Universidade do Estado do Rio de Janeiro Centro de Ciências Sociais Faculdade de Direito

Bruno Cava

Produzir os direitos, gerar o comunismo: teoria do sujeito em Badiou e Negri

Rio de Janeiro 2012

Bruno Cava

Produzir os direitos, gerar o comunismo: teoria do sujeito em Badiou e Negri

Dissertação apresentada, como requisito parcial à obtenção do título de Mestre em Direito, ao Programa de Pós-Graduação em Direito, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Área de concentração: Transformações do Direito Privado, Cidade e Sociedade. Linha: Teoria e Filosofia do Direito.

Orientadora: Profª. Drª. Bethania Assy.

Rio de Janeiro 2012

CATALOGAÇÃO NA FONTE UERJ/REDE SIRIUS/BIBLIOTECA CCS/C

C376p

Cava, Bruno. Produzir os direitos, gerar o comunismo: teoria do sujeito Badiou e Negri. / Bruno Cava. – 2012. 152 f. Orientador: Prof.ª Drª. Bethania Assy. Dissertação (mestrado). Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Faculdade de Direito. 1. Filosofia do direito- Teses. 2. Ontologia. I. Assy, Bethania. II. Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Faculdade de Direito. III. Título. CDU 340.12:111.1

Autorizo, apenas para fins acadêmicos e científicos, a reprodução total ou parcial desta dissertação, desde que citada a fonte. _______________________________________ Assinatura _____________________ Data

Dr. Aprovado em 27 de agosto de 2012. ao Programa de Pós-Graduação em Direito. Cidade e Sociedade.Bruno Cava Produzir os direitos. Linha: Teoria e Filosofia do Direito. Área de concentração: Transformações do Direito Privado. Bethania Assy (Orientadora) Faculdade de Direito da UERJ ________________________________________ Prof. Banca Examinadora: ________________________________________ Profª. José Ricardo Cunha Faculdade de Direito da UERJ _________________________________________ Prof. Dr. Drª. gerar o comunismo: teoria do sujeito em Badiou e Negri Dissertação apresentada. Alexandre Fabiano Mendes Faculdade de Direito da PUC Rio de Janeiro 2012 . como requisito parcial à obtenção do título de Mestre em Direito. da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

.DEDICATÓRIA Ao padrinho Gilberto.

meus maiores cupinchas. Diana e Hugo. por uma noite nas barricadas. pela dignidade e paciência. OcupaRio e Ocupa dos Povos. .AGRADECIMENTOS À professora Bethania. Direito do Comum. Bárbara. E à Talita. Ao Guto. Sindia. Pedro. Alexandre. Aos companheiros da Universidade Nômade. Beppo. Mariana. Fabricio.

--. a doçura da sabotagem e de todo o tempo de amor arrancado do sistema? Porque esse tempo existe. degradação e repressão só tem sentido quando me esforço igualmente pela positividade da construção. e sei que este tempo outro que quero viver constrói um signo de contradição ao inimigo e uma esperança para mim. O tempo liberto.com meu silêncio. a sua potência de massas é um imediato. Só sei que milhões e milhões de seres humanos como eu constroem a cada instante uma alternativa de desejo. sei que este enorme acúmulo de desejo atrapalha o funcionamento do sistema. Nada sei de grandes projetos de reconstrução. ” Antonio Negri . --. meu desespero e minha vontade destrutiva. e que as massas acumulam e desdobram numa recusa que é riqueza. num projeto confluente e plural de comunidade e liberdade.“A luta contra a desfiguração da vida e do amor pelos mecanismos de marginalização. Deste ponto de vista. Mas que direito tenho eu de substituir-me. Outros conceberam o buraco negro da esperança como justificação para o terrorismo. aquele tempo em que me sinto como que liberto. o tempo arrancado do inimigo. libertação é constituição.à multidão? A sua luta.

que se pode exercer uma política na filosofia e produção do conhecimento.RESUMO CAVA. Rio de Janeiro. interno ao movimento real de abolição do estado de coisas. tomando por ponto de partida o pensamento dos filósofos Alain Badiou e Antônio Negri. quanto aos pontos desdobrados neste trabalho. Filosofia do Direito. Especial destaque na conclusão. Antônio Negri. 150 f. O direito como potência e não sob a espécie da norma. Apresentam-se brevemente o método da copesquisa militante (do operaísmo autonomista). Palavras-chave: Ontologia. adota se a perspectiva de que o pensamento é imediatamente político. Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Trata-se da questão da afirmação de direitos além. A mútua implicação de um e outro é vital para a capacidade um movimento real transformar o estado das coisas. ao duplo processo pars construens pars destruens. ou antes. evento e poder constituinte. O sujeito em pauta é o sujeito comunista. Conclui-se com o cotejamento entre as teorias do sujeito de Negri e Badiou. de quem se realiza uma leitura seletiva e intensiva das obras. e como esse parcial encontro pode potenciar ferramentas práticas e teóricas. Propõe-se examinar o processo de afirmação de novos direitos. Dissertação (Mestrado em Direito) – Faculdade de Direito. Outros autores abordados com frequência são Spinoza e Hegel. Disserta-se sobre a articulação entre ontologia. gerar o comunismo: teoria do sujeito em Negri e Badiou. 2012. o materialismo dialético da cisão (Badiou) e a práxis constituinte (Negri). na esteira de Karl Marx. Bruno. Discutem-se ainda os conceitos de direito singular e direito comum. Produzir direitos. Um direito vivo liberto das mediações do estado e do mercado. Mais além de uma discussão restrita ao campo de “filosofia política”. como polos para uma teoria do sujeito. de o estado reconhecê-los. para uma política subversiva e radical. Alain Badiou. .

It goes over the articulation of ontology. Other authors frequently referred: Spinoza and Hegel. this work adopts premise that thinking is immediately political. Philosophy of Law.ABSTRACT This dissertation addresses the issue of how to create new rights. breathing the air of the radical thought of Alain Badiou and Antonio Negri. The conclusion puts Negri´s and Badiou’s theories of subject to interact. dialectical materialism of scission (Badiou) and constituent praxis (Negri). Law as power [potentia]. . or before. A living law freed from state’s or market’s mediations. and not sub species of the norm. The question in discussion is about rights beyond. following Marx. Some methodological aspects are presented briefly: con-ricerca (of operaismo autonomist). aiming hopefully to contribute for some practical or theoretical tools. Keywords: Ontology. from whom it has been made an intensive and selective review. Antonio Negri. event and constituent power. The subject in question is communist subject. The mutual incidence of one over the other is vital for any movement´s real capacity of transformation. and that there can be exerted a political intervention in philosophy itself and knowledge production. Alain Badiou. for a truly subversive and radical politics. the state recognizes them. internal to the real movement for the abolition of the present situation. as polarities for a theory of the subject. A special remark must be made for the importance of the double procedure pars construens pars destruens. Beyond some debate limited to “political philosophy” field. on points developed through the text. Singular right and common right are also discussed.

.............................. o comunismo................................3 2.1 2.......... 41 A renovação da copesquisa........................... a dialética e o sujeito......................................SUMÁRIO INTRODUÇÃO.... 52 Hegel...1 3....................4 2..... 48 A TEORIA DO SUJEITO EM BADIOU. 52 O Um tem que virar Dois........................ 76 O que é o sujeito....... 72 O proletariado em falta.. a crise...................................................................................... 32 Os Grundrisse como método...................... 9 1 1......1 1................................................................. 84 Spinoza.................................... 29 O operaísmo................................... 84 A subsunção real e a destruição do valor................3 3................................................................ 80 A ONTOLOGIA CONSTITUINTE DE NEGRI...................4 4 4........................................................................5 2......... 143 ............. 130 REFERÊNCIAS...............................................................................2 1.........................................................................1 A COPESQUISA NO OPERAÍSMO AUTONOMISTA............ 63 Periodizar a revolução................ 114 ENTRECHOQUES E FAGULHAS............. Marx e o direito. 36 O método da tendência antagonista..................7 3 3.....................................................................................................2 2................................................................. 101 Práxis constituinte e singularidade em Spinoza.................5 2 2......6 2................. 130 Comunismos.........4 1......... 29 A con-ricerca como subjetivação das lutas.... 69 A falta da política e do sujeito na representação............................................................................................................................................ 93 A subsunção real........3 1...........2 3................ 55 A dialética da cisão.................

reconhecido. do mercado. ao sistema subvertido como arma? Mas.9 INTRODUÇÃO A inquietação que me motiva a escrever esta dissertação é: como se criam os direitos? De onde emerge essa força que mobiliza as pessoas a afirmar tenho o direito. pode se dar? De que maneira. entre a práxis de afirmação e a captura pelos poderes constituídos. mas porque quero. finalismo ou instituição. codificado e estruturado. como memória militante? Não me refiro. E não aposto na práxis porque necessito e não tem outro jeito. vivê-la? Como potencializá-la e sustentá-la. de sua maquinaria infernal. a querer e exercer direitos novos. como capacidades de relacionar-se. Renunciar ao direito como campo de incidência para o empoderamento de movimentos transformadores me parece açodado. a afirmá-lo assim ou assado no mundo da vida? Que entropia afirmativa é esta. de modo eficaz. que seja. à enorme margem do intolerável. Com o mesmo otimismo desencantado ou pessimismo alegre que nos inspirem a abraçar o que deste mundo resiste. uma mundivivência criadora no interior dos circuitos e labirintos do Processo? Sem renunciar à luta pelos direitos. movimentos e protagonistas usam e continuam a usar os enunciados de direitos. a classe dominante. pelo menos não propriamente. colocar-se nela. do estado. o caso é usar a imaginação por dentro do que aí está. Como desarranjá-lo fazendo o novo saltar. Em vez de pular a “foras” utópicos e de lá lançar invectivas incendiárias. função. o estado. É preciso encarar a tarefa de transfiguração do direito em vigência. da moral. no momento em que acontece ou. ao problema clássico das fontes do direito. numa reedição da aposta pascalina. viver e produzir de um jeito diferente? Porque sei que historicamente muitos grupos. senão pretensiosamente dogmático. inclusive do direito. indissociável do mundo em que estamos. agendas. à sua percepção como premência vívida. este ou aquele direito. desse que se apresenta como forma. tão preocupada em produzir e reproduzir o conhecimento jurídico tradicional. se pode enxergar uma franja de criação de novos direitos. Não me . contra a generalizada desfiguração da vida e do amor pelas forças e estruturas dominantes. que leva a ousar além do que já está posto. para tonificar os seus quereres. demandas e práticas. do direito. ao problema do “jurídico”. É preciso encarar a tarefa com a mesma revolta e generosidade com que se pode aventurar na construção de outro mundo possível. cristalizados pela ordem. que leva as pessoas a resistir. como isso seria possível? Como essa práxis resistente de produção de direitos.

Isto é. Uma ética alternativa aos grandes eixos da modernidade. essencialmente me ocupo do direito enquanto potência2. uma cartografia da imanência. aquém da ciência ou prática jurídicas. Como se coubesse ao cientista do direito pesquisar o que vem antes para entender o depois. — ainda que sob a modalidade normativa. a origem das normas para compreender a norma atual. 19-36. ontológico ou “deontológico”. noutro plano epistemológico. Joaquín Herrera. direito como uma potência do agir que um sujeito cria no processo mesmo em que age. 33-34. Em verdade. Não pretendo estabelecer. pesquisei as condições ontológicas da liberdade. essa interrogação resultou na apresentação de minha monografia de conclusão de curso. 2009. propriamente ditas. Penso no direito como práxis de afirmação de direitos1. como se os direitos tivessem uma pré-história. à leitura por MENDES. ed. seja essa sequência atribuída de caráter cronológico. Revista Lugar Comum. O universo spinozano se desdobra como plano de imanência em que territórios muito distintos do ser podem coexistir 1 Por exemplo. política. transcendente ou deontológico. orientado pelo professor e amigo Antônio Augusto Madureira de Pinho. segundo Baruch de Spinoza. que contorna a necessidade de assumir um ponto de vista normativo. n. intitulada “ Spinoza: ontologia da liberdade”. ética e política em Spinoza. Francisco de. a própria sequência tradicional. Rio de Janeiro: Lumen Iuris. A forma jurídica embute momentos construtivos sistêmicos que atravessam os muros epistêmicos entre direito. Teoria Crítica dos Direitos Humanos: os direitos humanos como produtos culturais. durante o período da graduação. Alexandre. Esta interrogação tem me acompanhado desde o começo de meu estudo do direito.cJoaquín Herrera Flores e a dignidade da luta. 2. De um lado. em seus distintos graus de impotência. Não.10 preocupa tanto identificar fenômenos pré-jurídicos. a força normatizante. Com efeito. 2011. por GUIMARAENS. . O filósofo elaborou uma ética rigorosa. economia e cultura. a concepção militante do direito por FLORES. neste trabalho é colocada em questão. 2011. no ato mesmo em que se cria como sujeito. Em parte. As normas exprimem forças cristalizadas. em especial. De outro. Não reconheço instâncias privilegiadas de enunciação dos direitos que estejam desatreladas da imanência da vida e do ser. como uma espécie de grau zero deste trabalho. de início. Filio-me. quando falo direito. Nela. Direito. p. 2 Nesse sentido. distanciado que estou de sua redação. Vale a pena pensar retrospectivamente. Rio de Janeiro: Lumen Iuris. atravessada pela ontologia. uma dicotomia entre o direito como norma construída e potência de construção. — como se fossem duas atividades separadas. do constituinte ao constituído. da potência à norma. o fenômeno da normatividade posta.

logo. sem a guilhotina típica da modernidade: entre homem e natureza. Em vez de duplicar a realidade em planos separados. Daí. de potências irremediavelmente encadeadas nas relações de causa e efeito. Com Spinoza. Ou seja. tem-se um universo que funciona como proliferação de essências atuantes. Neste pensamento tão rico que aprendi. razão e instinto. civilização e barbárie. Termina por implicar uma ética da potência. qualificar. Essa multiplicidade de efeitos não pode ser reduzida a entidades transcendentes ou finalismos. o monismo spinozano descortina a imaginação dos direitos de um modo imanente. aprendi uma ética voltada para o incremento de potência dos seres. no constante aperfeiçoamento dos encontros. da cidade. divina ou perfeita. ciência do amor. sem conotações maniqueístas ou moralizantes. os que ampliam a esfera de realização. dos homens. cupidez e alegria da gente. com Spinoza.11 sem separação metafísica. não há lugar para nenhum pensamento dicotômico a distinguir Céu e Inferno. aquém e além do pensamento da soberania como organizador monológico das coisas. como em todos os projetos utópicos de cidade ideal. subsumir ou enquadrar os eventos do ser ou os fatos. como produção interna à ação criadora do ser em que cultura e natureza coabitam. para todos. arte dos afetos. em qualquer caso matizados pelo corte humano/não-humano. com a democracia da multidão e sua liberdade polimorfa. da felicidade como atividade constituinte de todos. Nenhuma formalização das relações materiais que atravessam irredutivelmente complexas a práxis na pólis. Imaginar os direitos além das distinções típicas dos universalismos ou culturalismos humanistas. não se assume como premissa algum horizonte transcendente ou transcendental de dever-ser. Trazido para o jurídico. sem transcendências de qualquer ordem. linguagem e ser. Assim. sejam eles produtivos ou improdutivos. Uma ética que viceja politicamente com a maior produtividade da vida. de toda sorte múltiplos e multiplamente direcionados — o mundo mesmo. enquanto causalidade eficiente infinita. a grandes velocidades e intensidades. se dá a geração combinada de efeitos. Põe-se em movimento uma política em que o ser varia e se produz continuamente. a que deveríamos apelar para valorar. conformando a política à aplicação prescritiva do primeiro para evitar o segundo. fabulá-los inextricavelmente à produtividade ao ser. que venha a negar a multiplicidade substantiva em proveito da escolha mistificada entre Deus e o Diabo. o ontológico e o “deontológico”. num cadinho geracional em que o novo pode ser criado. Essa ética tão relacional se anima pela expansão dos bons encontros. apesar das condições . que se afetam entre si na efetividade das produções.

a lição de Spinoza está em que a sociedade política surge de uma produção imanente à multidão (moltitudine). por quem luta. como a muitos outros. noutras palavras. legalidade ou moralidade públicas. primeira e anterior a qualquer entidade representativa da razão. Essa ética da potência dá a chance de o sujeito se afirmar no mundo prescindindo de autorreflexão moral. a nação. teologizada. Recomendo a apreensão cuidadosa da obra por: NAVES. legitimidade. E igualmente além da mera formulação de demandas dirigidas ao estado. “grupos de pressão” ou organismos ditos “instituições da sociedade civil”. O direito como produção além do estado. Pensar com Spinoza significou se distanciar da maioria das linhas 3 Nesta linha. Que ela depende do esforço de perseverar e ser eficaz ( conatus). Julgo fundamental esclarecer este ponto autobiográfico. a sociedade política. Todo esse riquíssimo solo ético permitiu a mim. Desde já. São Paulo: Boitempo. Um estudo sobre Pachukanis. Márcio Bilharinho. Que se desenvolve graças à imaginação de construção de instituições relativamente duradouras. totalitária ou individual: o estado. em oposição à amoralidade da “natureza”. Marxismo e direito. do caráter reivindicatório de movimentos.e. pois pode também ser reutilizada como arma. 2002 [1924]. de uma consciência andarilha atrás do eixo axiológico da existência. de qualquer síntese de contrários “dialéticos” ou unificação da diversidade afetiva das essências singulares. para existir e criar e se afirmar como ente produtivo política e eticamente. e mesmo contra o status quo. i. como se sabe. recuso a colocar-me em seu ponto de vista. da irracionalidade dos interesses. frutificar um rol de questionamentos e inquietações capazes de manter-me motivado nos estudos do direito. Tradução de Barbara Einhorn. transcendente ou transcendental. sobre ele como perspectiva dos saberes de resistência. . Além do estado e da sociedade civil. PACHUKANIS. segundo a ação sinergética da razão e do desejo (conatus). Diversamente. produzir e causar efeitos: potentia. Se não me furto a pensar o estado.. como se a legalidade embutisse um bem em si. Um direito que. a norma fundamental. Ela dispensa a clássica equação que faz o sujeito surgir quando se constitui moralmente. dos instintos. Evgeny B. no limite. da “vontade de poder”. desta lógica em que o agente transformador ainda precisa de uma instância externa tal qual o estado. tensiona internamente aos constrangimentos para abolir a própria forma jurídica e formaestado3. também não se pode abandonar a legalidade como um todo.12 dadas de tempo e espaço. 2008. me ponho fora daqueles que erigem o estado a totem. Pensar o direito com Spinoza também significa pensá-lo como substância ontológica. The General Theory of Law and Marxism. New Jersey: Pluto Press. Em erro simétrico.

também se trata de pesquisar as descontinuidades. o que seria moralizar a luta. É uma hipótese comunista. e então intervir. entre verdade e doxa. compreender a gênese das forças. isto não significa que se deva marchar em frente sem olhar para os lados. O caminho é sinuoso. os potenciais de escape e radicalização. Nesta dissertação. os eventos constituintes. Noutra temporalidade. Às vezes. — e direito normativo. as cadeias de causas e efeitos. Pesquisa-lhe as limitações e se impregna desses processos mais institucionais. Essa hipótese não desmerece quaisquer lutas reformistas quando se propõem a melhorar a condição do proletariado por dentro da ordem constituída. O teórico radical não deve cultivar a expectativa em seu público de invectivas incendiárias e veementes condenações todo o tempo. as variações intensivas. A prosa revolucionária costuma se apresentar seca. Em tom de manifesto. Não se trata de produzir direitos “para dentro” da sociedade capitalista. direta. entre forças produtivas e relações de produção. as rupturas. A mim. A revolução permanente se diz de muitos modos. a letra militante se faz de músculos. Se é elogiável o despeito para ignorar as placas de “pare” e todos os panfletos anticomunistas. tendões e . na medida em que. para compreender os pontos de fuga. entre direito como potência — vivo. de todo insatisfatórias dentro de meu escopo de desejos. Uma criação centrífuga. masculinizada. mobilizada exatamente pelo desejo. para mim. a articulação entre sujeito e situação também se exprime como entre política e fato político. isto significou a libertação de muitos esquemas e edifícios teóricos que costumam matizar o ensino jurídico e que constrangem a fabulação. Sobretudo intervir. a produção de novos direitos se situa na franja de constituição de uma nova forma de organizar as relações produtivas. as impudicícias e astúcias que desestabilizam narrativas demasiado ordenadas e sínteses apressadas. Tais pares conceituais não formam dicotomias ou maniqueísmos. entre poder constituinte e poder constituído. A minha hipótese: a emergência de novos direitos depende de uma inovação que articula sujeito e situação.13 dominantes na teoria e prática do jurídico. Nem sempre o reformismo se opõe à revolução. as viradas inesperadas. e mesmo o reformismo por vezes se assenta sobre momentos críticos onde as tensões podem atingir o ponto de ebulição. de uma alternativa radical à ordem posta. mas para além. é bom decepcioná-los e praticar a técnica do anticlímax. Ser materialista significa reconstruir a procissão interna por meio do que os processos produtivos se concretizam. singular ou comum. entre trabalho vivo e capital.

e assumem a liderança até o final da prova. nos primeiros dez ou quinze minutos de uma maratona. Estou falando do mais brilhante livro do século 20. Escrevo porque amo a prática da escrita e. porém. de Albert Camus. até conseguem acompanhar o ritmo da elite e aparecer na TV. Contudo. Há obras ensaísticas pretensiosas. volto a fincar o pé no chão com certo livro de cabeceira. Isto é filosofia no direito. É comum escritores púberes ou acadêmicos deslumbrados proporem mundos e fundos na introdução de seus trabalhos de juventude. Albert. ainda que geralmente mal utilizada. Como estou digredindo sobre a forma de uma dissertação. por vezes torrencial. mas não. Aproveito-me neste parágrafo de minha própria resenha da obra. só faz sentido escrever sobre o que se ama. incontida. Poderia me reclamar “artista”. até abrem promissoramente a exposição do argumento. 1996. Parecem como aqueles corredores diletantes que. tensa. Às vezes. Escrevo como derrame de uma vida mais carnuda. quero falar desse exemplo literário. O Homem Revoltado4. o livro recusa tanto a concepção terrorista. pra mim. sinuosa. Poderia dizer que exprime a resistência do colonizado contra a forma e a razão europeizantes. O Homem Revoltado. Um livro. que não deixa de ser uma forma de amor (amiúde mais intensa). que um dia vaza no papel. para falar um pouco do conteúdo de O Homem Revoltado. e facilmente manejada para segregar o “pequeno deus” das massas ignaras. A primeira concepção de que fala Camus agasalha 4 CAMUS. aliás. E nada mais. o conteúdo drena as formas e não o inverso. como pede a melhor técnica. mas de um modo ou de outro não são capazes de manter o fôlego. Mesmo que seja sobre o ódio. Barroca. No materialismo. O estilo adotado se justifica pelo singelo fato de que não pratico método científico propriamente dito. senão 90% elitizada. Aproveito a oportunidade. como um Carpentier ou talvez Oswald viesse a meu socorro. que começam muito firmes. em geral teses sobre grandes temas. chega uma hora em que visivelmente dobram os joelhos. Tradução de Valerie Rumjanek. Considero essa qualificação ambígua. . quanto a burguesa acomodada.14 nervos. passado o entusiasmo inicial. Em absoluto. Perante o empenho novecentista de legitimar o assassinato ideológico. e prosa política. exibem algum talento. antes de entrar no principal desta dissertação. Muitas vezes embriagado dos ardores da política. A minha prosa se quer mulher. os maratonistas treinados terminam por se destacar da turba amadora. O Homem Revoltado é um livro que mantém o fôlego por 350 páginas. Rio de Janeiro: Record. Não é essa a minha fome. nada púbere.

opõe-se o “pensamento . A segunda concepção horroriza-se com a violência imediata e sua face sangrenta. rasteja o verme de um niilismo que viceja como ideologia assassina. deicidas e liberticidas. Nem a profecia revolucionária nem a profecia do progresso. Em todos eles. tendo com resultado o assassinato. em direção a um futuro de glórias. o cinismo do desenvolvimento da nação e do povo. mas numa segunda via que rejeita esse problema. entre ação e ponderação. dos “religiosos do crime” (libertinos e poetas malditos). decodificada e não premeditada. a brutalidade exercida sem piedade ou comoção. Desculpa para a injustiça do presente. Uma violência voltada à desconstrução dos mecanismos de violência. aquém da extrapolação utópica. Penso que a revolução não está no meio disso. ao orgulho luciferiano. o triunfo do niilismo sanguinário. por uma clareza de meio-dia contra todas as noites românticas de torpeza e pessimismo. a fim de. Contrapõe-se assim o autor ao “demasiado” das ideias regicidas. Anseia por um equilíbrio entre meios e fins. Eis o cinismo de classe-média. a culminar no terror jacobino. — duas escatologias. dos “religiosos da história” (marxistas-leninistas). mas aceita a presença difusa como crime quotidiano do poder: perpetuação da opressão de classe. Refere-se por essa expressão. é preciso poupar todos e cada um. isto é. uma revolta em que cada um é pessoalmente responsável por suas ações. por um antídoto contra as grandiloquências do discurso. às crenças dos “religiosos da virtude” (ilumin istas). Camus propugna pela revolta enquanto violência que se faz na hora da ação. entre o terrorismo e o liberalismo “antitotalitário”. Eis a subversão da revolta. sem jamais tergiversar na veemente rejeição à pena de morte. Como sustenta Ivan Karamázov. esperançosamente. sem a pretensão de legitimar-se nas calendas gregas. Às ideias grandiloquentes. na seita de Nechaev. duas tentativas de impor a cidade de Deus na cidade dos homens. na urgência da luta. desarticular os mecanismos de violência difusa e anônima. e às imprecações cínicas. sem exceção. aos calores demasiado iconoclastas e exageros demasiado românticos. A eficácia não pode derrotar a justiça: os fins justificam os meios assim como os meios justificam os fins. qual no classicismo latino. Em todo caso. em que morte alguma se justificará com a invocação de letras maiúsculas. Nem a máquina assassina comandada por burocratas e intelectuais do partido nem a máquina assassina administrada pelos filisteus. da ausência de revolta. mediante a “virtude” do porrete estatal. Mata-se visando a um futuro igualitário e sem classes. A revolta camuseana perscruta por uma justa medida. no nazismo e no estalinismo.15 a violência imediata.

Enlanguescido à beira de nostro mare. luta pela afirmação do que eles são: corpos livres. Por isso. Nunca pretendi aprender o direito para servir de conselheiro áulico. A eles combinado menos por ideologias abstratas. arrematada em cento e poucas páginas. Pela luta em nome de coisa alguma. Generoso e irresignado. na medida em que os sujeitos produzem um conhecimento na luta mesma e se constituem como tal nela. O número de peças do quebra-cabeça. na autoformação de sujeitos. do que pela potência de insurgir-se. acalentado pela brisa seca. Mas não gostaria de recair em empiricismos. seria ingênuo elaborar uma teoria sobre a produção dos direitos que fosse demasiado descolada da própria prática. pela prática comum de direitos concretos. a pesquisa sobre a produção dos direitos percorre as próprias lutas. É trabalho de uma vida. ou colher o aplauso em acomodações confortáveis da Academia.16 mediterrâneo”. e isso não é pouca coisa. ligado intimamente à terra ensolarada e ao corpo sensual. suas hipóteses. o homem mediterrâneo não sucumbirá às profecias. mobilizar e empoderar os sujeitos do conhecimento. esclarecer. uma metáfora que nada tem de bairrista. Porque todas se unem pelo menos na coragem da revolta. “Teorias prontas” que ignoram os fatos são tão ruins quanto os “fatos prontos” falaciosamente dirigidos contra as teorias. — a fim de preencher requisitos burocráticos. junto do movimento real de transformação.” Fecho o parêntese. Mudem-se as teorias e os fatos. modelos e metodologias ultrapassam o escopo de uma pesquisa como esta. . sadios e invioláveis. Outras considerações metodológicas também convêm. Testar a minha hipótese. informa-lhes e é por elas informada. Sua dignidade consiste na revolta e através dela se percebe unido aos outros homens. “Eu me revolto. mas está pronto para o ‘não’ diante da mais tênue injustiça. logo existimos. Teoria e fato que se contradize m só podem ser sinônimos de teoria ruim e fato ruim. a interrogação sobre os modos de criação dos direitos seria inesgotável. em toda a sua tragicidade e absurdo. — os saberes situados na luta se propagam para municiar de ferramentas. No fundo. nem fui picado pela mosca azul das bibliotecas. Muito longe de teorias ornamentais. Subsiste um copertencimento afetivo entre a produção de conhecimento e a produção dos direitos. ele diz ‘sim’ à vida. a rigor. não trocará a sua alegria e liberdade por promessas de salvação ultraterrena. Faz-se necessário admitir que pesquisas desta natureza extravasam dos muros internos e externos da academia. de muitas. recortes. implicaria reconstruir toda a memória das lutas. pensando-a e agindo-a. Evidentemente.

sem a primazia de 5 O relacionamento entre teoria e prática. ed. p. ridicularizados. de adaptar essa subversão a algum mistificado “domínio teórico”. Os intelectuais e o poder in Microfísica do poder. prolongar os fios soltos. da reinvenção. denso de determinações e antagonismos reais. É preciso assumir que a produção de um conhecimento situado nas lutas não se dissocia da prática multitudinária. e guarda a sua qualidade. Por outro lado. devidamente dotado de método — a expressão máxima está na “sociologia empírica” —. Do mesmo modo que a teoria pode e precisa se debater além das limitações da prática. enredar as malhas. mapeando-os. reduzir-lhes a fórmulas. isto significa conceder à teoria o estatuto que ela merece.17 Por isso. Uma matéria supostamente inform e que caberia ao cientista. os recortes epistêmicos e as metodologias acadêmicas. esta pode superar os obstáculos da teoria5. Saberes por vezes desqualificados. Se quiser enxergar e criar e não somente catalogar e reproduzir. mas ousadia criadora. Rio de Janeiro: graal. Um excesso que é riqueza. da resistência. Org. e lhes ligar pontos. máximas ou quaisquer regramentos demasiado gerais e açambarcantes. do trabalho da multidão de agentes e forças políticas. portanto. as teorias propriamente ditas não possam se deixar atravessar e mesmo se agenciar aos saberes menores. da dor. em entrevista com Michel Foucault: FOUCAULT. pode (sim!) atuar como caixa de ferramentas. imaginando e forjando instrumentos. Não se trata. A interconexão de redes produtoras de saber acontece junto do enlaçamento e superposição de lutas sociais e políticas. conforme a concepção “pós-althusseriana” de Gilles Deleuze. na poética de quem precisa de discurso e subjetividade aqui e agora. Mas aquela produção “selvagem” de saberes menores excede as convenções. O saber não tem fronteiras se seu artífice depõe preconceitos e olha o mundo com desprendimento. em constante remodelação e autocrítica. Aperceber as linhas tão fugidias da alteridade. pertinência e utilidade. porque o hoje não tarda. Está atravessada pela subversão ética colocada em marcha. em diferentes regimes enunciativos e territórios discursivos. interditados. depurar e sistematizar. . por quem resiste e reexiste. O que não quer dizer que as teorias. no dia a dia. Trata-se de uma avenida de dupla mão. e Tradução de Roberto Machado. menos do que degenerar nalgum empiricismo ingênuo. ainda que precários e inacabados. Se não pode ambicionar a sintetizar os saberes situados em totalidades onicompreensivas. mas de modular a percepção. como teorizava Michel Foucault. Michel. Mas ainda assim dotados não só de materialidade. 20. 71. 2004 [1979]. “menores”.

de resistir e reexistir. que partem do dogma do indivíduo. mas revolucionário. em que o estado não passa de “indivíduo coletivizado” e o indivíduo uma “coletividade individualizada”. E seria preciso conservar o essencial da estrutura presente para evitar os totalitarismos à esquerda ou à direita do espectro ideológico. e aqui cabe o pleonasmo. Nem as robinsonadas. sínteses e robinsonadas próprias de ideólogo de que o capital tanto precisa. Esta questão tão vasta. Não de normatividade ou de Direito. Uma derruba os muros da outra. sujeito revolucionário. consensualistas ou intuicionistas. — cumpre introduzir esta premissa de uma vez. uma teoria do sujeito (ou da subjetividade). porém de direitos enquanto potências de agir. positivistas jurídicos e funcionários da ordem estabelecida. contra o que se insurgiu Marx ao afirmar que o indivíduo já é produção social. Afirmo desde já a predileção pelo método materialista. sobre como incidir com práticas e ações. no status quo (jurídico. Le marxisme bouge encore! O marxismo de Karl Marx. Coloco o problema deste modo: como é possível uma intervenção numa situação dada. Tampouco me refiro. que prorrompa um novo criador de direitos. existir e produzir. bem como uma teoria da revolução. político. Que . De início. viver o presente na sua textura de vida e amor comunalizados. Como se a substância primeira da ética e da política fosse o indivíduo. liberais. Sou ainda jovem para sucumbir à chantagem do menos pior. Rejeito a chantagem de conservadores. Opõem ao intolerável do presente o mal absoluto que pregam a título de pesadelo. Nem as totalizações idealistas. Sobretudo revolucionário. Refiro-me à concepção de sujeito transformador que não se distancia da práxis. É possível viver de outra forma. sua existência factual como corpo e mente “individualizados”.18 uma ou outra. Totalidades. com maiúscula. Está em causa. tomo grande distância de todas as teorias contratualistas. O problema que coloco nesta dissertação consiste em investigar como se dá uma transformação produtora de direitos. — para quem toda perspectiva da revolução invariavelmente choca o ovo da serpente. Não gostaria de alienar-me no abstrato de espíritos estatais ou vontades gerais. biopolítico etc). também significa perquirir sobre o sujeito da transformação. legalistas. econômico. Rejeito a hipótese. — em especial os constitucionalistas inveterados. — a um sujeito meramente cognoscente ou contemplativo. quando está esclerosada de inefetividade. de modo a gerar a mudança criadora. sem dúvida. Os dois são piores. me parece. a vontade individual. Então sim!. como desenhado com tanta repercussão histórica pelo marxismo.

militantes desde cedo. A teoria do sujeito sobre que pretendo dissertar passa longe de análises epistemológicas decididas simplesmente a identificar a nota distintiva do sujeito político e traçar-lhe os caracteres definidores. Ainda que para. As formas de mediação através do estado.) e Alain Badiou (1937. a política pautada pela representação perdeu de vista o essencial. precários. Mas se podem introduzir algumas pistas. deseja e. romper com esses processos. singularmente. diga-se logo. nas emergências onde se transformam mutuamente os sujeitos e objetos. deslocamento intensivo em relação às objetividades. Por que os dois autores? A totalidade das razões talvez o leitor (e eu mesmo) só venha a descobrir ao final. subjetividade). Esta interrogação se construiu. descontinuidade. significa sujeito em atividade (sujeito-atividade. Não é outro o sentido preliminar que posso conferir à ideia de emergir: ruptura. estados de coisas e poderes constituídos. que adotaram a política como eixo condutor de suas produções intelectuais. São dois pensadores radicais da filosofia nos séculos 20 e começo do 21. revoluções na teoria. irreversibilidade. ao redor da vida e obra de dois pensadores revolucionários. Cada um a seu modo. Ambos os filósofos “continentais” compreendem a virada ontológica como imediatamente incidente sobre a ação transformadora. no evento do comunismo. entretecido e dinâmico aos eventos de seu tempo e espaço. Protagonista do presente. contam com abrangente recepção pelos intérpretes e estudantes da “filosofia política”. inacabados. Duas balizas firmemente ancoradas na vivência de seu tempo histórico. salta aos olhos o resgate da ontologia como vitalizadora do pensamento político. de processos dinâmicos. A mim. Publicaram mais do que teorias revolucionárias. partidos e sindicatos não servem como instrumento eficaz de .19 conhece e se conhece na medida em que se constitui. existe como criatura deste mundo. um e outro viveram intensamente lutas marcantes da época. na cadeia de articulações materiais e produtivas entre eles. no presente estágio do desenvolvimento das lutas. no “sistema de produção”. Uma teoria voltada a definir o sujeito rapidamente se esgotaria em paralogismos de razão pura. principalmente. Em comum entre eles. se afirma. neste trabalho. trata-se de duas referências indispensáveis para que a dissertação não se atole no terreno movediço das muitas radicalidades do pensamento político. Os dois concordam que. Os filósofos Antonio Negri (1933. Sujeito.). Hoje. Não existe sujeito em si. em esquematismos “pra acadêmico ver”. assim.

este trabalho aproveita a construção político-teórica que articula o comunismo à ontologia constituinte de extração spinozana e marxista. Negri e Badiou jamais deixaram de se reivindicar publicamente comunistas. encontram-se inteiramente subsumidas pelos dispositivos de captura da potência criadora do sujeito revolucionário. — se desenvolverá no sentido da produção de subjetividade.20 contrapoder. — culmina nas produções mais recentes na hipótese comunista como proposta militante à altura dos tempos. Antonio. como resposta ao assassinato de Aldo Moro (1978) por um comando das Brigadas Vermelhas. Por sinal. 6 MARX. a bíblia do operaísmo. depois recoberta de laivos matemáticos e poéticos. Londres: Pluto Press. num comunismo fabulado à maneira enfaticamente imanentista e monista. Grundrisse. expressão mais notável da corrente marxista operaísta. Karl. Em Marx além de Marx (1978)7. como alteridade radical ao capitalismo. preparatórios para O Capital e impublicados em vida]. 1991. como o “Outono Quente” (1969). A teoria do sujeito badiounista. Marx beyond Marx. constituem topos onipresentes na vida e obra de ambos. passando por momentos cruciais da história das lutas europeias. — apesar da linguagem profundamente intelectualizada. Tradução de Harry Cleaver. Sua investigação teórica é atravessada por um período densíssimo de eventos. o “Movimento de 1977” e a intensificação da repressão estatal dos grupos radicais de esquerda. à beira do hermético para elementos do próprio movimento social. De Antonio Negri. a ontologia constituinte negriana. . Tradução de Mario Duayer e Nélio Schneider. — no princípio heterodoxamente dialética e inusitadamente maoísta. 2011. — Negri consolida duas décadas de reflexão no bojo das mobilizações sociais. Mesmo durante a década do “fim da história”. Lessons on the Grundrisse. 7 NEGRI. — fortemente preenchida de Spinoza e o Marx dos Grundrisse6 [ou Cadernos Manuscritos. São Paulo: Boitempo. o foco desta dissertação reside na teoria do sujeito e da produção de subjetividade. Manuscritos econômicos de 1857-1858. Por sua vez. A interrogação sobre o sujeito comunista e o próprio comunismo. os anos 1990 em que o neoliberalismo parecia triunfar como a única via aceitável diante do que se defenestrava como “totalitarismo ideológico”. Michael Ryan e Maurizio Virno. foi um livro forjado no calor do conflito dos anos 1970 na Itália. Pelo contrário. Marx além de Marx. — originalmente um curso oferecido em Paris a convite de Louis Althusser. Esboços da crítica da economia política. A partir de revisão intensiva da literatura gerada pelos dois pensadores.

entre duas formações materiais de relações e configurações produtivas. Disso tudo. Ou seja. para Negri. produtivista ou objetivante. se o poder constituído se perpetua nela e graças a ela. “Modo de produção”. como resposta. Não basta apontar as contradições intrínsecas ao funcionamento do capital. Negri propõe uma “teoria antieconômica”. Mais do que isso.21 O sujeito revolucionário. quase em contemplação estética. a questão da produção não se circunscreve somente na produção de objetos. O conceito de “modo de produção”. então em voga. não há esforço somente com vistas à produção de objetos para os sujeitos. com seus respectivos regimes de valorização e acumulação. viver a crise como mundo. que confere inteligibilidade ao processo de produção. Daí a relevância da luta revolucionária também investigar e mesmo inventar novos sujeitos. como era conhecido por amigos e inimigos. aqui. fazer dela a dignidade de uma recusa e uma reafirmação de propósito. E a partir dela. deve ser pensado de maneira transitiva ao processo de produção. As condições de emergência do sujeito devem ser perscrutadas dentro e contra o modo de produção. apontando a iminência ou inevitabilidade da crise inscrita no regime de acumulação. Não existe “fora” utópico de onde surgiria o sujeito revolucionário. sociologismos ou estruturalismos. tem um sentido além do econômico. Para o cattivo maestro. para o movimento contestatório o Um tem de se fazer Dois. tipicamente marxista. que pesquisa na superfície das lutas a formação de alternativas e os elementos do sujeito comunista. na releitura além -Marx. mas também (e sobremaneira). decorre que a crítica ao capitalismo manejada por Negri vai além de alguma sociologia do capital. todos os conceitos marxistas devem ser interpretados na chave da luta de classe. Se o processo do capital precisa. No processo do capital. o funcionamento fascinante da maquinaria do capital contemporâneo. na produção de subjetividade. faz-se necessária. como numa salvação transcendente da situação de opressão. Contrapondo-se a tendências da ortodoxia marxista de sua época. o filósofo italiano elabora uma teoria afirmativa da subjetividade. E luta de classe pressupõe o antagonismo entre duas subjetividades. mais interessada em compreender e descrever. não deve ser confundido por sua redução por economicismos. onde a subjetividade assume papel fundamental. mas também de sujeitos para os objetos. do ranger dos . a cada momento dialético. novas formas de viver a liberdade. abstrair o antagonismo nas sínteses do Um. entre dois modos de temporalização e individuação das forças sociais. Se o mundo do capital se encontra em crise. produzir relações e modos de vida.

que dependem de pesquisa e militância. resistir não significa simplesmente se opor ao poder. diante do modo de organização e reprodução capitalista. graças a um excesso constitutivo da existência. A autonomia. a autoformação e a autodeterminação. a beleza. Para Negri. desarranjos e franjas. eles também podem ser desenvolvidos a partir de uma luta cotidiana. do trabalho. nas várias dimensões: política. Isto seria antes espelhar o poder. O sujeito revolucionário emerge. do mundo da mercadoria e suas temporalidades abstratas e mortas. mas viver mesmo. do capital. uma soma de afetos ativos que desborda das malhas e aparelhos de captura do tempo vivo. não se restringir à “dialética negativa”. o amor. a expansão de potências e afetos capazes de fabricar a transição comunista aqui e agora. promover a explosão de verdades revolucionárias e subjetividades resistentes. todavia. mas afirmar uma alternativa de desejo. quiçá uma institucionalidade liberta da formaestado. — tríade de termos de uso comum pelos operaístas. Nesse sentido.22 antagonismos. no interior mesmo das operações do capital. Em suma. do Dois subjetivamente tomado. Não tanto a resistência como. Do mesmo modo. de Marx. essencialmente. A imanência da ética spinozana se coordena com a crítica imanente do modo de produção capitalista. a transformá-lo. a conexão entre o Marx dos Grundrisse e Spinoza se torna fundamental na artilharia teórica de Negri. constituir uma alternativa comunista significa. Negri elege afinidade com o rico tempo dos movimentos sessentoitistas. edificar alternativas de contrapoder. Ser autonomista. como um messias se acercando de Jerusalém. uma reação às manobras dos poderes constituídos. — se tornam bases políticas e teóricas para o problema da organização. mas das frinchas. destarte. A luta de classe produz outra racionalidade. É preciso. em primeiro lugar. o outro mundo. muitos dos quais viam na arte do viver diferente uma resistência intrínseca. econômica. A dominação capitalista se projeta sobre o tempo de vida como um todo. O rendimento afirmativo está em recusá-lo no ato em que se opta por viver e existir socialmente de outros modos. uma socialização da fábrica. quer dizer construir e pensar o sujeito . A violência e o intolerável estão inscritos na estrutura produtiva e permeiam o cotidiano. viver tout court. difusamente por todo o tecido social. antropológica ou social. como “resistência biopolítica”. Nisso. uma razão vital mais plena e potente. a justiça e a criatividade que milhões e milhões de pessoas insistem em afirmar apesar das dominações. O comunismo não vem do exterior. para eles. Reexistir não apenas como produzir objetos e sujeitos.

23 transformador direta e imediatamente nas forças vivas da luta de classe, — independente de estados, partidos ou sindicatos. Tais instâncias totalizantes e representativas exprimem sempre um “menos” em relação ao poder constituinte do movimento, que lhes precede e excede ontologicamente. Movimento entendido no sentido lato e não somente como entidade orgânica, munido desta ou daquela bandeira. O corolário autonomista também se fundamenta na distinção entre poder (potestas) e potência (potentia), que Negri se deixa afetar inteiramente pela potência e alegria da filosofia spinozana, em particular com Anomalia Selvagem (1981)8. Em segundo lugar, para uma análise eficaz do sujeito revolucionário, se exige ao pesquisador a colocação em vívido contato com os movimentos de seu tempo. Pôrse no limiar biopolítico em que aparecem novas estratégias de luta, formas de autoorganização produtiva e modalidades de convivência. Isto conduziu a uma expansão dos horizontes de apreensão do sujeito revolucionário, — incluindo movimentos heterogêneos à concepção de proletariado da esquerda ortodoxa, como os feministas, LGBT, arte-ativistas e outros mais afinados ao ciclo de lutas do Maio de 1968. Para Negri, a proliferação de lutas sociais e políticas de seu tempo demandava o alargamento das condições de constituição e fortalecimento do sujeito revolucionário. Tem-se, portanto, uma teoria altamente heteróclita pautada pela transitividade entre subjetividade e modo de produção, de caráter endógeno e antagonista (dentro e contra) às forças do capital, onde cabe ao militantepesquisador desenredar e reconstituir os fios vermelhos do comunismo. Embora destoante dos economicismos e estruturalismos, o método não pode colocar em segundo plano as sistematizações mais compreensivas das forças produtivas e das relações de produção — tópico clássico do marxismo. Por isso, Negri progrediu com sua obra mediante sucessivas periodizações diacrônicas e sincrônicas, analisando os desequilíbrios, descontinuidades, reviravoltas e astúcias da luta de classe. Sucessivamente, aperfeiçoou e refinou a perspectiva do sujeito capaz de constituir o comunismo no presente. No primeiro capítulo, é exposta a metodologia de pesquisa militante desenvolvida e praticada pelos operaístas. Mais do que caminho para a verdade, a con-ricerca (“copesquisa”) presta contas ao materialismo marxista e spinozano, em que teoria e práxis caminham juntas no interior dos sujeitos em luta. Essa análise

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NEGRI, Antonio. A anomalia selvagem. Tradução de Raquel Ramalhete. Rio de Janeiro: ed. 34, 1993.

24 está associada à apreensão heterodoxa que Negri, como teórico mais profícuo da corrente, faz dos Grundrisse, quanto aos métodos da “abstração determinada” e da “tendência”. No terceiro capítulo, são tecidas as considerações mais filosóficas sobre a ontologia constituinte, interna ao projeto negriano de sujeito revolucionário, tomando como eixo as referências centrais de Spinoza e Marx. De Alain Badiou, pretendo aproveitar a teoria do sujeito revolucionário elaborada no livro intitulado (não por acaso) Teoria do Sujeito (1982)9. Assim como o quase contemporâneo Marx além de Marx, de Negri, esse livro consolida um período de escritos políticos e teóricos do filósofo francês. O pensamento filosófico de Alain Badiou é atravessado pelo político de ponta a ponta. Para ele, política é pensamento e não pode subsistir qualquer distância entre a política e a “filosofia política”, entre a práxis e a teoria que lhe anima. Da militância maoísta da juventude, Badiou permaneceu fiel ao antagonismo como centralidade na luta revolucionária. A ruptura com o que está posto é imprescindível ao aparecimento do novo. E o novo liberta contra o velho, numa reedição dos ensinamentos de Mao. O novo liberta na contradição, jamais idealistamente ou ex nihilo, mas no recomeço e reorganização do que já existe. O novo como materialidade, como aparição de verdades reais em meio a uma situação saturada de constrições, escleroses e forças conservadoras. O novo irrompe e dispara processos de organização, enunciação, reformulação, reinvenção. Trata-se de um processo do novo, associado a um processo de verdades. Cabe ao militante se comprometer com os processos de inovações e verdades revolucionárias, a fim de não acabar militando em proveito da velha ordem, pela via transversa. A ética militante de Badiou está na compreensão da natureza das contradições peculiares do mundo histórico-político em que nos encontramos, com o objetivo de intervir, de fazer uma cisão transformadora na ordem das coisas. Tem-se aí uma concepção forte de sujeito, que se desdobra como conjunto de ações revolucionárias orientadas para a ruptura, a intervenção, o conflito e a cisão social. O projeto político-teórico consiste não só em abordar a possibilidade de irrupção do sujeito revolucionário que opera o novo em uma dada situação. Mas também elucubrar como se poderia dar a intervenção nessa situação em que o sujeito acontece, assim como manter operativo, aberto o processo em que o novo pôde irromper. E como se conservar fiel a esse projeto que o evento revolucionário

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BADIOU, Alain. Theory of the Subject. Tradução de Bruno Bosteels. Londres: Continuum, 2009.

25 apresenta. Badiou coloca claramente o problema do novo de um ponto de vista revolucionário: como algo novo sob o sol pode fazer com que uma situação se transforme em outra absolutamente diversa? Balizado por sua experiência como militante de pequenos grupos radicais maoístas, em Teoria do Sujeito as teses de Badiou se encontram fortemente matizadas pela invocação do materialismo dialético (diamat). Heterodoxa em relação à tradição esquerdista, o diamat de Badiou contorna a leitura do Hegel tão familiar da academia francesa dos anos 60 e 70. Refiro-me ao Hegel recepcionado por Alexandre Kojève e Jean Hyppolite, Hegel prioritariamente da Fenomenologia do Espírito10, tão obsessivamente contestado por praticamente todos os pós-estruturalistas, de Gilles Deleuze a Michel Foucault, de Jacques Derrida a Emmanuel Lévinas. Diversamente, o Hegel de que Badiou se abebera está noutra obra do filosofo alemão, a Ciência da Lógica11. Na contracorrente do pós-estruturalismo francês, no começo dos anos 1980, o professor de Paris VIII não só ainda aposta num “hegelianismo de esquerda”, co mo continua falando em marxismo-leninismo (pela via maoísta). Ele próprio encabeçou um grupúsculo chamado Union des Communistes Marxiste-Léniniste de France (UCMLF, ou simplesmente UC), ativo durante os protestos de 1968 em Paris. Não se deve, no entanto, — o que também vale para muitos conceitos e polêmicas de Badiou, tais como verdade, evento, fidelidade, genérico — render-se às primeiras impressões. O dialético de que ele fala nada tem do safári do espírito da Fenomenologia do Espírito. Esta narra uma consciência peregrina que se reencontra e reflete o fora em si mesma, uma máquina onívora de interiorização ontológica. Não é esse o sujeito badiounista, que nada tem de reativo e autorreflexivo. A crítica usual do pós-estruturalismo ao sujeito subsistente e autoportante, progressivamente identitário e totalizador, não cabe ao hegelianismo de Badiou. A sua dialética estabelece como polos o vazio e o excesso, e não a consciência autocentrada; e se move pelas operações de cisão e ruptura, e não de síntese progressiva. Se a corrente pós-estruturalista contesta o percurso da ideia que se autoapresenta até ser levada ao conceito, Badiou escapa dessas críticas, pois prefere usar Hegel para falar do colapso da representação, das categorias e identidades. O sujeito só pode emergir quando desloca a malha das identidades incidentes na situação política, quando recorta o jogo de representações e máquinas de separação.
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O novo

HEGEL, G. W.F. Fenomenologia do Espírito. Tradução de Paulo Meneses. 6. ed. Petrópolis: Vozes, 2002. HEGEL, G. W.F. Ciência da Lógica. Tradução de Marco Aurélio Werle. São Paulo: Barcarolla, 2011.

Sem receio de vanguardismos. numa hibridação teórica sem paralelo na “filosofia política”. Este é um excesso impossível e impensável no interior dos esquemas produtivos vigentes. em especial. O evento instaura as novas verdades contra o próprio sistema produtivo de verdades do “velho” marxismo. A política começa onde o sujeito excede a situação. como no marxismo. O “modo de produção” é um conceito demasiado estruturalista. a análise das dinâmicas produtivas e a própria ideia de crítica da economia política não são tão centrais para pensar e constituir o sujeito revolucionário. Segundo Badiou. que caracterizará daí por diante a obra do filósofo. na recusa de pertencer a esta. o que mobiliza o filósofo é o pensamento do novo. É a virada da dialética à matemática. o colega professor em Vincennes: Gilles Deleuze. aquela ou aqueloutra categoria de seres. como se pudesse acontecer e basta. Badiou propõe um recomeço radical da ontologia mediante o conceito de evento. Não se trata de fetiche do novo. seja à esquerda do movimento. Ele não está na luta de classe. Como conferir consistência. à esquerda. A crise do materialismo histórico. Esses desvios podem acontecer seja à direita. O alvo de Badiou no primeiro caso são os marxistas de partido. É preciso manter-se depurado das contratendências. abrindo outra forma de organizar o mundo político. O novo não depende da transitividade com o processo de produção. manter o sujeito puro. Badiou rompe inclusive com a crítica da economia política. por exemplo. Em Ser e Evento (1988). O filósofo também se debruça sobre o problema da duração. numa ontologia capaz de recomeçar as lutas revolucionárias dentro das condições do presente. o capitalismo. bem alinhado ao ímpeto sessentoitista. . suas identidades e representações. Badiou propugna pela revolução permanente inclusive dentro da revolução. por assim dizer “à direita”. duração e corpo ao processo do novo material? Como evitar que os inevitáveis desvios destruam a força criativa do novo? Novamente em chave maoísta. Nessa obra. Sustentar o novo significa manter-se fiel à linha justa de suas verdades. Novamente. do diamat à teoria dos conjuntos. os ditos “pós -modernos”. enrijecido pelas condições de contorno da situação dada. o filósofo desdobrará suas teses sobre o sujeito comunista numa elaboração trabalhada a partir da matemática. seja como desvio anarquista ou “anarcodesejante”. contra as tendências revisionistas ou contrarrevolucionárias que usualmente sucedem no âmbito processual do próprio sujeito revolucionário. Mas na subtração dos laços comuns e identidades vigentes. No segundo. tanto sucedia por seu desvio estruturalista ou objetivante. estado e sindicato.26 embaralha as cartas.

um etcétera que lhe ameaça a estabilidade. uma subjetividade transformadora que desestabiliza as estruturas. o evento sequer pode existir. ser-lhe fiel. na realidade. Pois qualquer um é capaz de aceder à verdade. depende de figuras da subjetividade que a sustentem enquanto processo político. por dentro dos movimentos e forças vivas do presente. tem dentro de si a capacidade de percebê-la. Mas o evento não gera uma diferenciação vanguardista. domesticar ou atender. Não tem consciência nem unifica a experiência de vida de um corpo-mente. dos pobres de tochas na mão para matar os patrões. Se o evento coloca radicalmente a diferença das verdades que esgarça. A leitura de Platão por Badiou permite afirmar esse igualitarismo radical. que passa a depender da militância para durar e adquirir consistência. Trata-se. na .27 o evento implica uma ruptura dramática. imanente. portanto. radical. a fidelidade de quem pretende resistir à ordem vigente. Da perspectiva da estrutura de poder. de um processo de subjetivação imanente à situação dada. incapaz de articular demandas e expor um projeto político duradouro em substituição ao que critica. da situação objetiva. A essência subjetiva atrelada ao evento deflagra novas verdades. de dor. que o sistema existente não consegue codificar e domesticar. o argumento chantagista do menos pior entre o intolerável diluído no cotidiano e o “mal absoluto”. O evento põe em marcha formas de pensar e fazer política que reclamam. segui-la. Não estranha a dificuldade com que a ordem estabelecida tem para lidar com verdades novas. descodifica o pensamento. As condições do evento se alargam com a existência de excessos inerentes a toda situação. Novamente. pelo direito posto. pelo estado. De tudo isto fica claro que. como em certa recepção hegeliana. A verdade. pela evidência de suas verdades. Todo status quo contém em si. de uma carga insuportável de alteridade. Esse processo não se guia somente por militantes veteranos capazes de compreendê-lo. desbloqueia os desejos excessivos por outro mundo. de paixão. como subconjunto excessivo. o sujeito não é um subsistente (“seguro e confiável”) que permanece apesar das mudanças que o atravessam. domesticado ou controlado por essa situação. é para abolir as categorizações e identidades existentes. mas por todos sem distinções de qualquer natureza. Um etcétera em revolta que não pode ser categorizado. para Badiou. pela moral. para transfigurar a práxis no comunismo. difíceis de codificar. Dispara o processo de verdade. O preconceito não passa da racionalização do medo ancestral das jacqueries. Como se a revolução não passasse de insurreição cega. e sim um nivelamento das diferenças existentes.

esperançosamente. Quanta arrogância seria usálos como pretexto para sustentar a posição média. A minha. Não irei. Esta breve introdução nos permite ver o quão longe se está das totalizações e identificações usualmente atribuídas ao hegelianismo. teóricas e metodológicas dos autores divergem entre si em muitos pontos. proponho investigar com maiores detalhes a teoria do sujeito badiounista. Prefiro Prometeu a Narciso e não renuncio à inventividade do discurso nem à agressividade da diferença. até o limiar da virada matemática de seu pensamento. O sujeito revolucionário. por vezes imputado ao filósofo francês. .28 contradição entre ela e a intervenção do evento. Esse processo de subjetivação implica a revolução da ordem colocada e se orienta por verdades em processo. no quinto capítulo. podem até recolocar os problemas noutros termos. Se o evento corta a situação. mas sempre e sempre através dos dois filósofos. no escopo deste trabalho. adiante. também. com um breve encontro e as fagulhas que podem resultar daí. emerge como conjunto de ações que excedem. de sua apropriação singular da dialética. entre o sujeito e a subjetividade em Negri e Badiou. — o estado das coisas. deve ficar mais clara na medida em que as abordo. um ponto arquimédico que pudesse balancear ou conciliar as teorias dos autores. — enquanto processo sustentado. Quão distante. a nossa. por assim dizer “acontecimental”. perpassada pela atmosfera do maoísmo. No segundo capítulo. Não viso a nenhuma posição intermediária. As opções políticas. é o sujeito quem opera o corte radical. do idealismo hegeliano ou platônico. Esta dissertação concluirá. Os claros-escuros de minha argumentação estão organizados a favor ou contra. O caminho da revolução se confunde com o caminho da verdade e da fidelidade.

realizaram análises inovadoras e discussões políticas. como uma autêntica subjetividade ativista. Mais do que uma escola do pensamento. para o pesquisador argentino César Altamira. BALLESTRINI. teve seis números seminais sobre composição de classe e autonomia operária. A renovação do marxismo pelos operaístas teve por primeiro objetivo desenvolver ferramentas para lidar com os desafios revolucionários. O operaísmo Os operaístas são um dos mais produtivos grupos militantes e intelectuais de perspectiva marxista. NY: mimeo. decididos a realizar um retorno à Marx. class composition and struggle in Italian Autonomist Marxism. 1966. Nesse escopo. 115-217.1. aspectos da metodologia desse movimento político e teórico cuja história. em constante mutação a partir da análise das circunstâncias históricas. 13 Fundada por Mário Tronti e Raniero Panzieri. A copesquisa no operaísmo autonomista 1. eles propuseram radicalizar o marxismo professado pela esquerda oficial nos partidos e sindicatos. 1988. o operaísmo se desenvolveu continuamente do início dos anos 1960 até o limiar dos anos 1980. elaboraram uma prática ativista original. Este capítulo se propõe a investigar. conjugando densidade teórica e efetividade. cuja atuação fora diagnosticada pelos operaístas como já funcionalmente integrada à própria matriz capitalista de dominação. Turim: Einaudi. Steve. 2008. p. circulando nos movimentos sociais e se articulando aos desejos e organizações de resistência de seu tempo. abertas por suas hipóteses para a transformação social e seus encontros militantes. Mario. era formado por dissidentes do Partido Socialista Italiano (PSI) e do Partido Comunista Italiano (PCI). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. ainda está sendo escrita. Tradução de Leonora Corsini. relativamente pouco difundida. Nanni. bem como sondar a composição política de classe que lhe poderia resistir e combater. 2004. Capítulo 2: O operaísmo italiano. referência central é: TRONTI. preliminarmente. Oriundo da Itália12. Determinaram-se a estudar a realidade da fábrica italiana.29 1. para apreender as relações de força e os dispositivos materiais de exploração e comando capitalista (a composição orgânica do capital). Storming heaven. Mais sobre a história do operaísmo autonomista: WRIGHT. Desse período. César. Primo. MORONI. Milão: Sugar & Co. . No começo. Operai e capitale. de 1961 a 1966. a originalid ade operaísta repousa “na 12 ALTAMIRA. L´orda d´oro. Os marxismos do novo século. inicialmente reunido ao redor das revistas Quaderni Rossi13 e Classe Operaia. junto das mobilizações e lutas políticas de seu campo de atuação. no contexto da intensiva industrialização fordista da Itália do pós-guerra. A partir daí. Em síntese. oportunidades políticas e possibilidades de composição.

Giuseppe Cocco explica: “Após mais de dez anos de contribuições teóricas inovadoras — crítica à tradição do movimento operário ‘oficial’. não se pode esquecer que o operaísmo não se restringiu a fenômeno circunscrito à intelectualidade marxista. Para eles. encabeçado por Antonio Negri. Ele somente pode ser entendido e explicado quando também considerado uma expressão das forças vivas do movimento dos trabalhadores em estado de revolta. o grupo com Antonio Negri e Sérgio Bologna rompeu de vez com a esquerda “oficial”. p. o movimento de transformação deve assumir a perspectiva diretamente de classe. trabalho informal. conseguiu disseminar-se pelas redes de movimento 14 15 Ibid. Maurizio. ao mesmo tempo em que apostou na criação de um sindicato de “tipo novo”.”14 Além do marco teórico. Rio de Janeiro: DP&A. Antonio. a partir da realidade concreta do trabalho e da exploração. menos do que depender de mediações e interpretações externas. De um lado. Na virada para os anos 1970. NEGRI. o operaísmo se ramificou em duas trajetórias. o grupo Lotta Continua. . e se reintegrou às fileiras do PCI. A corrente mais autonomista e movimentista se organizou em dois eixos principais: Potere Operaio e Lotta Continua. afirmando a autonomia da classe operária diante de qualquer mediação por parte de estado. sindicatos ou outras instâncias de representação. p.”16. como uma cultura de resistência e um fenômeno de contrapoder de significativa abrangência.. 16 COCCO. partidos. O primeiro.. coletivos culturais. articulando lutas de universidades e fábricas. Introdução de: LAZZARATO. 118. isto é. Trabalho imaterial: formas de vida e produção de subjetividade. Giuseppe. 2001. às noções gramscianas de ‘bloco histórico’ e ‘intelectual orgânico’ — e de con ricerca. título também de sua revista. O operaísmo é uma força política marxista que. baseou-se mais ao noroeste italiano (principalmente Turim) e durou até 1982. O segundo. que se concentrou nas lutas dos desempregados. Potere Operaio. Sérgio Bologna.30 alternativa teórica à ortodoxia marxista predominante nos partidos comunistas. Do outro lado15. Por esse motivo. Pontuando o surgimento da vertente autonomista. até gerar o mais famoso Autonomia Operaria (1973-79). artistas. 16. ao existencialismo humanista de Jean-Paul Sartre e ao estruturalismo de Louis Althusser. à teoria crítica pela Escola de Frankfurt. o grupo mais ligado a Mario Tronti passou a adotar o conceito de “autonomia do político” em relação à “autonomia de classe”. durou de 1969 a 1973. o último grupo foi sucessivamente repudiado por organismos da esquerda mais representativa e seus intelectuais institucionais. imigrantes e outros setores não-contemplados pela concepção rígida de proletariado industrial dos sindicatos. Oreste Scalzone e Lanfranco Pace. graças à metodologia de pesquisa e formas de atuação. contribuindo para a auto-organização dos trabalhadores. de pesquisas diretamente envolvidas com a construção de instâncias organizacionais dos novos sujeitos.

Movimento Del ’77. Maurizio Lazzarato e Franco Berardi. Pasquinelli anota uma reocupação desse espaço universitário por parte de autores formados no operaísmo: Antonio Negri. Amsterdã. Paolo Virno. na sequência do assassinato de Aldo Moro (cometido por outro grupo. Acesso em 13 fev. On the so called Italian Theory. Matteo. retomando o fio do discurso onde o pensamento francês havia deixado desejo e micropolítica. A repressão contou com a cumplicidade do PCI que. Sobre a corrente operaista-autonomista. consistentemente articulado em propostas de organização política.com/on-the-so-called-italian-theory> . compunha uma coalizão de governo com o partido de centro-direita. no final da década. Christian Marazzi. 2012. Não houve Lei da Anistia na Itália. sua força segue pulsante não só como memória das lutas. 20 Idem. metodologia militante e ferramentas de análise. no começo dos anos 2000. . “Negri reivindica para o operaísmo o projeto de uma ontologia constituinte. Gilles Deleuze. Site pessoal. Sandro Mezzadra. censuras e prisões arbitrários. Em 1979. a “French Theory”. as Brigadas Vermelhas). com o exílio de vários pensadores e militantes por outros países. em meio ao cotidiano. Esteve integrado às lutas reais. à medida que emergiam e se organizavam no mundo do trabalho vivo. no Outuno Quente de 1969 (o “Maio de 68” italiano). concentrada em filósofos como Michel Foucault. 2011.31 na Itália dos anos 1960 e 1970. mediante processos. nas “greves selvagens” de 1973 17 e no heterogêneo Movimento de 197718. Operou lado a lado com coletivos autônomos além dos sindicatos e auto-organizações de trabalhadores. Seguiu-se então um período de diáspora. mas também a greves. numa frente sucessivamente redefinida com novos sujeitos e composições sociais.”20 A virada de interesse no interior da filosofia nas instituições 17 18 Destaca-se a massiva ocupação da fábrica da Fiat em Mirafiori. Vale a leitura o bom verbete da Wikipedia em italiano. Passados 30 anos do desmantelamento formal da Autonomia Operária. predominava em conferências e cursos. ombreado com os trabalhadores. Jacques Lacan. em março de 1973. perseguições. Disponível em <http://matteopasquinelli. Matteo Pasquinelli aponta a recente virada da atualidade acadêmica nas universidades anglo-americanas. Foi um trabalho cooperativo. François Lyotard. marchas e ações diretas. mas também como um desejo de resistir e reexistir. pós-estruturalista e desconstrutivista. 19 PASQUINELLI. os autonomistas operaístas sofreram a repressão intensificada por parte do aparato estatal. Se. Paul Ricoeur e Jacques Rancière. no artigo Sobre a dita “Italian Theory”19. a Democracia Cristã. especialmente.

A copesquisa começou quanto alguns intelectuais e militantes decidiram produzir conhecimento formando redes transversais com a classe operária. que o operaísmo não correrá o risco de degenerar em mais uma teoria meramente acadêmica sobre o existente.2. até dentro da universidade. Turim: Velleità Alternative. Ou seja. à margem dos grandes troncos da filosofia analítica (da linguagem) inglesa. reside no campo compartilhado da copesquisa [con-ricerca] entre intelectuais. Geralmente advindo das camadas médias e 21 22 Ibidem. Na Itália dos anos 196023. A maquinaria intelectual e militante do operaísmo permite se situar à altura dos debates filosóficos políticos de seu tempo e. que não se pode perder com a recente tendência de “ academicização”. o nó entre práxis e teoria na época da crise financeira. A copesquisa recusa a disciplinariedade dos saberes e a hierarquização interna à produção social do conhecimento ou “ entre sujeito e objeto da investigação” (a distinção epistemológica neokantiana). “’Con-ricerca’ significa hoje repensar. 1993. imergindo na organização real dos trabalhadores dentro da fábrica real de sua época. no contexto de crise globalizada do capitalismo. militantes e movimentos. Traduz-se aproximadamente “copesquisa”. que não deve ser esquecido inclusive para dentro das lutas na universidade e na produção do conhecimento. 23 ALQUATI. Em nota sugestiva. Romano.32 de pesquisa está relacionada à força da “ontologia italiana” para pensar as lutas sociais e fortalecê-las. no auge do fordismo. diretamente implicada no conhecimento produzido. no interior das grandes formações industriais do norte da Itália. durante o período de crescimento econômico do segundo pós-guerra (o “Milagre Italiano”). Per fare conricerca. Pasquinelli sublinha o caráter materialista e antagônico da “Italian Theory”. de “direita” ou de “esquerda”) e do desconstrucionismo francês (derrideano). . da hermenêutica alemã (heideggeriana. A con-ricerca como subjetivação das lutas Os operaístas nomearam con-ricerca22 seu método de pesquisa militante. O núcleo inovador do operaísmo.”21 É por não sublimar a metodologia militante. ao mesmo passo. esta prática se contrapunha à do “intelectual orgânico” de partido comunista. 1. que não pode se separar completamente das mobilizações transformadoras.

eram discutidos. Essas micro24 WRIGHT. a con ricerca expõe e produz ressonância sobre os comportamentos operários. e a organização do trabalho. Assim. Steve. no lugar mesmo em que ela acontece: no momento produtivo. com todos os considerandos e problemas associados. uma série de processos objetivos e subjetivos estavam se desenrolando na FIAT. pequenas sabotagens e recusas. em conjunto com os pesquisadores. uma composição combinada de vozes “externas” e “internas” ao processo. na virada para os anos 1960. era formado na linha do partido e então apresentado nas fábricas. NY: mimeo. decorrentes da real inscrição da força-trabalho nos mecanismos de exploração. De modo mais arejado do que aplicar dogmaticamente categorias de alguma teoria pré-estabelecida. A hipótese de pesquisa era ousada: “na opinião dos pesquisadores. junto dos operários. encontros. sem mediações institucionais entre uns e outros. 47 . a con ricerca gera efeitos na organização política de classe. mediante entrevistas. diante da maquinaria produtiva em que estavam funcionalizados. Considerava-se que era importante compreender a relação social entre as classes. com a missão de vocalizar os dirigentes e conscientizar a massa de trabalhadores de sua própria luta. disrupções e insatisfações localizadas. desenvolvessem progressivamente um ponto de vista a respeito de sua condição. pouco visíveis. que acabava reproduzindo a mesma divisão hierárquica do trabalho que o marxismo costuma criticar. Storming heaven: class composition and struggle in Italian Autonomist Marxism . comícios e intervenções públicas. articulação de textos e debates. De maneira que os operários. a remuneração e a premiação. os operaístas passaram a se articular diretamente com o “chão de fábrica” e os movimentos sociais. p. de forma a estabelecer as bases para a ressurgência da luta de classe dentro da empresa"24. diversamente. greves. Nessa proposta. A partir daí. Os primeiros envolvimentos do novo método foram coordenados pelo operaísta Romano Alquati nas grandes fábricas da FIAT e da Olivetti. Com isso. e intercambiadas discretamente entre grupos de trabalhadores. ainda assim correntes. as formas de cobrança e supervisão. Na copesquisa.33 universitárias. mas. se propunha a romper a verticalização ideológica da produção do conhecimento. 2004. o funcionamento real da empresa. que por sua vez determina o sujeito da pesquisa. começa a perceber micro-resistências de classe. bem como a mediação exercida pelos sindicatos e centrais sindicais. enquetes. eles mesmos.

compartilha e faz circular os saberes e hipóteses. “Alquati raciocinava: se Lênin estava certo em insistir que a consciência de classe fosse trazida de fora. Mais do que apenas colher uma base sociológica empírica para metas de pesquisa. propiciando encontros entre lutas paralelas e conectando pontos soltos das articulações existentes. que coordena a produção do conhecimento e ação política. se diz que a con ricerca é antes uma pesquisa da subjetividade. admite que o espontaneísmo das insatisfações. pode adensar e espessar em consistência e duração. work in progress. potenciadas. quando há uma apropriação subjetiva das condições de produção que o capital faz parecer como objetivas (mas que desde o princípio dependeram da subjetividade). Tudo isso para. 49 . Não há pretensão de neutralidade. Trata-se de um processo multidirecional. não existia. Elas exprimem uma inadequação subjetiva que. já é um embrião da dita “consciência de classe”. estava errado em pensar que essa 25 Ibid. a con-ricerca propõe-se a assumir inteiramente o ponto de vista de classe. Isto é.34 resistências podem ser articuladas. localizadas e dispersas. a fim de enfrentar diretamente as técnicas de gestão do trabalho e os gestores capitalistas. acercando-se do objeto com uma metodologia de tipo epistemológico. para a geração de uma composição que. Pelo contrário. para a ruptura da condição explorada. do que da lógica objetiva de como se produz valor numa unidade produtiva de organização capitalista25. Por isso. A luta de classe acontece. desse conhecimento situado subjetivamente. com auto-organização que a copesquisa estimula. essencialmente. ganha corpo com a experiência e a perspectiva desenvolvida pelos trabalhadores. de uma ativação dos antagonismos internos à relação do capital. Desta maneira. por um lado. sem perder de vista a sua importância como organização política. daí. por outro. que venha a considerar a classe operária “alienada” da lu ta de classe e pacificada pelas seduções ou injunções do capital. que se esforça por mediar a relação social por meio das coisas. compreender o todo. A pesquisa não se organiza como uma espécie de vanguardismo. adotar abertamente a parcialidade das lutas operárias. Se. podem ganhar momentum como força política. a rigor. além de proliferar locais para os possíveis de antagonismo e resistência. podem ser superados muros teóricos e práticos. depende de um processo de subjetivação da condição de explorado. p. contribuindo para a auto-organização do movimento.

— tudo isso dentro de uma problemática política. p. O objetivo é tanto conhecer para transformar. ao valorizar a capacidade de os próprios sujeitos se envolverem em narrativas sobre si e a condição da fábrica. Segundo o historiador do operaísmo (e operaísta-autonomista ele mesmo) Gigi Roggero. Não se deve. Nesse contexto. de qualquer forma. .”26 A copesquisa perquire pontos de antagonismo difundidos ao longo das cadeias de organização do trabalho e assalariamento. portanto. eles mesmos. reforçar a autovalorização do movimento. como se fosse um ponto de partida da copesquisa. enredados na produção colaborativa do conhecimento. não se pode falar propriamente numa preocupação em modificar o objeto da pesquisa. as referências teóricas e a autoformação dos grupos precisam acontecer numa espécie paradoxal de “espontaneidade estimulada”. que também se metamorfoseia ao longo da conricerca. As sínteses prático-teóricas permitem. que os empoderam como força política auto-organizada. mas redimensioná-lo como resultado das interações diretas entre os muitos agentes. na medida em que o operariado sequer é visto como objeto. a colocação do problema. e então busca articulá-los na autonomia do movimento real da própria classe em processo. fazer parte. do encontro entre teoria e militância. A horizontalidade é ponto de chegada. ou então não existia. E não havia qualquer ideal populista de horizontalidade: o prefi xo “ con” expressava o questionamento das fronteiras entre a produção de conhecimento e de subjetividade 26 Ibid. em que os pesquisadores se preocupam em abolir as muitas fronteiras e assimetrias e. resistência e estratégias coletivas do movimento. encontrados no seio do movimento e na sua relação com os pesquisadores-militantes. e se condiciona a um trabalho intensivo de exposição e superação dos inúmeros desníveis. quanto transformar para conhecer. no sentido de uma teoria das lutas imanente aos problemas de autonomia. se forem bem sucedidas. Isto não significa depor o rigor. Não existe a distinção entre sujeito e objeto da pesquisa. mistificar a horizontalidade. 50. hierarquias ocultas e assimetrias. a copesquisa: Ou servia para organizar autonomamente os trabalhadores.35 consciência poderia ocorrer fora do contexto da produção mesma . o estabelecimento das hipóteses. Na con-ricerca. devendo avançar em permanente autocrítica (formal e material) no sentido da mútua implicação entre lutas e teoria.

3. 1. para operacionalizar a política das lutas. Não se tratava simplesmente do conhecimento. É um marxismo estratégica e seletivamente retrabalhado. e conquistou fortuna militante entre teóricos radicais e movimentos. Grundrisse. Rio de Janeiro. Antonio. vale. mas da organização de uma resistência. Pode-se assumir por eixo da reconstrução uma das realizações teóricas mais significativas do autonomismo operaísta. a convite de Louis Althusser. em 1979. entre ciência e confl ito. tomando por linhas de força a emergência de novos sujeitos das lutas e a ruptura com o socialismo oficial das esquerdas dominantes na Europa Ocidental. Marx beyond Marx. São Paulo: Boitempo. . 2011. Marx além de Marx se compõe de nove lições sobre cadernos manuscritos de Marx impublicados em vida. Lessons on the Grundrisse. Michael Ryan e Maurizio Virno. Tradução de Harry Cleaver. no interior mesmo das lutas e movimentos. 1991. Simultaneamente. Tradução de Pedro Mendes. os operaístas também elaboraram continuamente ferramentas de caráter mais conceitual. 2011. Esse trabalho culmina as elaborações teóricas realizadas em esquema de con-ricerca durante a década de 1970. 31-32. Revista Lugar Comum. Os Grundrisse ocupam um lugar 27 ROGGERO. Os Grundrisse como método Se a copesquisa informa um método de atuação dos pesquisadores no campo. reconstruir a trajetória heterodoxa do marxismo apropriado pelos operaístas. Para introduzir essa elaboração teórica. brevemente. p. n. Gigi. os Grundrisse29. Liberdade Operaísta. Marx além de Marx28 foi escrito em 1978 por Antonio Negri para uma série de seminários apresentada na École Normale Supérieure. que vai da associação com os intelectuais das primeiras revistas operaístas dos anos 1960 até a segunda prisão do filósofo.36 política. 94. Manuscritos econômicos de 1857-1858: Esboços da crítica da economia política. 29 MARX. Isto porque o operaísmo nunca deixou de reivindicar uma apropriação bastante singular da obra de Marx. 28 NEGRI. junto a movimentos sociais. Londres: Pluto Press. Conricerca era a ciência da classe 27 trabalhadora. Karl. A metodologia operaísta para a formulação teórica. Depois do que. se assenta em última análise sobre o método de Marx. passará a recombinar o seu pensamento com os estudos aprofundados e criativos de Spinoza. Tradução de Mario Duayer e Nélio Schneider. é a obra de encerramento de um período das produções de Negri.

O “Marx além de Marx” do título pode. Ou. Cit. o que repercutia na incapacidade de apreender e reforçar as lutas contemporâneas. em termos de metodologia materialista: “A importância excepcional dos Grundrisse nas configurações do pensamento marxista está baseada no método” 31. Alberto. nunca o conjunto completo. então. ed. TOSCANO. à luz da meia noite” 32. Negri and the Subject of Antagonism in CHIESA. também. porventura. Ou. de espera de alguma conjuntura objetiva de crise. Antonio. que somente em parte pôde ser vertido nos textos publicados em vida. Lorenzo. os Grundrisse contêm um Marx superabundante. do que em reforçar a resistência operária no propósito de sabotagem e destruição do capitalismo. A manobra operaísta de resgatar os Grundrisse visa. 2. segundo planejamentos a partir do estado. “Os Grundrisse foram escritos no delírio de uma inspiração poderosa. Negri sustenta a autonomia dos Grundrisse em relação a O Capital . p. 15 . bem como na redução do espectro de sujeitos sociais que poderiam compor e organizar a classe proletária. Foram escritos febrilmente. por exemplo) em gestores tecnocráticos da economia capitalista. em vez de diminuí-lo como mero trabalho preparatório ou instrumental. por outro lado. Alberto (org. convertia os marxistas no poder (do PCI. ainda. pleno de intuições e inquietações. Os “revolucionários” se tornam mais preocupados em fazer funcionar a máquina de um modo mais humano ou justo. ser lido como o Marx dos Grundrisse além do Marx de O Capital. A leitura objetivista deslocava o foco dos marxistas dos processos 30 TOSCANO. levava a uma atitude passiva. viria a ocorrer a revolução: como conseqüência de catástrofe econômica ou caos político. 2009. com categorias rígidas cada vez mais próximas do dogma. p. num momento em que a prática foi colocada em xeque. Op. selvagem. p. Marx beyond Marx.37 central na teoria e prática do operaísmo. The Italian Difference: between Nihilism and Biopolitics. esta insistia numa tomada mais objetivista e economicista da crítica da economia política. num discurso de planificação do capital e de conciliação de classes. Chronicles of insurrection: Tronti. a polemizar com a ortodoxia marxista praticada pela esquerda oficial italiana. Para Negri. 123 31 32 NEGRI.). 11 Ibid. As peças mais polidas e sistemáticas que o filósofo conseguiu ver publicado foram capazes de exprimir parte do conjunto do pensamento abrangente de Marx. Melbourne: repress. a partir da qual. O materialismo estava degenerando para um tipo de determinismo. É a “Bíblia do operaísmo”30. Para Negri. no desespero do isolamento profundo. Especialmente.

que não consiga ver a crise como produção dos próprios movimentos e resistências. Isto significa que a crise não deveria ser respondida pelos marxistas com esforços e tentativas de recuperação e profilaxia. com algum diagnóstico sobre as razões cíclicas ou as contradições autodestrutivas do sistema. o marxismo é uma teoria anti-econômica. a fim de reformar o funcionamento global da economia. ao reformismo e à mediação de classe.38 sociais de insurgência. — amiúde muito pouco alinhadas e até inimigas das mobilizações políticas de classe de seu tempo. “Nos Grundrisse. à representação. no sentido revolucionário. pelo aprofundamento e intensificação da organização de classe. Negri se decidia a atacar a neutralização “marxista” do ímpeto revolucionário. domesticado. Os inimigos teóricos de Marx além de Marx são. — é levantar a questão “da relação entre a crise e a emergência da subjetividade revolucionária” 35. levando os partidos e sindicatos a coabitar a máquina capitalista da representação e suas esferas de negociação. 2 Ibid. Não seria o caso de os Grundrisse serem um texto dedicado à subjetividade revolucionária?” 33 E ainda. que estava sendo reduzido a um reformismo anódino.”34 Nesse sentido. 10 35 Ibid. Para o autor. — quiçá ao conservadorismo puro e simples. Com uma leitura simultaneamente rigorosa e inovadora dos Grundrisse. mais que defeito sistêmico objetivo. p. num gradual reformismo de poder constituído. Tampouco. como ressonância da subjetividade revolucionária. 33 34 Ibid p. tendências que pairavam nas “esquerdas oficiais” dos anos 1960 e 1970. planejamento e síntese. a crise pode ser respondida com a radicalização dela mesma. mais importante do que engendrar uma sociologia do capital. ou longas e detalhadas descrições dos dispositivos econômicos do sistema capitalista. portanto. ela se torna uma síntese prático-política”36. “a iminência da crise não pode se restringir simplesmente à ocasião de uma previsão histórica. Tudo isso termina por tirar o marxismo do foco na subversão da ordem e no poder constituinte. 11 36 Ibid p. para reinstalá-lo. Portanto. 2 . p. “a objetivação de categorias em O Capital bloqueia a ação da subjetividade revolucionária. dentro do próprio marxismo. as teorias socialistas voltadas ao planejamento. o que importa às lutas sociais. — mais do que o fechamento sistêmico de teorias econômicas ou sociológicas. Assim. Por isso.

A luta de classe não pode ser enrijecida em esquemas fechados. implica sondar nas forças sociais os pontos de antagonismo. Negri diz ser possível “ um método materialista completamente subjetivado. é uma tese autonomista-operaísta que transcende o operaísmo de primeira extração (começo dos anos 1960). destrutíveis. do caminhar mesmo que propõe. fluidez. Diversamente. Cit 39 A autonomia das forças vivas do trabalho em relação ao processo de exploração e comando do capital. renunciar à paixão da totalidade e ao excessivo caráter sistêmico. desejos e revoltas espontâneas. onde a tarefa de classe operária consiste em recusar e dialeticamente inverter as abstrações e mediações que sustentam os processos capitalistas sobre o trabalho. A análise precisa evitar esquemas binários que não contemplem “a pluralidade e a diversidade da subjetividade”38. as relações entre as esferas da produção e da reprodução). ainda em estado de processo. mas é 37 38 Ibid. reversíveis. — bem como ao fetiche do método que o desvincula da própria jornada.39 faz-se necessário concentrar. Mas o que isto significa? Em primeiro lugar. sujeitas à reacomodação e à requalificação das forças em disputa. comunicação. que não pode ser confinado à totalidade dialética ou unidade lógica. — e o entendimento antideterminista de que as determinações materiais são pontos de chegada e sempre atravessadas por conflitos.”37 Em segundo lugar. constituídos de modo que possam ser redefinidos. que permitam sejam erigidas instâncias representativas da luta mesma. Está em pauta uma organização da autonomia da produção militante. que paralisem o movimento vivo da criação. uma organização cumulativa das insatisfações. circulação. da “subjetividade revolucionária”. autonomia do trabalho em relação ao capital. p. mutantes. mas de sua destruição não-dialética . onde sucedem as resistências e as reinvenções subjetivas. em suma. autonomia de classe. primeiro de tudo. Por sinal. instáveis. a ser invertida. como de Mário Tronti. 15 Loc. totalmente aberto ao futuro e criativo. A subjetividade revolucionária assume um status de autonomia em relação às condições objetivas e econômicas do processo do capital39. nos movimentos e lutas como produção imanente de crise.” Dinamismo. a organização da autonomia para Negri e os autonomistas não depende de nenhuma relação dialética com o capital. os momentos determinantes. abertura. caracterizados. e aparecem as novas composições do trabalho vivo (sua forma de cooperação. concreções precárias. Os conceitos precisam ser capazes de “ mover a análise a cada vez em novos terrenos indeterminados. para Negri. no interior e além da crise. a resistência não deve se pautar na inversão da relação social do capital. semiespontâneos. afetiva. Não é produzida por falhas objetivas. Abrir-se para a prospecção de novas realidades e novas formulações no seio mesmo dos processos sociais críticos. em crise geral e efetivamente transformadora. Com isso.

por sua vez. cultura. entre a subjetividade revolucionária e a subjetividade do capital. César . Micropolítica: cartografias do desejo. O direito constituiria. O conceito de subjetividade (que é um objeto real 40) propicia aos operaístas evitar uma visão marxista vulgarizada nas esquerdas oficiais da época. “o método marxista é constituinte quando a luta de classe constitui antagonismos explosivos. Cit. — isto é. as descontinuidades. 33-148. implica aprofundar a força do desejo (da reinvenção. na franja mesma em que emergem.” Cabe à pesquisa perscrutar pelos potenciais de explosão. da crítica criativa) além de necessidades ditadas pelo capital. examinando e mesmo imaginando os saltos. o trabalho vivo além da sua objetivação em valor. p. que deveriam ser esclarecidas pela via de um positivismo científico de coloração marxista. que não se dão mais como confronto direto pela reapropriação das condições de produção.40 ela mesma. Deve manter prospectivo o campo plural de lutas. as rupturas. que separa infra (forças econômicas) e superestrutura (política. ROLNIK. . Em termos práticos. por novos terrenos de constituição de determinações. 40 Mais sobre subjetividade. uma ideologia burguesa. mas como trabalho de conscientização das massas sob o efeito da ideologia. Assume o antagonismo. sobretudo. isto altera coordenadas do modo de fazer as lutas políticas. que funciona no nível superestrutural. p. da progressiva autonomização do trabalho vivo ante o capital. O que. inacabados e desejantes. a extrema conflitividade que perpassa todas as sínteses e determinações operadas pelo lado do capital. Os marxismos do novo século. e a subjetividade além de concepções epistemologicamente objetivantes dos sujeitos sociais. as urgências contingentes e. Cf ALTAMIRA. Suely. a subjetividade. 10ª ed. como subjetividades. Ainda no exemplo do direito. sem margem à conciliação. Estabelecem uma dicotomia onde a ideologia operaria na segunda camada. II – Subjetividade e História. Em conclusão intermediária. ciência). que instabiliza e sabota o funcionamento do processo. texto já clássico de GUATARRI. Op. 186-211. Petrópolis: Vozes. Félix. como momento determinado pelo desenvolvimento das forças produtivas. onde emergem sujeitos. Especialmente: Cap. por exemplo. como alguma ciência reificadora. — ainda que maquiada do ruge socialista. este “marxismo mecanicista consiste na produção de uma imagem que neutraliza as lutas de classes e na tradução de uma (absoluta). 2005. pela capacidade de difusão e articulações deles.

Direito. Rio de Janeiro: Lumen Iuris. desta maneira. os indivíduos se subjetivam e podem emergir como sujeitos políticos. coloca melhor o problema materialista. A fim de reproduzir as condições sociais de existência do capital. a ideologia existe materialmente. 413 . suas estruturas e instituições em suas relações sociais. considerando que.41 visão positivista do mundo social. “não há ideologia senão para homens concretos e através de homens concretos e não há prática senão através de ideologia e amparada por ideologia. apesar de divergências noutros pontos. 1. mas uma interpelação política prorrompida pela realidade em que se vive e se pensa. p. p. Disso. discurso e marxismo. mais próxima de subjetividade. Enzo (org. A contribuição althusseriana provoca um deslocamento do objetivismo dicotômico dominante nas esquerdas oficiais. Partindo da citada dicotomia.”43 Por meio dela. 399. uma vez que tende a similarmente considerar o mundo da produção como um problema de comportamentos e relações reais ante as formas de exploração e mando. revolucionário. decorrem enormes incidências na metodologia de campo. 42 43 Ibid. Ibid.). como superestrutura e como ideologia”41 Aí se deve reconhecer. Nessa acepção materialista de “ideologia”. Este não é um processo psicológico de conversão ou esclarecimento científico. mas do funcionamento real da sociedade. um agenciamento social de práticas de resistência e afirmação de classe em processo. de algum problema psicológico. p. Ricardo Nery. 400. BELLO. 2010. contrapostos aos aparelhos de dominação capitalista. que não explicita o próprio processo de produção do direito. o filósofo francês propõe “o caráter material da ideologia”42. a contribuição de Althusser na crítica ao marxismo objetivista. isto é. em geral. Direito e Marxismo. por meio do ferramental conceitual da produção de subjetividade. sob o ponto de vista de classe. em vez de incorrer no reducionismo do mascaramento ideológico (no sentido de idealismo). práticas e relações reais. O método da tendência antagonista 41 FALBO. In BARRETO. e se desdobra em comportamentos. O operaísmo autonomista. Martônio. que o operaísmo desdobra.4. Não se trata de ilusões na cabeça das pessoas. supera a problemática da ideologia e da dicotomia entre infraestrutura e superestrutura. o que igualmente pode conduzir à pesquisa de subjetividade.

vem a seguir. associações e organismos coletivos. já é uma realidade determinada historicamente. também conhecido por “Introdução” dos Grundrisse. quem produz em primeiro lugar são os indivíduos. Op. o problema da abstração. Karl.. Lição 3: O Método da Tendência Antagonista. num constante processo autoconstitutivo. 39-43 . visto que eles se articulam organicamente. competições. O indivíduo consiste. O indivíduo não pode ser naturalizado como a fonte da produção. pactos. um século depois. p. capaz de trocar produtos no mercado. cit. o indivíduo. A partir dos indivíduos. de uma abstração que mistifica o jogo de forças e relações que propiciam que algo como o indivíduo exista em certa formação histórica da produção em geral. O mais original. assim. como uma síntese metodológica que percorre a formulação da subjetividade revolucionária nos cadernos. inicialmente. portanto. 41-58. desde criança. A Introdução coloca. contudo.. entendidos como átomos com autonomia da vontade. Marx contesta a “robinsonada” máxima da economia burguesa. Escrito no mesmo período do final da década de 1850. na medida em que o próprio indivíduo já é uma produção social. cooperações. Marx beyond Marx.42 Negri dedica a lição 3 de Marx além de Marx44 para tratar exclusivamente sobre metodologia conceitual. resultado de certo desenvolvimento das forças produtivas e da reorganização e/ou dissolução das formas históricas que lhe precederam. O indivíduo dentro da lógica liberal. quando é. onde não se pode falar propriamente em “dentro” e “fora”. 44 45 NEGRI. A premissa da produção é. Cit. Para os economistas políticos liberais. Op. atravessado pelo conjunto de relações sociais que o interpelam. Este parágrafo cf MARX. se desenvolvem as trocas. o Caderno M foi publicado junto com os Grundrisse na primeira edição moscovita. p. dotado de autonomia da vontade e capacidade de obrigar-se. como sujeito livre e igual de direitos. Adota por ponto de partida o Caderno M de Marx. Até aqui. Quando uma abstração interessa à compreensão da realidade e suas conexões? Quando não passa de fantasia para mistificar as relações materiais? De que modo abstrair enquanto pesquisador materialista? E quando desmascarar abstrações mistificadoras? Marx45 expõe o caso da “produção em geral”.. O filósofo italiano afirma que a relação entre eles vai além da justaposição editorial. Grundrisse. se está numa manobra conceitual bastante conhecida da crítica da economia política.

pois a produção é um conceito de atividade. trabalho acumulado.. ao mesmo tempo. fenômenos que não se limitam a acontecer na cabeça dos marxistas. não tem o condão de criar uma fantasia inexistente. E é ao redor da produção que se devem estender as malhas conceituais e falar de meios de produção. portanto. . Desse ponto de vista. de geração. a riqueza. circulação. o capital como variável (trabalho vivo) e constante (trabalho morto). realmente. Daí que. A abstração. para que o processo continue se movendo. Essa abstração é real. É assim também que a abstração pela produção em geral permite articular como totalidade processual as diversas esferas produtivas do capital: produção.. o que persiste nas formas históricas é a produção e não o indivíduo. na medida em que é assim. o de valor. valor. determinações contraditórias passam a coexistir no mesmo conceito. p. distribuição e consumo46.43 O que intriga Marx é como o indivíduo burguês. Nessa maquinação processual. Essa abstração força duas determinações a habitar o mesmo conceito. 44-52. forma de governo. Isto é. organização do trabalho. pode compor a matriz produtiva da “época das relações sociais (universais desse ponto de vista) mais desenvolvidas até o presente”. e se alternar entre si. o conceito de indivíduo carregue a determinação privada (homem econômico no mercado) e pública (cidadão). Este deslizamento se torna fundamental para o intento de Marx. trabalho) organiza-os entre si num processo dinâmico (o capital). ao mesmo tempo em que é abstrato e isolado. relações jurídicas e o restante da maquinaria conceitual que Marx introduziu.. que os indivíduos se comportam na realidade. que o valor circula no capitalismo. — como se o problema do materialismo fosse denunciar a ideologia por meio de uma ciência verdadeira. no movimento mesmo em que o indivíduo é abstraído e isolado. para mascarar o existente. como de troca e de uso. Com efeito. tudo isso coordenadamente. Marx propõe mover o plano de abstração das robinsonadas para o plano da produção em geral. Todas elas se imbricam e se 46 Ibid. a propriedade). a abstração se constitui de um processo onde a mesma operação que abstrai conceitos (indivíduo. que permite analisar os processos e não somente os produtos (o indivíduo. que concatena e encadeia dinamicamente. ele se torna funcional à maquinaria mais complexa e engenhosa até então: o modo de produção capitalista. e que o trabalho é explorado pelos patrões. em função do momento dinâmico do processo como um todo.

sem algum progresso linear da produção ao consumo. Tanto a primeira produz o consumidor. unifica as diferenças em processo. .44 determinam mutuamente. portanto. Marx beyond Marx. p. 47. inclusive contradizendo-se ao longo do desenvolvimento. o ponto principal não é tanto o resultado estrutural do processo de abstração (a subjetividade reificante do capital). O que importa. no seu aspecto relacional e dinâmico48. Negri sublinhará dessas passagens metodológicas o fato que todas as determinações particulares estão baseadas na diferença entre si. mas apontar as “descontinuidades dos processos reais” e então “subordinar a dialética ao materialismo”. e assim produz uma estrutura dinâmica formada pelas abstrações reais. precisamente. mas um sujeito para o objeto”47 O filósofo alemão está mais preocupado nas relações reais que se estabelecem num processo dinâmico do que num substrato essencial. por conseguinte. quanto o último o produtor. Para ele. todos os conceitos marxistas. Menos para encerrá-los (dialeticamente. para Negri. e como se aqui se tratasse de um nivelamento dialético de conceitos e não da concepção das relações reais. Grundrisse. 43-46 49 Este MARX. Tanto a produção implica o tipo de produto a ser consumido. mas como as duas subjetividades (das classes em luta) atravessam e instabilizam todo o constructo teórico. Este parágrafo cf NEGRI. dois em um) do que para perscrutar os pontos em que podem ser explodidos.. portanto. 45 apud NEGRI.. não existe categoria que não possa ser 47 48 Ibid. p. produz não somente um objeto para o sujeito. 45 [Tradução aproveitada da edição brasileira dos Grundrisse]. um em dois): “ Como se a dissociação não fosse passada da realidade aos livros-texto. “A produção.”49 Torna-se fundamental não nivelar os conceitos atrás de explicações sistêmicas fechadas. A totalidade. libertando e fazendo emergir a subjetividade revolucionária (antagonisticamente. mas inversamente dos livros-texto à realidade. Os conceitos se definem mais pelo papel orgânico e dinâmico no processo. como descrição do funcionamento do capital. mas. Ibid. uma unidade auto-idêntica (identidade perene) que pudesse marcar algum conceito. não é parar a análise por aí. quanto o consumo determina a produção. O antagonismo vai atravessar. “A relação deve conter a possibilidade de cisão. Op. cit. p. p. tornar visível e factível a instabilização dos arranjos dialéticos do processo.

jamais o inverso. p. e a diferença percebida como antagonismo. “Portanto. É que a propriedade.45 definida fora da possibilidade de cisão. Nesse vaivém. que é categoria que a precede em desenvolvimento. — uma vez que a propriedade não decorre de um desenvolvimento interno das possibilidades intrínsecas da posse. Cit. Cit. as abstrações mais gerais surgem unicamente com o desenvolvimento concreto mais rico”55 e.. O processo de síntese não está na ação do pensamento. Daí que a propriedade permite a compreensão da posse. Marx dá o exemplo da relação jurídica da propriedade. p. mais uma vez. . Mas perceber que “são igualmente produto de relações históricas e têm sua plena validade só para essas relações e no interior delas”57.”51 O método da abstração determinada52 propõe partir do abstrato para o concreto. Cit. p. de modo que se torne visível e factível a sua subversão e 50 51 NEGRI. como no hegelianismo. e então percorrer o caminho de retorno. 46 52 Na edição brasileira. como se fosse uma evolução. assim. Ela não pode ser sintetizada no real sem passar pela posse. p. “A anatomia do ser humano é a chave para a anatomia do macaco”. cit. como se sua autoidentidade tivesse desabrochado em um estágio historicamente mais evoluído. 55-61.56 Para a metodologia marxista. como entidade participante do processo do capital. como relação jurídica. do que aquele que sustenta a posse. Grundrisse. permite apreender a “rica totalidade de muitas determinações e relações”53 O elemento concreto que importa. mas não pode ser explicada só por ela. é o resultado do método e não sua premissa. o que importa ressaltar não é a consistência da sistematização de abstrações reais do capital. operativa numa matriz mais simples das forças produtivas. 54 53 Loc. metaforicamente. está determinada por um processo produtivo mais complexo e dinâmico. Por isso. 57 56 Ibid. quase em contemplação estética da dialética capitalista. até o fim do parágrafo.. é ponto de chegada. 58 57 Loc. “por meio de uma abstração mais precisa” [grifo meu]. MARX.”50 Do que decorre: “a identidade é partida em diferença.. 55 Ibid. Marx beyond Marx. 54 Ibid. A propriedade contém como uma de suas determinações a posse. Loc. Op. embora a propriedade seja mais abstrata do que a posse. Ibid. mas no próprio processo real que o pensamento tenta se acercar 54. lhe sucede em riqueza de determinações. p.

o que. Roma: manifestolibri.). A colocação em marcha dos problemas e campos de possibilidade subjetiviza o conhecimento. Marx beyond Marx. os problemas reais enfrentados pela classe. como “antecipação estratégica do campo de possibilidades (tendência)”. ou seja. Daí a importância da mútua implicação entre militância e intelectualidade. métodos e estratégias. 47-48 Este pár. Astrazione determinata. a seu passo. É preciso transformar a metodologia de produção do conhecimento. Para Paolo Vinci60. VINCI.p. a abstração determinada como teoria materialista do conhecimento assume duplo rendimento. 2008. numa produção colaborativa de conhecimento que. do abstrato ao concreto. interrogando sobre os diferentes elementos. contribui para a organização do movimento. em processo de elaboração. tensionando até romper essas relações que o processo busca sintetizar abstratamente. isto não significa “ceticismo epistemológico. na dimensão política e antagonista de todos os conceitos. Segundo. e os projetos de luta. mas criá-lo ele mesmo por meio delas. Ibid.”59. uma para situar os problemas. inviabilizar qualquer possibilidade de conhecimento não-situado na luta de classe. O círculo abstrato-concreto-abstrato não se limita a repropor alguma sociologia empírica. . a outra para disparar a abstração determinada neles. 53-64. elemento de crítica e uma forma de luta. Primeiro. cf. Essa dupla faz do método mais que critério epistemológico. a meia distância. em consequência. a seguir. — e em paralelo às sínteses fechadas do capitalismo. Alisa et al (orgs. Paolo. mas. uma vez que o conhecimento não busca conhecer o concreto além das abstrações. no estatuto de ferramenta prática de luta. 47 Ibid. entre as abstrações que buscam a riqueza de determinações do real. p. isto é. A composição se congrega. em seu processo mesmo. como analítica das relações de poder. o que o autor operaísta esclarece ser um “processo coletivo. A teoria ocupa um lugar importante no materialismo.46 destruição. um esclarecimento coletivo proletário e. abre a sua dimensão de processo materialista. “O elemento subjetivo 58 59 60 NEGRI. propriamente. sim. portanto. A pesquisa militante se situa. Não se trata. DEL RE. como invenção contextualizada dessa realidade. p. contradições e antagonismos que constituem determinada expressão situada da produção em geral. mas a destruição de qualquer tipo de fetichismo do concreto”58. reforça as determinações subjetivas e a “afirmação de classe”. Verbete in Lessico Marxiano. de conscientização. Para Negri.

o valor de uso. numa relação saturada de subjetividades. mas para preencher-se delas em seu estado mais rico e diversificado. o dinheiro.47 é importante. p. Negri estabelece uma relação entre o simples e o complexo. o que os converte em abstrações mais gerais. Se. o que se dá na abstração determinada. 63 Ibid. O que Negri chama de “verdadeiro na prática”63 (ou critério prático de verificação): o coração das lutas. Antonio. Como o desenvolvimento histórico é determinado pela luta de classe. Não se trata mais. resgatando os antagonismos e contradições (históricos) que permearam a abstração em primeiro lugar. e a tendência carreia consigo num turbilhão o caráter conflitivo diretamente no âmago da maquinaria abstrata do capitalismo. o trabalho abstrato) podem ser reapropriadas. o valor de uso ou o trabalho concreto. Op. só atingem seu pleno desenvolvimento em condições complexas e abrangentes (extensiva e intensivamente) da produção em geral. Daí que elementos conceituais mais simples e concretos. essas diferenças são antagonismos. o dinheiro ou o trabalho abstrato. que podem existir cronologicamente antes. Mas constatar como todas as categorias abstratas desta maquinaria complexa (a propriedade. categorias simples. cit. como a posse. a aposta da subjetividade revolucionária. articulam-se em processo na esteira do desenvolvimento de formas históricas mais complexas. o trabalho concreto). mediante uma metodologia que rasgue a unidade sintética das determinações. pode ser desestabilizado e destruído por dentro das próprias determinações abstratas. Marx beyond Marx. p. o concreto também busca no abstrato a sua determinação. 62 Este § cf NEGRI. porque é ele que reclama a superação da divisão social. 50 . Por isso. por um lado. como a propriedade. cujas categorias mobilizam o processo produtivo. o abstrato busca o concreto. mas uma sucessiva síntese de diferenças em direção ao abstrato. p. É isto que Negri chama “comunismo na metodologia”: a percepção de que o processo do capital. a reapropriação de suas relações sociais”61 A abstração determinada culmina com o método da tendência. O que de mais concreto sucede na vida precisa galgar um status de abstração não para se depurar de determinações. de desmistificar o abstrato a fim de reencontrar o concreto livre do capital (a posse. para se articular às lutas reais e 61 62 Ibid. 48-54. Isto é. Não ocorre propriamente uma evolução. em sua pletora de relações complexas de abstrações reais.62 Mediante a tendência. portanto.

Menos para retornar a algum concreto selvagem. a seguir. de todas as tendências. pois a partir daí se formulam os problemas e oportunidades reais. 1. Ibid. 65 Participa. destruindo a subjetividade do capital (do comando/obediência. — que a ciência econômica a seu serviço tenta apresentar e estabilizar como objetivamente determinadas. na fronteira em que os sujeitos e objetos são constituídos uns para os outros. de toda a tensão. 12. despedaçá-lo no aprofundamento da crise. tendencialmente. numa copesquisa junto dos circuitos e processos produtivos. em sua apresentação. de um processo de organização e produção de subjetividade. em constante deslocamento: testa e investe no aprofundamento dos antagonismos que atravessam as categorias do capitalismo presente. ou melhor. para a ruptura da maquinaria. p. mas para inventar um novo abstrato (pois toda forma histórica da “produção em geral” resulta de abstrações determinadas). Disso decorre a sequência metodológica de forte abstração (com fundo real). em reconstrução do processo em seus momentos constitutivos. deste modo. quando o dinamismo dispara. que caminha em direção à prática e à subjetividade. A determinação é sempre a base de todo o significado. do estado/controle social). para. à produção de capitalistas.”64 O método busca coletivamente os pontos onde a prática militante possa se apoiar e saltar.48 emergências de sujeitos e sabotar o funcionamento global do sistema. seus antagonismos e contradições. A metodologia dos Grundrisse “é completamente subjetivada. da exploração/mais-valor. dos antagonismos e contradições. p. em seu próprio dinamismo. na sua lógica capitalista. A renovação da copesquisa 64 65 Ibid. irrompendo as relações sintetizadas pelo capital. observamos uma verdadeira explosão conceitual”. De dentro dos fluxos produtivos de que o capital se apropria. trata-se de fazer escoar a subjetividade revolucionária. Tais condições epistêmicas asseguram a luta de classe dentro e contra o capitalismo. e não pode ser fechada em totalidades dialéticas ou unidades lógicas. na disposição do capital. em alteridade radical com relação aos capitalistas. tentativas de caracterizar o conteúdo do antagonismo e vê-lo. 13.5. . O ritmo da investigação acompanha o ritmo das lutas e vice-versa. “Cada pesquisa resulta. e criativa. totalmente aberta ao futuro.

a cooperação acontece cada vez mais fora da fábrica. p. onde induzia e mantinha sob controle a cooperação. no pós-moderno. em plena crise do neoliberalismo: “qual é a copesquisa que hoje se pode fazer. Ibid. 2003. se sofisticaram os mecanismos de controle. NEGRI. O capital então desenvolve outras formas 66 NEGRI. em relação ao sistema da fábrica convencional. . Cap. que mantenham afiadas as armas da copesquisa militante. mudam também as coordenadas de criação e aprofundamento da subjetividade revolucionária. Se. uma “nova Einleitung”68. mais condizente à realidade contemporânea das lutas sociais e da matriz de exploração e comando do capitalismo. numa ontologia constituinte. Esse excedente cooperativo e socializado galga autonomia em relação ao planejamento e controle dos capitalistas. 241-271. teoria da investigação – a práxis militante como sujeito e como episteme. 67 Ibid. do lado do capital. 223-240. A produção social se dissemina mais abertamente pela esfera da circulação e da reprodução. O campo prático dos antagonismos precisa ser investigado na emergência de novos sujeitos sociais. mais pervasivos e abrangentes. em alemão) aos Grundrisse bastava para lançar as bases para uma pesquisa metodológica em que ação e teoria se conjugam para a ruptura da ordem capitalista. 68 Este pár. o capitalista reunia meios de produção e os trabalhadores no mesmo tempo e espaço. Antonio. Cinco lições sobre o Império. Ressalta como a investigação teórica que constitui o objeto (o concreto como linha de chegada) das relações caminha lado a lado com a emergência incessante dos sujeitos (a franja da subjetividade). Agora. que explode antagonismos por dentro da produção social capitalista.49 Um pouco mais de 20 anos depois do seminário Marx além de Marx. Rio de Janeiro: DP&A. Antonio Negri apresentou uma lição sobre “a práxis militante como sujeito e episteme”. Traços marxistas. p. o autor reforça o caráter imanente da produção de subjetividade. Lição 5 – Lógica. se propõe uma renovação do método. dentro da total transformação dos horizontes do trabalho da organização social? ”67 No século 20. Cinco lições sobre o Império. As mutações no mundo do trabalho vivo e das formas de poder constituído devem ressoar em novas formas de organização ativista. Antes. a Introdução (Einleitung. p. Nela. 228. Este capítulo do livro foi escrito em coautoria com Michael Hardt. num contexto de capitalismo globalizado e financeirizado. Na virada do século 21. em aula ministrada na universidade calabresa de Cosenza 66. cf. Tradução de Alba Olmi. A cooperação intensificada pelas novas tecnologias sociais e a socialização do processo produtivo por todo o tecido populacional conduzem à geração de um excedente cada vez maior.

É preciso levar em consideração os processos de cooperação. NEGRI. as abstrações reais do capital mudam de configuração. Neste contexto. A fábrica se espalha molecularmente pelo corpo social. verbetes in DEL RE. Antonio. Disponível em http://uninomade. Op. 117-136. .º 2/3. através da cooperação social imediatamente produtiva. Cit. Antonio. Maurizio. na edição dedicada à Fare inchiesta metropolitana: Rivista Posse n. Texto mais recente recolocando o problema na crise global: I luoghi della lotta di classe: per fare conricerca [Os lugares da luta de classe: para fazer copesquisa] Site Universidade Nômade. 2012. redes e mananciais organizam e continuamente deslocam e reorganizam a captura capitalista da mobilidade e da produtividade da vida como processo produtivo imanente. o trabalho já clássico: LAZZARATO. comunicação. A produção de subjetividade que está em jogo só pode circular e se intensificar nesse horizonte de lutas. desborda do escopo definido neste artigo. Seus feixes. difusa e global. 87-94 e p. ficando o fio solto para futuros desenvolvimentos. 2001. as novas formas de vida e de relações sociais. numa espessura compartilhada de existência metropolitana. faz-se necessário engajar a copesquisa no mundo pós-fordista ou pós-moderno do trabalho social. na contemporaneidade70. dos planos multiestratificados de economia. sem mediação do comando e divisão capitalistas. numa perspectiva diacrônica. Acesso em 23 jun. A produção social se estende através da sociedade urbana como um todo.. as forças do trabalho vivo. no século 21. Explorar a mudança entre fordismo e pós-fordismo (também descrita como do moderno ao pós-moderno capitalista). com centralidade. p. no auge do fordismo. fora do processo fabril. isto é. cit.). Lessico Marxiano.. Se a fábrica agora é social. que somente 69 Para uma exposição bastante conceitual da virada em direção ao capital social e à crise da lei do valor: NEGRI. um novo desafio para os problemas da copesquisa e do método da abstração determinada/tendência antagonista. imaginação. Trabalho imaterial.org/i-luoghi-della-lotta-di-classe-per-fareconricerca.69 Coloca-se. da produção biopolítica. ao captar o valor produzido nas “externalidades positivas”. num regime de acumulação mais intensivo e flexível. O capital nunca foi tão socializado e abstrato. junto à franja de emergência de novos sujeitos e lutas sociais da metrópole. Op. agora. Alisa et al (orgs. sofisticam-se (incrementam em riqueza de determinações) na mesma medida em que se tornam mais abstratas. bem como toda a metrificação do valor baseada no tempo de trabalho. As ferramentas conceituais elaboradas pelos operaístas precisam ser testadas e recombinadas. Roma. Crise della legge del valore-lavoro e Lavoro produttivo e improduttivo. (o livro todo). Isto é. Para explanação mais panorâmica. da subjetividade revolucionária de nossa condição. 70 Desenvolvimento abrangente da problemática da copesquisa hoje. se torna um feixe de relações difusas pelas esferas da circulação e da distribuição.50 de exploração. 2012. portanto. devem ser perscrutados os territórios sociais onde se articula. quando a lei do valor entra em crise. Se nos anos 1960. a con ricerca encontrava como campo de atuação a organização dos trabalhadores na fábrica. cultura e política.

Isto significa. nunca foi tão atual. de fato. além das mediações. — quando compreendidos na imanência mesma da copesquisa. a respeito das novas formas difusas de exploração. que o capital precisa abstrair para continuar explorando a vida. como campo de formulação de hipóteses e métodos de atuação. constituindo a classe. Portanto. o além-Marx dos Grundrisse. Noutras palavras. Em suma. — essa matriz sofisticada de abstração real só pode significar. no processo mesmo de sua constituição. se o capitalismo se reestruturou na extrema abstração de um controle financeirizado. copesquisar (em todo o seu sentido como organização do movimento) a condição de explorado dos “trabalhadores” da fábrica social é uma síntese práticoteórica fundamental. A atualidade comunista paradoxalmente se torna viável no mais pervasivo capitalismo globalizado. a luta de classe. A copesquisa pode ajudar a organizar essa autonomia. Nesse sentido. O operaísmo. que pode ser constituída e se constitui. dentro e contra a maquinaria capitalista. seguindo o melhor Marx. — capaz de organizar-se e cooperar na fortuna material de sua composição. globalizado e biopolítico.51 aparecerão. testar hipóteses. da captura dos fluxos produtivos ao longo dos circuitos de circulação e valorização do capitalismo contemporâneo. a seu passo cada vez mais parasitário. trata-se de indagar sistematicamente a composição política de classe. a extrema riqueza de determinações e diferenças e antagonismos que proliferam ao longo de todo o processo produtivo. — em relação ao capital. o trabalho vivo está mais autônomo do que nunca. . por outro lado. de maneira militante. — subjetivando-se. como contrapartida.

o que irá ancorar as publicações do autor daí por diante. Continuum. a ética. Londres: Continuum. a estética. e se conclui com a publicação de um de seus livros mais conhecidos. Alain. nos anos 1960 e 1970. Being and event. Badiou elabora e reelabora as bases de seu pensamento por meio de uma construção eclética sobre a teoria dos conjuntos. distinguir um primeiro Badiou de um segundo. com prefácio de 1981.52 2 – A teoria do sujeito em Badiou 2. tonalidades e problemáticas. as ciências. Às produções que precedem a virada matemática para a teoria dos conjuntos. Bem ao estilo da filosofia continental. entretanto. Embora seja apressado. Teoria do sujeito realiza uma combinação heteróclita de referências. dentro do que as várias dimensões do pensamento passam a se relacionar internamente: a política. abordagens. — principalmente Hegel. é tecida uma malha conceitual rigorosa e articulada em seus vários níveis e subníveis. 71 72 BADIOU. Numa espécie de “virada matemática”. Theory of the Subject. pode-se certamente recortar preferências de temas. que visam a dar um recomeço a toda a tradição filosófica ocidental. pode-se recortar a fase por assim dizer mais “vermelha”. É a primeira obra por assim dizer de “chegada” que o filósofo publicou. ainda que menos conhecida: Teoria do sujeito72. senão totalmente impróprio. Esse período de produções atravessa os escritos do período maoísta do autor. Tradução de Bruno Bosteels. a erótica. adotadas pelo filósofo ao longo de sua trajetória. consolidando um conjunto de reflexões esparsas em publicações anteriores. Alain. está situado antes da publicação de Ser e evento. Ser e evento se estende sobre um horizonte de interrogações bem mais alargado. que corresponde aos anos de intensa militância de Badiou em movimentos e grupos radicais. O Um tem que virar Dois Este capítulo se propõe a investigar o conceito de sujeito nos primeiros desenvolvimentos da obra do filósofo francês Alain Badiou. . É daquelas obras que se pretendem magnas. Teoria do sujeito foi publicado em 1982. decisivas. Constituído de seminários oferecidos por Badiou entre 1975 e 1979. Publicado em 1988. Refiro-me a outra obra marcante. BADIOU. 2005. Ser e evento71. Tradução de Oliver Feltham. sob um novo enfoque ou interpelando-lhe novos problemas. A obra marca a apresentação de uma ontologia sistemática e bem acabada. Londres: 2009. Especialmente. O que interessa para este capítulo.1.

Se existe um alvo claro ao longo dos escritos desse autor. uma era romântica quando o ser humano pretendia orientar a práxis. Ocupa-se de uma tentativa de apreender a verdade dos eventos e desdobramentos exprimidos nos ciclos de mobilizações do Maio de 1968 e da Revolução Cultural Chinesa. no desejo de viver intensamente o momento até às últimas consequências. O texto encontra seu pulmão na intensa práxis de Badiou junto ao efervescente cenário ativista da época. prático. na universidade. é uma das ideias-chave para a concepção de organização política. em toda a sua dimensão de paixão. O século 20 enseja um homem de ação. Primeiro. do presente absoluto. o século 20 girou ao redor da cisão antagonista: “o século enunciou que sua lei era o Dois”. Lacan e Platão. Fidelidade. e não o anúncio ou do porvir. quer na política institucionalizada em partidos. sindicatos ou órgãos do estado. Contra a banalização dos comentaristas. a memória de lutas e os ensinamentos desse caldeirão histórico. mas do enfrentamento direto. p. na obra de Badiou. do que teriam decorrido as guerras. mediante sonhos de harmonia e realização plena. do que por ideias longínquas ou planos de sociedade. extravasá-lo uns contra os outros com os olhos chamejando de um fogo selvagem. o antagonismo no próprio modo de 73 BADIOU. Esse antagonismo assume três significados. Tradução de Carlos Felício da Silveira. o novo homem. Menos o pensamento abstrato do que um ancoramento obsessivo no presente. na forja dos embates reais. Para o autor.”73 O tempo das ideologias ficou no século 19. implacável e maquiavélico. e a redução da vibração revolucionária a meros fatos jornalísticos. é o antagonismo entre duas subjetividades decididas ao aniquilamento completo uma da outra. “É o século do ato. Alain. perfilam-se os diluidores em geral. uma nova coletividade e um novo espírito. a “origem do mal” novecentista. loucura. Badiou atribui ao século a paixão pelo real. 2007. do efetivo. Teoria do sujeito traz um esforço para colher as marcas. Contrariamente à ideia usual que o século 20 viu triunfar as ideologias. Não foi o tempo das utopias. Segundo. se percebe na letra badiounista uma preocupação constante em ser fiel à genuína dimensão ontológica de eventos fundantes da política revolucionária. por sinal. onde quer que se instalem com seus oportunismos de sofá: quer no jornalismo. Foram à guerra antes pelo desejo de exercer o real. 97 . — um sujeito determinado a realizar aqui e agora. dor e violência. nos movimentos sociais. os massacres. Aparecida: Idéias & Letras. as ditaduras e os regimes totalitários.53 Mallarmé. O Século.

Badiou atribui às facções lideradas por Liu Shao-Chi e Deng Xiaoping. Discurso da unidade dos contrários. quando se digladiavam duas posições inconciliáveis. anos de agitações furiosas e imensas mobilizações de massa. p. para levar o Dois até o fim. É a luta dos revolucionários puros contra 74 75 Ibid. É o auge da Revolução Cultural. uma cisão purificadora. Sustentam que. do estado. Os maoístas da Revolução Cultural entendem que a dialética deveria se aplicar novamente. manter a luta acesa no coração do sujeito revolucionário. por sua vez. aqueles que lutavam para que o Uno virasse Dois. conquanto matizado pelo antagonismo. da síntese prática que supera as contradições reais. separar o proletariado revolucionário e a nova classe dominante enraizada na burocracia estatal. numa cisão de segunda ordem. que integra as classes em luta na “sociedade”.54 compreender o conceito de antagonismo. O primeiro posicionamento. — desejo radical do Uno. Terceiro. o dissenso. as mobilizações são mais nefastas que necessárias. 101 76 Ibid. Transformar a divisão política em gestão científica para o bem geral.”75 É o discurso do socialismo da ditadura do proletariado. A mediação estatal pelo interesse geral. p. uma vontade de suprimir o Dois em nome do Uno. “O Um é a vitória. da união de todos em nome de um bem maior. aqueles que defendiam que o Dois tem que virar Uno. 99. mediada por um partido forte o suficiente para reduzir os antagonismos políticos em uma questão técnica. 103 . p. Ibid. O segundo posicionamento. entre nações ou raças. a guerra se desdobra segundo um desejo de unificação. é atribuído à juventude revolucionária que se levantou em 1966-67 sob a direção “coletivista e inovadora”76 de Mao. Do outro lado. sob o comando unificado do partido. De um lado. Deveria agora ser exercida na práxis sobre o próprio processo antagonista. para quem todos deveriam aliar-se no projeto nacional de modernização e desenvolvimento econômico chinês. A dialética aplica na própria dialética. de ciência política e econômica. e mesmo a destruição do argumento do adversário. “sendo a gestão econômica o aspecto principal das coisas. a fim de cortar por dentro do estado socialista. sua chave está na luta de classe. Daí o autor oferece o exemplo da Revolução Chinesa. Para fascistas. nunca passível de reintegração. Para comunistas. desejar a divisão. conciliando diferenças e integrando divergências. para aplicar a revolução na revolução. a atestação do real”74. depurá-lo interminavelmente dos desvios.

na ciência política. na psicologia. a dialética e o sujeito Teoria do sujeito aposta numa remodelação do materialismo dialético. na cena intelectual “engajada” na França dos anos 1960 e 70. Quer na reabilitação de Nietzsche como pensador radical do método genealógico. a sua dupla polaridade no interior mesmo do método dialético. Curiosamente os mesmos que Badiou. essa dialética na dialética exprime o antagonismo mais fundamental do século. no entanto. A persistência no diamat por Badiou rema na contracorrente de várias tendências consideradas “de esquerda”. Esse processo real de constituição de verdade não deve passar em branco. seu estado. entre a construção do socialismo e o projeto do comunismo. Hegel. Para Badiou. o projeto para além do socialismo. não se perderam. Filiavam-se sem dúvida ao materialismo como definidores de seu esforço teórico. mas também Platão e Rousseau. Filósofos formados no ambiente anti-hegeliano da academia francesa. O futuro dessa revolução sabe-se bem qual foi: a restauração do partido e do estado. A revolução na revolução. Os ensinamentos desse turbilhão multivalente. seu direito. essa mesma corrente materialista tomava distância de alguns autores considerados anátemas do materialismo. Continuam pulsando na memória militante. no estruturalismo em geral.55 os traidores da revolução. na antropologia. 2. Foram duas maneiras diferentes mobilizadas pela Revolução Cultural de encarar a dialética. Por um lado. No entanto. seja nos profundos estudos sobre a obra spinozana. sem pudor em contrariar a .2. Trata-se de um grupo heterogêneo. que interpela os protagonistas do presente a pensar e agir com suas verdades. como Gilles Deleuze e Michel Foucault. sustentavam a necessidade de depurar o materialismo histórico da dialética hegeliana. A Revolução Cultural Chinesa deflagrou a verdade da dialética. havia a preocupação em combater todos os espectros do idealismo filosófico: na linguística. mas reunido sobre os pressupostos de que era necessário superar as limitações do estruturalismo. contra a pletora de pensadores pós-estruturalistas. sua moral. do marxismo ortodoxo e do hegelianismo. colocadas em processo como práxis. a vitória do capitalismo de estado de modelo chinês. — dois termos de uma dialética segunda. que então publicavam suas principais obras. especialmente Hegel. sua estética. cuja meta é aniquilar qualquer vestígio do mundo burguês.

Essa tendência revisionista obteve bastante repercussão na mídia simpática as suas “causas”. a insistência de Badiou o coloca entre maldito dos malditos. Para os humanistas. Filósofo dos processos de totalização. O ex-maoísta André Glucksmann — citando Hegel: “pensar é dominar”. terminaram legitimando e incentivando as tão propagandeadas “ditaduras sanguinárias”. existe um autor maldito nos meios mais ativistas da intelectualidade francesa é Hegel. das políticas da identidade. Derrida. Seria preciso eliminar os últimos resíduos do idealismo de Hegel. inclusive do materialismo elaborado pela via de Marx. reduzindo a riqueza do real a conceitos depurados e conciliados. Deleuze. conservadora e pouco atraente ao espírito sessentoitista. Ajambrando o nazismo ao estalinismo. Se. a persistência de Badiou no diamat também confronta abertamente o discurso dos “novos filósofos”77. nas mãos erradas. no final da década de 70. Acusam o pensamento radical de cúmplice da instauração de regimes de brutalidade. Nesse propósito. e aplicado duas vezes a cisão dialética. passaram a exercer uma linha crítica humanista. Nesse sentido. concepções políticas caracterizadas pela 77 78 André Glucksmann. Parece que. Boa parte da proscrição de Hegel pela nova onda se deve ao fato dele ser considerado eminentemente um pensador do estado. uma escola filosófica démodé. CUSSET. French Theory: How Foucault.56 nouvelle vague filosófica. Guy Lardreau. Os nouveaux philosophes eram oriundos dos mesmos meios radicais que Badiou. no meio do afã sessentoitista por inovação. o estruturalista Louis Althusser elaborou extensiva obra por um Marx sem ferramenta dialética. da marcha da história em direção ao poder absoluto. Mas à parte da contrariedade aos radicais anti-hegelianos dos anos 1960. — como fenômenos sob a mesma legenda “totalitarismo”. Forma-se todo um lugar comum sobre o hegelianismo. Minneapolis: Minnesota Press. Uma espécie de boneco de Judas para todo jovem talentoso desejoso de profanar os velhos ídolos da tribo. faz questão de reintegrar em sua versão do materialismo dialético. Tradução de Jeff Fort. 2008. François. no contexto da guerra fria. Seu crime teria sido maquinar ideologias e teorias revolucionárias que. — esses pensadores imputaram responsabilidade sobre o pensamento radical pelos males do século. Transformed the Intellectual Life of the United States. Christian Jambet. — chegou a imputar culpa à filosofia alemã78. & Co. das sínteses dialéticas. É difícil não admitir uma dose de ânimo de polêmica na atitude do autor em contrariar o que ainda se apresentava como o novo contra o velho. p. Bernard-Henri Lévy e Jean-Paul Dollé. nos idos de 1968. Badiou já tinha ido e voltado no caminho do pensamento. da geração sessentoitista. Contudo. 335 .

pesadamente marcaram o pensamento francês de André Breton a Jean Paul Sartre a Jacques Lacan.” BADIOU. se conduziu o vasto projeto de Soljenítsin. cit. as invocações mais recentes de Hegel por Badiou tem pouco a ver com a imagem de Hegel como pensador da finitude — uma imagem do pensamento que corre 81 incólume de Adorno a Zizek. 2 . Bruno. Judith. considerando que Badiou foi formado numa escola de pensamento dominado pela influência de Louis Althusser. numa autêntica blindagem intelectual conservadora. Não por acaso. 1987. CLEMENS. assim. cf BUTLER. A. Badiou não cansou de criticar o discurso típico de bela alma. Cap. tanto mais cúmplices as suas cândidas intenções diante da sordidez institucionalizada do mundo capitalista79. Para compreender a ousadia do hegelianismo de Badiou na teoria do sujeito. 3 81 BOSTEELS. 23. a apologia reversa aos estados constitucionais e liberais do capitalismo ocidental. em tempos de revisionismo generalizado contra o marxismo revolucionário. bem longe da imagem de Hegel popularizada por Alexandre Kojève.J. É perigoso. Assim. Durham: Acumen. 82 Este § e s. uma dupla heresia. Ao longo da obra. à equação ideológica imediatamente perceptível na propaganda: Stálin = Hitler. 2007. Op. tão bem sucedida na divulgação pelos meios da imprensa dominante. Finalmente. p. Subjects of Desire. Nesse contexto. em um trecho de sua crítica ao escritor russo Alexander Soljenítsin: “Era necessário que a revolução fosse um crime. Se puede pensar la política? Tradução de Jorge Piatigorsky. 2010. para quem Hegel é uma maldição filosófica que pesa sobre Marx e o marxismo. Badiou: key concepts. — tanto mais culpada quanto mais inocente julga a si mesma. aqui. a qualquer teoria que se pretenda revolucionária. E mais: continua realçando a centralidade de Hegel e o do hegelianismo para o pensamento das lutas e da revolução. “Devemos entender o que Lênin repetiu um pouco em todos os lugares: a boa notícia retrospectiva é que Hegel é um materialista !”80 Mas qual Hegel? O fato concreto é que o interesse contínuo em Hegel em ou por si mesmo merece algum comentário. Justin. ameaçando a tentação de relapso em uma ou outra forma de idealismo. ou que propugne por qualquer tipo ruptura à ordem constituída. Buenos Aires: Nueva Vision. por todos. crístico. — a boa consciência encarnada na defesa “incondicional” de valores humanistas e democráticos. Com o par estrutural democracia/totalitarismo. p. Theory of the Subject. E como o verdadeiro crime político certificado do século era o nazismo. Também se está.Historical Desires: The French Reception of Hegel. Nova Iorque: Cambridge Press. — “à esquerda” ou “à direita”.57 constituição de sujeitos políticos fortes. — Alain Badiou persevera em propugnar pelo materialismo dialético. 80 BADIOU.. particularmente a seção da dialética do senhor e do escravo. verbete in BARLETT. vale uma breve recapitulação do feroz anti-hegelianismo operado “à esquerda”82. cujas aulas introdutórias sobre a Fenomenologia do Espírito. p. . lança-se a sombra sinistra de desconfiança e certa repulsa. 139. acabariam por trazer o germe do totalitarismo. Contra a qual só valem os parlamentos e a livre iniciativa. nacional e antidemocrático.. Hegel. passando por Jean Luc Nancy e Catherine Malabou. hegelian reflections in 20th century France. Alain. No 79 É possível resumir a operação que Badiou atribui aos “humanistas antitotalitários”. o hegelianismo de Badiou contraria completamente a sabedoria aceita dos althusserianos ortodoxos. Alain. Realiza-se.

em uma oposição geral que não se dirige à tradição filosófica tout court. Um aprendizado em Filosofia. mas.. 20. Michael. na academia francesa. Michel Foucault. São Paulo: editora 34. Husserl e Heidegger. procura escapar de Hegel (. em grande medida. Paul Ricoeur e Emmanuel Levinas. Jacques Lacan. graças aos trabalhos de história da filosofia de Alexandre Kojève nos anos 1930 e. Foucault alerta para os riscos de o anti-hegelianismo não conseguir atingir velocidade de escape e acabar sendo sugado de volta a Hegel. Uma segunda geração de filósofos se formou em reação contra a tendência. Hegel ganhara imensa repercussão. posteriormente. pela via transversa. 72-79 . 84 FOUCAULT. — boa parte dos pensadores que. Michael Hardt explica: As raízes do pós-estruturalismo e a sua base unificadora repousam. os estudos sobre Hegel na França estavam no auge. de Jean Hyppolite. pronunciada em 2 de dezembro de 1970. é preciso evitar que o hegelianismo volte pela janela. 2010. Expulso pela porta. Como vencer um adversário que mais se fortalece quanto mais é negado? Seria uma alternativa simplesmente ignorá-lo. quando Foucault sucedeu Hyppolite numa cadeira do Colégio da França. aula inaugural no Collège de França. Nos anos 1950.58 segundo pós-guerra. Em seu livro de introdução à filosofia de Deleuze. especificamente.. viriam a ser conhecidos como pós-estruturalistas. A seguir.. Tradução de Sueli Cavendish. Deleuze fala em nome de toda a sua corte: “ O que eu abominava acima de tudo era 83 o hegelianismo e a dialética. Hegel se apresentava como a figura de ordem e da autoridade que funcionava como o foco do antagonismo. seja pela lógica ou pela epistemologia. — uma inquietação que irá percorrer as novas teorias e narrativas a partir daí. o campo da filosofia continental era dominado pela recepção dos três H: Hegel. Aí se enraízam as trajetórias anti-hegelianas de Gilles Deleuze. ed. Gilles Deleuze. e passar despercebido por sua filosofia? Mas. Jacques Derrida. seja por Marx ou por Nietzsche. 1997. Para a geração de pensadores continentais que chegou à maturidade nos anos 1960. a rejeição sistemática de Hegel está associada a uma atitude contrária ao forte academicismo da academia francesa. como dar as costas à Hegel sem ser capturado por sua 83 HARDT. sob o reinado de Hegel e que toda a nossa época.)” 84. O sistema totalizador do idealista procede por contradições e é absolutamente complacente aos contrários. aos olhos de muitos. a fenomenologia husserliana e a análise existencial engajavam a maioria dos estudantes em seus trabalhos e provas de agrégation e doutorado. que entronizava um cânone rígido e enquadrava as produções num pensamento de escola. mais tarde. p. Em parte. Michel. pôde sintetizar a atmosfera intelectual dos jovens anti-hegelianos de esquerda: “Bem sei que a obra de Jean Hyppolite se coloca. São Paulo: Loiola. A ordem do discurso. à tradição hegeliana. O alto idealismo alemão.” Em dezembro de 1970.

está na concepção de sujeito. O que importa. aqui. Subjects of Desire…. cit. então o anti-hegelianismo logo se apresenta como o segundo. sem embargo. ed. deslocada. 2001. a criação do novo. Grossissimo modo: ao trabalho do negativo. à espreita e com fome. o que. Na verdade. Op. a reflexividade. A relação inicialmente externa que a consciência acha 85 86 HARDT. que devora o que encontra em sua trajetória por meio do processo dialético. o autor desenvolve a afirmação do diferente. a história universal). Quando encontra o que ela própria não é. digerindo pedaços cada vez maiores da realidade como partes orgânicas de si mesmo. noutro lugar. o fora de si. Gilles. O sujeito hegeliano investiga algo fora de si: do que resulta ser ele mesmo refletido. São Paulo: 34. fluxos desordenados e diferenças qualitativas. Porto: Rés ed. a consciência se move para apropriar-se dele.. Op. à lógica do senhor e do escravo. parece ser o absolutamente outro. Criticam-lhe seguidamente a autossuficiência e a autoidentidade de uma substância que suporta as mudanças mas se mantém.. 3-15. 2. É um canibal ontológico. Para Butler88. o anti-hegelianismo é “quase sempre impossível. Gilles. Cit.59 problemática sem o saber? “O hegelianismo é o primeiro problema do pósestruturalismo. É uma máquina de captura do que está fora. O hegelianismo é o mais difícil dos adversários porque possui essa capacidade tão extraordinária de recuperar a oposição”85. a consciência está ela mesma fora. Cit. 87 Especialmente em DELEUZE. a consciência ao desejar está buscando fora de si. ed. que ele associa ao ressentimento e uma moral reativa. 184. p.”86 Boa parte do esforço teórico dos primeiros livros de Deleuze consiste em desmontar a maquinaria dialética de Hegel 87. . 2006. p. p. O sujeito de Hegel é um “aventureiro onívoro do Espírito”. Op. uma proliferação de descontinuidades. a família. 2. Judith. acasos. BUTLER. pelo menos em princípio. e DELEUZE. Nietzsche e a Filosofia.11. Diferença e repetição. a causa célèbre da filosofia pós-estruturalista mira na desconstrução o sujeito hegeliano. até porque Hegel fez da própria noção de ruptura um princípio central de sua dialética. às totalizações (o estado. rupturas. Butler segue o fio condutor da crítica da academia francesa. E apropria-se graças à capacidade de reflexão. Tradução de Luiz Orlando e Roberto Machado. Inicialmente exilada. bastante matizada pela recepção de Hegel a partir da Fenomenologia do Espírito (especialmente pela via dos cursos de Kojève e Hyppolite). que foi intensamente criticada pelos anti-hegelianos de esquerda. Para Judith Butler. O desejo lhe serve de impulso para ir atrás das diferenças externas. 88 BUTLER.

de maneira que o sujeito se reconhece a si mesmo na reflexão do que era fora. Logo. coloca em primeiro plano o papel da 89 Ibid. Apesar disso. Butler deixa claro que “o sujeito hegeliano não é um sujeito autoidêntico que viaja complacente de um lugar ontológico a outro. ao mesmo tempo. obter a reflexão de si. é de si mesmo e do mundo.”89 Em resumo. de uma mediação: a estrutura do que está fora. o faz sobre si mesma. então. e mais o mundo ganha consistência como ação refletida dos sujeitos. e na qual a consciência se funde. em direção ao absoluto. Há uma integração progressiva dos vários níveis fenomenológicos. O processo se desenvolve. e por ela. ele é essas viagens. Quanto mais o Eu busca o Não-Eu. o sujeito também é essa mediação mesma. A experiência do mundo para o sujeito em processo se dá com um crescente reconhecimento que. para efetivamente nela. no processo de desenvolvimento do próprio mundo no tempo histórico. reforçá-la no reconhecimento. num plano maior. Para Hegel. é refletida para dentro. Fica evidente como a lógica da autorreflexividade está atrelada a um sentido robusto de identidade. mais se identifica consigo mesmo. Quando a consciência exerce a reflexividade. desenvolver-se enquanto sujeito desejante. epistemológico e histórico. Desejar significa pôr em questão a própria identidade. A sucessiva autorreflexão da consciência em si própria mantém o movimento do ser. essa mediação é a estrutura com a qual o sujeito conhece a si mesmo. como um motor que se alimenta das relações externas autorrefletidas. Na verdade.60 ao deambular pelo mundo. p. nesse processo. do mundo. e é cada lugar em que se encontra. deslocando-se e. tornando-se autoconsciência. num processo direcional e acumulativo. operando em múltiplos níveis: ontológico. E internalizada. no deslocamento mesmo. numa tensão entre interno e externo que. um processo de crescente conscientização do eu e sua circunstância. E se conhecer é conhecer-se na estrutura mediada que é o próprio sujeito ambulante. um ganho sucessivo de consistência. mais se reconhece como Eu nesse Não-Eu (e vice-versa). 8 . sucedem ao sujeito formas determinadas que se autossuperam. em particular. O que também consiste. Quanto mais sai de si. em último momento. se resolve no idêntico do sujeito. Esse reconhecimento depende. o desejo é o mecanismo que impulsiona o sujeito a internalizar o que encontra e. Conhecer será sempre conhecer-se um pouco mais. Butler aponta que a interpretação de Jean Hyppolite. portanto.

“a nova experiência não incrementa um sujeito existente. ou melhor. Ganha destaque o trabalho do negativo. ele precisa sair de si em busca da exterioridade. está aprisionado numa identidade que circula perpetuamente. isto é. por ser um semalgo. o que significa sair atrás de si mesmo. p. o processo de constituição e reconhecimento da identidade. O sujeito hegeliano. um novo ponto de vista em que a narrativa deve ser recontada. o fechamento do sujeito se torna uma ideialimite ou reguladora. É o perpétuo “ainda não encontrei o que estou procurando”. Deseja-se porque se é insuficiente. Como não ocorre na prática histórica. o sujeito hegeliano jamais atinge o absoluto.”91 O sujeito não se satisfaz totalmente nunca. E a identidade retorna novamente. de si mesmo no outro. então se instala de modo irremovível do sujeito. . p. 9 Ibid. Ou seja. Em sua concepção da teoria do sujeito. Noutras palavras. Não nos bastamos. Butler problematiza a caracterização crítica de Hegel como o “filósofo da totalidade”. Mais do que isso. Somente se pudesse refletir tudo o que existe em si e para si. daí a ânsia pelo que não somos. Estaria integralmente adequado ao todo e a si mesmo: o absoluto. pela viagem ao desconhecido. O negativo não pode ter tudo.” As diferenças só exercitam a sua existência plena ao ser conduzidas pelo sujeito desejante à identidade. pelo mundo estranho. um ainda-não. Assim. “Satisfazer o desejo é a conversão da diferença em identidade. um estranhamento atrás de um algo que ainda não se tem. 10 92 Este § Ibid. não se imagina. o sujeito desejante se move devido ao que lhe falta.61 negatividade na construção do sujeito em Hegel90. mas ocasiona uma narrativa inteiramente nova do sujeito mesmo. O desejo só pode terminar satisfazendo -se na fusão do que o sujeito já é com o que ele ainda não é. E isso acontece toda a vez que o sujeito interioriza. da completeza sistemática e da autonomia autossuficiente. que produz o idêntico a partir do diverso. para Hyppolite. cujo limite é o infinito. p 11-12. devorar conscientemente a totalidade inteira (logo. Esse processo é mediado pelas oposições e contradições dialéticas (formando a estrutura) do próprio sujeito. Pois “não está claro que a totalidade metafísica que Hegel defende é um sistema finito”92. à falta mesma. reconhecer-se no outro e refletir o outro no reconhecimento. não se é. Embora a teoria dialética do 90 91 Ibid. Por não ser totalmente. subsiste um inacabamento insolúvel no sujeito desejante aqui e agora. identificar-se absolutamente). a busca chegaria a termo. no tempo histórico.

. a cisão. Desse modo. o movimento constante no tempo. mas. a Ciência da Lógica.” 93 Outra. É outro Hegel. Quem busca uma teoria “confiável e segura” não vai encontrar no sujeito badiounista a substância autoidêntica que suporta as mudanças sobre si. que é o eixo do hegelianismo francês. todo o aparato conceitual é deslocado. dos Cadernos Filosóficos. necessitando do tempo. Não mais um sistema espacial extensivo. Ou seja. da autoapresentação elusiva de uma consciência. A própria dialética desdobrada por Badiou em nada se assemelha à recepção ortodoxa de Hegel. das várias permutações do Devir em que a negatividade não é resolvida nem negada. da história. Motivo pelo que Butler introduz a ideia de devir na filosofia hegeliana : “. A retomada de Hegel por Badiou não segue o antihegelianismo de Althusser. 14 . Porque seu materialismo dialético não se alimenta da Fenomenologia do Espírito.. se posso me expressar desta forma. mas sustentada numa aventura aberta e progressiva do Espírito. a destruição e a subtração. desde o início. o colapso de qualquer forma de representação consciente. mas de uma obra posterior. Portanto. é a utilização de Hegel na teoria do sujeito de Badiou. de uma modalização temporal.62 sujeito possa teoricamente incluir tudo em si. descontínua e de ruptura. — a partir da qual se poderiam desenvolver os fenômenos da normatividade. mas espaço-temporal. Em vez da totalização. o espaço por si só não é capaz de conter o sistema infinito. A identidade do sujeito hegeliano é dinâmica. por essa teoria do sujeito. Em Badiou. “seria pensar além das categorias espaciais. a busca pela satisfação do desejo não tem por resultado um estado de inércia. p. da identidade.”. A conciliação de sujeito e ontologia. a divisão interna e irresolúvel de todas as identidades. sim.. um equilíbrio final. de espaço e tempo. Mas.. se dá numa concepção profundamente conflitiva. o fato de os sujeitos concretos serem finitos na histórica impõe uma abertura permanente. o sujeito badiounista. A esquadra crítica manejada contra o filósofo alemão não atinge. que Lênin dedica inteiramente aos estudos da dialética hegeliana . é pensar a essência do tempo como devir”. Hyppolite (e Kojève) interpretam o sujeito de Hegel como procurando o absoluto no “movimento indefinido do tempo. dos direitos e de uma política da identidade. em vez do trabalho do negativo. O sistema não poderia contemplar um infinito sistemático. contudo. sim. e menos ainda nas críticas anti-hegelianas. A tensão entre o sujeito e o ser atravessa todos os conceitos e não pode 93 Ibid.

tal como funcionários da filosofia. é preciso aplicar a dialética sobre a dialética. com menor incidência do materialismo dialético. é decorrência do Dois. 95 BADIOU. p. Badiou tampouco parte do Uno ou do Múltiplo. a ideia de um termo simples que se desdobra em si ao tornar-se outro. se compõe da história do Uno. Encontrar uma unidade de outro tipo. nesse sentido. 1-44.3. Também recomendo a introdução do mesmo autor de sua própria tradução a Theory of the Subject. p. 2. p. mas do Algo. Essa dualidade atravessará toda a teoria do sujeito. A dialeticidade da dialética consiste justamente em possuir uma história conceitual. Londres: Duke University. Uma matriz pautada pelo “termo da alienação. Operar a dialeticidade da dialética. em nenhum momento há um abandono do fio condutor da lógica hegeliana94.”97 É a dialética da cisão. cit. E todo Algo que possa existir está imediatamente cindido em dois. o filósofo não parte do Ser nem do Nada. a Introdução – Elementos do materialism dialético. A dialética da cisão Para Badiou. E se. p . as identidades existentes. existe o Dois. Se puede pensar la política? Op. Se puder suceder algo como o Uno. Bruno. e não como aventura regulada do espírito. 95 mais do que uma história.63 conceder nenhuma sensação de segurança àqueles interessados em fundamentar. para então retornar a si mesmo como conceito realizado” e uma matriz “cujo operador é a cisão. O conceito de tudo o que se apresenta como Uno deve ser levado ao Dois originário. 3-50 97 Ibid. remeto a BOSTEELS. da totalização e do trabalho do negativo. O Todo. A escapatória para os idealismos da obra de Hegel está em levar a ferramenta hegeliana às últimas consequências. intervenção e fidelidade são os conceitos mesmos da dialética. Na esteira da Lógica de Hegel. Uma política. vii – xxxvii. estrutura. 96 Este § cf Theory of the Subject. e Capítulo 3 – Um divide em Dois. Alain. Eu enuncio que os conceitos de evento. Mas o 94 Para uma discussão mais aprofundada sobre o materialismo dialético na obra de Badiou. 110-156. que não a síntese açambarcante da unidade dos contrários através da aufhebung. 57. Uma dialética materialista e uma dialética idealista. cit. p. a partir de Ser e evento. Badiou and Politics. Especialmente. já inadequada para Hegel. cujo tema é que não pode haver unidade que não esteja dividida. desde que ela não seja levada a sua imagem achatada. 2011. p. Daí existirem “duas matrizes em Hegel”96. Op. e na qual se divide a matriz hegeliana até o ponto em que esta se revela em seu ser como doutrina do evento. Primeiro. sucede uma “virada matemática” no pensamento de Badiou. do “há Dois” irredutível. de sua temporalização segundo a autoapresentação e autodesdobramento dos elementos situados. Ele é o próprio dois antes de ser um.4 .

no mesmo movimento 98 Ibid. Nessa condição. a diferença qualitativa entre o proletariado e a burguesia. simplesmente reconhecer que o antagonismo é inerente ao tecido social como um todo. e é a chave para que ele possa ser aberto e algo diferente. possa acontecer. Nessa lógica. não funciona por meio da negação. pois já estão submetidas à substância estruturada. de acordo com os critérios e métricas da própria estrutura. Quer dizer. a máxima materialista O Algo existe desde o princípio como Dois porque. . o que se diferencia em si (o “puro ser”). E também como o Algo situado. quando suceder uma incomensurabilidade entre os termos da contradição. as diferenças entre as coisas são fracas. são comensuráveis. absolutamente novo. se esta for entendida como a teorização do Uno do que tudo é derivado. Badiou desenvolveu a teoria do sujeito. o § inteiro. No âmbito do ser situado. como uma diferença qualitativa entre os dois termos. à ordem homogênea que as determina. Não são comensuráveis de modo que pudessem contradizer-se no mesmo plano. A partir dessa distância irresolúvel entre o puro ser e o ser situado. Não há reflexão que resolva o Dois numa substância homogênea. conectado a uma totalidade de tempos e espaços que constituem o mundo (o “ser situado”). Não basta. ao existir. no espaço de posicionamento das coisas. toda a negação colocada de lado. E a teoria das contradições. É fraca quando existir na situação. o que propriamente existe e existe numa situação dada. de outra feita. Um só poderá existir com a destruição do outro. todavia. como arma voltada contra o Uno e o Todo. quando não existir na situação. Não há oposição de fato.64 Dois acontece além do Todo. É a “contradição estrutural”. Os termos do Dois são absolutamente heterogêneos. “Deduzimos o ‘há Dois’ de Hegel. de maneira que “o proletariado destrói a burguesia. na realidade. em todas as suas implicações políticas e éticas. a dialética materialista é sempre antimetafísica. Os dois termos da cisão — ser puro e ser situado — não são recondutíveis a um termo simples. p. 23. mas empreender uma análise minuciosa da natureza das contradições na situação. Existe como o Algo qualitativo. por isso. o faz duplamente. para Badiou. ao Uno ou ao Todo. A diferença pode ser “forte ou fraca”. isto é. E todas as vezes em que se pretender sustentar o Uno e o Todo. Nessa ideia. de acordo com o termo e o índice de seu posicionamento” 98. É forte. os dois termos diferem no interior da estrutura social e. Essa contradição opera. O método materialista não pode prescindir do Dois.

cindindo-o em Dois. “ o marxismo sonífero para a sala de aula. está na luta de classe. p. que elas afetam os mesmos termos. o seu ser situado. à situação do capitalismo.65 em que destrói a si mesmo”99. antes de qualquer coisa. contradições estruturais e contradições antagonistas.”100 O segundo caso. de um lado. o seu enquadramento como força produtiva do capitalismo. de certa forma. Mas. A contradição antagonista. por sua vez. A contradição estrutural consiste na oposição entre forças produtivas e relações de produção. Isto não significa que existam. Se. Daí a necessidade de o 99 Ibid. É a “contradição antagonista”. ou o trabalho ao capital. do outro. Embora os termos sejam incomensuráveis. o seu ser puro. sim. as diferenças entre os termos operam. sua força política e revolucionária. as contradições estruturais se unificam pela tentativa de mistificar a cisão e se apresentar como o Uno. perde de vista que o primeiro termo da oposição já está. o reformismo economicista.”101 Dialeticamente. no plano interno das identidades existentes. um esquema estrutural que perde de vista a torção do Todo na qual o proletariado qua sujeito marca a força. 7 100 . separadamente no real. as contradições antagonistas colocam em marcha uma unidade da autodestruição. Badiou imputa ao primeiro caso todas as tentativas de conciliar termos contraditórios na situação vigente do capitalismo: o sindicalismo. p. Afinal. a “famosa contradição entre a burguesia e o proletariado é limitada. subsumido pelo mundo burguês. interna e comensurável. segundo Badiou. 24 Ibid. corresponde à luta de classe. o proletariado já se encontra cindido em dois: de um lado. se efetuam duplamente como processo dialético nos mesmos termos cindidos. p. mas a situação burguesa em que existe enquanto peça da engrenagem produtiva. Opor o proletariado à burguesia. a problemática do sujeito se torna igualmente interior à dialética que o conforma. a seu passo. por causa da cisão constitutiva. a dialética se dá no próprio termo. no movimento real de abolição da situação capitalista pelo evento revolucionário. dentro dos parâmetros estabelecidos pela estrutura socioeconômica. 24 101 Ibid. Assim. de outro lado. O outro do proletariado não é propriamente a burguesia. Na medida em que. eles se conectam no processo dialético. no que Badiou resgata um conceito de Mao (que distingue as contradições antagonistas das nãoantagonistas). A única unidade de contrários de que se poderia falar é essa unidade processual. em que ele existe como força de trabalho.

não é contradizer a burguesia. a abolição da sociedade de classe. p. Entre o proletariado enquanto força revolucionária e o proletariado enquanto posicionamento no espaço burguês se instaura uma diferença qualitativa. A contradição fundamental reside na afirmação pelo proletariado da destruição. em sua falsa tensão. a desaparição de qualquer situação em que as classes sejam situadas numa estrutura. O comunismo. mas que não pode se furtar (e isto é um quesito absolutamente central) em aceder ao terreno complexo de suas contradições estruturais. na contínua comensurabilidade entre força de trabalho e capital. a força revolucionária estabelece um antagonismo radical ao próprio capitalismo. Somente a destruição da ordem burguesa —. que seriam soluções antidialéticas e desviantes. uma heterogeneidade total e irreconciliável. e nesse sentido se caracteriza como uma distinção fraca.”104 A contradição fundamental. Destacada da ordem capitalista. em propiciar a incidência da força sobre os espaços para decompô-los. o seu ser interno. uma distinção estrutural que não é sinônimo da luta de classe. isto é. que é irrecuperável no interior das estruturas desse mesmo modo de produção. Por isso. 7 . “Qualquer sujeito requer o encontro trôpego da base e do motor. isto é. Isto não significa partir para soluções ingênuas de um ataque frontal e/ou terroristas. onde algo como um proletariado e uma burguesia possa vir a existir. O sujeito de classe só pode agir na articulação entre a lógica dos espaços e a lógica das forças. p. bens de consumo e salário. ou libertar-se dela.” E ainda: “o projeto subjetivo do proletariado. e nada mais.66 proletariado abolir a si mesmo. cujas 102 103 Ibid. 26 Ibid. O projeto é o comunismo. na diferença entre as diferenças. numa medida comum estabelecida pelo dinheiro. “O projeto político do proletariado consiste na desaparição do espaço de posição das classes. A diferença existente entre o proletariado e a burguesia ainda é imanente à situação. Porque as contradições estruturais não agridem o capitalismo. na distância entre a irrupção do novo e a materialidade do velho. “o projeto do proletariado. p. na interzona entre as contradições estruturais e as contradições antagonistas. — caracteriza uma diferença forte. mas a destruição do Uno. como base material do ser situado em que é inscrito. não pode ser representado pela burguesia”102.”103 Esse é o Dois inextricável de um processo dialético que não busca a síntese num terceiro. o comunismo. ele é quem funciona por meio delas. 27 104 Ibid. pelo contrário.

para Badiou. — a democracia liberal capitalista burguesa. Eis o que Badiou chama de “revisionismo moderno”. o que esgota sua força viva e retorna à mesma problemática do revisionismo. cit Ibid. uma ferramenta supostamente orientada para “fortalecer” a posição do proletariado dentro do espaço burguês. onde a revolução foi dissolvida no estado. o reformismo cínico de partidos e sindicatos. Neste cenário de múltiplos desvios. “o socialismo não existe. o “assunto sério. desigual e injusta. É o desvio “à direita” do socialismo real. de apagar o rastro das contradições antagonistas e reinscrever as lutas dentro dos quadros da ordem existente. sua economia. o assunto preciso. e de teóricos economicistas. Mas também pode acontecer de a própria ideia de revolução ser usurpada pelo partido revolucionário. sob a chantagem do mundo “menos pior”. todavia sem propugnar pela ruptura do novo. tanto na roupagem “capitalista” quanto “socialista”. da força revolucionária destrutiva. Nesse sentido.”105 Não muda muita coisa com ele. Ou seja. . que no final das contas eliminam o termo puro. 8. sua política representativa. Badiou teoriza sobre a necessidade de uma constante purificação operante no e pelo sujeito. Trata-se de um redimensionamento do espaço de posição das classes. está entre o capitalismo e o comunismo.”106 E isso distingue o marxismo efetivamente materialista. De modo que a agenda da “construção do socialismo” não significa o mesmo que o projeto do comunismo. Este o desvio “à direita”. de sua crise e gradual falência. Um processo de depuração voltado a manter a dialeticidade própria do materialismo. é preciso desmascarar as manobras de sobredeterminação da cisão pela ordem posta. de seus desvios “à esquerda” ou “à direita”. Evitar a 105 106 Loc. a atividade de sindicatos e partidos. p. o que termina por fortalecer o próprio espaço burguês. sobre o seu próprio “ser situado”. Num sentido.67 condições devem ser perscrutadas e analisadas. inteiramente reduzido às contradições estruturais. Isto vale para ambos os lados. esse sim. O motor político da história consiste na ação determinada do “ser puro”. enquanto ciência das contradições reais. que consiste em intermediar e enquadrar a classe dentro do estado burguês. o espaço de posicionamento em que está implicado e existe. como condição essencial para o seu funcionamento na lacuna fugidia entre a situação e o evento. — a força revolucionária da classe — em nome de um Uno mistificado. Portanto. trata-se de uma purificação contra as tentativas de conciliar o proletariado enquanto ser situado. seu direito. Destaque de Badiou.

justamente. 11 . é o próprio sujeito enquanto atividade e cadeia de ações. a eliminação das contradições antagonistas. também há desvirtuação do processo de emergência do sujeito revolucionário “à esquerda”. no Maio de ’68 na França e. p. entre a história e a política digna do nome. Ao sistematizar quase obsessivamente a situação dada. o sujeito trespassa-a. com grande estrondo. Para Badiou.68 determinação do Dois pelo Todo. O sujeito habita essa brecha. Tão presente na academia francesa da época. de uma cadeia de ações destrutivas que o constituem continuamente. independente da bandeira ideológica envolvida. sustentá-la enquanto geração de um novo que irrompe no velho. em janeiro de 1967 na China — por exemplo. Ao mesmo passo que sucedem desvios “à direita”. ele mesmo.” 107 Esses momentos extraordinários conseguiram “determinar a determinação”. Se há limitações na situação estruturada. cisões e contradições antagonistas. ela é deslocada e são cruzados os limites (intensivos) da própria situação. Ao determinar as determinações da situação existente. de um sujeito que se coloca nas frinchas entre forças e estrutura. Nesse esgarçamento e contínua tensão. Essa teoria não se concentra tanto em como o sujeito é capaz de uma ação. — um contraefeito da força sobre a situação que esgarça o que lhe era totalmente irrepresentável e impensável. na figura de um marxismo inteiramente transformado (maoísmo). o estruturalismo reforça essa tendência reducionista e conservadora. O estruturalismo define limites e injunções que não fazem sentido do ponto de vista de uma ação que inova. funciona o processo do sujeito. Badiou se refere a tendências anarquistas ou espontaneístas no interior dos movimentos 107 Ibid. uma inovação positiva de forças ocorreu “timidamente. no sentido inverso. Aqui. destruindo-o no processo. à força. O sujeito é um processo antes que uma substância. entre os polos do ser puro e do ser situado. e sua ação consiste em mantê-la aberta. suas articulações e conexões internas. o estruturalismo termina por racionalizar ainda mais a lógica dos espaços. operativa. e passa completamente à revelia dos processos dialéticos. levando-a eventualmente à ruína. no plano teórico. que só pode servir para cimentar ainda mais a totalidade estanque da ordem vigente e sua esfera de representação. mas como o sujeito emerge. Para Badiou. o estruturalismo deixa de enxergar e analisar as forças capazes de operar uma “inovação positiva”. desconsiderando a tensão que o sujeito põe em marcha entre a situação e o evento.

11 110 Ibid. 44 .69 transformadores.109 Faz-se necessário engendrar um “partido de novo tipo”. Contra qualquer degeneração “à esquerda”. — competente para suscitar e manter um processo de irrupção do novo. Esse suporte depende do sujeito como cadeia de ações continuamente interligadas às contradições existentes. que não esteja baseada numa massa estrutura.4. corresponde em certa medida à unidade de tipo novo. Quer dizer. O partido de tipo novo. A simples reafirmação da força do ser puro não é suficiente para transformar o espaço de posição das classes. a determinação. firme no evento que faz irromper o novo a partir (em certo grau) do velho. inábeis para perceber as sutilezas e nuances da relação entre o novo e o velho. Disso decorre a preocupação da teoria do sujeito com a organização da força revolucionária: “as formulações dialéticas estão enraizadas numa prática política explícita”. Por isso. do que um processo de constante purificação no seio do povo. uma questão propriamente dialética.) A convergência é o típico desvio objetivista”110. o velho inerente ao novo.. Não vai além de uma reafirmação impotente. que a sua visão de dialética estabelece. de que fala Badiou. “Existe também o inelutável desvio ‘à esquerda’. p. Ao passo que o sujeito revolucionário se mantém firme nos antagonismos à situação como um todo.. isto é.. cujo conteúdo deslocalizado impede a ação eficaz sobre as constrições.(. 108 109 Periodizar a revolução Ibid. ao negar a fecundidade criadora da dialética. não existe”. por assim dizer. diante e no interior das determinações da situação vigente.. menos uma convergência de lutas e forças a um sujeito revolucionário. “Aqui devemos condenar a filosofia improvisada que advoga a ‘convergência de lutas’ (. o autor afirma que “uma política ‘sem povo’. identidades e fechamentos próprios da ordem posta. entre o ser puro da força e o ser situado.” 108 Uma vez rasgada a máscara de Uno e Todo com que a ordem se veste. depurando os desvios “à esquerda” e “à direita”. “movimentismos” ou “multitudinismos” da época. isto é. que reivindica a pureza original e intata da força. os ultraesquerdismos tendem a bloquear o processo de transformação. enquanto nega. p.) Uma soma de revoltas não faz um sujeito. Não acontece o imprescindível contraefeito. 2. 12 Ibid. também é preciso sustentar o processo de inovação. atribuída aos muitos “massismos”. p.

19 Ibid. volta ao próprio começo. A verdade que chega ao próximo estágio se anima no anterior. Como dar consistência ao processo subjetivo que inaugura uma nova ordem? Isto significa não somente atentar para os sucessivos desvios “à direita” e “à esquerda” da operação revolucionária. sem qualquer possibilidade de inovação. sobretudo. Hegel é dividido uma vez mais. tomado por Badiou. ser fiel aos eventos anteriores. Por tudo isso. p. da Revolução Cultural Chinesa? Em que medida. pressupondo o absoluto no começo. nenhuma unidade superior da história. mas essa passagem não desdobra nenhuma verdade originária. a dissolução da revolução no estado. da “pura passagem de uma sequência a outra. Não há história universal. mas não se resolve inteiramente nele. depois de que todos os estágios de sua efetuação. são desdobrados. ou “à 111 112 Ibid. nenhuma força oculta da história ou sentido privilegiado. da “circularidade teológica que. É reconhecido o acúmulo entre as sequências de eventos extraordinários. numa lacuna que não pode ser suturada e irreconciliável. seu sairde-si. a dialética materialista avança por periodização. — contra todas as apropriações “à direita”. Se a dialética idealista procede pelo constante retorno da ação do sujeito sobre si mesmo. sua alienação. E. mas blocos de historicidade delimitados pelos eventos.”112 A retrospectiva é qualitativa e seletiva. O Hegel idealista.”111 No final do processo dialético idealista. e assim por diante.70 Um dos temas fundamentais da teoria da revolução de Badiou consiste em responder à pergunta sobre a continuidade do processo revolucionário. sem retornar a nada que não o desdobramento deste fato. podendo ser resgatada e retrabalhada como práxis. O Hegel materialista. onde a verdade do primeiro estágio só começa como condição da segunda como fato. do Maio de 1968. p. dentro de sua remodelação do método dialético. numa autoconsciência que culmina no ponto de partida (esse looping termina no absoluto). ocorre o retorno ao ponto de partida: o fim já estava pressuposto no princípio e a operação não vai além de um autoesclarecimento de termos que existiam. o filósofo desenvolve o conceito de periodização. 19 . isso impacta a compreensão dos antagonismos presentes e a organização política das forças hoje? Subsite uma preocupação com a duração e a consistência da cadeia de ações onde vive o sujeito. Não existe continuidade temporal entre as sequências. e procede por saltos. mas também: como aprender com os eventos constituintes anteriores? O que se pode aproveitar da Comuna de Paris.

As práticas inovadoras ensejam uma sistematização coerente. a inteligibilidade da sequência anterior confere consistência ao processo de contínua abertura do novo sobre as estruturas do velho. O começo é sempre recomeço. contra qualquer espontaneísmo ou voluntarismo de vagas diretrizes organizacionais. Cabe à teoria garantir a correta avaliação das verdades deflagradas pelos estágios anteriores. se podem colocar em marcha as hipóteses capazes de reabrir a história ao porvir da luta revolucionária. devidamente ancorada nos experimentos do passado. que pouco ou nada podem contribuir para o aspecto indispensável da organização das lutas. 113 114 Ibid. em que o processo segue reaberto contra os desvios e as contradições próprias deste tempo. permite continuar o processo. A partir dessa conexão com as práticas. no período das revoluções culturais. acumulando a avaliação do processo como um todo que a ordem vigente não consegue suturar. os bolcheviques carregavam a inteligibilidade do processo além do espaço burguês que posiciona as classes. de chamados abstratos à revolta. Daí. simultaneamente uma inovação impossível de deduzir do período anterior e uma retomada da qualidade subjetiva da força revolucionária. que vai da Comuna à Outubro de 1917 ao ciclo de lutas de Maio de 1968 e Revolução Cultural Chinesa.”114 Diversamente da circularidade da dialética idealista. Embora os termos das contradições sejam cambiantes. Isto diferencia um marxismo voltado à prática sistemática da investigação e do ativismo. tem-se uma dinâmica em espiral. p. a utopia. Na revolução de outubro de 1917. está-se agora (1982). Badiou insiste na relevância de pensar-se a consistência material. em contínuo contato com a ação das forças no presente. um regime de permanente pesquisa junto dos movimentos.71 esquerda”. “A questão subjetiva (como a revolta de massa da Revolução Cultural contra a burguesia burocrático-estatal cai no problema de remoldar do partido?) permanece em suspenso. a durabilidade e a organicidade do movimento político. no materialismo. 47 . 20 Ibid. p. a dissolução espontaneísta da história num presente sem memória. O processo continua aberto apesar das derrotas e fracassos do passado. Ocorre uma condensação de segmentos descontínuos. A investigação militante. como uma questão-chave para qualquer política marxista hoje. Para Badiou. de modo que elas possam ser acumuladas. Menos politizar a história do que historicizar a política. “ o Partido Bolchevique é certamente o portador ativo da avaliação das falhas da Comuna de Paris”113.

É preciso colocar-se fora de lugar.”116 É por esse raciocínio que Badiou introduz a noção de falta na sua teoria do sujeito. esquematizado ou definido. Se puede pensar la política?. fora da história. por sua linguagem ou estruturas conceituais. Na dialética materialista.72 reefetuada como sujeito. ainda que revelado em sua existência pelo próprio efeito político. “Há-de se ter a audácia de colocar que. A rigor. Esta não simplesmente responde conjunturalmente. mas não fora da historicidade. — em que todos os fatos se curvam sobre a linha unidirecional entre o passado e o futuro. p. 59 . segue inarticulável nela. Isso seria pôr-se de joelhos diante da história visível e dizível conforme a lógica das estruturas existentes. Quem forja a falta do Dois e reproduz interminavelmente o Uno como única realidade possível é a própria ordem vigente. opõe a teoria do sujeito às teorias da representação. O que se faz sujeito na política.”115 Eis aí o sentido materialista e dialético que não abdica das experiências do passado. não há lugar para concepções de política que somente reagem às violências da ordem constituída. Mas se o proletariado falta no âmbito do representado pela situação em vigor. dentro da situação vigente. 2. Sucede 115 116 BADIOU. em relação à situação dada. A articulação do sujeito por dentro do sistema simbólico disponível se torna impossível.5. desde o ponto de vista da política. 13 Ibid. mas afirma a própria destruição das estruturas. o sujeito não pode ser representado. mas também aqui e agora. a história como sentido não existe: só existe a ocorrência periodizada dos a priori do azar. Op. cit. isto não significa que o conteúdo do proletariado seja a falta. porque não existem somente no passado. Precisamente. Essa indignação meramente reativa não alcança a diferença qualitativa entre a violência inscrita na situação e a violência revolucionária. à disposição. p. A falta da política e do sujeito na representação A heterogeneidade qualitativa das forças. Essa postulação da falta não exclui a qualidade essencialmente afirmativa da luta de classe. a classe ou a nação. Somente uma história universal. “ A política não representa em absoluto o proletariado. — poderia fazer levar-nos a crer que as revoluções não foram bem-sucedidas.

cuja má consciência a coloca a serviço dos “humilhados e ofendidos” do povo. A força do povo aqui é a sombra achatada projetada pelos horrores do Estado. não passa de complacência crônica da burguesia. a política. — teorizada 117 118 Theory of the Subject. mas também o jornalismo e a imprensa. cit. A exasperação da indignação dos oprimidos. na insurgência raivosa dos revoltados de boa fé. é esse campo que se pode ler nas páginas dos periódicos e assistir nos telejornais. A grande palavra de ordem ‘abaixo a repressão!’ pode ser ouvida. no feminino. p. O que falta. os sindicatos. qualquer independência real. como o governo. uma degeneração da política nos automatismos do comentário jornalístico e dos mecanismos parlamentares. qualquer virtualidade política afirmativa. “Sucede hoje que a política entrou na aparência de sua ausência. esses ‘exageros’ — de que o povo permanentemente sofre em suas profundezas — pode tirar o pequeno burguês de sua dejeção crônica. Vale notar como existe uma boa chance que. a resistência que importa é afirmativa. . Op. Esta. Reduzir a luta de classe à oposição entre massas libertárias e o estado repressor não passa do pior tipo de esquerdismo. cit. Ainda assim. os partidos. Op. reina o terreno homogêneo do capitalismo e suas cadeias de equivalências e abstrações reais. entre a repressão e a ação revolucionária. socialismo e capitalismo. p. Badiou diagnostica o campo de representação da vida política contemporânea como de completa ausência de uma verdadeira política. sujeitos e verdades revolucionárias. a televisão. os movimentos sociais orgânicos. Para Badiou. onde ocorre a retirada da política. as ideologias disponíveis. de fato. cit.”118 A crítica abrange tanto a representação propriamente política. A ordem simbólica desta situação contém “signos cuja uniformidade é tal que nela só pode ser suscitado um sujeito automático. a própria ideia de uma política dos oprimidos. as eleições. As distinções tradicionais entre direita e esquerda. 32 Se puede pensar la política?. maniqueísta e nada dialético. então? Em primeiro lugar. e a correlação conflitual permanece 117 presa na fraqueza unificante do estrutural. a filosofia por trás disso é limitada. despido de todo o desejo. a brecha vibrante onde se dão os eventos. movimento patronal e operário. 7 119 Loc. palavra declinada no masculino. desejo e sujeito. Atrás da aparência de diversidade e multiculturalismo.”119 Ausência de política. ‘Abaixo a repressão!’ não conduz a nada além de uma reação situada. contra qualquer concepção puramente antirrepressiva. O político. ou de sua complacência.73 uma dissimetria de natureza. A pequena burguesia ferve de indignação. porque no fundo nega qualquer autonomia ativa. tudo se esfuma numa economia libidinal apassivadora e tediosa. Badiou reintroduz o tema da pequena-burguesia.

de toda sorte perigosas. foi reduzido aos fatos do periodismo e dos livros escolares de história. pelo menos. 41 . O campo de representação desta ordem cínica não contempla a tradição revolucionária e se esforça por apagar a memória das lutas. (. Marx. desarticulado.”122 O recomeço do marxismo depende da avaliação das limitações dos ciclos revolucionários anteriores. inscritos na estrutura e na representação que sustentam o capitalismo. perturbar e chacoalhar as certezas e referentes fornecidos pelo entorno simbólico que impede a existência do sujeito. O nível de cinismo atinge o inimaginável. Colocar-se na crise. e com satisfação geral. E quando chega a crise. É o país das “belas almas” que. 46 Ibid.. o “menos pior” que a humanidade (sic) já produziu. O evento. em uma serena cultura republicana. “O comentário é o murmúrio da impotência. ajustes e mesmo pequenas correções de trajetória. e o colapso político-econômico se abate prioritariamente sobre os pobres. 47 122 Ibid. Isto também significa retornar ao marxismo.” 121 As operações da representação solidificaram um Uno aparentemente impermeável.74 pelos pensadores materialistas.) O evento é o que vem a faltar nos fatos. p. em sua tensão dialética. a saber. e a partir do qual se pode consignar a verdade desses fatos. mais repulsiva se torna a sua relação íntima com a violência e o intolerável cotidianos. Isto significa retomar a heterogeneidade qualitativa das forças de emergência do sujeito. Então é melhor aderir a ele do que se engajar em aventuras possivelmente nocivas. p. só a recomposição de uma política digna do nome pode resgatar o evento revolucionário. p. que está no seu começo. “ O referente das experiências do marxismo deve ser desmembrado. próprio de uma democracia inativa. que triunfa retoricamente ao declarar o fim (real e metafísico) da luta de classe. a sua hipótese fundamental e indispensável: habemus proletariado!. “tratam a crise como uma suave tarde de verão. para que participe a seu modo à designação contemporânea do ‘há’. Apesar de precisar de reparos. A 120 121 Ibid.”120 Os fatos embutem uma apologia bastante simplória do capitalismo. entanto levado a sua hipótese fundadora. Lênin ou Mao. um sistema produtivo que é. na sua carga transformadora. do periodismo. Nesse cenário. refundido. se vive um status quo essencialmente bom. O político consiste num espaço nada inocente onde a classe dominante naturaliza a dominação. quanto mais inocentes e bem intencionadas se declaram. como Maquiavel..

75 dialética opera também sobre o próprio marxismo. Separar-lhe as condições objetivadas do marxismo-leninismo, — seja no socialismo real, seja no revisionismo generalizado do ocidente, — das condições subjetivas, que rasgam a linearidade da história universal “oficial”. Uma teoria marxista do sujeito político passa pelo canto de morte do político, como esfera da representação burguesa. E só pode sair das sombras lançadas pela ordem vigente, e suas técnicas de unificação simbólica, por meio da emergência qualitativa e heterogênea e, sobretudo prática, de um novo sujeito. O mundo da representação, portanto, tem por rendimento confinar o sujeito político. Trata-se de uma “situação pré-política, um complexo de fatos e enunciados tais que nele se encontram comprometidos coletivamente singularidades operárias e populares, e tal que nele é discernível o fracasso do regime do Uno. Portanto, um “há Dois” irredutível. Ou ainda: um ponto de irrepresentável. Ou ainda: um conjunto vazio.”123 Badiou chama de “estrutura” o mecanismo de amarração da situação como “esta situação”, esta forma de organizar e disciplinar a esfera do representação. A emergência do sujeito político excepciona o regime representativo que se estrutura como Uno. O evento qualifica o regime do Uno mostrando um resto ao conjunto, uma disfunção oculta e de todo essencial ao sistema unificado da situação presente. Eis o “há Dois”, da dialética materialista, que funciona por meio de práticas e processos voltados a conferir consistência e duração ao evento que cinde. O produto coletivo dessas práticas e processos, no plano da organização política, o autor define como “fidelidade”. Na ótica da ordem vigente, da esfera do representável (pela política governamental, pelo jornalismo), o evento não pode ser visto. É um impossível, um enunciado extrafactual, um “ vazio saturado de real”, um “direito sem direito”124. Por isso, pode-se dizer que o evento não se dá quando um possível acontece a partir do campo de possíveis; mas, precisamente, quando o impossível se efetua. Credo quia absurdum. As forças políticas que se manifestam no evento são inclassificáveis à luz da linguagem do poder situado, e daí a irrelevância da capacidade de um movimento revolucionário formular demandas claras e “objetivas” diante dele. A revolução não tem programa. Ser fiel ao evento

123 124

Ibid. p. 52 Ibid. p. 53

76 implica, imediatamente, não aderir aos dispositivos existentes do político, “ excluir a representação, e não ter jamais como imagem a consciência programática.” 125

2.6.

O proletariado que falta Na situação estruturada pela ordem capitalista, o proletariado falta. O

proletariado enquanto força revolucionária. No campo de representação, não aparece o seu “ser puro”, apenas o “ser situado”. Quer dizer, a sua colocação dentro de uma maquinaria econômico-política em que ele funciona como força de trabalho, mediado pelas relações de produção. As únicas contradições discerníveis consistem nas contradições estruturais, na oposição puramente reformista entre capital e trabalho. Toda a pauta revisionista esquece convenientemente que, no fundo, o operário não quer ser operário, que a classe luta por sua própria abolição. A libertação do trabalho não é o ponto de chegada da luta de classe, mas a destruição dele. O marxismo estruturalista igualmente trai a operação crucial da dialética marxista. A tarefa marxista não pode se limitar a longas e detalhadas inspeções objetivas sobre a estrutura socialmente dominante. Não pode haver marxismo sem teoria do sujeito, seu guia maior na brecha entre o subjetivo e o objetivo, por meio da dialética materialista que combina as forças e os lugares. O objetivismo marxista se resolve em mais um idealismo, que confere estatuto metafísico às estruturas sociais e rapidamente converge para o diagnóstico de que revolução ainda não está madura, então seria preciso esperar. Ao efetuar longas e detalhadas sociologias do capital, de seu funcionamento objetivo e maquinal, o estruturalismo contorna a hipótese de Marx por excelência: “há Dois”. Uma contradição antagonista, uma heterogeneidade absoluta entre os termos. O paradoxo, aqui, está em que ao mesmo tempo em que o proletariado qua força não pode ser representado pela situação, é ele mesmo quem produz essa situação. Pois, segundo a máxima marxista, é a força do proletariado o motor da luta de classe, isto é, da história. Ele falta na situação, mas ao mesmo tempo detém a força que a sustenta. Ele quem define todos os termos das contradições estruturais, como produto histórico da relação de forças. Essa relação de forças opõe, de um lado, a unidade da situação vigente, o estado, o simbólico; de outro, a revolução, o evento, o real. O paradoxo
125

Ibid. p. 54

77 está em que a estrutura social precisa, sistematicamente, negar a cisão que lhe anima e constitui. A força imanente à história precisa ser negada enquanto tal, precisa ser disposta como falta, como inoperante. No capitalismo, a estrutura social precisa ser representada sempre como movida pelo capital, — a única instância capaz de organizar o trabalho, produzir bens e exercer o governo dos homens. A ordem capitalista se apresenta como totalidade fechada, um Uno impermeabilizado de todos os lados por iniludíveis fatos (dos jornalistas, dos especialistas econômicos, dos políticos profissionais, do fetichizado “cidadão médio”).
O proletariado como classe política — como força — está ligado à burguesia em uma unidade-da-luta inteiramente histórica, que não pode ser distribuída nos domínios da totalidade social e que estrutura esse mesmo ser — o povo — sem permitir, mas na verdade requerendo, que orientemos a posição de classe em seu 126 fundamento situado, ou seja, nas relações sociais de produção.

O resultado do choque de forças define o estágio da luta de classe. A rigor, a relação entre as classes não existe, porque só há uma classe enquanto força revolucionária. A relação só acontece como relação estruturada pela ordem vigente, como mistificação da absoluta heterogeneidade. O produto histórico das lutas define a ordenação da estrutura, — como homogeneização de uma relação de outra forma totalmente incompossível. O esforço de homogeneização define o campo da representação, e é todavia perturbável e reversível. Se a força revolucionária se apresenta impura, com seus desvios “à esquerda” ou “à direita” no coração dos eventos, é porque não pode existir senão no espaço de posicionamento, i.e., no modo situado. Se pensarmos em termos dialéticos, não pode haver lógica de forças inteiramente dissociada da lógica dos espaços. O “ser puro” não existe propriamente falando, é um ponto cego aos olhos da situação, uma falta potente. Mas, por outro enfoque, se a pureza absoluta não pode existir, a força pode incidir sobre as forças que sustentam a situação, e essa força incidente sucede de existir em diferentes graus de impureza. O trabalho da militância passa a ser defender a maior pureza possível, sem no entanto desconectar-se da dialética. Quer dizer, o processo de purificação não pode perder de vista o contraefeito de determinar as determinações da situação, abolir a ordem vigente, destruí-la. Esse contraefeito é de todo indispensável. É a torção do sujeito sobre os travamentos, bloqueios e impasses produzidos pelo confinamento da classe no interior da situação, de sua totalidade

126

Ibid. p. 36

E assim degenera. as de O que fazer129). A cisão age novamente. Badiou chama esse tipo de procedimento de “subjetivo”128. se dá uma “uma luta do novo contra o velho”127. cit. p. reinscrita no campo representativo da situação. 41 129 LÊNIN. numa dupla dimensão: subjetiva e objetiva. naquela situação específica. um fenômeno real que se organiza a partir das contradições antagonistas. O que fazer – a organização como sujeito político. ou então culmina na sedimentação de uma nova configuração da situação. um conjunto de práticas.78 representativa. A dialética da força se compõe. Quando se constitui e se estatiza. ed. Não foi outra a tarefa do leninismo. tomado em sua emergência histórica. 42 . mediante as lições histórico-políticas do marxismo-leninismo (em especial. contudo.”130 O novo aparece como subjetivamente qualificado. confortavelmente de acordo com os representantes do governo e os representantes dos sindicatos”. Reduzida à fração objetiva. A tarefa principal consiste em reforçar a condição subjetiva. Está em questão uma constante concentração qualitativa de força. também desigual. a erupção do fora do lugar. é a sua fração “objetiva”. 127 128 Ibid. a inovação que ele concentra. 130 131 BADIOU. Negar a existência da radicalidade da força do proletariado constitui o rendimento principal das teorias em favor da manutenção do status quo. a luta se resolve numa dialética negativa. A cisão se aplica mais uma vez. desviada de sua qualidade. em que o processo do novo se abre e expande. pôde operar a concentração subjetiva. 41 Ibid. a rede de suas ações. e toda força é imediatamente duas: subjetiva e objetiva. ou então “se fixa na situação. 3. p. a revolução tende a esgotar a carga subjetiva. pode acontecer a política digna do nome. Nesse sentido. antirrepressiva. articulando o Dois originário. No entanto. Vladimir. Pelo contrário. em consequência. “O partido é algo subjetivo. 39 Ibid. Theory of the Subject. O partido bolchevique. Op. demasiado impura. São Paulo: 2002. p. A fração impura da força. p. Martins Fontes. em “lutas pacíficas. em figuras infrapolíticas de protesto”. com a formação da “nova burguesia burocrático-estatal. que independe do estabelecimento de instituições objetivas.”131 A luta de classe pela abolição da situação não significa que não haja uma dimensão subjetiva na última. Que os capitalistas não produzam uma subjetividade baseada na inscrição do proletariado nas relações de produção. Subjetivamente. a carga subjetiva da burguesia visa a evitar o evento. — a emergência do novo como processo de qualificação das lutas. É nessa direção que Badiou concebe o partido de tipo novo.

própria dos objetivismos e estruturalismos. Ibid. Badiou apresenta os três principais problemas para a dialética (meramente) estrutural132. p. em suma. de um mundo regulado e estruturado. As diferenças qualitativas e contradições antagonismos cedem o lugar para diferenças fracas. mas a totalidade inteira. 55-64 Ibid. É a causalidade ausente. é ele quem anima a totalidade. O que falta paradoxalmente dá consistência ao Todo. Trata-se da reedição do idealismo hegeliano. sua totalidade? Este é o problema da ação da estrutura.e. i. traz como consequência a latência subterrânea desse vazio sempre ameaçador.”133 A construção de um espaço homogêneo. Aí opera a lógica do capitalismo. a representação dessa mesma história é escrita nos termos de quem domina a situação. falha em explicar a causa imanente à situação. O que significa que o proletariado. Embora o proletariado seja o sujeito da história. sem contradições antagonistas. melhor ainda. Porque é o proletariado quem produz e move a máquina capitalista. Esse vazio. p. Como reduzir as diferenças qualitativas em diferenças de posição. 93 . na cadeia de equivalências? Como ocultar as forças atuantes para que a situação exista. O proletariado apagado da história deixa um vazio que continua a assombrar as explicações existentes. o real mesmo das forças. com a tendência de elevar o aspecto estrutural acima do histórico. e constrói toda uma artimanha conceitual ao redor dela. Ela “não tem nada a ver com o trabalho do negativo”134. a força qua termo dissipante não deixa nada em particular como rastro. o problema do que o f ilósofo chama de “termo dissipante”? E “como o não-ser da força dissipante causa o movimento dos espaços e.79 tais teorias têm de lidar com o fato incômodo de que essa mesma situação é produto histórico de relações de forças. o movimento de massa pela abolição das classes. fracas. medidos pelo dinheiro e regulados pelo direito. 55 134 Ibid. para a espacialização das relações. toda a situação estruturada vigente. A lógica dos espaços. o espaço de posicionamento (a situação) no lugar das forças. ou o problema da causalidade ausente. porque constitui índice da força afirmativa e heterogênea que o sistema representativo não pode deixar emergir como verdade. Daí que uma dialética meramente estrutural introduz a falta no lugar do sujeito. interessada em estabelecer a cadeia de equivalências em que todos os termos são comensuráveis entre si. isto é. o projeto do comunismo 132 133 Este § cf. p.

. p. cujos protagonistas são os estados. E. e o novo — o processo material e prático do novo — passa a desestruturar o velho — eis aí uma síntese do esquema topológico da revolução. cabe ao marxista militante manter-se na diligente missão de construir a partir dos pontos de antagonismo. na franja de emergência de termos com velocidade de escape à dialética estrutural. 1991. On a Finally Objectless Subject. A qualidade inteiramente subjetiva de um sujeito sucede quando este se funde com um processo de verdade. Tradução de B. & NANCY. O sujeito é um fragmento do processo de verdade. Mesmo em tempos de triunfantes declarações de “fim da história”. As forças são remetidas para o vazio. P. restritos à contradição não-antagonista. emblema do novo dentro do velho”135. 2. Fink. como objeto mudo que continua efetivo apesar de sua desaparição. mesmo nos espaços onde grassa o mais sólido consenso. Badiou enfrenta diretamente o problema da conceitualização do sujeito. o capital. Noutras palavras.) Who Comes After the Subject. Mais que prescrições vagas ou fórmulas vazias. É possível existir um sujeito destituído de toda a objetividade? A resposta do filósofo é sim. Essa emergência explode em momentos revolucionários. onde o processo constituinte do sujeito traz à tona o termo dissipante da totalidade por ele conformada. New York: Routledge. se trata de um ensinamento voltado à investigação e à pesquisa militantes. as classes dominantes. (org. pelos menores antagonismos e inovações no meio social.L. cada termo é dividido sem sair da situação. para Badiou. Na dialética estrutural. In CADAVA. CONNOR. Badiou mais uma vez resgata uma contradição analisada por Mao. O que é o sujeito? Em Sobre um sujeito finalmente sem objeto136. a ruptura qualitativa cruza os limites da situação.. entre o novo e o velho. Ele nunca aparece nas explicações oficiais. Alain. p.7. numa situação dada. O proletariado que falta pode ser perscrutado na borda do velho. cf BADIOU. dos mil pequenos buracos do queijo. um 135 136 Ibid. o limiar interno onde a lógica estrutural falha. o termo dissipante é anulado.80 constitui o termo dissipante da própria história. o que pode revolucioná-la de dentro e para além. “o marxista é o sentinela do termo dissipante. um texto de 1991. Daí que. 24-32. e a irrupção do novo se multiplica perigosamente. J. 71 Todo o § e s.

Ele efetua uma verdade que lhe é incomensurável. p. o ser vivo.J. transita e passa por ele. Não é uma coisa situada. Ele não se confunde com qualquer ideia de pontualidade. Todas essas possibilidades contam como objetos. Diferente das teorias kantianas. a sua capacidade de reorganizar a ordem constituída. Quer dizer. — pois a verdade o transcende. está dissociada do conhecimento. ou seja. com o excesso ou suplemento de ser. Não é res extensa nem res cogitans. A verdade é um processo infinito. o futuro anterior. Para atingir a consistência do futuro anterior. Bruno. desde antes de sê-lo. não é uma substância137. mas não é consciente nem inconsciente a ela. mas não sujeitos. o processo de verdade se pauta por uma fidelidade ao evento. de instaurar o novo a partir do velho. este § cf. Acredita que haja uma verdade. do qual o sujeito é uma expressão finita. o corpo biológico. E não é a unificação das vivências a partir de algum ponto focal no tempo e no espaço. para Badiou. Este processo de ruptura dispara com o evento. A verdade o precede. verbete in BARLETT. Durham: Acumen. estabelecer critérios de avaliação entre os termos da situação e a força inovadora do evento. 38-47. O sujeito tampouco é uma posição ou ponto de vista. O sujeito também não se confunde com alguma instância organizadora da realidade. ou então um conjunto de relações sociais como o “indivíduo social” de Marx. uma perspectiva específica. The subject. A verdade. Uma vez conferida consistência ao evento. como se fosse uma qualidade das proposições ou uma intuição do mundo inteligível. Ele não condiciona a experiência. a coletividade ou qualquer ente coletivo.. Não pode ser confundido com o indivíduo. CLEMENS. uma tarefa do sujeito. portanto. BESANA. os efeitos da verdade agem retrospectivamente.81 fragmento finito e local da verdade. O sujeito não pode conhecer a verdade toda. Essa verdade não qualifica enunciados. Justin. 2010. apesar dos efeitos retroativos. o absolutamente novo em estado bruto gerado para além de uma situação estruturada vigente. A. A modalidade temporal da verdade é o terá sido. O sujeito desdobra localmente os efeitos do evento. o sujeito não produz conhecimento verdadeiro mediante sínteses legítimas da apreensão ou da imaginação. a verdade é pós-eventual. que é global e o suplanta infinitamente. A nova situação terá sido. O sujeito. Nesse sentido. Esses procedimentos também são chamados por Badiou de “fidelidade” (ao evento). . Badiou: key concepts. O sujeito não está na origem nem na conclusão de 137 Além da referência anterior. como cognição sistemática ou estrutura transcendental da experiência.

ele também a excede. As consequências só podem ser desdobradas com uma série de decisões sustentadas pelo sujeito. O sujeito é. — e não existe senão como o conjunto de incidências de força sobre esses termos. O sujeito exerce força sobre termos da situação. com efeito.”138 A relação entre sujeito. um processo material formado por determinações contingentes. desde o princípio. Esse suplemento. Essas determinações suplementam a situação. Na medida em que. uma radicalmente outra. decisões sempre orientadas pela fidelidade ao evento. dividida em duas: o lado situado e o “ser puro”. um conjunto de ações práticas que obtêm efetividade em dividir os termos de uma situação: sua dimensão objetiva/situada e sua dimensão subjetiva/força. habita a distância entre o estado das coisas e a força do evento. Isto não significa que o sujeito seja espectral ou despojado de materialidade.82 algum processo. — não deixa de conter o universal. 47. Ele se coloca numa ponte entre a situação e o evento. O sujeito demonstra localmente como cada termo de uma situação pode ser desestabilizado em si mesmo. Essa desconexão sucessiva também se associa à construção paulatina de outra organização dos termos. O sujeito carrega as consequências da ruptura do evento. Contém em si. — embora singular e finito como incidente sobre determinada configuração de fatos e elementos situados. . Assim. e dotar de consistência à emergência de uma nova. e é esse é seu excesso desbordante. que a verdade infinita encerra. mas como sua nêmese. desta forma. Os elementos findam desconectados das leis da situação. e então religados diretamente na força do evento. segundo a dialética materialista. a diferença intensiva e qualitativa em relação ao já existente. deslocando a sua configuração. Procede por desconexões do campo representativo de que a situação depende para reproduzir-se e perpetuar-se. verdade e evento se articula ao redor 138 Ibid. através da rede de conexões internas e externas entre os termos situados e as forças. o sujeito só existe na situação. de-situados. o sujeito trabalha para tornar inconsistente a situação dada. E. portanto. O sistema representativo que mantém a situação pode ser colapsado a partir de qualquer termo. “É exatamente como articulação crítica do singular e do universal que o conceito de sujeito de Badiou tem uma influência radical na filosofia contemporânea. a sua essência já está. O sujeito. Se o sujeito está imerso nas especificidades da situação. nem um produto ou resultado de qualquer natureza. O sujeito opera a cisão. p. um pedaço finito de verdade.

83 desse diferencial: a capacidade material de uma práxis transformadora. .

1. Marx e o direito As bases conceituais da ontologia negriana se assentam. Spinoza. Negri pôde configurar um pensamento radical da revolução e do sujeito. Um trabalho de formiguinha. sobre dois pilares materialistas da história da filosofia. e seu rigor será tanto maior a olhos desprendidos.84 3 A ontologia constituinte de Negri Neste capítulo. Criticado com frequência tanto por marxistas quanto spinozanos mais ortodoxos. Marxista e spinozano. em Negri a recomposição do marxismo e do spinozismo está inteiramente atrelada a um projeto político. Renunciar à transitividade entre a teoria do sujeito e a atividade constituinte e imanente que . Os filósofos Baruch de Spinoza e Karl Marx. quanto maior se valorizar a dimensão política e o primado da práxis na tradição da escrita revolucionária. Seja pensando Spinoza a partir de Marx. da antimodernidade européia. o trabalho teórico e político de Negri se constrói por meio de uma releitura incessante desses dois pensadores. e assim sucessivamente. ou Marx a partir de Spinoza. suas mutações. 3. O comunismo não virá do céu. principalmente. Justifico a narrativa não linear pela necessidade de iniciar em estilo arrevesado. Pretendo começar o capítulo in media res. outra maneira de exposição. a fim de reconstruir a sua ontologia como poder constituinte. este que toma o comunismo como ideia fora da história. não será anunciado por profetas e não se construirá sob a espécie da utopia. para então refazer passo a passo a procissão interna da construção de conceitos e argumentos. em leitura cruzada. da Europa maldita. amiúde mais interessados em firmar a interpretação canônica sobre a letra fria dos autores do passado. me proponho a revisar a obra do filósofo italiano Antonio Negri. e os modos de sua inscrição no processo produtivo. à maneira dos antigos latinos. Longe de arroubos retóricos ou vagos apelos à emancipação humana. na escuta da composição da classe proletária. É o projeto comunista. Sua primazia como animador de teoria e prática não faz concessões ao beletrismo filosófico. Peço a paciência do leitor. e assim disputá-la como quem briga pela posse de uma múmia. bem como todo socialismo utópico deslumbrado. Adotarei. no entanto. Spinoza e Marx constituem antídotos clássicos contra toda forma de teologia política. o materialismo se concretiza paulatinamente na análise do sujeito revolucionário.

Teoria crítica dos direitos humanos. p. Se a modernidade encapsulou o direito —. — o legítimo portador do método “científico”. Outra forma de pensar e viver o direito. e assim distanciar em demasiado a prática da teoria. é caso de reapropriar-se do direito como arma para o empoderamento. Não precisam que lhes concedam. necessariamente. se não fizer pesquisa nas entranhas dos sujeitos existentes. como atividade. cit. servir-se dela como arma surrupiada do adversário. Em vez de renunciar ao campo do direito como um todo. 139 FLORES. concretização e assanhamento de suas capacidades. e não como norma. atributivas ou prescritivas. pés. em sua surda repetição cotidiana..85 produz o mundo. a economia. se não tiver mãos. Idealizar o pensamento. se não se impregnar dos processos de organização. como valor a efetivar-se num segundo estágio. Um direito afirmado na dureza dos embates e na criatividade dos movimentos. sim. “Reapropriar do direito como instrumento de positivação de práticas sociais. estômago e algo mais. em termos de conhecimento. Precisa que os materialistas caminhem sobre a terra. o “trabalho social”. — dentro do estado. o processo produtivo em sentido amplo. a “construção do socialismo”. — só pode significar se descolar da materialidade das forças em ação. continuam as latências subterrâneas por outro direito. como enunciador da validade ou mediador da eficácia. Op. o direito contra a norma. heterônomas ou autônomas (penso em Kant). A política precisa de chão. Aqui. O militante. para uma ontologia constituinte (arrisco dizer: uma ontologia comunista!). a proposta é reafirmar o direito. aquele reconhecido pelas ciências. quereres e potências de agir. O direito como componente de uma prática de transformação das condições presentes. 27 . se não se situa à altura das lutas de seu tempo. Porque essas forças operantes no tecido social se exprimem coletivamente num exercício do direito. — i.. se impõe na medida em que me filio àqueles que advogam o direito como potência.. de preferência descalços. ou da premência das dominações e injunções com que o intolerável se exerce. leis ordinárias ou lei constitucional. A tarefa de reconstrução das bases spinozanas e marxistas. e não como dever-ser.e. A norma em qualquer acepção: regras ou princípios.”139 Mesmo a legalidade. tornar o texto depurado da força desagregadora de toda a energia exercida pelas mobilizações e paixões das massas. Joaquín H. — uma tarefa supostamente para outras instâncias de poder que não a mediação jurídica: a política. — nada produz. Está em questão a autoprodução de um direito vivo.

Não precisam de instâncias externas para lhes dizer o que fazer. Elas não dependem de monumentais e mirabolantes projetos de libertação da humanidade. É preciso reapropriar-se dessas condições da liberdade. ter para nós o que sempre foi de direito. É mais simples do que isso. se for abstraído do movimento pelo qual se engendrou. E tampouco é a falta de algo que os move para frente. Não lhes é essencial. os finalismos. O direito não é mais do que isso. e decidir o certo do errado. Do mesmo modo que o coração tem razões que a razão desconhece. essa não passa de um afeto passivo. para . Pensar o direito com Negri. a partir de Marx e Spinoza. tomá-las para si se preciso. O desejo pode fortalecer a razão e vice-versa. passo a passo. desinteressada e “autônoma”. as teleologias. nesse marco teórico. e não suplanta a ética do dia a dia. e antagoniza às tentativas de confinamento. O resultado não é nada de efetivo. não estão presentes causas ausentes. a nossa potência e singularidade. a razão também tem lá os seus corações. As condições ontológicas da liberdade não estão distantes. Não desejam o que os sábios e gerentes do estado possam lhes oferecer: já que a riqueza social está à mão. aqui. O sujeito revolucionário investiga e encontra dentro de si. a dignidade com que reafirmam o propósito e a vontade de viver além das constrições. mas também não é menos do que isso.86 âmbitos de legitimidade ou legalidade. em termos de resistência. O que já é muita coisa. Sem prejuízo do uso derivado. e arregaçam elementos de autonomia no interior da ação política. ameaças e explorações. Uma planta venenosa do desejo que nada mais é que o desejo voltado contra si mesmo: ascetismo e moral de sacerdote. — os valores com que se autovaloriza e se autoproduz como força política. é quem define o seu direito. para poderem ser tudo o que podem. não se opõem. Uma paixão triste disfarçada de razão. a regra da exceção. pela afirmação de razão e desejo de quem vive. desejo e razão se expressam materialmente. Muitas vezes a razão que se apresenta como depurada de desejo. aos genuínos criadores do direito. — da essência produtiva imanente à malha de relações e encontros. A intensidade com que o sujeito afirma a sua forma de vida. Na práxis. a duplicidade de Céu e Inferno. a vontade de viver simplesmente. para lhes atribuir o que podem. é pensá-lo como diretamente produzido pelo ser e no ser. para lhes reconhecer o quanto valem. na gênese das forças. Não há lugar. o reconhecimento legal-estatal de grupos de pertencimento. de regimes discursivos dessa natureza como tática de luta. posterior e segundo. Nesse sujeito que deseja afirmar-se. Razão e desejo.

87 concepções platônicas que tripartem o ser humano em razão, vontade e apetite, onde caberia à razão superior (o estado) dirigir a vontade (os interesses individuais) para controlar os apetites inferiores (a incontinência, o crime). As paixões se digladiam no domínio das paixões, em graus de intensidade que cruzam sem distinção real o plano da razão. Não existe estado desapaixonado, como sabe muito bem quem já apanhou da polícia, tanto mais sórdida quanto mais desinteressada em você. Orientar o carnaval de paixões e amores, no melhor moralismo de tradição francesa (Montaigne, Molière, Pascal, La Bruyère), continua sendo uma tarefa eminentemente política. Cada sujeito é animado por uma pulsação interna, um ímpeto propulsivo, um ânimo de desenvolvimento expansivo, — que porventura, ou quase sempre, vem a debater-se contra as condições limitadoras e antagonistas impostas pela ordem. Vai-se do ser ao sujeito por meio do desejo. A essência afirmativa do sujeito acelera a sua propagação na rede de relações sociais. Exprimese sem negatividade nas formas reais de sua efetuação. E se, por acaso, desenvolve a potência do não, o faz reflexamente, o faz ao afirmar seu processo constitutivo, despojado de referência ao vazio ou ao não-ser. A pulsação do desejo no sujeito impele a afirmação radical e exaustiva de seu poder causal, de tudo aquilo que ele quer e que ele pode (e poder querer o que se pode marca a máxima potência). Desse vórtice, tende a realizar todos os efeitos de seu ser, enquanto constitutivos desse mesmo ser em ato, aliás a única modalidade da existência para Spinoza. Essa realização plena assume imediata dimensão ética, inseparável da política, e se projeta diretamente no terreno da libertação. O desejo provoca a combinação de afetos. Eles se buscam, se excitam, se encontram, se alegram. Os encontros mais gratuitos e as combinações mais desarranjadas contêm a sua produtividade, ainda que inservível na lógica e métrica do capital. A combinação dos afetos ativos termina por potenciar a alegria do conjunto. Quer dizer, a potência de efetuação de todos juntos sem depor suas diferenças internas e irredutíveis. Daí que o desejo é o próprio mecanismo de libertação. O poder constituinte embute um mundo ético a efetuar-se, um horizonte político de contestação das formas de represamento do desejo. As relações de produção ordenam as forças produtivas para desviar, bloquear, explorar e expropriar a potência comum de produção de ser. Aí, nesse circuito de coações, se instala o regime de acumulação do capitalismo. Mas eis também o paradoxo intrínseco do capitalismo. Se ele precisa jogar com o desejo, a base última de todo o sistema produtivo, para possibilitar a exploração e

88 aprofundar a dominação, esse mesmo desejo é revolucionário, imprevisível, agressivo, — e lhe ameaça como um espectro índio a rondar a civilização. A afirmação do desejo se revela uma política da constituição, uma prática de liberdade, uma abertura ontológica para o novo, uma subjetividade que se propaga e desarranja, destravando bloqueios e potenciando encontros; uma força incontável dentro, contra e além do “modo de produção”. Lênin talvez tenha sido o primeiro a desenvolver uma práxis em que a organização da produção é a essência da política. O soviete original tinha por rendimento articular a decisão (o conselho) ao desenvolvimento produtivo (a industrialização). A arte da política está em organizar os bons encontros, do que convém ao plano de composição política dos diferentes, em combinar as potências produtivas. E dessa maneira maximizar a existência, como riqueza crescente de relações, afetos e produções. Organizar os encontros: multiplicar os nós de cooperação e sinergia, conferir e sustentar-lhes as condições de expansão e contágio e duração. Uma produtividade mobilizada pela alegria dos agentes de produção, que produzem na medida em que se produzem na sua desejada esfera de realização pessoal e aprendizado. Tem-se aí um direito voltado ao máximo existencial, na arte da expansão da potência combinada dos homens. Esse direito do máximo existencial depende da construção de uma base produtiva, do estabelecimento concreto de redes de empoderamento, educação, saúde e renda para todos. Eis uma engenhosidade da alegria: concretizar instituições que deem suporte à democratização de uma produção em que todos são sujeitos, de uma produção qualitativa voltada à combinação e recriação desses mesmos sujeitos. Esse engenho se situa do lado da afirmação, da pars construens implícita em qualquer processo de transformação. Uma imaginação voltada a elaborar novos modos de organizar as relações, além do capitalismo. A construção desse direito e dessas instituições não significa reproduzir as instâncias de normatividade e a economia das coações na base do capital. Mas, sim, conferir duração às condições necessárias da expressão ativa e alegre do desejo e da razão, fortalecendo dinâmicas alternativas que já existem e lutam para continuar existindo. O direito como potência não se deixa enquadrar como outra norma dotada de coerção, pairando sobre súditos amedrontados. Mas, por outro lado, não se furta a instituir-se. Essa instituição da potência de agir pode ser definida como instituição de um

89 exercício comum de direitos140, implicado na reunião das capacidades sociais, da multiplicação de encontros produtivos, do lançamento de redes colaborativas e, como consequência, a libertação da cidade diante do tirano e sua manipulação de medo e morte. Nesse direito, não opera a guilhotina entre eficácia e validade, nenhuma deontologia mascarada de humanismo pequeno-burguês. Viver o direito com Negri significa também colocar-se no nível da produtividade imanente da vida. Habitar a beira do dizível e do visível, o que não aparece nas narrativas convencionais, essa coisa louca, a franja constituinte a partir do qual sujeitos e objetos situados na história vêm a existir. As instituições do direito comum se constroem sob esse ponto de vista, por dentro da franja de emergência do novo. Jamais da perspectiva do estado ou do poder constituído, do tirano e da economia mórbida de inseguranças, de tudo isso que sustenta a perpetuação do que já está, em toda a sua carga de intolerável e injustiça inscrita nas relações de produção. Não dá pra falar em direito comum sem se impregnar de copesquisa no seio dos novos movimentos e da política radical. Perquirir um direito em movimento, uma alternativa política de constituição de autonomia e produção além do estado e do mercado, do público e do privado141. É verdade que essa instituição do direito comum pode até vir a operar como instância externa ao agente. Uma organização das relações com que ele se depara sem participação direta anterior. Ele não se identifica inteiramente com o processo de sua constituição, mas nessa distância, ainda assim, ele pode produzir, abraçar a diferença sem renunciar à própria, conjugando e potenciando-a. Isto indica a necessidade de abertura na formulação das instituições do comum, bem como um desapego a identidades e propostas enrijecidas. A instituição não pode prescindir de um forte componente mutante. Só, assim, pode evitar a redução ou síntese das diferenças em mínimos denominadores, empobrecendo as dinâmicas, entristecendo os que não se ajustam à identidade coletiva. Essa forma de produzir depende também do cultivo da alegria, no sentido rigoroso e filosófico do termo: aumento da potência de agir e existir propiciado pelo bom encontro. Não é outra a definição

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Sirvo-me da elaboração teórica do direito comum, sob a inspiração da ética spinozana, por GUIMARAENS, Francisco de. Direito, ética e política em Spinoza. Op. cit. Recomendo especialmente o cotejamento com a deontologia kantiana, origem de muitos normativismos modernos, p. 163-210. 141 Sirvo-me também das formulações do direito do comum, uma linha de elaboração do direito e das instituições fora da dialética moderna do público e do privado, do estado e do mercado. Por todos, Dentro/contro il diritto sovrano; Dallo Stato dei partiti ai movimenti della governance. Verona: ombre corte, 2009. Recomendo ainda a tese recém-publicada de MENDES, Alexandre F. Além da ‘tragédia do comum.’ 2012. 202 f. Tese (Doutorado em Direito) – Faculdade de Direito da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro. Disponível online em http://www.4shared.com/office/v4y85rOf/tese_Comum_AFMENDES.html. Acesso em 20 ago. 2012.

por uma escala de intensidades no próprio interior da produção. Belo Horizonte: Autêntica. afirmam todos). — o conceito de “modo de produção” assume uma dimensão ontológica. também se segue da mesma necessidade que Deus faça infinitas coisas. a ideia de produção não se resume a concepções objetivistas. — segundo o reducionismo da ortodoxia marxista e/ou estruturalista. 3.) a potência de Deus não é senão sua essência atuante [actuosam essentiam]” SPINOZA. — em suma. Op. p. Joaquín H. as vinculações (relações de composição). O capitalismo não se resolve como uma forma de estruturar as relações sociais somente na sua dimensão econômica. (. patrão e empregado. ou biopolítica. A imanência entre ser. O que nos convém. política e direito indicia a necessidade de articular a teoria do sujeito com a crítica do sistema produtivo. na dobradura e redobradura de política e vida. são os entrelaçamentos. Desafiar a métrica com que o capital faz comungar capital e trabalho. no entre eles. 241. cit. que assim se segue da necessidade da natureza divina que Deus compreende a si próprio (como. cit. mas contestar a própria lógica quantitativa. funcionando.90 spinozana de amor: “a alegria acompanhada da ideia de uma causa exterior ”142. Ética. nem do sujeito. e se desenreda por uma dinâmica intensiva. o campo prolífico em que se geram permanentemente processos de efetuação de objetos e sujeitos. distribuição e consumo de coisas e bens. os compromissos que produzam cada vez maior intensidade. E ainda: “minha liberdade começa quando começa a do outro. mas no interstício. isto é.”143 Uma vez instituído o exercício comum dos direitos. maior liberdade em nossos encontros. quer dizer. escólio. o dinheiro se torna o operador com que um sistema 142 143 144 SPINOZA. esse líquido amniótico do mundo capitalista. é preciso continuar propiciando a combinação alegre de desejos e razões. 6ª definição dos afetos. ética. realiza o amor: o amor da construção comum. lucro e salário. .. pois. 2007. que achatam o conceito de produção à mera produção. tudo o que. dívida e renda. 83. não é questão de produzir ou consumir mais ou menos. p. unanimemente. Tradução de Tomaz Tadeu. bem como a articulação e animação entre eles. Na subsunção real. II. Teoria crítica dos direitos humanos. Em Negri leitor de Spinoza. A produção quer dizer também produção de subjetividade. Ética. a adequação mútua dos muitos componentes diferentes na sua diferença. FLORES. a cooperação. a métrica definida pela comunhão do dinheiro. uma vez que o próprio ser é atividade produtiva infinita de todas as coisas.. 185 “Deus age pela mesma necessidade pela qual compreende a si próprio. p. Op. Em Negri leitor de Marx. A produção de subjetividade não se situa do lado do objeto. os entretecimentos. à organização objetiva e/ou estrutural dos circuitos de acumulação e valorização. na base material de condições desse exercício. como essentia actuosa144. Noutras palavras. de infinitas maneiras. Isto é.

em que o capital inscreve os objetos e sujeitos. Sem o capital. Aí a crítica avança além das . Nessa metafísica. um desdobramento menor. É uma crítica à própria metafísica do capital. o capital se apresenta como a única instância competente para organizar as forças produtivas (o “em-si” da produção). Autônomo. Negri não se limita a descrever minuciosamente o campo transcendental. a destrinchar os dispositivos e estruturas que sustentam a economia política. o capital investe as subjetividades imanentes aos corpos sociais à moda do sujeito transcendental.91 financeiro demiúrgico controla os fluxos produtivos numa escala ao mesmo tempo vasta e infinitesimal. quer pelo lado dos objetos: como sociologia do capital. O campo transcendental se ordena internamente como relações de produção. Os objetos e sujeitos são dispostos como termos dessas relações mediadoras. reinaria o caos numênico. mas o campo transcendental que os sintetiza. mesmo. da sociedade do espetáculo ou de consumo. só o burguês. moral ou produtividade poderiam existir sem a sua mediação “imanente”. A moeda é a polícia do capital. — absolutamente imprescindível em sua ontologia comunista. Com a mesma analítica transcendental. O processo do capital se disfarça de transcendental. Não o faz. a desordem social como improdução e estado de natureza. e assim efetuar objetos e sujeitos no mundo. Nessa tarefa. num esforço teórico além de Kant. Nem pelo lado dos sujeitos: por quaisquer das vias disponíveis no pensamento radical: a crítica da indústria cultural. Nessa operação de captura. o caráter produtivo do trabalho depende da ação indispensável do capital. O sujeito transcendental exprime o conceito com que a forma capitalista drena os conteúdos. A crítica imanente negriana se orienta pela percepção de como o campo transcendental da sociedade capitalista já é posterior. Refiro-me ao sujeito kantiano. como engrenagens e agentes de produção. o único uso legítimo das sínteses da produção de sujeitos e objetos. A hipótese negriana da subsunção real. ontologicamente segundo. enquanto máquina abstracionista de sínteses. Mas esse campo das relações de produção já é um desdobramento das próprias forças produtivas. Não se limita a criticar sujeitos e objetos. O capital se apresenta como campo transcendental. menos potente. e nenhum conhecimento. a coloca-se a necessidade teórica de exercer uma crítica imanente às condições transcendentais da produção capitalista. o conjunto de formas e sínteses que possibilitam o conhecimento e a organização dos fenômenos a partir do númeno incognoscível (o “em-si” das coisas). Diante dessa mistificação. — avança as armas críticas do marxismo por sobre esse campo transcendental.

Desta forma a imediata produtividade que é a liberdade material opõe-se às metafísicas que prescrevem medições entre o transcendental ao constituinte. sem se limitar à crítica da produção de sujeitos e objetos (segundo momento). perspectivas e instituições de tipo novo. o sujeito transcendental é imposto como mediação necessária e civilizatória. a ontologia do ser é tal que essa produção biopolítica reúne qualidades suficientes para auto-organizar-se. a imanência produtiva. Trata-se das qualidades cooperativas e imaginativas do saber social de massa. podem ser maquinados seres híbridos ao capital. uma separação do que elas podem. e instituições onde se pratica a autonomia. para a geração de sujeitos e objetos outros. Tem-se assim uma crítica da própria mediação (passagem despotenciante do primeiro ao segundo momento). assim. vivente. Formam-se novas subjetividades com velocidade de escape às operações de acumulação e exploração do capital. afetos. aplicada na substância primeira: o ser produtivo. não coincide com a transformação da realidade dos objetos por um sujeito que lhe é externo. afinal. o intelecto geral social. onde as ações e produções se sucedem. Essa maquinação . um processo de multiplicação de relações. e desta vez sem mediações. num processo dinâmico de deslocamentos intensivos e extensivos. Com isso. — um desbloqueio geral das capacidades naturais e culturais. mostrando a sua correlação com as forças produtivas. Se. usando-o segundo um entendimento transformador. no capitalismo. As relações de produção consistem num recalcamento de tudo o que as forças produtivas podem. constituinte. para colocar imediatamente a imanência da produtividade. formas de vida outras. Na subsunção real. A manobra consiste. trânsitos entre os planos heterogêneos de formas de vida. Além (e aquém) do transcendental. com todas as mediações implícitas. a produção biopolítica como suficiente para a organização da produção. em resgatar essa produtividade imanente à política (primeiro momento) e à vida dentro do escopo da crítica. Acelera-se. Essa liberdade acontece na expressão imediata de um poder ontológico que produz o sujeito no ato mesmo em que o conecta no sistema múltiplo e relacional (o ser produtivo). A implosão do “modo de produção” livra o campo transcendental. trata-se de desafiar as suas condições e sínteses. As relações de produção se assentam nas forças produtivas como uma espécie de casca apodrecida ou armação esquelética. Como se o sujeito se apropriasse do objeto fora. A liberdade spinozana.92 relações de produção. imediatamente na auto-organização. formações subjetivas em estado deliquescente.

político e econômico. Madrid: Akal. p. O capital passa a organizar a sociedade como um todo a partir do processo produtivo. multitud. Trata-se do capítulo VI inédito do Livro I do Capital146. — só por esse fato e nada mais. ambos por Antonio Negri In DEL RE et al (org. Quer dizer. a serviço dos capitalistas. — e sem se reduzir a fórmulas vazias. O caso é reunir a imaginação com o pragmatismo. 2008. 146 MARX. poder constituyente. palavras de ordem ou seitazinhas enfadonhas que confundem suas fraquezas psíquicas. o processo do capital incorpora em seus circuitos alguma determinada dinâmica de trabalho preexistente. 2004. o capital organiza diretamente as condições sociais de funcionamento do trabalho. Na subsunção formal. porém não deslumbrado. Os economistas clássicos teorizam o mundo da produção do ponto de vista do capital. Essa dinâmica começa a se verificar com a revolução industrial. Lessico Marxiano. . 3. A subsunção real e a destruição do valor A distinção entre subsunção formal e subsunção real aparece na obra de Marx145. apropria-se dos lucros da pequena economia camponesa ou das manufaturas artesanais. p. Tradução de Klaus Von Puchen. comunismo. — o sujeito liberta a produtividade do parasitismo capitalista. Por exemplo. 87-94 e 118-136. Sua ação disciplinadora se dissemina por todo o espaço social. São Paulo: Centauro.2. Apuntes para un dispositivo ontológico.. desgraças íntimas e credos religiosos com trabalho político de verdade. Capítulo VI inédito de O Capital. 2006. Antonio. em que as diferenças possam atuar e produzir juntas. Karl. 179-260. surgem também as primeiras teorizações. Juntas sem perder a força implicada nas próprias diferenças. É uma forma mais aprofundada e generalizada de organização do trabalho.). Fábricas del sujeto. O comunismo desmonta a lógica transcendental com que o capital se autojustifica. E assim. doravante inseridas no circuito de trocas e mercados. subsunción real. regulada de cima a baixo segundo as exigências do lucro. Junto dessa mutação da maneira de produzir e organizar a sociedade. Na subsunção real. In Fábricas Del sujeto / ontologia de la subversión: Antagonismo. organizando o viver na distância constitutiva entre elas. no ritmo em que o capitalismo industrial financeirizado se torna dominante como poder político. E também os verbetes Crise della legge del valore-lavoro e Lavoro produttivo e improduttivo. Surge a “sociedade de fábrica”. Tradução de Marta Malo de Molina Bodelón e Raúl Sánchez Cedillo. num ativismo alegre. seus limites e suas brutais desigualdades. embora considerem o trabalho como fonte 145 Este § cf NEGRI. e logo o edifício da economia política clássica se torna hegemônico na academia. Roma: manifestolibri.93 depende de um perspectivismo. Só pode obter êxito ao materializar um plano de composição política.

na sociedade capitalista (i. O tecido social passa a estar atravessado pelas formas capitalistas. as tecnologias e ciências. o transporte. Trata-se de teorias cegas para a dimensão conflitiva no âmago do processo produtivo (fato incômodo usualmente relegado à “autonomia do político”). A partir deles se organizam as tecnologias e as máquinas.e. tem o capital por indispensável para o funcionamento da produção social de um modo racional. eficaz e seguro para todos. a ser mediadas pelo valor. Na subsunção real. A ciência e o conhecimento em geral estão no centro da produtividade. de modo que o capital se alimenta das forças produtivas sociais na sua totalidade. Toda a sociedade é colocada para viver em função do mundo do trabalho. a família.94 primordial da riqueza. E recompor o teatro completo. bem como o modo de vida do trabalhador durante a vida toda: a moradia. na medida em que. Com a subsunção real. perdem a força subversiva distinções entre estado e sociedade civil. também sobre essas capacidades criativas e cognitivas da população. subsumida pelo capital). — e não apenas no lugar e tempo de trabalho formal.. Isto inclui os saberes sociais. por isso. mais uma vez. com os personagens antes à sombra. de uma forma ou de outra. as técnicas. Essas forças produtivas se exprimem no conjunto de relações sociais. que se agenciam aos corpos para produzir com mais eficiência. Essa subsunção. implica o . uma potência viva em estado magmático. A subsunção real avança. A população. o que as inscreve. automaticamente. ou estado e mercado. existem duas classes em oposição de interesses. a saúde. e desigualdades estruturais onde quer que se olhe. serviços e mobilidades sociais passam a ter um preço. no mercado integralizado. o capital passa a ordenar a metrópole. O capital se esforça por consumir a capacidade socializada difusa. Visa a captar a enorme produtividade difusa. seus espaços e seus tempos. Todo esse conjunto de saberes se torna essencial para o funcionamento do capital. o mando próprio ao modo capitalista se reconfigura na subsunção real. penetrando na sociedade como um todo. o lazer. a partir da potência produtiva disseminada pelos muitos. A crítica de Marx não faz mais do que suprir a cegueira conveniente dos economistas clássicos. desmistificando as sínteses do processo produtivo sob a espécie do capital. mediante a integração de todas as atividades produtivas. que se tornam cada vez mais indistinguíveis entre si. Praticamente todas as atividades. uma vez que os termos estão emaranhados dentro do mesmo processo em essência. o intelecto geral social. Desse modo. dentro e fora da fábrica. nas relações mais cotidianas. é inscrita nos circuitos de produção e reprodução.

ele é obrigado a mutilar e limitar parte da produtividade. sobre a produtividade imanente aos circuitos sociais de geração. por onde circula e é produzido o conhecimento. da exaltação do mundo do trabalho à família burguesa. Em suma. em estado fluido. Mas o capital não visa à superabundância. esse conhecimento não se produziria. encontros e instituições do comum. Sua missão está em fazer aparecer que essa estrutura técnico-cognitiva do processo de produção resulta da ação do próprio capital. a forma do valor é o instrumento com que o capital se equilibra na corda bamba entre as forças produtivas e o fato cru do comando e da desigualdade. e o valor se revelará o embuste. Se essa autonomia atingir um grau de qualificação que prescinda do capital. — o “intelecto geral social”. A lógica que o impele está em valorizar o valor. O valor é a medida com que o capital transita do qualitativo para o quantitativo. não teria utilidade. que o capital tem que se apropriar. precisa impor limites e freios para que possa continuar objetivando o valor. nas redes colaborativas imanentes à população. ou então seria mal aplicado. produzidos em regime de compartilhamento e cooperação. Que sem o capital. o capital se autoatribui a autoria. Nessa operação de forja do valor. Que ele reduz a qualidade infinita das forças produtivas em quantidades mensuráveis. O valor objetiva as subjetividades impregnadas no processo produtivo. compartilhamento e difusão do conhecimento. chama de general intellect. essas formações deliquescentes que mobilizam as relações. É o que Marx. Sucessivamente. o mérito e a propriedade sobre o conjunto dos saberes como um todo. Ele se forma pela combinação social de saberes e tecnologias. mas ao lucro. jurídico e político ao valor por ele objetivado ao explorar o trabalho. sobre a inteireza da ciência. As forças produtivas se expandem sempre em direção à superabundância. nos Grundrisse. não seria organizado. a fim de continuar desenvolvendo a si mesmo. na medida em que precisa objetivá-la e quantificá-la. ele não conseguirá manter as subjetividades sob controle. Ao mesmo tempo que não pode deixar de mobilizar as forças produtivas a continuar produzindo. Daí só . uma espécie de mente trans-individual interna às redes sociais. É o estado geral das ciências e saberes.95 lançamento de relações de produção sobre a superfície imanente das forças produtivas. O domínio sobre o intelecto geral social se torna vital para o capital prosseguir “revolucionando” os modos organizativos e as tecnologias sociais. Uma maquinaria de abstrações que vai da abstração do indivíduo à forma jurídica. dar respaldo científico. A autonomia imanente às forças produtivas deve ser mantida sob controle.

o capital manobra politicamente para conciliar os múltiplos antagonismos e incorporar os elementos de autonomia que lhe resistem. não poderia canalizar as potências vivas. os lugares em que essa evidência novamente se torna incômoda. das tecnologias. O . — do trabalho vivo. porque prescinde dos limites e injunções das relações de produção. em proveito de suas exigências estruturais: lucro e acumulação. Na subsunção real. em proveito do bem comum. na agora “sociedade do trabalho”. O capital administra o paradoxo de precisar controlar o trabalho vivo. e se realiza enquanto mercado. e tudo simultaneamente.96 possa sobreviver ao conformar a imensa riqueza dos saberes sociais. ao mesmo passo em que não lhe pode sufocar a sua produtividade. O capital também informa uma subjetividade. O trabalho vivo é sempre mais produtivo e expansivo se auto-organizado. cooperativas e autônomas do trabalho. Nada pode ser a ele mais pernicioso do que o tumulto e a greve. da capacidade de o capital se apresentar como necessário. procriadoras. Faz isso ao anunciar-se como indispensável. é acumulada uma gigantesca força produtiva combinada e difusa. Parte da integração pode se dar com a reinscrição dos elementos de autonomia no processo de valorização (tentativa de conciliar os antagonismos). para utilizar expressão de Marx nos Grundrisse — para a formação do valor. No valor. das ciências. garante e diretor da eficiência. O valor colocado em movimento é o capital mesmo. do sucesso e da regularidade das atividades produtivas. Na subsunção real. rompendo com os dogmas ocultos da economia política clássica. O valor é a operação de mistificação por excelência do capitalismo. como empreendedor. com que tenta investir os agentes que consegue inscrever em seu processo heterônomo. Essa operação expropriatória tem na sua essência a forma do valor. à necessidade de mistificar o funcionamento real da produção social e do valor. e mesmo ser desejado como o operador da socialização e da unificação de todos. há uma preocupação grande em integrar os espaços de autonomia. essa apropriação depende do poder de mobilização dos agentes. Parte dela. A forma do valor destaca esse suplemento qualitativamente imensurável. e objetiva-o como medida da exploração. embora mórbida e miserável. No entanto. — menos por interromper a produção do que por evidenciar insofismavelmente a improdutividade intrínseca do capital. Como resultado da socialização do mando capitalista. — e também. Se deixasse correrem inteiramente livres (no sentido da liberdade spinozana) as forças produtivas. está em questão uma métrica: sistema de critérios e medidas com ares científicos. por repressão direta (supressão simples).

O problema da métrica do valor. o resultado do investimento generalizado do processo produtivo pela sociedade capitalista (estado e sociedade civil. A crítica do valor. que em movimento é capital. Essa métrica tem por objetivo quantificar a produtividade social global. aqui. O problema da forma do valor consiste. passa primeiro por expor como ele mascara o antagonismo. não há mercadoria. As forças produtivas permanecem atuantes e renováveis durante todo o percurso. nos entremeios do intelecto social geral. ao sintetizar/objetivar a subjetividade e o trabalho vivo. amorfas e maquínicas. isto é. — com tudo isso. em algum momento. O valor enrijece a produtividade. Dentro de todos os valores circulantes. quanto à sua capacidade de objetivar. as forças produtivas (agora inteiramente sociais e socializadas) não se resolvem nunca em produtos como linhas de chegada. na sua singularidade. A luta de classe. está em como reduzir os processos aos produtos. O valor exprime a organização desigual do trabalho de todos. varia em função do estado das lutas. implícita na subsunção. Longe de propor uma história natural da progressão do valor mediante a subsunção real. as distintas atividades produtivas não têm medida comum. estado e mercado). a partir do qual começaria a próxima etapa: a circulação e distribuição dos bens. onde a medida comum é o valor. Desconstruir o valor. é a crítica do mundo do trabalho. uma produtividade objetivada que o dinheiro compra. a produtividade imanente pode repousar e receber um preço. do ponto de vista do . e também as subjetividades proletárias que produzem na superfície dos processos. já está uma subjetividade mascarada. incompletas e fragmentárias. O fogo plasmador do trabalho vivo é cristalizado como valor. coloca-o em marcha. Quer dizer. Em essência.97 mercado se caracteriza como espaço homogêneo para a realização das trocas. Sem valor. em consequência. e fazer crer que. do ponto de vista teórico. nesse sentido. não se produzem apenas produtos e coisas estritamente confinadas em limites extensivos. trabalho morto. — e é tão bem sucedida na operação quanto mais subjetividade proletária conseguir sintetizar. ou seja. fazendo avançar o processo dialético e realimentando o processo. quantidades intensivas que repercutem diferenças irredutíveis do viver — uma heterogênese absoluta. se criam formas de vida e modalidades de convivência. A circulação mercadológica realiza o valor. de explodir o conceito de valor como representação material da desigualdade. se trata. No viver mesmo. no fato de as forças produtivas geram qualidades incomensuráveis entre si. mas sobretudo subjetividades. A forma do valor. como subjetividades pregnantes das coisas do mundo.

canalizar e frear a forças produtivas conforma o que Marx chama de “relações de produção”. circulação e consumo. — segundo as narrativas-padrão. Com tudo isso. Essa objetivação permite que o capital integre a si mesmo com o termo que lhe é absolutamente heterogêneo: o trabalho vivo. que vai da produção propriamente dita ao consumo. o aparato capitalista precisa impor enquadramentos. As relações de produção estão em um grau inferior de potência em relação às forças produtivas. e congela suas intensidades e ritmos desarranjados. as da economia política clássica e neoclássica — dispor as forças produtivas segundo um ciclo de realização. em inesgotável variação contínua. Esse sequenciamento produtivo mistifica a imanência da produtividade. canalizar e. redutora da sincronia em que acontecem confecção. do conjunto do trabalho vivo. a variação contínua do ser às divisões do mercado.98 capital. onde todos os momentos da produção se encontram interconectados e intercruzados. As relações de produção se aplicam no capital aplica sobre a imanência social. Daí o capital. Essa medida embute a violência. — essa permite a concentração de poder. mas em moldar-lhe. Basicamente. A estruturação para enquadrar. O valor — até o ponto em que essa operação política for bem sucedida contra a resistência de classe — resulta da quantificação e homogeneização da produtividade imanente às forças produtivas. Perde de vista todo o processo produtivo de subjetividades que atua igualmente em cada “momento”. o qualitativo do processo no quantitativo do produto. E essa medida quantificadora se exprime como dinheiro. o valor objetiva a subjetividade. embora o capital faça crer que as relações de produção é que potenciam e viabilizam a produtividade. no âmago das relações de produção. frear o processo. a partir da forma do valor. O cutelo da teoria do valor sobredetermina os primeiros termos. O domínio capitalista sobre o dinheiro traça . quer dizer. até certo ponto. o equivalente geral forçado pela violência. se viabiliza uma medida comum entre o capital e o trabalho vivo. Esse ciclo é uma mistificação do começo ao fim. noutras palavras. e abstrai no mundo real os segundos. desacelera-a. Ao objetivar o valor. se pretender aplicar a lógica do valor. o que acabaria com a produtividade. A linearidade desse ciclo não procede na materialidade do sistema produtivo. Sua temporalidade é simplesmente abstrata. consiste não em apagar o fogo. passando pela distribuição e circulação. Quer dizer. o intensivo das subjetividades no extensivo de sujeitos e objetos encalacrados. a lógica do valor tem por objetivo reduzir o heterogêneo das subjetividades ao homogêneo da economia política.

99 violentamente um espaço homogêneo. Seu engendramento é resultado da luta de classe. nesse processo com duplo polo. A maquinaria distributiva depende. O capital em tempos de sistema financeiro global se move a grandes velocidades. de volta para componentes da força produtiva que é seu alfa e ômega. ele distribui frações cada vez menores. O dinheiro estabelece a substância comum que comensura o preço das coisas e os salários. Controlar o dinheiro é controlar a sociedade capitalista. da construção de sujeitos sociais dotados de direitos. Eis o fundo inquestionado de todas as políticas comunitaristas que não questionem o espaço onde as comunidades podem ser assentadas e desdobradas. Dá. Se o capital drena o poder político da gigantesca força produtiva social combinada. o “fogo plasmador” segundo Marx. os sujeitos coletivos e mesmo difusos. se pode organizar e reorganizar sucessivamente os ritmos e fluxos de trabalho e trabalhadores. A economia clássica dogmatizou o indivíduo. o trabalho vivo. Ele alisa todas as diferenças qualitativas e heterogeneidades essenciais. toda uma racionalidade para as relações de produção. A rigor. os bens “primários” e outros conceitos burgueses — dessa riqueza. . A matéria comum. multicultural e que tolera as diferenças chama-se o dinheiro. o manancial inexaurível das qualidades relacionais. o salário “mínimo”. para aplainar o deserto por onde o capital pode se movimentar a grandes velocidades. o desdobramento da forma jurídica. a quem cabe um filão da totalidade da produção social. O trabalho vivo ocupa o âmago da produtividade da vida. bens e rendas. a figura por excelência da subsunção real. coletiva difusamente. compatível com as sucessivas matrizes de relações de produção do capitalismo. a teoria do valor se propõe a desenvolver a cadeia de equivalências. das estratégias e manobras materiais na marcha de afirmação de direitos e sua tentativa de síntese pela classe capitalista. Estes últimos. individual. a comunidade das comunidades. o que implica um grande esforço de construção e manutenção desse espaço homogêneo. O trabalho vivo. não se confunde com o trabalho concreto ou o abstrato. Derivações da teoria do valor forjam uma noção de “justiça” na distribuição de salários. as dívidas e as rendas. Tem-se a versão capitalista do suum cuique tribuere. mas as teorias capitalistas do século 20 e 21 também abstraíram das forças produtivas as comunidades. busca distribuir o mínimo — “mínimo” existencial. desde o princípio do capitalismo. Por meio do sistema financeiro. assim. portanto. logo acompanhado das teorias políticas novecentescas. sem questionar o seu cerne. Do ponto de vista econômico. Uma justiça distributiva para dividir a produção social.

Ou a revolução existe como desmedida. — o nó górdio entre poder constituinte. imaginativas. autonomia. Em última instância. a vida da população. o livramento do trabalho vivo e seu poder constituinte. Nenhuma conciliação ou síntese à vista. Nesse sentido. que Negri radicaliza o materialismo crítico. O trabalho vivo continua pulsando por dentro das malhas de captura e exploração do capital. a recusa à teoria ao valor é total e não faz concessões. Por evidente. ou não existe. mas dificilmente questionam a injustiça e brutalidade da teoria do valor. . Não há distinção de natureza entre valor e mais-valor. O comando apenas muda de mãos e o processo termina por se reproduzir. O produto das relações de força entre as classes determina a situação social. Não é por acaso que o trabalho vivo se situa no coração da filosofia negriana.100 cooperativas. O socialismo em questão racionaliza a teoria do valor. O ponto em que começa a liberdade produtiva. É aí. o processo de socialização da exploração — deve ser inteiramente destruída. a “construção do socialismo” não toca nas condições de exploração do capitalismo. enquanto ele mesmo não precisa do capital para existir. procriadoras. para lhe extrair o máximo de valor de vida. amorosas e desejantes. na subsunção real. Ele rejeita por completo a teoria do valor. E se existe disputa entre capital e trabalho. biopolítica e afirmação do comunismo —. Nenhuma medida da exploração é aceitável. a base de toda a dinâmica produtiva e a chave de sua inteligibilidade enquanto antagonismo diante das formas de dominação capitalista. nesse ponto. é o trabalho vivo quem sustenta todo o processo produtivo. durante todo o tempo. a teoria do valor — isto é. O filósofo vai contestar não somente a utilização “à esquerda” da teoria do valor. Este é apenas uma expressão situada do primeiro. Dificilmente uma teoria meramente distributiva problematiza a teoria do valor. mas o valor como um todo deve ser desmontado por uma práxis constitutinte. os burocratas do estado. autovalorização. De qualquer forma. as tentativas de governos em encontrar mediações mais humanas ou vantajosas ao trabalhador. ao submetê-la ao planejamento pela nova composição da classe dominante. não ameaça a lógica do valor. Na subsunção real. senão o fim da medida. trata-se de uma disputa desigual. até onde vão as condições de exploração do trabalho. mas também o próprio socialismo real. o capital tenta incorporar a sociedade. As teorias da “justiça” podem se temperar com doses variadas de humanismo e assistencialismo. isto é. o estado da disputa resulta da luta de classe. bem como o principal conceito da ontologia da produtividade que Negri atribui à era da subsunção real. partidário ou teórico.

ainda que . Na verdade. O trabalho vivo. como se existissem sob um pano de fundo comum. a produção da cadeia de equivalências e axiomas. A práxis constituinte se desdobra no exercício da imaginação. mas também não o buscar gratuitamente. seria tão absurdo quanto se perguntar o que é mais: vinte metros de corda ou quinze quilogramas de arroz? Só a mistificação capitalista pode fazê-lo em abstrato. Na hipótese da subsunção real. imanente. uma vez que os termos são heterogêneos. já está contida uma ontologia do ser social. as instâncias de comando do patrão.101 3. Por paradoxal que pareça. o idealismo “de esquerda”. A subsunção real. o trabalho assalariado e a organização social a partir dele. atual. da ordem globalizada pelo sistema financeiro. sem fugir do enfrentamento. — uma emergência histórica da era da subsunção real. De um lado. nem se ajoelhar diante de utopias que clamam pelo compromisso acrítico e potencialmente terrorista. A constituição do ser reside no poder de uma práxis constituinte. É preciso evitar tomar metafisicamente a dualidade entre poder constituinte e poder constituído. de instituí-las e preservá-las. — se coloca nessa interfase entre ontologia e política. o comunismo Uma práxis animada pelo pensamento de Spinoza e Marx não funciona somente destrutivamente. que o enxerga pela via produtiva. Nem sucumbir à espera do amadurecimento das condições históricas para a revolução. entre trabalho vivo e capital. o trabalho vivo e o capital. e resistir ante a reação conservadora. O comunismo como movimento real de abolição do estado de coisas aposta nisso. Tomá-la metafisicamente ao hipostasiar a oposição como narrativa supra-histórica. Equiparar com a mesma medida. Responderia: a corda. Alternar derivas e stands. que é a mesma. do estado. essa ontologia também é uma produção histórica. Por outro lado. não se deve hesitar em reconhecer o caráter pars destruens da luta de classe. noutros termos. o papel relevante da constante sabotagem dos fundamentos reais da economia capitalista: a teoria do valor e suas cadeias de equivalências e axiomáticas. mediante a equivalência universal.00 a mais que aquela quantidade de arroz. — com que o capital forma um corpo liso aonde autoinscreve sujeitos e objetos. a crise. capaz de formular e aplicar alternativas. Reconhecer. não se pode relegar ao segundo plano o caráter pars construens. — já consiste num efeito. que vale R$ 50. Além disso. por exemplo. Duas expressões distintas de um alto grau de impotência. a contradição entre forças produtivas e relações de produção não se resolve numa oposição de contrários.3.

O capital e sua subjetividade só existem plugados na subjetividade proletária. Com ela. — e não o inverso. a governabilidade e a gestão das crises. voltado contra si. Mas. um novo sujeito revolucionário. promovendo a coesão social. frenagem do próprio desejo. Não há negação sem uma afirmação que a sustenta como efeito reflexo e condicionado. Daí a ambiguidade de qualquer pauta voltada a fortalecer os laços sociais ou comunitários. a pacificação dos conflitos e a síntese de interesses contrários. cada vez mais pervasivas. Mas potência voltada contra a expansão do desejo. Nos Grundrisse. bastantes mais abrangentes do que aqueles do “operariado tradicional”. busca captar os processos de exploração do capitalismo do pós-guerra. pelo menos os mais ortodoxos. Marx descreve como o desenvolvimento das forças produtivas conduz a uma sucessiva integração dos espaços e tempos sociais conforme a lógica do valor. Não se pode cair na dicotomia entre o sim e o não. a positividade versus a negatividade. sempre primeira e infungível à espécie do capital. É esse também o rendimento da subsunção real: integrar a todos em identidades e grupos de . O ensinamento de Spinoza não é dessa trivialidade. Sob a espécie do capitalismo.102 amortecido e recalcado. O bom marxismo dispensa maniqueísmos e dicotomias estruturais. do próprio trabalho vivo. mais arejada e compreensiva do que uma concepção de classe proletária vislumbrada pelos sindicatos e partidos trabalhistas. Esse o princípio fundante de uma ontologia positiva. Trata-se do alargamento dos horizontes políticos. desde o princípio. assentada numa positividade que a propicia. Seria recair novamente numa metafísica dogmática. Quer dizer. que toda espécie de negatividade está. implica a emergência de novas formas de organização e coordenação das lutas. consiste no lançamento de novos dispositivos de controle. como um esquema permanente de ação prática ou conhecimento. de novas estratégias e tecnologias sociais para a integração. que é primeira. sim. A subsunção real funciona sob as duas espécies. vigilância e organização do trabalho. Sob a espécie do proletariado. uma nova composição de classe. uma socialização das condições de produção e reprodução do capital. Mesmo o poder que o capital estrutura para subsumir a sociedade também é potência. induzido à servidão voluntária. Negri elaborou a hipótese da subsunção real na confluência da copesquisa militante dos operaístas e de um uso original dos Grundrisse. O processo do capital procura fortalecer os vínculos sociais entre as classes e no interior das mesmas. bem como a composição política e as formas de organização das lutas sociais e das dinâmicas criativas dos movimentos.

— tudo isso passa a ser disposto para objetivar valor segundo a medida capitalista. Se. integralizada pelo corpo social. O caráter difuso da exploração opera por multiplicação. a completa socialização do trabalho pela vida da população conduz à situação contemporânea da “fábrica social”. Nos dois casos. p. A passagem da subsunção formal à real corresponde à passagem da lógica dos capitais individuais concorrentes. um salto adiante em sua dimensão qualitativa e quantitativa. afetivas. As formas de exploração extravasam os muros da fábrica e se esfuma a distinção entre tempo de trabalho e tempo de vida. Isto significa uma proporção de valor cristalizado muito superior à mera soma das 147 148 NEGRI. harmônica e unitária confina com o alastramento generalizado da teoria do valor e do trabalho subordinado. o capital condiciona o mundo do trabalho. Nesse sentido. 87 . Antonio. As atividades intelectuais. um processo histórico com idas e vindas. todavia progressivo no sentido do mercado mundial. as relações sociais em geral. O fluxo das forças produtivas como um todo se torna mediado pelo capital. recreativas. segundo a lógica do valor. cotidiana.103 demandas contempláveis. abundam as políticas de “inclusão social”. a exploração aos poucos vai se disseminando por todas as esferas sociais. originou-se a “sociedade de fábrica”. mas. Em ambos os casos.”148 O capital explora com mais profundidade e mais amplidão. cit. em face do caráter disseminado do trabalho pela vida da população. a extensão e a intensificação da exploração. O valor não é mais produzido somente no tempo de trabalho formal nalguma unidade produtiva. a construção de uma sociedade disciplinada. É numa leitura intensiva dos Grundrisse. Ou seja. alçado a lugar de felicidade e instância de legitimação social. se dá a “socialização do mais-valor. organizada segundo as exigências do valor. produzindo blocos gigantescos de valor objetivado. Marx beyond Marx. Inicialmente concentrada na fábrica. que amiúde servem para camuflar o interesse da sociedade capitalista em integrar a todos em seus circuitos de valorização e acumulação. a sociedade global inteira subsumida pelo capital. Ibid. com a revolução industrial. muitas vezes maior. sim. Com a subsunção real. Op. de maneira difusa. a subsunção real é uma hipótese que se contrapõe tanto às sociedades capitalistas do ocidente quanto ao socialismo real. Nesse cenário. que Negri147 descreve o processo de socialização da relação do capital. Um valor sem comensurabilidade com o tempo do trabalho. ao predomínio do “capital social” globalizado.

A métrica no âmbito do capital social extrapola o tempo de trabalho em muitas ordens de grandeza. Keynes. não aparece nas narrativas economistas. mas também a modificar profundamente essas estruturas. a própria sociedade. numa escala intensiva. culturais e mentais da sociedade. por colocar a população em ritmos frenéticos de produtividade e circulação. Capitalist Crisis and New Social Subjects (1967-83). Por isso. entre o trabalho necessário e o trabalho excedente. faz-se necessário analisar os processos de socialização por dentro da sociedade capitalista. p. “Na verdade. o capital se reorganiza para captar o tempo social produtivo como uma totalidade. e só interessaria usá-la para mistificá-lo. Londres: Red Notes. o próprio fato econômico não passa de um congelamento do político. no entrechoque entre os micropoderes e as microrresistências. a teoria do valor não tem mais nenhuma capacidade de explicar do processo. Não pode reinar qualquer autonomia ao econômico. a exploração capitalista é intensificada no mundo da produção por meio da extinção da lei do valor. cabe examinar os 149 NEGRI. na subsunção real. A cadeia produtiva como um todo. As bacias de trabalho vivo são então exploradas mediante uma malha de micropoderes. Renova-se a copesquisa. Revolution Retrieved: Writings on Marx. Antonio. senão cúmplice. uma tentativa de mitigar a política por meio da naturalização da gestão e do discurso competente do gestor. o lucro captado pela classe capitalista se agiganta na era da subsunção real. In NEGRI. — decorre da aplicação de um multiplicador e uma integral de volume. 72.”149 Por isso. Communism and revolutionary organization. Crisis of the planner-state. na subsunção real. Com efeito. intensificando a sua dinâmica. Ao copesquisador militante. e qualitativamente maior. supostamente quantitativas. . o uso da teoria do valor pelas “esquerdas” se tornou idiota. Tendencialmente. em toda a sua microfísica do poder. Ali. o curto-circuito da racionalidade (que a teoria do valor forjava) e a falência de teoria econômica digna. O capital se esforça pela intensificação da relação do capital. de acordo com sua racionalidade. — em relação à quantidade que seria mensurada pela teoria do valor. Michael. Assim. HARDT. 1988. Antonio. lançada sobre todo o tempo de vida. aquela se torna mais irracional e implacável . O capital não tende apenas a subordinar as estruturas econômicas. Tem-se a ausência de medida.104 diferenças. para compreender o circuito de valorização em tempos de subsunção real. O que se costuma definir como “mais-valor absoluto”. O marxismo se projeta como uma teoria antieconômica das lutas. que por isso mesmo servem como uma luva para o capitalista e seus especialistas amestrados.

se auto-organiza e autovaloriza. Com ela. É por isso que. Na sociedade de fábrica. efetuam imediatamente um processo político de autonomia. da capacidade de fabricar legitimidade e obediência a partir da completa desproporção e injustiça do valor. do funcionamento de uma cauda longa de modos de apropriação da produtividade imanente da vida. A socialização da relação do capital tende a causar a confusão entre trabalho social e a vida das populações. a realização completa da subsunção produz a fábrica social. em grande fração. Mesmo aqueles considerados . O fogo plasmador do trabalho vivo continua essencial. a penetrante socialização do capital passa a prescindir do trabalho vivo. Essas fontes de alternativa produtiva. do ponto de vista da resistência. O trabalho vivo atingiu um nível de autonomia que dispensa o capital em qualquer dimensão possível. O lucro é colhido sem nenhum motivo apresentável. independente da existência da relação do capital. Ele perde a razão de ser para as lutas. Pelo contrário. cujo alastramento antagoniza à relação do capital. Esse conceito dos clássicos descreve o contingente de desempregados funcionalmente produzido para constranger as pessoas a trabalhar e reduzir os salários. E com menos razão ainda a hipótese do “exército industrial de reserva”. o trabalho vivo continua na base da geração de riqueza. Com a subsunção real. de maneira que o processo do capital precisa de todos e investe a vida de todos. — enquanto forma capitalista de socialização do trabalho. o capitalista não precisa gerir diretamente a cadeia produtiva. mais se torna diretamente dependente das aptidões cooperativas. — se tornou a figura principal de inscrição do trabalho vivo no valor. uma hipótese introduzida no capítulo 25 do Capital. inovadoras e associativas do trabalho vivo. a vida das populações na sua inteireza. não faz sentido salvaguardar a teoria do valor. extingue-se de uma vez por todas qualquer atuação positiva que o capital poderia exercer na produtividade e organização do trabalho vivo. Foi subsumida a produção social como um todo. na subsunção real. Em momento algum. Portanto. o capitalista detinha o papel de prover os meios de produção e comandar diretamente as etapas do ciclo fabril. Essas capacidades sociais potenciadas no trabalho vivo englobam a todos. Isto significa que o trabalho social. Já na fábrica social. quanto mais pervasiva a subsunção real. a própria sociedade como “fábrica”. quando o mundo do trabalho se espraiou na vida toda. colhendo o lucro. sem exceção.105 lugares em que o trabalho vivo fermenta. O lucro passa a depender. antes da operação de captura e subsunção.

É possível acelerar o processo da subsunção real até o colapso.5. ainda que excluídos da relação formal de trabalho. significa não só atualizar a copesquisa segundo a nova ontologia da produção150. e toda a ontologia do social muda. o general intellect se apresenta como capacidade produtiva com tremenda força de auto-organização. 152 Marx beyond Marx. “A compacidade da subsunção real extrapolou os canais e as instituições mediadoras. de engendrar alternativas de organização produtiva e de viver a liberdade de outro modo. Se. abandonar despudoradamente e sem desculpas uma série de pares conceituais clássicos do marxismo: trabalho produtivo x improdutivo. até o ponto em que o trabalho vivo não pode mais ser contido. hibridações. Uma síntese dessa renovação conceitual pelos operaístas. fora da fábrica. É nessa autonomização contemporânea que Negri vai calcar a teoria de crise. cit. no sentido que a crise ostenta a improdutividade irremediável do capital. ordenada por verbetes. 119 . Paradoxalmente. Mas. É preciso olhar para outros lugares. incentiva a multiplicação dos elementos de autonomia no interior do sistema produtivo. auto-organiza-se e liberta as forças produtivas. mais-valor relativo x absoluto. está acontecendo à revelia do capitalista. Disto decorre um esgotamento da economia política clássica.). O descolamento crescente entre capital e trabalho vivo. A produtividade imanente do ser é desbloqueada. Capital e trabalho vivo se autonomizam entre si. mais aparente e perceptível do que nunca. que funciona em pontos e redes colaborativas. Op. Lessico Marxiano. O conhecimento socializado. resistente ao parasitismo do capital. a polícia. produção x reprodução social. isso ficava claro nas greves e ocupações de fábrica. o ápice da exploração dota de condições à libertação plena do trabalho vivo. cit. fazer diferente. antes. tempo de trabalho x tempo de vida. sempre a partir dos Grundrisse. trabalho social x trabalho individual151. que serviram de base para a estratégia socialista”152. A natureza cooperativa e criativa do trabalho vivo. hoje se manifesta com mais clareza nas muitas tentativas. Isto enseja uma imediata mudança de estratégia. o direito. A crise se torna mais aguda na conclusão do 150 151 Vide subcapítulo 1. sobrecarregando-o de anomalias. explode em sua qualidade imensurável. em DEL RE et al (org. inovar. Op. — ainda que desempregados e marginalizados. pondo o controle social exercido pelas relações de produção (o estado. recusas e focos de resistência e sabotagem. o mercado) em risco.106 como “exército industrial de reserva” já estão investidos nos circuitos de valorização e acumulação. p. No campo da teoria. também.

— para reestruturar-se como ordem da crise. todos incluídos. nacionalismo. humanismo. Eles não se integram dialeticamente nalguma síntese de terceiro termo. 148 Ibid. A relação implica uma crise. os saberes e práticas. através de incessante reinvenção de métricas. manipulando medos e inseguranças. e mesmo os sonhos que temos ao dormir. Nesse processo. A relação social do capital culmina visível como pura relação de força. comunitarismo. Apesar disso. A síntese desejada pelo capital. não passa da “ sobredeterminação de uma separação154” entre as classes. por conseguinte. Ao mesmo tempo. ou da equivalência/justiça entre trabalho vivo e valor (socialistas economistas). — que por sua vez se sorvem do mesmo general intellect cevado nas lutas e movimentos. p. também se faz necessário construir figuras de integração: regionalismo. precisa ser constantemente normalizada pelo capital.107 processo histórico de subsunção real. o cinismo implícito em qualquer parâmetro de justiça distributiva que contorne o fato bruto da dominação de uma classe por outra. “ A forma do valor é a base vazia e miserável da exploração”153. e não alguma cúpula de cristal pairando sobre o mundo. p. competentes para conter a desmedida. A relação social do capital finda desmascarada como relação de desmedida. habemus proletariado! O capital é uma relação social. 115 . na realidade. da aplicação de sínteses apaziguadoras. de mando direto e ilegitimável. Desnuda-se a impossibilidade de estabelecer equivalência entre termos heterogêneos. colocando-se como única saída diante da desordem iminente. ajustes e dispositivos. Não se pode deixar de 153 154 Ibid. num contexto de crise. trabalhismo. A relação do capital tem dois termos irredutíveis. Essa relação atravessa os gestos mais cotidianos. Onde há capital. em governar com ela. A razão dos governos. avançar sobre a franja de inatividade. As crises sempre e sempre opõem Hobbes e Spinoza. A governabilidade depende da administração dos antagonismos. A crise. — mil modos de coesão social. A ordem capitalista convoca seus melhores consultores. assimétrica e autoritária. fazê-la um instrumento mesmo da governabilidade. a sofisticação da dominação capitalista na era da subsunção real não inspira pessimismo em Negri. marginalidade ou desajuste para o bojo do processo do capital. todos produtivos para o capital. do equilíbrio geral (liberais). consiste em manter as revoltas e insatisfações sob controle. Torna-se cínica qualquer possibilidade de legitimação por meio de teorias da justa distribuição (socialdemocratas).

— de nela conectarse. A relação com o capital rompe a submissão à necessidade econômica. por si só. e vem à vida da única maneira que pode vir à vida: como comportamento. A condição de resistência implica uma posição cotidianamente exercitada no acoplamento ativo a dinâmicas de autonomia e organização política. essa tensão interna à relação. 157 portanto. O conjunto completo de conceitos marxistas está atravessado pelo antagonismo. por dentro do regime de acumulação de capital. A forma da relação consiste em dois lados em luta. O capital é forçado a ver a si mesmo como relação.”155 Noutras palavras. Esta potência é a subjetividade.108 reconhecer a ocorrências de crises de desproporção (excesso de barreiras à circulação) e de realização do valor (desregulação do ciclo de valorização devido à superacumulação ou subconsumo). A luta precede a classe. ou bombas-relógios econométricas. o funcionamento da lei do mais-valor. — ainda que local e transitória. como proporção. É a partir dessa premissa. usualmente elabora a tradição marxista. “A crise é o produto da luta de classe. Mas a razão nuclear da crise capitalista está na “relação contraditória entre o trabalho necessário e o mais-valor. nem conservado por inércia. 92 159 Ver subcapítulo 1. p. que se parte organização da crise como luta de classe. — no sentido positivo de abstração real159. signifique que ele esteja posicionado de forma ativa na luta de classe. Isto não significa que a condição do explorado ou oprimido. aliás. p. como. 111 157 Ibid. Uma organização política que independente de eventuais contradições internas. p. Resistir é colaborar numa subjetividade em processo nunca completo. “O proletariado é integralmente social – keynesiano se poderia dizer – e estendeu a contradição/antagonismo contra a acumulação capitalista do lucro da área da fábrica ao conjunto da sociedade. A luta 155 156 Ibid. A afirmação da autonomia de classe se inicia por dentro da relação. A crise é constitutiva da relação do capital. isto é. A luta de classe e a política. dentro e contra. Ela é irredutível. a relação antagonista subjacente na relação do capital já é suficiente. p.4. mas sim pela decisão. 133 158 Ibid. como potência. e tanto mais incidente quanto mais disseminada e aprofundada ela estiver no corpo social. 97 Ibid. como regra imposta sobre termos separados. — a classe proletária sai da fábrica e ganha mobilidade. .”158 Mais abstrata.”156 O Dois da luta de classe é primeiro. ocupam o centro da teoria econômica.

mas aqui. negatividade e morte. globalizado e abstrato. Não fosse assim. especialmente. as forças produtivas do trabalho vivo dispõem de melhores condições para se coordenar. p. “O processo do capital se desenvolve por uma série de elementos críticos (. O capital se assenta sobre ela. do trabalho informal e da produção cultural.. A crise se 160 Ibid. . O movimento real de abolição do estado de coisas consiste na proliferação de novos sujeitos sociais. o trabalho vivo concentra o desejo em si. irrompeu também uma composição de classe mais multitudinária. Essa alternativa já existe. anticoloniais. Pode-se puxar um fio vermelho do tapete de abstrações com que o capitalismo se torna cada vez mais socializado.. por dentro do mercado mundial. Assim. Além do proletariado tomado de maneira reducionista. a partir dos anos 1960 e 1970. desde o começo. sexualidade. quando se multiplicaram os pontos de antagonismo: lutas raciais. esse antagonismo não necessita de mediações: é real. À emergência do capital social. O sujeito comunista não está num futuro distante. um novo nível de antagonismo em escala global. o que corresponde às novas formas de organização política da classe. de gênero. — uma mistificação que só interessa a partidos e sindicatos que se vendem como seus representantes oficiais.) Agora é caso de trazer as diferentes tramas juntas. como operariado meramente “industrial”.”160 A luta de classe se espraia por novos territórios produtivos. pautado pela tentativa de destruir o capital e abolir as classes. de colher a totalidade do processo em sua riqueza. uma irrupção de alternativas para organizar politicamente a produção. direto e imediato.. emergem novos sujeitos potentemente resistentes além do operariado “chão -defábrica”. não existiriam capital.. Uma alternativa autônoma cuja própria existência precária sabota a exploração e reapropria a riqueza expropriada. a morte sobre a vida. em prol de alternativas ao sistema capitalista. disseminada e abrangente. Cada vez mais autonomizado. como a negatividade sobre a positividade. muito além das lutas do operariado chão-de-fábrica. 139. A crise se precipita com a explosão de antagonismos internos à pele de contato entre o trabalho vivo e o capital.) até o ponto em que o antagonismo assume a forma da subjetividade (.109 de classe passa a atuar num conjunto mais amplo e múltiplo de frentes de antagonismo. Agora. e se engaja em processos de autovalorização e autoorganização. Isto ocorreu. Os lugares de autonomia se alastram pelo corpo social. Essa alternativa já está acontecendo. Do lado do trabalho vivo.

— nas suas possíveis configurações globais e locais. Marx beyond Marx. ao mesmo tempo em que situa inequivocamente o sujeito revolucionário no seu papel político como sujeito das forças vivas da realidade social. muito molecularizado e cotidiano. o conflito se alastra por toda a fábrica social mediante grandes ondas de contágio. que faz circular saberes insurgentes. copesquisas. o poder constituído se faz acompanhar de projetos nacionais. p. um “saber de enxame” que se propaga veloz. governos de consenso e políticas de inclusão. a radicalização da luta de classe precipita a crise e acelera o processo revolucionário. ações ecoterroristas. A militância autônoma por dentro do trabalho vivo progride por meio da ativação das tensões. Isto não significa que a contínua desestabilização das redes capitalistas dependa da catástrofe. Uma práxis de rede dentro de um horizonte muito ampliado.” 161 A crise revela a racionalidade limitada do capital e do estado. na subsunção real. no limite. voltadas a sintetizar os embates e as insatisfações. Op. O ex-presidente Lula não podia ter sido mais feliz ao dizer que a 161 NEGRI. A marcha da libertação depende também do desfazimento das sínteses conciliadoras. — falácia que flerta com o idealismo esquerdista. seus mecanismos reais de mistificação e subsunção. à altura da expropriação sistemática operada pelo capital social. revoltas e insatisfações — tarefa da copesquisa. Em vez de depender de uma situação de catástrofe econômica ou escatologia política. O crescimento econômico se estrutura junto de contínuas reformas políticas. Quer dizer. Esta tarefa consiste em dilacerar a integração do capital social nas identidades e comunidades adaptadas ao sistema. ou melhor. Como se valesse a lógica do “quanto pior. Com isso. cit. — a teoria da crise. quaisquer elementos de autonomia que possam resistir à ampliação e aprofundamento do escopo social do capital. 94 . Em contextos de crescimento econômico. Mesmo aí. — quando se pretendesse organizar a autonomia fora da relação social. melhor”. Essa nuvem de antagonismos se torna mais espessa em função da sinergia da cooperação e do intelecto social de massa. da revolução consiste em compreendê-la “no seu relacionamento com o crescimento econômico e a luta de classe. através da coordenação e do incremento da autonomia de classe. no plano de composição das diferenças.110 radicaliza com a crescente organização da autonomia. focos de antagonismo. operadas pela ciência econômica “normal” (capit alista). mídias táticas. o catastrofismo ecológico e. imaginação teórica e alguma dose de pragmatismo.

o trabalho vivo versus o capital. mas à submissão ” 162. o mesmo que dizer incremento de mando. — tudo isso misturou-se historicamente para realizar o processo polivalente da mundialização.youtube. os dois termos da relação material. geradora de sujeitos e objetos. bem como a proliferação de novas demandas. No youtube. na subtração das sínteses e na deflagração da potência revolucionária de inadaptação e desarranjo. inteiramente conectada ao mapa das lutas. exploração e valorização.com/watch?v=LT0j9AN6T-A Acesso em 18 jul. Organizar a crise em proveito da luta de classe implica agir no sentido da produção de uma subjetividade revolucionária.111 “fome não leva à revolução. pedras intransigentes quanto aos cronótopos de autonomia construídos coletivamente. um antagonismo molecularizado pela sociedade. O potentíssimo ciclo de lutas de Maio de 1968 pipocou na Europa do pós-guerra no auge dos Trinta Anos Gloriosos. o crescimento econômico carrega no ventre a figura da crise. As sínteses mistificam o social como um campo unitário e homogêneo. nessa capacidade de sintetizar o diferente e proceder por adaptações sucessivas. De um 162 Discurso ao receber o prêmio World Food Prize. pars destruens pars construens. conflitos e sínteses na era da subsunção real. eis a própria subjetividade revolucionária. consiste a chave para o domínio do capital e. É preciso uma teoria afirmativa da subjetividade. A mundialização é uma moeda de duas faces. vinculada ao incremento da produtividade do capital. Esse confronto se desenha por duas linhas que se cruzam: a via destrutiva e a construtiva. . em 13 de outubro de 2011. — a objetividade fixada definida pelas subjetividades variáveis. mas não conseguem eliminar o Dois. há pedras a removerem-se. de formas de vida. Suas sínteses não deixam de ser violentas quando preciso. O conjunto de crises. com pleno emprego e seguridade social. Vigorava uma sociedade-modelo do fordismo. — a partir do que os economistas tentam nos ludibriar nas páginas de economia dos jornais. — uma maquinação dinâmica que confronta o capital social. por esse mesmo fato. as duas subjetividades em disputa. No caminho do crescimento. — tudo em cima do trabalho vivo. Nisso. da libertação a ele. Age assim essa subjetividade como uma formação produtiva elástica. O choque de subjetividades determina as condições objetivas do sistema produtivo. disponível em http://www. dissensos e insatisfações. O materialista não decola do movimento real que lhe confere as bases da política. 2012. Na ótica da luta de classe.

à reestruturação capitalista. à luta de classe. em ordem de superar os obstáculos à ex ploração e definir sua estratégia vencedora. dispersos pelo mundo. e redisciplina a política e o direito. costumes e imaginários disponíveis. uma abstração suficientemente depurada de conteúdo para servir a todos. A globalização sucessiva dos focos de resistência enseja um redimensionamento das pautas e agendas dos movimentos de luta e libertação. impagável. O sistema financeiro opera graças à mediação dos fluxos do dinheiro. para superar barreiras espaciais e culturais. tende na direção do ‘mercado mundial’” 163 É a máxima extensão do comando capitalista. mas também como adaptação às múltiplas culturas. conexões militantes e pautas minoritárias. Op. Tempos de capitalismo multicultural. Não só como difusão da forma capitalista de produção sobre o tecido integrado da sociedade global. dois pontos de vista sobre o mesmo fenômeno de aceleração dos tempos e miniaturização das distâncias. Essas duas perspectivas acontecem ao mesmo tempo. a globalização como consolidação de um mercado global. um descolado e multicolorido world capitalism. — tudo dentro das exigências da subsunção real consumada. a gerência de uma dívida infinita. Impõe-se uma supersíntese das relações de produção globalizadas. segundo. para Negri. primeiro. a classe capitalista se organiza por meio da governança financeira. A governança financeira reordena os fluxos de capital. para que tudo se adapte mui rapidamente. insanável. O auge da abstração realizada implica uma forma de governança capaz de distanciar-se ao extremo dos conteúdos particulares e modos concretos. Esse processo de socialização do capital conduziu a uma nova etapa da reestruturação contínua do capitalismo. p. ações de luta. singularidades e antagonismos. A culminância das abstrações determinadas é o mercado mundial. a integração global dos mecanismos de controle. “O processo expansivo do capital e a ‘revolução permanente’ que deve impor. cit.112 lado. onde não existe mais “fora” do sistema produtivo capitalista. captura e acumulação do mais-valor da vida. A tendência ao mercado mundial. a fim de conter a emergência dos novos sujeitos e lutas. A passagem para o mercado mundial propicia novas coordenadas do estatuto da crise. a urdidura de uma rede transnacional de mídias livres. Nesse estágio de desenvolvimento das forças produtivas. síntese derradeira das diferenças. 116 . está associada. O capital social precisa 163 NEGRI. Marx beyond Marx. A subsunção real avançou sobre toda a superfície do planeta. Do outro lado da moeda.

precisamente. o que. In Open Marxism. Um sujeito que atravessa o corpo social. vol. p. 120 166 Ibid. “a tendência capitalista é acompanhada paralelamente pela tendência de classe.. Acesso em 18 jun. Disponível online em http://www.113 expandir-se incessantemente. é caso de elevar a luta de classe a panoramas mais amplos e velozes. Este não existe somente pelo fato de ser explorado.motarbetaren.164 E: “por um lado. Antonio. II.166. Op. 168 MARX. Negri considerou que o fim do socialismo real tornou a constituição do comunismo mais madura do que nunca167. revoltas. a constituição do capital social é acompanhada à emergência do proletariado social”. 2012. em 1992. a extensão das relações de troca na circulação são acompanhadas por sua destruição. p. cit..se/insurrection_raven/en_texts/negri_interpretation_of_the_class_situation_today. para apropriar-se das condições objetivas e subjetivas de produção social. p. ela de qualquer modo propicia ao capital produzir mais-valor em cada ponto da circulação”. Se o mercado mundial é o limite absoluto da expansão geográfica. 125 167 NEGRI. até a conquista do mais amplo espaço que pode ser investido e ocupado: o estágio de um imperialismo realizado – e é este o terreno para a supressão-subversão”165 Existe uma ressonância entre a expansão geográfica e a intensificação dos processos de exploração. por sua vez. Não à toa.. conglomerado pela decisão de recusar o trabalho para o capital. encontramos a corrida desbalanceada de avanço do capital. todavia. indisciplinas. Uma decisão negativa que. ciclos de ocupações e novas pretensões geracionais pelo globo. Em tempos de mercado mundial. 2002. Londres: Pluto Press. Grundrisse. implica o alargamento e aceleração da esfera da circulação. pesquisar as circunstâncias materiais da existência do sujeito revolucionário. p. de modo que o capital social e o mercado mundial constituem em duas expressões da mesma tendência. A análise da composição de classe pretende. 105. methodological aspects. vale repetir. Menos que aniquilar as chances de efetividade da revolução permanente. p. 112 Ibid. Contudo. como propõe Marx nos Grundrisse168? É o comunismo! Que não deve ser compreendido em termos catastróficos. e realizar a copesquisa no acúmulo de dissidências. escatológicos 164 165 Ibid. da força e alegria do trabalho vivo. Interpretation of the class situation today. 119 . a globalização do capital pode ser examinada como premissa histórica para ela. “Embora a circulação não produza mais-valor. se assenta na autoafirmação de sua liberdade produtiva.ht ml. A classe não precede a luta. o que sucede quando se vai além dele. apud NEGRI.

não é outro o comunismo de que falava Marx. porque se trata de um diferencial qualitativo. e todas as figuras de integração social sob a espécie do capital. na libertação do trabalho vivo e seu inestancável inchaço ontológico. Para se animar com uma ontologia do ser pleno. na inovação de quereres e demandas. . De imediato. na reapropriação da riqueza expropriada. de Rousseau a Kant. O mercado sempre será muito limitado para dar conta. É o comunismo aqui e agora: a recusa integral à sobredeterminação do capital sobre o trabalho vivo. vestindo-o com o manto da legitimidade e da justiça. Poder constituinte e singularidade em Spinoza Escrito na prisão e publicado em 1981. enfim. uma política materialista que não separa razão e desejo. proposições e escólios. Propõe uma práxis revolucionária diretamente no dilacerar a trama do presente. O desejo está além. Não se abatendo com a ciranda da história. Anomalia Selvagem. Op. o lucro. do ponto de vista subjetivo. a saber. catastrofismos ou outras paixões deprimidas da razão. do fazer. A modernidade assistiu ao nascimento da concepção jurídica do mundo. Evadir o mercado para dentro. uma virada subjetiva. várias as tentativas de elevar-se 169 NEGRI. o maestro se concentrou em Spinoza para abraçar ainda mais uma ontologia constituinte e afirmativa. A vida é mais do que isso. A ontologia spinozana transpira de política por todos os poros. Antonio. a recusa de reconhecer as formas capitalistas como o trabalho explorado. De Hobbes a Hegel. Negri desenovela o fio vermelho de uma política radical e transformadora. Da intrincada malha de tratados.4. sua violência legítima. Isto vale. cit. está em confinar a produtividade imanente da vida cuja potência o supera infinitamente. o valor. Anomalia Selvagem169 reafirma a filiação de Antônio Negri ao pensamento da positividade. O defeito insanável do capital. sem concessões a derrotismos. O comunismo está materializado na recusa sistemática do capital/trabalho. como matriz de comportamentos. quando os conflitos e movimentos dos anos 1970 pareciam abafados pela repressão e um consenso conservador da “esquerda” à “direita” partidária governava na Itália. uma política de baixo pra cima. seu direito.114 ou diacrônicos. ainda que debaixo de roupagem esquerdista ou socialista. os defensores da modernidade colocaram como tarefa do pensamento filosófico fundamentar esse poder de novo tipo. 3. Teorias voltadas a garantir o soberano. a propriedade. sua lei. na materialidade do agir. sobretudo.

todas elas habitam o mesmo plano ontológico. um “mal necessário”. Mesmo o mais ignaro popular não discordaria disso. Minhas bússolas em impudência. O estado moderno. da democracia e da felicidade. Não só expulsou Deus como não O deixou voltar travestido pela janela. o estado foi fundamentado como solução para desordem humana. No limiar da modernidade. sem romantismos. três malditos em desafio e escárnio diante da concepção jurídica do mundo. Bem diferente das pirâmides normativas e edifícios axiológicos. Um Spinoza crítico do transcendente. e Negri se constrói na práxis. em que o homem comum possa acreditar e confiar. Amar a verdade só é possível numa paixão ao real. Quem vai cuidar de nossos filhos? Negri contesta os pensadores mais notáveis na fundamentação desse senso comum. essas criaturas singulares. passa a perseguir fins condenáveis e praticar regularmente o mal. De Maquiavel a Spinoza a Marx. que o povo precisa de alguém para guiá-lo e só respeita um poder maior. por que seríamos arrogantes.115 sobre as paixões. onde distintas ordens do ser transmitem valor e legitimidade de cima a baixo. do finalismo. A subversão spinozana divorciou a teologia da ontologia. uma máquina de guerra anti-idealista. dos homens. um sistema razoável de normas e valores. em vez de simplesmente dar ao povo o que. em favor da organização autônoma da produção e sem quaisquer mediações. Quantos funcionários do poder não recorreram e continuam recorrendo às “verdades eternas”. a ponto de conceder-lhe o valor que ele mesmo não reclama. do direito ou do estado. como mediação de conflitos particulares e contenção da criminalidade. porém o que de melhor a civilização humana pôde oferecer diante da natureza oscilante e imprevisível. que não é prudente relaxar demais a lei e a punição. na terra do materialismo absoluto. no maravilhamento e vertigem da imanência. em que aquela age como práxis. na superfície do que a política compõe e decompõe as forças — uma política de autoprodução do ser. O senso comum está do lado da polícia. as vontades e as volúpias das plebes. em todo caso perigosa. Contra o problema do fundamento da moral. ele mais precisa e deseja: ordem e autoridade? Temos de oferecer pelo menos um norte. O direito. do estado e do mercado. que o homem deixado a seu bel prazer invariavelmente abusa do que pode. As essências. um esquema hierárquico cuja motivação é pedir fidelidade ao tirano. E rasga outra modernidade. A concepção da crise do mundo recusa o contrato social e o mercado. A . nós os ilustrados do novo tempo. Então. A democracia de que fala Spinoza. de baixo pra cima. uma alternativa antimoderna. defendem os corações burgueses mais humanistas.

os modos são uma multiplicidade tomada no seu sentido substantivo e não adjetivo. à transcendência se é fiel. São o mesmo absolutamente. Rio de Janeiro. é a causalidade plena e absoluta. e reconstrói a causalidade eficiente na gênese das forças de tudo o que existe. A ontologia de Spinoza170 parte de um ser ativo. E os causa sem mediações. está nos modos e só existe pelos modos. Gilles. na nossa própria economia de paixões. É o que Spinoza chama de substância: uma só. imanente. . produtivo. São Paulo: Escuta. Bruno. indivisível. Félix. Tradução de Luiz Orlando e Roberto Machado. Rio de Janeiro. nada pode se interpor entre a essência-potência da substância e os modos: ela os causa imediatamente. 2006. existem nela e por ela e. 2. também infusões de: DELEUZE. todos os sacerdotes de uma só vez. que funda o ser e ao mesmo tempo é a chave de sua própria inteligibilidade. Gilles. 2002. pleno. ed. Spinoza. 49 f. GUATTARI. Os modos exprimem a substância. Simplesmente tudo. a começar pelo estado em nós mesmos. potência absoluta. Antonio. A multiplicidade é a substância. 34. 2010. Gilles. 2008. Dissertação (Mestrado em Filosofia) – Departamento de Filosofia do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro. dinâmico. Orlandi. ontologia da liberdade. de Pinho. Esse ser produz tudo o que existe e se autoproduz no mesmo processo. unívoca. O anti-Édipo: capitalismo e esquizofrenia 1. Igualmente. Noutras palavras. ed. A doutrina do judeu maldito dispensa juntos o Céu e o Inferno. eles mesmos são a própria substância. Existem infinitos modos e eles podem ser finitos ou infinitos. a essência atuante que tudo produz. Espinosa: filosofia prática. Diferença e repetição. positivo.116 imanência se organiza. simultaneamente o ser. Ética. são parágrafos em prosa de imaginação livre calcados em SPINOZA. infinitamente infinita. Antônio A. o existir e o fazer. causa somente por si mesma. A substância causa a si mesma e os modos no mesmo ato incessante e indivisível. teorias sobre a melhor forma de libertarse do estado. Roma: DeriveApprodi. Spinoza. Esse “tudo o que existe” são os modos. é os modos. sem exceção. Ele é também a própria força produtiva. CAVA. Monografia (Graduação em Direito) – Faculdade de Direito da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. a causalidade eficiente. A substância causa imediatamente tudo o que existe. a substância também é os modos. As condições ontológicas da liberdade na ética de Espinosa. De destruí-lo de baixo a cima. São Paulo: ed. Em vez de teorias sobre a melhor forma de estado. MADUREIRA. São Paulo: ed. NEGRI. Op. Os modos consistem nos resultados efetivos da produtividade na realidade. 1992. não se articulam por causaconsequência nem por processo. 142 f. material. Tradução de Luiz B. 2. 34. 2006. impessoal. a mesma 170 O § e ss. e nunca deixarão de ser. e também DELEUZE. São desde sempre. Tradução de Daniel Lins e Fabien Pascal Lins. cit. Não há lugar para a modernidade no Spinoza de Negri. ser de uma causalidade absoluta e eficiente. L. Não se separam como momentos transitivos ou dialéticos. DELEUZE. além disso.

na dupla dimensão constituída e constituinte. que é o próprio modo na sua expressão finita. O ser não escolhe. . É isso que distingue a quantidade da qualidade na multiplicidade. O modo persevera na multiplicidade. é a substância. um processo. Os modos exprimem um grau finito de potência. um telos. e não alguma propriedade ou atributo aplicado sobre o modo. É um grande Sim. que é a mesma potência da substância. Os modos detém. A substância tem uma potência infinita. Essa potência é ao mesmo tempo ato. Não há possibilidade de dualismo finalista. um desabrochar da verdade. axiológico ou atributivo. é uma atividade constituinte. Quantitativamente. Essa potência cria ser. efetiva a realidade. ele faz. ele exprime imediatamente e instantaneamente tudo o que pode sem qualquer hesitação. se exerce em si mesmo sem exaurir o próprio exercer. a tudo o que se pode. Não há transição entre potência e ato. um conjunto de funções ou valores. existe e existe necessariamente. uma pessoa. O que o modo pode fazer. mas infinito enquanto força imanente à substância. o que pode existir. um sistema ordenado. A potência infinita da substância se exprime intensivamente no modo. A substância não ordena os modos. A essência é a potência. Por isso. Não há opção de não realizar o que pode: realizar o que pode é a própria essência do modo. bem como todos os substantivos. Todo o conteúdo se resolve na sua potência. A univocidade proíbe a substância se dizer de muitos jeitos. É impelido a fazê-lo pela força infinita e inevitável da substância. Essa capacidade igualmente não admite a modalidade do possível. ou desejo. A substância não é uma estrutura. então. se faz. ou qualquer espécie de suprassensível de alguma forma ordenador de entidades abaixo dela. O conatus. Tudo é porque tem de ser e é dessa forma porque não tem outra. inexorável. os verbos e os advérbios. no seu poder fazer imediatamente feito e fazendo. Diz sempre do mesmo jeito. Isso também se aplica aos modos. uma capacidade produtiva. A substância não revela nada. Ele é finito enquanto modo. Tudo o que está em potência é ipso facto ato absolutamente realizado. como conatus. pela força do conatus. mas qualitativamente. não lhes transmite nada. quer dizer.117 multiplicidade de “tudo o que existe”. onde tudo se causa. é infinita. como força interior. É o substantivo. o jeito necessário. o modo exprime uma potência finita. O ser não guarda reservas. objetiva e subjetiva. exerce uma força interna de expansão do modo em direção à plena realização do ser. o verbo e o advérbio. É o princípio intensivo e afetivo da imanência. que é a sua essência mesma. O modo não é uma forma esperando ser preenchida de conteúdo.

118 não anuncia o sentido do universo (da vida, do homem, do que quer que seja), não contém nenhum enigma, mistério ou mística. Não se confunde substância por totalidade. A substância é “tudo o que existe”, o caos e a ordem, o futuro, o passado e o presente, o fim, o começo, e o meio, e todas as temporalidades, e todas as causas e efeitos, e todas as coisas singulares que podem vir a existir e que, ipso facto, existem; e existem do único modo que podem. E a substância é desde todo o sempre os modos e vice-versa, sua causalidade infinita, encadeada infinitas vezes, segundo uma malha infinita de efeitos, onde tudo se relaciona com tudo e afeta a tudo nalguma dimensão, --- por menor e imperceptível que seja. A multiplicidade se auto-organiza. A força de auto-organização depende da força do desejo que pulsa em todos os modos e é, ela mesma, a substância. Toda a multiplicidade está entretecida intimamente entre si por meio da causalidade. A substância também é essa cadeia infinita de causas e efeitos que atravessam toda a multiplicidade. A multiplicidade inteira não tem isso de coisas de naturezas absolutamente separadas, digamos um cavalo real e um unicórnio fictício. O cavalo real e o unicórnio fictício estão no mesmo plano de imanência que a substância é e o desejo intensifica, e são coisas coextensivas, --- embora difiram como conjunto de efeitos que exercem no mundo, como essência e existência. Todos os modos, inclusive o ser humano, coexistem no mesmo plano de causalidade que é a substância mesma. Daí a ontologia spinozana se dizer da imanência. Uma imanência vertiginosa. A substância está em todas as coisas e todas as coisas estão na substância. O ser é essa atividade constituinte de tudo, uma autoprodução da multiplicidade. Não há síntese possível para a atividade constituinte como um todo, que só se explica enquanto multiplicidade irredutível. Só se explica explicando rigorosamente tudo. Explicar a substância significa explicar a infinidade de causas e efeitos que ela é. A ontologia é constituinte porque essa atividade autoprodutiva não se exaure. Os modos não são entidades finalizadas. Como se a substância causasse os modos e então terminasse de operar. As causas de cada modo continuam agindo. A atividade constituinte nunca cessa. Na realidade, sequer diminui em grau de potência. A substância atua sempre na potência máxima, isto é, infinita. A potência infinita da substância não diminui ao passo em que os modos sejam causados. O próprio modo contém em si a potência da substância, uma vez que também é essa mesma substância. Embora o modo se constitua por causa da substância, ele não se encontra num nível inferior de perfeição. A substância é o processo permanente de fazer a si mesma e os

119 modos. O plano de imanência tem uma dimensão operativa e material. Nesse sentido, se pode dizer que a ontologia de Spinoza é “constituinte” e não, por assim dizer, “constituída”. Uma ontologia “constituída” onde a substância causasse todos os modos e, aí, se apagasse o fogo plasmador. Os modos seriam coisas finalizadas, produtos, uma vez que a atividade constituinte teria sido interrompida. É o mundo em que um Criador cria e depois desaparece, ficando de fora. Daí por diante, o ser transcendente só exerceria a sua potência pela via do milagre. É o velho realismo das coisas finalizadas, onde a “natureza naturada” foi obra do Absoluto. O homem nela habita sem todavia tocar o ser íntimo das coisas, preso que está aos fenômenos e sensações, um conhecimento ilusório. Não é possível entender o Absoluto senão por lances fora da razão: o mistério da fé, a revelação, o êxtase. No caso da ontologia constituinte, isso não se verifica. O ser criador de tudo e de si mesmo é imanente ao tudo. Ele não pode escolher realizar isto ou aquilo: tudo o que ele pode realizar, ele realiza. Por isso, não existe campo de possíveis que alguma entidade transcendente pudesse escolher entre isto ou aquilo para existir efetivamente. No plano de imanência, tudo o que existe, é porque pode existir, e efetivamente tem de existir. A substância jamais se esgota, seu processo autoprodutivo e dinâmico continua agindo na multiplicidade. Os efeitos produzidos não se dissipam completamente, ao percorrer a cadeia infinita de causas e efeitos da multiplicidade. Mesmo que outros efeitos sejam gerados, efeitos combinados ou novos, os efeitos antigos continuam na composição. Não existe causa dissipante e nada é em vão. Nada fica faltando: o ser é pleno e completo em todos os sentidos. A rigor, nenhuma coisa morre: se transforma, se recombina, se reinventa. A substância é imanente inclusive à razão. De maneira que tudo pode ser conhecido, desde que seja conhecido pelo conjunto dinâmico de causas que atuaram e continuam atuando no que se pretende conhecer. Aqui, não há mistério nem milagre. Portanto, os modos não são entes cristalizados da força plasmadora. Os modos pulsam internamente com a atividade constituinte, com a “natureza naturante”, que também os constituem. Essa força interna da substância que persevera nos modos, — em cada um deles a sua maneira, — é o desejo. O humano não deseja, propriamente falando, como se fosse o sujeito do desejo. O desejo é que acontece nele, e o faz ser o que ele é — ou não. O desejo em mim é o mesmo desejo no lobo, na samambaia, nas rochas, na Lua, numa poesia de Pessoa ou numa canção de rock. O desejo ativa forças impessoais, não

120 figurativas, não simbólicas, forças conspiratórias do ser. Ele gera o real. Toda a multiplicidade se cria no desejo e pelo desejo, num movimento para dentro e para fora. Por sermos tocados pelo desejo, sempre há algo em nós que nos convoca para além do que somos. Isto vale para todos os modos, que só existem dinamicamente. O desejo nos chama de um nome estranho e nós respondemos — outros. Ele é primeiro e doa (ou rouba) tudo, sem contrapartida nem equivalência. Por isso, nenhuma pessoa, nenhuma coisa, nada basta em si própria. Sempre se pode ativar um excedente, uma carga delirante que desborda e embaralha. Aqui, nenhum vitalismo à vista: tem desejo de vida e tem desejo de morte. Do contrário, as pessoas nunca se suicidariam. O desejo está em tudo e tudo está nele. Tudo se cria, respira, numa variação contínua. O desejo pulsa no interior das coisas, das relações, dos afetos, das impressões, do que existe e pode existir. Uma metonímia infinita, um continuum de matéria e espírito, a contiguidade última. Daí a coextensividade entre homem e natureza, entre cultura e universo, que o desejo pode conectar sem sobressaltos. Isto não significa que homem e natureza se unam nalguma pasta cósmica e indiferenciada. Mas, sim, que cultura e meio ambiente se dobram e redobram entre si, uma essência natural do homem, uma essência humana da natureza, e nessa hibridação a multiplicidade se tensiona para o infinito. A natureza funciona como processo de produção, enquanto a humanidade é soprada de todas as formas, figuras e máscaras do universo. Um pan-desejo essencialmente revolucionário, só por querer como, com efeito, ele quer: infinitamente. Mas sucede também o desejo por fascismo. Isto é real. As pessoas não foram enganadas para apoiar ditaduras. Elas quiseram. E muitas pessoas efetivamente desejaram e desejam a mão que bate, que explora, que faz sofrer o outro. O problema é menos de falsa consciência do que explicar porque a servidão voluntária pode acontecer. Portanto, não é questão de denunciar ideologias, mas compreender a materialidade do funcionamento do próprio desejo. Como se pode realmente desejar aquilo que reduz a potência de agir e existir? A pergunta não é simplesmente por que, em face do intolerável, algumas pessoas se revoltam? Mas, por que não se revoltam todas, o tempo todo? O desejo não só funciona como princípio de imanência (tudo está em tudo), como também como princípio de infinito. O infinito da substância não é meramente quantitativo. O infinito pulsa em cada modo porque também é qualitativo. Em ambos os casos, o infinito tem um caráter positivo. Quer dizer, não se trata de um infinito

é o mesmo? Como haver diferença se a substância é uma só.121 como indeterminação ou esvaziamento do sentido. isto significaria a necessidade de um termo mediador. Os modos se relacionam. identidade ou síntese entre os outros dois. uma grande massa homogênea. um espaço que os contêm e permite que coexistam em primeiro lugar. mas o mesmo termo idêntico e duplicado. unívoca e plena? A resposta está na infinitude qualitativa da multiplicidade. Esse infinito intensivo tensiona o desejo a afirmar-se. A multiplicidade é feita materialmente de tudo o que pode existir. As essências diferem entre si na medida em que . O infinito é saturado de determinações. de uma maneira que não é a da proximidade ou identidade. é incompatível com o caráter imediato da produção dos seres pela substância. Vale explicar. Isto significa que a infinitude de “possibilidades” de existência imediatamente passa a ser uma necessidade incontornável. na verdade. Se a substância é todos os modos e vice-versa. nesse caso não seriam dois termos. Essa lógica não vale na ontologia constituinte. — nessa trama material e intensivo que o desejo vibra. para que a qualidade possa se relacionar com outra qualidade. de um “espaço” para homogeneizar o momento da relação. Não intervém nenhum espaço homogêneo. portanto. exprime uma essência possível. necessária da multiplicidade. e efetivamente existe. porque se os dois antecedentes tivessem tudo “em comum” (prescindindo assim do terceiro termo). Esse terceiro termo é logicamente consequente. Cada modo está qualificado do infinito. capaz de garantir a proximidade. se tudo. logo. Essa diferença põe os corpos em relação dispensando qualquer pressuposição de um terceiro termo. nada poderia evitar que viesse a existir. cuja dinâmica intensiva muda tudo. A instância de medição. Cada modo que existe. pode-se perguntar: por que não seriam todas as coisas idênticas. um espaço preexistente e independente. A relação entre os modos não se dá somente pela relação que estabelecem na exterioridade entre si. Esse intensivo põe dois modos em relação. no entanto. — como diferença. a monotonia do igualitarismo universal? Como podem existir miríades de coisas diferentes onde quer que se olhe. um espaço que seria o terceiro termo. Seria a ontologia “constituída”. Tudo o que pode existir. uma vez que potência é potência de existir e a potência da substância é absoluta. nenhuma cadeia de equivalências ou quantificações. Ora. de maneira centrífuga. Os corpos não se relacionam com outros corpos como se fossem duas coisas num espaço. esse terceiro. A identidade entre dois termos implica um terceiro que elas têm “em comum”. é a própria plenitude da realidade produzida.

esta luta para que a sua causalidade eficiente interna se afirme diante das causalidades externas. O trabalho da coisa singular. Ao infinito de coisas. A unidade dinâmica encontra no agir a constituição do próprio ser individual.essa figura de todo incompatível com a ontologia de Spinoza. então aí eles são uma coisa singular. p. Gueroult identifica causa eficiente interna e conatus. corresponde o infinito de essências. Trata-se de um indivíduo complexo cuja essência (logo. Mediante a causa eficiente. indica que as coisas singulares são finitas e têm uma existência determinada e. cit. Este esforço por perseverar ante o assédio das outras coisas singulares. singularidade) está na potência de agir. aumentando a potência de existir. Cada essência singular exprime um conjunto singular de efeitos. “Esta nova qualidade do sujeito se abre ao sentido da multiplicidade de sujeitos e à potência construtiva que prorrompe de sua dignidade. Em suma. eles são uma coisa singular e não se comportam como se fossem. como modos finitos. contudo. Sobre a essência singular. mas esse conjunto não encontra par. que nelas não se possa separar existência e essência. como universais ou elementos simples ou abstratos --. quando vários indivíduos todos juntos concorrem numa ação. — é única e insubstituível. é definida como coisa singular. embora exista no mesmo plano de imanência. p. eles são ao mesmo tempo causa de um único efeito. está em combinar-se eficientemente com as coisas que lhe convêm (bons encontros). no que esse sentido difere da imanência absoluta da substância? Diz Spinoza que a coisa finita em seu gênero pode ser limitada por outra de mesma natureza e.na verdade. sem padrão de medida.122 cobrem o infinito de “possibilidades-necessidades” de modos de existência.” 171 O plano de imanência não implica homogeneidade. p. Spinoza: ontologia da liberdade. ao (inter)agir no processo causal do universo. Isto significa uma diferença em si. cada essência é singular. e evitar combinar-se nocivamente com as coisas que não lhe convêm (encontros ruins).a ação define 172 o ser é por ele definido e toda a essência é uma essência que se faz na ação. vale lembrar o que escrevi há quatro anos: Que nas coisas que não são causa de si e por si. a essência põe necessariamente a sua existência e a faz perseverar na realidade. Op. é o próprio conatus. Afinal. Não há metáfora --. com efeito. mas uma heterogênese radical.. as essências estão nas coisas singulares. Cada essência é irredutível às demais. 35. pois as essências também são singulares. de maneira que tal infinito expressa o todo 173 infinitamente infinito que perfaz a substância. A atividade de causar. não possui nada em comum. todas elas são a mesma substância. 173 Ibid. 37.) Temse um universo dinâmico e múltiplo. Uma essência singular é infinitamente diferente de outra. cit. em constante recombinação. . em que as essências não estão acima das coisas em um plano transcendental. é-se ao provocar efeitos. a ação em si.. 35. Uma diferença infinita que não encontra algum termo externo para ser comparada ou mensurada. Não há lugar para o ser estático ou translunar. Spinoza. determinando singularmente cada coisa combinada (e recombinada) a existir. ao afirmar a sua existência. Veja bem. Noutras palavras. do ponto de vista qualitativo. Com a vênia da autocitação: CAVA. únicas. E para completar. isso é certo. A modalidade de convivência entre as singularidades é a diferença. reprimindo a sua potência de existir (. de sua essência. coisas singulares que são determinadas a existir pela potência imanente que é Deus. para ideias imutáveis ou coisas abstratas --. As 171 172 NEGRI. chegando ao conceito de singularidade: A existência da coisa singular depende. adiante. Op. Bruno.

E tampouco pela via da troca. p. a sua razão de ser (também evocada como “A Proposta” por quem hegemoniza o coletivo) continua sendo algo comum a todos. cit. intensiva e extensivamente. por sua vez. É uma caixa oca. pela ação incessante do desejo. Disto decorre. O desejo intensifica a potência exprimida por cada modo. os modos tendem a se alargar (aspecto extensivo) e diferenciar (aspecto intensivo). e assim exclui as diferenças incomunicáveis de sua formação enquanto coletivo. diferenciando este indivíduo daquele. Eles não teriam nada a trocar e nada “em comum”. se organiza pela identidade. Embora um coletivo possa propiciar novas relações e a eventual composição de diferenças singulares. é condição de pertencimento. 97. que os modos não se relacionam entre si pela via da intercessão de coisas “em comum”. sem essas propriedades e qualidades. O indivíduo em si mesmo.123 singularidades são diferenças em si e se relacionam. sem estabelecer uma equivalência para a troca. O coletivo. O indivíduo geralmente é entendido como uma casca vazia. Relacionam-se assim com os outros modos. Singularidades-em-relação geram outras singularidades por um processo de diferenciação. Spinoza. E conecta os diferentes sem reduzi-los ao “em comum”. Demais. não se diferencia de nada. O coletivo. ao infinito. . Os modos compõem outros modos. Como se duas singularidades pudessem trocar coisas equivalentes entre si. Nada é equivalente entre uma essência singular e outra. portanto. uma intersecção dos conjuntos individuais de propriedades e características. costuma unificar um conjunto de indivíduos segundo uma identidade superior. portanto. de maneira que eles se agreguem e gerem tudo o que existe. apesar do vácuo circundante. a singularidade corta em diagonal essa lógica de indivíduos e coletivos. O desejo atua como o clinamen do materialista Lucrécio: inclina a trajetória de átomos incompossíveis. no qual os indivíduos participam. por mínimo que seja. Ativados pelo desejo.” 174 A singularidade não se confunde com o indivíduo e o coletivo. Os 174 NEGRI. numa sucessão entrópica de encontros. assim. sem homogeneizar. presentes ou assumidas por cada um. O desejo intervém. Op. uma multiplicidade composta por singularidades? Só funcionariam a partir de relações estabelecidas com base na diferença. um “em comum” assentido. por exemplo. Não. um invólucro no qual se passam a atribuir propriedades e qualidades. a partir dessa diferença mesma. Como pode funcionar. Participar desse “em comum”. “O mundo é assim o conjunto versátil e complexo das singularidades.

mas que produzam mais ainda no bom encontro entre as diferenças? Vale lembrar que as singularidades se compõem por força do desejo. a sequência de forças materiais incidentes para se produzir algo como o coletivo. Essa composição de relações entre infungíveis só pode produzir sentimentos de amor: a reunião da alegria com a causa exterior que a proporciona. o compele a relacionar-se. em que eles saem de si pela força de seu próprio desejo de propagação e expansão. o caso é promover a produtividade na diferença. O infinito intensivo. quando demonstrou que o dogma do indivíduo da ideologia burguesa na verdade ocultava um processo de individualização específico. na distância insuperável entre elas. ao indivíduo e ao coletivo em exame? Poderia ter sido outra coisa? Podem vir a ser outra coisa? Foi a pergunta de Marx. e não da identidade. Para aumentar a força de existir. fica claro como o sistema spinozano nada tem de fechado. diante da postulação de indivíduos ou coletivos.124 processos de diferenciação em que as singularidades existem. Pensar o sujeito a partir das singularidades significa analisar os processos materiais a partir da diferença. Um processo atrelado à formação histórica de um modo de produção. Em vez de consensos. E não só que produzam. a propagar-se no sentido de realizar encontros produtivos. — mas também que produzam na diferença. só pode ser: que forças intervieram para constituir o indivíduo e o coletivo? Como reconstruir a procissão interna de causas eficientes que levaram. Uma análise mais subjetiva que objetiva. no curso de sua constituição. cada singularidade quer as outras. E o bom encontro gera alegria. — na sua usina geradora e desejante de ser. sua microfísica do poder. que aumentem a sua potência. em toda a sua abstração de singularidades e forças produtivas. Como animar as diferenças num plano de composição política. — não só que elas não precisem depor as diferenças ou se reduzir a um terceiro termo empobrecido. no momento em que eles se diferenciam. De qualquer modo. Disso tudo. precisa existir para que o conjunto funcione. no interior do modo. A univocidade do ser significa que ele se diz de um jeito. das diferenças. Sucede uma versatilidade absoluta da multiplicidade. seu papel estrutural. por exemplo. quanto às . mas esse jeito é infinitamente variado. mas sempre um e outro como entes derivados e decomponíveis. De maneira similar que se podem problematizar os processos de coletivização. Examinar a franja de reexistência dos sujeitos. onde algo como um indivíduo. terrenos “em comum” ou proximidades identitárias. a pergunta materialista. — tanto podem produzir indivíduos quanto coletivos.

e. Toda a multiplicidade se encontra enervada pelo desejo. o ser humano só pode conhecer dois atributos: a extensão e o pensamento. A espécie de deslize cometido pelo filósofo nesse período estaria contida na doutrina dos atributos.125 intensidades e singularidades. Exalta-se a substância enquanto se atribui aos modos uma existência ínfera. Op. p. Assim. Em Anomalia Selvagem. A ruptura da primeira para a segunda fundação se dá em razão de uma crise constitutiva do pensamento de Spinoza. Os mercados estabelecem a mediação das relações de compra e venda. Embora existam em número infinito. Para Negri. . está em formação o mercado capitalista. e homogeniza um espaço adequado para as trocas. As ideias que temos dos corpos. Trata-se de uma vibração contínua em que a continuidade ontológica (i. que impede a ocorrência de vácuo entre as coisas. restaura o Céu e a Terra. Reintroduz-se outro tipo de ontologia: o emanentismo de raiz neoplatônica. por exemplo. são modos do pensamento. Isto fere mortalmente a imanência do ser. impregnado no renascentismo tardio. uma degradação do ser. A duplicação da terra ontológica. Essa emanação significaria uma redução da perfeição intrínseca ao ser. Os modos da extensão são os corpos. A substância causaria os modos passando necessariamente pelos atributos. a imanência) se estabelece pela ação do desejo. o prefácio de Alexandre Matheron a L´Anomalia Selvaggia In NEGRI. trechos da “primeira fundação” suscitam a interpretação que os atributos atuam como mediações entre as substâncias e os modos. cit. pois nada pode se interpor entre a substância e os modos. Essa crise radicaliza as tensões mais politicamente revolucionárias de sua ontologia. ela os emanaria de si. Quer dizer. Negri faz um recorte175 na trajetória de Spinoza e opõe duas “fundações” da obra. Spinoza. A mediação se interpõe entre a constituição de ser e a produção de 175 Recorte que alguns spinozanos discordam. A “primeira fundação” ainda consiste no Spinoza matizado pelo iluminismo burguês. a substância não mais produziria os modos. um sistema universal de equivalências. por todos. e aniquila toda a política subversiva que poderia transpirar da ontologia constituinte. Ver. preenchendo-as com a tessitura do real. Para Negri. O ser se autoproduz uma multiplenitude.. Essa bipartição entre substância e modo reabre a dimensão dos valores. O desejo tem horror ao vazio. Quer dizer. Nesse período histórico. capaz de fixar o preço das coisas. da substância aos modos ocorreria uma redução qualitativa. A doutrina emanentista das mediações confina com o espírito do tempo mercantilista do século 17. 13-19. a “primeira fundação” não é por acaso.

a teoria do valor. também. toda a estrutura de mediação que filtra. o estado. como autonomia e autoorganização. Os modos não dependem de ordens emanadas de cima. cuja política está na arte da composição e dos encontros. a representação política. Sem mediações. cultivar instituições não mediadas pelo valor e a soberania. Esse poder constituído subsiste sobre a potência. tensionar os focos de antagonismo. Origem dos contratualismos. depois da crise. desmontar as relações de produção.”176 As forças mediadas pelo estado e pelo capital não passam de graus inferiores da potência. Assim como o estado deve ser dissipado para ceder lugar ao comunismo. fica fácil. Justificam-se. Reapropriar-se da riqueza mediada/expropriada pela propriedade. os atributos. isso é coisa do diabo. Uma impotência causada pelo medo. assim. Cortar o nexo que se pretende necessário entre as forças produtivas e as relações de produção. Organizar a produção. 189 . Contra o confisco da imaginação por contratos sociais e teorias jurídicas. Essa a democracia absoluta de Spinoza. seja como transferência de poder. da própria potência. as forças produtivas podem agir diretamente. formas jurídicas e soluções soberanas. É o Spinoza dos três últimos livros da Ética. Faz-se necessário derrubar as estruturas que expropriam a constituição de ser. primeiro. para a ontologia constituinte. regulamentação das trocas. Mas.126 riqueza. A hipótese realmente subversiva de Spinoza é outra. segue logicamente a parafernália de normas de organização do trabalho. a superstição e a indução da escassez. Daí por diante. na práxis constituinte. o trabalho. 176 Ibid. tudo para que o capitalismo moderno possa funcionar. “O pensamento spinozano é uma apologia das forças produtivas. Ou seja. segrega e acumula o poder. que mobiliza os súditos à tristeza. uma democracia materialista e produtiva. construir instituições autônomas. trata-se de inventar o mundo por dentro. p. O Spinoza da “segunda fundação”. seja como cessão de direitos. parasitando-a. A natureza naturada passa a determinar como vai ser. as forças produtivas mediadas pelo mercado. o poder constituinte. imediatamente produtivas nas relações entre as singularidades. Os modos se insurgem contra os valores e derrubam os templos. descarta inteiramente a funcionalidade das mediações. A libertação das forças produtivas demanda uma dupla frente de ação: destrutiva e afirmativa. e derramar a carga ontológica da positividade. O povo e o soberano estabelecem um pacto mediador. Daí reapropriar-se.

Viceja no prazer por um mundo infinito a fazerem-se juntos. A produção de subjetividades reforça assim o processo de autonomia contra as relações de produção. conectando elementos. A lógica dos afetos e paixões percorre as coisas. em quantidades e qualidades. — ambos. e a multiplica muitas vezes. Transitam pelas cadeias de causas e efeitos. Esse direito do comum vai até onde se dilata a potência dos agenciamentos das singularidades. produtivo..” 177 Não existe distinção ontológica entre realidade e subjetividade. Elas saltam 177 Ibid.. a subjetividade está impregnada nas coisas. 279 . da potência do outro. e tudo se imanentiza pelo desejo. dependentes da mediação/norma. Imaginação paranoica só pode resultar em superstição e servidão voluntária. Nenhum fiapo de idealismo! Por subjetividade. se entende a autoprodução de sujeitos no interior do processo de constituição. diferencial. se contrai e dilata. A subjetividade existe em estado fluido. Eis aí uma teoria do sujeito matizada pela dinâmica das singularidades. Pauta-se pelos bons encontros. sem qualquer mediação. É potência material. Esse trânsito das subjetividades é selvagem. proliferando as relações e afecções mútuas.e alastra molecularmente os antagonismos entre a potência e o poder que a recalca. Neste terreno da libertação. Essa imaginação incorrupta pelo medo da diferença. --.) A teoria do sujeito é uma teoria da composição. pela mesma razão que os modos finitos e reais trazerem em si as qualidades intensivas da substância. em função da capacidade de diferenciar-se e procriar novos efeitos. existe no real. Se cada essência singular possui uma qualidade intensiva. Além de jusnaturalismos ou juspositivismos. no amor da práxis coletiva de organização. O direito comum para instituir e sustentar um ciclo virtuoso de relações geradoras de ser e vida. o único direito digno é um direito atribuído às singularidades. Um direito que é potência afirmativa. e não norma. a produtividade e a alegria crescente do conjunto. Destarte. “A teoria política de Spinoza é uma teoria da composição política da subjetividade (. realizando bons encontros. de uma forma ou de outra. e é um objeto real. p. Um direito vivo. Dá-se a grandes velocidades e intensidades. na ontologia constituinte. — refiro-me a direitos singulares cujo plano de composição política elabora o direito comum. a subjetividade se compõe de singularidades-em-relação.127 Uma tarefa prática para a imaginação multitudinária orientar. Age no real potenciando os direitos singulares.

Colam e descolam-se dos processos materiais. Que subjetividade é essa.000 km do shopping. com sinal negativo. bem como todas as coisas. assombrações. em histórias fragmentadas. a crise não é uma questão cronológica ou periodizável. De seu ponto de vista.e. algo impensável ao pensamento “primitivo”. Gases muito voláteis. a descolonização de uma racionalidade em crise? A produção de subjetividade parte da crise. . e nessa fissura da narrativa dominante cresce em potência e cupidez. O episódio é descrito numa carta do filósofo holandês. incandescente. e então dos objetos nos sujeitos. Quantas mil coisas condenáveis não teriam acontecido. 128. pulam muros da prática e da teoria. o leite e a manteiga chegassem a nossas mesas? A vitrine não mostra o trabalho semiescravo dos asiáticos a 20. O casaco de Marx: roupas. mas recalca toda a procissão interna que levou a sua gênese.é o novo está em gestação por dentro do velho. inchados. deslocamentos. coisas dos mortos e diabo: STALLYBRASS. Marx aplicou um conceito da antropologia do século 19 na famosa tese do fetichismo da mercadoria. quantas cadeias produtivas e circuitos de circulação estão implícitos em nosso café da manhã. quase imperceptíveis. Mas existe também o fetiche positivo. a ser organizada e potenciada. A mercadoria não guarda memória do trabalho. a pele dos eventos. manchas de tinta colorida. Peter. inflados. i. A mercadoria se apresenta como valor. para que o pão. A modernidade desencantou tudo isso.128 sobre as distinções idealistas. o poder de entidades nos objetos. memória. porque precisa da coisa como coisa objetivável em valor. uma formação subjetiva desejante. ondas de choque através da multiplicidade. A capacidade de impregnar a superfície das coisas. propagando-se por sobre a superfície das coisas e seres. Cap. de onde os antropólogos europeus construíram. p. Não sabemos quantas operações complexas. os outros e tudo o mais. p. variações loucas e pactos diabólicos. “O casaco de Marx. A substância é atravessada de fora a fora por elas. 39-86 179 Ibid. úteros 178 Mais sobre fetiches positivos. Belo Horizonte: Autêntica. dor.. 2008. estão repletas de tensões. Uma questão de subjetividade. o conceito de fetiche. Podemos ser possuídos. A crise é ontologicamente primeira. a abstração a partir do trabalho vivo 178. a alteridade radical ao projeto da modernidade. de processos impessoais de subjetividade. instala um novo sempre à espreita. com a subjetividade. vive-a como mundo. Tradução de Tomaz Tadeu. A inteligência de Marx esteve em mostrar que os ocidentais “avançados” também fetichizam suas coisas: com o valor. que estimulou o próprio Spinoza alucinar um negro brasileiro e barbudo179. delírios. eis a mágica. --. muitas vezes recombinando e hibridizando.

A revolução permanente do desejo tem tudo para vencer os medos e paixões tristes. Comunismo x capitalismo. Nem vitalismo nem organicismo: engenho. Não pode haver democracia sem uma ciência do desejo. objetivar. e o tirano não tem mais onde dormir em paz. Graças à imaginação e ao movimento de auto-organização.129 sem corpos. . para o que trabalham seus negociantes sórdidos. Uma entropia afirmativa contra todas as termodinâmicas de equilíbrio geral. arte. de degradar a vida e o amor. Prometeu. Em suma. como o sorriso do gato Cheshire. medir e mediar a imanência da produção. baseada na fantasia e realizada com diligência e doçura. são desestabilizadas as operações de fixar.

e propõem a radicalização do antagonismo. onde o capital tenta reduzir a subjetividade proletária ao mundo do trabalho. O Dois se aplica ao Dois. O ponto de partida das lutas está em se abrir um processo de divisão. a dialética na dialética.130 4. A amplitude do antagonismo não cabe no pluralismo agônico das democracias parlamentares. da crítica da economia política ao economismo. A luta revolucionária se orienta pela contínua tendência de suprimir a relação social do capital. ENTRECHOQUES E FAGULHAS Badiou e Negri são filósofos do antagonismo. onde a realidade range sob o peso das sínteses. O comunismo acontece por separação. da revolução à “construção do socialismo”. Ambos os filósofos se colocam como inimigos das sínteses. uma produção do poder constituído. “O Dois vira Um”. Esse Um sintético se dá de muitas formas: pela redução da política à representação. Investiga as superfícies de contato e pressão entre as forças antagônicas. da decisão à gestão. Badiou remodela o materialismo dialético para instaurar o Dois como o próprio ânimo militante do comunismo. É preciso perceber divisões e assimetrias onde o Um se oferece como estanque. Os dois criticam ferozmente as sucessivas reintegrações dos conflitos e contradições pela ordem posta. Negri chama de tendência antagonista o método que pesquisa as dissensões dispersas pelo corpo social. do projeto comunista ao capitalismo de estado (o socialismo). purificando a força dos desvios “à esquerda” (contra os anarcodesejantes pós-modernos) e “à direita” (contra os reformistas e revisionistas de partido). nenhuma conciliação das classes pode conduzir ao comunismo. Atribuem ao capitalismo a oper ação reversa. os choques e manobras. O Um é resultado de sínteses e apaziguamentos. O crime do Um está em institucionalizar a violência de classe. um Dois em ação. sua economia e política mistificadas. Um e outro exercem uma crítica ao modo de organização das relações produtivas como um todo. sistematizar e generalizar a desigualdade na estrutura produtiva. Nenhuma união dos contrários. O Um totaliza e estabiliza. o Dois começa a revolução. dentro de um sistema que se pretende e se apresenta como onicompreensivo. seu modo simbólico de representar os sujeitos. A máxima “Um virar Dois” percorre as propostas teóricas e políticas de ambos. por uma completa dissociação do mundo organizado pelo capital. A dialética da cisão age inclusive por dentro dos movimentos de transformação. sua estrutura social. a revolução na “revolução”. que se movem sobre o um terreno inquestionado e homogêneo .

relegando ao segundo plano a mediação por parte de partidos. Quer deslocando-se da armadilha das falsas contradições dialéticas. --. a extinção do capitalismo. O projeto do comunismo é a própria revolução. direto das forças vivas do trabalho. neutralizada. precisamente. Para Badiou. e resgata uma . ambos defendem que o comunismo já é um processo em curso. Perscrutada. como num jogo de gato e rato. Sua dialética insuficiente e estrutural (Badiou). A revolução é uma realidade. a negociação de denominadores comuns. Ele quem forçou a realidade a mudar para o que é. e não é inevitável como vitória total. Os dois se colocam como antissocialistas e reclamam nada menos que o comunismo. preenchendo a situação de um excesso ontológico que ela não pode suportar.mesmo em seu uso militante. o que acontece é o impossível. sindicatos ou governos de esquerda (Negri). o comunismo significa a abolição da classe proletária. Um e outro desconfiam de sínteses. incitada. De um modo ou de outro. Quem sintetiza é o capital. as pretensiosas “frentes amplas”. e só é simbolizado no campo da representação como força produtiva mediada pelo capital. Não fazem planos da sociedade futura. Quer propugnando por um antagonismo sem mediações. Não há teleologia histórica. nem a forma social depois da revolução. não parecem se sentir confortáveis com a linguagem do consenso. o comunismo não está no fim. isto é. aderem à ideia do “movimento real de abolição do estado de coisas”. O capitalismo vem a reboque. o proletariado falta. O comunismo não é a síntese de capitalismo e socialismo. em proveito do investimento das energias nas contradições antagonistas (Badiou).131 definido pela métrica do capital. A emergência do sujeito faz acontecer o irrepresentável. pois essa costuma ser a gramática do capital. o fim da sociedade de classes. O evento não realiza um possível. organizada. Sem recair em socialismo utópico. tem por objetivo desmobilizar a irrupção do antagonismo. ou mistificadora e despotenciante (Negri). Para Badiou e Negri.de propostas de convergência ou instâncias de conciliação. por um sujeito cuja latência subterrânea está presente em todas as coordenadas do presente. --. Deve ser perscrutada nas condições existentes do presente. a supressão do trabalho. Mesmo quando se referem às forças transformadoras. como uma contradição estrutural. Os dois admitem a premissa que a história é movida pela política do proletariado. na proliferação de lutas sociais já em andamento. Os dois são críticos da noção de síntese operada também pelas “esquerdas”. mas. é causa dissipante da situação. o sujeito badiounista rasga a história. Quer dizer. Nesse sentido.

o proletariado não falta. O sujeito é real e sobrecarregado de determinações. a nossa pós modernidade. Na ontologia constituinte. Apresenta o mercado como o Deus medieval. a capacidade de auto-organização do trabalho vivo. Adapte-se ao mundo real. A lógica da representação não torna o sujeito uma falta. jornalistas. Boa parte da tarefa consiste em elaborar coletivamente noções comuns. apesar das constrições de estado e mercado. Na era da subsunção real. o direito estatal. Basicamente. não gera a mesma quantidade e qualidade de bens sociais. Mas não passa de um conjunto de relações de produção projetadas sobre as forças de produção. e não subjetividade fluida.um suplemento de ser que o faz intrinsecamente incontrolável e perigoso. mas o capital faz de tudo para não lhe dar nome. o valor não é . o mundo do trabalho. segundo a ordem simbólica. este nunca falta ou se dissipa. mas o despotencia através da matriz de mediações: o estado. Sem o trabalho vivo. ele exige sob pena de miséria e desajuste. da ordenação social. em suma.132 verdade antes invisível. procriadoras e imaginativas do trabalho vivo. --. o mercado. que confiram consistência à sua presença. e por isso fora da ordem simbólica capitalista. Para ambos. Para Negri. o capital é estrutura e não força plasmadora. O proletariado como força produtiva se confunde com o próprio ser. as relações de produção. o poder pessoal organizador do mundo. as forças produtivas são um “a mais” quando comparadas ao mundo organizado pelas relações de produção. o capital engendra ao redor de si uma teodicéia. absolutamente pleno. Negri fala em era da “subsunção real”. acadêmicos e todos quantos trabalham dia e noite para conservá-lo. O capital atribui as forças produtivas a si mesmo. A sociedade capitalista se expõe como a sociedade tout court. que para Negri é produtivo e constituinte. No estágio que o capital se dissemina pelas relações sociais se torna mais fácil apresentá-lo como soberano. O sujeito é real. O status quo capitalista procura convencer. do papel de cada um na produção. Esse o antagonismo fundamental para Negri. Qualquer outro modo de produção não é sustentável. De uma forma ou de outra. Produzem um excedente inesgotável em relação ao que pode ser expropriado e coagulado como valor. a força inquestionável por trás da realidade mundana. a produção social mediada pelo capital se assenta nas qualidades cooperativas. que é ele quem produz riqueza. por meio de seus especialistas. Uma assimetria absoluta entre os dois termos da relação social do capital. Esse excesso é a própria imaginação real. trabalho coagulado e objetivado. o trabalho vivo comporta toda a produtividade existente.

é a tarefa da copesquisa. republicanos e humanistas moralistas. Expor como isso ocorre. os trabalhadores e os talentosos. O capital e o trabalho. As sínteses prosseguem tapando as brechas de eventos revolucionários. ou ideologia assassina. extinguir a condição . O problema pelo capitalismo. ou seja. a lei e a negatividade só existem apoiados sobre a potência. A história é escrita. nas bacias do trabalho vivo. O poder. como se a alternativa. o Badiou de Teoria do Sujeito chamaria a realidade dominada pelo capital de espaço de posicionamento das coisas que existem.133 objetivado. o capital se confunde com o próprio meio social. ainda que refratada. Negri propõe a práxis constituinte no lugar de todas as indignações de bela alma. --. Ao mesmo tempo em que organiza os elementos de autonomia. com sua falsa e maniquéia contradição reproduzida todos os dias no jornalismo. destarte. a fim de premiar os justos.já não fosse o seu próprio pressuposto inconfesso. cujas divisões agudas e violentas se reduzem a uma questão de moral e mérito. As classes têm de conviver dentro do capitalismo. impondo limites e imobilidades ao trabalho vivo. o antagonismo é recodificado como contradição estrutural. Eis a utopia de liberais. como servidão voluntária. toda alternativa. Por sua vez. o vade-mécum da grande imprensa. e dispara os antagonismos. --. Como se o proletariado não desejasse a própria abolição. O capital contorna o fato e se automistifica como a própria essência produtiva. Se as instituições do capital conseguem funcionar. Todo poder é potência. ou é fantasia. mal intencionadas e excessivamente gananciosas.essa autonomia construída no seio do trabalho vivo. um desejo refreado e voltado contra si. nesse conto de fadas. então. O estruturalismo acomoda os conflitos no sistema. Para o capitalismo. um grau inferior de potência. é livrá-lo de pessoas corruptas. Negri deixa claro como essa mediação mitiga a produtividade. e não há capital. o desejo e a positividade. uma sociedade de chances iguais para todos. possa funcionar como autêntica meritocracia. A ilimitação e a mobilidade reforçam a autonomia do trabalho vivo. a política é aprisionada no jogo político da representação. --que são ontologicamente primeiros. podem negociar um ponto justo. Para que. Nessa utopia. a “situação” estruturada. Em sua ordem simbólica. é porque conseguiram se vitalizar com a exploração do trabalho vivo. O capital parasita o trabalho vivo. A topologia é mais complexa. a sociedade na totalidade. os cidadãos de bem em combate à corrupção. Isto não implica antinomia. Surgem instâncias de mediação “à esquerda”. O capital é sempre um “a menos”. tudo que se pode fazer e ser. o campo dominante da representação. não se move.

A verdade materialista não se define pela adequação ou prioridade dadas às coisas. às coisas ou à realidade objetiva. Não admite ontologias fundadas no eu. subordinada. A crise como chave de desdobramento da complexidade do real. Pensar da crise é o próprio materialismo. Esse Eu conflagrado muitas vezes se crê transcendente apenas para lavar as mãos e não fazer nada.134 inferior. A atividade do pensamento não pode se reduzir à especulação ou esquematismos de razão pura. O comunismo é uma práxis . não admira as ocupações e movimentos radicais piolharem de negrianos e badiounistas. --. e daí tem de lidar com essa inadaptação.e todo esse encontro contínuo com as limitações e condições reais. Frequentemente irascíveis. uma tendência do século 19 construída como alternativa à concepção religiosa do mundo e espiritualismos daqueles tempos românticos. uma paixão voltada contra si na forma da (má) consciência. e angustiado escutar o ser. a conciliação dos contrários como um bem em si. Manipula-se o desejo de Um. O materialismo marxista não se concentra na matéria. polemizaram contra todas as tentativas de revisionismo histórico. E se falam em derrotas históricas. O materialista não crê na transcendência de si mesmo ao real. O pensamento se mobiliza ao deparar com os impasses.e não aparece. essas grandes crises. as perplexidades. Com Nietzsche. Não existe materialismo marxista sem teoria da crise. na consciência. não a interiorizam como derrotismo. Os dois autores são pensadores da crise porque se instalam nela como perspectiva e mundo. a forma marxista. O Eu é desde sempre produzido. Mas pelo critério da prática como mobilizador das verdades. a hipótese como aposta e reafirmação de propósito. os travamentos. como a Revolução Russa ou o Maio de 1968. Badiou e Negri são pensadores da crise. uma interioridade escavada no ressentimento de não poder efetuar a própria potência de existir. Essas teorias burguesas de que o Eu aparece para o mundo de repente. Materialismo não se confunde com apego à matéria. o que é ensinado desde a infância. a borda do pensamento a partir do que flui a imaginação. diante de eventos/ciclos de lutas. ou uma nova política na filosofia. mas na práxis. quando muito esse Eu é apenas uma doença da razão. --. na escuta do ser. o que seria apenas outro idealismo. explorada. coagida e por vezes violentada. Um e outro viveram essa crise e elaboraram a teoria a partir disso. Isto seria um materialismo fisicalista ou cientificista. e acaba fazendo a apologia do status quo. Em tempos de mais uma crise generalizada do capitalismo. Seu materialismo radical tem inspirado um novo modo de fazer filosofia.

As consequências que podem ser aprendidas com o evento definem a sua verdade política. Essa transcrição desestabiliza as coordenadas da presente situação. Vale invocar um recente texto sintético (e pregnante) do último180.The Communist Hypothesis. ou entre o Maio de 1968 e a conversão de São Paulo. Os dois autores não cansaram de recusar todas as manifestações do individualismo. Uma diferença crucial entre o sujeito revolucionário para Negri e Badiou está na posição ocupada pela crítica da economia política na maquinaria conceitual. Londres: Verso. A operação histórica do sujeito o faz saltar entre esses platôs. ed. digamos. Para Badiou. Elas se definem como cadeias específicas de ações e práticas coletivas. . O sujeito é aquela força capaz de transcrever a carga excedente de real desses eventos. inclusive as mais sofisticadas. deflagradas por momentos revolucionários. Alain. a práxis da organização leninista para o evento chamado Revolução de Outubro de 1917. sua estrutura entra em risco. --. a Comuna de Paris e a Revolução Cultural Chinesa. a verdade reescreve todo o passado dos agentes. e daí dimanam séries de procedimentos políticos-organizacionais que podem ser retomados e que embutem elementos eternos de libertação e revolução. As verdades não existem num limbo. e só pode ser efetivo por meio de um sujeito. p. As verdades políticas se interconectam sem linearidade. 1.e não na desgraça intima. Essa transcrição implica modos de efetuação das verdades políticas na situação presente. numa matriz trans-histórica. A verdade política tem um caráter processual. O sujeito sustenta o processo de verdade. o direito civil e o bom pai de família. na interioridade psíquica. Assim. O primeiro elemento se relaciona com a produção de verdades políticas. nos conflitos. Por exemplo. colhendo as fagulhas revolucionárias. Esse processo prescreve um sujeito para si. A crise que importa está nas relações. histórico e subjetivo. 2010. a “Ideia do comunismo” se baseia em três aspectos: político.135 constitutiva e não transige com existencialismos. Colocada em marcha pelo sujeito no presente. na política. podem se estabelecer conexões entre. Acontece. A modalidade de existência da verdade é a do futuro anterior. 229-260. e pela própria força 180 Este § cf BADIOU. contra a resistência da ordem posta. Não confundir produção de subjetividade com subjetivismos burgueses. por exemplo. um conjunto de operações e um tipo de formalização da realidade. a Comuna de Paris. detrás do que espreita a teoria do contrato. O aspecto histórico se relaciona com o caráter trans-temporal da verdade.

136 transforma juntos o passado e o futuro. se dá com a decisão de incorporar-se ao sujeito. novamente. estrangeiro.e não a História oficial. a operação realizada outras vezes pela Ideia comprova a abertura da história à ocorrência da verdade. A subjetivação do indivíduo projeta no presente situado.. com as suas desigualdades e injustiças. pregando o igualitarismo absoluto de todos como cristãos. que intervém graças ao sujeito. Toda a ordem simbólica. -. A palavra é essa mesma: “incorporação”. uma narrativa meramente simbólica. É o começo da revolução. O indivíduo se torna parte do corpo da verdade deflagrada pelo evento. “é preciso ter uma Ideia (. Desestabiliza a situação dada.) Faltando a Ideia. BADIOU. Um militante da verdade. O sujeito “veridificante” renova o comunismo. subjetivado no caminho de Damasco. É o real. um fragmento de uma verdade universal e eterna. sobrecarregando a ordem simbólica de um real anômalo e inestancável. impossível de ser animada pelas verdades. se constrói pela sucessão trans-temporal das verdades políticas dos eventos. São Paulo: Boitempo. ao emergir corporificado com a carga sobejada de verdades. com suas operações. fiel à universalidade do comunismo. São Paulo. por sua vez. cit. Para Badiou. e ameaçando a ordem política do Império Romano e do judaísmo. A História serve para legitimar o estado das coisas. para abolir todas as identidades existentes (romano. Onde? “ Existem mais e mais de nós envolvidos em novos tipos de processos políticos entre os pobres e as massas 181 182 BADIOU. O aspecto subjetivo. pobre etc)181. aqui. a confusão das massas é inescapável. Nesses períodos. e perpetuar as condições de sua perpetuação. 2009.”182. A reabertura desse processo é uma realidade a ser pesquisada. 256 e 258. Apesar dessa emergência sempre implicar uma inovação na situação dada. Mas como projetar a Ideia para a organização de novos eventos revolucionários? Como antecipar a criação de novas possibilidades? Para se começar uma revolução. em consequência. é colocada em questão. o cristão. Tradução de Wanda Caldeira Brant. É São Paulo. p. corporificado com ela. linear. Op..The Communist Hypothesis. A história que importa para o sujeito. Alain. contada segundo os signos da ordem representativa da situação. Alain. é eterna enquanto fragmento da verdade universal. uma conversão ao movimento da história. mulher. escravo. A Ideia do comunismo consiste na operação com que se podem mobilizar as verdades políticas de eventos fundantes. Esta História é vazia e objetivada. o real se manifesta com a força da verdade. . Uma nova identidade universal e eterna (“todos iguais”).

--. 186 BOSTEELS. mas agora.. Badiou and Politics. Op. ZIZEK. redimensioná-las. Não é outro o ensinamento da copesquisa. Considera o problema da economia política inteiramente adstrito à situação dada. --. nenhum exame dos termos por dentro da relação do capital. a relevância de resgatá-las. --. p.que de intrincadas análises do capitalismo. A periodização da política procede por saltos históricos atrás de momentos extraordinários de mobilização de massa. é a falta de poder explicativo de seu esquema da Ideia. Bruno. 260 BADIOU. A práxis depende do teste de hipóteses concretas que. a razão que elas engendram. esquerdistas ou simplesmente conservadoras. cit. p. 2010. Théorie de la contradiction apud BOSTEELS. sua gênese ou crise. Badiou and Politics. Em Badiou. saltos à memória das lutas para escovar a história a contrapelo.Badiou poderia ter repetido uma formulação dele mesmo: “ o marxismo é a sabedoria acumulada das revoluções populares. essa opção metodológica é consequente. Prescreve. A teoria do sujeito se articula com a verdade e o evento. A frase acima. O fato é que o marxismo de Badiou não se debruça sobre a crítica da economia política185. O que faz toda a diferença. p. Bruno. obtêm alguma espécie de eficácia.137 trabalhadoras. 183-185.e sem sequer recorrer à tríade (reconfigurada) de Lacan. --. tampouco cartografias das lutas globais. ser fiel a seus ensinamentos profundos. cit. todavia. E desdobra originais arquiteturas teóricas para polemizar com inúmeras correntes revisionistas. tentando encontrar cada maneira possível de apoiar a reemergência de formas da Ideia comunista na realidade.e sua sustentação pela organização política. Em termos bastante mais simples do que em The Communist Hypothesis. Para Bruno Bosteels 186. dispensa-a. Sem sujar as mãos com alguma eficácia no teste das hipóteses práticas. o que fazer? Falta-lhe uma análise material dos processos de configuração do sujeito revolucionário por dentro das lutas contemporâneas. a fixação e a precisão desse alvo”184. Daí a preferência de Badiou por textos por assim 183 184 Ibid. não diz quase nada. colocadas em marcha nos movimentos. 280-283 . aliás. nenhuma analítica do capitalismo global. Living in the end times. Pelo contrário. Londres: Verso. O que se pode dizer.. Alain. A subjetivação capaz de manter viva a chama do marxismo depende muito mais da reconstrução do evento.”183 Não se pode dizer que Badiou despreza o movimento real de abolição do estado de coisas. apontam-se exemplos de revoluções. Slavoj. sim. o marxismo se reduz a uma discussão puramente intelectual. 280 185 No mesmo sentido. ao modo benjaminiano. Op.

htm. e antes de Badiou and Politics. Badiou and Politics. O que fazer?188 ou Problemas estratégicos da guerra revolucionária na China189. cit. Em suma. como o Manifesto Comunista187. com a hipótese compreensiva da “subsunção real”). cit. em NEGRI. Karl. Vladimir. entre sujeito e ontologia constituinte. Negri também se refere diretamente a Badiou. Em síntese. Rio de Janeiro. 1998. 30. 190 191 BOSTEELS. p 39 .marxists. Problemas estratégicos da guerra revolucionária na China. o comentador de Badiou atribui190 a carência de poder explicativo a Negri e Hardt. reduz o escopo da análise. divisas. se perde de vista toda uma zona intermediária de subplatôs e diagonais. Bruno. não creio! Badiou não considera a temporalidade mais lenta dos processos em sua latência. p. não só o pensamento abstrato e o ideal de pureza “janseísta”. 189 MAO. Manifesto Comunista. Op. p. Assim. O que fazer – a organização como sujeito político. 56. ANTONIO.org/portugues/mao/1936/guerra/index. o que dependeria de uma colocação mais situada. faltam coordenadas. NEGRI. 192 Ibid. metodologias.138 dizer de “enfrentamento direto”. Descartando o exame da diferença entre antagonismos estruturais e fundamentais. 29. Outrossim. LÊNIN. Op. São Paulo: Boitempo. como também o socialismo utópico. É possível ser comunista sem Marx? Tradução de Bárbara Szaniecki. 116 e 284. definições. nas frentes em que os antagonismos acontecem. e muito menos a transitividade entre sujeito e produção. O antagonismo imediato teorizado por Negri. Revista Lugar Comum. que Badiou ainda incorre residuamente. Negri se dirige diretamente a Badiou em “É possível ser comunista sem Marx?”191 Basicamente. Atribui a esse tipo de maoísmo. n. 2011. imputa ao “maoísmo radical” francês um horror à história. 2011. da construção passo a passo dos antagonismos. como seguidor oculto do credo quia absurdum de Malebranche. Uma incapacidade crônica de analisar os processos histórico-políticos e estabelecer um continuum de acumulações de luta. “Como distinguir o evento de um artigo de fé?”192 Se é absurdo. ENGELS. de Bosteels. no entanto. de Badiou. Antonio. A revolução brota do seio das massas ao chamado da organização. Acesso em 6 ago. tem-se uma imputação a Negri de incorrer em pensamento abstrato. sua operação de cisão aplicável a qualquer termo situado. no mesmo livro. atentar para as peculiaridades das contradições colocadas. 31-32. sindicatos ou órgãos do estado. Tradução de Alejandrina Falcón. Sobre a questão. que o materialismo dialético permite configurar com seus pares intercruzados. Buenos Aires: Nueva Vision. 285. Sem. que parece estar sempre 187 188 MARX. demasiado generalizador. Spinoza y nosotros. O artigo foi publicado depois de A Hipótese Comunista. independente de partidos. Disponível online em http://www. e toda a espécie de ferramenta teórico-política para conferir materialidade ao comunismo de Badiou. p. F. segundo Negri. 2012. Os autores generalizaram processos a grandes escalas e acabaram hipostasiando o antagonismo (por exemplo.

139 “além da prática política. a red ução ao problema da autonomia do político. Isto significa não só rejeitar os objetivismos economistas. pragmaticamente associada à copesquisa. 38 Loc. além da história”193. No materialismo. cit. “É portanto muito difícil entender onde se encontram. quer para explorá-lo e confinálo. do quantitativo e do extensivo. o socius se confunde com a sociedade capitalista. bem como a hipostasiação do social. Uma crítica da economia política que considere “modo de produção” no sentido alargado de produção de subjetividade. como organização do trabalho vivo. entendido como um meio homogêneo. excessivamente descolado das lutas. estratégias e capacidades para radicalizar a crise.onde estão as oportunidades. o político e o econômico. . a tensão ética é levada ao máximo. Na crise. De um lado. Primeiro. seja do econômico. E erro ainda ao tratar o socius como médium. quando não há política senão como produção de ser. a redução da crítica imanente do sistema produtivo ao problema da gestão.ou à pesquisa participante. expande demandas e dilata sua esfera de querer e amar. quer para libertá-lo e fortalecer-lhe a autonomia.”194 A crítica da economia política não pode faltar à teoria do sujeito comunista. seja do político. --. --. mas ao mesmo tempo o antagonismo se alastra por todo o corpo social. do crescimento econômico. enfim --. na interzona das produções de sujeitos e objetos. Daí que estão erradas. as invocações de autonomia. em vício simétrico. na superfície dos contatos e rangidos com a máquina. É dessa brecha. O social não é o lugar de aplicação do político. Na subsunção real. na tensão do arco retesado. Aqui. --. o foco está nos processos produtivos. A redução da “construção do socialismo”. As 193 194 Ibid. vistos a partir da crise que os constitui e mobiliza. dois erros idealistas. É a ferramenta materialista. p. para Badiou.três platôs interconectados e sem primazia de um sobre o outro. e o desejo faz do mínimo o máximo. mas também os politicismos. Do outro lado. sob a espécie materialista. Como se o político fosse uma chave de explicação e inteligibilidade de qualquer conflito no social. O próprio social é uma produção. como suporte das relações políticas. que se podem compreender o social.que pode sondar na materialidade das relações. por separar o político da produção. as condições ontológicas do sujeito e da ruptura revolucionária. enquanto hipótese à altura dos desafios de seu tempo. percorrida ontologicamente pelas dinâmicas constituintes. da qualidade ontológica da produtividade.

Essa força subjetiva atiça os antagonismos. novas ruas e movimentos. Um materialismo das diferenças ativas. Assim que as novas dinâmicas surgem. na rede de diferenciações e singularidades da nova composição do proletariado. com intensa produtividade. daí utópico? O ser sobrecarrega as relações de determinações. Não é outra a proposta do método da tendência antagonista. do que qualquer falha estrutural ou conjuntural do sistema econômico. --.precede as tentativas de enquadrá-la na métrica capitalista. ou a luta armada inconsequente. Então é preciso amassar o barro e andar descalço. A resistência é primeira no sentido que essa emergência.como os átomos do materialista Lucrécio. quando aquela eleva para fora da história e da política. e se agregam e fazem . possivelmente ao terrorismo. Aqui.140 determinações do antagonismo são essenciais para que não se perca o bom senso da luta. na sua desmedida. vêm as instâncias estatais e mercadológicas para expropriar e aplicar o valor. no infinito qualitativo de suas diferenças.que qualquer instância de poder sonha em poder definirse como o outro ---. --. Antagonismo sem determinação material leva a golpes arrevesados. numa copesquisa de verdade. e sobre elas se projetam as malhas de controle e mediação do capital. O mundo a ser transformado é este e nenhum outro. Viver a crise como mundo significa perceber como já emergem. Que é a ação terrorista. novos modos de organização. mas também seu descolamento do sistema produtivo. A crise do capitalismo global.se inclinam umas sobre as outros. furam o vácuo homogeneizado do capital. E então acelerar o clinamen. --. aqui e agora. O problema da dialética é que se situa muito distante do ser. dos fluxos e redes de subjetividade. --. novas formas produtivas e subjetividades. e pode generalizar as microinsurreições num processo incontornável.no sentido que essa relação se torna tanto mais instável quanto maior a capacidade de autonomia. a hora do anticlímax. cooperação e imaginação do trabalho vivo.uma auto-organização do trabalho vivo. Esse método busca apreender a rede de antagonismos na sua emergência. o ponto em que as singularidades antagonistas. --. Trata-se de apontar a crise como constitutiva da relação do capital. É daí que se pode construir uma práxis capaz de transformar o capitalismo: na auto-organização do movimento alternativo que já existe. A crise se dá exatamente porque enquanto as subjetividades emergem. É preciso extrair não só os finalismos da dialética. indica muito mais a dificuldade de o capital subsumir as novas emergências de subjetividades. --. do que um antagonismo indeterminado ou pouco determinado? Insuficientemente materialista. hoje.

por mais empobrecida.141 multidão. Um excesso inclusive racional. Ela . Ela transita. uma razão contida numa paixão maior. capaz de desarranjar os esquemas. com uma recomposição do entorno.com todo esse monumental aparato de ciências subsumidas ao capital --. e ao sujeito individual ou coletivo. poderemos escutar a força impressionante desse rio. desfazendo roteiros. O assédio das coisas não reinará. A afirmação do conatus é resistência. não nasce da normatividade ou transcendentalidade. que é triste. na sua plenitude. de direito e produtiva. inclusive dos próprios limites e formas. o comunismo precede o capitalismo. a potência de ser o que quiser. a liberdade de nada ter a perder senão os próprios grilhões? O direito singular coexiste com outros direitos singulares. um dia subsumido pelo capital. O sujeito para Negri se autoproduz. A imaginação vibrada pelo desejo não cede à superstição. para reapropriar-se da riqueza. Foi a eleição do presidente Lula. o espaço e o tempo. porque a contingência do mundo também significa liberdade.que se afirmam encontrando-se e potenciando-se. Porque a história do comunismo corre por debaixo do capitalismo. É a razão liberta das amarras contra a mediocridade do conhecimento institucionalizado. Que é a pobreza absoluta senão subjetividade pura. Sua autonomia é de autoprodução. mil fontes e oásis. qual subjetividade selvagem. A formação dos sujeitos está no manancial do trabalho vivo. uma autopoiese que é concomitantemente política. A pobreza. Não como comunismo primitivo. Se pusermos a cabeça no lugar dos pés. da redução ao valor.do qual o capitalismo é apenas o delta amortecido e seu deserto. o que no plano político se desdobra como a vitória da esperança sobre o medo. vaza com jeitinhos e coisas novas. Essa imaginação real sobrepuja as teologias políticas. cevados de experiência e compartilhamento. --. Esse sujeito não se origina nas mediações atributivas do estado. na qualificação da vida. impregnando códigos. --. como um rio subterrâneo caudaloso que vaza e aflora por todos os lados. O direito singular afirma o que pode e luta para perseverar ante o assédio das causas externas.no campo relacional e dinâmico em que podem se potenciar. desarranjando fórmulas. Resiste aos maus encontros do poder constituído. O excesso das forças produtivas em relação às relações de produção significa que sempre haverá material para a imaginação. Quem tem medo da ontologia positiva? No fundo. do mercado e de outras formas capitalistas.que o estado precisa para continuar governando. --. isto é. Essa construção também é sedição ao estado e ao mercado. É ser. porque vai além dos limites do que pode. --. da própria potência usurpada. ao mercado.

uma economia de paixões liberta do estado. O desejo encontra a razão e os dois potenciam.142 atravessa a forma de se relacionar. inclusive do estado dentro de nós. do conatus ao amor. Esse emassamento sucessivo de mil dinâmicas do trabalho vivo produz o sujeito e gera. numa combinação enredada pelo desejo. o direito comum dos agregados sociais. do estado e do privado. das formas capitalistas. O conatus leva a passagem do ser pleno ao sujeito que participa da construção comum.um direito do comum. Cumpre agora pensar um direito além das mediações. o amor da construção comum. . um que confira duração e consistência a esses direitos comuns --. as individualidades e as coletividades.

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