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ANTIUTOPIAS
literatura, cinema e crítica social 1895-1990
Vittorio Pastelli
Palavras-chaves: antiutopia, distopia, sociologia da ciência, cinema, George Orwell, H. G. Wells, Kurt Vonnegut,
Yevgeny Zamyatin, onat!an "wi#t, $ldous Hu%ley, ames Gunn, &aniel &rode, 'ay (rad)ury, #ic*+o cient,#ica.
ÍNDICE
INTRODUÇÃO
1. O HORIZONTE
a. o #uturo som)rio
). caracteri-ando o o).eto de estudo
c. delimita*/es
2. HISTÓRI DO !UTURO
a. descontinuidade n+o0radical
). descontinuidade radical 11 o !olocausto
c. descontinuidade radical 21 a antiutopia
d. mais uma perspectiva
". S NTIUTOPIS
a. re3uisitos #ormais do gênero
). condi*/es !ist4ricas 3uando de seu surgimento
#. NTIUTOPIS REPRESENTTI$S
2
a. a constru*+o da antiutopia1 5'evolu*+o no #uturo6
). as antiutopias com classes
)1. 57ma !ist4ria dos tempos #uturos6
)2. 5$dmir8vel mundo novo6
)9. 51:;<6
c. as antiutopias sem classes
c1. 5=4s6
c2. 5>a!ren!eit <?16
d. as antiutopias n+o0sociais
d1. 5Os vendedores da #elicidade6
d2. 5$ super#,cie do planeta6
%. I&'E& DO !UTURO
a. o papel social da ciência e da tecnologia
). a sociedade e o indiv,duo
(. )I)*IO'R!I
a. o)ras de re#erência consultadas
). o)ras liter8rias citadas
+. P,NDICE @o #uturo no cinema0 ;? #ilmesA
INTRODUÇÃO
O assunto de 3ue trata este livro B )astante con!ecido1 literatura #utur,stica. "eu
principal o).etivo B mostrar 3ue essa literatura pode ser vista como 5sociologia em #orma
de #ic*+o6. $lguns de seus te%tos mais )em articulados nada #icam a dever, em termos de
capacidade de antecipa*+o, rigor e perspic8cia 3uanto ao desenvolvimento prov8vel de
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tendências atuantes no mundo, a o)ras 3ue estamos acostumados a #iliar C @)oaA sociologia
da ciência. =+o 3ue se deva tirar da, a conclus+o de 3ue temos diante de n4s algum #il+o
n+o0e%plorado de teses sociol4gicas originais. $ originalidade vem principalmente na
#orma como tais ideias nos s+o apresentadas. Dm lugar de longas digress/es c!eias de
notas de rodapB, esmagadas so) t,tulos como 5o impacto da ciência so)re a sociedade6, 5a
responsa)ilidade social do cientista6, 5Btica da pes3uisa cient,#ica6, 5ciência e Dstado6 etc.
etc. etc., temos a leve-a de 5Hist4ria dos tempos #uturos6 ou 5$ super#,cie do planeta6.
&o ponto de vista de uma re#le%+o so)re o #uturo, gan!a0se em e%press+o e acessi)ilidade
e o 3ue se perderia em termos do suposto rigor da3ueles t,tulos mais pesados B pouco, se B
3ue algo realmente.
Eartindo dessa premissa, isto B, vale a pena estudar Fpelo menos algunsF te%tos
liter8rios como pe*as de sociologia, passamos ao e%ame de #ato desse gênero de #ic*+o.
=esse momento, deparamo0nos com um !ori-onte som)rio1 a literatura do sBculo 2G vê o
#uturo com e%tremo pessimismo. Eor 3uêH
=osso tra)al!o B duplo, agora. Iostrar 3ue essa 5sociologia liter8ria6 e%i)e
3ualidades 3ue v+o alBm do pra-er da leitura proporcionado pela #ic*+o e tentar e%plicar
de onde, em uma Bpoca de tanta con#ian*a na ciência e em suas supostas solu*/es para
pro)lemas contemporJneos, essa mesma literatura destila sua amarga resigna*+o a
respeito do #uturo pr4%imo.
D essa resigna*+o B evidente no cinema, !o.e uma #orma mais popular de
entretenimento do 3ue o era a literatura nos tempos em 3ue Wells pu)licou suas primeiras
o)ras de #ic*+o cient,#ica. O apêndice tra- um lista ra-oavelmente completa de #ilmes
#utur,sticos, podendo0se constatar 3ue predominam o caos e a desola*+o.
1
<
O HORIZONTE
a. - ./0/r- s-12r3-
Kente se lem)rar de 3ual3uer livro, conto ou #ilme 3ue retrate o #uturo. Dsse
#uturo B mel!or ou pior 3ue o presenteH $ resposta depende um pouco do meio escol!ido.
"e o meio #or o cinema, a resposta B 5pior6 em praticamente 1GGL dos casos. &esde
5Ietr4polis6, de 1:2M, o #uturo da Kerra B sempre retratado como algo a 3ue o presente,
mesmo com todos seus pro)lemas, B pre#er,vel. "uperpopula*+o, polui*+o, violência,
guerra nuclear ou )acteriol4gica, Dstados supere3uipados para vigiar per#eitamente cada
pessoa. $ lista n+o tem #im e o 3uadro B um s41 B mel!or 3ue as coisas #i3uem como est+o
!o.e. Ias, B claro, isso n+o B poss,vel, a#irmam, tacitamente ou n+o, esses mesmos #ilmes,
o 3ue s4 #a- ampliar o !orror 3ue despertam.
"e o meio escol!ido B a literatura, ent+o o m8%imo 3ue se pode di-er B 3ue a3ui e
ali aparecem vo-es discordantes, vo-es 3ue encaram o #uturo com otimismo. O tom 3ue
prevalece B, de novo, negativo.
$o mesmo tempo, este B o sBculo da ciência. 7ma pes3uisa de opini+o 3ual3uer
mostrar8 3ue ela tem alto prest,gio @por e%emplo, Gallup, 1:;NA ou um estudo psico0
sociol4gico mostrar8 3ue as pessoas s+o capa-es de tudo, mesmo de cometer crimes
graves, em seu nome @Iilgram, 1:NMA. Dsse prest,gio c!ega ao ponto de autores como
Ziman a#irmarem 3ue a ciência ocupa !o.e o lugar 3ue a religi+o tin!a <GG anos atr8s @e
n+o s4 ZimanO essa a#irma*+o .8 se tornou lugar comumA. P a ciência 3ue a)re as portas do
#uturo, B ela 3ue pode tra-er para todos os !omens )em0estar, saQde etc. Iais 3ue a
ciência o).etiva, a ret4rica cient,#ica tomou conta de tudo1 detergentes, mBtodos para corte
de ca)elo, de grama, ou mesmo mBtodos de previs+o astrol4gica gan!am status 3uando a
eles se adiciona o ad.etivo 5cient,#ico6. $o mesmo tempo, 3uando se dei%a de lado a
re#le%+o mais o).etiva acerca da ciência e se vai ver como ela aparece na #ic*+o, a imagem
B outra. =a #ic*+o #utur,stica em especial, a ciência B uma #or*a descon!ecida 3ue tra-
?
#rutos predominantemente maus. Dsse contraste parece pedir uma e%plica*+o. Eor 3ue a
mesma sociedade 3ue tem ciência em alta conta aprecia imagens negativas da ciência
3uando se trata de #ic*+oH
$ e%plica*+o corrente @Rlopis, 1:N<, Gerald e &illon, 1:NMA di- 3ue a imagem da
ciência na #ic*+o cient,#ica @>SA Fgênero 3ue a)arca, entre outros, o su)gênero da
literatura #utur,sticaF decaiu depois da "egunda Guerra Iundial, especialmente depois
da e%plos+o de duas )om)as atTmicas so)re o ap+o. Ias, )em antes disso, Wells,
Zamyatin, Hu%ley ou >orster .8 descreviam #uturos terr,veis nos 3uais o desenvolvimento
da ciência e da tecnologia tin!a papel preponderante. Kam)Bm antes da "egunda Guerra, o
cinema .8 retratava #uturos terr,veis, como em 5Ietr4polis6 ou 5Soisas por vir6 @5K!ings
to come6A. D mais. =+o B 3ue ten!a !avido um dese3uil,)rio com a "egunda Guerra, ou
se.a, antes dela e%istiam mais !ist4rias de #uturos )ons e, depois dela, mais de #uturos
ruins. O #uturo B ruim desde #ins do sBculo passado, desde Wells. P verdade 3ue algumas
!ist4rias #utur,sticas se 5)ene#iciaram6 da )om)a atTmica. "egundo os nQmeros de (rians
@(rians, 1:;NA, de 1;:? a 1:<<, 9; !ist4rias de >S retrataram as conse3Uências do uso
descuidado da energia nuclear. Ias, nos cinco anos seguintes a Hiro%ima e =agas83ui, de
1:<? a 1:<:, #oram 1G2. Vuanto Cs antiutopias @ou distopiasA, o nQmero n+o se altera. &as
estudadas a3ui, 3uase a metade #oi escrita antes da "egunda Guerra. D mais, o advento
desta @e das )om)asA n+o alterou o conteQdo desse su)gênero da >S. D%istem novidades,
mas elas n+o parecem ter rela*+o direta com eventos ligados C "egunda Guerra.
8 W. >. SlarXe @1:;MA vê a Erimeira Guerra como divisor de 8guas para a literatura
#utur,stica. $ntes dela, valia o otimismo 3uanto aos ilimitados )ene#,cios 3ue a ciência
traria para a !umanidade .8 3ue, segundo o pensamento da Bpoca, nada poderia deter o
progresso cient,#ico e, com ele, o da !umanidade, o 3ue SlarXe denomina 5triunfalismo
evolutivo6. $ guerra aumentou a demanda por avan*os tBcnicos, a 3ual #oi prontamente
atendida, com, por e%emplo, o g8s mostarda e a avia*+o de com)ate. Dssas inova*/es
ampliaram a carni#icina em uma escala sem precedentes.
M
Ias, para sustentar essa argumenta*+o, SlarXe dei%a de lado o)ras como 5$
m83uina do tempo6, 57ma !ist4ria dos tempos #uturos6, 5Vuando o adormecido
despertar6, estas, todas de Wells e ainda 5$ m83uina p8ra6, de D. I. >orster e 5$ morte
da Kerra6, de 'osny $YnB. Kodas pro.etam um #uturo som)rio para a !umanidade e todas
s+o anteriores C Erimeira Guerra. >ica tam)Bm de #ora o #ato @signi#icativo, acreditoA 3ue
o imensamente perseverante ules Verne escreveu, )em antes de 1:1< @provavelmente,
cerca de 1:GGA, sua Qnica o)ra a mostrar a*/es no #uturo, 5O $d+o eterno6, cu.o tema B o
desastre 3ue aguarda a !umanidade e o car8ter c,clico desses desastres. Ou se.a, para
sustentar a !ip4tese da Erimeira Guerra B preciso ser muito seletivo na escol!a de autores
e de o)ras.
@Dm todo caso, #rise0se 3ue tanto 'osny $YnB 3uanto Verne atri)uem o desastre a
eventos #ora do controle !umano F'osny C progressiva #alta dZ8gua e Verne a uma
grande movimenta*+o da crosta terrestreF e n+o ao concurso de algum instrumento
!umano 3ue ten!a sa,do de controleO assim, s+o mais conservadores 3ue Wells e >orster,
mais na lin!a das grandes pragas, como Iary "!elley.A
&essa #orma, mesmo 3ue #osse poss,vel um levantamento e%austivo da literatura
#utur,stica, e mesmo 3ue esse levantamento nos provasse 3ue a maioria das o)ras tin!a um
tom otimista 3ue se deteriorou depois da Erimeira Guerra @para SlarXeA ou da "egunda
@para outros autoresA, permanece o #ato de 3ue as o)ras das 3uais ainda !o.e se #ala tin!am
car8ter predominantemente negativo. D isso desde #ins do sBculo passado.
7ma coisa deve ser mantida em mente 3uando se #ala em 5a maioria das o)ras6
ou em 5o)ras representativas61 n+o e%istem dados con#i8veis acerca de nQmero de o)ras
num dado gênero num dado intervalo de tempo, especialmente se elas pertencem a um
gênero popular, divulgado em pu)lica*/es de )ai%o n,vel editorial, as 3uais aca)am n+o
sendo coletadas por )i)liotecas ou por colecionadores eruditos. &essa #orma, o campo #ica
a)erto para 3uem 3uiser a#irmar 3ue 5a maioria das o)ras em dada Bpoca retrata o #uturo
com otimismo6 ou para 3uem 3uiser a#irmar e%atamente o oposto. Somo se sa)e 3ue B a
N
maioriaH =a verdade, tudo o 3ue se sa)e B 3ue algumas o)ras #icaram Fcomo as de ules
Verne ou as de H. G. WellsF e outras desapareceram por completo. $ssim, no 3ue segue,
3uando #alarmos 3ue um determinado 3uadro, o #uturo som)rio, digamos, predomina em
dada Bpoca, estaremos apenas 3uerendo di-er 3ue as principais o)ras nos #ornecem essa
perspectiva. Koda conversa so)re 5maioria6 e 5minoria6 enco)re esse #ato #undamental1
e%iste um #ator 3ue n+o tem como ser su)stitu,do por 3ual3uer an8lise simplesmente
numBrica Fa #amiliaridade com os o).etos estudados. =+o tem como, nem por 3uê.
&escartadas as e%plica*/es #8ceis das guerras mundiais, B preciso colocar algo em
seu lugar. Dssa B uma das motiva*/es do te%to 3ue segue. Dncontrar ra-/es 3ue deem
conta dessa vis+o predominantemente negra do #uturo 3ue se encontra na literatura do
sBculo 2G e avaliar se esses #uturos, principalmente os retratados na literatura dist4pica,
s+o apenas um arti#,cio liter8rio ou se representam uma re#le%+o cuidadosa acerca da
ciência e de seu impacto so)re a sociedade, especialmente com respeito C 3uest+o de como
ciência e tecnologia se aplicam ao plane.amento social.
2. carac0er34a56- - -27e0- 6- es0/6-
Riteratura #utur,stica B #enTmeno recente nas letras1 cerca de 2GG anos. "eu
primeiro sBculo #oi de otimismo. O #uturo da !umanidade B )om, a ciência guarda as
c!aves para a cura de doen*as, para o #im dos males 3ue atingem as sociedades, para a
prote*+o contra todas as pe*as 3ue a nature-a possa, em sua in#inita )enevolência, 3uerer
pregar.
Dsse 3uadro muda em #ins do sBculo passado. Eara especi#icar um ano,
escol!eremos 1;::, 3uando H. G. Wells pu)lica 57ma !ist4ria dos tempos #uturos6.
@Vuatro anos antes, ele !avia pu)licado 5$ m83uina do tempo6, cu.as inova*/es #ormais e
a importJncia para outras narra*/es #utur,sticas s+o a)solutamente #undamentais para a
constru*+o de uma vis+o moderna de #uturo, articulando a um s4 tempo re#le%+o social e
;
darwinismo.A &esde ent+o, o #uturo passa a ser negro, sendo dei%adas C !umanidade
apenas as alternativas da destrui*+o 3uase total, da continuidade para pior e da estase.
=+o 3ue n+o e%istam descri*/es de um #uturo auspicioso para a !umanidade, mas
elas s+o ine%pressivas. =o cinema, 3uase n+o e%istem casos de #ilmes cu.a a*+o se
desenrole num #uturo pre#er,vel ao presente. "alvo B claro, se se dei%ar o .ulgamento para
3uem aprecia violência ilimitada, ausência total de #reios sociais e so)revivência garantida
unicamente pela #or*a. Eara estes, o #uturo retratado nas telas representa certamente o
para,so.
$o arriscar alguma sociologia da literatura, ca)e perguntar o por3uê dessa
unanimidade, de onde ela surgiu, por 3ue esse en#o3ue do #uturo se tornou t+o popular. D
essa popularidade B, atB certo ponto, parado%al1 a#inal, nada go-a de mais prest,gio entre
as pessoas do 3ue a ciência e essa literatura @e o cinema 3ue nela se )aseiaA mostra 3ue a
ciência B danosa e, em Qltima an8lise, indese.8vel. $parentemente, e%iste um pro#undo
mal0estar com rela*+o C ciência, um misto de medo e de venera*+o, um vago sentimento
#austiano de 3ue e%istem con!ecimentos proi)idos. $ #ic*+o e%ploraria esse rico veio,
especialmente 3uando e%trapola conse3Uências #uturas de tendências atuais,
conse3Uências estas potenciali-adas pelo desenvolvimento cient,#ico e tBcnico.
Ias 3ueremos mais 3ue sociologia da literatura. Vueremos 5literatura como
sociologia6. &evemos, portanto, nos apro%imar das o)ras liter8rias e analis80las por seu
aporte a 3uest/es sociol4gicas relevantes. Vuando tomamos essa orienta*+o, alguns
pontos se colocam de imediato1 3uais os o).etos de an8lise, como caracteri-80los,
separando0os da vala comum da #ic*+o cient,#ica e, acima de tudo, como os
consideraremos, uma ve- 3ue pretendemos 3ue se.am algo mais 3ue #ic*/es. 'espostas
resumidas1 analisaremos apenas um microgênero da #ic*+o cient,#ica, a literatura
#utur,stica antiut4pica, e tomaremos essas antiutopias como verdadeiros e%perimentos
imagin8rios, simula*/es de #uturos poss,veis.
:
Vuanto a e%perimentos imagin8rios. $l)ert Dinstein construiu mentalmente uma
situa*+o na 3ual um elevador se deslocaria sem atrito, C velocidade da lu-. Eor um ori#,cio
lateral, um raio luminoso entraria nele. O o)servador !umano, no interior do elevador,
veria o tal raio se curvar. =aturalmente, elevadores n+o podem e nem poder+o atingir tais
velocidades e, mesmo 3ue um dia pudessem, por 3ue #a-ê0loH $ t8tica usada por Dinstein
#oi a de engendrar um 5e%perimento imagin8rio6 @Gedankenexperiment B o termo alem+o
consagrado na literatura especiali-adaA. Iesmo 5imagin8rio6, sua aplica*+o B imediata. $
partir da situa*+o imposs,vel de se construir na nature-a, tiram0se conclus/es so)re a
pr4pria nature-a. &a mesma #orma, outros #,sicos propuseram mais e%perimentos, como o
do gato de "c!r[dinger, o do microsc4pio de Heisen)erg e, antes deles, o do demTnio
@assim c!amado por lorde KelvinA de Ia%well. Kodos e%perimentos imposs,veis, todos
importantes para 3ue se con!e*a mel!or o mundo como ele, supostamente, B.
O dom,nio dos e%perimentos imagin8rios mais con!ecidos, 3ue têm nome pr4prio
e descendência, B sem dQvida a #,sica. Ias tam)Bm em outras ciências naturais tais
e%perimentos s+o comuns em)ora muitos n+o c!eguem a #a-er !ist4ria.
O 3ue B o e3uivalente a 5e%perimentos imagin8rios6 em ciências !umanasH Slaro,
a constru*+o de situa*/es imposs,veis ou muito di#,ceis de se o)servarem de #ato, nas
3uais se isola uma caracter,stica a ser estudada, nas 3uais se supervalori-a essa
caracter,stica, a#astando0a de outras com as 3uais se encontra emaran!ada no mundo real.
D%perimentos imagin8rios, em #,sica, s+o como #ic*/es. O mundo engendrado
pelo e%perimentador n+o e%iste. Kudo #unciona 5como se6. =o e%perimento de Dinstein,
5se6 #osse poss,vel isso e a3uilo, 5poder,amos6 ent+o ver a lu- se comportar tal e tal.
Dssas #ic*/es #,sicas s+o, posteriormente, tratadas com instrumentos matem8ticos pesados,
3ue podem enco)rir sua origem puramente imaginativa, #undamentalmente #ict,cia.
$s ciências !umanas dispensam esses instrumentos. D%perimentos imagin8rios
em ciências !umanas s+o #ic*/es.
1G
"eguindo nessa lin!a, podemos supor 3ue, no sBculo 2G, e%iste uma escola
in#ormal de sociologia. S!amemo0la 5os #utur,sticos6 @poder,amos di-er #uturistas, mas B
)om desvincul80los do #uturismo, ainda mais 3ue esse movimento apresentava um
otimismo com rela*+o aos )ene#,cios da ciência para a !umanidade de 3ue os #utur,sticos
a)solutamente n+o partil!amA. Vuem s+o os mem)ros dessa escolaH "eu #undador na
vers+o moderna e e%press+o maior B H. G. Wells e ela se estende atB !o.e com autores
ativos como Kurt Vonnegut. Ias esses su.eitos n+o s+o soci4logos de pro#iss+o. Gan!am
a vida como escritores de #ic*+o. Ias sua #ic*+o B tal 3ue a discuss+o do cen8rio, da
sociedade, da a*+o, prevalece so)re o estudo do personagem. Iesmo assim, n+o caem
nem na a*+o pura nem no aleg4rico. "eus personagens têm a consistência e%ata para 3ue
c!amemos o te%to de #ic*+o, para 3ue o leitor se.a imerso no mundo descrito atravBs de
suas palavras, isso sem o)scurecer outro o).etivo importante1 discutir o impacto social da
ciência e da tecnologia so)re uma sociedade em grande medida desin#ormada so)re a
nature-a de am)as. Dssa consistência e%ata dos personagens tem a ver com 3ue eles
aparecem apenas como propiciadores da a*+o, sem merecer, como ca)eria em outros
gêneros liter8rios, uma an8lise psicol4gica. Kudo, ou 3uase tudo, o 3ue n+o #or o lado
social do personagem B eliminado como se se tratasse de um 5ru,do6 a ser devidamente
#iltrado.
Sentenas de o)ras de #ic*+o #a-em isso, mas s4 os #utur,sticos se preocupam com
as conse3Uências Fpara uma sociedade em grande medida anal#a)eta de ciênciaF das
tentativas, apoiadas em avan*os cient,#icos e tBcnicos, de se construir um Dstado 3ue, pelo
menos em princ,pio, sirva da mel!or #orma a essa mesma sociedade. "eu mBtodo consiste
em montar a*/es 3ue se desenvolvem no #uturo, #uturo este 3ue di#ere do presente devido
a interven*/es mais ou menos previs,veis da ciência e da tecnologia.
"ua 3uest+o central B1 com o 3ue podem !o.e a ciência e a tBcnica contri)uir para
a constru*+o de um Dstado per#eito, para a constru*+o de um Dstado 3ue vise ao 5)em6
das pessoasH
11
>ora dessa 5escola6, a 3uest+o tem uma e%tensa tradi*+o de estudo. Vue a
pretens+o ut4pica B antiga, n+o !8 dQvida. Eor outro lado, 3ue se vive em uma Bpoca em
3ue a ciência atingiu o ponto de pTr em pr8tica 3ual3uer pro.eto ut4pico, isso tam)Bm
parece ra-oavelmente #ora de 3uest+o. Vue o impacto da ciência e da tecnologia B #orte,
3ue #or.a a sociedade, 3ue a organi-a @da organi-a*+o da e%tra*+o de matBrias0primas C
organi-a*+o da produ*+o nas #8)ricas, dos oper8rios e, #inalmente, da cidade em 3ue
vivemA, isso est8 alBm de dQvida. Sento e cin3Uenta anos atr8s, Sarlyle se re#eria C sua
Bpoca como “Mechanical Age” @a era mecJnicaA1 “Os homens se tornam mecânicos de
coração e cérero! como "# são suas mãos”. "e algo pode ser dito do planeta, B 3ue o 3ue
valia para a Bpoca de Sarlyle apenas se intensi#icou. Os nomes se multiplicam. =eil
Eostman, por e%emplo, pre#ere 5tecnop4lio61 a sociedade regida pela cren*a e su)miss+o
total C ciência e C tBcnica. Ium#ord @1:9<A, com mais ela)ora*+o, mas menos lucide-,
#ala em 5neotécnica com ideologia paleotécnica6.
=+o importa o nome 3ue se dê, o resultado B sempre o mesmo1 a ciência ocupa
atualmente o lugar em outros tempos ocupado pela religi+o como provedora de certe-as
@sa)er 3ue a ciência n+o #ornece certe-as B coisa para muito poucosA e como meio de
garantir ao !omem o #uturo de )em0estar e seguran*a. "e uma pes3uisa de opini+o B
levada a e#eito, o resultado B sempre o mesmo1 se !8 um agente capa- de mudar o planeta,
#or.ar o progresso, mel!orar a vida, ele B a tBcnica )aseada na ciência @sendo 3ue ciência e
tBcnica raramente est+o )em separadas na imagina*+o dos leigosO isso se est8 na de
alguBmA. Dssa ausência de separa*+o B encontrada por (eardslee e O\&owd @1:M1A, 3uem,
em uma pes3uisa de campo com alunos de college, mostraram 3ue, entre eles, a imagem
mais comumente ligada C do cientista B a do pro#essor universit8rio, seguida
imediatamente da do engen!eiro.
7m #uturo mais decente s4 pode ser conseguido via o grande agente
trans#ormador1 a ciência. Eor outro lado, esse agente #undamental em 3ual3uer aspira*+o
!umana B pouco compreendido @a ciência 3ue Granger @1::<A c!amou 5misteriosa!
12
tutelar e in$uietante6, p. :A. 8 se aludiu C con#luência entre ciência e tBcnica. Ias o 3ue
di-er so)re 3uest/es como origem do con!ecimento cient,#ico ] uso desse con!ecimento,
especiali-a*+o ] multidisciplinaridade, ciência pura ] ciência aplicada, ciências naturais ]
ciências !umanasH "+o as ciências naturais modelo para as ciências !umanasH O
con!ecimento ad3uirido nas primeiras pode servir para #undamentar ou, pelo menos, para
sugerir dire*/es para as QltimasH D%iste algo na nature-a 3ue nos oriente na organi-a*+o
das sociedadesH Kodas elas s+o temas importantes em #iloso#ia e sociologia da ciência.
"o)re todas, montan!as de artigos e de livros s+o escritas todos os anos.
Os #utur,sticos e%ploram as mesmas 3uest/es de um modo muito particular, via
5e%perimentos imagin8rios6. Somo s+o esses e%perimentosH
O #utur,stico monta sua argumenta*+o tomando por )ase algumas premissas
!ist4ricas1
· a mecani-a*+o da sociedade B irrevers,vel e se acelera nos Qltimos 2GG
anosO
· a mecani-a*+o e seus avatares #ora do processo propriamente produtivo B,
em grande medida, dese.ada pela maioria, sendo imposs,vel pensar num
movimento espontJneo de volta ao passadoO
· o progresso tBcnico tem, na verdade, poucos )ene#ici8riosO
· o grosso das pessoas n+o s4 descon!ece como ciência e tBcnica
in#luenciam sua vida como tam)Bm aca)a pro#undamente pre.udicado por am)asO
· talve- ninguBm deten!a o con!ecimento cient,#ico a ponto de poder di-er
com ra-o8vel apro%ima*+o o 3ue ele signi#ica e, mais importante na pr8tica, o 3ue
#a-er com ele. @Dm)ora o cinema se.a muito ingênuo ao representar o cientista,
como tam)Bm muita literatura classi#icada como >S mais popular, os #utur,sticos
s+o )astante cBticos com rela*+o C capacidade 3ue o pr4prio cientista tem de
entender as implica*/es Fmesmo as mais imediatasF da3uilo 3ue #a-.A
19
$ partir disso, a produ*+o da literatura #utur,stica poder8 enc!er a escrivanin!a do
soci4logo com todo gênero de e%perimentos imagin8rios.
Somo seria um Dstado no 3ual a tBcnica de vigilJncia #osse per#eitaH Somo ser8 a
sociedade do #uturo se o Dstado tiver meios de trans#ormar 3uimicamente os cidad+os @se
B 3ue, no caso, o termo 5cidad+os6 ainda se aplicariaAH Somo ser8 ela se a ganJncia #or
mais #orte 3ue a inteligência e o progresso tBcnico se descontrolarH Somo ser8 a guerraH
Haver8 sociedade, no sentido em 3ue a entendemos, mantidas as tendências atuais de
progresso tBcnicoH Somo encontrar um )alan*o entre Dstado per#eito e manuten*+o das
capacidades !umanasH Somo de#inir o 3ue se.a li)erdade dentro de uma sociedade
plane.adaH Vuais as #ronteiras entre desenvolvimento tBcnico e privacidadeH Kodas essas
3uest/es Fassim como no caso dos artigos cient,#icosF geram pil!as de te%tos liter8rios.
&a mesma #orma como acontece com os primeiros, :GL s+o ruins, :L aceit8veis e 1L, na
mel!or das !ip4teses, )om. &elimitar esse 1L e3uivale a encontrar um veio importante de
re#le%+o sociol4gica perdido nas estantes de literatura @e, diga0se, de literatura n+o levada
muito a sBrioA.
$o desenvolvermos o estudo so)re di#erentes antiutopias, teremos sempre a
preocupa*+o de veri#icar se as re#le%/es dos autores respeitam critBrios de consistência, de
#undamenta*+o e de possi)ilidade 3ue normalmente se e%igiriam de um te%to te4rico. &a
mesma #orma 3ue perguntamos, ao ler um te%to de sociologia @ou de #iloso#ia, ou de outra
disciplina 3ual3uerA, se o autor manteve do in,cio ao #im #idelidade a um mesmo con.unto
de ideias, se construiu uma imagem consistente de seu o).eto de estudo, se alicer*ou essa
constru*+o em con!ecimentos dados, se procurou n+o ser muito seletivo na escol!a das
ra-/es 3ue #undamentariam sua re#le%+o, podemos #ormular tais 3uest/es diante de um
te%to classi#icado de puramente liter8rio.
&as premissas acima, a mais polêmica B talve- a terceira1 o progresso tBcnico tem
poucos )ene#ici8rios. Somo a#irmar isso diante do evidente progresso da medicina, do
aumento da e%pectativa de vida mBdia, das maiores possi)ilidades de acesso ao la-er
1<
tra-idos pelo progresso tBcnicoH O #ato B 3ue os eventuais )ene#,cios tra-idos pelo
progresso tBcnico @novos remBdios, novos instrumentos de la-erA n+o s+o de #orma alguma
perce)idos pela maioria como aumento do grau de #elicidade individual. D isso pode ser
medido por pes3uisas de opini+o, como as relatadas em 'esc!er @'esc!er, 1:;G, pp. 90
2GA. Siência e tecnologia agem predominantemente so)re os c!amados 5)ene#,cios
negativos6, ou se.a, na remo*+o de coisas tidas como ruins, mas n+o so)re os 5)ene#,cios
positivos6, 3ue as pessoas tendem a associar com 5#elicidade6. Eelo contr8rio Fainda
segundo 'esc!erF o progresso tBcnico seria #onte de constante insatis#a*+o, uma ve- 3ue
in#la e%pectativas mais rapidamente do 3ue as preenc!e.
Wells #oi talve- o primeiro a articular claramente a ideia de 3ue a promessa de
mel!or 3ualidade de vida #ornecida pela ciência e tecnologia n+o poderia ser preenc!ida.
&a, sua literatura dos primeiros anos. &e l8 para c8, a mesma promessa, ainda 3ue
constantemente adiada, vem sendo mantida nos meios de comunica*+o e na pr4pria
universidade1 “A ci%ncia! a tecnologia e a educação em geral apresentam & nação uma
enorme conta em termos de recursos materiais e humanos' (n$uanto as pessoas
mantiverem a ilusão de $ue estão pavimentando uma estrada real para a felicidade! elas
de oa vontade pagarão a conta' Mas! e se a desilusão tomar proporç)es sérias! não
apenas com respeito & ci%ncia! mas com toda a esfera da vida mental*” @'esc!er, 1:;G,
p. 2GA.
&essa #orma, s+o )ene#iciados pelo progresso tBcnico Fno 3ue di- respeito
apenas C #elicidade individualF apenas a3ueles 3ue .8 atingiram esse estado por outras
vias, 3ue pouco têm de associa*+o com ciência e tecnologia. $guardar #elicidade destas
Qltimas Fpara Wells e para outros escritores #utur,sticosF B, portanto, esperar em v+o.
P claro 3ue verossimil!an*a ou rigor cient,#ico n+o podem ser critBrios de
3ualidade liter8ria. Ias B )om lem)rar 3ue, 3uando se trata de >S e, especialmente de
literatura #utur,stica, a verossimil!an*a e o rigor s+o dois pontos perseguidos pelos
autores. @$mis a#irma 3ue ninguBm deve esperar aprender algo so)re cria*+o de gado
1?
lendo westernsO em compensa*+o, tam)Bm n+o se deve supor 3ue o gado liter8rio se.a
muito di#erente do real.A
&essa #orma, dei%ando claro 3ue essa an8lise nada tem a ver com 3ualidade
liter8ria, ca)er8 e%aminar atB 3ue ponto os autores #ocali-ados apresentam #uturos
poss,veis ou ra-o8veis de se esperar dadas tendências o)serv8veis !o.e.
O resultado dissoH $lguns te%tos s+o e%perimentos imagin8rios rigorosos e )em
constru,dos e outros, n+o. Os )em constru,dos contam como 5sociologia na #orma de
literatura6. Os outros s+o 5literatura metida a sociologia6. Os primeiros podem servir a
prop4sitos did8ticos ou a an8lise te4rica. Os outros divertem, o 3ue n+o dei%a de ter
#un*+o social importante.
P claro 3ue, mesmo correndo o risco de pecar pela seletividade e%agerada,
dei%aremos de lado, salvo men*/es en passant, a literatura metida a sociologia. Wsso
e%igiria outro estudo, n+o e%atamente com as pretens/es deste.
=o #im de contas, dever8 #icar aparente um certo paralelismo entre literatura
#utur,stica Fmas especi#icamente, antiutopiasF e a literatura sociol4gica 3ue e%amina o
impacto social da ciência. Iesmo discuss/es mais opacas, como o c!o3ue entre progresso
tBcnico e li)erdade individual ou o tema da racionalidade da ciência, de como
#undament80la na e%periência, de como us80la eticamente etc. aparecem espel!ados nos
dois campos1 literatura e sociologia. "e isso #or mesmo verdade, e se pudermos convencer
o leitor de 3ue B, #ica patenteada a3ui, mais uma ve-, uma imagem de unidade da cultura,
uma unidade 3ue, desde 3ue sai)amos como ol!ar, sempre B reencontrada.
c. 6el3130a89es
"4 mais um momento antes de come*armos. $ esta altura, o plano deve estar
claro1 vamos estudar o conteQdo Fsupostamente sociol4gicoF de um pun!ado de
antiutopias. Ias B claro 3ue alguBm vai se levantar no #undo da sala e perguntar1 por 3ue,
entre tantos gêneros, as antiutopiasH $lguBm com mais inclina*+o para teoria liter8ria vai
1M
di-er1 literatura #utur,stica pode ser caracteri-ada como gêneroH Dn#im, algo deve ser dito
a respeito desses assuntos.
Vuanto C palavra 5gênero6. =+o parece valer a pena entrar no mBrito de 3ue
escola de teoria liter8ria apresenta a mel!or de#ini*+o, de 3uais s+o os principais de)ates e
correntes 3uanto ao status atual do assunto etc. &igamos apenas 3ue, para e#eito deste
tra)al!o, a palavra gênero 3uer di-er apenas 5su)con.unto de um universo dado6, 3uando
esse universo B de o)ras de#inidas como liter8rias. =outros campos, #alar,amos em
escolas, tendências, tipos, espBcies etc. Eoder,amos, por conveniência de#inir um gênero
compreendendo 5todos os livros 3ue têm entre 12 mil e 19 mil palavras61 os 5livros ^^6.
$ 3uest+o B sa)er se tal de#ini*+o B Qtil para revelar algum tipo de regularidade @alBm da
apontada na pr4pria de#ini*+o, B claroA ou n+o. O gênero 5antiutopia #utur,stica6,
5su)gênero da literatura #utur,stica6, 5su)gênero da >S6, tem o mBrito de separar
claramente algumas o)ras 3ue apresentam caracter,sticas mais ou menos regulares. P o
3uanto )asta para n4s. Vuanto aos livros ^^...
Vuanto C de#ini*+o de literatura #utur,stica. Krata0se de um relato #iccional
@e%plicitamente #iccional e n+o os apresentados como pro.e*/es, pro#ecias etc.A cu.a a*+o
se desenvolve no #uturo. Ias, se tomarmos todo o con.unto delimitado apenas por essa
condi*+o, colocaremos na mesma estante desde narra*/es 3ue se limitam a desenvolver
tendências o)serv8veis no presente @o presente da pu)lica*+oA atB a3uelas em 3ue
intervêm cortes radicais com as possi)ilidades !umanas de !o.e1 viagens no tempo,
imortalidade, contatos com inteligências n+o0!umanas etc. Dsses cortes radicais enco)rem
o 3ue nos parece o o).eto mais importante para 3uem se apro%ima dessa literatura com a
pretens+o de estud80la .ustamente como 5sociologia em #orma liter8ria61 a plausi)ilidade
da3uilo 3ue B narrado. &essa #orma, eliminaremos da de#ini*+o de o 3ue entenderemos
por literatura #utur,stica as narra*/es 3ue apresentarem esses cortes. =+o se trata, #rise0se,
de pretens+o C 3ualidade1 as o)ras eliminadas n+o s+o, em algum sentido, piores do 3ue as
3ue restam. "+o apenas dei%adas de lado neste estudo. $s antiutopias estudadas s+o,
1N
assim, um su)con.unto @um su)gêneroA do con.unto assim de#inido como literatura
#utur,stica. Eor 3ue as antiutopiasH Eor 3ue B nelas 3ue se encontra uma e%posi*+o mais
rigorosa de como o desenvolvimento cient,#ico e tBcnico pode ser usado para #or.ar uma
uni+o per#eita entre Dstado e cidad+o. P nas antiutopias 3ue o tema 5ciência na constru*+o
de um Dstado6 aparece de #orma mais cristalina.
Vuanto ao 3ue se entende por literatura antiut4pica. 7ma caracter,stica )8sica das
utopias B 3ue elas s+o relatos 3ue se desenvolvem em torno do tema de Dstados est8ticos.
Eor isso mesmo, tendem a ser predominantemente descritivas e, na verdade, de leitura
e%tremamente tediosa. O 3ue as antiutopias #iccionais acrescentam Cs utopias B a*+o.
Somo conseguir essa a*+oH Som tens/es entre personagens, entre personagens comuns e
outros 3ue representam o Dstado, entre personagens e m83uinas 3ue sustentam o
#uncionamento da sociedade na 3ual se desenvolve a a*+o. &essa #orma, a tens+o tem a
ver )asicamente com n+o dei%ar 3ue a leitura se torne arrastada. Ias essa t8tica torna o
gênero uma arte para muito poucos. Wra Revin, em 5Dste mundo per#eito6, de 1:NG, retrata
uma sociedade per#eita do #uturo @em 21M2, 3uase dois sBculos depois da 57ni#ica*+o da
Kerra6A, a)solutamente assBptica e igualit8ria @inclusive 3uanto C aparência de !omens e
de mul!eresA. 7ma tens+o aparece e B a partir dela 3ue o autor nos leva aos meandros
dessa sociedade. =o #inal, a tens+o B resolvida de maneira !er4ica1 o personagem central,
agindo praticamente so-in!o, destr4i os alicerces do Dstado per#eito. Ou se.a, no #im de
contas, tratava0se de um Dstado #raco a ponto de permitir 3ue um s4 indiv,duo o
destru,sse. =+o se pode, a,, #alar em consistência e, mais importante, em antiutopia. D esse
tipo de produ*+o aca)a sendo o mais comum1 a 5antiutopia6 com happ+,end, a literatura
metida a sociologia.
Os Dstados descritos nas antiutopias s+o resistentes. &essa #orma, tens/es 3ue
surgem no correr da a*+o devem ser sempre resolvidas para o )em do Dstado F3ue B o
mesmo 3ue di-er1 para o )em de todos. Ou se.a, a antiutopia B um gênero 3ue pouco pode
se )ene#iciar do 3ue mais atrai na literatura popular de a*+o1 o !er4i vencedor.
1;
$ssim, o autor de uma antiutopia #utur,stica cria um #uturo negro, nele coloca um
!er4i @para disparar a a*+oA e B o)rigado a destruir esse mesmo !er4i, sem o#erecer
3ual3uer solu*+o positiva para o pro)lema colocado no in,cio @pelo menos, n+o algo 3ue
possamos c!amar positivoA. $#inal, se a pretens+o B descrever uma sociedade 3ue se
perpetua, o !er4i tem mesmo de ser dispensado no #inal. O 3ue #a- desse gênero algo
muito di#,cil. Iuito provavelmente, um #ator importante para a predominJncia de #uturos
som)rios na literatura de >S do sBculo 2G B o #ato de eles tornarem #8cil o
desenvolvimento da a*+o e destacarem a atua*+o do !er4i. O sucesso da #4rmula tornou o
cen8rio som)rio pe*a o)rigat4ria do gênero. O 3ue o autor antiut4pico #a- B usar esse
cen8rio esta)elecido n+o para #avorecer, mas para destruir o !er4i. Rogo, aliar #uturo
som)rio a !er4i descart8vel B algo 3ue poucos escritores conseguem #a-er com rigor.
Dssas limita*/es redu-em muito o universo de o)ras dispon,veis e criam algumas
-onas cin-entas 3ue precisam ser e%ploradas antes de se decidir se uma o)ra deve contar
entre as antiutopias ou entre as o)ras #utur,sticas em sentido mais amplo.
Eor e%emplo, em 5>a!ren!eit <?16 @a novela de 'ay (rad)ury, de 1:?2, #ilmada
por >ran*ois Kru##aut, em 1:MNA, o !er4i, no #im da novela, vê ao longe a cidade em 3ue
morava sendo destru,da por uma e%plos+o nuclear. &ever,amos, assim, #iliar a novela Cs
antiutopias ou aos !olocaustosH 7ma ve- 3ue o grosso da !ist4ria trata de como esse
Dstado #unciona, uma ve- 3ue o !er4i #u.+o n+o #oi o respons8vel pela destrui*+o desse
Dstado, uma ve- 3ue n+o se sa)e, se3uer, se a destrui*+o da cidade acarretou o #im da
utopia, #iliaremos a o)ra Cs antiutopias, ainda 3ue com muitas restri*/es, como
dei%aremos claro no cap,tulo so)re esse livro. =o caso do te%to de Wra Revin, as coisas s+o
di#erentes. =ele, B evidente 3ue todo o cen8rio serve mais para emoldurar a vit4ria do
personagem central 3ue para mostrar os meios 3ue um Dstado teria para se perpetuar. O
mesmo 3ue vale para Revin vale para 5Hino6, de $yn 'and, de 1:9;. Kodo o Dstado
@precariamenteA descrito serve apenas de moldura para a vit4ria #inal dos dois !er4is,
candidamente denominados 5o indomado6 e 5a dourada6.
1:
Outro caso 3ue cai em uma regi+o lim,tro#e B 5'evolu*+o no #uturo6, de Kurt
Vonnegut, de 1:?2. =este, ainda n+o se est8 numa distopia, mas durante a constru*+o de
uma. Dm todo o te%to, .8 est8 claro onde se pretende c!egar e como ser8 esse Dstado. >ica
evidente tam)Bm 3ue, mesmo durante esse processo de constru*+o, .8 est8 #uncionando o
mecanismo )8sico da utopia, ou se.a, a esta)ilidade a toda prova, a resistência a ideias 3ue
possam, mesmo 3ue de leve, desesta)ili-80la. $ssim, apesar de a novela se desenvolver na
#ase imediatamente anterior C implanta*+o total do Dstado dist4pico, ela ser8 contada
como literatura antiut4pica. Dste B, talve-, o Qnico caso em 3ue se descreve
minuciosamente como seria a passagem @n+o0radicalA de um Dstado como conce)emos
!o.e para um Dstado dist4pico. "eguindo a ideia de 3ue n+o vale a pena uma apresenta*+o
cronol4gica das antiutopias, a de Vonnegut ser8 a primeira a rece)er aten*+o.
$ntiutopias s+o apenas uma parte Fmuito pe3uenaF da literatura #utur,stica.
D%aminemos, ent+o, o panorama mais largo do #uturo. $ apresenta*+o das alternativas
re#or*ar8 a escol!a das utopias negativas como ve,culo especial da sociologia na #orma de
literatura.
2
HISTÓRI DO !UTURO
$ literatura c!amada 5#utur,stica6 do sBculo 2G nos apresenta )asicamente três
tipos de narra*/es so)re como ser8 o #uturo do planeta. Ou ser8 o desastre, ou ser8 a
antiutopia Fo Dstado est8tico e per#eitoF, ou ser8 um #uturo sem descontinuidades
marcantes. (ernard Sa-es @1:;MA classi#ica os dois primeiros como 5#uturos de
descontinuidade radical6 e o Qltimo como 5#uturo de descontinuidade moderada6. Os
termos se re#erem a 3ue, em)ora possamos ver, a partir de tendências atuais, tanto a
possi)ilidade da distopia 3uanto do !olocausto @nuclear, )iol4gico ou outro 3ual3uer de
2G
#a)rica*+o !umanaA, essas duas ocorrências s+o improv8veis. &o 3ue se con!ece da
!ist4ria registrada da !umanidade, nen!uma das duas coisas aconteceu. P claro, no
entanto, 3ue nunca o !omem esteve de posse de tantas #erramentas tecnol4gicas como
!o.e est8 para tornar reais essas duas !ip4teses.
(n passant, note0se 3ue a literatura antiut4pica nasce mais ou menos na mesma
Bpoca da literatura 3ue descreve grandes cat8stro#es criadas por m+os !umanas
@"ta)le#ord, 1:;9A. $ntes, !avia predominantemente !ist4rias de cat8stro#es naturais,
como colis/es com corpos celestes perdidos @5O #im do mundo6, de Samille >lammarion,
de 1;:9, este .8 um pouco tardioA, ou pragas )iol4gicas @5O Qltimo !omem6, de Iary
"!elley, de 1;2MA. $ partir de #ins do sBculo 1:, aparecem os desastres em dimens+o
planet8ria promovidos pelo !omem. (rians @1:;NA locali-a a primeira novela descrevendo
uma cat8stro#e nuclear em 1;:?, mesmo ano em 3ue H. G. Wells pu)licava a vers+o
de#initiva de 5$ m83uina do tempo6 e dois anos antes da pu)lica*+o da primeira
antiutopia estudada a3ui, 57ma !ist4ria dos tempos #uturos6, do pr4prio Wells.
O mBtodo usado nessas o)ras #utur,sticas B sempre o mesmo, .8 notado por
ameson @1:;2A, $mis @1:MGA, "c!oles e 'a)Xin @1:NNA ou $llen @1:N<A1 a ideia B isolar
uma tendência e torn80la !iper)4lica. O resultado do 5estudo6 B o mel!or con!ecimento
dessa tendência, via o e%ame de seus desdo)ramentos #uturos.
a. 6esc-5035/36a6e 5:--ra63cal
=a descontinuidade n+o0radical, importam menos ao autor as 3uest/es ligadas ao
impacto social da ciência, ao c!o3ue causado por uma nova desco)erta etc. O #uturo B
apenas um cen8rio no 3ual se movem personagens iguais a n4s, iguais aos 3ue poder,amos
encontrar em 3ual3uer outro conte%to, simplesmente transportados para um am)iente 3ue
B dado, por de#ini*+o, como #utur,stico. P #re3Uente nessas o)ras a descri*+o de algum
invento revolucion8rio, cu.a e%istência certamente modi#icaria todos os !8)itos !umanos,
3ue, no entanto, #ica relegado a um canto, sem 3ual3uer papel importante no
21
desenvolvimento da a*+o. P a s,ndrome do super0!omem1 um su.eito inteligente e #orte
3ue atravessa meio universo para c!egar C Kerra e #icar apan!ando )atedores de carteira
em =ova Wor3ue. 7m desperd,cio.
>S B um gênero 3ue tem por caracter,stica desperdi*ar cen8rios. 7ma trama
policial, como 5O gato 3ue atravessa paredes6, de 'o)ert Heinlein, precisa como cen8rio
todo o universo e, como tempo de a*+o, toda a eternidade. Iesmo novelas menos
pretensiosas a)usam do direito de colocar planetas e sociedades inteiros em .ogo,
unicamente para decidir se $ casa0se ou n+o com (, se $ encontra ou n+o seu pai perdido,
se $ pagar8 ou n+o pelo crime de ter matado ( etc. etc. etc.
Dsse B um aspecto do 3ual se 3uei%a "tanislaw Rem @Rem, 1:;?A1 esse
descompasso entre o).etivos e cen8rio, entre trama e suporte para trama. Rem nota 3ue os
autores de >S tendem a tomar grandes temas e, depois, redu-ir tudo a propor*/es caseiras.
7m e%emplo de o 3ue Rem 3uer di-er pode ser visto em uma o)ra considerada cl8ssica na
>S, a trilogia da 5>unda*+o6 @1:?1, 1:?2, 1:?9A, de Wsaac $simov, na 3ual o autor mostra
como se desenvolve toda uma gal8%ia por sBculos a #io, com os protagonistas podendo
via.ar de um canto a outro com naves 3ue alcan*am velocidades superiores C da lu- etc., e,
mesmo assim, o m8%imo 3ue consegue #a-er B povoar toda uma gal8%ia com #am,lias
norte0americanas da dBcada de <G. $s incr,veis conse3Uências de um espa*o 3ue .8 n+o
representa )arreira e de um tempo 3ue perde seu signi#icado n+o s+o de #orma alguma
e%ploradas. Kudo poderia se passar com os personagens atravessando ruas para se
reunirem. Ias o 5to3ue >S6 e%ige 3ue as ruas ten!am anos0lu- de largura. Rogo, as #ai%as
de pedestres têm de ser co)ertas por naves espaciais 3ue se deslocam no !iperespa*o.
Dn#im, tudo isso s+o apenas nomes, nomes va-ios. =en!uma implica*+o mais inteligente
acontece entre tecnologia e indiv,duos, entre possi)ilidades tBcnicas e altera*/es 3ue estas
possam tra-er C percep*+o das coisas.
Dssa estreite-a .usti#ica a cr,tica de Kurt Vonnegut, para 3uem os autores de
#ic*+o cient,#ica escrevem para adolescentes e povoam seus livros apenas com !er4is
22
adolescentes. Dn#im, o grosso da >S @e n+o apenas a 3ue analisamos a3ui so) a ru)rica de
literatura #utur,sticaA apresenta um #uturo 3ue pode ser mane.ado per#eitamente por
alguBm do presente, sem 3ual3uer necessidade de evolu*+o. (asta ver (ucX 'ogers,
3uem, depois de um sono de ?GG anos, B despertado e, em minutos, tem um plano para
salvar a cidade sitiada em 3ue se encontram os !omens 3ue o desenterraram do gelo.
5Kive uma ideia6, di-. D a ideia #unciona. Vuin!entos anos .ogados no li%o.
P assim 3ue em 5O ca*ador de andr4ides6, de E!ilip &icX, de 1:M;, aparece um
certo condicionador Een#ield, cu.a #un*+o B modi#icar completamente o !umor de 3uem o
usa. (asta acordar pela man!+ e ativar o condicionador Een#ield @parece 3ue a engen!oca
B acionada como um vel!o tele#one de discoA e pronto1 tudo se trans#orma. $s op*/es s+o
in#initas1 sentir0se vencedor, )onito, inteligente, com leve pre#erência por poesia concreta
etc. =+o !8 limite para a coisa e, no entanto, o personagem central simplesmente acorda,
ol!a para seu precioso @o 3uanto n+o dar,amos por eleHA condicionador Een#ield, desiste
de us80lo e vai para seu tra)al!o rotineiro de policial.
Sasos como o de &icX nessa novela n+o se prestam C an8lise 3ue pretendemos
#a-er a3ui, .8 3ue n+o e%i)em material su#iciente so)re a sociedade do #uturo, so)re como
ela se movimenta, mantBm0se etc. O material 3ue B central nas novelas antiut4picas, as
descri*/es de como #unciona o Dstado e de como os cidad+os nele se encai%am,
desaparece totalmente a3ui, ou serve apenas para emoldurar !ist4rias de amor, !ist4rias
policiais, de detetives, de suspense etc.
Dventualmente, o autor pode e%plorar os desdo)ramentos mais amplos de uma
dada desco)erta, mas, mesmo assim, s+o poucos os casos em 3ue a e%posi*+o B
consistente ou su#icientemente completa para ser analisada. Os e%emplos se multiplicam1
Dm 5Wmortalidade e compan!ia6, de 'o)ert "!ecXley, de 1:?:, B apresentada uma
sociedade na 3ual se desco)re o camin!o para a imortalidade1 )asta comprar o 3ue antes
s4 podia ser conseguido por anos de e%erc,cios ascBticos. Ias tudo isso emoldura uma
!ist4ria policial com #inal morali-ante de segunda classe. O mesmo autor relata
29
)revemente como seria um estado ut4pico @ou antiut4picoA #uturo em 5_mega, o planeta
dos condenados6, de 1:MG, apenas para dar ense.o a uma !ist4ria @esta sim e%celenteA de
um planeta0pris+o em 3ue as regras de )oa conduta s+o e%atamente o oposto do 3ue se
esperaria em uma sociedade normal.
&e volta a E!ilip &icX. O #uturo pode n+o ter descontinuidades radicais
@!olocaustos e antiutopiasA, mas pode tra-er inven*/es 3ue modi#icam completamente o
meio am)iente. 8 descartamos acima o estudo de te%tos em 3ue !a.a interven*+o de
m83uinas do tempo, uma ve- 3ue sua presen*a su)verte totalmente o 3ue entendemos por
causa e e#eito e, assim, n+o permite se3uer 3ue manten!amos um discurso consistente ao
#alarmos so)re o #uturo. Ias o 3ue di-er do caso de 5Wdentidade perdida6, de &icX, de
1:N<H =este, um #amoso apresentador de KV su)itamente se desco)re completamente
descon!ecido. &epois de vagar por dias pelas ruas de Ros $ngeles em um #uturo n+o
especi#icado, as pessoas v+o pouco a pouco voltando a recon!ecê0lo. $ c!ave do enigma
est8 em uma nova droga 3ue modi#ica a percep*+o da realidade n+o para 3uem a toma,
mas para os outros. ^ toma a droga e a realidade se modi#ica em rela*+o a Y. 7ma mul!er
tomou a droga e o mundo dei%ou de recon!ecer o apresentador de KV. Dste B um caso 3ue
s4 pode ser dei%ado de lado em nossa an8lise devido a motivos secund8rios. =+o e%iste
uma clara viola*+o de causa e e#eito. O 3ue e%iste B a interven*+o de uma desco)erta
implaus,vel @para !o.eA para a 3ual o autor n+o o#erece 3ual3uer e%plica*+o, nem mesmo a
pseudociência t+o comum desde 3ue Wells desco)riu 3ue n+o era preciso ser #iel ao
estado do con!ecimento cient,#ico para #a-er >S de )oa 3ualidade. P a ausência de
3ual3uer es#or*o no sentido de e%plicar como essa droga surgiu 3ue nos dei%a C vontade
para a)andonar a an8lise de 5Wdentidade perdida6 @3ue, no entanto, seria um prato c!eio
para psic4logos, ao lado de outras o)ras do autor 3ue tratam de temas parecidos, como
57)iX6, ou 5Os três estigmas de Ealmer Dldritc!6A.
&e &icX a "!ecXley, de $simov a SlarXe, o #ato B 3ue as narra*/es de #uturo sem
descontinuidade radical #ornecem normalmente cen8rios para a*/es rotineiras e colocam
2<
nesses cen8rios o).etos incr,veis Fcomo o condicionador Een#ieldF sem, no entanto,
dar0l!es a menor aten*+o. $ssim, cada caso B um caso, cada o)ra, e%tremamente
individual. (em entendido1 têm em comum umas poucas tramas )8sicas, mas s+o
totalmente individuais no 3ue di- respeito aos gadgets espal!ados pelo cen8rio. Slaro,
como o autor n+o se d8 ao tra)al!o de e%plorar a sBrio a3uilo 3ue inventou, por 3ue n+o
inventar maisH Eor 3ue n+o soltar totalmente a imagina*+o, .8 3ue, depois, n+o ser8
preciso levar seus resultados realmente Cs Qltimas conse3Uências, n+o ser8 preciso ser um
m,nimo rigoroso com os desdo)ramentos e e#eitos mais amplos dos ingredientes
misturados na cenaH
&essa #orma, em)ora se manten!a uma leve lem)ran*a de mBtodo Fde estudar
conse3Uências de inven*/es so)re o cotidiano individual e socialF, essa literatura n+o
#ornece e%emplos su#icientemente consistentes para an8lise. O 3ue, a#inal, B claro, dadas
as premissas do su)gênero1 o neg4cio B criar a*+o, B criar !er4is, B desenvolver situa*/es
plenamente compreens,veis para o pQ)lico menos e%igente e resolvê0las .8 com vistas C
continua*+o num pr4%imo t,tulo. $ sociedade do #uturo 3ue aparece nesses te%tos,
portanto, B apenas um suporte para tornar as a*/es do !er4i minimamente cr,veis. D mais
nada.
2. 6esc-5035/36a6e ra63cal 1: - h-l-ca/s0-
$s coisas s+o di#erentes 3uando se trata do #uturo de descontinuidade radical,
3uando ent+o as 3uest/es e a respostas #icam em um dom,nio mais restrito.
=o caso da literatura de desastres promovidos pelo !omem, as perguntas s+o
muitas1
a. o 3ue levou ao !olocaustoH
). ser+o os #atores desencadeadores do desastre cont,nuos ou radicaisH
c. est+o esses #atores .8 atuando ou n+oH
d. temos @ou, ter,amosA como evitar ou sustar seu progressoH
2?
e. a 3uest+o mais di#,cil1 ser8 esse desastre realmente indese.8velH
$ primeira 3uest+o tem a ver com as premissas tBcnicas do desastre. Dste pode vir
de uma praga produ-ida em la)orat4rio, de uma e%plos+o nuclear, de uma guerra com
armas convencionais, de uma guerra de desgaste com uma nova arma ainda n+o
con!ecida, mas per#eitamente poss,vel. $o lado dessas 3uest/es tBcnicas, e%istem as
pol,ticas, pois o !olocausto pode ter ocorrido Fe, muito provavelmente, ocorreuF devido
ao mau uso de uma tecnologia dispon,vel. =esse caso, entra em 3uest+o 3ual seria a
rela*+o correta entre ciência e tecnologia e entre am)as e as #or*as 3ue as #inanciam.
Iesmo no caso de um !olocausto devido a causas naturais @um grande e%emplo
est8 em 5"4 a Kerra permanece6, de George "tewart, de 1:<:A, ca)e a 3uest+o pol,tica,
apenas colocada de outra #orma1 est8 a sociedade devidamente in#ormada e aparel!ada por
seus governantes para se de#ender de uma cat8stro#eH $ resposta parece ser, 3uase
sempre, 5n+o6.
$ segunda 3uest+o tem a ver com a anterior, 3uanto ao aspecto tBcnico de o 3ue
levou ao desastre, mas adiciona a ela a dQvida so)re se o !omem B capa- de perce)er a
marc!a dos #atores 3ue levar+o C cat8stro#e. E!ilip Wylie @em 5O princ,pio do #im6, de
1:N2A descreve a lenta destrui*+o do planeta pela polui*+o, destrui*+o n+o perce)ida ou
mal avaliada e 3ue, a certa altura, torna0se irrevers,vel. Outros Fcu.o nQmero B muito
maiorF descrevem o desastre como algo radical1 estourou a guerra e pronto. Vuando
sa,mos dos a)rigos, .8 encontramos o mundo dividido entre )8r)aros @normalmente
andando de motocicletas, devidamente encapados em couroA e civili-ados acuados. D
estamos prontos para a a*+o !a)itual.
$ terceira 3uest+o tra- a segunda para !o.e, para o momento e circunstJncias 3ue
cercam realmente o leitor. =o #uturo, con#orme essas o)ras, ser8 o !olocausto, devido a
#atores 3ue se mani#estar+o crTnica ou agudamente. Ias o 3ue dispara os processos 3ue
tais o)ras descrevem como causas #uturas do desastreH D !o.eH O 3ue e%iste @realmenteA
!o.e 3ue nos leve a supor, a considerar plaus,vel, o desenvolvimento dos processos 3ue
2M
#inalmente levar+o ao caosH &etectados os pro)lemas, e%iste meio de san80losH D%iste
#orma de alterar o curso das coisas para evitar o desastreH &iretamente relacionada a essas
3uest/es est8 a discuss+o so)re se o avan*o cient,#ico e tBcnico, mesmo em vista do
poss,vel desastre, pode ou deve ser detido. P nesse su)gênero da literatura #utur,stica 3ue
se deveria esperar encontrar disserta*/es mais longas a respeito de como gerenciar o
desenvolvimento da ciência e da tecnologia e de 3ual seria a responsa)ilidade do cientista
#rente ao 3ue #a-. Ias s+o raros os casos nos 3uais essa discuss+o vai alBm dos clic!ês,
alBm da cena em 3ue alguBm ol!a para a paisagem devastada, suspira e di- 1 5&ever,amos
ter evitado isso6.
$ Qltima 3uest+o B sem dQvida a mais di#,cil, pois envolve mais 3ue a rela*+o
entre o !omem e o crescente poder 3ue ele tem so)re a nature-a. &i- respeito a se o
!omem deve, de tempos em tempos, ser purgado de seus pecados. &ei%ada para tr8s a
Bpoca da literatura so)re desastres c4smicos, o u,-o >inal, agora, deve vir das m+os do
pr4prio !omem. O pecado original desencadeava, em Qltima an8lise, o u,-o. O pecado
moderno Fa incapacidade de se !aver com os avan*os da ciência e da tBcnicaF leva ao
u,-o laici-ado da guerra total. "er8 tal guerra dese.8vel ou n+oH Dm princ,pio, a resposta
de )om senso parece ser 5n+o6. $ partir da carni#icina da Erimeira Guerra Iundial, a #ace
da guerra na literatura mudou, dei%ando de ser uma ocasi+o para !ero,smo, para coragem,
para 5romance aventuroso6, e tomando os contornos 3ue tem !o.e, de perda da dignidade
para am)os os lados. &essa #orma, a vis+o mais realista e moderna sustenta 3ue guerras
n+o têm gan!adores reais, especialmente se #orem travadas com armas modernas. Iesmo
3ue uma das partes so)reviva, estar8 manc!ada moral e materialmente1 dever8 so)reviver
com o desgaste provocado pelas mortes causadas ao outro lado e a si mesma, e com um
meio am)iente degradado pelas conse3Uências tardias do con#lito @o 3ue pode adicionar
ao )inTmio )8r)aros]civili-ados monstros mutantes, paranormais etc.A.
Dm)ora a 3uase totalidade dos autores de !o.e pense assim 3uanto ao cen8rio da
guerra, o #ato B 3ue a conversa muda 3uando se discutem suas conse3Uências para o
2N
progresso @espiritual, a parte material est8 li3uidadaA da !umanidade. Erimeiramente,
notemos 3ue s+o poucos de #ato os apocalipses na literatura. Som rar,ssimas e%ce*/es, a
guerra, mesmo o mais devastador con#lito nuclear, n+o B o #im de tudo. "empre so)ra um
pun!ado de seres !umanos 3ue, em princ,pio perdidos pelo trauma, pouco a pouco se
recomp/em e reconstroem a !umanidade. Eoucos seguem a tril!a de um 'osny $YnB
3uem, em 5$ morte da terra6, de 1:12, mostra o Qltimo !omem morrendo num #uturo
3uando n+o e%iste mais 8gua no planeta. =+o dei%a descendentes e aca)a, como prêmio de
consola*+o, servindo de pasto para vermes @#utur,sticos vermes #erromagnBticos, B claroA.
Iesmo 3uando n+o resta ninguBm so)re a Kerra, os autores encontram um .eito
de mandar as pessoas para o cBu @como em 5>im da in#Jncia6, de $rt!ur SlarXe, de 1:?9
Fem 3ue intervêm alien,genas 5naturais6F e 5O #im do mundo6, de Samille
>lammarion, de 1;:9 Fno 3ual os alien,genas s+o, alBm de tudo, so)renaturais1 o esp,rito
de um #ara4 3ue vem C Kerra para salvar o Qltimo casal de seres !umanosA para 3ue a
!umanidade possa, mesmo so) outra #orma, continuar. =esses casos, 3ue poder,amos
c!amar 5apote4ticos6, pode ser 3ue o !omem dei%e de e%istir, mas n+o a !umanidade, a
consciência !umana.
Ias essa B uma lin!a muito tênue e di#,cil de ser mantida, da,, provavelmente, a
virtual ine%istência de o)ras no gênero apocalipse total, apote4tico ou n+o. $rt!ur SlarXe
tenta algo assim em 52GG16, de 1:M:. 7m representante da !umanidade, o astronauta
&avid (owman, passa por uma sBrie de prova*/es, B a)sorvido pelos criadores da
!umanidade e trans#ormado em um novo ser. =o #ilme !omTnimo, de "tanley Ku)ricX,
essa a)sor*+o B mostrada nas cenas #inais, em 3ue (owman envel!ece rapidamente e,
depois, B trans#ormado em um )e)ê. &a mesma #orma 3ue o macaco evoluiu para um
!omem, o !omem evolui para essa nova #orma, dona de uma racionalidade essencialmente
inintelig,vel para n4s, um salto de 3ualidade 3ue nos coloca em dimens/es totalmente
distintas. Ias esse #inal n+o deve ter agradado muito ao autor pois, logo em seguida, o
2;
mesmo SlarXe escreveu 52G1G6, no 3ual essa nova mentalidade B redu-ida a um
superpoder de caracter,sticas essencialmente !umanas.
$ssim, o 3ue e%iste de #ato s+o 5semi0apocalipses6 e n+o destrui*+o total da
!umanidade, com ou sem evolu*+o para uma #orma superior. Voltando C 3uest+o1 s+o os
@semi0A apocalipses indese.8veisH Wagar @1:;9A se re#ere a 5round trips to doomsday6, ou
se.a, viagens @peri4dicasA de ida e volta ao u,-o >inal. Som ou sem gan!oH
Dm 57m cJntico para Rei)owit-6 @1:?:A, Walter Iiller r. descreve três eras da
!ist4ria de um mosteiro, o dos monges da 5Ordem $l)ertiana de Rei)owit-6. =a primeira
#ase, MGG anos se passaram desde uma guerra devastadora, 3ue teria ocorrido pelos idos de
1:NG. $ !umanidade vive C m,ngua e o pouco 3ue resta de cultura e civili-a*+o B mantido
dentro do tal mosteiro. =+o 3ue os monges sai)am e%atamente o 3ue #a-em, 3ue sai)am o
conteQdo da3uilo 3ue preservam para o #uturo1 o personagem central dessa primeira parte
da !ist4ria passa )oa parte de sua vida #a-endo iluminuras em uma planta de circuito
eletrTnico, a)solutamente ignorante de o 3ue a3uele 5mapa e%4tico6 signi#ica. =a segunda
parte, o mosteiro preserva o su#iciente de cultura para 3ue sur.a uma ciência incipiente. =a
terceira, os monges, 2<GG anos depois do primeiro !olocausto, veem a guerra total se
apro%imar. Ias, a essa altura, a Ordem de Rei)owit- .8 disp/e de uma espa*onave para
levar a cultura para outros cantos do universo e mel!or preservar o 3ue o !omem teria de
mel!or. @$ prop4sito, Rei)owit- era apenas um tBcnico de r8dio.A
Ou se.a, !ouve gan!o entre os dois !olocaustos. O !omem se encontra mais
e3uipado para resolver seus pr4prios dilemas. $ssim como na novela de Iiller r., muitas
outras mostram a guerra como uma oportunidade de mel!ora1 ela destr4i, mas o recome*o
se d8 em um patamar mais elevado. Iiller, B verdade, descrê totalmente do !omem1 a
guerra destruiu a !umanidade e a nova voltar8 a destru,0la @ou 3uaseA. D, atB onde se pode
acompan!ar a inten*+o do autor, sempre ser8 assim. =outros casos, a guerra B
oportunidade para uma renova*+o 3uem sa)e de#initiva, sem o perigo da volta. "+o
autores 3ue acreditam na nature-a !umana, 3ue ac!am 3ue a civili-a*+o, uma ve-
2:
estremecida, dar8 ao !omem a possi)ilidade de recome*ar em )ases n+o apenas mais
s4lidas @esse B o caso do 5SJntico6A, mas em )ases de#initivas.
Dssas )ases de#initivas podem se assentar tanto na capacidade de mel!or
manusear a ciência e a tecnologia e seus presentes para a sociedade como na capacidade
de viver sem am)as. Dste Qltimo caso B raro. =ele se en3uadra, por e%emplo, uma novela
como 5&evasta*+o6, de 'enB (ar.avel, de 1:<2, na 3ual, depois de destru,do todo o
planeta @em 2G?2A, os poucos so)reviventes c!egam nus a uma paragem campestre na 3ual
encontram uma sociedade totalmente voltada para a agricultura. $nos depois, 3uando um
.ovem aparece com uma m83uina a vapor por ele constru,da, B literalmente trucidado e
sua engen!oca do mal .ogada num a)ismo.
$ prop4sito, essa ideia de 3ue a m83uina a vapor marca um ponto dia)4lico na
evolu*+o !umana tem longa !ist4ria. "amuel (utler, em 5Drew!on6, de 1;N2, descreve
uma sociedade isolada na 3ual as m83uinas #oram )anidas. Os s8)ios do pa,s se reuniram
e determinaram uma data, uma Qltima inven*+o 3ue deveria ser preservada. 'estou uma
calandra 5muito usada pelas lavadeiras6. Kudo o 3ue #oi inventado posteriormente #oi
destru,do, para evitar 3ue as m83uinas pudessem vir a dominar o !omem. O de)ate 3ue
levou a essa solu*+o radical come*ou promovido pelas apreens/es causadas pela m83uina
a vapor. 7m dos s8)ios perguntava1 5-uem é capa. de afirmar $ue a m#$uina a vapor
não possui algum tipo de intelig%ncia*6 @cap. 29A. $ resposta #icou clara nos atos 3ue
seguiram1 #i%ou0se a data para a Qltima m83uina, data 3ue marca tam)Bm o in,cio da era
em 3ue a tecnologia se vira contra o !omem. Kransposta a discuss+o para o mundo real,
(utler estaria a#irmando 3ue o ano inicial dessa era B 1MGG, o 3ue se associa normalmente
com o in,cio da c!amada 5'evolu*+o cient,#ica6. Iais de cem anos depois, Kurt
Vonnegut escreveria em 5H4cus0p4cus6, de 1::G, 3ue 5o desastre do homem foi ora de
/saac 0e1ton e de 2ames 3att6, ou se.a, da ciência aliada C tecnologia. Rogo depois da
"egunda Guerra, em 1:<:, $ldous Hu%ley escreveu, em 5O macaco e a essência6, 3ue a
'evolu*+o Wndustrial 5foi o instrumento de 4elial para perder a humanidade6. Iario
9G
Rosano, 1::2, a#irma 3ue a tBcnica de constru*+o de autTmatos Fpraticamente
desaparecida durante a primeira parte do sBculo 1:, .ustamente 3uando os !istoriadores
situam a uni+o entre ciência e indQstria em nome da maior e#iciência da produ*+oF
marcou a Qltima tecnologia !umana, ou se.a, a Qltima coisa compreens,vel por um leigo.
Dm)ora as perguntas 3ue a literatura de !olocausto colo3ue se.am muitas, as
respostas s+o surpreendentemente poucas ou, no limite, uma s41 o desastre B uma
oportunidade para o !omem rever seus erros e acertar contas consigo mesmo. "empre
e%istem dois grupos remanescentes1 os 3ue pretendem reconstruir o planeta e os 3ue
3uerem apenas a )ar)8rie. Dm termos mais crus1 o pessoal do vilare.o contra os
moto3ueiros 3ue assom)ram as estradas.
Os dois grupos s+o, menos 3ue prete%tos para a a*+o, encarna*/es aleg4ricas dos
dois lados do !omem1 o )estial contra o racional. Geralmente, n+o !8 literatura 3ue
descreia totalmente da ra-+o. Os dois grupos lutam, mas o segundo consegue reconstruir a
sociedade ou, pelo menos, n+o B colocado nen!um impedimento para 3ue assim aconte*a.
Hirsc! @1:?;A nota a ausência, na >S, de irracionalismo ou de 5regresso & religião6. Dsse
tra*o, a valori-a*+o do misticismo em detrimento da ciência, B algo mais corrente na
c!amada literatura de #antasia. Dventualmente, os dois gêneros F>S e #antasiaF se
encontram, como por e%emplo em algumas passagens de 5$s cidades mortas6, de Sli##ord
"imaX.
Eara manter a consistência desse tom aleg4rico, 3uem normalmente resolve o
assunto Fconsegue manter a cidade contra a )ar)8rieF B um !omem @muitas ve-es
alguBm 3ue rece)eu #orma*+o militar ou alguBm 3ue este.a acostumado C violência, como
um outsider, um gJngster etc.A 3ue #a- o servi*o su.o em nome do )em. $ssim B, por
e%emplo, com 5Iad Ia%6 @George Iiller, 1:N:A no cinema e com 5(eco dos malditos6
@'oger Zela-ny, 1:M:A, este um livro 3ue rece)eu vers+o na tela.
&essa #orma, a partir e muitas perguntas, os autores de !ist4rias de !olocausto
c!egam a uma mesma resposta1 o !omem B um ser comple%o 3ue necessita de renova*+o
91
@peri4dica ou n+oA e, nessa renova*+o, lutam seus dois lados, o )estial e o racional, com a
vit4ria do Qltimo. Vuanto C ideia de tempo, prevalece o tempo c,clico associado ao linear.
$ !ist4ria da !umanidade estaria inscrita em uma espiral 3ue, a cada volta, evolui. P isso.
Vuando, em ciências naturais, muitas perguntas levam a uma s4 resposta, ou #alta
imagina*+o ou as perguntas s+o mal #ormuladas. Vual o caso com os #utur,sticos do
desastreH
c. 6esc-5035/36a6e ra63cal 2: a a503/0-;3a
O panorama muda 3uando se c!ega Cs antiutopias #utur,sticas. $ pergunta B uma1
como deve proceder um Dstado para durarH $s respostas s+o v8rias1
a. uni#ormi-ando os cidad+os1
· pela lo)otomia radical @5=4s6A
· por drogas @5$ super#,cie do planeta6, 5Os vendedores da #elicidade6A
· pela intensi#ica*+o dos meios de comunica*+o de massa @5>a!ren!eit
<?16, 51:;<6A
· pela altera*+o radical dos !8)itos de pensar, pela introdu*+o de uma nova
l,ngua @51:;<6A
). pelo a)andono das pessoas @ 5'evolu*+o no #uturo6A
c. pela valori-a*+o e%trema das di#eren*as @5$dmir8vel mundo novo6A
d. pelo isolamento das pessoas em meio a uma para#ern8lia tecnol4gica @de novo
5$ super#,cie do planeta6, 5$ m83uina p8ra6, 5Os vendedores da #elicidade6A
e. mantendo tudo como sempre esteve, apenas dando ao estado de coisas um ar de
necessidade @57ma !ist4ria dos tempos #uturos6A
D essas respostas levam a outras 3uest/es di#,ceis.
92
a. estando a nature-a su.eita a mudan*as am)ientais, como preparar o !omem para
isso, ou se.a, como criar um Dstado per#eito e, ao mesmo tempo, capa- de se de#ender de
mudan*as @5$ m83uina p8ra6, 5>a!ren!eit <?16AH
). B poss,vel aumentar o )em0estar e manter os !omens 5vivos6 @5$ super#,cie do
planeta6, 5Os vendedores da #elicidade6AHO o 3ue leva C 3uest+o
c. 3ual o limite entre con#orto e manuten*+o da #le%i)ilidade e criatividade
!umanas @3uase todas as o)ras citadas acimaAH
d. 3ual a e3ua*+o correta ente li)erdade e #elicidadeH @5=4s6A
Somo acontece em uma disciplina 3ual3uer, a 3uest+o )em #ormulada mostra a
comple%idade do tema e a imagina*+o do pes3uisador no nQmero e criatividade das
respostas.
P .ustamente esse nQmero de respostas a partir de uma 3uest+o )8sica 3ue leva C
ideia de estudar esse su)gênero da literatura #utur,stica como se se tratasse de uma escola
de pensamento sociol4gico, e%igindo de seus autores #undamenta*+o, consistência e rigor.
Os #utur,sticos, nesse su)gênero mais 3ue em 3ual3uer outro, desenvolvem uma an8lise
rigorosa do tema 5Dstado versus indiv,duo6 e veem atB 3ue ponto o !omem pode se
conservar como indiv,duo num Dstado desen!ado para durar. $o #a-erem isso, prop/em
e%perimentos imagin8rios, sociedades #uturas nas 3uais se encontram desenvolvidas se.a
tendências .8 atuantes !o.e, se.a tendências atuais 3ue teriam uma leve possi)ilidade de se
desenvolverem @como a ideia de resolver o pro)lema de superpopula*+o em 5Iundos
#ec!ados6, de 'o)ert "ilver)erg, de 1:N1, no 3ual a !umanidade toma como norma a ideia
de 3ue sua miss+o B povoar a Kerra e, a seguir, outros planetas do "istema "olarO assim, a
reprodu*+o dei%a de ser pro)lema para se tornar uma miss+o de 3ual3uer cidad+o
5consciente6A.
$s antiutopias nada mais s+o 3ue utopias nas 3uais o narrador @ou o principal
personagemA discorda do 3ue vê. P isso o 3ue acontece com Winston "mit!, o
99
personagem central de 51:;<6, 3ue Orwell se es#or*a muito para 3ue se pare*a com o
leitor de 51:;<6, conosco. D toda a a*+o visa a mostrar como tendências ou atuantes !o.e
ou em)rionariamente presentes !o.e Fe com cu.o desenvolvimento concordamos, nas
3uais depositamos sinceras esperan*asF podem ter e#eitos perversos 3ue, no #im de
contas, ir+o nos e%cluir da ordem 3ue ser8 engendrada.
$ literatura antiut4pica B a #orma liter8ria na 3ual se constroem e%perimentos
imagin8rios 3ue visam a e%plorar os e#eitos perversos de programas para plane.amento
social. Eoder,amos classi#ic80las, para #ins de estudo, em três tipos )8sicos1
a. as 3ue mantêm uma estrutura de classes e uma !ierar3uia r,gida entre estas
@5$dmir8vel mundo novo6, 551:;<6, 57ma !ist4ria dos tempos #uturos6AO
). as 3ue dispensam classes e mantêm uma aparência de li)erdade e mo)ilidade
totais @5=4s6, 5>a!ren!eit <?16AO
c. as n+o0sociais @5Os vendedores da #elicidade6, 5$ super#,cie do planeta6A.
Os dois primeiros tipos s+o 4)vios. O terceiro a)range as antiutopias nas 3uais as
pessoas vivem totalmente isoladas, mergul!adas em um estado mantido por drogas 3ue
n+o l!es permite 3ual3uer contato @n+o como o conce)er,amosA com outros seres
!umanos.
D%iste uma di#eren*a )8sica entre utopia e distopia1 a concordJncia ou n+o do
narrador com o 3ue descreve. &a mesma #orma, e%iste uma di#eren*a )8sica entre o autor
ut4pico e o dist4pico. O primeiro dese.a 3ue seu son!o se concreti-e, mas n+o acredita
muito nisso. O segundo n+o dese.a ver seu pesadelo reali-ado, mas n+o vê muita sa,da,
acredita resignadamente em sua concreti-a*+o. O primeiro crê um pouco mais no !omem1
trata0se de um ser in#erior a seus son!os, mas 3ue pode, 3uem sa)e, reali-80los. O segundo
acredita menos no animal cu.a sociedade estuda1 o !omem B totalmente incapa- de evitar a
reali-a*+o de seus pesadelos, os 3uais s+o apenas os e#eitos imprevistos e pervertidos de
seus son!os. Iesmo 3uando son!a, tudo o 3ue o !omem pode #a-er B criar meios 3ue ir+o
#rustrar o #uturo pretendido. O e#eito perverso vence sempre 3ue o !omem tenta mudar
9<
para mel!or. P uma literatura, assim, desesperan*ada. Ou o !omem n+o tem como mudar
seu #uturo e deve aceit80lo com resigna*+o ou ent+o pode tentar mud80lo, com resultados
sempre #rustrantes, sempre para pior.
Kalve- !a.a um #undamento !ist4rico para essa transi*+o utopia]distopia. Dstas
Qltimas aparecem no #im do sBculo 1:, 3uando os piores e#eitos da 'evolu*+o Wndustrial .8
tin!am se tornado )em vis,veis e graves @mesmo o programa otimista proposto por
Ddward (ellamy, em 5&a3ui a cem anos6, era claramente #ruto do desastre causado
desorgani-a*+o da produ*+o, 3ue o autor constatava nos anos 1;;GA. $lBm disso, 3uase
todos os e%perimentos ut4picos .8 tin!am #al!ado @os icarianos, os owenistas em =ew
RanarX e Harmony, Oneida e muitos outrosA. 8 !avia, portanto, su#iciente e%periência
acumulada so)re tentativas de mudan*a 3ue resultaram sempre para pior.
=aturalmente, esse 5pior6 pode assumir as v8rias #ormas mencionadas acima
@desagrega*+o, uni#ormi-a*+o e%agerada etc.A. Ias #rise0se 3ue o 5pior6 n+o precisa ser
para todos. Voltando C #ic*+o, o )om)eiro Guy Iontag, em 5>a!ren!eit <?16, tem duas
#ontes de melancolia1 a dQvida so)re a dignidade os alicerces do sistema 3ue a.uda a
manter @ele 3ueima livros perniciosos ao Dstado 3ue, no #im de contas, s+o todos os livrosA
e a constata*+o de 3ue a maioria pre#ere as coisas como est+o. "+o poucas as antiutopias,
os retratos de Dstados per#eitos, nas 3uais uma classe B descrita como claramente in#eli-,
como acontece em 57ma !ist4ria dos tempos #uturos6. O mais comum B 3ue todos gostem
das coisas como s+o. Eara 3uem se sente a)rigado so) o ol!ar do (en#eitor, o Dstado
`nico de Zamyatin B um para,so. Iesmo na Rondres de Wells, a in#elicidade pode ser
sanada pela mudan*a de classe, nunca pela mudan*a do sistema. Dm 51:;<6, todos menos
Winston "mit! est+o #eli-es com o 3ue veem. "e algum personagem mostra dese.o de
mudan*a, esta B sempre so)re algo acess4rio, nunca incidindo so)re a organi-a*+o do
Dstado.
$ perspectiva de pesadelo B dada pelo #ato de o narrador ser um !omem 5como
n4s6, um !omem do sBculo 2G ou, na e%press+o de $ndrB 'e-ler @1:;?A, um 55ltimo
9?
homem6. O pesadelo aparece apenas por3ue tais Dstados ser+o sociedades nas 3uais n4s
Fde !o.e, partil!ando dos ideais 3ue temos agora, 3uerendo manter o modo de viver e de
pensar 3ue temos neste momento e lugarF n+o ter,amos o 3ue #a-er, n+o ter,amos como
nos adaptar. Eara os adaptados @3ue s+o praticamente todos os 3ue o autor retrata, menos o
narrador e seus comparsasA, a coisa toda B e%celente. Iildred, a mul!er de Iontag, passa
o dia todo em #rente C KV tridimensional e paga uma ta%a para 3ue, durante a transmiss+o
das novelas, os atores #alem seu nome. Os pares de &0?G9 @os 5nQmeros6, como se re#ere
a eles, um tanto sem imagina*+o, ZamyatinA passam o dia todo em ê%tase, saudando o
Dstado `nico e constatando como s+o superiores a todos e como, um dia, povoar+o o
universo a )ordo de sua nave, a /ntegral. Os !omens de 5Os vendedores da #elicidade6
passam a vida em casulos tendo son!os maravil!osos, sem .amais terem de se preocupar
com sua so)revivência, a 3ual B dei%ada a cargo de m83uinas cu.a #un*+o B manter todos
!i)ernando F#eli-es, por de#ini*+oF eternamente.
6. 1a3s /1a ;ers;ec03va
Eara o )em da complete-a, B preciso indicar 3ue e%iste mais um tipo de #uturo 3ue
aparece na literatura1 a mudan*a do !omem em algo di#erente. $ maior parte dos
e%emplos di- respeito a altera*/es na nature-a @#,sica e mentalA do !omem para cumprir
algum des,gnio c4smico. P assim 3ue a !umanidade evolui em 5O #im da in#Jncia6, de
SlarXe, tornando0se em outra coisa e migrando para o cBu ou retomando a vida em um
patamar mais elevado em Qpiter, como B descrito em 5O #im do mundo6, de Samille
>lammarion, de 1;:9. Dstas envolvem um #inal radical para a ra*a !umana, monitorado
por seres superiores.
Ias essa altera*+o pode se dar, aparentemente, #ora de um es3uema c4smico,
como acontece em 5$lBm do !umano6, 1:?9, de K!eodore "turgeon. =este, um grupo de
outsiders se reQne e #orma @sem plane.amento prBvioA uma nova inteligência composta,
9M
muito mais potente 3ue 3ual3uer coisa normal. Dssa nova inteligência, "turgeon d8 a
entender, ser8, mais cedo ou mais tarde, dona da Kerra.
&e 3ual3uer #orma, esse #uturo, assim como o dos desastres c4smicos, tem pouco
a ver com inten*/es !umanas. Eode atB ter a ver com atos !umanos. Eor e%emplo, nada
impede 3ue essa nova #orma de inteligência se deva a e%perimentos 3ue saem #ora de
controle, sendo um e%emplo antigo nessa lin!a 5O alimento dos deuses6, de H. G. Wells.
Ias n+o !8 inten*+o, n+o e%iste um plano para colocar a !umanidade em um novo
patamar. =o caso de "turgeon, n+o e%iste se3uer ato intencional envolvido na coisa toda.
$ nature-a, simplesmente, atravBs de leis descon!ecidas, disparou um processo cu.o #im
dever8 ser su)stituir o !omem de !o.e.
7ma ve- 3ue essas descri*/es de #uturo n+o dependem propriamente do !omem,
n+o entram em considera*+o no 3ue se estuda adiante.
"
S NTIUTOPIS
D%plica*/es correntes para o aparecimento e permanência do gênero antiut4pico
na literatura do sBculo 2G costumam recorrer C Erimeira e C "egunda Guerra Iundial. O
pro)lema com tais e%plica*/es B 3ue, para se sustentarem, devem dei%ar de lado e%emplos
!ist4ricos evidentes, como as novelas antiut4picas de Wells, de >orster e outras o)ras
menores, todas escritas antes do primeiro con#lito.
$ssim, algo anterior deve ser procurado. O 3uêH "ervier @1:N:A di- 3ue o gênero
antiut4pico Fespecialmente na lin!a de cr,tica ao papel 3ue a ciência desempen!a na
sociedade em geralF tem origem nas 5Viagens de Gulliver6, de onat!an "wi#t, escritas
em 1N2M. Ias um e%ame do te%to mostra 3ue "wi#t n+o s4 despre-ava in toto o
con!ecimento cient,#ico e, assim, n+o estava preparado para critic80lo mais
9N
cuidadosamente, como tam)Bm era inconsistente 3uanto ao 3ue .ulgava aplic8vel e
conden8vel no tra)al!o intelectual.
&as 3uatro viagens de Gulliver, a terceira, a Raputa, B considerada por autores
como "ervier ou Iilton Wol# @in Gunn, ed., 1:;;A um precursor da moderna distopia.
Remuel Gulliver c!ega C il!a voadora de Raputa, onde mora o rei do reino de
(alni)ar)i, cu.a capital B Ragado. $ il!a B movida por #or*a magnBtica, mantida C altura
dese.ada devido a um poderoso ,m+ incrustado em sua )ase de diamante. Dm Ragado,
Gulliver con!ece os acadêmicos.
$ntes, em Raputa, ele .8 tin!a notado 3ue as pessoas educadas eram e%celentes
em mQsica e em matem8tica, mas completamente idiotas no 3ue se re#eria C vida pr8tica.
Erecisavam sempre de um servo para l!es dar pancadin!as com uma )engala guarnecida
de uma )e%iga a #im de n+o perderem o #io da meada em uma conversa 3ual3uer. $s casas
eram mal constru,das e as roupas mal tal!adas, apesar de se tomarem sempre muitas
medidas e de se usarem muitos instrumentos cient,#icos.
=a academia de Ragado, con!ece cientistas 3ue pretendem e%trair lu- solar de
pepinos e outras coisas disparatadas. =essa altura do te%to, o 3ue #ica evidente B 3ue "wi#t
3uer ridiculari-ar as ciências te4ricas. Ias, logo depois, na mesma academia, Gulliver
encontra cientistas pol,ticos 3ue ele igualmente ridiculari-a, n+o pelas ideias serem
disparatadas, mas por serem inaplic8veis nos reinos de verdade. Dsses acadêmicos 3uerem
coisas como governo .usto, ascens+o nos cargos pQ)licos devido a merecimento etc.
Ora, no primeiro caso, Gulliver @"wi#tA ridiculari-a ideias a)surdas, ideias 3ue ele
.ulga serem espel!o #iel dos cientistas reais 3ue ele tanto detesta. =o segundo caso, ele
ridiculari-a ideias tac!ando0as a)surdas por serem diametralmente di#erentes das
praticadas pelos pol,ticos de verdade. Dle B, no #im de contas, inconsistente. =o espa*o de
poucas p8ginas, ataca a atividade acadêmica por desarra-oada e por racional demais.
"wi#t, como nota Orwell @1:<MA, nada entende de ciência e, mais, odeia o 3ue n+o
con!ece. 7m !omem eternamente preterido nos cargos pQ)licos 3ue disputou, "wi#t tem a
9;
virulência leviana dos 3ue est+o de #ora. Virulência #8cil e a)rangente, por3ue in4cua. Dle
n+o #a- cr,ticas C ciência, nem, na lin!a dos modernos dist4picos, e%trapola suas
conse3Uências ruins para a !umanidade. Dle, simplesmente, B um cr,tico rancoroso e
inconsistente. =+o B poss,vel, dessa #orma, vê0lo como cr,tico da ciência pois #ica
evidente a partir de seus .u,-os 3ue ele n+o B se3uer capa- de de#ini0la, de dei%ar claro
para o leitor 3ual3uer coisa acerca da nature-a do 3ue est8 sendo criticado.
"wi#t n+o c!ega a ser se3uer ut4pico. Dle B contr8rio C curiosidade intelectual, C
ra-+o e Cs leis. O proto0anar3uismo e3Uino, mostrado na parte 3uatro das viagens, resume
sua posi*+o1 o !omem B despre-,vel, todos os sistemas de leis s+o despre-,veis, toda
ciência 3ue n+o se.a eminentemente pr8tica @algo 3uase semel!ante ao senso comum mais
prim8rioA deve ser despre-ada. O ideal, a sociedade dos 6ou+hnhnms, B apenas um
agregado de )estas mon4tonas, 8ridas, mortas, su.eitas C opini+o pQ)lica, algo muito mais
coercitivo 3ue o sistema legal, 3ue permite, atB, a leviandade do autor.
Dm resumo1 n+o !8 cr,tica C ciência em "wi#t. D%iste cr,tica C curiosidade, e%iste
cr,tica a tudo o 3ue todos os !omens #a-em. $ssim, n+o B poss,vel vê0lo como um
precursor se.a da >S otimista, se.a da distopia. "wi#t est8 muito mais para um polemista
geral, para o escritor 3ue empresta sua pena a 3ual3uer tema 3ue possa despertar de)ate,
como 3uando escreve sua 5Iodesta proposta para evitar 3ue as crian*as da Wrlanda se.am
um #ardo para seus pais ou para seu pa,s6, pu)licado três anos depois das 5Viagens6, no
3ual prop/e 3ue elas, as crian*as, se.am vendidas como carne para consumo. Dsse mesmo
dese.o de escandali-ar permeia todas as 5Viagens de Gulliver6.
Iesmo 3ue n+o se descartasse "wi#t com precursor das antiutopias pelo simples
e%ame do conteQdo das 5Viagens de Gulliver6, ainda restariam dois outros motivos para
dei%80las de lado com supostas precursoras do gênero. Erimeiro, e%iste um !iato de pelo
menos 1?G anos entre as 5Viagens6 e a e%plos+o dessa variante #utur,stica de literatura
antiut4pica 3ue nos acompan!a atB !o.e. "egundo, antiutopias senso lato sempre
e%istiram. $ primeira importante, 5O Earlamento das mul!eres6, de $rist4#anes, B
9:
contemporJnea da primeira utopia importante1 5$ 'epQ)lica6, de Elat+o. $lBm disso,
como assinala Ianuel @1:M?, p. 2:?A 5More7s 8topia produced a galax+ of mocking
parodies6. Ou se.a, encontrar em "wi#t a origem das antiutopias modernas B perder de
vista o registro !ist4rico. =+o se pode e%plicar algo em movimento Fprincipalmente algo
e%plosivo como o aparecimento de ra-o8vel nQmero de antiutopias tecnol4gicas
#utur,sticas, gênero sem representantes antes de WellsF recorrendo a algo constante, a
presen*a u),3ua de antiutopias desde os gregos.
"e se 3uer tentar entender por3ue antiutopias se tornaram o paradigma do
pensamento ut4pico no sBculo 2G, deve0se procurar as #ontes em algo 3ue ten!a ocorrido
de meados para #rente do sBculo 1:, algo 3ue dê conta de dois #atores1 primeiro, o #ato de
o terreno estar preparado para 3ue um gênero 3ue pinta o #uturo com mati-es som)rios se
tornasse t+o popular e, segundo, o #ato de terem aparecido v8rios escritores 3ue aderiram
ao gênero, produ-indo o)ras de valor ainda atual. Kerceira coisa, e n+o menos importante,
B analisar se tais #atores podem ser usados para e%plicar o por3uê de esse gênero ter
permanecido atB o presente. $#inal de contas, B claro 3ue !ouve um grande avan*o na
indQstria no Qltimo 3uarto do sBculo 1:, como mostraremos adiante. Ias a indQstria, )em
como a distri)ui*+o de ri3ue-a, de kno1,ho1 etc. B muito di#erente !o.e da3uela de !8
cem anos. Eodem os #atores usados para e%plicar o aparecimento das antiutopias em #ins
do sBculo 1: ser usados para, igualmente, e%plicar sua permanência no decorrer do
tumulto do sBculo 2GH Dstar+o escritores t+o a#astados 3uanto Wells e Vonnegut
remoendo o mesmo pro)lemaH Dssas 3uest/es dever+o merecer aten*+o no #im deste
cap,tulo.
a. re</3s30-s .-r1a3s 6- =>5er-
Eara 3ue e%ista literatura #utur,stica B preciso, primeiro, poder #alar so)re o #uturo.
D isso e%ige 3ue o te%to e, especialmente, 3ue o narrador, ten!a uma sBrie de
caracter,sticas especiais. Rendo uma o)ra 3ual3uer de >S escrita !o.e, n+o nos c!ama
<G
mais a aten*+o o #ato de o narrador estar no #uturo, escrevendo so)re esse #uturo e, mais,
em termos 3ue n4s, no presente, podemos entender. Eor 3ue ele #aria issoH =+o e%iste, de
#ato, um por3uê. P, simplesmente, conven*+o.
7m sistema de conven*/es semel!ante permite Fpara n+o sair do gênero mais
amplo da >S ao 3ual pertencem as antiutopias modernasF 3ue via.antes do tempo se
encontrem sempre com personagens !ist4ricos importantes em meio a toda a popula*+o do
planeta e 3ue estes e%i)am um completo dom,nio do inglês @ou do #rancês ou do
português, como em 5Krês meses no sBculo ;16, do )rasileiro eronymo Ionteiro, de
1:<N, no 3ual !omens do ano ;GGG, 3ue .8 perderam os dentes por #alta de uso, ainda
#alam de maneira inteiramente compreens,vel para n4sA, 3ue seres de outros planetas
dominem per#eitamente o idioma do narrador e vice0versa, 3ue possam #a-er contato
#,sico sem maiores cuidados 3uanto a poss,veis contamina*/es e assim por diante.
Vuais as conven*/es de uma literatura #utur,sticaH $ narra*+o se desenvolve no
#uturo, a rigor, inacess,vel para n4s. P preciso 3ue !a.a um narrador, 3ue este entenda o
3ue est8 acontecendo, 3ue reporte isso n+o s4 em nossa l,ngua, mas em termos 3ue nos
permitam entender como B o am)iente tBcnico e social #utur,stico e 3ue, #inalmente,
transmita isso para nosso tempo.
Eensemos em um caso semel!ante1 escrever !o.e, so)re dramas cotidianos, mas
visando ao leitor de, digamos, 1?GG. Dstamos escrevendo literatura popular para entreter
os marin!eiros 3ue vêm desco)rir o (rasil. Erecisamos, primeiro, de um amplo dom,nio
do português da Bpoca, para n+o errarmos inteiramente de pQ)lico. &epois, precisamos
con!ecer !ist4ria e costumes de ent+o. Saso contr8rio, como descrever um rev4lverH
Ker,amos de di-er algo como 5arte#ato 3ue #unciona como @em)ora n+o se pare*a comA
um arco de metal minQsculo 3ue dispara #lec!as de metal pela #or*a de e%plos/es
controladas6 ou, sen+o, 5can!+o de )olso 3ue dispara mQltiplos pro.Bteis6. Koda a trama
teria de ser e%plicada em termos dos e3uipamentos dispon,veis em 1?GG e das rela*/es
sociais 3ue valiam na Bpoca. >icariam de #ora, portanto, tramas 3ue envolvessem novas
<1
rela*/es sociais, como con#litos entre minorias, democracia, desn,veis econTmicos em
escala planet8ria, polui*+o, ci)erespa*o @esse, ent+o...A etc. Ou se.a, seria necess8rio
escrever uma novela so)re um #uturo 3ue n+o #osse socialmente muito di#erente de 1?GG
@ou, pelo menos, no 3ual todas as rela*/es sociais novas pudessem ter seu !ist4rico
tra*ado atB as rela*/es comuns na Bpoca do leitorA e cu.a linguagem descritiva #i-esse
recurso apenas a e3uipamentos dispon,veis para o leitor das caravelas. "uperadas essas
di#iculdades, restaria a 3uest+o de como despac!ar o manuscrito para seus potenciais
leitores.
Dssa pe3uena #ic*+o mostra o 3uanto a)sorvemos como dado 3uando lemos uma
narra*+o #utur,stica, o 3uanto tais narra*/es s+o arti#iciais e al!eias a 3ual3uer critBrio
decente de plausi)ilidade. Eara 3ue esses monstros pudessem se colocar em nossas
ca)eceiras sem nos morderem, muitos anos tiveram de ser gastos em e%perimenta*+o, em
tBcnica narrativa.
D toda essa evolu*+o ainda n+o rendeu o 3ue esperaria da literatura #utur,stica um
de seus mel!ores representantes, &aniel &rode1 59erdido entre os espelhos dos universos
paralelos! pro"etado nas mais selvagens paragens do tempo! sumetido a provas mentais
sem precedentes! candidato & sore,humanidade! enfim! correndo num canteiro perpétuo!
o her:i do romance de antecipação se serve sempre de uma linguagem endomingada $ue
lhe foi legada por uma época perdida ao longe no passado! a nossa''' a linguagem atual
do personagem de ficção cient;fica é apenas o estado atual da linguagem ausivamente
estendido para todo o futuro' (m conse$<%ncia desse anacronismo flagrante! existe uma
defasagem entre as palavras dos personagens e a realidade $ue os envolve' 9reguiça do
autor* 4em entendido= ele se poupa de um traalho desagrad#vel! o da forma” @apud
Versins, pp. 2MG0M1A. &rode, autor do e%cepcional 5$ super#,cie do planeta6, de 1:?:,
poderia ter escrito isso tanto em 1:MG como !o.e. Dstamos ainda muito longe de uma
literatura 3ue satis#a*a tais re3uisitos de linguagem. D 3uando algo novo B tentado,
raramente ultrapassa o n,vel meramente ortogr8#ico @Rardreau, 1:;;A. Sertamente, o
<2
pro.eto de escrever uma novela em uma linguagem inteiramente nova B imposs,vel. &e
3ual3uer #orma, na literatura #utur,stica, a cr,tica de &rode deveria #uncionar como uma
ideia reguladora C 3ual todos os te%tos tenderiam. Ias n+o B isso o 3ue se o)serva, salvo
em um ou outro autor mais dotado. Os campe/es da >S Fcomo $simov ou HeinleinF
s+o totalmente despreocupados da #orma de seus te%tos.
Eaul $lXon @1:;NaA situa a primeira narrativa #utur,stica em 1M?:, em um
romance de aventuras c!amado 5Dp,gona, uma !ist4ria do sBculo #uturo6, de ac3ues
Guttin. =a verdade, 5Dp,gona6 n+o se passa e%atamente no #uturo, mas em o 3ue !o.e
c!amar,amos de #uturo alternativo1 n+o e%iste men*+o clara 3uanto C Bpoca em 3ue se
desenvolve a narra*+o e as poucas indica*/es !ist4ricas sugerem apenas 3ue se trata de
um #uturo de todo incompat,vel com o presente. $ssim, a novela vale apenas para
assinalar @ainda segundo $lXonA a primeira ocorrência do termo 5#uturo6 em um t,tulo 3ue
n+o trata do u,-o >inal. Eara Versins @1:N2, p. 9:;A, 5é a décima,segunda >ora? de
antecipação! a segunda consciente >disso? e a primeira de importância6.
=os cem anos posteriores, aparecem o)ras .8 es3uecidas, como 5Wter lunare6 ou
5Iem4rias do sBculo 2G6. =a primeira, a men*+o ao #uturo #ica por conta da possi)ilidade
de se construir um can!+o 3ue leve o !omem C Rua @ideia depois usada por autores como
Verne e WellsA e, na segunda, a cargo de um an.o 3ue entrega ao narrador uma sBrie de
documentos 3ue di-em respeito a transa*/es diplom8ticas na Duropa no #im do sBculo 2G.
"amuel Iadden, o autor das 5Iem4rias6 gasta um cap,tulo inicial para convencer o leitor
da veracidade dos acontecimentos descritos. =esse pre#8cio @$lXon, 1:;Na, p. 111A,
Iadden lan*a um novo cJnone de plausi)ilidade para um te%to #utur,stico1 a 3uase total
impossi)ilidade dos #atos narrados. =a verdade, ele apenas transp/e para esse novo campo
a regra cl8ssica 3ue a#irma 3ue 5com respeito aos re$uisitos da arte! uma impossiilidade
prov#vel deve ter prefer%ncia sore algo improv#vel mas! ainda assim! poss;vel6
@$rist4teles, 5EoBtica6, cap,tulo 2?A. Iadden #a- a primeira a#irma*+o direta de 3ue as
conven*/es so)re a narra*+o #utur,stica devem ser simplesmente aceitas @supondo,
<9
ra-oavelmente, 3ue $rist4teles n+o se re#eria ao gênero em sua 5EoBtica6A. Vuanto mais
imposs,veis, mel!or, mais #8cil ser8 aceit80las. Ou, o 3ue d8 no mesmo, 3uanto mais
prov8vel #or o #uturo descrito, menos dever8 atrair a aten*+o do leitor.
Dsse B o estado #ormal do gênero FB poss,vel vender um t,tulo n+o0religioso 3ue
estampe no t,tulo algo como 5narrativa so)re o #uturo6 e a impossi)ilidade do narrado
deve ser vista como #ator de aceita*+o e n+o de re.ei*+o da tramaF 3uando aparece a
primeira o)ra importante de literatura #utur,stica 3ue, para Krousson @Krousson, 1:N:, p.
1N<A, marca a passagem da 5utopia para a ucronia6, ou se.a, a passagem de 5outro lugar6
para 5o #uturo61 5O ano 2<<G6, de Rouis0"B)astien Iercier, de 1NN1.
Iercier era escritor 3uase compulsivo, com pelo menos uma centena de o)ras a
seu crBdito. Eensador progressista, #oi deputado dos Dstado Gerais de Ru,s 1M e teve
participa*+o na eclos+o da 'evolu*+o >rancesa. $li8s, depois diria, em um pre#8cio a uma
das mQltiplas edi*/es do livro, 3ue 5previu6 a 'evolu*+o. $ )ase para essa retropredi*+o
inteiramente ad hoc B 3ue, em 52<<G6, a#irma o livro 3ue a (astil!a de !8 muito !avia
sido demolida. O su)t,tulo da o)ra 57n rêve, sZil en #at .amais6 @5um son!o, se B 3ue
tanto6A dei%a claro como o autor c!egou a 5con!ecer6 o #uturo. &epois de uma tarde de
discuss+o com um cidad+o inglês so)re as vantagens do sistema parlamentar da Gr+0
(retan!a, o narrador se retira e tem o tal son!o de uma >ran*a um pouco di#erente da3uela
de seu tempo1 a monar3uia persiste, mas B constitucional, as ruas s+o mais largas e claras
C noite e os impostos s+o volunt8rios. Dle acorda e pergunta1 5teria sido mesmo apenas um
son!oH6. O recurso ao son!o viria a ser usado muitas ve-es no #uturo. Dntre os
)ene#ici8rios dessa ideia est+o dois livros centrais para a tradi*+o antiut4pica recente1
5&a3ui a cem anos6, de (ellamy e 5Vuando o adormecido despertar6, de Wells. Dm
am)os, o narrador entra em letargia para acordar, respectivamente, cem e du-entos anos
depois do coc!ilo #at,dico.
"egundo Krousson, essa mano)ra de Iercier #e- com 3ue a literatura ut4pica
desse uma guinada. Eassou de especula*+o mais ou menos gratuita so)re as possi)ilidades
<<
de organi-a*+o social para uma #erramenta de especula*+o met4dica do #uturo e das
tendências 3ue, no presente, prenunciam tais ou tais desenvolvimentos #uturos. Ias, como
Iercier tomou o cuidado de #alar em son!o, livrou0se de mesclar especula*+o so)re o
#uturo com pro#ecia. $ssim, depois de 5O ano 2<<G6, passa a e%istir )em esta)elecida uma
#erramenta de especula*+o so)re o #uturo, #erramenta essa 3ue nada tem a ver com
pro#ecia e 3ue, portanto, n+o pode ser medida por seus eventuais acertos ou erros. Outro
ponto revolucion8rio de Iercier B ter #i%ado claramente uma data no t,tulo da o)ra, coisa
3ue s4 viria a ser repetida num te%to importante muitos anos depois, com Orwell.
Ias a palavra 5son!o6 no su)t,tulo coloca um pro)lema de plausi)ilidade. O 3ue
se 3uer B dissertar so)re o #uturo como se este #osse presente, sem a ideia de 3ue o acesso
a ele #oi atravBs de son!o, e%periência totalmente individual e in.usti#ic8vel @a menos 3ue
se a#irme 3ue o tal son!o ocorreu a um m8gico, pro#eta etc.A. $ di#iculdade, portanto, B1
3uer0se #alar do #uturo de #orma plaus,vel @e, assim, n+o se deve tomar son!os como ponto
de partidaA e 3uer0se evitar todo discurso so)re a plausi)ilidade do 3ue B tratado, como o
#e- Iadden. $#inal, tal discurso tem evidente e#eito perverso1 se a narra*+o B tal 3ue
necessita de declara*+o de inten*/es, de argumentos 3ue garantam sua plausi)ilidade,
ent+o B dado do pro)lema 3ue a tal narra*+o n+o B plaus,vel. O Qnico .eito de torn80la,
portanto, veross,mil, B dei%ar de lado todo discurso so)re verossimil!an*a.
Dssa B a tentativa de 5Os p4stumos6, de 'esti# de la (retonne, de 1;G1. 'esti# B
mais lem)rado !o.e, ao lado de "ade, por algumas novelas de conteQdo er4tico. 5Os
p4stumos6 tra- muitas inova*/es morais no campo se%ual, como a poligamia @$lXon,
1:;N, cap. MA. Koda a trama gira em torno das mem4rias do du3ue de Iultipliandre, 3ue,
durante os mil!ares de anos de sua vida, tem di#erentes e%periências o)tidas por sua
in#inita capacidade de encarnar em outros seres !umanos. $ Qnica data precisa no
romance B ::.N:M, em)ora a e%periência de Iultipliandre se estenda para muito alBm
disso. Ias 'esti# encontra o pro)lema adicional1 como usar os tempos ver)aisH "e a
narra*+o se situa no #uturo e o narrador 3ue se reporta ao leitor, no presente, ent+o todos
<?
os ver)os têm de estar no #uturo @algo ser# assimA. Ias, se n+o se tem certe-a a)soluta
so)re o conteQdo da narra*+o, os ver)os têm de estar no condicional @algo seria assimA.
Ias, ainda, se o 3ue importa B o conteQdo do narrado no #uturo, os ver)os deveriam estar
no presente pois, para o narrador no #uturo, o nosso #uturo B o seu presente @algo é assimA.
Dle n+o consegue se decidir e, ao longo de e%tensos 3uatro volumes de pouca a*+o
@segundo $lXon e VersinsA, #ormula #rases como 5algo ser# @éA assim6, usando mesmo
ver)os entre parênteses.
Dsse B, #inalmente, o estado da literatura #utur,stica 3uando aparece, em 1;9<, a
introdu*+o a 5O romance do aman!+6, de >eli% (odin. 5O romance6 B o)ra inaca)ada e
vale mais por seu pre#8cio, onde se locali-a a primeira poBtica da literatura #utur,stica.
50o futuro! poderão ser encontradas as revelaç)es de pessoas so transe hipn:tico!
corridas aéreas! viagens ao fundo dos mares Bda mesma forma $ue se encontram na
poesia do passado as siilas! hipogrifos e ninfas' Mas o maravilhoso do futuro é
inteiramente diferente dessas outras maravilhas poéticas pois é inteiramente acredit#vel!
inteiramente natural! inteiramente poss;vel e! assim! poder# atingir a imaginação mais
vivamente e arreat#,la através do realismo' Ceremos assim descoerto um novo mundo!
um amiente fant#stico $ue! apesar disso! não carece de verossimilitude6 @apud $lXon,
1:;N, p. 2?A.
&epois de (odin, o terreno est8 pronto para a literatura #utur,stica1 ela n+o mais
precisa ser verossimil!ante @IaddenA, n+o precisa recorrer ao son!o @IercierA, n+o
precisa .usti#icar sua estrutura #ormal @'esti#A. Dla pode ser e%atamente o 3ue con!ecemos
!o.e, essa cole*+o de conven*/es 3ue aceitamos tran3Uilamente 3uando lemos uma novela
de E!ilip &icX ou de H. G. Wells.
bbb
Dssa evolu*+o da #orma liter8ria nos d8 conta de por 3ue motivo n+o teria !avido
@ou !ouve t+o pouca 3ue n+o c!egamos a notarA literatura #utur,stica no in,cio do sBculo
1:. $ cr,tica especiali-ada @e os escritoresA tendem a locali-ar a mudan*a de percep*+o
<M
so)re o #uturo @o #uturo como algo dinJmico, n+o determinado por es3uemas c4smicos,
livre da ideia de u,-o >inalA com a 'evolu*+o Wndustrial. Eor mera comodidade, marca0se
essa data com a primeira patente dada a uma m83uina a vapor, em 1NM:. Eor 3uê, dada
essa nova percep*+o, dado o desenvolvimento posterior da indQstria a partir dessa nova
#onte geradora de energia, n+o apareceu ao mesmo tempo uma literatura #utur,sticaH Eor
3ue tiveram de se passar 19G anos entre ames Watt e H. G. WellsH 5Codos os tipos de
literatura estão imersos em uma dinâmica complexa e semi,autDnoma pr:pria Ba
hist:ria das formasB $ue tem sua pr:pria l:gica e cu"a relação com o conte5do per se é
necessariamente mediada! complexa e indireta @e toma caminhos estruturais muito
diferentes em diferentes momentos do desenvolvimento formal e socialA6 @ameson, 1:;2,
p. 1<;0:A. Ou se.a, n+o se deve adotar uma correla*+o muito r,gida entre meio social ou
desenvolvimento tecnol4gico e e%press+o #iccional desse meio. ameson a#irma, na
se3Uência, 3ue, no caso da literatura mais ela)orada, tal media*+o, entre #orma e
conteQdo, B mais clara 3ue na literatura popular, C 3ual se atri)ui #alsamente uma
capacidade maior de e%pressar diretamente novos conteQdos, 5saltando6 o est8gio da
cria*+o da #orma ade3uada @p. 1<:A. $ primeira metade do sBculo 1: .8 assistia n+o apenas
C evolu*+o, mas aos primeiros e#eitos perversos da 'evolu*+o Wndustrial, mas era
necess8ria ainda muita e%perimenta*+o e tentativas @e errosA para preparar o pQ)lico para
algo como 5$ m83uina do tempo6. >ora de Bpoca, apresentada, se isso #osse poss,vel, cem
anos antes, ela n+o passaria de uma novela implaus,vel, con#usa, inveross,mil,
e%cessivamente calcada em con!ecimento cient,#ico duvidoso, com uma concep*+o muito
estran!a de e%trapola*+o cient,#ica etc.
&essa #orma, a primeira metade do sBculo 1: apresenta algumas novelas
#utur,sticas, mas #alta a elas tanto coerência narrativa como impacto so)re o pQ)lico leitor1
5A transformação da utopia em ucronia não é o padrão dominante da primeira literatura
futur;stica''' 0a primeira metade do século EF! existe uma proliferação de hist:rias $ue
parecem ter pouco em comum além de seu recurso ao futuro' G tentador tentar encontrar
<N
ordem nisso notando $ue! conforme a ideia de progresso se tornava um mito aceit#vel
para a civili.ação moderna! seus devotos mais fre$<entemente escreviam hist:rias do
futuro a fim de defender sua fé e portanto levavam os céticos a adotarem o mesmo
método para expressar d5vida' Mas esse paradigma! emora relevante! se aplica mais
largamente s: no fim do século EF6 @$lXon, 1:;Na, p. 1:2A.
P na segunda metade do sBculo 1: 3ue vamos encontrar o desenvolvimento da
literatura #utur,stica, da utopia e da antiutopia tecnol4gica. 'esolvidas as 3uest/es
#ormais, a literatura est8 pronta para re#letir o conteQdo 3ue l!e possa sugerir o
desenvolvimento cient,#ico e tecnol4gico da Bpoca e o impacto deste so)re o cotidiano.
2. c-56389es h3s0?r3cas </a56- 6e se/ s/r=31e50-
$ aplica*+o cada ve- mais disseminada da m83uina a vapor #oi mudando o
panorama da cidade, as rela*/es de tra)al!o, o tipo e 3ualidade dos utens,lios domBsticos.
Som so)ra de energia, era poss,vel produ-ir mais e progressivamente mais )arato.
Sonse3Uentemente, diminu,a o tempo necess8rio entre o desenvolvimento de uma ideia,
sua produ*+o e sua #orma #inal como produto de consumo. Dssa dinJmica apro%imou a
ciência e a tecnologia do pQ)lico. "e um !omem dormisse em 1° de .aneiro de 1MGG e
acordasse ?G anos depois, pouca di#eren*a notaria em seu entorno. Dm uma casa comum,
tudo continuaria mais ou menos igual. Ias, se a mesma e%periência #osse repetida entre
1;GG e 1;?G, as di#eren*as seriam marcantes. Vuanto mais nos apro%imarmos do presente,
menor o tempo necess8rio para 3ue o am)iente se torne totalmente di#erente devido a uma
inova*+o tecnol4gica. (asta pensar nos microcomputadores, de m83uinas reservadas
apenas a cientistas de- anos atr8s a m83uinas presentes em salas de aula de cursos de
al#a)eti-a*+o, !o.e. Wells via isso com muita clare-a em sua distopia 57ma !ist4ria dos
tempos #uturos61 5O mundo''' mudou mais entre EHII e EFII do $ue nos JII anos
anteriores' O século EF marcou o alvorecer de uma nova era para a humanidade! a era
<;
das grandes cidades ! a era do fim da ordem crepresentadad pela vida no campo'6 @HK>,
cap. 2A.
Ias B mais para o #im do sBculo 3ue o impacto social da tecnologia se acentua. D
um #ator importante nisso B o advento da eletricidade.
$tB 3ue as primeiras m83uinas a vapor #ossem usadas para )om)ear 8gua em #ins
do sBculo 1N e in,cio do seguinte, toda a #or*a de 3ue o !omem podia dispor tin!a origem
!,drica ou animal. Eara, por e%emplo, moer gr+os, ou se usavam )estas ou uma pedra
acoplada a uma roda d\8gua. $ m83uina a vapor mudou radicalmente esse cen8rio, n+o s4
em termos de e#iciência, mas em termos do imagin8rio da tecnologia.
Vuanto ao imagin8rio, podemos encontrar a pista em (utler e no de)ate #ict,cio
3ue ele monta entre os s8)ios pr40m83uinas e os s8)ios antim83uinas1 as m83uinas a
vapor lem)ram v8rios tra*os animais. O principal deles B 3ue, uma ve- alimentadas,
tra)al!am so-in!as, e%ecutando sBries de tare#as ra-oavelmente comple%as. =+o 3ue isso
n+o acontecesse com as m83uinas de tra*+o !,drica. Ias estas vin!am acompan!ando a
!umanidade !avia mil!ares de anos, o 3ue l!es emprestava #amiliaridade, um lugar )em
de#inido na cultura, tornando0as parte da paisagem 3uase ao ponto de se dei%ar de lado
3ue elas s+o t+o m83uinas, t+o arti#iciais e t+o cria*/es !umanas como o B a m83uina a
vapor. Dstas, mais recentes, espantavam por sua capacidade de agirem so-in!as,
5alimentando0se6 de carv+o, e%pelindo g8s e e%ecutando tra)al!o, 3uase como uma )esta
o #aria. =+o B C toa, como nota Ia-lic! @1::9A, 3ue o matem8tico S!arles (a))age
proceder8, no in,cio do sBculo 1: a uma ta%ionomia das m83uinas, nos mesmos moldes da
ta%ionomia vegetal ou animal.
$ m83uina a vapor apresenta detal!es novos1 ela B comple%a, precisa ser
constru,da, montada e rece)er manuten*+o de um tBcnico mais especiali-ado. $ m83uina a
vapor pode ser comprada por um pe3ueno #a-endeiro, dessa #orma tornando0se parte de
seu patrimTnio. Ias n+o patrimTnio ao ponto de ele sa)er e%atamente como oper80la em
situa*/es #ora do #uncionamento normal. Som ela, est8 inaugurada a Bpoca em 3ue se
<:
pode ter uma coisa, mas n+o domin80la. P nesse sentido 3ue Rosano @1::2, pp. NG0N1A
a#irma 3ue 5a mecânica renascentista representou o auge de uma mecânica humana6. O
autor se re#ere C constru*+o de autTmatos 3ue mimeti-am movimentos de animais ou de
seres !umanos, autTmatos estes )aseados unicamente em mecanismos de rel4gio, ou se.a,
em a*/es coordenadas de engrenagens e de alavancas, tudo movido ou diretamente, no
ato, pelo operador, ou por uma mola 3ue arma-ena @novamente de #orma simples, pela
compress+o de uma #ita de metalA a energia emprestada pelo operador ao mecanismo.
Som a eletricidade, tudo o 3ue B verdade para a m83uina a vapor se intensi#ica1 as
m83uinas se tornam mais compactas e comple%as, inintelig,veis de ve- para seus usu8rios.
D, segundo Rewis Ium#ord, n+o era necess8rio 3ue #osse assim. $#inal, tais m83uinas
têm vantagens evidentes so)re a m83uina a vapor. Erimeiro, n+o precisam #icar pr4%imas
C #onte de energia, pois a eletricidade pode ser transmitida para lugares distantes, o 3ue
#avorece a pulveri-a*+o da indQstria, evitando as grandes aglomera*/es #a)ris. $lBm
disso, sendo m83uinas mais compactas, s+o economicamente mais acess,veis e, assim,
deveriam #avorecer ao pe3ueno industrial, 3ue n+o teria capital para ad3uirir uma grande
m83uina a vapor, mas 3ue poderia comprar um motor elBtrico para mover um neg4cio em
pe3uena escala. P .ustamente isso o 3ue nota (eltran @1::1, p. 11GA, para 3uem as
m83uinas elBtricas permitiriam 3ue o pe3ueno artes+o se mantivesse competitivo.
"e essa revolu*+o )enB#ica da eletricidade n+o aconteceu Fou aconteceu s4 em
pe3uena escala, sendo arrasada pela crescente aglomera*+o de #8)ricas, pela crescente
perda de competitividade por parte dos empreendedores pe3uenosF, isso se deve,
segundo a terminologia de Ium#ord, a 3ue a neotBcnica @a era da eletricidade e dos novos
materiaisA B ainda regida por uma ideologia paleotBcnica, pela ideia de 3ue a ri3ue-a se d8
)asicamente pela preda*+o de recursos naturais. Ou se.a, com a eletricidade, estariam
dadas todas as condi*/es tBcnicas para uma esta)ili-a*+o do padr+o de vida de toda a
!umanidade em uma patamar sem precedentes. D isso n+o teria acontecido por motivos
puramente ideol4gicos, o 3ue nos dei%a encalacrados no 3ue ele denomina 5mesotBcnica61
?G
5O desenvolvimento neotécnico da m#$uina! sem um desenvolvimento coordenado de
prop:sitos sociais mais elevados! apenas ampliou as possiilidades da depravação e da
ar#rie6 @1:9<, p. 2M?A.
O desenvolvimento da eletricidade tirou do cen8rio das #8)ricas as vel!as
m83uinas a vapor. &epois 3ue 3uase cem anos de uso Fa eletri#ica*+o industrial B um
#enTmeno 3ue come*a a se acentuar na dBcada de 1;;GF a m83uina a vapor .8 !avia
gan!o alguma #amiliaridade. "eus princ,pios continuavam descon!ecidos, seu
#uncionamento #ino, a regula*+o de seu movimento, permaneciam assuntos tBcnicos
especiali-ados. Ias, pelo menos, as m83uinas tin!am uma caldeira 3ue produ-ia vapor,
este movia um pist+o 3ue #a-ia uma roda se movimentar e esse movimento prim8rio era
transmitido pela #8)rica atravBs de sBries de correias desco)ertas. Som o motor elBtrico, as
m83uinas s+o co)ertas, para garantir maior seguran*a para o mecanismo e para 3uem
estiver ao lado dele @Handlin, 1:M?, p. 2?NA. Somo as m83uinas s+o menores e podem
#icar pr4%imas do ponto onde ser+o usadas, eliminam0se as longas correias cru-ando os
galp/es das #8)ricas @Ium#ord, 1:9<, p. 22<A.
D essas #8)ricas se tornam cada ve- mais produtivas, especialmente pela entrada
em cena do cientista. &ata de in,cio do sBculo 1: a pro#issionali-a*+o @universit8riaA da
carreira de pes3uisador, sendo ent+o criados mecanismos para carreira, de#ini*+o de
tra)al!os de pes3uisa visando ao aper#ei*oamento pro#issional etc. Ias B s4 mais para o
#im do sBculo, notadamente na indQstria 3u,mica @"now, 1:?:, p. <GA, 3ue o cientista
passa a ser usado na indQstria. "+o ent+o criados os primeiros departamentos de pes3uisa e
desenvolvimento, com resultados e%celentes. &a indQstria 3u,mica a outras 8reas, #oi um
passo r8pido.
$ produ*+o 3ue sa,a dessas #8)ricas alterava a vida cotidiana de #orma sens,vel.
=+o era s4 dentro da #8)rica 3ue o oper8rio sentia as coisas mudando. Vuando ia ao
escrit4rio da compan!ia, podia notar o 3ue (uc!anan @1::2, p. 1N?A c!amou de
5revolu*+o no escrit4rio61 os registros n+o eram mais #eitos C m+o, mas com m83uinas de
?1
escrever, os contatos n+o precisavam ser necessariamente pessoais, pois !avia o tele#one
e, igualmente revolucion8rio, tudo isso operado predominantemente por mul!eres.
"e o avan*o tBcnico era patente, tam)Bm o era a crescente inseguran*a para as
classes 3ue viviam sempre no limiar da mais a)soluta misBria @n+o nos es3ue*amos de 3ue
n+o !avia 3uais3uer )ene#,cios sociais para desempregados, em #ins do sBculo 1:O a perda
do emprego signi#icava mendicJncia compuls4ria imediataA. $s #8)ricas se tornam cada
ve- maiores, as pro#iss/es, cada ve- mais especiali-adas, as m83uinas, cada ve- mais
inintelig,veis. $lBm disso, a organi-a*+o da #8)rica o)rigava a uma organi-a*+o especular
do tra)al!ador. $ partir de 1;?G @(uc!anan, 1::2, p. 1G2A, come*am a aparecer os
estudos de 5gerenciamento cient,#ico6 3ue atingiriam seu auge com os 5estudos de tempo
e de movimento6, de Kaylor, em 1:GM. Handlin @1:M?A o)serva 3ue, nas #8)ricas, reuniam0
se oper8rios em um nQmero tal 3ue, em outras Bpocas, s4 se o)servou em 5ocasi)es de
servidão! em campanhas militares! tripulaç)es mar;timas! asilos e c#rceres6, en#im, em
situa*/es de completa disciplina e conse3Uente #alta de li)erdade. "em nem se3uer entrar
no mBrito de se se deve ou n+o e3uacionar a disciplina #a)ril com a carcer8ria, se a
organi-a*+o dos oper8rios em uma #8)rica lem)ra ou n+o a organi-a*+o de um )atal!+o
militar @lem)remo0nos apenas 3ue (ellamy se re#ere aos tra)al!adores como 5exército
industrial6A, o #ato B 3ue tais aglomera*/es s+o mais um #ator a gerar inseguran*a.
Dn#im, o tra)al!ador participa de um processo cada ve- menos compreens,vel.
=+o l!e B dado tempo de aclimata*+o, as inven*/es @e sua aplica*+oA se sucedem
vertiginosamente como nunca antes na !ist4ria da !umanidade, a organi-a*+o das
m83uinas B seguida da organi-a*+o da #8)rica 3ue se estende C organi-a*+o das pr4prias
cidades, com a cria*+o de grandes )airros oper8rios pro.etados para manter mil!ares no
limiar da misBria. D n+o !8 escol!a1 ou B isso ou B morrer de #ome no campo ou nas ruas
das cidades.
Wells registra essa inconsciência entre os mem)ros das classes mais )ai%as
3uanto ao momento por 3ue passavam 3uando, em sua auto)iogra#ia, re#ere0se a sua m+e1
?2
5Kastas e insuspeitadas forças além de sua compreensão iam sistematicamente
destruindo a ordem social! o transporte a cavalo e por navio a vela! a ordem social dos
pe$uenos meeiros e artesãos! & $ual todas as suas crenças estavam apegadas e sore as
$uais se aseava toda sua confiança' 9ara ela! essas grandes alteraç)es na vida humana
se apresentavam com uma série de perplexidades frustrantes e desgraças não,merecidas!
$ue não podiam ser atriu;das a ninguém! salvo a meu pai6 @citado em Gunn, 1:N?, p.
:GA.
"e essas pessoas s+o al#a)eti-adas, o 3ue v+o 3uerer lerH (em, primeiro B preciso
sa)er se elas poder+o ler alguma coisa. Rivros s+o caros e de conteQdo voltado para as
classes mais acostumadas com a cultura. P nesse ponto 3ue aparecem uma sBrie de
mudan*as de perspectiva no 3ue di- respeito C #a)rica*+o de livros.
&ata do Qltimo 3uarto do sBculo 1: a e%plos+o de al#a)eti-a*+o e de papel )arato,
3ue levou literatura Cs massas, criou o 5escritor0.ornalista6 @na e%press+o de 'es-ler,
1:;?A e 3ue teve como conse3Uência importante o lan*amento da >S. Vuanto C
al#a)eti-a*+o, os nQmeros dos D7$ s+o e%pressivos1 ?GG escolas secund8rias em 1;NG e M
mil, 9G anos depois. =a dBcada de 1;:G, em 91 Dstados norte0americanos, a matr,cula no
ciclo )8sico de ensino era o)rigat4ria @Gunn, 1:N?, p. ;GA. =a Duropa, o 3uadro seguiu
essa mesma tendência.
Iais gente al#a)eti-ada, grandes aglomera*/es !umanas nas cidades industriais e
o aumento do dia Qtil @com a dissemina*+o da eletricidade domBsticaA criaram uma
demanda por literatura de #8cil digest+o. =+o 3ue esta n+o e%istisse, em todos os gêneros
imagin8veis. Ias, em todo caso, o pre*o do papel #eito com )ase de #i)ras de algod+o,
mantin!a o pre*o de 3ual3uer material impresso #ora do alcance do oper8rio. $lBm disso,
o mBtodo de prensagem de #4lios um a um e a con#ec*+o de matri-es de impress+o por
meios 3uase artesanais impediam 3ue os pre*os )ai%assem.
7ma sBrie de avan*os tBcnicos mudou tal 3uadro. Eor ordem, temos1 a inven*+o
das prensas rotativas, em 1;<M, do linotipo e do papel de polpa de celulose, em 1;;< e,
?9
por #im, da impress+o de imagens em meio tom, em 1;;M. Dm termos de pre*o do produto
#inal, o 3ue mais pesou #oi o novo tipo de papel1 um 3uilo de papel custava <G cents, em
1;M?, pre*o 3ue caiu para G,? cent, em 1;:G @"mit!, 1:;M, p. ?G ##.A. Som o papel 3uase
1GG ve-es mais )arato e com mBtodos de impress+o mais e#icientes, as casas editoras
puderam atender C demanda criada pela al#a)eti-a*+o e pelo aumento do per,odo do dia
com lu- dispon,vel. >oi a Bpoca das revistas de massa. &atam desse per,odo as 5dime
novels6, #ol!etos de 92 p8ginas vendidos por ? cents @D7$A ou por 1 %elim @WnglaterraA, e
revistas como Eall Iall Ga-ette, K!e "trand Iaga-ine, s4 para citar duas 3ue a)rigaram
os primeiros contos de Wells.
Somo uma sBrie de aspirantes a escritor na Bpoca, Wells .8 tin!a um pro.eto para
preenc!er essas revistas e%atamente com o 3ue essa massa recBm0letrada 3ueria1 5A
literatura antiga era aristocr#tica! e esta época é apenas o alvorecer da democracia' A
literatura antiga é cheia de significados sutis! de citaç)es escondidas! de alus)es
fugidiasL ela tem um saor cl#ssico! como o odor de lavanda' A democracia não ter#
nenhum de seus cl#ssicos! ela odeia alus)es e citaç)es! ela pre.a o escritor Mclaro e
sens;velM' (la é suspica. de ser motivo de galhofa' A literatura antiga tinha uma vo.
macia e um "eito insinuante e gentil! a nova ser# uma coisa de livros vociferantes!
manchetes estridentes e gram#tica descuidada6 @de 5$ literatura do #uturo6, pu)licado na
Eall Iall Ga-ette, em 1;:9, coligido por "mit!, 1:;MA.
Rivros voci#erantes, manc!etes estridentes e gram8tica descuidada s+o sem dQvida
três pilares da literatura de entretenimento 3ue nos acompan!a atB !o.e. >eli-mente, Wells
sou)e escapar dos três, criando livros de conteQdo #orte e atual sem ser sensacionalistas e
cuidando de seu inglês a ponto de merecer os elogios de osep! Sonrad e de Henry ames.
D 3ual a rea*+o das classes mais a)astadas a toda essa revolu*+oH Havia, tam)Bm
entre eles, uma pro#unda incompreens+o acerca de o 3ue vin!a acontecendo. Koyn)ee
lem)ra0se de, em 1;:N, perce)er nos ingleses um sentimento de 3ue “a hist:ria "# havia
terminado” @Koyn)ee, 1:<;, p. 2;A1 as m83uinas controlavam as #8)ricas, os oper8rios
?<
permaneciam po)res, mas mais ou menos disciplinados, aparentemente #eli-es em seus
lugares. Dntre as elites inglesas, poucos se dedicavam Cs ciências naturais, ocupa*+o
considerada mais )ai%a e, assim, n+o podiam #a-er um pro.eto de mBdio pra-o de
educa*+o para a revolu*+o tecnol4gica em curso nem para si pr4prios, muito menos para
seus empregados.
P esse sentimento de 5#im da !ist4ria6 3ue Hans Koning @1:;1A nota 3uando
comenta a 11a. edi*+o da DnciclopBdia (ritJnica, de 1:1G. O te%to descrevia um mundo
3ue .8 !avia atingido o apogeu tBcnico e, para 3ue #osse per#eito, )astaria mel!orar
geneticamente a !umanidade, diminuir o nacionalismo e integrar o planeta. Kodas essas
seriam 3uest/es puramente racionais, ou se.a, pro)lemas 3ue 3ual3uer pessoa, desde 3ue
racional, emprestaria a mesma conclus+o. Orwell @1:<1A nota esse mesmo sentimento na
classe dominante. 'e#erindo0se a Wells, a#irma 3ue este 5era alguém $ue saia $ue o
futuro não ia ser o $ue a$uelas pessoas >a elite inglesa? pensavam6.
$ incapacidade de pensar em o 3ue estava de #ato em curso pode ser resumida em
um relat4rio da (ritis! 'oyal Sommission, de 1:G; @citado em (uc!anan, 1::2, p. 2<N0
;A1 depois de muita discuss+o, concluiu0se 3ue o maior pro)lema tra-ido pelos autom4veis
@as estradas inglesas !aviam sido li)eradas para autom4veis em 1;:MA era a poeira 3ue
estes poderiam levantar ao se moverem por estradas n+o as#altadas. @&iante disso, como
avaliar nossa pr4pria capacidade de predi*+o de 3ual3uer coisaHA
bbb
P para pessoas imersas nessa revolu*+o tBcnica e nesse estado de Jnimo #rente a
essa mesma revolu*+o 3ue Wells escreve seus primeiros romances cient,#icos, articulando
em #orma de #ic*+o o pensamento !u%leyano de 3ue a cultura B algo essencialmente
antagTnico C nature-a e 3ue, a menos 3ue o !omem progrida culturalmente, a nature-a
@isto B, a evolu*+oA aca)ar8 por arras80lo. K!omas Henry Hu%ley usava essa argumenta*+o
para sustentar uma suposta naturalidade do capitalismo @Iyers, 1:;:, pp. 992 ##.AO Wells,
n+o. =as primeiras novelas de Wells #ica patente 3ue a evolu*+o n+o age a #avor do
??
!omem @como pretenderia um darwinismo social mais vulgarA e 3ue nem mesmo os
cientistas mais atuantes est+o plenamente conscientes dos )ene#,cios Fe, principalmente,
dos desastresF 3ue a uni+o entre ciência e tBcnica trar+o para a !umanidade no correr do
sBculo 2G.
Eassada a etapa inicial de romances cient,#icos de cun!o mais som)rio, passado o
momento de cr,tica, Wells entra em uma #ase positiva, de militJncia em #avor de um
Dstado mundial. "uas ideias est+o reunidas principalmente em 57ma utopia moderna6, de
1:G<, na 3ual prega 3ue a !umanidade deve ser toda integrada e cadastrada e regida por
uma casta especial de servidores volunt8rios escol!idos entre os intelectual e #isicamente
mais aptos1 os samurais. Wells n+o desistiria dessas ideias atB o Qltimo ano de sua vida.
Som a )ar)8rie das duas guerras mundiais na Duropa, #icou evidente, especialmente para
Orwell, 3ue Wells tin!a uma atitude e%cessivamente racional em rela*+o C pol,tica,
supondo 3ue a ra-+o #osse algo capa- por si s4 de vencer as som)ras 3ue vagueiam na
mente dos !omens aparentemente civili-ados e 3ue toda decis+o pol,tica pudesse ser
redu-ida a alternativas suscept,veis de escol!a puramente racional. Dsse B o ponto de
partida, ali8s, para 51:;<6.
Dsta)elecido o #ato de 3ue as pessoas s+o inseguras com a vertiginosa
trans#orma*+o do cotidiano operada principalmente pela invas+o da tecnologia, de 3ue
elas sa)em e 3uerem ler, de 3ue os meios tBcnicos est+o dispon,veis e de 3ue e%iste um
pro.eto como o de Wells de 5literatura popular6, resta perguntar com o 3ue devem ser
preenc!idos os livros. $ resposta a ser dada a3ui, B claro, B1 5com #ic*+o #utur,stica6.
Ias devemos mostrar 3ue isso B mais 3ue uma constru*+o post hoc. O elemento
3ue nos #alta B a personalidade Qnica de H. G. Wells. &adas as condi*/es sociais e #ormais
@na literaturaA nos anos 1;:G, #oi a #a,sca individual desse escritor 3ue disparou um gênero
3ue moldou a #orma de o sBculo 2G ver o #uturo.
$s Qltimas dBcadas do sBculo 1: e a primeira do 2G s+o a Bpoca de Sonan &oyle,
H. 'ider Haggard e, claro, ules Verne e H. G. Wells. $ssim, para preenc!er os livros
?M
pedidos pelos recBm0c!egados ao mundo das letras, pode0se apelar para o policial, para a
aventura, para a divulga*+o cient,#ica ou para o #uturo. Wells escol!eu este Qltimo por
voca*+o e so)re isso !8 pouco o 3ue #alar. $pesar de tudo o 3ue #oi dito acima neste item
so)re a crescente interven*+o da tecnologia na cidade e, mais atr8s, so)re a evolu*+o
#ormal do discurso #utur,stico, seria e%cessivamente mecJnico concluir 3ue se n+o #osse
Wells, outro seria a escrever algo no gênero. Wells B o escritor de voca*+o #utur,stica 3ue
encontra o terreno pronto, tanto em n,vel #ormal 3uanto no 3ue respeita ao gosto popular.
$ssim, a 3uest+o n+o B tanto, por 3ue Wells enveredou pela literatura #utur,stica,
mas por 3ue essa literatura mostra um #uturo som)rio para a !umanidade. Eoderia ser
di#erenteH
Somecemos com Verne. "eu Qnico e%perimento ut4pico aconteceu com 5Os ?GG
mil!/es da )egum6, de 1;N:. =este, conta0se a !ist4ria da Sidade de >ran*a, #undada em
1;N2, a partir da !eran*a dei%ada a um #rancês por uma princesa !indu. "eus princ,pios
)8sicos eram de !igiene1 casas are.adas, #im dos tapetes e dos edredons, todas as ruas
retas, a cada 3uatro ruas, uma avenida, em todo cru-amento, um .ardim. =+o !8 !ospitais,
dando0se pre#erência ao tratamento am)ulatorial, as crian*as s+o educadas #,sica e
intelectualmente a partir de 3uatro anos, n+o !8 impostos e cada cidad+o novo, ao c!egar,
rece)e uma )roc!ura com os princ,pios cient,#icos de uma )oa vida. =o #im de contas, a
utopia de Verne #ala mais da parte de !igiene 3ue de pol,tica. O pouco 3ue se sa)e da
pol,tica B 3ue, 3uando a cidade est8 para ser atacada, sirenes c!amam as pessoas para uma
assem)leia. $ cidade B, totalmente, dos )rancos. Os amarelos s+o admitidos durante a
constru*+o, mas devem se retirar no #im dela, pois sen+o isso 5modificaria fatalmente e de
modo incDmodo o tipo e o g%nero da nova cidade6.
Earece um grande ideal, mas tam)Bm parece incrivelmente distanciado da
realidade. Somo novela .uvenil, B poss,vel supor 3ue alguBm dedi3ue uma !eran*a
astronTmica a construir uma cidade ideal e auto0su#iciente, regida pela ra-+o @)astar8
di-er aos oper8rios 5amarelos6 3ue saiam para 3ue eles e#etivamente dei%em a cidadeA,
?N
desligada do resto do mundo etc. Somo novela para adultos, acostumados ao tra)al!o nas
#8)ricas, C misBria das ruas, C #alta de assistência e, principalmente, desesperan*ados de
3ual3uer son!o ut4pico, ela soa como )o)agem pura.
&e #ato, o oper8rio inglês @o leitor 3ue Wells tem em vistaA do #im do sBculo 1: .8
n+o B mais presa de ideais ut4picos pois, a#inal, vive em uma Bpoca 3ue presenciou o
aparecimento de destrui*+o de mil!ares de pro.etos de cidades ideais, comunidades auto0
su#icientes etc. Eara ele, pensar no #uturo B pensar em Rondres, ampliada, tentando
resolver pro)lemas sBrios do presente, tentando solu*/es novas n+o atravBs da su)tra*+o
da tecnologia, mas da adi*+o de novas tBcnicas. $s comunidades ut4picas est+o
es3uecidas, as utopias arc8dicas & la William Iorris, encontram pouca ressonJncia. O
passado .8 mostrou C e%aust+o 3ue o avan*o cient,#ico B inevit8vel, 3ue 5o homem est#
irremediavelmente comprometido com as m#$uinas6 @(utlerA e 3ue, no )alan*o geral, o
3ue elas trou%eram de mais vis,vel #oi a devasta*+o da ordem social, a inseguran*a, a
promiscuidade e a aglomera*+o. Wsso B o 3ue est8 C #rente e B essa vis+o do #uturo 3ue
deve #igurar em o)ras 3ue pretendam #incar um pB ao menos na realidade. "empre 3ue se
remete a William Iorris, Wells o #a- com despre-o @n+o pessoal, mas por sua concep*+o
de utopia arc8dica, antitecnol4gicaA. Eor e%emplo, em 5Vuando o adormecido despertar6,
Wells interrompe a #ic*+o, no cap,tulo 1<, apenas para di-er 3ue 5Morris errou $uanto ao
futuro6. Dm 5Kono (ungay6, di- 3ue 5Morris usava o socialismo apenas como pano de
fundo estético6. Dm 57ma lJmina no microsc4pio6, conto da antologia 5$ il!a do
$epyornis6, a#irma 3ue 5M0ovas de parte algumaM é um livro fr;volo6.
$lBm disso, um #ator importante no discurso da Bpoca Fe n+o s4 nos meios
educadosF B a evolu*+o e o tempo pro#undo. P no #im do sBculo 3ue se d+o os de)ates
mais acirrados acerca do status da teoria da evolu*+o das espBcies. &arwin tin!a uma
vis+o otimista com respeito C evolu*+o !umana, mas o evolucionismo 3ue passou para
Wells #oi atravBs de Hu%ley. Vuanto ao tempo pro#undo, a ideia dominante B de 3ue a
!ist4ria da civili-a*+o B apenas um #ragmento irris4rio da !ist4ria do universo e,
?;
re#or*ando o evolucionismo, n+o !8 nen!um motivo para supor uma prima-ia do !omem
na nature-a.
bbb
Dm resumo, temos, em #ins do sBculo 1:1
&o ponto de vista tBcnico, uma evolu*+o sem precedentes na indQstria, cu.as
principais conse3Uências s+o1 aglomera*+o de grandes massas 3ue vivem inseguras no
limiar da misBria, organi-a*+o das m83uinas, das #8)ricas e dos )airros. $lBm disso, a
introdu*+o da eletricidade torna as m83uinas ainda menos compreens,veis para o
tra)al!ador, 5cai%as pretas6 3ue ele deve venerar e cuidar, sem .amais compreendê0las
@esse B o esp,rito de um conto de Wells, 5O sen!or dos d,namos6, in 5$ il!a do
$epyornis6, de 1;:M, no 3ual um servente asi8tico toma como &eus um d,namo e a seus
pBs sacri#ica primeiro seu c!e#e tirJnico e, depois, a si mesmoA.
Dsse tra)al!ador B agora al#a)eti-ado e tem lu- elBtrica em casa, o 3ue o
trans#orma em consumidor de literatura de entretenimento. $lBm disso, inova*/es tBcnicas
importantes na indQstria editorial )arateiam os livros, tornando0os acess,veis para ele.
Eara #alar com esse tra)al!ador, devem ser escritas !ist4rias diretas e #luentes
so)re temas e inseguran*as 3ue ele con!ece. $ #orma dessas !ist4rias deve ser a de
5livros vociferantes! manchetes estridentes e gram#tica descuidada6. 7ma possi)ilidade
a)erta para o escritor, dadas as inova*/es #ormais 3ue vêm se processando nos Qltimos
cem anos, desde a pu)lica*+o de 5O ano 2<<G6, B a narra*+o #utur,stica.
D B nesse enclave 3ue aparece a #igura ,mpar de Her)ert George Wells, #il!o da
classe mBdia )ai%a, educado no meio cient,#ico Flonge das elites inglesas, 3ue veem a
ciência natural com pouco apre*oF, com um senso de oportunidade e um pro.eto de
literatura enga.ada per#eitos para a Bpoca. Dle veio e #icou. "ua maneira de descrever o
#uturo era t+o intensa 3ue deu #orma a toda a literatura #utur,stica do sBculo seguinte. P
tam)Bm com Wells 3ue nasce o pro.eto de literatura como sociologia1 5>a sociologia? não
pode ser nem arte simplesmente! nem em asoluto ci%ncia no sentido mais estrito da
?:
palavra! mas sim conhecimento apresentado imaginativamente e com um elemento de
personalidadeL ou se"a! no sentido mais elevado do termo! literatura6 @no artigo 5$ assim
c!amada ciência da sociologia6, de 1:GMA.
bbb
Dsse 3uadro #ec!a o cen8rio para o aparecimento do gênero 5antiutopia #utur,stica
tecnol4gica6. Ias B evidente 3ue muita coisa mudou, pelo menos do ponto de vista mais
super#icial, dos gadgets 3ue nos cercam, nestes Qltimos 1GG anos. 'esta, portanto, #alar
alguma coisa so)re a permanência do gênero antiut4pico.
Dm primeiro lugar, #risemos 3ue o gênero #oi se adaptando Cs contingências de
Bpoca. "e ele deve ser uma literatura de “manchetes estridentes6, e se tais manc!etes
mudam, o gênero deve mudar tam)Bm. $ssim, em Wells e em Zamyatin, encontramos o
pesadelo do Dstado opressor 3ue e3uali-a todos pelo tra)al!o. Dm Orwell e, mais
especi#icamente, em Vonnegut, .8 nem todos tra)al!am, ou, pelo menos, n+o contri)uem
com o mesmo tempo para a produ*+o do Dstado. $s utopias n+o0sociais n+o se preocupam
com o tra)al!o, dei%ando tudo para m83uinas auto0reguladas. =estas Qltimas, todos os
!omens vivem em um del,rio controlado indu-ido por drogas. Slaro, todas estas Qltimas
#oram escritas nos anos da contracultura e devem ter aproveitado o clima mais #le%,vel
com rela*+o a drogas para se colocarem como livros consum,veis pela classe mBdia. &a
mesma #orma, 5Iundos #ec!ados6, a antiutopia se%ual de 'o)ert "ilver)erg, com seus
apartamentos sem #ec!aduras e trocas di8rias de parceiros, apareceu em 1:N2.
Kais mudan*as s+o di#,ceis de detectar 3uantitativamente, como B poss,vel de se
#a-er com a literatura de !olocausto nuclear. (rians @1:;NA mostra 3ue, antes de 1:<?,
praticamente n+o !ouve novelas de !olocausto nuclear e 3ue a situa*+o mudou
radicalmente com as duas )om)as .ogadas no ap+o. &epois disso, o gênero #oi pouco a
pouco perdendo escritores interessados, mas, su)itamente, reacendeu em 1:N:, o ano do
acidente com a central nuclear norte0americana de K!ree Iile Wsland.
MG
$s antiutopias discutem menos os gadgets e mais as tendências mais pro#undas
das sociedades 3ue servem de 3uadro para a narra*+o. Eouco importa a Orwell 3ual o
material de 3ue B #eito o macac+o 3ue Winston "mit! veste, importa o 3ue tal uni#orme
indica em termos !ier8r3uicos. $ssim, B di#,cil notar mudan*as de dire*+o nos temas a
partir de pontos no tempo nos 3uais s+o introdu-idos novos e3uipamentos na vida
cotidiana. Eor e%emplo1 desde a populari-a*+o dos computadores pessoais e do acesso
#8cil a redes de comunica*+o de dados internacionais, surgiu um su)gênero novo da >S, o
5cy)erpunX6. Ias, atB o momento, o cy)erpunX n+o produ-iu uma distopia clara.
Eor de#ini*+o, antiutopias mostram o #uturo como algo pior 3ue o presente.
Iesmo no caso das antiutopias n+o0sociais, com todos os envolvidos vivendo muito
con#ortavelmente em seus casulos !ermBticos, o narrador sempre #risa 3ue esse B um
pre*o alto demais a pagar pelo simples )em0estar, ou se.a, 3ue o )em0estar em si n+o B um
valor a)soluto a ser perseguido por um Dstado. O interessante B 3ue o gênero n+o p8ra de
produ-ir !8 1GG anos. "e ol!armos para as condi*/es tBcnicas e sociais 3uando da
primeira distopia de Wells, veremos 3ue elas permanecem e, em alguns casos, pioradas.
$lBm da industriali-a*+o 3ue ali.a o tra)al!ador cada ve- mais do o).eto de seu tra)al!o,
a misBria, de #ato, aumentou desde o tempo de Wells @Kennedy, 1::9, cap. 19A. $lBm
disso, apareceram novos #atores como a polui*+o am)iental, a internacionali-a*+o total da
economia, 3ue #a- empregos desaparecerem da noite para o dia etc. D as pessoas 3ue
vivem essa realidade s+o al#a)eti-adas e 3uerem entretenimento. "4 3ue !o.e,
evidentemente, a literatura de entretenimento tem #ortes concorrentes nos #ilmes. Ias,
ent+o, vale a constata*+o 3ue a)riu este te%to1 todos os #ilmes 3ue mostram o #uturo
mostram0no como algo ou igual @o 3ue .8 B mauA ou pior 3ue o presente.
$lBm disso, um #ator 3ue manteve aceso o interesse pelo gênero #oi a Guerra >ria.
Wndependentemente do #ato de Zamyatin se endere*ar muito mais C industriali-a*+o e ao
taylorismo e muito menos C 7'"" e de Wells en#ocar mais os desastres do capitalismo
levado ao e%tremo de consumo e de 4cio 3ue a organi-a*+o militar da sociedade, o #ato B
M1
3ue, para >rye @1:M?, p. 92NA, o 3ue mais c!ama a aten*+o nessas o)ras B a organi-a*+o do
povo pelo Dstado. D essa organi-a*+o era a marca do comunismo em todos os meios de
comunica*+o, em todos os pronunciamentos de dirigentes ocidentais, especialmente no
per,odo da Guerra >ria. &o !orror ao comunismo ao !orror a 3ual3uer distopia 3ue ten!a
a mais remota semel!an*a com o 3ue a imprensa vê de mais marcante na 7'"" e, depois,
na S!ina Fa organi-a*+o de grandes massas em torno de pro.etos do DstadoF, #oi um
passo. O autor de distopias teria pQ)lico certo entre as pessoas enredadas no medo do 3ue
se escondia por tr8s da 5Sortina de >erro6.
#
N@*ISE DE NTIUTOPIS REPRESENTTI$S
a. a c-5s0r/8:- 6a a503/0-;3a: ARev-l/8:- 5- ./0/r-B
=o momento em 3ue se desenrola a a*+o de 5'evolu*+o no >uturo6 @5Elayer
piano6, de 1:?2A, os D7$, poucos anos antes, sa,ram de uma Kerceira Guerra Iundial.
$ssim como aconteceu com a "egunda, o con#lito #oi gan!o menos pela coragem e
ousadia Fcaracter,sticas romJnticas da guerra C antigaF e mais pela e#iciência. O
sistema 3ue permitiu vit4ria t+o e%pressiva B mantido mesmo depois da guerra e B dessa
#orma 3ue os D7$ se tornam uma na*+o )asicamente de engen!eiros e de
administradores. Krata0se de uma sociedade monol,tica e rigidamente !ierar3ui-ada na
3ual se distinguem três castas1
a. os engen!eiros e administradores,
). o D%Brcito @desarmado, salvo no caso de alguma interven*+o e%terna ser
necess8riaA
c. e os 5Neconstruction and Neclamation Oorps6, ''S @e%0tra)al!adores cu.as
#un*/es s+o agora desempen!adas por m83uinas e 3ue vivem de um sal8rio pago pelo
M2
Dstado para e%ecutarem pe3uenas tare#as, con!ecidos mais por 5Neeks and 3recks6 F
>edorentos e &eca,dosA.
Somo convBm a uma verdadeira distopia #utur,stica, e%iste uma !ist4ria
individual 3ue move a a*+o. $ !ist4ria Fdo dr. Eaul Eroteus, diretor da Wlium WorXs, a
#8)rica 3ue mantBm no mapa a cidade de WliumF B uma saga de autocon!ecimento, o
camin!o 3ue o desa.ustado deve percorrer para #inalmente compreender a si pr4prio e a
sociedade em 3ue vive. Dsse camin!o Fcomo .8 dei%a claro o in#eli- t,tulo da tradu*+o
)rasileiraF passa por uma revolu*+o e, como se trata de uma revolu*+o contra um Dstado
est8tico, ela deve #racassar. =o desenvolvimento dessa revolu*+o, #ica0se con!ecendo
mel!or a sociedade #utura dos D7$ e como ela usa o progresso cient,#ico e tecnol4gico
para se perpetuar.
Vuanto C !ist4ria.
Eaul Eroteus B o engen!eiro encarregado da Wlium WorXs, #8)rica 3ue mantBm a
economia da cidade de Wlium @3ue, como a G8lia Fpois B citando Qlio SBsar 3ue
Vonnegut come*a a novelaF, B dividida em três partes1 a noroeste moram os engen!eiros,
a nordeste est+o as m83uinas e, no sul, Homestead, o )airro da ralBA. Eaul B #il!o do
#alecido dr. Eroteus, supremo c!e#e industrial dos D7$ e camin!a meio sem convic*+o
para ocupar esse cargo. "ua esposa, $nita, #a- todo o servi*o social de )ase para 3ue isso
aconte*a. Eaul tem um amigo, >innerty, 3ue c!ega a Wlium e o in#orma de 3ue dei%ou o
sistema. Eaul o rece)e com um misto de admira*+o e reprova*+o. Som o tempo, ele se
convence de 3ue a solu*+o de >innerty B a mel!or e resolve tam)Bm sair do sistema e
viver C margem, )aseado nas economias 3ue .untou nos anos de administrador. Sompra
uma vel!a #a-enda e prepara o terreno para contar as novas a $nita. =+o #unciona. Dla n+o
entende o 3ue Eaul pretende e ele, ainda mantendo esperan*as de convencê0la, resolve
adiar sua sa,da.
=esse meio tempo, come*a o #estival anual de Ieadows, espBcie de ritual
religioso no 3ual se con#raterni-am os engen!eiros e administradores 3ue tomam conta do
M9
pa,s. Eara os .8 integrados, o ritual anual #unciona como uma cele)ra*+o do sistemaO para
os novatos, #unciona como inicia*+o. Eaul est8 preparado para anunciar ao c!e#e regional,
Kroner, 3ue dei%ar8 tudo, recusar8 3ual3uer promo*+o etc., 3uando, durante uma reuni+o
reservada, l!e B dito 3ue, em vista de amea*as terroristas, os administradores
desenvolveram um plano 3ue envolve Eaul. Dle ser8 e%pulso do sistema e, assim,
acreditam, ir8 se tornar presa #8cil para os terroristas @a G!ost "!irt "ocietyA 3ue
certamente vir+o alici80lo. Dle se dei%ar8 aliciar e, depois, delatar8 todos e ter8 de volta
n+o apenas seu cargo anterior, mas o cargo de administrador de Eitts)urg!, 3ue signi#ica
controlar uma regi+o muito maior e mais importante 3ue Wlium.
$tTnito, ele se vê #ora, sem ter pedido nada. Vueria sair e, )em 3uando est8 para
di-er 5eu desisto6, B demitido. Rogo depois da not,cia, ainda ensaia um 5eu me demito
mesmo, de verdade6, apenas para ouvir de Kroner um 5muito )em rapa-, v8 em #rente6.
Eerde $nita, 3ue n+o sa)e dos planos de Kroner. Dsta .8 est8 enga.ada em uma sa,da
pessoal com o assistente de Eaul, Rawson "!epard, um !omem per#eitamente a.ustado ao
sistema. "ua decis+o, B claro, B a)andonar Eaul e se casar com alguBm 3ue ten!a c!ances
reais de su)ir.
&a,, Eaul segue a via crucis dos p8rias1 perda de privilBgios, pris/es, despre-o. P
#inalmente raptado pelos terroristas, cu.os comandantes s+o >innerty, Ras!er @um misto de
soci4logo e l,der espiritual dos p8riasA e Rudwig von =eumann @um e%0pro#essor de letras
3ue s4 aparece a essa altura da narra*+oA. Dles prendem Eaul, #a-em0no l,der do
movimento @a#inal, ele B um nome de pesoA e detonam o processo revolucion8rio ao
mandarem aos principais administradores uma carta de amea*a assinada por Eaul Eroteus.
Dste, no meio da con#us+o em 3ue vive, B preso, numa )atida policial. $
princ,pio, os policiais n+o acreditam 3ue prenderam Eroteus, o mais perigoso sa)otador do
pa,s @sa)otador B o pior 3ue se pode di-er de um indiv,duoO a Qnica repress+o e%pl,cita nos
D7$ B .ustamente contra atos de sa)otagem, !eran*a dos primeiros tempos do processo
de progressiva automa*+oA. Ias ele se recusa a entregar seus comparsas e, meio ao acaso,
M<
meio de caso pensado, rompe com o plano desen!ado para ele. Wndagado so)re 3uem B o
autor da carta amea*adora mandada dias antes aos administradores, limita0se a responder
3ue B ele pr4prio. Some*a seu .ulgamento pQ)lico, o 3ual B interrompido pela revolu*+o.
Os revolucion8rios entram no tri)unal de Wlium e raptam seu involunt8rio l,der.
Grupos semi0organi-ados tomam o poder, come*am a 3ue)rar tudo, #ogem de
controle. Eara os l,deres da revolu*+o @os três mencionados, mais EaulA, #ica claro 3ue
tudo est8 perdido. Os p8rias destroem tudo, n+o di#erenciam o 3ue precisa ser destru,do
para tomar o poder de o 3ue deve ser mantido para 3ue o poder tomado se.a e#etivo.
&epois de tudo destru,do, os p8rias come*am a reconstruir as mesmas m83uinas 3ue
3ue)raram.
O motivo da revolu*+o sempre pareceu a Eaul repousar so)re o mote de devolver
ao povo um sentido na vida. $s m83uinas teriam ali.ado as pessoas de seu tra)al!o, teriam
tornado as pessoas supBr#luas. O resultado da revolu*+o mostra 3ue essa vis+o romJntica B
inteiramente #alsa. Kudo o 3ue as pessoas 3uerem B poder agir como m83uinas. =+o !8
sa,da1 os p8rias 3uerem apenas a vel!a #arsa de prop4sito na vida. =+o !8 avan*o, o
motivo principal pelo 3ual valeria a pena #a-er uma revolu*+o n+o pode ser compreendido
por seus eventuais )ene#ici8rios.
Wlium est8 agora cercada e !elic4pteros autom8ticos usam seus alto0#alantes para
avisar ao povo 3ue os l,deres revolucion8rios devem ser entregues, sen+o a cidade so#rer8
um cerco de seis meses. Ias n+o B preciso tanto. Os 3uatro se entregam na Qltima cena do
livro. Eara eles, a e%periência valeu apenas pelo registro de 3ue uma revolu*+o B poss,vel,
mesmo 3ue o !omem n+o o se.a.
bbb
5'evolu*+o no >uturo6 n+o B e%atamente uma distopia, uma ve- 3ue, em
momento algum, B dito 3ue o Dstado .8 atingiu a per#ei*+o. O sistema .8, mas ele ainda
n+o est8 implantado totalmente. =o momento em 3ue se desenvolve a a*+o, e%istem os
''S, dep4sito de !omens com sal8rio assegurado para n+o #a-erem nada, eventualmente
M?
contratados pelo Dstado para desempen!arem tare#as 3ue n+o valeriam o es#or*o de
desenvolver m83uinas especiais para o mesmo servi*o. Dm uma cena do livro, Eaul p8ra C
)eira de uma ponte, C espera de 3ue um )atal!+o de !omens termine de pintar uma #ai%a
na pista de rodagem, )atal!+o composto de um pintor e de de-enas de o)servadores.
$lguns dos mem)ros dos ''S têm pro#iss+o de#inida Fcomo )ar)eiros, por e%emploF
cu.o tra)al!o ainda n+o #oi su)stitu,do por uma nova m83uina.
$lBm disso, n+o e%iste o tal Dstado mundial, presente nas distopias de Wells,
Zamyatin e, em alguma medida, em Orwell. Vonnegut leva em considera*+o o #ato de 3ue
e%istem grandes descompassos culturais e econTmicos no planeta e 3ue n+o seria poss,vel
esperar por uma !ipotBtica uni+o do mundo para 3ue tivesse in,cio um Dstado per#eito. =o
momento em 3ue se desenrola a a*+o do livro, os D7$ s+o esse Dstado e o mundo tenta
acompan!80los.
P nesse momento 3ue aparece uma #igura importante na a*+o, o %8 de (rat!pur,
l,der espiritual de seis mil!/es de pessoas, 3ue est8 nos D7$ para aprender e para levar
para seu pa,s o sistema 3ue #e- dos norte0americanos o povo l,der do planeta. $lgumas
ve-es por ingenuidade, outras para desconcertar seu cicerone, o %8 pergunta so)re o 3ue
mantBm a sociedade norte0americana. 5-ual$uer homem $ue não possa se manter
fa.endo um traalho melhor $ue o feito por uma m#$uina é empregado pelo governo!
se"a no (xército! se"a no Neconstruction and Neclamation Oorps6, e%plica o diplomata ao
%8. $o ouvir a resposta, 3uase sempre replica1 5Dntendi, eles s+o escravos6. =a l,ngua do
%8, palavra para escravo B takaru e, a cada ve- 3ue o cicerone designado pelo governo
ouve a palavra, apressa0se em di-er1 5=+o, s+o cidad+os, ci0da0d+os6.
O 3ue o %8 3uer di-er pode ser entendido de duas #ormas. Erimeiro, claro, os
norte0americanos de Vonnegut s+o totalmente dependentes de m83uinas e, nas palavras do
%8, 5$uem compete com m#$uinas se torna escravo6. &a mesma #orma, seus seis mil!/es
de liderados s+o escravos do sistema vigente em (rat!pur. R8 n+o e%istem m83uinas para
tudo, mas, em essência, a coisa B a mesma. &ei%ar tudo nas m+os de m83uinas F
MM
epitomadas no livro por DEWS$S ^WV, o mais poderoso computador dos D7$,
controlador de tudo, entroni-ado nas cavernas Sarls)adF B o mesmo 3ue dei%ar tudo nas
m+o de aku, um #also &eus. =esse ponto, os liderados do %8 est+o um ponto na #rente1 o
&eus deles B o verdadeiro, por de#ini*+o.
Ias o veredicto do %8 tem um sentido mais pro#undo. =os D7$ dessa Bpoca, s4
e%istem três sa,das para o povo. &uas se e3uivalem e #ormam uma s41 o D%Brcito e os
''S. $ outra B pertencer ao corpo de engen!eiros e de administradores. Dssas duas castas
vivem separadas geogra#icamente, têm privilBgios muito di#erentes e, principalmente, a
segunda B mantida em rituais de inicia*+o 3ue a tornam pr4%ima de uma verdadeira seita
religiosa. Kodo ano, os e%ecutivos do leste dos D7$ se reQnem da il!a de Ieadows,
separados de suas mul!eres, para .ogos viris e para se con!ecerem uns aos outros. P de se
supor 3ue, em outras localidades do pa,s, o mesmo aconte*a #re3Uentemente.
$ sele*+o de 3uem vai administrar as indQstrias B aparentemente .usta1 testes de
VW determinam 3uem pode seguir carreira entre engen!eiros e administradores e 3uem
pode 5optar6 por pertencer ao D%Brcito ou aos ''S. P evidente 3ue os #il!os dos
administradores tendem a ir mel!or nos testes e, assim, a perpetuar certas #am,lias no
controle do pa,s, o 3ue B dei%ado claro pelo pr4prio #ato de o protagonista ser #il!o de um
dos #undadores do sistema.
&essa #orma, todos s+o escravos de seus respectivos testes de VW, cu.o veredicto B
a)solutamente #inal, mesmo no caso de erros escandalosos. O diplomata 3ue ciceroneia o
%8, por e%emplo, E!.&. pela 7niversidade de Sornell, B in#ormado de 3ue o computador
da universidade cometera um pe3ueno erro dBcadas atr8s1 ele atri)uiu uma aprova*+o em
educa*+o #,sica 3uando, na verdade, o atual diplomata n+o !avia #eito o curso. =o
des#ec!o do caso, o diplomata perde todos seus t,tulos, todo o status de 3ue go-ava e, de
uma !ora para outra, se torna um p8ria.
=o #im de contas, 5'evolu*+o no >uturo6 mostra o processo de instaura*+o de um
Dstado dist4pico. Eor ora, e%istem duas classes )8sicas. Ias nada impede 3ue uma delas
MN
desapare*a. O dr. Eaul Eroteus prepara um discurso a ser #eito em uma comemora*+o, no
3ual divide a 'evolu*+o Wndustrial em duas1 a Erimeira 'evolu*+o Wndustrial, 3ue
eliminou o tra)al!o )ra*al e a "egunda 'evolu*+o Wndustrial, 3ue eliminou o tra)al!o
repetitivo. $ Kerceira est8 no !ori-onte, 3uando ser8 ent+o eliminado o tra)al!o
intelectual. $,, s4 e%istir8 uma classe e os D7$ Fe, depois, o mundoF ser+o um grande
conglomerado ur)ano de casas padroni-adas 3ue a)rigar+o os in#initos mem)ros dos
''S.
Eaul Eroteus participou da instaura*+o dessa "egunda 'evolu*+o, no per,odo da
tal Kerceira Guerra Iundial. Vuando aconteceria essa guerraH Vonnegut B leitor declarado
de 5$dmir8vel Iundo =ovo6 e de 5=4s6. 5>(u? de om grado rouei a trama de
$dmir8vel Iundo =ovo! cu"a trama foi alegremente rouada de =4s, de (ugene
Pam+atin6 @citado em "egal, 1:;9, p. 1NGA. 5=4s6, colocou seu Dstado `nico 12 sBculos
no #uturo. 5$dmir8vel Iundo =ovo6 colocou seu Dstado per#eito de $l#as e Ppsilons
para da3ui a MGG anos. =a dBcada de ?G, Hu%ley di-ia 3ue !avia errado por muito e 3ue o
mundo novo poderia vir em menos de 1GG anos. $ssim, B ra-o8vel supor 3ue Vonnegut
pensava na virada deste sBculo para cen8rio de sua a*+o.
Dssa segunda revolu*+o consistiu )asicamente em automa*+o de movimentos
repetitivos. Os mel!ores empregados tin!am seus movimentos cuidadosamente gravados
por engen!eiros 3ue, depois, os reprodu-iam em #itas 3ue deveriam mover as novas
m83uinas. D pronto. Erodu*+o ilimitada, e#iciente e uni#orme. Ias B preciso e3uili)rar
essa produ*+o, para 3ue n+o se caia em um sistema como o descrito em 5$ praga de
Iidas6, de >rederiX Eo!l, escrita dois anos depois de 5'evolu*+o no >uturo6.
Erovavelmente perce)endo o mesmo avan*o da automa*+o depois da "egunda Guerra
Iundial, Eo!l escreveu uma #arsa na 3ual a produ*+o B ilimitada e o grande peso 3ue
recai so)re os #uturos 5po)res6 B ter de consumir e s4 poder dedicar um dia por semana ao
tra)al!o @50ão se pode $uerar ovos sem fa.er a omelete6, di- Iorey >ry, personagem
central de 5$ praga de Iidas6, e%plicando o sistema econTmico no 3ual vige a
M;
superprodu*+o e o conse3Uente superconsumoA. =esse sistema, con#orme o su.eito evolui,
tem o direito de consumir menos, de morar em uma casa menor e menos atul!ada de ro)Ts
e de tra)al!ar mais dias por semana. ustamente para evitar esse del,rio de produ*+o 3ue
viria #atalmente da e#iciência aumentada das novas m83uinas B 3ue os D7$ de Vonnegut
s+o regidos por DEWS$S ^WV, 3ue n+o permite 3ue a produ*+o saia do ponto correto no
3ual todos est+o a)astecidos de, pelo menos, uma KV de 2N polegadas.
O 3ue teria sido tirado dos tra)al!adores no processo de instaura*+o da "egunda
'evolu*+o WndustrialH $ princ,pio, s4 os movimentos, s4 a parte mecJnica do 3ue #a-iam.
Eaul, o desa.ustado inicial e o involunt8rio romJntico da revolu*+o, acredita 3ue a
depress+o psicol4gica generali-ada, a mediocridade gritante em Homestead e nas
!omesteads espal!adas pelo pa,s se deve a 3ue #oi tirado das pessoas o meio pelo 3ual elas
podiam se mostrar Qteis ao Dstado. P necess8rio devolver0l!es o tra)al!o para 3ue elas
possam, de novo, voltar a um sistema mais participativo. D esse B o engano #inal de Eaul,
o 3ue aca)a colocando 5'evolu*+o no >uturo6 como uma cr,tica muito mais pro#unda da
nature-a !umana, nature-a esta 3ue permanece apenas enco)erta pelos la*os sociais. $
"egunda 'evolu*+o Wndustrial vai dei%ar claro 3ue o pro)lema com o avan*o tecnol4gico
est8 menos nele pr4prio e mais na mentalidade de 3uem o manuseia em 3ual3uer n,vel.
Slaro para 3uemH Eara Eaul, para o %8 e para mais ninguBm, pois os ''S 3uerem ser
m83uinas e os administradores n+o 3uerem algo muito di#erente para si mesmos.
O desastre #inal da revolu*+o aca)a dei%ando claro para Eaul e para o leitor a
pro#unda mediocridade do !omem, cu.o o).etivo maior B se e3uiparar Cs m83uinas. =o
#im de contas, talve- os engen!eiros 3ue criaram o sistema tivessem ra-+o1 tudo o 3ue
!avia para ser aproveitado nos oper8rios era mesmo seus movimentos mecJnicos. Kodo o
resto B li%o. Koda a nature-a !umana desses oper8rios est8 voltada para produ-ir a3uele
movimento. =o momento em 3ue ele B registrado, o oper8rio se torna supBr#luo, n+o
por3ue algo l!e ten!a sido tirado, mas por3ue tudo l!e #oi tirado. $ derrota #inal dos
revolucion8rios B, ent+o, ainda mais terr,vel. =+o perderam os pontos apenas para um
M:
Dstado superorgani-ado e e#iciente. Eerderam para seus pr4prios comandados. Kudo o 3ue
estes 3ueriam, e 3ue o #uncionamento do sistema n+o permitia ver, era instaurar o mesmo
sistema, apenas su)stituindo algumas das m83uinas por !omens.
=o #im de contas, os !omens s+o apenas as pianolas a 3ue se re#ere o t,tulo
original. Dm um )ar de Homestead, Eaul encontra 'udy Hert-, um torneiro cu.os
movimentos #oram registrados anos atr8s por Eaul e sua e3uipe e 3ue agora servem de
modelo para todos os tornos da Wlium WorXs. $m)os, Eaul e 'udy, apreciam o
#uncionamento de uma pianola no sal+o do )ar. Veem am)os o #antasma do instrumentista
3ue teria servido de modelo para o registro da #ita 3ue ordena a mQsica. $gora, em
Homestead, todos s+o #antasmas. D a Qnica #orma de tir80los dessa condi*+o B l!es
devolvendo seus vel!os empregos, para 3ue possam agir como m83uinas menos e#icientes
3ue as atuais. O ser !umano, Eaul aprender8 no curso da revolu*+o, n+o tem mais nada a
o#erecer.
$ som)ria conclus+o 3uanto C nature-a !umana permite a Vonnegut escapar das
distopias antim83uinas, modeladas a partir de 5$ m83uina p8ra6, de D. I. >orster, de
1:G:. =esta, assiste0se aos momentos #inais de uma utopia planet8ria, 3uando as pessoas,
totalmente dependentes das m83uinas @tanto #,sica 3uanto psicologicamente= “A m#$uina
nos alimenta e arigaL através dela falamos uns com os outros! através dela vemos uns
aos outros! nela temos nosso ser' A M#$uina é amiga das ideias e inimiga da superstição=
a M#$uina é onipotente! eternaL aençoada se"a a M#$uina'6A, se veem perdidas 3uando
estas param de #uncionar. &evem agora reocupar a super#,cie do planeta @viviam no
su)solo, em casulos totalmente isoladosA e aprender a viver de #orma mais natural. O 3ue
B mais natural, para o autor, B, claro, ter maior contato com a amiga nature-a.
Vonnegut escapa disso. Dle sa)e 3ue os !omens est+o irremediavelmente presos
Cs m83uinas e 3ue, em 3ual3uer momento da !ist4ria da civili-a*+o, elas estiveram
presentes. $ dependência, assim, e%aminada em di#erentes Bpocas, B apenas 3uest+o de
grau, n+o de 3ualidade. =+o e%iste alternativa num mundo destecnologi-ado, nem isso B
NG
pens8vel. D, como o demonstram os revolucion8rios de Vonnegut, nem isso seria poss,vel,
pois o !omem 3uer, irremediavelmente, #a)ricar mais m83uinas.
"4 Ras!er est8 inteiramente consciente de tudo isso1 sa)ia 3ue iam perder, sa)ia
3ue s4 !avia uma c!ance de vit4ria num mil!+o mas, se n+o convencesse os outros l,deres
com a promessa de uma eventual vit4ria, nem essa c!ance seria .ogada. Dle perde, mas
n+o se importa. Os outros três s+o mais romJnticos, mas se con#ormam com a #rie-a de
Ras!er.
Dsses elementos reunidos tornam 5'evolu*+o no >uturo6 uma distopia e%emplar,
um 5traalho de sociologia expresso em forma ficcional6 @Ho##man, 1:;9, p. 12?A.
Vonnegut evita usar arti#,cios complicados e pouco veross,meis @como o advento de
salamandras inteligentes FSapeXF, ou seres !umanos geneticamente modi#icados F
Hu%leyA para e%plorar as conse3Uências do desenvolvimento l4gico da industriali-a*+o.
>ocali-ando sua an8lise principalmente so)re a 3uest+o do ma3uinismo e de como este
rou)a o papel principal 3ue deveria ser dei%ado aos seres !umanos @e de como estes s+o
incapa-es de imaginar papel mais inteligente para si pr4priosA, evita tam)Bm se de#inir
entre capitalismo e socialismo. &a mesma #orma como o #a- Zamyatin, os dois sistemas se
con#undem no essencial1 am)os s+o apologistas da e#iciência e am)os, dei%ados
desenvolverem0se a partir de suas premissas, redundar+o no mesmo1 os nQmeros de
Zamyatin e o ''S de Vonnegut. Somo este locali-ou sua a*+o mais pr4%imo de n4s, seus
p8rias nos parecem menos estran!os 3ue os nQmeros de Zamyatin, mas n+o s+o mais
!umanos 3ue estes.
$lBm disso, segue com rigor a pr4pria de#ini*+o de distopia1 B est8tico, a
sociedade retratada B imut8vel, se auto0regula, a)sorve reveses e continua a mesma. "4
alguBm de #ora, no caso, o %8, pode ver as coisas di#erentemente. Ias seu veredicto,
5todos s+o takaru6, B entendido como as palavras de um )8r)aro #alando da civili-a*+o,
n+o como um .ulgamento e3uili)rado.
N1
=esse sentido, nessa economia de recursos pirotBcnicos para espel!ar o #uturo,
5'evolu*+o no >uturo6 B o precursor em livro do #ilme 5(ra-il6, de Kerry Gilliam. =+o
e%iste um Dstado descaradamente opressor @como em 51:;<6A, n+o e%istem inova*/es
tBcnicas 3ue tornam a vida irrecon!ec,vel, e%iste um certo senso de !umor, ceticismo e
cinismo com respeito Cs limita*/es morais e intelectuais do !omem. Ias esse cinismo B
contido, sem c!egar ao 3uase del,rio de 5Sama de Gato6, escrito por Vonnegut on-e anos
depois.
=+o e%iste um Dstado descaradamente opressor. =a verdade, 3uase n+o e%iste o
3ue se possa denominar propriamente Dstado. $parentemente, os norte0americanos vivem
em uma democracia. D%iste um presidente, 3ue B 5mostrado6 em pQ)lico apenas em
ocasi/es especiais. 7ma delas B a visita do %8 a DEWS$S ^WV. O presidente participa da
cerimTnia e se retira. =+o e%iste muito mais o 3ue #a-er.
Os D7$ s+o organi-ados por regi/es administradas por c!e#es pertencentes ao
5Vuadro de comunica*/es, alimentos e recursos6, vagamente re#erido por todos os
administradores como 5a Sompan!ia6. $ coisa lem)ra a 5Sompan!ia do Kra)al!o6 de
Wells @em 5Hist4ria dos tempos #uturos6, analisado mais adianteA, s4 3ue em escala
menor. Os administradores s+o escol!idos por um teste de VW. $ princ,pio imparcial, o
teste tende a #avorecer 3uem #oi educado em um meio mais elevado e, assim, salvo um ou
outro acidente, a m83uina se reprodu- sem atrito. Os reprovados no teste optam pelo
D%Brcito @servi*o o)rigat4rio de 2? anosA ou pelos ''S. O sal8rio de am)os os grupos
vem dos impostos co)rados Cs m83uinas.
=+o e%istem decis/es pol,ticas, .8 3ue n+o !8 pol,tica mesmo. O )em0estar de
todos est8 garantido. Iesmo o mais med,ocre mem)ro dos ''S tem pens+o vital,cia,
seguro de vida e saQde, mora em uma casa prB0#a)ricada, com #orno de microondas,
limpador autom8tico de poeira e KV de 2N polegadas. Os engen!eiros e administradores
dirigem todo seu es#or*o para a manuten*+o desse estado de coisas. Vuanto C produ*+o de
N2
)ens, tudo B dirigido por DEWS$S ^WV, de #orma 3ue n+o e%iste competitividade entre as
indQstrias.
=a verdade, o 3ue se tem B um sistema muito parecido com o 5D%Brcito
Wndustrial6 sugerido por Ddward (ellamy em 5&a3ui a Sem anos6, de 1;;;. "4 3ue
Vonnegut tirou a conclus+o l4gica do avan*o tecnol4gico, conclus+o 3ue escapou a
(ellamy e, em certa medida, a Wells1 com o progresso da tecnologia, n+o !8 por3ue
manter oper8rios. =a utopia de (ellamy, cu.a a*+o se desenvolve nos D7$ no ano 2GGG @a
data presum,vel da a*+o em 5'evolu*+o no >uturo6A, o capitalismo competitivo cedeu
espa*o para um capitalismo cooperativo, no 3ual todas as indQstrias est+o integradas e
todas as pessoas participam, 3ueiram ou n+o, do 5D%Brcito Wndustrial6. O resultado B a
#elicidade generali-ada. West, o protagonista, ao ver tanta organi-a*+o, cede C
grandilo3Uência1 5Oom uma l#grima para o passado somrio! voltemo,nos para o
ofuscante futuro e! velando nossos olhos! sigamos em frente' O longo e extenuante
inverno da raça terminou' Oomeçou seu verão' A humanidade rompeu a cris#lida' Os
céus estão diante dela6. =a antiutopia de Vonnegut, os cBus est+o c!eios de ''Ss
entediados.
O limite do sistema de 5'evolu*+o no >uturo6 B e%aminado em outro te%to
contemporJneo, de car8ter mais conservador, de Syril Korn)lut! 1 5$ marc!a dos
idiotas6. Korn)lut! sup/e 3ue, a permanecer tal sistema 3ue visa unicamente ao )em
estar, o VW mBdio dever8 decair e as pessoas de alto VW se tornar+o escravas da maioria,
devendo #a-er o poss,vel para 3ue ela n+o se destrua, como aconteceria a um )ando de
crian*as dei%ado a si pr4prio. Vonnegut B mais sutil1 atB l8 .8 ter8 ocorrido a Kerceira
'evolu*+o Wndustrial e todos os takarus estar+o muito #eli-es. $ menos 3ue DEWS$S ^WV
ou um seu sucessor decida 3ue os seres !umanos n+o servem nem como consumidores
e#icientes dos )ens t+o cuidadosamente produ-idos pelas #8)ricas e resolva su)stitu,0los
por m83uinas. Dsse B o tema, por e%emplo, do conto 5$ndr4ide, o or#+o-in!o6, de ames
Gunn, de 1:M<.
N9
$ registrar 3ue a distopia de Vonnegut ainda tem descontentes. D n+o poderia ser
di#erente, uma ve- 3ue a)orda a #ase de instaura*+o do sistema. =o entanto, B poss,vel ver
3ue seu desenvolvimento l4gico levar8 a uma sociedade de takarus #eli-es, es3uecidos
3ue estar+o do tempo em 3ue eram o)rigados a imitar m83uinas. =o #uturo dos D7$
mostrados por Vonnegut, todos viver+o num sistema no 3ual1
a. as m83uinas #a-em todo o tra)al!o )ra*alO
). isso agrada aos administradores, 3ue n+o mais precisam se !aver com
sindicatos, com previdência, greves, seguros, acidentes de tra)al!o, pens/es etc.O
c. o tra)al!o das m83uinas B ta%ado e da, sai o sal8rio 3ue 5a Sompan!ia6 @o
governo realmente e#etivoA paga a seus eleitores @n+o nos es3ue*amos de 3ue estamos
#alando de uma democraciaAO
d. isso agrada aos novos cidad+os, pois os livra para o 4cio, a troco de um sal8rio
decente, mais um sistema 3ue l!es permite viver acima da misBria.
e. os pr4prios administradores ter+o cada ve- menos decis/es para tomar, atB 3ue
aca)ar+o, #eli-es, con#undindo0se com os ''S.
Ou se.a, assim como Orwell ou Zamyatin, Vonnegut desen!ou o in,cio de uma
distopia per#eita, uma ve- 3ue, para os 3ue nela ir+o viver @3uando o sistema estiver
plenamente #uncionalA, ser8 o para,so1 a vida B garantida, o 4cio B garantido, o tra)al!o
intelectual B #8cil, .8 3ue respeita a uma !ierar3uia r,gida e n+o !8 muito o 3ue pensar para
su)ir. "4 3uem pensa di#erentemente, como Eroteus, B 3ue pretende uma revolu*+o, 3ue
pretende a mudan*a do sistema, para atender Cs supostas verdadeiras ansiedades do povo.
Drro. O #racasso #inal mostra apenas 3ue o sistema F!orr,vel, tal como nos B apresentado
F B o ideal para esses !omens 3ue, no #im de contas, o merecem.
$ revolu*+o promovida por Eroteus n+o teve sucesso e, se o sistema permanecer,
B ra-o8vel supor 3ue tais levantes locali-ados ser+o cada ve- mais raros e por motivos
cada ve- menos opostos ao Dstado. Kudo tam)Bm indica 3ue os pe3uenos desvios 3ue
Vonnegut retrata Fuma mul!er visitada pelo %8 3ue pre#ere lavar a roupa na )an!eira a
N<
usar a m83uina de lavar, ato su)versivo 3ue ela pratica para se sentir Qtil ou o !omem 3ue
resolve a troco de nada destruir com um ma*arico sua casa prB0#a)ricada I01NF tender+o
a -ero. =o #im de contas, a revolu*+o B a)sorvida e seus e#eitos, circunscritos.
Vonnegut mostra 3ue, para 3ue um sistema )em estruturado, apoiado em ciência e
tecnologia de ponta, ven*a, n+o B preciso 3ue se instale algo t+o alien,gena 3uanto os
Dstados mostrados por Orwell e Zamyatin. =+o B preciso uma ditadura @)em entendido,
ditadura para n4s, 3ue apreciamos a coisa a partir de #oraA para 3ue um sistema se.a
est8vel e e#iciente. $os mem)ros dos ''S, como aos proles de Orwell, 3uase tudo B
permitido. "+o tratados como os p8rias de nossa sociedade Fcomo o demonstra o calv8rio
por 3ue passa Eroteus depois de perder seus privilBgiosF, sem necessidade de
re3uintados controles para evitar 3ue eles ven!am a se re)elar. $ revolu*+o local B
a)sorvida, seus l,deres s+o presos e os p8rias #icam loucos para 3ue as coisas possam
voltar a ser como antes. $ estrutura B a tal ponto )em montada, 3ue eles s4 s+o capa-es de
#a-er uma revolu*+o para instalar o mesmo sistema, apenas numa vers+o menos e#iciente.
=um momento de ironia, Vonnegut #ala da nostalgia de Eaul, 3ue anda lendo muitas
novelas de marin!eiros e nelas se inspirando em seu anseio de sair do sistema e ter uma
vida mais natural @se.a l8 o 3ue #or 3ue 5natural6 signi#i3ue e%atamenteA. Os tais livros,
somos in#ormados noutra altura da novela atravBs de um di8logo casual, s+o o hit do
momento do ramo da Sompan!ia especiali-ado em #a)ricar livros para o povo. Iesmo a
nostalgia B #a)ricada.
Dm 5$lmo*o dos campe/es6 @(reaX#ast o# c!ampions, de 1:N9A, Vonnegut .8 n+o
con#ia tanto em 3ue os engen!eiros v+o dominar o mundo1 um vel!o engen!eiro B
apresentado como operador de pro.e*+o em um cinema pornT de =ova Wor3ue.
Kristemente, declara 3ue n+o !8 mais lugar para engen!eiros de sua idade, 5$ue antes!
eram adorados”.
&evemos concluir 3ue Vonnegut B conservadorH Dm certo sentido, sim. 7m dos
principais de#eitos da >S B apresentar pro)lemas #uturos a !omens do presente. Dssa #al!a
N?
B especialmente gritante em Wells, a respeito de 3uem Rovat &icXson @1:N;A e George
Orwell @1:<1A dirigem a cr,tica. Eor 3ue dever,amos supor uma evolu*+o tecnol4gica n+o
acompan!ada de uma evolu*+o dos indiv,duosH Dm 5'evolu*+o no >uturo6, a nature-a
!umana B considerada imut8vel, insens,vel aos produtos do intelecto ou sens,vel a eles,
mas com um grau de retardo muito alto, o 3ue o soci4logo William Og)urn @in $llen et
alli., 1:?NA denominava 5cultural lag6. O retardo @lagA B t+o grande entre tecnologia e a
capacidade dos !omens de se !averem com ela, 3ue o sistema divisado por Vonnegut vai
tragar todo mundo antes 3ue algo possa ser #eito. Iesmo os desa.ustados como Eaul e
Ras!er s4 poder+o promover su)leva*/es 5para os registros6, sem esperan*as sBrias de
mudan*a.
Ias uma alternativa a isso seria e%igir demais dessa sociologia em #orma
#iccional. $#inal, pro)lemas do #uturo en#rentados por mBtodos do #uturo por !omens do
#uturo n+o seria uma trama poss,vel de escrever no presente. =otemos, por ora, 3ue
Vonnegut mantBm consistência no 3ue di- respeito aos e#eitos mais imediatos da
automa*+o e 3ue ancora suas apreens/es em dados )em evidentes nos anos <G e in,cio dos
anos ?G, como1
a. o avan*o da automa*+o ap4s a "egunda Guerra, 3uando muito do kno1,ho1
desenvolvido nos tempos do con#lito #oi aplicado C indQstriaO
). o crescimento do con#ormismo e o aparecimento na Bpoca do 5organi-ation
man6, o !omem per#eitamente adaptado Cs grandes organi-a*/es @ali8s, antes de se tornar
escritor pro#issional, Vonnegut tra)al!ou 3uatro anos como rela*/es pQ)licas na General
Dlectric e saiu da empresa .ustamente por n+o se a.ustar ao per#il esperado de um 5!omem
da organi-a*+o6A.
c. as reuni/es inici8ticas de empres8rios eram costume em grandes organi-a*/es
na Bpoca e pelo menos uma perdurou atB os anos ;G, a (o!emian Groove, 3ue .8 mereceu
estudos sociol4gicos para determinar sua in#luência na #orma*+o das elites norte0
NM
americanas @vide "egal, 1:;9, p. 1NMA. Kais reuni/es servem de modelo para a reuni+o de
Ieadows no livro.
d. seus 'econstruction and 'eclamation Sorps s+o declaradamente calcados nos
Sivilian Sonservation Sorps, pro.etados pelo =ew &eal e 3ue nunca #oram levados
adiante do pro.eto, classi#icados ora como desperd,cio do din!eiro do Dstado, ora como
iniciativa de cun!o comunista. 5'evolu*+o no >uturo6 mostra o des#ec!o de o 3ue seria o
progresso desse pro.eto norte0americano.
e. durante os anos 2G e 9G !ouve muito desemprego nos D7$ devido a avan*os
tecnol4gicos na indQstria e, assim, tecnologia #icou associada C ideia de desemprego, coisa
3ue perdurou na imprensa leiga por muitos anos @Og)urn, in $llen, 1:?N, p. <A.
#. !avia nos D7$, ap4s a Guerra, um senso de superioridade e, principalmente, de
#im de di#eren*as ideol4gicas, per#eitamente captados na novela.
Dssas Jncoras B 3ue levam Ho##man @1:;9A a a#irmar 3ue Vonnegut antecipa em
2G anos as re#le%/es de E!ilip "later em seu 5K!e Eursuit o# Roneliness6, de 1:NG. "later
escreve1 5O individualismo encontra suas ra;.es na tentativa de negar a realidade e a
importância da interdepend%ncia humana' 8m dos maiores o"etivos da tecnologia nos
(8A é nos “liertar” da necessidade de nos relacionarmos! sumetermos! dependermos
ou controlarmos outras pessoas' /nfeli.mente! $uanto mais somos em,sucedidos nisso!
mais nos temos sentido desconectados! entediados! s:s! desprotegidos! desnecess#rios e
inseguros6 @citado em Ho##man, 1:;9, p. 192A. P e%atamente o mundo de 5'evolu*+o no
>uturo6.
2. as a503/0-;3as c-1 classes
&as três estudadas a3ui, uma B de Wells, uma de $ldous Hu%ley e uma de @Dric
(lairA George Orwell. $s duas Qltimas s+o escritas como resposta Cs ideias ut4picas do
pr4prio Wells, e%pressas de #orma mais completa em sua 57ma utopia moderna6, de 1:G<.
Dsse Wells ut4pico, militante por um Dstado mundial, pelo poder para os cientistas etc.,
NN
!orrori-ava Hu%ley e Orwell, a um ponto tal 3ue o Wells dist4pico #icou temporariamente
es3uecido. $ vontade de re#utar 57ma utopia moderna6 era t+o #orte 3ue eles se
es3ueceram de 3ue o pr4prio Wells .8 !avia #eito isso. $o re#utarem Wells, assim, nada
mais #i-eram 3ue se movimentar num universo 3ue o pr4prio Wells !avia constru,do, e na
altura de 1:G<, re.eitado.
&essa #orma, devemos dar aten*+o antes a 57ma utopia moderna6, para ver contra
o 3ue se levantam dist4picos como Hu%ley, Orwell e outros autores menores. Dm seguida,
devemos come*ar com 57ma !ist4ria dos tempos #uturos6, a distopia de Wells, para ver o
3uanto seus cr,ticos n+o #i-eram mais 3ue articular suas pr4prias ideias. =+o 3ue n+o
ten!a !avido adi*/es muito originais @especialmente com OrwellA, mas permanece o #ato
de 3ue o primeiro #uturo som)rio )em articulado a aparecer ne literatura se deve ao
mesmo !omem 3ue seria identi#icado durante )oa parte do sBculo 2G como um ut4pico
cienti#icista e%cessivamente crente no poder da ra-+o !umana.
bbb
Dm 5Wells, Hitler and t!e world state6, Orwell di- 3ue Wells era e%celente leitura
para a classe 3ue vivia so) o sistema semi#eudal inglês do in,cio do sBculo 2G1 “ele podia
falar a voc% sore os haitantes dos planetas e do fundo do mar e sabia $ue o futuro não
ia ser o $ue a$uelas pessoas respeit#veis imaginavam”. Dn#im, ele sa)ia 3ue, dei%ado a
eles @os respeit8veisA, o #uturo seria algo como o mostrado em 5$ m83uina do tempo6 ou
57ma !ist4ria dos tempos #uturos6 ou 5Vuando o adormecido despertar6. $s di#eren*as
sociais levariam C opress+o total em nome do progresso e, em Qltima an8lise, a uma
especia*+o do homo sapiens.
Dle de#ine a Bpoca atual como a de uma 5scientific mechanical civili.ation6
F5civili-a*+o cient,#ico0mecJnica6 @cap. ?, item 9A na 3ual a tendência B a m83uina
emular todas as atividades !umanas. Somo !aver8, na 7topia, um sal8rio m,nimo, as
pessoas nunca poder+o competir com as m83uinas em termos de custo #inal do o).eto
N;
produ-ido. Rogo, !aver8 um e%cedente de tra)al!o 3ue poder8 ser usado criativamente
@ou, in#eli-mente, para nada, como Vonnegut descrever8 em 5'evolu*+o no #uturo6A.
Kalve- ten!a sido essa constata*+o 3ue o levou a mudar o tom de suas primeiras
o)ras e passar C pro#ecia, o 3ue come*a com esta utopia moderna1 .8 3ue eles Ftanto
tra)al!adores 3uanto a )urguesesF n+o sa)em o 3ue #a-er, talve- n4s Fos 3ue temos
#orma*+o cient,#ica e um 3uê !uman,stico, como o pr4prio autorF possamos arran.ar
alguma coisa.
$ maneira de narrar mistura #ic*+o a pro.eto a)strato. O autor avisa, logo de
in,cio, 3ue e%iste uma 5vo-6 narrando a utopia. Dssa vo- pode ser interpretada como a de
um ator so)re um palco. Eor tr8s dele, des#ilam as paisagens de 3ue #ala o te%to. Ou se.a,
utopia e%ige, antes de tudo, suspens+o total da cren*a1 o 3ue vai ser narrado B #ic*+o,
son!o e, para virar realidade, depende de 3ue os espectadores da vo- se mo)ili-em, depois
de en#eiti*ados pela apresenta*+o @pela leituraA. Ias n+o B son!o imposs,vel. Rogo de
sa,da, critica William Iorris Fcomo .8 !avia #eito em o)ras de #ic*+oF, escrevendo 3ue,
se #osse poss,vel es3uecer da nature-a !umana, 5=ovas de parte alguma6 seria 4timo.
Ias, .8 3ue isso n+o B poss,vel, o livro de Iorris B muito menos 3ue isso.
7ma utopia moderna precisa1
1. de um planeta inteiro.
2. de conviver com a tBcnica. =+o !8 nada de intr,nseco Cs m83uinas 3ue as
o)riguem a ser #eias. $ tBcnica deve se integrar C nature-a e dei%ar ao !omem tempo livre
para pensar criativamente.
9. de oportunidades iguais. &adas estas, a nature-a se encarrega de separar os
indiv,duos segundo suas !a)ilidades. Wells considera 3ue e%istem 3uatro tipos de seres
!umanos1 “poéticos! cinéticos! rutos e vis”. "4 os Qltimos n+o têm conserto e aca)am
isolados em il!as0pris+o. $ classe dirigente deve congregar indiv,duos do primeiro e
segundo grupos, de pre#erência pessoas 3ue ten!am as duas caracter,sticas1 se.am criativas
e espertas. "+o os samurais, gerentes desse Dstado mundial. Dles #uncionam como uma
N:
ordem religiosa1 entram para ela se respeitarem umas tantas regras de vida, devem se casar
dentro da comunidade e, caso n+o o #a*am, devem sair ou convencer o mem)ro de #ora a
entrar. D%iste uma regra menor para mul!eres, menos rigorosa, e 3ue atende mel!or aos
re3uisitos da maternidade. Slaro 3ue o o).etivo #inal dessa utopia, con#orme a sele*+o a.a
e o n,vel geral de entendimento aumente, B 3ue todos se tornem samurais @cap. N, item MA.
<. de li)erdade de ir e vir, de menos !oras di8rias de tra)al!o, de oportunidades
iguais para as mul!eres.
?. de uma organi-a*+o central mundial, com registros de todas as pessoas,
contendo n+o s4 sua !ist4ria como sua agenda di8ria.
M. de muitas proi)i*/es @essenciais C vida em comumA, mas de nen!uma
compuls+o. P claro, se a organi-a*+o B racional, Wells acredita, ninguBm precisar8 ser
indu-ido a nada. O am)iente inspirar8 suas pr4prias regras. Kodos ver+o 3ue tudo B para
mel!or e as proi)i*/es v+o aparecer apenas como regras de convivência civili-ada, de
preserva*+o da privacidade @este um ponto importante a ser mantido, e 3ue B dei%ado de
lado por outros utopistasA. 50ão é por assimilação! mas pelo entendimento $ue a 8topia
se reali.a plenamente6@cap. 2, item 2A.
N. de respeitar as leis da evolu*+o natural1 os #racos podem viver, mas n+o devem
se reprodu-ir, pois, segundo a lei, a espBcie B a soma de todas as e%periências )em0
sucedidas do passado @o 3ue parece um darwinismo meio mal compreendido, o 3ue B
estran!o pois, no artigo 3ue acompan!a este livro, 5Oeticismo acerca do instrumento6,
Wells tem uma vis+o muito clara da continuidade da vida e da arti#icialidade do conceito
de espBcieA.
;. de )e)ida alco4lica @a#inal, deve ser uma utopia !umanaAO de din!eiro, por3ue o
escam)o seria um atraso e crBditos por tra)al!o como pensa (ellamy s4 con#undiriam as
coisas, tra-endo di#iculdades 3uando da medida do tra)al!o. O lastro do din!eiro deve ser
energia. Havendo e%cedente, o din!eiro pode ser emprestado por institui*/es pQ)licas ou
;G
por pessoas #,sicas, pode ser acumulado @e%istem ricos na utopia moderna, o 3ue n+o
e%iste s+o po)resA. $ acumula*+o n+o B !eredit8ria.
:. de 4cio, para garantir mudan*a. Wells a#irma 3ue sua utopia B a primeira a
recon!ecer a necessidade do progresso. O sistema n+o se pretende #ec!ado, em)ora Wells
n+o nos diga como os vis ou os p8rias @os desviantesA poderiam c!egar ao poder.
@Wnconsciente disso, "Xinner di- 3ue 5Walden 26 B a primeira utopia 3ue leva em conta a
ideia de mudan*a.A
"e tudo isso acontecer, o mundo ser8 limpo e as pessoas se portar+o com
civilidade e )om gosto.
Dssas 3ualidades de 3ue o mundo precisa nos s+o apresentadas em #orma de
#ic*+o. O narrador e um acompan!ante, um )otJnico, est+o passeando a pB nos $lpes
3uando notam 3ue !ouve uma pe3uena mudan*a no am)iente1 uma casa 3ue n+o estava na
paisagem apareceu. Dst+o em outro planeta, igual #isicamente C Kerra @inclusive cada
!a)itante tem l8 seu duploA, inclusive com a mesma l,ngua @ali8s, uma s4 l,nguaA.
V+o para uma estalagem, onde s+o )em rece)idos, apesar das roupas )i-arras
@pois irracionalmente en#eitadas para os padr/es ut4picosA e .8 come*am a perce)er as
di#eren*as desse mundo mel!or1 os 3uartos s+o limpos, n+o têm tapetes nem cantos onde
su.eira possa se acumular, a mo),lia B constitu,da apenas do indispens8vel, de tal #orma
3ue n+o !8 necessidade de empregados. O !4spede pode, em poucos minutos, cuidar da
limpe-a do am)iente. Slaro, e%iste multa para 3uem n+o se comportar )em e n+o #i-er a
#a%ina di8ria. Ias ninguBm B multado, salvo por es3uecimento, .8 3ue todos s+o racionais
e, assim, n+o pode !aver nen!um tipo de coer*+o @coer*+o e%ercida pelo Dstado so)re
pessoas racionais implicaria um Dstado n+o0racional, o 3ue Wells nem imagina o 3ue
se.aA.
Os transportes s+o #eitos por trens muito con#ort8veis e velo-es, cu.as estradas s+o
per#eitamente integradas ao am)iente. =o camin!o para a esta*+o, para irem a Rondres, os
via.antes encontram um dissidente. Wells o apresenta como t+o a)solutamente maluco 3ue
;1
n+o resta dQvida so)re 3uem est8 certo acerca de 3ue maneira tudo deve se condu-ir. O
dissidente representa o vel!o utopismo1 sem disciplina, sem tecnologia. =+o conseguindo
passes para via.ar, os involunt8rios e%ploradores da utopia moderna se apresentam ao
escrit4rio local de identi#ica*+o e alegam ter perdido seus documentos @a !ist4ria do
5outro planeta6 n+o agradou a ninguBm e eles desistiram de cont80laA. =a #alta total de
identi#ica*+o, s+o tomadas suas impress/es digitais e, en3uanto a resposta da central n+o
vem, B0l!es dado din!eiro para 3ue permane*am por ali, na estalagem e um tra)al!o
simples l!es B conseguido, como ental!adores de madeira.
Vuando c!ega a resposta, os #uncion8rios da administra*+o #icam perple%os1 eles
e%istem na3uele mundo, mas s+o outras pessoas. Somo poderia o sistema ter0se
enganadoH O .eito B mand80los para Rondres para 3ue ve.am seus duplos. O duplo da vo-
pertence C classe dirigenteO B um samurai. O duplo do )otJnico, evidentemente, B menos
3ue isso.
&o encontro com o samurai B 3ue vêm as e%plica*/es so)re a classe pol,tica
dirigente @na verdade, a classe administradoraA.
$ vo- se #a- acompan!ar sempre do )otJnico, um !omem pr8tico e o)cecado por
uma mul!er 3ue n+o l!e corresponde. Wells usa esse arti#,cio para apresentar ao leitor
duas vers/es de individualismo. $ primeira tende C intelectualidade e C a)stra*+o. &eve
ser preservada para a utopia. $ segunda B a#etiva, ca4tica e perniciosa para a completa
reali-a*+o da vida. &eve ser eliminada. O 3ue a utopia moderna e%ige B um novo !omem,
inteligente e com emo*/es controladas pela ra-+o. Wells acredita 3ue esses !omens
e%istam e s+o eles 3ue devem come*ar a reali-ar o son!o.
>alando em son!o, o )otJnico se irrita com a vo-, com suas considera*/es acerca
dos mBritos de sua utopia e, assim, #a- a 5olha arreentar6. $ utopia se vai. $m)os est+o
de volta a Rondres. $ vo- recon!ece nas ruas personagens de sua utopia. Srian*as
maltrapil!as 3ue vendem .ornais eram atB !8 pouco )em nutridos pimpol!os, candidatos a
samurais e assim por diante. $ )ol!a de son!o sempre arre)enta por3ue pessoas pr8ticas
;2
@cientistas inclu,dosA se a#erram a um conceito im)ecil de imuta)ilidade do ser !umano.
Wells crê no contr8rio, desde 3ue as coisas se.am vistas de maneira mais clara, o 3ue
come*a pelo pr4prio mBtodo cient,#ico 3ue, em te%tos como 5A redescoerta do 5nico6 @o
primeiro te%to 3ue Wells pu)licou, em 1;:1A ou 5Oeticismo sore o instrumento6 @de
1:G9A, aparece como uma #erramenta n+o l8 muito con#i8vel da menos ainda con#i8vel
ra-+o !umana. Wells usa isso como argumento anticient,#icoH =+o. Somo >eyera)end, ele
de#enderia 3ue ciência B o mel!or 3ue se tem. "4 3ue ela n+o pode ser .ulgada em
a)soluto como o mel!or 3ue !8 no universo, como algo cu.a per#ei*+o e%ista ou possa ser
.usti#icada. Dla B, apenas, o 3ue e%iste C m+o.
Eara Wells, o Wells pro#Btico, n+o !8 casamento poss,vel entre ra-+o cient,#ica e
)ar)8rie. Orwell comenta1 “a Alemanha moderna cem 1:<1d é muito mais cient;fica $ue a
/nglaterra e muito mais #rara' Muito do $ue 3ells imaginou e militou a favor existe
fisicamente na Alemanha na.ista” @Orwell, 1:<1A. &esde 57ma utopia moderna6 atB o
#im de sua vida, Wells manteve a cren*a de 3ue era s4 pensar direito 3ue pro)lemas como
di#eren*as raciais ou nacionais ou religiosas desapareceriam. Wnstrumento importante
nessa trans#orma*+o seria a ciência. O sBculo 2G o #oi desmentindo cada ve- mais.
"urpreendentemente, o primeiro autor dist4pico #utur,stico importante era o !omem
menos preparado para admitir da possi)ilidade real da distopia.
bbb
$s três antiutopias estudadas adiante apresentam um mundo dividido em classes.
D note0se 3ue seus três autores eram !omens com convic*/es 3ue poder,amos identi#icar
com a es3uerda. Eor 3ue as classesH Kalve- por3ue a mel!or #orma de se mostrar o 3ue
poderia advir da n+o ado*+o de um sistema mais racional de distri)ui*+o de ri3ue-as #osse
a e%trapola*+o do pior 3ue !avia no mundo no momento em 3ue cada uma dessas !ist4rias
#oi escrita.
Wells e%trapola as condi*/es terr,veis em 3ue viviam os tra)al!adores ingleses no
#inal do per,odo vitoriano. $ )urguesia via a Bpoca Fa acreditar nas reminiscências de
;9
Koyn)eeF como um 5#im da !ist4ria6 @a e%press+o B do pr4prio Koyn)eeA1 progresso
material, colTnias paci#icadas ou a camin!o da paci#ica*+o e Duropa e3uili)rada. =+o era
)em isso o 3ue Wells via. $ e%press+o mais tene)rosa da vis+o wellsiana vem em sua
primeira e mais )em0sucedida novela1 5$ m83uina do tempo6, de 1;:?. $ permanecerem
as condi*/es sociais de #ins do sBculo 1:, !averia, no #uturo, uma especia*+o da
!umanidade, com uma espBcie servindo de pasto para a outra.
Eouco mais de trinta anos depois, o 3ue c!amava a aten*+o de Hu%ley era o
#ordismo, entendido como o culto da e#iciência em nome da perda de 3ualidade como
pre*o a pagar para se produ-ir mais mercadorias vulgares. Dst8 certo 3ue,
surpreendentemente, Hu%ley n+o levou em conta para escrever seu 5$dmir8vel mundo
novo6 3ue esse sistema 3ue e%trapolava .8 !avia dado mostras de uma imensa #ra3ue-a
interna, em 1:2:. P prov8vel 3ue, como acontece com Zamyatin, Hu%ley n+o #osse
e%atamente um cr,tico do capitalismo Fcomo Zamyatin n+o o era da 7'"". $m)os, C sua
maneira, criticam o processo de industriali-a*+o e a vulgari-a*+o e dessensi)ili-a*+o 3ue
ele acarreta.
$pesar da di#eren*as, tanto Wells 3uanto Hu%ley acreditavam na ra-+o. =+o
podiam ver como a ciência poderia se aliar C mais terr,vel perversidade, como Orwell viu
com a $leman!a na-ista. Hu%ley ou n+o viu, ou n+o perce)eu 3ue, na Erimeira Guerra,
#icou claro 3ue a ciência podia se aliar C )ar)8rie, )ar)8rie esta muito mais incisiva 3ue,
simplesmente, a dessensi)ili-a*+o geral de 5$dmir8vel mundo novo6. Orwell e%trapola o
mundo p4s0"egunda Guerra1 ciência voltada e%clusivamente para o poder e o poder
mantido ao pre*o de despertar os mais )ai%os instintos do !omem1 a dela*+o, o 4dio e
amor e%t8ticos a l,deres imagin8rios.
$ presen*a de classes sociais )em de#inidas Fclasses entendidas como estratos
de pessoas 3ue compartil!am mais ou menos as mesmas c!ances na vidaF mostra 3ue
esses autores, mais 3ue Zamyatin ou (rad)ury, estudados no pr4%imo cap,tulo,
pretendiam #undamentar seus #uturos em e%trapola*/es plaus,veis. $ssim, a presen*a de
;<
classes denota uma preocupa*+o com rigor1 tudo o 3ue se o)servou atB !o.e na !ist4ria da
!umanidade #oram Dstados )aseados em classes )em de#inidas e separadasO logo, o #uturo,
ainda mais o #uturo provido de uma ciência muito mais poderosa, deve nos proporcionar
vis/es de uma divis+o inBdita, muito mais r,gida e per#eita de o 3ue tivemos atB a3ui. "+o
essas as vis/es 3ue estudaremos a seguir.
21. AU1a h3s0?r3a 6-s 0e1;-s ./0/r-sB
Dscrita dois anos depois de 5Vuando o adormecido despertar6, esta !ist4ria dos
tempos #uturos n+o nos apresentaria propriamente uma distopia, se consider8ssemos o
termo aplic8vel apenas ao Dstado 3ue age sempre para o )em de todos. D%istem in#eli-es
nessa Wnglaterra do #uturo. =o entanto, tal Dstado nos B apresentado como ina)al8vel e
sem desa#iadores. $ssim, do ponto de vista da esta)ilidade da sociedade apresentada,
trata0se e#etivamente de uma distopia1 um Dstado desen!ado para durar. =+o e%iste uma
sociedade 3ue #uncione no sentido de garantir a #elicidade e o )em estar de seus mem)ros.
D%iste, isso sim, uma sociedade tal como a nossa de !o.e, com seus desn,veis, com a
vontade dos de )ai%o de su)ir e dos de cima, de n+o descer. Kudo a mesma coisa, s4 3ue
a)solutamente sem oposi*+o militante. D%iste uma oposi*+o ideol4gica e silenciosa da
classe dos pro#issionais li)erais, oposi*+o esta sem 3ual3uer e%press+o pr8tica.
Wells considera 57ma !ist4ria dos tempos #uturos6 e 5Vuando o adormecido
despertar6 o)ras de uma mesma #ornada, com um mesmo o).etivo1 5O futuro em M-uando
o adormecido despertarM estava representado essencialmente pelas tend%ncias
contemporâneas exageradas= os im:veis mais altos! as cidades maiores! os capitalistas
mais ameaçadores e uma classe oper#ria mais massacrada e desesperada do $ue em
$ual$uer outra época' Cudo era maior! corria mais rapidamente! havia mais gente em
todo lugarL voava,se cada ve. mais e a especulação financeira era mais desenfreada'
Cratava,se de nosso mundo contemporâneo! mas em um estado de exagero e inflamação
extremos' 8m $uadro muito semelhante aparece em M8ma hist:ria dos tempos futurosM e
;?
M8m sonho de ArmageddonM' Quponho $ue essa se"a uma atitude natural para um criador
liter#rio em uma época de progresso material e de esterilidade pol;tica6. @do
5D%perimento em auto)iogra#ia6, apud 0E. Vernier, 1:N9, pp. 1:02GA.
=esse am)iente, uma Rondres de 21;G, com inimagin8veis 99 mil!/es de
!a)itantes, B 3ue Wells situa a !ist4ria de &enton e Dli-a)et!, um casal de classe mBdia
3ue se une contra a vontade do pai da mo*a e 3ue, por conta disso, deve amargar as penas
de descer atB a condi*+o em 3ue vivem as classes in#eriores. =o #inal, a #elicidade1 eles
voltam C classe mBdia, !erdam uma pe3uena #ortuna e tudo indica 3ue viver+o )em pelo
resto de suas vidas. $ #elicidade, )em entendido, B pelo retorno, pela retomada da
esta)ilidade anterior C descida, e n+o pela c!egada a um novo patamar.
bbb
Wells sa)e 3ue n+o deve cansar o leitor com detal!es de como o mundo do #uturo
#unciona. =a vers+o preliminar de 5$ m83uina do tempo6, um conviva do via.ante l!e
pergunta pelos por3uês do #uturo. Kudo o 3ue ele responde B 3ue B um rep4rter e n+o
5uma versão anotada de mim mesmo6. =o caso, o narrador n+o B um rep4rter e, assim,
poderia e%plicar tudo sem ser uma vers+o anotada de si pr4prio. Ias Wells opta por nos
apresentar apenas relances do #uturo, o su#iciente para #ormarmos um 3uadro de Rondres
@e do mundoA, mas sem nos determos em detal!es tBcnicos. =esse aspecto, a primeira
distopia #utur,stica tecnol4gica !istoricamente representativa rompe com a tradi*+o das
utopias @e das antiutopiasA de 3ue deve sempre !aver um cicerone 3ue d8 para 3ual3uer
ato o)servado uma e%plica*+o per#eitamente racional Fracional em termos das )ases
so)re as 3uais se #unda a sociedade en#ocada. erome K. erome, em 5$ nova utopia ou o
mundo no ano 9GGG6, de 1;::, inicia a narra*+o com uma #rase do cicerone, dirigindo0se
ao visitante1 52# seiL o senhor vai me pedir para sair consigo! mostrar o $ue mudou e
fa.er reflex)es est5pidas6. Wells nem se preocupa com a s8tira. Wnicia a a*+o no #uturo
mostrando0o naturalmente. "e B 3ue a sociedade do #uturo tem ra-/es para tudo, estas
devem ser desco)ertas na pr8tica.
;M
$ssim, Wells estrutura a novela em cinco cap,tulos, cada um come*ando com
uma descri*+o do am)iente @no Qltimo, com uma descri*+o do vil+o da !ist4riaA, de n+o
mais de duas ou três p8ginas, para, logo depois, passar C a*+o. =essas introdu*/es,
#icamos sa)endo 3ue as pessoas no #uturo s+o igualmente med,ocres, com os mesmos
tipos de preocupa*/es 3ue movem as pessoas de !o.e. Eara mostrar isso, Wells nos
descreve a vida de Iorris, um cidad+o comum da Rondres vitoriana e, depois, descreve a
vida de um de seus descendentes, Iawres, pai de Dli-a)et!, a don-ela re)elde. =a
introdu*+o do cap,tulo 2, nos mostra como os meios de transporte modi#icaram a #ace do
planeta. =o 9 e no <, como B dividida a sociedade ur)ana do sBculo 22.
$s cidades grandes concentram agora 3uase toda a popula*+o do glo)o. O campo
B inteiramente mecani-ado, n+o !avendo necessidade de grandes contingentes de m+o0de0
o)ra. Os transportes diminu,ram as distJncias, de modo 3ue o 3ue B produ-ido no campo
pode #acilmente ser estocado a muitas centenas de 3uilTmetros @Wells nos #ala do
desenvolvimento dos transportes, do tipos de ve,culos, de sua velocidade Fos terrestres
alcan*ando os 9GG Xm]!F mas nada nos di- so)re o 3ue seria usado para movê0losA e os
poucos empregados nas #a-endas e pastagens podem morar na cidade e ir diariamente para
seu tra)al!o sem muita perda de tempo ou de energia. @$lguns anos depois, essa migra*+o
do campo para a cidade apresentada por Wells seria invertida por Sli##ord "imaX F5$s
cidades mortasF e 'o)ert Heinlein F5O !omem 3ue vendeu a Rua6.Dstes viam no
progresso dos transportes uma ra-+o para o ê%odo ur)ano em dire*+o ao campo e, no caso
de "imaX, para o #im das cidades.A
$ssim B 3ue a Wnglaterra tem, nessa Bpoca, 3uatro cidades apenas. $ eletricidade
aca)ou com a polui*+o caracter,stica da Rondres vitoriana, mas continuamos sem sa)er se
os autom4veis s+o elBtricos ou n+o. $parentemente, como acontece em 5Vuando o
adormecido despertar6, tudo B elBtrico e pelo menos parte da eletricidade B o)tida pelo
aproveitamento da #or*a das marBs.
;N
Vuanto C l,ngua, ela ainda B o inglês, em)ora pronunciado de #orma um pouco
di#erente. Wells nos di- 3ue a pronQncia s4 n+o se corrompeu mais por3ue a leitura #oi
su)stitu,da pelo #on4gra#o. Som este, desaparecem os registros escritos Kudo o 3ue se
escreveria B #alado e tudo o 3ue se leria B ouvido. Dsse B mais um tra*o progressista de
Wells1 n+o e%istem em suas !ist4rias o saudosismo #etic!ista de Iorris ou >orster por
uma era de mais re#le%+o, de leitura e, portanto, de livros. $ cultura nada tem a ver com o
meio por 3ue B transportada. O meio B apenas um acidente !ist4rico.
Rondres B cercada e co)erta de vidro, tendo < mil pBs de altura. Som uma
estrutura como essa, o neg4cio do #uturo est8 no ramo de ventila*+o1 grandes ventiladores
s+o necess8rios para 3ue a cidade se.a mantida #resca.
$ estrutura social se re#lete na ar3uitetura ur)ana1 os ricos moram em cima, os
mBdios ocupam os andares mBdios @3uando ainda est+o na classe mBdia, Dli-a)et! e
&enton conseguem um apartamento no <2e andarA e os tra)al!adores )ra*ais ocupam o rBs
do c!+o ou o su)solo. Os edi#,cios s+o interligados por passarelas 3ue desli-am a
velocidades di#erentes, com assentos especiais para os oper8rios. Os ricos o s+o pelos
mesmos motivos de !o.e1 !eran*a e sorte, nen!um ou raro merecimento. Os mBdios
constituem uma classe numericamente e economicamente diminuta de pro#issionais
li)erais, artistas e tBcnicos. Os in#eriores s+o a grande maioria e devem envergar um
uni#orme a-ul o)rigat4rio. $ uni#ormi-a*+o das classes sociais tam)Bm come*a com
Wells. =em (ellamy e seu 5e%Brcito industrial6 e%ige tanto dos cidad+os. Dm 5Vuando o
adormecido despertar6, os oper8rios vestem a-ul, os vigilantes e a pol,cia do tra)al!o,
laran.a e os ricos podem se !aver sem uni#ormes.
Wells sa)e 3ue n+o B necess8ria nen!uma coer*+o especial para 3ue !a.a
compartimentali-a*+o social. Os oper8rios c!egam a essa condi*+o por mecanismos
aparentemente n+o0coercitivos e a, #icam por toda a vida. D%iste uma Sompan!ia do
Kra)al!o, 3ue d8 re#ei*/es, a)rigo, roupas @o o)rigat4rio macac+o a-ulA e coloca*+o para
os 3ue n+o têm meios. Dsse empurr+o inicial implica a a)ertura de um crBdito, 3ue deve
;;
ser saldado pelo interessado. Rogo, descreve o autor, 1]9 da popula*+o do planeta B
constitu,da de servos ou de devedores da compan!ia. D essa d,vida se estende aos 3ue
ainda v+o nascer. Eara 3ue as m+es gr8vidas ten!am assistência, devem se comprometer a
dar uns tantos anos de tra)al!o de seus #il!os.
Kodo esse sistema s4 B poss,vel com uma educa*+o voltada integralmente para
essa nova cidadania. Dm 5Vuando o adormecido despertar6, um mem)ro da elite e%plica
ao protagonista, Gra!am, como #unciona o sistema educacional do #uturo. Eor 3ue cansar
mentes .ovens com conceitos di#,ceisH (asta para elas o su#iciente para o)edecer 3uando
l!es #or e%igido algo. Eara isso FWells B )em espertoF, n+o B preciso coer*+o. Iuito
pelo contr8rio1 a educa*+o B totalmente livreO o #il!o do oper8rio #a- mais ou menos o 3ue
3uer. O resultado B 3ue ele aprende apenas o 3ue B preciso para 3ue o sistema se manten!a
e ele nem se3uer se sente coagido por isso. Eelo oposto1 agradece. 7m 5inspetor geral do
Cruste de (scolas 95licas6 nos di- 3ue, agora, a educa*+o B universal 5e divertida6. Dssa
educa*+o se )ene#icia dos grandes progressos alcan*ados na psicologia. 5Codas as
operaç)es condu.idas por regras determinadas! ou se"a! de uma espécie $uase mecânica!
foram liertadas completamente dos erros da imaginação e da emoção e levadas a um
grau extraordin#rio de precisão' As crianças das classes traalhadoras! tão logo atingem
a idade de ser hipnoti.adas! eram assim transformadas em m#$uinas pensantes de uma
pontualidade e fidelidade admir#veis! e dispensadas imediatamente dos longos estudos
da "uventude6 @5Vuando o adormecido despertar6, cap. 1NA. P o taylorismo tirado da
indQstria e levado F.8 3ue n+o !8 limites para o grande capitalF para a educa*+o )8sica.
Erimeiro, o sa)er oper8rio B e%propriado @a etapa inicial do mBtodo de Kaylor de
organi-a*+o industrialAO depois, uma ve- 3ue n+o s4 a #8)rica pertence ao grande capital,
mas toda a cidade @a cidade0#8)rica, e esse B o ep,teto de 5Ietr4polis6, de K!ea von
Har)ou e do #ilme !omTnimo de >rit- Rang, de 1:2MA, o mBtodo B aplicado n+o no
oper8rio 3ue ingressa na #8)rica, mas na crian*a 3ue ingressa na cidade0#8)rica, o 3ue d8
na mesma. Dssa #orma de educa*+o B o 3ue Wells antevê do capitalismo desen#reado
;:
completamente livre de preocupa*/es sociais Fo capitalismo 5mesotécnico6 de Ium#ord1
aglomera*+o, ma3uini-a*+o, atomi-a*+o e perda da individualidade. Dm 5Vuando o ...6,
Wells a#irma Fa respeito de uma revolu*+o malsucedidaF 3ue as massas in#eli-es est+o
sempre oscilando entre o demagogo e o organi-ador. Som o desenvolvimento desse
capitalismo vitoriano, no sBculo 22,Ietr4polis o o demagogo .8 n+o B necess8rio1 a massa
est8 inteiramente nas m+os do organi-ador. 5(ntre RIII e REII! o progresso
continuamente acelerado da invenção humana fe. com $ue o reino da oa rainha Kit:ria
se parecesse com uma incr;vel visão de dias id;licos e tran$<ilos6 @HK>, cap.2A.
Vuem c!ega Cs portas da Sompan!ia do Kra)al!o .8 n+o tem mais escol!a. $
cidade B cara, o campo n+o apresenta condi*/es para a vida, a vadiagem B imposs,vel.
Dli-a)et! nota, na sala de espera, os rostos dos 3ue dever+o ser entrevistados1 variam da
alegria por estarem C )eira de um emprego, ao mais a)soluto desespero e #ome. $ sele*+o
n+o depende da vontade do pretendente1 3uestion8rios s+o preenc!idos, uma entrevista B
#eita e o pretendente B designado para um emprego e para uma moradia condi-ente. P
tudo.
O tra)al!o B mon4tono, como todo servi*o )ra*al. Dli-a)et! B designada para
tra)al!ar em um local onde ainda B poss,vel um m,nimo de criatividade. Dst+o em moda,
nas residências do #uturo, paredes divis4rias decoradas. Ias os pes3uisadores
desco)riram 3ue motivos e%atamente repetidos cansam os compradores e, assim, B
pre#er,vel 3ue os desen!os se.am #eitos manualmente, com a conse3Uente introdu*+o de
pe3uenos erros. Wronicamente, Dli-a)et! B paga para errar, coisa 3ue as m83uinas ainda
n+o podem #a-er. O tra)al!o de &enton B numa prensa !idr8ulica, descrita por Wells
como uma espBcie de ,dolo Fum (udaF acocorado, 3ue deve ser servido. Son#orme as
e%igências da m83uina, &enton deve acionar umas tantas alavancas1 5...afigurava,se por
ve.es a Senton $ue a$uela m#$uina era o ;dolo oscuro ao $ual! por uma estranha
aerração! a humanidade oferecia em sacrif;cio a sua exist%ncia6 @57ma !ist4ria dos
tempos #uturos6 p. :M, cap. 9A. =otemos 3ue, 9G anos antes de 5Ietr4polis6Fo #ilme cu.o
:G
visual #or.aria todas as imagens do #uturo produ-idas no sBculo 2GF Wells .8 se re#ere a
m83uinas como ,dolos 3ue devem ser alimentados com sacri#,cio. =o #ilme de >rit- Rang,
a cena cBle)re acontece 3uando o #il!o do grande empres8rio, o .ovem >red >redersen, em
um del,rio momentJneo, con#unde a m83uina principal 3ue move a cidade com um deus
devorador de !omens e grita 5Ioloc!f6.
=esse mundo in#erior wellsiano n+o !8 leis1 5A lei e o ma$uinismo do (stado
tinham,se tornado uma coisa $ue conservava os homens so o "ugo do terror! afastava,os
de $ual$uer ideia de propriedade e de todos os pra.eres dese"#veisL e a isso se limitava
todo seu efeito6. @ HK>, pp. 11N]11;, cap. <A $s colegas de Dli-a)et! son!am economi-ar
para poder comprar 2< !oras de li)erdade. $ vida B inteiramente regulada pelo Dstado,
n+o podendo #altar a sineta e a ilumina*+o autom8ticas para despertar os oper8rios.
O 3uadro #inal1 5O monstruoso emuste da civili.ação ostentava,se,lhe cpara
&entond aos olhos com toda sua plenitudeL ele a via como uma exageração de demente!
produ.indo nas classes inferiores uma torrente de selvageria $ue ia aumentando sempre
e! em cima! uma distinção cada ve. mais fr;vola e uma ociosidade cada ve. mais ing%nua'
0ão via ind;cio algum de lierdade! nenhum sentimento de honra! se"a na vida $ue tinha
levado ca de classe mBdiad, se"a na$uela em $ue tinha ca;do' A civili.ação se apresentava
como um produto catastr:fico $ue não tinha com os homens! a não ser tomando,se estes
como v;timas! mais relaç)es do $ue t%m ccom elesd um ciclone ou uma colisão planet#ria6
@cap. <A.
bbb
$ saga de &enton e de Dli-a)et! B o 3ue tem menos interesse nesse livro. Somo
acontece a outras o)ras #utur,sticas do pr4prio Wells, a trama B a)solutamente
convencional e nada tem a ver com a sociedade retratada. O mesmo acontece no cinema,
onde um #ilme como 5Ietr4polis6 descreve grandiosamente o #uturo e coloca nesse
cen8rio a )anal !ist4ria de amor entre um !erdeiro e uma oper8ria. O #uturo grandioso,
com sua Rondres ostentando edi#,cios de 1.MGG metros de altura, com um Dstado t+o
:1
onipresente 3ue c!ega a ser comparado com um ciclone com rela*+o ao !omem, serve de
pano de #undo para a !istorin!a romJntica resumida a)ai%o.
Dli-a)et! tem 1; anos e ama &enton, um rapa- 3ue tra)al!a no cais de m83uinas
voadoras. O pai de Dli-a)et!, Iawres, 3uer 3ue ela se case com (indon, um dJndi. Dla
nem pensa no assunto e, dessa #orma, Iawres contrata um !ipnoti-ador para 3ue
Dli-a)et! se es3ue*a de &enton. Dle tem sucesso, mas B desco)erto pelo rapa- e #or*ado a
des#a-er o tratamento. O casal resolve ent+o #ugir da cidade para o campo, mas desco)re
3ue .8 n+o B poss,vel viver #ora da cidade. Voltam. Dli-a)et! contrai um emprBstimo
)aseado no 3ue ela dever8 rece)er por parte da !eran*a de sua m+e, 3uando tiver 21 anos.
Ias os .uros se somam, e o casal cai. $m)os arran.am empregos na classe )ai%a.
=o cap,tulo #inal, #icamos sa)endo 3ue tudo #oi tramado por (indon, 3ue
pretendia se vingar de Dli-a)et! e, mais, retom80la. &epois de vê0la so#rer Finclusive a
morte de sua #il!in!aF, (indon manda Iawres tentar convencer Dli-a)et! a se separar
de &enton, com o 3ue ela n+o concorda. =esse meio tempo, (indon desco)re 3ue est8
mortalmente doente e resolve, como Qltimo ato, dei%ar sua #ortuna para Dli-a)et!. =o #im,
ela e &enton retornam C vida superior. (indon se mata, c!amando a Sompan!ia
Dutan8sica. =ada mais convencional.
=a Qltima cena do livro, meio en#astiados, meio em ê%tase @por terem se livrado
dos su)terrJneosA, &enton e Dli-a)et! admiram o pTr0de0sol nos campos 3ue cercam
Rondres. Earece 3ue )oa parte do contentamento 3ue se apossa de Dli-a)et! vem n+o de
algo positivo, mas simplesmente de constatar 3ue n+o est8 mais nos su)terrJneos de
Rondres. O casal, depois de ascender novamente, se es3uece da revolta 3ue se apossou
deles 3uando estiveram nos su)terrJneos da cidade. Ol!am0na agora de uma varanda num
andar superior, s+o apenas espectadores, n+o gente 3ue pretenda mudar alguma coisa.
Somo nota Vernier, toda a cena acontece so) um pTr0do0sol vermel!o, o mesmo so) o
3ual B mostrado o desolador #im da Kerra em 5$ m83uina do tempo6. Dn#im, n+o se pode
esperar re#le%+o e revolta de 3uem est8 em)ai%o, nem de 3uem est8 em cima, e nem
:2
mesmo de 3uem transitou entre esses dois mundos. Eara estes, a press+o do con#orto B
muito grande, grande demais para 3ue se 3ueira modi#icar alguma coisa.
bbb
=+o B di#,cil, ao se ler essa !ist4ria dos tempos #uturos, desco)rir elementos 3ue
estar+o presentes em toda a >S do sBculo 2G. S!amamos a aten*+o para o principal1 o
dilema de o 3ue #a-er com a maioria das pessoas, em #ace da mecani-a*+o das indQstrias.
Ou as pessoas s+o de#initivamente ali.adas, como os 5Neeks and 3recks6, de Vonnegut,
sustentados pelo Dstado para #icarem em casa, ou s+o desumani-ados como a3ui, tendo de
servir Cs m83uinas cu.os princ,pios n+o compreendem, vivendo so) um regime de terror e
de )rutalidade do 3ual n+o e%iste sa,da. =esse sentido, B importante a ida do casal para o
campo1 re#or*a a ideia de 3ue o progresso B irrevers,vel, de 3ue n+o !8 volta, de 3ue n+o
!8 sa,da para a opress+o 3ue ele desencadeia, de 3ue, se !ouver algo a #a-er, B preciso
ac!ar o meio por dentro do sistema, com os dados dispon,veis, n+o pelo recurso a alguma
ideali-a*+o de passado. Ias, na cena #inal, livre da opress+o dos su)terrJneos, o casal
desiste de pensar1 &enton se recol!e na resigna*+o e Dli-a)et! num vago contentamento.
Koda essa estrutura opressiva #oi constru,da gra*as a um grande avan*o
tecnol4gico, n+o apenas nas ciências naturais, mas na psicologia, como nos mostra o
5inspetor geral do Cruste das (scolas 95licas6 de 5Vuando o adormecido despertar6.
Ias, parado%almente, se e%iste salva*+o, ela parece estar na pr4pria ciência1 3uando
(indon #ala com um mBdico, este l!e di- 3ue, com o tempo, e com o acQmulo do
con!ecimento cient,#ico, os mBdicos e pes3uisadores @ou se.a, mem)ros da diminuta
classe mBdia ligados Cs pro#iss/es li)eraisA estar+o prontos para reivindicar 5um pouco
mais $ue ventilaç)es e esgotos6 @HK>, cap. ?A. Os ricos estiolaram0se numa 5comédia de
paixão! de patriotismo! de religião e por a; fora6 @idemA. Os oper8rios s+o )rutais, como o
prova a saga do casal. 'estam os pro#issionais da classe mBdia1 artistas, pro#essores,
tBcnicos. "+o 3uem detBm o con!ecimento.
:9
Dssa tens+o #ornece uma c!ave para as antecipa*/es e distopias1 e%istem dois
lados na ciência, dois lados com tempos de desenvolvimento muito di#erentes. Erimeiro, o
con!ecimento 3ue pode ser r8pida e #acilmente aplicado C tBcnica. $s possi)ilidades
geradas pela 'evolu*+o Wndustrial tomaram do arma-Bm da ciência o con!ecimento
necess8rio para promover a dinami-a*+o dos tra)al!os considerados )ra*ais. O resultado B
o )arateamento e a a)undJncia e o su)produto B o desemprego, a ociosidade, a
)rutali-a*+o pelo tBdio e pelo ali.amento de 3ual3uer possi)ilidade de intervir de maneira
criativa nos acontecimentos.
Wsso acontece rapidamente. Dstava em curso no tempo de Wells e continua em
curso !o.e. @Rem)remo0nos de Vonnegut, 3ue #ala em uma terceira revolu*+o industrial,
3ue terminaria com o tra)al!o intelectual, .ogando para os 5Neeks and 3recks6 mesmo a
classe mBdia.A Wells vê com algum pessimismo o #uturo desse processo. O resultado a
curto e mBdio pra-o B terr,vel. "e !ouver algo de )om no #im do tQnel, dever8 vir somente
5em geraç)es6 @idemA. (ellamy, por outro lado, em 5&a3ui a cem anos6, via apenas o lado
positivo do progresso, ou se.a, acreditava 3ue esse aspecto de desenvolvimento r8pido da
tecnologia podia ser mantido so) controle e suas conse3Uências, cuidadosamente pesadas
de #orma a n+o produ-irem e#eitos perversos.
Ias um segundo processo, mais lento, est8 tam)Bm em curso. O con!ecimento
aumenta e B cautelosamente digerido por pensadores, 3ue dever+o sa)er encontrar uma
sa,da para o progresso, sa,da 3ue signi#i3ue #elicidade para todos. O grupo 3ue #a- isso B,
para Wells, a classe dos pro#issionais li)erais. Vonnegut ou (urgess veem, como parte do
processo de industriali-a*+o e ali.amento @o processo r8pido e impensadoA a destrui*+o
dos pensadores. Wsso, atB o paro%ismo do conto de Syril Korn)lut!, 5$ pe3uena mala
preta6, no 3ual os 5pensadores6 do #uturo e%i)ir+o, orgul!osos, seus diplomas de
estenogra#ia. Wells acredita, como nos d8 a entender pela militJncia silenciosa do mBdico
em HK>, 3ue essa classe poder8, se se mantiver cautelosa, so)reviver ao #urac+o do
:<
desenvolvimento tecnol4gico apressado e, no #uturo, colocar esse desenvolvimento so)
controle.
Dssa 3uest+o de 5dois tempos6 di#erentes em ciência deve ser 3uali#icada.
Keoricamente, e%istem dois tempos1 uma a)sor*+o do con!ecimento cient,#ico pela
tecnologia e sua aplica*+o mais imediata e uma matura*+o do con!ecimento cient,#ico, de
#orma a 3ue todas as conse3Uências de dada !ip4tese possam ser su#icientemente pesadas
antes de 3ue se passe C aplica*+o. Slaro 3ue, na pr8tica, isso n+o acontece. =a pr8tica, n+o
!8 divis+o clara entre ciência pura e ciência aplicada, nem entre tecnologia dependente de
con!ecimento cient,#ico e tecnologia desenvolvida independentemente do aporte da
ciência 5mais pura6.
Wells, com )oa #orma*+o em )iologia e ra-o8vel in#orma*+o so)re #,sica e
)iologia, sa)e disso. =+o e%iste ciência ideal e ciência real. D%iste apenas ciência,
praticada por !omens comuns, 3ue nada têm de especial pelo #ato de serem cientistas.
$ssim, ele nos mostra, por e%emplo, em 5O alimento dos deuses6, de 1:G<, o caso de dois
cientistas 3ue desco)rem a !eracleio#or)ia, um alimento #ant8stico 3ue #a- tudo crescer
desproporcionadamente, e dei%am a desco)erta aos cuidados de dois caseiros semi0
retardados, permanecendo os cientistas completamente inconscientes do #ato de 3ue, uma
ve- espal!ada a 5contamina*+o6, tudo o 3ue B vivo estaria em perigo.
&essa #orma, 3uanto C #igura do cientista, podemos di-er 3ue Wells n+o o vê
como !er4i, como alguBm em 3uem se possa con#iar inteiramente como salvador da
situa*+o. O cientista0!er4i, 3ue campeou atB tempos )em recentes nas p8ginas e nas telas
de >S n+o tem origem em Wells, mas, talve-, na !orda de novelas )aseadas na #igura
pQ)lica de K!omas Ddison @Gunn, 1:N?, p. :M, Gunn ed., 1:;;, p. <12A. Dste, ali8s, B um
nome intimamente relacionado C eletricidade e eletricidade B o grande frisson popular em
#ins do sBculo 1: e in,cio deste. =a esteira do sucesso de 5$ guerra dos mundos6, de
Wells, o escritor Garrett "erviss #oi contratado para colocar Ddison, em uma !ist4ria
seriali-ada 3ue durou de 1;:; a 1:<N @fA, como o ca)e*a de uma e%pedi*+o de retalia*+o
:?
contra os marcianos 3ue !aviam invadido a Kerra, com 5$ con3uista de Iarte por
Ddison6 @5Ddison\s con3uest o# Iars6A.
Dm)ora ten!a uma vis+o realista @ou, atB de despre-oA do cientista, Wells
permanece acreditando na ciência. Wsso #ica patente, por e%emplo, em 5$ il!a do dr.
Ioreau6, de 1;:M. Ioreau B totalmente amoral 3uando descreve sua atividade1 50ão
pode imaginar o $ue isso significa para um investigador! $ue paixão intelectual se
apodera dele' 0ão pode imaginar as estranhas del;cias desses dese"os intelectuais' A
coisa $ue ele co cientistad tem diante de si não é um animal! uma criatura como ele! mas
sim um prolema6 @cap,tulo ;A. =o in,cio, o !er4i, ErendicX, desden!a essa atitude t+o
antiBtica, do con!ecimento acima de tudo. Eouco a pouco e, especialmente, 3uando se
livra do !orror da il!a e volta para sua Rondres, vai notando 3ue s4 a ciência
5desinteressada6 pode salvar o !omem no #uturo. Dm lugar de negar um lugar a essa
ciência desligada de princ,pios Bticos, simplesmente se retira para sua !erdade, a #im de
estudar.
$pesar de essa certa am)igUidade 3uando se re#ere C ciência e aos cientistas,
Wells, no #im de contas, mesmo ao escrever uma distopia, permanece otimista com
rela*+o ao papel 3ue a ciência poder8 desempen!ar em uma sociedade #utura, desde 3ue
)em aplicada. Dle parece acreditar 3ue e%iste uma ciência real, a3uela 3ue B praticada
pelos cientistas Fdependente de in.un*/es sociais, dependente de rela*/es
5contaminadoras6 com outras atividades n+o0cient,#icasF e uma ciência ideal, a3uela 3ue
poderia vir a ser praticada pelos cientistas e 3ue se tornaria uma atividade li)ertadora para
a !umanidade.
Dssa, por assim di-er, am)igUidade de Wells em rela*+o C ciência, vem sendo
resolvida na literatura e no cinema em #avor da ciência 5real6, do cientista como !omem
a)solutamente comum, como mais um pro#issional como outro 3ual3uer, sem nada de
especial 3ue o distinga. =o cinema, por e%emplo, Kudor @1:;:A #ala do papel cada ve-
menos importante do cientista, se.a como criador @de monstrosA, se.a como solucionador
:M
dos pro)lemas 3ue a ciência coloca @ou se.a, como destruidor de monstros e
resta)elecedor da ordemA.
Eara Wells, o mundo #uturo se parece, por #ora, com 5Ietr4polis61 alto @com a
ar3uitetura c!amada por "earles, 1:;;, de 5neomaia6A, estrati#icado, r,gido e,
aparentemente, sem esperan*a. $s pessoas e%istem para mandar ou para servir. $m)as as
#un*/es se d+o meio inconscientemente. O perigo, a #onte de insta)ilidade, est8 na mesma
classe 3ue garantiu o progresso material1 os cientistas. P preciso coloc80los so) controle
@como o #a- Orwell 3ue, em sua OceJnia ideali-ada, permite 3ue os cientistas se
interessem apenas em produ*+o militar de armas convencionais, ou em lingU,stica, a #im
de mudar o !omem, para 3ue este mel!or se adapte aos princ,pios do WngsocA ou destru,0
los, como pensam (urgess, em 51:;?6, e Vonnegut.
$ ideia B 3ue o pensamento cient,#ico B, essencialmente, li)ertador. Ias ele
produ- dois tipos de #rutos, com tempos de matura*+o di#erentes. O primeiro rende
tecnologia e opress+o. O segundo rende )em estar e dignidade. Eor isso, para ser
realmente est8vel, uma distopia deve destruir as #onte 3ue l!e #orneceu os meios tBcnicos
para instala*+o, deve destruir o 3ue Goldstein @em 51:;<6A c!ama de 5pensamento
especulativo6. &ado o tempo de matura*+o muito mais dilatado da re#le%+o cient,#ica
@dessa 5digest+o do con!ecimento6A, B poss,vel 3ue o pr4prio progresso cient,#ico se
encarregue, sem nen!uma a.uda e%terna, de encontrar os meios para se autodestruir. Dm
5'evolu*+o no #uturo6, a pr4%ima revolu*+o industrial, 3ue dever8 aca)ar com o tra)al!o
intelectual, B o).eto de estudo da pr4pria comunidade cient,#ica. O resultado B o mundo de
Korn)lut!1 a ciência, o racioc,nio especulativo, levando C sua pr4pria estagna*+o. =esse
aspecto, B novamente interessante a atitude do mBdico em HK>. O desenvolvimento
cient,#ico e tecnol4gico pode destruir0se a si pr4prio. Eara 3ue isso n+o aconte*a, B
necess8rio 3ue uma classe se desta3ue desse tur)il!+o e se isole n+o pes3uisando mais
con!ecimento de #ato, mas re#letindo so)re como se d8 tal con!ecimento. Dm silêncio,
:N
#ora de 3ual3uer institui*+o, tra)al!ando para compreender o progresso, mas sem se e%por
a ele, essa classe seria a deposit8ria da Qnica esperan*a para o #uturo.
$ tens+o entre esses dois tempos de matura*+o tem um outro #ruto1 o
irracionalismo. Erimeiro, vem a tecnologia criadora de opress+o. &epois, vem o aviso de
3ue B necess8rio digerir o 3ue est8 sendo #eito. Ias essa digest+o B relativamente lenta e,
assim, a conse3Uência mais imediata desse aviso B o irracionalismo, o anticienti#icismo,
presente em muita literatura e cinema de #ic*+o cient,#ica. =ovamente, vale a t8tica usada
pelo mBdico de HK>1 se o desenvolvimento tecnol4gico #or colocado em %e3ue muito
cedo, o irracionalismo ser8 a resposta. Iais um motivo para 3ue se gaste mais tempo em
re#le%+o.
Zamyatin @1:22A considera essa 56ist:ria''' o mais preciso e irDnico do textos
grotescos de 3ells6. Dssa o)serva*+o nos permite colocar HK> como o mais importante
precursor da literatura dist4pica moderna. Zamyatin o apreciou cuidadosamente e, mais ou
menos na mesma Bpoca em 3ue escreveu seu ensaio so)re Wells, produ-iu o importante
5=4s6. "e nos lem)rarmos 3ue Kurt Vonnegut a#irma 3ue 5rouou6 a trama de
5'evolu*+o no #uturo6 de 5$dmir8vel mundo novo6, cu.as origens ele atri)ui a uma
leitura de 5=4s6, vemos uma lin!a direta entre as principais antiutopias #utur,sticas.
Dm HK> est+o tam)Bm presentes todos os elementos 3ue v+o permear a literatura
e o cinema #utur,sticos atB !o.e. $s cidades monstruosas 3ue se parecem com #8)ricas têm
uma lin!agem visual 3ue come*a com 5Ietr4polis6 e v+o atB 5(lade 'unner6 @logo na
se3Uência inicial, o 3ue mais c!ama a aten*+o da Ros $ngeles de 2G1: s+o as imensas
c!aminBsA. &a mesma #orma, a estrutura ur)ana re#lete a posi*+o social de seus !a)itantes1
3uanto mais rico, mais para o alto.
Vuanto ao transporte na cidade, a mesma o)sess+o de Wells com o transporte
aBreo individual permanece viva, resistindo mesmo ao #ato de 3ue, depois de inventadas
m83uinas voadoras F3ue n+o e%istiam 3uando HK> #oi escritoF, nunca se pensou em
us80las como meio de transporte individual ur)ano em larga escala. Ias isso n+o importa1
:;
os 5aer:pilos6 de Wells viraram os pe3uenos avi/es de >rit- Rang e os carros a .ato de
'idley "cott. Iesmo #ora da vertente mais som)ria do cinema do #uturo, uma das poucas
passagens de 5&e volta para o #uturo6 3ue e#etivamente mostra os D7$ em 2G1?, nos
apresenta um congestionamento de carros aBreos.
$pesar de t+o in#luente, Wells n+o estava preparado para en#rentar o sucesso
dessa vis+o de #uturo articulada por ele em HK> e em seus primeiros romances cient,#icos.
Eassada essa #ase inicial, enveredou para uma literatura mais enga.ada e otimista 3ue l!e
valeu os piores ep,tetos de Orwell e 3ue serviu como ponto de partida para Hu%ley
escrever seu 5$dmir8vel Iundo =ovo6. @Hu%ley a#irma ter pensado em seu argumento
depois de ler Fe de detestarF 5Os !omens como deuses6, de Wells, de 1:29 FSa-es,
1:;M, p. 1;MA.
Vuando assistiu a 5Ietr4polis6, Wells repudiou o conteQdo do #ilme, a#irmando
3ue era rid,culo supor 3ue m83uinas poderiam trans#ormar seres !umanos em escravos
@5Sinemania6, 1::2A. Ias era tarde, o #uturo, agora, seria o 3ue Wells pintou 9G anos
antes e n+o o 3ue ele gostaria 3ue #osse. Dm 1:9G, Wells, parado%almente, estava entre os
poucos n+o preparados para suportar a vis+o wellsiana de #uturo.
22. A613rCvel 1/56- 5-v-B
&i#erentemente de Zamyatin, 1G anos antes, e de Orwell, 1N anos depois, Hu%ley
montou uma novela so)re o #uturo na 3ual a ditadura se esconde so) uma #ac!ada de
li)erdade total, atB de li)ertinagem, mesmo para os padr/es de !o.e. Dle n+o c!ega a
de#inir como s+o escol!idos os Sontroladores @o mundo tem de- delesA. Erovavelmente,
trata0se de elei*+o puramente )iol4gica 3uando do nascimento. Dm todo caso, consistente
com essa #ac!ada li)eral, o Qnico controlador a 3uem o leitor B apresentado, Iusta#a
Iond, B um l,der consciencioso, culto e, C sua moda, )enevolente.
D%istem, nesse admir8vel mundo novo, as mesmas classes sociais a 3ue estamos
acostumados1 dirigentes, pessoal tBcnico de alto n,vel, pessoal de apoio e pelo menos dois
::
tipos de tra)al!adores )ra*ais. Dm 57ma !ist4ria dos tempos #uturos6, tais classes eram,
aparentemente, determinadas a partir do nascimento por mecanismo de !eran*a,
e%atamente como em uma sociedade li)eral moderna. Ias Hu%ley, cr,tico de Wells Fmas
n+o do Wells dist4pico, e sim do Wells ut4pico e militante por um Dstado mundial regido
por uma elite escol!ida por merecimento predominantemente cient,#icoF #a- com 3ue
suas classes se.am separadas por um processo )iol4gico de condicionamento de em)ri/es.
&essa #orma, Hu%ley leva ao e%tremo a eugenia advogada por Wells em, por
e%emplo, 57ma utopia moderna6, de 1:G<, mas, em lugar de propor um mecanismo de
sele*+o puramente genBtico Fcomo .8 seria poss,vel pensar em seu tempoF, prop/e um
mBtodo misto de clonagem e de condicionamento 3u,mico. Hu%ley a#irma 3ue escreveu
$I= para re#utar o Wells de 5Os !omens como deuses6, mas o #ato B 3ue n+o #oi capa-
de escapar de outra o)ra capital do pr4prio Wells1 5Os primeiros !omens na Rua6, de
1:G1.
=este, Wells conta a !ist4ria do cientista atrapal!ado Savor, 3ue vai para a Rua,
acidenta0se e consegue mandar para a Kerra es)o*os de como B a sociedade selenita de
seres parecidos com insetos. $o descrever como s+o preparados os selenitas segundo as
necessidades da sociedade lunar, escreve1 5''' h# pouco tempo! aconteceu aproximar,me
de um certo n5mero de "ovens selenitas confinados em tinas! de onde s: lhes sa;am os
memros superiores= esses estavam sendo adaptados para o traalho de umas m#$uinas
especiais' O memro assim estendido! nesse sistema altamente desenvolvido de educação
técnica! é estimulado por irritantes e alimentado por in"eç)es! ao passo $ue o resto do
corpo fica privado de susist%ncia”. Ou se.a, os selenitas separam em)ri/es e indu-em
mudan*as 3u,micas. Dm Hu%ley, o mBtodo (oXanovsXy B semel!ante. Erimeiro, os
em)ri/es s+o multiplicados, de #orma a 3ue, a partir de uma cBlula, #ormam0se :M
indiv,duos F... assim! consegue,se fa.er crescer FT emri)es em lugar de um s:'
9rogresso'6 @cap. 1A. &epois, estes s+o levados para cu)as especiais nas 3uais,
3uimicamente, s+o modi#icados. Os Bpsilons, por e%emplo, s+o dei%ados mentalmente
1GG
de#icientes pela priva*+o de o%igênio. 50o porta,garrafas n5mero de.! filas de
traalhadores das ind5strias $u;micas da geração seguinte estavam sendo exercitados na
tolerância ao cloro! chumo! soda c#ustica e alcatrão6 @cap. 1A. &epois disso, inicia0se o
processo de condicionamento pavloviano.
Kodo esse processo 5em sBrie6 de se produ-ir seres !umanos nos B mostrado logo
no primeiro e segundo cap,tulos, sempre com a narra*+o de um tBcnico, 3ue e%plica
#riamente as vantagens de se tirar tare#a t+o comple%a e importante para a esta)ilidade
social das m+os de uma nature-a 3ue age ao acaso. "er8 3ue Hu%ley est8 sendo original
a,H D ser8 3ue est8 sendo cr,tico de WellsH Rogo depois 3ue Savor, o primeiro !omem na
Rua, constata como os selenitas s+o preparados 3uimicamente, o)serva 3ue tal mBtodo B
menos cruel 3ue o !umano, “$ue deixa os meninos se transformarem em homens para!
depois! transform#,los em m#$uinas”. Dm outras palavras, Hu%ley simplesmente est8
continuando a tradi*+o dist4pica tecnol4gica iniciada com Wells e movimentando0se
estritamente dentro do 3uadro wellsiano, sem a)solutamente se dar conta disso. Iesmo as
tBcnicas descritas no processo de condicionamento pavloviano .8 eram e%ploradas na
#ic*+o de Wells de 9G anos antes. Dm 5Vuando o adormecido despertar6, Wells #ala de
“crianças das classes traalhadoras ''' cs+od hipnoti.adas ''' ced assim transformadas em
m#$uinas pensantes” @citado acima no item )1.A.
&e volta ao 5$dmir8vel mundo novo6. (ernard Iar% B um psic4logo 3ue tra)al!a
no setor de predestina*+o, onde em)ri/es s+o manipulados com vistas a sua #utura
adapta*+o C sociedade. Iar% B um $l#ag, um mem)ro da elite de sua sociedade. Ias, por
engano, uma solu*+o alco4lica caiu no #rasco em 3ue ele #ora incu)ado. Kal solu*+o
visava a modi#icar o em)ri+o, produ-indo um (eta ou um &elta, mem)ros mais )ai%os na
escala social #utura. $ssim, Iar% tem estatura um pouco in#erior C de seus pares. P 3uieto
e aparentemente su)versivo. P visto com despre-o e certo 4dio. Sonsegue poucas
mul!eres, 3uase n+o participa dos passatempos coletivos etc. Dle est8 para ser despedido
do setor e trans#erido para uma il!a, um lugar distante e indese.8vel, 3uando convida
1G1
Renina, uma (eta 3ue tam)Bm tra)al!a na predestina*+o, para #a-er uma e%curs+o a uma
reserva selvagem, no IB%ico.
R8 desco)re 3ue um dos selvagens B, na verdade, #il!o de uma mul!er pertencente
C sua sociedade, 3ue se !avia perdido na reserva anos atr8s. $ origem desse selvagem B
parte do passado es3uecido do diretor da predestina*+o, Henry >oster, 3ue #e- anos antes a
mesma e%curs+o, acompan!ado de uma (eta de nome Rinda. Dla se perdeu e, descuidada
com as p,lulas anticoncepcionais, conce)eu um #il!o de >oster. =ada B mais !umil!ante
para uma mul!er dessa nova sociedade do 3ue ser m+e @e, para um !omem, ser paiA e nada
mais anormal 3ue a monogamia. $ssim, a)andonada numa cultura di#erente, Rinda se
torna uma 3uase prostituta, uma ve- 3ue 3uer manter nesse am)iente estran!o seu !8)ito
de troca di8ria de parceiros se%uais. $o mesmo tempo em 3ue sua m+e B re.eitada na
reserva, seu #il!o B tam)Bm despre-ado por seus pares.
Iar% leva o rapa- e Rinda de volta C civili-a*+o, o 3ue cumpre duas tare#as1 d8
notoriedade a Iar% @cu.o isolamento e car8ter su)versivo eram simples de#esas contra a
re.ei*+o 3ue so#riaA e derru)a >oster, 3ue n+o pode resistir a algo t+o !umil!ante 3uanto
ser pai.
Ias o selvagem @o!nA n+o se d8 )em no novo meio, n+o entende esse 5admir8vel
mundo novo6 @e%press+o tirada de 5$ Kempestade6, de "!aXespeareA. Dle, depois de
causar um incidente pQ)lico, B levado para uma reserva, onde tenta recuperar a vida
)8r)ara 3ue tin!a. Ias se torna o).eto de consumo1 vê0lo imolar0se B um estimulante para
os .ovens da nova civili-a*+o. Dle aca)a por se matar. Iar% e um amigo @Helm!olt-, este,
realmente, um incon#ormadoA s+o mandados para a WslJndia 3ue, segundo o c!e#e supremo
de Rondres, Iusta#a Iond, B uma espBcie de reserva ecol4gica de incon#ormados.
=o pre#8cio a esta edi*+o, escrito em 1:<M, Hu%ley declara 3ue, se reescrevesse o
livro, mati-aria mais as coisas. $#inal, o!n #oi criado numa reserva selvagem, por uma
mul!er (eta, uma oper8ria de intelecto in#erior, mas B capa- de recitar "!aXespeare a cada
situa*+o nova. $o lado disso, gosta de uma vida de loucura selvagem, de religiosidade 3ue
1G2
implica imola*+o etc. Kodas essas caracter,sticas o tornam inconsistente e rid,culo. Hu%ley
a#irma 3ue daria a o!n, alBm da alternativa entre a utopia e a )ar)8rie, uma possi)ilidade
numa comunidade proto0anar3uista.
&iversamente de Wells e de Vonnegut, mas de acordo com Zamyatin, Hu%ley
coloca ao lado de sua utopia uma reserva selvagem. Eor 3uêH Dsse cen8rio parece, a3ui,
um arti#,cio totalmente ad hoc para garantir a*+o. $#inal, sem a reserva, como criar o tal
selvagem cr,tico da utopia 3ue entroni-ou >ordH &evemos, ent+o, entender a reserva como
uma espBcie de -ool4gico, um lugar 3ue cultivamos tran3Uilamente, .8 3ue ninguBm de
.u,-o pensaria em se mudar para l8H Kalve-, mas permanece a 3uest+o de 3ue $I= B um
mundo sem !ist4ria, um mundo em 3ue #alar do passado B 3uase proi)ido, ou, pelo menos,
algo 3ue n+o B de )om tom #a-er. $s reservas, mostrando como era a sociedade, a )ar)8rie
da maternidade, da #am,lia etc., seria um documento vivo potencialmente perigoso para o
status da utopia. Ias, talve-, a utopia de Hu%ley se.a t+o c!eia de si 3ue n+o tema a
reserva como e%emplo, assim como n+o nos sentimos, depois de visitarmos um -ool4gico,
atra,dos pelo 5modo de vida6 na selva. Dm todo caso, Hu%ley #ornece uma e%plica*+o
pouco convincente para a e%istência das reservas1 5uma Neserva Qelvagem é um lugar
$ue! dadas condiç)es clim#ticas ou geol:gicas pouco favor#veis ou então poucos
recursos naturais! as despesas necess#rias para civili.#,lo não compensariam6 @cap. 11A.
D e%istem motivos para 3ue a utopia !u%leyana n+o tema concorrência. "eus
atrativos s+o tantos 3ue B di#,cil pensar em oposi*+o. $#inal, compare0se esse admir8vel
mundo novo com uma sociedade moderna1 se%o livre e sem comprometimento com
reprodu*+o, todos #isicamente )elos, estacionados na aparência dos 9G anos atB 3ue a
morte so)reven!a, em um processo indolor 3ue dura apenas uns poucos dias, emprego
leve @de acordo com a classe a 3ue o su.eito pertenceA e divers+o garantida, uma religi+o
segura e con#iante n+o em poderes transcendentes, mas no pr4prio !omem, e assim por
diante. D 3ual o pre*o dissoH (em, para n4s, para os Qltimos !omens, algo #ugidio como a
li)erdade individual. Ias esse conceito n+o e%iste na utopia de Hu%ley. Erimeiro pelo
1G9
condicionamento @5Uivros e arulho! flores e cho$ues elétricos B"# na mente das
crianças! tais associaç)es estavam definitivamente estaelecidas' (! depois de du.entas
repetiç)es da mesma lição ou de outra similar! a lição estaria firmada de forma
indissol5vel' O $ue o homem reuniu a nature.a é impotente para separar6, cap,tulo 2A.
&epois, pela pr4pria ausência de palavras para e%press80lo corretamente1 5(stou pensando
em um estranho sentimento $ue &s ve.es tenho! um sentimento de $ue tenho algo
importante a di.er e o poder de di.%,loL apenas não sei o $ue é e não consigo usar esse
mesmo poder' Qe! pelo menos! houvesse uma outra maneira de escrever...6 @cap. <, h2A,
3uei%a0se o incon#ormado Helm!olt-. @=o entanto, em)ora Hu%ley #ale do
condicionamento antilivros, o 3ue sugeriria a e%tin*+o da leitura, notemos 3ue, no #inal de
$I= o "elvagem B entrevistado por um rep4rter, 3ue dese.a col!er declara*/es para
escrever para seus 5leitores6.A
=o #im de contas, a sociedade desen!ada por Hu%ley n+o B outra coisa sen+o a
sociedade capitalista atual @ou 3uaseA pro.etada sem cinismo. =o sBculo 2G, pretos, po)res,
,ndios, pardos em geral, s+o pouco educados e condicionados para tare#as )ra*ais. $ KV,
as divers/es pQ)licas, a educa*+o na #orma de preceitos e a pol,cia os mantBm na lin!a,
#a-endo com 3ue lavem latrinas sem reclamar muito de suas vidas. Ora, por 3ue n+o tornar
essas pessoas #eli-es, condicionando0as desde a idade prB0natalH =+o B isso menos cruel
3ue 5deixar os meninos se transformarem em homens para! depois! transform#,los em
m#$uinas6H $I= B a reali-a*+o desse son!o. P o capitalismo selvagem das lin!as de
montagem, da e#iciência acima de tudo, sem m8scara @o 3ue se e%pressa tam)Bm na
mi%4rdia dos nomes dos personagens, emprestados de di#erentes tradi*/es, com perda
total de signi#icado F(ernard Iar%, Renina, Helm!olt-, Iusta#a etc.A. Eor 3ue mentir, e
#a-er de conta 3ue todos têm acesso C educa*+o 3uando isso n+o B verdade, nem interessa
3ue se.aH "e Hu%ley #osse minimamente )em0!umorado, teria #eito um livro magistral,
por3ue, assumido o cinismo, n+o !8 como evitar 3ue $I= ten!a aspectos cTmicos e
outros pro#undamente atraentes. Eor 3ue manter a #am,lia se o Dstado pode tomar conta
1G<
das crian*asH Eor 3ue se arriscar com a educa*+o individual, 3ue produ- di#eren*as 3ue s4
geram atritos no plano socialH Eor 3ue n+o aca)ar com tudo issoH Eor 3ue a monogamia,
3uando o se%o livre B muito mais atraente, especialmente numa sociedade na 3ual a
.uventude B mantida atB os sessenta anos, e onde as pessoas s+o naturalmente )onitas,
todas elasH Dn#im, o Qnico ponto n+o atraente B 3ue tal sociedade se encamin!a para a
estagna*+o, para a 3ue)ra da diversidade, 3ue B o seguro #,sico e intelectual para situa*/es
novas. Ias mesmo isso est8 resolvido no $I=, com reservas para intelectuais
incon#ormados.
Sontra esse )em0estar geral, tudo o 3ue o "elvagem de Hu%ley B capa- de #a-er B
#alar 5... eu $uero Seus! $uero poesia! $uero perigo! $uero lierdade! $uero divindade!
$uero o pecado6, o 3ue desperta a re#le%+o de Helm!olt- so)re a #elicidade, 3ue 5...
sempre parece astante s:rdida! em comparação com as supercompensaç)es do
sofrimento6 @cap. 1MA. Vuem, em s+ consciência, se sentiria sedu-ido por tais
supercompensa*/esH
=o ano M92 d.>., depois da venda dos primeiros modelos K da >ord, n+o e%iste
superpopula*+o, #ome, doen*a, nem um sentido individual de li)erdade. "4 n+o B um
para,so se se puder comparar a coisa com um outro sistema onde e%iste li)erdade
completa, compara*+o 3ue o leitor pode #a-er, e 3ue certamente mostrar8 seu mundo @o
nossoA como in#erior. $I= est8 para n4s como n4s estamos para a selvageria. =+o somos
livres no sentido de podermos matar e ser mortos, gostamos da li)erdade dentro de um
Dstado com leis coercitivas, com leis de limita*+o. &a mesma #orma, os !a)itantes de
$I= est+o so) a guarda de um Dstado )enevolente, 3ue garante a li)erdade individual de
ser #eli-, contra o sistema @o nossoA de ver li)erdade no e%erc,cio da individualidade
dentro de uma sociedade 3ue precisa sempre de mais uni#ormidade 3ue a3uela 3ue
estamos dispostos a ceder ou dar. Dn#im, somos livres para viver em atrito, en3uanto os
!a)itantes de $I= n+o so#rem. Somo provar 3ue eles n+o s+o livresH Sopiamos a
nature-a e a isso c!amamos 5ser inteligente6, aprendendo com os processos naturais para
1G?
reprodu-i0los e ampli80los em nosso proveito. Ora, a nature-a produ- poucos gênios e
muitos idiotas. Eor 3ue n+o ampli#icar isso tam)BmH Eor 3uê, nesse caso, devemos ac!ar
3ue est8 !avendo viola*+o da li)erdadeH =osso mundo consome uma 3uantidade enorme
de drogas, do ca#B C !ero,na. Vual o mal, ent+o, do soma, o tran3Uili-ante universal em
$I=H Eor 3ue #ugir da realidade atravBs dele B ruimH
=+o 3ue o sistema de $I= se.a muit,ssimo atraente. O ponto B 3ue B di#,cil de
provar por 3ue ele seria ruim. =ele, est8 espel!ado tudo 3ue se tem !o.e. $ Qnica
di#eren*a B 3ue essa imagem est8 limpa, cristalina, e o produto de limpe-a B o cinismo
capitalista levado ao e%tremo1 o m8%imo de pra-er para o m8%imo de pessoas. =o limite,
muito depois de M92 d.>., vir+o os vendedores da #elicidade, 3ue Gunn imaginou1
ma%imi-ar o pra-er leva C ina*+o. Wsso est8 mal e mal entrevisto em $I= e, atB certo
ponto, administrado pela manuten*+o das reservas de intelectuais incon#ormados, mas n+o
ao ponto de dese.arem uma volta ao nosso mundo1 3uerem mais individualidade, mas
dentro desse novo 3uadro. "+o a oposi*+o con#i8vel, mantida cuidadosamente pelo
Dstado.
Dssa Qltima o)serva*+o 3uanto aos intelectuais mostra )em o lado dist4pico de
$I=1 como em Zamyatin e Orwell, seus !a)itantes est+o presos mentalmente ao novo
mundo. $ contesta*+o, 3uando e%iste, n+o c!ega ao ponto de e%igir um pano de #undo
novo para a sociedade. Os pontos de contato com Zamyatin s+o mais evidentes. Eara alBm
da mural!a verde 3ue cerca o Dstado `nico -amyatiano, e%iste uma sociedade arcaica e
su)versiva, mas, a seu modo, viciada. O selvagem de Hu%ley se parece um pouco com a
mo*a su)versiva de 5=4s61 n+o representa uma alternativa vi8vel para a nova civili-a*+o
e, talve- por isso mesmo, como ela, perece no #inal. $s reservas selvagens e intelectuais @a
sociedade por tr8s da mural!a verde de ZamyatinA representam n+o tanto inconsistência
dos autores @do tipo, com Dstados t+o poderosos, por 3ue manter issoHA, mas revelam 3ue
os sistemas representados s+o c!eios de si, n+o precisam temer compara*/es. Dles podem
1GM
manter essas reservas como n4s podemos manter reservas ind,genas. Kodos concordamos
3ue elas devem ser mantidas, mas n+o para 3ue vivamos nelas.
Dm resumo, a sociedade desen!ada por Hu%ley B #uncional e atraente se
pensarmos 3ue, nela, todos s+o #eli-es @se isso B arti#icial, o B apenas segundo nossos
padr/esA, sadios, levam uma e%istência sem so)ressaltos etc. Eor 3ue, ent+o, Hu%ley
mantBm uma estrutura de classesH Dm Wells, isso est8 e%plicado pelo autor @n+o no corpo
do livroA1 ele 3ueria escrever so)re a sociedade vitoriana em termos !iper)4licos, com
tudo maior, tudo mais r8pido e com os desn,veis ainda maiores. "e eliminasse classes,
dei%aria de respeitar esse pro.eto. Wells #a- distopia a partir de e%trapola*+o. Orwell,
como veremos mais adiante, mantBm classes para satis#a-er um suposto 3uesito
psicol4gico do ser !umano1 o !omem precisa e%ercer poder so)re outros !omens, sem o
3ue a sociedade #enece. D Hu%leyH
O "elvagem c!ega a perguntar a Iusta#a Iond por 3ue motivo n+o s+o todos
$l#ag. Iond e%plicou 3ue, cerca de 2?G anos antes, em S!ipre, #oi tentada uma sociedade
s4 de $l#ag. 5A terra não era convenientemente lavradaL houve greves em todas as
f#ricasL as leis eram desrespeitadas e as ordens! desoedecidas' Codas as pessoas
destacadas para um serviço inferior passavam o tempo montando intrigas para oter
cargos mais elevados e todos os $ue ocupavam cargos mais elevados montavam contra,
intrigas para! a $ual$uer preço! permanecerem onde estavam6 @cap. 1MA. &os 22 mil
$l#ag colocados na il!a, 1: mil se mataram em uma guerra civil e os 9 mil so)reviventes
pediram para 3ue a vel!a ordem #osse resta)elecida. Wsso nos dei%a com uma
inconsistência .8 apontada por Orwell1 as classes e%istem apenas por causa dos di#erentes
tipos de tra)al!o. Ias, em uma sociedade e%tremamente evolu,da do ponto de vista
tBcnico, B mesmo necess8rio 3ue pessoas e%er*am servi*os )ra*aisH "implesmente, n+o.
&i- Orwell1 5O o"etivo não é a exploração econDmica! mas o dese"o de dominar e
aviltar tamém não me parece um motivo6 @Orwell, 1:<MaA.
1GN
$pesar de e%tremamente popular, de ser um modelo de antiutopia com reedi*/es
constantes desde sua estreia, $I= n+o consegue amarrar esse ponto crucial. Koda a
para#ern8lia tBcnica necess8ria para #ormar em)ri/es di#erenciados poderia ser usada para
#a-er m83uinas 3ue, muito mais e#icientemente, #ariam o tra)al!o de manter os $l#ag
vivos. $utores como &icXson @1:N;A criticam Wells por este ser capa- de pensar em
grandes modi#ica*/es do panorama tBcnico, mas nen!uma do !omem 3ue vive nesse
am)iente, #a-endo com 3ue !omens de !o.e en#rentem pro)lemas de aman!+. Dm Hu%ley,
essa cr,tica poderia )em ser invertida. Iais surpreendentemente ainda do 3ue no caso de
Wells, Hu%ley desenvolve modi#ica*/es amplas no 3ue se entende por 5!omem6, mas
pouco modi#ica as condi*/es tBcnicas 3ue valiam em sua Bpoca. "+o assim, !omens de
aman!+ en#rentando um am)iente tBcnico de !o.e.
$I= 'evisitado #oi escrito 2N anos depois de $I=. P uma cole*+o de ensaios,
nos 3uais Hu%ley #a- um diagn4stico do mundo de sua Bpoca e e%amina o 3uanto se est8
pr4%imo do 3uadro de $I=. S!ega C conclus+o de 3ue n+o ser+o precisos MGG anos para
a concreti-a*+o de sua #8)ula. P citado a3ui apenas para registro, .8 3ue n+o se trata de
o)ra de #ic*+o.
=esses te%tos de 5revisita6, Hu%ley est8 preso C sua Bpoca 3uando #a- a#irma*/es
como 5em RI anos! todo o Cerceiro Mundo estar# nas mãos de ditaduras comunistas6 e
coisas do gênero. Somo ensa,sta, Hu%ley dei%a muito a dese.ar. Soloca mal suas 3uest/es,
desenvolve0as pior, #altam0l!e perspectiva e rigor. Dm todo caso, vê nos novos mBtodos
educacionais, nos novos mBtodos da propaganda, o prenQncio do #uturo de $I=. $
representatividade do governo B minada pela propaganda, o 3ue a#asta as pessoas da
pol,tica, o 3ue mantBm uma #ac!ada democr8tica para a ditadura dos grandes interesses
econTmicos. =isso, Hu%ley a#irma, est8 o cerne de $I=, nessa am)igUidade do conceito
de li)erdade1 a li)erdade de di-er o 3ue se 3uiser, de vender o 3ue se 3uiser, de gerar
#elicidade de 3ual3uer maneira leva ine%oravelmente ao #im da representatividade, da
atividade pol,tica, da sociedade. Dsse camin!o pode ter v8rias paradas. Eor e%emplo, pode
1G;
render uma sociedade atraente para uns poucos, como a mostrada, em #ic*+o, por >rederiX
Eo!l e Syril Korn)lut! em 5Os mercadores do espa*o6, de 1:?9. Eode resultar em uma
sociedade muito atraente para todos seus #il!os @$I=A, ou pode levar a algo t+o
ine)riante 3ue e3uival!a C ina*+o completa, como, por e%emplo, em 5Os vendedores da
#elicidade6, a antiutopia n+o0social de ames Gunn.
&i#erentemente de Orwell, 3ue colocou na in#elicidade geral @gerada pelo medo
de uma guerra iminenteA o esteio para a manuten*+o de sua sociedade opressiva, Hu%ley
colocou esse apoio nas li)erdades supBr#luas @supBr#luas, )em entendido, para n4s, 3ue
estamos raciocinando #ora do sistema, e 3ue, mais, constitu,mos a classe privilegiada da
sociedade de nossa BpocaA. Dm todo caso, como lem)ram $-i-a e Goimard @1:;NA, em
1:?;, o capitalismo parecia apontar para um crescimento sem limites da produ*+o, sem o
risco de uma nova 3ueda, dadas as li*/es de 1:2:. $lBm disso, parecia poss,vel a
educa*+o geral e conse3Uente controle e !omogenei-a*+o das pessoas. $ssim, num mundo
de educa*+o mBdia igual para todos, estaria desen!ado o 3uadro para $I=. EorBm, trinta
anos depois de pu)licada essa 5revisita6, parece 3ue o capitalismo pre#eriu a)andonar a
peri#eria, mesmo nos pa,ses de Erimeiro Iundo. $ssim, cresce o #anatismo, o
ultraconservadorismo, a )ar)8rie no centro do sistema, o 3ue #a- prever um #uturo no 3ual
mBtodos opressivos ser+o mesclados com o mBtodo de premia*+o de $I=. $-i-a e
Goimard @1:;NA apostam numa mescla de $I= e 1:;<. Hu%ley de#ende sua vers+o do
#uturo 3uando a#irma, por e%emplo, 3ue .8 est8 provado 3ue premia*+o por acerto d8 mais
certo 3ue puni*+o por erros. Ias esse sistema e%ige civili-a*+o mBdia, o 3ue, !o.e, parece
3ue n+o vai acontecer. O pessimismo de Orwell parece mais acertado para descrever esse
#uturo 3ue deve !erdar os pro)lemas de !o.e sem ter tempo para uma re#orma total.
Dssa 3uest+o da re#orma, da transi*+o, n+o B a)ordada por Hu%ley. &a mesma
#orma 3ue em (ellamy, ela #oi radical, mas n+o revolucion8ria. SomoH Somo se evoluiu,
a partir da )ar)8rie de !o.e, para uma situa*+o plenamente controladaH "4 supondo
plenitude de meios, e interesse em distri)u,0los, por um longo per,odo, o 3ue parece estar
1G:
sendo contradito pelas pr8ticas de todos os pa,ses capitalistas, !o.e. Iesmo C )eira do
caos, o grande capital pre#ere apostar no lucro imediato, na e%clus+o da maioria. Dsse
sistema nunca vai resultar na massa !omogênea 3ue constitui a popula*+o de $I=, a
menos 3ue supon!amos 3ue as reservas selvagens têm maior contingente 3ue o mundo
civili-ado @& la Zardo-, o #ilme de o!n (oorman, de 1:N<A. Sontrolar as pessoas no
#uturo, tendo de arcar com o 3ue se !erda de !o.e parece ser mais tare#a para um governo
como o imaginado por Orwell.
=esse sentido, pode0se di-er 3ue, em Qltima an8lise, $I= n+o B )em dist4pico,
mas #antasioso ao e%tremo. $ e%e3Ui)ilidade do sistema apresentado depende de uma
revolu*+o cient,#ica @e pol,tica, para 3ue essa ciência possa ser aplicada em massaA
radical. "em a massa !omogênea, sem a aplica*+o generali-ada da engen!aria genBtica,
sem a produ*+o rigidamente controlada de di#erentes tipos de seres !umanos, n+o e%iste
$I=. D, dadas as condi*/es 3ue valem !o.e Fe Hu%ley n+o escreveu uma novela de
5realidade alternativa6O logo, seu #uturo est8 calcado em nosso presenteF, parece
imposs,vel a transi*+o n+o0revolucion8ria para um mundo como o 3ue ele divisou em
1:92. Iesmo assim, em $I=', ele prossegue ac!ando 3ue a realidade aca)ar8
desem)ocando em algo muito pr4%imo de $I=. Hu%ley escreveu, no #im de contas, uma
#8)ula de cr,tica ao capitalismo, 3ue usa a #orma de distopia, mas #oge desta C medida 3ue
se vale de personagens 3ue n+o s+o mais seres !umanos como n4s os entendemos !o.e, e
n+o apresenta 3ual3uer mecanismo plaus,vel de transi*+o entre !o.e e esse #uturo. =esse
sentido, $I= B t+o #8)ula sat,rica 3uanto, por e%emplo, 5$ guerra das salamandras6 de
SapeX, 3ue critica os e%cessos do capitalismo, valendo0se da desco)erta de outras #ormas
de vida inteligente so)re a Kerra, 3ue n+o seres !umanos e, atravBs da introdu*+o desses
seres, estudando o super)arateamento de m+o0de0o)ra no mundo e o 3ue isso acarretaria.
Slaro 3ue essa maneira de ver depende de o 3ue consideramos #uturo plaus,vel e
isso varia muito de Bpoca para Bpoca. Hu%ley, em 1:92, acreditava no #ordismo em escala
planet8ria, aplicado mesmo C produ*+o de !omens, como algo per#eitamente poss,vel em
11G
mais MGG anos. Dm 1:?N, acreditava 3ue, em 9G anos, todo o Kerceiro Iundo seria
comunista. Kais previs/es devem ser vistas C lu- da conclus+o dos ingleses so)re o grande
perigo dos autom4veis1 eram m83uinas 3ue levantavam p4 nas estradas. Iesmo tendo em
mente esses e%emplos !ist4ricos de #al!a de previs+o, n+o se pode dei%ar de notar 3ue a
antiutopia !u%leyana teria poucas c!ances de se desenvolver a partir de um mundo com os
desn,veis 3ue e%istem !o.e e com o grau de organi-a*+o de grupos entre as classes mais
esclarecidas. "eria necess8rio um est8gio intermedi8rio de plenitude de meios e de um
pro.eto 3ue envolvesse todo o planeta na dire*+o de um s4 o).etivo. >eito isso, seria
poss,vel, com o au%,lio de uma ciência @especialmente, de uma )iologiaA
superdesenvolvida, construir a sociedade de $I=. Ias, ent+o, para 3ue issoH Eara 3ue
construir todo um arremedo de sociedade do sBculo 2GH Dssas perguntas, Hu%ley as
dei%ou em a)erto em $I= e, em $I=', continuou como se elas n+o l!e dissessem
respeito.
2". A1DE#B
$o a)andonarmos as lu-es do admir8vel mundo novo, seguimos para 51:;<6,
e%trapola*+o #utur,stica de outro tra*o marcante do !omem1 o dese.o do poder. Dm $I=,
ele B total, mas e%ercido com discri*+o. Wsso, Orwell a#irma, n+o seria su#iciente. Ve.amos
ent+o o mundo no 3ual o ê%tase do poder e a dissolu*+o dos indiv,duos em uma massa
in#orme de sentimentos e%acer)ados s+o os principais o).etivos do Dstado.
Winston "mit!, 9:, tra)al!a no IinistBrio da Verdade, cu.a principal atri)ui*+o B
modi#icar o passado. 5-uem controla o passado! controla o futuroL $uem controla o
presente! controla o passado6. Ias "mit! n+o est8 satis#eito com o estado de coisas.
Eouco a pouco, vai sentindo um estran!amento com o meio em 3ue vive. $s contradi*/es
c!amam0l!e a aten*+o1 ele mora em um pardieiro, cu.o elevador .amais #unciona, cu.a
8gua nunca B 3uente, cu.os esgotos est+o sempre entupidos e esse lugar se c!ama Ians+o
111
Vit4riaO a 3ualidade do gim B pBssima, mas B o gim Vit4riaO os cigarros s+o t+o ruins 3ue,
se seguros na vertical, o #umo cai, mas s+o os cigarros Vit4ria.
"mit! B mem)ro do partido e%terno, numa sociedade de partido Qnico @o partido
do Grande Wrm+oA, cu.a ideologia B o Wngsoc @socialismo inglês, espBcie de vers+o
e%trapolada do stalinismoA, na 3ual a !ierar3uia B1 mem)ros do partido interno @2L da
popula*+o, ou M mil!/es de pessoasA, mem)ros do partido e%terno @19L da popula*+o, ou
9: mil!/es de pessoasA e proletariado @os proles, 2?? mil!/es de pessoas, ou ;?L dos
!a)itantes de OceJniaA. =+o e%iste men*+o de como se passa de uma classe a outra Fou
de como se permanece em uma classe @"mit!, mesmo torturado, permanece mem)ro do
partido e%ternoA. $parentemente, os proles est+o #ora do partido, n+o pertencem e n+o
vir+o a pertencer a ele. $s atividades do partido visam e%clusivamente aos mem)ros do
partido, 3ue se #ec!am em torno do Wngsoc, dei%ando os proles totalmente de #ora. Dsse B
um ponto 3ue (urgess @51:;?6, de 1:N;A levanta acerca de Orwell1 o 3ue #a-em
e%atamente esses prolesH Dm todo caso, eles s+o a)solutamente desnecess8rios para a a*+o
do livro e para a vida em OceJnia. "+o0no ainda mais 3ue os 5reeks and 1recks6 de
Vonnegut.
O mundo est8 dividido em três superpotências1 OceJnia @3ue compreende
Wnglaterra, $mBricas, $ustr8lia e parte setentrional da i#ricaA, Dur8sia @Duropa e e%0
7'""A e Rest8sia @S!ina, ap+o, outros pa,ses orientais e parte da jndiaA. Rondres ainda
conserva seu nome !ist4rico, mas a Wnglaterra B agora con!ecida como 5Eista de
$terragem ne 16. $ cidade B um monte de ru,nas, salvo as 3uatro pirJmides de 9GG metros
de altura1 os ministBrios da Verdade @3ue cuida de alterar o passado, na verdade, de
5reti#ic80lo6A, do $mor @3ue cuida dos crimes de pensamentoA, da >artura @3ue administra
a misBria em OceJniaA e da Ea- @3ue administra a guerra constante entre as
superpotênciasA. Dsses ministBrios s+o os 4rg+os respons8veis por articular os três ditames
)8sicos do partido do Grande Wrm+o1 5Guerra é pa.L Uierdade é escravidão e /gnorância
é força6.
112
$ntes de comentar a a*+o propriamente dita, notemos 3ue essa divis+o do mundo
B apenas o 3ue nos B in#ormado no livro por um narrador nem sempre con#i8vel, 3ue ora
parece se e%pressar com autonomia, ora parece apenas registrar o 3ue B visto pelos ol!os
de "mit!. Eode )em ser 3ue a divis+o tripartite do planeta se.a apenas uma #ic*+o
destinada a manter elevado o n,vel popular de adrenalina. Dssa #ic*+o n+o estaria
a)solutamente em desacordo com o duplipensar, processo de pensamento )8sico para o
sucesso do Wngsoc, no 3ual duas a#irma*/es contradit4rias podem ser entretidas
simultaneamente.
"mit! comete seu primeiro crime material @o principal crime, estran!ar os ditames
do partido FcrimideiaF, ele .8 o cometera, sendo tudo o mais conse3Uência desse
primeiro atoA1 ir a um anti3u8rio no )airro dos proles e comprar um caderno e caneta para
#a-er um di8rio. "eu 3uarto, como todos os aposentos em OceJnia, tem uma teletela, uma
KV 3ue permite 3ue o espectador se.a o)servado, 3ue n+o pode ser desligada, salvo as
instaladas nas casas dos mem)ros do partido interno e, mesmo a,, somente por cerca de 9G
minutos de cada ve-. Ias, por um de#eito de constru*+o, B poss,vel #icar #ora do alcance
da teletela, postando0se em um dos cantos do aposento.
"mit! come*a seu di8rio em < de a)ril de 1:;< Fem)ora, notemos, ele insista
3ue n+o sa)e )em 3ual a data certa em)ora sai)a com certe-a 3ue tem 9: anos.
&esacostumado de escrever, e apavorado com as conse3Uências ine%or8veis de seus atos,
suas primeiras palavras s+o tolas, descri*/es in#ormes do cotidiano.
=o tra)al!o, duas pessoas o)servam "mit!1 O\(rien, um mem)ro do partido
interno e uma mo*a. Dsta, um dia, passa0l!e um )il!ete, no 3ual di- apenas 5Du te amo6.
Sonseguem marcar um encontro #ora de Rondres, amam0se e voltam para a cidade. Os
encontros s+o di#,ceis e "mit! tem uma ideia1 alugar um 3uarto 3ue o dono da lo.a de
antigUidades l!e o#erecera e passa a usar o 3uarto para encontros com ulia 3ue, a essa
altura, tem 2M anos. =esse ,nterim, O\(rien o encontra no corredor do IinistBrio da
119
Verdade e elogia seus te%tos. &80l!e seu endere*o, sugerindo 3ue "mit! o visite e possa
e%aminar a nova edi*+o do dicion8rio de novil,ngua @newspeaXA.
"mit! e ulia v+o ver O\(rien e se identi#icam como ideocriminosos. O\(rien l!es
d8 um e%emplar do livro )anido1 5Ceoria e pr#tica do coletivismo olig#r$uico6, de
Dmmanuel Goldstein, autor, te4rico e articulador da oposi*+o, o).eto constante de 4dio do
povo de OceJnia.
&e volta ao 3uarto, "mit! come*a a leitura. O livro e%plica os três princ,pios do
Wngsoc1 5Guerra B pa-6, 5WgnorJncia B #or*a6 e 5 Ri)erdade B escravid+o6. $ ideia )8sica B
3ue a ciência, dei%ada s4, seria capa- de reali-ar o para,so terrestre, de dar con#orto a
todos os seres !umanos. Eela primeira ve-, os revolucion8rios viram 3ue a utopia era
poss,vel. Ias isso implicaria a perda de poder. Rogo, a guerra constante B necess8ria para
3ueimar e%cedentes de produ*+o e manter todos no limiar da misBria. $lBm disso, a guerra
mantBm as pessoas em estado de constante e%cita*+o, elimina os la*os interpessoais e os
su)stitui pelo amor ao Grande Wrm+o, pelo 4dio ao inimigo, pelo ê%tase ao ver os
prisioneiros e%ecutados etc. Ias, en3uanto "mit! #ec!a o livro por uns momentos e p8ra
de lê0lo em vo- alta para ulia @3ue dormeA, e am)os resolvem #a-er um ca#B, uma vo-
ecoa pelo 3uarto1 !avia uma teletela escondida, o anti3u8rio era um policial do
pensamento, guardas invadem o 3uarto e "mit! e ulia s+o presos separadamente.
=o cativeiro, "mit! encontra O\(rien e desco)re 3ue ele apenas o o)servava, na
Jnsia de, um dia, peg80lo. "er8 seu instrutor. Wnstrutor e n+o torturador pois, para o
partido, n+o interessa ani3uilar o sedicioso, B preciso convertê0lo. $s torturas se sucedem,
atB 3ue resta apenas um ponto em 3ue "mit! continuava a insistir1 seu amor por ulia. $,,
ele B levado para a solene sala 1G1, onde B amea*ado com ratos, 3ue devorariam seu rosto.
=esse momento, di- 3ue O\(rien deveria pTr ulia em seu lugar. =+o B um estratagema1
ele realmente dese.a isso, atB isso, para se sa#ar. "mit! est8 destru,do. $gora, ama o
Grande Wrm+o.
bbb
11<
&o ponto de vista da a*+o, na verdade B )em pouco o 3ue acontece1 "mit!
descon#ia do 3ue di- o partido, encontra uma mul!er 3ue tam)Bm pensa assim, amam0se,
ele B tentado a trair o partido @na verdade, uma armadil!aA, B pego, torturado e
5re#ormado6. "4. &e 2?1 p8ginas da edi*+o usada, 1?; s+o dedicadas ao progressivo
estran!amento de "mit!, 92 ao livro de Goldstein @o longo cap,tulo :A e M1 C re#orma do
car8ter do protagonista.
Winston B #uncion8rio do partido e%terno, respons8vel por reti#icar a !ist4ria. P0
nos apresentado .8 doente. =+o nos B dito 3uando e em 3ue circunstJncias a doen*a teria
come*ado. Dle apenas nos di- 3ue viu uma #oto 3ue incriminava o partido, 3ue mostrava
3ue con#iss/es de traidores poderiam ser #alsas. &e #ato, ele via coisas semel!antes a essa
todos os dias, em seu tra)al!o, por e%emplo, reescrevendo discursos do Grande Wrm+o,
mudando diariamente as estat,sticas de produ*+o de OceJnia, reti#icando o conteQdo de
comunicados, decretos etc.
$ nature-a do tra)al!o de "mit! parece muito arti#icial. Erimeiro, a #oto 3ue
"mit! acredita ser evidência de 3ue o partido divulga mentiras mostra 3ue os re0registros
de dados s+o imper#eitos, ou se.a, 3ue o tra)al!o no IinistBrio da Verdade n+o B capa- de
alterar todos os registros do Cimes. Wsso B ainda su)lin!ado pelo #ato de 3ue O\(rien, no
#inal, mostra a "mit! outro e%emplar da mesma #oto. Somo ele poderia ter uma se o
tra)al!o do IinistBrio #oi per#eitoH Wsso est8 em claro desacordo com a onipotência do
Grande Wrm+o. Ias e%iste mais1 por 3ue #a-er .ornais para alter80losH Eor 3ue n+o #a-ê0los
descart8veisH Eor 3ue .ornais 3uando e%iste a teletelaH Dssa atividade #e)ril do IinistBrio
da Verdade B )astante parado%al, a menos 3ue se.a entendida como algo 3uase religioso.
O partido vive em um presente eterno. =+o pode !aver passado, por3ue n+o pode !aver
termo de avalia*+o do presente. O passado anterior ao Grande Wrm+o vai desaparecendo.
"mit! nota 3ue o partido reivindicava para si a inven*+o do !elic4ptero, depois, do avi+o
e, prevê, um dia ainda iria a#irmar 3ue inventou a m83uina a vapor. Ias, ent+o, por 3ue
conservar um passado 3ue precisa ser constantemente destru,doH Earece 3ue isso B 3uase
11?
uma religi+o do partido1 deve !aver um passado @por alguma estran!a ra-+o meta#,sicaA,
mas, como o passado, dei%ado a si s4, pode ser nocivo, ent+o B preciso modi#ic80lo
constantemente. Orwell n+o nos apresenta a ra-+o para 3ue o partido se dê tanto tra)al!o.
$ reti#ica*+o constante e dispendiosa do passado s4 pode ser entendida, ent+o, como uma
atividade ritual1 n+o B tanto o passado 3ue est8 sendo reti#icado. P o Grande Wrm+o 3ue
est8 sendo cultuado, articulado, aper#ei*oado @se )em 3ue ele se.a, por de#ini*+o, per#eito,
sendo ent+o necess8rio, a,, um passo de duplipensarA. Somo os proles n+o #a-em parte
desse Dstado, s4 os mem)ros do partido, ent+o o Cimes n+o B dirigido C3ueles Fe se
algum prole notar algo de errado em edi*/es sucessivas do Cimes, isso n+o ter8
importJncia. $ssim, reti#icar o Cimes B apenas um e%erc,cio, um dos tantos 3ue o Grande
Wrm+o e%ige de seus #il!os para mantê0los ocupados e tensos.
D essa n+o B a Qnica religi+o do Wngsoc. D%iste tam)Bm o culto de Goldstein. Dle B
o vil+o o#icial, o !omem 3ue deve ser t+o odiado 3uanto o Grande Wrm+o B amado. Dntre
os dois, parece !aver o tipo de acordo 3ue Vonnegut ideali-ou entre o pro#eta (oXonon e
o ditador papa Ion-ano, em 5Sama de gato6, de 1:M2. O )oXononismo B o#icialmente
)anido e seu culto B punido com ser pendurado inde#inidamente num ganc!o de
a*ougueiro. Ias todos s+o, um pouco, )oXononistas, coisa 3ue o Dstado sa)e e permite1 B
a tens+o 3ue mantBm todos vivos. (oXonon di-1 58ma oa religião tem de ser uma forma
de traição6. Os dois minutos de 4dio di8rios de Orwell s+o )8sicos para a seguran*a do
Dstado1 B preciso 3ue o mem)ro do partido se.a t+o sedu-ido por Goldstein 3uanto pelo
Grande Wrm+o1 da oposi*+o dos dois sai a vontade de continuar vivendo.
ulia B uma ideocriminosa mais sensual 3ue "mit!. =+o se interessa por teoria,
dorme 3uando ele lê o livro de Goldstein, vê em seus atos apenas uma #orma de desa#ogar
suas emo*/es, vê na su)miss+o aparente ao partido apenas um meio de so)reviver, sem
considerar 3ue tal modo de vida represente 3ual3uer degrada*+o. ulia 3uer viver atB onde
#or poss,vel. "uas pe3uenas transgress/es n+o têm pro.eto. =a verdade, ela pode ser
considerada um produto aca)ado do partido, 3ue porta apenas um pe3ueno de#eito1 o 5Du
11M
te amo6 dela B apenas dese.o de #ornicar @como di- (urgessA, pelo pra-er perverso de estar
traindo o partido. Wsso tem pouco 3ue ver com o 3ue entendemos por amor. 8 "mit! 3uer
sa)er o 3ue !8, 3uer transmitir esse con!ecimento de #orma organi-ada, em seu di8rio.
Kodo o #undamento do Wngsoc est8 na capacidade de duplipensar, violar a l4gica
cl8ssica segundo o 3ue #or necess8rio para o partido. 5Ri)erdade B li)erdade de di-er 3ue
2g2k<6, escreve "mit! em seu di8rio. Ias O\(rien l!e ensina 3ue o resultado B ? ou 9, ou
o 3ue o partido disser. =+o )asta concordar e%ternamente com isso, B preciso ver. $nos
antes de 1:;<, Winston teve nas m+os por uns momentos uma #oto do Cimes 3ue mostrava
três sediciosos numa reuni+o em =ova Wor3ue, na mesma data em 3ue, eles !aviam
con#essado, estavam praticando sa)otagens contra o partido, em Rondres. Eensava "mit!
3ue essa era uma prova palp8vel de 3ue o partido mentia. Keve de .og80la #ora @cada ve-
3ue o Cimes era reescrito, os originais eram .ogados #ora. =a verdade, em acordo com o
duplipensar, tais #otos nunca e%istiramA. O\(rien l!e mostra a #oto durante a sess+o de
tortura @comoHA, .oga0a #ora na #rente de "mit! e este, 3uando di- 3ue, agora, partil!ava
essa mem4ria com O\(rien, ouve0o di-er, com convic*+o1 50ão me lemro de nenhuma
foto6. D nisso n+o !8 cinismo. O\(rien realmente n+o teve nas m+os #oto alguma. Dra isso
o 3ue o partido e%igia de "mit!. P esse seu estado de esp,rito #inal 3uando, no Sa#B
Sastan!eira, assiste Cs noticias da guerra e se re.u)ila com a iminente vit4ria de OceJnia.
=+o o #a- para so)reviver, para se parecer com os outrosO realmente sente o 3ue di-.
bbb
$ distopia 3ue Orwell desen!a B totalit8ria no mais amplo sentido 3ue se pode dar
C palavra1 mudando o pensamento, muda0se toda a percep*+o das coisas, atB o ponto em
3ue li)erdade se torna poder di-er, apenas, 3ue 2g2k<. Wsto B, o partido atinge o cora*+o
da rede de convic*/es 3ue #orma a cultura. "e atB a l4gica est8 invadida, o resto segue.
=+o e%iste mais 3ual3uer sinal 3ue mostre a um su.eito como o mundo realmente seria.
Iesmo o )anal 52g2k<6 est8 su.eito C vontade do Grande Wrm+o. Eerdido o elo com a
realidade, est8 instalado o mais completo totalitarismo1 o mundo B sempre o 3ue est8
11N
de#inido pelo partidoO n+o e%iste nada, literalmente nada, #ora disso. 'esta perguntar se
isso B realmente poss,vel. =+o a sBrio, claro, pois parece evidente 3ue n+o, dados os seres
!umanos como os con!ecemos. D%aminemos as condi*/es de possi)ilidade desse Dstado
dentro das premissas #ornecidas pelo pr4prio Orwell.
Erimeiro, o controle do passado atravBs da altera*+o de ar3uivos escritos. O Cimes
circula entre os proles e, assim, B imposs,vel garantir 3ue uma altera*+o n+o dei%e rastros.
Orwell, aparentemente, preocupa0se com esse ponto. $ certa altura, "mit! vai a um )ar
#re3Uentado por proles e pergunta a um vel!o, alguBm 3ue nascera )em antes da
revolu*+o, se a vida era mel!or antes do Grande Wrm+o. $s mem4rias s+o descone%as,
misturando realidade, dese.os cumpridos e #rustrados e, principalmente, particularidades
marcantes para um indiv,duo, mas sem importJncia como registro de uma Bpoca. =ada
di#erente do 3ue se esperaria encontrar !o.e 3uando se entrevista alguBm idoso e pouco
educado. Iesmo assim, acidentes acontecem, especialmente durante mudan*as )ruscas1
de um momento para outro, a guerra .8 n+o B contra a Dur8sia, mas contra a Rest8sia.
"mit! nota a #rustra*+o de mani#estantes, 3ue veem 3ue todas suas #ai%as est+o erradas e
atri)uem isso a agentes de Goldstein. "mit! deve #a-er ser+o no IinistBrio da Verdade,
para reti#icar todos os registros, para dei%ar claro 3ue a OceJnia sempre esteve em guerra
com a Rest8sia, e n+o com a Dur8sia, como atB !8 algumas !oras. Ias mesmo 3ue esse
tra)al!o se.a per#eito, e 3uanto aos e%emplares remanescentesH O\(rien di- 3ue os proles
s+o como animais @5Os proles e os animais são livres6A, o 3ue 3uer di-er 3ue n+o e%iste
por 3ue se preocupar com o 3ue eles possam pensar. $#inal, eles n+o pensam.
Ias B ra-o8vel supor 3ue seria poss,vel conter ;?L da popula*+o apenas no
limite da so)revivência, simplesmente por3ue 1?L dela @os mem)ros do partido interno e
e%ternoA usam o duplipensar e realmente acreditam 3ue a guerra sempre #oi com a
Rest8sia, 3ue atri)uiriam conscientemente 3ual3uer registro contr8rio como uma
contra#a*+o #a)ricada por seguidores de GoldsteinH
11;
7ma resposta a isso, e uma resposta assustadora, B 3ue a vida dos proles n+o B
assim t+o m8. $#inal, como nota (urgess @em 51:;?6A, a guerra cont,nua B travada entre
e%Brcitos pe3uenos, em locais )em determinados. =+o e%iste recrutamento e%pressivo
entre os proles, eles s+o constantemente a)astecidos com #ic*+o )arata, pornogra#ia,
mQsica mecJnica, loterias etc. =+o !8 men*+o a desemprego, in#la*+o, misBria a)soluta.
&ado o estado em 3ue vive o grosso da !umanidade, B )em ra-o8vel pensar 3ue os proles
possam ac!ar 3ue vivem num para,so. P o mesmo racioc,nio 3ue vale para 5$dmir8vel
mundo novo61 B uma distopia s4 para 3uem est8 de #ora. Eara os mil!/es de deltas,
contentes de n+o terem de pensar como os al#as têm, a)astecidos de soma, com seus
encontros se%uais livres, a coisa toda B um .ardim. O aterrador dessa !ip4tese B 3ue, dadas
as condi*/es de vida atuais, distopias como as de Orwell ou de Hu%ley podem aparecer
)em aceit8veis para a maior parte da !umanidade. $ssim, 51:;<6 B assustador como
#uturo para o leitor de classe mBdia, 3ue seria ine%oravelmente tragado por esse Dstado.
Eara os proles de !o.e, 51:;<6 seria )astante toler8vel, o 3ue responde a#irmativamente C
3uest+o acimaO sim, B poss,vel imaginar 3ue ;?L da popula*+o mudem de lado
instantaneamente apenas por3ue 1?L dela di-em 3ue B isso o 3ue deve ser #eito, sem
maiores e%plica*/es.
O\(rien demonstra a "mit!, durante a tortura @a instru*+oA, o #uncionamento do
duplipensar. Dle di- 3ue, no passado, os revolucion8rios n+o conseguiam se manter no
poder por3ue acreditavam no poder para alguma outra coisa1 o poder para mudar, o poder
para reali-ar a #elicidade etc. Os novos revolucion8rios acreditam apenas no poder pelo
poder. O partido perdeu a m8scara1 e%iste para o poder, para perpetuar0se, para se tornar
progressivamente mais cruel com seus comandados. $li8s, era essa a pe*a 3ue #altava ao
livro de Goldstein, o 3ual e%plicava como o poder era mantido, mas n+o o por3uê. Iais,
3ue o #uturo do partido estava pouco a pouco se desen!ando1 seria preciso destruir, nos
mem)ros do partido, certas #or*as vitais, como o orgasmo, .8 3ue os la*os #amiliares .8 se
#oramO seria preciso eliminar todas as emo*/es, dei%ando apenas a venera*+o pelo Grande
11:
Wrm+oO en#im, seria preciso destruir a individualidade, em prol de um partido na #orma de
um s4 organismo, com uma s4 mem4ria, com cada !omem na condi*+o de cBlula. =esse
sentido, seria atingida, atravBs da imortalidade do partido, a imortalidade do !omem.
Ias B claro 3ue toda essa cadeia argumentativa envolve pro)lemas l4gicos. Eara
emitir esses .u,-os, O\(rien deve ter uma percep*+o muito clara do passado e do #uturo1
deve ver de onde o partido veio, 3ual seu estado atual e o 3ue ainda precisa ser #eito para
3ue ele atin.a a per#ei*+o. Ias isso implica 3ue o partido n+o B eterno e B menos 3ue
per#eito. 7m ato de duplipensar B necess8rio para eliminar esse ru,do. Eara se entender
pro#undamente o partido, B preciso ser ideocriminoso, segundo as pr4prias premissas do
Wngsoc. O\(rien reali-a isso. Ias, ent+o, surge outro pro)lema1 se, via duplipensar,
O\(rien .8 se es3ueceu de 3ue o partido B ainda imper#eito, se ele .8 retornou C3uela
)eatitude revolucion8ria, ent+o 3ual o sentido de estar instruindo "mit!H $#inal, numa
sociedade per#eita, n+o poderia !aver "mit!. Dnt+o, B preciso admitir 3ue ainda !8
tra)al!o a #a-er no sentido de aper#ei*oar o partido etc. Wsso e%ige nova aplica*+o de
duplipensar, e assim inde#inidamente.
Koda a estrutura do #uturo desen!ado por Orwell depende #undamentalmente do
duplipensar. Kodo o resto B secund8rio. P o duplipensar 3ue #unda a cren*a na
in#ali)ilidade do Grande Wrm+o, na imuta)ilidade da !ist4ria, na per#ei*+o da vida em
OceJnia etc. &essa #orma, #alar da possi)ilidade de 51:;<6 como antecipa*+o B #alar na
possi)ilidade do duplipensar como #orma de articular racioc,nios.
Orwell consegue nos mostrar como se estrutura uma comunidade de lun8ticos,
3ue usam o duplipensar para constantemente aper#ei*oar o organismo e constantemente
vê0lo aca)ado. Ias o autor #al!a em mostrar como isso B poss,vel1 "mit! raciocina como
n4s, tam)Bm O\(rien @salvo nos momentos em 3ue, de #orma pouco plaus,vel, di- estar
usando o duplipensarA e tam)Bm o narrador usa prosaicos princ,pios l4gicos para poder
apresentar seus personagens e situa*/es. =+o !8 3ual3uer vis+o 5de dentro6 de como essas
mentes duplipensadoras #uncionariam. &e resto, isso parece mesmo ser imposs,vel, .8 3ue
12G
o duplipensar e%ige 3ue o indiv,duo se situe #ora do tempo, vivendo um presente
constante, na condi*+o de cBlula do corpo do Grande Wrm+o. Viver esse presente constante
se c!ocaria com mais 3ue simplesmente o orgasmo. =+o )asta eliminar a se%ualidade para
garantir a vit4ria do duplipensar, seria preciso eliminar todas as #un*/es vitais. $lBm
disso, esse organismo @o partidoA deve ser alimentado pelos proles 3ue, estando #ora dele,
est+o no tempo. Som o passar do tempo @n+o para 3uem B do partidoA, n+o !averia mais
contato poss,vel entre proles e mem)ros do partido. D ent+oH
$ssim, a nature-a do tipo de pensamento necess8rio C manuten*+o do partido n+o
B apresentada. =em mesmo B apresentado o su)strato material para a trans#orma*+o de
"mit! no novo !omem, no !omem 3ue duplipensa. &epois de muita tortura @instru*+oA,
ele continua en%ergando 3uatro dedos onde O\(rien l!e di- 3ue e%istem cinco. Dnt+o, uma
nova tortura entra em cena. O\(rien di- a "mit! 3ue a coisa n+o vai doer. 7m c!o3ue l!e B
dado @no #ilme, vers+o de 1:;<, tudo se assemel!a a um eletroc!o3ueA e "mit!, por uns
momentos, vê a nova realidade. P s4.
Orwell, no entanto, d8 uma pista, para 3ue se perce)a o 3ue seria o duplipensar1
compara0o ao instrumentalismo em ciência natural1 5-uando navegamos no oceano! ou
$uando predi.emos um eclipse! muitas ve.es nos convém supor $ue a Cerra gira em torno
do Qol e $ue as estrelas estão a milh)es e milh)es de $uilDmetros de distância' cO\(rien
#a- essa invers+o, contra o 3ue !o.e acreditamos ser a verdadeira estrutura do "istema
"olar por3ue, para o Wngsoc, a Kerra F o centro do universod ( da;* /magina $ue não
podemos produ.ir um sistema dual em astronomia* As estrelas podem estar longe ou
perto! conforme precisarmos' Qup)e $ue os matem#ticos não possam resolver isso*
(s$ueceu,se do duplipensar*6 @parte 9, cap. 9A.
O pro)lema, claro, B 3ue os cientistas de verdade n+o duplipensam1 eles sa)em
@ou, pelo menos, acreditam sa)erA 3ue aplicam teorias di#erentes & mesma coisa, com a
esperan*a de o)ter resultados 3ue l!es interessem. Dles sa)em 3ue as teorias s+o, pelo
menos para esses usos, #ic*/es. $ cada momento na !ist4ria do desenvolvimento
121
cient,#ico, os cientistas sa)em 3ue o universo tem tal e tal estrutura, o 3ue n+o l!es impede
de, para #ins pr8ticos, considerar a estrutura como outra. Vuando, para calcular a
resistência de um material, um engen!eiro usa #,sica newtoniana, ele sa)e claramente 3ue
o universo n+o B assim. 7sa0a apenas por3ue, dado seu caso, seu o).etivo de momento,
n+o B necess8rio levar em considera*+o as complica*/es 3ue seriam introdu-idas no
pro)lema se lev8ssemos em conta 3ue, no universo, vale a relatividade e n+o a vel!a #,sica
de =ewton.
$inda com rela*+o C ciência, o livro apresenta uma vis+o )astante am),gua, talve-
3uase inconsistente, da atividade cient,#ica. Erimeiro, Goldstein Fcu.o livro B
apresentado simpaticamente para nossa aprecia*+oF di- 3ue a ciência B uma d8diva para
o !omem, 3ue seus #rutos levariam C li)erdade e 3ue, portanto, B preciso re#re80la. Ias,
como B poss,vel re#rear o pensamento especulativo, restringindo0o a somente a 8rea
militarH Earece pouco prov8vel. Eor outro lado, 3uando "mit! se re#ere C ciência, o #a-
com um certo desdBm @3ue Orwell tam)Bm 3uer 3ue o leitor compartil!eA1 o ideal do
partido B um mundo de a*o e concreto, de monstruosas m83uinas e armas aterrori-antesO
ou 3ue o ideal do partido B eliminar as inQteis grada*/es de sentido. Ora, pode realmente a
ciência ser trans#ormada de d8diva em instrumento de opress+oH Eara #uncionar )em
como instrumento de opress+o, ela deve ter certa li)erdade @para poder criar novos e
mel!ores instrumentos de opress+o, 3ue en#rentem novas situa*/es 3ue a !ist4ria v8
propondoA, 3ue a #ar8 voltar a dar #rutos dadivosos para o !omem. Eara evitar 3ue isso
#lores*a, B preciso cercear a li)erdade de pes3uisa. Ias, nesse caso, como mostram
e%emplos !ist4ricos @talve- o caso RysenXo cai)a a3uiA a atividade rapidamente estagna, e
dei%a de ser e#ica- mesmo como instrumento de opress+o, caindo na )urocracia.
=a verdade, a Qnica ciência a 3ue esse Dstado realmente se dedica B a lingU,stica.
=+o sa)emos e%atamente o 3ue Orwell 3uer di-er com essa ciência aplicada C 8rea militar,
mas sa)emos 3ue as guerras travadas entre as potências se d+o sempre em regi/es
pe3uenas e remotas e com armas convencionais. =en!uma para#ern8lia cient,#ica
122
avan*ada nos B apresentada durante o livro, salvo um e#iciente sistema de comunica*+o
interativo constitu,do pela rede de teletelas. $ssim, toda a ciência permitida pelo Grande
Wrm+o B essa lingU,stica com um s4 o).etivo1 construir a novil,ngua. Earece pouco
prov8vel 3ue se ten!a sucesso em cercear toda a li)erdade de pensamento em todas as
8reas de pes3uisa salvo em uma. Iesmo dei%ando esse ponto de lado, e%aminemos se
pode !aver sucesso nesse empreendimento singular.
Vuanto C =ovil,ngua @newspeaXA, (urgess, em 51:;?6, di- 3ue Orwell tirou a
ideia de 3ue o Dstado poderia 3uerer impor uma l,ngua nova, a partir de um #ato real. =a
dBcada de 1:9G, a Wnglaterra comprou os direitos de um inglês )8sico, composto pelos
lingUistas Ogden e 'ic!ards @os mesmos autores de 5O signi#icado de signi#icado6A, 3ue
se apoiava num voca)ul8rio de ;?G palavras. Iuito se tem escrito so)re a novil,ngua,
desde como ela seria, o 3ue Orwell teria e%atamente em tela 3uando #or.ou o termo, atB a
3uest+o mais pro#unda de se o cerceamento lingU,stico implica necessariamente em um
cerceamento de signi#icado. Ou, noutras palavras, de se a supress+o de uma palavra pode
levar, com o tempo, C supress+o de seu signi#icado. Kodos os lingUistas de 51:;<6
tra)al!am com essa !ip4tese. Som as progressivas re#ormas da l,ngua, pouco a pouco
ser+o suprimidas palavras 3ue e%pressam crimideias e, assim, as pr4prias crimideias se
tornar+o imposs,veis. Hu%ley raciocina mais ou menos da mesma #orma 3uando #a- com
3ue um de seus personagens se 3uei%e de 3ue tem algo a di-er, mas n+o se sente capa- de
#a-ê0lo por3ue as palavras ade3uadas n+o e%istem.
Dssa B, no entanto, uma vis+o um tanto ingênua das possi)ilidades dessa
5lingU,stica aplicada6. Orwell dei%a de lado um #ator importante de toda l,ngua viva1 o
#enTmeno da polissemia. =+o e%iste rela*+o de um para um entre palavras e signi#icados e
nem se3uer as rela*/es entre esses dois con.untos s+o constantes. 7m signi#icado pode ser
e%presso por v8rias palavras, uma palavra pode ter v8rios signi#icados e, o 3ue seria o
maior impedimento para a novil,ngua1 supondo 3ue um signi#icado dispon!a de apenas
129
uma palavra para ser e%presso, a elimina*+o dessa palavra #aria com 3ue o signi#icado se
incorporasse como acep*+o secund8ria de outra palavra.
Dssa 3uest+o de l,ngua e utopia B discutida mais amplamente numa pseudo0utopia
contemporJnea1 5Os despossu,dos6, de 7rsula Re Guin, de 1:N<. =ela, uma revolu*+o no
planeta 7rras d8 direito aos dissidentes a coloni-arem a lua do tal planeta1 $narres. 7ma
ve- 3ue essa sociedade @supostamente anar3uista, em)ora a autora n+o a caracteri-e
consistentemente como talA B nova e pro.etada, sua l,ngua tam)Bm B nova. Dm 7rras, #ala0
se W4tico. Dm $narres, #ala0se Er8vico. Vuase dois sBculos depois de instalada a nova
sociedade, o #ato B 3ue palavras ine%istentes no Er8vico Fn+o e%istem termos para
5din!eiro6, .8 3ue n+o !8 trocas por um valor #i%ado ar)itrariamente, s4 trocas por valor
de uso, 5)astardo6, .8 3ue n+o e%iste casamento, !eran*a nem propriedadeF reaparecem
so) novas #ormas. 7ma ve- 3ue os !a)itantes de $narres consideram os de 7rras
indiv,duos todos se3uiosos de lucro acima de 3ual3uer coisa, 5lucradores)8sicos como6
vira sinTnimo de 5!a)itante de 7rras6 e, por e%tens+o, um %ingamento como em inglês o B
5)astardo6. D assim por diante.
$ tese implicada nessa #ic*+o B 3ue e%istem certos #atores )8sicosFcomo 5troca6,
5meu6, 5seu6F 3ue s+o inerentes ao !omem e n+o podem ser suprimidos apenas por3ue
se suprimem as palavras 3ue momentaneamente os designam. Eara "!ippey @1:;NA, “MOs
despossu;dosM fornece uma resposta ficcional & tese de MEFHVM de $ue a McrimideiaM seria
Mliteralmente imposs;velM sem as palavras certas para express#,la” @p. 1:GA. &e 3ual3uer
#orma, essa parece ser tam)Bm a ideia de Orwell 3ue, na verdade, n+o acredita na t8tica
3ue descreve em 51:;<6. Dm seu 5$pêndice6 a 51:;<6, c!amado 5Os princ;pios da
novil;ngua6, a#irma 3ue 5a adoção final da novil;ngua teve de ser adiada para uma data
tão tardia $uanto RIJI6. Ou se.a, n+o l!e parece prov8vel 3ue um pro.eto assim possa
realmente dar certo.
&essa #orma, do ponto de vista da plausi)ilidade de 51:;<6, a novela #al!a em
pelo menos dois pontos1 n+o nos B #ornecido um e%emplo ra-o8vel de o 3ue se.a o
12<
duplipensar, )ase de sustenta*+o do sistema do Grande Wrm+o e, mais, o pr4prio Orwell
n+o acredita na novil,ngua como um pro.eto praticamente vi8vel.
bbb
&o ponto de vista de !o.e, 51:;<6 aparece como ultradatado. "e !8 uma coisa 3ue
amea*a o mundo atual B a )anali-a*+o, a a)undJncia de in#orma*+o @3ue dei%a mesmo
#ora de #oco a 3uest+o da manipula*+o1 )asta multiplicar as #ontes, 3ue o desencontro
advindo dessa 5li)erdade6 .8 servir8 para entupir o sistemaA, a li)era*+o de 3ual3uer )ai%o
instinto. O controle muito mais e#ica- se d8 por meio dessa )anali-a*+o. Dm lugar de
suprimir o orgasmo, por 3ue n+o torn80lo )analH Dssa B a maior cr,tica 3ue Hu%ley Fem
5$dmir8vel mundo novo revisitado6F #a- a Orwell1 B mais #8cil controlar a sociedade
dando prêmios por acertos 3ue punindo os indiv,duos devido a cada um de seus erros. O
Wngsoc promovia os instintos in#eriores, por e%emplo, 3uando instigava os .ovens a se
tornar espi/es do Dstado. Ias, ao lado dessa e%acer)a*+o do instinto de so)revivência, o
Dstado 3ueria destruir a li)ido. Eor 3uêH Dm Zamyatin, ali8s, a se%ualidade B totalmente
li)erada, desde 3ue desligada de amor, #am,lia ou reprodu*+o, o mesmo ocorrendo em
Hu%ley. "4 Orwell pensa do contr8rio. $ prop4sito, B .ustamente essa li)ido reprimida 3ue
leva "mit! C derrocada. "ua primeira e%periência e%pressa no di8rio B de se%o com uma
prostituta, no )airro dos proles. &epois, B a liga*+o com ulia 3ue consuma sua crimideia.
Kalve-, sem repress+o, a revolta nunca tivesse ocorrido a "mit!.
Eor outro lado, Orwell ac!ava 3ue a sociedade de Hu%ley @e a de ZamyatinA
tenderia C estagna*+o, ao tipo de estagna*+o 3ue ames Gunn e%ploraria em 5Os
vendedores da #elicidade6, de 1:M1. $s restri*/es seriam, assim, necess8rias para manter
um tTnus 3ue garantisse a vontade de so)reviver.
Dm 1:<:, mais 3ue nunca, o #uturo mostrava 3ue o totalitarismo cru de um
Grande Wrm+o era, primeiro, mais e#ica- para manter uma sociedade em #uncionamento
@contra a lassid+o das distopias de Hu%ley e ZamyatinA e, segundo, mais plaus,vel. O
totalitarismo #ora derrotado na "egunda Guerra, mas mostrara 3ue as democracias
12?
ocidentais eram #r8geis e 3ue mesmo os pa,ses democr8ticos @ou 3uaseO lem)remo0nos de
3ue o (rasil era um 5$liado6A vencedores poderiam cair so) sistema semel!ante ao 3ue
!aviam com)atido. Eor outro lado, a vers+o com ret4rica de es3uerda do mesmo
totalitarismo derrotado na Duropa permaneceu na 7'"". Orwell n+o via di#eren*a entre o
totalitarismo de es3uerda ou de direita e, a acreditarmos em (urgess @51:;?6A, Orwell
supun!a 3ue nem se3uer era necess8rio um regime e%plicitamente totalit8rio para 3ue
tra*os de 51:;<6 #icassem vis,veis. (urgess acredita em 3ue 51:;<6 B uma alegoria direta
e simples da Wnglaterra p4s0Guerra. Rondres estava devastada, como a Rondres em 3ue
vive Winston, o 3ue n+o impedia os ingleses de manter as aparências como o #a-em os
ingleses de 51:;<6 com suas 5mans+o Vit4ria6, 5gim Vit4ria6 etc. O c!eiro onipresente de
repol!o 3ue Winston nota logo no in,cio de 51:;<6 era o c!eiro de Rondres em 1:<M,
3uando esse era o alimento mais )arato dispon,vel para os menos #avorecidos. Ias, mais
importante 3ue isso, (urgess e3uaciona o implaus,vel duplipensar Fde 3ue Orwell B t+o
pouco capa- de dar e%emplos cogentesF C sQ)ita mudan*a de status da 7'"" ap4s o #im
do con#lito mundial1 de aliada a inimiga do mundo livre em apenas uns poucos meses.
Orwell, presenciando essa mudan*a de interpreta*+o Fessa mudan*a da realidade
o).etivaF, teria sentido o perigo do duplipensar independentemente de este estar ou n+o
associado a um regime e%plicitamente totalit8rio.
Dn#im, a 7'"", totalit8ria e stalinista permaneceu de pB e, em 1:<: @o ano da
pu)lica*+o de 51:;<6A, seria a ve- da S!ina seguir o mesmo camin!o. Dsses dois pa,ses,
so-in!os, totali-avam 3uase a metade da !umanidade. Havia partidos comunistas ou
socialistas legais em todo o Ocidente. D mesmo regimes anticomunistas Fcomo o inglês
F usavam a mesma tBcnica de duplipensar 3ue Orwell atri)ui aos stalinistas. Rogo, era
ra-o8vel supor 3ue o totalitarismo estava #adado a voltar C Duropa ocidental. D o Wngsoc,
como lem)ra o autor @na verdade, Goldstein, em seu livroA, teve sua origem num
aviltamento do socialismo, ou se.a, o Wngsoc B o stalinismo. $o lado disso, a amea*a da
guerra nuclear #icou no ar depois das duas )om)as lan*adas so)re o ap+o e Orwell sa)ia
12M
3ue, depois de um ata3ue nuclear, e depois da devasta*+o 3ue se seguiria @no livro, lemos
3ue !ouve uma guerra nuclear a partir de 1:?G, com uma )om)a lan*ada 5por eles6 so)re
Solc!esterA, o terreno #icaria #Brtil para 3uem estivesse mais organi-ado na pr8tica de
iludir a massa1 3uem tivesse pr8tica no duplipensar, #ossem eles stalinistas ou n+o.
Ho.e, com a guerra nuclear praticamente a#astada, ou, pelo menos, com o
con!ecimento de 3ue, se ela ocorrer, n+o dever8 !aver muitos so)reviventes para o Wngsoc
tragar, o livro parece mais vel!o 3ue nunca. Vel!o, )em entendido, como apresenta*+o de
um #uturo minimamente plaus,vel. Eor outro lado, como sonda, como literatura de
e%perimenta*+o, 51:;<6 prova 3ue a vit4ria do totalitarismo seria a derrota incondicional
do !omem. $ sociedade apresentada no livro tem o élan necess8rio para so)reviver, mas
vegeta. P o mesmo caso da sociedade de Gunn e das de Hu%ley e de Zamyatin, se, a essas
duas Qltimas, #osse dado tempo. Dn#im, o pro.eto para atender a todas, ou a nen!uma, das
necessidades de la-er !umanas se encontram.
Ienos clara B 3ual a alternativa de Orwell para se escapar desse #uturo. $pelando
para o proletariadoH =+o. Vuando Winston vai ao )airro dos proles e #ala com um deles,
tentando revirar suas reminiscências, tudo o 3ue encontra B caos. Os proles n+o têm
mem4ria e n+o têm, portanto, como escapar de um sistema 3ue reconstrua a !ist4ria. &ado
o pro.eto do partido Fnecessidade de aca)ar de ve- com a #am,lia e, depois, com o pra-er
se%ualF parece 3ue Orwell veria na manuten*+o destes um ant,doto contra o #uturo
som)rio do livro. Ias ulia mantBm viva sua li)ido e, mesmo assim, n+o #a- disso
3ual3uer arma ideol4gica. Ou se.a, um dos personagens centrais do livro @3ue na verdade,
s4 tem três 3ue se distinguem por a*/es1 Winston, ulia e O\(rienA nega o valor da li)ido
com arma para se manter a#astado o perigo do Dstado do Grande Wrm+o. D a manuten*+o
da #am,liaH =+o !8 como sa)er a partir do livro. "a)emos apenas 3ue Winston B
#re3Uentemente assaltado por lem)ran*as con#usas e opressivas relacionadas a sua m+e e
3ue, talve-, ten!am sido essas lem)ran*as a gênese de sua doen*a. "e.a como #or, em
1:;<, .8 n+o e%istem #am,lias na Wnglaterra. Dlas continuam no sentido )iol4gico F
12N
Winston tem vi-in!os com #il!os etc.F, mas est+o de#initivamente destru,das pelo
partido, 3ue estimula sua “ala "ovem” a delatar os pais. &esapareceram, assim, as rela*/es
de #idelidade e de amor 3ue caracteri-am 3ual3uer grupo #amiliar.
Wells escreveu uma distopia a partir da e%trapola*+o dos a)ismos sociais 3ue
e%istiam no #im da era vitoriana. Hu%ley, a partir da #e)re da produ*+o em sBrie como
sinTnimo de progresso e de e#iciência. Orwell, a partir da e%periência de ver a massa
condu-ida para onde se 3uisesse, )astando #a)ricar a ilus+o conveniente. Eara escapar de
seu sistema, Wells acreditava na ciência desenvolvida de #orma n+o0institucionali-ada.
Hu%ley acreditava em um pouco sedutor dese.o “pelo pecado”. D OrwellH Orwell parece
#ec!ar portas 3ue ele pr4prio a)re. &a distopia de Orwell, n+o e%iste sa,da. P, nesse
sentido, a o)ra Fe%cluindo0se as antiutopias n+o0sociaisF 3ue mais per#eitamente se
#ec!a so)re si mesma. Iesmo 3ue esse #ec!amento envolva certas inconsistências, o 3ue
#ica mais evidente para o leitor B a pro#unda desesperan*a do autor de 3ual3uer salva*+o
poss,vel. Wells !avia tentado algo assim em 5O pa,s dos cegos6 no 3ual narra a
e%periência de um !omem de vis+o normal 3ue vive entre cegos num altiplano sul0
americano. &epois de muito discutirem, seus pares c!egam C conclus+o de 3ue ele so#reria
de um del,rio constante e 3ue a Qnica maneira de tra-ê0lo C ra-+o seria e%tirpando “os
gloos $ue em todos são atrofiados e! nele! são desenvolvidos”. Wells, no entanto,
permaneceu no plano epistemol4gico. Sa)eria a Orwell, certamente leitor de Wells e,
assim, con!ecedor de 5O pa,s dos cegos6, levar essa #8)ula C pol,tica.
O Dstado de Wells tin!a tanta rela*+o com o !omem 3uanto “um ciclone ou uma
colisão planet#ria”. O Dstado de Orwell tam)Bm, mas, surpreendentemente, isso n+o se
deve ao autor acreditar nalguma #ra3ue-a essencial do !omem. Eelo contr8rio, de todos os
dist4picos estudados a3ui, Orwell B o 3ue mais acredita no poder trans#ormador do
!omem. O !omem B capa- de modi#icar tudo, toda a nature-a, o universo, toda a realidade
o).etiva. P capa- de #a-er isso t+o per#eitamente 3ue corre o risco de se #ec!ar para
sempre em um sistema isolado e per#eito1 no caso do sistema esperado por O\(rien, de
12;
tens+o e ê%tase eternos. $ antiutopia de Orwell B, assim, a Qnica a tirar essa conclus+o
surpreendente1 a distopia nasce n+o da #ra3ue-a, mas da incr,vel #or*a da mente !umana.
Vuem atri)ui desastres a #ra3ue-as pode manter esperan*a de mudan*a. Vuem os atri)ui C
potência n+o tem nada a o#erecer. Eor isso, o desastre o#erecido ao leitor em 51:;<6 B o
mais completo e devastador poss,vel, o 3ue talve- e%pli3ue sua posi*+o privilegiada como
antiutopia em)lem8tica do sBculo 2G. Dla aca)a n+o sendo irTnica, n+o o#erecendo
nen!um ind,cio de sa,da e n+o o#erecendo, em lugar da li)erdade perdida @Orwell pensou
em c!amar o livro de 5O Qltimo !omem na Duropa6A, um #uturo de pra-er, mas de dor
eterna .
c. as a503/0-;3as se1 classes
Vuando vimos as antiutopias com classes, #alamos 3ue a presen*a delas em tais
e%trapola*/es do #uturo deveria ser interpretada como sinal de rigor, de e%trapola*+o
#irmemente #undamentada na e%periência dispon,vel para seus autores. $ consistência
e%ige 3ue notemos, nestas antiutopias sem classes 3ue estudaremos agora, certa ausência
de rigor. Zamyatin @1:22, p. 2;?A escreveu 3ue Wells produ-iu 5socio#antasias6. D o
pr4prio ZamyatinH =+o B #ant8stico um Dstado sem classes, com todos se movendo
mecanicamente, preocupados com a constru*+o de um #oguete sem destino e assediados
por um )ando de revolucion8rios 3ue 3uerem usar essa nave interestelar como um ar,ete
para derru)ar um muroH D o 3ue #alar de (rad)ury, com seu Dstado 3ue permite todo tipo
de su)vers+o desde 3ue n+o se.a a posse de livros, caso em 3ue o su)versivo B 3ueimado
vivo por um )om)eiro Cs avessas, este muito culto e versado na !ist4ria e nas pro#undas
ra-/es sociais das #ogueiras noturnas 3ue promoveH =em Zamyatin, nem (rad)ury
pretenderam escrever antiutopias plenamente reali-8veis. O mundo pode vir a ser como o
desen!ado por Orwell, Wells ou Hu%ley, .amais como o suposto pelos dois autores 3ue
estudaremos a seguir. O 3ue segue B a an8lise de te%tos 3ue têm a #orma antiut4pica, mas
3ue carecem de #undamenta*+o para poderem ser plenamente usados como #erramentas de
12:
e%trapola*+o, uma ve- 3ue têm outras preocupa*/es a desenvolver. =o caso de Zamyatin,
est8 em .ogo o processo de industriali-a*+o e o 3ue ele signi#ica como mecanismo de
supress+o do lado )estial do !omem. =o caso de (rad)ury, est8 um mal digerido
#etic!ismo envolvendo livros e as pessoas 3ue os leem. Sonstituem, em todo caso, te%tos
!istoricamente importantes, reiteradamente citados em 3ual3uer !ist4ria das antiutopias
#utur,sticas. Vale ainda lem)rar 3ue essa despreocupa*+o com a #undamenta*+o da
narrativa em tendências vis,veis na Bpoca em 3ue as o)ras #orma escritas n+o B, em
a)soluto, sinal de po)re-a liter8ria. $m)os os .ulgamentos Fo livro como #ic*+o pura e
simples e o livro como #erramenta de especula*+oF devem permanecer separados e o 3ue
se escrever a respeito de #alta de rigor, de consistência etc., nen!um peso e%erce so)re as
pretensas 3ualidades liter8rias das o)ras estudadas.
c1. AN?sB
>uturo distante, 12 sBculos depois dos tempos prB0!ist4ricos @!o.eA. O planeta B
constitu,do por um Dstado `nico. Sada cidade do Dstado B cercada por mural!as
intranspon,veis, 3ue a separam da selva. &entro das cidades, todos os prBdios s+o de
cristal, e%istem !oras certas para se acordar, deitar, tra)al!ar, divertir, passear e comer
@sendo 3ue, para cada gar#ada, 1? mastigadas devem ser dadasA. O clima B controlado de
#orma a 3ue os #enTmenos 3ue recon!ecemos como naturais s4 ocorram #ora dos limites
das cidades. O Qnico momento de privacidade, 3uando o cidad+o Fo 5nQmero6F tem
direito de a)ai%ar uma cortina em sua !a)ita*+o, B na !ora do se%o programado. Vual3uer
pessoa pode ter se%o com 3ual3uer outra desde 3ue #a*a inscri*+o antecipada, o)ten!a
anuência do parceiro pretendido e consiga um cupom rosa para dia e !ora certos. O se%o
est8 desligado da maternidade. O sistema B democr8tico1 e%istem elei*/es para o l,der do
Dstado, com a presen*a o)rigat4ria de todo cidad+o e voto a)erto. $s vo-es discordantes,
3uando e%istem, s4 podem signi#icar incompreens+o ou doen*a e, para isso, e%istem os
guardi+es do Dstado.
19G
&0?G9 B o construtor da /ntegral, uma nave 3ue dever8 levar a outros planetas a
mensagem do Dstado `nico. Ias ele se apai%ona por uma mul!er misteriosa, W099G, e
desenvolve uma doen*a incur8vel1 uma alma. Eara e%tirpar a doen*a, B necess8rio #a-er
uma cirurgia, 3ue l!e e%trai a imagina*+o.
Dm lin!as gerais, a !ist4ria n+o B muito mais 3ue isso. Zamyatin coloca alguns
mati-es no te%to1 a mul!er 3ue se apro%ima de &0?G9 B uma representante do )em @pelo
menos como !o.e o compreendemos1 re#or*o da individualidade, da li)erdade, do direito
de amar etc.A, mas n+o age de #orma ,ntegra com ele1 sua primeira am)i*+o B apro%imar0se
de 3uem controla a /ntegral. "eu o).etivo B usar a nave para romper as mural!as 3ue
circundam as cidades. "eu amor pode @nunca o sa)emosA ser #or.ado, em)ora poucos
cr,ticos notem isso @entre os 3ue notam est8 'a)Xin, 1:;9a, p. <A. Eor outro lado, a
ditadura do Dstado `nico n+o B opressora para seus cidad+os. &0?G9 narra @toda a novela
B desenvolvida em primeira pessoa, constituindo0se num longo di8rio 3ue dever8 ser
levado no interior da /ntegral, para outros planetasA como B )om pertencer a um grande
organismo, como a li)erdade individual B danosa, como o Dstado d8 seguran*a etc. $
certa altura @cap,tulo 22A, o autor mostra 3ue a ideia da superioridade do 5n4s6 so)re o
5eu6 vem do cristianismo, 3ue a individualidade B uma doen*a @você s4 sente seu dedo se
ele est8 #erido, o mesmo acontecendo com a sociedadeA.
O drama pessoal de &0?G9 est8 em 3ue, depois de con!ecer W099G, ele passa a
oscilar entre o Dstado `nico e a sensualidade 3ue se encontra por tr8s da mural!a verde.
=o #im de contas, o iminente descontrole da cidade leva a Dstado a e%igir uma lo)otomia
geral de cada cidad+o. &0?G9 #a- isso, entrega os sediciosos, e seu drama termina. $ssiste,
n+o sem pra-er, a tortura e morte de W099G. Ial se lem)ra dela, mas sa)e 3ue o Dstado
deve estar certo no 3ue #a-. "ua morte, mesmo 3ue ele n+o sai)a )em por 3uê, representa
para ele um grande al,vio. Dst8 de#initivamente perdido seu Qltimo la*o com a
irracionalidade.
191
Eioneiro do gênero dist4pico, in#luenciador de Hu%ley e Orwell, Zamyatin
apresenta uma novela com uma sBrie de inconsistências. Eor 3uêH "e o Dstado `nico se
prepara para tomar outros planetas, por 3ue mantBm a regi+o indTmita atr8s das mural!asH
"e o se%o depende da anuência individual, por 3ue a individualidade n+o se e%pressa
tam)Bm noutros camposH "e a ditadura B per#eita, por 3ue manter, como um museu, uma
casa do sBculo 2G @na verdade, um prBdio de apartamentosA, com livre acesso para todos
os cidad+os interessadosH "e toda a a*+o do livro gira em torno de em 3ue m+os deve cair
a /ntegral, ca)eria perguntar 3ual o destino dessa nave, 3ue levar8 5para #ora da Kerra a
mensagem do Dstado `nico6. Ias, para ondeH D como W099G pretende usar uma nave
interplanet8ria como um m,ssil ou um ar,ete para derru)ar um muroH P claro 3ue s4
atri)uindo C nave e a tudo mais um valor aleg4rico podem essas 3uest/es serem dei%adas
de lado. Ias alegoria n+o se encai%a )em em >S, nem nas distopias #utur,sticas )aseadas
em >S, 3ue e%igem um pouco de #undamenta*+o para os cen8rios e a*/es 3ue descrevem.
$nalisado como >S, Zamyatin n+o resistiria. =+o 3ue para#ern8lia cient,#ica ou
verossimil!an*a cient,#ica se.am prB0condi*/es para sucesso no gênero. Ias, como
lem)ra $mis, esses 3uesitos nunca podem ser dei%ados de lado. 7ma novela #utur,stica,
como 5=4s6, 3ue dei%a de lado e%plica*/es para as a*/es descritas, 3ue n+o mostra a
menor preocupa*+o com consistência, n+o passaria no teste de )oa #ic*+o especulativa.
Ias ser8 esse o prop4sito de ZamyatinH "er8 3ue ele pretendia escrever distopias como
Wells, antes dele, e Hu%ley e Orwell, depoisH $ resposta B, 3uase certamente1 n+o.
Zamyatin #a-, na verdade, um e%tensa alegoria so)re os dois lados do !omem Fo
irracional e o racionalF e coloca seus personagens num conte%to #utur,stico,
condimentado a3ui e ali por elementos de >S.
Zamyatin se inscreve na tradi*+o anticienti#icista 3ue tem em &ostoievsXi o
principal e%poente do sBculo 1:. Dste, em 5O su)solo6, nos apresenta um 5homem doente6
3ue re.eita 52g2k<6 como sendo este um 5princ;pio de morte6. Eara esse !omem doente,
as #or*as som)rias do !omem, seu lado irracional, seu dese.o incontrol8vel, animal, de
192
romper com 3ual3uer e%pectativa B o 3ue resguarda o !omem da ma3uini-a*+o completa.
Sarlyle di-ia 3ue “os homens estão se tornando mecânicos no cérero e no coração! em
como em suas mãos”. O !omem doente de 5O su)solo6 con!ece a sa,da para isso, mesmo
3ue ela n+o se.a l8 muito !onrosa. $#inal, para escapar da ma3uini-a*+o, vale como pre*o
a)dicar da ra-+o, retornar C animalidade, ceder inteiramente aos mais )ai%os instintosH $
alternativa n+o B l8 muito sedutora e, talve-, &ostoievsXi estivesse criando um #also
dilema1 a dicotomia sem sa,da entre ma3uinismo e !umanidade. Dsse dilema B o tema
principal de Ium#ord, 3ue monta todo o argumento de seu 5KBcnica e civili-a*+o6 em
torno da necessidade de uma assimila*+o inteligente da tBcnica, e de Wells 3ue, em 57ma
utopia moderna6, a#irma 3ue “não h# nada de intr;nseco &s m#$uinas $ue as origuem a
ser feias”. "e, no entanto, tomarmos a sBrio o dilema tal como posto por Zamyatin @e
&ostoievsXiA, ent+o resta mesmo apenas a alternativa da animalidade contra o
ma3uinismo.
Ias Zamyatin estende esse #also dilema dostoievsXiano mais alBm, 3uando
identi#ica o grande inimigo com >redericX W. Kaylor. Som ironia @ironia do autor, &0?G9
nos #ala a sBrioA, &0?G9 a#irma1 “Qim! sem d5vida esse Ca+lor foi o maior g%nio entre os
antigos' G verdade $ue ele não chegou ao conceito final de estender seu método até $ue
ele engloasse toda a vida! todo momento! noite e diaL ele não foi capa. de integrar seu
sistema da primeira até a vigésima,$uarta hora''' Mas! ainda assim! como puderam os
antigos escrever iliotecas completas sore um Want ou outro e apenas notar Ca+lor!
esse profeta $ue enxergou séculos & frente” @cap. NA. =a Bpoca em 3ue escreveu 5=4s6, o
taylorismo estava em moda, principalmente na recBm0#undada 7'"". Rênin a#irmava1
“Sevemos organi.ar na N5ssia o estudo e a pes$uisa do sistema ta+lorista e
sistematicamente test#,lo e adapt#,lo para nossos prop:sitos” @citado em (eauc!amp,
1:;9, p. MGA. $ resposta de Zamyatin a essa cren*a no sistema de Kaylor B 5=4s6.
Ias o interessante B 3ue a imagem criada por Zamyatin desse #uturo Dstado
`nico, no 3ual o taylorismo vale n+o apenas na #8)rica, mas em toda a sociedade, apenas
199
reedita ut4picos mais antigos, muito anteriores aos 5Erinc,pios do gerenciamento
cient,#ico6, pu)licados por Kaylor em 1:11. Somparemos duas passagens. “Ke"o outros
como eu mesmo! movimentos como o meu! duplicados milhares de ve.es' Ke"o a mim
mesmo como parte de um corpo enorme! vigoroso e unido e $ue precisão maravilhosa'
0em um s: gesto supérfluo'''” @5=4s6, cap. NA. $gora, a seguinte. “2# perceeu tamém o
movimento regular de nossa população* Xs cinco horas! todos se levantamL &s seis! todos
nossos carros populares e todas nossas ruas estão cheias de homens $ue se dirigem &s
suas oficinasL &s nove! são as mulheres! de um lado! e as crianças! de outroL das nove &
uma! a população est# nas oficinas ou nas escolasL & uma e meia! toda a massa de
traalhadores deixa as oficinas para se reunir &s suas fam;lias e a seus vi.inhos! nos
restaurantes popularesL de duas &s tr%s! todos almoçamL de tr%s &s nove! toda a
população enche os "ardins! os terraços! as ruas! os passeios as assemleias populares!
os largos os teatros e todos os outros lugares p5licosL &s de.! todos estão deitados e! &
noite! das de. &s cinco horas! todas as ruas estão desertas”. KaylorismoH =+o. $ segunda
passagem B do cap,tulo 12 de 5Viagem a Wc8ria6, de Dtienne Sa)et, pu)licada em 1;<2.
$ssim, temos em Wells a e%trapola*+o da economia inglesa do #im do sBculo 1:,
em 5$dmir8vel mundo novo6, a e%trapola*+o do #ordismo e, em 5=4s6, do taylorismo.
Somo #ic*+o de especula*+o, Zamyatin teve dura*+o curta. 8 em #ins da dBcada de 1:2G
@(uc!anan, 1::2, p. 11;A os estudos de tempo e de movimento de Kaylor mostravam
#al!as evidentes 3ue indicavam 3ue a e#iciência era mel!or atingida 3uando !avia maior
enga.amento do tra)al!ador. Iesmo 3ue val!a a ideia de Kaylor de 3ue “a ci%ncia
envolvida em $ual$uer tarefa! por menor $ue se"a! é tanta $ue o traalhador mais apto a
desempenh#,la! ainda assim! seria incapa. de entend%,la” @Kaylor, cap,tulo 2, p. <1A,
ainda assim B mais interessante em termos de e#iciência tentar esta)elecer la*os entre
tra)al!ador e o).eto de seu tra)al!o. =+o por algum sentimento de 3ue B necess8rio
com)ater a aliena*+oO simplesmente por3ue isso vai dar mais lucro.
19<
&essa #orma, 5=4s6, como acontece com 5>a!ren!eit <?16, 3ue veremos a seguir,
cria uma distopia de e%trapola*+o de uma tendência 3ue ele considerava dominante em
sua Bpoca, mas #al!a em criar em torno dessa tendência e%trapolada um mundo veross,mil.
Orwell a#irmava 3ue, contrariamente aos cr,ticos da Bpoca, 3ue viam em 5=4s6 uma
cr,tica C 7'"" Fali8s, o livro s4 #oi pu)licado na 7'"" na dBcada de 1:;GF “M0:sM é!
com efeito! um estudo da m#$uina! do g%nio $ue o homem impensadamente colocou para
fora de sua garrafa e nela não o pode recolocar novamente' O $ue Pam+atin o"etiva não
é nenhum pa;s em particular! mas os o"etivos impl;citos na civili.ação industrial”
@Orwell, 1:<Ma, p. ::A. =o mesmo ensaio, vê em 5=4s6 algo superior a 5$dmir8vel
mundo novo6, uma ve- 3ue Zamyatin teria mostrado maior sensi)ilidade em perce)er o
lado irracional do totalitarismo. $ssim como acontece com o regime do Grande Wrm+o, em
51:;<6, o regime do (en#eitor, em 5=4s6, vive e%ecutando pessoas pu)licamente, vive
colocando seus #il!os em ê%tase irracional, em #estivais de adora*+o pQ)lica C #igura do
l,der. O totalitarismo de Hu%ley B mais limpo e Orwell n+o acredita na possi)ilidade de
regimes assim. O totalitarismo necessariamente Fsegundo o autor de 51:;<6F #aria
apelo aos mais )ai%os instintos !umanos. $ super#,cie seria racional, aparentemente, com
todos os nQmeros se portando mecanicamente etc. Ias a sustenta*+o disso se daria pelos
)ai%os instintos, pela li)era*+o do 4dio e do amor da maneira mais crua poss,vel.
=o entanto, B estran!o 3ue Orwell, 3ue #a-ia a Hu%ley a cr,tica de 3ue um mundo
t+o desenvolvido poderia dispensar o tra)al!o )ra*al de Bpsilons e deltas @os semi0
retardados de 5$dmir8vel mundo novo6A, n+o ten!a estendido isso a Zamyatin. $#inal, &0
?G9 se lem)ra dos tempos de escola, 3uando era instru,do por uma “m#$uina de ensinar”.
"e tais m83uinas e%istiam, por 3ue !averia engen!eirosH Eor 3ue os guardi+es do Dstado
teriam de ser !umanosH Eor 3ue a vigilJncia deveria acontecer pela agência de prBdios de
cristalH Sertamente, por3ue tudo isso tem valor aleg4rico. (eauc!amp @1:;9, p. M9A
lem)ra de 3ue os prBdios de cristal s+o reminiscência do ut4pico russo S!ernys!evsXy,
3ue #alava do #uturo em termos de 5pal8cios de cristal6 e era criticado por &ostoievsXi.
19?
$ssim como acontece com (rad)ury, Zamyatin, ao dei%ar de lado a preocupa*+o de
#undamentar suas vis/es, de l!es dar um m,nimo de consistência e plausi)ilidade,
pre#erindo apelar mais C emo*+o do leitor 3ue a seu senso cr,tico, escreveu mais uma
#antasia 3ue uma antiutopia especulativa. &essa #orma, 5=4s6 tem valor principalmente
como um retrato do pavor di#uso do ma3uinismo, do culto da e#iciência e do con#ormismo
das massas diante do aviltamento da li)erdade. =o entanto, ao manter esse pavor apenas
di#uso Fsem l!e dar contornos plaus,veis, especialmente de como se teria c!egado a esse
sistema e 3ual o prop4sito de permanecer neleF Zamyatin #al!ou com respeito ao pro.eto
wellsiano de #a-er sociologia como literatura. =o te%to de Zamyatin, somos capa-es
apenas de perce)er o medo do ma3uinismo, o 3ue d8 ao livro um ar de pesadelo e
#unciona como !ist4ria admonit4ria 3uanto aos e%cesso da ideia de e#iciência, sem dar, no
entanto, a esse #uturo imaginado, 3ual3uer contorno n,tido.
Dli-a)et! Ialsen @1:;NA c!ama a aten*+o .ustamente para essa #alta de contornos
n,tidos, a#irmando 3ue isso seria menos uma op*+o estBtica de Zamyatin e mais uma
imposi*+o de escrever 5oli$uamente6, para 3ue seu livro tivesse c!ances m,nimas de ser
pu)licado na 'Qssia. $ssim, n+o seria poss,vel compar80lo com 5$dmir8vel mundo
novo6, como o #a- Orwell @1:<MA. Dssa tese da necessidade de uma escrita o)l,3ua
re#or*aria a ideia de 3ue Zamyatin .amais pretendeu algo muito alBm de criticar o 3ue
vigia na 'Qssia de Rênin. "e.a cr,tica o)l,3ua C 'Qssia, se.a cr,tica direta C ma3uini-a*+o,
3ual3uer lado redunda em 3ue Zamyatin escreveu menos literatura #utur,stica e mais
novela aleg4rica, o 3ue pode ampliar sua capacidade como #erramenta de diagn4stico e
e%posi*+o do presente, mas certamente a diminui como sonda de antecipa*+o.
c2. A!ahre5he30 #%1B
Solocado #re3Uentemente na lista das grandes distopias, 5>a!ren!eit <?16 so#re
dos pro)lemas recorrentes em todas as o)ras de (rad)ury1 seu romantismo piegas, seu
delineamento claro de personagens entre )ons e maus, sem mati-es intermedi8rios,
19M
personagens 3ue est+o mais para em)lemas 3ue para representa*/es de su.eitos vivos, sua
narra*+o pontuada por longos discursos morais. O resultado disso tudo s4 pode ser avesso
ao 3ue se espera de uma distopia t,pica, como 5Nevolução no futuro6 ou 5EFHV61 #alta de
esperan*a, dentro de uma e%posi*+o rigorosa de uma sociedade #utura )aseada no mesmo
!omem invi8vel de sempre. Earte da grande-a dessas duas Qltimas distopias vem da
o)serva*+o aguda de 3ue o !omem, assim como n+o salvou o mundo no passado, n+o
dever8 salv80lo no #uturo. $ evolu*+o tBcnica apenas torna essa realidade essencial mais
aparente. (rad)ury, com seu otimismo em rela*+o C via)ilidade do !omem, d80se mal,
portanto, no gênero, ou mel!or, no su)gênero da >S, especiali-ado .ustamente na
disseca*+o minuciosa do ser !umano e de sua capacidade de criar mecanismos de
domina*+o.
=um #uturo indeterminado @5Oomeçamos e vencemos duas guerras atDmicas!
desde EFFI6, di- o protagonistaA, os )om)eiros .8 n+o desempen!am a #un*+o de e%tinguir
incêndios, mas de provoc80los. "+o a pol,cia pol,tica do momento1 rece)em denQncias de
3ue num determinado lugar e%istem livros, v+o l8 e os 3ueimam, .unto com a casa do
in#rator, e mesmo com o in#rator, caso este se recuse a dei%ar o local. Os incêndios s+o
sempre noturnos, para aumentar o e#eito teatral da coisa toda. Guy Iontag B um )om)eiro
in#eli- com o meio em 3ue vive. "ente, de #orma di#usa, a aliena*+o das pessoas, tem
dQvidas 3uanto C ra-+o de ser de sua pro#iss+o, est8 s4 e tem um leve sentimento de
persegui*+o. Dncontra uma mo*a desa.ustada, Slarisse IcSlellan, cu.a caracter,stica B o
romantismo, a despreocupa*+o, o dese.o de viver, e come*a a dar corpo e clare-a Cs suas
dQvidas. $lBm de tudo, apai%ona0se por ela. Dm casa, vê a mul!er 3ue ama se perdendo
no pra-er estBril o#erecido pelo sistema de divers/es pQ)licas1 você instala televis/es do
taman!o de paredes, compra um aparel!o 3ue adapta os di8logos de #orma a 3ue seu nome
se.a inclu,do no #inal de cada #rase, reveste uma sala com telas e, assim, #ica no meio de
uma 5#am,lia6, vivendo seus vagos enredos. l noite, drogas para dormirO de dia, #am,lia.
Wsso B tudo o 3ue resta de sua uma ve- amada Iildred.
19N
Dssa vida, mais o impressionante incêndio de uma casa, no 3ual a dona dos livros
pre#eriu 3ueimar .unto com eles, levam Iontag a come*ar a rou)ar livros para ler. Ias
ele n+o sa)e o 3ue #a-er com eles, n+o sa)e por onde come*ar. Erocura a #am,lia de
Slarisse, mas eles desapareceram. Iildred di- 3ue eles devem ter morrido. Erocura ent+o
um vel!o pro#essor, >a)er, 3ue B movido de sua oposi*+o let8rgica @est8 #ora de a*+o
desde 3ue, !8 <G anos, o Qltimo curso de !umanidades #ora #ec!adoA e passa a orientar
Iontag. O c!e#e dos )om)eiros, um incompreens,vel intelectual, muito culto, entre os
censores estQpidos, perce)e 3ue Iontag anda lendo. >a- um discurso imenso so)re o
pouco valor dos livros, so)re como a !umanidade os a)andonou e so)re como eles, os
)om)eiros, apenas #a-em aparar as arestas de um tra)al!o 3ue a !umanidade .8 #i-era
so-in!a etc. &8 a Iontag um pra-o para a devolu*+o dos livros 3ue sa)e est+o com ele.
Dste se desespera. =um arrou)o de desespero, assusta a mul!er e suas amigas, desligando
a #am,lia e lendo, tentando conversar @um !8)ito perdido entre os seres !umanos de
ent+oA. Vuando vai para o tra)al!o, os )om)eiros rece)em um c!amado. "aem e c!egam C
casa de Iontag. Dste se assusta, mata o c!e#e dos )om)eiros, destr4i um c+o mecJnico
3ue estava programado para mat80lo e #oge pela cidade, pretendendo #a-er terrorismo
@colocar livros nas casas de )om)eiros e, depois, denunci80losA. Sontinua a #ugir, sai da
cidade, troca de roupas para despistar o c+o, desce um longo rio, segue por estradas de
#erro a)andonadas e encontra um grupo de intelectuais #ugitivos cu.o prop4sito B esperar o
momento certo para salvar a civili-a*+o e cu.o implaus,vel mBtodo B decorar livros.
Vuando a guerra estoura @os D7$ Fuma democracia, .8 3ue uma das amigas de Iildred
a#irmou 3ue votara na Qltima elei*+o, )aseada na aparência do candidatoF est+o numa
guerra inde#inida, com vi-in!os 3ue, Iontag sup/e, se.am mais po)resA, Iontag vê sua
cidade destru,da ao longe e segue com seus novos amigos, 3ue acreditam 3ue o !omem,
algum dia, vai precisar deles. >im.
O #ilme torna mais patente o rid,culo desse #inal. Slarisse @3ue, no #ilme, n+o
morreu e B interpretada pela mesma atri- 3ue #a- IildredA apresenta a Iontag dois
19;
!omens 3ue decoraram 5Orgul!o e Ereconceito61 5U# vão Orgulho e 9reconceito6.
Kru##aut deu aos !omens0livro o car8ter rid,culo de -um)is inertes, coisa 3ue escapou a
(rad)ury, 3ue os apresenta com total simpatia. Dn#im, Kru##aut B mais dist4pico1 a
alternativa para a sociedade viciada est8 num )ando de idiotas. Eara (rad)ury, a
alternativa est8 no tra)al!o dedicado de uma sBrie de !omens incomuns, pro#undamente
sa)edores da situa*+o mundial e de sua importJncia para moldar um #uturo mel!or,
3uando n+o !aver8 mais guerras etc.
bbb
5>a!ren!eit <?16 aparece a3ui principalmente por ser um livro u),3uo em toda
lista de distopias 3ue se consulte. $lBm disso, B, ao lado de 51:;<6, a Qnica distopia
#ilmada. Ias ca)e perguntar, primeiro, se se trata de uma distopia, segundo a de#ini*+o
dada mais acima para esse su)gênero da >S. $ sociedade retratada mal e mal tem !ist4ria.
Hist4ria depende de mem4ria, 3ue depende 3ue 3uem a guarde e redigira sempre,
produ-indo o relato !ist4rico de cada Bpoca. Ias #icamos sa)endo, com >a)er, 3ue o
Qltimo curso de !umanidades #oi #ec!ado “h# VI anos”. $parentemente, trata0se de uma
sociedade 3ue a)solutamente n+o se ocupa de trivialidades como !ist4ria e se concentra
nas 8reas do con!ecimento mais estreitamente ligadas C produ*+o, 3ue Vonnegut de#ine
vagamente como “engenharia”. Dssa sociedade sem !ist4ria B aparentemente muito
est8vel, esta)ilidade essa )aseada no uso de um meio de comunica*+o de massa, a KV, ao
lado do mais primitivo meio de vigilJncia1 a dela*+o @os )om)eiros #uncionam
e%clusivamente na )ase da dela*+oA. &essa #orma, em termos de controle, (rad)ury
representaria Fse o tom8ssemos a sBrioF um recuo #rente ao panopticon orweliano ou a
divis+o em castas por indu*+o genBtica, de Hu%ley. $pesar de anti3uado, esse sistema de
vigilJncia B, tudo nos leva a crer, muito e#iciente. $ssim, temos uma sociedade est8vel,
3ue vive em um presente di#uso, sem !ist4ria, com dom,nio 3uase completo so)re seus
mem)ros. 7ma distopia.
19:
Eor outro lado, o Qnico crime nessa distopia B ter livros @Qnico motor para
dela*+o, Qnica #un*+o dos )om)eirosA. Slarisse ou >a)er s+o evidentemente su)versivos.
Ias est+o a solta, )em nutridos e saud8veis, so)revivendo dentro das regras do Dstado.
Slaro 3ue, mesmo sem terem livros, têm poder de #alar e, assim, de tra-er outros para sua
vis+o de mundo. P e%atamente o 3ue Slarisse come*a e >a)er termina de #a-er com
Iontag. $lBm disso, vemos 3ue, para escapar dos ditames desse Dstado, )asta #ugir para o
mato, nada mais. Dsses elementos #a-em suspeitar de 3ue ou esse Dstado B dirigido por um
)ando de lun8ticos, inconscientes da #ragilidade de seus meios de vigilJncia, ou 3ue o
escritor 3ue o descreve n+o tem l8 grandes preocupa*/es com ser um m,nimo ra-o8vel.
Eara #inali-ar, 3uando est8 a salvo no mato, Iontag vê a guerra estourar e sua cidade ser
)om)ardeada. Ou se.a, trata0se, no #im de contas, de um Dstado #raco, perigosamente
administrado Fpor3ue muito rela%ado com seus su)versivosF e 3ue B #inalmente
destru,do. Kudo contra o 3ue se pode considerar uma distopia.
D por 3ue ent+o o sucessoH Eor 3ue mesmo um autor cuidadoso como $mis lista
5>a!ren!eit <?16 como antiutopia, considerando0o um “inferno conformista”H $ resposta
a3ui n+o B muito di#erente da3uela 3ue poder,amos dar para o sucesso de 5=4s61
sentimentalismo, 3ueda para a grandilo3Uência, uma torrente de clic!ês, um sa)er .ogar
@ainda 3ue sem muita consistênciaA com medos di#usos nos leitores @perda da
individualidade, su)stitui*+o pela m83uina, perda da privacidadeA e um enrai-amento
pro#undo com um dado momento !ist4rico.
$inda 3ue o taylorismo ten!a come*ado a mostrar de#iciências .8 no #im dos anos
1:2G @(uc!anan, 1::2, p. 11;A, ele era a moda 3uando Zamyatin escreveu 5=4s6. Kaylor
era amigo pessoal de Henry >ord, seu sistema era aplicado aliado ao sistema de lin!as de
montagem nos D7$ e mesmo um revolucion8rio de es3uerda pretendia transportar esse
sistema para a 'Qssia. Zamyatin usou todos os elementos sentimentais de 3ue dispun!a
para criar uma narrativa envolvente e a ancorou nessa moda corrente 3ue divulgava a
1<G
inescapa)ilidade e a e%pans+o sem limites do sistema de gerenciamento cient,#ico de
Kaylor.
(rad)ury escreveu 5>a!ren!eit <?16 no in,cio da dBcada de 1:?G, 3uando v8rias
das caracter,sticas do livro tin!am re#erência !ist4rica direta. =a mesma Bpoca, Vonnegut
escreveu 5'evolu*+o no #uturo6, 3uando, segundo suas pr4prias palavras “os engenheiros
eram adorados”. Kam)Bm em Vonnegut est8 o #ec!amento de cursos de !umanidades em
prol de um es#or*o mais concentrado em tudo o 3ue se relacione C engen!aria. $ssim,
(rad)ury coloca o Qltimo curso de !umanidades, segundo as palavras de >a)er, em
meados dos anos 1:?G1 um medo )em palp8vel para os intelectuais @n+o 3ue (rad)ury a,
este.a inclu,doA norte0americanos.
Outras re#erências !ist4ricas claras s+o o macartismo, sistema 3ue #uncionava
)asicamente pelo mecanismo de dela*+o, a censura a livros F3ue n+o c!egou a #a-er
#ogueiras pQ)licas, mas impedia ou di#icultava muito a pu)lica*+o de tudo o 3ue
contrariasse o 5esp,rito americano6F a ascens+o da KV como meio pre#erencial de
comunica*+o de massa, com re#le%os so)re o n,vel de leitura da classe mBdia, a Guerra
>ria, 3ue mantin!a um clima constante de guerra iminente nos D7$ @no livro, os D7$
est+o sempre em guerraA e a crescente violência entre os adolescentes @Slarisse comenta
com Iontag 3ue 5>tem? medo dos "ovens de minha idade' (les se matam entre si''' Qeis
de meus amigos foram alve"ados s: no 5ltimo ano e de. morreram em acidentes de
carro”, parte 1, o 3ue deve ter #eito todo mundo se lem)rar de ames &ean, 3ue morreria
mesmo pouco depoisA.
untemos a esses #atores 3ue ancoram o livro em sua Bpoca uma grandilo3Uência
pseudo0intelectual representada primeiro pelo inveross,mil )om)eiro erudito, o capit+o
(eatty, e, para #inali-ar, o clic!ê mais 3ue )atido de 3ue cultura tem algo de muito ,ntimo
com livros. $o #etic!ismo da nova m,dia Fa KV 3ue cativa Iildred, a mul!er de Iontag
F, (rad)ury n+o consegue nada mais 3ue contrapor o #etic!e do livro.
1<1
Iesmo dei%ando de lado as inconsistências 4)vias Fa mais gritante, o sistema de
vigilJncia desse Dstado #uturoF, 3uais as ra,-es e 3ual a alternativa da distopia
apresentada por (rad)uryH $ rai-, o capit+o (eatty a e%plica a Iontag1 os )om)eiros
apenas polem as arestas de um tra)al!o iniciado pela pr4pria sociedade1 “Mas o p5lico!
saendo o $ue $ueria! deixou apenas $ue as hist:rias em $uadrinhos continuassem''' 0ão
houve! de in;cio! nenhum dicto! nenhuma declaração! nenhuma censura” @parte 1A. Ou
se.a, apesar de en%ergar o macartismo, o avan*o dos mass media, a Guerra >ria e o
desgaste ideol4gico promovido por um governo conservador, os gastos crescentes com
militares #omentados, claro, por empresas privadas interessadas em vender para o
governo, (rad)ury culpa os norte0americanos mBdios pelo esta)elecimento da distopia
3ue ca)e a Iontag e seus compan!eiros manter. Eor 3uêH $ resposta ra-o8vel, e
consistente com tantas outras o)ras do autor, parece ser o mais puro conservadorismo,
aliado a uma incapacidade essencial de apreens+o do momento pol,tico. $ssim como a
salva*+o, para o conservador, est8 sempre no 5esp,rito americano6 Flem)remo0nos do
campe+o dessa ideologia na >S, 'o)ert HeinleinF o desastre est8 sempre, igualmente,
com os americanos, 3ue coc!ilaram e dei%aram C solta supostas #or*as do mal.
Vuanto ao 3ue (rad)ury en%erga como sa,da para seu Dstado, #icamos na mesma1
B preciso 3ue !a.a !er4is desprendidos, 3ue manten!am viva a c!ama da cultura e 3ue
este.am de prontid+o para 3uando o povo precisar deles. Os !er4is de (rad)ury n+o
militam, nem se3uer se organi-am1 s+o uma resistência a)solutamente individual Fcomo
ca)e ao saud8vel 5esp,rito americano6. Eara completar o paro%ismo #etic!ista com rela*+o
a livros, os !er4is, esses deposit8rios da cultura 3ue vivem no mato, n+o pensam.
Rimitam0se a decorar livros. Erimeiro, isso parece inconsistente1 se os )om)eiros #icam
apenas na cidade F3uando Iontag escapa de l8, mesmo tendo cometido pelo menos um
assassinato, ninguBm mais o persegueF por 3ue n+o manter livros nos re#Qgios
intelectuais e se poupar do tra)al!o de decor80losH "egundo, pode alguBm 3ue passa a
vida a decorar um livro ter algo a di-er alBm do conteQdo desse livroH =+o, e (rad)ury
1<2
assinala 3ue a #un*+o desses 5intelectuais6 B recitar os livros de volta 3uando o tempo #or
c!egado. Vuem vai reconstruir o mundo, se isso um dia #or poss,vel e dese.8vel, ser+o,
surpreendentemente, os livros e n+o os !omens. Kalve- se.a por isso 3ue Kru##aut @citado
em, Zipes, 1:;9, p. 1:9A a#irmava 3ue seu #ilme era so)re livros, 3ue deveriam estar
sempre em ponto destacado da cena, com 3ual3uer ator !umano su)ordinado a eles.
Kodos esses #atores #a-em de 5>a!ren!eit <?16 um verdadeiro roman & la clef.
Iontag B o agente da lei, 3ue tra)al!a para um Dstado conservador e anti0intelectual @o
livro #oi escrito durante o governo Disen!owerA 3ue vai pouco a pouco esclarecendo o 3ue
est8 por tr8s do sistema 3ue a.uda a manter. O esclarecimento B proporcionado por alguBm
convenientemente c!amado Slarisse e o !omem 3ue pole esse esclarecimento, o !omem
3ue realmente pode #a-er acontecer um Dstado .usto novamente c!ama0se, tam)Bm
convenientemente, >a)er. D parece 3ue essa B mesmo a inten*+o de (rad)ury 3uando F
conscientemente, supomosF monta uma alegoria de um Dstado 3ue permite tudo menos a
posse de livros, 3ue cria um corpo especial de agentes da lei apenas para destru,0los etc.
Krata0se, no #im de contas, de uma e3uivocada alegoria conservadora, )em0sucedida
devido a seu “sentimentalismo de dois cents” @e%press+o de $misA e por #a-er um apelo
#8cil ao leitor mBdio, 3ue n+o precisa se e%tenuar para encontrar as preciosas c!aves da
novela.
6. as a503/0-;3as 5:--s-c3a3s
7ma sBrie de autores Fcome*ando a pu)licar seriamente a partir do #im do anos
1:?GF mostra o #uturo sem nada o 3ue se possa identi#icar como sociedade. Dsta, se.a
3ual #or a acep*+o particular 3ue emprestemos C palavra, deve, no m,nimo, ser composta
de seres !umanos 3ue travem entre si rela*/es 3uais3uer @rela*/es de troca econTmica,
rela*/es a#etivas etc.A. $ simples reuni+o de seres !umanos sem 3ual3uer contato n+o
constitui nada 3ue se possa c!amar 5sociedade6. D, no entanto, B poss,vel pensar em
distopias )aseadas .ustamente nesse tipo de convivência. "+o vis/es negras do #uturo1 o
1<9
!omem, criador de m83uinas 3ue l!e aliviam o tra)al!o, aca)a por criar m83uinas 3ue l!e
aliviam o tra)al!o de viver. $ 3uest+o do 5cultural lag6 B resolvida por de#ini*+o. Eara
todos os dist4picos anteriores, valia a ideia de 3ue progresso pol,tico e progresso tBcnico
estavam separados por um a)ismo crescente. Gunn e &rode #ec!am esse a)ismo por
decreto. $ tBcnica B capa- de criar para todos Fcriando para cada um em separadoF um
universo pr4prio. Rogo, os pro)lemas tBcnicos se con#undiriam com esse universo e
desapareceriam. O !omem #ec!a o a)ismo entre organi-a*+o pol,tica e desenvolvimento
tBcnico por3ue seu universo Fpraticamente sem ele o sentirF resolveu todos os
pro)lemas tBcnicos. Gunn desenvolve uma vis+o n+o totalmente antip8tica a esse #uturo.
&rode encontra a, novos pro)lemas.
$ origem dessa vertente de #ic*+o pode ser locali-ada em 5$ m83uina p8ra6, de
D. I. >orster, conto de 1:G:, de 3ue .8 #alamos antes. >orster via o #uturo do !omem
como a rendi*+o total a m83uinas, o con.unto delas denominado 3uase religiosamente “A
M#$uina”. Ias essa I83uina .8 n+o B compreendida, por esses !omens do #uturo, como
um arte#ato !umano, da mesma #orma 3ue n4s, de !o.e F>orster parece 3uerer implicarF
ser,amos incapa-es de ver &eus como constru*+o !umana. Sada !a)itante dessa colmeia
3ue B a Kerra do #uturo tem em sua casa, em lugar de uma (,)lia, um 5Rivro da I83uina6,
o 3ual #al!a, evidentemente, 3uando a tal m83uina come*a a mostrar desgaste. "er8 3ue
&eus teria se es3uecido do !omemH Dsse B o tom da pergunta 3ue, atTnitos, os !a)itantes
das colmeias #a-em 3uando veem a m83uina come*ar a parar. D ela p8ra. D a !umanidade,
viciada e perdida no la-er degradante, perece. Ienos, B claro, o pun!ado de su)versivos
3ue .8 tiveram contato com a nature-a, com o "ol @pois as colmeias #uturas s+o todas
su)terrJneasA.
Ias >orster ainda mantin!a os seres !umanos em contato. "ua vis+o do !omem
era, como Orwell poderia ter dito, racional demais. Sr,tico de Wells F”>o conto? é um
protesto contra um dos primeiros para;sos de 6' G' 3ells” @citado em Gunn, ed., 1:;;, p.
1N;AF >orster era pro#undamente wellsiano 3uando se tratava de con#iar no )om senso
1<<
do !omem. &ei%ados a si pr4prios para decidirem o 3ue 3uisessem #a-er da vida, livres de
todo tra)al!o )ra*al, os !omens se entregariam a uma rotina de pra-er intelectual sem
limites. O mundo desen!ado por >orster B composto de um )ando de intelectuais estBreis
3ue passam a vida de semin8rio em semin8rio, trocando entre si teorias completamente
a#astadas do padr+o supostamente representado pela nature-a. Vivem em casulos
individuais, mas comunicam0se ativamente para trocar suas impress/es so)re o universo.
(em entendido, o universo 3ue “A M#$uina” permite discernir.
=a utopias n+o0sociais, estamos .8 nos anos p4s0Orwell e p4s0Vonnegut, nos anos
em 3ue o !omem B visto como alguma coisa 3ue, livre do tra)al!o )ra*al, n+o ter8 nada
mel!or 3ue #a-er. Ou se entregar8 ao tBdio e C #Qria err8tica e espor8dica contra um mal
compreendido sistema @VonnegutA ou C lideran*a cega de um l,der distante e tirJnico
@OrwellA. Gunn e &rode trancam seus !omens do #uturo em casulos, como o #e- >orster,
mas, alBm disso, isolam0nos totalmente. Dsses !omens vivem imersos em seus son!os, em
seus universos totalmente individuais. Gunn descreve a gênese e o resultado do sistema.
&rode toma a tare#a mais di#,cil, a de responder o 3ue est8 nos son!os desses !omens
inertes. "ua conclus+o B desoladora.
61. AOs ve56e6-res 6a .el3c36a6eB
$ novela est8 composta de três contos pu)licados separadamente e depois
reunidos num livro. =o primeiro, a empresa Hedonics Wnc. come*a a se instalar numa
cidade industrial dos D7$. O contrato de 5amostra6 3ue a empresa #irma com seus
clientes resolve pe3uenos pro)lemas destes. &epois, caso o cliente este.a satis#eito e
3ueira #a-er o contrato completo, a condi*+o B entregar tudo C Hedonics Wnc. 7m
industrial aca)a perdendo a mul!er para a compan!ia @ela resolve #a-er o contrato
completo e se divorciar dele para ser #eli-A e tenta provar 3ue tudo B um em)uste armado
para rou)ar pessoas 3ue procuram solu*+o #8cil para seus pro)lemas. Ias n+o consegue
pois, por mais 3ue tente, o neg4cio todo parece regular. &eclarando0se insatis#eito com o
1<?
3ue rece)eu da compan!ia @3ue l!e !avia curado uma QlceraA, rece)e seu din!eiro de
volta. &epois, vendo 3ue todo mundo se associa, resolve voltar atr8s, mas desco)re 3ue,
uma ve- tendo rompido um contrato, a compan!ia n+o pode aceit80lo de novo. D ele est8
condenado a ser in#eli-.
$ segunda parte come*a cerca de 2G9?. $ cidade B dividida por -onas cuidadas
por !edonistas pro#issionais @e parece 3ue B assim no mundo todo, em)ora n+o se #a*a
men*+o a issoA. 7m deles B Iorgan, 3ue perce)e 3ue o !edonismo est8 pouco a pouco
sendo pervertido. Iorgan B #avor8vel a uma tendência do 5se.a #eli- construindo sua
#elicidade6. Ias o consel!o !edTnico @3ue, a essa altura, .8 B governo mundialA pensa
di#erentemente1 #elicidade B um estado de pra-er constante, o)tido a 3ual3uer pre*o.
Iorgan vê um #uturo negro para uma sociedade 3ue progrida nisso. O consel!o o c!ama
para depor e Iorgan segue inocentemente 3uando B avisado por uma e%0aluna @3ue ele
inicia se%ualmente como parte de seu tra)al!oA de 3ue ser8 morto. =+o acredita e vai em
#rente. P salvo por ela na Qltima !ora. &epois de muito #ugir, aca)a sendo raptado pela
resistência, 3ue o leva para Vênus, onde dever8 e%ercer as #un*/es de mBdico e #a-er o
!edonismo voltar para os ei%os.
$ terceira parte se passa em Vênus, por volta de 219?. Dstran!as rBplicas
mecJnicas de seres !umanos se in#iltram na sociedade @especialmente na cidade IorganA,
mas ninguBm consegue apan!80las, pois se desintegram C menor amea*a de serem
desco)ertas. Os !a)itantes da colTnia terrena pensam 3ue se trata de uma invas+o
alien,gena e resolvem mandar um emiss8rio para a Kerra, com 3uem n+o têm contato !8
cerca de meio sBculo.
O emiss8rio aterrissa, n+o encontra ninguBm, mas nota 3ue tudo est8 em ordem,
)em cuidado e limpo. $tB 3ue aparece um !omem 3ue se prop/e lev80lo ao consel!o. =o
camin!o, o !omem B 5morto6 por uma pedrada e, ent+o o emiss8rio desco)re 3ue seu guia
era apenas um ro)T. Dle con!ece ent+o "u-ana, aparentemente o Qnico ser !umano livre
no planeta. Eosteriormente, desco)re 3ue cerca de ? )il!/es de seres !umanos est+o
1<M
encerrados em Qteros arti#iciais, go-ando uma vida de son!os agrad8veis, tudo
administrado pelo computador central 3ue é o consel!o. Eara escapar da diretri- primeira
do computador 5todos devem ser #eli-es6, declara0se #eli-, recusando0se a entrar num dos
Qteros. =isso, pergunta ao computador se 5ele6 B #eli-. Wsso d8 um tilt momentJneo na
m83uina, o su#iciente para 3ue ele e "u-ana possam #ugir da Kerra. $lBm disso, #ica
esclarecida a nature-a das rBplicas em Vênus1 era um estratagema do consel!o, 3ue
tentava e%ecutar sua diretri-.
=o #inal, a grande dQvida1 o computador !avia dado ao emiss8rio o direito ao
livre0ar),trio, para #a-ê0lo #eli-O logo, podia )em ser 3ue a #uga #osse um son!o, pois,
desde 3ue #e- essa op*+o, tudo deu certo1 a paralisa*+o do computador, o iniciar do
processo 3ue levaria os Qteros C decomposi*+o e a #uga. =+o !8 como decidir. $ Qltima
#rase de &\glas @o emiss8rio de VênusA B1 5Cudo o $ue um homem tem é a si mesmo e a fé
em si mesmo e as ilus)es $ue escolheu para acreditar6. Vuando o livro se encamin!ava
para o #inal #eli- de uma space0opera, eis 3ue Gunn d8 uma guinada de gênio.
bbb
"e Orwell criticava Hu%ley pela presen*a de tra)al!adores )ra*ais num universo
per#eitamente mecani-ado, eis em Gunn um universo em 3ue se escapa de Hu%ley e, ao
mesmo tempo, encontra0se uma outra sa,da, impens8vel para Orwell. "e tudo pode ser
resolvido por m83uinas, por 3ue manter0se vivoH Gunn Fde resto um autor muito #racoF
ac!ou para Orwell uma resposta surpreendente. "e o autor de 51:;<6 considerava Wells
racional demais, con#iante demais no poder do !omem de, uma ve- educado, ver tudo com
clare-a e distin*+o, por 3ue respondeu a isso mantendo uma sociedade @ou um s,mile de
sociedadeA em sua distopiaH Eor 3uê, se o neg4cio B um regime 3ue pretende se alimentar
dos mais )ai%os instintos !umanos, n+o usar o mais )ai%o deles1 a vontade de sentir
pra-erH Kalve-, pressionado por totalitarismos C es3uerda e C direita, Orwell estivesse
o)cecado pela sede de poder e%i)ida por esses governos e a Qnica maneira 3ue pensou de
alimentar essa sede seria criando um regime tirJnico 3ue 3uisesse o poder pelo poder, sem
1<N
3ual3uer outro o).etivo. “Qe $uiser ter uma imagem do futuro”, di- O\(rien durante a
instru*+o @torturaA de Winston "mit!, “pense em uma ota pisando eternamente em um
rosto humano”. Gunn vive em outra Bpoca, em plena e#ervescência do movimento 3ue
viria a ser c!amado de contracultura. Dle acredita em 3ue, resolvido o pro)lema )8sico de
todo mundo, viver num mundo em 3ue tudo acontece como se 3uer, ninguBm vai ser
doido de 3uerer poder. $#inal, nessa nova sociedade de Gunn, poder B a coisa mais )arata
3ue e%iste. "e você 3uer ser o Grande Wrm+o, tudo )em, B s4 ser. "imples assim.
Outro autor o)cecado com a potencialidade de drogas usadas em escala planet8ria
B E!ilip &icX, ele mesmo "unkie na vida real. Dm 5Os três estigmas de Ealmer Dldritc!6,
de 1:M<, sup/e um "istema "olar inteiramente coloni-ado por terr83ueos 3ue, distantes de
casa Fem)ora poucos sai)am 3ue a Kerra est8 completamente devastadaF, en#rentando
o tra)al!o 8rduo de #undar colTnias em am)ientes !ostis, passam o tempo todo drogados.
7sam San0& e en#rentam a concorrência de uma nova droga, a S!ew0Z, 3ue cria
universos individuais completos. &icX usa tudo isso como pano de #undo para uma a*+o
trivial1 trata0se de uma novela de persegui*+o policial em escala gal8tica. "ete anos
depois, "tanislaw Rem pu)licaria seu 5Songresso de #uturologia6, no 3ual um tema
semel!ante seria e%plorado pelo lado epistemol4gico. Dm um mundo onde e%iste algo
semel!ante a S!ew0Z, n+o e%iste mais sociedade e, mais pro#undamente, n+o e%istem
mais indiv,duos, pois .8 n+o se pode di-er o 3ue signi#ica, e%atamente, 5con!ecer6.
Gunn n+o desenvolve nen!uma dessas duas vertentes. =+o se preocupa com a
individualidade e o con!ecimento, nem com a possi)ilidade de a*+o trash, como o #e-
&icX. "ua novela monta uma sociedade e tira dessa montagem sua conclus+o l4gica. D
essa montagem, descrita na parte um, mostra o 3u+o pouco Gunn con#ia no !omem.
Era-er, ou, pelo menos, uma vida sem pro)lemas, B um valor a)soluto para 3uase todas as
pessoas. $ Hedonics Wnc. sa)e disso e, de sa,da, como amostra, resolve pe3uenos
pro)lemas de seus clientes. GostaramH (em, a resolu*+o de todos os pro)lemas signi#ica
3ue eles n+o precisam de mais nada e, assim , o segundo contrato de servi*o implica a
1<;
cess+o de tudo o 3ue possuem para a compan!ia. =inguBm B o)rigado a isso, Gunn #risa.
Ias o #ato B 3ue a compan!ia B realmente !onesta e cumpre o 3ue promete. $ssim, mais e
mais pessoas, depois da amostra, assinam o segundo contrato. Vuem n+o o #a-, vai
#icando isolado, pois deve viver para resolver pro)lemas Fcomo n4s o #a-emos
diariamenteF em meio a um )ando de doidivanas, 3ue passam a vida se divertindo.
P claro 3ue esse processo de instala*+o n+o B su#icientemente apro#undado por
Gunn. $#inal, como seriam os passos intermedi8rios da instala*+o da Hedonics Wnc.H
Haveria um momento em 3ue os n+o0clientes da compan!ia n+o teriam mais o 3ue #a-er
na vida e deveriam se tornar clientes compulsoriamente. $inda mais, tendo livre0ar),trio e
#icando a solta, poderiam ser o instrumento de in#elicidade de muitos dos clientes. $
resolu*+o disso passaria ou pela remo*+o do pro)lema ou pela o)rigatoriedade de se
tornar cliente do servi*o.
O passo intermedi8rio nos B apresentado na segunda parte. $ #elicidade em
sociedade n+o pode ser resolvida por decreto. =+o pode !aver, no #im de contas, uma
compan!ia 3ue #a*a e%atamente o 3ue a Hedonics Wnc. se compromete a #a-er a menos 3ue
o cliente se.a um pouco di#erente dos seres !umanos tais como !o.e os con!ecemos. Eara
isso e%istem os !edonistas, como Iorgan. Dles s+o consel!eiros e educadores destacados
pela compan!ia para seguirem determinados grupos de pessoas circunscritas a uma dada
regi+o. Ou se.a1 a compan!ia resolve tudo para o cliente, desde 3ue ele se.a um cliente
convenientemente educado.
Ias os clientes n+o s+o, ou n+o 3uerem ser, educados. Vale mais o princ,pio da
lassid+o do ser !umano, a mesma 3ue os levar8, no ano ;G2.NG1 Fo ano ao 3ual c!ega o
via.ante do tempo de WellsF a uma especia*+o completa1 os rela%ados Dlois e o
diligentes IorlocXs. "4 3ue Gunn povoou sua Kerra apenas com Dlois. O consel!o
mundial resolve 3ue Iorgan e outros !edonistas conservadores como ele devem ser
eliminados. O 3ue vale B o pra-er total sem 3ue nada deva ser pago em termos do es#or*o
do cliente. D a resposta do consel!o a essa e%igência B constituir uma m83uina central 3ue
1<:
vai gerenciar todo o planeta e encerrar todos os 3ue 3ueiram em Qteros arti#iciais, nos
3uais poder+o son!ar C vontade. D notemos 3ue, na Bpoca dessa resolu*+o, os mem)ros do
consel!o s+o ainda seres !umanos. "4 na terceira parte da novela B 3ue o consel!o B
composto apenas por m83uinas.
Dis 3ue est8 de volta em Gunn a som)ra do Grande Wn3uisidor dos 5Wrm+os
Karama-ov6 de &ostoievsXi. “0unca houve nada mais intoler#vel $ue a lierdade''' >os
homens? procuram a $uem entregar a pr:pria consci%ncia''' >e? hão de nos entregar os
mais terr;veis segredos de suas consci%ncias! tudo o $ue os atormenta! e n:s os
livraremos de todas as ang5stias e eles terão confiança em nossas decis)es! por$ue assim
os liertaremos dos pesados cuidados e dos sofrimentos $ue comporta $ual$uer decisão
livre ou pessoal' ( todos serão feli.es”. Kodos menos uma pe3uena parcela de dirigentes,
verdadeiros escravos da maioria, como tam)Bm imagina Syril Korn)lut!, no conto 5Os
idiotas em marc!a6. $ reali-a*+o disso tudo, para Hu%ley e Orwell era pelo aparecimento
de l,deres 3ue a#irmassem resolver todos os pro)lemas das pessoas em troca da mera
li)erdade. $#inal, esta era a ant,tese da #elicidade Fo 3ue aprendemos com Zamyatin,
3uem .8 !avia aprendido o mesmo com o pr4prio &ostoievsXi. Eara Gunn, a reali-a*+o das
palavras do Grande Wn3uisidor s+o os Qteros arti#iciais.
D o Grande Wn3uisidor ainda n+o era a Qltima palavra em termos de escravid+o
volunt8ria. Gunn nos mostraria a escravid+o compuls4ria. Eara 3ue todos pudessem go-ar
dos pra-eres dos Qteros arti#iciais, apenas m83uinas poderiam #icar de #ora, gerenciando
todo o sistema. I83uinas devem ser programadas com uma diretri- 3ual3uer. $s de Gunn
o s+o com 5todos os seres !umanos devem ser totalmente #eli-es6. 7ma ve- 3ue a diretri-
est8 totalmente cumprida na Kerra, B preciso passar ao tra)al!o com os seres !umanos
e%traviados nas colTnias e, assim, o computador central da Kerra, o consel!o, volta sua
aten*+o )enevolente para Vênus. D, claro, como a m83uina est8 programada dessa #orma e
n+o !8 como deslig80la, todos os seres !umanos ter+o de ser #eli-es 3ueiram ou n+o. D n+o
!8 escol!a mesmo1 caso pre#iram a in#elicidade, B a m83uina 3ue deve aprontar um Qtero
1?G
provedor de pesadelos para o #reguês e%cepcional. $ maneira de &\glas ser #eli- B escapar
do consel!o, voltar para Vênus e retomar sua vida. Eer#eitamente, B isso o 3ue o consel!o
ir8 l!e proporcionar. D se mudar de ideiaH "em pro)lemas, uma ve- dento do casulo, o
universo est8 inteiramente C disposi*+o, podendo ser moldado como seu pe3ueno deus
3uiser. O t,tulo original, 5K!e .oy maXers6 @5Os #a-edores de #elicidade6A e%pressa )em a
ideia. "4 se vende alguma coisa 3uando !8 compradores e vendedores. $s m83uinas do
consel!o .8 n+o vendem mais nada.
=+o est8 e%clu,da em 5Os vendedores da #elicidade6 a possi)ilidade de 3ue as
pr4prias m83uinas progridam e v+o encontrando novas solu*/es para seu maior pro)lema1
#a-er com 3ue seus criadores se.am eternamente #eli-es. =ada impede, em)ora Gunn n+o
ten!a desenvolvido o tema, 3ue elas se.am muito criativas em seu mister, pes3uisando
novas emo*/es, dando a seus protegidos novas armas para 3ue mais e mel!or possam
moldar seus universos particulares. Eode ser mesmo 3ue, no #uturo, descu)ram 3ue seus
criadores s+o mais #eli-es n+o sendo e matem0nos todos. Eelo menos, atB l8, nesse #uturo
de Gunn, teremos uma e%istência de pra-er sem limites. &rode nos promete algo di#erente.
62. A s/;er.Gc3e 6- ;la5e0aB
Krata0se de um livro Qnico, 3ue pretende mais 3ue simplesmente mostrar o #uturo.
Eretende mostr80lo a partir de dentro, a partir de e%periências particulares, e%clusivas de
3uem viva nesse #uturo. P claro 3ue um pro.eto assim n+o pode ser inteiramente )em0
sucedido segundo seus pr4prios termos1 alguma concess+o precisa ser #eita para 3ue o
leitor possa acompan!ar o 3ue est8 acontecendo. Dm todo caso, &aniel &rode consegue
#a-er mais 3ue autores como por e%emplo (urgess, 3ue pretende criar uma linguagem
#utur,stica em 5$ laran.a mecJnica6 Fo nadsatF, mas n+o consegue passar da inova*+o
ortogr8#ica1 inventa palavras novas e d8 ao leitor algumas pistas de o 3ue elas
signi#icariam. Eara os menos perspica-es, a maioria das edi*/es B acompan!ada de um
gloss8rio. Earece evidente 3ue um #uturo distante deve ter como marca uma linguagem
1?1
3ue di#ira da do presente por mais 3ue a simples ado*+o de voc8)ulos novos, mas, atB
agora, apenas &rode conseguiu dar alguma ideia de como seria essa nova l,ngua.
$o tentar ser #iel a essa ideia reguladora de 3ue uma novela #utur,stica deve ser
escrita em termos desse mesmo #uturo, &rode construiu a Qnica distopia na 3ual, para
desencadear a a*+o, n+o e%iste um desviante. Orwell precisou de Winston "mit!, como
Wells precisou de &enton. &rode montou toda sua a*+o por dentro, isolando0nos, de certa
#orma, desse mundo do #uturo. =+o e%iste apelo a nossos sentimentos, n+o somos
indu-idos a gostar do 5Qltimo !omem6 representado pelo desviante. Kudo nos B
apresentado com rigor #rio. 7ma aventura no #uturo, vivida por um !omem do #uturo com
sentimentos do #uturo. $ssim, desaparece em 5$ super#,cie do planeta6 a conven*+o 3ue
o)riga, em todas as distopias #utur,sticas, a colocar em cena um pouco prov8vel
personagem 3ue pensa como n4s, !omens nascidos MGG anos antes de (ernard Iar%.
$ !ist4ria, em si, B )astante simples, em)ora v8 sendo apresentada aos poucos, de
maneira #ragmentada, sem descri*/es cronol4gicas con#ort8veis, como as 3ue o#erecem
outros autores de >S. =o #uturo distante @3uanto, n+o o sa)emosA, a !umanidade vive
em)ai%o da terra. O motivo aparente B ter !avido um !olocausto nuclear, se )em 3ue isso
nos B transmitido, depois o sa)eremos, por !omens a 3uem #alta uma no*+o clara de
!ist4ria. =essas !a)ita*/es, cada ser !umano ocupa uma cBlula individual, onde e%iste um
so#8 munido de controles para gerir o am)iente. Dssa gest+o, na verdade, se resume a dois
atos1 levantar o #one, para #alar com um outro ser !umano, e ligar e desligar a m83uina
provedora de vis/es. &e resto, o su.eito se senta e #ica esperando pela entrega autom8tica
de ta)letes alimentares e s4. P essa entrega de ta)letes 3ue l!e d8 a @QnicaA sensa*+o de
passagem do tempo. &rode @e seu personagem principalA se re#ere a ela como “tempo
alimentar”.
O livro se divide em três segmentos. =o primeiro, narrado em terceira pessoa,
v8rios personagens sentem a necessidade de sair das cBlulas em 3ue vivem e e%plorar a
super#,cie do planeta. V+o, mas aca)am, por um motivo ou por outro, voltando. &epois de
1?2
@talve-A milênios, a super#,cie l!es B t+o estran!a 3uanto, para um !a)itante do "aara, ser
.ogado, de repente, na $ma-Tnia. Ou pior.
=o segundo segmento, um dos personagens c!ega C super#,cie, apenas para notar
3ue ela se decomp/e. 'estam cidades destru,das, restam seres !umanos #ugidos @como
eleA do interior da Kerra, restam seres !umanos mutantes, descendentes da3ueles 3ue n+o
migraram para )ai%o 3uando da destrui*+o da super#,cie. Kudo se decomp/e e a morte
aguarda o personagem.
=o terceiro segmento @de apenas um par8gra#oA, volta o narrador, e somos
in#ormados de 3ue B !ora do ta)lete alimentar, !ora do intervalo entre duas vis/es
providas pela m83uina de vis/es instalada na cBlula.
5$ super#,cie do planeta6 descreve como vivem os personagens presos em
cu),culos criados por, por e%emplo, ames Gunn, em 5Os vendedores da #elicidade6.
=aturalmente, 3uem vive assim n+o pode ter uma sensa*+o de tempo semel!ante C
nossa. "eu tempo B, e%clusivamente, o tempo alimentar. Vuando um ciclo desse tempo se
apro%ima do #im, o 3ue o personagem sente n+o B sono ou mesmo #ome @apesar do termo
5alimentar6A. O 3ue ele sente B 3ue o mundo #ornecido na vis+o se decomp/e. $tB a !ora
em 3ue a #alta do ta)lete se #a- sentir, ele est8 per#eitamente integrado na vis+o. Iais 3ue
isso, n+o B capa- de di#erenciar a vis+o de uma e%periência real. =o #im, su)itamente, ele
se prostra C espera da morte, numa indi#eren*a por tudo o 3ue o cerca. O universo se
estreita. Dm v8rios momentos, o personagem se re#ere a uma rede 3ue o separa do caos,
uma rede 3ue separa o lugar verde onde est8 do lugar degradado, ocupado por seres
planos, por onde vagam mutantes. =o princ,pio, 3uando o leitor ainda n+o sa)e de 3ue
tudo se trata apenas de mais uma vis+o, a ideia 3ue se #a- da rede B 3ue ela se.a um
remanescente da antiga civili-a*+o super#icial, arrasada pelo !olocausto nuclear. =o #inal,
vem a resposta1 a rede B o limite da vis+o, dado o tempo alimentar. =a #alta total do
ta)lete, a rede se #ec!a em torno do personagem central. =+o !8 mais vis+o.
1?9
O cap,tulo central B narrado em primeira pessoa. P o dono da vis+o 3ue nos #ala.
D n+o poderia ser de outra #orma, dado 3ue os seres !umanos n+o mais se comunicam,
salvo pelo #one @se B 3ue tanto, .8 3ue &rode n+o nos d8 nen!um caso de comunica*+o
interpessoalA. P o demTnio de &escartes tornado real1 e%iste todo um ma3uin8rio @o
&emTnioA #or.ado e%clusivamente para manter o !omem enganado, encerrado eternamente
em seus pr4prios pensamentos. $ vis+o em 3ue est8 imerso o personagem B tal 3ue ele
aparece como um dos 3ue resolveram dei%ar os su)terrJneos, n+o por vontade pr4pria,
mas por3ue o sistema come*ou a #al!ar. Dle tenta reconstruir a !ist4ria dessas #al!as, mas
isso l!e B muito di#,cil. Hist4ria B tempo independente, tempo da super#,cie, tempo nosso,
perdido de#initivamente para esses seres do #uturo. Dle tenta pensar em 3uando sentiu os
primeiros ind,cios de 3ue o sistema #uncionava mal. Ias n+o pode, pois a 3uest+o B
circular1 para #a-er a !ist4ria dos ind,cios, B preciso sa)er o 3ue s+o 5ind,cios6, o 3ue
e%ige um senso de !ist4ria, de passado e #uturo, de prop4sito. D isso, ele n+o possui.
Somo acontece com Vas!ti, a personagem #eminina de 5$ m83uina p8ra6, o personagem
central de &rode n+o compreende se3uer o 3ue signi#ica uma #al!a no sistema. Eara o
leitor de >orster, pelo menos, e%iste al,vio1 ele sa)e o 3ue acontece e, no #inal, sa)e 3ue
estava certo1 os pervertidos morrem e a Kerra recome*a mel!or. O leitor de &rode est8 t+o
perdido 3uanto seu personagem e, no #inal, sente0se desolado1 toda a tri)ula*+o #ora
completamente inQtil, pois nada de verdade aconteceu e, pior, se acontecesse, daria tudo
na mesma.
$ssim, depois desse vago sentimento de 3ue as coisas v+o mal, o personagem sai
para a super#,cie. Dncontra outros seres !umanos vindos de )ai%o e outros ainda,
mutantes, 3ue vivem e%postos C lu- do "ol. "+o toscos esses Qltimos, s+o di#,ceis de
compreender, parecem0se com animais, n+o têm mais 3ue um )om senso grosseiro. "+o
completamente alienados de o 3ue l!es acontece, n+o s+o in3uisidores, n+o perguntam de
onde vêm os #orasteiros, n+o se importam com seu #uturo. 7m desses seres !umanos, de
seis dedos, 3ue usa uma linguagem vel!a, 3ue nada #a- alBm de so)reviver, a.uda0o e l!e
1?<
d8 alimento. Ias o mundo se degrada. D%istem a3ui e ali desertos v,treos, remanescentes
prov8veis dos locais onde !ouve e%plos/es nucleares. Eor esses desertos, movem0se seres
planos e pretos 3ue se #undem e se dispersam, a 3uem o personagem c!ama de
5in#initamente planos6. $ tridimensionalidade do mundo @na verdade, da vis+oA vai sendo
tomada por esses seres, atB o colapso. Dsse colapso s4 n+o c!ega por3ue o ta)lete
alimentar c!ega antes. P disso 3ue somos in#ormados pelo narrador, na terceira, curta e
Qltima parte.
Ias esse sistema n+o consegue eliminar certos tra*os at8vicos dos seres !umanos.
Dssa nova sensa*+o de passagem do tempo n+o o)litera totalmente a sensa*+o mais antiga,
ligada aos dias e noites, ao "ol e C Rua etc. P assim 3ue o personagem central, numa das
primeiras #alas, no in,cio da segunda parte, di- 3ue teve um c!o3ue na primeira ve- 3ue
a)andonou a cBlula 5h# TI anos6. Os remanescentes dessa #orma de marcar o tempo nos
s+o apresentados na primeira parte, na #orma de narrativas entrecortadas de e%periências
err8ticas de v8rios seres !umanos encerrados nas cBlulas. Dssas e%periências est+o
totalmente perdidas entre as outras, mais #ortes e recentes, #ornecidas pelas vis/es. Dstas
s+o, um Qltima an8lise, tudo o 3ue esses #uturos !omens podem c!amar de vida. Ias se
recordam de um ou outro sentimento, de uma vis+o particular, de uma ideia 5su)versiva6
etc. Ias isso se perde num passado c!apado, 3ue permanece de #orma inde#inida no #undo
de suas consciências.
Sertamente, 5$ super#,cie do planeta6 B um distopia. &esenvolve0se no #uturo,
este nos parece terr,vel, e n+o !8, por de#ini*+o, sa,da. =+o so)revive de n4s, nesses seres,
se3uer a #orma de pensar, de marcar o tempo. $3uilo 3ue mais nos distingue, a Hist4ria, o
cont,nuo onde desenvolvemos a vida, perde0se completamente. Dles s+o !umanos apenas
nas #un*/es )iol4gicas. =ada sa)em de n4s e nada podem sa)er, .8 3ue !a)itamos mundos
n+o0intercomunic8veis. =esse ponto, B muito mais terr,vel 3ue os #uturos de Orwell ou de
Zamyatin, nos 3uais o !er4i B, nas palavras de 'es-ler, um 5Qltimo !omem6, isto B, um de
n4s. =o #uturo de &rode, n+o somos n4s os !er4is da distopia. =4s somos os selvagens
1??
3ue aparecem numa vis+o arti#icial, na 3ual o !er4i navega atB 3ue l!e se.a dada uma nova
p,lula e ele entre noutra vis+o, momentaneamente mais civili-ada, atB, B claro, 3ue a nova
p,lula comece a se dissipar.
bbb
Vonnegut )aseou sua distopia na e%tens+o a todas as atividades !umanas de
princ,pios dados e%clusivamente por engen!eiros. Hu%ley #e- praticamente o mesmo1 a
ideia de e#iciência e de produ*+o seriada em massa B estendida .8 aos #etos, para
con#orm80los C sociedade @se )em 3ue alguns devessem ingerir soma de ve- em 3uando
para sanar pe3uenos ru,dos em sua #orma*+oA. Orwell mudou a l,ngua para sugerir um
mundo maravil!oso para 3uem !a)itava OceJnia e tam)Bm mostrou a coer*+o
semimecJnica do u),3uo Grande Wrm+o. Wells prendeu seus oper8rios no su)solo, em
57ma !ist4ria dos tempos #uturos6, o)rigando0os, via d,vidas intermin8veis, a mane.ar
m83uinas descon!ecidas. $pesar de ser di#,cil #alar em evolu*+o, e%istem di#eren*as
patentes entre Wells, Hu%ley, Orwell e Vonnegut. 7ma di#eren*a importante B 3ue, em
Wells e Hu%ley, todos devem tra)al!ar. Dm Orwell e Vonnegut, temos !ordas de
desocupados. Dm todo caso, temos !omens oprimidos ou entediados pela tecnologia 3ue
invade suas vidas. Wsso se estendeu atB os anos ?G, sendo 5'evolu*+o no #uturo6 a distopia
mais recente na 3ual somos capa-es de distinguir, no #uturo, seres !umanos.
Dm 1:MG, vêm as drogas, vêm &icX e Gunn. $ ideia de #uga para para,sos
arti#iciais B levada ao e%tremos por esses autores. 8 n+o se pode mais #alar em sociedades
do #uturo, pois elas #oram inteiramente dissolvidas. O su)gênero da >S 3ue #aria o papel
de sonda de antecipa*+o de sociedades #uturas aca)a por destru,0las. "e os !omens têm
di#iculdade em conviver em sociedade e a tecnologia .8 avan*ou o su#iciente para manter
todos vivos e )em, por 3ue n+o resolver o pro)lema pela rai-H $inda 3ue a o)serva*+o
se.a ad hoc, parece a conclus+o l4gica de uma lin!a de racioc,nio, isso independentemente
de esses Qltimos autores citados estarem imersos na contracultura.
1?M
Ias notemos 3ue as pessoas 3ue s+o su)metidas, 3ueiram ou n+o, a esses
para,sos, s+o gente como n4s. Os personagens de &icX amam, 3uerem recuperar seus
casamentos, co)i*am din!eiro ou poder @poder em dimens/es gal8ticas, B claroA, se
entregam a persegui*/es no mel!or estilo policial noir. Dles #ogem para as drogas devido
a press/es 3ue somos inteiramente capa-es de recon!ecer e, mais, 3ue concordamos serem
press/es 3ue levam @!o.eA ao consumo de drogas. Os mascadores de S!ew0Z em 5Os três
estigmas de Ealmer Dldritc!6, de &icX, devem amargar o dia0a0dia em colTnias espaciais
in4spitas, #a-endo tra)al!o )ra*al por conscri*+o, 3uase como escravos.
Os personagens de Gunn, menos ativos, permanecem em Qteros arti#iciais nos
3uais son!am os son!os proporcionados pelas m83uinas por eles mesmos programadas.
"a)emos 3ue a !umanidade, em 5Os vendedores da #elicidade6, resolveu se entregar ao
pra-er a troco de nada, ao pra-er totalmente passivo e 3ue esse programa B levado ao
limite pelas Qnicas entidades 3ue permanecem vigilantes1 as m83uinas. $ssim, devemos
supor 3ue o 3ue se passa nos Qteros B algo intelig,vel para n4s. =+o gostar,amos de estar
neles por3ue somos “5ltimos homens”, como &\glas o B, n+o 3ueremos pra-er passivo,
n+o 3ueremos nos render a m83uinas. Ias n+o entra em discuss+o 3ue o 3ue rece)er,amos
em troca seria sem dQvida muito agrad8vel, ainda 3ue moralmente Fmoral medida por
nossos parJmetros anti3uadosF degradante. Vegetar,amos degradados, mas #eli-es.
&rode acrescenta a esse mundo uma dimens+o nova, inusitada por Gunn. Eor
indu*+o simples, sa)emos 3ue, indi#erentemente de como de#inamos ciência, ela B uma
atividade 3ue progride. $s teorias v+o e voltam, digladiam0se, perdem, vencem, mas o
#ato B 3ue, em termos de resultados, a ciência os acumula, sempre. &essa #orma, B
ra-o8vel pensar 3ue, se pararmos em algum ponto, dei%aremos de sa)er muita coisa.
Vuem garante 3ue as m83uinas pro.etadas pelo consel!o da Hedonics Wnc. realmente
satis#a-em a todas as necessidades dos seres !umanosH "a)emos apenas 3ue satis#a-em Cs
necessidades con!ecidas. &rode responde C 3uest+o. $ mente 3ue vive os son!os
indu-idos nos Qteros criados por Gunn deve ser alimentada atravBs de um corpo com
1?N
necessidades pr4prias. Eodemos nos livrar de todos os pro)lemas da vida, podemos nos
#ec!ar em um universo particular no 3ual somos deuses. Ias n+o podemos escapar de
nossos ritmos )iol4gicos, do “tempo alimentar”.
Iesmo antes de Gunn, Sli##ord "imaX, em 5Sidade6, mostrou a #uga volunt8ria
da !umanidade para casulos nos 3uais cada um !i)erna so-in!o, podendo acordar ou ser
acordado 3uando #or necess8rio. $inda assim , a !i)erna*+o volunt8ria nos B apresentada
como algo degradante, mas n+o doloroso. "4 em &rode B 3ue o !omem perde, mesmo nas
drogas, o Qltimo re#Qgio de )em0estar. O desenvolvimento tecnol4gico pode levar C
escravid+o com Wells e Hu%ley ou ao tBdio mortal @para proles e reeks and 1recksA, com
Orwell e Vonnegut. Earecia 3ue, com Gunn, o pro)lema se resolveria1 nem escravid+o,
nem tra)al!o, nem opress+o. Kudo pela simples elimina*+o da sociedade, pela elimina*+o
do pro)lema 3ue resiste C solu*+o. &rode mostra 3ue nem a, e%iste sa,da.
Dm)ora em te%to e meio 3ue n+o estudaremos a3ui Fpor se tratar de um #ilme,
por se passar em outro planeta, n+o com seres !umanos e nem se tratar de uma distopiaF,
notemos 3ue antes de &rode, o assunto #oi e%plorado de passagem em 5O planeta
proi)ido6, #ilme de >red IcReod Wilco%, )aseado na !ist4ria original de Wrving (locX,
rodado em 1:?M. Os !omens encontram um planeta no 3ual restam apenas ind,cios de 3ue
!ouve ali uma grande civili-a*+o, os Krell. Dstes desaparecerem por3ue constru,ram
m83uinas capa-es de materiali-ar todos os seus son!os, livrando0os de todo tra)al!o.
Viveriam .untos ou em Qteros arti#iciaisH =+o o sa)emos. Ias sa)emos 3ue, podendo
essas m83uinas materiali-ar tudo o 3ue estava na mente de seus construtores, podiam dar
corpo tam)Bm aos pensamentos n+o0e%pl,citos, nem para o pr4prio su.eito. Kerminam
todos mortos pela materiali-a*+o dos “monstros do id”. Ou se.a, mesmo a plenitude
material, mesmo o controle a)solutamente total da e%istência, n+o resolve o pro)lema
mais ,ntimo do !omem. Dle tem de se !aver com partes de si 3ue descon!ece. &rode evita
o palavr4rio psicanal,tico, sendo mais direto1 os !omens têm corpos 3ue l!es imp/e ritmos
1?;
3ue n+o podem ser enganados. Dles n+o s+o destru,dos por monstros do id, mas s+o
condenados a pesadelos c,clicos eternos.
Som &rode, #ec!am0se aparentemente todas as portas para antiutopias originais.
&epois dele, viriam ainda uma ou outra, como as de IacX 'eynolds, 3ue e%trapolam as
conse3Uências da sociedade desen!ada por Ddward (ellamy. Ou se.a, voltam a um
assunto passado. $ e%trapola*+o pura e simples do capitalismo #al!a em nos satis#a-er,
como podemos ver em Wells e Hu%ley. $ superplani#ica*+o tam)Bm #racassa, )astando
ver os desastres desen!ados por Orwell e Vonnegut. $ volta atr8s n+o B poss,velO desde
(utler os #iccionistas sa)em 3ue 5o homem est# irremediavelmente comprometido com as
m#$uinas6 @de 5Drew!on6A. >rear o desenvolvimento cient,#ico e tBcnico parece
igualmente imposs,vel, pois implicaria uma re#orma geral do ser !umano, 3ue l!e
suprimisse a curiosidade. 'estaria a dissolu*+o da sociedade. Ias mesmo isso n+o resolve
o pro)lema de como viver )em. O son!o da Hedonics Wnc., &rode o demonstra, era
ingênuo demais.
bbb
=aturalmente, &rode n+o consta de nen!um te%to de l,ngua inglesa 3ue discuta
antiutopias. =+o est8 em nen!uma das antologias citadas na )i)liogra#ia, n+o aparece nas
!ist4rias do gênero de Gunn ou de "c!oles e 'a)Xin, n+o consta de dicion8rios, salvo o de
Versins. $ pouca comunica*+o entre o mundo anglo#Tnico e o #ranco#Tnico B rec,proca.
Versins aponta como os 3uatro mais importantes autores de >S de todos os tempos H. G.
Wells, ules Verne, $l)ert 'o)ida e . H. 'osny $YnB. Dstes dois Qltimos n+o s+o se3uer
citados na enciclopBdia editada por Gunn, 3uanto mais como 5grandes6.
D mesmo no mundo C parte da >S #rancesa, &aniel &rode n+o #oi l8 muito
compreendido. Versins comenta 3ue o livro rece)eu o prêmio ules Verne de 1:?:, o 3ue
l!e valeu uma resen!a especial na revista #rancesa especiali-ada 5>iction6, cu.o autor
pre#eriu n+o se identi#icar e a#irmou 3ue o livro era mal e mal compreens,vel. &essa
#orma, a not8vel e%trapola*+o de &rode #icou para poucos leitores.
1?:
%
I&'E& DO !UTURO
=a altura de tentar encontrar algum denominador comum para o 3ue #oi
apresentado, deve0se tomar a precau*+o de evitar a trivialidade de algo na lin!a das 5duas
culturas6 de S. E. "now, para 3uem 5intelectuais! em particular os intelectuais liter#rios!
são luditas naturais6. $ tese das duas culturas, su)lin!ando uma suposta crescente cis+o
entre cultura tBcnica e cultura !uman,stica, #orneceria um 3uadro consistente para se
entender as antiutopias1 s+o o)ras escritas por intelectuais, luditas em potencial, 3ue, dada
essa mesma origem, n+o podem dei%ar de soar o sinal contra os perigos da tecnologia #ora
de controle e da ciência, igualmente #ora de controle, 3ue a sustenta. $s antiutopias seriam
a tradu*+o em literatura da vis+o 3ue os intelectuais !umanistas teriam dos cientistas1
su.eitos otimistas e super#iciais, super#iciais .ustamente por serem incapa-es de entender
as conse3Uências tardias de suas a*/es.
Variantes da tese das duas culturas s+o sempre apresentadas para dar conta dos
intelectuais #rente C tecnologia. &e um lado, est+o os tecn4logos 3ue nada entendem da
cultura, 3ue veem os !umanistas como pessoas totalmente carentes de 3ual3uer 5visão
antecipat:ria6 @"now, p. 1?A e, do outro, os intelectuais 3ue nada entendem de tBcnica ou
de ciência, mas 3ue têm certe-a de 3ue am)as as atividades sa,ram de controle. D o 3ue
#aria uma eventual ponte entre as duas culturasH Siência so) o controle de !omens 3ue
tivessem superado o dilema das duas culturas, claro.
O pro)lema com a tese, evidentemente, B 3ue tBcnica e ciência s+o cria*/es
!umanas e, mesmo 3ue o)ede*am a uma certa 5inBrcia6 intr,nseca @o 3ue (uc!anan, 1::2,
p. 2<?, denomina 5momentum tecnol:gico6, 5a tend%ncia inerente a todo sistema
tecnol:gico de ficar como foi programado no in;cio6A, ainda assim n+o di#erem muito de
1MG
outras tantas atividades 3ue 3ual3uer !a)itante do lado !umanista das duas culturas n+o
!esitaria em assimilar para si. Rewis Ium#ord @Ium#ord, 1:9<A tem como o).etivo em
todo seu longo 5Cécnica e civili.ação6 .ustamente mostrar 3ue o tema das duas culturas
@3ue ainda n+o tin!a nome ou patrono de#inidos em 1:9<A era simplesmente #also, uma
ilus+o de 4ptica gerada pela acelera*+o local @em #ins do sBculo 1:A da tecnologia e pela
invas+o do cotidiano pelos produtos por ela gerados. $o analisar o desen!o 5art,stico6 de
tur)inas, ao desmisti#icar os presentes tra-idos pela #ase neotBcnica para a cultura @e n+o
apenas para a tBcnicaA, Ium#ord reunia argumentos em #avor de 3ue a !umanidade, com
o advento da eletricidade, passava a viver em uma nova era e 3ue )astaria se livrar de
vel!os preconceitos, vel!os !8)itos de vida @3ue incluem, naturalmente, !8)itos de uso de
tecnologiaA para entrar de ve- em um para,so, n+o tecnol4gico, mas completo, tecnol4gico
e !uman,stico. Ias ele nota 3ue os !8)itos prevalecem so)re a ra-+o e, mais, a estrutura
econTmica das grandes potências, montada visando ao lucro imediato e n+o C evolu*+o e
reali-a*+o do ser !umano, s+o os entraves )8sicos para esse pro.eto 3ue a esta altura, n+o
precisaria de mais nada @pelo menos do ponto de vista de con!ecimento cient,#ico e
tBcnicoA para se reali-ar. $inda em termos de Ium#ord, essas estruturas permanecem
presas C ideologia da 5paleotBcnica6, 3uando o !omem devastava o am)iente em )usca de
.a-idas de com)ust,veis para mover suas rudimentares m83uinas, Cs e%pensas da
destrui*+o do meio, da de)ilita*+o da saQde dos !omens etc. D essa devasta*+o, assinala,
n+o tin!a se3uer nos donos do poder reais )ene#ici8rios. $s con3uistas econTmicas se
tradu-iam em #alta de !igiene, alimenta*+o prec8ria, pouca saQde e, por conseguinte,
pouca reali-a*+o pessoal. @O autor nota, en passant, 3ue, tomando apenas casas de alto
n,vel na Wnglaterra em #ins do sBculo 1:, !avia menos )an!eiros por casa do 3ue !avia nas
casas das pessoas poderosas em 'oma C Bpoca de $driano.A
Dn#im, B esse o estado de coisas 3ue Ium#ord c!ama de 5neotécnica com
ideologia paleotécnica6. Ias o simples #ato de a ideologia 5paleotBcnica6 so)reviver B
sinal de 3ue talve-, contrariamente ao 3ue Ium#ord gostaria de provar, e%istam mesmo
1M1
duas culturas e n+o se.a poss,vel cas80las. Kodo o arti#,cio te4rico montado para uni0las
termina em 3ue elas s+o desunidas e 3ue essa desuni+o n+o pode se dever a algo como
uma loucura coletiva em escala planet8ria. Dn#im, Ium#ord parece nos empurrar para a .8
de)ilitada tese de "nowH Haveria sa,daH Kalve-, o mais correto se.a di-er 3ue as tais duas
culturas, no #im de contas, n+o e%istem. D%iste uma cultura, 3ue desenvolve sua tBcnica e
3ue deve amargar per,odos de ressaca atB 3ue aprenda a se !aver com cada novo
)rin3uedo. =ada de #undamentalmente di#erente acontece em outras atividades
normalmente assimiladas ao !umanismo, diametralmente oposto C tBcnica. Vuem .8
assimilou a mQsica erudita contemporJnea ou a arte e%perimental do per#ormanceH
Revada C sua conclus+o l4gica, a tese das duas culturas nos colocaria em um
dilema. &o lado !umanista, est+o os autores das antiutopias, temerosos de algo 3ue n+o
compreendem direito e, do outro, os tBcnicos, 3ue n+o se importam a)solutamente com o
3ue 3uer 3ue se.a 5reali-a*+o plena do ser !umano6. Eara estes, reali-a*+o plena se
resumiria a poder usar um #orno de microondas. D s4.
Dsse dilema pode ser des#eito, primeiro notando 3ue a tese tem sBrios pro)lemas.
Vuando Ium#ord tenta lev80la a uma solu*+o, o 3ue #ica mais evidente B 3ue o pro)lema
de rai- parece Fem lugar de ser muito comple%oF, simplesmente, n+o e%istir. &a mesma
#orma, para 3ue "now a manten!a, precisa constantemente recorrer a personagens
caricatos1 o cientista t,pico, 3ue odeia o !umanista, e o !umanista t,pico, 3ue passa todo o
seu tempo desden!ando a #alta de elegJncia do cientista. &epois, devemos notar 3ue
v8rios dos autores estudados têm #orma*+o cient,#ica. Kurt Vonnegut tem #orma*+o como
3u,mico, H. G. Wells, como )i4logo, Zamyatin, como engen!eiro. Hu%ley, dados seus
la*os #amiliares, certamente teria )om con!ecimento de ciência. =+o s+o, portanto,
5!umanistas6 avessos ao perigoso 5outro lado6 da cultura. $lBm disso, as antiutopias se
inscrevem no universo mais amplo da >S @sBries e%plicitamente consagradas C >S
pu)licam essas antiutopiasA e >S B um gênero muito lido por pessoas em #orma*+o
cient,#ica, estudantes, tBcnicos etc.
1M2
bbb
&essa #orma, devemos ver as antiutopias como estudos organi-ados Fe
in#ormadosF so)re ciência e tecnologia 3ue visam a analisar de 3ue #orma a tBcnica pode
sair de controle e, com o intuito de )ene#iciar o !omem, pode aca)ar por soterr80lo. P uma
literatura 3ue estuda os e#eitos perversos da tBcnica e da ciência aplicada em larga escala C
sociedade. Dm pe3uena escala, a >S estuda a tBcnica #ora de controle desde suas origens,
com 5>ranXenstein, ou o moderno Erometeu6, de Iary "!elley, de 1;1;. Som o avan*o
da ciência institucionali-ada, >ranXenstein, o cientista isolado, tra)al!ando so-in!o, C
custa de recursos pessoais, des)ravando os limites do con!ecimento, parece
irremediavelmente vel!o. $ antiutopia, por seu turno, estuda essa ciência
institucionali-ada, #inanciada por Dstados e por empresas privadas, o).etivando lucro,
produ*+o de )ens, visando, en#im, a modi#ica*/es amplas na sociedade e n+o apenas
altera*/es locais no con!ecimento da nature-a.
Vue as antiutopias estudam e#eitos perversos de anseios !umanos B evidente.
Vuem n+o 3uer se%o livre e desligado de 3ual3uer pro)lema de reprodu*+o, emprego
garantido, lugar esta)elecido na sociedade, pra-er garantido em ocupar esse lugarH Vuem
dese.a tudo isso, avisa Hu%ley, 3uer o 5Admir#vel mundo novo6. Vuem n+o dese.a 3ue
m83uinas #a*am todo o tra)al!o )ra*al, 3ue o !omem se.a li)ertado de tare#as repetitivas e
possa se dedicar ao 3ue 3uiser, rece)endo ainda um sal8rio e mais garantias do DstadoH
Vuem ac!a 3ue esse B um o).etivo )om de se lutar, deve ler 5Nevolução no futuro6. D
3uem acredita 3ue a principal #un*+o das m83uinas B eliminar todo contato !umano,
mediar a maior parte das rela*/es sociaisH Eara estes, s+o escritas as antiutopias 5n+o0
sociais6.
Kodos esses o).etivos s+o per#eitamente .usti#ic8veis e eles, ou alguma vers+o
deles, s+o o#erecidos a cada nova elei*+o, em cada novo anQncio de KV, em cada out,
door. Ias, por algum estran!o motivo, nossa capacidade em dar solu*/es tBcnicas para
1M9
nossos anseios est8 #adada ao #racasso, estamos permanentemente em perigo de nos
rendermos ao e#eito perverso de tudo o 3ue !av,amos plane.ado.
Somo eliminar tais e#eitos perversosH 7ma resposta poss,vel B1 a)dicando da
tBcnica. Somo ninguBm #aria isso conscientemente, o .eito B e%plodir tudo e come*ar a
sociedade de novo a partir da )ase. $ )ase, B claro, B algum ponto da evolu*+o tBcnica
eleito como 5seguro6 para o !omem. P assim 3ue 'enB (ar.avel @em 5&evasta*+o6, de
1:<2A destr4i todo o planeta e #unda uma comunidade rural na >ran*a, su.eita a um
patriarca, 3ue )ane conscientemente toda tBcnica 3ue envolva m83uinas. Eara sim)oli-ar o
corte, B eleita, naturalmente, como n+o pode dei%ar de ser em todas as o)ras do gênero, a
m83uina a vapor. Somo se ela #osse uma inven*+o n+o0!umana.
Dssa sa,da 5arc8dica6 para os pro)lemas propostos pela ciência e pela tecnologia
se apoia em uma divis+o arti#icial de o 3ue se.am m83uinas e #erramentas. Hanna! $rendt
de#ine1 5Siferentemente das ferramentas de artesanato! $ue a $ual$uer momento no
processo permanecem servas das mãos! as m#$uinas demandam do traalhador $ue este
as sirva! $ue este a"uste os ritmos naturais de seu corpo a seu movimento mecânico6
@citado em DlXins, 1:;9, p. ?9A.
"e a divis+o vale, ent+o #erramentas s+o #8ceis de usar, coisas 3ue se adaptam Cs
m+os e n+o o contr8rio. Ias #erramentas s4 s+o #8ceis de usar 3uando o mestre passou
anos adestrando suas m+os a elas. =as m+os do ine%perto, uma #erramenta t+o simples
3uanto uma plaina n+o #unciona minimamente. O m8%imo 3ue ele conseguir8 ser8 tirar
irregulares lascas a partir de um )loco de madeira. O 3ue di-er, ent+o, de um violinoH
"e !8 uma distin*+o, ela est8 .ustamente no oposto do 3ue de#ine Hanna! $rendt1
as #erramentas e%igem adapta*+o. Eor conseguinte, e%igem racioc,nio. $s m83uinas
#uncionam desde 3ue nos adaptemos s4 um pouco a elas. $ssim, n+o e%igem racioc,nio.
"+o motores da pregui*a, da aliena*+o da perda de tudo o 3ue B !umano. Dn#im, se B 3ue
se pode .usti#icar uma distin*+o entre #erramenta e m83uina Ftam)Bm #eita por Ium#ord
@1:9<, pp. < e seg.AF ela seria, na mel!or das !ip4teses, de grau, .amais de 3ualidade.
1M<
Ias todas as novelas de retroprogresso @para usar a e%press+o de Sa-es, 1:;M,
cap. M, pp. 1N?0:?A, usam variantes dessa distin*+o para #i%arem uma tBcnica aceit8vel e
re.eitarem outra, incompat,vel com o !omem. &ei%am de lado 3ue a agricultura, a
constru*+o de !a)ita*/es e mesmo a capacidade de organi-ar um grupo para tare#as
orientadas, s+o tBcnica, tBcnica ela)orada. $ tese Fimpl,citaF B a de 3ue o ser !umano
s4 #oi capa- de a)sorver as d8divas da tecnologia atB Watt. &epois disso, a coisa saiu de
ve- de controle.
Dssa tradi*+o remonta, em literatura, a (utler @5Drew!on6, 1;N1A e tem vo-es
modernas atB Vonnegut @5H4cus0p4cus6, 1::GA. O caso de (utler B especial, por3ue nele
os !a)itantes do pa,s de Drew!on resolveram em assem)leia, depois de ouvir e pesar os
argumentos de duas escolas de estudiosos, destruir tudo o 3ue #osse posterior a 5uma
certa calandra! muito usada pelas lavadeiras6. =essa esteira, B evidente 3ue se #oram as
m83uinas a vapor. O !er4i da !ist4ria, Higgs, B visto com descon#ian*a por seus novos
convivas 3uando e%i)e um simples rel4gio de )olso.
$s m83uinas podem evoluir e, 3uem sa)e, tomar o lugar do !omemH $ tese tem
ra,-es mais antigas do 3ue as discuss/es em torno da m83uina a vapor. (ruce Ia-lic!
@Ia-lic!, 1::9, p. 12A cita &escartes, para 3uem o !omem B apenas um animal dotado de
uma alma. 7ma ve- 3ue os animais s+o como m83uinas Fe, surpreendentemente, menos
su.eitos a erros, .8 3ue, n+o tendo ra-+o pr4pria, s+o portanto guiados pela ra-+o divinaF
e%iste uma continuidade entre os !omens e os animais e, assim, entre !omens e m83uinas.
Dssa maneira de ver o assunto #oi sendo acentuada depois de &escartes, e a continuidade
#oi sendo cada ve- mais e%plorada atravBs da constru*+o de autTmatos @Rosano, 1::GO
Ia-lic!, 1::9A e, depois, da tomada destes pela ciência. >oi S!arles (a))age, no in,cio
do sBculo 1:, o primeiro !omem a 3uem ca)eria o ad.etivo de 5cientista 3ue estudou o
#uncionamento dos autTmatos6. "ua conclus+o1 os autTmatos evoluem, e%istem di#erentes
espBcies e lin!agens, e%atamente como no reino animal @Ia-lic!, 1::9, p. 19?09NA.
1M?
Dssa ideia de continuidade B levada ao e%tremo por (utler, em 5(re1hon6. =este,
o personagem principal, visitando um dos colBgios da 5desra.ão6, encontra na )i)lioteca
o 5Uivro das m#$uinas6, no 3ual se desenvolvem os argumentos contra e a #avor da
destrui*+o de toda m83uina 3ue possa demonstrar algum tipo de autonomia. =aturalmente,
o candidato per#eito B a m83uina a vapor, capa- de #uncionar ra-oavelmente sem
interven*+o !umana Fen3uanto estiver )em regulada e dispondo de com)ust,velF e de
imitar movimentos !umanos muito comple%os. Os s8)ios partid8rios de uma espBcie de
5darwinismo mecJnico6 vencem o de)ate e as m83uinas s+o todas eliminadas, #ator 3ue
a.uda a e%plicar a continuidade dessa sociedade, praticamente inalterada passados ?GG
anos do evento.
Variantes dessa tese da continuidade permanecem assom)rando os potenciais
)ene#ici8rios da ciência a da tecnologia. $ primeira rea*+o e%pl,cita a isso #oi dada pelos
luditas, tecel+os ingleses 3ue vagaram pelas #ia*/es, destruindo teares mecJnicos entre
1;1G e 1;1M, para depois terem muitos de seus l,deres mortos na #orca. Eelos #ins do
sBculo, .8 n+o era poss,vel um movimento assim. O pr4prio (utler nota em 5(re1hon6
3ue 5os homens estão irremediavelmente comprometidos com as m#$uinas6.
P nesse conte%to 3ue aparecem as primeiras antiutopias. Dlas devem dar conta de
um !omem 5irremediavelmente comprometido com as m83uinas6 3ue progressivamente
perde seu emprego para elas e, mais, 3ue progressivamente perde para a #8)rica suas
vel!as estruturas sociais. Som o taylorismo, tem in,cio um programa de adapta*+o do
!omem C m83uina e, por e%tens+o, da cidade C #8)rica.
=otemos 3ue tanto nossa rela*+o de dependência com as m83uinas 3uanto o #ato
de elas progressivamente a)sorverem empregos !umanos permanecem temas atuais e,
portanto, os motores )8sicos do gênero continuam, se )em 3ue as o)ras produ-idas v+o
so#rendo modi#ica*/es.
bbb
1MM
Os escritores antiut4picos n+o #ormam escolas, como o #a-em soci4logos ligados
a um assunto especiali-ado 3ual3uer. =+o têm revistas, encontros, )olsas etc. para
desenvolverem e transmitirem ideias C sua descendência cient,#ica. =o entanto, atB onde B
poss,vel sa)er por entrevistas, mem4rias etc., eles se leem entre si. 51:;<6 B resultado da
leitura do Wells otimista @de 5$ntecipa*/es6, 1:G2 e de 57ma utopia moderna6, de 1:G<A
por Orwell. 5'evolu*+o no #uturo6 vem da leitura de 5$dmir8vel mundo novo6 e de
5=4s6. 5=4s6, Zamyatin escreve @1:22A, vem de sua necessidade de dialogar com o
5utopismo cientificista6 de Wells.
&essa #orma, em)ora se deva dei%ar de lado o perigoso termo 5evolu*+o6, B
poss,vel notar 3ue alguns temas #oram rece)endo di#erentes tratamentos com o passar dos
anos. Dssas mudan*as nos sugerem o 3ue pode ser o curso #uturo desse su)gênero da >S.
a. - ;a;el s-c3al 6a c3>5c3a e 6a 0ec5-l-=3a
=+o podemos #a-er como os s8)ios de 5Drew!on6 e decidir pelo #im de todas as
m83uinas, pela elimina*+o de todo arte#ato a partir de um ponto de#inido. "amuel (utler
usa essa imagem ironicamente, pois sa)e 3ue n+o e%iste meio de vivermos sem m83uinas.
$ alternativa seria integr80las C vida, tornando0as o mais depressa poss,vel parte do senso
comum, devolvendo, assim, o controle dos !omens so)re a maior parte da tecnologia. Dste
B o pro.eto inicial de Ium#ord, 3ue ele mesmo vê com certo ceticismo, 3uando retoma a
3uest+o, em meados dos anos 1:MG.
Ees3uisa cient,#ica e desenvolvimento tecnol4gico eram duas atividades
ra-oavelmente )em distintas atB in,cio do sBculo 1:. &urante esse sBculo, as duas #oram se
apro%imando e, variando um pouco de autor para autor, B ra-o8vel supor 3ue se uniram de
ve- com os primeiros departamentos de pes3uisa e desenvolvimento em indQstrias
3u,micas, na $leman!a, na dBcada de 1;:G. $ partir de ent+o, o sucesso alem+o #oi
copiado ativamente por v8rios pa,ses europeus, pelos D7$ e pelo ap+o. O resultado #oi
um crescente a)ismo entre o tra)al!ador e o o).eto 3ue produ-. Ho.e, 3uando vemos
1MN
tBcnicos em computadores se limitarem a trocar pe*as das m83uinas e a .ogarem as
de#eituosas no li%o, c!amando essa atividade de 5conserto6, estamos assistindo ao
desenvolvimento da3uilo 3ue Wells .8 !avia escrito em 1;::, 3ue 5a civili.ação se
apresentava como um produto catastr:fico $ue não tinha com os homens! a não ser
tomando,se estes como v;timas! mais relaç)es do $ue tem ccom elesd um ciclone ou uma
colisão planet#ria”'
Eara o autor de 57ma !ist4ria dos tempos #uturos6, esse a)ismo crescente
precisava ser com)atido pela reapropria*+o da ciência pela sociedade. Wells seria o Qltimo
!omem a apelar para o irracionalismo ou para 3ual3uer #orma de anticienti#icismo, como
!avia #eito &ostoievsXi. 8 em seu primeiro te%to pu)licado, 5$ redesco)erta do Qnico6,
de 1;:1, Wells a#irma 3ue a ciência, )oa ou ruim, )em ou mal aplicada, B a Qnica #or*a
real 3ue o !omem tem para se livrar do .ugo da nature-a. D como #a-er issoH "ua resposta1
aprendendo com calma, #ora do Dstado, militando em silêncio, a espera de tempos
mel!ores. Dssa B a alternativa 3ue Wells nos apresenta na #igura de um cl,nico, em sua
antiutopia. Sonsistente com esse pro.eto de 3ue a reapropria*+o Fou dever,amos #alar em
apropria*+o e n+o supor 3ue, alguma ve-, a !umanidade ten!a se apropriado da ciência e
da tecnologiaHF B a Qnica sa,da para a !umanidade, 3ue, dei%adas as coisas como
estavam em #ins do sBculo 1:, nas m+os de uma )urguesia 3ue via a !ist4ria como um
processo em #inali-a*+o @Koyn)eeA e 3ue despre-ava ciência e%perimental @"nowA, tudo
camin!aria para pior, Wells iniciou o sBculo 2G como ut4pico e educador. "ua 57ma
utopia moderna6 B de 1:G< e sua primeira o)ra did8tica 3ue pode ser considerada
importante B 5$ntecipa*/es6, de 1:G2.
Dntre a utopia de Wells e a distopia de Zamyatin est8 um evento !ist4rico decisivo
para a imagem da ciência e da tecnologia1 a Erimeira Guerra Iundial. =unca cientistas
participaram t+o ativamente do es#or*o de guerra e nunca uma guerra matou tanto. P
evidente 3ue Zamyatin .8 n+o podia acreditar nos cientistas como os !omens 3ue
poderiam guardar a ra-+o para tempos mel!ores. Via0os como !omens de seu tempo, e sua
1M;
ciência como su).ugada C ideologia 3ue esposavam ou Cs a#ei*/es 3ue tin!am. =+o se
podia con#iar neles. "e uma arma B t+o poderosa e ninguBm parece estar apto para seu
controle, talve- ela deva ser descartada. =+o e%istiria, assim, ciência ou tecnologia neutras
e )ons e maus usos delas. Kudo se resumiria no uso, atB ent+o, predominantemente mau. $
esperan*a1 re#ugiar0se na irracionalidade.
&e- anos depois de Zamyatin, Hu%ley volta C carga contra Wells e dei%a como
alternativa para o leitor apenas o comportamento err8tico de um selvagem, n+o um )om
selvagem roussoniano, mas um !omem c!eio de culpa, 3ue “$uer o pecado”. =+o B muito
di#erente de W099G, de 5=4s6.
Vuando essa tradi*+o c!ega a Orwell, a imagem da ciência @e de todo cientistaA
est8 destro*ada. Dnt+o, em 51:;<6, temos as surpreendentes considera*/es so)re a ciência
e%pressas no livro de Dmmanuel Goldstein, 5Keoria e pr8tica do coletivismo olig8r3uico6.
Goldstein tem seu nome emprestado do so)renome de KrotsXy, #igura 3ue Orwell
considerava )em. &essa #orma, tudo nos leva a supor 3ue o livro de Goldstein re#lete as
opini/es do pr4prio Orwell so)re a ciência. D essas opini/es recuam atB Wells. $ ciência
seria uma atividade neutra, guiada pela curiosidade desprendida e 3ue poderia ser )em ou
mal condu-ida, dependendo de 3uem a gerenciasse e%ternamente. Iantido seu pro.eto
essencial de desco)rir a nature-a, a ciência certamente levaria C cria*+o de uma utopia
terrena, 3ue se c!ocaria com um tra*o at8vico inescap8vel do !omem1 a Jnsia pelo poder.
&essa #orma, para 3ue pudesse continuar a !aver poder nas m+os de uma minoria, para se
evitar a igualdade 3ue a ciência Fpara Goldstein]OrwellF certamente traria para toda a
!umanidade, era necess8rio re#rear o ,mpeto de pes3uisa, a n+o ser em 8reas sancionadas
pelo Dstado. Orwell nos apresenta duas dessas 8reas1 a pes3uisa militar, de menor
e%press+o, e a lingU,stica, esta sim a ciência por e%celência desse novo Dstado. 7ma ve-
3ue o !omem B capa- de ver o 3ue 3uer ver e n+o o 3ue supostamente e%istiria para ser
visto, uma ve- 3ue toda a realidade B completamente #or.ada na mente do o)servador,
1M:
ent+o )asta restringir a ciência C lingU,stica, para 3ue, criando uma linguagem pro.etada,
crie0se um mundo particular, sem nen!um parJmetro de compara*+o e%terno.
8 discutimos no cap,tulo so)re 51:;<6 so)re a e%e3Ui)ilidade ou n+o dessa nova
l,ngua e de se ela #uncionaria ou n+o como meio de #or.ar um mundo completamente
pro.etado por seus criadores. O 3ue nos importa a3ui B notar 3ue, mesmo descrente do
!omem, Orwell B a)solutamente crente na ciência como #or*a trans#ormadora Fpositiva
F dentro da sociedade. $travBs de seu )om uso Faprendemos no livro de GoldsteinF,
!averia #inalmente utopia so)re a Kerra. "4 n+o e%iste por3ue o !omem B invi8vel, por3ue
seus )ai%os instintos sempre vencem os )ons.
Dm Vonnegut, a ciência n+o B considerada nem )oa nem m8, nem #or*a de
trans#orma*+o para mel!or da sociedade, nem #or*a essencialmente perversa. P
considerada uma atividade autodestrutiva completamente cega. Os mesmos cientistas 3ue,
na gera*+o do protagonista, livraram a !umanidade do tra)al!o repetitivo nas #8)ricas,
automati-ando0as todas, est+o pes3uisando um meio de tirar a #un*+o dos pr4prios
cientistas. $gora, o tema B a Kerceira 'evolu*+o Wndustrial, 3ue livrar8 a !umanidade, via
a constru*+o de m83uinas inteligentes, de todo tra)al!o intelectual. Ou se.a, dei%ada por si
s4, a ciência vai se encarregar de sua pr4pria destrui*+o, os cientistas v+o se encarregar de
cortar as pr4prias ca)e*as.
Eor Qltimo, em Gunn, dei%ando (rad)ury de lado, a ciência B vista como atividade
criadora de monstros autTnomos. Erimeiro, um consel!o legisla so)re o planeta, criando
uma vida sem pro)lemas para todos os 3ue assim dese.em. &epois, as m83uinas
programadas para esse #im tomam conta do sistema e e%ercem sua programa*+o atB 3ue o
Qltimo ser !umano se.a preso, o)rigado a uma vida de son!os. Gunn leva a tese do
“momentum tecnol:gico” atB seu limite. Dm resumo, para Gunn, o cientista n+o
compreende muito )em o 3ue #a- e, com o aumento de seu poder, vai c!egar o instante em
3ue tudo sair8 de controle. D n+o e%iste volta para isso. &rode adiciona a isso uma
dimens+o de pesadelo1 em troca da su)miss+o vir8 apenas dor.
1NG
bbb
$ discuss+o so)re se a ciência B uma atividade racional ou n+o dominou toda a
#iloso#ia da ciência no sBculo 2G. 'acional deve ser entendido, nessa discuss+o, como
atividade su.eita a regras claramente #ormul8veis. &e um lado est+o os 3ue de#endem a
tese de 3ue toda a atividade cient,#ica, por mais ca4tica 3ue pare*a, pode ser redu-ida F
ou, reconstru,daF a partir de um pun!ado de regras claras. Dm todos os pontos da !ist4ria
em 3ue se concorda ter !avido avan*o cient,#ico, seria sempre poss,vel ver a aplica*+o de
regras l4gicas, mesmo 3ue seus atores ten!am agido inconscientes disso.
&e outro lado, est+o os 3ue de#endem uma vis+o menos ortodo%a da pr8tica
cient,#ica1 ciência B um .ogo cu.as regras podem ser alteradas, no 3ual n+o e%istem leis de
procedimento #i%as, uma atividade em 3ue todo o desenvolvimento cient,#ico su)stantivo
B acompan!ado por um desenvolvimento metodol4gico paralelo. Ou se.a, n+o e%iste algo
como mBtodo Fou racionalidadeF cient,#ico. D%iste !ist4ria apenas. Ias, mesmo nessa
vertente, n+o e%iste nen!uma porta a)erta para o anticienti#icismo. Dsta B atitude de 3uem
n+o c!ega a con!ecer ciência e ouve mal as cr,ticas 3ue a ela s+o #eitas. Ias mesmo no
meio acadêmico, autores como >eyera)end tiveram de gastar centenas de p8ginas para
provar 3ue n+o eram nem anticienti#icistas, muito menos irracionalistas.
$ cr,tica da ciência acompan!ada de uma cr,tica igual do anticienti#icismo est8
presente desde os primeiros escritos de Wells. 7m pro.eto consistente com isso Fcr,tica
sem #ugir do campo da ciênciaF tem mesmo de desem)ocar numa pr8tica de educa*+o
popular @coisa 3ue >eyera)end de#ende, em termos mesmo de reapropria*+o da ciênciaA.
Ias esse pro.eto did8tico #oi entendido como apoio incondicional a uma racionalidade
cient,#ica #ec!ada e indiscut,vel. Ou se.a, para os cr,ticos de Wells, ele pretendia 3ue a
ciência, sendo a)solutamente racional, deveria, no limite, ter suas decis/es impostas C
sociedade. Rendo Wells com cuidado, veri#icamos 3ue seu pro.eto era para 3ue, com o
tempo Fe com a devida educa*+oF, a pr4pria sociedade compreendesse o programa a
3ue #ora su)metida. Wells di- e%pressamente em sua 57ma utopia moderna6 3ue a
1N1
conclus+o da utopia B 3ue todos se tornem samurais, ou se.a, 3ue todos ascendam C classe
)em in#ormada @em termos cient,#icosA.
Ias uma cr,tica precipitada trou%e o anticienti#icismo de Hu%ley e de Zamyatin,
3ue veem a sa,da para a imposi*+o da ciência nos )ai%os instintos !umanos @no pecado t+o
3uerido pelo selvagem ou nas a*/es um tanto in#ames dos sediciosos de 5=4s6A. "4 com
Orwell B 3ue esse anticienti#icismo seria revogado e se voltaria ao 3uadro wellsiano,
em)ora Orwell diga 3ue escreveu 51:;<6 para re#utar Wells. Ias a re#uta*+o ocorre
apenas na pr8tica1 o mundo n+o vai se encamin!ar, apesar da ciência, para a utopia,
por3ue entre !o.e e ela interp/e0se a sede )8sica de poder. =a teoria, Orwell vê a atividade
cient,#ica do mesmo modo 3ue Wells a via, ?G anos antes.
&epois de 51:;<6, com Vonnegut e Gunn @e &rodeA, a ciência dei%a de merecer
considera*+o especial nas distopias. =+o encontramos nesses autores os longos discursos
acerca do status da ciência, como encontr8vamos antes. Ou se.a, ciência passa a ser uma
atividade !umana como outra 3ual3uer, com papel destacado na trans#orma*+o social, mas
n+o mais preponderante, como nos antiut4picos anteriores. Dssa maneira de coloc80la
pode ser vista tam)Bm em outras mani#esta*/es #iccionais, especialmente no cinema.
Kudor @1:;:A mostrou 3ue, no cinema, a imagem do cientista e da ciência perde
progressivamente importJncia. Sada ve- menos Fo per,odo estudado vai de 1:91 a 1:;<
F o cientista e a ciência em geral aparecem na tela como criadores ou resolvedores de
pro)lemas. Dm 1:91, em ;GL dos #ilmes de monstros, o criador e]ou o destruidor do
monstro era alguBm ligado C comunidade cient,#ica. Dm 1:;G, s4 2GL dos #ilmes
mantin!am esse es3uema. =esse per,odo, a amea*a C vida em comunidade dei%ou
progressivamente de vir do la)orat4rio, mudando0se para dentro de casa1 B o assassino em
#am,lia, estilo =orman (ates 3ue !o.e domina a tela, no papel de monstro.
&essa #orma, o gênero 3ue come*ou estudando a ciência e a tecnologia como
#or*as #or.adoras de uma nova vida em sociedade Fsempre, in#eli-mente, para piorF
termina o sBculo a)andonando o tema do impacto social da ciência, concentrando0se no
1N2
!omem. $ ciência e a tBcnica aparecem como coad.uvantes, n+o mais como atores
principais, como motores )8sicos de mudan*as sociais. 7ma ve- 3ue tanto literatura
dist4pica como cinema de >S Finclu,do neste Qltimo desde o)ras0primas como 52GG16
atB trash,movies, como 5Wt lives again6F apresentam tendências convergentes 3uanto ao
papel da ciência, ca)eria a pergunta de 3uem in#luenciou 3uem para 3ue isso #osse assimH
Ou se.a, a literatura dist4pica re#lete um estado de Jnimo 3ue permeia a sociedade 3uanto
ao status da ciência ou B a ciência @ou metaciênciaA 3ue se alimenta das imagens
#iccionaisH Somo nota Iyers @1:;:A com respeito C vis+o de termodinJmica entre
cientistas, soci4logos e literatos, o #ato B 3ue e%iste um ciclo. $ssim como no caso da
termodinJmica, em 3ue o conceito de energia #oi e%tra,do de estudos sociais, usado em
#,sica e, depois, voltou Cs ciências sociais revestido de nova autoridade, a ideia 3ue se #a-
da ciência e de seu papel social circula pela cultura, o literato a)sorvendo e trans#ormando
o estado corrente de discuss+o acadêmica e o acadêmico usando como met8#oras cita*/es
e%tra,das da ciência. Ziman a)re seu mais recente livro @Ziman, 1::<A com uma met8#ora
so)re viagens no tempo, para terminar #alando de institucionali-a*+o da ciência. Dssa
met8#ora assim aplicada pode animar um escritor, cu.o conto ou novela poder8 servir de
nova met8#ora em outro te%to acadêmico, e assim por diante. Wells usou uma vers+o
#atalista do darwinismo para animar seu 5$ m83uina do tempo6. $s imagens do livro
#oram, depois, usadas em livros de divulga*+o cient,#ica para e%empli#icar o darwinismo.
D, talve-, muitos #uturos )i4logos ten!am estudado em livros )aseados nas met8#oras
calcadas em Wells.
&ada essa in#luência mQtua, essa circula*+o de ideias pelo mundo da cultura, sem
distin*+o entre te%to #iccional, para o grande pQ)lico, e te%to acadêmico, voltado para uma
audiência mais especiali-ada, o mais correto talve- se.a di-er 3ue a imagem da ciência se
trans#ormou durante todo o sBculo 2G, com conse3Uente perda de status para o cientista e
para a ciência. =o campo acadêmico, isso se re#lete nas discuss/es so)re a racionalidade
da atividade cient,#ica. =a literatura, na parte cada ve- menor 3ue as discuss/es so)re
1N9
ciência ocupam nas antiutopias @e tam)Bm em outros su)gêneros da >S n+o estudados
a3uiA. Dsse paralelismo, novamente, re#or*a a tese de 3ue o estudo desses te%tos de #ic*+o
tem relevJncia sociol4gica 3ue n+o pode ser es3uecida.
D devemos en#ati-ar 5paralelismo6 em lugar de 5in#luência6. =+o B 3ue uma vis+o
de como se constitui a ciência e%travase para a cultura n+o0acadêmica e, ent+o, apare*am
livros 5so) a in#luência6 desse ponto de vista. Os antiut4picos representam re#le%+o
independente, n+o0acadêmica, so)re o importante tema do impacto social da ciência. "+o
o paralelo #iccional dos te%tos acadêmicos dissertativos. Vuando os escol!emos )aseados
em critBrios de rigor e de consistência @e n+o #a-emos o mesmo com te%tos acadêmicos,
escol!endo alguns apenas e dei%ando centenas para o es3uecimentoHA encontramos as
mesmas discuss/es, s4 3ue revestidas de aspectos novos 3ue talve- s4 a #orma de #ic*+o
possa veicular. =o m,nimo, s4 a #ic*+o B capa-, se )em #eita, de imergir o leitor no mundo
descrito, em lugar de simplesmente e%pT0lo para discuss+o, como #a-em te%tos te4ricos.
2. a s-c3e6a6e e - 3563vG6/-
$ndrB 'e-ler @1:;?, pp. 1:M021MA #ala do !omem nas antiutopias do sBculo 2G
como o 55ltimo homem6. Eor 3ue QltimoH Eor3ue B a Qnica @e, talve-, tragicamente, a
QltimaA pessoa parecida conosco. D se parece conosco .ustamente por partil!ar com o
!omem de nosso tempo um sentimento de individualidade 3ue n+o mais tem lugar nesse
#uturo tecnol4gico.
Earado%almente Fe, mais uma ve-, para re#or*ar a ideia das antiutopias como a
literatura dos e#eitos perversos do plane.amento socialF, a individualidade total B de #ato
atingida nesse Dstados #uturos, o son!o da individualidade e da igualdade totais
plenamente satis#eitos. Ias algo sai errado nesse pro.eto. Dn3uanto B um engen!eiro
empen!ado na constru*+o da /ntegral, &0?G9 n+o tem dQvidas 3uanto C sua li)erdade e
individualidade. Dle B livre na igualdade do Dstado `nico e B Qnico @individualA pois
ninguBm mais tem seu nQmero. Ias n+o B essa a individualidade alme.ada pelo pensador
1N<
li)eral do sBculo 2G, o autor de distopias. Zamyatin se re#ere com pesar aos 5nQmeros6,
cidad+os do Dstado `nico de da3ui a 12 sBculos, procurando despertar no leitor uma
repulsa por esse re)ai%amento da individualidade. =a verdade, o).etivamente, nada mais
individual 3ue a numera*+o. Dn3uanto podem e%istir mil!ares de o/es da Sun!a, e%iste
um s4 &0?G9.
D cada um dos o/es 3uer ser um indiv,duo e nen!um deles 3uer sê0lo como &0
?G9. $ssim, est8 impl,cita uma no*+o de individualidade 3ue pode ser resumida em1 n+o
e%iste 3ual3uer possi)ilidade de se #ormarem indiv,duos num meio social igualit8rio.
Wgualdade, por outro lado, B uma am)i*+o dos autores desses te%tos. Eelo menos, nen!um
deles pode ser considerado conservador como um 'o)ert Heinlein 3uem, por sinal,
sempre descreve o #uturo com isen*+o, na lin!a de 3ue a sociedade em 3ual3uer Bpoca
en#rentar8 muitos pro)lemas, mas sempre sa)er8 resolvê0los, n+o por a*/es con.untas,
mas por3ue cada Bpoca gera o !er4i a.ustado C situa*+o di#,cil. Heinlein B um ap4logo da
individualidade li)eral, do !er4i sem escrQpulos, sem 3ual3uer compromisso social, 3ue
despre-a a igualdade e a democracia @3uando se re#ere C necessidade de contratar
)rasileiros para uma de suas #irmas, o !er4i de 5O !omem 3ue vendeu a Rua6, de 1:?G,
di- a um de seus ac4litos para 3ue este encontre 5umas focas amestradas $ue falem
portugu%s e espanhol”A, mas 3ue vence sempre em nome de um o).etivo transcendente1 o
progresso da !umanidade @de#inido .ustamente por essa capacidade de #ormar !er4is
a.ustadosA.
Os autores estudados a3ui n+o s+o como Heinlein, s+o mais atentos Cs nuances
3ue mati-am a sociedade e 3uerem encontrar um e3uil,)rio entre indiv,duo e Dstado. P
isso 3ue leva autores como (urgess @1:N;A a de#inir a literatura dist4pica com literatura de
indiv,duo versus Dstado, literatura 3ue e%plora o limite da individualidade #rente a um
meio 3ue imp/e normas de organi-a*+o cada ve- mais restritivas.
Vual o limite para a atua*+o do Dstado, para a interven*+o do poder pQ)lico na
vida do indiv,duoH Eara (ellamy, o e%Brcito industrial e%igia conscri*+o de cada cidad+o
1N?
entre 21 e <? anos de idade. 5( $uem não concordar com isso6, e%plica o dr. Reete ao
maravil!ado !omem do passado, West, 5é condenado & prisão solit#ria! alimentado a pão
e #gua! até $ue consinta exerc%,lo6.
Wsso B su#icienteH Eara um autor sat,rico como erome K. erome, n+o. 5A
igualdade é imposs;vel de se oter $uando cada um se lava como $uer Buns! tr%s a
$uatro ve.es por dia! outros! nunca' Agora! todos são lavados pelo (stado6 @de 5$ nova
utopia ou o mundo no ano 9GGG6, de 1;::, citado em Versins, 1:N2, p. <M:A.
Dssa discuss+o B inerente C pr4pria !ist4ria do gênero ut4pico e, se se seguir a
de#ini*+o meio mani3ue,sta da distopia como indiv,duo contra o Dstado, seria l,cito di-er
3ue as utopias privilegiam o Dstado, en3uanto as antiutopias satiri-am @ou deploram,
con#orme o !umor da BpocaA essas interven*/es do poder pQ)lico na vida individual.
Son#orme a Bpoca, a s8tira B e%pl,cita. D a Bpoca da s8tira durou )astante1 de
$rist4#anes a "wi#t, com ecos tardios em erome K. erome e mesmo em Vonnegut. Dste
c!ega mesmo a repetir no conto 5Harrison (ergeron6 a ideia .8 e%pressa por erome MG
anos antes1 5-uando um homem ultrapassa outros em força ou porte! n:s lhe cortamos
um raço ou uma perna a fim de restaelecer o e$uil;rio6 @de 5$ nova utopia...6, de
1;::A. =o conto de Vonnegut, de 1:M1, a a*+o se desenrola em 2G;1, 3uando, depois da
212m, 219m e 21<m emendas C Sonstitui*+o norte0americana, #icou decidido 3ue todos
devem ser a)solutamente iguais. Vuem B mais inteligente 3ue a mBdia deve usar um r8dio
instalado no ouvido, 3ue emite um ru,do di#erente a cada 2G segundos. Rogo, nen!um
pensamento podia durar mais 3ue isso, pois cada estalo aturde su#icientemente o portador.
Eara o lado #,sico, pessoas mais )elas 3ue a mBdia deviam usar m8scaras, pessoas mais
velo-es ou mais #ortes, coletes de c!um)o. Slaro 3ue o po)re, )elo, #orte e inteligente
Harrison se revolta, unicamente para ser trucidado durante um s!ow de KV, sem 3ue
ninguBm dê por isso.
Ias, no sBculo 2G, o tom da s8tira mudou para o pesar das antiutopias som)rias.
Kalve- pelo argumento 3ue e%p/em autores como Ium#ord ou >rye. =unca antes a
1NM
!umanidade esteve t+o perto de poder e#etivamente reali-ar uma utopia. Ium#ord, em
5KBcnica e civili-a*+o6, vê isso com )ons ol!os1 )astaria mudar a dire*+o de algumas
coisas, mudar alguns !8)itos, para 3ue a !umanidade entrasse no para,so. >rye, menos
otimista, vê o sBculo 2G como a Bpoca em 3ue um !omem essencialmente igual a seus
irm+os do neol,tico tem nas m+os #erramentas 3ue podem destruir todo o planeta, 3ue
podem escravi-ar todos, 3ue podem comprometer irreversivelmente o #uturo. $ notar 3ue
o otimismo de Ium#ord se tempera entre 1:9<, ano da pu)lica*+o de 5KBcnica e
civili-a*+o6 e 1:M?, ano do artigo 57topia, t!e city and t!e mac!ine6. =este, o autor vê na
"egunda Guerra a prova de 3ue a ciência .8 atingiu um ponto em 3ue pode implantar, C
#or*a, uma utopia eterna no planeta. Iesmo dei%ando de lado os argumentos o)scuros do
autor, o #ato B 3ue ele, como outros, identi#ica com a "egunda Guerra um ponto de virada
com respeito C imagem pQ)lica da ciência. Kam)Bm Ziman @1::<, p. 2:A assinala 3ue o
sucesso do pro.eto Ian!attan provou ao grande pQ)lico 3ue a ciência )em organi-ada
teria poder ilimitado. Ias notemos 3ue, em termos simplesmente numBricos, n+o e%istem
mais antiutopias escritas depois da "egunda Guerra do 3ue antes dela. Iais, o gênero tem
no sentimental4ide e aleg4rico 5>a!ren!eit <?16 praticamente seu Qltimo e%emplar.
&epois disso, ele se voltaria para as antiutopias n+o0sociais.
Ias, tomando em considera*+o o #ato 4)vio de 3ue os Dstados n+o s+o outra
coisa sen+o constru*/es !umanas, o 3ue est8 em .ogo em todas as o)ras estudadas n+o B
propriamente indiv,duo contra Dstado, mas indiv,duo essencial Fcom o devido perd+o
pelo termoF contra indiv,duo greg8rio. =+o B contra alien,genas construtores de Dstados
per#eitos 3ue o !omem tem de lutar. P contra !omens como ele ou, no limite, contra a
por*+o greg8ria de si mesmo. $#inal, o !omem 3uer ser um indiv,duo ou 3uer a prote*+o
con#ort8vel de um DstadoH $ 3ue pre*oH Eara Zamyatin, o pre*o B e%ato1 toda,
literalmente, toda a li)erdade. &ado como premissa 3ue e%iste uma oposi*+o essencial
entre li)erdade e #elicidade, os #undadores do Dstado `nico tomam a Qnica alternativa a
seu ver correta1 a)dicar do rid,culo son!o de li)erdade individual.
1NN
Ias, sem apelar para esse e%tremo, onde estar8 o e3uil,)rioH Kalve- 5Nevolução
no futuro6 ten!a sido a primeira antiutopia a e%aminar com clare-a essa situa*+o. Kalve-
ten!am sido os ventos da "egunda Guerra, terminada sete anos antes de sua pu)lica*+o. O
protagonista criado por Vonnegut desco)re n+o a invia)ilidade da revolu*+o, mas a
invia)ilidade dos revolucion8rios. &epois disso, estava a)erto, na literatura, o camin!o
para as antiutopias n+o0sociais1 para !omens invi8veis, s4 mesmo a interven*+o total do
Dstado dis#ar*ada de n+o0interven*+o total do Dstado. P .ustamente nesse parado%o 3ue se
#unda a 5sociedade6 dessas utopias, 3uando 5sociedade6 passa a signi#icar simplesmente
5mais de dois respirando so)re o mesmo planeta6.
Wnteressante notar, mesmo 3ue evitemos #alar em evolu*+o de um tema, 3ue
Zamyatin era leitor de &ostoievsXi e Vonnegut, de Zamyatin. Eara &ostoievsXi, em 5Os
irm+os Karama-ov6, a #elicidade pode ser de#inida como o estado no 3ual n+o se e%igem
decis/es por parte dos indiv,duos. D tal estado B t+o agrad8vel 3ue todos entregariam de
)om grado a li)erdade para o)tê0lo. P nessa leitura 3ue est8 o germe da sociedade do
Dstado `nico, no 3ual o con#lito realmente importante B entre li)erdade e #elicidade,
resolvido pela perda total da primeira e tendo como resultado, realmente, a o)ten*+o da
Qltima.
Ias, continuando com &ostoievsXi Fdesta ve- em 5O su)solo6F o !omem B
essencialmente vil e sempre #ar8 algo para prov80lo. Iesmo 3ue se l!e dê tudo, 3ue se.am
sanados todos seus pro)lemas materiais, ele #ar8 algo #ora das previs/es ra-o8veis,
5unicamente para provar a si mesmo $ue homens são homens e não teclas de piano61
5Sesde todos os tempos! a grande preocupação do homem foi provar a si mesmo $ue ele
é um homem e não uma engrenagem6.
Dm Zamyatin, apesar de o Dstado `nico ter cortado pela rai- a simples ideia de
li)erdade pela supress+o total de 3ual3uer no*+o de indiv,duo 5em privado6, #ora do
Dstado, resta algo 3ue leva alguns desviantes a se sedu-irem pela )ar)8rie, isto B, pela
li)erdade ao pre*o da #elicidade. Dssa B a via pela 3ual camin!a o protagonista e, assim
1N;
parece, outros 5nQmeros6 em 50:s6. D a solu*+o #inal para isso B dada 3uando o Dstado
`nico divulga !aver encontrado o remBdio #inal para esses desvios1 a lo)otomia total.
Kodos devem se apresentar aos o#iciais mBdicos para 3ue l!es se.a tomada a Qltima por*+o
do corpo onde poderia se alo.ar a li)erdade. D pronto1 &0?G9 sente0se de novo em pa-.
Ou se.a, Zamyatin con#ia no !omem, con#ia .ustamente na deplor8vel
caracter,stica 3ue &ostoievsXi vê como divisor de 8guas entre !omens e autTmatos. Dste
di- 3ue o !omem sempre #ar8, mesmo dadas condi*/es per#eitas para sua vida, algo 5para
se emporcalhar6. P nisso 3ue Zamyatin con#ia. Ou se.a, escritor 3ue alerta so)re os
perigos do Dstado totalit8rio, Zamyatin vê no indiv,duo Fnos piores impulsos deste como
o 3uer &ostoievsXiF a sa,da para se escapar C automa*+o total. Dsta s4 ser8 poss,vel
3uando o Dstado destruir de#initivamente cada pessoa, como se vê no #inal de 5=4s6.
Dn3uanto !ouver !omens, e%iste salva*+o.
Vonnegut, escrevendo sua 5Nevolução no futuro6 depois da e%periência da
"egunda Guerra Iundial, vira a solu*+o de &ostoievsXi de ca)e*a para )ai%o. "im, o
!omem B vil e sempre #ar8 algo contra as e%pectativas mais ra-o8veis. Vuando os norte0
americanos do livro s+o presenteados com tudo o 3ue sempre pretenderam, o resultado B a
in#elicidade, o tBdio e a apatia gerais. 7m !omem possuidor de uma casa prB0#a)ricada,
com KV, com todos os eletrodomBsticos pens8veis etc., B triste, entediado e, 3uando pode,
p/e a casa a)ai%o com um ma*arico. =esse sentido, age contra as e%pectativas, como
a#irmava o autor de 5O susolo6. Ias nisso n+o reside 3ual3uer esperan*a, como para
Zamyatin. Vonnegut adota a premissa dostoievsXiana, mas para c!egar a outra conclus+o.
O !omem age contra as e%pectativas, destr4i o 3ue construiu, revolta0se F6emporcalha,
se6, para voltar aos termos de 5O susolo6F apenas para, no #inal, passar a agir como as
m83uinas por ele destru,das. Os oper8rios destroem tudo durante a #rustrada revolu*+o e,
logo em seguida, come*am #eli-es a #a-er o tra)al!o das m83uinas. Ou se.a, o !omem
pode se emporcal!ar para tentar provar 3ue n+o B uma tecla de piano mas, no #inal, tudo o
1N:
3ue consegue B provar apenas isso. Kalve- n+o se.a por acaso 3ue o t,tulo original de
5Nevolução no futuro6 B 59la+er piano6, ou 5A pianola6.
&e Zamyatin a Vonnegut, perde0se o valor do indiv,duo como #or*a 3ue resiste ao
Dstado, 3ue preserva a originalidade. Dle atB continua a resistir, mas n+o sa)e por3ue o
#a-. Ou sa)e, intuitivamente1 con#orme a tBcnica avan*a e l!e tira o tra)al!o ma3uinal, sua
vida se estreita, .8 3ue ele n+o sa)eria agir criativamente. Ias sua resistência, #undada em
algo t+o pouco consistente 3uanto 3uerer ser igual a uma m83uina, aca)a sempre em
derrota. Dle n+o sa)e por 3ue resiste e, certamente, tam)Bm descon!ece os motivos do
#inal sempre #rustrado de suas invectivas contra o Dstado.
$ntes de Zamyatin, note0se 3ue, em 57ma !ist4ria dos tempos #uturos6, e%istem
men*/es a indiv,duos 3ue, mesmo vivendo de acordo com todas as normas impostas pelo
Dstado, militam silenciosamente contra ele. $ #igura do cl,nico em Wells, 3ue aguarda o
momento em 3ue pessoas mais versadas em ciência possam ter vo- ativa no Dstado, B
prova disso. Wells n+o nos mostra esse !omem em a*+o, mostra0nos apenas sua lenta
prepara*+o para o #uturo. Dm todo caso, B evidente 3ue o autor con#ia na e#iciência desse
!omem e em 3ue sua a*+o no #uturo ter8 reais possi)ilidades de sucesso
Ias esse indiv,duo, esse Qltimo !omem, desaparece da, para diante. Zamyatin,
Hu%ley e Orwell n+o acreditam em sua e#iciência. &0?G9 aca)a lo)otomi-ado, (ernard
Iar% aca)a aderindo ao sistema e sendo re.eitado por ele @a pior #orma de castigoA e
Winston aca)a a)sorvido. Vonnegut vem ent+o com sua tese de 3ue a revolta #al!a por3ue
n+o e%iste nada 3ue sustente o 3ue c!amamos !umanidade. Kiradas as di#iculdades
materiais, capa-es de gerar alguma organi-a*+o, alguma revolta, o !omem #ica #ace a #ace
consigo mesmo, ou se.a, com nada. D essa conclus+o, levada ao e%tremo em 5'evolu*+o
no #uturo6, .8 estava presente em 51:;<6 3uando Winston, tomado de amor pelos
desgra*ados proles, vai a eles em )usca de con!ecimento de como era a Wnglaterra antes
de ela ter se tornado a 5'ampa de pouso n° 16, apenas para desco)rir 3ue os proles n+o
têm mem4ria, n+o têm tradi*+o, n+o têm nada a o#erecer.
1;G
=o #im de contas, os 55ltimos homens6 de 'e-ler s4 e%istem mesmo nas
antiutopias de segunda, com !er4is e com #inal #eli-. Ri @ou VuemA de 5Dste mundo
per#eito6, de Wra Revin, de 1:NG, B um Qltimo !omem, !er4i 3ue avan*a contra um Dstado
totalit8rio e, mesmo cercado de toda tenta*+o, derrota esse Dstado em nome de valores nos
3uais n4s @supostamente do passado distanteA acreditamos. @>ar,amos !o.e uma revolu*+o
em nome de ideais de <GG anos atr8sH Dssa B, s4 para constar, mais uma conven*+o das
antiutopias #utur,sticas, mais uma coisa inteiramente arti#icial na 3ual devemos acreditar
para 3ue o gênero #uncione.A
$ partir de Vonnegut, têm0se como novidade apenas as utopias n+o0sociais,
a3uelas nas 3uais a convivência, supostamente per#eita, B conseguida atravBs da imers+o
de todos em son!os indu-idos por drogas.
P )om notar 3ue pes3uisas de opini+o levadas a ca)o entre oper8rios parecem
re#or*ar a e%pectativa de Vonnegut. 7m levantamento #eito pelo Wnstituto >rancês de
Opini+o EQ)lica na dBcada de MG @citado por >ourastiB e Sourt!Bou%, 1:MN, pp. 29;029:A
mostrou 3ue, podendo escol!er entre #uturos poss,veis, M?L dos oper8rios pre#eriram
acima de tudo aumento de sal8rios, 9GL, aumento dos per,odos de 4cio e ?L n+o
opinaram. $lBm disso, com respeito C aposentadoria, a maioria pre#ere um aumento de
)ene#,cios do 3ue a redu*+o da idade0limite para se retirar do mercado de tra)al!o. $ssim,
aparentemente, os !omens, apesar do car8ter ma3uinal de seus empregos, pre#erem0nos ao
4cio. Eortanto, 3uando 3ue)ram suas m83uinas, o primeiro 3ue #a-em Fmostra Vonnegut
F B consert80las e agir de acordo com elas.
$s utopias n+o0sociais tomam as mesmas premissas de Vonnegut e as e%trapolam.
Som o desenvolvimento da tBcnica e o )arateamento da produ*+o, o 4cio, gostemos ou
n+o, ser8 o)rigat4rio. "alvar0se0+o disso meia dQ-ia de artes+os marginais e s4. &essa
#orma, surgir8 como premente a 3uest+o de como conter pessoas ociosas 3ue 3uerem
mesmo B tra)al!ar e se parecerem com m83uinas. $ solu*+o apresentada B1 vamos
encerrar todos em um mundo de son!os.
1;1
&essa #orma, o gênero 3ue come*a como estudo dos e#eitos perversos do
desenvolvimento cient,#ico e tBcnico so)re a sociedade e tenta apresentar 3uais as sa,das
para 3ue ela n+o so*o)re no 4cio ou na escravid+o termina por destruir o pro)lema de
origem. O pro)lema B como construir sociedades est8veis e dignasH 'esposta das Qltimas
utopias1 destruindo as sociedades.
$s antiutopias totalit8rias como as de Zamyatin ou Orwell criam sociedades C
custa dos indiv,duos. =inguBm @a menos dos desviantesA na OceJnia de Orwell ou no
Dstado `nico de Zamyatin nos re#lete, representa uma vis+o ra-o8vel de #uturo. Dm
Orwell, na verdade, restariam indiv,duos entre os proles, 5livres como animais6, com os
3uais o partido do Grande Wrm+o n+o se preocupa muito. Ias, se e%istem, s+o poucos1
Winston n+o nos mostra nen!um. Dm Vonnegut, restariam indiv,duos apenas entre os
desviantes mais educados. Dntre os 5reeks and 1recks6, n+o !8 esperan*a. =a classe
dirigente, e%iste um ou outro indiv,duo como Eaul Eroteus Fse B 3ueF, mas 3ue est+o
#adados ao #racasso eterno, a #a-er revolu*/es 5apenas para constar6, como di- o irTnico
Ras!er.
D nas distopias n+o0sociaisH "ociedade, essa n+o so)revive, nem para constar. D
indiv,duos imersos em son!os, atB 3ue ponto podemos c!am80los de indiv,duosH P mais
ra-o8vel di-er 3ue, eliminada a convivência, um tra*o essencial de o 3ue entendemos por
5!omem6 est8 destru,do. Os animais encerrados nos Qteros arti#iciais de Gunn ou nos
casulos acolc!oados de &rode n+o mais s+o indiv,duos. O prêmio B, em Gunn, o pra-er
eterno. Dm &rode, nem isso.
&epois de &rode, praticamente n+o e%istem antiutopias, e nen!uma das poucas
mais recentes acrescenta algo ao 3ue #oi dito a3ui1 s+o os pensamentos de Orwell, Hu%ley,
Gunn re3uentados ou ent+o mais uma tardia re#uta*+o do 5para;so cockne+6 de (ellamy
@assim c!amado com despre-o, na Bpoca, por William IorrisA.
Wsso 3uer di-er 3ue o gênero, de certa #orma, esgotou suas alternativas pelos
e%tremos. O Dstado a)soluto so)re o indiv,duo n+o #unciona como provedor de #elicidade
1;2
Fpelo menos n+o para n4s, os Qltimos !omens. O indiv,duo Fse B 3ue podemos c!am80
lo assimF a)soluto so)re tudo, encerrado em um universo particular, igualmente n+o nos
satis#a-. O meio termo poderia ser tema de um tra)al!o #iccional ut4pico ou dist4picoH
7ma tendência 3ue poderia ter escrito um tra)al!o assim teria sido o cy)erpunX,
movimento 3ue teve in,cio na dBcada de 1:;G e em William Gi)son, seu maior e%poente.
$ o)ra central de Gi)son B 5=euromancer6, no 3ual nos B apresentado um #uturo em 3ue
todas as tendências vis,veis no presente se encontram reali-adas1 as cidades s+o muito
maiores Fa numera*+o dos prBdios B cont,nua entre =ova Wor3ue e S!icagoF, a polui*+o
B maior, os ricos #ogem para casas em 4r)ita do planeta e o Dstado vai se retirando da
peri#eria, dei%ando tudo nas m+os de gangues. $ di#eren*a B 3ue nesse novo mundo Fn+o
muito distante no tempo, uns 9G, <G anosF e%iste uma rede planet8ria de troca de
in#orma*/es, uma superWnternet na 3ual, alBm de dados, todos têm representa*+o #,sica.
Ou se.a, ao lado do mundo real, e%iste um mundo virtual completo, com representa*/es de
todos os vivos e de muitos mortos, mantidos autTnomos e 5vivos6 devido C preserva*+o de
seus dados de mem4ria. O !er4i da novela, Sase, B um cow)oy do ci)erespa*o, um
aventureiro, expert em reco)rar dados perdidos, dados secretos etc. Gi)son pu)licou isso
em 1:;<, 3uando a Wnternet ainda era apenas uma modesta rede para uso de cientistas.
Ho.e, essa possi)ilidade se apro%ima cada ve- mais. $ di#eren*a, B claro, B 3ue ainda n+o
temos um ci)erespa*o movimentado como um videogame. $inda s+o redes de
computadores trocando )its e n+o am)ientes com o visual arro.ado sugerido por Gi)son
Fou pelo ris,vel #ilme 5K!e lawnmower man6, lan*ado no (rasil como 5O passageiro do
#uturo6, em 1::2.
Dm todo caso, o mundo cy)erpunX representa uma possi)ilidade interessante para
a especula*+o dist4pica. =+o seria necess8rio encerrar de#initivamente os seres !umanos
em casulos arti#iciais, pois estes têm o inconveniente, primeiro, de cortar de ve- as
possi)ilidades de contato interpessoal e, depois, de nem se3uer serem am)ientes
agrad8veis. =o ci)erespa*o, pode0se ter um alto grau de controle da realidade, pode0se
1;9
.ogar como em um videogame, s4 3ue muito mais realisticamente e, mais, B poss,vel o
contato interpessoal mediado pela rede, entre as representa*/es visuais @e t8teis, e
auditivas, e ol#ativasA de cada indiv,duo. Wsso parece distanteH 7m videogame de grande
sucesso em todo o mundo, 5&oom6, lan*ado !8 cerca de dois anos, permite 3ue duas
pessoas, cada uma ligada em seu computador, se encontrem Fe se matemF em cen8rios
em três dimens/es. Wsso est8 C venda em 3ual3uer lo.a de in#orm8tica por modestas duas
de-enas de d4lares. =+o se trata de #ic*+o #utur,stica.
bbb
H8 3uase cem anos, os ingleses desco)riram 3ual o maior inconveniente do
autom4vel1 levantar poeira nas estradas @ve.a acima, na parte 9).A. $ssim, n+o se deve
culpar os antiut4picos por terem e%trapolado as tendências mais vis,veis em sua Bpoca,
desde a economia e o 5#im da !ist4ria6 vitorianos, em Wells, atB o sucesso invasivo da
engen!aria, em Vonnegut. O 3ue isso mostra B 3ue tanto a previs+o in#ormada e
acadêmica 3uanto a e%trapola*+o liter8ria erram em comum. Vuem errar8 menosH Vuem
tiver mais sensi)ilidade para sua Bpoca, para perce)er 3uais s+o os limites te4ricos das
tendências 3ue vê atuando. =esse sentido B 3ue se deve considerar as antiutopias
#erramentas importantes de especula*+o social, desde 3ue seus autores se preocupem,
como o #i-eram alguns dos estudados a3ui, em ancorar sua narra*+o em tendências
vis,veis e dar0l!es um desenvolvimento plaus,vel. 'espeitados esses cJnones m,nimos,
eles cumprem o pro.eto wellsiano Fsempre WellsF de 3ue )oa sociologia e )oa
literatura podem, no limite, con#luir inteiramente.
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(rad)ury\s vision o# $merica in >a!ren!eit <?1. in 'a)Xin, Green)erg n Olander
@editoresA @1:;9aA.
2. -2ras l30erCr3as c30a6as
@7ma ve- 3ue nem sempre pudemos ler os originais e n+o e%istem, na maior parte
dos casos, edi*/es de re#erência, citamos apenas autor, t,tulo em português Fse e%istir
tradu*+o, se n+o, a tradu*+o B literalF t,tulo original F3uando dispon,velF e ano da
pu)lica*+o F3uando dispon,velA.
$'W"Ko>$=D"
O parlamento das mul!eres @Dcclesia-usaeA, ca. 9:2 a. S.
$"WIOV, Wsaac
Krilogia da #unda*+o @>oundation trilogyA, 1:?101:?9.
($'$VDR, 'enB
&evasta*+o @'avageA, 1:<2.
(DRR$IY, Ddward
&a3ui a cem anos @RooXing )acXwardA, 1;;;.
(D"KD', $l#red
O !omem demolido @K!e demolis!ed manA, 1:?2
Kiger, tiger, 1:??.
('$&(7'Y, 'ay
>a!ren!eit <?1, 1:?9.
(7'GD"", $nt!ony
$ laran.a mecJnica @K!e clocXworX orangeA, 1:M2.
(7KRD', "amuel
Drew!on or Over t!e range, 1;N2.
1:?
S$EDK, Karel
$ guerra das salmandras , 1:9N.
SR$'KD, $rt!ur
>im da in#Jncia @S!ild!oodZs endA, 1:?9.
2GG1, 1:M;.
2G1G, 1:;2.
&WSK, E!ilip
Os 9 estigmas de Ealmer Dldritc! @K!e 9 stigmata o# E. Dldritc!A, 1:M?.
O ca*ador de andr4ides @&o androids dream o# electric s!eepHA, 1:M;.
7)iX, 1:M:.
&O"KOWDV"KW, >iodor
=otas do su)solo, 1;M<.
Os irm+os Karama-ov, 1;N:]1;;G.
&'O&D, &aniel
$ super#,cie do planeta @"ur#ace de la planrteA, 1:?:.
D>'DIOV, Wvan
$ ne)ulosa de $ndrTmeda, 1:?N.
>R$II$'WO=, Samille
O #im do mundo @Ra #in du mondeA, 1;:9.
>O'"KD', Ddward Iorgan
$ m83uina p8ra @K!e mac!ine stopsA, 1:G:.
GW("O=, William
=euromancer, 1:;<.
G7==, ames
Os vendedores da #elicidade @K!e .oy maXersA, 1:M1.
>uturo imper#eito @>uture imper#ectA, 1:M<.
G7KKW=, ac3ues
1:M
Dp,gona, uma !ist4ria do sBculo #uturo @Dpigone, une !istoire du sircle #uturA, 1M?:
H$'(O7, K!ea Von
Ietr4polis @IetropolisA, 1:2N.
HDW=RDW=, 'o)ert Hanson
O !omem 3ue vendeu a Rua @K!e man w!o sold t!e moonA, 1:?G.
H7^RDY, $ldous
$dmir8vel mundo novo @(rave new worldA, 1:92.
O macaco e a essência @$pe and essenceA, 1:<:.
KO'=(R7KH, Syril
$ pe3uena mala preta @K!e little )lacX )agA, 1:?G.
Os mercadores do espa*o @K!e space merc!ants, com >. Eo!lA, 1:?9.
$ marc!a dos idiotas @K!e marc!ing moronsA, ca. 1:?<.
RD G7W=, 7rsula
Os despossu,dos @K!e dispossessedA, 1:N<.
RDVW=, Wra
Dste mundo per#eito @K!is per#ect dayA, 1:NG.
RO=&O=, acX
O tac+o de #erro @K!e iron !eelA, 1:GN.
I$&&D=, "amuel
Iem4rias do sBculo 2G @Iemoirs o# t!e 2Gt! centuryA, 1N99
ID'SWD', Rouis0"B)astien
O ano 2<<G @R\an 2<<GA, 1NN1.
IWRRD', r.,Walter
7m cJntico para Rei)owit- @$ canticle #or Rei)owit-A, 1:?:.
O'WDRR, George
1:;<, 1:<:.
EOHR, >rederiX
1:N
Os mercadores do espa*o @K!e space merc!ants, com S. Korn)lut!A, 1:?9.
$ praga de midas @K!e Iidas plagueA, 1:?<.
em, 1:N:.
'$=&, $yn
Hino @$nt!emA, 1:9;.
'D"KW> de la (retonne
Os p4stumos @Res post!umesA, 1;G2.
'O"=Y0$YnB, osep!0Henry
$ morte da Kerra @Ra mort de la KerreA, 1:1G.
"HDSKRDY, 'o)ert
Wmortalidade e compan!ia @Wmortality Wnc.A, 1:?:.
_mega, o planeta dos condenados @K!e status civili-ationA, 1:MG.
"HDRRDY, Iary Wollstonecra#t
>ranXenstein @>ranXenstein or t!e modern Eromet!eusA, 1;1;.
"WRVD'(D'G, 'o)ert
Iundos #ec!ados @K!e world insideA, 1:N2.
"WI$K, Sli##ord
$s cidades mortas @SityA, 1:?2.
"KDW$'K, George
"4 a Kerra permanece @Dart! a)idesA, 1:<:.
"K7'GDO=, K!eodore
$lBm do !umano @Iore t!an !umanA, 1:?9.
"WW>K, onat!an
$s viagens de Gulliver @Gulliver\s travelsA, 1N2M.
VD'=D, ules
Earis no sBculo 2G @Earis au ^^e sircleA, 1;M9.
Os ?GG mil!/es da )egum @Res ?GG millions de la )BgumA, 1;N:.
1:;
O $d+o eterno @R\eternel $damA, ca. 1:GG.
VO==DG7K, r., Kurt
'evolu*+o no #uturo @Elayer pianoA, 1:?2.
Harrison (ergeron, 1:M1.
Sama de gato @Sat\s cradleA, 1:M2.
O almo*o dos campe/es @(reaX#ast o# c!ampionsA, 1:N9.
H4cus0p4cus @Hocus0pocusA, 1::G.
WDRR", Her)ert George
$ m83uina do tempo @K!e time mac!ineA, 1;:?.
$ il!a do dr. Ioreau @K!e island o# dr. IoreauA, 1;:M.
O pa,s dos cegos @K!e country o# t!e )lindA, ca. 1;:M.
7ma lJmina ao microsc4pio @$ slip under t!e microscopeA, ca. 1;:M.
Vuando o adormecido despertar @W!en t!e sleeper waXesA, 1;:N.
7ma !ist4ria dos tempos #uturos @$ story o# t!e days to comeA, 1;::.
Os primeiros !omens na Rua @>irst men in t!e moonA, 1:G1.
O alimento dos deuses @K!e #ood o# t!e godsA, 1:G<.
Kono (ungay, 1:G:.
WYRWD, E!ilip
O princ,pio do #im @K!e end o# t!e dreamA, 1:N2.
Z$IY$KW=, Yevgeny
=4s, ca. 1:2G.
ZDR$Z=Y, 'oger
(eco dos malditos @&amnation alleyA, 1:M:.
P,NDICE
1::
>ilmes 3ue mostram o #uturo do planeta Fsem a a.uda de viagens no tempo, sem
adicionar alien,genas C a*+oF s+o relativamente poucos, talve- menos de 1GL da
produ*+o no gênero. $inda assim, apresentam uma not8vel !omogeneidade de cen8rio.
Wndependentemente de serem produ*/es caras ou #ilmes (, todos mostram 3ue o #uturo
ser8 muito pior 3ue o presente. SomoH Eolui*+o, pragas, guerra nuclear, colapso
econTmico.
Eor um lado, B l,cito supor 3ue o #uturo som)rio a.a principalmente como arti#,cio
para dar ritmo C a*+o e maior relevo ao !er4i. =esse respeito, note0se 3ue apenas duas
distopias s+o #ilmadas1 51:;<6 e 5>a!ren!eit <?16. $ primeira rece)eu duas vers/es,
sendo 3ue a de 1:?M pouco tin!a a ver com o esp,rito do livro. $ segunda tam)Bm n+o #oi
#iel ao original e, 3uem sa)e, o ten!a superado. =ovamente, mais no cinema 3ue na
literatura, a distopia B um gênero di#,cil, devido C necessidade de criar o !er4i para
disparar a a*+o e, depois, rea)sorvê0lo sem 3ue o am)iente ten!a se modi#icado
signi#icativamente.
&escontado o argumento 3uanto ao arti#,cio narrativo, o #ato B 3ue o sBculo 2G, na
mais popular das #ormas de arte @ou de entretenimentoA vê o #uturo com maus ol!os, o 3ue
re#lete o mal0estar da sociedade com rela*+o Cs d8divas e perigos reservados a ela pela
atividade de cientistas e de engen!eiros.
$ lista a)ai%o n+o pretende ser e%austiva, mas deve conter a maioria dos #ilmes
3ue mostram o #uturo produ-idos desde 1:2M atB 1::G. $s principais #ontes de consulta
#oram1
"cience #iction encyclopedia, E!il Hardy @ed.A, $urum Eress, Rondres, 1::1.
RZapocalypse nuclBaire et son cinBma, HBlrne Euisieu%, Res Bditions du Ser#, 1:;N.
Sinemania, Iicroso#t, vers+o de 1::2.
(aseline motion picture guide, "can'om Eu)lications, s]d.
1:2M
2GG
TG0/l-: Ietropolis
D3re8:-: >rit- Rang
Pr-6/8:-: Dric! Eommer @7>$A
0-res ;r35c3;a3s: (rigitte Helm, $l#red $)el, 'udol# Klein0'ogge
S35-;se: Dm #uturo n+o determinado @cerca do ano 2GGGA, Ietr4polis, a 5Sidade
I83uina6, B regida pelo megaempres8rio o!n >redersen. "eu #il!o se apai%ona por
Iaria, uma l,der religiosa oper8ria, e o casal deve superar toda uma saga para se reunir.
=o #inal, morre o cientista maluco @'otwangA, respons8vel pela constru*+o do ro)T 3ue
levou as massas C re)eli+o e ao caos, >redersen, #il!o e Iaria d+o0se as m+os e o
operariado #a- as pa-es com os dirigentes.
1:9G
TG0/l-: ust imagine
D3re8:-: &avid (utler
Pr-6/8:-: 'ay Henderson @>o%A
0-res ;r35c3;a3s: Dl (rendel, Iaureen OZ"ullivan
S35-;se: Iusical. 'apa- B enviado por um raio a 1:;G e l8 vive um caso de amor.
1:9?
TG0/l-: Kransatlantic tunnel
D3re8:-: Iaurice Dlvey
Pr-6/8:-: Gaumont
0-res ;r35c3;a3s: 'ic!ard &i%, Iadge Dvans
S35-;se: $s di#iculdades encontradas por um engen!eiro 3ue c!e#ia pro.eto, no #uturo
pr4%imo, de ligar Wnglaterra e D7$.
1:9M
2G1
TG0/l-: K!ings to come
D3re8:-: William Sameron Ien-ies
Pr-6/8:-: $le%ander Korda @Rondon >ilmsA
0-res ;r35c3;a3s: 'aymond Iassey, 'alp! 'ic!ardson, Sedric HardwicXe
S35-;se: Dverytown B uma cidade #eli- atB 3ue e%plode a guerra mundial, 3ue dura de
1:<G a 1:NG. O per,odo 1:NG02G9M B de reconstru*+o, com cen8rios e a*/es 3ue lem)ram
a desola*+o e )ar)8rie de 5Iad Ia%6. Dm 2G9M, Dverytown est8 reconstru,da, mas
tornou0se uma utopia a#luente sem imagina*+o. 'oteiro de H. G. Wells, seu Qnico tra)al!o
para o cinema.
1:?M
TG0/l-: 1:;<
D3re8:-: Iic!ael $nderson
Pr-6/8:-: =. Eeter 'atvon @Holiday >ilm EroductionsA
0-res ;r35c3;a3s: Ddmond OZ(rien, Iic!ael 'adgrave, an "terling
S35-;se: (aseado em parte em George Orwell. O #inal, no entanto, B mudado, a #im de se
con#ormar aos tempos de Guerra >ria. Dm lugar de ser 5rea)sorvido6 pelo sistema @como
no livro e na vers+o posterior, de 1:;?A, Winston e ulia s+o e%ecutados, en3uanto )radam
slogans contra o Grande Wrm+o.
1:?M
TG0/l-: World wit!out end
D3re8:-: Ddward (ernds
Pr-6/8:-: 'ic!ard Heermance @$llied $rtistsA
0-res ;r35c3;a3s: Hug! Iarlowe, =ancy Gates, 'od Kaylor
2G2
S35-;se: $stronautas, atravBs de uma do)ra temporal, v+o parar em 2G?; e encontram a
Kerra devastada por um !olocausto nuclear. Os seres !umanos restantes vivem so) a terra
e devem se de#ender de seres mutantes.
1:?;
TG0/l-: Keenage caveman
D3re8:-: 'oger Sorman
Pr-6/8:-: 'oger Sorman @Iali)u, =ic!olson 0 $rXo##A
0-res ;r35c3;a3s: 'o)ert Vaug!n, Reslie (radley, osep! Hamilton
S35-;se: Vaug!n, o #uturo agente da 7=SRD, B um !omem das cavernas cu.a tri)o
.amais atravessa uma lin!a proi)ida. ele, claro, o #a-, apenas para 3ue o espectador
descu)ra 3ue a a*+o se desenvolve no #uturo, depois do #im da @nossaA civili-a*+o.
1:M2
TG0/l-: K!e creation o# t!e !umanoids
D3re8:-: Wesley (arry
Pr-6/8:-: Genie Eroductions Wnc.
0-res ;r35c3;a3s: &on Iegowan, >rances IcSann
S35-;se: Iuito depois da Kerceira Guerra Iundial, os seres !umanos s+o 3uase todos
estBreis e andr4ides ultra0so#isticados s+o maioria nas cidades. Vem ent+o C tona o status
5!umano6 deles. 7m modesto precursor das 3uest/es levantadas em 5(lade 'unner6.
1:M<
TG0/l-: K!e last man on Dart!
D3re8:-: "idney "alXow
Pr-6/8:-: Ra 'egina
0-res ;r35c3;a3s: Vincent Erice, >ranca (ettoia
2G9
S35-;se: 7ma praga di-ima a !umanidade. Os 3ue restam, salvo o protagonista, s+o agora
vampiros. 'e#ilmado como 5K!e Omega Ian6. (aseado em novela de 'ic!ard Iat!eson.
1:M?
TG0/l-: Ra decima vittima
D3re8:-: Dlio Eetri
Pr-6/8:-: S!ampion
0-res ;r35c3;a3s: Iarcello Iastroianni, 7rsula $ndress
S35-;se: =o sBculo 21, o assassinato B legali-ado e disputas s+o transmitidas pela KV.
Iastroianni e $ndress s+o #inalistas em um desses programas.
1:MM
TG0/l-: >a!ren!eit <?1
D3re8:-: >ran*ois Kru##aut
Pr-6/8:-:Vineyard
0-res ;r35c3;a3s: OsXar Werner, ulie S!ristie, Syril SusacX
S35-;se: Dm #uturo indeterminado, o Qnico crime contra o Dstado B possuir @e lerA livros.
7m )om)eiro @na verdade, um 3ueimador de livrosA muda de lado e passa de destruidor a
leitor.
1:MM
TG0/l-: >in aoat C l\!Ttel o-one
D3re8:-: an "c!midt
Pr-6/8:-: S-ec!oslovaX $rmy
0-res ;r35c3;a3s: Ondre. aria)eX, (eta Eonicanova, Iagda "eidlerova
S35-;se: =ove mul!eres vagam pela desola*+o p4s0Kerceira Guerra Iundial em )usca de
meios para reconstruir a !umanidade.
2G<
1:MN
TG0/l-: Erivilege
D3re8:-: Eeter WatXins
Pr-6/8:-: World >ilms
0-res ;r35c3;a3s: Eaul ones, ean "!rimpton
S35-;se: Dm #uturo pr4%imo, Wgre.a e Dstado se unem e usam astro de mQsica popular
para in#luenciar e su.eitar o povo, especialmente, os .ovens.
1:M;
TG0/l-: Elanet o# t!e apes
D3re8:-: >ranXlin "c!a##ner
Pr-6/8:-: $p.ac
0-res ;r35c3;a3s: S!arlton Heston, 'oddy Ic&owall, Kim Hunter
S35-;se: $stronautas saem da Kerra e para ela voltam. &esco)rem 3ue est+o mais de um
milênio depois de uma cat8stro#e nuclear 3ue di-imou a !umanidade e dei%ou o planeta
para macacos inteligentes.
1:M:
TG0/l-: Srimes o# t!e #uture
D3re8:-: &avid Sronen)erg
Pr-6/8:-: Sronen)erg
0-res ;r35c3;a3s: 'onald Ilod-iX, on Ridolt
S35-;se: =o #uturo pr4%imo, o grosso das mul!eres #oi di-imado por um contaminante
espal!ado via cosmBticos. =a #alta delas, desenvolve0se a pedo#ilia.
1:M:
2G?
TG0/l-: K!e Gladiators
D3re8:-: Eeter WatXins
Pr-6/8:-: "andrews
0-res ;r35c3;a3s: $rt!ur Eentelow, >redericX &anner
S35-;se: =o #uturo pr4%imo, as tens/es entre pa,ses s+o resolvidas por lutas entre
gladiadores, durante os 5ogas da Ea-6.
1:NG
TG0/l-: (eneat! t!e planet o# t!e apes
D3re8:-: Ked Eost
Pr-6/8:-: $p.ac
0-res ;r35c3;a3s: ames >ranciscus, Rinda Harrison, Victor (uono
S35-;se: Erimeira se3Uência de 5O planeta dos macacos6. "eres !umanos 3ue restam
so)re o planeta cultuam a Qltima )om)a atTmica.
1:NG
TG0/l-: =o )lade o# grass
D3re8:-: Sornel Wilde
Pr-6/8:-: IGI
0-res ;r35c3;a3s: =igel &avenport, $nt!ony Iay
S35-;se: &epois 3ue um v,rus destr4i toda a agricultura da Kerra, os !omens tentam
so)reviver no caos.
1:NG
TG0/l-: KH^ 119;
D3re8:-: George Rucas
Pr-6/8:-: $merican Zoetrope
2GM
0-res ;r35c3;a3s: 'o)ert &uvall, &onald Eleasance
S35-;se: &uvall se re)ela contra o Dstado, B preso, #oge e, 3uando est8 para ser preso, a
pol,cia decide 3ue o custo])ene#,cio da captura dei%ou de valer a pena. $ssim, consegue
escapar para a super#,cie do planeta.
1:N1
TG0/l-: $ clocXworX orange
D3re8:-: "tanley Ku)ricX
Pr-6/8:-: Eolaris Eroductions
0-res ;r35c3;a3s: Ialcom Ic&owall, EatricX Iagee
S35-;se: =o #uturo pr4%imo, delin3Uente .uvenil B condicionado para a)andonar a
violência e, assim, torna0se v,tima inde#esa da sociedade violenta 3ue o engendrou. 7ma
vers+o moderna e perversa de 5SJndido6.
1:N1
TG0/l-: Glen and 'anda
D3re8:-: im Ic(ride
Pr-6/8:-: "idney Gla-ier Eroductions
0-res ;r35c3;a3s: "teven Surry, "!elley Elimpton
S35-;se: &ois adolescentes saem de seu para,so particular e cru-am uma amBrica
devastada pela guerra nuclear, em )usca da cidade de Ietr4polis. $ Qnica prova 3ue eles
têm da e%istência dessa cidade B um vel!o gi)i da Iul!er Iaravil!a.
1:N1
TG0/l-: =. E.
D3re8:-: "ilvano $gosti
Pr-6/8:-: Zeta0$0Dlle
2GN
0-res ;r35c3;a3s: >rancisco 'a)al, Wngrid K!ulin, Wrene Eapas
S35-;se: 7m magnata B raptado e so#re lavagem cere)ral antes de poder su)stituir seus
oper8rios por m83uinas. &esmemoriado e .ogado entre os oper8rios, eventualmente torna0
se l,der destes.
1:N1
TG0/l-: K!e Omega man
D3re8:-: (oris "agal
Pr-6/8:-: Walter "elt-er Eroductions
0-res ;r35c3;a3s: S!arlton Heston, $nt!ony Zer)e, 'osalind Sas!
S35-;se: 'e#ilmagem de 5O Qltimo !omem so)re a Kerra6. Dm 1:N?, anos depois de a
!umanidade ter sido di-imada por uma praga, um !omem tenta se manter vivo e eliminar
os seres !umanos 3ue se trans#ormaram em vampiros.
1:N1
TG0/l-: Eunis!ment parX
D3re8:-: Eeter WatXins
Pr-6/8:-: S!artwell >ilms
0-res ;r35c3;a3s: Sarmen $rgen-iano, "tan $rmsted
S35-;se: Os D7$ criam campos de concentra*+o para deter 3uem se op/e C guerra com o
Vietn+. 7m grupo de detentos pre#ere tentar o 5punis!ment parX6 de três dias, em lugar de
#icar preso por três anos.
1:N1
TG0/l-: Zero population growt!
D3re8:-: Iic!ael Sampus
Pr-6/8:-: "agittarius
2G;
0-res ;r35c3;a3s: Oliver 'eed, Geraldine S!aplin
S35-;se: &evido C superpopula*+o e C polui*+o am)iental e%trema, o Dstado resolve 3ue
ninguBm poder8 ter #il!os por 9G anos. 7m casal resolve desa#iar tal permiss+o.
1:N9
TG0/l-: "oylent green
D3re8:-: 'ic!ard >leisc!er
Pr-6/8:-: IGI
0-res ;r35c3;a3s: S!arlton Heston, Ddward G. 'o)inson
S35-;se: =a =ova Wor3ue de 2G2G, um policial @HestonA desco)re 3ue, esgotados os
recursos am)ientais, o povo est8 sendo alimentado com )iscoitos #eitos a partir de
cad8veres !umanos.
1:N9
TG0/l-: "leeper
D3re8:-: Woody $llen
Pr-6/8:-: 'ollins0o##e
0-res ;r35c3;a3s: Woody $llen, &iane Keaton
S35-;se: &ono de restaurante naturalista B reanimado no sBculo 22 e desco)re 3ue a Kerra
B dominada por um Grande Wrm+o. O protagonista resolve integrar a resistência C tirania.
1:N9
TG0/l-: Zardo-
D3re8:-: o!n (oorman
Pr-6/8:-: o!n (oorman0>o%
0-res ;r35c3;a3s: "ean Sonnery, S!arlotte 'ampling
2G:
S35-;se: Dm 22:9, o mundo est8 dividido entre a )ar)8rie e os redutos civili-ados
constitu,dos pelos v8rios Vorte%. Ias tais redutos s+o um mar de tBdio e a ideia B dei%ar
3ue os )8r)aros os invadam a #im de reconstituir uma !umanidade com vontade de viver.
1:N<
TG0/l-: &amnantion alley
D3re8:-: acX "mig!t
Pr-6/8:-: Randers0'o)erts0Zeitman0>o%
0-res ;r35c3;a3s: George Eeppard, an0Iic!ael Vincent, &omini3ue "anda
S35-;se: $ventureiros cru-am os D7$ devastados por guerra nuclear a #im de levar
au%,lio a uma cidade atacada por uma praga. =o camin!o, encontram so)reviventes,
mutantes etc. (aseado em novela de 'oger Zela-ny.
1:N?
TG0/l-: $ )oy and !is dog
D3re8:-: R. V. ones
Pr-6/8:-: K!ird RV Wnc0$> Eroductions
0-res ;r35c3;a3s: &on o!nson, "usanne (enton, ason 'o)ards
S35-;se: D%cepcional adapta*+o da novela de Harlan Dllison. 7m garoto e seu c+o
telepata @(loodA cru-am a $mBrica devastada, isso em 2G2<, e encontram so)reviventes
5civili-ados6 no su)solo. O garoto B raptado a #im de ser usado como reprodutor, pois
todos no su)solo s+o estBreis. Sonsegue #ugir e, entre a garota do su)solo 3ue #oge com
ele e seu c+o, aca)a optando pelo Qltimo e l!e d8 a garota como alimento.
1:N?
TG0/l-: &eat! race 2GGG
D3re8:-: Eaul (artel
21G
Pr-6/8:-: =ew World
0-res ;r35c3;a3s: &avid Sarradine, "ylvester "tallone
S35-;se: =o ano 2GGG, o governo ditatorial promove um circo para o povo, com corridas
de carros na 3ual os competidores gan!am pontos ao passar por cima de pedestres. =o
#im, em rede nacional de KV, Sarradine dep/e o presidente e coloca #im C )ar)8rie.
1:N?
TG0/l-: K!e last days o# man on Dart!
D3re8:-: 'o)ert >uest
Pr-6/8:-: Goodtimes Dnterprises
0-res ;r35c3;a3s: on >inc!, enny 'unacree, "terling Hayden
S35-;se: Dm #uturo incerto, cientista tenta resolver o pro)lema da guerra e da #ome 3ue
assolam a !umanidade, mas tudo o 3ue consegue #a-er B gerar um monstro.
1:N?
TG0/l-: 'oller)all
D3re8:-: =orman ewison
Pr-6/8:-: 7nited $rtists
0-res ;r35c3;a3s: ames Saan, o!n Houseman, 'alp! 'ic!ardson
S35-;se: O ano B 2G1;. Eara divertir as massas, megacorpora*/es #uturas @3ue
su)stitu,ram os governosA promovem .ogos parecidos com !43uei, nos 3uais os .ogadores
podem c!egar a morrer. Saan B t+o )om no assunto 3ue precisa ser a#astado a #im de 3ue o
circo possa continuar.
1:N?
TG0/l-: K!e ultimate warrior
D3re8:-: 'o)ert Slouse
211
Pr-6/8:-: Warner (rot!ers
0-res ;r35c3;a3s: Yul (rinner, Ia% von "ydow
S35-;se: Dm 2G12, a !umanidade morre de #ome e o )otJnico interpretado por von "ydow
desenvolve uma semente apta a so)reviver na Kerra devastada. (rinner B o aventureiro
3ue aparece para garantir a so)revivência das #or*as do )em.
1:NM
TG0/l-: Rogan\s 'un
D3re8:-: Iic!ael $nderson
Pr-6/8:-: IGI
0-res ;r35c3;a3s: Iic!ael YorX, enny $gutter, Eeter 7stinov
S35-;se: Dm 22N<, todos vivem )em atB os 9G anos, 3uando ent+o s+o mortos em um
ritual pQ)lico. YorX B um 5runner6, re)elde 3ue a.uda os de 9G anos a escaparem de seu
destino #atal.
1:NM
TG0/l-: 'oller)a)ies
D3re8:-: Sarter "tevens
Pr-6/8:-: Slassic
0-res ;r35c3;a3s: 'o)ert 'andom, "u-anne Ic(ain
S35-;se: Eara sanar o pro)lema da superpopula*+o, s4 pessoas licenciadas podem #a-er
se%o, na KV, para entreter a audiência. 7m produtor C )eira da #alência inventa um
programa onde s+o mostradas orgias por concurso.
1:N:
TG0/l-: Vuintet
D3re8:-: 'o)ert $ltman
212
Pr-6/8:-: RionZs Gate >ilms0>o%
0-res ;r35c3;a3s: Eaul =ewman, Vittorio Gasman, (i)i $ndersson
S35-;se: &epois de um !olocausto nuclear, a Kerra atravessa uma nova idade do gelo. $
maior parte das pessoas B estBril, menos a mul!er de Eaul =ewman. Dles c!egam a uma
cidade onde todos se entretêm .ogando Vuinteto, um .ogo misterioso e mortal.
1:N:
TG0/l-: K!e 'avagers
D3re8:-: 'ic!ard Sompton
Pr-6/8:-: Sol Eroductions
0-res ;r35c3;a3s: 'ic!ard Harris, $rt Sarney
S35-;se: Harris B o aventureiro cu.a esposa #oi morta por gangue de motociclistas, 3ue
arma sua vingan*a eliminando0os e a.udando o 3ue resta da !umanidade a reconstruir a
civili-a*+o. O cen8rio B o p4s0!olocausto nuclear, em 1::1.
1:N:
TG0/l-: K!e s!ape o# t!ings to come
D3re8:-: George IcGowan
Pr-6/8:-: William &avidson @S>WA
0-res ;r35c3;a3s: acX Ealance, Sarol Rinley, o!n Wreland
S35-;se: 'emaXe incerto do cl8ssico de Korda. acX Ealance B o ditador da Rua, 3ue
pretende Fe aca)a #rustradoF con3uistar a Kerra.
1:;G
TG0/l-: &eat!watc!
D3re8:-: (ertrand Kavernier
Pr-6/8:-: "elta0Gaumont
219
0-res ;r35c3;a3s: 'omy "c!neider, Harvey Keitel, Harry &ean "tanton
S35-;se: "tanton B um produtor de KV inescrupuloso 3ue contrata Keitel para 3ue este
acompan!e a morte lenta de "c!neider. Keitel tem uma cJmara implantada na ca)e*a e as
imagens captadas s+o transmitidas para uma esta*+o de KV, editadas e divulgadas como
divers+o.
1:;1
TG0/l-: >ire)ird 0 2G1? $&
D3re8:-: &avid 'o)ertson
Pr-6/8:-: Iara Eroductions
0-res ;r35c3;a3s: &arren IcGavin, &oug IcSlure
S35-;se: Dm #uturo pr4%imo, ninguBm pode ter carros, dada a escasse- de gasolina.
Sarros particulares s+o, portanto, destru,dos. 7m destruidor de carros passa da conta e
come*a a matar.
1:;1
TG0/l-: K!e last c!ase
D3re8:-: Iartin (urXe
Pr-6/8:-: Srown
0-res ;r35c3;a3s: Ree Ia.ors, (urgess Ieredit!
S35-;se: Dm #uturo pr4%imo, autom4veis s+o )anidos por um governo ditatorial, dada a
escasse- de gasolina. Ia.ors reconstr4i seu Eorsc!e e tenta c!egar C Sali#4rnia, sendo o
tempo todo perseguido por Ieredit!.
1:;1
TG0/l-: Iad Ia% 2
D3re8:-: George Iiller
21<
Pr-6/8:-: Kennedy Iiller Dntertainment
0-res ;r35c3;a3s: Iel Gi)son, Vernon Wells
S35-;se: &epois da Kerceira Guerra Iundial, petr4leo vale mais 3ue ouro. Gi)son B o
aventureiro 3ue resolve a.udar o 3ue resta da civili-a*+o, constantemente amea*ada por
gangues motori-adas.
1:;1
TG0/l-: Ialevil
D3re8:-: S!ristian de S!alonge
Pr-6/8:-: =D> &i##usion0Kelecip
0-res ;r35c3;a3s: Iic!el "errault, ean0Rouis Krintignant
S35-;se: "o)reviventes ao !olocausto nuclear reconstroem sua vida no interior da >ran*a.
Vuando os pro)lemas iniciais come*am a se resolver, aparecem emiss8rios de um novo
governo, estilo 51:;<6. "4 três conseguem escapar dos emiss8rios, entre eles, uma mul!er
gr8vida.
1:;2
TG0/l-: (lade 'unner
D3re8:-: 'idley "cott
Pr-6/8:-: Warner (rot!ers
0-res ;r35c3;a3s: Harrison >ord, "ean Young, 'utger Hauer
S35-;se: Eolicial noir encenado em Ros $ngeles, em 2G1:. D%0policial ca*a andr4ides
#ugidos de colTnias espaciais e termina se envolvendo com uma andr4ide. (aseado em
novela de E!ilip &icX, 3ue morreu no ano de lan*amento do #ilme.
1:;2
TG0/l-: Re dernier com)at
21?
D3re8:-: Ruc (esson
Pr-6/8:-: Roup
0-res ;r35c3;a3s: Eierre olivet, ean (ouise
S35-;se: =a Earis devastada do #uturo, todos perderam a vo-. olivet tenta reco)rar a sua,
en3uanto constr4i para si uma m83uina voadora.
1:;2
TG0/l-: Iega#orce
D3re8:-: Hal =eed!am
Pr-6/8:-: Golden Harvest
0-res ;r35c3;a3s: (arry (ostwicX, Eersis K!am)atta
S35-;se: Eancadaria p4s0!olocausto nuclear. Vilare.o com o 3ue resta da civili-a*+o luta
contra a invas+o de um novo Dstado opressor.
1:;2
TG0/l-: Earasite
D3re8:-: S!arles (and
Pr-6/8:-: S!arles (and
0-res ;r35c3;a3s: 'o)er Glaudini, &emi Ioore
S35-;se: Dm cen8rio p4s0!olocausto, cientista constr4i monstro capa- de comer as
pessoas por dentro. Dm 9&.
1:;9
TG0/l-: (orn in #lames
D3re8:-: Ri--ie (orden
Pr-6/8:-: Ri--ie (orden0Young >ilm IaXers
0-res ;r35c3;a3s: Honey, $dele (ertei
21M
S35-;se: >ic*+o #utur,stica #eminista. Grupo de mul!eres se re)ela contra Dstado opressor
dominado pelo 5Eartido6.
1:;9
TG0/l-: K!e e%terminators o# t!e year 9GGG
D3re8:-: ules Harrison
Pr-6/8:-: 2K0Glo)e
0-res ;r35c3;a3s: 'o)ert annuci, $licia Ioro
S35-;se: Slone de Iad Ia% 2. $ di#eren*a B 3ue o supremo )em, no #uturo, n+o B
petr4leo, mas 8gua n+o contaminada.
1:;9
TG0/l-: W nuovi )ar)ari
D3re8:-: Dn-o Sastellari
Pr-6/8:-: &ea# >ilm Wnternational
0-res ;r35c3;a3s: Kimot!y (ent, George Dastman
S35-;se: Dm cen8rio p4s0!olocausto, dois aventureiros lutam contra gangues de
moto3ueiros gays.
1:;9
TG0/l-: "tryXer
D3re8:-: Sirio "antiago
Pr-6/8:-: HSW Wnternational Eictures
0-res ;r35c3;a3s: "teve "andor, $ndria "avio
S35-;se: Iais um clone de Iad Ia% 2, desta ve- #ilipino. $ pancadaria revolve em torno
da posse de 8gua pura.
21N
1:;9
TG0/l-: KaXing tiger mountain
D3re8:-: Kom HucXa)ee, Kent "mit!
Pr-6/8:-: K!e Elayers S!ess Slu)
0-res ;r35c3;a3s: (arry Wooller, udy S!urc!, Rou Iontgomery
S35-;se: Dm um mundo p4s0!olocausto nuclear, um grupo de mul!eres #a- uma lavagem
cere)ral em um su.eito e o despac!a para Gales, com a miss+o de matar o c!e#e de uma
3uadril!a de tra#icantes de escravas.
1:;9
TG0/l-: 2G1:, dopo la caduta di =ew YorX
D3re8:-: "ergio Iartino
Pr-6/8:-: =uova &ania Sinematogra#ica0Wmpe% >ilms
0-res ;r35c3;a3s: Iic!ael "opXiw, Valentine Ionnier
S35-;se: &epois do !olocausto, presidente da Son#edera*+o Eanamericana destaca
aventureiro para 3ue este encontre a Qltima mul!er #Brtil da Kerra.
1:;<
TG0/l-: &e#Son <
D3re8:-: Eaul &onovan
Pr-6/8:-: =ew World
0-res ;r35c3;a3s: Reone Zann, Kate Rync!
S35-;se: Vuando volta de uma viagem or)ital, astronauta encontra a Kerra devastada e
gangues lutando entre si.
1:;<
TG0/l-: 1:;<
21;
D3re8:-: Iic!ael 'ad#ord
Pr-6/8:-: 7m)rella0'ose)lum0Virgin >ilms
0-res ;r35c3;a3s: o!n Hurt, 'ic!ard (urton
S35-;se: (aseado na novela de George Orwell, so)re Dstado #utur,stico ultra0opressor.
1:;<
TG0/l-: 'unaway
D3re8:-: Iic!ael Sric!ton
Pr-6/8:-: Kri0"tar
0-res ;r35c3;a3s: Kom "ellecX, Gene "immons
S35-;se: Eolicial no #uturo pr4%imo B especiali-ado na ca*a e destrui*+o de ro)Ts
de#eituosos.
1:;?
TG0/l-: (ra-il
D3re8:-: Kerry Gilliam
Pr-6/8:-: (ra-il Eroductions @Kerry GilliamA
0-res ;r35c3;a3s: onat!an Eryce, 'o)ert &e =iro, Iic!ael Ealin
S35-;se: 7ma espBcie de 51:;<6 irTnico. Dstado ditatorial do #uturo B mantido por
)urocratas ins,pidos e 3uase inconscientes. Ealin B um torturador @a)solutamente
)urocr8ticoA e Eryce, um #uncion8rio pQ)lico sem importJncia 3ue passa a con!ecer o
mundo 3uando resolve consertar um ero cometido pelo computador @devido a uma mosca
esmagada, um nome #oi digitado erroneamente e a pessoa, morta durante uma sess+o legal
de torturaA.
1:;?
TG0/l-: Sity limits
21:
D3re8:-: $aron Ripstadt
Pr-6/8:-: "HO
0-res ;r35c3;a3s: o!n "tocXwell, 'ae &awn S!ong
S35-;se: =o #uturo pr4%imo, praga mata todos os adultos. Srian*as e adolescentes
dividem0se em gangues.
1:;?
TG0/l-: >uture Kill
D3re8:-: 'onald Ioore
Pr-6/8:-: Greg 7nter)erger, o!n (est @Iagic "!adowsA
0-res ;r35c3;a3s: Ddwin =eal, Iarilyn (urns
S35-;se: Dm #uturo p4s0!olocausto n+o de#inido, punXs a#etados pela radia*+o
remanescente perseguem o 3ue resta de seres !umanos decentes.
1:;?
TG0/l-: Iad Ia% )eyond t!e t!underdome
D3re8:-: George Iiller
Pr-6/8:-: Kennedy0Iiller Eroductions
0-res ;r35c3;a3s: Iel Gi)son, Kina Kurner
S35-;se: Gi)son B o mesmo aventureiro de Iad Ia% 2. $gora, c!ega C cidade de
(artertown, 3ue e%empli#ica o 3ue so)ro da civili-a*+o depois da guerra nuclear.
1:;?
TG0/l-: Osa
D3re8:-: Oleg Dgorov
Pr-6/8:-: Sonstantin $le%androv
0-res ;r35c3;a3s: Kelly Rync!, &aniel Grimm
22G
S35-;se: &epois do !olocausto nuclear, 8gua B um )em precioso. EunXs encoura*ados
detBm o poder so)re a 8gua e Kelly Rync! deve lutar contra eles.
1:;?
TG0/l-: Krou)le in mind
D3re8:-: $lan 'udolp!
Pr-6/8:-: 'ain city0Wsland $live
0-res ;r35c3;a3s: Keit! Sarradine, &ivine, Rori "inger
S35-;se: =o #uturo pr4%imo, os D7$ est+o su.eitos a um governo aparentemente
ditatorial. Os personagens vagam sem rumo, com Sarradine escorregando para o crime.
1:;?
TG0/l-: 2G2G 0 Ke%as gladiators
D3re8:-: Kevin Iancuso
Pr-6/8:-: DureXa
0-res ;r35c3;a3s: Harrison Iuller, $l Sliver
S35-;se: Iais um clone de Iad Ia% 2, com moto3ueiros maus e aventureiros )ons
lutando em torno de 8gua.
1:;M
TG0/l-: &ead0end drive0in
D3re8:-: (rian Krenc!ard0"mit!
Pr-6/8:-: "pringvale0=ew "out! Wales
0-res ;r35c3;a3s: =ed Ianning, =atalie IcSurrie
S35-;se: &epois de colapso da economia, em 1::G, a $ustr8lia se trans#orma em palco de
crime, guerras entre gangues etc.
221
1:;M
TG0/l-: K!e #inal e%ecutioner
D3re8:-: 'omolo Guerrieri
Pr-6/8:-: Wmmagine
0-res ;r35c3;a3s: William Iang, Sarina Sosta
S35-;se: &epois do !olocausto nuclear, os so)reviventes s+os constituem os
5privilegiados6, en3uanto os lesados s+o usados como ca*a de divers+o.
1:;M
TG0/l-: 'adioactive dreams
D3re8:-: $l)ert Eyun
Pr-6/8:-: WKI
0-res ;r35c3;a3s: o!n "tocXwell, Iic!ael &udiXo##
S35-;se: &ois garotos s+o encerrados em um a)rigo em 1::M, logo antes de uma guerra
nuclear total. Vuando saem de l8, .8 B 2G1G e o mundo est8 devastado.
1:;M
TG0/l-: Kerminus
D3re8:-: Eierre William Glenn
Pr-6/8:-: S$K Eroductions0S(R >ilmproduXtion
0-res ;r35c3;a3s: o!nny Halliday, Karen $llen
S35-;se: Iais um #ilme so)re corridas de carros @mortaisA situado no p4s0!olocausto
nuclear.
1:;N
TG0/l-: Hell comes to >rogtown
D3re8:-: &onald acXson
222
Pr-6/8:-: =ew World
0-res ;r35c3;a3s: 'oddy Eiper, 'ory Sal!oun
S35-;se: Eiper B um dos Qltimos !omens #Brteis dos D7$, depois do !olocausto nuclear.
O pa,s B dominado por mul!eres e n+o #altam mutantes 3ue se parecem com sapos. $
miss+o de Eiper B raptar e engravidar o 3ue resta de mul!eres #Brteis.
1:;N
TG0/l-: 'o)ocop
D3re8:-: Eaul Ver!oeven
Pr-6/8:-: Orion
0-res ;r35c3;a3s: Eeter Weller, =ancy $llen, 'onny So%
S35-;se: Weller B um policial cu.o corpo B trans#ormado em um ro)T0policial. O cen8rio
B &etroit em #uturo pr4%imo. Os D7$ s+o uma democracia de #ac!ada, dominados
inteiramente pela OSE @Omni Sonsumer EroductsA.
1:;N
TG0/l-: K!e running man
D3re8:-: Eaul Iic!ael Gleser
Pr-6/8:-: Ka#t0(aris!
0-res ;r35c3;a3s: $rnold "c!war-enegger, Yap!et Kotto
S35-;se: "!ow de KV no #uturo usa condenados como novos gladiadores. $rnie B o !er4i
3ue vai tentar, durante o s!ow, sa)otar o cerne do sistema.
1:;N
TG0/l-: "teel dawn
D3re8:-: Rance Hool
Pr-6/8:-:
229
0-res ;r35c3;a3s: EatricX "way-e, Risa =iemi, (rion ones
S35-;se: 'e#ilmagem de 5"!ane6, com "way-e de#endendo a )ela viQva =iemi de vil/es
interessados no mais valioso )em do #uturo1 8gua.
1:;N
TG0/l-: World gone wild
D3re8:-: Ree Kat-in
Pr-6/8:-: $pollo
0-res ;r35c3;a3s: (ruce &ern, Iic!ael EarB
S35-;se: Slone de Iad Ia% 2, com &ern lutando, em 2G;N, contra seita religiosa violenta
3ue atenta contra o 3ue resta da civili-a*+o.
1:;;
TG0/l-: S!erry 2GGG
D3re8:-: "teve de arnatt
Pr-6/8:-: Orion
0-res ;r35c3;a3s: Ielanie Gri##it!, (en o!nson
S35-;se: Ielanie Gri##it! B a aventureira 3ue, em 2G1N, a.uda um !omem a recuperar um
modelo de S!erry 2GGG, uma andr4ide #a)ricada especialmente para pra-er masculino. =o
camin!o, ele desco)re 3ue mul!eres de verdade s+o mais interessantes.
1:;;
TG0/l-: Srime -one
D3re8:-: Ruis Rlosa
Pr-6/8:-: =ew Hori-ons
0-res ;r35c3;a3s: &avid Sarradine, "!erilyn >enn
22<
S35-;se: Dm #uturo indeterminado, dois Dstados, "oleil e >roidan, est+o continuamente
em guerra. >enn B uma prostitua 3ue 3uer #ugir para a @supostaA li)erdade em "oleil.
1:;:
TG0/l-: 'o)ot.o%
D3re8:-: "tuart Gordon
Pr-6/8:-: Dmpire
0-res ;r35c3;a3s: Gary Gra!am, $nne Iarie o!nson
S35-;se: &isputas entre pa,ses s+o decididas entre gladiadores, em s!ows de KV. Os
gladiadores s+o 5trans#ormers6 gigantescos.
1:;:
TG0/l-: "lipstream
D3re8:-: "tep!en Ris)erger
Pr-6/8:-: Dntertainment >ilm Eroductions
0-res ;r35c3;a3s: IarX Hamill, (o) EecX
S35-;se: &epois do !olocausto, a Kerra est8 entregue C )ar)8rie. EecX B um andr4ide com
caracter,sticas messiJnicas.
1::G
TG0/l-: Sircuitry man
D3re8:-: "teven Rovy
Pr-6/8:-: W'"
0-res ;r35c3;a3s: im Iet-ler, &ana W!eeler0=ic!olson
S35-;se: &estru,da a super#,cie devido C e%plora*+o incontrolada do meio am)iente, as
cidades s+o agora su)terrJneas.
22?
1::G
TG0/l-: Sras! and )urn
D3re8:-: S!arles (and
Pr-6/8:-: >ull Ioon Eictures
0-res ;r35c3;a3s: Eaul Ganus, Iegan Ward
S35-;se: Dm #uturo pr4%imo, depois de devasta*+o @nuclearHA, os D7$ s+o dominados
por uma megaempresa, a 7nicom, 3ue despac!a autTmatos para matarem mem)ros da
resistência.
1::G
TG0/l-: Hardware
D3re8:-: 'ic!ard "tanley
Pr-6/8:-: WicXed >ilms
0-res ;r35c3;a3s: &ylan Ic&ermott, o!n Rync!
S35-;se: Dm #uturo distante e som)rio, aventureiro encontra os peda*os de um vel!o
ro)T. Vuando ele B reconstru,do, todos veem 3ue B um IarX 19, uma m83uina assassina,
usada nos e%Brcitos do passado.
1::G
TG0/l-: Iegaville
D3re8:-: Eeter Re!ner
Pr-6/8:-: W!ite =oise
0-res ;r35c3;a3s: (illy Zane, . S. Vuinn
S35-;se: =o #uturo pr4%imo, os D7$ est+o divididos em prov,ncias independentes, a
maior parte delas puritanas. O protagonista procura por uma m83uina 3ue permite Cs
pessoas viver as e%periências e mem4rias de outras.
22M
1::G
TG0/l-: 'o)ocop 2
D3re8:-: Wrvin Kers!ner
Pr-6/8:-: Orion
0-res ;r35c3;a3s: Eeter Weller, =ancy $llen
S35-;se: D%tens+o do original de três anos antes, com Weller lutando contra gangue de
tra#icantes.
1::G
TG0/l-: Kime troopers
D3re8:-: Eeter "amann, R. D. =eiman
Pr-6/8:-: Heritage0$ustrian KV
0-res ;r35c3;a3s: $l)ert >ortell, Hannelore Dlsner
S35-;se: &ada a escasse- de tudo, as pessoas têm uma espBcie de cart+o de crBdito 3ue
determina o tempo de vida. 7sado com cuidado, pode durar. Eara os gast/es, a morte B o
destino, se.a por suic,dio, se.a pelas m+os de um assassino pago pelo Dstado.
1::G
TG0/l-: Kotal 'ecall
D3re8:-: Eaul Ver!oeven
Pr-6/8:-: Sarolco
0-res ;r35c3;a3s: $rnold "c!war-enegger, 'ac!el Kicotin, "!aron "tone
S35-;se: $rnie B o oper8rio 3ue compra mem4rias da #irma Kotal 'ecall, mem4rias de um
agente secreto. Eor conta disso, vive uma aventura na 3ual vai para Iarte, .unta0se a
revolucion8rios e devolve atmos#era ao planeta.
1::1
22N
TG0/l-: >utureXicX
D3re8:-: &amian Klaus
Pr-6/8:-: Soncorde @'oger SormanA
0-res ;r35c3;a3s: &on Wilson, Ieg >oster
S35-;se: Dstado totalit8rio do #uturo estende seu poder pelo uso de andr4ides. 7ma ve-
esta)ili-ado o sistema, os andr4ides come*am a ser desativados. 7m deles se re)ela.