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Há 30 anos, a vinheta soa no rádio, sintonizado em 980 kHz: “É bom viver Nacional...”.

Este livro junta-se à voz marcante
do locutor Clemente Drago para traçar
uma história humanizada da Rádio Nacional AM de Brasília, a primeira emissora de
rádio a se instalar na nova capital. E esta
história é recontada partindo da memória
daqueles que fizeram e fazem a trajetória
da rádio. Locutores, radialistas, jornalistas,
sonoplastas, operadores de áudio e gestores
revelam os fatos relevantes da história da
emissora, partindo de sua inauguração,
em 1958, e culminando no desafio atual de
exercer seu papel como emissora pública,
vinculada à Empresa Brasileira de Comunicação (EBC). É bom viver Nacional resgata histórias e personagens que entram
nas casas de brasileiros há décadas e que
se enraizaram na história da emissora, conferindo-lhe uma identidade única. Pessoas
que já descobriram por que é bom viver
Nacional e contam o que é ser Nacional
neste livro.

É bom viver Nacional
vidas sintonizadas em 980 kHz

Nathália Mendes e Yvna Sousa

Nathália Mendes e Yvna Sousa

É bom viver
Nacional

Brasília - DF
2010

Copyright © Nathália Mendes e Yvna Sousa, 2010
Produção Editorial: Nathália Mendes e Yvna Sousa
Projeto Gráfico e diagramação: Ana Rita Cunha
Revisão: Júlio Cezar Garcia
Fotos: Arquivo Público do Distrito Federal e Maíra Morais
Foto da Capa: Maíra Morais
Todos os esforços foram enviados no sentido de garantir o devido crédito aos detentores de direitos autoriais e de imagem. Para os materiais que não puderam ser identificados e creditados com com segurança,
o direito está reservado. No caso de um detentor se identificar, faremos com prazer constar o crédito nas
impressões e edições seguintes.
Direitos exclusivos desta edição reservados por Nathália Mendes e Yvna Sousa

MENDES, Nathália, SOUSA, Yvna

É bom viver Nacional: vidas sintonizadas em 980 kHz / Nathália Mendes e
Yvna Sousa - Brasília, 2010

il. 104 páginas

1. Rádio Nacional - Brasília - história. Meios de Comunicação - Rádio - Brasília história. I. Título

Agradecimentos
Primeiramente, agradecemos ao apoio constante de
nossos familiares e amigos, pelas contribuições indiretas, pela pronta disposição em ajudar e por acreditar
em nosso projeto. Não podemos esquecer dos conselhos
valiosos, da insistência, amizade e paciência do professor
Fernando Oliveira Paulino, que nos acompanhou desde
a primeira entrevista até o difícil processo de costurar
tanta informação. Agradecemos também a Luiz Egypto
pela aula transmitida via Skype e por ter nos apresentado
a metodologia ideal para o desenvolvimento do nosso
trabalho. Nosso reconhecimento à Empresa Brasileira
de Comunicação (EBC) e seus funcionários, que abriram as portas da Rádio Nacional de Brasília e as suas
portas particulares ao compartilharem conosco suas
histórias de vida e experiências na emissora. Também
é preciso ressaltar a preciosa colaboração da jornalista
Juliana Cézar Nunes que, além de compartilhar conosco
seu conhecimento sobre a Nacional, nos cedeu, na íntegra, entrevistas, áudios, vinhetas, documentos e fotos,
material coletado por ela e outros colegas por ocasião
do 50º aniversário da rádio. Sem isso, uma boa parte da
história que contamos estaria incompleta. E finalmente,
somos profundamente gratas às colegas e amigas Ana
Rita Cunha e Maíra Morais, responsáveis pelo projeto
gráfico e fotografias, respectivamente, que modelam e
ilustram nosso texto, dando forma a este livro.

Apresentação
Este livro é fruto do nosso projeto final de graduação
em Jornalismo. Foi motivado, em parte, pela admiração
que desenvolvemos pelo rádio durante a passagem pela
universidade e por uma pontinha de inveja por não termos crescido nos áureos tempos desse veículo. Mesmo
sem viver aquela época, sentimos falta das radionovelas, dos programas humorísticos, dos shows ao vivo, da
identificação com o locutor e de todas as interessantes
especificidades e da riqueza de conteúdo que pouco encontramos na televisão e durante muito tempo, também
não encontramos no rádio. Até descobrirmos a Rádio
Nacional de Brasília.
Foi um desafio, primeiramente, explorarmos um
mundo quase desconhecido pela nossa geração: as
emissoras AM. Superada a resistência causada pela
transmissão ruidosa e por uma impressão de que “AM é
coisa de velho”, encontramos conteúdo rico, diferenciado e programas para quase todos os gostos. Sentíamos
falta de uma emissora que não se restringisse somente a
música ou notícia. E na Nacional de Brasília encontramos isso.
Por outro lado, nos impressionamos ao saber que
nossa mais nova descoberta tinha mais de 50 anos! Sim,
ela era anterior a Brasília e houve um tempo em que era
ouvida em todo o Brasil. E não tardou para que os questionamentos aparecessem: qual terá sido a impressão
dos funcionários quando chegaram para trabalhar em
uma cidade que ainda nem existia? Como foram as primeiras transmissões? Dos programas que estão no ar,

quais são os mais antigos? Como era possível a rádio ser
ouvida, ao mesmo tempo, por alguém no Rio Grande
do Sul e no Amapá? Quem foram os apresentadores de
destaque, quais foram os programas de maior audiência? A rádio fazia shows ao vivo? Quem são as pessoas
que fazem a rádio hoje? E a cada pergunta respondida,
nos era revelado um mundo encantador. Então, novas
perguntas surgiam e nossa vontade de conhecer esse
universo crescia ainda mais. A medida que conversávamos com as pessoas e ouvíamos mais histórias sobre a
Rádio Nacional, compreendemos o verdadeiro sentido
do que diz uma vinheta que roda na programação: “É
bom viver Nacional”.
Este é um registro inicial da longa história da Rádio
Nacional de Brasília e, portanto, não tem a pretensão de
ser definitivo. Temos a consciência de que podem ter
ficado de fora pessoas importantes e que ainda há muitas boas histórias a serem ouvidas. Este é o resultado de
uma primeira incursão que fizemos pelo mundo da Rádio Nacional. Continuaremos voltando a este lugar. Ora
para dar seguimento à nossa pesquisa, ora para relaxar
e ouvir um bom programa.

Nathália Mendes e Yvna Sousa

“Se tiver jeito, o dia que eu for, eu quero levar o rádio
comigo para ouvir a Rádio Nacional. Então, lá em cima,
meu amigo, arruma uma tomada que lá vou eu com o
meu radinho.”
Lourdes Martins Soares, a Dona Lourdes,
70 anos, considerada a ouvinte-símbolo
da Rádio Nacional de Brasília.

Sumário
introdução......................................................................

11

capítulo 1

Brasília faz ouvir sua voz.............................................. 13
capítulo 2

A Nacional que anda e fala.......................................... 23
capítulo 3

A cara da rádio construída........................................... 35
capítulo 4

Entre o espetáculo e a informação.............................. 49
capítulo 5

O público é quem a torna pública............................... 63
capítulo 6

Vidas sintonizadas em 980 kHz................................... 77
capítulo 7

Estórias que viraram história....................................... 83
biografias.........................................................................

95

É bom viver Nacional

Introdução
A Rádio Nacional AM de Brasília é uma das oito
emissoras da Empresa Brasil de Comunicação (EBC),
empresa pública criada em 2008 para implantar e gerir
canais públicos, complementando os canais privados
por meio de programações diferenciadas.
A história da emissora, no entanto, é muito anterior
à EBC: inaugurada em 1958, a Nacional de Brasília foi
companheira de milhares de candangos e viu a nova
capital nascer e se consolidar no Planalto Central. Durante o regime militar, teve sua potência elevada, com o
intuito de levar o discurso do Estado para lugares onde
existiam poucas emissoras ou era mais fácil sintonizar
transmissões de outros países latino-americanos. Usando potentes transmissores – e por ser a única emissora
do país a operar na freqüência de 980 KHz –, durante
anos, a Nacional de Brasília pode ser sintonizada nos
quatro cantos do Brasil. Após passar por um período de
pouco investimento nas décadas de 1980 e 1990, hoje,
a Rádio Nacional busca exercer uma comunicação pautada na diversidade cultural, no conteúdo diferenciado
das emissoras comerciais e no jornalismo focado no cidadão.
Desta longa trajetória, pouco foi guardado. A
Nacional de Brasília ainda não possui um acervo sistematizado que contenha áudios dos programas, planilhas
da programação, fotos ou quaisquer outros documentos. Um pouco disto encontra-se em um galpão onde
o que ainda existe se deteriora dia após dia por falta de

11

12

É bom viver Nacional

condicionamento adequado. Alguma coisa é guardada
pelos próprios funcionários em arquivos pessoais. Mas
grande parte simplesmente se perdeu.
Diante da dificuldade em fazer uma pesquisa alicerçada em materiais que contivessem informações objetivas, utilizamos a metodologia do Museu da Pessoa,
organização do terceiro setor que tem como missão
“contribuir para tornar a história de cada pessoa valorizada pela sociedade” e que, entre outras ações, editou
o livro “Memórias do Distrito Federal – A luta pela autonomia política”. A publicação serviu como referência
para o nosso projeto, por também se basear na memória
das pessoas para construir um panorama histórico.
Sendo assim, cada capítulo conta uma parte da
história da Rádio Nacional de Brasília por meio de
trechos dos depoimentos de pessoas que fizeram e fazem parte dela. São apresentadores, cantores, técnicos,
jornalistas e gestores. Diante de suas lembranças únicas
e especiais sobre os acontecimentos, construímos um
panorama humanizado da memória da emissora. Vale
ressaltar que, na medida do possível, os relatos foram
confrontados entre si e corroborados com dados extraídos de documentos.
As entrevistas que servem de base para este trabalho
foram coletadas de três maneiras: primeiramente, por
jornalistas da emissora por ocasião do aniversário de 50
anos da Nacional de Brasília, e gentilmente cedidas por
Juliana Cezar Nunes. Segundo, pela Ouvidoria da EBC,
que produz o programa Rádio em Debate, resultado de
parceria entre a empresa e a Universidade de Brasília.
Por fim, colhidos por nós, a fim de complementar o material já disponível.

1
Brasília faz
ouvir sua voz

14

É bom viver Nacional

31 de maio de 1958. Os candangos escavavam minas
ocultas para erguer uma nova cidade: a terra prometida. Prometida em campanha pelo então candidato à
Presidência Juscelino Kubitschek, em comício realizado
em Jataí/GO, em abril de 1955. A terra não vertia leite,
tampouco mel, como Dom Bosco teria previsto há quase
75 anos antes: a cada toque do maquinário pesado, desvirginando clareiras e construindo palácios, subia uma
poeira avermelhada. Como de costume, o último dia do
mês raiou cobrando incessante trabalho braçal, resplandecendo no mármore e cheirando a massa de cimento
e suor. Caminhões continuavam a surgir no horizonte,
apinhados de gente que vinha em busca de um uma
nova vida. Foi quando entre uma martelada e outra, o
arremedo da nova capital pode ouvir a transmissão da
primeira emissora de rádio da cidade que ainda nem
existia. A Rádio Nacional AM de Brasília, trazendo uma
parte do elenco de artistas de sua irmã carioca para o
show de inauguração, invadiu os aparelhos de rádio de
peões e mocinhas, engenheiros e prostitutas, do presidente e dos mestres-de-obras.
A Rádio Nacional está no primeiro parágrafo da
constituição do sistema radiofônico de Brasília. Antes
dela, havia a pré-história dos alto-falantes, como a Voz
de Brasília, estrategicamente instalada na Cidade Livre
– hoje, Núcleo Bandeirante. As caixas de som ressoavam
ofertas de emprego, música, recados e prestação de serviço. A chegada da Nacional marca o início da história
formal do radialismo na nova capital do Brasil. A emissora se instalou como pôde em um galpão de madeira
na 507 Sul e iniciou suas transmissões com uma programação que se construia no dia a dia.

Foto: Aparelho
sobrevive à
incêndio na
Cidade Livre:
sempre presente
nos barracos dos
candangos, o
rádio em Brasília
nasce com a
chegada da
Rádio Nacional
(crédito: Mário
Fontenelle/Arpdf)

cap.1 Brasília faz ouvir sua voz

E bastou uma palavra para agigantar a pequena rádio fundada em Brasília: Nacional. Durante anos, mas
principalmente na “fase de ouro” dos anos 1940 e 1950,
um país inteiro sintonizou na mesma frequência para
ouvir as radionovelas, os shows, noticiários e programas
de auditório, humorísticos e esportivos da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, que, em 1942, começou a transmitir sua programação para todo o Brasil em ondas
curtas. Apesar de ter sofrido duro golpe com o advento
da televisão, em 1950, e ver sua audiência migrar para
o novo meio de comunicação, a marca Nacional ainda
fazia parte do imaginário do brasileiro naquela década.
As vinhetas, músicas-tema, locutores e programas
eram referência para os ouvintes e influenciaram gerações que aprenderam a fazer rádio com o ouvido colado nas transmissões da Nacional do Rio de Janeiro. E
quando os donos das vozes até então ouvidas apenas no
rádio desembarcaram no Planalto Central para fazerem
a festa da primeira transmissão da Nacional de Brasília, centenas de candangos exauridos resolveram fazer
uma pausa naquele sábado para dar uma espiada no auditório da nova emissora.
Durante a inauguração, Juscelino Kubitschek fez
uma profecia e uma sentença. Primeiro, o então presidente delineou com precisão o futuro da rádio: “Das
vertentes amazônicas às coxilhas gaúchas, e dos contrafortes andinos ao litoral atlântico, Brasília fará ouvir a
sua voz, a partir deste momento, graças aos possantes
transmissores da Rádio Nacional, que ora inauguramos”. Naquele instante, o presidente confiava à emissora
o papel de falar além da Cidade Livre, de Planaltina e
cidades próximas: a Nacional de Brasília carregava em

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16

É bom viver Nacional

seu nome o firme propósito de ser uma rádio de todos
os brasileiros.
Depois, Kubitscheck afirmou: “A Rádio Nacional de
Brasília, ora inaugurada, terá a responsabilidade de atuar como traço de união entre o Brasil atual e o Brasil do
futuro, criando condições propícias para a convivência
e para o intercâmbio cultural das nossas comunidades
regionais”. Os pioneiros, que até então só se comunicavam pelos alto-falantes, puderam transmitir recados
para suas famílias, espalhadas por todas as regiões do
país. Foi assim que a Nacional de Brasília se popularizou: ela era o elo entre os candangos e gente que nem
sabia como era a nova capital. Nascia, assim, uma companheira para aqueles que edificavam a cidade com as
próprias mãos.
A epopeia dos pioneiros
Eu sou jornalista desde os 16 anos. Na Rádio Nacional do Rio de Janeiro, eu era secretário do Paulo Roberto, médico, radialista. Quando eu tinha 23 anos, um
dia ele me disse: “Zair, JK está conclamando! Seja um
voluntário! Você vai se casar, não é? Pois se case com a
Terezinha e vá para Brasília. Ele precisa de radialistas
pioneiros.”
Eu e cerca de 24 pioneiros chegamos em Brasília em
meados de abril de 1958. Muitos eram da Nacional do
Rio, como eu. Fomos de avião e eu nunca tinha viajado
de avião. Aqueles que já tinham chegado antes da gente
nos esperaram no aeroporto, que era de madeira, im-

cap.1 Brasília faz ouvir sua voz

provisado. Nos colocaram num caminhão humilde que
estava a serviço da rádio e atravessamos aquela poeira
terrível, aquela terra virgem, até a sede da Rádio Nacional. Depois fomos conhecer os transmissores. As obras estavam em ritmo intenso. A parte técnica já estava
praticamente toda consolidada e estava sob a direção de
um engenheiro que era da Nacional do Rio de Janeiro,
Julio Nóbrega.
E na W3 Sul1, num prédio improvisado, mas muito
bem improvisado, nós começamos a falar para o Brasil.
A inauguração da Rádio foi um portento. E lá estava
o presidente JK, que aliás, estava sempre conosco em
Brasília, solidariamente, conversando na Cidade Livre.
O Leoni Mesquita foi o primeiro que dirigiu a rádio,
mas não chegou a um ano, depois teve que voltar ao Rio.
Depois o sucedeu uma figura extraordinária, Edmundo
Vale. Esse praticamente foi criado na Nacional do Rio
de Janeiro, desde rapazinho. Depois transitoriamente
tivemos Fernando Jacques. Isso tudo entre 1958 e 1961.
Zair Cançado,
radialista
Paixão pelo rádio vem de berço
Meus pais tinham um serviço de alto-falante chamado A Voz de Brasília no Núcleo Bandeirante, que na
época se chamava Cidade Livre. Ele montou esse serviço, que tinha duas cornetas, ampliou e colocou o som
da rádio na cidade inteira. Então eu cresci dentro do
estúdio deles.
A Voz de Brasília era o grande veículo de comu-

17

1. A Nacional de
Brasília já teve três
sedes, todas à
margem da avenida W3. Após se
instalar provisoriamente na 507
Sul, a emissora
foi transferida,
em 1960, para o
Setor de Rádio e
Televisão Sul, na
701 Sul. Em 2001,
a Nacional de
Brasília mudouse novamente,
desta vez, para
a 702/703 Norte,
onde permanece
até hoje.

18

É bom viver Nacional

nicação. Era uma emissora comum, tocava música, anunciava emprego o dia inteiro. Quem vinha procurar
emprego ia direto lá porque tinha um balcão de oferta
de empregos muito movimentado. E quando a Rádio
Nacional foi ser inaugurada, um dos caminhões de equipamentos, que tinha os discos, quebrou no caminho.
Aí, eles foram lá pedir uns discos para o meu pai, para
tocar na inauguração. Ele emprestou os discos por um
bom tempo, até esse caminhão chegar. A Voz de Brasília
funcionou de 1957 a 1961.
Carlos Senna,
radialista, jornalista e coordenador
da Rádio Nacional FM Brasília,
filho de Carlos e Cleusa Senna

Fincando a capital no cerrado
Para nós, os candangos, era fantástico ter aqui uma
rádio. As pessoas que eram mais velhas já acompanhavam as novelas e a programação da Rádio Nacional lá
do Rio de Janeiro. De repente, ela está aqui com a gente.
Era fantástico!
A Rádio Nacional era uma coisa que Brasília precisava: um órgão de comunicação. As pessoas não acreditavam que Brasília ia realmente se fixar, achava-se que,
quando Juscelino saísse, a capital também poderia retornar [para o Rio de Janeiro]. A Rádio Nacional trouxe
um pouco de certeza para a gente de que aqui estava
fincada a capital da República.
Na noite de inauguração da Rádio, os candangos
estavam afoitos, animados. Uma emissora na capital!

cap.1 Brasília faz ouvir sua voz

19

Então houve um aglomerado de pessoas. O meu marido, Carlos Senna, também era jornalista, então a gente
ficava sempre no meio e pôde acompanhar bem de pertinho. Fizeram um show e houve uma confraternização
muito grande da rádio com os candangos e com as pessoas que aqui estavam.
Cleusa Senna,
radialista e ex-locutora do serviço
de alto-falante A Voz de Brasília

Nacional do Rio em Brasília
Eu estava grávida quando fui cantar na inauguração
da rádio. Fomos eu, Ângela Maria, Altemar Dutra, João
Dias, Carlos Galhardo... um monte de gente da Rádio
Nacional do Rio. Foi meio improvisado, mas era uma
coisa linda, pura. Nós fizemos o show para os candangos, os operários. O espetáculo era para eles. Foi tocante.
Lana Bittencourt,
cantora

Com as pernas trêmulas
Eu cresci ouvindo a Rádio Nacional do Rio de Janeiro. No fim da tarde, tinha o Jerônimo, o Herói do
Sertão, e até hoje eu lembro da música: “Quem for passar pelo sertão vai ouvir alguém falar...”, que era o tema
da novela. Ouvia O Direito de Nascer, Balança Mas Não
Cai, o Programa Paulo Gracindo...2

2. O Direito
de Nascer e
Jerônimo, o
Herói do Sertão
são duas das
radionovelas de
maior sucesso do
país, sendo que a
última permaneceu no ar por 14
anos e rendeu
3.276 capítulos.
O programa
Balança, Mas
não Cai e PRK-30
foram precursores
do gênero humorístico no rádio.
Paulo Gracindo
apresentou os
programas musicais Noite de Estrelas e Programa
Paulo Gracindo,
além de ter interpretado o protagonista de O
Direito de Nascer
e participado
de Balança, Mas
Não Cai.

20

É bom viver Nacional

Eu vim para o Plano Piloto para ver a inauguração
da rádio. E na hora que eu me vi diante de César de
Alencar, de Ângela Maria, de Dircinha Batista, daquela
gente todinha, me deu uma tremedeira. A perna batia
uma na outra e eu pensava: “Gente, esse povo existe, eles
também são de carne e osso”.
Eu tinha endeusado os artistas da Rádio Nacional
e de repente, eu estava na frente deles. Eu podia pegar
neles! Depois, eu percebi o mesmo sentimento nas pessoas quando eu ia nos garimpos do Pará, no Mato Grosso, Tocantins, no interior da Bahia, e elas conheciam o
Mascarenhas de Morais.
Mascarenhas de Morais,
radialista

A Nacional convoca candangos

A Nacional era de uma importância tão grande para
a construção de Brasília... Eu digo que o chamamento
de Juscelino, a empolgação dele com a construção de
Brasília, não teria efeito se não tivesse a Rádio Nacional.
A Nacional foi um pilar para a construção de Brasília
porque ela alcançava o Brasil todo e através dela é que
nós fazíamos o chamamento para a mão de obra pesada,
do homem rude do campo, o peão, o candango. Era preciso lotar essa cidade. E era através da Rádio Nacional
que fazíamos isso.
Fernando Lopes,
cantor

cap.1 Brasília faz ouvir sua voz

Boa notícia chega pela rádio
Naquele tempo, em 1960, 1961, as comunicações
eram difíceis. Então, as pessoas procuravam a Rádio
Nacional para mandar recados para os familiares. E uma
vez o Dilson conseguiu me telefonar e disse: “Vou mandar um recado pelo programa do Meira Filho. Fique atenta”. Lá em Cruz Alta (RS), minha cidade natal, a gente
ouvia a Rádio Nacional. E para minha alegria, um belo
dia, às 7h da manhã, ele disse: “Dona Lourdes, Dona
Lourdes, seu marido aqui em Brasília manda te avisar
que você arrume as malas porque ele vai te buscar por
esses dias”. Foi a melhor notícia que eu podia receber
naquele momento.
Lourdes Sallas,
viúva de Dilson Sallas, ex-funcionário da emissora

“Façam tudo por ela”
O radialista Adelchi Ziller era o diretor da Rádio Nacional e era amigo do Juscelino. Os problemas estavam
acontecendo e ele procurou o presidente para expor as
necessidades da rádio. O presidente não gostou e disse
ao Ziller o seguinte: “Colocar a Rádio Nacional em Brasília, eu coloquei. Agora, vocês se virem. Porque o governo não tem di-nheiro para manter rádio, não. Vão trabalhar na Rádio Nacional, coloquem-na no ar e façam
tudo por ela”. E fizemos. Isso aqui foi feito com muito
pouco dinheiro, mas muita dedicação, muita esperança.
Meira Filho (1922-2008),
radialista

21

2
A Nacional que
anda e fala

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É bom viver Nacional

A trajetória da Rádio Nacional de Brasília se entrelaça
com a história pessoal daqueles que passam pela emissora. Locutores, apresentadores, operadores de áudio,
sonoplastas, jornalistas e gestores dão vida e encarnam a
própria Rádio Nacional, que anda, fala, pensa e se veste
da voz e do jeito do outro para reverberar nos quatro
cantos do país. A história da Rádio Nacional é, sobretudo, humana. Os arquivos, dados e acervos não contam
esta história de maneira tão detalhada quanto os relatos
de pessoas que se confundem com as ondas sonoras da
emissora.
Com 52 anos de existência, a Nacional AM é movida
por três gerações de radialistas. Os incansáveis pioneiros assumiram microfones e mesas de som ainda nos
primórdios da rádio e inventaram a emissora, desde
sua linguagem até seus princípios – ainda que fazendo isso de forma instintiva, mirando-se em exemplos
bem-sucedidos, como os programas da Nacional do Rio
de Janeiro. Nos anos 1970 e 1980, vieram os que reinventaram a rádio e instituíram a cultura de priorizar o
ouvinte.
A terceira geração que chega à Rádio Nacional é
constituída por profissionais concursados, como rege a
Constituição de 1988, e estabelece como meta principal transformar a Rádio Nacional de Brasília em uma
empresa pública, de fato. Esse encontro de gerações
propicia intercâmbio de ideias, contestações de modelos
e, o mais interessante, permite que pessoas que cresceram ouvindo a emissora, dividam agora os microfones
com aqueles que, há anos, são a própria Nacional. Essas
histórias são a prova de que há uma interessante relação
entre a emissora e seus funcionários: a Rádio Nacional

Foto: A partir da
mesa de operações do estúdio
da Nacional,
o exercício de
transformar
gente comum
em comunicador
(crédito: Maíra
Morais)

cap.2 A Nacional que anda e fala

25

de Brasília, efetivamente, alterou a história de vida de
sua gente. Ela prova que é um agente transformador em
suas duas pontas: no lado de lá, enriquece o dia a dia do
ouvinte com entretenimento, informação e prestação de
serviço; no lado de cá, envolve, de tal forma, a equipe
na construção dessa mensagem, que cada transmissão
se torna única e cada história compartilhada com o
ouvinte é um momento de transformação pessoal. Este
capítulo conta como a Rádio Nacional de Brasília aconteceu na vida de gente comum – que deixou de ser só
gente comum para fazer parte de um grupo que, todos
os dias, pede licença e entra nos lares de milhares de
brasilienses.

O cantor mexicano

Eu vim para Brasília a convite do jornalista Américo
Fernandes. Fiz um teste na Rádio Nacional com o maestro Isaac Kolman e passei. Me registraram como cantor, mas precisavam trocar o meu nome, porque tinha
um cantor com o mesmo nome que eu. Meu nome não é
Fernando Lopes. É Eduardo Gomes de Faria. Mas como
eu cantava um repertório latino-americano e por causa
desse outro cantor, esco-lheram o nome de Fernando
Lopes.
Eu o adotei com a obrigação de só falar portunhol.
Então, eu vivia encarnado num mexicano. Durante o dia
eu trabalhava na Novacap3 e à noite, cantava na Rádio
Nacional. Trabalhando, eu era o Eduardo. Só meus colegas de sala sabiam que eu era o Fernando Lopes. Tinha
muita gente que dizia que eu parecia com o Fernando

3. A Companhia
Urbanizadora
da Nova Capital
(Novacap) foi
criada em 1956
com o objetivo
de coordenar a
construção de
Brasília e teve
como primeiro
presidente
Israel Pinheiro.
Até 1960, ergueu
os principais
prédios públicos
da cidade e o
aeroporto, além
de residências,
clubes, igrejas e
hospitais. Atualmente, é vinculada à Secretaria
de Obras do DF e
gerencia as obras
planejadas pelo
governo local.

26

É bom viver Nacional

Lopes, mas eu negava, não podia contar. E passar o dia
inteiro no portunhol seria demais!
Um dia, o maestro Kolman me falou: “Fernando, ô
rapaz, você vai cantar para o meu compadre. Bota um
terno e eu te pego aqui na rádio”. Fomos no carro da
rádio eu, ele e Juca do Acordeon. Quando vi, estávamos
no Catetinho. Bastante gente, muita música tocando. Aí
o maestro falou: “Meu compadre!” Quando eu olhei, era
o presidente! O maestro disse: “Esse rapaz canta aqueles
boleros que o senhor gosta”. O Juscelino me abraçou e
pediu para eu cantar. Eu cantei algumas músicas e ele
falou para irmos em todos os fins de semana para lá.
E nós íamos. Aí eu passei a ser um dos seresteiros do
Juscelino. Quando ele viajava para alguma cidade, fazia as aparições oficiais e depois, o prefeito ou governador dizia: “Presidente, hoje vai ter um sarau”. E ele
respondia: “Que ótimo, eu também trouxe meu pessoal”.
E nós íamos para a festa. Foi uma das maiores glórias
da minha vida. Porque, eu, vindo do interior, família
humilde... e sendo abraçado pelo Juscelino. Ele tinha o
maior carinho comigo.
Fernando Lopes,
cantor

Uma guinada na carreira
Eu vim para Brasília pelo Ministério da Justiça. Eu
trabalhei na Polícia Federal durante 10 anos. Trabalhei
também como auxiliar administrativo, engraxate, office
boy, vendedor de pipoca, fui moleque de rua. Quando
fiz o teste da Nacional levado por um amigo, tive que

cap.2 A Nacional que anda e fala

cantar. Na primeira vez, não subi ao palco, fugi. Aí,
quando ele me levou de novo, fiz o teste no auditório,
com o Ruy Carneiro, que era o chefe dos locutores. Cantei e fiz locução.
Eu entrei na Rádio Nacional em 1964. Cantei mais
umas duas ou três vezes e não mexi mais com isso. E o
Ruy me colocou como locutor reserva 3. Não era nem
2, era 3.
Tinha Gilberto Amaral, Alípio Monteiro, Adilson
Salas, Meira Filho, Roberto Márcio, a turma toda mais
antiga. E eu fiquei como locutor reserva e fui aprendendo a profissão. Durante dois anos, eu só aprendi.
Aprendi noticiário, comerciais, até teatro nós fizemos.
Depois fui para o Rio, fiquei lá durante seis anos.
Voltei para casa e continuei na Rádio Nacional. Fiz a
Voz do Brasil4 durante 20 anos.
Clemente Drago,
radialista
Nasce o Embaixador de Goiás
Eu estava dormindo e acordei à tarde com uns
foguetórios. Era dia 13 de maio de 1959. Foi a chegada da imagem de Nossa Senhora de Fátima que fica na
Igrejinha e tinha uma procissão de caminhões cheios
de peões soltando foguetes. Eu entrei num caminhão
daqueles, desci na W3 e ali fiquei. Não voltei nem para
buscar minhas roupas no Núcleo Bandeirante. Dormia
num alojamento e outro, fui trabalhar na administração
das obras, em jardim de infância... Mas não queria sair
de perto da Rádio Nacional.

27

4. Criada em
1935, A Voz do
Brasil (inicialmente A Hora do
Brasil) transmite
notícias dos três
poderes e é veiculada obrigatoriamente por todas
as rádios do país.
A participação
de funcionários
da emissora no
programa era
comum porque,
em 1979, ambos
estavam sob a
responsabilidade
da Empresa
Brasileira de
Notícias (EBN),
criada para
divulgar os atos
do Executivo. Em
1988, a EBN foi
incorporada pela
Empresa Brasileira
de Comunicação
(Radiobrás) e,
esta, por sua vez,
pela Empresa
Brasil de Comunicação (EBC) em
2008. Atualmente,
A Voz do Brasil é
produzida pela
EBC Serviços,
prestadora
de serviço da
empresa para
instituições públicas e privadas.
Embora com
menos freqüência, por vezes, radialistas da Rádio
Nacional ainda
apresentam o
programa.

28

É bom viver Nacional

Eu fui fazendo amizades e aos poucos fui chegando
na rádio. Finalmente, entrei na emissora de 1960 para
1961, com 20 anos, quando surgiu uma vaga na parte
técnica e fui contratado como operador de áudio.
Eu dormia na Rádio Nacional porque não tinha
lugar onde dormir, não tinha dinheiro para isso. Tinha
um barracão atrás da rádio e eu dormia lá. Eu era operador do Meira Filho e ele trabalhou com o César de
Alencar. O César de Alencar tinha um estilo de programa rimado e o Meira herdou isso.
Eu e o Leitão éramos os operadores do Meira e ele
abria o programa dizendo: “Hoje, na operação, Chico
Leitão, Embaixador do Maranhão, e Mascarenhas de
Morais, Embaixador de Goiás”. O Leitão embirrava, largava a mesa e ia embora, mas eu achava bonito. Hoje,
não tem mais como separar isso do Mascarenhas de
Morais.
A Rádio Nacional não formava ninguém para uma
área específica: ela te transformava num radialista. Não
tem uma data em que passei a ser locutor, foi uma coisa
natural. Eu fiz sucesso porque eu tinha uma maneira
direta de me comunicar com as pessoas.
A maneira de criar um clima descontraído é conversar com as pessoas como elas falam. Quando eu fui
para o rádio fazer programas, eu quis fazer aquilo que
eu sabia fazer, aquilo que eu tinha vontade de fazer. Eu
passei a trabalhar com o ouvinte.
Mascarenhas de Morais,
radialista

cap.2 A Nacional que anda e fala

Burro e cego

Eu gosto muito de brincar e colocava apelido em todos os colegas e eles tentavam colocar um apelido em
mim, mas não pegava. Um dia eu fui colocar o disco na
faixa quatro, algo assim. Aí quando o locutor anunciou
a música, saiu o final da faixa três e ficou aquele buraco
para entrar a faixa quatro. Aí, o locutor: “Tá vendo, esse
bicho é burro e além de burro é cego”. Aí, ficou o apelido
de Burro Cego.
O tempo foi passando até que me chamavam só de
Burro. O tempo foi passando mais ainda, foi Burrinho.
E alguns colegas, por respeito, chegavam em mim e me
chamavam de Seu Burrinho. “Seu Burrinho, oi, tudo
bem?”, “Seu Burrinho, me perdoe, eu não sei o nome
do senhor”.
Outra companheira disse: “Eu não sei por que chamam o senhor de Seu Burrinho, podiam chamar de Seu
Inteligentinho, que o senhor é inteligente demais (risos).
Um dia, chegou uma funcionária nova e mandaram
ela descer para gravar no estúdio do Burrinho. Aí, ela
veio, matutando, pensando que podia ser armação.
Aí, abriu a porta bem devagarzinho, com aquela educação, falou assim: “Aqui é onde fica o Seu Cavalinho?”
Eu falei: “É sim, pode entrar. Acabei de ser promovido!”
Ela: “Como assim?” Eu falei: “Eu era Burrinho e você
me chamou de Cavalinho... Fui promovido!”.
Edson Nery, o Burrinho,
supervisor de operações

29


30

É bom viver Nacional

Chama o Luciano!
Eu entrei aqui no dia 3 de janeiro de 1972. O diretor
era o doutor Américo Fernandes, depois veio o doutor
Cavalcante, que foi quem inclusive arrumou para minha
mãe a vaga. A minha mãe, que é costureira até hoje,
costurando conheceu o doutor Cavalcante, que chegou
a ser diretor da rádio. E aí, ela arrumou um emprego
aqui na rádio.
Mas eu entrei primeiro que minha mãe. As pessoas
confundem, acham que é o inverso. Mas é porque eu era
miúdo mesmo, pequenininho.
Quando eu perdi meu pai, nós viemos para Brasília,
e com nove anos, eu tinha que trabalhar. E eu comecei aqui lavando os banheiros. Na verdade, eu era um
faz-tudo. E como eu era muito miudinho, quando as
pessoas precisavam passar os cabos e fios pelos bueiros,
gritavam: “Chama o Luciano!”
Eu vivia colado dentro dos estúdios olhando os operadores, locutores. Eu nunca poderia imaginar que
seria locutor. Porque o locutor sempre tinha aquela voz
bonita, naquela época, mais empostada.
Então você tinha Egner Filho, Celso Freitas, Clemente Drago, Neci de Almeida, Ronan Junqueira. Eu
ficava olhando aquele pessoal e pensava: “Que chance
que eu tenho?”
Luciano Barroso,
radialista e jornalista

31

cap.2 A Nacional que anda e fala

Uma promoção nada calculada

Eu fui contratado em 1980 para ser assessor de
produção. Passei a produzir o Eu de cá, você de lá5, que
era apresentado pelo Titio Gilvan Chaves e transmitido
pela Rádio Nacional de Brasília em cadeia com a Rádio
Nacional da Amazônia.
Titio Gilvan teve um problema de saúde e foi a São
Paulo para colocar um marcapasso. E eu fiquei substituindo o titio Gilvan enquanto ele foi fazer essa operação.
Eu nunca havia sido colocado no ar [na Rádio Nacional
de Brasília]. Eu era locutor, trabalhava na Rádio Capital
e fazia noticiário lá.
O Titio Gilvan sabia que eu era comunicador. E, na
época, na ausência do Titio Gilvan, eles acharam que eu
poderia substituí-lo e eu substituí. Nessa substituição,
eu procurei colocar o Titio Gilvan em primeiro plano.
Sempre que eu entrava no ar, dizia que o programa estava sendo apresentado por mim, mas que o titular era
o Titio Gilvan Chaves.
Depois, no dia 16 de agosto de 1985, Titio Gilvan fez
uma outra operação e não voltou mais. E, aí, eu fiquei
apresentando o Eu de cá, você de lá a pedido dos produtores, dos patrocinadores do programa e da própria direção da rádio. E de lá eu fiquei até hoje.
Luiz Alberto,
radialista

5. Criado na
década de 1970,
o Eu de cá, você
de lá permanece
até hoje no ar
como um dos
programas de
maior audiência
da emissora.
Por anos, serviu
como ponto de
encontro para
que parentes se
reencontrassem.
Hoje, é um programa de música
e bate-papo
com o ouvinte,
entremeado
por notícias do
momento. O
radialista Gilvan
de Assis Chaves
(1919-1986), além
de radialista,era
cantor e teve
como maior
sucesso a música
“Prece ao Vento”. Por carinho
dos colegas e autodenominação,
era chamado
de “Titio Gilvan
Chaves”.


32

É bom viver Nacional

O rei do rádio policial
Vim para Brasília na década de 1970 para poder
servir na Aeronáutica e acabei ficando por aqui. Eu ingressei na Polícia Militar através de concurso e mesmo
na PM, não esqueci meu sonho de rádio. Tanto que eu
acabei sendo o locutor da central de radiopatrulha. Eu
não tinha nenhuma técnica de rádio, mas mesmo assim
o pessoal dizia: “Poxa, você tem tudo para ser, por que
você não vai?”. Até que um grupo que fazia um programa muito famoso aqui em Brasília, Os Cobras da
Notícia, transmitido pela antiga Rádio Alvorada, me pediu que eu encaminhasse para eles as ocorrências mais
relevantes que a radiopatrulha atendia. Então eu fazia os
textos e encaminhava. Aí, então, o pessoal me chamou
e pediu que eu gravasse também os textos. Um dos diretores da rádio me ouviu e falou: “Contrata esse rapaz”.
A partir desse “Contrata esse rapaz”, que foi em 1978,
eu nunca mais parei de atuar em emissoras de rádio.
Pedi demissão da função militar para poder me dedicar ao rádio. Acabei criando, dentro da Rádio Alvorada,
o programa Na Polícia e nas Ruas, um programa que
tinha como linha editorial os assuntos de polícia e tinha
praticamente 100% de audiência. Foi com esse trabalho
que eu acabei despertando o interesse de outras emissoras de rádio, entre elas, a Rádio Nacional.
Em 1980, a Nacional de Brasília quis me levar de
qualquer jeito. Acabou fazendo um contrato comigo
sem eu sequer assinar nenhum papel. Simplesmente eles
me pegaram e avisaram: “Olha, você já está contratado e
começa a trabalhar a partir do dia 1º”. E eu: “Mas, gente,
eu não assinei papel nenhum!”. Só responderam: “Inclu-

cap.2 A Nacional que anda e fala

sive, a sua conta bancária já está aberta”. Eu fiquei um
mês nessa condição. Mas eu estava iniciando um trabalho um pouco diferente na Rádio Alvorada, e então
eu abri mão da Rádio Nacional. A Nacional era meu
sonho, mas eu achava que tinha que passar por etapas
dentro da Rádio Alvorada, onde eu estava deixando a
área de polícia e entrando no jornalismo econômico e
político. Então, eu preferi permanecer mais, aproveitando a cancha dos profissionais que tinha na emissora,
e fiquei por mais cinco anos na Alvorada. Até que surgiu
uma outra investida da Rádio Nacional, querendo me
levar de qualquer jeito e eu acabei cedendo. Entrei na
Rádio Nacional em 1986.
Valter Lima,
radialista e jornalista

Rádio Nacional à mesa
A Rádio Nacional tinha uma resenha esportiva, um
programa de esporte às 11h da manhã e meu avô almoçava cedo. Eu sentava com ele para almoçar e ele
botava o rádio em cima da mesa da cozinha sintonizada
na Rádio Nacional. Eu entrei na Rádio Nacional de Brasília em 1986 e já tinha uma equipe na rádio. Entrei para
fazer um teste de microfone, mas eu não podia usá-lo:
era só para ver se eu conhecia. Eu fiz o teste com mais
11 caras e eu tirei o primeiro lugar. Aí falaram: “Fica
com a gente aqui. Vamos ver o que a gente vai arrumar
para você. A gente quer você por perto”. Eu entrei como
um “rasgador de papel”, como se fosse um auxiliar de
assistente do terceiro produtor, era mais ou menos isso.
Em um ano, eu já estava no microfone. Fui repórter es-

33

34

É bom viver Nacional

portivo por muito tempo. Meu avô era ouvinte assíduo
da Rádio Nacional e, por vontade de Deus, faleceu antes
que me ouvisse lá.
André Luiz Mendes,
radialista
O ouvinte entra no ar
Desde criança eu já ouvia a Rádio Nacional, em razão
da força que tinha o esporte na emissora. Então me recordo bem de quando eu ia visitar meu avô na fazenda
dele e ele, flamenguista, ouvia os jogos pela Rádio Nacional. Quando criança eu ouvia muito o Luiz Alberto,
e também quando ainda era o Titio Gilvan Chaves, que
foi quem idealizou o Eu de cá, você de lá. Isso ainda nos
idos dos anos 1980. E a Rádio Nacional sempre foi algo
inatingível, intangível, algo como “será que a gente um
dia vai conseguir participar de algum programa ou trabalhar na Rádio Nacional?”. Eu sou do primeiro concurso público da emissora pós-Constituição de 1988.
O concurso foi realizado em 2001, concluído em fevereiro de 2002 e homologado em 2004. Quando surgiu,
foi uma oportunidade única. Naquela ocasião, eu me
dediquei e esforcei ao máximo para integrar essa equipe
de comunicadores. Entrei, no primeiro momento, como
locutor noticiarista.
Miguelzinho Martins,
jornalista e radialista

3
A cara
da rádio
construída

36

É bom viver Nacional

Diariamente, à hora do almoço, os candangos, segurando a marmita com uma mão e o garfo com a outra,
sentavam-se ao lado dos rádios de pilha e silenciavam
para ouvir as crônicas de Clemente Luz.
Por alguns minutos, Brasília parava para ouvir
histórias sobre ela própria. Na Rádio Nacional, o radialista falava sobre o trabalho dos pioneiros, os prédios
que eram erguidos e a dinâmica da cidade que surgia e
misturava à realidade difícil, um pouco de poesia e fantasia, como na crônica Encontro matinal:
“O Pequeno Príncipe saiu do livro e sentou-se à beira
da mesa onde eu me preparava para trabalhar. Olhoume com seus olhos profundamente azuis e perguntoume:
- O que é que você está fazendo?
- Trabalhando – respondi-lhe.
- Com o quê?
Mostrei-lhe a máquina de escrever, o papel, o teclado
e lhe expliquei o meu trabalho.
Não ficou satisfeito. Perguntou de novo:
- Mas isso não é tudo. Com que é que você trabalha?
Respondi-lhe, seco:
- Com as palavras!
- Como?
Com paciência, expliquei:
- Eu coleciono as palavras no papel, na ordem necessária
para a fixação das idéias, e no fim, escrevi alguma coisa...
- Para quê? – perguntou o Principezinho.
- Ora, para que os outros escutem ou leiam.
O Principezinho coçou a cabeça, ficou pensativo e,
de repente, agitou os louros cabelos e falou:

Foto: Inezita
Barroso canta
no auditório da
Rádio Nacional
de Brasília; na
platéia, trabalhadores e o presidente JK (crédito:
Mário Fontenelle/
Arpdf)

cap.3 A cara da rádio construída

- Vi muitos homens revolvendo a terra, vi uns monstros esquisitos rasgando vãos na terra e vi outros homens dependurados de umas armações vermelhas. Vi
também coisas redondas, coisas bonitas, inclusive uma
coisa leve, leve, pousada no chão, com jeito de navio...
Fez uma pausa e perguntou:
- Que é que esses homens estão fazendo?
- Uma cidade – respondi-lhe – E aquilo que tem jeito de
navio é o Palácio. E é sobre essa cidade que eu escrevo.
Ele riu seu riso claro e disse:
- Engraçado, no meu planeta isso não seria possível...
- Por quê? – perguntei.
Ele não respondeu e prosseguiu:
- Estão construindo uma cidade... Para quê?
- Para mudar a sede do Governo.
Perguntou:
- Para quê?
Dei-lhe uma longa explicação, falei da necessidade
de interiorização da capital, etc e tal. O Pequeno Príncipe, sem curiosidade, olhou-me e disse:
- Tudo isso é muito importante, não há dúvida! Mas o
mais importante é a gente ter o coração limpo de ódio,
cheio de amor, para receber uma cidade nova como esta
que está sendo construída... o essencial de tudo não é
aquilo que a gente vê, mas aquilo que a gente sente da
ponta dos cabelos até ao fundo da alma...
Dizendo isto, meteu-se entre as folhas do livro e foi
cuidar de sua rosa, no seu pequeno asteróide.
Voltei, sem espanto e nem desespero, ao meu humilde trabalho de domesticar palavras, para contar coisas
sobre a cidade que nascia...” 6
As crônicas de Clemente Luz são símbolo do começo

37

6. Este e outros
textos encontram-se no livro
A Invenção da
Cidade, de 1967,
coletânea das
principais crônicas de Clemente
Luz lidas na Rádio
Nacional de
Brasília.

38

É bom viver Nacional

da programação da Rádio Nacional de Brasília, que, até
1963, manteve-se como sinônimo de comunicação radiofônica na cidade. Nos primeiros anos da cidade, a
Rádio Nacional de Brasília atuava, fundamentalmente,
em dois eixos de atuação: integração e entretenimento.
O entretenimento era pautado pelos programas de
auditório, que reacendiam na nova capital a cultura da
década de ouro do rádio. Passaram pelos estúdios da
Nacional de Brasília de artistas de renome aos desafinados calouros, aclamados por um auditório apinhado
de gente.
Eram programas que se estendiam por horas e colocavam o povo simples para impostar sua voz no rádio.
Em seus primeiros anos, a Rádio Nacional foi descobrindo sua identidade e sua maneira de fazer rádio:
das vinhetas à locução dos apresentadores, a emissora
se consolidava e criava, aos poucos, sua marca entre
os ouvintes, que a colocavam nos lugares mais altos da
audiência local.
E integração porque ainda era a portadora de recados dos candangos para quem estivesse longe – e assim se manteve ao longo de suas primeiras décadas de
funcionamento. Em 1976, a Rádio Nacional de Brasília
foi incorporada à recém-criada Radiobrás, que tinha
como função divulgar as realizações do governo federal nas áreas econômica, política e social. Sob a responsabilidade da estatal, passou a ecoar de Norte a Sul
do país depois da inauguração de um novo parque de
transmissão, em 1977, que existe até hoje, no caminho
de Brasília para Brazlândia. Foi então que a Nacional
de Brasília começou a operar com uma característica
bastante peculiar: de manhã, ela era transmitida com

cap.3 A cara da rádio construída

50 kW de potência pelo antigo transmissor localizado
no Setor de Indústria e Abastecimento (SIA). À noite,
o novo potente transmissor de 600 kW levava a programação da emissora para todo o país.
Em plena ditadura militar, a intenção primeira da
supertransmissão era fazer com que a mensagem de
Brasília alcançasse regiões que não eram cobertas pelas
rádios brasileiras, como certos lugares da Amazônia,
evitando as investidas comunistas vindas de países
como Cuba. Para o caboclo no meio da mata, era mais
fácil ouvir a mensagem de Fidel Castro do que as notícias da nova capital.
Se por um lado, a Rádio Nacional serviu para levar
a mensagem oficial do regime militar, por outro, ao se
fazer ouvir por toda a extensão do território brasileiro,
permitiu que um país inteiro se encontrasse em uma
mesma frequência. Dentre os desafios dos primeiros
anos, estão a consolidação no cenário regional e nacional da radiodifusão, a convivência com o regime de exceção e a busca de uma identidade própria, distanciando-se da Rádio Nacional do Rio de Janeiro.
Os registros dos primeiros programas da RádioNacional de Brasília se perderam ao longo do tempo.
Preciosidades como as crônicas de Clemente Luz ou
as tardes do Programa do Meira Filho existem apenas
na memória de quem acompanhou as primeiras transmissões da emissora.

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40

É bom viver Nacional

Pelo microfone, noções de saúde
Cheguei em Brasília no dia 4 de dezembro de 1956.
Não havia praticamente nada, apenas o acampamento da
Novacap e o Catetinho. Vim prestar assistência médica
para os candangos. Fiquei instalado no Catetinho até o
barraco de madeira ficar pronto. Fazia o atendimento e
os exames admissionais dos operários. Passei seis anos
atendendo em barracão até que o hospital ficasse pronto.
A inauguração da rádio foi interessante, eu fui lá.
Logo me convidaram para fazer um programa. A proposta, inicialmente, era para que eu fizesse uma propaganda da minha clínica, já que a rádio já enfrentava
dificuldades financeiras.
Mas eu preferi fazer o programa. Eu levava as enfermeiras e pessoas que conheciam de culinária infantil,
orientava as mães sobre alimentação balanceada para as
crianças. Eu gostava de estimular a amamentação materna, que é a ideal. Depois, tive que deixar o programa
porque o trabalho no hospital e na clínica estava muito
intenso.
Edson Porto,
médico
O primeiro disc-jóquei da capital
Eu apresentei a Discoteca do Ouvinte, que era de segunda a sexta-feira, das 4 às 5 da tarde. Vou lhe dizer: eu
fui o primeiro disc-jóquei de Brasília. Esse termo já acabou. Disc-jóquei era o camarada que incrementava as
paradas de sucesso, punha sucesso no ar. Audiência to-

41

cap.3 A cara da rádio construída

tal no Plano Piloto e cidades satélites. E eu recebia carta
de Minas Gerais, Goiás, Santa Catarina, Rio de Janeiro,
Rio Grande do Sul... Era realmente uma maravilha a
gente poder responder os ouvintes, informar tudo sobre
a nova capital.
Falando ao Brasil era aos sábados, com uma hora
de duração. Nesse programa, eu me comunicava com
Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Goiás...
Prefeitos e líderes comunitários me escreviam. Eu dava
notícias, falava sobre as necessidades daquelas cidades.
Zair Cançado,
radialista

De portas abertas e auditório cheio

Na Nacional antiga, nós tínhamos programas de auditório. As portas eram abertas, ninguém pagava nada.
Enchia que ficava gente do lado de fora. E com aquelas
caixas acústicas enormes, lá da W3 a gente ouvia. E as
pessoas vinham de Taguatinga, Gama, Planaltina, Formosa, Sobradinho, Núcleo Bandeirante.
Vinham para se divertir, participar, pelos prêmios,
para cantar nos concursos de calouros. A Nacional era
a única alegria que o brasiliense tinha naquela época.
Porque não tinha Parque da Cidade, nada. Tinha obra,
construção, prédio, “esqueleto”, assento de chão, só.
Clemente Drago,
radialista


42

É bom viver Nacional

A rádio era o telefone da época
Nós tínhamos um programa de auditório aos domingos, feito ao vivo, com capacidade para 400 a 450
pessoas. E dava abertura para que o candango ocupasse
o telefone. Aí ele dizia: “Eu sou o Joaquim, de Limoeiro,
filho de fulano e da fulana”, algo assim. “Mãe, se você
estiver me ouvindo, estou avisando que vou mandar o
dinheiro daquele modo que expliquei para a senhora.
E a senhora fala para o meu irmão para ele vir para cá
que eu arrumei emprego para ele”. E, assim, já fazia o
chamamento do irmão dele.
Na Orquestra da Nacional, nós tínhamos um trio de
músicos de Uberaba: João Tomé, completamente cego,
nunca viu na vida; Gilson, que tocava piano, acordeon;
e Valter, que tocava bateria. Era o trio musical da Rádio
Nacional, que saía com muita facilidade para tocar em
qualquer local.
Quando dava o sábado de manhã, a gente ia com
esse trio no caminhão para o acampamento Pacheco
Fernandes, por exemplo, fazer lá a Rádio Nacional no
Seu Acampamento, com o artista mexicano Fernando
Lopes, a cantora Glória Maria, a rumbeira Selma Costa,
o palhaço Cacareco... E a rádio transmitia. Tinha equipamento para fazer transmissão. E lá nós entregávamos
mais uma vez o microfone para o pessoal. “Fala, candango!”, e ele falava, recitava uma poesia...”
Fernando Lopes,
cantor

cap.3 A cara da rádio construída

Músicas de sucesso no Brasil todo
Eu fazia vários programas, o mais famoso se chamava Grande Parada Nacional, em que eu falava com o
Brasil inteiro para saber as músicas que eram mais tocadas e com algumas rádio do exterior também, da Argentina, Estados Unidos... Tinha uma três do exterior que a
gente falava. Era tudo pré-gravado, obviamente.
Eu começava o programa e falava: “Vamos agora, no
Rio Grande do Sul, falar com o programador da rádio
tal”. E a pessoa falava: “Bom dia, a música mais tocada
aqui é a tal”. Aí tocava. Depois a gente falava com programador da Rádio Tupi do Rio, da Bandeirantes de São
Paulo, e depois: “Vamos falar com a rádio tal de Boa
Vista”. Dava um trabalhão danado. Mas eu sempre gostei de coisa difícil. Eu falava: “o fácil todo mundo faz”.
Eu fazia o mais difícil e foi assim a carreira toda.
Edson Vitorino,
radialista
“Estamos muito bem protegidos”
Comecei na Rádio Nacional quando ela tinha acabado de se transferir para o início da W3 Sul. Eu trabalhava como locutor e apresentador. Meu programa era
sobre tudo que você podia imaginar com relação à
construção da cidade, especialmente um programa de
recados. Daqui para o Nordeste, do Nordeste para cá,
onde chegava a Rádio Nacional tinha sempre alguém da
família aqui em Brasília. O programa se chamava O dia
começa com música e ia das 5h às 9h da manhã.

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44

É bom viver Nacional

Já o Programa do Meira Filho era um programa de
auditório, aos sábados. Era um programa que começava
às 2h da tarde e acabava às 8h da noite. Aqui teve uma
época áurea de cantores que vinham do Rio de Janeiro e
de São Paulo para se apresentar aqui. Dalva de Oliveira,
Nelson Gonçalves, Jamelão, Emilinha Borba, esse povo
todo. Eu chamava as pessoas para fazer graça, contar
histórias engraçadas, fazer imitações: passarinho, macaco, cachorro, tudo. O sábado era para alegrar a moçada.
O pessoal gostava. Quando o programa terminava, a
W3 ficava cheinha, entupida de gente.
Eu tinha um quadro dentro do meu programa que
se chamava Taguatinga vai bem, obrigado. Eu fazia um
relato das atividades da cidade e contava para o Brasil
inteiro sobre o que Taguatinga estava fazendo em prol
da construção de Brasília. E eu estava no estúdio, me
preparando para começar o programa, quando chega
um coronel do Exército para falar urgentemente comigo. Ele disse: “Olha, o presidente João Goulart necessita
falar com o senhor o mais rapidamente possível”. Respondi logo ao coronel: “Mas eu não posso, eu vou fazer
um programa agora. Vai entrar no ar daqui a pouco!”.
“Não importa o programa. O que importa é que o presidente quer falar com o senhor. E é agora e é urgente!”.
Eu não tive outro remédio. Larguei o programa,
botei um substituto e fui com ele no caminhão, no
carro do Exército para o palácio. Cheguei no palácio
e o presidente João Goulart me recebeu muito bem,
muito educadamente. Sentamos juntos e ele me falou:
“Tchê, mandei te buscar porque tu tens um programa
na Rádio Nacional que precisa sair do ar hoje”. E eu
falei: “Mas presidente, a gente vive em função disso. O

cap.3 A cara da rádio construída

departamento comercial da rádio vive em função disso.
Se eu tirar o programa do ar, a rádio vai sentir”. E ele
falou: “Não, não importa. É que tu, quando começas
o programa, tu dizes: ‘Taguatinga vai bem, obrigado’,
‘Tagua-tinga é a cidade que mais cresce no Brasil’. Sabe o
que está acontecendo? Taguatinga está recebendo caminhões e mais caminhões de pau-de-arara, trabalhadores
braçais que vêm com as suas famílias para cá e não tem
lugar para essa gente. Como é que nós vamos fazer com
essa gente? Tu não podes mais continuar com esse programa, porque está chamando o povo para vir para cá.
A coisa só vai parar se você parar o programa e vai parar
a partir de hoje”. O programa saiu do ar e eu, mais uma
vez, senti a importância e o grande valor que o rádio
tem em nosso país continental.
Até a revolução de 1964, eu trabalhei na Rádio Nacional. Eu cheguei para trabalhar de manhã no dia em
que estourou a revolução e o Brasil inteiro ouvia por
aí [os rumores]. E eu abri o programa falando: “Hoje
nós estamos trabalhando aqui com absoluta segurança.
Porque do meu lado, tem um sargento com uma metralhadora, e ali, com o operador, temos dois soldados,
cada um com um fuzil. Então, nós estamos seguros e
muito bem protegidos”. Nesta altura, o Brasil inteiro tomou conhecimento que a Rádio Nacional estava ocupada pelos militares. Eu sabia conviver com este pessoal porque eu fui soldado e tive uma carreira militar
brilhante, cheguei a ser cabo do Exército Brasileiro. Eu
tinha que passar tranquilidade para as pessoas, o que
que você ia fazer?
Meira Filho (1922-2008),
radialista

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46

É bom viver Nacional

A censura no dia a dia
Durante a ditadura, eu trabalhei muitas vezes com
pessoas do meu lado, um tipo de censor. Aqui teve uma
época que veio um sargento mandar na gente. Eu ia ler
uma carta e não podia, ele tinha que ler a carta antes.
Mascarenhas de Morais,
radialista

Criando uma identidade sonora

Eu cheguei em 1972. Meu irmão trabalhava na Rádio Nacional, Darley Tavares, que fazia um programa
de manhã que se chamava Nossa alma, nossa gente. Ele e
o Burrinho. Era uma audiência... Ele era chefe da parte
técnica e me perguntou se eu tinha interesse... Eu ficava
24 horas dentro da emissora. Ficava de madrugada, à
noite, fazendo programa. Aí, logo depois, saí de operador de áudio e fui para estúdio de gravação. Aí, eu produzia tudo da rádio. Eu fazia abertura de programas, de
vinhetas, comerciais, chamadas, tudo. Gravava e ainda
dirigia também, né? O locutor chegava e dizia “Rádio
Nacional” de um jeito e eu dizia “Não, não é assim que
eu quero é de tal jeito”. Então, eu via o texto, a locução,
a trilha... tudo para fazer uma vinheta bem elaborada. E
ficava isso durante muito tempo no ar. E era uma marca.
Você saía lá fora, ouvia uma vinheta e identificava: “É a
Rádio Nacional”. O sinalzinho da hora certa dava eco.
Eu criei isso daí. Tinha uma vinheta assim: “Não importa a distância. Nosso som é local em todo o Brasil”.
E outra assim: “Na cidade, na beira do rio, no meio da

cap.3 A cara da rádio construída

mata...” Ainda roda, mas isso é de 1978, mais ou menos!
E a abertura dos jornais, Jornal Nacional, Nacional Informa, até mesmo A Voz do Brasil. Quando foi criada,
eu fiz toda a “roupagem” d’A Voz do Brasil.
Eu fiquei na Nacional AM até 1974, depois fui para a
Nacional FM e fiquei até 1990. Hoje, eu faço tudo para a
empresa toda. Sempre foi assim. Na FM tinha o melhor
estúdio, então você produzia tudo para a empresa, tanto
para a FM, quanto para a AM e Ondas Curtas.
Marcos Tavares,
sonoplasta

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4
Entre o
espetáculo e
a informação

50

É bom viver Nacional

No final da década de 1970 e durante a década de
1980, ainda sob o regime de exceção, o rádio de entretenimento era o carro-chefe da emissora, realizando
em Brasília os mesmos concursos de calouros, grandes
shows e transmissões em auditório que marcaram as
décadas de ouro do rádio. Apesar de flertar com um
modelo radiofônico aparentemente superado, o público
brasiliense mantinha-se fiel ao espetáculo. Havia uma
íntima relação com a audiência, estreitado a cada concerto de aniversário nos estádios do Distrito Federal
ou nova edição do Piscina Show, evento realizado no
Parque Olhos D’Água. Embora pudesse falar para quase
toda a extensão do território brasileiro, a Rádio Nacional fazia questão de ser, primeiramente, de Brasília.
É justamente neste período que a rádio começa a
segmentar, de forma mais planejada, a sua programação, com o objetivo de atender a diferentes públicos e
permitir variadas formas de expressão comunicativa.
Na Nacional AM, predominava o rádio-diversão, mas
a programação musical permitia-se ser mais plural,
abrangendo a música caipira, a chamada “música brega”,
a bossa nova e o emergente movimento rock’n roll que
surgia na capital federal. Mas ao mesmo tempo, havia
espaço para as reivindicações das mulheres e para a utilização do rádio para a mobilização social no programa
Viva Maria. A chegada do modelo da revista radiofônica, pautado exclusivamente em jornalismo, surpreende.
Durante estas décadas, portanto, a Nacional realiza,
simultaneamente, dois movimentos distintos. Primeiro,
ela revive o rádio-espetáculo, replicando, com sucesso,
fórmulas pouco utilizadas desde a “fase de ouro” do rádio. Segundo, ela antecipa discussões, como a represen-

Foto: Livro de
poesias enviadas
por ouvintes do
Viva Maria prova
a íntima relação
do público com a
emissora (crédito:
Reprodução)

cap.4 Entre o espetáculo e a informação

tação e a democracia no rádio, especialmente em uma
rádio pública. Esta diversificação acaba oferecendo ao
ouvinte uma programação melhor e mais completa, que,
ao mesmo tempo, atende e ilustra distintas realidades.
Também neste período surge uma nova prioridade a
cada palavra irradiada: a necessidade da informação. A
gestão de Eduardo Fajardo à frente da emissora começa
a alterar a cultura do rádio despretensioso e começa a
incluir em suas transmissões conteúdos que pudessem
educar, formar, instruir ou prestar serviço.

A repressão velada
Tinha uma lista de músicas proibidas. A maioria
delas, o disco já chegava na rádio sem as músicas e a
gente sabia porque era informado. Outros discos vinham com a faixa riscada, parecia que tinham passado
um prego para que ela não pudesse rodar. E na maioria
eram discos do Chico Buarque. Uma das músicas que
eu me lembro bem, porque morria de curiosidade para
saber como é que era e por que tinha sido proibida, era
Apesar de Você. Outra era a famosa Para Não Dizer que
Não Falei de Flores, do Geraldo Vandré, que era de 1968,
mas até o começo dos anos 1980 não existia esse disco
na rádio e as pessoas que tinham esse disco escondiam,
não mostravam. E esse disco foi reeditado e distribuído
para as rádios logo depois da ditadura.
Carlos Senna,
radialista, jornalista e coordenador
da Rádio Nacional FM de Brasília

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52

É bom viver Nacional

O “Big Boy” do cerrado

Em 1979, eu era operador de rádio, já estava passando para a sonoplastia. E a programação da rádio era
aquela programação de “ouvimos, vamos ouvir, vamos
deixar de ouvir”, sabe, aquela coisa lenta? E aqui tinha
um diretor, o Eduardo Fajardo. E ele falou: “Cria alguma coisa”. E eu gostava muito do Big Boy7, aquele
“Hello, crazy people!” E eu pensei: por que não ter um
programa com essa linguagem, mas com a música do
Amado Batista? Porque Big Boy só tocava músicas internacionais. Aí, eu entrei no estúdio e fui procurar um
amigo que hoje não trabalha mais na rádio, o Pereira
Lima, pra ele fazer a locução. E ele não estava, tinha
ido num supermercado comprar pão. Aí, eu chamei Del
Nery, que também era operador de áudio e ele até tentou, mas disse: “Não, faz você, que você é que sabe qual
a idéia que você quer”.
Aí, eu entrei no estúdio. Me lembro até hoje que eu
cunhei uma frase que depois foi para o Brasil todo e que
até hoje algumas pessoas usam. Eu entrei no estúdio e
falei: “Vem aí, Amado Batista, o mais amado do Brasil!” e a música era Desisto, se não me engano. Levei ao
Eduardo Fajardo, Carlos Senna estava perto também. O
Fajardo ouviu e falou: “Você estréia hoje”.
O programa foi uma loucura na cidade. Recebia
mais de 14 mil cartas por mês, uma coisa de louco. Não
tinha conteúdo, eram as músicas mais pedidas da rádio. E desse programa que era o Mini Parada Nacional, de uma hora só de abobrinha e música, surgiram
progra-mas maiores: Geração Colorida, depois passou
para Show da Tarde. Eram programas sem conteúdo ne-

7. Newton Alvarenga Duarte
(1943-1977), o Big
Boy, foi um dos
mais importantes
disc-jóqueis de
sua época. A
forma irreverente
como saudava os
ouvintes (“Hello
crazy people!”)
da Rádio Mundial
AM, do Rio de
Janeiro, virou sua
marca.

cap.4 Entre o espetáculo e a informação

nhum, só abobrinha mesmo, só entretenimento. O Show
da Tarde chegou a ocupar de meio-dia às 18h, uma loucura. Diariamente.
Eu não sofri com censura. Por que eu não fui prejudicado ou perseguido? Porque eu só falava abobrinha! E
eu lembro que chegava o chefe e dizia: “Você pode falar
disso, não pode falar daquilo”. E pronto. Eu não tinha
acesso a certas informações. A Rádio Nacional pode
até ter sofrido com a censura, mas na cúpula. Caramba,
eu era um garoto e relativamente alienado. Eu não vou
negar isso.
Uma vez eu fiz um comentário, de uma carta que
uma menina mandou. O pai dela era muito repressor. E
eu perdi as estribeiras e falei, de forma tão inconsciente:
“Olha, procura dialogar com seu pai, porque ele está
parecendo um general” (risos). Aí, na hora que eu falei
eu percebi! Pensei: “Jesus amado...”. E naquela época, a
Rádio Nacional fazia eco em Brasília, era liderança total.
Não deu meia hora, chegou um cara fardado no estúdio.
Eu olhei e pensei: “Lascou!” Ele só me olhou – eu tinha
cara de menino na época – e perguntou: “Você conhece
um general?”. “Não, senhor”. E ele: “Eu sou um”. E eu:
“Sim, senhor”. Aí, ele chamou o meu chefe, o Eduardo
Fajardo, deu uma esculhambada geral e eu nunca mais
vi esse cara e nunca mais vi um general na vida (risos)!
Mas foi só isso, mais nada.
Na década de 80, a rádio também fazia shows. Não
era só em estádio, era no meio da rua, em todos os
lugares. Nunca se cobrava nada, sempre de graça. No
aniversário da rádio ou alguma data importante, mas
principalmente no aniversário da rádio. Eu me lembro
de um que foi feito aqui na W3, na frente da rádio. Olha,

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É bom viver Nacional

tinha lá umas 5 a 6 mil pessoas. Era uma coisa de louco,
a gente arrastava multidões, era uma coisa fantástica. Eu
me lembro de um que teve Agnaldo Timóteo, Ângela
Maria, vários artistas importantes...João Viola, Ângelo
Máximo. Eram os artistas da época. Nós chegamos ao
delírio de tentar Roberto Carlos, mas nunca conseguimos.
Luciano Barroso,
radialista e jornalista

Enquanto isso, na “cúpula”...
Eu era chamado constantemente. Tinha uma figura
muito querida, o General Lourival Massa da Costa, que
foi presidente da Radiobrás. Às vezes, ele me chamava, porque eu sabia que eu dizia certas coisas que não
podiam ser ditas e eu era chamado para me explicar.
Ele não me botou na rua por várias vezes porque ele
gostava muito de mim. Ele falava: “Fajardo, o que você
quer? Quer que eu te coloque na rua ou quer que eles
me demitam”(risos)? E dava um bronca daquelas! E
eu, “General, o senhor tem que entender...”E a gente ia
levando. Passava um tempo, lá me chamava de novo e
as coisas iam acontecendo. O general me absolvia nessas coisas porque ele via o esforço que a gente fazia para
realizar outras.
Por exemplo, uma coisa que nós fizemos e que foi
sensacional, foi a festa dos 25 anos da Rádio Nacional,
em que nós trouxemos, 30 artistas, Dicró, Amado Batista, artistas populares, bem ao gosto do povão. Todos
mandados pelas gravadoras. Porque quando eu assumi a

cap.4 Entre o espetáculo e a informação

direção da rádio, não tinha jabá comigo, eu não deixava
ter jabá. E todo mundo tinha a obrigação de tocar as
músicas, não era só aquela musiquinha que a gravadora
queria, “pra pegar”. A gente tocava aquela, mas tocava
as outras. E as gravadoras, apesar disso, responderam
ao nosso chamado e mandaram seus castings para Brasília. Foi tudo completamente de graça, e enchemos o
Pelezão [antigo estádio de Brasília, já demolido] com 60
mil pessoas. E os apresentadores fazendo as chamadas
para os shows. E aquilo foi um trabalho danado. Eu fiz
também o primeiro Piscina Show, nos 26 anos da rádio,
foi na Água Mineral. Montei um palco na maior piscina
da Água Mineral. Houve um concurso de calouros onde
a Cássia Eller se apresentou e ganhou.
Todo sábado a gente escolhia uma cidade satélite e
fazia um programa dessa cidade. E levávamos os artistas, mas aproveitávamos os artistas locais também.
O objetivo era divulgar a cidade-satélite, vamos supor, Sobradinho: conversava com o administrador de
Sobradinho, falava o que tinha lá, falava com as pessoas, “Está aqui a Dona Fulana que planta a melhor alface de Sobradinho”. Aí, tinha um repentista lá, que se
apresentava. Então a gente divulgava aquelas coisas. E
geralmente, isso terminava em um grande “banquete”,
para ir no “Bar do Fulano” comer um tatu com farinha
amarela, aquelas coisas de quando as pessoas são muito
gratas e querem homenagear.
Para mim, a chave do sucesso da rádio, foi a programação que nós montamos. Ela atendia o jovem, com
o Luciano Barroso, atendia a mulher, com a Mara Régia, atendia ao sertanejo, ao povão, de manhã cedo, com
um forró, um sertanejo. Então os segmentos da família

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É bom viver Nacional

eram atendidos. E a gente sempre procurava divertir informando. E tinha a preocupação de educar a população sem carimbar que era educação. Colocar uma coisa
em termos de cidadania, higiene, dicas desse tipo para
as pessoas irem pegando. Todo intervalo da rádio tinha
umas vinhetas disso. Então, os programas foram moldados nesse sentido, você tocava música, você brincava,
mas sempre dando informação.
Eduardo Fajardo,
radialista e ex-diretor da
Rádio Nacional AM de Brasília

Viva Maria: um filho que deu certo

O Viva Maria8 aconteceu nas ondas sonoras da Rádio Nacional AM em fins da década de 1970. O embrião
surge em 1978 e ele nasce com o formato que depois
se fortaleceu em 1979, como uma revista radiofônica.
O convite veio do Eduardo Fajardo, que tinha um espaço disponível na grade para que a gente ocupasse. E
me lembro até hoje que, quando ele me fez o convite,
eu disse: “Só se for para fazer um programa para mulher! Pode ser?”. Ele falou: “Pode, pode ser sim. Vamos
colocar também um homem junto com você para as
mulheres se apaixonarem por ele”. Essa fórmula não
deu certo porque o perfil do Viva Maria prescindia de
uma voz de mulher para ancorar esse programa. Uma
voz para que a gente pudesse falar das nossas especificidades, para que a gente pudesse abrir o nosso coração.
A gente veio com uma proposta inovadora de fazer um
rádio-mulher.

cap.4 Entre o espetáculo e a informação

O Viva Maria ficou no ar de 1979 a 1991 e era ao
vivo. Surgiu inspirado na música de Milton Nascimento,
que na época estava emprestando sua voz e sua garganta dourada a uma performance daquele grupo de Belo
Horizonte – O Corpo – que chegava à Brasília com Maria, Maria. Nosso programa nasce sob a inspiração dessa
voz, que depois, com a morte de Elis Regina, passa a ter
sua vinheta na voz da nossa “Pimentinha” inesquecível.
O rádio me possibilitou, dentre outras coisas, entrevistar o próprio Milton Nascimento e cheguei a beijá-lo em
agradecimento por emprestar Maria, Maria para a gente
colocar nosso programa no ar.
Quando o Viva Maria começou, tinha também a
TV Mulher9 e naqueles moldes, não tenho notícia de
programas que tenham seguido aquela linha editorial.
Infelizmente, programa para mulher, salvo honrosas
exceções, ainda são revistas radiofônicas cheias de perfumaria. É horóscopo, fofoca da televisão, é o personagem, é isso ou aquilo.
O Viva Maria foi um filho que deu certo. Ele deu
a sorte de estar no lugar certo, na hora certa. Brasília,
anos 80, aquela efervescência política, a abertura, a luta
das mulheres ganhando terreno. O momento histórico
era outro. Nosso rádio era o rádio de mobilização: “Hoje
vai ter uma votação importante, a gente tem que ir lá
para o Congresso Nacional! Marias de Brasília, vamos
lá, vai votar a lei da paternidade, cinco dias de licença”.
Imagina você falar isso no começo dos anos 1980 era
um acinte, uma aberração! Homem participar de maternidade? E a gente: “Filho não é só da mãe!”. E era
lindo você chegar no Congresso e encontrar as nossas
“maricotas” lá, irmanadas, falando: “Nosso direito vem,

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8. O programa se
tornou referência na luta das
mulheres latinas.
No Distrito Federal, por meio
da mobilização
do programa, foi
criada a primeira Delegacia
Especializada de
Atendimento à
Mulher no início
da década de
1990. Em congresso realizado
em San Bernardo,
na Argentina, em
1990, a data de
nascimento do
Viva Maria, 14
de setembro, foi
escolhida como o
Dia Latinoamericano da Imagem
da Mulher nos
Meios de Comunicação.

9. A TV Mulher
foi um programa
feminino da Rede
Globo exibido
entre 1980 e 1986.
Era levado ao ar
pela manhã, de
segunda a sexta,
e teve diversos
apresentadores
ao longo de
sua trajetória,
entre eles, Marília
Gabriela, Marta
Suplicy e Clodovil
Hernandez.

58

É bom viver Nacional

nosso direito vem, se não vem nosso direito, o Brasil
perde também”.
Foram 12 anos intensos, de muito trabalho e, felizmente, durante a gestão do Eugênio Bucci, nós voltamos
com o espaço do Viva Maria já revisitando toda nossa
trajetória e festejando nossa cidadania. A gente hoje só
tem três minutos, mas temos que fazer que nem Garrincha: em qualquer metro quadrado, marcar o gol .
Mara Régia,
jornalista e radialista

Perto de um fogão caipira
Quando o Titio Gilvan Chaves morreu, me chamaram na diretoria. Eu pensei, “bom, vão acabar com o
programa, porque ele é a cara do Titio Gilvan, não tem
porque eu ficar apresentando”. Aí, eles disseram que o
patrocinador gostaria que eu ficasse no programa e que
para a rádio também não tinha problema nenhum e
perguntaram se eu gostaria de apresentar.
E eu: “Claro! Quem não quer apresentar um canhão desses?”. Aí, eu falei: “Olha, eu gostaria de mudar
um pouquinho a linha editorial do programa, a linguagem...”. E eles falaram: “Como assim?”. E eu: “Queria
algo como se eu estivesse sentado no rabo de um fogão
caipira na fazenda, conversando com as pessoas do jeito
que elas falam...”. “Ah, faz do seu jeito lá que nós vamos
ver no que vai dar”. E aí eu fiz do meu jeito e deu certo.
Na minha carreira de radialista, foi o maior presente
que eu ganhei.
O que eu aprendi com o Titio Gilvan Chaves, que foi

cap.4 Entre o espetáculo e a informação

o titular, é que, quando eu estou apresentando o programa, eu me transporto para o ambiente do ouvinte.
Por exemplo, eu estou falando com o ouvinte que está
na sua fazenda, eu me transporto para aquele ambiente.
Eu estou falando com o caminhoneiro, eu me transporto para a cabine do caminhão, e procuro falar a linguagem deles. Talvez seja isso o sucesso, mas eu acredito
também na honestidade que você tem com o ouvinte. E
por dar o espaço que ele merece, como cidadão todas
as vezes que ele procurar a rádio, participar por telefone ou escrever. A gente coloca ele sempre em primeiro
lugar. Acho que esse é o sucesso: colocar o ouvinte em
primeiro lugar como cidadão.
Hoje, o que eu mais gosto é de falar com ouvinte
no telefone. Você fala “Alô” e não sabe de onde vem a
resposta, aí você pergunta e o cara está lá no Oiapoque.
De repente, você está falando com um cara do Rio de
Janeiro, do Piauí, depois você fala “Alô” e o cara está lá
no Bico do Papagaio... é o momento que eu me sinto
melhor no programa.
A gente já ajudou muito no reencontro de pessoas
desaparecidas e o Eu de cá, você de lá serviu muito como
ponto de informação do cidadão. Tem um serviço interessante que a gente presta ao cidadão que é informar os
repasses do governo para as prefeituras. Os ouvintes já
se acostumaram a ligar para saber quanto que foi repassado para a sua cidade, e a gente tem o site do Tesouro
Nacional aberto no estúdio e passa na hora.
Luiz Alberto,
radialista

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60

É bom viver Nacional

Um estilo diferente de rádio

Em 1986, quando eu cheguei na Rádio Nacional,
me foi dada a titularidade do Revista Brasil. Começou
como Revista Nacional, criado na gestão do jornalista
Carlos Zarur, que era o chefe do radiojornalismo. Era
um programa que abordava assuntos nacionais, internacionais, políticos, econômicos. Com muita entrevista,
sem música. Era um estilo diferente, que o pessoal que
estava acostumado com o rádio tradicional da época,
não acreditava que poderia avançar.
Quando o Revista Brasil estreou, teve gente que falou: “Você só vai durar um mês à frente do microfone!”,
porque eu sempre fui contundente. Eu sempre apertei
muito os entrevistados e quando eu falo apertar, é buscar aquilo que você tem que extrair do entrevistado. A
rádio não tinha muito essa tradição de entrevista. Não
era uma coisa chapa-branca, mas era superficial.
A gente começou a fazer o programa e ele era mutante, mudava no sentido de acompanhar a evolução
do tempo. O Revista é um programa que não pára no
tempo. Se tivesse parado, já estaria fora do ar. E está
completando 28 anos.
O Revista Brasil acabou sendo um programa nacional. Eram mais de mil emissoras de todo país em cadeia
com o programa. O horário do programa sempre foi de
8h às 10h da manhã. Mas, com essa mutação, chegou a
começar às 7h e fechar ao meio-dia. O Revista acabou
ganhando essa dimensão por conta da abordagem dos
assuntos aos quais se dedicava.
Valter Lima,
radialista

cap.4 Entre o espetáculo e a informação

O esporte corre no sangue
A Rádio Nacional protagonizou as transmissões esportivas no rádio, teve um momento histórico e criou
essa tradição. Como ela era uma das emissoras mais
potentes da América Latina, ela conseguia levar para o
brasileiro essa informação. Para mim, o melhor momento no esporte foi de 1986 a 1997, quando a cobertura foi
mais intensa. A equipe era maior e tinha cerca de 10,
11 pessoas, sendo dois narradores, três comentaristas e
quatro repórteres só aqui em Brasília. Eu lembro que,
em uma manhã só, eu cobria cinco ou seis clubes. Eu
pegava o carro da rádio e ia no Pelezão cobrir o Brasília,
saía correndo para ir para Taguatinga cobrir o Taguatinga, ia para a Asa Sul cobrir o Tiradentes, ia para o
Guará... Hoje, a equipe de Brasília está vinculada ao Rio
de Janeiro e [aqui] só tem eu.
André Luiz Mendes,
radialista

61

5
O público é
quem a torna
pública

64

É bom viver Nacional

A partir do final da década de 1980, a Radiobrás seguiu por uma trajetória de decadência e os efeitos também foram sentidos na Rádio Nacional de Brasília. Em
1985, o último presidente do regime militar, João Batista
de Oliveira Figueiredo, deu lugar a José Sarney, eleito
indiretamente a vice-presidente na chapa de Tancredo
Neves, que faleceu antes de assumir o cargo. Se antes o
governo julgava necessário manter emissoras de rádio
com grande potência para cobrir todo o Brasil e impedir as mensagens comunistas e subversivas vindas de
países vizinhos, o governo democrático não necessitava
mais desses recursos. Não lhes pareceu que as rádios
poderiam exercer papel fundamental na redemocratização, levando informação e noções de cidadania para
uma população pouco assistida pelo Estado.
Em 1988, o governo Sarney promoveu um verdadeiro
desmonte da Radiobrás: das 40 emissoras ativas da empresa, restaram apenas sete, sendo que duas foram desativadas logo em seguida. Embora a Rádio Nacional de
Brasília tenha sido mantida, sofreu nos anos seguintes
com a inconstância da estatal. O pouco investimento
e as determinações baseadas em interesses políticos se
refletiram na redução da potência de transmissão, demissão de funcionários e no pouco planejamento estratégico da programação. Além disso, a explosão das
emissoras FM, com melhor qualidade de som, também
contribuiu para a perda de audiência. A emissora conseguiu manter um público cativo, criar novos programas
– ao mesmo tempo em que matinha outros de muito
sucesso –, mas o impacto já não era o mesmo de antes.
Durante a década de 1990, a Radiobrás (e, claro, os
veículos vinculados a ela) continuaria sem receber mui-

Foto: Da elaboração das pautas
na redação à
linha editorial, a
Rádio Nacional
experimenta o
desafio de ser
uma emissora
pública (crédito:
Maíra Morais)

cap.5 O público é quem a torna pública

ta atenção ou recursos do governo federal e houve até
quem defendesse a extinção da empresa. Em uma última
tentativa para salvar a estatal, o governo nomeou Carlos
Zarur seu presidente em abril de 1998. A gestão do jornalista foi um primeiro passo para pôr ordem na casa.
Foi neste período que a Nacional se mudou do “barracão” da W3 Sul – como era carinhosamente chamada
a sede, que sofria com a assídua visita de roedores – para
um prédio na Asa Norte. Zarur conseguiu melhorar o
setor administrativo da Radiobrás e de forma embrionária, começou a propor alterações no jornalismo e no
que era veiculado nas emissoras de rádio e televisão e
na Agência Brasil.
No entanto, a grande mudança no conteúdo veiculado pela Radiobrás foi promovida por Eugênio Bucci,
que assumiu a presidência em 02 de janeiro de 2003.
Jornalista e um dos principais estudiosos e pensadores
da comunicação no Brasil, tomou para si a missão de
substituir a cobertura chapa-branca dos atos do governo
por um jornalismo com foco no cidadão. Era preciso
livrar a empresa dos partidarismos e do uso de interesse privado de bens públicos. Com o apoio de diversos
funcionários da Radiobrás, Bucci instaurou um Programa de Qualidade Editorial, o qual deu subsídio para
a formulação de planos editoriais para as emissoras e
programas. Estes eram avaliados pelo Comitê de Qualidade Editorial. Além disso, para envolver as equipes nas
mudanças propostas, foram criados Grupos de Trabalho que discutiam assuntos diversos, que iam desde o
jornalismo praticado até questões trabalhistas. A Nacional de Brasília envolveu-se neste processo, o que acarretou mudanças na grade da programação, no conteúdo

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66

É bom viver Nacional

veiculado e na postura dos profissionais, enfrentado
a resistência de alguns ouvintes e até mesmo de funcionários. Em 2007, Eugênio Bucci deixou a presidência
da Radiobrás e em 2008, esta fundiu-se com a TVE do
Rio de Janeiro e foi criada a Empresa Brasil de Comunicação (EBC) e muitas das diretrizes lançadas por Bucci
ainda estão em vigor.
Hoje, a emissora transmite com 50 kW durante o
dia, cobrindo o Distrito Federal e Entorno, e 200 kW
noite, o suficiente para alcançar regi’oes do Pará, Tocantins, Goiás e Mato Grosso. O jornalismo com foco no
cidadão e a preocupação em levar informação de qualidade para o ouvinte são as bases para as transmissões
da Rádio Nacional. Hoje, a emissora mantém-se fiel aos
princípios da comunicação pública ao mesmo tempo em
que busca respeitar seu mais de meio século de história,
seu DNA, aquilo que a faz ser a Nacional de Brasília. E
sobretudo, busca atender ao desejo do ouvinte.
Mudando a cultura da empresa
A principal dificuldade era de ordem cultural.
Porque, na verdade, a legislação que disciplinava o funcionamento da Radiobrás já tinha uma série de vantagens nessa direção. Ela não incumbia a Radiobrás de
fazer assessoria de imprensa, propaganda de governo,
funções de porta-voz ou relações públicas, mas apenas
de administrar as emissoras veiculando informação e
cultura. É curioso, mas isso já está na legislação da Radiobrás desde quando ela foi criada. Então, a lei não
obrigava a comunicação da Radiobrás a ser uma comu-

cap.5 O público é quem a torna pública

nicação chapa-branca ou promocional. Isso vinha dos
hábitos, vinha da cultura da empresa.
Sem dúvida nenhuma, ao longo desses anos que eu
estive à frente da Radiobrás, o trabalho mais importante
era o de envolver as equipes - não só de jornalistas -, na
formulação dos princípios de gestão e de meta da empresa. Isso disseminava a compreensão do papel social
que a Radiobrás deveria ter. É difícil eu localizar o que
foi o mais importante. Mas para se ter uma idéia, todas
as emissoras e os principais programas tinham plano
editorial, formulados pelos profissionais que trabalhavam em cada um desses setores e acompanhados, anualmente ou a cada semestre, por um comitê de direção
da empresa, do qual eu fazia parte. Além disso, a Radiobrás publicou um Manual de Jornalismo, onde estão os
marcos de observância dos princípios legais e também
da conduta ética necessária para todo operador da comunicação pública.
O que se pode observar nos documentos escritos
que nós deixamos aí - e alguns deles estão em plena
vigência – é que não há a utilização do termo jornalismo público. A gente fala de comunicação pública e
de uma comunicação numa empresa pública. Isso tem
uma razão: o jornalismo é uma função pública, mesmo
quando praticado por uma empresa privada. E o jornalismo praticado de acordo com os cânones da profissão
não se diferencia muito se está numa empresa pública
ou privada.
Então, por ser um conceito difícil de explicar e de
distinguir, nós não adotávamos porque tinha pouca
eficácia na mudança de cultura que se tinha que fazer.
Por isso é que nós especificávamos o que nós tínhamos

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68

É bom viver Nacional

que fazer: o tratamento equilibrado, a fundamentação
em fontes oficiais, a ausência de informação em off. E
isso qualificava o tipo de jornalismo que é preciso fazer.
Eu não inventei nada disso. Isso é parte de um amadurecimento da visão sobre comunicação a cargo de organismos públicos ou estatais que já estava em marcha.
E eu trabalhei dentro dessa linha geral e dentro dessa
filosofia. E eu acho que nisso a gente conseguiu avançar
bem. E isso é que foi a base para que a prática fosse
mudando e que, anos depois, acarretasse até algumas
mudanças na legislação, com a criação da EBC.
Eugênio Bucci,
ex-presidente da Radiobrás

As mudanças na prática

Na época [do Eugênio Bucci], a criação dos Grupos
de Trabalho foi muito frutífera no rádio. A possibilidade de fazer com que a equipe (aquelas pessoas que,
obviamente, se inscreveram voluntariamente) discutisse
a linha editorial de cada veículo, foi muito importante.
Isso se refletiu na grade com a saída de alguns programas do ar, a criação de outros, e o monitoramento
e acompanhamento e uma orientação permanente. O
BR Caminhoneiro, por exemplo, foi um que infelizmente
precisou sair. O BR Caminhoneiro era um programa importantíssimo na grade, que entrava de madrugada. Mas
na época, nós não tivemos dúvida, havia um problema
de utilização político-partidária e tivemos que suspender o programa.
Por outro lado, programas como Cotidiano, Espaço
Arte, Em conta, Cidade 980, Brasil Rural, esses progra-

cap.5 O público é quem a torna pública

mas novos – quando eu digo novos, de cinco anos para
cá – refletem esse novo momento da rádio. São programas segmentados, que entraram exatamente onde a
gente acha que havia uma lacuna. E ainda falta muita
coisa. A gente sente falta de programas de meio ambiente, de saúde, para terceira idade, para mulheres.
Sem querer segmentar demais a grade e sabendo que há
programas, como o Tarde Nacional ou mesmo o Revista
Brasil, que tratam desses temas de forma transversal.
É claro que foi uma mudança que não foi aceita logo
de início. Foi um trabalho de convencimento de todas as
partes. Na primeira fase de mudança da programação,
houve uma manifestação muito negativa por partes dos
ouvintes, e até de algumas pessoas da equipe, de que nós
estávamos fazendo uma rádio elitista, que nós tínhamos
proibido a participação dos ouvintes – que eram sempre
os mesmos, não era nada democrático; era um grupo de
pessoas que todos os dias monopolizava o telefone da
emissora para os seus recados pessoais.
Até mesmo essa qualificação da participação do
ouvinte, a gente precisou fazer. É claro que a gente quer
que o ouvinte participe. Mas participar para quê? Para
propor pautas, para opinar sobre o que nós estamos
discutindo, para sugerir melhorias? Tudo certo. Então
é uma equação delicada, porque nós precisamos pensar
um novo rumo, convencer a equipe internamente, olhar
para a comunicação que não é feita no DF e ainda atender, na medida do possível, os ouvintes.
Taís Ladeira,
jornalista e gerente das emissoras
de rádio da EBC em Brasília

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70

É bom viver Nacional

Compromisso com o ouvinte
Claro que você não muda a cultura de uma empresa
de uma hora para a outra. Você tem que construir isso.
É um trabalho no dia a dia, é pauta por pauta. Por exemplo, a abertura de uma matéria. Você começar um
texto falando: “O ministro da Agricultura anunciou não
sei quantos milhões para o Plano Safra”. Não é assim.
É o inverso. Você coloca: “Os agricultores vão receber
tanto, esse dinheiro vai estar disponível no banco assim
e assado”, fala quem tem direito, põe lá os critérios. E no
final você fala: “O anúncio foi feito hoje pelo ministro
da Agricultura”. Faz diferença.
Aí você se coloca no lugar do ouvinte: o que para
mim é mais importante? Saber, por exemplo, se o remédio vai estar na farmácia de alto custo amanhã ou saber
se a Secretaria liberou dinheiro para comprar remédio?
Era isso que eu conversava diariamente com a minha
equipe: se põe no lugar do ouvinte. Se eu preciso de um
remédio que custa mil reais, eu quero saber se amanhã,
quando eu for lá na farmácia, vai ter remédio.
Afinal a gente fala para quem? Com quem é o nosso
compromisso? É com o Governo, com a chefia ou com
o ouvinte? Para mim, eu tenho compromisso com o
ouvinte. E respeito também ao ouvinte. Acho que hoje,
em alguns momentos, a Nacional ainda peca. Mas isso é
um processo natural.
Eu acho que o grande desafio da Nacional de Brasília
é ser popular, sem cair no popularesco. E ser uma emissora popular de qualidade. Que dê uma informação útil,
que seja companheira. Porque é isso. Quando a Rádio
Nacional foi criada em 1958, ela era a grande compa-

cap.5 O público é quem a torna pública

nheira das pessoas que estavam aqui. Ela não era para
ser companheira, transmitir recados? Então ela vai se
manter assim até quando deixar de existir.
Mas como? Abrindo algumas vezes para o ouvinte
participar ao vivo. Demora um pouco mais, mas abre.
O ouvinte gosta disso. Radionovela? Vamos colocar.
Todo sábado à noite, a gente coloca uma radionovela no
Saudade Nacional. Futebol tem que continuar? Tem, faz
parte da história da emissora.
Cristina Guimarães,
jornalista e ex-coordenadora
da Rádio Nacional AM de Brasília

O esporte por outro ângulo
Na Rádio Nacional, você tem mais liberdade para levar ao ouvinte outros tipos de produto que não aqueles
que a mídia te obriga a veicular por causa da briga incessante por audiência. Existe um perfil e o compromisso da emissora que tem que ser social, de cidadania,
mostrar outro lado e a emissora gosta muito de fazer o
que as outras não fazem. Você procura essa flexibilidade
de mostrar outra situação. O Kaká foi contratado por
100 milhões de euros, por exemplo. Todo mundo vai
dar essa informação. Agora, como o clube faz para arrumar esse dinheiro, quem patrocina, quanto investe e
quanto ganha com um cara desses... A gente procura dar
um enfoque diferenciado em algumas situações. Talvez
essa seja a preocupação: informar melhor o ouvinte que
já sabe da notícia principal. Isso vem sendo cultivado há
algum tempo, porém, depois da criação da EBC, e até

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72

É bom viver Nacional

mesmo já no final da gestão Radiobrás , acho que eles
se preocuparam muito mais com esse aspecto de trazer
essa informação diferente.
A Rádio Nacional é realmente uma rádio do Brasil.
Já existe um projeto em que nós vamos fazer outros jogos e dar uma opção para o ouvinte. O Rio de Janeiro
vai transmitir Vasco x Botafogo. Mas nós queremos que
Brasília faça Atlético x Cruzeiro, São Paulo x Palmeiras... Por que o ouvinte da Amazônia não pode ser brindado com Remo x Paysandu? Por que o cara da Bahia
não pode ouvir um Bahia x Vitória, ter o prazer de a
Rádio Nacional estar lá mostrando para todo o Brasil
um produto genuinamente baiano? Nós estamos criando um meio de fazer esporte no geral. Também porque
a rádio tem um compromisso com o esporte e esporte
não é só futebol. Nós fizemos o NBB [Novo Basquete
Brasil, campeonato nacional de basquete] no ano passado, e basquete é um lado que ninguém mostra - e que
muita gente gosta.
Pautando o jornalismo de Brasília
Na minha opinião, hoje o AM é rádio de conteúdo.
E você pauta outras emissoras. Eu não estou falando
para as paredes, eu estou falando para o ouvinte, mas
também para quem faz notícia. Eu canso de trazer uma
notícia para cá e no outro dia ela está em todos os jornais. Ou eu trago uma informação e meia hora depois
ela está numa FM.
Luciano Barroso,
radialista e jornalista

cap.5 O público é quem a torna pública

Uma tarde inteira de informação
O Tarde Nacional é um programa voltado para o
Distrito Federal e Entorno, sempre de segunda à sextafeira, de uma às cinco da tarde. É um programa de informação, mas também tem música e a participação de
repórteres ao vivo. Como, por exemplo, a Katiana Rabelo que leva tempo, trânsito, aeroporto, e a participação
dos locutores esportivos que trazem as informações do
esporte como Mário Silva, Carlos Borges e André Luiz
Mendes. Temos quadros diários, como o Viva Maria
da Mara Régia e quadros fixos. Na segunda-feira temos
um quadro sobre o meio ambiente, que é o grande assunto do momento. Na terça-feira o Direito em Pauta,
na quarta-feira a gente fala exclusivamente sobre o direito do consumidor, na quinta-feira temos um quadro
sobre leis distritais no dia a dia do cidadão do DF, e na
sexta-feira, como já é um princípio do fim de semana, o
Giovanni Motta traz algumas dicas para os ouvintes já
irem se preparando para a diversão.
O que é de suma importância para prender o ouvinte
é a escolha das pautas, o que é fundamental em se
tratando de entrevistas. A nossa preocupação é de sempre focar e pensar no que o ouvinte quer ouvir. Tem que
fazer rádio para o ouvinte e não para nós, saber qual é
a necessidade do ouvinte. Nós observamos para dar um
enfoque diferente do que já é tão batido. Vezes e vezes
nós fazemos coberturas ao vivo e vamos até o local. Nos
aniversários de cidades-satélites, a gente busca ir lá para
ver como é o dia a dia, entrevistar pessoas dali, ouvir
o presidente da associação comercial para saber como
está o comércio naquele local, ouvir o comandante de

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74

É bom viver Nacional

Polícia Militar para saber da questão da segurança ou o
delegado responsável pela delegacia daquela cidade, nós
vamos ouvir alguém ligado a questão de arte, cultura e
lazer e ouvir o povo. Ouvir o povo, o que ele tem a dizer,
quais são as reivindicações, contar com a participação
deles nesse processo. Um dos grandes compromissos
que nós temos com o público de Brasília é mostrar um
lado da cidade que é pouco mostrado.
Miguelzinho Martins,
jornalista e radialista

Fazendo as perguntas certas

O ponto forte do Cotidiano10 são as entrevistas. O
programa é composto de quatro entrevistas e são assuntos diversificados. Todo dia tem que ter uma entrevista de saúde, que é sempre a primeira do programa. E
os outros assuntos variam. Tem um telefone no estúdio
que fica aberto e fica à escolha do ouvinte: se ele quiser,
ele entra no ar e faz a pergunta [para o entrevistado].
Senão, a nossa produtora anota e eu mesmo pergunto.
Ele também pode ligar naquele número para sugerir
outros assuntos. Então a gente recebe muita sugestão
de pauta dos ouvintes. “Eu queria ouvir falar de lúpus”,
aí a gente vai atrás. “Olha, eu andei vendo uns apartamentos, porque eu estou querendo comprar, mas como
eu sei qual é o melhor? É mais vantajoso eu comprar
o apartamento na planta ou pronto”? Aí você vai em
busca de uma associação de defesa do consumidor ou
do Procon. Hoje em dia, eu tenho muito mais naturalidade para fazer esse tipo de trabalho. Porque você vai

10. O Cotidiano
vai ao ar de segunda a sextafeira, das 10h às
12h.

cap.5 O público é quem a torna pública

juntando experiência, vivência. As pessoas dizem: “Luiza, eu
gosto muito do jeito como você pergunta”. E é engraçado, às
vezes eu pergunto: “Mas o que a senhora quer saber?”.
“Não, não preciso falar porque eu sei que você vai fazer as
perguntas certas”. É muito engraçado o ouvinte falar isso para
a gente. Tem entrevistado que diz assim: “Luiza, você espreme
tudo (risos)! Aqui na rádio, eles me dão liberdade de fazer entrevistas mais longas, não tem aquela coisa de jornalismo de
dois, três minutos. Às vezes, dependendo do assunto, eu posso
ficar 15, 20 minutos com a pessoa. Eu acho que não adianta
nada você fazer uma entrevista em que a pessoa fica morta de
vontade de saber mais. Então, tem que aproveitar o tempo que
está ali para arrancar o que for possível.
Para mim, é o seguinte: quem quer ouvir informação, ouve
AM. Claro que hoje em dia, tem as FMs que têm só informação. Mas são muito diferentes da nossa maneira, porque aqui a
gente intercala música com esses assuntos.
E o negócio é você manter assuntos atuais. Então ao mesmo
tempo que eu falo dos benefícios da soja preta, eu falo de Twitter, por exemplo. E as pessoas se enganam achando que quem
escuta rádio são pessoas de menos cultura, de nível social mais
baixo. Não é verdade. Tem muito entrevistado meu que começa
ouvindo pela internet para conhecer o programa e participar de
acordo com o espírito do programa e depois, ele se acostuma e
começa a ouvir o programa também. Gente que aprende a, em
vez de ligar na FM, ligar na AM enquanto dirige, por exemplo.
É tudo uma questão de a gente ir se modernizando também.
Luiza Inez,
jornalista e radialista

75

6
Vidas
sintonizadas
em 980 kHz

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É bom viver Nacional

Ela já é cinquentona e carrega marcas de quem já enfrentou tempos difíceis e se deleitou em tempos áureos.
É uma jovem senhora falante, que tagarela o dia inteiro
– e não se cansa nunca porque já entendeu a força que
sua palavra adquiriu ao longo de suas décadas. Ela não
precisa se esforçar muito para lembrar-se de histórias de
luta, dor, alegria, realização. É companheira, cumpridora de seus deveres e movida a desafios, especialmente o
de estar onde ela nem mesmo imagine que possa chegar.
Esta é a Rádio Nacional de Brasília: uma emissora de
rádio em ondas médias, que, definitivamente tem alma,
história e personalidade.
E aqui estão pessoas que vêem a emissora além do
dial, da freqüência e da parafernália técnica, dando-lhe
vida para enxergar o milagre da comunicação, o fenômeno da construção do próximo por meio da palavra
falada e retransmitida. São pessoas que têm a emissora
como fonte de satisfação pessoal e profissional. E, além
deste profissionalismo, os funcionários da Rádio Nacional de Brasília são movidos por sentimentos muito
humanos. São estes sentimentos, evidenciados nos depoimentos, que motivam uma doação particular ao ato
de se comunicar e à Nacional. Independentemente da
idade ou da época em que passaram na rádio, todos
guardam uma certeza de que “É bom viver Nacional”.
Para essas pessoas, a Nacional de Brasília não é apenas mais uma emissora no espectro radiofônico. Ela é
um pedaço da vida (talvez um dos melhores). É o topo
da carreira. É o primeiro passo para uma guinada radical em sua trajetória. Ela se enraizou em suas histórias.
Estas pessoas foram convidadas a tentar explicar, durante as entrevistas, o que é a Rádio Nacional. E saltou

Foto: Diariamente, as ondas
sonoras da emissora transmitem
cidadania, informação e uma
parte da história
de seus funcionários (crédito:
Maíra Morais)

cap.6 Vidas sintonizadas em 980 kHz

aos olhos a paixão evidente enquanto respondiam: o
carinho estava na fala, nos gestos, nos olhos. Este capítulo, afinal, é uma grande declaração de amor.
A base de quase tudo
Se não fosse a Rádio Nacional, eu não teria saído de
Goiás. Estaria como muitos outros trabalhando nos balcões das Pernambucanas, que era com o que eu trabalhava quando chutei tudo e vim para cá. E essa vinda
que fez tudo na minha vida. Através das amizades que
eu fiz, tive a oportunidade de trazer todos meus seis irmãos para cá. Cada um deles tinha uma profissão definida e pude encaixá-los aqui no que eles trabalhavam.
Então, foi uma realização pessoal e da minha família,
tudo por causa daquele primeiro passo que dei entrando
na Rádio Nacional. E a partir daí, as portas se abriram
todas. Então, ela é a base de quase tudo. A Nacional é
tudo na minha vida.
Fernando Lopes,
cantor
Parte da família
Eu vivi essa Rádio Nacional praticamente do começo
até hoje. Se eu tenho amor pela Rádio Nacional? Tenho.
A Rádio Nacional é como uma filha para mim. Eu tenho
ciúmes da rádio, eu apanhei por causa da Rádio Nacional, eu levei tapa de soldado, chute de polícia.
Mascarenhas de Morais,
radialista

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80

É bom viver Nacional

Em Minas, Rádio de Brasília
Eu já ouvia a Rádio Nacional no interior de Minas
Gerais, quando eu dormia no canto da cama da minha
avó ouvindo “Em Brasília, 19h”. Tanto que a primeira
vez que eu fiz A Voz do Brasil eu quase chorei. Eu só
sabia que eu queria fazer rádio. Tanto que quando eu
trabalhava aqui lavando banheiro, eu lavava banheiro
da onde? Da Nacional. Da poderosa Rádio Nacional.
E hoje eu ajudo a fazer essa Rádio Nacional. Olha que
coisa mais linda para mim.
Eu saio da minha casa há 38 anos com prazer para
vir para cá. A Rádio Nacional para mim é vida, é vital. É
como diz a vinheta, “É bom viver Nacional”.
Luciano Barroso,
radialista e jornalista

Uma promessa de criança
A Rádio Nacional sempre foi um encantamento
porque minha avó era “fãzoca” da Nacional do Rio de
Janeiro. Eu cresci ouvindo as novelas. E tinha promessa
de biscoito Marilu enquanto rodava a novela: quem se
comportasse ganhava biscoito no final. Eu me lembro
que um dia eu fugi, fui até a Praça Mauá com uma amiga para conhecer a Rádio Nacional. Levei uma surra do
meu pai que não foi fácil!
Quando eu me apaixonei por essa caixinha mágica, eu estava começando a vida, começando a minha
maternidade... É claro que o Viva Maria tem muito da
minha história pessoal. Minha mãe foi vítima de vio-

cap.6 Vidas sintonizadas em 980 kHz

lência e ficou essa marca, esse desejo de lutar para que
as mulheres não apanhassem mais, não sofressem mais.
Foi uma coisa que eu disse para mim – e eu devia ter
uns oito anos de idade: “Quando eu crescer, eu vou fazer
alguma coisa para as mulheres não apanharem”. E assim
foi feito. Eu devo ao Viva Maria a minha vida, a minha
plenitude como mulher.
Mara Régia,
jornalista e radialista

Escola Rádio Nacional

Com todo o respeito a todas as minhas outras atividades, aos lugares por onde passei, onde estou e onde
eu possa vir a passar, a Rádio Nacional é o lugar mais
importante da minha vida. Primeiro, porque eu gosto
de rádio e não escolhi televisão por três motivos: eu sou
meio tímido, feio e gosto de emoção. E eu escolhi o rádio por ter essa movimentação mais intensa. Tudo o que
eu tenho e conquistei na minha vida foi dentro da Rádio
Nacional. Foi por causa dela que eu comprei meu primeiro carro, fiz minha primeira viagem e conheci lugares no exterior, foi trabalhando aqui que eu casei, tive
meus filhos, comprei a minha casa. E é um exercício
diário de aprendizado porque, até hoje, por incrível que
pareça, todo o dia eu estou aprendendo alguma coisa. A
Rádio Nacional, para mim, é quase tudo. Ela só vai ser
tudo no dia que eu sair de lá. Aí eu vou dizer: “Estive em
um lugar onde eu tive tudo na minha vida”.
André Luiz Mendes,
radialista

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É bom viver Nacional

Valeu a pena

A Rádio Nacional é única: há várias emissoras populares, há várias AMs, mas nenhuma é como a Rádio Nacional. É uma emissora na qual eu eu acredito.
Talvez, por isso, eu tenha feito tantas concessões na
minha vida pessoal e profissional, por gostar da rádio.
Porque foi um sacrifício deixar de ser repórter, que é o
que eu sempre gostei de fazer, para ser gestora. Se eu fiz
isso foi por acreditar na força que ela tem de mudar a
sociedade, de ajudar. Se alguma informação que eu dei
algum dia no ar, seja como repórter, seja como produtora, se aquela informação ajudou alguém a resolver alguma coisa, seja uma só pessoa, já valeu a pena.
Cristina Guimarães,
ex-coordenadora da Rádio Nacional AM de Brasília

Não era um sonho
Estar aqui realmente foi um sonho realizado e uma
das etapas que eu acho que conquistei na vida. Sobretudo, para o orgulho do meu pai, que também era radialista. Eu tra-balhava em outras emissoras antes de
entrar aqui e ele di-zia: “Você tem que entrar na Rádio
Nacional. Aquilo é que é rádio! Ali que você vai ver
como é ser ouvido nos quatro cantos do país!” Além de
uma realização pessoal, foi um presente que eu pude dar
para ele e para minha mãe, que também sempre ouviu
bastante a Rádio Nacional.
Miguelzinho Martins,
jornalista e radialista

7
Estórias que
viraram
história

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É bom viver Nacional

As boas histórias são como alguns dos tijolos que edificaram a Rádio Nacional de Brasília. A emissora coleciona relatos – até então restritos à memória de quem viu
ou viveu – que desafiam o crível, emocionam, divertem
e reforçam o caráter integrador e por vezes, heróico, da
emissora. Na maior parte destas boas histórias, o protagonista é o ouvinte.
É ele quem provoca a rádio e espera que a ajuda chegue pelas ondas sonoras. É o ouvinte que se descamba
até a emissora para protestar e ameaçar o locutor. Ele
quem encomenda casamento nos microfones da emissora. O ouvinte é o lado imprevisível do rádio: a urgência do seu recado está além do roteiro, o seu telefonema irrompe a transmissão para que a sua voz enuncie
o inesperado, e uma simples carta pode enraizar-se na
memória do locutor que a recebe.
Nas histórias que entraram para o rol da emissora
como inesquecíveis, percebe-se uma relação afinada entre o meio, o emissor e o receptor. Até mesmo no inusitado, no pitoresco ou no cômico, a Rádio Nacional de
Brasília mantém-se firme no seu propósito inicial: o de
ser, acima de tudo, companheira de quem a ouve.
Rejane, a desmemoriada
Eu estava na rádio e tinha uma senhora me procurando. Ela falou: “Meira, eu preciso que você me ajude.
Eu tenho um hotel no Núcleo Bandeirante e recebi um
casal que veio de Fortaleza. O casal estava lá comigo e,
de repente, o rapaz sumiu, não apareceu mais, e a moça
parece que está com amnésia. Encontrei uns papéis que

Foto: Em 52 anos
de história, basta
que a Rádio
Nacional esteja
no ar para que os
ouvintes protagonizem histórias
incríveis (crédito:
Maíra Morais)

cap.7 Estórias que viraram história

falavam da residência dela em Fortaleza, você pode
nos ajudar?”. Eu falei: “Vamos ajudar sim”. O nome da
moça era Rejane. E eu tinha no programa uma buzina
de caminhão que eu buzinava e chamava a atenção da
pessoa. Aí eu buzinei uma vez, duas vezes, três vezes e
falei: “Ó, você de Fortaleza, quem conhecer a família
da Rejane, entre em contato com a Rádio Nacional. A
Rejane está aqui, perdeu a memória, está num hotel, o
pessoal está cuidando dela”. Fiz isso no começo, no meio
e no final do programa.
No dia seguinte, eu estou chegando na rádio e tinha
um cidadão me esperando. Aqui em Brasília fazia uma
poeira danada e tinha um sujeito de roupa branca, chapéu branco... Eu pensei: “Não é possível, deve ser coisa
de outro mundo”. Eu fui atendê-lo e ele falou: “Você que
é o Meira Filho? Eu sou o pai da Rejane”. Quase que eu
caí, quase que eu morri de emoção. Ele me contou que o
rapaz casou com ela, mas não era bom da bola. Não gostou, pegou e largou a moça. Foi embora. E a família não
queria este casamento. Em poucas palavras, nós fizemos
uma novela – uma novela com um fim muito feliz.
Ele me perguntou: “Quanto é que pago por esse serviço?” E eu respondi: “Me diga uma coisa, se você fosse
pagar, quanto que você ia pagar?”. Ele respondeu: “Não
tem dinheiro no mundo que pague uma coisa dessas.”
“Então você não deve nada”. Ele pegou a filha dele, levou
para Fortaleza e eu acredito que ficou feliz, né?
Meira Filho (1922-2008),
radialista

85


86

É bom viver Nacional

Rádio casamenteiro
Eu estava fazendo o programa no domingo à noite e
veio um cabra desdentado, fogoió, feio, feio, sem dente...
Com um perfume extrato, daqueles que parece que você
tomou um banho? Ele não saía do estúdio. “O que você
quer? Dá logo o seu recado”, mas ele não saía.
Então eu fui à discoteca e ele foi atrás de mim e disse:
“Eu queria que o senhor arrumasse uma mulher para
mim.” Eu falei: “Ô meu irmão, desce a W3, vai para a
Rodoviária, Luziânia, qual é?” “Eu quero casar”. Botei
ele lá, brinquei, brinquei e disse: “Olha, Fulano de Tal é
alto, loiro, dos olhos azulados, esverdeados, um atleta.
Bonito, cabelo caído na testa, grudado na cabeça. Ele
quer encontrar uma mulher, que jeito você quer essa
mulher?” E ele: “Uma mulher que me respeite, que goste
de mim, que me aceite como eu sou, que saiba lavar, cozinhar”, aquele negócio, né. Resultado: no outro fim de
semana eu estava com mais de mil cartas.
Aí eu criei um programa chamado Correio Sentimental. Eu lia essas cartas que ele dava o perfil dele, ela
dava o perfil dela e pronto. Não tinha ninguém para me
derrubar em carta e audiência. Eu casei gente no Brasil
inteiro, perdi as contas de quantos casamentos.
Mascarenhas de Morais,
radialista

cap.7 Estórias que viraram história

Pérolas dos ouvintes
Tinha uns recados assim: “Mãe, eu estou mandando duas cartas para a senhora, uma dentro da outra,
porque se uma não chegar a outra chega.” Outro: “Mãe,
essa semana meu dente tava doendo muito. Eu fui lá no
dentista e mandei ele ‘distrair’ meu dente.” “Mãe, mas
Brasília é bonita demais, mãe. Aqui tem muita ponte,
mas os rios estão tudo seco.” Era ele falando dos viadutos, né. Outro: “Mãe, eu como bom nordestino, eu fui
dançar um forrozinho lá no Núcleo Bandeirante. Quando cheguei, fiquei esperando começar o forró e aí já era
quase meia noite e esse forró não abria. Aí, eu fiquei
preocupado, queria dançar um forrozinho e o forró não
abria de jeito nenhum. Aí foi passando um homem e
eu perguntei: ‘Moço, esse forró do Gerson não vai funcionar hoje, não?’ O homem respondeu: ‘Isso aí não
é Forró do Gerson, não, pau-de-arara. Você não está
vendo que isso que está escrito aí é forro de gesso?’ Mãe,
eu fiquei com uma vergonha...”
Edson Nery, o Burrinho,
supervisor de operações
Greve geral deixa marido nervoso
Falar dos maridos nervosos, indignados... Era muito
interessante chegar na emissora e de repente tem lá um
homem: “A senhora que é a Mara Régia?”, “Sim, senhor, bom dia”. “Ó, o rádio lá de casa eu já quebrei, viu?
Agora, a próxima vez que eu vier aqui é para quebrar
a sua cabeça, porque a senhora fica colocando carami-

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88

É bom viver Nacional

nhola na cabeça da minha mulher”. Porque uma vez,
no Dia das Mães, eu falei: “Olha, vamos parar com essa
história de só presentear a gente no Dia das Mães com
panela de pressão, liquidificador, porque isso é presente
para a casa! Não é presente para nós! Mulher gosta de
flor, perfume... Olha, Maria, se você ganhar, de repente,
uma geladeira, um fogão, faz greve, não faz o almoço de
domingo. Senta no meio da sala, cruza os braços e fica
lá!”. E, na certa, a mulher desse cara levou ao pé da letra
o que eu falei.
Mara Régia,
jornalista e radialista

“Cadê o homem da Nacional?”

Eu entrei na rádio em 1982. Dois anos depois, tirei
minhas primeiras férias. Fui para São Luís, no Maranhão, com minha mulher e meus dois filhos. Chegando
perto de Santa Luzia, mais ou menos a um quilômetro
da cidade, tinha um atoleiro de uns 200 metros. Só passava ônibus e caminhão guinchados por trator e o trator
ainda tinha quebrado. E estavam esperando consertar o
trator. E aquela fila de carros enorme... E todo mundo
voltando. Para passar, tinha que fazer uma volta de uns
800 kms, ir em Marabá no Pará. Faltando um km para
chegar na cidade!
Eu era operador do Mascarenhas de Morais no Tarde Nacional. Fazia a noite também com o tio Gilvan
Chaves, no Eu de cá, você de lá e eles anunciaram que
eu estava indo de férias para o Maranhão. E eu tinha
colocado um adesivo da Rádio Nacional no vidro lateral

cap.7 Estórias que viraram história

do meu carro. E eu lá nesse atoleiro pensando: “Meu
Deus, e agora, voltar 800 kms por causa de 1 km... Uma
loucura!”. Aí, chegou um menininho no carro e viu o
adesivo. Ele perguntou para o meu filho: “Esse carro é
da Rádio Nacional?” Aí, meu filho: “Não, meu pai que
trabalha lá”. O menininho saiu de fininho. Cara, daqui
a pouco, meu carro começou a arrodear gente, gente,
gente, para me conhecer, perguntando: “Cadê o homem
da Rádio Nacional?” Uma hora e meia depois, eu só via
o povo carregando tábua e fazendo uma pista para eu
poder passar o atoleiro. Eles fizeram uma trilha com as
tábuas. Foram 200 metros em cima daquela lama e eu
passei para o outro lado. Eu fiquei tão agradecido! Eu
levava disco para as rádios de São Luís, camisetas da
Rádio. Aí dei tudo para o pessoal! Eles ficaram felizes
da vida.
Messias Melo,
sonoplasta
Locutor, conselheiro e mensageiro
Tem o caso de um fazendeiro que formou toda a
família e ficou sozinho na fazenda, só ele e a esposa, já
velhinhos. E disseram para mim que estavam querendo
vender a fazenda e vir para a cidade fazer tratamento,
mas que dependia do meu conselho: se eu falasse sim,
eles viriam, senão eles ficariam lá. E aí eu disse que eles
não viessem. Que lá eles tinham sua vaquinha e eles
poderiam vender uma vaca, vir para a cidade, fazer o
tratamento e voltar. Jamais vender a sua propriedade e
vir para a cidade, que não era o habitat deles. Depois, ele

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É bom viver Nacional

escreveu para mim e agradeceu. Ele continuou lá e está
feliz. O ouvinte tem uma confiança e um carinho muito
grande pela gente.
Outra vez, um dono de uma fábrica de sapatos, em
Franca, São Paulo, foi pescar no Mato Grosso. Foi ele e
mais dois irmãos e no segundo dia, o pai deles faleceu.
E eles estavam no Pantanal Matogrossense, não tinha
como dar a notícia. E o guarda da noite da fábrica viu a
família apavorada lá no escritório, no telefone, tentando
falar com polícia, tentando falar com aeroportos, com
cidades próximas e não conseguia. E esse guarda disse:
“Olha, só tem um jeito de vocês passarem essa notícia
para eles. Liga nesse telefone aqui, na Rádio Nacional,
e fala com o Luiz Alberto”. Eles ligaram na portaria dizendo que era urgente e eu fui atender lá. A esposa do
rapaz que foi pescar disse: “O nosso guarda noturno da
fábrica disse que só você pode localizar”. Eu falei: “Que
carro que ele está?”. “Uma caminhonete assim e tal”,
peguei os dados e falei, “Tudo bem, deixe comigo, vou
tentar aqui”. Aí, eu cheguei no microfone e falei: “Atenção você que está aí em tal região, é uma caminhonete
assim, placa tal, de Franca, São Paulo. O pai desse rapaz
faleceu. Se você viu essa caminhonete aí, vai lá e passa
essa notícia para ele”.
E um fazendeiro que estava ouvindo o programa viu
que essa caminhonete tinha passado dentro da sua fazenda para ir até o rio. E isso já era quase 11h da noite.
Ele pegou o cavalo e foi até onde eles estavam pescando.
Ele chegou lá por volta de 1h [da manhã]. Ele falou: “O
senhor que é Fulano de Tal?” O rapaz respondeu: “Sou”.
“O senhor pode voltar que o seu pai morreu.” “O senhor
está louco!” “Não, o Luiz Alberto, da Rádio Nacional,

cap.7 Estórias que viraram história

falou no Eu de cá, você de lá. O senhor é de Franca, o
nome do seu pai é Fulano de Tal?” Ele respondeu: “É”.
“Então ele morreu”. Aí, ele voltou, foi até a cidade mais
próxima, fretou um avião e foi embora.
Esse cara é meu amigo até hoje. Foi bom porque durante muito tempo eu não comprei sapato. E quando ele
ia pescar, dizia: “Olha, estou indo pescar. Me dá notícia
da minha família!”
Luiz Alberto,
radialista

Em busca da galega na gaiola
Sumiu uma jornalista na Amazônia e estavam procurando essa moça. O Mascarenhas de Morais chegou
aqui para fazer o Saudade Nacional e alguém ligou para
ele perguntando se ele sabia de alguma coisa. E ele falou:
“Não, mas me dá as informações”. Então, descreveram
como era a moça e onde tinha sido o acidente. Eles
falaram: “Era uma loira, que estava num barco, a tantos quilômetros da cidade tal”. E aí entra a questão da
importância de adequar a linguagem ao nosso público.
O Mascarenhas traduziu aquilo. Ele falou: “É uma galega, que estava numa gaiola” – que é o tipo específico
daquele barco em que ela estava. “Ela estava na região
x”. Ele não falou “a tantos quilômetros da cidade tal”,
ele falou o nome daquela região. E não é que acharam
a moça?
Cristina Guimarães,
jornalista e ex-coordenadora
da Rádio Nacional AM de Brasília

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É bom viver Nacional

Como no tempo dos recados
Em 2001, no ataque às Torres Gêmeas, nós estávamos com o Revista Brasil no ar e apareceu uma imagem
de um avião se chocando com uma das torres e falaram
que tinha sido um acidente. E, de repente, outro avião.
Então, a partir daquele instante, às nove horas da manhã, nós começamos uma transmissão ininterrupta que
durou praticamente 24 horas. E no Brasil, a população
encontrou dificuldade para encontrar seus parentes nos
EUA porque cortaram todas as transmissões. As pessoas não conseguiam telefonar, não conseguiam absolutamente nada. Então nós acabamos desenvolvendo um
trabalho com rádio amadores e começamos a fazer links
com eles. Um radioamador daqui fazia contato com o
radioamador do Panamá, que fazia contato com o sul
dos Estados Unidos e chegava até Nova York... E a gente
começou a fazer aquele tipo de transmissão. Chegou ao
ponto das pessoas perguntarem sobre Fulano de Tal e
a gente fazia esse meio-de-campo, para conseguir respostas para essas famílias. O embaixador brasileiro nos
Estados Unidos estava escondido debaixo da mesa porque não sabia o que estava acontecendo – e falou
conosco, com o nosso repórter. E a gente escutando
aquele barulho de sirene, porque a nossa embaixada era
muito perto do World Trade Center. O próprio presidente da empresa [Radiobrás] desceu para o estúdio
para acompanhar a transmissão conosco.
Valter Lima,
radialista

cap.7 Estórias que viraram história

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Te espero no supermercado
O ouvinte de AM, especificamente, é mais carinhoso, mais atencioso. Mas aqui parece que tem uma coisa
diferente. A gente tem ouvinte que sabe o aniversário de
cada um. Sabe mais do que a gente. Liga para lembrar a
gente que é aniversário do outro locutor ou do repórter
tal. Sabe o aniversário dos filhos da gente, grava tudo o
que a gente fala. Faz festa de aniversário para a gente,
traz bolo, salgadinho, traz presente.
Mas, às vezes, perturba um pouco. Tem recado reclamando, também, por exemplo: “Eu deixei um recado
para a Luiza encontrar comigo no supermercado na
sexta, às 10h da noite e a Luiza não foi!” Sabe? Então,
tem essas coisas assim, que eu tenho que dizer: “Olha,
eu não posso, eu tenho uma vida também. Eu tenho
minhas filhas, eu tenho uma mãe que está doentinha, eu
tenho que dar atenção para a família também, senão eles
vão ficar se sentindo que nem você!” Teve outro caso
com essa mesma ouvinte. Ela estava revoltada. Mandou
recado pela produtora, pela Central do Ouvinte11, ligou no estúdio... Dizendo que era para eu ligar para
ela, porque ela tinha precisado operar e queria que eu
ficasse com ela no hospital, como acompanhante dela. E
a produtora: “Mas ela está ocupada. Porque quando ela
sai do ar, ela vai produzir o programa do dia seguinte.
E, depois, quando ela sai daqui, ela vai cuidar da vida
dela, tem família também”. “Não, mas ela pode me ligar
de madrugada ou então no domingo!” Então, às vezes, é
complicado. Depois eu liguei para ela e ela falou: “Não
te dão meus recados”. Eu disse: “Dão, sim, inclusive pedi
para a menina te explicar e eu estava no ar, mas eu a

11. A Central do
Ouvinte recebe
as ligações e as
cartas enviadas
pelos ouvintes da
Nacional AM Brasília e a Nacional
da Amazônia,
estabelecendo
importante
diálogo com o
público.

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É bom viver Nacional

vi explicando para você. É porque quando eu saio daqui, tenho que dar atenção para as minhas filhas, para
a minha mãe, eu tenho que fazer ginástica, eu tenho
consulta médica, eu tenho minha vida pessoal. Então
não dá para eu ficar dando atenção para vocês depois do
meu horário...” Aí você tem que ser diplomático.
Luiza Inez,
jornalista e radialista

O grito de gol na floresta
Na Copa do Mundo de 2006, a emissora não tinha
os direitos de transmissão, mas foi liberada para que
transmitisse os jogos do Brasil para a Amazônia via offtube¹². Eu recebi uma carta de uns militares que estavam em Tefé, no Amazonas, agradecendo muito pela
transmissão do jogo do Brasil, porque se não fosse a
rádio, eles não teriam como ver. A meta da rádio não é
ganhar dinheiro, não é vender comercial: é levar informação para o povo brasileiro.
André Luiz Mendes,
radialista

12. O off-tube
acontece
quando o narrador não está
presente no
estádio e acompanha a partida
pela televisão. No
jargão radiofônico, é chamado
de “geladão”
porque não
transmite o calor
do jogo.

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Biografias

Biografias
André Luiz Mendes
Nasceu no Rio de Janeiro/RJ e desde pequeno, frequentava o Maracanã com o radinho de pilha sintonizado na
Rádio Nacional. O narrador esportivo entrou na emissora de Brasília em 1986 e apresenta o programa No
Mundo da Bola. André Luiz trabalha no meio esportivo
há 26 anos, e atualmente, é a voz padrão da TV Alterosa, de Belo Horizonte, e trabalha na TV Brasília.
Carlos Senna
Carlos Sérgio Oliveira Senna só não é brasiliense porque
o hospital de Brasília ainda não estava pronto e sua mãe
teve que se deslocar até Piracanjuba/GO para realizar
o parto. Começou na Nacional de Brasília como discotecário, em 1979, com 19 anos. Assessorou Eduardo
Fajardo na direção da emissora, foi produtor do Show
da Tarde e assumiu diversos cargos de chefia. É coordenador da Rádio Nacional FM Brasília desde 2004.
Clemente Drago
Clemente Drago de Oliveira, 69 anos, trabalhou na Rádio Nacional por 43 anos e foi um dos principais locutores da Voz do Brasil. Chegou à emissora em 1964.
Muitas das vinhetas e aberturas de programas que são
veiculadas atualmente ainda têm a voz de Drago.

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É bom viver Nacional

Cleusa Senna
Cleusa Oliveira Meneses Senna foi uma radialista pioneira em Brasília: além de ter criado, ao lado do marido,
o serviço de alto-falante A Voz de Brasília, foi a primeira mulher a fazer um programa voltado para o público
feminino na cidade, na antiga Rádio Independência,
atual Rádio Capital. Atualmente com 70 anos, Cleusa
Senna ainda mora em Brasília.
Cristina Guimarães
Teve seu primeiro contato profissional com a Rádio Nacional ainda como estagiária. Em 1999, Cristina Guimarães foi contratada como repórter, cobrindo diversas
áreas, como agricultura, meio ambiente e ciência, entre
outras. Já foi chefe de reportagem do radiojornalismo e
trabalhou na reestruturação da Central do Ouvinte. Foi
coordenadora da rádio por duas vezes, sendo que sua
última gestão foi de 2009 a 2010. Saiu da emissora neste
ano por motivos pessoais.
Edson Nery (Burrinho)
Edson de Jesus Nery, o Burrinho, nasceu em 1944 e
é funcionário da Rádio Nacional há mais de 40 anos,
quando entrou na emissora como contrarregra. Além
de supervisor de operações, Burrinho apresenta e produz o programa Alvorada Brasileira, na Rádio Nacional
da Amazônia.

Biografias

Edson Porto
Edson Porto nasceu em 1931, em Araguari/MG e é um
dos pioneiros de Brasília. Médico especializado em pediatria, Porto montou o posto médico da cidade e foi
diretor do Hospital Juscelino Kubitschek de Oliveira
(HJKO), o primeiro da nova capital. Esteve à frente de
um programa de saúde na Rádio Nacional até o começo
da década de 1960.
Edson Vitorino
Natural de Lavras/MG, onde reside hoje, Edson Vitorino chegou a Brasília em 1963. Entrou na Rádio Nacional de Brasília em meados da década de 1970, trabalhando como supervisor de operações. Trabalhou em
outras rádios na capital, como a Planalto, a Manchete
FM e a Rádio Jornal de Brasília.
Eduardo Fajardo
É um dos diretores mais lembrados pelos antigos funcionários da Nacional de Brasília. Carioca, mudou-se
para Brasília em 1960 e entrou na emissora em 1968.
Eduardo Fajardo chegou a gerenciar, simultaneamente,
a Nacional AM e a FM Brasília. Em 1986, voltou para o
Rio de Janeiro, onde trabalhou na Nacional do Rio de
Janeiro, na Rádio MEC e na TVE. Atualmente, mora em
Guarapari/ES.

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É bom viver Nacional

Eugênio Bucci
Natural de Orlândia/SP, Carlos Eugênio Bucci é jornalista e doutor em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo. Presidiu a Radiobrás de 2003 a
2007. É autor, entre outros livros, de Em Brasília, 19h
(Record, 2008), no qual relata a experiência à frente da
empresa. Atualmente, é professor da Escola de Comunicação e Artes (ECA/USP) e colunista da Folha de S.
Paulo e do site Observatório da Imprensa.
Fernando Lopes
Nascido em Piracanjuba, morava em Inhúmas/GO
quando decidiu mudar-se para Brasília. Deixou a Rádio Nacional quando esta passou a integrar a Radiobrás,
mantendo-se em seu emprego na Telebrasília e cantando
na noite brasiliense. Aposentado, com 78 anos, Eduardo
Gomes de Faria ainda é conhecido por Fernando Lopes.
Eventualmente, faz shows em ocasiões especiais, como
em comemorações dos aniversários das cidades do DF.
Lana Bittencourt
Batizada como Irlan Figueiredo Passos, Lana Bittencourt ficaria conhecida como “A internacional”. Cantora
de rádio desde 1954, foi eleita a melhor cantora do ano
de 1958 por júri especializado, recebendo o troféu Microfone de Ouro. Lana entoava sambas, sambas-canções,
rumbas e boleros e foi uma das artistas contratadas para
o show de inauguração da Rádio Nacional de Brasília.

Biografias

Lourdes Sallas
Lourdes Faieti Sallas é viúva de Dílson Carvalho Sallas,
funcionário que trabalhou emissora na década de 1960.
Atendeu ao chamado enviado pelo marido pela Rádio
Nacional e chegou a Brasília com os filhos em 1961.
Luciano Barroso
Natural de Coluna/MG, com 53 anos, Luciano Barroso
tem uma longa lista de programas que já apresentou na
Rádio Nacional, entre eles, Mini Parada Nacional, Show
da Tarde, Geração Colorida, BR Caminhoneiro e Tarde
Nacional, . Já foi coordenador da Nacional de Brasília.
Atualmente apresenta o Cidade 980.
Luiz Alberto
Luiz Alberto de Oliveira comanda o programa Eu de
cá, você de lá desde 1985. O radialista entrou na rádio
em 1980, como assistente de produção. Trabalhou como
locutor também na Rádio Capital.
Luiza Inez
Luiza Inez Vilela Ramos é de Campo Grande/MS, mas
chegou em Brasília com apenas sete anos e, por isso,
considera-se brasiliense. Começou na Nacional de Brasília na produção do programa Tarde Nacional. É apresentadora do Cotidiano há cerca de oito anos, programa
que já recebeu vários prêmios, entre eles, o Prêmio Engenho de Comunicação de melhor programa de rádio,
em 2006.

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É bom viver Nacional

Mara Régia
Carioca, Mara Régia é publicitária e jornalista. Entrou
na Rádio Nacional em 1979, para compor os quadros
da emissora da Amazônia. No mesmo ano, criou o Viva
Maria, um programa pioneiro no uso do rádio como
canal de expressão e mobilização social das mulheres
de Brasília na luta por seus direitos. Atualmente, apresenta o programa Natureza Viva, na Rádio Nacional da
Amazônia.
Marcos Tavares
Nascido em Campos dos Goytacazes/RJ, Marcos Antônio Flores Tavares chegou em Brasília em 1972, e no
mesmo ano, entrou na Rádio Nacional, com apenas, 17
anos. Logo destacou-se, passando de operador de áudio
a sonoplasta. Foi ele quem montou a maioria das vinhetas da emissora e as aberturas dos programas.
Mascarenhas de Morais
Nascido em Pires do Rio/GO, João Mascarenhas de
Morais veio para Brasília em 1958. Antes de ser contratado como operador de áudio, em 1960, foi balconista,
garçom, apontador de obra e foi descoberto nos programas de calouro da Rádio Nacional. É um dos profissionais pioneiros que continuam trabalhando na emissora. Apresenta o Saudade Nacional há dez anos.

Biografias

Meira Filho
Jornalista e radialista, João Assis Meira Filho nasceu em
Taperoá/PB em 1922 e começou a trabalhar na Nacional
de Brasília em 1958, onde permaneceu até 1964. O radialista comandou programas como O dia começa com
música, Programa Meira Filho e apresentou A Voz do
Brasil. Foi senador constituinte e cumpriu mandato de
1987 a 1995. Faleceu em 2008, em João Pessoa, vítima
de um aneurisma cerebral.
Messias Melo
Na Rádio Nacional há 28 anos, Messias Costa Melo iniciou na emissora como operador de áudio e chegou a
trabalhar no programa Geração Colorida, com Luciano
Barroso. Atualmente, é o responsável pela produção
sonora de grande parte dos programas veiculados na
Nacional da Amazônia e da Nacional AM de Brasília.
Também trabalha na Rádio Senado.
Miguelzinho Martins
Miguelzinho Martins Novais Filho nasceu em Brasília e
é advogado, jornalista, mestre-de-cerimônias e radialista há mais de 15 anos. Antes de entrar na Nacional de
Brasília, em 2004, passou pela Rádio 91, em Formosa,
e pela Rádio Manchete Brasília. Ingressou na emissora
através do primeiro concurso público após a promulgação da Constituição de 1988. Apresenta o programa
Tarde Nacional.

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É bom viver Nacional

Taís Ladeira
Entrou na Radiobrás em julho de 2003 para gerenciar a
Rádio Nacional da Amazônia. Com a criação da EBC,
Taís Ladeira foi convidada para comandar a gerência
das emissoras de Brasília, cargo que ocupa desde 2008.
Valter Lima
Valter Ângelo de Lima é natural de Anápolis/GO e é
radialista desde 1978, quando trocou as transmissões da
radiopatrulha pelos microfones das emissoras de rádio.
Na Polícia Militar do Distrito Federal, alcançou o posto
de sargento. Está na Rádio Nacional desde 1986, quando
assumiu o Revista Brasil, programa que apresenta até
hoje. Já trabalhou na Rádio Alvorada e na CBN.
Zair Cançado
Natural de Valença/RJ, Zair Augusto Cançado trabalhou na Rádio Nacional até 1963 e morou em Brasília
durante oito anos, quando decidiu voltar ao Rio de Janeiro. Foi um dos fundadores e primeiro presidente da
Associação Profissional dos Trabalhadores de Rádio e
Televisão de Brasília, que tempos depois se transformou
no sindicato da categoria. Atualmente, apresenta na Rádio Bandeirantes AM do Rio de Janeiro, os programas A
banda de música e seus convidados e Saudade teu nome
é música.