UNIVERSIDADE METODISTA DE SÃO PAULO

FACULDADE DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS DA RELIGIÃO
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM CIÊNCIAS DA RELIGIÃO

CRISTINA KELLY DA SILVA PEREIRA

A HISTÓRIA DE UM SILÊNCIO: UM ESTUDO DE CASO
SOBRE QUESTÕES DA NEGRITUDE EM UMA
COMUNIDADE BATISTA DA PERIFERIA DA CIDADE DE
SÃO PAULO

SÃO BERNARDO DO CAMPO
2008

CRISTINA KELLY DA SILVA PEREIRA

A HISTÓRIA DE UM SILÊNCIO: UM ESTUDO DE CASO
SOBRE QUESTÕES DA NEGRITUDE EM UMA
COMUNIDADE BATISTA DA PERIFERIA DA CIDADE DE
SÃO PAULO

Dissertação apresentada ao programa de PósGraduação em Ciências da Religião da
Universidade

Metodista

de

São

Paulo,

Faculdade de Filosofia e Ciências da
Religião, como parte dos requisitos para
obtenção do título de Mestre em Ciênc ias da
Religião.
Orientação: Professor Dr. Lauri Emílio
Wirth

SÃO BERNARDO DO CAMPO
2008

Este trabalho é dedicado em memória de Elizabeth
Gonçalves da Silva Pereira, que permanece para sempre
presente em meu coração.

AGRADECIMENTOS
Gostaria de agradecer a todos que participaram direta e indiretamente desse
trabalho e contribuíram para sua concretização.

Ao meu pai, Carlos, pelo apoio; as minhas irmãs, Claudia, Carol, Cássia e
Cíntia e ao meu irmão Junior, pela ajuda especial e pelo interesse constante
de cada um.
Ao meu namorado, Antonio, pela inabalável paciência e pela incrível
sensibilidade em me compreender.
As novas amizades que foram feitas ao longo do curso, Quênia, Pedro,
Mayrol, Oséas, Fernanda, Hauley, Amílcar, Ângela, Rogério, Leandro e ao
casal Marlene e Carlão que deixaram marcadas na memória, lembranças dos
bons momentos que passamos juntos.

Aos mestres do programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião, que
muito contribuíram com suas sugestões e persistentes interações.
A todos da igreja Batista Maranata, que me receberam com as portas abertas
e junto comigo abraçaram essa pesquisa; ao pastor Danilo, pelo apoio; e em
especial a todas aquelas e aqueles que cederam seu tempo, sua voz e sua
história, sem as quais a concretização dessa pesquisa não aconteceria.
Aos funcionários das bibliotecas da Universidade Metodista; da biblioteca
pública do Estado de Minas Gerais e da biblioteca do Seminário teológica
batista de São Paulo, pela dedicação e pelos serviços prestados.

Ao

CNPq

(Conselho

Nacional

de

Desenvolvimento

Científico

e

Tecnológico), pela bolsa que financiou minha pesquisa, sem a qual não seria
possível a concretização da mesma.
Por fim, deixo os agradecimentos especiais ao meu orientador, professor
Lauri Emílio Wirth, que muito me incentivou durante todo o processo da
pesquisa, pelas constantes orientações e conversas que permearam todos os
passos desse trabalho, pela paciência em ouvir minhas dúvidas e, sobretudo,
pelo respeito que sempre demonstrou.

Tempos e tempos passaram
por sobre teu ser.
Da era cristã de 1500
até estes tempos severos de hoje,
quem foi que formou de novo teu ventre,
teus olhos, tua alma?
Te vendo, medito: foi negro, foi índio ou foi cristão?
Os modos de rir, o jeito de andar,
pele,
gozo,
coração,
negro, índio ou cristão?
Quem foi que te deu esta sabedoria,
mais dengo e alvura,
cabelo escorrido, tristeza do mundo,
desgosto da vida, orgulho de branco,
algemas, resgates, alforrias?
Foi negro, foi índio ou foi cristão?
Quem foi que mudou teu leite,
teu sangue, teus pés,
teu modo de amar,
teus santos, teus ódios,
teu fogo,
teu suor, tua espuma
tua saliva, teus braços, teus suspiros,
tua comida,
tua língua?
Te vendo, medito: foi negro, foi índio ou foi cristão?

Jorge de Lima – Foi mudando, mudando.

RESUMO
O objetivo deste trabalho foi analisar práticas ‘microbianas’, singulares e plurais,
relativas ao tema da negritude, no cotidiano da comunidade batista Maranata, como
estudo de caso de um grupo religioso no distrito Grajaú, periferia da cidade de São Paulo.
Fazendo uso da História Oral, produzimos nossas fontes de analise documental dando voz
a um grupo de pessoas dessa comunidade evangélica, que se auto declararam pretas e
pardas. Detectamos em seu discurso a percepção que têm em relação à temática da
negritude brasileira, sobre as políticas de ações afirmativas, sobre a presença do
preconceito e discriminação racial na atual sociedade, bem como a posição da
comunidade diante dessa temática. A pergunta pelo papel da mentalidade religiosa no
enfrentamento desta problemática foi o foco orientador destes diferentes eixos de
observação. Por ser um tema muito delicado e pouco discutido entre os evangélicos,
percebemos que a comunidade não se sentiu muito à vontade para discuti- lo. O discurso
de nossos interlocutores, que aparentemente se mostrava ambíguo e por vezes incoerente,
pois ora admitia-se o preconceito racial, e ora ele era negado, foi uma forma encontrada
por estes ‘consumidores’ para encobrir os mecanismos de descriminação e exclusão que
também percebem existir dentro de sua comunidade de fé e para, desse modo, sentirem-se
aceitos na comunidade, criando assim táticas de sobrevivência e espaços de
pertencimento em meio às estratégias impostas pela denominação religiosa.
PALAVRAS- CHAVE: igreja batista; negritude; preconceito racial; táticas e estratégias.

ABSTRACT
The aim of this work was to analyse in the single and plural ‘microbian’ practices,
issues related to negritude in the daily chores of a Maranata Baptist community, sited in
Grajaú district in the outskirts of São Paulo. By making use of the Oral History and
religious memory as a method of historiographic research, we gave word to a group of
persons from this evangelical community that label themselves black and dark, and thus
produced our source of documental analyses. We detected in their speech the perception
they have about themes concerned with Brazilian negritude, affirmative policies, the
existence of prejudice and racial discrimination in the present society and the position of
the community towards these issues. Because it is a very delicate and little discussed
theme among evangelical people, we realized that the community was not much
comfortable to discuss it. The speech of our interlocutors, that was apparently ambiguous
and even incoherent at times, as it accepted racial prejudice, and then denied it, was a way
found by these ‘consumers’ to conceal the modes of discrimination and exclusion also
noted by them within their community of faith. This way, in order for them to feel they
are accepted as part of the community, they constantly build up tactics to survive in the
midst of the strategies imposed by the religious domination.
KEY WORDS : Baptist church; negritude; racial prejudice; tactics and strategies.

SUMÁRIO

Introdução................................................................................................. 11
Capítulo 1 – São Paulo: arauto da modernidade em meio às
contradições sociais........................................................................... 20
1.1. São Paulo: a locomotiva que puxa o Brasil....................................................

20

1.2. Redemocratização brasileira: um processo em andamento...........................

27

1.3. Processo de periferização e favelização da cidade de São Paulo...................

31

1.4. A zona sul de São Paulo.................................................................................

38

1.5. Distrito Grajaú................................................................................................

42

1.6. Breve nota sobre os Batistas no Brasil...........................................................

46

1.7. Maranata, sua estrutura e formação................................................................

52

Capítulo 2 – A construção da negritude brasileira e suas
metamorfoses..................................................................................... 58
2.1. O esforço científico na compreensão do negro brasileiro..............................

61

2.2. Um mito social para a construção do imaginário sobre o negro brasileiro....

63

2.3. Morte do mito da democracia racial...............................................................

67

2.4. Sociedade patriarca legitimadora do racismo.................................................

69

2.5. Racismo e sua face brasileira.........................................................................

70

2.6. Ação afirmativa e identidade brasileira..........................................................

76

2.7. O que pensam os negros da Igreja Batista Maranata sobre as cotas?............

81

2.8. Racismo, uma questão silenciada...................................................................

87

2.9. O Jornal Batista no ano de 1988..................................................................... 94

Capítulo 3 – Religião e negritude em diálogo: apreciação da
produção documental......................................... ................................... 99
3.1. Oralidade como ponto de partida na produção e análise dos documentos..... 100
3.2. A memória como objeto de pesquisa.............................................................

103

3.3. Táticas e estratégias: teoria certouriana.........................................................

104

3.4. Panorama geral das entrevistas através de gráficos.......................................

107

3.5. Pensamento Batista no contexto da ideologia protestante.............................

110

3.6. Comunidade de fé: rede de solidariedade e integração social........................ 118
3.7. Questões negras no contexto da comunidade batista.....................................

124

Considerações Finais ..................................................................................... 132
Bibliografia........................................................................................ 137
Anexos................................................................................................ 152

INTRODUÇÃO
A temática da negritude tem despertado meu interesse desde quando me graduei
em História e escrevi meu Trabalho de Conclusão de Curso sobre a Representação social
dos negros na igreja batista Maranata. Dar continuidade a este trabalho de forma mais
aprofundada no Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião foi interessante,
principalmente porque possibilitou a ampliação da pesquisa e exigiu um tratamento da
questão religiosa com maior rigor teórico e sensibilidade, destacando o viver religioso
como de fundamental importância quando se pretende perceber as ações microscópicas do
cotidiano popular.
A problemática da negritude brasileira é um tema que desperta grandes debates,
não só em academias, congressos, seminários, mas também na mídia televisiva e
impressa. Esse tema também tem feito parte do repertório de exposições de arte, a
exemplo do museu Afro-Brasil 1 , instalado no Parque do Ibirapuera, que faz exposições
permane ntes de arte, com o objetivo de valorizar a cultura Negra. As questões da
negritude também tomam corpo em Conferências e debates públicos como o Seminário
ocorrido em outubro de 2006, na sede do Ministério Público do Estado de São Paulo 2 ,
cujo destaque foi a negritude com o tema “Inclusão social: questão de cidadania”. Outro
evento público que merece destaque ocorrido no mesmo ano, foi o debate sobre o Estatuto
da Igualdade Racial para o resgate da cidadania, com o tema “Diálogo sobre a igualdade
racial”, organizado pelo Ministério de Ações Afirmativas Afrodescendentes da igreja
metodista em parceria com a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). Ainda, merece
realce o incentivo governamental para a inclusão da História da África no currículo
escolar, como um meio de estimular a valorização da negritude, das raízes africanas e,
acima de tudo, despertar respeito pelas contribuições afros, o que deve contribuir para a
auto estima de seus descendentes.
Muitos são os focos de discussão e entre os mais importantes estão as políticas
afirmativas, uma polêmica que divide as opiniões tanto entre pesquisadores quanto entre
1

O Museu Afro-Brasil, instalado no Parque do Ibirapuera, cujo objetivo é recuperar, preservar,
valorizar e divulgar o universo histórico-cultural do negro brasileiro. (Um projeto da Secretária
Municipal da Cultura de São Paulo em parceria com a Secretária Municipal do Verde e Meio
Ambiente de São Paulo, o Ministério da Cultura, a Petrobras, o Instituto Florestan Fernandes e a
Secretária Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial).
2
A negritude tem sido um tema de discussão da atual Secretária da Justiça e da Defesa da Cidadania do
Estado de São Paulo, Eunice Aparecida de Jesus Prudente.

os grupos militantes do movimento Negro. No entanto, percebemos que essa é uma
temática que pouco tem despertado o interesse das comunidades evangélicas do Brasil,
visto ser a igreja metodista o único exemplo de protestantismo de missão que possuí um
ministério de Ação Afirmativa. Assim, o presente trabalho quer ser uma contribuição,
ainda que modesta, para o debate da temática da negritude no âmbito religioso, mais
precisamente no campo protestante, na medida em que discute o preconceito racial numa
comunidade batista afro-descendente. Contudo, sua relevância não se restringe ao âmbito
estritamente religioso, se admitirmos que a igreja é um segmento da sociedade e uma
expressão de nossa cultura. Sendo assim, os problemas vivenciados por nossa sociedade,
também fazem parte da realidade de uma comunidade religiosa. Neste sentido, procurouse responder como os fieis da igreja batista Maranata entendem a participação social de
sua comunidade de fé em relação a questões do preconceito e da discriminação racial.
A escolha da temática da negritude foi feita pela urgência de se pensar sobre o
preconceito e a discriminação racial como práticas que impedem o exercício pleno da
democracia por muitos cidadãos da sociedade brasileira e, a igreja batista, por ser um
ramo do protestantismo histórico que possui uma existência sólida nas terras brasileiras,
tendo um número superior a um milhão de fieis espalhados por todo território nacional e
cento e oitenta mil somente no estado de São Paulo, mas também por portar princípios
como a luta pela liberdade e pelos direitos humanos, destarte, é uma denominação com
ampla representatividade nacional, mas que pouco tem agido em fa vor da afrobrasilidade.
É neste sentido que acredita-se ser relevante repensar o papel da igreja batista na
sociedade contemporânea, refletir sobre suas atitudes em relação aos problemas
apresentados na atualidade, notar as contribuições dessa instituição à sociedade brasileira
e, possivelmente, pensar em possibilidades de transformações futuras.
Uma vez que este estudo se interessa por processos históricos do tempo presente
e se preocupa em dar voz aos que foram silenciados pela história dominante, foi escolhido
como método de investigação científica a Historia Oral. Pois trata-se de um método que
permite pensar na particularidade, pressupondo que as subjetividades são categorias
importantes para se entender um processo histórico, sem desprezar as estruturas sociais e
a função da religião na sociedade, permitindo um enfoque da temática em pauta, a partir
da vivência religiosa dos sujeitos.

Para a elaboração dos documentos que foi produzido pela pesquisadora um
roteiro de perguntas abordando diferentes temáticas: preconceito e discriminação racial,
negritude brasileira, experiência do membro batista e sua percepção a respeito do
preconceito racial na comunidade batista Maranata. Para tanto foram selecionadas vinte
pessoas voluntárias que se autodenominaram ne gras, incluindo o líder da comunidade,
que, contudo, se autodenominou branco. Para obtenção de um quadro representativo e
geral da comunidade, foram entrevistados vinte membros efetivamente participantes da
comunidade, nove homens e onze mulheres com idades entre 24 a 59 anos. As entrevistas
foram feitas, a grande maioria, na casa do depoente para que este se sentisse mais
confortável e a vontade para conversar. Todas as entrevistas foram gravadas em fitas K7,
transcritas e anexadas na íntegra no final deste trabalho. Foi obtida autorização dos
depoentes para utilização total ou parcial de seus depoimentos, mediante a assinatura de
uma carta de concessão, produzida pela pesquisadora, permitindo liberdade ao depoente
de recusar-se a participar ou de retirar seu consentimento, em qualquer fase da pesquisa,
sem penalização alguma e sem nenhum prejuízo.
Com o uso da metodologia da História Oral, foi possível trazer à tona
experiências e visões de mundo que normalmente permanecem invisíveis e silenciosas
nas documentações históricas convencionais. Foi dada voz a um grupo de afro-brasileiros
que vivem a realidade do preconceito racial, mas que, segundo a suspeita, comprovada no
final do trabalho, sublimam essa realidade quando estão convivendo dentro de sua
comunidade de fé. A escolha desse método se justifica à medida que permite estudar a
memória de sujeitos religiosos e suas representações, pois possibilita a aproximação entre
o pesquisador e o sujeito, que no caso, é o sujeito que vive a religião. Os outros tipos de
fontes, como as textuais, podem nos ajudar, mas não nos permitem captar a subjetividade
particular de um indivíduo. Interpreta-se a experiência religiosa da forma como foi
definida por Lauri Wirth, como sendo, “múltipla, plural e sincrética, e não cabe em um
único conceito 3 .” O autor ainda esclarece que quando se trata da América Latina, em que
a experiência religiosa é forte e significativa na vida das pessoas, o contato com o sagrado
se dá de forma muito diversa, em que magia, sonhos e natureza dialo gam no imaginário
do fiel. Entender como a igreja batista lida com a questão do preconceito racial, a partir
da memória de seus fiéis, deu vazão para a compreensão de uma dimensão bem mais
3

WIRTH, Lauri Emílio. Novas Metodologias para a história do cristianismo: Em busca da experiência
religiosa dos sujeitos religiosos. Conferências do XXVI Simpósio Anual do CEHILA/Brasil.

ampla da problemática negra em nossa sociedade. Neste sentido, o uso da História Oral
possibilitou o acesso a essa realidade complexa, ambígua e contraditória, que faz parte do
campo investigado. A oralidade, por apresentar uma gama enorme de subjetividade,
aparenta ser uma fonte pouco confiável, como pensavam os historiadores da Escola
Positivista, que privilegiavam a “verdadeira” história oficial, amparada por documentos
textuais. Marcos Antonio Lopes explica que para Immanuel Wallerstein, além de
privilegiarem os documentos textuais, estes eram interpretados como uma fiel reprodução
da realidade. “Tais fatos haviam sido registrados em documentos escritos, a maioria deles
localizáveis em arquivos. Esses sábios eram ferozmente empiristas. Agarravam-se a uma
visão tão próxima dos dados quanto possível, bem como a sua reprodução fiel na escrita
da história 4 .” Ao contrário, a subjetividade expressada através da oralidade não tira dela
sua confiabilidade. A entrevista responsável por produzir o documento da pesquisa não se
pretende a verdade, mas interessa-se em “documentar uma versão do passado, estudar
alguns fatos a partir de versões particulares, ou seja, procurar compreender a sociedade
através do indivíduo que nela viveu5 .” O foco que se pretendeu dar nessa pesquisa, ao
discurso oral do afro-descendente, tem como objetivo visibilizar as memórias marginais,
dando voz a um grupo de afro-brasileiros que pertencem a uma comunidade batista
localizada na zona sul, periferia da cidade de São Paulo. Ouvir esses sujeitos religiosos
possibilitou acesso às suas diferentes redes de significados.
Para que essas reflexões tomassem corpo, este trabalho foi dividido em três
partes, dando ênfase no primeiro capítulo a um histórico da comunidade estudada. Foi
feito um levantamento do processo de segregação social responsável pelo fenômeno da
favelização na capital paulistana, sugerindo uma trajetória que percorreu desde a
formação da cidade e o surgimento das fabricas até o fenômeno da super população e a
desestruturação urbana que ocasionou o caos característico de nossas grandes metrópoles.
Foi destacado o que se chamou de contraste irônico, a convivência entre o abandono de
uma grande parcela da massa empobrecida, a segregação social, a violência, as favelas e a
degradação

ambiental,

com

o

desenvolvimento,

a

tecnologia,

os

grandes

empreendimentos imobiliários e o luxo. Discorreu-se sobre o sub-distrito do Grajaú, que
pertence à periferia da cidade, sobre seus altos índices de pobreza e a grande concentração
de favelas, além de problematizar sobre a degradação ambiental que afeta as duas
4

LOPES, Marcos Antonio (org). Fernand Braudel: tempo e história. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2003,
p.73.
5
ALBERTI, Verena. Manual de História Oral. Rio de Janeiro, RJ: FGV, 2004, p. 19.

represas, Billings e Guarapiranga, importantíssimas para a capital paulistana, pois são
responsáveis pelo abastecimento de água potável de pelo menos um terço da população.
Ponderou-se sobre a denominação batista, como ela chegou ao Brasil, sua formação e
pensamento nacional. E finalmente foi feito um breve histórico sobre a comunidade
batista Maranata, trazendo à tona quem ela é, como ela se originou e quem são seus
membros.
No segundo capítulo, foi dado privilégio à discussão da formação do pensamento
sobre a negritude no Brasil, abarcando os intelectuais desde o século XIX até da
atualidade. Discutiu-se a questão da negritude para formação da identidade nacional. A
ideologia do progresso e o nacionalismo, articulados com as teorias raciais que foram
geradas na Europa e nos EUA e repercutiram na sociedade brasileira, a partir do século
XIX, de diferentes maneiras. Uma delas foi a ideologia do embranquecimento da raça,
que valorizava o estrangeiro branco e europeu como agente civilizador, negando este
mesmo atributo aos negros e às suas influências culturais negro-africanas. A pesquisa
trabalhou também as facetas da discriminação racial à brasileira e a complexa questão:
“Os brasileiros sabem haver, negam ter, mas demonstram, em sua imensa maioria, o
preconceito contra negros 6 .” Assim, o afro-descendente contemporâneo enfrenta uma
constante discriminação, que na maioria das vezes, não é assumida pelo racista que a
pratica de forma aberta ou encoberta.
Ainda dentro deste capítulo foram levantadas discussões sobre as políticas de
ação afirmativa que revelam que uma pequena parcela da sociedade vem se mobilizando
em favor dos afro-brasileiros, buscando a inclusão social dessa parcela significativa de
nossa sociedade. Analisa-se também o que os negros da comunidade batista Maranata
entendem a respeito dessa polêmica. E o que se conclui é de que as informações
disponíveis sobre as políticas afirmativas não são suficientes para atingirem toda a
população negra.
O último tópico trabalhado foi a análise sobre a opinião do O jornal batista no
ano de 1988, centenário da abolição da escravidão. O OJB revelou seu olhar negativo
sobre as manifestações dos cultos afro. Foi possível perceber que o OJB não entrou na
discussão propriamente dita sobre as questões negras. Ele falou de pastores e membros
6

BACELAR, Jéferson.; CAROSO, Carlos. (orgs). Brasil: um país de negros? Rio de Janeiro: Pallas;
Salvador: CEAO, 1999, p. 55.

que eram negros e de sua importância para a denominação, falou do missionário que
pregava para os escravos, falou da primeira igreja batista no Brasil que era freqüentada
por negros, mas não foi além disso. Não houve indagações, não se questionou sobre a
situação atual do negro na sociedade, não tocou nas temáticas de discriminação e racismo.
Subjacente a esta postura parece estar a convicção representativa de certa tendência do
protestantismo de que com a conversão pessoal os problemas sociais perdem sua
importância, o que aplicado à nossa questão implicaria na eliminação da diferença entre
brancos e negros. Procuramos problematizar esta postura contrapondo- lhe argumentos
como os defendidos por Marco Davi Oliveira, que aponta como um dos caminhos rumo à
igualdade racial justamente a valorização do negro, de sua origem, sua história, sua
cultura e religião. A tentativa de apagar as marcas da negritude dos afro-brasileiros ou
desqualificá- las só aumenta a distância e a possibilidade de uma igualdade racial.
No terceiro capítulo foi feito um panorama geral dos entrevistados e uma analise
minuciosa de suas falas, apontando a influencia do pensamento protestante, da ideologia
racial e finalmente um contraponto entre as teorias certourianas e a posição dos negros da
comunidade batista em negar o preconceito racial dentro de sua comunidade de fé. O
pressuposto inicial que foi confirmado, é de que os integrantes negros da comunidade
batista estudada percebem na sociedade o preconceito racial, mas entendem que este
problema está fora dos muros da igreja, ou seja, este é um problema do Estado e não da
igreja. Os interlocutores utilizam desse discurso, aparentemente ambíguo e contraditório,
que ora admite o preconceito racial, e ora o nega, como um meio de encobrir os
mecanismos de descriminação e exclusão que também existem em sua comunidade de fé
e para, desse modo, se sentirem aceitos na comunidade. Buscamos respaldo teórico em
Michel de Certeau para interpretar esta postura como sutis táticas de sobrevivência em
meio a estratégias impostas pela denominação religiosa 7 .
Contudo, o modo como os negros membros da igreja batista Maranata olham
para ela e para sociedade, dá-se de forma diferenciada. Ao olhar para sociedade, eles
podem perceber o preconceito racial, já que o racismo é entendido como um problema
social. Na mentalidade batista, as pessoas da sociedade que não passaram pelo processo
de conversão, não estão livres do racismo e, por isso, são propícias a discriminar seu
próximo. Já no contexto interno da comunidade, esse olhar difere, a comunidade de fé é
7

CERTEAU, Michel de. A invenção do cotidiano: arte de fazer. Vozes: Petrópolis, 2007, p. 39.

vista como um espaço de aceitação do outro e, sobretudo de afeto. Isto é, um espaço
entendido como formado por pessoas que sofreram regeneração, sendo assim, conseguem
ter um olhar de igualdade. Essa é uma tática utilizada pelo fiel para conviver no espaço de
sua comunidade. De acordo com as categorias certeaurianas acredita-se que no convívio
do cotidiano, as pessoas precisam enfrentar as estratégias criadas pela classe dominante,
todavia, as regras impostas não são seguidas conforme esperadas, porquanto as pessoas
conseguem criar meios, ou nas palavras do autor “táticas”, para enfrentarem sua
realidade. Dizer que não há preconceito na comunidade de fé, pode ser uma utilização da
linguagem como tática de sobrevivência dentro da comunidade 8 .
Para fazer parte de um grupo religioso é necessário, naturalmente, para o fiel,
cumprir algumas regras sociais impostas pela instituição, ou como foi bem colocado por
Eduardo Gusmão, “a participação num grupo religioso implica certos deveres e
obrigações. Isso por causa da relação entre o respeito à divindade e o respeito pelas
criaturas que a representam. Tal atitude vai desde os tabus aos simples valores éticos 9 .”
Os princípios batistas e as regras internas da igreja batista Maranata, juntamente com a
construção de um discurso que prega a necessidade de comunhão entre irmãos, o amor e a
fraternidade, exercem sobre os fiéis o que Certeau chama de estratégia. No entanto, o fiel
não recebe todas essas regras de forma passiva, tampouco as reproduz na construção de
seu próprio discurso. Na fala do afro-descendente é possível perceber o não dito, como foi
mencionado pelo próprio Michel de Certeau, “o indizível está naquilo que é dito”, ou seja,
na construção do discurso que consideramos ambíguo do membro batista, o preconceito
racial está na sociedade, mas tenta-se de alguma forma não consentir com a sua presença
no seio da comunidade de fé. Esta postura revela aquilo que Certeau chama de tática,
neste caso, criada pelo afro-descendente para camuflar o preconceito racial no espaço
religioso, através da representação de um mundo utópico, que o ajuda a conviver neste
ambiente.
Não foi encontrado uma resposta fechada e, por isso, o discurso do membro
batista não terá um único reflexo, ou seja, não será uma reprodução do discurso elitista da
classe dominante, nem será uma cópia dos princípios batistas. Compreendemos que o ser

8

CERTEAU, Michel de. A invenção do cotidiano: arte de fazer. Vozes: Petrópolis, 2007, p. 40.
GUSMAO, Eduardo. A vivência Religiosa como objeto da história das religiões: Uma leitura de Michel
de Certeau. Impulso: Piracicaba, 2004, p. 101-109.
9

humano, ao construir seu discurso, o faz de forma ambígua e criativa. A ambigüidade é
inerente ao ser humano. Nas palavras de Marilena Chauí,
A ambigüidade não é falha, defeito (...) é a forma de existência dos
objetos da percepção e da cultura, sendo elas também ambíguas,
constituídas não de elementos ou de partes separáveis, mas de
dimensões simultâneas que (...) somente serão alcançadas por uma
racionalidade alargada, para além do intelectualismo e empirismo 10 .

Segundo a autora, quando o cientista depara-se com a posição ambivalente da
expressão popular (um discurso não acadêmico, expressões do senso comum) tende a
encarar este dado, ou como ignorância, ou como saber autêntico, ou como atraso, ou
emancipação, mas o que a autora sugere é que essa expressão se dá de forma ambígua, ou
seja, “tecido de ignorância e de saber, de atraso e de desejo de emancipação, capaz de
conformar ao resistir, capaz de resistir ao conformar. Ambigüidade que determina
radicalmente como lógica e prática que se desenvolvem sob a dominação 11 .” A reflexão
de Marilena Chauí está em sintonia com o horizonte teórico de Michael de Certeau, na
medida em que se preocupa com a dinâmica do cotidiano. Para Certeau, as narrativas
sempre são construídas a partir de um determinado lugar e resignificadas em diferentes
espaços. Especialmente nos espaços da vida cotidiana é possível perceber um intercambio
entre táticas e estratégias, porquanto as pessoas anônimas encontram brechas no sistema
de dominação, atuando de forma criativa. Eduardo Gusmão também expressa essa idéia,
explicando que o desafio do historiador está em resgatar essa hibridação produzida no
cotidiano 12 . A massa silenciada utiliza-se de táticas para desviar a ordem efetiva das
coisas, e sua representação se dá por meio da arte de fazer. Isso acontece quando é
explorada por um poder dominante ou negada por um discurso ideológico.
Se faz necessário atentar às relações estreitas que existem entre igreja, cultura e
diversidade cultural, para que desse modo, seja possível vincular a defesa da igreja às
dimensões públicas e culturais com os direitos, uma vez que ela é pensada como um
espaço de integração e diversidade. A proposta feita foi vincular o mundo espiritual a
formação humana e cultural, pois como nos explica Juarez Dayrell “a cultura é também
um meio de comunicação e intercomunicação em processo, se todos nós estamos
10

CHAUÍ, Marilena. Conformismo e resistência: aspectos da cultura popular no Brasil. Brasiliense: São
Paulo, 1994, p.123.
11
CHAUÍ, Marilena. Conformismo e resistência: aspectos da cultura popular no Brasil. Brasiliense: São
Paulo, 1994, p.125.
12
GUSMAO, Eduardo. GUSMAO, Eduardo. A vivência Religiosa como objeto da história das religiões:
Uma leitura de Michel de Certeau. Impulso: Piracicaba, 2004, p. 101-109.

inseridos nela de forma profunda e universal, todos nós a transformamos e a
transmutamos 13 .” Partindo do pressuposto que ao reivindicar respeito à diferença pelas
categorias sociais estigmatizadas – os negros – quando atacadas, levará a longo prazo, a
tornar a diferença pouco significativa e, conseqüentemente, um elemento secundário das
relações. Mas quando hierarquizamos as diferenças, garantimos o reconhecimento da
diferença como sinal diacrítico e de conflito.
A religião como uma esfera produtora de conhecimento eficaz para grupos
sociais, através de suas representações a religião transmite ao indivíduo meios para
expressão e explicação de infortúnios e, com isso, possibilita a domesticação da angustia.
Mas a religião não possui um significado único, pelo contrario o significado é uma
produção que se desvela a partir de práticas e apropriações, que tanto gera ordem, como
distância e diferentes interpretações. As formas sociais de sua utilização constroem uma
produção de outra modalidade, é por isso que não podemos falar em consumo passivo por
parte dos fieis, mas eles a utilizam sempre contextualizando seu significado.
Quando analisado mais de perto esse grupo batista, foi possível entender que eles
percebem com clareza a questão da hegemonia cultural como uma luta social e racial,
construindo suas normas, valores e comportamentos, claramente em oposição às normas e
valores propalados pela classe dominante, lúcidas de todas as condições que lhes são
impostas e detentores de uma reivindicação permanente contra tais circunstâncias. Em seu
cotidiano, lutam material e simbolicamente, ora resistindo ao conformar, ora se
conformando ao resistir.

13

DAYRELL, Juarez. Múltiplos olhares sobre educação e cultura. Belo Horizonte: UFMG, 1996, p. 50.

CAPÍTULO 1
São Paulo: arauto da modernidade em meio às contradições sociais.
Objetivamos neste capítulo apresentar a comunidade Batista Maranata. Para
tanto, julgamos necessário discorrer sobre a contextualização histórica, econômica,
política e social brasileira, explicitando, entretanto, a cidade de São Paulo, onde se
localiza a comunidade estudada.
A igreja batista Maranata está situada na jurisdição da subprefeitura Capela do
Socorro e no distrito do Grajaú, uma área periférica da Zona Sul da cidade de São Paulo,
região esta, que concentra uma parcela significativa da pobreza metropolitana. Ou seja, é
a região que apresenta os maiores índices de precariedade como, por exemplo, favelas,
analfabetismo, desemprego e violência. E, por conseguinte, também apresenta os menores
índices de renda por família, anos de escolaridade, saneamento básico e infra-estrutura, o
que a caracteriza como uma das periferias mais pobres da cidade São Paulo.
Antes de concentrarmos nossa atenção na região periférica da metrópole, iremos
analisar, de forma breve e sintética, como se deu o processo de formação da periferia e o
surgimento da segregação social na cidade de São Paulo. Para isso usaremos o auxilio de
estudos de historiadores, economistas, cientistas políticos, sociólogos, geógrafos,
demógrafos, arquitetos e urbanistas, com a intenção de demonstrar algumas das facetas da
capital paulistana e de sua formação urbanística.
1.1. São Paulo: a locomotiva que puxa o Brasil
A cidade de São Paulo, desde o início do século XX, já era reconhecida como
uma cidade voltada para o futuro. Expressões como: A cidade que não para; A cidade do
futuro e A locomotiva que puxa o Brasil já eram bastante usadas em 1900.
Caio Prado Jr., renomado historiador da economia brasileira, explica que a
cafeicultura no Brasil foi um dos fenômenos responsáveis por concentrar uma riqueza
considerável no estado de São Paulo desde o último decênio do século XX. Um dos
fatores que contribuíram para a concentração dessa riqueza pode ser apontado como a
concorrência por terras do Oeste Paulista, devido o seu bom solo e sua topografia regular,
que permitia fácil transporte, além de que possuía um clima favorável par adaptação do

trabalhador europeu. Desse modo, desviaram “para elas os melhores esforços e recursos
do país; e lá se concentrou a maior e melhor parcela da lavoura cafeeira do Brasil (...)

14

.”

Já nas primeiras décadas do século XX, dois terços da produção agrícola
nacional eram produtos de exportação, sendo que o café participava com uma parcela
significativa de 53%. Deste montante, dois terços eram fornecidos pelo estado de São
Paulo. Desse modo se compreende a força econômica concent rada nas mãos dos
paulistas. Segundo Jacob Gorender, foi a agricultura de exportação que forneceu ao
desenvolvimento industrial de São Paulo uma acumulação originaria de capital e um
mercado com um potencial superior ao de outras regiões do país 15 .
A política do café no estado de São Paulo promoveu e estimulou uma intensa
migração e emigração. O desenvolvimento da economia cafeeira foi um dos fatores que
ajudou a atrair uma intensa população para o estado paulista. Porém, como nos adverte
Maria Izilda Matos, a massa atraída era superior às possibilidades de emprego no campo,
o que fez com que essa população procurasse guarida na capital. A autora ainda assinala
que, nos momentos de crise no setor cafeeiro, podia-se perceber uma grande evasão dos
colonos do campo “provocando acúmulo de despossuídos na cidade e gerando um novo
perfil populacional (...) em 1907, 78% da população brasileira residiam no campo, menos
de um século depois, cerca de 82% vivem em cidades 16 .”
Gorender argumenta que a implantação da industrialização na cidade de São
Paulo foi possível por causa da expansão da exportação do café, pois foi no auge da
economia cafeeira que se viu a possibilidade do crescimento da renda, podendo contar
ainda com uma política monetária expansionista existente desde o final do Império. Maria
Izilda Matos acrescenta que o crescimento populacional veloz e a industrialização fizeram
com que a cidade de São Paulo se transformasse em uma metrópole moderna, fazendo jus
à expressão a cidade da noite e do dia, “no ano do seu IV centenário, 1954, já como a
maior cidade do país, aproximou-se dos dois milhões e seiscentos mil habitantes (...) 17 .”

14

PRADO, Jr. Caio. História econômica do Brasil. São Paulo: brasiliense, 1988, p. 227.
GORENDER, Jacob. A burguesia brasileira. 8º ed. São Paulo: Brasiliense, 1990, p. 33.
16
MATOS, Maria Izilda. A cidade que mais cresce no mundo: cotidiano, trabalho e tensão. In:
CAMARGO, Ana Maria (coord). São Paulo: CIEE, 2004, p. 64.
17
MATOS, Maria Izilda. A cidade que mais cresce no mundo: cotidiano, trabalho e tensão. In:
CAMARGO, Ana Maria (coord). São Paulo: CIEE, 2004, p. 72.
15

Milton Santos classifica o eixo Rio - São Paulo como a região dinâmica do país
que tende à industrialização, já em meados do século XXI. Essas áreas despontam devido
aos seus potenciais de acumulação da produção industrial, o que permitiu uma
diversificação da atividade fabril, beneficiando primeiramente a região sudeste do Brasil,
pois era um eixo capaz de oferecer produtos variados e mais baratos em relação aos
outros núcleos industriais espalhados pelo território nacional.
São Paulo tende a ultrapassar o Rio de Janeiro graças, sobretudo, à
maneira diferente como se organiza a sua zona de influência. Esta, nas
proximidades do centro industrial que se expande, vai tornando-se um
mercado próximo e próspero, de modo que a cidade e as regiões ao seu
redor se influenciam reciprocamente, crescendo em dinamismo 18 .

Com o crescimento acelerado da população e, de igual modo, a crescente
produção industrial, aumentaram, em conseqüência, as atividades comerciais, serviços e
transportes. Toda essa mobilidade veio conferir à região Sudeste do Brasil, com primazia
São Paulo, um papel inconteste de metrópole econômica do país. Mesmo na atualidade,
com o processo de globalização, esse passado dinâmico não é apagado, as diferenças
regionais ainda persistem legando o comando e a dominação, mesmo que de forma
completamente diferente, nas mãos da região Sudeste. Aonde as indústrias carregavam o
poder de dominação regional, agora é a informação que garante o poder. A cidade de São
Paulo continua sendo, nesse novo período, o pólo nacional, mantendo sua posição
hierárquica sobre a vida econômica do país. Com a ascensão das atividades terciárias e de
serviço, a indústria continua crescendo nas terras paulistanas, mesmo que com pouca
velocidade. O poder industrial, no entanto, é substituído pela concentração de informação,
dos serviços e da tomada de decisão e, portanto, de meios técnico-científicoinformacional. A cidade de São Paulo foi transformada em um elo de articulação, pois
ocupa um espaço estratégico para a crescente internalização dos fluxos de bens, serviços e
informações nos circuitos internacionais. “Processo que dá origem a uma rede mundial de
metrópoles onde são geradas e por onde transitam decisões financeiras, mercadológicas,
tecnológicas, capazes de definir e redefinir estratégias 19 ”.

18

SANTOS, Milton; SILVEIRA, Maria Laura. O Brasil: território e sociedade no início do século 20. Rio
de Janeiro: Record, 2001, p.251
19
CARLOS, Ana Fani Alessandri; OLIVEIRA, Ariovaldo Umbelino de. (organizadores). Geografias de
São Paulo: representação e crise da metrópole. São Paulo: Contexto, 2004, p. 370.

Embora a cidade de São Paulo seja essa potência de produção e liderança
econômica nacional, possuindo uma permanente renovação técnica, com sucessivas
modernizações, não podemos desprezar o lado oposto dessa mesma moeda. Em
contraponto com a evolução e modernização, a lógica do sistema econômico estimulou o
surgimento de grandes contradições sociais, como o êxodo rural, o desemprego em massa
e a marginalização de milhões de trabalhadores excluídos do sistema econômico e da
distribuição de riqueza produzida nesse pólo que é a cidade de São Paulo.
Em certo sentido, a industrialização era sinônimo de desenvolvimento, e
a urbanização, um resultado desejável desse processo. (...) a
modernização da agricultura provocou o êxodo rural e a industrialização
urbana, que utilizava técnicas poupadoras de mão-de-obra, foi incapaz
de absorver os imigrantes do campo, trazendo à luz noções como
inchaço urbano e marginalidade social. Ou seja, a urbanização já não era
induzida pela industrialização, e seus resultados, socialmente perversos,
não correspondiam às esperanças de desenvolvimento20 .

É o que nos explica Odair Paiva: com a crise da economia cafeeira na década de
1920, e com a carência de mão-de-obra imigrante, a opção política foi incentivar a vinda
de nordestinos, pois estes estavam dispostos a trabalharem por um baixo salário. A partir
desse momento, São Paulo passa a ganhar fama de ser uma “terra de oportunidades” e a
imagem do nordeste passa a ser construída como um lugar inviável, um lugar de mazelas,
seca e pobreza. Como resultado, entre os anos de 1930 e 1950, 1,5 milhões de
trabalhadores nordestinos migraram para a capital paulistana, incentivados pelo governo
Federal e Estadual. Essa mudança de região geográfica significava uma busca de
realização de sonhos e ascensão social. Mas muitas vezes esse novo lugar significou uma
outra forma de exclusão social. Embora a perspectiva de melhoria de vida e de melhores
condições de trabalho, ainda nos dias de hoje, deixe de ser uma alternativa, em grande
medida, positiva, esse deslocamento continua presente no cotidiano da cidade de São
Paulo e nas grandes capitais. De acordo com os resultados divulgados em 2006, pela
Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) do Instituto Brasileiro de Geografia
e Estatística (IBGE), de 2005 para 2006, a participação da atividade agrícola na
população nacional caiu de 20,5% (17,8 milhões de trabalhadores) para 19,3% (17,2
milhões). Em 2004, a participação da atividade agrícola era de 21,0%, ou seja, 17,7
milhões de brasileiros estavam trabalhando no campo. A participação da atividade
agrícola na população ocupada caiu significativamente em todas as regiões. A região do
20

SAES, Flavio Azevedo Marques. 1870-1960: Industrialização e urbanização. In: CAMARGO, Ana
Maria. São Paulo, uma viagem no tempo. São Paulo: CIEE, 2005, p.114.

Nordeste, onde se concentrava o maior contingente desses trabalhadores, cerca de 7,9
milhões de pessoas, apresentou a maior queda (de 36,5% em 2005, para 33,8% em 2006),
com redução de 447 mil trabalhadores. Na região do Norte, a partic ipação da atividade
agrícola passou de 23,4% para 22,6% da população ocupada. No Sul, onde a atividade
agrícola tem peso expressivo, o percentual de trabalhadores também caiu, de 22,1% em
2005 para 21,2%. Por fim, a região Centro-Oeste, com cerca de 1 milhão de trabalhadores
na atividade agrícola, teve queda de 17,6% para 16,4%. No grupamento da indústria,
trabalhavam, em setembro de 2006, 13,2 milhões de pessoas. Observou-se aumento de
1,7% nessa estimativa, em relação ao ano anterior. A indústria registrou aumento de
contingente apenas nas regiões Sudeste (3,4%) e Centro-Oeste (8,1%). Em contra partida,
em 2006, verificou-se que 40,1 milhões de trabalhadores não tinham carteira de trabalho
assinada, trabalhavam por conta própria e ou eram não-remunerados (23,2%, 21,2% e 6%,
respectivamente, da população ocupada), esse grupo representa mais da metade da
população ocupada (50,4%). E como decorrência dessa vinda de trabalhadores para as
grandes capitais, explicitam as limitações e fragilidade dessas cidades, bem como nos
explica o autor:
O aumento do trabalho informal expõe alguns dos limites desse modelo
econômico, do ponto de vista de sua capacidade de absorção de mão-deobra, transformando o desemprego num dos grandes problemas da
cidade. Dele, muitas vezes, derivam os preconceitos, as más condições
de moradia e a falta de perspectivas que expõem a precariedade e a
fragilidade da vida 21 .

Os baixos salários implicam numa condição precária de vida. É justamente para
neste contexto que a massa empobrecida encontra nas periferias para as quais é
empurrada abrigo. Ocupando bairros desvalorizados pela falta de infra-estrutura básica, e
favelas com ocupações irregulares e clandestinas e com moradias de “autoconstrução 22 ”.
O aumento da favelização, do trabalho informal e da mendicância são sinais do
esgotamento de absorção desses sujeitos no cenário urbano. Como é o caso do distrito
Grajaú, onde inúmeros bairros apresentam essas características. O que torna os problemas

21

PAIVA, Odair da Cruz. Nordestinos em São Paulo no século 20: diferentes tempos de uma mesma
história. In: CAMARGO, Ana Maria. São Paulo, uma viagem no tempo. São Paulo: CIEE, 2005, p. 103.
22
A autoconstrução consiste na compra de lote, muitas vezes, clandestino e ou irregular. A construção da
casa é feita, normalmente, nos finais de semana com ajuda de amigos e parentes. A construção começa, na
maioria das vezes, com um quarto e uma cozinha e vai se ampliando de acordo com a disponibilidade
financeira do proprietário, que muitas vezes, obedece o ritmo de crescimento da família ou número de
agregados que vão se juntando à mesma.

dessa região de São Paulo ainda mais delicados é o fato de ser ela uma área de proteção
aos mananciais.
A situação começa a se alterar já a partir do final da década de 1970. A
crise do milagre econômico e os limites da expansão territorial da
cidade diminuem as possibilidades de absorção do imigrante. As redes
sociais, criadas preteritamente, e o não equacionamento da questão da
seca do Nordeste, aliados a uma certa tradição de imigração para São
Paulo, passaram a tensionar sua relação com a própria cidade. Nesse
momento, uma reversão da imagem social do migrante se opera. De
trabalhador, passa a ser visto como problema social23 .

Abaixo mostramos uma tabela nacional elaborada pelo IBGE sobre o saldo
migratório da década de 1990 até o ano de 2006.
Saldo Migratório dos Estados Brasileiros 1992 a 2006 (média anual)

Década de 1990

23

2001 a 2005

2006

UF

Saldo

saldo

Saldo

Acre

4.073

-724

4.608

Alagoas

-41.516

-43.952

-35.125

Amapá

19.427

11.201

-1.946

Amazonas

5.580

-611

-2.808

Bahia

-220.850

-39.409

33.017

Ceará

-14.277

31.705

38.329

DF

62.643

-34.147

-12.784

Espírito Santo

63.637

39.741

55.351

Goiás

39.754

135.567

73.560

Maranhão

-67.684

-71.919

-66.707

Mato Grosso

31.612

88.794

56.512

Mato Grosso do Sul

-1.507

15.734

39.818

Minas Gerais

35.435

47.360

39.435

PAIVA, Odair da Cruz. Nordestinos em São Paulo no século 20: diferentes tempos de uma mesma
história. In: CAMARGO, Ana Maria. São Paulo, uma viagem no tempo. São Paulo: CIEE, 2005, p. 105.

Pará

-98.703

10.795

23.432

Paraíba

-12.018

10.200

-25.661

Paraná

-47.844

-21.887

-11.919

-113.576

-10.221

-10.044

-21.286

-8.103

-11.352

-109.219

-78.433

-41.596

7.164

24.886

30.423

-15.096

-27.391

-37.493

Rondônia

-17.221

-22.493

-20.801

Roraima

14.911

21.010

29.531

47.391

76.783

89.946

400.880

-126.943

-207.098

Sergipe

3.276

-3.291

-6.303

Tocantins

45.015

-24.255

-22.325

Pernambuco
Piauí
Rio de Janeiro
Rio Grande do
Nor te
Rio Grande do Sul

Santa Catarina
São Paulo

No estado de São Paulo, podemos notar a entrada líquida de novos moradores
cair de um superávit de 400 mil habitantes, durante a década de 1990, para uma saída
líquida igual a 207 mil só em 2006. Em contra partida a Bahia, que perdia uma população
igual a 221 mil habitantes na década 1990, teve uma entrada líquida de 33 mil, em 2006 24 .
Ainda em relação ao crescimento populacional na cidade de São Paulo, podemos
perceber, assim como nos apontam as pesquisadoras Suzana Taschner e Lucia Bogus no
artigo o caleidoscópio urbano, que a evolução do crescimento populacional está
historicamente relacionada com seu desenvolvimento econômico. Podemos apontar três
fases que perfizeram o crescimento econômico e conseqüentemente o aumento no índice
populacional. A primeira fase marca o final do século XIX, cujo destaque foi o auge da
produção de café, como vimos no tópico acima. A segunda fase se caracteriza pela
implantação da indústria automobilística nos finais da década de 1940. E a terceira fase

24

Fonte: IBGE/PNADs 1992 a 2006. Elaboração do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA).

abrange as décadas de 1950 e 1970, com a concentração da atividade econômica nacional
na região metropolitana da cidade de São Paulo 25 .

1.2. Redemocratização brasileira: um processo em andamento
José Bonifácio afirmou, em representação enviada à Assembléia
Constituinte de 1823, que a escravidão era um câncer que corroia nossa
vida cívica e impedia a construção da nação. A desigualdade é a
escravidão de hoje, o novo câncer que impede a constituição de uma
sociedade democrática.

Na década de 1950, o processo industrial brasileiro enfrentou uma série de
problemas, como, por exemplo, os pontos de estrangulamento, que seriam: a falta interna
de combustível, energia elétrica insuficiente e uma precariedade no transporte; a
industrialização regionalmente desequilibrada, pois, no centro-sul podia-se perceber certo
avanço industrial, enquanto no nordeste, um empobrecimento em relação à
industrialização; limitação na importação; contração de dívida externa, pois para se ter
uma industrialização eficiente foi necessário importar equipamentos e materiais do
exterior, uma vez que se fazia impossível industrializar um país como o Brasil, deficiente
na produção de maquinário, sem o apoio internacional; por fim, o crescimento da taxa de
inflação. Esses problemas causaram um atraso no processo industrial e, desse modo, não
permitiram seu sucesso permanente, o que resultou em crises freqüentes na economia.
Com todas essas dificuldades no estabelecimento de uma industrialização eficiente, fica
simples entender os desequilíbrios financeiros ocorridos nos anos posteriores. Emir Sader
explica que em 1964, quando o Brasil sofreu um golpe militar, sua economia não ia bem,
o quadro que se observava era um aumento descontrolado da taxa de inflação e uma
queda no crescimento econômico. Com objetivo de expandir a economia nacional, o
primeiro governo militar adotou uma política de choque, que seria:
Uma rápida reconcentração de renda nas mãos dos grandes capitais,
mediante uma dura política de arrocho salarial, um amplo desemprego
acompanhado da falência de dezenas de milhares de pequenas e médias
empresas, tudo fruto da recessão econômica26 .

25

TASCHNER, Suzana; BOGUS, Lucia. São Paulo: O caleidoscópio urbano. São Paulo: perspec, São
Paulo, v.15, nº1, 2001. Acesso dia 17 jan. 2007.
26
SADER, Emir. A transição do Brasil: da ditadura à democracia? São Paulo: Atual, 1990.

Essa política resultou em um crescimento econômico nacional, isto é, houve
crescimento do PIB. O Brasil ficou mais rico, mas em contrapartida, a classe trabalhadora
ficou mais pobre. Os anos de maior repressão durante o governo militar revelaram um
maior crescimento econômico. A época conhecida como o “milagre econômico” foi
justamente quando a economia crescia entre 10 e 13% durante o governo Médici. Mas
foram anos de violentas repressões.
A crise do petróleo em 1973 foi um importante fator que impediu o crescimento
econômico. A bomba estourou de fato em 1979, quando a taxa de juros anual da dívida
externa chegou a 4,2 bilhões. A partir do ano de 1977, o crescimento econômico começou
a cair e em 1983, o crescimento apresentava índices negativos de –3,2%. Esse cenário
econômico trazia insatisfação a todas as classes, inclusive aos que apoiaram o governo
militar, e principalmente à classe operária, que enfrentava um baixo salário e um alto
índice de desemprego.
Em 1975, Luiz Inácio Lula da Silva é eleito presidente do sindicato dos
trabalhadores. Durante todo o seu mandato não se percebeu propostas radicais. O que
sempre foi visível era a capacidade de sempre recorrer a formas de negociações, ou seja, o
partido sempre tentava se mover nas bases legais, atuando nas brechas do estado 27 . Diante
da crise política e econômica em 1978, o MDB (Movimento Democrático Brasileiro)
ganha as eleições. Uma visível manifestação operária se organiza, e seu principal
movimento se dá no ABC paulista, onde a indústria automobilística alavancava outros
ramos da economia. Um exemplo dessa organização foram as greves ocorridas nos anos
de 1978 e 1979.
Os estudantes também voltaram a se organizar. O movimento estudantil
promoveu grandes mobilizações de ruas protestando contra a ditadura e a tortura. Os
órgãos estudantis e sindicatos foram alvos de repressão, principalmente nos anos de 1964
e 1965, período responsável por eliminar a cúpula sindical. Com a irregularidade
industrial, como já vimos anteriormente, em que a região do Centro-sul apresentava
melhores condições de trabalho, pois era uma região industrializada, o Nordeste, e
principalmente os trabalhadores do campo, enfrentavam maiores dificuldades e piores
condições de trabalho remunerado. O sindicato não podia reivindicar muito, devido ao
27

SADER, Emir. Pós-neoliberalismo: as políticas sociais e o Estado democrático. Organização de Emir
Sader, Pablo Gentili. 4. ed. São Paulo: Paz e Terra, 1998.

elevado índice de desemprego. A crise do emprego fez com que os sindicatos perdessem
suas forças, no sentido de não poderem avançar muito, tendo em vista que precisavam
assegurar os empregos. Desse modo, os sindicatos se enfraquecem e se tornam
assistencialistas. A igreja e o sindicato foram os novos personagens que entraram em
cena. Mas nos anos de 1980, com o processo de redemocratização, também perdem seu
espaço 28 . A “única instituição que conseguiu defender-se, apesar de alguns conflitos com
o governo, foi a Igreja Católica 29 .” Devido o seu poder de resistência, tornou-se o
principal foco de oposição legal ao governo.
A Igreja Católica exerceu uma importante influência nessa nova fase dos
movimentos sociais. Ela, até a década de 60, mantinha um discurso que ensinava que o
pobre deveria se conformar com a miséria, pois assim, em troca, garantiria sua salvação
celestial. Porém, uma parcela da população, que percebia que o discurso da Igreja não era
condizente com suas práticas, uma vez que parte significativa da população brasileira se
definhava por falta de pão e a Igreja se mostrava pouco preocupada, decidiu abandonar o
catolicismo. Mas, em meados da década de 70, um movimento de renovação em processo
transforma o pensamento da Igreja na América Latina, principalmente em relação ao seu
olhar para o pobre. Com a teologia da libertação e as práticas do ver, julgar e agir, a
Igreja Católica consegue impulsionar aberturas de espaços em algumas igrejas para
discussão dos problemas vividos por suas comunidades. As periferias se tornaram alvo de
grupos de esquerda e da Pastoral Jovem, que seguindo os passos do pioneiro Paulo Freire,
realizavam trabalhos de alfabetização de adultos com objetivo de levar conscientização
política a essas pessoas pobres. Essa nova esquerda nasce a partir da decepção com a luta
armada 30 .
O primeiro marco de transição à redemocratização foi a política de anistia, que
possibilitou o retorno ao Brasil dos exilados políticos. O MDB, que acoplava toda a
oposição aos militares, desde os moderados até os de esquerda mais radical, viu-se
obrigado a se subdividir em outros partidos. A direita se concentrou nos partidos PDS e
PMDB, e os da esquerda fundaram o partido dos trabalhadores (PT), uma união de três
principais grupos: a ala progressista da Igreja Católica, os sindicalistas renovadores, e

28

SKIDMORE, Thomas. Uma história do Brasil. São Paulo: paz e terra, 2003.
CARVALHO, José Murilo de. Cidadania no Brasil: o longo caminho. Rio de janeiro: Civilização
Brasileira, 2004, p. 165.
30
SADER, Eder. Quando novos personagens entraram em cena. Rio de Janeiro: Paz e terra, 1988.
29

algumas figuras da intelectualidade: “eram grupos heterogêneos que conviviam dentro do
partido graças ao amplo espaço existente para a discussão interna 31 .”
Bolívar Lamounier elucida que a década de 1980 é caracterizada pelo otimismo
da redemocratização, mas também pela instabilidade econômica, pois se percebia a
redução no ritmo de crescimento, juntamente com uma aceleração na inflação, somando
ainda as condições sociais cada vez piores. O autor aponta que o crescimento do PIB
baixou, de 7 e 8% nos anos setenta, para uma média de 2% nos anos oitenta. Esse quadro,
que já era grave, com a aceleração do crescimento populacional, ficou ainda pior, o que
culminou na aceleração da inflação. A década de 80 também foi marcada por uma
crescente participação política. Grupos sociais viam na organização política (sindicatos,
cooperativas, etc.) uma possib ilidade de se defender contra a crise sócio-política 32 .
José Murilo de Carvalho, em sua obra Cidadania no Brasil 33 , delineia a história
do Brasil destacando as transformações políticas nacionais e mostrando a trajetória
brasileira rumo à cidadania. Nesse intento, nos mostra de forma clara que a construção da
cidadania no Brasil ganhou ímpeto na década de 1980, depois da derrocada da ditadura
militar. A Constituição de 1988 ficou conhecida como a Constituição Cidadã.
Reconquistar o direito de eleger o presidente, o governador, o prefeito e os vereadores, foi
um grande passo para a democratização, o que representou mais do que uma simples
chance de participação da vida política do país. Significava reacender as chamas da
esperança de um futuro melhor, com segurança, emprego e justiça social. Mas, após mais
de vinte anos de democracia, o que podemos contemplar é uma outra realidade.
Enfrentamos problemas de urgência em nossa sociedade, como a violência urbana, que a
cada dia se mostra mais ameaçadora; o desemprego que atinge cada vez mais um número
maior de pessoas; o analfabetismo vergonhoso; que ainda é significativo na sociedade
brasileira; a pessíma qualidade da educação; a deficiência nos serviços de saúde e
saneamento básico; e as grandes desigualdades sociais e econômicas que continuam sem
solução. “Em conseqüência, os próprios mecanismos e agentes do sistema democrático,

31

CARVALHO, José Murilo de. Cidadania no Brasil: o longo caminho. Rio de janeiro: Civilização
Brasileira, 2004, p. 176.
32
LAMOUNIER, Bolívar. De Geisel a Collor: O balanço da transição. São Paulo: Sumaré, 1990, pp. 1335.
33
CARVALHO, José Murilo de. Cidadania no Brasil: o longo caminho. Rio de janeiro: Civilização
Brasileira, 2004, p. 166

como as eleições, os partidos, o Congresso, os políticos, se desgastam e perdem a
confiança dos cidadãos 34 .”
1.3. Processo de periferização e favelização da cidade de São Paulo
Nos barracos da cidade
Ninguém mais tem ilusão
No poder da autoridade
De tomar à decisão
E o poder da autoridade
Se pode, não faz questão
Mas se faz questão, não consegue
Enfrentar o tubarão35

Falar sobre a metamorfose da cidade de São Paulo em metrópole e, por
conseguinte, em seu processo de urbanização acelerado, é não ignorar a ocupação das
regiões periféricas da cidade e a formação de suas favelas. A música de Gilberto Gil
ilustra bem o sentimento dos moradores das grandes periferias que se vêem sozinhos e
abandonados pelo poder das autoridades. Vemos isso na fala de um de nossos
colaboradores quando explica sobre a infra-estrutura de seu bairro e o lado positivo e
negativo de morar no distrito Grajaú:
O positivo é em relação ao poder aquisitivo, eu não tenho condição de
morar em outro lugar além daqui, por causa do poder aquisitivo. Mas o
negativo é que por ser periferia, a gente desfruta da sobra, do restante.
Para nós, quando chega algum beneficio é quando sobra de outros
bairros de centro, de classe média. Então, o ônibus é o mais simples, o
banco é aquele de final de linha, com o pequeno serviço, com o
equipamento que não serve mais em uma agência de classe média.
Então, a gente tem essa opção por questão financeira. Hoje nós temos
assim, uma extensão, na verdade uma extensão mesmo, porque a gente
paga por isso, a gente hoje não tem nada grátis, a gente tem que pagar
por tudo. Temos aqui um serviço médio. A gente paga por isso, mas
precisa melhorar36 .

Esse morador da periferia é consciente de sua condição de marginalizado e da
precariedade dos serviços públicos para essa população, quando existem. “O município de
São Paulo tinha 1% de sua população vivendo em favelas no início de 1970, e quase 20%

34

CARVALHO, José Murilo de. Cidadania no Brasil: o longo caminho. Rio de janeiro: Civilização
Brasileira, 2004, p. 8.
35
Musica de Gilberto Gil. “Nos barracos da cidade”.
36
Entrevista realizada no dia 3-7-2007. O colaborador é o senhor Ademar de 58 anos, morador da Zona Sul
e membro fundador da igreja Batista Maranata.

no início de 1990 37 .” Uma obra de referência que aborda o processo de urbanização da
cidade de São Paulo e os fenômenos de periferização e favelização é a pesquisa de Tereza
Caldeira, que se baseia em depoimentos de moradores de diferentes bairros da cidade de
São Paulo. Os depoimentos foram colhidos entre os anos de 1989 e 1991, e o objetivo foi
analisar os discursos de criminalidade, instituições democráticas e os direitos civis. Mas o
que nos interessa é o esforço da autora em mostrar a segregação social vivida na cidade
de São Paulo, que se divide em três padrões marcados por determinadas épocas.
O primeiro padrão de segregação se desenvolve entre o final do século XIX e vai
até os anos de 1940. Neste período, a população se concentrava no centro da cidade. Ali,
a forma de diferenciação e, portanto, de segregação, era o tipo de moradia (mansões e
cortiços). O segundo tipo de segregação social vivido na cidade de São Paulo se estende
da década de 1940 até os anos 1980, quando se formava a contradição entre o centro e a
perife ria. Ou seja, a população rica se concentrava no centro urbano e se separava da
classe pobre, uma vez que esses se concentravam na periferia. O terceiro padrão se inicia
nos anos 80, e modifica consideravelmente a cidade e sua região metropolitana. As
transformações recentes geram espaços em que aparentemente as classes estão próximas
umas das outras, mas ficam separadas pelos muros e sistemas de segurança. Como foi
colocado pela autora, “(...) o novo padrão de segregação espacial serve de base a um novo
tipo de esfera pública que acentua as diferenças de classes e as estratégias de
separação 38 .”
Tereza Caldeira aclara que, de 1890 até 1940, o espaço urbano de São Paulo foi
caracterizado por uma imensa concentração no centro da capital. Havia um crescimento
populacional com a constante chegada de trabalhadores para a cidade e o surgimento de
fábricas que se multiplicavam a cada dia. A elite vivia em mansões enquanto os
trabalhadores viviam em casas alugadas mais de 80% e em cortiços.
A elite começou a perceber que viver muito próximo da classe trabalhadora e dos
pobres não era muito limpo e saudável, passando a associar o pobre à sujeira,
promiscuidade e idéias ligadas ao crime. Em função disso, além de controlar os pobres, a
elite começou a separar-se dele. Temendo epidemias, a elite passou a mudar para regiões
37

CARLOS, Ana Fani Alessandri; OLIVEIRA, Ariovaldo Umbelino de. . (organizadores). Geografias de
São Paulo: a metrópole do século XXI. São Paulo: Contexto, 2004, p. 274Op. cit., p. 274.
38
CALDEIRA, Teresa Pires do Rio. Cidade de Muros: Crime, Segregação e Cidadania em São Paulo. São
Paulo: Editora 34/Edusp, 2000. p, 212.

menos densas e com loteamentos exclusivos. Um exemplo disso é o bairro de
Higienópolis.
A separação cidade-periferia veio da idéia “de isolamento, a abertura e a limpeza
como solução para o meio urbano caótico e suas tensões sociais 39 .” Quatro são as
principais influências que transformaram a cidade de São Paulo em uma zona de
segregação urbana, cidade-periferia. A primeira se refere às leis urbanas que surgiram no
início do século passado, estabelecendo algumas medidas como: o alargamento de
avenidas, abertura de ruas e reforma na zona comercial, entre outros. Essas medidas
estimulavam a especulação imobiliária, aumentando os preços de aluguéis. Assim, quem
não podia pagar os elevados preços era expulso do centro. A segunda diz respeito aos
industriais que também tinham interesse em organizar o espaço urbano e expandir suas
indústrias, reduzindo gastos. Sugeriram, então, que os trabalhadores tivessem suas casas
próprias, diminuindo as despesas com moradia e aumentando seu consumo. O terceiro era
referente ao movimento sindical, que, influenciado pelos anarquistas, propunha uma
organização para boicotar os aluguéis, mas que, mais tarde, com as mudanças políticas, o
problema de moradia passou a ser tratado individualmente. A quarta e última influência
acontece depois da Revolução de 1930. O Ministério do trabalho defendeu a oportunidade
da casa própria. Essa intervenção do governo causou uma diminuição no mercado de
aluguéis e isso “acelerou a partida de trabalhadores para a periferia, onde podiam
encontrar terrenos baratos (e irregulares) para construir suas casas 40 .” Esse novo padrão
de urbanização é disperso em vez de concentrado. As classes sociais vivem longes umas
das outras. As classes médias e altas vivem nos centros e as classes baixas na periferia.
Destes, a maioria tem casa própria, porém, a maior parte dos pobres faz construções
ilegais e/ou irregulares.
É denunciado que, para as construções e aquisições imobiliárias, a classe média e
alta pôde contar com o apoio de programas do governo: “ao contrário do que acontecia
com as camadas trabalhadoras, as classes média e alta receberam financiamento e não
tiveram que construir suas casas. Mudaram-se para prédios de apartamentos 41 ” que muitas

39

CALDEIRA, Teresa Pires do Rio. Cidade de Muros: Crime, Segregação e Cidadania em São Paulo. São
Paulo: Editora 34/Edusp, 2000. p. 215.
40
CALDEIRA, Teresa Pires do Rio. Cidade de Muros: Crime, Segregação e Cidadania em São Paulo. São
Paulo: Editora 34/Edusp, 2000. p. 218.
41
CALDEIRA, Teresa Pires do Rio. Cidade de Muros: Crime, Segregação e Cidadania em São Paulo. São
Paulo: Editora 34/Edusp, 2000. p. 224.

vezes eram inacessíveis às camadas baixas: “os moradores da periferia também foram
negligenciados pelo fato de que nunca puderam contar com nenhum tipo de
financiamento para construir suas casas 42 .”
Outro ponto ressaltado pela autora é que a distância entre os pobres e ricos não
ficava somente nas questões geográficas. Pois, além da habitação ser melhor nos centros
da cidade em relação à periferia, a qualidade de vida e o saneamento básico eram também
radicalmente diferentes. A pesquisadora apresenta dados estatísticos que comprovam que
a qualidade de vida na periferia era muitas vezes inferior à classe média e alta: “em
resumo, nos anos 70, os pobres viviam na periferia, em bairros precários e em casas
autoconstruidas; as classes média e alta viviam em bairros bem equipados e centrais, uma
porção significativa delas em prédios e apartamentos43 .”
Na terceira fase, entre os anos 80 e 90, a segregação centro-periferia ainda existe,
mas o processo é diferente:
A cidade de São Paulo hoje é uma região metropolitana mais complexa,
que não pode ser mapeada pela oposição centro rico versus periferia
pobre. Ela não oferece mais a possibilidade de ignorar as diferenças de
classes; antes de mais nada, é uma cidade de muros com uma população
obcecada por segurança e discriminação social44 .

Nesses anos, houve na cidade de São Paulo uma redução na taxa de crescimento
populacional devido à baixa fecundidade e emigração. Neste mesmo período, muitos das
classes média e alta deixaram os bairros centrais para habitarem em bairros distantes,
antes habitados somente por pobres:
O deslocamento dessa classe média para loteamentos residenciais foi
natural e prazeroso, porque capaz de propulgnar que a vida fora da
cidade oferecia qualidade superior. O ponto de vista do morador é de
que morar um pouco longe de tudo é o preço que se paga por uma vida
melhor e, além disso, tem verde, tem ar puro! 45

42

CALDEIRA, Teresa Pires do Rio. Cidade de Muros: Crime, Segregação e Cidadania em São Paulo. São
Paulo: Editora 34/Edusp, 2000. p.221.
43
CALDEIRA, Teresa Pires do Rio. Cidade de Muros: Crime, Segregação e Cidadania em São Paulo. São
Paulo: Editora 34/Edusp, 2000. p.228.
44
CALDEIRA, Teresa Pires do Rio. Cidade de Muros: Crime, Segregação e Cidadania em São Paulo. São
Paulo: Editora 34/Edusp, 2000. p.231.
45
SEABRA, Odette Carvalho de Lima. São Paulo: a cidade, os bairros e a periferia. In: CARLOS, Ana
fani Alessandri; Oliveira, Ariovaldo Umbelino de(orgs). Geografias de São Paulo: representação e crise da
metrópole. São Paulo: Contexto, 2004, p. 127.

Por outro lado, a aquisição de casa pela autoconstrução ficava cada vez menos
viável para o pobre trabalhador. Isso se explica devido ao empobrecimento contraído
decorrente da crise de 1980 e pelas melhorias urbanísticas na periferia:
Em outras palavras, enquanto as rendas diminuíram, a periferia
melhorou e tornou-se mais cara. Com resultado, muitos moradores
tiveram que colocar de lado o sonho da casa própria e cada vez mais
optar por viver em favelas ou cortiços, que aumentaram
substancialmente 46 .

A pesquisadora Ermínia Maricato, em seu artigo Urbanismo na periferia do
mundo globalizado: Metrópoles brasileiras São Paulo 47 , constata que nos anos de 1940 a
1980, o PIB brasileiro teve um crescimento superior a 7%, o que significa um dos maiores
crescimentos do mundo nesse período. Porém, essa riqueza gerada desembocou em uma
concentração de renda, ou seja, uma melhoria significativa na qualidade de vida para uma
parcela bem pequena da sociedade.
Prado explica que no final da década de 1950 houve um acordo importante para
a economia brasileira. A Instrução nº. 11348 favoreceu o capital estrangeiro, que penetrou
na economia nacional de forma segura. Entram no Brasil produtos concorrentes dos
brasileiros, mas com um valor mais acessível. Para os industriais isso foi vantajoso,
embora perdessem sua autonomia e independência financeira. Mas o acordo parecia
vantajoso por possibilitar recurso financeiro para o crescimento de suas empresas. Essas
mudanças econômicas e políticas resultaram na terceirização industrial. Desse modo,
houve uma redução dos empregos. O Brasil viveu uma terrível contradição econômica,
houve ganho de produtividade e competitividade, mas perda de meio milhão de empregos
em curtíssimo prazo, resultando em um grande problema social49 .
A partir das décadas de 1930 e 1940 houve um forte investimento no setor
imobiliário brasileiro, o que transformou as principais metrópoles em cidades verticais de
forma incrivelmente rápida. Em 1964 foi criado um banco nacional de financiamento de
habitação BNH (Banco Nacional de Habitação). Dessa maneira, a classe média brasileira
46

CALDEIRA, Teresa Pires do Rio. Cidade de Muros: Crime, Segregação e Cidadania em São Paulo. São
Paulo: Editora 34/Edusp, 2000. p. 231.
47
MARICATO, Ermínia. Urbanismo na periferia do mundo globalizado: metrópoles brasileiras. São Paulo
Perspectiva. São Paulo, v. 14, n. 4, 2000. Disponível em: www.scielo.br. Acesso em: 30 Jan. 2007.
48
Instrução nº113 baixada pela Superintendência das Moedas e do Crédito em 17 de janeiro de 1955,
permitia ao Banco do Brasil emitir licença de importação sem cobertura cambial.
49
TASCHNER, Suzana; BOGUS, Lucia. São Paulo: O caleidoscópio urbano. São Paulo: perspectiva. São
Paulo, v.15, nº1, 2001. Disponível em: www.scielo.br. Acesso em: 17 jan. 2007.

foi ocupando sua nova moradia. Os apartamentos que eram financiados pelo BNH não
permitiam um acesso democratizado, visto que grande parte da população não tinha
acesso aos financiamentos, uma vez que estes eram prioritariamente direcionados às
classes média e alta.
O abandono por parte do governo e, por conseguinte, a falta de políticas
habitacionais que atendessem as necessidades dos mais pobres fez com que a massa de
trabalhadores mal remunerados e os desempregados fossem empurrados para periferia e,
por conseguinte, habitando em espaços com condições precárias de vida. Esse processo se
dá desde o final da década de 1960, intensificando-se nos anos 80. Segundo os autores
Eduardo César Marques e Renata Bichir, tal processo foi identificado como periferização,
ou seja:
A ação pulverizada dos produtores privados e a inação do Estado teriam
levado à construção de espaços metropolitanos caracterizados por um
gradiente decrescente de condições de vida, inserção no mercado de
trabalho e acesso à renda do centro para as periferias. Os espaços
periféricos seriam os mais distantes e de menor renda diferencial,
ocupados pela população de mais baixa renda e inserida de forma mais
precária no mercado de trabalho 50 .

O crescimento do município de São Paulo rumo à periferia tem seu início na
década de 1940. Essa estratégia de moradia se associa a todo tipo de carência urbana
possível, como, por exemplo, loteamentos irregulares, casas autoconstruídas, lotes
invadidos e formação de favelas. A metrópole vive, então, o que as pesquisadoras Suzana
Taschner e Lucia Bogus chamam de ‘estrutura dual’. Ou seja, as regiões centrais recebem
infra-estrutura,

investimento

financeiro

e

prédios

luxuosos

e

uma

constante

modernização, enquanto convivem com as franjas da metrópole, as regiões periféricas,
sem infra-estrutura pública básica e uma massa de desempregados vivendo em favelas.
As autoras analisam a contradição socioeconômica entre os “anéis” centrais e
periféricos e chegam aos resultados seguintes: no centro se encontra uma parcela maior da
população mais velha, enquanto na periferia os percentuais maiores estão entre a
população mais jovem. Outro dado apontado é o de que no anel central a população de
chefes de família é majoritariamente branca, com alta escolaridade (uma média de doze

50

MARQUES, Eduardo e BICHIR, Renata. Investimentos públicos, infra-estrutura urbana e produção da
periferia em São Paulo. São Paulo, 2007. Disponível em www.centrodametropole.org.br. Acesso em: 17
jan. 2007.

ou mais anos de estudo) e renda superior a 20 salários mínimos. Já no anel periférico se
encontra uma maior porcentagem de chefes de família não-brancos, ou seja, um maior
percentual de pretos e pardos, com baixa escolaridade (uma média de quatro anos de
estudo) e menor renda. Este estudo permite estabelecer uma relação entre renda, cor,
escolaridade e local de residência no espaço urbano. Conseqüentemente, evidencia a
discriminação sofrida por quem, além de negro, pobre e com baixa escolaridade, reside na
periferia.
A associação cor-pobreza-periferia afirma-se de forma clara, ainda mais
quando é verificada a proporção de negros e pardos nas favelas
paulistanas em 1991 (53% da população favelada). Há fortes indícios da
estigmatização de contingentes populacionais que, ao residir em
determinados locais, são discriminados por uma combinação de fatores
de classe e etnorraciais 51 .

A fala de uma de nossas entrevistadas deixa explícita, tanto sua consciência de
que sofre discriminação sendo estigmatizada por morar em uma favela, quanto sobre a
precariedade de infra-estrutura a qual está submetida, revelando uma ausência de status
social.
A região, eu gosto, por que é um local tranqüilo, a gente não tem
assalto, essas coisas. Mas tem desvantagens, sabe por quê? É terreno da
prefeitura, e é muito desvalorizado, as pessoas tem muito preconceito,
elas pensam que favelado é sinônimo de ladrão, entendeu? Tem córrego
perto, tem muita fofoca, tem muita discórdia. O povo não mexe com a
gente, todo mundo respeita todo mundo, mas eu queria morar num lugar
assim, que fosse mais verde e que não fosse terreno da prefeitura, só por
causa da discriminação. Quando eu era criança eu não pensava assim,
mas agora eu sinto na pele, às vezes você está conversando com uma
pessoa e ela fala assim “Mas o favelado...” com preconceito. Então nem
sempre eu falo com as pessoas que eu moro na favela, apesar de eu
gostar e ter orgulho da minha casa, e ter orgulho dos meus pais terem
me dado esse lugar para morar, eu sinto o preconceito, entendeu? Por
causa do preconceito do bairro, eu não falo nada, eu omito 52 .

De acordo com o novo mercado globalizado, os mais jovens e com menor
qualificação são os que mais sofrem em busca de emprego remunerado, e é justamente
essa parcela que reside no anel periférico. Enquanto se observa a verticalização no anel
central, no anel periférico se percebe um crescente número de conjuntos populares,
loteamentos irregulares e/ou ilegais e favelas. É possível, também, estabelecer uma

51

TASCHNER, Suzana; BOGUS, Lucia. São Paulo: O caleidoscópio urbano. São Paulo: perspectiva. São
Paulo, v.15, nº1, 2001. Disponível em: www.scielo.br. Acesso em: 17 jan. 2007.
52
Renata Alves, 24 anos.

relação entre o desemprego e a procura por loteamentos baratos. Com a crise financeira
dos finais da década de 1970 e início dos anos 1980, foi crescente o número de
desempregados, ao mesmo tempo em que houve uma redução na procura por imóveis
alugados, pois essa população buscou na periferia por meios de habitação.
Jane Souza Silva pesquisou especificamente o processo de favelização da
periferia da Zona Sul da cidade de São Paulo, e detectou seu início a partir da década de
1970. Como vimos acima, a criação do banco nacional para habitação (BNH), na década
de 1960, não foi acessível à população pobre da metrópole. O primeiro programa
alternativo para tratar da habitação popular foi em 1975, o PROFILURB (programa para
lotes urbanizados), criado pelo BNH. Em 1979, a PROMORAR foi um programa para
urbanização das favelas, e em 1983, o programa João de Barro foi destinado a financiar
autoconstruções. O programa de urbanização de favelas conseguiu que em 1993, 90% das
moradias da favela recebessem energia elétrica e 62% água encanada. Mas a rede de
esgoto ainda está ausente em mais de 77% das favelas, o que explica a grande quantidade
de dejetos que são lançados ao ar livre em córregos e represas 53 .
1.4. A zona sul de São Paulo
A Zona Sul da capital paulistana abrange uma região formada por cinco
subprefeituras: Capela do Socorro, Campo Limpo, Cidade Ademar, M’Boi Mirim e
Parelheiros. Veja mapa 54 abaixo:

53

SILVA, Jane de Souza. Urbanização de favelas em área de proteção de mananciais: O caso da
comunidade Sete de Setembro. 2003. Dissertação de mestrado. Escola Politécnica, Universidade de São
Paulo. São Paulo, 2003.
54
Mapa disponível no site oficial da prefeitura de São Paulo: www.portal.prefeitura.sp.gov.br. Acesso em:
16 nov. 2006.

Como vimos anteriormente, essa é uma das regiões da cidade de São Paulo
caracterizada como a mais carente. Grande parte da população que mora nessa região vive
abaixo da linha da pobreza, com um alto percentual de favelas localizadas nas
proximidades das represas Billings 55 e Guarapiranga 56 . Os três distritos mais pobres da
cidade de São Paulo estão localizados na Zona Sul: Parelheiros, Marcilac e Grajaú.

55

É um dos maiores e mais importantes reservatórios de água da região metropolitana de São Paulo. Foi
construída nas décadas de 1930 e 1940 pela empresa de energia elétrica Light (responsável pelo
abastecimento de energia da cidade de São Paulo). O objetivo de sua construção era armazenar água para
gerar energia elétrica para usina hidrelétrica de Cubatão. Em função do elevado crescimento populacional, a
represa Billings possui grandes trechos poluídos com esgotos domésticos e industriais.

É na Zona Sul que está a principal reserva florestal da Mata Atlântica da cidade
de São Paulo e onde se encontra o Autódromo de Interlagos e o aeroporto de Congonhas.
Edison Luiz Oliveira, que fez um estudo sobre as transformações sócio-espacial
da metrópole e investigou a Zona Sul de São Paulo, explica que a partir dos anos de
1930, com a aceleração do crescimento metropolitano, houve uma crescente procura por
imóveis, o que favoreceu a expansão da venda de terrenos e imóveis urbanos. Com o
aumento da demanda por habitação, principalmente pela classe trabalhadora, uma vez que
a cidade foi massiçamente ocupada por trabalhadores estrangeiros que ajudavam a
engrossar os encurtiçamentos, aluguéis e as vilas operárias, houve um déficit estrutural
conhecido como a crise da habitação. Um modo encontrado para suprir a necessidade de
habitação dos trabalhadores foi a periferização e a autoconstrução que foi “conduzindo a
ocupação mais efetiva dos loteamentos abertos e à abertura de uma grande quantidade de
novos loteamentos, em todos os quadrantes da futura região Metropolitana (Zona Sul) 57 .”
A ocupação desses loteamentos clandestinos e irregulares representava, por um
lado, uma solução viável para os trabalhadores, por ser um produto de necessidade
essencial e de preço acessível, mas por outro lado, as conseqüências dessa “nova” forma
de habitação foi o crescimento desordenado e a ocupação de loteamentos irregulares e
clandestinos, portanto, em desacordo com as normas urbanísticas e não possuindo a
mínima estrutura urbana como, por exemplo, água, esgoto, luz, asfalto, etc. A reprodução
desse tipo de loteamento cresceu também porque representava lucratividade aos
loteadores e proprietários fundiários.
Por causa da abundância de terrenos baratos nos anos 50 e 70, a Zona Sul vai
atrair as indústrias de forma significativa, como a metalúrgica, mecânica, química e
farmacêutica. “Em 1965, somente no subdistrito de Santo Amaro, havia 332 indústrias
com mais de 5 empregados, 90 delas eram de metalúrgicas, 48 mecânicas e 34

56

Fundada em 1907 pela empresa Light. A partir da década de 1920, a represa serviu como reservatório de
água para distribuição domiciliar da capital. Também é utilizada para controle de cheias e para o lazer da
região. Nas suas margens, existem praias artificiais e marinas de barcos.
57
OLIVEIRA, Edison Luiz. Projeto Interlagos. A praia que faltava à São Paulo: Contradições e
significado da inserção de Santo Amaro/Zona Sul na formação sócio-espacial/metropolitana. 1996.
Dissertação de mestrado. Faculdade de FFLCH. USP. São Paulo, 1996, p. 91.

químicas 58 .” Um grande impulso para a industrialização da Zona Sul foi a construção das
marginais do rio Pinheiros.
No início dos anos de 1940, e representativamente a partir dos anos de 1960, a
Zona Sul de São Paulo teve um assustador crescimento, bem como toda a grande São
Paulo. Juntamente com o crescimento populacional, os problemas urbanos também
aumentaram. Como nos explica Oliveira, a falta de infra-estrutura e saneamento básico
são aspectos comuns de um grande número de bairros que surgem da noite para o dia em
todos os quadrantes da grande Metropole, carência que é mais sentida e dolorosa nos
setores de habitação e transporte, pois impõe um sofrimento inominável a milhões de
pessoas. E acrescenta que
o aparecimento da periferia, ocorre com destaque na Zona Sul, pois é
onde se dá o maior incremento demográfico em termos do contexto da
Capital, entre os anos 50 e 70. Ao mesmo tempo, a tendência verificada
no período anterior, em relação ao assentamento residência, das
camadas médias e abastadas neste subespaço da Capital permaneceria.59

Daí se percebe a diferenciação entre os bairros situados mais ao norte da zona
sul, nos subdistritos Ibirapuera, Jabaquara e Santo Amaro (bairros bem equipados,
arborizados e com casas que denotam um status social mais elevado), em relação aos
subdistritos Capela do Socorro, Parelheiros e Campo Limpo, regiões onde predominam
casebres e favelas. No final dos anos 70 e início dos anos 80 e 90, devido a grande
quantidade de loteamentos irregulares, o poder público passou a fiscalizar e regularizar os
loteamentos clandestinos, o que resultou na valorização dos terrenos e, portanto, no
aumento dos preços. Em conseqüência, o número de favelas começou a crescer de forma
assustadora.
Essa tendência teve como conseqüência a proliferação de favelas na
zona sul que, em 1987, concentrava 47% da população favelada da
capital (...) outra conseqüência foi a multiplicação de loteamentos
clandestinos nas regiões de mananciais, onde foram abertos 213
loteamentos clandestinos entre 1976 e 1994, perfazendo um total

58

OLIVEIRA, Edison Luiz. Projeto Interlagos. A praia que faltava à São Paulo: Contradições e
significado da inserção de Santo Amaro/Zona Sul na formação sócio-espacial/metropolitana. 1996.
Dissertação de mestrado. Faculdade de FFLCH. USP. São Paulo, 1996, p. 106.
59
OLIVEIRA, Edison Luiz. Projeto Interlagos. A praia que faltava à São Paulo: Contradições e
significado da inserção de Santo Amaro/Zona Sul na formação sócio-espacial/metropolitana. 1996.
Dissertação de mestrado. Faculdade de FFLCH. USP. São Paulo, 1996. p. 125.

aproximado de 35 milhões de metros quadrados de área loteada na área
de proteção aos mananciais, do município e São Paulo. 60

A ocupação da região da bacia do Guarapiranga começou na década de 1960,
quando uma massa de trabalhadores desempregada foi atraída pela possibilidade de
empregos nas indústrias que chegaram à região e pela oferta de loteamentos. “Em 1991,
aproximadamente 18% da população (cerca de 100 mil pessoas) moravam em favelas
situadas à margem da bacia 61 .” Com a velocidade da expansão urbana o governo não
conseguiu oferecer infra-estrutura básica para atender essa demanda. Hoje vivem mais de
550 mil pessoas, ocupando área de baixo padrão habitacional em favelas ou loteamentos
clandestinos, somente na região da periferia da Zona Sul. A falta de fiscalização do poder
público favoreceu o crescimento descontrolado da região, apresentando uma densidade
maior do que a permitida.
A forma como foi e continua sendo ocupada compromete os mananciais
de modo que parece irreversível, em que pese o esforço de entidades
ambientalistas e da ação do poder público visando controlar esse
processo que ainda continua. Lotear à revelia dos preceitos legais foi
essa a resposta prática dos proprietários de chácaras para as políticas
públicas e em recusa ao ônus que lhe recaia com a imobilização das
formas de uso62 .

A lei de proteção aos mananciais foi ineficiente, pois não conseguiu nem
proteger a região contra a degradação ambiental e nem conter o avanço populacional. Mas
continua sendo alvo de preocupação e ação do poder público. Uma demonstração disso é
a nota oficial divulgada pela prefeitura de São Paulo, no dia vinte e nove de agosto de
2007, publicada em seu site oficial, referente à demolição de casas construídas na região
da zona sul de São Paulo. Foi uma operação em defesa às águas, realizada pela
fiscalização estadual em parceria com a municipal, em que foram derrubadas 97 casas na
região da subprefeitura Capela do Socorro, com objetivo de proteger a àrea de
preservação ambintal onde se situam as represas Billings e Guarapiranga, responsáveis
pelo abastecimento de 1/3 de água potável da capital.

60

OLIVEIRA, Edison Luiz. Projeto Interlagos. A praia que faltava à São Paulo: Contradições e
significado da inserção de Santo Amaro/Zona Sul na formação sócio-espacial/metropolitana. 1996.
Dissertação de mestrado. Faculdade de FFLCH. USP. São Paulo, 1996. p. 134.
61
SILVA, Jane de Souza. SILVA, Jane de Souza. Urbanização de favelas em área de proteção de
mananciais: O caso da comunidade Sete de Setembro. 2003. Dissertação de mestrado. Escola Politécnica,
Universidade de São Paulo. São Paulo, 2003. p.27.
62
SEABRA, Odette Carvalho de Lima. São Paulo: a cidade, os bairros e a periferia. In: CARLOS, Ana fani
Alessandri; Oliveira, Ariovaldo Umbelino de(orgs). Geografias de São Paulo: representação e crise da
metrópole. São Paulo: Contexto, 2004, p. 126.

1.5. Distrito Grajaú
Para melhor conhecer a comunidade Batista Maranata mostraremos alguns dados
fornecidos pela prefeitura de São Paulo referentes ao sumário de dados de 2004, sobre a
região em que se localiza a zona regional da subprefeitura Capela do Socorro e,
especificamente, o distrito Grajaú. Veja a localização do mapa 63 .

A região da Zona Sul que nos interessa é a do distrito Grajaú, que pertence à
subprefeitura Capela do Socorro, composta por três subdistritos: Socorro, Grajaú e Cidade
Dutra. Somados representam 134km2, onde habitam aproximadamente 700 mil pessoas,
fazendo da Capela do Socorro a subprefeitura mais populosa da cidade de São Paulo. O
crescimento populacional da zona Sul se deu por volta da década de 1960. O distrito
Grajaú teve seu desenvolvimento no início da década de 1980, mesmo período em que
nasce a Igreja Batista Maranata. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística apontou
que no período de 60-80, houve um crescimento de 768% da população, que atualmente
conta com 675.162 habitantes. É o distrito mais populoso e com o maior índice de
crescimento demográfico da metrópole paulistana. A metade da população da
subprefeitura Capela do Socorro está no Grajaú.
63

Mapa disponível no site oficial da prefeitura de São Paulo: www.portal.prefeitura.sp.gov.br. Acesso em:
16 nov. 2006.

O Grajaú é o distrito que se localiza próximo a São Bernardo do Campo e às
margens das represas Billings e Guarapiranga. Segundo pesquisas oficiais, a população do
Grajaú é composta principalmente por migrantes nordestinos que, como vimos com o
pesquisador Oliveira, vieram em busca de melhores oportunidades de emprego e condição
de vida.
De acordo com os termos da sociologia, o espaço urbano denominado periferia
significa “um espaço socialmente homogêneo, esquecido pelas políticas estatais, e
localizado tipicamente nas extremidades da área metropolitana 64 .” As construções são
feitas de forma irregular ou ilegal, sem planejamento, não conseguindo cumprir as
exigências mínimas e em conseqüência não recebendo aprovação de assentamento pelas
leis municipais. Essa foi uma solução de moradia predominante encontrada pela
população de baixa renda do município de São Paulo. Assim como a construção das
favelas, que também é outra solução de moradia tradicional para os pobres, hoje calculase a existência de quatrocentos bairros irregulares somente no distrito pesquisado,
concentrando o maior número de favelados (95 mil habitantes) da capital. O distrito
Grajaú pode ser descrito, portanto, como periferia.
O distrito Grajaú apresenta um dos níveis mais elevados de pobreza da capital.
Algumas características do distrito confirmam essa tese, tais como: cerca de 50% dos
chefes de família recebem menos de três salários mínimos por mês; possui um elevado
índice de mortalidade por homicídio; é o distrito mais violento da subprefeitura: 98,73
assassinatos por 100 mil habitantes; elevado número de mortalidade infantil; a maior
parte da região foi loteada clandestinamente; maior índice de analfabetismo; grande
número de evasão e o pior rendimento escolar65 .

64

TORRES, Haroldo da Gama. Pobreza e espaço: padrões de segregação em São Paulo. Estudos
avançados, São Paulo, v. 17, n. 47, 2003. Disponível em: www.scielo.com.br. Acesso em: 09 nov. 2006.
65
Dados oficiais divulgados pela prefeitura de São Paulo no site: www.portal.prefeitura.sp.gov.br. Acesso
em: 12 de nov. 2006.

O mapa acima representa a realidade de exclusão social que compõe o município
de São Paulo. Destacamos ainda que a população do distrito Grajaú, como nos mostra o
mapa, está entre os mais atingidos pela exclusão social da cidade paulistana.
1.6. Breve nota sobre os batistas no Brasil
A comunidade Batista Maranata nasce na mesma época em que o distrito Grajaú
ganha impulso em seu desenvolvimento, nos finais dos anos 70 e início dos anos 80. Os
membros da igreja são da classe trabalhadora, possuindo uma baixa renda salarial, como
mostramos mais precisamente no capítulo três. Um grande número veio do nordeste do
país, majoritariamente do estado da Bahia. Muitos são moradores da favela do entorno da
comunidade.
Não nos interessa aqui trabalhar todo o histórico de formação da denominação66 batista, ou como
a denominação chegou e se consolidou no solo brasileiro. Muitas obras se dedicaram a contar a história dos
batistas no Brasil, a primeira obra acadêmica com o tema Batistas, foi a de Marli Geralda Teixeira, com a
dissertação publicada em 1975 e a tese de doutorado em 1983. Algumas obras foram publicadas pela Casa
Publicadora Batista, por iniciativa da própria denominação, como por exemplo, a obra do autor Asa R.
CRABTREE, História dos batistas no Brasil: até o ano de 1906, publicada em 1962. A obra procura
documentar a história da denominação batista, mostrando sua trajetória até o ano de 1906; outro autor de
referência é José dos Reis Pereira, cuja obra, Breve história dos Batistas, publicada em 1972, teve o
objetivo de relatar a história do surgimento da denominação batista, ressaltando datas oficiais e nomes de
grandes líderes; no ano de 1980, publicou também uma nova obra História dos batistas no Brasil67 que
pretendeu contar a história da denominação batista em solo brasileiro; Betty Antunes Oliveira, em sua obra
Centelha do restolho seco, publicada pela própria autora em 1985, também pretendeu dar sua contribuição
sobre a história dos batistas no Brasil. As quatro obras acima citadas são referências de uma história
institucional dos batistas, e que não possuem cunho acadêmico.

A temática sobre os batistas também foi objeto de interesse acadêmico. Como
exemplo, a obra do pesquisador Israel Belo de Azevedo, A celebração do indivíduo,
publicada em 1996, cujo propósito foi estudar a formação e o pensamento dos batistas
desde seu surgimento na Inglaterra em meados do século XVI até sua chegada em solo
brasileiro, fazendo uma reflexão sobre o estado atual dos batistas e suas influências sobre
a cultura brasileira. Outra obra que merece destaque é a tese de doutorado de Elizete da

66

Denominação é a forma específica e histórica que uma igreja toma. No interior do cristianismo, as
denominações podem ser vistas como conjuntos de tradições seguidas por igrejas. Os batistas integram uma
denominação.
67
PEREIRA, José dos Reis. História dos batistas no Brasil. Rio de Janeiro: Juerp, 1982.

Silva, Cidadão de outra pátria: Anglicanos e Batistas na Bahia, apresentada a
Universidade de São Paulo em 1998. A autora pesquisa sobre os batistas e os anglicanos
no contexto brasileiro, e principalmente baiano, nos anos de 1880 a 1930.
Fizemos também um levantamento das teses e dissertações desenvolvidas pelos
pesquisadores do programa de pós-graduação em Ciências da Religião da Universidade
Metodista de São Paulo, e encontramos mais de 20 trabalhos cujo objeto é a denominação
Batista brasileira. Desse modo, percebemos que muitos foram os focos de estudo sobre
essa denominação, como, por exemplo: estudo sobre o seminário teológico e educação
batista; práticas pastorais batistas na cidade de São Paulo; transformações no culto batista
na perspectiva de três comunidades da cidade de São Paulo; estudo sobre atitudes de
saúde por parte de membros de igrejas batistas na cidade de São Paulo; estudo sobre
identidade batista no contexto contemporâneo brasileiro; história dos batistas a partir da
memória da missionária Ann Mae Louise Wollerman no Mato Grosso do Sul; estudo da
mentalidade batista sob a ótica do jornal batista nos anos de 1960 a 1985; estudo sobre a
ordenação do ministério feminino na convenção batista paranaense; estudo sobre pessoas
com deficiência mental em uma comunidade batista; estudo sobre o marco inicial da
história dos batistas em solo brasileiro; entre muitos outros. Percebemos que a
denominação batista tem chamado a atenção da comunidade acadêmica nos últimos anos.
No entanto, para pesquisarmos sobre a comunidade batista Maranata, precisamos
entender um pouco o universo batista, para, desse modo, termos condições de decifrar os
discursos de nossos interlocutores e entendermos a realidade desse grupo religioso.
Utilizaremos o termo protestante para nos referirmos à denominação batista,
mesmo sabendo que este deveria designar, estritamente, os luteranos, pois o termo surgiu
popularmente no ano de 1529, para designar aqueles que protestavam contra a ab-rogação
do principio “cujus regius, cujus religus” aprovado na Dieta anterior. Mas, como nos
explica Israel Belo de Azevedo, o termo passou a ser aplicado, ao longo da história, a
todos os grupos religiosos decorrentes dos movimentos reformadores do século XVI: os
matrizes (luteranos, presbiterianos, calvinistas, anglicanos e anabatistas); os herdeiros
(congregacionais, batistas e metodistas) e os vice-herdeiros (adventistas e pentecostais,
ente os principais). O traço de genericidade é dado pela formação dos três princípios de
Martinho Lutero: escritura sagrada como única regra de fé e prática, salvação por meio da

fé, sacerdócio universal dos crentes 68 . No Brasil, de forma geral, o termo protestante é
aceito pelos grupos religiosos matrizes, entre os herdeiros, os metodistas aceitam sem
problema, e os batistas e congregacionais preferem o termo evangélico e o mesmo ocorre
entre os vice-herdeiros.
Os batistas surgiram na Europa, sendo fruto de uma cisão do movimento
puritano-separatista da reforma inglesa. Foram implantados nos Estados Unidos e
transplantados para o Brasil. Como as outras igrejas protestantes, os batistas nos Estados
Unidos sofreram divisão por causa da escravidão. A recusa em aceitar donos de escravos
como missionários fez surgir a Convenção Batista do Sul. O novo protestantismo (novo
não em termos doutrinais, mas em relação ao plano de trabalho que surge na segunda
metade do século XIX, conhecido como protestantismo de missão) nasce com incentivo
de sociedades missionárias, que enviam missionários e os sustentam. A primeira tentativa
dos batistas do sul em terras brasileiras deu-se por meio de Thomas Jefferson Bowen69 na
colônia de Santa Bárbara D’ Oeste, na cidade de São Paulo, em 1871. Uma década mais
tarde iniciou-se o trabalho batista entre os brasileiros, no estado da Bahia, com os casais
de missionários

, que vieram com

B u c k Bagby e Anne Luther Bagby, os pioneiros; e Zacharias Clay Taylor, Kate Stevens Crawford Taylor

objetivo de criar uma igreja batista para os brasileiros, e fundaram, assim, a primeira
igreja batista brasileira, em 1882, na cidade de Salvador.
Israel Belo de Azevedo explana que, para se desenvolver em solo brasileiro, o
protestantismo utilizou quatro espaços estratégicos: primeiro, o templo, que é o centro da
vida religiosa; segundo, a escola que serve como um meio da educação cuja finalidade era
a conversão; terceiro, a praça, que serve como palco utilizado para atrair a platéia ao
templo; e por último, o prelo, que serve para a auto e hetero-evangelização 70 . As
estratégias utilizadas para evangelização eram variadas, como: distribuição de bíblias;
abertura de escolas e de colégios de elite para alcançar a classe média e mostrar a eficácia
de sua pedagogia; pregação direta, individual e de grupo.
68

AZEVEDO, Israel Belo de. A celebração do individuo: A formação do pensamento batista brasileiro.
Piracicaba: Unimep, São Paulo: Exodus, 1996, p. 15.
69
Thomas Jefferson Bowen viveu entre os anos de 1814 a 1875, era missionário na África do Sul, quando
veio para o Brasil em 1860, fixando-se no Rio de Janeiro. Preparou um dicionário da língua Ioruba e veio
desejoso de formar uma igreja de fala inglesa e outra entre os escravos. O missionário chegando ao Rio de
Janeiro pôde fazer contato com os escravos devido ao domínio que tinha do idioma dos Iorubas. Por causa
de sua fluente comunicação com os escravos em suas próprias línguas, foi alvo de suspeitas, o que resultou
em sua prisão pela justiça brasileira.
70
AZEVEDO, Israel Belo de. A celebração do individuo: A formação do pensamento batista brasileiro.
Piracicaba: Unimep, São Paulo: Exodus, 1996, p. 153.

O período de maior crescimento dos batistas no Brasil foi entre 1930-1970.
Estimava-se que em 1982 os batistas chegariam a um milhão de membros, mas o número
só foi atingido mais de uma década depois. A denominação batista apresenta
oficialmente 71 os seguintes dados:
¦ Presente em 200 países;
¦ 40.000.000 fiéis (mundial);
¦ 1.045.500 fiéis (nacional);
¦ Presente em todos os estados brasileiro;
¦ A densidade de igrejas se concentra nos estados de São Paulo e Rio de Janeiro.
No Estado de São Paulo:
¦ 1.500 igrejas no estado de São Paulo;
¦ 180.000 fiéis;
¦ Atua socialmente com lares para crianças (creches, orfanatos e casas lares) e
asilo;
¦ Colégios de educação secular (Bauru e Perdizes);
¦ Faculdades teológicas (São Paulo, Campinas e Bauru).
A denominação batista é uma associação voluntária, que recruta adeptos pela
conversão ou aceitação tácita da doutrina do grupo. Sua membrezia, em grande parte, é
formada por filhos de batistas. Porém, essa realidade não se faz presente na comunidade
Maranata. Dos nossos entrevistados, somente cinco são filhos de batistas. O restante veio
principalmente de outra religião (catolicismo). Segundo Azevedo, a membrezia batista,
formada por filhos de batistas, causa cada vez mais um afrouxamento nos códigos
doutrinários e éticos. Dessa forma, consegue comportar esses novos membros, que na
verdade, representam-se como novos só por ocasião da formalização de sua adesão, por
71

Dados oficiais retirados da Convenção Batista Brasileira disponibilizado no Anuário da Assembléia anual
de 2007.

meio do batismo. Pois em termos existenciais, já formam a igreja batista 72 . Segundo a
descrição a Convenção Batista Brasileira:
Identifica-se como batista a pessoa convertida, regenerada pela ação do
Espírito Santo, salva mediante a graça de Deus e a fé em Jesus Cristo, e
que se submete à soberania de Cristo; une-se a uma igreja da mesma fé e
ordem - corpo de Cristo - através do batismo; presta culto a Deus, e
somente a ele; crê na autoridade da Palavra de Deus - sua única regra de
fé e prática - e na competência do indivíduo perante Deus73 .

Os centros, por excelência, da produção do pensamento batista são os
seminários. O primeiro nasceu em Recife no ano de 1902, e o segundo no Rio de Janeiro
em 1907. Seu objetivo esta voltado para formação da burocracia religiosa, formação de
pastores e missionários. Parte da reflexão dos batistas é produzida em forma de textos,
que são publicados pela denominação na forma de folhetos, livros, artigos e,
principalmente, no jornal batista 74 . Azevedo avalia vinte anos (1970-1990) de publicações
de editoras dirigidas por denominações evangélicas, e chega à conclusão que há pouca
produção teológica por teólogos brasileiros, ou seja, “em geral, a produção teológica não
passa de traduções e/ou adaptações de manuais norte-americanos sem qualquer reflexão
nacional, pressuposta a supranacionalidade do pensamento 75 .”
O conteúdo do que sai do púlpito é preferido por pastores treinados em
seminários e deles se exige um exame para admissão ao pastorado,
coordenado por outros pastores. Nesses concílios examinadores, o
candidato sabe da tradição que, ao ser argüido, terá de formular os
conceitos já emitidos por determinados teólogos (Taylor, Langston,
Hobbs, Tribble e Dargan)76 .

A partir daí é que o pastor batista vai retirar sua teologia. Azevedo explica que a
teologia batista no Brasil se porta como sendo: bíblica, só colocando em ordem acessível
o que já está bem elaborado na revelação neotestamentária; supranacional, não sofre
influência de qualquer cultura; apologética, se coloca em contraposição ao erro,

72

TAYLOR, Azevedo de. Que significa ser batista? Recife: Colégio Americano Brasileiro, 192? p. 215.
Filosofia da Convenção Batista Brasileira, Anais de 1994, p. 513.
74
O Órgão Oficial da igreja batista brasileira é O Jornal Batista, fundado em 1909. Foi eleito como
instrumento auxiliar na captação de informações sobre a doutrina e o pensamento batista por ter
representado, durante um século, um veículo de informação sobre a doutrina e os princípios batistas no
Brasil. Hoje, a denominação conta com outras publicações que vêm cada um a seu modo, responder à
demanda de informações requeridas pelo povo batista e outros evangélicos.
75
AZEVEDO, Israel Belo de. A celebração do individuo: A formação do pensamento batista brasileiro.
Piracicaba: Unimep, São Paulo: Exodus, 1996. p. 157.
76
A celebração do individuo: A formação do pensamento batista brasileiro . Piracicaba: Unimep, São
Paulo: Exodus, 1996. p. 224.
73

principalmente o católico; utilitária, fornece elementos para as igrejas crescerem
numericamente; e pedagógica, sua finalidade é instruir os crentes na verdade da bíblia.
A bíblia para os batistas é portada, lida e seguida, fazendo parte da tradição do
protestantismo. É a bíblia a fonte de orientação existencial, bem como de conhecimento
teológico. A vida e a doutrina têm que passar pelo crivo das Escrituras. Mesmo a leitura
sendo de livre-exame, é sempre feita conforme a denominação, sem produzir diversidade
teológica. “A liberdade de exame é controlada, sem que os leitores o percebam, pela
interpretação oficial, recebida do púlpito, do ensino da Escola Dominical, dos hinos e das
publicações”77 .
Para os batistas tudo pode ser resolvido no plano espiritual: se o coração mudar,
o homem mudará. “Assim, toda mudança, mesmo social, tem que passar pela experiência
da conversão. Pode-se mudar as formas de governo, mas se não mudar o coração dos
homens, não se pode esperar melhoria alguma 78 .”
Neste caso, a política torna-se uma dimensão secundária da organização
humana. A pretensão é a de neutralidade. Não importa o sistema em
vigor: o crente é cidadão de outra pátria. Não importa o regime em ação:
o crente o considera um mal necessário. Não importa o governo no
poder: o crente deve obedecê-lo79

No ano de 1964, O jornal batista publicou alguns artigos que orientavam os
pastores quanto à participação das igrejas no envolvimento com a política nacional. Os
documentos esclareciam que à igreja não compete discutir temas da política, nem
qualquer pronunciamento e manifestação eclesiástica de natureza política, pois isso
constituiria transgressão ao princípio de separação entre Igreja e o Estado. A igreja
também não pode se vincular à organizações, partidos, movimentos políticos ou regime
de governo, tão pouco permitir a penetração de político-partidário no ambiente
eclesiástico. Não é aconselhável utilizar terminologias políticas e ideológicas em púlpito e
em assuntos eclesiásticos e teológicos, e encerra tecendo uma severa crítica contra um
ministro do evangelho que questionava o silêncio da igreja frente às injustiças sociais e
cobrava dela uma posição.
77

A celebração do individuo: A formação do pensamento batista brasileiro. Piracicaba: Unimep, São
Paulo: Exodus, 1996. p.183.
78
A celebração do individuo: A formação do pensamento batista brasileiro. Piracicaba: Unimep, São
Paulo: Exodus, 1996. p.179.
79
A celebração do individuo: A formação do pensamento batista brasileiro. Piracicaba: Unimep, São
Paulo: Exodus, 1996. p. 180.

Certo ministro evangélico escreveu recentemente isto: ‘A Igreja não
pode se acomodar e se silenciar diante das iniqüidades e das injustiças
sociais neste século’. O que o escritor pretendia, porém, é que a Igreja
fizesse coro com as vozes políticas que defende determinada fórmula
(reforma de base) para combater tais injustiças. As autênticas igrejas de
Jesus Cristo sempre combateram o mal e a iniqüidade. São elas as vozes
mais antigas e mais poderosas nesse combate. Mas também as
autênticas igrejas de Jesus Cristo não se apóiam em messianismos
políticos, sociais e econômicos do século para cumprimento de uma
missão profética neste mundo. Quando esses movimentos efêmeros
surgiram já encontraram a Igreja na peleja 80 .

Esse protestantismo acreditava ser capaz de levar o Brasil a um progresso social,
econômico e político através da Bíblia e da regeneração espiritual e individual, sem
precisar se envolver com as questões estruturais do sistema vigente.
As igrejas protestantes, a maioria originaria do sul dos Estados Unidos,
trouxeram consigo a forte influencia da ‘Igreja spititual’, que relegava a
política a César. No Brasil, o conceito ganhou considerável reforço pelo
fato de que o número de possíveis votos protestantes era inexpressivo e
pelo axioma de que os protestantes eram diferentes dos católicos; se o
católico se envolvia na política, os protestantes deviam então afastar-se
dela. (...) As igrejas protestantes, de modo geral, repudiavam a
participação da Igreja como tal na política partidária 81 .

1.7. Maranata, sua estrutura e formação
A Igreja Batista Maranata foi fundada em 14 de agosto de 1982, com trinta e
cinco membros. Sua igreja- mãe foi Igreja Batista Betânia. Josias Francisco Neto foi
nomeado presidente da assembléia de organização e pastor da Igreja 82 . Seu primeiro
endereço foi no bairro Vila Panorama, quando ainda era uma pequena congregação, e
suas reuniões aconteciam na casa do membro fundador. Essas reuniões ocorriam uma vez
por semana e reuniam um número aproximado de seis pessoas. Posteriormente, já como
igreja organizada oficialmente, e devido ao aumento de participantes, ela deslocou-se para
a Rua Francisco Bartolozzi, nº. 721, Jardim Icaraí, onde permanece atualmente. Abaixo
mostramos uma foto da construção do templo.

80

A celebração do individuo: A formação do pensamento batista brasileiro. Piracicaba: Unimep, São
Paulo: Exodus, 1996. p. 321-322.
81
REILY, Duncan Alexander. História documental do protestantismo no Brasil. São Paulo: ASTE, 2003, p.
42.
82
Dados oficiais sobre o surgimento da Igreja Batista Maranata encontram registrados no Livro de Atas da
Igreja Batista Betânia.

A Igreja Batista Betânia se localiza na Zona Leste da cidade de São Paulo. Mas
os membros senhor Túlio da Silva 83 e sua esposa Maria da Silva, por necessidades
pessoais, no final da década de 1970, resolveram mudar de residência, indo morar no
bairro Vila Panorama, distrito Grajaú. Uma vez que no bairro e em seu entorno não havia
nenhuma igreja batista, o casal sugeriu que fosse aberto um ponto de pregação 84 em sua
residência. Para isso, recebeu apoio da igreja Betânia, que enviou um pregador para
iniciar o trabalho batista na região.
Atualmente, a igreja batista Maranata conta com 200 membros associados e um
ritmo constante de atividades dominicais e semanais, noturnas e matutinas, como: Escola
Bíblica Dominical, reuniões matinais onde se estuda a bíblia em departamentos divididos
por idade (crianças, adolescentes, jovens e adultos); União de treinamento, em que os
membros se reúnem para encontros de treinamentos bíblico e missionário, também se
dividem por idade (crianças, adolescentes e jovens), e os adultos por sexo: União
missionária masculina e União missionária feminina; Cultos, em que acontece a pregação
da Bíblia, com a participação de todos os membros, sem qualquer divisão; além dos
Encontros Dominicais, uma vez por semana os me mbros se reúnem para oração, e outra

83

Senhor Túlio da Silva é o membro fundador da comunidade batista Maranata. Deu inicio ao trabalho da
igreja em sua própria casa, vindo a falecer três anos após a organização da igreja (01-09-1986).
84
Ponto de pregação é a designação utilizada pelos batistas para as reuniões que acontecem, em grande
maioria, na casa de algum membro, e que se localiza longe de uma igreja batista. As reuniões recebem
apoio da igreja cujo fundador é membro, e quando atingem um número mínimo de batizados, estabelecido
pela Convenção, o ponto de pregação pode ser organizado ganhando o título de igreja.

para o estudo bíblico. E há ainda reuniões especiais durante os sábados. Abaixo
mostramos uma foto do inicio da década de oitenta, que ilustra as primeiras reuniões de
‘culto nos lares’ realizado pela comunidade batista.

Israel Belo de Azevedo define a igreja local, no pensamento batista, como sendo um microcosmo
do reino espiritual de Cristo. Ela é autônoma e plena em liberdade, podendo decidir sobre todos os assuntos
sem dependência de qualquer outro corpo eclesiástico, ou seja, a igreja é uma congregação de fiéis,
fraternas umas com as outras e com Cristo, que concordam com uma disciplina segundo as regras do
evangelho. De acordo com a filosofia da Convenção Batista Brasileira, uma igreja batista é uma
congregação local de pessoas regeneradas e batizadas após confissão de fé. Ser membro de uma igreja
batista é um direito dado exclusivamente a pessoas regeneradas que voluntariamente aceitam o batismo e se
entregam ao discipulado fiel, segundo o preceito cristão.

Durante seus vinte e cinco anos de existência, vários líderes participaram de sua
formação, ajudando em sua consolidação:
v

Josias Fransisco Neto (03/10/1982 - 1984)

v

Ananias Luiz Santos (18/08/1984 - 1990)

v

Paulo Guedes de Oliveira (18/02/1990 - 1991)

v

Edevaldo Varela (11/05/1991 - 2002)

v

Ananias Luiz Santos (24/02/2002 - 2003)

v

Danilo Waldow (23/11/2003 -)

Dos entrevistados, 53%, são migrantes do nordeste, principalmente do estado da
Bahia. Grande parte desses migrantes veio para São Paulo, diretamente para moradias em
terrenos da prefeitura (favela). De acordo com as falas dos colaboradores, o processo de
migração faz parte de um projeto familiar. A saída do lugar de origem se deve ao desejo
de uma melhoria no padrão de vida, em grande maioria, se estende aos familiares e
parentes próximos.
Nasci na Bahia em uma cidade chamada Piau. Eu vim em 1989, meu
irmão mandou um dinheiro para eu vir e fui morar no Guarujá.
Trabalhei um tempo em Itaquera e depois voltei para Bahia de novo. Em
1991, eu retornei para São Paulo. Na segunda vez eu vim para tentar a
vida, conseguir uma vida melhor, na Bahia não dava, meu pai veio de
uma família humilde e não tinha condições financeiras para dar aquilo
que a gente precisava. Então vim para tentar a vida. Eu já namorava a
minha esposa, mas quando vim para São Paulo, era solteiro, na segunda
vez eu vim e ela veio depois, nós moramos juntos e depois casamos.85 .

Essa é uma idéia de que a cidade grande pode oferecer melhores oportunidades
de ascensão social, principalmente para os mais jovens, que não vêem alternativa no
nordeste. Por isso, é com freqüência que eles vêm para São Paulo, iniciando, assim, o
processo de migração. Estabelecendo-se, trazem a família. No momento da chegada é de
vital importância a rede de relações familiares, para dar um mínimo de suporte até as
pessoas ‘arranjarem’. A igreja pode entrar nessa rede de relações sendo apoio para quem
está chegando, como veremos no capítulo 3 desse trabalho.
A comunidade Batista Maranata não vive uma realidade de apartheid. Embora o
atual pastor (líder espiritual) seja branco e descendente de alemão, não se distingue uma
liderança branca em contraste com liderados negros. Pelo contrário, há presença de
negros em sua liderança e em todos os seus setores, como: corpo diaconal, professor da
escola dominical, líder missionário, grupo de música, grupo de dança, grupo de oração,
etc. Não se nota, de forma visível nem aberta, a presença da discriminação racial.
Todavia, nos detalhes se observa a reprodução de um ideário preconceituoso e racista, não
diferente ao difundido na sociedade brasileira em geral. Por exemplo, a razão pelo qual a
igreja Maranata se silencia em relação à temática do preconceito racial, a forma como
nega sua presença no seio da igreja batista, ou a forma como os membros evitam tocar no
85

Humberto de Moura, 39 anos.

tema do racismo e preconceito racial, por achá- lo irrelevante para sua comunidade de fé.
Tudo isso pode ser indício de um preconceito racial que se esconde e se camufla entre
falas, atitudes e pensamentos.
Na primeira, fizemos uma discussão em torno da cidade de São Paulo, local de
nascimento da comunidade batista Maranata, com o objetivo de mostrar São Paulo como
uma cidade portadora de significados que vão além das simples noções de uma unidade
geográfica, ecológica, política e econômica, pois como nos alertou o professor Leonildo
Silveira Campos, em seu artigo, Indicadores sociais e afiliação religiosa no grande ABC
paulista, (publicada na revista de Religião da universidade Metodista, n.31 2° semestre de
2006), de que os seres humanos criam, para si, universos simbólicos, em que a linguagem,
mito, arte, valores e religião fazem parte, ou seja, a cultura simbólica também faz parte da
construção do mundo urbano. Considerando essa realidade, o pesquisador ou a
pesquisadora conseguem olhar para a cidade de forma diferenciada, pois entendem que o
mundo do símbolo pode ser uma chave relevante para compreensão de como vivem os
seres humanos de uma cidade.
Após realizarmos uma descrição demográfica, econômica e social da região
metropolitana de São Paulo, adentramos à realidade do subdistritos Grajaú, por este
apresentar dados sociais relevantes à análise da realidade econômica e social da
comunidade Maranata. Finalmente falamos sobre o surgimento, formação e a estrutura da
comunidade Maranata.
Na primeira, fizemos uma discussão em torno da cidade de São Paulo, local de
nascimento da comunidade batista Maranata, com o objetivo de mostrar São Paulo como
uma cidade portadora de significados que vão além das simples noções de uma unidade
geográfica, ecológica, política e econômica, pois como nos alertou o professor Leonildo
Silveira Campos, em seu artigo, Indicadores sociais e afiliação religiosa no grande ABC
paulista, (publicada na revista de Religião da universidade Metodista, n.31 2° semestre de
2006), de que os seres humanos criam, para si, universos simbólicos, em que a linguagem,
mito, arte, valores e religião fazem parte, ou seja, a cultura simbólica também faz parte da
construção do mundo urbano. Considerando essa realidade, o pesquisador ou a
pesquisadora conseguem olhar para a cidade de forma diferenciada, pois entendem que o
mundo do símbolo pode ser uma chave relevante para compreensão de como vivem os
seres humanos de uma cidade.

Encerramos esta primeira parte, após faze rmos uma discussão em torno da cidade
de São Paulo, local de nascimento da comunidade batista maranata, com o objetivo de
mostrar São Paulo como uma cidade portadora de significados que vão além das simples
noções de uma unidade geográfica, ecológica, política e econômica, pois como nos
alertou o professor Leonildo Silveira Campos, em seu artigo, Indicadores sociais e
afiliação religiosa no grande ABC paulista, (publicada na revista de Religião da
universidade Metodista, n.31 2° semestre de 2006), de que os seres humanos criam, para
si, universos simbólicos, em que a linguagem, mito, arte, valores e religião fazem parte,
ou seja, a cultura simbólica também faz parte da construção do mundo urbano.
Considerando essa realidade, o pesquisador ou a pesquisadora conseguem olhar para a
cidade de forma diferenciada, pois entendem que o mundo do símbolo pode ser uma
chave relevante para compreensão de como vivem os seres humanos de uma cidade.
Após realizarmos uma descrição demográfica, econômica e social da região
metropolitana de São Paulo, e adentramos à realidade do subdistritos Grajaú, por este
apresentar dados sociais relevantes à análise da realidade econômica e social da
comunidade Maranata. Descrevemos um breve histórico sobre os Batistas Brasileiros para
melhor compreensão do leitor. A descrição que fizemos da comunidade Maranata
facilitará nossa compreensão do terceiro capítulo quando desempenharmos as análises das
entrevistas.

CAPÍTULO 2
A construção da negritude brasileira e suas metamorfoses
O propósito deste capítulo é explorar a temática da negritude na perspectiva do campo da
História Cultural. Temos o intuito de aproveitar a vasta produção historiográfica, clássica e contemporânea,
sobre a negritude brasileira, tanto em relação à escravidão quanto em relação às teorias raciais articuladas
por intelectuais no Brasil. Cientes de que o campo cultural não pertence exclusivamente ao estudo histórico,
almejamos traçar um diálogo interdisciplinar com as ciências sociais, principalmente com a antropologia
social e com a sociologia. O diálogo com a antropologia social se justifica, uma vez que esta se ocupa com
tudo o que constitui uma sociedade, como seu modo de produção econômica, técnicas, organização política
e legal, sistema de parentesco, de conhecimento e elaboração de ideologias, crenças religiosas, e criação
artística, e etc. Do diálogo com a sociologia, temos a finalidade de mostrar as transformações ocorridas no
processo de construção/criação do negro brasileiro.
Desde a chegada dos primeiros negros ao Brasil, a visão sobre a negritude foi sofrendo
metamorfoses. “O negro brasileiro é uma invenção”, assim Gislene Aparecida dos Santos tentou definir a
negritude em sua obra A invenção do ser negro. Para esta obra, a autora baseou-se em uma análise
detalhada e minuciosa das discussões surgidas na Europa do século XV, que pretendiam explicar a origem
da humanidade e classificar a natureza dos recém descobertos ameríndios e alguns grupos de negros da
África. Essas discussões ganharam difusão nos séculos seguintes em inúmeras teses científicas. A autora
mostra como essas idéias e discussões chegaram ao solo brasileiro, influenciando a intelectualidade na
criação de uma ideologia responsável pela invenção do “ser negro” no Brasil, o que foi inevitavelmente
aderido pelo senso comum.
O antropólogo Clifford Geertz, em sua obra A interpretação das culturas, define o ser humano
como produto de sua cultura. De forma sucinta, define: “o homem é um animal amarrado a teias de
significados que ele mesmo teceu”. Geertz nos chama a atenção para o conceito de cultura, que seria essas
teias de significados, e qual é o seu impacto sobre o ser humano. Ele refuta a teoria dos iluministas e da
antropologia clássica que desenvolvem a idéia de homem ideal. Descreve a cultura como um mecanismo de
controle social (plano, receita, regras, instruções)86 que governa e molda nosso comportamento e que deve
ser entendida como um ingrediente essencial na produção do ser humano. Isto é, “Os homens sem cultura
não seriam os selvagens inteligentes (...) eles seriam monstruosidades incontroláveis, com poucos instintos
úteis, menos sentimentos reconhecíveis e nenhum intelecto”. E continua, “sem os homens certamente não
haveria cultura, mas de forma semelhante e muito significativamente, sem cultura não haveria homens”.
Nossas idéias, nossos pensamentos, nossos atos, nossos valores, nossas emoções e nossos preconceitos, de
forma geral, podem ser entendidos como produto social, político e econômico de nossa cultura. Grosso
modo, estudar a cultura seria desvendar um código de símbolos partilhados pelas pessoas nela inseridas.
Logo, a negritude e o que pensamos a respeito dela também podem ser compreendidos como um produto de
nossa cultura, que exprime aspectos fundamentais de nossa vida social e coletiva.

86

GEERTZ, Clifford. A interpretação das culturas. Rio de Janeiro: Ed. Guanabara: 1989, p. 45-98.

O ser negro no Brasil é resultado de uma construção social impregnada por ideologias87 racistas,
sem consistência biológica. Os homens pensantes da sociedade, fazendo uso da ciência e da produção
acadêmica – sempre dinâmica e que tem como desígnio acompanhar as mudanças e transformações da
sociedade na busca por atender as necessidades sociais, políticas e econômicas de seu tempo – são os
responsáveis pela produção ideológica e por sua manutenção. Como nos explica Geertz, a ideologia
também é uma resposta às tensões criadas em nossas sociedades.

Para entendermos as transformações e o processo de criação do negro brasileiro,
temos que nos transportar para a Europa do século XVII e entender como os negros da
África foram percebidos e interpretados pelos brancos europeus, pois esse contato foi
fundamental para a criação de teorias que fundamentam o conceito de ‘raça’. A criação do
conceito de raças, ou seja, de uma humanidade dividida por raças distintas, nasceu na
Europa Ocidental, ganhando força científica já no século XVIII. Os cientistas procuraram
criar teorias que sustentassem a idéia de uma humanidade dividida hierarquicamente por
raças. A partir de algumas características físicas, era possível detectar a superioridade ou
a inferioridade de uma raça em relação à outra. Segundo o critério adotado para essa
análise, os estereótipos brancos eram o modelo que definiam o padrão de superioridade.
Foi a partir desse critério que se estabeleceram as comparações entre os brancos europeus
e os negros africanos, criando uma dicotomia branco/preto. Essa dicotomia ganhou vida e
marcou seriamente a sociedade, fazendo uso de uma arma eficaz que é o poder simbólico,
como mostra o manual de Montabert, feito para os artistas que tematizavam os
simbolismos branco e preto.
O branco é o símbolo da divindade ou de Deus.
O negro é o símbolo do espírito do mal e do demônio.
O branco é o símbolo da luz....
O negro é o símbolo das trevas, e as trevas exprimem simbolicamente o
mal.
O branco é o emblema da harmonia.
O negro, o emblema do caos.
O branco significa a beleza suprema.
O negro, a feiúra.
87

Tomaremos emprestado de Marilena Chauí a definição do conceito de ideologia que pretendemos utilizar
em nosso trabalho. A ideologia é entendida como um fato social produzido pelas relações sociais, possuindo
razões determinadas para surgir e se conservar. Faz parte da produção de idéias de uma sociedade, ou seja,
das formas históricas determinadas pelas relações sociais.

O branco significa a perfeição.
O negro significa o vício
O branco é o símbolo da inocência.
O negro, da culpabilidade, do pecado ou da degradação moral.
O branco, cor sublime, indica a felic idade.
O negro, cor nefasta, indica a tristeza.
O combate do bem contra o mal é indicado simbolicamente pela
oposição do negro colocado perto do branco88 .

Logo, não causou surpresa a cientificidade da comprovação biológica de que os
povos brancos eram superiores aos negros, como propôs Gabineau89 , quando definiu que
as marcas do negro são a imaginação, sensibilidade e sensualidade, e as do branco são a
inteligência, praticidade, ética e moral. A áfrica era contemplada como uma terra de
“pecado e imoralidade, gerando homens corrompidos; povos de clima tórrido com sangue
quente e paixões anormais que só sabem fornicar e beber 90 .”
2.1. O esforço científico na compreensão do negro brasileiro
Como foi bem elucidado por Thomas Skidmore, não se pode demarcar com
precisão as origens do credo racial no Brasil. O que se sabe é que o marco histórico das
doutrinas raciais brasileiras é o período que antecede a proclamação da República e a
abolição da escravidão, momentos marcados por profunda crise nacional e de abalo nas
hierarquias sociais 91 .
Durante o tempo em que predominou o regime escravista, os negros eram vistos
como uma raça inferior. Os europeus, com a criação das ideologias raciais, conseguiram
justificar a escravidão e a exploração dos povos colonizados. As ideolo gias raciais foram
criadas no século XVIII, e tiveram seus pressupostos aprofundados no século XIX, com o
desenvolvimento da ciência. Os europeus se classificavam como ‘mais aptos’ e, portanto,
era natural que subjugassem os povos colonizados como bárbaros e selvagens. “O planeta
88

COHEN, W. Français et africain. Paris: Gallimard, 1980, p. 307.
Arthur de Gabineau, um intelectual do século XIX, enviado da França, permanecendo quinze meses no
Rio de Janeiro.
90
SANTOS, Gislene Aparecida dos. A invenção do ser negro: um percurso das idéias que naturalizaram a
inferioridade dos negros. São Paulo: Educ/ Fapesp; Rio de Janeiro: Pallas, 2002, p. 55.
91
SKIDMORE, Thomas. Preto no Branco: Raças e nacionalidade no pensamento brasileiro. Rio de
Janeiro: Paz e Terra, 1976.
89

foi dividido entre uma raça superior, glorificada por uma missão civilizatória autoatribuída e raças inferiores. (...) Significa dizer que passa a se admitir que nem todos os
homens pertencem igualmente à mesma espécie humana 92 .” Desse modo, a crueldade, a
violência e a opressão, muito comum no sistema escravista, foram aceitas sem prejuízo
moral ou religioso.
O desenvolvimento da ciência foi de suma importância para a formulação e
reformulação de teorias raciais sobre os negros. Lílian Schwartz, em sua obra O
espetáculo das raças, analisa os anos de 1870 a 1930, quando as teorias raciais começam
a tomar corpo no Brasil. Os homens de ciência discutiam sobre as problemáticas da nação
buscando respostas que explicassem a inferioridade e o subdesenvolvimento do país. Para
tanto, utilizavam as teorias social-darwinista, evolucionismo social e o positivismo. Dessa
maneira, foi possível explicar o atraso dos brasileiros em relação aos países europeus. E a
razão pelo atraso da nação era a presença do negro, do africano e do trabalho-escravo 93 . O
Brasil era visto como um país multiétnico, um país miscigenado, mas que passava por
uma transição que o levaria a um futuro branco.
Os intelectuais brasileiros fizeram uso de teorias raciais em um modelo político
liberalista. Esse uso foi original, pois combinaram dois modelos teóricos contraditórios e
fizeram com que convivessem juntos. O liberalismo se sustentava fundamentado no
individualismo, na responsabilidade individual pautada nos ideais de liberdade e
igualdade; enquanto as teorias raciais não se prendiam ao indivíduo, mas concentravam
suas atenções no grupo, sendo que este era entendido como resultado de uma estrutura
biológica singular. Para adaptar as teorias européias ao contexto de um Brasil que vivia o
final da escravidão e se preocupava com as conseqüências raciais para o desenvolvimento
nacional, foi necessário combinar modelos opostos para satisfazer as necessidades de
busca por um novo projeto político. Os argumentos utilizados deveria m, portanto,
transitar em campos opostos e por vezes contraditórios. Pois, ora necessitavam de teses
que promovessem o progresso e a civilização como sinais de superioridade e de liberdade,
como as teorias do direito natural, ora recorriam à defesa da propriedade e do trabalho
livre e assalariado como única saída para o avanço e prosperidade da sociedade brasileira.

92

HERNANDEZ, Leila Maria Gonçalves Leite. A África na sala de aula: visita à história contemporânea.
São Paulo: Selo Negro, 2005, p. 132
93
SCHWARCZ, Lilian Moritz. O espetáculo das raças: cientistas, Instituições e questão racial no Brasil
1870-1930. São Paulo: Companhia das letras, 1993.

Um dos estudos importantes desenvolvidos pelo médico Raimundo Nina
Rodrigues, no final do século XIX, foi na área da criminologia, apoiado pelas pesquisas
no campo da eugenia. Este estudo pretendeu definir negros e mestiços como
potencialmente criminosos. Para o cientista, tanto os negros como os índios e mestiços
eram incapazes de desenvolver uma civilização, pois possuíam uma deformação
biológica, característica de suas raças inferiores. Dada as desigualdades entre as raças,
seriam necessárias modificações na responsabilidade penal. A regra do contrato na
sociedade brasileira, que considera todos os indivíduos iguais perante a lei, o que é uma
medida de defesa social, converte-se em pura repressão: índios, negros e mestiços não
têm a mesma consciência do direito e do dever que a raça branca civilizada, porque ainda
não atingiram o nível de desenvolvimento psíquico, seja para discernir seus atos, seja para
exercer o livre-arbítrio. Vista por esse ângulo, a criminalidade do mestiço brasileiro tornase uma manifestação de fundo degenerativo. “Não são ou criminosos ou loucos, são
criminosos e loucos, pois o crime é o mal gerado pelas e nas raças inferiores94 .”
A força de um pensamento que objetivava o progresso, a ordem e o
nacionalismo, fez germinar na sociedade uma idéia do embranquecimento da raça. Esse
pensamento valorizava os elementos do estrangeiro branco e europeu, e negava as
características e influências da cultura negro-africana. Na virada do século XIX para o
XX, os estudiosos eugenistas brasileiros adotaram uma linha neo- lamarckiana, segundo a
qual acreditavam na inferioridade dos negros. Todavia, tinham um pensamento positivo
em relação à mestiçagem. Portanto, o processo de branqueamento consistia na crença de
que a mistura de brancos e não-brancos tornaria gradativamente o Brasil uma nação
completamente branca, e eliminaria, por conseguinte, a população negra. Todo esse
processo contribuiu para a construção de uma mentalidade que desvaloriza toda a cultura
do afro-brasileiro. Sendo assim, tal mentalidade discriminatória fez surgir uma grande
ironia social: os afro-descendentes são discriminados como se fossem um grupo
minoritário, quando, na verdade, são a maioria. O Brasil é um país que apresentou em
2006 uma população composta por 49,7% de brancos e 49,5% de pardos e pretos 95 .
2.2. Um mito social para a construção do imaginário sobre o negro brasileiro

94

SANTOS, Gislene Aparecida dos. A invenção do ser negro: um percurso das idéias que naturalizaram a
inferioridade dos negros. São Paulo: Educ/ Fapesp; Rio de Janeiro: Pallas, 2002, p.148.
95
Esses são alguns dos resultados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) do Instituto
Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em relação ao ano de 2006.

No final do século XIX, ocorria entre os intelectuais um curioso paradoxo: eles
percebiam que nos Estados Unidos o sistema de escravidão desvendava sua face de
exploração e crueldade, enquanto que, no Brasil, o sistema de escravidão revelava uma
faceta paternalista e benigna. Essa controvérsia se dava à medida que percebiam que nos
Estados Unidos os conflitos se faziam abertos entre negros e brancos, mas no Brasil,
reinava uma aparente ausência de conflitos96 . Os proprietários de escravos que se
esforçavam para manter uma aparência de boa escravidão acabaram por contaminar os
escritos dos cientistas da época. De acordo com as observações de Louis Couty, médico
francês que chegou ao Brasil no ano de 1874, o escravo no Brasil era bem tratado e, às
vezes, gozavam de melhores condições do que os assalariados da Europa. Desse modo,
expressa Louis Couty no relato abaixo:
O negro aqui (Brasil) é bem tratado, bem alimentado, cuidado se está
doente, conservado se está velho, tem seu descanso assegurado. É
verdade, ele pode ser submetido a castigos corporais, mas os que tanto
têm insistido nesse ponto, estão seguros de que estas violências, com
tudo isso raras, são mais penosas nas condições onde elas se produzem
do que os outros castigos também injustos, outras misérias físicas e
morais tão freqüentes em nossos países civilizados? Demais, sempre.
No Brasil, o negro escravo tem os meios de sair, ele mesmo, de sua
condição97 .

Gilberto Freyre também pode ser citado como um clássico exemplo. Em sua obra
Casa Grande e Senzala, ele consegue reproduzir um ideário romântico de escravidão
paternalista, mostrando em todos os momentos uma ausência de conflitos e por isso, a
possibilidade de no futuro existir no Brasil uma democracia racial. A argumentação do
sociólogo para a distância social entre brancos e negros no Brasil estava ligada mais a
diferenças de classe (problema econômico) do que ao preconceito de cor ou raça. Sendo
assim, a mistura, a mescla veio se tornar a identidade brasileira. Freyre introduziu uma
nova ideologia nacional, conceituando a miscigenação positivamente e transformando-a
em um símbolo importante da cultura brasileira. “Freyre expressou, popularizou e
desenvolveu por completo a idéia da democracia racial que dominou o pensamento sobre
raça dos anos 1930, até o começo dos anos 1990 98 .”

96

COSTA, Emilia Viotti. Da monarquia à república: momentos decisivos. Editorial Grijalbo: São Paulo,
1977. p.56.
97
SANTOS, Gislene Aparecida dos. A invenção do ser negro: um percurso das idéias que naturalizaram a
inferioridade dos negros. São Paulo: Educ/ Fapesp; Rio de Janeiro: Pallas, 2002, p.82.
98
TELLES, EDWARD. Racismo à brasileira: uma nova perspectiva sociológica. Rio de Janeiro: Relume
dumará, 2003, p. 50.

Todavia, a maioria da população negra permaneceu nos porões da sociedade,
sem nenhuma chance de ascender à superfície. Essa realidade se mostrava contraditória
quando comparada ao mito da democracia racial, que reforçava um imaginário de que na
sociedade brasileira, brancos, negros e mulatos viviam harmoniosamente. Como poderia
ser explicada, então, essa discrepância que não conseguia mais ficar camuflada? Como
conviver com uma realidade que negava o mito de democracia racial, por deixar claro que
os negros eram lesados nessa sociedade tida como democrática racialmente?
Um grupo de estudiosos (Florestan Fernandes, Roger Bastide, Octavio Ianni,
Guerreiro Ramos, Emilia Viotti Costa, entre outros) fez a sugestão para uma nova
abordagem historiográfica que contestava o mito da democracia racial. Essa nova
abordagem revelou que o sistema escravista brasileiro, que aparentemente se mostrava
como paternalista e bondoso, não passava de um mito criado pela classe dominante. Pois
o que de fato ocorria era um sistema escravista severo e explorador: o escravo era uma
propriedade, um meio de obter e acumular capital. Portanto, os conflitos eram abertos e
permanentes, fugas e criação de quilombos eram constantes e faziam parte da relação
dialética entre o senhor e o escravo.
Célia Marinho de Azevedo, em seu livro Onda negra, medo branco, questiona
tanto a passividade dos escravos, quanto a idéia de que a abolição foi feita por iniciativa
exclusiva dos abolicionistas brancos. As rebeliões e fugas de escravos eram encaradas
pela historio grafia

brasileira

como

acontecimentos

isolados

ou

expressão

de

irracionalidade. Essas lutas implícitas eram minimizadas pelos historiadores, ou até
mesmo silenciadas. Azevedo, no entanto, sustenta a teoria de que não se pode pensar na
abolição sem se levar em conta uma onda de revoltas, fugas e até crimes que,
combinados, trouxeram pavor e medo à classe dominante, exercendo uma grande coerção
no sentido de acelerar o processo abolicionista.
Aqueles que tinham que tratar direta ou indiretamente a questão da criminalidade
escrava – os chefes de polícia e presidente de província – não poucas vezes deixaram
entrever um misto de medo, impotência e incerteza quanto ao futuro próximo da
província, muito embora na qualidade de altas autoridades devessem ostentar a imagem

de circunspeção e controle competente da situação social99 . Sendo assim, a tese de que
tivemos no Brasil uma escravidão paternalista e que os escravos eram passivos em relação
à escravidão fica desmontada, pois se percebe que os escravos, alem de não encararem a
escravidão como benéfica, se articularam de um modo importante para acelerar o
processo abolicionista.
Neste mesmo sentido, Sidney Chalhoub, em sua obra Visões da liberdade,
analisa depoimentos de escravos suspeitos de terem cometido crimes contra seus
senhores, em vários inquéritos policiais. Dentre os episódios narrados, queremos destacar
o que aconteceu na província do Rio de Janeiro em 1872. Alguns escravos que haviam
sido escolhidos para serem vendidos a uma fazenda de café no interior da cidade se
juntaram e tramaram um plano bem articulado de ataque contra seu senhor. A justificativa
para o ataque era, em princípio, por terem sofrido maus tratos do senhor (o autor não
entra no mérito da tese sobre o mito de uma escravidão benevolente, pois já fora
suficientemente explanado por outros autores anteriormente, não restando dúvidas quanto
à crueldade do sistema escravista brasileiro), mas a motivação maior para o ataque seria a
recusa dos negros de serem vendidos para uma fazendo de café, o que sabiam que iria
acontecer. De acordo com os depoimentos dos escravos, não havia uma intenção de fuga
coletiva, pois já estava combinado que após o ataque eles iriam à delegacia para se
entregarem. Para esses homens, parecia que a prisão era um mal menor que o trabalho
forçado nas fazendas de café. Esse tipo de atitude pode ser interpretado como uma forma
de reação dos escravos contra os mandos de seu proprietário, o que desmonta a teoria de
que negros eram passivos e submissos à escravidão. “(...) era comum que os escravos
exercessem alguma forma de pressão sobre seus senhores no momento crucial de sua
venda. Essas pressões ou negociações poderiam ter formas e intensidades diferentes
dependendo de cada situação especifica 100 .”
Chalhoub critica a tese do sociólogo Fernando Henrique Cardoso, que acreditava
que o escravo se auto-representava como um ser incapaz de ação autônoma, não tendo
competência de produzir valores e normas próprias em suas condutas sociais. Os
inquéritos analisados por Chalhoub contradizem essa tese mostrando a racionalidade

99

AZEVEDO, Célia M. Marinho de. Onda negra, medo branco: negro no imaginário das elites do século
XIX. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987, p. 180.
100
CHALHOUB, Sidney. Visões da liberdade: uma história das últimas décadas da escravidão na côrte.
São Paulo: Companhia das Letras, 1990, p. 32.

própria e autônoma daqueles escravos, pois agiam de acordo com sua própria
compreensão da situação e não simplesmente reproduziam a ótica do opressor. O autor
mostrou que os escravos atuaram de acordo com a lógica ou racionalidade própria, e que
seus movimentos estavam vinculados a experiências e tradições particulares e originais.
Nesse sentido, não podem ser vistos como simples reprodutores ou reflexos de
representações sociais dos brancos.
A visão de liberdade do escravo negro não poderia ser a mesma esperada pelo
branco europeu. Cardoso interpreta o sentido de liberdade para o escravo de forma única e
exclusivamente a partir das visões de liberdade inventadas para os negros pelos senhores
proprietários brancos. Chalhoub propõe outra interpretação, ou outro caminho, para
analisar a visão de liberdade do negro, como por exemplo, compreender o que os negros
entendiam por liberdade, ou seja, pensar a liberdade na visão do próprio negro como algo
possível. Isso torna possível perceber, que para o negro, a liberdade pode ser representada
como uma autonomia de movimento nas relações afetivas, isto é, a liberdade de escolher
a quem servir, por assim dizer: “não a liberdade de ir e vir de acordo com a oferta de
emprego ou valor dos salários, porém a possibilidade de escolher a quem servir ou de
escolher não servir a ninguém”101 . Essa inovação na abordagem da escravidão contribuiu
para se pensar a negritude de um modo diferente e repensar o simbolismo criado, até
então, em torno do negro no Brasil.
2.3. Morte do mito da democracia racial
Emilia Viotti Costa, em sua obra Da monarquia à república, nos chama a
atenção para as construções e solidificações de mitos sociais, como seu processo de
destruição e alienação. Segundo ela, os mitos sociais passam por contínuos processos que
constituem a sua construção e destruição. Os pesquisadores sociais dão sua contribuição
construindo a ‘verdade’ de uma geração, e que, muito freqüentemente, torna-se o mito da
geração seguinte 102 . O mito criado pela elite pensante tinha sua função e cumpria seu
propósito. Ele conseguia beneficiar tanto os brancos quanto os negros: “é óbvio que os

101

CHALHOUB, Sidney. Visões da liberdade: uma história das últimas décadas da escravidão na côrte.
São Paulo: Companhia das Letras, 1990, p.80.
102
COSTA, Emilia Viotti. Da monarquia à república: momentos decisivos. Editorial Grijalbo: São Paulo,
1977. p. 234.

brancos beneficiaram-se com o mito. Mas também é verdade que os negros beneficiaramse igualmente, embora de uma maneira limitada e contraditória 103 .”
A autora argumenta que, ao negar o preconceito racial e crer no processo de
branqueamento e na identificação do pardo como uma categoria especial, ficou ainda
mais difícil a aceitação do preto entre as camadas da elite branca. Desse modo, se tornou
custoso para os negros o desenvolvimento de uma identidade de grupo. A criação de
oportunidades para alguns indivíduos pretos ou pardos ascenderem socialmente servia de
reforço ao mito de igualdade racial. Porém, para ascender socialmente, o negro teria que
pagar um alto preço, tinha que ser ‘branco’. Eram negros especiais, ‘negros de alma
branca’ (...) Para a sociedade em geral, eles serviram como um claro testemunho da
realidade do mito, como uma evidência tanto da ausência de preconceito como das
possibilidades de mobilidade social desfrutadas pelos negros no Brasil 104 .
Gislene dos Santos nos dá um exemplo clássico: o abolicionista André
Rebouças, um mestiço nascido na Bahia em 1838, teve sua formação na Europa e
transitava entre a elite branca do império. Rebouças tentou identificar-se com a elite
branca fazendo questão de esquecer sua descendência africana. Essa opção era
considerável, uma vez que seu estereótipo afirmava a incapacidade intelectual dos negros.
Isto é, “ou se era int eligente, refinado e superior, portanto não se era negro; ou, sendo
negro, automaticamente não se poderia ser refinado, inteligente e superior; Rebouças fez
a primeira opção 105 .” Ele, como estratégia e meio de sobrevivência, tentou trafegar entre
os dois mundos. Ora era negro, ora era branco, vagando entre os preconceitos,
“obviamente, isso não era agradável, é o espaço daquele que não tem lugar, referencias ou
repouso; é o inferno daquele que se nega para se afirmar 106 .”
Liane Trindade estudou o negro na cidade de São Paulo na primeira metade do
século XX, e explica que as relações de compadrinho entre o senhor branco e o serviçal
negro tornaram possível que muitos mestiços ocupassem diferentes posições sociais,
103

COSTA, Emilia Viotti. Da monarquia à república: momentos decisivos. Editorial Grijalbo: São Paulo,
1977. p.237.
104
COSTA, Emilia Viotti. Da monarquia à república: momentos decisivos. Editorial Grijalbo: São Paulo,
1977. p. 241.
105

SANTOS, Gislene Aparecida dos. A invenção do ser negro: um percurso das idéias que naturalizaram a
inferioridade dos negros. São Paulo: Educ/ Fapesp; Rio de Janeiro: Pallas, 2002, p. 103.
106
SANTOS, Gislene Aparecida dos. A invenção do ser negro: um percurso das idéias que naturalizaram a
inferioridade dos negros. São Paulo: Educ/ Fapesp; Rio de Janeiro: Pallas, 2002, p. 104.

como, por exemplo, alguns intelectuais (grandes nomes de literatos brasileiros foram
mestiços), os que ocuparam funções liberais, serviços urbanos, comerciantes e militares.
A classe média negra, desde o inicio do século XX, tentou se organizar e se manifestar
contra o preconceito racial. Só na cidade de São Paulo, dos anos de 1915 a 1935, foram
organizados dez jornais, com o objetivo de denunciar práticas de discriminação e racismo
contra o negro, e programas reivindicando direitos iguais entre brancos e negros. Apesar
dos jornais se prestarem à denúncia, cada notícia de evento ou protesto era acompanhada
de desenhos publicitários com venda de produtos para mulheres negras, para que ficassem
parecidas com as brancas de classe média, como alisantes de cabelo, vestuário,
maquiagem, etc. “A inclusão social do afro-descendente traz em si mesmo a exclusão.
Eram aceitos aqueles que seguissem as normas, valores e a cultura em geral do branco.
Mas, apesar dessa aceitação, o impulso original de rejeição ao negro resultava em
discriminações sociais 107 .”
Na década de 1930, a classe média negra assume uma postura ainda mais
agressiva contra a discriminação. Em contrapartida, sua preocupação com o
branqueamento se torna mais nítido: “Destacam a imagem de pessoas da elite negra, que
tinham como finalidade orientar, educar e incentivar todos os negros à construção de sua
casa própria, que não podiam ser confundidos com os demais negros, pobres e atrasados
ou vagabundos 108 .”
Para Viotti, com a derrocada dos princípios de clientelismo e patronagem, veio à
tona um sistema econômico competitivo que tornava mais evidente os conflitos entre
brancos e negros, o que foi captado pelos intelectuais que questionavam e revisavam as
teorias raciais criadas pelos cientistas no inicio do século XX. “No Brasil, o mito da
democracia racial não está completamente morto. Embora profundamente enfraquecido
(...). Isso explica porque ainda hoje é difícil, no Brasil, organizar um bem sucedido
movimento negro 109 .”
2.4. Sociedade patriarcal legitimadora do racismo
107

TRINDADE, Liana Silva. “O negro em São Paulo no período pós-abolicionista” in História da cidade
de São Paulo: a cidade na primeira metade do século 20 (1890-1954). V. 3. São Paulo: Paz e terra, 2004, p.
117.
108
COSTA, Emilia Viotti. Da monarquia à república: momentos decisivos. Editorial Grijalbo: São Paulo,
1977.p. 118.
109
COSTA, Emilia Viotti. Da monarquia à república: momentos decisivos. Editorial Grijalbo: São Paulo,
1977. p.COSTA, Emilia Viotti. p. 242.

No Brasil, desde a época colonial, o monopólio dos meios de produção estava
concentrado nas mãos de uma minoria branca. Mesmo com o fim da escravidão, o sistema
econômico capitalista continuou centrando a grande riqueza nacional nas mãos de poucos
brancos. A estrutura patriarcal de nossa sociedade cooperou para que os negros se
adaptassem a essa nova forma de dominação. O negro não conseguiu melhorar sua vida,
nem mesmo após a abolição, pois continuou a exercer as atividades de menor prestígio
social. Os trabalhos executados pelos negros (doméstico, faxineiro, cozinheiro, jardineiro,
pedreiro, etc) são uma continuação de sua vida de escravo. “Essa categoria social de
trabalhador servil foi sempre estimulada pelos brancos como a forma idealizada pelas
relações raciais que reproduzem as antigas forma s sociais e atitudes mentais do sistema
patriarcal110 .”
O negro que realizava trabalhos domésticos era visto como o bom negro, isto é,
aquele que é submisso e conformado com sua situação social. E a relação de patronagem
ilustra bem essa realidade. O senhor branco, sendo padrinho do filho do empregado,
oferecia proteção ao afilhado. Mas em troca ele exigia lealdade, submissão e até proteção
contra grupos políticos. Era possível, então, reforçar o imaginário coletivo da existência
de uma harmonia entre as classes sociais no Brasil. “O compadrinho (relação de afilhado
e padrinho), o coronealismo e o clientelismo, são os componentes de um mesmo sistema
social, construídos por redes de interesses políticos e sociais partidários ou inter
partidários entre os detentores do poder caracterizado pelos coronéis locais 111 .”
Com o fim do Estado Novo, a luta dos negros toma um novo rumo e passa a
denunciar a miséria, a pobreza, as perseguições policiais e as injustiças. Na década de
1950, a classe negra emergente se divide assumindo posturas diferentes. A primeira nega
as questões raciais e se reafirma com os valores da classe média branca. A segunda se
junta à associação negra, retoma os movimentos reivindicatórios e luta pelo direito à
cidadania do afro-descendente sem anular suas raízes culturais. Em 1963, com a força dos
movimentos negros, foram criadas leis contra a discriminação, que denunciavam atos de
violência física ou moral contra o negro brasileiro. Edward Telles chama este processo de

110

TRINDADE, Liana Silva. “O negro em São Paulo no período pós-abolicionista” in História da cidade
de São Paulo: a cidade na primeira metade do século 20 (1890-1954). V. 3. São Paulo: Paz e terra, 2004. p.
106.
111
TRINDADE, Liana Silva. “O negro em São Paulo no período pós-abolicionista” in História da cidade
de São Paulo: a cidade na primeira metade do século 20 (1890-1954). V. 3. São Paulo: Paz e terra, 2004. p.
110.

novo momento ou nova fase de política racial no Brasil, na qual políticas públicas
reconhecem o racismo e tentam reparar a situação. Questionar a situação do negro no
Brasil e suas relações raciais teve como resultado o surgimento de políticas públicas, e se
percebeu um crescimento vertiginoso do interesse público pelo assunto. “Pela primeira
vez na história brasileira, políticas sociais começam a promover explicitamente a
integração de negros e mulatos 112 .”
2.5. Racismo e sua face brasileira
O racismo brasileiro tem muitas faces, o que lhe confere um caráter específico.
As formas que o racismo assume no Brasil são diferentes se comparadas com o mesmo
fenômeno em países como Estados Unidos da América ou África do Sul. Uma de suas
facetas é a confusão entre a desigualdade social e racial. Desde a década de 1970, é
possível comprovar que a pobreza brasileira é marcadamente negra, enquanto a riqueza é
predominantemente branca. E embora os pardos estejam pouco acima dos pretos, estão
muito abaixo dos brancos. Pesquisas realizadas pelo PNDAD, IBGE, DIESSE e outros
indicadores estatísticos apontam para a diferença entre os negros e brancos na sociedade
brasileira. Os negros possuem menor expectativa de vida que os brancos. Além disso, são
as maiores vítimas de homicídio, como nos mostra o artigo de Doriam Borges, A cor da
morte. Analisando registros 113 de homicídios no Brasil, Borges detectou que a morte tem
cor. Os negros são as maiores vítimas de morte por homicídio. “No que concerne à
vitimização por homicídios, ser pardo é mais seguro que ser preto, mas é muito menos
seguro que ser branco 114 .” A mortalidade infantil atinge em maior número as crianças
negras; o negro possui menor taxa de escolaridade em relação ao branco; a maior taxa de
desemprego é entre pretos e pardos; e as atividades de menor rendimento são ocupadas
pelos negros (limpeza, reforma, transporte, etc). André Brandão, em sua obra miséria da
periferia, além de ressaltar o grande fosso existente entre os brancos e negros no Brasil,
fala sobre uma desigualdade acumulativa. Isto é, o negro, quando vem de família pobre
(em sua maioria), possui um baixo aproveitamento escolar e em conseqüência ocupa as

112

TELLES, EDWARD. Racismo à brasileira: uma nova perspectiva sociológica. Rio de Janeiro: Relume
dumará, 2003, p. 30.
113
Os registros de homicídios no Brasil, não fornecem muitos dados sobre as vítimas, além de sexo, idade e
estado civil. A partir de 1996, um dado importante passou a ser obrigatório: a identificação da cor da pele
na declaração de óbito.
114
BORGES, Doriam. A cor da morte. Ciência Hoje. São Paulo, v. 35, n. 209, p.26-31, out. 2004.

atividades de menor nível e pior rendimento, o que dificulta o acesso à melhor qualidade
de vida a seus descendentes, e a realidade tende a se repetir por muitas gerações115 .
Outra face desse racismo tipicamente brasileiro foi ressaltada por Darcy Ribeiro
em sua obra O povo Brasileiro. Trata-se da cruel tendência de culpar o negro por sua
condição social, de responsabilizá- los pelas estatísticas vergonhosas que o aponta em
posição social periférica e miserável, desconsiderando as ações políticas e econômicas
que sempre funcionaram privilegiando uma minoria branca e displicente com a maioria
negra. Essa tendência racista, de mostrar o negro como culpado por sua própria desgraça,
é explicada como característica da ‘raça’: o negro não ascende socialmente porque tem
tendência para preguiça e vadiagem. “Essa visão deformada é assimilada também pelos
mulatos e até pelos negros que conseguem ascender socialmente, os quais se somam ao
contingente branco para discriminar o negro-massa 116 .” O autor esclarece que, ao colocar
o negro como culpado por seu sofrimento, ou como se o problema fosse somente uma
questão de desigualdade social, torna-se mais difícil ter um olhar crítico sobre essa
situação e, assim, se pensar em alternativas que rompam com o racismo e o preconceito
em nossa sociedade. Nessas circunstâncias, escreve: “seu sofrimento não desperta
nenhuma solidariedade e muito menos a indignação. Em conseqüê ncia, o destino dessa
parcela majoritária da população não é objeto de nenhuma forma específica de ajuda para
que saia da miséria e da ignorância 117 .”
Assim, o alargamento das bases da sociedade, auspiciado pela
industrialização, ameaça não romper com a super concentração da
riqueza, do poder e do prestígio monopolizado pelo branco, em virtude
da atuação de pautas diferenciadoras só explicáveis historicamente, tais
como: a emergência recente do negro da condição escrava à de
trabalhador livre; uma efetiva condição de inferioridade, produzida pelo
tratamento opressivo que o negro suportou por séculos sem nenhuma
satisfação compensatória; a manutenção de critérios racialmente
discriminatórios que, obstácularizando sua ascensão à simples condição
de gente comum, igual a todos os demais, tornou mais difícil para ele
obter educação e incorporar-se na força de trabalho dos setores
modernizados. As taxas de analfabetismo, de criminalidade e de
mortalidade dos negros são, por isso, as mais elevadas, refletindo o
fracasso da sociedade brasileira em cumprir, na prática, seu ideal

115

BRANDÃO, André Augusto. Miséria da periferia: desigualdades raciais e pobrezas na metrópole do
rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Pallas ed; Niterói: PENESB, 2004, p. 18.
116
RIBEIRO, Darcy. O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil. São Paulo: Companhia das
Letras, 1995, p. 222.
117
RIBEIRO, Darcy. O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil. São Paulo: Companhia das
Letras, 1995. p. 224.

professado de uma democracia racial que integrasse o negro na condição
de cidadão indiferenciado dos demais 118 .

Com o avanço da ciência biológica e os estudos da genética, a cerca de 40 anos,
ficou comprovada cientificamente a inexistência de raças puras. Hoje é incompatível falar
em raça e pureza. A teoria da superioridade racial caiu por terra sem chances de renascer.
Os pesquisadores Sérgio Pena e Telma Birchal explicam que, do ponto de vista biológico
e genético, raças humanas não existem, isto é:
Três linhas separadas de pesquisa molecular fornecem evidências
cientificas sobre a inexistência de raças humanas. A primeira é a
observação de que a espécie humana é muito jovem e seus padrões
migratórios demasiadamente amplos para permitir uma diferenciação e
conseqüentemente separação em diferentes grupos biológicos que
pudessem ser chamados de raças. A segunda é o fato de que as
chamadas raças compartilham a vasta maioria das suas variantes
genéticas. E a terceira é a constatação de que apenas 5-10% da variação
genômica humana ocorre entre as raças putativas. As evidências levam à
conclusão de que raças humanas não existem do ponto de vista genético
e biológico119 .

Apesar da comprovação científica da inexistência de raças, vivemos em um país
que reproduz em todos os setores o preconceito racial. Como vimos, temos aqui uma
construção social e política do racismo. No Brasil, a aparência física, ou seja, as
características fenótipas (cor da pele, formato do nariz e boca e espessura do cabelo),
determinam o status racial do indivíduo. Isto ocorre mesmo apesar de sabermos que os
fenótipos são indicadores questionáveis até mesmo para determinar a origem geográfica
da ancestralidade. Isto fica evidente, por exemplo, na pesquisa de Sérgio Pena. Este
pesquisador mostrou que um brasileiro, mesmo aquele que aparenta fenotipia européia,
tem porcentagens variadas de marcadores genéticos africanos e ameríndios, o que
significa que as aparências físicas são pobres indicadores da origem geográfica dos
ancestrais de um determinado indivíduo 120 .
Na ideologia racial brasileira, a noção de cor, que é afirmada como a
negação da marca de raça, é na verdade, uma transmutação desta, pois a
cor da pele somente tem sentido como elemento classificatório nos
118

RIBEIRO, Darcy. O povo brasileiro: a formação e
Letras, 1995. p. 234.
119
PENA, Sérgio; BIRCHAL, Telma. A inexistência
humanas: pode a ciência instruir o etos social? Revista
2006. p 11-21. INSS 0103-9989.
120
PENA, Sérgio; BIRCHAL, Telma. A inexistência
humanas: pode a ciência instruir o etos social? Revista
2006. p 11-21. INSS 0103-9989. p. 20.

o sentido do Brasil. São Paulo: Companhia das
biológica versus a existência social de raças
USP. São Paulo. V.68, n.1, dez, jan, fev. 2005biológica versus a existência social de raças
USP. São Paulo. V.68, n.1, dez, jan, fev. 2005-

quadros de uma avaliação fenotípica e naturalizante anterior, o que
remete a dicotomia branco/ não-branco121 .

Para Lílian Schwarcz, os brasileiros se sentem uma ilha cercados por racistas de
todos os lados122 . Numa pesquisa realizada em 1996, o resultado foi que entre os
entrevistados, 97% afirmaram não ter preconceito, e 98% declararam conhecer pessoas e
parentes próximos que são racistas. Os brasileiros admitem, em sua maioria, que vivem
em um país de diferença racial, onde práticas de preconceito e discriminação estão
presentes em seu dia-a-dia. Porém, não assumem o preconceito: o racismo está sempre no
outro. Tal antagonismo pode ser explicado por João Batista Pereira, quando diz que o
Brasil é um país racista e ao mesmo tempo não é, porque vivemos em uma realidade
ambígua que nos força a nos expressarmos ambiguamente. Como vimos no tópico acima,
o racismo esteve presente nos estudos acadêmicos responsáveis pela construção de um
imaginário popular de racismo, como sinônimo de segregação racial, crueldade, tortura
física, e até extermínio de grupos étnicos. Sendo assim, o que acontecia nos Estados
Unidos e na África do Sul, o Apartheid, era considerado expressão do verdadeiro
racismo. “Para os que avaliam as tensões étnicas nessa perspectiva, racismo é uma
expressão muito forte para rotular o preconceito e a discriminação que permeiam as
relações de raça no Brasil 123 .” Segundo esta linha de interpretação, o que ocorre no Brasil
seria um falso racismo.
Roberto Da Mata, na tentativa de explicar esse confuso racismo à brasileira – em
que se percebe a ausência de segregação racial, mas, ao mesmo tempo, a presença de
racismo –, parte do pressuposto de que a sociedade brasileira criou uma espécie de
relação social que permite conciliar, num plano profundo, posições individuais e pessoais
fortemente dirigidas e hierarquizadas, em que a superioridade do branco é assegurada
como grupo dominante. Neste sentido, o sujeito discriminado é aquele que está fora dessa
rede de relação social, aquele que não é conhecido socialmente. Assim sendo,
A discriminação não é algo que se dirige apenas ao diferente, mas ao
estranho, ao indivíduo desgarrado, desconhecido e solitário: ao
estrangeiro – o que, numa palavra, não está integrado na rede de

121

MUNANGA, Kabengele. Rediscutindo a mestiçagem no Brasil. Petrópolis: vozes, 1999, p. 94.
SCHWARCZ, Lilian Moritz. Uso e abusos da mestiçagem e da raça no Brasil: Uma história das teorias
raciais em finais do século XIX. Estudos Afro-Asia, São Paulo, 18, 1996, pp.77-101.
123
PEREIRA, João Baptista. Racismo à brasileira. In: Estratégias e políticas de combate à discriminação
racial. Kabengele Munanga (Org). São Paulo: editora da Universidade de São Paulo, 1996, p.76.
122

relações pessoais altamente estruturada que, por definição, não pode
deixar nada de fora: nem propriedade nem emoção nem relação124 .

Para o antropólogo, no contexto desse sistema hierarquizado, o mal maior não é
a característica que permite inferiorizar o outro, mas a ausência de relações sociais. O
mesmo não ocorre nos Estados Unidos, por ser uma sociedade onde ocorre um sistema
igualitário e individualizado. Sendo o negro considerado uma raça inferior, a mistura era
indesejada, o elemento hibrido é dotado de qualidades negativas. Portanto, condenava-se
a relação entre as ‘raças’. O autor ainda explica que a sociedade brasileira tendeu a
intermediar, conciliar e tornar sincrético suas relações interraciais e, com isso, criou uma
relação triangular como parte de sua lógica social. É por esse meio que se adia o conflito,
a invenção do mulato, tornando possíveis as intimidades e redes de relações pessoais
entre negros e brancos. “Nessa sociedade há em todos os níveis essa recorrente
preocupação com a intermediação e com o sincretismo, que vem cedo ou tarde, impedir a
luta aberta ou o conflito pela percepção nua e crua dos mecanismos de exploração social e
política 125 .”
Antonio Guimarães define o racismo como sendo uma doutrina, cientifica ou
não, que afirma a existência de raças humanas diferenciando qualidades e habilidades
“ordenadas de tal modo que as raças formem um gradiente hierárquico de qualidades
morais, psicológicas, físicas e intelectuais.”. E continua dizendo que o racismo, além de
doutrina, pode ser entendido também como um conjunto de atitudes, referências e gostos
instruídos pela idéia de raça e de superioridade racial, seja no plano moral, estético, físico
ou intelectual. Uma pessoa é racista quando considera os negros feios, menos inteligentes
ou menos trabalhadores. Na linguagem sociológica, as duas definições são classificadas
de modo diferente. A primeira, que se resume em um sistema de atitudes, é chamada de
preconceito. Já a segunda, que se baseia no comportamento e ações discriminatórias, é
chamada de discriminação. Ou seja, “o preconceito pode manifestar-se, seja de modo
verbal, reservado ou público, seja de modo comportamental, sendo que só neste último
caso é referido como discriminação 126 .”

124

MATA, Roberto da. Relativizando: uma introdução à antropologia social. Petrópolis: Vozes, 1984, p.

76.
125

MATA, Roberto da. Relativizando: uma introdução à antropologia social. Petrópolis: Vozes, 1984, p.

83.
126

18.

GUIMARÃES, Antonio Sérgio Alfredo. Preconceito e discriminação. São Paulo: editora 34, 2004, p.

O fato de ser considerado natural o fato de ver um negro ocupando posições de
subalternidade social impede os brasileiros de aceitarem qualquer esforço de
discriminação positiva praticada por entidades Negras ou de ação afirmativa por parte do
Estado. No discurso racista do brasileiro é apontado o princípio de igualdade de
tratamento como fundamental, pressupondo uma igualdade de oportunidade inexistente.
“Isso equivale a sugerir que a situação de desvantagem real do negro decorre de sua falta
de esforço ou de competitividade 127 .”
A democracia no Brasil dá passos reais a partir de 1985, e somente nos anos 90 o
Estado brasileiro começou a reconhecer a existência do racismo e a implementar
reformas 128 . Com a visibilidade que o movimento Negro ganha, o país assume que o
brasileiro é racista. Foi no mesmo período que o estudo da raça e do racismo se tornou
amplo nas academias. Como exemplo, podemos citar a criação do Programa Nacional de
Direitos Humanos (PNDH), no ano de 1996, que, com o objetivo de criar ações
afirmativas que atendessem aos negros, mulheres e deficientes físicos, propôs estudos de
Políticas públicas que atingissem: em curto prazo, a valorização do negro; em médio
prazo, desenvolver ação afirmativa para o acesso do negro aos cursos profissionalizantes
e universitários, incluindo as áreas de tecnologia de ponta; e em longo prazo, cancelar
todas as leis discriminatórias, desenvolver políticas e regulamentações que busquem
combater a discriminação racial e formular políticas compensatórias que promovam
social e economicamente a comunidade negra. Em princípio, o governo federal foi
resistente a implantar políticas de ações afirmativas: “eles expressaram opiniões de que
políticas direcionadas à raça solidificariam as fronteiras e perpetuariam a própria idéia de
diferença racial129 .”
Ao que toca a segregação residencial, Edward Telles nota que no Brasil se
percebe uma miscigenação, negros convivem perto de brancos. Nos Estados Unidos,
ainda hoje é nítida a segregação existente entre brancos e negros: “a maior mistura
espacial dos brasileiros se deve à ausência de iniciativas oficiais sistemáticas no sentido
127

GUIMARÃES, Antonio Sérgio Alfredo. Preconceito e discriminação. São Paulo: editora 34, 2004, p.

81.
128

Foi no de 1988, quando comemorávamos o centenário da abolição da escravidão, que a nova
Constituição da República reconheceu o racismo como um crime inafiançável. Trata-se, portanto, de um
ano significativo para o movimento Negro, sendo de se esperar que houvesse, neste ano, maior discussão
em torno do racimo no país.
129
TELLES, EDWARD. Racismo à brasileira: uma nova perspectiva sociológica. Rio de Janeiro: Relume
dumará, 2003, p. 75.

da implementação de segregação nos moldes dos Estados Unidos”. Porém, ele explica
que há um certo limite entre essa interação inter-racial no Brasil. A interação entre
brancos e negros fica limitada aos bairros pobres. É mais comum a interação entre pretos,
pardos e brancos pobres. “Os brancos de classe média brasileira possuem poucos vizinhos
negros, salvo talvez na condição de serviçais, principalmente porque estes têm sido
mantidos fora dessa classe 130 .” Nesse sentido, o autor conclui que existe segregação entre
brancos e negros, que pode receber explicação, em parte, por classe social, possuindo
implicações importantes. Sendo assim, essa segregação moderada do Brasil ofusca a
perspectiva de resistência das vítimas do racismo.
2.6. Ação afirmativa e identidade brasileira
As políticas de ação afirmativa no Brasil tomaram fôlego recentemente, em
1995, quando Benedita da Silva e Abdias do Nascimento apresentaram projetos decisivos
para o desenvolvimento do debate no Brasil 131 . Com isso, o tema ‘raça’ ganhou espaço na
mídia, em congressos e academias, tornando-se um assunto de debate amplo, carregando
sua carga de polêmica e controvérsias. Mas o mais importante aconteceu: o assunto
passou a ser pensado e refletido por diversos âmbitos da sociedade, deixando de ser
assunto exclusivo de grupos militantes.
As críticas dirigidas às ações afirmativas no Brasil questionam as políticas que
de fato reconhecem as identidades raciais, isto é, políticas públicas que demonstram
reconhecer a existência de práticas racistas e prevêem solucionar as desigualdades fruto
dessas práticas. As críticas, como vimos, são pautadas na ameaça à identidade racial, ou
seja, questionam se essas políticas, ao invés de diminuir a desigualdade, criariam uma
desintegração da identidade nacional, um conflito entre raças, coisa que não existe no
Brasil. Nesse mesmo sentido se posiciona o antropólogo Peter Fry, sobre as políticas de
ações afirmativas no Brasil. Para ele, as ações afirmativas vieram para romper com a

130

TELLES, EDWARD. Racismo à brasileira: uma nova perspectiva sociológica. Rio de Janeiro: Relume
dumará, 2003, p. 183.
131
As ações afirmativas surgiram nos Estados Unidos na década de 1960, após a declaração dos direitos
civis em 1964. Ações afirmativas são entendidas como políticas públicas que pretendem corrigir
desigualdades socioeconômicas que resultaram em tratamento discriminatório, atual ou histórico, sofrido
por um grupo de pessoas. As ações afirmativas podem atuar como políticas de cotas, que reserva uma
porcentagem de vagas para minorias políticas e culturais, e a descendência racial passa a ser o critério de
classificação. A discussão de políticas de cotas no Brasil teve origem em 1995, em um projeto de leis
apresentados pela Senadora Benedita da Silva. Na Lei nº 14, que propõe cotas mínimas de 10% para os
setores etno-raciais, socialmente discriminados, em instituições de ensino superior.

mistura racial existente no país, que era positiva, criando duas raças distintas, agora de
forma negativa. “As políticas de ação afirmativa racial terão a conseqüência de estimular
os pertencimentos ‘raciais’, assim fortalecendo a crença em raças 132 .”
Para Kabengele Munanga, não há como políticas afirmativas segregarem a nação
brasileira. Primeiramente, porque, se nos Estados Unidos e na África do Sul, as barreiras
raciais contra relações sexuais inter-raciais não conseguiram desfazer a mistura racial que
existe nestes países, no Brasil não seria diferente. “Isso seria atribuir à ação afirmativa um
poder mágico que na realidade não possui133 .” Em segundo lugar, já foi comprovado que
raças não existem, e que todo seu conteúdo é social e político, e, portanto, faz parte da
construção do nosso imaginário. Prova disso é a existência do racismo e da discriminação
racial, que ainda hoje persiste em nossas sociedades. Justifica-se, assim, a tentativa de
afirmação dos Movimentos Negros, em torno da conscientização dos pretos e pardos na
união por uma mesma identidade através do conceito de negro 134 . Trata-se de uma ação
eminentemente política.
Joaze Bernardino, quando discute as ações afirmativas no Brasil, nos lembra que
a aprovação da lei de políticas afirmativas nos Estados Unidos foi diferente, pois, lá a
definição de negro e branco é muito clara: uma gota de sangue negro é suficiente para se
dizer negro. No Brasil, a realidade é bem diferente. Com a difusão do mito da democracia
racial e conjuntamente com o ideal de branqueamento, criamos o que o autor chama de
saída de emergência: o mestiço. Com essa noção de um ser híbrido, a autoclassificação e
a alterclassificação ficou mais complexa: “em termos concretos, são encontradas duas
variáveis que interferem significativamente tanto na auto quanto na alterclassificação dos
indivíduos: a escolaridade e o rendimento familiar 135 .” Desse modo, o lugar do indivíduo
na hierarquia social pode determinar sua cor, o fazendo embranquecer ou escurecer.

132

FRY, Peter. A persistência da raça. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005.
MUNANGA , Kabengele. Algumas considerações sobre raça, ação afirmativa e identidade negra no
Brasil: fundamentos antropológicos. Revista USP. São Paulo V.68, n.1, dez, jan, fev. 2005-2006. p.46-57.
INSS 0103-9989.
134
O termo negro que, de acordo com a significação dada pelos dicionários, significa da cor escura, muito
escura; que pertence à raça negra. De acordo com a realidade brasileira, o termo negro é um conceito
político. Ser negro é identificar-se e reconhecer-se como tal.
135
BERNARDINO, Joaze. Ação afirmativa e a rediscussão do mito da democracia racial no Brasil.
Estudos afro-asiáticos. Rio de janeiro, v. 24, n. 2, 2002. Disponível em: www.scielo.br. Acesso em: 12
agosto 2006. p.247-273.
133

Brandão fala sobre um racismo de assimilação, ou seja, o afro-descendente pode
se auto afirmar menos negro de acordo com seu capital econômico ou cultural. Trata-se
de um racismo representacional, pois, quando ele é assimilado na sociedade branca, pode
ser visto como quase branco, sendo ele mestiço, ou se auto representar menos negro pelos
símbolos econômicos e culturais que pode portar. Por exemplo, um mestiço que no
passado fora pobre, mas que hoje se tornou um médico por seu próprio mérito, pode se
autoclassificar menos negro e, portanto, se sentir mais branco, uma vez que sua condição
socioeconômica é superior àquela que viveu no passado. Por esse ângulo, na ideologia
racial brasileira, a noção de cor, que é afirmada como a negação da marca de raça, é na
verdade, uma transmutação desta, pois a cor da pele somente tem sentido como elemento
classificatório nos quadros de uma avaliação fenotípica e naturalizante anterior, o que
remete a uma dicotomia branco/ não-branco 136 .
Mesmo com a apresentação da problemática de auto e alterclassificação do ser
negro no Brasil, as políticas de ação afirmativa se tornam um instrumento eficaz na luta
pela amenização dos problemas criados historicamente, como a discriminação e racismo,
e na compensação às injustiças sociais sofridas por este grupo. Além disso, também
contribuiu para criação de uma justiça simbólica, como um meio de repensar o
preconceito e a força do simbolismo que estigmatizam um grupo de pessoas. Bernardino
ainda acrescenta que as ações afirmativas no Brasil atribuem um valor positivo à
classificação social do negro. Se, até então, ser negro brasileiro não era vantagem
nenhuma, ou seja, era sinônimo de tudo que não é bom (favelado, pobre, bandido,
safado...), agora, se autoclassificar negro se torna positivo. As políticas afirmativas são
capazes de converter a conotação negativa da cor preta e parda em algo positivo. Isso
porque elas podem associar vantagens claramente perceptíveis à identificação racial, e,
além disso, pelo fato de possibilitarem ganhos em termos de representatividade dos
negros em posições influentes e lucrativas. Foi exatamente o que apontou as pesquisas
realizadas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE) 137 , referente ao ano
de 2006: mais de 1,34 milhão de pessoas se autodefiniram de cor preta no ano de 2006,
em relação ao ano anterior. Isto é, na prática, a população de cor preta passou de 11,5
milhões de pessoas para 12,9 milhões. O instituto afirma que uma das explicações
136

BRANDÃO, André Augusto. Miséria da periferia: desigualdades raciais e pobrezas na metrópole do
rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Pallas ed; Niterói: PENESB, 2004, p. 94.
137
Esses são alguns dos resultados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) do Instituto
Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2006.

possíveis é que mais pessoas estejam assumindo a própria cor. Com isso, a participação
da população de cor preta no país aumentou de 6,3% em 2005, para 6,9% no ano de 2006.
A participação das pessoas de cor parda na população caiu de 43,2% para 42,6%, o que
confirma a tese de que houve uma migração de pessoas que se declaravam pardas para o
grupo dos que se declaram pretos. A população negra começa a ganhar mais visibilidade
nas estatísticas oficiais em um período em que se ampliaram as políticas públicas de ação
afirmativa, destinadas a promover maior eqüidade racial. A população de cor branca
perdeu participação e passou de 49,9% em 2005 para 49,7% em 2006. No Sul, a
população branca chega a 79,6%, e no Norte, a parcela é de 23,9%. Em termos
percentuais, a população de cor preta da região Norte foi a que mais cresceu em 2006:
passou de 3,8% para 6,2%, seguida pelo Nordeste, onde o percentual passou de 7,0% para
7,8%. No Sudeste, a participação passou de 7,2% para 7,7% da população. Veja essa
distribuição no mapa 138 a seguir:

138

Mapa referente ao percentual de pessoas pretas, pardas ou indígenas, na população residente, segundo as
Unidades da Federação em 2005. Extraído do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE).
Diretoria de Pesquisas, Coordenação de Trabalho e Rendimento, Pesquisa Nacional por Amostra de
Domicílios, 2005.

Valorizar a identidade negra é criar condições para alguém se autoclassificar
negro e ser reconhecido de forma positiva por isso. Quando isso acontece, temos a
valorização da auto-estima da pessoa negra e uma modificação simbólica do ser negro.
Para Luiz Cardoso de Oliveira, a política de cotas em Universidades pode ser
mais do que uma política voltada para diminuir a desigualdade social. As ações
afirmativas podem provocar mudança de atitude dos brasileiros, tornando-os mais críticos
à discriminação, podendo refletir sobre suas ações enquanto sujeitos sociais. As cotas
podem ser um estímulo à preocupação com o respeito aos direitos de cidadania dos
negros, ampliando conseqüentemente as oportunidades de participação do negro na renda
e vida pública do país. Com isso, todos os anos, quando realizada a prova de vestibular, a
sociedade seria levada a refletir sobre a questão da negritude, visibilizando e
internalizando suas questões, contribuindo para mobilizações e rearticulação entre a
esfera do espaço público e privado brasileiro, criando políticas públicas e repensando as
práticas cotidianas.
Se as “cotas” assim concebidas vierem a ter o mesmo sucesso das faixas
de pedestre em Brasília, onde, ao produzir o gesto convencionado, os

transeuntes não apenas param o trânsito para atravessar as ruas com
segurança, mas tem a cidadania renovada neste “rito” de afirmação e
reconhecimento de direitos, a distribuição periódica das “cotas” poderá
vir a ser concebida, num futuro próximo, como um rito de celebração
da cidadania 139 . (destaque da autora)

2.7. O que pensam os negros da Igreja Batista Maranata sobre as cotas?
Todo mundo tem um palpite em relação às políticas de cotas. Muitas pessoas não
possuem nem mesmo informações precisas sobre essas políticas, como por exemplo, a
porcentagem reservada para as cotas. Mas mesmo assim opinam contra ou a favor. O
nível de escolaridade, muitas vezes, não faz diferença. Mesmo quem está dentro de uma
universidade, muitas vezes, não sempre sabe muito bem sobre as finalidades das cotas
nem o porquê de sua existência. Observe as respostas dadas à pergunta sobre se conhecem
as políticas afirmativas e seu posicionamento (contra ou a favor):
Para Daniel Silva, o assunto sobre as políticas afirmativas não lhe é estranho,
embora deixe claro, em sua fala, não ter um amplo conhecimento do assunto. O depoente
é a favor das cotas, pois acredita ser uma iniciativa positiva para o negro.
Algum tempo atrás eu ouvi na televisão, não só nas universidades, mas
nas empresas. Eu ouvi, mas, não gravei. Na empresa se não me engano,
acho que um por cento, um virgula alguma coisa por cento140 .

Erisenia Correia concorda que as políticas afirmativas precisam existir para o
negro, mas acredita que seria melhor se atendesse também aos pobres que não tem
condições de pagar uma Universidade. Ela se expressa com muita lucidez, deixa
transparecer que enfrenta uma luta diária e particular em relação aos estudos de suas
filhas. Sabe que, por ser uma mulher (mãe) pobre, e não tendo condições para sustentar
suas filhas em uma Universidade particular, se esforça muito para tal, e deixa claro sua
opinião de que a concorrência da universidade pública não é justa.
Eu sou a favor, não só para os negros, mas para todas as pessoas que
tem desejo de estudar. Deveria ter faculdade grátis para todos os que
têm desejo de estudar. Acho que as pessoas que tem um pai com
condição financeira boa, por que tem gente que nasceu em berço de
ouro, bem rico mesmo, não precisa realmente de uma faculdade grátis.
Eles estudam em colégio particular desde pequeno, o pai que não tem
condições não ia colocar. Tem pai que coloca o filho em escola
139

OLIVEIRA, Luís Cardoso de. Racismo, direitos e cidadania. Estudos Avançados. São Paulo, v. 18, n.
50, 2004, p.81-93. Disponível em: www.scielo.br/scielo.php. Acesso em: 05 mar. 2007.
140
Daniel Silva, 40 anos.

particular em determinado tempo, depois não dá mais. Eu coloquei a
Renata em uma escolinha particular, na pré-escola, porque não tinha
uma escola publica por aqui, mas mudou muita coisa depois que a
Renata nasceu. Coloquei a Elizangela também na pré-escola, mas eu não
tive condições de deixar minhas filhas até grande numa escola
particular. Por que eu coloquei na pré-escola? Não era por que eu tinha
condições, é por que eu não queria que minhas filhas ficassem em casa
sem aprender nada. Queria que em vez de ficar aprendendo besteira na
televisão elas colocassem a mente numa coisa melhor. Acho que o
governo deveria dar para aquele pai que nunca teve condições. (...) Tem
muita gente querendo estudar, mas não tem condições. Tem muita
gente. Se tivesse uma faculdade pública que não exigisse tanta coisa
para entrar, como a USP faz, minha filha já estava formada. Eu não
precisava estar fazendo hora extra como estou fazendo, trabalhando
direto com a deficiência que eu tenho, para pagar a faculdade da Renata
e da Elizangela.

Para Nice da Silva, que é professora e lida com a questão educacional em seu
dia-a-dia, as políticas afirmativas apresentam dois lados: por um, dá a chance ao negro de
ingressar em uma empresa ou Universidade, mas por outro, não deixa de ser uma forma
preconceituosa de ver o negro.
Eu tenho uma idéia mais ou menos assim: por um lado, acho que é
viável, mas por outro, é tentar mostrar que o negro é incompetente.
Porque eu falo por um lado? Se você for no mercado de trabalho você
sabe que vai ter menos chance do que um outro branco, a gente sabe que
é assim. Se tiver um gordo e um magro, uma recepcionista magra e uma
gorda, é óbvio que a magra de boa aparência vai ter 70, 80% mais
chance que a outra, vai ser assim. Ajudaria (ter cotas) por que seria
obrigatório ter um preto lá dentro, o mesmo que acontece nas
universidades. Na minha época, quando fiz a faculdade, sabe quantos
negros tinha na sala? Três. Só três, o resto tudo era filhinho de papai, era
assim. Eu fui de teimosa, porque condições eu não tinha.

Ela deixa claro que sua formação educacional e estrutura familiar não lhe deram
base que permitisse sua entrada em uma Universidade pública.
Na universidade de Santo Amaro. Mas eu fui de teimosa. Eu não tinha
como entrar em uma universidade pública. Não tive estrutura para isso,
a minha base, que era o ensino fundamental, foi péssima, que eu falei
com você no começo, meus professores eram de péssima qualidade. Não
tinha como, só se fosse um milagre. Deus falasse assim: é para você
entrar na USP. Aí você vai. Se depender dos meus conhecimentos... eu
confesso, meu ensino fundamental foi de péssima qualidade, tive
péssima qualidade de vida, péssima qualidade de família, meu pai bebia
e quebrava tudo em casa, então tudo isso influenciou.

Quando analisamos toda a história de vida da depoente, percebemos que um
complexo de fatores, como morar em uma cidade pequena e quase sem estrutura; ter que

trabalhar em todo período de estudo; estudar em uma escola com profissionais com pouco
preparo e etc., se tornaram empecilhos para que ela tivesse uma condição educacional
diferente.
Já os colaboradores Ademilton, Maria Aparecida e Veraldina, em suas respostas,
deixam transparecer que não compreendem bem a proposta das ações afirmativas,
embora, nem por isso, deixam de expressar suas opiniões a respeito. Ademilton inicia
falando que as cotas não deveriam existir por causar desigualdades entre brancos e
negros. Desconsidera, portanto, que já vivemos em um país com profundas desigualdades
raciais. Ele consegue interpretar as cotas como se fosse uma proposta que colocasse o
branco em desvantagem, mas isso só seria possível se a concorrência entre brancos e
negros fosse igualitária. Por fim, demonstra que verdadeiramente não consegue entender
o propósito real das cotas.
Sim, eu já ouvi falar (sobre as cotas) e acho um absurdo, mas existe.
Por que trata as pessoas com desigualdade, por que se tem uma cota
para um e não tem para outro, já começa a tratar com desigualdade.
Deveria ser uma coisa justa, o que existe para o branco, existisse para o
negro também.
Se fosse só pelas escolas, universidade, os negros ainda estariam de fora
das escolas, porque os brancos estariam em primeiro lugar, mas as cotas
seriam boas nesse sentido para ajudar, mas deveria ser permanente. E
que acabe essa coisa de cota, se o negro tem condição de entrar na
universidade ele entra. Então a cota foi mais para pessoas que não tinha
condições de entrar na universidade, né? Então valeu a pena né? A
igualdade deve ser para todos.

Maria Aparecida, da mesma forma, não entende o propósito das cotas. Para ela,
essa é uma forma que prejudica o negro, ao invés de ajudá- lo, pois limita o número da
entrada de negros na universidade.
Eu já ouvi falar (das cotas). Sou contra e acho que a igreja é contra, né?
Por que deveria ser igual para todos. Porque só duas? Só duas pessoas
negras podem entrar na faculdade? Então, essas cotas que falam aí não
têm uma porcentagem, então (...) acho que deveria ser igual para todos.

Veraldina também se expressou contra as cotas. Para ela, criar cotas é criar
desigualdade. Se os negros são como os brancos, não poderiam ter privilégios. Mas ela
também desconsidera a desigualdade estrutural e racial que subjugaram os negros
brasileiros.

Eu já ouvi falar. Eu acho que não tem que existir uma cota para o negro.
O negro tem que competir com todo mundo, por que tem que ter cota
para o negro? Por quê? Eles não podem disputar por igual? Eles não têm
a mesma inteligência? Têm. Então não há necessidade. Ele tem que
entrar pelo valor que tem, pelo que ele aprendeu, enfim, e não por que o
governo decide X tantos para negros. E o resto dos negros? Quer dizer
entra uma cota e a outra? Então entra o melhor, cada um tem que se
esforçar para ser melhor, para chegar lá. Eu acho isso um absurdo. Não
tinha que ter cotas não.

Suely é educadora e trabalha com crianças carentes da periferia. Ela entende bem
a realidade do negro pobre, mas se posiciona contra as cotas, uma vez que entende que as
políticas afirmativas negam a capacidade intelectual do negro, contribuindo para crença
de que o negro é incompetente. Ela entende a concorrência nas Universidades públicas
como oferecendo dificuldades iguais tanto para o negro quanto para o branco. Porém
reconhece que uma das grandes barreiras para um aluno pobre entrar em uma
universidade pública é a má qualidade das escolas municipais e estaduais. E uma saída
para resolver esse problema seria um melhor investimento no ensino fundamental e
médio, colocando-os em pé de igualdade com os colégios particulares.
Não sou a favor não, até por que, acredito na capacidade do negro. Ele
não precisa de uma cota reservada. Ele tem que acreditar mesmo nele,
investir nele e concorrer a estas vagas. Porque da mesma forma,
principalmente nas faculdades federais, públicas, que você não paga, a
concorrência é brava. Mas ela é brava tanto para negro quanto para
branco de classe inferior. Porque a gente está favorecendo uma classe?
De novo a gente está dizendo que ela é inferior, parece que ela tem
dificuldade de concorrer a alguma coisa. Mas também a classe menos
favorecida que são os pobres, que não tem condições de colocar seus
filhos em escolas graduadas e concorrer de igual para igual com aqueles
que têm. Eu acho que precisa melhorar nossas escolas públicas, que elas
possam dar para nossos alunos as mesmas capacidades às mesmas
condições de desenvolvimento que uma escola particular dá, para que
eles possam concorrer de igual para igual. Isso eu acho que vai dar
certo, a partir do momento que tivermos uma escola pública de ponta,
nossos alunos não vão precisar se socorrer a cotas.

De modo geral, todos os entrevistados disseram que o assunto sobre políticas
afirmativas nunca foi debatido dentro da igreja. Portanto, não há uma posição dela a
respeito das cotas. Quando conversamos com o líder da comunidade, que é branco,
percebemos que para ele este assunto ultrapassa o limite da função da igreja. Essa
problemática é entendida como um problema do governo, uma questão política, não
cabendo a igreja discuti- la, uma vez que ela é independente do Estado.
C.K – Sobre as políticas afirmativas, o senhor é contra ou a favor?

D.W – Não sou a favor nem contra. Acho que todas as coisas têm dois
lados. Se as políticas das cotas produzirem avanço, melhoramento,
proporcionar igualdade, então ok! Se não, também sem problema. Eu
não posso dizer se sou a favor ou contra isso ou aquilo, todas as coisas
tem dois lados. Agora se vai melhorar, vamos lá, mantém as cotas.
C.K – Claramente o senhor não se posiciona?
D.W – Não tenho uma convicção firmada sobre isso.
C.K – A igreja batista tem uma posição sobre essas políticas
afirmativas?
D.W – Como denominação local não. Por quê? Porque nós pregamos a
igualdade, o ser humano como um todo. São positivas, são negativas, eu
não posso te falar isso. Não sei por que depende de cada contexto, de
cada região, inclusive depende muito dos negros, o interesse por essas
cotas ou não, depende muito deles. Não tem uma posição, porque a
posição da igreja é a igualdade, essa é a posição da igreja.
C.K – A igreja então não devia ter mesmo uma posição em relação às
cotas?
D.W – Não, por que isso está no campo político. A igreja é
independente do Estado. É uma questão política social de nosso país que
precisa ser resolvida. Se nas cotas os nossos governantes encontraram a
melhor alternativa, ok! Continuem com ela. A igreja não tem essa
obrigação de se posicionar. A igreja precisa continuar dizendo o tempo
todo o que diz a Bíblia: para Deus todos somos iguais. E não defender
cota para um, mais ou menos, não. Todos têm o direito de escola, todos
têm o direito de estudar, todos têm direito de trabalhar, todos tem direito
de ir e vir, todos tem direito de se alimentar, todos tem direito de
respeito. É isso que nós pregamos. Então defender uma política, A, B ou
C não cabe a igreja, cabe a igreja ensinar apenas o que cabe a palavra de
Deus.

Identificamos facilmente que, para os entrevistados, assim como para o brasileiro
em geral, se auto classificar em relação à cor ou raça não é fácil para quem é pardo. Quem
é preto se sente negro, mas a maioria dos pardos tende a se sentirem mais brancos do que
negros. Essa dificuldade em se identificar com a negritude é uma “tática”, uma forma
encontrada para não se comprometer com a negritude, mas também é uma forma de não
sofrer com as dificuldades da raça. Veja as falas abaixo:
Veraldina se declara amarela, mas se considerarmos que na pergunta só demos a
ela cinco opções (preto, pardo, amarelo, indígena e branca), a escolha do amarelo se faz
por ter consciência que não é branca, mas não se aceita negra.
(Sou) Amarela. Descendente de ciganos, por isso amarela. Não sou
branca, sou amarela. É engraçado que eu fiz um exame de sangue e

descobri que a minha genética é negra. Meu sangue é de negro. Eu
tenho pele amarela, mas sangue de negro. A minha mãe é negra, é quase
uma negra, ela era uma negra de cabelo liso, não sei como chama isso,
acho que cabocla. Tenho esse sangue assim, mas eu fiz um exame que
diz que eu tenho sangue de negro. Então eu tenho pele amarela, mas
sangue de negro.

Explicamos a ela que por causa da mistura entre as ‘raças’ no Brasil, as pessoas
podem ter somente alguns traços de negro e se considerarem negros. Já que ela disse ter
sangue de negro, perguntamos se ela se sentia negra.
Eu não sei (risos). Agora você me pegou, eu nunca pensei nisso, mas eu
nunca pensei que eu sou uma negra, não. É até bom para eu pensar
daqui para frente, mas eu nunca pensei assim. Eu sempre me considerei
com uma pele amarela mais para branca.

As declarações que vamos ver abaixo deixam clara a falta de identificação com a
afrobrasilidade. Quando perguntamos sobre a autodefinição do colaborador, dando a ele
as opções oficiais 141 .
Eu não sei, eu vou pelo que eu ouço e vejo. Se eu não tiver enganado,
no meu documento consta como branco. Sou de cor morena, me sinto
moreno 142 .
No meu registro, na época colocavam cor, mas agora não colocam mais.
Mas lá no registro fala que eu sou parda. Eu me sinto parda. Meio
amarelada, (...) eu me sentiria meio branca (...) me sinto branca (risos).
Mas, aquela ali é pretinha!!! (aponta para filha em tom de brincadeira).
Nós aqui no Brasil não podemos nos sentir branco, preto, pardo porque
a gente é mestiço, tudo junto. Na minha família tem uma parte toda
morena como a Sara (filha), as pessoas falam que branco com cabelo
ruim é preto, tem essa confusão, mas eu me sinto branca. Às vezes estou
em um grupo e a pessoa grita “vem cá branquinha” outra ora diz
“moreninha”. Eu tenho uma colega que me chama de negra, ela fala
“vem cá negrinha” eu respondo que negrinha que nada, não sou
negrinha, mas é o jeito dela falar. Mas você está em um grupo, e as
pessoas te vêem um pouco branca, um pouco morena 143 .
Pelo que você vê é mais pardo né? Não sei. Uma vez fui fazer um
exame e a doutora me colocou como branco, eu não sou branco. Meu
pai veio de uma raça negra misturada com índio, e minha mãe veio de
uma raça árabe, mais moreno. Posso ser pardo né? O que você acha?
Branco, branco não. Sou mais misturado, mais para pardo. Preto não,
141

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas considera cinco categorias de classificação quanto à
característica cor ou raça: branca, preta, amarela (compreendendo-se nesta categoria a pessoa que se
declarou de raça amarela), parda (incluindo-se nesta categoria a pessoa que se declarou mulata, cabocla,
cafuza, mameluca ou mestiça de preto com pessoa de outra cor ou raça) e indígena (considerando-se nesta
categoria a pessoa que se declarou indígena ou índia).
142
Ademar, 58 anos.
143
Eliane Moura, 33 anos.

mais pardo mesmo. Se fosse não teria problema, mas eu não sou
completamente preto, sou uma mistura 144 .

2.8. Racismo, uma questão silenciada
Na tese de doutorado de Elizete da Silva, um dos temas trabalhados é a questão
da discriminação racial entre os protestantes, mais especificamente, entre os anglicanos e
batistas ind ependentes dentro do contexto baiano no período que vai de 1880 a 1930. Seus
apontamentos serão valiosos para a nossa análise, mesmo considerando que nossas
questões se fecham microscopicamente em um único grupo de protestante que se localiza
na periferia da cidade de São Paulo, representantes dos batistas da Convenção Batista
Brasileira no tempo presente.
A autora mostra que um ponto que devemos considerar, ao analisar a ética e
prática protestante, é a distância que existe entre o discurso e a prática desse grupo. Isto é,
“as diferenças entre o concebido teologicamente e a vivência cotidiana dos fiéis, inclusive
do próprio clero”, oposição claramente observada pela autora nas documentações por ela
trabalhada. Observa que, embora o discurso teológico ensina sse sobre a unidade de todos
os homens, sem distinção, preconceito ou discriminação, na prática cotidiana era possível
perceber posicionamentos que deixavam escapar o preconceito contra os negros e,
portanto, a distinção entre as pessoas. Um exemplo disso foi sua análise de uma revista do
clero anglicano escrita em 1908, em que o articulista dizia que o negro devia ocupar seu
lugar, que não era certo desejar lugares que ele não poderia ocupar, e encerra dizendo: “o
problema com o negro é que ele está o tempo todo tentando obter reconhecimento,
quando o que devia estar fazendo é obter algo para reconhecer 145 .” A autora detecta em
outros documentos, como cartas escritas por reverendos anglicanos, em que deixam
escapar concepções racistas como: faziam descrições físicas dos negros os comparando
com animais selvagens, os mostravam como intelectualmente inferiores, como grosseiros
e incapazes de boas maneiras civilizadas, etc.
Os batistas, uma denominação advinda dos Estados Unidos, como vimos no
capitulo anterior, chegando ao Brasil, não encontraram problemas com o sistema
escravista vigente. A maioria dos missionários norte-americanos que vieram para cá era
144

Ademilton Santos, 52 anos.
SILVA, Elizete da. Cidadãos de outra Pátria: Anglicanos e Batistas na Bahia. 1998. Tese de doutorado
apresentada ao departamento de História da Universidade de São Paulo FFLCH – USP. São Paulo, 1998, p.
162.
145

da ala sulista. Portanto, possuíam uma mentalidade escravista, e buscavam dar ênfase na
conversão individual, na vida de oração e devoção e na ética pessoal. Porém como afirma
Duncan Reily, ficou faltando nessa vida cristã “a luta pela justiça e liberdade de todos 146 .”
Nos tempos coloniais, no Norte dos Estados Unidos se tinha o desenvolvimento
de pequenas lavouras, enquanto no Sul predominava o sistema de fazendas. O Norte, por
influência de reformas sociais, tornou-se centro de irradiação abolicionista. No Sul, o
oposto ocorreu. Convencidos da necessidade dos escravos negros na economia do país, se
posicionaram contra os movimentos abolicionistas. Diante dessa situação, era necessário
que a igreja do Sul se posicionasse, justificando o controle e a repressão aos escravos, e
contra, portanto, a abolição. Dentre as respostas utilizadas por ela, podemos apontar três
principais: a primeira seria apoiada na filosofia desenvolvida pelo filósofo Aristóteles, de
que uns povos nasceram naturalmente para serem escravos e deviam se posicionar de
forma submissa, enquanto outros nasceram naturalmente para serem senhores: “Pois
aquele que tem inteligência capaz de prever tem, de modo natural, autoridade e poder de
chefe; aquele que não tem senão a força física para executar, deve, obrigatoriamente,
obedecer e servir 147 .” A segunda era apoiada na Bíblia, “na qual não se encontra nenhuma
clara proibição explícita da escravidão 148 .” E por fim, a terceira seria o desenvolvimento
da Doutrina da Igreja Espiritual. Conforme essa doutrina, foi estabelecido o parâmetro
de atuação da igreja, que seria concernente a assuntos espirituais. Questões políticas,
sociais e econômicas caberiam ao Estado. Por esse motivo, ao se posicionarem uns contra
e outros a favor da escravidão, a maioria das igrejas se dividiram (os metodistas em 1844,
os batistas em 1845, os presbiterianos em 1861).
Para os missionários norte-americanos, a convivência em um país escravista os
deixava confortáveis, por ser compatível com a identidade escravista de sua região de
origem. Outra forma de justificar o silêncio dos batistas em relação à escravidão brasileira
era a não participação da igreja na vida política do país, como constata José Carlos
Barbosa em sua obra Negro não entra na igreja, espia da banda de fora
146

149

. Ao analisar a

SILVA, Elizete da. Cidadãos de outra Pátria: Anglicanos e Batistas na Bahia. 1998. Tese de doutorado
apresentada ao departamento de História da Universidade de São Paulo FFLCH – USP. São Paulo, 1998. p.
163.
147
ARISTÓTELES. Política. São Paulo: Martin Claret, 2001, p. 12.
148
REILY, Duncan Alexander. História documental do protestantismo no Brasil. São Paulo: ASTE, 2003.
p. 42.
149
BARBOSA. Jose Carlos. Negro não entra na igreja, espia da banda de fora: Protestantismo e
escravidão no Brasil império. Piracicaba: Editora UNIMEP, 2002.

posição das igrejas protestantes no Brasil Imperial, detectou que além de serem
proprietários de escravos sem qualquer constrangimento moral, possuíam muitas outras
preocupações, como disputar espaço com a religião oficial do império e garantir seu
terreno, entre outros. Mas no que tocava a escravidão e a situação da negritude, não foram
temas de seus interesses, tampouco assunto de suas preocupações.
Algumas atitudes em favor do escravo, por parte dos batistas, podiam ser
percebidas. Como o caso citado pela autora, de um escravo que freqüentava a igreja
batista de Salvador, mas foi proibido por seu ‘dono’ de assistir aos cultos. Diante dessa
situação, os membros da igreja decidiram comprar a liberdade do escravo. Mas essa
atitude, segundo a pesquisadora, não pode ser interpretada como uma posição política dos
batistas contra a escravidão, não houve nenhum tipo de ação coletiva nesse sentido. De
acordo com a autora, “a alforria do irmão escravo fazia parte de uma estratégia
evangelística e não uma ação política mais abrangente que questionasse o escravismo
enquanto sistema econômico baseado na propriedade de seres humanos, como mão-deobra servil 150 .”
Após 1888, com a abolição, contraditoriamente, como aponta Elizete da Silva, os
batistas passam a condenar a escravidão por ser incompatível com a fé cristã. Os batistas
compartilhavam da versão difundida pela historiografia oficial, interpretando a abolição
como uma sucessão de medidas naturais tomadas pelos governantes, desconsiderando as
lutas e resistências dos negros. Por se centrarem na salvação das almas perdidas, pouco
refletiram sobre as reais condições sociais e políticas vivida pelos negros e demais
brasileiros.
Embora não se tenha nenhum indício de que houve algum tipo de manifestação
protestante a favor dos escravos negros e da abolição, podemos citar alguns casos
isolados de protestantes que tiveram documentada ação em favor do negro, não em
libertação coletiva, mas em favor de alguns indivíduos. Como foi o caso da educadora
metodista Marta Watts, que comprou a alforria da escrava Flora e a empregou no Colégio
Piracicabano, como cozinheira 151 . A documentação só diz que a escrava passou a ser
150

SILVA, Elizete da. Cidadãos de outra Pátria: Anglicanos e Batistas na Bahia. 1998. Tese de doutorado
apresentada ao departamento de História da Universidade de São Paulo FFLCH – USP. São Paulo, 1998, p.
170.
151
Ducan Reily apresenta na página 110 da obra citada o documento oficial da compra da escrava Flora em
20-o4-1875 “carta da liberdade da preta Flora”.

assalariada, pois ela já era de “serviços domésticos”. Não sabemos até que ponto houve
de fato libertação.
Outro protestante que também se voltou para os negros, foi o congregacional
Robert Reid Kalley, fundador da igreja Fluminense no Rio de Janeiro, em 1858. A
primeira “igreja de missão” que fincou raízes permanentes no Brasil. Robert Reid Kalley
(1809-1888), nascido na Escócia e com a formação de cirurgião e farmacêutico, depois de
se converter ao cristianismo, decidiu ser missionário na China. Por causa de problemas de
saúde de sua mulher, foi morar na Ilha da Madeira. Logo depois, quando Kalley chegou
ao Brasil, decidiu não pregar o protestantismo em português. Sua atividade religiosa se
limitava a ajudar a comunidade acatólica. Suas classes de estudos religiosos eram em
língua estrangeira, atitude que era considerada legal pela constituição do Império.
Dr. Robert Kalley e sua esposa Sarah Kalley fundaram uma escola dominical
para educação bíblica de crianças. Três semanas depois ampliaram a escola e abriram
uma classe de estudo da Bíblia para homens negros, cujo professor era o próprio Robert
Kalley. Douglas Nassif Cardoso, que pesquisou sobre a vida de Robert Kalley, mostrou
que o fato de um protestante abrir uma classe de estudo da bíblia para negros, 33 anos
antes da abolição da escravidão, era inédito 152 . Não sabemos quem eram aqueles negros,
de onde vinham e se eram livres ou escravos. Mas o fato era que Kalley era contra a
escravidão, e deixa claro em uma exortação que fez no ano de 1865, a um membro de sua
igreja que possuía escravos. Kalley diz que escravizar alguém é um roubo violento da
liberdade alheia de que todos nós temos direito, e que o senhor que escraviza alguém é
inimigo de Cristo e não pode ser ‘membro da Igreja de Jesus’ 153 .
Uma outra carta, dos poucos documentos selecionados por Ducan Reily sobre a
posição do protestantismo em relação à escravidão negra no Brasil, foi a do missionário
presbiteriano Emanuel Vanorden, que demonstra alegria com o fim da escravidão,
superestimando a participação da igreja protestante no incentivo para o fim da escravidão.
Para o missionário, a pregação da Bíblia e o ensinamento de Jesus de “amar o próximo
como a ti mesmo” fizeram uma revolução na mente e coração dos brasileiros, motivando
a atitude de findar a escravidão. Encerra dizendo: “agora que os escravos já obtiveram sua
152

CARDOSO, Douglas Nassif. Robert Reid Kalley: médico, missionário e profeta. São Bernardo do
Campo, São Paulo, 2001, p. 113.
153
Duncan Reily apresenta o documento completo da exortação de Kalley sobre a escravidão nas páginas
121-2.

liberdade tem que ter escola para eles e professores para eles, eles devem receber
instrução para serem conduzidos ao trono da graça 154 .” Sabemos que, de fato, a abolição
ocorreu por fatores econômicos, e que de nada tinham a ver com amor ao próximo. Pois,
se a abolição tivesse tido uma motivação emocional e religiosa, por certo os negros não
teriam sido jogados a sua própria sorte sem amparo do governo e da sociedade. O fato de
o missionário ressaltar que, agora que os negros estavam livres, deveriam ter escola e
ensinamento, soa um pouco incoerente, parece que somente a partir do momento em que
estavam livres é que mereceram atenção. Mas, e antes, não precisavam ser educados?
A igreja batista da Bahia, segundo documentação pesquisada, possuía a maioria
de negros e pardos. A autora diz que a elite branqueada da época se posicionava a favor
do catolicismo, enquanto muitos negros, que não assimilavam essa religiosidade,
buscavam entre os batistas uma possibilidade de inclusão em uma comunidade liderada
por brancos e americanos. O “que provavelmente propiciava a idéia de um pertencimento
à uma instituição maior, que explorava os limites da exclusão da pobreza e negritude em
que viviam.” A autora continua dizendo que, mais do que pertencer a uma comunidade de
afeto e prestígio social, os negros poderiam buscar também uma ascensão social numa
religião do livro, de pessoas alfabetizadas, que além de oferecer o reino dos céus, também
podia propiciar uma melhora no seu status social.
O silencio da cor na documentação dos batistas e o silencio entre os
independentes também era uma forma de apagar as raízes africanas em
uma comunidade predominantemente negra, mas que passava por um
processo de conversão, ou desafricanização, que considerava
pecaminosa e errônea todas as manifestações culturais de origem
africana. (...) Os membros da Igreja Batista deveriam esquecer as suas
origens éticas africanas, as velhas prátic as e assumirem o novo discurso
do evangelho anglosaxonico pregado pelos missionário norteamericanos e absorvem novas atitudes civilizadas, compatíveis com o
corpus doutrinário que estava sendo ensinado. Sendo assim, ao mesmo
tempo em que a comunidade batista exercia uma atração religiosa para a
população negra, ela cumpria um papel pedagógico que se coadunava
com o projeto político da elite republicana baiana que era o de
modernizar Salvador, (...) isto é, menos africanos e mais europeus e
americanos 155 .

154

Duncan Reily apresenta o documento completo da Palestra de Emanuel Vanorden, missionário
presbiteriano na página 138.
155
SILVA, Elizete da. Cidadãos de outra Pátria: Anglicanos e Batistas na Bahia. 1998. Tese de doutorado
apresentada ao departamento de História da Universidade de São Paulo FFLCH – USP. São Paulo, 1998, p.
178.

Através de uma pesquisa, Marco Davi de Oliveira, em sua obra A religião mais
negra do Brasil, tenta responder qual é a religião representativamente mais negra do
Brasil e por quê? Descobre que a religião que mais negros possuí não são as religiões
Afro, a Igreja Católica nem os protestantes históricos, mas os pentecostais. Ele constata
que os negros brasileiros se converteram e passaram a fazer parte das igrejas pentecostais
em grande número nas últimas décadas. O que torna a igreja pentecostal a religião com
maior número de negros no Brasil.
A pobreza extrema é uma das responsáveis por uma baixo auto-estima e,
conseqüentemente, por uma desvalorização pessoal do indivíduo. Mas a igreja pentecostal
consegue oferecer ao fiel uma valorização de sua auto-estima por meio de seu culto e
liturgia. Por exemplo, através dos dons espirituais, o fiel pode se expressar e se sentir
espacial. Como nos explica o autor, “através desse ‘poder’, os pobres podiam se expressar
como desejavam, jogando para fora todas as magoas e tristezas, porque receber o batismo
com o Espírito Santo era uma dádiva divina para pessoas especiais 156 .” Outro fator
facilitador da aproximação dessa massa popular era seu discurso e prática, isto é,
A igreja pentecostal, com seu discurso e práticas voltados para a
diminuição da distância entre os líderes e os leigos, conduziu a
solidariedade que permeava entre os pobres para dentro das praticas das
organizações. Os pobres sentiam-se co-participantes da obra de Deus na
Terra, e não mais aqueles rejeitados que não sabiam ler ou escrever157 .

Enquanto que nas igrejas históricas, saber ler e escrever era importante para a
compreensão da bíblia, nas igrejas pentecostais, mesmo sem saber ler ou escrever, o fiel
poderia liderar um grupo, se tivesse recebido o batismo com o Espírito Santo, pois esse
sim, era mais importante. Pois, com essa experiência eram vistos “como pessoas
espirituais, homens e mulheres de Deus 158 .” O grande paradoxo, no entanto, é que o
legado educacional foi deixado pelas igrejas históricas, pois construíram escolas, colégios
e faculdades, configurando uma importante contribuição à sociedade brasileira, mesmo
sabendo que esse esforços educacionais estavam voltados para as classe média e alta. As
igrejas protestantes históricas apresentavam grandes barreiras para a aproximação dos
mais pobres e negros.

156

OLIVEIRA, Marco Davi de. A religião mais negra do Brasil. São Paulo: Mundo Cristão, 2004, p. 49.
OLIVEIRA, Marco Davi de. A religião mais negra do Brasil. São Paulo: Mundo Cristão, 2004, p. 49.
158
OLIVEIRA, Marco Davi de. A religião mais negra do Brasil. São Paulo: Mundo Cristão, 2004, p. 59.
157

A grande maioria de negros adeptos das denominações pentecostais
sente-se bem nas igrejas que freqüentam por causa de uma liturgia mais
próxima de sua origem, ao passo que a liturgia das igrejas histór icas
geralmente traz elementos europeus que não se identificam com o jeito
de ser do afrodescendente159 .

O autor explica que, de modo geral, a linguagem desenvolvida pelas igrejas
históricas não consegue atingir com eficácia os excluídos do sistema e os pobres da
sociedade brasileira, ficando mais adequada às classes média e alta. A liturgia das igrejas
históricas se afasta muito da realidade cultural e social dos brasileiros. Herdeiros de uma
cultura européia e norte-americana privilegiam práticas distantes, como por exemplo, os
hinários, cantados de forma sacra e sem movimentos e que, segundo o autor, “geralmente
são músicas distantes da cultura, da dor, dos anseios, da vida do povo brasileiro, que sofre
e ri com seu jeito de sofrer e sorrir, que chara e festeja com sua maneira peculiar de
chorar sorrindo e festejar chorando 160 .”
Oliveira explica que falar de preconceito racial, tanto nas igrejas pentecostais
quanto nas históricas, é mexer em ferida antiga. Ou seja, falar sobre segregação racial,
racismo e preconceito nas igrejas sempre foi um tabu. Ele explica que, aparentemente,
mexer nessas questões é como tocar alguns ferimentos mal cicatrizados, certas mazelas
que insistem em incomodar a Igreja brasileira. Por isso, ainda hoje, as igrejas cultivam o
mito da igualdade racial:
Os evangélicos, em geral, alimentam a idéia de que existe igualdade
entre os fiéis, e isso tem sido motivo de orgulho para muitas
denominações, sejam elas históricas ou pentecostais. Porém esse mito
tem sido usado para esconder o proble ma real do racismo na igreja
evangélica brasileira161 .

Essa postura da igreja, que age como se de fato vivêssemos em harmonia e que
dentro da igreja a desigualdade racial desaparece, revela a face de um preconceito racial
mascarado. Embora as igrejas pentecostais abram espaços para os negros, não se pode
observar negros em grandes cargos de liderança entre os pentecostais.
A pouca presença do assunto sobre racismo e preconceito racial encontrado nos
documentos pesquisados por Elizete da Silva fez a autora concluir que esse silêncio é
159

OLIVEIRA, Marco Davi de. A religião mais negra do Brasil. São Paulo: Mundo Cristão, 2004, p. 51.
OLIVEIRA, Marco Davi de. A religião mais negra do Brasil. São Paulo: Mundo Cristão, 2004, p. 60.
161
OLIVEIRA, Marco Davi de. A religião mais negra do Brasil. São Paulo: Mundo Cristão, 2004, p. 91.
160

revelador de um mal-estar vindo dos protestantes europeus e norte-americanos, que
durante o processo de escravidão brasileira foram coniventes com políticas e práticas
sociais discriminatórias, opostas ao discurso cristão de igua ldade dos homens perante
Deus 162 . As questões da negritude eram vistas como um problema que só existia na
sociedade circundante, mas que não atingia a membrezia da igreja. Ora, a idéia de que o
racismo existe, é clara para os nossos entrevistados, mas também a idéia de que esse é um
problema que se concentra mais fora do que dentro da igreja é parte do que pensam os
entrevistados. Conversando sobre a problemática do racismo, eles deixam explicito que
esse é um problema que não ultrapassa as paredes da igreja, pois lá dentro não há
diferença de quaisquer gênero.
Elizete da Silva aclara sobre a existência de uma distância grande entre o
discurso Batista e sua prática. Na documentação com que trabalha, ela mostra que o
discurso teológico é bem diferente da prática cotidiana vivida tanto pelos fiéis quanto
pelos teólogos e líderes. Ela trabalha com a idéia de que a postura silenciosa tomada pelas
igrejas batistas no período da escravidão e abolição da escravatura brasileira é bastante
revelador: “o protestantismo europeu e o norte-americano foram coniventes com políticas
e práticas sociais discriminatórias, opostas ao discurso cristão por eles difundido de
igualdade dos homens diante de Deus”163 . E reforça a idéia mostrando que a postura da
igreja denotava que o problema da escravidão era da sociedade e não da igreja. Ou seja,
“esta é uma questão que está fora dos muros da igreja, um problema que existia na
sociedade circundante, mas que na verdade não atingia sua membrezia 164 .” Percebe-se aí,
como bem coloca a autora, uma dicotomia entre a realidade do mundo social e a do
mundo espiritual.
2.9. O Jornal Batista no ano de 1988
1988, comemoração do centenário da abolição da escravidão, foi ano de grande
importância para o Movimento Negro, uma vez que jornais, programas de televisão e
162

SILVA, Elizete da. Cidadãos de outra Pátria: Anglicanos e Batistas na Bahia. 1998. Tese de doutorado
apresentada ao departamento de História da Universidade de São Paulo FFLCH – USP. São Paulo, 1998, p.
161.
163
SILVA, Elizete da. Cidadãos de outra Pátria: Anglicanos e Batistas na Bahia. 1998. Tese de doutorado
apresentada ao departamento de História da Universidade de São Paulo FFLCH – USP. São Paulo, 1998, p.
161.
164
SILVA, Elizete da. Cidadãos de outra Pátria: Anglicanos e Batistas na Bahia. 1998. Tese de doutorado
apresentada ao departamento de História da Universidade de São Paulo FFLCH – USP. São Paulo, 1998, p.
161.

rádios cediam espaços aos negros e davam destaque a suas temáticas, como a questão da
discriminação, do racismo, da posição social do negro na atualidade, entre outros. A
Igreja Católica também participa deste debate. Nesse mesmo ano, a Campanha da
Fraternidade, inspirada na Teologia da Libertação, abre espaço para discutir a questão da
negritude. Toda essa trajetória resultou no nascimento da Pastoral Afro, no ano de 1989,
no bairro Bela Vista (popularmente conhecido como bairro do Bexiga), na paróquia
Nossa Senhora Achiropita. A pastoral deu origem ao movimento negro considerado um
dos mais significativos da cidade de São Paulo 165 .
E os batistas se pronunciaram a respeito? O que diziam? Como se posicionavam?
Para responder a essas perguntas fizemos uma busca no Jornal Batista, no ano em
questão, para saber o que foi publicado no órgão Oficial dos Batistas Brasileiros. No
decorrer do ano, várias notícias sobre o negro no Brasil e na denominação ganharam as
páginas do OJB. Podemos então, através da seleção de algumas reportagens, perceber
como o OJB enxergava o negro brasileiro e se posicionava. No dia quinze de maio, uma
reportagem com o título, Os Batistas no contexto escravocrata Brasileiro, tenta mostrar,
por meio de um breve histórico da denominação batista no Brasil, a importância de
algumas figuras de negros que deram sua contribuição à denominação, citando nomes
como Manoel Virgínio de Souza; Abrahão José de Oliveira; Américo Luciano Senna;
Pedro Sebastião Barbosa; Francisco Ribeiro da Silva; Delcio Costa; Crispiniano Dario;
Ernesto Correa de Oliveira; Joaquim Evangelista Mariano Pereira; e José de Souza
Marques. O autor não faz qualquer outra referência além de citar seus nomes. Também
cita o missionário Thomas Jefferson Bowen, dando destaque ao seu trabalho no meio dos
negros brasileiros. Para finalizar a matéria, o autor relembra a fundação da primeira Igreja
Batista na Bahia, comentando que “no princípio a congregação era totalmente de pretos.”.
Outra matéria, publicada no mesmo dia, traz um título bem sugestivo: Neto de
escravo tornou-se pastor ilustre. A reportagem é praticamente uma biografia em
homenagem ao pastor batista José de Souza Marques, cujo avô fora escravo. Não há
nenhum tipo de referência em relação aos seus avós, tão pouco sobre a escravidão. O
objetivo da reportagem foi o de falar sobre os feitos do pastor, como: fundou o Colégio
Souza Marques no Rio de Janeiro, foi presidente da Convenção Batista Brasileira e da
165

BORGES, Rosangela. Axé, madona Achiropita! Presença da cultura afro-brasileira nas celebrações da
Igreja Nossa Senhora Achiropita, em São Paulo. Ed. Pulsar: São Paulo, 2001.

Convenção Carioca, foi membro da Academia Evangélica de Letras, fundou e dirigiu o
jornal ‘Nova Era’ e a revista ‘Seleções brasileiras’, e em 1960 foi eleito para a Câmara
Estadual. O escritor da matéria encerra dizendo que o pastor José de Souza Marques
afirmou, com sua vida, uma verdade inconteste “que a cor da pele não é obstáculo a quem
deseja ser uma benção para a sociedade e para Deus”.
Em uma outra reportagem, o pastor escritor desabafa sua indignação contra o
sistema escravista brasileiro, e exalta nomes de abolicionistas como José do Patrocínio,
Joaquim Nabuco, Machado de Assis, Castro Alves e Hipólito José da Costa, que
contribuíram para a assinatura da Lei Áurea. Essa matéria deixa claro que os batistas
concordavam com a historiografia oficial, que entendia a abolição como um fruto de
campanhas abolicionistas, desconsiderando a luta dos negros, suas revoltas e conquistas.
Algumas reportagens também mostram a desvalorização da cultura afro por parte
da denominação. Destacamos duas reportagens: uma, cujo título era Da Umbanda para
Cristo, conta o testemunho de uma mulher católica que também freqüentava a Umbanda.
O autor comenta todos os problemas pelos qual a mulher passava como o financeiro, de
saúde e familiar. Depois diz que ela conheceu uma igreja batista e se converteu. Não é
deixado claro se após a conversão os problemas foram resolvidos, mas o objetivo era
mostrar a historia de uma mulher que freqüentava uma religião afro e que tinha muitos
problemas, dando a entender que ao se converter encontrou solução.
A segunda a ser destacada, é a reportagem de título: O macumbeiro que desafiou
a igreja Batista. O pastor escritor relata uma experiência que teve com um centro de
macumba que ficava em frente a sua igreja. Ele inicia se referindo de forma pejorativa a
outra religião, como “sinagoga de satanás”. Queixa-se do barulho de sua vizinha,
característico do culto afro brasileiro, pois atrapalhava o culto da igreja e o ensaio do
coral. O pastor relata, então, que, impulsionado pelo poder de Deus, orou pedindo a Deus
que destruísse e fechasse aquele centro. Como fruto de suas orações ele conta que o
centro pegou fogo ferindo as filhas do pai-de-santo e levando à morte sua mulher. Algum
tempo depois o mesmo pai-de-santo sofreu um acidente de carro no qual quebrou suas
duas pernas, feriu suas filhas e sua segunda esposa. Depois desse acidente, as filhas do
pai-de-santo começaram a freqüentar a igreja batista e se converteram. Ao relatar o
ocorrido o pastor não se mostra sensível ao sofrimento do Outro, pois interpreta as
fatalidades como ‘castigo de Deus’.

Como já foi falado, os batistas no Brasil viam de forma negativa as
manifestações dos cultos afro, e foi isso que o OJB revelou. Foi possível perceber que o
OJB não entrou na discussão propriamente dita sobre as questões negras. Ele falou de
pastores e membros que eram negros e de sua importância para a denominação, falou do
missionário que pregava para os escravos, falou da primeira igreja batista no Brasil que
era freqüentada por negros, mas não foi além disso. Não houve indagações, não se
questionou sobre a situação atual do negro na sociedade, não tocou nas temáticas de
discriminação e racismo. Talvez a crença de que, com a conversão pessoal, acabam-se os
problemas, ou seja, a conversão apagará a diferença entre brancos e negros, traga conforto
ao se negar falar sobre o problema do negro na sociedade brasileira. Para Marco Davi de
Oliveira, um dos caminhos rumo à igualdade racial está na valorização do negro, de sua
origem, sua história, sua cultura e religião. A tentativa de apagar as marcas da negritude
dos afro-brasileiros ou desqualificá- las só aumenta a distância e a possibilidade de uma
igualdade racial.
Do que foi dito até aqui, conclui- se que só é possível combater o racismo se
modificarmos nossos hábitos, comportamentos e costumes vigentes. É preciso provocar a
consciência do racismo. É por isso que, a nosso ver, tratar desse tema dentro de uma
comunidade religiosa se faz importante, uma vez que provoca discussão e reflexão em
torno de nossas práticas e pensamentos. E como nos ensina o professor Kabengele
Munanga, precisamos remover os obstáculos criados pelas ideologias racistas que foram
capazes de atingirem as bases populares, e convencê-las a criarem novas propostas para,
desse modo, não se tornarem sempre vitimas fáceis da classe dominante e de suas
ideolo gias 166 .
Essa segunda parte se conclui quando exploramos a temática da negritude,
traçamos um diálogo entre a História, a Antropologia e a Sociologia com a intenção de
perceber a força do discurso ideológico racista na formação da mentalidade brasileira, um
discurso racista que nasce em meados do século XIX, e que insiste em permanecer
presente até os dias de hoje entre os brasileiros. Ao discorremos sobre a questão racial e
os batistas, chegamos à conclusão de que essa é uma temática que desperta pouco
interesse entre os batistas e que, portanto, é silenciada.
166

MUNANGA, Kabengele. Rediscutindo a mestiçagem no Brasil: identidade nacional versus identidade
negra. Belo Horizonte: Autêntica, 2004, p. 13.

Partiremos para a última parte desse trabalho em que analisaremos os documentos
produzidos e, portanto, as falas de nossos colaboradores. Para interpretação dos
documentos nos apoiamos principalmente nas teorias de táticas e estratégia de Michel de
Certeau e na obra Dogmatismo e tolerância de Rubem Alves.

CAPÍTULO 3
Religião e negritude em diálogo: apreciação da produção documental
Nisso não há judeu nem grego; não há escravo nem liberto; não há
homem nem mulher; porque todos vós sois um em Cristo Jesus. Gálatas
3: 28167

Neste terceiro e último capítulo, quando já percorremos a trajetória de
contextualização da igreja batista Maranata na periferia da cidade de São Paulo e fizemos
a exposição do processo de construção social e cultural do negro brasileiro, pretendemos
perpetrar uma formulação teórica, de modo que demarcaremos um certo olhar para
compreensão do que vem a ser a questão da negritude em um meio batista específico.
Nosso trabalho restringe-se a um estudo de caso, cujo conceito definido por Allan
Johnson em seu dicionário de sociologia, explica que é um método de pesquisa que se
concentra em um único caso, permitindo uma focalização intensa no comportamento
social e seu resultado não pode servir para generalizações 168 . Devido a nossa delimitação
temática, algumas questões não serão abordadas, como por exemplo: a comparação entre
a visão sobre a negritude em uma igreja batista da periferia e outra central (cujos
membros são possuidores de um poder aquisitivo médio-alto); o contraste entre o
pensamento dos batistas brancos e negros; a negritude em outras denominações como, por
exemplo, os pentecostais, entre outros. Com isso, não pretendemos esgotar a temática em
questão, pelo contrário, iniciamos uma discussão que dará vazão a posteriores estudos.
Nosso intento será analisar a comunidade batista no seu espaço sócio-cultural e
tentar compreendê- la sob a ótica da cultura. Para tanto, será preciso levar em conta a
dimensão do fazer cotidiano, nas palavras de Certeau, a “arte do fazer” de homens e
mulheres, negros e brancos, líderes e liderados, enfim, sujeitos históricos. O negro batista
será pensado como sujeito sócio-cultural, como ser de ação, que se realiza como ser livre
e de vida ativa, inserido no mundo por suas palavras que são comunicação e revelação.
Indivíduos que possuem historicidade, com visões de mundo, escala de valores,
sentimentos, emoções, desejos, projetos próprios etc. Queremos falar do sujeito e seus
papéis no tempo social que se constituem dentro da instituição religiosa. E entender a
167

BIBLIA. Português. A Bíblia Sagrada. Trad. João Ferreira de Almeida. São Paulo: Sociedade Bíblica do
Brasil, 1969.
168
JONSON, Allan. Dicionário de sociologia: Guia prático da linguagem sociológica. Rio de Janeiro:
Jorge Zahar, 1997, p. 32.

igreja como um espaço de construção social no seu fazer cotidiano, onde os sujeitos não
são vistos, pela pesquisadora, como passivos diante da estrutura. Pretendemos entender
essa relação sujeito- instituição, como um processo em contínua construção, com a
inevitável presença de conflitos e negociações em função de circunstâncias determinadas.
A comunidade batista é compreendida aqui como um espaço próprio,
representante de uma autoridade institucional, e que pode ser entendida em dupla
dimensão. Por um lado, onde acomoda normas, regras, modos e princípios que buscam
unificar e organizar as ações dos sujeitos, impondo seu domínio aos fiéis. A denominação
batista possui seus próprios regulamentos, seus princípios, suas normas, que são regidos
por uma filosofia específica, fazendo dela uma denominação batista e não metodista,
adventista, universal, ou outra qualquer. Por outro lado, temos a dimensão do fazer
cotidiano, que possui uma organização bem diferente, em que podemos notar uma
complexa trama de relações sociais entre os sujeitos envolvidos. Essas relações incluem
toda uma forma subjetiva da vivência humana, ou seja: alianças e conflitos; ora
submissão às normas, ora rejeição a elas; táticas individuais e coletivas de transgressão e
acordos, um fazer cotidiano que nem sempre obedece as normas, regras e princípios
estipulados pela instituição. Esse é um processo de adaptação constante do espaço
estratégico das normas, um modo de praticar e utilizar saberes, que dão forma à vida
religiosa em uma comunidade batista. Quando falamos do negro batista da comunidade
Maranata, estamos nos referindo a sujeitos sócio-culturais, que possuem a capacidade de
se constituírem historicamente. Conseguem criar artifícios e refúgios diante dos
empreendimentos que queiram desapossá- los e domesticá- los, e esse conjunto de ‘táticas’
faz parte de suas experiências cotidianas e de seu mundo vivido, inserido em estruturas,
instituições e processos sócio-hitóricos 169 .
3.1. Oralidade como ponto de partida na produção e análise dos documentos

A utilização da oralidade em pesquisas cientificas é algo recente, como nos
explica José Carlos Sebe Bom Meihy. Seu uso teve início no ano de 1947, na
Universidade de Columbia, nos Estados Unidos, anos mais tarde (1952 e 1959) foi

169

CHARTIER, Roger. À beira da falésia: a história entre incertezas e inquietude. Porto Alegre: Ed.
Universidade/UFRGS, 2002. p.181.

desenvolvida no Canadá, Inglaterra e França 170 . No princípio recebeu muita resistência
por parte dos pesquisadores, pois a ciência havia se consagrado à palavra grafada,
desvalorizando, conseqüentemente, a oralidade 171 . A relação entre a palavra oral e a
escrita sempre foi conflituosa, devido suas distintas finalidades.
O oral tem uma finalidade diversa, que é marcada pelo contato
persuasivo mais direto entre os locutores, sendo um texto que pode ser
reelaborado no ato de sua produção/recepção; contrariamente, a escrita,
ao se enquadrar na durabilidade do tempo e espaço, se destina muito
mais ao canônico, podendo transitar entre varias culturas com a
autoridade de quem a impõe como elemento ordenador, claro que do
ponto de vista hegemônico. Por isso, que a escrita serve com melhor
aproveitamento à concepção clássica de ciência porque ordena mais
coersivamente o sintagma, coisa que a oralidade não se adequa por seu
caráter digressivo e performático172 .

Com o advento da escola dos Annales, no inicio do século XX e, portanto, com
uma nova postura historiográfica, os pesquisadores passaram a se interessar pelo
cotidiano vivido de personagens anônimos. Para tanto, foi necessário se debruçar sobre os
relatos orais, com objetivo de preencher as lacunas deixadas por análises que só se
utilizavam de documentos oficiais e/ou textuais.
No Brasil, a História Oral ganhou visibilidade na década de 1970. Com a queda
da ditadura militar e com a abertura política, houve manifestações por parte de vários
grupos (academias, arquivos, etc.), por entenderem ser importante travar debates em torno
da História Oral. Foi se percebendo a necessidade de novas metodologias de pesquisa
historiográfica. Com isso, foram identificando a importância de recuperar as experiências
individuais e situações singulares, privilegiando a dimensão do vivido e do cotidiano de
pessoas silenciadas pela história, como por exemplo, os presos da ditadura, os negros, as
mulheres, os operários e os demais grupos que, até então, não tinham ganhado espaço e
nem despertado o interesse da academia.
Um programa pioneiro de Historia Oral brasileira, dos mais importantes em
vigor desde os anos 70, é o Centro de Pesquisa e Documentação de História

170

MEIHY, José Carlos Sebe Bom. História Oral: 10 itens para uma arqueologia conceitual. Oralidades,
São Paulo, v.1, n.1, p.13-20, jan./jun. 2007, p. 20.
171
MEIHY, José Carlos Sebe Bom. Manual de história oral. São Paulo: Edições Loyola, 1996.
172
FERNANDES, José G. Do Oral ao escrito: Implicações e complicações na transcrição de narrativas
orais. Outros tempos. Maranhão, v.2, n.2, 2005. p.156-167. Disponível em: www.outrostempo.uema.br.
Acesso em: 16 abril 2006.

Contemporânea do Brasil, que pertence à Fundação Getúlio Vargas (CPDOCO) no Rio
de Janeiro. Iniciou o projeto recolhendo depoimentos da elite política nacional.
O uso da História Oral no Brasil toma impulso nos anos 90. Um dos
responsáveis por sua visibilidade foi a Associação Brasileira de História Oral, criada em
1994, iniciando muitos pesquisadores ao estudo da oralidade.
A metodologia da História Oral será nosso ponto de partida, tanto por mediar
nossa produção de documentos quanto por nos ajudar na análise do material produzido.
A escolha deste método se fez pertinente por se tratar de um recurso que nos possibilita
escrever e analisar a história do tempo presente. E, por conseguinte, permite uma
produção historiográfica distinta da convencional, privilegiando os excluídos, dando luz a
personage ns que até então eram invisíveis para historiografia oficial, dando voz a
segmentos sociais que não tiveram acesso à produção de documentos escritos e cuja
cultura e cotidianidade podem ser facilmente captados através da oralidade.
Esta metodologia permite nuevos patrones de relación, capaces de
facilitar la aproximación y el contacto del investigador con la colonia
investigada, a la vez que estimula una relación entre sujetos sociales que
se abren más espontáneamente al diálogo y a la producción negociada
de entrevistas y testimonios, en un espacio-tempo que intenta oír y
entender al entrevistado según su visión del mundo. Así, este nuevo
referente muestra un grupo social diferente y una nueva forma de sentirpensar-actuar que el investigador sólo presiente, pero no conoce ni
experimenta 173 .

As fontes orais possuem uma credibilidade diferente da fonte escrita. Embora
uma não exclua a outra, cada uma tem sua característica autônoma e função especifica.
Por isso, requerem instrumentos interpretativos diferentes e peculiares. Bom Meihy ainda
realça que as fontes orais, por serem originais não roubam espaço, tão pouco competem
com outras fontes. O processo de sua feitura comunga a vontade de quem produz com a
de quem colabora com sua produção.

173

ATAIDE, Yara Dulce Bandeira de. “Género, etnias y grupos excluidos en Salvador de Bahía.” In:
Historia Antropologia y fuentes orales. Barcelona, v.3, n.25, 2001, pp. 105-115.
Tradução da autora:
Esta metodologia permite novos padrões de relação, capazes de facilitar a aproximação e o contato entre o
investigador e a comunidade investigada, uma vez que estimula uma relação entre sujeitos sociais que se
abrem mais espontaneamente ao diálogo e a produção negociada de entrevistas e testemunhos, em um
tempo-espaço que tenta ouvir e entender o entrevistado segundo sua própria visão de mundo. Assim, este
novo referente deixa transparecer um grupo social diferente e uma nova forma de sentir-pensar-agir que o
investigador somente presente, mas não conhece nem experimenta.

As fontes orais dão conta dos significados mais do que dos eventos factuais. O
testemunho oral explora a imaginação e o simbolismo, dando luz às áreas inexploradas da
vida diária. Por essa razão, Alessandro Portelli acredita que as fontes orais são
importantes para tornarem visíveis às classes não hegemônicas.
Fontes orais são condição necessária (não suficiente) para a história das
classes não hegemônicas, elas são menos necessárias (embora de
nenhum modo inúteis) para a história das classes dominantes, que têm
tido controle sobre a escrita e deixaram atrás de si um registro escrito
muito mais abundante 174 .

As fontes orais propõem variações de olhares que merecem ser contempladas, se
colocando, inclusive, em diálogo com outras fontes documentais, como a escrita.
Trabalharemos a metodologia da Historia Oral, mantendo sintonia com o modelo
proposto pelo Núcleo de Historia Oral da Universidade de São Paulo (NEHO), que se
propõe um esquema político diretamente preocupado com as questões da cidadania,
fazendo opção por visibilizar os analfabetos, os iletrados, os que foram silenciados pela
historiografia tradicional, e por tanto, excluídos da sociedade da escrita. Levantamos
nossas questões a respeito do negro batista da comunidade Maranata, com intenção
militante e preocupação política. Almejamos que os resultados desta pesquisa sirvam para
a comunidade como um meio de reflexão e problematização da questão racial, que é tão
cara para a sociedade por envolver questões de cidadania e inclusão social.
3.2. A memória como objeto de pesquisa

O conceito de memória se torna crucial para nós, uma vez que fazemos uso da
memória do sujeito religioso – o negro batista – como fonte de investigação
historiográfica. Fazendo uso da leitura de Jacques Le Goff, interpretamos a memória
como propriedade de conservar certas informações, que nos remete, em primeiro lugar, a
um conjunto de funções psíquicas, das quais o homem pode atualizar impressões ou
informações passadas, ou que ele representa como passadas. A memória também tem a
função de ordenar os vestígios passados e reler esses vestígios, reinterpretando-os. Logo,
a memória não pode ser pensada como algo estático, fixo, pronto e acabado. Pelo
contrário, a memória é algo instável, maleável, viva, seletiva e, portanto, inacabada.
174

PORTELLI, Alessandro. “Forma e significado em história oral: A pesquisa como um experimento em
igualdade” In: Revista projeto história. N.14, PUC-SP, 1997, p. 37.

Quando evocamos nossas lembranças, podemos perceber que elas são reconstruídas e
sofrem interferências do contexto social, espacial, familiar, cultural e emocional, ou seja,
a memória individual e coletiva não são fechadas nem isoladas 175 .
Para Le Goff, a memória é um elemento essencial na construção da identidade,
individual ou coletiva, e o ser humano tem buscado essa memória, em especial a partir da
segunda metade do século XX, como uma atividade fundamental para os indivíduos e a
sociedade.
A memória coletiva, conforme nos explica Maurice Halbwachs, não é somente
uma conquista, mas um instrumento e objeto de poder. São nas sociedades que possuem
uma memória social oral, ou em vias de construção de uma memória coletiva escrita, que
se torna perceptível a luta travada pela dominação da recordação e da tradição da
memória. A memória coletiva de uma determinada sociedade pode estar diretamente
ligada a uma classe social dominante, e quando essa desaparece, desaparece junto com ela
a memória da sociedade. Nas sociedades ‘desenvolvidas’, os novos arquivos, agora não
mais exclusivamente as bibliotecas e os arquivos de documentos textuais, mas também,
os arquivos orais e audiovisuais, não escapam à vigilância dos ‘donos do poder’, uma vez
que já dominam a produção de memória do rádio e da televisão. “A memória, na qual
cresce a história, que por sua vez a alimenta, procura salvar o passado para servir ao
presente e ao futuro”176 . Pretendemos trabalhar a memória, como nos aconselha Le Goff,
como um instrumento para libertação e não para servidão do homem.
3.3. Táticas e estratégias: teoria certouriana

Jean Michel Emmanuel de la Barge de Certeau, pensador francês, nascido em
Chanbéry, no ano de 1925, e vindo a falecer em nove de janeiro de 1986, em Paris, foi um
intelectual que pertenceu ao movimento reconhecido como Nova História, e um dos
componentes da chamada terceira geração dos Annales 177 . Um pesquisador de destaque
175

HALBWACKS, Maurice. A memória coletiva. São Paulo: Edições Vértice, 1990, p. 58.
LE GOFF, Jacques. História e memória. 3 ed. Campinas, Editora da UNICAMP, 1994.
177
A revista dos Annales fundada na década de 1929 pelos historiadores Marc Bloch e Lucien Febvre da
Universidade Estrasburgo. Pioneira por abordar a história de longa duração. A segunda geração formada
por Fernand Braudel e a terceira geração, também conhecida de Nova Historia foi formada por Michel
Foucaut e Jacques Lê Goff e Georges Duby. Uma das características iniciais dos Annales está na reflexão
dos historiadores tanto em relação a sua área de estudos, como sobre suas formas de trabalho. Preocupa-se
em tirar a história de seu isolamento disciplinar, e por isso pensar em História de forma abertas e suas
problemáticas e a metodologias de forma interdisciplinar.
176

por possuir facilidade em transitar nas diversas áreas do saber, tendo uma sólida formação
em Filosofia, Letras Clássicas, História, Teologia e doutorando-se em Ciências da
Religião na Sorbone. Destacou-se como um questionador da historiografia, propondo uma
nova maneira de se perceber a história em sua construção 178 .
Roger Chartier aclara que a questão essencial de Certeau foi a preocupação em
dar conta de uma religiosidade que ultrapassava a instituição, que conseguisse apreender a
experiência religiosa do vivido 179 . Em sua obra A invenção do cotidiano, Certeau cria
uma teoria sobre práticas cotidianas, para delas extrair sua dinâmica e tornar visível
táticas e astúcias de consumidores,

que

normalmente

são

silenciadas

pelo

desenvolvimento da produção sociocultural. Em seu desenvolvimento sobre a ‘arte do
fazer cotidiano’, mostra que, em uma análise minuciosa e detalhada do cotidiano, é
possível perceber táticas desenvolvidas por ‘consumidores’ que aparentemente se
mostram conformados com a estratégia da estrutura dominante, mas que, no seu fazer
cotidiano, usam processos mudos e se reapropriam do espaço organizado, de forma não
conformada, alterando a organização imposta.
O autor vem desenvolvendo sua teoria e mostrando que, embora as autoridades
institucionais criem e imponham suas leis e regras, constituindo um lugar próprio e
autorizado na sociedade, não se pode desconsiderar a produção, isto é, a arte de fazer, dos
consumidores. Estes, no ato de consumir, ocupam de maneira não autorizada o espaço do
outro, revelando uma infinidade de micro ações na forma de trampolinagem e
oportunismos, que evidenciam táticas através das quais sujeitos anônimos tornam a
produção de estratégias dominantes a seu favor. Para o teórico, é a partir da arte de fazer
(cozinhar, andar, falar, etc.) que se constituem as mil maneiras praticadas e manifestadas
no cotidiano, mesmo que de forma não autorizada. Há, portanto, uma reapropriação de
um espaço já organizado, do lugar dominante, normatizado, controlador pelo sujeito
ordinário. Dessa maneira, sujeitos anônimos, mesmo que de forma silenciosa, mostram
suas astúcias em criar táticas que se apresentam resistentes, modificando ou desviando a
verdade imposta. Certeau chama essas táticas de microbianas, posto que se manifestam e
proliferam em meios às estruturas tecnocráticas operando nas brechas do sistema e

178

BOGNER, Daniel. Presente rompido: mística e política em Michel de Certeau. Mainz: MatthiasGrünewald-Verlag, 2002.
179
CHARTIER, Roger. À beira da falésia: a história entre incertezas e inquietude. Porto Alegre: Ed.
Universidade/UFRGS, 2002. p.182.

alterando seu funcionamento. Isso de forma quase imperceptível. Operações entendidas
como “(...) quase microbianas que proliferam no seio das estruturas tecnocráticas e
alteram o seu funcionamento por uma multiplicidade de ‘táticas’ articuladas sobre os
‘detalhes’ do cotidiano (...) 180 .”
O pensador francês diferencia a tática da estratégia. Enquanto a estratégia é
capaz de se produzir e se impor, “Ela postula um lugar capaz de ser circunscrito como um
próprio e portanto capaz de servir de base a uma gestão de suas relações com uma
exterioridade distinta”181 . Foi esse modelo estratégico que serviu de base para construção
da nacionalidade política, econômica e científica. O sujeito de querer e poder – aquele
que exerce a estratégia – pode ser representado por uma empresa, um exército, uma
cidade, uma instituição científica, e, no nosso caso, uma igreja.
Por outro lado, a tática opera manipulando, fazendo uso e adulterando a
imposição do sistema. Utilizando o ‘não lugar’ que lhe confere mobilidade, atua vigilante
nas falhas que as conjunturas particulares vão abrindo na vigilância do poder proprietário.
Faz uso da produção de um modo que ninguém espera. Sua astúcia! “Em suma, a tática é
a arte do fraco”. Nas palavras do autor:
A tática só tem por lugar o do outro. Ela aí se insinua,
fragmentariamente, sem apreendê-lo por inteiro, sem poder retê-lo à
distancia. Ela não dispõe de base onde capitalizar os seus proveitos,
preparar suas expansões e assegurar uma independência em face das
circunstancias182 .

Portanto, a dialética se dá pelo fato da tática ser determinada pela ausência do
poder, e a estratégia, ao contrário, se dá pelo postulado do poder.
Certeau trabalha um exemplo, que achamos positivo ressaltá-lo, por ser um
modelo que se encaixa perfeitamente na realidade da comunidade que pesquisamos.
Trata-se de suas considerações sobre a arte brasileira, precisamente sobre a língua falada
pelos lavradores de Pernambuco, quando se refere a sua situação em 1974, bem como
sobre as gestas de Frei Damião, herói carismático da região. O autor explica que o espaço
estava dividido entre dois blocos socioeconômicos. Por um lado, os ricos e a polícia, que

180

CERTEAU, Michel de. A invenção do cotidiano: arte de fazer. Vozes: Petrópolis, 2007, p. 41.
CERTEAU, Michel de. A invenção do cotidiano: arte de fazer. Vozes: Petrópolis, 2007, p. 46.
182
CERTEAU, Michel de. A invenção do cotidiano: arte de fazer. Vozes: Petrópolis, 2007, p. 46.
181

faziam as leis e impunham suas formas de organização. Por outro lado, estavam os
pobres, os que sempre ‘levavam a pior’ e eram obrigados a obedecer sem contestação.
Embora essa realidade se mostre um tanto quanto conflituosa, os fracos – lavradores –
construíram uma realidade utópica, acreditando que no céu os seus inimigos seriam
punidos.
Esse apego religioso pode ser considerado como uma das táticas produzidas de
forma silenciosa. Os lavradores que aparentemente se conformavam com o autoritarismo
imposto pelos ricos e a polícia, na verdade, encontraram uma forma de resistir, mesmo
que essa tática não se mostrasse por meio de manifestações ou revoltas coletivas,
resistiam sem alterar o sistema. Utilizando o espaço da religião de forma não autorizada,
ou seja, modificando seu funcionamento, criavam um espaço utópico onde relatos
religiosos de milagres revelavam a vitória dos fracos no céu, e sucessivos castigos aos
inimigos. Nas palavras do autor, essa pode ser considerada uma das “mil maneiras de
jogar/desfazer o jogo do outro, ou seja, o espaço instituído por outros, caracterizam a
atividade sutil, tenaz, resistente, de grupos que, por não ter um próprio, devem
desembaraçar-se em uma rede de forças e de representações estabelecidas 183 .” A massa
silenciada então, utiliza-se de táticas para desviar a ordem efetiva das coisas e sua
representação se dá por meio da arte de fazer. Isso acontece quando é explorada por um
poder dominante ou negada por um discurso ideológico.
Será sob essa ótica que observaremos nossos interlocutores, como sujeitos
capazes de se movimentar utilizando o não espaço, no contexto da religiosidade e da
imposição da estratégia criada pela instituição, e que conseguem sobreviver utilizando-se
de táticas silenciosas.
3.4. Panorama geral das entrevistas através de gráficos

Mostraremos através de gráficos um panorama geral das entrevistas realizadas,
nosso intento é apresentar alguns dados relevantes e representativos sobre o grupo
selecionado.

Em relação à representação por gênero, conseguimos uma proporção quase

equivalente entre homens e mulheres.
183

Ibid., p. 79.

Sexo

homem

mulher

homem

47%

53%

mulher

Com a pretensão de representar as idades de forma heterogênia, buscamos

entrevistados que abrangessem as idades entre 20 anos a 58 anos.

Faixa Etária

21%

20 a 30 anos

37%

31 a 40 anos
41 a 50 anos
acima de 50 anos

5%

37%

Para a pesquisa, pré selecionamos os candidatos negros 184 que se auto-

classificaram entre pretos e pardos, 71% dos entrevistados se consideram da cor parda.
Classificação por cor

29%
Pretos
Pardos
71%

184

Levamos em consideração a classificação utilizada pelos órgãos oficiais do Brasil, que classificam o
brasileiro em cinco categorias levando em conta à característica cor ou raça: branca, preta, amarela
(compreendendo-se nesta categoria a pessoa que se declara de raça amarela), parda (incluindo-se nesta
categoria a pessoa que se declara mulata, cabocla, cafuza, mameluca ou mestiça de preto com pessoa de
outra cor ou raça) e indígena (considerando-se nesta categoria a pessoa que se declarou indígena ou índia).

A comunidade batista Maranata é composta por uma grande parte de

pessoas vindas do nordeste brasileiro. Nossos entrevistados, em grande maioria,
representam o estado da Bahia. Boa parte dos representantes do Estado de São Paulo são
as segundas gerações de migrantes também vindos dos estados de Minas e do nordeste.

Naturalidade
5%
5%
São Paulo

5%

37%

Bahia
Minas Gerais
Pernambuco
Rio Grande do Sul

48%

De acordo com os dados de nível de escolaridade, acrescentamos que

apesar do número de pessoas com nível superior não ser tão inferior aos demais, deve ser
considerado que somente dois dos entrevistados já o concluiram, enquanto os outros estão
em curso. Destacamos também o grande número de entrevistados que possuem menos de
oito anos de estudo.

Nível de escolaridade

28%

33%

Ensino Fundamental
Ensino Médio
Ensino Superior

39%

Dados da pesquisa revelam que mais da metade dos entrevistados

pertenciam ao catolicismo. A mudança de religião aconteceu, na maioria dos casos, após
a migração. O estado de vulnerabilidade emocional e material pode contribuir para que a

pessoa busque por redes sociais de vínculo associativo. Neste caso, a igreja batista pode
se constituir uma rede social onde circulam benefícios materiais e afetivos185 .

Religião antes da Maranata

17%
Católico
11%
11%

Batista
61%

Assembléia de Deus
Umbanda

3.5. Pensamento Batista no contexto da ideologia protestante

O racismo faz parte do cotidiano do brasileiro, e é aceito e confirmado por
diversos segmentos da sociedade. Tendo consciência disto, torna-se urgente pensar e
repensar as práticas e rituais que reproduzem cotidianamente formas sociais de coerção,
interna ou externa, que contribuem para disseminação do racismo e do preconceito racial
em nossa sociedade. Se concordarmos que a sociedade brasileira é marcada não somente
pela exploração socioeconômica, mas também pelo racismo, como desconsiderar que a
igreja, como uma instituição social, não seja marcada por esses elementos? Sendo assim,
como não cobrar desse segmento social um posicionamento diante da realidade de
milhões de fiéis negros e negras, no sentido de garantir-lhes um tratamento igualitário,
eliminando práticas discriminatórias e preconceituosas? É necessário dar uma atenção
especial às práticas religiosas desenvolvidas pela comunidade batista, para perceber seu
posicionamento diante da diversidade étnica e ante a superação do racismo, preconceito e
discriminação racial. Será que as práticas preconceituosas e discriminatórias, em relação à
negritude, não estão tão internalizadas que parecem naturais à comunidade batista? Tanto
na igreja quanto na sociedade brasileira, temos a construção da identidade de classe,
profissão, gênero, idade e também étnico-racial. Nesse sentido, queremos perguntar:
como a igreja lida com essa questão? Quais alternativas ela propõe para superação do
185

ALMEIDA Ronaldo de; D’ANDREIA, Tiajaru. “Pobreza e redes sociais em uma favela paulistana”.
In: Novos Estudos CEPRAP. n 68. São Paulo, 2004, pp. 95-106.

racismo e da discriminação racial presente na comunidade por ela assistida? A
comunidade batista considera os diferentes referenciais de identidade dos sujeitos que a
compõe? As respostas não virão todas de uma vez, visto que vivemos num processo
histórico de mutações que não nos permite um panorama amplo das questões raciais, por
irem além do que ambiciona essa pesquisa. Tentaremos, no entanto, identificar como
pensam negros e negras no interior da comunidade Maranata; o por que desconsideram a
questão racial dentro de sua comunidade de fé, mesmo quando a considera na sociedade;
porque essa divisão entre o ‘mundo’ interno da igreja e o externo se torna fundamental
para compreensão de questões como a racial.
Para entendermos as posturas e posições tomadas pelo protestantismo no Brasil
ao longo dos séculos, precisamos visualizar seu universo ideológico. Para tanto,
utilizaremos as reflexões expostas pelo teólogo Rubem Alves, que nos faz adentrar este
universo com maior clareza. Segundo ele, por meio da linguagem, este gr upo constrói um
mundo próprio, sua ideologia, que “são mundos, círculos, a um tempo lares e túmulos,
onde vivemos e morremos. Entrar numa ideologia é entrar num destes mundos, único,
com regras próprias e cores especificas 186 .” A vida cotidiana é tecida por meio da
linguagem. É por meio dela que o homem transforma ‘coisas’ materiais ou imateriais em
símbolos sagrados ou profanos, diviniza o branco e demoniza o negro, que se sacrifica e
consegue sorrir perante a dor. Assistimos um renascer da religião, não no sentido de vê-la
se tornando novamente um eixo organizador da sociedade, mas reconhecendo-a como
algo que permanece como uma das forças atuantes no campo da formação humana. Para
uma parte da população, é através do discurso religioso e de seus ritos que o mundo
recupera a unidade perdida nos tempos modernos. A religião pode ser entendida como
uma forma de organizar simbolicamente o mundo, uma força dada ao homem para
encontrar um sentido para viver e morrer. Sendo assim, para compreendermos a ideologia
protestante, teremos que entender os nomes, rótulos e simbolismos que os protestantes
utilizam para si e para seu mundo. “A linguagem religiosa dá nome às coisas, organiza a
experiência, mapeia o caminho, indica as zonas obrigatórias, as permitidas, as proibidas,
diz o que deve ser feito e o que não é permitido 187 .”

186
187

ALVES, Rubem. Dogmatismo e tolerância. São Paulo: edições Loyola, 2004, p. 30.
ALVES, Rubem. Dogmatismo e tolerância. São Paulo: edições Loyola, 2004. p. 33.

Se pensarmos o protestantismo enquanto instituição 188 , o fiel responderá
produzindo comportamentos e bens, segundo as receitas monopolizadas por ela. As
instituições são cristalizações de uma sabedoria que não tem consciência de suas origens.
A relação do homem com o mundo não é direta, mas mediada pelas instituições. Quando
ela corresponde a essa expectativa, não é necessário questionamentos ou tentativas de
mudanças. A instituição faz uso de seus mecanismos para impor sua interpretação da
realidade e os comportamentos correspondentes.
Max Weber observou que, para os calvinistas, a prosperidade nos negócios era
sinal de benção divina. Já na América Latina, os protestantes evidenciam seu novo status
espiritual não pelo sucesso financeiro, mas por meio de virtudes morais, o que os tornam
diferentes dos demais. Quando perguntamos o que mudou na vida dos entrevistados após
a conversão, obtemos como resposta, não riqueza material, mas virtudes morais. Veja os
exemplos nas falas abaixo:
Eu bagunçava muito, saía para balada, nossa eu era sacana, mesmo!
Desculpe a expressão (riso). Mudei. Se você visse as roupas que eu
vestia, era um escândalo de roupa. Hoje eu vejo as fotos e não acredito
“onde estava com a cabeça?” Meu modo de vestir, meu vocabulário
mudou bastante, minha postura, ver as outras pessoas (...) apesar de que
mesmo quando eu era católica, eu via as pessoas com bastante amor.189
Olha, eu era muito nervoso, então isso eu mudei bastante, eu bebia na
época e agora não faço mais, é isso que mudou. Meu casamento mesmo,
mudou. Se eu não estivesse na igreja ele já teria acabado, por minha
causa, eu era muito “zoeiro”, se eu não estivesse na igreja seria fatal.
Coisa material eu não falo que mudou, eu não me apego em bens assim,
certo que é bom a gente ter, mas eu não me apego em bens materiais.
Assim, de ter, ter, a gente sempre trabalha num propósito assim, mas
não com ambição de querer ter e não atingir o objetivo. Eu não sou
acomodado, eu trabalho direto para conseguir as coisas, e se caso chegar
no final do mês e eu não conseguir, tudo bem. Eu estando com saúde e
meus filhos e minha esposa, já está de bom tamanho190 .
Mudou muita coisa (...) A paz que você sente para resolver as coisas,
antes eu queria resolver as coisas do meu jeitão, de dar o troco, eu agia
muitas vezes desse jeito, lógico, nunca falava para meu filho, se uma
criança bater você vai dar o troco, eu nunca ensinava isso, mas eu era
muito ignorante. Hoje eu não sou. Eu entendo, se a pessoa chegar e
conversar comigo, eu tenho facilidade de entender aquela pessoa, ou

188

Instituição no sentido de um mecanismo social que programa o comportamento humano de forma
especializada, o homem produz então, os objetos predeterminados pela ela.
189
Nice Conceição da Silva, 32 anos.
190
Humberto Moura, 39 anos.

crente ou não crente, mas tenho facilidade, agora tenho paz no meu
coração para tudo que eu vou resolver.191

A ética para o protestantismo latino-americano é internalizada e individualizada.
O crente não usa de sua disciplina para protestar contra o mundo, mas para reprimir-se e
dominar-se. Os novos hábitos que adquire após a conversão são de cunho moral: não
beber, não fumar, não sair para “noitada”, não usar roupas indecentes, não usar de
grosseria para resolver seus problemas, trabalhar muito, administrar bem o ganho, tratar
bem as pessoas. Ele tem a consciência de ‘ser diferente’, e de que o mundo seria melhor
se todos fossem como ele. O seu estilo de vida, além das mudanças acima menc ionadas,
se caracteriza, então, do ponto de vista ético, por dois outros elementos. Primeiro, uma
tendência de adaptar-se ao mundo tal como ele se apresenta, entendendo as leis, jurídicas
ou funcionais, não de forma crítica, mas como uma expressão da vontade de Deus. De
acordo com a interpretação bíblica de Lutero, as autoridades precedem de Deus, e
portanto, o fiel deve obedecê- las sem resistência. Caso contrário, ele estaria resistindo à
vontade divina. Em segundo lugar, a ética legalista, conjugada com a disciplina pessoal,
faz dos protestantes excelentes ‘funcionários’. Criou-se uma ‘ética do funcionário’ que
canaliza a vitalidade humana, não na direção do novo, mas antes, no sentido de aumentar
a eficiência das estruturas existentes. Ele é ‘o’ bom empregado, ‘o’ bom funcionário, ‘o’
bom cidadão, aquele que obedece às regras do jogo, sem modificar suas estruturas.
A ênfase protestante na reconciliação é muito sugestiva, pois ela indica
que os problemas humanos se situam no nível dos mal-entendidos e
nunca na esfera das relações injustas. E como conseqüência torna-se
difícil compreender a pobreza das massas como um problema estrutural.
O protestante tenderia, ao contrário, a interpretá-la como um problema
de raízes puramente individuais. (...) O protestantismo, como ideologia,
se coloca ao lado das forças que desejam perpetuar as estruturas
dominantes192 .

O protestantismo nasceu como espírito da liberdade, da democracia, da
modernidade e do progresso. Segundo David Vieira, isso aconteceu porque:
Os liberais, que tinham se apropriado das idéias políticas e econômicas
dos ingleses, também assimilaram a propaganda inglesa e americana de
que todo ‘progresso’ advinha do protestantismo. Esse ponto de vista
parecia ser confirmado não só pelo desenvolvimento britânico e
americano como pelo admirável desenvolvimento das colônias
germânicas no Brasil. Desse modo, pela década de 1860, apareceu uma
191
192

Maria Aparecida Souza, 51 anos.
ALVES, Rubem. Dogmatismo e tolerância. São Paulo: edições Loyola, 2004. p. 133-134.

nova escola de pensamento no país sob a liderança de Aureliano
Cândido Tavares Bastos, Caetano Furquim de Almeida e outros. Esse
novo grupo ensinava que o ‘progresso’ só poderia ter lugar no Brasil por
meio da imigração germânica e anglo-saxonica (isto é, protestante).193

Mas, como um grupo que se diz libertário e democrático pode ignorar a realidade
injusta e desumana da estrutura social, econômica e política na qual vivemos? Alves nos
ajuda a responder essa pergunta, explicando que a questão fundamental do protestantismo
está no seu individualismo, que, no nível articulado, parece defender a liberdade, mas na
realidade, contraditoriamente, se conforma com a estrutura dominante. A luta pela
liberdade íntima e individual, preciosa ao protestantismo, cria uma impossibilidade de
protestar contra as estruturas, pois o individualismo funcionaria, no nível social, como um
mascaramento da situação de repressão e como uma justificativa dessa mesma situação.
Embora o protestantismo tenha nascido com o principio de liberdade e
democracia, se posiciona na sociedade de forma fechada e conservadora. A ligação do
protestantismo com o capitalismo, analisado por Max Weber, ilustra um lado dessa
moeda, que é a questão econômica. Para ele, o protestantismo apresenta uma mensagem
de salvação que ajuda a superar as necessidades dos oprimidos pelo sistema
socioeconômico, e também garante conforto por legitimar o modo de viver das camadas
privilegiadas. Mas a questão econômica não pode ser entendida como única e suficiente
para esclarecer esse fenômeno. Não podemos descartar o outro lado dessa moeda: a
questão ideológica.
O protestantismo latino americano deu muita ênfase à experiência religiosa
pessoal, nos conteúdos subjetivos e existenciais provindos do pietismo europeu: “tristeza
pelos pecados cometidos, certeza de salvação, paz e alegria”. Com isso abandonou as
estruturas sociais, políticas e econômicas da sociedade, criando, germinalmente, uma
forma de pensar que ignorava a ordem existente, transferindo para o mundo a esperança
celestial. “A afirmação bíblica de que ‘a amizade ao mundo é inimizade contra Deus’
passou necessariamente a ser interpretada como um julgamento contra todas as estruturas
dominantes 194 .” Por outro lado, o individualismo protestante latino americano cunhou
uma forma de sobreviver diante desse paradoxo: ser contra o mundo estando no mundo,
vendo a história como um jogo onde não se planeja o futuro, pois se crê no futuro como
193

VIEIRA, David Gueiros. O protestantismo, a maçonaria e a questão religiosa no Brasil. Brasília:
Editora Universidade de Brasília, 1980, p. 372.
194
ALVES, Rubem. Dogmatismo e tolerância. São Paulo: edições Loyola, 2004. p. 127.

dádiva de Deus. ‘O futuro a Deus pertence’. O individualismo produzido pelo
protestantismo latino americano dominou suas formas de pensamento, não permitindo
entender os problemas de natureza estrutural, mas os percebendo como um simples
agregado ou soma de problemas individuais. Por isso, a fórmula central de sua ética social
é “converta-se o individuo, e a sociedade se transformará195 .”
Analisando as falas dos entrevistados, observamos a existência da ética social
acima citada, na forma de pensar do membro batista. Tomamos como exemplo, Maria
Souza, de 51 anos, uma de nossas colaboradoras, que faz parte do grupo de membros
fundadores da Maranata. Antes de conhecer a igreja batista, ela freqüentava a igreja
católica. Embora não tivesse a intenção de mudar de religião, foi influenciada por seu
cunhado, membro da Maranata, e de sua filha 196 , a freqüentar os cultos. Assim, ela
decidiu fazer parte da denominação batista. Sempre foi atuante na comunidade,
participava das programações da igreja com assiduidade e cooperava com os projetos
desenvolvidos pela Maranata desde seu surgimento. Com muito esforço, ainda que com
pouca escolaridade (ensino fundamental incompleto), trabalhou com a liderança de
crianças e da união feminina 197 .
Percebemos a ênfase no individualismo, dada pela colaboradora, quando nos
respondeu sobre a diferença entre membros negros e brancos. Transcrevemos abaixo um
trecho da entrevista para melhor esclarecer a questão mencionada:
C.K - Existe alguma diferença entre um membro branco e um
pardo ou preto na Maranata?
M.S – Para mim não existe não, pode existir para algumas pessoas, mas
para mim, não.
C.K – Porque a senhora acha que não existe?
M.S – Porque somos todos iguais, independente da cor.
C.K – Mas todo mundo pensa assim?
195

ALVES, Rubem. Dogmatismo e tolerância. São Paulo: edições Loyola, 2004. p. 127.
Na entrevista Maria Souza conta o entusiasmo de sua filha quando era levada pelos tios para igreja, onde
participava da programação com muita alegria. Esse foi um dos fatores decisivos que a fez visitar a
Maranata. Nesse tempo, a igreja funcionava sem um espaço próprio. As reuniões eram feitas na casa do
membro fundador, conforme explicamos no capítulo anterior.
197
A União Feminina Missionária Batista do Brasil se designa por grupos de mulheres batistas que se
organizam para auxilio e motivação de projetos, com ênfase na educação cristã missionária, envolvendo
quatro faixas etárias (criança, adolescente, jovem e adulta), que abrange a igreja local, se estendendo para
atividades que englobam as igrejas batistas dos Estados e do país.
196

M.S – Acho que não, algumas pessoas tem esse lado, não sei. Quando a
pessoa é assim, eu acho que é uma pessoa que não busca a Deus no
coração.
C.K – Quem tem Deus não tem preconceito?
M.S – Não tem, não pode ter, eu entendo que é pecado fazer isso.
C.K – Mas existe racismo na igreja?
M.S – Existe sim, por parte de algumas pessoas, mas não por mim, nem
por meus filhos, eu nunca ensinei isso para eles, de não ficar perto de
alguém porque é negro, e nunca vou fazer isso, mas existe sim. Na
igreja acontece sim, mas com pessoas que não conheceu o amor de Deus
de verdade, e que não tem Deus no coração. Uma pessoa que está assim,
não dá nem para explicar.

Depois de reforçar que ela não é preconceituosa, nem seus filhos, esclarece que,
no seu entender, ser racista é um pecado, e quem comete tal pecado, só pode ser por não
buscar a Deus de coração. Logo, esse é um problema individual, deixando claro que a
conversão é suficiente para mudá- lo. Observe a próxima depoente que comunga da
mesma idéia:
C.K - Você acha que existe diferença entre um membro negro e um
branco?
R.A - Para mim, um membro branco e um membro negro não têm
diferença. Para mim tem outra diferença, de classe social.
C.K - Não a de cor ou raça?
R.A - Não, de cor não, mas de classe social.
C.K - Porque você acha que na igreja não existe preconceito racial
se em todos os lugares existe?
R.A - Pelo menos eu não sinto, para mim não existe. Quando as pessoas
aceitam a Jesus, Jesus modifica o coração das pessoas e todos se tornam
iguais, então o que acontece? Elas não vêem a gente pela cor de pele,
elas vêem a gente pelo que a gente é, vê o coração, o interior e não o
exterior. Por isso que na igreja não tem. Deus transforma os corações
das pessoas e renova 198 .

O racismo só é admitido, neste caso, na hipótese de haver pessoas que se dizem
convertidas, mas que ainda não ‘conheceu o amor de Deus de verdade’. O racismo não é
pensado como um problema estrutural, tão pouco social. Portanto, é individualmente que
o resolveremos.

198

Renata Alves, 24 anos.

Em um terceiro exemplo, percebemos essa idéia reforçada. Ou seja, o
entrevistado entende que dentro da igreja todos são iguais, não recebendo tratamento
diferenciado. Com isso, se houver preconceito, ele é interpretado como uma questão
individual. O problema do preconceito exis te, mas somente no ‘mundo’, fora da igreja.
C.K - Existe alguma diferença entre um membro preto e pardo e
um branco na Maranata?
L.A – Eu vejo que não, lá não tem discriminação de cor ou raça, todos
nós estamos ali para louvar e engrandecer o nome do Senhor. Na
Maranata não tem essa diferenciação de cor e raça. Todo mundo é igual
lá dentro.
C.K – E na sociedade existe diferença entre um negro e um branco?
L.A – Na sociedade sim, em alguns contextos sim. Às vezes você vai
procurar uma porta de emprego, quando está desempregado, se você não
está bem vestido e se for de uma certa cor pardo ou moreno, a pessoa
que é mais clara que você, as vezes tem uma desigualdade.Em algumas
empresas acontece isso.
C.K – Agora, na igreja isso não acontece? Os cargos são ocupados
por brancos e negros da mesma forma?
L.A – Não, na Maranata não. Lá é por votação se você quiser se eleger
ao cargo, não vai da igreja, vai do seu comprometimento com a igreja e
com a Palavra, se você tem um testemunho, uma visão evangélica, se
você tem tido crescimento e quiser ser um tesoureiro você vai ser. Na
Maranata tem um tesoureiro negro e um branco, não vejo desigualdade.
C.K – Por que você acha que não existe desigualdade dentro da
igreja?
L.A – Primeiramente, o foco é engrandecer o nome do Senhor e não
engrandecer pessoas ou raças. Estamos lá para louvar e engrandecer
primeiramente o nome de Deus. Todos nós somos falhos, pode
acontecer de alguém ter preconceito, mas eu nunca notei isso, eu nuca
vi. Em todo lugar na face da terra vai acontecer isso de discriminar as
pessoas. Mas a desigualdade racial na igreja, eu nunca notei isso. Eu
tenho vários amigos pardos, morenos, claros, e eu nunca notei isso. Eu
sou pardo, mulato, e não tive problema na igreja com o racismo 199 .

Para entendermos o porquê desse modo de pensar, temos que ter claro a oposição
que o protestante faz entre a esfera pessoal e a estrutural, em termos dualistas, ao invés de
dialéticos. Com essa visão dualista, não entendem que o sujeito se opõe ao mundo para
transformá- lo. Pelo contrário, entendem que o crente se opõe ao mundo e dele deve se
afastar. O dualismo não pretende resolver a oposição, mas perpetuá-la, intensificando-a

199

Leandro dos Santos, 27 anos.

ainda mais. A preocupação central fica na salvação da alma, já que o mundo está perdido.
Assim, para o protestante latino-americano, a pessoa não transforma o mundo, mas
rejeita-o. “Daí a formulação típica da eclesiologia dominante: a Igreja, como comunidade,
não participa das transformações socais. Sua tarefa é converter os fiéis e alimentar os
conversos”200 . Conseqüentemente, o mundo, como tal, e de forma específica o mundo
latino-americano, com seus valores, seu estilo de vida, e sua cultura, passa a ser
considerado mal.
O ato de se converter ao protestantismo pode então implicar um
desenraizamento pelo qual o homem é forçado a negar a cultura que o
formou.(...) O protestante está no mundo, mas não se solidariza com ele.
Os seus olhos estão atentos à sua vida pessoal e à promessa de salvação
individual. Assim, o importante não é que os homens estão sofrendo, ou
seja, as condições objetivas e estruturais dela, mas como eles sofrem, ou
seja, as condições subjetivas com que eles enfrentam a provação. 201

Por isso, devemos entender que o problema do preconceito racial não ultrapassar
as paredes da igreja é um pensamento permitido na lógica do discurso ideológico
protestante. Afinal, o crente, sendo um forasteiro, um viajante, um peregrino, estando de
passagem neste mundo, tem como preocupação primordial a sua caminhada rumo à pátria
celestial e eterna, onde não haverá ma is dor nem choro. Os problemas ‘terrenos’, como a
política, a economia, questões sociais e raciais são jogados para um segundo plano, não
ganhando assim, importância significativa no discurso protestante.
3.6. Comunidade de fé: rede de solidariedade e integração social

Diante da realidade de nosso estudo, em que tomamos por base uma comunidade
de baixa renda, onde 58% dos entrevistados são moradores de favelas do entorno da
igreja, analisar a dinâmica de exclusão/inclusão social nesse micro espaço se faz
importante. A religião, mais do que um espaço do sagrado, ocupa também um papel
importante nessa dinâmica social, já que se torna fonte de solidariedade e integração
social, tanto no âmbito familiar quanto no de sociabilidade primária 202 . É no espaço da
igreja que os fiéis encontram ajuda espiritual, mas também material. Quando perguntamos
aos nossos colaboradores o que poderiam apontar como positivo na igreja Maranata, eles

200

ALVES, Rubem. Dogmatismo e tolerância. São Paulo: edições Loyola, 2004. p. 131.
ALVES, Rubem. Dogmatismo e tolerância. São Paulo: edições Loyola, 2004. p. 132.
202
LAVALLE, Adrián Gurza; CASTELLO, Graziela. “As benesses desse mundo: associativismo religioso
e inclusão socioeconômica”. In: Novos Estudos CEBRAP n 68, 2004, pp. 73-93.
201

colocaram em primeiro lugar a união entre os irmãos, o que inclui a ajuda mútua entre os
fiéis, colaboração e cooperação tanto no âmbito emocional quanto material, como vemos
nos três exemplos abaixo:
C.K - Quais os pontos positivos da Maranata?
R.P – (...). De positivo, eu acho que a gente tem um amor demonstrado
ás pessoas que chegam à igreja. Pelo menos, se tenta acolher da melhor
forma possível as pessoas. Tenta ajudar através de alguns trabalhos
sociais que são feitos, que talvez não sejam tão divulgados na igreja,
mas eles são feitos. Através de entrega de cestas básicas, não financeir o,
por que a gente não tem muito esse lado financeiro, mas através de
alimento. Recentemente teve um acidente próximo da casa de um irmão,
explodiu literalmente a casa da pessoa, a igreja foi lá e reconstruiu a
casa daquela pessoa, tentou ajudar da melhor forma possível. Então, eu
acho que aos poucos a gente está tentando se engajar nesse trabalho, não
só de evangelismo, mas também na parte social, por que é importante,
não tínhamos isso na igreja. Eu acho que a nossa igreja começou a
despertar para isso um pouco, acreditar que as pessoas não precisam só
de Jesus, mas antes de Jesus, ou, junto com Jesus, elas precisam de uma
base, de melhorar um pouco a vida delas, não só a religião em si, mas
elas precisam se sentir queridas, amadas, precisam se sentir gente. Eu
acho que na nossa região, muitas vezes, a gente sobrevive, não se sente
gente, se sente qualquer outra coisa, menos gente 203 .
C.K – O que você pode apontar de positivo na Maranata?
E.M – Nossa, você me complicou agora (risos). Tem muita coisa de
positivo na Maranata, a estrutura do prédio é boa, é ventilada, tem
muitas pessoas ali em comunhão, não posso generalizar, não é todo
mundo, é um lugar que tem quase duzentas pessoas, mas a comunhão de
uns irmãos principalmente os da minha época, os de hoje não temos
mais tempo de conversar. O apoio também, eles apóiam muito nas
dificuldades financeiras, quando existe alguém que precisa ser ajudado,
eu posso contar com algumas pessoas da Maranata, então esse é um
ponto positivo, eles são unidos mesmo. Não vou generalizar, mas com
certeza esse é um ponto positivo 204 .
C.K – Você pode me falar os pontos positivos da Maranata?
M.S – Nossa, é muita coisa boa. Tem tanta coisa! A melhor é lógico que
é Deus. Mas ver os meus filhos no caminho do Senhor e estão até hoje,
eles permanecem firme com Deus, eu acho que foi os irmãos mais
antigos e o pastor Varela que ajudaram muito meus filhos. O pastor
Varela eu respeito muito e gosto muito dele, eu aprendi muita coisa com
ele e meus filhos aprenderam muita coisa com ele. Isso foi uma coisa
muito boa e eu nunca vou esquecer. Às vezes o pastor varela vinha aqui
em casa conversar com meus filhos, ele acompanhou a adolescência
deles. Isso foi muito bom, quando meus filhos estavam meio frios, não
no mundo, mas ele via e puxava a orelha, com a minha ajuda, eu dava
203
204

Rubens Pereira, 32 anos.
Eliane Moura, 33 anos.

um toque para ele e ele vinha rapidinho me atender. Eu tenho um grande
respeito pelo pastor Varela, até hoje. Ele me ajudou muito,
principalmente na adolescência da minha filha porque ela me deu um
pouco mais de trabalho, depois passou, não demorou muito não.
Naquela época que eles ficam assim querendo outra amizade, querer
arrumar namoradinho, começar com aquela paquerinha, então ela me
deu um pouco de trabalho. Com a idade de treze e quatorze anos, com
quinze já tinha passado. Foi uma fase, hoje eu entendo melhor, mas ela
foi a minha primeira filha então foi um pouco difícil, mas a gente vai se
acostumando, vai aprendendo e tendo experiência. Mas acho que isso
foi bom, hoje eu vejo meus filhos conversando um com o outro, dando
apoio, e eu vejo que tenho muito a agradecer a Deus em primeiro lugar e
aos irmãos que me ajudaram muito. A irmã Vera sempre orava pelo
Edgar porque ele era uma criança muito doentinha, ele ficou bom com
as orações. Isso foi uma coisa muito boa que aconteceu comigo na igreja
Maranata . Tem uma irmã, a Beatriz, que a gente era muito amiga, às
vezes eu pegava as crianças na escola e ficava na casa dela até de noite,
ela me acompanhava no médico. Hoje estou em falta com ela por causa
do meu tempo e porque cuido da minha mãe que está doente, mas
guardo ela no meu coração e outros irmãos da Maranata205 .

Os pesquisadores Adrian Lavalle e Graziela Castello trabalham com a teoria do
capital social mostrando que as dinâmicas societárias e a inserção sociofamiliar formam
um repertório de relações interpessoais, em maior ou menor medida, inscritas na esfera da
sociabilidade primária e da família extensa, uma vez que padrões de comportamentos são
regulados por regras de reciprocidade e interações baseadas na confiança. Uma ampla
gama de relações sociais são traçadas em graus diversos de densidade societária, que vão
do público ao privado, do individual ao coletivo, do informal ao formal, e cuja
solidificação representa uma verdadeira estrutura de oportunidades para os indivíduos
nela inseridos. “(...) as igrejas parecem emergir como agentes de intermediação capazes
de propiciar benefícios materiais de caráter público e privado para seus fiéis,
particularmente aqueles engajados nas atividades sociais realizadas fora do culto 206 .”
É nesse sentido que percebemos a mobilidade social dentro da igreja Maranata.
Entendemos que para o negro, membro dessa comunidade, sua filiação é vantajosa. Fazer
parte da igreja traz benefícios que vão além do transcendente. Os entrevistados citaram
benefícios concretos que tiveram após se associarem à igreja. A questão da
empregabilidade é destacada nas falas dos entrevistados, por ser um problema que atinge
a igreja, tanto em nível individual para os membros, quanto organizacional para igreja.
205

Maria Souza, 51 anos.
LAVALLE, Adrián Gurza; CASTELLO, Graziela. “As benesses desse mundo: associativismo religioso
e inclusão socioeconômica”. In: Novos Estudos CEBRAP n 68, 2004, pp. 73-93.
206

Pois um membro desempregado não tem um sustento próprio, mas também não pode
abençoar a casa do Senhor. Há um grande empenho da igreja em ajudar as pessoas que se
encontram desempregadas, tanto de forma objetiva quanto subjetiva: por meio de
indicação, informações sobre vagas trazidas pelos membros, reuniões de oração com o
propósito específico de interceder pelos irmãos desempregados, privilégio dado aos
membros por parte de empresários 207 ou micro-empresários membros da mesma
comunidade, e assim por diante. Foi isso que constataram Ronaldo Almeida e Andréia
Tiajaru: a igreja se torna uma rede social que beneficia seus fiéis concretamente:
As redes evangélicas trabalham em favor da valorização da pessoa e das
realizações pessoais, gerando aumento de auto-estima e impulso
empreendedor no individuo, mas também fomentam a ajuda mútua por
meio de laços de confiança e fidelidade. Nos templos há circuitos de
trocas que envolvem dinheiro, alimentos, utensílios, informações,
recomendações de trabalho, etc 208 .

Veremos isso a seguir, nas palavras de Nice, que veio do estado da Bahia, com a
perspectiva de que, vindo para São Paulo, pudesse ter uma melhoria de vida. Chegando
em São Paulo, ao conhecer a igreja batista Maranata, conseguiu, além do apoio afetivo,
que lhe foi importante na medida em que se encontrava na condição de migrante, um
emprego, suprindo uma de suas necessidades primordiais.
Mesmo não sabendo andar em São Paulo, eu descia para Maranata
sozinha no domingo. Conheci o pessoal de lá, o pastor Varela, eles me
ajudaram bastante, abriram umas portas assim (...) A Paula (membro da
Maranata ) ela trabalhava no Reimberg (supermercado da região) no
departamento de pessoal, ela conseguiu uma vaga para eu trabalhar de
operadora de caixa, fiquei lá três anos. Assim que eu comecei a
trabalhar me tornei independente, eu saía e me virava, fazia compras
sozinha e tudo. 209

Como vimos no gráfico da página onze, os entrevistados, majoritariamente,
mudaram de religião. Mais da metade saiu do catolicismo, mostrando que a migração
influi no trânsito religioso.
Os colaboradores deixaram transparecer, com muita força, as contribuições
subjetivas de seu envolvimento com a igreja. Dentre os apontamentos citados, ganhou
grande destaque o fato de perceberem que, com os ensinamentos da igreja, adquiriam
207

Classificamos como empresários todo o ramo de comerciantes e proprietários que propiciam
empregabilidade.
208
ALMEIDA Ronaldo de; D’ANDREIA, Tiajaru. Op. cit., pp. 95-106.
209
Nise Silva, 32 anos, entrevista realizada no dia 11-09.

mais sabedoria, até mesmo para as coisas práticas do dia-a-dia, como, por exemplo, saber
administrar o dinheiro que se ganha usando-o de forma consciente, um jeito diferente de
agir na vida, com mais responsabilidade e até garantindo a integridade da família. São
áreas da vida que, por mais subjetivas que pareçam ser, refletem na vida material e
objetiva do fiel. Os laços do crente com a igreja podem trazer benefícios tanto para ele
mesmo, que muda o rumo de sua vida, quanto para sua família, vizinhança e até mesmo
comunidade de fé.
Leandro é músico da Maranata, um jovem rapaz de vinte e sete anos, casado,
com uma filha, e está no primeiro ano do curso de administração. Em sua narrativa, deixa
transparecer que antes de se converter e manter um compromisso com a igreja Maranata
possuía uma visão distorcida da vida, mas a igreja lhe deu “segmento para vida”. Ele
relaciona suas conquistas morais (emprego, família, bom comportamento...) como fruto
de sua comunhão com a igreja. Pois antes, não conseguia arrumar emprego, não pensava
em ter sua própria família e ainda arrumava brigas na rua.
Eu comecei a freqüentar a Maranata quando eu não tinha um paradeiro
na igreja, eu ia muito nas noites, gostava muito de arrumar encrenca e
depois que eu voltei para igreja, para Maranata, eu tive uma nova visão,
um comprometimento com a Palavra e via que aquilo que eu fazia não
me levava a nada. Brigas, quando eu jogava bola eu arrumava muita
encrenca, e hoje se a pessoa deu uma entrada mais dura eu oro por ela,
para a pessoa ter o mesmo comprometimento que eu tenho com o
Senhor, eu vi que machucar o próximo não é uma coisa viável, não é
uma coisa boa.
Eu graças a Deus comecei a trabalhar, um trabalho digno. Antes de
entrar na Maranata eu não trabalhava. Antes eu não conseguia emprego,
agora consegui uma porta de emprego boa, tenho minha família, minha
esposa, minha filha, uma casa, um lar. Antes de entrar na igreja eu não
tinha essa visão de construir uma família, um lar, nada. A Maranata me
deu um segmento para vida.

Maria Coelho é uma senhora de 56 anos, viúva e com três filhos. Ela veio do
estado de Minas Gerais para São Paulo, na tentativa de ‘arrumar a vida’. Construiu uma
casa na favela e morou lá até se converter. Ao filiar-se a igreja batista Maranata, começou
a perceber os perigos da favela e sentir o desejo de não morar mais ali. Com a ajuda dos
irmãos da igreja, e por meio de um mutirão, construiu sua nova casa. Administrar seu
dinheiro de uma forma diferente possibilitou a compra do terreno e a construção de sua
casa, o que ela interpreta como um milagre.

Nossa! Mudou tanta coisa na minha vida! Tanta coisa! Olha, o que eu
tinha era um barraco lá na favela. Aí quando o Leandro nasceu a gente
começou a ver assalto na favela, tiroteio tudo aquilo me apavorou, e o
Leandro crescendo. Eu falei com a minha filha que a gente não podia
ficar aqui, e o Leandro não podia crescer no meio disso. Não é por que é
uma favela, é porque entra muita gente que não presta. Lá tem gente
boa, de família, mas tem muita gente que não presta. Meu filho ia
crescendo e vendo aquilo tudo. Eu explico para ele o que presta e o que
não presta, mas mesmo assim naquele lugar eles fumavam, escondiam
coisas na parede da casa da gente, meu filho via eles com revolver na
mão, “não, não pode” foi quando entrou Jesus verdadeiramente. “Eu não
posso, não posso ficar aqui”. Foi quando o pastor Varela falou que tinha
um terreno para vender. Você acredita que a gente nem colocou placa de
venda na casa, apareceu uma mulher não sei da onde e ela deu os 4.000
mil reais e ficou para pagar o resto depois, e ela depositou os 500 reais
depois sem a gente conhecer, foi por Deus, por Jesus! E eu comprei
aqui. Foi um milagre! Minha vida mudou completamente. Consegui
esse emprego, fui morar na casa da Lene e do Valter. O Valter é uma
benção na minha vida! Então assim, os irmãos da Maranata me
ajudaram, levantaram a minha casa, todos os irmãos me ajudaram, o
irmão Helder pegou a frente, um ex-namorado que eu tinha ajudou
também, o César, o Rubens, o Humberto, vários irmãos ajudaram a
fazer essa casa, hoje eu agradeço de coração a todo mundo que ajudou
porque foi muito bom. Hoje estou nessa casa sem acabar, mas pela
misericórdia ela é minha, eu ainda estou pagando porque ganho pouco,
mas não tenho o que me queixar. Jesus na minha vida mudou por
completo, não só eu, a Lene casou com o Valter e foi uma benção, e ele
trouxe nós todas, e nós fomos vendo que é só Jesus. Se não fosse Deus
acho que estaria no fundo do poço, porque eu não tinha nada. Tem gente
que pergunta se eu consegui mesmo comprar esse terreno e construir
com um salário desses. É pela misericórdia. E eu sou viúva vinte e
poucos anos, porque o meu patrão é muito bom para mim, eu tenho
problema nos meus dois joelhos e ás vezes eu vou trabalhar de muleta e
ele me deixa trabalhar.

Na igreja batista Maranata, como nas igrejas evangélicas em geral, há uma longa
tradição de proporcionar benefícios materiais de caráter privado aos seus fiéis, tais como
acessos aos recursos de determinadas redes sociais. A casa do exemplo acima citado foi
construída devido à cooperação dos membros da igreja, o emprego foi conseguido por
meio de um irmão de fé. Ou seja, trata-se de uma reciprocidade entre os próprios fiéis,
pautados no principio bíblico de ajudar primeiro os ‘irmãos de fé’. Sendo assim, é
possível se beneficiar da condição de filiado à igreja. A dimensão simbólica do sagrado e
do transcendente, embora seja o papel definitivo dessa instituição, não impede de
preservar e ampliar seus papeis funcionais, cujas implicações se refletem na vida prática
do fiel, propiciando laços de solidariedade econômica e forte capacidade de mobilização
interna.
3.7. Questões negras no contexto da comunidade batista

Salientaremos, em primeiro lugar, com base na análise das entrevistas, a
justificativa encontrada pelos depoentes para responder a questão fundamental da
entrevista, a saber, se há diferença entre brancos e negros na Maranata, e por que. Quando
perguntamos aos nossos colaboradores se eles acreditavam que existia alguma diferença
entre os membros negros e brancos da igreja, a resposta foi quase unânime: dentro da
igreja não existe diferença. Mas ao avaliarmos com mais cuidado os documentos,
percebemos que a diferença certamente é sentida. O preconceito racial pode ser sentido
pelo negro membro da comunidade batista, mesmo que este não queira “pensar nisso”,
como evidencia nosso colaborador Sérgio.
Sérgio é um jovem de 25 anos, solteiro, está no primeiro ano da faculdade de
Gestão em Recursos Humanos. Atualmente está desempregado. Ele é o responsável pelos
instrumentos musicais da igreja, onde trabalha como músico. Em sua narrativa, primeiro
responde que não há diferença entre os negros e brancos dentro da igreja. Porém, logo
depois ele diz que por ser negro precisa realizar sua função dentro da igreja em dobro,
caso contrário poderá ouvir coisas desagradáveis:
Acho que não. Dentro da igreja eu não vejo isso. Pelo meu lado, eu sou
uma pessoa influente na igreja, tenho um cargo há muito tempo e as
pessoas me respeitam por isso, pelo que eu faço. Mas pelo fato de eu ser
negro tenho que mostrar isso em dobro, porque se acontecer algo de
errado as pessoas vão dizer “Ah, aquele neguinho, aquele negro,
fazendo um serviço de porco!” uma coisa assim.

Perguntamos se esse tipo de pensamento preconceituo so é possível dentro da
igreja, mesmo quando ele a julga igualitária. Então, Sérgio, além de confirmar, explica
que pode acontecer de um negro, não possuindo nenhuma função na igreja, ser facilmente
vítima de pensamentos preconceituosos, como por exemplo: ‘não realiza nenhuma
função, só porque é negro.’ E finaliza sua fala dizendo que embora saiba disso, prefere
não pensar sobre essa realidade para não se decepcionar.
Podem pensar assim. Isso já passou na minha cabeça, tenho que provar
em dobro a minha competência para assumir um cargo na igreja que me
foi colocado. Olhando as pessoas que chegou hoje ou está há uns cinco
anos ou até mais e sem fazer nada, só ficam no banco sem fazer nada,
sem dirigir estudos na escola bíblica, sem ser evangelista, sem ser uma
pessoa que organize o culto, ser uma pessoa que só fique no banco,
talvez sim. Talvez as pessoas podem ter essa discriminação “Ah, é um
negro!” não sei se falam nesse tom “um negro”, mas está ali e não faz
nada, talvez possa distinguir isso pela cor da pessoa. Eu já pensei nisso,

mas prefiro não pensar que seja assim. Eu me decepcionaria muito com
a igreja e com as pessoas que ali estão.

A decepção vem do fato de se acreditar que dentro da igreja todos deveriam
viver em harmonia. Assim, quando a realidade se mostra contrária a isso, a decepção é
certa.
Nesse mesmo sentido observamos a fala de nossa colaboradora Suely Silva, de
43 anos. Ela é pedagoga e diretora de um centro de educação infantil. Muito atuante na
igreja, exercendo o cargo de diretora da Escola Bíblica Dominical210 . Ela acredita que não
há diferença de tratamento entre os membros, em relação à cor. Inclusive se lembra de um
ex-pastor que era negro, como um exemplo de que não se tem problemas com essa
questão dentro da igreja. Mas, contraditoriamente, admite que já ouviu algumas piadinhas
racistas dentro da igreja. No entanto, conta como um caso isolado, sem muita
importância. A depoente classifica como cultural certa diferença que percebe existir entre
os membros. Nesse caso, há sim diferença entre os membros, mas no que toca a questões
socioeconômicas (roupa, linguagem, nível universitário, etc.).
Olha, eu sinto que não. Algumas épocas atrás eu sentia muitas piadinhas
envolvendo a raça negra e eu achava um pouco desagradável, pejorativa,
até porque na brincadeira e na piadinha você muitas vezes diz coisas que
você pensa só que não tem coragem de dizer para não entrar em conflito
e você diz através de uma piadinha ou brincadeira pejorativa. Mas essa
pessoa que fazia essas coisas e eu não aceitava, não está mais aqui.
Espero em Deus que no lugar que ela esteja, não esteja fazendo mais
isso. Mas eu acredito que não há uma discriminação de raça. Mas
acredito que possa haver uma discriminação cultural. Não vejo isso em
relação à raça e sim à cultura. Assim: aqui é a panelinha dos
universitários, do pessoalzinho de nível superior. Falamos a mesma
língua, temos a mesma cultura mais elevada, então a gente se entende.
Existe algum padrão de pensamento, de comportamento, ás vezes se cria
um certo agrupamento em cima de uma questão cultural. Vamos
imaginar que você não é universitária, não tem nível superior, mas, se
veste assim, no mesmo estilo que eu, consegue se enquadrar no meu
padrão, mesmo que não seja de forma cultural, você tem algo dentro do
meus critérios classificatório, você se encaixa. Mesma faixa etária, se
veste muito parecido comigo, tem algumas falas, apesar de não ser
universitária, tem uma fala assim, como a gente, dá para te encaixar.
Então eu não acredito que é racial, é de cultura. Existem algumas
situações que eu percebo isso, se cria alguns grupos onde entra pessoas
que não tenha nível superior, mas que tenha alguma coisa que dentro do
meu critério é classificatório, e outros que não têm nível superior e
210

Escola Bíblica Dominical é um departamento especifico da igreja batista, onde os membros estudam a
bíblia de acordo com um planejamento preparado pela liderança, o que inclui escolha de material didático e
preparo de professores.

nenhum critério classificatório, não fazem parte de minha panelinha,
então não é uma questão da cor da pele, e sim de nível superior.

Quando indagamos se era possível coincidir das pessoas que ela classifica como
diferentes culturalmente, serem também negras, ela responde que é possível, uma vez que
a maioria das pessoas pobres e com pouca escolaridade, são negras:
Se são, é até comum porque se a gente for fazer uma pesquisa, um
levantamento, a maioria das pessoas pobres e com nível de escolaridade
mais baixo, acaba sendo da raça negra, infelizmente, por falta de
oportunidade e pelas pessoas muitas vezes, acreditarem que não são
capazes.

De igual modo, Renata Alves, universitária de 24 anos, compartilha da idéia de
que o preconceito racial não é percebido dentro da igreja, mas sim o preconceito
socioeconômico. Ninguém dentro da igreja discrimina ninguém por ser negro, mas por ser
favelado.
Para mim, um membro branco e um membro negro, não tem diferença.
Para mim, tem outra diferença, de classe social. De cor não, mas de
classe social. (...)Eu sinto que às vezes aqueles irmãozinhos que tem
alguma coisa a mais, eles são mais valorizados do que aqueles que são
mais humildes. É o que eu já falei “os da favela” e os que não são. Não
assim, que seja um preconceito comigo, mas eu sinto que às vezes tem
um pouquinho de diferença.

Quando procuramos saber se a temática do racismo, preconceito, discriminação
racial, é debatida dentro da igreja, o resultado é negativo. Esses realmente não são temas
tocados pela comunidade batista Maranata, pelo menos, não especificamente. O mais
comum é tratar do assunto de forma genérica, do preconceito de forma geral, sem dar
atenção especial para a questão racial. Porém, quando questionamos o porque desse tema
de grande importância não é levantado na igreja, percebemos uma visível confusão por
parte do entrevistado, pois se expressam colocando sua expectativa divina como se fosse
prática real. O argumento de que esse tema tem pouca importância dentro da igreja, é
justificado com a frase: “porque para Deus, somos todos iguais”. O que de fato não
explica o por que de não ser trabalhado tal tema.
Porque pelo que eu te falei, se perante Deus todos somos iguais, porque
teria que pregar uma coisa diferente, que existe uma raça afro, raças
diferente, sendo que na bíblia não existe raça, somos todos iguais. Eu

não vejo diferença, que há uma coisa diferente nisso do que a própria
Palavra disse211 .

Na próxima fala veremos que a depoente explica que pelo fato de entender que
para Deus todos são iguais, logo, não existe diferença racial na igreja, tornando
irrelevante qualquer discussão nesse sentido.
Não sei se isso seria bom, se fala muito do problema quando se tem ele,
não é verdade? Eu acho que é falado pouco por que a gente não tem esse
problema, esse não é o nosso problema maior. Se existe da parte de
alguém é uma coisa muito pequena que eu nunca percebi. Eu nunca fui
rejeitada, e nunca vi ninguém destratando ninguém. Acaba não sendo
um problema. A gente tem problemas maiores que o racismo. Acho que
é um assunto muito polemico. Talvez fosse bom numa união, numa
quarta feira, sei lá, mas só para falar e o pessoal ouvir, aí sim. Não vejo
como uma necessidade, se tivesse seria mais para acrescentar. Eu penso
que não pode ter isso dentro de uma igreja, se somos todos iguais
perante o Senhor, independente de nossa cor de pele, magro, gordo
enfim, não deve ter isso na igreja. Aos meus olhos não deveria ter, assim
como não deveria ter outros problemas, mas (...) Eu fico pensando que é
até por isso que não se fala, é uma coisa que não tem212 .

Indubitavelmente, os entrevistados, em grande maioria, acreditam que por
viverem em uma comunidade cujo principio é a igualdade de todos perante Deus, as
pessoas teoricamente convertidas não agiriam com preconceito. Mas isso somente em
relação à questão racial. Uma vez que esses mesmos colaboradores acreditam existir
outros tipos de diferenças no seio da igreja. Ou seja, ter preconceito racial é socialmente
inaceitável para os membros da igreja, porém, a discriminação socioeconômica é
permitida, já que é tratada com mais naturalidade. Essa forma de pensar faz parte de uma
das facetas do preconceito racial à brasileira. Foi Gilberto Freire quem popularizou a
ideologia da democracia racial, mostrando que no Brasil, pelo fato de todos terem, ou na
pele ou no sangue, influência da raça negra, não há problemas com o racismo em si.
Nosso problema é com a questão socioeconômica: discriminamos o outro por ser pobre e
não por ser negro. Esse mito, a muito tempo derrubado, continua presente na mentalidade
de muitos brasileiros.
Nosso colaborador explica que entende que a manifestação do preconceito racial
e do racismo por parte das pessoas da igreja é um problema individual: ou a pessoa não
estuda realmente a Bíblia ou não foi convertida de verdade. Isto é, a conversão é um meio

211
212

Sérgio Vieira, 25 anos.
Luciana Coelho, 35 anos.

de se libertar do mal, se livrar dos preconceitos, ganhar uma mente renovada, ver o
mundo de outra forma.
A pergunta que você fez é até interessante, mas partindo do pressuposto
que existe uma diferença na sociedade entre as raças, mas a igreja não
tem que colocar isso, tem que colocar o que a Palavra de Deus diz, que
somos iguais. E para mim não há diferença, eu não trato ninguém com
diferença porque é amarela, preta, índia, japonês.
Mas que existe o preconceito existe, não vou fechar meus olhos e dizer
que não existe aí fora. A gente vê que existe muito preconceito no
trabalho, na rua, e não só de cor, mas a questão social da pessoa, por que
ele é pobre, por que ela é rica, porque ela é mais ou menos, porque ela
está suja, existe vários outros tipos de preconceito. Mas eu acho que na
igreja não deveria ser tocado esse tipo de assunto porque a partir do
momento que a pessoa está indo na igreja e tem sua vida
transformada, ela vai saber que para Deus não existe diferença, e se
para Deus não existe diferença porque para mim vai existir? Sendo que
Deus é o cabeça da igreja, eu não quero entender que tenha, mas talvez
exista algumas pessoas que tenha, talvez pessoas não transformadas por
Deus, pessoas que não estudam realmente a Palavra de Deus a fundo,
pessoas que tem um bloqueio enorme porque vê muita criminalidade
acontecendo e vê que 70%, não sei se existe um número, mas as pessoas
que fazem algum mal para outras são negras. E começam a associar
isso, é negro é bandido, e todos são maus. Eu quero crer que todos que
estão na igreja e são salvos por Jesus Cristo a visão muda 213 .

Sérgio continua dizendo que, em sua opinião, a função da igreja é estudar a
Bíblia e tudo que saí disso não deve ser falado dentro da igreja.
(...) a igreja está ali para estudar a bíblia o que acontecesse fora (...)
você vê que a igreja não se envolve com a política, não abre palanque
para deputado e senador vir pedir voto. Eu já presenciei muitas vezes
deputado vir na porta da igreja entregar o famoso santinho e querer uns
cinco minutos no púlpito da igreja para falar sobre a campanha, e eu vi
diversas vezes o pastor falar não. A igreja é um corpo fechado de Jesus
Cristo e que não abre para isso. E como não abre para política, não deve
abrir para esses pontos fora que não envolve muito a palavra de Deus,
racismo e outros tipos de assuntos. A partir do momento que as pessoas
são transformadas, elas mudam a visão, tem que mudar, se não mudar a
pessoa não é transformada. Uma coisa que leva dentro de si é que Deus
realmente transforma e a pessoa tem que ver que isso está errado. Agora
acontecer um estudo que não envolve a bíblia dentro da igreja, acho
difícil acontecer. Porque se não você abre espaço para outros estudos
que não envolvem muito a bíblia. Mas se usar a bíblia tudo bem, eu não
tenho muito base teológica para saber se isso é possível, se na bíblia
existe algum ponto para falar sobre isso, eu sei que existem pessoas de
várias etnias na bíblia no tempo das antigas e que um não gostava de
outros, mas se alguém pegar fundo e envolver no meio a coisa do
213

Sérgio Vieira, 25 anos. A palavra em negrito foi marcada pela autora com propósito de chamar a atenção
para sua explicação, e não, ressaltar uma mudança de expressão do depoente.

racismo eu acho que é cem por cento aprovado, que seja falado na igreja
sobre isso, não sobre o negro ou o branco, no geral um apanhado de
todos, e falar o que acontece e por que existe preconceito, porque não
deve mais haver o preconceito, e falar tudo isso junto com a palavra de
Deus.

Finalmente ele reconsidera e diz que falar sobre a questão negra pode ser até
interessante, explicar coisas fundamentais, como: porque existe o preconceito? Porque ele
não deve existir? Quais os males que causa à sociedade? Etc. Esses são pontos centrais e
essenciais sobre a questão da negritude. Mas a reconsideração do depoente é clara: essa
discussão só se torna relevante e legítima se for pautada na Bíblia. Esse é um assunto que
precisa ser legitimado pela Bíblia, sua existência por si só, não é suficiente.
Como veremos a seguir, a opinião do líder da comunidade não é muito diferente.
Ele acredita que o papel da igreja é pregar a Bíblia. Falar sobre questões raciais não lhe
compete. Além disso, deixa claro que esse é um problema individual do homem. Outro
ponto explícito em sua fala é de que tratar do racismo pode ser um meio de criar o próprio
racismo. Como explicamos no capitulo anterior, o professor Kabenguele aclara que faz
parte da mentalidade racista de muitos brasileiros a crença de que falar sobre a temática
racial pode causar racismo, raciocínio que se contradiz, uma vez que o racismo já existe
em nossa sociedade.
De modo que nós não vamos resolver esse problema se não tratarmos o ser
humano. O ser humano precisa mudar. O ser humano só vai mudar quando ele entender
que precisa amar o próximo, e o próximo não é próximo porque ele é rico ou branco, o
próximo é próximo, semelhante, porque ele é igual a você, independente da cor ou não,
do terno ou da camisa rasgada. Ele é teu próximo, rico ou pobre ele é o teu semelhante. E
quando o ser humano não mudar o seu caráter, mudar a sua natureza, você pode continuar
conversando o resto da sua vida sobre isso, não vai mudar. O problema é brasileiro? É. O
problema é racial? É. O problema é desde sempre? É. Se você olhar na palavra de Deus
você vai ver escravos, se você for olhar a história secular você vai ver que os escravos
eram negros na grande maioria do tempo, então não é o problema de tratar esse assunto, o
problema é o ser humano. Todo o ser humano que é tratado no seu interior, ele muda a
sua configuração, ele muda os seus conceitos, os seus valores. Enquanto isso não

acontecer, não teremos solução para esse problema nem para outro. Falar sobre esse
assunto, na minha posição, é alimentar de uma forma até encoberta o racismo 214 .
Pedi que Sérgio me descrevesse como é ser negro no Brasil. Ele deixa claro que
sabe muito bem as limitações que sofre um negro brasileiro. Faz referência ao emprego,
pois passa por um momento difícil com o desemprego. Perceber a desigualdade racial por
meio da empregabilidade não é uma tarefa muito difícil, pois há dados que provam, sem
deixar dúvida, a existência do racismo.
Na fala, se vê claramente a reprodução inconsciente do discurso elitista que é
fortemente reproduzido pela mídia, de que o negro não se dá bem na vida por causa de
pouca inteligência ou lhe falta boa vontade, mas nunca devido às barreiras criadas pelo
racismo. E também a idéia errônea de que o preconceito é culpa do próprio negro. Se
quase 70% dos negros já fizeram muitas coisas erradas, seja no passado ou até mesmo no
presente, por isso as pessoas os olham com preconceito, generalizando, achando que
todos são bandidos. Conceição Lourenço em sua obra Racismo: a verdade dói. Encare,
trabalha a problemática que gira em torno da falsa idéia de que todo negro é bandido e
analisando os dados da população carcerária da cidade de São Paulo – desconsiderando as
cidades africanas, quantitativamente, São Paulo é a maior cidade negra do mundo. Dos 20
milhões de habitantes, 30% são negros, ou seja, 6 milhões. Em termos percentuais, a
cidade que se destaca é Salvador na Bahia, em que, dos dois milhões de moradores, 80%
(1,6 milhões) são negros – que se dividida por etnia, terá proporcionalmente ao mesmo
número de cidadão de bem, isto é, somente 30% dos presos são negros215 .
Ser negro no Brasil é dureza, você vai fazer uma entrevista para um
emprego e vê que tem três brancos, um amarelo e cinco negros, vamos
supor, tenho certeza que por A+B, que a pessoa que vai selecionar ou
ver os currículos, vai começar a olhar não torto para o currículo dos
negros, mas com desconfiança, “acho que esse não vai passar!” então é
aquilo que eu falo, tem que provar em dobro ou talvez em triplo que
você é competente, que você pode. Não provar para si mesmo, mas para
as outras pessoas, e a gente vê que os cargos de altos executivos são
ocupados por brancos, negros são raríssimas exceções, ou você é muito
inteligente mesmo, muito esforçado, ou te m um padrinho muito
forte que te colocou. A gente tem um exemplo que foi o Celso Pita, o
primeiro prefeito negro de São Paulo, e a gente viu como ele foi
bombardeado pela mídia, pela imprensa, não só pelo fato de ser negro,
214

Pastor Danilo, 38 anos. Líder da comunidade.
LOURENÇO, Conceição. Racismo: a verdade dói. Encare. São Paulo: editora terceiro nome; mostarda
editora, 2006, p. 50.
215

mas pelo fato do desvio de dinhe iro e de conduta. E pelo fato dele ser
negro as pessoas bombardearam ainda mais do que outros políticos
brancos que tem mais renome na área política. Então ser negro no Brasil
é complicadíssimo, a gente tem que provar para gente mesmo que a
gente pode e para as outras pessoas também. Matando um leão a cada
dia. Falo isso por experiência própria, a gente vai procurar trabalho e a
pessoa vê que você é negro e duvidam de seu potencial e de sua
capacidade. Talvez por causa da nossa história, os negros fizeram
muitas coisas erradas, assim como os brancos, mas a maioria talvez 70%
fez muita coisa errada. Talvez pelas oportunidades que não tenham sido
dadas e pela falta de confiança ou até é dada à confiança, mas com o pé
atrás, e a pessoa acaba escolhendo o caminho errado. Ser negro no
Brasil é muito complicado 216 .

Na fala de Suely, se repete essa idéia de que é do negro a culpa por não ter
espaço na sociedade, pois é ele quem não busca seu espaço, é acomodado. Ela acredita
que o problema maior é que o negro não acredita em sua potencialidade e por isso a
sociedade não lhe dá oportunidade. Ela correu atrás de seu espaço e o conquistou por
mérito próprio. A questão do racismo é interpretada como um problema cultural, todavia,
com pouca ênfase.
Acho que a partir do momento que o negro tiver a consciência que tem
os mesmos direitos que qualquer pessoa, e que tem capacidade de
desenvolvimento intelectual como o de qualquer pessoa, acredito que
essas coisa vão mudar, porque ele vai começar a buscar o espaço dele e
não esperar que as pessoas dêem o espaço para ele. Acho que ele tem
que buscar seu espaço, mesma coisa que eu. Eu fui buscar meu espaço.
Independente de pensar assim: “será que vão te dar esse cargo?”Sempre
me preocupei com isso: ‘eu sou capaz e vou concorrer, se não for esse
cargo será o outro, mas eu vou concorrer para alguma coisa, e vou à
luta, não vou esperar que as pessoas, “ah, vamos dar uma oportunidade,
precisamos de tantas pessoas da pele negra para a nossa empresa não ser
caracterizada como uma empresa racista.” Não, não estou me
preocupando com essa coisa, eu vou atrás dos meus objetivos,
independente de minha cor de pele, porque tenho claro que isso não
faz diferença. Então, se há muitas vezes essa divisão, e se está
coincidindo dessas pessoas serem negras, é por essa questão, e não
racial. Realmente ela acredita que não tem oportunidade ou ela bateu em
muitas portas e foi rejeitada ou é comodismo mesmo da pessoa. Eu não
quero colocar a culpa da dificuldade dos negros atingirem alguns
patamares da hierarquia social por questão só da sociedade, tem uma
parcela de culpa da própria raça, por não acreditar nela mesma. Acredito
que existe uma parcela de culpa da própria raça. A partir do momento
que todo mundo acreditar mais, eu quero ver se vai ter esses obstáculos
e esses paredões. Não vamos ter, e se tiver, vai diminuir muito esses
obstáculos. Mas, se existe mesmo é por causa dessa questão. Realmente
é uma questão cultural217 .

216
217

Sérgio Vieira, 25 anos.
Suely da Silva, 43 anos.

Considerações finais
O lugar epistemológico de onde falo é importante para se perceber os limites
dessa pesquisa, falo como negra e batista, falo enquanto membro da comunidade
Maranata e falo ainda com objetivo militante. Concordo com as palavras de Rubem Alves
quando diz que um historiador não pode ser objetivo e desapaixonado, não há
neutralidade em sua busca e investigação, por isso que sua função não se resume
simplesmente em colher experiências do passado, mas ir além ‘plantar visões e
esperança’. Enxergamos a luta contra o racismo como universal, e por isso deve ser luta
de todos, independe da opção sexual, ou escolha religiosa, ela tem espaço em todos os
âmbitos sociais. É por isso que entendemos a igreja como um espaço que também cabe o
compromisso social de contribuir para o resgate da dívida deixada pela sociedade
brasileira para com o segmento negro, reconhecendo e valorizando a cultura negra, sua
dignidade e seu lugar na sociedade brasileira, bem como buscar a construção de uma nova
civilização de respeito, igualdade e cidadania plena.
À primeira vista seria fácil afirmar que os negros, membros da igreja batista
Maranata não aceitam falar sobre a questão racial dentro da comunidade porque ignoram
sua existência. No entanto, observamos que o silêncio quase exigido sobre essa
problemática, muitas vezes é a única saída possível diante da realidade. Trata-se,
portanto, de escolhas possíveis dentro de um campo de possibilidades limitado pela
precariedade de informação e esclarecimento sobre o assunto.
Nossa conclusão é de que a questão racial pode ser entendida pelos fieis da
batista Maranata, de duas formas distintas: por um lado ignorando a existência do
racismo, como se todos os convertidos fossem livres desse ‘mal’. Por outro, o racismo é
percebido. Existe sim esse problema na igreja, porém, ele faz parte de um problema
individualizado, não é encarado como uma questão estrutural. Nas entrevistas percebemos
que o discurso racista difundido pela elite dominante, durante décadas, ainda se faz
presente na mentalidade dos brasileiros, tais como culpar o negro pela discriminação, o
julgando preguiçoso, desinteressado, acomodado, degenerado e assim por diante.
Notamos ainda a reprodução do discurso religioso, em que se acredita que, pelo fato da
igreja ser uma instituição com objetivos espirituais, seus membros, uma vez convertidos,
não reproduzem o ‘pecado’ do racismo. No entanto, entendemos que o negro, membro da

comunidade Maranata, não assimila passivamente os discursos impostos. Pelo contrário,
ele cria táticas que o auxiliam a viver dentro da comunidade sem modificá- la, mas de
forma resistente. De acordo com a teoria certeuriana, a cultura difundida e imposta pela
elite dominante não é recusada pelos meios populares. Mas a forma de ‘consumo’ é
manipulada e usada para fins diferente do esperado. Há, então, uma produção secundária
escondida por trás dos processos de sua utilização. Esta é a astúcia, ela é dispersa, mas ao
mesmo tempo ela se insinua silenciosamente e quase invisível. Essa é a forma encontrada
pelos consumidores de produzir (no sentido de criação) no espaço do outro, são maneiras
de empregar os produtos impostos por uma ordem dominante.
O fato dos membros batistas acreditarem que existe diferença social entre eles,
os coloca em contradição com a crença da existência de uma igualdade de todos. Mas, em
contrapartida, justificam essa igualdade criando uma espécie de ‘utopia’ celestial, pela
qual os crentes, como faz Deus, conseguem olhar para o próximo além do físico, social,
racial ou cultural, atingindo uma visão quase espiritual do outro, o que inclui ver a todos
sem distinção. Ignorar a questão racial é um meio de sobreviver. Percebemos que nas
falas foi comum a idéia de que acreditavam não haver preconceito, mas se tivesse,
preferiam não ‘ver’. Ou seja, fechar os olhos como um meio de escapar do real.
Os documentos revelaram que não podemos apontar os negros batistas como
alienados às questões raciais, uma vez que deixaram explícito que entendem bem a
realidade do negro no Brasil, as muitas barreiras criadas pela discriminação e racismo, e
as dificuldades sofridas no dia-a-dia como fruto desse racismo. Entendem também que os
negros são, em maior parte, as vítimas da pobreza brasileira. Percebem ainda a
importância histórica da realidade que a escravidão deixou como herança para seus
descendentes.
Embora pareça que a igreja viva uma realidade alheia ao mundo, foi possível
constatar o contrário. Não é possível viver dentro da igreja como se o mundo fosse algo
distante, como se a igreja não tivesse nada a ver com o mundo. O mundo alheio à igreja e
a igreja a ele. Antagonicamente, a igreja possui a capacidade de articular a esfera social, a
econômica e a espiritual em um mesmo espaço. Ao avaliar mais de perto esse grupo,
percebemos a clareza com que eles percebem a questão da hegemonia cultural como luta
social, construindo suas normas, valores e comportamentos claramente em oposição às
normas e valores propalados pelas classes dominantes, lúcidas de todas as condições que

lhes são impostas. Em seu cotidiano, lutam simbolicamente, resistindo, fingindo não ver,
ignorando sempre que possível a realidade para ter condições de uma inserção menos
dolorosa.
Um olhar atento nos mostrou que a comunidade batista Maranata está
impregnada de uma complexidade de conflitos provenientes dos diferentes referenciais de
identidades, construídos pelos sujeitos em suas relações sociais e no processo cultural. Os
negros, sem a intenção de assumirem a presença do preconceito racial em sua
comunidade de fé, não conseguem esconder a percepção que têm dos conflitos gerados
pela problemática racial. A resistência e o conflito enriquecem a vida social. É assim
entendido por nós, porque oferecem novas alternativas e sinalizam a possibilidade da
mudança. As imagens da negritude são uma produção que ao longo dos tempos se
modificam, por ser uma construção social e cultural. Acreditamos viver em um momento
de efervescência, em que a negritude ganha espaço e visibilidade, uma imagem diferente
em torno dela ganha formas (já é possível ver o negro como sujeito de valor, com
potencialidade e capacidade, vê- lo como belo). Com isso torna-se oportuno nessa ocasião
refletirmos sobre a questão racial em todos os âmbitos da sociedade. Queremos ver com
esperança o esforço que tantos coletivos vêm desenvolvendo para superar os olhares
preconceituosos, assim como pretendemos nos incluir nessa luta, utilizando todos os
espaços, sejam eles: a mídia, a universidade ou a igreja.
Para a discussão da negritude nas igrejas cristãs, Adriano Otto sugere repensar
seu ícone principal, Jesus Cristo. O autor trabalha a temática do nascimento de Jesus
como um modelo capaz de construir valores, identidade e auto-estima da pessoa negra.
“Toda cultura vai representar Jesus à sua própria imagem, ou seja, conforme os seus
próprios traços. Assim, terá um Jesus inculturado 218 .” Preocupado com uma teologia que
pense a partir do negro, o autor sugere que essa teologia deva ser amparada dentro da
cosmovisão do negro, respeitando e tomando como apoio seu aparato simbólico-religioso,
contribuindo para a auto-estima do negro e tendo como ponto de partida seus elementos
como, por exemplo, a dança e a música. “Cremos num Deus que dança. Daí as
reinvenções e adaptações de práticas culturais celebrativas no âmbito socioreligioso

218

OTTO, Adriano Enrique. “Nascimento de Jesus numa perspectiva negra”. In: Abrindo Sulcos: para uma
teologia afro-americana e caribenha. Organização de Maciel Mena López e Peter Theodore Nash. São
Leopoldo, RS, 2003, p. 183.

alimenta a discussão em nível da lingüística, como também a discussão sobre a adaptação,
aculturação, inculturação 219 .”
Pedro Leyva estuda as religiões cristãs e questiona sua posição diante da
negritude da América Latina e Caribenha. Ao examinar a postura da Igreja Católica e sua
relação com as religiões africanas ele diz que: em sua interpretação hermenêutica, ou
fazem uma leitura da experiência negra como um povo escravizado pelos colonos
católicos e alienados pela influência da ideologia teológica dos padres católicos, ou
apostam em um diálogo inter-religioso no qual cristianizam as religiões africanas ou
sincretizam o culto católico. Os teólogos das igrejas históricas, buscam dados e
informações, primeiro na Bíblia, depois na história denominacional, e depois na história
do povo negro e seu contexto social e por ultimo, faz a aproximação da religião afro como
a OUTRA religião, a religião diferente, e que deve ser evangelizada. Já as comunidades
pentecostais utilizam como fonte a bíblia, as lutas do povo negro e seu contexto pobre,
nos quais acontecem as intervenções divinas como os milagres, curas e profecias. A
espiritualidade se articula em diálogo e luta com o espaço fenomenológico das religiões
afro.

Entre os pentecostais são evidenciados os exorcismos, práticas iconoclastas,

resignificações de elementos do culto afro, libertações, mald ições, etc. Ao teólogo cabe o
esforço hermenêutico de interpretar cada uma dessas manifestações dentro da
comunidade pentecostal.
A epistemologia do marxismo e sua contribuição a leitura sobre o negro na
América Latina é criticada por sua sistemática observação do aspecto econômico como
esqueleto que sustenta o aparelho social e ideológico. Ele contribui com os afrodescendentes por seu conceito de classe social, que abre os olhos dos negros mostrando
sua realidade de despossuídos e produto do sistema capitalista opressor. Porém o
marxismo apresenta limitações e uma epistemologia insuficiente para a análise do afrodescendente da América Latina.
A escola francesa (Annales e Nova Historia) se limita por valorizar a história de
longa duração e não dar muito valor para a história do presente. O outro ponto está na
classificação de oposição entre a cultura da elite e a cultura popular, sendo que a cultura
219

OTTO, Adriano Enrique. “Nascimento de Jesus numa perspectiva negra”. In: Abrindo Sulcos: para uma
teologia afro-americana e caribenha. Organização de Maciel Mena López e Peter Theodore Nash. São
Leopoldo, RS, 2003, p. 185.

popular não oferece meios para a transformação histórica. Essa interpretação olha de
modo deficiente para o processo de produção criativa do afro-descendente latinoamericano.
Pedro Leyva propõe que o estudo do negro na América Latina seja amparado por
três aspectos máximos: uma leitura interdisciplinar (o estudo da história com o auxilio da
psicologia, antropologia, sociologia, religião, etc); novos campos de investigação
(Mentalidades, Micro-História e Historia Cultural) e por fim, a ampliação das fontes de
investigação (passa a ser valorizado a Oralidade, a Literatura, a Iconografia, etc).
Muitas são as contribuições do Centro de Estudo da História da Igreja Latino
Americana (CEHILA), para compreensão da realidade do negro latino americano, e uma
das mais importantes, é por colocar o pobre no centro da História como sujeito. Não o
pobre do marxismo, mas o pobre excluído do trabalho, o negro, a mulher, o sem-terra, etc.
Mas que possui também suas limitações, dentre elas: visão do mundo cultural como
homogêneo em todo continente; entender a questão religiosa de forma distinta; ver a
História do Cristianismo diferente; ressaltar o cristianismo como marcante acima da
igreja; somando a isso, Enrique Dussel o fundador da CEHILA e porta- voz do mesmo,
enxerga a cultura Asteca como primitiva e os cultos afro (candomblé e Macumba) como
subcultos.
O lugar epstemológico do historiador que pretende estudar a negritude e a
religião, deve adotar uma postura de se apropriar dos estudos marxistas, dos
desenvolvidos pela escola francesa e dos estudos desenvolidos pelo CEHILA, tendo em
mente que o negro será o sujeito dessa história e não simplesmente o objeto de interesse
de uma pesquisa.
La oralidad es el vehículo mejor utilizado por el ser humano afro/negro
en la comunicación de sus deseos, insatisfacciones, pasado, lucha, y
concepciones. La voz de su memoria histórica se escucha en
conversaciones diarias, en el relato de momentos de grandes victorias o
tristes horas, y en esfuerzos con propósitos educativos conscientes220 .

220

LEYVA, Pedro Costa. Historiografia Afro/negra: Una aproximación a un concepto de historia a partir
de las Consultas Internacionales de Teologia Negra efectuadas 1985, 1994, 2003. 2005. Dissertação de
mestrado. São Leopoldo, 2005. p. 62.

BIBLIOGRAFIA
ALBERTI, Verena. Manual de história oral. Rio de Janeiro: FGV, 2004.
_______. Ouvir e contar: textos em história oral. Rio de Janeiro: FGV,
2004.
ALMEIDA Ronaldo de; D’ANDREIA, Tiajaru. “Pobreza e redes sociais
em uma favela paulistana”. In: Novos Estudos CEPRAP n 68. São Paulo,
2004. P.95-106.
ALVES, Rubem. Dogmatismo e tolerância. São Paulo: edições Loyola,
2004.
_______. O que é religião? São Paulo: Abril Cultura / Editora Brasiliense,
1985.
AMADO, Janaína. “Discutindo novas metodologias para a história do
cristianismo”. In: COUTINHO, Sérgio Ricardo. Religiosidades, misticismo
e história no Brasil Central. Brasília: Universa Editora, 2001, p. 35-39.
ANDREWS, George Reid. Negros e brancos em São Paulo (1888-1988).
Bauru, SP: EDUSC, 1998.
ARISTÓTELES. Política. São Paulo: Martin Claret, 2001.
ASSOC. ECUM. TEOL. TERC. MUNDO. Identidade negra e religião:
consulta sobre cultura negra e teologia na América Latina. São Paulo:
CEDI, 1986.
ARISTÓTELES. Política. São Paulo: Martin Claret, 2001.
ATABAQUE - CULTURA NEGRA E TEOLOGIA. Teologia afroamericana: II consulta ecumênica de teologia e cultura afro-americana e
caribenha. Organização de Antonio Aparecido da Silva. São Paulo: Paulus,
1997.

ATAIDE, Yara Dulce Bandeira de. “Género, etnias y grupos excluidos en
Salvador de Bahía.” In: Historia Antropologia y fuentes orales. Barcelona,
v.3, n.25, p.105-115, 2001.
AZEVEDO, Célia M. Marinho de. Onda negra, medo branco: negro no
imaginário das elites do século XIX. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.
AZEVEDO, Israel Belo de. A celebração do individuo: A formação do
pensamento batista brasileiro. Piracicaba: Unimep, São Paulo: Exodus,
1996.
BACELAR, Jeferson.; CAROSO, Carlos. (orgs). Brasil: um país de
negros? Rio de Janeiro: Pallas; Salvador: CEAO, 1999.
BARBOSA. Jose Carlos. Negro não entra na igreja, espia da banda de fora:
Protestantismo e escravidão no Brasil império. Piracicaba: Editora UNIMEP, 2002.

BASTIDE, Roger. As religiões africanas no Brasil. 2 Vols. São Paulo:
Editora da USP, 1971. p.23-34.
_______. Elementos de Sociologia Religiosa. São Bernardo do Campo:
Ciências da Religião, 1990.
BASTIDE, Roger; FLORESTAN, Fernandes. Brancos e negros em São Paulo. São Paulo:
brasiliense, 1959.

BERNARDINO, Joaze. Ação afirmativa e a rediscussão do mito da
democracia racial no Brasil. Estudos afro-asiáticos. Rio de janeiro, v. 24,
n. 2, 2002. Disponível em: www.scielo.br. Acesso em: 12 agosto 2006.
p.247-273.
BIBLIA. Português. A Bíblia Sagrada. Trad. João Ferreira de Almeida. São
Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 1969.
BOGNER, Daniel. Presente rompido: mística e política em Michel de
Certeau. Mainz: Matthias-Grünewald-Verlag, 2002.

BORGES, Doriam. A cor da morte. Ciência Hoje. São Paulo, v. 35, n. 209,
p.26-31, out. 2004.
BORGES, Rosangela. Axé, madona Achiropita! Presença da cultura afrobrasileira nas celebrações da Igreja Nossa Senhora Achiropita, em São
Paulo. Ed. Pulsar: São Paulo, 2001.
BRANDÃO, André Augusto. Miséria da periferia: desigualdades raciais e
pobrezas na metrópole do rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Pallas ed; Niterói:
PENESB, 2004.
BRESCIANI, Stella; NAXARA, Márcia. Memória e (re) sentido:
indagações sobre uma questão sensível. São Paulo: FAPESP, CNPq, (?).
BURKE, Peter. A escola dos annales (1929-1989): A revolução francesa
da historiografia. São Paulo: Unesp, 1997.
_______. (org.) A escrita da história: novas perspectivas. 2.ed., São Paulo:
Editora da Universidade Estadual Paulista, 1992.
CALDEIRA, Teresa Pires do Rio. Cidade de Muros: Crime, Segregação e
Cidadania em São Paulo. São Paulo: Editora 34/Edusp, 2000.
CAMARGO, Ana Maria (coord). São Paulo, Uma longa história. São
Paulo, CIEE, 2004.
CAMPOS, Leonildo Silveira. “Indicadores sociais e afiliação religiosa no
grande ABC paulista”. In: Estudos de religião. N. 31, São Bernardo do
Campo, 2006. p. 154-193.
CARDOSO, Douglas Nassif. Robert Reid Kalley: médico, missionário e
profeta. São Bernardo do Campo, São Paulo, 2001.
CARLOS, Ana Fani Alessandri; OLIVEIRA, Ariovaldo Umbelino de.
(organizadores). Geografias de São Paulo: a metrópole do século XXI. São
Paulo: Contexto, 2004.

_______.Geografias de São Paulo: representação e crise da metrópole.
São Paulo: Contexto, 2004.
CARVALHO, José Murilo de. Cidadania no Brasil: o longo caminho. Rio
de Janeiro: Civilização Brasileira, 2004.
CERTEAU, Michel de. A escrita da história. (Tradução de Maria de
Lourdes Menezes), Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1982.
_______. A invenção do cotidiano: artes de fazer. Petrópolis: Vozes, 2007.
CHALHOUB, Sidney. Visões da liberdade: uma história das ultimas
décadas da escravidão na corte. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.
CHARTIER, Roger. À beira da falésia: a história entre incertezas e
inquietude. Porto Alegre: Ed. Universidade/UFRGS, 2002.
CHAUÍ, Marilena. Conformismo e resistência: aspectos da cultura popular
no Brasil. Brasiliense: São Paulo, 1994.
_______. O que é ideologia. São Paulo, brasiliense: 1985.
COSTA, Emilia Viotti. Da monarquia à república: momentos decisivos.
Editorial Grijalbo: São Paulo, 1977.
CRABTREE, A.R. História dos Batistas no Brasil: até o ano de 1906. Rio
de Janeiro: Casa Publicadora Batista, 1962.
DA MATTA, Roberto. O que faz do brasil, Brasil? Rio de Janeiro: Rocco,
1984.
_______. Relativizando: uma introdução à antropologia social. Petrópolis:
Vozes, 1984.
DURKHEM, Émile. As formas elementares da vida religiosa. São Paulo:
Paulinas, 1989.

DOMINGUES, Petrônio José. Negros de almas brancas? A ideologia do
branqueamento no interior da comunidade negra em São Paulo, 19151930. Estudos afro -asiáticos. Rio de Janeiro, v. 24, n. 3, 2002. p.563-600.
Disponível em: www.scielo.com.br. Acesso em: 13 agosto 2006.
_______. Uma história não contada: negro, racismo e branqueamento em
São Paulo no pós-abolição. São Paulo: Editora Senac São Paulo, 2004.
FERNANDES, José G. Do Oral ao escrito: Implicações e complicações na
transcrição de narrativas orais. Outros tempos. Maranhão, v.2, n.2, 2005.
p.156-167. Disponível em: www.outrostempo.uema.br . acesso em: 16 abril
2006.
FERREIRA, Marieta de M.; AMADO, Janaína (Coords.). Usos & abusos
da história oral. Rio de Janeiro: Editora da FGV, 1996.
FERREIRA,

Ricardo

Franklin.

Afro-descendente:

Identidade

em

construção. São Paulo: Pallas, 2000.
_______. O brasileiro, o racismo silencioso e a emancipação do afrodescendente. Psicología & Sociedade . Belo Horizonte, v. 14, n. 1, jan./jun.
2002, p.69-86. Disponível em: www.scielo.br/scielo. Acesso em 07 jan.
2007.
FLORESTAN, Fernandes. Sociologia crítica e militante. IANNI, Octavio
(org). Sao Paulo: Expressão popular, 2004.
FREYRE, Gilberto. Casa Grande & Senzala: formação da família
brasileira sob o regime da economia patriarcal. Rio de Janeiro: Record,
1992.
FRY, Peter. A persistência da raça. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira,
2005.
FURTADO, Celso. Formação econômica do Brasil. São Paulo: Companhia
Editora Nacional, 1961.

GEERTZ, Clifford. A interpretação das culturas. Rio de Janeiro: Ed.
Guanabara, 1989.
GINSBURG, Carlo. O queijo e os vermes: o cotidiano e as idéias de um
moleiro perseguido pela Inquisição. São Paulo: Companhia das Letras,
2006.
GORENDER, Jacob. A burguesia brasileira. 8ºed. São Paulo: Brasiliense,
1990.
GUIMARAES, Antonio Sérgio Alfredo. Preconceito e discriminação. São
Paulo, editora 34, 2004.
_______. Preconceito de cor e racismo no Brasil. Revista Antropológica.
São Paulo, v.47, n.1, 2004. p. 9-43. Disponível em: www.scielo.com.br.
Acesso em: 20 setembro 2006.
GUSMAO, Eduardo. A vivência Religiosa como objeto da história das
religiões: Uma leitura de Michel de Certeau. Impulso: Piracicaba, 2004.
HALBWACKS, Maurice. A memória coletiva. São Paulo: Edições Vértice,
1990.
HALL, Stuart. Da diáspora: identidades e mediações culturais. Liv
Sovik(org). Belo Horizonte: editora UFMG; Brasília; Representação da
UNESCO no Brasil, 2003.
HERINGER, Rosana. Desigualdades raciais no Brasil: síntese de
indicadores e desafios no campo das políticas públicas. Caderno de Saúde
Pública.

São

Paulo,

v.18,

n.1,

2002,

p.57-65. Disponível em:

www.scielo.com.br. Acesso em: 5 julho 2007.
_______. Mapeamento de Ações e Discursos de Combate às Desigualdades
Raciais no Brasil. Estudos afro-asiático. São Paulo, v.23, n. 2, 2001.
Disponível em: www.scielo.com.br. Acesso em 5 julho 2007.

HERNANDEZ, Leila Maria Gonçalves Leite. A áfrica na sala de aula:
visita à história contemporânea. São Paulo: Selo Negro, 2005.
HERVIEU-LÉGER, Danièle. A transmissão religiosa na modernidade:
elementos para a construção de um objeto de pesquisa. Estudos de
religião. São Bernardo do Campo, ano XIV, n. 18, junh de 2000. p.39- 54.
KEHL, Maria Rita. Radicais, Raciais, Racionais: a grande fratria do rap
na periferia de São Paulo. São Paulo Perspectiva. São Paulo, v. 13, n. 3,
1999. Disponível em: www. scielo.br. Acesso dia 17 Março de 2007.
HOBSBAWM, Eric. Era dos extremos: breve século XX, 1914-1991. São
Paulo: Companhia das Letras, 1995.
HOLANDA, Sergio Buarque. Raízes do Brasil. Rio de Janeiro: José
Olimpyo, 1977.
_______. Visões do paraíso: os motivos edênicos no descobrimento e
colonização do Brasil. São Paulo: brasiliense, 1992.
HOORNAERT, Eduardo. A igreja no Brasil-colonia (1500-1800). São
Paulo: brasiliense, 1994.
JESUS, Carolina Maria de. Quarto de despejo: diário de uma favelada. São
Paulo: Paulo de Azevedo LTDA, 1960.
JOHNSON, Allan. Dicionário de sociologia: guia prático da linguagem
sociológica. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1997.
LAMOUNIER, Bolívar. De Geisel a Collor: O balanço da transição. São
Paulo: Ed. Sumaré, 1990.
LARAIA, Roque de Barros. Cultura: um conceito antropológico. Rio de
Janeiro: Jorge Zahar, 2006.

LAVALLE, Adrián Gurza; CASTELLO, Graziela. “As benesses desse
mundo: associativismo religioso e inclusão socioeconômica”. In: Novos
Estudos CEBRAP n 68, 2004. p.73-93.
LE GOFF, Jacques. A história do quotidiano. In: DUBY, G. História e
Nova História. Lisboa: Teorema, 1986.
_______. História e memória. 3.ed., Campinas, Editora da UNICAMP,
1994.
LEONARD, Émile. O protestantismo brasileiro. São Paulo: Aste, 1952.
LEYVA, Pedro Costa. Historiografia Afro/negra: Una aproximación a un
concepto de historia a partir de las Consultas Internacionales de Teologia
Negra efectuadas 1985, 1994, 2003. 2005. Dissertação de mestrado. São
Leopoldo, 2005.
LOPES, Marcos Antonio (org). Fernand Braudel: tempo e história. Rio de Janeiro:
Editora FGV, 2003.
LOURENÇO, Conceição. Racismo: a verdade dói. Encare. São Paulo: editora terceiro
nome; mostarda editora, 2006.
MACHADO, José Nemésio. A contribuição batista para a educação brasileira. Rio de
Janeiro: JUERP, 1994.

MALOMALO, Bas’llele. Poder simbólico alternativo e identidade étnica
no Brasil: estudo do Instituto do negro Padre Batista na sua luta pelos
direitos de igualdade racial. 2005. Dissertação de Mestrado em Ciências da
Religião, Faculdade de Filosofia e Ciências da Religião, Universidade
Metodista de São Paulo, São Bernardo do Campo, 2005.
MARICATO, Ermínia. Urbanismo na periferia do mundo globalizado:
metrópoles brasileiras. São Paulo Perspectiva. São Paulo, v. 14, n. 4,
2000. Disponível em: www.scielo.br. Acesso dia 30 Janeiro 2007.
MARQUES, Eduardo; TORRES, Haroldoe SARAIVA, Camila. Favelas no
Município de São Paulo: estimativas de população para os anos de 1991,

1996 e 2000. São Paulo. Disponível em: www.centrometropole.org.br.
Acesso dia 17 Janeiro 2007.
MATOS, Maria Izilda. A cidade que mais cresce no mundo: cotidiano,
trabalho e tensão. In: CAMARGO, Ana Maria.(coord). São Paulo: CIEE,
2004.
MEIHY, José Carlos Sebe Bom. Manual de História Oral. São Paulo:
Edições Loyola, 1996.
_______. História Oral: 10 itens para uma arqueologia conceitual.
Oralidades, São Paulo, v.1, n.1, p.13-20, jan./jun. 2007.
_______. Reintroduzindo a História Oral no Brasil. São Paulo: FFLCHUSP, 1997.
MELO e SOUZA, Laura de. Desclassificados do ouro. Rio de
Janeiro:Graal, 1986.
MENA LÓPEZ, Maciel. Abrindo Sulcos: para uma teologia afroamericana e caribenha. Organização de Maciel Mena López e Peter
Theodore Nash. São Leopoldo, RS, 2003.
MENDES, Mirian Rezende. Da resistência às invenções criativas: um
olhar certeauniano ao movimento da prática avaliativa de professores.
2007. Dissertação de mestrado, pós-graduação em educação, Universidade
Metodista de São Paulo. São Bernardo do Campo, 2007.
MENEGOLO, Elizabeth D. da C. W.; Cardoso. O uso da história oral
como instrumento de pesquisa sobre o ensino da produção textual. Ciências
&

Cognição.

São

Paulo

v.

9,

n.

3,

2006.

Disponível

em:

www.cienciasecognicao.org. Acesso em: 19 fevereiro, 2007.
MESQUITA, A.N. História dos Batistas no Brasil de 1907 até 1953. Rio
de Janeiro: Casa Publicadora Batistas, 1940.
MOURA, Clóvis. História do Negro Brasileiro. São Paulo: Ática, 1992.

MUNANGA, Kabengele. Negritude: usos e sentidos. São Paulo: Ática,
1988.
_______. Rediscutindo a mestiçagem no Brasil. Petrópolis: vozes, 1999.
_______. Rediscutindo a mestiçagem no Brasil: identidade nacional versus
identidade negra. Belo Horizonte: Autêntica, 2004.
NETTO, Daniel Alves de Carvalho. Fé e solidão: uma releitura pastoral crítica da ação e
dos desafios da Igreja junto aos afro-descendentes do Brasil. 2000. 144p. Mestrado em
Ciências da religião. São Bernardo do Campo, SP, 2000.

OLIVEIRA, Ariovaldo Umbelino de. São Paulo: dos bairros e subúrbios
rurais às bolsas de mercadorias e de futuro. In: CARLOS, Ana fani
Alessandri; Oliveira, Ariova ldo Umbelino de(orgs). Geografias de São
Paulo: representação e crise da metrópole. São Paulo: Contexto, 2004.
OLIVEIRA, Edison Luiz. Projeto Interlagos. a praia que faltava à São Paulo:
Contradições e significado da inserção de Santo Amaro/Zona Sul na formação sócioespacial/metropolitana. 1996. Dissertação de mestrado. Faculdade de FFLCH. USP. São
Paulo, 1996.
OLIVEIRA, Betty Antunes. Centelha do restolho seco. Rio de Janeiro: edição da autora,
1985.

OLIVEIRA, Luís Cardoso de. Racismo, direitos e cidadania. Estudos
Avançados. São Paulo, v. 18, n. 50, 2004, p.81-93. Disponível em:
www.scielo.br/scielo.php. Acesso em: 05 mar. 2007.
OLIVEIRA, Marco Davi de. A religião mais negra do Brasil. São Paulo:
Mundo Cristão, 2004.
ORTIZ, Renato. A morte branca do feiticeiro negro. Petrópolis: Vozes,
1978.
_______. Cultura brasileira e identidade nacional. São Paulo: brasiliense,
1994.

PAIVA, Odair da Cruz. Nordestinos em São Paulo no século XX: diferentes
tempos de uma mesma história. In: CAMARGO, Ana Maria. São Paulo,
uma viagem no tempo. São Paulo: CIEE, 2005.
PEREIRA, Cícero, Torres, Ana Raquel Rosas and ALMEIDA, Saulo Teles
Um estudo do preconceito na perspectiva das representações sociais:
análise da influência de um discurso justificador da discriminação no
preconceito racial. Psicologia: Reflexão e Critica. Porto Alegre, v. 16, n.
1, 2003, p.95-107. Disponível em: www.scielo.com.br. Acesso em: 17
março, 2007.
PEREIRA, José Baptista Borges. Cor, profissão e mobilidade: o negro e o
rádio de São Paulo. 2ª edição. São Paulo: Editora da Universidade de São
Paulo, 2001.
_______. Racismo à brasileira. In: Estratégias e políticas de combate a
discriminação racial. Kabengele Munanga (Org). São Paulo: editora da
Universidade de São Paulo, 1996.
PEREIRA, José dos Reis. Breve História dos Batistas. Rio de Janeiro: Casa
publicadora Batista, 1972.
_______. História dos batistas no Brasil. Rio de Janeiro: Juerp, 1982.
PLUTARCO. Como ouvir. São Paulo: Martins Fontes, 2003.
POCHMANN, Marcio. Proteção social na periferia do capitalismo:
considerações sobre o Brasil. São Paulo Perspectiva. São Paulo, v. 18, n.
2, 2004. Disponível em: www.scielo.br. Acesso em: 17 Março de 2007.
POLLAK, Michael. Memória, Esquecimento, Silêncio. Estudos Históricos,
Rio de Janeiro, vol. 2, n. 3, 1989, p. 3-15.
PORTELLI, Alessandro. “Forma e significado em história oral: A
pesquisa como um experimento em igualdade.” In: Revista projeto história.
N.14, PUC-SP, 1997. p. 37.

PRADO JR, Caio. História econômica do Brasil. São Paulo, Brasiliense,
1988.
REILY, Duncan Alexander. História documental do protestantismo no
Brasil. São Paulo: ASTE, 2003.
REVISTA USP. São Paulo, v. 68, n. 1, dez, jan, fev. 2005-2006. 338 p.
Trimestral. ISSN 0103-9989.
RIBEIRO, Darcy. O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil. São
Paulo: Companhia das Letras, 1995.
ROLNIK, Raquel. A cidade e a lei: Legislação, política, urbana e
territórios na cidade de São Paulo. 3º ed. São Paulo: Studio Nobel
FAPESP, 2003.
SAES,

Flavio

Azevedo

Marques.

1870-1960:

Industrialização

e

urbanização. In: CAMARGO, Ana Maria. São Paulo, uma viagem no
tempo. São Paulo: CIEE, 2005.
SADER, Eder. Quando novos personagens entraram em cena. Rio de
Janeiro: Paz e terra, 1988.
SADER, Emir. A transição do Brasil: da ditadura à democracia? São
Paulo: Atual, 1990.
_______. Pós-neoliberalismo: as políticas sociais e o Estado democrático.
4. ed. São Paulo: Paz e Terra, 1998.
SANTOS, Antonio C.A. Fontes Orais: testemunhos, trajetórias de vida e
história. Departamento de História da Universidade do Paraná. Extraído do
site: www.pr.gov.br/arquivopublico/palestra_fontes_orais.pdf. acesso dia
12-05-2006.
SANTOS, Edson Fabiano dos. Religião e Teologia afro-brasileira: um estado da religião
afro-brasileira nas obras de Jorge Amado e seu enfoque teológico. 2005. 155p. Mestrado
em Ciências da Religião. São Bernardo do Campo, 2005.

SANTOS, Gislene Aparecida dos. A invenção do ser negro: um percurso das idéias que
naturalizaram a inferioridade dos negros. São Paulo: Educ/ Fapesp; Rio de Janeiro: Pallas,
2002.
SANTOS, Milton; SILVEIRA, Maria Laura. O Brasil: território e sociedade no inicio do
século XXI. Rio de Janeiro: Record, 2001.
SCHWARCZ, Lilian Moritz. Negras imagens: ensaios sobre Cultura e escravidão no
Brasil. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo: Estação Ciência, 1996.

_______. O espetáculo das raças: cientistas, Instituições e questão racial
no Brasil 1870-1930. São Paulo: Companhia das letras, 1993.
_______. Retrato em Branco e Preto. São Paulo: Compania das Letras
_______. Uso e abusos da mestiçagem e da raça no Brasil: Uma história
das teorias raciais em finais do século XIX. Estudos Afro -Asia. São Paulo,
18, p.77-101, 1996.
SEABRA, Odette Carvalho de Lima. São Paulo: a cidade, os bairros e a
periferia. In: CARLOS, Ana fani Alessandri; Oliveira, Ariovaldo Umbelino
de(orgs). Geografias de São Paulo: representação e crise da metrópole. São
Paulo: Contexto, 2004.
SILVA, Antonio Aparecido da. Existe um pensar teológico negro? São
Paulo: Pulinas, 1998.
SILVA, Elizete da. Cidadãos de outra Pátria: Anglicanos e Batistas na Bahia. 1998. Tese
de doutorado apresentada ao departamento de História da Universidade de São Paulo
FFLCH – USP. São Paulo, 1998.
SILVA, Jane de Souza. Urbanização de favelas em área de proteção de mananciais: O
caso da comunidade Sete de Setembro. 2003. Dissertação de mestrado. Escola Politécnica,
Universidade de São Paulo. São Paulo, 2003.

SILVERIO, Valter Roberto. Ação afirmativa e o combate ao racismo
institucional no Brasil. Caderno de Pesquisa. São Paulo, n.117, 2002.
p.219-246. Disponível em: www.scielo.com.br. Acesso em: 05 Abril, 2006.
SKIDMORE, Thomas E. Brasil: de Castelo a Tancredo: 1964-1985.
Tradução de Mario Salviano Silva. 7º ed. São Paulo: Paz e Terra, 2000.

_______. Brasil: de Getulio Vargas a Castelo Branco (1930-1964). Rio de
Janeiro: Paz e Terra, 1975.
_______. Uma História do Brasil. 4º ed. São Paulo: Paz e terra, 2003.
_______. Preto no Branco: Raças e nacionalidade no pensamento
brasileiro. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1976.
SOARES, Afonso Maria Ligorio. Sincretismo e inculturação: pressupostos
para uma aproximação teológico-pastoral às religiões afro-brasileiras,
buscados na epistemologia de Juan Luis Segundo. 2001. 285p. Doutorado
em CIENCIAS DA RELIGIÃO. São Bernardo do Campo, 2001.
TASCHNER, Suzana P.; BOGUS, Lucia M. São Paulo: o caleidoscópio
urbano. São Paulo Perspectiva. São Paulo, v.15, n.1, 2001. Disponível
em: www.scielo.br/scielo.php. Acesso dia: 17 Jan 2007.
TAYLOR, Azevedo de. Que significa ser batista? Recife: Colégio
Americano Brasileiro, 192?
TELLES, EDWARD. Racismo à brasileira: uma nova perspectiva
sociológica. Rio de Janeiro: Relume dumará, 2003.
TRINDADE, Liana Silva. “O negro em São Paulo no período pósabolicionista” in História da cidade de São Paulo: a cidade na primeira
metade do século XX (1890-1954). volume 3. São Paulo: Paz e terra, 2004.
TORRES, Haroldo da Gama. Pobreza e espaço: padrões de segregação em São Paulo.
São Paulo Perspectiva. São Paulo, v. 17, n. 47, 2003. Disponível em: www.scielo.br.
Acesso dia 09 de Novembro de 2006.

THOMPSON, Alistar. “Recompondo a memória: questões sobre a relação
entre a história oral e as memórias”. In: Projeto História nº 15. São Paulo:
PUC, 1997, p. 51-84.
VALENTE, Ana Lucia E. F. Ser negro no Brasil hoje. 2. ed. São Paulo:
Moderna, 1987.

VELHO, Gilberto. “Observando o familiar” In: NUNES, Edson (org.) A
aventura sociológica. Rio de Janeiro: Zahar, 1978.
_______. Subjetividade e sociedade: uma experiência de geração. Rio de
Janeiro: Jorge Zahar, 1986.
VIEIRA, David Gueiros. O protestantismo, a maçonaria e a questão
religiosa no Brasil. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1980.
WEBER, Max. A ética protestante e o espírito do capitalismo. São Paulo:
Pioneira, 1967.
WHITE, Leslei. O conceito de sistemas culturais: como compreender
tribos e nações. Rio de Janeiro: Zahar editora, 1978.
WIRTH, Lauri Emilio. "A memória religiosa como fonte de investigação
historiográfica”. In: Estudos de Religião n º 25. São Bernardo do Campo:
UMESP, 2003, p. 171-183.
_______. "Novas metodologias para a história do cristianismo: em busca
da experiência religiosa dos sujeitos religiosos". In: COUTINHO, Sérgio
Ricardo. Religiosidades, misticismo e história no Brasil Central. Brasília:
Universa Editora, 2001.

Anexos
Entrevistas na integra
1. Nome: Renata Alves Idade: 24 anos
Data da entrevista: 17/07/2007 Local da entrevista: casa do depoente

Cor: Preta

C.K - Você nasceu em São Paulo?
R.A - Sim.
C.K - Quanto tempo você mora nessa região?
R.A - Vinte e quatro anos. Desde que eu nasci.
C.K – Muitos anos, não é? Quais os pontos positivos e negativos dessa região?
R.A - Os pontos positivos de morar nessa casa? Essa casa para mim é como se fosse um sonho. Porquê? Foi
uma casa que minha mãe lutou muito para conseguir, e ela foi projetada sob medida, conforme foi
crescendo a famí lia, foi crescendo a casa. Eu ajudei a carregar bloco, ajudei a carregar areia, ajudei a
carregar muita coisa. Então, assim, se eu fosse mudar, eu queria mudar, mas queria levar minha casa junto
(risos). Eu gosto muito daqui. A gente não deve ser apegado aos bens materiais, mas eu gosto muito da
estrutura da casa, do jeito que ela é, ela faz um labirinto assim (aponta para sua casa) eu gosto muito da
minha casa.
C.K - E a região?
R.A - A região, eu gosto, por que é um local tranqüilo, a gente não tem assalto, essas coisas. Mas tem
desvantagens, porquê? É terreno da prefeitura, eu queria morar nessa casa, mas não nesse bairro, por que é
terreno de prefeitura, é muito desvalorizado, as pessoas tem muito preconceito, as pessoas pensam que
favelado é sinônimo de ladrão, entendeu? Tem córrego perto, tem muita fofoca, tem muita discórdia. O
povo não mexe com a gente, todo mundo respeita todo mundo, mas eu queria morar num lugar assim, que
fosse mais verde e que não fosse terreno de prefeitura, só por causa da discriminação. Quando eu era
criança eu não pensava assim, mas agora eu sinto na pele, às vezes você está conversando com uma pessoa
e ela fala assim: “mas o favelado” com preconceito, então nem sempre eu falo com as pessoas que eu moro
na favela, apesar de eu gostar e ter orgulho da minha casa, e ter orgulho dos meus pais terem me dado esse
lugar para morar, eu sinto o preconceito, entendeu? Por causa do preconceito do bairro, eu não falo nada, eu
omito.
C.K - E a estrutura do bairro, água, luz, asfalto, tudo é bom?
R.A - Sim.
C.K - Qual a sua formação?
R.A - Estou fazendo o superior, estou no primeiro semestre de Direito, indo para o segundo semestre.
C.K – Qual a sua profissão?
R.A - Atendente comercial.
C.K - Há quanto tempo você é membro da Maranata?
R.A - Eu tenho vinte e um anos de Maranata.
C.K – Você pode falar os pontos positivos e os negativos da Maranata?
R.A - O ponto positivo é que tem pessoas muito amorosas, é uma igreja que você pode se expressar, é um
lugar que você se sente em casa, é o lugar que eu cresci e faz parte da minha vida, é um pedaço de mim. E o
ponto negativo é que quanto mais a igreja vai crescendo, mas os problemas vão crescendo e mais pessoas
vão chegando, e algumas coisas eu acabo não concordando. Por que quanto mais gente, mais esfria, vira
mais ‘ panela’, um quer se sobressair sobre o outro. Se tiver um para cantar, todo mundo quer cantar, todo
mundo acha que é só ir lá para frente, é um palco para você cantar. As pessoas não se preocupam com as
outras coisas, entendeu? Isso eu acho como ponto negativo.
C.K - Você acredita que existe uma relação de amizade e irmandade entre os membros da Maranata
R.A - Sim. É claro que como eu falei, a igreja é grande, tem pessoas que se dão melhores e outras que se
dão menos. Mas tem uma irmandade sim, é que nem numa sala de aula, você não vai ser amigo de todo
mundo, não é todo mundo que você vai chamar para ir a sua casa, todo mundo que você vai ter aquela
comunhão, mas tem sim. O pessoal é muito unido, agora está se separando muito por idade. Então os
adolescentes são super-amigos, os jovens são unidos, as mulheres casadas, as mulheres solteiras, e aí vai
ficando, cada um vai se relacionando com o grupo que se encaixa, mas é muito gostoso.
C.K – Você acha que existe diferença entre um membro negro e um branco?
R.A - Para mim, um membro branco e um membro negro não têm diferença. Para mim tem outra diferença,
de classe social.
C.K - Não a de cor?

R.A - Não, de cor não, mas de classe social.
C.K - Por que você acha isso?
R.A - Por que eu sinto que às vezes aqueles irmãozinhos que tem alguma coisa a mais, eles são mais
valorizados do que aqueles que são mais humildes. É o que eu já falei “os da favela” e os que não são. Não
assim, que seja um preconceito comigo, mas eu sinto que às vezes tem um pouquinho de diferença.
C.K - Mas isso não acontece em relação à cor de pele?
R.A - Não, com relação à cor de pele, não.
C.K - Nos cultos na escola dominical o tema do preconceito e do racismo são falados?
R.A - O preconceito racial não é um tema, o preconceito em geral sim, mas especificamente o racial não.
Até mesmo, eu acho que não é um tema pelo fato de não haver necessidade, se houvesse necessidade, talvez
o pastor pudesse abordar ou o irmão ou o pregador poderia abordar como um tema. Por que o pastor se
preocupa com a necessidade da igreja, então se houvesse necessidade desse tipo na ele abordaria, mas por
não existir (...). Não vou dizer, “não existe”, mas não que eu tenha visto, ou se existir é muito pouco, quase
mínimo, por que eu nunca vi.
C.K - Você já ouviu falar sobre as cotas, qual a posição da igreja batista?
R.A - Eu não sei. É complicado falar sobre isso, porque são muitas pessoas, deve ser assim meio que
cinqüenta por cento, alguns concordam e outros não concordam, então não dá para falar no geralzão.
C.K - Em sua opinião a questão racial e o preconceito racial são temas que deveriam ser falados
dentro da igreja, é um tema importante ou ela não tem nada a ver com isso?
R.A - A igreja tem a ver sim, mas eu acho que até agora da forma como esta sendo feito está bom, acho que
se houver a necessidade se houver a discriminação, sim. Trabalhar em cima disso agora, se não houver
problema, acho que não há necessidade. É claro que de certa forma, indireta, o pastor acaba falando, quando
ele fala do preconceito em geral envolve tudo, ele cita todos os casos. Mas se houver a necessidade na
igreja, acho que tem que ser abordado sim, para cortar o mal pela raiz. Agora se não houver, não precisa
falar especificamente. Pode até ser feito (...) mas, eu não percebo o preconceito, então acho que não há
necessidade.
C.K - Quais as vantagens de ser negro?
R.A - Para falar a verdade? Nenhuma.
C.K - Não existe vantagem, por quê?
R.A - Por que eu acho que não tem vantagem. Se for olhar com um olhar racista, por que tem racismo de
brancos contra negros e tem racismos de negros contra brancos, certo? Se for olhar por um olhar racista
assim, não tem. Por que é muito difícil ser negro, é difícil você carregar a cor da pele, sendo que as pessoas
te julgam por sua aparência, não se aproximam de você para ver o que você é. Então ser negro no Brasil é
um objeto de desvalorização total. Você é discriminado na escola, você é discriminado aonde você vai, você
é discriminado no ônibus....
C.K - Menos na igreja?
R.A - Não, na igreja não. Já teve caso de eu sentar no ônibus do lado de uma pessoa muito branca e a
pessoa levantar, ficar em pé para não sentar perto de mim. Como se a minha cor exalasse mau cheiro. As
pessoas acham que se assaltou é negro. Também tem muito preconceito com nordestino, não na igreja, mas
em geral, no mundo. Aí todo mundo geralmente acha que os nordestinos são negros e pobres, então faz um
pacotão: “negro, nordestino e pobre, não presta”, entendeu? Os paulistas são muito preconceituosos em
relação a isso. Eu não vejo vantagem nem na cota para negros. Eu sou a favor e contra ao mesmo tempo, eu
sou a favor para aqueles que estão hoje, que já não tem mais jeito para dar, que a pessoa já esta fazendo a
universidade e precisa fazer e não tem como concorrer com as outras pessoas que tem outro nível social.
Mas se forem fazer as cotas para os negros, mas e os pobres que estudaram em escolas públicas? Mas aí
vem uma pessoa branca, dos olhos verdes, do cabelo amarelinho e fala que teve uma avó, uma bisavó negra,
e fala que quer entrar nas cotas. É uma confusão danada. O que eu acho é que tinha que se nivelar a
educação lá de baixo, todo mundo deveria receber o mesmo grau de instrução para poder brigar lá em cima,
todo mundo ter a mesma posição, mesmo que não tenha social (dinheiro). A escola pública já foi muito boa,
ela tinha que ter hoje um nível parecido ou próximo da escola particular. Os professores deveriam se
dedicar mais, não só os professores, mas o governo também. A população deveria cobrar mais, e tinha que
ter maior dedicação e maior investimento para conseguir nivelar, para que cada um fosse capaz de lutar
independente de cor, lutar pelo que sabe para poder conseguir. E mais, deviam construir mais escolas
públicas, mais faculdades públicas porque ia acabar um pouco com isso, por que as faculdades públicas
foram construídas numa época em que a população era muito pequena, agora a população está mil vezes
maior, é claro que vai ter briga, não dá para comportar todo mundo, alguém tem que ficar de fora.
C.K - Porque você acha que na igreja não existe preconceito racial se em todos os lugares existem?
R.A - Pelo menos eu não sinto, para mim não existe. Quando as pessoas aceitam a Jesus, Jesus modifica o
coração das pessoas e todos se tornam iguais, então o que acontece? Elas não vêem a gente pela cor de pele,
elas vêem a gente pelo que a gente é, vê o coração, o interior e não o exterior. Por isso que na igreja não

tem. Deus transforma os corações das pessoas e renova. Tanto é que na direção da igreja tem pessoas
negras e pessoas muito inteligentes. Se a pessoa negra for lá para dar sua opinião, a opinião dela é aceita
como de uma pessoa branca, como de qualquer pessoa, ela é ouvida.
C.K - Você é feliz sendo negra?
R.A – Sou. Hoje eu sou, mas quando eu era criança eu não era. Eu queria tomar leite para ver se ficava
branca, eu queria que as pessoas me pintassem para ver se eu ficava branca. Os meus pais se separaram e a
minha mãe casou com um homem branco, a minha mãe é parda. Na vista das pessoas, muita gente acha que
minha mãe é branca. Quando saía eu e minha mãe, ou eu e meu padrasto e os filhos dele, a única negra que
tinha era eu, as outras pessoas eram todas brancas. Eu me sentia como o patinho feio daquela família. Às
vezes, quando eu saía com eles, eles não sabiam, mas eu me sentia mal, não por eles, por que eu sabia que
eles me amavam e nunca tiveram nenhum tipo de discriminação comigo, pelo contrário, eles que me
ajudaram a vencer o meu próprio preconceito contra mim. Mas eu me sentia mal pelos outros, pelo que eles
me falavam, quando eu chamava meu padrasto de pai, as pessoas davam risadas, como se a minha mãe
tivesse chifrado meu padrasto e eu fosse filha de outra pessoa, era uma situação muito desagradável. Na
escola as pessoas me chamavam de macaco, riam do meu cabelo duro, e até hoje, é difícil, por que o cabelo
da pessoa negra é mais difícil de ser tratado, de ser penteado, então a gente esta sempre querendo fazer uma
química e tal, não pela gente, não por nossa família, mas que nem agora, meu cabelo caiu de tanta coisa que
eu passei, meu cabelo está curto e para eu aceitar meu cabelo curto assim, é difícil, eu tenho medo do que as
pessoas vão falar na rua, vão ficar rindo da minha cara, entendeu? Não é fácil ser negro.
C.K - A próxima pergunta é sobre como é ser negro no Brasil, você já falou, mas gostaria de dizer
mais alguma coisa?
R.A - É complicado. A criança negra no Brasil tem que ter muita força de vontade, uma família maravilhosa
para apoiar e ajudar, e ela não pode deixar se abater, não pode ir pela cabeça dos outros, se não ela faz uma
besteira. Ela acha “ah! todo mundo me rotula como não presta, como isso, como aquilo outro, vou virar
mesmo”. Não que isso seja motivo para alguém ser alguma coisa que não presta, mas (...) há muitas brigas
por causa de crianças negras na escola, há muito preconceito. O brasileiro é preconceituoso com o próprio
povo, não só com o negro, com o nordestino, com o pobre. Quando vem uma pessoa de fora, um americano,
os brasileiros estendem um tapete vermelho, só que ele não valoriza aquela pessoa que vem de outro
Estado, aquela pessoa que está no mesmo território que o seu, que é gente de sua gente. Tem discriminação
com o índio também. É muito difícil, a pessoa tem que ser consciente. Primeiro de tudo, ela tem que se
aceitar, e ela não pode ter preconceito dela mesma, por que se ela tiver preconceito dela mesma, da cor dela,
ela vai ser preconceituosa com todo mundo, tudo vai ser motivo, “ah! mais essa branquela, mas essa loira” e
assim vai, entendeu?
2. Nome: Maria das Graças Coelho Idade: 56 anos
Data da entrevista: 18/09/2007
Local da entrevista: casa do depoente Cor: Pardo
C.K – Onde a senhora nasceu?
M.C – Eu nasci em Minas Gerais.
C.K – Em que cidade de Minas?
M.C – Olha, a cidade eu não sei, mas fui registrada em Cipotania. Eu morava lá no meio da roça mesmo, lá
é tudo mato, né? Quando eu tinha 19 anos eu vim para São Paulo, com uma mulher que foi lá. Eu vim para
São Paulo, foi aí que eu conheci meu esposo, nós namoramos, eu casei, engravidei da Luciana, depois que
ela tinha cinco anos eu engravidei da Lena, foi aí que eu casei. Fiquei 14 anos com ele e aí ele faleceu.
C.K – E a senhora veio para trabalhar aqui?
M.C – Vim para trabalhar.
C.K – A senhora achava que em São Paulo era mais fácil encontrar trabalho?
M.C – Eu tive uma filha lá em Minas e me desgostei de lá. Eu tive uma filha e ela morreu. Lá a gente fica
manjada por que é mãe solteira e aquilo foi me dando desgosto. Eu falei que ia embora para São Paulo.
Quando essa mulher Dona Conceição apareceu lá, aí eu vim para São Paulo. Ela falou “eu te levo para
trabalhar lá”. Eu vim embora para São Paulo. Logo depois eu conheci meu esposo o Francisco e me casei
com ele.
C.K – E quando a senhora chegou em São Paulo onde foi morar?
M.C – Eu morei na casa da Conceição aqui mesmo em São José. Eu moro aqui há muito anos.
C.K – Quando a senhora chegou começou a trabalhar logo?
M.C – Comecei a trabalhar em casa de família, depois eu fui morar com ele (esposo), mas continuava a
trabalhar em casa de família como diarista e assim foi indo. Quando ele faleceu foi muito difícil porque eu
tinha duas adolescentes, uma não era adolescente ainda, mas a outra tinha 14 anos, foi muito difícil para
mim, entendeu? Mas logo depois eu mudei de lá da onde eu morava e fui morar num terreno da prefeitura.
Foi quando minha filha Lene conheceu o Valter e começou a namorar. O Valter me convidava para ir para a

Maranata. A igreja era do lado ainda. Ele falava “vão para igreja” “vão para igreja” eu não gostava muito de
crente. E assim ele foi atraindo a gente para igreja.
C.K – E a senhora era de qual religião?
M.C – Eu não era de igreja nenhuma, eu ia para Macumba, eu e minhas filhas. Mas depois que saiu uma
briga lá, uma briga terrível eu fiquei apavorada com aquilo. O cara do centro falava que ia fazer mal para
minha filha, um monte de coisa. “Eu não tenho medo” “Ah! Mais vai acontecer com sua filha” “mas eu não
tenho medo” foi depois disso que a gente conheceu o Valter e começamos a freqüentar a Maranata. Foi
muito bom mesmo. Se eu tivesse conhecido Jesus antes, não sei, mas poderia ser melhor, às vezes não ia
acontecer de eu ter tido o Leandro, mas (...) Tudo aconteceu quando eu ainda não conhecia Jesus. Eu
conheci o pai do Leandro e ele falava que ia se separar, que ia morar comigo, que não sei o que, e aconteceu
de eu engravidar do Leandro e ele sumiu, foi embora.
C.K – O que mudou na sua vida depois que a senhora se converteu?
M.C – Nossa! Mudou tanta coisa na minha vida! Tanta coisa! Olha, o que eu tinha era um barraco lá na
favela. Aí quando o Leandro nasceu a gente começou a ver assaltos na favela, tiroteios, tudo aquilo me
apavorou, e o Leandro crescendo. Eu falei com a minha filha que a gente não podia ficar ali, e o Leandro
não podia crescer no meio disso. Não é por que é uma favela, é porque entra muita gente que não presta. Lá
tem gente boa, de família, mas tem muita gente que não presta. Meu filho ia crescendo e vendo aquilo tudo.
Eu explico para ele o que presta e o que não presta, mas mesmo assim. Naquele lugar eles fumavam,
escondiam cois as na parede da casa da gente, meu filho via eles com revolver na mão, “não, não pode” foi
quando entrou Jesus verdadeiramente. “Eu não posso, não posso ficar aqui”. Foi quando o pastor Varela
falou que tinha um terreno para vender. Você acredita que a gente nem colocou placa de venda na casa,
apareceu uma mulher não sei de onde, e ela deu os 4.000 mil reais e ficou para pagar o resto depois, e ela
depositou os 500 reais depois sem a gente conhecer, foi por Deus, por Jesus! E eu comprei aqui. Foi um
milagre, minha vida mudou completamente. Consegui esse emprego, fui morar na casa da Lene e do Valter,
o Valer é uma benção na minha vida! Então assim, os irmãos da Maranata me ajudaram, levantaram a
minha casa, todos os irmãos me ajudaram, o irmãos Elder pegou a frente, um ex-namorado que eu tinha
ajudou também, o César, o Rubens, o Humberto, vários irmãos ajudaram a fazer essa casa, hoje eu agradeço
de coração a todo mundo que ajudou porque foi muito bom. Hoje estou nessa casa sem acabar, mas pela
misericórdia ela é minha, eu ainda estou pagando porque ganho pouco, mas não tenho o que me queixar.
Jesus na minha vida mudou por completo, não só eu, a Lene casou com o Valter e foi uma benção, e ele
trouxe nós todas, e nós fomos vendo que é só Jesus. O Leandro, o Cidi ainda falta se converter, mas tenho
certeza que ele vai se converter, ele sempre vai à igreja. Ele não proíbe nem a esposa nem a filha de ir à
igreja, pode ir à hora que quer que ele não liga. Então isso já é Deus misericordioso. Se não fosse Deus acho
que estaria no fundo do poço, porque eu não tinha nada. Tem gente que pergunta se eu consegui mesmo
comprar esse terreno e construir com um salário desses. É pela misericórdia. E eu sou viúva vinte e poucos
anos, porque o meu patrão é muito bom para mim, eu tenho problema nos meus dois joelhos e ás vezes eu
vou trabalhar de muleta e ele me deixa trabalhar.
C.K – A senhora trabalha com o quê?
M.C – Eu limpo o escritório, faço cafezinho e depois vou embora. Mas ele é uma benção! Pena que ele não
conhece esse Jesus que nós temos, mas ele é muito bom mesmo, uma pessoa maravilhosa na minha vida,
tem me ajudado muito, mesmo sem ser evangélico, ele tem me ajudado bastante.
C.K – A senhora estudou?
M.C – Eu tenho até a quarta série, e tenho uma dificuldade grande para ler. Eu não gosto de ler. Já tenho
dificuldades e não gostando, fica pior. Por exemplo, minha filha gosta de ler, isso é bom, agora quem não
gosta, até para ler a bíblia eu tenho dificuldade. O pastor fala que eu tenho que ler, que vou me
acostumando ao menos um versículo por dia, mas é difícil para mim. Agora indo para as tardes de oração
com as irmãs eu estou ficando mais acostumada a ler os versículos, eu gosto muito de ler Salmos, mas tem
que ler os outros também. Deus está sendo maravilhoso na minha vida, a cada dia eu vejo a mão de Deus na
minha vida e na vida de meus filhos.
C.K – A senhora já mora nessa região há bastante tempo não é?
M.C – Moro, eu cheguei aqui em 1969.
C.K – O que a senhora percebe de positivo nessa região?
M.C – O que eu acho que é bom aqui: a escola é perto, tem farmácia pertinho, tem a igreja maravilhosa que
em cinco minutos eu estou lá, e a padaria é bem pertinho. O bom dessa região é isso, tudo é perto, o ponto
do ônibus é do lado eu não ando nem cinco minutos.
C.K – O que melhorou do ano de 69 para hoje?
M.C – Melhorou muito, aqui era um córrego, quando eu conheci isso aqui, quando vinha visitar a irmã
Creuza, isso aqui era um córrego, sem asfalto, não tinha nada, onde eu morava era tudo mato, melhorou sem
por cento, eu acho.
C.K – O que mais que mudou?

M.C – As escolas, agora tem bastante. Tem creche, tem o posto de saúde, muito bom. Tudo isso aqui
melhorou depois que eu cheguei.
C.K – O que tem de negativo nessa região?
M.C – As drogas, (fala baixinho) corre muito solto mesmo. Mas ninguém pode falar nada.
C.K – O que mais?
M.C – Acho que é só isso, as outras coisas não tenho o que reclamar, mas a droga sim. As outras coisas só
de ouvir falar, mas como eu não sou de sair, vou só para meu trabalho, vou para igreja e volto. Faço meu
pão para vender, meu avon, mas é tudo “bom dia!” e “boa tarde!”, não tenho amizade com ninguém por
aqui, não vou nem na casa do irmão Airton.
C.K – E a violência, a senhora vê por aqui?
M.C – Não, eu nunca vi acontecer mesmo. A gente vê morte, fulano matou fulano ali, mas negócio de
estrupo não, assalto também não, ninguém nunca mexeu comigo nem com minhas filhas nem com meu
genro. Não tem tiro. Isso eu não tenho o que me queixar.
C.K – A senhora gosta da Maranata?
M.C – Gosto muito, não saio de lá por nada. Às vezes tem muita panelinha, fofoquinha, intrigazinha, por
que sempre tem, mas eu vou lá por Jesus, não vou lá para olhar o pastor nem a minha vizinha, meu alvo é
Jesus, entendeu? Se eu for lá para olhar a roupa que a irmã está usando, eu fico em casa. Eu sou sincera.
Deus conhece o coração de cada um de nós. Ele conhece o meu e conhece o seu, então se eu estiver
mentindo ele está vendo que estou mentindo, ele conhece profundo os nossos corações. A gente escuta
muito, mas a gente tem que ficar calado e não dar ouvido, e como diz a minha filha, a gente vai lá por Jesus
e não por quem está lá.
C.K – O que a senhora mais gosta na Maranata?
M.C- Eu gosto muito das minhas irmãs da tarde de oração, gosto mesmo, pretendo levar isso até (...)
enquanto eu puder dar um passo, pretendo ir nas tardes de oração. Gosto muito, as irmãs têm orado por
meus filhos, eu tenho visto as orações das irmãs na vida do Leandro, por que ele tem 15 anos e nunca foi
em nenhum baile, às vezes ele fala e eu consigo convencer de não ir. Então eu vejo as orações fortes das
irmãs, pelas orações das irmãs Deus tem ajudado. Deus tem colocado as mãos nele a cada minuto da vida
dele. Às vezes está para acontecer alguma coisa, um dia a Luciana estava chegando do trabalho e ele estava
voltando de bicicleta e ele deu uma brecada e nem caiu da bicicleta. Eu tenho falado muito com as irmãs da
tarde de oração, em cada segundo eu vejo a mão de Deus ali, não por ele, mas por mim, de tanto eu pedir
oração “Senhor cuida do meu filho porque ele não tem outro pai para cuidar, o Senhor é melhor que todos
os pais daqui da face da terra, porque é o único que ele tem”. Adolescente você sabe, eu já fui e você
também, a gente não quer saber o que a mãe e o pai falam, eu falava isso, minha mãe falava comigo e eu
não dava ouvido e ia embora. Mas eu vejo a mão de Deus sobre meus filhos, meus netos que vão para
escola sozinhos e Deus têm protegido. Eu gosto de tudo na Maranata, mas à tarde de oração eu gosto muito.
C.K – E de negativo, tem alguma coisa?
M.C – É muita fofoca, muita intriguinha, só pela misericórdia! É muita fofoquinha. Um dia desse, eu estava
falando com uma irmã da igreja, uma outra tinha falado para outra que tinha falado para uma outra de mim,
eu falei “irmã, deixa isso para lá, se ela falou eu já perdoei e eu não quero mais saber, se eu perdoei, acabou,
não quero mais saber. Eu acho que o que passou tem que ser deixado para trás. Então, é ela com Deus. É ela
que vai dar conta, não sou eu.” A Cristina falou isso de fulano, eu to fazendo uma intriga para você ficar de
mal de sua amiga. Isso não é bom. Isso eu gostaria muito que acabasse, mas eu sei que não acaba. Só pela
misericórdia!
C.K – A senhora acha que entre os membros da Maranata existe uma relação de amizade e
irmandade?
M.C – Acredito que sim.
C.K – Por quê?
M.C – Tem fofoquinha, mas tem pessoas sinceras na igreja, pessoas firmes na oração, pessoas honestas,
pessoas que não querem saber da vida do outro. Com certeza tem.
C.K – Existe preconceito racial na sociedade brasileira?
M.C – Sim. Eu trabalhava num salão de cabeleleiro eu e minha filha, ela era recepcionista e eu lavava os
cabelos dos clientes e limpava o salão. No shopping tinha uma loja precisando de recepcionista e minha
filha tinha sido dispensada do salão. Quando a gente chegou lá, a placa ainda estava lá, mas quando a moça
viu minha filha que era parda e gorda, eles têm muito preconceito. Se chegar uma menina loira dos olhos
azuis ou branquinha e chegar uma menina que nem eu, parda, ele dão preferência para aquelas dos olhos
azuis. Mesmo na televisão você vê. Tem muito preconceito. Eles colocam mais gente dos olhos azuis,
branquinho do que um neguinho. Parece que nem tem neguinho. Agora está aparecendo mais, por que agora
é por lei. O Leandro falou comigo que quando tiver uma propaganda tem que ter um moreninho. Por que
tem mesmo o preconceito. Um dia desses entrou uma moça gorda dentro do ônibus, nossa, eles olhavam
assim tirando o sarro, porque ela usava uma blusinha mostrando as “banhas”. Tudo bem, eu acho ridículo!

Mas é ela que quer usar. Eu vou tirar o sarro? Por quê? Ela quer andar assim, ela se sente bem, tudo bem.
Eu não andaria, mas se ela se sente bem, tudo bem. Ninguém tem direito de tirar o sarro. Agora as
magrinhas ficam tirando o sarro. Pessoas que tem problema físico, eles tiram o sarro. Eles falam que não,
mas quando você entra na loja ou em um shopping, logo você vê aquele pobre fica lá esperando para ser
atendido, mas quando chega um rico, os atendentes vão logo atender. É assim mesmo. É dentro da loja,
dentro do ônibus. Eu tenho um convênio e tenho ido em vários médicos e uns me atende como se eu fosse
qualquer um, mas têm outros que falam “oi dona Maria!”, pegam na minha mão, “por favor a senhora
sente”. Mas outros, você vê que não estão dando muita a atenção, porque você é pobre.
C.K – A senhora acha que dentro da Maranata acontece isso, de alguém ser discriminado porque não
é branco?
M.C – Olha por isso não, mas por um ter mais dinheiro e outro menos, sim.
C.K – A senhora acha que quem tem mais dinheiro é geralmente branco e o pobre geralmente negro?
M.C – Não, às vezes nem é por isso. A pessoa pode ter um carro, não precisa nem ser branco, mas já faz a
panelinha e deixa os outros que são mais humildes de lado. Tem sim, na nossa igreja também tem isso. Por
causa da cor de pele não, há muitos anos que eu estou lá, já vai fazer 11 anos, quando eu me converti o
Leandro tinha quatro anos, e eu nunca vi isso, pela cor acho que não. No meu modo de pensar não.
C.K – E por que a senhora acha que isso não acontece?
M.C – Eu acho que se você está lá e é verdadeiramente convertido não pode ter isso, não.
C.K – Mas a senhora disse que existe o preconceito entre as pessoas ricas e pobre...
M.C – De pobre acho que tem sim.
C.K – Mas mesmo a pessoa sendo verdadeiramente convertida ela pode agir com preconceito?
M.C – Eu acho que de cor não, mas de ter dinheiro sim. Eu acho que sim, por exemplo, eu não posso
acompanhar uma pessoa que tem um carro, o marido dela e os filhos. Então ela quer ir ao restaurante e me
chama, eu não tenho como acompanhar, eu não tenho “altura”, eu sou humilde, ganho um salário mínimo,
como eu vou ter a “altura” dela que ganha dois mil ou 3mil reais, não tenho, é por isso. Eu acho assim.
C.K – A senhora já ouviu algum estudo sobre o racismo ou o preconceito racial dentro da Maranata
ou mesmo na pregação do pastor?
M.C – Eu acho que devia pregar, às vezes as pessoas pensam que não estão prejudicando e estão, e o pastor
alertando as pessoas para ficam mais atenta.
C.K - Mas a senhora já ouviu falar sobre esse assunto na igreja?
M.C – Não, não ouvi, que eu me lembro não. Mas se falasse seria bom.
C.K – A senhora é feliz com a cor que tem?
M.C – Eu sou.
C.K - Por quê?
M.C – Se Deus me colocou essa cor eu não acho por que não ser feliz. Ser feliz para mim é ter Jesus, a cor
para mim, o cabelo, a roupa, tudo isso vai ficar por aqui.
C.K – Tem vantagem ser negro no Brasil?
M.C – Isso é difícil (pensando) cada dia que passa você vê, é com a polícia, é tudo, o negro é sempre posto
para traz, acho que ele sofre muito. Eu não sei se vantagens ou não. Acho que meio a meio, não tem muita
vantagem, mas (...). Sempre os pardos sofrem mais, poderia ter um bom emprego, mas não tem porque é
gordo, é baixinho, então você não tem muita vantagem como os brancos os loiros, os dos olhos azuis, não
tem não. Nós somos muito excluídos pela cor em todos os lugares no mundo todo.
3. Nome: Humberto de Moura
Data da entrevista: 20/09/2007

Idade: 39 anos
Local da entrevista: casa do depoente Cor: Pardo

C.K - Onde o senhor nasceu?
H.M – Nasci na Bahia em uma cidade chamada Piau.
C.K – Quando o senhor veio para São Paulo?
H.M – Eu vim em 1989, meu irmão mandou um dinheiro para eu vir e fui morar no Guarujá. Trabalhei um
tempo em Itaquera e depois voltei para Bahia de novo. Em 1991, eu retornei para São Paulo.
C.K – Porque o senhor veio pela primeira vez para São Paulo?
H.M – Meu irmão já estava aqui e eu queria conhecer São Paulo, mais por curiosidade.
C.K – E pela segunda vez?
H.M – Na segunda vez eu vim para tentar a vida, conseguir uma vida melhor, na Bahia não dava, meu pai
veio de uma família humilde e não tinha condições financeiras para dar aquilo que a gente precisava. Então
vim para tentar a vida.
C.K – Quando o senhor veio para São Paulo, já era casado?
H.M – Eu já namorava a minha esposa, mas quando vim para São Paulo, era solteiro, na segunda vez eu
vim e ela veio depois, nós moramos juntos e depois casamos. Foi aí onde entrou a igreja.

C.K – Como o senhor conheceu a Maranata?
H.M – Eu conheci a Maranata através do meu concunhado e através dele conheci alguns membros da
Maranata, o irmão Ademar, o Gonzaga e outros irmãos, o pastor Varela e foi quando eu comecei a
freqüentar a Maranata.
C.K – Antes de conhecer a Maranata, o senhor era de alguma outra igreja ou religião?
H.M – Nenhuma, não era católico, não era crente, não sabia de nada (risos).
C.K – Como o senhor veio parar aqui nessa região?
H.M – Eu tenho um conhecido da Bahia que mora aqui, quando eu vim pela segunda vez, ele disse que eu
podia vir e morar na casa dele. Eu vim direto para casa dele, depois saí e fui pagar aluguel no bairro jardim
São Bernardo, e de lá vim morar aqui, já tem dez anos que moro nesse local.
C.K – O que o senhor pode apontar de positivo dessa região?
H.M – De positivo é um pouco difícil por que aqui é uma periferia, sabe como é. Aqui tem muitas pessoas
boas, mas você tem que fazer o local onde você mora. De positivo é bem difícil de dizer.
C.K – E de negativo?
H.M – De negativo tem bastante coisa, tem droga, prostituição, falta de alimento, falta de trabalho que além
de estar difícil, as pessoas não tem sabedoria para procurar um trabalho. De negativo tem várias coisas.
Pessoas que não quer nada com Jesus, isso também é negativo.
C.K – Tem muita gente por aqui que passa necessidade?
H.M – Tem gente que passa necessidade, mas depende mais da pessoa que tem preguiça e não querer
trabalhar e tentar a vida.
C.K – Mas o senhor disse que o trabalho está difícil....
H.M – Ta difícil, mas vai muito da pessoa que não busca uma profissão, não tenta estudar, tem que fazer
algum curso e tentar algum serviço.
C.K – Qual a sua escolaridade?
H.M – Eu estudei até a quarta série.
C.K – Qual a sua profissão?
H.M – Eu trabalho com construção civil, trabalho na parte de acabamento, elétrica e hidráulica também,
faço serviço geral.
C.K – Falta trabalho ou quem não está empregado é quem não quer trabalhar?
H.M – O desemprego está um pouco difícil, mas tem algumas pessoas que não querem trabalhar por que
não quer mesmo.
C.K – Tem gente que quer trabalhar e não consegue encontrar trabalho?
H.M – Tem sim, tem várias pessoas que não conseguem arrumar emprego.
C.K – Você conhece alguém por aqui que não está conseguindo emprego?
H.M – Acho que não viu, daqui da região é difícil encontrar alguém assim.
C.K – Então quem não está trabalhando é porque não quer?
H.M – Pessoas acomodadas que não querem tentar alguma coisa na vida, e talvez a pessoa tenta, tenta, mas
a vida não oferece oportunidade para você crescer, nem todo mundo tem a mesma sorte.
C.K – Então pode acontecer de ter alguém aqui que está procurando, mas não consegue?
H.M – Aqui não, principalmente na rua que eu moro, ninguém procura serviço, e quando acha, não quer
trabalhar.
C.K – Há quanto tempo o senhor é membro da Maranata?
H.M – Membro mesmo, já tem uns 11 anos que estou na Maranata, de batismo eu não sei falar.
C.K – O que o senhor pode falar de positivo da Maranata?
H.M – Maranata é uma igreja boa, ai já muda, quando você chega os irmãos te acolhem nos primeiros
passos, não vou falar todos porque é difícil ter uma igreja em que todo mundo tem a mesma disposição.
Têm alguns que olham assim (...) Mas a Maranata é uma igreja muito boa. Tem algumas coisinhas, é difícil
ser assim perfeita total, mas é uma igreja boa.
C.K – O que poderia melhorar nela ?
H.M – A visitação por parte dos diáconos da igreja, eles não visitam não, isso tem que melhorar, mesmo
porque cada um trabalha e tem sua dificuldade, mas isso precisava melhorar. E algumas coisas que poderia
melhorar, por exemplo, o estacionamento poderia melhorar, ampliar o espaço, crescer o templo, e os irmãos
freqüentar mais a igreja, partindo de mim, e sair para pregar o evangelho. Precisa fazer isso, melhorar. A
gente, tiro por mim, estamos acomodados, só pensamos em nós mesmos, então precisamos sair para pregar
o evangelho para as pessoas que não conhecem.
C.K – O que mudou na sua vida depois da conversão?
H.M – Depois que eu conheci Jesus melhorou um pouco, mais ou menos uns 60%.
C.K – Mas o que o senhor pode dizer que mudou?

H.M – Olha eu era muito nervoso, então isso eu mu dei bastante, eu bebia na época e agora não faço mais, é
isso que mudou. Meu casamento mesmo mudou, se eu não estivesse na igreja ele já teria acabado, por
minha causa, eu era muito “zoeiro”, se eu não estivesse na igreja seria fatal.
C.K – Alguma coisa material?
H.M – Coisa material eu não falo que mudou, eu não me apego em bens assim, certo que é bom a gente ter
mas eu não me apego em bens materiais assim de ter, ter, a gente sempre trabalha num propósito assim, mas
não com ambição de querer ter e não atingir o objetivo. Eu não sou acomodado, eu trabalho direto para
conseguir as coisas e se caso chegar no final do mês e eu não conseguir, tudo bem. Eu estando com saúde e
meus filhos e minha esposa, já está de bom tamanho.
C.K – O senhor acha que existe entre os irmão da Maranata uma relação de amizade e irmandade?
H.M- Existe, amizade né, eu vejo assim, não é de todos, mas quando você esta passando por um momento
difícil e está precisando, os irmãos estão ali e ajudam, não falo que é a igreja toda, se eu falar isso to
mentindo, mas tem sim, alguns irmãos abraçam os outros com amizade fora de sério mesmo, que a gente
sente. Tem uns que é falsidade, mas têm outros que é verdadeiro mesmo. Se você precisar ele ta ali para te
acolher e te ajudar mesmo. E tem uns que fazem acepção de pessoas. Mas eu não vou a Maranata por causa
disso.
C.K – O senhor acha que existe diferença entre um membro branco e outro que é pardo ou preto?
H.M – Eu nem falo tanto isso, mas é mais de condição financeira, se você mora em um lugar como esse,
uma favela, um lugar que não tem um padrão de vida elevado, você vai ser olhado com diferença, isso é em
qualquer lugar você encontra, não é só na igreja Maranata.
C.K – Porque o senhor acha que as pessoas dentro da igreja discrimina a outra porque é pobre e não
porque é negra?
H.M - (pensando) eu não vou saber te explicar isso. (pensando) Uma pessoa com mais estudo não vai
querer ficar conversando com você que não tem estudo, que é pobre e mora na favela. Às vezes ele fala uma
coisa e você outra, ele nem te entende, então é onde tem acepção. Se você tem um estudo elevado não
conversa com o outro que não tem estudo.
C.K – Mas não por causa da cor de pele?
H.M – Não, mas deve ter também.
C.K – O senhor é feliz com sua cor?
H.M – Sou sim, eu chego em qualquer lugar, não tenho besteira, eu estando de bem com a vida, quem
quiser ser meu amigo, estou disposto, quem não quiser, tudo bem, sou feliz assim.
C.K – O senhor já sofreu algum preconceito?
H.M – Diretamente assim não, a pessoa falar diretamente não.
C.K – E indiretamente?
H.M – Não, também não.
C.K – No Brasil existe preconceito de cor de pele?
H.M – Tem sim. Eu vejo isso como uma coisa desumana. Acho que não precisa ter esse racismo de cor de
pele. Mesmo porque isso não faz diferença para mim, tudo é ser humano. Agora quem tem esses
preconceito né?
C.K – Como o senhor percebe que existe preconceito?
H.M – Mesmo você sendo uma pessoa elevada e tendo muito dinheiro, você ainda sofre preconceito,
mesmo você sendo rico. E pobre é pior ainda, a pessoa nem deixa você chegar perto, principalmente se você
for um preto pobre.
C.K – Em que lugar o senhor percebe o preconceito?
H.M – Na igreja pode ser, mas eu ainda não observei essa parte, ainda bem, porque eu não quero nem saber.
Hoje parou, porque se você for preconceituoso isso dá processo, então jamais uma pessoa vai falar alguma
coisa para outra assim. É um pouco difícil. Se você estiver querendo um emprego e chegar uma pessoa
branca, loira dos olhos azuis, bonita mesmo, e você for pretinha, mesmo que você tenha mais capacidade
que a branquinha a branca vai ficar com a vaga, mesmo se ela for dispensada depois, ela fica com a vaga.
Então no emprego existe isso aí.
C.K – Então em qualquer lugar pode existir o preconceito?
H.M – Em qualquer lugar, mas você tem que tomar aquilo sem levar em consideração, você mesmo não tem
que ter preconceito, porque o preconceito primeiramente começa de você.
C.K – A Maranata fala sobre esse assunto de racismo e preconceito racial?
H.M – A escola bíblica fala, a gente não pode fazer acepção de pessoas.
C.K – A Maranata poderia falar mais sobre esse assunto?
H.M – Deveria, deveria explicar mais um pouco, esse negocio é bem importante, até na questão financeira.
Se você está pregando um Jesus que salva e que liberta, tudo isso vai ficar, então não precisa ter preconceito
nem financeiro nem de cor.
C.K – Mesmo não tendo esse problema na igreja, é importante falar?

H.M – Eu to falando que não tem preconceito, mas eu não chego assim para observar, mas acho que tem, de
pele tem. Apesar de que tem uns escurinhos assim tipo eu e outros irmãos, então acho que a pessoa abafa
ali, mas acho que tem.
C.K – As perguntas são essas, mas tem mais alguma coisa que o senhor gostaria de dizer?
H.M – Acho que é isso que já falei. Eu tive uma vida muito sofrida, meus pais não tiveram estudo, dos
meus irmãos, só um é estudado. A gente não quis nada com a escola, a verdade é essa.
C.K – Mas vocês precisavam trabalhar desde cedo, ne?´
H.M – É, a gente precisava trabalhar, mas minha mãe forçava a gente a estudar, mas a brincadeira era
melhor que estudar. Até hoje tenho dificuldade de estudar e falta de vontade também (risos).
4. Nome: Ademilton Campos Moura
Idade: 29 anos
Data da entrevista: 20/09/2007
Local da entrevista: casa do depoente

Cor: Pardo

C.K - Onde o você nasceu?
A.M – Nasci em Piau, Bahia.
C.K – Porque veio para São Paulo?
A.M – Eu vim para cá porque minha mãe estava doente e lá na Bahia os médicos não conseguiram
descobrir o que era, então viemos para cá para passar um mês, ela fez uns exames e voltou, eu fiquei. Eu
não quis voltar para Bahia.
C.K – Porque você não quis voltar?
A.M – Eu comecei a trabalhar e ganhar um dinheiro bom, então já que estava aqui, resolvi ficar.
C.K – Você trabalha com o quê?
A.M – Antes eu trabalhava com meu irmão de ajudante de pedreiro, mas como a gente trabalhava autônomo
sem registro, eu procurei uma empresa que registrasse e consegui um emprego registrado, graças a Deus!
Agora é melhor, tem muitas vantagens, trabalhar sem registro é ruim, você não paga o INSS e se acontecer
algum acidente você não tem a quem recorrer. Agora eu trabalho como conferente em uma loja.
C.K – O trabalho de pedreiro você conseguiu logo que chegou em São Paulo?
A.M – É, eu já vim certo para trabalhar com meu irmão, quando eu vim da Bahia, já estava certo que eu ia
trabalhar com ele durante um mês que eu ia passar aqui. Por isso eu não voltei.
C.K – Qual é sua escolaridade?
A.M – Eu comecei a estudar muito tarde. Meus pais tinham uma casa na cidade, mas eles preferiam morar
mais em fazenda e sítio. Eu comecei a estudar muito tarde, depois que ele morreu, eu me desinteressei pelos
estudos. Eu ia fazer a quarta série e parei, comecei a trabalhar e não quis voltar a estudar. Eu comecei a
trabalhar desde os quinze anos, e quando meu pai morreu, eu tinha dezessete anos ia fazer dezoito anos, dei
mais prioridade ao trabalho do que aos estudos. Minha vontade é voltar a estudar, só não voltei ainda por
que o horário que estou trabalhando às vezes não dá, eu pego das 10h ás 19h. Quando eu chego aqui em
casa já é oito e meia, quase nove, então não dá. Meu irmão começou tarde também, mas hoje ele já
terminou os estudos, se quiser pode até entrar em uma faculdade e se formar. Meus colegas todos já se
formaram.
C.K – Quando você chegou em São Paulo, não deu para estudar?
A.M – Na verdade eu não me interessei, eu era muito novo, só queria saber de bagunça, bagunça, mas
depois quando você vai amadurecendo e vendo que as coisas não são como você pensa e cai em si, mas aí já
é tarde. Mas nunca é tarde para terminar os estudos, né?
C.K – É verdade. Quanto tempo você mora aqui nessa região?
A.M – Vai fazer doze anos.
C.K – Quando você chegou da Bahia, veio direto para essa região?
A.M – Vim direto pra cá, o meu irmão já morava aqui na redondeza e eu vim morar na casa dele, só agora
com o tempo que consegui um emprego fixo, consegui alugar uma casa e passei a ser independente.
C.K – Nesses doze anos que você mora aqui o que pode me dizer de positivo dessa região?
A.M – A tranqüilidade em que nós vivemos. Esse é um bairro muito violento, mas agora está mais calmo,
aquelas coisas que aconteciam antes, não acontece mais. Era muita morte, muita briga, não tem mais essa
violência como era ante.
C.K – E o que tem de negativo aqui?
A.M – Negativo, tem que muita gente se apega mais a bebida, as farras, as festas e quando você aproxima
de alguém para falar de Deus, que é uma coisa boa, ninguém te dá ouvido, se apega mais as coisas carnal.
Isso é negativo, ninguém quer levar a sério as coisas de Deus.
C.K – O que você acha da estrutura urbana daqui, rede de esgoto, água, luz, asfalto, essas coisas?
A.M – Aqui era muito ruim, na época que eu vim morar aqui, isso era um buraco enorme, se alguém caísse
dentro morria. O governo começou a organizar isso e veio o esgoto, o asfalto, está legalizando a água. Hoje
só falta os moradores colaborarem com a limpeza das ruas e legalizar a energia. Aqui a gente não tem

energia elétrica legalizada. A água e o esgoto a gente já tem, na vista que era antes, era muito feio, hoje está
uma maravilha. Antes a gente passava aqui e o barro vinha no meio do joelho, você calçava um tênis ali e
quando chegava aqui, não sabia de que cor era o tênis, era barro puro. Hoje não, hoje ta uma maravilha.
C.K - Você já é membro da Maranata há quanto tempo?
A.M – Vai fazer cinco anos.
C.K – Antes de ser membro da Maranata você pertencia a outra igreja ou religião?
A.M – Não, o pessoal falava que era católico, mas para mim católico é aquele praticante, aquele que só fala
que é, pra mim não é. Uma vez mesmo , eu fiquei decepcionado. Eu ia à igreja, minha mãe era católica. Era
católica nada, falava que era católica, não ia à igreja. Um dia eu fui na igreja católica e me trataram muito
mal e eu não voltei mais.
C.K – Como te trataram?
A.M – Eu cheguei sentei, eu meu irmão mais novo e um colega. Uma pessoa chegou e disse: “sai, sai, sai
daí que esse lugar não é para vocês sentarem não”. A gente se sentiu como se fosse um cachorro. Nós
saímos e eu falei que naquela igreja eu não voltava mais, só volto se for para derrubar ela, para assistir
missa eu não volto nunca mais. Minha mãe sempre falava, mas eu falei que não voltava mais por que me
trataram como se eu fosse um cachorro, não volto.
C.K – Você é membro a cinco anos, mas freqüenta a mais tempo a Maranata, não é?
A.M – Desde noventa e sete, quase dez anos. Eu comecei a freqüentar, depois eu me converti e só depois eu
me batizei.
C.K – O que você pode apontar de positivo na igreja Maranata?
A.M – Para falar a verdade, uma coisa que me chamou muita a atenção e eu gostei muito na Maranata foi
que desde o primeiro dia que eu cheguei como visitante, fui bem recebido. Ainda me lembro das pessoas
que me receberam, foi o Ronei, o Luciano, e a Andréia. Isso me fez ver a diferença como eu fui atendido lá
na igreja da Bahia e aqui. Aqui o atendimento foi bem melhor na chegada. Me receberam muito bem, foi
isso que me fez voltar e estar lá até hoje.
C.K – No que você acha que a Maranata poderia melhorar?
A.M – Agora melhorar (pensando) tem coisas que precisam melhorar, mas depois que o pastor Danilo
chegou está de parabéns! Ele está fazendo uma coisa muito boa na Maranata. Agora a gente precisa sair e
divulgar o nome de Deus para que a igreja possa crescer mais ainda.
C.K – O que mudou na sua vida depois que você se converteu?
A.M – Muitas coisas. Antes eu queria que tudo fosse resolvido com base na brutalidade, depois que eu me
converti, vi que as coisas não eram assim, que tudo pode ser resolvido em uma simples conversa, você pode
resolver os problemas.
C.K – O que mais mudou?
A.M – Mudou também meu jeito de ser, consegui ter mais responsabilidade, consegui comprar minhas
coisas, antes eu pegava o dinheiro e gastava tudo, então comecei a ver as coisas melhor e administrar
melhor minhas coisas.
C.K – Você acha que entre os membros da Maranata existe uma relação de amizade e irmandade?
A.M – Desde que eu estou ali sim, tenho amizade com alguns irmãos e não tenho o que falar. Tem defeito,
tem. Mas eu prefiro olhar mais para a qualidade dos irmãos.
C.K – Você acha que existe alguma diferença entre um membro pardo e preto e um branco na
Maranata?
A.M – Acho que não, isso não existe.
C.K – Porque você acha que não existe?
A.M - Ali todo mundo trata todo mundo igual, não tem diferença. Esses cinco anos que estou ali nunca vi
ninguém tratar o outro por que tem uma cor diferente, todo mundo trata igual.
C.K – Alguma outra diferença você já viu?
A.M – Não, sobre isso não. Para mim não tem diferença.
C.K – Nas pregações do pastor ou nos estudos da escola bíblica você já estudou alguma coisa sobre o
racismo, o preconceito racial, ou alguma coisa nesse sentido?
A.M – Não. As pregações do pastor são muito boas, uma vez ele falou sobre isso, não importa a cor que
você tem, para Deus todo mundo é igual. Tem aqueles que se colocam superior, mas para Deus todo mundo
é igual. Ninguém é melhor que ninguém, tanto faz branco, preto, pobre ou rico. Deus olha o coração de
cada um. Desde o dia que eu cheguei até hoje eu fui muito bem tratado.
C.K – Você é feliz com a cor que tem?
A.M – Graças a Deus! Eu gosto dessa cor. Eu sou mais feliz, ainda depois que eu aceitei a Jesus, tenho mais
orgulho da minha cor.
C.K – Você tem mais orgulho da sua cor, porquê ?
A.M - Tem gente que fala que o negro não demonstra muito a idade, eu vou fazer trinta anos e tem gente
que não acredita, eu tenho que mostrar o documento para provar.

C.K – Então a sua cor te dá orgulho?
A.M – Ah! Tenho. Na minha família é uma mistura, uma salada de fruta, meu pai era bem branquinho e
minha mãe era da minha cor. Meu pai gostava mais de mu lher morena, aí deu essa mistura. Minha avó era
índia, meu avô era bem moreno, meu pai branco e meu tio é preto, misturou tudo.
C.K – tem vantagem ser preto e pardo no Brasil?
A.M – Para nós que somos pardo sim, outros falam que não.
C.K – Outros quem?
A.M – Outras pessoas falam que preto não tem muita oportunidade, que não dão muitas chance para eles,
mas eu acho que não. Pode até ser que sim, mas para mim não, graças a Deus até hoje não fui descriminado.
C.K – Você nunca sofreu preconceito?
A.M – Não. Até hoje não.
C.K – Mas você acha que existe preconceito racial no Brasil?
A.M – Tem. Isso não aconteceu comigo, mas aconteceu com um colega meu. Então tem.
C.K - O que aconteceu com ele?
A.M – Uma vez, na casa desse meu amigo negro aconteceu um incêndio e ele se queimou muito e ficou
com umas manchas. Ele é um cara muito estudado, muito inteligente, um cara que sabe muito de
computação. Um dia ele foi tentar um emprego e já estava certo para ele, e quando ele foi fazer a entrevista
para começar no emprego, chegou um branco e eles resolveram dar oportunidade para o que era branco ao
invés do meu amigo. Mas já estava tudo certo para ele começar no trabalho. O outro não tinha a capacidade
que ele tinha, mas deixaram ele de fora. Ele ficou muito triste, era a oportunidade para ele crescer ali dentro,
ele tinha capacidade. Ele se sentiu humilhado por causa disso e até hoje ele fala sobre isso.
C.K – Então no Brasil ainda existe o preconceito racial?
A.M – No Brasil ainda existe muito preconceito ainda.
C.K – Você acha que a igreja poderia trabalhar mais sobre esse tema para ensinar as pessoas e
ajudar para acabar o preconceito?
A.M – Sim, acho que poderia falar mais, pelo menos as pessoas abririam os olhos e a mente, porque isso é
uma coisa que veio daquela época.
C.K – Qual época?
A.M – Desde o tempo da princesa Isabel. Tinha esse preconceito, depois que ela acabou com esse negócio,
podia todo mundo acabar também, esquecer isso no passado.
C.K – Mas depois que a princesa Isabel acabou com o quê?
A.M – Com o racismo, liberou os escravos, não poderia mais haver escravos. As pessoas ainda hoje
lembram daquelas coisas, uma coisa que poderia esquecer. Hoje vivemos num novo tempo, mas as pessoas
não conseguem se livrar. Acha que o negro é pior que os outros. Não. Todo mu ndo é igual. Tem que ver o
coração, as atitudes das pessoas. Mas muitos acham que tem que ser como as coisas eram antes.
5. Nome: Veraldina Miranda
Data da entrevista: 02/07/2007

Idade: 58 anos
Local da entrevista: casa do depoente

C.K - A senhora se considera: branca, parda, preta, amarela ou indígena?
V.M – Amarela. Descendente de ciganos, por isso amarela. Não sou branca, sou amarela. É engraçado que
eu fiz um exame de sangue e descobri que a minha genética é negra. Meu sangue é de negro. Eu tenho pele
amarela, mas sangue de negro. A minha mãe é negra, é quase uma negra, ela era uma negra de cabelo liso,
não sei como chama isso, acho que cabocla. Tenho esse sangue assim, mas eu fiz um exame que diz que eu
tenho sangue de negro. Então eu tenho pele amarela, mas sangue de negro.
C.K - Aqui no Brasil por causa dessa mistura as pessoas podem ter só alguns traços de negro e
mesmo assim se considerar negro, e a senhora?
V.M - Eu não sei (risos) agora você me pegou, eu nunca pensei nisso, mas eu nunca pensei que eu sou uma
negra não. É até bom para eu pensar daqui para frente, mas eu nunca pensei assim, eu sempre me considerei
com uma pele amarela mais para branca.
C.K - A senhora nasceu em São Paulo?
V.M - Não, nasci em Macajú, estado da Bahia. Com dez anos vim para São Paulo. Fiquei em São Paulo, e
comecei a trabalhar de empregada doméstica. Eu era filha de Umbanda, uma tradição de família, como
quase todo mundo da Bahia né (risos). A família que me trouxe para São Paulo, também era da Umbanda,
meu irmão casou com uma das filhas dessa família. Eu comecei a participar de um centro de Umbanda lá na
vila Akamura (cidade de São Paulo). Com doze anos eu conheci o Valdivino e casei com ele. Ele também
era filho de Umbanda. Como eu era a sétima filha, eu era a prometida, eu devia ser a sucessora da família.
Depois de certo tempo, quando faltava cinco meses para eu fazer o recolhimento para ser Mãe de Santo, eu
conheci a família Bida. Eu morava no bairro Santa fé e já tinha minhas crianças que eram pequenas. A
família Bida fazia um trabalho com crianças no meio da rua, pegavam as cadeiras nas casas e colocavam na

rua. Aí meus meninos começaram a ir, contra minha vontade, mas iam. Depois teve um trabalho no dia das
mães, e quem levasse a mãe ganhava um presente, criança fica toda espivitada, né? (risos) Aí eu fui. Ouvi a
Palavra e comecei a gostar e comecei a freqüentar. Só que o Valdivino, meu marido, não deixava, eu ia
escondida, e depois ia na Umbanda com ele.
C.K - A senhora já morava aqui?
V.M - Não, morava no Santa fé. Nesse tempo a Maranata nem se reunia ainda. Com o tempo abriu o
trabalho da Maranata aqui no Jardim Panorama, aí a gente vinha de vez em quando, naquele tempo era o
pastor Wilson. Depois do pastor Wilson veio o pastor Josias. Eu fui me fortalecendo. Depois do Pastor
Josias veio o pastor Ananias. Eu tinha muita afinidade com o pastor Ananias, ele me ajudou muito, então eu
tive coragem de dizer não de uma vez por todas às idas a Umbanda. Então, veio aquela separação, a família
se revoltou, jogou praga, disseram que minha família ia ser miserável, que ia acontecer um monte de coisa.
Mas graças a Deus, Deus me libertou e eu pude caminhar. Eu vim para o Panorama, era a família do irmão
Túlio. Só o irmão Túlio e a família dele.
C.K - Como a senhora conheceu o irmão Túlio?
V.M – Por que essa família Bida, que fazia esse trabalho de rua lá no bairro Jardim Santa fé, quando abriu
esse trabalho aqui (na casa do irmão Túlio), eles vieram para cá, e começaram a congregar aqui. Foram eles
que me trouxeram para cá, para congregar aqui no Panorama.
C.K - Como a senhora veio morar aqui?
V.M - Eu morava no Santa fé como estou te falando né. Quando eu vim da Bahia eu morei primeiro na
chácara Santana, que era perto do jardim Nakamura. De lá como a gente morava de aluguel, acabamos
vindo para cá. Teve uma época que a gente foi embora para Bahia e vendemos nossa casa, quando voltamos
fomos morar no Jardim Santa Fé, foi quando conheci a família Bida e de lá vim para cá onde moro hoje.
C.K - Os seus pais estudaram?
V.M - Não.
C.K - E a senhora?
V.M - Eu também não. Aprendi a ler quando eu comecei a ler a bíblia. E escrever também. Só não sei
colocar os pontinhos, mas eu leio e escrevo (risos).
C.K - Qual a sua profissão?
V.M - Sou empregada doméstica, sou copeira profissional, graças a Deus! Hoje sou copeira, sempre
trabalhei nessa área de copa.
C.K - Quanto tempo a senhora mora nessa região do Grajaú?
V.M - No todo? Uns trinta e dois anos.
C.K - A senhora pode apontar o que tem de mais positivo em morar nessa região e o mais negativo?
V.M - Ah! Positivo é que graças a Deus, tanta coisa aconteceu aqui de progresso, de melhoramento. A
Avenida Teotônio Vilela não existia, era uma estrada de terra, com eucaliptos dos lados. A gente não tinha
asfalto. Só tinha uma jardineira que ia e vinha para Santo Amaro, vinha de manhã e voltava à tarde, o
transporte era a linha do trem que passa perto do jardim Céu Azul, próximo do jardim Campinas, era o
transporte nosso de trabalho. Foi uma evolução muito grande todo esse progresso que teve. Escolas, a
escola que a gente tinha aqui era o Salote, que era um barraco de madeira, e hoje é um dos melhores
colégios estaduais que tem. O mercado que hoje é o Barateiro, antigamente era Reimberg, era uma
barraquinha que a gente comprava de caderneta, e pagava por quinzena (risos) depois se transformou em
um grande mercado e hoje vendeu para o Barateiro.
C.K - E a água, a luz (...) ?
V.M - A água e a luz não tinham. Era tudo poço, aqueles poços de sari que a gente puxava com a mão. Não
existia esgoto, não existia água encanada. Não existia saneamento básico. Eram poucas casas. Aqui onde eu
moro hoje era tudo brejo, sabe? As ruas daqui eram com bastante erosão, esburacadas, muito difícil aqui
naquela época. Mas hoje tudo melhorou. Tudo está bom hoje! Aí surgiu muitas igrejas também. A gente
reclama por que a gente é ruim mesmo, (risos) não temos motivos para reclamar.
C.K - Quantos anos a senhora é membro da Maranata?
V.M - A Verônica tem vinte cinco anos (...) vinte e seis anos. Eu não tinha a Verônica, mas logo engravidei
dela. Quando eu estava grávida eu já freqüentava a congregação (...) uns vinte e sete anos.
C.K - A senhora gosta da Maranata?
V.M - Gosto e sei que eu nunca vou trocar de igreja.
C.K - A senhora pode falar alguns pontos positivos e negativos da Maranata?
V.M - A coisa que eu destaco de Maranata sempre foi o amor, sempre foi uma igreja muito amorosa até
então. Sempre foi uma igreja unida. De uma época para cá houve uma evolução, então hoje eu vejo como
negativo a falta de amor, não existe mais aquela comunhão mesmo, então isso entristece, isso é um ponto
negativo. Também a doutrina, que assim com o tempo, claro, vai evoluindo, é natural, mas para a gente que
vai ficando velho, estranha, por que a gente aprendeu de uma maneira, e hoje você praticamente tem que
começar a se reciclar de outra maneira. Então eu estranho muito por que Maranata era uma igreja muito

séria mesmo, ninguém batia palmas, não que isso não possa, por que em Salmos diz que pode, pode. Mas
não batia palmas, a gente tinha muita decência para se vestir, e o pastor chamava e conversava mesmo, e
não podia, não podia, entendeu? A gente não se sacudia, não dançava de jeito nenhum na igreja, a gente
tinha cuidado para cortar o cabelo, cuidado com o que vestia, enfim, a imagem do crente naquele tempo era
bem vista, por que dizia assim, quem olhava, “aquela pessoa é crente”, e respeitava, entendeu? Hoje já não
faz uma diferença, o que talvez não seja importante, por que o que importa é o seu eu e Deus, mas a gente
tem olho e vê. Então o visual é muito importante. Hoje eu olho para minha igreja e vejo isso como negativo,
às vezes algumas pessoas que estão lá dentro dizem “Ah, eu gosto da igreja por que aqui a gente pode
tudo.” Mas não é assim, né? Tem que fazer diferença (...). Mas está no controle de Deus. E não é a gente
que vai mudar (...)
C.K – A senhora acha que existe uma relação ou sentimento de amizade e irmandade na Maranata?
V.M - Hoje ainda existe. Eu por exemplo, tenho as mesmas amizades ainda hoje, as pessoas que vieram do
começo, a Beatriz, o irmão Ademar e família, a gente tem boa amizade, a irmã Erisenia (...). Tenho boas
amizades graças a Deus na igreja. Tem muita gente boa. E muita gente também que dá a impressão que está
na igreja por ta. Mas a gente Põe nas mãos de Deus também. (risos) A gente não pode mudar, o que a gente
pode fazer é orar. Mas se hoje ainda tem aquele vínculo, aquela amizade sólida mesmo, cristã? Não, eu
creio que isso não existe mais não. Acho que hoje esfriou um pouco, as pessoas não tem mais aquela coisa
de dizer, “meu irmão, nós por todos e todos por um!” Não tem mais.
C.K - Existe diferença entre um membro branco e um negro na Maranata?
V.M - Tem. Nós temos um exemplo claro na igreja, e hoje mesmo você pode ver esse exemplo, a
Renatinha. Desde que eu era líder dos adolescentes, trabalhava com aquelas crianças, era bem claro isso.
Existe o preconceito no trabalho, existe na igreja, claramente, que existe.
C.K - As pessoas brancas são mais bem tratadas?
V.M - Não é que as pessoas brancas são bem tratadas, mas é que alguns brancos, não são todos. Quando
eles dizem “vamos ao Habbibis? Vamos.” Mas, convidam alguns e aquela pretinha ou pretinho não são
convidados. A gente vai fazer um trabalho de teatro, “vamos fazer a peça? Vamos.” “Eu quero fazer isso,
quero fazer aquilo, mas fulano vai fazer aquilo”, que pode ser uma escrava, mas nunca a princesa. Então
existe isso. A gente sempre falava sobre isso, mas acho que isso vai até o fim dos séculos. É uma coisa que
vai existir. Infelizmente, nós, miseráveis, vamos ter isso no coração. Acho que até a gente, mesmo, adulto,
consciente, uma hora você percebe que você também tem o racismo. Eu te contei uma vez que eu fui ver
um emprego que era na casa de uma família negra. Eu nunca trabalhei para uma pessoa de cor, sempre
trabalhei para alemão, olho azul, louro e tal. E eu fui ver o emprego e quando desceu aquela senhora negra,
muito negra, eu achei que era uma governanta. Fiz minha entrevista e quando a mulher disse que ela era a
patroa, eu fiquei parada, sem ação, e sai dali e não dei o retorno, não voltei mais. Eu fiquei muito
envergonhada, mesmo. Pedi muito perdão a Deus. Querendo ou não é um preconceito que está dentro da
gente, eu achei que eu não podia trabalhar para uma negra, então eu fiquei muito envergonhada, mas
infelizmente (...) A gente fala dos outros, eu observava nos outros que tinha, nos meus adolescentes, mas eu
também tinha preconceito dentro de mim. É vergonhoso, e eu sou casada com um negro, a gente fica triste
quando a gente se pega assim, mas (...) é o que eu digo, a gente não vale nada (risos).
C.K - Você acha que essa questão racial é falada na igreja?
V.M - Às vezes sim, os professores falam. A gente está todo dia ouvindo e sabe que não tem nada a ver, e
não tem nada a ver mesmo. São seres humanos iguais, com pele, sentimento e tudo. Mas é aquele tal
negócio, está dentro da gente, no olho da gente como algo diferente por ter outra cor, entendeu? É coisa
mesmo do ser humano é coisa triste mesmo, de todos nós. Acho que é coisa desde o tempo de Adão e Eva.
É coisa do ser humano, graças a Deus tem diminuído, quase não existe, mas dentro de cada um, às vezes,
tem um pouquinho. Qualquer coisa que esta acontecendo a gente diz que é coisa de negro. Ouve a proibição
até da gente se pronunciar falando assim, mas isso não muda dentro da pessoa. Eu tinha dentro de mim,
achava que jamais, mas tinha. Por que eu não fui trabalhar para aquela família? Afinal era um ótimo salário,
e eu não fui, fiquei sem saber o que dizer. Aquela negra era diferente de uma branca? Não era o mesmo
dinheiro de um branco?É estranho (...) A gente as vezes se pega assim. Mas a igreja sempre está alertando,
está falando, sempre eu ouvi na igreja.
O que parece é que Veraldina acredita que o problema do racimo é natural do home m, desde que o homem
é homem “desde Adão e Eva” o mundo é assim. A questão da construção social e cultural do racismo não é
levada em conta.
C.K - A senhora já ouviu falar sobre cotas para negros em empresas privadas e universidades?
V.M - Eu já ouvi fala r.
C.K - A senhora sabe se a igreja batista é a favor ou contra?
V.M - Eu nunca perguntei ao todo, o que a igreja toda acha, mas eu como batista acho errado. Eu acho que
não tem que existir uma cota para o negro, o negro tem que competir com todo mundo, por que tem que ter
cota para o negro? Por quê? Eles não podem disputar por igual? Eles não têm a mesma inteligência? Tem.

Então não há necessidade. Ele tem que entrar pelo valor que tem, pelo que ele aprendeu, enfim, e não por
que o governo decide X tantos para negros. E o resto dos negros? Quer dizer entra uma cota e a outra?
Então entra o melhor, cada um tem que se esforçar para ser melhor, para chegar lá. Eu acho isso um
absurdo, não tinha que ter cotas não.
C.K – A senhora acha que a igreja deve falar sobre a questão racial, informar as pessoas (...)
V.M - Eu acho, por que pode estar guardado nosso preconceito, é bom que cada dia a gente seja alertado. É
um erro, é uma coisa que não agrada a Deus.
C.K – A senhora acha que a Maranata já faz a parte dela ou ela devia falar mais sobre esse assunto?
V.M - Eu acho que ela devia trabalhar mais essa questão, eu acho.
C.K - Muito obrigada! Minhas perguntas eram essas, mas a senhora gostaria de dizer mais alguma
coisa?
V.M - Sobre a Maranata, eu gostaria de dizer que eu peço a Deus pela liderança dela, e só. Eu oro muito e
peço muito a Deus, para que ele possa, em geral nas igrejas, entrar com providência, por que a gente vê a
igreja caminhar para um rumo e tem receio de que amanhã nosso vínculo de igreja, seja só um lugar social
onde a gente encontra com os amigos, bate palmas e canta. Mas nem sempre a gente vê os resultados que
gostaria de ver. Eu penso que a gente que tem uma idade avançada, passou por uma época e é difícil aceitar
a época de hoje. É meio complicado isso, por que nós pensamos que as nossas referências estão indo
embora. Mas pode não ser isso, os jovens dentro da modernagem deles, da música deles, sejam bem mais
firme, mais em comunhão até do que a gente mesmo, que fica no canto da gente. Mas a gente tem mais é
que orar mesmo ao senhor. A igreja é dele, então ele sabe de todas as coisas. Mas (...) é isso aí.
6. Nome: Pastor Danilo W
Data da entrevista: 16/09/2007
branco

Idade: 38 anos
Local da entrevista: sala de departamento da igreja.

Cor:

C.K – Qual a sua formação?
D.W – Sou Bacharel em Teologia e ordenado pela igreja Batista e atualmente ministro do evangelho em
tempo integral.
C.K – Onde o senhor nasceu e quando veio para São Paulo?
D.W – Nasci no Rio Grande do Sul, sou gaúcho, vim para São Paulo em 2003, e por ocasião assumi o
ministério pastoral da igreja batista Maranata.
C.K – O senhor já era pastor no Rio Grande do Sul?
D.W – Eu já era pastor no Rio Grande do Sul a nove anos.
C.K – Como o senhor conheceu a Maranata?
D.W – Em agosto de 2002, quando fui convidado para pregar num domingo de manhã. Fui convidado por
um membro da igreja.
C.K – Durante esses anos que o senhor está morando nessa região, o que pode apontar de positivo?
D.W – De positivo é que nós estamos em uma região, apesar de não ter muito investimento do poder
público, temos todas as coisas. Temos hospitais, mercados, hipermercados, transporte público (não do
melhor), mas temos, temos o básico para uma mínima sobrevivência.
C.K – E de negativo?
D.W – Só a falta de investimento maior e melhor do poder público.
C.K – Com relação a estrutura urbana da região: asfalto, água, luz e formação das favelas?
D.W – Onde o poder público tem posto a mão tem sido bem feito, onde o poder público não colocou a
mão, ainda é muito precário. Mas isso também não quer dizer que o poder público seja o único culpado, eu
creio que as pessoas também são as culpadas por não fazerem as coisas da forma correta como manda a lei
e a legislação do próprio município.
C.K – O senhor se refere a formação das favelas e casas irregulares?
D.W – Isso, cooptações irregulares, de forma até selvagem.
C.K – O senhor pertenceu a outra religião ou igreja?
D.W – Não, sempre fui batista, graças a Deus. Eu, João Batista, Pedro, Paulo, todos iguais. Sempre batistas.
C.K – Quais os pontos positivos da Maranata?
D.W – (fez leitura de suas anotações para responder) Somos uma igreja que acredita na alegria de ser
cristão, isso quer dizer que onde alguém esteja aflito, onde alguém esteja frustrado, deprimido e confuso irá
encontrar amor, aceitação, ajuda, esperança, perdão, direção e encorajamento. Somos uma igreja, uma
comunidade que procura criar relacionamentos relevantes com o próximo, procura criar relacionamentos
relevantes com Deus, procura auxiliar uns aos outros em sua caminhada diária. Como igreja, procuramos
cumprir pelo menos cinco pilares básicos da vida cristã que são: adoração a Deus, serviço cristão,
evangelização, comunhão e o fazer discípulos, o que a bíblia manda a gente fazer. De modo que tenho

somente pontos positivos para descrever da igreja. A igreja batista Maranata é uma comunidade que tem
como objetivo criar esses relacionamentos relevantes uns com os outros.
C.K – O senhor consegue ver isso na prática?
D.W – Eu vejo isso como proposta de sermos uma igreja viva nestes tempos, nem sempre é assim, mas de 0
a 10, temos 9,5 com certeza.
C.K – E de negativo? Sei que é complicado falar de coisas negativas, mas o que o senhor acredita que
poderia melhorar na Maranata?
D.W – Não lembro nenhuma. Sou suspeito de falar. Não posso aqui deixar de dar ênfase nos aspectos
positivos, mas não vejo no momento aspectos negativos na nossa igreja, o que nós temos, talvez todas as
igrejas tenham, que é a falta de pessoas dispostas a trabalhar em algumas áreas, como por exemplo, as
crianças e adolescentes, nessas áreas nós temos poucas pessoas para desenvolver um trabalho, mas eu não
considero isso como algo negativo, acho que isso é uma realidade do contexto geral das igrejas no Brasil.
C.K – A Maranata é uma igreja muito misturada, temos uma parcela grande de membros pardos e
pretos, o senhor acha que existe alguma diferença de tratamento entre os membros negros e brancos?
D.W – Primeiro quero dizer que a diferença é natural, o que é branco é branco e o que é preto é preto. O que
acontece, na verdade eu não tenho percebido isso aqui na igreja, então quero dizer que isso não existe na
igreja, atitude comportamental diferenciada. Então procuramos ser essa igreja que cria relacionamentos,
esses relacionamentos sejam maduros e duradouros de modo que não vejo possibilidade de ter essa
diferença do negro e do branco aqui na igreja, pela proposta aqui na igreja de termos esse relacionamento,
independente de cor ou de sexo de posição social.
C.K – O senhor acredita que o negro ocupa todos os cargos e espaços aqui na Maranata?
D.W – Se ele não ocupa todos os espaços não é porque a porta está fechada, as portas estão abertas em
todos os setores da igreja para qualquer pessoa desde que ela queira servir a Deus.
C.K – Em relação a sociedade brasileira, o senhor acredita que existe racismo contra o negro?
D.W – Com certeza.
C.K – As pessoas manifestam seu preconceito contra os negros?
D.W – Com certeza. Infelizmente as pessoas ainda não compreenderam que nós somos seres humanos
iguais diante de Deus independente de cor. Somos seres humanos. O próprio governo auxilia e divulga essa
diferença, não é verdade? Criando essas políticas afirmativas.
C.K – As manifestações de preconceito racial está presente em todos os setores da sociedade?
D.W – Não. Eu creio que no trabalho e na rua sim, mas em nossa igreja não, então não posso dizer que em
todos os setores da sociedade.
C.K – O senhor acha que não acontece na igreja Maranata ou em todas as igrejas batistas ou cristãs?
D.W – Não posso falar de todas as igrejas cristãs e não sei como é nas outras igrejas batistas, eu só posso
dizer que em todas as igrejas que procuram ser biblicamente corretas não há manifestação de racismo.
C.K – Esse assunto sobre discriminação, racismo, preconceito é falado na igreja?
D.W – Nós não discutimos, nós não falamos nesses termos, mas não é por que não há interesse, mas eu
creio que não há uma manifestação clara a respeito desse assunto por que nós ensinamos aqui na igreja que
para Deus todos somos iguais. Então se para Deus todos somos iguais não há necessidade de entramos em
detalhes. Até por que entrando em detalhe você acaba fazendo, exaltando um mais do que o outro. Nós
tendo esse ensinamento bíblico que Deus não importa se você é homem ou mulher, se é preto ou branco,
rico ou pobre. Para Deus importa o ser humano, independente de posição, independente de cor, nós
ensinamos assim, de modo que esse setor que você colocou nós não tocamos não.
C.K – A gente sabe que todos somos iguais, mas a realidade social mostra que não é bem assim, que
alguém que não é branco sofre discriminação. O senhor acha que seria interessante se a igreja
abordasse essa temática para ajudar na reflexão do que acontece realmente?
D.W – Eu creio que não. Eu acho que lá fora se fala, digo fora da igreja, fora do contexto da palavra de
Deus, se fala justamente por desconhecerem a palavra de Deus. Quando nós conhecemos a palavra de Deus,
a bíblia inclusive fala para amarmos nossos inimigos, quando isso é conhecido ninguém mais fala sobre o
assunto. Porque nós amamos uns aos outros. Então eu creio que não é importante nós tratarmos desse
assunto diretamente, especificamente aqui na igreja. Se faz isso na escola, se faz isso no mundo secular por
falta de conhecimento. Aliás, a bíblia fala que as pessoas se perdem por falta de conhecimento das coisas de
Deus. Se as pessoas conhecessem a palavra de Deus não teríamos problema nenhum com isso. Todos nós
nos amaríamos mutuamente.
C.K – Então não é positivo falar sobre esse assunto?
D.W – Não, porque senão você acaba tirando partidarismo, sendo partidário.
C.K – Estou me referindo em relação a conscientização, falar sobre a realidade que vivemos, refletir
sobre a nossa realidade, é nesse sentido que as escolas trabalham, não defender a raça negra, mas
trazer a tona todo um problema histórico nacional de discriminação, seria nesse sentido.

D.W – Um problema histórico, nacional, mundial, de todos os tempos e de todas as épocas. Eu acho que
não deveríamos estar tratando sobre isso, porque todos nós temos consciência de quem servir, o problema
não é este. Aliás, nós não vamos resolver nem este, nem um outro problema se o ser humano não mudar a
sua natureza, se o ser humano não mudar o seu caráter, se o ser humano não mudar o seu interior. Eu creio
que se você falar sobre isso, “olha no Brasil o povo é racista, vamos nos conscientizar que não devemos se
racistas”, tanto na escola, como falar isso na sociedade, não vai resolver, muito pelo contrário vai alimentar
esse assunto e vai criar de fato o racismo.
C.K – Mas ele já não existe?
D.W – Ele existe, vai alimentar, vai aumentar. De modo que nós não vamos resolver esse problema se não
tratarmos o ser humano. O ser humano precisa mudar. O ser humano só vai mudar quando ele entender que
precisa amar o próximo, e o próximo não é próximo porque ele é rico ou branco, o próximo é próximo,
semelhante, porque ele é igual a você, independente da cor ou não do terno ou da camisa rasgada. Ele é teu
próximo, rico ou pobre ele é o teu semelhante. E quando o ser humano não mudar o seu caráter, mudar a
sua natureza, você pode continuar conversando o resto da sua vida sobre isso, não vai mudar. O problema é
brasileiro? É. O problema é racial? É. O problema é desde sempre? É. Se você olhar na palavra de Deus
você vai ver escravos, se você for olhar a história secular você vai ver que os escravos eram negros na
grande maioria do tempo, então não é o problema de tratar esse assunto, o problema é o ser humano. Todo o
ser humano que é tratado no seu interior, ele muda a sua configuração ele muda os seus conceitos, os seus
valores. Enquanto isso não acontecer não teremos solução para esse problema nem para outro. Falar sobre
esse assunto, na minha posição, é alimentar de uma forma até encoberta o racismo.
C.K – Sobre as políticas afirmativas, o senhor é contra ou a favor?
D.W – Não sou a favor nem contra. Acho que todas as coisas têm dois lados. Se as políticas das cotas
produzirem avanço, melhoramento, proporcionar igualdade, então ok! Se não, também sem problema. Eu
não posso dizer se sou a favor ou contra isso ou aquilo, todas as coisas tem dois lados. Agora se vai
melhorar, vamos lá, mantém as cotas.
C.K – Claramente o senhor não se posiciona?
D.W – Não tenho uma convicção firmada sobre isso.
C.K – A igreja batista tem uma posição sobre essas políticas afirmativas?
D.W - Como denominação local não. Por quê? Porque nós pregamos a igualdade, o ser humano como um
todo. São positivas, são negativas, eu não posso te falar isso. Não sei por que depende de cada contexto, de
cada região, inclusive depende muito dos negros, o interesse por essas cotas ou não, depende muito deles.
Não tem uma posição, porque a posição da igreja é a igualdade, essa é a posição da igreja.
C.K – A igreja então não devia ter mesmo uma posição em relação as cotas?
D.W – Não por que isso está no campo político, a igreja é independente do Estado. É uma questão política
social de nosso país que precisa ser resolvida. Se nas cotas os nossos governantes encontraram a melhor
alternativa, ok! Continuem com ela, a igreja não tem essa obrigação de se posicionar. A igreja precisa
continuar dizendo o tempo todo o que diz a bíblia, para Deus todos somos iguais. E não defender cota para
um, mais ou menos, não. Todos têm o direito de escola, todos têm o direito de estudar, todos têm direito de
trabalhar, todos tem direito de ir e vir, todos tem direito de se alimentar, todos tem direito de respeito, é isso
que nós pregamos. Então defender uma política, A, B ou C não cabe a igreja, cabe a igreja ensinar apenas o
que cabe a palavra de Deus.
7. Nome: Maria Aparecida
Data da entrevista: 18/07/2007

Idade: 58 anos
Local da entrevista: casa do entrevistado Cor: Parda

C.K - Você nasceu em São Paulo?
M.A - Não, nasci na Bahia.
C.K - Quando você veio para cá?
M.A - É uma longa história (risos) Da Bahia eu fui morar no Mato Grosso do Sul, lá eu morei dos nove
anos até os meus vinte anos. De lá eu vim para cá para São Paulo com uma amiga minha, nós fomos para
Mogi das Cruzes para trabalhar na LBV, fiquei lá só nove meses. Depois eu sabia que tinha um tio aqui em
São Paulo, aí eu procurei ele e minha amiga voltou para cidade dela. Aí fiquei aqui e conheci o Gonzaga
(risos) e a gente casou.
C.K - Quando você veio morar nessa região do Grajaú?
M.A - Eu vim em noventa e quatro (...)?Não, foi em noventa e três.
C.K - Como você ficou conhecendo essa região?
M.A - A irmã Erisenia já morava aqui, né? Então ela falou assim “Ah! Gonzaga, tem uma casinha vizinha
minha que a mulher está vendendo” Aí pela irmã Erisenia a gente comprou aqui.
C.K - Seus pais estudaram?

M.A - Olha, eu não sei falar dos meus pais (risos) porque quando minha mãe morreu, eu tinha nove anos, e
quando meu pai morreu, eu tinha três meses de vida, ele era tuberculoso. Eu não conheci meu pai, tenho
assim, uma leve lembrança de minha mãe, mas não consigo lembrar dela assim (...), a fisionomia dela.
C.K - E você estudou até que série?
M.A - Eu terminei o colegial, o Ensino Médio.
C.K - Qual a sua profissão?
M.A - Eu não tenho assim, uma profissão, sou do lar. Não fiz assim, uma especialização, para dizer assim,
eu tenho uma profissão.
C.K - Você já mora aqui desde 1993, o que você pode apontar como positivo e negativo de morar aqui
nessa região?
M.A - Olha, de positivo o que eu posso dizer assim, é a segurança, tá tudo aberto (aponta para as janelas e a
porta de sua casa) a gente sai, viaja, fica uma semana fora e quando chega está tudo do mesmo jeito,
ninguém entra para mexer em nada. E a pior é essa malocagem, isso é o pior.
C.K - Em relação a estrutura de água, luz, esgoto, asfalto...?
M.A - Tem esgoto, tem luz, tem água, o asfalto tem pouquinho (risos) mas, tudo bem. Então, só que
estamos com um pensamento de sair daqui, né? O projeto que a gente tem (...) o Gonzaga entrando no
Estado (concursado), aí a gente tem condição de fazer um financiamento. Aí quem sabe nós possamos
comprar uma casa. (risos)
C.K - Mas, você gosta daqui?
M.A - Eu gosto (risos), mas, ao mesmo tempo eu não gosto. Os vizinhos são ótimos, é tudo ótimo, mas (...)
o Gonzaga fala que quer uma garagem, uma casa com garagem. Ele deixa o carro na casa da vizinha ali,
então, ele fala que quer uma casa com garagem para ter onde guardar o carro. E as meninas também (se
referindo as duas filhas). As meninas não trazem as amigas delas aqui de jeito nenhum, só as meninas da
igreja (risos) que já conhecem tudo, mas dá escola assim, não. Por que a casa não está acabada, não tem um
acabamento legal, elas têm vergonha (risos), elas falam “Ah! Pai, quando a gente vai ter uma casa legal?”
(risos) Mas tem que ter paciências...
C.K - E o bairro, você gosta?
M.A - Ah, eu gosto. Todo mundo conhece todo mundo, né?
C.K - Você já foi membro de outra igreja ou religião?
M.A - Eu freqüentava a Católica, mas assim, ia assim, esporadicamente, não era assim, aquele ritual.
C.K - Quanto tempo você é membro da Maranata?
M.A - Dá Batista, mesmo (...) já tem quatorze anos.
C.K - Como você conheceu a Maranata?
M.A - Olha, pelo Gonzaga mesmo. Ele já era da Maranata, ele não era assim, freqüente, mas ele ia. Aí a
primeira vez que eu fui, foi em um dia de quarta-feira a noite, ele me levou. Aí eu fui, não fui (risos) e
acabei indo de vez.
C.K - Quais os pontos positivos e negativos da Maranata, assim, os pontos altos e baixos?
M.A – O ponto assim, mais alto, é a hospitalidade. As pessoas chegam e são bem recebidas, eu fui bem
recebida, acho que esse é o ponto alto. Agora, assim, um ponto baixo da igreja (...) eu não saberia te dizer,
assim (...) tem aquelas coisinhas, aquelas picuinhas de irmão, mas não é muito ruim, não.
C.K - Então, nada de negativo?
M.A - Não, nada.
C.K - Você acredita que existe uma relação de amizade e irmandade entre os membros da Maranata?
M.A - Olha, uns são verdadeiros, agora outros, agora ficam mais por interesse mesmo. Nem todo mundo.
C.K – como assim, você pode exemplificar?
M.A - Amizade, assim, eu com a irmã Erisenia, com a Lani. Eu creio que a nossa amizade não é uma
amizade hipócrita, é uma amizade verdadeira, a gente fica junto, almoça junto, como se diz, ‘junta as
panelas’, fica naquela confraternização legal, eu acho isso gostoso. Também tem a família do Daniel, tem
também a família da Sueli...
C.K - Há diferença de tratamento entre um membro branco e um negro?
M.A - Dentro da igreja? Dentro da igreja (...) assim, eu não sei, pode até existir, mas (...) eu não sei.
Comigo, com a irmã Erisenia, a gente é tratado tudo assim, normal. Não sei assim, com visitante, pessoas
assim, que chegam. Mas eu acho normal.
C.K - Nos cultos, em estudos bíblicos, na escola dominical é comum falar sobre o preconceito racial, a
discriminação? Você já ouviu falar?
M.A - Já. Acho que ano passado (...) é (...) tinha uma revista que falava sobre a cultura racial, e a gente
debateu muito sobre isso, e disse muito sobre a questão racial, sobre o negro mesmo no Brasil. Mas dentro
da igreja não, mais é fora mesmo.
C.K - Você já ouviu falar sobre as cotas para negros em universidades e empresas privadas, qual é a
posição da igreja batista, ela é a favor ou contra?

M.A - Eu já ouvi falar. Eu acho que a igreja é contra, né? Por que deveria ser igual para todos. Porque só
duas? Só duas pessoas negras podem entrar na faculdade?
C.K - Só duas como assim?
M.A - Então, essas cotas que falam aí não têm uma porcentagem, então (...) acho que deveria ser igual para
todos.
C.K – Então, você é contra as cotas?
M.A - Sou contra.
C.K - Você acha que a igreja é contra, mas não sabe com certeza, não é mesmo?
M.A - Eu acho, mas não sei. Deveria ser.
C.K - Você disse que a igreja fala sobre a questão racial, mas você acha que é o suficiente ou ela
deveria trabalhar mais sobre esse tema?
M.A - Eu acho que deveria trabalhar mais sobre isso, ás vezes só fala ali em um momento, mas não leva a
sério. Poderia falar mais sobre isso, fazer algum trabalho...
C.K - Quais as vantagens de ser negro?
M.A - Vantagens (risos) coisa mais banal (risos). O negro assim, a vantagem é que ele demora mais para se
envelhecer, enquanto o branco, ele envelhece mais, ele tem mais possibilidade de pegar doença de pele, o
negro não, por que tem mais, como se diz, melanina na pele. Acho que só isso.
C.K - E na sociedade, você acha que tem vantagem em ser negro?
M.A - Olha, você se esforçando, como uma vez passou uma reportagem, uma pessoa morava lá na Bahia,
não tinha condições, mas esforçou para estudar e tudo, negro, né? E hoje ele é advogado. Ele estava falando
na entrevista dele, que não foi fácil, mas se a pessoa tem força de vontade e lutar pelo que ele quer.
C.K - E você é feliz sendo negra?
Ah! (risos) eu sou. Não tenho nada contra não.
C.K - Como é ser negro no Brasil?
M.A - Eu acho que não é fácil, não. (pausa para pensar). Para a sociedade o negro é bandido, é ladrão (...).
Às vezes a gente chega perto da pessoa e ela vai se afastando, sei lá, não sei (...) para mim eu não senti
complicação nenhuma.
C.K - Você então nunca sofreu preconceito racial, nem dentro da igreja?
M.A - Não, nem dentro da igreja, nem fora.
C.K - Obrigada! As perguntas por enquanto são essas, você teria mais alguma coisa que gostaria de
dizer?
M.A - (risos) o governo mesmo poderia trabalhar isso aí, o negro o branco, ser uma raça só. Mas eu acho
que não depende dos governantes, mas do povo, mesmo. O preto tem que ficar lá no lugar dele e o branco
no dele. Acho que o governo mesmo deveria trabalhar sobre isso, para, como se diz, para a raça branca
conscientizar que o negro também é gente, que o mesmo espaço que o branco tem o negro também tem
direito. É isso (risos).
8. Nome: Erisenia Correia
Data da entrevista: 16/07/2007

Idade: 53 anos
Local da entrevista: casa do depoente

Cor: parda

C.K - A senhora nasceu em São Paulo?
E.C - Nasci em Salvador, capital.
C.K - Quando a senhora veio para São Paulo?
E.C - Em 1978.
C.K - A senhora já veio morar aqui nessa casa ou morou em outro lugar antes de vir para cá?
E.C - Não, eu morei no Jardim Vergueiro, depois eu fui morar na Vila Friburgo e de lá eu vim para cá.
C.K - Mas como a senhora veio para cá?
E.C - Eu não tinha condições de pagar um aluguel e estava grávida. Eu precisava de um cantinho para
morar e não estava conseguindo pagar aluguel. Então, a tia do meu ex-marido falou que aqui tinha um
terreno que era para ser loteado, e que algumas pessoas iam lotear o terreno, porque a prefeitura estava
doando. Eu vim ver o terreno. Fui até a prefeitura de Santo Amaro, procurei um senhor, que nem sei se ele
está vivo, eu sei o nome dele, senhor Euclides. Ele falou o caminho “Erisenia, você pode chegar lá e
marcar, como você está grávida, você pode ir lá e marcar o lugar que você quiser e faz a sua casa.” Aí eu
marquei o terreno lá em cima (aponta para cima de sua casa), mas tinha uma moça que falou que não queria
que eu fizesse a casa perto da casa dela, por que eu era uma mulher separada. O pedreiro começou a cavar
o alicerce e ela foi lá enterrou todo o alicerce e plantou umas plantinhas no lugar do alicerce. Eu voltei na
prefeitura e o Sr.Euclides falou “a senhora vai lá e faz a sua casa.” Mas para não comprar confusão com ela,
por que eu era sozinha, sem esposo e grávida. “Não vou criar problema, não vou me complicar”. Um dia o
primo do meu marido falou para mim, “Erisenia, tem esse lote de um senhor, constrói aí, e nem fala que

você me conhece, constrói aí” Esse moço trabalhava na Bola Branca∗ e tinha outra casa. Ele queria pegar
esse terreno aqui não sei para quê, talvez até para mais tarde vender, por que muita gente pegou e vendeu na
época.
Condição de mo radia, precisou de uma casa na favela por condição econômica desfavorável para pagar
aluguel.
C.K – Isso aconteceu em que ano?
E.C - Era oitenta e dois. Então o que aconteceu? Aconteceu que eu comecei a fazer a casa, ele(o dono do
terreno) veio aqui e ficou muito bravo, mas quando me viu, viu que eu estava grávida, falou assim, “então
tudo bem, você me dá um dinheirinho, por que eu peguei o terreno que todo mundo queria ficar.” só que
isso não podia fazer, mas como eu não queria confusão (...). Naquela época eu paguei cinco cruzeiros.
C.K - A senhora estudou?
E.C - Sim, eu terminei o colegial.
C.K - Qual a sua profissão?
E.C - Auxiliar de enfermagem.
C.K - A senhora mora aqui mais de vinte anos, né?
E.C - Eu moro aqui há vinte e cinco anos.
C.K - Quais os pontos positivos e negativos da região? O ponto forte e fraco daqui.
E.C - O ponto mais forte? O ponto forte de morar aqui, para começar, eu gosto do bairro que eu moro. Fica
perto da igreja que eu congrego. As pessoas me consideram, me respeitam, nunca tive atrito ou diferença.
Ninguém nunca invadiu minha casa, mexeu com minhas filhas, com meu marido, nada, graças a Deus.
Então o ponto forte para eu vir morar aqui é por que eu não posso pagar aluguel em outro lugar, foi o
motivo que eu vim fazer a casa aqui, nesse lugar de periferia. Agora o ponto negativo (...). É que eu moro
em uma casa que é entrada de um beco, não tem uma garagem, se eu comprar um carro amanhã, tenho que
alugar uma garagem. E a outra coisa, tem em todo lugar, as pessoas se incomodam muito com a vida dos
outros, algumas pessoas.
C.K – Com relação à estrutura do bairro, a água, asfalto, esgoto, essas coisas a senhora está
satisfeita?
E.C - Eu estou satisfeita sim. Tem um córrego aqui que a prefeitura fez, e dizem que esse córrego tem que
ficar aberto. Para mim ele deveria ficar fechado, mas provavelmente creio que estão trabalhando para fechar
esse córrego. Ali é arriscado. Não me incomoda tanto assim, só quando chega o final de ano quando fica
muito quente e muito seco, as crianças jogam muitas coisas dentro do córrego, não só joga, mas deixam cair
coisas, e fica aquele cheiro forte e o cheiro vem aqui. Me incomoda um pouquinho. Mas imagine as
crianças que moram próximas do córrego? Eu também acho que deve fechar por que é arriscado, nunca
caiu, Deus é Pai! Mas poderia ter caído uma criança ali naquele córrego.
C.K - A senhora já foi membro de outra religião ou denominação?
E.C - Quando eu nasci eu era beata de igreja católica, beata. Eu lavava a igreja, tive essa mania. Eu lavava a
igreja para as missas, nas quermesses eu ajudava. Desde pequenininha eu fazia isso. Mas eu tenho uma tia
que ainda é viva, da igreja batista, e no final de ano nas férias, ela levava a gente para casa dela que era mais
afastada, eu não me lembro muito bem, mas acho que minha tia era a zeladora da igreja, porque ela morava
nos fundos da igreja, ela que abria a igreja. Hoje quem abre a igreja, normalmente, é o zelador. As filhas
dela cantavam corinhos e a gente cantava. Quando a gente ia para lá a gente freqüentava a escola bíblica
dominical. Muitos corinhos que eu conheço hoje era daquela época, que a gente aprendia. Eu passei a gostar
dos hinos, do que o pastor falava e aquela coisa toda. E com catorze anos eu aceitei a Jesus como meu
salvador e me batizei.
C.K - Como a senhora conheceu a Maranata?
E.C - Depois de sair (...) isso foi em Salvador, eu aceitei a Jesus com catorze anos e com dezessete anos me
batizei e de lá eu fiquei noiva e vim para o Rio de Janeiro trabalhar. De lá eu casei e vim para São Paulo. O
meu primeiro esposo não gostava de crente, ele até sumiu com minha Bíblia. Eu estava sozinha, longe de
todo mundo, mas tudo bem, eu desviei do caminho do Senhor. Eu desviei, mas não andava em bailes, nada
dessas coisas. Quando meu ex-noivo, o pai do Marcio, voltou para São Paulo, nós reatamos. Foi meu
primeiro noivo, mas eu casei com o pai da Renata. Eu conheci o pai da Renata, depois fiquei sozinha com a
Renata, o pai do Marcio veio, nós reatamos e aí o que aconteceu?Eu vi que estava me perdendo aqui, eu e
minha filha, e vi que eu estava passando por um aperto muito grande na minha vida. Eu estava passando por
coisas que eu achava que era uma luta tremenda na minha vida. Nada estava dando certo, o casamento
estava dando certo, mas meu marido ganhava pouco, aquela luta. Essa casa para construir, as crianças
pequenas, eu trabalhando que nem uma condenada, aquelas coisas todas. Estava sentindo falta de alguma
coisa, eu via faltava alguma coisa para me dar uma luz, para eu melhorar, para eu ter uma coisa diferente

Mais conhecida como Bola Branca, a empresa de ônibus, Viação Cidade Dutra, foi fundada na década de
1960, na região do Grajaú, zona Sul de São Paulo.

em mim. Sempre pensava em Deus, nunca esqueci dele. Uma coisa que eu sempre lembro, aqui era meu
quarto (apontou para a sala, onde estávamos) quando eu estava sozinha com a Renata, chorei muito a Deus,
ajoelhada na minha cama e pedia a Deus assim “Senhor, eu não quero acabar minha vida sozinha. Estava
com o pai da Renata. Eu não quero terminar sozinha, que o senhor possa arrumar para mim um marido
direito que seja fiel a mim, e que eu seja fiel a ele também, mas que ele goste mais de mim do que eu dele.”
E Deus mandou meu ex-noivo para mim e isso aconteceu. Mas mesmo, ele tendo um grande amor por mim,
mas eu sentia que estava faltando alguma coisa. Aí eu comecei a pensar muito em Deus, porque Deus não
deixa o servo dele de fora, o servo dele pode desviar, ainda mais porque ele sabe que eu não desviei porque
eu quis, quando estava no Rio eu ia para igreja, mas quando cheguei aqui não conhecia ninguém. Como eu
ia para igreja sozinha? Casada recentemente, recém casada com um marido, ia para rua para quê? Ia dar
confusão. Eu nem sabia onde tinha igreja. Mas o que aconteceu? Comecei a ficar incomodada. Falando com
Deus, um negocio começou a me incomodar, incomodar, e eu cheguei e falei assim: “eu preciso de Deus,
Deus está fazendo falta na minha vida, eu quero ir para igreja.” e eu lembro daquela época (...). O Lucio não
era contra que a gente fosse para igreja, ele era a favor de quem ia para igreja, aí, olha que coisa linda! Eu
não falei,“hoje eu vou para igreja”. Uma coisa começou a me despertar, a me despertar, minha filha do céu!
Eu tomei uma decisão durante a semana que eu iria à igreja no domingo. Vou à igreja. Cristina, minha filha!
O dia que eu falei que vou voltar para igreja, voltar para o senhor, eu comecei a chorar, chorava todos os
dias. De segunda-feira até o domingo, parecia que eram três anos, nunca chegava, de tanto que eu queria
que chegasse logo. Na sexta-feira, no sábado, mas eu queria que chegasse logo o domingo. Chegou o
domingo de manhã, mas tinha que ser no culto da noite, por que quando o pastor falar quem quer aceitar a
Jesus, quem quer se conciliar, eu vou. Fui para igreja, peguei os meninos e fui. Cheguei na igreja e comecei
a chorar o tempo todo, toda a mensagem eu chorava.
C.K - A senhora já conhecia a Maranata?
E.C - Não eu não conhecia, eu passei em frente da Maranata e vi que ali tinha uma igreja, mas eu nunca
olhava depois eu olho assim, era uma igreja batista. Depois que eu percebi que tinha uma igreja batista,
Deus começou a me despertar, a me despertar. Foi quando isso aconteceu. Foi quando o pastor Ananias
pregou, eu não lembro a pregação, e falou se tivesse alguém que quisesse aceitar a Jesus que fosse à frente.
Nem falou de reconciliação não hora, e eu falei, vai que ele não fala de reconciliação, eu vou é logo. Fui
chorando igual a um bebê, ele foi pregando e eu chorando, chorando, chorando, eu chorei a semana inteira.
Quando ele falou, eu fui lá na frente e falei que estava desviada do caminho do Senhor e queria voltar para
Jesus, e voltei para o Senhor.
C.K - Quanto tempo a senhora é membro da igreja Maranata?
E.C - (...) vinte anos.
C.K - A senhora gosta da igreja Maranata?
E.C - Sim eu gosto.
C.K - O que é a senhora acha que é positivo e negativo na igreja Maranata? Ou o que a senhora mais
gosta e menos gosta.
E.C - O mais positivo? O que eu mais gosto (...)? Gosto da pregação, que ela vem de encontro com as
nossas necessidades. Gosto do jeito que é organizado a escola dominical em departamentos. Gosto de tudo.
O menos positivo? Tinha que ser hoje? O mais negativo hoje? Eu posso falar (...) pelo que vejo hoje, no ano
que nós estamos, no mês em que nós estamos, hoje a igreja Maranata é assim, mas existe em todas as
igrejas, o joio e o trigo, existe muito amor na Maranata? Existe, mas eu creio que o amor da Maranata já foi
muito maior do que é hoje, eu vejo que existe falsidade. Hoje o ponto negativo que eu vejo é a falsidade. E
algumas falsidades, essas coisas eu não gosto, eu não me sinto bem. E hoje na Maranata tenho falado com
Deus para que ele me use lá dentro. Se for da vontade dele eu permanecerei lá, mas eu gostaria de sair da
igreja Maranata, não para ir para outra igreja batista. Hoje na Maranata com a convivência cristã na Palavra
e em comunhão com os irmãos entendi que não sou santa, tenho defeitos, mas meu espírito re ligioso é
outro. Diferente de algumas pessoas que estão congregando ali dentro. Em que termo? Eu amo dar uma
“Glória!”, eu amo dar uma “Aleluia!” eu sou batizada com o espírito santo, tem gente que pode achar que
eu não sou batizada. Eu falo em línguas e na igreja Maranata muitas pessoas não aceitam isso. Então,
quando chego lá me sinto muito oprimida, às vezes eu fico uma semana, vinte dias ou quinze dias sem ir lá,
e quando vou, depois do culto ou na hora do culto mesmo, eu vou falar com as pessoas e tem gente que fica
me olhando assim (...) não é que você julga, mas você tem o espírito santo e pelo olhar da pessoa você vê, o
olhar fala, não precisa abrir a boca para falar. Parece que tem gente que fala “nossa, quem é ela para falar
essas coisas, ela fica um mês sem vir à igreja e quer falar isso?” Às vezes tem gente que acha que eu estou
representando. Uma vez teve um culto no bairro ao ar livre, perto da casa da irmã Vera, um dos últimos
cultos, as pessoas aceitaram a Jesus, “Foi uma bênçãos!” Eu creio que foi o senhor que agiu. Veio um
cantor de fora, teve um pregador e tudo. Mas aí começamos a cantar um hino, um hino que eu cantava e
parecia que estava voando, flutuando, e chegou uma hora que eu não estava mais em mim, e comecei a falar
coisas que não eram de mim falar. Duas irmãs da igreja, não vou falar os nomes, falaram que eu estava

representado, e a Renata, minha filha ouviu e me contou. Isso me abateu muito, me deixou muito triste e
chateada. Só que essas duas irmãs, Deus trabalhou de maneira diferente, e a amizade delas que era muito
próxima se distanciou, uma delas não está vindo mais a Maranata, esta fora dos caminhos do Senhor. E
outros fatos foram acontecendo (...). Quando eu chego na igreja, vou para adorar ao Senhor, para prestar um
culto ao Senhor, louvar o Senhor, e quando chego lá eu começo a me purificar, a buscar e orar, deixar o
espírito santo agir em mim, e as lágrimas começam a descer eu não espero, as lagrimas dessem assim, sabe?
Tem gente que chega e fala assim “está sentindo alguma coisa? Está passando por alguma provação?” Isso
me deixa muito chateada, é o ponto negativo da igreja Maranata. É um ponto negativo, mas acho que não
deveria estar dentro da Maranata, acho que por isso tudo, eu que não deveria estar ali dentro, eu deveria
estar em outro lugar.
C.K – Existe uma relação de amizade e irmandade entre os membros da Maranata?
E.C - Eu creio que existe, não com todo mundo, estou falando por mim, e não de outras pessoas, eu creio
que existe. Tem irmãs que eu sinto que elas me amam e sinto uma amizade de muitos e muitos anos e nada
separa a gente. E jamais se alguém chegar, isso nunca aconteceu e não vai acontecer em nome de Jesus! Se
alguém disser alguma coisa que não é verdade para algumas dessas minhas amigas, elas não vão acreditar,
porque elas me conhecem e sabem quem eu sou e eu a mesma coisa. Se alguém disser alguma coisa delas
para mim, da mesma forma, não vou acreditar. É muito profundo o amor que eu tenho por elas e elas por
mim e não tem nada, nem barreira que acabe com nossa confiança e amizade. Amizade construída com
bom alicerce.
C.K – A senhora acha que existe algum tipo de diferença entre um membro negro e um branco na
Maranata?
E.C – (Risos) Bem, geralmente (risos) Negro e branco dentro da igreja? Acho que não por um lado, em
matéria de pastor. Eu creio que tem sempre o joio e o trigo. Existe o joio de várias maneiras diferentes,
existe o joio que tem aquela parte de não aceitar determinadas pessoas, não só pela cor, mas pela pessoa ser
financeiramente fraca, morar em lugares fracos, ser mais simples, do jeitinho dela. Existe. Essas pessoas são
cegas por que não vêem que Cristo age nos menores vasos, os que moram na periferia, os que são negros, os
que são simples e os que são financeiramente fracos, os que não estão todo dia com a roupa nova.
Acreditar na diferença social e não racial
C.K - Nos cultos, na escola dominical e em estudos bíblicos a questão racial é falada, é um assunto
trabalhado na igreja?
E.C - Olha, faz muito tempo que eu não estou indo a escola bíblica por que estou trabalhando muito,
fazendo muita hora extra, tenho ido às vezes, pouco. Quando eu ia, eles trabalhavam sim, mas você sabe
minha irmã, mesmo o pastor pregando, mesmo na escola bíblica dominical falando, sempre tem gente que,
até em outras áreas na vida dele, não deixa Deus agir, não deixa Deus trabalhar. Para a gente querer aceitar
até um irmão que pisou no nosso pé, que nos deixou muito chateada e brava não é fácil. Somos seres
humanos, não somos santos, não somos perfeitos, somos filhos de Deus, mas somos seres humanos, não
somos santos. Temos que orar e permitir que Deus aja em nosso coração para tirar aquilo que existe. Se nós
não deixarmos Deus agir na gente, nada é feito. Ele pode bater e bater na porta do nosso coração, mas ele
não entra, ele espera que a gente abra.
C.K - A senhora já ouviu falar sobre as cotas em universidades para negros?
E.C - Já ouvi falar depois do Lula, antes do Lula eu nunca ouvi falar dessas coisas.
C.K - A senhora sabe qual a posição da igreja batista em relação as cotas?
E.C - Como eu te falei, esses assuntos são tratados na escola dominical, o culto da noite é um culto
diferente. Como eu tenho ido pouco a escola dominical, depois do governo do Lula eu não sei se na escola
bíblica já falou, as vezes que eu fui à escola bíblica, eu nunca escutei sobre isso.
C.K - A senhora é contra ou a favor?
E.C - Eu sou a favor, não só para os negros, mas para todas as pessoas que tem desejo de estudar. Deveria
ter faculdade grátis para todos os que tem desejo de estudar. Acho que as pessoas que tem um pai com
condição financeira boa, por que tem gente que nasceu em berço de ouro, bem rico mesmo, e não precisa
realmente de uma faculdade grátis, eles estudam em colégio particular desde pequeno, o pai que não tem
condições não ia colocar. Tem pai que coloca o filho em escola particular em determinado tempo, depois
não dá mais. Eu coloquei a Renata em uma escolinha particular, na pré-escola, porque não tinha uma escola
publica por aqui, mas mudou muita coisa depois que a Renata nas ceu. Coloquei a Elizangela também na
pré-escola, mas eu não tive condições de deixar minhas filhas até grande numa escola particular. Por que
eu coloquei na pré-escola? Não era por que eu tinha condições, é por que eu não queria que minhas filhas
ficassem em casa sem aprender nada. Queria que em vez de ficar aprendendo besteira na televisão elas
colocassem a mente numa coisa melhor. Acho que o governo deveria dar para aquele pai que nunca teve
condições (...) Tem muita gente querendo estudar, mas não tem condições, tem muita gente. Mas aí eles
falam “se abrir, e aqueles que não terminaram o colegial?” problema daqueles que não acabaram o colegial,
tem outros que querem. Se tivesse uma faculdade pública que não exigisse tanta coisa para entrar, como a

USP faz, minha filha já estava formada. Eu não precisava estar fazendo hora extra como estou fazendo,
trabalhando direto com a deficiência que eu tenho para pagar a faculdade da Renata e da Elizangela.
C.K - A senhora acha que a igreja deveria trabalhar sobre a temática do preconceito racial, ou já faz
o suficiente?
E.C - Deveria fazer esse papel, e deveria também pregar sobre a pessoa fraca em condições financeira. A
esposa do pastor agora, a irmã Marta, faz um trabalho muito bonito com as crianças aqui do bairro, mas
como eu te falei, existe gente que não deixa Deus agir, tem gente que quando uma criança vai passar, eles
fazem assim (vira o rosto) parece que a criança tem lepra.
C.K - Mas porque a criança é pobre ou porque é negra?
E.C - Não, por que (...) que cor você é?
C.K - Eu me considero parda, sou descendente de negros.
E.C - Você é parda. Tem menina da sua cor que eu acho que é branca. Eu aprendi assim, hoje em dia
mudou muita coisa, hoje em dia todo mundo fala que tudo é negro, mas não sei porquê, antes não falava.
Antigamente, quando eu era pequena, na minha carteira (identidade) falavam “sua cor é parda”. Sempre
achei que eu era amarela, depois fiquei sabendo que o amarelo é o japonês. Se minha cor é parda, eu sempre
achei que quem era da sua cor, do cabelinho assim que nem o seu, era morena clara. Tem umas meninas
morenas claras ou até brancas, mas judiada, os pais não tem condição de dar um sapato, uma roupinha. Tem
mãe que é danada, não cuida dos cabelos, aqueles cabelos de fogo queimado, não penteia. Até outro dia
uma menina veio aqui para eu pentear o cabelo dela e fazer trancinha.
C.K - Qual a vantagem de ser negro no Brasil?
E.C - Eu não sei a vantagem de ser negro no Brasil, mas vou dizer uma coisa, eu amo a minha cor, sou feliz
com ela, não trocaria a minha cor com a de ninguém. Amo a minha filha que é mais negra do que eu, se
não, eu não tinha casado com um negrão. Amo a Elizangela, amo o Márcio. O Márcio é branco, né? Amo os
três filhos que eu tenho, sem distinção sem diferença, torço pelos três, e vou dizer uma coisa, eu só queria
uma coisa na minha vida se tivesse que mudar alguma coisa, mas sou feliz, só queria uma vista esquerda.
(pensando)
C.K - Então a senhora é feliz sendo negra?
E.C - Sou feliz, sou feliz com tudo que eu sou e tenho, acho que não deveria ter nem tudo que tenho. Tenho
um marido maravilhoso e filhos maravilhosos que me amam. Meu marido me ama, não tem gente boa sem
defeito, ele toma os “mé” dele, e as vezes fica um pouquinho chato. Mas ele me ama demais, leva café na
cama, da comida na minha boca, sou feliz. Tenho um emprego que nem sei se pedi a Deus, ele me deu
assim, passei no concurso público. Filha, eu sou feliz demais, não posso reclamar da minha vida não.
C.K - Como é ser negro no Brasil?
E.C - Ser negro no Brasil, como em outros países, é que os negros não aceitam os próprios negros, isso que
acho. O negro não aceita o próprio negro. Os próprios negros tem preconceito. E as pessoas brancas
também tem preconceito contra os negros, não é todo mundo. No mundo, todo mu ndo não é igual. Nós
temos cinco dedos na mão e cada dedo é diferente, um é magro outro mais grosso. No Brasil e no mundo é
assim também. Existem os brancos que são preconceituosos e os brancos que não são. Tem branco que
adota até negro, negrão. Existem negros preconceituosos e negros que não são.
C.K - Mas é difícil ser negro no Brasil?
E.C - É difícil por que existe o racismo, as pessoas falam que não, mas ainda existe o preconceito de negro.
Isso precisava acabar, já melhorou bastante, já melhorou muito, mas ainda existe. Quando o Lula falou que
iria ter uma cota para negros, para as pessoas terem direito a faculdade, assim para as pessoas negras e para
as pessoas pobres, por que existem as pessoas pobrezinhas que não tem condições financeiras e é branca.
Tem lugar que você chega e a família é toda branca, tem cada menina do olho bonito, tudo branquinha, mas
são tudo pobrezinhas, porque os pais não têm condições. Muita gente falou, até a televisão falou que não
aceitava, que não sei o quê, mas isso é um preconceito muito grande.
C.K - A senhora já sofreu algum tipo de preconceito?
E.C – Deixa eu lembrar (...) Por ser negra? (...) Eu acho que eu nunca sofri preconceito não.
C.K - Nem na igreja nem na sociedade?
E.C - Eu acho que não, nunca.
C.K - Essas são as perguntas que eu preparei, mas a senhora gostaria falar mais alguma coisa?
E.C - Eu queria falar sobre a minha filha. Acho que a minha filha já sofreu preconceito, ela é mais escura
do que eu, ela sofre preconceito desde pequenininha, desde o colégio, o pessoal falava que eu era a Xuxa e
o pai dela era o Pelé, ela vinha para a casa chorando. Mas as pessoas não olhavam que ela por dentro era
diferente, eu sempre falava, “filha, você pode ser negra por fora, mas por dentro você é linda, tem um
coração bonito!” Muita coisa que juntou e deixou a Renata um pouco como ela é hoje, foi por muita coisa
que a Renata Passou. A Renata dos meus três filhos, foi a que mais sofreu.
C.K - Até na igreja?
(a entrevistada se emociona bastante e eu desliguei o gravador)

E.C – Precisei de muita sabedoria para educar minha filha e mostrar para ela tudo diferente. Hoje muita
gente não a aceita, por isso que ela tem psicose disso, psicose daquilo, mas quem acompanhou desde a
barriga foi eu, a pessoa mais próxima dela, tirando Deus, a pessoa que mais a ama sou eu.
C.K - Esses que não aceitam sua filha também são da igreja?
E.C - Dentro da igreja teve algumas pessoas sim, mas não foi sério, Acho que é por que não gostam mesmo,
não posso dizer que é por causa da cor, não. Acho que não vai com a cara, é isso. O Preconceito pela cor,
em outros lugares sim, ela já levou. O que mais me chateia, eu sou negra, mas mais clara que ela, quando eu
chego num lugar que ela esta freqüentando, um lugar que a pessoa nunca me viu, mas ouviu falar de mim,
me deixe dar alguns exemplos, por que ela não é de freqüentar outros lugares, graças a Deus por isso. Ela
falava de mim no serviço para as amigas dela, quando e eu fui no serviço dela, “gente eu não sou tão clara
assim!”, as pessoas perguntavam “essa é a sua mãe?” Outro dia, foi no hospital, ela estava passando muito
mal e eu a levei no hospital onde trabalho. Levei numa doutora muito minha amiga, talvez ela não falou isso
por querer, mas a gente se sente mal com isso, é uma coisa que vem dentro de mim. Eu me sinto mal por
ela, não por causa de mim, como minha filha, ela podia ser toda preta, até os dentes, a sola do pé dela não é
branca, é meio roxinha, mas podia ser preta também, mas é minha filha, foi eu que gerei com muito amor,
gosto dela, tenho a maior paixão. Mas tudo bem, a doutora veio me perguntar se ela era realmente minha
filha, e para piorar, a Renata não tem meu sobrenome, o pai dela colocou só o nome dele, por que ele é
daquela família que quer que o nome da família vá pela eternidade, tradição, então a mulher casa e tira o
nome. Acho que ele pensava que quando a Renata casasse ela ia tirar o dele e deixar o meu, pelas
conseqüências da vida, entendeu? Por que eu fiquei sem ele, essas coisas todas, geralmente a filha mulher
fica do lado da mãe. Por isso ele colocou somente o nome dele, muita gente pensa até que ela não é minha
filha, isso me machuca muito. A doutora disse “essa é sua filha mesmo? mas é verdade? é sua filha de
verdade?” Agora a Renata está mais clara, um dia vou te mostrar uma foto dela quando bebê, ela era negra,
negra, negra, com o tempo ela clareou. O preto quando é escuro assim, geralmente, quando vai crescendo,
clareia mais. Ela clareou. Ser mãe não é fácil. Quando eu era pequena, nos dias das mães tinha uma poesia
que eu nunca esqueço, que minha colega falou, “ser mãe é desvendar fibra por fibra, ser mãe é sofrer”e
algumas coisas mais. E é verdade, a mãe sofre desde quando gera o filho, desde quando o filho cresce, o
filho pode casar e a mãe sofre. O filho nunca deixa de ser filho para mãe, mesmo quando ele morre, meu
filho morreu, meu filho João, morreu minha filha Maria, sempre penso neles. A mãe sofre muito, a boa
mãe, por que existem umas mães aí(...)
9. Nome: Ademilton Cardoso dos Santos Idade: 52 anos
Data da entrevista: 28/09/2007
Local da entrevista: casa do depoente Cor: Pardo
C.K – O IBGE classifica as pessoas como branca, preta, parda, amarela e indígena, como o senhor se
classifica?
A.S – Pelo que você vê é mais pardo, né?
C.K – O senhor acha que é pardo?
A.S - Não sei. Uma vez fui fazer um exame e a doutora me colocou como branco, eu não sou branco. Meu
pai veio de uma raça negra misturada com índio, e minha mãe veio de uma raça árabe, mais moreno. Posso
ser pardo né, o que você acha?
C.K – Eu gostaria de saber como o senhor se sente. O senhor não se sente branco?
A.S – Branco, branco não, sou mais misturado, mais para pardo.
C.K – Não preto?
A.S – Preto não, mais pardo mesmo. Se fosse não teria problema, mas eu não sou completamente preto, sou
uma mistura.
C.K - Onde o senhor nasceu?
A. S – Nasci na Bahia.
C.K - O senhor veio para São Paulo, quando?
A.S - Em 1995.
C.K - Por que o senhor veio para São Paulo?
A.S – Por que a situação lá ficou um pouco ruim, e tive que vim para cá. Não tinha muita intenção não,
depois dos quarenta, né?
C.K – Depois dos quarenta anos o senhor veio para São Paulo?
A.S – Eu tinha completado quarenta anos quando eu vim para cá.
C.K – O senhor criou sua família na Bahia, em que cidade?
A.S – A cidade chama Aurelino Leal, próximo a Itabuna.
C.K – Aí o senhor veio para São Paulo, para trabalhar?
A.S – É, eu vim porque eu tinha uma profissão, vim para executar ela, se eu não tivesse, não sei se eu viria,
uma pessoa depois dos quarenta anos para arrumar um emprego é meio difícil.

C.K – Qual a sua profissão?
A.S – Sou pedreiro.
C.K – Quando o senhor chegou em São Paulo veio morar direto nessa região, ou morou em outro
lugar?
A.S – Morei próximo a Vila Joaniza, próximo ao shopping Interlagos. Morei lá quase dois anos, aí surgiu
esse terreno. Minha cunhada que conhecia algumas pessoas aqui, informou a gente, e compramos aqui.
C.K – Era um lote de preço bom, melhor do que na Vila Joaniza?
A.S – Era. Lá já era construído, aqui era construído na redondeza, mas o lote não tinha casa. Na época saiu
R$ 6.000 reais à vista, se fosse comprar à prazo sairia por R$13.000 reais.
C.K – Hoje a região é mais valorizada?
A.S – É por causa da urbanização, pelo asfalto, água, esgoto, luz, tudo isso fez valorizar mais ainda. Mesmo
sem essas coisas já estava aumentando o preço.
C.K – O senhor já mora aqui há dez anos, o que o senhor pode dizer de positivo da região?
A.S – De positivo é que desde que eu estou aqui nesse local nunca teve nenhum crime ou uma briga que
causasse algum crime. É bem difícil você morar em São Paulo e não acontecer isso, nessa área aqui nunca
aconteceu isso, lá para baixo do outro lado, mas aqui não.
C.K – E de negativo nessa região?
A.S - De negativo são os bares, os motoqueiros, já melhorou, mas de negativo é isso.
C.K – O que é ruim nos bares?
A.S – O barulho de madrugada, o sono da gente vai embora, né?
C.K – Na questão de infra-estrutura urbana da região, o que precisa melhorar?
A.S – Melhorar sempre tem que melhorar, mas eu não tenho o que queixar. O transporte é bom, na avenida
tem ônibus para todos os lugares que agente queira ir.
C.K – O senhor usa com freqüência o transporte coletivo?
A.S – Não. Vou para o trabalho de carro, por isso eu não reclamo muito, mas quando preciso do ônibus eu
reclamo pela lotação no horário de pico e pela demora, mas isso é normal aqui em São Paulo. O que poderia
melhorar era o metrô nessa região, está chegando por aí, uma estação no bairro Grajaú e outra até o
Varginha, vai ajudar muito. melhorou bastante aqui desde que eu cheguei aqui.
C.K – Qual a sua escolaridade?
A.S – Eu conclui só o ensino médio.
C.K – Quando o senhor veio para São Paulo, já pertencia a igreja batista?
A.S – Toda vida eu sou batista. Me converti na igreja batista e permaneço até hoje.
C.K – Antes de ser batista o senhor não pertencia a nenhuma igreja?
A.S – Eu não era nada, se dizia católico, mas eu não afirmava nada.
A questão da identidade batista forte, antes não era nada.
C.K – Quando o senhor veio para São Paulo, já era batista?
A.S – Já tinha dezoito anos de batista.
C.K – Como o senhor conheceu a Maranata?
A.S - Veja bem, quando eu morava na Vila Joaniza eu pertencia a uma igreja batista de lá, mas quando vim
morar aqui nessa região, através da minha cunhada que já morava aqui de aluguel, e conheceu a Maranata
convidou a gente. Eu visitei algumas vezes a Maranata, mas como membro na Vila Joaniza, sem a intenção
de sair de lá. Mas como a Maranata era mais perto da casa da gente, e a gente tem que ficar onde é mais
perto da casa da gente, estou aí até hoje.
C.K – O senhor gosta da Maranata?
A.S – Gosto, apesar que sou aquele crente tradicional, não gosto de muito barulho, as vezes muda algumas
coisinhas e a gente vai suportando, né? (risos).
C.K - O que o senhor pode apontar de positivo na Maranata?
A.S – De positivo, sempre o ensinamento da bíblia. A escola bíblica dominical, a comunhão com o pessoal,
as pessoas são muito chegado a essa parte de comunhão, de acolher as outras pessoas, não posso dizer que
seja noventa por cento ou cem por cento, porque sempre tem aquelas pessoas mais achegada que você
conversa mais, que tem mais intimidade. Mas (...) não tenho o que dizer não.
C.K – O que não é muito positivo, ou que poderia melhorar na Maranata?
A.S – Perfeita ela não vai chegar nunca, poderia melhorar mais na área da evangelização, porque a função
principal da igreja hoje é a evangelização, e ela não tem um programa legal de evangelização, não vou dizer
que tem, ela não tem. Precisa ter um programa de evangelização e colocar em prática. Apesar de que temos
contribuído para missões estaduais e nacionais e outras missões, mas ela não tem assim um projeto de
evangelismo concreto, ela tem que melhorar nessa área. Está fazendo, mas precisa melhorar.
C.K – O que mudou na sua vida depois que o senhor se converteu?
A.S – Mudou minha timidez, eu era noventa por cento tímido. Hoje eu já me liberei dessa timidez uns
noventa por cento.

C.K – O senhor se converteu com quantos anos?
A.S – Com vinte e dois anos.
C.K – Coisas materiais mudaram na sua vida depois da conversão?
A.S – Sim, apesar que eu nunca fui aquela pessoa de esbanjar de gastar em vão aquilo que ganhei, mas
melhorou bastante, porque tudo que a gente ganha, procura aplicar no bem-estar, em casa, carro, nessas
coisas, então eu não tenho que reclamar hoje dessas coisas.
C.K – Antes de se converter o senhor não tinha essa visão?
A.S – Eu tinha, não completa com um pensamento positivo como tenho depois da conversão, agora tenho
um pensamento mais positivo sobre as coisas. Mas sempre eu tinha um pensamento positivo, apesar de eu
ter morado numa região que não dava essa condição da gente progredir em algumas coisas, mas eu sempre
pensei nesse ponto positivo.
C.K – Entre os membros da Maranata existe um sentimento de irmandade e amizade?
A.S – Não sei se existe, noventa por cento ou noventa e nove por cento, mas existe. Há aquelas
divergências, mesmo na igreja, mas eu creio que há. Apesar de que todo mundo vive no seu cotidiano e só
se reúne no domingo, então não tem muito que estar provocando problemas. Mas existe, mesmo cristão,
mesmo na igreja há divergências, né.
C.K – O senhor acha que existe alguma diferença de tratamento entre as pessoas pretas e pardas e as
brancas?
A.S – Na igreja? Não eu nunca percebi isso não.
C.K – Todo mundo é tratado por igual na Maranata?
A.S – Só no aspecto intelectual de formação que eu acho que não é tratado igual.
C.K – Como assim?
A.S – Se eu tenho uma formação elevada, eu tenho uma posição melhor, mas se eu não tenho estudos eu
não tenho posição.
C.K – O senhor acha que coincide de quem tem formação elevada ser branco e quem não tem ser
pardo e preto?
A.S – É, coincide porque (...) hoje mudou muito essa questão da discriminação, mas a maioria das pessoas
que tem formação universitária é branca.
C.K – Isso na Maranata?
A.S – Na Maranata também. Apesar da igreja batista ser considerada uma igreja com mais conhecimento e
formação. Pessoas com no mínimo ensino médio, uma coisa assim. Pessoas mais conhecedoras.
C.K - Mas mesmo assim existe essa diferença?
A.S – Sim, existe essa diferença.
C.K – O senhor já ouviu falar sobre política afirmativas para negros em universidade e empresas
privadas?
A.S – Sim, eu já ouvi falar e acho um absurdo, mas existe.
C.K – Porque o senhor acha um absurdo?
A.S – Por que trata as pessoas com desigualdade, por que se tem uma cota para um e não tem para outro, já
começa a tratar com desigualdade.
C.K – O senhor disse que normalmente são as pessoas brancas que freqüentam universidade, isso
porque ainda hoje os negros encontram dificuldade para entrarem em uma universidade.
A.S – É
C.K – Será que por meio das cotas não ajudaria esses negros a entrarem nas universidades?
A.S – Ajuda sim, por que antes não tinha essa política. Ajuda bastante, mas mesmo assim, não poderia
existir isso, as pessoas, independente da cor, deveriam ter o mesmo direito que o outro tem. Apesar de que
já estamos chegando a isso hoje, né? Se considerar as pessoas pela qualidade e não pela cor, mas mesmo
assim ainda existe o preconceito.
C.K – Mesmo assim o senhor acha que essa política de cotas não deveria existir?
A.S – Não, deveria ser uma coisa justa, o que existe para o branco, existisse para o negro também.
C.K – A universidade é para negros e brancos.
A.S – Sim, mas existe a cota só para negro. Ajuda, se fosse só pelas escolas, universidade, os negros ainda
estariam de fora das escolas, porque os brancos estariam em primeiro lugar, mas as cotas seriam boas nesse
sentido para ajudar, mas deveria ser permanente. E que acabe essa coisa de cota, se o negro tem condição de
entrar na universidade ele entra. Então a cota foi mais para pessoas que não tinha condições de entrar na
universidade né? Então valeu a pena né? A igualdade deve ser para todos.
C.K - O senhor acha que a Maranata tem alguma posição em relação a esse assunto?
A.S – Não sei, acho que não. Nunca foi discutido.
C.K – O senhor já ouviu falar na igreja, na EBD, união de treinamento ou pregação do pastor, sobre
o tema do racismo e do preconceito racial?

A.S – Não me lembro se falou. Se falaram não foi discriminando, mas no sentido de falar como as pessoas
discriminavam os negros. Se foi como um estudo normal, não discriminando as pessoas.
C.K – O senhor acha positivo falar sobre esse assunto?
A.S – Sim, acho bom falar sobre isso de uma forma positiva e não discriminando, uma crítica construtiva.
C.K – Como seria a crítica construtiva?
A.S – Em ajuda, procurar ajudar, principalmente o governo municipal ou estadual apoiando, né.
C.K – A igreja apoiando o governo?
A.S – Sim, a igreja apoiando.
C.K – O senhor acha que a igreja deveria falar mais sobre esse assunto?
A.S – Como na igreja não tem essa desigualdade, eu acho que não é tão necessário, porque pode
constranger alguém.
C.K – Como assim?
A.S – Pode ter algumas pessoas negras que não entendam bem o assunto e pensam que é discriminação,
mas pode também.
C.K – Mas se a igreja for falar sobre esse tema ela vai falar contra o preconceito...
A.S – Contra o racismo, porque ela não pode ter preconceito.
C.K – Claro, mas assim ninguém vai se sentir constrangido nem um negro.
A.S – É não vai, mas tem pessoas que entende a coisa por outro lado, tem que ser uma coisa bem explicado
bem legível se não pode trazer constrangimento.
C.K – Esse assunto é muito delicado?
A.S – Acho que sim.
C.K - Porquê?
A.S – Sim, porque pode haver algum mal entendido, é nesse sentido que falo. Em outro aspecto não acho
muito seria assim não.
C.K – O senhor acha que o negro no Brasil enfrenta problemas pela cor que tem?
A.S – Sim, tem muitos problemas, ainda existe o racismo, mesmo por dentro, sem ser uma coisa
esclarecida, porque já se caracteriza em crime, mas existe. O negro sofre. Por incrível que pareça existe.
C.K – E até dentro da igreja ele pode sofrer o racismo?
A.S – (pausa) Acho que pode, não deveria, é difícil acontecer, mas(...) pode acontecer. Alguém se julgar
superior, não esta isento disso não.
C.K – Nesses casos quando um membro sofre o preconceito seria bom esclarecer mais sobre esse
assunto?
A.S – Acho que já está bem esclarecido, só aquelas pessoas que vivem fora do contexto da cidade, vivem
isoladas, mas está bem esclarecido hoje sobre o racismo. Por dentro ainda existe o racismo.
Quem não tem esclarecimento tem preconceito.
C.K – Um estudo sobre esse assunto não ajudaria?
A.S – Uma pessoa com esse sentimento não sei se mudaria mesmo com um estudo, por que no caso ela já é
esclarecida. Mas ajuda...
10. Nome: Sérgio Lopes Vieira
Data da entrevista: 17/09/2007

Idade: 25 anos
Local da entrevista: casa do depoente Cor: Preto

C.K - Onde você nasceu?
S.V- Nasci aqui em São Paulo, nessa região mesmo.
C.K – Seus pais estudar am?
S.V – Meu pai estudou até a oitava série e minha mãe até a segunda série, ela era semi analfabeta, ela sabia
escrever o nome dela, mas não conseguia escrever certas palavras, mas ela sabia ler o básico.
C.K – E você, qual a sua formação?
S.V – Tenho o segundo grau completo e agora estou cursando o primeiro ano de gestão em recursos
humano.
C.K – Qual o ponto positivo dessa região?
S.V – Ponto positivo é a arborização que temos nessa região, temos bastante árvores. O ar dessa região é
um pouco mais puro do que a região do centro, na Lapa, na zona leste, tem muito mais casas e prédios e não
tem tanta árvore como aqui.
C.K – E o negativo?
S.V – Negativo é o meio de transporte, a falta de metrô. O metrô mais perto é o Jabaquara e fica uma hora e
meia de distância, seria isso mesmo, o transporte.
C.K – E em relação a estrutura urbana (água, luz, asfalto, esgoto)?
S.V – É um ponto negativo, como aqui é uma região de mananciais o pessoal começa a invadir, esse
negócio de favela, esgoto, sempre vai ter, por que a prefeitura não autoriza e o povo vai e invade, fazem

esgoto clandestino, casas clandestinas e mal acabadas. É um ponto negativo para região, mas as pessoas não
têm onde morar, a prefeitura, o governo não oferecem habitação suficiente para as pessoas, então tem que
ser assim. Se o governo oferecesse mais casas e tirasse esse pessoal das áreas de mananciais, perto das
represas, acho que seria uma boa. Não é que eu apoio, mas acho melhor do que a pessoa ir morar embaixo
da ponte, construir um barraco perto da represa, vai fazer mal, mas pelo menos é um barraco que protege do
frio e da chuva, do que ir para baixo da ponte.
C.K – Qual a sua profissão?
S.V – Sou analista de sistema, mas agora estou sem trabalho, atualmente estou desempregado.
C.K – Você já foi de uma outra religião ou denominação?
S.V – Até meus oito anos eu me considerava católico, nunca fui batizado na igreja católica, mas eu me
considerava católico. Não sei se com oito anos você pode definir se você é católico ou não. Eu não tinha
muito discernimento do que era católico, evangélico, espiritismo, essas coisas que eu não conhecia muito.
Eu fui à igreja católica algumas vezes até meus oito anos, depois eu freqüentei só a evangélica.
C.K –Sempre a batista?
S.V – A partir dos meus oito anos eu freqüentei a igreja do Planalto Paulista, onde tinha um pouco da
influência dos batistas e um pouco do pentecostal, é uma igreja mais avivada e renovada . A partir dos meus
dezesseis anos fui para igreja batista onde estou até hoje.
C.K – Por que você mudou de igreja?
S.V – Na verdade foi falta de opção mesmo. Meu irmão também era dessa igreja, mas ficava longe, lá no
Planalto Paulista perto do aeroporto. Minha mãe veio a falecer e o meio de transporte era mais ônibus, e
começou a ficar cansativo ir de manhã e voltar, ir à noite e voltar, e custava a condução. Sem a minha mãe,
só tinha meu pai para me sustentar. Aí meu irmão veio para batista e me convidou para ir no culto de
aniversário, eu fui e gostei. Quando eu tinha dezessete anos eu pedi minha carta para igreja batista, mas
como eles não trocam carta, fui aceito por aclamação. Quase oito anos que estou na Maranata.
C.K – Você gosta da Maranata?
S.V – Sim. É uma igreja que eu aprendia a amar, na verdade. Eu não gostava da forma que a igreja era
regida na época pelo pastor Varela, muito cantor cristão, as músicas muito lentas, para mim que era jovem
naquele tempo, você quer alguma coisa mais animada, mais rock. Mas começou a mudar algumas coisas. A
equipe de louvor, e eu começamos a ver com outros olhos o cantor cristão e o hinário, as músicas são
bonitas e a gente pode mudar o ritmo, dar outra roupagem. Era mais isso que não me agradava na igreja
batista, mas hoje, não vou falar que sou batista, cem por cento, porque a gente não vai levar a placa da
igreja para nenhum lugar, não sou batista, assembleiano, sou de Jesus Cristo, mas eu amo essa igreja de
coração, aprendi a amar.
C.K – E quais os pontos positivos da Maranata?
S.V – O ponto positivo é a pregação da Palavra, a escola bíblica dominical que é uma coisa importante.
Muitas igrejas já aboliram isso, tiraram a EBD, algumas fazem a noite e outras nem fazem mais, na verdade
eu vejo de mais positivo é o estudo da palavra, que a gente não vê em muitas igrejas. O pregador sobe lá em
cima prega muito bem, mas a gente não tem um estudo para saber do que o pastor está falando, e a gente só
concorda. Pelo menos na igreja batista onde freqüento, a Maranata, tem o estudo da Palavra primeiramente
na parte da manhã, todo ensinamento que Jesus deixou para seus discípulos e assim por diante.
C.K – E as coisas negativas?
S.V – É o tradicionalismo. A gente se prende muito ao tradicionalismo, na forma que as pessoas se vestem,
a gente começa a julgar, às vezes tem uma pessoa na frente com uma roupa que não é muito adequada aos
nossos olhos, mas Deus vê o coração, e a gente não vê, só o exterior da pessoa. A religiosidade das pessoas,
Deus é santo, é maravilhoso, mas a gente não pode tratar Deus de uma forma mais simples, mas amigo, uma
coisa entre eu e Deus. Sempre Deus acima de todas as coisas, concordo. Deus acima de todas as coisas, mas
Deus é nosso pai e com meu pai físico na terra eu falava de uma forma mais carinhosa, por que com Deus
não posso falar de forma mais carinhosa, mais amiga, mais descontraída? Eu vejo isso de negativo.
C.K – Você quer dizer que não pode falar com Deus do seu jeito, é isso?
S.V – Eu até posso falar no meu íntimo, mas se eu elevar a Deus em oração na igreja e falar essas palavras
que eu estou acostumado a falar em casa, talvez as pessoas da igreja, por causa do tradicionalismo, vão falar
“mas o que ele está falando, o que está dizendo?” falam que a oração não subiu nem no teto da igreja,
como as pessoas dizem por aí.
C.K – O que mudou na sua vida depois da conhecer a Maranata?
S.V – De positivo foi a quebra de paradigma. Eu não gostava na verdade era na forma como a igreja batista
levava as coisas. Não conseguia aceitar na minha cabeça cantar aqueles hinos feitos em 1800 por Martinho
Lutero, a maioria dos hinos se não me engano. Hoje eu vejo que as letras são realmente bonitas e entregues
por Deus através do espírito santo na pessoa que fez a letra, só que com roupagem diferente. Uma mudança
que houve comigo foi mais o meu modo de agir com as pessoas, meu testemunho. Antes de eu vir para a
batista eu era muito do mundo, usava brinco, freqüentava uma igreja que era liberal na verdade, permitia

quase todas as coisas, usar tatuagem, brinco, não pircin, por que não tinha muito naquela época. Hoje eu
vejo que para Deus, “sede santo como eu sou santo” a bíblia diz isso, nosso corpo é templo do espírito
santo, e às vezes a gente tem que, não vestir uma roupa diferente, não uma roupagem diferente, mas nosso
pensamento, nosso modo de agir tem que ser um pouco diferente para que as pessoas vejam que você é
diferente. Se alguém tiver algum problema procurem em você ajuda. “Sérgio estou passando por isso, o que
você acha? Você que é uma pessoa mais centrada, não se envolve com as pessoas entre aspas do mundo,
não fica em barzinhos, não desfruta da carne.” Então vejo que mudou isso, não o estudo da Palavra porque
eu reconheço que não leio a Palavra diariamente como deveria e reconheço isso, mas reconheço também
que muita coisa mudou. Meu modo de agir com as pessoas. Muitas pessoas me procuram, não para
aconselhar, mas para conversar “estou passando por uma dificuldade” e eu tento ajudar. Tem alguns garotos
na minha rua que eu ajudo, inclusive eles me chamam de Oráculo, por que eu falo muito da Palavra de Deus
para eles, falo que se eles ficarem só na rua vadiando, sem estudar e sem fazer nada, isso não vai levar a
nada, que a vida vai cobrar deles e o que vão ter para oferecer? Então vejo que mudou isso, a consciência, a
bíblia diz sede luz e sede sal.
C.K – Alguma coisa material?
S.V – Material eu não vejo muita coisa, vejo que Deus tem me sustentado, desde a época que meus pais
faleceram que eu moro sozinho, nunca tem faltado nada na minha alimentação, na minha vestimenta, e a
mesma coisa no saneamento básico, água, luz, telefone e gás. Deus sempre tem me sustentado. Se falta
alguma coisa, Ele sempre provê de algum lado, alguma pessoa vem e me ajuda. Mas material eu nunca
busquei isso na verdade, nunca busquei isso “olha Deus eu quero um carro, quero uma casa!” Nunca fui de
fazer barganha com Deus, “olha eu te dou o meu louvor, minha vida, te dou cem por cento do meu dia e
você tem que fazer isso.” A gente tem que fazer isso porque Ele realmente é santo, não fazer barganha com
Deus. Eu nunca pedi nada de material, sei que ele tem me sustentado, tem me dado roupa vestimenta, tudo
pela mão dEle, mas nada assim “nossa o Senhor me deu um carro!” mesmo porque eu não tenho pedido
isso, peço mais sabedoria em relação ao meu futuro, para onde devo ir, onde devo investir, onde colocar o
dinheiro que tenho, para que tenha uma vida, não prospera, mas uma vida mais tranqüila, e realmente eu
possa fazer o que sou apto a fazer, é mais isso que tenho pedido, não coisa material.
C.K – Você acredita que entre os irmãos da Maranata existe uma relação de amizade e irmandade?
S.V – Já teve mais, já teve muito mais. Na época em que eu entrei na igreja com meus dezessete anos, no
aniversário da igreja, eu não me lembro muito bem dessa época, mas lembro que as pessoas vinham falar
com você, mesmo sem saber quem você era, te abraçavam falavam que Jesus te ama! Hoje eu vejo que a
igreja perdeu um pouco isso, não sei se é a forma da administração do pastor, pelo fato dele ser gaúcho, ser
um pouco mais frio que o outro que estava aqui. Não sei, não posso explicar, mas a igreja perdeu um pouco
esse primeiro amor.
C.K –Você acha que existe diferença entre um membro branco e um negro na Maranata?
S.V – Acho que não. Dentro da igreja eu não vejo isso. Pelo meu lado, eu sou uma pessoa influente na
igreja, tenho um cargo há muito tempo e as pessoas me respeitam por isso, pelo que eu faço. Mas pelo fato
de eu ser negro tenho que mostrar isso em dobro, porque se acontecer algo de errado as pessoas vão dizer
“Ah, aquele neguinho, aquele negro, fazendo um serviço de porco!” uma coisa assim.
C.K – Então, mesmo as pessoas dentro da igreja podem pensar assim?
S.V – Podem pensar assim. Isso já passou na minha cabeça, tenho que provar em dobro a minha
competência para assumir um cargo na igreja que me foi colocado. Olhando as pessoas que chegou hoje ou
está há uns cinco anos ou até mais e sem fazer nada, só ficam no banco sem fazer nada, sem dirigir estudos
na escola bíblica, sem ser evangelista, ser uma pessoa que organize o culto, ser uma pessoa que só fique no
banco talvez sim. Talvez as pessoas podem ter essa discriminação “Ah, é um negro” não sei se falam nesse
tom “um negro”, mas está ali e não faz nada, talvez possa distinguir isso pela cor da pessoa. Eu já pensei
nisso, mas prefiro não pensar que seja assim. Eu me decepcionaria muito com a igreja e com as pessoas que
ali estão.
C.K – Você já ouviu estudos sobre preconceito racial e racismo dentro da igreja?
S.V – Que eu me lembre não, já ouvi em pregações falarem que todos somos iguais perante Deus, para
Deus não existe branco, negro, cafuzo, essas coisas. Racial na verdade, negritude no Brasil, essas coisas
não.
C.K –Por que você acha que esse assunto não é falado na igreja?
S.V – Porque pelo que eu te falei, se perante Deus todos somos iguais, porque teria que pregar uma coisa
diferente, que existe uma raça afro, raças diferente, sendo que na bíblia não existe raça, somos todos iguais?
Eu não vejo diferença que há uma coisa diferente nisso do que a própria Palavra disse.
C.K – Eu falo de estudo sobre o racismo como uma forma de conscientização, mas mesmo assim não
seria interessante?
S.V – A pergunta que você fez é até interessante, mas partindo do pressuposto que existe uma diferença na
sociedade entre as raças, mas a igreja não tem que colocar isso, tem que colocar o que a Palavra de Deus

diz, que somos iguais. E para mim não há diferença, eu não trato ninguém com diferença porque é amarela,
preta, índia, japonês. Mas que existe o preconceito existe, não vou fechar meus olhos e dizer que não existe
aí fora. A gente vê que existe muito preconceito no trabalho, na rua, e não só de cor, mas a questão social da
pessoa, por que ele é pobre, por que ela é rica, porque ela é mais ou menos, porque ela está suja, existe
vários outros tipos de preconceito. Mas eu acho que na igreja não deveria ser tocado esse tipo de assunto
porque a partir do momento que a pessoa está indo na igreja e tem sua vida transformada, ela vai saber que
para Deus não existe diferença, e se para Deus não existe diferença porque para mim vai existir? Sendo que
Deus é o cabeça da igreja, eu não quero entender que tenha, mas talvez exista algumas pessoas que tenha,
talvez pessoas não transformadas por Deus, pessoas que não estudam realmente a Palavra de Deus a fundo,
pessoas que tem um bloqueio enorme porque vê muita criminalidade acontecendo e vê que 70%, não sei se
existe um número, mas as pessoas que fazem algum mal para outras são negras. E começam a associar isso,
é negro é bandido, e todos são más. Eu quero crer que todos que estão na igreja e são salvos por Jesus
Cristo a visão muda.
C.K – Você di sse que as vezes precisa provar em dobro que é competente para realizar alguma tarefa
na igreja, já considerando que se der alguma coisa errada alguém dentro da igreja pode te olhar com
preconceito por você ser negro, nesse sentido estudos sobre o assunto não seriam relevantes?
S.V – Nesse caso sim, até concordo, mas a igreja está ali para estudar a bíblia o que acontecesse fora, você
vê que a igreja não se envolve com a política, não abre palanque para deputado e senador vir pedir voto. Eu
já presenciei mu itas vezes deputado vir na porta da igreja entregar o famoso santinho e querer uns cinco
minutos no púlpito da igreja para falar sobre a campanha, e eu vi diversas vezes o pastor falar não. A igreja
é um corpo fechado de Jesus Cristo e que não abre para is so. E como não abre para política, não deve abrir
para esses pontos fora que não envolve muito a palavra de Deus, racismo e outros tipos de assuntos. A partir
do momento que as pessoas são transformadas, elas mudam a visão, tem que mudar, se não mudar a pessoa
não é transformada. Uma coisa que leva dentro de si é que Deus realmente transforma e a pessoa tem que
ver que isso está errado. Agora acontecer um estudo que não envolve a bíblia dentro da igreja acho difícil
acontecer. Porque se não você abre espaço para outros estudos que não envolvem muito a bíblia. Mas se
usar a bíblia tudo bem, eu não tenho muito base teológica para saber se isso é possível, se na bíblia existe
algum ponto para falar sobre isso, eu sei que existem pessoas de várias etnias na bíblia no tempo das antigas
e que um não gostava de outros, mas se alguém pegar fundo e envolver no meio a coisa do racismo eu acho
que é cem por cento aprovado, que seja falado na igreja sobre isso, não sobre o negro ou o branco, no geral
um apanhado de todos, e falar o que acontece e por que existe preconceito, porque não deve mais haver o
preconceito, e falar tudo isso junto com a palavra de Deus.
C.K –Você já ouviu falar sobre as políticas afirmativas para negros em Universidade?
S.V – Eu acho interessante, mas deveria ter outra base, não cotas para negros, mas para baixa renda, porque
existe muito branco, muita mistura de raça e pardo e que não tem condição de fazer faculdade, não seria
cota para negro, existe negros ricos que podem pagar a faculdade, então mudaria a nomenclatura, não para
negro, mas para baixa renda. Sou a favor sim, não para negro, para baixa renda.
C.K –Você saberia dizer a opinião da Maranata?
S.V – Nunca foi tocado nesse assunto na igreja.
C.K – Você é feliz sendo negro?
S.V – Sim.
C.K -Porquê?
S.V – Porque está na moda (risos). Sou feliz assim, tenho motivos para me orgulhar da minha cor, porque
minha mãe era negra, meu pai pardo, eu não vejo motivos de não orgulhar da minha cor, mas se bem que
tem várias pessoas negras que fazem coisas erradas, mas tem brancos que fazem coisas erradas também e
seria um preconceito da minha parte falar que eu não gosto dessa cor, por ser negro ou mulato. No meu
registro está que eu sou pardo, meu irmão fala que pardo é cor de merda, mas tudo bem.
C.K - Existe vantagem em ser negro no Brasil?
S.L – Vantagem acho que só os cinqüenta por cento das cotas, porque o resto é complicado, no Brasil é
complicado. É aquilo, você tem que provar em dobro a sua competência, então não vejo muita vantagem em
ser negro no Brasil.
C.K – Se você fosse descrever um negro brasileiro como ele seria?
S.L – Ser negro no Brasil é dureza, você vai fazer uma entrevista para um emprego e vê que tem três
brancos, um amarelo e cinco negros, vamos supor, tenho certeza que por A+B que a pessoa que vai
selecionar ou ver os currículos, vai começar a olhar não torto para o currículo dos negros, mas com
desconfiança, “acho que esse não vai passar” então é aquilo que eu falo, tem que provar em dobro ou talvez
em triplo que você é competente, que você pode. Não provar para si mesmo, mas para as outras pessoas, e a
gente vê que os cargos de altos executivos são ocupados por brancos, negros são raríssimas exceções, ou
você é muito inteligente mesmo, muito esforçado, ou tem um padrinho muito forte que te colocou. A gente
tem um exemplo que foi o Celo Pita, o primeiro prefeito negro de São Paulo, e a gente viu como ele foi

bombardeado pela mídia, pela imprensa, não só pelo fato de ser negro, mas pelo fato do desvio de dinheiro
e de conduta. E pelo fato dele ser negro as pessoas bombardearam ainda mais do que outros políticos
brancos que tem mais renome na área política. Então ser negro no Brasil é complicadíssimo, a gente tem
que provar para gente mesmo que a gente pode e para as outras pessoas tamb ém. Matando um leão a cada
dia. Falo isso por experiência própria, a gente vai procurar trabalho e a pessoa vê que você é negro e
duvidam de seu potencial e de sua capacidade. Talvez por causa da nossa história, os negros fizeram muitas
coisas erradas, assim como os brancos, mas a maioria talvez 70% fez muita coisa errada. Talvez pelas
oportunidades que não tenham sido dadas e pela falta de confiança e dada à confiança, mas com o pé atrás e
a pessoa acaba escolhendo o caminho errado. Ser negro no Brasil é muito complicado.
11. Nome: Nice Conceição da Silva Idade: 32 anos
Data da entrevista: 11/09/2007
Local da entrevista: casa do depoente Cor: Preta
C.K – Onde você nasceu?
N.S – Nasci no interior do estado da Bahia, numa comunidade que chamava Vargem Alta. Quando eu tinha
seis meses de idade meus pais mudaram para cidade e lá a gente começou. A cidade era muito pequena e
bem antiga, não tinha nem energia elétrica, a energia era à base de motor e às dez horas a energia era
desligada, todo mundo tinha que se organizar.
C.K – Você morou nessa cidade quanto tempo?
N.S – A gente sempre ia para cidade ficava um tempo depois voltava para a comunidadezinha, isso várias
vezes. Eu morei na cidade até completar o magistério. Às vezes meu pai plantava na comunidade e ia para
cidade, depois todos nós voltávamos para a comunidade para ajudar na colheita, tinha que ajudar a cuidar da
lavoura. Depois de um tempo nós mudamos para cidade definitivamente e só meu pai e meus irmãos iam
para comunidade. Eu e minha irmã casula ficávamos na cidade, íamos para comunidade só nos finais de
semana e nas férias.
C.K – Na comunidade onde seu pai tinha plantação a terra era dele?
N.S – A principio era do meu pai. Depois quando voltamos para cidade definitivamente ai a terra era de
parentes , ele ajudava, mas dividia o dinheiro. Depois de uma época ele parou e foi trabalhar para
fazendeiros, grandes latifundiários. Ai nesse tempo meus irmãos iam, eles ficavam tudo nuns barracos de
madeira, deitavam em girou, sabe o que é girou que o pessoal do norte fala? É uma cama feita de tábua,
tanto que tenho um irmão que tem chagas por isso. Nós moramos muito tempo em casa de pau a pique, sabe
aquelas casas de pau e varinha? Acumulavam o barbeiro, e meu irmão hoje está com chagas. Tudo isso
conseqüência do passado. Todos trabalhavam na lavoura, trabalhavam para ajudar no sustento da família,
prestavam serviço para o dono da fazenda, digamos que se eles fizessem à colheita de dois sacos de
algodão, um saco era para o meu pai e o outro era do dono da fazenda, era tudo dividido. Se eles cuidassem
de dez etiquetares de terra de plantio na roça, cinco era do meu pai e cinco do fazendeiro. Só que não rendia
muito por causa disso, meus irmãos todos saíram da escola e até hoje eles não tiveram acesso, por conta
dessas coisas.
C.K – Só você conseguiu estudar?
N.S – É, eu fiquei na cidade e minha irmã também e conseguimos estudar. Mas mesmo assim, nos finais de
semana, até lá perto na cidade tinha pessoas que plantavam roça, às vezes a gente ia trabalhava a metade do
dia e a outra metade ia para escola, não foi fácil não, meu histórico é assim complicado (risos).
C.K – Quando você veio para São Paulo?
N.S – Bom aí terminou tudo, e meus irmãos vieram para São Paulo.
C.K – Mas terminou tudo o que?
N.S – Terminou aquele negocio de trabalhar para outras pessoas, algumas irmãs minha ficavam na cidade
para trabalhar em casa de família, para ganhar mixaria, alguns irmãos eram garis na cidade, e assim por
diante... Vieram se deslocando, vieram quase todos para São Paulo, a maioria. Primeiro veio minha irmã
mais velha, a Maria, depois foram vindo. E cada um se organizou aqui, uns conseguiram empregos bons em
firmas grandes como a lacta, a Volkswagen, graças a Deus!
C.K – Em que ano mais ou menos isso aconteceu?
N.S – Em 1983, mais ou menos. Vieram para São Paulo, tentar a vida, antigamente era bom, tinha emprego.
Então ficou eu, a casula, e o meu irmão João que trabalhava na oficina. Às vezes as meninas viam passavam
uma temporada com a gente, e outra aqui, ficavam indo e vindo, e levavam coisas para gente lá, levavam
material escolar, compravam uniformes, mesmo assim o dinheiro não dava. Eu tinha que ajudar minha mãe
dia de domingo, sábado, trabalhei muito. Ai meu pai virou mascate, ia de cidade em cidade vender as coisas
e eu ia junto. A gente fazia muito sorvete, muito sorvete para vender nas cidades vizinhas, onde tinhas as
feiras, igual tem as feiras aqui dia de sábado, tem lugar que é no domingo, era a mesma coisa lá. Sábado a
gente ia para um lugar, domingo para outro, e vendia sorvete. Meu pai tinha uma barraca e vendia um
monte de bugiganga, sandália havaiana, perfume, tudo isso, sabe barraquinha coisa de interior? Às vezes o

carro quebrava na estrada, chovia e a gente ficava na chuva, o carro atolava no meio do caminho. Nossa
como eu sofria! Tudo isso para sustentar a família. O carro atolava na areia pura, sabe aqueles desertos
assim, e não conseguia sair, chegava dez horas da noite em casa e às vezes não conseguia vender todo o
geladinho, era muito triste.
C.K – Vocês são em quantos irmãos?
N.S – Dez, somos dez filhos. Na semana a gente ia para escola e no final da semana ia trabalhar, colher
arroz, carpir, tudo isso, tudo junto.
C.K – Muita coisa mesmo. Mas quando você veio para São Paulo?
N.S – Eu fui estudando, estudando, fui reprovada na quinta série, depois fui reprovada na sétima série, por
causa de matemática, história e português, nunca gostei. Hoje se você for fazer uma análise dos meus
professores de português eram péssimo, de péssima qualidade, eu fui aprender a fazer resumo quando
cheguei à faculdade. Uma vergonha isso! Eu sofri para caramba quando cheguei à faculdade. Meus
professores eram de péssima qualidade, a escola era de péssima qualidade, sem contar que às vezes a gente
ia para escola para merendar, eu mesmo ia para merendar, não tenho nem vergonha de falar, tudo era muito
difícil naquela época (risos). Era realmente difícil. Mas eu terminei o magistério.
C.K – Entendo. Você ainda tinha que conciliar o trabalho e os estudos.
N.S – E cuidar do meu irmão menor, quando ele nasceu eu tinha nove anos, eu cuidava dele quando minha
mãe ia trabalhar. E se não tivesse tudo pronto quando ela chegasse o coro comia. Ela era brava, muito
brava. Tinha que no mínimo a casa estar limpa, o feijão já está cozido quando ela chegasse. Ela trabalhava
só meio período.
C.K – Ela trabalhava com o que?
N.S – Ela limpava o mercado municipal da cidade, meio dia ela já estava em casa, meu irmão já tinha que
estar pronto. Ela era muito brava, eu apanhava mesmo. Meu irmão tinha que es tar cuidado, a casa limpa,
louça lavada, e no mínimo o feijão cozido e o arroz lavado, para na hora que ela chegasse era só cozinhar.
Ai as coisas foram melhorando, meu pai montou um comercio na cidade. Eu fui passando de ano, me
enturmei com uma galerinha que estudava bem mesmo, depois da oitava série. A gente pesquisava bastante.
Naquela época não tinha o ensino médio normal, a gente tinha que escolher um curso técnico. Eu fiz a
oitava série e fui direto para o magistério, três anos. Terminei o magistério, trabalhei num hospital da
cidade. Sabe negócio de política, meu pai era muito amigo do prefeito e eu fiz um curso de auxiliar de
enfermagem rápido e fui trabalhar no hospital. Trabalhei lá um ano, mas depois de seis meses o prefeito não
estava mais pagando e eu fiquei seis meses sem receber, recebi seis meses certinhos e seis meses trabalhei
sem receber. Fiquei chateada, ficava vendo a situação dos doentes, tão critica, e você tendo contato com
todo tipo de doença e sem receber ainda, trabalhava mesmo por amor. Eu conheci uma irmã da igreja batista
e ela falava “tem que aceitar Jesus”. Só que eu era muito de balada, saia sexta-feira à noite e ia com minhas
colegas para a pracinha para rua e ficava lá, só chegava em casa meia noite. Aí eu comecei a namorar um
rapaz evangélico, ele me evangelizou e eu vi vim para São Paulo. Meus pais vieram para São Paulo, e
minha mãe não queria que eu viesse, assim que ela veio passou uns dois dias, eu arrumei o dinheiro da
passagem e vim e fiquei até hoje.
C.K – Antes de você ser evangelizada você era de alguma religião?
N.S – Eu era católica, católica safada, ia para igreja e depois ia para a balada e ficava até uma hora da
manhã (risos). Na Bahia tem muito trio elétrico, muito som na praça, então a gente ficava todo mundo
junto, bebia.
C.K – Você veio para trabalhar aqui?
N.S – É eu vim tentar a vida. Vim para São Paulo, mas eu já tinha uma noção do que eu queria, já tinha um
conhecimento da bíblia, já sabia o que era certo e errado. Quando eu cheguei aqui conheci uma família, e a
menina me falou onde tinha uma igreja batista e me mostrou a Maranata. Eu morava nessa rua e era perto
da igreja.
C.K – Então quando você chegou em São Paulo veio direto morar aqui nessa região? Por quê?
N.S - Eu vim morar nessa rua aqui de aluguel porque minha irmã morava aqui de aluguel. Eu conheci essa
família que ajudou muito a minha irmã na época que ela ficou grávida da minha sobrinha Leila, e ela me
ensinou o caminho da Maranata e eu aprendi o caminho. Mesmo não sabendo andar em São Paulo, eu
descia para Maranata sozinha no domingo. Conheci o pessoal de lá, o pastor Varela, eles me ajudaram
bastante, abriram umas portas assim (...) A Paulo (membro da Maranata) ela trabalhava no Reiberg no
departamento de pessoal, ela conseguiu uma vaga para eu trabalhar de operadora de caixa, fiquei lá três
anos. Assim que eu comecei a trabalhar me tornei independente, eu saía e me virava, fazia compras sozinha
e tudo. Ai eu conheci meu esposo, a gente namorou um tempo e ficamos noivos e casei com ele lá na
Maranata.
C.K – Você o conheceu na Maranata também?
N.S – Não, o conheci aqui, nessa rua. A gente começou a namorar ele começou a freqüentar a Maranata e se
batizou e casou comigo.

C.K – O que mudou na sua vida depois da conversão?
N.S – Foi tudo de bom!
C.K – Fale sobre algumas coisas que mudaram?
N.S – Eu bagunçava muito, saía para balada, nossa eu era sacana, mesmo! Desculpe a expressão (riso).
C.K – Mas depois que se converteu mudou tudo?
N.S – Mudei, se você visse as roupas que eu vestia, era um escândalo de roupa. Hoje eu vejo as fotos e não
acredito “onde estava com a cabeça?” Meu modo de vestir, meu vocabulário mudou bastante, minha
postura, ver as outras pessoas (...) apesar de que mesmo quando eu era católica eu via as pessoas com
bastante amor. Hoje a gente fica preocupada, por exemplo, a Jane (membro da Maranata) está internada,
isso já choca a gente, a gente já fica triste, tudo isso por causa do amor.
C.K – Antes de você conhecer a Paula você já trabalhava em algum lugar?
N.S – Não, isso foi em 1997. Eu trabalhei lá de 97 a 2000, eu era operadora de caixa, depois fui para
recepção, depois eu saí. Eles queriam que eu fosse para outra loja, mas eu não gostava do encarregado.
Perguntaram se eu queria ser mandada embora, então dei preferência. Trabalhar em um local sem estar
satisfeito o trabalho não vai render. Sem contar que eu trabalhava com dinheiro, números, à noite eu ficava
muito perturbada. Eu dormia e achava que estava somando, voltando o troco, já estava ficando doidinha já,
bem maluca, precisando de um psiquiatra (rindo). Tudo que eu fazia de dia eu reproduzia de noite, eu falava
a noite “muito obrigada senhor!” “olha o troco” (rindo) coisas de mercado. Ai eu pensei que era melhor eu
sair do mercado e meu esposo também concordou. E acabei saindo do mercado. Fiquei um tempo parada,
procurava emprego e não conseguia, porque eu já tinha vinte e seis anos na época. Era muito difícil,
primeiro por causa da cor, tudo influência.
C.K – O que você pode falar de positivo dessa região?
N.S – O que eu percebo é que alguns alunos e mães são bastante carismáticos, porque trabalho aqui no
bairro mesmo, ali na escola Dali Coltinho. As mães conversam, falam com você na rua. Mas de positivo (...)
aqui no bairro. Tem coisas boas, a escola abre nos finais de semana, tem alguns projetos lá, só.
C.K - E de negativo?
N.S – A violência, a violência é de mais, o vandalismo, por exemplo, orelhão aqui é difícil de encontrar,
eles quebram tudo, os alunos são violentos em sala de aula, falam palavrão, tem um vocabulário vulgar, isso
é péssimo! Uma coisa que dá nojo. É uma coisa difícil e sei que sozinha não vou mudar essa realidade,
precisamos de um projeto que envolvesse toda a comunidade, envolvesse o governo, verba disponível, tudo
isso teria que ter. É muita falta de emprego no bairro, muita gente desempregado, aí gera a violência. Uma
professora da escola estava contando que os alunos dela assaltavam as pessoas, eles só não assaltavam os
professores que eles gostavam, eles ficavam no escadão e gritavam “essa daí não, ela é truta”. Por causa do
desemprego, da violência, os pais também não têm estrutura nem postura para criar os filhos. Ai colocam os
filhos na creche, ainda tem o governo que fica dando dinheiro para esse povo, quanto mais filho, mais
dinheiro você ganha. Tipo trinta reais por cabeça (risos) bolsa família, depois tem a creche para cuidar
depois tem o ensino fundamental, fica meio período e a criança presa lá. Quando não tem aula, os pais
xingam os professores de vagabundos de tudo quanto é nome. Se o professor falta para ir ao médico, eles
xingam, “sua vagabunda, não tem o que fazer?” Então é assim, essas coisas são negativas.
C.K - E a estrutura urbana da região?
N.S – Água e luz tem, mas eu não concordo com os ‘gatos’. Por exemplo, eu pago direitinho as minhas
contas, a água mês passado veio R$108,00 eu pago direitinho. Só que meu vizinho aqui em baixo usa
‘gato’, eu discordo plenamente disso.
C.K – Mas em toda essa região o povo tem luz e água?
N.S – tem, se quiser tem. Se você quiser pagar direitinho é só chamar a Eletropaulo que eles ligam.
C.K – Mas tem região aqui perto que a Eletropaulo não ligou ainda.
N.S – É tem lugares que é de difícil acesso, mas até então, dizem que vão regularizar tudo.
C.K – Então você está satisfeita com essa estrutura urbana da região, tem tudo que precisa aqui?
N.S – Tem. A vantagem aqui do bairro é essa. Tem ônibus, água, luz, asfalto não é de boa qualidade, o
carro fica detonado com esse monte de buraco, mas não é só aqui no bairro, mas em São Paulo, inteiro. Os
bairros que tem bons asfaltos mesmo, você pode ver é Morumbi, Avenida Paulista, esses lugares. Tem
escola perto, não tem boa qualidade, mas tem escolas, tem creches, tem tudo.
C.K – Você já é membro da Maranata há mais de dez anos, o que você pode falar de positivo dela?
N.S – Bastante coisas.
C.K – O que por exemplo?
N.S - A Maranata em si, as pessoas, são bastante humanas, carismáticas, são receptivas, ajudam quem
precisa. Algumas pessoas ajudam, tem uns que não ajudam, mas é a qualidade das pessoas mesmo. Não é
aquele povo de igreja que prega comércio. Tem igreja por aqui que prega comércio “se você for dizimista
você vai ter lugar no céu” essas coisas básicas. Já ouviu isso? “se você for dizimista se tiver uma empresa,
vai ter duas, três empresas” eles não pregam isso. Eles pregam Jesus Cristo, o amor de Jesus que veio a terra

e morreu por todos nós e para nós termos vida em abundancia mesmo. Tudo bem que ela tem suas falhas,
mas toda igreja tem suas falhas, tanto faz igreja católica quanto igreja evangélica, não tem lugar perfeito,
não é verdade?
C.K – No que você acha que a Maranata poderia melhorar?
N.S – Acho que deveria melhorar a receptividade dos jovens quando vai algum visitante, acho os jovens um
pouco distante, poderia aproximar mais, conversar mais com os jovens que vão nos visitar.
C.K – Então é isso que precisaria melhorar?
N.S – Eu acho, por que a partir do momento que você tem segurança, você vai se sentir bem e vai voltar no
local, concorda comigo?
C.K – Claro. Você acha que na Maranata existe uma relação de amizade e irmandade entre os
membros?
N.S – Eu acho que em toda igreja existe, não só na Maranata, toda igreja que você for vai ver isso, entre
aspas, panelinha. Toda igreja, primeiro que o vinculo é bem maior com aqueles de dentro do que com
aquele que chegou próximo, então vai ter sempre. Alguns irmãos mais próximos, outros mais distantes, tipo
de almoçar, jantar na casa, essas coisas, toda igreja tem.
C.K – Existe diferença entre um membro negro e um branco na Maranata?
N.S – Existe, em toda igreja existe também, em todo lugar existe. É que eu não ligo muito para essas coisas.
C.K – Como você percebe isso?
N.S – Você vê que há uma exclusão, no mercado de trabalho, na igreja, e em todo lugar tem essa exclusão.
Por exemplo, se você tiver um padrão de beleza perfeito, é obvio que você vai receber mais atenção do que
aquele que, entre aspas, não é aquele padrão que as pessoas estão procurando, você não concorda comigo?
C.K – Então você entende que isso também acontece na igreja?
N.S – Em todo lugar, o preconceito que é isso, que é você ter um conceito antes de conhecer, em todo lugar
existe, e todos os tipos de preconceito, de cor, de raça, de tudo, de religião, é a realidade.
C.K – Você já se sentiu discriminada?
N.S – Eu não me sinto sabe por quê? Eu tenho um conhecimento mais amplo. Sabe qual é meu
conhecimento em relação a isto?É muito mais além do que ficar chateada por que eu sou de cor, vai muito
mais além que isso, não ligo muito, todo lugar tem. Não é isso que vai me deixar mal, mexer com o meu
auto-estima. Tenho meu conhecimento que vai muito mais além do que isso.
C.K – Você já ouviu falar sobre as políticas Afirmativas?
N.S – Sim.
C.K – O que você pensa sobre isso?
N.S – Eu tenho uma idéia mais ou menos assim, por um lado, acho que é viável, mas por outro, é tentar
mostrar que o negro é incompetente. Porque eu falo por um lado? Se você for no mercado de trabalho você
sabe que vai ter menos chance do que um outro branco, a gente sabe que é assim. Se tiver um gordo e um
magro, uma recepcionista magra e uma gorda é óbvio que a magra de boa aparência vai ter 70, 80 por cento
mais chance que a outra, vai ser assim.
C.K – Então por uma lado a cota ajudaria?
N.S – Ajudaria por que seria obrigatório ter um preto lá dentro, o mesmo que acontece nas universidades.
Na minha época quando fiz a faculdade, sabe quantos negros tinha na sala? Três, só três, o resto tudo era
filhinho de papai, era assim, Eu fui de teimosa, porque condições eu não tinha.
C.K – Onde você fez a faculdade?
N.S – Na universidade de Santo Amaro. Mas eu fui de teimosa. Eu não tinha como entrar em uma
universidade pública não tive estrutura para isso, a minha base que era o ensino fundamental foi péssima,
que eu falei com você no começo, meus professores eram de péssima qualidade. Não tinha como, só se
fosse um milagre, Deus falasse assim, é para você entrar na USP. Ai você vai, se depender dos meus
conhecimentos... eu confesso, meu ensino fundamental foi de péssima qualidade, tive péssima qualidade de
vida, péssima qualidade de família, meu pai bebia e quebrava tudo em casa, então tudo isso influenciou.
C.K – Você acha que a Maranata tem posição sobre esse assunto?
N.S – Não, eu nunca ouvi falar.
C.K – Você acha que a igreja fala sobre a temática do preconceito racial e racismo em seu espaço de
EBD, União de treinamento ou mesmo nas pregações do pastor?
N.S – Não. Acho que são coisas que dentro de todas as igrejas não são trabalhadas, não abordam esse tema.
Não sei, de repente por medo de machucar pessoas. Para não falar que eu nunca ouvi falar assim, de preto,
branco, só na pregação quando vai falar que Jesus aceita todos, tanto faz, branco, preto, pardo, amarelo,
pobre, rico, ele aceita você do jeito que é, Jesus. Conscientizar ou falar especificamente do tema, não.
C.K – Você acha que esse é um tema relevante para ser discutido na igreja?
N.S – Não sei, não sei te dizer. Por que assim, eles acham que religião, que a igreja não é um local para
estar falando nisso, sobre cota de preto ou branco, até seria uma exclusão, um preconceito, e que para Deus
não existe distinção de cor e de raça.

C.K – Não digo falar sobre política de cotas, mas falar de forma positiva sobre o negro condenando o
racismo, as formas de preconceito, nesse sentido
N.S – Ah! Se for para conscientizar as pessoas, acho bom. Bom. Esse tema é bom para trabalhar a inclusão,
se fala do amor de Deus né, é um tema bom.
C.K – Mas se é um tema bom, porque a igreja não fala?
N.S – Não sei se vou saber te responder, como falei para você é difícil.
C.K – Você acha que esse é um tema delicado para trabalhar?
N.S – Acho. É delicado, de repente não, mas depende da cabeça do pastor.
C.K – Mas em sua opinião a igreja deveria falar sobre esse tema?
N.S – Seria bom, na escola bíblica poderia. Apesar de que muita gente não ia gostar, eles pensam que estão
lá só para estudar a bíblia, já falam assim, escola BIBLICA dominical, então teria que estudar com a bíblia.
C.K – Mesmo assim na escola bíblica outros assuntos são abordados, poderia então incluir esse
também?
N.S – Sim, poderia incluir fazer essa interdisciplinaridade, uma coisa com a outra.
C.K – Você é feliz sendo negra?
N.S – Sou (risos)
C.K – Por quê?
N.S – Primeiramente por ter Deus no coração, por ter meu filho que é um presente de Deus, ter os irmãos
em Cristo, ter meu esposo que é uma pessoa boa.
C.K – E em relação a sua cor?
N.S – Não me incomoda, pode incomodar outras pessoas, as pessoas com quem eu convivo, com quem
tenho certa convivência, mas a mim não.
C.K – Então você é feliz com sua cor?
N.S – Sou, é obvio que não sou aceita literalmente, tem gente que detesta preto, tem gente que detesta
branco, tem branco que detesta preto, tem preto que detesta branco, e assim por diante. Tem gente que
detesta nordestino, é como eu falei preconceito tem em todo lugar.
C.K – Tem vantagem em ser negro no Brasil?
N.S – Não, vantagem nenhuma, assim como ser branco no Brasil. Você fala em relação às cotas, por que o
negro consegue vaga na universidade mais fácil?
C.K – Não, estou dizendo em relação à sociedade de forma geral, se há vantagem em ser negro.
N.S – Há mim não existe nenhuma vantagem, como falei com você vai da cabeça de cada pessoa.
C.K – Como é a situação do negro brasileiro?
N.S – É péssima, assim como é péssima a do nordestino, como a do pobre é péssima, como a pessoa que
tem uma doença contagiosa é péssima, se você falar que tem HIV, ninguém vai querer chegar perto, vai ter
gente que não vai querer nem apertar sua mão, mesmo sabendo que não transmite através do toque. A
mesma coisa do preto, do nordestino, do pobre, então, não tem nenhuma vantagem em ser preto.
C.K – Essas eram as perguntas, mas tem mais alguma coisa que você gostaria de falar?
N.S – Não. Acho que a mesma competência que o negro tem, o branco tem, o índio tem, óbvio que dentro
de sua realidade. É isso. O meu marido, por exemplo, é uma mistura de preto com índio, ele tem sangue de
índio, então é assim.
12. Nome: Luciana Coelho
Data da entrevista: 18/09/2007

Idade: 35 anos
Local da entrevista: casa do depoente Cor: Pardo

C.K – Onde você nasceu?
L.C – Eu nasci aqui mesmo, num bairro perto daqui chamado São Bernardo.
C.K – Como você conheceu a Maranata?
L.C – Eu conheci a Maranata através do Valter meu cunhado. Eu comecei a trabalhar no supermercado
Reimberg e conheci um pessoal que também trabalhava no supermercado e que eram da igreja Maranata, o
Elder e o Valter. O Valter começou a namorar a minha irmã e começou a nos convidar para conhecer a
Maranata. Primeiro levou a minha mãe e eu fiquei durante muito tempo só visitando. Naquela época a
Maranata era bem diferente, o jeitinho dela era outro, não lembro o nome do pastor, mas ele era muito
rígido, eu não gostava ia porque não arrumava uma desculpa para não ir, ia para agradar o Valter. A minha
irmã se converteu primeiro, depois a minha mãe, eu muitos anos depois. Fiquei só visitando, quando tinha
alguma festividade eu visitava. Eu sempre arrumava uma desculpa para não ir, mas arrumava desculpa
porque eu não gostava da igreja, eu achava tudo muito maçante, tudo muito sério, eu não conseguia me
atentar a pregação porque quando chegava na hora da pregação eu já estava cheia e ficava pensando “o que
eu vim fazer nesse lugar?” “Porque eu não arrumei uma desculpa?” Enfim, era muito maçante. Depois que
o pastor Varela chegou a Maranata começou a mudar de cara, Maranata foi mudando aos poucos. Minha
primeira visita deve ter sido em meados de 1991, por que o Valter começou a namorar a Lene no meio do

ano mais ou menos, então minha primeira visita foi ou no inicio de 91 ou no final de 90, e eu só me converti
em 1997, olha quantos anos depois.
C.K – Quando você fala de igreja muito séria você se refere a quê?
L.C – Eu me lembro que a primeira impressão que a Maranata me passou era que tinha muitas pessoas de
mais idade, e eu estava no auge dos meus 18 anos e não tinha muitos jovens, tinha pessoas de meia idade
para frente. Eu lembro do quarteto, não tinha bateria, não tinha violão, era tudo muito sério. Para um jovem
acostumado com um sambinha, acostumado com um bailizinho, era tudo muito sério, não sei se você
entende. E o jeito que o pastor conduzia o culto, era uma coisa para mim realmente maçante, era tudo muito
carregado, muito sério, não se batia palmas, os louvores eram somente aqueles hinos para meia idade para
lá mesmo, aí não me agradou.
C.K – Antes de conhecer a Maranata você era de outra igreja ou religião?
L.C – De outra igreja não. Meu pai era espírita umbandista. Quando eu me lembro da minha infância eu
lembro da gente indo ao centro espírita. Minha mãe nunca foi nada, ela ia com ele de acompanhante. Ele é
que era envolvido. Eu me lembro da gente indo a um centro espírita na infância, mas depois a dona do
centro de umbanda, não me lembro o que aconteceu, só sei que ela fechou o centro e a gente ficou sem ter
onde ir. Meu pai não procurou outro, ele não gostava de católicos, apesar de que ele dizia que era católico,
porque todo espírita e umbandista fala que é católico. Ele dizia assim “minha mãe me batizou na igreja
católica, então sou católico”. Mas eu não me lembro nunca de ver meu pai indo em uma igreja católica. Ele
contava uma estória de que um padre tinha namorado roubado a namorada dele, então ele teve um trauma.
Ele não levava a gente, às vezes a gente ia na missa de sétimo dia de alguém, casamento eu não me lembro
de ter ido, batizado quando alguém convidava, mas uma coisa muito vaga, a igreja católica não fez parte da
minha infância, o que fez parte da minha infância foi esse centro durante um período de uns dez ano.
Depois ela fechou, mas ela não se converteu, crente ela não virou, infelizmente, hoje eu vejo que
infelizmente, ela fechou por alguma outro motivo e a gente ficou sem ter a onde ir. Depois na minha
adolescência eu comecei a freqüentar um outro centro, mas por ir, eu passei na frente estava tendo um
trabalho e comecei a ir, mas eu não tinha uma religião. Eu era a toa mesmo.
C.K – Você que nasceu nessa região do Grajaú, o que você pode apontar de positivo da região?
L.C – Olha nessa região por mais que falam da criminalidade a gente ouve dizer que tem muitos crimes,
muitos assassinatos, mas eu não convivi com isso, o bairro que a gente morou, quando eu nasci até os
dezoito anos, é um bairro bem pequenininho, as pessoas que moram lá são donos da casa, não são pessoas
que moram de aluguel, a maioria, noventa por cento são proprietário, e estão lá desde que o bairro foi
fundado. Todo mundo conhecia todo mundo, eu não me lembro de assaltos, não me lembro de brigas de
marido e mulher, quando acontecia no bairro era coisa de outro mundo. Eu não via drogas, eu nunca vi.
Mesmo morando em São Paulo, eu não convivi com isso, infelizmente fui ver depois de grande, as vezes
acontecia algum assassinato na linha do trem, mas eu não ia ver eu era muito medrosa não ia ver. Eu lembro
de uma moça que mataram na linha do trem, mas eu não fui ver. O de positivo eu acho que graças a Deus,
mesmo estando em São Paulo, eu morei em um bairro diferente, se você comparar com o bairro que meu
esposo nasceu, numa favela no Jardim das Imbuias, ele viu coisas horrorosas, coisa que eu não vi. Acho que
isso tem de positivo aqui nessa região, a gente ouve dizer, mas não vê. Mesmo hoje onde eu moro escuto
dizer que mataram fulano lá, mas eu não vejo nada, não vejo cadáver, graças a Deus. Não vejo assalto, não
vejo dizer que entrou na casa, é como se fosse em outro lugar. Eu escuto dizer, mas eu nunca vi nem com
meus vizinhos, nem com meus conhecidos, graças a Deus. A gente tem uma vida diferenciada, acho um
bairro bom apesar de ser um bairro pobre e a maioria ser de classe média baixa, é um bom lugar de se
morar.
C.K – Você acha que o Grajaú tem muita fama de ser violento, mas na verdade não é tudo isso?
L.C – É, eu até acho que o Grajaú seja violento, mas são lugares isolados, como o Grajaú é bem extenso
então a violência não está em todos os bairros, está em lugares isolados, pelo menos eu estou aqui trinta e
cinco anos e não vi muita coisa graças a Deus.
C.K – Em relação a estrutura urbana da região, água, esgoto, asfalto, luz...
L.C – Isso eu acho que foi evoluindo com o tempo, na minha infância era muito diferente, não tinha esse
comercio todo, mas mesmo assim eu acho que nós somos privilegiados de qualquer forma. Se você for lá no
final do bairro Varginha, eu morei lá, lá está quinze anos atrás comparando com o nosso bairro hoje. Eu
acho que poderia ser muito melhor, mas nós não estamos mal, não. Nós temos o básico, poderíamos ter
mais se tivéssemos uma prefeitura mais atuante, um governo melhor, essas coisas que compreende um
monte de outras coisas, mas mesmo assim, com essa problemática toda eu acho que a gente está bem. A
maioria das ruas é asfaltada, a gente tem água, tem luz, e não tem falta. Tem lugares que tem água
encanada, mas vive faltando, tem um dia e falta outro, na minha sogra é assim, tem água de manhã e de
tarde nunca tem. Tem luz, mas é gato, que eles roubam dos postes e se um liga alguma coisa a luz fica
fraca. As ruas são de terra, não tem esgoto, então eles realmente estão bem atrasados, e é um bairro bem
pertinho da gente, uns vinte minutos, não é uma coisa de um hora para dentro do mato, se acontecer alguma

coisa lá eles falam que é distrito Grajaú. Eu tenho uma amiga que mora perto da represa, eu não conheço, o
único lugar que eu morei longe daqui foi o Varginha, mas ela falou que lá é a mesma coisa, não tem esgoto,
o lixeiro não passa, as caçambas estão sempre cheias. Ela mora ali perto da balsa, chegando na Billings, por
ali. Lá as ruas não são asfaltadas, não tem posto de saúde. Nós temos um posto aqui pertinho, nós temos
farmácia, comércio, escolas, o Salote que sempre foi muito bem conceituado, apesar de ser do estado, temos
o Dale Coltinho (escola pública). Enfim nós temos opções, esses pontos isolados que não tem como crescer
eles são debilitados em tudo, no bairro Varginha não tem um posto de saúde. Agora eles fizeram uma
unidade lá que uma quinzena tem um médico e outra quinzena tem uma enfermeira. E tem que ser se não a
pessoa tem que pegar o ônibus e vir para cá, ou ir ao posto do bairro Céu Azul, que é o mais perto deles.
Não é um lugar que está uma hora de ônibus, só vinte minutos. Então é um bairro muito pobre. É um lugar
que tem muita gente que tem comércio, tem farmácia, tem supermercado, mas porque o progresso não
chega até lá, não é verdade? Você tem bastante gente, tem comércio. Então eu acho que nós estamos bem
aqui, temos o básico que a gente precisa, não temos luxo, não temos um parque para levar as crianças, mas
se você precisar de um posto de saúde, está ali, se precisar de um supermercado, está ali, se precisar de uma
escola para mandar seus filhos, está ali perto, dá para você escolher, então temos isso de positivo.
C.K – E de negativo o que tem por aqui?
L.C – De negativo acho que é a falta de lazer, não temos uma praça (...) e quando eles criam o povo vai lá e
destrói, infelizmente. Área de lazer tem pouco. Aqui do Icaraí a única coisa ruim é o ônibus, só temos uma
linha e que dá uma volta em São Paulo, para chegar em Santo Amaro (risos). Eu acho o transporte ruim
daqui, fora isso eu não vejo muita coisa de negativo não, fora a área de lazer que não tem, deveria ter pelo
menos uma pracinha para a criançada brincar e o ônibus que é ruim, cada vez eles tiram mais as opções que
a gente tinha antes como o Pinheiros (ônibus), agora só nos terminais e isso é muito ruim temos que pegar
no meio do caminho e pegamos a condução lotada, isso ficou muito ruim. A coisa que poderia melhorar
mesmo é o transporte.
C.K – Qual a sua formação?
L.C – Eu tenho o segundo grau completo.
C.K – E sua profissão?
L.C – Não é profissão, é o cargo que eu executo, eu trabalho em uma rede de supermercados, sempre
trabalhei em supermercado, entrei na rede de comércio desde o começo. Comecei a trabalhar com 14 anos e
foi num salão de cabeleleiro lá em Moema, trabalhei lá quase dois anos, sai de lá trabalhei alguns meses em
casa de família e depois trabalhei no supermercado reimberg em São José, foi quando eu conheci o Valter,
eu já contei. Fomos vendidos e comprados pela companhia brasileira de distribuição (pão de açúcar)
trabalhei dois anos nessa empresa, fui mandada embora e entrei no supermercado Ricoy e estou lá até hoje.
Comecei como operadora de caixa, depois virei auxiliar de tesouraria e hoje em dia eu faço cadastro de
produto, todos os produtos que vão vender dentro do supermercado passam pela minha mão para eu
cadastrar e passar pelo PDV para sair a etiquetinha de preço, esse é o meu trabalho hoje.
C.K – O que você pode falar de positivo na Maranata?
L.C – Eu já estou na Maranata a 10 ano de convertida, mas se contar desde a minha primeira visita já faz 17
anos que conheço a Maranata. Eu acho que a Maranata tem de bom é o que todo mundo fala, é uma igreja
muito acolhedora, apesar das dificuldades, a igreja é feita de pessoas e as pessoas não são perfeitas, nós
temos alguns probleminhas, apesar disso consegue se destacar a acolhida de algumas pessoas e a simpatia
de alguns irmãos que contagiam, eles fazem você se sentir bem. A Maranata tem isso de positivo, eu
acredito que por lá a gente realmente ouvir a Palavra, eu acredito que o que se prega ali é realmente a
verdade. Quando eu conheci a Maranata eu não via simpatia, mas indo e conhecendo alguns irmãos eu fui
vendo que realmente eles são pessoas solidárias e que se importam uns com os outros. E a palavra que eu
realmente acredito que é a verdade, se prega Jesus Cristo de verdade, se importam com você para que
aprenda de verdade, na escola bíblia, nas palestras, eles se preocupa que a pessoa conheça a Cristo e
aprenda de Cristo. Em alguns lugares eles se interessam que você conheça Cristo, mas não aprenda dele
para eles poderem manipular. O que a Maranata tem de positivo realmente é isso. A direção se importa em
instruir as pessoas, e o carisma e simpatia de alguns irmãos.
C.K – E de negativo?
L.C – Na minha opinião a Maranata poderia melhorar na área social, acho que nós fazemos pouco, não
temos nenhum trabalho para ajudar as pessoas carentes do bairro, para trazer as pessoas. Hoje mesmo eu
estava lendo a bíblia no ônibus quando fala que “eu vim para os doentes, para os necessitados, e tal” mas,
eu não vejo esse trabalho, é a minha visão. A gente faz pouco para o pessoal carente do bairro, a igreja está
lá, o prédio é grande, poderíamos ter uma assistência social maior, seja com uma escolinha já que temos
tantos professores, criar cestas básicas, sei lá. Ter um projeto que ajudasse o bairro e as pessoas pudessem
ver que Maranata se importa com eles, eu não vejo isso em Maranata. Eu vejo muita boa vontade, mas o
negócio não sai do papel, parece que tem um projeto, tem boa vontade, mas o negócio não sai, fica
embargado ali e não vai para ação. Esse tempo que eu passei ali na cia (Compre Bem) no bairro São José,

eles fazem um trabalho com produtos que não podem ser vendidos, como uma lata de óleo que amassou e
não pode ser vendida e às vezes o fornecedor não troca, então eles doam. Eles têm cadastrado algumas
entidades do bairro e a gente pega todos esses produtos separa e doa para as entidades. Com esse trabalho
eu descobri algumas entidades que existem no bairro, descobri que aqui do lado tem uma igreja católica que
fica de frente para Maranata e eles tem um trabalho com crianças. São pessoas que trabalham de graça, a
principio era de graça, parece que agora elas são remuneradas, não tenho certeza. Quando o trabalho
começou a alguns anos atrás era um trabalho voluntário que vivia de doações. Eles se inscreveram e a gente
começou a doar alimento para eles. Eles fazem um trabalho com crianças, como se fosse uma creche, eles
ficam com as crianças quando os pais trabalham, é uma creche de pequeno porte, e com idosos também eles
tinham um trabalho. E ainda serviam comida para os mendigos. Fiquei sabendo de um outro lugar que tem
ali na Cidade Dutra que servem comida todos os dias para esse pessoal que mora na rua, uma igreja católica
também. Então eles fazem muito mais que a gente, a gente não faz nada, Maranata não faz nada. Eu acho
que o que temos de ruim é isso, temos muita boa vontade, mas fica na vontade.
C.K – O que mudou na sua vida depois da conversão?
L.C – Mudou muita coisa, acho que mudei muito, amadureci como pessoa. Eu conheci Cristo numa faze
que eu estava acabando de sair da fase de adolescente para quase jovem. Eu não tive nenhuma educação
religiosa, não sabia dos planos do Senhor para gente, conhecia a bíblia, mas nunca tinha lido. Acho que
aprendi bastante coisa, tenho aprendido até hoje que devemos ser melhor, que a conversão é diária, que a
busca é diária, não é fácil. Eu melhorei muito como pessoa, eu procuro melhorar cada dia como pessoa.
Eles tocam muito assim, as palavras, as reflexões, os estudos, eles fazem com que você reflita como você é
e como Cristo quer que você seja e como Ele foi. Então se a pessoa realmente ouvir ela tem que mudar, ela
não pode ficar mais naquela mesmice. Não tem como ouvir domingo após domingo e continuar na mesma,
eu melhorei muito como pessoa e tenho muito que melhorar, lógico, pecadora, né? (risos) Mesmo com a
família, perdi meu pai muito cedo, minha mãe ficou viúva, enfim, eu estava na adolescência, demos
bastante cabeçada, ficamos meio perdidas, sabe, meio sem rumo, perdemos o pastor e ficamos sem rumo.
Demos algumas cabeçadas, nós todas eu acho. Mas Maranata nos ajudou nisso, hoje eu tenho outra visão de
família, tenho outra visão de igreja, eu não tinha muito conhecimento em relação a isso. Me ajudou como
pessoa, como mãe de família, viver em uma comunidade que acredita nas mesmas coisas, nesse sentido foi
bom para mim.
C.K – E em outras áreas da sua vida?
L.C – Você está falando na parte financeira, se eu fui abençoada? Ah! Sim, com certeza. A casa é um
exemplo disso, não está do jeito que a gente queria, mas se eu olhar pelos olhos humanos e ver minha
situação financeira desde de lá o tempo todo de trabalho, eu não conseguiria comprar um terreno e construir
a minha modesta casa, se você for colocar na ponta do lápis todo o dinheiro que já foi empregado aqui, eu
não teria condições, realmente eu vejo que Deus abriu portas, Deus nos abençoou com a saúde, com
cuidado. Antes de eu ser convertida eu poderia ter sido morta porque eu ia para os bailes e me metia com
brigas, ficava de madrugada andando por aí, com certeza Jesus já tinha um plano na minha vida e eu vejo
que ele me abençoou muito. O que eu acho que ele realmente me abençoou foi a minha saúde, tenho uma
saúde muito boa, apesar de um probleminhas aqui e ali nada é sério graças a Deus e minha família que
ninguém tem nenhuma doença séria. E a casa que eu tenho convicção que foi um presente do Senhor.
C. K – Existe uma relação de amizade e irmandade entre os membros da Maranata?
L.C – Existe eu acredito que sim. Eu defendo a tese que sim. Não de um modo geral, todos com todos, que
nem o pessoal fala das panelinhas. Mas eu não digo panelinhas, digo grupinhos, não tem como um grupo de
pessoas com quase 200 pessoas, todos terem a mesma relação de amizade com todos, não dá. Então existe
sim. Tem irmãos que eu não sei nem o nome, tenho simpatia por eles, oro por eles, mas tem aqueles que
você é mais próximo. E acaba que quando você junta todos os grupinhos, tem a Maranata.
C.K – Você acha que existe alguma diferenciação entre um membro negro e um branco na
Maranata?
L.C – Não. Se há eu nunca percebi, eu sinceramente acredito que não. Acho que tem mais uma
diferenciação em relação ao poder aquisitivo do que de raça.
C.K – Por que você acha que é assim?
L.C – Eu acho que por questão de afinidade, porque vamos supor que eu tenho um nível, um poder
aquisitivo maior, tenho condições de freqüentar alguns lugares que a mamãe não tem como freqüentar. Por
exemplo, eu e minha irmã Luciana queremos ir à praia, e convidar outra irmã, mas ela não tem dinheiro,
então não tem como levá-la de graça, ela tem uma renda pequena e não dá para ir comigo, então é melhor ir
com a Cristina que tem a mesma renda que eu. Eu pago o meu e ela o dela e a gente se diverte. Acho que é
assim não por interesse. Acho que acaba sendo por afinidade. As pessoas com a mesma renda acabam
ficando mais juntas, não é por discriminação, não é por que eu não quero ir com a irmã, porque ela é
faxineira e ganha pouquinho, mas é porque não dá para ela fazer parte da minha galera, eu gosto de comer
pizza toda sexta-feira, e ela não pode. Então é assim, não por discriminação, por afinidade. As pessoas que

tem o mesmo nível de poder aquisitivo ficam com as outras que conseguem estar nos mesmos lugares.
Agora eu me dou melhor com aquelas pessoas que estão no mesmo nível que eu, e acabamos nos juntando,
porque não dá para gente ir à praia a não ser que comecemos a juntar dinheiro desde hoje, então vamos
juntar, entendeu? Falamos a mesma língua, um entende a dificuldade do outro, porque quem tem um pouco
mais é mais fácil para ele. Então é nesse sentido não por discriminação, mas por afinidade e facilidade.
C.K – Acontece de coincidir de quem tem a maior renda ser branco e quem tem uma renda mais
baixa ser negro?
L.C – Não, é tudo misturado. Na Maranata está tudo balanceado, apesar que, temos mais pretos e pardos do
que brancos, não é verdade? Se você for olhar a maioria se encaixa nos pardos, e os pardos têm poder
aquisitivo diferente, uns ganham um salário baixo, outros um pouco melhor, uns estão na faculdade, tem
uma outra visão.
C.K – Você acha que o negro na sociedade brasileira sofre preconceito racial?
L.C – Sim sofre. Desde a escola a criança sofre. Eu não sei por que isso acontece, eu me lembro da minha
infância. Às vezes eu conversando com a minha filha eu vejo que não só o negro, mas o negro e a pessoa
mais carente. Começa na escola, tudo começa lá na escola. Se uma criança vem com uma roupa rasgadinha,
vêm sujinha, os colegas não querem ficar perto, as crianças fazem isso, não sei por que, não sei se é a gente
que não ensina direito, eu me policio tanto, mas vejo que isso acontece. Ah! Deficientes físicos também
sofrem preconceito, quando a criança é negra os outros não gostam, diferente de um loiro, um japonês. Eu
não entendo por que isso, realmente não consigo entender. Por mais que o pai ensine, que é o meu caso,
nossa família tem negro, eu gosto de negro, gosto da cultura negra e passo tudo isso para minha filha, mas
eu percebo que ela não gosta, não vê como eu. Mas que o negro sofre, ele sofre, no trabalho também sofre,
acho que o negro ainda é bastante discriminado, não só o negro, mas os portadores de deficiência física
também.
C.K – O negro é discriminado em todos os setores da sociedade?
L.C – É na escola, no trabalho, ele tem que ser muito melhor que o branco.
C.K - Mas isso não acontece na igreja, do negro ter que ser muito melhor?
L.C – Olha eu não vejo isso na Maranata, se acontece eu não sei.
C.K – Porque você acha que isso não acontece?
L.C Temos pouquíssimos negro, negro. Não vejo isso em Maranata, não vejo. Essa discriminação por causa
da cor de pele, por causa da raça não. Eu acho que talvez por que nós não tenhamos muitos negros de
verdades, negros puros, legítimos, temos muitos pardos, mas não temos brancos assim alemão, japonês não
temos nenhum, enfim como a maioria é parda, todo pardo tem negro na família, não tem como ser pardo se
não tiver um negro na família, então acaba, se têm, eu nunca vi. Ao meu ver não, nunca percebi, nunca
atentei para isso.
C.K – Já ouviu falar sobre a política afirmativa para negros em universidades?
L.C - Sim, acho que é mais uma forma de preconceito, foi um meio que eles encontraram de amenizar o
problema, mas porque precisa de uma cota para os negro se somos todos iguais? Fico pensando que quando
separa uma cota para alguém é porque ele é especial, é diferente, tem alguma particularidade. Eu entendo
assim, essa cota foi para tentar amenizar o preconceito, mas não deixa de ser uma forma de preconceito. É
que nem separar cota para deficiente, se ele é deficiente e consegue fazer o trabalho, deveria ser tratado
como os demais. Mas se você deixar ele ser tratado como os demais ninguém nunca vai admitir ele, não é
verdade?
C.K – Mesmo assim você acha que a criação de cotas não é positiva?
L.C – Eu penso assim, ela não deixa de ser positiva porque se não os negros iriam sofrer como sofriam no
passado, mesmo eu sendo muito bom eu ia depender da consciência de quem estivesse lá para fazer a
seleção, então se eu que gosto de negros e estivesse lá selecionaria um negro, se tivesse um alemão e um
negro com um currículo parecido eu ia escolher ele que era negro, então ia depender disso. Com as cotas é
garantido que se ele preenche os quesitos ele esta dentro, é garantia para ele. Isso é bom porque se não ele ia
continuar sofrendo como a gente vê durante anos e mais anos, mas eu penso que não seja uma forma de
comprovar que a discriminação existe, é uma prova viva da discriminação. Infelizmente está na nossa
cultura não tem jeito.
C.K – Você acha que a Maranata é contra ou a favor das cotas?
L.C – Essa pergunta é muito difícil, não faço a menor idéia.
C.K – Isso já foi discutido?
L.C - Que eu tenha participado não, eu nunca vi nenhuma bate papo formal ou informal sobre isso, nunca
conversei sobre isso com nenhum irmão. Não sei. Acredito que a opinião da Maranata não seja diferente da
minha, não sei, de repente (...)
C.K – Você já ouviu estudos sobre o tema do preconceito racial na Maranata?
L.C – Que eu me lembre não, acho que na união ou na escola bíblia eu já ouvi alguma coisa, mas na
pregação eu tenho certeza eu não. Não me lembro de pregação de pastor nenhum sobre isso. A gente ouve

vê que tem pastores que fazem trabalhos com meninos de rua, presidiários, e acabam falando do
preconceito, porque a maioria é negro. Se você fizer um estudo você vai ver que a maioria dos assaltantes e
bandidos são negros, infelizmente. Dizem que tem mudado essa realidade, não sei se é bom ou ruim. A
gente acaba tendo um pouco de preconceito por causa disso. Mas um culto que foi falado do preconceito eu
não me lembro. Preconceito racial de pele, não me lembro.
C.K – Seria interessante se a igreja falasse sobre esse assunto, tivesse estudos falando sobre a
discriminação que esse assunto fosse levantado?
L.C – Não sei se isso seria bom, se fala muito do problema quando se tem ele, não é verdade? Eu acho que
é falado pouco por que a gente não tem esse problema, esse não é o nosso problema maior. Se existe da
parte de alguém é uma coisa muito pequena que eu nunca percebi. Eu nunca fui rejeitada, e nunca vi
ninguém destratando ninguém. Acaba não sendo um problema. A gente tem problemas maiores que o
racismo. Acho que é um assunto muito polemico. Talvez fosse bom numa união, numa quarta feira, sei lá,
mas só para falar e o pessoal ouvir, aí sim. Não vejo como uma necessidade, se tivesse seria mais para
acrescentar. Eu penso que não pode ter isso dentro de uma igreja, se somos todos iguais perante o Senhor,
independente de nossa cor de pele, magro, gordo enfim, não deve ter isso na igreja. Aos meus olhos não
deveria ter, assim como não deveria ter outros problemas, mas (...) Eu fico pensando que é até por isso que
não se fala, é uma coisa que não tem.
C.K – Você é feliz sendo negra?
L.C - Sou feliz, não só por que sou negra, mas assim nunca tive problema, nunca me senti discriminada por
causa disso. Uma vez estava conversando com uma amigas no trabalho e elas estavam contando que
sofreram muito na escola, eu nunca tive esse problema. Como eu era uma criança muito brava, não sei se
por que eu era a primeira filha e minha mãe colocou muita responsabilidade em cima de mim. Eu não
deixava nenhuma criança tirar onda comigo eu era meio bravinha (risos). Eu já era uma criança gorda, com
oito anos eu era gordinha, você sabe que os gordinhos também sofrem discriminação assim como os negros,
os deficientes, os magrinhos de mais, fugiu da maioria já sofre. Essa minha amiga disse que sabia por que
eu não tinha sofrido na infância “sua pele é morena, mas seu cabelo é bom” o problema está no cabelo, ela
tem um cabelo pichaim. “Você acha?” Eu perguntei. Ela falou que sim, ela tem o mesmo tom de pele que
eu e sofreu muito por que o cabelo dela é ruim. Ela acha o que para sociedade o que faz uma pessoa ser
negra não é a cor da pele, mas o cabelo ruim, entendeu? Não sei se ela tem razão. Eu falo com ela que eu
nunca deixe i ninguém levar uma comigo, não deixava eles fazerem piadinhas como “colchão amarrado”,
“rolha de poço”, se alguém falasse assim comigo eu sentava a mão, eu sempre impunha muito respeito e
quando eu não gosto, eu não gosto. Eu nunca deixei as pessoas fazerem comigo o que quisessem já na
escola, então eu nunca tive problema com a minha pele. Eu lembro que quando eu saí do meu primeiro
emprego, um dia eu me senti discriminada, eu recebi um telegrama de uma vaga de emprego, e fui ver, se
encaixava no meu perfil. Quando eu cheguei lá a pessoa não soube disfarçar, não sei se foi por causa da
minha pele ou por causa do meu corpo , como eu te disse, sempre fui obesa. Ela olhou de cima a baixo, me
fez meia dúzia de perguntas idiotas para não dizer que não fez e já me dispensou, mas foi alguma coisa no
meu físico que ela não gostou não sei se foi a pele ou o corpo. Nesse dia eu me senti realmente
discriminada, mas não me abalou não. Sou feliz por ser negra e gordinha, sem problema nenhum.
C.K – Tem vantagem em ser negro no Brasil?
L.C – Acho que nenhuma, infelizmente não por causa da discriminação que há aqui. Não sei em outros
países, falam que nos EUA também é assim, mas não sei se é como aqui, nos outros eu não sei. Eles têm
lutado para tentar mudar essa realidade, eles têm conseguido muito lentamente, mas eu não vejo vantagem
no Brasil. A vantagem é você ser loirinho, branquinho, dos olhos azuis ou verdinhos, ou japonês que é bem
visto aqui. Mas eu não me sinto prejudicada por conta disso. Nunca me senti prejudicada por causa disso
nem na escola, tirando esse fato isolado que te contei, nunca tive problema nem com meu peso nem com
minha cor.
13. Nome: Elaine Oliveira Moura
Data da entrevista: 14/09/2007

Idade: 33 anos
Local da entrevista: casa do depoente

Cor: Parda

C.K – Onde você nasceu?
E.M – Nasci na Bahia. Esqueci o nome da cidade. (...) Itamarajú, nasci em Itamarajú. Meu pai faleceu e nós
ficamos em quatro irmãos. Eu a Lândia o Valquires o Jean e a Cleide. Quando meu pai faleceu, nós fomos
morar com nossos avós em Piau. Piau também é Bahia, mas é um pouco diferente. Lá a gente cresceu,
criado por nossos avós, pais da minha mãe. Os pais do meu pai criaram a minha irmã que é mais velha que
eu. Minha mãe levou os três mais novos para morar com meu avô e buscaria a mais velha depois. Mas
quando ela voltou, meu avô não quis devolver a minha irmã mais. Então, tenho uma irmã, a Cleide que
mora em Itamarajú. A gente não tem muito contato com ela. Quando eu tinha mais ou menos nove anos a

minha mãe levou a gente para conhecer a Cleide. A Cleide é totalmente diferente da gente, totalmente
diferente.
C.K – No que sua mãe trabalhava?
E.M – Minha mãe lavava roupa para fora e vendia avon, minha mãe era muito esforçada, era não, ainda é
muito esforçada. Mas não teve uma vida muito boa, muito tranqüila. Ela incentivava muito a gente para
estudar. Eu falo com meus filhos, a gente tinha só um caderno, eu estudava de tarde e a Lândia de manhã. E
Partíamos o caderno no meio. O mesmo lápis da Lândia era meu à tarde, a gente não podia passar as folhas
era desse jeito. Eu fiz até a sétima séria assim. Depois eu vim embora para cá.
C.K – Quando você veio para São Paulo?
E.M – Eu vim para São Paulo em 1988, vim a primeira vez com minha mãe. A gente foi morar em Itaquera,
próximo do hospital Santa Marcelina. Ali consegui uma escola e fui estudar, estudei uma semana, mas
depois arrumei um emprego para dormir como doméstica e era aqui no Jabaquara, aqui na Chácara Flora,
foi meu primeiro emprego. Então tive que parar de estudar. Não dava para fazer as duas coisas.
C.K – Porque você veio para São Paulo?
E.M - A primeira vez eu vim com minha mãe, meu padrasto já tinha vindo e queria que ela viesse. A minha
mãe trouxe todo mundo. Eu estava fazendo a sétima série, e tive que parar. Quando a gente chegou aqui, a
minha mãe não incentivou a gente a estudar mais, ela queria que a gente trabalhasse. E depois meu avô
passou muito mal, e no Nordeste ele só tinha minha mãe, e minha mãe voltou. Ela mandou eu e meu irmão
o Jean e voltamos sozinhos. A Lândia já tinha ido porque ela tinha muitos problemas de saúde e passava
muito mal aqui em São Paulo. Ela foi primeiro, depois eu e meu irmão e depois a minha mãe foi também.
Meu avô teve um problema e minha mãe ficou cuidando dele, ele só tinha ela para cuidar dele. Foi aí que eu
comecei a namorar o meu marido, a gente se conheceu lá. Eu tinha treze anos quando começamos a
namorar, aí nós nos afastamos, depois voltamos, coisa de namorado, vai e volta. Depois o meu namorado
veio para São Paulo, e eu fiquei lá. Lá não tinha nenhuma perspectiva de vida, eu não estudava mais, já não
queria estudar mais, e resolvi vim embora. Eu já vim morar direto com meu namorado, alugamos um quarto
e moramos juntos.
C.K – Quando você veio pela segunda vez para São Paulo, sua intenção era trabalhar?
E.M – Na primeira vez eu tinha treze anos, e não tinha a intenção de trabalhar, eu queria estudar, fazer
alguma coisa. Mas quando a gente chegou aqui a vida foi muito difícil, minha mãe teve que trabalhar. Meu
padrasto nunca foi muito responsável, então a gente teve que correr à trás. As pessoas dizem que aqui as
coisas são mais fáceis, mas não é não, as coisas aqui são um pouco mais difíceis. Eu tive que trabalhar,
arrumei o emprego para dormir nessa casa e trabalhei lá dois anos, um ano e meio mais ou menos. Foi
quando meu avô ficou doente e a gente voltou. Primeiro capitulo
C.K – Mas quando você retornou a São Paulo você veio pensando em trabalhar ?
E.M – Eu passei por algumas situações depois que meu avô faleceu. Ele era meu pai na realidade. Meu pai
morreu e quem cuidava de mim era meu avô, quando ele morreu, meu padrasto tentou ser o pai, mas tentou
de forma errada. E a minha mãe sempre deu valor para tudo que ele falava. Então a gente não tinha muito
valor, era muita briga lá em casa, muita confusão. Eu e meus irmãos éramos todos contra ele. Ele não era
um bom pai, nem padrasto, nem marido, nem nada. A minha mãe dava muito valor a ele, engraçado que ela
foi uma pessoa instruída pela Palavra, meus avôs eram adventistas e instruía a Palavra para os filhos.
Quando chegou uma época, eles não quiseram mais ir à igreja e nenhum dos filhos deles, acho que só um
ainda é evangélico. E a minha mãe foi viver da forma do mundo, ela amaldiçoava a gente, falava coisas
muito dura. Então, a gente não queria ficar passando por isso. A Lândia casou com o César lá na Bahia e
vieram embora para São Paulo. O César teve uma situação com a família e resolveu vir para São Paulo,
tentar vencer na vida e comprar uma casinha. E aí o meu namorado tinha comprado um terreno lá na Bahia,
ele veio primeiro para São Paulo e mandou me buscar. A gente pretendia vir trabalhar, construir nossa
casinha e voltar para Bahia. E aconteceu uma situação difícil, o irmão dele vendeu nosso terreno sem a
gente saber, tipo um roubo, tipo não, é um roubo (riso). E depois a gente ficou sabendo e acabamos ficando
por aqui, deixamos isso para lá. Nós ficamos, moramos de aluguel cinco anos, aí conseguimos comprar um
terreno lá na rua dez, construímos uma casa de dois cômodos e depois conseguimos trocar por esse terreno
aqui e mudamos. Morávamos somente naquele quartinho. Na época eu trabalhava no Palmares foi a época
que fiquei grávida da Letícia (primeira filha) mas, ainda trabalhei um bom tempo, depois que a Letícia
nasceu eu continuei trabalhando. Mas, depois eu fui cuidar da Letícia. Ela nasceu bem fraquinha, cheia de
doença, bem miudinha, bem fraquinha, logo no começo teve problema nas vistas, depois teve problema de
infecção de pele, então tive que parar de trabalhar para cuidar dela.
C.K – E quanto tempo faz que você mora aqui nessa região?
E.M – Na região toda, uns 17 anos. Primeiro morei no Reimberg, depois na entradinha do jardim São
Bernardo, depois vim morar na rua dez, depois da dez estou aqui, espero que pelo amor de Deus, eu não
mude mais, depois daqui quero ir para minha casa própria, porque aqui é terreno da prefeitura.
C.K – Você escolheu aqui por quê?

E.M – Lá na rua dez a gente morava numa casa que ficava numa viela e o dono desse terreno entrou em
contato com meu marido e falou que queira trocar, como aqui não era viela, a gente achou melhor e fizemos
a troca. E viemos para cá, não que tivesse mais valor porque a nossa casa era melhor do que só o quartinho
que tinha aqui. Mas foi super difícil, a gente morava só naquele quartinho, foi quando o Lamartine (segundo
filho) nasceu e a gente só naquele quarto, mas agora está tudo bem. Quando a gente estava ainda na rua dez
a Letícia passou mal e descobrimos que ela tinha diabets. Antes disso eu já estava na intenção de me
separar, a vida estava muito difícil, meu marido era, sabe um tipo assim de baiano que diz “eu nasci assim,
e vou morrer assim” era muito difícil. E tentei me separar, mas quando eu tentei ajuda com a minha mãe,
ela não quis me ajudar, então pensei em arrumar um serviço para dormir e aí Deus permitiu que acontecesse
tudo isso, a Letícia ficou muito doente (...) foi quando eu me converti. Na realidade eu me converti na
Bahia, a gente ia muito na igreja batista Moriá na Bahia, e eu acho que me converti lá e depois em 1997,
aqui. Quando a gente se mudou para essa casa eu já estava grávida do Lamartine, faltava dois dias para ele
nascer.
C.K – E como você conheceu a Maranata?
E.M – Então, quando a Letícia passou mal, fomos para o Hospital Maria Antonieta no bairro Grajaú e
minha irmã fazia parte da congregação (igreja filha da Maranata) quando a Irmã Betânia na época era a
missionária de lá. Minha irmã tinha pedido oração na congregação por minha filha quando ficou sabendo
que a gente estava no hospital. E a irmã Betania foi lá me visitar junto com o Irmão Ademar e a irmã Elena
que eram daqui da Maranata, e eu conheci os dois. Depois fomos transferidas para Santa Casa e eu conheci
a irmã Erizenia (membro da Maranata), ela ficou achando que eu era a Lândia. Eu estava no quarto com
minha filha e a irmã Erizeia entrou e perguntou “o que você está fazendo aqui irmã?” mas eu não entendi,
não conhecia essa mulher. “não acredito que a Kaila está doente!” eu lembro dela falando assim, “mas essa
não é a Kaila!”. Eu estava tão abatida que eu não consegui explicar para ela que eu não era a Lândia, que
era irmã dela, porque dizem que eu pareço muito com a Lândia. A irmã Erizenia me ajudou muito, os
catorze dias que passei lá no hospital. Lembro que quase todos os dias ela passava no quarto, orava com a
gente e falava da bíblia. Nisso o Humberto já ia na igreja Universal. Quando a gente vê um filho doente a
gente busca muito cura, meu coração estava meio duro ainda. Eu sou assim, quando eu não tenho convicção
eu não tenho, mas a irmã Erizenia estava ali comigo todos os dias. Algumas pessoas da Maranata iam me
visitar. Depois viemos para casa e eu passei a visitar a Congregação, não ia na Maranata. Mas um dia as
irmãs da tarde de oração vieram na minha casa para fazer uma visita, oraram comigo e algumas irmãs se
aproximaram mais de mim, depois dessa primeira visita passaram a me visitar com mais freqüência. A irmã
Betânia não parou de me visitar e falar da Palavra. Apesar de que eu vim de um lar evangélico, meus avôs
eram adventistas, a gente quando vem de uma religião que muda completamente a bíblia não aceita outra.
Eu mesma não aceitava por que a batista não guardava o sábado, essas coisas. Depois quando eu comecei a
ir na Congregação ia por ir, por obrigação, ia porque os irmãos tinham ido na minha casa. Nessa o
Humberto se converteu na Universal. Ele falava para mim que ia na igreja e eu não acreditava, eu conhecia
o Humberto. Eu falava “vai na igreja nada!” as vezes ele trazia sal grosso, enchia a casa de sal grosso, eu
ficava irritada, “para que sal grosso!” ele colocava na casa toda, encima dos móveis, uma coisa de gente que
esta indo na Universal e ficando meio doida. Mas aí ele conheceu alguns irmãos da Maranata e começo a
freqüentar a Maranata, mas eu não ia. Um dia eu fui. Foi engraçado, a gente estava voltando da Maranata, a
Letícia estava com mais ou menos cinco anos e meio e quando a gente estava entrando na rua dez, teve um
tiroteio. Na pregação do pastor Varela que a gente tinha acabado de ouvir, ele falava que a gente poderia
não estar mais vivo amanhã ou mesmo depois de dez minutos. Eu ouvi a pregação e depois passei esse susto
antes de chegar em casa, então eu fiquei com medo “esse homem falou que eu poderia morrer mesmo e eu
não aceitei a Cristo!” Ai comecei a ficar alerta, mas mesmo assim eu não me converti. Comecei a visitar a
Maranata aos domingos de manhã e a noite e na hora da pregação eu saia da igreja. Eu tinha medo quando o
pastor começava a falar, eu pensava, “esse homem outro dia falou aquilo e quando cheguei ali quase morri,
mas escapei. O que será que ele vai falar hoje?” Ai eu saia e ficava do lado de fora, era uma coisa diabólica,
só para eu não ouvir a pregação. Um dia eu fui na congregação, o Lamartini tinha nascido na sexta-feira dia
dez de outubro, e eu me converti no dia 31 de outubro. Fui para casa da Lândia porque não me sentia bem e
a gente foi na igreja. Era o pastor Clodoviu que estava pregando, lembro que ele pregou sobre a vida de um
homem, não lembro do nome do homem, mas escrevi na minha bíblia, esse homem não teve tempo de se
converter, não teve tempo de aceitar a Cristo. Essa palavra vinha sempre no meu ouvido, eu chorei tanto
naquele dia e me converti. E a irmã Betânia me falou que eu devia começar a freqüentar a Maranata porque
era mais perto da minha casa, mas eu não sei, a Maranata tinha uma coisa, sabe essa coisa de na hora de
apresentar o visitante, eu não gostava de ter que falar o nome, eu era tímida. Quantas vezes eu sabia que iam
perguntar o nome dos visitantes e eu saía. Depois que passava tudo eu entrava de novo, engraçado (risos).
Mas eu comecei a ir na Maranata, as irmãs da tarde de oração me apoiaram muito, o Ednildo (seminárista)
foi uma pessoa muito especial, eu aprendi mais da bíblia com ele. O Edvan me levou muito ao hospital de
carro quando a Letícia ficava doente, foram pessoas que participaram muito da minha vida, a irmã Betânia,

o Ednildo não sabem o quanto eu tenho conhecimento da Palavra através deles, das pregações, de vê um
menino tão novo e tão inteligente pregando de Jesus. Eu comecei a ficar firme na igreja, mas como na época
eu não era casada eu não pude me batizar, toda vez que eu ia me batizar eu não conseguia porque eu não era
casada.
C.K – Mas você não conseguia porquê?
E.M – A igreja não permite, acho que é norma da igreja, uma coisa assim. O pastor Varela até quis que eu
me batizasse uma vez, mas eu não aceitei, eu sentia no meu coração que não era uma coisa certa. Depois eu
casei, e me batizei, dia 30 de agosto agora fez dez anos que eu me converti e Deus está me conduzindo.
C.K – O que mudou na sua vida depois que você se converteu?
E.M - O que mudou de verdade foi a paz. Antes de eu me converter eu não tinha paz tudo para mim era
ruim, eu não olhava para as pessoas diretamente se eu não gostava. Então uma coisa que mudou muito na
minha vida foi a paz, eu passo por qualquer dificuldade, mas sempre com aquela paz. Quando me acontece
alguma coisa de doença, de emergência eu tenho sempre paz, tanto que meu marido fala “nossa eu nunca vi
uma pessoa com tanta tranqüilidade” e eu tenho realmente tranqüilidade. Eu passei por uma situação um
tempo a trás por que a Sara (a terceira filha) teve convulsão e eu só pedi a Deus paz e tranqüilidade. Passo
em qualquer escuridão, não gosto de escuro, mas peço ao Senhor segurança, e passo tranqüila.
C.K – O que mais mudou na sua vida?
E.M – A maneira de falar, acho que falo um pouco mais agora, eu me expresso um pouco mais.
Antigamente eu era muito tímida, para eu falar, desabafar, contar alguma situação, não fazia de jeito
nenhum, eu tinha as minhas coisas e ficava guardado era eu e pronto. A gora na minha casa houve uma
mudança muito radical, não na minha vida, mas na vida do Humberto, era como te falei, ele era aquele cara
do nordeste que falava “nasci assim e vou morrer assim” houve uma mudança muito radical na vida dele. A
gente era muito de festa, quando mudamos para cá todo ano a gente ia para a praia do Guarujá, passávamos
o final do ano, o reveion tudo no Guarujá, bebidas, noites, eu nunca fui de beber, mas até droga tinha no
meio. Era uma vida meio dura, meio difícil, uma vida de fazer a vontade de satanás. Isso mudou
completamente.
C.K – alguma coisa material mudou na sua vida?
E.M – Não, porque eu nunca fui materialista, nunca fui de dizer “quero ter, vou ter” essa parte aí não. Mas
agora eu gosto sempre de ter uma reserva para o dia do amanhã, então assim manter alguma coisa. Eu
sempre falo com meu marido para guardar um pouco para amanhã. O amanhã não pertence a gente, eu
aprendi isso com minha mãe, o caráter e saber que amanhã eu posso precisar daquilo que gastei hoje. Então
se eu tenho R$ 10,00 reais hoje, com certeza eu gasto cinco hoje e guardo cinco para amanhã. Isso também
foi uma lição de vida, porque a Letícia ficou muito mal, e a gente não tinha R$1,00 real para levá-la no
médico, isso foi uma lição de vida. Mas materialista não, nunca fui uma pessoa de pensar em bens, bens.
C.K – O que você pode apontar de positivo nessa região?
E.M – De positivo daqui (...) as pessoas falam muito de ladrão, mas aqui não tem, sabe segurança, aqui é
um lugar que tem segurança. Aqui tem muito “noinha”, muito bandido, ladrão mesmo, mas eu durmo com
minha porta aberta e não acontece nada. Então é uma coisa de positivo. Posso dormir com minha porta
aberta e acordar que está do mesmo jeito. Segurança de poder, não que eu vou fazer isso, dormir de porta
aberta, mas é seguro.
C.K – E de negativo?
E.M – Acho que é a cultura, acho que falta algo para incentivar a educação. O prefeito ou alguém que
pudesse colocar alguma coisa, se aqui tivesse uma área de cultura, não só para os adultos, mas para crianças
também. A gente tem uma estrutura de médicos, e enfermagem muito boa aqui no bairro. A gente não tem a
gente de saúde, mas temos AMA, temos muitos postos próximos, farmácia, mas nessa parte deixa a desejar.
Antes a gente não tinha esgoto, mas agora temos, a gente tem água é direta não falta, tem lugares que tem
racionamento direto, mas aqui não tem, nessa área aqui. Seria isso, um espaço de cultura para incentivar os
grandes e pequenos.
C.K – A água é encanada, esgoto, mas aqui tem um córrego aberto, não é?
E.M – É, mas esse córrego não é para esgoto, o prefeito ainda não quis tampar, não quis gastar dinheiro
para tampar, mas ele não tem uma utilidade. Quando eu mudei para essa casa, ele tinha, era tudo, esgoto,
fossa, tudo. Tanto que era um cheiro insuportável, mas agora não. A sabesp veio e canalizou tudo, ele não
serve mais de esgoto.
C.K – E a eletricidade?
E.M – A luz a gente não tem, isso não é erro do bairro. A eletropaulo já tem ciência que esse bairro não tem
luz, a gente já foi lá. A gente tem uma organização de moradores de bairro e a irmã Erizenia é uma das
pessoas responsável, mas já tem uma lista das pessoas que não tem luz. Há dez anos quando eu mudei para
cá, a gente não tinha água, mas essa mesma organização de moradores do bairro fizeram um mutirão e
resolverãm o problema da água, fizeram o mesmo para luz, mas colocaram os postes, mas não vieram fazer
a ligação.

C.K – Você estudou até quando?
E.M – Lá na Bahia estudei até a quarta série e quando voltei pela segunda vez terminei o ensino médio aqui
em São Paulo, fiz um curso profissionalizante e agora estou terminando o outro.
C.K – E qual curso?
E.M – Fiz auxiliar de enfermagem, agora to no finalzinho do técnico de enfermagem. Trabalho na área
como auxiliar. E estou querendo na primeira semana de outubro quero fazer um curso de eletrocardiograma,
acho tão bonito!
C.K – O que você pode apontar de positivo na Maranata?
E.M – Nossa, você me complicou agora (risos). Tem muita coisa de positivo na Maranata, a estrutura do
prédio é boa, é ventilada, tem muitas pessoas ali em comunhão, não posso generalizar não é todo mundo, é
um lugar que tem quase duzentas pessoas. Mas a comunhão de uns irmãos principalmente os da minha
época, os de hoje não temos mais tempo de conversar. O apoio também, eles apóiam muito nas dificuldades
financeiras, quando existe alguém que precisa ser ajudado, eu posso contar com algumas pessoas da
Maranata, então esse é um ponto positivo, eles são unidos mesmo. Não vou generalizar, mas com certeza
esse é um ponto positivo.
C.K – E de negativo?
E.M – Uma coisa que poderia melhorar, acho que no geral, quando fala em melhorar falo principalmente de
mim, porque eu sou a Maranata. Nem vou falar de outro, mas vou falar de mim, eu é que preciso melhorar
nessa parte. De me preocupar, preciso me preocupar em salvar vidas, o meu coração há algum tempo atrás
tem tido essa preocupação, a gente fala muito em missões lá fora, mas missões a gente faz aqui mesmo, se
cada um plantar uma sementinha do que Deus fez na vida da gente, seria bom, e eu percebo que tenho
falhado nessa parte de missões.
C.K – Você acredita que existe uma relação de irmandade e amizade entre os membros da
Maranata?
E.M – Você quer dizer grupos separados? De todos juntos não. Todo mundo com todo mundo não. Isso
não acontece só com Maranata, no meu serviço, na escola onde estou, existe, como posso falar, quando
você tem um carisma com algumas pessoas, você na realidade ama todo mundo, mas se aproxima mais de
algumas pessoas, tem mais afinidade com um que com outro. Para você ter uma idéia moro perto de duas
famílias da igreja e tenho mais afinidade com uma que com outra, com a primeira família que conheci tenho
mais afinidade, não que eu não goste da outra. A gente almoça junto, passa o domingo juntas, come pizza
juntos e com a outra família não, ficam mais afastados.
C.K – Nós somos classificados como branco, preto, pardo, amarelo e indígena, como você se
classifica?
E.M – No meu registro, na época colocavam cor, mas agora não colocam mais, mas lá no registro fala que
eu sou parda.
C.K – E você, como se sente?
E.M – Eu me sinto parda. Meio amarelada, (...) eu me sentiria meio branca (...) me sinto branca (risos) mas,
aquela ali é pretinha (aponta para filha em tom de brincadeira). Nós aqui no Brasil não podemos nos sentir
branco, preto, pardo, porque a gente é mestiço, tudo junto. Na minha família tem uma parte toda morena
como a Sara, as pessoas falam que branco com cabelo ruim é preto, tem essa confusão, mas eu me sinto
branca. Às vezes estou em um grupo e a pessoa grita “vem cá branquinha” outra ora dizem “morenhinha”
eu tenho uma colega que me chama de negra, ela fala “vem cá negrinha” eu respondo que negrinha que
nada, não sou negrinha, mas é o jeito dela falar. Mas você está no grupo as pessoas te vêem um pouco
branca, um pouco morena.
C.K – Você acha que entre os membros da Maranata existe diferenciação entre o pardo, preto e
branco?
E.M – Não, eu nunca vi isso de alguém diferenciar o outro por causa de cor. Percebi diferenciar de
financeiro, essa eu acho que existe uma diferença, de social, mas de cor não. Essa eu acho que sim.
C.K – Você já viu isso?
E.M – Eu passei uma situação um tempo atrás, foi quando eu terminei de fazer essa parte da casa, quando
ficou pronto o quarto e a cozinha, eu convidei as pessoas da Maranta para fazer um culto aqui, mas uma
certa pessoa que eu convidei disse que não descia na favela, falou claramente isso para mim. E eu pensava
“porque não desce na favela?” Ai eu vi a diferença, mas é isso. Uma pessoa que tem faculdade, cultura, fala
um pouco melhor, é assim mais atirado, ela é diferenciado. Até porque ela própria busca isso. Quando eu
cheguei na Maranata eu senti que eu mesma tinha que procurar meu ciclo de amizade, porque a pessoa que
é tímida ela mesma se isola. Mas isso é coisa de pessoa, vai de pessoa para pessoa. Eu sou mais atirada, vou
lá e falo.
C.K – Porque você acha que existe essa diferença social e não existe por raça?
E.M – Não tem por que eu nunca vi, na minha casa mesmo meus filhos são de cor, são morenos e não
houve distinção para aqueles que são brancos, muito pelo contrário.

C.K – Você já ouviu falar sobre as políticas de cotas?
E.M – Ah! Sim, para mim tranqüilo, mas eu acho que é uma discriminação, você ter cota para alguma coisa
é uma discriminação. Ali está especificando quantos negros e pobres podem estar entrando na faculdade, e
hoje em dia você vê que isso não é muito bem aceito nem na classe social nem na outra classe. Que nem o
meu irmão, ele fez a faculdade, mas nunca precisou de uma cota para entrar. Ele é negro. Ele conseguiu
uma bolsa através do próprio esforço dele. Se existe uma cota que dez tem que ser negro e dez tem que ser
branco você não sente que está entrando ali porque precisa dessa cota? É como o colégio que estudo, lá tem
que ter dez por cento de bolsista integral, sei lá, acho que é tipo uma humilhação para o ser humano.
C.K – Então você não vê as cotas como uma coisa positiva?
E.M – Para mim não, você só esta ali por causa da cota, não gosto disso você tem que estar ali porque
estudou, porque merece e tem possibilidade de estar ali dentro.
C.K – Você já ouviu algum estudo sobre a questão racial, o preconceito e o racismo na Maranata?
E.M – Sim. Faz um tempão que a gente falou sobre isso, a união feminina mesmo é muito balanceada
quando tem uma notícia de algo muito ruim ou bom que aconteceu a gente conversa sobre isso. Como eu te
falei não vejo esse problema na Maranata, nessa parte eu dou nota dez para ela. Com esses dez anos que
estou lá nunca vi.
C.K – Porque as pessoas não discriminam dentro da igreja?
E.M - Eu não sei, nunca percebi. Nunca parei para pensar sobre isso, nunca analisei por que não tem isso.
Mas não tem mesmo. Essa parte pelo tempo que tenho de Maranata nunca percebi isso dos irmãos, de
racismo. Eu percebo pela própria pessoa, a gente que mora em determinado lugar, quando a gente chega em
determinado local a gente mesmo se afasta, a gente acaba se sentindo inferior e não é nem as pessoas que
tem uma classe melhor, é a gente mesmo.
C.K – Você acha que a Maranata poderia falar mais sobre o assunto do preconceito racial e racismo?
E.M – Não, pelo que ela tem falado até agora é suficiente. Porque assim, não só a Maranata, em
comunicação, televisão, todo lugar que você vai, faculdade, a gente tem uma matéria no curso que é de ética
e fala dessa coisa de igualdade social e de tudo isso que acabamos de falar até agora. Do negro, do
funcionário exemplar, da parte financeira de quem tem faculdade, pessoa mais falante. Tem uma pessoa na
igreja que todo mundo gosta dele por ele ser comunicativo, falante a gente meio tímido se sente menos
comunicativo. Acho que tem isso. Não tem nada a ver com cor de pele.
C.K – Então você não vê necessidade de falar sobre esse tema?
E.M – Não tem necessidade, no nosso pais já é muito falado, em São Paulo, mesmo, existe racismo, são
pessoas que não convivem bem com os outros. No meu serviço mesmo tem um cara que é racista. Se tiver
um neguinho, neguinho não, uma pessoa de cor, para fazer uma prova e uma branca, a branca passa. Existe
realmente isso, mas é muito falado. Eu fui a uma palestra a um tempo a trás e nessa palestra e falou muito
sobre isso.
C.K – Você é feliz com a cor que você tem?
E.M – Sim. Não como a gordura, mas com a cor sim (risos). Na realidade sou feliz não é pela cor que tenho
antes de eu ter Cristo eu era triste, agora sou alegre. Nunca parei para pensar se eu era feliz com minha cor
por causa do meu cabelo, nada disso. Sou feliz mesmo por causa de Cristo.
14. Nome: Ademar
Data da entrevista: 03/07/2007
Cor: moreno

Idade: 58 anos
Local da entrevista: Deposito loja, local de trabalho do depoente.

C.K - O senhor nasceu aqui mesmo em São Paulo?
AD - Não, na Bahia. Vim para São Paulo em 1974.
C.K - O senhor veio morar direto nessa região?
AD - Não. Morei na região de Interlagos, na Cidade Dutra. Morei lá até o ano de 1982. Me converti na
igreja Batista Jardim Satélite, no final de 1980 e inicio de 1981. Eu já tinha o terreno aqui construído e
mudei para no meio de 1982. Nesse tempo eu tinha em média dois anos de igreja, e fiquei quase um ano
congregando no Jardim Satélite, foi quando conheci o pastor Josias, que foi o primeiro pastor de Maranata,
o fundador. Nos conhecemos e então, bateu o desejo de mudar para Maranata. Eu tinha a idéia de que lá no
Jardim Satélite, a igreja já era conhecida, o pessoal era familiar, e talvez a gente não se adaptasse tão fácil
em outra igreja não conhecendo ninguém, “aquele primeiro amor”. Mas um dia, a gente com dificuldades
de locomoção, porque a gente tinha duas crianças novas e com dificuldades de saúde, a gente se locomovia
de ônibus, aí nós pensamos na mudança. Conversamos com o pastor e chegamos à conclusão que iríamos
mudar. Foi quase na saída do pastor Josias da igreja Maranata e em seguida veio o pastor Ananias.
C.K - Quanto tempo o senhor mora na região do Grajaú?
AD - Ao todo, trinta e três anos.
C.K - Quais os pontos positivos e os negativos de morar aqui nessa região do Grajaú?

AD - O positivo é em relação ao poder aquisitivo, eu não tenho condição de morar em outro lugar além
daqui, por causa do poder aquisitivo. Mas o negativo é que por ser periferia, a gente desfrutas da sobra, do
restante. Para nós, quando chega algum beneficio é quando sobra de outros bairros de centro, de classe
média. Então, o ônibus é o mais simples, o banco é aquele de final de linha com o pequeno serviço, com o
equipamento que não serve mais em uma agencia de classe média. Então, a gente tem essa opção por
questão financeira.
C.K - E em relação a estrutura dos bairros, como por exemplo, a água, luz, asfalto...
AD - Hoje nós temos assim, uma extensão, na verdade uma extensão mesmo, porque a gente paga por isso,
a gente hoje não tem nada grátis, a gente tem que pagar por tudo. Temos aqui um serviço médio. A gente
paga por isso, mas precisa melhorar.
C.K - Seus pais estudaram?
AD - Meu pai estudou um pouco, e minha mãe aprendeu com meu pai. Meu pai tinha uma escolinha em
casa, então ele ensinando os alunos e ela observando, então ela aprendeu a ler com ele.
C.K - E você, estudou?
AD - Eu estudei um pouco na Bahia e um pouco aqui, deu para aprender a ler, tenho o primário completo.
C.K - Qual a sua profissão?
AD - Trabalhei em uma metalúrgica, e na metalúrgica eu tive incentivo para fazer um curso
profissionalizante. Eu trabalhava junto com meu irmão que era profissional da área mecânica. Mas eu não
tive nível para acompanhar os estudos, então eu fiz o curso simples que era de torneiro mecânico e de
ajustagem mecânica. Aí eu trabalhei na metalúrgica, mas eu sai de lá para trabalhar com meu irmão em um
depósito de construção, foi onde eu virei comerciante, meio que empurrado (risos).
C.K - O senhor já pertenceu a outra religião?
AD - Não. Antes de ser batista eu não era nada.
A importância da identidade religiosa batista, quando se considera nada antes de ser batista.
C.K - Quantos anos o senhor tem de membro da Maranata?
AD - Tempo de fundação. Eu descobri depois com o tempo, que quando eu cheguei na igreja Maranata, ela
havia sido fundada estatutariamente, aliás, pela assembléia, mas o estatuto nem era registrado. Foi
registrado pelo primeiro pastor que veio depois de mim.
C.K - Como o senhor conheceu a Maranata?
AD - Tinha uma irmã que morava aqui no bairro e congregava com a gente no Jardim Satélite, ela veio do
Jardim Primavera para cá e ficou congregando lá. Mas como ela era sozinha, o esposo e o filho não
ajudavam, então ela ia quando dava, quando não dava ela ia aqui (na Maranata) porque ficava mais perto,
ela morava no conjunto Flávia. Mas quando ela ia lá ela dizia “fui lá na igreja Maranata, e falei de você para
o pastor!” Então ela fazia isso toda vez que a gente se via. E no dia que eu conheci o pastor Josias foi ela
que me apresentou. Foi num evento, no dia da Bíblia, lá no largo São José. Então ele me levou para
conhecer a igreja e trouxe a gente em casa. Levou para conhecer a igreja e depois veio conhecer a gente,
saber onde a gente mora (...) Acho que a gente fez uma visita a Maranata, antes de freqüentar com a
intenção de ser membro.
C.K - O senhor poderia di zer quais os pontos mais positivos e negativos da Maranata?
AD - Os mais positivos, por ser uma igreja do Senhor, foi Ele que me colocou nessa igreja. E eu tenho bons
relacionamentos com as pessoas que são como eu, que lutam para acertar como eu, e nós temos esse bom
relacionamento, uma boa doutrina que é a palavra de Deus, uma doutrina sadia biblicamente, e eu sinto bem
no meio batista. Não conheço outras doutrinas o suficiente para fazer uma comparação, mas não tenho
desejo de mudança. O ponto negativo é por que eu estou lá dentro, como pessoa, e a igreja é formada por
pessoas. Então esse ponto negativo é de pessoas como eu, que biblicamente, pelo Espírito Santo, nós
lutamos para acertar, e hora ou outra nós estamos tendo vacilos, digamos assim, deslizes, não acertamos
cem por cento. Mas isso não é maior do que a razão de ser crente.
C.K – O senhor acredita que existe uma relação de amizade e irmandade entre os membros da
Maranata?
AD - Acredito. Uma relação de irmandade e amizade? Quando a gente se conhece, isso, tanto na igreja
quanto fora da igreja, a gente tem um sentimento um pelo outro, e quando isso é dentro da igreja que a
gente fala uma língua, conhece a vontade de Deus, esses laços são estreitados e reforçados, e a gente tem
esse sentimento um pelo outro ao ponto de lançar-se como defesa, lançar-se como ajudador, como
orientador, e isso a escola bíblica faz com muita precisão, com um alto poder de compreensão, de
discernimento. E a gente aprende e se fortalece nesse aprendizado. E irmandade (...) Quando a bíblia
defende a nossa irmandade como membros do corpo de Cristo, porque nós nos tornamos um em conjunto,
um enquanto grupo. E nós sentimos isso quando temos esse afeto um pelo outro.
C.K - O senhor acredita que existe alguma diferença entre um me mbro de cor branca e outro de cor
negra, dentro da igreja?

AD - Na igreja eu não conheço isso. E na sociedade, eu acho que é muito pessoal. As vezes até brinco que o
racista é o próprio negro, que ele de alguma forma, talvez por querer adivinhar o que os outros pensam dele,
às vezes ele se isola, e não justifica, não justifica eu achar o que os outros estão pensando de mim, sem
ouvir, e às vezes até ouvir e não interpretar. Então na igreja eu não vejo isso.
Colocar o negro como culpado por ser vitima de preconceito racial.
C.K - Então não existe diferenciação nem em relação ao branco nem ao negro?
AD - No meu conhecimento não existe.
C.K - A Maranata discute o tema do preconceito racial?
AD - Eu não tenho visto com freqüência, talvez por uma questão cultural e regional. Como eu nunca
congreguei em uma igreja onde tenha muita gente de cor, talvez isso não foi necessário. E por uma questão
de via literatura eu não tenho visto.
C.K - A Maranata discute essas questões?
AD - Não constantemente, mas sempre quando necessário.
C.K - Já houve necessidade?
AD - Necessário, não pela presença de alguém de cor, ou por um problema, mas por ensinamento.
C.K - O senhor já ouviu a respeito das cotas para negros em universidades e empresas privadas?
AD - Eu sei muito vagamente, sei que é muito polêmico, pessoas que deveriam estar defendendo, ora ou
outra se lançam atrapalhando. Ouvi recente uma pessoa que deveria estar defendendo, estava como que
jogando areia, uma expressão popular, jogando areia no meio do assunto para desviar, para atrapalhar, para
confundir, e (...) não acho necessário.
C.K - As cotas não são necessárias?
AD - Não acho necessário, acho que é uma obrigação, e isso o governo não precisa jogar para sociedade. O
governo tinha que tratar disso. Assim como ação social é uma obrigação do governo e o governo não tem
que discutir isso com a sociedade. E assim como cota também, o ser humano precisa ter a oportunidade, já
tem o direito. Eu tenho o direito de me ingressar na faculdade pública, só preciso ter o caminho aberto para
que eu estude o suficiente para chegar lá, e chegando lá, ter a porta aberta, o que não acontece para mim
nem para o negro. Então não acontece com facilidade para ninguém, porque os governos não levam a sério,
não cumprem a sua tarefa para que isso seja normal, tinha que ser normal para todo o ser humano. Essa
pessoa que eu ouvi a pouco, que defendia que deveria ser normal, ele jogou um assunto muito fora do
comum, dizendo que se essa pessoa chegasse lá na frente em um emprego, em uma entrevista de emprego,
alguém poderia dizer assim, “você chegou na faculdade por que tinha a cota”, não justifica, né? Todo ser
humano deve ter a oportunidade de estudar e chegando no nível de faculdade ter a porta aberta
independente de cor. Não deve ser uma questão de cor, deve ser uma questão de estrutura governamental,
para que todo o ser humano que chegue ao nível de faculdade, tenha oportunidade.
C.K - As cotas para o senhor são desnecessárias, o senhor sabe qual a posição da igreja Batista, ela é
contra ou a favor?
AD - Eu posso imaginar, mas não posso afirmar, por que esse assunto nunca foi discutido a nível de igreja,
mas como eu não vejo nenhuma posição contraria, eu acredito na conveniência, na aceitação.
C.K - O senhor acha que a igreja é a favor das cotas?
AD - Acho que é a favor.
C.K - Por quê?
AD - Por que a igreja não tem nenhum principio de contrariar o que é importante para sociedade e para o
ser humano. Eu não estou sendo contra as cotas, só acho que é desnecessário ter, porque deveria ser uma
oportunidade normal tanto do negro quanto do branco. Então eu não estou sendo contra que haja, porque no
momento se não houver a cota, eles são cotados, né?(risos) Mas eu acho que deveria ser normal, eu acho
que a igreja acha assim, que deveria ser normal, mas em sendo assim um meio viável hoje, por questão da
conjuntura econômica e social, eu acho que a igreja concorda na existência de cotas.
C.K - O senhor disse que em algumas oportunidades a igreja tem falado sobre a questão do racismo e
do preconceito racial, mas o senhor acha que ela deveria falar mais, ou o que ela faz já é o suficiente?
AD - Acho que depende da necessidade, por que não se aprende com a bíblia a fazer diferença, então não
tem porque ser inserido no conjunto de ensinamentos, uma vez que não é necessário.
Se a bíblia não ensina a fazer diferença o crente não faz diferença entre branco e negro, logo esse não pode
ser considerado um problema para igreja.
C.K - Necessário para quem, para sociedade ou para igreja?
AD - Para o cristão. Não é necessário discutir isso porque o cristão já tem por principio o respeito ao ser
humano independente de cor, o que é bíblico.
Ser cristão é suficiente para não ser racista.
C.K - Então dentro da igreja não há racismo?
AD - Não conheço e espero não descobrir (risos).

Não querer descobrir pode ser uma forma inconsciente de não querer ver uma realidade que sabe que existe,
mas que contraria a lógica de pensamento. Ou seja, ver racismo dentro da igreja contraria a lógica de que
uma vez crente, não há preconceito.
C.K - Como o senhor entende o negro no Brasil?
AD - O que é o negro brasileiro? Não sei se a resposta vai ser o que você quer, mas eu acho que é um ser
humano como tantos, de todas as cores.
C.K - A questão do preconceito e do racismo, como o senhor entende isso no Brasil?
AD - Como eu disse antes, eu acho que é uma questão pessoal, e não vejo nenhuma necessidade de uma
pessoa de cor, negro, sentir-se agredido sem ouvir, sentir isso como uma pressão, uma discriminação por
causa de sua cor. Apensa imaginar o que os outros pensam mal de si, não justifica.
Entender a questão como pessoal é o mesmo que entender o problema como uma questão individual para
ser resolvida, quem tem preconceito que cuide dele, não tenho nada com isso.
C.K - Há racismo no Brasil?
AD - Olha, eu só ouço, mas eu não conheço, não posso afirmar. Para mim não existe.
15. Nome: Rubens Pereira
Data da entrevista: 19/07/2007

Idade: 32 anos
Local da entrevista: casa do entrevistado Cor: pardo

C.K - Fale sobre sua trajetória, você nasceu em São Paulo, como chegou nessa região do Grajaú?
R.P - Eu desde pequeno nasci e fui criado aqui na região, só mudei de habitação praticamente. Meus pais
vieram para cá. Meu pai morava no Sumaré e minha mãe morava em Minas. Eles vieram para cá (São
Paulo), se conheceram e começaram a namorar e já mudaram para cá na região do Grajaú, moraram
próximo ao autódromo de Interlagos, depois foi vindo mais para cá para o fundinho. Cresci e me estabeleci
aqui, pretendo mudar, mas continuo aqui.
C.K - Qual a sua formação?
R.P - Tenho o segundo grau técnico, sou formado em técnico em segurança do trabalho, e pretendo fazer a
faculdade (...) mas, não sei quando.
C.K - Que faculdade pretende fazer?
R.P - Pretendo fazer alguma coisa na área da educação para que eu possa lecionar. História, eu gosto de
História, mas pode ser Geografia, não quero Matemática, não quero Português, quero algo que eu consiga
motivar as crianças ou quem está do meu lado, ao conhecimento da região que ele esta, da sociedade que ele
vive.
C.K - Seus pais estudaram?
R.P - Estudaram, mas só o ensino básico, ou menos que o básico, os dois foram até a quarta série, meu pai
acho que foi até a quinta série, minha mãe foi até a quarta série com certeza.
C.K – Qual é a sua profissão?
R.P - Autônomo, hoje sou taxista.
C.K - Como você já mora aqui há trinta e dois anos, diga os pontos positivos da região e os negativos.
R.P - Não tem poluição. (...) Não é que não tenha poluição, mas é que a poluição é menor, pelo fato da
gente não ter fábrica, os automóveis são em menor quantidade, apesar de ter bastante carro aqui também.
Mas a gente está cercado por duas represas, tem a represa Bilíngües e a Guarapiranga. Temos uma
quantidade, que está ficando pouca, mas razoável de verde, de árvores na região. Então é um ponto positivo,
não ter a poluição que se tem mais próximo do centro. E o negativo é exatamente por não estar próximo ao
centro, você não tem acesso a quase nada, não tem metrô, as condições de vida não são as melhores, demora
muito tempo para sair do bairro, para voltar para o bairro. Esta crescendo, mas ainda é muito pouco, não
tem acesso a cultura, não se tem teatro, o cinema é longe, o clube público é longe, tem o SESC, mas o
SESC eu acho que é pouco, os parques são todos longes também. O acesso e a divulgação são poucos aqui
na região, devia ter um acesso maior e uma divulgação maior, do que se tem de cultura na região. E por não
ter cultura, as pessoas acabam sempre indo para o outro lado, o da marginalidade, que é o outro lado ruim
também. Não tem cultura e a pessoa acaba indo para o lado da marginalidade, e tem muita violência no
bairro, você anda sempre acesso, ligado o tempo todo, esse é o ponto negativo da região de onde a gente
mora. Tem só a fórmula 1, mas não está no nosso nível, está muito acima, trezentos reais o ingresso,
ninguém daqui da região vai, só se for muito aficionado, eu gosto mas não tenho condição de ir.
C.K - Em relação a estrutura do bairro, luz, água, asfalto, esgoto...?
R.P - Luz e água nas regiões principais, o que são as regiões principais? São as ruas principais e suas
cercanias que saem de um lado e do outro, isso tem, saneamento básico, isso existe. Mas se você for mais
afundo, no bairro do Grajaú ou Cocaia ou aqui para trás, não existe. Existe luz, mas existe muito uma coisa
chamada ‘gato’, as pessoas puxam a luz de outro poste. E existe água, mas não existe o esgoto, cobra-se
pela água, cobra-se pelo esgoto, mas o esgoto não existe. Então as pessoas jogam seus lixos e aquilo que a
gente faz normalmente, vai tudo para o córrego. Então falta muito isso, falta isso de infra-estrutura, não é a

melhor. Tem luz e tem água, mas poderia ser muito melhor. É um bairro antigo, mas eu acredito que somos
um pouco esquecidos.
C.K - Você já foi de outra religião?
R.P - Bom, como quase todos desse país, Católico Apostólico Romano. Nunca entendi muito o que
significava isso quando pequeno, por que e nunca fui a igreja. A gente vai, tem aquela coisa que você não
entende muito, e é batizado. Não entende mesmo porque você é batizado neném, né?(risos) Mas tem a
primeira comunhão, a crisma, aquele monte de coisa da igreja Católica que são rituais que as mães e os pais
levam as crianças, mas as crianças na verdade, não entendem o porquê daquilo lá, muito do que está
acontecendo. Mas meus pais não iam a igreja, muito pouco, eu não tenho nem a lembrança de eu entrar com
meus pais em uma igreja Católica. Mais em casamento, mas aquela coisa muito rápida, muito mecânica, o
padre casa e esta quase dando um chute no noivo e na noiva, “olha, não joga muito arroz por que se não a
outra noiva vai escorregar”. Então eu tive isso até meus catorze anos, quando a gente começa a descobrir
realmente a vida. Fui convidado para ir a uma igreja evangélica, que não era grande como a igreja batista
que tem várias igrejas batistas, ou a Assembléia de Deus, mas era uma igreja única, com cerca de cento e
cinqüenta membros. Aceitei a Jesus lá, descobrir a razão da minha vida lá. Fiquei lá dez anos, e nesse meio
tempo conheci a minha esposa, ela já era da igreja batista. Daí eu conheci a denominação batista, por que eu
não conhecia, só via a placa da igreja, mas eu não conhecia, não sabia o que eles acreditavam, o que era
uma igreja batista. Depois desses dez anos, eu já estava casado, a gente preferiu sair da igreja pela distância,
mu ito longe vir de lá para cá, e aqui tinha uma igreja bem mais próximo, então a gente resolveu sair de lá e
vir para cá. Foi assim que eu conheci a igreja batista, através da Renata. Eu era Católico, depois fui para
uma igreja evangélica única, interdenominacional que é o nome, única só tinha (...) São duas uma igreja
aqui e outra em Atibaia, e de lá eu vim para a igreja batista, a Maranata.
C.K - Você gosta da Maranata?
R.P - Gosto. Tem erros, tem acertos como todas as igrejas. Tem defeitos como todas as igrejas, talvez eu
seja um defeito da igreja (risos) por que na verdade igreja são quatro paredes, ela não faz nada, os erros e
acertos são sempre nós, os seres humanos que fazemos. É uma igreja agradável, não é uma igreja grande, a
denominação é grande, mas a igreja, a nossa igreja é pequena, pequenininha, né? Estamos procurando
crescer, procurando sonhar, trabalhar para que ela cresça. Mas eu gosto, gosto bastante, estou satisfeito.
C.K - Quais os pontos positivos e negativos da Maranata?
R.P - De positivo (...). Vamos começar primeiro pelo positivo. De positivo, eu acho que a gente tem um
amor demonstrado ás pessoas que chegam à igreja. Pelo menos, se tenta acolher da melhor forma possível
as pessoas. Tenta ajudar através de alguns trabalhos sociais que são feitos, que talvez não sejam tão
divulgados na igreja, mas eles são feitos. Através de entrega de cestas básicas, não financeiro, por que a
gente não tem muito esse lado financeiro, mas através de alimento. Recentemente teve um acidente próximo
da casa de um irmão, explodiu literalmente a casa da pessoa, a igreja foi lá e reconstruiu a casa daquela
pessoa, tentou ajudar da melhor forma possível. Então, eu acho que aos poucos a gente está tentando se
engajar nesse trabalho, não só de evangelismo, mas também na parte social, por que é importante, não
tínhamos isso na igreja. Eu acho que a nossa igreja começou a despertar para isso um pouco, acreditar que
as pessoas não precisam só de Jesus, mas antes de Jesus, ou, junto com Jesus, elas precisam de uma base, de
melhorar um pouco a vida delas, não só a religião em si, mas elas precisam se sentir queridas, amadas,
precisam se sentir gente. Eu acho que na nossa região, muitas vezes, a gente sobrevive, não se sente gente,
se sente qualquer outra coisa, menos gente. De negativo (...) acho que a gente passou muito tempo longe de
quem realmente importa que são as pessoas. A gente ama muito quem está lá dentro da igreja, mas esquece,
muitas vezes, que tem muita gente fora da igreja. A gente perdeu muito tempo em não buscar essas pessoas
fora da igreja. Acho que esse foi um ponto negativo, ainda é, por que a gente não consegue mudar de um
dia para o outro, temos que acordar para isso, estamos tentado aos poucos acordar para isso. Eu acho que
esse é um ponto negativo da nossa igreja Maranata. Tem a questão de som, mas isso é uma questão pessoal,
né? Tem gente que gosta de uma música um pouco mais rápida, outros um pouquinho mais lenta, mais
baixa, um pouco mais alta, tem gente que acha que as mulheres deviam usar calça outros saia, então são
pontos assim, que se perde muito tempo discutindo e não se chega a lugar nenhum, eu acho que isso é
negativo na igreja, as vezes, tem muita comissão para isso, “ vamos ajudar fulano. Vamos. Mas porquê?”,
gasta-se uma hora discutindo e se perde, e não resolve nada. Na realidade a gente é muito prolixo,
conversamos de mais e agimos de menos, isso também é um ponto negativo na igreja. Todo mundo quer
ajudar, mas na hora de ajudar perde-se muito tempo planejando, mas agindo mesmo, gasta-se muito pouco
tempo, também é um ponto negativo.
C.K - Existe uma relação de amizade e irmandade entre os membros da Maranata?
R.P - Acredito que sim. Não da forma como poderia haver, maior, mas sim. Numa igreja que tem duzentos
membros, você pode conhecer os duzentos membros, mas você não vai ter amizade com os duzentos
membros. Vai ter amizade com vinte, que é dez por cento disso. E isso é um grande entrave na cabeça dos
mais velhos. Os mais velhos não conseguem aceitar muito o crescimento da igreja, eles estavam

acostumados com uma igreja de vinte e trinta membros, onde todo mundo se conhecia, às vezes até ia um
na casa do outro para ajudar a fazer alguma coisa ou para comer uma pizza ou para almoçar, havia muito
isso antigamente, hoje não há mais essa possibilidade de você conhecer a todos e ter amizade com todos. Há
amizade e há circulo de amizade na igreja, e a gente não pode cair pensando que é só “panelinha” que
existe. Não existem“panelinhas”, existem grupos de afinidades. Os adolescentes que gostam de música vão
se juntar para ouvir música, os que não gostam vão se juntar para fazer outra coisa, para jogar bola, fazer
outra coisa. Os mais velhos a mesma coisa, quem gosta de uma coisa vai se juntando, quem tem filho
adolescente normalmente se junta para comentar sobre filho, educação, quem tem filhos pequenos criança,
vai se juntar para conversar sobre bebês, sobre fraldas, essas coisas. E os jovens casados vão se unindo
também. Então você vê segmentos na igreja, não é como era antigamente numa igreja pequena onde todos
estavam sempre fazendo as coisas em comum, hoje existe amizade, mas mais segmentada, cada um faz no
seu bloquinho.
C.K - Existe diferença de tratamento entre um membro branco e um negro?
R.P - (risos) Ah! Eu acho que sim. Eu acho que sim. O amor cristão é cristão por parte de Deus, mas por
parte de nós homens, infelizmente, somos homens, e como humanos somos falhos e isso é uma falha que
não é só de Maranata, é uma falha que nós temos em nosso país. Nosso país é um país racista, e por ser
racista, dentro da igreja também há o racismo, mesmo que velado, há preconceito de cor, se ele é branco, se
ele é amarelo e principalmente se ele é negro. Se ele é negro e se veste não da forma como todos gostariam
que ele se vestisse, ele já ouvir as piadinhas, “tinha que ser preto mesmo”. Às vezes parece banal, mas para
quem ouve(...) Por que tem sempre essa mesma piada? “tem que ser negro”. A pessoa erra, e mesmo ela
sendo branca a piada existe “tem que ser coisa de preto”. Então você vê que se houvesse mudança de
atitude e pensamento a piada seria diferente, o jeito de falar seria diferente, poderia falar qualquer outra
coisa no erro, menos que o erro é coisa de preto, que é serviço de preto. Então, você percebe que isso está
incutido na pessoa e mesmo ela se convertendo a Cristo, isso está dentro dela, já vem arraigado, por que é
uma coisa que vem desde criança. A igreja não está preparada para mudar isso, as pessoas não se atentam
para isso. É uma coisa que há dentro da igreja, mas passa um pouco despercebido. Só quem está ali mesmo,
um pardo como eu, né? Que não se encaixa nem no branco nem no preto, é que consegue ver a diferença.
Você pega a piada e pergunta: “porque não fez a piada ao contrário, de branco, em vez de preto?” Então há
racismo sim. Eu vejo racismo, tanto de branco contra negros, quanto de negros para branco e de negro para
negro também dentro da igreja, faz a mesma coisa.
C.K – Ou na pregação do pastor, na escola bíblica ou em estudos bíblicos esse assunto aparece dentro
da igreja, é um assunto que se debate, ou é um tema ausente?
R.P - Totalmente ausente. Cem por cento ausente, (risos) duzentos, mil por cento ausente. Isso não se é
discutido, não é tema, não é debatido, não se dá importância, por que exatamente o que eu falei, é velado, as
pessoas fazem, mas não percebem que fazem, já está na raiz delas aquilo. Tem pessoas que são racistas,
mas ou tentam mudar ou tentam camuflar o seu racismo, dentro da igreja todo mundo é santo, mas e fora da
igreja?Fora da igreja é que você revela quem você verdadeiramente é. Nas pregações não acontece isso. O
que eu percebi uma vez foi uma frase infeliz que o pastor tentou corrigir. Frase infeliz porque nós estamos
em São Paulo, no Estado que ele veio, o Rio Grande do Sul, no caso do pastor Danilo. Uma vez falou de
negrinho, falou umas três ou quatro vezes, negrinho, negrinho, negrinho. Aí ele percebeu que caiu mal isso,
aí ele explicou que no Rio Grande do Sul, negrinho é moleque. Mas no Rio Grande do Sul, olha como isso é
arraigado, o Rio Grande do Sul é um Estado de branco, né? Não é um Estado onde tem negros (...) há
também como em todo país, há miscigenação, mas a cor predominante é o branco, então, a piada vai ser
sempre para o negro. Ele soltou no ar, falou umas três ou quatro vezes, mas depois ele percebeu onde
estava, a igreja que ele está, o contexto que ele está, e se corrigiu, e nunca mais ele voltou a fazer qualquer
menção sobre isso. Achei interessante isso dele, não se toca mais no assunto de racismo, mas eu percebi que
ele tocou no assunto, mas não por que ele quis, ele se corrigiu na verdade.
C.K - Você já ouviu falar sobre as cotas para negros, sabe qual a posição da igreja batista?
R.P - Não, não sei a posição. Não sei por que a gente não fala sobre isso, né? A gente comenta, eu comento
com minha esposa, posso comentar com a Claudia ou com amigos, mas não é comentado na igreja como
assunto da igreja, é assunto normal em conversa de amigos, mas assunto cristão, que a igreja está
preocupada com isso, de jeito nenhum, passa.
C.K - Você acha que nem deve existir uma posição da igreja?
R.P - Não. Não há posição.
C.K - Você é contra ou a favor?
Das cotas? É complicado, da forma como foi feito o negocio é meio esquisito, eu me encaixo no quê? Eu
sou pardo, eu me encaixo, tenho direito, mas e o filho do rico negro, que já tem toda a estrutura, ele não vai
ter muito mais chance do que o que está lá em baixo sem estrutura nenhuma? Então mudou o quê na
verdade? Mudou que o filho do rico tem oportunidade de entrar mais fácil, mesmo sendo negro, por que
existem negros que tem uma condição financeira melhor que os outros. Então não se é debatido. Minha

posição é (...) difícil, é complicado. Acho que da forma como foi feita gera mais racismo ainda,“poxa, só
entrou porque é preto” a gente ouve esse debate às vezes, não no meio acadêmico, por que não é minha
parte, mas como ou ouso muito o rádio, muita entrevista, essas coisas, você houve esse tipo de debate, as
pessoas falam, “só entrou porque é negro”. E eu acho que não é essa a intensão do governo, ou se é, foi é
muito bem feita, (risos) ás vezes a gente não pega do jeito que eles querem fazer, mas não deveria ser isso,
entrou porque é negro. Não deveria entrar por que é negro, deveria sim, uma outra forma, eu não sei qual a
forma ideal, mas essa forma que eles fizeram, cota de preservação ou de (...) não sei, não é o jeito mais
certo não. Acho que notas, avaliação de notas sempre é a melhor coisa, não preservar pela cor, acho que
isso só divide mais ainda a sociedade.
C.K - Em sua opinião essa questão da negritude, do racismo deveria ser melhor abordado na igreja?
R.P - Não que deveria fazer parte, mas olha, se a gente for pensar que Cristo veio para todos, e não fez
acepção de pessoas, pelo menos eu não consigo enxergar isso no evangelho. Ele não faz acepção de
pessoas, se é preto, se é branco ou amarelo, tanto faz. Se a gente for com um discurso desse na igreja, fica
meio que um contra senso com a Palavra de Deus. Você ficar sempre batendo nessa tecla de negritude, não
bate com o que você prega de que tem que haver união dos povos, de que para Deus todos são iguais.
Então, fica meio esquisito haver debate disso, ou haver bandeira, se a igreja levantar bandeira sobre
negritude, “poxa, mas e os outros?”, por que a igreja não levanta a bandeira sobre o pessoal de Haiti, a
bandeira sobre o que está acontecendo no Iraque? Vai levantar só a dos negros aqui da região? Sempre que
você levantar a bandeira de alguma coisa causa mais divisão. Acho que deve haver informação, não acho
que a igreja deva tomar partido da questão racial, por que isso não foi o principal tema de Cristo. Acho que
a igreja tem que estar consciente, que deveria conversar sobre isso, ver alguma coisa sobre isso, mas não
levantar bandeira, a não ser que entre a comunidade em que a igreja esteja incluída haja muito problema de
racismo na comunidade, aí a igreja tem que entrar com alguma coisa, com ação social para que reverta, para
mostrar para as pessoas que todos são iguais perante a Deus, branco, preto e amarelo. Mas se não houver
isso, se todos se aceitam ali na região normalmente, acho que não é a igreja que tem que levantar isso, acho
que às comunidades de bairro, cabem a elas isso, se não a gente vai se preocupar com a negritude ou com o
racismo e deixar de falar do principal que para nós é o evangelho.
C.K - Então a Maranata é um exemplo de uma igreja que não tem problema, e não há necessidade de
falar sobre racismo?
R.P - Não. Tem igrejas em São Paulo que são para negros, vamos dizer assim. É a igreja Pedra viva lá a
maioria é negra, e os bancos ou os pardos que vão lá não se sentem ofendidos por isso. O ritmo negro está
lá, mas não é um ritmo negro afro de axé, não, é o black mesmo, é mais o funck. Então as pessoas se
aceitam. Eu conheço essa igreja há quinze, dezesseis anos, e os pastores de lá não eram negros, eram
brancos. Não sei quem é que está lá hoje, o pastor Natinho tinha ido para Curitiba, não sei quem é hoje,
quem está na liderança da igreja hoje. Mas não era uma igreja dirigida por negros, era uma igreja dirigida
por brancos, mas o seu contexto e o ritmo que se fez lá acabou atraindo sempre os negros, então, você
percebe que lá não há esse problema. Eu não vejo eles levantando a bandeira da negritude ou do racismo, lá
tem bastante negros, mas todos se aceitam muito bem lá, tanto brancos como negros, eu acho que o
evangelho une as pessoas.
C.K - Quais as vantagens de ser negro?
R.P - Difícil por que eu não sou negro (risos) Difícil falar de vantagem (...). Deve ser sua próxima pergunta,
sobre as desvantagens, né? Mas vamos para as vantagens, eu não consigo encontrar muitas vantagens, não
consigo encontrar vantagem nenhuma de ser negro nesse país. Como eu disse é um país racista, então, não
vejo vantagem nenhuma de ser negro. Sinto vantagem na hora que você joga bola aí “poxa, ele corre mais
por que ele é negro, ta no sangue dele, a ginga” Mas qual a vantagem tem isso?(ironicamente) Manda o
outro treinar também que ele vai conseguir jogar do mesmo jeito. Então não vejo muita vantagem no nosso
país hoje ser negro. Se nós tivéssemos como nos Estados Unidos que há isso, produtos para negros,
produtos para brancos, talvez tivesse diferença, eu ter essa coisa de ser negro me trouxesse alguma
vantagem. Hoje eu não vejo vantagem nenhuma em ser negro ou ter a ascendência negra. Pelo contrário, eu
acho que a gente só tem desvantagem. Eu ter o pé na cozinha não tem vantagem não.
C.K - Então me dá alguns exemplos dessa desvantagem...
R.P - As desvantagens são várias, se você vai procurar um emprego e se tem um branco e um preto com o
mesmo currículo, o branco vai, o negro não vai. Se tivesse alguém para debater aqui comigo ele não ia
aceitar minha posição, e eu ia olhar bem para cara dele e ver se ele era branco ou preto, para ver o que ele ia
falar. Por que é muito fácil a gente ver debates e ver os brancos falando que isso não existe, mas eu queria
ver o outro lado, se ele tivesse na pele do negro indo procurar emprego e sentisse que na verdade, mesmo
ele tendo condições não se é dada a chance para ele. Isso aos poucos está mudando, por que nosso país é um
país miscigenado, então, os negros existem, estão aí, estão tomando seus lugares, até por falta de opção do
lado branco na verdade. Se casar um negro e um branco vai sair um pardo e não tem jeito a comunidade
cresce mesmo. Você entra em um shopping e tem lá um branquinho ou um branco vestido normalmente e

tem um negro o segurança não vai atrás do branco ele vai atrás do negro. Eu trabalho com táxi, à noite ou
qualquer hora do dia, se tiver uma pessoa branca dando sinal, você olha e pára. Se é um negro você olha e
pensa duas vezes antes de parar. Há isso. A aparência ela é muito em voga, o jeito de se vestir, pelo fato de
ser negro. Tem muitas desvantagens. É no emprego, é no shopping é na hora de comprar uma roupa, “isso
não fica bem para um negro” se você está dirigindo um carro, eu já percebi isso várias vezes, “só pode ser
um carro roubado, um preto dirigindo aquele carro? É roubado, não pode ser dele, por que ele não tem
condições de comprar” Então, há muitas desvantagens, assim como ele entra em uma loja para comprar
também, há desconfiança se ele vai pagar ou não, por que acham sempre que ele não tem condições de
pagar aquilo lá que esta comprando, o negro parece que nunca tem condições de nada nesse país. Na
verdade tem muita gente bem de vida e bem resolvida. Então tem muita desvantagem de ser negro.
Vantagem você não consegue enxergar muito não, mas desvantagens, bastante.
C.K - Você é feliz não sendo branco?
R.P - Eu sou, por que sou bem resolvido com a minha cor. Uma vez, essa coisa de shopping, uma vez eu fui
ao mappin, uma loja que não existe mais, e eu tinha o cartão de lá há anos. E eu fui ao mappin e foi muito
engraçado, entrei e percebi que o segurança falou no rádio e foi atrás de mim, eu mudei para o outro lado e
ele foi atrás de mim também, aí eu fiquei meia hora dando voltas no mappin sem comprar nada só para ver
até onde ele ia, até uma hora que eu dei a volta e parei na frente dele, e falei “aconteceu algum problema?”
ele ficou assustado, “não senhor” eu perguntei “tem algum problema comigo?” “não senhor”. “Então vamos
fazer o seguinte, chame o seu supervisor, que eu quero falar com ele.” “mas por que?” “Por que você está
me seguindo a loja inteira”. Ficou chato, muito chato. Eu sou muito bem resolvido com o que eu sou, e se
tiver que brigar com alguém pelo fato de ser negro, não tenho problema nenhum, vamos enfrentar, “está me
encarando por que eu sou negro ou tenho aparência de negro, vamos embora, não tenho nada a esconder de
ninguém”. Nasceu à filhinha de um amigo meu, do Leandro, e eu fui visitá-lo no hospital. E o Leandro tem
o pé na cozinha também, cabelinho sarara, negrinho também. E a gente foi subir, mas o elevador estava
demorando de mais, é a maternidade São Luiz. É uma maternidade boa. Mas foi muito engraçado, porque
demorou o elevador para subir e o Leo falou assim “vamos de escada, são cinco andares?”“então vamos de
escada Leo, vamos subir” A gente botou o pé na escada e no segundo andar tinha um segurança. Aí eu falei
para o Leo, “esta vendo Leo, você foi quer subir de escada, não pode subir de escada, pretinho subindo de
escada, já era, daqui até lá em cima eles vão seguindo a gente” Eles não seguiram a gente por que o rapaz
ficou constrangido. Mas foi aquilo que eu falei, eu enfrento. Quando eu vejo esse tipo de coisa eu falo
mesmo, que é para a pessoa se ligar que eu não devo nada para ninguém, e me sinto ofendido quando isso
acontece, não deixo passar, como se isso fosse normal, não é normal não pode ser normal. Infelizmente é
normal, mas não deveria ser normal, e eu não aceito isso, quando a pessoa faz comigo eu vou lá e falo e
tento tirar isso a limpo. E acho que essa deveria ser a atitude de todos, se sentiram ofendidos? Vai lá e fala
que só assim que a mudança, se deixar do jeito que está não há mudança.
C.K - A próxima pergunta você já respondeu, mas se quiser falar mais sobre o negro no Brasil... O
que é o negro brasileiro?
R.P - É uma pessoa batalhadora, mas como todo o brasileiro é um pouco covarde. Não se aceita muito,
deixa muito as coisas passarem. Por que eu digo que é meio covarde? Você que está fazendo história
(risos), se a gente for puxar a nossa raiz portuguesa a gente vê que os portugueses são medrosos são
covarde, não covardia de atacar os outros pelas costas, mas o de muitas vezes não enfrentar a situação,
deixar muito as coisas para última hora, deixar as coisas acontecerem. Isso veio lá dos portugueses, aí você
junta o fato de ser negro com o seu histórico com aquilo que é sua personalidade. Não é só por que você é
negro que você tem uma personalidade diferente, a personalidade vem de berço, do que seus pais te
ensinam, do que a sociedade te ensina. Então se a nossa saciedade é assim, medrosa, demora para tomar
algumas atitudes, imagine uma pessoa negra. Demora a se aceitar, demora para tomar atitude, demora para
lutar por aquilo que quer. Aceita muito, como todo brasileiro, e o negro pior ainda, aceita muito a situação
da vida como é, “eu sou negro mesmo não vou conseguir um emprego um pouco melhor” como já é tirado
de negro não estuda, não luta pelo que quer, aceita muito as condições que a vida impõe. Eu acho isso muito
ruim pela parte do negro, do negro brasileiro. Para um pouco de lutar, não deveria ser assim, deveria lutar
mais, tem tantos negros vencedores aí, aqui no Brasil mesmo, mas são poucos, minoria, não só no país. Tem
um esporte, não sei se você tem conhecimento, mas a fórmula1 tem o primeiro piloto negro da história, o
primeiro. A fórmula1 tem mais de cinqüenta anos, agora que foi ter o primeiro negro da história. Não sei se
deveria ter sido dado tanta ênfase a isso, como deu, acho que deveria ter sido tratado como uma coisa
normal, mas como foi o primeiro, dá-se uma ênfase. Eu acho que é isso que causa as diferença entre as
pessoas, a ênfase tanto de um lado quanto do outro. Dá ênfase de mais ao negro por ele ter conseguido,
como se aquilo lá fosse algo impossível. E não é impossível. Só não tinha chegado a hora de ninguém, ou
talvez pelo racismo ninguém tinha dado a oportunidade para um negro antes, e esse aí provou pelo talento e
pelas oportunidades que ele teve que ele conseguiu. Mas isso foi lá fora. Mas quando é que a gente vai ter
um piloto de formula1 negro, brasileiro? Eu acho que isso é muito difícil. Quando você vai ver um jogador

de tênis negro? Não vai. Agora você vai ver um jogador de futebol, de basquete, de vôlei de handebol, por
que são esportes populares, agora esportes de elite você não vai ver um negro de jeito nenhum, dificilmente
você vai ver. Então você vê que há realmente, tem alguma coisa errada com o nosso país que não vai ser um
ou outro que muda, só muda através do tempo, das pessoas se conscientizando. Sou feliz pelo que sou, mas
acho que os negros poderiam ser um pouquinho melhores do que são hoje.
16. Nome: Maria Aparecida de Souza
Idade: 51 anos
Data da entrevista: 21/09/2007
Local da entrevista: casa do depoente Cor: Pardo
C.K - Onde a senhora nasceu?
M.S – Nasci no interior de São Paulo, em Lins.
C.K – Quando a senhora veio para São Paulo?
M.S – Eu tinha uns seis anos e vim com meus pais.
C.K – Porque eles decidiram vir para São Paulo?
M.S – Meu pai queria tentar a vida em São Paulo, ele queria trazer a família para cá, conseguir um novo
emprego aqui e comprar uma casa em São Paulo (....) Ele veio e trouxe a gente, eu com seis anos e meus
irmãos. Depois de um tempo nós voltamos de novo para o interior, e quando voltamos para São Paulo eu já
estava maior. Quando ele veio pela segunda vez ele ficou definitivo.
C.K – Vocês já vieram morar aqui nessa região?
M.S – Não. Nós morávamos no bairro Real Parque, perto do Morumbi. Quando eu estava com dezesseis
anos meu pai comprou um terreno no parque Santo Antônio, e nós fomos morar com a família lá.
C.K – E quando a senhora veio para cá?
M.S – Eu casei primeiro, depois fui morar no Jardim Campinas perto do Varginha, foi o primeiro lugar que
eu morei quando me casei. Depois de lá fui morar aqui perto no bairro Grajaú, depois eu vim para cá. Meu
marido trocou a casa do bairro Grajaú, para essa aqui e viemos e estou até hoje. Eu já moro aqui sabe
quanto tempo? A Gisele estava com um ano e hoje ela tem vinte e um, vinte anos eu moro aqui.
C.K – Porque vocês escolheram aqui?
M.S – Eu nunca gostei daqui, eu vim para cá porque meu marido trocou a casa e não teve mais jeito, eu não
tive escolha, tive que acompanhar.
C.K – Porque a senhora não gostava daqui?
M.S – Não sei, eu não me sentia bem aqui. Quando eu já era membro da Maranata e vinha visitar as pessoas
aqui no bairro, a gente fazia o rol dos bebês, era tudo aqui nesse bairro. Quando eu vinha para cá eu não
vinha contente, eu vinha contente porque eu vinha fazer o trabalho do Senhor, mas eu nunca gostei desse
lugar, eu sempre falava que eu nunca iria morar nesse bairro, e acabei vindo morar aqui. Depois de muitos
anos que eu morava lá (no bairro Grajaú), meu marido fez essa troca, mas não era da minha vontade, eu vim
para cá contra a minha vontade, agora não. Agora eu posso falar que gosto daqui, eu fui pedindo forças a
Deus, ele foi me fortalecendo e eu fui entendendo. Eu vim para cá revoltada, eu ficava nervosa todo dia.
C.K – A senhora pode apontar algumas coisas de positivo nessa região?
M.S – De positivo que eu posso falar é que eu tenho bons vizinhos. Que mais eu posso falar (...) A igreja
que é pertinho, foi bom para mim e meus filhos porque é perto. Alguns irmãos da Maranata que moram aqui
pertinho e que eu gosto muito mesmo. É por esse motivo que eu acho uma coisa boa aqui, se eu preciso de
alguém da Maranata eu tenho pertinho de mim e posso contar com alguém daqui de perto, isso foi bom para
mim. Eu aprendi a gostar mais desse bairro por esse motivo, por amizade, meus vizinhos são muito bons
não tenho o que reclamar deles.
C.K – E de negativo?
M.S – De negativo é o supermercado que é longe, o ônibus é muito demorado, a linha do trem
(abandonada) que fica em frente da minha casa eu não gosto muito. Essa parte do bairro que eu moro eu
acho tranqüilo, sossegado.
C.K – Qual é o problema com a linha do trem?
M.S – Tem muito lixo, a gente cuida da frente da nossa casa, mas sempre vem alguém e joga lixo não
respeita. Eles Jogam lixo, bicho morto e tudo na linha do trem, por que ela está abandonada, sem
funcionamento. Isso deixa a gente triste.
C.K - O que a senhora acha da estrutura urbana da região, água, luz, esgoto....
M.S – Não é muito boa não.
C.K – Porquê?
M.S – Não sei se vou saber explicar (....) Algumas coisas. Aqui tem um posto de saúde e não atende bem as
pessoas, no hospital que pertence uma parte a Unisa, o atendimento é melhor, apesar de que eu sei que é
muita gente. Em relação ao asfalto tem muito buraco, eles não consertam, às vezes estoura algum cano e
fica um tempão para resolver. Quando minha filha morava aqui ela ligava não sei para onde, mas para eles
vim limpar, tirar o excesso de mato que fica na frente da creche onde meu neto estuda. Ela ficava

preocupada com o filho dela e com as outras crianças daqui também. Eles vieram só uma vez limpar e não
vieram mais. O pessoal continua jogando lixo na frente da creche. Nisso eu acho que a gente não é bem
atendido. Tem muito lixo aqui, quase todas as casas daqui de perto têm rato. Eu acho que na favela o
pessoal também não é bem atendido não. Precisava ter mais iluminação nas ruas, para passar perto da linha
do trem eu acho muito perigoso para quem chega do colégio, para quem vem da faculdade, quem precisa de
ônibus. Devia ter uma passarela aqui e não tem. Eu acho que muitas famílias queriam isso. Os vizinhos aqui
do lado são muito bons, eles ficam sempre vigiando para não deixar ninguém jogar lixo na nossa porta, mas
as pessoas não respeitam. Às vezes eles plantam alguma coisa e vem alguém e tira, entendeu? Eu ajudo ele
e ele me ajuda, para não criar confusão, briga com ninguém. Eu limpo minha porta todo dia, tiro um monte
de lixo e os outros deixa o lixo e não liga. A gente fica aborrecido com isso, um faz muito e outro não faz
nada. Tem aquelas pessoas que varrem, acho que é da prefeitura, um dia eles varrem outro não varrem, eu
fico só olhando eles passam com a vassourinha assim e não varrem nada, depois eu tenho que varrer de
verdade. Eu limpo a minha porta. Essas coisas deixam a gente aborrecido, mas eu já me acostumei, agora eu
gosto daqui.
C.K – Qual a sua profissão?
M.S – Sou dona de casa mesmo.
C.K – Qual a sua escolaridade?
M.S – Estudei até a sexta série.
C.K – Como a senhora conheceu a Maranata?
M.S – Eu conheci a Maranata através do meu cunhado José Martins. Ele conheceu primeiro e me convidou.
Eles levavam a minha filha junto com os filhos deles e sempre estavam falando do amor de Deus para mim.
Mas eu nem dava confiança, eu era católica e não queria saber de muita conversa. No inicio quando minha
filha ia para igreja eu não gostava, eu perguntava o que ela ia fazer na igreja todo domingo, ela era
pequenininha tinha sete para oito anos. Ela chegava em casa toda empolgada mostrando para mim o que a
tia tinha ensinado ela fazer, mostrando umas folhas uns rabiscos, eu olhava, não fazia pouco caso, mas não
me importava, achava que não era legal meu cunhado levar minha filha para igreja. Eu comecei a ficar
chateada com eles, eu não brigava, mas ficava chateada. Primeiro foi a minha filha ela começou a falar que
a igreja era boa, na linguagem dela de criança. Meu cunhado falava, falava e eu comecei a entender e dar
mais atenção. Alguns irmãos da igreja Maranata viam bastante na minha casa me visitar. A igreja era na
casa do irmão Túlio ainda. Lá era bem pequenininho. Na época eu ainda não tinha a Gisele(fila mais nova).
A Renata começou a aprender os hinos e todo domingo ela cantava, ela gostava muito de cantar. A minha
cunhada colocava aqueles discos, naquele tempo chamava LP e ela ouvia uma vez e já aprendia e cantava
todo domingo, e sempre o mesmo hino (risos). Eu comecei a ficar curiosa e saber como era a igreja que ela
ia. Eu comecei a ir, gostar até tomar minha decisão. Foi muito bom.
C.K – Então antes de freqüentar a igreja batista a senhora era católica?
M.S – Sim, eu era católica.
C.K – O que a senhora pode falar de positivo da Maranata?
M.S – Nossa, é muita coisa boa, tem tanta coisa. A melhor é lógico que é Deus. Mas ver os meus filhos no
caminho do Senhor e estão até hoje, eles permanecem firme com Deus, eu acho que foi os irmãos mais
antigos e o pastor Varela que ajudaram muito meus filhos. O pastor Varela eu respeito muito e gosto muito
dele, eu aprendi muita coisa com ele e meus filhos aprenderam muita coisa com ele. Isso foi uma coisa
muito boa e eu nunca vou esquecer. Às vezes o pastor varela vinha aqui em casa conversar com meus
filhos, ele acompanhou a adolescência deles. Isso foi muito bom, quando meus filhos estavam meio frios,
não no mundo, mas ele via e puxava a orelha, com a minha ajuda, eu dava um toque para ele e ele vinha
rapidinho me atender. Eu tenho um grande respeito pelo pastor Varela, até hoje. Ele me ajudou muito,
principalmente na adolescência da Renata porque ela me deu um pouco mais de trabalho, depois passou,
não demorou muito não. Naquela época que eles ficam assim querendo outra amizade, querer arrumar
namoradinho, começar com aquela paquerinha, então ela me deu um pouco de trabalho. Com a idade de
treze anos e quatorze anos, com quinze já tinha passado. Foi uma fase, hoje eu entendo melhor, mas ela foi
a minha primeira filha então foi um pouco difícil, mas a gente vai se acostumando, vai aprendendo e tendo
experiência. Mas acho que isso foi bom, hoje eu vejo meus filhos conversando um com o outro, dando
apoio, e eu vejo que tenho muito a agradecer a Deus em primeiro lugar e aos irmãos que me ajudaram
muito. A irmã Vera sempre orava pelo Edgar porque ele era uma criança muito doentinha, ele ficou bom
com as orações. Isso foi uma coisa muito boa que aconteceu comigo na igreja Maranata. Tem uma irmã a
Beatriz que a gente era muito amiga, às vezes eu pegava as crianças na escola e ficava na casa dela até de
noite, ela me acompanhava no médico. Hoje estou em falta com ela por causa do meu tempo e porque cuido
da minha mãe que está doente, mas guardo ela no meu coração e outros irmãos da Maranata.
C.K – O que você pode falar da Maranata de negativo?
M.S – Eu acho que desde o começo a Maranata é assim. No meu entender, quando chega um membro novo
na nossa igreja, talvez eu possa estar até julgando, mas talvez não. Você dá toda liberdade para ele ir à

frente, para pregar. Eu acho que às vezes é muito cedo, e a Maranata erra por isso, é cedo para dar
oportunidade para alguém ir lá na frente e levar a Palavra. Quando você vai na frente para ler a Palavra e
cantar você está louvando a Deus engrandecendo o nome de Deus. Você tem que ter muita certeza, tem que
ser uma pessoa consagrada para estar lá na frente, e muitas vezes a Maranata toda, no geral, não conhece a
pessoa. Tem que dar mais um tempo. Assim como se a gente esta namorando, não é devagar, você tem que
conhecer a pessoa e demorar no namoro para depois chegar no casamento? Eu vejo assim, se com um mês,
dois meses ou menos de um ano a pessoa já está lá na frente pregando, você não conhece, às vezes a pessoa
é falsa e mentirosa, ou é um homem que está adulterando, pode ser até um pastor, quantos a gente vê por aí.
Então acho que a confiança que a Maranata dá para as pessoas novas que já vai chegando e indo lá na frente
é errado porque faz isso sem conhecer a pessoa. Então acho que deve conhecer mais a pessoa, conversar,
saber donde ele veio, porque está na Maranata agora. Às vezes é de outra igreja, não importa pode ser de
outra igreja, mas você não conhece a vida da pessoa e ela já está lá pregando. Às vezes ele não é aquilo que
está falando. E o exemplo dele? Quem está lá na frente tem que ser o exemplo, não que ele é santo, todo
mundo é pecador, toda mundo peca, mas acho que a gente tem que estar com a vida bem consagrada a Deus
para a gente estar lá na frente, não posso estar lá na frente de qualquer jeito, tenho que me preparar. Essa
parte que eu não aceito. Não falo nada porque eu não sou de falar de dar opinião, eu fico na minha, mas não
aceito, sempre observo dessas coisas.
C.K – O que mudou na sua vida depois da conversão?
M.S – Mudou muita coisa (...) A paz que você sente para resolver as coisas, antes eu queria resolver as
coisa do meu jeitão, de dar o troco, eu agia muitas vezes desse jeito, lógico nunca falava para meu filho se
uma criança bater você vai dar o troco, eu nunca ensinava isso, mas eu era muito ignorante, hoje eu não sou,
eu entendo se a pessoa chegar e conversar comigo eu tenho facilidade de entender aquela pessoa, ou crente
ou não crente, mas tenho facilidade, agora tenho paz no meu coração para tudo que eu vou resolver.
C.K – E na sua vida material?
M.S - Você fala de casa, carro essa coisas né? Mudou sim, meu marido teve mais oportunidade, no começo
ele comprou um carro depois outro para o trabalho, mas ele conseguiu com mais facilidade, sabendo separar
as coisas, sabendo administrar melhor as coisas, porque antes ele não sabia, por isso houve a troca dessa
casa, porque ele não era firme no senhor, ele tinha feito a decisão dele, mas ele não era firme, ele não
buscava a Deus para fazer nada. No começo quando ele se converteu, eu fui primeiro, e ele foi por último,
ele fez a troca da casa e eu fiquei chateada, mas pedi força a Deus para eu começar a gostar desse lugar,
porque pedia a Deus para abençoar esse lugar, porque foi o lugar que ele trocou. Agora é a minha casa, eu
querendo ou não é minha casa. Ele se precipitou para fazer a troca, eu fiquei nervosa porque ele fez o
negócio sem buscar a orientação de Deus, e não era isso que eu estava aprendendo, em tudo que você for
fazer, no negócio, na vida material, tudo e até comprar um carro, ele precisa trocar o carro, porque taxista
tem que trocar o carro quase quando vai completar quatro anos, então ele está perto de trocar e eu falo que
ele tem que buscar o querer de Deus, e ver se estar na hora de Deus para fazer isso. Tudo que a gente vai
fazer tem que colocar nas mãos de Deus primeiro, se não, não vai dar certo, por isso que eu sofri muito aqui
nesse bairro no começo. Quando eu cheguei aqui não tinha esgoto, não tinha muro, era tudo aberto, a casa
não era acabada, tudo no cimento grosso, não tinha praticamente nada, só estava no tijolo, eu fiquei
revoltada por esse motivo. Aqui não era acabado e a casa que eu morava era acabada, a gente não estava
devendo nada, mas quando a gente veio para cá só arrumamos dívidas. Mas naquela época ele não estava
firme, ele era novo convertido, ele não entendia, não sabia ou não procurava entender. Quando a gente se
converte a gente se sente bem, mas não entende direito, depois você vai estudando, vai para escola bíblica,
vai vendo o testemunho de outros irmãos e você vai aprendendo e Deus vai te orientando e te dando
capacidade e dando sabedoria. Porque a gente não tem. Antes da gente se converter a gente não tem
sabedoria não, é diferente, eu vejo desse jeito, a gente não tem sabedoria para resolver nada, resolve tudo de
qualquer jeito. Se antes eu tivesse essa cabeça que tenho hoje, esse sentimento que eu sei que é Deus que
coloca em mim eu seria muito melhor (risos) eu devia ter aceitado a Deus há muito tempo atrás. Antes de eu
casar, seria bem melhor.
C.K – Existe alguma diferença entre um membro branco e um pardo ou preto na Maranata?
M.S – Para mim não existe não, pode existir para algumas pessoas, mas para mim não.
C.K – Porque a senhora acha que não existe?
M.S – Porque somos todos iguais independente da cor.
C.K – Mas todo mundo pensa assim?
M.S – Acho que não, algumas pessoas tem esse lado, não sei. Quando a pessoa é assim eu acho que é uma
pessoa que não busca a Deus no coração.
C.K – Quem tem Deus não tem preconceito?
M.S – Não tem, não pode ter, eu entendo que é pecado fazer isso.
C.K – Mas existe racismo na igreja?

M.S – Existe sim, por parte de algumas pessoas, mas não por mim nem por meus filhos, eu nunca ensinei
isso para eles de não ficar perto de alguém por que é negro e nunca vou fazer isso, mas existe sim. Na igreja
acontece sim, mas com pessoas que não conheceu o amor de Deus de verdade e que não tem Deus no
coração. Uma pessoa que está assim, não dá nem para explicar.
C.K – Na Maranata esse assunto de preconceito racial e racismo é falado?
M.S – Fala sim, alguns estudos falam de preconceito de forma geral, mas faz quatro anos que não participo
de estudos, não sei se ainda continuam falando, mas já teve estudo para pessoas que tem preconceito, não
sobre racismo, mas todo preconceito, que não deve ser assim, deve ter amor ao próximo, mas de racismo eu
não lembro.
C.K – A senhora acha que seria importante falar mais sobre o assunto do racismo já que temos o
problema na igreja?
M.S – Eu acho que devia sim, você percebe que quando tem uma pessoa negra de pele escura ela fica assim
de longe, sei lá, pode ser coisa da minha cabeça, não sei. Mas não são todos iguais e cada um tem sua
opinião e personalidade, mas ajudaria muito.
C.K – A senhora acha que existe racismo na sociedade brasileira?
M.S – Existe sim. Eu não saio muito, mas vejo pela televisão falando sobre isso, que pessoas discriminam
outras por causa da cor, e tem pessoas de cor que não se aceita também, por exemplo, eu sou negra e não
gosto da minha pele por que sou negra, tem muitas pessoas assim. Por que será que é assim (....) acho que é
falta de Deus na vida (risos). Eu acho que a pessoa negra tem a mesma capacidade que qualquer outra, uma
loira de olhos azuis, uma parda ou uma morena, ela tem a mesma capacidade, eles trabalham igualzinho os
outros, ele podem fazer o que ele tem vontade, são inteligentes e tem capacidade igual.
C.K – Mas tem gente que não acredita nisso, não é?
M.S – Tem gente que não acredita nisso, acham que o negro é feio, tem gente bonita mesmo sendo negra, e
tem gente feia sendo branca, é assim não pode ser todo mundo igual, né?
17. Nome: Leandro dos Santos Alves
Data da entrevista: 19/09/2007
Local da entrevista: casa do depoente

Cor: Pardo

C.K – Onde você nasceu?
L.A – Nasci aqui em São Paulo, no Jardim Alpino, era um terreno da prefeitura na favela, moramos lá 18
anos. Nós conseguimos comprar uma casa própria á sete anos nesse novo endereço.
C.K – Onde vocês moravam era da prefeitura o terreno?
L.A – O terreno era cedido pela prefeitura e a qualquer momento eles poderiam tomar a casa ou construir
algum projeto e tirar as pessoas de lá.
C.K – Seus pais são de São Paulo?
L.A – Minha mãe é da Bahia, e com 18 anos ela veio para São Paulo. Ela morou no Jardim São Luiz, depois
ela morou no Sabará e de lá ela foi para o Jardim Alpino.
C.K – Como ela conseguiu o terreno da prefeitura?
L.A – Como nós morávamos numa casa de aluguel, meu pai viu a placa de ‘vende-se’ e eles conheceram o
local, gostaram e compraram a casa.
C.K – Mesmo sendo terreno da prefeitura ele foi vendido?
L.A – É da prefeitura mas não tem escritura só tem contrato de compra e venda. Você não tem escritura do
terreno, só tem um documento que a prefeitura libera para pessoa.
C.K – Qual a sua profissão?
L.A – Sou analista de sistema.
C.K – E sua escolaridade?
L.A – Estou no primeiro ano da faculdade de administração.
C.K – Você mora nessa região desde de que nasceu, então aponte as coisas positivas que tem nessa
região?
L.A – O que eu vejo de positivo é a comunhão das pessoas, elas ajudam o próximo. A parte social é boa, as
pessoas têm comunhão entre as comunidades dos bairros.
C.K – E de negativo?
L.A – De negativo são os pontos de drogas, principalmente nessa parte, a polícia tem tentado acabar com os
pontos de drogas, só que nós temos que nos conscientizar que é só Jesus para acabar com isso.
C.K – E em relação a estrutura urbana da região?
L.A – Essa estrutura tem sido melhorada com os nossos prefeitos na parte habitacional, pelo menos no
bairro aqui onde eu moro, o distrito de Santo Amaro e Capela do Socorro o prefeito tem investido a causa,
tem conseguido investir nas avenidas, canalizar os córregos da região, tem tido uma boa melhora com essa
nova prefeitura.
C.K – Como era essa região antes?

L.A – Noventa por cento da região era barro, sem asfalto, só tinha água canalizada, mas asfalto não era todo
o bairro que tinha.
C.K – E como é a vida das pessoas da favela da região?
L.A – Essa parte habitacional das favelas são pessoas que não tem como comprar sua casa própria. Não tem
um salário mais digno, mais alto. O salário mínimo é defasado. No Brasil a pessoa não tem como costear
uma casa nem comprar pelo consorcio, e a pessoa acaba indo morar na casa da prefeitura na favela, se torna
crescente cada vez mais essas pessoas que procuram esses lugares pequenos e sem estrutura.
C.K – Essa população é bem atendida pela prefeitura?
L.A – Tem melhorado, o asfalto tem chegado, mas a parte da saúde é defasada. Quem mora na favela e não
tem como costear um convênio vai para o SUS e é muito defasado, às vezes você precisa fazer um exame
mais detalhado e demora muito e se você tem um convenio o médico pede um exame e você faz rápido. E
pelo SUS demora muito tempo, às vezes até três meses e se você tiver algum caso grave pode até morrer.
C.K – Antes de ser membro da igreja Maranata você pertencia a outra religião?
L.A – Eu comecei a freqüentar a igreja Maranata cedo, eu tinha uns quatro para cinco anos, minha mãe era
membro de lá. Ela saiu da Maranata e foi para a Assembléia de Deus onde é membro até hoje. Eu fiquei
com ela na Assembléia até os 12 anos, mas não me adaptei muito ao segmento que a igreja tinha.
C.K – O que não te agradou lá?
L.A – Eu não gostava de algumas coisas que eu via. Algumas normas no meu ponto de vista não eram
certas.
C.K – O quê, por exemplo?
L.A – Por exemplo, jogar bola e usar bermuda, as pessoas que era da Assembléia diziam que o jovem e o
adolescente não poderia usar, era uso e costume da religião. Eu não gostava e até um certo dia eu não quis ir
mais. Teve uma irmã da igreja Maranata que começou a conversar comigo e me mostrar novamente algo
que eu tinha perdido naquela religião, você primeiramente tem que ter Jesus no coração e não os usos e
costumes da religião que vai trazer a tona e sim o foco que você tem que centralizar que é Jesus. Então eu
comecei a freqüentar a Maranata. Comecei a gostar do jeito da igreja, me adaptei com o segmento da igreja,
gostei de toda metodologia e estou lá até hoje, graças a Deus!
C.K – Quanto tempo você é membro?
L.A – Estou lá desde 1999.
C.K – O que mudou na sua vida depois que você começou a freqüentar a Maranata?
L.A – Eu comecei a freqüentar a Maranata quando eu não tinha um paradeiro na igreja, eu ia muito nas
noites, gostava muito de arrumar encrenca e depois que eu voltei para igreja, para Maranata eu tive uma
nova visão, um comprometimento com a Palavra e via que aquilo que eu fazia não me levava a nada.
Brigas, quando eu jogava bola eu arrumava muita encrenca, e hoje se a pessoa deu uma entrada mais dura
eu oro por ela, para a pessoa ter o mesmo comprometimento que eu tenho com o Senhor, eu vi que
machucar o próximo não é uma coisa viável, não é uma coisa boa.
C.K – Alguma coisa material mudou?
L.A – Eu graças a Deus comecei a trabalhar, um trabalho digno. Antes de entrar na Maranata eu não
trabalhava. Antes eu não conseguia emprego, agora consegui uma porta de emprego boa, tenho minha
família, minha esposa, minha filha, uma casa, um lar. Antes de entrar na igreja eu não tinha essa visão de
construir uma família, um lar, nada. A Maranata me deu um segmento para vida.
C.K – O que você pode apontar na Maranata de positivo?
L.A – O ponto positivo na Maranata é a união, o entrosamento que as pessoas dão para o próximo. Essa
união que eu vejo nos irmãos da igreja.
C.K – E os pontos negativos?
L.A – O ponto negativo, eu vejo que a união dos jovens tem tido um esfriamento, primeiramente pelos
jovens em si que não tem buscado crescimento. A liderança dos jovens tem tentado abraçar a causa e feito
programação, mas os jovens não tem tido um comprometimento com a união. Esse é o ponto negativo, não
em toda a igreja, mas em um setor, os jovens têm esmorecido um pouco.
C.K – Podemos dizer que entre os membros da Maranata existe uma relação de amizade e
irmandade?
L.A – Eu creio que sim, pelo menos eu acredito que nós temos buscado um comprometimento com o
próximo. Quando a igreja vai crescendo você não consegue falar com todo mundo e ter aquela amizade,
então você tem amizade com um grupo e algumas pessoas. Você tem um comprometimento com todos, mas
tem aquelas pessoas que você se identifica mais.
C.K – Existe alguma diferença entre um membro preto e pardo e um branco na Maranata?
L.A – Eu vejo que não, lá não tem discriminação de cor ou raça, todos nós estamos ali para louvar e
engrandecer o nome do Senhor. Na Maranata não tem essa diferenciação de cor e raça. Todo mundo é igual
lá dentro.
C.K – E na sociedade existe diferença entre um negro e um branco?

L.A – Na sociedade sim, em alguns contextos sim. Às vezes você vai procurar uma porta de emprego
quando está desempregado, se você não está bem vestido e se for de uma certa cor pardo ou moreno, a
pessoa que é mais claro que você, as vezes (...) tem uma desigualdade em algumas empresas, acontece isso.
C.K – Agora na igreja isso não acontece? Os cargos são ocupados por brancos e negros da mesma
forma?
L.A – Não na Maranata não. Lá é por votação se você quiser se eleger ao cargo não vai da igreja, vai do seu
comprometimento com a igreja e com a Palavra, se você tem um testemunho, uma visão evangélica, se você
tem tido crescimento e quiser ser um tesoureiro você vai ser. Na Maranata tem um tesoureiro negro e um
branco, não vejo desigualdade.
C.K – Por que você acha que não existe desigualdade dentro da igreja?
L.A – Primeiramente o foco é engrandecer o nome do Senhor e não engrandecer pessoas ou raças. Estamos
lá para louvar e engrandecer primeiramente o nome de Deus. Todos nós somos falhos, pode acontecer de
alguém ter preconceito, mas eu nunca notei isso, eu nuca vi. Em todo lugar na face da terra vai acontecer
isso de discriminar as pessoas. Mas a desigualdade racial na igreja eu nunca notei isso. Eu tenho vários
amigos pardos, morenos, claros e eu nunca notei isso. Eu sou pardo, mulato e não tive problema na igreja
com racismo.
C.K – Você acha nos estudos bíblicos e na escola dominical ou na pregação do pastor a igreja
trabalha a temática do racismo?
L.A – Já teve diversas pregações perante a desigualdade com o outro. Às vezes você pode ter uma renda
maior que as outras pessoas, mas você não pode pisar no próximo, às vezes a pessoa está lá embaixo, mas
você não sabe o dia de amanhã. O pastor já enfatizou bem nas pregações dele. Já veio pessoa de fora para
fazer palestras sobre isso.
C.K – Mas falando de forma geral, e não especificamente sobre o racismo?
L.A – É, de forma geral sobre o preconceito.
C.K – Você acha que essa temática é importante e a igreja poderia explorar mais?
L.A – É um tema bastante dinâmico e se tiver alguém com esse modo de pensar que aja nesse segmento
pode até modificar o modo de pensar da pessoa. Porque te dá uma visão e um crescimento, vai ter pessoas
estudiosas que vai ampliar mais o seu conhecimento. Acho interessante, pode ser positivo.
C.K – Você é feliz com a cor que tem?
L.A – Sim porque eu me sinto bem. A cor não diz nada em si, seu grau de estudo e de conhecimento. Eu
não vejo se a pessoa é branca ou preta e sim o coração, o que ela tem por dentro. Às vezes não é a cor que
diz quem é a pessoa e sim seu coração suas atitudes e o jeito de você demonstrar carinho pelas pessoas.
C.K – E na sociedade as pessoas olham para o coração ou para cor das outras?
L.A – É um pouco difícil viver na sociedade na qual vivemos hoje, porque ainda tem muitas pessoas
preconceituosos.
C.K – Você já sofreu preconceito?
L.A – Já. No ambiente do trabalho eu já me senti um pouco deixado para trás e de lado por causa da minha
cor, mas eu dei a volta por cima e tive crescimento na área profissional.
C.K – Agora na igreja você nunca sentiu nenhum tipo de desconforto por causa de sua cor?
L.A - Não. Eu convivo com pessoas brancas e de cor e nunca senti desconfortável por causa da minha cor.
C.K – Quais as vantagens de ser pardo e preto na sociedade brasileira?
L.A – (pausa) eu não vejo vantagens e nem desvantagens, tem pessoas que são preconceituosas por causa da
cor, te olham com olho torto desconfiando de você. As vantagens seriam as mesmas de uma pessoa branca.
Você pode estar num local junto com pessoas de outra cor ou raça, eu não vejo muita vantagem. Para mim
as vantagens que eu tenho é a mesma que o branco tem. O que voga primeiramente é o seu
comprometimento, às vezes a pessoa pode ser branca e não ter um estudo igual uma pessoa morena tem. Na
classe social há um pouco de desvantagem sim. Na sociedade na qual nós vivemos tem um pouco de
desvantagem pelo fato de você ser mulato ou pardo. Às vezes você vai ao supermercado e pelo fato de você
ter uma cor mais escura, você ser moreno ou ter o cabelo cacheado, o segurança vai atrás de você, fica te
vigiando para ver o que você está fazendo, só que você dá a volta por cima. Se você esta indo ao
supermercado você tem aquele valor no bolso para comprar o que você quer.
18. Nome: Suely de Campos da Silva
Idade: 43 anos
Data da entrevista: 16/09/2007
Local da entrevista: na classe de departamento da igreja
Preta

Cor:

C.K – Qual a sua profissão
S.S – Sou formada em pedagogia com aplicação em administração escolar e orientação escolar, no
momento eu trabalho como administradora de um centro de educação infantil.
C.K – Você nasceu em São Paulo?

S.S – Nasci em São Paulo, na região do Jabaquara num bairro chamado Eleonor, nasci realmente no local,
porque eu nasci em casa, fui uma das filhas da minha mãe que nasceu em casa, filha única. Depois com
doze anos vim morar aqui na região do jardim das Embuias, era uma região bem rural, bem diferente da que
eu nasci que já era bem desenvolvida. Foi numa condição de buscar, na concepção dos meus pais, era de
buscar um local mais arborizado, devido à condição de saúde minha e de meu irmão, que na época tínhamos
bronquite, ele ainda tem, mas eu melhorei bastante. Meu pai acreditava que morando em um lugar mais
arborizado e com mais vegetação essa questão melhoraria. A gente sofreu uma diferença muito grande, era
tudo perto onde nós morávamos, aqui não, era um bairro em desenvolvimento ainda, apesar de já existir
uma faculdade, mas ainda era um bairro em desenvolvimento.
C.K – O que você pode falar de pontos positivos dessa região?
S.S – Acho que é uma região que apesar do desenvolvimento ainda conserva alguns traços rurais, acho que
é gostoso você acordar de manhã e se deparar com árvores, canto de pássaros, acho que isso é muito
positivo. A região desenvolveu bastante, mas conservou alguns traços rurais, acho que esse é um lado legal.
Em questão de trabalho acredito que nem tanto, desenvolveu, mas as empresas e as firmas acho que não
estão tão distante, não estão dentro do bairro, mas não estão tão distantes.
C.K – E de negativo?
S.S – Negativo, acho que cresceu de mais e o transporte coletivo não acompanhou, apesar de muitas
sofisticação nas estradas e avenidas, o transporte não atende a esse número de bairros que foram criados,
construídos do bairro Grajaú para frente. Então todo mundo passa pelo menos fluxo e causa um
congestionamento muito grande sem falar na questão de transporte coletivo que ficou tudo muito precário
mesmo, muito cheio.
C.K- Em relação à estrutura urbana da região (água, luz, asfalto, esgoto, a formação da favelas)
S.S – Em relação à estrutura urbana, acredito que temos boas estradas, boas avenidas com alguns buracos,
comum em qualquer lugar, até no centro tem. Com poucas empresas, as escolas atendem a comunidade, não
tenho ouvido problemáticas da região em relação a essa questão. Apesar de viver mais de vinte anos aqui no
Jardim das Embuias, eu convivo com uma realidade mais próxima de onde trabalho, é o que eu falo com o
pessoal do trabalho, eu conheço muito mais o lugar onde trabalho do que onde eu moro, porque é onde eu
convivo mais, com as problemáticas, principalmente com a área educacional. As áreas educacionais têm
sempre a intenção de trabalhar em rede, a rede envolve tanto a saúde, como a educação, então a gente troca
bastante e vê as dificuldades.
C.K – Como você conheceu a Maranata?
S.S – Eu sou membro da Maranata há 19 anos. Eu conheci a Maranata através do meu marido. Quando eu
comecei a namorar, ele já era de família evangélica, e eu de família católica. Quando nós nos conhecemo s
ele estava desviado da igreja, na faze da adolescência, queria conhecer outras coisas, estava desviado, mas
em alguns períodos do nosso namoro eu sentia nele a necessidade que ele tinha de retornar, ele sentia muita
necessidade de voltar em comunhão com os irmãos. E numa discussão eu perguntei “porque você não
volta?” e ele perguntou o que eu achava e eu falei “não, eu te acompanho.” Tinha aquela questão dele ser
evangélico e eu católica, como isso seria administrado, mas eu falei “não, eu vou com você para sua igreja.”
Mas sem intenção de mudar de doutrina. Ele retornou, pediu perdão à igreja, e a igreja o perdoou. Ele
voltou à comunhão com os irmãos e eu acompanhei ele nos trabalhos da Maranata que na época era o pastor
Ananias. No período eu fui me familiarizando com a doutrina com os irmãos até que chegou a época que eu
me decidi. Não foi uma decisão rápida, eu sei que pelo meu marido e pela família dele existia uma torcida,
existia uma expectativa muito grande para que isso acontecesse. Mas eu não queria ser influenciada pelo
desejo da família dele, e sim tomar uma decisão clara, porque eu era católica desde o berço. Então eu não
queria tomar uma atitude precipitada e ficar como muitas pessoas fiam mudando de religião
constantemente, mudando de igreja perde um pouco de sua identidade religiosa. Então eu tomei uma
decisão na época que tinha que ser tomada, uma decisão que Deus achou que eu tinha que tomar e eu tome.
E estou na Maranata até hoje, espero continuar nela, porque tenho uma história, por que foi aqui que
realmente eu conheci a verdade e existe um vínculo muito grande com a Maranata pelo fato dessa igreja ter
surgido na casa dos meus sogros. Existe uma história que para mim é muito forte, apesar de eu não estar
nessa época quando a Maranata era na casa dos meus sogros, mas existe um vínculo muito grande de
construção que foi através deles do casal que abriram a suas portas, família simples, espaço físico que não
era muito grande, eles adaptaram a família para dar espaço para que a Maranata surgisse. Então eles
priorizaram a igreja em relação ao conforto que a família precisaria. Então a igreja em primeiro lugar que o
conforto da própria família, então, abriram mão desse conforto por algo que eles acreditaram e está ai até
hoje. E acredito que geração e geração de Simeão vão manter esse trabalho.
C.K – O que mudou na sua vida depois da conversão?
S.S – Depois da conversão? Olha valores familiares eu carrego sempre porque meus pais são pessoas
católicas de valor que tem tudo que tem hoje com muito esforço de muita conquista, muita união familiar,
sempre envolvendo os filhos na busca dos objetivos que eles tinham. Então valores que nenhuma religião

apaga. Eu tenho muitas manias que é de família mesmo, eu não gosto de incomodar as pessoas, não gosto
d e chegar à casa das pessoas sem ser convidada e sem avisar. Tem algumas coisas que as pessoas até
traduzem assim “como ela é metida!” Eu tenho uma criação assim você precisa respeitar a individualidade
das pessoas, o espaço das pessoas, e acho que são coisas que são certas e não podem ser abandonadas. Mas
o que mudou em mim, assim, eu sempre tive Deus na minha vida, sempre coloquei Deus a frente das
minhas coisas, desde a época que eu era católica, mas eu não tinha uma clareza muito grande de Cristo,
parece que minha ligação, meu diálogo, minhas ligações com Deus passava direto, eu não tinha uma
hierarquia religiosa na hora de falar com o pai. Então ás vezes eu confundia um pouco a imagem de Cristo
na cruz com a do pai, existia umas coisa assim, mas vindo para a Maranata e participando da classe de
doutrina e da escola dominical eu fui separando um pouquinho às coisas e fui entendendo um pouco porque
da existência dessa hierarquia. Eu nunca fui muito presa à questão de santos, tanto que se você me
perguntar quais santos da igreja católica que eu conheço, eu fiz a primeira comunhão, fiz tudo que deveria
ser feito, mas eu nunca fui ligada a imagens, até porque a minha mãe a única imagem que ela tinha na casa
dela era da nossa senhora Aparecida e o Cristo crucificado, essas eram as imagens que a gente tinha em
casa, então a gente não era muito de idolatrar imagem. Mas o que mudou mesmo foi você ser mais atuante
dentro da casa e do trabalho do Senhor. Na igreja católica era assim, era como um ritual, você ia à igreja
todos os domingos, assistia a missa, mas você não tinha uma obrigatoriedade com a bíblia de leitura, então
você ouvia o que o padre dizia e o que ele dizia estava certo, era correto. Então quando eu comecei a fazer a
leitura da bíblia e comecei a verificar “puxa quantas coisas que dizia na época que eu freqüentava a igreja
católica que a bíblia condena!” eu fui entendendo melhor a partir do momento que eu fui conhecendo a
palavra de Deus na integra e não apenas em alguém que está ali na frente, numa liderança falando, mas você
pode comparar, você pode ler a bíblia e ver se a pessoa que está ali na frente está dizendo realmente o que à
bíblia prega, o que a palavra de Deus prega. Eu estou falando sempre na época que eu freqüentava a igreja
católica, porque eu não quero ser injusta porque de repente ela sofreu algumas transformações algumas
modificações e eu não sei, por isso estou me referindo na época que eu freqüentava a igreja católica. A
gente não tinha essa familiaridade com a palavra de Deus, a gente apenas ouvia o que o padre dizia e
acreditava em tudo que ele dizia e que condizia com a palavra do senhor, então essas questões mudaram
bastante em mim. Eu sempre amei o próximo, sempre tive o cuidado de respeitar a diferença das pessoas, já
eram valores familiares mesmo. Mas mudando para o cristianismo eu tive uma idéia melhor do que a
palavra de Deus prega. Isso foi muito bom e que na igreja católica na época não tinha, era só o que os
nossos padres falavam, era dito e a gente aceitava como regra e fé.
C.K – E de material, houve alguma mudança?
S.S – Olha acho que eu acreditei mais que tudo era possível quando a gente tem o Pai na frente das nossas
coisas. E fui conquistando muitas bênçãos, acreditando e colocando o Pai na frente dos meus projetos, dos
meus objetivos. Tem coisa que eu falo assim “meu Deus do céu, é sob humano o que eu fazia com o salário
que eu tinha” é coisa realmente milagrosa, é só Deus que dava para mim a possibilidade de fazer coisas que
eu fiz. Por exemplo, eu me casei eu era funcionaria pública, meu marido também não ganhava bem, a gente
pagava aluguel e um financiamento de um apartamento e a gente fazia tantas coisas que pela ótica humana
o salário da gente não daria para fazer essas coisas, mas Deus sempre abençoando, e a gente saiu do aluguel
com menos de um ano, fomos morar no nosso apartamento, conquistamos um terreno que nos deu a
possibilidade de ter uma casa própria e hoje mudamos para uma casa mais ampla e hoje eu te digo, estou
com minha casa quitada, tenho um apartamento que está em processo, mas deixo na mão de Deus a solução
dessa questão, é o que eu oro “Senhor se for da sua” vontade que esse apartamento que haja justiça nessa
decisão, se o Senhor acha justo que a Caixa (banco) fique com esse apartamento eu vou acreditar que foi o
Senhor que colocou a mão e fez justiça, caso contrário à gente agradece também por mais essa conquista
por ter mais esse bem. Com certeza a minha vida foi muito melhor conduzida a partir do momento que eu
conheci realmente a palavra de Deus e acreditei nos meus projetos, acreditei que Deus está à frente desses
projetos e por isso eles estão dando certo.
C.K – Você falou que toda vida Deus estava à frente de seus projetos, mas o que diferenciou depois da
conversão?
S.S – Eu acho que houve mudança no seguinte, por mais que eu acreditava num Deus mesmo que de forma
meio distorcida, mas eu acreditava que existia um ser superior, que ele era o Pai criador de toda as coisa, a
diferença é saber esperar, pode ser que na época eu acreditava que havia um Deus e que esse Deus era
poderoso e que poderia fazer todas as coisas, e muitas vezes eu achava que tinha que ser do jeito que eu
precisava e eu queria, hoje eu já reconheço que existe um Deus, continuo acreditando que existe um Deus
todo poderoso criador de todas as coisas e que pode fazer as coisas à cima das suas vontades a cima das
coisas que ele acredita que é melhor para mim e essa é a grande diferença, hoje eu sei esperar, na época
antes da minha conversão eu acreditava que tinha que ser do meu jeito e no meu tempo, mas hoje eu
acredito que Ele existe e eu as coisas funcionam do jeito dEle no tempo dEle e na forma dEle, porque
assim, você tendo essa crença essa verdade você não atropela as coisas, acredito que se eu não tivesse

criado em mim, não que seja um mérito meu, mas sim de Deus, que tenho que esperar pelas coisas eu
poderia ser uma pessoa que atropelou muito os processos e não teria conquistado as coisas que tenho hoje.
A sabedoria na época que eu era católica eu não tinha, hoje eu tenho buscado, e através dessa busca que
muitas coisas na minha vida tem dado certo, eu tenho esperado e tenho acreditado que Deus está na frente
de todas as cosias e não só nos projetos e sonhos, mas na frente dos problemas e dificuldade, ele está ali à
frente e me conduzindo para melhor resolução dos problemas e dos conflitos realmente e aquilo vai um dia
se solucionar.
C.K – O que você pode contar de positivo da Maranata?
S.S – Assim, a Maranata ela tem irmãos muito antigos, né? Que participaram desde o inicio da história, isso
é muito importante da gente não perder a história da Maranata através desses próprios irmãos que estão na
casa, esses irmãos são como se fossem uma pedra de fundação da igreja e tem uma sabedoria muito grande
e é nessa geração antiga que a geração presente busca sabedoria para que não erre, porque você sabe que as
pessoas que estão aqui desde a fundação já passaram por um monte de processos que pode te dizer “olha
não vai por ali, não vai pela direita ou pela esquerda porque já passamos por isso e vimos que por ali não é
o ideal” isso é muito importante. O que eu acho de positivo na Maranata é que ela, apesar dos altos e baixos
que todas as igrejas passam, algumas pessoas se desanimam, ás vezes se desviam ás vezes vão para outra
igreja, ás vezes até porque parece ser mais fácil abandonar o problema, a comunidade e buscar outra igreja
que aparentemente no momento está alicerçada, está firme. Existe uma grande maioria que mantém-se aqui,
fica junto com o problema, fica junto com os novos para solucionar o problema, então é um amor mesmo
que existe dentro da igreja, dentro desse trabalho que é do Senhor. As pessoas têm clareza que esse trabalho
é do Senhor e por isso se unem e se unem muito mais quando se tem problema do que quando se tem
alegria, você percebe que “nossa como a igreja está unida, quanta gente presente nesse momento de
conflito, de problemas!” você percebe que não existe uma união apenas no momento de alegria, mas
principalmente no momento de problemas, quando alguma coisa está pegando, alguma coisa está difícil e
que pode trazer conseqüências muito séria para igreja, é aonde essas pessoas aparecem e falam “nós vamos
pedir a condução de Deus e vamos agir e vamos tomar uma decisão e vamos solucionar aquilo que está
emperrado e que está prejudicando o crescimento da igreja” Acho que o amor por esse trabalho dessa
grande maioria e esse vínculo que se criou de muitos anos favorece o desafio de soluções de problemas
dentro da igreja, e a gente vê e consegue perceber quem realmente está forte na fé quem realmente está com
maturidade cristã, é realmente no momento de dificuldades como diz o ditado “que não foge da raia” Então
eu gosto muito disso na Maranata, essa força, essa liderança, essa crença num Deus que vai nos ajudar a
superar esses problemas, isso é muito bom, saber que a gente pode contar seja num problema coletivo ou
individual.
C.K – E de negativo?
S.S – Acho que a gente precisa cuidar um pouco mais daqueles que estao fracos na fé, ás vezes a gente se
preocupa com muita coisa, tem muita coisa que precisa ser administrada dentro da igreja, a igreja não é
muito grande, não tem um numero muito grande de membros, algumas pessoas ainda não acreditam que são
capazes de desenvolver determinadas coisas na igreja então ás vezes as coisas ficam semp re nas mais dos
mesmos. As vazes nossas preocupações ficam focadas muito numa questão administrativa e perde a
oportunidade de ajudar um irmão a fortalecer, então e gente precisa melhorar um pouquinho essa área, de
buscar os fracos e acompanhar aqueles que estao fracos na fé. apesar de muitas vezes a gente ouvir falar que
“o irmão já conhece a verdade, ele sabe pode vir buscar ajuda, não precisa sempre ficar esperando alguém ir
atrás dele” mas a gente sabe que as coisas não funcionam dessa forma, quando a gente está fraco, quando
está meio perdido a gente não lembra de muitas coisas que a gente aprendeu. Se a gente não receber uma
visita, não perceber que você está precisando ter com quem contar, então você abandona mesmo essa
possibilidade de retornar para igreja. Então você enfraquece e acaba ficando desviado. Então precisamos
investir muito nessa questão de observar melhor os irmãos e ver onde a gente pode ajudar, ás vezes tem
aquele irmão com a face meio caída, cabisbaixo e a gente já percebe que não tem alguma coisa legal com
ele e a gente tem que ter coragem de chegar e perguntar “meu irmão está precisando de alguma coisa?”
muitos falam eu tenho receio de ser rejeitada, Gente cristo foi rejeitada quantas vezes? quem somos nos
para termos medo de sermos rejeitais? Eu prefiro que uma ajuda minha seja rejeitada do que eu ficar com
aquela dor na consciência de ter percebido, de ter sentido que o irmão precisava da minha ajuda e eu não me
prontifiquei, por receio, por medo de ser rejeitada eu não fiz nada, então posso ficar com a consciência
tranqüila de que tentei. A gente precisa investir mais nessa questão e sair mais da quatro paredes, a
Maranata está buscando parceria com outras igrejas em trabalhos externos porque a gente sabe que não
pode ficar preso aqui nessas quatro paredes, temos que buscar esse mundão que está ai fora. E existe varias
estratégias para isso, por exemplo, esse trabalho de capelania, tantos outros trabalhos que você pode atingir
pessoas, você vai se sentir mais útil. Ás vezes a gente tem aquela preocupação pelo espaço fisico, como a
gente faz evangelização e para trazer as pessoas para igreja e não temos estrutura física para isso? é uma
preocupação realmente, tem algumas coisas que antecede a outra, mas tem trabalhos que você faz fora da

igreja que as pessoas não vão ser conduzidas para essa igreja, mas vão ficar em uma igreja perto da casa
delas, seja uma igreja batista, uma igreja cristã que pregue a palavra que pregue a verdade, mas que fique
perto da casa dela. O importante é que a gente saia, saia das quatro paredes para pregar a palavra de Deus,
esse amor grandioso, incomparável de Jesus cristo e começar realmente essa ação pratica.
C.K – A próxima pergunta seria se você acredita que existe uma relação de amizade e irmandade
entre os membros da Maranata, mas você praticamente já respondeu, quer falar mais alguma coisa a
esse respeito?
S.S – Existe essa relação de irmandade, aquela sensação de poder contar com beltrano, fulano e saber que
não está sozinho nesse mundo, mas deixo claro, nós temos uma relação de irmandade de fraternidade, mas é
claro que existe conflitos. Por exemplo, eu posso te amar, mas pode ter algumas coisas em você que eu não
consigo administrar, nessa situação pode haver algum atrito entre nós duas, mas eu te amo, só preciso
trabalhar algumas diferenças que eu posso ter em relação a você e você em relação a mim. Não vou falar
que é tudo perfeito, existe alguns defeitos, existe alguns irmãos que a gente precisa conversar falar
determinadas coisas, exortar, que naquele momento parece que as coisas ficaram um pouco quebrada, mas
depois o amor de Deus reconstrói. Porque reconstrói? Porque a pessoa permitiu essa reconstrução, porque
se eu não permitir não é reconstruído. É uma relação de irmandade e fraternidade, mas existe problemas
conflitos pessoais entre as pessoas, mas que a gente percebe que o amor prevalece. Não é tudo linha reta,
existe algumas linhas tortuosas no meio do caminho que com amor de Deus é solucionado.
C.K – Você acha que existe algum tipo de diferenciação entre um membro branco e um membro
negro na Maranata?
S.S- Olha, eu sinto que não. Algumas épocas atrás eu sentia muitas piadinhas envolvendo a raça negra e eu
achava um pouco desagradável, pejorativo até porque na brincadeira e na piadinha você muitas vezes diz
coisas que você pensa só que não tem coragem de dizer para não entrar em conflito e você diz através de
uma piadinha ou brincadeira pejorativa, mas que essa pessoa que fazia essas coisas e eu não aceitava, não
está mais aqui, espero em Deus que no lugar que ela esteja ela não esteja fazendo mais isso. Mas eu acredito
que não há uma discriminação de raça. Mas acredito que possa haver uma discriminação cultural. Não vejo
isso em relação à raça e sim à cultura. Assim, aqui é a panelinha dos universitários, do pessoalzinho de
nível superior, falamos a mesma língua, temos a mesma cultura mais elevada então a gente se entende,
então existe algum padrão de pensamento, de comportamento, então ás vezes se cria um certo agrupamento
em cima de uma questão cultural. Vamos imaginar que você não é universitária, não tem nível superior,
mas, se veste assim no mesmo estilo que eu, consegue se enquadrar no meu padrão, mesmo que não seja de
forma cultural, você tem algo dentro do meus critérios classificatório você se encaixa, mesma faixa etária,
se veste muito parecido comigo, tem algumas falas, apesar de não ser universitária, tem uma fala assim,
como a gente, dá para te encaixar. Então eu não acredito que não é racial, é de cultura. Existem algumas
situações que eu percebo isso, se cria alguns grupos onde entra pessoas que não tenha nível superior, mas
que tenha alguma coisa que dentro do meu critério é classificatório e outros que não tem nível superior e
nenhum critério classificatório, não faz parte de minha panelinha, então não é uma questão da cor da pele e
sim de nível superior.
C.K – essas pessoas que não tem nível superior, não tem a roupa adequada ou alguma coisa para
entrar na panelinha, essas pessoas não são negras?
S.S – Se são é até comum porque se a gente for fazer uma pesquisa, um levantamento, a maioria das
pessoas pobres e com nível de escolaridade mais baixo, acaba sendo da raça negra, infelizmente por falta de
oportunidade e pelas pessoas muitas vezes acreditarem que não são capazes. Acho que a partir do momento
que o negro tiver a consciência que tem os mesmos direitos que qualquer pessoa, e que tem capacidade de
desenvolvimento intelectual como o de qualquer pessoa, acredito que essas coisa vão mudar, porque ele vai
começar a buscar o espaço dele e não esperar que as pessoas dem o espaço para ele. Acho que ele tem que
buscar seu espaço, mesma coisa que eu, eu fui buscar meu espaço. Indepedendente de pensar assim “será
que vão te dar esse cargo?” eu nunca me preocupei com isso, sempre me preocupei com isso, eu sou capaz e
vou concorrer, se não for esse cargo será o outro, mas eu vou concorrer para alguma coisa, e vou à luta não
vou esperar que as pessoas “ah, vamos dar uma oportunidade, precisamos de tantas pessoas da pele negra
para a nossa empresa não ser caracterizada como uma empresa racista” não, não estou me preocupando com
essa coisa, eu vou atrás dos meus objetivos, independente de minha cor de pele, porque tenho claro que isso
não faz diferença. Então se há muitas vezes essa divisão, e se está coincidindo dessas pessoas serem negras,
é por essa questão, e não racial. Realmente ela acredita que não tem oportunidade ou ela bateu em muitas
portas e foi rejeitada ou é comodismo mesmo da pessoa. Eu não quero colocar a culpa de uma dificuldade
dos negros atingirem alguns patamares da hierarquia social por questão só da sociedade, tem uma parcela de
culpa da própria raça, por não acreditar nela mesma, então acredito que existe uma parcela de culpa da
própria raça. A partir do momento que todo mundo acreditar mais, eu quero ver se vai ter esses obstáculos e
esses paredões. Não vamos ter, e se tiver, vai diminuir muito esses obstáculos. Mas se existe mesmo é por
causa dessa questão. Realmente é uma questão cultural. Eu digo classificação assim, eu posso ter nível

superior e o outro não, e essa pessoa que está junto da minha panelinha mesmo não tendo nível superior,
algo nela está dentro do meu critério de classificação, é a forma de se vestir, e a forma de falar. De repente,
tem algum que não tem o nível superior, mas fala fluentemente, então tem alguma coisa que se enquadra. É
como se ela pudesse disfarçar ao meu grupo, ninguém vai perceber que ela não tem, mas ela tem alguma
coisa que se enquadra nos meus critérios. Então não é racial.
C.K – Você acredita que o racismo existe?
S.S – Acredito. Tem. Não é porque eu não tenha experiências fortes em relação a essa questão, que eu vou
achar que não existe racismo, existe! Acredito que é camuflado. Temos uma sociedade racista, sim. Mas
acho que o Brasil disfarça. Sabe por que ele tem facilidade para disfarçar? Porque somos uma raça muito
misturada. Então é muito difícil você dizer que é da raça branca, porque se você for construir sua árvore
genealógica, aí vai ver que em algum momento entrou o índio ou caboclo ou o negro, então sempre vai ter
algum vestígio da raça negra aí nessa mistura. Então o racismo no Brasil é meio camuflado, por sermos uma
raça muito heterogenia, muito misturada.
C.K – O racismo das pessoas se manifesta em diversos lugares mais não de ntro da igreja?
S.S – (pensando) Olha, estou aqui parada, pensando em alguma situação além das que eu te comentei, que
foram as piadinhas na igreja em relação ao negro, eu nunca presenciei durante esses dezenove anos que
estou aqui na Maranata, nada, alguém não querer sentar do lado e uma pessoa por causa da cor dela, não
querer abraçar outro alguém por causa da cor da pessoa, não pegar uma liderança por causa da cor da
pessoa, nunca assisti, nunca tive essa experiência. Até porque, tivemos muitos pastores negros: O pastor
Ananias eu não diria que ele é da pele branca, tivemos pastores que passaram aqui que eram negros e que
eram amados da mesma forma, então acho que está muito bem resolvido dentro da igreja. Eu não sei, estou
pensando aqui agora, estou querendo levantar uma polemica, não sei, não estou falando que aconteceu,
estou parando para pensar porque eu nunca tive algum comentário em relação a essa situação. Vamos
imaginar que meu filho é da cor negra e quer namorar com uma menina loira da igreja, é uma relação entre
uma menina branca e um rapaz negro. Já houve algum pai que discordou desse relacionamento por causa da
cor da pele e não por outras coisas? Nunca ouvi falar que poderia acontecer, nunca ouvi falar.
C.K – Você sabe sobre as políticas afirmativas para negros em universidades, você é a favor ou
contra?
S.C - Não sou a favor não, até por que, acredito na capacidade do negro, ele não precisa de uma cota
reservada, ele tem que acreditar mesmo nele, investir nele e concorrer a estas vagas. Porque da mesma
forma, principalmente nas faculdades federais, públicas, que você não paga, a concorrência é brava. Mas ela
é brava tanto para negro quanto para branco de classe inferior. Porque a gente está favorecendo uma classe?
De novo a gente está dizendo que ela é inferior, parece que ela tem dificuldade de concorrer a alguma coisa.
Mas também a classe menos favorecida que são os pobres, que não tem condições de colocar seus filhos em
escolas graduadas e concorrer de igual para igual com aqueles que têm. Eu acho que precisa melhorar
nossas escolas públicas, que elas possam dar para nossos alunos as mesmas capacidades às mesmas
condições de desenvolvimento que uma escola particular dá, para que eles possam concorrer de igual para
igual. Isso eu acho que vai dar certo, a partir do momento que tivermos uma escola pública de ponta, nossos
alunos não vão precisar se socorrer a cotas.
C.K – Você acha que a igreja batista tem uma posição em relação a esse assunto?
S.C – Se a nossa igreja tem? Acredito que ela deva ter sim, mas uma visão meio dividida. Acho que para
aqueles que têm maior esclarecimento sobre o assunto, pode ter até opinião para se posicionar, outros pode
não ter filhos na faculdade então não se liga muito nessa questão. Acredito que opinião tenha, mas opinião
dividida. Para alguns é importante, sim o negro tem que estar na faculdade para concorrer a cargos na
sociedade de nível, já que a sociedade não dá ao negro a oportunidade que ele merece. Mas também têm
outros que podem não concordar por que acham que é uma posição discriminatória. Porque como eu falei
para você, existem negros e brancos na classificação hierárquica de renda muito baixa e como fica essa
questão?Ele não vai ter nenhum critério de favorecimento, esse pobre e branco.
C.K – Você está falando por alto, mas esse já foi um assunto de discussão na igreja?
S.C – Não. Por isso estou te falando que possa haver uma posição muito dividida, porque nunca houve essa
discussão, que eu tenha presenciado que eu tenha participado, não. Eu converso com minhas colegas de
trabalho quando vejo matérias. Por isso eu não posso afirmar qual a posição da igreja, porque não houve
nenhum momento que eu tivesse presenciado esse tipo de discussão, e sim eu li muitas matérias que falam
dessa divisão de idéias, uns são favoráveis e outros contra.
C.K – Políticas afirmativas não pode ser considerada um tema debatido pela igreja, mas você acha
que falar sobre negritude, racismo, preconceito racial é tema na igreja?
S.C – Não é uma questão sistemática, mas é um trabalho desenvolvido pelos próprios professores, se eles
vêem algum tipo de comportamento discriminatório não só em relação à cor de pele, mas por uma questão
de “ai tadinho, não sabe nada, deixa ele ali e vamos sentar com um grupinho que sabe mais” as crianças
também tem disso, tem coisas assim no comportamento das crianças também, porque é um pouco de

cultura, é um grupinho que se veste melhor, ou grupinho da favela, esse é o grupinho que não é da favela.
Isso é muito cortado a través de história bíblica, através de situações que possam ocorrer dentro do meio
junto com as crianças. Existe uma intervenção, não que esse seja um tema gerador da escola, como as
escolas públicas implantam o tema da historia da áfrica, do respeito ao negro e que já faz parte do currículo
já está dentro do currículo das escolas públicas, acho isso muito importante, a escola tratar desse assunto.
C.K – A escola sim, não a igreja?
S.C – A igreja, acho importante sim.
C.K – Mas que não precisa ser incluído como tema?
S.C – Pode até ser, poderia ser até um tema para incluir no currículo, uma grande importância de incluir no
currículo e não só trabalhar só no momento em que o preconceito surge, independente do tipo de
preconceito, seja porque é negro, porque mora na favela, por vários motivos esse preconceito é gerado.
C.K – Por que esse tema ainda não foi incluído, se é tão importante?
S.C – Não sei. Acho que é porque a gente nunca parou para pensar sobre isso, nunca discutiu. Acho que da
mesma forma que você falou se foi discutido alguma fez dentro as igreja a questão das cotas ou como está à
posição dos negros no Brasil ou dentro das igrejas ou coisa parecida, é uma provocação que você está nos
trazendo agora. Acho que pode daqui para frente pensar nessa possibilidade sim, não vai haver nenhuma
dificuldade, pelo que eu conheço dos irmãos da igreja eles não vão causar nenhum tipo de empecilho de nós
termos dentro do nosso currículo essa questão.
C.K – São essas perguntas, mas você gostaria de dizer mais alguma coisa?
S.C- Eu acho que é super imp ortante esse trabalho que você está fazendo, te parabenizo, já conheci algumas
colegas que buscaram essa temática para falar no doutorado e no mestrado. Acho que é importante quando
alguém levanta poeira. A poeira existe, que é a questão do racismo, quando alguém levanta essa poeira para
que se rediscuta, porque ás vezes a gente se acomoda e finge que nada está acontecendo e as coisas vão
sendo levadas, só depois que acontece alguma coisa muito gritante é que a poeira levanta de novo, a poeira
do preconceito. Acho muito importante a preocupação à bandeira do preconceito, da raça negra, mas
também o preconceito de maneira geral e além do negro, outras pessoas sofrem preconceito, uma pessoa
branca sofre preconceito por morar na favela, sofre preconceito por não ter escolaridade, por ser um
analfabeto, então inúmeros tipos de preconceitos existem, o nortista, quantas piadinhas existem em relação
às pessoas que vêm do norte?! Preconceito de maneira geral é um câncer se não for bem tratado no inicio
ele se torna terminal para muitas vidas e nem todo mundo é igual, algumas enfrentam as preconceitos
usando a lei, aplicando a lei e outros simplesmente abaixam a cabeça diante dele. E as pessoas que muitas
vezes abaixam a cabeça diante dele muitas vezes incorporam aquela credibilidade de não ser alguém melhor
na vida na sociedade por causa da sua cor de pele. Espero em Deus que as pessoas superem esse descrédito
e comecem realmente a acreditaram mais nelas e não esperar que pessoas lutem por ela, elas precisam
levantar sua própria bandeira de acreditar que o negro tem a mesma capacidade de qualquer outra pessoa de
qualquer cor. Eu acredito mais nisso. A partir do momento que o negro acreditar mais nele, levantar sua
própria bandeira as coisas vão mudar bastante. O preconceito vai sair dessa cortina de fundo, dessa
aparência e dessa situação inerte e vai começar a criar uma cultura uma sociedade onde eles vão acreditar
que a miscigenação que a mistura, as pessoas falam da miscigenação e a mistura, mas nem sempre falam
valorizando isso, muitas pessoas gostariam de ter a raça pura, gostariam que não houvesse essa mistura, mas
eu vejo nessa mistura uma riqueza enorme e não só a mistura do negro com o branco, mas o japonês com o
branco, o índio com o branco toda essa mistura eu acho super positiva, acho que essa mistura favorece de
mais para a quebra do preconceito porque eu não vou poder dizer que sou realmente branca, a partir do
momento que o país é tão misturado é difícil você querer ser preconceituosa sabendo que em algum
mo mento de sua arvore genealógica apareceu o índio,o branco, então eu vou ter lutar por algumas das raças
da minha árvore genealógica, e vou chegar à conclusão de que todas são importantes, todas elas.
19. Nome: Daniel Silva Idade: 40 anos
Data da entrevista: 20/07/2007 Local da entrevista: casa do entrevistado Cor: preto
C.K – Vamos começar por sua trajetória habitacional, onde você nasceu?
D.S - Na realidade eu nasci e me criei em Recife, Pernambuco. Aos vinte e um anos de idade recebi um
convite para vim morar em São Paulo. Aceitei o convite e vim. Por incrível que pareça, nunca passei
necessidade, e ao chegar em São Paulo, passei fome por não ter família. Mas graças a Deus, pela
misericórdia dele, hoje estou bem. Quando eu vim para São Paulo, vim direto morar no Jardim São
Francisco, no Guarapiranga. Treze anos depois eu passei a morar aqui no jardim Icaraí, estou aqui há seis
anos.
C.K - Como você veio para essa região do Grajaú?

D.S - Eu vim para cá através da Congregação onde eu era membro, filha da igreja onde hoje eu congrego, a
igreja Batista Maranata. E através do conhecimento que eu tinha com a igreja eu precisei mudar de lá e vim
morar aqui nesse bairro, onde se localiza a igreja Batista Maranata.
C.K – Agora sobre estudos, você estudou até quando?
D.S - Eu tenho só o ensino fundamental e agora estou fazendo aula de música, quero ser um professor de
música, se Deus quiser.
C.K - E seus pais, estudaram?
D.S - Meus pais (...)? Meu pai é natural da Paraíba, ele é paraibano, casou com a minha mãe e foi para
Pernambuco. Minha mãe é pernambucana, e não tem o mínimo de desejo de conhecer São Paulo, estão lá,
aliás, meu pai, porque minha mãe é falecida.
C.K - Eles estudaram?
D.S - Não. Meu pai tinha um estudo muito fraco, ele estudou até a quarta série. E a minha mãe, o estudo
dela era menos que o do meu pai, mesmo por que no tempo deles, exigiam mais o trabalho do que o estudo.
C.K – Qual a sua profissão?
D.S - Hoje minha profissão é ajudante geral. Eu trabalho também na área da construção civil,
principalmente, na reforma e pintura.
C.K - Você mora a pouco tempo nessa região do Grajaú, mas pode me dizer algumas coisas que você
acha positiva nessa região?
D.S - Olha, que eu não goste (....) a única coisa que precisaria melhorar mais na região, seria o aumento de
ônibus. Tem muita condução, mas pela quantidade de pessoas, pelos bairros que temos para frente até
Embú-Guaçu, Cipó, Parelheiros, a condução é pouca. Pelo valor da condução, nós como passageiros, como
ser humano também, em primeiro lugar, nós teríamos que ter um pouco mais de tranqüilidade para viajar de
ônibus. Principalmente, quando pega uma viagem de uma hora, uma hora e quarenta minutos, de pé no
ônibus não é fácil.
C.K - E o ponto positivo da região do Grajaú?
D.S - De bom, na região do Grajaú? Olha, tem muita coisa (...) partindo de lojas, bancos, hospital, posto de
saúde, assim, algumas coisas ainda favorece. Uma coisa que nós necessitamos também aqui é um projeto do
governo, mas não sei se esse projeto ainda vai ser concluído, não sei se está vivo ainda, é o trem, de
preferência como eles falam, daqui, Varginha até Santos, seria uma coisa que iria ajudar muito.
Principalmente, para as pessoas que não tem condições de possuir um veículo, e depende de ônibus para ir
para baixada.
C.K - Você já foi membro de outra religião ou denominação?
D.S - É o seguinte, quando eu nasci, meus pais já eram evangélicos, fui apresentado na igreja Assembléia
de Deus há quarenta anos atrás, graças a Deus por isso! Passei praticamente a minha vida, até os vinte anos
de idade, na Assembléia de Deus. Passei um tempo afastado da igreja, foi quando conheci a congregação da
igreja Batista Maranata, lá no jardim São Francisco. E foi através da vida do pastor José Antunes, que na
época era o pastor da igreja. Ele me fez uma visita, coisa que eu não esperava, eu achava isso impossível e
difícil, mas Deus sempre usa as pessoas. E através da pessoa dele eu passei a ter o conhecimento e o
acompanhamento com o pessoal da igreja Batista. E eu vi que, não falando mal de outras igrejas, mas o
carisma, o aconchego, a hospitalidade, a unanimidade em relação a comunhão, eu achei muito forte. E a
partir desse momento eu comecei a freqüentar a congregação Batista e me tornei membro, fui aceito por
aclamação na igreja Batista Maranata e até hoje graças a Deus.
C.K - Quantos anos você é membro da Maranata?
D.S - Nove anos.
C.K - Pelo intermédio da Congregação você conheceu a Maranata?
D.S - Conheci a Maranata. E fui aceito por aclamação na igreja batista Maranata, pela congregação ser filha
da Maranata.
C.K - Quais os pontos positivos e negativos da Maranata?
D.S - Coisa boa? São muitas (...) na realidade são muitas. Como eu já citei no inicio, começando pelo amor
para com o outro e a comunhão. Eu graças a Deus adquiri um conhecimento espiritual bem maior do que eu
tinha antes. Por um certo tempo eu levei o evangelho de Cristo por uma certa brincadeira, mas Deus me deu
oportunidade de conhecer mesmo, profundo, e através da igreja batista, conversando com um e com outro,
pessoas mais experiente. Um ponto super positivo na minha vida é o lado espiritual, conhecimento maior
que eu tive. Uma coisa que deveria mudar na igreja, não por ser um ponto negativo, mas eu acho que no
geral, eu creio que não só na Maranata, mas no geral de igrejas, é que nós como cristãos pensassem um
pouco em nossos primeiros irmãos, como escreveu o livro de Atos, Lucas, os nossos primeiros irmãos,
voltar ao primeiro amor, isso é uma coisa que a gente sente falta na igreja, quando se trata de cristão.
C.K - Como assim, você pode dar um exemplo?
D.S - Por exemplo, quando a gente aceita a Cristo, isso é no geral em todas as igrejas, parece que a gente
tem mais temor a Deus, a gente lê mais a bíblia, a gente ora mais, a nossa fé parece que é muito maior,

quando a gente passa a conhecer o evangelho de Cristo. Depois, com o tempo, nós os seres humanos,
começamos a colocar o nosso lado egoísta e esquecer um pouco de Deus. Nas orações, ora quando lembra,
pede, mas esquece de devolver, esse é um defeito como Cristão que nós temos, pedi, pedi, pedi e Deus
sempre abrindo a mão, mas a gente esquecendo de devolver a parte do Senhor, isso se torna geral em todas
as igrejas, todas as denominações.
C.K - E na Maranata, também?
D.S - Sim, sem dúvida. Eu to falando assim, primeiro da minha igreja, o que deveria voltar o que seria nesse
caso, não um ponto negativo, mas assim, uma aproximação maior de Deus, a começar comigo, né? E partir
para o corpo da igreja.
C.K - Você acredita que existe uma relação de irmandade e amizade na igreja Maranata?
D.S - Com algumas exceções sim, existe.
C.K - Não é todo mundo?
D.S - Não é todo mundo, mesmo porque ontem, é isso!? Eu dei um estudo na igreja falando justamente
sobre a igreja de Atos, que foram os nossos primeiros irmãos. Lá no tempo deles, não existia rico nem
pobre. E para Deus hoje, até hoje não existe classificação de pessoas. Deus ama a todos por igual, sem
colocar raça, nem cor, nem poder financeiro, nem empresário, nem pobre. Isso a gente vê que existe dentro
da igreja, algumas separações em relação a isso, isso também precisa mudar.
C.K - Existe alguma diferença entre os membros negros e os brancos?
D.S - Olha, durante esse tempo que estou na Maranata, eu não vi isso acontecendo.
C.K - Você acredita que não existe?
D.S - Como eu não vi, eu acredito que não existe. Pode ser que tenha acontecido, mas na minha presença
não, então eu creio que não existe.
C.K – Por quê você acha que isso não acontece na igreja?
D.S – Por que para Deus, eu já falei, para Deus nós todos somos iguais, Deus não separa nem cor nem
poder financeiro.
C.K - Para Deus sim, mas e para as pessoas?
D.S - Para as pessoas teria que ser a mesma coisa, porque se nós aceitamos a Cristo, temos que ser
imitadores dele, e como seus imitadores, ele não fez separação, e nós como cristãos, não podemos fazer
separação, não podemos ter isso em nosso coração.
C.K - Outro tipo de separação, mas não de cor de pele?
D.S - Aí existe, aí existe. Por exemplo, mesmo quando chega um jovem visitante na igreja dificilmente a
gente vê um jovem ou um adolescente se aproximando. Talvez não seja assim por acepção, mas por um
certo receio ou vergonha, não sei o que passa no coração deles. Mas geralmente a gente vê mais os adultos,
eu mesmo gosto de recepcionar as pessoas.
C.K - Mais em relação a quem chega de fora. Mas e em relação aos próprios membros?
Entre os próprios membros? (...) Eu acho que existe assim (...) devido a idade, os jovens e os adolescentes
não se misturam muito com os adultos, isso é uma coisa que existe não só na nossa igreja, mas no geral.
Mas isso é por causa da (...) eu creio assim (...) como a evolução está cada dia crescendo, devido a cabeça
entre alguns adultos e alguns adolescentes.
C.K - Nos cultos, escola dominical e estudos bíblicos a questão racial é falada?
D.S - Não. Não é comum, deveria acontecer, mas, como eu acabei de responder para você um tempo atrás,
como eu nunca presenciei esse tipo de discriminação na igreja, eu creio que na igreja não exista isso, por
não existir, não necessariamente está discutindo o fato.
C.K - Já ouviu falar sobre as cotas? Qual posição da igreja batista?
D.S - Algum tempo atrás eu ouvi na televisão, não só nas universidades, mas nas empresas. Eu ouvi mas,
não gravei, na empresa se não me engano, acho que um por cento, um virgula alguma coisa por cento.
Agora na universidade (....) Eu creio que há uma aprovação unânime em relação a isso (aprovação da
igreja), por que como eu falei nunca vi acontecer esse tipo de racismo dentro da igreja, e por ser igreja,
também existem negros dentro da igreja, e eu creio que é uma aprovação unânime da igreja em relação aos
negros tanto trabalharem quanto estudarem.
C.K - Você fala por você, ou já ouviu essa discussão dentro da igreja?
D.S - Nunca ouvi na igreja, estou deduzindo pelo que eu vejo. Eu sou a favor.
C.K - Em sua opinião essa questão do negro e do racimo deveria ser falado na igreja?
D.S - Deveria, acho que como acontece na televisão algumas reportagens, alguns eventos partindo dos
negros, acho que deveria ser um assunto não só na Maranata, mas em todas as igrejas no geral.
C.K - Mesmo você dizendo que não há esse tipo de problema na igreja?
D.S - Deveria, por que às vezes possa acontecer que na igreja tenha pessoas que tenham esse tipo de visão
em relação ao negro e por esse motivo que teria que ser um tema a discutir e mostrar para as pessoas a
igualdade do ser humano independente da cor.
C.K - Quais as vantagens de ser negro?

D.S - A simpatia, acho que os negros são pessoas simpáticas, uma coisa que mais uma vez eu vou ter que
tocar é em relação a música, os negrões cantam muito, são vozes assim excelentes, tanto aqui no Brasil
quanto no exterior, os negões cantam muito, então negro é negro.
C.K - Você é feliz sendo negro?
D.S - Sou muito feliz, porque em primeiro lugar eu creio que através da entrega da vida de Jesus na cruz,
Deus me escolheu para ser seu filho, para servir a Cristo, e o segundo que em todo lugar que eu chego eu
sou bem recebido, sou uma pessoa que sou suspeito para falar, mas eu converso com todo mundo, gosto de
brincar, gosto de ser extrovertido, e talvez por esse meu jeito...
C.K - Você nunca sofreu preconceito?
D.S - Nunca.
C.K - Nem dentro da igreja nem fora?
D.S - Muito menos na igreja.
C.K - Nesse contexto de Brasil, o que é ser negro aqui?
D.S - No Brasil, existe esse preconceito, existe. Principalmente eu vejo assim, na polícia a nossa área de
segurança aqui no Brasil, tem um certo suspeito com os negros, geralmente a maioria das pessoas que são
paradas para serem abordadas pelas polícias, a maioria são negros.
C.K - Aí há preconceito racial?
D.S - Eu creio que sim. E parte de algo que não deveria ser. Por ser segurança (...) de uma certa forma, a
segurança do país, eu acho que não deveria ter esse preconceito, e tem, existe, por que eu já presenciei
vários fatos.
C.K - Não com você?
Comigo não, com pessoas, não só com amigos, mas a gente esta todo o dia na rua e vê o que acontece, a
maioria das pessoas que são abordadas são negros.
C.K - Obrigada! As perguntas seriam essas, mas existe mais alguma coisa que você gostaria de dizer?
D.S - Falando do negro, seria essencial que não houvesse preconceito de hipótese nenhuma, não só aqui no
Brasil, mas no planeta, isso seria uma coisa essencial para todos os brasileiros e falando em relação ao
globo, para todo mundo. Ninguém ia se sentir humilhado, por que devido ao preconceito, existem
humilhações e muito grande, não são poucas, eu acho que isso em hipótese nenhuma deveria existir era, o
racismo.