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Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa

Exame de 2.ª época de Direitos Reais
20 de Julho de 2011

I. Lisboa, Setembro de 2010: António e Bernardo são, respectivamente, um estudante do ensino
secundário prestes a entrar para a Faculdade de Direito de Lisboa, e um recém-licenciado pela mesma
Faculdade. Sendo amigos, Bernardo acordou emprestar a António, por um período de 4 anos, todos os
livros de Direito que fossem de sua propriedade, uma vez que não tencionava lê-los ou consultá-los
num futuro próximo. Assim, entregou a António todos aqueles, comprometendo-se António a estimá-los
e, se possível, a promover melhorias na sua conservação.
Logo no mês de Outubro de 2010 António mandou encadernar os manuais relativos às
disciplinas do 1.º ano de licenciatura, solicitando ao seu vizinho Carlos (que Bernardo também
conhecia) que guardasse os demais livros até deles necessitar. Entretanto, em Julho de 2011,
Bernardo descobre que, afinal, sempre necessitaria de alguns dos livros que havia emprestado a
António, e, como este não lhe devolveu as suas chamadas telefónicas, decidiu arrombar a porta da
residência de António, recuperando alguns dos seus livros já encadernados. Resolveu adoptar o
mesmo procedimento na residência de Carlos, na qual encontrou ,ainda, um velho disco de vinil que lhe
havia furtado (constando inclusivamente a sua assinatura na contracapa do disco), e que Carlos havia
comprado numa loja de raridades musicais há três anos.
António e Carlos pretendem reaver rapidamente os bens em questão, estando o primeiro
particularmente perturbado pois, uma vez que o custo da encadernação havia sido superior ao dos
livros em questão, pensava que já lhe assistisse o direito a fazê-los seus. Todavia, ambos estão
particularmente ocupados com a presente época de exames, pelo que solicitam o seu auxílio.
Quid iuris? (10 valores)

II. Álvaro, artista de variedades, encontra-se em sérias dificuldades económicas há alguns anos,
havendo já hipotecado a sua casa ao Banco B, que, por sua vez, cedeu a hipoteca ao Banco C, de
quem Álvaro é também devedor. Em simultâneo, Álvaro consignou as receitas dos seus espectáculos
ao Banco D, e empenhou-lhe, embora sem entrega, todos os materiais que emprega da realização e
execução dos seus espectáculos.
Na sua “vertigem” por liquidez, Álvaro conseguiu vender a Belmira, em Janeiro de 2008, uma
casa de férias de sua mãe, adquirida por seu avô aquando da primeira intervenção do F.M.I. em
Portugal (1977), que se encontrava omissa no registo predial, sendo o registo de aquisição promovido
pelo próprio Álvaro. Belmira constituiu, em Janeiro de 2009, um direito de superfície relativo à habitação
a favor de Cristina, por 100 anos, sendo o seu registo promovido pelo advogado que autenticou o
documento particular em que o negócio foi formalizado, havendo, por sua vez, Cristina dado como
entrada, enquanto sócia de uma sociedade comercial, o usufruto da superfície da referida habitação.
Sucede, porém, que, apesar de a destinar a estadias de curta duração, a mãe de Álvaro nunca
deixou de frequentar a casa no verão, sendo este ano confrontada com a instalação da sede de uma
sociedade comercial na mesma.
Quid iuris? (10 valores)
Duração da prova: 120 minutos.

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Exame de 2.ª época de Direitos Reais
20 de Julho de 2011

TÓPICOS DE RESOLUÇÃO DOS CASOS PRÁTICOS
I.
a) Contrato de comodato, outorgando posse interdictal a A, e ainda um enquadramento
para eventuais benfeitorias, que surgem, todavia, enquadradas geneticamente num
acto de autonomia provada, e não com autonomia – arts. 1129.º, 1133.º, n.º2, 1138.º,
n.º 1 CC (equiparação a possuidor de má fé).
b) Encadernação dos livros enquanto benfeitoria útil na coisa, sem facultar, todavia, o
direito de retenção – arts. 216.º, n.º 3, 1273.º, n.º 1, e 756.º, alínea b) a fortiori CC.
Discussão em torno da eventual acessão industrial mobiliária no mesmo âmbito, que
era, todavia, excluída.
c)

Depósito promovido pelo comodatário, outorgando também posse interdictal ao
depositário – arts. 1185.º, 1188.º, n.º 2 CC.

d)

Esbulho violento por parte do proprietário da coisa. Noção de violência para efeitos
possessórios, maxime violência sobre coisas. Possibilidade de acção de restituição
da posse por parte de comodatário e depositário, nos respectivos âmbitos, com
bloqueio de acção directa e reivindicação dominial. Acesso paradigmático á
providência cautelar de restituição provisória da posse – arts. 1267.º, n.º 1, alínea d),
1261.º, n.º 2, 1278.º, n.º1, 1279.º CC e 393.º CPC.

e) Eventual reivindicação do disco de vinil. Todavia, suscitava-se a possível usucapião
de C, com base em posse titulada, de boa fé (não infirmada pela assinatura
constante do disco, uma vez que estas são comuns em coisas usadas), com a
duração de três anos – arts- 1259.º, n.º 1, 1260.º, n.º 2, 1299.º CC. Em alternativa
perfilar-se-ia ainda o art.º 1301.º CC, que, não impedindo a reivindicação, sempre
determinaria que C recebesse o que havia pago pelo disco.
II.
a) Constituição de diversas garantias: hipoteca e transmissão válida damesma enquanto
direito real autónomo – arts. 686.º, 727.º, n.º 1 CC; consignação de receitas enquanto
garantia pessoal, que, não se confundindo com a consignação de rendimentos (art.
656.º CC), não possui natureza real; aparente penhor de objectos teatrais,
modalidade de penhor que dispensa a entrega da coisa enquanto formalidade
constitutiva da garantia real – art. 668.º, não aplicação do art. 669.º, n.º 1 CC.
b) Venda de bem alheio de A a B, com realização de primeiro registo a favor de B.
Excepção ao princípio da legitimação registal. Legitimidade de A, enquanto suposto
alienante, para promover o registo – arts. 892.º CC; 9.º, n.º 3 e 36.º CRP.
Não protecção tabular de B: é parte no negócio nulo, e não terceiro em relação a este
(291.º CC), não é terceiro em relação a registo nulo (17.º, n.º 2 CRP), não existe
autor comum (5.º CRP).

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20 de Julho de 2011

c)

Superfície temporária a non domino – arts. 1524.º, 1536.º, n.º 1, alínea c), com forma
legal e legitimidade registal – art. 22.º, alínea a) do Decreto-Lei n.º 116/2008, 8.º-B,
n.º 1, alínea b) CRP. Protecção (oneração) registal de C ex vi 291.º CC? Questões da
onerosidade do contrato celebrado e do termo a quo para a contagem do prazo de 3
anos.

d) Usufruto de superfície legalmente admissível, bem como a sua afectação societária –
arts. 688.º, n.º 1, alínea e), 1534.º, 984.º, alínea a). Direito dependente da existência
ou não de oneração tabular a favor de C, expressão do princípio da causalidade. Em
caso negativo equação de aquisição tabular, se o registo da aquisição pela sociedade
fosse promovido (hipótese omissa no mesmo âmbito).
e) Usucapião com sucessão na posse, mantendo-se a posse no período em análise –
arts. 1257.º, n.º 1, 1255.º e 1296-.º. Supressão via usucapião da eventual oneração
tabular a favor de C – art. 5.º, n.º 2, alínea a) CRP, aplicável a outros fenómenos de
aquisição tabular. Aplicação atípica do instituto da usucapião, que não se confunde,
porém, com a usucapio contra tabulas.