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Revista Brasileira de Ensino de F´ ısica, v. 33, n. 2, 2308 (2011) www.sbfisica.org.

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A utiliza¸ ca ˜o equivocada do conceito de part´ ıcula no c´ alculo do trabalho da for¸ ca de atrito
(The misconception of the use of the particle concept in calculation of work of friction force)

Osman Rosso Nelson1 e Ranilson Carneiro Filho
Departamento de F´ ısica Te´ orica e Experimental, Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Natal, RN, Brasil Recebido em 1/1/2011; Aceito em 3/2/2011; Publicado em 6/7/2011 O presente trabalho pretende elucidar, atrav´ es de uma abordagem did´ atica, erro no c´ alculo do trabalho realizado pela for¸ ca de atrito cin´ etico. Esse assunto, frequentemente, apresenta-se de forma equivocada em diversos livros de f´ ısica no n´ ıvel universit´ ario. Palavras-chave: part´ ıcula, atrito, energia interna. This work aims to elucidate, through a didactic approach, miscalculation of work done by frictional force. This issue presents itself so controversial in several books of physics at the university level. Keywords: particle, friction, internal energy.

1. Introdu¸ c˜ ao
Diversos livros-textos utilizados nos cursos universit´ arios [1-3] realizam o c´ alculo do trabalho da for¸ ca de atrito cin´ etico, que age sobre um determinado objeto, como se este pudesse ser tratado como uma part´ ıcula. Como veremos, tal procedimento ´ e inadequado e revela um entendimento incompleto sobre o teorema do trabalho e energia e for¸ ca de atrito. Quando um objeto escorrega em uma superf´ ıcie ´ aspera, as superf´ ıcies em contato, sujeitas ` a a¸ c˜ ao da for¸ ca de atrito, ficam aquecidas. Esta constata¸ c˜ ao experimental revela um aumento da energia interna do corpo. Portanto, necess´ ario se faz distinguir o tratamento dinˆ amico de um objeto da abordagem que envolve a an´ alise de energia no processo. Em outras palavras, mesmo que o conceito de part´ ıcula possa ser utilizado para a obten¸ c˜ ao de grandezas como acelera¸ c˜ ao, for¸ ca resultante, etc., atrav´ es da utiliza¸ c˜ ao da 2a lei de Newton, reduzir o sistema a uma part´ ıcula traz como conseq¨ uˆ encia a elimina¸ c˜ ao da possibilidade do sistema possuir energia interna. Sendo assim, ´ e inevit´ avel que n˜ ao se possa tratar um objeto como uma part´ ıcula, se nossa inten¸ c˜ ao for efetuar o c´ alculo do trabalho do atrito cin´ etico que esteja atuando sobre o objeto. Esse tipo de proibi¸ c˜ ao n˜ ao deve causar maiores desconfortos, uma vez que ela tamb´ em se faz presente nas situa¸ c˜ oes-problemas em que as partes do objeto n˜ ao se
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movem exatamente da mesma forma. Tal preocupa¸ c˜ ao nos conduzir´ a ` a representa¸ c˜ ao dos corpos, sujeitos ` a for¸ ca de atrito, como sendo um sistema de part´ ıculas e, com essa abordagem, possibilitar a existˆ encia do armazenamento de energia interna no sistema. Para explicitar nosso ponto de discuss˜ ao, recordemos o resultado usualmente apresentado pelos textos acadˆ emicos para o c´ alculo do trabalho do atrito cin´ etico que age sobre um bloco que ´ e arrastado sobre uma superf´ ıcie horizontal. In´ umeros textos apresentam como resultado para esse trabalho a express˜ ao Wa = −fa d, onde fa e d s˜ ao, respectivamente, a for¸ ca de atrito e o deslocamento realizado pelo objeto. Nossa inten¸ c˜ ao ´ e de demonstrar que o resultado correto deve ser escrito como Wa = −fa d + ∆Eint , onde ∆Eint ´ e a varia¸ c˜ ao de energia interna do sistema.

2.

Energia de um sistema de part´ ıculas que interagem

Seja um objeto de massa M (nosso sistema) uma cole¸ c˜ ao de N part´ ıculas que interagem entre si e que podem estar sujeitas ` as intera¸ c˜ oes oriundas de uma vizinhan¸ ca (as for¸ cas externas). Dentro de uma perspectiva did´ atica, consideremos, inicialmente, apenas duas part´ ıculas que participam da intera¸ c˜ ao, denotadas por (1) e (2), onde as for¸ cas que sobre elas atuam s˜ ao representadas por:

osman@dfte.ufrn.br.

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Nelson e Carneiro Filho

• F1 , a for¸ ca resultante (externa) sobre a part´ ıcula 1; • F2 , a for¸ ca resultante (externa) sobre a part´ ıcula 2; • F1(2) , a for¸ ca que a part´ ıcula (2) faz na part´ ıcula (1); • F2(1) , a for¸ ca que a part´ ıcula (1) faz sobre a part´ ıcula (2). A descri¸ c˜ ao dinˆ amica de cada part´ ıcula obedece ` a segunda lei de Newton, sendo expressa por dv1 = F1 + F1(2) dt

1 1 1 1 2 2 2 2 m1 v1 − m1 v01 + m 2 v2 − m2 v02 = 2 2 2 2 Wext + Wint . (7) Na Eq. (7), os ´ ındices zero representam os valores iniciais das velocidades das part´ ıculas. A energia cin´ etica total do sistema num determi1 2 2 nado instante ´ e designada por K = 1 2 m1 v1 + 2 m2 v2 . Desta forma, a Eq. (7) pode ser escrita como ∆K = Wext + Wint , (8)

m1 e

(1)

m2

dv2 = F2 + F2(1) . dt

(2)

onde ∆K = K − K0 ´ e a varia¸ c˜ ao da energia cin´ etica do sistema. Sendo as for¸ cas internas conservativas, o trabalho interno, Wint , ser´ a representado como menos a varia¸ c˜ ao da energia potencial interna do sistema, ou seja, Wint = −∆Uint . Portanto, a Eq. (8) fica expressa como ∆K + ∆Uint = Wext . (9)

Efetuando-se a multiplica¸ c˜ ao escalar da Eq. (1) por dr1 e a Eq. (2) por dr2 , obtemos dv1 m1 · dr1 = F1 · dr1 + F1(2) · dr1 dt e dv2 · dr2 = F2 · dr2 + F2(1) · dr2 , dt

(3)

m2

(4)

onde dr1 e dr2 s˜ ao deslocamentos infinitesimais a que essas part´ ıculas podem estar sujeitas. Da terceira lei de Newton, temos que F1(2) = −F2(1) e, sabendo-se que dr1 = v1 dt e dr2 = v2 dt, obtemos atrav´ es da soma das Eqs. (3) e (4) que m1 dv1 · v1 + m2 dv2 · v2 = F1 · dr1 + F2 · dr2 + F1(2) · dr1(2) ,

Essa energia cin´ etica pode ser escrita como a soma de duas parcelas, uma relativa ao centro de massa do sistema (energia cin´ etica interna) e a outra, a energia cin´ etica do pr´ oprio centro de massa, ou seja, K = Kint + Kc m . Para alcan¸ carmos esse objetivo basta escrever a velocidade das part´ ıculas em rela¸ c˜ ao ao centro de massa. Seja v ∗ = v − vc m , onde as velocidades v∗ , v s˜ ao, respectivamente, as velocidades relativas ao centro de massa e ao laborat´ orio, e vc m ´ e a velocidade do centro de massa relativa ao laborat´ orio. Portanto 1 1 1 ∗2 ∗2 2 m 1 v1 + m 2 v2 + (m1 + m2 ) Vcm + 2 2 2 ∗ ∗ (m1 v1 + m2 v2 ) · vc m . (10) K= Na Eq. (10), os dois primeiros termos representam a energia cin´ etica interna (Kint ), ou seja, medida em rela¸ c˜ ao ao centro de massa; o terceiro termo ´ e a energia cin´ etica do centro de massa em rela¸ c˜ ao ao laborat´ orio (Kcm ), e o u ´ltimo termo ´ e nulo, pois ´ e medido em rela¸ c˜ ao ao centro de massa. Portanto, a Eq. (9) pode ser reescrita como ∆Kint + ∆Kcm + ∆Uint = Wext . Ou ainda ∆Eint + ∆Kcm = Wext , onde Eint = Kint + Uint . (12) (11)

(5)

onde dr1(2) = d(r1 − r2 ). Usando-se na Eq. (5), para ambas as part´ ıculas, o resultado dv · v = v dv , podemos integrar essa equa¸ c˜ ao, obtendo-se ∫ ∫

m1 v1 dv1 + m2 v2 dv2 = ∫ ∫ ∫ F1 · dr1 + F2 · dr2 + F1(2) · dr1(2) . (6) O resultado da integral, desde um instante inicial at´ e um instante final, permite a identifica¸ c˜ ao das duas primeiras integrais do lado direito na Eq. (6) como sendo o trabalho externo (Wext ) a que o sistema est´ a sujeito, e a u ´ltima integral o trabalho interno (Wint ). Portanto a express˜ ao (6) fica

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Ressalte-se que a energia interna, sendo medida em rela¸ c˜ ao ao referencial do centro de massa, representa toda energia associada aos constituintes do sistema. Neste cˆ omputo das energias, vemos claramente a existˆ encia de uma total independˆ encia com rela¸ c˜ ao ao movimento do centro de massa. Assim, a energia interna, como definida na Eq. (12), no contexto da f´ ısica cl´ assica, ´ e toda a energia do sistema. Na descri¸ c˜ ao termodinˆ amica, a soma das energias cin´ eticas internas das part´ ıculas recebe o nome de energia t´ ermica. Essa energia t´ ermica est´ a, nas condi¸ c˜ oes de aplicabilidade do princ´ ıpio da equiparti¸ c˜ ao da energia, relacionada com a temperatura absoluta do sistema. Portanto, neste ponto de nossa discuss˜ ao, conv´ em salientar o quanto de simplifica¸ c˜ ao est´ a embutido no ato de reduzir um bloco em movimento a uma part´ ıcula. A t´ ıtulo de ilustra¸ c˜ ao, ao realizar-se o c´ alculo do calor espec´ ıfico deste bloco, o resultado ficar´ a totalmente prejudicado por n˜ ao se levar em conta todos os modos de absor¸ c˜ ao de energia do sistema. A Eq. (12), obtida para duas part´ ıculas, vale para um sistema de N part´ ıculas, sendo, nesse caso, a enerN ∑ 1 2 gia cin´ etica do sistema dada por K = 2 mi vi , e a
i=1

Qual o trabalho feito pela for¸ ca de atrito durante esse deslocamento? Para a an´ alise dinˆ amica, o bloco pode ser considerado como uma part´ ıcula, entretanto, o mesmo n˜ ao pode ser feito no que diz respeito ` a an´ alise da energia. Vejamos os resultados para os dois pontos de vista: • Ponto de vista dinˆ amico - sendo o movimento com velocidade constante, a for¸ ca de atrito, Fa , balancear´ a a tra¸ c˜ ao na corda, T, ou seja, Fa = −T. (15)

• Ponto de vista de energia - consideremos o bloco como sendo o sistema. Nessa situa¸ c˜ ao, ∆Kc m = 0. A Eq. (11) conduz a ∆Eint = Wext . (16)

As for¸ cas externas, nesse caso, atrito cin´ etico, normal, tra¸ c˜ ao na corda e o peso do bloco produzir˜ ao os trabalhos explicitados na express˜ ao da Eq. (17), ∆Eint = Wext = Wa + WN + WT + Wmg , (17)

energia potencial por Uint = ∑ Uint(i,j ) = Uint(1,2) +

Uint(1,3) + ... + Uint(2,3) + ... A Eq. (11), para um sistema de N part´ ıculas, pode ser reescrita como ∆Eint + ∆Kc m + ∑ ∆Uext = Wa + Wnc , (13)

onde Wa , WN , WT , Wmg s˜ ao, respectivamente, os trabalhos das for¸ cas de atrito, normal, tra¸ c˜ ao na corda, peso. Nesse contexto, temos WN = Wmg = 0 e WT = T d. Das Eqs. (15) e (17), obtemos Wa = −fa d + ∆Eint . (18)

onde Wext foi substitu´ ıdo por ∆Uext + Wa + Wnc . (14) ∑ Nesta equa¸ c˜ ao, os termos − ∆Uext , Wa , Wnc s˜ ao os trabalhos referentes ` as for¸ cas conservativas, de atrito e outras for¸ cas n˜ ao conservativas, respectivamente. Wext = − ∑

Esse resultado evidencia o erro usualmente encon´ tentador querer expressar o trado nos livros textos. E trabalho da for¸ ca de atrito como Wa = −fa d, no entanto, tal procedimento ´ e equivocado.

4.

Conclus˜ oes

3.

C´ alculo do trabalho da for¸ ca de atrito - exemplo elucidativo de um erro frequente na literatura

A situa¸ c˜ ao que descreveremos agora ´ e bastante explorada nos livros b´ asicos de f´ ısica, voltados para cursos universit´ arios. Trata-se de um bloco sendo arrastado horizontalmente por uma corda ideal sobre uma superf´ ıcie ´ aspera. Essa situa¸ c˜ ao permite explicitarmos o erro que frequentemente observamos na literatura. Por simplicidade, admita que a velocidade do bloco seja constante durante seu deslocamento d sobre a superf´ ıcie.

Na an´ alise do movimento de transla¸ c˜ ao de corpos r´ ıgidos, sempre esteve presente a possibilidade de trat´ alos como uma u ´nica part´ ıcula. Os textos universit´ arios encontram-se repletos de exemplos, nos quais, tal procedimento ´ e pertinente. Entretanto, essa abordagem reducionista conduz a equ´ ıvocos, quando se faz necess´ ario levar em conta o balan¸ co de energia dos sistemas em an´ alise. O exemplo do c´ alculo do trabalho da for¸ ca de atrito deixa claro esse tipo de equ´ ıvoco. Nossa abordagem sinaliza para a forma correta de se estimar o trabalho da for¸ ca de atrito, entretanto, esse c´ alculo, em muitas situa¸ c˜ oes apresentadas nos livrostextos, torna-se imposs´ ıvel de ser realizado, visto que, em geral, pouco se informa quanto de energia ficou armazenada na forma de energia interna do sistema. Portanto, muitos dos problemas propostos nos livros n˜ ao possuem solu¸ c˜ ao. Nos seus enunciados faltam

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dados suficientes para a resolu¸ c˜ ao. Apesar disso, verificamos que os livros apresentam solu¸ c˜ oes para esses problemas, uma vez que os autores admitem, em suas conjecturas, tratar como part´ ıcula os objetos em an´ alise. Esse procedimento ´ e desprovido de qualquer justificativa, constituindo-se numa esp´ ecie de v´ ıcio oriundo da an´ alise dinˆ amica ` a qual ficou amplamente incorporado. A forma compartimentalizada de an´ alise dos problemas, ocasionando a separa¸ c˜ ao entre os diversos segmentos da f´ ısica, faz com que ao se estudar mecˆ anica, a abordagem atrav´ es da termodinˆ amica seja esquecida. A utiliza¸ c˜ ao dos conceitos termodinˆ amicos facilmente denunciaria que um aumento de temperatura seria imposs´ ıvel na an´ alise do objeto se ele for tratado como uma u ´nica part´ ıcula. Essa dificuldade torna-se ainda mais intrigante quando grupos ligeiramente diferentes de autores [1, 4], ao escreverem diferentes obras, abordam de forma contradit´ oria o c´ alculo desse trabalho da for¸ ca de atrito. Apesar dos textos acadˆ emicos, em geral, apresentarem essa deficiˆ encia, nossas conclus˜ oes encontram-se corroboradas em textos mais recentes [4].

5.

Agradecimentos

Agradecemos a Giana Gadelha Paiva Rosso Nelson pelas sugest˜ oes na elabora¸ c˜ ao desse texto. Agradecemos tamb´ em ao ´ arbitro da RBEF pelos coment´ arios.

Referˆ encias
[1] D. Halliday, R. Resnick e J. Walker, Fundamentos de F´ ısica (LTC - Livros T´ ecnicos e Cient´ ıficos Editora S.A., Rio de Janeiro, 2009), v. 1. [2] F.W. Sears, M.W. Zemansky, H.D. Young e R.A. Freedman, F´ ısica I – Mecˆ anica (Person/Addison Wesley, S˜ ao Paulo, 2003). [3] P.A. Tipler e G. Mosca, F´ ısica para Cientistas e Engenheiros. Mecˆ anica Oscila¸ co ˜es e Ondas, Termodinˆ amica (LTC - Livros T´ ecnicos e Cient´ ıficos Editora, Rio de Janeiro, 2009), v. 1. [4] R. Resnick, D. Halliday e K.S. Krane, F´ ısica 1 (LTC Livros T´ ecnicos e Cient´ ıficos Editora, Rio de Janeiro, 2003).