ASPECTOS RELEVANTES DO PODER NORMATIVO DA JUSTIÇA

DO TRABALHO
Mauro Schiavi1

Introdução

Desde o surgimento da Justiça do Trabalho, há debates e controvérsias sobre a possiblidade
da Justiça do Trabalho solucionar o conflito coletivo de trabalho, em substituição às partes no
conflito, criando normas aplicáveis no âmbito das categorias profissional e econômica.
Quando cria normas e soliciona o conflito coletivo de trabalho, a Jutiça do Trabalho e o
próprio processo trabalhista se valem do chamado princípio da normatização coletiva.
O princípio da normatização coletiva se constitui na competência material atribuída à justiça
do trabalho para uma vez solucionado o conflito coletivo de interesses (abstrato), criar, dentro de
determinados parâmetros constitucionais, normas aplicáveis no âmbito das categorias profissional e
econômica envolvidas no conflito.
Esse princípio se exterioriza pelo chamado poder normativo da justiça do trabalho, que se
trata de uma competência anômala a ela conferida para uma vez solucionado o conflito de interesse,
criar normas que irão regular as relações entre as categorias profissional e econômica. Não se trata
apenas de aplicar o direito preexistente, mas de criar, dentro de determinados parâmetros, normas
jurídicas. Por isso, se diz que o poder normativo da justiça do trabalho atua no vazio da lei, ou seja:
quando não há lei dispondo sobre a questão. Em razão disso, a justiça do trabalho detém a
competência constitucional para criar normas por meio da chamada sentença normativa.
Desde a origem da justiça do trabalho, há divergência sobre a necessidade do poder
normativo.
Amauri Mascaro Nascimento menciona os debates entre Waldemar Ferreira e Oliveira
Viana quando da criação da justiça do trabalho. O primeiro em seu livro Princípios de legislação
social e direito judiciário do trabalho (São Paulo, 1938), era desfavorável ao poder normativo, pois
este contrariava princípios constitucionais, uma vez que a sentença alcançava de modo abstrato a
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Mauro Schiavi é Juiz Titular da 19ª Vara do Trabalho de São Paulo. Mestre e Doutor em Direito das Relações Sociais
pela PUC/P. Professor Universitário.

A função do juiz é criativa. (b) morosidade do judiciário trabalhista.pessoas não discriminadas. máxime quando há equilíbrio entre as categorias profissionais e econômicas. hoje cancelada). 1938) contestou Waldemar Ferreira. Mostrou também que havia novas realidades a ser atendidas mediante técnicas próprias. (g) sindicalização por categoria e unicidade sindical. afirmando a compatibilidade entre a função normativa e a função judiciária. invadindo.2 Há argumentos favoráveis e desfavoráveis ao poder normativo da justiça do trabalho brasileira. quando o sindicato suscitante comprovasse que esgotou a possibilidade da negociação coletiva (IN 4/93 do TST. pois muitas vezes divorciada da realidade. (e) engessamento da negociação coletiva. De outro lado. (f) acomodação das categorias profissional e econômica. a esfera do poder legislativo. (c) garantia de equilíbrio na solução do conflito coletivo. bem antes da EC 45. (d) despreparo técnico dos juízes em conhecer efetivamente o conflito coletivo e a realidade da categoria. Aliás. assim. José Olympio. (c) falta de efetividade da sentença normativa. Nesse sentido segue o art. . ed. sem o que não é cumprida integralmente a sua missão. não se limitando a ser mero intérprete gramatical dos textos legais e aplicador dos comandos legais como autômato diante da lei. 24. coletivos e individuais homogêneos. (h) fragilidade do movimento sindical brasileiro. máxime quando uma das categorias é fraca. (b) garantia de efetividade dos direitos trabalhistas. Não temos dúvidas de que a melhor solução do conflito coletivo se dá por meio da negociação coletiva. p. podemos apontar: (a) acesso à justiça do trabalho. (f) redução da litigiosidade e pacificação social. (d) tradição dos países de Terceiro Mundo em solucionar o conflito por meio do poder judiciário. segundo a escola sociológica do direito colabora para a construção das normas jurídicas. a jurisprudência do Tribunal Superior do Trabalho só vinha admitindo o dissídio coletivo de natureza econômica. 2007. total ou parcialmente. 219 do RI/TST: “Frustrada. Oliveira Viana em sua obra Problemas de direito corporativo (Rio de Janeiro. São Paulo: Saraiva. Entre os argumentos desfavoráveis à existência do poder normativo. afirmando que o juiz. a autocomposição dos interesses coletivos em negociação promovida diretamente pelos interessados ou mediante intermediação administrativa do 2 Curso de direito processual do trabalho. Entre os argumentos favoráveis ao poder normativo. (e) não impede que trabalhadores e empregadores criem consciência de classe e regulem seus próprios interesses. 52-54. (i) tendência universal do acesso à justiça para a defesa dos interesses difusos. destacamos: (a) interferência indevida do poder judiciário na atividade legislativa.

da CF: “Recusando-se qualquer das partes à negociação coletiva ou à arbitragem. o poder normativo ainda se faz necessário. Em que pesem os ponderáveis argumentos em sentido contrário. participação obrigatória dos sindicatos na negociação coletiva. pois o dissídio pressupõe lide. A restrição ao Poder Normativo impulsionada pela Emenda Constitucional 45/2004 Dispõe o art. negociação por categoria. contados da intimação. Vale lembrar que a solução judicial do conflito coletivo pela justiça do trabalho é uma faculdade das partes e. ele deve ser interpretado segundo o atual estágio que vive o direito do trabalho. vejamos: unicidade sindical. que é o conflito de interesses qualificado por uma pretensão resistida. dando efetividade ao princípio do acesso coletivo à justiça. respeitadas as disposições mínimas legais de proteção ao trabalho. se este pressupõe o dissenso entre as partes? . pensamos que o nosso sistema sindical ainda apresenta alguns entraves para que a negociação coletiva seja efetiva. embora possa ser restringido. 616. embora o instituto tenha origem fascista. em que falta consciência e informação da classe trabalhadora. § 1º Na impossibilidade real de encerramento da negociação coletiva em curso antes do termo final a que se refere o art. ajuizar dissídio coletivo de natureza econômica. a representação coletiva será ajuizada no prazo máximo de trinta dias. 114. falta de tradição na utilização da arbitragem como meio de solução dos conflitos e um sindicalismo ainda em desenvolvimento. como o último subterfúgio de garantia do equilíbrio na solução justa do conflito coletivo. poderá ser ajuizada a ação de dissídio coletivo. a entidade interessada poderá formular protesto judicial em petição escrita. Como pode haver comum acordo para ajuizamento de dissídio. ainda que destinado à defesa de interesses abstratos da categoria.órgão competente do Ministério do Trabalho.” Não obstante. sob pena de perda da eficácia do protesto. da CLT. podendo a justiça do trabalho decidir o conflito. uma vez editada. § 2º Deferida a medida prevista no item anterior. se desvincula do seu criador para adquirir vida própria. § 3º. bem como as convencionadas anteriormente”. À primeira vista parece causar estranheza a redação do § 2º do art. a fim de preservar a data-base da categoria. dirigida ao presidente do tribunal. de comum acordo. é facultado às mesmas. § 2º. 114. Cumpre lembrar que a lei.

XXXV. de 8 de dezembro de 2004. 1º da EC 45. De nossa parte. trata-se de uma emenda constitucional inconstitucional. Ausência de vulnerabilidade ao art. 114 da CF. Alguns intérpretes têm considerado que a expressão ajuizar de comum acordo não produz nenhuma alteração. pois o dissídio coletivo pressupõe conflito. Comum acordo. tendo em vista que a exigência visa a fomentar o desenvolvimento da atividade sindical. 5º. nesta linha de argumentação é inconstitucional a exigência do comum acordo para ajuizamento do dissídio coletivo de natureza econômica. 5º. possibilitando que os entes sindicais ou a empresa decidam sobre a melhor forma de solução dos conflitos”. com a redação dada pelo art. “in verbis”: “Dissídio coletivo. sua restrição pode ser levada a efeito por meio de reforma . para criar normas jurídicas no âmbito das categorias profissional e econômica. pois o dissídio coletivo de natureza econômica tem natureza dispositiva (ou constitutiva para alguns). § 2º. da CF. No mesmo sentido o parecer do Procurador Geral da República na ADIn 3432-4/DF. Dadas as características das quais se reveste a negociação coletiva. Nesse sentido é o Enunciado 35. da CF. da CF) previsto como necessário para a instauração da instância em dissídio coletivo. da CF. Portanto. Assim sendo. previsto no art. argumentam que a exigibilidade de consenso para ingresso do dissídio coletivo de natureza econômica fere um direito maior que é o do acesso à justiça do trabalho. XXXV. Além disso. quando fracassarem as tentativas de negociação direta e arbitragem voluntária. 5º. já que visa à criação de norma aplicável no âmbito da categoria e não de aplicação do direito vigente a uma lesão de direito. que é dirigido à lesão de direito já existente (positivado no ordenamento jurídico). do art. por exceção. Constitucionalidade. o § 2º do art. 114 da CF não atrita com o princípio da inafastabilidade da jurisdição previsto no art. da 1ª Jornada de Direito Material e Processual do Trabalho realizada pela Anamatra. não está abrangido pelo âmbito normativo do art. XXXV. 114. vazado nos seguintes argumentos: “Ação direta de inconstitucionalidade em face do § 2º do art. Ou seja. no chamado vazio da lei e solucionar o conflito coletivo de natureza econômica.Diante da nova redação do citado dispositivo legal. O poder normativo da justiça do trabalho. não fere o princípio do acesso à justiça o pré-requisito do comum acordo (§ 2º. por não ser atividade substancialmente jurisdicional. Além disso. se trata de competência atribuída à justiça do trabalho. da CF. foram muitas as interpretações da expressão “comum acordo”. 114.

Nesse sentido é a posição de Pedro Paulo Teixeira Manus: “A EC 45/2004 condiciona o exercício do poder normativo ao ajuizamento do dissídio coletivo por ambas as partes. Direito do trabalho. 976. se prevalecer o entendimento de que deve haver acordo prévio para a instauração do dissídio coletivo de natureza econômica. a nosso ver. Por outro lado. da CF. o requisito do “comum acordo” deve estar presente já no ingresso do dissídio. 114. o que equivale à ausência de oposição. sob consequência de nulidade do processo. uma vez que os pressupostos processuais são requisitos de existência. No campo da processualística talvez não seja difícil “escapar” do requisito do comum acordo prévio.4 Para outros. Em sendo um pressuposto processual. tacitamente está anuindo. é porque. Devemos compreender a expressão comum acordo. regularidade de desenvolvimento da relação jurídica processual. Para parte da doutrina o comum acordo não precisa ser prévio. De nossa parte. à concordância da parte contrária e não obrigatoriamente ao ajuizamento conjunto do dissídio. p. § 2º. ou pode ser obtido a posteriori. o comum acordo a que se refere a EC 45/2004 pode ser obtido até de forma tácita. 10. se o conflito chegou até a justiça do trabalho.constitucional. sem que seja violada a cláusula pétrea que estabelece o princípio da inafastabilidade do poder judiciário”. presumivelmente. ed. há entendimentos no sentido de que o comum acordo tem que ser prévio. o que tornaria na maior parte dos casos inviável o ajuizamento”. 244. pois se interpretando tal requisito como sendo uma condição da ação. 2006. já que. Desse modo. muitos entendem. se como condição de ingresso da ação. fracassaram as tentativas de solução amigável do litígio ou de arbitragem voluntária. São Paulo: Atlas. 2007. de comum acordo. se o suscitado comparecer à audiência de conciliação. p. estapoderá ser 3 4 Apud BEZERRA LEITE. o poder normativo da justiça do trabalho fica praticamente extinto. pois não praticou nenhum ato incompatível com a aceitação em se submeter à decisão judicial.3 De outro lado. Carlos Henrique. como sendo um pressuposto processual. Curso de Direito Processual do Trabalho. divergindo quanto ao momento em que ele deve ser preenchido. São Paulo: LTr. pois dificilmente haverá tal requisito na instauração do litígio. que não há como se negar a exigência de tal requisito. conforme o art. apresentar defesa e não se opuser ao prosseguimento do processo. vale dizer: obtido quando do ajuizamento do dissídio coletivo. . diante da clareza do texto constitucional.

por ausência de condição da ação. mas uma condição prévia para a apreciação da pretensão. Cumpre destacar que o “comum acordo” se assemelha ao compromisso arbitral e. não há necessidade de o comum acordo ser prévio ao ajuizamento do dissídio. Inegavelmente. Pressuposto processual. Segundo Liebman. 301. podem ser preenchidas até o julgamento.sanada no curso do processo. a partir da exigência . podendo tal condição da ação ser preenchida no curso do processo. melhor dizendo. Exigibilidade da anuência prévia. Não demonstrado o comum acordo exigido para o ajuizamento do dissídio coletivo. inclusive de forma tácita. um óbice à apreciação da pretensão coletiva trazida em juízo. Carlos Alberto Reis de Paula. Preliminar que se acolhe” (TST. Nesse sentido destacamos as seguintes ementas: “Dissídio coletivo de natureza econômica.2006. mas não há necessidade de que este requisito seja preenchido no ingresso da ação. Conforme a jurisprudência firmada pela seção especializada em dissídios coletivos do Tribunal Superior do Trabalho. o poder normativo não fora extinto. No nosso sentir. consoante a diretriz constitucional. ao acesso a ele. § 4º. sem resolução do mérito. 2006). pois a lei fala em ajuizar. o Tribunal Superior do Trabalho fixou jurisprudência no sentido de que a expressão comum acordo. pois se assim quisesse o legislador ele o teria feito expressamente. Min. o comum acordo não é um pressuposto processual. de comum acordo.09. Ausência de comum acordo. DT 148/165 nov. do CPC. à luz do art. Pronunciou-se o Tribunal Superior do Trabalho. exigindo a presença do comum acordo quando do ajuizamento do dissídio. Assim. A EC 45 visou a restringir o acesso à justiça do trabalho para resolução dos conflitos coletivos de interesse. Interpretando-se literalmente o § 2º do art. e sim uma condição da ação. configura pressuposto processual. 114 da CF nos parece que não há dúvidas de que o “comum acordo” tem que ser prévio. Por isso não se trata de um requisito de validade da relação jurídica processual. o juiz não pode conhecê-lo de ofício. Extinção do processo. conforme a dicção da seguinte ementa: “Dissídio coletivo. do CPC. ou. pelo art. Estamos convencidos de que. houve uma restrição do poder normativo. Posteriormente. prestigiando a autocomposição. melhor dizendo. DJU 29. 114 da CF. devendo-se extinguir o processo. VI. rel.4. Proc. 267. . as condições da ação ainda que não presentes quando da propositura da ação. evidencia-se a inviabilidade do exame do mérito da questão controvertida. ou. pela não oposição do suscitado. § 2º do art.DC 165049/2005-000-00-00. podendo ser preenchido no curso do processo.

Recursos ordinários conhecidos e parcialmente providos” (TST. Assim. a despeito da diversidade das atividades econômicas desenvolvidas pelas empregadoras. j. O comum acordo. embora a maneira ideal devesse ser materializado sob a forma de petição conjunta da representação. desde que não haja a oposição expressa do suscitado. sem resolução de mérito. rel. Jurisprudência do TST. da CF e 267. para julgar extinto o processo. Legitimidade passiva. reformando a decisão do tribunal regional que rejeitou a preliminar de ausência de comum acordo. o comum acordo constitui pressuposto processual para o ajuizamento do dissídio coletivo de natureza econômica.2. os técnicos de segurança do trabalho constituem categoria profissional diferenciada. pressuposto específico para o ajuizamento do dissídio coletivo. . No caso concreto. § 2º. em relação aos suscitados que renovaram a arguição. § 2º. 114. 114. o que lhes permite ajuizar dissídio coletivo econômico. Dá-se provimento parcial. § 2º. nos termos do art. Recursos ordinários interpostos pelos sindicatos patronais. Art. § 2º. § 3º da Lei 4. reforma-se parcialmente a decisão regional. consubstanciada na inexistência de oposição expressa do suscitado à instauração da instância no momento oportuno. § 3º. Recursos ordinários aos quais se dá provimento. 114. SEDC.410/1985 e da NR 27 do Ministério do Trabalho e Emprego. apenas em relação aos suscitados que expressamente apontaram. da CLT. Categoria diferenciada. exigência trazida pela EC 45/2004 ao art. em seu art. IV. contudo. 267. Inovação recursal. esta Corte Superior tem admitido a hipótese de concordância tácita com o ajuizamento do dissídio coletivo. § 3º. 511. nos termos do art. verifica-se que o não preenchimento desse requisito. 6º. Em face da Lei 7.725/1965. da CF. na forma do art. ratificaram seu dissenso nas razões recursais. Empregados vendedores e viajantes do comércio no Estado do Rio Grande do Sul. da CF. já constituídas. 114. em suas defesas. 1) Ausência de comum acordo arguida por alguns dos suscitados. do CPC. as situações fáticas. a vontade soberana da Constituição Federal que. de forma que a legitimidade passiva não se sujeita à correspondência entre as categorias econômica e profissional. nos termos dos arts. que admite a concordância tácita na instauração da instância.RODC 20244/2007-000-02-00.05. Min.trazida pela EC 45/2004 ao art. Ausência de comum acordo. IV. § 2º. e a qual não se desconstitui mediante a arguição tardia e inovatória em sede de recurso ordinário.05. erigiu a negociação coletiva como método privilegiado de composição dos conflitos coletivos de trabalho. ressalvadas as situações fáticas já constituídas. ora renovado em preliminar. do CPC. 114.2009. da CF. 2) Recursos ordinários interpostos pelos demais suscitados.725/1965. a fim de serem fixadas condições de trabalho específicas. julga-se extinto o processo. para adaptar algumas das . na contestação.2009). a teor do art. pois. “Dissídio coletivo. Respeitando. Concordância tácita. Ao interpretar o art. Extinção. da Lei 4. DEJT 29. e que. a não concordância com o ajuizamento da ação como causa extintiva do feito. Ressalvam-se. o que implica óbice ao chamamento desta justiça especializada para exercício de seu poder normativo. 114. foi expressamente indicado por alguns dos suscitados desde a contestação. Proc. sem resolução de mérito. 11. 6º. Walmir Oliveira da Costa. da CF. é interpretado de modo mais flexível pela justiça do trabalho.

5. SDC. Também com a escassez do poder normativo. determina o decreto de extinção do processo sem resolução do mérito.04.04.2010. no curso do processo. por meio de ações anulatórias. Esta é. 20110029. rel. por ausência de pressuposto processual: comum acordo previsto no art. j. RO 25500-98. Inconstitucionalidade dessa exigência. 114.05.0000. admitindo o ajuizamento do dissídio sem o comum acordo.2007. ou até mesmo ser suprido judicialmente. Recurso ordinário a que se nega provimento” (TST. SDC. 10. 5º. 11 da CF). em particular dos conflitos coletivos de natureza econômica. Bons cidadãos que dispensem a interferência dos maus juízes e bons juízes que . da CF. rel. EC 45/2004. DEJT 23. aliás. do CC). § 2º.2010).2010.cláusulas impugnadas à jurisprudência normativa desta Corte” (TST. Art. Ausência de comum acordo..05. § 2º. Como bem adverte Mozart Victor Russomano: “Na solução dos conflitos de trabalho. como a representação direta dos trabalhadores na empresa (art. Extinção do processo sem resolução do mérito. e até mesmo o aniquilamento de direitos sociais.04. da CF).0000. Caso tal interpretação mais rígida quanto ao ingresso do dissídio coletivo não funcione. se reitera a velha e válida ideia de que não basta que existam leis boas.2010). Dora Maria da Costa. DEJT 28.5. RODC.12. j. anulando. a interpretação pode retroceder. 421 e ss. a justiça do trabalho exerceria um controle a posteriori. 114. negociação direta entre trabalhadores e empresa (art. perpetuação do conflito e grande instabilidade social. participação dos trabalhadores na gestão da empresa (art. A discordância da suscitada com o ajuizamento do dissídio coletivo. dispostos a respeitá-las e a fazê-las respeitar. rompendo com o paradigma da negociação por categoria. havendo um aumento significativo da litigiosidade. talvez a jurisprudência poderia experimentar ser mais rígida com a interpretação da expressão “comum acordo” e exigi-lo quando do ingresso do dissídio. Precedentes desta Corte. a atuação precípua do judiciário. oportunamente manifestada em contestação. XI. 7º. “Recurso ordinário. que não se verifica. podendo este ser obtido a posteriori. como forma de estimular a negociação direta das partes. É preciso que existam bons cidadãos e bons juízes. poderiam eclodir outras formas de negociação coletiva. máxime considerando-se o princípio da liberdade de contratar (arts. 12. da CF. ante o disposto no art. ou seja. da CF. Embora não sejamos otimistas com a exigência do “comum acordo” para o ajuizamento do dissídio coletivo de interesse. Dissídio coletivo. 617 da CLT).2009. com a redação conferida pela EC 45/2004. Fernando Eizo Ono. XXXV. Restringindo-se o poder normativo. as eventuais cláusulas de acordos e convenções coletivas que extrapolem os limites constitucionais mínimos ou não cumpram sua função social.

pois em seu seio nascemos e nos formamos. A sentença sempre é página arrancada da vida de algum homem. se houver discordância do suscitado. Embora a jurisprudência possa adotar uma posição mais restritiva quanto à exigência do comum acordo. Como sulocionar o conflito coletivo se o Sindicato forte se recusa a negociar? Por fim.”5 Concluindo. a exigência do comum acordo previsto no § 2º do art. uma questão se mostra de grande importância: Se o Sindicato mais forte se recusa a negociar e não aceita o dissídio coletivo. conforme fixamos entendimento acima. 2. devemos continuar ao lado dele. O conflito prolongado pode gerar litigiosidade contida e desembocar em greve sem precedentes. 2002. Como solucionar o impasse? Partindo-se da premissa da necessidade do comum acordo. de uma condição da ação. Esse é o juiz que enfrentará. O tribunal não pode declarar de ofício a falta do comum acordo. a face severa do juiz que o acompanha. certo dia. podendo tal condição da ação ser preenchida no curso do processo. Rio de Janeiro: Forense. não há necessidade dele ser obtido quando do ajuizamento do dissídio. Mas. pela não oposição do suscitado. viemos do povo. não há necessidade de o comum acordo ser prévio ao ajuizamento do dissídio. ed. sentindo-lhe o calor. 114 da CF não extinguiu o poder normativo. o suor. o acesso a ele foi restringido e se criou um obstáculo à sua instauração. o sofrimento. Nossa experiência de juiz. porque são as sentenças da história. 293. com tranquilidade. de final desesperador.reprimam a conduta dos maus cidadãos. anônima e comunitária das multidões’. podendo tal condição da ação ser preenchida no curso do processo. como se trata. permite que a palavra final deste livro seja de advertência: ‘Nós os juízes do século XX. Nele se reflete ou dela resulta o drama que chega ao último ato ou tragédia. inclusive de forma tácita. o tribunal não poderá julgar o dissídio coletivo de natureza econômica. p. devendo este ser invocado em defesa pelo próprio suscitado. o avalia e o qualifica. durante quarenta anos. Foi dito alhures: ‘O povo é o juiz dos juízes’. a pulsação. é aquele que consegue incorporar em sua alma a alma coletiva. para outros um pressuposto processual. O ordenamento jurídico trabalhista não prevê mecanismos de solução deste impasse. inclusive de forma tácita. Assim. neste final de século. A sentença coletiva é página arrancada da história de um povo. que para alguns é uma condição da ação. pela não oposição do suscitado. 5 Princípios gerais de direito sindical. sem dúvida. Deveria ter sido acrescentado: E suas sentenças são inapeláveis. O verdadeiro juiz. Para o fiel desempenho de nossa missão social. sob consequência de preclusão. .

8º. por analogia. analisando o caso concreto a razoabilidade. nos termos do art. por meio de tutela específica. na falta de disposições legais ou contratuais. in verbis: “As autoridades administrativas e a justiça do trabalho. ainda. também. 22. com fulcro no art. garantido como fundamental pela Constituição Federal. nesta hipótese. XXXV e LXXVIII. conforme o caso. suscitando. A reiterada recusa injustificada à participação em processo negocial afasta a aplicação do disposto no parágrafo único e alínea a do art. 86.6 No aspecto. quando a greve perdura por lapso de tempo considerável. mas sempre de maneira que nenhum interesse de classe ou particular prevaleça sobre o interesse público”. 867 da CLT e leva a manutenção da data base. O judiciário. na denegação do aludido comum acordo. pensamos que. III e 114. e admitir o dissídio de natureza econômica. p. A comprovada recusa reiterada do sindicato patronal em participar do procedimento negocial afasta a aplicação do disposto no parágrafo único e letra a do art. da CF. decidirão. Interpretação do art. 461. a justiça e a equidade. . vale destacar a seguinte ementa: “Comum acordo. Considerações sobre as teses jurídicas da exigência do comum acordo. Esta solução é possível de ser aplicada no direito brasileiro. jul. Não obstante. 6 Dissídio coletivo e EC 45/2004. o suprimento judicial do ‘comum acordo’. 2006. 5º. do CPC. sem consenso. que trata das obrigações de fazer. dessa forma. conforme disciplina no art. § 2º. Intepretação dos arts. Dissídio coletivo. 8º da CLT. principalmente do direito do trabalho. § 2º. ano 26. 114. de acordo com os usos e costumes. o direito comparado. há a obrigatoriedade de instauração de arbitragem compulsória. bem como com fundamento em imposição de uma condição meramente potestativa do empregador. Revista do Advogado. devendo ser rechaçada a preliminar de ausência de pressuposto processual para instauração de instância. Efeitos. AASP. Restaria. Também implica concordância que configura comum acordo. São Paulo. Colisão de direitos fundamentais. de foram incidental. caberá. mesmo não havendo o comum acordo. n. embora não haja tradição. da CF/1988. por equidade e outros princípios e normas gerais de direito. o suprimento de outorga judicial para instauração do dissídio coletivo de natureza econômica. e.Na Espanha e em Portugal. poderá instaurar o dissídio coletivo de natureza econômica no tribunal. pela jurisprudência. Abuso de direito. Nesse sentido é a visão de Enoque Ribeiro dos Santos: “Se o sindicato profissional for fraco e não tiver densidade suficiente para impor pressão por meio da greve. 461 do CPC. pode deferir o suprimento de outorga. superado o óbice do ‘comum acordo’ para que o tribunal conhecesse do dissídio coletivo de natureza econômica”. pois o direito comparado é fonte do direito material e processual do trabalho. sob pena de configurar cerceamento do direito de acesso à jurisdição.

a fim de preservar a unidade da Carta Constitucional da República” (TRT – 15ª Reg. p. SDC. Tereza Aparecida Asta Gemignani. direito fundamental garantido pela Constituição Federal em vigor. A aplicação da norma infraconstitucional e a interpretação do preceituado no § 2º do art. Suplemento de Jurisprudência LTr 32/254. . 1260-2009-000-15-00-7. 114 da CF/1988 não pode levar à colisão dos direitos fundamentais assegurados pelos arts. notadamente o da concordância prática e da efetividade. rel.05.867 da CLT. 2010). 8º. XXXV e LXXVIII.10. da CF/1988. III.PADC. DEJT 10. 24. 198/10 .. e leva à manutenção da data-base. Proc. devendo ser pautada pelos princípios de hermenêutica constitucional. pois o abuso de direito de uma das partes não pode levar ao cerceamento do acesso à jurisdição para a outra parte. Ac. 5º. Também configura comum acordo para a instauração do dissídio coletivo.