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ROSENVALDO SIMÕES

ZAGO

1ª Edição – 1996
Edição do autor
Anápolis – GO
ZAGO
Rosenvaldo Simões de Souza

ISBN

Copyright © 1996, Rosenvaldo Simões de Souza

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1ª edição
1ª tiragem - 1996

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)

Souza, Rosenvaldo Simões / Zago / Rosenvaldo Simões - 1ª edição - Anápolis: Rosenvaldo Simões de Souza,
1996.

1.Romance Brasileiro 1. Título.

índice para catálogo sistemático


1. Romance: Século 20: Literatura brasileira
2.Século 20: Romance: Literatura brasileira

Se você ler e ficar curioso para entrar em contato com o autor, escreva para:
rosenvaldo-ss@uol.com.br
Dedico este livro a

Roni
Ronaldo

por tudo
(e mais alguma coisa...)
Prefácio

Não tenha pressa, nem medo, nem nada. Mantenha a calma.

Zago é uma quimera. Um fabuloso monstro da criação, produto

da imaginação fantasiosa deste autor que se atreve a escrever seu primeiro

romance e, pior, a jogá-lo ao público para que seja lido e criticado. Mas um

livro enquanto não lido pelo público é um sonho, uma utopia, um feto sem

alma. Que leiam e critiquem.

Vá lá que vejam incongruências e absurdos. Mas não se

importem com estes meros detalhes. A intenção é das melhores. Na verdade,

publicar um livro é mera conseqüência. A verdadeira aventura é escrevê-lo.

Ah! E que aventura! Quantas idéias! Quantas possibilidades!

Lembro-me de um personagem de um romance bacana chamado

Ardil 22. Havia neste romance bacana um personagem que queria escrever um

livro durante o período em que estava em campanha na Segunda Guerra. A

verdade é que só na primeira frase ele demorou uns bons cinco anos, e ainda

assim não se deu por satisfeito com o resultado. O estilo ora era rebuscado

demais, ora era simples demais, ora era confuso demais, e assim por diante.

Moral da história: quem se atreve a escrever corre este fascinante risco, ainda

que o resultado final não seja lá grande coisa. A liberdade de criação, as

zillhões de possibilidades de estilo, de enredo, de ordem e de desordem, esta

liberdade que o papel nos proporciona (ou a tela de computador, hoje em

dia...) faz com que a graça do negócio seja tentar, arriscar, mexer, desfazer,

inventar, bagunçar, enfim, a tarefa de criar nos faz pensar e este pensar é

estimulante, prazeroso, sedutor, e acabamos por nos viciar no lazer de


escrever, e vez por outra até conseguimos escrever alguma coisa interessante.

Sim, escrever Zago foi bastante divertido, e me envolvi de tal modo que pensei

comigo mesmo: "esta historinha ficou boa de se ler". E creio que este

pensamento possa ser uma verdade. Mas antes é preciso entender o que é e

quem é este estranho e desconhecido Zago.

Tudo começou com um "Era uma vez..." como começa algumas

boas historinhas infantis, mas de infantil talvez Zago só tenha esta primeira

frase. Zago é um personagem inspirado nos bons sem-vergonhas, nos bons

picaretas, nos bons Don Juans que a humanidade nos proporciona. É um

personagem irreal vivendo numa época irreal, convivendo com pessoas irreais

e embrenhado em situações as mais absurdas possíveis. Não busque sentido

nos personagens, nem nas suas frases fantasiosas e muito menos no conteúdo

da história. Tudo se desenrola por acaso. Talvez o grande mérito deste livro

esteja justamente no fato de que ele consegue ser cômico sem ser um livro de

piadas, assim como consegue nos fazer pensar (ao menos isso acontece

comigo em determinados momentos) sem que seja um livro chato de filosofia

ou música de Raul Seixas, e por fim consegue nos distrair ( ou seja: desligar

do mundo, dormir, se quiser) sem ser um livro de José de Alencar. Por isso, se

por acaso você começar a lê-lo e se pegar dormindo, não se assuste: este é um

Zago legítimo.

Divirtam-se todos...

Rosenvaldo Simões de Souza

Anápolis, Setembro de 1996


Veneza

Era uma vez...


Era uma vez uma época em que as pessoas viviam tristes e desiludidas com a vida.
Então, naquela época, as coisas sempre se complicavam com a chegada do inverno, mas as
maiores complicações trazidas pelo inverno se resumiam a resfriados crônicos e gripes.
Quanto a Zago, este decidiu que já era hora de começar e agir. Também havia
contraído uma das moléstias corriqueiras do inverno e passara intensos momentos de agonia
febril. Contudo, gripes e resfriados não eram e nem poderiam ser barreiras capazes de
impedir a felicidade do povo, muito menos a sua. "Basta de sofrimentos", pensou um dia,
depois de muito espirrar e sofrer.
Todavia, nem tudo em sua vida era sofrimento. Aliás, levava uma existência bastante
soberba, muito acima do padrão de vida da maioria da população daquela Veneza de 1886.
Enfim, reclamava injustamente. Bastaria que desse uma olhadela à sua volta, para perceber
que a periferia da cidade se assemelhava mais a um decadente cortiço que a qualquer outra
coisa, porque cada canto, cada fresta, era um mundo aconchegante para ratos, ratazanas,
arganazes e roedores das mais variadas espécies, tamanhos e formas. Veneza tinha
contaminados seus canais, ruelas, ruas, becos e avenidas de forma calamitosa, mas, mesmo
assim, seu povo parecia não se importar com a miséria, de forma que se Zago olhasse com
um pouco de atenção à sua volta, veria que vivia bem, muito bem para um cidadão recém
chegado à cidade.
Mas Veneza era Veneza, apesar dos ratos e do povo. E nela havia, e sempre houve,
riquezas suficientes para grandes aventuras e ousadias. Zago, de fato, não viera a Veneza
atraído por sua miséria. Isto era certo.
Naquela noite, Zago bebericava algo em um cálice extravagante, sentado
confortavelmente no interior de uma sofisticada cantina da cidade. O local era ponto
freqüentado somente por influentes representantes das mais altas castas, que ali iam na busca
de fugir da miséria e da ignorância, que não convinha com as suas posições. Ali, milionários
homens de negócios viviam rodeados das mais lindas mulheres.
Dois milionários conversavam animadamente:
- Então, convenhamos, caro Gaspar! Não se pode deixar que pequenos negócios,
envolvendo ninharias, atrapalhem nossas noites de ócio. Falemos de viagens...
Zago estava logo ali. Zago ouviu tudo. Como não poderia deixar de ser, seu coração
palpitou, seus olhos brilharam e seu pescoço distendeu-se num esforço muscular, buscando
ver melhor quem eram os tais endinheirados.
- Com vossa licença, mas creio que vi um barão velho amigo meu. Até a
próxima...
E assim, cordialmente, despediu-se de um íntegro, mas tedioso diálogo que travava
com um campeão qualquer. Em seguida, tomou o rumo dos dois endinheirados, que, em
verdade, eram dois respeitáveis marqueses. Os dois ainda debatiam:
- Friso, Gaspar, que lugar mais belo que Londres nunca vi...
Zago, volvendo-se para os dois num supetão, atalhou oportunamente:
- Concordo contigo, cavalheiro. Londres é, com certeza, a mais bela, linda e limpa
cidade do mundo...
Um dos marqueses, o que falara a pouco, olhou-o da cartola aos pés. Viu diante de si
um homem jovem, muito bem vestido, trajando uma casaca verde com grandes botões
dourados. Era, enfim, um homem de aspecto admirável. O marquês, tendo-o observado, deu
então vazão à sua admiração e acrescentou:
- É mesmo! Londres é mesmo muito limpa e bela. Aliás, cavalheiro, tenho a
impressão de que já nos vimos antes, mas não importa. Diga a Gaspar o que sabe de Londres.
Convença-o de que é melhor se ir a Londres que a Amsterdã. Gaspar, tu haverás de concordar
conosco. E tu, cavalheiro, quanto a tu, imagino que deves conhecer muitíssimo bem a vasta
Londres, não é verdade? Mas, como te chamas? Sinta-se à vontade...
- Chamo-me Joseph Luft Von Zago e, de fato, conheço muitíssimo bem cada um dos
logradouros de Londres...
Dupla mentira! Seu nome não era Joseph Luft Von Zago e ele jamais estivera na
Inglaterra, muito menos em Londres. Mas prosseguiu assim mesmo:
- Aliás, viajo sempre para a Inglaterra, pois tenho muitos negócios por lá. Em
verdade, tenho dezenas de navios meus indo e vindo semanalmente, entulhados de produtos
ingleses. Londres é para mim como um segundo lar e a Inglaterra, uma segunda pátria.
Aconselho-o a visitar Londres com urgência, senhor Gaspar. Dou minha palavra de honra de
que não se arrependerá. Quanto ao senhor... senhor...
- Oliva, Juarez de Oliva, do principado de Oliva, na Borgonha, e este é Sabugosa,
Gaspar de Sabugosa, da elegante e tradicional família austríaca dos Peters, não é verdade,
Gaspar?
Zago prosseguiu, entusiasmado:
- Gaspar, se não conheces Londres, então não conheces a parte boa da vida. E quando
digo parte boa da vida, não refiro-me a lugarejos como este em que estamos agora, onde o
licor é rançoso e as mulheres, falsas. Não. Londres é mais que isso. Londres é luxo, é realeza
e é classe.
Gaspar, confuso, respondeu:
- Bem, mas Veneza tem lá suas casas de mulheres que não ficam nada a dever ao resto
do mundo. Mas, quer dizer elas servem chá às cinco? Como é que funcionam as coisas em
Londres?
Funcionam melhor que Veneza, sem dúvida. Chega-se às casas num bom veículo e já
logo vem um polido mordomo a lhe perguntar qual o seu estilo preferido: alta, magra, loura,
árabe, com roupas, sem roupas... só depois, bem depois, é que lhe pergunta o que quer beber
e comer e qual tipo de quarto que prefere...
Gaspar, olhando à volta, cauteloso, sussurrou no ouvido de Zago:
- E tem muitos venezianos por lá?... quer dizer, minha esposa.... ciumenta, entende?
Zago, com a mão em concha, sussurrou a Gaspar em resposta:
- Fique sossegado. Conheço os melhores lugares. Afinal, tenho lá a minha esposinha
ciumenta também. Aliás, sugiro que, se for mesmo a Londres, que procure a casa de... mas
não adianta dizer-lhe. Tu não conheces os bairros de Londres, não é verdade? Mas aviso-lhe
logo: há muitos venezianos por lá... gente do povo, é verdade, marinheiros e comerciantes
baratos, traficantes... não é seguro ir a qualquer casa, porque mesmo um marujo miserável
pode ter algumas moedas vez por outra. E um risco, compreendes?
- De fato! De fato! Mas, diabo, Veneza tem lá suas mulheres bonitas e suas cantinas
discretas. E Londres, tão longe... é um risco...
- Discretas? - duvidou Zago - que discrição há aqui, nesta cantina, que dizem ser das
mais afamadas e bem freqüentadas da Europa? Eis um local que basta piscar para uma
mulher para que logo um curioso corra a dizer para a cidade toda que Gaspar, o fabricante de
navios, está com uma amante... sabes bem o que quero dizer... Em Londres, não. Tu bem
ouves falar das boas maneiras dos londrinos... a discrição é uma lei nacional, ou tu achas que
os ingleses não dão lá suas saídas vez por outra? São como galos. Têm amantes às dúzias.
Chegam para suas esposas e dizem: "vou à casa do marquês fulano de tal", e tomam logo o
rumo de um cabaré onde passam a noite. Todos freqüentam, todos são amigos, mas o
silêncio, o sigilo, Gaspar, é sagrado... Já em Veneza, não arriscaria mais que vir até esta
cantina e tomar meu licor de menta. Se arrisco mais que isso, sei que ainda hoje mesmo
minha esposa pedirá a separação... e então, adeus herança! Cá entre nós, sou capaz de apontar
ao menos doze homens à nossa volta que sentem prazer supremo em passar suas horas a
vasculhar cada movimento nosso. Se bebo um licor, dizem amanhã ao jornaleiro que fui
visto, eu, Zago, embriagado, num bordel comum, a provocar escândalos com prostitutas
vulgares. E o jornaleiro corre a dizer que eu, Zago, passei parte da noite numa orgia e outra
parte no fundo de uma cela da cadeia mais próxima, porque matei um rival...
- De fato! De fato! Não pega bem a homens como nós freqüentar qualquer lugar. É
sempre um risco.
Neste momento Juarez, até então calado, emendou:
- Gaspar, tu tens mesmo de ir a Amsterdã comprar coisas para seu estaleiro. Londres
está a poucas horas dali. garanto que não se arrependerás.
- Mas Amsterdã é tão cheia de casas...
- Amsterdã? - indagou Zago - Fui certa vez a Amsterdã a convite de um amigo meu,
dono de trinta moinhos, e estive nas duas casas mais afamadas, onde sé encontrei gente
grande da corte alemã e russa, e com mulheres que diziam ser dançarinas e atrizes dos mais
ricos teatros da Europa, e, de fato, eram mesmo belas e experientes. Três dias e três noites em
cada uma das casas e uma semana depois, tive de procurar um médico, porque... O médico
foi logo perguntando: "esteve na casa das atrizes ou na das dançarinas?".
- Mas vou sempre a Amsterdã e nunca tive problemas...
- Ora, Gaspar - resmungou Juarez - tu nunca tiveste problemas porque nunca visitaste
nenhuma casa por lá. Tu bem sabes da fama daquelas mulheres holandesas... e aqueles russos
e alemães, toda a Europa sabe que são gente porca e devassa. Amsterdã não tem casas para
gente de nosso quilate...
- Mas... - retrucou Gaspar pela oitava vez, e pela nona, e pela décima e pela
qüinquagésima vez naquela noite, e pela qüinquagésima vez Zago teceu argumentos capazes
de convencer a um papa. No qüinquagésimo primeiro retruque, por volta já das duas horas da
madrugada, Gaspar disse:
- Certo, muito certo! Mas... e como faço então para ir a essa maldita Londres, linda e
maravilhosa, que já passa das duas e estou a me arrebentar de sono?
Zago, vitorioso, colheu então o fruto de sua persistência:
- Gaspar, estou mesmo precisando ir a Londres brevemente Talvez esta semana
mesmo. Estamos num sábado, e é certo que na madrugada de segunda-feira algum navio meu
zarpará para a Inglaterra. Então, se quiseres ir comigo, não vejo inconveniente. Aliás, será
um prazer tê-lo comigo como companhia, porque são viagens entediantes. Que achas?
- Unh! Segunda de madrugada... combinado! Nós nos veremos então no cais?
- Espere... é preciso confirmar com meus agentes, mas é certo que haverá navios
saindo. Não se preocupe...
Despediam-se já os três enquanto que punham seus casacos. Juarez estava já dentro de
sua carruagem, um trole bonito, e Gaspar também já pisava na soleira do sua. Foi quando
Zago chamou-o com um leve assobio:
- Gaspar, acho melhor que adiantes algum... é que os bancos estão fechados no
domingo e não tenho dinheiro em caixa... quer dizer... caso não haja nenhum navio meu
partindo, então teremos de tomar um vapor particular... tu sabes, passagens são vendidas na
hora e pagas em dinheiro legítimo e vivo... se puderes adiantar ao menos as passagens...
- Unf! Dinheiro? Quanto?
- Ora... cinco, seis mil libras... uma ninharia essas passagens...
- Certo! Certo! Tome...
E Gaspar sacou então sua grossa carteira de couro camurçado e tirou dela um pacote
grosso de notas novinhas e lisas. Zago contabilizou as cinco mil setecentas e vinte libras do
pacote e acrescentou:
- Talvez não seja suficiente, mas caso falte uma ou duas mil delas eu dou um jeito,
porque não estou tão limpo assim... tu sabes. Quando digo que estou limpo na verdade quero
dizer que não tenho nos bolsos dez mil libras, mas duas ou três mil sempre tenho, isso é
certo...
- Sim, agora deixe-me ir. Até segunda...
- Até...
Fechando a porta de seu veículo, deu Gaspar uma chicotada no lombo de seu cavalo e
foi-se embora.
Zago, tranqüilo, enfiou no bolso esquerdo do casaco as libras que agora eram suas.
Sim, porque duas passagens não custariam mais que trinta ou quarenta libras, de forma que as
cinco mil e setecentas restantes permaneceriam no seu bolso, a menos que resolvesse gastá-
las em outras coisas.
“Ganhei o dia”, pensou. E de fato, ganhara mesmo.
Em seguida retornou à cantina, porque ainda não havia feito tudo o que havia
planejado. Além do mais, agora tinha dinheiro para outras coisas que fossem mais
interessantes que copos de licor ou vinho.
Mas já não podia muito. Relógios variados davam conta de que a madrugada seguia
adiante e não havia ponteiro marcando menos que duas e meia da manhã, se bem que nenhum
se atrevia a marcar mais que três. De qualquer forma, era tarde, porque não havia mais nem
uma única mulher que merecesse um trago, com exceção, é claro, de duas ou três delas, que
apresentavam o triste inconveniente de estarem já acompanhadas.
Sem opções razoáveis, preferiu seguir seu rumo.
Foi para casa e recolheu-se ao leito. Teve sonhos dos mais agradáveis, como já era de
se esperar...
O VILLE LAGRANGE
Gaspar e Zago embarcaram na madrugada da segunda-feira no Ville Lagrange, o
moderno, o mais moderno de todos os vapores que até então já haviam zarpado dos portos
italianos. Seu serviço de bordo proporcionava as mais luxuosas lambanças disponíveis.
Eram necessários quatro dias de viagem de Veneza a Londres.
Zago, nas primeiras horas a bordo, comportou-se bem. Trocou poucas palavras com
Gaspar:
- Fique à vontade. Há belas mulheres a bordo, mas não é conveniente que estejamos
sempre juntos. Tu sabes... são ariscas. Preferem homens isolados, quietos, discretos...
Gaspar concordou, fazendo um desdenhoso movimento de cabeça.
Não havia muito o que fazer, ao menos quanto a Caspar e o resto da população.
Quanto a Zago, este foi logo procurando formas diversas de passar o tempo e divertir-
se. Com Gaspar isolado a um canto, não havia motivos para seriedade e fingimentos. Frente a
ele agia certo, mantinha a compostura, mas longe, estendia suas asas e não perdia seu tempo
Duas horas a bordo, sentado tranqüilamente num conjunto de bancos estofados com
luxo, lia um jornal quando teve a oportunidade de travar diálogo com uma dupla de
intrigantes e organizadas beldades: Olinda e Holanda.
Achou de imediato ser Olinda a mulher mais linda e meiga que seus olhos já haviam
visto. Quanto a Holanda, parecia-lhe uma mulher ressentida e azeda. E, de fato, era mesmo.
Olinda era mesmo bastante atraente. Não que fosse alta, de formas redondas e
maravilhosas. Não. Em verdade, era bastante comum à primeira vista. Mas só à primeira
vista.
Não era alta, mas aparentava ser, porque tinha o corpo esguio e enxuto. Mas não
chegava a ser magra. Tinha seios pequenos, cintura fina, quadris razoáveis e pernas nem
grossas nem finas. Nas não eram suas medidas totais que atraiam a atenção. Os detalhes,
estes sim, eram coisas verdadeiramente fascinantes.
Usava um par de brincos de pérolas legitimas.
Tinha os cabelos castanhos nem claros nem escuros, mas não era a tonalidade que os
tornava bonitos. Era o corte. Não eram nem longos nem curtos. Eram médios, retos e
enigmáticos. Transpiravam pureza, delicadeza e castidade, ao mesmo tempo que volúpia,
calar e paixão.
Sua pele era um outro detalhe. Comparava-se em cor a um mármore, mas não tão
branco. Sua beleza, contudo não se media pela cor. O belo nela era a textura. Nenhuma
mancha, nenhuma veia, nenhuma ruga, nenhum cabelo, nada à mostra. Era uma pele lisa,
opaca e constante qual um oceano de leite fresco. Olinda, em verdade, era o frescor em
pessoa.
Tinha sobrancelhas bem feitas. Nasciam grossas e morriam finas, quais cometas ou
gotas. Curvavam-se, perfeitas, emoldurando olhos castanhos brilhantes e grandes.
Seus lábios, estes sim, eram verdadeiramente diferentes, incomuns, exóticos e
exageradamente belos. Não eram carnudos, nem pequenos, nem arrebitados. Eram grandes,
maravilhosamente grandes. Eram tudo no mundo para Zago.
Este disse a ela:
- Tente sorrir sempre e descubra quase sempre o quanto é importante sorrir, mas isto
não quer dizer que sorrindo se descubra o quanto se tem de importância na beleza de um
sorriso...
Foi o bastante para que ela mostrasse os dentes perfeitos no mais belo largo e
delicioso sorriso do universo. O vulnerável e carente coração de Zago caiu por terra
fulminado e conquistado inexorável e irrevogavelmente para todo o sempre...
Na verdade, ambicionava seduzi-la, porque sabia serem mais doces as coisas difíceis e
proibidas, como o era a donzela com seu sorriso puro.
Sem ter muito o que dizer a ela, remexeu-se, afoito, em busca de assunto. Precipitado,
teve a coragem de tomar um broche vagabundo que tinha junto a si no bolso esquerdo da
casaca e oferecer-lhe de presente, como prova de camaradagem:
- Tome, Olinda. É prata pura. Presente de um duque. Sou de um conclave de homens
ricos. Entro e saio com a ajuda deste amuleto, porque, talvez não saibas, mas há realmente
uma maçonaria neste mundo, e cada membro é dono de um broche de prata e de uma fortuna
babilônica. Se usas este presentinho no lado esquerdo do vestido, és considerada de imediato
uma princesa. Nunca menos que isso...
Mas foi a desconfiada Holanda quem desacreditou:
- Que! Uma porcaria dessas eu mesma compro com uma ou duas moedinhas
vagabundas em qualquer esquina.
- Engano seu, querida. Veja as letras: MCFV, bordadas em linhas douradas. O que
significa, senão Mesmíssimo Conclave Fraternal de Veneza? Ou não conheces essa entidade
de membros filantrópicos? Ande, Olinda! Aceite de coração esta prenda...
A moça, embora continuasse a não conhecer nenhuma MCFV nem visse nenhum
valor artístico naquele objeto, não viu também porque não aceitá-lo, parque, afinal, nada
tinha a perder. Aceitou-o, embora que não de toda a coração.
Não foi mal negócio, embora MCFV significasse, em verdade, Meu Carinhoso Filho
Valenttini.
Este encontro, embora que não tenha terminado da maneira ambicionada por Zago,
não foi de todo improdutivo. Ficaram amigos, ele e a invejável Olinda. Mas somente amigos,
parque o tempo corria contra suas intenções. Desse-lhe o destino mais algumas horas a sós,
sem a presença da atrevida Holanda e, provavelmente, a amizade geraria melhores frutos...
Mais tarde procurou saber, e de fato, ficou sabendo:
Olinda e Holanda, irmãs, iam a Londres passear em casa de um tio qualquer.
Viajantes inexperientes, tinham lá suas dúvidas quanto a bairros, hotéis e ruas da grande
cidade. Zago, sereno, sugeriu, logo que as viu, naquele mesmo dia:
- Olinda! Vou mesmo a Londres negociar camas, cortinas e produtos de limpeza com
o comércio de lá. Indicar-lhes-ei, se quiserem, os melhores e mais confortáveis hotéis que
conheço, e modéstia minha, não conheço poucos nem maus...
Holanda pareceu não interessar-se pela idéia, porque franziu o nariz e soltou um
resmunguinho feminino qualquer, que, para um bom entendedor, queria dizer algo como "não
preciso de sua ajuda e além do mais, não fui com sua cara...”
Já Olinda pareceu mais amistosa que sua irmã e sua cordialidade agradou Zago,
mesmo porque Olinda, além de amistosa, era muito, muito mais bela que Holanda, se bem
que esta, se estivesse só, não seria de se desprezar em local nenhum. Zago, contudo,
simpatizou-se mais com Olinda e sua beleza. E que beleza!
Olinda era, a seu ver, e definitivamente, tudo o que se podia dizer de uma mulher:
provocante, sedutora, maravilhosa, enfim uma deusa.
Diante dela, Zago sentiu-se novamente apaixonado, carente, curado de seus males e
faminto por amor. Seu coração inflamou-se com uma espécie de instinto romântico. Sentia-se
atraído mortalmente por ela, não restavam dúvidas.
- Tu tens um quê de charme que me preocupa... – disse-lhe assim que Holanda deu as
costas e foi juntar-se a um outro grupo mais adiante.
- Mesmo?
- Casar-me-ia contigo aqui mesmo no convés deste navio...
- Tu és um brincalhão...
- Pois que não tenho mais idade para brincar com as coisas do coração, Olinda. Estou
já passando da idade de contrair matrimônio.
- Tu? Tão novo!
- E tu? Já pensaste no matrimônio? Tens já seu príncipe?
- Ora, Zago, tu brincas comigo...
- Mas se estou falando... ouve-me! Tu tens o sorriso mais belo que já vi em vida.
Sabes que combina com seus olhos? São como o ouro e o diamante...
- Gostou mesmo? Tu és tão poético...
- Tu me inspiras não só nas trovas, mas em outras idéias belas, idéias amorosas...
- Creio já ser tarde. Preciso ir. Até mais tarde...
- Até mais tarde...
E assim findou seu segundo contato com a dama, de forma que sentiu-se encorajado a
vê-la mesmo mais tarde, como pretendia a despedida. E viu-a.
Fazia já uma hora que tinham servido o jantar onde banqueteou-se de farta comida ao
lado das duas irmãs. Com presença de uma aborrecida Holanda a sentir enjôos, Zago não
sentiu inspiração para novas trovas e elogios para com Olinda, mas não se deu por vencido.
Mal terminara o segundo encontro e já pensava num terceiro.
Prostrou-se na janela de seu camarote e ficou a olhar o movimento dos passageiros.
Aguardou pacientemente, até que Olinda surgiu mais além, na janela de seu próprio
camarote.
Mas foi somente um encontro a distância. As horas avançavam e não convinha
ficarem a conversar em local tão inoportuno. Contudo, Zago não pôde deixar de acenar-lhe
com um lenço, e ela não pode deixar de sorrir com beleza. Correspondido, acenou mais
vezes, fez gestos dos mais românticos e foi novamente correspondido. Por fim, ousou
mandar-lhe um beijo num sopro, mas antes que o beijo chegasse, Holanda apontou também
na janela com uma expressão azeda. De certo que o beijo voador de Zago acertou-lhe em
cheio a face carrancuda.
Para Zago e seus anseios, a presença de Holanda foi uma sentença de fim. Deu apenas
mais um adeus cortês e retirou-se para o leito, amuado. Só lhe restava dormir.
E dormiu com tranqüilidade.
Acordou no dia seguinte, se bem que sonolento. A preguiça era já uma espécie de
parasita a lhe minar a coragem para o esforço, embora acordar cedo não possa ser
considerado um esforço supremo para a maioria dos seres viventes.
Mas, para Zago, era.
Acordou mesmo a contragosto, porque estavam já em Gibraltar. Era já hora de todos
esticarem um pouco as pernas.
Gibraltar!
O navio atracou no porto e uma rampa em declive foi posta na amurada do navio para
que todos pudessem descer e andar por algumas horas.
Zago desceu a rampa ao lado de Olinda. E de Holanda.
Coincidência? Talvez.
O fato é que estavam juntos pela quarta vez e pela quarta vez Zago sentiu o mesmo
desejo, a mesma palpitação e a mesma gula que sentem os homens quanto estão ao lado de
uma jovem mulher de formas perfeitas.
- Cidade maravilhosa! ... - arriscou dizer a Olinda.
- Conheces?
- Como não? Se a Espanha é a pátria de meu avô!
- Tens descendência espanhola?
- Deixe-me contar-lhe... mas veja! Se não é uma verdadeira e genuína casa em estilo
mourisco, ou não me chamo Zago.
- Mourisco?
- Dos mouros... raça danada... invadiram e dominaram a Espanha com mão de ferro...
muçulmanos... perversos...
- Quando? Eram maus mesmo?
- Quatrocentos, talvez quinhentos anos atrás... a Espanha tinha ainda traços dos
romanos...
- Romanos? De Roma, na Itália?
- Império romano... dos césares... dos caçadores de cristãos... dos filósofos... das
tradições gregas herdadas...
- Gregos? Da Grécia?
- De atenienses e espartanos, troianos, Ulisses, Hércules, e por que não dizer, de
Sócrates...
- Sócrates? Grego?
- Filósofo...
- E Ulisses? Também?
- Ulisses é um mito. É cria pessoal de Homero, este sim, grande e talvez o maior poeta
de todos os tempos. Poemas e versos eram com ele. Narrou toda a história antiga na ponta da
pena. Um monstro do saber universal.
- Unh! Bonita!
- A história antiga?
- Não, a casa dos mouros. Quanto à história antiga, não sei. Talvez seja, mas não sou
muito ligada ao passado, em museus e estátuas.
- Mesmo? Do que gostas?
- Não sei... talvez de dança...
Nesta hora, chegaram nas proximidades da casa mourisca. Olinda roía a unha do
polegar, distraída, enquanto que Zago, nem um pouco distraído, procurava um meio de
puxar a conversa para um canto mais interessante do saber.
- Gostas de dançar? - arriscou novamente.
- Mais ou menos. Às vezes valso com um amigo em alguma festa de aniversario...
mas acho bonito o balé.
- Balé? Linda dança! Sabes dançar o balé clássico?
- Não, mas quem sabe um dia eu aprenda. É tão bonito!
- De fato. Aliás, tu tens as formas perfeitas de uma bailarina. Aprenderás com
facilidade.
- Achas mesmo? Tenho os quadris um pouco largos e duros.
- Como! Tens uns quadris perfeitos.
E, parando, esticou as mãos rumo aos quadris dela, como se fosse os tomar entre os
dedos e apalpá-los, na ânsia de medir a flexibilidade, a maciez, o calor, e provar a ela e a si
mesmo que aqueles eram os melhores quadris do mundo, tanto para o balé quanto para o
amor.
Mas não os tocou.
De fato, conteve-se. Tocá-la, ainda mais nos quadris, seria temeridade demais.
Não que não quisesse. Queria, mas sabia que não era aquela a hora certa, de forma
que conteve-se, embora a contragosto.
Mas prosseguiu a conversa:
- Perfeitos! Não há dúvidas de que será uma grande bailarina. Mas aviso-lhe: não se
iluda com os palcos e com atores, bailarinos e cantores. São uma escória só.
Demonstrava já um certo ciúme daquela que ainda nem lhe dera uma gota de
esperança.
Olinda brincou:
- Fique tranqüilo Não correrei esse risco... serei comportada qual uma madre.
Em seguida, tomaram o rumo de Holanda, porque esta fez sinais mais adiante,
indicando que já era tarde e que tinham mais o que fazer.
Zago, mais animado agora, preferiu matar o tempo junto de Gaspar e mais alguns
outros passageiros homens,que preferiram adentrar-se num salão ali perto do cais e apreciar o
famoso café turco, tradicional bebida da histórica cidade.
Uma hora mais e o Ville Lagrange zarpou do porto de Gibraltar rumo ao Oceano
Atlântico, na busca de contornar a Península Ibérica rumo às Ilhas Inglesas.
Olinda, talvez por inocência, talvez por esperteza, gostou de Zago. No fundo, achou-o
galante, meigo e educado. Galante no modo de agir, meigo no modo de falar e educado no
estilo de falar, se bem que entre modo e estilo de falar não visse grande diferença. Era, sim,
meigo e educado no falar, e suas palavras, doces e poéticas, não atingiam-lhe a mente: iam
direto ao coração.
Deitada, pensou: "é mesmo muito inteligente, este Zago. E tão bonito!". E este
pensamento era uma verdade.
Sentiu confiança nele, e sentiu nele um apoio. Talvez fosse aquele algo que lhe faltava
na vida. Holanda, sempre amiga, sempre presente, já não era a mesma pessoa. Envelhecendo
rapidamente, já não servia de testemunha para seus desabafos.
Deitada, deu asas aos seus sonhos.
Imaginou-se casando-se com Zago ali mesmo no convés, com o almirante de Bíblia
na mão, borrifando a água do mar, selando a união eterna.
Foi o bastante para seu coração.
Apaixonou-se, embora sem se aperceber do fato.
Acordou no dia seguinte ansiosa por vê-lo.
Viu-o somente no jantar, porque Zago esteve sumido o dia todo, envolvido num
aferrado jogo de cartas no camarote de um marinheiro de bordo.
Vendo-o a palitar os dentes junto ao balcão do bar do refeitório, não deu atenção nem
à surpresa dele nem aos olhares curiosos dos que estavam à volta. Disse-lhe logo, num
sussurro cheio de amor:
- Queira perdoar-me a confissão...
- Confessas primeiro e então perdôo-a...
Olinda, num gesto de desespero, prostrou-se diante dele, quase a ajoelhar-se:
- Zago, amor! Não quero falar-lhe das causas que iniciaram este desejo. Mas, suas
propostas, seus segredos, seu jeito estimula-me a arriscar novas experiências no campo da
paixão.
- Arrisque! Experimente! O que temes?
- Ah, Zago! Então não sabes que sou viúva? Pois sou. Mas o tempo ainda não apagou
a dor e a lembrança da grande peste de 1880 que atingiu todo o condado onde vivi eu e meu
companheiro. A peste o dizimou. Sim, temo perdê-lo também. Por que não?
Zago abraçou-a, meigo:
- Pobrezinha...
Olinda entregou-se em seus braços. Manchou-lhe a camisa branca de lágrimas.
Soluçava de amor.
Permaneceram assim por um minuto ou dois. Zago consolou-a:
- Não temas. Sou seu e peste nenhuma me leva.
- Juras?
- Por minha alma.
Olinda tornou a chorar.
- Chamarei agora mesmo um padre, um bispo, o papa. Casemo-nos...
- Não, - intercedeu ela quase num berro - não! Casar não!
- Que queres então? Peça e faço.
- Aceito, não casar-me. Aceito, sim, confiar minha companhia a ti. Não obstante,
sou sincera e franca o bastante para dizer-lhe que em todos os dias em que tivermos a bordo
deste vapor terás o meu corpo, independentemente do que possa vir depois. Que achas?
Estava novamente de joelhos
Sentiu então as mãos de Zago comunicando-lhe carinho e levantou-se, ligeira. Gozou
então o triunfo que lhe veio ao corpo na forma de um ardor na face molhada.
Zago, buscando a perfeição para o fim daquele ato de união, tomou-a então
novamente pelas mãos e tombou-a, flácida, nos braços.
Tentou beijá-la.
Mas foi um esforço infrutífero.
Olinda virou o rosto, desviando sua boca da dele:
- Não! Aqui não. Talvez mais tarde...
Mas Zago não viu nesse ato uma derrota. Era, em verdade, uma vitória, de maneira
que logo desvencilhou-se dela e, num gesto, convidou-a a um passeio.
Seguiram conversando por alguns minutos pelo convés e conheceram-se melhor.
Evidentemente que Zago tentou beija-la mais quatro ou cinco vezes durante o passeio, mas
ela o recusou veementemente.
Mais um pouco e tomaram cada um seu rumo.
É possível que a tenha verdadeiramente beijado horas mais tarde, mas não é certo.
O que se pode afirmar com certeza é que Zago, horas mais tarde, topou com Gaspar
num corredor que dava para a popa do vapor, onde, à noite, os homens se reuniam para fumar
seus charutos e cachimbos e falar bem da vida.
Talvez este encontro não fosse tão esperado por ambos, mas, no fundo dos
acontecimentos, estavam ali no meio do oceano justamente porque se conheciam e tinham
planos futuros em comum na vasta Londres. Não fosse este fato, e Gaspar estaria num outro
navio, numa outra rota, rumando para Amsterdã, enquanto que Zago estaria, talvez, em
Veneza, mas embora pudesse estar em qualquer outro lugar, jamais estaria com o dinheiro de
Gaspar de Sabugosa, genro e herdeiro do velho Peters de Áustria.
Diante da fatalidade do encontro, não lhe restou muitas alternativas, de modo que foi
logo abrindo os braços, sorrindo triunfante de satisfação e surpresa e estendendo a mão para
um aperto amigo:
- Gaspar! Mas que agradável surpresa! Quanto afeto em revê-lo. Como tens passado?
Gaspar, não demonstrando tanta surpresa, apertou a mão de Zago frouxamente e
indagou:
- Passo mal. Vomito dia e noite. Onde pretende hospedar-se, e a mim, quando
chegarmos a Londres?
Para Zago, foi uma boa pergunta.
Boa, porque não tinha ainda pensado numa resposta para ela. Boa, porque tinha
mesmo de pensar numa solução, numa maneira de livrar-se de vez por todas de Gaspar. Se
este tencionava mesmo hospedar-se no mesmo lugar que Zago, estava enganado
quadradamente. Zago pretendia abandoná-lo à sua própria sorte em Londres assim que
desembarcassem, o mais brevemente possível. Mas como o fazer, sem levantar suspeitas,
mágoas e encrencas financeiras?
Zago respondeu então, após breve pensar:
- Conforme ouvi falar em Gibraltar, a atmosfera política em Londres anda
irrespirável. Creio que a coisa ferve por lá e creio mesmo ser um risco rondarmos as
proximidades de Buckingham, onde fica o melhor hotel da cidade. Pode haver tropas,
barricadas e arruaças. Mas sossegue. Abastecido de novidades suficientes, exclusivas de
meus informantes de Gibraltar, posso assegurar-lhe de que as circunstâncias não tardarão a
melhorar. Desembarcaremos e, enquanto esperamos pelo momento oportuno, nos infiltramos
entremeio à burguesia do cais ou de suas cercanias, onde conheço gente segura e de
categoria.
Gaspar, pela forma como franziram suas duas sobrancelhas grossas, de certo que não
gostou da notícia, porque resmungou:
- Não sei, não. Crise política em Londres? Instabilidade na organizada Inglaterra?
Parece conversa fiada.
Mas Zago manteve-se firme na sua versão:
- Verdade absoluta!
Gaspar mexeu-se sobre os pés, impaciente. Zago, buscando tranqüilizá-lo, esfregou
discretamente o polegar na língua úmida e distendeu-o ao vento:
- Uma brisa forte sopra a boreste. Bom sinal. Sei como se sentes. Também desprezo
meios ilegítimos de politicagem, mas fatos são fatos. Sugiro que descanses. Sirva-se de um
vinho tradicional, Gaspar. Mantenha seus hábitos. Seus trajes e seu aspecto estão excelentes!
Vi umas damas de olhos firmes em ti, sabias? Faz sucesso a bordo, amigo!
Gaspar manteve-se indiferente.
Zago insistiu:
- Veja! Gaivotas! Estamos já nos domínios dos mares britânicos. Aportaremos em
breve. Alegre-se...
Gaspar cuspiu na água, enjoado.
Zago, vencido, enfiou as mãos nos bolsos da casaca e despediu-se com um sorriso
amistoso.
Subiu então para o convés superior. Olinda certamente estaria lá.
Gaspar pensou um pouco no assunto político em Londres. Como não entendia nada de
política e nada pudesse fazer a respeito, achou melhor acreditar na conversa de Zago.
Logo depois, bebia um gostoso vinho francês no bar do refeitório.
As horas transcorreram com serenidade e a noite chegou e foi-se embora de forma
também tranqüila. Nem Gaspar, nem Zago, nem a maioria das pessoas a bordo notaram a
tranqüilidade da noite, porque dormiam.
Quando acordaram, era já dia claro e o vapor adentrava-se no Tâmisa, rumo ao porto
londrino.

LONDRES

Algumas horas mais e atracaram no cais. Uma rampa em declive foi novamente posta
na amurada do navio para que os passageiros pudessem descer em terra firme. E desceram
mesmo
Frente a um galpão, um grande armazém para depósito, Zago juntou-se a Gaspar.
- Tomemos um carro até um hotel aqui próximo...
Gaspar esperou então frente ao armazém, enquanto que marujos desciam malas e
sacos dos passageiros.
Zago, que nunca falara uma única palavra em inglês, viu dificuldade em ir até alguns
carros de aluguel logo mais adiante do galpão. Indeciso, procurou Olinda com os olhos e
achou-a, ao lado de Holanda, a vigiar duas malas e um caixote de pau, que eram suas
bagagens. Foi até ela e confidenciou:
- Olinda, peguei uma brisa fria e tossi a noite toda. Mal consigo falar-lhe...
E, de fato, não falava. Grasnava.
Mas prosseguiu:
- Creio ter febre. Peço-lhe: chamas lá um carro...
Holanda, que nunca demonstrara simpatia por sua pessoa, mostrou-se então solícita:
- Eu chamo. Fiquem cá vigiando a bagagem.
E saiu quase a trotar rumo aos carros de aluguel.
Zago, agora a sós com Olinda, perguntou-lhe:
- Onde ficarás? Quero ver-te o mais breve possível.
Olinda, sacando do bolso do vestido um pedacinho de papel, mostrou-lhe um
endereço qualquer, que ele anotou mentalmente até onde sua memória foi capaz. Um minuto
mais ao lado dela e chegou então Holanda ladeada por dois homens tipicamente vestidos.
Eram cocheiros de dois carros.
Zago despediu-se de Olinda e Holanda com uma mesura gentil e rumou até o
armazém, sendo seguido por um dos cocheiros.
No percurso, tentou dizer-lhe algo em alguma língua, mas o cocheiro, experiente,
acostumado já a lidar com estrangeiros, falou algumas palavras em sete ou oito línguas
diferentes e acharam por entender-se num francês gaguejado. Zago demonstrou então, mais
por gestos que palavras, sua ignorância quanto à fala e à cidade, de forma que o cocheiro fez
um gesto impondo tranqüilidade e assim Zago sossegou.
Chegaram até Gaspar, em cujos pés já haviam depositado duas malas de médio porte.
O cocheiro colocou-as por sobre a capota do veículo e abriu a portinhola lateral.
Zago embarcou primeiro, seguido de Gaspar.
O cocheiro deu uma leve chicotada no lombo do cavalo que puxava o carro e este pôs-
se a rodar por ruas calçadas com pedras pretas e lisas até que o cocheiro puxou a rédea com
calma e estacionou frente a um prédio velho de três pavimentos.
Era um hotel.
O cocheiro desceu, abriu novamente a portinhola e pôs as duas malas no chão,
enquanto que Gaspar e Zago desciam.
Zago arrancou da casaca um maço de notas italianas e o cocheiro aceitou três delas
como paga por seu serviço. Em seguida, subiu no carro e partiu.
Zago, que não sabia inglês, leu as letras que pendiam da fachada do prédio. Um
grande h, um o, um t, um e, finalizando com um l.
Não havia dúvidas.
Pegou então na alça de sua mala e rumou para a porta do edifício. Gaspar fez o
mesmo. Já na porta, deixou-a pousar no chão. Gaspar imitou-o.
Entraram então de mãos vazias no saguão, uma imensa sala de tijolos à vista, com um
grande e feio lustre dependurado no centro, coberto de teias de aranha e poeira secular.
Um velho mal vestido surgiu por detrás de um balcão sebento. Zago fez um gesto
chamando-o e ele levantou-se, resmungou algo e obedeceu ao chamado. Zago deu alguns
passos adiante e antes que o velho dissesse uma única palavra, começou a dizer, num francês
capengante:
- Falas francês? Paris? Napoleão? Quartos?
O velho, talvez por experiência, talvez por instinto, fez um gesto de cabeça
confirmando, para em seguida resmungar algo e tomar o rumo de volta ao balcão.
Zago, voltando-se para Gaspar, disse-lhe:
- É um velho amigo meu. Vai fazer nossas fichas agora mesmo. Vá! Vá até o balcão e
não se incomode com a aparência despojada do prédio. A feiúra é só externa. Por dentro, é
um luxo só. Costumam hospedar só gente grande por aqui. Só gente discreta. Agora vá, que
vou até a porta pegar as malas.
Foi o fim para Gaspar.
Zago abandonou-o ali mesmo, no saguão daquele hotel. Pegando sua mala, meteu-se a
correr rua afora. Correu mesmo como um bom desportista. Suas pernas adquiriram força
medonha. Suas juntas aqueceram-se e as abas de sua casaca pareciam asas.
Dobrou uma esquina, cruzou uma rua, trombou diversas vezes com cavalheiros e
damas, desculpou-se da forma que pôde, mas de forma alguma parou de correr. Naquela
hora, em plena fuga, a única coisa na vida que lhe interessava ver era espaço livre para correr
e fugir. E fugiu.
Foram uma, duas, dez, cinqüenta, cem viradas de pescoço para trás procurando ver
Gaspar em seu encalço. Cinco minutos depois, arfava. Mas ainda era cedo. Correu por mais
uma dúzia de quarteirões, deixou para trás três praças e um palácio e só quando já tropeçava,
e a mala parecia pesar como um bezerro foi que resolveu parar.
Sentia-se agora mais seguro, se bem que nem tanto. Mas resolveu confiar na centena
de viradas de pescoço. Gaspar, um velho, jamais seria capaz de alcançá-lo. Pobre homem;
haveria de ter dificuldades.
É certo mesmo que o pobre Gaspar teve dificuldades, mas é bastante provável que
tenha dado um jeito na situação. O fato é que Zago não viu sinal dele. Na verdade, nem
pretendia ver.
Mais calmo agora, e menos cansado, deixou-se cair num banco de uma praça próxima
e rascunhou rapidamente algumas alternativas de ação, mas só viu uma: Olinda.
Puxou então da memória o endereço dela.
Um nome veio de imediato, e um outro e depois mais um outro, de forma que em
menos de um minuto tinha já o tal endereço bem claro e firme na mente.
Assim munido, ali mesmo na praça escreveu-o num pedaço de papel com a ajuda de
um outro cocheiro experimentado e este o levou até o bairro, depois à rua e depois à entrada
do hotel, cujo nome Zago lhe rascunhara.
Não seria difícil achar Olinda, mesmo porque esta provavelmente ainda nem havia
chegado. Resolveu esperá-la ali mesmo na porta do prédio.
Passava o seu quinto minuto pensando, quando uma carruagem estacionou na rua,
trazendo-a no bojo, ladeada por Holanda.
- Valenttini! - exclamou Olinda ao vê-lo parado à sua frente.
Valenttini Giovani di Zago. Este foi o nome com o qual apresentara-se a Olinda ainda
a bordo do vapor. E assim ela carinhosamente o chamava agora, numa rua desconhecida de
Londres.
- Olinda!
- Valenttini! Zago! Meu amor!
Naturalmente que sua irmã, Holanda, durante toda a viagem fez o que pôde para
impedir aquelas palavras. Moldou formas e feições as mais azedas e más possíveis na face
carrancuda, buscando intimidá-los, mas foi em vão. Nem Olinda nem Zago demonstravam
mais respeito ou medo de seu mau gênio e azedume. Beijavam-se agora apaixonadamente
debaixo de seu próprio nariz.
Nada mais detinha aquele amor.
Conformou-se com a presença dele em frente ao hotel, porque nada mais podia fazer.
Impotente diante dos fatos, ajudou a irmã a carregar as malas para dentro do prédio e não
pensou mais no assunto.
Zago alugou um quarto o mais próximo possível do de Olinda. Queria-a sempre por
perto, para vê-la, beijá-la e amá-la o quanto fosse permitido a dois apaixonados seres
humanos.
Não que tencionasse ficar junto dela eternamente. Não. O quarto foi alugado por
apenas quinze dias. Era, como disse ao gerente, apenas uma pousada temporária.
E esteve nesta pousada temporária por quinze dias corridos, para a alegria de Olinda.
E tristeza de Holanda.
Quinze dias corridos, não mais que isto. Não que não quisesse ficar mais. Queria. O
fato é que durante os quinze dias de pousada suas cinco mil e setecentas libras
transformaram-se rapidamente em quatro mil, depois em mil, depois em míseras cinco notas
de vinte. Se quisesse ficar mais tempo, era preciso que agisse.
Não teve alternativas, a não ser enlaçar amorosamente Olinda no décimo quinto dia e
desabafar:
- Amo-te. Amo-te. Amo-te.
Mas tal desabafo não surtiu o efeito que esperava surtir com relação à sua carteira já
quase vazia. Fazia-se necessário um desabafo mais profundo, ou porque não dizer, talvez
mesmo um apelo.
E foi o que fez assim que teve oportunidade de tê-la novamente enlaçada
amorosamente entre os braços:
- Olinda! Amo-te, mas o tempo urge...
- Urge?
- Urge.
Olinda, assumindo expressão séria, desvencilhou-se daquele aperto fogoso e deu
rédeas ao diálogo. Zago tomou então a iniciativa:
- Tu sabes bem que tenho lá o meu ofício. Posso dar-me ao luxo de ficar uma
quinzena, talvez um mês embalado em amor e ócio, mas de forma alguma posso passar mais
de um mês sem responder pelo meu dever. Tu sabes bem que deveres nunca faltam a um
conde como eu.
- Tu! Conde?
- Conde!
- Mas.. mas.. como nunca me disseste antes que eras um aristocrata? Escondeste a
verdade de mim, Zago.
- Calma, minha condessa, que explico-me.
Olinda, cruzando os braços num amuo, cobrava mesmo explicações. E Zago começou
então a explicar-se:
- Tu sabes que sou natural de Milão. Isto é fato claro. Contudo, Milão é cidade
perigosa, onde máfias reinam com facilidade se não lhe pusermos obstáculos.
- Que tens tu a ver com máfias? Es por acaso um mafioso?
- De forma alguma. Pelo contrário. Sou um agente, um policia. Na verdade, sou um
tipo diferente, uma espécie de detetive. Persigo, investigo, prendo quando posso e quando
não, delato às autoridades competentes toda espécie de mafiosos da região.
- Tu, um detetive? Que atraente!
- Ora, é mais uma profissão apenas.
- Conta-me: é arriscado? Perigoso? Aventuroso?
- Nem sempre. Tenho eu meu próprio local secreto no castelo de Ballad, um lindo e
prateado forte medieval. Do alto de suas torres, vislumbro toda a costa do Mediterrâneo.
Acompanho o ir e vir de navios, na busca de piratas e corsários. Mas meu ofício principal é
defender cantinas, cafés, restaurantes e tabernas das garras da famosa máfia de pizzas. São
terríveis! Controlam todo o contrabando de anchovas, orégano, mozarela e tomates da
região. Se os deixo a contrabandearem essas guloseimas livremente, elas dobram de preço, o
consumo de pizzas cai para um terço e metade do comércio em Milão fecha as portas. É a
bancarrota total do norte da Itália.
- Zago! Que belo ofício!
- Nem tanto. Dei cabo de muitos mafiosos grandes da redondeza de Milão, mas
minhas manobras constantes seguidas de golpes permanentes na vilania local tiveram lá seus
contratempos. Tu sabes: mafiosos são bandidos unidos e organizados. E têm lá seus truques
baixos também. De um ano para cá, mostraram descontentamento para com minha atuação e
iniciaram um trabalho de desmoralização que tem afetado profundamente minha imagem até
então limpa e séria. Rondam em Milão mentiras, falsidades, versões, intrigas e uma espécie
imunda de calúnias contra minha pessoa que muito tem-me prejudicado. Logicamente que
são calúnias alimentadas pelos próprios mafiosos descontentes, mas surtiram efeito terrível.
- E agora?
- Agora? Minha má fama espalhou-lhe por Milão de tal forma que eu, juntamente
com amigos e autoridades colaboradoras, decidimos pelo meu afastamento temporário da
cidade. Sim, um afastamento estratégico de alguns meses, de forma que se dê tempo para que
as mentiras expirem por si sós. Desta forma, decidi vir a Londres.
- Tu não vinhas cuidar de negócios, cortinas e vendas comerciais?
- Lamento ter-lhe dito tal versão. Em verdade, não podia e nem posso revelar meu
verdadeiro ofício. Pode haver mafiosos a bordo de qualquer navio inocente. Nunca se sabe.
Além do mais, só revelo a ti porque confio na sua ajuda.
- Ajuda?
- Sim, pois que preciso exercer meu ofício para poder alimentar-me e viver.
- Estou disposta, mas não sei como posso ajuda-lo.
- É simples! Basta que mantenha segredo e quando a situação convir, direi o que deve
fazer.
- Se é isso que pedes...
E então as coisas começaram a melhorar.
Apesar de que, em poucos dias, suas cinco notas de vinte houvessem se transformado
em nenhuma nota de nada, não foi difícil sobreviver, porque, de uma forma ou de outra,
sempre se era possível contar com um trocado ou outro de sua amada.
Além do mais, nem um mês se passara e era já capaz de dizer variadas palavras e
frases na língua inglesa. Aprendia mesmo o idioma com uma facilidade espantosa, o que já
era uma vantagem importante.
Neste período, Zago decidiu-se por falar pouco, brincar pouco e arriscar-se pouco.
Silenciou-se quanto ao seu passado. Comportava-se bem aos olhos tanto de Olinda quanto de
Holanda, e estas não viam inconvenientes em uma hora dar-lhe uma nota de dez, em outra em
chamá-lo para um almoço e em outra convidá-lo para um passeio.
Em pouco tempo travou relações com a criadagem do hotel. Mais um pouco e já
conversava com a vizinhança.
Não tardou para que desenvolvesse um palavreado perfeito. Era capaz de sustentar já
um diálogo e até mesmo uma longa conversa. Seu inglês era já complexo, minucioso,
estudado.
Assim munido, deu asas à comunicação.
Dois meses depois e já impunha seu estilo de vida.
Onde ia, era bem visto. Nos seus novos e convergentes encontros sociais, não havia
senhor ou senhora que não ficasse cativado pela sua desenvoltura. Criou assim um vasto
círculo de amizades e adquiriu imenso prestígio e fama. Seu nome era sempre pronunciado
vistosamente em conversações por toda parte. Era comum agora vê-lo alegre e conversante
nas mais variadas reuniões. Freqüentava, com tranqüilidade, os meios mais refinados e as
casas das famílias mais consagradas da capital inglesa.
Evidentemente que tinha seus defeitos.
Apesar das mudanças por que passara, hipocrisias eram bastante comuns nas suas
conversas. E, histórias sem fundamento também não eram raras.
Por vezes, digladiava em torno de alguma polêmica e acabava por ofender seu ouvinte
com palavras inconvenientes para a ocasião, sem levar em conta que, vez por outra soltava lá
suas pilhérias de mal gosto, mas estas eram mesmo involuntárias e inevitáveis em qualquer
local do mundo.
Contudo, esses pequenos defeitos sociais quase sempre passavam despercebidos por
todos com quem falava, de forma que não se constituíam em graves problemas.
Talvez seu maior erro naquela nova vida em Londres foi ter travado relações com um
sujeito de nome Rattini.
Este, um italiano degredado, morava já há vários anos enfurnado num dos quartos do
hotel onde se hospedavam Zago, Olinda e Holanda.
Zago, que vivia a perambular pelos corredores do prédio em busca de algum amigo ou
criado, conheceu-o, por acaso, numa ocasião qualquer.
Entrosaram-se numa longa conversa em italiano tradicional e pouco depois saiam já
pelas ruas de Londres, as quais Rattini conhecia como as próprias rugas das mãos.
Conversaram bastante sobre variados assuntos e Zago acabou por afeiçoar-se a ele.
Rattini, na verdade, era homem bastante inteligente e inspirado. Vivia exoticamente
na cidade e desenvolvia métodos insuperáveis de arranjar dinheiro sem que precisasse
trabalhar. Zago interessou-se profundamente em aprender as tais arrojadas técnicas.
Se eram maneiras boas ou más de se ganhar dinheiro, não se pode afirmar. Contudo,
ao adotá-las, Zago despertou em Rattini algum sentimento negativo: ciúme, concorrência,
inveja, talvez.
Em pouco tempo já não era mais tão bem visto por Rattini. Pelo contrário: este
procurava já prejudicá-lo, quer de uma forma, quer de outra.
Zago nada fez a favor ou contra Rattini, mas o fato é que estava a ganhar dinheiro
com sua ajuda e tinha com ele uma certa cumplicidade quase que criminosa. Já não eram
mais os instintos amistosos que os uniam. Eram os negócios.
Assim, suportavam-se de maneira firme, se bem que a contragosto.
Um dia, rompeu a parceria definitivamente. Rattini, com a ajuda de seu filho, um
rapazote, que era ao mesmo tempo um ajudante e comparsa nas suas atividades, enviou a um
jornaleco local um texto espalhafatoso. No texto, denunciava um certo Zago, como sendo
responsável por uma série de furtos e assaltos que então ocorreram na cidade semanas atrás.
O texto surtiu efeito negativo tal que logo após lê-lo, Olinda chamou Zago para uma
justificativa. Para este, foi a gota d'água que faltava para transbordar sua paciência. Chamou
então Rattini e família para um acerto de contas pessoais e deu um basta definitivo a tal
relacionamento.
Quanto à Olinda e seu inquérito, respondeu-lhe:
- Vê como são esses mafiosos? Estão por toda parte. Já sabem que estou em Londres e
atacam-me.
Olinda, compreensiva, pensou um pouco na situação e disse:
- Meu tio Shelton é general aposentado. Quem sabe se não consigo dele uma
indicação sua junto às autoridades policiais inglesas? Talvez tu corras perigo andando por
Londres sem armas ou credenciais...
A idéia foi tão boa que Zago imediatamente felicitou Olinda com um sonoro beijo:
- Amor! Podes mesmo falar com ele?
- Falo.
- Então estamos combinados! Vou agora mesmo escrever uma carta a Milão
requerendo minha credencial...
Olinda achou também a idéia da carta boa e também imediatamente felicitou Zago
com um beijo.
Assim combinados, Olinda sentiu-se mais sossegada e confiante quanto ao seu amor,
mas Zago sentiu-se bastante preocupado, porque não era uma tarefa muito fácil encontrar um
bom falsificador de documentos em Londres sem a ajuda de Rattini. E precisaria mesmo de
um, porque não haveria outro método no mundo capaz de lhe pôr nas mãos uma credencial de
polícia capaz de impressionar o tal tio Shelton.
Contudo, não desanimou.
Passou os dias seguintes a percorrer alguns locais pouco recomendáveis. Visitou o
cais, algumas tabernas freqüentadas por vagabundos e alguns becos habitados por mendigos
e assaltantes, de modo que não foi difícil conseguir o endereço de um falsificador barateiro e
eficiente.
Uma semana depois e chegava em suas mãos um envelope com uma bela e perfeita
credencial em seu nome, onde se lia expressamente em letras douradas: detetive.
Fez questão de mostrá-la a Olinda e esta, emocionada, marcou uma reunião com o tio
Shelton já para o dia seguinte.
Zago, ciente da importância do encontro, passou o resto do dia a cuidar da aparência.
Fez a barba, que já estava despontando, e cuidou do cabelo. Mandou um conjunto de roupas
para serem passadas e engomadas pela criadagem do hotel e lixou as unhas das mãos e dos
pés.
No dia seguinte, tomaram uma carruagem e foram passar a tarde na casa do tio
Shelton.
O velho morava numa bela casa de dois pavimentos. Era uma casa branca com telhas
de ardósia e um imenso jardim com pinheiros e canteiros. Um muro baixo rodeava tudo, e na
parte que dava para a rua, um portão de ferro bem trabalhado servia de entrada para o interior
do terreno.
Foram recebidos no tal portão por um criado, que nada mais era que um soldado do
exército, porque o velho Shelton ainda fazia jus às regalias de sua patente, embora que não
mais atuasse nos quartéis e nas guerras devido à idade.
O velho, sentado num grande divã, recebeu-os razoavelmente bem. O soldado serviu
uma minúscula xícara de chá e dois sequilhos duros para cada um dos visitantes e Olinda,
depois de muitos rodeios, abordou de vez o assunto principal.
O velho, depois de coçar a bochecha, murcha qual a bochecha de um cão, enumerou
dois ou três comissários que poderiam ser úteis no caso.
E foi só.
Zago, esperançoso, tratou de memorizar os nomes dos tais comissários e assim que
se despediu do velho, despediu-se também de Olinda e foi direto à delegacia mais próxima.

A VALISE DE COURO

Não lhe foi difícil encontrar uma delegacia de polícia dentre as muitas que haviam na
vasta e segura Londres. Uma pergunta aqui, uma placa ali, um monólito acolá, mais uma
quadra ou duas adiante e pronto, já estava defronte uma delas.
Também não lhe foi difícil lembrar os nomes dos dois ou três comissários citados pelo
velho Shelton. Perguntou pelos tais comissários a um escrivão e a um policial e logo já sabia
onde encontrar um tal Mennerfield.
Bairro tal, primeira rua para quem vem do castelo tal, dobra-se à esquerda na terceira
quadra, caminha-se um quarto de milha e quando na primeira curva surgir um casarão cinza
com um belo jardim do lado direito da rua, na altura do numero tal, é só contar três casas
adiante e lá está a delegacia do tal Mennerfield, com uma escada ladeada de colunas
vermelhas e um brasão sobre o portal de entrada. Sem erro.
Achou o tal Mennerfield no dia seguinte, sentado numa cadeira por detrás de uma
mesa a rabiscar um jornal com uma caneta de tinta vermelha.
- Comissário Mennerfield?
- O próprio. Qual o caso? Crimes? Assaltos? Subornos? Dívidas incobráveis?
Escrivão, anote cada queixa, cada palavra, cada suspiro desse cidadão. Poderá ser útil, caso
os autos de um provável processo o enquadrem como vítima ou réu.
E um escrivão, um homem magro de cabelos cortados à escovinha e óculos de aros
dourados, ajeitou-se numa cadeira velha e ficou a postos, com os dedos hábeis e finos prontos
para a ação qual um franco atirador.
Zago, meio intranqüilo, iniciou:
- Não há casos, mesmo porque um caso é o que procuro. Sou detetive, e venho,
recomendado pelo excelente general Shelton, oferecer meus serviços à policia, à força
policial desta cidade. Veja, examine minhas credenciais.
E atirou sua credencial falsificada sobre a mesa do comissário.
O escrivão, por sua vez, anotou prontamente tudo o que foi dito com as teclas de seu
moderno maquinismo de escrever, para desgosto de Zago.
Mennerfield, um tanto que surpreso, tomou a credencial na mão, examinou-a com
algum interesse e indagou:
- General Shelton? Muito correto. Mas, e tu, em que atuas?
- Sou agente especializado em máfias. Sou como a gripe. Pareço inofensivo com meus
modos brandos e solenes, mas infiltro-me entre eles e corroo-lhes as forças dia após dia, até
que sucumbem. Poucos escapam das grades.
- Máfia? E já conhece Londres e seus tipos especiais? Já lidou com gente criminosa
daqui?
- Como não? Se as máfias italianas e inglesas são como irmãs! Mandei alguns
ingleses para os tribunais e sei de italianos que apodrecem em masmorras londrinas. Como
não haveria de conhecer bandidos tão comuns?
- Bem! Mas há um porém: tu não és um inglês, de forma que não tem poder legal para
prender ingleses na própria Inglaterra. Podes, quando muito, servir como espião, delator e
detetive, mas não tens poder de policia por aqui.
- De fato. E um entrave legal rigoroso. Contudo, creio ser possível manter-me
vigilante, hora perseguindo uma quadrilha, hora descobrindo um esconderijo de um gatuno,
ou mesmo participando de alguns grupelhos deles. Então, faço o meu relatório a um policial
inglês, e expede-se o mandado de prisão sem maiores problemas. Encher-lhe-ei as celas com
todas as espécies de gente vilã.
- Parece-me bem! Escrivão, cancele o laudo que estás a escrevinhar com esta
máquina. Não há porque iniciar um auto processual, nem mesmo uma mera ocorrência,
contra ou a favor deste homem cívico.
O escrivão, movimentando então uma alavanca no seu equipamento de trabalho, fez
saltar fora a folha de papel repleta de letras perfeitas, tomou-a entre os dedos finos, amassou-
a e jogou-a num cesto de lixo logo a um canto.
Zago, soltando um suspiro de alívio em mente, atalhou:
- Bem então. Estou já pronto e disposto a ação. Dou notícias de meu trabalho assim
que tiver em mãos provas e pistas de quilate.
Tomando de volta a credencial, despediu-se do comissário com um bom e vigoroso
aperto de mão, do escrivão com um sorriso amarelo, e retirou-se da sala.
Na rua, congratulou-se a si mesmo com uma boa e quente xícara de café. Felicitou-se:
era agora um homem da lei!
E como tal, começou a agir.
Seus dias seguintes foram frenéticos e recheados de atividades e afazeres do ramo.
Buscando pistas e provas, pôs-se a rodar Londres dia e noite. Duas vezes por dia
tomava bondes que o levavam de um extremo a outro da ampla cidade.
Agia com eficiência. Em toda parte, obtinha sucessos. Não que conseguisse provas,
pistas, indícios ou rumo para suas investigações. Estes eram detalhes para os quais em
verdade dava pouca ou nenhuma importância. Buscava-os esporádica e ocasionalmente
quando lhe convinha. Ainda assim, vez por outra, por mero acaso, descobria o nome de um
vigarista ou o endereço de um traficante barato. Passava-os então a um guarda sob a
jurisdição de Mennerfield e dava-se por satisfeito
Em verdade, seu trabalho maior era de outra natureza.
Gostava mesmo era de desfrutar de seu novo status e o desfrutava mesmo de forma
bastante intensa. No seu ir e vir por Londres, seu alvo era outro: bares, bufês, botequins,
boates, restaurantes e cantinas. Gostava, sim, dos locais onde podia, mediante uma mera
apresentação de credenciais, comer, beber e divertir-se gratuitamente, e tais locais eram os
ideais, porque neles era assim: mostrava-se uma credencial, identificava-se como um homem
da lei e fartava-se por conta da casa, gratuita e livremente.
Comia, bebia, divertia-se e, por vezes, juntava algum dinheiro.
Se resolvia visitar um restaurante qualquer, era simples. Sentava-se no fundo, junto a
um balcão ou próximo a um garçom e ia logo dizendo:
- Belo estabelecimento! Mande cá um cafezinho comum, porque estou a trabalho e
nem posso dar-me ao luxo de pagar um repasto leve. Veja o senhor: um pobre investigador a
capturar traficantes de vinho...
E tirava do bolso da casaca o documento forjado, o qual exibia com orgulho e gala,
para a admiração plena de seu ouvinte.
Por vezes, o ouvinte simplesmente dava-lhe as costas e ia tratar de um freguês
qualquer, sem maiores atenções, mas não era raro que alguém, curioso, indagasse:
- Mesmo! De fato, o vinho tem mesmo encarecido ultimamente.
Era o suficiente. Zago emendava logo:
- Pudera! E não sei eu dos fatos? Veja: basta que me dê o nome de seu fornecedor e
sou capaz de farejar-lhe os rastros qual um cão. Mas veja também: não tenho o dinheiro para
lhe pagar este café, e estou a serviço deste as cinco da manhã sem comer sequer um simples
pão seco. Como queres que os persiga e os prenda de estômago vazio? Basta que fujam em
carreira e logo os perco de vista. Como pode um polícia como eu, fraco e magro, faminto,
competir com vigaristas bem nutridos e sadios? Como vê, a tendência é comprar vinhos cada
dia mais caros e fracos para este rico próspero comércio. Mas mudemos de assunto. Falemos
de comida. Dê-me cá seu cardápio, que quero apreciar seus pratos, ao menos que
teoricamente. Mas olhem: que belas massas! Que delícias essas espigas de milho! Tão bem
tostadas! E banhadas em manteiga pura! Ah, chega, que o estômago rói-me por dentro de
fome...
Ditas tais lamúrias, nenhuma pessoa de bom coração poderia deixar de compadecer-se
de sua miséria.
Quando tais lamúrias surtiam efeito e a conversa descambava para o rumo criminal,
também era comum que seu ouvinte ficasse admirado diante de seu gênio, seu caráter e sua
lógica. Planos e táticas eram postos à mostra por meio de sedutoras e bem arranjadas idéias.
Olinda, Gaspar ou um outro conhecido qualquer que o ouvisse a tecer seus argumentos
periciais decerto que não acreditaria nos próprios ouvidos. Parecia, de fato, uma outra espécie
de homem.
Contudo, não eram suas palavras as únicas a trabalhar em seu favor. Havia, de fato,
maus elementos na sociedade londrina e, quer constituíssem uma máfia organizada, quer não,
eram bandidos que agiam por toda parte e não viam obstáculos em roubar um objeto aqui,
provocar uma arruaça ali e causar outras espécies de prejuízos acolá, de forma que não era
difícil a Zago conquistar simpatia para sua suposta causa. Era comum ouvir queixas de
boêmios, mercadores holandeses, garçons, e até mesmo de mulheres, quer fossem senhoras
silenciosas ou meretrizes de alta, média ou baixa classe.
Neste mundo de relações, seu viver era rodeado de pessoas aviltadas e humilhadas
pelo crime, vítimas de batedores de carteiras, assassinos, traficantes, vigaristas e mercenários.
Havia mesmo constantes queixas nas quais pessoas de bom coração acautelavam-no a
respeito da existência de grupos terríveis, formados por malévolos e desconhecidos
navegantes, piratas talvez, que não impunham limites a seus saques e roubos, todos de grande
monta, que impunham às favorecidas cantinas da cidade.
Zago, diante de tais queixas, agia com perfeição cênica digna de um artista. Parecia,
aos olhos leigos, que era mesmo um personagem dotado de profundas verdades no ramo da
criminologia.
Desta forma, recebia sua recompensa.
Brilhante como era, constantemente recebia alguma soma em dinheiro, dinheiro este
que, afirmava, seria depositado em fundos de reserva contra o crime, mas os únicos fundos os
quais toda moeda, nota ou cheque recebidos verdadeiramente conheciam em suas mãos eram
os dos muitos bolsos de sua vasta casaca.
Em verdade, o dinheiro lhe vinha fácil. Bastava-lhe estar diante de um ouvinte para
que melancolicamente começasse sua ladainha:
- Estou pleiteando mais verbas junto às autoridades locais há meses, mas vejo que é
em vão. Mas não é obstáculo: persigo esses bandidos com minhas próprias verbas. Tenho
apenas algumas humildes moedinhas, mas...
Melodramático, ousava tirar de um dos bolsos meia dúzia de moedas miúdas, para
mostrar sua penúria. Diante de alguns ouvintes mais abastados, quase chorava, injuriado.
O resultado desses atos perfeitos eram dezenas e mais dezenas de cidadãos
comovidos, a maldizerem o desleixo por parte das autoridades e a verter lágrimas verdadeiras
por conta de tão dedicado homem da lei, a dispor de seu próprio sustento em prol de uma
Londres mais segura e uma Inglaterra mais civilizada. Tanto maldiziam e tanto se
compadeciam de sua situação que resolviam bancar por suas próprias contas suas atividades
de benfeitor.
E, conforme suas próprias palavras, essas atividades mais que mereciam o apoio
público: eram ações punitivas e libertadoras!
Diante de uma oferta de colaboração, era comum que ouvisse tudo o que o
contribuinte tinha a dizer, para, em seguida, concordar com tudo o que foi dito e então aceitar
a colaboração e o dinheiro sem maiores problemas. Contudo, sempre dizia:
- Aceito a mão que me oferece. Não posso, contudo, deixar de alertá-lo: é uma tarefa
árdua. Delicadíssima. Naturalmente que, por um conjunto de fatores turbulentos, pode não
ser agradavelmente concluída. Talvez eu morra...
Olhares de espanto, sorrisos amarelos e mesmo prantos dolorosos não eram raros em
momentos como este, diante de declarações tão comoventes. Mas Zago, conformado com seu
terrível destino, limitava-se a polir tranqüila e educadamente a lente de seu monóculo, um
belo monóculo dourado, que não aumentava nem diminuía o tamanho das coisas, mas que era
usado mesmo assim, porque lhe dava um olhar mais honesto e jovial. Polia-o, erguia-o acima
da cabeça e, tentando decifrar algo através dele contra a luz, dizia:
- Tudo posso com aquele que me fortalece, ou ainda: eis aqui um que não tem crime
algum. Livro de João, capítulo dezenove, versículo quatro. Pertenço a uma casta, a uma
ordem de pessoas que é escrava de sua ocupação, ou porque melhor não dizer, são escravas
de suas ocupações. Que se coloquem os loucos nos hospícios, que coloco eu os vadios nos
cativeiros. Digo que aceito...
Neste momento, parava, como que sufocado em emoção, para, em seguida, estufar os
pulmões e erguer os braços no ar, em remate:
- Aceito sem restrições essa valiosa quantia como sendo parte de um conjunto de
esforços para se atingir fim tão imperioso e maior. Agradeço, mas aviso-lhe: boca fechada! É
atualmente desnecessário o ato de falar mais sobre este assunto. É apenas um caso
excepcional, e o sigilo é fundamental. Mas acompanhe as manchetes! Leia os jornais
criminais! Verás então tua contribuição rendendo formidáveis juros e rendimentos!
E logo erguia-se de seu assento, agradecia a colaboração rapidamente cinco ou seis
vezes seguidas, acenava um adeus a todos com um sorriso meigo, tomava o rumo da fuga
com os braços ao auto, mão esquerda fechada, um par de dedos da mão direita entreabertos
num grande v, dizendo:
- Vitória! Predisposição e ânimo para a gloriosa vitória do bem contra o mal, amigos!
E partia.
Partia do local para nunca mais voltar.
Nada de satisfações, nem devoluções, nem cobranças, nem aborrecimentos.
Nada como um longo sumiço para se ter a imagem esquecida para sempre na mente
de possíveis criadores de problemas. Mas um sumiço não era tudo, e nem suficiente. Era
necessário muita atenção e cuidado para com o acaso. Há mentes que não esquecem uma
imagem assim tão facilmente.
E assim, mantinha-se alerta.
Nada temia quanto às conseqüências de seus atos. Nem mesmo recriminava-se quanto
a sê-los justos ou não. Tinha, afinal, a consciência tranqüila, porque não matara e nada
roubara de ninguém. Conforme costumava pensar, nada fizera além de aceitar o que lhe foi
oferecido, o que era justo e acertado para a ocasião. Talvez qualquer outra pessoa pudesse
agir da forma como agia diante das circunstâncias, pensava consigo próprio.
Talvez.
Mas não lhe importava como agiria outra pessoa em seu lugar diante das
circunstâncias. O que lhe importava era o viver bem. A qualquer custo e risco.
E assim pensando, dormia aliviado.
Alguns meses dormindo aliviado e acabou por comprar uma bela valise de couro.
Encheu-a com todo o dinheiro ganho até pela metade, e a metade restante, então
vazia, foi enchida com mais dinheiro logo alguns meses depois.
Cheia a valise, era já hora para uma pausa para as devidas reflexões.
Assim julgou no seu entender, e assim o fez.

A DAMA

Zago agora era quase um milionário.


Ciente disto, acreditava não serem mais necessárias suas constantes visitas ao
comércio em busca de oportunidades. Tinha já o bastante. Além do mais, suas delicadas
conversas e suas românticas amizades mostravam-se cada dia mais tediosas e burocráticas.
Estava farto delas.
Em verdade, desejava novos relacionamentos, novas amizades, lugares selecionados,
cultura e classe. Londres era rica em gente de elite. Por que não fazer parte desta elite?
Afinal, eram pessoas mais que decentes. Invejava-as. Ansiava por pertencer a um ramo
estreito e digno. Aspirava ter indivíduos honrados e sábios como companhia para suas horas
de lazer. Estava já farto de conviver ao lado do homem médio, sem grandes interesses
espirituais.
Gostava agora dos que praticavam o bem viver, gente que dedicava a vida apenas à
busca da satisfação de suas necessidades de bem estar e conforto. Por que não?
Bem estar e conforto: esses eram interesses verdadeiramente expressivos na vida.
Nada como gastar o tempo na leitura de escritores fundamentais. Nada como expandir
seus estudos. Expansão mental, intelectual propriamente dita, não no sentido numérico, nem
métrico ou quantitativo. Não. Expansão no sentido de uma proliferação qualitativa do saber,
porque com relação à quantidade, era já vasto o seu conhecimento acerca da vida, das coisas
e, principalmente, da alma humana verdadeira.
Sonhava com a sabedoria e a genialidade plenas.
Mas não em Londres.
Nada mais era possível ou viável na grande Londres, depois de tudo o que viu e viveu
na rica cidade, mesmo porque era, antes de tudo, um local de grandessíssimo risco para o seu
conforto e sossego.
Sim, o dinheiro podia muito, mas não tudo. Tinha-o o bastante, mas não o suficiente
para comprar o silêncio de todos os que, de uma forma ou de outra, sentiram-se prejudicados
pelos atos de sua pessoa. Na realidade, se tivesse de pagar uma libra para cada alma avessa a
sua pessoa em toda a Londres, gastaria um caminhão de notas e ainda assim ficaria devendo,
porque não eram poucos os que lhe queriam a cabeça.
Seria uma tarefa simples esconder-se por um ano ou dois dentro da própria Londres,
na espera do esquecimento total, não fosse um detalhe: o comissário Mennerfield.
Sim. Mennerfield era um dos que sentiam-se enganados por sua pessoa.
Sim. Mennerfield descobrira a origem de sua vistosa credencial. Mennerfield, devido
a inúmeras queixas, descobrira a natureza de suas ações. E descobrira os fundos aos quais
todo dinheiro ofertado era destinado.
Mennerfield descobrira quase tudo. Faltava agora apenas descobrir seu paradeiro, para
que o longo braço da lei viesse a pesar sobre seu ombro e pôr um fim às suas ambições
intelectuais.
E Mennerfield não tardaria em pôr-lhe as mãos.
Como haveria de gostar de uma cidade habitada por gente tão sisuda e incômoda
como este indigno Mennerfield? Não. Jamais poderia gostar de uma cidade com gente desta
categoria. Era preciso achar um lugar com gente melhor. Gente mais amistosa. Gente
acolhedora. Era mesmo preciso achar um lugar qualquer. Qualquer cidade. O mais longe
possível. O mais rápido possível.
Decidido a partir de vez, não esperou um minuto a mais. Tomou no braço sua vasta
casaca e, de posse de sua valise repleta de libras esterlinas genuínas, rumou para o porto. Era
já a hora de uma merecida pausa para reflexões, ou porque não dizer, era hora já de uma
rápida e oportuna fuga estratégica. E foi mesmo uma fuga bastante oportuna e rápida.
Oportuna, porque uma hora depois de ter deixado seu quarto no hotel, Mennerfield e mais
dois robustos policiais batiam-lhe à porta com um rigoroso mandado de prisão contra sua
pessoa. Escapara por pura sorte.
Fuga também rápida, porque mal chegou ao porto e logo embarcou num grande e
velho navio, o primeiro que lhe veio à vista, porque era o único pronto para zarpar, no qual
embarcou sem maiores detalhes ou entraves. Fuga tão rápida que mostrou-se mesmo
desesperada: sequer se deu ao trabalho de perguntar a um responsável qualquer o destino do
navio. Embarcou a esmo, confiante da mesma forma que se confia quando, num cassino, se
aposta a última moeda numa banca de roleta.
Embarcou decididamente, deixando para traz o porto, a rainha Vitória, o Tâmisa, a
vasta Londres, a também vasta Inglaterra, Olinda, Gaspar, Rattini, o tio Shelton, Holanda,
enfim, tudo e todos, e em especial, seu grande problema: Mennerfield e seu horrendo
mandado de prisão. Fugiu, por assim dizer, rápida, oportuna e definitivamente em busca de
liberdade.
- Para onde vamos? - perguntou a um marujo qualquer assim que teve tempo para
preocupar-se com seu destino.
O marujo, com rispidez, respondeu:
- Para a América.
Foi o suficiente para o momento.
De posse desta vaga informação, deu-se por satisfeito. Sentia-se agora mais soberano
de si mesmo.
Acomodando-se a um canto do velho navio, deu-se conta de seu estado de ânimo: não
sentia-se nem bem nem mal. Contudo, sentia-se livre. Sentia-se livre, forte e poderoso, de
forma que comparou-se realmente a um rei, tamanha era sua segurança diante das rédeas de
seu destino.
Para a América!
Animado, estabeleceu para si mesmo que seria, de hora em diante, um verdadeiro
cidadão americano.
Ainda sentindo-se rico em ânimo, estabeleceu também uma série de regras pessoais de
conduta. Traçou na mente rapidamente cinco ou seis pequenas regras éticas para se evitar
novos problemas. Regras estimulantes. Regras que, bem seguidas, fariam de cada experiência
uma vitória. E de que mais precisaria um homem, senão de sucessivas experiências de vida
reinfundidas em função de ardorosas vitórias?
Mas uma hora mar adentro, e já não era mais capaz de lembrar-se de uma regra
sequer, das muitas que traçou para sua própria pessoa. Em verdade, da mesma forma que as
tecia, as esquecia. Traçar regras em momentos de aflição era para Zago, assim como o é para
a maioria dos homens em dificuldades, um mero exercício mental na busca de desculpar-se
das causas da própria aflição, tentando corrigir-se o mais prontamente possível, como se
assim fosse possível. Mas as pessoas não mudam de um dia para outro, assim como o vento
não desbasta uma montanha de um ano para outro. Regras em momentos de aflição eram para
Zago, e é para a maioria dos cidadãos, o mesmo que nada. Não surtiam e nunca surtem o
efeito para as quais são criadas. Morrem ainda quentes no próprio berço.
Uma hora mais, e já não refletia sobre sua situação. Tinha agora a atenção voltada
para o mundo real, para a realidade daquele navio que o levava no bojo, para a dureza da
fome que começava a lhe maltratar o estômago.
Pôs-se em ação, como era de sua natureza e temperamento.
- A permanência neste navio está insustentável. Todavia, digo que são insuperáveis as
iguarias de bordo, mas nem todas. Insuperáveis basicamente no que se refere às lagostas
muito bem temperadas. O restante é apenas digerível. Quanto às lagostas em particular,
acrescento que doravante a intemperança deste diabólico Oceano Atlântico me provoque
ondas de desconforto nauseantes, nada tenho a reclamar, pois sinto-me dopado, subjugado
pelos sabores diversos e excitantes desses crustáceos bem frigidos. Agora, meu ladino Pedro,
preste atenção: vá ladeando este convés e labute para que aquela linda dama venha fazer
presença comigo aqui neste recanto. É o que basta para que o prazer seja total.
Era a hora do almoço em alto mar.
Zago, amistoso como sempre fora, travara já relações com um marujo espanhol de
nome Pedro, um sórdido, sujo e desalinhado exemplar da raça humana. No alto de seus quase
dois metros de altura, cabeça raspada e encaroçada, Pedro era de uma feiúra ímpar. Além do
mais, tinha uma das duas longas e magras pernas afetada por um defeito tal que o fazia
coxear de forma a dar sempre passos truncados e imperfeitos. Era servil, acanhado, inepto,
nulo e incapaz de qualquer queixa ou protesto contra abusos dos mais variados tamanhos
contra sua humilde pessoa. Era quase um escravo naquele navio.
Zago, dono de benevolência para com todo ser vivente, mostrou-se estranhamente
disposto a tratá-lo de forma desumana e inclemente. Talvez o próprio aspecto áspero do
pobre homem contribuísse para tal desumanidade, porque não era comum que Zago assim
agisse. Contudo, não se podia dizer que fosse culpa apenas do pobre diabo. Era possível estar
em ação alguma espécie de mudança de temperamento em Zago. O destino, a sorte e as
constantes mudanças de ambiente poderiam estar agindo como uma poderosa têmpera a
moldar seu caráter, tornando-o assim mais emotivo e ríspido.
Tendo-o mandado em busca da dama, e vendo-o ainda ali, inerte e quieto sem mover
um passo rumo a ela, Zago não pode deixar de replicar:
- O que esperas? Ou tens fé que ela virá até ti de bom coração? Ande! Vá até ela,
antes que desapareça.
Pedro, então, sem saída, partiu em busca da dama. Contudo, enquanto que caminhava
sinuosamente, agarrando aqui e ali, esforçando-se contra as forças incansáveis das ondas que
rebentavam furiosamente junto ao casco tanto a bombordo quanto a estibordo, a dama, talvez
enjoada, adentrou-se, aflita, por uma escotilha qualquer e desapareceu. Pedro a seguiu até
onde foi capaz, mas ela, refugiando-se qual uma ágil toupeira, acabou por sumir, enfurnando-
se por entre um labirinto de nichos e alçapões subterrâneos ao convés.
Cansado da perseguição, resolveu desistir. Primeiro, porque temia importuná-la com
um convite tão fora de ocasião. Segundo, porque mesmo que quisesse, sabia que jamais
conseguiria acompanhá-la em ritmo tão acentuado. Coxeando como coxeava, perderia uma
corrida até para uma criança de cinco anos. Além do mais, suas articulações, devido à fadiga
e esforço, doíam por demais.
Resolveu desistir da busca e retornar para junto de Zago. Contudo, no caminho de
volta, deu-se conta de sua falha e transtornou-se. Temeu ser duramente censurado por aquele
homem tão rude e duro para com sua pessoa.
Chegando, e estando tal como partira, sem a dama, ficou claro a Zago que Pedro
falhara. Contestou então:
- Patético! Deixaste que ela partisse em fuga? Mas eu não avisei quanto a isso? Pois
veja como és negligente! Sumiu debaixo de sua venta. Frouxo!
Pedro, ofendido, resmungou algo, decerto que um palavrão, mas Zago prosseguiu:
- Não reclame sentimentos por isso. Bondoso que sou, dou-lhe uma segunda chance:
vá até lá novamente e conclua a tarefa, desta vez com sucesso. Ande!
Pedro partiu novamente no encalço da dama desconhecida, embora que contrariado,
enquanto que Zago, até então carrancudo, serenou-se na sua fúria momentânea e, assumindo
fisionomia serena, acenou para um passageiro aqui, brincou com uma criança ali e sorriu para
um marinheiro acolá. Logo, tagarelava palavras chulas, desafiando para um diálogo um audaz
papagaio de bordo empoleirado num cordame próximo. Um minuto mais e Pedro retornou de
sua missão, novamente infrutífera.
Zago mal o esperou chegar:
- Não me venha com justificativas, pretextos ou histórias evasivas. Desobediente! E
faz ares de inocente! Isso não posso eu mais aturar, Pedro. Examino-o e só vejo mentiras em
ti, em teu palavreado e em tuas maneiras. Isso me aborrece. Se não tem capacidade para
cumprir as missões mais singelas, então desaprovo-o.
Pedro, rebaixado no seu brio, proferiu um outro palavrão.
Zago, perdendo o que lhe restava de compostura, deu-lhe o troco:
- Ah! E, Deus Poderoso, ainda xingas-me! Pois saibas que tu não passas de um
espanhol de um nada! Rato d'água! Seu... seu... mendrugo!
Pedro fez um gesto intimidativo em direção a Zago, mas este, sem demonstrar medo,
conclamou:
- Suma de minha frente! Exijo que partas imediatamente de minhas vistas. Estou a
ponto de perder a razão, e se a perco, puxo imediatamente minha garrucha e dou cabo de ti
agora mesmo. Ande! Desapareça!
Pedro, talvez temendo mesmo um disparo ou uma bala, saiu troteando apressadamente
rumo a um local mais afastado e seguro. Zago, ainda furioso, rugiu:
- Mendrugo!
Mas foi tudo.
As horas passadas ao sabor do constante ondular do barco fê-lo mais calmo e
sossegado.
E assim permaneceu até a hora em que pôs-se à mesa para o jantar.
Durante o período em que se manteve entretido com talheres e repastos, deu-se conta
da presença da desconhecida dama no refeitório do navio. Com Pedro ou sem Pedro, trataria
de conhecê-la.
Terminado o jantar, incumbiu-se a si próprio da tarefa de localizar e contatar a tal
inacessível mulher. Assim pensando, permaneceu por um tempo mais nas redondezas do
refeitório, porque era comum ver mulheres à volta, a gozar a digestão das refeições e
sobremesas.
Rondou pelas redondezas por alguns minutos, até que, feliz, localizou-a.
Estava ela prostrada, serena, junto a um barril de rum. Abanava-se languidamente
com uma grande pena, possivelmente uma pluma de peru.
Examinou-a com atenção.
Não se podia dizer que fosse uma mulher bela. Aliás, comparada então com Olinda,
era um nada.
Tinha já o canto dos olhos rugosos e tristes da idade, que Zago orçou por volta de
trinta e sete, trinta e oito anos, se não mais.
Seus cabelos eram claros, secos, e irisavam-se rumo ao chão até chegarem à altura dos
seios, que, por sinal, não eram mais tão firmes e pontiagudos como provavelmente o foram a
dez, doze anos atrás. Contudo, eram generosos o bastante para despertar cobiça num local tão
ermo como um Oceano Atlântico.
Usava um vestido cor de palha bastante decotado e as mangas iam até um pouco
acima dos pulsos. A barra chegava aos pés, como era de se esperar de um vestido para uma
mulher que não fosse de um cabaré. Algumas rendas na volta do decote e nas pontas das
mangas davam-lhe um ar natural e puro. Mas era só.
Velha, magra em demasia, não era uma mulher que despertasse atenção em um salão,
e a bem da verdade, em local algum, mas o fato era que um navio não é um salão, e uma
mulher é sempre uma mulher, quer magra, quer velha ou quer gasta pelo tempo. Para Zago,
não haveria de existir naquele momento coisa mais deliciosa e cara no universo e a seu ver,
era mister não desperdiçar as chances que o destino lhe dava.
Não restavam dúvidas. Aquela era a mais abençoada das horas. Era o momento ideal.
Bastava agora apenas fazer se aperceber.
Aproximando-se, desabotoou vulgarmente os botões da casaca, dirigiu-lhe um sorriso
meio forçado e murmurou:
- Como faz calor! Quisera eu poder sorver um gole desse rum gelado ou abanar-me
com essa pluma maravilhosa, que, tenho certeza, vem da calda de uma bela ave, talvez um
pavão, um avestruz decerto. Invejo-a.
A mulher, surpresa, esbugalhou os olhos.
Zago, apaziguando-a, continuou:
- Com vossa licença! Sou Oliver Zago, seu criado e amigo. Que faz aqui uma senhora
tão solitária e desacompanhada? Ah! Decerto que estás a fazer um exame interior acerca das
coisas, a ponderar sobre a vida e a existência. Mas logo cá, neste displicente bombordo? E
num horário tão medonho?
O sol escondera-se horas atrás. O escuro reinava.
A dama, assumindo aspecto menos assustadiço, manifestou-se então:
- Estou fatigada. Estou impaciente. Que viagem entediante e interminável!
Sua voz era estranhamente ordinária, e seu palavreado, vulgar. Além do mais,
percebeu Zago um aroma levemente inebriante.
Estava embriagada.
Sonhador, Zago pôde concluir com firmeza uma opinião particular: era uma mulher
madura e solteirona, não havia dúvidas.
Animou-se a confidenciar-lhe:
- Pois compartilho contigo desta demora e deste tédio. Não que viajar não seja uma
boa coisa, mas veja: viajar solitário é o mesmo que se pôr dentro de uma cela escura e
observar da janela as pessoas a gozar a vida do lado de fora. Mas um primeiro contato
contigo e já me sinto bem melhor em satisfação e ânimo. Talvez sintas o mesmo...
A dama deu um sorriso frouxo, mas era um sorriso que tanto poderia significar
assentimento às palavras de Zago quanto uma alegria súbita provocada pelo calor do álcool.
Contudo, foi o suficiente para Zago prosseguir:
- Venho de Londres. Tive sérios problemas por lá. Perseguições políticas, sabe? Veja:
imagine-se sendo perseguida por uma dúzia de policiais corruptos capazes das maiores
barbáries para conseguirem seus intentos malévolos e imagine-se ainda sendo perseguida por
uma dúzia de assassinos dispostos a lhe enfiarem uma adaga pelas costas numa rua qualquer
para silenciá-la das muitas coisas que sabe a respeito de suas atividades criminosas e percebes
logo que se está em apuros. O que farias? Decerto que fugiria, por mais corajosa que fosse, e
por mais boas que fossem suas intenções e seu desejo de justiça e punição. Sei como se
sentiria. Mas imagine-se a fugir para uma terra distante em busca de salvação e deixar para
traz todo um mundo de amor e compreensão ao lado de uma pessoa amada, cujos carinhos
são inigualáveis e em cujos seios palpita um coração gigantesco repleto de planos e sonhos de
uma vida em comum com a pessoa amada, um lar doce e acolhedor e uma carreira de
crianças gordas e felizes? Percebes então como reina a amargura e a dor no âmago de minha
pessoa. Que pensas? Sei que tens pena de um pobre homem como eu, mas e tu? Que sonhos e
pesadelos carregas no bojo interior de seu doce e jovem coração, para ter o semblante tão
carregado de desilusão e tristeza? Estou eu também disposto a ouvir agora mesmo, neste
mesmo instante, tudo o que tens a dizer e desabafar e até agora não foi capaz, por falta de um
ouvido amigo. Digas!
Em resposta, a mulher limitou-se a bocejar, entediada.
Um bocejo, quando oportunamente arquitetado, pode mostrar-se mais inclemente que
a mais dura das palavras.
Para um homem de sensibilidade, aquele bocejo era o bastante para encerrar qualquer
tentativa de contato mais profundo e amistoso.
Não para Zago.
Examinando-a com olhos profundos e atentos, buscou um indício, um movimento, um
remexer qualquer que lhe servisse de estímulo e prova para prosseguir em rumo certo na
agora difícil empreitada de cativá-la para um diálogo.
Cravou-lhe a vista com intensidade.
A dama, insensível, volvia seu par de olhos da esquerda à direita, indiferente. Era um
mau indício, decerto, mas Zago viu quando eles ficharam-se em seu rumo de modo
insinuante e misterioso. E viu também quando a boca, seguindo os olhos, moldou-se num
sorriso radiante e largo.
Um palpitar, talvez mesmo um estrondar no interior do peito foi a resposta de seu
coração para aqueles olhos e aquele sorriso maravilhosos. Enfim, pensou, a insensibilidade
aparente caiu por terra, derrubada pela força da carência e do desejo.
Antes, porém, que tivesse sequer tempo para piscar, o sorriso naqueles lábios
continuaram, mas os olhos, até então firmes, passaram a mover-se em compasso,
acompanhando um algo qualquer a mexer-se rapidamente em local bastante próximo. Os
olhos moveram-se, enquanto que o sorriso aumentou em largura e gostosura.
Virou-se então, buscando a razão para tanta felicidade. E viu.
De fato, aquele sorriso não era para a sua pessoa, nem a insensibilidade da dama caíra
por terra por conta de suas doces palavras. A razão do sorriso era, em verdade, um forte,
moreno e bonito marujo que vinha mais além, a caminhar rumo a eles num andar lento,
gingado e provocador.
E que entusiasmo da dama ao vê-lo!
Sorriu, cravou-lhe os olhos encantados e agitou-se de empolgação e felicidade qual
uma pomba.
Um vago homem de marinha! Zago, incrédulo, via-a a derreter-se por um vago
homem de marinha, forte, era verdade, mas sem brio, sem charme, sem luvas, sem casaca,
sem perfumes e sem cultura.
O marujo, contudo, não se arriscou vir até ela. Seguiu no seu andar gingado e
provocador para um canto mais além e ali ficou, bastante galante e aprumado, na busca de
exibir-se.
A dama, encantada, jogava os cabelos para um lado, arrumava-os, balançava-os,
jogava-os para outro lado, arrumava-os novamente, num remexer afetado, quase maníaco. O
marujo abalou-lhe a compostura.
Decerto que Zago não gostou da situação. Um ciúme imediato regou-lhe o sangue
qual um veneno. Mal suportava o sentimento doloroso que as exigências da etiqueta e dos
bons modos impediam-lhe de extravasar.
Roía-se por dentro. Remexia-se, perturbado e inquieto com aquela troca de olhares,
aqueles sorrisos carinhosos e aquele farfalhar de cabelos.
A dama então, repentinamente, deu-se conta de sua presença. Virou-se para ele e,
tomando-lhe o pulso com firmeza, afirmou:
- Com licença, que tenho de passar um recado a um amigo por intermédio daquele
marinheiro. Volto já.
Zago, ciente de que nada podia para garantir a posse da pessoa amada, resmungou:
- À vontade...
Mas ela não ouviu. Ia já adiante, sem lhe dar ouvidos.
Zago viu quando os dois, a dama e o marujo, encontraram-se. Foi um encontro pouco
caloroso, apesar de que esperasse exatamente o contrário. Ela limitou-se a dizer duas ou três
palavras, enquanto que ele, o marujo, este sim, falou bastante.
Pareciam suspeitos.
Era certo que já se conheciam de outros encontros, porque o marujo, juntando-se a
ela, pôs-se a falar-lhe bem junto ao ouvido. Segredava algo.
Zago tinha certeza agora. Eram mesmo amigos, ou, ao menos, conhecidos.
Invejou o marujo, que a seu ver, era já um rival de peso.
Mas não desanimou de seus intentos. Embora decepcionado e envolto numa espécie
de desgosto misturado com raiva, ainda tinha alguma esperança. Afinal, ela nem abraçara
nem beijara o marujo de forma que não eram nem casados nem amantes. Sendo assim, tinha
chances.
Começou então a retirar de suas casas, um a um, os inúmeros botões de sua vasta
casaca. Tranqüila e lentamente, desabotoou-a. Desvencilhou-se dela então com sutis, porém
sensuais, movimentos de ombro.
Vestia, por baixo da casaca vasta, uma camisa branca rica em rendas, mas
desabotoando-a também, livrou-se dela de modo leve e lascivo.
Tinha, agora, à vista sobre o dorso apenas uma minúscula camisa de malha, sem
mangas, a agarrar-lhe os músculos do peito. Por não ter mangas, um traje assim pequeno
deixa à mostra alguns dos mais bem torneados músculos de um ser humano.
Zago não fazia feio. Tinha o corpo de um desportista. Era rico em infra-estrutura
muscular. E tinha-a flexível. Tinha-a maleável qual a coluna de um gato. Fizesse um leve
movimento com punhos fechados e músculos moldavam-se quais cobras por debaixo da pele
esticada. Era, em verdade, um Adônis.
A dama, despedindo-se do marujo com um aceno, tomou o rumo de onde estava a
pouco, junto de Zago. E vendo-o, não pode deixar de reparar nele, agora tão viril e forte
diante de seus olhos.
Se era esta a intenção de Zago no momento em que resolveu-se por expor o corpo,
então agira com perfeito conhecimento de causa.
A dama, como que por efeito de uma magia, admirou-o. Aquele corpo exposto era, ao
mesmo tempo, um magnetismo, uma fascinação e um encanto a seduzir-lhe a visão.
Aproximou-se mansamente, a admirá-lo, como quem aproxima-se para admirar um
ser letal, porém manso.
Zago notou-lhe a incoerência de atitudes. Indagou então, quase que engasgado em
ciúme:
- Quem era aquele bigorrilhas?
A dama, percebendo a forte carga de desagrado e torpeza naquela interrogação, viu
por bem ser pacífica:
- Ora, um conhecido de bordo, um marujo gentil a oferecer seus serviços de ajudante
para banir de minha cabina uma rataria terrível que passa a noite a corroer as tábuas do piso e
as traves do teto. Minam toda a estrutura do barco com suas triturações e de bocadinho em
bocadinho, nos põem a pique hora destas.
Zago, ainda bastante insatisfeito, desdenhou:
- Creio que se ele mata ratos, está a cometer crime bárbaro e selvagem. Como pode
alguém matar seus próprios semelhantes?
A dama, fazendo-se de desentendida, prosseguiu:
- Tu sabes: ele não os mata por maldade. É que não temos gatos a bordo. Aliás, por
culpa dele próprio. Antes de matar ratos, costumava matar gatos. É um marujo, acima de
tudo, gaticida. Conseguiu eliminar todos os ariscos, porém contentes e úteis, felinos de bordo.
E tudo porque andavam a comer-lhe um ou outro papagaio de estima. Mas foi um erro. Veja
você: agora sequer posso dormitar em paz no meu gabinete, infestado que está de arganazes
crescidos e famintos.
Zago, ainda desdenhoso, deu um leve sorriso de escárnio e virou-se para um lado
qualquer, desprezando-lhe a singela explicação.
A dama, porém, achegou-se mais a ele, tocou-o no ombro meigamente e perguntou:
- O senhor parece um pouco aborrecido...
Ao contrário do que era esperado, Zago não reagiu ao melindroso toque. Parecia não
ter ouvidos para ela.
A dama, paciente, prosseguiu, agora definitivamente a alisar-lhe o ombro de maneira
terna, porém persistente:
- Tiraste a camisa e a casaca. Estás com calor? Pois que tenho boas notícias. Estou
sabendo que, pela carta-piloto, infalível, cruzaremos em breve climas bem mais amenos. Mas
diga-me: é mesmo o calor impiedoso que o aborrece? Pois se não for, não sou capaz de
adivinhar a causa. Por que não me ajudas? Desabafe, meu amigo. Não gosto de vê-lo com
essa feição enrugada. Ficas com ar rude, rabugento.
Zago remexeu-se de sua imobilidade, como que a aninhar-se para melhor receber no
ombro as carícias daquelas mãos sedosas. Enquanto isso, meditava acerca das palavras ditas.
Não tinha pressa.
Analisando a situação e o teor da conversa, ficou-lhe claro: a até então sólida distância
que o separava dela agora parecia bem menor. Se a pouco sequer imaginava ser-lhe um
amigo, agora já acalentava a esperança de ser-lhe o amante. Por que não? Bastava que agisse
certo, na hora certa, com palavras certas.
Juntou então as melhores palavras que pôde e arranjou-as da forma a mais poética
possível em pensamento. Então, com perícia digna de um piloto e experiência digna de um
governador, proferiu em sentença, com ar fatal:
- Não! Não é o calor. Sou, aliás, bastante afortunado quanto a esse aspecto
climatológico. O que me aborrece, em verdade, é a dissonância de meu coração, quando
busco equipará-la ao de vosso. Então, ai de mim!
A moça, perplexa qual um peixe, divagou a respeito do que ouviu e, após leve pensar,
exclamou:
- Que palavras mais que charmosas! Tenho um poeta! E julgava-o um reles beberrão!
Desculpe-me. Foi uma hipótese triste e grosseira.
Zago animou-se:
- Nada tens de que se desculpar. Aliás, suas grosserias em verdade não me
desagradam.
- Nem por isso são doces.
- São! Em verdade, são açucaradas. Suas palavras, seu jeito, seu sorriso, sua
sinceridade e, principalmente, suas carícias junto a meu pobre ombro são doçuras que acabam
por acalentar meu coração, rico em sangue, no entanto, carente em afeto.
- Pobrezinho! Mas o que existe de tão amargo na vida para fazer de alguém um
homem tão doloroso e triste?
Aninhando-se junto a ela ainda mais, Zago prosseguiu:
- Deixe-me contar-lhe. Grande é a minha solidão aqui neste grande navio. Mas espere.
Deixe-me acomodar os braços...
E dizendo isso, enlaçou-a pela cintura.
Ela não ofereceu resistência ao abraço. Limitou-se a dobrar uma das mangas do belo
vestido cor de palha, ajeitando-se da melhor maneira possível para a intensidade do
momento. Zago, já preparado, prosseguiu:
- Grande é a minha decepção na vida. Fui habilidoso para com o vil dinheiro. Ganhei-
o aos montes, mas para com o amor... Ah, que fracasso! Um Golias derrotado!
Os olhos da dama brilharam:
- Mas como! Tu, tão belo... mas compreendo. És uma legítima vítima dessa atual
Inglaterra capitalista. Vocês, homens potentes, são uns enigmas para meu entendimento. São
de uma dureza sem par. Veja! Cá estou eu, também solitária, uma coruja, e o que me ocorre é
justamente o contrário. Quanto ao dinheiro, não passo de uma fracassada sem nenhum
rendimento que valha, mas quanto ao amor, como tu bem disse acerca de si mesmo e seu
dinheiro, sou eu muito habilidosa.
Os olhos de Zago, neste momento, não brilhavam: faiscavam.
Enlouquecido, puxou-a então para um abraço maior, enquanto que ela, cega, colou
seu corpo ao dele num espasmo.
Olharam-se então de maneira profunda, íntima e penetrante.
Fez-se a perigosa mescla entre o brilho assustador e a faísca tremeluzente. O suor
brotou, abundante, de ambas as faces. Os hálitos próximos exalaram-se, perfumados.
Beijaram-se.
Beijaram-se mesmo, da forma a mais apaixonada possível...
Zago excedia-se.
A dama, envolta em seus braços, arrulhava.
Até que, surgindo por detrás de um passadiço, surgiu o tal marujo gaticida a ralhar:
- Que pega-pega mais estranho é esse? Larguem-se já!
Diante de bradar tão inoportuno, Zago e a dama apartaram-se na mais desesperada
urgência.
O marujo, reconhecendo-os, escarneceu num uivo de satisfação:
- Mas veja quem são?! Quanto fausto, quanta bizarria! Pois digo-lhes: lua-de-mel,
ainda mais desavergonhada como essa, no meu austero e respeitoso navio, senhores e
senhoras, é coisa que não consinto. Apartem-se já!
A dama, mais ágil na compostura de seus modos e trajes, retrucou-lhe prontamente,
embora que corando:
- Calma, meu bom Inácio! Somos apenas nós, eu e Zago, meu hóspede.
Zago, agora também já aprumado e pronto nos modos e trajes, criou coragem para
gemer entre dentes, irado:
- Escarnecedor! Gaticida! Raticida! Fratricida! Como ousas nos interromper em pleno
momento de galanteio? Ciumento!
Mas tais palavras perderam-se no vento. O marujo, impassível, deu-lhes as costas e
seguiu adiante rumo ao outro lado do passadiço. Inexorável, limitou-se a resmungar algo para
seus próprios ouvidos, sem maiores implicações.
Mas foi o suficiente para Zago apagar-se de sua brasa interior. Inseguro, voltou-se
para a dama e conclamou:
- Bela doutora, creio ser melhor sairmos daqui. É local aberto, desabrigado, exposto e
impróprio para o verdadeiro ato de amar. Que achas de irmos para um aposento qualquer?
Quem sabe, talvez, para meu humilde, porém confortável camarote? É dos mais luxuosos
deste navio. Além do mais, é local mais que cordial para conversarmos e bem mais fresco que
este quente bombordo. E ainda, menos vigiado.
A dama, embalada pela proposta de mais alguns momentos de prazer, não viu
inconvenientes na idéia. Concordou sem tecer restrições ou objeções inúteis: queria continuar
o que mal haviam começado.
Seguiram, então, para o camarote dele, sem maiores demoras.
Mal chegaram e Zago, como bom anfitrião e bom conviva, cedeu uma poltrona fofa à
dama, que a aceitou de bom grado. Em seguida, tomou para si um tamborete pequeno e
redondo, mas rica e luxuosamente estofado, e assentou-se sobre ele.
Permaneceram calados, ela a admirar a arrumação do realmente belo camarote de
Zago, e este, a tecer considerações mentais acerca dos assuntos em pauta para serem tratados
nos momentos vindouros.
Ela, extasiada, regalava-se com a luxúria do ambiente. Ele, parcimonioso com os
sentimentos, baldava-se em meditações acerca de diversos assuntos. Ambos espreguiçavam-
se, lascivos.
Zago tomou a iniciativa. Buscando dar às suas palavras uma graça maior, falou então,
num sotaque meio que afrancesado:
- Por pouco que não me bato com aquele marujo intrujão. Ensiná-lo-ia a viver. Sou
mesmo bastante combativo com essa gentalha. Mas, dama, esqueçamos de vez esta triste
desavença. Falemos de nós dois. Quem sabe queira saber um pouco mais sobre minha pessoa.
Eu, que sou tão recebedor de tão poucos afetos femininos... eu, que me afundo em melancolia
e depressão por falta de uma companheira amiga... essa minha carência! Ainda morro de
amor! Mas, quem sabe se...
A dama interrompeu-o:
- Ah! Se pudesse eu amenizar essa solidão e essa carência! Mas, é impossível. Sou
uma proletária, prendada, é verdade, mas sem futuro algum, enquanto que tu és mais que um
ascendente burguês. Em verdade, és quase um aristocrata. Que temos em comum?
Descobriria em poucos dias minhas fraquezas e minha ignorância e, então, o tédio tomaria
conta do nosso relacionamento. Insaciável, teimaria por novos amores e seria desagradável
ver nossa união banhada em lamentáveis dissabores no futuro. Não é melhor que nos
esqueçamos enquanto há tempo? Apegar-se a mim é uma tolice, e viver a meu lado é na
verdade um castigo para uma pessoa tão nobre quanto tu.
Era mesmo uma sugestão bastante comovente e cândida, a da dama. Zago, sensível a
tudo, meditava acerca de tais palavras, enquanto que a observava cachear com os dedos seus
longos fios de cabelo acastanhados. Sorriu então meigamente e suplicou em resposta:
- Não! Navegar por este vasto e solitário Atlântico sem sua companhia não é algo que
me apetece. Não tê-la ao meu lado durante o restante desta triste viagem seria sim um
prejudicial castigo para minha pessoa. Quero ouvir-te a tecer-me juras de amor. Quero sua
companhia de um modo ou de outro. Não percebes meu desespero? Não vê que vivo num
verdadeiro cativeiro? Anda então! Desencarcere este meu pobre coração, minha musa!
E, ansioso, tomou-a pelas mãos como quem toma uma ave rara e valiosa.
Vencida, a dama deixou então de cerimônias e delongas. Firmando suas mãos agora
suadas às dele, aproximou-se e despudoradamente o beijou num longo e voluptuoso amassar
de corpos.
Zago, vitorioso, deixou-se tombar sobre a confortável cama logo próxima e puxou a
dama apaixonada sobre si.
Entre um volver e outro de cabeça, sufocado por debaixo de cabelos, lábios e seios
fartos, após diversos beijos que duraram certamente mais de cinco minutos cada, viu de
relance sua preciosa valise negligentemente esquecida sobre um tapete logo perto de seu pé
esquerdo.
Exposta, era como a confidência de um assassinato. Não haveria ser humano sobre a
face da terra que não cobiçasse uma boa fortuna tão facilmente à mão, e ele, astuto, deduziu
que a dama não poderia ser diferente dos demais.
Precavido, puxando então a ponta do tapete com a ajuda do calcanhar, empurrou
lenta, mas decididamente, sua rica valise de libras. Com a necessária sutileza que exigia o
momento, pois que ainda tinha seus lábios presos aos da dama, empurrou o tapete com a
valise para debaixo da cama. Escondeu-a por completo, com um último empurrão, com a
ajuda da pontinha do pé. Estava agora completamente fora das vistas da amorosa dama,
cujos olhos lhe pareciam inocentes, mas que poderiam muito bem disfarçar uma mente
gananciosa e maligna. Por fim, buscou na memória o quanto que lhe restavam de libras na
valise, por questão de dúvidas futuras. Contabilizou mentalmente um valor satisfatoriamente
realista e deu-se por satisfeito.
Agora, mais tranqüilo quanto à sua riqueza, tratou de voltar a atenção ao amor.
Desferiu então o mais demagógico beijo que os oceanos já viram. A dama, decidida a amar
deste o beijo primordial, e que desde então mantinha um ritmo constante de beijos e suspiros,
agitou-se por completo.
Tal beijo prolongou-se por um tempo muito além do usual, mesmo para casais dos
mais ardentemente apaixonados.
A face da dama arroxeava. Zago sentia faltar-lhe os sentidos.
A dama, por fim, agonizou, cansada. Desesperada, desprendeu-se de Zago qual uma
mosca a fugir dos tentáculos de uma aranha.
Zago, liberto, arfou qual um cavalo.
Ela, descontrolada, deixava rodar as órbitas dos olhos qual uma epiléptica.
Caíram ambos destroçados.
Alguns minutos além e Zago, menos cansado, apagou a única luz do recinto, vinda de
uma grossa vela de cera. Achegando-se junto ao grande candelabro, desferiu um sopro
delicado e a escuridão baixou sobre o camarote, agora mais aconchegante e próprio para o
amor.
Aquela noite foi passada na maior das delícias, tanto para Zago quanto para a dama,
que não aferiu a menor resistência às carícias ousadas de seu parceiro.

O TUMULTO

O dia seguinte raiou ardente e uma espessa camada de nuvens prometia cobrir o céu
em poucas horas.
Zago, já acordado, apreciava, encantado, o sol radiante da manhã emoldurado pela
escotilha do camarote, enquanto que a dama ainda dormia. Para ele, aquelas nuvens azuladas
e sólidas eram sinal de novas esperanças.
Um apito soou em alguma parte do grande navio. Pelos gritos e aplausos, era certo
que estavam já em mar pan-americano.
Mas ainda não era o fim daquela viagem. Tinham ainda dois ou três árduos dias de
mar pela frente. Espetado no meio do oceano, o navio rumava para o Rio de Janeiro.
Apesar dos destratos causados pelas intempéries e do fraco atendimento de bordo,
Zago sentia-se feliz depois de vários dias de viagem. Percebia agora uma nova sensação,
jamais sentida outrora. Estranhamente, a viagem parecia agora mais bela do que nunca.
Satisfeito com o desenrolar dos acontecimentos, achou por bem deixar de lado aquele
lindo sol matutino para concentrar-se na dama a seu lado.
Acariciou-lhe então, voluptuoso, as brancas nádegas por debaixo dos lençóis, embora
que mantivesse os olhos a perscrutar com afetado interesse aquele grande céu nublado.
Sim, era o turismo com o qual vinha sonhando desde a mais tenra infância.
Permaneceu então por uma longa hora com o céu ocupando-lhe os olhos e a dona
ocupando-lhe as mãos. Estava mesmo satisfeitíssimo.
Tudo ia bem, até que o estômago lhe roncou, faminto. De fato, era mesmo necessário
desentoar a mansidão do momento em prol de um pouco de comida quente. Fazia-se
necessário um desjejum para repor energias, percebeu espantado.
Apesar de tudo, acabou por arremessar seu corpo por sobre o da dama e reiniciar,
ansioso, novas e ardentes carícias.
Ah! Como era feliz! Ingressara, enfim, plenamente no mundo dos alegres prazeres.
Fora, enfim, bem sucedido na vida.
Agarrando-a com firmeza, beijou-lhe as costas, que de tão magras, eram meio curvas.
Beijava-a, enquanto que pensava, com felicidade redobrada, nas aventuras que haveria de
fazer com sua valise recheada de dinheiro vivíssimo. Tinha planos e dava asas a sonhos dos
mais exóticos e arrogantes possíveis.
De súbito, ouviu batidas calorosas na porta de seu camarote, e sonhos e planos
desfizeram-se como fumaça num átimo.
Soergueu-se, assustado.
Intrigado, cogitou consigo a respeito das tais batidas e de quem haveria de tê-las
desferido em momento tão inoportuno.
A dama, até então envolta num misto de sonhos e realidade, despertou-se
bruscamente. Zago, apressado, tratou de cobri-la com um dos lençóis. Tomou o mais sujo,
infelizmente.
Vestiu-se, por sua vez, também apressadamente. Tomou seu roupão, um robe de
veludo, de sobre a guarda de uma cadeira e foi até a porta, de onde continuava a ouvir ruídos
de empenhadas batidas.
De olhos inchados pelo sono, tratou de abri-la, não de todo, apenas o suficiente para
poder espiar o lado de fora sem expor-se a olhares curiosos.
Expiou então pela fresta: era Pedro.
Este, prevendo uma implicação e várias queixas, adiantou-se:
- Senhor, estou à procura de alguém. Viu por acaso a dama que tanto admiras? Está
ela neste camarote, por um equívoco da sorte? Temos precisão de encontrá-la, além de que, já
passa das dez, e tenho por obrigação fazer diariamente a arrumação dos quartos, inclusive
deste o qual ocupa, isto é, se me for permitido. Quanto à dama, é Inácio, um marujo, quem a
procura. Está ele desesperado. Está ávido qual um tigre.
Em seguida, fez menção de entrar no quarto por meio de um leve forcejar de corpo
junto à porta, mas Zago o deteve por meio de uma resposta desconversada e um forte
empurrão, que serviu para afastar o intruso, ao mesmo tempo que para fechar a porta de vez
por todas.
Retornou então para junto da dama no leito, embora que um tanto que desgostoso do
aborrecimento inesperado.
Cinco minutos se passaram quando tornou a ouvir batidas na porta, desta vez mais
veementes e fortes.
Soergueu-se, desperto, e foi até ela ver de que se tratava.
Era novamente o insistente Pedro.
Zago, agora furioso, rugiu-lhe:
- Que queres? A dama? Pois não sei nada a respeito. A única coisa que sei, Pedro, e
sei bastante bem, é que tu és um incômodo! Um fétido! Veja a si mesmo: estás lambuzado de
sujeiras e excrementos de ratos. Tu queres, na verdade, é emporcalhar meu agradável
aposento, isto é que queres. Mas eu outrora já lhe avisei: dou cabo de ti, maldito! Faço-lhe,
com minha garrucha, um terceiro e profundo olho por entremeio aos dois que já tem nesta
fronte rabugenta. Portanto, some!
E fechou-lhe a porta na cara num estrondo.
A dama, até então dormitante, assustou-se de tal maneira com o estrondo, que pulou
em pé na cama num supetão e gritou:
- Meu São Vicente!
Mas Zago, achegando-se a ela meigamente, sussurrou-lhe:
- Calma, meu anjo! Sou eu, Zago!
- Mas... o troar da porta...
- Seja mais metódica com seus temores, lady. Foi só o forte vento marítimo que
causou tamanho alarido. Agora, sossegue.
A dama, embora trêmula, aparentou sossegar-se realmente.
Zago abraçou-a e, então, tornaram a deitar-se aconchegantemente. Excedendo-se em
carícias e beijos, acalmou-a de vez. Desentesada do susto, ronronava já nos braços do seu
protetor.
Porém, novos cinco minutos se passaram e então vieram bater à porta pela terceira vez
seguida.
Zago desta vez não se conteve de ira. Desvencilhou-se da dama, saltou da cama num
pulo, vestiu o roupão e rumou até a porta, a qual abriu com garra e violência.
Era Pedro mais uma vez.
Zago sequer pestanejou. Colérico, resfolegou:
- Impertinente! Que Deus e toda a audiência à minha volta que me perdoem, mas vou
matá-lo! Já que insiste, espere então um único segundo, que vou agora mesmo pegar minha
garrucha carregada e lhe dar um tiro na boca, para depois jogá-lo impiedosamente no mar
para que seja devorado pelos mais vorazes tubarões e crocodilos. Sim, aleijão monstruoso, só
um segundinho...
E dizendo tal dura sentença, virou-se encolerizado em busca da garrucha carregada,
escondida no forro de sua amarrotada casaca.
Forcejando a mão por dentro de um dos bolsos da vestimenta, tinha já seguro o cabo
da arma. Foi o momento exato no qual ouviu um forte estrondo provindo da porta.
Virou-se espantado, mas sem perder a coragem.
A porta jazia escancarada, tendo Pedro no batente esquerdo, e no direito, ladeando-o,
Inácio, o marujo gaticida.
Zago, de garrucha em punho, encarou-os com fúria louca, mas Pedro limitou-se a
empinar o nariz tranqüilamente, enquanto que Inácio, mais ousado, desferiu-lhe um olhar
superior e um sorriso malévolo, dizendo inquisidoramente em seguida:
- Pegos em ato criminoso!
Zago, apontando-lhes o cano da garrucha, ordenou:
- Fora os dois!
Mas Inácio, bastante tranqüilo, escarneceu:
- Mas que herói! Que cena mais que novelística! Mas, Pedro, não é que ouvi
cochichos neste camarote a noite toda? Inocente que sou, pensei ser apenas os rogos de algum
devoto a rezar ou, quem sabe, mesmo a desfiar um rosário em responso a Santo Antônio, para
se acalmar a fúria do mar, ou para se achar um amor perdido, como fiz eu próprio a noite
toda, mas vejo que me enganei. E quanto a tu, gata desavergonhada e lamurienta, era então tu
que eu ouvia a gemer, roncar, sorrir e chorar qual uma cadela vadia, enquanto que eu, pobre
coitado, deixava-a trair-me com esse zé-ninguém. Ao mesmo tempo em que rezava,
bebericava rum, vomitava, enjoado, e confraternizava com um meu amigo boêmio acerca de
minhas mágoas sentidas, amargurado da vida, eu a procurava, desesperado...
A dama, nua por completo, buscou abrigo entre lençóis e cobertas. Zago, por sua vez,
deu dois corajosos passos à frente.
Vendo Zago avançar em sua direção, Inácio estufou o peito, pôs as mãos na cintura e
deu também seus dois passos à frente, desafiando-o.
Abriu-se assim uma passagem rumo ao corredor, e a dama fez mesmo menção de
aproveitar a brecha deixada por Inácio junto à porta para escapulir para o corredor, mas
Pedro, agora corajoso e esperto como nunca o fora, tratou de avançar para o meio da
passagem como um soldado a defender uma cabeça de praia, de modo que a dama, assustada,
retornou para o seu canto, e Pedro, satisfeito, viu sua brava ação impedir uma fuga
indesejável.
Estavam encurralados, tanto a dama quanto Zago.
Este, agora mais pálido que de costume, tinha a garrucha pendida entre os dedos da
mão direita. Tinha, contudo, uma expressão tão profunda em ódio, que faltava-lhe desferir
raios por meio dos olhos semicerrados.
Pedro, contudo, corajoso e audaz, encarava-o sem medo. E quanto a Inácio, este
parecia invulnerável a qualquer espécie de mal, tamanha a sua confiança e superioridade.
Furioso e descontrolado, Zago bufou.
Inácio vergou as costas para traz e limitou-se a gargalhar qual um rei, mas Pedro, este
sim, foi mais além e desafiou:
- E agora, Zago? Estou esperando: mate-me se for homem!
Zago, rubro em cólera, berrou em resposta:
- Pois antes aviso-lhe, e a este marujo: inflamado que estou por essa intromissão,
ordeno veementemente que saiam imediatamente deste quarto. Seus ratos siameses! Dragões!
Mas foi em vão. Inácio riu ainda mais, Pedro fez um gesto obsceno com um dedo em
riste, e nenhum dos dois moveu um músculo sequer demonstrando obediência ou medo.
Inácio, voltando a si de sua alegria furiosa, estendeu o indicador da mão direita rumo
à ponta do nariz de Zago, dizendo:
- Covarde! Envidraçado por traz das saias de uma mulher, tu és mesmo muito
corajoso, confabulador, mas cá frente a mim, borra nas calças qual um moleque. Vamos! Dê
a chumbada, arrisque matar meu rústico amigo Pedro. Não é assim que vem apregoando aos
quatro ventos? Não prometeste? Pois desafio sua coragem: atire se for mesmo um homem...
Fez-se então um silêncio mortiço e assustador que durou tranqüilamente mais que
dois longos e angustiantes minutos de pura tensão e expectativa.
A dama, desesperada, aguardou de olhos vendados pelo som de um tiro, de um grito,
de uma queda, como também aguardaram Inácio e Pedro.
Mas não houve queda, nem grito, nem tiro.
Inácio, rompendo num suspiro decidido, afirmou, então, com convicção:
- Tu és mesmo um mole, seu cafajeste de meia tigela! Pois vou agora mesmo pegar
essa mulher vagabunda pelo pescoço e levá-la comigo para o corredor e aplicar-lhe uma boa
e merecida surra para que aprenda a viver como uma mulher decente e honesta...
E partiu em passos firmes rumo a ela.
Zago então fez ribombar um estrondoso e violento tiro do cano de sua garrucha.
Pedro, a pouco tão corajoso e audaz, precipitou-se a correr porta afora como um
verdadeiro borra-botas, enquanto que Inácio, encolhendo-se qual um coelho, deu passos
trêmulos para traz, resmungou palavras desconexas de perdão e súplicas e descambou-se
também corredor afora, banhado em desespero e medo.
Ambos agiram com sensatez.
Zago, fora de si, apontava agora a garrucha para a porta. Se o primeiro tiro fora
disparado para cima como um aviso, o segundo pretendia ser disparado para a frente, e tanto
o coração de Inácio quanto o de Pedro eram alvos mais que apropriados para um homem que
já não era mais senhor de suas razões. De fato, Zago tencionava matar.
Fugindo tanto Inácio quanto Pedro, Zago poderia dar-se por satisfeito, mas não.
Queria vingança.
Resoluto na sua ira, decidiu persegui-los nas suas fugas e precipitou-se a correr como
um touro no rastro de ambos navio afora.
Vagou e perseguiu-os com tanto ímpeto e com tal velocidade que parecia mesmo um
gavião em queda predadora a caçar pobres pintos indefesos.
Porém, era já tarde. Inácio e Pedro tomaram rumos diferentes, de forma que Zago,
indeciso quanto a que rumo tomar entre um emaranhado labiríntico de portas e corredores,
acabou por perdê-los de vista definitivamente.
Vencido pelo cansaço, decidiu voltar a seu camarote, mesmo porque o incidente já
chamara a atenção da populaça de bordo de maneira bastante desagradável para sua pessoa.
De fato, era cena bastante escandalosa mesmo para pessoas tão versadas em escândalos como
marujos e viajantes, porque não era comum que se visse um homem a correr atrás de outros
de garrucha na mão, trajando um simples robe vermelho. Até o mais vil dos ladrões acharia a
cena bastante bizarra e sensacional.
Fugindo aos olhares curiosos, conseguiu chegar de volta a seu camarote sem ser
reconhecido. De fato, não o fora, porque o populacho entretinha-se mais em discutir as causas
do escândalo que seus principais autores. Essa avessa curiosidade popular salvou-o de
maiores aborrecimentos.
Chegando à porta de seu aposento, tropeçou num objeto oblongo que quase o pôs por
terra. Era a vassoura do lacaio Pedro. Esquecida pelo seu dono, jazia caída a um canto junto
ao piso.
Zago tomou-a nas mãos e moeu-a em pedaços, os quais atirou corredor afora quais
farpas de frágeis gravetos, tamanha sua revolta diante dos acontecimentos. Na sua mente,
entorpecida pela raiva, Pedro e a vassoura de Pedro eram a mesma coisa, a mesma escória, a
mesma causa, a mesma entidade. Mereciam, portanto, as mesmas cortesias, as mesmas
delicadezas e os mesmos tratamentos.
Ouviu vozes vindas das portas vizinhas e achou por bem adentrar-se de vez no
camarote, não sem antes prometer a si mesmo uma solução definitiva para o incidente, o qual
definiu como sendo apenas amorosas intrigas navais, o que era verdade, porque intrigas
amorosas em navios eram coisas que nunca deixaram de ocorrer desde o início dos tempos,
das mulheres e dos navios.
Infiltrou-se camarote adentro por intermédio da porta até então encostada.
Mirou a vista para seu leito e sua dama.
Engasgou-se e por pouco não sufoca, tamanho seu espanto diante da cena à frente.
A dama, seminua, enrolada num lençol, mantinha as costas voltadas para a porta.
Encontrava-se sentada sobre o leito, de pernas cruzadas qual uma macaca. Tinha, apoiada por
sobre as pernas cruzadas em x, a rica valise de Zago.
Concentrada, entretinha-se em contar uma a uma as muitas notas de um dos muitos
pacotes de libras.
Zago, querendo não crer nos próprios olhos, permaneceu parado, quieto e silencioso, à
espera talvez de que a imagem à sua frente murchasse qual um pesadelo, ou de que ela, num
gesto natural, fechasse a valise e a recolocasse debaixo da cama sem surpresa ou malícia, mas
não.
Viu, trêmulo, quando ela contou a última nota de um pacote e enfiou-o num saco de
pano.
O saco estava já transbordante e pesado.
Suas notas, suas ricas notas! Suas suadas e sofridas economias! Suas amadas e
idolatradas libras! Roubadas debaixo de suas ventas!
Enfim, tomou noção da realidade dos fatos. Era mesmo um roubo, não restavam
dúvidas.
Iniciou um passo a frente, mas antes que seu calcanhar sequer tocasse o chão, tinha já
um quadro em mente.
Sim: um complô!
Pedro, Inácio e agora a dama, tudo agora fazia sentido em seu intelecto. Tudo se
encaixava. Um plano!
Seu calcanhar tocou enfim o chão e Zago sabia já como proceder.
O som de seu passo chamou a atenção da dama, que virou-se num solavanco. Tinha os
olhos esbugalhados e sua aparência, que já não era das melhores para uma mulher, tornou-se
terrivelmente feia. Dir-se-ia um manequim de cera, um artefato inerte, um rebotalho de
trapos.
- Ladra!
A dama esboçou um sorriso canino.
Zago não se comoveu:
- Mulher ligeira! Pega ladrão! Polícia! Socorro!
A mulher, desferindo gestos febris de justificativas, largou a valise e a sacola sobre a
cama e levantou-se, desajeitada.
Mas Zago, trancando a porta por traz de si, criou coragem para acusá-la:
- Traiçoeira! Não tenho mais dúvidas: estás comprometida com Inácio e Pedro.
Fazem, os três, uma bela sociedade de ratos e ratas!
- De forma alguma, meu amor! Apenas vi esta maleta jogada pelo balanço do navio e
ela estava aberta. O dinheiro, as notas, tudo voava com o vento, de modo que apenas resolvi
arrumá-las neste saco que estava debaixo daquele monte de roupas sujas... Não tomei para
mim uma moedinha sequer, juro! Reviste-me tu mesmo...
E puxou o lençol de sobre o corpo, deixando à mostra um magro par de seios e uma
dúzia de costelas salientes. De fato, não havia como esconder uma nota nas dobras daquele
corpo, mesmo porque havia poucas, e todas pequenas.
Zago, contudo, não deixou-se convencer:
- É mesmo um conchavo, uma trama financeira entre tu e aqueles biltres, para
apossarem-se de minhas poupanças. Bem me lembro de seus cochichos com aquele Inácio:
planejavam aniquilar-me. Pois tenho cá um plano para ti: dou-lhe um tiro no coração agora
mesmo e a jogo no mar por esta janela. Serás comida por dinossauros marítimos e ninguém
dará fé de sua ausência.
A dama, encolhida e aterrorizada, rogou num choramingo:
- Piedade, Zago! Amo-te, juro!
Zago aproximou-se então da cama, tomou um amontoado de panos cor de terra, que
era um vestido, e jogou-lhe na cara.
Ela, esquecendo-se da anágua, corpete, meias, espartilho e demais acessórios, enfiou a
cabeça por uma das pontas daquele tubo de pano e fê-la apontar do outro lado de forma tão
rápida e tão precisa que a Zago não restaram dúvidas: ela temia pela vida. Do contrário,
mulher alguma sujeitar-se-ia a usar gestos e trajes tão humilhantes e sumários. Por um nada
que não se mete no vestido pelo avesso.
Zago, tomando-lhe um dos braços com dedos rijos, arrastou-a até à porta e jogou-a no
corredor qual um farrapo.
Caída qual um fantoche, olhou de soslaio para o cano da garrucha apontada para seu
nariz. Medindo o perigo, levantou-se rapidamente e pôs-se a arrastar o corpo fraquejado pelas
paredes do corredor afora. Um desconhecido qualquer tomá-la-ia por uma mendiga, uma
bêbada ou mesmo uma bruxa. A ela pouco importava sua aparência: bastava-lhe a fuga
segura. Mas ninguém a viu, para seu bem ou para seu mal.
Zago, precavido, tratou de trancar a porta com um resistente ferrolho.
Retornando à cama, apressou-se em contabilizar suas preciosas libras.
Contava que fosse interrompido por novas batidas à porta, mas as mesmas não mais
vieram a ocorrer durante todo o restante daquela manhã, para sua alegria e sossego. Ainda
assim, tratou de recarregar um dos canos da garruchinha e ficou a postos para toda e qualquer
eventualidade.
O transcorrer das horas com aquela porta em silêncio era sinal de que realmente
fizera-se impor perante o trio de trapaceiros.
Mais calmo, pensou a respeito.
Seria mesmo a dama uma ladra? Ou tudo não teria passado de um trágico engano?
Estaria ela mesmo meramente arrumando as libras de sua valise? Por que o saco de pano? E o
incidente com os dois intrusos? Seria ela mesmo surrada pelo violento Inácio? Por que então
aquele patético tumulto?
Idéias as mais diversas e confusas conturbavam-lhe a mente.
O que lhe valia mais: o amor ou o dinheiro?
Era questão bastante melindrosa e delicada, mas seus atos respondiam por si, e nada
mais restava a fazer.
Cansado da intrincada charada, sentou-se à beira do leito. Alguém, no quarto ao lado,
soprava com uma gaita uma triste melodia.
Faltava ainda meia hora para o almoço.

O ÁRABE

Permitiu-se ficar a pensar até a hora do almoço, enquanto que, ao lado, a gaita amiga
era soprada.
Estava agora pacífico. Na verdade, tinha mesmo uma expressão bastante triste para
um homem que até poucos minutos atrás ameaçava matar e trucidar seus semelhantes.
Tinha os olhos úmidos e vermelhos. Um indivíduo que o visse, sem saber da história
dos acontecimentos, julgaria que acabara de chorar.
Mas não. Zago não chorara. Tinha, era verdade, todo o corpo cansado, e músculos
doíam aqui e acolá, sentidos, talvez, do exercício extremo que fora aquela caçada humana
navio afora. Assim, um indivíduo que o visse, e soubesse as causas e conseqüências dos
acontecimentos passados recentemente, decerto que o tomaria por um pobre homem
resfriado.
De fato, uma pequena coriza indicava seu atual estado. Resfriara-se em conseqüência
do brusco aquecimento corporal.
Todavia, conteve-a com firmeza. Assoou-se de sua constipação nasal com veemência
num trapo que tinha à mão e deu-se por satisfeito. Diante do escândalo, mesmo um nariz
escorrendo poderia alimentar suspeitas as mais desagradáveis e maliciosas possíveis a
respeito de sua pessoa. Assoar o nariz era mesmo um ato bastante acertado para o momento.
Decidido a almoçar como um verdadeiro ser vivente, pôs-se a vestir suas roupas para
a ocasião.
Revirou com destreza seus pertences amarfanhados entre diversas frinchas e móveis,
tomou então um conjunto de calça, camisa, colete e casaca bastante atraentes e vestiu-os com
aprumo.
Vestido do melhor que tinha, tomou rumo à porta e pouco depois apresentava-se no
amplo refeitório plenamente disposto a almoçar.
Grande conjunto de pessoas jazia sentado nas diversas mesas do recinto. Correndo a
vista da esquerda para a direita, e depois da direita para a esquerda, viu uma mesa a um canto,
esquecida e vazia. Talvez por estar num canto, fosse rejeitada, mas Zago achou-a bastante
agradável e oportuna, mesmo porque era a única ainda não ocupada, de forma que foi até ela
e sentou-se com sua natural tranqüilidade.
Um minuto mais e o refeitório lotou de passageiros sedentos e famintos.
Zago foi então abordado por um senhor de aspecto exótico. Um árabe.
O árabe, conjeturando acerca da falta de espaço, pediu licença a Zago para ocupar um
lugar à sua mesa. Zago, cavalheiro como sempre o fora, indicou-lhe amavelmente uma das
cadeiras vazias e o árabe, ainda mais cavalheiro e amável, estendeu para traz sua longa veste
e assentou-se.
Zago viu então, para seu desgosto, o marujo Inácio surgir junto à entrada do recinto,
ladeado por Pedro, agora seu inseparável parceiro de jornada.
A ira, até então apaziguada no seu interior, aflorou-se-lhe à pele qual um olho d'água.
Indignado, apontou o nariz aos dois inimigos e desabafou ao árabe:
- Veja aqueles dois. Pois saiba que são uns animais vermívoros. Invadiram meus
aposentos agora a pouco e quase, repito, quase puseram-se a perder, pois o sangue ferveu-me
nas veias. Como tu sabes, sendo o sangue um líquido, e estando fervendo, sobe à cabeça de
seu portador e leva-o a cometer loucuras. Afirmo que quase os mato, os intrometidos! Mas
tiveram sorte, mesmo porque, como também sabes, esta sempre auxilia os covardes em
momentos de precisão: os dois fugiram assim que dei meu primeiro tiro e não dei conta de
alcançá-los. Pura sorte.
O árabe, um maometano, deu de ombros, indicando estar ciente dos fatos. Mirou seu
grande nariz marrom para o tampo da mesa, abdicando de conhecer os demais detalhes do
caso. Contudo, mesmo que desconhecesse o caso, ainda assim tais detalhes seriam inúteis.
Pela sua vivência, era já bastante versado em histórias e casos, quer fossem pacíficos ou
violentos. Limitou-se a contemplar o tampo da mesa.
Zago imaginou-o estar a meditar, mas não estava, porque suas narinas, de súbito,
abriram-se e fecharam-se com grande energia, o que indicava que seu dono estava a cheirar
algo bastante interessante e gostoso.
E estava mesmo. Um garçom vinha, mais adiante, com uma bandeja cheia de comida
cheirosa e quente.
Zago, raciocinando agilmente, deduziu que se o árabe à sua frente tinha a atenção e as
narinas voltadas para cheiros e comidas, era porque tinha grande fome, de forma que um
homem, por mais devoto e filosofante que fosse, não poderia pensar no supremo e no terreno
ao mesmo tempo. Ou tinha fome de saber, ou de comer. Jamais poderia ter ambas as fomes,
mas ainda assim, se as tivesse, ainda mais difícil seria saciá-las simultaneamente. Portanto, o
árabe não poderia estar a meditar, a menos que o conteúdo de sua meditação fosse a própria
comida, o que, convenceu-se, não era lá assunto dos mais elevados e celestiais.
Aproveitando que o analisava interiormente, analisou-o também na sua postura
exterior.
Tinha já percebido o nariz, que julgou bastante grande e escuro. Jamais vira tamanha
desproporção de formas e cores num único rosto. Mas prosseguiu na sua observação.
Chamou-lhe a atenção o adorno que trazia cobrindo a abóbada da cabeça. Era um
também desproporcional e vivaz turbante. Diante de adorno tão sugestivo, uma idéia surgiu-
lhe num repente, de forma que exclamou ao árabe:
- Pois digo-lhe: se tornarem a importunar-me, estes dois piratas, tomo de um bom
malho e abordôo-lhes as cabeças sem dó. Ou saem do meu caminho, ou tomo de minha
garrucha, que já está novamente repleta em chumbo e fogo. Que saiam do meu caminho,
estes sujeitos mais que vilões, ou trincho-os à bala...
O árabe, porém, entrecortou-o com inesperadas lamúrias em tom menor:
- Santíssima Meca! Calai-te, boca!
Estava, em verdade, espantado diante de tamanhas blasfêmias e ameaças. Prosseguiu
então:
- Sossegue! Perdoe! Absolvição aos inimigos é o que pede o grande Maomé e assim
reza o Alcorão. Leia!
E então tirou da algibeira um libreto negro desbotado, o qual folheou com dedos
ásperos por alguns segundos.
Zago espantou-se.
O árabe, correndo os dedos por sobre capítulos e artigos sagrados, procurava por um
ensinamento santo. Contudo, a busca era árdua.
Baixando o nariz quase rente ao papel, virou as páginas do livro santo uma a uma.
Correu o dedo de cima abaixo de cada uma delas com paciência digna de um verdadeiro
árabe, até que, desferindo uma narigada junto ao livro santo, soergueu-se, triunfante:
- Eis aqui a verdade! Assim diz: se toda honra e virtude morrer em um homem, então
sim, ele se ofenderá com pequenas injúrias, sofrerá com palavras vazias. O homem sem a
honra e sem a virtude fará escândalos e matará a seu irmão. Veja então mais adiante: praticar
um ato de generosidade para com um inimigo não significa apenas tornar-se irmão deste
inimigo. O homem que perdoa é sempre superior ao homem que recebe o perdão. E quando
se é um homem superior a outro, a vitória é mais fácil.
- Sim, bem fácil. Que os diga seus confrades beduínos dos desertos, mercadores de
escravos, superiores com suas cimitarras, camelos e lanças.
- Um erro nunca justifica outro, diz aqui nesta linha mais abaixo.
- De fato! Não é justo que os mate, apesar de que passei a noite enrolado a uma víbora
na forma de uma fogosa beldade. Dei-lhe as costas e ganhei um bote. E queres ainda que
tenha eu vergonha de meus atos?
- Mas não sou eu que pede: é o santo livro. Leia tu mesmo!
E passou a Zago o livro, para que este mesmo o lesse, e às suas proclamações, regras,
ordens e verdades divinas. E Zago bem que tentou uma pequena leitura, mas desistiu de
imediato. De fato, era uma leitura das mais ingratas. Proclamações, regras, ordens e verdades
divinas nada mais eram que um confuso e terrível emaranhado de rabiscos sem sentido.
Embora cheio de boa vontade, era-lhe bastante penoso aprender a escrita árabe naquele
momento, mesmo porque, contrapondo-se ao aprendizado, vinha um mordomo atarefado com
pratos e assados, de modo que Zago, sensato, arrazoou:
- Parece-me bem. De fato, parece-me uma boa leitura, um bom livro, mas há muitas
letras góticas e frases bastante floreadas para meu gosto literário. Creio melhor deixarmos
essa sacra leitura para depois, que já é hora de provarmos deste repasto. Veja! Um pernil!
E olharam ambos com ânsia e gula para a série de belos pratos e bebidas que vieram
depositar às suas frentes. Um grupo de garçons tratava de providenciar ainda uma série de
garfos, facas e demais acessórios úteis à comilança. Zago, alegríssimo, salivava.
Ajeitaram-se ambos nos seus assentos e arrumaram seus guardanapos junto aos
queixos. Tomaram nas mãos garfos luzentes e facas afiadas. Zago estalava a língua.
Um garçom, o último e o mais prestativo, tomou de uma garrafa de um espirituoso
aperitivo e abriu-a com gala. Mirou então o bico da vistosa garrafa rumo ao copo do árabe e o
encheu. Mirou então o copo de Zago e verteu o líquido.
Fez-se um pequeno desastre. Um solavanco fez com que o pobre homem socasse o
bico do frasco copo adentro e espargiu-se licor por toda a mesa. Zago, o mais próximo, viu o
liquido embebido por toda a extensão da fazenda de sua cândida casaca. Foi um incidente
bastante desagradável e triste.
A casaca, o colete, o guardanapo, as toalhas, as saladas e o pernil mancharam-se de
um vermelho forte e escuro.
Irou-se:
- Que tragédia! Era o que me faltava. Vejam só esta minha miserável casaca. Um
trapo! E a culpa é de quem?
O garçom, sentido de seu desarranjo, buscou uma desculpa:
- Mas...
- Mas o que? Não apeles nem para a sorte nem para o azar, porque a culpa só cabe a
ti, que és um verdadeiro bruto, um vassalo incapaz, um porcalhão de um nada!
O árabe, mais sensato, deu um leve empurrão no garçom, despachando-o. Zago, ainda
furioso, limpou-se da maneira que pôde e buscou serenar-se. Aliás, era difícil manter-se irado
tendo um pernil tão cheiroso e tenro a lhe instigar o apetite.
Deixou de lado o episódio e tratou de trinchar com um pequeno cutelo o pernil
respingado.
Vendo o árabe já com a boca cheia a mastigar com satisfação, apressou também a
fazer o mesmo.
O árabe, porém, parou de súbito sua mastigação e falou, embora que a cuspir:
- Ofendeste o desastrado.
Zago, também cuspindo, recorreu:
- Pois bem que merecia a ofensa.
- Mas não se deve ofender os homens como se fossem simples cães, irmão.
Aristotelismos à parte, eu próprio já fui bastante injuriado. Arquivei então a injúria na alma e
não sosseguei enquanto não fiz justa vingança. Sim, irmão, inflamado por uma ofensa, acabei
por matar um pobre homem.
Zago arrazoou:
- Ora, que és então um assassino! Pois ofendi mesmo, mas foi apenas um pequeno
ataque de ira sem maiores conseqüências. Quer dizer então tenho um verdadeiro e legítimo
beduíno assassino dos desertos à minha frente?!
O árabe lamentou ter confidenciado seu assassinato. Zago, por sua vez, viu na
confidência um bom motivo para defender-se:
- Mas a cólera em mim é rara. Sou, aliás, até bastante arrazoado com as palavras.
Domino bastante bem a arte de ser gentil, mas não se pode aplicar a gentileza onde ela não
cabe. Eis um navio que não é digno delas. Veja tu mesmo: muitos instigadores de problemas
e muitos aborrecimentos. E uma tripulação coalhada de escórias. A nossa gentileza, o nosso
assentimento e a nossa complacência para com essa gente apenas faz com que se tornem
vermes ainda mais velhacos, assoberbados e astutos.
O árabe, atento, prestava atenção nas palavras de Zago, ao mesmo tempo em que
cofiava o queixo, pensativo. Tinha uma comprida barba, rica em longos e grossos fiapos
brancos, os quais alisava com grande carinho e delicadeza. Por fim, disse:
- Tu tomas a parte pelo todo. E faz de um copo uma tempestade. Ages como se um
simples derramar acidental de bebida fosse um eclodir de ofensas à sua honra. Veja este livro:
ele condena a grandeza e a pompa excessivas. Seja mais humilde com o seu semelhante
Zago, contudo, discordou de tais conselhos:
- Bem se vê que és um muçulmano. Falas com um ativismo religioso repleto de
virtudes e bondade, como se este reles libreto fosse a verdadeira chave para o paraíso e a
eternidade aqui na terra. Muito fácil pregar o que não se consegue fazer.
O árabe, justificando-se, afirmou:
- Sou, particularmente, bastante rico em pecados e impurezas de espírito, mas não sou
eu quem escreveu estes sábios versos. Há nele grande soma de verdades acumuladas por
grandes homens durante longas gerações. Não há como negar a validade dessas filosofias.
Por que não as segue? Nada tens a perder.
- Contudo, nada tenho a reclamar também de minha própria filosofia. E ela bastante
sensata e válida, embora que seja fruto de minhas próprias meditações, conjeturas e
julgamentos. Penso, julgo e ajo conforme as exigências de cada circunstância. Estou bastante
satisfeito com este proceder.
O árabe, porém, não deu-se por vencido:
- Mas seus atos não são lá muito bondosos e justos...
Zago, mirando com firmeza os olhos do árabe, indagou então:
- Quem és tu para julgar-me? Pois estás a julgar-me. E eu que jurava ter à minha
frente um assassino e descubro agora ter um santo...
O árabe, vencido, calou-se.
Zago, contudo, calou-se também. Meteu uma suculenta garfada de carne boca adentro
e mirou a vista em torno do recinto apinhado. Concedeu assim ao árabe um momento de
tranqüilidade para recompor-se de seu infortúnio, enquanto que apreciava as belezas e feiúras
à sua volta.
Mantiveram o silêncio até o fim da refeição.
Zago agora bebia. O árabe, devoto que era, abstinha-se de excessos, de modo que
tragou seu licor e deu-se por satisfeito.
O populacho, agora já saciado de sua fome e sede, desfazia-se navio afora.
Zago, firmando a vista para uma mesa logo adiante, percebeu algo que lhe agradou.
Uma dama que, solitária, fumava com prazer um fino cigarro.
Tocando então na manga da túnica do seu companheiro, indicou-lhe, com um polido
volver de olhos, a mesa ocupada pela dama:
- Veja só logo ali junto à vasta entrada: que sutileza de mulher!
O árabe, curioso, volveu o pescoço também com polidez, mesmo porque era mesmo
sempre bastante moderado nos seus atos e gestos. Era a polidez em pessoa.
Zago prosseguiu:
- O decote. Repare bem o generoso decote daquela dama. Não e de pôr um homem a
perder o fôlego? Agrada-me grandemente. Não há dúvidas: eis ali uma mulher realmente
digna de minha pessoa, um anjo digno de meu amor...
E suspirou profundamente o ar.
O árabe, homem atencioso, notou neste suspirar o hálito típico da embriaguez. Achou
então por bem advertir:
- Seu bafejo está já bastante afermentado. Tu não me enganas, e também não
enganarás a ninguém quanto à sua embriaguez. Teus próprios olhos o denunciam. Creio
melhor mudarmos de assunto. Ouvi boatos acerca de um baile de valsas, programado para
hoje à noite. Que achas?
Zago, contudo, não despregava os olhos vermelhos do decote da dama ao lado:
- Que se pode esperar de um baile, senão um delicioso balançar de carnes, hein? Vou
agora mesmo convidá-la para uma contradança comigo para o tal baile logo mais à noite.
Repare, velho, repare: ela já me notou! Veja como se exibe! Está que quase se arrebenta de
contente ao me ver!...
Não havia dúvidas: Zago estava decididamente embriagado.
O árabe buscou serenar-lhe o ânimo:
- Sua bandeira, quando bebe, é o sexo oposto, pressuponho. Creio ser melhor colocar
as barbas de molho, porque aqui neste refeitório não convêm certas atitudes amorosas.
Zago agora ria desbragadamente:
- Ora, velho sírio, este teu jeito de ser e proceder me dá mostras de que és mais um
medroso que um assassino ou um santo. Mas se tens medo, é porque não me conheces. Eu,
Pierre Zago de Duchamp.
Falava agora num fraseado arrogante, num misto entre um inglês forçado e um
francês capengante. Para o árabe, era certo que não falava bem nem uma nem outra, o que era
verdade.
- Tu então te chamas Pierre Zago de Duchamp. Então és francês...
Mas Zago não lhe respondeu. Precipitou-se a batucar um compasso de valsa tangendo
um par de talheres por sobre um pires de porcelana. Os olhos vermelhos estalavam.
- Francês? Sou um Casanova, um Don Juan, um ser belipotente nas conquistas
amorosas. Quanto a mim, sei bem quem sou. Mas, e tu, beduíno, és também um conquistador
de corações na sua Pérsia natal?
O árabe, apesar de ter a pele feia e escurecida pelo sol, corou:
- Boca desgovernada a sua! Não sou nenhum Napoleão no amor, como tão
erradamente julgas ser. Quanto a mim, sou a bordo um homem que não ousa sequer tirar as
botas para dormir, responsável que sou perante as mulheres.
Zago, irônico, caçoou:
- Então tens medo de mostrar os pés às damas?
O árabe, desta vez, quase que perdeu o controle das palavras:
- Não temo as mulheres, e muito menos os homens. Diante de franceses, infiéis,
bêbados e inconvenientes, minha responsabilidade transforma-se em braveza. Se esta braveza
se expande, posso manipular uma cimitarra afiada da mesma forma como se brinca com um
inofensivo lenço de seda. Ponho um homem em fatias!
- Tu és mesmo um assassino grandiloqüente!
- Muito pelo contrário: sou bastante humilde. Não sou melhor que um pobre broto de
erva queimado pelo sol, mas sou bem quisto, apesar de tudo. Entro e saio quando quero e
costumo ser muito bem respeitado por toda Londres, onde habito junto a uma pequena
burguesia de irmãos árabes. Sou soberbo e cheio de severidade, portanto, exijo bastante
respeito.
- E quanto às mulheres?
- Ao inferno tu e tuas mulheres! E sou lá eu homem que se dá aos tolos prazeres
proporcionados pela carne? De forma alguma!
Zago, porém, não se deu por satisfeito com o rumo da conversa. Achou a resposta do
árabe bastante erradia e obscura:
- Londres é um simples amontoado de bairros fétidos, Buckingham não passa de uma
ruína carcomida e a corte é meramente um agrupamento inchado de vagabundos e
bajuladores. Não há mérito algum em ser bem visto ou mal visto naquela maldita cidade.
Tomemos como exemplo aquela bela dama: vem de lá, tenho certeza. Tem um esposo, isto é
certo também, e ele não passa de um simplório fabricante de sapatos vulgares. Deixa de
comer para engordar suas economiazinhas. Quanto a ela, também não há duvidas: vai a
América. É mais uma típica esbanjadora. Vai gastar seu rico dinheirinho. Que mérito há nos
ingleses? Que mérito há em ser respeitado ou não numa cidade de gente tão medíocre?
O árabe, torcendo o corpo para frente qual um gato, indagou, ciente de ter encurralado
o audacioso Zago:
- Pois se é assim, por que então se debate por completo diante de uma inglesa, se a
tem por esbanjadora e medíocre? Contradizes a ti mesmo. E agora?
Zago riu:
- Es um ingênuo. Não sabes então que as mulheres, tanto da Inglaterra quanto de
qualquer parte do mundo, carregam um feitiço entre as pernas? Se já tiveste a ousadia de vê-
las nuas ou mesmo trajando leves camisolas transparentes, então é certo que já contemplou os
prazeres desse feitiço. Faz louco qualquer um que tenha sangue nas veias. Veja aquela
inglesa: repare como é um veneno tentador. Que pernas maravilhosas! Que canelas grossas! E
quantos cabelos!
O árabe sentiu neste momento uma súbita curiosidade, de forma que olhou-a mesmo.
Sentiu em seguida um leve cansaço:
- É mesmo um belo par de pernas ricamente cabeludas, mas está tudo muito além de
minhas capacidades sensuais. Sou um homem bastante velho. Sobe-me um calor pelo corpo
que quase me pára o coração.
Zago riu:
- Estás mesmo bastante cansado, turco velho. Nas veja: ela sufoca-me com seus
olhares ardentes...
O árabe, perscrutando-a, interveio:
- Quanto a mim, não vejo naqueles belos olhos mais que desprezo para com sua
pessoa. Admira a ti tanto quanto um lagarto...
- Lagarto?
- Lagarto!
Ainda assim, Zago suspirou. Estava carente, apesar de que não era para estar. Tivera
até poucas horas atrás uma outra dama bastante ardente junto ao leito.
Resolveu agir:
- Vou ter-me com ela...
E tentou levantar-se de sua cadeira.
Fracassou. As pernas, frouxas, falharam. O pescoço, mole, rodopiou sobre seu eixo.
Caiu sentado na cadeira, cansado demais para prosseguir.
A dama, porém, permaneceu na sua mesa, serena, a gozar os prazeres de uma
sobremesa. Zago, portanto, continuou animado.
Olhou à volta, mirou o árabe, soluçou. Por fim, indagou-o:
- Como sabes deste maldito baile?
O árabe, sem responder, mirou o nariz avantajado rumo a uma pilastra de madeira
mais à direita. Pregada a ela, um berrante cartaz anunciava espalhafatosamente os horários e
demais detalhes da requintada reunião dançante.
Zago, atencioso, tentou memorizá-lo:
- Sim, sim! Mas é hoje! Já sei quem será minha parceira...
E mirou o nariz vermelho rumo à dama com energia e convicção.
O árabe, até então moderado e calmo, desferiu uma gargalhada:
- És mesmo um convencido! Que tens tu que possa oferecer a ela, senão um forte e
repugnante cheiro de vinho? Tu não danças nem com uma vassoura...
Zago ofendeu-se:
- Pois tenho! Dou com prazer a ela um castelo, se quiser. Basta que aceite meu
convite. Saibas, velho egípcio, que sou um cavalheiro. E sei ir e vir. Vou, sim, convidá-la
para uma contradança, não tenha receios. Ademais, a cerimônia festiva iniciar-se-á em breve.
Chilidos afinados da orquestra serão ouvidos por todos os peixes deste longínquo oceano.
Como haveria de não participar? Não tenho outra alternativa.
O árabe, buscando acalmá-lo, sugeriu:
- Por que não te recolhes ao teu leito e dormes um pouco? O sono é um santo remédio
para se curar bebedeiras. Além do mais, pode ser que topes com aqueles dois marujos e a
festa pode acabar em desgraça...
Zago eriçou-se:
- Não é preciso que haja um baile para que eu os ponha em desgraça. Estou mesmo
resolvido a tomar um cinto e dar-lhes uma boas fustigadas, quer estejam no baile ou não. Se
por um acaso vier a deparar-me com eles durante a festança, tudo será muito fácil: arranco da
calça meu bem trabalhado cinto de couro cru e dou-lhes nos lombos até vergarem. E dou
ainda no lombo de qualquer outro que pertença a esta classe de porcos que roncam e fossam
por esse imundo navio. E a festa há de continuar, animada por uns tiros e gritos.
O árabe, desiludido, balançou a cabeça negativamente:
- Tu não podes consigo mesmo, homem. Profira uma única sentença dura contra esses
corsários e será pisoteado qual um capacho velho. Por que não tentas conviver com eles
pacificamente? Tu és mais sábio, mais belo, mais vistoso. Não é preciso que dê cabo deles
para provar que se é o melhor. Faça-o de outras maneiras.
Zago, pensabundo, concordou:
- Tens razão. Quem semeia chumbo, coleta tiros. Este baile comemorativo é, em
verdade, minha grande e talvez única chance de competir pacificamente com essa
comunidade de conchavadores cheios de malquerença, apesar de que desde já quero que
saibas que levarei larga vantagem sobre eles se dançar com aquela inglesa. Morreriam de
inveja...
- Talvez... talvez... mas tens razão: é sua grande chance de mostrar capacidade e
liderança. Quanto à dama, confesso que aquele que a possuísse como par seria um homem
bastante invejado, mas esta é uma possibilidade que me põe a pensar. Creio-a remotíssima.
Mas mudemos de assunto. Faz calor, não achas?
Zago, entretanto, preferiu prolongar o assunto:
- Calor? Que calor? Que tem o calor a ver com bailes e brigas?
Mas o árabe tornou a desconversar:
- Muito confortável este refrescante refeitório, não achas? Para onde vais? Gostas de
viajar mundo afora? Sim, sim, sou como tu. Gosto muito de viajar também. Aliás, é sempre
bom conhecer novas paragens, novas terras.
Zago, entretanto, tornou a replicar:
- Quê! Então foges do assunto! Se estou a lhe falar de festas, damas, brigas e
conchavos...
O árabe, vencido, rendeu-se:
- Bem, falemos de conchavos. Mas que conchavos? Se há aqui, neste navio, algum
conchavo contra sua pessoa, creio melhor não considerá-lo perigoso. Um navio, por maior
que seja, é um ambiente bastante pequeno para conchavos. E creio ser contraditório que digas
que vive em contigüidade com conchavadores. Se houvesse mesmo algum inimigo por aqui,
já teria dado cabo de ti, bêbado e frágil como estás agora. Mesmo um pirralho de oito anos
seria capaz de matá-lo e jogá-lo mar afora.
- Quê! Estou sóbrio qual um padre e nem mesmo uma legião de pirralhos seria capaz
de molestar-me. Viro um leão!
- Reafirmo o que acabei de dizer. Veja, não há ninguém contra ti, e não quero nem
motivá-lo nem contrariá-lo, mas deve manter as convenções sociais. Mantenha suas boas
maneiras, conserve sua postura com bastante etiqueta até que aportemos. Faltam poucas
horas. Esqueça esta história de corsários e sevícias. É Abduh Abah quem vos aconselha!
Zago, porém, limitou-se a desdenhar:
- Estou acostumando-me já com tipos exóticos e conselhos estranhos. Aliás, sempre
fui considerado um grande cultivador de amizades.
O árabe, perguntou então, tomando coragem:
- Que farás então? Que tens em mente neste exato momento? Consulte-me, e dou
minha humilde contribuição...
Zago, dando vazão à sua curiosidade, indagou-lhe numa fisionomia infantil:
- Penso em comer. Turco velho, bem sei que estás bastante decrépito e cansado pela
idade, mas confio em sua sabedoria. Que achas tu se eu me resolver por degustar esta lagosta,
deliciar-me abusivamente e contrair uma indigestão?
Fora, na verdade, uma pergunta jorrada frente ao árabe de maneira bastante
inadequada, mas o mesmo soube entender-lhe o sentido e acabou por responder:
- As sagradas leituras instruem que um homem tomado pela gula é o mesmo que um
homem tomado por um demônio. A única gula permitida é a gula pela verdade, pela virtude,
por um ideal de vida. A gula material é sempre um pecado Tudo que entra e que sai em
excesso pela boca do homem entorpece-o.
- Diz então que sou um pecador? E o que mais é pecado além da gula? Sou, por acaso,
um homem demoníaco e deturpo-me quando deixo de acreditar nos importantes filósofos e
suas importantes filosofias? Estou desambientado da virtude quando deixo de viver por
idealismos? É um pecador um homem descomprometido com a vida? Sou um desbocado,
confesso. O que pensas a meu respeito?
O árabe, estupefato, pôs-se a pensar, enquanto que suas mãos punham-se a desfiar
mecanicamente a costura da bainha da toalha.
Longos minutos passaram-se com ambos em silêncio, até que o árabe, erguendo com
mansidão a cabeça, buscou Zago olhando-lhe nos fundos dos olhos. Zago, contudo, desviou
os olhos dos do árabe. Queria-o perturbado, nervoso, abalado. Buscava desviar-lhe a atenção
e vê-lo confuso.
O árabe, tendo formulado já uma resposta convincente, preferiu contemplar o homem
a sua frente antes de responder-lhe.
Zago, tendo a lagosta segura por meio da própria mão, esquartejava-a em pedaços e
comia-os em bocados vorazes. Um pegajoso pedaço de legume escorria-lhe por entre os
dedos lambuzados de gordura. Não era cena das mais agradáveis de se ver após uma saudável
refeição.
O árabe, vendo-o em tão bizarra cena, tratou de reformular sua resposta. Baixando a
cabeça, voltou a pensar consigo mesmo acerca do intrigante caso à sua frente.
Outros longos minutos passaram-se com ambos em silêncio, até que o árabe, como
um corpo que flutuasse em pensamentos, voltou a si, ergueu a cabeça e dispôs-se a responder.
E respondeu então:
- Conforme as condições climáticas, mórbidas ou não, ou conforme a idade, os
beduínos dos desertos costumam observar acentuadas mudanças na coloração das pelagens de
seus camelos e dromedários. Os pêlos de um camelo e o caráter de um homem são
semelhantes. Quanto mais velho fica o homem, quanto mais experimenta a vida, maior a
diferença entre ele e seus semelhantes mais jovens. Partindo deste principio, então não
recrimino seus atos impensados. Prefiro que a própria vida mostre a ti como deve ela ser
vivida. E que assim seja, meu jovial e juvenil Pierre Zago.
Zago, contudo, nada respondeu-lhe. Em verdade, entretinha-se com a boca cheia de
lagosta. Pareceu sequer dar ouvidos às palavras do árabe.
Este, porém, manteve-se paciente. Baixando a cabeça, principiou a resmungar belos
cantares e suavíssimas preces em seu linguajar natal, enquanto que aguardava alguma
observação do desatento Zago.
Cantou um verso do Alcorão e entusiasmou-se. Juntou as mãos ao peito, elevou a voz,
proferiu palavras com fervor, bateu com devoção a cabeça contra a mesa. Rezava agora com
grande alarido.
Zago, até então distraído, despertou-se:
- Ei! Que burburinho é este? O que estás a resmungar? Batendo assim com a cabeça
pareces mesmo um louco. Que fazes?
O árabe, parando de súbito sua oração, volveu-se para Zago:
- Recito as verdades deste livro santo...
- Sim, as tais verdades deste libreto carcomido. Mas, ah! Bem que me faz lembrar os
evangelhos! Relatam eles uma bela passagem na qual Jesus realiza o milagre da
multiplicação dos pães...
O árabe animou-se. Fez um gesto cortês, incentivando Zago a prosseguir o relato,
mesmo porque parecia-lhe agora que este finalmente sair-se-ia com alguma tirada de classe:
- Prossiga...
Os olhos de Zago então brilharam:
- Quanto a este evangelho, acho-o um engodo, e quanto aos milagres... árabe, o que
são milagres, o que são conselhos, senão formas requintadas e caprichosas de se ludibriar e
avassalar a massa ignara? Se um homem procura colher cervos dóceis e lacaios subjugados, e
possui para isso uma algibeira vasta o suficiente, basta que com uma também vasta hipocrisia
ponha-se a semear conselhos e milagres.
O árabe, estalando os olhos, indagou, bastante enfurecido:
- Não creio no que ouço! Estás então a maldizer as escrituras e a renegar com vigor a
seus conselhos santos? É uma heresia! Pois aconselho-o a ser mais respeitoso para com as
obras sagradas e para com seus maravilhosos conselhos antes que seja tarde.
- Ora, vá para as profundezas com essa tal de heresia! Saibas: é melhor que conserves
vossos sagrados livros e vossos sábios conselhos para os tolos e para os famintos de servidão,
pois que prezo por demais minha liberdade de ir e vir e pensar por minha própria conta.
Deixe-nos, a mim e à minha ignorância, que nos bastamos por nós mesmos. Ora esta, tu e tua
heresia!
O árabe, contudo, mudou o tom da conversa:
- És mesmo um herege, não tenho dúvidas. E a um herege não se costuma dar muitos
conselhos: corta-se-lhe a cabeça e pronto! Mas sou homem de bem e torno a aconselhá-lo:
pode ainda vir a ser um grande menestrel no palco que os céus lhe reservam. Pense, irmão,
pense! Idolatre o saber das escrituras e terás a longa vida...
Mas já era tarde para súplicas. Zago respondeu, a espumar:
- Há certas funções que um indivíduo tem de exercer na vida. Ao escolher entre ser
um menestrel enclausurado, notável pela sua dependência intelectual, e ser um reles mendigo,
notável pelo seu livre pensar, sou, turco velho, pela alternativa última. Não nasci para espécie
alguma de servidão e estou já bastante atormentado em ouvir esta tua parola interminável.
Que pensas que sou? Tenho lá cara de camelo, dromedário ou qualquer besta que seja, para
ficar a ouvir conselhos e receber ordens de um assassino, um nada como tu? Ora vá.
O árabe, com uma conduta elaborada ao longo dos séculos, herdada de seus
ancestrais, homens e povos do deserto, bem que tentou manter-se calmo, mas a conversa o
venceu e acabou por irritar-se com Zago definitivamente. Contudo, limitou-se a olhá-lo de
cima a baixo com acentuado desprezo. Apesar de irritado, era forte o suficiente para manter a
aparência perante os presentes naquele refeitório.
Zago, indiferente, voltou a entreter-se com sua lagosta, devorando silenciosamente as
carnes de uma patinha bem tostada.
O árabe, enojado, levantou-se do acento e, sem dizer palavras, retirou-se da mesa.
Para Zago, foi uma afronta. Um ultraje em todas as formas e termos.
O árabe ia já adiante, afastando-se, mas não tão longe que não pudesse ouvir algumas
palavras de despedida.
Bradou Zago então, a plenos pulmões:
- Carcamano! Judas! Vejam todos este fariseu hipócrita: prega-me conselhos e
esquece que não passa de um assassino. Vejam todos como foge: é o diabo diante da cruz.
Tirem-lhe o turbante e encontrarão chifres. E um da raça dos que mataram Jesus Cristo. E vai
agora a um sabá. Peguem-no. Vamos vingar-nos de suas maldades. Ah! Mas um dia chegará
no qual haveremos de nos vingar de todos vocês, árabes homicidas e palestinos chifrudos...
Mas o pobre árabe nada lhe respondeu e acabou por sumir, diluindo-se por entremeio
à multidão formada por um pequeno, porém compacto grupo de passageiros. Ninguém
prestou-lhe atenção: preocupavam-se em escutar Zago, e a seus gritos, blasfêmias e afrontas.
Era em verdade uma gritaria por demais extraordinária e arrogante.
Zago, voltando a si, tomou pé da situação. Provocava risos tanto nos adultos quanto
nas crianças..
MAIS FIASCOS

A situação naquele refeitório não lhe era favorável.


Incomodado, refletiu acerca do fiasco que sua própria extravagância provocara.
Mas quê! Sentia-se vingado, célebre, fantástico e excelentemente bêbado.
O álcool fervia-lhe o sangue, turvava-lhe a vista e fazia-lhe os pés comicharem.
Contorceu-se ferozmente por sobre a cadeira de palha trançada.
Por uma questão de conforto, resolveu por tirar dos pés o seu galante par de sapatos,
mas um minuto depois os dedos esfriaram de tal maneira que viu-se forçado e vesti-los
novamente, temendo um novo constipado.
Quanto à fome, sentia-se saciado, mas uma espécie de enigmático formigamento
impedia que mantivesse a quietude e a paz. As mãos não paravam quietas e os dedos
teimavam em apertar, esmagar, amassar.
Tomou então, involuntariamente, um pedaço de papel que viera embrulhando um
pedaço de queijo fresco. Amassou-o, alisou-o e tornou a amassa-lo. Por fim, esfregou-o junto
à boca gordurosa, apesar de que era um papel bastante sujo e inadequado para um ato de
limpeza pessoal.
Neste intervalo, o refeitório foi esvaziando-se pouco a pouco, até que quando se deu
conta, restavam apenas as crianças, entretidas nas suas folias por entremeio aos garçons
atarefados.
Era já hora de dar um rumo ao dia, tomar alguma atitude sensata.
Amassou então o pedaço de papel gorduroso com dedos firmes e veementes. Fez dele
uma bolota e ameaçou atirá-la longe, mas uma criança que brincava à volta chamou-lhe a
atenção e acabou por chamá-la junto a si e dar-lhe a bolota de papel de presente. A criança
veio até ele, e ele, arremessando a bolota para o alto, fê-la cair-lhe na própria cabeça e
espirrar nas mãos da agora encantada criança.
Foi um belo gesto, embora não se tratasse de uma atitude sensata nem fosse capaz de
dar ao dia o rumo desejado, mas foi belo mesmo o bastante para agradar ao menos a uma
criança e a um bêbado.
A criança saiu a correr refeitório afora e um minuto depois, via-se rodeado por ela e
mais meia dúzia de outras, todas alegres e saltitantes. De fato, sentiu-se bastante célebre e
prestigiado pelo pequeno, porém entusiasmado cortejo.
Fez galhofas para agradar a um menino bastante obeso e robusto, que saiu a saltitar
por entre as mesas aos berros.
Piscou maliciosamente com um olho para outra criança que o rondava, uma ingênua e
antiquada moçoila já com os seus dez anos, que corou, mostrou-lhe a língua e xingou-o de
grande asno.
Por fim, mais uma dúzia de crianças vieram rodeá-lo à mesa e foi um pandemônio de
gritos, puxões e beliscões na sua pessoa que acabou por se enfadar delas mais rápido do que
esperava.
Berrou então:
- Fora, todos! Obedeçam, ou mostro-lhes uma varinha que tenho cá comigo, que não é
nem encantada, nem de Condão, nem de nenhuma fada. Quietos, ouçam todos! Ou muito me
engano, ou ouvi alguém lá fora a dizer que tem um saco de pirulitos... corram, que deve ser
algum velhinho bondoso...
As crianças, como que encantadas diante da palavra pirulitos, precipitaram-se a correr
qual uma matilha de cães pequineses frente a um gato temerário. Poucos segundos depois e
Zago estava só.
Satisfeito, chamou então por um copeiro:
- Venha cá, meu velho, e leve embora este lagostim seco daqui desta mesa, que já me
dá entojo. Depois volte até mim, que tenho algo a dizer-lhe...
O copeiro, homem prestativo, limpou rapidamente a mesa e um minuto depois
apresentava-se junto a Zago para ouvir-lhe o que tinha a dizer.
Zago, segurando-lhe o punho amigavelmente, disse-lhe:
- Muito bem! Gostei de seu serviço. Sei já que és um lacaio intrépido. Levai então
este bilhete de minha pessoa à uma dama de belos decotes que ali estava até agora a pouco. É
apenas um recado seguido de algumas belas trovas, todas de minha autoria. Pretendo ir ao
baile hoje à noite e prestar homenagens para cortejá-la. Diga-lhe então que estarei presente na
tal cerimônia comemorativa, e que facilmente me reconhecerá, pois estarei nos meus
melhores trajes de gala. Dançarei com ela, se me aceitar. E não esqueças de arrancar-lhe uma
resposta. Confio em ti. Tome cá algumas moedinhas, que bem mereces. Agora vá!
O copeiro partiu e Zago acompanhou-o com o olhar.
A dama já se retirara, mas permanecia ainda nas redondezas do refeitório, de modo
que não foi difícil ao copeiro encontrá-la. Estava ela sentada num banco de madeira ornada
de floreios esculpidos.
Zago viu quando ela, movida talvez pela curiosidade, apontou a cabeça na entrada do
refeitório, olhou-o e escondeu-se em seguida, muito rapidamente. Bem que tentou sorrir para
ela, mas não houve tempo. Concluiu, contudo, que seus versos faziam efeito, e que seria um
baile bastante agradável.
O copeiro, porém, demorou-se bastante com a resposta. Em verdade, era a parte mais
interessante, visto que saberia realmente a impressão que causara, mas nada podia fazer para
apressá-lo. Não havia palavras ou dinheiro no mundo que lhe resolvesse o problema.
Já sentira antes, porém, os efeitos nefastos de uma espera desagradável. As
desavenças com Pedro começaram com um simples recado. E bastou que pensasse em Pedro
para que as veias de seu pescoço estufassem e seus dentes rangessem.
O copeiro surgiu então pela porta e veio de encontro a Zago, que acalmou-se de seu
nervosismo. Uma espécie de fagulha o trespassou, e o nervosismo deu lugar à excitação.
O copeiro, por sua vez, não parecia nada excitado. Vinha a balançar a cabeça, rindo de
maneira desgostosa.
Zago, vendo-o, sentiu o coração palpitar. Indagou então, tentando demonstrar
tranqüilidade:
- E então, preguiçoso? O que disse a dama?
O copeiro empertigou-se, desferindo um sorrisinho amarelo:
- Nada de agradável. Tomou na mão o seu bilhete, leu-o, rasgou-o em milhares de
pedaços e os jogou ao mar. Resolveu então vê-lo pessoalmente, mas não gostou do que viu.
Quanto aos versos, recomendou-lhe um pouco mais de etiqueta para com pessoas
desconhecidas. Quanto à sua aparência, achou-o bastante sujo e displicente. Achou um horror
esta sua casaca coberta de manchas...
Zago desculpou-se:
- Mas são meras manchinhas de vinho e respingos do molho daquela lagosta...!
- Talvez sejam mesmo, e também não as acho assim tão horrorosas, mas não é comigo
que o senhor pretende dançar, e nem eu também o pretendo. Apenas repito o que ouvi. Mas
não foi só: disse ainda que nem pelo maior tesouro deste mundo sujeitar-se-ia a aparecer num
baile acompanhada de sua pessoa, mesmo porque, conforme ela mesma explicou, é porque já
tem um parceiro para esta noite.
Zago enciumou-se:
- Quê! Duvido que haja neste navio um homem belo o suficiente capaz de seduzir e
conquistar mulher tão arrogante e atrevida.
Mas o garçom o contradisse:
- Foi o que pensei também, mas antes que eu perguntasse, ela disse: seu homem a
bordo é ninguém menos que o nosso próprio capitão. Convenhamos, senhor, que é ele um
homem verdadeiramente galante e belo. Aliás, acho-o lindo! Lindíssimo!
- Ora vai, que estás também apaixonado pelo tal capitão?! Olhe lá, homem, que não é
certo brincar com este tipo de gestos e rebolados. Cuidado, ou ainda o tomam por um
pederasta...
O copeiro, porém, reafirmou:
- Sou bastante homem, e dos mais viris a bordo. Tenho já uns doze filhos espalhados
mundo afora, e não sou de negar fogo junto às damas, mas a verdade é que tu não conheces
mesmo o nosso capitão. É tão belo que marujos mais fracos chegam a comover-se diante de
tanta beleza.
Zago despachou-o então, dizendo:
- Vá para o inferno, tu, teus marujos comovidos juntamente com a dama e o teu
lindíssimo capitão, que não passam de um bando de moças dengosas e mimadas. Esta bem, já
fez o que tinha de fazer. Agora some!
E saiu por definitivo do refeitório tomando a grande porta de saída, onde se
encontravam ainda uma dúzia de homens e mulheres a bravatear e fumar.
Juntou-se a eles, embora que sem ser convidado. Tomou parte no círculo de pessoas e
buscou demonstrar pose. Rufou então, com majestade, para que todos em roda ouvissem:
- Vejam os senhores e senhoras que desorganização é este maldito refeitório. É
lamentável que haja tanta lambujem e tantos restos de comida esquecidos pelos cantos. Antes
então que os jogassem ao mar para alimentar as baleias, mas não. É tudo podre e vergonhoso.
Mas não é só. Vejam novamente senhores e senhoras: ouvi dizer que hoje à noite haverá um
baile de gala no refeitório deste vapor. Uma valsa nesta pocilga! Era o que faltava.
Um senhor de suíças, gordo qual uma foca, soltou então uma forte e ofensiva baforada
de um cachimbo, dizendo:
- Parece-me um baile e um local bastante apropriado para ti. Convenhamos todos: o
cheiro desse jovem à nossa frente não é lá tão agradável e aromático quanto desejávamos.
Uma pocilga seria um local bastante adequado para o senhor, fique sabendo! Unf!
Zago, inabalável, retalhou o insulto:
- Sim, virei mesmo ao baile hoje à noite. Como tenho plena certeza de encontrá-los, e
ao senhor também, e à sua senhora, venho preparado. É ao senhor mesmo que me refiro, o
senhor mesmo, que tem um cachimbo na boca igual a um índio, uma suíça na face igual à de
um gato, e nariz achatado igual ao de um boi, e que acaba de falar igual a um tolo. Ando
sempre prevenido, mas basta-me um crucifixo e um arcabuz. Com o primeiro eu rezo ao
Senhor, e tento salvar as meretrizes, e a seus tão sofridos espíritos, mas quanto aos ratos de
bordo e demais roedores marinhos, uso o arcabuz. Tenho certeza de que cada um que agora
aqui se faz presente terá a sua cota noturna de castigo e sofrimento, bando de pecadores,
libertinos e pervertidos!
O gordo, bufando, corou:
- Dê as caras neste recinto mais à noite e o pego pelo pescoço e o atiro ao mar, seu
vilãozinho atrevido!
Mas Zago não se intimidou:
- Reafirmo que venho, e acabo de vez por todas com este corrompido "rendez-vous".
Olhares diversos estalaram, indignados, mas Zago, com o seu francês claudicante,
nada temeu.
O gordo, roxo, fez o peito roncar. Enojado, expeliu um grosso catarro numa cusparada
mar abaixo, demonstrando seu desprezo, sua indignação, sua repulsa.
Uma das damas presentes perdeu o fôlego e desmaiou. Outra, assustando-se, caiu
também desfalecida.
Um marujo, acostumado já a escândalos, limitou-se a balançar negativamente a
cabeça.
Zago partiu para seu camarote, mas duas horas depois o falatório em torno do
acontecimento ainda era grande.
À noite, realizaram o controvertido baile.
Foi um fracasso total, embora que Zago estivesse ausente.
As damas recusaram-se a comparecer, temerosas de alguma violência. Os cavalheiros,
embora bastante decididos a dançar, também não deram as caras. As esposas, ciumentas, não
permitiram que aparecessem desacompanhados. O gordo, por sua vez, jurou que dançaria a
noite toda, mas foi acometido por uma indigestão bastante suspeita e acabou por recolher-se
logo cedo.
Os marujos, embora não precisassem simular nenhuma indigestão, também não foram
ao tal baile, mesmo porque tinham coisas mais interessantes a fazer. Os que tiveram
disposição para ir, não mais que uns sete ou oito viciados gatos pingados, preferiram entreter-
se com um disputado jogo de cartas, e, bons pilantras que eram, passaram-se por indiferentes
e desapercebidos.
Assim desprestigiado, o refeitório não foi palco nem do baile nem de nada. Os
músicos da orquestra, neutros que eram, afinaram seus instrumentos, tocaram rapidamente
uma música sem alegria, recolheram suas partituras e desapareceram definitivamente.
Meia hora depois, o salão estava vazio e o baile definitivamente enterrado.
Zago roncava, embalado pelos sonhos dos ébrios.

A RESSACA

Novo dia raiou.


Zago, apesar de ter mostrado uma fulminante capacidade verbal no dia anterior,
amanheceu fulminado pela ressaca.
De fato, no dia anterior mostrara bastante determinação, embora prejudicada pelo
excesso de vinho e pelo sotaque ridículo. Mas foi esta mesma determinação que acabou por o
fazer respeitado frente àquela milícia de marujos e passageiros. O vinho, subindo-lhe à
cabeça, impunha uma força vigorosa. Tornava-o mais aguerrido e mais disposto a viver.
Tocado, punha-se então a falar qual um general e, apesar de que seu sotaque fosse
horroroso e dificílimo de se entender, mostrava-se bastante capaz para se impor com a força
de sua eloqüência.
O álcool, porém, cobrava sempre seu preço.
A cabeça agora trincava. Os olhos, rodeados por uma papada roxa, pareciam queimar
numa febre espantosa.
incomodava-se com um arder no estômago e com a sede.
Estava, enfim, intratável.
Ainda na cama, e despido da cintura para cima, levantou-se.
Tomou então de uma casaca verde e vestiu-se, mas em princípio não reparou na
grande mancha escura a borrar-lhe a manga esquerda. Quando então deu por ela, revoltou-se,
mas ainda assim permaneceu com a casaca, mesmo porque não tinha nenhuma outra que
fosse mais adequada. Tinha outras várias, mas nenhuma era como aquela: ou eram menos
bonitas, ou mais feias, ou eram menos limpas, ou mais sujas. Sua revolta, contudo, era um
exagero.
Saiu do camarote sem rumo definido.
Cruzou com um marujo aqui, esbarrou numa criança ali, e deu uma topada num
rapagão acolá. Deu-se conta então de que poderia muito bem tomar um alguém qualquer
entre as unhas e encher esse alguém de pancadas e socos, porque estava verdadeiramente
irado, mas essa ira não era nenhum segredo. As rugas e as olheiras em sua cara mal humorada
eram bastante reveladoras e claras.
Pancadas, socos e formas semelhantes de violência, porém, não lhe pareciam ser
corretos.
Tratou então de fazer retrair a ira, moderar os reclamos banais e recluir no
inconsciente toda espécie de idéias violentas. Apaziguou-se, a meditar sob os aspectos da
vida.
Estava já cansado de intrigas.
Na verdade, estava cansado de diversas e variadas coisas.
Por que era tão desafortunado no contato com a sociedade, se sabia-se bom nos
versos, ágil na prosa, rico no vocabulário e abundante na simpatia?
Não soube responder, mas quando resolveu buscar uma resposta, a cabeça latejou e
não pode prosseguir na sua busca.
Uma coisa, porém, era certa: o conveniente de hora em diante era manter a paz. Cabia
então ser mais zeloso com as palavras e politizar com os de bordo até a hora do desembarque.
Faziam-se afinal necessárias a sensatez e a calma.
Não se sentia envergonhado pelos acontecimentos do dia anterior, mas se o acaso o
levasse a inimizar-se com mais algum passageiro daquele navio, era certo que sentir-se-ia
mortificado. Afinal, tinha lá o seu brio a preservar.
Apesar de que a cabeça parecesse rachar, resolveu por pensar melhor no assunto.
Concluiu consigo mesmo: "nem sempre devemos confiar em nossos próprios eus
interiores. São falsos, mesquinhos e muitas vezes estão mais interessados em nos arruinar do
que propriamente nos dar confianças. Esses tais eus interiores...!"
Como fora tolo em expor-se tão desbragadamente! Bebeu, comeu, brigou, brincou e
tornou a brigar sem nenhuma recompensa, e neste meio tempo, a valise esteve às mínguas, à
mercê da ousadia de um gatuno qualquer.
Diante de sua negligência, era dispensável que se perdesse tempo em busca de
desculpas, álibis e razões bem formuladas para o acontecido. Cabia, sim, arquitetar um plano
para os dias vindouros, porque era certo que cedo ou tarde haveriam de querer tomar sua
cobiçada valise.
Passou então a manhã toda a planejar.
E planejou.
Dois litros d'água goela adentro e a cabeça já não doía tanto.
Concluiu então: nada de dilemas.
Quanto à valise, mantê-la-ia trancafiada num nicho secreto qualquer, ainda a ser
escolhido.
Quanto a Inácio, o marujo, e Pedro, o esquálido, mantê-los-ia sob discreta vigilância,
mas não os molestaria nem os surraria. Nada de vinganças ou revides, embora que a mera
lembrança dos acontecimentos do dia anterior o fizesse fungar energicamente pelas ventas.
Quanto ao trato com a sociedade, manter-se-ia afastado, silencioso e solene, mas caso
fosse preciso falar, usaria as palavras com tato.
Quanto ao resto, nada planejou. Estava cansado por demais.
Mas não se deu por satisfeito com os planos traçados para com Inácio e Pedro. Não!
Vigilâncias discretas, inimizades veladas, politicagens, nenhuma dessas táticas
convinham-lhe, nenhuma delas adaptavam-se com a agressividade de seus instintos, porque
de forma alguma era um homem de charme e tolerância fáceis quando furioso. Fazia-se
necessário um plano mais severo e punitivo para com os dois inimigos, era certo.
Mas estava mesmo cansado e fraco. Limitou-se a prometer a si mesmo tramar um
plano ideal de vingança, mas não naquele momento. Julgava acertado eliminar
oportunamente seu inimigo maior, o traiçoeiro Inácio, assim como seu comparsa, o
deformado Pedro, sim, mas primeiro tinha outras idéias em mente.
Na verdade, tinha muito o que pensar e planejar, mas preferiu ser sensato e acabou se
decidindo por algo de mais concreto.
Assim decidido, pôs-se a pensar no almoço seguinte, que não tardaria a chegar, e
deixou a imaginação fluir.
Uma ave! Degustá-la-ia, se pudesse. Uma ave apetitosa, servida com arte, temperada
por um bom cozinheiro, apetrechada de azeitonas e ameixas.
O estômago, judiado pelos excessos, queimava...

NOVAMENTE O ARABE

Mal saiu porta afora em busca de seu almoço e foi subitamente barrado por uma mão
escura e enrugada, embora que rija e forte.
Era o árabe.
Zago bem que tentou desvencilhar-se do homem, porque estava pensativo e indisposto
para prosas e debates, mas aquela mão escura com seus cinco dedos tenazes e nodosos
impediram-no.
O árabe, decidido, falou-lhe então:
- Zago, andei pensando em ti e em tuas palavras. Tenho mesmo este costume, o de
meditar acerca do que os homens dizem. Ainda assim, dói-me o espírito quando lembro-me
da cena animalesca de ontem, no refeitório.
- Concordo contigo. Agiste mesmo com bastante selvageria e rudeza.
- Não tanto quanto tu. Aliás, se o comparo a um animal, ofendo a natureza. Agiste
antes como um diabo. Mas não me tomes por um inimigo. Quero antes que pense acerca das
coisas e medite sobre os acontecimentos. E comum que os homens roguem aos céus por
perdão diante de suas mortes, mas nem sempre é preciso que se esteja moribundo para
arrepender-se de um pecado. Mesmo as almas mais infames costumam receber o perdão
quando o pedem com sinceridade aos céus.
- Estás a me cobrar uma retratação? Quer então que me ajoelhe diante de ti? Mas, ora,
convenhamos, não achas que queres demais?
- Não é o caso. Não sou eu quem cobro o perdão. Um homem que cobra perdões nada
mais faz que praticar a verdadeira e legítima usura moral. Não sou afeto à agiotagem
espiritual de espécie alguma. Aliás, mesmo que me resolvesse por cobrar-lhe o perdão, e tu
resolvesse por pagar-me, embora que eu seja um homem bondoso e possa absolvê-lo, de nada
adiantaria. Se esfolasse seus joelhos diante de mim, faria um sofrido sacrifício, mas perante
os céus seria inútil, e nem por isso seu nome constaria na lista dos eleitos no livro da vida.
- Se não cobras meu perdão, o que queres então?
- De fato, não o cobro. Sou obtuso demais para agir desta forma.
- Que queres então, homem? Desembucha!
- Pois sim! Quero apenas que... quero apenas que reflitas um pouco acerca dos
acontecimentos de ontem.
- Os acontecimentos de ontem refletem-se por si mesmos. E não sinto então a cabeça
a latejar, o estômago a rumorejar, e toda espécie de reflexos desagradáveis? Bem sei dos
acontecimentos de ontem...
O árabe afrouxou então os dedos. A resposta, embora que não esperada, lhe era
satisfatória. O mau fazia-se pesar, embora que fisicamente.
Resolveu tomar o seu rumo e o tomaria mesmo, mas Zago o deteve:
- Já vai? Que temes? Ouça um pouco, que ouvir não faz mal a ninguém.
O árabe, em verdade, não queria mesmo ouvir. Fez um gesto mostrando-se apressado,
mas Zago tomou-lhe a frente e não foi possível fugir-lhe:
- Alto lá, beduíno, que tenho também minhas palavrinhas a dizer.
- Diga-as logo, que tenho pressa e urgência...
- Penso como tu. Desejo-lhe o bem. E quero também que reflita. Mas não se perturbe
com o ontem, que já não existe, nem com o agora, que logo também não existirá mais. Pense
sobre o amanhã. Desembarcaremos em breve. Portos são como formigueiros. Eis então um
bom local para meditar. Olhe o povo. Olhe com atenção as várias criaturas humanas indo e
vindo por sobre a terra, ocupadas em cumprir as funções usuais que Deus lhes deu.
Conservam e proliferam a vida. São como os animais. São de uma espécie diferente, mas
nem por isso agem diferentemente. Agem todos conforme suas naturezas. Então, beduíno,
veja-te a ti mesmo. Quem és tu? O que és tu? Que temos de tão diferente para que se
proponha a censurar-me e aconselhar-me? Não cumpro eu minha missão divina tão bem
quanto tu? Sabe tu o destino que Deus reserva a cada homem? Então, reflita um pouco sobre
si mesmo. Creio ser mais lógico e sensato...
E abriu-lhe o caminho em seguida.
O árabe balbuciou algo, mas deixou este algo morrer no ar e baixando a cabeça,
seguiu corredor afora, boquiaberto.
Zago não mais o viu desde então.
Talvez fosse possível que tenha passado o resto da viagem adoentado ou a dormir,
mas também era bastante possível que a tenha passado a meditar e cismar.
E quanto às palavras de Zago? Pensaria nelas? E por quanto tempo? Ou eram por
demais hipócritas para serem levadas em conta?
Zago, contudo, pensou nelas ele próprio, e por longos anos. Viu nelas uma hipocrisia
aparente, era verdade, mas julgou em seus pensares que mesmo uma grande hipocrisia pode
conter boas doses de verdade.
No fundo, julgou certo. Afinal, tinha lá seus defeitos, mas não era de modo algum um
mal filósofo.
Quanto ao árabe, nada mais se soube. Como também não era mal filósofo, é possível
que tenha, tal qual Zago, julgado as coisas da mesma maneira...
A CIÊNCIA DAS COISAS

Zago almoçou tão fartamente que temeu rebentar.


Rodou o navio, tentou incentivar um cochilo, mas o sono não veio.
A tarde caiu e viu-se entediado e nulo.
Foi então contemplar a vista do mar junto à proa do navio.
Olhou o céu, olhou as nuvens, olhou o sol e olhou as ondas. Quando olhou o
horizonte, porém, teve um lampejo, depois um susto.
Raciocinou em cima deles.
Partindo do princípio de que o sol se punha no horizonte, e que o navio, incansável,
navegava em ritmo firme e contínuo a vários dias e noites, então uma coisa lhe pareceu clara
e certa: o mundo realmente não tinha fim.
Sentiu o vento marítimo varrer-lhe a cabeleira com maciez e frescura.
O mundo! Agora conseguia vê-lo! E não tinha mesmo fim!
No principio, em sua mocidade, era teimoso e incrédulo, mas agora dava o braço a
torcer: Copérnico tinha mesmo razão. Podia entender agora suas sapientes leis e tratados
acerca da natureza dos corpos celestiais, e extasiava-se com a nova descoberta.
Admirava-se, enquanto o vento lhe batia no rosto em cheio.
Outrora, jamais arriscaria embarcar em viagem tão temerosa. A seu ver, era bastante
concebível que numa viagem dessas tanto um navio quanto toda uma frota poderiam muito
bem ser tragados por monstros ou por algum abismo negro. A muito que ouvia falar em um
abismo bastante grande, famoso por delimitar as águas do fim do mundo. Todo marujo vivido
o conhecia. Não via porque desacreditá-los. Não era um ou dois que o diziam: eram muitos.
Então, pensava, o mar era um risco. O abismo, infinito, estava logo ali, escondido por
detrás das ondas. Bastava que se partisse da Europa com uma tripulação num bom navio em
rumo fixo e pronto: lá iam eles, navio e homens, para as profundezas do nada para todo o
sempre, não havia dúvidas.
O abismo estava lá, atrás das ondas, demarcando o fim do mundo. Em sua imaginação
não deveria ser muito diferente de uma cascata, de um fosso ou de um muro, desses que
demarcam as fronteiras dos castelos dos grão-ducados. Cercava o mundo de ponta a ponta,
imbatível, impenetrável, infatigável.
Mas agora o batia, o cansava e o penetrava sem nenhum esforço e medo. Vazava o
mar de um lado ao outro e nada de cascatas mortais, nada de quedas, nada de redemoinhos.
Vencia os elementos!
Ah, sábio Copérnico! Agora o compreendia.
Aliás, há muito que o ouvia falar por meio de histórias e livros, mas nunca lhe dera
ouvidos. Agora, porém, era diferente.
Imaginava-o, debruçado por sobre livros e mapas, a traçar cálculos e rotas, e
comprazia-se de entendê-lo.
Quanto às suas leis e tratados, pouco sabia. Em verdade, muitas delas e muitos deles
escapavam-lhe ao raciocínio, tamanhas suas sutilezas e complexidades. Compreendia, quando
muito, as suposições mais elementares acerca de um astro ou outro, mas era só.
Mas não se sentia nem confuso nem ignorante diante de tamanho conhecimento.
Ainda que de profundidade elevada, era conhecimento de cerne bastante acessível, porque
tinha já uma clara visão do mundo e um raciocínio bastante conciliador com a natureza das
coisas, e agora ainda mais.
Sim, Copérnico era gênio, suas leis eram verdadeiras e o mundo era uma bola, não
tinha mais dúvidas.
Uma tempestade formava-se num canto distante, e trovões ecoavam pela imensidão
do vasto oceano.
Contemplou então o horizonte, emocionado.
Enquanto o fazia, surgiam nítidas, diante de seus radiantes olhos, as afamadas terras
da América...

POR FIM, A AMÉRICA

Um vento forte fez esticar-lhe os cabelos, e um rumorejar ao longe prenunciou a


esperança de chuva.
Ouviu com espanto uma série de fortes trovões a sudeste, onde a tempestade formava-
se, poderosa.
Embora o ribombar dos trovões perdesse a força no vácuo de silêncio que rodeava o
oceano, ainda assim achou por bem procurar algum abrigo.
Percorreu com calma o passadiço, ocupado de um lado a outro por um grupo de
moças a menear as cabeças, tediosas da viagem. Resolveu parar a um canto, na busca de
observá-las.
Havia algumas delas que mantinham-se quietas, recostadas no parapeito do convés,
mas um número bastante grande delas ia e vinha de uma ponta a outra do navio num rondar
incessante. Fossem homens e seriam tomadas por vigias ou sentinelas.
Zago escolhera um canto sossegado, mas a chegada de três barulhentas moças nas
proximidades provocou um verdadeiro tormento. Zago procurou então outro canto e achou-o,
bastante quieto e pouco concorrido. Estacou-se por ali.
O silêncio o fez divagar.
Pensou em tudo um pouco. Varreu na memória toda espécie de assunto, e estacionou
o pensamento numa curiosa passagem histórica. Era estranho, mas um mecanismo mental
qualquer o fez pensar na Roma antiga e seus costumes, e seus cristãos, e suas festas, e seus
leões, e seus cristãos sendo comidos pelos seus leões, e uma série de outros detalhes bastante
exóticos e curiosos.
Pensou em seguida na América. Como seria? Como o receberiam?
Teve alguns receios e pressentimentos, porque um outro mecanismo mental qualquer
em seus pensares fez da Roma antiga e da América moderna um único só lugar, por sinal
bastante injusto e um tanto assustador.
E se fosse um aviso, o tal pensamento? E se fosse ele próprio para a América o que
fora um cristão para a antiga Roma? Teria rodado o mundo todo justamente para vir a ser
aviltado e perecer qual um mártir num país exótico e distante por uma obra do acaso? Quem
comandava-lhe a vida? Deus? O diabo? O destino? Não sabia.
Fosse qual fosse a sua sina, e fosse quem fosse que a comandasse, nada mais podia
fazer, a não ser aguardar os acontecimentos. Podia, sim, atirar-se ao mar e tentar, a nado,
voltar à Europa, mas tal idéia não lhe pareceu muito agradável. Preferiu mesmo aguardar o
desenrolar dos fatos.
Talvez seu destino fosse mesmo morrer como um mártir num país exótico e distante,
mas talvez não. Tudo era possível.
A seu ver, entre a Roma antiga e a América moderna deveria haver alguma diferença.
Afinal, longas distâncias e longos séculos as separavam.
Partindo deste ponto de vista, parecia-lhe possível que um homem estrangeiro pudesse
ser morto injustamente num canto qualquer da América, mas era necessário que houvesse
motivos bastantes para tanto. Do contrário, ninguém teria interesse em matá-lo, por mais
estrangeiro que fosse ou deixasse de ser.
Cabia então não dar motivos para matá-lo. Mas quais seriam os motivos que levariam
um povo a matar um estrangeiro?
Pôs-se a pensar acerca dos sentimentos humanos malignos. Concluiu para si mesmo,
num bocejo: "o máximo de proveito que podemos tirar de uma pequena quantia de inveja é
sempre proporcional à quantidade mínima de proveito que nunca conseguimos tirar daqueles
que nos invejam..."
Por fim, cansou-se. Nada sabia nem dos gostos nem dos desgostos do povo
americano, de modo que achou por bem encará-lo como um povo qualquer, mais um dentre
vários a habitar a vastidão do globo terrestre. Não havia porque serem diferentes.
Concluiu então só existir um meio pelo qual um homem poderia viver em paz num
país cujo povo tivesse lá seus méritos e deméritos sem cair em exageros. O meio correto era a
cautela.
Sim, a cautela.
Por que haveria de se arriscar junto a um povo bravio e temerário? Nada mais sensato
que a parcimônia quando se coabita com selvagens, pensou.
Prometeu, a si mesmo, ser de hora em diante o mais sensato, cauteloso, parcimonioso
e discreto possível, de modo tal que causasse inveja mesmo a um monge, porque desta
sensatez, dessa cautela, dessa parcimônia e dessa discrição dependia a sua vida. Era ser ou
não ser. Ou se era, ou se deixava de ser.
Como não era bobo, deixou de imediato o não ser de lado...

A TROUXA DE ROUPAS SUJAS

O sol da tarde imprimia ao navio um infernal tom jáspeo. O dia já terminava.


Zago pôde ver então as ondulações da costa, e entre elas, os contornos da perigosa
cidade do Rio de Janeiro. Assustou-se, mas, resistente no canto do convés avermelhado,
manteve-se firme no seu tédio. Embrenhava-se em pensamentos melancólicos, deixava-se
levar pela modorra das horas daquela longa e dura tarde de fim de ano. Pensabundo,
regurgitava na mente a série de providências e promessas a serem cumpridas, enquanto que
fitava o mar basto de luz vermelha. Obviamente que não sentia nenhuma espécie de
curiosidade ou ânimo.
Mas seu sossego durou pouco.
Surgindo no horizonte a medonha cidade, um grupo de belas, porém indesejáveis
moças e senhoritas vieram admirá-la.
Estivessem apenas a contemplar a paisagem, e não sentir-se-ia tão importunado, mas
não. Não era só à cidade que reparavam. Algumas moças, bastante atrevidas e regateiras,
tangiam olhares bastante minuciosos rumo a sua humilde pessoa.
Uma apontava para um botão frouxo na sua casaca. Outra comentava uma dobra, e
ainda uma outra, a poeira de seus sapatos. Enfim, nada houve na sua aparência externa que
não fosse comentado e criticado nos seus mais ínfimos detalhes. Foi medido com precisão da
cabeça aos pés, analisado em todos os ângulos e em todas as proporções.
Pela forma como o olhavam, como cochichavam e como riam, era certo que Zago lhes
era um perfeito exemplo de mau gosto e feiúra estética. Algumas, mais reservadas, encobriam
os rostos com leques e plumas e desferiam risinhos velados.
Outras, porém, não eram assim tão comportadas. Punham-se em posição estratégica
frente a todas e o desaprovavam de forma aberta, rindo desbragadamente e fazendo gestos e
expressões galhofeiras na mais pura maldade.
Quanto a Zago, não era de forma alguma feio, mas seus trajes eram, infelizmente,
trajes talhados em estilos a muito fora de moda.
As moças e senhoritas tanto riram e tanto comentaram que acabaram por irritá-lo
definitivamente. Resolveu-se por ir descansar num canto mais afastado daquele navio.
Deixando as moças para trás, viu-se a sós ao pé de um mastro, donde se via, por trás,
uma grande chaminé a expelir fumaça e vapor.
Sentiu-se amarfanhado e sujo. Pudera! Não havia beleza na terra capaz de resistir às
críticas meticulosas de meninas tão atrevidas.
Olhando de um lado a outro, e vendo-se sozinho, arriscou olhar-se. Olhou-se então,
procurando com curiosidade as causas de tantas malícias e maledicências. A princípio nada
viu, mas, desconfiado, achou por bem passar a mão de cima a baixo, na busca de alisar as
rugas da velha casaca. Era uma maneira improvisada, fruto do desespero. Não queria vê-la
impecável, porque sabia impossível, mas, ao menos, se pudesse torná-la menos amarrotada,
já seria um sucesso. Quanto menos se assemelhasse a um simples homem do povo, melhor se
sairia. Mas esfregou tanto as mãos quanto os braços casaca afora que acabou por cansar-se,
sem, contudo, apresentar melhoras. A casaca continuou como antes, parecendo um pano de
chão. O alisar mostrou-se infrutífero. Seus esforços deram em nada.
Sentiu-se como o mais desleixado dos homens.
Era preciso agir. Do contrário, a consciência e a vaidade não lhe dariam trégua. Mas,
agir de que forma?
Resolveu voltar para seu camarote, onde teria mais calma e privacidade para suas
ações. Abandonando seu posto junto ao mastro avermelhado, tomou então o caminho do seu
aposento.
O caminho, porém, trazia um pequeno contratempo. Era inevitável: teria de passar
rente às moças, expondo-se mais uma vez ao vexame e ao ridículo.
Mas conseguiu passar por elas usando de um artifício. Paciente, aguardou pelo
momento em que todas, como por milagre, tinham as vistas voltadas para um cardume de
golfinhos. Agindo com cautela, pôs-se a trotar. Aliviado, olhou para trás e felicitou-se pela
própria esperteza.
Passara sem ser visto.
Parou de trotar, mas não arrefeceu a caminhada. Usando de passos longos e rápidos,
logo estava às portas de seu discreto camarote.
Adentrou e achou conveniente esticar o corpo de través junto ao leito, porque arfava.
A fuga tática fora perfeita, mas o fizera cansar.
Acomodado, viu que era já hora de buscar uma maneira satisfatória de dar jeito à sua
aparência. Precisava dar fim ao falatório. Suas vestimentas, tão carentes de beleza, eram
agora problemas urgentes e importantes.
Olhando à volta, viu-se rodeado de imundície, e muitas idéias lhe ocorreram então,
mas nenhuma boa o suficiente para solucionar suas novas e emergentes dificuldades estéticas.
Seu camarote, feio e conturbado, não lhe inspirava nenhuma resposta.
Confuso, escorou os pés por sobre a guarda do pequeno leito. Estirado, sentia o
interior varrido por um misto de irritação e vergonha.
Olhou então para os pés, recobertos por um par de sapatilhas de uma pelica bastante
curtida pelo tempo. Como fora tolo em comprá-las. Poderia ter gasto o dinheiro com sapatos
lustrosos ou botinas viris, mas não. Escolhera as sapatilhas, tão infelizes naquele feio tom
avermelhado. Mas agora era tarde.
Odiou-se como nunca.
Desviou os olhos das sapatilhas e mirou-os no vazio do teto. Fosse mais fraco, e
choraria.
Virando o corpo com violência, enterrou o rosto no travesseiro sujo. A vasta
cabeleira, agora desgrenhada, dava-lhe a aparência de um homem louco, um bárbaro, um
canibal.
Dormiu. Afundou num sono inconstante, entrecortado por tosses estrondosas e
movimentos desencontrados. Embrenhou-se em fragmentados e alucinantes pesadelos.
Via-se numa espécie de inferno ardente, sempre envolto em situações ridículas e
constrangedoras, onde lindas moças, todas pérfidas diabas, compraziam-se em fazê-lo sofrer
e chorar mediante expedientes os mais cruéis e sádicos. Um mar de fogo os rodeava.
Acordou sobressaltado, banhado em suor.
Teve vergonha. Como era possível que o ridículo pudesse exceder-se a tal ponto?
Como podia uma mente atolar-se em delírios oníricos tão odiosos?
O suor escorria-lhe fronte abaixo, fazendo-o repugnar-se. Fazia-se necessário um
asseio facial.
Tomado de coragem, pôs-se em pé, à procura de uma toalha qualquer. Tomou de uma
bastante suja, mas felpuda e macia, que achou jogada a um canto qualquer do camarote.
Limpou a fronte da melhor maneira que pôde, e a toalha, embora que imunda, serviu bastante
bem para a empreitada, mas nem por isso deu-se por satisfeito e limpo. Era preciso que
banhasse o corpo por inteiro, afinal, há muito que não o fazia, por esquecimento ou desleixo.
Embora estivesse rodeado por um mar infinito em água, não era tão simples arrumar
modos de se banhar. Um marujo experimentado poderia lavar-se numa tina ou no oceano,
mas não ele e os demais passageiros. Dispunham para a tarefa somente de uma bacia bastante
pequena, cuja água era trocada uma vez por dia, com a qual deviam assear-se e banhar-se da
melhor maneira que pudessem. Diante de tamanha privação, era comum que passasse ele
próprio dois ou três dias sem banhos, o que não era uma prática incomum a bordo.
A sua bacia era uma vasilha de zinco, pequenina, repleta de uma água já bem escura
de sujeira. Mas era o que dispunha.
Tomando a toalha imunda nas mãos, enfiou-a bacia adentro, como fazia quase que
diariamente para banhar-se de corpo inteiro ou para lavar as mãos, a face ou a boca.
Despiu-se da cintura para cima e esfregou-se com empenho. Tinha agora o tronco
seminu a brilhar, meio que viscoso.
Satisfeito, recolocou as roupas no corpo. Estava agora bem mais limpo e alegre.
Uma euforia inesperada tomou então conta de seu ser. Viu-se tão animado que julgou-
se possesso.
Vislumbrando sua volta, sentiu uma ânsia incontrolável de pôr ordem no caos. E
aquele camarote, abarrotado de porcarias, era mesmo um caos capaz de pôr em polvorosa
mesmo o mais desleixado e porco dos mendigos.
Mas como livrar-se de objetos, amuletos, relíquias, sem maltratar sentimentos e
lembranças? Eram leques, abanos, assessórios femininos, adereços de gala, adornos festivos,
ornamentos para roupas, enfeites e jóias, colares e chapéus tão adoráveis e tão repletos de
significados e misticismos que jogá-los fora seria o mesmo que arrancar do peito seu passado,
suas promessas, acordos, alianças e sonhos.
Queria livrar-se de tudo, tudo, tudo. Mas tudo, tudo, tudo tinha o seu valor. Tudo
trazia-lhe lembranças amáveis e doces. Tudo parecia importante, embora, na verdade, fosse
inconveniente e dispensável.
Não sabia como agir, mas decidiu-se.
O passado parecia definitivamente enterrado. Livrar-se-ia de todos os laços e amarras
que o prendiam a épocas encerradas e lugares esquecidos. Sim, pensou: livrar-se de
recordações infortunas era tarefa de pouco trabalho, mas suas roupas...
Ah! Suas roupas! Suas malditas e imundas tralhas! O que fazer delas?
Não sabia.
Resolveu pensar então em coisas menos desagradáveis, porque não via uma solução, e
porque estava já bastante cansado de pensar em sujeira, em roupas, em imundícies.
Resolveu escrever poesias e versos. Desesperançado, sentou num tamborete junto à
uma mesa e tomou de uma pena que tinha à mão.
Meio confuso em princípio, limitou-se a rabiscar algumas frases com energia e furor,
mas sem beleza estética alguma. Depois, usando o máximo de si, sua pena fluiu com
desenvoltura e suas idéias se organizaram de tal maneira que seus versos, até então
desconexos, foram arranjados com tanta precisão e com tanta métrica que Zago,
deslumbrado, julgou-se brilhante.
Parou de súbito, no meio do vigésimo quinto verso, na terceira estrofe. Farejou o ar
efervescente do recinto como o faria um bom cão perdigueiro. Sentiu, então, a solução que
procurava para seus trajes. Tinha certeza: estava dentro do próprio recinto, pairando no ar à
espera de ser descoberto. Sentiu-se desconfortável. Se ao menos tivesse uma noção de como
equacionar a questão, mas não. Suas roupas ainda estavam ali, nos cantos e nas frinchas, à
espera de um destino.
Olhou para suas vestes com profundidade e cuidado. Indagou-se. O que fazer com
uma trouxa de roupas sujas?
Irrompeu-se a descobrir uma solução para elas. Ora, se era capaz de esquecer na
lembrança tantos sonhos, tantos amores, tantas recordações, por que não poderia esquecer
também uma dúzia de casacas, de calças, de toalhas, de porcarias? Se era capaz de cortar com
firmeza os títulos moribundos que ainda trazia do passado, era também capaz de livrar-se de
roupas, lembranças e presentes inoportunos. Afinal, nada mais eram que farrapos fora de
moda.
Sim, bem que poderia já ter dado sumiço com tudo há bastante tempo.
Recapitulou as idéias de todo um dia de meditações. Desde o amanhecer vinha
instruindo-se a não alimentar esperanças nem acreditar em ligações emocionais duradouras.
Por que acreditar em bens materiais, se serviam apenas para causar embaraços e transtornos?
Não! Era preciso que agisse com império.
Mas não era a hora apropriada. O sol já se pusera, mas ainda havia um clarão
vermelho oriundo das luzes da grande cidade, e não queria ser visto por ninguém.
Voltou então a escrevinhar no seu caderno de folhas em branco, embora sem se
aperceber de que assim o fazia. Seus pensares eram elevados, e cogitavam mudanças de
hábitos e atitudes, o que não era pouca coisa. E enquanto que dava asas à sua fome espiritual,
imperiosa que era, rabiscava algumas palavras confusas no seu caderno de poemas sem o
perceber.
Uma hora mais, e tinha em mãos um conjunto de versos magnificamente bem escritos,
tratando dos mais variados assuntos. E não era só: havia ainda muita prosa, muito desenho e
uma faixa bastante grande de dizeres espirituosos, o que vinha demonstrar que mesmo um
homem distraído em seu afazer pode ser capaz de produzir belas coisas, e mesmo destilações
inicialmente bastante confusas podem vir a se tornar coisas belas em conseqüência de um
estado de espírito favorável.
Zago, bastante espantado com sua obra, tomou-se por um bom e verdadeiro poeta, o
que, convém dizer, não era exatamente verdade. Seu espírito indomável elevou-se diante das
vantagens de sua prodigiosa criação literária. Sentia-se mesmo como um genuíno artista das
letras, ainda que não o fosse.
A vida, porém, não era só feita de letras. Voltando a si, tornou a pensar na realidade
que o cercava. Precisava preparar-se para o desembarque. Precisava livrar-se do excesso de
bagagem. Precisava, precisava...
Precisava, contudo, acertar alguns detalhes importantes acerca de si mesmo.
Primeiro, precisava aprumar a aparência. Tinha já o corpo banhado, mas um banho
nunca lhe era suficiente. Precisava, acima de tudo, cheirar bem.
Tomou então de uma vistosa algibeira e de seu bojo, em cujo interior mantinha
guardado, retirou um frasco em forma de prenda. Era um presente de Olinda, um delicioso
almíscar, que espargiu pelo corpo todo com bastante entusiasmo. O cheiro, que tanto lhe
agradava, impregnou-lhe deliciosamente as vestes e as narinas, exalando-se por todo o
interior do camarote.
Agora cheiroso, estava pronto para agir conforme o planejado, mas tinha ainda
dúvidas quanto à oportunidade do horário. Que horas seriam? Quanto faltaria para o
desembarque? Teria tempo para agir? Pôs-se a calcular horas, minutos e segundos.
Concluiu: eram já por volta das oito horas, talvez oito e três, oito e quatro do
anoitecer. Vinte horas, quatro minutos e alguns segundos.
Eram, na verdade, vinte horas, sete minutos e realmente alguns segundos. Errara por
pouco.
Era uma quantidade muito grande de tempo, observou, pensativo que estava a respeito
da viagem por remate. Principiou a repousar a mente de seus simples, porém espetaculares
exercícios mentais, quando iniciou uma velha cantiga européia, relíquia extraída de uma
clássica sonata alemã. Entoou num falsete o alegre cântico, enquanto que punha mãos à obra.
Cantou e assobiou, foi e veio, agachou-se e curvou-se. Limpou e varreu, abanou e
espanou, lavou e secou. Trabalhou conto um camponês.
Vez por outra parava, buscando contemplar a beleza da paisagem exterior, o que era
uma atitude bastante inteligente, mas seus problemas, convulsivos e preocupantes, não o
deixavam concentrar-se. O tempo corria, e estava bastante consciente de si acerca dele. Não
podia dar-se a luxos. Era preciso trabalhar. Casacas, chapéus e demais agasalhos estratégicos
eram fatores mais que problemáticos e demandavam urgência.
Por vezes, irritava-se com tudo e interrompia seu falsete sustenido, mas logo depois
retornava ao cântico, mais calmo e alegre.
Seus trajes estavam outrora dispostos de tal forma que seriam capazes de produzir
grande fiasco mesmo nos mais imundos cortiços de Londres ou Veneza. Fosse ele
surpreendido pela visita das beldades, dos bávaros, dos negociadores ou mesmo dos marujos
de bordo e ver-se-ia em apuros. O requinte, que estava ciente de existir, era valor bastante em
voga naquele navio. A beleza imperava, com raras exceções. Zago, embora ninguém
soubesse, era uma delas.
Havia ainda uma esperança. Era ainda possível que viesse a reabilitar-se diante de tão
garboso cenário, diante das damas e cavalheiros daquele navio. Era, entretanto, empreitada
que exigia preparação e destreza.
Preparou-se então em espírito, reunido num conjunto de mágoa e firmeza, para a
dissolução de suas vestimentas.
Empregou uma dupla algibeira, uma espécie de balaio, destinado a conter, de maneira
satisfatória, os objetos e roupas estagnadas próximas de si. Procurou, agachou, amassou,
dobrou e socou algibeira adentro tudo quanto foi roupa e assessórios.
Concluída a busca, sacudiu fortemente o embrulho, vitorioso. Por fim, tomou o
cuidado de revistar o recinto, certificando-se de que não cometera o desvario de esquecer
alguma túnica acolchoada, alguma meia ou mesmo alguma vergonhosa anágua por debaixo
de algum caixote ou de alguns lençóis puídos, mas nada encontrou.
Tomando nas mãos o pacote, e estando encoberto pela escuridão da noite, rumou
cautelosamente para um canto do convés na popa do navio, onde ninguém poderia vê-lo.
Jogou suas roupas num feroz e hediondo redemoinho que formava na esteira do
grande navio e aguardou por um instante. O embrulho, pesado, foi tragado para as
profundezas do oceano, indo repousar certamente numa frincha qualquer de algum abismo
negro e esquecido.
Voltou para o camarote, agora limpo qual uma capela.
Não corria mais risco algum quanto às suas pobres e feias vestimentas, mas ainda
assim, lamentou-se, sobretudo por causa de uma linda casaca, toda drapejada de falsos
diamantes verdes. Como resplandecera com ela nos bailes de outrora...

O DESEMBARQUE

O navio atracou no porto da cidade do Rio de Janeiro por volta da meia noite. O
comandante, belo como sempre, deu ordem de desembarque fazendo soar com império um
sonoro apito grave.
Tripulação e passageiros ajuntaram-se para descer. Zago tomou corpo junto a todos,
ansioso por desembarcar de vez por todas em terra firme. O comandante então veio pôr
ordem na turba e dar seu adeus a todos.
Zago, que até aquele momento não o tinha visto, fazia dele grande imagem, e ansiava
por vê-lo pessoalmente, invejoso que estava da sua tão afamada beleza. Tomava-o por um
almirante, a trajar bela farda ornada de grandes galões dourados e chapéu portentoso, mas
decepcionou-se com suas suposições. O homem não era senão um comum homem de
marinha, com trajes bastante velhos, e na visão de Zago, bastante vagabundos e surrados. Seu
porte era pequeno e seus modos eram tais que se topasse com ele numa masmorra não o
distinguiria dos mais comuns dos ladrões e tratantes. A única coisa que poderia chamar a
atenção num homem como aquele era talvez a experiência, a coragem ou a sua capacidade
em comandar e dar ordens a marujos desgovernados. Quanto à beleza física, pouco a tinha,
com exceção de um grande bigode, que se impunha rente ao nariz, bigode este bastante
volumoso e imponente. De resto, era passável.
Zago, contudo, não pode deixar de se roer de inveja. Não havia mulher naquela
aglomeração de despedida que não tivesse os olhos a brilhar e o coração a palpitar diante
daquela presença tão ordinária. Que seria? Que tinha aquele espécime, para provocar tamanha
atração no sexo oposto?
Zago conjeturou, embora pouco ou nada pudesse compreender. Talvez, consolou-se,
fosse questão de patente e superioridade. E não estavam também as crianças fascinadas,
inocentes que eram? Fosse ele próprio possuidor de um cargo tão cobiçado e seria ele o alvo
das atenções. Percebeu então que a beleza era um atributo relativo. Poderia ser apreciada num
homem sob a forma tanto de um rosto maravilhoso quanto de um nome, um título ou de um
passado glorioso ou heróico. Nada, concluiu, como uma boa mentira para fazer de um sapo o
mais bonito dos príncipes.
O capitão fez um pequeno discurso sem brilho e pôs-se a lida. Deu ordens e uma
rampa de dez metros foi içada à bordo rente ao convés para que todos pudessem descer.
Todos tinham sono, motivo pelo qual algumas guapas e emplumadas damas resmungaram
acerca da indecência do horário e foram até o capitão expor suas reclamações. Para Zago, tais
reclames nada mais eram que pretextos para que as mesmas pudessem ver mais de perto o tal
capitão, o que para algumas era mesmo verdade, porque achegaram-se ao homem, tomaram-
lhe a mão, alisaram-lhe a farda surrada, esfregaram-se da maneira que puderam e acabaram
por desembarcar alegres e satisfeitas. Uma hora depois e não havia mais nenhum passageiro a
bordo.
Zago, que não tinha destino certo, procurou por uma hospedaria. Como fosse uma
cidade bastante grande, e tivesse um porto bastante movimentado, era certo que haveria de
existir alguma estalagem aberta nas redondezas, com uma cama pronta para ser alugada tanto
durante o dia quanto à noite. Assim era em Hamburgo, na antiga Constantinopla turca, em
Málaga e em Marselha, de modo que sentiu-se excitado e insone para uma busca imediata.
Percorrendo o cais e suas redondezas, pôs-se a rondar a noite em busca de pousada e
descanso qual um rato, mas andou em vão. Rapidamente deu-se conta da inutilidade de sua
busca num local sórdido como aquele e decidiu voltar para junto do navio, onde alguns
passageiros ainda aguardavam por suas bagagens.
Mal aproximou-se de um grupo e ouviu alguns resmungos desgostosos:
- Fulano cacete!
- Olhem lá quem vem mais adiante: e o nosso palhaço de bordo...
- Boa oportunidade para lhe esmagarmos o nariz ou a cabeça...
- Veja, Pedro, é ele. Esconda-se, que se o vir, atira-o no fosso do cais...
Mas não pode distinguir os responsáveis pelos insultos. O grupo indefinido de pessoas
acobertava-se sob um manto de escuridão formado por uma montanha de fardos à espera de
embarque.
Sentiu-se, contudo, tomado de um forte desagrado. Seria mesmo possível viver em
paz com a humanidade? Seria um homem de bem sempre aviltado e humilhado por seus
semelhantes todas os dias e todas as horas de sua vida? A conciliação, a convivência pacífica
entre os homens era uma realidade ou uma quimera? Imaginar uma humanidade sem brigas,
unida quais as flores de um jardim, num harmonioso entrelaçamento, era sonho sensato ou
apenas mais um sonho louco dos muitos que são sonhados noite após noite por todos os
homens da terra? Estaria a sonhadora Olinda condenada a passar-se por louca entre as
mulheres quando lhe confidenciava seus sonhos de união, casamentos e paz conjugal eterna?
Ora, louco ou sensato, sonhador ou realista, não admitiria insultos. Fosse a paz
fraternal para o inferno! Um homem, por mais sensato e pacífico que fosse, haveria de
preservar seu nome e sua honra por todos os meios e a todo custo. E não eram as guerras
causadas por meros detalhes, meras ofensas, minúsculos pedaços de terra, vulgares
casamentos, insignificantes tratados, dispensáveis intrigas e insanos impulsos de um déspota
moribundo qualquer? Se povos sem honra e sem nome e sem riquezas podiam fazer a guerra
por motivos os mais inúteis e banais imagináveis, por que não poderia ele, um homem de
nome, de honra e de valor fazer sua própria e justa guerra contra aqueles que o queriam
morto?
Sim, tinha o direito, o dever e a obrigação de defender-se de igual para igual.
Mas, por uma legião de oitocentos mil demônios, ardia-se por dentro. Queimava as
entranhas na ânsia de se bater com um, dois ou mesmo três peralvilhos quaisquer, para
provar-se homem. Como fora tolo em não ir até à montanha de fardos tomar satisfação das
ofensas...! Bastaria que tomasse um passageiro qualquer pelo pescoço, de preferência o mais
magro e frágil, desafiasse-o para um merecido duelo ali mesmo no pátio daquele porto e
pronto! Não haveria mais ofensas, não haveria mais insultos, não haveria mais roubos. Seria
respeitado pelos homens e adorado pelas damas. Os homens permaneceriam à distância,
temerosos, a admirar-lhe a coragem e a beleza. As mulheres ajuntar-se-iam à sua volta aos
bandos, a tomar-lhe as mãos, a beijá-las, a alisarem-lhe os braços, o peito, a esfregarem-lhe
os seios junto ao ombro musculoso!
Contudo, era tarde demais para um duelo. O grupelho junto aos fardos já se dispersara
há muito, temendo encrencas.
Sem duelo e sem abrigo, não sabia que rumo tomar. Estava livre, contudo, para toda e
qualquer contingência. Não tinha nem bloqueios mentais nem materiais que o impedissem de
agir conforme a vontade do momento. Era um homem sem laços de quaisquer espécies e
tipos. Tinha mente livre, sem saudades ou arrependimentos ou idéias antiquadas. Não tinha
também nem malas, nem bagagens, nem trajes. Trazia somente a roupa do corpo e a valise, o
que lhe parecia o bastante para toda e qualquer eventualidade. Era um homem sem medo.
Acabou por passar o resto da noite a andar sem rumo pela cidade afora,
despreocupado de prazos e de horários. Também não devia a ninguém nem esclarecimentos
nem qualquer tipo de responsabilidade.
Mal o dia raiou e tratou de procurar um quarto em alguma hospedaria, porque não era
de ferro e tinha sono. Havia várias à disposição, mas acabou por escolher a primeira que viu à
frente. Era uma hospedaria com quartos de pouco conforto, mas as camas eram bastante
limpas e macias, o que lhe despertou o interesse e o sono. Dormiu as horas restantes que
faltavam para que o dia findasse.

UM NOVO CARIOCA

No dia seguinte, pôs-se a agir. Tratou de travar logo relações com a criadagem da
hospedaria, porque nada sabia acerca da cidade, do seu povo e de seus modos e costumes.
O primeiro contato, contudo, não foi tão simples: Zago não falava a língua
portuguesa.
De fato, ainda que já soubesse o inglês bastante bem, este de nada lhe servia naquela
cidade. Não que o português lhe fosse completamente estranho. Não. Aliás, era bastante
parecido com o italiano, o qual dominava desde jovem, mas o português falado pela
criadagem daquela hospedaria, assim como pelos comerciantes da redondeza e todos os
demais cidadãos era um linguajar bastante exótico e arrastado. Não havia conversa que não
fosse entrecortada por uma infinidade de termos chulos e gírias. Essa peculiaridade verbal
acabou por tornar-se a causa principal de suas dificuldades de adaptação.
Tentava ouvir, mas quanto mais ouvia, mais confuso ficava. Toda frase incomodava-
lhe o entendimento e os ouvidos. Se resolvia dizer um bom-dia ou pedir uma refeição,
atrapalhava-se na parlamentação e era motivo de chacotas diversas por parte dos risonhos e
malandros cariocas.
Mas não arrefeceu o ânimo. Sagaz, tratou de manter a boca fechada e o ouvido atento.
Vivia afundado em dúvidas e confusão, mas aguçava os sentidos e mantinha-se atento.
Poucos dias na cidade e conseguia já algum progresso com aquele português de
feições sibilantes que mais lhe parecia um dialeto tribal.
Não tardou para arriscar algumas palavras por conta própria. Provocou muitos risos
no começo, mas, maleável que era, não se deixou abater diante da realidade dos fatos. Os
cariocas da hospedaria e das redondezas tanto riram dele que acabaram por tomar-lhe afeição
e, à medida que aprimorava a fala, deixou de ser alvo de chacotas para ser, de modo geral,
bem quisto. Suas palavras também passaram, com o tempo, a serem ouvidas com menos
atenção e eram já mesmo alegremente interpretadas, apesar dos erros e dos acertos que
sempre traziam nos bojos de seus entendimentos.
Ainda que a língua daquele povo fosse espantosa, e o próprio povo não fosse lá menos
exótico, sentiu-se razoavelmente bem diante de seu pequeno, porém seguro progresso verbal
e social. Evidentemente que vez por outra riam de suas gafes, e acabava por perder a calma e
a sociabilidade. Nessas ocasiões, proferia algumas pragas em línguas diversas e maldizia a
língua, a cidade, o povo daquele terrível país:
- Ora, que tratem de rir de suas mães, cariocas amarelados e traiçoeiros! Que este
dialeto maldito os faça engolir as próprias línguas e que o povo que a inventou pereça de
alguma praga qualquer, porque não passa de uma raça de patifes e índios. Como que então
julgam civilizado um povo que inventa um linguajar tão confuso e inexpressivo qual esse
maldito português brasileiro...?
De fato, não entendia como era possível que o povo português deixasse que sua língua
natal fosse assim corrompida vergonhosamente por um povo tão selvagem como o brasileiro.
Justo os portugueses, e justamente no Brasil, país que, segundo dizia a história, fora
tão caprichosa e religiosamente colonizado, e em cujas terras vieram estabelecer-se
esforçados homens de Lisboa, prósperos navegantes e a rica família real de um então austero
e audacioso Portugal da Europa napoleônica de outrora. Bem viu que algo não estava certo.
Ou a história mentia, ou os portugueses não eram lá tão senhores como diziam ser.
Um renomado professor de um colégio das redondezas explicou-lhe:
- Mas nós, brasileiros, não somos mais uma colônia portuguesa faz já mais de
cinqüenta anos. Fazemos de nossa língua o que bem entendemos. Que resolva algum
português meter o bedelho no que falamos ou deixamos de falar e trinchamos toda a
Península Ibérica, como fizemos com o outrora tão insolente Solano Lopes e seu Paraguai de
um nada...
Para Zago, contudo, tais fatos nada diziam nem faziam sentido, mas ainda assim
prosseguia no seu doloroso aprendizado.
Planejava consigo mesmo: "se me perguntarem a que horas devo ir ou vir, responderei
que um homem nunca deve se incomodar com isto. 'Não se incomode com as horas, amigo,
pois se tu queres da vida saber as horas de ir e vir, nunca irás e nunca virás de lugar algum, a
não ser de si mesmo e de suas dúvidas'”.
Como não tinha mais que a roupa do corpo por ocasião do desembarque, tinha alguns
trajes e objetos tidos como necessários e urgentes de serem comprados. Suas primeiras
aventuras pela cidade foram, então, pelas lojas de modas, chapelarias e alfaiatarias, sem levar
em conta suas naturais passagens diárias por bares, cantinas e cafés, quando não algumas
casas de divertimentos, tão comuns por volta de sua hospedaria.
Uma compra, porém, não era tarefa fácil nem mesmo para um português genuíno,
porque requeria mais que simples palavras. Um bom falador, versado na boa prosa e na boa
gramática não era obrigatoriamente um bom negociante, nem um bom negociante precisava
ser um bom letrado e um conhecedor das artimanhas sintáticas e léxicas para fazer-se senhor
do seu pão.
Às vezes pensava consigo mesmo: ''não me importo com tudo aquilo que me
perguntam. Apenas dou importância àqueles que se preocupam com minhas respostas". Mas
nem assim a vida era melhor.
Muitas foram as vezes em que resmungou lamentáveis queixas diante das enormes
dificuldades que eram suas compras e negociatas com os vendedores cariocas, porque,
embora não fossem grandes mestres nas letras, eram comerciantes dos mais espertos e
trapaceiros. Dizia então a si mesmo:
- Por mil asnos e cavalgaduras! Ou abro os olhos e os ouvidos, ou vejo-me sendo
passado para traz por este reles trambiqueiro, que fala mais que uma mulher alegre, e que tem
a língua dobrada a assoprar palavras baralhadas qual o assovio de uma verdadeira cobra...
Cautela, Zago, que ao menos tens já um casaco e uma parelha de calças, e essas libras não
haverão de ter pernas. Evite esses vendedores cariocas o mais que puder, antes que lhe
tomem o dinheiro, lhe roubem a mercadoria de volta e ainda lhe furem um olho...
Mil vezes negociou, e mil vezes partiu sem fechar os negócios, cauteloso que era de
não levar prejuízos. De fato, era mesmo necessário que assim agisse, do contrário, seriam
tantas as perdas e tantas as dores de cabeça, que ver-se-ia liquidado e falido em pouquíssimas
semanas.
Dizia invariavelmente a todos: "tenho meus afazeres. Com vossa licença...", e partia
sem nada comprar.
Um dia, porém, tomou coragem. Afinal, pensou: era ali, junto aos velhacos e aos
trapaceiros, que pretendia viver de ora em diante. Era preciso que se arriscasse a levar alguns
tombos, alguns pequenos prejuízos, para provar sua atual capacidade.
Ainda assim, temeu perder suas valiosas libras, de modo que tratou de triplicar
esforços na busca de dominar no mais breve tempo possível o linguajar local, de entonação
sorridente, mas rico em palavras dúbias e metáforas periculosíssimas.
Os dias seguintes foram de tal maneira cansativos que quis explodir de exaustão e
fraqueza, mas acabou concluindo consigo mesmo que a altivez e a majestade, sinônimos de
força, também podem revigorar e restabelecer um homem de corpo sadio e mente lúcida. De
fato, podiam. Apesar de que cada silvo sibilante daquele linguajar ensaiassem estrondar quais
trovões em sua mente conturbada, e que tivesse também o instinto mental perturbado
constantemente pelas aparências bastante enganosas dos cidadãos cariocas, portou-se perante
todos com altivez e majestade estonteantes, muito além da capacidade de um reles
aventureiro em terras estranhas.
Com o tempo, esqueceu-se de todas as más lembranças a bordo do navio e na noite de
desembarque no cais daquela cidade desencontrada. O passado fazia-se esquecer num canto
da memória de maneira firme e definitiva. Não havia nele um momento sequer de alegria que
merecesse ser lembrado ou guardado como um valor.
Sua ganância, contudo, continuava a mesma.
Algo em seu interior falava-lhe junto ao ouvido como um minúsculo capeta. Devia ser
genuíno, devia procurar gente decente, devia rondar os casarões, as confeitarias, devia vestir-
se bem. Devia facilitar as boas amizades, as pessoas de grandes posses. Devia atrair a fortuna.
Devia facilitar a chegada do dinheiro. Devia...
Fora a enraizada e tradicional ganância, era, na verdade, um outro homem. Era um
cidadão bem vestido, e seu vocabulário era rico. Não falava por gírias, nem dizia termos
chulos.
Mas a ganância..
Sim, a ganância! Nada a detinha. Crescia dia a dia, como um polvo de longos
tentáculos. Sua força, indomável, sobrepujava toda e qualquer tentativa em busca de
concentrar-se em demais afazeres e lazeres e prazeres. Tirana, impunha uma só idéia, uma só
busca, uma só alternativa: dinheiro, dinheiro, dinheiro.
E assim domado, não tinha atenção para outras coisas. Sua curiosidade era pouca, mas
diante de algum incentivo monetário, expandia-se qual um monstro. Quanto às pessoas, era
agora seletivo: atendia somente às mais afamadas, mais prósperas e às mais cheias de brilho.
De resto, pouco lhe importava que houvesse um maremoto e afogasse os pobres e oprimidos.
Não que fosse um homem de grandes maldades ou impiedoso para com os mais
fracos. Não era, nem nunca o fora. A verdade era que julgava haver um interesse natural, uma
fascinação, um conjunto de afinidades entre ele e os afamados e os prósperos e os brilhantes.
A ganância, a ambição, a gula monetária foi de tal forma cultivada e tratada no seu
interior que acabou por tomar a forma de uma verdadeira febre corporal. Assim, nas suas
noites de descanso, ouvia o som de vozes interiores, vozes leves e fremebundas, a
estimularem-no nas suas ações, a incentivarem-no nos seus planos, nas suas conversas, nos
seus ardis.
Certo dia amanheceu, porém, com uma dúvida. Quais as causas que levavam um
homem ou uma mulher a ser um indivíduo afortunado, afamado e brilhante? Quais os
significados de tais adjetivos tão cobiçados e atraentes? Por que não era ele próprio um ser
assim tão privilegiado e raro?
Pôs-se a pensar. E pensava: "para todos os efeitos ninguém é perfeito. Ora, em claro
passei várias noites a meditar em busca de respostas desconhecidas, porque estou realmente
interessado em respostas. Não escondo minhas frustrações e pequenas embarações. Diz-se
que bem aventurado aquele que herdar o reino dos céus, mas em verdade digo que feliz será
aquele que se sentar à direita do cordeiro e comer do fruto da árvore que dá a vida e o
conhecimento, pois creio ser esta a última investida humana em busca do desconhecido..,”
Contudo, não estava assim tão ruim de situação. Se a causa fosse o dinheiro, seria um
afortunado. Tinha a valise de libras. Se a causa fosse a inteligência, seria um homem
brilhante. Tinha lá sua habilidade e sua eloqüência bastante versáteis e impressionantes.
Fosse a fama a causa, e seria então um reles desconhecido. Eis um atributo do qual não
dispunha.
A fama! Era o que lhe faltava.
De resto, tinha de tudo. Já era bastante afortunado. Era belo e sagaz. Não tinha títulos,
mas tinha nobreza. Mas, enfim, o que eram títulos, senão nomes comprados à custa de
méritos pessoais ou carroças de moedas? Tinha tudo de que dispunha um conde, um visconde
ou um barão. Era nobre no seu modo de agir e pensar. Era tão capaz quanto qualquer grande
homem daquela cidade, não tinha dúvidas.
Era também um grande lutador como qualquer general ou almirante. Por que não?
Dessem-lhe uma tropa e faria misérias contra qualquer inimigo. A seu ver, não era preciso
que se fosse um homem de armas para se provar a bravura. Qualquer pessoa que fosse capaz
de lutar por seus ideais de forma incessante e incansável seria uma pessoa de grande bravura
e coragem. E não havia ele próprio lutado contra suas próprias dificuldades lingüísticas? Não
eram as palavras, verdadeiras inimigas capazes de porem-no a se perder numa necessidade
qualquer? Tivesse ele uma simples desavença com um polícia, fosse ele confundido com um
patife qualquer e seria posto a ferros sem maiores considerações. Implorasse por justiça em
inglês, francês ou italiano e seria tomado por um farsante. Sim, era também uma boa prova de
coragem dominar aquele terrível exército de palavras que era o linguajar português do povo
carioca.
Quanto ao resto, era um sujeito bastante normal e comum, e a elite carioca não
haveria de ser diferente.
Uma coisa era certa no seu entender: os homens eram os mesmos em qualquer parte
do mundo, independendo de que línguas falassem ou deixassem de falar. Suas virtudes e
vícios eram sempre os mesmos. A ganância do homem e o miado do gato não lhe eram
diferentes. Soavam sempre os mesmos, fossem o homem ou gato francês, inglês ou chinês.
E para cada virtude, dois vícios, e quantas virtudes, e quantos mais vícios não
haveriam de possuir os homens de toda a terra unidos e somados?! Neste ponto, ricos e
pobres eram, a seu ver, constituídos das mesmas matérias, nem haveriam de ser diferentes
entre si os americanos, os asiáticos, os africanos, os australianos e os europeus. Todos
nasciam, cresciam e embrenhavam-se numa longa e silenciosa luta de vida ou morte contra
seu semelhante, na busca de sobreviver o melhor possível e com o mínimo esforço. A paz, a
concórdia, a solidariedade, nenhuma dessas virtudes humanas iam além de momentos de
distração, nos quais os homens impunham entre si como intervalo entre uma guerra e outra.
Pensando melhor, achou a idéia da paz como trégua bastante boa, mas não inédita. De
fato, não lhe era estranha. Teria, por um acaso, roubado um pensamento célebre de um
filósofo qualquer? Não se lembrava de tê-la visto, mas tinha certeza agora de que não era
nada original. Contudo, achou-a satisfatória, de forma que a tomou por bordão de ora em
diante.
Lutar, lutar, lutar! Eis o que um verdadeiro homem deve fazer para vencer na vida um
dia. Por que haveria de agir diferente? Decidiu então ir à luta, declarando guerra definitiva
aos belicosos e agressivos bárbaros cariocas...

UM ADVOGADO!

Viver bem na América era sua mais nova tarefa. A fama, sim, a tão procurada fama
seria mera conseqüência de seus atos grandiosos.
Desorientado, desencontrado e sem chances imediatas de sucesso, deu-se a caminhar
sem rumo pelas infinitas ruazinhas de pedra da tão sórdida cidade do Rio de Janeiro. Nada
mais tendo a fazer, punha-se a percorrê-las, e a decorar-lhes os nomes, temeroso de perder-se
por questão de confundi-las. Ia e vinha então, atencioso para com nomes de logradouros, a
apreciar cada uma das muitas plaquetinhas que se colocavam em todas as esquinas para
ajudar aos desencontrados e aos fracos de memória. Memorizou dezenas delas, enferrujadas
que estavam, por sobre dezenas de antiquados postes de ferro usados ainda para iluminação
da cidade. Cansou de vê-las a brilhar sob a luz dos comuns bicos de gás.
Conhecendo já os melhores lugares e as ruas mais movimentadas, dirigiu a atenção
para a vizinhança. Tanto foi e tanto veio pelas mesmas ruas que logo era capaz de saber as
horas do carteiro, e a hora das reuniões das comadres junto às janelas das casas, e a hora em
que davam por abertas as portas das casas de tolerância, e a hora em que os empregados
vinham nelas para reservar quartos para seus patrões, e a hora em que nelas vinham os
próprios patrões, nunca desacompanhados.
Conheceu também as fachadas de diversos cafés, com suas velhas pinturas e seus
velhos letreiros esculpidos em tábuas de madeira já velhas e rachadas, tomadas pelo limo das
chuvas.
Um dia, adentrou-se num desses conhecidos cafés, disposto a matar as horas, na
espera de alguma aventura, amorosa ou não, conforme a sorte assim o quisesse.
Adentrou-se, e pôs-se a postos diante de uma fumegante chávena de um fumegante
café. A chávena, bela, reluzia com seus doze mandarins chineses desenhados a mão por
algum falsificador cuidadoso, enquanto que o café, aromático, formava um pequeno
redemoinho borbulhante de um composto de água quente, pó e açúcar mascavo puro. Era, em
verdade, beberagem bastante estimulante e saudável, de forma que não teve pressa em sorvê-
lo, satisfeito que estava do ambiente e do próprio café.
Enquanto bebia, mantinha os olhos abertos e o ouvido atento. O café lhe pareceu bom,
mas nem por isso o local era menos agradável. Sentados cá e acolá, dúzias de pessoas
distraiam-se com seus camaradas, suas amigas, seus patrões e suas amantes. Para Zago, era
aglomeração mais que interessante, de modo que vê-la e ouvi-la era tarefa tão gratificante
quanto o sorver daquele líquido vigoroso.
Ouviu então, vindo da mesa ao lado:
- Argumentos! Argumentos! Tu não achas que este jornaleco pretensioso só existe em
função de satisfazer aos desígnios de alguns terríveis editores que nada mais fazem que
escrevinhar mentiras, espalhar boatos, maldizer rivais e caluniar o imperador? São idéias
republicanas, bem se vê.
- Tenho lá minhas dúvidas...
- Dúvidas! Dúvidas! Fale algo que valha a pena, polaco indiferente e covarde!
Zago, discreto, tratou de ouvir com atenção tais palavras, sem, contudo, despregar os
olhos do café, o qual agora soprava, buscando esfriar.
E podia ouvi-las com bastante nitidez. Entendera-as de um modo bastante claro, não
tinha dúvidas. Um homem qualquer dizia algo, e um estrangeiro, um polaco decerto, o
contradizia com o temor de suas dúvidas. Continuou então a soprar e sorver seu café,
enquanto que mantinha a atenção:
- Um advogado! Um advogado!
Era o polaco quem falava agora, num fraseado cheio de gaguejos. Ameaçou ainda
dizer algumas palavras mais, contudo não conseguiu, tamanha sua euforia e medo. As
palavras, cortadas, mal foram ditas e foram logo comidas, tamanha a sofreguidão daquele
falar confuso.
Zago, calmo, virou-se lentamente na busca de poder vê-los em pessoa.
O que acabara de falar e de comer sua fala era mesmo um polaco, era certo. Grande,
gordo, vermelho e careca, não era diferente em nada dos muitos polacos que Zago já vira em
suas andanças pela Europa. Polacos, judeus e ciganos eram como moscas. Bastava um vento
e punham-se em polvorosa, a vadiar pelos países quais bandos de desterrados. O polaco, à
sua frente, era mesmo um polaco genuíno. Sua aparência o traia: vermelho, tinha o medo
estampado na cara gorda. Tendo clamado por um advogado, punha-se agora a gesticular, a se
debater, a volver o corpanzil de um lado a outro fazendo ranger as tábuas do frágil acento.
Procurava por um rábula tangendo um olhar atencioso de mesa em mesa, como se de fato em
alguma delas houvesse um a postos, pronto para dispor de seus serviços e de sua
incompetência.
O outro homem, um senhor magro, de bigode grosso e grisalho, esfregava a cara
chupada pelo tempo junto às palmas das mãos, pensativo e taciturno.
Estavam muito bem vestidos, e a Zago não restou dúvidas: tinham problemas
judiciais, e dos mais sérios. Quanto ao resto de suas suspeitas, não tinha tanta convicção, mas
parecia-lhe que eram gente da alta, mas que o polaco não tinha poder para nada. Parecia-lhe
também que por detrás daquele bigode grisalho poderia esconder-se uma grande e valiosa
fortuna. Cabia descobrir agora se tinham suas suspeitas algum fundamento ou não. Mas,
antes que as confirmasse, tinha já os dois olhos a brilhar: um em ganância, o outro em
oportunismo. Nem haveriam de brilhar por outros motivos, era certo.
Não perdeu tempo com mais suposições. Estendendo a mão num abano, chamou para
junto de si uma garçonete. Esta, embora que aparentasse displicência, trajava com rigor um
belo avental sobreposto a um tradicional vestido camponês. Zago, tomando-a pelas mãos,
comunicou-lhe seu pedido de forma complacente, embora que internamente demandasse
urgência:
- Uma folha para cartas, um guardanapo de papel, e uma pena também, com um pote
de tinta boa, meu anjo, que tenho de escrever para um ministro. Rápido, moçoila graciosa,
que tenho pressa!
A moça, garçonete prendada, mas bastante ignorante, nada entendeu do estranho
pedido. Confusa, limitou-se a esboçar um sorriso lânguido e patético.
Zago então pôs-se a gesticular, apressado. A moça, inventando uma pequena
desculpa, foi ter-se com um grupo de senhores numa mesa mais adiante. Zago exasperou-se.
A garçonete tomou o rumo do balcão, voltou para o grupo de senhores com uma
bandeja de licores e croquetes e mostrou-se distraída, mas Zago chamou-lhe a atenção usando
de um assovio duplo e curto, bastante espirituoso.
A garçonete, ainda confusa, veio ter-se com ele novamente. Este tomou de um papel
e de uma pena fictícios e pôs-se a escrevinhar, numa espécie de mímica bastante espetacular.
A mocinha, como que diante de uma grande descoberta, juntou as mãos rente as
pernas, curvou-se para frente, tombou a cabeça de lado e sorriu, compreensiva. Tomou então
o rumo do balcão, onde contatou um auxiliar qualquer e este foi providenciar o exótico
pedido.
Mas já era tarde. O polaco e seu companheiro de bigode grisalho, satisfeitos, pediram
a conta junto ao caixa e preparavam-se já para partir.
Quando a moça veio até Zago, tinha numa mão um papel e na outra um tubo de tinta e
uma pena bastante vistosa. Neste momento, os dois homens tomavam já o rumo da porta,
prontos para sair.
Zago, vendo-os, sentiu urgência, mas não deu-se por vencido. De posse da bela pena e
da folha de papel tão bela com seus ornamentos, desenhos e grinaldas, arriscou então escrever
algumas palavras guiado pela imaginação.
Escrevinhou rapidamente um verso de quatro estrofes e soprou-os, buscando secar a
tinta.
Estendendo a folha diante do nariz, leu e releu o verso, buscando nele alguma beleza
ou arte. Não era nenhum poeta parnasiano, mas não era também nenhum zé-ninguém das
letras. Expressou sua satisfação com sua obra esboçando um sorriso brando e impermeável.
Ia já dobrar a folha e dar a ela um rumo, mas deteve-se. Incansável na sua admiração,
recitou o seu poema para si mesmo em voz baixa e velada. Assim dizia o poema:

"Vós, que estais com ira, injuriado,


Não percais a chance de um justo revide
Contratai o mais breve um advogado
Vos recomendo: Jean Marie Du Zago Bonavide"
Dobrou a folha em quatro partes iguais e perfeitas. Faltava agora dar-lhe um destino
eficaz.
Buscou pelos dois cavalheiros, mas não mais os via. Era a eles que escrevera o seu
poema, mas não estando mais no recinto, não poderiam gozar de sua graça e beleza.
Saiu até a porta do café, buscando vê-los. Os dois iam mais adiante em passos graves,
mas tão avançados que Zago temeu segui-los. Havia o risco de ser confundido com um
gatuno ou um homicida. Impotente, viu quando os dois dobraram uma esquina, tomando uma
ruela pouco espaçosa, com calçamento irregular e sujo. Naquela época do ano, era a lama
uma constante, de forma que via nela mais um motivo para não segui-los. Como novo
homem que era, tinha horror a sujeira.
Mas como alcançá-los? Não via solução.
Viu então um grupo de rapazotes alguns metros adiante, entretidos em fustigar uns
aos outros com beliscões e pontapés. Andando com cautela, achegou-se junto a um deles e
mostrou-lhe o bilhete dobrado.
O menino, astuto, fez menção de xingá-lo, mas Zago, tomando de umas notas de réis,
acalmou-lhe os temores. O menino, atraído pelo dinheiro, mostrou-se bastante cordial e
prestativo. Zago explicou a ele o que tinha de fazer e deu duas notas de bom valor. O menino,
agora dentre todos o mais rico, esticou-se todo num trote forte rua afora qual um corisco.
Zago aguardou então por uma resposta.
Um minuto mais e lá vinha o rapazote de volta, suado, com a língua de fora.
Chegou-se até Zago e disse, assanhado:
- Iam já por perto do largo do chafariz, mas não tão longe que não pudesse alcançá-
los. Abordei o bigodudo e entreguei-lhe o bilhete, mas o gordo, assustado, olhou-me como se
recebesse um bilhete do próprio diabo. Mas ficou assustado por muito pouco tempo. Assim
que leram o bilhetinho, riram tanto que perderam o fôlego. O gordo ficou vermelho qual um
galo, e os olhos do bigodudo vertiam tantas lágrimas que o tomei por um chorão. Que era que
dizia o bilhetinho, que também quero rir?
Mas Zago não lhe deu resposta. Tomou-o pelo braço e despachou-o para junto do
resto do grupo de rapazotes, torcendo para que fosse bastante beliscado e estapeado. Achou o
moleque bastante prestativo, era verdade, mas também bastante curioso e atrevido. Ora, que a
criançada carioca parecia um bando de macacos assanhados.
Voltou para junto de seu café, que a esta hora estava já frio e grosso, intragável. Pediu
outro à garçonete, que o atendeu com muitos sorrisos e muitas mesuras. Tomava-o por um
poeta excêntrico, era certo, um da corrente dos realistas, talvez. Bem se via que era uma moça
inculta.
Zago bebia seu segundo café, agora encorpado e novo, enquanto que roía as unhas dos
dedos. Estava, em verdade, bastante preocupado com o parecer da sua ortografia e a estética
das suas palavras. Diante dos comentários do rapazote, não tinha mais a satisfação poética e a
confiança literária de que tanto se vangloriava há minutos atrás.
Pensando melhor, julgou seus devaneios poéticos bastante irresponsáveis. O verso
escrito não era lá mesmo grande coisa. Métrica horrível, rimas desairosas, concatenação
primária, enfim uma ode vergonhosa. Um lixo.
Mas que fazer? Fora feita às pressas. Paciência!
Chamou novamente a garçonete, consultou um cardápio, pediu empadas e canapés,
bebeu um chocolate frio e um pouco de cerveja fresca e foi-se embora para seu hotel. Tinha
agora muito o que pensar.

MARCHEMOS!

Zago tinha feito um contato com os dois cavalheiros por intermédio de seu desastrado
poema, mas esquecera-se, na pressa, de um detalhe pequeno, porém muitíssimo importante:
mesmo que se resolvessem por contratar o tal Jean Marie Du Zago Bonavide, não saberiam
como contatá-lo. O bilhete não trazia nem endereços, nem referências, nem nada. Um novo
contato não seria tarefa fácil.
Resolveu que deveria ser freguês do café onde ocorrera o primeiro contato. Era
possível que os dois senhores resolvessem ir até lá procurá-lo. Talvez não quisessem mais um
advogado, mas era possível que desejassem conhecer o poeta daquelas trovas tão ridículas e
hilariantes. Se assim fosse, não seria de todo mal.
Passou então a ir todas as tardes ao referido café, chamado Café de Ouro. Era um belo
nome, apesar de que de ouro naquele líquido preto Zago nada visse. Acabou também por
afeiçoar-se da garçonete que lhe dera outrora a pena e o papel. Chamava-se Amália. Zago
julgou-a, a princípio, bastante tola, o que não era um julgamento errado, mas, por outro lado,
era meiga, atenciosa, prestativa e dona de alguma beleza digna de atenção.
Travaram conversa, e ela lhe disse dos tais cavalheiros. Eram bons cidadãos, e vez por
outra costumavam parar naquele café para fazer um repasto leve. Zago iluminou-se diante de
tal notícia, e ficou mesmo tão contente, que resolveu agradecê-la, convidando-a para uma
noite no Teatro Dramático, onde representavam um drama extraído de um romance bastante
em voga na Europa, mas ela, tola que era, recusou o delicioso convite.
Amália ficou incumbida de ficar atenta às visitas dos dois cavalheiros. Zago instruiu-a
para informá-los de seu endereço e de sua competência profissional, e ela assim o fez. Duas
semanas depois do primeiro contato, os dois cavalheiros, inseparáveis, vieram até o Café de
Ouro comer algumas iguarias recém-chegadas da França e então Amália os abordou com seu
sorriso tolo estampado. Eles, a princípio, mostraram-se confusos, mas ela os fez lembrar do
bilhete de duas semanas atrás e os dois, rindo quais loucos, mostraram-se interessados em
conhecer o tal advogado que ela tão bem recomendava.
Num dia de panorama ensolarado e quente, Zago matava as horas, estirado
languidamente na cama de seu quarto de hotel, quando um criado anunciou-lhe visitas.
- Senhor, temos cá duas respeitosas entidades procurando por um Jean Marie Du Zago
Bonavide. Estão bastante curiosas e afoitas. Somos forçados a crer que desejam vê-lo.
Recebe-os?
Zago abanou positivamente a cabeça, confirmando a visita, despachando em seguida o
criado com um gesto sutil, mas firme. Tinha o coração a palpitar.
Sentiu-se tomar pela ansiedade. Vestiu-se rapidamente com um fraque de brim
comprado poucos dias atrás, para causar melhor impressão nos visitantes. Esfregou com
sofreguidão uma pomada aromática por toda a extensão dos cabelos, fazendo-os brilhar e
cheirar, seguindo então para a porta do quarto, bastante disposto e hirto.
Os dois senhores estavam à porta, serenos e calados. Eram, em verdade, entidades
bastante imponentes e respeitosas.
Zago os recebeu bastante bem, fazendo um largo gesto de boas vindas:
- Pois não? Jean Marie Du Zago Bonavide, advogado, às vossas disposições...
O polaco, nervoso, remexeu-se. O outro, mais calmo, estendeu a mão para um aperto
e foi prontamente correspondido. Em seguida, raspou a garganta, dizendo:
- Perdoe o incômodo, cavalheiro, mas fomos tomados pela curiosidade de um exótico
bilhete, o qual o recomendava para intermediar uma pequena querela, da qual julgo já
tomaste conhecimento...
Zago, simulando modéstia, replicou:
- Em verdade, não. Mas quão grande seria meu prazer em poder contribuir para a tal
causa, mesmo porque sou mesmo bastante interessado nesta espécie de assunto. Contudo,
creio eu que as portas dos quartos desse hotel não são lá locais dignos o suficiente para que se
possa tratar de aspecto tão importante. Convido-os para que aceitem conversar em local mais
agradável e propício...
O polaco, ainda nervoso, continuou a remexer-se qual um cavalo bravio. Já o outro,
sempre sereno e calmo, sorriu diante do convite e acabou por aceitá-lo.
Rumaram para a famosa Rua do Ouvidor, não muito longe dali, onde tinham à
disposição uma série de cafés, confeitarias, livrarias e ainda muitos outros recintos discretos
e agradáveis para o desenvolvimento de uma conversa de bom quilate.
O homem de bigode apresentou-se como José João dos Reis Filho, maçônico, poeta
amador, jornalista, capitalista, liberal, republicano e fundador-dono do aclamado e
prestigiado jornal O Brasil. O polaco apresentou-se como Cornelius Kzalskvy, maçônico,
poeta amador, jornalista, capitalista, liberal, republicano, e também sócio-fundador da já
citada gazeta. Tinha ainda, para lhe enfeitar o currículo, a honra de ser amigo, companheiro
inseparável e, acima de tudo, cunhado do senhor José João dos Reis Filho. Este, homem de
bem, tomara-lhe a irmã por esposa.
Se os polacos recém-chegados ao Brasil primavam por ser afamados preguiçosos,
incapazes e problemáticos, as polacas primavam pela fama de serem mulheres devotas,
bonitas, trabalhadoras, boas esposas e fogosas amantes. Como não convinha que um cunhado
rico deixasse que o irmão de sua esposa passasse fome, coube ao senhor José João chamar o
senhor Cornelius para que o ajudasse na lida diária da sua gazeta, mesmo porque na época do
casamento, a tal gazeta era bastante mirrada e mal lida. Com o passar dos anos, O Brasil
ganhou fama de liberal e suas vendas cresceram de tal forma que o senhor José João ficou
ainda mais rico, enquanto que o senhor Cornelius, homem esperto, fez-se um auxiliar
bastante prestimoso e útil, de forma que acabou também por amealhar o seu quinhão de
riqueza a qual tinha parte pelo sucesso do dito jornal.
Este primeiro encontro foi marcado por pouquíssima negociação e nenhum acordo,
mas rico em histórias, narrações e debates, nos quais as duas afortunadas entidades
jornalísticas eram por natureza bastante versadas, e nos quais Zago saiu-se também bastante
bem em virtude de sua eloqüência, de seu carisma e de suas mentiras.
Para este, ficou tudo dentro do esperado, de forma que não se espantou diante do
pouco progresso realizado. Se tivera paciência para aguardar pelo primeiro contato, haveria
de tê-la também para com o trato do tão esperado assunto jurídico em particular.
Despediram-se e Zago aceitou de imediato o convite do senhor José João para um
próximo encontro já para o próximo final de semana.
Quanto a Zago, suas horas e dias correram ao largo a partir daquele convite em diante.
Que sucesso fora!
No sábado seguinte travaram novas relações. Encontraram-se no local marcado, um
clube de bailes, e lá jantaram alguns peixes ensopados e algumas bolotas de carne assada,
conforme era de praxe naquele ambiente. Ali conversaram a respeito dos mais variados
assuntos, cada parte entretida em sondar mansamente a outra, na busca de indícios confiáveis
e bons.
Novos encontros foram marcados para dias posteriores e Zago passou a admirá-los, e,
em particular, ao senhor José João, mesmo porque o polaco nada tinha de apreciável, com
exceção da sua barriga, da sua cara redonda, da sua vermelhidão e do seu constante e
invariável temor de tudo e de todos.
Já o senhor José João era mesmo um senhor bastante admirável. Freqüentava sempre
os lugares mais caros e era grande apreciador do bem viver. Zago invejava-o.
Por vezes rivalizavam-se em certos aspectos. Zago era mais jovem, mais belo e mais
eloqüente. Já o senhor José João era mais rico, mais poderoso, mais afamado e mais popular.
Confrontados juntos na sociedade, saia-se sempre em superioridade a Zago. Era isto que o
fazia tão admirado e invejável.
Assim que se despediam depois de longas horas de boa conversação, Zago sentia
crescer dentro de si a ganância e a ambição por fama, dinheiro, popularidade e poder.
Chegava então no seu quarto e sentia-se miserável. O Hotel Europeu, no qual se hospedava já
havia dois meses, era local de requinte e luxo, mas bastante quieto e modorrento nas horas
mornas da tarde e da madrugada. Nessas horas, sentia-se como que aprisionado por entre as
quatro paredes daquele quarto, cujas janelas davam para a fachada de um outro hotel, do
mesmo dono, um francês rico e imponente.
Entediado, punha-se a escrever poemas, porque era um lazer que matava o tempo, e
que servia para desenvolver o intelecto e o bom gosto. Rascunhava vezes sem conta um verso
parnasiano, porque o parnasianismo não era lá um estilo que se contentasse com rimas fáceis
e assuntos frívolos. Era preciso que as palavras fossem bem escolhidas, as estrofes bem
talhadas e o assunto muito bem pensado. Zago, precavido, esmerava-se em descrever vasos,
colunas e porcelanas as mais belas possíveis, porque era assim que exigia a nata da
aristocracia carioca, e também porque o senhor José João era contra os românticos e afeto aos
parnasianos, e Zago não haveria de querer contrariá-lo mostrando coisas que não fossem do
seu gosto e estilo. Gostasse ele, o senhor José João, de histórias de carochinha e ele, Zago,
não estaria a esmerilhar versos parnasianos. A seu ver, poemas e trovas nada mais eram que
meros apetrechos servis, à disposição de sua causa e de seus interesses na luta em busca do
poder perfeito.
Passava então as tardes a escrever sua literatura com grande força e grandiloqüência.
Inflamava-se por dentro e por fora. Declamava para as paredes os contornos das pratarias e os
atributos dos vasos, convicto e fervoroso. Por vezes, eram poemas de alguma beleza, e
arriscava mostrá-los para o senhor José João, que os elogiava e prometia publicá-los na
edição do domingo, embora nunca o fizesse. Para Zago, contudo, era o que lhe bastava.
Um dia, porém, o senhor José João, tendo-o convidado para um sarau na casa de um
grande mercador de escravos, apresentou-se bastante agitado, enquanto que o polaco
mostrou-se muito mais nervoso que de costume. Para Zago, aquela agitação e aquele
nervosismo anormais era algum sinal ou indício de que havia grandes interesses em jogo,
embora não soubesse precisar se eram bons ou maus. Zago mostrou-lhe um verso parnasiano,
roubado de autor bastante em voga, mas o senhor José João sequer o olhou.
- Mais tarde, quem sabe. Agora, meu amigo, tenho coisas mais severas a tratar. Fui
ofendido em público, e é preciso que se ponha um freio nessa espécie de acontecimentos. Sou
um homem de respeito...!
Mas não se aprofundou em detalhes. Passou o resto da noite junto do dono da casa,
acabrunhado e quieto, limitando-se a trocar confidências com seu cunhado polaco, que as
ouvia, mudo, para em seguida arregalar os olhos e corar feito uma brasa.
Zago manteve-se afastado, mas quando saíram todos, o senhor José João o chamou a
um canto e confidenciou-lhe:
- De agora em diante, ou é um processo, ou um duelo! Mantenhamos contato. Vá ter
comigo amanhã mesmo, e veremos qual o melhor caminho a tomar. Convém que partamos já,
porque o clima neste sarau é de conservadorismo e revanche. Quanto a tu, já estás bastante
tocado. Que pensas que há nestes frascos e garrafas? Pois caso não saibas, conhaque e rum
derrubam mesmo a um búfalo. Vá agora. Descanse o corpo e cure-te deste porre...
No dia seguinte, encontrou-se com o senhor José João numa confeitaria de renome. O
senhor José João preferiu que fossem ao seu gabinete, no mesmo prédio que servia de sede
para o seu jornal, onde teriam privacidade e sossego.
Lá chegando, o senhor José João sentou-se numa poltrona acolchoada, enquanto que
Zago e Cornelius assentaram-se juntos num grande e confortável sofá, no qual podiam estirar
o pescoço, porque tinha descansos duplos rente ao encosto.
O senhor José João, espalmando as mãos por sobre o tampo de sua bela escrivaninha,
iniciou a conversa, bastante tenso e inseguro:
- Pois sim, meu caro Zago, estou às turras com um rival. Cá, nesta cidade, circulam
por volta de duzentos e oitenta jornais, que tratam desde as doenças de coluna do imperador
até das agulhas mais finas, recomendadas às moças, para que façam um bom crochê. Como
vê, há espaço para todos, há leitores para tudo, e tem-se em teoria uma situação bastante
confortável para nós, jornalistas e editores. Mas nem sempre as coisas andam da forma como
deveriam andar. Pois então, não estou eu sendo alvo de calúnias e injúrias por parte de um
concorrente de ideais contrários?
Zago, contudo, nada disse. O senhor José João prosseguiu:
- É a pura verdade. Um senhor de nome Araújo Pereira, e que por acaso é dono de
uma tal Gazeta de Novidades, prima em publicar dia após dia alguma calúnia contra minha
pessoa. Alguma atitude se faz necessária. Já tentei manter o silêncio, mas nem por isso ele
deixou de escrever. Ultimamente tem feito uma série de caricaturas minhas, onde ora apareço
como um frango, ora como um cavalo, e ora ainda como um boi de longos chifres. Não é de
pôr o sangue de um homem a ferver?
Zago ainda assim nada disse. O senhor José João prosseguiu:
- Sim. Perdi a paciência. Tenho cá comigo duas alternativas, sobre as quais muito já
discuti com meu cunhado Cornelius, mas ainda assim tenho muitas dúvidas: ou faço esse
Araújo Pereira calar-se pela lei, ou o calo pela força. Ou um processo, ou um duelo.
Cornelius é pelo duelo, mas tenho lá minhas dúvidas. Não sou muito bom atirador, é
conveniente dizer...
Zago então quebrou o seu silêncio, falando:
- Ora, quanto a mim não tenho dúvidas: tasca-lhe nas costas um processo! É atitude
bem mais civilizada e lucrativa. Ou achas que não tem então direito à indenização e às
retratações financeiras de praxe? Só um processo pode fazer com que o homem peça
desculpas públicas. Ainda por cima, é possível que se peça uma indenização por danos
morais capaz de arruinar mesmo a um xeque. Sou pelo processo!
O senhor José João sentiu os músculos das costas afrouxarem, relaxante que foi a
opinião do seguro Zago. Sacou de dentro de uma gaveta uma caixa de gordos charutos
alemães e os ofereceu a Zago e a Cornelius. Este recusou, mas Zago tomou de um com
bastante gosto, enquanto que o próprio senhor José João tomou de outro, e foram ambos os
charutos acessos com a chama de um fósforo da Inglaterra. Zago soltou uma baforada e o
senhor José João soltou outra, e o gabinete tornou-se azulado qual uma taberna, mas ambos
sentiram-se mais leves e francos para prosseguir na conversação que já se delineava.
O senhor José João, pigarreando, indagou então:
- Mediante o fato de que o senhor é um advogado bacharel e doutor numa escola de
Direito, concluo que pode dizer-nos de maneira clara e franca como se desenrola o
andamento de um processo desta natureza e deste quilate...
Zago manteve-se calado, enquanto que tomava de uma baforada bastante profunda. O
senhor José João recostou-se, tranqüilo, à espera de uma resposta, mas Cornelius não pôde
deixar de aquietar-se. Agitou-se e fez balançar as bochechas, tomado de inquietação e
expectativa. Zago soltou dos pulmões uma quantidade tão grande de fumo que as ventas
pareciam queimar-se. Ficou ainda um minuto mais, calado, para então esboçar sua opinião:
- Eis aqui um charuto saboroso! Toma, Cornelius, prova deste charuto, que haverás de
sentir o peito chiar qual o peito de um touro. Mas que maravilha! Ah! Estes prussianos! Cada
dia que passa vejo que nada podemos contra eles. Admiro a forma como elaboram a fusão de
fumos diversos e as técnicas que usam para curti-los e dar-lhes sabor. São mesmo charutos
inigualáveis...
O senhor José João sorriu. Em verdade, eram charutos dos mais saborosos vendidos
nos mercados cariocas. Bem verdade que havia o charuto cubano, mas não estava assim tão
na moda que merecesse tanto ser comprado. Contudo, não eram os charutos que lhe
interessavam, de modo que tornou a indagar de Zago:
- Pois sim, são bons charutos. Mas e quanto a vossa opinião acerca de um possível
processo, que pensas?
Zago então falou, com ar grave e profundo:
- O primeiro passo é uma queixa-crime. Articula-se uma petição à justiça na qual se
expõem as causas da mesma, que no nosso caso vem a ser a própria ofensa ou a injúria.
Anexa-se à petição alguns recortes do jornal que contenham alguma prova da dita injúria e
junta-se um ou dois parágrafos explicativos e tem-se o processo como iniciado. É a afamada
petição inicial. Antes, é claro, é preciso os protocolos iniciais de autuação, os selos, os
despachos, os deferimentos, que os senhores conhecem muitíssimo bem, creio eu...
O senhor José João ouviu tudo atentamente, e pareceu muitíssimo admirado, enquanto
que o afoito Cornelius pareceu ver diante de si o próprio diabo, tamanha foi a sua careta de
espanto. Ao senhor José João pareceu que Zago sair-se-ia bastante bem como advogado, de
forma que não proferiu nenhuma objeção. Já Cornelius teve lá as suas dúvidas na cabeça
grande e gorda:
- Mas, e depois dessa tal petição inicial? Sabe o senhor o que deve ser feito depois? E
se o juiz achar que Araújo Pereira é o verdadeiro dono da razão e acabar impondo uma
gigantesca multa sobre as nossas costas, levando-nos à bancarrota? Que acha dessa
possibilidade?
Zago, meio que irritado, meio que ofendido, respondeu-lhe:
- E o senhor Cornelius? Saberia por acaso como agir numa circunstância dessas? Pois
quanto a mim, fique seguro. Conheço os trâmites de um tribunal de ponta a ponta. Instruir
novamente a petição ou encetar uma outra, recorrer de agravos ou com agravos, enfim, tudo é
possível quando se sabe...
Cornelius, vencido, aquietou-se por definitivo.
O senhor José João fez um leve gesto a Zago, pedindo-lhe a gentileza de aguardar por
um instante, que tinha lá seus assuntos particulares a tratar com o senhor Cornelius, e deixou-
o a sós na sala, enquanto que seguiu com o cunhado para um quartinho contíguo, onde
puseram-se a confabular e a delongar a respeito da decisão a ser tomada.
Um minuto mais e retornaram ao gabinete, onde Zago os aguardava entre uma
baforada e outra.
O senhor José João sentou-se na sua escrivaninha, mas Cornelius permaneceu em pé
junto a porta. Por fim, o senhor José João disse ao cunhado:
- Diga, Cornelius, o que achaste das idéias do nosso amigo...
Cornelius, corado, e por via de regra nervoso, mostrou-se contudo excepcionalmente
calmo no falar:
- Queremos o senhor no comando deste processo, amigo Zago. Bem sabíamos de
vossa capacidade e lealdade para com nossa causa, mas agora decidimos pelo processo, e
como necessitamos de um advogado, cremos ser tu a pessoa indicada, mesmo porque se não
o quiséssemos, não haveria escolha. Bacharéis em Direito é o que não nos falta, mas não há
entre eles um único que seja capaz de citar sequer um terço do que acabaste de nos contar
acerca de uma mera petição. Como se vê, estão mais interessados em ser deputados,
senadores, jornalistas e capitalistas. Veja o caso de um confrade nosso: sem advogados, e
com um processo a correr contra sua pessoa, tomou desenfreadamente de um rábula, dos que
são normalmente nomeados pela magistratura por serem pretensamente versados em leis e
códigos, mas que não o são, e eis que os temos hoje numa prisão sem ser culpado, e sua
firma, uma fábrica de chapéus, a funcionar na mãos dos ingleses, depois de passar por um
duro período de concordata e quase falência. Eis no que dá contratar serviços de rábulas...
Zago manteve-se em silêncio. O senhor José João falou:
- Quanto a mim, não o faço pelo dinheiro. Quero apenas resgatar a honra. Já
Cornelius, que não foi sequer citado, acredita piamente que não há honra sobre a terra que
não possa ser resgatada por meio de uma destruidora e brutal indenização. Quanto a mim, não
sou assim tão guloso.
Zago opinou por sua vez:
- Tanto se pode resgatar a honra pelo perdão quanto pelo dinheiro. São duas
possibilidades plenamente passíveis de se conseguir.
Cornelius, desconfiado, coçou uma pequena cavidade no queixo redondo:
- Creio que o ideal de uma honra é que seja resgatada duplamente. Dinheiro e glória
nunca são demais...
- Concordo! Aliás, é tolice uma petição requerendo unicamente uma mera retratação
pública. Requeremos tanto a retratação quanto a indenização.
Cornelius tinha agora um olhar jovial e faiscante:
- Tenho mesmo por idéia geral que o louro sem o ouro não tem lá muita serventia...
Zago sorriu:
- Quanto a mim, não discordo.
Apesar de que os dois jornalistas tivessem já tomado suas decisões, Cornelius não
pode deixar de espantar-se. Assumiu uma expressão de mudez sobressaltada, como que
tomado de uma idéia ainda não pensada:
- Senhor Zago, não sabemos ainda quando haverá de nos custar o seu serviço.
Zago, de um modo notório para um homem ganancioso, mostrou-se humilde:
- Ora, senhor Cornelius, sejamos éticos. Nem bem tomei pé do caso e já me cobras
que me porte como um agiota. Não, não! É ainda muito cedo para que se pense em dinheiro e
recompensas. Asseguro que meus serviços não custarão tanto que não sejam capazes de o
pagar com facilidade e satisfação.
Era uma boa resposta, e o senhor José João agradou-se dela, mas Cornelius achou-a
pouco esclarecedora. Com relação aos honorários, o pouco e o muito eram sempre relativos,
dependendo do ponto de vista de quem pagasse e de quem recebesse. Talvez fosse melhor
considerar a possibilidade de esquecer Zago e contratar um rábula comum. Talvez a
empreitada saísse mais barata.
Zago prosseguiu:
- Rezam as grandes teorias jurídicas deste século que não cabe a um advogado mais
que dez por cento do total do valor da causa ganhadora, ou no caso de derrota, o preço médio
vigente no mercado pelos serviços advocatícios corriqueiros. Evidentemente que um litigante
que veja sua causa ganha e sua indenização garantida por um bom advogado pode presenteá-
lo com algo maior que um comum dez por cento, mas depende da boa vontade do litigante.
Conheço casos em que advogados bem sucedidos tiveram por recompensa bons presentes,
bons cargos e belas viagens. Saber da bondade do coração de um homem feliz é coisa
temerária. Desconhecem-se os últimos destinos de um homem verdadeiramente triunfante nas
suas conquistas, por mais reles que sejam as mesmas.
O polaco tranqüilizou-se. Dez por cento não era lá grande coisa, e teria de dispor desta
quantidade independentemente de quem fosse o advogado. Quis então encerrar a conversa:
- Quanto a mim, dou o contrato por fechado. Creio que nem por isso estão vedadas
novas negociações quanto ao valor de seus serviços.
O senhor José João, cofiando com carinho seu denso bigode, desferiu um espesso
sorriso:
- Também não vejo objeções. Quanto a mim, podes já ir redigindo a sua rica petição
inicial. Nada de misérias verbais. Não quero saber de queixas compactas. Fale como se
estivesse diante do juízo final. Exponha queixas bastas, redija um ataque maciço contra esse
Araújo Pereira. Ponha-o detrás das grades, se puder. Pouco me importo...
Zago, unindo e apertando as mãos num entrelaçamento de dedos, sentenciou sua
derradeira opinião:
- Nada mais justo que a masmorra. É preciso sempre considerar que essa difamação
infame é causa de um grande escândalo. É preciso que se processe veementemente essa tal
estrutura jornalística, para que aprenda a pôr um freio na pena. Creio ainda que uma
indenização boa e gorda sempre será de enorme proveito.
Cornelius desferiu um grunhido de satisfação. Esse relincho desembaraçado serviu
para extravasar sua alegria:
- Só agora, do alto, a olhar o panorama do crime com retidão, percebo como são
frágeis os liames que nos prende à vida normal!
O senhor José João concordou:
- Belas palavras, Cornelius! Anote-as, para que as publiquemos, mais tarde, no edital
que pretendo lançar depois do desfecho do caso. Realmente somos muito frágeis. Uma ofensa
abate sobre nossa alma como a dureza das madeiras resistentes...
Cornelius riu:
- Que comparação! Anote-as, que pode servir futuramente para uma seção de piadas.
Pois digo-lhe: as ofensas são como ratos e roedores.
- E por que haveriam de ser?
- Porque nunca podem ser usadas para o bem, mas quando usadas para o mal são
bastante eficientes. Profere-se uma aqui, entre quatro paredes, e amanhã toda a província já a
conhece dez vezes maior e de maldade multiplicada por cem.
- Essa comparação parece boa, mas creio que não é nada espirituosa nem edificadora.
Ora, Cornelius, deixemos de lado essa nossa mania de ficar inventando frases de efeito, ou o
nosso amigo aqui ao lado nos tomará por loucos passando-se por artistas...
Zago riu. Era uma verdade: tinham mesmo por costume exercitar o espírito e a pena,
de forma que punham-se espontaneamente a forjar sentenças irrecorríveis, e nesta tarefa
divertida deixavam suas demais atividades à parte, punham-se a falar sem ruptura e por vezes
proferiam frases mesmo bastante soberbas, que anotavam para publicarem posteriormente
nos seus editais. Ora adulavam-se, estimulando um ao outro, mas, às vezes, a inspiração
poética lhes faltava, e as poucas frases que lhes vinham eram mal feitas e simplórias. Neste
caso, as frases malfeitas multiplicavam-se desordenadamente e a brincadeira nem sempre
acabava bem para quem tivesse a infelicidade de ouvi-los.
Zago, descontraído, arriscou indagar a respeito de uma dúvida:
- São ambos mesmo grandes jornalistas. Creio que deverão ter seus nomes a figurar
junto à constelação dos grandes escritores deste país. Duvido da sanidade daquele que o
ofendeu, senhor José João. Tenho porém algumas dúvidas. Acho-me ridículo perguntando
isto, mas a injúria quando viaja pelas más bocas é porque provém de gente ínfima e suspeita,
avessa aos grandes homens, como o são o senhor e o senhor seu cunhado, Cornelius. Mas,
diga-me com detalhes: o que escreveu este miserando Araújo Pereira?
Cornelius demonstrou indisposição para engendrar explicações acerca do assunto
indagado. Portando-se como um tolo, gaguejou uma desculpa qualquer e calou-se. O senhor
José João, para alívio de todos, desferiu uma salva de suspiros curtos, dispôs-se a contar a
verdade dos fatos:
- Segundo um edital por ele assinado, alguns editores de alguns jornais de tendência
liberal eram em verdade gente de grande fraqueza moral. Como sou mesmo um liberal e
suponho ser moralmente íntegro e forte, discordei de tal opinião. Escrevi no meu edital do dia
seguinte o que pensava: neguei tudo o que homem defendia.
- E ele? Calou-se?
- Não. No edital seguinte, um novo impresso endossava a tese da fraqueza moral,
porque ao apregoar a liberdade individual no campo da moral e da religião, o homem liberal
luta em causa própria, isto é, ele, por ser também um indivíduo único, ao pleitear idéias
liberais, busca desviar de si os olhos severos e justos de todos os moralistas e de todos os
religiosos. Ora, se teme tanto assim os moralistas e os religiosos, é porque tem, com certeza,
alguma espécie de fraqueza espiritual ou moral.
- E o senhor? Concordou com tal tese?
- Ora, como? Em princípio, pensei mesmo em abrandar minha pena, porque caso não
o fizesse, estaria instigando um debate temível. Por fim, resolvi por rebater-lhe a língua,
porque quem cala, consente. Deixar passar uns dias, porque não tinha ainda redigido um
edital a contento, mas assim que o tive, mandei ao prelo imediatamente. O edital
argumentava que tanto poderia haver homens liberais íntegros e religiosos como poderia
haver homens conservadores libertinos e incrédulos, quando não demoníacos.
- E a repercussão deste novo edital? Surtiu o efeito desejado?
- E como! Não houve respostas por vários dias. Por fim, num belo domingo, quando
os jornais são imensamente procurados e lidos, dei de cara com a ofensa. Dizia o edital do
meu rival que um homem que fosse libertino, incrédulo ou demoníaco não podia por lógica
ser um conservador, mas sim um liberal, porque não se costuma dar o título de santo a um
assassino ou um pervertido. Segundo ele, conservador ou liberal não eram títulos que se
compram, mas características que se observam nas atitudes dos homens. Sendo assim, um
homem só se propunha a ser chamado de liberal na medida em que reconhecia sua tendência
para a libertinagem e para a incredulidade. Do contrario, sentir-se-ia ofendido diante da
alcunha de liberal.
- Pois então o tomou mesmo por um homem devasso por natureza!
- Ao pé da letra! Mas não me abalei: no edital seguinte, tachei-o de liberal disfarçado.
Ele respondeu com um artiguete funesto, dizendo que um homem jamais pode limpar a cara
do outro quando a sua própria cara esta coberta de sujeira. Deduzi que me tomava por um
homem sujo, ou, ao menos, de cara suja. No artigo seguinte, intimei-o a dar provas concretas
das minhas pretensas sujeiras.
- E ele?
- Bem, a resposta veio anteontem. Desagradável, muitíssimo desagradável. Eu, um
homem de fama e reputação, fui comparado a um homem de Sodoma ou Gomorra. Afirmou
que desconhecia um liberal que não freqüentasse as casas de tolerância, e que bastavam meus
próprios artigos para que se evidenciasse a minha natural capacidade de mentir e fazer o mal.
Ontem, por fim, nada publicou, mas foram editados alguns desenhos, típicas caricaturas
minhas, em que apareço sob a forma de um galo, de um Nero, de um Baco. Foi a gota d'água.
Minha esposa teve hoje sérios debates com a vizinhança. O falatório público é total.
Zago levantou-se do seu sofá com energia. Cornelius e senhor José João mostraram-se
surpresos. Zago pôs-se a caminhar de um lado a outro, cabisbaixo. Parou de súbito junto à
escrivaninha, pensativo e quieto. Tomou de sobre ela uma sineta, como quem toma um objeto
exótico e milenar. Examinou-a com olhos cegos. Em verdade não a via: pensava.
Por fim, levantou a cabeça decididamente. Tinha uma expressão dura e resoluta. As
mãos trouxeram a sineta até a altura do rosto, sacudindo-a em seguida qual um cacho de uva.
O ruído barulhento tomou conta do gabinete. Cornelius e o senhor José João nada entendiam.
Zago falou:
- Eis um som que terei prazer em ouvir. Se não o conhecem, é porque nunca estiveram
num tribunal, diante de um severo magistrado. Diante do conteúdo de tamanhas ofensas, não
me resta outra alternativa. É processar o homem e trancafiá-lo num abismo. Do contrário,
para o Sul, na Patagônia, as pastagens infindáveis parecem ser mais amenas de se viver, e
creio que não há lá todo este mundo de impunidade, onde os homens de bem submetem-se à
tirania moral autêntica dos tendenciosos meios de comunicação. Não aceito que assim se trate
gente de mérito. Contudo, nada posso, mesmo porque a ofensa não ofende a minha honra, e
não cabe a mim decidir por ser ou não o advogado do ofendido. No fundo, quero mais que
tudo sê-lo. Nunca me atrevi a enfrentar a força das penas, mas confesso que agora o quero,
embora que possam tomar essa minha disposição como um entusiasmo passageiro, mas eu,
humilde e singelamente, afirmo que não. Que posso eu fazer para concatenar esforços
convosco? Ponha-se sinceridade na resposta sem medo. Um senão que seja e dou-me por
inútil. Partirei então agora mesmo para o Sul...
Cornelius condoeu-se. O senhor José João sentiu-se mole. Zago depositou com um
movimento atlético a sineta sobre a escrivaninha. O silêncio fez-se por completo no interior
do gabinete. O ar cheirava à profundidade e retidão.
Cornelius quebrou o silêncio, embora que bastante emocionado:
- Não haveremos de querer recusar vossa proposta. Tu, a quem podemos já tomar por
primo, és advogado bastante bom e disposto. Devemos então unir forças e buscar a melhor
forma de fazer com que nosso estimado senhor José João alcance a vitória na provação de sua
honra. Que achas de ocupar um lugar de destaque conosco nesta que será a mais afamada das
batalhas judiciais? Mostra-te assíduo e fervoroso nela, sem que faça uso de acusações falsas
ou vãs, e seras muitíssimo bem recompensado e remunerado, dou minha palavra. Por ora é
só. E sendo assim como vos digo, é certo que conquistaremos, nós todos, muitos avanços nas
nossas intenções. Quanto a tu, não resta dúvidas, será a primeira das muitas recompensas que
haverás de desfrutar ao embrenhar-se na grande selva que é o mundo dos processos criminais.
As recompensas virão, ainda que pareçam agora tardias aos vossos olhos. E então? Aceitas?
Zago, que não era de forma alguma tolo ou medroso, não pensou muito para
responder, embora que simulou pensar para impor na resposta um impacto maior. Aceitaria a
proposta, ainda que nada viesse a ganhar com ela. O que lhe interessava era a fama e nada
mais.
Então, assumiu de súbito uma atitude exaltada, desferiu um sorriso bastante largo,
tomou o polaco junto a si e fortemente o abraçou. O senhor José João, animando-se, veio
juntar-se aos dois, abraçando-os em conjunto. Fez-se a união e a felicidade total num sólido
abraço triplo.
Zago, estirando a cabeça para o alto, bradou, furioso:
- Urra! Marchemos!

O PROCESSO

Tinha Zago agora em mãos um caso dos mais difíceis e sérios. A bem da verdade,
seriíssimo.
Nada que um bom advogado não pudesse dar conta. Eis a razão de seus problemas:
não era advogado, nem nunca fora, quanto mais dos bons. Se tivera a coragem de fazer
passar-se por um, foi por questão de pura ousadia, e se conseguira com tal ousadia ser
contratado como tal, o foi pelo simples fato de conhecer alguns termos jurídicos dos mais
comuns e vagos, conhecimento este que não era lá grande coisa, mas que acabou sendo mais
que suficiente para conseguir o que tanto desejava. Alias, não foi difícil enganar aos dois
pobres jornalistas. Mesmo que dissesse que uma petição fosse uma sentença, que uma
sentença fosse uma queixa-crime, ou que as longas madeixas cacheadas de um juiz não
fossem perucas, mas cabelos bem tratados e verdadeiros, ainda assim passar-se-ia por um
bacharel bastante entendido, porque tanto o senhor José João quanto o senhor Cornelius eram
completamente ignorantes no assunto e bastante suscetíveis de se impressionar diante de duas
ou três palavras exóticas e chiques ou de uma ou duas mentiras bem contadas, como o são
muitos que se julgam homens das letras e senhores de bom senso, mas que não o são de modo
algum, em local algum, em época alguma.
Ousadia, coragem, palavras bonitas e mentiras não eram, contudo, suficientes para dar
continuidade a seus intentos, porque não se tratava agora de convencer, mas provar a verdade
por intermédio de instrumentos reais, papéis, formalidades e regras. Um processo não se fazia
por meio de manobras ou truques verbais maliciosos. Era um ato complexo, requeria um
conjunto de ações e movimentos muito bem pensados e estudados, aplicados em
conformidade com a lei, sem jamais fugir às suas normas e formalidades. Eram essas ações,
esses movimentos, essas leis, essas praticas e essas formalidades que agora lhe afligiam a
paz, porque, na verdade, era leigo e sabia tanto delas quanto sabe um cego acerca das
posições das constelações numa noite de céu estrelado. Pressenti-as, mas não as via.
Supunha-as, mas não as concebia por inteiro. Um marceneiro não seria um advogado muito
pior.
Mas nem tudo estava perdido. Uma derrota não lhe seria mal. Viesse ela, e daria a
carreira jurídica por encerrada. Afinal, nunca fora homem de pleitear empregos ou cargos. A
seu ver, o trabalho era um castigo, sempre. O serviço ainda por fazer sempre fora um grande
inimigo da paz, não tinha dúvidas. Nada como o bom ócio e a boa preguiça para fazer elevar
os espíritos dos homens.
Julgou, contudo, que um serviço vez por outra não mataria ninguém. Bem verdade
que estava já bastante enferrujado para pôr-se à luta, mas haveria de suportá-la mais ou
menos bem. Quem sabe mesmo não viesse a ganhar a causa? Não descartou a hipótese.
Achou-a mesmo bastante interessante. Quais não seriam as recompensas? Quantas vezes não
veria seu nome citado e elogiado? A vitória, pareceu-lhe, arrastaria consigo a fama. Se
ganhasse, esta última seria mesmo inevitável. Então, por que não se arriscar por ela? Que
tinha a perder?
Nada tendo a perder, encorajou-se a tocar adiante a farsa.
No dia seguinte, contatou novamente os dois seres enganados. Mostravam-se ainda
bastante enfurecidos e desejosos de justiça, de forma que não foi difícil dar-se por
formalmente contratado. Bastava agora que se embrenhasse de cabeça e de mente na busca de
uma vitória fulgurante e gloriosa.
Nas semanas seguintes, manteve-se ausente de tudo e todos. Foi procurado pelo
senhor José João, mas este não o encontrou em parte alguma. Ninguém no hotel ou no café
sabia de seu paradeiro. Deram-no por desertor da causa.
Mas Zago não desistira. Pelo contrário, tinha-a como uma questão das mais urgentes e
inadiáveis. Se se ausentava da sociedade, era porque não queria ver-se interrompido na sua
lida em busca de leis, fatos, conceitos e provas que pudessem servir-lhe de aval para se
impetrar uma ação de retratação e indenização. Tinha muito que aprender a respeito da
complexa maquina que era o mundo dos tribunais e das leis.
Trabalhou dias e noites seguidos, de maneira árdua e amarga, como nunca fizera
outrora na vida toda. Consultou livros, códigos, pareceres. Vasculhou provas, colheu
testemunhos, propôs acareações, analisou versões confrontantes, recolheu recortes e
fragmentos das matérias publicadas a respeito do caso e por pouco que não se arriscou a
forjar depoimentos.
Granjeou autorização junto a um desembargador para assistir a alguns julgamentos em
pessoa num tribunal sob sua alçada nos quais muito veio a aprender acerca da natureza das
coisas jurídicas. Teve também acesso a um vasto conjunto de processos semelhantes,
arquivados por falta de mérito, nos quais pôde tirar uma série de lições acerca do desenrolar
das formalidades e dos erros mais comuns e evitáveis. Aprendeu um pouco a respeito da
hierarquia da justiça, descobriu que um juiz togado era maior que um juiz de paz, e que havia
ainda os juizes de fato, ou jurados, que muito podiam fazer a respeito de uma causa, sem que
precisassem sequer saber escrever os próprios nomes. Descobriu ainda que uma derrota em
primeira instância poderia ser contornada por um julgamento em um tribunal de justiça, de
alçada superior, onde então teria uma nova oportunidade de expor suas querelas e mesmo sair
vitorioso, o que lhe deu ânimo redobrado. Descobriu ainda que antes de apelar para uma
instância superior, era possível que apelasse para o próprio tribunal de instância inferior para
que pudessem reexaminar o caso em busca de novos fatos e novas possibilidades. Enfim,
descobriu que um processo não era coisa simples, e que julgar uma causa era coisa que
demandava longas manobras, variados obstáculos legais e numerosas etapas até um veredicto
definitivo e inapelável. Um juiz nunca arbitrava sem antes fazer um minucioso estudo do
processo e dos instrumentos apresentados. Pareceu-lhe que quanto mais estudava, maiores
eram suas chances de granjear uma vitória para si e para o senhor José João.
Após um meticuloso estudo de tudo quanto pôde ter à mão, percebeu que já era
senhor de si quanto às regras legais e formalidades. Cabia agora engendrar um plano bem
estudado capaz de proporcionar uma vitória certa e rápida, porque não interessava que o
processo se prolongasse indefinidamente no tempo em função de uma acusação mal
formulada. Aprendeu que em se tratando de leis, quem não sabia pedir acabava não só por
nada receber, como também por pagar, o que não era lá nenhuma vantagem nem para seu
cliente e nem para si mesmo.
Tanto procurou, que acabou por achar. Rememorando um processo arquivado,
bolorento e velho, descobriu um artifício legal que lhe servia como uma luva para que
alcançasse a tão sonhada decisão final favorável. Tal artifício legal era, em verdade, o mais
eficaz e perfeito ardil que se poderia aplicar diante das discussões em um tribunal. Tratou de
o tomar para si, aperfeiçoou-lhe os detalhes e fez dele seu trunfo mais poderoso e secreto.
Tinha agora a vitória como certa.
As semanas seguintes foram bastante agitadas. Deu entrada a uma representação
judicial, e a uma petição inicial junto a um juiz de paz de uma comarca bem conhecida, e
ambos os documentos foram deferidos sem maiores problemas. O juiz notificou ambas as
partes para uma audiência inicial, onde foram redigidas as atas do processo, nas quais Zago
desempenhou papel bastante importante.
O processo ficou pendente ainda por um bom tempo, aguardando por uma apreciação
por parte do ministério público. Dois meses depois de engendrada a queixa-crime e a petição
inicial, os dois litigantes foram chamados para um acordo, que não se realizou, de forma que
o juiz de paz lavou suas mãos, passando o caso para a alçada superior. Novamente foram
notificados os litigantes e mais um mês passou-se em estado de espera, enquanto que o
processo aguardava por uma nova apreciação. Foram depois convocados para algumas
audiências de praxe, onde novamente Zago desempenhou papel importante, até que seis
meses depois de iniciado o processo, foram os litigantes notificados da audiência final de
julgamento do processo.
Zago mantinha-se animado. Voltara à vida social, porque nada mais podia fazer
contra o réu ou a favor da vítima. Estava com seu dever cumprido. Cabia apenas comparecer
ao fórum no dia marcado e expor suas acusações e provas e falar em favor da vítima,
buscando convencer o meritíssimo juiz.
Reuniu-se com o senhor José João e com o senhor Cornelius e disse-lhes que a
situação era bastante favorável, visto que a chance de vitória era grande. Instruiu-os para que
mantivessem a fé, e que se limitassem a dizer a verdade, nada mais que a verdade, conforme
era de praxe. Por fim, recomendou que se mostrassem bem dispostos e bem vestidos, porque
parecia-lhe que, por vezes, um julgamento poderia ser fortemente influenciado pela beleza
das partes, e que um juiz poderia comover-se diante da aparência do réu, o que lhe parecia
um auxílio bastante bom. O senhor José João prometeu comparecer nos seus melhores trajes,
mas alertou para o fato de que Cornelius não tinha bom gosto e que era por demais nervoso e
irrequieto. Zago contudo o acalmou, afirmando que a presença de Cornelius era importante,
mas não indispensável, e ambos acabaram concordando que melhor seria que este não desse
as caras no tribunal, para não correrem o risco de desgostar os olhos do meritíssimo.
No dia previsto para o julgamento, reuniram-se ambos uma hora antes e seguiram
para o prédio do fórum onde se daria a audiência final.
Tanto Zago quanto o senhor José João trajavam-se com bastante elegância e classe. O
senhor José João vestia um fraque de primeira, confeccionado sob medida com os melhores
tecidos e talhado pelas mãos dos melhores alfaiates de que dispunha na cidade e redondezas.
Era o resplendor em pessoa.
Zago, ainda que não passasse de um simples e amolecido advogado aos olhos da
concorrência, também não fez feio com seu porte e trajes. Buscando elevar os méritos, a fama
e os rendimentos, tratou de trajar-se da maneira mais destacada e elegante possível. Mandou
também confeccionar um vistoso paletó da melhor casimira da praça, cuja lapela tratou de
ornar com uma bela e exótica flor.
Causou em todos uma boa impressão, e muitas foram as congratulações e elogios
sinceros que recebeu pela beleza de sua flor, uma begônia vistosa e rosada, que muito lhe
destacava o paletó caro e requintado. Tinha ainda, para lhe completar a beleza, um pequeno
lenço de seda, vermelho, dobrado num triângulo a pender do bolso do traje. Era um luxo só.
Porém o senhor José João o abordou a um canto, bastante eufórico e preocupado.
Juntando a mão em concha, confidenciou-lhe ao pé do ouvido:
- Doutor Zago, estás impecável e causa boa impressão, mas creio melhor tirar esse
lenço vermelho do bolso do vosso paletó. Ouvi dizer agora mesmo que o meritíssimo juiz
adora fraques e paletós, e é mesmo louco por begônias brancas e rosadas, mas detesta com
veemência tudo que lhe toca quanto ao vermelho berrante e forte. Se topar com as vistas no
lenço, ficara certamente arrasado. Creio mesmo que devemos a ele alguma razão. O vermelho
é cor forte por demais. Não quero que se sinta ofendido com o que haverei de lhe dizer agora.
Um lenço sempre cai bem em qualquer traje, desde que se apresente discreto e só. Já com
uma flor a lhe rivalizar a atenção, fica em desvantagem, e acaba por mostrar-se inoportuno.
Assim reza a etiqueta: ou orna-se o traje com um lenço, ou orna-se com uma flor, mas nunca
com ambos simultaneamente, quando mais que sejam de cores similares ou parecidas. O
vermelho obscurece o rosado, e a begônia obscurece o lenço, e tem-se um atributo anulando o
outro, de modo que nenhum dos dois se destaca, e tem-se uma aparência pesada e morta. Não
quero contrariá-lo, mas convém que tire o lencinho do bolso agora mesmo. É um risco
apresentar-se com ele. Pode-se mesmo perder a questão por conta dele, não duvidemos. Já
está a par dos boatos e dos gostos do nosso meritíssimo. Não convém contrariá-lo.
Zago desferiu variados olhares de espanto. Tomou o lencinho nas mãos e procurou
nele algum defeito, alguma feiúra, alguma aberração, mas definitivamente não viu nele nada
de mau ou desabonador que merecesse ser levado em conta. Achou, era verdade, que era
mesmo bastante berrante e chamativo, mas era só. Porém, para não contrariar seu cliente,
concordou:
- Sim, sim! Bem sei que não é um lenço comum. Esse vermelho me assemelha a
sangue, e não vejo mesmo porque tê-lo comigo, já que a flor já basta por si mesma. Tome
essa feiúra e dê fim a ela, que já me doem as vistas. Que rubro mais violento e mortal...
O senhor José João tomou o lenço das mãos de Zago e amassou-o o mais que pôde.
Disse a Zago em seguida:
- Tome cá um lenço rosa que trouxe comigo, porque talvez venha a sentir calor e a
suar, e talvez ele venha a lhe ser útil, mas aviso-lhe: mantenho-o escondido. Não deixe que o
meritíssimo o veja a suar e a limpar-se. Mostrar-se limpo e seco talvez sirva para convencê-lo
de que és um advogado calmo e seguro de si. Nunca se sabe, nunca se sabe...
Zago tomou o lenço rosado e guardou-o no bolso esquerdo como quem guarda um
segredo. O senhor José João seguiu alguns passos adiante e jogou o lenço vermelho num
cesto, no qual jogavam papéis, restos e lixos. Suspirou aliviado, como quem livra-se de um
espinho ou de um castigo.
Rumaram então em direção à entrada do fórum, onde entraram e percorreram-no com
admiração e leveza. Era um recinto vasto, limpo, abafado, silencioso e grave.
Uma hora mais e deu-se início ao julgamento, que estendeu-se por longas horas
entrecortadas por pequenas pausas nos momentos que o senhor juiz julgou por adequados.
Em principio, um auxiliar leu as atas do processo, o que demorou quase uma hora.
Pararam então para ver se as partes tinham alguma reclamação a fazer. Como nada tinham a
contestar, ocuparam o intervalo com algumas xícaras de café servidas por um homem de
apoio.
Tornaram cada qual a seu posto e um promotor leu as acusações da vítima, pedindo ao
representante do réu que apresentasse seus motivos e suas argumentações. O advogado do
senhor Araújo Pereira, um homem bastante alto e belo, de cabelos louros e rentes, falou com
pouca eloqüência, mas com bastante convicção:
- Pois sim, acusam o senhor Araújo Pereira de ter ofendido ao senhor José João
mediante uma série de artigos publicados na gazeta de sua propriedade, acusando o senhor
José João de libertinagem e falta de decoro religioso. Consideramos que de fato foram
publicados numerosos artigos tratando da questão, quero lembrar, contudo, que o conteúdo
dos tais artigos em momento algum menciona o nome do senhor José João, de forma que
concluímos que nada há de pessoal nos mesmos. Se o senhor José João sente-se ofendido, é
pela mera questão de que ele, por acaso, é um homem cujas idéias são de caráter liberal. Ora,
como os artigos versam acerca do aspecto filosófico e lógico, observado no antagonismo
entre o liberalismo e o conservadorismo, nada mais natural que o senhor Araújo Pereira, que
é conservador, usasse de argumentos fortes mostrando as desvantagens do liberalismo e as
vantagens do conservadorismo. Quando se trata de um assunto caloroso como o são os
assuntos de natureza política e filosófica, é comum que assim se proceda, mesmo porque é
salutar que em um país livre e soberano se debata a respeito das diversas tendências dos mais
diversos assuntos. Tomar um liberal por um libertino é mera questão de interpretação. Os
artigos citados não dizem que todo homem liberal é um libertino. Afirmam apenas que um
libertino normalmente é um homem liberal, o que pode ser tomado como sendo uma
interpretação bastante conservadora do termo, mas, na maioria dos casos, verdadeira. Quanto
aos desenhos e garatujas das páginas de humor, afirmamos que não há nelas nenhum indício
que prove que se trate de uma caricatura de caráter pessoal. É possível que o senhor José João
tenha encontrado nas tais garatujas alguma semelhança casual com sua pessoa, mas não
houve tal intenção em momento algum. Ainda assim, não haveria porque reclamar, afinal o
senhor José João possui também uma gazeta com páginas humorísticas onde constantemente
se vê garatujas e caricaturas as mais diversas e, por vezes, das mais ofensivas e críticas. São
caricaturas claras. Com elas, criticam-se a monarquia, o imperador, o conservadorismo e mais
uma série de outros conceitos e pessoas, e nem por isso o senhor José João as vê como
ofensivas e pessoais. Animações e desenhos são formas indiretas de expressão, e não vemos
porque não haveria o senhor Araújo Pereira de não as utilizar nas páginas de sua própria
gazeta. Que saibamos, a liberdade de imprensa ainda vigora. Somos forçados a crer que toda
e qualquer acusação de ofensa pessoal e calúnia contra o senhor Araújo Pereira que provenha
da parte do senhor José João e que tenha relação com os ditos artigos publicados nas datas já
citadas podem ser consideradas improcedentes e nulas, de forma que nada temos a defender.
Aguardaremos pois o desenlace do processo e o pronunciamento do senhor meritíssimo juiz.
Obrigado.
Encerrou então sua parlamentação e assentou-se ao lado do senhor Araújo Pereira. Em
seguida, um grupo de cinco ou seis pessoas, favoráveis ao senhor Araújo, levantaram-se de
seus assentos e desferiram um conjunto de ovações e aclamações e palmas entusiasmadas, até
que o senhor meritíssimo fez soar seu martelete pedindo silêncio e calma aos senhores
presentes.
O juiz, após ouvir tudo o que tinha a dizer o advogado alto e louro, achou por bem
solicitar um intervalo, de forma a proporcionar mais algum tempo para a vítima reordenar sua
estratégia.
Como o senhor Araújo Pereira acreditasse que nada devesse e nada tivesse a temer, e
como seu advogado julgasse que fora bastante claro e objetivo, os dois nada tiveram que
tratar. Mataram o tempo a comer alguns biscoitos com chá, enquanto que conversavam
assuntos amenos e leves.
Já o senhor José João sentiu alguma apreensão, mas Zago tranqui1izou-o. Mostrou
alguns erros nas falas do advogado rival e afirmou que não era tarefa difícil derrubá-los.
Uma sineta anunciou o reinício do julgamento.
Tornaram todos a seus bancos e o representante da vítima foi chamado a prestar novas
acusações. Zago, conclamado a falar, citou duas ou três leis pouco conhecidas, fez lembrar a
todos acerca de algumas testemunhos de peso e rogou à Carta Magna, e à Sagrada Escritura, e
às consciências dos homens, e deu-se por satisfeito. Zago disse frente a todos:
- Senhor meritíssimo, senhores litigantes e demais presentes. Cremos nós que todos
ouvimos bastante bem o que acabou de nos explanar a defesa do réu. Cremos ainda que ficou
bastante claro a todos os presentes o fato de que nada mais tem o réu a dizer acerca dos fatos
perante os quais tem de prestar contas junto à lei. Assim sendo, sentimos que a defesa
esqueceu de esclarecer alguns pontos que achamos por demais obscuros e indefinitos nas
atitudes do senhor Araújo Pereira, pontos esses que, cremos nós, são de fundamental
importância para a elucidação da verdade e para a decisão desta corte. A lei de imprensa ora
em vigor é bastante clara com relação à responsabilidade editorial por parte de jornalistas
para com os artigos em cujos jornais são publicados. Assim sendo, na hipótese de uma ofensa
clara e pessoal, caberia ao senhor Araújo e somente ao senhor Araújo a responsabilidade por
ela, editor que é e que responde pelos artigos de sua própria gazeta. Lembremo-nos ainda de
que embora os artigos supracitados não façam nenhuma referência pessoal ao nome do
senhor José João, tais artigos não podem nem devem ter seus conteúdos tomados
isoladamente. E preciso que não nos esqueçamos de que houve durante todo o decorrer de
suas publicações uma série de artigos do senhor José contradizendo-os, de forma que um
artigo do senhor Araújo Pereira tomava por base sempre um artigo oposto, de
responsabilidade do senhor José João. Os artigos do senhor Araújo não eram meras
dissertações sobre um tema: eram sempre uma resposta a um outro artigo do senhor José.
Ora, se ambos são os únicos responsáveis pelos conteúdos de seus artigos, cabe supor que ao
redigir e publicar seus artigos, a pessoa do senhor Araújo estava, em verdade, redigindo e
publicando uma genuína e clara resposta à pessoa do senhor José. Somos forçados a crer que
o senhor Araújo estava ciente deste fato durante todo o tempo, e que assim o fez por sua livre
e espontânea vontade. Portanto, as palavras contidas em seus artigos, que a defesa alcunhou
de argumentos fortes, nada mais eram que ofensas diretas e pessoais ao senhor José. Quanto
aos desenhos, há uma semelhança física entre estes e a pessoa do senhor José que parece-nos
muito além de semelhança casual ou acidental, além de que, vieram sempre acompanhadas de
enredos e explicações que não deixam dúvidas de espécie alguma acerca de seus conteúdos.
Há entre as caricaturas e o conteúdo dos artigos uma forte relação de causa e efeito. De resto,
colhemos testemunhos de pessoas diversas da sociedade, nos quais todas deixaram claro a
facilidade em se reconhecer a pessoa do senhor José João como alvo da brincadeira e dos
supostos argumentos fortes. Ainda que não o querendo, tais artigos insuflaram nos seus
leitores um forte sentimento de revanche e vingança pessoal entre o seu autor e o senhor José
João, o que vem a constituir um acontecimento bastante prejudicial e denegritório para a
pessoa deste último. Invocamos ainda a Carta Magna, que reza a todos o livre direito de
resposta a ofensas e calunias. Invocamos também a Sagrada Escritura, porque cremos nas
suas verdades e a respeitamos, como lei superior que é. Reza esta última que não reside o mal
apenas nos atos, mas também nas intenções. Cremos que, apesar do nome do senhor José
João não tenha sido citado expressamente por parte dos artigos do senhor Araújo, este ainda
assim incorreu em calúnia e difamação indireta, porque se não as fez pessoalmente, as fez
implicitamente, e tinha-as como intenção clara e maior. Não achamos ainda desnecessário
convocar a todos para que consultem suas consciências. Acreditamos firmemente que há nos
homens de bem a vocação nata para a justiça. Ignorar as conseqüências e as repercussões de
artigos tão impensados seria o mesmo que ignorar a noção do bem e do mal, porque claros a
todos estão os prejuízos morais sofridos pelo senhor José João. Se os sofreu e ainda os sofre,
não os sofre por vontade própria. Há nestes prejuízos e nesse sofrer mais uma forte relação de
causa e efeito. Os prejuízos e o sofrer são as conseqüências, e os artigos, a causa. Temos a
mais absoluta certeza de que o senhor meritíssimo é um homem dotado de grande consciência
e de grandíssimo senso de justiça. Aguardamos, pois, o seu pronunciamento final.
Disse, e em seguida, assentou-se.
Alguém, simpatizante do senhor José João, levantou-se então a desferir palmas e
elogios. Juntaram-se a ele mais um grupo de nove ou dez pessoas e fez-se um leve tumulto,
porque do lado contrário, dois ou três simpatizantes do senhor Araújo levantaram-se de seus
assentos desferindo vaias e insultos. Não fosse o juiz com a força de sua imponência e de seu
martelete, e ter-se-ia mesmo uma batalha. Tinham todos os ânimos exaltados.
O juiz decidiu-se por mais um intervalo, desta vez o derradeiro. Como nada mais
tinha a saber que lhe fosse de interesse, considerou que tinha já em mãos argumentos
suficientes para proferir o seu veredicto, de forma que despachou a todos por um prazo de
uma hora, para que pudesse formalizar a sua decisão com calma e segurança.
O advogado alto e louro, agora desolado e frio, confidenciou seus pensamentos ao
senhor Araújo neste intervalo:
- Senhor, creio que estamos derrotados. Esse juiz, bem o conheço, é um velho
caudilho, um militar ditador, um carrasco. Convenhamos: o advogadozinho do senhor José
saiu-se bastante bem. A vida jurídica é mesmo assim. Por vezes, ao defender uma causa dada
por todos como perdida, iluminamo-nos como que por efeito de um sol interior. Banhados
nesta euforia luminosa, falamos, comovemos, derrubamos os obstáculos, somos capazes de
fazer do assassino mais vil um homem dos mais honestos e trabalhadores, mas nem sempre a
coisa se dá desta maneira. Há dias em que parece-nos que o espírito recusa-se a sair de seu
casulo de timidez e mediocridade. Então, é o fim. Somente a benevolência de um juiz é capaz
de nos auxiliar. Falamos com medo, irritamos a todos, pomos a causa a perder. Não mais me
surpreendo. Por vezes, creio que a luz que conduz a fala de um homem é fruto da
Providência, mas esta luz é incerta e não escolhe nem dia, nem hora, nem causa. Um homem
a defender uma causa, quer dentro dos tribunais, quer fora dele, tem na sua fala sua mais forte
aliada. O formalismo de uma querela não é nada. A força secreta que decide por uma causa é
a própria alma dos homens. Quanto maior esse misterioso brilhar interior, maior é a força e as
chances de se sair vitorioso. Assim sendo, nem sempre a lei é a protetora dos descontentes.
Não neguemos a descomunal popularidade alcançada pelo nosso advogado rival.
O senhor Araújo, homem sensato, consolou-se:
- É mesmo um bom orador, este senhor que há pouco nos falou. Mal começou, e vi
logo nele o gosto pelas palavras aventurosas. Derrotou-te, o iluminado.
O advogado, embora que sem mágoas, replicou:
- Talvez nem tudo esteja perdido. Não nos importemos mais com a causa. Está morta,
é certo. Torçamos então para que a pena venha branda. Quem sabe, somente a retratação
pública. Talvez nada deva com relação a indenizações ou multas, quem sabe...
O senhor Araújo deu de ombros. Estava já consolado.
O período previsto de uma hora foi interrompido por uma sineta. Segundo o seu
tocador, não havia porque estender a espera. O juiz tinha já sua sentença em mãos. Que
tratassem todos de tomarem os seus assentos, porque o tempo era caro, e a ansiedade, imensa.
Assentaram-se todos. Reinou a calma e a expectativa, silenciosas.
O juiz, assentando-se, olhou a todos com seriedade e firmeza. Em seguida, raspou a
garganta, sentenciando:
- Senhores presentes, temos já em mãos a decisão final desta corte. Analisados os
autos do processo, e tendo o senhor Araújo Pereira como réu, tomou esta corte a seguinte
resolução: julgou o senhor Araújo Pereira como culpado por crime de injúria e difamação
contra o senhor José João. Mediante a culpabilidade do réu, recaem sobre este as seguintes
penas, as quais cabe cumprir em nome da lei e da justiça: fica o senhor Araújo Pereira
condenado a fazer uma retratação pessoal na qual o mesmo pedirá suas desculpas formais à
pessoa do senhor José João, em público e por escrito. Fica ainda condenado a pagar uma
multa a esta corte no valor de mil réis com o objetivo de custear as despesas deste tribunal, às
quais é legalmente responsável. Subscreve esta sentença o juiz desta comarca, com os
poderes a ele assistidos por força de vontade pública e de lei. Dá-se o processo por encerrado.
Arquive-se.
Em seguida, bateu com força o martelete sobre a mesa, dizendo:
- Senhores, o julgamento está encerrado!

O DISCURSO

Terminou assim a fastidiosa sessão. Uma aglomeração informal de pessoas veio até
Zago, que foi felicitado de forma intensa e radiante:
- Grandioso doutor.
- Grandiosa conquista...!
- Aplausos.
Foi cumprimentado, abraçado, beijado.
O senhor José João chorou copiosamente.
Mais adiante, o senhor Araújo Pereira resmungava:
- Menos mal... menos mal... uma mera retratação... mil réis de multa... uma ninharia...
ah! ah! ... grande derrota...
O advogado louro e alto pestanejava. Sorria caninamente.
Dizia:
- É um marco na história das leis... um novo dimensionamento... uma nova ordem... o
patrão não está com raiva, está?... está estarrecido? Tem nojo?... não? Bem, muito bem...
também eu não estou rancoroso e nem ranjo os dentes... mas que decisão! ... abalou a história
moderna...
Zago continuou sendo alvo das atenções. O senhor José João, agora menos choroso,
suspirava, emocionado:
- Sou homem de bem... sou honesto... sou macho... juiz forreta... 50 mil réis... mas vá
bem... tenho a alma lavada... sou macho demais...
Juntou-se aos demais homens e pôs-se a agradecer Zago. Tinha-o na mais alta conta:
- Devo-lhe a honra, o nome, a vida. Perdesse eu esta causa, e morreria, definhado em
desgosto. És um filósofo, um gênio, um mago. Fala! Fala a nós daquilo que sentes, diga
daquilo que pensas... abra a alma a nós... faça um discurso de vitória... que acham todos?
Discursa ou não?
- Discursa! Discursa! Hurra!
Foram muitas as súplicas para que dissesse algo em favor da grandiosa conquista.
Zago então acalmou-os:
- Suspiremos fundo. Gozemos esse momento de glória. Bem queria falar, mas não
tenho palavras...
Ouviu-se uma série de clamores e berros. Houve júbilo por parte dos partidários do
senhor José João. Já alguns outros, parasitas do senhor Araújo, riram, sarcásticos. Os demais
presentes, homens letrados e doutos das leis, baixaram as cabeças e retiram-se, constrangidos.
Recusavam-se a compartilhar da leiga euforia em nome da ética e dos bons costumes.
Os admiradores superavam-se:
- É homem que fala bem... sabe falar... é filósofo... é poeta... é sábio... é bonito... é
retumbante... é chique... vejam a flor... e uma begônia... bom gosto... boas maneiras... é
santo... é deus... veste paletó... é rico... casimira pura... viram a pose?... que ar superior!... que
riqueza de saber! ... dou meus parabéns... dou um viva... dou minha calça... dou minha filha...
nem tanto! Mas dou de bom grado minha égua. . . Fala! Fala! Meu Deus poderoso, homem,
desembucha! .. Fala!
Já os adversários enxovalhavam e atacavam:
- É leigo... é picareta... farsante... charlatão... balabrega... oratória frívola... saber
inferior... mal vestido... fala como um ladrão... é um impostor... mentiroso... tem pacto com
o diabo... mais tarde o pegamos... vamos dar-lhe uma surra... dobro-lhe a língua... bato-lhe na
boca... chuto-lhe os fundilhos...
Tanto falaram a favor, e tanto foram os pedidos, que acabaram por tomar Zago pelos
braços e o depositaram por sobre um dos bancos do tribunal, para que tomasse lugar
destacado para o seu discursar.
Nada mais podia fazer. Tentou descer, mas não o deixaram. Estava cercado. Ou
discursava, ou deixaria a desejar.
Posicionou-se então da melhor maneira que pôde, de forma a fazer-se ouvido e visto
por todos os presentes. Alinhou no corpo o seu terno de primeira mão. A turba de
admiradores e curiosos fez silêncio. Zago discursou então com firmeza e império:
- A decisão é justa. Quem somos nós para contestá-la? Que virtudes temos para tal?
Saibam todos que aplicar a justiça à decisão da própria justiça toma longa e intensa
convivência com a ordem regular das coisas, e ainda não existe no globo terrestre nem uma
única virtude propensa a incumbir-se de tão grandiosa obra! ...
E calou-se, na espera de que suas palavras penetrassem nas consciências dos homens
à sua volta. Manteve-se o silêncio por um instante, mas na medida em que meditavam sobre o
discurso e lhe entenderam o sentido, romperam-se em vivas, urros e bramidos. Foi
eloqüentemente aplaudido por uns. Foi veementemente vaiado por outros. Fez-se o
desarranjo, a discórdia, a fuzarca. O fórum era a própria Babel.
Alguns senhores da lei, respeitosos e temerosos, trataram de conclamar ajuda junto ao
meritíssimo.
Um minuto mais e o homem, potência das leis, arquiinimigo do erro, combatente da
ordem, despontou do seu gabinete, uma espécie de catacumba legislativa, e rumou para junto
de sua tribuna. Trazia a toga negra e a longa cabeleira cacheada, falsa. Dir-se-ia um morcego
moribundo e velho. Tomando posição ameaçadora qual um terrível diabo, bateu seu martelete
de pau preto sobre o tampo do púlpito, fazendo ribombar um som descomunal. Em seguida,
exprimiu-se perfeitamente, fazendo com a mão esquerda um gesto multilateral de forma
enérgica e bravia:
- Silêncio, abomináveis homens!
Fez-se um silêncio monumental.
Em seguida, os ouvintes do abrasado colóquio dispersaram-se. A aglomeração
escorraçada se desfez, e cada qual tomou seu rumo, cabisbaixo. O juiz, severo, deu ordem
para que se fechassem todas as portas da casa, pondo assim um ponto final no episódio
jurídico, episódio este que abalou profundamente a sociedade letrada do Rio de janeiro e foi
motivo de falatórios e comentários ainda por meses e meses e meses seguidos.

QUASE NO FIM

Nos meses que se seguiram depois do afamado processo, Zago foi muito bem falado e
muito bem recomendado por todos os que tomaram conhecimento de sua vitoriosa atuação
naquele acontecimento importante.
Evidentemente que recusou todas as propostas e todas as causas. Tinha já alcançado a
fama que tanto desejava.
Foi mesmo bastante aclamado. O senhor José João escreveu dezoito editais elogiando-
o. Onde ia, era bem vindo e bem recebido. Já não precisava pagar pelos cafés que tomava no
Café de Ouro. Tudo que comesse e bebesse corria por conta da casa. Era um verdadeiro filão.
Onde ia, atraia multidões. O Café de Ouro não vencia mais fazer empadas e croquetes. A
gazeta O Brasil ganhou um prêmio no fim do ano. Circulava feito dinheiro. O senhor
Cornelius, em princípio, não o recebeu muito bem, em virtude da indenização que não saiu,
mas, na medida que sua gazeta crescia no gosto do povo, percebeu que não era interessante
que Zago fosse perturbado na sua glória. Diante de tal percepção, via nele também o filão
que o Café de Ouro já a muito conhecia e vinha explorando. Por fim, o senhor José João,
tomado de um arrebatamento moral, viu-se embrenhado num fervoroso caso de amor com a
política, de forma que resolveu por se aposentar do jornal. Candidatou-se a deputado,
enquanto que Cornelius assumia a direção dos negócios.
A vida já não era mais a mesma. Zago bem sentiu a mudança. Deu-a por positiva.
A felicidade correu a toda brida. Até os cabelos pareciam mais longos e vistosos do
que eram outrora. Luziam, esvoaçavam, encaracolavam. Dir-se-iam os cabelos de uma dama.
Um dia Amália apareceu grávida. Jurou que o filho lhe pertencia. Zago negou. Deixou
de freqüentar o Café de Ouro. Amália o procurou dois dias depois. Disse-lhe que fora um
engano: o filho era do copeiro. Zago voltou ao Café de Ouro. Nunca veio a saber a verdade
da paternidade. Amália, tomada de uma misteriosa gripe, abortou o rebento ainda no quarto
mês. Zago se preveniu. Continuaram bons amigos.
Passou a freqüentar o Jóquei Clube. Deram-lhe um título de sócio. Comparecia todas
as terças e quintas à tarde. Apostava sempre nos cavalos brancos. Perdia regularmente, mas
por vezes ganhava. Admiravam-lhe a sorte. Bajulavam-lhe a astúcia. Todos passaram a
apostar somente nos cavalos brancos. Zago mudou de tática. Apostou num cavalo malhado.
Quase quebrou a banca. Louvaram-lhe a sorte ainda mais. Já alguns suspeitaram de trapaça.
Expulsaram do clube o montador do cavalo malhado. Os jogadores voltaram a diversificar
suas apostas. O assunto morreu em pouco tempo.
O senhor José João, candidato pelo partido liberal, pôs a seu favor sua máquina
jornalística. Andou de bondes, foi à praia, beijou escravos, carregou no colo crianças
maltrapilhas, discursou nos palanques, distribuiu panfletos, conjurou apoio das minorias,
criticou o imperador, o congresso, as obras públicas, a educação, o analfabetismo. Prometeu
a austeridade, o fim do clientelismo, do fisiologismo, do coronelismo, da corrupção. No dia
da eleição, convocou Zago para apoiá-lo, mas não o encontrou. Zago, bêbado, passou o dia
na casa de uma meretriz, que lhe prometeu fidelidade e amor eterno. Zago também jurou seu
amor eterno e marcou casamento. No dia seguinte, não lembrava mais quem era a dama.
Nunca mais a viu.
O senhor José João foi feliz. Elegeu-se deputado com grande folga de votos. No dia
seguinte deu uma grande festa. Cornelius criticou-a. Achou tudo um grande desperdício, mas
comeu e bebeu feito um urso. Mataram-se cinco bois, quatro carneiros e cinqüenta galinhas.
Erigiram dois bolos de três andares e serviram-se oitenta tonéis de cerveja fresca. Cornelius,
arrasado, contou na festa oitocentos e noventa e duas pessoas, entre convidados,
desconvidados e oportunistas. A vizinhança jurava que foram mais de três mil, descontada a
escravaria. Por volta do anoitecer, ouviram-se boatos. O imperador compareceria, mas não
compareceu. Arrumava-se já, quando vieram com a informação: era festa de liberal. Mandou
então redigir um pronunciamento. Pediu desculpas. Tinha uma gripe... febre alta. Um lacaio
trouxe o recado. O senhor José João o leu. Chorou copiosamente. Sarou. Mandou embrulhar
um carneiro para presente. O lacaio do império levou-o. A corte jantou com fartura. A festa
varou duas noites e dois dias. Abalou toda a sociedade carioca. Doze anos depois era ainda
lembrada com saudade e entusiasmo.
Zago descobriu a praia do Botafogo. Tomou sol, nadou, banhou-se. Era um peixe. Ia e
vinha nela todas as tardes. Um dia foi interditada. Malária! Zago desgostou-se. Voltou lá
pouca vezes. Tomava sol. Não nadava mais. Temia a peste.
O senhor José João tomou posse da sua cadeira no Congresso. Convidou Zago para a
cerimônia. Zago foi. Viu o imperador em pessoa. Achou-o velho e fraco. Dir-se-ia um
eremita. O imperador discursou. Zago bateu palmas. O senhor José João recebeu uma
comenda. Disse duas ou três palavras de agradecimento. Os liberais eram maioria. Todos
discursaram. Zago dormiu. Babou no fraque. Acordou. Cornelius o sacudia. Passava da meia-
noite. O congresso estava vazio.
Um dia Cornelius desentendeu-se com um conterrâneo polaco. Intrigas familiares.
Questões pessoais. Consultou Zago. Cogitou um processo. Zago argüiu. O rival era pobre.
Cornelius desistiu. Resolveu-se pelo duelo.
Mandou um recado ao rival. Recebeu a resposta. Marcaram o dia, a hora, o terreno.
Zago foi seu padrinho. Reuniram-se no dia marcado. O rival foi pontual. Cornelius atrasou-
se. O terreno era ermo. Apareceram com um caixote. Eram duas garruchas, duas balas, dois
pacotes de pólvora. Os dois inimigos tomaram posição. Os padrinhos conferiram tudo. O
rival chamava-se Rosko. Tomou sua posição. Cornelius fez o mesmo. O juiz deu ordem de
tiro. A garrucha de Rosko falhou. Cornelius atirou. O projetil saiu sem rumo. Caiu dez passos
ao lado. Deu-se a contenda por encerrada. Ninguém morreu.
Zago amou. Foi num sarau familiar. A dama era nova, menos de vinte anos. Amor à
primeira vista. Dançaram colados. Beijaram-se. Zago era um Romeu. A dama chorou e
sorriu. As horas correram soltas. Zago disse adeus. A moça correspondeu. Marcaram novos
encontros. Os pais dela desconfiaram. Proibiram-na de vê-lo. Zago ressentiu-se. A moça
adoeceu. Não mais se viram. Ele acabou por esquecer-se do romance. Ela, rebelada com a
família, virava a cara a todos. Vários meses se passaram. Organizaram outro sarau familiar.
Ela compareceu. Travou amizade com um moço belo. Amaram-se a primeira vista. Casaram-
se no semestre seguinte.
O tempo foi passando lentamente. Foi passando, passando, passando...
Zago voltou a ser o que sempre fora. O tempo passando lentamente fez com que sua
fama decaísse ano após ano, mês após mês, dia após dia. Já não comia empadas no Café de
Ouro por conta da casa. Mesmo um reles café não lhe era servido sem que não fosse
devidamente cobrado. Amália já não era mais garçonete. Largara o emprego durante a
terceira gravidez e nunca mais fora vista
Ainda visitava o Jóquei Clube, mas não causava mais a sensação de outrora.
Continuava a jogar somente nos cavalos brancos, mas ninguém mais dava importância a essa
pequena extravagância. Um inglês capitalista de uma empresa ferroviária era quem chamava
as atenções. Homem letrado, jogava somente nos cavalos de boa cria. Fora também cavaleiro
na Escócia. Conhecia equitação. Perdia pouco. Ganhava frequentemente. Mulheres as mais
diversas e belas rodeavam-lhe a volta. Abafava a tudo e a todos com seu charme e sua sorte.
Zago perdia-lhe terreno. O prestígio decaia. Por vezes cumprimentava o inglês. Não foi
correspondido uma única vez.
O senhor José João impunha-se no Congresso. Atarefado, já não tinha mais tempo
para amizades. Se via Zago, dava-lhe um bom dia apressado e seguia seu rumo num passo
nervoso. Tinha muito o que fazer.
Cornelius enriquecia a olhos vistos. Seu diário circulava como nunca. Não havia
carioca que não o lesse. Sua influência extravasava já para além da área urbana da cidade. Era
agora lido em todo território fluminense e tinha fama por todo o pais. Cornelius felicitava-se
a todo instante. Era homem de garra. Ninguém podia com sua ânsia capitalista. Endinheirado,
mandou erguer um palacete de luxo. Mandou trazer coisas polonesas. Comprou piano de
cauda. Conheceu Chopin e gostou. Tomava lições com uma moça erudita. Por vezes
dedilhava uma valsinha veloz do seu ilustre compatriota compositor. Enamorado da boa
música, pediu a mão de sua instrutora em casamento. Ela aceitou. Casaram-se numa tarde de
domingo. A cerimônia foi discreta. Não houve festa. Ofereceu-se um jantar aos amigos e
padrinhos. Zago não foi convidado
O senhor Araújo Pereira fez a retratação pública. Depois disso contraiu uma úlcera.
Afastou-se do jornalismo. Reclusou-se no âmago de sua casa e de lá não mais saiu. Fez
tratamento. Tomou remédios caros. Nada resolvia sua chaga. A úlcera progrediu firmemente.
Transformou-se num câncer. Deu-se por liquidado. Chamou o advogado louro e alto. Redigiu
seu testamento. Morreu numa noite de chuva.
Zago lia os jornais. Ficou ciente dos fatos. Espantou-se com a manchete: a escravaria
estava liberta. Espantou-se em seguida, um ano depois: a república fora proclamada. O
senhor José João progredia. Era agora um mito. Liderava, mandava, desmandava. Zago o via
raríssimas vezes.
Sentiu saudades dos velhos tempos. Inglaterra, Itália, França. Áustria, Polônia,
Prússia. Suíça, Suécia, Rússia.
Paris, Varsóvia, Bonn. Madri, Marselha, Roma. Moscou, Amsterdã, Hamburgo.
Um dia acordou melancólico. Tomando papel e pena, rascunhou uma série de cartas.
Despachou-as todas e aguardou pacientemente as respostas. Estas foram chegando, uma a
uma, e Zago as leu, cheio de apreensão e curiosidade. Quantas novas! Tantas alegrias, tantas
desgraças!
A primeira delas a chegar foi de Juarez, o marquês. Começava com uma felicitação.
Terminava com uma ameaça. Trazia noticias do senhor Gaspar. O caso fora triste. Passara
por perigos graves. Foi preso em Londres. Tomaram-no por búlgaro. Foi roubado. Tornou a
ser preso. Não tinha um vintém. Passou fome. Passou lá seis meses. O senhor Juarez o tinha
por salvo. Julgava que estivesse casado. Temeu com a falta de notícia. Foi a Londres, no
encalço do amigo. Achou-o semimorto, magro, pobre, maltrapilho. Juarez o repatriou. Não
houve alegrias. Gaspar enlouquecia. Chorava, rezava, praguejava. O senhor Juarez temia pela
vida do amigo. Culpava Zago. Chamava-o traidor. Conjurava Deus. Prometia vingança. Faria
por si mesmo, se pudesse. Dizia não descansar. Zago rasgou a carta. Queimou depois os
pedaços.
A carta seguinte foi de um primo. Gente andarilha. Escrevia de Munique. Trabalhava,
dizia. Zago duvidou. Conhecia sua raça. Não era gente tola. O primo mentia, era certo. Zago
não leu o resto. Nada tinha que valesse a pena. Mentiras, nada mais. Sabia já de tudo. O
primo tramava sempre. Nunca fora a Munique. Talvez nem lá estivesse. Tudo uma grande
farsa. A coisa ia bem. Não sentiu preocupações.
A terceira carta chegou. Era do tio Shelton, de Londres. Vinha amarrotada e suja.
Zago abriu-a. Tinha um mandado de prisão. Zago era procurado na Inglaterra. Era uma isca.
Mennerfield assinava. Falsidade ideológica. Falsificação de documentos. Extorsão de
dinheiro. Duas dúzias de crimes. Zago queimo-a.
A quarta era grande. Vinha de um amigo. Um velho colega de escola. Farsante,
beberrão, mentiroso. Tinha muitas páginas. Letra elegível. Escrevera bêbado. Cheiravam a
vinho. Zago largou-a de lado.
Zago escrevera a Rattini. Eram amigos íntimos. Brigaram, era verdade. Acabaram
reatando. Eram almas parecidas. Rattini respondera. Escrevia bem. Tinha boa letra. Tinha
lógica. Falava de início no filho. Estava bem. Ganhava dinheiro. Era mercador. Partira para a
China. Zago alegrou-se. Rapaz esperto. Um pirata feito. Rattini fora indagado. Zago fizera
perguntas. Rattini respondia todas. Zago indagara de Inácio. Queria saber do marujo. Rattini
não o conhecia. Foi até o porto. Perguntou, investigou, descobriu. Estava preso. Assassinato.
Matara um marujo. Gente boa. A família vingou-se. Fez-se um processo. Deu-se a
condenação. Fora degredado. Penava na lida. Trabalho forçado. Ilha presidiária. Sul da Índia.
Morte certa. Respondia também sobre Pedro. Pobre homem! Morrera horrivelmente.
Despencara dum mastro. Quebrara a coluna. Rachara um braço. Agonizou duas semanas.
Cortaram-lhe o membro. Gangrenou. Morreu de dor. Em alto mar. Jogaram na água o corpo.
Alguns marujos viram. Um cardume de tubarões. Devoraram-lhe o corpo. Uma tragédia.
Zago discordou.
Mais alguém respondeu. Zago suspirou. Era Olinda, sua amada. Estava bem. Estava
em Londres. Gostara do lugar. O tio morrera. Deixou-lhe heranças: algumas libras... o
casarão... a criadagem... um terreninho... algumas lembranças. Olinda repartira tudo. Holanda
tinha direitos. Ficou com a casa. Metade das libras. Algumas baixelas. Um diamante
pequeno. Holanda ia bem. Entretinha-se com roupas... tricotava... fazia xales. Dava
recepções. Ia à missa. Era devota. Amava os santos. Premeditara um convento. Olinda
protestou. Ela desistiu. Uma carola genuína. Pobre solteirona! Contudo, feliz. Um pouco
ranzinza, bastante delicada. Um primor. Quanto a Olinda, levava a vida. Alugara um quarto.
Casa decente. Gente de bem. Viajava ao campo. Ia à chácara. Cuidava de tudo. Em Londres,
lutava. Ensinava crianças. Aulas de dança. Aperfeiçoara-se no ramo. Fazia balé. Freqüentava
teatros. Tinha algum prestigio. Estava em sociedade. Conhecia gente grande. Um tal homem
da corte. Um senhor respeitável. Zago enervou-se. Ela revelou: estavam enamorados.
Amantes... ela e o lorde. Zago corou. Ela continuou. Ele era lindo. O lorde. Zago estacou-se.
Prosseguiu. Arrependeu-se. Era verdade. Casar-se-iam em breve. Zago mastigou o papel.
Mandou Olinda ao inferno. Mandou o lorde junto. Tratou de esquecer-se de vez.
Recebeu mais algumas respostas. Duas ou três delas. Zago as leu. Achou-as tolas.
Nada diziam. Tudo na mesma. A primeira, de uma dama. Chamava-se Lora. Meretriz vulgar.
Cabaré de Hamburgo. Pouco dizia. Pedia dinheiro. Mandava mil beijos. Sonhava revê-lo.
Continuava na lida. Recebia marujos. Gente indecente. Lugar indecente. Reforçava o pedido.
Queria dinheiro. Zago lamentou-se
A segunda, de um príncipe. Gente finíssima. Escrevia de Praga. Versado nas artes.
Conhecedor da história. Leitor de Homero. Carta rebuscada. Cheia de emblemas. Nada de
anormal. O príncipe ia bem. A coroa era certa. Recordava Zago dos fatos. Lembrava um baile
passado. Aniversários de sua irmã. Jovem moça, já casara. De resto, tudo correto. Pintava um
quadro. Arte puríssima. Zago suspirou. Bons e velhos tempos.
A terceira, de um desconhecido. Citava um amigo comum. Respondia por ele. Estava
ocupado. Era contador. Tinha problemas. Zago entediou-se. O amigo ditara. O desconhecido
escrevera. Quantos erros! Falava bem pouco. Reclamava de tudo: impostos, dividas, juros. A
coisa ia bem mal. Zago ignorou-as. Mandou os dois para o diabo.
Estava a par de tudo. Grande mundo pequeno. Nada se oculta, nada se esconde.
Resolveu cuidar da vida. Tinha mais o que fazer...

FINALMENTE, O FIM!

O vento começou a soprar por entre as montanhas. Agitou as folhas secas das árvores
e fez levantar as cortinas das casas, abafadas pelo calor da noite.
Uma janela começou a bater irritantemente contra uma parede e Vado Di Frambestein
remexeu-se no leito, fungou no travesseiro e acabou acordando, banhado em suor. O queixo
luzia em saliva, como era de costume. Vado babava todas as noites, sem exceções.
Sentou-se na cama. Tinha os olhos congestionados pelo sono. Tentou descobrir o
motivo porque acordara e olhou inutilmente à volta, em busca de resposta. Percebeu o
farfalhar das cortinas e resolveu fechar a janela por causa do vento que começava a esfriar.
Olhou os ponteiros de um grande relógio e não constatou nada. Estava sonolento por demais
para brincar com os ponteiros agora confusos e chatos.
Olhou esperançosamente para a cama ainda quente e aninhou-se por entre as cobertas.
Adorava-as. Dormia com elas no mais tórrido calor dos verões.
Ligor, o empregado da casa, fazia todos os dias uma careta de asco quando entrava
pela manhã no quarto de Vado com uma bandeja para servir-lhe o desjejum. Contudo,
mantinha-se discreto, fingia não se importar e nunca fazia comentários com os donos da casa
a respeito do forte cheiro de suor e urina que impregnava o ar do recinto todas as manhãs.
Sob certos aspectos preferia não tomar nenhuma atitude com relação ao assunto para não
provocar constrangimentos, mas, no fundo, sentia um certo prazer no problema. Era bom ver
um filho do barão Di Frambestein como um pequeno porco, um suíno asqueroso, e não se
importava em nada que vivesse na imundície de seu próprio corpo.
Ligor invejava a riqueza farta dos Di Frambestein. Tinha como um desperdício que
toda a fortuna, um dia, fosse deixada para o pequeno Vado. Era uma pena que a senhora Di
Frambestein não mais concebesse. Tivera dois, mas agora uma chaga interna não mais lhe
permitia filhos. Como o primeiro desaparecera fugindo com uma criada, o único que lhe
restava fora aquilo, aquela coisa amorfa de nome Vado que quase a matara durante o parto.
De resto, o senhor barão Di Frambestein tinha o seus quarenta anos na época em que a
desposara e agora ia já em idade avançada demais para arriscar qualquer espécie de contato
amoroso.
Talvez, pensava Ligor, fosse a desgraça que tornava o senhor e a senhora Di
Frambestein pessoas tão desgostosas de viver. Como haveriam de ter gosto na vida depois de
tantas amarguras? Incapazes de conceber, perderam um filho são e ganharam em troca um
filho monstro. Ligor sentia-se sofrer diante da possibilidade de ver tamanha fortuna deixada
para Vado, mas, a seu ver, o senhor Di Frambestein certamente sofreria mais que todo
mundo. Era triste que os frutos do suor e da inteligência de um pobre homem que lutara tanto
na vida viessem a parar em tão más mãos.
O vento frio continuou a soprar. Neste momento, Ligor dormia em profundo silêncio.
Vado, ainda desperto de seu sono, sentiu alguma sede.
Desejou a presença de Ligor junto a si naquele quarto.
Talvez estivesse acordado. Quem sabe estivesse no corredor.
Poderia estar acordado por um motivo qualquer. Quem sabe não entrasse no quarto
com um jarro d'água nas mãos? Como seria bom ver Ligor.
Em verdade, não se sentia seguro de si sem a presença de alguém por perto. Desejou
ardentemente que aparecesse alguma pessoa, quem sabe mesmo o gato de Niva. Bastaria que
entrasse e o olhasse em silêncio e já se sentiria melhor. Não queria dar ordens. Apenas
segurança, para sentir que não estava sozinho, para que pudesse dormir em paz.
Não que Vado gostasse de Ligor. Não gostava nem desgostava. Não sentia nada pelo
mordomo. Raramente pensava nele, a não ser que fosse para ir ou voltar com alguma coisa
nas mãos para satisfazer os seus pequenos e simples desejos naturais. Não que agisse assim
por maldade. Vado era um pobre inocente. Simplesmente, não conseguia ver Ligor como um
ser humano. A bem da verdade, nem sequer como ser vivente. Na sua pequena consciência
atrapalhada, Ligor não passava de uma extensão de suas pernas, braços e mãos. Mesmo o
misterioso gato de Niva despertava-lhe maior compaixão.
Contudo, era noite alta. Como estivessem todos a dormir, nem Ligor nem ninguém
deu-se ao trabalho de saber dos desejos noturnos do pobre Vado. Este, indiferente à sua
própria vontade, deixou-se vencer pelo sono. Enfiando o rosto no travesseiro úmido de saliva
fria, acabou por dormir novamente.
O vento continuou a soprar cada vez mais frio madrugada adentro. Para os mais
atentos, um bom sinal de mais um inverno que se aproximava. Mais um rigoroso inverno para
enregelar lares e almas da pequeno e pacato vilarejo de nome Frambest.
Vado amanheceu constipado. O vento e a mudança brusca de temperatura resfriou-lhe
os pulmões e agora mal podia respirar, tamanha a quantidade de muco na suas
congestionadas narinas. Babara mais intensamente que o normal. Pela manhã, ficou até mais
tarde na cama, embrulhado por debaixo dos lençóis quentes.
Normalmente Vado não variava sua rotina diária pelas manhãs, de forma que a
bondosa Niva apressou-se em saber o motivo de sua ausência. Era estranho que não tivesse
aparecido até aquela hora para importunar o sossego da senhora Di Frambestein, como fazia
todos os dias na hora do desjejum.
Niva fazia uma receita de pão. Esparramava farinha de trigo por sobre uma mesa
imensa e centenária, enquanto que pensava no pobre rapaz. Como se apegara a ele!
Niva, em verdade, tinha um coração imenso. Havia nele espaço tanto para amigos
quanto para inimigos, embora que desses últimos ela não tivesse noticias. De fato, nunca
tivera nenhuma espécie de inimizade durante toda a sua vida. Nascera e crescera no seio da
pequena Frambest. Empregara-se na casa dos Di Frambestein desde menina. Fora sempre
muito querida por todos e vivia sendo elogiada pelos seus talentos como cozinheira. Tivera já
seus pratos provados e elogiados por centenas de pessoas daquela região da Europa. Muitos
de seus admiradores eram gente influentíssima da alta sociedade, amigos dos Di Frambestein.
Mesmo o antipático Ligor, sob alguns aspectos, queria-lhe bem. É verdade que, vez
por outra, importunava-a, criticando-lhe a falta de amor próprio. Ligor não podia conceber
que Niva pudesse aceitar Vado e suas crises nervosas. Para Ligor, era inaceitável que Niva se
submetesse a situações tão constrangedoras. Como Niva nunca se queixasse, Ligor tomava
essa mudez como falta de amor próprio. A seu ver, Vado fazia-se neurótico apenas para
usufruir da bondade alheia, quando não por simples gosto de importunar, o que Ligor tomava
por um abuso. Ligor definitivamente não gostava de Vado. Não o suportava, e se alguém se
fazia amistoso para com este, era logo tomado por complacente e frouxo.
Niva, contudo, não tomava conhecimento desta pequena inimizade secreta.
Continuava a fazer sua massa de pão, embora que incomodada com a falta de Vado a lhe
quebrar o sossego da rotina diária.
Sim, onde estaria Vado, se não se fazia presente a puxá-la pelos braços? Deveria estar
ali, a seu lado, a enfiar na boca babenta pedaços de massa crua, ruminante. Sempre se fazia
presente, sempre a auxiliava quando tinha de enrolar os pãezinhos e colocá-los no forno.
A ausência do rapaz incomodou-a tanto que viu-se na obrigação de averiguar o que
lhe sucedia. Parou então sua tarefa e foi ter-se com a senhora Di Frambestein a respeito do
assunto.
A senhora Di Frambestein, arfante e obesa devido a problemas hormonais
inexplicáveis, estava, àquela hora, a colher raminhos de ervas daninhas dos gramados e dos
canteiros de tulipas do jardim, quando Niva, preocupada, abordou-a a respeito do paradeiro
de Vado:
- Pouco me importo com ele, Niva. Tu bem sabes. Porque perguntas? Aprontou ele
alguma barbaridade já cedo?
Niva, de coração a doer, respondeu-lhe um algo qualquer sem sentido e partiu.
Foi ter-se com Ligor, que àquela hora já deveria ter servido o desjejum ao pequeno.
Este, entretido em dar comida aos peixinhos da senhora Di Frambestein, sequer deu-se ao
trabalho de lhe virar o rosto. Limitou-se a encolher os ombros:
- Pouco me importo com ele. Tu bem sabes. Vi-o amuado pelas sete horas, quando lhe
servi o café. É só. Vá ter com a senhora Di Frambestein.
Niva preocupou-se ainda mais. Vado jamais era visto amuado, principalmente nos
últimos meses, depois que passara a ter aulas de artes plásticas com argamassas com uma
filha do doutor Tito todas as terças pela manhã. Ansiosa, apressou-se em subir até o quarto do
rapaz, buscando averiguar por si mesma o que lhe devia estar acontecendo.
Chegando à sua porta, bateu com o nó dos dedos e aguardou resposta. Como nada
ouviu, arriscou abrir uma fresta e espiar.
Apesar do sol radiante de fora, o quarto estava escuro. Pouco se via no seu interior.
Decidiu adentrar-se e, indiferente ao cheiro de suor e urina, foi ter-se com Vado, que
de rosto coberto dormia um sono pesado.
Tocando-lhe a fronte por debaixo da coberta, notou que tinha febre alta. Descobriu-
lhe o corpo e sacudiu-o de leve. Perguntou se sentia-se bem, se doía-lhe algum órgão interno,
se lhe faltava ar, mas Vado simplesmente abriu os olhos congestionados e limitou-se a
balbuciar algo sem sentido. Tinha a boca suja de pão úmido e cheirava a leite azedo.
Niva, tomada de enorme pena do pobre rapaz, tratou logo de abrir as janelas do
quarto, para renovar o ar viciado e iluminar os recantos sombrios. Pôs-se em seguida a correr
escada abaixo, a gritar pela ajuda de um médico capaz.
Os dias seguintes foram de muito trabalho e muita dor para todos da casa. Vado
custava a sarar e embrenhava-se em febres, alucinações e surtos de ataques nervosos. Vado
não se via com forças para curar-se da doença, de forma que esta foi evoluindo com tamanha
força que acabou por espalhar-se para outros membros da casa. Não bastasse os sofrimentos
do pobre Vado, agora era Niva que estrebuchava de febre em seu leito, a babar muito e uivar
com alucinações. Alguns dias mais e era Ligor que se enrolava por debaixo das cobertas
quentes a suar dias e noites seguidos. Mesmo o gato de Niva foi contaminado pela doença. O
ativo animal aquietou-se por dias seguidos, adoentado, mas como ninguém tivesse tempo
para averiguar as causas de seus problemas, piorou de situação e acabou morrendo. Sua
carcaça foi encontrada dentro da despensa, por entre sacos de trigo. Foi a senhora Di
Frambestein que o descobriu, em suas andanças pela casa, devido ao mal cheiro.
A senhora Di Frambestein, até então sadia, acabou também por adoecer, apesar de
seus enormes esforços para isolar-se de todos os possíveis focos de contágio. Talvez tivesse
mesmo evitado, não fosse um acaso do destino. Vado, nas suas alucinações, embrenhou-se no
guarda-roupas da mãe, fugindo de seus demônios interiores. Inevitavelmente que as roupas
da infeliz senhora ficaram impregnadas com algum mal microscópico. Poucas horas depois
de servir-se de uma delas, já sentia alguns calafrios inexplicáveis.
Se as coisas nos dias seguintes tivessem corrido como corriam nos dias anteriores,
talvez o quadro clínico da senhora Di Frambestein não seria tão a1armante, mas não. Seus
lindos e pequeninos peixinhos dourados, todos, acabaram por morrer subitamente.
Para a senhora Di Frambestein, seus peixinhos eram tudo que amava na vida, com
exceção do seu idolatrado jardim. Amava-os tanto, que preferia deixar em segundo plano o
próprio senhor seu marido, o barão Di Frambestein, companheiro de longos anos. Quanto a
Niva, esta era querida, mas muito vagamente, rondando um terceiro plano. Já Ligor e Vado
vinham num plano remoto e longínquo de seu coração, abaixo de suas amigas, de seus
móveis, de suas jóias, de seu guarda-roupa e de suas baixelas de prata pura. Quando soube da
morte dos peixes, não teve dúvidas: morreram contaminados pelos inimigos microscópicos
espalhados pela casa toda. Talvez fosse a comida ou a água contaminada, mas nada no
mundo fazia mudar sua opinião de que a culpa do tamanho assassinato devia recair sobre as
costas de Vado. Fora ele, com seu bafejo doentio, quem espalhara pela casa a desgraça. Bem
que lhe avisava, bem que o ameaçava quando vinha rondar em torno do aquário. Quantas
vezes ameaçou-o com severas punições, mas de nada adiantara falar, de nada adiantara
reprimir. Monstro dentuço e asqueroso! Matara seus peixes, matara o gato de Niva, e acabaria
matando todo o resto da casa se não se tomasse alguma providência. Mas que fazer?
Acamada, fraca e doente, nada mais podia fazer, a não ser rezar e torcer para que o
desgraçado sucumbisse logo às forças da peste. Mas de nada adiantou. A morte de seus
peixinhos abalou-lhe a saúde de vez, enquanto que Vado continuou vivo.
Derribada pela extrema carga emocional, veio a senhora Di Frambestein a morrer de
febre no vigésimo quinto dia da sua doença, para tristeza de todos, e do senhor barão Di
Frambestein em particular.
No vigésimo nono dia, foi a vez de Niva. Morreu delirando, a uivar no ardor da febre
fatal.
Vado lutou o quanto pôde, mas a febre, terrível, acabou vencendo-o. Morreu,também
em delírio, e foi enterrado no cemitério no fundo da casa, onde já repousava o corpo da
senhora sua mãe, recém-enterrada, e mais ainda os corpos de trinta outros ancestrais da
família, velhos senhores, velhas senhoras, fundadores da pequena cidade, orgulhosos Di
Frambestein.
Ligor sarou misteriosamente. Recobrou pouco a pouco as forças e logo se viu capaz
de voltar ao serviço.
O barão Di Frambestein, embora não tivesse contraído a moléstia por um golpe de
sorte, não se sentia muito melhor que um doente. Em verdade, morria dia após dia. A dor da
perda de seus entes queridos foi minando-lhe as forças e já vislumbrava a morte entre uma
hora e outra.
Fazia já um mês que o pobre Vado se fora, quando o senhor barão Di Frambestein
resolveu por aquietar-se definitivamente da vida. Acomodou-se em um sofá num dos cantos
da casa e aguardou pela chegada da morte. Era Ligor quem lhe cuidava de tudo. Prestativo,
sarado, vislumbrava já a esperança de uma recompensa.
Um dia bateram-lhe na porta. Ligor recebeu a visita e o senhor Di Frambestein não
fez questão de saber quem era, mas o visitante tanto insistiu, que o barão acabou por recebê-
lo.
O visitante apresentou-se frente ao velho, e este o convidou a assentar-se. Embora não
conhecesse o sujeito, não viu porque não recebê-lo bem. Mandou servir um café, e aninhou-
se o melhor que pôde por debaixo de um cobertor. O frio da velhice percorria-lhe as veias e
não havia calor que lhe aquecesse o interior. Indagou então ao visitante do motivo da visita.
O visitante pigarreou:
- Creio que não se recorda, mas temos algo em comum. Tenho cá um papel, que não
me deixa mentir...
O velho tomou do papel e o leu. Perguntou então à visita:
- És tu mesmo?
- Sou o próprio: Di Frambestein. Zago Di Frambestein... seu filho...
*