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A Civilização dos Bárbaros

Cruz Visigótica

. O Reino Vândalo – O estabelecimento dos Vândalos na
Europa e norte da África.
. O Reino Ostrogodo – A permanência efêmera dos Godos
na Itália.
. Espanha Visigótica – Uma monarquia bem sucedida,
porém complexa, que governou a Espanha e manteve
relações com Bizâncio durante séculos.

. Os Reinos Anglo-Saxões – Como vácuo do poder romano
permitiu a criação dos inúmeros reinos da Bretanha.
. O Reino Franco – Entre os godos, os Francos alcançaram
o maior sucesso possível na criação de seu reino,
afastando o perigo árabe, construindo uma cultura
própria e definindo as linhas gerais do que seria a Idade
Média.
. Os "Bárbaros Germânicos" - Como Roma conheceu os
povos “bárbaros” germânicos, e seus primeiros contatos.
. A Civilização dos "Bárbaros" – Os germanos tinham o que
podemos chamar de “civilização”? Neste texto, uma
discussão de seus aspectos culturais gerais – (comentado
por Bruna Leticia Colita)
. A ocupação do império no decorrer dos séculos V e VI –
Fernanda Espinosa nos apresenta, novamente, seleções
documentais sobre a instalação dos bárbaros no Ocidente.
. Migrações Bárbaras (sécs. V - VIII) - Uma sequência de
quatro textos de Jaques Heers de seu manual "História
Medieval", uma das fontes mais acessíveis para um
panorama geral da Idade Média.
. Os Reinos Bárbaros - Uma relação geral sobre os reinos
instalados na Europa e Mediterrâneo.
. A Civilização dos Bárbaros - Do mesmo Heers, neste
texto temos uma análise da perscpectiva cultural dos
bárbaros na Europa Romana.
. A Vida Intelectual e Artística nos Reinos Bárbaros - As
mudanças na vida artística e cultural dos reinos bárbaros.

O Reino Vândalo
Quando Genserico morre, em 477, os Vândalos são senhores do
Norte de África. Convém primeiro definir bem que eles só ocupam
apenas a parte oriental, a actual Tunísia e o Leste da Argélia; o
resto, «a Africa esquecida», como lhe chama C. Courtois, o maciço
de Aures, os planaltos do Oeste, a Mauritânia, escapam-lhes como
tinham de facto escapado à autoridade de Roma. Eles têm de se
defender das pilhagens que os pequenos chefes indígenas
organizam e daí advirá uma causa de fraqueza.
A segunda característica da realeza vândala é a coexistência das
duas sociedades bárbara e romana. A minoria vândala (80.000) não
procurou fundir-se com os Romanos ou Púnicos, sobretudo por
razões militares e religiosas. Os reis quiseram preservar o valor
guerreiro dos seus homens, e por isso impediram todos os
casamentos mistos e toda a conversão ao catolicismo. Além disso,
Genserico e Hunerico (477-484) perseguiram cruelmente a Igreja.
Segundo Victor de Vita, historiador das perseguições, perto de 5000
clérigos e leigos foram deportados para o Sul da Tunísia, enquanto
os bispos eram exilados para a Córsega e a Sardenha ou obrigados a
trabalhar nas minas. Numerosos católicos se refugiarão em
Espanha, na Gáli.a e em Itália, levando consigo importantes
manuscritos, em especial os de Santo Agostinho.
Ao mesmo tempo que conservam a sua religião, os Vândalos
conservam as suas leis, os seus costumes, e cobram pesados
impostos às populações.
No entanto, e é esta uma terceira característica da ocupação, não
mudam em nada a organização administrativa da África romana.
Estabeleceram grandes domínios (sortes), mas mandam-nos cultivar
pelo mesmo pessoal; deixam os romanos aumentar os impostos e
julgar as causas. O rei todo-poderoso é o único senhor do reino,

O reino germânico durara menos de um século. . as 45 tábuas chamadas Albertini. Continua a ser vândalo. por RICHE. os jogos recomeçam em Cartago. Sem o nome do rei Gunthamund inscrito em algumas delas. seu sucessor (523-530). escreve-lhe: «Vós promoveis os estudos entre as nações bárbaras que habitualmente reivindicam a ignorância como seu apanágio. constroem-se termas e a população pode crer que nada mudou. mostram que os contratos de venda continuavam a ser feitos de acordo com o direito romano. Preciosos documentos.» Cumprimento interessado. compreende-se o descontentamento dos «nacionalistas» vândalos e em 530 o golpe de Estado de Gelimer. mas que é um reflexo daquilo que se chamou impropriamente o «renascimento vândalo». Nestas condições. que pretende ser teólogo e compreender as poesias dos letrados. mas utiliza na sua corte romanos que redigem as leis em latim e o ajudam na sua administração. Pouco numerosos e com falta de treino. tal como Thrasamund (496-523). Além disso. o exército vândalo e a sua célebre cavalaria são rapidamente vencidos pelas tropas de Belisário (533). poder-se-iam ter tratado da época imperial. O rei Hilderico. que quer convertê-lo. Lisboa: europa-América. do nome do primeiro historiador que as estudou depois da sua descoberta a sul de Tebessa. que há muito procurava reconquistar a rica África aos Bárbaros. Certos príncipes deixam-se seduzir pela cultura antiga. primo do rei. protege igualmente os letrados e imita mesmo o imperador bizantino. P. s/d. Fulgêncio. pelo menos enquanto a paz religiosa se mantém. As Invasões bárbaras. sem dúvida. Este acto provoca a intervenção de Justiniano. O bispo de Ruspe.tendo o testamento de Genserico proibido a divisão das terras entre os seus herdeiros.

condes das regiões sagradas. etc. podemos traçar um quadro da vida social e da situação económica italiana no início do século VI. mas uma realidade.).isso não é uma simples fórmula. extensão da grande propriedade. tinha pela cultura antiga uma grande admiração e. confiou-lhe uma dura tarefa: a sucessão dos imperadores romanos. . Teodorico conserva a preocupação da Res Publica. Quando o imperador Zenão enviou o chefe ostrogodo para Itália.O Reino Ostrogodo Teodorico-o-Grande. um dos maiores dessa época. Ainda mais efémero vai ser o domínio gótico em Itália (493-555). A sua corte. Graças às cartas respeitantes à administração e reunidas por Cassiodoro em Variae e graças aos papiros de Ravena. é o ponto de encontro dos guerreiros godos romanizados e dos nobres romanos aliados à monarquia. Quando escreve ao imperador: «o nosso reino é uma imitação do Vosso». Junto do príncipe vivem grandes senadores. onde se encontram os grandes funcionários do passado (prefeito do pretório. para a manter. que redige as cartas e os edidos do rei. Ao contrário dos outros bárbaros. Teodorico (493-526). etc. Teodorico compreendeu bem essa missão. Educado em Bizâncio. . pelo menos no início do reinado. Sendo ariano. tanto no domínio político como no religioso. o mais célebre dos quais é Cassiodoro. não persegue os católicos. e até intervém para fazer cessar o cisma que perturbava a vida da Igreja de Roma (498). Pode-se verificar que os problemas postos no século IV preocupam ainda o governo (crise frumentária. conserva a organização administrativa do Império.). Mas toda a primeira parte é ocupada pelo reinado de um único príncipe.

e esta situação contraditória enfraquece a sua posição no final do seu reinado. Os reis bárbaros aceitam as alianças matrimoniais que Teodósio lhes propõe e os Burgúndios. através de Teodorico. ganha de novo um certo prestígio e acolhe como um imperador o bárbaro.O Senado. que a fortaleza de Sírmio defende de novo. o povo ostrogodo continua de fora e recusa a fusão. mas continuava a ser ariano. reconquistando a Dalmácia. as relações entre os dois Estados. Enfim. a Récia e a Panónia. Em 508. Para reatar a tradição imperial. Justiniano. Teodorico manda organizar jogos. que em 500 visita a cidade. têm de evacuar a península. nesta Itália. por meio dos seus condes ou de agentes directos. Os vizinhos da Itália têm de contar com este grande príncipe. o rei podia intervir em . que se mantiveram correctas durante esse reinado. ele protege a Itália. restaurar os grandes monumentos de Roma e construir em Ravena. tornaram-se tensas durante o governo do seu sucessor. o conde godo dirige em princípio os assuntos militares. os saiones. e faz todos os esforços para que essa Itália reconstituída fique amigavelmente independente do Império Bizantino. que manterá até ao fim do século VI. Teodorico tornou-se «romano». deixando a cargo dos curiales romanos os assuntos civis. Teodorico salva a monarquia visigótica de uma derrota total e ocupa a Provença. que a ocupação bárbara não parece ter transformado. assegurando assim a essa região a prosperidade. Se Anastácio (491-518) esperava ter. efectuar grandes trabalhos (secagem dos pântanos de Ravena e dos campos romanos). Teodorico concentrou os seus guerreiros no Norte da península. construiu igrejas arianas nos bairros das cidades reservadas aos Godos e proibiu aos Romanos o porte de armas. Nas cidades. de facto. que tinham aproveitado as perturbações de 493 para descer à Itália. Pavia e Verona. alguma influência no Ocidente. por razões mais religiosas que políticas. viu em breve desvanecidas essas esperanças. Para compreender a crise dos anos 524-526 deve-se notar que. ao qual Odoacro já concedera o direito de cunhar moeda.

No ano seguinte. escrita na prisão. há a ilusão de uma repartição de tarefas entre os dois elementos da população. quando Teodorico faleceu subitamente em Ravena (Agosto de 526). tudo vai desfazerse depois dele. . manda-o para a prisão. de tal modo é grande ainda a incompreensão e a rapacidade da sociedade gótica que o rodeia. a maior parte das vezes. que defendera tantos romanos. perante o fracasso da sua missão. o imperador Justino decide perseguir os arianos de Constantinopla. Em 524. por algum tempo aliados ao regime. Mas foi o indício da fragilidade da ocupação ostrogoda na Itália: tudo assentava na Personalidade do rei. que em breve. um magnífico testemunho intelectual. onde morre. entraria na lenda germânica. Estava-se nas vésperas de um conflito entre católicos e arianos. Boécio.todos os domínios. certos senadores continuam a ver em Bizâncio o centro da civilização e mantêm freqüentes relações com os imperadores. Se numerosos italianos se deixaram levar por esse duplo jogo. Teodorico encarrega o papa João I de pedir a Justino a revogação deste edicto e. mas. deixando na sua Consolação Filosófica. Essa crise do fim do seu reinado fora demasiado curta para fazer esquecer a grandeza da obra do príncipe bárbaro. dá-se bem conta da ambiguidade dessa situação: todos os esforços do rei bárbaro serão impotentes para fazer dele um romano. vieram a reagir contra ele. Resistência dos Godos à reconquista romana. Assim. certos senadores romanos. mestre do palácio e dos oficios. protege este último: é preso com ele e executado em Pavia. sob o nome de Dietrich de Berne (Verona). a polícia do rei descobre cartas trocadas entre o imperador Justino e o senador Albino. Como Boécio. o grande filósofo Boécio.

Fixemos algumas fases dessas guerras góticas de que o historiador grego Procópio nos deixou um precioso testemunho. os «nacionalistas» godos impuseram à regente o seu primo Theodahad. por razões políticas e religiosas. desfavorável ao povo ostrogodo. Boa ocasião de intervir para Justiniano.» Livre da ameaça persa pelo tratado de paz «perpétuo» de 532. depois descer pata o sul. que em breve faz desaparecer a rainha e toma o poder (535). uma criança de 10 anos. consegue resistir durante um ano e persegue Witiges no Norte de Itàlia.Sobrinho e sucessor do imperador Justino. . Justiniano pode empreender uma acção contra os Bárbaros do Oeste. Os primeiros sucessos dos Bizantinos (conquista de Nápoles. Para combater essa influência. conseguir abrir as portas de Roma (546) e recuperar toda a península e até as ilhas. que manda Belisário apoderar-se da Itália. cercado em Roma. depois triunfal entrada em Roma) fizeram crer que o exército dos Ostrogodos se renderia tão facilmente como o dos Vândalos. Sua mãe. mas alguns anos depois escolhem Totila para retomar a luta. Duas brilhantes vitórias permitem a esse grande guerreiro reconquistar a Itália continental. O sucessor de Teodorico era o seu neto Atalarico. o chefe godo é entregue por traição aos Bizantinos (540). Justiniano quer. Belisário. como sucedeu em Africa. Os Germanos submetemse. tirando proveito. fechado em Ravena. Amalaswinthe. A sua frota ataca as costas da Dalmácia e do Epiro e os seus exércitos expulsam os últimos «romanos». a minoria bárbara estava decidida a defender-se até ao fim e escolheu para chefiar a resistência oficiais de origem modesta que durante vinte anos lutaram energicamente contra os invasores «romanos» (535-555). No entanto. assegurou a regência e apoiou-se imediatamente no elenco romano. de uma crise interior. reconquistar o Ocidente: «Temos boas esperanças de que o Senhor nos concederá o resto desse Império que os Romanos outrora estenderam até aos limites dos dois oceanos e que perderam pela sua indolência.

atacar os Ostrogodos de flanco. Algumas fortalezas resistem ainda no Centro e no Norte da Itália. Os últimos Godos fundem-se com os Romanos e poucos vestígios. Espanha Visigótica Instalados nas mesmas condições que os seus «parentes» de Itália. Lisboa: europa-América. mas este privilégio custou-lhes caro. recordam uma ocupação de sessenta anos. Todo o país foi posto a ferro e fogo. érulos e sobretudo hunos. o seu camareiro-mor. no Apenino Umbrio: Totila é morto e toda a defesa desorganizada (552). no entanto. toma Ravena e desce ao encontro de Totila. Os Godos e o seu novo chefe. a não ser alguns vocábulos. a fusão das duas sociedades. que se deixam vencer perto de Cápua (554). a) Início difícil. que repele os Visigodos para a . que se opera em meados do século VI. mas não pode dar-lhe nem a riqueza nem a cultura que o bárbaro Teodorico tão notavelmente preservara. Justiniano reorganiza a sua conquista pela pragmática sanção de 554. mas em vão: a partir de 555. os Godos de Espanha poderiam ter tido a mesma sorte e desaparecer rapidamente. Partindo da Dalmácia. ameaçados pelos mesmos perigos. composto de mercenários lombardos. vai permitir a organização de um Estado que s6 a invasão árabe do século VIII destruirá em parte. destrói o exército gótico em Tadinae. a cidade foi três vezes cercada. As Invasões bárbaras. Narses avança para a planície do Pó. O seu exército de 20000 homens. Pouco depois da derrota de Vouillé. os Bizantinos são de novo os senhores da Itália. por RICHE. não se dá por vencido: em 551 manda o velho Narses. P. s/d. No entanto. Teias. lançam um apelo aos guerreiros francos e alamanos.Justiniano. conquistada e reconquistada. A Itália e Roma fazem de novo parte do Império Romano.

Aliados por algum tempo aos Visigodos. de que Justiniano se vai aproveitar para prosseguir a sua reconquista (tomada de Ceuta). o seu poder é abalado. a sua reputação é tal que os reis francos Sigeberto e Chilperico lhe pedem as filhas em casamento: uma delas. Justiniano morreu. mas. desde a partida dos Vândalos para a África. Com a morte de Atanalgildo. Brunehaut. parece ter herdado as qualidades políticas do pai. bispo . procura então desembaraçar-se dos seus aliados da véspera: para melhor resistir. Uma das primeiras tarefas do novo rei foi a conquista do reino dos Suevos. A energia do ostrogodo Theudis. b) Unificação política e conversão religiosa. se organizara na região ocidental da Península (ao norte do actual Portugal).Espanha. tudo parece anunciar o fim de um Estado que parecia fortemente consolidado. ocupar as costas desde Valença a Málaga e depois conquistar Múrcia e Córdova. revoltas na Andaluzia. A protecção do seu avô Teodorico permite-lhe fazer frente aos revoltosos. instalados nas Baleares. estabelece a capital. no sítio fortificado de Toledo. permite deter a invasão franca e repelir os Bizantinos para o mar. o rei é assassinado pelos seus soldados (531). No interior. proclamado rei. A luta entre o ariano Agila (549-554) e Atanalgildo permite aos Bizantinos. mas o seu assassinato volta a pôr tudo em causa. No exterior. Leovigildo (567). e com ele os sonhos de reconquista total da Espanha. Na corte. antigo governador de Espanha no tempo de Teodorico. o primeiro grande príncipe visigodo tem grande prestígio. os Francos procuram tomar a Septimânia e combatem Amalarico perto de Narbona. graças ao apostolado de Martinho. na planície de Castela. o filho de Alarico II vê-se ameaçado por uma revolta dos grandes e dos naturais da Tarraconense. que. e o seu sucessor recebe o reconhecimento teórico do novo rei. Atanalgildo. eles tinham-se convertido ao catolicismo. morto o rei ostrogodo (526). Surgem então insurreições no País Basco. o período crítico passou. que até então fora Barcelona e depois Mérida.

aula regia.de Braga. A sul reconquista Córdova e Málaga aos Bizantinos. que em breve deverão abandonar definitivamente as costas do Levante espanhol. pelo conde do tesouro público. dez meses depois da sua subida ao poder. para se defender das revoltas dos Bascos. uma espetacular abjuração. rei em 5867 não vai adoptar essa política religiosa. são enviados aos rectores das províncias e aos curiales das cidades. O terceiro concílio de Toledo (589) registrou essa conversão e organizou a luta contra o arianismo. enquanto a leste fortifica Narbona e Carcassona contra os ataques dos Francos. Nesta corte. A corte de Toledo continua a ser famosa pelo seu fausto «à romana». Várias campanhas foram necessárias para destruir o reino suevo. lembra muito a corte de Ravena: o príncipe. o arianismo do rei continua a ser um obstáculo à unidade moral. em 585. Os actos da sua chancelaria. que os bispos católicos e as cidades de sul apóiam. As lutas com o seu filho Hermenegildo. se a unidade política é realizada. o reinado do «unificador nacional» conclui-se por um saldo positivo. Sob a influência de Leandro. que abandonou o vestuário bárbaro. Daí nascerão numerosos conflitos que enfraquecerão a monarquia visigótica. está rodeado pelos seus seniores e é ajudado na sua administração pelo conde da câmara real. e assim se tornaram inimigos ferrenhos dos Gados. formalmente semelhantes aos de Bizâncio. juntamente com a sua família. O seu sucessor Recaredo. Romanos e Gados encontram-se e os príncipes gabam-se de serem letrados: Recaredo . Enquanto na Gália a conversão de Clóvis provocou a do seu povo. a sua moeda de ouro e mesmo a sua cultura. que. c) Características da monarquia visigótica. parecem reforçá-lo na sua posição. Assim. pelo conde do património. foi anexado à Espanha visigótica. se a fusão social começa a fazer da Espanha uma grande nação. etc. A corte do rei. Recaredo fez. Leovigildo funda Vitória. parece que em Espanha a aristocracia gótica abandonou mais lentamente as suas práticas religiosas. metropolita de Sevilha. A noroeste. Mas.

e os seus sucessores Sisebut e Recesvindo deixaram-nos nas suas poesias ou nas obras hagiográficas as marcas do seu talento literário. em doze livros. Quando não residem em Toledo. Os nobres não podiam deixar de seguir este exemplo. autorizados desde o fim do século VI. a cavalaria continua a ser exclusivamente gótica. um concílio reconhece o princípio da eleição dos soberanos. todos inspirados no direito romano. e os códigos visigóticos e suevos. os nobres cultivam. condensado da lei romana dada por Alarico II. o Breviário. grandes processos e que são aprovadas as decisões legislativas. O metropolita de Toledo é quem sagra os reis. o Liber Judiciorum. Em 654. dirige a política dos reis. o «renascimento» das letras. Em 633. a Igreja desempenha um grande papel na monarquia. mas não sabemos em que medida essa decisão foi . Conservam eles a sua própria legislação? Até meados do século VII. as terras que a partilha lhes concedeu e que estão situadas sobretudo no Norte da Meseta (campos góticos). Só a Septimânia conserva a dualidade jurídica. E aí que são julgados os. ou contra aqueles que recusam o juramento de fidelidade ao rei. mas as lutas comuns contra os Suevos e sobretudo contra os «Romanos» permitiram o despontar de um sentimento nacional que a conversão dos Godos ao catolicismo veio reforçar ainda mais. e preside com eles aos numerosos concílios de Toledo. o rei Recesvindo suprime esta personalidade das leis e promulga um código uno. Os outros factores de aproximação foram os casamentos mistos. Sem dúvida. e a entrada dos indígenas no exército. Não somente é nela que nasce. pelo menos a partir de 672. A partir de 589. E aí que são elaborados os decretos contra os Judeus. mas sobretudo é ela que. Hispano-Romanos e Visigodos têm uma dupla legislação. directamente ou por meio dos colonos hispano-romanos. à volta de Isidoro de Sevilha. únicos elementos inassimiláveis da população espanhola. com efeito. para completar a fusão. que podem ser considerados como as cortes da monarquia visigótica.

O destino das realezas germânicas estava. este papel terá sido o apelo directo ou o abandono? Enfraquecido por estas lutas internas.seguida. arruinado economicamente pelas perseguições dos Judeus. E estas lutas foram numerosas no século VII. refugiando-se nas montanhas das Astúrias. Lisboa: europa-América. vêem na anarquia do século VII aparecer já elementos de vassalagem: o rei cerca-se de uma corte de fiéis (os gardingos) que. Um outro ponto dessa história permanece ainda obscuro: o papel desempenhado pela nobreza na invasão dos Bárbaros. Para explicar a originalidade da ocupação germânica na Inglaterra devem-se realçar em primeiro lugar dois factos importantes: A . desaparece na batalha de Guadalete (711). Em 722. no início do século VIII. os Visigodos tentam. retomar a ofensiva. o último rei godo. o reino visigodo não teve forças para resistir aos guerreiros de Tárique. de que a literatura árabe se apoderou. sobretudo se alguns se mantiveram arianos. s/d. 1492). libertar os soberanos das garras do clero ou. apesar da fusão das populações. mas serão necessários sete séculos para que esta «reconquista» consiga expulsar o Islão da Península Ibérica (tomada de Granada. Quererão os nobres. mais perto do berço dos povos bárbaros. por RICHE. procurarão tornar-se independentes? Certos historiadores. Assim. o defenderiam da ambição dos grandes nobres. P. ligados por juramento e dotados de terras. aliás. As Invasões bárbaras. a realeza bárbara de Espanha não pôde manter o seu domínio. Os Reinos Anglo-Saxões a) Condições da ocupação. como Sanchez Albornoz. O que podemos dizer é que o deus católico apóia constantemente os príncipes nas suas lutas contra a aristocracia. Roderico. Simbolizado pela traição do enigmático conde Juliano. mais provavelmente.

Mas. os Germanos retomam a ofensiva e repelem os Bretões para o Oeste. só os clérigos se recordarão da linguagem dos ocupantes. parece que a conquista germânica foi feita em duas fases. Os Romanos tinham lutado durante muito tempo contra a resistência bretã. Roma ocupou a Bretanha. de espantar que esse povo não tenha aceita do a ocupação germânica. quando começam a deixar a ilha. as lendas abundam e.fraca «romanização» desse território e a encarniçada resistência das populações locais. O génio romano. não sendo. e um opúsculo moralizador do monge Gildas. mas não a civilizou. cidades fortificadas onde se instalam colónias militares. os invasores instalam-se em pequenos grupos nas regiões orientais: os Jutos ocupam a ilha de Wight. se entre os heróis da resistência o rei Artur é o mais popular. Todo um equipamento militar deixa sem dúvida vestígios: estradas estratégicas. quando as legiões recuam para o Sul (a partir da segunda metade do século IV) e. Por volta de 450-500. por todo o lado conseguira impor a língua latina. os Anglos. Pouco sabemos desta longa luta: as únicas fontes quase contemporâneas são uma passagem da Vida dos Germanos. está longe de ser o único. A invasão germânica não lhes permitiu levar muito longe essa reconquista. entram rapidamente em decadência. falhou aqui. a acção romana é em breve diluída e as cidades de Iorque. mas. Na segunda metade do século VI e no século VII. as planícies ao Norte do Wasch (East-Anglia). pois. é preciso reparar que nem todas as regiões montanhosas da Inglaterra sofreram essa ocupação. de Londres. podiam pensar em reconquistar as regiões do Sudoeste. Confrontando textos históricos e lendários. Mais ainda. depois. de Lincoln. muralhas. Severn torna-se a linha fronteiriça e os planaltos da . Nas regiões arborizadas na bacia de Londres e nas terras do centro habitam os Bretões. em 407. os Saxões. de Auxerre. à partida das últimas legiões. o Essex e o Wessex. se os factos faltam. os Celtas conservaram ali às suas instituições e. por algum tempo prósperas.

os Bretões oporão a sua liturgia à dos Germânicos e as relações entre as diferentes serão nulas ou hostis. de Bede (morto em 735). nada sabemos sobre o início das realezas anglo-saxónicas. Não sabemos o seu número: falou-se da «heptarquia inglesa». no fim do século VI. a anarquia política: enquanto os reinos bárbaros do continente conhecem muito rapidamente uma relativa unidade política e se pode falar do reino dos Francos ou dos Visigodos a partir do século VI. poucos nomes bretões na toponímia da Inglaterra. Instalados em pequenos grupos isolados uns dos outros. enfim. os Bretões não aceitam o domínio dos Anglo-Saxões. e enfim as leis de Athelbert de Kent e de Ine de Wessex. Bernicie e Deirie (Iorque). Eis. tentaram reconstituir a sociedade anglo-saxónica do século VI. o País de Gales são o refúgio das populações célticas. primeiro poema em língua vulgar. Alguns deles. Vencidos. Além disso. sem dúvida.Cornualha e. Nesse ponto ainda as lendas nos descrevem a fixação dos primeiros reis do Kent. os conquistadores vão manter-se fiéis às instituições germânicas. os povos invasores vão formar principados independentes e inimigos. povos que nenhuma influência vai contaminar e isto é para o historiador das “invasões bárbaras” um precioso testemunho. b) o início das realezas anglo-saxónicaso Instalados numa região que nada conservou da ocupação romana e onde os povos locais recusam a fusão. de Mercie ou de Nortúmbria. mas em dezasseis ou dezoito. o Beowulf. a fusão não se faz: nem uma palavra do britânico na língua anglo-saxónica. Mas os historiadores ingleses não querem aceitar esta lacuna e. que formarão a . mesmo nas regiões orientais. não existe reino anglo-saxónico unificado. de facto. mas. Infelizmente para ele. nenhuma mistura de povos. vão. mesmo depois da conversão religiosa dos Anglos-Saxões. utilizando os dados da História Eclesiástica. não em sete reinados. a Inglaterra divide-se. crescendo à custa dos vizinhos e podem-se distinguir. mas a realidade dos factos escapa-nos e a história desses reinos começa a ser conhecida no século VII. Fixemos alguns aspectos. Primeiramente.

Toda a história inglesa do século VI ao século IX é preenchida pela luta de influências desses pequenos reinos. pouco antes das invasões dinamarquesas do século IX (reinado do rei Alfredo). As fontes do século VII que já citamos mostram-nos os chefes de bandos que se tornaram reis rodeados de uma nobreza de guerreiros. ou. depois pela dos escravos libertos (laets) . por fim.Nortúmbria. ao sul do rio Humber a East-Anglia e Mercie (“marcha” contra os Bretões) e. essas instituições conservam a marca do sistema germânico e. a base da sociedade parece ser formada pela multidão de camponeses livres (os ceorls). até ao momento em que o Wessex dominará definitivamente. Essex Sussex e Wessex. finalmente. está agora ultrapassada.e. No conjunto. depois da conquista. de Offa. Os reinos de Inglaterra ficam durante muito tempo em contacto comas civilizações escandinavas. e delimitam-se os seus períodos falando da supremacia de Ethelbert de Kent (fim do século VI). ou a comunidade de aldeia (township) . As instituições anglo-saxónicas diferem conforme os reinos e a idéia de um «sistema anglo-saxónico» primitivo. esta influência germânica seria confirmada. os velhos formando um conselho político que mais tarde tomou o nome de witenan-gemot (assembléia dos anciãos). pela dos escravos (theows) vindos da Germânia ou escolhidos entre os Bretões vencidos. rei de Mercie (757-796).cuja origem é ainda muito obscura -. os jovens educando-se junto ao príncipe. enfim. a dos eorls. os estados meridionais de Kent. a religião dos Anglo-Saxões. concebida no fim do século XIX pelo grande historiador Stubbs. À antiga nobreza dos companheiros de armas (thanes) junta-se. Abaixo destas nobrezas.pelo menos no Kent. uma nova nobreza dotada de terras e encarregada de funções administrativas. de Edwin e de OswaId de Nortúmbria (primeira metade do século VII). se estudássemos a organização judicial e as tarifas do Wergeld. A descoberta do barco funerário .

Enquadrado pelos planaltos de Champanhe e do Jura. se Gondebaud conservou até à morte esta crença religiosa. parece que a fusão das suas sociedades se fez bastante cedo. os Burgúndios tinham sabido aliar·se às populações romanas e conservar boas relações com o Império. deixou fama de príncipe humano e inteligente. Lisboa: europa-América. sem dúvida por galo-romanos. P. O Reino Franco a) Desaparecimento da realeza borgonhesa.de Sutton Roo (East Anglia) e do seu tesouro é uma brilhante confirmação desse facto. particularmente em Nortúmbria (ourivesaria e miniaturas). Esta grande personagem da família senatorial dos Aviti. Santo Avito. ele não era nada intolerante e o seu principal conselheiro foi o bispo católico de Viena. por RICHE. rei em 485. O que poderia tê-lo impedido era a fidelidade dos Burgúndios ao arianismo. a sua capital a Lex Romana Romanorum. Estas leis determinaram a partilha das terras e as relações jurídicas entre as pessoas. s/d.o velho inglês . conseguiu levar ao catolicismo o sucessor de Gondebaud. este reino ocupava o corredor rodaniano até Avignon e interceptava' todas as relações entre a Gália e a Itália. um para a população das grandes cidades e de Lião. dois códigos. Clóvis não conseguira anexar o reino borgonhês. A posição e a organização da Borgonha pareciam dar a esta realeza hipóteses de perdurar. cuja influência será grande no continente. que parecia destinado a formar um enclave no reino franco. chamada depois «Lei Gombette». De facto.constituir-se-á mais rapidamente do que no continente e uma arte será criada. Instalados desde 475. primo e discípulo literário de Sidónio Apolinário. seu filho . outro para o seu povo. mas mantiveram a desigualdade entre Bárbaros e Romanos. Porém. As Invasões bárbaras. Uma literatura em língua vulgar . a Lex Burgondionum. Gondebaud. mandou redigir.

3. Ao contrário dos príncipes godos. b) A realeza franca no século VI A conquista da Borgúndia não passa de um episódio da expansão dos Francos em direccão a leste. os vizinhos do seu reino eram demasiado ousados. que os sucessores de Teodorico. isso é . mas o seu irmão Godomar conseguiu manter-se até 5. Os filhos de Clóvis herdaram o ímpeto do pai. Só o interesse e o capricho o fazem agir e a idéia do bem comum lhe é estranha. Só o nome de uma província. sobrinha e vítima de Gondebaud. Infelizmente para Sigismundo. Se lhes é possível reunir os seus esforços é porque. o rei merovíngio lembra mais os chefes germânicos que os imperadores. Clotilde. não tiveram possibilidade de defender: a posse de Arles e de Marselha fazia do reino franco uma potência mediterrânica (536). Um novo ataque dos Francos obrigou-o a fugir e o seu reino foi partilhado entre Childeberto. enquanto. Ele herda dos seus antepassados não só o traje. encorajados pela mãe. a Barganha. Destas instituições a principal é a monarquia. Retomando os projectos de seu pai. lembrará a efémera permanência destes germanos. os seus aliados astro gados ocupavam as planícies do Baixo Ródano e Sigismundo foi aprisionado e torturado. características comuns e instituições semelhantes. Eles ocuparam mesmo a Provença. Nada restará da ocupação dos guerreiros de «Gunther» na Gália. contrariamente aos reinos anglo-saxónicos. os filhos de Clóvis invadiram a Burgúndia em 52.Sigismundo (516-523). os reinos francos nascidos das múltiplas partilhas (teilreiche) que a morte de um soberano ocasiona conservam.34. porém. Se certos decretos revelam preocupação pelo bem comum. ameaçados por Justiniano. no Sul. impõem o seu domínio aos Turíngeos e aos Bávaros a leste e dominam os Saxões e os Frisões a norte. Clotário e o seu sobrinho Teodeberto. Tudo parecia anunciar um grande reino. como os hábitos de guerra e de devassidão.

ou ratchimbourgs. O merovíngio que reina sobre populações romanas deixou. são quase os únicos a ter uma cultura e. . nos limites da cidade. galo-romano (dos 536 bispos reunidos nos concílios. o exercício da justiça muitas vezes se confunde com a percepção dos direitos de justiça. Estes bens. numerosos autos escritos. sem dúvida os notáveis da cidade. resgatar os cativos. etc. o sinischal. com efeito. os dignatários que seguem o rei são os camerarius. que. peagens. têm plenos poderes: mandam aumentar os impostos segundo o hábito imperial e as taxas indirectas (alfândegas. o bispo. devemos igualmente mencionar o referendário. dirigem os debates do tribunal (mallus) e são ajudados nessa tarefa por aqueles que os textos chamam Boni Homines. De origem aristocrática. responsável pelas cavalariças. administrador da villa real. 28 têm nomes de origem germânica). em especial da do tesouro. os bispos têm a confiança do rei e a simpatia das populações. O “palácio” continua a ser uma espécie de acampamento que se desloca segundo as necessidades materiais. de que dependem os serviços administrativos do rei. todos redigidos por galo-romanos e que lembrariam os autos imperiais se as regras do latim neles fossem observadas. em geral. o que é mais importante. recrutam os exércitos quando rebenta uma guerra com um soberano vizinho. chefe dos lacaios. O bispo merovíngio é. graças ao privilégio de imunidade. igualmente poderoso.) para maior proveito do tesouro real. Sendo. Os abusos de poder do conde não são raros. ou o marischal. Sem dúvida. possuem numerosas terras. que a caridade e a piedade dos fiéis aumentam continuamente e que mais tarde. entre 475 e 576. mas são denunciados por aquele que se torna uma espécie de defensor da cidade. o major domus. que toma conta das câmaras. permitem-lhes sustentar os seus clérigos. portagens. Para fazer aplicar os editos nas diferentes regiões do seu reino. escaparão ao controlo fiscal do rei.devido a uma influência eclesiástica. direitos sobre as mercadorias. os principes enviam condes francos ou romanos. Da mesma forma. com efeito.

consegue impor a sua política aos reis merovíngios e. Mas essa fusão realizou-se quase exclusivamente nas regiões compreendidas entre o Loire.A acção dos bispos contribui em parte para realizar a fusão entre os diversos povos da Gália. o Marne e o Escalda (Nêustria). . Carlos. Desta vez. Borgonha. bispo de Metz. conta. São essas regiões. aumenta constantemente. a história de todos aqueles que são súbditos dos Merovíngios e que. a família austrasiana ganha uma situação sólida e o filho de Carlos. é sagrado o novo rei à maneira dos reis visigodos. Noutros lados. Mas teve sobretudo o apoio da Igreja e do arcebispo de Mogúncia. Provença). pregadores ou taumaturgos. nula (Armórica) ou preponderante (regiões do Leste). A isto acrescenta-se o prestígio religioso desses "homens de Deus». A aliança que se estabelece entre a igreja católica e a família .socorrer os pobres. conscientemente ou não. que no decurso das guerras civis que se seguem ao reinado de Dagoberto (629-639). a influência germânica foi muito fraca (Aquitânia. consultado o papa. etc. construir igrejas ou monumentos de interesse público (fortificações. graças a Pepino de Herstal. A morte deste provoca de novo a anarquia. mas um dos seus bastardos. cujo centro de gravidade se desloca das regiões marítimas para os vales do Mosa e do Reno. chamadas Austrásia no século VII. c) A preponderância austrasiana nos séculos VII / VIII. na verdade. diques. se sentem solidários no mesmo destino. restabelece a situação e tem a sorte de deter perto de Poitiers uma invasão muçulmana (732). Quando Gregório de Tours escreve a História dos Francos. vence os Neustrianos (687). este aprovou a mudança de dinastia. Pepino apoiou-se nas forças germânicas do reino. com quem realizara a reforma eclesiástica na Gália. Uma família descendente de Pepino de Landen (perto de Liege) e de Arnoul. Além disso. que. São Bonifácio. vão decidir a sorte da Gália Franca. Enfim. pode aprisionar o último merovíngio e tomar o seu lugar.). Pepino-o-Breve. Para realizar o que se chamou o «golpe de Estado de 751». no meio da anarquia geral do século VII.

geógrafo de origem grega (século 1). impedia a expansão germânica. s/d.C. em contato com o mundo germânico.C.). Os galos gozaram de um tal prestígio que suas instituições foram imitadas pelos germanos até na Escandinávia. Modernamente. Lot considerou germano como um termo céltico empregado pelos remenses em relação a seus vizinhos do leste. O historiador grego Posidônio publicou. apenas provisoriamente. parece que a palavra era estranha à própria língua germânica. pela primeira vez. Nórica. As Invasões bárbaras. Germani indicaria aqueles que estavam unidos pelo sangue. Os romanos até então desconheciam que. P. Lisboa: europa-América. encontravam-se os povos germânicos. Os "Bárbaros Germânicos" Por volta de 320 a. Musset também concorda com essa opinião ao assegurar que o .). o relato de suas viagens através do Ocidente: dele se originou a teoria segundo a qual a palavra germano designava o conjunto de povos instalados entre os rios Reno e Vístula. Traçou sua rota até o mar Báltico e a embocadura de Ems.C.carolíngia está destinada a ter futuro.. Para Mitre. sendo aplicada. Celta e galo eram termos utilizados indistintamente para nomear os habitantes do norte e centro da Europa. Estrabão. Logo estabeleceram-se outros contatos com as vanguardas das primeiras migrações no mar Negro (fins do século lII a. nas vésperas da conquista romana da Gália (século I a. Espanha e Itália (113 a 101 a. pelos romanos aos galos.) e na Gália. Píteas de Marselha empreendeu um périplo de exploração comercial em busca de âmbar e de estanho. julgou que o termo era um vocábulo latino advindo de germen. por RICHE. efêmero senhor desta região. entrando. O mundo celta. na retaguarda de seus inimigos celtas.C. em princípio.

vandili (compreende os burgundiones. os sicambrios). os germani cisrhenani. A civilização germânica estaria influenciada pelos celtas e ilírios. desde Estrabão até Tácito. O Velho. Os autores latinos elaboraram diversas classificações dos germanos: Plínio adotou o critério topográfico . hermiones (compreende os suebi. Esta hipótese é a mais aceitável pela historiografia. Por sua vez. ingaevones (compreende os cimbri. os varini. estes povos receberam o aporte de outros povos. istaeones (povo único de nome modificado. os hermunduri. hermiones e istaevones. Tácito seguiu a genealogia mítica: o progenitor comum. Outros consideramnos como nórdicos que ocupavam as regiões escandinavas e bálticas e estavam isolados pela floresta germânica. os chetti e os cherusci) e peucini ou basternae. . os charini e os gu. os teutones e os chauci). aumentando assim a possibilidade do vocábulo ser céItico. A origem dos germanos é incerta. antepassados dos ingaevones. e até pelos povos mediterrâneos. que os vê como autóctones. Tácito e Ptolomeu. Plínio. favorecidos após um século de guerras e contatos comerciais. no aspecto etnológico.tones). A maioria das tentativas de classificação das tribos baseou-se na origem genealógica. Na Idade do Bronze. A distinção entre os povos galo e germânico apresentou-se entre os romanos nas obras de César. Estrabão. dos quais adotaram a língua indo-européia. manuus (homem). efetuadas por historiadores interessados. Porém. e seus três filhos. diferem entre si na denominação das tribos e nem coincidem nos grandes grupos. Os quatro últimos autores tentaram elaborar algumas sínteses. principalmente. Basicamente existem três hipóteses. Estas divergências expressam talvez as sucessivas fases do desenvolvimento histórico. A última foi formulada por Tácito. Alguns estudiosos alemães acreditam que os germanos sejam indo-europeus vindos da Rússia oriental.termo não era de origem germânica e se referia às tribos semiceltas da margem esquerda do Reno.

no centro da Alemanha e Bohemia. os lombardos. congregando diversos povos (ali mann). a leste do mesmo rio. e sálios. localizado ao norte. . no século lII. chamavos. No segundo grupo há lugues. na Ucrânia. suevos (marcomanos. borgonheses. Os vândalos silings. e dividem-se em dois segmentos: ripuários. bastamos e sciras. Os burgundios. varnes e jutos. que se estabelecem sobre o Main. por sua vez. na península da Jutlândia. chamavos.. estão os alamanos. na foz do Oder e Vístula. dos quais os vândalos constituem um ramo. Entre a foz do Elba e do Weser. anglos. herrniones (batavos. diferem nas suas classificações. seria o dos escandinavos. ). encaminham-se do Oder em direção ao Reno. a oeste do Dnieper. ao sul dos istaeones. não longe dos vândalos hasdings. e em ostrogodos (godos "brilhantes"). godos e gépidos. originários talvez da ilha báltica de Bornholm (borghundarholm). quados. chattos etc. mais a leste. no Baixo Vístula. vindos do Báltico. vizinhos dos rugios. istaeones (francos: sicambrios. de Bonn a Colônia. saxões e frísios). Lot opta por urna bipartição: germanos ocidentais e os setentrionais e orientais. rugios. no Olbia (século II). No leste. hérulos. os godos. na Pomerânia (século II). turingios e alamanos). no sul da Jutlândia e parte das costas do mar do Norte. sálios . entre o Elba e o Oder.A historiografia moderna utiliza-se de duas categorias: geográfica e lingüística. O primeiro analisa o momento da invasão do século V e divide os povos germânicos em três grupos. apesar de adotarem a geográfica. e. a oeste. lombardos. instalam-se os saxões e frísios. Cárpatos e mar Negro (século lI). Os primeiros se subdividiriam em ingaevones (cimbrios. Há ainda os gépidos. O último grupo. que descem do Báltico e se instalam sobre a Thiza. ocupam a Silésia e comprimem os marcomanos na Baviera. No outro grupo. repartem-se em visigodos (godos "sábios"). varnes. teutões. Riché e Lot. chattos). bructeros. cheruscos.. no Báltico (século I). entre o Reno e o Escalda. empurrados pelos gépidos. Os francos absorvem os sicambrios. anglos. no Baixo Elba. sobre a margem do Rena.

pois as grandes divisões. e ainda se concede. germânico do mar do Norte (anglo-saxão. godo-escandinavo (dialetos nórdicos e ósticos na classificação tradicional). vândalo. todos desaparecidos) e vésticos (francos. esta classificação está sofrendo uma revisão. alamanos... Tradicionalmente. De fato. originando o seguinte esquema: germânico continental (francos. frísio) e talvez um germânico do Elba. alamanos. Por SONSOLES GUERRA. frísios. à própria ordenação dos grupos. existem muitas possibilidades de classificação segundo a importância que se concedeu. bávaros. sobretudo também. ). M. bávaros. anglos. bastamo. traàição tribal. e. Os Povos Bárbaros. determinadas instituições da vida social e do culto. lombardos . ósticos (burgundio. 1987. Contudo. origem. alemão. rugio. divide-se em três dialetos: nórdico (escandinavo antigo e línguas modernas surgidas a partir dele). fundamentaram-se em princípios distintos e compreendiam somente urna parte de toda a Germânia.A distinção pela língua desenvolveu-se a partir da gramática comparada. Somente quando a transmissão de dados da tradição se realizou sob condições muito favoráveis é que foi possível incorporar com exatidão a um mapa moderno o catálogo de povos da Antiguidade e combiná-los com os estudos de classificação arqueológica. A Civilização dos "Bárbaros" . que da literatura antiga surgiram. no começo do século XIX. São Paulo: Ática. Sobre isto é difícil chegar a um acordo nas circunstâncias atuais. em vista da proximidade relativa do nórdico com o gótico e dialetos afins. continua ainda em questão quais eram os povos que estavam compreendidos nos diversos grupos existentes. holandês e inglês modernos). Apesar de tudo. lombardos. ao idioma. saxões. por fim.

organismo com funções judiciais e de recrutamento . na Bélgica. Numa posição superior estava a centena (fundamentada no distrito ou gau). que é complexa e variada. na família. enfim. não é como um inimigo que ele o descreve nos seus mais diversos aspectos. sob a dinastia Flávia. a manifesta simpatia de Tácito pelos germanos e seu conhecimento deste povo fazem crer que fora filho do procurador eqüestre da província dos belgas. A base de toda a estrutura social estava na sippe (comunidade de linhagem que assegurava a proteção ao grupo de pessoas sob sua autoridade). foi questor e pretor em 88. O autor nasceu em 55. daí a vigência de sua obra. que se obtém uma visão mais detalhada dos costumes e da vida dos povos germâ-. que em muitas ocasiões completam e melhoram o relato de Tácito.É na obra de Tácito. Tácito também empregou material contemporâneo. Germania. Em Germania. com a administração da Ásia. adversário temível do Império Romano. É bem possível que Tácito tenha desempenhado um cargo próximo à Germânia. Porém. de obter um corte transversal dessa região até fins do século I. Sua vida social estava centrada na comunidade. em que o indivíduo encontrava sua razão de ser. imprescindível para a compreensão da "civilização bárbara" . cônsul nos tempos de Nerva. tem-se a possibilidade. portanto. ater-se-á às características mais gerais dos germanos Aspecto social Os germanos desconheciam Estado e cidade. na tribo. no clã. que se constituíram naquele conjunto histórico e cuja organização interna pode se distinguir da dos vizinhos com toda a nitidez. Ainda que a Germania tenha se baseado. em parte. durante sua ausência de quatro anos de Roma. A obra de Tácito torna-se. nos antigos relatos. Caso se considerem as fontes arqueológicas. Este período é um momento considerado fundamental no processo de formação dos diferentes povos. o que facilitou o relato sobre aquele território e seu povo. nicos. pouco freqüente para outros povos. alcançou seu mais alto posto oficial sob Trajano. Porém.

quando eram vítimas. domésticos ou dedicados ao cultivo das terras. a esposa tornava-se encarregada da transmissão ao filho do seu dote em armas e animais e dava uma arma ao esposo para mostrar que estava pronta a dividir o perigo da ocupação de guerreiro. quando então eram armados como guerreiros pelo seu progenitor para integrarem a corte do chefe. passavam da autoridade paterna para a do marido através da venda e em troca de um dote (animais ou armas). Por último havia os escravos. que estavam . até os dez ou quinze anos. as filhas. os filhos encontravam-se. Eram numerosos. o pai exercia autoridade absoluta sobre esposa e filhos: a infidelidade feminina era castigada com a morte e repúdio. sob a autoridade do pai e ocupados com tarefas domésticas e o cultivo da terra. quando eram criminosos. de povos vencidos. Além de portarem armas. como ocorria com os sálios (chrenecruda). A solidariedade familiar era também comprovada pelo pagamento das dívidas. Podia inclusive haver transmissão de dívidas.militar. O wergeld foi criado para diminuir os excessos da vingança privada e restabelecer a ordem desejada pelos deuses. Para isso. Em um escalão inferior. e vingança. estipulavase uma quantia proporcional à importância do delito ou à posição social da vítima. A mulher participava intensamente da vida do marido. que era responsável por suas faltas. o jovem continuava juridicamente na sua família. dívidas e vingança. oriundos. prisioneiros de guerra ou devedores insolventes. Eram cativos. mas talvez não constituíssem maioria em todos os lugares. os guerreiros. tinham o direito de expor nas assembléias sua opinião. já que a mulher era a guardiã da pureza. liquidação do wergeld (preço do sangue) ou compensação pecuniária. estavam os semilivres. O elemento social fundamental eram os homens livres. Dentro da família. Mesmo assim. sempre tuteladas. cuja morte implicava uma indenização elevada. através da guerra privada (faida). Quando do casamento.

proprietária da maior parte das terras que dirigiria a tribo (adalingi). porém. pois somente uma família dava ao germano possibilidade de ser livre. em muitos povos.ligados à cultura do· solo. O considerável grau de influência da nobreza germânica pelo viver daquele povo de ginetes pode ser evidenciado pela situação que se apresentou na época das grandes "invasões bárbaras". esperando uma nova ocasião. Podiam ser resgatados. influência da vizinhança dos povos iranianos que faziam grande uso do cavalo. Musset considera duvidosa a existência. espadas longas com duplo corte e machados. revela que possuíam um autêntico exército profissional provido de um corpo . A guerra era a razão de ser do germano. Tácito. Uma das principais atividades dos germanos estava ligada à guerra: a metalurgia das armas. Suas armas eram principalmente ofensivas: lanças. Porém. de uma nobreza estranha às famílias reais. ao se referir aos chattos. se matavam no campo de batalha ou se entrincheiravam nas fortalezas da floresta. caso fossem vencidos. para uma curta expedição. Somada à técnica. não faziam parte do povo germânico. Esta superioridade técnica proporcionava uma vantagem garantida aos germanos nas guerras que empreendiam. A organização dos exércitos "bárbaros" descansava no serviço de todos os homens livres em estado de combater. que devia sempre estar preparado para o ataque. Aspecto político O caráter militar é o traço mais típico da sociedade germânica. Estes. pelo menos. Este grupo tinha a prerrogativa de servir nas tropas de cavalaria. Os achados arqueológicos confirmaram toda essa belicosidade. havia também a estratégia. As mulheres também davam sua contribuição. Riché acrescenta uma aristocracia de nascimento (linhagem) ou de valor. equipar-se e alimentarse. pois nos túmulos encontraram-se grandes quantidades de armas. incentivando os guerreiros. tornando-se semilivres. arte na qual eram insuperáveis.

o que ocasionava duradouras guerras. formado pelos chefes que congregavam grupos de jovens guerreiros que haviam prestado juramento e cuja fidelidade tinha sido provada. Os reis acrescentavam à sua autoridade o prestígio religioso. como o botim. empreender a guerra ou julgar contendas entre as tribos. Foi desta nobreza que saíram os chefes do exército da época tardia. Em tempo de paz. para discutir a eleição do chefe. e as únicas subdivisões sólidas encontravam-se no exército. Uma vez por ano. o séquito (comitatus). A rivalidade entre os clãs originou. os chefes hereditários ou escolhidos (duces) tinham um poder quase absoluto. surgiu o grupo dirigente da formação política.. Deste setor.se dos esforços em obter influência na direção dos grupos políticos. Em tempo de guerra. A base da hierarquia social caracterizava~se por uma instituição essencialmente guerreira.de engenheiros e dotado de perícia para manobrar. Porém. os grupos se reuniam em um lugar sagrado. os poderosos somente tinham a autoridade que lhe conferiam sua influência social e número de fiéis. Criava-se assim um setor de pessoas dependentes e um grupo de homens livres para o serviço de armas na guerra e nas expedições de botim. . adotaram-se as divisões territoriais. Os chefes e seus jovens companheiros eram organizados para o combate por tribos. O enriquecimento dos chefes favoreceu sua transformação em proprietários. Os objetivos fundamentais eram de ordem militar.. o verdadeiro poder pertencia à assembléia local de homens livres (mallus). que era celebrada periodicamente ao ar livre. exceto no que diz respeito aos direitos elementares. perto de uma árvore ou montanha. fortificar-se sobre o próprio terreno e escolher os chefes mais capazes. seja em uma espécie de principado ou em forma de monarquia. Posteriormente. O mando estava nas mãos de chefes hereditários ou dos ricos que se achavam à cabeça de um importante comitatus.

que defendia o seu nome e a dinastia. A sobrevivência das confederações. o determinante era político. mas pouco numerosas. era dotado de forte "consciência étnica". enquanto outros formavam vastas confederações. o que não era um traço primitivo dos germanos segundo Tácito e César. situação esta figurada no seu instrumento.Na época das invasões. Contudo. religiosos (comunidade de culto). na maioria das vezes. Estes podiam ser de dois tipos: um grupo reduzido. Havia também graus intermediários. cuja intensidade de cada tipo de poder variava de acordo com o povo. Estes falavam em suas obras de numerosos povos "republicanos". que não era . Seus componentes ganhavam sua liberdade ou entravam para outros agrupamentos. os povos germânicos apresentavam-se distintamente do que retratou Tácito. econômicos (botim) e étnicos. a frâncica. lingüísticos (particularidades dialetais). por sua extensão. porém. A monarquia era uma instituição que dominava na parte oriental do limes imperial. Nessas associações maiores entravam vários elementosaglutinadores: sociológicos (comunidade de antepassados. geográficos (região habitada). enquanto subsistia. A luta com Roma e a divisão dos despojos favoreceram a realeza. Quase todos os povos que dividiram o saque do Império tiveram como agregador uma realeza dinástica. e outro composto de camadas externas supostas. Esta tinha um duplo caráter: religioso e militar. Aspecto econômico Os germanos eram simultaneamente guerreiros e camponeses. era mais fácil de ser aniquilado. constantemente sujeitas à absorção ou dissolução. Repetidos fracassos acarretavam a dissolução e o desaparecimento de seu nome. Alguns constituíram-se em células elementares muito coerentes. dependia do sucesso que obtinham. sobretudo as maiores. matrimônios mistos). O primeiro.

As guerras tinham freqüentemente como objetivo a conquista de novas terras e a aquisição de mão-de-obra servil. pois servia igualmente para o arroteamento. aveia ou linho. Esgotadas as terras. As condições de solo não ajudavam. Assim. praticavam a pecuária bovina. organizado pela coletividade. onde arroteavam o terreno com pesadas charruas. Na época das colheitas. que se ocupava desse afazer enquanto os homens estavam nas guerras. em áreas queimadas.habitantes das planícies úmidas. devido às condições da agricultura. A existência de ricas terras ultrapassando o limes imperial (Reno e Danúbio) foi uma motivação para as invasões. principalmente a cerâmiclt e a tecelagem. Para cultivar o solo. transformados em escravos ou semilivres. Nessa atividade. habitação (barro ou madeira) e vestimenta. os das estepes concediam grande importância à criação eqüestre. Os germanos dos bosques faziam. a exploração das terras era sempre coletiva. cavalos e ovelhas) e agricultura. Os germanos instalavam-se em clareiras por alguns anos. juntamente com a pesca e a caça. interrompiam-se as guerras. a cada dois ou três anos. procuravam novas. por ser . Os saxões e frísios. trigo. Desenvolveu-se a atividade de metalurgia. Apenas os homens livres possuíam a terra. De acordo com a região.omuna) pastava na terra em pousio. cultivava-se. um cultivo mais ou menos intermitente. Apesar da existência da propriedade individual. que exigiam um acordo de alternância da pecuária com o cultivo. deve-se destacar ainda a participação da mulher. A vida econômica era muito diversa segundo a região. O rebanho (uma espécie de bem da c. O artesanato era modesto. os germanos viviam da pecuária (bois. Da terra os germanos tiravam os meios para sua alimentação. empregavam-se os antigos prisioneiros de guerra.apenas uma lança. com uma técnica rudimentar. Riché vê este seminomadismo como uma explicação para o fracasso de os germanos formarem um Estado estável.

Contudo. A ilustração zoomórfica era característica da "arte das estepes" transmitida aos gados e. cruz gamada ete. Ignora-se o culto de alguns povos essenciais. entre os povos nórdicos e mediterrâneos. A ourivesaria era outra atividade em que os germanos se destacaram devido ao seu caráter decorativo. Havia inclusive façanhas lendárias envolvendo ferreiros (Mimir e Wieland).essencial à guerra para confecção de armas. se voltavam para o Império Romano. em que empregavam o endurecimento do aço pelo azote. há informações muito antigas (César e Tácito) ou mais recentes (Edda escandinava). Apesar da penetração de moedas romanas em grande quantidade na Germânia e Escandinávia. Os germanos tinham uma técnica apurada. há longo tempo. placas de cinturões e outros artefatos possuíam suas superfícies totalmente decoradas com figuras de animais estilizados ou com abstrações geométricas (círculos. aos outros germanos. Aspecto religioso É difícil afirmar se houve uma unidade religiosa entre os germanos. Estes foram substituídos . carros de combate e barcos. De uma primeira época. pelos sármatas. Assim. os trabalhos arqueológicos ajudam na elucidaçãodeste quadro. cada vez mais. entretanto. pois o padrão era ainda o gado ou as barras ou argolas de metal precioso. As fontes escasseiam no período entre Tácito e as missões cristãs. como os godos. Os germanos não tinham uma casta sacerdotal. As atividades comerciais existiam. Essa região continuava refratária à vida urbana. César mostra a grande diferença entre os galos e os germanos ao se referir à existência de um corpo sacerdotal entre os primeiros (druidas). Fíbulas. e. elas não foram utilizadas para troca. o que não durou muito tempo.). depois. alguns deles podiam ter a função de "padre".

Parece que tinham um valor decorativo e mágico para a proteção dos guerreiros. senhor dos raios e que é invocado antes de ir à guerra. Donar (ou Thor). Tanto os "padres" como essas mulheres conheciam o caráter secreto das runas (escritura germânica). Esses sinais eram gravados em madeira. Estas também podiam ser comemoradas com sacrifícios de armas e prisioneiros. Faziam-se procissões com carros de combate. presididos pelos "padres". Nerthus. Igualmente existem numerosos seres invisíveis. lua nova). bem como algumas práticas adivinhatórias. Encontravam-se no panteão germânico grandes figuras divinas. tais como: Wotan (ou Odin). Não havia templos. quinta-feira. que dirige o céu e protege as assembléias.deus aristocrático por excelência. Tiwaz. Entre os espíritos malignos. Os rituais ocorriam nos bosques sagrados. em certas datas (solstício. picos de montanhas ou próximos de fontes ou árvores. Praticavam-se então sacrifícios animais ou humanos. crescimento das plantas e vitórias nas guerras. Freya. divindade do amor e do fogo. Eram os chefes das famílias que dirigiam os sacrifícios domésticos. As mulheres tinham um papel de destaque como profetisas (por exemplo.pelos pais de família ou chefes de tribo quando das assembléias ou libações rituais de vinho. expressos na literatura germânica. Os germanos adoravam essencialmente a natureza e suas forças. em que se defrontavam os deuses. O espírito belicista desse povo não poderia estar ausente da sua religião. a deusa da fecundidade. de Danar (Thursday) e sexta-feira de Freya (Friday). . sobressai Loki. resguardando seus portadores. combates e tempestades . que atuavam como em um campo de batalha. espíritos e gigantes. jóias ou pedras. armas. Havia três reuniões anuais para obter boa colheita. que preside o comércio. festejada na primavera (sempre presente nas sociedades agrárias). Véleda) ou mágicas. Alguns desses nomes estão presentes no calendário: terça-feira é o dia de Tiwaz (Tuesday).

Era a expressão literária mais elementar. com uma vida entre os deuses no Walhalla. Contudo. Marin e Ingo. expressa na incineração ou inumação com os utensílios. os cantores improvisavam poemas épicos em honra aos heróis germânicos. pois tudo foi criado e. cantos heróicos e mitológicos. próprio de uma aristocracia guerreira. portanto. Cada tribo ou clã tinha sua saga. Buri. quando mortos em batalha. levado-os pelas valquírias – donzelas guerreiras filhas de Wotan. que privilegia os sentimentos de honra e fidelidade. descendente de um personagem divino. devia terminar. espécie de lenda em que se fazia uma recordação gloriosa dos antepassados. ao prever que a grande batalha entre os deuses e os espíritos malignos aniquilaria a todos. A epopéia e a lenda dos heróis germânicos vinculavamse à mitologia germânica acima descrita. ressaltava-se o herói.que. recompensando-os guerreiros. a crença em uma vida após a morte (Walhalla e Hel). A religião germânica caracterizava-se por quatro elementos: o caráter escatológico. com a ajuda dos deuses. Mitre cita a tipologia elaborada por Gonzague Reynold para classificar essas manifestações poéticas centradas nos . nessa existência predominava a guerra e a morte. Tácito revelou a existência de poemas. Aspecto cultural A produção artística e cultural dos germanos estava profundamente interligada ao seu espírito guerreiro. o espírito bélico. o pensamento fatalista. no que ressucitariam os filhos dos deuses e homens. criou o homem. após a guerra final. No centro desta epopéia. Os cantos épicos constituíam uma manifestação das virtudes valorizadas por esse povo. o referido fatalismo foi atenuado com a esperança de surgir um mundo de paz. invocando alguns heróis em relação direta com os deuses: Tuisto. No decorrer dos banquetes. dotando-o assim de uma parte boa e outra má. sejam deuses ou homens. armas e adornos dos mortos.

originados na Dinamarca. teve seu papel de destaque como uma das mais importantes manifestações artísticas dos germanos. Faltam. Estes compõem os ciclos da Germânia do continente. Os povos bárbaros. na qual foram mestres. subsistiu no continente até o século VII. religião. foi imortalizado e popularizado pela orquestração do compositor alemão Wagner. por Bruna Leticia Colita O texto nos trás uma idéia inicial dos povos bárbaros. que traduziu a Bíblia em língua gótica. apresentaram-se cinco ciclos: ostrogóticos (Ermanarico e Teodorico). M. Este foi criado pelo bispo ariano Ulfilas ou Wulfila (311383).heróis. na Inglaterra até o IX e na Escandinávia até o XV. modo de . 1987. franco (Sigfrido). os dois de origem danesa. por SONSOLES GUERRA. no século XIX. com os poemas de Kudrun e Boewulf. surgiu um tipo de alfabeto inspirado no grego e no rúnico. A ourivesaria. Com a conversão dos godos ao arianismo. e ideal para aqueles que tem fascínio por Antiguidade Tardia e pelos povos bárbaros. Ortmit. aquitânio (Walter ou Gouthier). burgundio (Gunther e seus irmãos e a heroína Kriemhild). facilitando assim a sua tarefa religiosa. expressão significativa da epopéia germânica. A destreza e o gosto germânicos se revelam com grande esplendor nessa arte. contudo. no século lI. Assim. possuíam muito mais uma função mágica do que de escrita. Os caracteres rúnicos. Hugdietrich e sua filha Woldfdietrich). Comentário. como exposto anteriormente. no século IV. lombardo (rei Rothari. O poema dos nibelungos. pois com o texto sanamos várias dúvidas quanto a conceitos. os ciclos da Germânia do mar. São Paulo: Ática. e por influência mediterrânea. Sem prestar grandes serviços à vida intelectual. é um texto de linguagem de fácil compreenssão.

conjunto da família.célticos. porém somente bons guerreiros seriam recebidos na “casa dos deuses”. e nesta haviam vários deuses. Como podemos ver no texto. produção. política.e nas entre-linhas entende-se que eles não se conheciam como germanos ou semi. Basicamente o homem bárbaro estava desde criança sendo preparado para ser um grande guerreiro. A sociedade em que os bárbaros viviam é colocada por Tácito e nos leva a uma interpretação de muita disciplina. e assim seu sustento. no texto destaca-se três hipóteses mas nenhuma. e o valhalla é um lugar esperado por todos. unidos pelo sangue (gérmen = germani). e guerra. responsabilidade. arte. cresciam numa cultura diretamente relacionada com a religião. origens. sem medo da morte. sustento. Tambem houve uma distinção dos povos germânicos através da língua. . termo céltico. são eles: geográfico e lingüistico. a própria palavra ‘germano’ não é de única interpretação. como invejáveis a muitas organizações sociais. estavam sempre em busca de novas terras . línguas.vida. Eram guerreiros e camponeses. pelos geógrafos: Riché e Lot. A origem destes povos também não é exata. viviam como semi-nômades. com total exatidão. pois estavam sempre buscando novas terras para o plantio. e como o clima não colaborava. ordem. há varias definições e possíveis origens como podemos destacar: conjunto de povos divididos pelo rio Reno e Vístula. semi-céltico. e principalmente guerras. isso talvez justifique tantas batalhas e invasões. com a historiografia moderna outros princípios são tomados para as divisôes.

estavam sempre a admirando e seus cultos eram normalmente ao ar livre. O que concluímos deste texto é precisão que o autor tenta nos passar da magnitude destes povos. A rapidez e a brutalidade da ocupação. agora numa infiltração mais lenta mas mais segura. algumas vezs de madeira. a qual se foi impondo às tribos invasoras. e sempre os relembravam como heróis. destruindo os quadros da administração romana. lançando os fundamentos de uma nação estável. Esta situação modificou-se no entanto no decorrer dos séculos V e VI. não puderam contudo fazer desaparecer a cultura subjacente. suas origens e desenvolvimento. A ocupação do império no decorrer dos séculos V e VI EM cerca de um século (fins do século IV a fins do século V) o Império Romano do Ocidente foi ocupado por uma primeira grande vaga invasora e dividido numa série de unidades políticas de vida instável e por vezes mesmo efémera. Os Francos. Os bárbaros deixaram muitas raízes em nossa sociedade e não podemos deixar mais uma vez a chance de desvendarmos essas civilizações passarem desapercebidas. relembravam os mortos. Gostavam muito da natureza. os Alamanos e os Bávaros fixando-se ao longo do . ferro. eram feitos a mão.Eram grandes artistas. Novas vagas germanas. e grandes guerreiros foram os chefes de exércitos da época tardia. pelo fato do estudo ser feito através de fatos arqueológicos e literatura antiga. e faziam vinculos com a mitologia. Os cantos e poemas destes povos estavam muito relacionados com o espírto guerreiro. os colarese “amuletos” usados por esses povos. se apropriaram do solo da România. ouro demonstrando assim suas crenças ou admiração. braveza e capacidade. suas armas eram de excelente qualidade e eficacia. que muitas vezes passam desapercebidas por nós.

Reno e do Danúbio, os Anglos e os Saxões ocupando a Bretanha, os
Lombardos trocando a Panónia pela Península Itálica, operaram
uma germanização progressiva de vastas zonas do Império. Pela
primeira vez o latim sofreu um recuo nítido na sua área
linguística.

SOBRE A ORIGEM DOS FRANCOS
É muito obscura a origem do povo franco. Gregorio de Tours, nos
passos célebres que a seguir transcrevemos, registou algumas
explicações mais ou menos lendárias correntes na sua época
(século VI).
Sobre os reis dos Francos, ignora-se qual tenha sido o primeiro de
entre eles: com efeito, se bem que na sua História Sulpício
Alexandre (1) fale muito destes povos (2), todavia não nomeia de
maneira alguma o seu. primeiro rei: diz apenas que eles tinham
duques. [ ... ] Muitos autores contam que estes povos saíram da
Panónia e que se estabeleceram primeiro na margem do Reno;
tendo em seguida atravessado este rio, passaram à Turíngia (3) e aí
nas aldeias ou nas cidades escolheram reis cabeludos idos buscar à
primeira, e, se assim posso dizer, à mais nobre das suas famílias.
Isto foi provado mais tarde pelas vitórias de Clóvis, que contaremos
em seguida. Lemos nos Fastos consulares (4) que o rei dos Francos
Teodomiro, filho de Ricimer e de Áscila e sua mãe, morreram pela
espada. Diz-se também que então Clódio, notável entre o seu povo,
tanto por méritos próprios como por nobreza, foi feito rei dos
Francos. Ocupava no termo dos Turíngios a fortaleza de Dispargum
(5). Nessas mesmas partes, ou seja em direcção ao sul e até ao rio
Loire, habitavam os Romanos. Para lá do Loire dominavam os Godos
(6); os Burgúndios, seguidores da seita dos Arianos, habitavam do
outro lado do Ródano que banha a cidade de Lyon. Clódio, tendo
enviado batedores para a cidade de Cambrai e mandado explorar
toda a região, pôs-se ele próprio em seguida a caminho, esmagou os
Romanos e apoderou-se da cidade. Residindo aí por pouco tempo,

ocupou tudo até ao rio Somme. Há quem pretenda que o rei
Meroveu, de quem Childerico (7) foi filho, era da sua estirpe. Mas
este povo mostrou-se sempre entregue a cultos fanáticos sem ter
qualquer conhecimento do verdadeiro Deus. Fez imagens das
florestas e das águas, dos pássaros, dos animais selvagens e dos
outros elementos aos quais tinha por hábito prestar um culto divino
e oferecer sacrifícios. [ ... ]
[Sancti Georgii Florentii Gregorii, Episcopi Turonensis, Historiae
Ecclesiasticae Francorum. líb. lI, IX-X, com trad. francesa e revisão
de J. Guadet et Taranne, ed. Société de I'Histoire de France, Paris,
1836, t. I, pp. 147 a 163.]
(1) Este historiador so e conhecido atraves de Gregorio de Tours.
(2) Os Francos resultaram aparentemente da fusão de diversas
tribos que habitavam a zona inferior do Reno. (3) Erro geográfico
manifesto. (4) Conjunto de anais onde os anos eram contados
segundo o sistema romano, ou seja pelos cônsules epónimos. A obra
a que se refere Gregório de Tours perdeu-se. (5) Era o principal
povoado dos francos Sálios. Trata-se possivelmente da actual Diest,
no Brabante. (6) Estabelecidos na Aquitânia, desde 418, como
federados. (7) A existência histórica de Meroveu é duvidosa. Só com
Childerico, pai de Clóvis, a genealogia dos reis francos se torna
mais clara.

A FIXAÇÃO DOS ANGLOS E DOS SAXÕES NA BRETANHA (SÉCULO V).
A historiografia medieval inglesa localiza o desembarque anglosaxónico na Grã-Bretanha em meados do século V. Assim no-lo diz
o trecho que se segue do venerável Beda (675-735).
No 449.o ano da encarnação do Senhor, tendo Marciano (1) com
Valentiniano (2) obtido o reino, o 46.o a partir de Augusto, deteveo por sete anos. Então o povo dos Anglos ou Saxões, convidado pelo
rei citado, arribou à Bretanha (3) em três longos navios e por ordem

do mesmo rei recebeu como local de permanência a parte oriental
da ilha, como para combater a favor da pátria, mas na realidade a
fim de a conquistar. Iniciada a batalha com os inimigos que do
norte tinham vindo para a luta, os Saxões obtiveram a vitória. Por
isso mandaram para casa a notícia tanto da fertilidade da ilha como
da inércia dos Bretões e imediatamente lhes foi enviada uma frota
maior, transportando um grupo mais forte de homens de armas, os
quais juntos à coorte anterior constituíram um exército invencível.
Os que chegaram, obtiveJ:am, por doação dos Bretões, um lugar
para habitarem entre eles, com a condição de que uns lutariam
contra os adversários pela paz e salvação da pátria e outros
contribuiriam com o estipêndio devido para os que combatem.
Vieram porém os povos mais fortes das tribos da Germãnia, ou seja
Saxões, Anglos e Jutos. Dos Jutos são originários os [habitantes] de
Cantuária e de Victuária (4), ou seja aquele povo que detém a ilha
Vecta e aqueles que até hoje são Chamados a nação dos Jutos na
província dos Saxões Ocidentais, junto da própria ilha Vecta. Dos
Saxões, ou seja daquela região que agora é chamada dos Antigos
Saxões (5), vieram os Saxões Orientais, os Saxões Meridionais e os
Saxões Ocidentais. Mais adiante, dos Anglos, isto é, daquela terra
que se chama Angulus (6) e desde aquele tempo até hoje se diz
permanecer deserta, entre as províncias dos Jutos e dos Saxões,
descendem os Anglos Orientais, os Anglos Mediterrâneos (7), os
Mércios e toda a geração dos Nordanímbrios (8), ou seja daqueles
povos que habitam para norte do rio Humbrus (9) e dos restantes
anglos.
[Baedae Historia Ecclesiastica Gentis Anglorum, lib. I, capo xv, in
Baedae, Opera Historica, com trad. inglesa de J. E. King (The Loeb
Classical Library), London, New York, 1930, pp. 68 a 71.]
(1) Imperador do Oriente de 450 a 457. (2) Valentiniano III,
imperador do Ocidente de 423 a 455. (3) Desde o fim do século II
que a Bretanha sofria incursões de povos germanos. No entanto, s6
a partir dos últimos anos do século v estas tribos iniciaram uma
verdadeira colonização. (4) Da ilha de Wight. (5) O Holstein. (6) O

Algum tempo depois [Zenão]. avançando no território da Venécia até junto da Ponte de Sontius (6). estava longe de viver com bem estar e abundância. acampou . recebeu com prazer a notícia da nomeação e convidou-o a vir para junto de si na cidade. [Teodorico] foi também feito cônsul ordinário (3). partiu para ocidente. que lhe deu o seu consentimento unânime.Schleswig. estabeleciáa na [líria. Recebendo-o com todas as honras. Caminhou a direito de Sirmium (5) até à vizinhança da Panónia e. para lhe aumentar as honrarias nas armas. para onde havia sido enviado como refém em criança. (7) Os chamados Uplandish Angles. (9) O rio Humber. [Entretanto Teodorico. colocou-o entre os grandes do seu palácio. A obra de Jordanes que inclui o relato aqui transcrito data de meados do século VI. sabendo que a sua tribo. Teodorico conhecia de perto todos os meandros políticos do Império do Oriente. Nem isto foi tudo. o que se diz ser a benesse suprema e a mais alta honra no mundo. um triunfo na cidade. adoptou-o como filho e concedeu-lhe. O REI DOS OSTROGODOS TEODORICO VENCEU ODOACRO E ESTABELECEU-SE NA ITÁLIA (493) Educado em Constantinopla.] Teodorico deixou pois a cidade real e voltou para junto dos seus. Este conhecimento proporcionoulhe a criação do estado ostrogodo na Itália. Quando o imperador Zenão (1) ouviu que Teodorico tinha sido nomeado rei do seu povo (2). à sua custa. pois [Zenão] ergueu diánte do palácio· real uma estátua equestre para glória daquele grande homem. (8) Os Northumbrianos. Em companhia de toda a tribo dos Gados. pediu licença ao imperador para abandonar Constantinopla e ir libertar o Ocidente «da tirania do rei dos Turcilingos e dos Rugios» (4).

. Quando Odoacro viu isto. Foi no terceiro ano depois da sua entrada na Itália. (2) Em 473. (7) Em 25 de Fevereiro de 493. (3) Em 484. a fim de dar descanso aos corpos dos homens e dos animais de carga. Mas [Odoacro]. pôs de lado o traje de cidadão privado e o vestuário da sua raça e adoptou uma veste com um manto real. enviou uma embaixada e pediu clemência (7). Mas trabalhou em vão. pars prior. Tendo feito alto por algum tempo. fortificou-se dentro da cidade. in Monumenta Germaniae HistoricaAuctorum Antiquissimorum.aí. (5) Hoje Mitrovica. com a qual se encontrou nos campos de Verona. assentou campo perto da cidade real de Ravena. Romana et Getica. (4) Aparentemente o imperador achou a oportunidade excelente para se desembaraçar dos Ostrogodos e simultâneamente liquidar Odoacro.] (1) Imperador do Oriente de 474 a 491. [Jordanes. Então desfez o acampamento e avançou pela Itália com a maior ousadia. por conselho do imperador Zenão. pp. mas depois tirou-lhe a vida. no lugar chamado Pineta. Atravessando o rio Po. Visto que nada conseguia. (6) O rio Isonzo. 132 a 134. cerca do terceiro marco miliário a partir da cidade. que Teodorico. visto ter-se transformado. como dissemos. t. Odoacro enviou contra ele uma força armada. na Iugoslávia. destruindo-a e fazendo nela grande mortandade. com os seus poucos partidários e os romanos que estavam presentes sofria quotidianamente com a guerra e a fome em Ravena. mas muitas. porque toda a Itália por fim chamou a Teodorico o seu senhor e a República obedeceu aos seus desejos. e não uma ou duas vezes. Frequentes vezes atacou o exército dos Godos durante a noite fazendo surtidas furtivamente com os seus homens. e assim combateu durante quase três anos completos. agora. v. no dirigente tanto dos Godos como dos Romanos. Teodorico primeiro concedeu-lha.

no dia seguinte à santa Páscoa. reis dos Francos. o autor do trecho que se transcreve. Tendo conhecimento disto. ter-se- . Alboíno (1). Paulo Diácono (século VIII).] (1) Rei dos Lombardos de 561 a 572. com as mulheres. pediu auxílio aos seus velhos amigos Saxões a fim de entrar naquela espaçosa terra e ocupá-Ia com maiores efectivos. Então Alboíno entregou aos seus amigos Hunos os próprios territórios. VI-IX. Portanto os Lombardos. sob a condição de que. in Monumenta Germaniae Historica . Hannover. a Itália. Na verdade. precipitaram-se na Itália para a ocupar. 76.Scriptores Rerum Langobardicarum et Italicarum. cuja festividade se deu naquele ano de acordo com os cálculos da razão no próprio dia das Calendas de Abril (6). acompanhados pelas mulheres e os filhos. antes de partir para a Itália com Os Lombardos. de consequências desastrosas. caiu na anarquia. Por um lado. onde os Lombardos não conseguiram estabelecer um estado unitário e organizado.A INVASAO DA ITALIA PELOS LOMBARDOS (568) A deslocação dos Lombardos em direcção à Península Itálica foi. os filhos e todas as alfaias. Tinham habitado a Panónia durante quarenta e dois anos. para com ele penetrarem na Itália. Por outro. era um lombardo que redigiu com certa parcialidade a história do seu povo. afixação dos Ávaros na Panónia veio cortar durante séculos as comunicações entre o Adriático e o Báltico. Clotário e Sigeberto. (2) Além dos Saxões. [Paulus Diaconus. abandonada a Panónia. quinhentos e sessenta e oito anos depois da encarnação do Senhor. tornariam a pedir aquelas terras (4). Acorreram ao apelo mais de vinte mil saxões (2). Dela saíram no mês de Abril. se em qualquer altura fosse necessário aos Lombardos voltar para trás. Saec. p. ou seja a Panónia. pela primeira indicção (5). momentâneamente. Historia Langobardorum. colocaram Suevos e outros povos nos locais de onde tinham saído os Saxões (3). 1878.

autor do texto que se segue. col. e venceu-o. LXXXIII. é um contemporâneo dos eventos que nele registou. (4) Este acordo foi feito por um prazo de duzentos anos. Series Latina. [. Patrologiae Cursus Completus. entre outros. (3) Os reis francos procuravam estabelecer protectorados no Saxe. (6) A 1 de Abril. Assim. Paris. tomou Arégia (4) e toda a Sabária (5) foi conquistada por ele. Finalmente fez guerra aos Suevos e com espantosa velocidade transferiu o reino deles para a autoridade da sua nação (7). não com os Hunos. 1862. t. ] [Sancti Isidori. LEOVIGILDO TENTOU A UNIFICAÇÃO pOLíTICA DA ESPANHA (568-586) O reinado de Leovigildo marcou um grande avanço no processo de unificação política do estado visigodo e de fortalecimento do poder real. (2) Imperador do Oriente de 565 a 578. Búlgaros. in J. Leovigildo(3) tornou-se o dirigente da Espanha e da Gália e decidiu alargar o reino pela guerra e aumentar o poder.. Suevos. 560-636). Hispalensis Episcopi. (5) No primeiro ano de um ciclo de quinze anos. P. Então cercou o seu filho flermenegildo. (3) Rei dos Visigodos de 568 a 586. Também muitas cidades rebeldes da Espanha se renderam às suas armas. Migne. que estava actuando como um tirano no império. igualmente derrotou em várias batalhas os soldados romanos (6) e recuperou pela luta certos fortes por eles ocupados.. mas sim com os Á varas.] (1) 568. 1092. Baviera e Panónia. Na era de 606 (1). Wandalorum et Suevorum. no terceiro ano do governo de Justino II (2). Historia de Regibus Gothorum. conquistando o domínio da maior parte da Espanha.iam unido a Alboíno Bávaros. Obteve a Cantábria. com o ímpeto do seu exército e a boa fortuna das suas vitórias adquiriu muita coisa com distinção. Santo Isidoro de Sevilha (c. onde Leovigildo dominou uma rebelião chefiada pelo nobre romano . Gépidas e Sármatas. (4) Região vizinha de Orense.

por vezes dramático. as províncias ocidentais do Império romano. os persas e depois os árabes. Antologia de textos históricos medievais. ao longo de todo o século V. menos ricas. é somente um longo período de adaptação a novos equilíbrios étnicos e a outras estruturas políticas e sociais. ao direito. O choque contínuo. por Espinosa. por muito tempo bilíngüe. V . Este Império "bizantino" empreende. solidamente ligado a todas as tradições. mas é conceder muita importância a um falso problema e se envolver em intermináveis discussões. entre os povos romanos e os novos invasores provoca o que se chama a desintegração do Império romano. no século VI. (7) Em 585. (5) Zona das Astúrias. Querer fixar em tal ou tal data o fim do Império romano e o começo da Idade Média é sem dúvida um procedimento de vulgarização ou de pedagogia muito cômodo. abandonadas doravante a seus próprios recursos e às suas próprias defesas.Asturia. enfraquecidas pelas questões sociais e as dificuldades econômicas. Constantinopla permanece a capital de um mundo romano. F. (6) As forças bizantinas que haviam ocupado a faixa costeira entre Denia e Cádiz. Lisboa. muitas vezes inúteis. essas transformações dizem respeito somente ao Ocidente: o Império romano se mantém no Oriente. à administração. 1972 Migrações Bárbaras (sécs. de fato. sofrem. pior governadas. os repetidos assaltos dos bárbaros vindos do leste e do norte. Desaparece somente em . uma vigorosa reconquista das margens do Tirreno. Por outro lado. às hierarquias de outrora. Sá da Costa.VIII) MIGRAÇÕES E INVASÕES Já separadas do Oriente. Esta desintegração. resiste em seguida a todos os ataques dos novos bárbaros da Ásia.

mas contidos pelos limes em todas as fronteiras do Império. na mesma época. os de Tamerlão no início do século XIV. entre os limes após as defesas mais flexíveis das cidades e dos castelos da Europa e a muralha da China. se as invasões bárbaras dessa época' desempenharam um papel determinante na evolução do mundo ocidental e na deslocação do Império. de aspectos muito variados. Pode-se. intensificaram-se a partir do século IIl. do século V ao XV. estabelecer um certo paralelo entre as dificuldades do Império romano de Constantinopla ou dos reinos cristãos do Ocidente e as do mundo chinês. mais marcante. A leste. impuseram a dinastia mongol dos Yuan. mongois principalmente: os de Gengis-Cã por volta de 1250. no mesmo período. retêm o Mediterrâneo ocidental. sob o ataque dos turcos. de uma longa série de avanços ou infiltrações. assim. Além disso. que. os húngaros e depois todos os povos turcos provenientes da Asia Central: búlgaros. às costas francesas do mar do Norte e da Mancha. desde há muito ameaçadores. aos germanos se sucedem primeiramente os eslavos. retornavam à carga pelos mesmos caminhos. . apesar das poderosas contra-ofensivas da cristandade. das grandes migrações de cavaleiros nômades da Ásia Central. o menos importante sem dúvida. de 1260 a 1368. as rotas seguidas quatrocentos anos antes pelos conquistadores saxões. como outrora os vândalos de Genserico. essas incursões em direção ao Ocidente são apenas um aspecto. Enfim. dos piratas da Frísia em direção à Inglaterra. kubanos. acalmando-se bem mais tarde diante da resistência obstinada dos novos reinos e impérios. no tempo dos primeiros carolíngios. as ilhas e as regiões do trigo. No sul. ao longo de toda a nossa Idade Média. Após um curto intervalo. Toda a história da Europa permanece seriamente marcada pelos ataques de povos hostis. os muçulmanos. constantemente. no século IX.1453. as vagas se sucedem quase íninterruptamente. onde. que. atacam ininterruptamente o Império chinês. os escandinavos retomaram. petchenegues. são elas apenas um episódio importante.

nem uma expansão demo gráfica suficientemente dramática. marca. durante toda a Idade Média e por vezes. Para o romano. Não se pode. ORIGENS DAS MIGRAÇÕES É naturalmente impossível dada a falta de informações precisas. provenientes das estepes da Europa oriental ou da Asia. bem posterior às primeiras invasões. de uma maneira bem diferente dos romanos: arcos de cavaleiros hunos montados em cavalos rápidos. nossos povos do Ocidente. De fato. o bárbaro é antes de tudo um soldado. Freqüentemente atribuiu-se o êxito das invasões a uma indiscutível superioridade militar: cavalaria mais leve e rápida. essas grandes migrações de povos. atribuir-lhes causas bem nítidas: esses bárbaros são ainda muito mal conhecidos e seu enfoque histórico é muito arriscado e delicado. ao que parece. além disso. domínio absoluto da então difícil arte de forjar as armas. bem mais tarde. Essa mobilidade. invocar exclusivamente nem uma degradação climática que tivesse afastado os pastores das planícies mais elevadas em direção a terras melhores. Essas armas são todas ofensivas: o machado de um só gume . É evidente apenas que a extrema mobilidade desses nômades-criadores das estepes.o célebre . determinam os destinos dos mundos sedentários do nosso Ocidente e os da Ásia extremo·oriental. agricuitores em queimadas de florestas da Germânia ou ainda piratas do mar. espadas longas e lanças de cavaleiros vândalos ou alamanos.Em certa medida:. geralmente nômades. favorecia: empreendimentos arriscados e longínquos. esses bárbaros combatem. encontrado nos túmulos de cidades de soldados. gládios mais curtos de infantes francos. de um modo seguro. nem mesmo estruturas sociais particulares que provocassem a emigração de numerosos membros do clã em busca de nova sorte. Mas o mobiliário funerário. correspondentes ao período do século VI. nascidos dessas misturas étnicas. indica com precisão apenas as armas dos francos.

cavaleiros ou infantes.. que guardavam as margens do Ródano e do Reno.ou pilhar o Império. entretanto.atirado de longe sobre o inimigo. o gládio ou scaramax de um só gume. Gládios e espadas demonstram Uma desconcertante habilidade na arte de ligar os metais. para seus corpos auxiliares: assim os riparioli. A alguns de seus chefes confiava até mesmo comandos militares e a tarefa de repelir ataques de novos bárbaros. Essas armas trabalhadas com extraordinário esmero. cujos punhos e bainhas são freqüentemente decorados com desenhos incrustados de fios de ouro ou prata e pedras preciosas. por vezes. até oito ou dez às vezes. Salin). a espada longa com dois gumes. extraduros. Bem mais tarde. do Auvergne pelos visigodos..sólidos. ainda estrangeiros. recrutava mercenários bárbaros. como a vitória dos godos em Andrinopla contra as tropas de Valêncio (9 de agosto de 378) ou a desastrosa travessia do limes sobre o Reno (31 de dezembro de 406) pelos vândalos e seus aliados. tão cortantes e resistentes como os aços especiais atuais (E. muito inferiores. ou ainda as brutais conquistas da Espanha pelos mesmos vândalos (409). as chansol1s de geste e o ritual da cavalaria contam ainda o amor do homem livre por sua espada. para defender e repovoar . Representam a sorte e o orgulho do guerreiro. Com maior freqüência. mas impacientes por servir. os grandes feitos de armas ou os combates decisivos que atraem a atenção dos cronistas. Parecem raros. Nas fronteiras e. séculos após. instalava. sobre o corpo feito de um fino folheado de várias lâminas de ferro tenro e aços muito elásticos e. de temperar o aço. os bárbaros introduzem-se no Império sem choques. assumem então um valor simbólico. de soldar peças cuidadosamente produzidas. à custa de acordos variados que lhes abriam pacificamente o limes: infiltrações lentas e insensíveis. migrações mais que invasões. os artesãos germânicos chapeavam e soldavam os gumes de aços temperados e submetidos à cementação. Roma. Essas espadas e armas sobrepujam de longe as dos romanos. no interior distante.francisca .

atacam o Ocidente. ao longo de todo o Império. essencialmente urbana. As tribos. Esses acordos.das terras do "hospedeiro" (um terço ou dois terços. Os guerreiros federados foram com freqüência aliados fiéis de Roma. que. Por volta do século V. compostas por tribos de origens muito diversas. conforme ocaso). atribuíam a cada família bárbara uma parte . ávidos a defender-lhe as fronteiras. nômade mesmo nas cidadelas de agricultores. que revivem certas tradições próprias ao alojamento de soldados do exército imperial em campanha.letos . do século III ao XI. tratado que precisava as condições de estabelecimento dos federados em terras abandonadas ou nos domínios de grandes proprietários romanos. populações ou povos inteiros. permanece bem mal conhecida. por exemplo). enquanto os bosques e os pastos permaneciam freqüentemente indivisíveis. e mesmo à sua língua. rebeldes à sua civilização. seu modo de vida. que se valem do povo vencedor.manteve-se por muito tempo em certos topônimos (Alemanha em relação aos alamanos. adotam seu nome. incapaz em todo caso de assimilar a civilização greco-romana. suas estruturas econômicas e sociais. sua cultura. De fato. instáveis. a história dos bárbaros. o bárbaro. é o homem das estepes ou das florestas. para . Os seus próprios nomes são por vezes incertos: esses povos formam muitas vezes vastas confederações. A lembrança desses laeti . que lhes assegurava terras em troca de serviços militares e do respeito às leis do Império. designavam pelo nome de bárbaros todos os povos declaradamente estrangeiros. de início submetidos a uma rigorosa disciplina militar e severamente isolados das populações romanizadas. colônias de guerreiros germânicos. Ainda hoje. obtinham assim um foedus. antigos prisioneiros às vezes.os campos. a palavra é sobretudo cômoda para dissimular uma ignorância quase total dos povos além do limes. OS POVOS BÁRBAROS Os gregos. depois os romanos.sors . A ambição dos bárbaros era obter dos romanos a hospitalidade.

No século IV de nossa era. na realidade muito heterogêneo. são os citas. sucessivamente os hunos e os ávaros. os germanos formam em toda a Europa. deslocaram todos os seus inimigos em direção ao oeste e fundaram. que. distinguir: .C. se estabeleceram nas estepes às margens do Mar Negro. na Europa . os germanos continuaram em seguida seu avanço em direção ao sul. os germanos das florestas da Europa central. os hunos. os germanos. provenientes da Ásia. . principalmente.). pastores nômades. distintas sem dúvida por suas características étnicas.Os asiáticos nômades de raça amarela. fora do limes romano. Pode-se. provenientes das altas planícies do Turquestão e do Khorassan na Asia Central. os alanos. V ao lI).depois trocá-lo assim que mude a sua sorte. vasto grupo étnico. que se podem qualificar como turcos. AS INVASÕES GERMÂNICAS Em 375. sem dúvida originário das províncias meridionais da Escandinávia e cujas primeiras migrações remontam ao segundo milênio antes de Cristo. os teutões e os cimbros. senhores de um grande império. poderosas confederações de nomes diversos. chocando-se então com os romanos.Mais numerosos. vencidos por Mário na Provença e na Itália do Norte (102-101 a. seus gêneros de vida e suas atividades sobretudo: os gados da estepe. . marinheiros e piratas. os sármatas e depois. Detidos longo tempo pelos celtas (século. suas línguas cada vez mais diversificadas.Os povos iranianos de raça branca. criadores de gado. entretanto. destruíram o Império alano das margens do Cáspio. os saxões e os frisões das margens nórdicas. no início do século V. Daí os ataques espetaculares de duas populações germânicas.

Os ávaros chocam-se com as defesas do Danúbio. De fato. de perseguir ou dizimar os bárbaros mais turbulentos. repelido nos Campos catalâunicos. no ano seguinte. onde. Uma casta de nobres. tomam o Itália. porém. Em terra. do século IV ao VII é. essas migrações atingem de início as províncias orientais do Império: é a "primeira vaga" germânica (L. entretanto. conduza princípio seus exércitos contra o limes do Oriente e as cidades dos Balcãs e. Mal estabelecidos no Império. toma e pilha todas as cidades da baixa planície do Pó. a história das invasões bárbaras. ameaçam constantemente os Balcãs. um vasto Estado nômade. hereditário. na Champagne. conduzidos por seu rei Teodorico (489-493). a dos gados que ocupam a Ilíria. dirigido por um rei todo-poderoso. instalam-se nas planícies da Panônia. anuncia a deslocação do Império dos hunos. apesar da . devastadores dos outros nômades da Ásia permanecem marginais ou sem continuidade. entram na Espanha três anos mais tarde e. administradores do palácio. para o Ocidente cristão. deslocados finalmente para o oeste pelo imperador bizantino Zenão. tão temido pelos romanos. saqueia todo o norte da Gália: contido. No século VI. auxilia-o. a das migrações germânicas. em 451. de fronteiras incertas.Central. os visigodos (godos do oeste) obtêm um foedus em 418 e um vasto reino que reúne a Aquitânia e a Espanha. mas sua expansão em direção ao Ocidente é severamente contida pelos contra-ataques dos francos. perseguidos e seriamente derrotados pelos visigodos. volta-se. Musset). antes de tudo. Em conseqüência disso. Na mesma época. outros povos bárbaros haviam atacado diretamente o limes ocidental. de início estabelecidos por um foedus (455) nas planícies do médio Danúbio. pelas muralhas de Orléans. Os ostrogodos (gados do leste). Sua morte em 453. diante dos romanos e de seus aliados bárbaros. Os vândalos cruzam à força o Reno em 406. atingem mesmo Constantinopla e. contra a Itália. encarregados de restabelecer o: ordem. rei em 434. posteriormente. Átila. passam posteriormente à Africa (429). os empreendimentos brutais.

pacientemente. a Itália retomada pela reconquista bizantina (536-552). que tendo como eixo suas duas capitais. choca-se com a resistência obstinada dos bizantinos.assinatura de um foedus (435). povo por muito tempo obscuro. a espantosa sorte política dos francos. os lombardos. lentamente. Mais tarde. centralizado sobretudo na planície do PÓ. eram soldados do exército imperial em toda a Gália. conquistam as melhores províncias romanas. tomando as fortalezas e devastando as cidades ainda prósperas. fundando a seguir um poderoso reino. afirma-se. os lombardos formaram um sólido Estado. liderando um exército composto por toda sorte de tribos germânicas e asiáticas. infiltrando-se. entretanto. os bizantinos só perdem Gênova em 640 e Ravena em 751. outros povos francos. A conquista. Em 568. conquistou ou reuniu num vasto reino todas as províncias da Gália do Norte. de . Algum tempo depois. Uma segunda vaga de invasões terrestres atinge. Desse modo. bem mais tarde ainda. porém. reúne as regiões do Saona e do Ródano até o rio Durance. que fortificam os portos. Nascido por volta de 465. a princípio fácil. Chefe dos francos sálios da região de Tournai e. forçam o limes do Friul. que foram sempre auxiliares do Império. Clóvis tornou-se. Os borgúndios. estabelecem-se primeiramente no Reino (foedus de 413). abandonam suas terras e. aproveitaram-se da abertura oferecida pelos vândalos em 406 e se instalaram como conquistadores nos vales do médio Reno e do Mosela. que haviam permanecido na Germânia. aproximadamente em 481. já enfraquecidas. que jamais tentaram ataques frontais contra o limes. germanos estabelecidos na Panônia (foedus em 540). pressionados pelas ameaças dos ávaros. antes uma confederação de populações mais ou menos autônomas. em volta de Milão. Nas fronteiras das províncias mais ocidentais. as costas e o novo limes no Apenino. colonos militares estabelecidos muito cedo na Bélgica e nas margens do Reno (o primeiro foedus data do fim do século IlI) e depois nas terras abandonadas pelas defesas romanas. Lyon e Genebra.

muito tímidas no continente (região de Boulogne e da bacia normanda). provocaram revoltas dos povos indígenas. estabelecem-se a princípio. lá. da Jutlândia. mais importantes. acompanhados por outros povos marítimos do Norte. de Pavia. Wessex. no século V. jutos e anglos. dirigem·se em seguida para o interior. Do que resultam as construções de obras de defesa costeira. as defesas das cidades contra as tribos nômades e. sobretudo no litoral oriental da Bretanha. estendiam-se por todas as margens do mar do Norte. nos estuários do Bambar e do Tâmisa. sólido e contínuo. sucedem-se tentativas de povoamento. em todo lugar. de folclore .Verona. os saxões. Mércia. na Africa principalmente. formando o litus saxonicum. de um modo ainda incerto. frisões. encontram uma região abandonada por Roma e Ravena. nas charnecas do Wash (Fens) e nas margens do Kent. Arruinaram. ao mesmo tempo que suas diversas populações se reúnem. ainda mal submissos. enfraquecida pelas lutas entre os pequenos reis celtas. A partir desses pontos de apoio. Bemícia. na Bretetnha. entretanto. na Gália. muitas vezes devastadores. Entrementes. na Espanha. as migrações marítimas dos germanos do Norte desordenavam o mapa étnico e político de toda a Europa do Nordeste. no interior do próprio Império. da Mancha e do Atlântico até os estuários da Galiza. Desde o fim do século III. em vários reinos mal fixados: Nortúmbria. AS REVOLTAS INDÍGENAS Essas grandes migrações germânicas suscitam. tomada em 572 e que se tornou capital a partir de 626. os ataques dos piratas saxões. Decorre disso uma viva e complexa ressurreição de tradições autóctones. Sussex. A esses ataques audaciosos. As tribos conquistadoras. da mesma forma espetaculares. transportando-se ainda em canoas precárias. profundas alterações. mal assimilados à civilização urbana dos romanos. no século VI. porém na Bretanha. vindas do baixo Saxe.

Roma abandona. outrora fundidos pelo Império. onde as regiões cé1ticas haviam sido outrora ocupadas pelos romanos. circoncellions da Africa. todas as invasões bárbaras provenientes do leste ou do oeste provocaram. sofre. Enfim. no século V. desde meados do século V. Conhece-se bem apenas a mais importante: a dos celtas ou bretões que. Outra revivescência brutal. a da pilhagem em terra. Devon. Todo o Império está. em todo lugar. Este longo exílio (de 450 a 600 . muito sensível na evolução dos gêneros de vida. nossa Bretanha atual. os avanços dos bárbaros do Norte .os escotos da Irlanda. e mesmo nas margens da Galiza. que. que correspondem na mesma época aos dos saxões na costa leste: ataques de piratas primeiramente. da pirataria no mar. Por outro lado. isola províncias inteiras. Cornualha e a colonização da Escócia. marcantes êxitos. a província da Mauritânia às tribos berberes insubmissas.e do Oeste . abandonando suas ilhas entregues por Roma aos bárbaros. contra os bárbaros do Oeste. na África. profundamente perturbado pelas revoltas agrárias: bagaudes da Gália e de Terragona: bandos de rustici do Noroeste da Espanha. enfraquecendo-se assim as outras defesas. Desse modo. deixou somente traços incertos. a Bretanha. em contrapartida. Além das oposições étnicas. acrescentam-se conflitos sociais. as migrações germânicas provocam a deslocação para as fronteiras do norte e do leste de todas as forças do Império.os pietos da Escócia . Os escotos obtêm então. na Armórica. geralmente catastrófica. essa revivescência marca também toda a vida política da época. atravessam a Mancha para se estabelecerem no sul.fundamental. acentua os particu1arismos regionais. importantes migrações humanas no interior do império. no século V. das formas de expressões artísticas (principalmente temas ornamentais). dos cultos religiosos. nas costas oeste. arruína a segurança e as comunicações. Igualmente. depois estabelecimentos no País de Gales. é verdade. que agravam então as complicações econômicas e a miséria camponesa. a maior parte das quais.

os contemporâneos. Por outro lado. não incriminaram muitas vezes os bárbaros. Courtois. em 439. obrigados por vezes a se refugiarem nas costas da Espanha. mais tarde. mostram as dimensões das destruições em Cartago. Este Estado exige também uma severa segregação entre vencedores e aristocratas romanos.aproximadamente) introduz na Armórica estruturas econômicas e sociais. os conflitos religiosos (os vândalos eram arianos). muitos haviam fugido para a Sicília ou Roma. que a decadência econômica geralmente precedeu a invasão e foi ampliada. a bem dizer. após a desintegração do reino vândalo. agravam ainda mais a hostilidade entre os dois povos. submetidos a seus avanços. porém. numa tese fundamental para toda a história das migrações germânicas. J. bem particulares. afirmava que as destruições foram bem mais raras do que se dizia. e uma nova língua. em particular escavações arqueológicas. as perseguições aos católicos. HEERS. principalmente tradições religiosas. dividido pela região em grupos de mil homens. Trabalhos recentes. têm de se contentar com a posse de uma marca fronteiriça difícil de ser defendida. Chr. História Medieval. falando dos males da época. na Africa. que viram suas terras confiscadas. Sem dúvida. Esse particularismo étnico explica a resistência da nova Bretanha à expansão dos francos que. o reino vândalo constitui-se. Os Reinos Bárbaros OS VÂNDALOS NA ÁFRICA Nascido da conquista militar. Lisboa: Difel. apesar de ter sido tomada sem combate. onde destrói as comunicações e ameaça constantemente . num Estado guerreiro apoiado sobre um sólido exército. 1986. O rei vândalo Genserico (477) inflige rudes golpes no Mediterrâneo romano.

funda um vasto império marítimo servido por uma frota de piratas.os Érulos ou Skiros . Toma posse das ilhas do Tirreno. a capital. destituídos de quadros urbanos. A conquista vândala priva Roma. mantém igualmente tradições imperiais romanas e bárbaras. desse modo. detém uma parte considerável da Sicília. comandando um exército também compósito.é. invade a península. de seus grandes mercados cerealíferos. O governo de Teodorico inspira-se a seguir na sábia política de Odoacro: uma espécie de dualismo que. chefe dos ostrogodos. que Chr. engana-o ao oferecer a partilha do poder e. de fato. resiste mal em 534. aos primeiros ataques dos exércitos bizantinos de Justiniano. Teodorico cerca Odoacro em Ravena.os comboios de trigo. separa de maneira decisiva a Itália das ilhas da África. a dominação desses germanos. em 455. e inflige a Odoacro uma retumbante derrota perto de Verona. reconhecido "patrícia" pelo imperador Zenão de Constantinopla. Teodorico. administradores e notários. o imperador infante Rômulo Augústulo era deposto pelo exército do Itália. ainda indispensáveis ao abastecimento da capital. faz com que seja assassinado (março de 493). seus piratas atacam todas as costas até a Grécia e chegam mesmo a pilhar Roma. "patrícia" e. com muita habilidade. rei dos germanos. finalmente. porém. por outro lado. OS OSTROGODOS NA ITÁLIA A 4 de setembro de 476. chefe de uma pequena tribo de bárbaros . Teodorico formara-se durante longas permanências na . o senhor de um exército composto por mercenários de origens muito diversas e de um verdadeiro reino bárbaro limitado à Itália e cujo centro vital situa-se na planície do Norte. entre Ravena. Courtois designa como um "império do trigo". portanto. e. na África mesmo. Toma-se. Odoacro. e Milão. Generalíssimo romano. permanece precária. Em 489. favoreceu enfim o isolamento hispânico. pouco depois. Mas.

sobretudo. de 511 a 526.corte de Constantinopla. sua morte. o rei vê por toda parte conspirações tramadas contra ele. as lojas. unificado sob sua autoridade. Esforça-se por estabe1ecér laços familiares com outras casas reinantes. Além disso. OS VISIGODOS NA ESPANHA Os visigodos. conserva os magistrados e empregados nos cargos de outrora. deixa o nome do imperador nas moedas. casa uma de suas filhas com o visigodo AIarico n e uma outra com o borgúndio Sigismundo. Mantém as antigas leis. deixa um problema sucessório difícil. onde recruta soldados e envia legados destinados a reforçar a solidariedade dos bárbaros. entretanto. governado então por· oficiais de Ravena. impõe um verdadeiro protetorado sobre o reino visigótico da Espanha. haviam tomado e pilhado . ele mesmo casa-se com uma irmã de Clovis e sua irmã desposa Thrasamundo. sabe ganhar o apoio da classe senatorial. sempre alimentado e entretido. Restaura as termas. faz morrer na prisão o papa João II e seu próprio amigo Boécio. e o do povo de Roma. os aquedutos e os esgotos da capital. Teodorico perseguiu os católicos e os membros da aristocracia acusados de constituírem um partido bizantino e imperial. Nos últimos anos de sua vida. Após 507 e a vitória de Clóvis sobre os visigodos. respeitando-lhe os privilégios. salva· a Provença da invasão franca. em 536. Vítima de uma verdadeira mania de perseguição. em 526. rei dos vândalos. retém a Septimânia e. pretexto para a intervenção dos exércitos de Justiniano. mercenários do Império. Suas ambições ultrapassam em muito a Itália e parece ter sonhado com uma espécie de hegemonia dos godos sobre o conjunto do mundo germânico. Conserva estreitos contatos com as tribos estabelecidas na Germânia. envia víveres para Arles.

permanecem por muito tempo ameaçadas por graves perigos: . dos séculos V ao VIII. Tentam frear o avanço dos bizantinos. Tarragona até Denia. em 551. Os reis visigodos são obrigados a lutar sem cessar contra os suevos. A unidade e a paz interior. os godos sobreviventes atravessam os Pireneus. chamados na península a propósito de uma questão sucessória. Lusitânia. conhece um período de apogeu sob o reinado de Eurico (66-484). conquista o Auvergne e expulsa os celtas armóricos de Bourges. Algarve. com certeza. o de Toulouse. o da Espanha. compra a neutralidade dos gregos. sem dúvida.Roma em 410. o mais poderoso e o mais original de todos os reinos bárbaros do Ocidente. instalado no Oeste (Galiza. Leovigildo. é. Hermenegildo. posteriormente independente. Bélica ocidental). O segundo reino visigótico. retomou Córdova e Medina Sidônia e posteriormente Sevilha aos bizantinos. primeiramente submisso aos ostrogodos de Ravena. Os visigodos fazem face também aos ataques de insubmissos. que anexou as províncias dos suevos. ocupa toda a Provença ao sul do rio Durance (Arles e Marselha são tomadas em 480). faziase necessário. porém.As revoltas dos povos inimigos instalados na própria Espanha. o rei Alanco II é vencido e morto em Vouillé pelos francos de Clóvis. convertido ao catolicismo. toma Sevilha em 584. Foi ela. A unificação política desenvolveu-se satisfatoriamente sob o reinado de Leovigildo (568-586). bascos principalmente. porém. prende seu filho e. que. povo bárbaro cujas origens e história permanecem muito obscuras. porém. que estende sua autoridade sobre a maior parte da Espanha. submeteu os bandos de camponeses revoltados. construiu face aos bascos a nova fortaleza de Vitória. gravemente comprometida pela revolta do filho mais velho do rei. Esse primeiro reino visigótico. Em 507. em seguida. se apóia nas cidades do Sul e provoca uma verdadeira guerra civil. A seguir estabeleceram-se na Aquitânia segunda pelo toedus de 418. reconquistar as províncias ocupadas por esses gregos: Bética com Sevilha e mesmo Córdova. no entanto. .

desloca-se precipitadamente. A partir de então. a diversidade de crenças e de igrejas foi por muito tempo o maior obstáculo à fusão dos dois povos. Nesse clérigo mesmo. a idéia de império universal apaga-se diante da de uma nação. dá vibrantes testemunhos na medida em que exalta o passado dos godos e a grandeza da Espanha ("mãe sempre feliz de príncipes e povos. em 710. Esse problema foi resolvido. . Isidoro de Sevilha.faz com que seja assassinado. O outro rei visigodo.A oposição religiosa entre os godos arianos e os hispano-romanos católicos. um dos pretendentes chama em seu auxílio os exércitos muçulmanos de Tarik reunidos em Tânger. defendendo cada qual uma família rival. Leandro. segundo filho de Leovigildo. mas suas tropas são totalmente derrotadas na dura batalha de Janda (de 19 a 26 de julho de 711). em conseqüência de uma questão dinástica dois partidos nobres hostis. Sem renegar as tradições. tornam-se os verdadeiros tribunais do reino. Os duques visigodos manifestam sempre um vivo desejo de independência. Apóiam-se nos francos entre os quais facilmente encontram refúgio. ocupado em reprimir uma revolta dos bascos. ele conseguiu afirmar uma originalidade nacional bem viva. o direito. a língua de Roma. . Isidoro de Sevilha luta contra a influência intelectual dos gregos e guarda diante de Roma a autonomia e os particularismos da Igreja da Espanha. conselheiro político do rei. pela conversão do rei Recaredo (586-61). Se parecem raras as perseguições. em 586. Terminou assim o reino visigótico da Espanha. onde se manifestam todos os bispos da Espanha. rainha de todas as províncias").A oposição dos chefes da antiga aristocracia. digladiam-se. Rodrigo. os concílios de Toledo. de uma pátria e de um povo: "Gothorum gens ac patria". Desse nacionalismo espanhol. Convertido ao catolicismo pelo bispo de Sevilha. Desde o fim do século VII. . os reis visigodos da Espanha encontram na Igreja um poderoso apoio. por ocasião da morte do rei Vitiza.

cuja língua e o direito desaparecem em províncias inteiras. Assim contra os turingios.OS REINOS GERMÂNICOS DO NORTE Os reinos do Norte. assinalam um abandono ainda mais pronunciado das tradições políticas de Roma. nada indica. contra os borgúndios. grandes feitos de armas. chefe do exército romano de Soissons. conquistou todas as terras das tribos francas do Reno. OS FRANCOS NA GÁLIA E NA GERMÂNIA Anteriormente a Clóvis. ao contrário. suas tribos avançaram até Treves e alcançaram o Mosela. Em 15 ou 18 anos. São acentuadamente reinos bárbaros. Sem contar os estreitos laços que o unem aos bispos. o rei reuniu sob sua autoridade numerosas colônias francas. e. de livre iniciativa. fundados mais tarde. Em seguida a Vouillé. Clóvis não abandona toda a herança política de Roma. provenientes das margens inferiores do Reno. Pouco depois. 498. em Tours. 499 ou 506?). após sua conversão ao cristianismo e seu batismo (em 496. tomando todo o seu reino até os Pireneus. os francos. recebe as tábuas consulares enviadas pelo imperador de Constantinopla. já há muito estabelecidas nessas regiões. A história das conquistas de Clóvis parece a princípio muito obscura. ataques armados ou mesmo de simples conquista e ocupação militar. Posteriormente. usa o diadema e a túnica púrpura dos imperadores. Auxiliado pela Igreja. contra os alamanos (495 ou 505?). Ao que parece. excetuando-se sua vitória contra Siagrius. Em outra direção. arrebanha-lhes províncias inteiras ou então os submete a uma espécie de protetorado. haviam conquistado todo o norte da Gália até o rio Somme. destruiu completamente a potência visigótica (em 507 em Vouillé). cidade onde permaneciam numerosos e influentes os . Instala sua capital em Paris. Anastásio. ao que parece. apoderase ele de todas as regiões do norte do Loire. lança temíveis expedições guerreiras contra os povos vizinhos. porém.

foi dividida entre os quatro filhos. pouco a pouco. que invocavam um ancestral legendário. que considerava o poder real como uma espécie de propriedade pessoal havia dividido seu reino entre seus quatro filhos sem levar em conta. Após sua morte. Suas campanhas na Turíngia. os particularismos étnicos ou lingüísticos. tão particular. ao que parece. à custa de duras campanhas. Mas Clóvis. Assassinam Segismundo. e que os historiadores chamam de merovíngios. é essencialmente bárbaro e germânico. rei dos borgúndios e. Em 553 seus bandos aliados aos dos alamanos. Toda a vida política repousa no poder absoluto do rei conquistador. alcançam a Venécia. A história dos filhos e dos netos de Clóvis.quadros galo-romanos. foi . fiéis ou leudes da estima do soberano. intervêm diversas vezes em direção leste. Os francos continuam a ser temíveis guerreiros e obtêm por muito tempo êxitos decisivos sobre seus vizinhos. entretanto. no Saxe e a seguir contra os alamanos e os bávaros propiciam-lhes Um vasto império. massacram gregos. e tão freqüentemente hostil. Seu reino. Sua hegemonia. em 511. A Aquitânia. expedições longínquas na Itália. a partir de então. Os outros homens livres galo-romanos ou guerreiros francos perdem. O serviço do príncipe estabelece. por volta de meados do século VI. anexam toda a região (534). seus direitos políticos e militares. romanos e godos. Meroveu. muitas vezes sob a forma de um protetorado sancionado por tributos. entre os homens livres uma hierarquia precisa em favor de uma nobreza de corte formada por companheiros. que se estende até as regiões do médio Danúbio. os sucessores de Clóvis. se faz pesar sobre todo o mundo bárbaro do Ocidente. retomando com um butim considerável. posteriormente a Apúlia e a Calábria a Campânia. desejando somente estabelecer partes de igual valor. Os francos lançam no momento da reconquista bizantina.

Após essa última tentativa de restauração da autoridade real somente os "prefeitos" (chefes) do palácio podem ainda se opor às pretensões dos grandes. contra golpe da invasão dos cavaleiros ávaros nas planícies da Europa central. apresenta-se já como o verdadeiro soberano. Nos primeiros tempos. enfraquecida por terríveis fomes. adversária declarada da aristocracia. Pepino de Herstal (714). foi porém vencida e supliciada em 613. vencedor de seus adversários numa série de impiedosas guerras. rei de 629 a 639. prefeito da Austrásia. muitas vezes sombrio. opondo cada vez mais a Nêustria (a oeste da Gália) e a Austrásia (a leste). assassinatos e guerras civis. netas e bisnetos). Eles se afirmam desde meados do século VII. às desordens de toda espécie. e sobretudo o dos membros do palácio. emergem dois personagens ávidos por preservar a autoridade real. comandantes dos exércitos. estreita. violentamente hostis. Ensangüentaram e enfraqueceram todas as regiões francas. Desse período confuso. que formam uma verdadeira casta. pouco . Toda a região parecia abandonada à anarquia. reduziu os grandes à obediência em virtude de inspeções longínquas na Borgonha e na Austrásia. apoiado por seus bispos conselheiros. solidária. deixa a Itália arruinada por guerras intermináveis. OS LOMBARDOS NA ITÁLIA A conquista lombarda. Roma mesma foi cercada várias vezes. fundador de uma nova dinastia. intrigas. O poder real dissolve-se na medida em que se afirma o poder dos duques. durante cinqüenta anos conselheira ou regente de quatro gerações de reis (seu marido Sigeberto e depois seus filhos. enriquecida com a posse de grandes domínios de terras e capaz de arrancar importantes concessões aos soberanos. Brunhilda. destruída em grande parte. as populações fugiam diante desses bandos de novos bárbaros. Dagoberto.apenas a de uma seqüência inextricável de conflitos familiares.

liderados por chefes insubmissos. nascido da conquista. por várias vezes. Instala oficiais. sobretudo em Pavia. deixava assim abertos os passos e as rotas dos Alpes aos ávaros e aos eslavos. a invasão destruiu o limes do Friul e as praças fortes da Venécia. agentes do domínio real que usurpam os poderes dos duques. presidem tribunais. impõe sua autoridade às províncias do Norte. ainda pagãos ou recentemente convertidos ao arianismo. ao papa. recrutam exércitos. lançam seus ataques nas planícies e até sobre as costas do Adriático. cercado em Verona. ao imperador carolingio. . submetidos a vexames e a dificuldades particulares. ou lutam contra todos. Milão. A ocupação lombarda foi regida muito tempo pela lei militar dos conquistadores. comandados por um duque. praticamente independente. a aristocracia romana ou goda exterminada. A única força política era o grande exército bárbaro. bandos de guerreiros. vendem seus serviços a Bizâncio. Mas. detêm os cantões montanheses. Além disso. pareciam então animados por um zelo de neófitos contra os cristãos romanos. foi rapidamente desintegrado por graves crises de sucessão: de 574 a 584 principalmente. assim que o Estado lombardo se desintegra sob o golpe dos exércitos francos. de inicio mal fixado. em meados do século VIII. no reinado de Liutprando somente (713-744). após a morte de Alboíno. por outro lado. sob o domínio dos duques de Espoleto e Benevento. grande justiceiro. O rei afirma-se lentamente. O Estado lombardo reúne tribos de origens étnicas bem diversas. as terras foram confiscadas. posteriormente estabelecido em blocos compactos na planície. No Sul. mais ou menos nômade. as terras do centro. Durante quase dois séculos nenhuma lei garantiu as pessoas ou os bens dos romanos. chefe de guerra. que. condes ou gasta/di. quando se desintegram as últimas defesas bizantinas do Norte. permanecem praticamente autônomas. sempre tendo em vista o butim.influenciados pela civilização romana do Oriente. Pouco a pouco. por oficiais do palácio e depois de juntas administrativas inspiradas na chancelaria romana.

no reino de Wessex. recompensados às vezes com terras. Essas tribos. uma barreira social bem delimitada separa ainda o camponês livre do homem que leva a designação de "companheiro" (do rei) e cujo wergeld (soma em dinheiro destinada ao pagamento de um resgate de sangue) é bem mais elevado: 1 200 shillings em lugar de 200. à manutenção de assembléias de camponeses livres para repartir as tarefas. de início chefe guerreiro de uma só tribo. A virtude tradicional do chefe é a generosidade a prodigalidade em relação a seus fiéis. instituição fundamental dos primeiros tempos anglo-saxônicos na Inglaterra. toma a forma de verdadeiras migrações seguidas de uma colonização muitas vezes intensa do solo por povos. a ordem política e social resultou também de uma conquista militar. Esses laços de homem a homem. Todos parecem habituados a uma vida coletiva. de origens diversas é claro. que bem se assemelhava a um bando de guerra. essas relações pessoais hereditárias da antiga sociedade de guerreiros germânicos. mais precisamente confederações . bem mais maciça. Os caracteres regionais parecem estar associados não a distinções étnicas.OS REINOS ANGLO-SAXÕES Na Inglaterra. marcaram sensivelmente por muito tempo a vida política inglesa: bispos e abades mesmo cercavam-se de uma corte de companheiros armados. vive cercado por seus companheiros que formam uma espécie de nobreza militar. O rei. Essas assembléias formam talvez a base da hundred. mas possuidores de um fundo étnico comum. mas esta. reúnem-se em reinos mais poderosos dominados por um chefe superior que se liga a inúmeros pequenos senhores. mas ao acaso da conquista. da implantação de tribos e de seu reagrupamento. Esses reinos. desde o século VI. No século VII.

A partir de então. como a História Eclesiástica de Beda (673735) destacam uma distinção fundamental entre as regiões situadas ao norte das margens do Humber. Os textos mais antigos. Oswin (Bernícia) derrota-o em 654. ataca as terras bretãs da Cornualha. e seu aliado Cadwallon atacam e devastam a Nortúmbria. numa terceira tentativa. onde se opunham constantemente dois reinos (Deira. A partir do início do século VIII. efêmeros e ligados à sorte do rei. Em 632. cai também em 641. opõem-se em contínuas lutas. dirigida por Oswald da Bernícia. em que combatem os bretões. Assinalam. geralmente desintegram-se após sua morte. a Nortúmbricr. Comualha). Dorset. inclusive a Mércia. para imporem sua supremacia às regiões vizinhas e tentar unificar a Inglaterra. os reis do Norte se ocupam sobretudo nas lutas contra os bretões (redução do reduto de Galloway onde Whitorn torna·se a sede de um bispado inglês) e contra os pictos. e os do sul (reinos de lindisfarne. Estes acham-se confinados para o oeste. Bernícia). East Anglia. um primeiro passo em direção à formação de Estados mais coesos. Posteriormente. mal fixados.de tribos. o êxito é efêmero. rei de Deira. foi o derradeiro empreendimento dos reis da Nortúmbria em relação ao Sul. ou tinham que se refugiar no leste e no norte em certos cantões das montanhas (Cumberland). estende sua influência bem ao sul do Humber. Mércia. porém. pois a Mércia se revolta. tornando-se senhor de um vasto Estado que reúne todos os povos do Sul. na região de Domnonée (Devon. domina toda a Nortúmbria. Seus reis. rei saxão da Mércia. Edwin. de um importante muro de terra. Penda. mata Penda e seus companheiros. no século VIII. permanecem por muito tempo incertos. Wessex. o Ofia's Dyke). Essex. No início do século VII. entretanto. Uma segunda federação da Nortúmbria. cada sucessão real dá margem a rebeliões em que d Nortúmbria mergulha na anarquia: os . entretanto. Kent). sob os ataques de Penda. casa-se com a filha do rei de Kent. de Gales (construção. Desta vez ainda.

do ponto de vista humano. de início em proveito da Mércia. impondo modos de vida totalmente diferentes. marcada é certo por vários incidentes. a importância do povoamento bárbaro. ao contrário. totalmente destruído por sua passagem. as estimativas numéricas mais audaciosas referem-se . nas províncias romanas do Ocidente. Essas migrações bárbaras são. Desses choques nasceu nossa civilização medieval civilização de síntese. encontros de civilizações originais. desde muito tempo. História Medieval. No Sul. depois do Wessex. segundo as técnicas de pesquisa. 1986. Em região alguma se instalou uma ordem política absolutamente nova. os progressos das ciências auxiliares Ou mesmo segundo as teses e correntes de opinião. Parece ainda impossível avaliar. os historiadores. De fato.pequenos soberanos reencontram freqüentem ente sua independência. para lutar contra a ameaça dos escandinavos nas costas do Leste (primeira expedição por volta de 790). a unificação dos pequenos reinos. Lisboa: Difel. geralmente. freqüentemente bem complexas. mesmo de uma maneira aproximada. onde é difícil distinguir as tradições romanas e as múltiplas contribuições bárbaras. prossegue. Desde mais de um século. Principalmente. deram maior ênfase a um ou outro mundo. HEERS. abandonou-se a idéia de uma onda humana ou de vagas irresistíveis que tivessem submergido o Império. infiltrações de grupos étnicos pouco numerosos entre populações já bem diversificadas. J. A Civilização dos Bárbaros As migrações germânicas provocaram. em destacar o número relativamente pequeno de invasores e. Os estudos recentes concordam.

no momento das grandes migrações e conquistas. no plano regional ou mesmo local. são facilmente adotados pelo resto da população. para medir mais exatamente a influência germânica. as mais rigorosas apresentam números relativamente modestos: de 10000 a 80000 homens aproximadamente. não formaram jamais comunidades puras. muito menos depois de Vouillé e do todo além dos Pireneus. Já antes do século IV. certamente excessivas sem dúvida.apenas aos exércitos bárbaros. Se estimamos em 7 ou 8 milhões de habitantes a população da península ibérica. Os visigodos. Para os outros germanos. portanto. por vezes pouco numerosa cujos costumes. Por todas as partes. os deslocamentos de pequenos grupos. Freqüentemente. incapaz de provocar. são de elaboração muito delicada. constatamos então que se trata de uma contribuição humana bem modesta. vários aspectos da civilização. de F. Os estudos de nomes de pessoas e de lugares. exclusivamente gados. As críticas. da vida política e do direito das províncias romanas achavam-se profundamente marcados pelos contatos com os bárbaros estabelecidos no Ocidente. como se fora uma nova moda. no momento em que se estabeleceram na Gália do Sul e. nomes e prenomes. e que foram sem dúvida os mais numerosos. os números permanecem incompletos. avaliar as migrações. O próprio aparecimento desses nomes não prova forçosamente um povoamento intenso mas. nos quais se apóiam hipóteses por vezes precipitadas. a presença única de uma classe dominante. povoamentos compactos. os invasores deviam viver misturados aos ibero-romanos. A presença de um grande número de sufixos germânicos só pode ser calculada de um modo relativo em relação ao total de topônimos da região. Lot demonstraram a fragilidade de certas conclusões. Toda tentativa de numerar dessa maneira a importância da implantação . Seria necessário. para os quais os levantamentos parecem mais precisos e coerentes. eram talvez uns 100000. para uma determinada época.

as formas de expressão das regiões vizinhas. que mantêm durante muito tempo o povoamento. nas regiões além dos Alpes. mantém importantes "ilhas" romanas em plena terra germânica. cidades de guarnições. arruinado em vários pontos. durante séculos. a fronteira lingüística entre os que se expressam em romano e os que falam dialetos germânicos estabelece-se não em função de barreiras naturais mas. em toda a porção norte da Gália mesmo. a das villae urbanae. grandes centros administrativos e mercados prósperos. Essa defesa foi freqüentem ente subestimada e várias obras insistiram numa ruptura fundamental entre o fim do Império romano e os primeiros tempos bárbaros.choca-se sempre com obstáculos intransponíveis. da qual dependia. onde a implantação romana foi consideravelmente mais fraca. a uma centena de quilômetros a oeste do limes. no século IV. sobre uma frente contínua. mantém. onde o limes apoiava-se em sólidas cidades. em suma. No Reno. Esse limes destruído ou enfraquecido. Musset. No total. as atividades econômicas do tempo dos exércitos romanos. mapa pág. a persistência de uma estrutura social estreitamente ligada à cidade. DEFESA DA ROMANIDADE Parece mais fácil definir as formas· da resistência romana. Do ponto de vista propriamente militar. a civilização. da língua e do direito tradicional. essa fronteira se encontro: então bem ao sul do antigo limes do Danúbio (L. Não se estabelece mais. entretanto. na região do Mosela. os estilos de vida. A resistência apresenta-se bem desigual. 175). Isto principalmente em relação à Germânia. a defesa . entre Bâle e o mar. de uma maneira bem regular. um vigor concreto: permanece uma zona fronteiriça entre duas civilizações em si estranhas. Enquanto mais para o leste. entretanto. a manutenção dos gêneros de vida. esta "rua de cidades" fortificadas marcou profundamente. sobre o limes intacto. Em certos pontos.

Verona e Ravena (comandada por Odoacro). fazem dos lombardos um povo já dotado de uma sólida estrutura política. das grandes rotas mercantes. Do que resulta o choque decisivo das duas civilizações: a dos germanos nômades ou seminômades. o empreendimento de Justiniano apresenta-se como um dos fatores decisivos da defesa da romanidade. A reconquista foi julgada de várias maneiras. capaz também de enviar reforços. Enfraquecido em terra. suas defesas destruídas. Somente o Império vândalo de Genserico ameaça por um tempo a dominação romana no Mediterrâneo. de cidades e portos movimentados por rotas ancestrais.romana contava menos com as fortificações do que com os grandes exércitos de campanha. forças de intervenção eficazes. estacionadas uma na Gália do Norte (a de Siagrius somente derrotada por Clóvis em 486) e a outra na planície do PÓ. Permitiu retomar as tradições antigas. a cidade do Bósforo toma-se a capital espiritual e intelectual do mundo romano. o Império guarda ciosamente a dominação no mar e impede seus súditos de ensinar aos bárbaros a arte de construir navios. cavaleiros pastores ou infantes. nas proximidades de Milão. Graças ao mar. ávidos de exaltar as virtudes bárbaras ou germânicas. destacam os trágicos efeitos sofridos pela Itália em virtude da guerra contra os ostrogodos e em seguida contra os lombardos. fornecer novamente as lições do Oriente no plano . É por mar que os imperadores do Oriente mantêm sua dominação ou influência. por muito tempo senhora do Mediterrâneo. capaz de assegurar a proteção dos comboios de trigo. os clérigos e monges formados e instruídos em Constantinopla. A despeito desse descrédito quase geral. Os historiadores. a dos romanos. Alguns. entretanto. quase todos. chocou-se a seguir com duas resistências. a defesa dependia mais ainda da frota. de uma rica civilização. Apesar de significativos êxitos. Nas regiões do Sul. os funcionários. que chegam os exércitos. perceptível principalmente em autores alemães de antes da guerra. capaz ao menos de regenerar a Itália perdida em virtude dos excessos ou da debilidade dos orientais. das relações com a Grécia e o Bósforo. dos portos.

A Africa e a Espanha bizantina permanecem. na Caldéia. também. por muito tempo protegidas por um limes e com pouca penetração dos invasores. João de Gerona e depois João de Santarém) reforçam ainda esses laços espirituais. um padre vindo da Arábia para evangelizar os suecos. pontos de escala na rota marítima em direção a Armórica e à Bretanha. esse muro era coberto por marfins. que mais tarde os italianos denominaram de "terra dos romanos". As peregrinações à Terra Santa. em Pombeditah principalmente. muito depois da invasão lombarda. encontram-se ainda ânforas confeccionadas no Oriente. É viável. e na própria região de Ravena. seu sobrinho Fidélio de Mérida (fim do século VI). Isto ocorre em Veneza. a Romanha. na Cornualba. do mesmo modo que os iconóstases do Oriente. no noroeste da península. Na Irlanda. um velho médico grego e. introduz em Braga. no convento de Sta. Martinho. os concílios ecumênicos. como outrora. Toda a Espanha vê a chegada dos mercadores gregos ou sírios. imagens pintadas sobre madeira. trazidas de Roma ou de Constantinopla. posteriormente. Brígida em Kildare. pensar em pontos de contato entre essas cristandades extremo-ocidentais e Constantinopla.espiritual e artístico. A influência bizantina mantém-se bem marcante na Itália. nas lagunas e cidadelas de pescadores. em Gênova. os israelitas estabelecidos nas cidades enviam seus filhos para estudar nas escolas da Pérsia e da Mesopotâmia: em Sora. elementos de cidades do interior. Calábria). aonde afluíram os milaneses. Isto bem além da Itália. nas províncias do Sul (Campânia. Na Espanha. um muro barrava a nave. portanto. em Devon. o ascetismo e os costumes contemplativos do monacato oriental. enquanto que orientais fundam mosteiros ou ocupam sedes episcopais: assim Paulo. . nas ilhas que permaneceram sob a dominação do imperador do Oriente e nas zonas de refúgio. os estudos de prelados em Constantinopla (sempre no século VI. Apúlia. Nas grandes igrejas dos mosteiros irlandeses. certamente mesmo fora do mundo mediterrâneo. que recebeu.

mas a aldeia. efetivamente. é verdade. bem mais forte na Gália: os habitantes abandonam uma parte importante da cidade e se refugiam num núcleo fortificado. em Perigueux a superfície de Vesone passa de 50 ha a 5 ha. Musset). o habitat natural dos germanos. Essa regressão foi. senão suas atividades. em algumas regiões. não era a cidade cercada: por muralhas. Muitas também. das relações do comércio e do artesanato urbano. são uma continuidade das antigas aldeias ceItas. todavia. não é inexata. Ao passo que. Em Autun. do mesmo tipo. As invasões bárbaras teriam então provocado uma desintegração das cidades. A evolução certamente foi muito lenta e pouco perceptível aos olhos dos contemporâneos. na Espanha e na Itália. da própria economia monetária. deve ser somente matizada. Em todo o Ocidente. várias exceções. ao menos sua importância como outrora (salvo Bolonha: de 70 ha a 25 ha). pois apresenta. nas regiões do Norte ao menos. quase todas as cidades conservam. bem desigual. que continuaram a empregar o mesmo nome: villa depois village. Desse modo. Esta visão clássica. o muro de 6 quilômetros de comprimento acha-se reduzido a I 300 metros.O GENÊROS DA VIDA: OS BÁRBAROS E A CIDADE Tornou-se um lugar comum relacionar a civilização germânica a uma vida mais ou menos nômade ou errante. onde as cabanas de madeira alinhavam-se em filas. o estabelecimento dos bárbaros marca um certo declínio das cidades. que a ocupação romana não havia feito desaparecer completamente. nem a villa romana de pedra. estranha todavia às tradições da vida urbana. sem dúvida. Não se sabe se estas aldeias correspondem a novos estabelecimentos ou se foram instaladas sobre ruínas de villae destruídas. Certamente. perto das arenas ou freqüentem ente próximo a uma porta. no todo. a: extinção ou o enfraquecimento dos gêneros de vida propriamente romanos explicam-se tanto pela revivescência: de "barbáries indígenas" como pelo êxito de "barbáries importadas" (L. .

mas mantinham seus palácios em várias cidades administrativas. escolas. depois de Clichy. residências reais. fortificadas. Os . Soissons. As grandes residências principescas. Germaindes-Prés). na Espanha e na Itália. criadores de gado. enriquecidas por uma corte. Na própria Africa. os bispos de 61 centros da Africa. freqüentemente cercados por muralhas. necrópoles reais da abadia dos apóstolos e Sta. de quase todas as cidades e as villae. caracterizam de maneira decisiva a paisagem urbana da Gália. Sua instalação provoca sem dúvida um enfraquecimento da vida urbana: episódio dramático dessa fase foi a destruição de Cartagena. movimentados pelo mercado e pelo trabalho dos artesãos. Genoveva). estabelecimentos administrativos. Reims e principalmente Paris: palácio da cidade. os visigodos. condais ou episcopais. retomada aos bizantinos em 618. estabeleceram-se nos altos planaltos do centro. Isso ocorre na Gália. Chr. da Sta. santuários. posteriormente Saint-Denis. Às antigas cidades romanas já se substituem cidades mais anárquicas. A conquista anglo-saxônica na Bretanha acompanha-se por uma germanização quase total da região: abandono da língua bretã e do cristianismo. os burgos abaciais. os santuários dispersas pela cidade ou fora de seus muros. no concílio de 525. as migrações germânicas não parecem responsáveis pela extinção da cidade romana. onde o porto sempre recebeu mercadores estrangeiros e onde estão representados. aglomerações. principalmente cidades duplas ou múltiplas. Uma feliz abordagem do assunto realizado por E. Na Espanha.De fato. Cruz eSt. Courtois demonstrou que os reis vândalos mandaram executar importantes obras em Cartago. entre o Sena e o Reno. "conglomerados de cidades". em Orléans. cercadas de casas da família. Em todas as outras províncias do Império. os reis francos ou godos não eram reis nômades. uma basílica funerária para a dinastia. a civilização urbana só desapareceu realmente na Inglaterra e na Armórica. Na Gália. Ewig salienta a importância das cidades capitais.

o direito bárbaro dá testemunho de uma mentalidade e de práticas Originais: responsabilidade coletiva da família. mostram-se profundamente influenciadas pelo próprio direito romano. A LÍNGUA E AS LETRAS . enquanto Sevilha. metrópole religiosa dos católicos. Certamente. cercando uma cidade de 30 ha. Ao redor dos próprios palácios reais. resgate de crimes por indenizações . permanece ainda. alguns casam-se com mulheres da aristocracia hispanoromana. algumas guarnições nas cidades do Norte. construídos a princípio fora da cidade. enfim. dado que se encontra um bispo ariano em varias cidades da Galiza (Viseu. A Vida Intelectual e Artística nos Reinos Bárbaros Afirmar que as invasões bárbaras destruíram a civilização romana impondo tradições completamente novas é um ponto de vista errôneo. entretanto. com os bispos Leandro e posteriormente lsidoro. Mérida e Toledo. como o Código de Eurico ou a Lei Sálica. ao menos por algumas de suas formas provinciais. 1986.wergeld -. Pampilica (próximo a Burgos) e sobretudo Recópolis. As leis bárbaras. Toledo. deve aos reis bárbaros sua riqueza e seu prestígio. que se mantém bem depois da conquista muçulmana. Tortosa. embelezam-se com ricos mosteiros e basílicas. fiel à tradições antigas. sobre o Tejo. J. Tuy. seu brilho intelectual e artístico. História Medieval. constroem-se verdadeiras cidades capitais. mais tarde abandonadas. com suas belas muralhas com 600 metros de comprimento. Palência) e do Oriente (Barcelona. duelos ou provas judiciárias. capital política fortificado por Leovigildo (568-586). mas muito imponentes para a época: Gerticos (próximo a Salamanca). Lisboa: Difel. porém. Valência). são numerosos. redigidas em latim.godos mantêm. HEERS.

A vida literária liga-se sempre às expressões antigas. Saragoça. onde Cassiodoro dirige uma espécie de Academia literária e científica. Musset). Toledo). de lnstitutione divinarum litterarum). um dos clérigos mais brilhantes de toda nossa Idade Média ocidental. pode-se encontrar alguma afetação nas lamentações de Gregório de Tours que deplora o declínio das letras: a cultura antiga sobrevive sempre na Provença (Arles) e em . Assim em Ravena com Boécio (480-524.Dificilmente encontraremos. sem dúvida. utilizada pelas Iínguas nórdicas. a Crônica de Juliano de Toledo. Sinônimos. Na Irlanda. a Consolação Filosófica) e Cassiodoro (480-575. Por outro lado. adotada tardiamente. mais do que de contribuições realmente novas. parecem ainda difíceis de definir e de analisar. Origens ou Etimologias. assim. cede definitivamente sua influência ao latim dois séculos mais tarde. Livro da natureza e das coisas). escrita em alfabeto galego. de um folclore rural oposto à cultura dos letrados. celtas. Agaliense perto de Toledo. na Calábria. História dos Godos. numerosas obras profanas de valor testemunham sempre o prestígio das letras romanas: as Cartas de Braulion de Saragoça. mantêm-se com brilho nos reinos godos. protegida dos atentados do vulgar. em grande parte a marca de revivescências de antigos temas indígenas. traços de uma verdadeira cultura germânica. no domínio literário e intelectual. A escrita rúnica. São. erudita. jamais teve grande influência no continente. o gosto pela retórica. o latim permanece uma língua de sábios. as manifestações de uma cultura popular. Caulanium perto de Mérida). os reis e os nobres da Espanha enriquecem suas bibliotecas com livros antigos. Na própria Gália. Depois dele. Isidoro de Sevilha (560-636. Servitano próximo a Valência. na época dos reinos bárbaros. personalidade forte. tende ela a desaparecer desde o século VI (L. dotada de uma considerável biblioteca. as escolas episcopais (Sevilha. A língua gótica. Na Espanha. após a reconquista bizantina. permanece também bastante fiel à cultura latina. Os mosteiros (Dumio perto de Braga. no mosteiro de Vivarium. A língua latina. brilhante no momento da conversão dos godos.

Esta emoção "nacional". o abandono do universalismo romano. os bárbaros conservam também o gosto pelo luxo. em placas cloisonnées incrustadas de esmalte. Pode-se. em Worms. os metais preciosos e as cores vivas. colares de ouro). da Gália romana. A espantosa habilidade dos trabalhadores godos ou francos. em filigrana. Nos tempos bárbaros. A ARTE BÁRBARA As migrações bárbaras trazem para o Ocidente. depois Didier 540-610).Viena (bispos Avit. uma mentalidade diferente. Fontaine. atento. na joalharia religiosa ou profana (fíbulas. ligar essa nova arte às tradições nômades. expressões artísticas totalmente novas. primeiramente ambulantes e depois fixados nas margens do Reno. Encontra-se aí uma sincera emoção. jóias . Afirmam-se então novas técnicas: trabalho em finas folhas de metal. Se a obra de Isidoro de Sevilha marca uma forte nostalgia pela antiga grandeza de Roma. nas vestimentas e nas jóias. numa certa medida. demonstra todo o interesse mantido no trabalho e na decoração de armas. Colônia ou Bonn. a "uma das primeiras formas de expressão literária da sensibilidade medieval". anuncia uma nova cultura. Essa imitação. fivelas de cintos. ao desejo de manter a riqueza nas armas. rompe claramente com a produção grosseira. uma adesão profunda a seu tempo e aos valores do momento. as artes ditas "menores" (dever-se-ia mais dizer "mobiliárias" ou "industriais") superam a arquitetura e a grande escultura à maneira antiga. ao que parece. 450-518. do qual Cassiodoro já havia dado os primeiros exemplos. um poder de afeição e de sugestão. uma viva atração pelos antigos temas filosóficos e uma certa sobriedade de formas de expressão. para J. as vestimentas suntuosas. Das tradições nômades e do Oriente. entretanto. A História dos Godos assemelha-se a uma espécie de canto épico nacional e. testemunha também uma profunda originalidade. em série. O trabalho sempre precioso. onde seus ateliers são célebres já no século VI. não é forçosamente servil. de um objeto original ao qual o artesão dá o máximo de si.

entrelaçadas. João de Bafios. mais tardias (segunda metade do século VII) as de S. A arte animalista dos gados (águia. com plano cruciforme. Muitos provêm de antigo fundo celta. A arte bárbara é também uma arte de síntese. A arte irlandesa. deve-se. ofereceu um . Esta arte bárbara liga-se à decoração lisa e negligencia decididamente o relevo: pedras gravadas. de origem por vezes incerta. através dos magníficos manuscritos iluminados nos mosteiros (o Book of Kells. formas estilizadas em todo caso. próximo a Barcelona. os temas ornamentais não são somente bárbaros. Um grande número de testemunhos tratam do luxo bárbaro: as descrições de Sidônio Apolinário. que reúne elementos bastante complexos. desenhos em filigrana. É também uma arte de movimento: feras digladiando-se em duros combates. e de Terrassa. de Mérida ou de Évora. evitar exageros quanto à importância das contribuições propriamente germânicas. com temas tomados à arte das estepes (arte dos cito-sármatas). As tradições romanas permanecem ainda bem vivas nos reinos mediterrânicos dos gados onde são erguidas as grandes igrejas de Ravena. de bronze dourado incrustado de pedras duras ou preciosas. onde se enfraqueciam as técnicas arquitetônicas. ornadas com arcos em ferradura. animais fantásticos tais como grifas e dragões. monstros contorcidos. os tecidos e as jóias encontrados no túmulo da princesa Amegunda em Saint-Denis (por volta de 570). peixe) enriquece-se a seguir. as dos cronistas árabes que mostram os nobres visigodos cativos em Damasco após a conquista. Entretanto. na região de Valência. por exemplo) e as grandes cruzes de pedra esculpida. com a chegada dos lombardos cuja influência parece considerável.de ouro e prata. Nas regiões do Norte. por outro lado. Santo Isidoro consagrou três capítulos de suas Etimologias à construção dos edifícios religiosos ou profanos. principalmente os extraordinários tesouros visigóticos da Espanha (as coroas descobertas em Guarrazar) e as jóias lombardas de Monza. entrelaçamentos geométricos. são cobertas por abóbadas de pedra. Além disso indica bem um novo gosto: motivos abstratos.

principalmente no trabalho do metal a estética bárbara deve muito ao Oriente mediterrânico. De fato. 1986. respeitam as antigas crenças (os entrelaçados simbolizando a água corrente. imagens pagãs. assim. História Medieval. sem menosprezar a importância das novas técnicas. reforçam a evolução da arte romana. ou à Pérsia dos sassânidas.exemplo apaixonante dessa síntese de elementos diversos: decoração tomada aos sarcófagos gauleses dos séculos IV e V (sacrifício de Abraão. os patos símbolo da fertilidade). já no fim do Império cada vez mais influenciada pelo Egito e pela Síria. numerosas contribuições bárbaras refletem empréstimos às civilizações orientais. evolução cujos monumentos e objetos bizantinos de Ravena testemunham de forma decisiva. HEERS. Enfim. entretanto. Os escribas irlandeses adotam naturalmente os motivos pagãos. Daniel na gruta dos leões). J. cenas populares. Lisboa: Difel. por todo o Ocidente. . imitações da joalharia saxônica. De maneira que. a Bizâncio. transformamnos em símbolos cristãos que.