“...o belo é a perfeição que pode atingir ou atinge um objeto visto, ouvido ou imaginado” (HEGEL, 1993:33).

No decorrer do curso nos foi passado uma cronologia do Belo, desde a Platão a Hengel, nos dando uma visão macro da arte em si. O Belo é o tema preferido da arte, cresceu com ela e é a arte um esforço de expressão, em que uma coisa pode-se tornar a representação de outra. E isto tem que ser perfeito. A busca deve ser perfeita, ao mesmo tempo em que o tema deve o ser – isto é – Belo. Não será possível descrever todas as formas, todos os temas, todos os textos, mas dissertarei sobre alguns que nos tentam em vão definir o que é o Belo e sua filha: a Beleza. Para Platão, o belo é o bem, a verdade, a perfeição; existe em si mesmo, apartado do mundo sensível, residindo, portanto, no mundo das idéias. A idéia suprema da beleza pode determinar o que seja mais ou menos belo. Em o banquete, Platão define o amor como a junção de duas partes que se completam, constituindo um ser andrógino que, em seu caminhar giratório, perpetua a existência humana. Esse ser, que só existe no mundo das idéias platônico, confere à sua natureza e forma de uma espécie peculiar de beleza: a beleza da completude, do todo indissociável, e não uma beleza que simplesmente imita a natureza. Assim, temos em Platão, uma concepção de belo que se afasta da interferência e da participação do juízo humano, ou seja, o homem tem uma atuação passiva no que concerne o conceito do belo: não esta sob sua responsabilidade o julgamento do que é ou não belo.Aliás, Platão criticou a arte que se limitava a “copiar” a natureza, o mundo sensível, afastando o homem da beleza que reside no mundo das ideias “De um para dois e de dois para todos os belos corpos, e de todos os
belos corpos para os belos ofícios, e dos ofícios para as belas ciências e, das ciências, chega-se enfim àquela ciência que não é outra senão a ciência do Belo em si, para que conheça, por fim, o que é belo em si” (O banquete, p. 22).

Já Aristoteles concebe a arte como uma criação especificamente humana. O belo não pode ser desligado do homem, esta em nós. Separa todavia a beleza da arte e para ele muitas vezes o feio, o estranho ou o surpreendente converte-se no principal objetivo da criação artística.

uma justa medida. característica do neoplatonismo. ou subordinam a primeira à segunda. contudo um fundamento ontológico do universal nas coisas individuais. e as que a imitam. consiste na atribuição ao Uno da suprema perfeição e realidade e na derivação de todo o existente a partir desta unidade originária. através de múltiplas vicissitudes e transformações. por outra. ou seja. por uma parte. irracional. Na teoria schopenhaueriana da arte a inspiração neoplatônica é evidente: a vontade. se manifesta antes nas idéias eternas e depois com o intelecto se projeta no mundo dos fenômenos. contra Platão negue o realismo dos arquétipos platônicos. O que confere a beleza a uma obra é sua proporção. temos que dissertar sobre Plotino e o neoplatonismo. até a época atual. ordem. o neoplatonismo se acha já pré-formado na antiga Academia platônica. inverossímil. Para falar do belo. originada na última fase pitagorizante da filosofia platônica. que é. isto é.Aristóteles separa a arte em nas que possuem uma utilidade prática. mas que também podem abordar o que é impossível. a renovação do platonismo em diversas épocas da história da filosofia. atravessa como uma constante na história do pensamento do Ocidente e chega. uma corrente particular que. o espírito das aparências fenomenais se eleva à intuição dos modelos ideais. Esta subordinação. . o mais era sombra. as que completam o que falta a natureza. simetria. à primeira manifestação da essência do absoluto. Aristóteles criou uma metafísica racionalista moderada favorável ao desenvolvimento de uma consistente filosofia do belo. isto é. e ainda que Aristóteles. Aristóteles associou a arte a imitação da natureza. Neste último sentido. conserva. concebido por ele. Tornou-se famosa sua invectiva contra a arte. como o uno de Plotino. todavia não se ocupou muito com a questão. Com a contemplação estética. As idéias de Platão e Aristóteles tiveram uma larga influencia nas estéticas da arte ocidental. quando Espeusipo e Xenócrates fundem a idéia platônica do Bem com a idéia pitagórica do Uno. e. sobretudo como idéias reais arquétipas. Nota-se a retomada deste conceito com Botticelli no renascimento e com Schopenhauer no século XIX. Platão citou o belo no ser metafísico.

dos vitrais à estatutárias. através de uma forma de atividade. que terá no gótico a sua expressão artística. a beleza perfeita identifica-se com Deus. No Renascimento (XV só na Itália e XVI em toda a Europa). com a qual as coisas não são mais vistas na sua conexão causal. Começa a . da Processão e do Êxtase.11). A claridade ou luminosidade. mas na universalidade da idéia.p. Como em Santo Agostinho. A proporção ou harmonia: congruência das partes. no Renascimento (Boticelli e Michelângelo).”(REMAEH). Piotino entende que a imitação dos objetos visíveis é um processo para atividade artística. p. Os gênios tem o poder de criar obras únicas. São Tomás de Aquino identificou a Beleza com o Bem.. Procurou na metafísica de Platão e na de Aristóteles aquilo que lhe permitiria descobrir os caminhos que o conduzissem à contemplação da origem de todas as coisas. “A idade média é de fato dedicada em grande parte a exaltar a idéia do belo sob todas as suas formas. As coisas belas possuem três características ou condições fundamentais:    Integridade ou perfeição: o inacabado ou fragmentário é feio.Enfim. filósofo da Emanação. os artistas adquirem a dimensão de verdadeiros criadores. não é o filósofo da descrição nem da classificação. “Plotino. que tem por fim intuir as essências ou idéias (Introdução a filosofia da arte. A partir do século XIII começa a desenvolver-se uma estética da luz.31)... Indo mais longe que Platão. é sempre para tomar manifesta a transcendência do belo. desde afresco até os objetos de culto. o homem se liberta da vontade e com ela da dor. A influência de seu Neoplatonismo foi considerável e exerceu-se em diversas direções: entre os filósofos e teólogos cristãos da Idade Média.”(Lichtenstein.. que é a arte.

A arte renascentista italiana retoma o projeto de representação do mundo com bases nesses ideais. especialmente greco-romana. Surge o conceito de “gosto”. observa-se no interior do neoclassicismo dos séculos XVIII e XIX. decorar igrejas ou palácios ou celebrar ao mesmo tempo. 41). seja nos estudos de anatomia para composições maiores (Estudo para uma das Sibilas no Teto da Capela Sistina). O cerne da visão romântica do mundo é o sujeito. Se o belo clássico remete à ordem.” (Jimenez. ca. O belo clássico define-se na arte grega com base em um ideal de perfeição. difusão de uma concepção misteriosa da beleza. destacando-se pela beleza projetada segundo os padrões idealizados do universo clássico (A Ninfa Galatéia. é social e historicamente condicionado. Estabelecem-se regras e padrões fixos para a produção e apreciação da arte. A . que comandam a criação artística. ao equilíbrio e à objetividade. O belo romântico. A visão romântica anuncia a ruptura com a estética neoclássica e com a visão racionalista da Ilustração. Algumas obras de Michelangelo Buonarroti (1475 . ligada à simbologia das formas geométricas e aos números e uma interpretação normativa da estética aristotélica. o que é estética. às desmedidas e ao subjetivismo. dão plena expressão aos valores da arte renascentista.. para ser encarado como algo que varia.1520).1564) exemplificam a realização do modelo clássico. por sua vez. “A obra tem. longe de ser eterno. Nova retomada da arte antiga. como o célebre Davi (1501-1504). Kant ira abordar este conceito em sua obra. o belo romântico apela às paixões. e não possui qualquer utilidade. À complexidade formal e aos caprichos do barroco e do rococó. suas paixões e traços de personalidade. assim.1825) e as esculturas de Antônio Canova (1757 -1822). a de Deus ou o poder geral.desenvolver-se uma concepção elitista da obra comum da obra de arte: a verdadeira arte é aquela que foi criada unicamente para o deleite estético. a glória do príncipe. o neoclassicismo opõe a retidão e a geometria. O Belo deixa de ser visto como algo em si. Destaca-se a difusão de concepções relativistas sobre a beleza. equilíbrio e graça que os artistas procuram representar pelo sentido de simetria e proporção.. embelezar. como mostram as telas de JacquesLouis David (1748 . As imagens de Rafael (1483 . seja em esculturas. amparadas na idéia de um belo ideal. a possibilidade de satisfazer várias finalidades utilitárias ou simbólicas: ornar.1514). harmonia.

mas de formas nunca imaginadas e que nos levarão ao êxtase.. o acento na religiosidade. o sonho e a evasão. De regresso a Florença.Uma análise formal. cuja vila de Volterra decorou. “O NASCIMENTO DE VÊNUS” .romantismo. sancionados pelas academias de arte. Em 1481 Botticelli foi chamado a Roma pelo papa Sisto IV para trabalhar. entre eles. onde realizou "A tentação de Cristo" e dois episódios da vida de Moisés.. Luca Signorelli. Enneadas I. a luz a beleza aparece mais num rosto vivo. “. sem que.imaginação. A industrialização em curso e as novas tecnologias colocam desafios ao trabalho artístico.” (Plotino. trabalhou principalmente para a família Medici e participou ativamente do círculo neoplatônico impulsionado por Lourenço o Magnífico. os mitos do herói e da nação. obras que lhe deram fama. realismo e impressionismo . O texto o belo de Jacqueline Liechtenstein aborda estas transformações. Cosimo Rosselli e Perugino. em colaboração com Filippino Lippi -. é profundamente vivenciada como uma libertação. as relações entre arte. identificado com a norma.. fica para outra dissetação. A arte moderna do século XIX . na decoração da capela Sistina. experiências que nos levarão ao belo. enquanto apenas um traço dessa beleza aparece no de um morto. . o culto ao folclore e à cor local são traços que definem os contornos do ideal romântico do belo.assume uma atitude crítica em relação às convenções artísticas e aos parâmetros do belo clássico. 6). bom .filho de seu antigo mestre -. no entanto o belo deixe de ser evocado Abre-se infinitas possibilidades.Perugino e Ghirlandaio. Quanto ao Sublime. a consciência histórica. dizendo que essa emancipação do ideal. exploradas por parte significativa das vanguardas construtivas do século XX.. técnica e ciência. junto com Ghirlandaio.

filha de Urano e sem um princípio materno (novamente. . Esta. de caráter profano e mitológico. em pé e com um manto de flores. “tudo vem do Uno”). contribuem para conferir à Vênus sua essência espiritual-divina. Para alguns autores. revestindo-a de uma nova personalidade. temos Vênus como o centro do quadro. até onde chegam as possibilidades da “Alma do Universo”. "O nascimento de Vênus". Erguida sobre a concha.ou Vênus Pudica -. pois o ser vem do Uno e não se separa Dele.segundo Ficino . emergindo da espuma do mar. a espiritual e a material.como dois ventos que.estão como que envoltos pelas rosas sagradas de Vênus . delicado e rítmico. ao mesmo tempo em que com uma das mãos tapa os seios A beleza da alma está na Virtude. cobre-lhe o sexo. foram criadas ao mesmo tempo que a deusa do amor . como foi abordado anteriormente. e o refinado emprego da cor. proporciona-lhe algo material. alcançaram aí perfeita expressão Em O nascimento de Vênus. De iconografia simples. ao oferecer o manto. disposta a cobrir Vênus. As personagens da parte superior esquerda .relacionados a Zéfiro e Clóris . Trata-se de uma Vênus Urânia. Nesta obra. a própria da Venus Vulgaris – o último limite da criação. há uma visão neoplatônica. O ideal de beleza clássica presente nesta Vênus é abrandado pelos longos cabelos ondulantes que a circulam e a expressão longínqua de seu rosto faz com que pareça estar recolhida em seu mundo interior e perdida em pensamentos atitude contemplativa. À direita. O desenho. Executada por volta de 1485 pintou Vênus sobre uma concha. característicos de Botticelli. como "Marte e Vênus".segundo a mitologia clássica. uma vez que as personagens incluídas nesta pintura são apenas quatro. esta a ninfa Flora. é captada no momento de seu nascimento. "Palas e o centauro". representa também o Espírito vivificando a matéria. para simbolizar o nascimento da beleza através do nu feminino. temos representadas as duas naturezas de Vênus. Ficino a associa à Venus Coelestis .e podem ser interpretadas . relacionadas com o neoplatonismo do filósofo Marsilio Ficino. pois sua nudez está desprovida de erotismo e o cabelo. com seu sopro.Nesses anos realizou suas obras mais célebres. habilmente.

O objetivo da arte é a beleza inteligível e que o artista não deve imitar a natureza.30-33. p. mas encontrar em si próprio o movimento e o impulso criador dessa natureza. http://revistaparametro. agiu Boticelli ao pintar.. O Banquete.a descoberta iluminadora é não a das coisas belas. Hélio. O Nascimento de Vênus conduz os que o contemplam a comungar o Belo presente em todas as almas e em todas as coisas. JIMENEZ. Bibliografia: REMAEH. Introdução à filosofia da arte. 2007. Assim. PLATÃO. SUASSUNA. que pode ser observada nas nervuras douradas das folhas das laranjeiras dispostas atrás de Flora. O que é estética. v. bem como nas flores brancas com pontas douradas que as enfeitam ou nas rosas que caem sobre os ventos.p. mas a da divina beleza que as transfigura. 41.com/2011/05/26/aristoteles-e-a-questao-da-beleza/. R. acessado dia 09/07/2013.. n. p. p. É como se o bosque estivesse todo envolvido pela divina presença de Vênus . enquanto cria. http://www.htm. Mimesis. . (p. Bauru. A presença do Neoplatonismo nas artes. 43-49). Cinthia M.p. 19. Rio de Janeiro: José Olympio. 1998.Toda a cena desse nascimento desenvolve-se numa atmosfera muito luminosa e plena de paz.com/universal//botticelli/botic.wordpress. acessado dia 09/07/2013. 8º Ed. 1.REQUENA C.pitoresco. Iniciação a Estética. Marc. Ariano. 79-99. 19-22. O Belo e a Arte.