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Cenas de reconhecimento na poesia grega

universidade estadual de campinas Reitor Fernando Ferreira Costa Coordenador Geral da Universidade Edgar Salvadori de Decca

Conselho Editorial Presidente Paulo Franchetti Alcir Pécora – Christiano Lyra Filho José A. R. Gontijo – José Roberto Zan Marcelo Knobel – Marco Antonio Zago Sedi Hirano – Silvia Hunold Lara

Adriane da Silva Duarte cenas de reconhecimento na poesia grega .

Grafia atualizada segundo o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990.unicamp.unicamp.01 Copyright © by Adriane da Silva Duarte Copyright © 2012 by Editora da Unicamp Nenhuma parte desta publicação pode ser gravada./Fax: (19) 3521-7718/7728 www. armazenada em sistema eletrônico.editora.01 cdd 883.01 882. Adriane da Silva. fotocopiada. 1.br . reproduzida por meios mecânicos ou outros quaisquer sem autorização prévia do editor. Poesia épica grega 2.br  –  vendas@editora. Poesia épica grega. 2. Cenas de reconhecimento na poesia grega / Adriane da Silva Duarte. Teatro grego (comédia) I.01 882. Em vigor no Brasil a partir de 2009. ficha catalográfica elaborada pelo sistema de bibliotecas da unicamp diretoria de tratamento da informação D85c Duarte. Teatro grego (comédia) 883. 50 – Campus Unicamp cep 13083-892 – Campinas – sp – Brasil Tel. Título. sp: Editora da Unicamp. isbn 978-85-268-0984-0 Índices para catálogo sistemático: 1. Editora da Unicamp Rua Caio Graco prado. 2012. – Campinas.

Júlia e Pedro. Fábio. com todo meu reconhecimento e afeto.Aos meus queridos. .

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Agradeço especialmente aos colegas do Grupo de Pesquisa Estudos sobre o Teatro Antigo e aos alunos das disciplinas de pós-graduação. Christian e Erika Werner. agradeço por estarem sempre por perto. Eis o momento de agradecer a todos que contribuíram das mais diversas maneiras para sua realização. Ao Fábio. foram os primeiros leitores deste texto. O auxílio à publicação concedido pela Fapesp propiciou a edição do livro. Não poderia deixar de lembrar os que pacientemente me ouviram falar deste tema ao longo dos últimos anos em encontros acadêmicos e aulas. Maria Beatriz Borba Florenzano e Paula da Cunha Corrêa. Meu muito obrigada também a todos os que contribuíram para a reunião da bibliografia con sultada nesta pesquisa. que acompanharam tudo desde o início. auxílio fundamental para o bom andamento dos estudos. Agradeço aos professores Jaa Torrano.Agradecimentos Livro pronto. que. Jacyntho Lins Brandão. integrantes da banca examinadora do concurso de livre-docência. Júlia e Pedro. em dezembro de 2010. A Giuliana e a Ana Estela agradeço o apoio e a amizade. especialmente aos colegas Jaa Torrano. Joaquim Brasil Fontes. Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. Adriane Duarte . cujas observações tantas vezes ajudaram a solucionar impasses e a iluminar soluções. Este texto nasce de um projeto de pesquisa encaminhado ao CNPq e contemplado com a bolsa de produtividade em pesquisa no triênio 2007-2010. Filomena Hirata. ajudando a aperfeiçoá-lo com suas sugestões. Foi inicialmente apresentado como tese de livre-docência em literatura grega na Faculdade de Filosofia.

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............................ Glauco e Diomedes: uma cena de reconhecimento na Ilíada?............................. Trama simples e complexa: Ilíada e Odisseia. 4......................................................... 189 2............................... 236 4...... Variação e tipicidade na Odisseia........................... 104 3.......... Reconhecimento na tragédia grega: teoria e prática......... ..... Reconhecimentos entre mães e filhos: Bacantes............................................................................... Reconhecimentos em terras estrangeiras: Helena e Ifigênia em Tauris.................................................................................................. 2...... 275 ..................................................................... 91 reconhecimento e épica : ilíada e odisseia .. .. Édipo rei e Íon..................... Reconhecimento e hamartia................. ....................... Os reconhecimentos entre Electra e Orestes................................................sumário reconhecimento no mito e na poesia grega ............................ ...... Os reconhecimentos segundo suas espécies........................ Argumento e episódio: reconhecimentos principais e secundários na 31 54 62 tragédia e na epopeia.... Definição e características gerais.............. Reconhecimentos cômicos em Aristófanes e Menandro....................................................... 29 1.................................... 114 reconhecimento em cena : tragédia e comédia ..... 189 1. 194 3.................................. 97 1................... 97 2............................... 257 5........... 3.................. 11 reconhecimento na poética grega : aristóteles .................................

...................................................... Autores antigos................ 297 bibliografia .................... 301 .................reconhecer um reconhecimento ............................................ 293 apêndice – corpus estudado ............................................................. ..................................... 299 2............................................... Autores modernos..................................................................................................................................................... 299 1.................................

sobretudo do texto aristotélico e de seus principais comentadores. 11 . Poética. por entender que a análise das cenas de reconhecimento requer contextualização. De Aristóteles a Homero e não o contrário. somam-se a discussões das cenas de reconhecimento tal qual elas se apresentam na épica homérica (Ilíada e Odisseia). Sófocles e Eurípides) e na comédia ática (Aristófanes e Menandro) 1. Para isso. Aristóteles. remeto ao Apêndice. 1 Para uma relação completa do corpus estudado. está mais associado à tragédia clássica.1 reconhecimento no mito e na poesia grega A Odisseia é complexa: é por completo reconhecimento. A epígrafe. as cenas de reconhecimento estão presentes em diversos gêneros literários gregos. ainda hoje seminal para os estudos literários. no entanto. 1459b 15 O propósito deste livro é examinar as cenas de reconhecimento (anagnórisis) na poesia grega arcaica e clássica a partir da definição proposta por Aristóteles na Poética. A escolha do corpus indicado deu-se em função de concentrar uma maior incidência do fe nômeno que se quer estudar e do cuidado de limitar temporalmente a sua observação de modo a preservar os fundamentos teóricos da pesquisa. desde a épica homérica até a comédia nova. a não ser excepcionalmente. busca justificar então o percurso feito nesse trabalho. porque é o conceito cunhado pelo estagirita a partir da análise da poesia grega que norteará essa investigação. um trecho sempre citado desse tratado. Seu emprego. em que a ordem cronológica é subvertida. Como se pode ver. na tragédia (Ésquilo. Esclareço ainda que não vou me ocupar aqui dos fragmentos. leituras teóricas.

e Aristófanes. “reconhecimento” (anagnórisis) torna-se um termo de poética. 2 Para um histórico do conceito na teoria literária de Aristóteles até os dias de hoje. muito particularmente na tragédia. Inegável também é a constatação de que os dramaturgos do século V a. Verificado tal fato. garantisse a uniformidade e o rigor teóricos da pesquisa. 1998. Recognitions — A study in poetics. antes de tudo. 12 .C. Clarendon Press. como atestam Eurípides. a aristotélica. além de afeita ao corpus a ser estudado. Deve-se notar também que. com Aristóteles. optou-se pela definição de uma matriz teórica clara. que. cujas acepções variam de acordo com o perfil teórico de quem o elabora e o objeto ao qual se aplicam. demonstram ter consciência desse recurso e das possibilidades por ele oferecidas. 1452b 9). corpóreos ou extracorpóreos. Somente por essa razão justifica-se a escolha dessa perspectiva fun- dadora para o exame da questão. o primeiro a refletir sobre a função do reconhecimento na poesia grega. sua visão da questão e não podem ser tomadas como evidência de que os autores que o antecederam (e mesmo os que o sucederam) considerassem dessa mesma maneira as cenas de reconhecimento. o termo foi apropriado por diversas correntes críticas. assim como as cenas de reconhecimento continuam a ser um recurso poético e narrativo do qual se valem os mais variados autores ao longo dos séculos. nos reconhecimentos. recurso que o filósofo considera grosseiro.Cenas de reconhecimento na poesia grega Aristóteles. Nessa longa trajetória tornou-se um conceito fluido. remeto ao livro de Terence Cave. Certamente a definição e a classificação do fenômeno propostas pelo filósofo refletem. associado à fábula (mýthos). da qual faz parte em conjunto com a peripécia e o patético (Poética. deduziu suas características e sistematizou seu emprego a partir da observação das próprias obras. Oxford. na comédia As nuvens (534-6). Mas o fato é que. Uma primeira divergência parece residir na predileção que os poetas gregos tinham pelo uso de sinais. em sua tragédia Electra (508-23). que sobre ele se debruçaram na tentativa de descrevê-lo2. em grande parte. em que aludem à cena de reconhecimento criada por Ésquilo nas Coéforas. uma relação que também interessa explorar.

Acarnenses (676-91. capaz de promover o desenlace de um conflito e dotado de grande apelo emocional3. Aristófanes. Cf. cada qual será capaz de reconhecer [διαγιγνώσκειν] os próprios filhos? os que são mais velhos do que eles em vista da idade. e das possíveis consequências de ignorá-lo. pois que mesmo agora. Cf. igualmente atestada nos mitos. agride e mata seu pai após uma 3 4 Aristóteles coloca o reconhecimento. Nela. resultado lógico da adoção do sistema de sexo comunal idealizado pela heroína da comédia. ainda que involuntária. a pergunta de Blépiro esconde o temor de as novas disposições levarem à violação. 1450a 28.: Como. Blépiro. um cidadão ateniense. como ilustra uma passagem de Assembleia de Mulheres. um por um. vivendo dessa maneira. 703-18). que conhecem [γιγνώσκοντες] o pai. ao lado da peripécia.: Então estrangularão a torto e a direito. afinal. Édipo é o exemplo mais acabado dessa necessidade de saber quem somos. Exageros cômicos à parte. Como será. todo velho Aristófanes põe na boca de Blépiro uma queixa recorrente em suas comé dias. sugere que o reconhecimento seja antes uma resposta às inquietações do homem acerca de sua origem e de sua iden­ tidade.Reconhecimento no mito e na poesia grega Além de ser um recurso estruturador da narrativa. que. Poética. sua vasta presença. estrangulam. colocando o homem comum na mesma situa­ ção de Édipo. por ignorância [διὰ τὴν ἄγνοιαν].: E é preciso? Eles terão por pais todos B. sem saber. entre os elementos trágicos com maior capacidade de comover. do tabu do parricídio. o desrespeito dos mais jovens para com os mais velhos. Praxágora (635-40. 13 . quando estiverem na ignorância [ἀγνὼς]? Como não cagarão em cima então? P. expressa sua angústia diante da hipótese de vir a viver em uma sociedade em que não mais haja meios de os pais reconhecerem seus filhos ou de serem por eles reconhecidos. Rãs (274). a ponto de os filhos chegarem a agredir os próprios pais4. Aves (1347-51). condição para definirmos nosso comportamento ante os outros. de Aristófanes. Nuvens (1321-41). tradução nossa): B.

esta. irmãos ou pais todos os que tivessem idade para sê-lo (cf. Além disso. Na cena em que um rapaz é disputado por três velhas e uma moça. os demais idosos também viriam em socorro da vítima por medo de virem a ser maltratados por sua vez. A República (465a). Platão. por isso soa menos escandaloso. pois ninguém admitiria que seu pai fosse agredido por outros. o que leva à suposição de que ambas ecoassem teses debatidas em Atenas no começo do século IV a. o que a jovem insinua é que essas relações entre rapazes que têm a idade de filhos e mu­ lheres que têm a idade de mães não são naturais e que tal promiscuidade 5 Cf. Embora o argumento seja. À pergunta de Glauco sobre como os parentes consanguíneos poderiam se reconhecer [διαγνώσονται]. o relacionamento entre homens maduros e mocinhas era comum. 14 . De resto. sobretudo. retórico — já que. Apesar da proximidade de ideias e das notórias dificuldades em se estabelecer a cronologia da obra de Platão. a lei estimula o relacionamento entre rapazes e mulheres que poderiam ser suas mães. Na comédia. a terra toda encherão de Édipos. mas é claro que esses relacionamentos estariam sujeitos aos mesmos riscos. por ignorar a identidade de seu pai biológico. a interdição do incesto também está ameaçada com a adoção do novo regime sexual. senão avós — o contrário. ao contrário do que ocorreria com os pais. desabafa (1041-2): Se vocês instituírem essa lei. os jovens tratariam como pais todos os que tivessem idade para sê-lo e não permitiriam agressões contra os mais velhos.C. percebendo-se vencida. que não saberiam identificar. de modo a evitar as relações incestuosas. coibiria as agressões5. Sócrates responde que elas não ocorreriam desde que os cidadãos considerassem seus filhos. de modo que as crianças tivessem uma educação comum. evocados por Sócrates na República para conter tal risco. O temor (déos). a composição da República é tida como posterior à da comédia aristofânica. Praxágora o tranquiliza argumentando que. normalmente a identidade da mãe seria certa —.Cenas de reconhecimento na poesia grega discussão numa encruzilhada. mais do que o respeito (aidós). Uma vez que os mais velhos e feios devem ser satisfeitos antes dos mais jovens e belos. longe de seus pais biológicos. toda a passagem apresenta fortes semelhanças com as ideias defendidas por Sócrates nesse diálogo em que se propõe a reorganização da sociedade. 461d).

Reconhecimento no mito e na poesia grega terminaria por embaralhar os limites do que é socialmente aceitável. em que a arte da comédia e a da tragédia são comparadas. Novamente o exemplo de Édipo. Nesse caso. termo grego correspondente a reconhecimento. que desposa sua mãe ignorando sua identidade e com ela tem filhos. ao menos antes do doutor Freud entrar em cena. que cuidaria de dar aos espectadores o desfecho da trama. Aristóteles destaca como superior a situação dramática em que uma ação violenta entre consanguíneos é abortada graças a um reconhecimento (Poética. que essa situação proporcione mais prazer para o espectador. Não por acaso. em que reina nas novelas e folhetins e é empregado com menos critério. o poeta podia sempre recorrer à presença divina. Terence Cave (1988. constituindo uma forma de lidar com eles. esse preconceito existe de fato. encontram muito mais eco crítico. É inegável que se trata de um recurso de forte apelo popular. D6 Olson. assim como os tabus do parricídio e do incesto. ao fato de seu uso ter se associado a um truque narrativo. Em um célebre fragmento do poeta cômico Antífanes. Trata-se da aparição de um deus sobre uma plataforma que se alça por sobre a cena por meio de um guindaste. propiciando uma sensação de alívio decorrente da reafirmação do pacto social. como hamartia ou catarse. Cave tenta explicar essa popularidade lançando mão da noção de escândalo. vem assombrar os atenienses. 1453b 36). O reconhecimento traz consigo um componente escandaloso. não se prende a épocas ou países está justamente em tocar em temores profundos do ser humano. segundo o mesmo autor. p. notando seu desprestígio enquanto elemento de poética. a máquina. mas deriva menos do conceito em si do que da sua apropriação pela indústria cultural — em especial da sua disseminação na literatura de massas. A meu ver. 1) inicia sua investigação da anagnórisis. as expectativas morais do público são atendidas. tanto na acep6 O deus ex machina é um recurso frequente na tragédia grega. 2007). Isso se deve. constituindo assim uma espécie de deus ex machina6. o deus ex machina é descrito como um meio fácil de que se valem os tragediógrafos para contornar dificuldades de composição (fr. É natural. 15 . uma vez que se evita ato repul sivo (miarós). um artifício fácil para resolver enredos complexos. 189 KA. Quando o enredo se complica e não há tempo hábil para desenvolvê-lo. O sucesso desse tema literário que. portanto. Outros conceitos de inspiração aristotélica.

uma nova compreensão da realidade. É significativo que hoje o uso corrente do termo remeta ao universo jurídico. o reconhecimento é “a mudança da ignorância para o conhecimento” (Poética. o reconhecimento é agente de alívio e opera de uma forma não muito di versa da catarse. reside no seu valor epistemológico. Outro motivo para explicar a atração que o conceito produz desde a Anti guidade. capaz de promover. a construção do verossímil. o termo grego. Anagnórisis. indica que a operação de reconhecer sinais e interpretá-los 16 . de armadilha ou obstáculo (cf. Dessa perspec tiva. integrando o inquérito. essa dolorosa descoberta é benéfica na medida em que restaura uma ordem maior. Jocasta. de relaxamento das tensões. parricídios. quanto no sentido etimológico. Credito a esse efeito reparador sua popularidade entre leitores (e espectadores). tó skándalon). E isso é assim mesmo quando o efeito imediato é funesto para os envolvidos diretos. um cadáver. portanto. remetendo às suas situações de uso que envolvem geralmente graves transgressões morais (incestos. dada justamente pela arbitrariedade a que se associa seu emprego. no caso. 1452a 33). Para mim. Há que se reconhecer um objeto (uma prova). Reparação porque ele opera de modo a restaurar algo até então encoberto. pouco ou muito exigentes que sejam. uma paternidade.Cenas de reconhecimento na poesia grega ção literal do termo. em virtude de que se instauram desequilíbrio e desordem. Eu discordo dessa explicação. reconhecimento está mais relacionado à ideia de reparação do que à de escândalo. XI. A descoberta de sua identidade é acompanhada da constatação do incesto e do parricídio. que também significa “leitura”. violação que fora causa de sofrimento para toda população tebana. fratricídios. a peste que vitima os habitantes de Tebas é o indício de que algo não estava bem. adultérios. como no caso paradigmático de Édipo. e sua própria mutilação e banimento. que havia sido inadvertidamente violada. matricídios). normalmente uma identidade. um suspeito. Nas palavras do filósofo. de modo a restaurar um elo na cadeia elucidativa. o que tem um efeito tranquilizador. No entanto. Enviada por Apolo. O resultado dessa ação reparadora é o restabelecimento da ordem. o que ocasiona o suicídio de sua mãe e esposa. cós mica. a permitir que as histórias sejam contadas em sua totalidade. e particularmente sobre Aristóteles.

A bibliografia sobre as questões relacionadas à oralidade e escrita e seu impacto sobre a cultura grega é vasta. ao lado das artes plásticas. passarei à análise das cenas de reconhecimento no corpus indicado. as citações da Poética estão de acordo com a tradução de Eudoro de Sousa. é de supor que ele possa ser encontrado na narrativa tradicional.Reconhecimento no mito e na poesia grega pressupõe uma habilidade intelectual. Assim. os poetas as encontraram. que serve de matéria à poesia7. o livro de Carpenter ( 1994) é um bom ponto de partida. “quando buscaram situações trágicas. da tardia incorporação dos hábitos letrados. de caráter mítico. Entre os gregos. convém fazer um excurso para tratar da presença pré-literária do motivo no mito grego. nuanças que apontam para um raciocínio cuja complexidade convém explicitar. A definição proposta por Aristóteles (Poética. foram os poetas os principais criadores de mitos na Grécia. Em decorrência do prolongado estágio de oralidade e. XI. de uma falsa e quase tautológica simplicidade. Quanto ao papel da iconografia na transmissão e fixação de histórias tradicionais. comédia antiga e comédia nova. ourives. Uma primeira aproximação do tema requer então o esforço de circunscre vê-lo teoricamente através da discussão das acepções aristotélicas contidas na Poética. no entanto. pode-se afirmar que. Embora a reflexão aristotélica tenha por ponto de partida o emprego desse recurso pelos poetas gregos. nos mitos tradicionais [ἐν τοῖς μύθοις]”. 1452a 33) esconde em sua formulação. pois que é por sua obra que se pode 7 8 Aristóteles mesmo anota em sua Poética (1454a 10-2) que. a poesia. Remeto aqui o leitor aos livros de Eric Havelock. traduzidos para o português. Antes. serão examinadas as demais referências ao termo e seus correlatos no âmbito desse tratado de poética. tragédia. Salvo para as indicações contrárias. consequentemente. Um método de investigação e explicação da realidade insinua-se sob um conceito poético. não é tão fácil. Num segundo momento. muitas vezes não atestadas ou divergentes do que se encontra nas fontes escritas. escultores. 17 . além de ceramistas. Além da definição propriamente dita. não por arte. não é possível distinguir uma versão pré-literária de um mito de sua elaboração poética. porém. tornouse o principal meio de preservação das tradições e do conhecimento8. Encontrá-lo. por se tratar de um autor central a esse debate e com cuja visão concordo em linhas gerais. mas por fortuna. seguindo a cronologia estrita de sua composição: épica homérica.

pp. sobrevive e. em A face leste do Helicon. É razoável supor que o reconhecimento. “ele se capacita a reclamar sua própria herança” (Burian. que. lenda. lidos ou representados. Para uma tentativa de reconstrução do Alexandre. O Motif-index of folk-literature (Thompson. quando diz que “não há dúvida de que nosso acesso a Mitologia Grega se dá sobretudo através de textos e de que.Cenas de reconhecimento na poesia grega conhecê-los9. 1955-1958. por vezes. ele ressalta o tema da “criança abandonada ao nascer ou entregue à morte. dentre as quais apenas Íon está totalmente preservada. balada. como atestam os estudos voltados à sua análise10. Exemplos gregos desse caso são as histórias de Édipo. poderosa difusora dos mitos. cuja produção era de natureza coletiva e refletia as ideias que as diversas gerações de homens gregos tinham de si. já fosse parte dessas histórias. 19). alcança a herança que lhe é devida”. Martin West (2003. 1999. o reconhecimento é consequência da ignorância do herói acerca de sua verdadeira identidade. 438-9). p. 11 A Sófocles. no entanto. Íon. dos outros e do mundo que habitavam. todos conhecidos principalmente através das tragédias que inspiraram11. é consensual que os poetas deram forma a um conjunto de narrativas tradicionais. uma vez que está amplamente disseminado na literatura tradicional do mundo todo. Cf. 184): “Em um aspecto importante. No entanto. p. inclusive gregas. alguns dos quais devem ser vistos como motivos folclóricos (folktale motifs) atestados mundialmente. os poetas eram os criadores de mitos (mythmakers) da Grécia”. 189). enquanto motivo narrativo. conto de fada etc. cf. mito. Ao tentar prová-la. Ressalvado o papel da iconografia. Tiro. Decorrente desse motivo e a ele frequentemente associado. as demais. 370-401) traz um amplo catálogo das principais formas de reconhecimento. com exemplos das mais variadas origens. associado às provas a que o herói é submetido. foram um instrumental na formação do sentido da mitologia próprio aos gregos”. Alexandre (Páris). 10 A literatura de cunho tradicional comporta tanto histórias transmitidas oralmente quanto registradas por escrito e designadas enquanto folclore. os textos. pode-se concordar com Dowden (1994. saga. aponta elementos comuns à tradição mítica grega e do Oriente Próximo. Hanson (1964). Antíope. 9 18 . Álope. Burian (1999. mesmo na antiguidade. pp. Entre estes últimos. p. foram objeto da atenção de Eurípides. é atribuída a composição de uma tragédia intitulada Tiro. fábula. autor do Édipo rei.

xii. 3) Zeto e Anfíon. reconhe- cem a mãe (I. mata- o e só então o reconhece (Epitome. mas estas extrapolam o motivo do bebê exposto. abandonados ao nascer. 5: Θησεὺς δὲ ἀναγνωρισθεὶς τῷ πατρὶ). enfrenta-o. vii. 8-9: φανέτων τῶν λανθανόντων). é adotado por ela e seu marido. ao se levar em conta o registro linguístico e o estilo de composição da obra. v. ix. 1954. Egeu (Epitome. 37: ἀναγνωρισάμενος). Além desses casos. i. v. abarcando o período compreendido entre os séculos I a.C.Reconhecimento no mito e na poesia grega A principal coletânea de mitos que a Antiguidade nos legou é a Biblioteca. a data estimada no texto é a mais provável. 6) Atalanta é exposta e mais tarde descobre seus pais (III. a saber: 12 A datação do texto é bastante elástica. de Apolodoro. 5: τοὺς γονέας ἀνεῦρε). 19 . Trata-se de reencontros entre parentes ou conhecidos separados por longo intervalo de tempo. 7) Páris é abandonado e depois descobre seus pais (III. filho de Héracles e Auge. vii. 2: ἀνευροῦσα δὲ ὕστερον τοὺς γονέας). filho de Odisseu e Circe. 1). p. De acordo com a Introdução de James Frazer para a Loeb (Apollodorus. quando parte em busca de seus pais. 8: ἀνεγνώρισαν τὴν μητέρα).12. xiv). a filha que abandonara ( III. 5: οἱ δὲ ἀναγνωρισάμενοι τὴν μητέρα). 7: οὐκ εἰδότα). 8) Teseu é reconhecido por seu pai. ix. 5) Alcmeon compra como escrava. 9) Telégono. 4 e III. sem saber. compilada por volta do século II d. há outras quatro menções a situações que resultam em reconhecimento. filhos de Zeus e Antíope. e IX d.C.C. 4) Édipo descobre seu parentesco com Laio e Jocasta (III. Teutras (II. reconhecem sua mãe (III. vii. Uma leitura de ponta a ponta dessa obra revela nove exemplos desse tipo de enredo. ix. parte em busca do pai. 2) Télefo. filhos de Tiro e Posídon. é exposto e. a saber: 1) Neleu e Pélias.

290. 285. 250. 205.Cenas de reconhecimento na poesia grega 1) Odisseu disfarçado é reconhecido por Helena em Troia (Epitome. O substantivo de mesmo tema. 109. Também Eustácio. sem que haja menção a um verbo que descreva o reconhecimento. 283. p. que nem sempre se atesta um verbo denotando anagnórisis em cenas de reconhecimento. I. Aristóf. na cena de reconhecimento. por três vezes. a ideia fica implícita. e uma vez epigignósko [ἐπιγιγνώσκω].. 13: γνωρισθεὶς ὑπὸ ῾Ελένης). a preferência de Apolodoro por anagnorízo chama a atenção. reconhecer. 2) Orestes é reconhecido por Ifigênia em Tauris (Epitome.. vi.. significando “passar por uma anagnórisis”. revelar. vi. 32-3: ἀναγνωρίζεται). 231. 27: ἐπιγνωσθεὶς δὲ ὑπὸ τῆς ἀδελφῆς). 475. O verbo anagnorízo tem registro na Poética. XX. VI. já que sua presença é mais bem atestada nos textos teóricos ou comentários sobre o teatro13. 565. usa esse verbo para se referir aos reconhecimentos do poema. XXI. aparece uma vez na Poética como sinônimo de anagnórisis. é dotado de um sentido técnico. XIII. (re-)descobrir. reconhecer ou dar-se a conhecer.. 72. 94. entre­ tanto. e também na comédia de Menandro. Rãs. Também estão registradas formas dos verbos (an-)eurísko [ἀν-ευρίσκω]. XIV. 4) Odisseu dá-se a reconhecer a Penélope e Telêmaco (Epitome. XXIII.. 560. 557. 1285). em sete dessas menções. Embora entre os poetas épicos e trágicos sejam preponderantes as formas dos verbos (ana/epi-)gignósko [ἀνα/ἐπι-γιγνώσκω]. XIX. de conhecer: seis vezes formas de anagnorízo [ἀναγνωρίζω]. vii. 525 e Bacantes. Od. e de phaíno [φαίνω]. 218. Helena. 539. Note-se. reconhecer. Electra. 206. 95. 169). uma vez — nos dois casos restantes. 312. 3) Menelau descobre Helena no Egito (Epitome. para Lucas (1971. contra apenas duas ocorrências do verbo (ana-)gnorízo (Eur. anagnorismós [ἀναγνωρισμός]. 217. v. ocorre um verbo com a raiz gno-. Íon. 299. 29: εὑρίσκεται ῾Ελένη). formas do verbo (ana/epi-)gignósko aparecem 22 vezes no corpus estudado (Il. em que. 670). 911. no contexto de uma anagnórisis. É de notar que. A arbitragem (Epi- 13 Levando-se em conta as passagens comentadas nesse livro. Tesmoforiantes. Eur. em seu comentário sobre a Odisseia. 20 . Íon.