NACIONAL

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PÚBLICO•QUARTA-FEIRA, 24 DEZ 2003

MP admite envolvimento de Jorge Ritto e Manuel Abrantes em lenocínio agravado
MIGUEL SILVA

Sá Fernandes quer nulidade do interrogatório de Carlos Cruz
ANTÓNIO ARNALDO MESQUITA

Paulo Portas nunca acreditou no Pai Natal
Bagão Félix, Paulo Portas, José Luís Arnaut e Manuel Monteiro aceitaram explicar ao PÚBLICO quais são os seus hábitos natalícios
JOÃO TOMÉ

O Ministério Público descortinou indícios de prática de crime de lenocínio agravado pelo embaixador Jorge Ritto e pelo ex-provedor Manuel Abrantes. Ontem, confrontou estes dois arguidos com esse facto durante a inquirição dos quatro presos preventivos do processo da Casa Pia. Suspeito de 80 crimes de abuso sexual de menores, o ex-provedor adjunto da instituição conheceu ontem novos factos que poderão levar o MP a acusá-lo também pelo crime de omissão de dever. Da diligência de ontem resultou também a convicção de que o alegado centro de gravidade dos alegados abusos sexuais de antigos e actuais alunos da Casa Pia seria uma moradia em Elvas. Carlos Silvino assegura que terá transportado menores para serem abusados por vários arguidos: Carlos Cruz, Ferreira Dinis, Jorge Ritto, Paulo Pedroso e Manuel Abrantes. Este último, aliás, terá visto ontem, alargada também para aquela cidade alentejana a prática de abusos até agora circunscritos à região de Lisboa. Estes desenvolvimentos poderão resultar de afirmações de “Bibi” a que os procuradores responsáveis pelas investigações estarão a dar crédito, apesar de alguns arguidos, nomeadamente Carlos Cruz, Jorge Ritto e Paulo Pedroso assegurarem que não conhecem Silvino. O diplomata, por exemplo, estará disponível para ser acareado com “Bibi” e Carlos Cruz também garante que, à excepção de Herman José “por razões profissionais, não conhecia qualquer dos restantes co-arguidos, até se encontrar com eles na prisão preventiva da Polícia Judiciária e no Estabelecimento Prisional de Lisboa. Ontem, à saída do TIC o defensor de Ritto afirmava: “Se a acareação se fizesse uma das consequências poderia ser o senhor embaixador não ser acusado”. MP revela mais factos A diligência de ontem prosseguirá na próxima sexta-feira com a inquirição pelo MP de dois arguidos que foram libertados por decisão de Rui Teixeira e do Tribunal da Relação de Lisboa, Hugo Marçal e Paulo Pedroso, respectivamente. Os factos divulgados ontem motivaram diversas reacções. Ricardo Sá Fernandes considerou-os “vagos e ambíguos” e invocou a nulidade da diligência promovida pelo Ministério Público. Insistiu ainda na urgência do interrogatório judicial de Carlos Cruz para dar cumprimento a uma decisão do Tribunal da Relação de Lisboa. Apesar das reservas, Sá Fernandes admitiu que o seu cliente “ficou a saber mais qualquer coisa”, realçando contudo que

Durão esteve na Casa Pia e disse que há mais consciência sobre os direitos das crianças
PEDRO CUNHA

Os advogados de Defesa dos arguidos do processo Casa Pia voltaram ao DIAP
há ainda muita informação a libertar do segredo de justiça: quantas e quem são as alegadas vítimas? Quando e com quem foram consumados os supostos abusos? Pelo que ouviu do MP, Sá Fernandes está convicto da fragilidade dos indícios e é peremptório: “Estou mais confiante no resultado do interrogatório que o juiz Rui Teixeira vai repetir.” Esta diligência, registe-se, deverá realizar-se na próxima semana, eventualmente logo no início, pois o Ministério Público não renunciou aos prazos para acelerar a efectividade da decisão do Tribunal da Relação de Lisboa. Quando tiver Carlos Cruz à sua frente, Rui Teixeira deve informá-lo dos crimes de que é suspeito, omitir a identidade das presumíveis vítimas, tal como quando repetiu o interrogatório judicial do embaixador Jorge Ritto e de Hugo Marçal. A exemplo do que fez o advogado de Elvas, a defesa do “senhor televisão” reuniu numerosos documentos, visando a reconstituição dos passos dados por Carlos Cruz no período sob investigação, para tentar diluir a consistência dos indícios reunidos pelos 12 polícias na dependência directa do MP, desde há cerca de nove meses. O embaixador Jorge Ritto, por seu turno, trouxe poucas novidades da diligência, uma vez que o magistrado do MP que o interrogou, João Guerra, praticamente repetiu o que já lhe havia sido dito por Rui Teixeira. Ontem, o procurador explicitou por que, no interrogatório judicial, aludira ao facto de o diplomata também poder estar envolvido em lenocínio agravado. Rodrigo Santiago revelou que ia analisar esta eventual imputação. Segundo o Código Penal, punível com dois a dez anos de prisão, o lenocínio de menor é um crime de execução permanente e a respectiva prova terá de ser feita através da demonstração da intenção do agente de fomentar, favorecer ou facilitar o exercício da prostituição ou a prática de actos sexuais de relevo com menores. ■

Ferreira Dinis com pulseira electrónica?
O médico João Ferreira Dinis esteve ontem por duas vezes no edifício onde funcionam o DIAP e o TIC de Lisboa. De manhã foi interrogado pelo MP e, à tarde, o juiz Rui Teixeira ouviu-o durante cerca de duas horas. Em causa pode estar uma eventual alteração da prisão preventiva a que Ferreira Dinis está sujeito há meio ano, derivada do estado de saúde do médico. João Nabais acompanhou o seu cliente e admitiu a existência de contactos, alguns de índole sigilosa. O médico acabaria por regressar ao EPL num carro celular, mas não é de excluir que o juiz de instrução atenda ao seu estado de saúde e decrete a prisão domiciliária com vigilância electrónica. Ontem de manhã, o defensor de Ferreira Dinis procurou ser discreto e parco em declarações. Classificou a diligência promovida pelo MP como “uma mera formalidade” e reconheceu que não ficou “muito mais esclarecido”. João Nabais anunciou a intenção de analisar os dados que lhe foram transmitidos pela procuradora que interrogou o seu cliente, antes de definir que posição irá adoptar. “A precipitação é o maior inimigo de uma decisão ponderada”, explicou. A.A.M.

Paulo Portas nunca acreditou no Pai Natal. Bagão Félix passa este Natal pela primeira vez com a sua neta Joana. O presente de que Manuel Monteiro mais gostou foi um carro telecomandado e uma pista de comboios. José Luís Arnaut passa esta quadra na quinta da família, na Covilhã. Hoje é véspera de Natal. O PÚBLICO inquiriu vários políticos portugueses – entre os indisponíveis e os que não queriam responder, sobram os hábitos natalícios de quatro políticos. “Na minha família o Natal começa um bocado antes, porque, infelizmente, perdi uma avó no dia de Natal”, conta Paulo Portas. O ministro da Defesa vai passar este Natal fora de Lisboa, naquele que parece ser um hábito já de há alguns anos, excepto o do ano passado. Na sua infância, “sempre que perguntava aos meus pais o que era feito do Pai Natal, eles respondiam que só conheciam Deus Nosso Senhor”, disse o ministro. Esta é uma época que traz recordações, muitas vezes da infância. Manuel Monteiro recorda os anos em que esperava pela hora exacta para saber se o Pai Natal não se tinha esquecido dele. “Foram momentos inesquecíveis”, conta o líder do recente Partido da Nova Democracia (PND). Já as recordações de Natal de Bagão Félix passam sobretudo: “pelo revisitar as ´longas` noites natalícias, na minha infância e juventude”. O presépio, o ambiente e canções da quadra, a singeleza dos presentes e a Missa do Galo, constituem os momentos mais especiais para o ministro do Trabalho. Os políticos inquiridos também têm em comum o facto de não comentarem as prendas mais caras que ofereceram nem que prendas gostam de dar. O valor simbólico é o mais enfatizado, como referiu José Luís Arnaut: “As prendas que ofereço não têm na base um critério de valor monetário mas simbólico. Dou muito valor sentimental às prendas que ofereço”. Bagão Félix confessa reservar as melhores prendas para a sua mulher e filhas. “Às vezes, a mais insignificante monetariamente [prenda] é a mais saborosa no íntimo de cada um”, acrescentou o ministro que passa sempre o Natal em Ílhavo, “com o meu pai, a memória da minha mãe, a minha mulher, filhas, irmãos e... este ano a minha neta Joana”. Manuel Monteiro fica por Lisboa em casa dos pais, na

companhia destes, da sua avó, e da mulher. O líder do PND, cujo melhor presente foi um carro telecomandado e uma pista de comboios, é o político que deu respostas menos religiosas: considerando que esta é uma época “em que somos convidados a recordar, mais insistentemente, todos quantos nos rodeiam. Não deveriam existir épocas para isso, mas, na realidade, assim o é…”. “Fui educado a não ter querer, ou melhor, a não dizer ‘eu quero’, se queria querer”. Paulo Portas conta assim um pouco da educação que teve no que diz respeito às prendas. Os presentes que lhe foram oferecidos eram, quase sempre, uma surpresa. O Natal, para o ministro da Defesa e para o seu irmão Miguel –– do Bloco de Esquerda ––, era também uma altura de algum sacrifício, relativamente àquilo que mais estimavam: “Quer eu, quer ele [Miguel Portas] íamos aos respectivos brinquedos, roupas e mealheiro ou o que fosse, e, por princípio, fomos educados a dar uma parte do que gostávamos mesmo a quem precisava”. A cor verde é a preferida para os inquiridos, quer na árvore, quer no musgo do presépio. Como é a árvore de Natal preferida de Bagão Félix? “A cheirar à Natureza, austera, mas iluminada. Apesar disso, prefiro sempre o presépio. O cheiro do musgo, a candura dos líquenes, a gruta paradoxalmente quente, a mutação diária culminando com o menino na noite de 24 e os Reis Magos a caminho”, respondeu o ministro do Trabalho. Para Monteiro, a árvore preferida é a natural. “Um bonito pinheiro, com um presépio cheio de musgo verde”. E para que é que serve o Natal? “Serve muito para que se proporcionem bons momentos de convívio familiar”, conta Arnaut. Portas dá ao Natal a importância de quem tem fé. Manuel Monteiro diz: “O Natal é alegria! É o símbolo do nascimento, da vida. É um sinal de reconciliação, de paz.”. Monteiro considera mesmo que nunca como agora precisámos tanto de Natal, “quanto mais não seja para lembrarmos uma simples ideia: todos somos! Mesmo que nem sempre tenhamos!” Bagão Félix considera que “o Natal transformou-se numa agência de felicidade instantânea a preços do mercado. Uma espécie de ‘loja dos trezentos’ para o ‘stress’ e para a rotina administrativa de trocar presentes”. Católico, o Natal é para Bagão “o aniversário de Jesus, a festa do Ser, infelizmente cada vez mais poluída pela obsessão do Ter”. “Cansa-me ver a febre das compras –– em que não entro –– substituir a espiritualidade associada à celebração da vida e da família”, diz Bagão . Estes são os hábitos natalícios de alguns políticos portugueses. Feliz Natal. ■