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Acordado Estou acordado a tempo, muito tempo Registrando, somente Vejo o ambiente, vejo o tempo passar, o tempo infinito

. Mas não me movo, o corpo não responde Ele deve ter me dado algo Estou em um quarto escuro, deitado com as costas sobre uma mesa, ou algo assim, não sei. Há uma porta na direção dos meus pés. A soleira, somente, não há porta. A luz se alterna em ciclos rápidos, que vão se tornando cada vez mais lentos, com o recobrar do que seria a consciência. O corpo não responde Os dedos Os dedos pesam, os fios de cabelo começam a vibrar, a respiração se arrasta num esforço imenso, e a audição volta. Não os sons, mas a audição, o ambiente reverberando de maneira sutil e abrupta sobre/por meio/através dos cabelos/pele/ossos, ribombando por toda a extensão e profundidade do meu corpo. Sem calor ou frio, somente o som (som?), a vibração grave Horas se passam. Os movimentos retornam. Continuo ‘ouvindo’ sem os ouvidos, tateando as montanhas da mesa lisa abaixo de meu corpo. Tato excessivo. O cheiro, ainda aqui, mas não o sinto, não quero sentir. Ainda lembro o que é e de onde vem, e por isso não quero sentir Ele está por perto, mas ainda não sabe. Posso ouvi-lo, o som grave entre meus ossos. Espera que a droga demore mais. Os outros eram menos resistentes Luz Não há dor, ainda Fugir Desço (?) da mesa, em direção à luz Ando Andar? Não parece que em algum momento anterior da minha vida eu tenha aprendido isso, eu danço em direção à saída, o chão que não pára quieto. Sorte a sala estar vazia. O estrondo dos meus passos ribomba pelos meus ossos. Apesar disso não há barulho, estou descalço. A porta que não existe Luz Dia

O calor em meu corpo não existe, é um zumbido, quase imperceptível, agradável As mãos Sangue O cheiro Os cavalos Não sinto o cheiro, não quero lembrar o cheiro. O sangue, os cavalos. O cavalo à minha frente, o pescoço do cavalo separado do corpo, faltando uma tira de uma polegada, pouco acima do tronco. A língua pendendo pela boca entreaberta, os olhos baços, o sangue pelo chão O sangue pelo meu corpo Tenho que correr. Fugir da cidade. Cidade? Não há cidade, não há prédios, casas, ruas ou muros. Não há cor. Não há ferro, concreto, pessoas, seres, objetos. Somente luz Há luz, em formas, ângulos retos, variados ângulos, curvas. O que resta dos meus olhos não registra nada que não seja luz, apenas um tom de luz Ou sangue Ou os cavalos, o que resta dos cavalos Corpos sem cabeça Cabeça com pescoço sem pescoço Sem os corpos Correr Fugir A cidade-luz se torna um borrão branco sobreposto ao mesmo tom de branco ao meu redor, cada passo acelerado um terremoto de dentro para fora, estonteante, uma overdose configurada em vibrações. Os músculos e órgãos se liquefazem no tórax, entre as orelhas, dentro da pele. Se eu sentisse a respiração, estaria queimando. Eu estou queimando Uma explosão, o chão em mim onde não deveria estar. O já parco equilíbrio diminui, o efeito da queda vibrando em meus ossos é enlouquecedor. Junto com o sol, uma explosão sensorial. Luz. e mais nada

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