O caos aéreo tem CINCO atores sociais: 1) ANAC - responsável pela regulamentação do setor; 2) INFRAERO - responsável pela infra

-estrutura aeroportuária; 3) DECEA - responsável pela infra-estrutura aeroviária; 4) COMPANHIAS AÉREAS; e 5) NÓS MESMOS. A ANAC, a INFRAERO e o DECEA necessitam trabalhar em estreita coordenação entre si, pois a concessão de novas linhas aéreas, pela ANAC, deve levar em consideração se existem vagas suficientes para o estacionamento de aviões nos pátios dos aeroportos, e se o espaço aéreo brasileiro tem condições de comportar o movimento de aeronaves gerado pelas novas concessões. O espaço aéreo é dividido em quatro regiões, que por sua vez são subdivididas em setores. Existem, no total, 44 setores. Cada setor é controlado por um controlador de vôo. Cada controlador pode controlar apenas 14 tráfegos. Cada setor necessita de um conjunto de freqüências para a comunicação entre controlador e aeronave, de um console de visualização e de um grupo de controladores que se revezem em uma escala de serviço. Por uma conta simples, observamos que o limite de tráfegos aéreos voando em território nacional, simultaneamente, é de 44 x 14 = 616 tráfegos. Em certos trechos, como entre São Paulo e Rio de Janeiro, existem dois setores, o que possibilita a circulação de 28 tráfegos simultâneos. Quando os setores operam acima de sua capacidade máxima (14 tráfegos), os controladores têm que espaçar os vôos, retendo as aeronaves no solo e acarretando atrasos nos aeroportos. Pois bem, há alguns anos atrás, quando existia o DAC (Departamento de Aviação Civil) e a INFRAERO era controlada pela Força Aérea, havia uma coordenação entre as três atividades. O DAC, que fazia o papel da atual ANAC, somente concedia linhas aéreas se houvesse capacidade aeroportuária e aeroviária disponível. Também não permitia a sobrecarga de aeroportos como o de Congonhas. As empresas, que fazem pesquisas de opinião entre seus passageiros, pressionavam o DAC para que pudessem operar as linhas em determinados horários. Todas queriam os mesmos horários. O DAC não autorizava, pois isso implicava sobrecarga no sistema de controle de tráfego aéreo. As empresas reclamavam e diziam que a Força Aérea era incompetente para gerenciar o setor. Outra pressão surgia quando as empresas queriam sobrecarregar aeroportos como o de Congonhas e o da Pampulha como nódulos centrais de conexões para suas operações. Esses dois aeroportos são centrais, em relação às capitais onde estão instalados e geram grande movimento. Se as empresas fizessem grande parte de seus vôos passarem por eles, poderiam maximizar a ocupação de assentos em suas aeronaves, aumentar sua margem de lucro e até diminuir o preço das passagens. Existia um plano estratégico para o setor, que previa um crescimento de X % ao ano. A INFRAERO deveria aumentar progressivamente os terminais de passageiros existentes nos aeroportos, o DECEA deveria aumentar a quantidade de controladores, freqüências, consoles, antenas e auxílios à navegação e o DAC deveria evitar a concentração de vôos em horários de pico e gerenciar a demanda das companhias aéreas. Era assim que as coisas

aconteciam e tudo girava redondo. O Brasil era invejado por países do primeiro mundo por sua segurança e qualidade no controle do espaço aéreo. Quando a INFRAERO passou à administração civil, os novos dirigentes investiram no conceito de terminal-shopping, em detrimento do aumento do número de terminais ou da construção de novas pistas nos aeroportos. Abandonaram o planejamento estratégico e pararam de coordenar suas atividades com os demais setores aeronáuticos. Pensaram na INFRAERO como um fim em si mesma. Esse foi o primeiro passo para o caos aéreo. Quando foi criada a ANAC, seus administradores fizeram a mesma coisa. Ignoraram por completo a existência de qualquer tipo de planejamento anterior e não se preocuparam em coordenar ações. Liberaram linhas aéreas e a operação de vôos em horários de pico, atendendo a interesses pessoais e das companhias, sem considerar as infra-estruturas aeroportuária e aeroespacial. Os controladores passaram a trabalhar sobrecarregados, com mais de 14 tráfegos em seus consoles. Esse foi o segundo passo para o caos. Soma-se a essa receita apocalíptica a falta de repasse de verbas do governo para o setor aéreo, uma política de pessoal deficiente em relação aos controladores e está armada a bomba relógio, que explodiu com o acidente da GOL. Naquele episódio, os controladores envolvidos tiveram que ser afastados temporariamente, por questões regulamentares (procedimento de praxe, em caso de acidente). Isso sobrecarregou os demais controladores. A preocupação de serem responsabilizados penalmente no caso da GOL e o medo de serem envolvidos em novos acidentes, devido à sobrecarga de tráfegos controlados, fez com que os controladores se rebelassem. O que é motim, e crime, pois são militares. Interesses políticos para não "queimar o filme" das instituições envolvidas, aliados a sensacionalismo e falta de critério da imprensa para noticiar o episódio fez com que a sociedade ficasse confusa e com uma grande sensação de insegurança. Gostaria de informar que o Espaço Aéreo Brasileiro, apesar dos últimos acontecimentos, é um dos mais seguros do mundo, ao se considerar o número de acidentes ocorridos por decolagens. Como sair de uma situação dessas? O Governo deu um passo importante, mudando o Comando do Ministério da Defesa, a quem estão subordinadas os três principais órgãos do setor. Se alguém tem condições de resolver essa crise, o mais indicado é, justamente, o Ministro da Defesa (desde que ele tenha pulso firme, vontade política, compromisso com os interesses coletivos e aceite assessoramento). E nós, o que temos a ver com isso? Na minha opinião, TUDO. Estamos falhando há quinhentos anos. Ainda podemos fazer alguma coisa? Acho que sim. A meu ver, devemos começar a exercer nossa cidadania, manifestando nosso repúdio a qualquer ato que leve em consideração interesses pessoais, em detrimento do bem coletivo. Podemos começar em nossa família, no trabalho e com os amigos, passando para o bairro, a cidade, o estado e, finalmente, nosso querido Brasil. Creio que devemos começar a desenvolver novos valores, como pessoas e como população, se queremos, realmente, sair do caos aéreo e compararnos aos países desenvolvidos.

Temos que diminuir a intensidade com que empregamos o “jeitinho”. Ele se reflete no momento em que damos uma cantada em agentes privados ou governamentais, para que pedidos pessoais sejam atendidos. Não adianta criticar a pressão das empresas junto à ANAC, pois fazemos isso diariamente, na defesa de nossos interesses. É cultural. Temos que abolir a “Lei de Gerson”, manifestada na propina que nossos governantes cobram para fazer o que seria sua obrigação. Da mesma forma que o jeitinho, também não adianta somente apenas criticar os governantes. Devemos nos olhar no espelho e perguntarnos quantas vezes fomos egoístas e defendemos nossos interesses, ignorando completamente os de nossos semelhantes e até entes queridos. Temos que parar de fechar os olhos para nossas obrigações como cidadãos e passar a cobrar mais nossos governantes. Se não concordamos que eles se preocupem mais com o superávit primário do que com o investimento em áreas críticas, devemos dizer isso a eles. Devemos cobrar. Não me refiro apenas ao setor aéreo, mas à saúde, à educação, aos transportes... Temos, como prevê a democracia, que exercer nosso direito de livre expressão. Temos que pressionar as pessoas que receberam nossos votos a que cumpram suas promessas. Talvez esse seja o sentimento latente de todos os que se revoltaram com o acidente da TAM. O acidente poderia servir como gota d’água. Agente catalisador para despertar os formadores de opinião de nossa sociedade, ou seja, nós. Por que não começamos a resolver o caos aéreo em nossa própria casa, com nossos filhos, com os amigos dos nossos filhos, com nossas famílias, empregados e todos com os quais temos contato e podemos fazer valer nosso título de formadores de opinião? Por que não passamos a dizer-lhes que o “jeitinho”, apesar de ser nossa maior virtude, é também nossa maior desgraça, que nos faz burlar a lei e nos impele para que abandonemos planejamentos estratégicos? Por que não propagar que a Lei de Gerson é contrária à solidariedade, ao senso de bem comum e à cooperação, comprometendo-nos em dar o exemplo? Por que não ensinar a nossos filhos que educação moral e cívica não é apenas uma matéria chata que era dada na época da ditadura, mas uma forma de ensinar à nossa sociedade os valores básicos, os direitos e, principalmente, os deveres de um cidadão? Alguém tem que ensinar isso, senão ninguém aprende. Senhoras e senhores profissionais liberais, professores, psicólogos, engenheiros, publicitários, empresários, investidores, escritores...Todos queremos um país melhor. Aquele com que sonhamos. Aquele que merecemos. Depende de nós conseguir.