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Capítulo Quarto

FAMÍLIA

A velocidade dos passos a que Sally se propunha dar
era tão grande que se continuasse assim, chegaríamos ao
restaurante num piscar de olhos. O tempo, além de passar
muito depressa, parecia estar contra nós, pois já o sol se
começara a esconder por detrás de algumas nuvens de cor
amarelada.
Ouvíamos os pássaros cantar, agora que nos
encontrávamos bem mais perto da “civilização”, pois a casa
dos meus padrinhos estava praticamente num beco, a que
apenas o autocarro viria, para levar alguns miúdos,
contentes e alegres a cantar na sua ida a uma escola ao pé
da nossa.
O famoso jantar com aquela pessoa parecia eminente
e eu esperava por isso mesmo, até Sally parar
repentinamente, agarrou o meu rosto com as duas mãos
extremamente frias e, vindo do nada, um beijo inesperado.
Era doce e profundo, tal como os seus olhos, e depois
afastou-se e começou a andar de novo, mexendo ainda
mais freneticamente do que o habitual os cabelos e os
dedos. Dava pena ver tal coisa, estando eu com medo de
que ela se pudesse mágoas com tanta rapidez.
Aliás, ela era rápida em tudo, menos quando estava
atrapalhada.
Estávamos em Sutterfrin, uma cidade não muito
grande, mas que dispunha de centros comerciais a
abarrotar pelas costuras, uma piscina pública e alguns
prédios de empresários, que se diziam ser do pior que
existia. Não me admirava que assim fosse, sabia
perfeitamente que Katerown era sempre melhor em tudo,
mas isso mudara com o beijo de Sally. Talvez... Não, quase
de certeza que se a localidade onde estava a morar,
valesse quatro valores em dez, a cidade do sol estava dez
pontos acima dos próprios dez, o que para mim ainda
parecia ser um pouco baixo para Sutterfrin.
Quando me deparei com uma porta entrada, tendo por
cima desta um letreiro vermelho com letras douradas,
quase jurei que nos tínhamos chegado ao Mc'donalds, mas,
ao espreitar o interior vi que o aspecto deste não se
assemelhava a nada do que pensava até então. Haviam
empregados a servir e pratos refinados a serem servidos.
Quando custaria tal coisa? Uns trinta euros, no mínimo!
- Não posso pagar-te estas coisas Sally, não sou muito,
como hei-de dizer...Rico?!

O riso aberto dela fez-me sentir melhor e menos
preocupado, fazendo-me descruzar os dedos, afastei os
braços para os pôr ao lado do corpo ficando a parecer uma
marioneta, e surpreendentemente ganhei vida com o
segundo beijo de Sally, este mais demorado e com mais
fulgor. Quase fiquei sem ar, mas ela tornou os seus olhos
tão encantadores que era difícil resistir, e desta vez
também eu a beijei, segurando-lhe no rosto com timidez
para depois sentir uma vez mais os seus lábios perfeitos.
- É aqui que a minha mãe trabalha. Não vamos pagar
nada de nada, descansa.
Ao ouvir tal coisa, a princípio nem sorri, ao tentar-me
aperceber de que me esquecera de algo em casa, mas ali
parecia ter tudo.
- Não há problema – Sorriu uma vez mais. Quando a
olhei com mais atenção, reflectiu em mim uma rapariga
extremamente normal, vestindo uma camisola vermelha e
calças de ganga normalíssimas, ou aliás, mais normal só na
praia. Parecia absorta pelo estado do tempo, que lhe
ondulava os cabelos soltos ao vento, a mostrarem algumas
madeixas pretas, que eram poucas.

A princípio parecia seria e preocupada com alguma
coisa que eu não conseguia decifrar, mas depois um ligeiro
sorriso surgiu e mostrou o semblante bastante solto. Porém,
a sua expressão mudou e ela estava a escurecer, ao mesmo
tempo que fechou o sorriso.
- O que se passa?
Olhei-a de tal modo que quase caí no nervosismo que
se podia ver nela, com os ombros bastante rígidos quando a
toquei e ela se afastou um pouco.
- Para onde vamos?
Não conseguia fazer perguntas com nexo quando
estava diante de um porto tão deslumbrante, com tanta
ternura e que me fazia sentir mais presente ali do que
nunca. depressa soube que estávamos já longe de casa, e
que, tínhamos andado quase a tarde inteira para estar ali,
com ela, num lugar que desconhecia, mas que ao mesmo
tempo não me fazia tremer de medo, quase como se
estivesse a chegar a Katerown de novo.
Era óbvio que conseguiria deter no rosto dela a
imagem de alguém que queria estar ali, comigo, mas de
novo o receio veio, e como eu estava disposto a dizer-lhe
aquilo mesmo, o que sentia ao estar perto daquele ser
humano quase sobrenatural de beleza e harmonia.
- Em que pensas? - Perguntei com algum interesse,
estando bastante chegado a ela – Não podia deixar de
admirá-la.
- Apenas a tomar uma decisão do que me apetece
comer.
- Não costumas vir cá? Afinal é o sítio onde a tua mãe
trabalha.
Os nossos olhos cruzaram-se quase simultaneamente,
depois olhámos para o céu já escuro e desprovido de
quaisquer nuvens ou estrelas. Também não havia lua, pelo
menos assim não se via. Aquela questão suscitou nela um
novo folgo e ela entrou, abrindo a porta discretamente,
comigo a segui-la, agarrando eu a sua não bastante dura,
talvez por causa da timidez.
- A tua mãe já sabe que eu estou... contigo?
- Se estás a deduzir alguma coisa, não continues com
essa ideia porque estás a enganar-te.
- Ajudas-te muito na decisão de eu ficar calado a noite
toda. E agora o que vou dizer à tua mãe?
Mostrava quase o corpo todo a dizer para sair dali,
enquanto tremia a pensar no que a mãe de Sally me faria.
Se o pai me tinha assustado com o olhar de caçador à
procura de presa, o que seria de mim quando o membro
mais protector da família me visse? Não me agradava
sequer reflectir no assunto, e mantive a boca fechada como
um velcro.

- Bem, não me vais decerto fazer mal, por isso
descansa que ninguém te vai matar... Apenas se fores
parecido com algo comestível aqui para o cardápio – A sua
ironia chegava-me aos ouvidos em forma de um aviso do
género " ou te comportas, ou viras frango no espeto."
Acenei-lhe com a cabeça e engoli em seco duas vezes,
quase não querendo saber se era verdade estar ali. Decerto
seria um pouco de um filme de terror, e permaneci sentado
na mesa que ela escolhera, num canto do restaurante,
enquanto estava calado a sentir as ondas negativas a
saírem de mim, sem que, lhe dissesse alguma coisa. Ouvi a
porta da cozinha a abrir-se, e uma senhora com um ar
bastante alegre, dirigiu-se à nossa mesa.
Era baixa e devia aparentar os cinquenta e tais, nada
que se comparasse ao pai de Sally.
- Olá eu sou o Daniel! - Disse com o ar quase a falhar,
mal me levantei da cadeira num salto. Não queria fazer más
figuras ali à beira de Sally.
- Esta não é a minha mãe... – Sussurrou aborrecida
aquela rapariga encantadora.

- A dona Carmen já vem aí menina Sally.
Então eu virei-me novamente para a porta, e um
sorriso resplandecente de alegria e muita boa disposição
disparou na nossa direcção, quase silenciando os meus
medos.
Usava uma camisa branca com mangas longas, e
talvez a pele um pouco clara demais fosse a causa para ver
aquela figura quase angélica surgir como um clarão.
Ela era perfeita, e apercebi-me de que parecia quase
da idade de Sally, ao que, ainda não tinha sabido a idade
por falta de ocasião. Não parecia possível alguém ser mãe
da rapariga mais gira dali, e ainda haviam bastantes por ali.
O olhar fitou-nos e desconcentrou-me do lugar onde me
encontrava.
- Sejas bem-vindo Daniel - Congratulou suavemente,
com a voz doce e igualmente aconchegante da sua filha.
Ergui-me para lhe beijar a mão demasiado delicada e
tremendamente frágil, pronto a parecer cuidadoso e bem-
educado. Sabia que ela poderia chamar-me um puto pois o
único receio que agora tinha era de perder a amizade de
Sally, que me transformava numa pessoa diferente.
Não queria que tal acabasse.
- Mãe, este é o Daniel como já sabes... Ele é bestial.
Carmen ficou com um ar pensativo e esforçou-se por
esboçar um sorriso mais à vontade, sem que o meu rosto
deixasse de olhar o seu olhar tão jovem.
- Sally seria indelicado não apresentar além de mim, o
Kev, não achas?
- Kevin, mãe, o nome dele é Kevin.
Tentei manter o olhar atento à procura de alguém tão
singular como aquelas duas pessoas formidáveis, mas por
agora só via casais de namorados. Cada vez que olhava
para uma delas, a sua beleza parecia divina, parecendo eu
demasiado rude para tal companhia. Não conseguia
perceber onde poderia estar Kevin, se ali ou no exterior, ou
até se nem estaria por ali e viria ali ter.
- Não vejo o teu irmão - Encolhi-me para o lado de
Sally para que a mãe não percebesse o quase estúpido em
que me tornara naquela altura. Mas ela agarrou-me a mão,
e desta vez, quase me arrepiei com o grau de frieza da sua.
Em seguida ela olhou-me com um olhar de pura satisfação
e acenou a cabeça na direcção da entrada do restaurante
Ele estava a sorrir, de uma maneira mais subtil do que
eu esperava, o seu olhar mostrava uns olhos verdes com
uma mistura de cinzento. Pareciam duas esmeraldas a
brilhar com a luz do restaurante.
- Estou muito atrasado? - Provocou ele a mãe que o
olhou com um olhar fingido de alegria.
- Kev, este é o Daniel, o novo amiga do liceu da Sally.
Deparei com uma expressão quase de repugnância em
relação a mim. O sorriso que trazia tornou-se controverso e
agressivo. Estava com um tão carregado como se eu fosse
uma criatura a querer fazer-lhe mal.
Observei-o depois a recuar dois passos, e desviou o
olhar. Era um rapaz normal, quase como eu, não muito
entroncado e usava uma roupa normal, tshirt e calças
pretas, e tinha uma mochila de campismo. O seu cabelo era
liso, quase tão liso como se tivesse acabado de sair do
banho ou de algum lugar húmido.
Não parecia tão jovem como os três membros que
conhecera ali então, mas mesmo assim aparentava uns
dezanove anos, o que para mim era considerado jovem.
Com o olhar pregado em mim, Kevin esticou a mão e
os dedos, de modo a que esta se mantivesse aberta,
respondendo com brusquidão ao aperto forte que pouco
depois ele me deu. Mal esses momentos passaram ele
retirou-a e meteu-a no bolso das calças, de modo a que
ficasse invisível.
- Vão comer o quê meninos? - Interrompeu o momento
a mãe de Sally com bastante bondade.
Por infortúnio aquele episódio trouxera-me fome, ou
melhor, transformara-a num género de vazio aos repelões
pela barriga dentro. Parecia que viria a desmaiar a qualquer
momento, não só pela presença de duas pessoas que me
deixavam em plena vergonha, mas também pelo facto de
ainda não ter comido nada.
De certeza que não fome não era, mas o cheiro a
comida despertava uma sensação de desejo e ansiedade ao
mesmo tempo. Eles não notavam a diferença mas como eu
estava, mais cedo ou mais tarde eu iria fechar os olhos e
cair para o chão.
Tal sucedeu de seguida, mas, ao deslizar, comigo veio
também um copo que, aparentemente me pareceu cair e
partir-se, tendo eu caído por cima dos vidros pequeninos
com o ombro. A princípio não senti nada, porque estava
meio zonzo, mas ao darem-me água gritei de um modo
agudo com o contacto de algo que quase perfurou a pele.
Seria parecido com um pedaço de pele levantada, estando
a carne a arder e a ferver, completamente insuportável.
- Daniel tens de ser forte quando te arrancar estes dois
vidros do ombro. Estás a sangrar muito.
No mesmo momento percebi que Sally estava
aterrorizada, olhando de maneira quase com medo da
ferida que fizera. Olhei uma vez para o ombro, e a mancha
vermelha fez-me quase deixar o pequeno-almoço cá fora, o
que não sucedeu. Na verdade não suportava ver sangue, e
só queria que tudo terminasse, mas mesmo assim seria
uma vantagem que uma "enfermeira" tão empenhada, me
tratasse de todas as feridas e mais algumas. Porém, ao
desviar o olhar na direcção do irmão de Sally, vi este último
quase a querer espancar-me. Tinha os punhos cerrados e os
olhos mostravam-se tão arregalados como se fossem sair
das órbitas.
Assustei-me e recuei no colo de Sally, embora
parecesse meio deitado, paralisado.
- O que é que ele tem? - Pensava eu para mim. Não
era capaz de fazer a pergunta em alta voz.
- Ele ficará bem, não te preocupes. E tu também. -
Informou cuidadosamente Sally, sem que deixasse de tirar
o guardanapo de tecido aveludado do meu ombro.
- Preciso de água mãe, traz-me água por favor. Tal
como o irmão, embora de maneira mais "soft", a mãe de
Sally permanecia quase paralisada ali, a olhar-me, com um
ar, não de quem queria matar, mas de quem está bastante
abalado e perturbado com sangue.
Afinal o que se passaria com eles? Teriam algum
problema com sangue? Alguma fobia.
Sentia-me mal se tal fosse possível, e assim teria de
me acalmar para que o sangue parasse e não os
incomodasse.
Aquilo tinha de acabar depressa, e eu queria isso
mesmo.

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