MATURIDADE DA FILOSOFIA BRASILEIRA: FARIAS BRITO

(TEXTO COM ORTOGRAFIA PORTUGUESA )
FILOSOFIA E
PSICOLOGIA................................................................................01
O CONHECIMENTO DE SI COMO PRINCÍPIO DA FILOSOFIA...........................05
A FILOSOFIA COMO CIÊNCIA RIGOROSA DO ESPÍRITO.................................13
O EU E SUA SOMBRA.......................................................................................16
CONCLUSO....................................................................................................!"
FARIAS BRITO NA HISTORIOGRAFIA FILOS#FICA
BRASILEIRA.....................!"
ESTA EDI$O...................................................................................................!6
CRONOLOGIA..................................................................................................!6
REFERÊNCIAS
BIBLIOGR%FICAS......................................................................!&
MATURIDADE DA FILOSOFIA BRASILEIRA:
FARIAS BRITO
Luiz Alberto Cerqueira
*
Cada filósofo sofre a influência da ciência especial a
cuja inspiração preponderante obedece, mas sempre que
se entrega à especulação filosófica propriamente dita, o
que tem em ista e o que procura ! interpretar o esp"rito#
$arias %rito
F'()*)+', - .*'/)()0',
$undada por &omingos 'os! (onçales de )agal*ães, com sua obra Factos do
espírito humano
+
, a filosofia brasileira se afirma em função do con*ecimento de si como
problema ,Cerqueira, -..+/ 012+3# 4al problema, eidentemente, não ! e5clusio da
filosofia no %rasil, senão da própria filosofia# &esde o 6con*ece1te a ti mesmo7 socr8tico ao
cogito cartesiano, passando pelo cogito agostiniano, toda a *istória da filosofia gira em
torno ao con*ecimento de si como o ponto crucial# 9este sentido, o nascimento da filosofia
remonta aos gregos
-
/ antes de enunciar1se a necessidade da consciência de si como esp"rito
− isto !, não como um corpo, nem como a ontade determinada pelas necessidades
materiais, mas como inteligência e liberdade de acção − não *aia o que se denominou
filosofia# :ntretanto, antes de enunciar1se essa necessidade de con*ecimento, *aia
eidências de ida do esp"rito/ *aia costumes, crenças, religiosidade, manifestaç;es
art"sticas# :m outras palaras, *aia esp"rito, mas não *aia aquela disciplina em função da
*
< autor ministra cursos de filosofia brasileira na (raduação e na =ós1(raduação em $ilosofia do >nstituto de
$ilosofia e Ciências ?ociais da @niersidade $ederal do Aio de 'aneiro, sendo o atual coordenador do Centro
de $ilosofia %rasileira1C:$>%#
@AL/ BBB#cefib#ifcs#ufrj#br :1mail/ cerqueiraCifcs#ufrj#br
+
=rimeira ed# em =aris, +DEDF -G ed# no Aio de janeiro, +DHEF IG ed# em Lisboa, pela >mprensa 9acional1Casa
da )oeda, -..+#
-
9o di8logo de =latão Alcebíades, ou da natureza do homem, ?ócrates, depois de ressaltar a necessidade de
buscar1se o 6 Jsi mesmoK absoluto7 ,+I+ c3 que confere o car8ter ontológico ao con*ecimento de si mesmo,
e5plica que 6ao prescreer1se o con*ecimento de Jsi mesmoK o que se ordena ! o con*ecimento de nossa
alma7 ,ibidem3, a qual corresponde à consciência pura, e não à consciência emp"rica, na medida em que, para
ele, o 6si mesmo7 consiste na parte da alma 6em que nela se encontra sua faculdade própria, a inteligência7
,+I2 a3, a qual, não pertencendo a *omem algum em particular, só pode ser uma condição pr!ia, diina, do
eu moral e lire do mecanismo da própria natureza, de modo que 6)irando, pois, a diindade, nos serimos
do mel*or espel*o das coisas *umanas com relação à irtude da alma, e assim, nele, nos emos e
recon*ecemos mel*or a nós mesmos7 ,ibidem3# =osteriormente, ao caracterizar a filosofia como o amor da
sabedoria independente de qualquer necessidade material, de quaisquer fatores e5ternos, Aristóteles reforçou
a perspectia do ideal platónico1socr8tico ao definir tal independência do amor da sabedoria como correlato
da consciência absoluta, e5plicando que aqueles que 6filosofaram para fugir da ignorLncia, ! claro que
buscaam o saber em ista do con*ecimento, e não por alguma utilidade M###N =ois esta disciplina começou1se
a buscar quando j8 e5istiam quase todas as coisas necess8rias e as relatias ao descanso e ao ornato da ida#
O, pois, eidente que não a buscamos por nen*uma outra utilidade, senão que, assim como chamamos homem
livre aquele que é para si mesmo e não para outro, assim a consideramos como a Pnica ciência lire, pois só !
para si mesma7 ,Metafísica >, >>F QD- bF grifos acrescentados3#
+
qual se podia aspirar a uma ida rigorosamente regida pelas necessidades do esp"rito, como
a erdade, a justiça, a beleza, que não podem ser con*ecidas na e5periência, senão pensadas
como alores# &isso se segue que a ida do esp"rito ! um facto eidente na *istória da
*umanidadeF segue1se tamb!m que o con*ecimento ou consciência de si como esp"rito,
mediante a separação entre sujeito e objecto de con*ecimento, ! um fenómeno ps"quico, o
qual não se confunde com os fenómenos da natureza, situando1se o ps"quico, em sua
especificidade, para al!m dos limites da e5periência# Ruando se perde o sentido de
transcendência e independência da ida ps"quica em relação à e5periência, disso resultando
a perda de alores e (S(A(?&$S$(?(?(?(a decadência da cultura, a filosofia só se
renoa mediante um Pnico camin*o/ o retorno ao con*ecimento de si como esp"rito# <
e5emplo *istoricamente mais pró5imo ! a e5igência do con*ecimento de si inerente ao
cogito cartesiano como ponto final do aristotelismo escol8stico decadente e como princ"pio
da modernidade# )as essa e5igência não ! ,insista1se nesse aspecto3 e5clusia da noa era
que se imp;e, tampouco da modernidade,
I
senão do que se c*ama a ida mesma do esp"rito#
O neste sentido, que acabamos de e5plicar, que $arias %rito compreende a filosofia#
=ara ele, a filosofia nos tempos da modernidade não dee ser considerada senão em relação
à ciência, mas somente na medida em que se considera a ciência um facto *istórico
resultante da actiidade permanente do esp"rito/ a filosofia ! anterior à ciência e tem, por
isso mesmo, um car8cter pré-científico# =or!m, quando se confunde a necessidade de
autoconsciência com as necessidades *istóricas que dela resultam, a ideia de filosofia se
empobrece e se reduz ao Lmbito da noa era# O ineg8el que uma das maiores conquistas da
*umanidade, senão a maior de todas, ! a ciência como se concebe desde a c*amada
reolução cient"fica no s!culo TU>># < adento da 6ciência da natureza7, como resultado
do desprendimento da razão pura, acrescentou à actiidade do esp"rito uma e5igência de
rigor at! então descon*ecida no ensino da disciplina, de tal modo que, pela primeira ez,
segundo a frase lapidar de $arias %rito, 6a ciência, que ! produto da filosofia, se faz, por
sua ez, condição da filosofia7 ,%rito, +Q+-/ >, U>>3# <ra, essa ideia da ciência como
condição da filosofia poderia ter uma significação meramente negatia quanto ao car8cter
transcendente do con*ecimento de si, na medida em que a moderna ciência da natureza
estabeleceu a e5periência como limite de todo o con*ecimentoF mas, uma ez que $arias
%rito lea em conta a esfera da 6coisa em si7 Vantiana, a esfera do incognosc"el, seu uso
da palara condição gan*a uma significação positia quanto à possibilidade metaf"sica de a
razão transcender os limites da e5periência sem entrar em contradição consigo mesma# 4al
possibilidade diz respeito à intencionalidade da acção moral, lire, criadora, que enole a
ida do esp"rito do ponto de ista dela mesma considerada em si e não como fenómeno
f"sico ou mesmo psico1f"sico# =ortanto, do ponto de ista de uma e5igência de rigor na
actiidade do esp"rito, o projeto metaf"sico de $arias %rito conerge para Want e sua
Crítica da razão pura ,Want, Crp/ %TT>U3, de maneira que, ao contr8rio do que muitos
imaginaram, quando iram $arias %rito usar 6:studos de filosofia e teleologia naturalista7
I
$<bsere1se que a conersão cristã pressup;e o con*ecimento de si na mesma perspectia ontológica da
tradição socr8tica, inclusie no que diz respeito à e5igência de outra alma ,o pregador, no Lmbito da
religiosidade cristã3 como espel*o# Uer, por e5emplo, ?anto Agostin*o, Confisses U>>>, U, +.1++F er
tamb!m o nosso =adre António Uieira, !ermão da !e"agésima ,+HEE3, quando esclarece/ 6Rue coisa ! a
conersão de uma alma senão entrar um *omem dentro em si, e er1se a si mesmoX7F no sermão As Cinco
#edras da Funda de $avi ,+H0H3, Uieira confirma a necessidade ontológica da consciência de si, ao afirmar
que 6neste mundo racional do *omem, o primeiro móbil de todas as nossas aç;es ! o con*ecimento de nós
mesmos7#
-
como subt"tulo de sua obra Finalidade do mundo, nosso autor jamais aderiu ao naturalismo,
senão à atitude Vantiana de aceitar o limite estabelecido pelo m!todo da f"sica como
condição de toda a transcendência metaf"sica# :is, portanto, em $arias %rito, o car8cter
transcendente da actiidade do esp"rito que, a partir e em função da ciência como produto
dessa actiidade mesma, ele denominou 6filosofia supercient"fica7/ 6=articularizando1se na
obseração dos fenómenos, a filosofia produz as ciências M###N )as com isto não fica
terminada a sua obra M###N porque, partindo das ciências, elea1se M###N a uma concepção do
todoF por onde se ê que ai sempre al!m das ciências M###N O neste Pltimo sentido que a
filosofia constitui o que eu c*amo filosofia supercientífica7 ,%rito, +Q+-/ HI3#
Aessalte1se, por!m, que essa conergência para Want nada tem a er com qualquer
esp!cie de Vantismo, senão com os princ"pios da filosofia moderna defendidos por Want#
=ara esclarecer o moderno sentido da relatiidade do con*ecimento, por e5emplo, ele ai a
Want, como j8 o fizera 4obias %arreto/ 6O concepção mui comum na filosofia moderna,
principalmente a partir de Want, que nosso con*ecimento das coisas só ! poss"el atra!s de
certas ideias ou formas deriadas da constituição mesma de nosso esp"rito7 ,%rito, +Q+2/
YIQ3# )as assim como ai a Want para entender que a ideia de relatiidade se imp;e em
função do sujeito pensante como princ"pio, dele se afasta pela mesma razão# =or queX
=orque 6Want não foi um psicólogo7 ,%rito, +Q+-/ YIE3# Want não parte da consciência para
e5plicar o conjunto das coisas, mas, pelo contr8rio, parte do conjunto das coisas para
e5plicar a consciência/ 6considera1se em primeiro lugar o todo, para e5plicar, por dedução,
o esp"rito, partindo, por ia ontológica, de conceitos a priori7 ,ibidem3# &esse modo, a
psicologia, enquanto ciência do sujeito pensante, seria apenas o resultado das próprias
condiç;es do pensamento, correspondendo à ideia transcendental de unidade absoluta ou
incondicional do sujeito pensanteF seria apenas uma construção a que nada corresponde
objectiamenteF seria apenas 6uma ilusão natural e ineit8el7 ,Want, Crp/ A-QD3, de tal
forma que 6o argumento referente à psicologia M###N com o qual se pretende proar o
princ"pio da substancialidade da alma, partindo do cogito cartesiano, ! simplesmente um
paralogismo7 ,%rito, +Q+-/ YIE3# :m conseqZência desse preju"zo da psicologia racional,
Want prop;e uma psicologia emp"rica# 9este ponto, o filósofo brasileiro afasta1se
inteiramente do filósofo alemão#
@ma ez descartado o enfoque Vantiano para a compreensão da dinLmica própria da
consciência, seja numa perspectia racionalista ou empirista, faz sentido uma interpretação
de car8cter e5istencialista avant la lettre, e nunca de car8cter m"stico, quanto à preocupação
britiana com a 6região do mist!rio7 que enole a nossa e5istência porque 6egetamos na
morte e temos nossas ra"zes no nada7 ,%rito, +QHH/ IQD3# =rimeiramente, porque, para
$arias %rito, em sintonia com a própria tradição filosófica brasileira, passando por António
Uieira, (onçales de )agal*ães e 4obias %arreto, a consciência tem por base um corpo e
se encontra em face do mundo# 9este aspecto, o uso da palara natureza em $arias %rito se
amplia para o significado do termo ph%sis entre os pr!1socr8ticos/ 6se na ordem da
e5istência tudo se liga, tudo se prende, que *8 de estran*o em que o esp"rito se ac*e ligado
à natureza e dea ser e5plicado como um fenómeno da natureza, *aendo mesmo uma
ligação profunda e, at! certo ponto, uma unidade fundamental entre o que se c*ama esp"rito
e o que se c*ama mat!riaX7 ,%rito, +Q+-/ YQ[3# =or outro lado, contra qualquer *ipótese de
misticismo, ele c*ama a atenção para o facto de que nunca prop\s nen*uma 6interpretação
dos mist!rios do ser por sugestão ou inspiração de algum poder sobre1*umano7, uma ez
que 6para isto só posso contar com os recursos naturais da razão e os processos regulares da
I
lógica# Aaciocino sobre os dados que min*a consciência recebe da impressão das coisas e
dos factos/ mas ou somente at! onde a razão me lea7 ,%rito, +QHH/ 2..12.+3#
:ssa preocupação e5istencial intr"nseca ao projeto filosófico britiano, em irtude da
qual ele entende que a morte ! 6o mist!rio dos mist!rios7, perguntando1se 6Rue alor tem o
todo para uma consciência que dee ter como certa a sua total e5tinçãoX7, essa preocupação
e5istencial, bem como a relação que estabelece entre filosofia e psicologia, decorre de sua
profunda adesão aos progressos da filosofia moderna# 4al adesão ele manifesta por meio de
seus conceitos instrumentais de filosofia pr!1cient"fica e filosofia supercient"fica/ a ciência,
com base no m!todo matem8tico1e5perimental, isa o dom"nio do *omem sobre a realidade
circunscrita à natureza f"sicaF para al!m desse dom"nio, incluindo1o, a actiidade filosófica,
sem preju"zo de suas aspiraç;es pr!1cient"ficas origin8rias ,que seriam, em Pltima instLncia,
a organização da ida em bases racionais3, isa o dom"nio da realidade como um todo,
passando, então, a ter em ista e"clusivamente o dom"nio do *omem sobre si mesmo e
sobre a sua própria acção no mundo da ida ,%rito, +Q+-/ >, T3# < sentido dessa
e5clusiidade, uma ez identificado com a necessidade de um m!todo próprio para a
actiidade filosófica, pode ser esclarecido, com certeza, pela semel*ança com a ideia de
filosofia como ciência rigorosa em ]usserl, para quem o
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