Trabalho científico realizado no âmbito da defesa de estágio

Jornal Público

Relatório de estágio
2 de Fevereiro a 1 de Maio de 2009

Vanessa Quitério
3º Ano Comunicação Social – nº 2006028

sob orientação de

Carla Patrão

Julho de 2009 Escola Superior de Educação de Coimbra

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Índice

Resumo Agradecimentos Introdução O início do terceiro ano e o tão esperado estágio curricular O Jornal Público (breve contextualização) O 1º dia como “a estagiária” do Público “Bom dia, tem ocorrências a registar?” A primeira prática – o primeiro contacto com as fontes Erro no artigo e descasca da PJ Sempre a aprender, agora com as fontes Contar uma estória: a prática versus a deontologia O off the record No terreno ser jornalista é mais complicado Saber dar a informação certa Mozart no P2 Na Fugas, o carro de publico.pt – última hora Fotolegenda Último dia Conclusão Bibliografia Anexos

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Resumo

Este trabalho tem por base o relato e a análise dos três meses de estágio curricular na redacção norte do jornal Público, no período de 2 de Fevereiro a 1 de Maio de 2009. Nesta dissertação o autor tem por base a análise dos posts retirados do blogue Parem as Máquinas, espaço online que serviu de bloco de notas diário sobre o estágio, práticas tidas, situações e reflexões.

Palavras-chave: Estágio, Público, Parem as Máquinas

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Agradecimentos

O sonho tornado realidade “Chegar até ao cimo da montanha e contemplar o imenso vazio do cume pode ser gratificante. Mas nada é superior à árdua caminhada desde o baixo terreno e às dificuldades percorridas nessa viagem, para superar os percalços da subida.” Esta podia ser uma frase retirada de um qualquer livro ou referência de um outro qualquer autor. Mas não, pertence-me e achei pertinente começar de forma mais literária este meu relatório de estágio. Nem só de coisas concretas se escreveram os três meses de estágio passados no Jornal Público, nem se explica o que aprendi com tamanha experiência. A caminhada feita desde Fevereiro até Maio foi, sem dúvida, a experiência mais enriquecedora que alguma vez tive no âmbito da formação académica, não desprezando contudo todo o trabalho que desenvolvi anteriormente. De uma forma geral, posso referir que tudo o que foi feito desde a minha entrada para o curso superior de Comunicação Social foi ponto essencial para culminar na redacção do Porto do Jornal Público. Foi uma soma de trabalho e dedicação, de objectivos e oportunidades que fui sabendo agarrar. Aos que me acompanharam durante estes últimos três anos agradeço o apoio e a ajuda por me aguentarem euforias e desagrados. Por serem portos de abrigo nas alturas em que quis desistir e nos momentos em que não vi mais nada a não ser o curso e o jornalismo “minha paixão”. Em especial deixo o meu maior agradecimento aos meus pais que, pela constante relutância quanto à minha ida para Coimbra e escolha de curso, me foram instigando a lutar pelo sonho de sempre. Se não fossem essas barreiras e contrariedades penso que não era tão saborosa esta satisfação de chegar até aqui. Depois, sem querer deixar hierarquias definidas, agradeço em geral aos meus colegas de curso os bons momentos passados, as partilhas feitas nas aulas e fora delas. Se Coimbra é conhecida pela cidade dos estudantes, melhor ainda se caracteriza pela sua constante festa e alegria. Aos meus padrinhos de curso, Sandrinha e Laurindo, o carinho é maior e maior ainda o agradecimento pelas referências que foram. A persistência, dedicação e empenho de um complementou o amor e a entrega de outro, em caminhos académicos tão antagónicos mas semelhantes ao mesmo tempo: no fundo não interessam os anos em que se completa o curso mas sim a entrega e amor deixado nele! Página 6

Ao Jornal Universitário de Coimbra A Cabra, que me acolheu magnificamente e que me ensinou os primeiros passos no crescimento jornalístico. Pela prática, algo que valorizo e não concebo fora de uma formação académica, e que foi o motor de arranque para chegar à oportunidade dada pelo Jornal Público. Na redacção d’A Cabra aprendi a lidar com as fontes, com as pressões de tempo, os tão abomináveis deadlines para qualquer jornalista. Os fechos de edição deram-me genica para contemplar cada fase da composição do material noticioso, culminando com o trabalho impresso no suporte físico. Ao Jornal Universitário A Cabra o agradecimento é eterno. Pela marca e pela referência. À minha amiga Ana Maria Coelho, colega de curso e de estágio no Público, pelo apoio prestado durante este último ano. Obrigada pela força dada nos momentos de desconsolo e pela oportunidade de valorizar a amizade num ambiente tão selvagem como este que é o jornalismo. Agradeço com especial apreço a ajuda prestada pelos editores com quem trabalhei durante o estágio. Na redacção do Jornal Público do Porto contei com o auxílio do subdirector Amílcar Correia, meu orientador de estágio, com Abel Coentrão e Álvaro Vieira, ambos editores da secção Local/Porto. As indicações e dicas dadas por estes três jornalistas foram importantíssimas para me orientar na redacção, bem como perceber toda a mecânica da rotina jornalística. No mesmo âmbito registo com agrado a ajuda das colegas de estágio que me acompanharam durante a estadia no Público, tanto da redacção norte como na redacção sul, em Lisboa - onde devo maior apreço ao jornalista António Granado pelo convite feito ao blogue de estágio ‘Parem as Máquinas’ – e que me auxiliaram no que foi preciso. Da mesma forma lembro a ajuda dada pelos outros jornalistas da redacção, designers, fotógrafos e secretárias. Foi uma vivência rica em confraternização e integração. Não poderia deixar de reconhecer importância à minha orientadora de estágio Carla Patrão, por me proporcionar a oportunidade de estagiar no Público, pelo afinco e pela preocupação durante a experiência. Igualmente agradeço a ajuda do professor Francisco Amaral pelo acompanhamento também durante o estágio, com a sua participação activa via redes sociais e aconselhamento no Parem as Máquinas, blogue que criei para ir contado os três meses de estágio.

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Introdução

“Se não reconhecemos o código musical, não conseguimos compreender a música”. Esta frase sempre fez eco na minha cabeça, desde as primeiras aulas de Teorias da Comunicação. Escolher uma formação académica na área da Comunicação sempre foi para mim o único caminho para saciar esta minha sede em querer lidar com a informação e comunicar com o mundo. Passados três anos desde o início do meu percurso académico e em vias de concluir a minha licenciatura em Comunicação Social, vejo-me no terminar de um ciclo, cheio de experiências e útil no meu objectivo em seguir a prática do jornalismo como profissão. Neste último ano de curso novos desafios surgiram e o tão esperado estágio curricular apareceu como o colocar na prática aquilo que foi sendo apreendido nas aulas e nos trabalhos extracurriculares em que fui participando. Foi com grande satisfação que recebi a notícia de que ocuparia durante três meses uma das secretárias da redacção do jornal Público, no Porto. A experiência, que abarcou cerca de 50 artigos e deu voz a um blogue de estágio, passou para além dos meus objectivos e iniciou um caminho sem precedentes. Se inicialmente o meu estágio era parte solitária da minha existência académica, o inicio do Parem as Máquinas – os três meses de uma estagiária no jornal Público – passou a ser comunitário e, o espaço primeiramente um bloco de notas introspectivo, passou a ser veículo de medos e angústias de outros jovens estagiários de outro qualquer órgão de comunicação social. Este estágio fica marcado por isso: pela universalidade desta minha prática, pelos objectivos tomados sempre em prol da responsabilidade que quis passar e pela procura de fazer algo que mostrasse valor, para além da rotina jornalística que sabemos, instala-se em qualquer redacção. Os medos, esses de ficar cómoda, senti-os bem na pele, passando por uma fase de inércia total. O apreendido nas aulas e durante o percurso académico mostravam-se frios e mecânicos perante uma necessidade tal de pro-acção e enquadramento nas novas necessidades jornalísticas a que assistimos.

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Este relatório pretende ser um espelho dos três meses passados na redacção do Público no Porto, um retrato fiel daquilo que fiz e deixei fazer, do trabalho fruto da aprendizagem académica e acima de tudo um marco nesta fase final do inicio do meu sonho como comunicadora do mundo.

O início do terceiro ano e o tão esperado estágio curricular Começar o terceiro e derradeiro ano de curso foi, para mim, o caminhar mais angustiante que fiz até agora. O processo de uniformização educativo europeu, chamado de Processo de Bolonha, encurtou-me em um ano a aquisição de competências e formação académica. De quatro para três anos vi a minha formação em Comunicação Social escapar-me por entre os dedos. O primeiro semestre deste último ano, compreendido entre Setembro de 2008 a Fevereiro de 2009 passou a correr. Apresentou-se como o semestre decisivo em termos de competências e saberes, bem como estrutura importante para partir para estágio com as cadeiras ditas essenciais. No final de Fevereiro terminei o primeiro semestre. Para trás ficaram duas cadeiras que espero contornar em Setembro, na época de recurso. A 18 de Dezembro soube que tinha conseguido um estágio no Jornal Público. O pânico apoderou-se de mim naquele momento. A felicidade também, mas maior era o medo por ir ingressar num órgão de comunicação social daquelas dimensões. Era o sonho tornado tangível. Depois de saber que o Público ia ser o meu local de estágio curricular, foi importante conceber objectivos e perceber realmente o que poderiam querer de mim naquele local. A responsabilidade acresceu pelo facto de ser um órgão chamado de referência e o exemplo mais falado nas aulas. Tive sensivelmente um mês para me preparar, de ponderações e de acerto de detalhes como a mudança temporária para a cidade do Porto. Nesse período foi delineado por mim criar um blogue, espaço onde pudesse registar o que fosse acontecendo durante o estágio e também como suporte de auxílio ao posterior relatório. Nesse intuito, e seguindo a ideia original da colega Ana Coelho, nasceu o ‘Parem as Máquinas’, blogue oficial do estágio e com endereço em http://paremasmaquinas.wordpress.com/. Este pequeno detalhe veio contudo mudar toda a minha vivência no estágio curricular já que passou a ser parte integrante dos blogues convidados do Público e uma referência - dita por muitos e não uma mera observação minha - a nível da ciberesfera, nas áreas da comunicação e

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jornalismo. Mais à frente neste relatório explicarei o porquê desse convite e as repercussões que teve no meu trabalho como estagiária do Público. Salvo já a explicação de que durante este relatório de estágio será recorrente apresentar citações ou partes de posts do ‘Parem as Máquinas’, como forma de relatar e complementar a análise destes três meses no jornal Público. Foi para esse objectivo que o blogue foi criado, em auxílio à posterior ajuda na análise e elaboração das conclusões desta experiência jornalística.

O jornal Público (breve contextualização) “ O Público é um dos meus jornais diários (comprados), desde o seu início: 1990. O seu actual director, José Manuel Fernandes, assumiu o cargo em 1 de Setembro de 1998, quase a festejar 11 desses 19 anos de existência do jornal. O jornal, como qualquer outro produto cultural, mudou bastante ao longo dos anos. Reconheço que está mais bonito (tem ganhos prémios de design), mas não consegue ter superavit e perdeu muitos dos jornalistas de referência (Vicente Jorge Silva, Jorge Wemans, Joaquim Fidalgo, Adelino Gomes, Ana Sá Lopes, para dar conta de alguns nomes), o que significa uma perda da memória colectiva cultural de um jornal. As notícias recentes de perda de valores salariais ou rescisão por parte dos colaboradores (colunistas) e igual tentativa nos redactores, a par da concorrência recente de um novo diário (i, embora os oito mil exemplares vendidos diariamente por este novo jornal, segundo me disseram, não sejam muito "concorrenciais") e quebra de vendas generalizadas dos media impressos, não deixa muito espaço para esperanças”. Publicado por Rogério Santos no blogue Industrias Culturais http://industrias-culturais.blogspot.com/

O Jornal Público insere-se no grupo empresarial português Sonacom, sub-holding da Sonae para as áreas da comunicação, que pertence ao empresário Belmiro de Azevedo. A publicação conta com 20 anos de existência, tendo sido fundada no ano de 1989. No entanto, o primeiro número deste jornal diário só saiu a 5 de Março de 1990. Actualmente está organizada em dois espaços redactoriais, um em Lisboa e outro no Porto e desde 1995 que marca presença na internet, com o público online, agora denominado publico.pt.

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A 22 de Setembro de 1995 foi colocada online a primeira edição integral do Público impresso, prática que se mantém até aos dias de hoje. Muitos outros serviços foram desenvolvidos, tendo maior destaque o lançamento, no ano de 1998, o serviço Última Hora – serviço de informação online com produção de notícias em contínuo e difusão em tempo real (definição recolhida do Livro de Estilo do Público). Este serviço dispõe de um estatuto editorial próprio, criado no ano 2000 e que reúne em onze pontos a conduta e o teor do trabalho realizado pelo Público no seu suporte online. Actualmente apresenta-se como um jornal generalista de referência, no que diz respeito ao meio dos jornais portugueses. No ranking de vendas das edições diárias, segundo a media de vendas em banca nos meses de Janeiro e Fevereiro de 2009, O Público encontra-se em quarto lugar, (com um volume médio de vendas de 42,146) atrás do Diário de Notícias, do Jornal de Notícias e do Correio da Manhã. VENDAS EM BANCA (Média de Janeiro e Fevereiro 2009) - Números médios das vendas durante os últimos quatro anos * Correio da Manhã – 116 381 Jornal de Notícias – 103 277 Diário de Notícias - 49 257 Público – 42 146

Tabela 1 - Vendas em banca dos primeiros cinco jornais diários portugueses *Dados da Associação Portuguesa de Controlo de Tiragem e Circulação (APCT)

Face aos nove primeiros meses do ano de 2008, o Público apresentou um decréscimo de 0,8%. Contudo, dados divulgados pela Bareme/Marktest deram conta que o Público ocupava, nesse período, o terceiro lugar no ranking dos jornais mais lidos em Portugal, como podemos analisar pelo seguinte quadro:

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MÉDIA DE VENDAS (Outubro de 2008) por vagas de audiências trimestrais Correio da Manhã - 117 855 Jornal de Notícias - 86 524 Público - 41 234 Diário de Notícias - 32 277 Tabela 2 - Média de vendas por vaga de audiências por trimestre 2008

A estrutura do Jornal Público acompanha uma variedade de temáticas, estando organizado em dois cadernos: o primeiro caderno ou P1 trata as questões da actualidade nacional e internacional, bem como suporta matérias noticiosas sobre desporto, economia e as realidades locais de Lisboa e Porto. Conta também com espaços de opinião, editoria, cartas ao director, crónicas e o Bartoon. Segundo o Livro de Estilo, que teve a sua primeira edição em 1997 mas que foi criado como documento no ano de 1989 - aquando do nascimento do jornal “a concepção editorial do Público corresponde a uma dupla exigência, de qualidade e diversidade, visando áreas de informação e tempos de leitura claramente diferenciados, conforme as características de casa uma das publicações que constituem o jornal”. O segundo caderno, P2, aborda a temática da cultura e sociedade, bem como os chamados espaços de roteiros, grelhas de programação da TV e espectáculos. Contém a páginas Pessoas, – que conta com breves notícias sobre famosos e acerca da área cultural de panorama mundial – grelhas informativas sobre cinema e espaço de opinião sobre concertos e exposições. Quanto a suplementos, o Público distribui gratuitamente ao fim de semana a revista ‘Fugas’ (que só em Março de 2008 adquiriu o estatuto de revista) e que tem por base temas dedicados às viagens, prazeres e automóveis. No Domingo sai para as bancas a revista ‘Pública’, uma magazine de carácter mais social e que tem por base temas ligados a vida e sociedade, pessoas e tecnologias. Durante a semana, às quartas-feiras, acompanha a edição diária o ‘Imobiliário’ – caderno dedicado ao mercado imobiliário, negócios e investimentos; e às sextas o ‘Inimigo Público’, denominado como o suplemento do “Não aconteceu mas podia ter acontecido”, espaço de humor e de notícias fictícias. Também à sexta-feira acompanha o Público o ‘Ípsilon’, suplemento dedicado à literatura, cultura e meio musical, espectáculos e cinema. Página 12

É importante referir que tanto os suplementos ‘Inimigo Público’ como o ‘Ípsilon’ ganharam já neste ano um espaço na página do publico.pt, reforçando ainda mais o seu carácter informativo e potencializando novos leitores destes géneros conteúdos. O Público apresenta-se assim como um jornal de carácter generalista, não tomando ênfase em determinada temática ou matéria. Aquando de acontecimentos mais celebrativos é recorrente do Público juntar à sua edição diária um ou outro suplemento temático, como por exemplo o ‘Dia D’, que assinala o dia Mundial da Terra, a 22 de Abril. Na sua organização interna conta com um Estatuto Editorial próprio e com um Livro de Estilo único, que regem todo o trabalho jornalístico enquanto órgão de comunicação social. Actualmente apresenta-se como referência nos diversos cursos de jornalismo e um instrumento activo na forma de melhor escrever e informar. Nas palavras de Vicente Jorge Silva, director do Público no seu início1, “o Livro de Estilo do Público não é uma cartilha ou um catecismo, mas apenas um conjunto de regras técnicas e deontológicas que se inspiram em critérios de bom senso, bom gosto e rigor profissional”. Neste texto que serve de introdução ao Livro de Estilo do Público, o jornalista afirma que a prática jornalística vive de mudança: “Além disso, um livro de estilo nunca se pretende definitivo: é um texto em evolução permanente onde se registam princípios, regras e procedimentos que a vida da Redacção do jornal for instituindo como adquiridas”. Para um trabalho imparcial e idóneo, correcto e de opinião pública, o jornal Público conta com o Provedor do Leitor, um instrumento de análise do jornalismo que o jornal faz e chega aos leitores. Actualmente é Joaquim Vieira o provedor do leitor do Público, desde Janeiro de 2008, seguindo os anteriores provedores, tais como Rui Araújo, Joaquim Furtado, Joaquim Fidalgo e Jorge Wemans. Em Dezembro de 1989, aquando do lançamento do Livro de Estilo do Público, Vicente Jorge Silva deixou expresso na nota introdutória que o jornalismo é uma arma poderosa e que constitui um fim, o de informar a opinião pública: “O poder do jornalismo só tem efectiva legitimidade quando esse poder não se confunde com nenhum outro. O trabalho jornalístico não conhece moeda de troca e, tal como o trabalho artístico e científico, constitui um fim em si mesmo. O jornalista não é o missionário de uma verdade instrumental com objectivos políticos, sociais, económicos ou culturais. Quanto melhor se respeitarem as regras de ouro da técnica e da

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Silva, Vicente Jorge, Livro de Estilo do Público, pág.16

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deontologia, incorporando a criatividade e o estilo próprio de cada jornalista, maior será a credibilidade e a influência do jornal de opinião pública”.

O 1.º dia como “a estagiária” do Público “Começar é que custa sempre. Em tudo ou quase tudo, o início é que se torna doloroso. Nestas circunstâncias, dar início ao contacto com o mundo do jornalismo foi, e está a ser, uma descoberta dolorosa onde a ansiedade polvilha o desejo de vir a preencher um lugar no posto hipotético do “vou poder ser a voz do mundo”. Entrar para o Público foi e será uma das melhores coisas que me aconteceu em 2008. Bem no final do último ano muitas foram as novidades e, a nível profissional, novos caminhos se iniciaram. Mais uma vez, o que custou foi ter a iniciativa e fazer os contactos; custou começar a tomar consciência de que é isto mesmo que quero. E HOJE, O 1º DIA DO ESTÁGIO, foi o confirmar de que vai doer um pouco habituar-me a esta mudança inicial”. Publicado no ’O 1º dia como a estagiária do Público’, Parem as Máquinas a 02/02/2009

Inicio o relatar do meu estágio no Jornal Público com o primeiro post do ‘Parem As Máquinas’ blogue que nasceu com o intuito de contar os três meses passados na redacção do Público no Porto. Impreterivelmente o primeiro dia é o mais emotivo, o mais esperado e o que nos enche de orgulho por ter conseguido tal lugar. Para mim foi o dia mais expectante, já que tudo se mostrava novo e desconhecido. Não querendo ser muito literal ou romanesca, penso que os primeiros dias são aqueles que ainda nos alimentam o sonho de que podemos ser veículos de mudança. Que finalmente nos vão dar o reconhecido valor, já que vimos fresquinhos, com a matéria toda na ponta da língua e sabedores de normas e éticas subjacentes à prática que nos exige o ser jornalista. No meu caso, a primeira semana sem dúvida a semana do abanão. Confesso que nessa semana queria desistir, deixar a redacção e o estágio, pelo simples facto de querer trabalhar no imediato e ser útil. Pode parecer idiota da minha parte, mas ia com uma ânsia tal de mostrar trabalho e valor que, logo no segundo dia, fiquei contente por fazer uma “caixa”, vulgo pequeno artigo não assinado, com cerca de 800 caracteres. O problema não estava em ser uma caixa ou serem menos de 1000 caracteres. O que verdadeiramente me atormentou nos primeiros cinco dias na redacção do Público foi o facto de Página 14

saber que podia fazer melhor mas que, como em tudo, ainda agia de forma tímida, dando erros, os típicos erros de quem ainda está a começar. Toda a informação jornalística rege-se pelos princípios fundamentais da verdade, da clareza, da simplicidade, da precisão e da concisão. Todo o produto criado pelo profissional da informação tem, sem margem de dúvida, que ser do interesse público e assentar nestes princípios fundamentais. Como jovem jornalista, acabadinha de sair do mundo universitário, foi-me um pouco difícil adequar a minha escrita de jornal universitário à escrita digamos que padrão do Público. Não quero com isto dizer que o Público utiliza uma escrita diferente mas sim expressar a adequação a uma prática contudo diferente a que estava habituada. Começando pela utilização do Livro de Estilo, uma ferramenta de consulta da maneira como o Jornal se apresenta e age nas lides da informação. Da mesma maneira contempla detalhes organizacionais do texto, sintaxe, significado e significação, sem nunca descurar a pirâmide invertida – isto é – dar em primeiro a informação relevante e ir desmontando os detalhes, respondendo às questões chave: o quê, quem, onde, quando, como, porquê. Segundo Ayala, (1984), o jornalismo apresenta-se como a interpretação sucessiva da realidade. O relatar a realidade apresenta-se como a construção do presente de forma a prever e a pensar o futuro. Hoje em dia, e depois da experiência de três meses “dentro” da máquina produtiva que é o Público, acentuo este cariz imediato e construtivo da realidade. Logo no primeiro dia também me foi dito, pelo subdirector Amílcar Correia, uma frase que ficou registada na memória e me acompanhou versus atormentou durante o período em que estive em estágio: “Se quiseres podes ser a estagiária que está todo o dia na secretária, a ver os takes da LUSA, ninguém te chateia e não chateias ninguém. Mas, se quiseres, podes ser a estagiária que dá propostas, procura fazer notícias e não está à espera que digamos o que fazer”. Este conselho é digamos que o ‘prato da casa’ para quem começa. É o avisar de que ali nos é exigido empenho, se assim for nosso entender e aspiração. Se assim não o for também não constitui problema, já que o jornal não está para nos levar ao colo. Acho que foi isso que me assustou mais. O abrir realmente a porta da responsabilidade, de ser a imagem daquilo que poderia fazer, desta vez sem o aconchego dos colegas do jornal universitário. Começava o meu percurso por minha conta e risco. E como em qualquer lado e profissão, o que custa é começar.

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“Bom dia, tem ocorrências a registar?” De tudo o que fiz no meu estágio, reconheço realmente as marcas deixadas pela primeira semana. Durante esses cinco dias experimentei um pouco de tudo no que diz respeito à prática jornalista. Comecei com a ronda ou volta, um dos pressupostos primordiais da recolha de informação. No Público a ronda jornalística é feita por telefone e realiza-se por três vezes durante o dia. A primeira acontece pelas 10h/11h, sendo o primeiro contacto com as fontes. Esta ronda toma especial importância pelo facto de ser o primeiro contacto da manhã e que tem o objectivo principal de perceber se houve algum acontecimento registado durante a noite ou madrugada que tenha importância de ser aprofundado. Aqui aplicamos a regra da actualidade e interesse público, critérios jornalísticos que regulam a escolha dos assuntos e temáticas a abordar, e que, numa lógica informativa, servem para dar ao leitor aquilo que lhe interessa saber. A segunda ronda, feita ao início da tarde tem lugar por volta das 15h. Mais uma vez tenta apurarse o registo de ocorrências do dia e explorar detalhes de assuntos que envolvam o interesse de publicação na edição do dia ou do dia seguinte. A última ronda é feita pelas 17h30/18h e caracteriza-se pela última abordagem da ronda, muitas vezes feita com o intuito de confirmar dados que carecem de maior tempo de pesquisa. É importante explicar que as rondas informativas seguem uma lógica informativa e inserem-se num plano de acção que passa pelo contacto a autoridades locais e regionais. Deste modo e seguindo uma grelha de contactos, todos os dias são abordados pelos jornalistas do Público entidades como Bombeiros Voluntários do Porto e Grande Porto, Sapadores, o Centro de Orientação de Doentes Urgentes (CODU), GNR, PJ e PSP e as Brigadas de Trânsito da área metropolitana do Porto e Grande Porto, bem como da região de Aveiro e Braga. Sublinho que o contacto com as fontes não é somente feito nas três rondas diárias. De toda a vez que necessitei de contactar com as fontes ou efectuar qualquer esclarecimento adicional ao artigo ou trabalho que realizei, contactei com as pessoas envolvidas, como procedimento habitual de qualquer jornalista. As rondas, mais uma vez reforço, são somente os contactos ditos institucionais que têm de ser feitos para que se mantenha o fluxo informativo do dia e não se perca o carácter actual da informação. Relacionado com este aspecto, o da actualidade e fluxo informativo, é importante reflectir sobre a informação dita do dia e o carácter imediato dos acontecimentos. Como em qualquer órgão de Página 16

comunicação social, o fluxo informativo segue a agenda mediática. Esta agenda é alimentada pela lista diária dos acontecimentos cuja noticiabilidade é dada como certa e inserem-se na esfera política/institucional. Por exemplo, como os comunicados de imprensa enviados por entidades que pretendem divulgar acontecimentos ou eventos, de âmbito local e regional, neste caso, da área do Porto e Grande Porto. Daí ser da maior importância num jornal existir uma agenda organizada e articulada com os diversos serviços do meio de comunicação de social, de maneira a rentabilizar a realidade mediática. Por vezes, durante o trabalho em redacção no Público, senti que nem sempre as coisas estavam assim tão articuladas como deveriam ser. Muitos episódios caricatos se passaram neste estágio, que contarei em devido contexto, mais à frente neste relatório. O meu trabalho como estagiária do Público durante os três meses foi, muitas das vezes, de acompanhamento de acontecimentos locais, como por exemplo conferências de imprensa, apresentação de projectos de âmbito local, comunicações ou apresentação de exposições ou inaugurações. Tem de se ter em conta um aspecto: o trabalho desenvolvido no estágio no Público teve notoriamente um carácter mais de âmbito local, já que me inseri na secção de Local/Porto. Todos os assuntos que tratei jornalísticamente inseriram-se no âmbito nacional do Público, estando mais directamente relacionados com edição Norte da publicação. Esses trabalhos tiveram início na distribuição de tarefas dadas pelos editores, com o intuito de fazer a cobertura noticiosa da área de influência. Contudo, durante o tempo que estive na redacção do Público, não esperava agarrar-me tantas vezes ao telefone para exercer a minha busca pela obtenção e confirmação da informação. Ingenuamente ainda vinha com a ideia que o jornalismo se faz na rua, em contacto directo com as pessoas, na mistura inevitável de cheiros e sons que tão surrealmente me transportam para um qualquer filme. Logo no segundo dia fui alertada para a consulta da agenda do dia, grelha de distribuição de tarefas, na qual os jornalistas consultam a atribuição de algum serviço marcado para esse mesmo dia. Previamente o jornalista deve marcar o serviço com a agenda, para que, de forma articulada e organizada, ‘escrita e imagem’ se articulem também e se faça o trabalho de cobertura informativa.

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No meu caso, para começar a semana de estágio, marcaram-me a ronda ou volta, tarefa da praxe dos estagiários, como tão sorridentemente todos os colegas da redacção sussurravam entre dentes. Por mim até que não me importei, era uma primeira tarefa, ia agarrá-la com dedicação e empenho. Desde logo reconheci grande importância à ronda, já que me permitia entrar em contacto com as fontes ditas institucionais e primárias, no que diz respeito a acontecimentos na zona do Porto e Grande Porto, bem como na generalidade do Norte do país. Antes de começar a desbravar a primeira tarefa de estágio, foi-me explicado como funcionava a ronda e como deveria proceder a determinados mecanismos de bloqueio de informação por parte das fontes. Por acaso já sabia um pouco como funcionava esse jogo de cintura entre a obtenção de informação e a tão preciosa fonte, já que no Jornal Universitário A Cabra utilizávamos o mesmo método (telefónico) para contactar as fontes.

A primeira prática – o primeiro contacto com as fontes O contacto com as fontes via telefone mostra-se essencial para a obtenção da informação e posterior confirmação. As fontes são o alimento do jornalista e sem elas não podemos sequer actuar. Nesse segundo dia de estágio as coisas correram bem, sem problemas ou pânicos. Fica registada a frase que marca esta passagem no relatar do estágio no Público, com o “Bom dia, tem ocorrências a registar”, frase que mais tarde se tornou mecânica e que já era conhecida das minhas fontes. Não resisto a transcrever o post que conta como passei o meu segundo dia na redacção. Está rico em descrições daquilo que tive de fazer para escrever o meu primeiro artigo, uma caixa de 800 caracteres e fruto do primeiro dia de ronda. Os primeiros procedimentos como jornalista do Público, o primeiro dia de trabalho a sério e o inicio do longo suar que foi o de me relacionar com as fontes através das rondas telefónicas. “Este 2º dia foi, sem dúvida, dolorosamente fascinante! Doeu passar todo aquele tempo agarrada ao telefone, a ouvir as negas das tentativas de obtenção de informações e, num todo cáustico, ouvir o meu editor a dizer: “tens de ter esta informação, senão os outros conseguem e nós não!”. Página 18

Hoje foi um dia quase de casos de polícia. Segundo a gíria jornalística, dediquei-me à ronda ou casos do dia. Por três vezes, às 11h/12h, às 15h/16h e às 17h30/18h, tive de telefonar para os bombeiros, PJ, GNR, PSP e Sapadores aqui da zona do Porto, Gaia, Aveiro e afins. Ao segundo telefonema tudo se tornou um pouco automático, num repetitivo: “Bom dia, sou a Vanessa Quitério, do Jornal Público, queria saber se têm alguma ocorrência a registar?”. Teve a sua piada, não fosse o atordoante trabalho que tive de fazer ao longo do dia e que quase me levou à angústia de desistir naquele momento de tudo. De manhã quando cheguei, um pouco tarde até, por volta das 10h40, vi na agenda de redacção que me tinha sido atribuída a tarefa de fazer a tal ronda. Bem, até fiquei entusiasmada já que era a minha primeira tarefa a sério… Mas depois começaram a chegar os takes da Lusa sobre os assaltos ocorridos ontem aqui no Grande Porto, a farmácias, e a detenção de dois suspeitos de assaltos também a farmácias. O meu tormento jornalístico do dia ia começar…. O editor deu-me a indicação que era para explorar a notícia das detenções e dos assaltos no fim do dia anterior. Tinha que descobrir detalhes que enriquecessem o que já tinha sido dito nos outros órgãos de informação e adiantado pela Lusa e pelos outros portais online. Parecia que ia ser fácil mas não foi. Passei o resto da tarde agarrada ao telefone a tentar recolher informações da GNR e da PSP, na tentativa de descobrir de onde eram os suspeitos, como tinham sido detidos e o modus operandi da coisa. DETALHES - NADA! Alegaram-me sempre que não davam essas informações pois estava tudo sobre investigação e segredo de justiça. Ia desesperando a cada minuto que passava pois sabia que me ia ser exigido um artigo para o dia seguinte. Também por ideia do editor, contactei a Associação de Farmácias Portuguesas, na tentativa de me dizerem que farmácias tinham sido assaltadas… a ideia era boa, mas também me foi barrada tal informação. Mais uma vez estava a ficar com o artigo em risco, quase a cair na transcrição de um comunicado, coisa que os outros jornais também tinham e que ia ser mais um artigo de agência. Por sorte ou não, numa das rondas, a GNR facultou o nome da rua das farmácias assaltadas e, numa pesquisa rápida pelo Google lá descobri o contacto. De seguida foi telefonar e confirmar se eram ou não as farmácias perpetradas pelos assaltantes ao fim do dia anterior. E lá consegui falar com alguém! Dos técnicos presentes nos assaltos, um deles recusou-se a darme detalhes; o outro falou-me da situação, do modo como tudo aconteceu e, a meu ver, salvou o meu trabalho da tarde toda. Página 19

Recolhida a informação, comecei a escrever os 800 caracteres necessários para a coluna que vem amanhã no Local/Porto, na edição cá do norte. Mas atenção, não são totalmente meus: o editor, esse ‘Eduard Sissor Hands’, lá cortou caracteres, limou frases e reformulou o ângulo. Com o meu consentimento, vi ser-me modelado o artigo para aquilo que realmente tinha interesse jornalístico. E, desta forma, percebi que tenho muito ainda a aprender sobre cruzamento de informação, escrita pressionada e ângulo jornalístico. Foi um dia frustrante. Saí da redacção às 20h… Amanhã espera me uma ida a Matosinhos, ainda fazer não sei bem o quê. Que seja o que eles quiserem e o que eu souber fazer da experiência. A ver vamos.” Publicado no ‘Bom dia, tem ocorrências a registar? Parem as Máquinas 03/02/2009

Desta primeira experiência saiu, na edição do dia seguinte, o meu primeiro artigo (ver imagem em anexo).

Erro no artigo e descasca da PJ No Parem as Máquinas escrevi assim: “Caiu-me tudo aos pés quando, esta manhã, telefonei para a Polícia Judiciária e a Relações Públicas me repreendeu por uma informação incorrecta no meu artigo de hoje. Se tivesse um buraco para me esconder, tê-lo-ia feito nesse momento. Só não desatei a chorar porque não queria criar constrangimentos para a minha pessoa, aqui na redacção. Como era de esperar, algum dia teria de ser confrontada com os erros ou imprecisões da prática jornalística, mas esta repreensão por parte da PJ deixou me sinceramente com a moral em baixo. Mas que raio aconteceu para veicular mal este dado?!. O que aconteceu foi uma falha na edição do texto, já que numa fase inicial juntava várias ocorrências acontecidas esta semana aqui no Grande Porto. Juntei as informações recolhidas pelos dados fornecidos nos comunicados da PJ e posteriormente explicações pela Relações Públicas e também pelos dados fornecidos pela PSP. O que levou ao erro foi uma má edição da Página 20

informação relevante, já que no artigo que entreguei no layout da página a informação sobre os quatro suspeitos por assalto a estabelecimento comercial estava junta a uma ocorrência da PSP, acontecida no mesmo dia; foi por esse elemento comum que liguei os acontecimentos, não fazendo necessariamente a referência que a ocorrência tinha sido feita por uma força policial diferente. Pedi desculpas à PJ pelo meu erro. Em meu nome e em nome do jornal”. Publicado no “Erro no artigo e descasca da PJ”, Parem as Máquinas a 19/02/2009

Este dia foi um dos piores dias de estágio que tive no jornal Público. Senti-me profissionalmente atingida por um erro básico e, nesse sentido coloquei em causa muito do trabalho feito anteriormente. Percebo que foi no início do meu estágio mas, como pessoa e profissional em causa, pequenos detalhes destes só poderiam desmoralizar. Mais que isso, percebo agora, que acidentes como este servem principalmente para chamar a atenção para a eterna responsabilidade que o profissional tem em qualquer acto de informar. Neste caso, um erro na junção de vários artigos omitiu um dado importante e deturpou o verdadeiro teor noticioso. Para a PJ tratou-se de um erro crasso e deveras perdoável. Quando a Relações Públicas da PJ me repreendeu senti-me miseravelmente culpada. Culpada por não ter revisto o texto final juntamente com o editor, culpada por não ter elaborado desde o início o artigo correctamente, não deixando qualquer género de dúvida ou erro nas informações que assinei. Mas, como em qualquer coisa, consegui ultrapassar o sucedido e por isso congratulo os imensos comentários que recebi posteriormente no blogue de estágio. Nesta situação foram muitos os que deixaram mensagens de apoio e de conforto, bem como experiências idênticas e que se mostraram mais aprendizagens do que repreensões. Neste aspecto o Parem as Máquinas funcionou na perfeição, como espelho da minha prática diária e como contador de estórias e aventuras, para o mundo de fora, o dos meus leitores e colegas, puxando sempre para a análise saudável do que ia fazendo como jornalista estagiária do Público.

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Sempre a aprender, agora com as fontes Na lida constante entre a informação e o escrupuloso dever de confirmar dados e reconfirmar dados, a aprendizagem como jornalista altera-se e reconfigura-se. No tempo em que estagiei no Público comecei a perceber a importância de ganhar a confiança das fontes, mais em concreto com as ditas institucionais e com as quais lidei diariamente na ronda ou casos do dia. No meu caso em concreto tive a dificuldade sumária de, ao início, não estar a vontade em abordar a Relações Públicas da Polícia Judiciária do Porto. Como fonte e, segundo o alfabeto do Livro de Estilo (página 129), “só pode ser considerada fonte a pessoa a quem o Público reconhece competência e seriedade para prestar a informação. Na avaliação de uma informação pondera-se o seu valor intrínseco, a possibilidade de a comprovar e a idoneidade da fonte”. Como tal, sendo inevitável o meu contacto com a fonte da PJ, fui adaptando-me à maneira por vezes amarga de abordagem e de instrumentalização de um poder ao qual, como jornalista, ainda tenho muito que aprender. Saber levar a fonte a dizer o que nós queremos é, na minha óptica, uma arte comparada ao do bem falar ou escrever. Sem as fontes não somos nada, tanto no jornalismo, como em qualquer outra área ligada à informação e difusão de conteúdos. Numa das conversas com a Relações Públicas da PJ consegui discernir que, muito mais que um veículo de esclarecimentos, as fontes são instrumentos de aprendizagem. No Parem as Máquinas publiquei a seguinte análise: “Hoje, num dos telefonemas feitos para uma das fontes apercebi-me que posso retirar alguma aprendizagem nesta relação necessária e inevitável. Ao falar todos os dias com esta fonte, vou colocando em ordem procedimentos e conteúdos que devem ser a base para a minha prática como profissional da informação. O adquirir conceitos e maneiras de abordagem só é fácil de cimentar se tivermos uma prática corrente e mais afincada; neste caso, contactar com fontes todos os dias ajuda-me a adquirir hábitos básicos, mas que sem a prática repetida me seriam mais difíceis de apreender. Com esta fonte aprendi que: - A arte de confirmar cada detalhe pode ser aborrecido para quem dá a informação mas é uma salvaguarda para o jornalista

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- Por mais ralhetes que ouçamos por parte das nossas fontes, também é esse o papel delas para que não ganhemos a dita “mania” de pedir e fazer o que nos bem apetece - A relação fonte -jornalista deve ser cordial mas também uma ligação íntegra, de respeito mútuo e que não quebre as regras de ambos. Quebrada uma confiança, podemos “queimarmo-nos” para sempre.” Publicado no “Sempre a aprender, agora com as fontes”, Parem as Máquinas a 24/03/2009

A questão da confiança é, para mim, algo necessário e imprescindível nesta prática como jornalista. Foram muitas as vezes em que percebi que muita da informação não me foi dada ou disponibilizada por ser nova na “casa” ou ainda não ter um estatuto reconhecido profissionalmente. Embora, em nenhum dos casos isso foi barreira para realizar os meus artigos ou pesquisas e obter as informações necessárias. Recorrendo de novo ao Livro de Estilo do Público (página 130) acrescento mais um pouco a definição de fonte, segundo este instrumento balizar do órgão de comunicação social onde estagiei: “Uma fonte é quase sempre parte interessada e o jornalista tem de ter o cuidado de não se deixar instrumentalizar. Os jornalistas do Público devem alimentar uma relação assídua com as suas fontes de informação, contactos regulares, boas relações em postos-chave e iniciativa junto de entidades que possam constituir-se como fonte de informação e/ou ponto de partida para uma investigação jornalística”. O contacto assíduo com as fontes realizei mais em concreto através das rondas telefónicas que se mostraram diárias e num fluxo contínuo. Durante dias e semanas contactei autoridades e fontes institucionais, conseguindo ao fim de algum tempo mostrar um certo “à vontade” que não tinha inicialmente. Como estória caricata recordo as inúmeras vezes que a Relações Públicas da PJ me auxiliava no esclarecimento dos comunicados de imprensa enviados e, no fim desse trabalho institucional, me cumprimentava e desejava um bom trabalho, deixando sempre um beijo ou abraço. A nossa relação, jornalista - fonte, tornou-se mais suportável e não tão mecânica, ajudando na tarefa de obter mais dados do que aqueles que eram fornecidos via comunicados. Foi sem dúvida um ganhar de confiança.

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Ao terceiro dia de estágio tratei de novo de comunicados vindos das forças policiais e tive a minha primeira saída para fora da redacção, como jornalista do Público. A tarefa consistiu em acompanhar uma conferência de imprensa em Matosinhos, que dava conta da apresentação do projecto de requalificação das instalações da Associação Recreativa Aurora da Liberdade, espaço emblemático da cidade. Dessa saída, feita na parte da manhã, não resultou um artigo, já que por motivos de paginação, outros assuntos tiveram que ocupar as páginas do Local/Porto. Cada dia apresentou-se como uma oportunidade de perceber como funciona a rotina jornalística e como proceder perante uma prática que se quer isenta e a mais verdadeira possível. Como já referi no inicio deste relatório, criei para ir contando esta minha aventura no Público um blogue, o ‘Parem as Máquinas’, plataforma online que contou até ao fim do estágio com 13.000 visitas. Em três meses recebi conselhos e dicas, parabéns e algumas chamadas de atenção, tudo no sentido de melhorar a minha escrita e a melhor relatar o que ia aprendendo e conhecendo. Na primeira semana fiz o primeiro balanço. Mas antes de expor as conclusões dos primeiros sete dias, é me necessário analisar um dos momentos mais emocionantes do meu estágio e que serve de ensino para a prática como jornalista.

“Foi um dia emocionante: tive a minha primeira saída como repórter, fui ao local do dito “crime”
e tive a minha primeira notícia publicada no online. Vou explicar por partes, já que o mérito não é todo meu, um pouco de trabalho sim, mas mais foi o suor do meu editor, que me vai ajudando a melhorar aspectos e aparando os golpes da minha ainda inexperiência jornalística”. Publicado no ‘A conversa, a tragédia e um dia mais animador’, Parem As Máquinas, 05/02/2009

No terreno privei com a informação em bruto e com as fontes, numa saída repentina e que careceu de “estômago”, pelo assunto que foi e pelo tratamento jornalístico que levou. Refiro-me ao acidente no Senhor da Pedra, em Miramar, Gaia, onde uma mulher foi dada como desaparecida. Ao início da tarde, através da ronda foi-me comunicado o desaparecimento e que estavam a decorrer as buscas pelo possível corpo da vítima. Alertado para este facto o meu editor colocou-me no artigo e partimos ambos até ao local, para recolher mais elementos de reportagem.

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Desta saída muito tenho a relatar. Primeiro o assunto de trabalho, já que se tratava de um aparente suicídio e, como norma ética, o Público não trata suicídios. Jornalisticamente é também um assunto delicado, o que desde logo me despertou para a minha conduta segundo o código deontológico. Mesmo assim agarramos a informação e da recolha feita no local, realizamos um artigo, focado no ângulo do acidente e dos inúmeros meios de salvamento envolvidos. Segundo ponto de análise prende-se pelo modus operandi tido no local, realizado em parceria com o editor que me acompanhou. Numa espécie de parceria, tentamos obter detalhes sobre o acidente e abordar as entidades que estavam a coordenar as buscas no local. Ao mesmo tempo conversamos com as pessoas que se encontravam nas imediações, na tentativa de arranjar detalhes de contexto para melhor perceber o que se estava a passar na praia do Senhor da Pedra. No fim, passado algum tempo regressamos à redacção. Tanto na ida para o local, como no regresso, foi-me possível trocar impressões com o meu editor. Reconheço que foi uma mais-valia poder privar tão pessoalmente com o editor, numa conversa quase de professor - aluno e que me ajudou a perceber as angústias dessa primeira semana. “Durante aqueles minutos de viagem as palavras que o meu orientador proferiu bastaram para me tirar da ideia que estava a errar. Afinal era o meu quarto dia na redacção e é normal ainda não estar habituada à mecânica do diário. Acima de tudo disse que não vale a pena estar a sofrer antecipadamente, mas que estar no Público é algo que é exigente por si só. Se estou lá é porque me foi dada a oportunidade de mostrar que merecia a aposta. De resto, vai-se aprendendo todos os dias e esta é a melhor escola que se podia ter em termos de referência do jornalismo diário em Portugal – fora modéstia, referiu-me ele – na tentativa de não parecer parcial”. Publicado no ‘A conversa, a tragédia e um dia mais animador’, Parem As Máquinas, 05/02/2009

Senti-me privilegiada por ter a oportunidade de contar com o apoio e dedicação de tamanho profissional que me auxiliou nesta primeira tarefa de campo, dificultada pelo facto de se tratar de um aparente suicídio. No fim, desse trabalho conjunto, saiu para a edição do dia uma fotolegenda, a primeira de algumas que fiz durante o estágio. O artigo saiu também no online, inaugurando assim os meus trabalhos como jornalista do Público.

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Ainda na primeira semana de estágio vi serem publicados mais dois artigos no Local/Porto (ver artigos em anexo). Trataram-se de ocorrências do dia, vindas da ronda e dos comunicados das forças policiais. Como dei por título a um dos post’s do ‘Parem as Máquinas’, na Sexta-feira foi o dia em que os artigos apareceram naturalmente, e onde mais fluentemente consegui aplicar as técnicas já desenvolvidas nos anteriores artigos, os primeiros da primeira semana de estágio. “Sendo eu a mera transmissora de informação, a mediadora entre o material em bruto e o diamante lapidado, que mais posso fazer se não dar o essencial e nada mais que o essencial?! Só sei que dos dois artigos que escrevi nesse espaço de tempo, pouco ou nada foram modificados. Somente os ajustes do costume, as imperfeições de quem ainda está a sair do mundo académico, viciado de esquemas sincronizados de fazer as coisas. Aqui, num espaço de cinco dias, já consegui ver mais detalhes e perceber como realmente se chega a um artigo jornalístico, do que nos anos que andei a ler sobre pirâmides invertidas e critérios noticiosos. NÃO QUERO COM ISTO menosprezar o que aprendi, muito pelo contrário. Os últimos três anos serviram para me dar as bases para está prática mais acérrima de jornalismo. Se o não fosse dessa forma, não conseguiria neste momento distinguir entre evolução e aprendizagem”. Publicado no “Sexta-feira - o dia em que os artigos apareceram naturalmente”, Parem as Máquinas a 06/02/2009

Numa espécie de resumo da primeira semana, escrevi no Parem as Máquinas as primeiras impressões dos sete dias iniciais do estágio. Mais uma vez recorro a um dos post’s do blogue, como forma de não incorrer em erro neste contar de experiências. A começar, é importante realçar que este sonho tornado realidade acarreta uma enorme responsabilidade. Acrescida por estar no órgão de comunicação em que estou e também por ter apresentado provas daquilo que valho e poderei fazer. Este foi o motivo crucial que me levou, nos primeiros três dias, a entrar em rota de colisão comigo mesma e pensasse que não estava preparada ainda para tamanho salto. “Foram dias angustiantes a meu ver pois revelarem em mim coisas que não queria, como a incapacidade de resposta imediata às pressões e o constante bloquear de iniciativa. Para assustar assim logo no primeiro dia, não esqueço o conselho do subdirector Amílcar Correia - de Página 26

empreendermos dentro do jornal e não sermos mais uns bonequinhos amestrados da vontade de fazer pouco. Engoli em seco e comecei a imaginar mil e uma coisas para poder tratar jornalísticamente. Até agora nada! Seguiram-se dias ainda um pouco turbulentos. A ronda, os artigos de casos de polícia, a pressão de apresentar trabalho em vez de ser mais uma a consumir oxigénio dentro daquela redacção que transpira a trabalho, foram duras metas a atingir… Se não fosse a força de vontade que tenho em lutar pelo que gosto, certamente ter-me-ia sido mais fácil agarrar na trouxa e vir embora. Por vezes é mais fácil… Mas assim não o foi. E nesta semana aprendi já coisas que me vão ser bastante úteis. Deixo então as dicas da semana, numa breve alusão às dicas promocionais dos supermercados, em busca da divulgação dos produtos mais baratos. Não digo coisas ocas de interesse, antes pelo contrário, que podem ser luz a muitos estudantes como eu, que nesta fase mais puxada da vida, nos deixamos entrar à deriva… 1º - Entrar numa redacção com olhos de ver - é uma área que transpira a ambiente de trabalho, por mais desarrumado que esteja; 2º - Se os editores e os directores parecerem carrancudos ao início, é tudo uma camada de bluff. Afinal o que eles mais vêem são estagiários com o sonho idílico de mudar o mundo e com pretensões de ficar. Por acaso tenho esse sonho, mas o de ficar nunca coloquei a hipótese, por ser difícil, e por não ser para já esse o meu objectivo - ainda tenho de “comer muita relva antes de aprender a bem rematar”;3º - Quanto à postura a ter em ambiente de trabalho, não vale a pena sabermos a teoria toda se, na prática nem se sabe o que são 800 caracteres. Eu por acaso tenho essa noção, mas continuo a não saber colocar bem em prática a pirâmide invertida. Problemas… 4º - Os primeiros dias são aqueles em que nos chegamos ao pé do editor em busca de algum conforto. Eu tive a sorte de ter como editores de secção duas pessoas muito profissionais e competentes. Sabem dar as dicas a seu tempo e exigir a seu tempo também. Há que encará-los como uma preciosa ajuda e, acima de tudo, tratá-los por TU. 5º - Ter atenção às normas e maneiras de escrita do Jornal. Há coisas que às vezes são tão básicas mas que não correspondem ao caminho editorial que o jornal pratica. Tive essa experiência com os alegados casos de suicídio que surgiram nesta primeira semana. Davam boas estórias mas de jornalismos não tinham nada. Agora não sei mais o que escrever… Varrem-se-me as ideias para mais dicas, tenho que passar a anotar com mais precisão cada nova aprendizagem. Esta semana foi rica em novas experiências e Página 27

novos contactos. Desta ideia surgiu uma das melhores oportunidades que estou a ter, a de potenciar o meu trabalho fora redacção e fora do âmbito académico. Abre-se neste primeiro instante, o crescer de uma reputação a nível da web e a responsabilidade de estar a ser uma janela aberta para o mundo. O mundo que se diz ser Público e que neste momento é o meu estágio. Publicado no ‘Resumo da primeira semana’, Parem as Máquinas a 08/02/2009

A partir da segunda semana já estava inserida na rotina da redacção do Público, no Porto. Por defeito meu ou insistência pessoal primei sempre por chegar cedo à redacção, por mais desajustado que fosse, já que somente a partir das 11h/12h é que começava o trabalho na redacção. Mas, como sempre foi desde o início, aprendi a gostar do silêncio e do vazio da redacção, assim como numa espécie de contemplar do habitat natural do jornalismo. O meu estágio foi sem dúvida alguma uma experiência rica e marcante. Pela positiva, no abrir de portas e de conhecimentos a nível do jornalismo, mas também como na troca de experiências e oportunidade de aplicar um jornalismo dito de referência e que me dava total liberdade de acção e ideias.

Contar uma estória: a prática versus a deontologia “Era uma vez, um gato maltês, que tinha umas calças e falava francês! Não, não é destas histórias que vou contar ou que me propõem fazer aqui na redacção do Público. Antes mais, o que crio ou tenho de criar, são daquelas histórias com factos e que são o prato do dia de qualquer jornalista: recolher informações a partir dos diversos tipos de fontes, cruzar informação e redigir artigos imparciais, limpos de treta e choradinhos, referenciais do jornal onde estou. Publicado no ‘Contar uma estória’, Parem as Máquinas, 27/02/2009

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Muitas foram as dificuldades sentidas durante a elaboração dos artigos, bem como na recolha dos elementos informativos. Desde o início que me posicionei criticamente ao meu trabalho, como jornalista e veículo de informação, bem como no rigor da escrita daquilo que tratei. Durante todo o trabalho desenvolvido tive oportunidade de colocar em prática os vários conhecimentos adquiridos na formação académica e, mais em demasia, a prática deontológica e a análise dos meus direitos e deveres como jornalista. Bem no início, no começar de relação com as minhas fontes institucionais, senti que muitas das vezes foi-me barrada informação por ser a “ estagiária”. Muitas das vezes ouvi por parte da Relações Públicas da Polícia Judiciária que “não podia perguntar tal coisa por estar sobre segredo de justiça”, muito embora soubesse que tinha a meu favor o direito de saber detalhes sobre os casos em tratamento jornalístico, nunca colidindo com o segredo de justiça ou incorrendo em violações de privacidade. Por ser a estagiária, muitas das vezes as minhas fontes quiseram ocultar informações, no pensar que, por ser nova nas lides de recolha e exploração da informação, não trataria dignamente a informação recolhida e me deixaria vencer por um simples não. Foi-me muito útil relembrar as aulas de Direito da Comunicação, bem como da prática deontológica, seguindo os parâmetros do Código Deontológico dos Jornalistas Portugueses. A prática deontológica e o exercício real do jornalismo vivem em constante colisão. A reflexão do que fazemos enquanto profissionais colide, muita das vezes, com os procedimentos tidos mais éticos e que devem regular o nosso saber - fazer enquanto veículos de informação. Este confronto instalou-se durante o meu estágio por diversas vezes, tanto no perceber como agir perante novas situações como na escolha do ângulo a tratar os dados. Dois artigos que redigi colocaram-me numa situação delicada, pelo facto de necessitarem de uma atenção especial pelo teor e modo de actuar. O primeiro artigo suscitou-me problemas porque despertou a análise do valor-noticia - conceito pelo qual o jornalista avalia o grau de noticiabilidade de um acontecimento. Segundo Nelson Traquina (2002), os critérios noticiosos são como uns ‘óculos deontológicos’, através dos quais se distingue o normal, vulgar e esperado do anormal, inesperado e desviante. São conceitos que estão presentes em todo o processo produtivo e apresentam-se como instrumentos de análise do que pode e deve ser noticiado.

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Em alguns casos de análise de dados que recebia mediante as rondas e comunicados de imprensa, senti a dificuldade de perceber realmente quais valores-notícia os meus editores me pediriam para aprofundar, e se tudo o que recebia desse background era passível de ser noticiado. O primeiro artigo que exploro prende-se com uma situação pouco comum e que me levou a questionar a publicação.

“A estória chega ao ponto de parecer bizarra, mas aconteceu mesmo: uma funcionária de um
hospital aqui do Porto ficou com a mão presa numa máquina de passar roupa. Segundo os Bombeiros Sapadores do Porto, a mulher ficou com a mão entalada entre dois rolos de aço, acabando por não sofrer esmagamento ou danos de maior. Mal me foi comunicado este acidente, tratei de recolher os dados, confirmar com os bombeiros o local, a hora de chamada, ocorrência, estado de saúde da vítima, entre outros elementos” Publicado no ‘2º página, na esquerda, em baixo’, Parem as Máquinas, 18/02/2009

Este artigo “custou a fazer”. Não tanto pela definição do valor-notícia em si, mas pelo facto de se tratar de um acidente num hospital, um tanto ou quanto caricato e que me envolveu numa discussão de pontos de vista com o editor. Foi através de uma das rondas que obtive a informação de que uma pessoa tinha ficado ferida num acidente de trabalho no Hospital Magalhães Lemos, no Porto. Uma funcionária tinha ficado com o braço esquerdo entalado numa máquina de dobrar roupa, o que causou um grande aparato no local. Quando comuniquei ao editor a ocorrência, ele disse-me para avançar com o caso e recolher o maior número de factos sobre o acidente. Nesse aspecto cumpri com a regra, confirmei dados e cruzei informações com as diversas fontes. O que me levou a entrar em discussão com o editor foi, realmente o âmago da questão e o real valor-noticia daquela ocorrência, já que me parecia sensacionalista “demais para pegarmos no caso”. Foram palavras minhas o que acabei de referir, o que espoletou grande consternação por parte do meu editor. Pela maneira como questionei o critério noticioso, bem como na minha definição de informação sensacionalista. Percebi que não podia revogar sensacionalismo nem muito menos colocar em causa a decisão de tratar jornalísticamente o caso.

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Na minha opinião, ingénua de jovem ainda com muito por aprender, senti-me estupidificada por falar sobre um caso caricato, que foi mais aparato que outra coisa. Questionei para mim mesma se aquilo era o mais correcto a fazer, na busca do interesse público que o jornalismo tanto revoga. Para piorar as coisas, alguns dias depois vi esse mesmo artigo ser apresentado no mural de entrada da redacção, espaço onde são deixadas informações ou colocadas coisas engraçadas, e que neste caso reportavam o meu artigo para uma qualquer página de jornal sensacionalista (exemplo de um Correio da Manhã ou mesmo de um jornal O Crime). O meu artigo estava sublinhado a fluorescente, destacado assim para quem mais distraído não se tinha apercebido na edição do dia 19 de Fevereiro. Fiquei chateada, por estar a ser gozada, e muito mais por pensar o que iriam pensar de mim os restantes jornalistas da redacção. Agora, depois de um tempo de análise, percebo que tudo o que fiz enquanto estagiária do Público serviu para aprender e para abrir os olhos, enquanto futura profissional e para perceber a engrenagem produtiva dos conteúdos. Tudo pode ser passível de ser notícia, tendo em conta que lidamos com a realidade. Mas, muito mais que dar notícias, temos de ser responsáveis na escolha dos assuntos e não informar por informar. Senti que este artigo da funcionária presa na máquina de passar roupa do Hospital Lemos foi, mais que um layout para preencher espaço na edição do dia, uma oportunidade que o meu editor me deu para explorar os factos e praticar a recolha de dados. O assunto, por azar ou sorte, não se mostrou o mais abonatório para mim, já que vindo do sítio que veio, deu a entender naquele mural das informações que eu era a estagiária das estórias engraçadas, denegrindo-me enquanto profissional e descredibilizando-me, interiormente. Este artigo “deu-me cabo do ego”. O segundo artigo colocou-me em rota de colisão com a deontologia jornalística e foi um caso extremamente delicado e que exigiu bastante de mim, como profissional e como ser humano. Desde o início do meu percurso académico como jornalista e no meio envolvente a toda esta prática, nunca descuidei da responsabilidade de que lidamos com outras pessoas, e mais que meros receptores, estes receptores são cidadãos. Ora, por muito mais que eu saiba aplicar as teorias (do jornalismo) e as dite numa espécie de “ponta da língua”, não conseguirei atingir o objectivo de bem informar se não souber lidar com o meu receptor e ter sensibilidade para ver onde ficam os limites da exploração noticiosa.

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O artigo que servirá de análise neste ponto da prática como jornalista versus a deontologia da profissão tratou-se de um caso de infanticídio, com contornos macabros e que tive de tratar jornalísticamente para uma das edições do Público. Por via da ronda, recebi por parte da GNR do Porto a informação que uma mulher tida sido detida e identificada como alegada autora do crime de infanticídio, na freguesia de Arcozelos, Vila Verde. Depois de ficar aterrorizada com tamanho crime, discerni que esta era uma matéria importante para ser tratada e informei o meu editor do sucedido. Foi logo unânime que teria de recolher todas as informações sobre o crime e que teria de descobrir detalhes, motivos, modus operandi, constituir a estória e ter elementos que me distinguissem dos outros demais jornais diários que, de certeza, iriam agarrar o assunto. Seguiu-se a habitual maratona para obter detalhes de todos os passos até à identificação e detenção da autora do crime, bem como de luta contra o tempo, já que só se soube desta ocorrência ao início da tarde e, até as 21h no máximo, os artigos de Local/Porto teriam de estar paginados e inseridos no layout, para não atrasar a edição no seu global. Para além de sofrermos a pressão do deadline e do fecho de edição, temos sempre de contar com as negas de informação por parte das entidades envolvidas nos casos, bem como pelo facto de, pelas 18h, as relações públicas das diversas instituições de segurança nacional ficarem indisponíveis. Neste caso em concreto, a luta contra o tempo agudizou-se pelo facto de o caso carecer de detalhes que fugissem aos simples dados fornecidos pelas autoridades. De imediato contactei os Bombeiros Voluntários de Vila Verde e as autoridades locais, para perceber como foi conhecido o caso e os procedimentos que envolveram a recolha do corpo e a detenção da alegada autora do infanticídio. Num dos post’s do ‘Parem as Máquinas’ analisei todos os procedimentos que levei a cabo para redigir este artigo: “A partir das 14h, a minha tarde sofreu uma reviravolta: - A GNR do Porto dá-me a indicação de que uma mulher tinha sido detida e confessado o crime; - A partir daí seguem-se os contactos com as forças policiais locais e Bombeiros Voluntários de Vila Verde;

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- Começo a cruzar os dados obtidos pelas fontes oficiais com os dados vindos do comunicado da PJ e da Lusa; - Aos poucos começo a ter detalhes do que aconteceu: o meu editor chama-me à atenção de pormenores importantes para distinguir uma boa história de um simples artigo “seco” de agência; - Consigo o contacto de um habitante daquela zona, que me conta pormenores da mulher detida e me dá o ambiente vivido na freguesia, após a descoberta do crime; - Volto a confirmar dados com os Bombeiros Voluntários de VV e com a GNR de Braga, numa tentativa de estabelecer confiadamente uma cronologia de todo o caso; - Após a recolha de todos os dados possíveis e imagináveis desta situação, começo a redigir o artigo; - Pelas 19h comunico de novo com a PJ do Porto, para saber da medida de coação aplicada. A informação é me dado e assim concluo o artigo em questão. Dito assim até parece que foi fácil todo este trabalho. Mas confesso que foi mais uma prova de fogo, colocada subtilmente pelo meu editor. Ao longo da tarde, ele foi despertando em mim pequenas dicas, pequenas formas de actuar que me poderiam ajudar a resolver o caso. Subtilmente foi-me instruindo num caminho que me afastava da “pescadinha de rabo na boca” que é o mundo dos comunicados de imprensa e das ditas fontes oficiais. Foi-me dizendo que deveria descobrir algo perto do local da ocorrência, tentar descobrir dados através de uma rádio local, café da zona, coisas que estivessem no local. Por sorte ou não, descobri na internet o endereço telefónico de um café pertinho da ocorrência e, numa facilidade, tive acesso à explicação de dados sobre a mulher detida e do ambiente que se vive na freguesia. Foi uma lufada de ar fresco este contacto, que agradou ao meu editor, já que segui o que ele me tinha indicado. Senti que dei um pequeno passo a caminho da melhor prática jornalística e na relação que devo ter com as fontes. Percebi um pouco como se faz este “jogo de cintura” entre nós, colectores de informação, e as fontes, sempre tão disponíveis mas que nos manobram e reduzem campos de visão.

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Que o dia que passou me sirva de lição e não me saia da memória, para ver se aprendo mesmo alguma coisa, nestes dias em que me enriqueço com a experiência de trabalhos com profissionais de referência”. Publicado no ‘Contar uma estória’, Parem as Máquinas, 27/02/2009

Este caso foi sem dúvida uma prova de fogo, pelo tema em si, mas também pelo facto de me instruir e mostrar que caminhos devo fazer para obter a informação. Foi uma batalha difícil a que travei com o meu editor, sedento de detalhes e de confirmações, e entre as fontes, sempre mais disponíveis para emitir dados do que para nos debitarem os detalhes tão preciosos na redacção jornalística. No ‘Parem as Máquinas’ referi uma coisa que me acompanhou até agora e que serve para todos os trabalhos do futuro: “ o dia de ontem foi cansativo, trabalhoso mas fortificador. Percebi que esta vida de jornalista é dura, mas compensatória no momento em que nos dizem que fizemos um bom trabalho e que valeu o esforço feito durante toda a tarde” Os dois casos marcaram-me de forma negativa e positiva, numa espécie de equilíbrio para esta análise. No entanto percebo que foram experiências muito ricas, pois tanto um como outro trabalho auxiliaram-me na percepção de como trabalhar a informação e explanar as metodologias de recolha desses mesmos elementos.

O off the record Sobre o off the record analisei em concreto três situações passadas na minha rotina diária de casos do dia. Mais uma vez, em conversa com a fonte da Polícia Judiciária, percebi que a prática jornalística percorre meandros muitas das vezes longe do nosso alcance e controlo. O off the record aperta-nos a área de actuação e sufoca, por vezes a ânsia de ir mais além da investigação banal e difusão dos conteúdos ditos institucionais. Mais uma vez e para não incorrer em imprecisões, coloco como parte deste relatar sobre o estágio, um post do Parem as Máquinas:

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“Durante este já mês e meio de estágio no Jornal Público, ainda não me tinha deparado com a famosa questão do off the record, um quase “bicho papão” da prática jornalística. Apelido tal coisa como papão, não tão especificamente na prática dos profissionais em si, mas na perspectiva da jovem estudante que sou e mais ainda inexperiente como jornalista. O off the record é daquelas coisas que me deixa impotente. É ter a informação de que necessitamos e ao mesmo tempo estarmos impossibilitados de a utilizar livremente, sem estar preocupado em usar aquela afirmação ou expressão, recolhidas nas conversas aceites pelas nossas fontes. Ora bem, no trabalho que desenvolvi durante a tarde de ontem, deparei-me com informações que não me foram passíveis de publicar e que, talvez por isso, não chegaram a ser notícia. Não quer dizer que tenha sido o motivo maior para que isso não passasse para o layout, mas de qualquer forma com o desenrolar da tarde noticiosa outras coisas foram tomando relevância. Neste tempo que estou a passar na redacção vou-me apercebendo como funciona a máquina jornalística. Na redacção o que parece óbvio passa a ser a dúvida curiosa do jornalista. O que para mim parece ser de caras, afinal não passa de pormenores irrisórios de uma inexperiência que se nota a milhas. A um mês e pouco de sair daqui, sinto já que me moldei um pouco mais às lides de confirmar, justificar e escrever ao jeito noticioso. Por acaso já tive histórias engraçadas relacionadas com confirmações ou mesmo últimas horas de “bradar aos céus”. E que tal contar um pouco disso? Aqui vai então uma pequena série de situações que me deram e dão vontade de rir: - Pior que não quererem dar uma informação ao jornal é pensarem que os jornalistas são burros! Comigo aconteceu a situação de, ao telefone com uma instituição importante de segurança, me negarem a passar ao superior hierárquico pelo simples facto de ele dizer que não estava. Sim, disseram-me que o superior não se encontrava disponível para entrar em linha, quando do outro lado ouvi claramente a negação do querer falar comigo e pedirem para dizer que não estava. Fiquei tão absurdamente parva que nem reagi. Simplesmente acatei a ordem e liguei minutos depois como se nada fosse; - Mais que para o meu bem como jornalista e para salvaguardar o meu trabalho como mediadora entre o que acontece e os leitores, todas as questões que coloco aquando das rondas de confirmação e cruzamento de dados são sem dúvida alguma pertinentes e curiosas. O que me tem acontecido regularmente é certas fontes institucionais não perceberem o porquê de tanta questão e Página 35

de tanta confirmação de dados sobre dados. Ontem dei por mim a explicar os critérios noticiosos e a hierarquização dos acontecimentos segundo o público-alvo e a relevância dos temas para o público que lê o jornal diariamente; - A mais espantosa e aterradora experiência, durante este estágio, prendeu-se com uma chamada telefónica que tinha como objectivo denunciar uma situação de agressão e abuso de poder por parte de uma força policial. Como não sabia como fazer neste tipo de caso, recolhi as informações necessárias e apresentei a situação aos meus editores. No fim veio a confirmar-se ser um caso de agressão mas que fora provocado por uma conduta menos própria. A denúncia acabou por não ser noticiada por reportar também a um insólito não tão insólito quanto isso. Se a conduta do Público fosse populista e sedenta de histórias fatalistas, acho que podia dizer que tinha um grande scoop ou cacha - palavra que representa na gíria jornalística o mesmo que uma novidade, algo inesperado”. Publicado no “Off the record”, no Parem as Máquinas a 24/03/2009

No terreno ser jornalista é mais complicado Outro dos pontos de análise deste meu estágio curricular no jornal Público prende-se com a prática no exterior do nosso trabalho como historiadores do instante. A recolha de informação tem, ao longo dos tempos, mudado de fisionomia, e o que antigamente – nos primórdios do jornalismo – era um farejar ao ar livre e no terreno, apresenta-se nos dias que correm como uma prática fechada em quatro paredes, onde o computador é única janela que nos permite ver o que se passa lá fora. Durante os três meses saí para a rua, fiz trabalho de campo, mas estive muito mais tempo na secretária e ao telefone. Das vezes que saí, senti dificuldades como quem vislumbra pela primeira vez o raiar do sol e descobre a imensidão de probabilidades de termos uma própria estória e trabalha-la jornalísticamente. Em campo, senti as negas do barrar a informação, o medo de falhar nos objectivos pedidos pelo editor, o inconveniente de abordar as pessoas e a agradável surpresa de se admirarem por ser já uma estagiária, estreante nas andanças de conferências e da responsabilidade de albergar um estágio no Público.

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Mais uma vez recorro ao blogue ‘Parem as Máquinas’ para abordar um tópico deste relatório. Foi nesse intuito que ele foi criado e, sem perder a génese da sua origem é com prazer que relembro as peripécias das saídas fora da redacção. O episódio que se segue conta um serviço um pouco atribulado que, mais uma vez, proporcionou-me uma aprendizagem satisfatória e necessária. “Artigos à parte, o dia de hoje foi bastante agitado, pelo simples facto que saí da redacção e estive a trabalhar no terreno da ocorrência. Na ronda das 15h surgiu a informação de que um trabalhador tinha caído de um andaime e estava a ser socorrido pelos bombeiros. Vi naquela chamada o meu scoop do dia, e nesse instante senti que podia ter um artigo em grande. Corri a avisar o meu editor, a contar o sucedido e, num lapso, estava a caminho do local, juntamente com a minha colega fotojornalista Ana Coelho. Chegadas ao estaleiro da obra, deparamo-nos com a ambulância a socorrer o homem acidentado. Inquiri os presentes, tentei saber pormenores mas, num ar estranho e rancoroso, foi-me barrado qualquer detalhe que esclarecesse a queda. Não consegui sacar nada do responsável pela obra nem dos demais presentes. Mesmo a PSP, que estava no local a tratar da ocorrência, não me deu qualquer informação, remetendo-me para o comando geral e para as burocracias hierárquicas que esse tipo de situações me leva a ter que enfrentar. Para ajudar mais ainda à “festa” foi-nos negado o acesso a tirar fotos, e mesmo exigido que apagássemos as fotos que tínhamos tirado no local, pelo facto de ser uma obra privada e os responsáveis não autorizarem a captação de imagens. Houve ali uma tensão entre mim e os responsáveis pela construção. Senti na pele a negação da minha prática jornalística. E a frustração de ficar impotente a uma informação que vale tanto como as palavras que escrevo. Já na redacção, expliquei o que aconteceu no estaleiro ao editor e comecei a escrever o artigo. Ao mesmo tempo fui tentando “sacar” as informações que a PSP não me tinha disponibilizado no local, recolher os dados dos bombeiros e saber se do Hospital de Santo António também me diziam alguma coisa. Foram três horas angustiantes, de confirmações atrás de confirmações, de cruzamento de dados e de esperas intermináveis ao telefone, sob aquelas músicas irritantes. Chegada às 20h00 apresentei o artigo ao editor, corrigimo-lo e dei por terminada a minha semana de estágio. Isto porque amanhã rumo a Coimbra tratar de uns exames pendentes. Volto à redacção na terça-feira que vem”. Publicado no “No terreno ser jornalista é mais complicado”, Parem as Máquinas, 10/02/2009 Página 37

Neste exemplo, senti na pele a negação da minha prática como jornalista. Ao barrarem-me informações sobre o acidente na obra do Sea Life, junto ao Castelo do Queijo, na Foz do Douro, questionei até que ponto os nossos deveres e direitos como jornalistas são colocados em causa diariamente. Segundo o Estatuto do Jornalista, documento que salvaguarda os direitos dos profissionais da informação e regula a sua actuação na sociedade, naquele momento foi-me negado um direito primordial que é o do acesso a locais públicos para a realização do meu trabalho. No artigo 9º do Estatuto do Jornalista, alínea 1) e 2) está bem claro que: “os jornalistas têm o direito de acesso a locais abertos ao público desde que para fins de cobertura informativa” e que “o disposto no número anterior é extensivo aos locais que, embora não acessíveis ao público, sejam abertos à generalidade da comunicação social”. Nesta situação, por ser uma obra de âmbito privado foi-nos pedido (a mim e à colega fotojornalista que me acompanhou) que não fotografássemos o local nem oportunasse-mos as pessoas presentes, pelo simples facto de que se tratar de um acidente sem gravidade. Logo, a meu ver, esse não é motivo para que me barrassem a informação. Como jornalista, o meu dever é reportar a realidade dos factos e tentar ao máximo ser coerente com as minhas balizas deontológicas. Em causa estava uma matéria noticiosa vinda de um alerta da ronda, no instante em que saíram, do seu quartel, os Sapadores do Porto. Por acaso o local do acidente é pertíssimo das instalações do Público, na Foz. Logo foi maior o espanto que causei quando cheguei ao local, pela rapidez como a informação se espalhou. Fui das primeiras repórteres a chegar ao local, mas nada me valeu. O barrar da informação pelo delegado da obra, bem como da engenheira da construtora, foi um golpe forte na prática estagiária do meu jornalismo no terreno. A pouca experiência e estofo para situações de pressão entranhou-se em mim naquele momento. O nervoso miudinho apoderou-se de mim aquando da pressão em querer saber o estado de saúde do operário e como se tinha dado o acidente. Pior me senti quando, numa espécie atitude repressora, um dos elementos dirigentes da obra nos proibiram a captação de imagens, impossibilitando assim ainda mais a nossa recolha de dados no local. Tanto eu como a minha colega fotojornalista tentamos revogar o nosso direito de estar no local e as nossas intenções em tomar nota daquela matéria noticiosa. Mas sem complacência alguma, foiPágina 38

nos pedidos que apagássemos todas as fotos tiradas no local, sob a medida de que nos encontrávamos numa obra privada. Impotentes, lá cedemos à chantagem e regressamos à redacção com uma nega para contar e uma série de pormenores para ver explicados. No local, a própria Polícia de Segurança Pública recusou-se a dar detalhes sobre a ocorrência. Limitei-me a fazer o meu jogo de “curiosa - chata”, inquirir vizinhos e os demais trabalhadores e insistir com um agente da autoridade que, entre sorrisos me esboçou um “tem de ligar para o comando que lá dar-lhe-hão mais pormenores”. Já na redacção, o editor percebeu o que se tinha passado no local, mas insistiu em que apurasse os elementos chave do acidente. Coloquei mais uma vez em prática a minha rede de contactos e as confirmações com os agentes da autoridade e o Hospital para o qual o operário fora levado. Ao final do dia, o que apurei deu azo a uma pequena chamada de página, vulgo topo, a dar conta do acidente.

Ilustração 1 - "Um ferido ligeiro em acidente de trabalho no Sea Life"

Os medos e as angústias de não correspondermos ao que nos é pedido para x artigo ou para y trabalho jornalístico são influenciados pelo nosso próprio desempenho nessas tarefas. Nas variadas vezes que saí da redacção para fazer a cobertura de eventos ou ocorrências de última hora, senti o mesmo “friozinho na barriga” que senti quando entrei no primeiro dia como estagiária no Público, ou mesmo quando soube da notícia deste meu estágio curricular. Nessas duas vezes, apoderou-se de mim o medo de não vir a corresponder às exigências e, acima de tudo, incorrer em erros ou falhas. Sobre isso mesmo coloco em análise uma situação que condicionou uma parte do meu estágio, bem como a minha auto-estima como estagiária da redacção do Público, no Porto. Uma das razões de alguma controvérsia durante esta minha última parte do meu percurso académico prendeu-se pelo facto de ter criado assim do nada o blogue ‘Parem as Máquinas’. Para muitos não passou de uma ideia estapafúrdia, ou mesmo narcisista. Para outros foi um aposta Página 39

ganha e um bom veículo de informação e conhecimento da prática inicial de jovens jornalistas como eu. Na minha opinião, foi um “rebento” bem-criado, que deu muitas alegrias, abriu caminhos e angustiou-me em alguns momentos pela responsabilidade que carregou. Num dos meus trabalhos como estagiária, coloquei em causa a veracidade do serviço e até mesmo a organização interna da agenda, que coordena os trabalhos apontados pelos editores e os jornalistas disponíveis no dia. A situação em si não foi nada de especial, mas foi o necessário para receber por parte do subdirector uma chamada de atenção. O serviço estava marcado para o fim da manhã no Mercado do Bom Sucesso, na Boavista. Cometi um pequeno erro ao sair da redacção sem confirmar com o editor disponível qual o ângulo do artigo. Mas, como à hora que saí nenhum estava presente, decidi sair para o serviço, com a ideia de que chegando ao local me aperceberia do pretendido. É de acrescentar que a nota da agenda explicava que no local iria estar presente a Comissão de Trabalhadores da Câmara Municipal do Porto, para fazer a denúncia dos vários incumprimentos acerca dos requisitos de limpeza e higiene. Só por esta definição depreendi que estaria perante uma apresentação à imprensa e, logo, seria mais um serviço de recolha de motivos. No Parem as Máquinas escrevi assim: “Chegadas as 13h, comecei a duvidar do serviço. No local, nada se passava de estranho ou que fugisse à rotina do Mercado do Bom Sucesso. No interior, as bancas das verduras eram ajeitadas, eram repostas as frutas e o peixe era amanhado. A Ana ia dando conta da sua arte, tirando fotos aquele ambiente, ao colorido em questão. Antes de iniciarmos o serviço contactei os meus editores para tentar descortinar o que se passava na realidade; por incrível que pareça ninguém me soube explicar o que era a suposta visita da comissão de trabalhadores da câmara, numa reivindicação sobre condições de trabalho. Por

incrível que pareça, eu e a Ana ficamos um pouco à nora com a situação, e entrei um pouco em pânico. O pânico que senti foi por ter sido “eleita” para um serviço e não estar a conseguir fazer algo de jeito. O que seria de mim, como estagiária se tivesse que fazer um dado tratamento noticioso e me falhasse o momento? Acho que se tal me sucedesse, desistia por completo de jornalismo. Bem, mas não aconteceu, seguiu-se situação um pouco pior: na realidade, a indicação que tivemos por parte da agenda era algo que hipoteticamente não existiu. Digo hipoteticamente, Página 40

porque de algum lado o meu editor deve ter tirado a informação e visto que era possível de noticiar. Seguindo a indicação de um responsável do Mercado do Bom Sucesso, rumamos até outro local, ao posto de higiene e limpeza da câmara do Porto, ali naquela zona. Chegadas ao sítio, comecei por procurar um responsável e explicar a indicação que nos tinha surgido. Novamente, por incrível que pareça, ninguém sabia do que estava a falar e até ficaram surpreendidos. Mas que raio se estava a passar ali? Senti-me uma idiota chapada ao perguntar pela possível reivindicação e eles (os trabalhadores em causa) não saberem de nada. Concluindo, este serviço foi algo fantasma, algo que alguém aparentemente viabilizou mas que não aconteceu. Nada se reivindicou, nada fugiu ao panorama normal da rotina da cidade. E, tanto eu como a Ana, não levamos a mal a situação, visto que saímos da redacção e fomos passear até à Boavista. Fugindo agora de brincadeiras, gostava que tivesse sido diferente. Gostava que tivesse acontecido algo na verdade, o que me dava a oportunidade para escrever para o jornal. Foi uma troca estranha. Possível erro de agenda. Ou outra coisa qualquer. Só tive pena de perder esta oportunidade de escrever na página do dia. Não estando com os casos do dia, são serviços assim que me permitem ter uma liberdade de escrita e “apalpar” na melhor das formas o ser jornalista, sair para o terreno e contactar com o ambiente informativo. Fico à espera de mais oportunidades. Pode ser que amanhã apareça mais algum serviço, com mais pés e cabeça, e não desmembrado como este “fantasma reivindicativo”. Publicado no “O dia das trocas e baldrocas”, Parem as Máquinas 03/03/2009

Todo este aparato foi estranho, refiro-o mais uma vez. Mas questiono: a agenda de um órgão de comunicação social também tem enganos? O que terá acontecido realmente para que este serviço não surtisse efeito e aparentemente tenha sido fantasma? Em resposta a estas mesmas questões que coloquei mais tarde ao meu editor, foi-me referido que fora uma indicação de uma fonte, logo a credibilidade foi dada. O editor também ficou sem perceber a situação e arrumou-se o assunto. O pior foi mais tarde, quando no dia seguinte o subdirector do Público da redacção norte me chamou ao gabinete e começou de mansinho a dizer de sua justiça. Por ele não existiu mal algum em criar o blogue e em querer passar para o lado de fora as aventuras e desventuras de uma Página 41

estagiária. O que o levou a ter uma conversa comigo foi o facto de, em alguns posts falar demasiadamente da mecânica de trabalho do jornal, das coisas passadas no seu interior e questionar alguns procedimentos como o caso do erro da agenda. Confesso que já notava e me tinham feito notar que andava a “esticar-me” um pouco nas descrições. Mas receber uma chamada de atenção por parte de um órgão directivo abalou-me um pouco a moral. Não levei a mal, mas penso que foi a partir deste momento que percebi que afinal estava mesmo a passar uma imagem para o lado de fora da minha visão de blogger. Fora das paredes do Parem as Máquinas estava a ser descortinada uma forma de trabalhar que não era desejada fazer-se saber. Acarretei a responsabilidade do que fizera, e comecei a ter mais cuidado com o escrevia. Depois dessa semana comecei a ser mais analítica. Ponderei tudo o que tinha feito até ai e continuei com as rondas. Por mais estranho que pareça, a ordem natural de cada estagiária ficar com uma ronda por semana começou a não fazer efeito. Sem perceber comecei a ficar com as rondas semanas sucessivas, sem perceber o porquê. Passei a ficar na redacção todos os dias, a confirmar dados e a receber comunicados de imprensa. Não reclamei, já que enquanto estagiária, ainda tinha o medo de confrontar os editores. E depois da chamada de atenção por causa do blogue, comecei a acanhar-me e a deixar morrer um pouco a vivacidade jornalística característica das primeiras semanas.

Saber dar a informação certa O farejar tipicamente jornalístico não se adquire de um momento para o outro. Requer alguma prática e alguma astúcia. Boas estórias poderão ser aquelas que envolvem algo já conhecido mas que abordadas de outra maneira se tornam novas, no que diz respeito ao acto de dar algo novo a conhecer, a informar. Também foi minha experiência durante o estágio curricular no Público o sabor amargo da frustração, tanto por não corresponder às expectativas de arranjar boas estórias para investigação, bem como não corresponder às expectativas de algumas fontes. Não quero com isto dizer que tenha estabelecido uma relação de “toma-lá, dá-cá” com algumas delas, mas quando nos é fornecida uma informação em primeiríssima mão, o desejo é de ser dos primeiros a avançá-la e fazer ver à fonte o seu valor como tal.

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As abordagens, os ângulos e as tomadas de decisão passam sempre pelos editores e, muitas das vezes, o que pensamos ser um bom assunto, cai por terra e volta à fase inicial. Num caso específico, senti que me recolhi demasiado na opinião de um dos editores e deixei de lado um assunto que poderia ter sido abordado na edição. Sobre este tópico relembro um caso contado no ‘Parem as Máquinas’: “Saber gerir os dados que nos dão pode fazer toda a diferença. Hoje senti que deixei passar ao lado uma oportunidade de trabalho jornalístico, pelo facto de errar ainda como profissional. Agarro-me ao estatuto de estagiária, mas isso poderá ser desculpa para deixar frustrada a minha fonte? No outro dia um amigo meu aqui do Porto deu-me a dica de um projecto de âmbito académico que ele e uns colegas elaboraram. A mim pareceu-me algo interessante já que partia de uma campanha institucional de consciencialização da prática de bullying nas escolas. Apressei-me assim que soube mais detalhadamente o teor do trabalho e apresentei o que tinha a um dos meus editores. Ao início foi-me dada luz verde para pesquisar e ver o que o tema podia dar. Avancei, contactei de novo esse meu amigo e os colegas de grupo e acompanhei-os alguns dias na divulgação da dita campanha. Ao findar a semana apercebo-me que afinal o suposto tema que até dava para algo deixa de ter interesse ao editor a quem ia apresentando detalhes. Acabou por não achar evidente qualquer tratamento jornalístico publicável. Era algo background do tema bullying. E nesse background deixei então a proposta feita directamente dessa minha fonte. Na edição de hoje do Público reparo que a entrada para a editoria de Nacional não é nada mais do que sobre bullying e sobre um documentário sobre bullying. Percebi que poderia ter sido eu a abordar o tema daquela maneira, já que duas semanas atrás estive a tratar o mesmo assunto com estudantes que fizeram algo semelhante. Se tivesse abordado a perspectiva de analisar os dados avançados pelas estatísticas, se tivesse proposto relacionar os casos com o que acontece verdadeiramente nas escolas, se calhar a oportunidade que a minha fonte me deu tinha dado em algo mais que o sentimento de frustração. Sei que poderia ter utilizado a informação do meu amigo de outra maneira. Mas aninhei-me na resposta do editor que me disse que para a editoria não era nada passível de se abordar. Não o culpo. Nem por sombras. O que acontece é que pensei fechado. Não explorei o devido assunto e morri na praia. Agora a minha fonte colapsou, não entende porque este artigo saiu e o da proposta que me fez não. Repito aqui: eu é que não soube dar melhor caminho à informação que me Página 43

deram. Errei, neste meu estatuto aninhado de estagiária que ainda não vê o que está à volta. Não me apercebi que existia mais do que o óbvio de relatar a campanha organizada no âmbito académico. Ardi na oportunidade der ter desenvolvido o tema. O artigo de hoje está elucidativo da realidade. Foram realmente aquelas conclusões que tirei do que acompanhei da campanha do meu amigo e dos colegas”. Publicado no “Saber dar a informação certa”, Parem as Máquinas, 30/03/2009 Neste caso em concreto o meu erro centrou-se no olhar estagnado que tive perante a informação dada pela minha fonte. Com ela poderia ter aprofundado o assunto e sair do redundante informativo que era dar a conhecer a campanha. Faltou-me visão de campo e de profundidade, factores imprescindíveis para as reportagens jornalísticas. Com um pouco mais de investigação e junção de outros elementos mais factuais, tinha conseguido certamente levar o meu tema por diante. Mas assim não aconteceu e aprendi mais um detalhe importante para a prática como jornalista.

Mozart no P2 Passando mais tempo na redacção, comecei a sentir a necessidade de fugir às rondas diárias e a pensar em alternativas viáveis para escrever sobre outras coisas. O conselho do primeiro dia, dado pelo subdirector Amílcar Correia, não me saía da cabeça. E a necessidade de encontrar temas para aprofundar e fazer reportagem teimavam em não aparecer. Por parte da editoria de cultura surgiu um desafio que se apresentou bastante agradável e que deu um pouco de colorido ao meu estágio. Para fugir ao cinzento dos casos de polícia ou como complemento às rotineiras chamadas para a polícia ou bombeiros, foi-me dada a tarefa de escrever sobre peças de teatro ou exposições. Por seis vezes tive o prazer de dar largas a imaginação e, a partir dos dados fornecidos pelos comunicados de imprensa ou mesmo em contacto com as agências divulgadoras dos eventos, elaborei simples caixas de 1000 caracteres que davam conta do teor do espectáculo musical, teatral ou visual, na cidade do Porto ou arredores. Foram pequenos desafios que iam dando que fazer, de forma a vencer a inércia que por vezes se apoderou de mim. Foram seis artigos diferentes, que exigiram uma escrita criativa mas que não Página 44

fugisse aos parâmetros primordiais do jornalismo: informar claramente o receptor. No ‘Parem as Máquinas’ escrevi: “A pedido do editor da secção de cultura, escrevi uma espécie de apresentação de uma peça de teatro a estrear por estes dias em Matosinhos. A partir de umas notas de imprensa e de uma breve pesquisa na Internet, redigi com agrado os mil caracteres de pura liberdade criativa. Este exercício permite que possamos opinar sobre a peça, desmontá-la para além do comunicado e dar asas à imaginação. Ajudar o leitor a conhecer mais por dentro a peça e a decidir se valerá a pena ou não ganhar a experiência de encarnar as personagens e depreender a mensagem criada em palco”. Transcrevo o artigo em questão, para uma melhor compreensão de toda a prática dos artigos feitos para o P2.

Janis e a Tartaruga Os dias de hoje podiam bem ser a América da década de sessenta. A rebeldia, na busca de uma sociedade melhor e de uma existência mais verdadeira, continua a ser o sonho de muitos. O desejo de mudança, encarnada por uma única personagem em palco, pretende agitar consciências em Janis e a Tartaruga. A peça, uma produção conjunta da Câmara Municipal de Matosinhos e do Cine Teatro Constantino Nery, não pretende ser uma biografia chapada da mítica Janis Joplin, a cantora hippie e reflexo dos desejos colectivos dos anos sessenta. O monólogo da personagem agarra os desejos que também são os de agora, e corporiza os caminhos de uma juventude sedenta de mudança, liberdade e abertura. De hoje até 29 de Março, Filomena Cautela apresenta-se como Janis, uma jovem à boleia do “sim e do não” do que dever ser a vida humana. Nesta ficção, que podia bem ser a realidade, uma rapariga fala para si, devaneia sobre tudo e acompanha os desejos de cada um de nós. Janis a Tartaruga tem textos de Pedro Pinto e Filipe Pinto, música de Carlos Tê e encenação e figurinos de Luísa Pinto. Sessões às 21h30, de quarta a sábado, e às 16h, aos domingos. Bilhetes a cinco euros. Publicado “O voltar ao normal dia de trabalho, Parem as Máquinas, 11/03/2009

Seguiram-se outros artigos, ligados ao teatro e à música, em espaços tão diferentes como a Casa da Música ou o Teatro Carlos Alberto (TeCa). (Ver anexos)

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Na Fugas, o carro de… Para além de escrever artigos para a editoria de Cultura, auxiliei a editoria da Revista Fugas com quatro artigos para a rubrica “o carro de”. Esta rubrica do suplemento de fim-de-semana caracteriza-se pela descoberta do carro de uma personalidade famosa, de carácter público da nossa sociedade. Aborda questões como o carro utilizado, o porquê desse carro e marca, possíveis estórias passadas com o veículo, questões de comodidade, gostos pessoais, viagens, recordações… um sem fim de aspectos que ajudem a descrever o gosto por determinado carro. Muitas das vezes, enquanto estagiária do Público, ouvi dizer por parte de um colega jornalista da “casa” que escrever para a Fugas era uma boa maneira de ir praticando e, dessa forma, aliviar os jornalistas do suplemento de artigos de carácter mais simples e que não necessitavam de tanto trabalho. Por trabalho entenda-se contactar as fontes e elaborar artigos de cerca de 1000 caracteres a contar os gostos automobilísticos de personalidades ditas conhecidas dos diversos quadrantes da sociedade portuguesa. Numa dessas intervenções feitas pelo jornalista da redacção, decidi colocar em acção alguns dos meus contactos e descobrir personalidades famosas que ainda não tivessem sido entrevistadas para a rubrica “o carro de”. Aproveitando um contacto adquirido em trabalhos anteriores no jornal universitário de Coimbra, aplicando a minha rede de contactos como jornalista e pesquisando na base das redes sociais portuguesas consegui aceder a personalidades conhecidas como a jornalista Fernanda Freitas, o apresentador de televisão Manuel Luís Goucha, o humorista Eduardo Madeira e a actriz Andreia Dinis. Foram estas quatro personalidades que entrevistei para a rubrica “o carro de”. Durante quatro edições da Fugas vi parte do meu trabalho como jornalista ser publicado e, como se pressupõe, coloquei em prática o esquema de abordar as fontes, conversar com elas e redigir o artigo no ângulo pretendido. Reforço a ideia de que a primeira abordagem foi feita através de email (adquirido através das redes sociais e de contactos pessoais) e posteriormente as conversas tidas via telefone. Foi bastante agradável conversar com as quatro personalidades já que se revelaram acessíveis ao tema e contaram imensas estórias engraçadas sobre o seu carro do dia-a-dia. A juntar a isso foi mais uma pequena tarefa que me ocupou os dias passados na redacção. No ‘Parem as Máquinas’ escrevi:

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“Hoje na edição da revista Fugas, suplemento do Público que sai ao Sábado, tive a minha pequena participação como jornalista. Para a rubrica “O carro de”, tive o prazer de entrevistar Manuel Luís Goucha, animador das manhãs da TVI. Foi uma entrevista engraçada de se fazer, onde o ‘entertainer’ português mostrou que, no que diz respeito a carros, é bastante desprendido. Conta que não tem carta de condução e o que lhe vale no seu dia-a-dia é o motorista, um amigo já considerado. Para saberem mais basta ler o artigo.

O carro de Manuel Luís Goucha Mercedes E Station Abençoado seja o motorista “Não tenho carta de condução. Tentei tirá-la, quando ainda estava no Porto, a fazer o Praça da Alegria. As aulas viraram um autêntico pagode, comigo a não mostrar interesse algum em decorar o código e, claro, chumbei no exame”. É desta maneira descontraída que Manuel Luís Goucha descreve a sua tentativa para obter a licença de condução, quando questionado sobre a sua relação com carros. O animador das manhãs da TVI não se esforçou muito para passar no exame sobre sinais e regras de trânsito e até exibia o seu desinteresse pelo tema. “Fazia gala em mostrar que não estava nada interessado no código, por isso as minhas respostas eram quase sempre ao lado.” Passados 16 anos e tendo rumando a Lisboa, o apresentador desloca-se diariamente numa carrinha Mercedes classe E. Contando desde essa altura com um motorista particular, Manuel Luís Goucha justifica: “Sintome bem melhor em ser conduzido, sem stresses e não tenho o problema de perder tempo à procura de um lugar para estacionar o veículo. Tenho o motorista para o fazer por mim. Abençoado seja!” Num dia-a-dia com várias deslocações, aproveita cada minuto para produzir, “nem que seja mentalmente”. “Como sou conduzido, o tempo de viagem entre os locais é precioso para trabalhar. Aprecio a pontualidade, pelo que chego sempre, mas sempre, a horas aos meus compromissos”, acrescenta. Página 47

Deixando de lado marcas relevantes de automóveis, ou mesmo histórias mais caricatas, o apresentador acentua somente duas características essenciais para que um carro o cative: o espaço e a comodidade, para além dos dispositivos tecnológicos que se vão tornando mais ou menos comuns hoje em dia. “Considero imprescindíveis num automóvel o ar condicionado, o GPS, o leitor de CD, o telefone e uma boa suspensão.” Em tom de brincadeira, entre a explicação do porquê de não tirar a carta e das suas deslocações diárias, acaba por confessar que “quase de certeza, seria um mau condutor”. “Acabei por chumbar no exame de código. E eu ralado!”, conclui, sem problemas, o animador das manhãs televisivas. Vanessa Quitério” Publicado no “ Na Fugas… o carro de Manuel Luís Goucha”, Parem as Máquinas, 21/03/2009

publico.pt – última hora Pontualmente surgiram oportunidades para escrever para o online do Público e colocar em prática os conhecimentos recolhidos ao longo da formação académica e mais vincadamente no jornal universitário de Coimbra A Cabra. No último semestre passado em Coimbra ocupei o cargo de editora online do portal do jornal universitário e orientei as noites de cobertura da Queima das Fitas 2008. Por isso levava já um gosto especial pela escrita online, bem como um apelativo maior ao imediato da informação e ao modelo impreterível que se apresenta o ciberjornalismo nos dias que correm. Antes de dar nota daquilo que fiz no publico.pt enquanto estagiária, gostaria de reflectir sobre o carácter actual da informação e sobre os novos modelos jornalísticos que emergem com a chamada Web 2.0 e conceito de rede social. Durante o meu estágio foi notória a divulgação dos conteúdos do blogue Parem as Máquinas através da rede de microblogging Twitter, bem como no Facebook. A partir destas duas redes sociais fui dando a conhecer o meu dia-a-dia como estagiária do Público e interagindo com os meus leitores. Com eles fui trocando pontos de vista, recolhendo feedback sobre o que escrevia e respondendo a dúvidas a colegas que, como eu, estavam a concretizar um estágio curricular ou já passado por essa fase. Admito que essa participação e divulgação foi importante para criar ao que eu neste momento chama de estatuto na internet. Com todo este “aparato social” consegui construir uma reputação online que me acompanha ainda no meu percurso pós estágio. Muitas portas foram abertas graças à divulgação via internet e muitos contactos foram instituídos a partir das partilhas feitas nos comentários via blogue. Página 48

Contudo, não posso deixar de fazer uma análise ao conceito de jornalismo online e ciberjornalismo ou jornalismo digital. Parecem conceitos idênticos mas detêm actuações um tanto ou quanto diferentes mas que correspondem a diferentes práticas na internet. Hélder Bastos, investigador na área do ciberjornalismo defendeu na sua tese de mestrado, apresentada à Universidade Nova de Lisboa em 1999, a diferenciação destes dois termos. Por jornalismo online percebe-se “a utilização da rede como instrumento privilegiado de contacto com as fontes e de pesquisa de conteúdos, onde podemos situar a internet como uma componente essencial do jornalismo assistido por computador, o qual engloba a pesquisa online”. Já o outro conceito, o de ciberjornalismo ou jornalismo digital define-se como “produção de textos jornalísticos na rede e para a rede”, segundo o mesmo autor. Em Portugal assistimos desde 1995 a um enquadramento dos media nacionais à chamada presença na internet. Começou com o aparecimento do Diário Digital, Portugal Diário e o publico.pt e, desde essa altura, muito mudou na maneira de pensar e fazer jornalismo na internet. Para Bastos (2009) a história do ciberjornalismo em Portugal passa por três fases distintas: a implementação - compreendida no período de 1995 a 1998, numa fase experimental dominada pelo “shovelware” onde os meios tradicionais criam os seus sites para neles reproduzirem os mesmos conteúdos que os do velho modelo; a expansão ou “boom” (1999-2000) onde aparecem os primeiros jornais generalistas exclusivamente online e, por último, a depressão seguida de estagnação (2001-2007) que está marcada pelo fim de uma certa ilusão no novo modelo, mas que se acentua pelo investimento, ainda que tímido, na plataforma online. Novas sinergias foram criadas e, muito mais que aplicações informáticas adaptáveis aos novos conteúdos, foi necessário criar novos profissionais para lidar com os novos preceitos jornalísticos. Apareceram novos conceitos como a hipertextualidade, a interactividade, a multimedialidade, a instantaneidade, a ubiquidade, a memória e a personalização, entre outros. Muito mais que transpor para o online os conteúdos dos meios tradicionais, houve a necessidade de produzir conteúdos específicos e tirar partido das novas ferramentas. Integrar vídeo e som, inserir imagens e jogar com o hipertexto é, actualmente, um imperativo que já não se questiona mas que ainda recebe resistência por parte de basicamente todos os medias. Essa nova narrativa foi fundamentada por Hélder Bastos no seu texto “Ciberjornalismo: dos primórdios ao impasse”, publicado na revista Comunicação e Sociedade em 2006 (página 103): “Os primeiros avanços no campo do jornalismo digital, em Portugal, têm sido lentos e assinalados por uma série de frustrações, algumas delas devido a expectativas utópicas com Página 49

relação à viabilidade de alguns projectos. Contudo, e apesar de alguns obstáculos, novos desafios são impostos aos jornalistas profissionais. Destes espera-se que sejam capazes de lidar com as novas ferramentas da Internet e que contem as suas estórias, usando novos recursos, tal como arranjem uma nova lógica para construírem os seus artigos. Começa a cimentar-se nos académicos que se debruçam sobre os media a ideia de que a formação de jornalistas especificamente para a área digital deve seguir regras diferentes, especialmente no que diz respeito a estórias em hipertexto e competências técnicas. O grande desafio deverá ser a formação de estudantes que pratiquem esta modalidade de jornalismo, sempre com o necessário equilíbrio entre as aptidões técnicas e a consciência ética e valores profissionais” Com o passar dos anos, o poder da internet como meio de difusão de conteúdos massificou-se e revelou-se essencial, refere Granado (2000) numa das aulas disponíveis na plataforma online da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa: “em alguns pontos essenciais falamos da instantaneidade, da interactividade, da atractividade, da distribuição fácil e da produção mais barata de conteúdos”. Estes aspectos resumem de forma simples as potencialidades do meio online. Contudo, novas questões são colocadas diariamente no exercício desta nova prática jornalística. Sem um modelo de negócio os meios de comunicação social não subsistem e, sem escapatória possível, pensar online requer pensar em negócio e formas de obter receitas. O pisar da linha ténue que existe entre o rigor jornalístico e a venda do produto jornalístico está entre os principais problemas éticos que os jornalistas enfrentam nos dias de hoje. António Granado, jornalista do Público e professor na Universidade Nova de Lisboa reúne online uma série de dicas e materiais didácticos para as aulas da cadeira de ciberjornalismo que lecciona. Numa dessas aulas, dedicadas ao jornalismo online menciona J.D.Lassica e a questão da ética na prática online do jornalismo. Lasica (1997), citando Fred Mann refere que “existe uma pressão considerável sobre os editores online para fazerem crescer o negócio e começarem a fazer dinheiro, por isso a tentação de pisar o risco é grande”. No mesmo texto, publicado na revista American Journalism Review, J.D. Lasica (1997) indica outros problemas que poderão surgir com a prática oline do jornalismo, tornando a análise ainda muito actual: “While all the old ethical rules surely still apply, the Internet also presents dilemmas that never existed in a print world: reporters lurking invisibly in chat rooms; ad links embedded in editorial copy; the posting of private tragedies in news archives until the end of Página 50

time; tracking users' habits and sharing data with advertisers; putting the tools of publishing into the hands of Little League coaches and others who aren't trained journalists”. Nesta nova prática outros dilemas surgem, como a luta ética e deontológica entre informar com isenção e não cair na tentação do sensacionalismo. O jornalista vê-se na encruzilhada de ter intrinsecamente que informar com o máximo rigor e modelar-se aos critérios de negócio que o rodeiam. Mais que informar, o jornalista tem de saber distanciar-se da possibilidade criar conteúdos mais agradáveis ao leitor e que o ajudam a obter audiência mas que fogem do carácter essencial do jornalismo: o de informar com rigor. Durante as várias intervenções que fiz como jornalista no sítio online do Público, senti que a dificuldade de informar no imediato prendia-se mais com a questão de não incorrer em erros e ser simples no informar. Pelo facto de a difusão ser imediata e lidarmos com o factor última hora, mais responsabilidade acrescida se pautou e pauta o trabalho no online. Dos sete artigos que fiz para o publico.pt, cinco deles trataram de acidentes de última hora e somente dois abordaram eventos culturais. Nos sete artigos online sobre acidentes tive a árdua tarefa de escrever depressa e bem, impulso da imediata necessidade de dar a informação em tempo real. Essa tarefa somente foi dificultada pelo facto de, na redacção do Público no Porto não existir ainda um editor online. De todas as vezes que necessitei de colocar alguma informação online tive que contactar com o editor que se encontra em Lisboa e, nesse compasso de espera, tentar que as minhas notícias não perdessem o carácter actualidade e última hora que as caracterizavam. Foi difícil essa tarefa, chegando por vezes a ter que esperar mais de duas horas pela colocação online do artigo. Parece ridículo mas aconteceu mesmo o caso de dar conta de um atropelamento mortal na cidade de Guimarães ao início da manhã e só ter o artigo online pelas 15h. Por indicação do editor do Local/Porto a informação era mais pertinente no online e não seria tratada na edição do dia seguinte. Nesse sentido encaminhei as informações para a plataforma online e corri contra o tempo, na necessidade de não perder o carácter de última hora da notícia. A explicação para o atraso na difusão da informação é simples: o editor do publico.pt não estava naquele momento na editoria e mais ninguém tratou de atender ao meu pedido de colocar online e no mais breve possível o artigo no sítio do Público. Esta situação deixou a “nu” uma carência da redacção norte: um editor próprio de online na redacção ou a não dependência perante a redacção de Lisboa para aceitar e colocar online noticias feitas na redacção do Porto.

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Muitas das vezes ouvi por parte dos editores do Local/Porto que essa necessidade tinha de ser colmatada mas que nada ou pouco podiam fazer para mudar a situação. Mais grave me pareceu, na minha opinião, constatar que muita das vezes era preferível nem apostar na divulgação online pelo facto de isso depender da aprovação dos editores de Lisboa. Se por ventura colocassem entraves no género de artigo ou mesmo na informação divulgada era preferível “deixar ficar” o artigo. Ouvir isto aterrorizou-me enquanto profissional e muito mais como leitora. Percebi que muito mais que o dever de informar o que acontece na sociedade e no mundo, o jornalista como profissional está preso pelas amarras do tempo e da escolha dos critérios noticiosos, por mais que sejam seus ou de outros jornalistas. Sublinho também a questão do imediato do feedback que recebemos sobre os artigos colocados online. Cada vez mais os leitores do publico.pt usam a plataforma de comentários e fazem dela uma espécie de fórum de discussão, de troca de ideias e de exploração dos conteúdos. No mesmo sentido existe a benesse de em tempo real e de forma também imediata podermos, enquanto redactores dos artigos, actualizar a informação, acrescentar modos e estados da informação e proceder a correcções. Por duas vezes, em dois dos sete artigos que redigi para o online, recebi por parte dos leitores pequenos reparos sobre a informação que tinha dado. Foram gralhas que deturpavam o meu objectivo de informar com rigor e que me passaram ao lado aquando da redacção. Percebi que por vezes focava-me mais na questão de seguir o modelo de escrita online do Público (antetítulo, título, e corpo de texto em forma de pirâmide invertida), simples e sem rodeios, do que na percepção de pequenos detalhes. Através desses feedbacks dados pelos dos leitores foi-me possível corrigir as gralhas a tempo e perceber que depressa e bem, no jornalismo, não existe prática possível. Existe sim a possibilidade de escrever depressa e correctamente, mas para aqueles que já têm um certo conforto na sua escrita e prática. No meu caso, uma prática ainda inexperiente e lenta para a engrenagem fortemente rápida que o online exige. O meu último artigo no publico.pt saiu no dia após o fim do meu estágio. Abordou a edição 2009 do Gouveia Art Rock, e contou com a preciosa dica de um amigo jornalista da RTP. Um dos contactos firmados através desta minha experiência no Público:

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“Música Sétima edição do festival internacional de música progressiva agita Gouveia até domingo 01.05.2009 - 09h26, Vanessa Quitério Três dias, doze concertos e uma sétima edição alargada. São estes os números fortes do Gouveia Art Rock, festival internacional de música progressiva, que tem lugar a partir de hoje no TeatroCine de Gouveia. Pela primeira vez a organização do Gouveia Art Rock (GAR) vai aproveitar o feriado de 1º Maio e dedicar três dias às abordagens variadas deste estilo musical que tem ganho centenas de novos entusiastas a cada nova edição. Na opinião de Eduardo Mota, membro da organização do festival, existem duas razões principais para as mudanças deste ano: “Já era nossa ideia estender o festival por mais dias. É uma experiência, por isso vamos ver como funciona. Da mesma maneira queremos testar a participação do público, que vem de diversos pontos do globo. Cinquenta por cento dos visitantes são estrangeiros e os restantes são entusiastas nacionais”, esclarece. O evento, que decorre até domingo, apresenta no cartaz deste ano a estreia de duas bandas japonesas do estilo ‘progressivo de vanguarda’ e a estreia nacional dos italianos PFM- premiata forneria marconi. “O Gouveia Art Rock apresenta-se desde 2002 como um festival importante no panorama do progressivo em Portugal e no mundo” refere Eduardo Mota, assinalando as inúmeras vantagens da realização do evento na cidade de Gouveia: “O principal hotel da cidade já está esgotado e outros serviços de hotelaria receberam já inúmeros pedidos, havendo um impacto significativo na economia local”. Nesta sétima edição marcam hoje presença os October Equus (Espanha), Gatto Marte (Itália) e os lendários Focus (Holanda). Amanhã actuam os KBB, formação japonesa do progressivo emergente dos anos 90, Gordon Giltrao (Inglaterra), Volapük (França) os Califórnia Guitar Trio, presentes na edição de 2005 do GAR e Tony Levin, músico e compositor que faz parte dos King Crimson e da banda de Peter Gabriel. No domingo sobem ao palco do Teatro-Cine os Koenji Hyakkei (Japão), o australiano Daevid Allen (antigo membro dos Soft Machine e dos Gong) com seu projecto de experimentalismo e ousadia Univerity of Errors e os italianos PFM.

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Paralelamente aos concertos realiza-se uma feira do disco, um “workshop” de guitarra com o britânico Gordon Giltrap no auditório da Biblioteca Vergílio Ferreira e o lançamento de um livro, seguido de debate, dedicado a Lars Hollmer, compositor sueco e marca incontornável do ‘progressivo mundial’. “Dedicamos a edição deste ano a Lars Hollmer porque ele era um homem de causas e músico carismático do progressivo”, afirma o organizador do evento. O mesmo adianta que no domingo também vai ser projectado um documentário sobre o último concerto do músico sueco em Gouveia, no ano de 2005”. Publicado no publico.pt a 1/05/2009

Fotolegenda No ponto “Princípios e normas de conduta profissional” do Livro de Estilo do Público, o uso da fotografia como elemento jornalístico também é abrangido: “O Público atribui à fotografia uma importância fundamental na definição do estilo informativo e gráfico do jornal. Nesse contexto, fotografia e texto estabelecem uma relação dinâmica permanente e intensa. Por isso, a fotografia não é, para o Público, ou género menor ou um mero suporte ilustrativo, mas um contraponto informativo e dramático do texto.” “Uma imagem, por vezes, vale mais que mil palavras”. Esta é uma citação conhecida de todos e que expressa o verdadeiro carácter de uma imagem. Mais que estudar semiótica e compreender as componentes que a constituem, um jornalista tem de saber ler uma imagem como fonte de informação e peça imprescindível no trabalho jornalístico. Durante o meu estágio realizei três fotolegendas, cada uma de âmbito diferente e com exigências diferentes. Esta prática informativa é utilizada pelo Público como instrumento de maior exposição de dado assunto ou evento. É um modelo jornalístico onde a imagem ganha em relação ao texto, mas onde ambas indissociavelmente constituem a matéria noticiosa. Segundo o alfabeto do Livro de Estilo do Público (pág.132), a fotonotícia define-se por “notícia que está numa foto com actualidade sendo a notícia desenvolvida num texto breve que acompanha a foto”. Na mesma definição é referenciada a incorrecta utilização do termo fotolegenda, erro frequente e termo mais utilizado na gíria jornalística.

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As exigências de uma fotolegenda foram, para mim, um bom exercício para a prática como jornalista. Apelaram ao poder de síntese e para o olhar para o acontecimento com olhos de ver, para que ao escrever o texto de suporte, não incorresse na repetição da informação para além da que a imagem transmitia. Duas das três fotonotícia que redigi surgiram a partir da ronda telefónica dos casos do dia. A primeira fotonotícia aconteceu ao quarto dia de estágio, na também primeira saída ao exterior como jornalista do Público, na cobertura do desaparecimento de uma senhora ao largo da praia do Senhor da Pedra, em Gaia. A imagem, fotografia do fotojornalista do Público Manuel Roberto, identifica o ângulo da notícia a explorar: as buscas pelo corpo da vítima e o envolvimento de meios aéreos de apoio no local. Para mim, em análise ao trabalho que realizei, foi-me um pouco difícil realizar esta primeira fotolegenda já que é um estilo que não estava habituada a utilizar. Mas, como em tudo, só se aprende experimentando e nesta primeira experiência tive a ajuda do editor de local. Este mostrou-me como agarrar nas informações recolhidas no local, adequar o discurso em complemento à fotografia e caminhar pelo ângulo pretendido, já que neste caso específico, tratava-se de um aparente suicídio e teríamos de dar um outro tratamento jornalístico à ocorrência. Desse modo e em complemento à imagem, explicamos em 1000 caracteres o acidente na praia do Senhor da Pedra, a questão do desaparecimento de uma pessoa e a presença de vários meios de salvamento distribuídos por terra, mar e ar. Na segunda fotonotícia as coisas já foram um pouco mais fácies. Tratou-se de um acidente aparatoso na Avenida Fernão de Magalhães, no Porto. Ao local dirigi-me em conjunto com um colega fotojornalista e da ocorrência surgiu uma foto que dava conta da destruição do veículo. Senti dificuldade somente na adequação da informação trazida do local e na condensação, em 1000 caracteres, da informação pertinente sobre o acidente. Para tal tive que confirmar dados após a ida ao local, como por exemplo, o estado de saúde das vítimas do acidente, bem como detalhes pormenorizados sobre a via e modus operandi de toda a operação de resgate e desobstrução da via acidentada. Acrescento que estas duas fotonotícias saíram na edição impressa no dia seguinte ao terem acontecido, mas que no próprio dia saíram no última hora do publico.pt. Quanto à terceira fotonotícia a metodologia de trabalho foi um pouco diferente já que o assunto também assim o foi. A temática foi cultural e inseriu-se na divulgação de uma iniciativa a ter lugar nos espaços atingidos pelo fogo no ano passado, na Reitoria da Universidade do Porto. A exposição multimédia “Rescaldo e Ressonância” surgiu como trabalho de agenda e no dia da inauguração fiz dupla com um fotojornalista colaborador do Público. Este trabalho já teve uma Página 55

preparação prévia visto que sabia para o que ia e, de antemão, conheci as características da dita exposição. No local falei com a curadora e os profissionais envolvidos no projecto do requalificado espaço e percorri o percurso da exposição em busca de detalhes que fossem chamativos para integrar na legenda da fotonotícia. Desta vez corri de novo contra o tempo na elaboração do artigo em tempo record já que a apresentação foi ao fim da tarde, pertinho do fecho da edição. Mas sobretudo deu-me gozo escrever um texto mais descritivo, como se ao ler, o leitor estivesse na exposição e integrasse a fotografia.

Ilustração 2 - Fotonotícia "Inauguração: Depois do fogo, salas da reitoria da UP abriram-se à arte"

Último dia As últimas impressões são sempre, ou quase sempre, motivo de choro ou de nostalgia. No meu caso, terminar este estágio curricular no jornal Público espoletou-me um sem número de sentimentos, mais medos e mais angústias.

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Na análise do que correu bem e do que correu mal, numa espécie de jogo de sombras e luzes, aponto a minha maior inércia perante a oportunidade. Francamente vi-me fugir de entre os dedos inúmeras oportunidades de mostrar ainda mais trabalho e de me cansar, agradavelmente, de fazer jornalismo. Nem tudo foi sempre perfeito, nem sempre tive as melhores atitudes perante o desalento instalativo de perceber a realidade onde me inseri. As coisas não foram sempre fáceis nem nunca esperei que chegava, entrava, brilhava e ficava na redacção. Pelo contrário, tinha a consciência que é um meio difícil e por vezes selvagem, mas que a paixão que levava e que consegui reforçar, me ajudaria a ultrapassar as dificuldades. No ‘Parem as Máquinas’ muitos foram os posts de análise e de reflexão. Os últimos, esses foram de despedida e de conclusões. Para terminar este relatório de estágio transcrevo os derradeiros dias na redacção. “Eis o derradeiro dia E cheguei ao último dia do estágio no P. Pelas 11h tenho o meu último serviço como jornalista do Local/Porto, secção na e para a qual trabalhei mais nestes três meses. É o último dia de redacção. Em que me vou sentar naquela secretária, espaço “sagrado” desta minha prática como jornalista estagiária. Depois deste derradeiro dia as coisas vão ser bem diferentes. Não vai haver mais idas em trabalho, não vai haver mais manhãs madrugadoras em que na secção só encontrava a senhora da limpeza. A 75 visitas para chegar às 12.000, o PAREM AS MÁQUINAS torna-se ainda mais especial. Foi folha de rascunho de muito trabalho, de muita ideia, de muita frustração. Mais que agora ganha significado, já que vai ser o meu guia para elaborar o relatório final. A todos os que me acompanharam agradeço. Mais logo teço as considerações finais. Neste último dia ainda tenho um trabalho para fazer e esse, vai ser o mais significativo de todos. Até logo! […] Neste último dia de redacção as coisas foram agitadamente tranquilas. Para começar bem o dia, o autocarro atrasou-se, tive que ir de táxi para a redacção e ao chegar partir logo para o serviço marcado. Entre troca de carros, esqueci-me do meu chapéu-de-chuva. Despistada, não dei conta

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que agarrei no bloco de apontamentos para qualquer coisa e larguei o chapéu. Mal o menos, cheguei vinte minutos antes da hora ao serviço. Pelo menos nisso fui mais que pontual. Pela hora do almoço tive de tratar de uns últimos assuntos pessoais relacionados com a residência onde vivi nestes três meses. Regressei assim que pude à redacção e começou a labuta final, mais intensa e significativa destes últimos tempos. Foi-me dado um artigo de 1800 caracteres para fazer sobre o serviço da manhã. Para acrescentar, em forma assim de benesse inesperada, foi-me dado a fazer uma página de breves, a incluir no Local/Porto. Tive que analisar notícias recebidas de agências de comunicação, seleccionar o mais relevante e encaixar no espacinho denominado de breve. Por incrível que pareça, foi um bom exercício, onde me foi colocado à prova o poder de análise da informação relevante, a colocar em 650 caracteres, num universo de 1500, por ai. De resto, passadas já longas horas depois do meu regresso à tarde, decidi arrumar as minhas tralhas. De lá, muito mais que papelada do trabalho diário, jornais e material que adquiri ao ir em serviço, trago uma escola de referência, exercícios que me melhoraram um pouco como aspirante a jornalista. Ao despedir-me da redacção, das últimas pessoas que estavam a fechar a edição, nenhuma lágrima foi vertida. O momento não exigia tanto, mas a catadupa de recordações mastigam-me por dentro. Ainda não caí em mim, mas já sinto aquele vazio, que no início era entusiasmo. Agora, mais que aprendizagens que fiz, levo para casa três meses marcantes. Meus, de todos os que me acompanharam e do Público, que tão bem me acolheu. Amanhã terei na edição impressa o trabalho de hoje. Um artigo no Local/Porto e as ditas breves, na mesma editoria. Publicado no “Eis o derradeiro dia” e “Último dia”, Parem as Máquinas, 30/04/2009

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Conclusão

Relembrar que na primeira semana de estágio pensei em voltar para casa e desistir do sonho de ser jornalista faz-me ver, neste momento, que sem as dificuldades iniciais o meu percurso profissional, académico e pessoal seria inóspito e vazio. Ter realizado o estágio curricular no jornal Público proporcionou-me um extenso abrir de portas e mais que isso, o privar com um jornalismo de referência mas que, sem descurar em detalhes, se posiciona na mesma vertente global de qualquer jornalismo ou prática jornalística: a busca da verdade e interesse público. Ao longo de três meses de estágio percebi que o mundo do jornalismo, prático e sem as longas metáforas das aulas teóricas da faculdade, é um mundo difícil mas ao mesmo tempo apaixonante. Todos os dias, ao chegar à redacção, senti-me como num restart comunicativo. De novo ia começar a rotina produtiva, os telefonemas, as confrontações éticas e a pouca experiência que levava. Para trás, no dia anterior, o mesmo se sucedia e o novo dia acumulava as boas e as más experiências da prática precedente. Muitas foram as dificuldades de encaixe na engrenagem que é o jornalismo diário e num diário como o Público. Articular novas competências e tarefas, estar de manhã num serviço, chegar e escrever contra o tempo, estar preparada para qualquer eventualidade ou simplesmente aborrecermo-nos em frente ao computador foram as coisas que me alimentaram a prática diária durante aqueles cerca de 90 dias de estágio. Mais que ser referenciada como estagiária do Público, carrego na minha bagagem a oportunidade de o ter sido, já que foi a partir deste experiência que me apercebi verdadeiramente do sentido da palavra responsabilidade. Cada trabalho que desenvolvi - fora complexidades e temáticas – obrigou-me a colocar em discernimento a responsabilidade de cada palavra e de cada afirmação, levando-me a confirmar e reconfirmar os dados, muitas das vezes mais que na triplicação do acto. Cada artigo mostrou-se uma aprendizagem singular e que me foi cumulativa ao longo do estágio na medida em que fui encaixando a rotina produtiva. Fazer um jornalismo idóneo e atento tornouse uma espécie de obsessão, bem como necessário para dignificar a classe que, a meu ver e neste actual momento, passa por imensas dificuldades, tanto de afirmação, como de organização.

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A prática jornalística acarreta sempre uma ética responsável e uma actuação objectiva ao interesse público. Muitas foram as vezes que questionei a minha actuação como jornalista e como produtora de conteúdos. Questionei a minha maneira de abordar a realidade informativa, de lidar com as fontes e até de interagir com os meus (naquele momento) colegas de profissão. Nessa busca de chegar mais perto do interesse público e descolar-me da minha imagem apenas de leitora foi difícil perceber que, mais que aproveitar, tive a oportunidade de me estrear como estagiária num jornal como o Público, tive na mão de mostrar o valor que tenho como futura profissional da área. As palavras dos primeiros dias ecoam ainda na minha cabeça. O conselho do subdirector Amílcar Correia marcaram sem dúvida este meu estágio e, nunca mais do que agora, as mesmas palavras fazem o importante sentido: “Se quiseres podes ser a estagiária que está todo o dia na secretária, a ver os takes da Lusa, ninguém te chateia e não chateias ninguém. Mas, se quiseres, podes ser a estagiária que dá propostas, procura fazer notícias e não está à espera que digamos o que fazer”. As conclusões agora estão feitas, o trabalho foi apresentado e as oportunidades aproveitadas não num máximo total mas naquilo que fui conseguindo fazer. Percebo agora que poderia ter dado mais, explorado mais os temas e apostado numa rotina mais afastada da agenda ou das meras formalidades da redacção. Mas, como em tudo o que fazemos na vida, os “se’s” não nos servem de nada se queremos avançar caminho. Poderia ter sido muito melhor mas, assim como foi, atrevo-me a dizer que foi a melhor coisa do mundo. Pela experiência, pela aprendizagem, pelas pessoas que conheci e pelo reconhecimento que muito mais que querer ser jornalista, quero abraçar o estudo dos media para uma melhor compreensão do que poderei dar, como pessoa, a esta área nobre de se estar no mundo.

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Anexos

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