É difícil admitir, mas ainda somos um país racista.

Quase ninguém
gosta, ou está acostumado a falar sobre desigualdade e discriminação
racial – acha que isso não acontece ou prefere acreditar que não existe
preconceito racial. Só que os números não mentem: o racismo existe
no Brasil, e ele afeta a vida de milhões de crianças negras e milhares
de crianças indígenas desde os primeiros anos de vida. É por isso que
vamos falar sobre o assunto. É preciso discutir o tema e contribuir para
uma infância e adolescência sem racismo.
Todos são iguais perante a lei e possuem os mesmos direitos e deveres,
mas, infelizmente, as estatísticas comprovam que nem todos têm acesso
ao que lhes é assegurado por direito. Ao longo de décadas, alguns
grupos permaneceram abaixo de indicadores sociais e econômicos
aceitáveis, apesar do crescimento econômico e social registrado no
país. Populações indígenas e negras fazem parte desse contingente de
pessoas excluídas. Vejamos os números:
Segundo dados do IBGE, no Brasil, 65 de cada 100 crianças pobres
são negras. As crianças indígenas são minoria - cerca de 100 mil - mas
é entre elas que ocorre o maior número de mortes antes de um ano de
vida. De acordo com a Funasa, em 2009 foram registradas 42 mortes de
crianças indígenas para cada mil nascidas vivas. Um número muito maior
do que a taxa média nacional – 19 mortes para cada mil crianças.
Quando a gente compara os dados da educação, a desigualdade
persiste. Segundo o IBGE, das 530 mil crianças de 7 a 14 anos fora da
escola, 330 mil são negras e 190 mil são brancas. A discriminação racial
também é registrada nos números da violência. Os adolescentes negros
têm quatro vezes mais chances de serem assassinados em comparação
aos adolescentes brancos, nas cidades com população acima de 100 mil
habitantes.
O impacto do racismo na infância
Especial | Rádio Pela Infância
Foi pensando nos efeitos da desigualdade racial que, há um ano, o
UNICEF e seus parceiros lançaram a campanha Por uma infância sem
racismo. A cada dia, a campanha envolve mais e mais pessoas. Ela
serve como um alerta sobre os impactos do racismo na infância e na
adolescência e a necessidade de uma mobilização social que corra atrás
do respeito e da igualdade étnico-racial desde os primeiros dias de vida.
Desde novembro de 2010, a campanha tem agregado pessoas,
organizações e governo para garantir os direitos de cada criança e
adolescente do país, incluindo as crianças negras e indígenas. No Brasil
muitas ações importantes são criadas para beneficiar a criança, mesmo
assim as políticas públicas encontram dificuldades para alcançar essas
crianças. A única forma de encarar o problema é reconhecer a existência
do racismo, valorizar a diversidade e lutar pela igualdade. As diferenças
devem ser motivo de orgulho e não de discriminação.
Todo mundo pode participar da campanha. É só entrar no site www.
infanciasemracismo.org.br e ver as sugestões do que cada um pode
fazer. Dê suas ideias, opiniões, conte sua história, apoie projetos sociais
que promovam a igualdade étnico-racial.
É importante chamar a atenção de todos sobre os impactos
do racismo no desenvolvimento de uma criança. Algumas ações
discriminatórias começam cedo, muitas vezes disfarçadas de supostas
brincadeiras, que podem parecer inocentes, mas por meio delas as
diferenças são desrespeitadas. Algumas frases racistas como “tição” e
“cabelo ruim” são ouvidas durante a convivência com outras crianças.
Textos, histórias, olhares, piadas e expressões podem marcar para
sempre a vida de meninos e meninas. Chame a atenção do seu filho, da
sua filha, e esteja sempre alerta se isso acontecer.
Por incrível que pareça, muitas vezes o racismo vem de dentro de
casa. Você pode achar que não, mas a criança aprende a discriminar
apenas por ver os adultos discriminando. Respeite as diferenças e
eduque as crianças para respeitá-las também. É preciso ensinar os
jovens a reconquistar valores e atitudes que contribuem para reconhecer
a riqueza e a beleza que existe na diversidade brasileira. Essa
diversidade ajuda a gerar uma sociedade mais justa. As crianças também
têm o direito de ser reconhecidas em suas próprias identidades. Elas
precisam ter segurança e se orgulhar de suas origens.
Atenção, papai e mamãe: se seu filho ou filha foi discriminado ou
discriminada, dê o seu apoio. Mostre que a diferença entre as pessoas é
legal e que cada um pode usar de seus direitos igualmente. E denuncie!
Em todos os casos de discriminação, você deve buscar defesa no
Conselho Tutelar do seu município, nas ouvidorias dos serviços públicos
e nas delegacias de proteção à infância e adolescência.
Sabia que racismo é crime? A Constituição de 1988 tornou a prática
do racismo crime sujeito à pena de prisão, imprescritível e inafiançável.
Ou seja, o acusado não poderá obter a liberdade provisória mediante o
pagamento de fiança. Não esqueça: a discriminação é uma violação de
direitos. Mas, antes de fazer qualquer denúncia, é importante que tenha
em mãos todos os detalhes do momento em que sofreu o preconceito,
como data, local, situação e, se possível, o contato de testemunhas,
pessoas que estavam presentes quando a ação de discriminação foi
realizada.
Uma dica para você, mamãe e papai, eduquem as crianças para o
respeito à diferença... Na hora de comprar bonecas, por exemplo, vocês
podem levar uma branca, outra negra, ou uma de origem oriental. Assim,
a criança aprende brincando que existem diferenças na sociedade
onde ela mora. É legal incentivar os filhos a serem amigos de todos,
independente da cor da pele, do tipo de cabelo ou do modo de falar,
ou de se vestir. As diferenças enriquecem nosso conhecimento. Ah,
outra coisa muito importante é proporcionar e estimular a convivência
de crianças de diferentes raças e etnias nas brincadeiras, em casa, na
escola, ou em qualquer outro lugar.
De acordo com a Constituição brasileira, todos os seres humanos
têm direitos, independente de raça, cor ou religião. Infelizmente, esses
direitos da cidadania muitas vezes não são respeitados em função de
um racismo ainda existente no Brasil. Cada um de nós tem um papel na
sociedade e pode ajudar a garantir uma infância livre da discriminação
e plena de oportunidades. As raças não são nem superiores, nem
inferiores, elas são diferentes. Toda criança tem o direito de crescer sem
ser discriminada. Além da família, as escolas, os serviços de saúde, os
policiais, todas as autoridades e profissionais que se relacionam com as
crianças e adolescentes devem ter um compromisso com a igualdade e a
superação do racismo.

Sugestão de Pauta
Todos nós esperamos uma realidade sem discriminação racial para as nossas crianças e adolescentes.
Crescer com saúde, educação, amor e igualdade é um direito de cada uma delas, e, por isso mesmo,
temos que fcar atentos para que esses direitos sejam cumpridos e para amenizar os efeitos do racismo
na infância e na juventude. A campanha do UNICEF e seus parceiros Por uma infância sem racismo está
comemorando um ano. Como anda a situação do racismo no seu município?
Radialista, você é uma peça fundamental nessa campanha. Levante o tema e mostre para a
população a importância de uma rotina livre de preconceitos. Quer saber como?
As escolas são grandes espaços de aprendizagem. É o melhor lugar para a criança conviver com
diferentes raças e saber que, apesar das diferenças físicas, somos todos iguais. Você pode programar
uma entrevista com o diretor de uma escola do município para saber como a instituição trabalha as
diferenças raciais com os alunos. Existem projetos? Palestras? Atividades?
Se no seu município existir alguma liderança de movimentos negros ou indígenas, entreviste um
responsável. Ele pode falar dos principais preconceitos existentes hoje e como as famílias, escolas e
o estado podem agir para diminuir essa ação. Ele pode compartilhar histórias de racismo e indicar a
melhor forma de o ouvinte agir nesses casos.
Sabia que órgãos públicos de saúde e de assistência social estão trabalhando com rotinas de
atendimento sem discriminação para famílias indígenas e negras? Você pode cobrar essa postura dos
serviços de saúde e sociais do seu município. Convide alguém da Secretaria Municipal de Saúde ou
da Prefeitura para esclarecer esses atendimentos. As equipes são preparadas para atender todas as
pessoas, com igualdade?
E que tal levar alguém da Secretaria Municipal de Educação para falar como o município age para
atrair as crianças e os adolescentes para dentro da sala de aula? Pergunte sobre o número de crianças
negras e indígenas matriculadas. Quantas são? Vem crescendo? Como está sendo implantada a história
e a cultura dos povos indígenas e da população negra no conteúdo?
Outra forma de fcar por dentro do assunto é acessando o blog da campanha www.
infanciasemracismo.org.br. Entre também no site da Escola Brasil www.escolabrasil.org.br e participe
da nossa comunidade de radialistas. Lá você encontra entrevistas, spots e outras informações para
complementar a sua programação.
Distribuição eletrônica. Periodicidade: quinzenal. Coordenação: Eder Ribeiro. Edição: Heloisa d’Arcanchy.
Redação: Bruna Sabarense e Nayara Young. Diagramação: Rafael Ribeiro. Escola Brasil. SRTVN 702, Ed. Bra-
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