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1/6/2014 drops 071.

09 ensino: A cidade como ponto de partida para o projeto de arquitetura | vitruvius
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071.09 ensino ano 14, ago. 2013
A cidade como ponto de partida para o projeto de
arquitetura
Experiência da disciplina de projeto de arquitetura no morro do Jaburu
(Vitória-ES)
Lutero Proscholdt Almeida, Eloisa Guedes Caetano, Juliana Pimentel Freitas,
Daiani Rodrigues Lavino, Jéssica Marinho Sartório, Raiza Barcellos Claudio
e Carla Roberta Malheiros Soares
A trajetória do aluno de arquitetura e
urbanismo, assim como todas as
profissões, é um espelho do lado de fora
da faculdade. Entra-se no curso para
espelhar o lado de fora, replicar a
imagem de arquiteto bem sucedido,
portador da técnica e arte necessária
para erguer edifícios que são símbolos
de uma sociedade baseada em preceitos
progressistas, capitalistas e
imagéticos. Essa imagem arquitetônica de
arranha-céus com cortina de vidros
domina um ideário não só de alunos, mas
de uma sociedade, que alia essa imagem a
um status de “sucesso”. Tal situação
institui um vício difícil de ser
desmanchado, pois a cidade não se
constitui dessa natureza, e não é
preciso ir longe para confirmar esta
Bairro Jaburu, Vitória-ES [acervo Lutero Pröscholdt Almeida]
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situação, andando pelas ruas veem-se
locais de morte e vida, barulho e
silêncio, limpeza e sujeira, pobreza e
riqueza, tudo que é da própria natureza
da cidade, locais de conflito e
diversidade.
O ensino da arquitetura e urbanismo é
pautado no projeto como a medida da
arquitetura. Esta situação criou vícios
de ensino, pois ele conteve o
desbravamento da cidade e possíveis
quebras desses limites, não se
vinculando a outras escalas como a
cidade em uma escala maior ou o design
em uma escala menor. O projeto de
arquitetura na maioria das vezes é
concebido e pensado em um ponto de vista
deslocado da cidade, ele pode se
restringir a um arranjo funcional,
formal ou estrutural, que, por fim,
assume esse deslocamento da cidade como
sendo apenas uma propriedade particular,
uma célula da cidade ou uma escultura
urbana. Tal deslocamento, ao longo
tempo, conduziu o ensino e a prática
para uma experiência enclausurada no
ambiente do escritório e na sala de
aula, costume, que, por sua vez, mascara
a realidade urbana se tornando um grande
problema por constituir na profissão uma
subjetividade própria, de espetáculo, de
revistas, de estilos paradigmáticos e
dos grandes mestres de arquitetura. A
grande desvantagem desse modelo é que
ele distancia a arquitetura de quem
realmente importa, ou seja, os seus
viventes, e também expõe os alunos de
arquitetura e urbanismo a um modelo
irreal e insustentável (1).
Em uma disciplina de projeto de
arquitetura ministrada na Universidade
Federal do Espírito Santo (2013) tentou-
se chegar mais perto desse modelo, ainda
obscuro, que aproxima a arquitetura do
urbanismo. O projeto foi uma solicitação
da Associação de Moradores do Bairro
Jaburu (Vitória-ES) junto com a ONG
Ateliê de Ideias e o Célula (Escritório
Modelo de Arquitetura e Urbanismo da
UFES) para a construção de uma central
de compras no bairro, visto que o
comércio local estava perdendo mercado
para as grandes redes de supermercado.
Segundo os próprios alunos o processo
ocorreu da seguinte forma:
Ao chegar ao morro do Jaburu, a
nossa primeira impressão foi de
um local de “não arquitetura”.
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Isso se deve ao fato da condição
financeira dos moradores não
permitir o consumo da arquitetura
“profissional”, contudo isso não
quer dizer que as construções
realizadas pelas mãos dos
próprios moradores – de acordo
com as suas necessidades – não
seja arquitetura. Durante a
visita ao terreno fomos
questionados pelos moradores o
que seria construído ali, e após
a nossa resposta eles ficavam
empolgados, pois viam isso como
uma melhoria para o bairro.
Após perceber a realidade
presente no bairro e a sentir tal
reação dos moradores, procuramos
saber mais das suas necessidades
para adequar ao nosso projeto, o
que acabou se tornando
gratificante e nos trouxe
experiências de como projetar de
acordo com a realidade de cada
pessoa. O tema proposto foi além
de se pensar uma solução
arquitetônica para uma situação
hipotética. Essas experiências
levaram a uma revisão sobre qual
seria o papel do arquiteto dentro
da sociedade como um todo. Os
projetos desenvolvidos são mais
do que uma arquitetura que foge
dos padrões, eles são voltados
para um perfil de usuário que
também foge dos padrões, ou seja,
não são para pessoas de classe
média ou alta, mas para a classe
social baixa que representa a
maior parte dos brasileiros.
O processo projetual teve como
ponto de partida a real
necessidade de se construir uma
distribuidora/central de compras
integrada a um Telecentro para a
comunidade do bairro Jaburu.
Visando à funcionalidade e à
adequação aos diversos usos, bem
como à questão da acessibilidade
e às principais necessidades
locais, tal edificação de ideia
social deveria configurar-se não
condicionada a modelos pré-
existentes. Uma visita feita ao
local contribuiu para isso, visto
que possibilitou – ainda que
minimamente – uma percepção do
dia a dia dos moradores. Desta
forma, seria possível realizar
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uma arquitetura familiar,
referencial e instrumento de
integração cidade-comunidade.
Se as expectativas criadas nesse
processo de interlocução com o bairro
foram alcançadas ou não, trata-se mais
de uma opinião individual, de cada
aluno, do que coletiva. Deste modo, os
grandes ganhos foram: a fuga de um
modelo de arquitetura voltada para uma
classe específica e dominante; foi
também o contato com uma realidade
palpável e não imagética; e, por fim, a
exploração da arquitetura e urbanismo
como um contexto amplificado, que
extrapola a prancheta se desbravando nos
múltiplos contextos urbanos.
notas
1
FERREIRA, João Sette Whitaker.
Perspectivas e desafios para o jovem
arquiteto no Brasil. Qual o papel da
profissão?. Arquitextos, São Paulo,
12.133, Vitruvius, jul 2011
<http://www.vitruvius.com.br/revistas/
read/arquitextos/12.133/3950>.
sobre os autores
O artigo foi desenvolvido na disciplina
de projeto de arquitetura II da
Universidade Federal do Espírito Santo,
pelo orientador Lutero Pröscholdt
Almeida (mestrado e doutorando pelo
PPGAU-UFBA) e pelos alunos: Eloisa
Guedes Caetano, Juliana Pimentel
Freitas, Jéssica Marinho
Sartório, Daiani Lavino Rodrigues.