa e. — Brigitte tomou-a das mãos de Murayama.! — Eu resolverei este assunto.. — Mister Bower. E que ninguém avise a Policia.. Tenho amigos de grande influência e recorrerei a eles para que seja feita a investigação. — Vamos? — Sim. Brigitte deu alguns passes. Não aconteceu nada. Murayama San. Verão como a Polícia. esta mesma noite virão alguns elementos da Policia examinar meu carro. como antes teve a gentileza de oferecer-se.. E está encerrado o assunto.. sem escândalo. — Mas.. — Podia ter voado em pedaços com essa carga de dinamite! — Deixe ver. Quando queira... mas a mim me importa muito que Dick continue em sou posto. mas parou e virou-se.

miss Montfort. Espero que lhes dê todas as facilidades. onde tenho algumas notas.perguntas a Richard.. Entrou nele e inclinou-se. Não importa isso. Passou junto aos demais. — murmurou. que tinha caído no chão. e reuniu-se com Murayama... Entendido? — Entendido. — começou Murayama. — Mas sem dúvida.. que a olhavam com grande atenção. Oh! Vou apanhar minha bolsa. miss Montfort. Guardou o rádio e saiu do carro como quem ainda está metendo alguma coisa na bolsa. evidentemente muito preocupados. — Fale.... — Peggy! A voz de sua fiel empregadinha tardou uns segundos a se fazer ouvir. — Peggy. Lamento profundamente tudo isto! — O senhor é muito amável. Abriu-a.. procurando a bolsa. ponha em marcha o plano “Follow-321”7. que continuava com o motor em marcha. preparan... Adeus a todos. Estava na cozinha. — Permita que eu. para dirigirem-se junto ao carro deste. — É só.. Dentro de vinte minutos. sacou o radinho camuflado no maço de cigarros e apertou o boião da chamada. 7 Fallow = seguir .. Porém ela já se dirigia para o carro.

. — Na verdade... sairei. — Bom.. Minoro Murayama deteve o carro e olhou para Brigitte. Não esqueça que sou médico. afinal. E. — Nunca se sabe como os outros podem reagir. Farei meu trabalho normal.. Não é impossível. Se ao menos o causador de tudo isto me abordasse. — É aqui? — Hã. sim. .. para dizer-me o que tem contra mim! Mas. não estou acostumada com estas coisas. — Fico-lhe muito grata.. obrigada. sem duvida. — Eu não... o que lhe tentaram fazer hoje foi obra de algum perturbado mental. Muito obrigada.. Há mentalidades de toda espécie. — Oh. não quero pensar rio assunto.. E. que permanecia silenciosa. Murayama San.. Parece-me descabido que alguém queira me fazer meus artigos.. — Outra vez hoje? — estremeceu ela. Penso que talvez tentem mais alguma coisa. não quero pensar nestas coisas. como falei.... mais uma vez. Apenas com um pouco de preocupação — tentou sorrir. Adeus. Quer que a acompanhe até seu apartamento? Não interprete mal minhas palavras. mas estou bem. Murayama San.QUATRO Detalhes secretíssimos No estacionamento privativo do “Cristal Building”. — Por nada — replicou o japonês.. como preocupada.? — ela olhou para fora.. — Posso ajudá-la em alguma coisa? Talvez não se sinta bem.

Peggy. sob o olhar atento do porteiro. — Alô. fez meia volta e encaminhou-se para o vestíbulo. — Ele já foi? — perguntou. Brigitte sorriu e estendeu-lhe a mão. Essas coisas não se fazem assim. Se lhe puder ser útil em alguma coisa. Você deve ter mais cuidado. Terceira Avenida. Pete! — disse ela. nem todas nascemos para espiãs. O velho porteiro emitiu um profundo suspiro. risonha. estou inteiramente ao seu dispor no “Bristol Hotel. Entraram ambas no elevador da garagem e Brigitte apertou o botão de descida. miss Montfort. saudou Murayama e entrou no amplo vesti belo. — Miss Montfort. . miss Montfort. — Adeus — repetiu. revirou os olhos. adornado com plantas e magníficos murais. E também quando você se afastava.. mas o japonês saiu do carro. querida. — Bem. sorrindo maliciosamente. Voltou-se para a entrada. todo do cristal. O elevador chegou. como de costume. — Não esquecerei.. mas não entrou nele ainda.Ia estender-lhe a mão. — Até à vista.. ajudando-a a descer. que.. — Alô. sorrateiramente. Brigitte chamou o elevador que comunicava com a garagem do “Crystal Building”. Ah. rodeou-o e abriu-lhe a porta. Apenas dez segundos mais tarde aparecia a bonita Peggy. Tornou a sorrir. honra e orgulho deste edifício! Rindo. tão. Quase que a vi colocar o emissor magnético em seu carro. — J á. procedente da rua.

Peggy. bem? Mas vou lhe contar um grande segredo. Só tinha olhos para mim. Tudo está pronto. — De qualquer modo. inclusive por alguém com um ouvido menos apurado que o meu. meu Deus! — Peggy levou ambas as mãos à boca. Estou viva.— Isso é verdade — sorriu Brigitte. Peggy indicou o caro pequeno de Brigitte. segredo secretíssimo. Está preparado o carro pequeno? E a maletinha com o equipamento do “Follow-321”? — Sim. miss Montfort? — Um novo sócio de minha academia de judô — o ascensor chegou embaixo e ambas saíram para a garagem. Em primeiro lugar. a bomba que puseram em meu carro não só fazia um tique-taque muito forte e fácil de ouvir.! — Que coisas. não me aconteceria nada. como estava desligada. Peggy? — Que foi. Quer vê-la? — Não! — Pois verá de qualquer maneira — riu Brigitte . como vê... para o qual se encaminharam. apesar daquela víbora e da bomba em meu carro. a víbora não tinha as presas com as quais introduz o veneno no sangue da pessoa a quem morde. miss Montfort? — Tentaram matar-me duas vezes. ou seja. Estaria de qualquer forma.. — Não se assuste. Um. ainda que me tivesse mordido. Em segundo lugar. — Oh. mas foi para expelir uma nuvem de fumaça. — Oh! Oh... — Sabe o que me aconteceu hoje. claro. Quem é esso japonês. sim.. meus Deus! Uma víbora! E uma bomba. funcionou. a ligação com os cartuchos de dinamite não estava feita. Minoru Murayama não reparou em você.

.. Vejamos como você me supriu para esse pequeno trabalho. até que eu a envie ao tio Charlie. e diga que.. Bom. e que tinha um mostrador de vidro com ponteiro. cada uma por uma porta. Entre também.. A dinamite é como eu: se a deixam tranqüila e a tratam bem. — Não sei como pode brincar com estas coisas. muito rápido. miss Montfort.. Não tenha medo: não explodirá. é bom.. Deixou de fora um dos aparelhos e fechou a maleta. Este aparelho era uma caixa de baquelita. não explode.. — Vou lhe dizer porque. . Se meu sentido de orientação. Quer que eu chame mister Pitzer pelo rádio direto.. e Brigitte colocou no colo a pequena maleta vermelha com flores azuis. ou o Johnny. Sobrancelhas contraídas. onde fica o seu hotel. e creio que muito.. Guardeo bem. Ela comprimiu o botão vermelho e. querida. Entraram no carrinho. ao mesmo tempo em que brotava da caixa um levíssimo bip-bip-bip-bip. em seguida. mas sim em sentido totalmente oposto. aprovando de quando em quando com a cabeça. após apanhá-la sob o assento. coberta do veludo negro.. — abriu sua bolsa. ajudante de espiã? — Okay. Minoru Murayama não. até que lhe de novas instruções. o ponteiro se moveu. Será interessante saber aonde vai. Okay. Bem. Mas não vá guardálo no forno. Esteve um instante examinando seu conteúdo. ficou olham do o ponteiro.— Já que vai levá-la para o apartamento. está se dirigindo para a Terceira Avenida. — Aqui está o pacote de cartuchos de dinamite.

— Tome todo o cuidado. Para onde você quiser. — Dê-lhe um pouco de creme de leite. colocou o receptor de sinais no assento contíguo e rodou para a rampa de saída. saberia aonde Minoru Murayama se mandava.. sim.. Se tomar a chamar.. mas acordou quando eu saía. diga-lhe que parti para. Adeus — Peggy saiu precipitadamente do carro. que está você esperando para ir embora? — Oh... ou a Austrália. Bem.— Nada disso. — Para a Malásia? — Ou a China. debruçando-se em seguida sobre a porta. E se começar com os desaforos.. — sorriu Brigitte. — Agora que falou nisso. pelo menos. sem muita demora. a Malásia. Acho que se zangou comigo porque não o trouxe para passear. A menos que o aparelho deixasse de funcionar. de minha parte.. Por enquanto. Como vai o meu pequeno “Cícero”? — Estava dormindo. miss Montfort! — Sim. desligue. — Já sei. sim. como de costume nele... Estava certa de que. Se alguém me telefonar.. . Nada mais. Peggy... coisa que nunca lhe tinha acontecido. porque esta noite. Ciao? Levantou o vidro. já sei. — Pobre querido. Estava afobadíssimo. simplesmente. Mister Grogan chamou-a pela telefone. Continuaremos sob o regime do segredo secretíssimo. diga que fui para o trabalho.

como sombras regulares emoldurando as luzes dos pórticos. ouviu o motor de um carro. sobre a qual. deteve o carro sob es plátanos de uma avenida. Arbustos floridos bordeavam o caminho que conduzia à cabana da gerência. Nem sequer dez horas. por entre as árvores. um letreiro luminoso fazia destacar a palavra Vocancy. passou a Nova Jérsei pelo Holland Tunnel e. Era cedo. Teve que atravessar Manhattam.CINCO Quando dois e dois são cinco E tampouco aconteceu esta vez. viam-se algumas cabanas. saiu do carro e caminhou para a entrada. Havia muito poucas às escuras. tinha que compreender que o carro do japonês. Havia altíssimos choupos e eucaliptos. mas seguindo por fora do caminho. Muito. quando o sinal de Decepção do aparelho já era demasiado fone. Resolveu penetrar nos terrenos do “West Wind Motel”. Tão perto. Era um lugar bonito. Deteve-se ali. Olhou para lá e viu uma mulher que saía ao pórtico. olhando o caminho de terra que levava à cabana da gerência. Mais além. A mulher apagou a luz. no qual Peggy havia colocado o emissor magnético. O ponteiro desviava-se um pouco para a esquerda e. que só podia ter entrado no recinto daquele motel de nome “West Wind”. Súbito. sem dúvida. depois o ronco mais . estava muito perto. Após hesitar uns segundos. E talvez fosse interessante que houvesse cabana vagas.. fechou a porta e dirigiu-se ao carro.. a ambos os lados. Ouviu o ruído da porta deste. junto a uma das cabanas próximas. finalmente. dada a intensidade do sinal.

por sorte. a cujo volante distinguiu com alguma dificuldade Minoru Murayama. de volta a Manhattam. Mas.. via passar o veículo. começaram a acontecer coisas.. mais facilmente ainda. Não estaria se enganando? Certamente tudo era demasiada casualidade: o novo sócio.. Peggy cuidava-a muito bem e pusera no carro um de seus abrigos de pele e.forte do motor. se tivesse que sair novamente para a noite. a carga de dinamite com a pequena bomba de fumaça. E isto. Nunca tivera o menor incidente na academia de judô. logo após o aparecimento de Minoru Murayama. . cujo ponteiro ia-d’cava agora sua retaguarda. E as luvas. assim. Voltou ao carrinho quando teve certeza de que o Ford de Murayama já estava a distância conveniente. a víbora. na garagem da academia. não podia causar assombro a ninguém: um japonês e uma japonesa.. quer dizer.. Tal como os outros sócios. esfregando as mãos com força. Olhou o receptor de sinais. Não se estaria equivocando? Talvez estivesse perdendo seu tempo. mas ele era o novo. Mas de qualquer forma teria sabido que era ele. o frio era intenso lá fora. Se estava enganada. E pode vê-la bastante bem. disposta a ir até ao fim.. dadas as circunstâncias: era uma jovem nipônica. Pos o carrinho em marcha. o faria agasalhada. O japonês poderia ter tido acesso ao vestiário feminino cm algum momento e. ao seu carro. simplesmente ao ver a pessoa que o acompanhava.. sentada a seu lado. manobrou e fez-se de regresso a Manhattam. segundos depois.. Escondeu-se rapidamente atrás de um dos eucaliptos próximos ao caminho e. Sentou-se ao volante. isso não linha maior importância. certamente.

a pessoa que colocara a víbora em seu armário teria suspeitado dela. normal. mas que grita diante de uma víbora e foge às carreiras. Podia ter-se livrado dela sozinha. E. “Baby” teria de imediato rebentado a cabeça da cobra com um balaço e descoberto a bomba. naturalmente. e que se assusta quando descobre uma bomba em seu carro. Tinha acertado. impedindo a explosão pelo simples processo de cortar o fio que a ligava à ignição do carro. que pretendia com aquilo? Uma víbora sem veneno e uma bomba que não podia explodir. mas não de miss Brigitte Montfort ... logo se dera conta de que lhe haviam extraído as presas venenosas.. Quando vira a cobra morta. mas algo estavam tramando a seu respeito.. A idéia foi-se concretizando pouco a pouco no cérebro de Brigitte. que teria suspeitado? Quem quer que fosse. Talvez fosse iss-: estavam recorrendo a . sua coragem e talvez mais ainda sua pontaria teriam surpreendido a muita gente. Não.Pensou na víbora. mas seu sangue-frio... Tinha sido perfeita: a atuação de uma mulher razoávelmente corajosa e serena. e isso a fizera intuir que a bomba do carro também teria uma falha. Simples brincadeira? Descartou em seguida esta possibilidade. E isso não lhe interessava. Tampouco lhe interessava ter eliminado a cobra e ocultar o fato.. uma capacidade auditiva suficientemente aguda para perceber uma bomba no carro e impedir que explodisse. Tudo razoável e lógico. Sim.. levando-a tranqüilamente em sua blusa para desfazer-se dela depois. Um excesso de sangue-frio. Não era uma brincadeira. sentindo-se cada vez mais satisfeita de sua atuação. isso podia ser coisa da agente “Baby”. com a boca aberta. Se tivesse feito tal coisa.

. o rumo de Manhattam. por instinto. Brigitte compreendeu que tinha sabido aquela verdade desde que vira a cobra sem suas venenosas presas: estavam procurando a agente “Baby”.. mas tranqüila e normal. E por isso. — O mais provável é que tudo isto não tenha menor importância e seja obra de algum maluco. ou então tivesse resolvido ambos os casos sem o menor comentário. E súbito. que aquela noite teria que se arranjar sem a valiosíssima ajuda de sua principal colaboradora. Dirigiu um olhar ao receptor de sinais. O que certamente era coisa das mais simples para uma espiã da categoria de “Baby”.alguns truques para saber como se comportaria uma Montfort em momentos de perigo que a agente “Baby” teria resolvido em poucos segundos.. tinhamlhe preparado armadilhas que. sem hesitar. sem prejudicar miss Brigitte Montfort. a teriam delatado se ela liquidasse a víbora com um tiro certeiro e desligasse a bomba. dirigindo outro olhar ao receptor de sinais. só se tratava de seguir aquele varro em que viajavam um japonês e uma japonesa. E ela. jovem muito esportiva. o redator-chefe e diretor do “Morning News”. E o único prejudicado naquele jogo ia ser Miky Grogan. que continuava emitindo seu rápido bip-bip-hip-bip. — Ele que se dane — sorriu Brigitte. graças à sua astúcia inata. havia reagido todo o tempo como uma Montfort. enquanto o ponteiro indicava a frente. Quem a procurava? Minoru Murayama? E como teria podido o japonês obter uma pista da agente “Baby”? Que queria de “Baby” o amável Murayama San? — Estou complicando minha vida. Afinal. — pensou ela.

Sentia um pouco de sono. era guiar por Nova Iorque. tão entediada estava. o que despertou o interesse da agente internacional. E esta fora atravessada completamente. Não sabia quem morava ali. estava se aborrecendo. e não adianta dar voltas ao assunto. mas as matemáticas da espionagem tinham deixado de ser um segredo para “Baby” muito tempo antes. saindo na Rodovia 27. Como ela costumava dizer: dois e dois são quatro. Se algo havia que detestasse de verdade. Nele entrou sem a menor dificuldade. Tinham cruzado todo o bairro de Brooklyn. na qual só se via luz numa janela. depois de deixar atrás Rockville. muito perto do mar. . Coisa de principiantes. sentou-se junto a uns arbustos diante da única Janela iluminada e abriu a maletinha. passando por uma das pontes de Manhattam. saiu do carro. outra vez próximo ao dela. descido para ornar transposto a ponte e virado para Long Beach. justamente nas cercanias de Long Beach. suspirando profundamente. Estava em Long Island.Uma hora mais tarde. nem tinha visto se Murayama e sua acompanhante haviam entrado na casa. Pouco menos que bocejando de puro aborrecimento. Exatamente diante de uma pequena vila. de Nova Jérsei a Coney Island. E a pouca distância via o carro de Minoru Murayama. Mas tinha que aceitar os fatos. numa avenida. Uma volta desnecessária. pois aquilo de seguir outro carro era algo demasiado elementar para ela. esta vez bem abrigada com um casaco de pele. apanhou sua maletinha. na franja arenosa de Great South Beach. que devia ser a do living. No fundo. e deslizou para o pequeno jardim da vila. freava o carrinho numa avenida.

não entendia absolutamente nada.. este nome chegava claramente aos ouvidos da mais sagaz espiã do mundo.. Depois.. Nada compreendia. “Baby”. “Baby”. Mais adiante. mas ouvia seu nome e o carinhoso apelido com o qual a . E também o de Brigitte Montfort. Estavam falando dela. Brigitte Montfort. compreendeu algo.. se assim conviesse. mas não entendia nem uma só palavra: Minoru Murayama. montou seu fuzil especial. Sim. de súbito. Brigitte Montfort. Sim. Colocou o fuzil em posição contra o ombro. mas tinha que escutar. que a qualquer pessoa teria parecido um simples e vulgar secador de cabelos. De quando em quando. nenhuma palavra formava sentido. enroscando uns aos outros. aquela fita seria traduzida por especialistas em lingüística da Central da CIA. Mas no momento..Retirou da maleta o tripé para câmara fotográfica.. Imediatamente quase lançou uma exclamação. adaptando um dos pequenos fones à orelha. convencida da impossibilidade de que sua pontaria tivesse falhado.. Brigitte continuou absorta na escuta da conversa. Ouviu-se apenas um suave zumbido. apontou a moldura da janela e apertou o gatilho. depois meteu pelo cano um dos pequenos microfones-dardos.. Estavam mencionando “Baby”. feito de tubos de alumínio.. Acrescentou a culatra. Sim. para ela.. Brigitte Montfort. a jovem que com ele viera e o ocupante daquela vila estavam falando em japonês. “Baby”. muniuse do receptor daquele diminuto microfone. Parecia existir uma palavra que não tinha seu equivalente em japonês. Aborrecida consigo mesma por nunca se haver decidido a estudar essa língua. Ouvia perfeitamente três vozes por meio do microfone. E essa palavra era “Baby”. e. dedicando-se rapidamente a colocar no aparelho uma fita magnética.

elegantes. Talvez sessenta anos.. deixou de sentir-se entediada e sonolenta. durante uns segundos.. que estava sentada numa poltrona. assim como o tubo suplementar de ampliação. foi-se endireitando. Umas bonitas pernas. Certo: um living room. Por entro as barras da veneziana viu em primeiro lugar a jovem japonesa. Adaptou-a à câmara e começou a deslizar para a casinha. Possuía um doce encanto exótico. naturalmente estava vestida à européia. Naturalmente. brilhando de um modo febril. pernas cruzadas. delicado. Brigitte ergueu a câmara e fez com que a objetiva captasse a cena por entre duas barras da veneziana. uma excelente teleobjetiva.. Primeira foto.CIA desde sempre a identificara em qualquer lugar do mundo.. Depois. Era um japonês de idade avançada. fumando. permaneceu abaixo de seu nível. Chegou sem novidade à janela e.. lentamente. Miúdo. Clic.. Um som que ela mesma mal pode ouvir. Deixou de lado o aparelho receptor-gravador e tirou da maleta a pequena câmara fotográfica. até que pode olhar para o interior. magérrimo. falando muito sossegadamente. de maneira impecável e moderna. mas seu interlocutor acabava de colocar-se de frente para a janela. quase esquelético. junto à jovem nipônica. os negríssimos olhos como que afundados nas pálpebras oblíquas. Clic. Tinha os cabelos brancos. Também ela era muito bonita o muito jovem. Suas . esbeltas. Murayama estava de costas naquele momento. embora parecesse bastante preocupado o até um pouco irritado.

pequena. Chegou aos arbustos. capaz de resolver qualquer dificuldade. mas retirando antes o microfone-dardo. fazendo gessos de impotência. começou a erguer as mãos.. apoiou-se em sua nuca. Tudo devia versar sobre o mesmo tema.. em quantidade e qualidade suficientes para sentir-se satisfeita. Brigitte esteve batendo lotos. Ia abrir a maletinha e guardar o equipamento que utilizara. Clic. quando uma coisa fria. Durante três ou quatro minutos. como aborrecido por alguma coisa. dura. rodeou sua poltrona e colocou-se diante dele. Conseguidas fotos suficientes para seus propósitos.. devagarzinho. inclusive a muito simples e corriqueira constituída pelas barras de uma veneziana.mãos pareciam de puro osso e ele as movia um tanto agitado. sem dúvida. ela dedicou-se a regressar para onde havia deixado funcionando o receptor-gravador. o velho japonês sentou-se. de costas para Minoru Murayama. Parecia dar a entender que não tinha podido conseguir nada mais. estendeu a mão para o aparelho e deteve sua marcha.. com visível excitação. Bruscamente. Era muito pouco provável que ali se falasse algo diferente do que já estava gravado na fita magnética. Bater aquelas fotos exigia a experiência e a serenidade de uns nervos bem controlados de espiã profissional. Depois. — Quer morrer? — ouviu. ainda. Ficou completamente imóvel. Clic. para detê-las à altura das orelhas . já não se tratava de trabalho para principiantes. e este. E.

Dois homens. Já era um pouco tarde e o frio não convidava ninguém a permanecer na rua. — Sim. Ia entrar pela outra porta.. morrerá. começou a entrar e. Só conseguiria morrer.. rodeando o pequeno veículo pela frente.. e saia do jardim. Apenas dois. Sim. Chegaram ao outro lado da avenida. ergueu a perna direita. — Deite-se de bruços — ordenaram-lhe. Por fim. Às suas costas ouvia claramente as pisadas dos dois homens. — Ponha-se de pé.. Isso queria dizer que atrás dela só ficara um. olhando para a avenida. Inclinou-se mais. ouvindo as pisadas de um dos dois homens. Estavam atravessando a avenida quando novamente ouviu a voz: — Coloque-se no centro do assento. sem olhar para nós. nas quais sentia o intenso frio da noite. Inclinou-se. Eram dois homens. Pode ver as mãos de um homem recolhendo todas as suas coisas. Começou a caminhar para a saída do jardim da pequena vila. a maletinha foi fechada. Meu amigo irá ao volante o eu ficarei do outro lado. Levantou-se. a cabeça virada para um lado. nem era provável que isto acontecesse. — Vou para meu carro? — perguntou ela.. lentamente. num violento golpe de caratê.delicadas. súbito. Ouviu junto a ela um pequeno rumor. Foi aberta a porta do carro.. Todo o seu corpo estremeceu quando o pé foi freado em seco por . Se tentar alguma coisa. Estendeu-se de bruços. embora tivesse parcialmente levantado a gola do seu casaco de pele. Não passava ninguém por lá. — Entre. Seria estúpido de sua parte qualquer tentativa do resistir.

precipitadamente. que Brigitte arrebatou freneticamente... voltando-se e deixando-se cair. que. enquanto com a direita calcava seu pescoço. olhando meio atrapalhado para baixo.. arma empunhada. suavemente. Ela afastou o braço esquerdo do homem com uma cotovelada sina.alguma coisa. movendo demasiado a mão. que caiu em cheio na armadilha: deixou de apertar-lhe o pescoço e inclinou-se para frente. e recebeu em cima todo o peso do homem. Em menos de três segundos. A toda a pressa. a exclamação procedente do outro lado do carro. a pistola. O homem que viera do outro lado do carro soltou um gemido. estendendo mais a mão esquerda para a pistola. Plop. levou ambas as mãos ao peito e caiu de joelhos. virando-se agora para o lugar por onde teria que vir o outro inimigo. como se não soubesse bem o que fazer.. quase ao mesmo tempo. Em sua mão. Endireitou-se. fazendo torpes esforços para levantar-se. Brigitte apoiou o índex no gatilho e comprimiu-o. esmagando-a contra o chão. Em seguida. tombou de bruços batendo fortemente com o rosto contra o asfalto. o baque de um corpo contra o chão. Ficou imóvel. um impacto tremendo. brutalmente. Ouviu o grito às suas costas. perdendo . Brigitte virou-se para o que tinha derrubado com o pontapé. dedicou todos os seus esforços a arrebatar-lhe a pistola com a canhota. ela começou a sentir um princípio de vertigem. fazendo a arma deslizar para longe dela e de seu antagonista. numa furiosa tentativa de estrangulá-la. de tal modo que o infeliz. O homem que recebera o pontapé estava estendido de costas. Viu-o surgir. Afrouxou os dedos que seguravam a pistola e pode mover a mão.

do outro lado do carro. Decidindo que aquele inimigo merecia algo mais. e voltou para buscar o outro. Deixou-o estendido lá. Preocupada. atirando-as para dentro do carro. arrepiante. Depois colocou os dois . projetando o inimigo para cima. olhando para todos os lados. ofegando. Tudo era paz e silêncio. por sobre o encosto do assento.. batendo-a contra o asfalto. em cruz: a mão direita a lapela esquerda e a mão esquerda a lapela direita. caiu-lhe em cima. com absoluta desconsideração. Plop. Brigitte se levantou. ela por cima. ficando deitado de costas no chão. Brigitte fez outro esforço. que arrastou por um pé.. disposto a tudo. a cabeça do cadáver chocou-se contra o meio-fio. depois para baixo. A primeira coisa que fez foi apanhar sua maletinha e as armas dos dois homens. A pistola escapou de sua mão..bruscamente o equilíbrio. com dois cadáveres a seus pés. ela puxou-lhe a cabeça para cima e.. Estava movendo a mão armada. e arrastou o desconhecido para a calçada. de qualquer maneira. com um som mole. com força terrível. bruscamente. além de novamente apertar-lhe o pescoço com a canhota. Ouviu-se um estalido seco e o individuo ficou inerte. compreendendo que o próximo disparo podia ser fatal para ela. O homem tinha conseguido agarrar a pistola e acabava de disparar. Ele girou no ar. Nada. tal como um inocente passarinho poderia cair entre as garras de um gato em decúbito dorsal. Sem soltá-lo. Encontrou-se agachada junto ao carrinho. As duas mãos de Brigitte seguraram-lhe as lapelas do paletó. Ao subir à calçada. puxando ambas para dentro. se bem que contra o céu. todo o seu corpo relaxou-se.

tirou o casaco de pele c cobriuos. aquela situação seria pelo menos macabra. que apenas lhe deixavam o espaço imprescindível para poder guiar. Chinês. Os dois eram chineses. absolutamente perplexa. quatro.. Pouco depois. entrou no carro. atravessarem o jardim e entrarem no Ford. Que estava acontecendo? Que assunto era aquele.. no qual se pretendia identificar “Baby” e no qual intervinham chineses e japoneses? Olhou novamente o volume formado pelos dois cadáveres retorcidos a seu lado... atenta.. Por fim. colocou em posição mais visível o resto do outro. Por que não? Um japonês e uma japonesa. como um estranho spaguetti. encolhia-se para evitar que a vissem quando passaram por perto dela.. isto é. Deixou novamente cair a ponta do casaco e olhou para a pequena vila. Para uma pessoa comum... O velho japonês despedia seus visitantes. Regressavam. . A porta da vila se abriu e apareceram no pórtico as três figuras. Também era chinês. Para a agente “Baby” era tão natural como assistir a uma sessão de cinema ou teatro. durante um momento.. Na realidade. sentou-se ao volante e soltou um suspiro. Murayama para o hotel e a jovem para o motel? Ou os dois para o motel? Esta última hipótese fez Brigitte sorrir divertida. Era chinês..cadáveres sobre o assento. era seu ambiente. Inclinou-se e. Dois e dois. com esforço. Regressavam. em direção inversa à anterior. nem japonês. para onde? Cada um para seu alojamento. Não branco. Brigitte viu Minoru Murayama e a linda japonesinha descerem do pórtico. o rosto de um daqueles homens. E então? Levantou a ponta do casaco e olhou.

Coisa que não a surpreendeu. — Entendido. Qualquer pequeno acidente de trânsito podia colocá-la em situação difícil. Picou pensativa... levar dois defuntos num carro por Nova Iorque era algo que podia resultar incomodo. — Está certo. — Está bom? — Estou. detinha-se diante do prédio onde tinha seu apartamento. pelo que pode ver sua manobra. Que tire as camionetas. Desça com o pacote dos cartuchos de dinamite. Como lhe havia sucedido em outras ocasiões. passarei pela frente do edifício. efetivamente o “Bristol”. — Chame a floricultura pelo rádio direto e diga ao tio Charlie que abra a porta da garagem. Que há embaixo dele? . Peggy saiu do vestíbulo. entregou-lhe o pacote e ficou olhando o casaco de pele. — ouviu a voz de Peggy. O casaco parece. Caía uma chuvinha fria e quase ninguém estava nas ruas.. Depois Murayama regressou ao seu hotel... Apenas chegaram a Manhattam. num tom do alivio.Mas não. se acha que meu carro não vai caber lá.. surpreendida. na Terceira Avenida. aquela soma de dois e dois deu cinco. Dentro de dez minutos. Brigitte não lhe deu a menor explicação a respeito. olhando seu casaco que cobria os cadáveres. Sacou o radinho e acionou-o. Esteve seguindo-os bem de perto. mas passavam alguns carros.. Felizmente. não costumam ser muito altos e corpulentos. Nove minutos mais tarde. Entretanto. miss Montfort Fechou o rádio e subiu por Manhattam. a jovem japonesa desceu do carro de Murayama e tomou um táxi.. tanto quanto os japoneses. — Miss Montfort. até mesmo para ela. os chineses.

A sugestão foi feita com muita finura — sorriu Brigitte —.— Uma lembrança que trouxe da China... “Baby”? — Diversas coisas. — E você desligou? — Claro — riu Peggy. Brigitte saiu rapidamente do carro e encontrou-se diante de Johnny. — Oh. Pôs-se a gritar quando disse que tinha ido para a Austrália. Em seguida.. que estava de pijama e roupão. — Adeus.. e uma das duas camionetas do serviço de entrega tinha sido retirada.. baixou-se a porta e Só então se acendeu a luz da garagem. — O lugar onde sinto menos frio é na cama — insinuou o espião. — Assim que eu gosto: obediência cega — disse Brigitte. — Só mesmo porque a adoro não lhe aperto o pescoço agora mesmo — disse alegremente o simpático ajudante de Pitzer. que servia de camuflagem ao posto de comando da CIA em Nova Iorque. SEIS Informações à Central A porta da garagem da floricultura. — sorriu Brigitte. Não quero que sinta frio. esfregando as mãos de frio. — Volte para casa. rindo. de modo que pode entrar com o carro. Vamos lá dentro. — Que está acontecendo. mas parece-me que esta noite não há tempo para . sim. E meta-se na cama: está fazendo frio. Mister Grogan telefonou? — Oh.. estava levantada quando ela chegou.

Johnny — murmurou ela. — Voou? — Está na Central. — sorriu Brigitte. terei que ir ao Bronx. Parece que estão preparando algo para você. não! — Pois creio que sim. Johnny? — Agora? — quase gritou ele. Está bem. — Brigitte colocou a maleta sobre a mesinha redonda e sentou-se diante desta.aperfeiçoar nenhum sistema de aquecimento. — Vivam as mulheres quentes! — exclamou. não se preocupe. não lhe ocorreu por um agasalho para passear numa noite como esta? — Deixei-o no carro. — Sinto muito. A calefação estava em marcha e Brigitte soltou um suspiro de alivio. quase divertido. — Querida. entregou-lhe um o olhou-a de cima a baixo... — O quanto antes.... Se algo me agrada nesta asquerosa vida é espião é deixar você satisfeita. E o tio Charlie? — Voou. — Você pode enviar umas fotos pelo rádio. Johnny acendeu dois cigarros. para poder enviar essas fotos pelo rádio. vamos entrar de uma vez’ Saíram da garagem pela porta dos fundos. — Ma-mas. — Sim. no sofá. caminharam pelo corredor e entraram no living da residência particular de Charles Pitzer.. ao Centro Técnico. Diabo.. — Oh.... querida minha. — Tem à mão uma câmara com um bom flash? .. eu sei. — Eu sei. É preciso revelá-las e enviá-las à Central com a máxima urgência..

.. — Ca-cartuchos de. — Ah. aqui em Nova Iorque... Posso mandar a fita à Central amanhã de manhã. pelo rádio. . — Irra. Não sei de ninguém de confiança. estava adaptando um flash a uma câmara. Depois tornou a cobrilos e ambos voltaram ao living. Ela retirou o filme da câmara.. junto com o outro pacote. Temos que ir com ela à garagem. que saiba o japonês e seja de absoluta confiança? — Japonês. É que tenho uns chineses mortos em meu carro e quero mandar suas fotos também. — Pois vá buscá-la. — Pensa fotografar corbelhas e caixas de celofane? — Não. o próprio Johnny fotografou os chineses enquanto Brigitte mantinha suas cabeças voltadas para a câmara.? Não. — E isto que é? — Cartuchos de dinamite. Ao regressar. sinto muito — ficou olhando a diminuta fita magnética que Brigitte havia tirado do receptor-gravador. Depois resmungou algo como “não sei como ainda me surpreendo com você” e abandonou o living. Foram os dois à garagem e.— Claro. Calculo que até as doze tenhamos a resposta.? Com todos os diabos. Johnny ficou estupefato durante uns segundos.. — Bom. sem o menor comentário.. Pelas nove. pouco depois... ou chinês? — Japonês. você gravou algo em japonês? — Assim é. meteu-o numa cápsula de plástico e entregou-a a Johnny. Não são chineses esses caras que.. não posso agüentar mais! Que está acontecendo? — Você conhece alguém.

— Não. — Não? — Prefiro ficar com a fita, por enquanto. Não me interessa enviá-la à Central. — Está brincando? — Naturalmente que não. Johnny, tenho urgência em saber algo a respeito das pessoas que fotografamos. Urgência, compreende? Quando tiver noticias, chame-me por todos os meios, até localizar-me. Do acordo? — Quem se atreve a dizer que não? E que faço com estes cartuchos de dinamite? — O que quiser. Constaram das peças que me quiseram pregar hoje. — Quiseram lhe pregar peças? — indagou Johnny. — Duas. Em minha academia de judô. A primeira foi colocarem uma víbora venenosa em meu armário. A segunda, esses cartuchos de dinamite, no meu carro. — Puxa vida! — Johnny empalideceu. — Quem terá...? — Tranqüilize-se. Creio que sei quem foi, mas não vamos fazer nada, por enquanto. Além disso, a víbora venenosa não tinha presas, de modo que não podia me inocular seu veneno; e os cartuchos de dinamite eram só para causar impressão: tudo o que explodiu, embora com estrondo, foi uma pequena bomba de fumaça. — Não Compreendo... — Explicarei em outra ocasião. Dispomos de dois Johnnies que se possam mobilizar agora mesmo? — Sim. — Mande-os à garagem da minha academia de judô, como se fossem policiais. Que interroguem o porteiro da garagem; chama-se Richard e é um bom homem. O diretor

da academia chama-se Bower, mas não creio que ainda esteja lá, a estas horas. Embora talvez ainda estejam os dois, já que eu disse que ia mandar a Polícia. Compreendo? — Claro. — Que apanhem meu carro e levem-no para onde possam obter impressões digitais. Bom, não preciso explicar o que eles devem fazer, suponho. — Não, não precisa. Que fazemos com os chinas? — Pode fitar com eles, de presente. — Eu? — Passaremos os dois a uma das camionetas — disse Brigitte, rindo — e depois que você tiver posto em marcha tudo o que lhe pedi, leve-os embora. Também não preciso dizer que destino deve ser dado a esses dois corpos, bem? — Não... — resmungou Johnny. — Você me arranjou uma bonita noite, sem dúvida, com o frio que está fazendo! Mas tudo será providenciado, claro. Que explicação devo dar à Central? — Diga que o japonês jovem chama-se Minoru Murayama. — Bem. E que mais? — Nada. — Nada? — Que tem a Central a ver com o que fazemos aqui? Você pede uns informes, eles os fornecem... e pronto. Ou não? — Não sei... Talvez. Mas você está mobilizando todo o mundo em Nova Iorque. Penso que deverá ser dada alguma explicação! — Quem manda no Setor Nova Iorque? — Charles Pitzer, naturalmente.

— Pois ele não está. Quem o substitui na chefia? — Hã...? Eu, é lógico. — E você vai me exigir explicações, Johnny? — Mmm... Bom... Eu... Brigitte levantou-se e rodeou com os braços o pescoço do colega, sorrindo docemente. — Você está formidável com esse roupão, querido... Já lhe disseram que é um homem e tanto? — Oh... — enrubesceu ele. — Não, nunca me disseram isso... — Pois eu lhe digo: você é simplesmente fascinante, Johnny. — Acha mesmo que sou, “Baby”? — Se acho? Estou positivamente segura! Elevou-se sobre as pontas dos pés e beijou o espião nos lábios, intensamente... e brevemente. — Você é muito gostoso, Johnny... — suspirou. — Que tal se tirarmos os chineses do meu carro? — Agora mesmo! — exclamou Johnny. — Diga-me o que mais posso fazer por você... Qualquer coisa! Tudo o que me pedir, ‘Baby”. — É só isso. Depois irei embora, Estou com um sono terrível, querido.

estalando os dedos e ele. súbito. era fatal. Novamente a campainha. conseguiu saltar para a cama. O telefone deixou de tocar. realmente. sorriu. misturada com gritos. “Cicero”.. Acalme-se. definitivamente. todo ele estremecendo de alegria par ter ouvido afinal a voz de sua dona. — Alô? Buuummm.. Miky! — pediu. — Miky.. com efeito. Naturalmente Peggy atenderia da cozinha. apareceu no quarto. As nove e poucos minutos manhã... Sentou-se na cama e olhou através da grande janela o céu de um cinza esbranquiçado. o diminuto cãozinho chihuahua. que era. Mas pouco depois tocava outra vez e. Brigitte concluiu que. e. . querido. Brigitte chamou o cachorrinho. Levantou o fone e levou-o ao ouvido. Afastou o fone. — Não é necessário que grito tanto. sobressaltada. Resmungou um pouco e virou-se na cama.! Foi como uma autentica explosão o que chegou a seu ouvido. Enquanto Miky Grogan continuava aos berros. Nova Iorque estaria coberta de neve.. a permissão para ele poder entrar no quarto. com surpreendente agilidade.SETE Despertou-a a campainha do telefone.. ladrando agudamente. Mais dia menos dia. após olhar o relógio de sua mesinha de cabeceira. Pena que faltassem tantos dias para o Natal. A voz de Miky Grogan tornou a ribombar como uma tempestade.. Ela o apanhou com uma das mãos e colocou-o diante do fone. era hora de levantar.

E desligou. mas tive algo que fazer..! — Baixe a voz. querido. Que tal se nos virmos às dez? Estarei aí a essa hora e o ajudarei a terminar o que seja... Seja amável. então. justificando o alto salário que me paga e que. — Brigitte... os gritos de Mike Grogan deixaram de ser ouvidos e. o cãozinho calou-se. São nove e dez. querido chefe. Perdoe-me. a propósito.. já começa a me parecer mesquinho. ele estava dizendo que você é um maleducado. queridinho! — incitou o “Cícero”.! — Às dez horas escutarei. a um sinal do Brigitte. ... Não sei se o entendeu bem. tendo em vista seus maus modos. achei que o “Cicero” era quem devia responder-lhe. Por fim. Foi seguida. eu sei. — disse Brigitte. Vejamos.. sem descanso.. o chihuahua reencetou seus agudos ladridos. — Isso é uma brincadeira? — As meias estão cada vez mais caras querido. — Pois não use meias! E escute bem isto. — Escute. filhota: ontem à noite estive esperando-a para.. já estou farto de.. rindo. — Que está acontecendo aí? — Nada. com uma violência inusitada nele..— Mais forte. ouviu-se novamente a voz de Grogan. — Ladre com mais força! Tremendo ridiculamente. — Eu sei.. Ou deixo-o novamente conversando com o “Cicero”. Mas.. — Mesquinho o salário que lhe pago? — bramiu Grogan.. sem trégua. pausada e quase tímida: — Brigitte? — Bom-dia.

já se havendo banhado e perfumado discretamente.. — Não consta. Tem sessenta e seis. não lhe atribui muita importância. Aliás. — Diga. Tenho notícias. se fosse alguém interessante. passando em revista seu conteúdo: dúzias de vestidos... alguns impermeáveis. quinze abrigos diversos. Chama-se Saburo Ono Kuroki.. Abriu o esconderijo onde estava o rádio que a comunicava diretamente com a floricultura o recebeu a chamada. estava nua diante do grande armário embutido. mais de cem pares de sapatos. . A Central nada sabe a respeito deles.Quinze minutos mais tarde. Há trinta e cinco anos reside nos Estados Unidos. regressando quando isto lhe foi permitido. que ocupava toda uma parede. São dois chinas e isto é tudo. Imediatamente. dezenas de blusas de jérsei.. — Johnny? — Bom-dia. E você? — Duas horas escassas. Pensei que. naturalmente seria encontrada nos arquivos fotográficos da Central. — Foi um espião japonês. Dormiu bem a Rainha da Espionagem? — Maravilhosamente. — Como? — exclamou Brigitte. diga! — Começaremos pelos chinas. Zum-zum-zum-zum-zum. Tampouco a respeito da japonesinha. Mas há o registro do japonês velho. — Bem. Não é grande coisa. Você desconhece seu nome? — Desconheço. ela esqueceu suas dúvidas a respeito do que ia vestir aquela manhã cinzenta e fria. centenas de peças de roupa íntima. Pouco antes da Segunda Guerra Mundial. Bem.. deixou este país... há uns doze anos.

E bastante bom. — À pintura? — Sim. — Em que sentido? .— Isso não se pode provar.. não fez nada.. E era necessário dar-lhe corda. houve apenas suspeitas. pois ele foi visto em diversos pontos do palco da guerra no Pacífico.. Saburo Ono Kuroki vive sossegado. para ver se ele próprio se enforcava. é pintor. e dedicou-se à pintura. com uns quantos espiões japoneses mais. Porém. limitando-se a coisa a inspeções periódicas rotineiras de suas atividades. — Você me assombra. “Baby”. adquiriu uma casinha em Long Beach. foi deixado em paz. Durante algum anos a CIA esteve de olho nele. — Essa gente da Imigração está maluca? — perguntou “Baby”. — E você acredita nisso? — Bom. Por fim. E hoje em dia eu me pergunto o que os japoneses poderão querer espionar neste país. porto do mar. houve detalhes que fizeram nossos serviços secretos pensar que estava trabalhando para a Tokko japonesa. este nome consta de nossos arquivos. Entretanto. Passaram-se muitos anos. Pouco depois de seu regresso.. atualmente. Entretanto. Não há a menor dúvida de que. na verdade. — Por que deixou que voltasse aos Estados Unidos? — Justamente porque se suspeitava dele. Na verdade. sem conexão alguma com possíveis pontos de espionagem. E a respeito de Minoru Murayama? — Nada.

. — Está bem. vou levá-los — Isso não me interessa. ou pedirei que o mandem. Mas já lhe disse que. parecia devorá-la com seus olhos salientes. Desapareceu de Honolulu pouco antes de Pearl Harbor..— Houve um Murayama da Tokko japonesa. Cortou a comunicação. — Se precisar dele.. querido. foi que estava em Hiroxima... irei buscá-lo. nos anos quarenta. — Em Hiroxima.. Em quarenta e um. — fez Brigitte. Por outro lado. à espera de um carinho. que Brigitte Montfort pusesse um vestido ou outro.. Meu carro? — Fez-se o que se pode e está à sua disposição. Mas na realidade nem os via. Johnny. — De acordo. e não merecedora de muito crédito. olhando pensativamente seus vestidos. isso não tinha maior importância. Adeus. sempre estremecido de aletria.. exatamente.. — Quando foi isso? — Parece que no princípio de quarenta e cinco. pois com qualquer um deles apresentava-se maravilhosa. — Ssssttt. E obrigada. O tio Charlie já voltou? — Não. Quanto aos chineses mortos. A última notícia sobre ele. querido. — murmurou Brigitte. Au! Voltou-se para a pequena poltrona de onde “Cicero”. tornou a esconder o rádio e saiu do vasto armário. — Sua doninha está pensando. Ficou diante dele. — Ótimo.

Só que agora sabia muito bem que equipamento devia escolher. Parecia não haver ninguém lá. súbito. Hesitou um instante e resolveu pintar os lábios de maneira mais ostensiva. Mas por pouco tempo. mas discreto e caladinho. que agora sabia chamar-se Saburo Ono Kuroki. que ficou a contemplá-la. OITO Às dez e um quarto. Tudo atava como na véspera. Pelo menos. de modo que vendo-a ninguém pensasse no róseo e suave sorriso de miss Montfort. Por fim. até à calçada diante da casa que conhecia da noite anterior.Acendeu um cigarro e sentou-se na beira da cama. pensativa. tinha o privilégio de poder ver sua linda dona. Brigitte apagou o cigarro contra o cinzeiro e outra vez se colocou diante do armário. Atravessou a rua. Olhou-se no espelho retrovisor e encolheu os ombros Afinal de contas. . Saburo ignorava quem ela fosse. cruzando rapidamente a pequena zona granada. segurou-a com a mão esquerda e saiu do pequeno carro esportivo. Bem. fechou a maleta. para a qual logo saltou. o fiel chihuahua. entortando a cabeça. estava perto da casa do velho japonês de cabelos brancos. aparentando não a olhar mas reparando bem em todos os detalhes. Prendeu depois a pistolinha à coxa esquerda com duas tiras de esparadrapo cor de carne.. Dentro do carro colocou a peruca loura. as lentes de contato de tom escuro e as diminutas almofadas de espuma que lhe avultavam os pômulos e as bochechas. entrou no jardim. Passou pela frente desta. pelo menos em teoria. Afastou-se mais alguns passos e.

cortes e contusões.. formando impressionantes coágulos. Utilizando uma gazua.. entrou. sob um tufo de cabelos besuntados de vermelho. Desculpável. ele ia ter uma surpresa. em decúbito dorsal. Simplesmente. aquela coisa. E ela sabia que. Quer dizer. fazia muito frio e talvez preferisse levantar-se tarde. Abriu-a o suficiente para obter uma visibilidade aceitável e virou-se para a porta que devia dar ao living.. Junto a ele. Esteve a ponto de cair de bruços quando seus pés tropeçaram em algo que havia no chão. Se era este o fato. Estendido no chão. Não. Com toda a facilidade. Um estremecimento percorreu-lhe o corpo. completamente nu. Recuperou rapidamente o equilíbrio e afastou-se. Empurrou-a cautelosamente. Isso seria possível? O japonês era um homem idoso.Com toda a naturalidade. se houvesse alguém na casa. olhando. tinha: os olhos. abriu a porta da cozinha.. cuja veneziana estava cerrada. tornou a fechar e voltou-se para a janela. Saburo Ono Kuroki ali estava. Aplicou-lhe o ouvido e esteve escutando algum tempo. passou junto à casa e chegou à parte traseira. Eram dois espantosos orifícios cheios de sangue seco. O rosto e a cabeça pareciam uma posta de carne macerada. A menos que estivesse dormindo. Qualquer outra teria começado a gritar com toda a alma. o que dele havia sobrado. viam-se tenazes que deviam ter sido . Havia ali duas janelas e uma porta. no chão. Esta certamente dava para a cozinha. mas depressa. Seu corpo miúdo e magro. não tinha olhos. era um complexo de queimaduras.. poderia detectar sua presença. Não pode perceber o menor som.

deliciosa granja tipicamente japonesa.. Inclinou-se e.. A qualidade de seu trabalho era indiscutível. Era pequena e.. Bem.. Saburo fora dotado de uma notável memória visual o pintava aqueles bonitos quadros.. rígida. Não menos de seis. Também havia quadros mostrando aspectos estadunidenses: casas.. não encontrou nada de interesse. Estava fria. Pensou em Minoro Murayama. passando à ação direta.. Alguém havia chegado àquela noite para tirar o velho da cama. paisagens.. No cavalete estava uma tela. mas estava claro que alguém se adiantara. A revelação de seu significado fez Brigitte novamente estremecer: tinham-nas aquecido ao rubro e com elas torturado o velho japonês. A coisa ocorrera muitas horas antes. o nipônico Saburo Ono Kuroki fora degolado. Sem dúvida. porém logo repelir.. representando uma bocólica. Havia pensado em apertar as cravelhas do japonês. evidentemente. Estavam retorcidas. tocou-lhe a nuca.. Endireitou-se e saiu da cozinha. ruas. ainda não concluída. — Santo Deus. . Havia muitos quadros daquele estilo. a idéia. cheia de quadros e todo o necessário para pintar. com exceção de uma peça orientada para o sul. que deviam ter boa acolhida no mercado americano. que tinham sido submetidas ao mesmo processo e com uma das quais. Também havia duas facas.apanhadas na lareira. Deu uma volta pela casa. Todo o seu plano desmoronava. com todo cuidado. enegrecidas e manchadas de sangue. E de um modo bestial. Não acreditava que tivesse sido ele quem fizera aquilo.

enquanto com a direita empunhava a pistola de . recorreu a uma pinça para colocá-lo na onda utilizada pela floricultura do tio Charlie. a mesma pessoa tinha aberto o armário. Pouco depois. Tirou o radinho da maleta e. em seguida. a voz de Minoru Murayama: — Kuroki San! Silêncio. naturalmente. Não se surpreendeu em absoluto. E como antes tinham batido. com a mesma mão que segurava a maletinha. atravessou o living e meteu-se no estúdio de Saburo Ono. Depois outra. que tinham resolvido utilizar. empurrou a porta.Brigitte suspirou e voltou ao living. que ouviu fechar-se. Tomaram a bater.. Ouviu abrir-se a porta e já não teve que se fazer mais perguntas sobro como aquela víbora entrara em seu armário na academia de judô. correu a uma das janelas que davam para frente e olhou através das barras da veneziana. Em seguida. Como um raio. E. Imediatamente saiu do estúdio. a freada de um carro. viu Murayama e sua companheira entrarem na cozinha. Mas sim de uma gazua. tão habilmente como aquela porta. murmurando algo em sua língua. Voltou-se. Seu finíssimo ouvido captou o som metálico. O melhor seria chamar Johnny e atacar seriamente aquele assunto. Brigitte abriu um pouco a do estúdio. acompanhados pelo bater dos saltos da garota. que a fez sorrir ironicamente: estavam abrindo a porta por fora. a voz tranqüila da jovem japonesa. Ouviu-se uma porta. atravessou o living e.. não dispunham de chave. Não terminou esta meticulosa tarefa. Minoro respondeu e em seguida ouviram-se seus passo. Ouviu. para o quarto. diante da casa. ouviu que batiam na poda. como estava regulado para seus contatos com Peggy.

— Sejamos inteligentes. A japonesinha era na verdade bonita e formava um par sensacional com o elegante Murayama. — Não estamos armados — murmurou Murayama. — Uma excelente amiga minha. — Coloquem as mãos na cabeça — disse Brigitte. ela recorreu à Policia. Brigitte aproximou-se de uma janela e abriu a veneziana. caminhando de costas. — sorriu “Baby’. — Não. Viraram-se os dois. mas. em silêncio. — Quem é você? — perguntou. Minoru Murayama. frio. Os dois tinham estremecido ao ouvir sua voz. mas depois resolveu avisar-me. Nada de tolices. foi vitima de dois atentados. Minoru Murayama e a jovem estavam agachados junto ao corpo martirizado do velho japonês. Brigitte Montfort.. pois suspeitou de algo especial. Sua amizade comigo já lhe valeu . Sua voz lembra a de uma pessoa. que. Obedeceram docilmente e dirigiram-se. — Se têm armas.. dou-lhes o conselho de atirá-las agora para um canto. você bem pode imaginar quem sou.. — A qual.. deixando entrar completamente a luz daquele dia cinzento. ao ver a loura empunhando uma pistola pareceu decepcionado. — E saiam de costas para o living. Aquele estoicismo. antes de se virarem para mim. úmido. virem-se. era muito próprio da raça nipônica.. certamente. ainda com as mãos na cabeça. ontem. devagar. — Que pessoa? — Mis.coronha de madrepérola. para onde ela mandara. De inicio. Não imagino. — Então. mas isso foi tudo..

. — Pois eu o invejo. — E o que é “isto”? — Se você é a pessoa que estou procurando — replicou o japonês — diga-o. Quis acompanhar-me aos Estados Unidos. — Como pode saber? — Sei. em Quioto. Apenas queríamos saber se Saburo Ono estava certo em suas suspeitas. — Que suspeitas? . Quem é sua amiguinha. Murayama: que significam os dois atentados contra miss Montfort? — Ela não corre perigo. e loquaz? — Absolutamente. será sincero comigo.. Assim. Não estou satisfeita ainda. Diga-me. A víbora não possuía presas venenosas e a bomba do carro estava preparada para não causar o menor dano. Murayama? — Noriko Yamagani.. Mas não creio que me faça isso. — Se sou a pessoa que lhe interessa encontrar.. Se não é. Satisfeito? — Muito — suspirou o nipônico. Sentemse es dois no sofá. baixando as mãos.alguns pequenos problemas. — De acordo. — Murayama.. será inútil que me faça perguntas. É minha enfermeira. Sou “Baby”. Não tem nada a ver com isso. não lhe parece? — Lamento.. — Ainda que o ameace com o mesmo destino de Saburo Ono Kuroki? — Ainda assim. a despeito de minhas objeções. estamos perdendo tempo com uma conversa estúpida.

— Ele estava há quase três anos tentando localizar a agente “Baby”. Finalmente, chamou-me de Quioto e disseme que tinha que ser miss Brigitte Montfort, mas que precisávamos certificar-nos. Se miss Montfort fosse “Baby”, teria eliminado a víbora, de um ou de outro modo, sem incomodar ninguém. E se teria dado conta de que havia uma bomba em seu carro, Parece que nas equivocamos... — Sim, parece. Lamento que, por culpa minha, Brigitte lenha levado dois sustos tão tremendos, mas não daremos a isso mais importância que a que tem realmente. Agora, diga-me por que e para que Saburo Ono estava há três anos tentando localizar-me e o que faz exatamente você nos Estados Unidos. —Saburo Ono era feliz aqui, simplesmente. Eu cheguei faz pouco mais que um mês para preparar tudo. — E miss Yamagani? — Brigitte indicou a japonesa. — Ela veio dois dias depois... — Por que, se você lhe disse para não vir? — Noriko e eu nos gostamos. Ela quis... estar perto de mim. — Deliciosamente romântico. Muito bem. Mas continuo sem saber por que vocês procuram “Baby” e por que desejavam certificar-se tanto de que estavam tratando com ela. Por que, Murayama? — Precisamos de “Baby”. E sabemos que ela nos ajudará a conseguir nossos propósitos. Você nos ajudará, tenho certeza. — Talvez. Ajudá-los em quê? — Temos...

Noriko Yamagani, subitamente, começou a falar em sua língua, com grande vivacidade, mas Brigitte avançou um passo, apontando-lhe a pistola, o que a fez emudecer. — Não sabe falar inglês, miss Yamagani? — perguntou secamente. — Sei... — Pois se tem algo a dizer, que seja nessa língua. Não me obrigue a ser brusca. Segundo entendo, seu noivo e Saburo Ono chegaram a conhecer bem, depois de três anos de... investigação, a personalidade de “Baby”. Se assim é, saberão, entre outras coisas, que se ameaço quebrar-me a cabeça se pronunciar mais alguma palavra em japonês, não estou bravateando nem fazendo teatro. De acordo? Está de acordo também com isto, Murayama? — Estou. Sabemos bastantes coisas a seu respeito. Se Noriko tornar a falar japonês, você lhe quebrará a cabeça, eu sei. Também sei que vai me ajudar. — Discutiremos isso de um modo judicioso. Que devo fazer? — Temos três milhões de dólares, em barras de ouro, escondidas num lugar dos Estados Unidos. Quero que você me ajude a levar esse ouro para o Japão. — Fantástico... Em que se baseia para supor que farei semelhante coisa? — Se você é “Baby”, certamente o fará, quando eu lhe tiver exposto minhas razões. Eis no que me baseio. Sabemos que “Baby” é, antes de tudo, humana. E um ser humano de alta qualidade. Ficará do meu lado. — É possível. Onde está o ouro? — Não lhe diga! — exclamou Noriko. — Ela vai ajudar-nos — murmurou Murayama.

— Devo dizer-lhe, Noriko. — Por que você há de confiar nela? Em mim não quis confiar, não quis me dizer onde está esse ouro... E devia ter dito. Se além de matarem Saburo Ono tivessem eliminado você também, esse ouro estaria perdido para sempre. Você negou-se a me dizer e vai dizer a ela...! Acaso está seguro de que é mesmo “Baby”? — Ela tem razão... — sorriu Brigitte. — Talvez eu não seja “Baby”, afinal. — Tem que ser. Do contrário, não estaria aqui. — Esse é um raciocínio um tanto discutível — tornou a sorrir Brigitte. — Mas vamos por partes, sem desgostar sua noiva. De quem é esse ouro? — Do Japão. — Poda provar? — Posso dizer-lhe o que Saburo Ono me explicou faz tempo. E você julgará aonde devem ir parar esses três milhões de dólares. — De acordo. Que lhe explicou Saturo Ono? — Durante o ano de 1940, o Japão esteve enviando ouro em barras para os Estados Unidos. Esse ouro destinava-se a ser utilizado como conviesse a meu país, depois de iniciada a guerra contra os Estados Unidos, que se começava a considerar inevitável. Um grupo de agentes da Tokko esteve introduzindo o ouro aqui. Com ele, pretendia-se, no momento oportuno, comprar serviços especiais de alguns americanos... pouco escrupulosos: informes sobre fabricação de armamentos, aviões, barcos, adestramento efetivo de tropas... — Sim, sim, compreendo essa fase informativa. Vocês queriam esse ouro para comprar traidores quando a guerra,

assim. finalmente. para dedicar-me a meus semelhantes. já tivesse deflagrado.. Meu pai faleceu em Hiroxima.. ia escondendo o ouro. resolvi depois ser médico. — Exato... que três agentes tinham ajudado o chefe de grupo especial. Atualmente. Ujiro Murayama. ou. foram os quatro dados por mortos e nunca se suspeitou que um deles tinha sido Ono.. — Por quê? Acaso você trabalhava para a Tokko. foi um grande amigo de Saburo Ono. não.que consideravam inevitável. tinham sido introduzidos três milhões de dólares nos Estados Unidos. Tudo esse ouro ia sendo recolhido por um chefe de grupo especial das mãos dos agentes que o traziam. . quando. um dos quais era Saburo Ono Kuroki. E talvez por isso. Saburo Ono resolveu que não era o momento de dizer nada da que sabia e. a caminho do México. as coisas se tornaram demasiado difíceis e ele leve que sair a toda a pressa deste país. lembrou-se de você. os quatro foram encurralados. — Então.. — Sim. Especialmente aos que sofriam as conseqüências das bombas atômicas que caíram sobre meu país. Que mais? — Em meados de quarenta e um. nem sequer a Tokko. Foi ajudado por três agentes japoneses. Eu sou médico. E como ninguém sabia. lançaram a primeira bomba atômica. — Não me diga mais: e só pode escapar Saburo Ono com o segredo do local onde estava escondido o ouro.? — Não. Por fim. de modo que não lhe pediram contas. Mas meu pai. ficou com o segredo. Esse chefe de grupo especial. simplesmente. Depois pode voltar aos Estados Unidos e começou a pensai em recuperar o ouro.

a essa missão.. Eu cuido delas. para mim. — Ou deveria perguntar: precisa realmente de mim? — O ouro está debaixo de uma casa. — Não está confiando demasiado em mim? — Não. que esses três milhões cheguem a seu destino: meu hospital. Além disso. não viveria nem sequer um mês. no Japão. Para você. É a única coisa que realmente me importa na vida. E não se dê ao trabalho de ameaçar-me ou advertir-me. Por fim. a esse esforço científico e pessoal? — Quero.. sorriu o nipônico.. não por ambição pessoal. — Mas sei que conseguirá... Estou lhe dizendo toda a verdade.sou especializado nesse tratamento.. E alguns filhos dos filhos dos que morreram ainda transmitem a seus descendentes as chagas e deformações. — E quer esses três milhões de dólares para dedicá-los a esse fim. a cidade mais bela do Japão. naturalmente. habitada. — Como posso ajudá-lo? — perguntou. Tenho um pequeno hospital perto de Quioto. “Baby”. Brigitte esteve uns segundos olhando fixamente o japonês. Quero esse ouro. Ainda há japoneses sofrendo os males que lhes foram causados pela radioatividade. Ainda nascem crianças. que sustentou com firmeza seu olhar. será. retirar dos Estados Unidos mais de duas toneladas de lingotes de ouro não será coisa fácil. deu um suspiro. mas para maior . Sei que se a enganasse. Murayama. que trazem em seu corpo o efeito das bombas atômicas. do um ou de outro modo. que posso convencer a CIA no sentido de que lhe permita retirar esse ouro do país? — Não. “Baby”. — Está pensando.

Não compreendeu? Alguém matou Saburo Ono. tampouco quis confiar em ninguém. caradurismo assombrosos. Onde esconderam o ouro? — Num lugar da Califórnia.. não obteria esse ouro.. Ele riu. Não está de acordo? — Em suma. você nunca realizou trabalhos de espionagem. nem o fez Saburo Ono. ir parar nos subterrâneos de Fort Knox. Antes. Murayama. Está bem: vou ajudá-lo. que poderiam muito bem. já consumi todos os meus bens realizando a tarefa que me propus: a de salvar essas crianças e socorrer esses velhos que ainda padecem. “Baby”? — Na verdade.eficiência de meu trabalho. Qual a sua resposta. nunca. Acertaremos isso mais adiante.. será preciso desimpedir o caminho. Esse dinheiro merece um destino como o que lhe tenciono dar. — Alguém disse: descubra uma necessidade. Praticamente. Sei que se tivesse dito isto ao serviço secreto de meu país. Por quê? — Porque tem uma serenidade e um. — É o que estou lhe pedindo. — Esse é um pensamento demasiado profundo para ser enunciado sem aviso prévio. Eu sim. Tenha em conta que nem o Japão nem os Estados Unidos necessitam verdadeiramente desse ouro. que no momento seguinte encontrará o necessário para resolvê-la. os efeitos da radioatividade. você está me pedindo que lhe entregue três milhões do dólares. — Já o imaginava.. — Como? — Eu disse “desimpedir o caminho”. depois do . Às vezes de um modo horrível. Murayama? — Na verdade.

Entretanto. não creio que esses chineses tenham-se dedicado a dormir em vez de vigiar vocês.torturá-lo. Isso quer dizer. logicamente aborrecidos com a morte do dois deles. — riu Brigitte. Murayama. Murayama. alguém veio aqui. quiseram deter-me. Ontem à noite tive que matar dois. vocês também ficaram livres de vigilância. estiveram vigiando vocês dois. — Para quê? — Se vir alguém mais ou menos pendente desta casa. — Mas. por algum tempo. então. — Quem espera que acredite nisso? Talvez eu... logo saberemos se conseguiram que Saburo Ono revelasse ó lugar onde está o ouro. Se houver mais chineses a espreita lá fora. E ninguém mais. A morte é. barata. cheguei à conclusão de que estavam vigiando Saburo Ono.... Que pessoas? — Os chineses. Não sabia? — Claro que não! — Pois já sabe agora. Em todo caso. Quando há três milhões de dólares de permeio. é que Saburo Ono não disse nada e. Tenha a bondade de olhar por uma janela. alegremo-nos: é sinal certo de que ainda estão procurando . — Eu não sou capaz de matar ninguém! — Você é admirável. matou o velho japonês depois de tentar ou mesmo conseguir que ele revelasse onde está o ouro. e. que temos outras pessoas atrás dos três milhões de dólares.. Como conseqüência disso. obviamente. Depois de pensar. ninguém se fia em ninguém. Pressinto que eles o consideram culpado da morte dos dois companheiros. para a avenida. Viram-me rondar a casa e no momento oportuno.

mas isso porque não têm noção de meu paradeiro ou existência. Isto é um jogo.. há um carro grande. outro chinês. o japonês virou-se.Muito bem: vamos preparar uma armadilha para o chinês da porta de trás. Eles só se dedicam a vocês. enquanto acendia um cigarro. um pouco para acima. — O. como carregando suas baterias destinadas ao fator Paciência.... não sabem que cheguei antes. chinês da.. Agora... com muito sossego. E.. — Estiveram seguindo-nos? — Naturalmente. ou que os teve até ele.. mataram o pobre velho sem nada conseguir e agora vigiam vocês dois. com uma série de precauções que fizeram Brigitte sorrir. fumando. Tem que haver um chinês vigiando essa porta.. Mais abaixo. eles querem apanhar vocês. Um homem branco está junto a ele. Quando acabava de acendê-lo.. prepararemos uma armadilha.alguém que lhes diga onde está o ouro. que parece esperar alguma coisa. — Eles prepararam uma armadilha? Brigitte suspirou. aproveitando a que eles prepararam.. Portanto. E não se ponha nervoso. Compreende? — Creio que sim. Assim. —Há. rosto bastante alterado. — Pois olhe pela janela. .. e mais perto está um chinês. Minoru Murayama foi até à janela e olhou. Minha admiração por Saburo Ono! Soube resistir a todas as torturas. da. — Esplêndido! Isso significa que não sabem onde está o ouro. Não havia nenhum quando eu cheguei..? — Da porta de trás. Esta madrugada vieram aqui. .

Mas. Minoru e Noriko obedeceram. com o cadáver de Saburo Ono como imperturbável testemunha. enquanto os da frente pensam que ainda estamos aqui. efetivamente. um chinês abandonou seu esconderijo atrás de uma árvore do jardim. fazendo sinais para alguém as suas costas. apareceu outro chinês. Temos apenas que enganar o chinês ou chineses dos fundos e sair por lá. É muito simples. porque. A porta havia ficado apenas encostada. fazendo-lhes sinais peremptórios para que retrocedessem. os japoneses de costas e os chineses sempre os vigiando. . Poucos passos.— Sim! Murayama: eles nos prepararam uma armadilha. Imediatamente. — Vá chamá-los — disse um dos chinês. Noriko reuniu-se a ele e começaram a afastarse. Não disse nada. NOVE Um pouco de tortura chinesa Minutos depois: Minoru Murayama abria cautelosamente a porta traseira da casa. em inglês. Quando a porta foi fechada por um destes ficaram todos na cozinha. levantando as mãos. não menos impassíveis mostravam-se os japoneses. olhava rapidamente para todos os lados e saía.. de modo que só tiveram que empurrá-la para entrar. justamente graças a ela. mas costuma dar resultado. Eu lhes direi o que têm a fazer. poderemos sair daqui. Apontou-lhes seu revólver e isso foi tudo. apontando-lhes seu revólver. Era um curioso quarteto aquele: se os chineses pareciam impassíveis. também armado de revólver..

Fratura do pescoço. e tombou de costas. por favor. apontando-lhe a pistolinha. Brigitte lançou-se sobre ele.O outro assentiu e caminhou para o living. Um braço coberto de pele de vison passou por diante de sua garganta e cravou-se ferreamente nesta. Depois sacou a pistolinha do bolso do casaco. deixou cair o revólver. exato. — sussurrou. bateu com o peito contra a porta dós fundos. disparando de imediato contra o outro chinês.. enquanto com o ombro empurrava para frente. Fez isso com absoluta tranqüilidade. girou. que não teve absolutamente tempo de surpreender-se.. sem tomar a mínima precaução. E foi só. foi até à porta da cozinha. para dentro. com um só movimento preciso.... saltando com uma agilidade de pantera. — Quieto. morte instantânea. — Noriko. arrastando-o antes por dois metros ainda sujeito pelo pescoço. — Que fazemos com ele? — perguntou Murayama. Simplesmente. vá ao living e traga minha maletinha. E nem sequer teve tempo de gritar. — De acordo? O chinês pestanejou. — Vamos deixá-lo aqui?. empurrou-a tranqüilamente com a mão esquerda e entrou. inexorável. como o de um galho seco ao partirse. . E a cabeça do chinês pendeu inerte. “Baby” depositou o cadáver do homem no chão.. — Não tão facilmente — sorriu “Baby”. Não se produziu estrangulamento algum. voilá! Em silêncio. Recebeu o silencioso balaço no ombro direito. Em menos de um segundo. Brigitte fez alavanca com o braço dobrado. Ouviu-se um estalido. emitindo um gemido.

— Apanhe o revólver deste cavalheiro. Confesso que não. para quem trabalham. Minoru encontrou facas no armário da cozinha e estendeu várias a Brigitte. Minora... perto do cadáver do velho japonês.. que sabem exatamente e onde obtiveram a informação..? — olhou com indiferença o japonês. Minora? — Não. Que está esperando... E utilizaremos o mesmo sistema que eles empregaram com Saburo Ono. Servem essas que eles usaram com Saburo Ono — indicou-as. — Vamos perguntar-lhe algumas coisas.. que parecia atônito.— Que pensa fazer? — tornou a interessar-se Murayama. — Não? Pois lhe direi apenas uma. como souberam da existência das barras de ouro. — Não lhe havia ocorrido formular estas perguntas. que indicou o chão junto a ela. — Pois estão no ar. enquanto me ocupo de alguns pequenos detalhes. — Não posso imaginar que perguntas você vai fazer a este homem. meu amigo. Vejamos: quem meteu vocês nisto? E mais: quem são vocês.. Mas nem você nem Noriko são espiões.. Noriko? — Oh. mantenha-o sob sua mira. Não precisa se dar ao trabalho de aquecê-las ao rubro. nada me surpreenderia. já vou. Se este fosse um caso de espionagem comum.. nem o era mais Saburo há . E não se incomode com as tenazes. enquanto recolhia uma das tenazes enegrecidas que tinham sonido na noite anterior. Arranje algumas tenazes e facas. A jovem nipônica dirigiu-se ao living. Sabe manejá-lo? — Claro. — Nesse caso.

— Efetivamente. — Não lhe posso dedicar mais de um minuto. bruscamente.. — Pensei que tinha ido buscá-la no Japão — observou esta. com um puxão. do rolo que retirara da maleta. os únicos que sabem arrancar olhos com uma tenaz.. mas com uma centelha de interesse nas negras e oblíquas pupilas. e. Não sei se compreende o que isso significa. Chang — disse: — você está contemplando a agente “Baby”. — Eu não sabia onde estava. Ela se deu conta e sorriu-lhe com uma “amabilidade” arrepiante.muito tempo. pelo que você deverá perdoar minha pressa nestas pequenas . que entregou a Brigitte. Impassível na aparência. Como puderam estes chineses saber que havia um assunto interessante? Mas que há? — virou a cabeça para a porta. já sabe que coisas desejo ouvir. os chineses. Não são vocês. Mas se quer poupar-se um mau bocado. Num minuto apenas. Chang. que olhava impassível para Brigitte. evidentemente sobressaltado. Rasgou. Vai me dizê-las por bem ou daremos início à função? Não quer falar? Já o esperava. você vai me dizer até o dia e o ano chinês em que nasceu. colocou-o sobro a boca do chinês. — Que faz ai? Afaste-se... — Por que sua noiva demora em me trazer a maleta? Naquele mesmo instante apareceu Noriko na cozinha. com a maleta. Não se interponha entre o chinês e seu noivo! A japonesinha engoliu em seco e colocou-se junto à cabeça do chinês. que agora olhava para todos os lados. Mas verá que logo muda de idéia. um pedaço de esparadrapo cor de carne.

desesperado. Mas logo em seguida soube que o chinês estava morto. quase se sufocando quando o grilo foi relido pelo esparadrapo que lhe cerrava a boca.torturas... Mas. Noriko. Ficou atônita. não entendo. — Não é assim. Isso foi tudo.. adaptar-se às circunstâncias. não sabia se seu nome era Chang ou Fu Man Chu.. Tinha apenas uma balinha no ombro e dei-lhe com a tenaz uma fisgadela que não mataria . — Chang! Certamente. embora cm suas pupilas parecesse latejar aquela expressão de terror.. Seus olhos pareciam a ponto de sair das órbitas. Para quem trabalha? O chinês parecia aterrorizado o fazia grandes esforços para falar. faça-me um sinal com a cabeça. Brigitte ergueu a tenaz e baixou-a sobre seu flanco direito. Tentou soerguer-se. — Chang. — Assim que eu gosto — sorriu-lhe Brigitte: — deve colaborar. — Vai responder minhas perguntas? Novamente ele assentiu. E então. Morto? Por quê? Como? — Que há? — perguntou Noriko. — Está morto.. mas Noriko pos uma das mãos em sua cabeça. Chang? Continuo? Fica prevenido: segue-se agora seu olho direito. Todo ele estava imóvel. — murmurou ela. As porfias cravaram-se na carne e o homem estremeceu. depois. empurrando-a novamente para baixo. “Baby”? — É. ao mesmo tempo que movia afirmativamente a cabeça.. Não estou para perder tempo.. que tornavam a ficar imóveis. Primeira pergunta: para quem trabalha? O chinês piscou. já lhe disse. — disse Murayama. o esquerdo. Brigitte arrancou-lhe o esparadrapo da boca e olhou-o nos olhos... Se resolver falar.

enquanto Brigitte.... não é possível que tenha morrido de medo.. a agente “Baby” estava adormecida. Ouviu-se um ruído de vidros quebrados e a janela da cozinha rebentou para dentro. Sua cabeça pendeu para frente..? Após hesitar. Está bem. — Poderia ser — disse Murayama.ninguém. demasiado tarde.. mas... Ora vamos. um homem branco. . tendo por travesseiro sua maletinha vermelha com flores azuis. com a impressão de que tudo girava com uma velocidade vertiginosa ao seu redor. Quando a porta da cozinha se abriu mais uma vez. sobressaltando os três.. Parecia apavorado. olhando para a jovem japonesa... viu sua maleta e abriu-a com dedos torpes.. em busca da máscara especial antigás. olhos virados para dentro. mas ele mesmo caiu de joelhos.. pesavalhe como se fosse de chumbo. Murayama apressou-se a segurá-la... — Pois digo que não este homem. que logo se deslocaram para dentro. Brigitte levantou-se de um salto. que deslizava para o chão. Isso não importa! Temos que abandonar esta casa o quanto antes! Sairemos por. — Noriko. Caiu de joelhos. dando passagem a outros dois chineses e a. Noriko! Que há com você? Acaso vai desmaiar... como se dobrando sobre si mesma. Demasiado tarde. Como uma indistinta mancha vermelha e azul.. calou-se. mostrando todo o branco da córnea. compreendia a verdade. agora.. vá buscar o revólver do outro chinês! Vamos ter que. tornando a sacar a pistola — Descobriram-nos! — exclamou. A cabeça lhe dava voltas.. Suas pálpebras fechavamse..

sentindo a ausência das almofadas de espuma que faziam sobressair seus pômulos e bochechas. dizendo a si mesma que estava se recuperando. Brigitte pestanejou. estendido do outro lado. Como se fosse a lembrança de uma fotografia. Brigitte — disse ele. E a primeira coisa que ouviu foi um profundo suspiro. no chão. Um porão. que a olhava fixamente.. que tinha em seus braços Noriko. finalmente. pois. estendida junto a ela. Brigitte quis erguer-se. convenceu-a de que também lhe haviam tirado as lentes de contato que davam a seus olhos um tom mais escuro. Estava. em sua mente latejava aquela visão. — Sinto por você. o efeito do gás. uma lâmpada. Deixou-se cair novamente no chão. exposta ao nipônico em seu aspecto e personalidade autênticos... fechando os olhos. Umas paredes de tijolos. Estava se movendo.DEZ Quando acordou. pelo menos. Virou a cabeça e avistou Minoro Murayama. . sentou-se e olhou para Minoru Murayama. viu em primeiro lugar Noriko. cara para o teto. Apalpou as faces. Esteve assim alguns minutos. mantendo-a sentada no chão. uma porta.. mas sua cabeça deu cem mil voltas numa fração de segundo. Levou as mãos à cabeça e constatou que não trazia mais a peruca loura. suas pálpebras se agitavam. Um piscar especial. Claro que não era a primeira vez que se encontrava em situação semelhante. ainda dormindo sol. A japonesinha continuava adormecida. Em seguida. Tornou a abrir os olhos. Brigitte captou a estranha expressão nos olhos do japonês.

... Mas ali dentro não havia nada. caminhando para a porta. esteve examinando a porta. — Devia tê-lo compreendido há mais tempo. — É um pequeno incidente sem importância. Temos que esperar até ver alguém. sou “Baby”. como deviam estar pensando que os iam matar. Enquanto isso. — Está.. eles saberão como agir para que . pois fazia um frio intenso naquele porão. o que fez sorrir a espiã internacional. é lógico. dirá. Durante uns minutos. — Oh.. os dois nipônicos tinham o direito de se fazer carícias. Minoru: não vai nos adiantar nada discutir a respeito. que a acariciava ternamente. sim. Mas. Brigitte riu divertida. Certamente nos matarão. Sou Brigitte Montfort. Também lhe tinham tirado o casaco de pele e isto não era agradável.. e pronto. Até eu teria que dizê-lo. Saburo Ono era um homem muito meticuloso e. Noriko Yamagani tinha-se recuperado também dos efeitos do gás e encolhia-se nos braços do noivo. — Não direi a ninguém. — Deixemos isso. Brigitte assentiu com a cabeça e levantou-se. Quando sua voz me pareceu conhecida. ou algo que lhe pudesse ajudar a abri-lo. — Não se pode abrir a porta? — perguntou Minoru. Ela está bem? — indicou Noriko. Não demora a despertar. afinal de contas.. Mas primeiro quererão saber onde está o ouro. depois se dedicou a procurar um arame. Somente eles três.— Não se preocupe muito por isso — sorriu ela. — Não. se disso que Brigitte Montfort era “Baby”.. em circunstâncias como esta. eu não devia ter a menor dúvida.

você lhes diga tudo. suspirou “Baby”. É isso? — É. Tinha tudo solucionado. Ia comprá-lo. Perto do mar.. é claro.. permanentemente. Poderia retirá-lo no momento oportuno. — Sempre desejei ter uma casa em Malibu Beach. É mais fácil transportar um cheque que duas toneladas de lingotes de ouro. Entendi que não se trataria de um edifício de apartamentos. Você me teria dito onde está a casa. sim. Para falar a verdade.. pequenos empreendimentos pessoais. Tudo muito simples. De modo que o ouro estaria à minha disposição. — Resolvido? A que se refere? — O seu ouro. Bastante. .. não lhe parece? — E que faria você com o ouro? — Isso só a mim diz respeito..... Você me disse que está debaixo de uma casa habitada. garanto-lhe.. Ou não? — Sim.. com seus três milhões de dólares... Claro. É isso. não sabe? — Tinha pensado em comprar essa casa? — Exato. — O clima da Califórnia é sensacional. eu já tinha resolvido o caso desde o primeiro momento. Pena. — Como? De que modo? — exclamou Murayama. Em Malibu Beach. na Califórnia. eu a compraria e lhe daria um cheque no valor de três milhões de dólares contra meu banco na Suíça. Digamos que é o fruto de. Tenho dinheiro num banco da Suíça. — Bem. simplesmente. Minoru. seja qual for seu montante.. mas de uma casa pequena.. Meus banqueiros têm ordem de pagar sem hesitação qualquer cheque meu. exatamente. Já então você estaria em Quioto.

Não parece a mesma pessoa.. — Pois estou. Me estava recém-escanhoado.. ela voltou ao centro da pequena cela. Por fim.. embora não pareça. . A porta abriu-se de repente. Quantas horas durava aquela reclusão? Olhou para Murayama e. Agora seu queixo começava a escurecer. — Ainda estou surpreendida. apoiando as costas à parede e cruzando os braços sare o peito.. Súbito.. — Assim penso eu — assentiu Brigitte. O frio se fazia sentir cada vez mais intensamente. lentamente. em inglês: — Coloquem-se junto à parede fronteira à porta. um instante depois de Brigitte dirigir o olhar para ela. Quando o vira em casa de Saburo Ono. aproximou um dedo daquele pedaço de madeira. olhando sempre para todos os lados. não aconteceu nada. parece que não seremos nós quem tomará a última decisão.— Era uma boa solução — murmurou Noriko. Apenas ouviram uma voz. tinham-no já como infiltrado nos ossos.. para que possamos vê-los bem. franziu a tosta... mas não apareceu ninguém. Na verdade. ao natural — sorriu Brigitte. pelo crescimento da barba deste. Apertou-o e.. não parece assustada — disse Noriko.. Passou a língua pelos lábios e. Ficou aberta do todo. Na verdade você é “Baby”? — E agora. — Mas. dado o tempo em que ali estavam. amiguinha. calculou que se tinham passado umas oito ou dez horas. aproximou-se novamente da porta e ficou olhando um pequeno retângulo de madeira que parecia acrescentado. E muito. — Você. Desiludida. desistiu do qualquer iniciativa e sentou-se.

. surgiram dois chineses. Depois entrou outro chinês e. se se refere a esse pedaço de madeira que apertei. Quando também os dois japoneses a ela se juntaram. Devia ter uns quarenta anos. um aventureiro de pouca importância..? Oh. Era um tipo alto para sua raça. sóbrio.. Sua forte personalidade fazia-o destacar-se dos outros dois chineses e do homem branco. — Sim — continuou sorrindo o chinês. mas isso não chegou a me surpreender.. e muitíssimo. foi quem encontrou a mola de chamada. — Ao ser apertado. em plena Nova Iorque? É fantástico! Quando meus homens a trouxeram. Por seu lado. elegante. bem penteado. o chinês elegante também olhava Brigitte. miss Montfort.. — Naturalmente.A primeira a obedecer foi Brigitte. miss Montfort. Quem seria capaz de fazer-me acreditar que durante todo este tempo tive a meu alcance a agente “Baby”. que não trazia arma alguma. Por instinto. aqui. vi sua peruca fora do lugar. colocando-se a ambos os lados da entrada. quando a . também empunhando um revólver. Brigitte olhou o terceiro chinês. — A.. Mas surpreendi-me. E um fino sorriso distendia seus lábios. um homem branco. que devia ser um simples assalariado. Tenho seus pertences em meu poder. — Asseguro-lhe que é uma honra ter entre nós a agente “Baby”. com um inexpressivo e correto rosto oriental. acende-se uma luz vermelha em outro lugar. revólver na mão. finalmente. Uma pequena instalação que será útil a todos nós. contendo coisas tão especiais. Refiro-me à sua curiosa maleta. — Muito obrigada.

Sabe muito bem que cobrarei. Entretanto. E agora. — Devem ter estado trabalhando muito bem.. — Tenciona enviar minha cabeça para a China? Tem um gosto esquisito para fazer presentes. — Não será nenhum presente. ninguém suspeitará do conteúdo do pacote. — Somos muito discretos. enquanto as coisas correrem bem. entre nós que nos dedicamos à espionagem.. pretendo mantê-la. farejasse.. miss Montfort.. Entre dois bons espiões.. — Só uns poucos. Mas eu creio que ainda é mais famosa como “Baby” que como Brigitte Montfort.reconheci ao tirar-lhe a peruca e as outras coisas. tudo está dito. para serví-la.. poderei substituí-los imediatamente. Lao Wo. São tantos os meus conterrâneos. Lao Wo. pois entendo que me privou de quatro homens. nada menos que dois milhões de dólares. enfim. — Não — tornou a sorrir Lao Wo. Tenho uma rede bem montada neste Estado e. Uma famosa jornalista. menos ainda. — Perdão — corrigiu Brigitte: — sou famosa no mundo inteiro. que quando eu enviar sua cabeça para a China. pelo simples envio. pata que eu não os. É muito famosa em Nova Iorque. Tanto. — Espero que nem todos sejam espiões. É o que oferecem em Pequim pela agente “Baby”. Pelo menos. sem . esse é um assunto que não vamos discutir. Em Nova Iorque e fácil para um chinês dedicar-se à espionagem. — É verdade. — Ah! O senhor é um espião? Deveras? Emocionante! Não me diga que é um espião sino-comunista! — Lao Wo. Mas.

— Bem. Por isso. pelo que já antevi a possibilidade de que você. Um excelente médico. Não me deixou terminar. — Não? Vejo que é de uma sinceridade e lisura admiráveis. as mãos prontas para aplicar-lhe um golpe de caratê. Ah. Mas por melhor que seja um médico. derrubando-o de joelhos e atirando-o imediatamente contra a parede dos fundos com violentíssimo pontapé no queixo. temo que sua linda Noriko Yamagani passe muito mal. — olhou para Minoru Murayama. Nós. mais dinheiro. tal como Ono. não pode ressuscitá-las..... Mas o homem branco que assistia à reunião moveuse velozmente. Onde está o ouro? — Não lhe ditei. Três milhões de dólares em barras de ouro. De modo que vamos ocupar-nos de.. desferindo-lhe uma coronhada na têmpora.palavras.. variei a direção de meu ataque.. O japonês era muito forte e levantou incontinenti. ao que dizem. — Espere. simplesmente.. orientais.... como perdi torturando Saburo Ono? Não. observo que isso lhe afeta. não pode ressuscitar a si mesmo. De acordo! Então. — Não me importa isso. A ninguém. Murayama. Penso que é inclusive um bom médico. Que esperava? Que eu fosse perder tempo torturando-o. prefira morrer a se mostrar explícito comigo. falemos seriamente e sem perder tempo: se não me disser onde está o ouro. Embora tenha muito amor a essas pessoas. somos resistentes a essas coisas. Noriko! Murayama lançou um grito de raiva e precipitou-se para o chinês. amigo? — É.. — Não é isso... Venha cá.. rosto . não. Ia dizer que tampouco pode ressuscitar outras pessoas.

— E se tiverem algo a dizer. Fê-lo sentar-se. se fosse você... e o sangue escorria por sua cara. Brigitte reteve-o por um braço. chamem. É algo que você não pode evitar.. — Noriko é muito bonita — sorriu Brigitte. A única coisa que pode fazer é dizer-lhe onde está o ouro. sem sofrimentos. Minoru Murayama deteve-se em seco e o branco aproximou-se com o cenho carregado. — Eles estão com ela.. levantou a saia e rasgou rapidamente um pedaço de sua roupa interior. O japonês tinha o parietal esquerdo quase a descoberto. Só que um dos chineses havia agarrado Noriko pelos cabelos. — Nossos conhecimentos de judô e caratê nada valem contra armas de fogo. — Não vai conseguir nada. Crispou-se quando Brigitte começou a limpá-la e quis levantar-se. eu preferisse não dizer nada. — ela o reteve. quase aturdido. Minoru. Como os japoneses. — Isso. Embora. Já conhece o truque. nestas circunstâncias. levando Noriko. Minoru. Então. — E os chineses admiram isso. simplesmente.. Comigo eles . Murayama deu dois passos para a porta. Acalme-se. decidido a passar de novo ao ataque.. seremos todos eliminados. tornando a golpearlhe a cabeça com o revólver e atirando-o novamente contra a parede. Saíram os quatro do porão.. — Calma. ou os brancos. — Não seja tolo. mas suas pernas dobraram e ele teria caído se Brigitte não o amparasse. devido aos dois tremendos golpes. Será melhor que o convença — disse friamente Lao Wo. “Baby”... — murmurou.. colocando-a à sua frente e apoiando-lhe a pistola na nuca.transfigurado pela cólera.

. não está falando sério. — Você. Espere. Nós os chamaremos pelo sistema que eles instalaram. — Não podem fazer isso com ela.. através daquela porta. se eles a matarem do imediato. É inevitável. — Estou chamando para dizer onde está o ouro! Ouviu-se ainda outro grito. fortíssimo. não... E quando vierem. ao mesmo tempo em que. enquanto Com a outra mão esmurrava a porta. — Estou. Depois você se negará a falar.. você evitará que a humilhem. Minora. a menos que ocorra um milagre. Ela está destinada a morrer de qualquer maneira e. Foi um grito mais breve.fariam o mesmo. — Estou chamando! — gritou.. que só podia ter sido dado por Noriko... faremos um trato. Será um modo de vingar-se desse Lao Wo. — Não. — Você está louca se pensa que lhes pedirei para matar Noriko! Vou dizer-lhes onde está o ouro.. Isso é o que vou fazer! Precipitou-se para a porta e apertou o pequeno retângulo de madeira. Depois nos matarão. prolongado.. É o seu único recurso. Chame-os e exija-lhes que a matem antes que você diga onde está o ouro. você lhes dirá que quer ver Noriko morta antes de falar. sinceramente. chegava um grilo agudo. Murayama lançou uma exclamação de horror e tornou a apertar o retângulo do madeira.. — Eu direi. façam eles o que fizerem. . Não! — Só há um modo de evitá-lo. menos intenso. — Não farei semelhante coisa! — o japonês afastou-a com um repelão.

.. Sabemos que vamos morrer. Morrer. E agora.. não haverá acordo. — murmurou Brigitte.. Mas nada além disso. Depois continuaremos com os interrogatórios à minha maneira. E ele só quer evitar que façam mal a Noriko. sã e salva! — Murayama. A porta se abriu e o homem branco entrou no porão.. Primeiro quero ver Noriko. — Mas Murayama não pede demasiado. — Não. É isso o que quer? Ou prefere comportar-se sensatamente de uma vez? Diga-lhe. Lao Wo. — É verdade. Do contrário.Depois. Que lhe custa satisfazê-lo? — Sim. não à sua. Você sabe dessas coisas melhor que ele.. revólver à frente. Será feito o que eu disser. que ficou olhando para o japonês. Quero que a tragam aqui para ver se não lhe fizeram nada grave. Nada de acordos. o silêncio. simplesmente.. — Está bem.. Vou mandar Brooks — indicou o branco — meter-lhe um par de balas no corpo. com exceção das pancadas que Murayama dava na porta. — ouviu-se poucos segundos depois a voz de Lao Wo. você está complicando muito as coisas. está bem... .. Por que não? Brooks. onde está o ouro? — Não lhe direi nada se não vir Noriko aqui.. diante da porta. que assim ficará mais calmo. E coloquem-se ambos tal como antes. — Vejo que não entende.. Quem manda agora sou eu. — Muito bem! — disse: — estou ouvindo Murayama. Atrás dele entrou Lao Wo. — Deixe de bater. enxugando com a manga o sangue que escorria de seu rosto... Minora retrocedeu rapidamente.. muito atento. — Acordo? — sorriu friamente Lao Wo. “Baby”. aperte o.

foi emitir um grito e cair de bruços. A primeira a reagir foi Brigitte. Na mão trazia um revolver. Ela apareceu na porta. fazendo-o gritar e relaxar-se uma fração do segundo. — Noriko! — chamou. que se virou para a porta. morto. à altura do coração. soltando o revólver. Dan de judô. flectindo as pernas. levantou o joelho direito. De um puxão. agarrou sua lapela direita e. 2º. As mãos de Minora Murayama pareceram cravar-se nos ombros de Lao Wo. que saltou de imediato sobre Lao Wo. com a mão direita apoiada em seu occipital. enquanto este levava a mão à axila esquerda.. Passou a esquerda sob a axila do chinês. Abraçou-o antes que ele pudesse retirar a mio de sob o paletó e.Mas tudo o que Brooks fez. arrancou-o dos braços de Brigitte. cambaleando.. simultaneamente. Ficou . com tal força que o fez repicar como se fosse uma bola de borracha. apertou com fúria para frente. Crak! Lao Wo ainda pode lançar um grito entrecortado. Minora Murayama. estava disposto a continuar a luta a qualquer risco. aos pés do japonês... girou até à parede dos fundos e atirou-o contra ela.. ao mesmo tempo. crispando o rosto cheio de Sangue. estendendo as mãos.. que olharam para o homem caído e viram a mancha de sangue em suas costas. ONZE Houve um brevíssimo instante de estupefação por parte de todos. para novamente cair-lhe nas mãos. para cair em seguida. mas parecia incapaz de usá-lo novamente. golpeando o chinês no baixo-ventre. de repente.

Queriam. outro com os olhos abertos fixos no teto. Tinha os cabelos revoltos. Brigitte olhou-os sim Instante.. olhos arregalados.. Havia prateleiras. queriam. com uma porta de cada lado. Encontrou o interruptor. Um tinha uma bala na nuca e o outro no coração. — Temos que sair daqui — disse. Endireitando-se. garrafas quebradas no chão. Se bem compreendi a situação. foi golpeando-os com a coronha do revólver.. Um a um.? — Eu. muito atenta ao som que . ressecados. expressando um infinito assombro. ela saiu dali e entrou no aposento fronteiro. estamos em qualquer parte de Chinatown.. — Noriko. dirigiu-se a um dos barris. — Que aconteceu? Que lhe fizeram..apoiada ao portal. eu.. Em seu insto alterado viam-se sinais de golpes. Sem hesitar.. — murmurou Murayama.. Entrou e examinou-os brevemente. Tirou também a pistola do defunto Lao Wo e reuniu-se aos japoneses na porta.. — E já. as roupas em desalinho e faltava-lhe um sapato.. lima delas estava aborta.. claro. Estavam mortos. dizendo-lhe coisas em japonês. carcomidos. após abrir a porta com três silenciosos disparos da arma de Brooks. Brigitte deixou-os com suas confidências e saiu do porão. Havia dois. um estendido de bruços. já empunhando o revólver de Brooks. Havia um curto corredor. ternamente. — Você está bem? — Eles me bateram. Não é um lugar para efusões. No chão daquele pequeno aposento viu os dois chineses.. Parecia uma adega em desuso. alguns barris. Minem correu a ela e abraçou-a. tudo cheio de pó.. acendeu a luz e olhou em torno..

— Que. foros. Foi admirável a atuação de Noriko.. estou bem. pelas costas — terminou Brigitte. Ninguém possui tão boa memória que possa prescindir de anotar certos detalhes. Assim. No quinto. Depois meteu meio corpo dentro do barril e. — Matou-os. notou a presença de Noriko e Minoru. A porta estava fechada por dentro.. deteve-se. mas a chave ficara na fechadura. a parte da frente do barril abriu-se. e deteve-se diante da porta. O de sempre.. informes. tinha nas mãos uma caixa metálica. que há nessa caixa? — Pouca coisa: papéis. — Vamos. mente fechada. sólida. que Brigitte retirou. A primeira coisa que apareceu foi um pequeno transmissor do rádio. Com o pé. destruiu o mais possível o pequeno transmissor.produziam. . Agachou-se diante do barril e começou a apalpá-lo. Às suas castas.. Você está bem. Noriko? — Sim.. reconheço. saiu ao corredor. Subiu os degraus a toda a pressa. conseguiu tirar o revólver de um deles e. detidamente. — Isso eu já tinha compreendido. mas não fez o menor caso. — Contou-me que os chineses se descuidaram ao ficarem sozinhos os três. mas silenciosamente. para assombro do par de japoneses.. Silêncio absoluto. Depois indicou a porta. aplicando o ouvido à madeira. ao sair.. Este vai ser um grande contratempo para o serviço secreto chineses em Nova Iorque. — Ela mostrou muita coragem — disse Murayama. E agora vamos. Por fim. Minoru. Saiu rapidamente e acabou de percorrer o corredor. Eu irei na frente. rumo ao lanço de escada do fundo.. viu o tal Brooks e meteulhe uma bala no coração...

. era revestida de uma chapa metálica.. — Vista-o. Plop. com bonitos tapetes. bons quadros. certificou-as rapidamente de que todas as suas coisas ali estavam e fechou-a.. mas não teve a menor dificuldade em abri-la. impaciente.. Vamos sair à rua.. coloridos. A porta se abriu apenas algumas polegadas. moderno. Grande. Além disso. Brigitte estampou um delicioso sorriso ao avistar sobre uma poltrona seu casaco de vison. A esquerda havia outra porta e a ela se dirigiram. Também estava trancada. A primeira coisa que pôs foi a peruca. a peruca. após olhar as roupas rasgadas de Noriko. Indicou a porta e os três aproximaram-se desta. o casaco.. Plop. Atrás dela entraram os dois japoneses. Ela tirou o casaco. Murayama ajudou-a a tirar as correntes e levantar as barras de feno. Os dois cadeados saltaram. para dentro. .. a maleta. junto à montagem do fecho e disparou mais duas vezes. despedaçados pelas balas e Brigitte olhou a fechadura. Abriu a maletinha.Abriu. puxou a porta para si e saiu. E vocês dois tratem de agir com toda a naturalidade... sem grande cuidado. pela qual chegava-lhes um abafado rumor de vozes.. viram uma Porta de vidro... com um leve ranger. Saíram a um corredor e.. Plop. um magnífico lustre de cristal pendente do teto. Plop. decididamente ocidental.. num escritório. olhando estupefatos a seu redor. Estava fechada não somente a chave. depois. Colocou o revólver na vertical. aceso. mas com sólidas barras de ferro presas por correntes e cadeados. à direita.

Dirijam-se ao motel. o qual lhes será muito útil. Você Minoru. — Sss! Tranqüilamente. sigam para o hotel de Minoru e façam o mesmo. Encontrarão no carro um mapa do Estado de Nova Iorque. vai cobrir com um lenço esse ferimento que tem na têmpora.. depois que Noriko o tenha limpado bem.. naturalmente. Percorreram a ruela e. deixaram aquele estabelecimento para trás. Atravessem White Plains. prossigam pela rodovia 22 sempre para o norte e parem quando tiverem percorrido dez quilômetros. — Deixemos de tolices. caminhem para a esquerda. façam um curativo adequado na ferida do Minoru e você. pois têm que chegar a White Plains. Nada de pequenas falhas.. — Mas. Não vão esquecer? . um carro se deterá junto a vocês. Um minuto mais tarde. disse: — Vamos nos separar. passavam diante da porta principal de um restaurante em cuja fachada havia um letreiro luminoso: Lao Wo — Cozinha chinesa autêntica.. — Escutem-me bem. Paguem a conta. Ao sair de lá. Efetivamente. Pouco depois surgiram em Canal Street... ao norte. segundos depois. saíram a uma ruela que só pedia pertencer ao bairro chinês de Nova Iorque. — Como sabe isso? — exclamou Noriko. Noriko. — É um restaurante.. o motorista saltará e vocês entrarão nele. Depois. apanhe suas coisas e despeça-se.Acabou de abrir a porta. Já era noite fechada e Brigitte. depois de tirar seu relógio da maleta e dar-lhe uma olhadela.. Tomem um táxi e dirijam-se em primeiro lugar ao “West Wind Motel”. — murmurou Murayama.

. Além disso. tremendo de frio. me entregará um plano bem desenhado com a localização exata da casa. Quando vocês ouvirem o helicóptero. Uma vez chegados a esse ponto distante dez quilômetros de White Plains. — Confia em mim a esse extremo? Eu poderia enganá-la e entregar-lhe um plano falso. Saiam do carro e aproximem-se do helicóptero. não — garantiu Noriko. E Brigitte Montfort. — A casa é inconfundível. Minoru.. Até logo. Eu saberei que é o carro de vocês e pousarei fora da estrada. Pouco depois.— Não. — E morrer dentro de duas semanas. De acordo? — Não tenha receio — sorriu o japonês. aparecerei com um helicóptero. bem como suas características. — Bem. eu lhe farei um plano perfeito. façam com que as luzes do carro pisquem três vezes. só têm que esperar. se as coisas não se complicarem. — Depois.. Ainda restavam muitas coisas a fazer antes do encontro marcado acima de White Plains.. E o endereço em Malibu Beach é. Eu lhes entregarei um cheque no valor de três milhões de dólares e você. no máximo. Especifique tudo bem numa folha de papel. afastou-se em busca de um táxi..

Quando lá chegaram. o helicóptero. através do párabrisa. O motor emudeceu mas as luzes continuaram acesas de modo que os dois japoneses o localizaram em seguida. recortando-se no céu agora estrelado. erguendo com as mãos enluvadas a gola do casaco. por avião. — Mas que frio! — Trouxe o cheque? — perguntou Noriko. Teve que cuidar do muitas coisas: conseguir o carro. passando muito perto deles e saindo da linha da estrada.. — Duas e meia. o helicóptero começou a baixar. — Claro. bem agasalhada com outro casaco de vison. puderam distingui-lo. De acordo? . Tranqüilize-se. Brigitte esperava-os fora do aparelho. — Como é? — sorriu. ela não falhará. com toda a facilidade. Tem as instruções sobre a rota e os aeroportos Onde deve ser reabastecido no painel de controle.. Pousou bastante perto do carro. Minore. Minoru Murayama fez os sinais combinados com os faróis do carro e. Aí vem! Os dois inclinaram-se para frente ao ouvir o som inconfundível do aparelho E em seguida. ato continuo. com suas luzes de posição acesas. regressará a seu país. O helicóptero foi alugado em seu nome. — respondeu Murayama.. todo branco e perfeitamente visível na escuridão. — Foi tudo bem? — Tudo bem.DOZE — Que horas suo? — perguntou Noriko. Você o deixará em São Francisco e lá.. entre um grupo de árvores.

. Aqui tem o plano que lhe preparei. Mas os outros chineses estão na China... — Mas. Os outros nada saberão. com o material que lhes forneci. enquanto meus amigos da CIA. alguns dos seus foram mortos e outros detidos. pois morreram Lao Wo e Saburo Ono. Mas não compreendo por que tudo isto. Tudo o que saberá o serviço secreto chinês é que. Para quê? — Bem. — Porque ele estava em Nova Iorque.. “Baby”.. Só isso. não o incomodarão mais. Se você o diz. seu desejo de caçar “Baby” fracassou. Uma delas podia ser que um remanescente do grupo de Lao Wo insistisse em incomodá-los. — Não creio — sorriu novamente Brigitte. inclusive sob que parte da casa estão as barras do ouro. tudo começou quando chegaram a saber que você e Saburo Ono andavam à procura de “Baby”. como conseqüência.— Sim. assim será. Quando vocês chegarem a São Francisco. sem nenhuma Complicação. Minoru.... acabem de desmantelar esta pequena rede de espionagem chinesa em Nova Iorque. prefiro que viajem por este meio. uma vez mais. — Acaso você falou com alguém a respeito desse dinheiro? — Eu? Claro que não! Mas Lao Wo sabia. Podíamos ter partido. Por isso. Noriko e eu. Queriam capturar-me. . Portanto.. e nem vocês nem eu o diremos. Para eles. graças a Deus. talvez ainda nos persigam. Tudo meticulosamente explicado. tudo estará terminado e poderão voar para Tóquio sem maiores problemas.. uma vez no Japão. como eles sabem dos três milhões de dólares. e que. porém ignoravam tudo a respeito do ouro. — Em espionagem sempre surgem complicações... ainda. Pode confiar em mim.

— Desculpe. — Não sei se já lhe disse que você é um ser muito humano. — Deve ter sido meu anel. — Vamos. enquanto os de Murayama e Noriko mal se viam..... — Adeus. estendendo a mão a Noriko.. Se alguma vez eu for à bela Quioto. Murayama voltou-se para o helicóptero. E.. “Baby”. A japonesinha também estendeu a mão.. Pode-se até considerar uma honra ser espetada por uma preciosa safira. espero que você me ajude. — Meus agradecimentos. se estiver sendo acossada pelos chineses. — Que foi? — alarmou-se Murayama. Pôs-se a rir e os dois japoneses a imitaram. E já que me agradam seus projetos. miss Montfort. Noto que estava com a safira virada pata a palma.. sem a menor objeção. endireitando-o. — Noriko estava consternada. Seu rosto parecia iluminado de luz própria à luz vermelha do helicóptero. Minora.. ou algo parecido. — Não tem importância. Esta noite não viajaremos muito. O banco suíço o pagará. aqui esta meu cheque. — acrescentou. Certo? — Certo — sorriu Murayama. — Não sei.. Brigitte. pois não me atrevo. Senti uma espetadela na mão. ou o transferirá à sua conta em Quioto. . — Oh. — Conheço milhares de palavras de agradecimento — riu ela — E só me convencem quando um agradecimento fica demonstrado. sorrindo suavemente. — Adeus. lhe farei uma visita.— Eu sei... pois estavam de costas. — Ai! — exclamou Brigitte. Se alguma vez... Estendeu a mão e Brigitte aceitou-a.

com os olhos abertos... — gemeu Brigitte. — Noriko. Compreendi que ela o obrigaria a falar e não me interessava o que poderia dizer: que eu pertencia ao grupo deles. uma fina agulha de platina. E ainda mais perplexo ficou ao ver o brilho da pistola na mão da jovem. para finalmente ficar estendida de costas.. Ao apertá-lo...... — Noriko.? — Naturalmente. Murayama virou-se rapidamente.. ... — Noriko.... — murmurou o japonês. você está louca. — Noriko. envenenada... — Brigitte! — assustou-se o japonês...? — Digo-lhe que a coloque no helicóptero. depois de lado. ajudeme.... — Para mim. Murayama olhou para sua noiva. mas já ela havia caído.. — Que. matou aquele homem.! — Não se incomode: ela está morta.. apenas isto! Você não é capaz de compreender uma coisa tão simples? — Isto não é tão simples.. ao menos.. refletindo o brilho das estrelas. O mesmo que utilizei para matar o chinês que ela eslava interrogando. entre perplexo e sobressaltado. crava-se na mão da pessoa que confiou em nós. É um veneno rapidíssimo..? — Ponha-a no helicóptero: sua cabeça vale dois milhões de dólares americanos. Como sabe você que ela está morta? — Porque eu a matei. você. Que faz? Que. com meu anel..— Meu Deus. primeiro de joelhos. em casa na Saburo Ono. que está dizendo. — Você. .? Sinto-me mal.. que tenho.

Saburo Ono estava se interessando pela famosíssima “Baby”.. Faz tempo que trabalho para os chineses. ele e eu. Sobretudo quando souberam que. quando cheguei a Nova Iorque. Acha você que eu seria idiota a ponto de dizer aos chineses que você sabia onde estavam esses três milhões? Quando você me falou a tal respeito. do qual se sabia ter sido também agente da Tokko. para verificar se você também era um agente da Tokko. Quando me apresentei em seu hospital. comecei a sondá-lo. ficariam satisfeitos. você não me quis dizer. De modo que me incumbiram de vigiar você.— Talvez. Lo Wo sabia-o porque. Com isso. dizendo que o hospital disporia de recursos dentro de pouco tempo. o serviço secreto chinês nada sabe dos milhões de dólares em barras de ouro. muito discretamente. um pobre imbecil. pois suas viagens aos Estados Unidos e suas entrevistas com Saburo Ono. não fiz mais que seguir instruções deles. Quando você . pelo que recorri a Lao Wo. Nosso trato secreto era repartirmos o ouro. Segundo. Evidentemente. pedi-lhe ajuda para consegui-los. despertaram o interesse de meus chefes. Nosso plano era ficarmos Com o ouro.. Primeiro. por dois motivos. Você nunca deu importância ao fato de ser filho de um agente da Tokko japonesa? Eu fui encarregada de vigiá-lo. e entregar a cabeça de “Baby” ao serviço secreto chinês. mas não consegui que me dissesse onde estava o ouro. Depois repartiríamos também o prêmio de dois milhões de dólares pela cabeça de “Baby”. na previsão de que Saburo Ono e você nos levassem até à agente “Baby”. — Mas quando soube. — Nem eu mesmo o sabia antes de minha última vinda a Nova Iorque. Mas você é. E assim foi.

Depois terei também os três milhões do cheque de “Baby”. Não seria fácil levar todo o corpo. — Tenciona. finalmente. E sabe por quê? Porque “Baby” me deu uma idéia estupenda.. Ainda alguma dúvida? — Só a meu respeito. em seguida. Vai me matar? — Claro. ponha-a no helicóptero. matei os dois e.. pois precisam mais de informações para seus projetos de expansão política. já que para encontrá-los só precisarei utilizar o plano que você entregou a “Baby”. Irei com o helicóptero até perto de Chicago. querido Minoru. ao todo. sim! — E por isso trabalhou para os chineses. Justamente o que estive procurando desde que me dediquei à espionagem! — Dinheiro? — murmurou Murayama.. — Exato. decapitá-la? — Naturalmente... não! Os chineses pagam muito melhor. E deixarei seu cadáver aqui mesmo.. Todos eram meus colegas e por isso pude surpreendêlos: tirei o revólver de um. — Ou seja: você o traiu também. es três milhões em barras de ouro.. Brooks. Agora. — Dinheiro. entregarei sua cabeça e direi que Lao Wo e os outros tombaram na luta. — Ah. Sabia que você e “Baby” venceriam Lo Wo.ouviu meus gritos no porão. depois o abandonarei e voltarei ao Japão por meus próprios meios. Ninguém suspeitará de mim.. E. para nossa pátria. ninguém estava me fazendo nada. A conversa terminou. Quando eu regressar. Podia ter trabalhado para a Tokko.. tendo antes entregue a cabeça de “Baby” a quem. Oito milhões. receberei o prêmio.. Pelo contrário.. .. Bem.

ergueu-se de pronto e caiu velozmente.. que lançou uma exclamação aguda e pareceu ficar petrificada. Noriko. Quando passava junto a ela..? — Tranqüilize-se. — Olhe. ainda a tempo de ver entre seus lábios aquela piteira sem cigarro e o gesto do Noriko.. depois sobre o ombro. — o japonês respirou profundamente.. “Baby”.. . Não foi? O japonês pestanejou.. sem compreender. As vezes.. — Não creio que você e eu tenhamos mais alguma coisa a dizernos. Murayama depositava “Baby” no chão. — Está morta. a japonesa caía no chão. que. que pendia inerte. com um movimento seguro.. erguendo-a do solo.. como fulminada.. — Tudo terminou. Murayama pode reagir. que rapidamente levava a mão ao rosto. convém prestar mais atenção aos cadáveres. — Ir. sempre apontandolhe a pistola... preciso. no auge do espanto.. exato. Você pode ir. Súbito. não entendi nem uma só palavra do que vocês estiveram dizendo. precipitou-se para Noriko e examinou-a rapidamente. por tini.. A pistola foi arrebatada com toda a limpeza dos dedos de Noriko. — Ma-mas..— Sim. enquanto Noriko se afastava um pouco. Minoru Murayama ajoelhou-se ao lado de Brigitte e.. Levou-a para o helicóptero. No segundo seguinte.? Mas. Ao mesmo tempo. embora tartamudeando. Minoru — sorriu deliciosamente ela.. colocou-a com facilidade em posição vertical. a mão direita de Brigitte.. mas compreendi que ela se explicou.

para enfim poder prescindir de você. — Eu disse isso. mas tal não aconteceu. a morte dos dois chineses.. — Mas se ela a espetou. Antes do subir. meu veneno é mais poderoso do que o dela. Além disso.. o dinheiro. quando saiu para buscar minha maleta. três mortes. não atacaram você porque ela confiava em que lhe revelasse o esconderijo do ouro. rosto impassível. o prêmio por minha cabeça e o ouro. o ouro. E havia mais: por que os homens que estavam diante da casa dispararam uma bala de gás na parte traseira? Por que foram até lá? Porque ela. — Não é preciso mais. — Já chega. E meus pequenos dardos.. Não foi o que ela lhe disse? — Foi. virou-se para Brigitte. Ele olhou o cadáver de Noriko. Era lógico que ela quisesse levar a cabeça de “Baby”. mas como se impacientava.. suspeitar. Estou usando umas luvas especiais. . Além disso. Com que facilidade sabia fazer as coisas uma jovem que era apenas enfermeira! E como atirava: três tiros. alguém devia ter metido Lao Wo e seus homens no assunto.. Por que acha que lhe dei aquele palpite... Assim. Como vê. no porão? Para que ela fizesse suas contas e compreendesse que ela mais conveniente trair Lao Wo e ajudar-nos.. — sussurrou Murayama. Além disso... não? E somente Noriko e eu tínhamos tocado nele. Mas como pode você. aproximou-se de uma janela e fez-lhes sinais. teria meu cheque. Finalmente.? — Aquele chinês morreu de um modo estranho. quis que torturassem Saburo Ono.. Levantou-se o caminhou para o helicóptero. Depois reparei em seu anel....— E bem morta. infalíveis...

Não quero que lhe falte nem um centavo. dirigiu-se ao cadáver de Noriko e tirou-lhe o casaco de pele. mas um homem normal e um bom homem... entre as estrelas. Lançou-os sobre o ombro e caminhou para a estrada. Há quem pense o contrário. com ela? — Não se preocupe com isso. mas custa-me muito trabalho ter casacos de vison. porém nunca a trairei. E agora? — Há um trabalhinho para você: vá buscar o cadáver da japonesa. Brigitte voltou-se. — Você não vai precisar dele. — No judô.. — Você não é um imbecil. — Darei um jeito nisso. talvez. de minha inscrição. — Muito frio. as luzes do helicóptero tinham-se perdido na distância.. A respeito da academia de judô. Fique tranqüila. “Baby”. Tenho meu carro mais adiante.. Como está o assunto do restaurante de Lo Wo? ... — Sayonara — murmurou. ponha-o em seu carro e.. Oh. — Obrigado. fumando. diga-me. depois juntou as mãos diante do peito e inclinou-se numa profunda saudação japonesa. Quando chegou junto ao carro que os japoneses haviam usado. querido? — Brrr.. Algo deve ficar bem claro.. lá encontrou Johnny.— Que fará com. Minoru: você não conhece “Baby”. Na verdade. prefiro que essa revanche se atraso um pouco: você é um adversário temível.. Sou um pobre imbecil. Mas também nisso você me ganha. — olhou-a intensamente.. como ela disse. Se alguma vez precisar do mais dinheiro para seu nobre trabalho. Um minuto mais tarde. faça com ele o que melhor lhe parecer. — Compreendo...

. Assombroso! Uma rede de espiões chineses em Manhattam. — Tome — Brigitte entregou-lhe o casaco que trazia sobre o ombro. . graças aos dados que encontramos naquela caixa metálica. — Magnífico.. rindo. ignorávamos que você tivesse tanto dinheiro e que. E não se esqueça de devolvê-lo antes do verão.. Amanhã mesmo.. querido. Deixo tudo em suas mãos. — Pouco me importa o que opine o Conselho a esse respeito. TODOS TÊM SEUS SEGREDOS Mister Cavanagh. sempre pausado. — Magnífico. A redada final em Chinatown foi muito boa. — Vison legitimo.. — Que há sobre o assunto do ouro? — O ouro? Bem.... O Conselho opina.. Tenho uma idéia: que tal se eu levo a japonesinha para aquele porão? — Ótima idéia. Claro que vamos comprá-lo.. “Baby”! Você sempre tem uma surpresa para nós. imperturbável... sairão três milhões de dólares para a sua conta bancária particular em Nova Iorque. A propósito. Você sabe que fio gosto de falsificações. — A CIA ignora muitas coisas a meu respeito.. Mas que tem você? — Sinto um frio espantoso! Brrr. naturalmente. de uma conta especial da CIA.. que estivera quase adormecendo numa poltrona. — disse ele. entrou em sua sala. Sentou-se à sua mesa e olhou para Brigitte. chefe supremo de todos os espiões de ação da CIA. chefe — interrompeu ela.— Sendo resolvido... Assunto resolvido.

o Conselho quer saber de onde você tirou essas barras de ouro que nos vendeu. — Pois não faz muito tempo que me despediram. Mas. De qualquer modo.8 — Isso está esquecido! Você demonstrou que só há uma “Baby” no mundo. está bem. microfotos... de onde o tirou? — De uma mina que tenho na Califórnia. afinal. e não quer responder uma pergunta? De acordo. Entreguei-lhes o cadáver do uma japonesa que era agente da China... Claro que não serio pedidas demasiadas explicações à nossa melhor agente. francamente.. Bem. — Como?! Ainda há minas de ouro na Califórnia? — Evidentemente.. toda uma rede de espionagem chinesa.. sim... E demonstra-o cada dia. outro trabalho superextra. Mmm. mas. — Não há explicações. Fazemos a compra assim mesmo. por pequena que seja. praticamente. Mas. Nosso maior interesse é conservar você... Esse ouro irá parar em Fort Knox. obrigando-nos a acionar molas secretas. você vem aos oferecer uma mercadoria dessa espécie. — Sim. mister Cavanagh. um transmissor. entender-nos com a Casa Branca etc. sem ligação com coisa ou pessoa alguma.. Fiz um trabalho extra em Nova Iorque e. por causa daquele assunto do “Projétil Caribe”.— É verdade.. Mas o ouro. Vejamos: eu creio que uma explicação.. Sabe que ainda tenho aquele esconderijo? 8 ver aventura com este nome . para reforçar nossas reservas nacionais... naturalmente. além disso. compram-me ou não essas barras de ouro por três milhões de dólares? — Já disse que sim.

Segundos depois. Retirou dali uma garrafa de champanha. Na verdade.. apenas para satisfazer minha curiosidade: onde foi que você arranjou Esse ouro? — Johnny — murmurou a mais linda espiã do mundo — . quero-lhe tanto bem quanto a admiro. Um. disse ele em tom confidencial: — Somos velhos amigos. em pleno quartel-general. A seguir: AS TARTARUGAS CANTAM © 1970 – LOU CARRIGAN 400828/410130 . Tenho champanha escondido só para as ocasiões em que você vem aqui.— Com a garrafa de “Perignon 55”? — exclamou Brigitte. permita-me que também guardo o meu. Brigitte. quando ambos saboreavam a bebida. um recipiente de cristal onde havia cerejas e duas taças. claudicando um pouco. peça-me o que quiser. mas não que lhe explique isso. onde tudo é segredo. aproximou-se de seu segredo dentro da CIA. segredo secretíssimo. Apertou um determinado ponto da parede e nesta se abriu um pequeno painel.. sob o qual surgiu como que um escaninho metálico. refrigerado. — E com as cerejas! — Maravilha! Cavanagh levantou-se e. Aqui na Central da CIA.. Diga-me..

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