FERREIRA, Joarez. 1971. “Aioasca o LSD da Amazônia”.

Revista o Cruzeiro, 17 de
julho de 1971. Consultado em 14 de janeiro 2013.
(http://www.udv.org.br/Aioasca+o+LSD+da+Amazonia/Gente+de+paz/94/)

Aioasca o LSD da Amazônia
Revista O Cruzeiro -14/07/1971

Texto de Joarez Ferreira - Fotos de Rubens Américo
Luz, Paz e Amor, símbolos da União do Vegetal "que nos conduz. O mariri nos dá a força e a chacrona nos dá a luz": o LSD do Norte
- Pai, eu quero tomar um copo grande cheinho! ...
E o menino Salomão bebeu seu copo de aioasca no começo da sessão da União do Vegetal, em Porto Velho, Rondônia. Com apenas cinco anos de idade, Salomão,
rama de mariri, é o escolhido para substituir mestre Gabriel, seu pai, o Caiano, "aquele que veio para restabelecer o equilíbrio das leis do vegetal". Com três
semanas de nascido, o menino iniciou-se nos mistérios da aioasca.
"caiano é o mestre caiano,
É o asqueiro sem fim.
É a borracheira,
o mestre que clareia
seus oascaimin,
seus pés de burracheira."
Salomão, cabelos grandes, será , com a morte do pai, mestre geral da União do Vegetal, seita espírita que, atualmente, conta com 182 sócios efetivos e 1.300
adventícios. Mesmo sofrendo perseguições pela polícia, que procura na aioasca indícios de cocaína, a União nunca deixou de realizar suas sessões, freqüentadas
por pessoas de diferentes camadas sociais. A maioria, gente humilde e sofredora, vai em busca das visões provocadas pela bebida. Pessoas de elevada posição
social tomam o chá para viagens ou simples entorpecimento, de acordo com a dosagem e a concentração espiritual. É a força da União, que tem como símbolo:
Luz, Paz e Amor.
"'E a União que nos conduz.
O mariri nos dá a força
e a chacrona nos dá a luz.
AS ORIGENS
Foi nos seringais da Bolívia que José Gabriel da Costa, "soldado da borracha", baiano semi-analfabeto, tomou conhecimento da aioasca (oasca) , "a fonte dos
mistérios, em que se fundamenta a seita".
Em 1944, José Gabriel da Costa foi "levado pelo destino" para a Amazônia, para trabalhar nos seringais. Vendido, foi parar num seringal boliviano, onde ficou
isolado por vários anos. Na solidão da mata, chegou à beira da loucura. Diversas vezes tentou fugir, mas sem êxito. Uma ferida, provocada por mosquitos, foi a
"mão do destino" para sua fuga. Ficou no hospital de Porto Velho. Por esta época Gabriel procurava a aioasca, sobre cujos méritos já ouvira falar no seringal.
Depois de muitas aventuras na política e no comércio, com altos e baixos, resolveu voltar à "Bolívia", "de onde somente sairia com domínio dos mistérios da
aioasca ". Nesse tempo, Gabriel já tinha alguns discípulos.
Em 1961, na Bolívia, cria as bases da União que implanta em Porto Velho, em 1968. Enfrentou a polícia, chegando a ser preso. Na ocasião, escreveu "A
Convicção do Mestre", uma espécie de Bíblia para os adeptos da seita. "A União do Vegetal é para destruir o mal, com os ensinamentos que recebemos do Divino
Mestre (Salomão); pergunta o mestre a seus discípulos: Como destruir o mal? E eles respondem: Com Luz Paz e Amor".
OS MISTÉRIOS
A aioasca é um chá, amargo, de cor arroxeada, resultado da mistura dos sumos extraídos pela fervura do mariri (cipó nativo) e da chacrona (folha de uma planta
boliviana, parecida com o café). Cientificamente, foi descrita por Villavicencio, em 1858, sob o nome de "Aiahuasca" , designação dada pelos índios do Equador e
do Peru. O primeiro a estudá-la, do ponto de vista químico, foi o naturalista Zerba-Bayon, em 1905, nela reconhecendo uma função que ele chamou de
"telepática", bem semelhante ao yagê ou capi, bebida preparada por diversas tribos amazônicas para festas e rituais. Seus efeitos mais curiosos são os "telepáticos",
provocando nas pessoas que o ingerem sonhos e visões.
Mas para o mestre Gabriel, a aioasca é mais que tudo isso: "É a fonte de ciência, o princípio do esclarecimento de todos os mistérios da natureza". Segundo a
tradição que procura transmitir a seus discípulos, Aioasca é nome de uma índia conselheira de um certo rei do Império Inca. O rei, o divino mestre, era Salomão.
Havia um general, o bravo guerreiro Tiuaco. E o filho do divino mestre, o Caiano, que voltou à terra para criar a União do Vegetal, fazendo o bem e com o lema:
Luz, Paz e Amor. Tiuaco é o mariri, a força. Aioasca, chacrona, a sabedoria. Caiano é o filho do divino mestre. É o mestre Gabriel.
"Tiuaco, o mariri,
o rei da força.
borracheiro.
Tiuaco é o maior.
É o grande rei
no salão do vegetal.".
E o Caiano Gabriel penetra nos segredos da natureza:
"Linguarana,
clareia tu os teus encantos.
Linguarana, trarei os teus encantos.
Linguarana, tu abrirás os teus encantos
e trarei os teus encantos.
Mesmo com toda essa apologia à borracheira, o consumo de álcool é terminantemente proibido na União. O sócio não pode comparecer à sessão depois de ter
ingerido bebida alcoólica. Mesmo porque a aioasca provoca vômitos em quem bebeu. Depois de se tomar a aioasca, o máximo que se permite é chupar um gomo
de laranja bem doce. A burracheira, na União, é espiritual, transcendental, provocando visões e viagens por uma, duas ou três horas. Tudo sob o controle de mestre
Gabriel, "que tem o astral da recordação".
UMA SESSÃO
Duas sessões por semana, às quartas-feiras e sábados, das 20 às 24 horas. Mas o mestre pode convocar sessões especiais.
Ao longo de uma mesa comprida, sentam-se os discípulos, homens e mulheres. Numa cabeceira, o mestre. Na outra, o menino Salomão. Enchem-se os copos, que
são bebidos de só fôlego, depois que o mestre diz: "Que Deus nos guie". Chupa-se a laranja. Para eles, é a hora da comunhão. Depois são lidos os boletins - "da
convicção, da firmeza, da consciência e execução". Lêem-se os estatutos da União , frisando-se o artigo que estabelece a condição de sócio: para tomar aioasca,
mais de uma vez é preciso associar-se, pagando jóia e taxa mensal de Cr$ 5,00.
São discriminadas as categorias: mestre geral, mestres (que se distinguem por uma estrela na camisa (verde), conselheiros e discípulos.
Faz-se uma exposição sobre a União do Vegetal, "seita religiosa, espírita, caracterizada pela bebida do líquido misterioso, que torna cada um vidente de si
mesmo".
A esta altura, a maioria dos presentes acham-se sob torpor. Segundo o mestre e eles próprios o momento das visões multicoloridas e das viagens pelas mais
exóticas paragens.
No centro da mesa iluminada a vela, uma vitrola portátil com o disco Tocador de Viola, de Turani e Silvanito. O disco ainda não está tocando. Ouve-se apenas a
voz do Caiano, que evoca, em tom de aboio, as origens da seita e descreve mistérios da aioasca.
Bebemos aioasca. Viajamos no meio da sessão pela BR-319. Com destino a Rio Branco. Tínhamos uma missão a cumprir...

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