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DICIONÁRIO DE POLÍTICA

Legitimidade
I. Definição geral. Na linguagem comum, o termo Legitimidade possui dois significados: um genérico e um específico. No seu significado genérico, Legitimidade tem, aproximadamente, o sentido de justiça ou de racionalidade (falase na Legitimidade de uma decisão, de uma atitude, etc.). É na linguagem política que aparece o significado específico. Nesse contexto, o Estado é o ente a que mais se refere o conceito de Legitimidade. O que nos interessa, aqui, é a preocupação com o significado específico. Num primeiro enfoque aproximado, podemos definir Legitimidade como sendo um atributo do Estado, que consiste na presença, em uma parcela significativa da população, de um grau de consenso capaz de assegurar a obediência sem a necessidade de recorrer ao uso da força, a não ser em casos esporádicos. É por essa razão que todo poder busca alcançar consenso, de maneira que seja reconhecido como legítimo, transformando a obediência em adesão. A crença na Legitimidade é, pois, o elemento integrador na relação de poder que se verifica no âmbito do Estado. II. Os níveis do processo de legitimação. Encarando o Estado sob o enfoque sociológico e não jurídico, constatamos que o processo de legitimação não tem como ponto de referência o Estado no seu conjunto, e sim nos seus diversos aspectos: a comunidade política, o regime, o Governo e, não sendo o Estado independente, o Estado hegemônico a quem o mesmo se acha subordinado. Conseqüentemente, a legitimação do Estado é o resultado de um conjunto de variáveis que se situam em níveis crescentes, cada uma delas cooperando, de maneira relativamente independente, para sua determinação. É, pois, necessário examinar separadamente as características dessas variáveis que constituem o ponto de referência da crença na Legitimidade. a) A co mun idad e po lítica é o grupo social, com base territorial, que congrega os indivíduos unidos pela divisão do trabalho político. Esse aspecto do Estado é objeto da crença na Legitimidade, quando encontramos na população sentimentos difusos de identificação com a comunidade política. No Estado nacional, a crença na Legitimidade é caracterizada, com maior evidência, por atitudes de fidelidade à comunidade política e de lealdade nacional. b) O regime é o conjunto de instituições que regulam a luta pelo poder e o exercício do poder e o conjunto dos valores que animam a vida dessas instituições. Os princípios monárquico, democrático, socialista, fascista, etc., caracterizam alguns tipos de instituições, e dos valores correspondentes, que se caracterizam como alicerces da Legitimidade do regime. A característica fundamental da adesão a um regime, principalmente quando tem seu fundamento na crença da legalidade, está no fato de que os governantes e sua política são aceitos, na medida em que os aspectos fundamentais do regime são legitimados, abstraindo das pessoas e das decisões políticas específicas. A conseqüência é que quem legitima o regime tem que aceitar também o Governo que veio a se concretizar e que busca atuar de acordo com as normas e os valores do regime, mesmo não o aprovando ou até chegando a lhe fazer oposição bem como à sua política. Isto depende do fato de que existe um interesse

a Legitimidade do terceiro tipo tem seus alicerces substancialmente nas qualidades pessoais do chefe e. O que é essencial. uma colônia. um Estado no sentido pleno da palavra. a Legitimidade do segundo tipo assenta no respeito às instituições consagradas pela tradição e à pessoa ou às pessoas que detêm o poder. porém. tem existência efêmera. o prestígio e as qualidades pessoais de quem se encontra no vértice da hierarquia do Estado. cujo direito de comando é conferido pela tradição. isto é. embora em diferentes medidas. O ponto de referência da crença na Legitimidade será. Não temos. isto é. para distinguir o poder legal e o tradicional do poder pessoal ou carismático (esta célebre tripartição é de Max Weber) é isto: a Legitimidade do primeiro tipo de poder tem seu fundamento na crença de que são legais as normas do regime. uma certa dose de personalização do poder. Todavia. e que legal também é o direito de comando dos que detêm o poder com base nas mesmas normas. O fundamento desta convergência de interesses está em que o regime é assumido como plataforma comum de luta entre os grupos políticos. por não resolver o problema fundamental para a continuidade das instituições políticas. para ele ser qualificado como legítimo é suficiente que tenha se estruturado de conformidade com as normas do regime e que exerça o poder de acordo com os mesmos. sua Legitimidade encontrará suas bases de apoio. o problema da transmissão do poder. como conseqüência desse fato. isso acontece quando as instituições políticas se encontram em crise e os únicos fundamentos da Legitimidade do poder são a superioridade. por não ser independente. quando a força do Governo repousa na definição institucional do poder. d) Só nos resta examinar o caso do Estado. nas instituições. inteira ou parcialmente. inteira ou parcialmente. visto estes o considerarem como uma situação que apresenta condições favoráveis para a manutenção de seu poder. . de tal forma que se achem respeitados determinados valores fundamentais da vida política. para a conquista do Governo e para a concretização parcial ou total de seus objetivos políticos. os homens nunca permitem que o papel desenvolvido pelos seus chefes os faça esquecer suas qualidades pessoais. Conseqüentemente. um protetorado ou um satélite de uma potência imperial ou hegemônica. na Legitimidade do sistema h egemôn ico ou imp eria l em que se acha inserida. a potência hegemônica ou imperial. em todos os regimes. Uma comunidade política que se acha nesta situação encontra grandes dificuldades para despertar a lealdade dos cidadãos por não ser um centro de decisões autônomas. neste caso. Vimos que normalmente. estabelecidas propositalmente e de maneira racional. Encontra-se. não está em condição de cumprir sua missão primordial de garantir a segurança dos cidadãos (e até o próprio desenvolvimento econômico). c) O Go ve rn o é o conjunto dos papéis em que se concretiza o exercício do poder político. que. pode acontecer que a pessoa que chefia o Governo seja ela mesma objeto da crença na Legitimidade.concreto que une as forças que aceitam o regime: a sustentação das instituições que regulam a luta pelo poder. e sim um país conquistado. pela sua ligação com a pessoa do chefe. Esse tipo de Legitimidade. No Estado moderno. neste caso. somente de forma secundária.

No momento de escolher um método legal ou ilegal para a realização dos objetivos . nem perceber objetivos concretos de luta. Legitimação e contestação da legitimidade. A esta altura.III. Os diferentes níveis do processo de legitimação determinam os elementos que se caracterizam como ponto de referência obrigatório para a orientação de indivíduos e grupos. ao contrário. distinguir entre duas atitudes: a de revolta e a revolucionária. sem determinar historicamente a própria negação e a própria rejeição. a aceitação do Governo e de suas ordens. o Estado é percebido. O segundo tipo de luta se dirige contra a ordem constituída. das normas que servem de sustentação ao regime. implica não apenas. na medida em que não têm como finalidade a mudança também do regime ou da comunidade política. não consegue captar o movimento histórico da sociedade. para a oposição. então esse comportamento poderá ser definido como co n te sta ç ã o d a Leg iti mid a d e. ao contrário. mas também às que a ele se opõem. enfim. propõe uma diferente maneira para a gestão do sistema estabelecido. podemos discriminar dois tipos básicos de comportamento. e. tendo como objetivo a modificação substancial de alguns aspectos fundamentais. que possibilitem realizar as transformações possíveis da sociedade. mas também o sistema de Governo. A atitude revolucionária produz. à existente entre política reformista e política revolucionária. historicamente determinada. mas não combate as estruturas que condicionam sua ação e. sob esse enfoque. à rejeição abstrata da realidade social. O comportamento de legitimação não se aplica somente às forças que sustentam o Governo. as estruturas que ele exprime. como estando em contradição com o próprio sistema de crenças. num certo sentido. Conseqüentemente. mantendo de pé as estruturas políticas existentes. mas também a legítima aspiração. e acaba aprisionando-se numa realidade que não consegue alterar. a ação de grupos e indivíduos. da realidade social. como já foi salientado. buscará a derrubada das instituições políticas que dificultam seu desenvolvimento e a criação de novas instituições capazes de libertar as tendências amadurecidas na sociedade para formas mais elevadas de convivência. Analisando. e se este julgamento negativo se transformar numa ação que busque modificar os aspectos básicos da vida política. Precisamos. estamos já examinando o comportamento de contestação da Legitimidade. uma negação. isto é. O primeiro tipo de luta busca alcançar mudanças. de se transformar em Governo. o comportamento de indivíduos e grupos pode ser definido como legitimação. A diferença entre oposição ao Governo e contestação da Legitimidade corresponde. isto é. Quando. Seu grande problema é sempre o de encontrar formas concretas de luta. não combate apenas o Governo. na sua estrutura e nos seus fins. sim. nascidas do movimento histórico real. no contexto político. Quando o fundamento e os fins do poder são percebidos como compatíveis ou de acordo com o próprio sistema de crenças e quando o agir é orientado para a manutenção dos aspectos básicos da vida política. combate o Governo. Isto significa que a ação revolucionária não terá nunca o objetivo de modificar radicalmente a sociedade. nesse campo. A atitude de revolta se limita à simples negação. A aceitação das "regras do jogo".

faz com que seja aceita a justificação de seu existir. sobremaneira. caem também os véus ideológicos que camuflavam ao povo a realidade do poder. finalmente.). que a contestação da Legitimidade pode ter uma conotação tanto de esquerda quanto de direita. Por isso. a pessoa comum sente-se impulsionada a idealizar sua passividade e seus sacrifícios em nome de princípios absolutos capazes de fornecer realidade ao desejo e verdade à esperança. seja ele qual for. Ora. que desempenham um papel definido pela divisão social do trabalho. O povo não é um somatório abstrato de indivíduos. por ter sua estrutura entrado em contradição com a evolução da sociedade entra em crise também o princípio da Legitimidade que o justifica. como aparenta a ficção jurídica da ideologia democrática. a divisão do trabalho e a luta social e política dela decorrente fazem com que a sociedade nunca seja pensada através de representações que correspondem à realidade. Não se trata de uma representação totalmente ilusória da realidade. Observe-se. idôneos para produzir o fenômeno do consenso. esse problema é abordado como algo a ser resolvido nas diferentes fases da luta. a influência. quando as crenças que sustentam o poder não correspondem mais à realidade social. ao contrário. mesmo o mais democrático. suas funções essenciais (defesa. Estrutura política e social. mas entre indivíduos inseridos num contexto. desenvolvimento econômico. Nos períodos de estabilidade política e social. e com a força de sua própria presença acaba se criando o consenso necessário. etc. são deixadas de lado e assistimos à mudança histórica das ideologias. As relações sociais não subsistem entre indivíduos totalmente autônomos. a experiência que fazem do Estado os leva a encará-lo como algo relacionado com as forças da própria natureza ou como sendo condição necessária e imutável do viver em comum. cada qual participando diretamente com igual fatia de poder no controle do Governo e no processo de elaboração das decisões políticas. de maneira relevante. Para esta última categoria de pessoas. o poder está em crise. e também a oposição nacionalista contra o movimento de unificação européia. para se adaptar à dura realidade de sua condição social. Por outro lado. Toda ideologia e todo princípio de Legitimidade do poder. conseqüentemente. São disso um exemplo as oposições fascista e nazista aos regimes democráticos na Itália e na França. não tem. sempre em função da utilidade e eficácia de cada ação para a consecução dos objetivos. imponente. Quando. cuja função é a de legitimar o poder constituído. de maneira alguma. para se justificarem eficazmente. apelando para determinadas exigências latentes nas massas. nem de uma simples mentira. Isto ocorre porque. ou seja. mas através de uma imagem deformada pelos interesses dos protagonistas desta luta (a ideologia). sempre o mesmo peso. circunstâncias essas que não podem ser objeto de escolha. a realidade do Estado se manifesta. de maneira progressista ou conservadora. quando a estrutura do poder desmorona. precisam conter também elementos descritivos. A estratégia escolhida precisa estar de acordo com as circunstâncias históricas em que a luta acontece. que os tornem dignos de confiança e. o comportamento dos que não desempenham papéis privilegiados. Quando o poder é firme e em condição de desempenhar. dos que a divisão do trabalho colocou no vértice da sociedade é determinante. visto estarem eles em condições de condicionar. e se manifesta às claras sua inadequação . crença na legitimidade e ideologia. IV.revolucionários. nas fases revolucionárias. A influência exercida pelo consenso dos membros de uma comunidade política na legitimação do Estado. na formação da consciência social.

que dela é a essência. pois. Antecipamos. A experiência histórica mostra que a cada tipo de Estado corresponde um diferente tipo de Legitimidade. a legitimação se apresenta como uma necessidade. o valor é o consenso livremente manifestado por uma comunidade de homens autônomos e conscientes. vislumbra-se a promessa.): o termo Legitimidade designa. onde o consenso. Neste momento. O sentido da palavra Legitimidade não é estático. assim. e. etc. cuja concretização é considerada possível num futuro indefinido. de uma sociedade justa. democracia. conseqüentemente. O consenso em relação ao Estado nunca foi (nem é) livre. do conteúdo do consenso e que. um outro princípio de Legitimidade. seja qual for o tipo de Estado. até agora sempre incompleta na sua manifestação. uma vez que o poder é o determinante. ao contrário. uma vez que pode ser aplicada a qualquer conteúdo. a consciência das massas entra em contradição com a estrutura política da sociedade. e a realidade concreta nada mais é do que um esboço desse futuro. pelo menos em parte. nem um Estado democrático. podem existir nele diferentes níveis de liberdade e de coação. fenômenos dessa ordem acontecem até a hora em que surge um outro poder e. Normalmente. faz-se necessário evidenciar uma característica que o termo Legitimidade tem em comum com muitos outros termos da linguagem política (liberdade. por exemplo. pelo simples fato de que em ambos se manifesta a aceitação do sistema. V. de fato. não parece justo caracterizar como legítimo. A situação a que o termo se refere é a aceitação do Estado por um segmento relevante da população. Aspecto de valor da legitimidade. Ora. quer do elemento psicológico a ele associado: a ideologia. que o fenômeno da manipulação do consenso existe também nos países democráticos. possa se manifestar livremente sem a interferência do poder ou da manipulação e sem mistificações ideológicas. acabaremos por englobar nesta formulação também o contrário do que normalmente se entende por consenso: o consenso imposto e o caráter ideológico de seu conteúdo. sim. é possível provar que não são iguais todos os tipos de consenso e que será mais legítimo o Estado onde o consenso . todos se tornam politicamente ativos. sempre foi (e é). ao mesmo tempo. isto é: a cada maneira de lutar pelo poder corresponde uma diferente ideologia dominante. O critério que possibilita a discriminação dos diferentes tipos de consenso parece. dinâmico. o poder de decisão se encontra. nem um Estado tirânico. nas mãos de todos. Em cada manifestação histórica da Legitimidade. pelo menos parcial. justiça. A definição geral proposta no início acabou. uma situação e um valor de convivência social. Para superar tal incongruência. Se nos limitarmos a definir legítimo um Estado cujos valores e estruturas fundamentais são aceitos. conseqüentemente. Inúmeras pesquisas sociológicas provaram. por se revelar insatisfatória. forçado e manipulado. quer das relações sociais. quais as condições sociais que possibilitam a aproximação à plena realização do valor inerente ao conceito de Legitimidade: a tendência ao desaparecimento do poder. por serem simples as opções e por envolverem diretamente as pessoas comuns. é uma unidade aberta. pois. Naturalmente.para resolver os problemas que amadurecem na sociedade. consistir na variação dos graus de deformação ideológica a que é sujeita a crença na Legitimidade e no correspondente e diverso grau de manipulação a que essa crença é submetida. Com base nesse critério. que parece invalidar a própria exatidão semântica da definição descritiva.

mais aparente. O consenso será. Presses Universitaires de France.München. FERRERO. isto é. a não ser como aspiração. M. na medida em que for forçado e tiver um caráter ideológico. Leipzig. 1961. bem menor o grau de deformação ideológica da realidade social na mente dos indivíduos. e conseqüentemente de pouca consistência real. WEBER. [Lúcio Levi] Direitos exclusivos para esta edição: Editora Universidade de Brasília . A systems analysis of political life. New York. Comunità. Duncker & Humbolt.tem condições de ser manifestado mais livremente. VÁR. pois. e que um Estado será mais ou menos legítimo na medida em que torna real o valor de um consenso livremente manifestado por parte de uma comunidade de homens autônomos e conscientes. C. podemos formular uma nova definição de Legitimidade que nos permita superar as limitações e incongruências da que foi proposta no início. Paris. SCHMITT. Milano. 1932. Com esse ponto de partida. L'idée de légitimité. EASTON. Wiley. onde. 1967. Podemos. Legalität un Legitimität. afirmar que: a Legitimidade do Estado é uma situação nunca plenamente concretizada na história. 1947. Milano. Trata-se fundamentalmente de integrar na definição o aspecto de valor. BIBLIOGRAFIA AUT.. for bem menor a interferência do poder e da manipulação e. na medida em que consegue se aproximar à idéia limite da eliminação do poder e da ideologia nas relações sociais. D. Potere. 1965. portanto. Economia e società (1922). elemento constitutivo do fenômeno. pois. G. em suma. Comunità.