DA SUBSTITUIÇÃO DE IMPORTAÇÕES AO CAPITALISMO FINANCEIRO 
 
Maria da Conceição Tavares 
 
I.O Processo de Substituição de Importações como Modelo de Desenvolvimento na América 
Latina 
 
A.TRANSFORMAÇÕES DO MODELO DE DESENVOLVIMENTO NA AMÉRICA LATINA 
 
1.CARACTERÍSTICAS DO MODELO EXPORTADOR 
 

Nas  economias  centrais,as  exportações  continuaram  responsáveis  pela  geração  e 
crescimento  de parcela da Renda Nacional e as importações fonte de suprimento da 
demanda  interna  por  diferentes  bens  e  serviços.Mas  a  primeira  variável  fora 
acompanhada  da  presença  de  investimentos  internos  e  autônomos  além  de 
inovações  tecnológicas.Já  nos  países  periféricos  latino­americanos,as exportações 
eram  praticamente  o  único  motor  de  crescimento  da  Renda  Nacional  e  o  setor 
exportador  representava  o  centro  dinâmico  de  toda  a  economia.Esse   empuxo 
dinamizador  era  limitado,posto que essas economias contassem com apenas um ou 
dois  produtos  primários  ­  sobre  os  quais  baseavam  toda  sua  organização.Dadas 
essas limitações,de  modo  geral o desenvolvimento do setor exportador deu vazão à 
urbanização  ao  longo  da  qual  indústrias  de  bens  de  consumo 
interno(tecido,calçados,móveis)foram surgindo.Essa atividade industrial reduzida  
somada ao setor  agrícola  de subsistência não foram suficientes para dar dinamismo 
a  essas  economias,permanecendo,assim,dependentes  à  demanda  externa  por 
produtos primários. 
 
Por  outro  lado,o  papel  das  importações  nas  economias  centrais  era  abastecer  o 
mercado  interno  de  alimentos  e  matérias­primas  que  os recursos  naturais de seus 
países  não  lhes  permitiam  produzir  de  maneira  suficiente.Já  nas  economias 
periféricas,além  de,em  menor  ou  maior  grau,ter  de  resolver  esse  problema,as 
importações  eram  compostas  de  grandes  quantidades  de  bens  de  consumo 
terminados  e  praticamente  o  total  de  bens  de  capital  necessários  ao  processo  de 
investimentos. 
 
O  cerne  da  problemática  do  crescimento  "para  fora"  típico  de  nossas  economias 
está  evidentemente  vinculado ao quadro de divisão internacional do trabalho que foi 
imposto  pelo  próprio  processo  de desenvolvimento das economias líderes e do qual 
decorria,para  os  países  da  periferia,uma  divisão  do  trabalho  social  totalmente 
distinta da do centro. 
 
Nos  países  desenvolvidos,não  havia  separação  entre  capacidade  produtiva  dos 
mercados  interno  e  externo.Não  sendo  possível  diferenciar  um  setor  unicamente 
exportador. 

 

As  manufaturas eram  exportadas  e  consumidas  dentro do país,a  especialização  se 
fazia  mais  por  diferenciação  que  setorização.Já  na  América  Latina,há  uma  clara 
divisão  entre  setores  externo  e  interno.O  setor  exportador,geralmente  de  alta 
rentabilidade  era  especializado  em  um  ou  poucos  produtos,dos  quais  apenas uma 
parcela  era  consumida  internamente,já  o  setor  interno  possuía  baixa 
produtividade,sendo  basicamente  de  subsistência,e  satisfazia  apenas  as 
necessidades de primeira  ordem de uma parcela da população.Por outro lado,a alta 
concentração  da  propriedade  dos  recursos  e  do  capital  no  setor  exportador(mais 
rentável)fazia  com  que  a  distribuição  de  renda   fosse  tremendamente 
desigual.Enquanto  o  grosso  da  população  auferia  lucros  muito  baixos,as  classes 
altas  apresentavam  padrões  de  consumo  similares  aos  dos  grandes  centros 
europeus e em grande parte atendidos por importação. 
 
2.  A  QUEBRA  DO  MODELO  TRADICIONAL  E  A  PASSAGEM  A  UM  NOVO 
MODELO 
  
A  crise  prolongada dos  anos  trinta marca  a  ruptura do  modelo primário­exportador. 
De  imediato,  a  queda  nas  receitas  de  exportação  diminuiu  em  50%  a  capacidade 
para  importar da  maior  parte  dos países da América Latina. Desse cenário, deriva a 
iniciativa  dos  governos  de  defender  o  mercado  interno  dos  efeitos  da  crise  do 
mercado  internacional  através  de  medidas  como  restrições  e  controle  das 
importações,  desvalorização  da  taxa  de  câmbio  e  compra  de  excedentes  ou 
financiamento  de  estoques,  visando  antes  defender­se  contra  o  desequilíbrio 
externo a estimular a atividade interna.  
O  desenvolvimento   "para  dentro”:  mantida  em   menor  ou  maior  grau  a  demanda 
preexistente  e  reduzida  a  capacidade  para  importar,  o  ajuste produziu­se mediante 
um  acréscimo  dos  preços  nas  importações,  resultando  num  estímulo  à  produção 
interna substitutiva.  Inicialmente,  utilizou­se  a capacidade existente; posteriormente, 
por  meio  da  redistribuição  de  fatores  e  do  uso  de divisas (escassas)  para  importar 
os  bens  de  capital  e  matérias­primas  necessárias  à   instalação  de  novas  unidades 
destinadas  a  continuar  o  processo  de  substituição.  Dessa  forma,o  setor  externo 
assumiu  papel  decisivo  no  processo  de  diversificação  da  estrutura  produzida,  por 
meio  da  importação  de  equipamentos  e  bens  intermediários.  Sendo  essas 
mudanças restritas ao  setor industrial, as mutações ocorridas no sistema econômico 
conviveram  com  a  manutenção  de  uma  base  exportadora  precária  e  sem 
dinamismo,o que dará a essas economias uma característica dual. 
  
3. Natureza e Evolução do Estrangulamento Externo 
De  maneira  absoluta,  o  estrangulamento  externo consiste na capacidade declinante 
ou  estancada  para  importar  e  de  maneira  relativa  se  identifica  como a  capacidade 
de  importar  crescendo  mais  lentamente  que  os  produtos.  O  estrangulamento 
externo  e  o  intenso  processo  de  substituição  das  importações  traduziu­se  numa 

 

diminuição  do  coeficiente geral  de  importações. As importações, que antes da Crise 
representavam  28% da renda  conjunta  da América  Latina,  constituíram,  no período 
de 1945­49 apenas 15%. 
  
PRIMEIRO PERÍODO (CRISE ­ FIM DA SEGUNDA GUERRA) 
Quadro:​
 reduções severas da capacidade para importar em diversas conjunturas. 
Resultado: substituição  de  bens não  duráveis de consumo final (em alguns países, 
como o Brasil, avançando até produtos intermediários e bens de capital). 
  
SEGUNDO PERÍODO (PRIMEIRO DECÊNIO DEPOIS DA GUERRA) 
Quadro:  menores  limitações da  capacidade para importar, crescimento do poder de 
compra das exportações. 
Resultado:  aumento  considerável  do  dinamismo  da  economia  (no  Brasil  a 
substituição  avança  para  faixas  de  bens  de  consumo  duráveis  e  produtos 
intermediários e bens de capital). 
  
TERCEIRO PERÍODO (A PARTIR DE 1954) 
Quadro:​
 condições externas voltam a ser restritivas 
Resultado:  maioria  não  consegue  manter  ritmo  de  desenvolvimento  por 
substituição  de  importação.  (Brasil  consegue  e   inclusive  sua  taxa  de  crescimento 
acelera). 
  
B. As Diversas Acepções do Termo 'Substituição de Importações' 
  
Não  consiste  ela  na  simples  operação  de  retirar ou diminuir componentes da  pauta 
de  importações  para  substituí­los  por  produtos  nacionais.  Na  verdade,  esse 
processo  é  imposto  e  não  desejado,  as  restrições  do  mercado  externo  impõe  às 
economias  que  passem  a  produzir  o  que  antes  importavam.  Dessa  forma,  novas 
demandas  por  importação  surgem  (como  de  produtos  intermediários  e  bens  de 
capital),resultando numa dependência ainda maior do mercado exterior; ao contrário 
do  que  a  análise  rasa  do  termo  possa  invocar. Outro exemplo  de que substituição 
não é 'literal’, encontra­se  na  aparição de  fábricas  após  a  Segunda  Guerra Mundial 
de  produtos  que  não  existiam  no  período  anterior,  estas  também  não  podem  ser 
chamadas 'substitutas’;  mas obra da continuação do processo geral de reorientação 
dos  fatores  produtivos.  Outro  caso  está  na diminuição  de  importações  de  produtos 
considerados  não  essenciais,  que  deu  vazão  à  produção  interna  desses  bens; 
sendo  essas  restrições  fruto  de  controle  governamental  não  seriam  propriamente 
substituições.  
 
A  substituição  'real  ou  efetiva’  é geralmente  muito menor  do  que  a  'aparente' 
que  se  visualiza  pela  diminuição  de  certas  importações  na  pauta.  Assim, por 
exemplo,  em  consequência,  a  demanda  por  insumos  básicos  e  produtos 

 

intermediários(nem  todos  necessariamente  produzidos  no  país),pagam­se 
serviços  técnicos e de  capital. No fundo, a produção de  um  determinado  bem 
apenas  ''substitui''  uma PARTE  do valor agregado que antes se gerava fora da 
economia.  Isso  pode  AUMENTAR  em  termos  dinâmicos  a  demanda  derivada 
de IMPORTAÇÕES em um grau superior à  economia  de divisas  que se obteve 
com a produção substitutiva. 
  
C.A DINÂMICA DO PROCESSO DE SUBSTITUIÇÃO DE IMPORTAÇÕES 
Série  de  respostas   aos  sucessivos  desafios  colocados  pelo  estrangulamento 
externo,  através  dos  quais  a  economia  vai  se  tornando  ​
quantitativamente  menos 
dependente do exterior e mudando ​
qualitativamente​
 a natureza dessa dependência. 
 
A  substituição  começa  pela  produção  de  bens  de  consumo  ​
terminados​

principalmente  porque  para  estes  a  reserva  de  mercado  é  ​
maior.  Essa  instalação 
tende  a  expandir  o  mercado  interno  desses  bens,  permitindo  o  ​
crescimento  da 
demanda  ​
derivada  por  importações  de  ​
matérias­primas  e  outros  ​
insumos​
.  Surge 
então  uma  contradição:  o  crescimento  do    ​
produto  gera  a  necessidade  do 
aumento  das  importações,  por  sua  vez  limitadas  pela  capacidade  do  país.Em 
resposta,  segue­se   uma  nova  onda  de  substituições,  que  liberam  divisas 
indispensáveis  à  instalação  e  operação  das  novas  unidades  produtivas.  De 
novo, com o crescimento da renda, se reproduz o fenômeno descrito. 
 
  
1.RESPOSTA AOS DESAFIOS DO DESEQUILÍBRIO EXTERNO 
 
Empurrão:​
embora  vinculado  à  grande  depressão  mundial  dos  anos 
trinta,poder­se­ia  considerar  qualquer  situação   de  desequilíbrio  externo  duradouro 
que rompesse o modelo tradicional exportador. 
 
1.necessidade de satisfazer a demanda interna existente  
Saídas: 
1) maior utilização da capacidade produtiva já instalada; 
2)  produção  de  bens  e  serviços  independentes  do  setor  externo(serviços 
governamentais); 
3)  instalação  de  unidades  produtivas  substituidoras  de  bens  anteriormente 
importados; 
 
2.AS MODIFICAÇÕES  NA  ESTRUTURA DE  IMPORTAÇÕES  E A MECÂNICA DA 
SUBSTITUIÇÃO 
 
As primeiras  substituições  são feitas levando em conta a demanda interna dos bens 
mais  facilmente  substituíveis,ou  seja,os  bens  de  consumo  terminados.Assim,as 

 

importações  passam  dos  bens  de  consumo  final  para  os  produtos 
intermediários.Após  as  primeiras  fases  da  industrialização,é comum que a estrutura 
das importações  permaneça  a mesma,posto  que a substituição  acontece  em várias 
faixas(bens  de  consumo,produtos  intermediários  e  bens  de  capital),o  que  não 
significa  que   não  esteja  havendo  modificação.Não  é  desejável  que  a  substituição 
seja  realizada  em   uma  faixa  só,já  que  a  rigidez  excessiva  da  pauta  pode 
comprometer  a continuidade do processo.Por exemplo,se a substituição se restringir 
aos bens finais de consumo,a pauta pode comprometer­se e prejudicar  importações 
necessárias  à  manutenção  da  produção  corrente  e  à  expansão  da  capacidade 
produtiva.Esse  mecanismo  visa  evitar  o  estrangulamento  interno.Para  que  essa 
meta  seja  realizada,a  saber,a  substituição  dos  bens  em  várias  categorias 
simultaneamente,mudando  apenas   o  grau  de  concentração  em  cada  uma  delas de 
período  para  período  uma série  de  circunstâncias favoráveis  serão  necessárias.No 
ambiente  interno,por  exemplo,a  escolha  das  faixas  de  substiuiçõe  não  poderá  ser 
induzida apenas pela demanda presente e carecerá de uma capacidade de previsão  
e decisão  que só poderão  prover de  decisões governamentais,quer promovendo os 
investimentos  diretamente  ou  amparando  a  iniciativa  privada  por meio de  medidas 
de caráter financeiro.Em contrapartida,no setor externo as limitações deverão ser no 
máximo  relativas,posto  que  à  renovação  do  aparelho  produtivo  a  expansão  das 
importações  é  essencial.Isso  poderá  ser alcançado por meio  do  aumento  no  poder 
de compra das exportações e/ou à entrada compensatória de capital estrangeiro. 
 
 
 
3. As condicionantes internas do processo 
  
Há  alguns  fatores   que  se  transformaram  em  problemas  sérios  para  o 
desenvolvimento  econômico  interno  via  substituição  de  importações  e  que  são  as 
causas  das  deformações  que  o  processo   apresentou  historicamente  em  nossos 
países. Sendo eles: a dimensão e estrutura  dos mercados  nacionais, a natureza da 
evolução  tecnológica  e a constelação  de  recursos  produtivos. Os  três tem múltiplos  
aspectos relacionados. 
 
Análise  dos  problemas  que  podem  ser  colocados  pela  dimensão  e  estrutura 
do mercado interno 
  
O  processo  de  industrialização  na  América  Latina   teve  lugar,  apenas  em   escala 
nacional, dadas as condições de divisão internacional do trabalho que prevaleciam à 
época do seu inicio e que não se modificaram muito. 
Para  ultrapassar  esse  obstáculo,  os  países  maiores  puderam  apoiar­se  no  seu 
mercado  interno  e  passar  a  desenvolver, sobre a velha estrutura produtiva primária, 
um  moderno  setor  secundário  readaptando  e  modernizando  o  setor de serviços até 

 

então  voltado  para  as  atividades  exportadoras,  A  magnitude  e  diversificação  dos 
novos  setores  estava  condicionada  às   dimensões  e  composição  da  demanda 
interna e à sua posterior evolução. E estas, dependiam da distribuição de renda. 
Devido a tal distribuição favorecendo as  classes de mais alta renda, o novo sistema 
produtivo  de  importações  estava  dirigido  a  esta  demanda.  As  exigências  desta 
classe  levava  a   uma  diversificação  industrial,  considerada  a  demanda  da  classe 
mas  também  apresentava  inconvenientes  do  ponto de  vista  da  estrutura  de  custos 
de concentração econômica em termos setoriais ou regionais. 
Havia  tendência  a  uma  inevitável  concentração  das  atividades  econômicas,  uma 
vez  que  não  se  poderia  esperar  um  número  grande  de  empresas  que  num 
ambiente  competitivo  se  estabelecessem  com  condições  de  rentabilidade  para 
disputar mercados específicos. 
Esse  problemas  se  agravam  a  medida  que  o  processo  de  industrialização  avança 
para  novas categorias de produção mais complexas, já que a escala exigida tende a 
ser muito grande em relação ao tamanho relativo do mercado. 
De  que  maneira  o  desenvolvimento  do  processo  da  industrialização  pela  via  da 
substituição  de  importações  dá  lugar  à  expansão  do  próprio  mercado  interno e de 
que tipo é esta expansão? 
A substituição  de  dava principalmente em faixas de bens de consumo não­duráveis, 
que  exigia   uma  tecnologia  pouco  elevada,  o  “módulo”  de  investimento  além  de 
multiplicador  de  renda  tendia  a  ser  fortemente  multiplicador  de  emprego.  A 
ampliação  do  mercado  se  dava  então  por  duas  vias,  pela  elevação  de  renda  dos 
grupos  de  alto   poder  aquisitivo  e  incorporação  ao  consumo  de  bens  e  serviços 
industriais  e  derivados  de  trabalhadores  deslocados  para  os  novos   setores 
dinâmicos,  com remunerações  mais elevadas.  A medida  que  se  sai  da  substituição 
de  bens  básicos  para  a  industrialização  de  bens  de  consumo  duráveis,  o 
crescimento  relativo  do  mercado  passa a  dar­se em  termos  verticais,  explorando  o 
poder de compra  das classes  de  alta renda,  devido  a dois motivos fundamentais: 1. 
A  alta  densidade  de  capital  por  unidade  de  investimento  e  de  produto  impede  a 
absorção de grandes  quantidades de  mão­de­obra;  2. O alto valor unitário dos bens 
produzidos  só  permite  a  incorporação  aos  mercados  consumidores  de  reduzidas 
camadas da população. 
A  implantação  dos  novos  setores produtivos dá à  economia um  grande dinamismo 
quanto  ao  crescimento  de  renda  e  aceleração  do  processo  de  substituição  de 
importações,  introduz   dentro  do  próprio  “setor”  capitalista  uma  desproporção  séria  
entre  uma capacidade  produtiva cuja escala ótima se destina a atender ao consumo 
de  massas,  em  países  desenvolvidos,  e  a  dimensão  efetiva  do  mesmo  num  país  
subdesenvolvido. 
  
Exame  dos  problemas  decorrentes  da  natureza  da  moderna  tecnologia,  face 
ao processo produtivo de substituição de importações 
  

 

Os  países subdesenvolvidos importam  tecnologia  das  economias líderes de  acordo 
com  seus  recursos  diversos.  Essa  importação  é  necessária  dada  a  incapacidade 
técnica. 
Há  alguns  inconvenientes:  para substituir produtos, exige­se  grande quantidade  de 
capital  e  pouco emprego gerado.  O que  significa  que o processo de crescimento se 
dá com  um  grande  esforço de acumulação de capital e com a absorção  inadequada 
das massas crescentes de população ativa incorporadas à força de trabalho. 
Assim a  própria  diversificação  e  integração do aparelho produtivo industrial tende a 
ser  freada,  à  medida  que o montante de  capital necessário, a dimensão do mercado 
nacional  e   o  problema  do  know  how  se   conjuguem  e  impeçam  a  penetração  em 
uma  série  de  setores  onde  mesmo  a  menor  escala  de  unidade  produtiva  seja 
demasiado “grande” para a capacidade real da economia. 
A tendência de usar mais capital  e menos mão de obra está  relacionada com o fato 
de  que  os  custos  reais  de  oportunidade  daqueles  fatores  não  guardam  qualquer  
relação  com os seus  custos monetários.  Assim a taxa  de salário mínimo é parecida 
em  todas  as  regiões  do país.  Por  sua vez,  o  preço  dos  bens de  capital importados 
são  artificialmente   rebaixados  através  de  taxas  cambiais  favorecidas  com  o 
propósito de estimular o desenvolvimento industrial. 
Por  outro  lado,  grande  parte  das  atividades  substituidoras  de  importações  era  , 
realizada por investimentos estrangeiros, que traziam a técnica e o capital. 
Isso  tendia  a  provocar  uma  depreciação  acelerada  dos  equipamentos  por 
obsolescência, ao mesmo  tempo que  representava desperdício do capital existente, 
forçava  a  economia  a um esforço  maior  de  capitalização e acarretava  desemprego 
de mão de obra não qualificada. 
  
Constelação de recursos produtivos 
  
Há  uma  abundância  relativa  de  recursos  naturais  e mão  de obra não  qualificada  e 
escassez  de  mão  de  obra  qualificada  e  de  capital.  As  funções  macroeconômicas 
seriam  mais  adequadas  a  esta  dotação  de  recursos,  no  entanto,  os  empresários 
adotaram  as  funções  microeconômicas  neste  processo, face ao sistema de  preços  
relativos existente. 
Essa  desproporção  tende  a  agravar­se  com  o  avanço  do  processo,  já  que  se usa 
cada  vez  mais  fatores  mais  escassos  .  Essa  situação  contribui  para  os  sérios 
problemas  de   desemprego  estrutural  de  mão  de  obra  não  qualificada  e  pela 
manutenção de reservas, potencialmente produtivas na ociosidade. 
Nas  fases  seguintes,  além  desses  recursos,  é  indispensável  a  exploração de uma 
série  de  fontes  de  energia  (petróleo,  carvão,  recursos  hidráulicos)  e  de  outros 
recursos  minerais.  Esses  recursos  estratégicos  não  estão  igualmente  distribuídos 
em toda América Latina, o que constitui um sério obstáculo. 
  
D. As criticas ao processo de industrialização na América Latina 

 

  
Devido a falta  de medidas  adequadas  de  política econômica, a industrialização tem 
conduzido  a  uma  insuficiente  absorção  da  força  de  trabalho  e  a  estrutura  de 
mercado  escassamente  competitivas  com custos de produção  elevados, mantendo 
uma distribuição de rendas extremamente desigual. 
  
O problema dos altos custos e a falta de competição 
  
É  uma  das  maiores   criticas  ao  processo  de  industrialização  na  América  Latina, 
sendo que  os  altos  custos  são acarretados  pela falta de competição, desperdício de 
recursos escassos e mau aproveitamentos dos recursos abundantes. 
O  confronto  é  entre  preços  internos  x  internacionais.  O  alto  custos  dos  nossos 
produtos  impediria  a  entrada  dos  nossos  produtos  manufaturados  no  mercado 
internacional.  No  entanto,  o  problema  não  se  resume  a  isso  já  que   se  poderia 
chegar  a  preços  competitivos,  dependendo  dos  obstáculos  ou  facilidades  para 
entrar nos mercados dos países desenvolvidos, dos  acordos  de integração regional 
e da diversidade de circunstancias internas existentes. 
  
O problema do emprego 
  
Uma  das  características  de  nossa  economia é  o  desemprego  estrutural  da mão  de 
obra  não  qualificada.  Por  outro  lado  no  setor  dinâmico  (secundário)  a   taxa  de 
emprego  tem  crescido  menos  do  que  a  da  população,  tanto  por  seu  crescimento 
explosivo como pela  tecnologia  de alta densidade  de capital  adotada nos modernos 
ramos industriais. 
A possibilidade  de  melhora estaria em um modelo de desenvolvimento global ou em 
um  investimento  governamental no sentido  de  emprego  de  mão  de  obra  e  reforma 
agrária no setor  primário,  unido o fator terra e trabalho, aumentando a produtividade 
deste  último através  da  melhoria  do  uso  da terra e não  do  emprego  de  técnicas de 
alta densidade de capital. 
  
O problema de falta de planejamento 
  
Com  o planejamento,  poderia se  evitar o  agravamento das tensões das  economias 
latino­americanas,  desde  as  pressões  inflacionárias,  até  o  aumento  dos 
desequilíbrios setoriais e regionais. 
Critérios  como  o  de  dar   prioridade  aos  investimentos  que  poupem mais divisas  se 
tornam cada  vez menos operacionais e mais perigosos, porque o cálculo se faz sem 
levar em conta o crescimento posterior da demanda interna. 
O  planejamento   dos  investimentos  públicos  e  privados  se  torna  indispensável  até 
para  evitar  descontinuidades  no  aparelho  produtivo  do  sistema   e  consideráveis 
desperdícios de recursos. 

 

  
II.  O caso do Brasil 
  
Introdução 
  
No  século  XIX,  a  economia  brasileira  foi  primário­exportadora  tradicional,  assim 
como  a  dos  demais  países  latino­americanos.  Fazia  parte  da  periferia  dos  centros 
dominantes;  o  seu  processo  de  desenvolvimento  voltado  para  fora,  tinha  o  seu 
dinamismo  atrelado  ao  crescimento  da  demanda  pelos  seus  produtos  de 
exportação, por parte das economias líderes. 
Sua  atividade   de  exportação  se  concentrava  em  um  ou  dois  produtos,  era  uma 
economia  reflexa,  pois  as  crises  econômicas  e  flutuações  ocorridas  nos  preços 
internacionais a afetava. 
Com isso, este modelo entrou em crise depois da Grande Depressão de 30. 
Isto  obrigou  a  economia  do  país  a  voltar­se sobre si  mesma desenvolvendo  novas 
atividades  produtivas.  Sob a pressão de  uma redução  drástica  na  capacidade  para 
importar, iniciou­se um processo de substituição de importações que se manteve até 
a  época  atual  levando  a  um  grau  de  diversificação  industrial  e  a  taxas  de 
crescimento mais acentuadas que de quase todas as nações latino­americanas. 
O  Brasil,  tinha  condições  mais  favoráveis  devido  a  variáveis  internas  no  inicio  do  
processo e externas no pós­guerra. 
Em  30,  o  país  já tinha um amplo  mercado interno  e  estrutura industrial com relativa 
diversificação,  devido  a  natureza  do  setor  exportador.  Assim,  dentro  do  próprio 
modelo  primário­exportador,  deu­se  a  urbanização  acompanhada  de  uma 
infra­estrutura de  serviços  básicos  e  do desenvolvimento de uma série de indústrias 
“tradicionais”,  como  as  de  alimentos,  bebidas,  mobiliário,  roupas,  até  a  metalurgia 
de certa forma. 
As  medidas  de  defesa  do  governo  brasileiro   frente  ao  desequilíbrio  externo 
resultaram  praticamente  na  sustentação  do  nível  de  demanda  interna  e  tiveram 
reação favorável co  a própria capacidade produtiva existente e subutilizada. 
O  movimento de  expansão e mudança na estrutura produtiva foi acompanhado com 
grande  sensibilidade  empresarial  por  grande  parte  dos  fazendeiros  de  café  se 
tornaram também industriais. 
A  concentração  da  economia  no  centro­sul  do  país,  deixou  esta  região  polarizada 
resultando num aumento dos desequilíbrios regionais. 
No  pós­guerra,  o  Brasil  conseguiu  recuperar  sua  capacidade  para  importar, 
diferente  da  Argentina  e  Chile,  em  um  patamar   superior  ao  daqueles  que  as 
exportações  sofreram  uma  expansão acentuada,  sobretudo  em  termos  de poder de 
compra, dada a elevação dos preços internacionais do café que durou até 1953­54. 
O  setor  privado  e  a  política  econômica  do  governo  contribuíram  para  o 
desenvolvimento industrial pela via de substituição de importações. 
Os  empresários  privados  aproveitaram  os  anos  mais  favoráveis  do  setor  externo 

 

para  importar  em  grande  quantidade  equipamentos  e  investir  nos  mais  variados 
setores da atividade interna. 
A  política  econômica  governamental  teve  duas  linhas  mestras  de  ação.  A primeira 
foi  a  política  de  comércio  exterior,  sobretudo  a  cambial  (de  controles  quantitativos 
até  taxas  múltiplas  de  câmbio),  manteve  uma  discriminação  efetiva  entre  as 
importações,  dando  preferência  aos  bens de  capital e insumos  essenciais,  além  de 
utilizar  os  lucros  de  câmbio  como  instrumento  parafiscal  de  captação  de recursos, 
para financiar certas operações do setor público. 
A  segunda  linha  foi  a  política  de  investimento  que,  em  continuação  à  fase  de 
investimentos  pioneiros  como  Volta  Redonda  e  a  Petrobrás,  avançou  para  a 
eliminação  dos  principais pontos de estrangulamento nos setores  de  infra­estrutura 
e  o  financiamento  e  orientação  de  outros  investimentos  de  base,  através  de  uma 
agência  financeira  estatal:  o  Banco  Nacional  de  Desenvolvimento  Econômico.  Um 
programa  de  metas  representou  a  primeira  tentativa  de  planejamento  em   escala 
nacional. 
Assim,  o desenvolvimento  recente  se fez com  graves pressões inflacionárias e com 
o aumento do desequilíbrio externo e das desigualdades regionais 
  
A resposta ao estrangulamento externo 
  
O  processo  de  desenvolvimento  econômico  brasileiro  recente  se deu  basicamente 
sob o impulso das restrições do setor externo. 
Um  estancamento  da  capacidade  para  importar conduz  a  uma  tendência estrutural 
ao  déficit  do  balanço  de  pagamentos,  este  pode  ocorrer  também  por  razões 
conjunturais,  endógenas  ou  exógenas,  agravadas  ou  corrigidas  pela  política 
econômica adotada, em particular a cambial. 
  
As características do estrangulamento externo brasileiro 
  
Durante a Grande  Depressão,  o Brasil sofreu  um quantum de importações de cerca 
de 50% . 
No  pós­guerra,  a  situação  do  país  foi  mais  favorável  que  a  de  alguns  países  da 
região  no  que  concerne as limitações do setor  externo.  O  Brasil  foi  um dos  poucos 
países  que  conseguiu  recuperar,  em  termos  absolutos,  a  sua  capacidade  para 
importar no imediato pós­guerra. 
A  partir  de  1954,  com  a  queda  dos  preços  do  café  e  a  reação  pouco  elástica  do 
quantum  exportado,  a  capacidade  para  importar  tendeu  a  declinar  e  o  quantum 
geral de importações só conseguiu manter­se à custa de considerável financiamento 
externo. 
Na  euforia  cambial   do  pós­guerra,  esgotaram­se  rapidamente  as  divisas 
acumuladas  durante o  período anterior,  e  a partir de 1948, dada a pressão sobre as 
importações, foi necessário recorrer ao controle de câmbio. 

 

Dada  a  queda  das  exportações  a   partir  de  1954  e  o  aumento  do  endividamento 
externo, a margem de manobra para as importações reduziu progressivamente. 
 
 
 
2. A substituição de importações como resposta ao estrangulamento externo 
 
Com a perda do dinamismo do setor exportador, mais especialmente após a pressão de 
1929, houve necessidade de reorientar a economia na substituição de importação por 
produção nacional, assegurada pela reserva de mercado através da proteção cambial e 
tarifária. 
A substituição se deu mais nas atividades industriais, o que ampliou as oportunidades de 
investimento e, em conseqüência, a manutenção e aceleração da taxa de crescimento 
econômico por longos períodos. A taxa de importação caiu sensivelmente chegando a 7% 
em 1967. 
A participação do setor externo na economia era pouco significativa mas de importância 
qualitativa. A alta taxa e a composição de investimentos foram capazes de produzir  uma 
expansão e diversificação consideráveis do parque industrial brasileiro, isto graças a 
equipamentos importados. Esse coeficiente de equipamentos importados é estratégico para 
a expansão da capacidade produtiva., já que a nossa indústria nesse ramo era incipiente. 
No período de Grande Depressão, devido a política econômica de defesa do Governo, em 
defesa da contração externa, a atividade interna brasileira se recuperou rapidamente. A 
expansão da produção interna industrial foi possível graças ao aproveitamento da 
capacidade produtiva instalada que permitiu substituir uma série de bens de consumo leves 
antes importados. Ampliando­se as indústrias alimentares, materiais de construção e 
equipamentos agrícolas. 
Na Segunda Guerra,  com as dificuldades de suprimento do mercado externo, o governo 
decidiu entrar no setor da siderurgia, implantando a primeira operação de indústria pesada 
na América Latina, em Volta Redonda. 
O período do Pós­Guerra, caracterizou­se por uma expansão e mudança contínua da 
estrutura industrial brasileira. 
A primeira fase do processo de desenvolvimento desse período, no imediato pós­guerra 
(1945 a 47), correspondeu a um alivio do setor externo que retomou a capacidade de 
importar aos níveis da pré­crise. A economia cresceu menos na substituição de importação 
do que na expansão do setor exportador. As exportações cresceram  na produção nacional. 
A capacidade de importar melhorou até 1954 mas não foi suficiente para restabelecer os 
níveis per capita de 29. Levando em conta que a renda nacional havia aumentado, 
compreende­se que a política de liberalização das importações seguida no pós­guerra 
(mantendo fixa a taxa cambial) iria dar lugar a constantes pressões sobre o balanço de 
pagamentos.. Assim, esgotadas as reservas de divisas acumuladas no exterior durante a 
guerra, começaram a aparecer os primeiros déficits e a partir de 1948 o país entrou em 
regime de controle cambial. 
Esse controle, baseava­se na manutenção da taxa de câmbio vigente e num controle 
quantitativo das importações que discriminava contra os bens de consumo não­essenciais, 
ao mesmo tempo que mantinha relativamente baratas as importações de produtos 
intermediários e de bens de capital. Isso resultou num estímulo à implantação interna de 

 

indústrias substitutivas, principalmente, dos bens de consumo duráveis, que ainda não eram 
produzidos dentro do país e tiveram proteção cambial dupla, na reserva de mercado e nos 
custos de operação. Esta foi a fase de implantação das indústrias de aparelhos 
eletrodomésticos e outros artefatos de consumo durável. 
Junto ao aumento da demanda derivada por importações, agregou­se, a Guerra da Coreia, 
resultando num agravamento do desequilíbrio no balanço de pagamentos, que se traduziu 
num acúmulo de atrasados comerciais. Para corrigir essa situação, em 1953, 
empreendeu­se uma reforma cambial em que se substituiu o controle direto das 
importações em cinco categorias, de acordo com o seu grau de essencialidade e as 
possibilidades de produção interna. Este sistema elevando a taxa cambial média comprimiu 
o quantum  de importações ao nível da capacidade para importar existente nesse ano e 
tornou mais atraente a produção interna de uma série de  produtos industriais básicos e 
matérias­primas cujo preço de importação em moeda nacional passou a subir por ficar 
sujeito ao pagamentos de crescentes ágios cambiais. 
Em 1954, pode­se considerar terminada esta segunda fase do desenvolvimento interno, 
fase de expansão industrial acelerada (e desordenada) e a melhoria do poder de compra 
das exportações. Neste ano, houve investimentos do governo na indústria petrolífera, o que 
repercutiu no desenvolvimento do período seguinte. 
Os anos de 1955 e 56 são de transição política e econômica. 
De 1956 a 61 entramos na terceira fase do desenvolvimento do pós­guerra, que se 
caracterizou: 1. Pelo aumento da participação direta e indireta do governo nos 
investimentos, e a entrada de capital estrangeiro privado e oficial para financiar parcela 
substancial  do investimento em certos setores. 
O governo agiu com metas setoriais dando racionalidade à expansão industrial. A entrada 
de capitais se destinou em parte ao financiamento de projetos específicos  em maior parte a 
cobrir os déficits do balanço de pagamentos. A entrada de capital estrangeiro privado se 
orientou para a indústria mecânica sob a forma de investimento preferencial. 
Neste período, instalaram­se algumas indústrias dinâmicas como a automobilística, de 
construção naval, de material elétrico pesado e outras indústrias mecânicas de bens de 
capital. Assim como indústrias básicas como as siderúrgicas, petrolíferas, metalúrgicas dos 
não­ferrosos, celulose e papel, química pesada, etc. 
Esta expansão e diversificação industrial foi estimulada através de incentivos e subsídios, 
com destaque para os cambiais e tarifários. 
Deste modo se aprofundou o processo de substituição de importações no Brasil, que 
conduziu a um ritmo de desenvolvimento mais acelerado. Neste processo, porém, 
agravaram­se as pressões inflacionárias e os desequilíbrios regionais. 
Isto porque, o aumento do setor público no dispêndio nacional, sem um adequado 
mecanismo de financiamento, e o agravamento do estrangulamentos do setor externo 
conduziram à aceleração dos mecanismos de propagação inflacionária, com graves 
repercussões sobre a economia como um todo. 
A concentração industrial na região já anteriormente mais desenvolvida do país, contribuiu 
para o aumento dos desequilíbrios regionais com todas as implicações econômicas, 
políticas e sociais decorrentes. 
Assim, o Brasil conseguiu se desenvolver num período em que a maioria dos países da 
América Latina entrava em estagnação, assim o custo social foi relativamente alto. 
O dinamismo do processo de substituição de importações parecia estar chegando ao fim e 

 

dificilmente teria um quarto modelo de desenvolvimento dentro do mesmo modelo. A fase 
que o país atravessa atualmente parece indicar a necessidade de transição para um novo 
modelo de desenvolvimento econômico e social. 
 
C. As Modificações na Estrutura de Importações 
O processo de substituição de importações pode ser entendido como um processo de 
expansão e diversificação da atividade produtiva interna, sobretudo a industrial, face às 
limitações da capacidade para importar. 
Para que o processo de substituição tenha sucesso e permita a expansão interna da 
economia, com uma capacidade para importar que cresce lentamente e por vezes 
permanece estancada ou mesmo declina, é necessário que certas faixas de importações 
diminuam em relação ao quantum geral, para permitir que surjam novos produtos 
indispensáveis à continuação do desenvolvimento econômico. 
O esforço de substituição de uma economia ou de um setor industrial não pode ser medido 
apenas em termos de diminuição das suas importações. Mesmo com produtos isolados 
pode estar ocorrendo substituição. Nesse caso, é necessário que a expansão de consumo 
esteja sendo mais do que proporcionalmente atendido pelo produção interna, vale dizer, 
que o coeficiente de importações sobre a oferta esteja diminuindo. 
Análises: 
Anos 30 
 
Vê­se que o nível geral de importações de 1929 não voltou a ser atingido durante a década 
e só em 1948 foi ligeiramente ultrapassado. Em 1931, as importações caem em mais de 
50% em relação ao nível de 1929. 
Quanto aos bens de consumo, as importações sofreram violenta restrição com a crise, 
somente os bens de consumo duráveis. As importações de produtos siderúrgicos caíram de 
50% entre 1929 e 1948. Os bens de capital tem comportamento elástico em relação ao 
nível geral de importações. Entre 29 e 48 há diminuição apreciável das importações e de 
equipamentos agrícolas e de material ferroviário, que correspondem à produção interna 
desses ramos industriais. 
 
A estrutura das importações se modificou sensivelmente entre 1929 e 1948, acompanhando 
o processo de industrialização. 
A estrutura de 1929, dada a relativamente baixa participação dos bens de consumo, indica 
que esse processo já se tinha iniciado anteriormente, ainda dentro do tradicional modelo 
exportador. Como  as indústrias tradicionais já tinham atingido um certo grau de 
desenvolvimento, assim foi mais fácil explorar a capacidade produtiva já existente. 
 
Período de 1948/61 
 
No período como um todo, o único grande grupo que mostra substituição visível é o dos 
bens de consumo. Mais fortemente com os bens de consumo duráveis cujo quantum cai 
violentamente no período. Os bens de consumo não­duráveis, porém, mostram também 
substituição. 
Todos os demais grupos acusam aumentos do quantum importado ao longo do período. A 
expansão mais acentuada verifica­se para os combustíveis e lubrificantes. 

 

Como é natural, e já foi apontado anteriormente, os bens de capital reagem aos 
movimentos do nível geral de importações por uma forma mais elástica que os demais 
produtos. 
Ao longo de todo o período, e em particular nos últimos anos, em que o volume de 
importações esteve estancado, não se verificou uma tomada crescente de pauta de 
importações pelos produtos intermediários, apesar da rápida expansão da atividade 
industrial. 
Isso porque parte da própria atividade industrial estava destinada a substituir importações 
nos setores de matérias­primas, materiais intermediários e partes complementares.  
O esforço de substituição permitiu que se reservasse uma margem de cerca de 30% da 
pauta para importações de equipamentos. A isso se deve, em grande parte, a possibilidade 
de manutenção da taxa de investimento e a conseqüente continuação do processo de 
crescimento da economia nos últimos anos. 
 
 
 
2. A substituição de importações como resposta ao estrangulamento externo 
(segunda opção) 
 
A  partir  da  Grande  Depressão,  o  setor  exportador  perdeu  seu  dinamismo,  e 
graças  a  isso  a  atividade  econômica  começou  a   se  reorientar  através  da  substituição  de 
importações  por  produtos  nacionais,  assegurada  pela  reserva  de   mercado   com  proteção 
cambial  e  tarifária.  Esse  fato  se  deu  principalmente  nas  atividades  industriais,   permitindo  a 
ampliação das oportunidades de investimento e o crescimento econômico. 
 
Mesmo  quantitativamente  pequena,  o  setor  externo  tem  importância 
qualitativa  na  economia,  já  que  a composição dos investimentos se deve a participação dos 
equipamentos  importados,  sem  diminuições  ao  longo  do  período,  uma  estratégia  que 
garante a expansão da capacidade produtiva. 
 
Devido  a  essa  política  econômica,  a  atividade  industrial  se  recuperou 
rapidamente,   houve  um  aproveitamento  maior   da  capacidade  produtiva  instalada, 
expandindo  a  produção  interna  industrial   que  permitiu  substituir  bens   de  consumo 
anteriormente  importados.  A  primeira  operação  em  grande  escala  na  indústria  pesada  da 
América  Latina  se  deu  no  período  da  Segunda  Guerra  Mundial   com  investimento   no  setor 
da siderurgia, o investimento pioneiro foi em Volta Redonda. 
O  período  pós­guerra  foi  de  expansão  e  mudança  contínua  da  estrutura  industrial 
brasileira.   A  primeira  fase  foi  de  alívio  do  setor  externo  e  retomada  da  capacidade  para 
importar,  houve  também  um  esgotamento  das  reservas  de  divisas  acumulados  no  exterior 
durante  a  guerra,  resultando  em  déficits  e  a  partir  de  1948  o  país  entrou  em  um regime de  
controle  cambial  para  amenizar  esse  problema.  Esse  controle se baseia na manutenção da 
taxa  de  câmbio  vigente  e  controle  qualitativo  de  importações, principalmente os de bens de 
consumo não essenciais, estimulando a implantação interna de indústrias de substituição de 
bens  duráveis  (ex.  eletrodomésticos).  Essa  expansão  industrial  não  integrada  aumentou  a 
demanda  derivada  por   importações  que  agregou­se  a  Guerra  da  Coréia, resultando em um 
agravamento   do  desequilíbrio  da  balança  de  pagamentos.  Para  corrigir  isso,  
implementou­se  uma  reforma  cambial,  onde  o  controle  direto  de  importação  foi  substituído 
por  um   sistema  de  leilão  de  divisas,  as importações eram classificadas  em cinco categorias 
de acordo com o seu grau de essencialidade, tornando a produção interna mais atraente. 

 

Na  segunda  fase,  terminada  em  1954,  houve  uma  expansão  industrial  acelerada  e 
desordenada,  agregada  a  um  aumento  do  poder  de  compra  das  exportações,  período  de 
grandes investimentos no setor da indústria petrolífera. 
A  terceira  fase  foi  de  1956  a  1961,  caracterizado   pelo  aumento  da  participação  do 
Governo  nos  investimentos  e  entrada  de  capital  estrangeiro  privado  no  financiamento  de 
alguns  setores.  A  ação  do  Governo  foi  baseada  em  um  programa  de  metas  setoriais  que 
racionalizou  um  pouco   a  expansão  industrial,  a  entrada  de  capital  estrangeiro  privado  se 
orientou  basicamente  para  setores  da  indústria mecânica, abrindo espaço para a instalação 
de  indústrias  dinâmicas  (ex.  automobilística).  Deste  modo,  o  processo  de  substituição  de 
importações  foi  aprofundado  e  aumentou­se  o  ritmo  de  desenvolvimento,  porém  veio 
acompanhado  com  pressões inflacionárias e desequilíbrios regionais. É  notável que o Brasil 
conseguiu  se  desenvolver  quando  a  maioria  dos  países  da   América  Latina  estavam 
estagnados, porém com um custo social foi alto. 
O  esforço  de  substituição  de  economia  não  pode  ser  medido  apenas  em  termos  de 
diminuição  das  suas  importações.   Durante o período  de recuperação da Grande  Depressão 
(1937/38)  ocorreu  um  processo  de  substituição  de  importação  pela  produção  interna,  e  foi 
mais  intenso  nos alimentos de origem animal, bebidas e manufaturas simples, ou seja, esse 
processo não alterou muito a produção de bens de consumo duráveis como um todo. 
 
Os  anos  logo  após  a  guerra   foram marcados por  euforia cambial decorrentes da  

acumulação  forçada de divisas durante a guerra. Então, a importação dos bens de consumo  
duráveis  foram  muito  elevados  (“desperdício  de  divisas”),  respondendo  a  uma  demanda 
contida  durante  o  período  de  guerra,  os  grupos  que  é  mais  constante  em  relação  às 
flutuações  de  importações  são  os  de  combustíveis  e  lubrificantes,  devido  a  impossibilidade 
de  substituição  e  inexistência  de  uma  indústria  petrolífera.  No  grupo  de  matérias­primas  e 
produtos  intermediários  as  importações  em  1948,  eram  inferiores  a  20%,  ou  seja,  há  uma 
grande  substituição.  Os  bens  de  capital,  por   sua  vez,  possuem  um comportamento elástico 
em relação às flutuações do nível geral de importação.   
 
Foi  entre  1929  e   1948  que  as  estruturas  de   importações  se  modificaram, 
juntamente   com  o  processo  de  industrialização.  No  entanto,  o  processo   de  industrialização 
no  Brasil  já  havia  se  iniciado  desde   o  começo  do  século,  ainda  no  tradicional  modelo 
agroexportador.  Por  isso,  o  processo  de  substituição  de  importação   ocorreu  de   forma mais 
fácil por causa da possibilidade de explorar a capacidade produtiva já existente. 
Porém,  o  avanço  do  processo  de  substituição  pelos  bens  de  consumo não­duráveis 
era  insuficiente  para  comprimir  as  importações  a  um nível compatível com uma capacidade 
para  importar  tão  reduzida.  Por  esse   motivo,  o  processo  de  substituição  na  faixa  de 
materiais  de  construção  deveria   ser  iniciado  urgentemente.  Em  1948,  a  estrutura  da  pauta 
de  importações  já   se  apresentava  bastante  modificada.  Já  é  claro  notar  que  o  aumento  do 
peso relativo dos bens de consumo se deve inteiramente aos bens duráveis. 
No  período  entre  1948/61,  o único grande grupo que mostra uma substituição visível 
é  o  de  bens  de  consumo,  a  mais  forte  ocorreu  com  os  duráveis.  Todos  os  demais  grupos 
apontam  um  aumento  da  quantidade  de  importação  ao  longo  do   período.  O  esforço  de 
substituição  permitiu   que  se  reservasse  aproximadamente  30%  da  pauta  de  importação  de 
equipamentos.  Isso  devido  a  possibilidade  de  manutenção  da  taxa  de  investimento  e  a 
continuação do processo de crescimento econômico. 
 
 

 

 
 
 
 
3 – A ESTRUTURA DAS IMPORTAÇÕES ANALISADA SEGUNDO A UTILIZAÇÃO E 
SEGUNDO O DESTINO 
  
De acordo com o quadro 5, vemos que o peso relativo dos bens finais e 
intermediários mudou substancialmente na primeira década do período (1948­1961): de 
uma participação relativa de 60 e 40%, respectivamente, em 1948, passou­se, em 1958, à 
posição inversa, com 45% de bens finais contra 55% de bens intermediários. Esse aumento 
da participação dos bens intermediários confirma a tendência normal de modificação da 
pauta de importações que acompanha um processo de industrialização em um país 
subdesenvolvido, cuja capacidade para importar não cresce rapidamente. 
 
A tendência para o aumento da participação dos produtos intermediários 
parece ter­se invertido  a partir de 1958. Realmente, nos últimos três anos a sua 
porcentagem diminuiu e em 1961 representava pouco mais de 50% da pauta. 
Essa inversão de tendência parece indicar que o esforço de substituição que se vinha 
realizando há vários anos em algumas faixas dos produtos intermediários foi coroado de 
êxito, de forma a permitir que essa substituição se tornasse, finalmente, aparente para o 
grupo como um todo. Esse resultado é tanto mais satisfatório se levarmos em conta que no 
grupo estão incluídos alguns produtos como petróleo cru, trigo, e papel de imprensa, para 
os quais esse esforço de substituição não foi suficiente para produzir resultados visíveis. Se 
conclui que apesar dessas e de outras dificuldades, a composição da pauta das 
importações se apresenta menos desfavorável, neste particular, do que seria de esperar. 
 
Analisando a segunda parte do quadro 5, que diz respeito à divisão segundo 
o destino: Nos três primeiros anos da série a participação relativa das importações para 
consumo e pra investimento mantem­se constante, um pouco acima e um pouco abaixo dos 
50%, respectivamente.  Na década de 50, as mudanças na participação são particularmente 
notáveis nos anos de expansão (1951­52) e nos de crise (1955­56) do nível geral de 
importações para investimento e no segundo caso prejudicam­nas. Esta maior elasticidade 
das importações destinadas ao investimento para reagir às flutuações do nível geral é 
perfeitamente explicável e tem sido verificada em todos os países da América Latina. Para 
os outros anos da década, as variações na composição não são substantivas. 
 
A partir de 1957, ano em que a composição era relativamente favorável aos 
investimentos, aumenta a participação das importações para consumo. Este fato pode ser 
explicado por três ordens de fenômenos: o estancamento das importações globais, a 
impossibilidade de conter a expansão da importação de combustíveis (particularmente 
petróleo) e a substituição ocorrida em algumas faixas de bens de capital. 
 
Ainda analisando o quadro 5, a subclassificação em produtos finais e 
produtos intermediários conforme as importações se dão para consumo ou investimento. Os 
produtos para consumo final compreendem os bens de consumo duráveis e não­duráveis 
(essencialmente manufaturas prontas) e os combustíveis terminados. O grupo como um 
todo apresenta substituição visível: o seu quantum tende a cair (embora com ligeira 
recuperação nos dois últimos anos) e a sua participação relativa cai de 30% no início para 
18,5% no fim do período. Já o subgrupo dos equipamentos (produtos finais para 

 

investimento), embora o seu quantum denote uma tendência ao crescimento moderado e a 
sua participação oscile em torno de 30% da amostra, apresenta flutuações sensíveis. As 
flutuações mais violentas se dão nos mesmos períodos apontados atrás para o grande 
grupo “Importações para Investimento” e decorrem dos mesmos motivos. 
 
Os produtos intermediários para consumo apresentam um acentuado 
aumento no quantum e na participação da amostra. São, na realidade, o único subgrupo 
que, embora com algumas ligeiras pausas, mostra uma resistência sustentada e crescente 
ao processo de substituição de importações. Isso não é de espantar se nos lembrar­mos 
que nele estão compreendidas as matérias­primas  (em vários graus de elaboração) para a 
indústria química, além do petróleo e do trigo e de uma série de outros produtos que, por 
dificuldades tecnológicas  ou da disponibilidade de recursos naturais, não tem sido possível 
produzir em escala satisfatória dentro do país. 
 
Os produtos intermediários para investimento compreendem os materiais 
metálicos, os materiais de construção não metálicos e as partes complementares dos bens 
de capital. 
 
Com efeito, esse aumento das importações do grupo se deve quase 
inteiramente às partes complementares da indústria automobilística que se instalou no pais 
em 1955/56. A partir de 1959, a expansão e nacionalização progressiva da indústria de 
autopeças e nacionalização progressiva da indústria de autopeças permitiu que caíssem 
novamente o quantum e a porcentagem das importações do grupo, esta última ao nível 
mais baixo do período. 
Concluindo: A evolução da estrutura das importações só se apresentou nitidamente 
desfavorável em relação ao  grupo de produtos intermediários destinados ao consumo, que 
aumentaram a sua participação ocupando em 1961 cerca de 40% da amostra. Em 
compensação, a queda observada nas importações totais destinadas a investimento, que 
traria graves inconvenientes para o processo de desenvolvimento, pode ser contornada 
mediante substituição no grupo de produtos intermediários e manutenção das importações 
de bens de capital terminados. 
 
O subgrupo de produtos de consumo final é o que apresenta uma tendência 
mais acentuada à substituição. Assim mesmo, a sua participação ainda é substancial em 
1961 (cerca de 19%) devido à inclusão no grupo dos combustíveis terminados, produtos 
nos quais, apesar de elevado esforço de produção interna, ainda não se atingiu de modo 
algum a auto­suficiência. 
 
É certo que a própria manutenção da capacidade efetiva para importar, dos 
últimos anos, se deu à custa de um crescente endividamento externo e aquela margem de 
importações destinadas ao processo de investimento só foi possível obte­la graças a uma 
política cambial discriminatória e à entrada considerável de capital estrangeiro. 
 
As possibilidades de continuação do processo de substituição em condições 
tão desfavoráveis, as perspectivas são pouco animadoras e conseguir manter o atual 
coeficiente de importações  geral para a economia já implicaria um aumento substancial de 
rigidez da pauta, uma vez que a margem compreensível de importações, mesmo adotando 
medidas drásticas de controle, é cada vez menor. 
  
  
D. RELAÇÕES ENTRE ESTRUTURA E EVOLUÇÃO DA PRODUÇÃO INDUSTRIAL E 
DAS​
 ​
IMPORTAÇÕES 

 

  
 
A análise feita a seguir, composta de duas partes, tem o objetivo de mostrar, 
de um modo geral, como a estrutura industrial brasileira se modificou setorialmente em 
decorrência do processo de substituição de importações. 
  
AS MODIFICAÇÕES SETORIAIS NA ESTRUTURA INDUSTRIAL BRASILEIRA ENTRE 
1949 E 1958 
  
 
Podemos verificar mudanças substanciais entre 1949 e 1961. 
 
Em 1949, apenas duas industrias eram responsáveis em conjunto, por mais 
de 50% do valor da produção total das industrias de transformação: a de alimentos e a 
têxtil. As demais indústrias tinham, em casa uma, participação inferior a 10%, embora a 
metalúrgica e a química já se distinguissem como as duas imediatamente seguintes, 
colocadas, porém, em nível muit inferior em relação àquelas. 
Já em 1958, a participação conjunta daquelas duas indústrias tinha baixado para 
36% e em 1961 representavam apenas 34% do valor global da produção. Verificou­se 
então, um aumento considerável no peso relativo das indústrias mecânicas, metalúrgicas, 
de material elétrico, de material de transporte e química, que por esse motivo passaremos a 
designá­las de ​
indústrias dinâmicas​
. O grupo como um todo aumentou a sua participação 
de 22% em 1949 para 38% em 1958 e 41% em 1961. 
O contrário se passou com as indústrias tradicionais, de alimentos, bebidas, fumo, 
couros e peles, têxtil, vestuário, madeira, mobiliário e editorial, cuja participação total 
passou de 70% em 1949 para 52% em 1958 e 49% em 1961. Isso não significa que essas 
indústrias não tivessem expandido sua produção, mas sim, o fizeram em ritmo muito menor 
do que as primeiras, e por isso as chamaremos de ​
indústrias vegetativas​

As indústrias de transformação de minerais não metálicos, papel, papelão e 
borracha também aumentaram a sua participação, porém menos acentuadamente do que 
as indústrias dinâmicas, passando de 8% em 1949 a 10% em 1958/61. Este grupo 
chamaremos ​
de indústrias intermediárias​

Em resumo podemos dizer que  de modo geral houve um esforço apreciável de 
substituição de importações, no período em análise, realizado por quase todas as indústrias 
de transformação. Esse esforço pode ser avaliado se levarmos em conta que o coeficiente 
médio de importações (sobre a oferta total) de produtos industriais caiu de cerca de 16% em 
1949 para menos de 10% em 1961. 
As únicas indústrias que não mostram qualquer tipo de substituição efetiva são as de 
borracha e bebidas. Para todas as demais, comparando os dados do início e do fim do 
período, verificou­se que a produção cresceu em ritmo superior ao do consumo. A maioria 
delas conseguiu inclusive ritmos capazes de diminuir as importações correspondentes em 
termos ​
relativos​

Do esforço de substituição de importações realizado nas indústrias de transformação 
resultaram mudanças acentuadas na estrutura produtiva e na correspondente estrutura de 
importações. Em primeiro lugar, devemos destacar a queda apreciável da importância 
relativa dos produtos alimentares e têxteis tanto na produção como na importação. A partir 
de 1958 podemos considerar ultimado o processo de substituição das indústrias tradicionais 
como um todo. 

 

Do ponto de vista da estrutura de importações, os únicos setores que aumentaram a 
sua participação na amostra foram os de metalúrgica, mecânica e químico­farmacêutica, 
que representam em 1961 mais de 50% do montante global de produtos industriais 
importados. 
Esses três setores exigiriam, para a ampliação da sua capacidade produtiva, uma 
elevada intensidade de capital,  compreende­se que a continuação da industrialização pela 
via da substituição de importações, mesmo quando possível, conduziria a uma expansão da 
economia com uma baixa na relação produto/capital, ou seja, a curto prazo, pelo menos, 
com rendimentos decrescentes em termos macroeconômicos. 
  
  
E. CONCLUSÕES 
 
O objetivo destas considerações finais é resumir e sistematizar tanto quanto 
possível os argumentos econômicos que permitem explicar por que  o processo de 
substituição de importações avançou tanto no Brasil, inclusive com taxas de crescimento 
superiores às da América Latina, e em seguida comentar os principais problemas 
característicos do tipo de estrutura econômica a que foi conduzido o país pelo seu modelo 
histórico de desenvolvimento. 
 
Fatores do Dinamismo do Processo de Subsituição de Importações 
 
As condições favoráveis no Brasil para um processo de substituição de importações se 
apoiam basicamente em dois fatores: o volume e natureza das importações à época eram 
compatíveis com a implantação de indústrias substitutivas e a economia já possuía um grau 
de diversificação capaz de lidar com o estrangulamento externo, com setores versáteis para 
modelos de exportação e importação advindos principalmente da era do café, além da 
abundância de terra e mão de obra.  
O país teve vantagem na América Latina, também porque o consumo interno de produtos 
básicos em termos absolutos era maior, mas sobretudo pela coincidência geográfica de 
mercado, economias externas provenientes de um setor terciário e capacidade empresarial, 
que puderam ser reaproveitados no modelo de substituição de importações. Além disso, a 
crise cafeeira gerou um desinteresse pelo modelo de exportações e trouxe à tona novas 
políticas econômicas. A industrialização foi incentivada através de taxas cambiais 
favoráveis. Houve altas taxas de rentabilidade empresarial.  
Quanto às variáveis externas, o processo de estrangulamento externo seguiu um ciclo 
parecido com o que apresenta a teoria: períodos de protecionismo seguidos de outros mais 
brandos, de acordo com as restrições externas que vão surgindo naturalmente. Entre o final 
da Segunda Guerra Mundial e o início da década de 60, as relações de troca estavam 
relativamente equilibradas. Houve também aumento de investimento externo em setores 
dinâmicos para o sistema de substituição de importações, o que foi benéfico.  
 
Traços da Estrutura Econômico­Social a que Deu Lugar o Modelo de Substituição de 
Importações 
 
O processo de desenvolvimento, apesar das taxas de crescimento altas, foi desequilibrado 
em três aspectos: setorial, regional e social.  

 

No que se refere aos setores, todos os esforços foram concentrados principalmente no 
segundo, principalmente indústrias de transformação e terceiro setor. A estrutura agrícola, 
apesar da expansão espacial, se manteve próxima à que era antes em termos tecnológicos. 
Por isso, a produtividade de cultivo não aumentou, enquanto que a do setor industrial 
duplicou. Um grande processo de migração da zona rural para a urbana se iniciou, e isso 
não necessariamente representou um avanço: grande parte se tratava de uma população 
desempregada em busca de oportunidades. Além disso, o desenvolvimento industrial se 
deu de forma dessincronizada, o que gerou e ainda gera dificuldades de autossuficiência 
completa. Apesar da diversificação industrial e produção total brasileira terem sido maiores 
que as dos outros países da América Latina, os números per capita em indústrias 
intermediárias, como a de cimento, ainda eram menores em 1959. Isso indica o segundo 
desequilíbrio: o regional. Houve uma concentração de renda e produção nos pólos do 
Centro­Sul, enquanto o restante do país ainda tinha uma realidade subdesenvolvida. Outra 
razão foi a política de incentivo intenso à industrialização, que acabava por transferir renda 
das áreas menos desenvolvidas para as mais desenvolvidas. A partir de 1955, o Norte e 
Nordeste começam a representar também uma parcela importante da produção total do 
país, mas muito mais ligada à agricultura do que à indústria. O terceiro desequilíbrio é o 
social, e é um reflexo óbvio dos dois primeiros. Diversos indicadores apontam o aumento da 
desigualdade, como o aumento de populações marginalizadas nas cidades e o desnível de 
renda no primeiro setor, e grande parte do problema se deve à incapacidade do setor mais 
dinâmico da economia de absorver as crescentes populações trabalhadoras. Dados 
mostram que nos anos 50 e 60 o crescimento de mão­de­obra agrícola foi muito superior ao 
aumento industrial, que por sua vez apresentou crescimentos de emprego superiores ao 
crescimento da população somente no setor metalúrgico. Além disso, a participação 
industrial nos salários agregados sofreu queda entre 1953 e 1958, apesar do aumento do 
nível geral. Todos esses efeitos tem relação com o próprio desenvolvimento, uma vez que a 
indústria naturalmente busca poupar mão­de­obra. Regionalmente, iniciou­se também o 
fenômeno dos monopólios. Em São Paulo, por exemplo, não mais que três empresas de 
cada setor eram responsáveis por quase toda a produção. Por fim, foi quando iniciaram­se 
os programas de assistência social, trazendo à tona a necessidade de medidas de 
reintegração da população marginalizada mas que pouco atingiram a massa rural. Assim, 
dadas todas as variáveis, a economia brasileira criou um sistema dual, em que há um 
sistema capitalista dinâmico que emprega pouco e um setor menos produtivo e 
desenvolvido que ocupa a maior parte da população. Criou­se uma pirâmide social, em que 
metade da população está na base com pouquíssima renda, uma faixa intermediária 
transita entre o polo dinâmico e o subdesenvolvimento e uma fina faixa superior concentra 
poucas pessoas e muita renda. No início, quando a industrialização requisitava muita 
mão­de­obra, o trânsito das faixas de baixo da pirâmide para cima era mais fácil, mas 
conforme atinge­se uma eficiência e capacidade produtiva maior na indústria e não se faz o 
mesmo movimento no primeiro setor, a tendência é que a desigualdade vá aumentando. 
Quanto aos benefícios salariais do aumento da produtividade dentro do sistema capitalista, 
foram distribuídos dentro dos setores de mão­de­obra inelástica e mais qualificada e 
demanda dinâmica, em que há melhor organização sindical. No entanto, é natural que o 
ritmo de emprego diminua e a expansão capitalista passa a se dar mais verticalmente que 
horizontalmente em um país dual como o Brasil. Em países desenvolvidos como os Estados 
Unidos, a modernização atingiu também o primeiro setor, aumentando a renda da base da 

 

pirâmide e liberando trabalhadores para os demais setores. A distribuição de renda não foi 
ótima, mas permitiu o trânsito entre as faixas da pirâmide e uma expansão mais igualitária 
dos setores da economia, bem como um consumo de massa maior. No caso brasileiro isso 
não pôde ocorrer, até pela fragilidade momentânea da indústria nacional, que dependia 
basicamente de substituição de importações. A solução seria uma reforma agrária que 
aumentasse a produtividade no setor primário, mas ela não ocorreu, o que forçou o 
mercado a explorar cada vez mais bens específicos para as faixas com poder de consumo 
(artigos de luxo, por exemplo). Esta é uma medida ineficiente, pois não resolve a exclusão 
das massas do contexto capitalista e reforça as divisões entre classes.  
Há um quarto desequilíbrio que pode ser mencionado: o financeiro, que tanto pelo próprio 
sistema de substituição de importações como pelos financiamentos do desenvolvimento, 
gerou processos inflacionários. No entanto, é o menos impactante, pois não haveria outro 
resultado esperado dada a polarização dos investimentos industriais. 
 
F. Perspectivas 
 
O modelo de substituição de importações está exaurido na América Latina e há a 
necessidade de transitar para um novo sistema de desenvolvimento realmente autônomo e 
que considere as falhas apontadas nos tópicos anteriores. Nos outros países 
latino­americanos, essa limitação se deve até a uma razão espacial, já que são países 
menores e com menos capacidade de mão­de­obra. Já o caso brasileiro é diferente, porque 
possui força, espaço e diversidade industrial. Se trata de analisar quais seriam os impactos 
de uma mudança de política. Em linhas gerais, continuar o processo de substituição de 
importações conduziria a uma desaceleração do crescimento da economia, pois ele já 
atingiu a maturidade, uma vez que entre os ciclos de estrangulamento externo e 
abrandamento do protecionismo o desenvolvimento interno foi acontecendo, e agora o que 
há para se substituir são basicamente bens de capital, além de que a reserva de mercado 
interna já não é garantida. Falta, portanto, demanda suficiente para um impulso como esse 
funcionar. Para que ocorra uma transição bem sucedida entre o modelo de substituição de 
importações e crescimento autossuficiente, é necessário que o governo intervenha com 
medidas que se oponham às influências negativas do esgotamento externo. São 
apresentadas quatro possibilidades: 
 
a) continuação do modelo de estrangulamento externo e manutenção da mesma estrutura 
de mercado, em que os incentivos para investimento são baixos. A ação do governo seria 
imprescindível, no sentido de corrigir as desconexões dentro do polo capitalista e um setor e 
outro, como por exemplo investindo em infra­estrutura, e deveria continuar o processo de 
substituição de importação no setor intermediário. Esse sistema tenderia à desaceleração 
de qualquer forma pela elevada participação de investimento de baixa relação 
produto­capital e a desigualdade não seria freada ou remediada de forma alguma; 
 
b) continuação do modelo de estrangulamento externo mas com medidas visando reduzir a 
dualidade do mercado. Investimento autônomo do governo no setor primário e em 
determinadas áreas de outros setores, visando criar e alimentar o consumo da grande 
massa marginalizada. A necessidade de importações diminuiria gradualmente; 
 

 

c) pressuposto de que as condições externas se alteram e a estrutura interna se mantém. 
Haveria um aumento nas exportações tradicionais. Com a entrada de renda, seria 
aumentada a flexibilidade do setor industrial e de financiamento do governo, mas o efeito 
destas melhorias depende da maneira como fossem distribuidos os acréscimos. Dado o 
histórico brasileiro, provavelmente seria apenas uma solução temporária, porque não gera 
reformas; 
 
d) diversificação das exportações, focando­se principalmente nos produtos industrializados. 
Apesar de incentivar a indústria nacional, reforçaria a distância entre ela e o setor primário, 
que não receberia atenção neste caso, e as massas conectadas a ele permaneceriam 
marginalizadas. 
 
A melhor escolha seria provavelmente uma combinação de medidas, visando mudanças 
internas e externas. O maior desafio é não permitir que as perspectivas a curto prazo 
inviabilizem as futuras. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

 

 
CELSO FURTADO 
 
 
PARTE  QUATRO:  ECONOMIA  DE  TRANSIÇÃO  PARA  UM  SISTEMA  INDUSTRIAL  NO 
SÉCULO XX 
XXX.  A CRISE DA ECONOMIA CAFEEIRA 

Imigração era feita basicamente através do Estado de São Paulo (descentralização); 

Muito e fácil crédito; 

Grande crescimento na oferta de café brasileiro (75% da produção mundial); 

Contração artificial da oferta; 

Queda dos preços na última década do século XIX; 

Estoques se avolumaram; 

Convênio de Taubaté ­> valorização artificial do café; 

­> 

Governo compraria excedentes; 

­> 

Financiamentos de empréstimos estrangeiros; 

­> 

Novo imposto; 

­> 

Desencorajamento de expansão das plantações existentes; 

Pressões de vários grupos, devido à socialização de perdas; 

Falta de alternativas ao café – aumento da produtividade (grande vantagem relativa); 

Crise Mundial derrubou de vez o valor do café (1929); 

Desequilíbrio estrutural entre oferta e procura; 

Pressão inflacionária; 

Crise = fim de reservas metálicas e fuga de capitais. 

XXXI. OS MECANISMOS  DE DEFESA E A CRISE DE 1929 

Socialização de perdas; 

Depreciação cambial; 

Retenção de estoque, expansão do crédito; 

Procura inelástica do café no mercado internacional; 

Programa de fomento da renda nacional e manutenção do emprego; 

Brasil superou a crise já em 1933 (EUA o fizeram apenas em 1934, parcialmente). 

 

XXXII. DESLOCAMENTO DO CENTRO DINÂMICO 

Desequilíbrio externo ­> elevação do preço de artigos importados; 

Diminuição das importações; 

Situação  inédita:  preponderância  do  setor  ligado  ao   mercado  interno  no  processo  de 
formação de capital; 

Migração de capital para outros setores; 

Indústria e agricultura superam rapidamente os efeitos da crise; 

Atividades  ligadas  ao   mercado  interno  recebiam  novos  investimentos,  aproveitamento 
mais intenso da capacidade instalada; 

Compra  de  equipamentos  de  segunda  mão  de  empresas  quebradas  pela   crise  no 
exterior; 

 

Crescimento da procura por bens de capital; 

Capacidade de importação não se recuperou nos anos 30; 

Crescimento de 50% na produção industrial entre 1929 e 1937; 

Substituição de importações; 

Produtores para o setor interno x exportadores.