Universidade Católica de Brasília

PRO-REITORIA DE PÓS-GRADUAÇÃO E PESQUISA STRICTO SENSU EM EDUCAÇÃO

Mestrado
Mediação Pedagógica em Ambientes Virtuais de Aprendizagem a partir da Complexidade e do Pensamento Ecossistêmico Mestranda: Sheila Schechtman Orientadora: Professora Doutora Maria Cândida Moraes

BRASÍLIA

2009

SHEILA SCHECHTMAN

MEDIAÇÃO PEDAGÓGICA EM AMBIENTES VIRTUAIS DE APRENDIZAGEM A PARTIR DA COMPLEXIDADE E DO PENSAMENTO ECOSSISTÊMICO

Dissertação apresentada ao Programa de PósGraduação Stricto Sensu em Educação da Universidade Católica de Brasília, como requisito parcial para obtenção do Título de Mestre em Educação. Orientadora: Profª. Drª. Maria Cândida Moraes

Brasília 2009

S314m

Schechtman, Sheila Mediação pedagógica em ambientes virtuais de aprendizagem a partir da complexidade e do pensamento ecossistêmico / Sheila Schechtman. – 2009. 157 f. : il. ; 30 cm Dissertação (mestrado) – Universidade Católica de Brasília, 2009. Orientação: Maria Cândida Moraes

1. Educação à distância. 2. Mediação- professores. 3. Pensamentocomplexidade. I. Moraes, Maria Cândida, orient. II. Título. CDU 37.018.43

Ficha elaborada pela Coordenação de Processamento do Acervo do SIBI – UCB.

Dissertação de autoria de Sheila Schechtman, intitulada “Mediação Pedagógica em Ambientes Virtuais de Aprendizagem a Partir da Complexidade e do Pensamento Ecossistêmico”, apresentada como requisito parcial para obtenção do grau de Mestre em Educação da Universidade Católica de Brasília, em 01 de setembro de 2009, defendida e aprovada pela banca examinadora abaixo assinada:

____________________________________________ Profª Drª Maria Cândida Moraes Orientador Mestrado em Educação – Universidade Católica de Brasília - UCB

___________________________________________ Prof. Dr. Francisco Villa Ulhôa Botelho Universidade Católica de Brasília Virtual – UCB Virtual

___________________________________________ Profª Dra Lucila Maria Pesce de Oliveira Departamento de Fundamentos da Educação - Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC/SP

Brasília 2009

Dedico esse trabalho ao meu pai Ary Schechtman e à minha mãe Fanny Schechtman, em memória.

AGRADECIMENTOS

Ao meu marido Ronaldo e as minhas filhas Flávia e Paula por existir nesse mundo e permanecerem ao meu lado. À minha orientadora Professora Doutora Maria Cândida Moraes pelas palavras ditas nos momentos certos, pelo carinho e por caminhar junto comigo. À professora Acássia Barreto por sua atenção, amabilidade e esforço em me atender sempre, Ao Henrique Machado por ter recuperado os arquivos do curso, sem nada pedir em troca. Sem ele, o projeto dessa pesquisa teria que ser modificado. À professora Maria Beatriz Ferreira pela cuidadosa revisão feita e pelo incentivo dado. Ao Exército, órgão ao qual pertenço, por ter concedido a licença para a realização desse curso de mestrado. À Universidade Católica de Brasília por ter me dado a oportunidade de compartilhar do conhecimento de tantos ótimos professores.

Por que palavras? Um monge aproximou-se de seu mestre - que se encontrava em meditação no pátio do Templo à luz da lua - com uma grande dúvida: "Mestre, aprendi que confiar nas palavras é ilusório; e diante das palavras, o verdadeiro sentido surge através do silêncio. Mas vejo que os Sutras e as recitações são feitas de palavras; que o ensinamento é transmitido pela voz. Se o Dharma está além dos termos, porque os termos são usados para defini-lo?" O velho sábio respondeu: "As palavras são como um dedo apontando para a Lua; cuida de saber olhar para a Lua, não te preocupes com o dedo que a aponta." O monge replicou: "Mas eu não poderia olhar a Lua, sem precisar que algum dedo alheio a indique?" "Poderia," confirmou o mestre, "e assim tu o farás, pois ninguém mais pode olhar a lua por ti. As palavras são como bolhas de sabão: frágeis e inconsistentes, desaparecem quando em contato prolongado com o ar. A Lua está e sempre esteve à vista. O Dharma é eterno e completamente revelado. As palavras não podem revelar o que já está revelado desde o Primeiro Princípio." "Então," o monge perguntou, "por que os homens precisam que lhes seja revelado o que já é de seu conhecimento?" "Porque," completou o sábio, "da mesma forma que ver a Lua todas as noites faz com que os homens se esqueçam dela pelo simples costume de aceitar sua existência como fato consumado, assim também os homens não confiam na Verdade já revelada pelo simples fato dela se manifestar em todas as coisas, sem distinção. Desta forma, as palavras são um subterfúgio, um adorno para embelezar e atrair nossa atenção. E como qualquer adorno, pode ser valorizado mais do que é necessário." O mestre ficou em silêncio durante muito tempo. Então, de súbito, simplesmente apontou para a lua.

RESUMO
Buscou-se verificar, nesta pesquisa, de que maneira os operadores cognitivos da complexidade podem criar condições para a ressignificação da mediação pedagógica em um ambiente virtual de aprendizagem. Procurou-se identificar a presença dos operadores cognitivos sistêmico-organizacional, hologramático, dialógico, retroativo, recursivo, auto-eco-organizacional, reintrodutório do sujeito no processo de pesquisa, da ecologia da ação, da enação e da ética dentro do planejamento do curso, na plataforma virtual escolhida, nos fóruns de discussão e na própria mediação pedagógica, assim como verificar as possibilidades e as dificuldades da utilização desses operadores durante todo o processo. De caráter qualitativo, a pesquisa utilizou como estratégia de investigação a análise e leitura interpretativa de um caso, tendo por base os operadores cognitivos do pensamento complexo de Morin, complementados pelas contribuições dadas por Moraes e Valente em seus textos sobre pesquisas em educação a partir da complexidade e da transdisciplinaridade. Com base nas recomendações feitas pelo Fórum Brasileiro de Pró-Reitores de Graduação (ForGRAD), optou-se por analisar os elementos constitutivos do ambiente virtual de aprendizagem, definidos por Schlemmer & Saccol & Garrido (2003), tendo os operadores cognitivos do pensamento complexo como categorias de análise, e o modelo misto proposto por Laville e Dionne (1999) que possibilitaria a modificação dessas categorias como emergências do processo. O referencial teórico teve como principais autores Edgar Morin e Maria Cândida Moraes, os quais fundamentaram toda a pesquisa, desde a definição da metodologia até a conclusão. Humberto Mariotti e Pedro Demo também subsidiaram teoricamente o trabalho, mais especificamente com relação aos princípios da complexidade e do pensamento ecossistêmico. Para as questões relacionadas à compreensão dos processos de aprender e conhecer, António Damásio, Carl Rogers, David Ausubel, Francisco Varela, Humberto Maturana, Jean Piaget e Malcom Knowles forneceram o necessário embasamento. Mais diretamente relacionados à mediação pedagógica e à mediação pedagógica em ambientes virtuais de aprendizagem, utilizaram-se textos de Francisco Gutierrez, José Manuel Moran, Lucila Pesce, Otto Peters, Paulo Freire, Philippe Perrenoud e Pierre Lévy. Como resultado dessa pesquisa, verificou-se que os operadores cognitivos do pensamento complexo estavam presentes nos elementos constitutivos do curso, enriquecendo o olhar dos mediadores e permitindo, assim, a ressignificação dos processos de mediação pedagógica no ambiente virtual de aprendizagem, embora com limitações à sua utilização em todas as etapas do curso. Palavras-chave: Operadores cognitivos da complexidade. Pensamento ecossistêmico. Educação a distância. Ambiente virtual de aprendizagem. Mediação pedagógica.

ABSTRACT
In this research we aimed to evaluate in what way the operators of cognitive complexity may create conditions for the resignification of pedagogical mediation in a virtual learning environment. We sought to identify the presence of cognitive operators systemic-organizational, hologramático, dialogic, retroactive, recursive, self-eco-organizational, the ecology of action, enation and Ethic in the course planning, in the virtual platform chosen, in discussion forums and in the pedagogical mediation itself, checking the possibilities and difficulties of using these operators throughout the process. Qualitative in nature, this research used as a methodological strategy an analysis and interpretative reading of a case, based on the cognitive operators of complexity and on ecosystemic thought. This methodology was based, too, on the studies of Maria Cândida Moraes and Armando Valente about research in education from the complexity and from transdisciplinarity. Based on the recommendations made by the Brazilian Forum of Graduation Pro-Deans (ForGRAD), we chose to analyze the constituent elements of the virtual environment of learning, defined by Schlemmer & Saccol & Garrido (2003), using the cognitive operators of complexity as categories of analysis, and the hybrid model proposed by Laville and Dionne (1999) that could allow the modification of these categories such as processed derived. The theoretical framework had as main authors, Edgar Morin and Maria Candida Moraes, grounding the whole research, since the methodology to the conclusion. Pedro Demo and Humberto Mariotti, more specifically with regard to the principles of ecosystemic thought and complexity. For questions related to understanding the processes of learning and knowing, it was used mainly Jean Piaget, Carl Rogers, David Ausubel, Malcolm Knowles, António Damasio, Humberto Maturana and Francisco Varela. More directly related to mediation training and mediation training in virtual environments for learning, we reported to Paulo Freire, Francisco Gutierrez, José Manuel Moran, Philippe Perrenoud, Pierre Lévy, Otto Peters and Lucila Pesce. As a result of this research, we concluded that the cognitive operators of complexity were present in parts of the course, enriching the look of the mediators, and thus ressignificating the pedagogical processes of mediation in the virtual learning environment, but with limitations to their use at all stages of the course.

Key words: Cognitive operators of complexity. Ecosystemic thought. Distance Education. Virtual learning environments. Pedagogical mediation.

MEDIAÇÃO PEDAGÓGICA EM AMBIENTES VIRTUAIS DE APRENDIZAGEM A PARTIR DA COMPLEXIDADE E DO PENSAMENTO ECOSSISTÊMICO

SUMÁRIO INTRODUÇÃO 1. CONTEXTUALIZANDO A EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA (EAD) NO BRASIL......... 10 2. ORIGEM DA PESQUISA: RECONSTRUINDO O PERCURSO........................... 18 3. O PROBLEMA DE PESQUISA ........................................................................... 22 4. OBJETIVOS ........................................................................................................ 24 5. DELIMITAÇÃO DA PESQUISA ......................................................................... 25 6. RELEVÂNCIA CIENTÍFICA E SOCIAL ................................................................25 7. ESTRATÉGIAS METODOLÓGICAS ................................................................... 29

CAPÍTULO I - A COMPLEXIDADE E O PENSAMENTO ECOSSISTÊMICO RELIGANDO OS SABERES 1.1. O PENSAMENTO COMPLEXO E O PENSAMENTO ECOSSISTÊMICO.........36 1.2. OS OPERADORES COGNITIVOS DA COMPLEXIDADE ................................43

CAPÍTULO II - A MEDIAÇÃO PEDAGÓGICA E SUAS RELAÇÕES 2.1. UM POUCO SOBRE O SUJEITO APRENDENTE ........................................... 51 2.2. APRENDER E CONHECER NA VISÃO DE ALGUNS TEÓRICOS DE DIFERENTES ÁREAS DO CONHECIMENTO ........................................... 55 2.2.1. Jean Piaget ............................................................................................. 56 2.2.2. Carl Rogers ............................................................................................. 59 2.2.3. David Ausubel ......................................................................................... 61 2.2.4. António Damásio ...…………………………………………………………... 65 2.2.5. Uma aproximação das teorias de Maturana e de Varela......................... 67 2.2.6. Um pouco mais com Morin....................................................................... 72 2.3. CONECTANDO A REDE: O QUE HÁ DE COMUM............................................ 74 2.4. APRENDIZAGEM DE ADULTOS......................................... .............................. 75 2.5. O PROFESSOR APRENDENTE........................................................................ 79 2.6. O SUJEITO MEDIADOR (PROFESSOR).......................................................... 84 2.7. A MEDIAÇÃO PEDAGÓGICA – SIGNIFICADOS E SIGNIFICANTES............... 86

2.8. CONSTRUINDO AS REDES PARA A MEDIAÇÃO .......................................... 92

CAPÍTULO III - O MUNDO VIRTUAL DE ENSINO E DE APRENDIZAGEM 3.1. O CONCEITO DE EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA................................................ 97 3.2. O ESPAÇO VIRTUAL DE APRENDIZAGEM .................................................. 101 3.3. A TECNOLOGIA: ALÉM DO TECNICISMO .................................................... 105 3.4. A MEDIAÇÃO PEDAGÓGICA EM AMBIENTES VIRTUAIS DE APRENDIZAGEM: ESPECIFICIDADES. ......................................................... 107 3.5. DO AMBIENTE REAL PARA O AMBIENTE VIRTUAL DE APRENDIZAGEM: PROFESSOR E APRENDENTES COMO COAUTORES .............................. 110

CAPÍTULO IV - DESENVOLVIMENTO DA PESQUISA 4.1. AS CATEGORIAS DE ANÁLISE SELECIONADAS ........................................ 117 4.2. PROCEDIMENTOS PARA OBTENÇÃO DE DADOS ..................................... 117 4.3. ANÁLISE DOS DADOS OBTIDOS.................................................................. 119 4.3.1. Do projeto do curso de formação.................................................................. 119 4.3.2. Das informações iniciais sobre a metodologia do curso.................................... 123 4.3.3. Impressões a partir dos fóruns iniciais “Tira dúvidas” e “Quem somos nós”...127 4.3.4. Sobre outros fóruns de discussão ................................................................. 132 4.3.4.1 Uma visão geral................................................................................. 132 4.3.4.2. Fórum de tutores.............................................................................. 133 4.3.4.3. Fóruns de avaliação e autoavaliação .............................................. 137 4.3.4.4. Fóruns temáticos ............................................................................. 140 4.3.5. Sobre os materiais didáticos, as atividades e as ferramentas apenas planejadas ou efetivamente .................................................................... 144 4.3.6. Detalhes que poderiam fazer diferença na perspectiva dos operadores cognitivos ....................................................................................................... 146 CAPÍTULO V - APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS ............ 150 CONSIDERAÇÕES FINAIS ................................................................................... 155 REFERÊNCIAS ANEXOS

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INTRODUÇÃO

1. CONTEXTUALIZANDO A EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA (EAD) NO BRASIL

Universidades dão aulas on-line1 e frustram alunos Uma nova "moda" está surgindo no ensino superior: é a aula on-line. Mas, apesar da modernidade do nome, a promessa de revolução do currículo tem frustrado os alunos. É que nessa nova modalidade, até 20% das aulas com professor desaparecem. O aluno fica só com os textos via web e tem um fórum para tirar dúvidas. 01/09/2007 - Globo.com

Educação a distância leva oportunidades ao interior do país Em 2007, o sistema UAB chegará a 291 pólos em 288 municípios, distribuídos em todos os estados com a oferta de cerca de 60 mil vagas. No último edital da Universidade Aberta do Brasil, o Ministério da Educação registrou 805 inscrições de propostas de pólos de apoio presencial e de 123 propostas de cursos das instituições de ensino superior. A expansão da UAB está prevista para 2008. 10/09/2007 - Secretaria de Educação do Ministério da Educação – MEC SP veta docente com formação a distância Uma demonstração de que a garantia de qualidade na educação a distância ainda está longe de ser consensual entre os educadores foi dada em junho deste ano pelo Conselho Municipal de Educação de São Paulo, que recomendou à prefeitura que não admitisse professores formados por essa modalidade de ensino. O principal argumento dos conselheiros contra a educação a distância foi que, no município, não haveria a necessidade de contratar professores por essa modalidade, já que há número suficiente de docentes formados em cursos presenciais. 10 /09/2007 - Folha de São Paulo

MEC quer formar professores on-line no Japão O Ministério da Educação do Brasil deverá inaugurar no próximo ano, em parceria com o governo japonês, o primeiro curso superior a distância ministrado por uma universidade pública para alunos no exterior. 17/09/2007 - CEI - Secretaria do Estado de São Paulo

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O termo “on-line” será utilizado nesta pesquisa sem o formato itálico, pois consta do dicionário Houaiss da língua portuguesa, disponível em: http://houaiss.uol.com.br/busca.jhtm?verbete=online&stype=k&x=14&y=11.

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Os quatro textos apresentados são apenas fragmentos de uma realidade complexa e multifacetada. Uma realidade que aponta para a necessidade de aumentar as oportunidades de acesso à educação superior para uma população geograficamente espalhada por esse Brasil imenso. Mas, com que qualidade? Quando se pensa em qualidade no âmbito da educação, não há como deixar de relacioná-la ao contexto tecnológico que está em significativa evidência no mundo de hoje. A informação que se destaca nesse contexto está aliada à formação do sujeito atuante no presente e preparado para encarar os desafios de um futuro provavelmente bem diverso do atual, se as expectativas tecnológicas e ecológicas se confirmarem. Da mesma maneira, a expansão da Educação a Distância (EAD) está diretamente relacionada ao desenvolvimento da tecnologia - impressa, radiofônica, televisiva, computacional - como um instrumento fundamental do processo educativo. Hoje o ensino presencial também usa essas tecnologias com trabalhos em rede. A questão é que da mesma forma que a EAD, de uma maneira geral, transpôs para seus ambientes de aprendizagem os vícios do ensino presencial, também o ensino presencial se apropriou da tecnologia da EAD sem a adaptação necessária, mais especificamente, sem preparar os professores para atuar em ambientes virtuais de aprendizagem. Chegará um dia em que educação será somente educação, com o professor presente na sala de aula real e/ou virtual, no trabalho em grupo (que pode ser on-line ou com um lanchinho na casa de um dos componentes). Enfim, será possível educar aproveitando todo o potencial tecnológico e humano na promoção de uma vida melhor. Negroponte (1995), citando Seymor Papert, comenta que se um cirurgião de meados do século XIX fosse transportado por uma máquina especial para uma moderna sala de operação, ele não reconheceria nada, não saberia o que fazer. A tecnologia moderna teria transformado por completo a prática da medicina, tornandoo incapaz de reconhecê-la. Mas se um professor desse mesmo século fosse transportado por tal máquina para uma escola de época recente, poderia dar prosseguimento às aulas do mesmo ponto em que seu colega de final do século XX as houvesse deixado. Seria mesmo assim? As mudanças paradigmáticas ocorridas a partir do século XX estão intrinsecamente relacionadas à natureza da matéria e demonstram que o inesperado,

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a complexidade, a multicausalidade estão presentes em nossas vidas. Na era do conhecimento, das redes de informações e das interações virtuais, as pessoas estão transformando seus modos de aprender e de interagir com a realidade que as cerca. Juntamente com o desenvolvimento acelerado das tecnologias da informação e da comunicação surgiram novos conceitos que caracterizam o momento atual, como interdisciplinaridade, transdisciplinaridade, aprendizagem colaborativa, ciberespaço, comunidades virtuais e gerenciamento participativo. São questões de natureza ontológica e epistemológica influenciando diretamente os discursos e as práticas pedagógicas, assim como a própria metodologia das pesquisas educacionais. Inicialmente, a capacidade do ser humano para explicar os fenômenos naturais e atuar sobre eles era limitada. Recorria-se, então, a entidades superiores, à religião. A curiosidade e a razão permitiram, mais tarde, explicar os fenômenos naturais. A ciência surge da necessidade de superar a insegurança e o medo em face desses fenômenos. (KIPNIS, 2005). É possível identificar-se, resumidamente, três concepções de ciência. A primeira, Racionalista, da Grécia antiga até Galileu, no século XVII, considerava o pensamento científico com dedutivo e demonstrativo, oferecendo uma representação verdadeira da realidade. A segunda, Empirista, também desenvolvida desde os gregos até o século XIX, interpretava os fatos com base em observações e experimentos, de forma indutiva, extraindo definições do objeto, suas propriedades e suas leis de funcionamento. A terceira, Construtivista, predomina até hoje. Nessa visão não se fala da realidade em si mesma, mas do estabelecimento de princípios e definições sobre seu objeto de estudo. Guia-se pela experimentação, sabendo que esse objeto é um modelo criado em laboratório. Não considera o resultado como a própria realidade, mas como uma representação que explica os fenômenos observados. (PULINO et al., 2005) Não se pode dizer que o conceito de ciência tenha evoluído, mas que há transformações na forma de entender e de se fazer ciência. Essas mudanças não acontecem aleatoriamente. Elas são influenciadas diretamente pelos paradigmas vigentes em cada época. Os cientistas investigam fatos ou fenômenos a partir do paradigma aceito e quando acontecem anomalias tentam explicá-las por meio desse mesmo paradigma. Quando isso não é possível, “ocorrem ‘revoluções’, em que o modelo ou paradigma vigente é questionado e substituído por outro, capaz de

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explicar melhor os fenômenos ou fatos novos.” (PULINO et al., 2005, p.12, grifo do autor). Voltolini (2007, p. 39), ao discutir sobre as idéias de Freud, questiona:
[...] não é verdade que a história da ciência demonstra que a permanência ou a queda de certos paradigmas não dependeu somente das condições que as próprias regras do conhecimento dos objetos estabeleciam, mas também e fundamentalmente da importância que tais paradigmas tinham sobre os modos de organizar a vida entre os homens?

Segundo Dominiqui Vinck (1995, apud JAPIASSU, 2000), a realidade e o saber constituem construções sociais protegidas por convenções, por paradigmas. A autora define paradigma como um modelo de pensamento e de ação transmitido pela educação e pela aprendizagem, composto de elementos heterogêneos (conceito, por exemplo), que estrutura a maneira de ver o real e de fazer a ciência. Corresponde a uma forma de vida e a uma estrutura social, impondo uma tradição normativa nos planos social e cognitivo. Domina na fase de ciência normal e é incompatível com outro paradigma (incomensurabilidade). Portanto, a mudança de paradigma (ligada a fatores extracientíficos) se faz por revolução, não havendo verdade universal. Para Morin (2007), um paradigma é um tipo de relação lógica (indução, conjunção, disjunção, exclusão) entre certo número de noções ou categorias mestras, que privilegia certas relações lógicas em detrimento de outras e por isso controla a lógica do discurso. São esses pressupostos sobre o ser na sua relação com a realidade e sobre o conhecimento dessa realidade de forma global, particular e específica (JAPIASSU, 1975) que determinaram as rotas metodológicas da pesquisa. No âmbito das ciências sociais, um paradigma supõe uma determinada maneira de conceber e interpretar a realidade. Constitui-se numa visão de mundo compartilhada por um grupo de pessoas e, portanto, possui um caráter socializador e determina as estratégias empíricas a serem utilizadas. Ou seja, o paradigma possui um caráter normativo com relação aos métodos e técnicas de investigação. (SANDÍN ESTEBAM, 2003) 2 Nesse sentido, a educação presencial ainda é, em grande parte, resultado daquela visão positivista sobre a ciência, sobre o homem e o conhecimento, produto de um pensamento que prevalecia na era industrial, na produção em série, e a
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As citações referentes à obra de M. Paz Sandín Estebam (2003) são tradução nossa.

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educação a distância parece estar seguindo pelo mesmo caminho, embora a utilização das novas tecnologias de comunicação e informação requeira mudanças nessa perspectiva. Muitos dos cursos que têm sido produzidos em educação a distância refletem também essa influência. São cursos planejados e conduzidos de forma tradicional, linear, até mesmo autoritária e determinista quanto a quem cabe ensinar e a quem cabe aprender. Segundo Belloni (2003, p. 9), os modelos fordista e pós-fordista “têm influenciado não apenas a elaboração dos modelos teóricos, mas as próprias políticas e práticas de EAD, no que diz respeito tanto às estratégias desenvolvidas como à organização do trabalho acadêmico e de produção de materiais pedagógicos”. Gutiérrez e Prieto (1994) já alertavam para alguns perigos de considerar a educação a distância (EAD) como panacéia para os males da educação, como o risco do ensino industrializado, trazendo consigo a ”mecanização, despersonalização, padronização, institucionalização [...], levando a desnaturalização dos processos educativos”. (Id., p. 15). O ensino massificante como necessidade de se baratear o processo é outro aspecto importante que pode explicar, em parte, a desconfiança que tem acompanhado as iniciativas nessa área. Professor da York University do Canadá e crítico contumaz das tecnologias na educação, David F. Noble (2000) vai além: afirma que as recentes mudanças na universidade mostram que estamos em uma nova era da educação superior – a era da automação – que corresponde à distribuição de materiais digitalizados on-line, sem a participação efetiva dos professores que os produziram. Pretende-se incrementar a aprendizagem e aumentar o acesso, mas na prática tal automação é frequentemente coercitiva por natureza, sendo imposta a professores e alunos atendendo aos interesses comerciais das instituições. Com relação à formação de professores por meio da modalidade de EAD, utilizando ambientes digitais, parece não ser diferente. Os programas são concebidos por outros, como modelos prontos, com base na ênfase em “princípios neopragmáticos, como produtividade e cognitivismo, aliada à inobservância da historicidade dos educadores”. Dessa forma, impedem que formandos e formadores participem de forma criativa, crítica e reflexiva sobre o projeto e sobre suas ações. Desconsideram-se, assim, os sujeitos sociais. (PESCE, 2007 a., p. 185).

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A educação, em particular a educação a distância, é um bem coletivo e, por isso, não deve ser regulada pelo jogo do mercado, nem pelos interesses políticos ou pelo furor legiferante de regulamentar, credenciar, autorizar, reconhecer, avaliar, etc. de muitos tecnoburocratas. Quem deve decidir sobre a qualidade dos seus certificados não é nem o Estado e nem o mercado, mas sim a sociedade e o sujeito aprendente. Na era da informação generalizada, existirá ainda necessidade de diplomas? (GADOTTI, 2000).

Um dos aspectos que tem chamado a atenção ao longo da última década é a ênfase dada à educação a distância como sendo a grande possibilidade de superação dos desafios educacionais contemporâneos. As questões nessa área são interpretadas como simples consequência da evolução das tecnologias, mais precisamente da evolução da computação. O desafio vai muito além da simples incorporação de tecnologias. (PRETTO, 2000). Como aumentar as oportunidades de acesso à educação, de uma forma geral, e mais especificamente de acesso ao ensino superior, para uma população geograficamente espalhada no Brasil, longe dos grandes centros e das boas universidades, sem comprometer a qualidade? Pelos dados da ABRAEAD 2008, 48% dos alunos da Educação a Distância buscam sua formação fora do seu estado de origem. Essa incidência é maior no Norte (78,4%) e no Sul (64,7%) do Brasil. Outro desafio está na própria definição de educação a distância, que passa pelos conceitos de ensino, de aprendizagem, de colaboração, de conhecimento, entre outros. A EAD vista como sistema abrange subsistemas como o ambiente virtual, a tecnologia, as ferramentas comunicacionais, o aprendiz, o professor, a didática. As estratégias metodológicas devem dar conta de interligar todos esses elementos com o objetivo de promover a aprendizagem e o conhecimento em seu sentido mais amplo. Passa pelo conceito de interatividade, “cuja dificuldade de implementação começa na própria definição do termo, mas sem a qual dificilmente teremos uma proposta educacional a distância com qualidade e efetividade social.” (SCHECHTMAN, 2001). A EAD, assim, é um sistema complexo, constituído de sistemas acoplados a outros sistemas, e todos, além de estarem imbricados, precisam ser coerentes com os posicionamentos ontológicos, epistemológicos e metodológicos sob os quais se estabelecem. Essa postura é fundamental não só para se trabalhar com o ambiente virtual, objeto da pesquisa em questão, como também para as escolhas dos caminhos metodológicos e procedimentos a serem utilizados na coleta de informações e evidências da própria pesquisa. (TORRE; MORAES, 2007).

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Sistemas complexos são aqueles que não podem ser descritos nem explicados “pela mera adição de enfoques parciais provenientes de estudos independentes de cada um dos seus componentes [...] cujos elementos ou subsistemas estão interdefinidos”. (GARCIA, 2002, p. 56). Um sistema complexo é dinâmico, aberto e adaptativo, em constante evolução na interação com o meio ambiente, apresentando momentos de aleatoriedade. Não pode ser determinado, pois pequenos desvios nas condições iniciais, se repetidos diversas vezes, podem produzir resultados bem diferentes. Está sujeito às emergências, criando ordem a partir da desordem. Possui estrutura fractal. (BOTELHO, 2006). Nesse sentido, o ambiente virtual construído como um vir-a-ser, um espaço antropológico do saber (LÉVY, 1999 a.), requer um aprendiz disposto a ser mais autônomo na construção de seu conhecimento, mais colaborativo, o que implica um professor capaz de incentivar essa autonomia e de mediar as interações entre os participantes, mas que precisa, primeiramente, aprender a valorizar essa autonomia, e aprender a compartilhar responsabilidades. Esperam-se do aprendiz competências cognitivas e habilidades que provavelmente ele não possui, porque foi educado ao longo da vida através de metodologias predominantemente behavioristas. (BELLONI, 1999). Os professores também são afetados pelas mudanças estruturais. Há um deslocamento do centro de gravidade – para longe da apresentação e na direção de supervisão e apoio para os alunos que aprendem autonomamente. (PETERS, 2004). A experiência com o tempo e o espaço no ambiente virtual é diversa daquela dos ambientes presenciais, é uma temporalidade multissíncrona e um espaço fundamentalmente comunicacional, não físico. (AZEVEDO, 2007). Como afirma Paul Virilio (2000, p. 114), “em matéria de temporalidade, o tempo não é mais inteiro, mas indefinidamente fracionado em tantos instantes, instantaneidades, quanto permitem as técnicas de comunicação e de telecomunicação.” É o tempo da sucessão, cronológico, que passa a ser o tempo de exposição, cronoscópico. Esse ambiente, além de requerer a instrumentação técnica, é um espaço de saber que “incita a reinventar o laço social em torno do aprendizado recíproco, da sinergia das competências, da imaginação e da inteligência coletiva.” (LÉVY, 1999 a.,

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p.26). Inteligência coletiva que deve ser compreendida como um trabalho em comum acordo. Por isso, tal trabalho precisa ser mais bem explorado e conhecido o que, talvez, justifique o aumento significativo de pesquisas educacionais relacionadas com as tecnologias digitais como a usabilidade e design de plataformas virtuais como Moodle e WEBCT, ou que procuram compreender o uso de ferramentas de comunicação como Chat e fórum, o MSN, o NetMeeting e suas linguagens particulares. Mais recentemente surgiram estudos sobre como utilizar os chamados Alternate Reality Games (ARGs) como o Second Life, um mundo digital on-line em formato 3-D, com propósitos educacionais. Percebe-se, então, que a aprendizagem e o conhecimento, assim como o uso das tecnologias, são questões processuais de natureza complexa e, por isso, precisam ser vistos, prioritariamente, por meio de uma análise qualitativa, embora a complexidade também não descarte o uso de metodologias mistas, desde que necessário. No Brasil, coadunado com essa perspectiva de mudanças paradigmáticas, o Fórum Nacional de Pró-Reitores de Graduação das Universidades Brasileiras (ForGRAD), na gestão 2001-2002, escolheu como tema de discussão para a primeira Oficina A EAD como modalidade para ensino de graduação, pretendendo examinar os componentes epistemológicos, as abordagens e as estratégias para viabilizar projetos pedagógicos de graduação na modalidade de EAD e sua interrelação com outras dimensões da educação superior:
É necessário rever as formas de pensar, sentir e atuar sobre essa realidade, que não se apresenta de modo linear, num continuum de causa e efeito, mas de modo plural, numa multiplicidade e complexidade inscritas em redes e conexões, ampliando nossa inserção no mundo. (ForGRAD, 1999, apud ForGRAD, 2001, p. 1).

Nesse sentido, reforça-se a ideia de que é necessário que haja, nas escolas, um movimento no sentido de incorporar as tecnologias da informação e comunicação em seus currículos e em suas práticas, “possibilitando aos seus alunos uma vivência atualizada e contemporânea em relação aos avanços tecnológicos.” (Ibid., p.10). A Educação a Distância, para o ForGRAD, é considerada como uma modalidade de educação que deve ser adotada com rigor metodológico, não podendo estar dissociada da reflexão sobre a própria educação de forma ampla. Assim,

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embora a EAD, por suas especificidades, propicie a ressignificação dos paradigmas educacionais, não é a única modalidade educativa responsável por tal mudança. Ainda, segundo o documento do ForGRAD,
A EAD como uma dimensão pedagógica que pode, ao lado de outras modalidades pedagógicas, contribuir para a (re) significação de paradigmas educacionais, superando a visão de mundo alicerçada no paradigma cartesiano/newtoniano. (Ibid., p.18).

O Fórum aponta alguns pressupostos norteadores para as ações de EAD, tendo como referência o paradigma ecossistêmico proposto por Maria Cândida Moraes em seu livro Paradigma Educacional Emergente (1997). Esses pressupostos são: (a) a educação como sistema aberto, em interconexão permanente com outras práticas sociais; (b) o reconhecimento do ser humano em sua multidimensionalidade, dotado de múltiplas inteligências, com diferentes capacidades cognitivas; (c) a educação associada à vida, conectada à realidade do indivíduo, contextualizada; (d) a compreensão da complexidade do conhecimento e de seu processo de construção; (e) a interconectividade dos conceitos, das teorias e dos problemas educacionais; (f) a educação que se propõe a contribuir para a formação do indivíduo cidadão, em que o individual e o coletivo são pensados dialeticamente. Tais aspectos serão trabalhados no corpo da pesquisa. A EAD cria novos atores e redefine papéis exigindo a formação de recursos humanos, principalmente no que diz respeito aos docentes, professores mediadores especialistas que, como propõe Masetto (2000), deverão compreender e trabalhar com as novas tecnologias, que incluem o uso da informática, do computador, da Internet, das ferramentas de comunicação, além dos recursos e das linguagens digitais. Mas, como?

2. ORIGEM DA PESQUISA: RECONSTRUINDO O PERCURSO

(...) Só de fato por milagre é que os modernos métodos de ensino ainda não liquidaram inteiramente a sagrada curiosidade da pesquisa; pois essa delicada plantazinha, além de certa estimulação, necessita, sobretudo, de liberdade; sem esta estiola-se e morre fatalmente. (Einstein, apud Rogers, 1977).

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Em 1980, formei-me em Pedagogia com habilitação em Magistério de 2º Grau e em Supervisão Escolar pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Ainda durante a faculdade realizei o curso de Produção de Recursos Audiovisuais (328h), no Centro de Estudos de Pessoal do Ministério do Exército (CEP), instituição militar dedicada ao ensino e à pesquisa onde permaneci como estagiária até 1980 e mais tarde ingressei como professora de 3º grau. Meu ingresso na educação a distância aconteceu por conta do projeto Produção e desenvolvimento de Programas-Padrão de Instrução, no qual eu e outros profissionais do CEP, entre os quais militares que produziam o conteúdo, elaborávamos cadernos de instrução para treinamento de soldados e oficiais. Era material impresso enviado às unidades militares e aplicado por outros oficiais. A metodologia baseava-se em objetivos comportamentais. Por outro lado, juntamente com a questão da formação técnica, havia a preocupação em desenvolver atitudes na tropa, como coragem, camaradagem, lealdade, espírito de equipe, enfim, atributos importantes para o desempenho da função. Esses atributos foram trabalhados por meio de material audiovisual (slide-fita cassete). Era a oportunidade de promover a aprendizagem por meio de uma outra linguagem, que não a escrita. Em 1992, fiz Curso de Especialização em Supervisão Escolar. Essa foi minha primeira experiência como aluna em educação/ensino a distância. Paralelamente, eu me introduzia nas questões da informática. Em 1988, realizei os cursos de Introdução à Microinformática, Introdução à Programação, Técnicas de Programação e Linguagem Basic. Em 1993, participei do Encontro Brasil-França sobre Informática Educativa, do ICET (International Council on Education for Teaching), na Universidade Federal do Rio de Janeiro, e do Congresso Nacional de Informática e Telecomunicações, no Centro de Convenções de Brasília. Em 1995, afastei-me das atividades profissionais no CEP. Havia adquirido meu computador um ano antes e por esse motivo fiz cursos de Photoshop, Corel Draw e Page Maker, assim como de produção e criação de Home Pages. Até 1999 trabalhei com esses programas, mas ao mesmo tempo navegava pela internet procurando programas educativos para comprar para minhas filhas. Em 1999, o vírus da pedagogia penetrou definitivamente em mim. Fiz o curso de Extensão em Informática Aplicada ao Ensino, com carga horária de 135h, na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ).

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Prossegui nesse caminho fazendo o Curso de Especialização em Educação a Distância, da Universidade Católica de Brasília (UCB), realizado a distância, concluído em 2001. Era um curso que utilizava somente material impresso e, como forma de contato, telefone e carta. Mas eu tinha um endereço eletrônico (e-mail) e a UCB também. Por que eu não podia comunicar-me por meio dele com meus professores? Quando conseguia fazê-lo, o retorno era bem emocionante e rápido. Senti-me um pouco perdida nos primeiros meses, embora os textos tivessem um formato conversacional, até que consegui identificar, por mim mesma, as melhores estratégias de aprendizagem e de estudo. Seria isso a almejada autonomia do aluno? Mas, será que todos os estudantes conseguiram fazer o mesmo? Haveria um modo de ajudá-los a se descobrirem como aprendizes? (Essas idéias ainda permanecem comigo). Faltava comunicação, faltava interatividade. Mas como essa questão estava sendo abordada pela literatura? Seria a interatividade entre orientador e aprendiz prática ou somente teoria? Assim, minha monografia foi um estudo de caso sobre um curso oferecido em ambiente virtual por professores que eu conhecia e sabia serem competentes. Como esperado, a interatividade era pouca ou quase nenhuma, apesar da existência de fóruns. Esse estudo, com certeza, mudou minhas perspectivas com relação ao uso do computador e da internet na educação. Percebi o quão difícil era colocar em prática o que era proposto teoricamente. De 2001 para cá, não conheci muitas experiências realmente inovadoras. Para fundamentação teórica, estudei diferentes autores, entre eles, Pedro Demo, Francisco Gutiérrez e Marco Silva, que me trouxeram uma nova visão sobre educação e, mais especificamente, sobre educação a distância. Conheci o paradigma educacional emergente por meio de Maria Cândida Moraes; a complexidade do fenômeno, do tempo, do sistema, do ato de educar, da visão de mundo proposta por Morin; a nova comunicação incentivada por Moran; a Cibercultura e a Inteligência coletiva, de Lévy. Em 2001 mudamos para Goiânia, quando fui trabalhar na UFG Virtual, órgão da Universidade Federal de Goiás ligado à reitoria de extensão. Lá desenvolvi ambientes virtuais de aprendizagem, coordenei pedagogicamente uma etapa do TV Escola, projeto realizado pelo Ministério da Educação e Cultura – MEC, fui conteudista de alguns cursos a distância e desenhista instrucional em outros.

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No final de 2002, fui para a faculdade de comunicação como professora da disciplina Tecnologias de Rádio e TV. Em 2003, mudamos para Brasília e fui trabalhar no Centro de Educação a Distância (CEAD) da UnB, onde atuei, principalmente, como designer instrucional. Participei da criação de cursos com utilização da internet, de material impresso, mas continuava com a mesma sensação de que o aluno do outro lado sofreria para realizar o curso com sucesso. Percebia pouco interesse das organizações em “perder” hora-aula dos produtores do curso e dos tutores na preparação do aluno para estudar nessa nova modalidade de educação. Eu queria fazer mais do que um manual básico com dicas de organização de tempo, de disciplina intelectual. Concluí que não havia outra forma de tentar responder aos meus questionamentos a não ser pesquisando por meio de um projeto próprio. Resolvi iniciar o mestrado. Meu problema inicial era entender como aprende o sujeito que estuda em um curso virtual de especialização. Queria compreender os estilos de aprendizagem predominantes em aprendizes de sucesso, os processos de autorregulação, metacognição e outros fatores que poderiam interferir de alguma forma na facilidade maior ou menor de aprender sob essas circunstancias. Em 2007, já como aluna regular do mestrado, encontrei Maria Cândida Moraes, autora daqueles textos que tanto me influenciaram à época de minha especialização. Ela estava vindo para a Universidade Católica de Brasília. Pedi que aceitasse ser minha orientadora, e assim foi. mediação pedagógica presencial e virtual. Meus conhecimentos sobre o próprio paradigma e suas possibilidades de aplicação em ambientes virtuais de aprendizagem e na pesquisa, contudo, eram insuficientes. Decidi, então, unir os dois assuntos que me interessam no momento: a educação a distância, utilizando ambientes virtuais de aprendizagem, e a teoria da complexidade e do pensamento ecossistêmico. Nessa época, estava tendo minha primeira experiência como tutora em um curso de especialização para professores do ensino médio e na minha percepção o ponto fraco do curso estava na questão da capacitação de tutores para mediar os fóruns, para utilizar a plataforma de maneira otimizada, para responder aos anseios dos alunos. Comentando sobre essa questão com minha orientadora, percebi que o Eu já percebia no paradigma da complexidade e no pensamento ecossistêmico caminhos importantes para a

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foco da pesquisa deveria estar na tentativa de compreender as relações entre os participantes do curso, na interatividade, mas como a realidade é multifacetada e a educação a distância deve ser vista de forma sistêmica e complexa, não poderia deixar de navegar um pouco pelos outros elementos constitutivos dos ambientes de aprendizagem. Outro fator que reforçou meu desejo de encontrar maneiras de mediar relações em ambientes virtuais foi ter ouvido de alguns profissionais da educação que o uso das tecnologias seria uma ameaça à identidade do professor; ou que é preciso frear o desenvolvimento dentro da escola; ou, ainda, que a EAD é um subterfúgio para retirar-se o poder da classe. Assim nasceu o projeto desta dissertação: A Mediação pedagógica em ambientes virtuais de aprendizagem, a partir da complexidade e do pensamento ecossistêmico.

3. O PROBLEMA DE PESQUISA

A especificidade desta pesquisa está no enfoque sobre o objeto de estudo. É um olhar enriquecido pelos operadores cognitivos do Pensamento Complexo, que são os instrumentos ou as categorias de pensamento que nos ajudam a refletir sobre a realidade e a compreender a complexidade, colocando em prática esse Pensamento. Segundo Morin (2000), esses operadores cognitivos são princípios-guia que colaboram para uma melhor compreensão dos fenômenos educativos, permitindo a religação dos saberes. Um espaço eminentemente hipertextual não pode visto numa relação simples de causa e efeito. É preciso um olhar que, na perspectiva da complexidade, seja sistêmico, hologramático, circular retroativo ou recursivo, auto-eco-organizacional, dialógico e reintrodutório do sujeito esquecido pela ciência. (MORIN, 2000). Segundo Moraes (2000, p. 1), espaços abertos:
Requerem um paradigma educacional que reconheça a natureza viva e transdisciplinar do processo de construção de conhecimento,a interatividade dos processos cognitivos, sendo capaz de recuperar a inteireza humana, os valores multiculturais e o respeito às diferentes maneiras de pensar.

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Embora a civilização do virtual seja marcada pelas tecnologias digitais, ela não se caracteriza simplesmente como tecnológica e burocrática. “Os imaginários social e tecnológico se constroem através de interferências mútuas e complexas.” (LEMOS, 1999, p. 257). Para Demo (2002), o mundo virtual é real, apesar de não ser físico. Não se associa mais virtual com irreal. Esse mundo necessita ir além da base física do computador e da referência digital simbólica e somente essa realidade digitalizável acontece no ciberespaço: “[...] ao entrar no ciberespaço, crianças e adolescentes parecem ganhar asas, navegando por regiões sem fim, com graus estonteantes de liberdade e de relacionamentos diversificados”. (DEMO, 2002, p. 36). E é nesse espaço que o professor/orientador precisa atuar, mediar relações, ocupando um novo papel que requer uma visão ecossistêmica e complexa da realidade, das subjetividades. Segundo Perez e Castillo (1999, apud MORAN; MASETTO; BEHRENS, 2000), a mediação pedagógica busca abrir novos caminhos para o aprendiz com relação a ele mesmo, aos materiais, aos colegas e aos professores. O mediador necessita de competências para desenvolver estratégias pedagógicas que inspirem o aprendiz em sua autonomia, mas que também o incitem a colaborar, a aprender coletivamente. Precisa estar atento às emergências, aos indicadores oferecidos pelas interações entre os participantes, às relações com o material, dispondo-se a modificar as rotas traçadas no planejamento e as estratégias pedagógicas ao longo do processo, e não somente ao final. Vale reforçar a noção de que conhecimento e aprendizagem são processos não-lineares tanto em seu “processo de formação, e reconstrução, quanto em sua tessitura interna”. (DEMO, 2002, p. 123). modifica o que interpreta. (DEMO, 2002). Segundo Freire (1996), em uma conversa com D’Ambrósio:
[...] nessa transição do suporte para o mundo em que se instala a história, é que começa a se instalar a cultura, a linguagem, a invenção da linguagem, o pensamento que não apenas se atenta no objeto que está sendo pensado, mas que já se enriquece da possibilidade de comunicar e comunicar-se [...]

Essa não linearidade é percebida nos

processos interpretativos que são reconstrutivos ou produtivos. Quem interpreta

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Como argumenta Demo (2002, p.142), “a complexidade da aprendizagem manifesta-se vivamente em procedimentos individuais e coletivos”. Há um nível de aprendizado individual, pois ninguém pode aprender pelo outro, contudo a aprendizagem é um processo social. Nesse sentido, é preciso considerar que a autonomia é relativa, é uma autonomia “sempre socialmente dependente.” (Ibid.). É por compreender o espaço virtual como um ecossistema, como um ambiente no qual a construção do conhecimento acontece de forma complexa, multissensorial e multifacetada, em que o papel do professor como mediador é fundamental para promover a construção do conhecimento e a aprendizagem significativa, que pretendo examinar: De que maneira os operadores cognitivos constitutivos da complexidade, presentes tanto no Pensamento Complexo como no Pensamento

Ecossistêmico, podem propiciar condições para a ressignificação dos processos de mediação pedagógica em ambientes virtuais de aprendizagem?

4. OBJETIVOS Esta pesquisa tem por objetivo geral verificar as possibilidades de os operadores cognitivos do pensamento complexo propiciar condições para a ressignificação do processo de mediação pedagógica em ambientes virtuais de aprendizagem. Para o alcance desse objetivo maior, foram propostos os seguintes objetivos específicos: (a) identificar os operadores cognitivos, também conhecidos como princípios da complexidade, presentes nos fundamentos estabelecidos no planejamento do curso, no tipo de plataforma virtual, nas interações que ocorrerem em fóruns e chats, nas atividades propostas pelos orientadores e na mediação pedagógica; (b) verificar de que maneira tais princípios ou operadores cognitivos podem enriquecer os olhares nos processos de construção do conhecimento; (c) verificar limites e possibilidades de utilização dos operadores cognitivos em todas as fases do curso.

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5. DELIMITAÇÃO DA PESQUISA Todo processo de construção do conhecimento envolve o sujeito integral, biológico, físico, social, cultural, espiritual. No ambiente virtual não é diferente. Contudo, para a realização desta pesquisa não será viável estudar com profundidade todos os componentes da EAD. Dessa forma, o foco estará na mediação pedagógica, mas sempre permeada por suas interações. Optou-se por utilizar como estudo de caso um curso realizado em 2007 e já encerrado. Como principal meio para coleta de informações será utilizada a análise documental, incluindo-se aí o projeto, o planejamento, as mensagens trocadas nos fóruns de discussão, assim como o conteúdo didático disponibilizado aos cursistas para estudo no próprio ambiente virtual. O foco desta pesquisa, como dito anteriormente, será a mediação pedagógica em um ambiente virtual de aprendizagem cuja base estrutural não se encontra mais disponível na internet. Por esse motivo, os dados serão obtidos em arquivos de backup feitos pelos coordenadores do curso. No entanto, é importante esclarecer que o enfoque ecossistêmico indica que os elementos perdem o seu significado, ao isolarmos as partes do todo. do processo. Portanto, outros elementos, apesar de não serem estudados detalhadamente, precisarão ser abordados para uma melhor compreensão

6. RELEVÂNCIA CIENTÍFICA E SOCIAL

Espaços abertos, conhecimentos emergentes e não-lineares, processos auto-organizacionais requerem novas abordagens fundamentadas em novos paradigmas da ciência, bem como novas práticas pedagógicas que reconheçam o aprendiz em sua multidimensionalidade, ao mesmo tempo em que favorecem a aprendizagem individual e coletiva a partir do balanceamento adequado das dimensões construtiva e informativa dessas ferramentas. (TORRE; MORAES, 2007).

Neste momento, interessa mostrar, resumidamente, a vertiginosa expansão da EAD no mundo e particularmente no Brasil, nos últimos dez anos, assim como as consequências dessa expansão, tentando demonstrar a importância de uma atenção maior por parte tanto do setor público, quanto do privado.

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Os dados a seguir foram apresentados no Anuário Brasileiro Estatístico de Educação Aberta e a Distância (ABRAEAD, 2006), elaborado pelo instituto Monitor, com Apoio da Associação Brasileira de Educação a Distância (ABED). Segundo os autores, o ponto de partida foi o Sistema de Ensino, quer dizer, os órgãos oficiais como Ministério da Educação, Secretarias de Educação, Conselho Nacional de Educação e os Conselhos Estaduais e Municipais de Educação, além do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep) e do último censo educacional. Conforme a Tabela 1, em 2005 havia 217 instituições praticando EAD de forma autorizada e credenciada no Sistema de Ensino. É um crescimento de 30,7% em relação ao número de instituições que havia no levantamento anterior (166 instituições, em 2004). O número de alunos cresceu ainda mais (62,6%) na comparação entre os dois anos, indo de 309.957 alunos matriculados em 2004, para 504.204 em 2005.
Tabela 1: Crescimento do número de instituições autorizadas pelo Sistema de Ensino (CNE e CEEs) a praticar EAD e de seus alunos, de acordo com levantamento do ABRAEAD (2004/2005) Crescimento 2004 2005 (%) Número de instituições autorizadas ou com cursos credenciados Número de alunos nas instituições Fonte: ABRAEAD, 2006 166 309.957 217 504.204 30,7% 62,6%

O número de matrículas em escolas de EAD credenciadas no nível federal cresceu 88% no ano de 2005, em comparação com o ano de 2004. O número de alunos que estudaram por graduação ou pós-graduação saltou de 159.366 para 300.826, conforme a Tabela 2.
Tabela 2: Crescimento do número de matrículas em escolas credenciadas no nível federal 2004-2005 Crescimento Nível de ensino/ Ano do Número de Matrículas anual (%) em censo cursos no ano número de matrículas 106 89.539 Graduação e Tecnológico 2004 Pós-graduação lato sensu Seqüencial Graduação e Pós-graduação consolidados* 259 17 61.637 8.190

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Total Graduação e Tecnológico Pós-graduação lato sensu e Seqüencial Graduação e Pós-graduação consolidados* Total 2005

382 82 385

159.366 109.391 104.513 86.922

467

300.826

88,7%

Fonte: ABRAEAD, 2006 *Número de alunos de entidades que informaram número de alunos de graduação consolidados com os de pós-graduação.

Ainda segundo o Anuário Brasileiro Estatístico de Educação Aberta e a Distância (ABRAEAD, 2006), a expansão da EAD no Brasil é uma realidade. Em dois anos apenas, de 2004 a 2006, houve um aumento de 151% no número de matrículas em cursos a distância em diferentes níveis. Em cursos de nível superior, o aumento foi de 261%. (Tabela 3) Para os especialistas, a tendência é manter-se em franco desenvolvimento nos próximos anos.
Tabela 3: aumento de 151% no número de matrículas em cursos a distância em diferentes níveis. Número de 2004 2006 matrículas em cursos a distância Geral Nível Superior Fonte: ABRAEAD, 2006 309.957 159.366 778.458 575.709

Os números do anuário de 2007 revelam um crescimento ainda maior. Dentre esses dados destacam-se (ABED, 2007): (a) o Brasil teve, em 2006, 2,279 milhões de alunos a distância matriculados em vários tipos de cursos - no ensino credenciado, fazendo educação corporativa, e em outros projetos nacionais e regionais. Isso significa que um em cada oitenta brasileiros estudou por EAD no ano passado; (b) o número de alunos no ensino credenciado a distância cresceu 54% em 2006, e já chegou a 778 mil pessoas; (c) se forem contados apenas os alunos de graduação e pós-graduação, o aumento foi de 91% em 2006; (d) há em todo o Brasil 889 cursos a distância (credenciados pelo Sistema de Ensino – MEC e Conselhos Estaduais de Educação, sem contar os livres). O maior grupo isolado é o de pós-graduação latosensu (246 cursos). Os de graduação são 205.

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Em termos qualitativos, o anuário mostra que os motivos mais frequentemente apontados para a evasão são a ausência de tempo e de dinheiro. Todavia, pesquisas exclusivas indicam que instituições com maior número de alunos por funcionário apresentam maior evasão. Estudo exploratório denota que outros fatores pesam mais na evasão, tais como: estranhamento quanto ao método utilizado; avaliação de que o método é muito puxado; escassez do material de estudo e demais recursos; utilização de paradigmas presenciais na EAD. A maioria das instituições ainda utiliza o professor presencial (72%) e a reunião presencial (58%). (ABED, 2007). Segundo os dados apresentados no ABRAEAD 20083, de 2004 a 2007, houve um aumento superior a 200% (duzentos) no número de alunos matriculados na modalidade de EAD, passando de um total de 300 mil para 970 mil. A quantidade de cursos credenciados pelo MEC aumentou algo em torno de 50% (cinqüenta), chegando a 255 cursos. Ainda segundo esse anuário, a oferta de cursos de graduação superou a dos cursos de pós-graduação lato sensu. Dos 2,54 milhões de brasileiros que estudaram pelo sistema da EAD em 2007, quase um milhão frequentaram o Ensino Formal, que inclui os cursos de graduação, pós-graduação, técnicos e educação de jovens e adultos. Na graduação são 430 mil alunos, o que representante 45% do montante total. Já os cursos de especialização e extensão atingem 390 mil estudantes. Esses são apenas alguns números que demonstram a importância de se investir em pesquisas sobre o fenômeno da educação a distância em seus aspectos qualitativos, ou seja paradigmáticos, ontológicos e metodológicos. Percebe-se que a expansão da EAD no Brasil é uma realidade e tende a manter-se em franco desenvolvimento nos próximos anos. Esse fenômeno demanda atenção de gestores, de educadores, de cientistas e da sociedade como um todo com relação à qualidade dos cursos que estão sendo oferecidos, principalmente na graduação e na pós-graduação. Nesse sentido, o documento produzido pelo Fórum Brasileiro de Pró-Reitores de Graduação (ForGRAD) oferecerá as bases para se pensar a EAD no âmbito das universidades, tanto em nível de formação como de pós-graduação.

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Estes dados foram obtidos no site da UNIVERSIA Brasil.

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É preciso discutir os aportes ontológicos, epistemológicos e metodológicos presentes nesses cursos, da mesma forma que fazemos para os cursos presenciais, afinal estamos falando da formação de jovens. A EAD é antes de tudo educação. O que a diferencia da educação presencial é basicamente a distância física e geográfica entre o professor e o aprendiz, a qual requer cuidados especiais na mediação tanto tecnológica quanto pedagógica e humana. A escolha do tema desta pesquisa deve-se, portanto, à necessidade de ampliar as discussões sobre como transformar os ambientes virtuais de aprendizagem em espaços colaborativos e propiciadores para uma aprendizagem significativa.

7. ESTRATÉGIAS METODOLÓGICAS4

A chave para uma boa pesquisa é ter em mente que a posição clássica de um investigador não é a de quem sabe as respostas certas, mas a de quem luta para encontrar o que poderão ser as respostas certas! (ECO, 1983).

O método é o “caminho”, o processo que nos permite chegar ao conhecimento. É importante lembrar que não existe um método fora das condições do sujeito aprendiz. Todo discurso de um método envolve determinadas circunstâncias que, por sua vez, descrevem determinados momentos importantes da pesquisa. (MORIN, 2000, apud MORAES, 2008). Moraes e Torre (2006, p 163) referem-se às metodologias ou métodos como metodologias de desenvolvimento ecossistêmico e as definem como um processo de construção de conhecimento no qual se retomam, “em diferentes momentos e de forma intensiva e recursiva, os objetivos, as estratégias e as avaliações feitas, visando compreender melhor a realidade e as mudanças ocorridas”.

O uso do termo estratégias metodológicas ao invés de metodologia ou método tem como pressuposto teórico o conceito de Morin (2005, p.79): “A ação é estratégia. A palavra estratégia não designa um programa prédeterminado que basta aplicar ne variatur no tempo. A estratégia permite, a partir de uma decisão inicial, prever certo número de cenários para a ação, cenários que poderão ser modificados segundo as informações que vão chegar no curso da ação e segundo os acasos que vão se suceder e perturbar a ação.”

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As categorias mais relevantes são: a mudança, a abertura, o caráter dinâmico, processual e inacabado, o avanço mediante a percepção consciente do que acontece em determinados momentos, a recursividade, a auto-organização, além de sua finalidade formativa, autoformadora e inovadora. É importante ressaltar que o pensamento complexo não descarta a clareza, a linearidade, a ordem e o determinismo, mas os considera insuficientes, pois “não se pode programar a descoberta, o conhecimento e a ação”. “O propósito do pensamento complexo é simultaneamente reunir (contextualizar e globalizar), relevar o desafio da incerteza.” (MORIN, 2007, p.83). Como fazer isso? A seguir serão apresentados, resumidamente, os sete princípios apontados por Morin (1999, 2000) - também denominados operadores cognitivos - que, complementares e interdependentes, servem como guias para pensar a complexidade e, portanto, orientam o método a ser utilizado na pesquisa. O princípio sistêmico ou organizacional liga o conhecimento das partes ao conhecimento do todo. A parte não tem sentido algum quando separada do todo, e vice-versa. É preciso conhecer bem o contexto no qual o fenômeno acontece e tentar perceber o sistema como um todo integrado, dependente de suas partes, que, por sua vez, são também dependentes do todo. O princípio hologramático “coloca em evidência esse aparente paradoxo dos sistemas complexos em que não somente a parte está no todo, mas em que o todo está inscrito na parte.” (MORIN, 2000, p. 209). Por exemplo, o indivíduo é visto como representante de determinada sociedade, enquanto esta também se encontra representada em cada indivíduo através da cultura, da linguagem, das normas, etc. (MORAES; VALENTE, 2008). Assim, devemos observar em que medida os posicionamentos teóricos estão refletidos no planejamento e nas atividades previstas e se todos os participantes do processo estão informacionalmente conhecendo as regras do processo, ou se as informações poderão ser acessadas por todos. Tais aspectos exemplificam operacionalmente esse princípio. O princípio da retroatividade pode ser visto em conjunto com o princípio da recursividade. Os sistemas complexos não são lineares, existindo, assim, uma causalidade de natureza circular, espiral, na qual “a causa age sobre o efeito, e este sobre a causa.” (MORIN, 1999, p.32). Pode-se inferir que o pesquisador também é influenciado, ao longo da sua investigação, pelos produtos de sua pesquisa. Daí a possibilidade de mudanças de rumo na pesquisa, pois conforme o pesquisador

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aumenta seu conhecimento sobre o fenômeno, maior a possibilidade de novos questionamentos. O princípio dialógico, também relacionado à espiral recursiva, ajuda a compreender o fato de que fenômenos aparentemente antagônicos, na realidade, são complementares e dependentes quando partes de sistemas complexos. Na pesquisa, a dialógica aparece na relação entre o sujeito e o seu objeto de pesquisa e o conhecimento gerado nessa pesquisa é fruto de processos interpretativos, autoeco-organizadores que emergem a partir dessa relação. (MORAES; VALENTE, 2008). Esse princípio amplia a capacidade do pesquisador para relacionar o geral e o particular, para perceber e aceitar que certas atitudes, embora dicotômicas, podem ser produtos das relações entre razão e emoção, entre sensações e ações próprias de cada sujeito. O princípio da auto-eco-organização é a relação dependência/autonomia. Dependência porque, para Morin, um sistema depende da energia do seu meio para sua autoprodução. Nesse sentido, o sujeito só pode ser autônomo a partir de suas relações no contexto em que vive e de seus fluxos nutridores. Por isso, consciente ou inconscientemente, todo observador interfere no fenômeno da pesquisa: ao descrever a realidade, o pesquisador interage com ela, modificando-a e sendo modificado por ela. Advém daí a importância de se ter cuidado com as generalizações, com as transferências de resultados. (MORAES; VALENTE, 2008). O último princípio é o da reintrodução do sujeito no processo de construção do conhecimento. “Da percepção à teoria científica, todo conhecimento é uma reconstrução/tradução por um espírito/cérebro numa cultura e num tempo determinados.” (MORIN, 2000, p. 212). É importante lembrar que a noção de tempo e espaço em um ambiente virtual não é, necessariamente, a mesma da realidade presencial. Assim, na pesquisa, a objetividade como produto final da atividade cientifica não está isolada das crenças dos sujeitos. Todo pesquisador está enredado em suas metanarrativas, o que ratifica a importância de se levar em conta os processos de autorreferência, as histórias de vida colocadas a serviço do processo de construção do conhecimento nas pesquisas. (MORAES; VALENTE, 2008). Para Morin (2000, apud MORAES; VALENTE, 2008), cabe ressaltar a dependência ecológica entre sujeito e objeto. Toda ação é sempre uma ação

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ecologizada, pois, no momento de sua ocorrência, ela entra no jogo das interretroações que acontecem no meio em que está inserido o sujeito. Apontada por Demo (2002) como uma questão que está na raiz da pesquisa qualitativa, a intensidade é outra característica do fenômeno complexo. Procura-se, por meio dessa característica, ir além de indicadores empíricos mensuráveis diretamente; busca-se uma dimensão de maior profundidade do fenômeno. Nessa perspectiva, convém utilizar procedimentos variáveis, como questionários abertos, depoimentos de profundidade, diálogos. Caracteriza-se como qualitativa também porque se enquadra nas quatro perspectivas de uso da investigação propostas por Rossman Y Rallis, citada por Sandín Estebam (2003), na medida em que seus resultados ajudam as pessoas a repensar velhos padrões e a analisar seus contornos imediatos sob novas perspectivas. A pesquisa qualitativa é um campo propício para a investigação. Perpassa disciplinas, áreas de estudo e temas. Consiste em um conjunto de práticas materiais e interpretativas que fazem o mundo visível, que o transformam. Nesse nível, a pesquisa qualitativa envolve uma perspectiva naturalista e interpretativa do mundo, ou seja, estuda as coisas em seu ambiente natural, tentando dar sentido ou interpretar o fenômeno em termos dos significados que as pessoas trazem. (DENZIN e LINCOLN, 2000). Outro aspecto ressaltado pelos autores que justifica a utilização da pesquisa qualitativa é que esta implica ênfase na qualidade das entidades e nos processos que não são experimentalmente examinados ou medidos em termos de quantidade, somatório, intensidade ou frequência. Como estratégia de investigação, será feita uma análise e leitura interpretativa de um caso, tendo por base os operadores cognitivos do pensamento complexo de Morin. O Estudo de Caso justifica-se, também, porque para Stake (2000) não é uma opção metodológica e sim uma escolha sobre o que estudar. Um caso pode ser simples ou complexo. Em um estudo de caso intrínseco, o pesquisador não evita generalizar – ele não pode. O Estudo de Caso se caracteriza como uma pesquisa empírica que investiga um fenômeno contemporâneo dentro do seu contexto da vida real, especialmente quando os limites entre o fenômeno e o contexto não estão claramente definidos. Fenômeno e contexto não são sempre discerníveis em situações de vida real. O

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estudo de caso como estratégia de pesquisa compreende um método que abrange tudo, como a coleta e análise de dados, portanto é uma estratégia de pesquisa abrangente. (YIN, 2003). O estudo será instrumental porque, segundo Stake (2000), esse tipo de pesquisa propõe-se a analisar um caso particular para obter maior compreensão sobre um tema ou redesenhar uma teoria. O caso é secundário, servindo como suporte para a compreensão de alguma outra questão. De qualquer forma, o caso é analisado em profundidade, seu contexto escrutinado, suas atividades detalhadas, mas somente porque tudo isso ajuda o pesquisador em seu interesse externo. E essa análise pode ser enriquecida a partir do uso dos operadores cognitivos de um pensar complexo. Embora a questão da complexidade não seja nova, as pesquisas realizadas sob esse paradigma são mais recentes, principalmente no que se refere aos ambientes virtuais de aprendizagem. Assim, esta pesquisa também pode ser considerada exploratória por ser uma investigação que lida com os novos problemas/assuntos/tópicos sobre os quais pouco se conhece, pelo que não é possível, logo de início, formular muito bem a idéia a investigar. O problema pode surgir de qualquer parte da disciplina; pode ser um puzzle de investigação teórica ou ter uma base empírica. (ECO, 1983). Buscar-se-á uma análise ampla do todo em relação com as suas partes a partir da análise do currículo, do planejamento e da execução do curso. Para Moraes e Torre (2006), uma metodologia de desenvolvimento ecossistêmico, orientada pela visão transdisciplinar, requer estratégias e procedimentos para coleta de informações dentro de uma visão interativa, intersubjetiva, reflexiva e crítica. Com base nas recomendações feitas pelo ForGRAD, optou-se por estabelecer que os elementos constitutivos do ambiente virtual de aprendizagem, propostos no curso em questão, serão analisados utilizando-se como categorias de análise os operadores cognitivos do pensamento complexo de Morin. Utilizar-se-á o modelo misto proposto por Laville e Dionne (1999) na definição de categorias, o que significa que essas categorias de análise definidas a priori podem ser modificadas, ampliadas ou reduzidas, como resultado das emergências e das descobertas de outros elementos significativos durante a análise do caso. O curso a ser utilizado como estudo de caso para a pesquisa foi escolhido por ter sido pensado e construído utilizando a plataforma virtual Moodle (código aberto),

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tendo o paradigma da complexidade e ecossistêmico como fundamentação teórica, como será visto no capítulo que descreverá as características do caso. Os elementos constitutivos do ambiente virtual de aprendizagem do curso serão selecionados dentro das perspectivas propostas por Schlemmer & Saccol & Garrido (2003). Por uma questão de recorte para a pesquisa, foram selecionadas três das quatro perspectivas. São elas: (a) perspectiva didático-pedagógica: analisa as questões epistemológicas e os paradigmas educacionais que fundamentam a criação de um AVA; (b) perspectiva comunicacional-social: analisa a dinâmica nas interações comunicacionais e sociais que um AVA possibilita; (c) perspectiva técnica: considera as ferramentas disponibilizadas pelo AVA: ferramentas de autoria, de trabalho individual e coletivo, suporte tecnológico e serviços diversos. Esses elementos serão mais bem definidos no capítulo que tratará da pesquisa propriamente dita. Serão analisados o projeto e o planejamento do curso, as interações realizadas nos espaços de comunicação síncronos e assíncronos, o material didático e a mediação pedagógica ocorrida tanto nos espaços de comunicação como nas próprias metodologias de ação, lembrando que o objeto de estudo é a mediação pedagógica permeada pelos operadores cognitivos. Optou-se por utilizar as Redes Conversacionais e Interativas ocorridas nos fóruns ou chats. Poderá haver entrevistas semiestruturadas para melhor compreensão dos aspectos cognitivos, emocionais, das crenças e das expectativas dos participantes. Em princípio, as entrevistas serão limitadas aos organizadores do curso, porém se houver condições os aprendizes também serão ouvidos, caso seja necessário. Segundo Moraes e Torre (2006), os critérios de rigor e de validade científica do conhecimento gerado através da Metodologia de Desenvolvimento Ecossistêmico se concretizam mediante os seguintes aspectos: a credibilidade das evidências, a interatividade, a utilidade do conhecimento produzido, a confirmabilidade dos processos e o caráter ético dos procedimentos adotados. A credibilidade das evidências diz respeito à relação entre a informação obtida e a realidade descrita, e para consegui-la é preciso cuidado na triangulação de fontes de instrumentos e de técnicas. A interatividade tem por base o fato de que todos os elementos do fenômeno estão relacionados e, portanto, é necessário o olhar das diferentes dimensões. Para

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análise da mediação pedagógica é preciso manter-se o olhar sobre as questões docentes e discentes em suas interações e diferentes dimensões. A utilidade ou portabilidade do conhecimento, ou sua transposição probabilística não pretende generalizações, mas a possibilidade de utilização desse conhecimento obtido em outras situações, não sem considerar as incertezas a que estão sujeitos. A confirmabilidade do processo vem por meio da comparação com os resultados de pesquisas semelhantes, das discussões e avaliações de especialistas e participantes. O caráter ético deve permear toda a pesquisa, pois se presumem consequências individuais e sociais a partir da disseminação e utilização das informações obtidas. A etapa seguinte poderá ser uma proposta de estratégias metodológicas possíveis de serem utilizadas na perspectiva da complexidade. Espera-se, com esta pesquisa, incentivar outros questionamentos e novas propostas para criação de ambientes virtuais de aprendizagem em que a mediação pedagógica e as estratégias metodológicas aconteçam de forma complexa, ecossistêmica e transdisciplinar.

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CAPÍTULO I

A COMPLEXIDADE E O PENSAMENTO ECOSSISTÊMICO RELIGANDO OS SABERES

Antes de mais nada devo dizer que a complexidade, para mim, é o desafio, não a resposta. Estou em busca de uma possibilidade de pensar através da complicação (ou seja, as infinitas inter-retroações), através das incertezas e através das contradições. Eu absolutamente não me reconheço quando se diz que situo a antinomia entre a simplicidade absoluta e a complexidade perfeita. Porque para mim, primeiramente, a idéia de complexidade comporta a imperfeição, já que ela comporta a incerteza e o reconhecimento do irredutível. (MORIN, 2007, p. 102).

Na introdução deste trabalho, no item sobre a metodologia de pesquisa, fez-se uma breve apresentação de como os operadores cognitivos foram utilizados para o desenho metodológico da pesquisa. Neste capítulo, o estudo será ampliado, apresentando os fundamentos da complexidade e os operadores cognitivos que servem de guias para pensar a realidade, o sujeito, o conhecimento e a prática; o ser, o fazer e o pensar; o indivíduo, a natureza e a sociedade. Todos esses elementos em suas relações.

1.1. O PENSAMENTO COMPLEXO E O PENSAMENTO ECOSSISTÊMICO

À educação cabe fornecer, de algum modo, os mapas de um mundo complexo e constantemente agitado e, ao mesmo tempo, a bússola que permita navegar através dele. (Relatório Delors, p. 89).

Aprender a conhecer, a fazer, a viver juntos e a ser são os quatro pilares propostos por Delors (1998) quanto às aprendizagens fundamentais sobre as quais a educação deve organizar-se. É importante ressaltar que, na realidade, todas essas aprendizagens constituem uma única aprendizagem em suas relações, uma forma de aprender que implica a aquisição, pelo sujeito aprendiz, dos instrumentos necessários para a compreensão e ação sobre o meio envolvente, a fim de participar e cooperar com os outros em todas as atividades humanas. Essas orientações indicam a necessidade de formação e de aprendizagem continuada ao longo da vida.

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Morin, a pedido da UNESCO e com base no relatório Delors, propõe, com clareza indiscutível, os saberes necessários para a educação do futuro. Conhecer o que é conhecer precisa fazer parte da educação como condição para enfrentar os riscos permanentes de erro e de ilusão do conhecimento humano. “O ser humano é um ser racional e irracional, capaz de medida e desmedida: sujeito de afetividade intensa e instável. Sorri, ri, chora, mas sabe também conhecer com objetividade; (...) é um ser de violência e ternura, de amor e de ódio.” (MORIN, 2002, p. 59). É homo complexus, sábio, louco, trabalhador, lúdico, econômico, consumista, prosaico, poético. Por isso, uma das vocações essenciais da educação do futuro será o exame e o estudo da complexidade humana, mostrando o entrelaçamento entre os destinos individuais, sociais e históricos, conduzindo “à tomada de conhecimento, por conseguinte, de consciência, da condição comum a todos os humanos e da muito rica e necessária diversidade dos indivíduos, dos povos, das culturas, sobre nosso enraizamento como cidadãos da Terra.” (Ibid., p. 61). Para Morin (2000), a educação deverá: promover o conhecimento pertinente “capaz de apreender problemas globais e fundamentais para neles inserir os conhecimentos parciais e locais.” (p. 14); reintegrar o homem em sua identidade complexa, ensinando a sua condição humana, reconhecendo-o como um ser físico, biológico, psíquico, cultura, social e histórico. desenvolver no homem a compreensão da complexidade do mundo, das suas complementaridades e antagonismos, de um pensamento policêntrico nutrido das diversas culturas, auxiliando-o a criar estratégias para enfrentar as incertezas da realidade e do conhecimento, permitindo-lhe uma ação transformadora, se necessário, conforme as informações conseguidas ao longo do percurso; relacionar as partes ao todo, em um contexto no qual os objetos do conhecimento sejam apreendidos em sua complexidade. Dessa forma, o sujeito poderá “tomar conhecimento e consciência, ao mesmo tempo, de sua identidade complexa e de sua identidade comum a todos os outros humanos.” (Ibid., p.15).

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educar para a paz por meio da compreensão mútua entre os seres humanos, o que seria conseguido com o estudo das raízes da incompreensão, das suas causas, e não de seus sintomas; ensinar a ética do gênero humano – a “antropo-ética” – considerando o homem, por sua natureza, ao mesmo tempo indivíduo-sociedadeespécie, humana. Gutierrez e Prieto (1994), de forma similar, indicam a necessidade de uma educação alternativa para o futuro, que ensine ao educando a assumir as incertezas, a gozar a vida, a expressar-se de forma clara e coerente. Uma educação que promova a convivência por meio da interaprendizagem, da partilha, da crença no outro e que ensine o sujeito a atribuir significados ao que realiza, à cultura, à sua experiência, à vida cotidiana. E, por último, que ensine o sujeito a apropriar-se da história e da cultura, considerando-se como produto e como produtor dessas experiências, desses conhecimentos, dessa história. E quem irá educar para esse futuro? Quem irá preparar e formar as futuras gerações? É preciso, portanto, formar, aperfeiçoar e capacitar os adultos de hoje, os educadores de hoje que já estão formando os jovens e as crianças das futuras gerações. Mas, como?
O conhecimento tem presença garantida em qualquer projeção que se faça do futuro. Por isso há um consenso de que o desenvolvimento de um país está condicionado à qualidade da sua educação. Nesse contexto, as perspectivas para a educação são otimistas. A pergunta que se faz é: qual educação, qual escola, qual aluno, qual professor? (GADOTTI, 2000)

ensinando

o

respeito

às

autonomias

individuais,

as

participações comunitárias e a consciência de pertencer à espécie

Vimos anteriormente que o reducionismo e a fragmentação provocados pelo presente paradigma não atendem mais às necessidades e aos desejos da sociedade atual e do futuro. E quando isso acontece, faz-se necessária uma mudança de paradigmas. Vivemos, hoje, em uma sociedade com novas aspirações, com novos conhecimentos. Agora, é preciso religar novamente os saberes, praticar a solidariedade e a compreensão, de pensar o homem e a sociedade inseridos em uma ecologia. Essas novas demandas surgiram a partir tanto dos novos conhecimentos da própria ciência, como da transformação do ser humano,

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consciente de que se continuar agindo da forma como tem feito, não haverá, no futuro, novas gerações ou mesmo um planeta para se viver. Guatarri (2007) coloca que, paradoxalmente, vem das ciências ‘duras’ (grifo do autor) a grande mudança com relação aos processos de subjetivação, pois é significativo o fato de Prigogine e Stengers enfatizarem a necessidade de introduzir na física um “elemento narrativo”.
Na visão complexa, quando se chega por vias empírico-racionais a contradições, isto não significa um erro, mas o atingir de uma camada profunda da realidade que, justamente por ser profunda, não encontra tradução em nossa lógica. (...) A consciência da complexidade nos faz compreender que jamais poderemos escapar da incerteza e que jamais poderemos ter um saber total: “a totalidade é a não-verdade.” (MORIN, 2007, p.69, grifo do autor).

Com relação à efemeridade das descobertas das ciências, Damásio (1998, p, 17) afirma:
É com ceticismo que encaro a presunção da ciência relativamente à sua objetividade e ao seu caráter definitivo. Tenho dificuldade em aceitar que os resultados científicos, principalmente em neurobiologia, sejam algo mais do que aproximações provisórias para serem saboreadas por uns tempos e abandonadas logo que surjam melhores explicações. No entanto, o ceticismo relativo ao atual alcance da ciência, especialmente no que diz respeito à mente, não envolve menos entusiasmo na tentativa de melhorar as aproximações provisórias.

Para Sommerman (2005), o princípio da separação no conhecimento começou a ser questionado justamente com o aparecimento das ciências sistêmicas como a ecologia, as ciências da terra, a cosmologia e mesmo a economia. Tudo está ligado a tudo: o átomo, o indivíduo, a sociedade. Segundo Morin (2000, p. 35), os objetos da ecologia são as interlocuções que acontecem em um ecossistema. A partir do momento em que os ecossistemas estão ligados a outros ecossistemas mais amplos chega-se à biosfera, “constituída de todas as coisas vivas, aí subentendidas a humana”. Para Moraes (2004, p. 149), “o pensamento ecossistêmico implica uma epistemologia sistêmica e não uma nova teoria sistêmica. [...] trabalha com conceitos epistemológicos advindos de teorias sistêmicas.” O pensamento ecossistêmico tem como um de seus elementos o diálogo, que, segundo Böhn (2001, apud MORAES, 2004), indica a existência de uma ‘corrente de significados’ que flui entre, dentre e

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através dos implicados, sendo que uma nova compreensão pode emergir no interior de um grupo, diferente daquela que se encontrava inicialmente. A ecologia é vista como um conhecimento científico que tem por objeto não apenas a natureza, mas as interlocuções e as relações que acontecem dentro de um ecossistema dando origem a um conhecimento dialógico, contextualizado. A ética, a solidariedade, a alteridade e a inclusão são outros elementos presentes no pensamento ecossistêmico.
Na realidade, o que convém incriminar, principalmente, é a inadaptação das práxis sociais e psicológicas e também a cegueira quanto ao caráter falacioso da compartimentação de alguns domínios do real. Não é justo separar a ação sobre a psique daquela sobre o socius e o ambiente. [...] Mais do que nunca a natureza não pode ser separada da cultura e precisamos aprender a pensar ‘transversalmente’ as interações entre ecossistemas, mecanosfera e Universos de referência sociais e individuais. (GUATTARI, 2007 p. 24,25).

É

preciso,

portanto,

pensar

de

forma

ecossistêmica,

complexa

e

transdisciplinar para conseguir ir além das singularidades, trazendo novamente o sentido do todo, mas sem desconsiderar as partes. É preciso reconhecer a necessidade de estudar os problemas de forma integrada, pois são problemas sistêmicos. É necessária uma visão ecológica profunda, que percebe o mundo não como um amontoado de objetos isolados, mas como uma rede de fenômenos interconectados e interdependentes. É uma percepção espiritual ou religiosa, “quando se compreende o espírito humano como um modo de consciência no qual o indivíduo tem uma sensação de pertinência, de conexidade, com o cosmos como um todo [...].” (CAPRA, 2002, p. 26). Para Damásio (2001), os seres humanos são complexos, pois têm que se adaptar a um ambiente cheio de dificuldades para obter energia. Portanto, em um ambiente físico e cultural, é preciso um sistema complexo para planejar, imaginar e criar. Gleiser (2007, p. 6) reafirma essa complexidade dizendo que:
Temos algo que vai além do meramente animal, a capacidade de nos maravilhar com o mundo, com os que estão a nosso lado, de refletir sobre e aprender com o que sabemos e o que não sabermos. É essa capacidade que nos faz ir além do óbvio, em busca de novos significados, novas formas de expressar quem somos e compreender o mundo em que vivemos.

Segundo Morin (2000, p. 90), a complexidade está no “conhecimento, cotidiano, político, filosófico e de agora em diante, de forma aguçada, no

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conhecimento científico. Transborda na ação e na ética.” Está na realidade incerta e dinâmica. Existe um processo contínuo de retroação, de auto-organização, de sistematização. O ser humano é cérebro, mente, coração, emoção, movimento. Porque o cosmo, o sistema solar, a Terra e a humanidade jogam o “jogo incessante do incerto”, da dialógica entre ordem/desordem e organização. (Ibid., p.104). “Nós somos confrontados pela insustentável complexidade do ser, pela insustentável complexidade do mundo.” (Ibid., p. 133). A complexidade é uma propriedade da matéria e, segundo Moraes (2008), está presente em todos os domínios da natureza. Portanto, ela não é somente física, biológica, social, ou ainda planetária. A complexidade, como maneira de fazer leituras da realidade, é um desafio para reunir o global ao parcial, o múltiplo ao singular, a ordem à desordem. De compreender que o antagonismo, por vezes, não é contraditório, mas complementar. Ver de forma organizacional, complexamente viva. “A história da humanidade pode ser contada como uma série de representações da dança entre o caos e a ordem que dá forma ao mundo.” (GLEISER, 2002) A complexidade é um fenômeno quantitativo, pois todo sistema autoorganizador inclui grande quantidade de interações e de interferências entre um grande número de unidades, mas ao mesmo tempo inclui os fenômenos contraditórios e complementares, as incertezas e os acasos.
A complexidade não é apenas um fenômeno teórico e sim a própria configuração da natureza e da sociedade. A natureza, como a vida, é complexa e abarca uma multiplicidade de elementos, partes que se entrelaçam e interagem. Entender a complexidade do mundo é o novo desafio para uma nova forma de pensar. (BOTELHO, 2006).

Pensar complexo é estar disposto a enfrentar as incertezas do conhecimento, do real. É reconhecer a incerteza histórica, criadora e destruidora. “A história avança, não de modo frontal como um rio, mas por desvios que decorrem de inovações ou de criações internas, de acontecimentos ou acidentes externos”. (MORIN, 2002, p. 81). O pensamento complexo prepara para manter a atenção sobre a possibilidade do inesperado, das emergências. A noção de emergência, segundo Morin (2005, 2008), tem sido utilizada aqui e ali, mas como uma simples constatação, sem ser realmente questionada, e o mesmo está acontecendo com a complexidade que o autor chama de restrita, quando se pretende ciência da complexidade que procura encontrar leis da

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complexidade, embora a complexidade rechace a idéia de leis universais. Essa seria uma complexidade restrita, pois se limita aos sistemas que podem ser considerados complexos porque empiricamente estão presentes em uma multiplicidade de processos interrelacionados, interdependentes e retroativamente associados. Esse é o ponto de corte entre a complexidade restrita e a complexidade geral/generalizada, pois para Morin, todo sistema, qualquer que seja ele, é complexo por sua própria natureza. Embora a complexidade restrita tenha, em sua formalização, favorecido epistemologicamente potencialidades interdisciplinares, ao procurar leis da complexidade ela continua atrelando um tipo de vagão atrás da locomotiva da verdade. A complexidade generalizada, por outro lado, aceita a coexistência entre a disjunção e a conjunção, mantendo a distinção, mas também a procura da relação. Estabelece o princípio da relação entre ordem, desordem e organização, sendo que ordem não significa somente a concepção de leis, mas também estabilidade, regularidade, ciclos de organização; e desordem não é somente dispersão, desintegração, mas também pode ser colisão, irregularidade, bloqueio. Para Almeida (2004), citando Prigogine, “[...] o futuro não está determinado. ‘O futuro não é dado. A criação do universo é antes de tudo uma criação de possibilidades, as quais algumas se realizam, outras não’[...].” Gleiser (2008), em um recente artigo sobre o Hadron Collider (LHC), o Grande Colisor de Hádrons - um gigantesco acelerador de partículas, construído por um grupo de países - expõe sua esperança justamente no inesperado:
[...] A verdadeira missão do LHC é manter vivo um campo de pesquisa que, devido aos seus enormes custos, fica cada vez mais difícil de justificar ao público. De minha parte, torço para que não só o Higgs seja descoberto como para que algo inesperado ocorra. Nada como uma boa surpresa para atiçar a curiosidade humana. E a natureza, sem dúvida, é cheia delas.

O pensamento complexo é “essencialmente o pensamento que trata com a incerteza e que é capaz de conceber a organização” (MORIN e LE MOIGNE, 2000, p. 207), capaz de contextualizar e globalizar e, ao mesmo tempo, de reconhecer o singular, o individual. Portanto, não é tarefa simples. Para Guattari (2007), no domínio da ecologia social, há momentos em que é preciso que todos estejam fixados em um objetivo comum, porém em outros será

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preciso a ressingularização com a prevalência da criação, sem a preocupação com o coletivo. Mariotti (2007) apresenta o que considera as características da complexidade, ou do pensar complexo, dentre elas: religa os saberes separados e dispersos em disciplinas por meio da transdisciplinaridade e da interdisciplinaridade, ao mesmo tempo em que reconhece que a quantificação e a mensuração são indispensáveis como meios de conhecimento; reconhece que existe multiplicidade na unidade e vice-versa; ultrapassa o reducionismo e o holismo e reconhece a circularidade entre as partes e o todo; admite e procura lidar com a incerteza, o acaso e as contradições; compreende a autonomia com dependência; considera em seus estudos o contexto e a relação entre o local e o global; busca sempre a consciência de solidariedade e responsabilidade. Para auxiliar a construção desse pensamento, Morin (1995, 1999, 2000) indica algumas “ferramentas conceituais”, princípios para o bem pensar complexo, que nos ajudam a compreender a realidade e outros fenômenos complexos como a educação e seus processos de construção. São os operadores cognitivos da complexidade, que têm sido apresentados de formas diversas por diferentes autores, mas que em sua essência os caracterizam. É o que será apresentado no próximo item.

1.2. OS OPERADORES COGNITIVOS DA COMPLEXIDADE É fundamental observar que esses princípios, apesar de estarem intimamente relacionados, comunicando-se e influenciando-se mutuamente, não necessitam, obrigatoriamente, acontecer de forma simultânea e dependente. Ao pensar dessa forma, corre-se o risco de uma recaída no pensamento linear de causa e efeito e de banalização dos conceitos. Pode também haver diferentes níveis de complexidade, ao mesmo tempo em que, mesmo sendo abordados individualmente, esses princípios acontecem. Para explorar os princípios da complexidade, utilizar-se-ão mais amiúde as contribuições de Maria Cândida Moraes (2008), principalmente em sua incursão pelos princípios da ecologia da ação, da enação e da ética, de Humberto Mariotti

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(2007) e de Morin (1999, 2000, 2007), não necessariamente nesta ordem, entremeados por outros pensadores. Com Maria Cândida Moraes serão trazidos, além dos sete operadores cognitivos iniciais, os princípios da enação, da ecologia da ação e da ética, assim como os princípios epistemológicos da interdisciplinaridade, da transdisciplinaridade e da subjetividade, considerados de fundamental importância para o trabalho pedagógico e a formação do professor. De Mariotti (2007), a base será o texto produzido sobre os operadores cognitivos, um dos capítulos de seu livro. O primeiro princípio, sistêmico-organizacional, diz respeito à relação das partes com o todo e ao movimento próprio dessas relações. Não se pode conhecer o todo sem conhecer as partes, ao mesmo tempo em que o todo pode ser maior ou menor do que a soma das partes, pois sofre influência das emergências. Morin (2007, p. 85) exemplifica a questão com a tapeçaria contemporânea.
Ela comporta fios de linho, de seda, de algodão e de lã de várias cores. Para conhecer esta tapeçaria seria interessante conhecer as leis e os princípios relativos a cada um desses tipos de fio, entretanto, a soma dos conhecimentos sobre cada um desses tipos de fio componentes da tapeçaria é insuficiente para se conhecer esta nova realidade que é o tecido, isto é, as qualidades e propriedades próprias desta textura, como, além disso, é incapaz de nos ajudar a conhecer sua forma e sua configuração.

Dessa forma, para uma melhor compreensão de determinado fenômeno é preciso fragmentar, analisar e, ao mesmo tempo, sintetizar, contextualizar. Ir do geral para o particular e vice-versa. Compreender os fenômenos como sistemas. Também é preciso compreender que ainda que inicialmente haja uma relação aparentemente linear entre causa e efeito em fenômenos mais simples, se houver repetições e interações constantes, os resultados podem ser inesperados. Os fenômenos complexos estão sujeitos às emergências dos próprios sistemas, que podem ser definidos como “conjuntos organizados de partes diferentes, produtor de qualidades que não existiriam se as partes estivessem isoladas umas das outras.” (MORIN, 2000, p. 21). Essas propriedades, contudo, são ampliadas pelos processos de A autoprodução e auto-organização, ou auto-eco-organização dos seres vivos.

causalidade deixa de ser linear e passa a ser circular, espiralada. O ser humano

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desenvolve-se mediante sua interação com a cultura, ao mesmo tempo em que devolve ao meio outra cultura, a linguagem, a tecnologia. O princípio hologramático considera que não somente as partes estão no todo, mas também o todo se encontra nas partes. Para Morin (apud MARIOTTI, 2007), “o indivíduo é o ponto do holograma que contém a totalidade da sociedade e da espécie, mas mesmo assim continua singular e não pode ser reduzido a essa totalidade.” Aqui podemos encontrar o triangulo da vida proposto por D’Ambrósio: o indivíduo, o outro (sociedade) e a natureza; ou de Guattari: meio ambiente, relações sociais e subjetividade humana.
Cuándo puedo estar seguro de que soy yo quien pienso por mí mismo y no es la sociedad la que por medio de su noosfera piensa por mi? La respuesta es bien sencilla: nunca. (CIURANA, 2008).

Sobre a relação entre as partes e o todo, Mariotti (2007) apresenta outros pensadores que haviam chegado às mesmas conclusões, tanto nas ciências sociais e humanas como no campo das ciências da natureza. Associa a complexidade à teoria do caos de Edward Lorenz, que por sua vez está relacionada ao princípio de Mach, do físico austríaco Ernst March, e mesmo a Einstein. Exemplifica com Montaigne, que dizia que “todo homem traz consigo a inteira humana condição.” Cita Goethe, que afirmava que “os homens trazem dentro de si não apenas a sua individualidade, mas a humanidade inteira, com todas as suas possibilidades” e que “o universal e o particular coincidem: o particular é o universal que se manifesta sob diversas condições”. Para Morin (2000), o princípio hologramático pode ser encontrado na biologia, pois o patrimônio genético está presente em cada célula individual, sendo cada uma delas uma parte do organismo global. Encontra-se também na física, com a teoria dos fractais e do caos; e na sociedade, na relação entre os indivíduos e as informações que circulam. (MORAES, 2008). O princípio retroativo está diretamente relacionado aos processos autorreguladores, introduzidos por Norbert Wiener (MORIN, 2000) e rompe com a noção de causalidade linear afirmando que a causa age sobre o efeito e este retroage sobre a causa. Esse fenômeno é conhecido por feedback, refletindo a causalidade fechada, não espiralada. Segundo Morin (2000, p. 33), esse movimento retroativo propicia a correção do desvio e a estabilização do sistema, mas pode,

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também, amplificar as reações. Teremos, então, o processo de autorregulagem instalado. Para que as relações mantenham-se harmoniosas, é necessária a interação entre as pessoas por meio da troca de informações, possibilitando a definição de comportamentos individuais e grupais. Se alguém foge ao modelo consensual de convivência, seus companheiros podem dar-lhe feedbacks sob a forma de críticas, ou aconselhamentos. É preciso evitar-se o exagero ou a uniformidade da atitude que pode levar justamente ao efeito contrário, a comportamentos defensivos e improdutivos. Esse feedback, se finalizado como processo, pode conduzir à estagnação; ou, se utilizado recursivamente, levar à transformação. É preciso, portanto, incentivar o debate e a aceitação da diversidade e da pluralidade para a manutenção da circularidade produtiva. (MARIOTTI, 2007). Mas é preciso ultrapassar esse segundo “ângulo de causalidade” (MORIN, 2007, p. 87). Há um terceiro ângulo, que é a causalidade recursiva. O princípio da recursividade está diretamente relacionado às interações entre causa e efeito, ao processo de autorregulação, mas vai além: liga-se ao processo de auto-organização, “caracterizado por uma espiral evolutiva do sistema [...] possui natureza autopoiética, ou seja, autoprodutora de organização em si, autoprodutora daquilo que a produz” (MORAES, 2008, p. 100). “No processo recursivo, os efeitos e produtos são necessários para o processo que os gera. O produto é produtor do que o produz.” (MORIN, 2007, p. 87).

Dependendo dos processos em sinergia, essa causalidade circular pode produzir novas emergências, a partir de processos auto-eco-organizadores regeneradores do próprio sistema ou criadores de novos sistemas emergentes. (MORAES, 2008, p. 101).

Pelo princípio da auto-eco-organização, os sistemas vivos produzem e organizam a si próprios. São, portanto, autoprodutores e auto-organizadores, como as células do organismo que ao longo da vida morrem e são substituídas por outras. Assim, os sistemas vivos são autoprodutores de si. No entanto, para manter essa condição eles dependem de elementos que estão no ambiente e da convivência com mais seres vivos de sua própria espécie e de outras. Paradoxalmente, os seres vivos são ao mesmo tempo autônomos e dependentes. (MARIOTTI, 2007).

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Assim, a autonomia não pode ser concebida sem dependência ecológica, pois quanto mais autonomia se desenvolve, mais dependências são criadas. O ser humano é produto de um processo de reprodução, mas esse processo só pode continuar se cada um, como indivíduo, acoplar-se para continuar o processo. A sociedade é produto das interações entre indivíduos, mas é constituída de suas emergências, de sua cultura e de sua linguagem, que retroagem sobre os indivíduos e assim os produzem como indivíduos, provendo-os com a linguagem e a cultura. (MORIN, 2005). Portanto, nas sociedades humanas, os indivíduos desenvolvem sua autonomia na relação com a cultura e com o próprio meio ambiente.
Somos uma mistura de autonomia, de liberdade, de heteronomia e, eu diria mesmo, de possessão por forças ocultas que não são simplesmente as do inconsciente trazidas à luz pela psicanálise. Eis uma das complexidades propriamente humanas. (MORIN, 2007)

Na mesma direção, Félix Guattari (2007) propõe que, ao invés de sujeito, se fale em componentes de subjetivação, que trabalham, de certa forma, por conta própria.
Esses vetores de subjetivação não passam necessariamente pelo indivíduo, o qual, na realidade, se encontra em posição de ‘terminal’(...) Assim, a interioridade se instaura no cruzamento de múltiplos componentes relativamente autônomos uns em relação aos outros e, se for o caso, francamente discordantes. (Ibid., p. 17).

Esse pensamento caracteriza o princípio dialógico, que permite conceber a coexistência entre opostos, reconhecendo a possibilidade de manutenção dos antagonismos sem a necessidade de exclusão de um ou de outro. O dialogismo incentiva a conversa entre conceitos complementares na formação de fenômenos complexos. É consequência e causa, também, dos movimentos de retroação e recursão. Há contradições que não se resolvem e que nem sempre precisam ser resolvidas, pois fazem parte da complexidade natural do mundo e de seus fenômenos. São situações paradoxais e tentar resolvê-las por eliminação de um ou de outro seria desperdício de energia mental. (GUATTARI, 2007).

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O princípio dialógico não é a resposta a esses paradoxos, mas uma forma de encará-los, pois considera a complementaridade dos antagonismos e o jogo produtivo, por vezes vital, desses antagonismos complementares. (MORIN, 2005). A reintrodução do sujeito cognocente no processo de conhecer, na ciência, é outro princípio importante que resgata “o sujeito, autor de usa história e co-autor de construções coletivas, reintegrando-o ao processo de construção do conhecimento”. (MORAES, 2008, p. 106). Um sujeito reconstrutor do conhecimento. “Um sujeito que não se caracteriza somente por sua subjetividade, mas por ser ao mesmo tempo alguém capaz de pensar, de objetivar, de produzir um imaginário comum e de construir sua realidade” (NAJMANOVICH, apud MORAES, 2008, p. 106). Um sujeito que não é evidente, pois não basta pensar para ser, há outras maneiras de existir que se instauram fora da consciência. (GUATTARI, 2007). O espírito (atividade psíquica), o cérebro (atividade nervosa encefálica) e a cultura (linguagem, saberes acumulados) são interdependentes em um movimento recursivo, dialógico. “O espírito, que depende do cérebro, depende de outra maneira, mas não menos necessariamente, da cultura.” (MORIN, 2005 b., p. 85). A esses princípios Moraes (2008) acrescenta o princípio ecológico da ação, do próprio Morin (2000), o princípio da enação, de Varela, e o princípio ético. A ação implica a tomada de decisão, ao mesmo tempo em que representa um desafio. Parece simplificar, porque “frente à alternativa, tomada a decisão, corta-se sem piedade.” (MORIN, 2005 b., p. 79). Como exemplo, Morin cita o caso de Alexandre, o Grande, que ao ver-se diante de um nó elaborado por Górdio, no séc. VIII a.C., que não havia sido desatado com os dedos durante 500 anos, apesar das várias tentativas, sem piedade, o cortou. Daí deriva a expressão "cortar o nó górdio", que significa resolver um problema complexo de maneira simples e eficaz. (WIKIPEDIA). Toda decisão, portanto, implica incerteza e risco, e isso inclui a consciência dos desafios filosóficos ou políticos. Nesse sentido, estratégia é ação, pois a partir de uma decisão inicial, prevêem-se alguns cenários para a ação, cenários esses que poderão ser modificados diante dos acasos e de novas informações obtidas ao longo do caminho. A estratégia procura eliminar ao máximo o acaso, mas ao mesmo tempo procura utilizá-lo. Como o campo da ação é aleatório e incerto, ele impõe uma consciência sobre a possibilidade de acasos, derivas e bifurcações e uma “reflexão sobre sua própria complexidade.” (MORIN, 2007, p. 80).

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Por vezes, a partir do momento em que se empreende uma ação mesmo que com uma intenção, ela passa a interagir com outras ações e fenômenos do meio ambiente e pode vir a torna-se algo não pensado inicialmente ou até mesmo contrário ao que se intentou. É um constante movimento de ir e vir. Em outras palavras, “toda ação é sempre ação ecologizada por causa de processos de interação, de retro-ação, de co-operação existentes.”5 (MORAES, 2008, p. 107).
La sociedad es una máquina organizacional en la que los actores sociales actúan de forma muchas veces imprevisible. Se trata de actores-sujetosestrategas situados dentro de contextos ecologizados. Desde el momento en que los actores sociales interactúan el resultado de la acción individual no depende solamente de la intención del actante. Una cosa es el resultado y otra la intención. Esto lo ha explicado muy bien Edgar Morin cuando afirma que toda apuesta que hagamos en política debe tener siempre en cuenta un principio de incertidumbre ineliminable. (CIURANA, 2000, grifo do autor).

O princípio da ação ecologizada traz a consciência de que o ser humano como “máquina não trivial” (MORIN, 2007) é imprevisível, pois é permeado pelas emoções, pelos valores, pela ética. Esse princípio chama a atenção para o fato de que determinado acontecimento pode ter sido ocasionado por uma palavra, ou por um gesto ou por uma ação realizada muito tempo atrás, uma condição inicial. O princípio da enação, de Varela, está intimamente relacionado ao conceito de autopoiese, de Maturana. A expressão enação corresponde à tradução do termo inglês enaction, proposto por Varela para substituir a representação como categoria cognitiva privilegiada. Vem do verbo enact, que significa efetivar ou atuar, daí ter sido traduzido também como atuação. (ACCIOLY,2006). Enação significa, portanto, o “conhecimento incorporado na trama de relações recíprocas entre o ser que observa e o mundo que o circunstancia.” Nesse sentido, ação e cognição, ser e fazer são indissociáveis. O sistema cognitivo integra um mundo existente, mas mutante, transformador, no qual “indivíduo e meio são instâncias que se co-implicam.” (DEMO, 2002, p. 92). Para Varela (apud MORAES, 2008, p. 108) “toda ação cognitiva é uma ação perceptivamente guiada, pois percepção e ação são inseparáveis nos processos cognitivos e evoluem juntas.” Mais uma vez, sujeito e objeto não podem ser dissociados; o sujeito não pode ser visto independente de seu meio, embora sejam unidades distintas, da mesma
Nesse parágrafo, o hífen é propositadamente utilizado para destacar as ações conjuntas, dependentes umas das outras e simultâneas.
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forma que a cognição não está desvinculada da experiência física, emocional e mental. O conhecimento não é construído pela subjetividade ou pela objetividade somente, mas pela intersubjetividade. Assim, “a cognição não é a representação de um mundo pré-dado por uma mente pré-dada, mas antes é o enativamento de um mundo e de uma mente na base de uma história da variedade de ações que o ser humano exerce no mundo.” (VARELA, 1997, apud DEMO, 2002, p. 92). Por último, o princípio ético é considerado como componente fundamental em todas as relações humanas e, consequentemente, vem permeando as ações educacionais, o respeito ao outro, às diferenças, ao produto da coletividade. Supõe a valorização das ações coletivas e de solidariedade, sem abandonar-se à singularização do sujeito. (MORAES, 2008). Uma ética que, segundo Guattari (apud ROLNIK, 1990), “ao invés de ser uma ‘ética do ideal’, de uma sociedade sem conflitos, seja uma ‘ética do real’”, onde a solidariedade seja um valor, mas a alteridade singular dos sujeitos e da coletividade seja respeitada.
Os diversos níveis de prática não só não têm de ser homogeneizados, ajustados uns aos outros sob uma tutela transcendente, mas, ao contrário, convém engajá-los em processos de heterogênese. (...) Convém deixar que se desenvolvam as culturas particulares inventando-se, ao mesmo tempo,outros contatos de cidadania. Convém fazer com que as singularidades, a exceção, a raridade funcionem junto com uma ordem estatal o menos pesada possível. (GUATTARI, 2007, p. 35, grifo do autor).

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Capítulo II
A MEDIAÇÃO PEDAGÓGICA E SUAS RELAÇÕES

Os seres humanos têm natural potencialidade de aprender. São curiosos a respeito do mundo em que vivem, até que, e a menos que, tal curiosidade seja entorpecida por nosso sistema educacional. (Carl Rogers, 1977, p. 159).

Quem aprende é, além de um indivíduo, um sujeito. Um sujeito subjetivo, ator, sabedor e fazedor de coisas e, portanto, responsável direto por sua aprendizagem. Um sujeito construtor e reconstrutor. Todo sujeito ensinante também é, ou deveria ser, um sujeito aprendente e vice-versa. Estar em permanente estado de construção e reconstrução é essencial para o crescimento pessoal. O professor só se torna um facilitador da mudança e da aprendizagem quando está convencido de que ensinar, na realidade, não é só transmitir informações, pois estas podem ser obtidas também em livros, revistas e internet, e quando está ciente de que ensinar e transmitir conhecimento só tem sentido num meio imutável, mas o homem vive num meio continuamente em mudança. Portanto, a educação precisa acontecer nas interações entre os sujeitos aprendentes e professores, e entre os sujeitos e os objetos do conhecimento, num processo permeado pela cultura e pelo ambiente.

2.1.

UM POUCO SOBRE O SUJEITO APRENDENTE (APRENDIZ, EDUCANDO)

Se, na experiência de minha formação, que deve ser permanente, começo por aceitar que o formador é o sujeito em relação a quem me considero o objeto, que ele é o sujeito que me forma e eu, o objeto por ele formado, me considero como um paciente que recebe os conhecimentos-conteúdosacumulados pelo sujeito que sabe e que são a mim transferidos. (FREIRE, 2003, p. 22, grifos do autor).

Neste momento, é importante retomar os quatro pilares da educação propostos por Delors (1998) para o sujeito do futuro, construído a partir de seu presente. Aprender a conhecer visa o domínio dos próprios instrumentos do conhecimento. Capacita o sujeito para compreender o mundo que o rodeia sendo,

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portanto, um meio para que possa trabalhar, se comunicar e viver dignamente. Significa, também, uma finalidade da vida humana porque “seu fundamento é o prazer de compreender, de conhecer, de descobrir, o que será primordial para a formação de um adulto desejoso de aprender ao longo da sua vida, tanto no trabalho como fora dele. (Ibid, p. 90). Indissociável do aprender a conhecer, está o aprender a fazer. Contudo, com as mudanças tecnológicas que ocorrem de forma cada vez mais acelerada, o mais importante é preparar o sujeito para atuar diante de situações de incerteza, para adquirir cultura científica e, ao mesmo tempo, para ser capaz de inovar e de criar dentro dos diferentes contextos. Para aprender a viver junto não basta colocar pessoas já em conflito em ambientes comuns. É preciso encontrar objetivos e projetos comuns que conduzam o aprendiz à cooperação maior por meio da percepção da necessidade de conectarse com o outro. A educação deve utilizar vias complementares nesse caminho. A primeira consiste em propiciar a descoberta progressiva do outro, que passa, necessariamente, pela descoberta de si mesmo. Para isso, é preciso ter abertura à alteridade, sendo capaz de enfrentar situações de tensão e de conflito. Uma ferramenta importante para essa formação é o confronto através do diálogo. A segunda via complementar - a participação em projetos comuns – conduz o sujeito à aprendizagem de métodos de solução de conflitos, de compartilhamento de riscos e de soluções. Finalizando, aprender a ser implica o desenvolvimento do sujeito total, indissociável, reconhecendo-se ao mesmo tempo autônomo e dependente cultural e social, o que permitirá que ele possa assumir a responsabilidade pessoal diante do bem coletivo, também. “A educação deve contribuir para o desenvolvimento total da pessoa – espírito e corpo, inteligência, sensibilidade, sentido estético, responsabilidade pessoal, espiritualidade.” (DELORS, 1998, p. 99). Para Bourdieu (apud NOGUEIRA & NOGUEIRA, 2004), por sua vez, os indivíduos não seriam nem autônomos e autoconscientes, nem seres mecanicamente determinados pelas forças objetivas, mas agiriam por uma estrutura incorporada que refletiria as características da realidade social na qual eles foram anteriormente socializados. As práticas sociais seriam estruturadas, apresentando propriedades próprias da posição social de quem as produz, porque a “própria forma

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de perceber e apreciar o mundo, suas preferências, seus gostos, suas aspirações, estariam previamente estruturadas em relação ao momento da ação.” (Ibid., p. 27). Percebe-se nessa definição um forte determinismo da realidade sobre o sujeito, um sujeito apenas reprodutor, não se considerando que essa realidade também seria codeterminada pelas interações entre o sujeito e sua realidade. Relega o caráter de consciência, de autonomia e de intencionalidade dos sujeitos. Com Paulo Freire, encontramos o sentido contrário:
Como presença consciente no mundo não posso escapar à responsabilidade ética no meu mover-me no mundo. Se sou puro produto da determinação genética ou cultural ou de classe, sou irresponsável pelo que faço no moverme no mundo e se careço de responsabilidade não posso falar em ética. [...] Significa reconhecer que somos seres condicionados, mas não determinados. Reconhecer que a História é tempo de possibilidade e não de determinismo, que o futuro, permita-se-me reiterar, é problemático e não inexorável. (FREIRE, 2003, p. 19, grifo do autor).

Também para Reys (1997) a subjetividade social é formada por valores e, por vezes, é expressa por meio da subjetividade do indivíduo, mas não o determina. O mundo do ser humano não é só o mundo do construído. Não é só o mundo do diálogo estabelecido. É aquele mundo que também se constitui na qualidade da experiência única que se tem em termos emocionais sobre os quais a pessoa não se dá conta. Por isso, há uma distinção entre a personalidade como constituição subjetiva do homem e o sujeito concreto que produz representações, que toma decisões, que é ativo mudando permanentemente em função do espaço interativo onde está. (Ibid.) Os conceitos são construídos subjetivamente, dependendo das experiências dos vínculos e da qualidade das emoções que aparecem ao longo da história de vida. A subjetividade inclui a personalidade, que é a instância dos fenômenos constituídos, permeados pelas emoções, por vezes desconhecidas, e pelo sujeito concreto que atua, que decide e interage com o espaço a sua volta e dessa forma constrói-se permanentemente. É o sentido subjetivo (REYS, op. Cit.).
O mundo da nossa experiência constitui a nossa personalidade através do tipo de simbolização, do tipo de emoções que aparecem no meu vínculo com esse mundo “objetivo”. Porque o mundo nunca aparece totalmente como ele é, mas no sentido que ele tem para nós. A realidade está presente em nossas construções, sempre, através das estruturas de sentido que temos no momento, de tal maneira que permitem o diálogo com essa realidade. (Ibid., grifo do autor).

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Guattari (2007) também afirma que é preciso resgatar os campos de virtualidade “futuristas” e “construtivistas” (grifo do autor). O inconsciente permanece agarrado em fixações arcaicas apenas enquanto nenhum engajamento o faz projetar-se para o futuro. Isso acontecerá por intermédio de temporalidades humanas e não-humanas. Aqui, importa ressaltar o papel das emoções, conscientes ou não, e do próprio organismo, pois nem o sentimento ou a emoção que conduziu a determinado comportamento ocorreu somente no momento da consciência. (DAMÁSIO, 2000).
O próprio organismo, e não uma realidade externa absoluta,é utilizado como referência de base para as interpretações que fazemos do mundo que nos rodeia e para a construção do permanente sentido da subjetividade que é parte essencial de nossas experiências. (DAMÁSIO, 1998, p. 16).

A subjetividade está além do indivíduo. É um sistema autorregulado que está em permanente desenvolvimento. (REYS, op. cit.). Para Rogers (1983, p. 40), “há nos seres humanos uma tendência à realização das possibilidades que lhe são inerentes. [...] Seria a tendência realizadora, presente em todos os organismos vivos”. Essa ideia leva a crer que todo o ser humano, como organismo vivo, tem competência e desejo de aprender e de realizar-se em sua sobrevivência. É o sujeito conhecedor, construtor, aprendente, ensinante, auto-eco-organizador. Para Rogers, o foco da aprendizagem estaria na promoção da continuidade do processo de aprendizagem. O conteúdo permanece significativo, mas não se constitui como principal. Um curso termina com sucesso quando os “alunos fizeram um progresso significativo na aprendizagem de como aprender o que querem saber.” (Ibid., p.97).
O único homem que se educa é aquele que aprendeu como aprender; que aprendeu como se adaptar e mudar; que se capacitou de que nenhum conhecimento é seguro, que somente o processo de buscar conhecimento oferece uma base de segurança. (ROGERS, 1983, p. 110).

Para Morin (2005 b. p. 74), de forma geral, os mamíferos jovens são motivados por uma “pulsão exploratória” ou “cognitiva” (grifo do autor) chamada curiosidade, que é desprovida de qualquer intenção mais imediata. É uma pulsão permeada não só pelo desejo de conhecer e acumular conhecimentos, mas pelo próprio prazer de conhecer. Essa curiosidade animal com a finalidade de ser,

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visando à sobrevivência e a reprodução, nos seres humanos, após muitas evoluções e metamorfoses, transforma-se em espírito de investigação e de curiosidade intelectual. Nessa mesma direção, Andrade (2006) argumenta que o sujeito aprendente surge da união entre o sujeito cognocente e o sujeito desejante. Ressalta, contudo, que essas relações entre sujeito aprendente e sujeito ensinante e entre professor e aluno são distintas. Acrescente-se aqui o sujeito criativo, aquele que é capaz de ir além do que aprendeu; que é capaz de transformar o seu meio, de interpretar, de olhar para dentro de si mesmo, porque possui consciência. (TORRE, 2005). O sujeito aprendente, curioso, disposto, precisa ser crítico, pois quanto mais se exerce essa capacidade, mais se desenvolve a curiosidade epistemológica, sem a qual não se alcança o conhecimento cabal do objeto. Dessa forma, é preciso que o aluno seja estimulado, incitado a manter a curiosidade, a capacidade de arriscar-se, mesmo em situações nas quais o sistema bancário ainda seja uma prática. É a “força criadora do aprender de que fazem parte a comparação, a repetição, a constatação, a dúvida rebelde, a curiosidade não facilmente satisfeita, que supera os efeitos negativos do falso ensinar.” (FREIRE, 2003, p. 25). Gutiérrez (1988, p. 99) pergunta: “Como é possível que sendo as crianças tão criativas, inventivas e espontâneas, nós adultos sejamos tão rotineiros, estereotipados e conformistas? Até que ponto a escola tem culpa nesse processo de deteriorização humana?”

2.2. APRENDER E CONHECER NA VISÃO DE ALGUNS TEÓRICOS DE DIFERENTES ÁREAS DO CONHECIMENTO Este tópico procura alinhavar as ideias, descobertas e percepções de alguns importantes teóricos das diversas áreas do conhecimento, como psicólogos, biólogos, neurocientistas, filósofos, físicos e matemáticos, entre outros, que de uma forma transdisciplinar convergem em suas ideias, mesmo que por diferentes caminhos, indo ao encontro da complexidade expressa por Morin e do pensamento ecossistêmico de Moraes6.
Cada teórico apresentado nesse tópico mereceria um capítulo individual para que seus pressupostos fossem mais bem compreendidos, o que não será possível de ser feito nesta
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2.2.1. Jean Piaget Para Piaget, segundo Campos (1980), o fenômeno da aprendizagem manifesta-se como uma modificação de conduta. Contudo, essa modificação não resulta de novas conexões estímulo-resposta (SR) e nem de novas sínteses ou estruturas puramente cognitivas. É resultado da transformação de um esquema de ação, de natureza sensório-motriz ou cognitivo-reacional, cuja tendência inicial é, sem dúvida, de assimilar objetos, incorporando-os a certo padrão de conduta, mas pode transformar-se sob o efeito de uma tendência compensatória de acomodação aos objetos quando estes resistem à assimilação. Os esquemas geram processos de adaptação que provocam desequilíbrios para posteriormente equilibrar-se novamente. Esse movimento não acontece de forma linear, mas em espiral. Os fatores biológicos, psicológicos e sociológicos são considerados por Piaget como sistemas vitais abertos na construção do conhecimento, propiciando uma contínua interação do organismo com o ambiente no qual está inserido. Isso acontece por meio de trocas permanentes de influências equivalentes. (FIALHO, 2007). Tanto as ações externas como os processos de pensamento admitem a organização lógica, a qual surge de uma espécie de organização dos atos. As estruturas lógicas podem ser empregadas para descrever tanto a organização de atos concretos, motores, como do pensamento simbólico, interiorizado. Todo pensamento é, essencialmente, ação interiorizada, levando a se concluir que a organização da ação manifesta e do pensamento interior podem ter as mesmas características gerais e podem ser situadas em um mesmo contínuo geral. (CAMPOS, 1980). O desenvolvimento da inteligência, para Piaget, acontece diante de quatro fatores influenciados diretamente pelo meio físico e pelo meio social: a hereditariedade, por meio da qual o sujeito herda um conjunto de estruturas biológicas que formarão as estruturas mentais; a adaptação, que possibilita ao indivíduo responder ao ambiente por meio da assimilação e acomodação; os esquemas, que são nossas estruturas básicas de resposta perante os estímulos

dissertação. De qualquer forma, ficam aqui as referências às leitura feitas para quem tiver interesse em aprofundar-se nessas teorias.

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externos e estão em constante desenvolvimento; e o equilíbrio de estruturas cognitivas, processo autorregulatório dos equilíbrios e desequilíbrios, formando os estágios de desenvolvimento. O desconforto gerado por uma situação-problema não resolvida promove o desequilíbrio cognitivo, funcionando, segundo Piaget, como motivo para a aprendizagem. Por outro lado, a busca do equilíbrio é o motor para esse mesmo processo. Portanto, aprendizagem e desenvolvimento caminham juntos. Segundo Piaget, a construção de conhecimentos pelos sujeitos não produz internamente cópias da realidade externa. A ideia é de um processo dinâmico em que o conhecimento anterior é a base para o conhecimento presente e assim sucessivamente, num processo de constante mudança das estruturas mentais. A visão do conhecimento como construção indica que conhecer é fabricar mentalmente o objeto a ser conhecido. O conhecimento depende das lentes que o produzem, da familiaridade do novo com os conhecimentos anteriores, da fase de desenvolvimento em que se encontra o sujeito e da própria experiência de aprendizagem (PULINO et al., 2005).
Para Piaget, o conhecimento acontece no momento em que o pensamento lógico do racionalismo e a experiência sensorial se encontram em um processo dialético e dinâmico do pensamento, no qual essa dualidade coexiste. Essas duas visões se co-especificam uma a outra em um movimento de vaivém, superando a rigidez do pensamento cartesiano e pondo em evidência a relação constitutiva que existe entre o homem e o seu ambiente, entre o sujeito (que conhece) e aquilo que é conhecido (objeto do conhecimento), entre o homem, seu corpo e sua experiência. (ASSMAN, 2000).

O desenvolvimento do conhecimento é um processo espontâneo, ligado ao processo global da embriogênese. Em geral, a aprendizagem é provocada por situações, por um experimentador psicológico ou por um professor, ou ainda por uma situação externa. (PIAGET, 1962). Os afetividade.
A afetividade constitui a energética das condutas (...). Não existe, portanto, nenhuma conduta, por mais intelectual que seja que não comporte, na qualidade de móveis, fatores afetivos, mas reciprocamente não poderia haver estados afetivos sem a intervenção da percepção ou compreensão que constituem a sua estrutura cognitiva. (Emerenciano & Wickert, 1999, apud Schechtman, 2001, p. 28).

fenômenos

mentais

e

comportamentais

são

indissociáveis.

O

desenvolvimento das estruturas cognitivas ocorre simultaneamente com a

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É incontestável que o afeto desempenha um papel essencial no funcionamento da inteligência. Sem afeto não haveria interesse, nem necessidade, nem motivação; e, consequentemente, perguntas ou problemas nunca seriam colocados e não haveria inteligência. (PIAGET, 1962). Portanto, conhecer e aprender, na visão de Piaget, são ações do sujeito. Ambas implicam intencionalidade e envolvem o ser e o fazer, o concreto e o abstrato, a informação e a emoção. O conhecimento acontece na interação entre sujeito e objeto, ou seja, na ação de um sobre o outro e vice-versa, e na relação com o próprio ambiente, em um movimento dialógico. São acontecimentos de ordem, de desordem, de ordem novamente. Da mesma forma, Piaget atribui valor especial aos conhecimentos prévios e estruturas como facilitadores da aprendizagem, mas não como determinantes. Por vezes, no processo de construção do conhecimento é justamente a falta de uma relação dos novos conhecimentos com esses conhecimentos anteriores que impede a aquisição daquela aprendizagem por parte daquele sujeito. Nesse sentido, o perfil epistemológico, em cada conceito, difere de um indivíduo para outro e isso é grandemente influenciado pelas diferentes experiências que cada pessoa tem, por sua cultura. (MORTIMER, 1996). A construção da autonomia do sujeito é outro conceito importante da teoria de Piaget que vai ao encontro do que afirmam os demais autores aqui citados. Para o autor, a autonomia não significa isolamento; ao contrário, ele entende que o desenvolvimento do pensamento autônomo e lógico-operatório é paralelo ao surgimento da capacidade de estabelecer relações cooperativas. Está relacionado, também, ao desenvolvimento da autoconsciência. Quer dizer, o julgamento moral evolui paralelamente ao desenvolvimento cognitivo. Ser autônomo é ser capaz de construir um sistema de regras morais em conjunto com a sociedade, “[...] capacidade de coordenação de diferentes perspectivas sociais com o pressuposto do respeito recíproco.” (KESSELRING, 1993, apud ZACHARIAS, 2005). Para que esse ambiente exista é preciso que o professor ofereça situações sobre as quais seus alunos possam escolher e decidir. O desenvolvimento moral, segundo Piaget, está diretamente relacionado à prática das regras e às atitudes em relação a elas. A primeira fase, egocêntrica, não possui regras. A segunda, a da heteronomia, é o estágio no qual a criança obedece às regras, primeiramente, porque essas são impostas por uma autoridade e, mais

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adiante, porque percebe que são importantes para a convivência em grupo. Por último, chega-se à autonomia, que acontece no período formal. Há um entendimento de que as regras são de natureza arbitrária e convencional e que podem ser modificadas quando há consenso entre os que participam do jogo. É nesse momento que Piaget considera que o indivíduo é capaz de raciocinar sobre enunciados, sobre hipóteses. Kamii (1991, apud ZACHARIAS, ibid.) também situa a autonomia em uma perspectiva de com o outro. Para ela, a autonomia significa o indivíduo ser governado por si próprio. É o contrário da heteronomia, que significa ser governado pelos outros. A autonomia implica levar em consideração os fatores relevantes para decidir agir da melhor forma para todos. Não pode haver moralidade quando se considera apenas o próprio ponto de vista.

2.2.2. Carl Rogers

Desejo falar a mestres, professores, educadores, administradores de escolas, universidades e instituições educacionais. (...) desejo falar-lhes a respeito de aprendizagem. Mas não o amontoado de coisas sem vida, estéreis, fúteis, logo esquecidas, com que se abarrota a cabeça do pobre e desamparado educando, atado à sua cadeira pelos vínculos blindados do conformismo! Refiro-me à APRENDIZAGEM – à insaciável curiosidade que leva o adolescente a absorver tudo que pode ver, ouvir ou ler sobre motores a gasolina a fim de aumentar a eficiência e a velocidade de seu ‘calhambeque’. (ROGERS, 1977 , p. 19, grifo do autor).

Rogers destaca que a pedra fundamental de sua teoria centrada na pessoa é constituída pela tendência à autorrealização, característica da vida orgânica, e a tendência formativa.

Os indivíduos possuem dentro de si vastos recursos para a autocompreensão e para modificação de seus autoconceitos, de suas atitudes e de seu comportamento autônomo. Esses recursos podem ser ativados se houver um clima, passível de definição, de atitudes psicológicas facilitadoras. (ROGERS, 1983, p. 38).

Em todos os organismos vivos há um fluxo subjacente de movimento em direção à realização construtiva das possibilidades que lhe são inerentes. Há também nos seres humanos uma tendência realizadora em direção a um

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desenvolvimento mais completo e mais complexo. A vida é um processo ativo, pouco importando se o estímulo é interior ou exterior, ou se as condições exteriores são favoráveis ou não. De qualquer forma os organismos estarão voltados para a sua manutenção, seu crescimento e sua reprodução. “A tendência realizadora pode, evidentemente, ser frustrada ou desvirtuada, mas não pode ser destruída sem que se destrua também o organismo.” (Ibid., p.40). Nesse sentido, contrariamente à epistemologia das ciências sociais da época, que afirmava que a uma causa segue-se um efeito em uma só direção, acredita-se que há interações mútuas de causa e efeito aumentando as possibilidades de desvio e permitindo que se desenvolvam novos padrões e novas informações. Entende-se que “os processos biológicos são processos causais recíprocos e não causais.” (MURAYAMA, 1977, apud ROGERS, 1983, p. 43). Rogers, já naquela época, estava convencido de que a motivação é a tendência do organismo à autorrealização. Para isso, baseava-se nos estudos de cientistas de outras áreas do conhecimento, como Szent-Gyoergyi e Hans Driesh, Pentony, Murayama, Prigogine e Capra. Tinha como tese que há no universo uma tendência formativa que pode ser observada em qualquer nível e que tem sido relegada, “afinal, toda forma complexa nasceu de outras mais simples”. Citando Gyoergyi e Whyte, Roger destaca que embora seja necessário considerar o processo de degeneração, a tendência para a desordem, para a deteriorização, para um estado cada vez mais desordenado, mais caótico, não se poderia desconsiderar a tendência formativa, a tendência sempre atuante em direção a uma ordem crescente e a uma complexidade inter-relacionada do universo em constante criação e do ser humano. É sob esse enfoque que Rogers passa a atuar e a pensar a educação. A motivação para construção em todas as formas vivas é o alcance de todas as suas possibilidades e, portanto, todos tentam fazer o seu melhor. Se falharem, não é por falta de desejo. Para Rogers (1977), a aprendizagem pode ser dividida em duas espécies gerais. Em um extremo está a aprendizagem sem significado, um conjunto de matérias que logo serão esquecidas. É uma aprendizagem que “lida apenas com o cérebro, ou se coloca do pescoço para cima. Não envolve sentimentos ou significados pessoais; não tem a mínima relevância para a pessoa como um todo.” (Ibid., p. 21). No outro extremo encontra-se a aprendizagem significativa ou

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experiencial, que tem como característica o envolvimento da pessoa como um todo, sob o aspecto sensível e cognitivo. Quer dizer, a aprendizagem significativa combina o lógico e o intuitivo, o intelecto e as sensações, o conceito e a experiência, a ideia e o significado. (ROGERS & FREIBERG, 1996). Ela é autoiniciada, ou seja, mesmo quando o primeiro impulso ou estímulo vem de fora, o “senso de descoberta, do alcançar, do captar e do compreender vem de dentro.” (Ibid.). É penetrante. Essa é a verdadeira aprendizagem. Resumidamente, dentre os princípios propostos por Rogers, destaca-se que: a) todos os seres humanos têm natural potencialidade para aprender; b) a aprendizagem significativa ocorre quando o aluno percebe a relevância da matéria; c) a aprendizagem que envolve mudança na organização da pessoa é ameaçadora e tende a produzir resistência, por isso devem-se reduzir ao mínimo as ameaças externas; d) a aprendizagem é mais eficaz quando o indivíduo enfrenta problemas práticos de sua vida diária, e é facilitada quando o aluno se sente responsável pelo processo; e) a aprendizagem mais durável é aquela em que, além de sua inteligência, o aluno envolve seus sentimentos; f) a autocrítica e a autoapreciação propiciam o desenvolvimento da independência, da criatividade e da autoconfiança; g) a aprendizagem mais útil socialmente é aquela que capacita o indivíduo para enfrentar situações novas. .

2.2.3 David Ausubel Ausubel pretendia, segundo ele mesmo, construir uma teoria de como o ser humano aprende e retém um corpo de conhecimentos em sala de aula ou em ambientes similares. Seu foco era compreender como os indivíduos aprendem significativamente grandes quantidades de material verbal ou textual em um cenário escolar em contraste com as teorias elaboradas em ambientes laboratoriais. De acordo com Ausubel, a aprendizagem pode ocorrer por superordenadação, por representação e por combinação, processos que acontecem durante a recepção de informações. Ausubel, assim como Rogers, não acreditava na aprendizagem baseada em material sem sentido, como os de sílabas sem significado criadas por Ebbinghaus e adotadas por diversos psicólogos cognitivistas. (ROGERS, 1968; DRISCOLL, 1993).

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Para ele, todo material textual, assim como outros tipos de material a serem experienciados pelos alunos, devem ser considerados “potencialmente significativos”, ou seja, o material a ser aprendido precisa ser relacionável à estrutura cognitiva do aprendiz, de maneira não arbitrária e não literal. O significado é dado ao material quando o aluno ativamente interpreta suas experiências usando operações cognitivas internas. Dessa forma, espera-se que o aprendiz compreenda significativamente o material apresentado, que o incorpore ao seu acervo de aprendizagem e que o utilize no futuro. É no curso da aprendizagem significativa que o significado lógico do material de aprendizagem se transforma em significado psicológico para o aprendiz. (AUSUBEL, 1968). Aprendizagem é um processo de construção no qual uma nova informação é adicionada e integrada a uma estrutura cognitiva existente. A retenção envolve a manutenção da disponibilidade da informação para ser adquirida quando necessário. O termo significativo é um conceito relacional, um fenômeno que surge a partir de um processo de aprendizagem significativa no qual o material existente no mundo é convertido em um estado psicológico individualizado ou conteúdo consciente, implicando, dessa forma, alguma representação entre a linguagem e a estrutura mental. Aprendizagem significativa, portanto, é um processo por meio do qual o aprendiz utiliza um conjunto anteriormente significativo de conceitos e conhecimentos (conhecimentos prévios) para incorporar à sua estrutura cognitiva, de modo substantivo e não arbitrário, novos materiais que são potencialmente significativos, como informações, conceitos e experiências. Nesse processo a nova informação interage com esses conhecimentos prévios que são hierarquicamente organizados, denominados por Ausubel de “subsunçor” (ancoradouro). Há, portanto, um processo interativo no qual os conceitos mais relevantes existentes servem como ancoradouro para o novo material, incorporando-o e assimilando-o. Ao incorporar novos conhecimentos, as estruturas cognitivas − que representam todas as experiências de aprendizagem − também são modificadas. Um bom exemplo é oferecido por Moreira (1999): em física, se os conceitos de força e de campo, mesmo que intuitivamente, já existem na estrutura cognitiva do

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aluno, servirão de subsunçores para novas informações referentes a outros tipos de força e de campo, como, por exemplo, a força e o campo eletromagnéticos. Todavia, esse processo de ancoragem da nova informação resulta em crescimento e modificação dos conceitos dos próprios conceitos subsunçores (força e campo). À medida que os novos conceitos forem sendo aprendidos de maneira significativa, haverá crescimento e melhor elaboração dos conceitos subsunçores iniciais. Os conceitos de força e campo ficarão mais abrangentes e elaborados, servindo como ancoradores mais capazes para novas informações. Outro tipo de aprendizagem apresentado por Ausubel (1968) é a aprendizagem mecânica, que acontece de forma arbitrária, sem que os novos conceitos estejam ancorados em conhecimentos prévios do aluno. Portanto, esses conceitos são literalmente memorizados. Esse tipo de aprendizagem não é, necessariamente, oposto à aprendizagem significativa, mas pode acontecer como uma etapa, ou degrau. Existe ainda uma distinção entre aprendizagem por recepção e aprendizagem por descoberta e cada uma delas pode levar, ou não, à aprendizagem significativa. Na aprendizagem por recepção verbal, o conteúdo a ser aprendido é exposto ao aluno na sua forma final. O professor apresenta ao aluno o conteúdo e solicita que ele o memorize para que possa ser reproduzido em outra ocasião. Essa aprendizagem pode ser genuinamente significativa sem que haja, necessariamente, aprendizagem por descoberta anterior ou atividades de resolução de problemas pelo aluno. As falhas da exposição verbal não são causadas pelo método em si, mas por sua aplicação errônea. Na aprendizagem por descoberta, o conteúdo a ser aprendido deve ser descoberto pelo aluno antes de ser internalizado, pois a aprendizagem nesse caso só será significativa se após a descoberta houver a interação e relação com os conceitos subsunçores existentes na estrutura cognitiva. Isso significa que por recepção ou por descoberta, a aprendizagem só será significativa, segundo Ausubel, se o novo conteúdo incorporar-se, de forma não-arbitrária e não literal, à estrutura cognitiva. (MOREIRA, 1999). Para que a aprendizagem significativa aconteça é preciso que o material seja potencialmente significativo, o que depende tanto da natureza do próprio material  que deve ser logicamente significativo, ou ter significado lógico − quanto da natureza

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da estrutura cognitiva do aprendiz, do significado psicológico, que depende da experiência individual . A segunda condição é que haja disposição do aprendiz para fazer essa relação. Ou seja, por mais que o material seja potencialmente significativo, se o aprendiz pretende somente memorizá-lo arbitrariamente, a aprendizagem será somente mecânica e vice-versa. Percebe-se aqui que, subjacentes à cognição, encontram-se as emoções e as ações individuais. Portanto, a aprendizagem significativa depende em sua maior parte não da quantidade de conceitos existentes, mas das relações que esses conceitos têm entre si. Segundo Ausubel (apud MOREIRA, 1999), a estrutura cognitiva está hierarquicamente organizada de acordo com o grau de abstração, de generalidade e de inclusividade. Dessa forma, o primeiro nível de aprendizagem significativa é do tipo representacional, que é basicamente uma associação simbólica primária do significado de símbolos individuais como sons, caracteres linguísticos. O segundo tipo é a aprendizagem conceitual, que pode ser considerada uma extensão da anterior, pois também inclui os símbolos, mas em um nível mais abrangente e abstrato, como o significado de uma palavra. Por último, na aprendizagem proposicional o significado de novas ideias é expresso em proposições verbais. As palavras individualmente ou conceitos são combinados de forma a criar uma nova ideia, que é mais do que a soma dos significados individuais das palavras. Fazer inferências, ou justificar um conhecimento de um conceito em particular é considerado aprendizagem proposicional. A prontidão para aprender, que se refere ao nível de desenvolvimento das funções cognitivas do aprendiz, é outro conceito importante para que o professor possa trabalhar com o aluno. Diz respeito à maturidade que determina a extensão da capacidade do aprendiz para aprender nos vários níveis de abstração dentro de uma determinada disciplina. Isso depende da estrutura cognitiva e das propriedades organizacionais. Segundo Ausubel (1968), nem todo conhecimento oferecido na escola deve estar diretamente relacionado a uma proposta utilitária. Ele acrescenta que seria irreal acreditar que todos os assuntos e matérias vistos na escola possam ter aplicação imediata. Assim, sugere que o valor de parte do que se aprende na escola deve ser atribuído ao fato de aumentar em cada indivíduo a compreensão de

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sua cultura e do mundo. Os adolescentes devem ser estimulados a perceber o conhecimento acadêmico sob essa perspectiva, e dessa forma ficarão motivados para diferentes aprendizagens. Nesse sentido, parece haver uma tendência mais realista de Ausubel em relação a Rogers. Considerar a aprendizagem significativa como fundamentação teórica implica, para o professor, utilizar os organizadores avançados ou os organizadores prévios, que são materiais introdutórios relevantes e abrangentes a serem oferecidos antecipadamente ao aprendiz e que servem de ponte entre o que o ele já sabe e o que precisa saber antes de aprender significativamente a nova tarefa. Esses organizadores precisam ser apresentados em um nível mais alto de abstração e de generalidade do que o material a ser aprendido.

2.2.4. António Damásio Damásio considera que conhecer o modo como conhecemos é uma das tarefas mais difíceis, mas ao mesmo tempo mais sedutoras e desafiadoras, pois a mente em geral e a consciência em particular “permite aos humanos dar vazão ao desejo de compreender e ao apetite por admirar-se com sua própria natureza [...]” (DAMÁSIO, 2000, p. 18). Com base em seus trabalhos clínicos e experimentais, procura demonstrar a inseparabilidade entre a razão e a emoção; entre o espírito, o pensamento e o corpo, tido por ele como o próprio referencial para o cérebro. O ser humano não existe a não ser em sua integralidade física, emocional, cerebral, biológica, e em sua interatividade com o ambiente que o circunscreve. E é nesse momento que o trabalho do neurocientista Damásio encontra ressonância nesta pesquisa. Para Damásio (1998), a emoção e o sentimento são expressões da própria regulação biológica, sem a qual as estratégias da própria razão humana não teriam se desenvolvido em termos evolutivos e particulares de cada indivíduo. As emoções são parte de nossa própria biologia. Para se ter sentimento é necessário um sistema nervoso que tenha a capacidade de projetar as imagens das emoções. É preciso ter consciência de si mesmo. De certa forma, não se pode ter um sentimento propriamente dito sem consciência; por outro lado, não se pode ter consciência sem sentimento, pois de alguma forma há um ponto de convergência e

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assim as coisas entram em uma espiral mais complexa, que aumenta o sentimento e a consciência. Mas, de alguma forma, é preciso um início. É um constante movimento recursivo, uma causalidade circular. A consciência é fruto da necessidade básica de nos mantermos vivos. Na natureza, existem organismos simples que vivem de uma forma basicamente automática. Os seres humanos são mais complexos:
Além de precisarem manter a vida de uma forma simples, eles têm que se adaptar a um ambiente cheio de dificuldades para obter energia e se expõem a inúmeros perigos e oportunidades. Nesse ambiente que não é apenas físico, mas também cultural, precisamos de um sistema complexo de imaginação, criatividade e planejamento. A consciência surge dessa necessidade. (DAMÁSIO, 2001).

A consciência, apesar de ser um componente indispensável da mente humana criativa, não é toda a mente e nem está no ápice da complexidade mental. “A consciência é um ponto intermediário e não culminante do desenvolvimento biológico. A ética e o direito, a ciência e a tecnologia, a arte e a compaixão – estes são os ápices da biologia [...].” (DAMÁSIO, 2000, p. 48). O cérebro humano e o resto do corpo constituem um organismo indissociável, formando um conjunto integrado por meio de circuitos reguladores bioquímicos e neurológicos mutuamente interativos. E esse organismo interage com o ambiente como um conjunto. (DAMÁSIO, 1998). É em meio a essas interações que a aprendizagem tem lugar. Considerada como um conjunto de operações fisiológicas, a mente deriva desse conjunto estrutural e funcional, e não apenas do cérebro. Portanto, os fenômenos mentais só podem ser compreendidos no contexto de um organismo em interação com o ambiente que o rodeia. Como o ambiente pode ser compreendido, em parte, como um produto da atividade do próprio organismo, destaca-se a complexidade das interações. Da natureza na qual o ser humano está inserido, fazem parte tanto a herança genética quanto aquilo que é adquirido individualmente por meio da interação do sujeito com o ambiente social, seja de forma consciente ou inconsciente. E os sentimentos, nesse sentido, são tão cognitivos quanto qualquer outra percepção. Os sentimentos são necessários para tratar com grandes quantidades de informações ou para atividades que precisem de criatividade; são necessários para a tomada de decisão. Dessa forma, aprender e recordar são ações mais simples

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quando acompanhadas de alguma emoção. Aprender requer motivação, força de vontade, alegria. Nesse mesmo sentido, Morin (2005, p. 78) pergunta: “O que é um espírito capaz de conceber um cérebro capaz de produzir um espírito?” E prossegue no texto citando Jacques Monod, biólogo e ganhador do premio Nobel:
Quem poderia duvidar da presença do espírito? Renunciar à ilusão que vê na alma uma “substância imaterial não significa negar a sua existência, mas, ao contrário, começar a reconhecer a complexidade, a riqueza, a insondável profundidade da herança, genética e cultura, bem como da experiência pessoal, consciente ou não, as quais, juntas, constituem o ser que somos, único e inegável testemunha de si mesmo. (MORIN, 2005 b., p.78).

2.2.5. Uma aproximação com as teorias de Maturana e de Varela Assmann refere-se a essas contribuições mais recentes como pensamento pós-formal e afirma que a ênfase está nos “aspectos aleatórios, nas turbulências neuronais, nas perturbações imprevistas da atenção, nos elementos de indeterminação, enfim, na dinâmica de constante mudança propiciada por novelos de retroalimentação.” (ASSMAN, 2000, p.12). Aprender, para Maturana, é um fenômeno biológico. “Sistemas vivos são sistemas cognitivos, e a vida como um processo é um processo de cognição. Essa afirmação vale para todos os organismos, com ou sem um sistema nervoso.” (MATURANA, apud CAPRA, 2002, p.88). Os sistemas vivos são sistemas determinados estruturalmente e tudo o que acontece é determinado por essa estrutura, Os agentes externos apenas desencadeiam as mudanças, mas estas são determinadas nos próprios sistemas chamados por Maturana de autopoiéticos. São sistemas abertos ao fluxo de matéria e energia, mas fechados em sua dinâmica estrutural. (DEMO, 2002, grifo do autor). Autopoiése designa a organização mínima de um sistema vivo (uma unidade). Representa a relação entre o organismo e seu entorno, na qual os aspectos de sua autoconstituição e autonomia são considerados elementos fundamentais. Um sistema autopoiético é aquele que continuamente produz os componentes que o especificam, ao mesmo tempo que o realizam como unidade concreta em um

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espaço e em um tempo, possibilitando a própria rede de produções - síntese e destruição - de seus componentes. (VARELA, 2006). Auto significa si mesmo (refere-se à autonomia dos sistemas) e poiésis é poesia-criação. Portanto, autopoiése significa criação de si mesmo. A autopoiése origina estados imprevisíveis como resultados de uma busca pelo equilíbrio dinâmico no processo de auto-organização do ser vivo. (CAPRA, 2002; GUTIÉRREZ & PRADO, 2001). Para Varela (2006) o corpo de todos os animais, inclusive do homem, organiza-se dentro de um ciclo de acoplamento sensório-motor, ou seja, tudo o que se faz é sempre um ciclo de percepções e ações. fundamental da lógica do sistema nervoso. Esse é o núcleo É a partir de tal ciclo que o

acoplamento entre o organismo vivo e o meio ambiente acontece. Portanto, é a partir dessa lógica circular que emerge toda a complexidade do mundo e todo o significado atribuído pelo homem. A significação está inserida na própria estrutura da vida. Desse processo surge uma coerência – o eu cognitivo, uma unidade de percepção e movimento no espaço − que se encontra imbricada no organismo. O eu cognitivo é a maneira pela qual um organismo, através de sua atividade autoproduzida, se converte em unidade distinta no espaço, mas sempre acoplada ao seu entorno, que configura um mundo externo de percepção e ação. O processo cognitivo, nessa visão, é uma construção dinâmica realizada no próprio processo de viver e conviver e não acontece nem internamente nem externamente, somente. “Existe uma reciprocidade histórica que se constitui na chave para uma co-definição entre um sistema autônomo e o meio.” (VARELA e COLS, 1997, apud MORAES 2008, p.80). O que difere os organismos, os ecossistemas e as sociedades é, em grande parte, o grau de autonomia de seus componentes. Os componentes das sociedades humanas, os seres humanos individuais, têm um grau máximo de autonomia. (CAPRA, 2002). Para Varela (1989, apud EIRADO & PASSOS, 2004), a capacidade de interagir consigo mesmo, autodeterminando-se, é próprio dos sistemas naturais. A autonomia, palavra composta por auto=próprio e nomos=lei ou norma, é, portanto, oposta aos sistemas heterônomos, cujo funcionamento é determinado extrinsecamente.

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Conhecer não é adequar-se a uma realidade do meio, tampouco é tão simplesmente acionar estruturas cognitivas preexistentes no sistema. A vida é criação e conhecer é um ato de poiesis. Daí a relação entre estes termos — viver, conhecer e fazer, o que leva a uma redefinição também do objeto da biologia. O vivo é, portanto, o domínio da autonomia por excelência, já que sua existência se define e constrói a partir de um ato pragmático — ato a um só tempo criador e cognitivo daquele que vive/conhece e do mundo vivido/conhecido. (Eirado & Passos, 2004).

Há duas idéias fortes na teoria de Varela: a primeira é a de que o organismo cria sua identidade acoplando-se ao seu ambiente; e a segunda, de que alojamos um potencial imenso que devemos gerir. Isso quer dizer que “cabe a nós atualizar o ‘ainda-não’ que reside em nós.” (FABRE, 2006, p 61, grifo da autora). Nesse sentido, Varela nos convida a considerar o ser humano como:
estruturas internas e externas, biológicas e fenomenológicas e a considerar a corporeidade da nossa experiência como nosso verdadeiro contexto cognitivo. A enação é uma ação encarnada que se situa nesse contexto (experiencial e corporal). Ela se refere ao fenômeno da interpretação, entendida como ‘um fazer-emergir da significação sobre o pano de fundo da compreensão’. [...] A emergência das significações acontece através de agenciamentos coletivos. (VARELA, 1993 apud ASSMANN, 2000, p.13).

Daí segue-se a incorporação do conhecimento. Enação é fazer emergir. O mundo emerge a partir da relação do sujeito com o mundo, em um movimento imbricado de coprodução e codeterminação. Portanto, “a cognição não é a representação de um mundo pré-dado por uma mente pré-dada, mas antes é o enativamento de um mundo e de uma mente na base de uma história da variedade de ações que o ser humano exerce no mundo.” (VARELA, 1977, apud DEMO, 2002). O observador, como sistema vivo, não aceita instruções, ou seja, nada que é externo ao observador pode determinar o que acontece em seu interior, mesmo que possa ter deflagrado a mudança. (MATURANA, 2001). Sob essa perspectiva, não há uma realidade independente da experiência subjetiva do observador, assim como não há possibilidade de o ambiente não influenciar o que acontece dentro do sistema vivo. A realidade só acontece diante da ação do sujeito, da sua construção. E é nessa interação entre sistema e meio que surge o social, a conversa por meio da qual se aprende. O instrucionismo, dessa forma, não se torna uma possibilidade na educação.
A partir de nosso viver cotidiano sabemos também que, ao escutarmos alguém, o que ouvimos é um acontecer interno a nós, e não o que o outro

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diz, embora o que ouvimos seja desencadeado por ele ou ela. (MATURANA, 2001, apud DEMO, 2002).

Aprender é decorrência da rede de mudanças estruturais que o organismo segue ao percorrer os processos e as fases de assimilação, adaptação, acomodação e desenvolvimento contínuo. Aprender implica mudança interior; acontece interiormente, embora em relação com o meio. (MATURANA, 1993, apud, TAVARES-SILVA, 2003).
Viver e conhecer são mecanismos vitais. Conhecemos porque somos seres vivos e isto é parte desta condição. Conhecer é condição de vida na manutenção da interação ou acoplamentos integrativos com os outros indivíduos e com o meio. (MATURANA, 2002, p.8).

Outro ponto importante da teoria de Varela diz respeito ao conceito de consciência.
Cada experiência cognitiva baseia-se numa montagem de células específicas, na qual muitas atividades neurais diferentes – associadas com a percepção sensorial, com as emoções, a memória, os movimentos corporais e assim por diante – são unificadas num conjunto transitório, mas coerente de neurônios oscilantes. (VARELA, apud CAPRA, 2002, p. 228).

Há, portanto, uma diferença entre a cognição consciente − própria do homem e que envolve, além da razão, a emoção, o corpo, a intuição − e a cognição inconsciente, comum aos seres vivos. Sob essa perspectiva, o conhecimento intuitivo e o conhecimento racional são dois aspectos complementares da mente humana. O pensamento racional é linear, fixo e analítico. Pertence à esfera do intelecto, cuja função é diferenciar, medir e catalogar, e por isso tente a ser fragmentado. O conhecimento intuitivo, por outro lado, se baseia na experiência direta e não intelectual da realidade que surge durante um estado expandido da consciência; tende a ser sintetizante e holístico. (CAPRA, apud GUTIÉRREZ & PRADO, 2001). Maturana confirma que há uma estreita relação entre razão e emoção, sendo que ambas pertencem ao domínio da ação. E concorda com Damásio ao diferenciar emoção de sentimento, conferindo às emoções o poder de dirigir as ações. As emoções são “disposições corporais dinâmicas que definem os diferentes domínios de ação em que nos movemos. Quando mudamos de emoção, mudamos de domínio de ação.” (MATURANA, 2002, p. 15).

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O corpo faz emergir um mundo a partir de suas redes neuronais, da coordenação sensório-motora, do papel desempenhado pelo cérebro e da ação que está sendo realizada. Dessa forma, a cognição é ação corporificada e sempre se movimenta na direção do novo, da descoberta, de algo que está ausente. (VARELA, 1996, apud MORAES, 2008, p. 83, grifo da autora). A cognição dependerá dos tipos de experiência que decorrem do fato de se ter um corpo dotado de diversas capacidades sensório-motoras, que se inscrevem num contexto biológico, psicológico e cultural mais amplo. (ARENDT, 2000). Sob determinadas emoções pode-se aceitar certos argumentos ou ações que não seriam válidos sob influência de outras emoções. “Todo sistema racional se constitui no operar com premissas previamente aceitas, a partir de certa emoção.” (Ibid., p. 16). Dizer que o ser humano é racional significa relegar a um segundo plano as emoções. Esse entrelaçamento entre razão e emoção é cotidiano, é o que constitui o viver humano: “todo sistema racional tem um fundamento emocional.” (MATURANA, 2002, p.15). A própria curiosidade humana, que ocorre no domínio das ações do homem e na construção da ciência, acontece pela própria paixão pelo explicar. O amor, para Maturana, é a emoção fundadora, sem a qual não haveria a possibilidade da convivência. O amor é a “emoção que constitui o domínio das ações em que nossas interações recorrentes com o outro fazem do outro um legítimo outro na convivência.“ (MATURANA, 2002, p. 22). É na convivência que o fenômeno social acontece. Nesse cenário, a linguagem não se traduz como simples instrumento de comunicação, como um conjunto de regras que acontece somente no corpo. “A linguagem como fenômeno, como um operar do observador, não ocorre na cabeça nem consiste num conjunto de regras, mas ocorre no espaço de reações e pertence ao âmbito das coordenações de ação” (Ibid., p.27). É preciso aprender a aceitar o outro, a ter respeito por si mesmo e pelo outro, a ter responsabilidade individual. Para isso é preciso aprender que o homem não é transcendente, mas um devir, um continuo ser variável, mas que não é absoluto nem eterno. É preciso aprender a aprender, a pensar sobre o fazer, a refletir sobre o cotidiano. (MATURANA, 2002). Porém, só é possível saber se houve aprendizagem na comparação histórica recorrente, comparando as

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mudanças estruturais ocorridas em diferentes momentos. (MATURANA, 1999, apud MORAES, 2004).
Se aprendi a conhecer e a respeitar meu mundo, seja este o campo, a montanha, a cidade, o bosque ou o mar, e não a negá-lo ou destruí-lo, e aprendi a refletir na aceitação e respeito por mim mesmo, posso aprender quaisquer fazeres. (MATURANA, 2002, p 32).

Varela (1996, apud MORAES, 2008, p.81), nessa mesma direção, afirma que “a inteligência deixou de ser a capacidade de resolver problemas para ser a capacidade de ingressar num mundo compartilhado”.

2.2.6. Um pouco mais com Morin Morin (2005 b.) realiza uma ampla incursão pela questão do conhecimento do conhecimento e, portanto, não há como explorá-lo nesse espaço. Contudo, há alguns aspectos que poderão contribuir significativamente com a elucidação das bases teóricas desta dissertação, e por isso foram pinçados e serão aqui apresentados. O texto a seguir e as páginas citadas pertencem ao livro “O método 3: o conhecimento do conhecimento”. Em suas próprias palavras:
Lembro que o objetivo deste livro não é nem de vulgarizar, nem de sintetizar as aquisições atuais das diversas ciências cognitivas referentes ao cérebro, ao espírito e à inteligência, mas de considerar, a partir dessas descobertas e dos problemas daí derivados, as possibilidade e os limites do conhecimento humano. (MORIN, 2005 b., p.43, grifo do autor).

Para Morin, “conhecer é primariamente computar”; embora a ação de conhecer não se reduza à computação, sempre a incorpora. Conhecer é tradução, construção e solução, portanto o conhecimento não consegue refletir diretamente o real, podendo apenas “traduzi-lo e reconstruí-lo em outra realidade.” (Ibid., p. 58) O autor considera que aprender não é somente adquirir um savoir-faire, “mas também saber como fazer para adquirir saber”, o que pode ser feito por meio da aquisição de informação, da descoberta de qualidades dos seres, da descoberta da existência de relação ou não entre dois acontecimentos. “Construir supõe construtor, aprender supõe um construtor: aprender supõe um a priori; adquirir supõe um inato. O aparelho neurocerebral é o construtor a priori dispondo da capacidade de aprender.” (MORIN, 2005 b., p.68, grifo do autor).

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Com

base

na

dialógica

auto-eco-organizadora,

Morin

concebe

a

aprendizagem a partir de um processo dialógico inato-adquirido-construído.
“Aprender não é somente reconhecer o que, virtualmente, já era conhecido; não é apenas transformar o desconhecido em conhecimento. É a conjunção do reconhecimento e da descoberta. Aprender comporta a união do conhecido e do desconhecido.” (Ibid., p.70, grifo do autor).

O homem dispõe de, ao menos, 30 bilhões de neurônios.
A organização desse cérebro ainda se complexificou. Os seus dispositivos cognitivos têm novas competências. As suas possibilidades de aprendizagem e de memorização são enormes. O desenvolvimento extraordinário das estratégias7 de conhecimento e de ação realiza-se desde então num nível radicalmente novo, no qual apareceram a linguagem, o pensamento, a consciência. (Ibid., p.76).

Para Morin (2005 b.), quem conhece não é um cérebro nem um espírito, mas um ser-sujeito pelos meios do espírito e do cérebro. Assim, o espírito-cérebro é reintegrado no ser, mas se deve, repita-se, reintegrar o ser humano na sociedade, que permite à computação de seu cérebro desenvolver-se em cogitação via linguagem e saberes acumulados. Dessa forma, no conhecimento têm-se um complexo inseparável, no qual cada instância contém as outras: cérebro – espírito – indivíduo – sociedade. Nessas instâncias encontram-se a linguagem, a consciência, as emoções, o corpo, o outro. A consciência, para Morin, é complexa, pois é ao mesmo tempo “sempre objetiva e subjetivante, distante e interior, estranha e íntima, periférica e central, epifenomenal8 e essencial.” (2005 b., p. 211). Portanto, é paradoxal e dialógica. Ao mesmo tempo, é produto e produtora da reflexão. A consciência trata do retorno do espírito sobre si mesmo via linguagem; esse retorno permite um pensamento do pensamento capaz de retroagir sobre o
7 Estratégias cognitivas, para Morin, são produzidas durante a ação, e conforme os acontecimentos ou a obtenção de novas informações modificam a conduta da ação desejada.
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Epifenômeno: 1. s.m. Fenômeno que vem juntar-se a outro, mas sem influenciá-lo. (DICIONÁRIO KINGHOST) 2. Fenômenos adicionais que se superpõem a outros, mas sem modificá-los, nem exercer sobre eles nenhuma influência. (QUADROS, 1997) 3. Significa, literalmente. “sobre-(epi)-fenômeno”, assim como “fenômeno sobrante”. Em sentido geral, um perifenômeno é um fenômeno cuja presença não afeta um fenômeno dado. (MORA, 2001.) 4. Concepção que faz da consciência um fenômeno acessório e secundário, um simples reflexo, sem influência sobre os fatos de pensamento e conduta. (Dicionário de Filosofia)

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pensamento e, em paralelo, possibilita um pensamento de si mesmo apto a retroagir sobre si.
A linguagem permite pela riqueza do vocabulário e a sutiliza do discurso, reconstituir o concreto, ou seja, o singular hic et nunc; enfim permite traduzir o vivido, os sentimentos, emoções e paixões. A consciência é inseparável do pensamento, que é inseparável da linguagem. A consciência é a emergência do pensamento reflexivo do sujeito sobre si mesmo, sobre suas operações, ações. [...] A consciência mostra-se capaz de retroagir sobre o espírito, de modificá-lo, de reformá-lo e através disso de reformar o próprio ser. (Ibid., p. 135-136).

2.3. CONECTANDO A REDE: O QUE HÁ DE COMUM

Em nossas interações com as coisas, desenvolvemos competências. Por meio de nossas relações com os signos e com a informação adquirimos conhecimentos. Em relação com os outros, mediante iniciação e transmissão, fazemos viver o saber. [...] Toda atividade, todo ato de comunicação, toda relação humana implica um aprendizado. (LÈVY, 1999a).

Arendt (2000), a partir de Piaget, Damásio e Varela, conclui que:
O desenvolvimento passa a se constituir através de uma complexa rede de crenças e desejos que se reequilibram pela assimilação e acomodação em sucessivos patamares de organização e reconstrução, por auto-organização, a partir da história da acoplagem estrutural do organismo com o meio, numa relação de co-implicação, em sua ação guiada pela percepção, num quadro que inclui o contexto social e político . [...] A cognição dependerá dos tipos de experiências sensório-motoras inscritas num contexto biológico, mas também, psicológico e cultural, todos estes níveis devendo ser estudados em sua mútua co-implicação.

Com Piaget e Damásio percebe-se que há uma relação contínua entre corpo e mente, os quais constituem duas realidades que não se justapõem. Mas a primeira realidade é referência para a outra, sem que essa outra a ela se reduza. “Este contínuo é um prolongamento de formas adaptativas tanto quanto os sentidos se desenvolvem e aperfeiçoam para aprimorar a ação.” (BARROS, C.; CARVALHO, M.; GONÇALVES, V; CIASCA S; ASSIS, O, 2004). Embora ocorram em diferentes áreas do cérebro, a percepção, a emoção e a consciência não acontecem de forma completamente independente. A autonomia moral e intelectual do aprendente deverá ser sempre buscada, pois é necessária para o desenvolvimento de cada indivíduo, sabendo-se, contudo, que será sempre

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uma autonomia dependente em relação ao meio, mesmo quando os processos são internos, retroativos, autopoiéticos, ligados à própria sobrevivência. Portanto, o sujeito que aprende é um sujeito subjetivo, integral e possuidor de uma natural tendência à aprendizagem. O aprender envolve momentos de equilíbrio/desequilíbrio e posterior acomodação/adaptação. Aprender implica um movimento constante, dialógico e recursivo entre o corpo, a mente e o cérebro. Pressupõe desejo do aprendente, vontade e intencionalidade, para que a aprendizagem seja significativa para a vida. Aprende-se, também, com o outro, com o meio, com as informações obtidas e capturadas. Portanto, é nesse movimento dialógico que o conhecimento é construído por todos.

2.4. APRENDIZAGEM DE ADULTOS

Um dia na história dos homens e das mulheres, um dia mais ou menos recente, é que descobriram que porque aprendiam era possível ensinar, e aí se sistematizou o trabalho de ensino. A gente perdeu essa noção da história e inverteu os papéis. [...] é preciso recuperar historicamente o grande papel de aprender, sem que isso signifique nenhuma diminuição do ensinar. (FREIRE, 1996).

Até aqui, falou-se sobre conhecer e aprender de forma mais ampla, como um atributo pertencente aos seres vivos em todos os seus níveis de complexidade e em particular ao ser humano. Nesta pesquisa, contudo, o público-alvo é formado de adultos professores, lembrando que quem está formando também é professor e adulto. Portanto, há necessidade de uma breve abordagem sobre a especificidade da aprendizagem de adultos, assim como de algumas considerações sobre o professor, especificamente, como sujeito aprendente. Vários teóricos importantes estudam ou estudaram a aprendizagem de adultos, dentre eles Knowles, que será mais amiudemente abordado neste item porque se refere ao sujeito adulto integral, além de já trazer em sua teoria as experiências de outros autores que cita em seu livro The Adult Learner, de 2005, no qual o texto a seguir está baseado.

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O termo andragogia, embora tenha sido utilizado anteriormente, foi lançado em 1967 por Dusan Savicevic, um educador iugoslavo. Em 1969, Knowles escreveu o artigo intitulado Andragogia e não pedagogia, deixando claro que essa teoria representava a antítese da pedagogia tradicional utilizada como educação para crianças, que atribui ao professor a responsabilidade pelas decisões sobre o que será aprendido, quando e se foi aprendido. A andragogia pode ser considerada um conjunto de princípios a serem utilizados especificamente para a aprendizagem de adultos. No entanto, os autores deixam claro que apesar desses princípios servirem para todos os adultos, dependem de características individuais e contextuais. Não se trata de discutir os objetivos da educação, mas as características do processo de aprender propriamente dito. Knowles (2005) diz-se surpreso pelo fato de não ter havido grandes pesquisas na área de aprendizagem de adultos, pois, afinal, notórios professores de tempos antigos - como Confúcio, Lao Tse, os hebreus e Jesus Cristo, os gregos e Aristóteles - foram professores de adultos e não de crianças. Esses pensadores entendiam a aprendizagem como sendo um processo mental de questionamentos e não como recepção passiva de conteúdos transmitidos. Para Lindeman (1926), que, segundo Knowles (2005), estabeleceu os fundamentos iniciais para a criação de uma teoria sistematizada sobre a aprendizagem de adultos, a educação de adultos deve ocorrer por meio de situações de vida e não somente de conteúdos. Os currículos devem ser construídos em torno das necessidades e interesses dos alunos, afinal o adulto se encontra em situações específicas de trabalho, de laser, de família. Os conteúdos precisam advir dessas situações. Textos e professores tornam-se secundários diante da importância do aluno. O maior recurso para a aprendizagem de adultos deve ser sua própria experiência, pois se educação é vida, também a vida é educação. Mas a escola geralmente está estruturada de forma inversa. A definição de adulto considerada por outros autores como própria para as questões da aprendizagem é aquela oferecida pela psicologia: o indivíduo torna-se adulto quando se considera responsável pela sua própria vida, pelo seu autodirecionamento. Parece, contudo, que esse processo inicia-se bem antes e cresce cumulativamente, conforme a pessoa amadurece biologicamente, começa a desempenhar papéis e a assumir responsabilidade por suas próprias decisões.

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Para esses autores, o adulto aprendente possui as características indicadas a seguir, que devem ser consideradas no processo de ensino e de aprendizagem. 1. A necessidade de saber: O adulto precisa saber por que deve aprender algo antes de se predispor a aprender. necessidade de aprender. 2. O autoconceito. O adulto se vê como responsável por suas próprias decisões, por sua própria vida e, portanto, precisa ser visto pelos outros como capaz de direcionar-se. Cria-se uma resistência natural quando o adulto sente que precisará fazer uma atividade imposta como educativa. Ciente disso, o educador precisará criar situações para a independência do aprendente. 3. O papel das experiências. O adulto possui uma grande quantidade de experiências acumuladas ao longo de sua vida. Dessa forma, em um grupo haverá, provavelmente, uma heterogeneidade em termos de conhecimentos prévios, de estilos de aprendizagem, de motivação, de necessidades e de metas individuais. O educador precisa, pois, focar a individualização do ensino e das estratégias de aprendizagem. É importante lembrar que para muitos dos aprendentes a fonte de conhecimento mais rica é a dos próprios colegas; portanto, é preciso utilizar o trabalho em grupo, o estudo de caso, os exercícios de simulação, as discussões de grupo. Outro aspecto importante é o fato de que quanto mais experiência se tem, mais hábitos e certezas fazem parte da vida da pessoa e, consequentemente, mais fechado se fica ao novo. Mais uma vez, será preciso trabalhar as questões afetivas. 4. Prontidão para aprender. O adulto prepara-se para aprender o que ele considera necessário para atuar efetivamente em sua vida. Mas não é preciso esperar por essa prontidão. 5. Orientação para aprender. O adulto, em contraste com a criança, possui uma prontidão para aprender orientada imensamente para a resolução de problemas da vida real. O adulto motiva-se a aprender quando percebe que aquele conteúdo vai ajudá-lo a lidar com suas tarefas diárias. Além disso, ele aprende mais facilmente conteúdos, valores e habilidades quando lhe são apresentados em contextos de vida. Consequentemente, uma das primeiras tarefas do educador é ajudar o aprendente a conscientizar-se da

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6.

Motivação. A motivação do adulto para aprender depende mais de fatores internos, como satisfação no trabalho, maior qualidade de vida, do que de incentivos externos, como promoções ou salários mais altos. Por outro lado, algumas pesquisas apontaram que a motivação do adulto é frequentemente bloqueada por barreiras emocionais, como autoconceito negativo como estudante, tempo restrito, ou programas que não adotam os princípios da aprendizagem de adultos.

Valorizando a questão da autonomia, da consciência e da autorrealização para a aprendizagem na fase adulta, Bruno (2007) apresenta as etapas vivenciadas pelo adulto que foram propostas por autores como LUDOJOSKY (1972), PAPALIA e WENDKOD OLDS (2000), representando uma fase pós-formal, posterior ao pensamento formal considerado por Piaget como o último período de desenvolvimento cognitivo. São elas: 1. O adulto jovem: período que começa pela descoberta de si mesmo, com questionamentos envolvendo idéias até então tidas como verdadeiras. Nesse período, percebe-se a passagem de pensamento e de posturas rígidas para outras mais flexíveis. Entretanto, por ser um período de transição, ainda é marcado pela necessidade de “encontrar a resposta certa”. 2. O adulto maduro: além dos aspectos biológicos, resultantes de transformações advindas da adolescência, ele se encontra num período de relativização das idéias. Percebe que o conhecimento e os valores, bem como os indivíduos, podem assumir posições diversas, fazer seus próprios julgamentos e escolher “suas próprias crenças e valores a despeito da incerteza e do reconhecimento de outras possibilidades válidas”. Portanto, o pensamento, na idade adulta, parece mais “flexível, aberto, adaptativo e individualista.” (PAPALIA e WENDKOD OLDS, 2000, p. 380). Nessa fase o pensamento dialético seria a característica básica. “A sua essência é a contínua exploração das inter-relações entre regras gerais e necessidades contextuais. A exploração das contradições e discrepâncias entre o geral e o particular é vista como uma oportunidade para o desenvolvimento pessoal.” (BROOKFIELD, 1998, p. 292, apud BRUNO, 2008, p.89). Assim como Knowles, Jung percebe que o adulto não é facilmente atingido por fatores externos e por necessidades alheias, pois “considera-se portador de sua

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cultura e não se disponibiliza a aprender com outro adulto, considerado incapaz de exercer a docência.” (FURLANETO, 2007, p. 20). Essa característica, contudo, não representa, necessariamente, um movimento defensivo, podendo retratar um amadurecimento. De qualquer forma, precisa ser considerada quando se educa adultos. Ainda segundo Jung, o adulto é responsável pela própria educação e para isso precisa buscar se conhecer. No entanto, esse processo exige “a coragem de nos defrontarmos com nossos aspectos criativos e sombrios. Conhecer-se implica vasculhar nichos de onde emergem conteúdos confusos contendo falseamentos originados pelo desejo e pelo medo.” (FURLANETTO, 2007, p. 21).
Nas condições de verdadeira aprendizagem os educandos e educadores vão se transformando em reais sujeitos da construção e reconstrução do saber ensinado. Isso exige que professor e o aluno dialoguem, que os conhecimentos de cada um sejam considerados e nesse momento a autonomia do aluno é primordial na negociação dos significados. Permite perguntar o porquê e para quê. É nessa didática problematizadora que o aluno toma consciência sobre os vários temas. (Freire, 2003, p. 26).

Aretio (1988), com base em pesquisas realizadas por autores como Mucchielli (1972), Tyler (1995) e outros, aponta algumas dificuldades percebidas na aprendizagem de adultos, dentre elas: o adulto pretende uma formação mais pragmática; a curiosidade insaciável de criança diminui consideravelmente; o aprendizado tende a ser mais lento, principalmente quando há necessidade de mudança de hábitos consolidados ou quando se está afastado dos estudos há muito tempo; o adulto percebe o conteúdo compartimentalizado, enquanto sua experiência profissional se mostra interdisciplinar. Pelo fato de os aprendentes serem adultos, há necessidade de investir-se no aprendizado significativo, mais diretamente relacionado ao trabalho e às experiências de vida de cada um.

2.5. O PROFESSOR APRENDENTE

Os professores têm preocupações legítimas quanto ao seu papel à medida que o modelo de aprendizado muda de transmissão para interação. A ironia aqui é que, se eles não mudarem e adaptarem suas classes e a si mesmos soa novo modelo, enfrentarão ameaças ainda maiores à sua segurança no

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trabalho. A sociedade encontrará outras formas de aprendizado e de afastarse deles. (TAPSCOTT, 1999, p. 135).

Freud, embora não tenha dedicado muito de seu tempo à educação, chegou a considerar que a educação seria algo da ordem do impossível, juntamente com o governo e com a própria psicanálise. Impossível não por ser irrealizável, mas por não poder conciliar a liberdade de expressão do inconsciente com os preceitos morais. Impossível por não poder ser alcançada em sua totalidade. Impossível porque depende do outro, daquele que quer ou não aprender. Ainda assim, embora com pouco espaço para discutir em profundidade os resultados de pesquisas e posições teóricas sobre como os docentes aprendem, serão apresentados alguns aspectos considerados fundamentais para o entendimento da questão. Ensinar e aprender são processos distintos. Contudo, fazem parte deles sujeitos ensinantes e aprendentes que se revezam nesses papéis e imbricam-se em movimentos contínuos interativos, recursivos desconstrutores, construtores e produtivos de conhecimentos e de experiências. “Não há docência sem discência, as duas se explicam e seus sujeitos, apesar das diferenças que os conotam, não se reduzem à condição de objeto um do outro.” (FREIRE, 2003, p. 21). Ainda assim, para Torres (2005) educar e aprender são processos diferentes, pois supõem métodos diferentes, ou seja, os mecanismos e as estratégias que o professor utiliza para desenvolver a lição são diferentes daqueles utilizados pelo educando para aprender. Enquanto o estudante recorre a associações com nomes ou episódios conhecidos e vivenciados, o professor procura trazer os autores consultados, buscar relação entre os conhecimentos, exemplificar. No caso dos cursos de formação de professores, os formadores são professores e os formandos também. Estão ali para aprender a aprender e aprender a ensinar. “Quem forma se forma e re-forma ao formar e quem é formado forma-se e forma ao ser formado.” (FREIRE, 2003, p. 23). Os professores precisam conscientizar-se dessa multiplicidade de papéis tanto em sua formação quanto em sua ação. O educador também se autoforma.
A autoformação, ou formação do eu, resulta de uma terceira força que se encontra entre a heteroformação (ação de outros) e ecoformação (ação com o meio). É fundamental tornar-se sujeito ativo de sua formação e, ao mesmo tempo, tornar-se objeto de formação para si mesmo e perceber-se como parte do processo de hetero e eco-formação. Influenciamos o meio e o outro,

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assim como somos influenciados por ele. (PENEAU, 2003, apud BRUNO, 2008, p. 88).

Se o professor se coloca, como professor, no lugar do aluno, o sente mais, o compreende melhor, adapta-se à sua linguagem. Se, ao mesmo tempo, o professor, além de pensar no aluno também se sente como aluno, ele aprende junto, relaciona a teoria com a prática. Ao posicionar-se como aprendente, o professor compreende melhor o processo de aprender enquanto ele acontece. (MORAN, 2007).
Na verdade, o que eu não posso é deixar de conhecer os dois em processo contraditório dialético, em que quanto melhor eu aprendo tanto melhor eu posso ensinar e quanto mais eu ensinar tanto melhor se pode aprender. (FREIRE, 1996).

Para Moran, é preciso focar o profissional do ensino como sujeito aprendente e, ao fazê-lo, muda-se a forma de ensinar:
Se nos vemos como aprendizes, antes de professores, adotamos uma atitude mais atenta, receptiva e temos mais facilidade de nos colocar no lugar do aluno, de nos aproximar da maneira como ele vê, de modificar nossos pontos de vista. (MORAN, 2007, p. 81).

Herández (1998) chama a atenção para o fato de que nos cursos de formação de professores pouca atenção é dispensada à forma como os docentes aprendem, pois a ênfase está na própria proposta de formação. Com base em sua experiência, o autor aponta algumas atitudes encontradas em seus alunos docentes. A primeira, que ele chama de refúgio no impossível, acontece quando o professor diz que tudo é muito bom, muito certo, mas utópico, pois as condições em sala de aula não permitem a prática. O desconforto de aprender, segunda atitude percebida, acontece quando o docente não demonstra vontade de aprender, mas, ao contrário, cria um bloqueio diante do novo, considerando-se tratado como criança. Um terceiro aspecto é com relação à revisão da prática, pois quando essa prática é usada como base para a aprendizagem, os docentes a consideram uma perda de tempo. Herández percebeu, também, que o docente sente-se ameaçado em sua identidade de pessoa que ensina, pois as mudanças tornam suas experiências e conhecimentos inválidos.

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Uma última questão colocada é a distância entre a prática e a teoria. Cada vez mais se considera o professor um prático.
Relacionar o trabalho com uma atitude investigadora que revise as suposições, que questione como o aluno compreende aquilo que se pretende ensinar, em vez de ser considerado um elemento necessário, é visto como uma interferência estranha. (HERÁNDEZ, 1998).

Para Freire (2003, p.22), “a reflexão crítica sobre a prática se torna uma exigência da relação teoria/prática sem a qual a teoria pode ir virando blábláblá e a prática, ativismo.” Imbernón (2006) confirma que durante muito tempo a perspectiva técnica e racional controlou a formação do professor, pois visava a um professor com conhecimentos semelhantes no campo científico e psicopedagógico, exercendo um ensino nivelador. Por outro lado, agora, tão importante quanto o conhecimento de conteúdos é a formação de atitudes para que o professor possa comunicar-se e compartilhar com o grupo decisões e estratégias. Em um momento inicial, no qual o ensino era considerado como intervenção tecnológica com base no processo de produção, o professor era visto como um técnico especializado que aplica regras derivadas do conhecimento científico. (GÓMES, 1992, apud FURLANETTO, 2007). Hoje, essa visão limitada precisa ser superada, pois a realidade social é complexa, incerta, instável e o professor “intervém em um meio ecológico complexo, em um cenário vivo e mutável, definido por interações simultâneas”. (GÓMES, apud FURLANETTO, 2007, p. 10). São situações para as quais não há respostas prontas. Imbernón (2006) considera que as funções do professor foram transformadas. O professor passou de simples transmissor de conhecimentos acadêmicos para animador, motivador, para aquele que luta contra a exclusão social, e tudo isso exige uma nova formação inicial e permanente. Nesse sentido, o autor aponta algumas situações que considera elementares: o professor possui conhecimentos objetivos e subjetivos e, portanto, a formação precisa incluir não só os conteúdos, mas a formação de atitudes; a aquisição de conhecimentos por parte do professor é um processo amplo e não linear que está relacionada diretamente à prática profissional e que é condicionada pela estrutura da organização na qual trabalha (IMBERNÓN, 2006). Portanto, a construção de conhecimentos precisa acontecer de forma interativa e com base em situações

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práticas que reflitam a realidade; a construção de conhecimentos pelo professor é um processo complexo, adaptativo e experiencial. No ambiente de formação, o professor precisa ter contato com as contradições da profissão, devendo ser formado
na mudança e para a mudança por meio do desenvolvimento de capacidades reflexivas em grupo, e abrir caminho para uma verdadeira autonomia profissional compartilhada, já que a profissão docente deve compartilhar o conhecimento com o contexto. (IBERNÓN, 2006, p. 15).

Nesse contexto, a formação assume um papel que transcende o ensino que visa a uma mera atualização científica, pedagógica e didática, e se transforma na possibilidade de criar espaços de participação, reflexão e formação, a fim de que as pessoas aprendam e se adaptem para poder conviver com a mudança e a incerteza. Para Moran (2007), o educador é o especialista em conhecimento e em aprendizagem, e como tal, espera-se que seja um profissional equilibrado, experiente, que integre harmoniosamente o intelecto, a emoção, a ética e a pedagogia. O educador pode ser testemunha viva da aprendizagem contínua, mas também das dificuldades de aprender, das dificuldades em mudar, das contradições no cotidiano. Passa por etapas em que se sente perdido, angustiado. Depois, retoma o rumo, estimulado por novos desafios, pelo contato com seus alunos. Ainda segundo o autor, educar tem muito de rotina, de repetição e de decepção. O professor se sente parte de uma máquina, de uma engrenagem que cresce desproporcionalmente. Sente-se, em alguns momentos, insignificante, impotente. Ensinar tem momentos “glamorosos”, em que os alunos participam e se envolvem, mas muitos outros momentos são banais. A rotina corrói uma parte do sonho, a engrenagem despersonaliza. Há um aumento de oferta profissional junto com uma diminuição das exigências para a profissão. A tentação da mediocridade é real. Basta ir tocando para ficar anos como docente, ganhar um salário seguro, razoável. Os anos vão passando e quando o professor percebe já está na fase madura e se tornou um docente acomodado. Porém, para ser um bom profissional, não é preciso que o educador seja perfeito. O que ele precisa é mostra-se da forma como ele é, disposto a aprender e evoluir enquanto ensina.

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2.6. O SUJEITO MEDIADOR (PROFESSOR)

É bem sabido que ensinar é ainda mais difícil que aprender. Mas raramente se pensa nisso. Por que ensinar é mais difícil que aprender? Não porque o mestre deva possuir um maior acervo de conhecimentos e os ter sempre à disposição. Ensinar é mais difícil do que aprender, porque ensinar quer dizer deixar aprender. Aquele que verdadeiramente ensina não faz aprender nenhuma outra coisa que não seja o aprender [...]. O mestre que ensina ultrapassa os alunos que aprendem somente nisto: que ele deve aprender ainda muito mais do que eles, porque deve aprender a deixar aprender. O mestre deve poder ser mais ensinável que os alunos. (HEIDEGGER, apud ROGERS & FREIBERG, 1996, p. 67).

Neste trabalho, o termo professor será semanticamente similar ao de mediador, ou seja, designará aquele sujeito que pode facilitar a aprendizagem do aprendente, que faz a mediação entre o sujeito aprendente e o conhecimento, e entre os diferentes sujeitos, e não atuará como o transmissor de conteúdos, como guia ou instrutor. Será visto como aquele sujeito capaz de ajudar o aprendiz a superar as dificuldades, ao mesmo tempo em que o instiga e oferece situações de desafio que problematiza. O professor/mediador sabe interagir, co-construir com o aprendente um conhecimento individual e social. Relaciona-se de forma dialógica, recursiva, produtora e auto-eco-organizadora com o aprendente, com o conhecimento e com o grupo social. Em EAD as funções do professor, do orientador e do tutor ficam, por vezes, confusas. No caso desta pesquisa, o mediador/ professor é aquele que interage com o aprendente no ambiente, embora haja outros professores participando do curso desde o planejamento até a implementação. Tavares-Silva (2003) coloca um aspecto importante dessa relação entre mediador e aprendente. Ela diz que as relações de poder e de autoridade entre mediador e aprendiz mudam quando o mediador é problematizador, pois há uma relação de igualdade entre ambos, que detêm conhecimentos específicos, diferenciados e relevantes. Em sua fundamentação teórica, a autora aproxima os conceitos de mediação e interação (interatividade) 9, o que é bastante interessante,
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O conceito de interatividade parece ter suas origens na idéia de interação, que não é nova. Na Física, refere-se ao comportamento de partículas cujo movimento é alterado pelo movimento de outras partículas. Para a Sociologia e a Psicologia, nenhuma ação humana ou social

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em vista do ambiente de aprendizagem desta pesquisa ser um ambiente virtual no qual a interatividade é fator preponderante. O professor deixa de ser o dono do conhecimento para ser um construtor, um facilitador, aquela pessoa que tem mais experiência teórica e prática que seus alunos, conhecedor de determinados conteúdos por já haver estudado sobre eles, mas que nem por isso sabe tudo sobre o assunto, até porque a completude do saber é impossível, como diz Morin (2000). No entanto, o problema da formação docente, fundamentado no pensamento ecossistêmico e na complexidade, precisa ser visto de forma articulada, porque passa pelos aspectos pedagógicos, pelas condições de trabalho, de emprego e pela deterioração salarial entre tantas outras variáveis importantes. (MORAES, 2007). Os cursos de formação devem acontecer em um movimento dialógico entre o gnosiológico e o ontológico. Portanto, o desenho didático precisa abranger a profissionalização docente, o compromisso com a emancipação, a leitura crítica dos aspectos micro e macroestruturais do trabalho docente. O formador e o formando precisam construir-se como sujeitos sociais surgidos do diálogo e da abertura para o novo. O desenho didático desses cursos, portanto, deve propiciar a leitura crítica, com “ações de formação que partam do senso comum e levem o educador à consciência emancipada, sem, contudo, solapar o tempo vivencial desse profissional.” (PESCE, 2007b, p. 11). Os formadores de professores vêem a profissão através de lentes idealistas e racionalistas, sem considerar as práticas em sala de aula. Existe a “tentação de eufemizar a realidade, a subestimar a complexidade; ou então, de negar os seus aspectos mais negros ou de imaginar que estes vão desaparecer.” (PERRENOUD, 1993, p. 195). Ainda segundo o autor, seria preciso preparar o professor para trabalhar em um mundo real em que os alunos podem ser egoístas e preguiçosos. Portanto, é preciso falar com o professor sobre as questões de resistência e de conflito que acontecem em uma sala de aula. A relação entre professor e aluno é feita de
existe separada da interação. Para os interacionistas do início do século XX, designa a influência recíproca dos atos de pessoas ou grupos. A interatividade, por outro lado, é recente e emerge juntamente com a ampliação da informática e das tecnologias da informação e comunicação, tanto assim que não a encontramos facilmente em dicionários nacionais antes de 1998, embora as várias ciências já estudassem os processos de interação. (SCHECHTMAN, 2003). Por esse motivo, os dois termos serão utilizados sem diferenciação. O termo interatividade estará mais presente quando tratar-se de ambiente virtual de aprendizagem.

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sedução, de manipulação, de histórias de vida individuais e, como tal, precisa ser encarada como uma realidade complexa e multiforme. “Os adultos recusam-se a reconhecer que as crianças e os adolescentes são actores sociais de corpo inteiro, que têm a sua identidade, a sua cultura, os seus interesses, os seus valores e as suas estratégias”. (ibid., p. 197). Saber lidar com o poder, em suas diversas manifestações, seria outra característica importante da formação de professores. Da mesma forma, os professores não estariam preparados para enfrentar e aceitar a heterogeneidade e por isso são pegos de surpresa quando percebem seus alunos em estágios de desenvolvimento diferenciados, com personalidades próprias e culturas distintas. As preocupações de Perrenoud acabam por reforçar a necessidade de que, na formação de professores, a didática, a filosofia, a comunicação, a sociologia, a psicologia sejam abordadas de forma inter e transdisciplinar. Dessa forma, propiciase uma visão mais abrangente para que o professor seja capaz de perceber a possibilidade da existência de diferentes níveis de realidade na sala de aula e, nesse sentido, procure elaborar estratégias não só para trabalhar com a diversidade, mas para encontrar novos caminhos. Leva, também, à necessidade de se rever a carreira do professor e, consequentemente, a avaliação desse profissional. Se dos alunos é esperado que sejam criativos, responsáveis por sua aprendizagem, críticos e preparados para enfrentar os desafios dos tempos modernos, o mesmo deve ser requerido dos professores. Nesse sentido, o professor precisaria de uma cultura geral ampliada, capacidade de aprender a aprender, habilidades comunicativas, cultura informacional, sabendo comunicar-se e atuar sobre os meios tecnológicos multimídias atuais. Mais ainda, é preciso “resgatar a profissionalidade do professor, reconfigurar as características de sua profissão na busca da identidade profissional.” (LIBÂNEO, 2007, p.10). Por tudo o que foi dito com relação à aprendizagem de adultos e de professores, não há dúvidas sobre a necessidade de metodologias próprias para atender a essa população, o que será visto mais adiante. 2.7. A MEDIAÇÃO PEDAGÓGICA – SIGNIFICADOS E SIGNIFICANTES
[...] o papel do professor, o papel do ensinante, é um grande papel. Ele/ela tem uma grande responsabilidade de ensinar. E professor que não ensina não se justifica, ele não se explica a si mesmo. Agora, é preciso clarear e esclarecer o que significa mesmo ensinar. E quando a gente busca

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compreender na própria prática o que é ensinar, a gente tem que concluir que o próprio esforço do processo social da produção do conhecimento põe de lado qualquer possibilidade de transferir conhecimento. Eu produzo, eu crio, eu recrio o conhecimento, eu não engulo conhecimento [...] Você não fala na curiosidade de saber. Você fala na sede do saber. Eu não tenho que beber saber, nem tenho que comer saber. Eu como uma feijoada, não conhecimento. Conhecimento eu produzo socialmente. (FREIRE, 1996).

Compreender a realidade como um fenômeno complexo e multifacetado implica ter o conhecimento como algo efêmero e causa de erros e ilusões, acreditar que o aprendente é sujeito subjetivo, individual e social, e que aprender é uma tendência natural do ser humano. Se toda ação é uma ação ecologizada, pois deságua no jogo das interações, então o professor não pode mais ser aquele sujeito que decide por si e por seus alunos, autoritário, dono do espaço educacional. O professor não pode ser senhor do conhecimento, mas como diz Moran (2007), é isso que se espera dele: que seja um especialista do conhecimento, embora o conhecimento só aconteça como processo, como construção que não pode ser imposta. Aprender é uma ação individual, realizada por quem aprende. Quem aprende, aprende alguma coisa com alguém, em algum lugar e com o mundo; lendo, meditando, conversando. Assim, é uma ação que não pode ser confundida com isolamento e nem com abandono. Com diz Moran (2007, p. 43, grifo do autor), “o professor não pode ‘conhecer’ pelo aluno; pode informá-lo, ajudá-lo, aprender com ele, mas quem desenvolve níveis mais superficiais ou profundos de conhecimento é cada pessoa. O aluno aprende, o professor também, juntos.” Porém, quem ensina, ensina alguma coisa a alguém.
Não temo dizer que inexiste validade no ensino de que não resulta um aprendizado em que o aprendiz não se tornou capaz de recriar ou de refazer o ensinado, em que o ensinado que não foi apreendido não pode ser realmente aprendido pelo aprendiz. (FREIRE, 2003, p. 24).

Ensinar é ajudar a desenvolver no aluno a curiosidade, a motivação, o gosto de aprender que vem do desejo e da facilidade de conhecer. Facilidade essa que vem com o domínio da leitura, da matemática, da capacidade de síntese, de análise, de comparação, com a prática. (MORAN, 2007). Ensinar, portanto, é intencionalmente social, dialógico, interativo, transacional. Requer respeito ao outro, aos seus saberes, à sua autonomia. Como diz Paulo

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Freire, ninguém ensina ninguém, cada um aprende mediado pelo mundo. Mundo do qual o professor também é parte. Nesse sentido, o professor pode ser considerado um mediador. Segundo o dicionário Michaelis, o significado de mediar, do latim mediare, como verbo transitivo indireto, é o mesmo que mear. Como verbo intransitivo, significa ficar no meio de dois pontos, no espaço; ou de duas épocas, no tempo. E como verbo transitivo direto, significa tratar como mediador. No Houaiss, entre outras definições, como transitivo direto, indireto e bitransitivo, significa agir na qualidade de mediador ou medianeiro; como transitivo indireto, estar entre duas coisas, ou entre dois extremos. Dessa forma, mediar é relacionar e implica a existência de mais de um sujeito ou mais de um tempo, ou, ainda, mais do que um único lugar ou objeto. Não há mediação sem a participação dos envolvidos, sem comunicação, sem interação, sem diálogo entre os sujeitos ou mesmo entre sujeitos e objetos; sem desejo de agir, sem intencionalidade daquele que faz a mediação. Mediar também significa negociar. Negociar sentidos, necessidades, afetos e saberes. Mediar, pedagogicamente, é colocar-se como facilitador, como incentivador da aprendizagem, disposto a ser uma ponte rolante entre o aprendiz e sua aprendizagem para que ele atinja seus objetivos. É apresentar e tratar os conteúdos de diferentes maneiras, levando o aprendiz a coletar informações, a discuti-las com colegas e professores até chegar à produção de um conhecimento significativo para ele, que o ajude a interferir na realidade. (MASETTO,2000). Segundo Libâneo (1992), saber lançar pontes entre as tarefas requeridas do aprendente e as condições prévias dele para enfrentá-las é uma das qualidades do mediador. O envolvimento do aluno no estudo ativo depende de que o ensino seja organizado de tal forma que as dificuldades colocadas pelo professor, ou seja, as perguntas, os problemas propostos, tornem-se problemas subjetivos na mente do aluno, provoquem nele uma “tensão” e vontade de superá-las. É preciso saber dosar o nível de dificuldade das questões, tornando-o adequado aos níveis dos aprendentes. “As dificuldades somente têm valor didático se possibilitam a ativação e o direcionamento das forças intelectuais, ou seja, um meio para avançar na compreensão e assimilação da matéria.” (Ibid., p. 95). Para isso, o aprendente precisa relacionar o novo conhecimento aos saberes préexistentes e necessita de constante verificação dos progressos alcançados.

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Masetto (2000) relaciona as características da mediação, dentre as quais se podem destacar o diálogo permanente, a atenção ao que acontece em diferentes momentos, o uso de questões problematizadoras, o debate sobre temas próprios da ética, da sociedade, do trabalho, colaborando para uma atitude crítica por parte do aprendiz. Maheu (2001) apresenta os conceitos de mediação cognitiva e mediação didática propostos por Yves Lenoir, os quais, embora digam respeito à escola, podem ser considerados de forma mais ampla para estabelecer o conceito de mediação. Lenoir, segundo a autora, teve Piaget e Vygotsky como fundamentação teórica, entre outros. Contudo, é possível encontrar similitudes entre os mencionados conceitos e idéias defendidas por Rogers, em relação ao desejo, e por Ausubel, quanto ao conceito de aprendizagem significativa, aqui referenciado anteriormente. A mediação percebe o ser humano como um ser da práxis, capaz de atuar individual e coletivamente na sociedade à qual pertence e de transformar o mundo à sua volta. Na relação educativa, há dois processos de mediação: “aquele que liga o sujeito aprendiz ao objeto de conhecimento (relação S–O), chamado de mediação cognitiva, e aquele que liga o formador professor a essa relação S–O, chamado de mediação didática”. (LENOIR, 1999, p.28, apud MAHEU, 2001, p.61). O processo de aprendizagem pode ser visto como a objetivação do real, a qual se estabelece entre um sujeito e um objeto num determinado contexto espaçotemporal, mas não de forma imediata, sendo mediada pelo processo próprio de regulação. Esse processo de objetivação brota do desejo do educando que precisa querer aprender. E é nesse momento que o professor exerce o que Lenoir chama de mediação didática, da qual faz parte a capacidade de seduzir e fazer surgir o desejo no educando.10 “A mediação didática, por assim dizer, consiste em estabelecer as condições ideais à ativação do processo de aprendizagem”. (MAHEU, 2001, p. 69). Mais uma vez, percebe-se a impossibilidade de transferir conhecimento e a importância do professor que, para poder ensinar, precisa saber aprender.

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Em seu texto, Maheu refere-se à educação escolar, principalmente voltada para crianças, o que não invalida a questão do desejo, que no adulto pode ser algo mais determinante e específico em função de sua realidade, mas que também pode não existir. Nesse caso, precisa ser despertado por meio da mediação.

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Assim, para Maheu, a competência do educador vem do domínio de um saber, do seu saber-fazer – o saber didático – e do saber sensível, determinados socialmente e esteticamente. E, nesse sentido,
Mediar não significa tão somente efetuar uma passagem, mas intervir no outro pólo, transformando-o. A mediação na esfera educativa guarda o sentido da intervenção sob inúmeras formas, desde as modalidades mais amplas — como a mediação sociopolítica que pratica a escola/o fenômeno educativo face aos alunos que se formam — às modalidades que se inserem no âmbito da prática pedagógica, onde se posiciona, primordialmente, o professor como mediador. (MAHEU, 2001, p. 45).

É notória a ênfase dada hoje ao processo de aprender, ainda que relacionado ao processo de ensinar. Nos textos dos grandes teóricos sobre educação, mesmo em clássicos anteriores à “era da informação” - como Piaget, Rogers, Freire – não se encontra orientação no sentido de que cabe ao professor transmitir conhecimento. A ênfase recai sempre na função do professor de promover a aprendizagem, de procurar ensinar a aprender, a pensar. O mediador incentiva o autodidatismo, levando o aprendiz a descobrir as coisas por si mesmo; compartilha o controle do processo, discutindo os objetivos e as propostas com o educando; procura promover a colaboração entre os integrantes do grupo, que dialogam com o aprendiz para estabelecer uma comunicação também afetiva com ele, que estimule a reflexão, a criatividade e a criticidade. Mais uma vez, é na relação dialógica, no diálogo, que a mediação e a construção do conhecimento acontecem. Diálogo que, segundo Martin Buber (apud LIPMAN, 1995), é o discurso no qual cada um dos participantes realmente tem em mente os outros, considerando-os em relação à sua existência específica e presente, tendo a intenção de estabelecer uma relação mútua estimulante entre ele próprio e os outros. Cabe aqui um comentário: a transformação conceitual do papel do professor, que passou de transmissor de conhecimentos para mediador, não o exime de conhecer profundamente os saberes sobre os quais faz a mediação e de estudar e utilizar as melhores formas de abordar esses saberes ou conteúdos. Há pesquisas científicas que demonstram que abordar determinados conteúdos de formas específicas produz um aprendizado mais efetivo. Esses estudos não devem ser ignorados. O que o professor não pode é limitar-se a aplicar de forma mecânica pacotes didáticos, sem considerar o aprendiz,

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seus conhecimentos prévios, o contexto do ambiente de aprendizagem, as relações que ali emergem para que ocorra uma aprendizagem significativa. O que o professor não deve é limitar-se a fazer a mediação entre sujeitos e seus objetos de conhecimento, tão somente, sem a devida contextualização; é preciso ressignificar junto com o aprendiz as culturas, as experiências e os diálogos, por meio de uma mediação adequada. Afeto e autoestima são componentes fundamentais da mediação, desde que aliados à competência da profissão. Ao professor cabe motivar o aprendiz, com a intenção de promover aprendizagem. Ele pode gostar muito do seu aluno, mas deixá-lo analfabeto, porque não dispõe de condições profissionais para fazê-lo aprender. “Se o professor de matemática não sabe matemática, sobretudo não sabe fazer o aluno aprender matemática, sua ‘animação’ cai no vazio.” (DEMO, 2002, p. 139, grifo do autor). Perrenoud (2000; 2001), ao elencar o que seriam as competências do professor atual, aponta que é necessário que ele domine os saberes, que esteja à frente de seus alunos para criar situações múltiplas e variadas para a construção do conhecimento coletivo. Mas não basta estruturar os textos e depois lê-los para conseguir promover a aprendizagem. O professor precisa organizar e dirigir situações de aprendizagem, administrar a progressão da aprendizagem, incentivar seus alunos, trabalhar em equipe, administrar sua própria formação. Perrenoud acrescenta, ainda, que todo professor exerce basicamente duas funções interligadas entre si e complementares, que são a função didática de estruturação e gestão de conteúdos e a função pedagógica de gestão e regulação interativa das situações em sala de aula. Para além do domínio dos saberes científicos, o professor precisa compreender que, devido à velocidade com que as informações são disponibilizadas e os resultados científicos são modificados, não é possível conhecer tudo. Portanto, é preciso aprender a respeitar, também, os saberes dos alunos, que em muitas situações estão mais “por dentro” das novidades do que o próprio professor. Libâneo (2007) coloca que o professor precisa assumir o ensino como mediação e ajuda pedagógica, pois a aprendizagem ativa é do aluno, e precisa ter uma prática interdisciplinar como forma de organização administrativa e pedagógica da escola. Deve conhecer estratégias para ensinar o seu aluno a pensar os conteúdos de forma crítica, para ensinar a aprender a aprender por meio de

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estratégias de aprendizagem que são “a estruturação de funções e recursos cognitivos, afetivos ou psicomotores que o indivíduo leva a cabo nos processos de cumprimento de objetivos de aprendizagem.” (NISBET e SHUCKSMITH ,1994, apud LIBÂNEO, 2007, p. 35). Hoje, não se pensa o professor como aquele profissional que apenas “sabe a matéria”, o especialista em determinados conhecimentos científicos, mas como o profissional pronto a estar junto com seu aluno, a construir conhecimento colaborativamente, com a participação ativa do aprendente, sem o qual a profissão de professor não existiria.

2.8. CONSTRUINDO AS REDES PARA A MEDIAÇÃO A aprendizagem, a partir do pensamento complexo, pode ser considerada como construção individual, embora influenciada pelo coletivo já que somos dependentes dos contextos, das sinergias que provocam emergências, levando à alteridade e, concomitantemente, ao trabalho em equipe, à colaboração, aos projetos comuns. Todo ser aprendente é um vir-a-ser possível, um sujeito capaz de atualizar-se constantemente, de auto-eco-organizar-se sempre que necessário. O processo de conhecer é muito mais amplo do que a concepção do pensar, raciocinar e medir, pois envolve a percepção, a emoção e a ação. Aprender resulta de experiências vividas e de interações entre o organismo e o meio. Aprender não é captar o objeto externo, pois conhecer está presente em todas as ações biológicas, espirituais, culturais que o ser humano desenvolve. (MORAES, 2003). Aprender é descobrir significados e atuar em colaboração, criando sínteses e elos entre as partes e o todo, entre a razão e a emoção, a partir de dúvidas que levam a novos questionamentos. (FAGUNDES, 1999, apud TAVARES-SILVA, 2003). Para Almeida (2000), a aprendizagem acontece em todas as etapas da vida, nas quais cada indivíduo procura compreender a realidade e a multidimensionalidade das diversas situações que enfrenta, estabelecendo vínculos entre elas e com o que já conhece, representando, ampliando e transformando essa realidade na promoção de uma melhor qualidade de vida pessoal e grupal.

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Todavia, nada de fora determina o que acontece em um sistema vivo, ele apenas serve como catalisador de um determinismo estrutural que prevalece nos sujeitos aprendentes, segundo Maturana. Para existir, todo ser vivo depende de continuas mudanças estruturais que envolvem diferentes capacidades - de autorregeneração, de autoprodução, de automanutenção, de auto-organização - que acontecem como reação dos sistemas vivos às interferências do meio e acabam por modificar-se como um todo, transformando-se por inteiro como forma de sobrevivência e de manutenção da integridade do sistema. (MORAES, 2004). Considerando-se o princípio sistêmico-organizacional, será preciso contextualizar o aprendente, auxiliá-lo a relacionar o que ele já conhece, por vezes de forma ainda desordenada, aos novos conteúdos e às novas experiências, para que possa desaprender e reaprender sempre que necessário. É fundamental perceber o aprendente como sujeito possuidor de um código linguístico, social e cultural que precisa ser respeitado e, ao mesmo tempo, questionado, e que em sala de aula tanto é afetado pelo grupo, como também o influencia. Prestar atenção ao movimento retroativo recursivo pode ser fundamental para a percepção e a compreensão das emergências, considerando as sinergias presentes, as emoções, os sentimentos e os movimentos, o que propiciará ações mais consistentes e efetivas, correção de rumos e atendimento às expectativas individuais e coletivas. Compreender os movimentos aparentemente contrários, ou mesmo contrários, como complementares e não como excludentes entre si, auxilia no lidar diário com o caos, a ordem e a desordem, fazendo surgir daí novas experiências. Visto como uma rede, o conhecimento hoje é um processo de construção e reconstrução que pressupõe flexibilidade, adaptabilidade, cooperação e parceria entre os diversos elementos do conjunto. (MORAES, 2003). Aprende-se mais combinando de forma equilibrada a interação e a interiorização. (MORAN, 2007). Como bem disse Darcy Ribeiro (apud MORAN, 2007, p. 40): “Sempre há o que aprender, ouvindo, vivendo e, sobretudo, trabalhando; mas só aprende quem se dispõe a rever as suas certezas”. Sob a luz dos princípios/operadores do pensamento complexo e do pensamento ecossistêmico, a mediação pedagógica seria, segundo Moraes (2003, p. 210):

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Um processo comunicacional, conversacional, de co-construção de significados, cujo objetivo é abrir e facilitar o diálogo e desenvolver a negociação significativa de processos e conteúdos a serem trabalhados nos ambientes educacionais, bem como incentivar a construção de um saber relacional, contextual, gerado na interação professor/aluno.

Ainda segundo a autora (Ibid.), mesmo cabendo ao professor ter uma visão sistêmica do processo, ele e o aluno devem ter o mesmo grau de importância na relação, já que ambos constituem partes de um mesmo sistema. O professor é o mediador entre o aprendiz e sua aprendizagem, entre o aprendiz e os conhecimentos. Ambos, contudo, são co-produtores do conhecimento, pois a ação mediadora do professor dependerá do que acontece com o aluno, não pode ser imposta; acontece em um movimento recursivo, no qual o aluno compreende os temas que estão sendo trabalhados e ao mesmo tempo se vê como produtor desse conhecimento. Ao mediador cabe estar atento às diferentes possibilidades de interpretação da realidade dos aprendentes, assim como aos diferentes níveis de realidade presentes no ambiente de aprendizagem, o que implica aceitação do outro, das diferenças, dos diversos estilos de aprendizagem, além dos interesses e motivações de cada um. Isso exigirá do mediador a criação de contextos dinâmicos, flexíveis. Sob o olhar do pensamento complexo, as práticas contextualizadas, as reflexões individuais e coletivas, os processos cooperativos e solidários são fundamentais para o alcance dos objetivos educacionais. (MORAES, 2003). Da mesma forma, o mediador deve escolher as estratégias didáticas pelo reconhecimento das especificidades de cada situação e cada contexto, pela aceitação das diferentes percepções e níveis de realidades, entre as maneiras de aprender, entre os interesses. Precisa considerar o dialogismo das relações, o compartilhamento de objetivos. E para isso, não é preciso inventar sempre, recriar a roda repetidamente. O que importa é a atitude do mediador quando da utilização de estratégias didáticas, ainda que convencionais, como quadro-de-giz ou a apresentação oral. Como diz Masetto (2000), é importante o uso de estratégias de aproximação, de formação de grupo e de motivação que favoreçam a aprendizagem individual e em grupo, assim como o emprego de técnicas de simulação, de resolução de problemas, de situações complexas e de conflito que aproximem o aprendiz da vida profissional. São técnicas que colocam o aprendiz em contato direto com situações

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reais e facilitam a integração da teoria com a prática, obrigando-o a desenvolver atividades de pesquisa na busca de soluções para as questões com as quais se depara. Segundo Bonill e Calafell (2007, apud MORAES, 2008), uma metodologia representativa desse pensamento é a formulação de perguntas mediadoras, as quais podem surgir do diálogo entre teoria e prática. É interessante construir com o aprendiz respostas às novas perguntas que surgem ao longo do processo de observação dos fenômenos e das situações cotidianas. Segundo esses autores (2005), uma das formas de ajudar o aluno a pensar de maneira complexa é incentivá-lo a formular perguntas que, partindo de uma visão complexa do fenômeno, favoreçam a construção de boas respostas. Moraes (2008, p. 163) complementa a questão sugerindo que essa estratégia favoreça a dinâmica das relações e auxilie na compreensão do fenômeno complexo. E para o alcance desse objetivo, as perguntas não podem levar a respostas óbvias, que assegurem verdades incontestáveis, o que, ao invés de propiciar a vivência de didáticas da complexidade, levaria ao reducionismo, à simplificação, ao fechamento dos sistemas, à “pseudo-complexidade”. Por meio de perguntas, é possível aprender, desaprender e depois reaprender. Aprende-se em todos os dias, mas, ao tentar desaprender, questionamse verdades, pois é possível trazer à consciência o momento em que determinada aprendizagem aconteceu e refletir sobre ela, sobre o momento da história pessoal, sobre as emoções que permearam essa aprendizagem, e saber por que se quer modificá-la hoje (KOHAN, 2005). Esse processo possibilita a coexistência de ideias contraditórias, até que uma delas seja substituída ou reformulada, ou que elas continuem coexistindo e complementando-se. O sentido de desaprender, para esse autor, não significa apagar, até porque seria quase impossível fazê-lo. Desaprender é identificar as marcas e as pegadas deixadas no tempo e no espaço da história de vida de cada um. “Com essa compreensão, nascerá o esforço de desaprender, que deverá gerar novas reaprendizagens com força própria dos significados que não cessam de ser criados.” (KOHAN, 2005, p. 22). Ao desaprender, o sujeito evolui em seus significados e, como ser cultural, contribui de forma ativa para a evolução própria e da sociedade.

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Reaprender significa uma síntese pessoal, produto de aprendizagens e desaprendizagens que acontecem como possibilidades de ressignificação individual e coletiva das culturas, das sociedades. Esses são apenas alguns exemplos de atividades que podem propiciar a aprendizagem de uma realidade complexa, por meio do pensar certo. Porém, como dito anteriormente, o mais importante é a atitude do mediador frente às situações que encontra e, principalmente, suas concepções sobre o que é aprender e o que é ensinar, pois é desse diálogo, da forma como ele acontece que surge a construção do conhecimento e possibilita a aprendizagem de todos. É a partir de suas crenças e vivências sobre o aprender que se criará o professor autoritário, ou o mediador. O professor mediador precisa conhecer profundamente os conteúdos sobre os quais trabalha e as técnicas consideradas mais eficientes para ensiná-los. Deve aprender a aprender, saber como se aprende, conhecer o processo da subjetivação humana, ser criativo, atencioso, dedicado e autodidata. Mais ainda, precisa ter rigorosidade metódica, criticidade e competência profissional, além de ser generoso, alegre, esperançoso, ético e estético, entre outros atributos citados por Freire (2003). Com base no que foi exposto até agora, é possível perceber a importância da formação do docente, seja ela inicial ou continuada. Essa formação, contudo, não é tarefa fácil, pois devem ser criados currículos que atendam a todas as demandas feitas ao professor mediador, que atendam a todos aqueles requisitos propostos. Acredita-se, pelo aporte teórico apresentado, que se o professor aprender a pensar certo, ou seja, aprender a pensar utilizando os princípios/operadores cognitivos do pensar complexo e ecossistêmico, estará dando um grande passo em direção à sua formação como mediador e não mais permanecendo ou atuando como simples transmissor de informações. No próximo capítulo, as questões discutidas anteriormente serão transportadas para o espaço virtual no qual adquirem especificidades próprias desses ambientes.

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CAPÍTULO III

O MUNDO VIRTUAL DE ENSINO E DE APRENDIZAGEM

3.1. O CONCEITO DE EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA (EAD)

Estratégias pedagógicas

Aprendizagem

Ciberespaço Mediação pedagógica SISTEMA EAD Conteúdos Professor/ orientador Emergências Aprendiz

Ambiente virtual de Aprendizagem

Gêneros digitais Ferramentas de interatividade

Tecnologia Comunicação

Conhecimento

Considera-se que a educação a distância não possui uma única definição, pois pode ser desenvolvida de diversas formas, com a utilização de diferentes estratégias, dependentes das tecnologias disponíveis, do público a que se destina e de outros fatores circunstanciais. Como aponta Peters (2004), a EAD é uma modalidade de ensino e de aprendizagem que sempre esteve em estado de transição e, atualmente, de rápida transição. O autor ressalta ainda que a distância e o uso de um meio técnico não são as únicas características que diferenciam a aprendizagem aberta e a distância da aprendizagem convencional, pois aquela traduz uma abordagem sui generis com

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estudantes, professores, métodos e meios específicos, o que requer estratégias pedagógicas diferenciadas. Nessa mesma linha, hoje, Palloff e Pratt (2002) consideram que há uma real mudança de paradigma educacional, tendo por base os elementos definidores de EAD propostos pelo California Distance Learning Project (1977), que são: a separação física entre professor e aluno, inclusive no tempo e no espaço; o uso de mídia educacional unindo professor e aluno; a utilização de via dupla de comunicação; o controle volitivo do aluno por ele mesmo, e não com o professor. No ambiente on-line o professor pode continuar a dirigir os cursos, mas há espaço para que os alunos explorem o material de forma colaborativa, buscando seus próprios interesses, não cabendo mais uma comunicação unidirecional do conhecimento, vinda de um único especialista. Relembrando o que foi dito na introdução desta pesquisa, o ForGRAD conceitua a EAD como uma modalidade de educação que, concomitantemente com outras modalidades, pode contribuir para a ressignificação de paradigmas educacionais, oferecendo a possibilidade de solução de alguns dos grandes problemas da educação no Brasil. A diversidade, a autonomia, a investigação, a relação teoria e prática, o trabalho cooperativo, a dialogicidade e a valorização da construção do conhecimento pelo aluno por meio da manutenção do vínculo entre ensino, pesquisa e extensão são princípios de sustentação para os projetos em EAD. Maria Cândida Moraes (2007)11 faz algumas reflexões sobre o conceito de EAD na perspectiva ecossistêmica e complexa, as quais serão apresentadas aqui de forma bem sucinta. Um sistema aberto não pode ser pré-determinado, pois é suscetível “às trocas, aos diálogos nutridores, à emergência de novas estruturas que se reorganizam e transcendem” (p. 31). Nos ambientes virtuais, transita-se entre a ordem e a desordem, e para que isso aconteça há necessidade de “flexibilidade estrutural, diálogo e fluência interna no sistema”, o que implica trocas, diálogos e interações nos diferentes níveis do sistema.

Nesse momento, optou-se por recortar alguns aspectos da análise feita por Maria Cândida Moraes em um capítulo que compõe o livro Educação a distância: pesquisando fundamentos para novas práticas (MORAES, M.C.; PESCE, L.; BRUNO, A. R., 2007). As páginas referenciadas são desse livro.

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Reconhecer a multidimensionalidade do ser humano significa reconhecer que o sentir, o pensar e o fazer são processos entrelaçados no sujeito e, nesse sentido, os ambientes virtuais ou presenciais de aprendizagem precisam favorecer a cooperação e a alegria como “potencializadores de ações e reflexões mais significativas e profundas.” (p.33). Ao compreender-se que sujeito e meio não existem independentemente um do outro, reforça-se a importância da contextualização de toda ação educativa. Nas redes criadas em ambientes digitais de aprendizagem, “o vivo está na qualidade das relações dialógicas mantidas entre os elementos componentes” (p.34) nas novas idéias que circulam, na interatividade entre os sujeitos. Pensar complexo é construir um diálogo entre conceitos divergentes como análise e síntese, construção e desconstrução, reconhecendo que nem sempre há antagonismo, mas complementaridade. Implica abertura epistemológica que leve em conta o papel da incerteza, do acaso, o que requer “um pensamento relacional, articulado, integrador, que reconhece as emergências, interferências e resistências que existem em uma rede de relações constituída por múltiplas realidades.” (p. 34). Considerar a realidade educacional como sistêmica e complexa é compreender os ambientes digitais de aprendizagem sob essa perspectiva, quer dizer, tendo “abertura diante da realidade, do conhecimento e da aprendizagem”. (p. 34). Pensar complexo é considerar a intersubjetividade, as histórias de vida dos sujeitos e com isso perceber as relações interdisciplinares “como frutos da interdependência nos processos de conhecimento e da aprendizagem”. (p. 35). Para que haja diálogo, é preciso que haja compartilhamento de significados. Ressalta-se, por isso, a necessidade de uma comunicação intensa entre os membros de uma rede virtual para a co-criação de novos significados. Retorna-se, mais uma vez, ao ForGRAD, que tem como princípios de sustentação dos Projetos de EAD: • Diversidade: diferentes naturezas dos conhecimentos, as diversas abordagens possíveis em função do enfoque teórico-metodológico, e as realidades multiculturais do país. • Autonomia: habilidade a ser construída pelo aluno ao longo da experiência, aprendendo a olhar sua realidade, a sua compreensão dos fenômenos. Menor dependência do professor. Por outro lado, as práticas

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avaliativas e o acompanhamento dos estudos do aluno deverão ser modificados. • Investigação: o currículo do curso deve provocar a reflexão e o questionamento das atividades pedagógicas, inserindo-as dentro de um contexto sócio-político-social, problematizando-se a realidade, identificando questões a serem investigadas. • • • • Relação teoria-prática: possibilitar que o aluno desenvolva “a Trabalho cooperativo: todas as disciplinas devem ser valorizadas Dialogicidade: ênfase na interatividade entre todos os participantes Construção e reconstrução do conhecimento: o currículo deve capacidade de agir, refletir na ação e sobre a ação” (p.12). para que a proposta pedagógica reflita um trabalho conjunto. do curso, na troca de idéias, no diálogo. valorizar a construção do conhecimento pelo aluno em um processo de ação, reflexão e ação, por meio da manutenção do vínculo entre ensino, pesquisa e extensão. Ainda segundo o ForGRAD, a EAD exige maior autonomia do aprendiz na construção de seu conhecimento, maior interatividade entre os participantes, um tempo diferente, que segundo Merleau Ponty (1971, apud ForGRAD, 2001), “só existe em relação a uma subjetividade concreta”, o que exige currículos flexíveis e abertos, pois são resultado dessas interações. Como modalidade de educação, a EAD é vista também como um sistema conectado a outros sistemas. Portanto, precisa ser percebida em sua complexidade, em suas relações, em sua ecologia. Ecologia essa que traz modificações no tempo, no espaço, nos diferentes níveis e tipos de realidade e, diante disso, concebe as incertezas, as emergências surgidas ao longo do processo, a colaboração e o movimento entre os participantes e a estrutura como componentes fundamentais desse sistema.

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3.2. O ESPAÇO VIRTUAL DE ENSINO E DE APRENDIZAGEM Não se trata de modo algum de um mundo falso ou imaginário. Ao contrário, a virtualização é a dinâmica mesma do mundo comum, é aquilo através do qual compartilhamos uma realidade (LÉVY, 1999 b, p. 148).

Espaço antropológico Apoio para os alunos que aprendem autonomamente Espaço do saber

Aprendizado recíproco, sinergia das competências, inteligência coletiva imaginação

O professor como mediador intelectual, emocional, gerencial, comunicacional e ético

Todas as mensagens se tornam interativas, ganham plasticidade e possibilidade de metamorfose imediata

Está claro que há diversas formas de fazer educação a distância, utilizando diferentes tecnologias como o material impresso, o rádio e a TV, as teleconferências ou o computador ligado à internet, estratégias diversas e estruturas particularizadas. Nesta pesquisa, especificamente, o curso analisado acontece em um ambiente virtual de aprendizagem desenvolvido na plataforma Moodle, utilizando o computador como meio físico de acesso. Nesse momento, é necessário esclarecer como os termos ciberespaço, espaço virtual e ambiente virtual de aprendizagem são compreendidos. Para Gibson (1984, apud LEMOS, 2002, p. 136), “o ciberespaço é um espaço não físico ou territorial composto por um conjunto de redes de computadores através das quais todas as informações (sob suas diversas formas) circulam [...]. É uma alucinação consensual”.

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O ciberespaço pode ser entendido como um lugar, quando estamos em um ambiente simulado, e como um conjunto de redes de computadores interligados pelo planeta. O ciberespaço “é um complexificador do real”, estando conectado à realidade.
O ciberespaço é concebido como espaço transnacional onde o corpo é suspenso pela abolição do espaço e pelas personas que entram em jogo nos mais diversos meios de socialização [...] é um não-lugar, uma u-topia onde devemos repensar a significação sensorial de nossa civilização baseada em informações digitais, coletivas e imediatas. Ele é um espaço imaginário, um enorme hipertexto planetário. (LEMOS, 2002, p. 137).

O ciberespaço é um espaço imaginado, construído pelos sujeitos que dele participam. Apesar de estar contido dentro de uma tela de computador, bidimensional, é um mundo compartilhado coletivamente, espalhado pelo planeta, infindável. Para Ellis (apud BÁRTOLO, 2005, p. 81), o espaço virtual é qualquer superfície plana onde uma imagem possa ser visualizada, enquanto no ambiente virtual, por sua vez, emerge o “utilizador humano” como parte do próprio horizonte de acção. Pierre Lévy (1999 a., b.) utiliza o termo ciberespaço quando se refere ao espaço virtual ou ao mundo virtual. Considera-o como um espaço invisível de comunicação navegável e transparente, centrado nos fluxos de informação, de conhecimentos, de potências de pensamento que transformam as qualidades do ser e da sociedade. É um espaço interativo e móvel. Espaço do saber, um campo vasto, aberto.
O ciberespaço: nômade urbanístico, gênio informático, pontes e calçadas líquidas do Espaço do saber. Ele traz consigo maneiras de perceber, sentir, lembrar-se, trabalhar, jogar e estar junto. É uma arquitetura do interior, um sistema inacabado dos equipamentos coletivos da inteligência, uma estonteante cidade de tetos de signos. (LÉVY, 1999 a., p. 105).

Assim, os termos espaço virtual, mundo virtual e ciberespaço serão empregados como sinônimos. O termo virtual, esclarece Lévy (1999 b), vem do latim medieval virtualis, que vem de virtus, potência, força. É criação, pois a partir das condições encontradas ocorre uma reinvenção e uma co-produção, ocorre uma atualização que produz novas qualidades, idéias que realimentam o virtual. Nesse sentido, a atualização é a resposta inventada a um problema.

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Por conseguinte, virtual não significa algo inexistente, imaginário, mas uma coisa possível, que tem potencial para ser reinventada, co-criada. O ciberespaço é um espaço desterritorializado (LÉVY, 1999 a.) que acontece por meio de redes em um tempo que não depende de lugar, onde é possível manterse uma ação continuada, embora descontínua em sua duração. Uma comunidade se cria nesse espaço e, apesar de não presente, é repleta de emoções, de projetos e de conhecimentos de cada um e de todos, por vezes não definidos. Portanto, o ciberespaço é heterogênico, propicia a alteridade. O espaço virtual se atualiza por meio de redes de computadores, de satélites, de cabos de fibra ótica. Em uma analogia ao corpo humano, Sfez (2000) remete à noção de veias e de nervos que transportam o sangue e os humores, e que em seu entrelaçamento formam uma rede singular, mas sujeita ao acaso. Afinal, nenhum corpo possui o mesmo entrelaçamento. São redes circulares sem começo e sem fim, pois são múltiplas as entradas e os caminhos são complexos. Essas redes interativas propiciam a comunicação, a troca de conhecimentos e as relações pessoais de forma intensa e fácil, sem local, dia, nem hora marcados. Como consequência, o ciberespaço requer uma nova forma de relacionamento, de ensino e aprendizagem, e uma nova forma de ver e entender o tempo e o território, o espaço. Moran (2000, apud SCHECHTMAN, 2001) afirma que nos ambientes virtuais participamos de uma interação intensa entre o real e o virtual. Comunicamo-nos realmente, estamos conectados com milhares de computadores, mas essa comunicação é virtual. Estamos em casa, conversando com pessoas que não conhecemos e talvez nunca conheçamos. Nesses ambientes, as comunicações sociais vão acontecer de uma nova maneira. Os espaços familiares, antes restritos por paredes, ganham novos contornos. Esse é um ato potencial, criado pelos sujeitos. Para Schulmeister (1997, apud PETERS, 2002), o território virtual é composto por três espaços: o espaço das apresentações, onde os objetos representados por símbolos, como textos, gráficos e imagens são apresentados aos alunos; o espaço semântico, no qual o sujeito interpreta; e o espaço das ocorrências, em que os alunos interagem com os objetos mostrados anteriormente por meio da navegação. O espaço das ocorrências ou das ações, que favorece a conexão com os objetos apresentados, pode ser considerado o verdadeiro espaço de aprendizagem.

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É nesse espaço sem limites, incerto, não muito bem definido, que as ações educacionais, o ensinar e o aprender devem “ter lugar”. (PETERS, 2002, p. 139, grifo do autor). Na transição do local tradicional de ensino para o ambiente digital surge a oportunidade da criação de novas maneiras de ensinar e aprender. Nesse espaço são construídos os ambientes de aprendizagem amplificadores dos espaços tradicionais físicos. Paralelamente ao ciberespaço, o ambiente virtual de aprendizagem (AVA) é considerado, aqui, como um espaço dentro do ciberespaço, ou seja, um “lugar” construído na plataforma Moodle onde o curso é desenvolvido. É por meio de um endereço HTTP que o aluno acessa a “sala de aula” virtual do curso, na qual encontra os materiais disponibilizados pelos professores, os cronogramas, as mensagens e, principalmente, o espaço para a interatividade com os colegas de turma e com os professores, por meio dos fóruns, das agendas e dos chats. Mas as possibilidades de aprendizagem vão muito além desse ambiente, encontram-se no ciberespaço onde acontece a sociedade virtual, ou seja, “a sociedade de comunicação - fundada na redundância da difusão da mensagem; a sociedade da informação - fundada no estereótipo do terminal e a sociedade de comutação - de equivalência entre o emissor e o receptor na rede.” (LEMOS, 2002, p. 82). O conceito de ambiente de aprendizagem foi criado com base em pressupostos construtivistas, para os quais o aluno é visto como sujeito e não mais como objeto. Assim, a aprendizagem não acontece por meio de recepção passiva das informações oferecidas, mas resulta da interação entre os sujeitos e destes com os objetos de aprendizagem. “Se este ambiente de aprendizagem é informatizado e organizado em rede, uma imensa extensão do campo educacional acontece na imaginação dos alunos.” (LEMOS, 2002, p.134). Algumas atividades de ensino e de aprendizagem estão presentes, em conexão, somente nos ambientes informatizados que utilizam o computador, um meio universal que contém todos os outros meios anteriormente utilizados. Nos ambientes tradicionais esses recursos estariam separados e seriam reunidos somente quando solicitado. O computador permite ao usuário acesso rápido à informação distribuída e aos outros participantes, facilitando a comunicação e a colaboração entre pessoas distantes espacialmente entre si. Os alunos também podem compilar seus arquivos com os conhecimentos adquiridos por si mesmos e

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retornar a eles quando desejarem, o que auxilia a aprendizagem por descoberta e torna os aprendentes designers e co-autores de sua própria educação. (KLEINSCHROTH, 1996, apud PETERS, 2002). Todavia, para que esse artefato, com suas inúmeras possibilidades tecnológicas, possa ser aproveitado como propulsor para a aprendizagem autônoma, é fundamental que haja um desenho metodológico intencionalmente criado e que os professores, além de entusiastas, sejam capacitados para atuar nesses ambientes. Para Bruno (2008, p. 82):
Um ambiente de aprendizagem só se constitui como tal pela intencionalidade e prática de criar circunstâncias que promovam relações interativas entre os sujeitos participantes; circunstâncias estas constitutivas da mediação pedagógica, com o fim específico de trans-formação do ser para construção de conhecimento. Assim, os aspectos determinantes de um ambiente de aprendizagem estão na sua relação constitutiva com os atores que dele fazem parte.

Portanto, para esta pesquisa, o ambiente virtual de aprendizagem (AVA) será considerado como o “local” de aprendizagem, construído intencionalmente para a realização das atividades de aprendizagem do curso de formação de professores Sentipensar. Nele, pessoas que não se encontram geográfica e temporalmente presentes formarão uma comunidade de aprendizagem compartilhando de um mesmo espaço e de objetivos educacionais comuns e individuais. Nesse ambiente, os participantes terão acesso aos materiais disponibilizados pelos professores e às suas orientações no sentido de um maior aproveitamento das possibilidades oferecidas pelo ciberespaço como um todo. A comunicação entre seus membros será mediatizada tecnologicamente pelo computador, por suas interfaces e pelas várias ferramentas disponíveis.

3.3. A TECNOLOGIA: ALÉM DO TECNICISMO Dependendo do contexto em que está inserida e de quem a utiliza, a palavra tecnologia pode assumir diferentes significados e propósitos. Pode ser útil, inútil, libertadora, limitadora, motivadora, frustradora, pode despertar desejos ou pesadelos, pode ser uma aliada ou uma inimiga.

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Uma técnica não é boa nem má (isto depende dos contextos, dos costumes, dos pontos de vista), nem neutra (já que ela é condicionante ou constringente, já que ela abre aqui e fecha acolá o leque de possibilidades). Não se trata de avaliar os ''impactos'', mas de descobrir o irreversível a que tais usos nos conduziriam, as ocasiões que ela nos permitiria lançar mão e formular os projetos que explorariam as virtualidades de que ela é portadora, de decidir o que faremos com ela. (LÉVY, 1997).

Quando a tecnologia e a técnica são utilizadas com objetivos educativos, elas envolvem três níveis que, apesar de aparentemente independentes, precisam estar integrados para que o processo pedagógico aconteça. São eles: o conteúdo temático ou a ciência específica, os meios de transmissão dessa temática e a dimensão pedagógica que possibilita aos sujeitos participantes do processo de aprendizagem fazer seus, os conhecimentos científicos. Dessa forma, a mediação pedagógica é incorporada à tecnologia e ao conteúdo. (GUTIÉRREZ , 2008). Segundo o autor, as novas tecnologias da informação e comunicação trazem uma pedagogia intrínseca, manifestada por meio do viver, do sentir, do gozar, do interessar-se, do relacionar-se, do querer e do fazer, que são apontados como as sete características pedagógicas das experiências de aprendizagem. As tecnologias digitais propiciam ao ser vivo o aprender como resultado do processo criativo de auto-organização e autoconstrução, conseguido por meio do acesso à informação e ao conhecimento distribuído. Estimulam a sensibilidade e possibilitam a ludicidade própria dos meios eletrônicos, ao mesmo tempo em que suscitam o compromisso. Como tecnologias interativas, as tecnologias digitais são geradoras de relações voluntárias, variadas e significativas, além de estimular o fazer criativo e as novas formas de aprendizagem. Neste trabalho, portanto, as tecnologias representam um processo e um caminho contínuo que não se limita aos meios. Envolve um conjunto de ações propiciadoras da aquisição de conhecimentos e de habilidades, assim como a reunião do saber teórico e prático. Seu uso pressupõe pessoas e códigos simbólicos, como a linguagem, aliados a metodologias e ferramentas de comunicação que fundamentam e operacionalizam o sistema de EAD como um todo. Nesse sentido, com a intenção de promover o conhecimento e a formação ética, moral e profissional do ser humano, é fundamental que haja um diálogo recursivo entre os propósitos educacionais e as tecnologias empregadas. Não existe

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aparato tecnológico eficiente se não for utilizado pelo homem em favor do próprio homem. 3.4. A MEDIAÇÃO PEDAGÓGICA EM AMBIENTES VIRTUAIS DE

APRENDIZAGEM: ESPECIFICIDADES

O professor tradicional

O professor mediador

Centrada no professor

Centrada nas interações

Diálogos, co-construção co-produção de significados Diferentes interpretações da realidade

Estar junto
Professor como oDono da verdade
veiculador de todo o conhecimento Currículo em ação

Negociação significativa conteúdos e processos

O

professor,

como

todo

profissional

atuante,

possui

convicções

epistemológicas e ontológicas que, de forma consciente ou não, influenciam diretamente a sua ação docente e, portanto, servem como base teórica para a escolha de metodologias e de estratégias de ensino, de tipos de avaliação e de interatividade que terão com os alunos e com os currículos. Por isso, é importante lembrar alguns desses construtos apresentados nos capítulos anteriores. O conhecimento não é transmitido, mas construído por cada indivíduo que atribui sentido à sua realidade, de acordo com suas experiências; por conseguinte, não pode estar dissociado do antecedente histórico-cultural do aprendiz e do professor, sendo a representação da realidade feita em termos culturais variados. Esse conhecimento deve ser compartilhado, pois a aprendizagem, embora se constitua um processo individual, é uma construção social que sofre influência de vários fatores externos, como interações interpessoais e grupais.

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O facilitador/orientador/animador pedagógico precisa reconhecer seu papel como mediador, como incentivador da autonomia ampla do aluno. Para isso, deve saber utilizar, dentre outras, estratégias cognitivas e metacognitivas que estimulem a reflexão, a criatividade e a criticidade do aprendiz, assim como precisa orientá-lo a aprender a aprender. Pode incentivar a colaboração com os demais sujeitos, compartilhando objetivos, ideias e conhecimentos por meio da interatividade incessantemente realizada. Não será possível criar ambientes ricos em experiências, inovadores e motivadores de autonomia e de criatividade para o aprendiz, se por trás do desenho instrucional não houver a escolha consciente, a confiança e o saber consistente sobre as teorias que possibilitam tal iniciativa. De forma alguma é possível criar ambientes complexos e coerentes com base em teorias comportamentalistas que não respeitam as diversidades culturais e individuais, os estilos de aprendizagem, as incertezas da realidade viva em constante transformação. Spitzer (apud MUIRHEAD, 1999) observa que os profissionais envolvidos em educação a distância, em grande parte, subestimam as dificuldades em mudar hábitos de professores e alunos e, consequentemente, em mudar de uma sala de aula tradicional para o contexto da aprendizagem a distância. Na formação inicial e continuada do professor, ele ainda é visto como aquele que sabe, que forma e que informa, e assim deixa de perceber o aluno como parte ativa desse processo. “A aceitação do não saber próprio e do saber de nossos alunos é uma dificuldade que se deve muito menos à nossa concordância teórica do que à nossa prática. Somos frutos de um processo que privilegia o conhecimento como forma de manipulação e de domínio [...]” (BRUNO, 2008, p. 84). É justamente essa nova abordagem teórica que será explorada a seguir. De uma forma geral, e em particular no curso analisado nesta pesquisa, os alunos são professores constituintes da geração analógica, que, mesmo estando envolvidos com as novas tecnologias, ainda são imigrantes digitais, enquanto seus alunos (pelo menos boa parte deles) já constituem a Geração Net, são os nativos digitais. Sem esquecer que alguns desses professores sequer despertaram ou interessaram-se em aprender a utilizar essas tecnologias. Ao contrário, por vezes as rejeitam, as temem e as consideram inimigas. Prensky (2001) denomina nativos digitais os indivíduos considerados falantes nativos da linguagem dos computadores, dos videogames e da internet. São aqueles

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que nasceram imersos nas novas tecnologias. Os imigrantes digitais são aquelas pessoas que, nascidas antes da disseminação ampla do computador e da internet, antes do mundo digital, em algum momento de sua vida ficaram fascinados pelas tecnologias e as incorporaram, amplamente ou de forma parcial. Como todo imigrante, eles sempre manterão algum sotaque, ou seja, uma base em seu passado, como ler um manual, por exemplo, ao invés de perceber que o próprio programa digital irá ensinar o manuseio. Essas pessoas foram socializadas de forma diferenciada dos jovens de hoje e precisam aprender uma nova linguagem. É importante lembrar que, por serem adultos, as linguagens aprendidas vão para uma parte diferente do cérebro. Esses professores educaram-se vendo TV, ouvindo rádio, ou lendo jornais e revistas. Ou seja, viveram lidando com meios pouco ou nada interativos, sobre os quais não possuíam nenhum controle, a não ser ligar e desligar, ou simplesmente não ler. Hoje os computadores, aliados ao uso da internet, criaram uma nova cultura para o aprendizado. É a antítese da passividade resultante dos meios de comunicação de épocas anteriores, pois os atuais pressupõem e incentivam a coautoria e a criticidade do usuário, que são habilidades e competências que o jovem atual tende a possuir naturalmente, enquanto o adulto ainda precisa aprender. “Em vez de ouvir algum professor regurgitar fatos e teorias, os alunos discutem e aprendem uns com os outros, tendo o professor como participante. Eles constroem narrativas, que fazem sentido, a partir de suas próprias experiências.” (TAPSCOTT, 1999, p 137). Paralelamente, essa geração é mais independente e resiste ao controle de outros. “Para eles, e-mail é antiguidade”. (Ibid., 2009). Atualmente, por telefone, os alunos conversam, mandam mensagens; em aparelhos de moderna tecnologia, assistem a filmes, documentários, programações variadas, e pesquisam, simultaneamente e com atenção redobrada. É esse o aluno “multitarefa” que o professor vai encontrar em sala de aula e que pode estar disperso diante de um quadro de giz e um professor orador. Em muito pouco tempo, é esse aluno que estará sendo formado nos cursos de pedagogia e de licenciatura. Mas estarão os professores desses futuros professores preparados para oferecer os conhecimentos e as experiências que eles realmente necessitam para dar conta da nova geração? No espaço virtual, em especial, os

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professores e os alunos-professores estarão propensos a transformar seu fazer pedagógico, adaptando-se a esse espaço de aprendizagem tão diverso?

3.5. DO AMBIENTE REAL PARA O AMBIENTE VIRTUAL DE APRENDIZAGEM: PROFESSOR E APRENDENTES COMO COAUTORES O ciberespaço é um espaço de saber estruturado de forma diferenciada dos espaços reais, pois a linguagem é modificada, o texto transforma-se em hipertexto composto por vários nós que derivam em múltiplas possibilidades de sons e de imagens que vão desembocar em uma grande diversidade de caminhos, de tempos e de modos de interação com os objetos do conhecimento e com as pessoas. O hipertexto dá movimento ao texto, às idéias.
O hipertexto, a hipermídia ou a multimídia interativa percorrem um processo já antigo de artificialização da leitura. Se ler consiste em selecionar, esquematizar, construir uma rede de remissões internas ao texto, em associar a outros dados, em integrar as palavras e as imagens para uma memória pessoal em reconstrução permanente, então os dispositivos hipertextuais constituem uma espécie de reificação, de exteriorização dos processos de leitura. [...] O texto é colocado em movimento, tomado em um fluxo, vetorizado, metamórfico. Está assim mais próximo do movimento mesmo do pensamento, ou da imagem que nós dele fazemos hoje. (LÉVY, 1998).

É preciso, então, que professores e aprendizes percebam os espaços virtuais de aprendizagem de forma diferenciada dos ambientes presenciais com os quais estão familiarizados, caso contrário tenderão a manter os métodos e comportamentos semelhantes aos adotados em espaços reais. Serão velhas metodologias em novos meios; por meio delas professores e alunos não serão capazes de compreender as potencialidades desse ambiente, nem de explorá-los criativamente. (PETERS, 2004). Segundo Moraes (2008), a possibilidade de organizadores e professores utilizarem metodologias instrucionistas em ambientes informatizados é grande, pois a maioria deles não conhece a natureza peculiar desses espaços e, consequentemente, não sabe como agir em tais ambientes, que acabam centrados nos conteúdos. As informações são transmitidas de forma tradicional e a interação acontece, em grande parte, de forma individualizada, entre professor e aluno apenas, e não coletivamente.

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Como enfatizam vários autores (PETERS, 2004; PALLOF & PRATT, 2002; LÉVY, 1999a), o ciberespaço deve conduzir ao aprendizado colaborativo, à troca de informações, à autonomia pedagógica inserida em uma ecologia do saber, cognitiva e emocional. Para que isso aconteça, propositadamente, em ambientes virtuais de aprendizagem, o professor precisar saber conduzir discussões, ser criativo, sensível às situações e aos participantes do grupo. Precisa agir como facilitador e mostrar ao grupo a importância e a responsabilidade de cada um para o sucesso individual e do grupo. Tudo isso está diretamente relacionado às estratégias metodológicas criadas para um determinado curso e à sensibilização do grupo para interagir. Diante das diferenças trazidas pelo espaço virtual, “adaptações cuidadosas não serão suficientes.” (PETERS, 2004, p.150). Ainda segundo Peters (2004), espaços reais, tradicionais de ensino e de aprendizagem têm propriedades específicas, como delimitação de espaço e de tempo. Foram criados para proporcionar aos professores e aos alunos um lugar para se encontrarem face a face, para se reunirem. São, portanto, adaptados ao ensino tradicional, ao formato do ensino oral, protegendo os participantes das perturbações exteriores. Possibilitam a proximidade e os alunos absorvem os estímulos por meio de todos os sentidos. Por outro lado, no mundo virtual essas funções tradicionais são transformadas. O espaço limitado de reunião entre professores e alunos desaparece e o mundo, por meio da rede, torna-se acessível a todos; o tempo pode ser atrasado ou adiantado; as pessoas e os objetos são efêmeros e transitórios, flutuam. Não há qualquer ambiente real com o qual os estudantes possam interagir e estabelecer relacionamentos. Os alunos não interagem face a face em grupos, mas têm que entrar em contato com colegas em algum outro lugar; não se falam e não ouvem, mas leem e escrevem. “Estes espaços virtuais de aprendizagem diferem tanto dos espaços reais que um choque de reconhecimento abala qualquer um que reflita atenta e seriamente sobre eles.” (PETERS, 2004, p 152). Apesar do desenvolvimento tecnológico, grande parte da interação entre os sujeitos em um ambiente virtual de aprendizagem ainda acontece por meio da escrita. “A sutileza presente na forma como são tecidas as relações pela escrita pode ser comparada a um trabalho artesanal, especialmente por ser único em sua

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concepção.” Nesses textos, estarão representadas as emoções, o tom do discurso, do diálogo. (BRUNO, 2008, p. 88). Portanto, será preciso que os educadores encontrem propostas teóricas e práticas alternativas ao pensamento pedagógico tradicional e às ações realizadas nos ambientes de aprendizagem. Será necessário encontrar novas formas de atuação e de sensibilização do professor para que ele se torne realmente um mediador da aprendizagem. Há, contudo, alguns paradoxos que precisam ser explorados. Um curso a distância precisa ser bem planejado. Isso significa que deve apresentar objetivos claramente definidos, prazos estabelecidos, metodologias de ensino, material previamente elaborado, professores bem preparados para que possa ser gerenciado, principalmente quando possui um grande número de participantes. Por outro lado, esse planejamento não pode limitar as ações dos mediadores, nem coibir a flexibilidade do curso com vistas a atender às necessidades dos próprios alunos. A experiência acumulada pelos organizadores do curso, gestores e professores os capacita para selecionar conteúdos e estratégias de ensino, estabelecer objetivos e pré-requisitos que considerem mais adequados para os alunos. Contudo, essa experiência não pode ser considerada como verdade absoluta, ou como justificativa para a rigidez pedagógica. Assim, para atender às diferenças e às expectativas tanto de organizadores como de alunos, os cursos precisam ser estruturados com um formato mais aberto, mais dinâmico. Mas para isso, como diz Moran (2007b.), é preciso capacitar os educadores para essa nova relação, que respeita o ritmo de cada aluno e suas habilidades. “Só podemos educar para a autonomia, para a liberdade com autonomia e liberdade.” Outro aspecto importante para o qual é preciso atenção especial por parte dos professores é que, em geral, dos cursos on-line participam pessoas de vários lugares, de diferentes idades, com expectativas profundamente particulares e distintas daquelas dos demais professores. Moran (op. cit.) resume bem a situação:
O aluno não é unicamente nosso cliente que escolhe o que quer. É um cidadão em desenvolvimento. Há uma interação entre as expectativas dos alunos, as expectativas institucionais e sociais e as possibilidades concretas de cada professor. O professor procura facilitar a fluência, a boa organização e adaptação do curso a cada aluno, mas há limites que todos levarão em

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consideração. A personalidade do professor é decisiva para o bom êxito do ensino-aprendizagem. Muitos não sabem explorar todas as potencialidades da interação. Se temos que trabalhar com um grupo, não poderemos provavelmente preencher todas as expectativas individuais. Procuraremos encontrar o ponto de equilíbrio entre as expectativas sociais, as do grupo e as individuais. Quando há uma diferença intransponível entre as expectativas grupais e algumas expectativas individuais, incontornáveis a curto prazo, ainda assim, na educação, procuraremos adaptar flexivelmente as propostas, as técnicas, a avaliação (prazo maior, diferentes formas de avaliação).

Ao mesmo tempo em que há individualidades, há um grupo social em formação, por isso é preciso criar uma inteligência coletiva. “Em um coletivo inteligente, a comunidade assume como objetivo a negociação permanente da ordem estabelecida, de sua linguagem, do papel de cada um, o discernimento e a definição de seus objetos, a reinterpretação de sua memória.” (LÉVY, 1999a , p. 31). Assim, os cursos precisam destinar um tempo inicial para que os mediadores conheçam seus estudantes e para que estes conheçam a si próprios, em seus processos matemagênicos e mesmo em seus desejos, limitações e ansiedades. Com esse objetivo, a utilização de estratégias de aproximação é fundamental, pois “todo ser se desenvolve (ou se transforma) dentro de si mesmo, no jogo de suas contradições. Os condicionamentos externos, ainda que necessários, só são eficientes se coincidem com aquelas potencialidades.” (FREIRE, 1987, p. 133, apud ARNT, 2008, p. 100). Vale sempre lembrar que as ações pedagógicas devem estar centradas nos alunos, seja na sala de aula tradicional ou no ambiente virtual. Mais importante do que ensinar é perceber se o aluno está aprendendo o que se pretende ensinar e aquilo que ele espera aprender. O mediador, em cursos on-line, pode apresentar o conteúdo programado, ao mesmo tempo em que introduz novos materiais que estejam sendo percebidos como necessários. Ao solicitar que os participantes disponibilizem seus próprios textos e apresentem suas histórias de vida, o mediador incentiva a contextualização da aprendizagem, bem como favorece o desenvolvimento da autonomia e da responsabilidade dos aprendizes, como indivíduos e como coletividade. No caso do aluno que é adulto e professor, é fundamental a discussão em torno das práticas docentes experimentadas por ele. Cria-se, dessa forma, um laço social a fim de

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suscitar “coletivos inteligentes e valorizar ao máximo a diversidade das qualidades humanas.” (LÉVY, 1999 a., p. 32, grifo do autor). Palloff e Pratt (2004) sugerem que para transmitir conteúdos sem prejudicar a interatividade e a formação real das comunidades de aprendizagem, o professor deverá aprender a fazer perguntas mais amplas, que provoquem a reflexão dos alunos, pois além de respondê-las, eles precisarão discuti-las. Por meio do diálogo e da interatividade entre alunos e professores, criam-se verdadeiras comunidades de aprendizagem. Dessa forma, os três espaços de atuação em ambientes virtuais apontados por Schulmeister – espaço das representações, espaço semântico e espaço das ocorrências - serão contemplados e explorados, promovendo, dessa forma, a aprendizagem, a criatividade e a solidariedade. Os professores mediadores de cursos on-line precisam, também, estar atentos aos estilos de aprendizagem existentes no grupo. Como adultos, talvez eles mesmos possam dizer qual a metodologia que mais os agrada ou que facilita a aprendizagem. Entretanto, sendo o computador e a internet tão ricos em recursos audiovisuais e em simulações, seria frustrante a utilização de apenas um tipo de atividade ou de uma única forma de apresentação de conteúdos. Quanto mais oportunidades forem dadas aos alunos para que explorem o ciberespaço confrontando idéias, resumindo, organizando e debatendo, mais autonomia e mais controle sobre sua própria aprendizagem eles terão.
As webs constituem um entorno em que é possível desenvolver uma aprendizagem exploradora ou descobridora, que favorece processos de integração e contextualização em um grau dificilmente alcançado com as técnicas lineares de apresentação. (GUTIÉRREZ, 2003, p. 38).

Os recursos escolhidos e as ferramentas disponibilizadas também têm forte influência no processo de mediação pedagógica e de interação digital, pois o próprio desenho do ambiente de aprendizagem pode interferir facilitando ou dificultando as interações e a mediação desejada. As abordagens pedagógicas utilizadas nos ambientes virtuais e o estilo de mediação escolhida traduzem a intencionalidade central dos organizadores. (BRUNO, 2008). Se o professor, por exemplo, se percebe como parte do grupo e não como senhor desse grupo, provavelmente estará junto virtualmente de seus alunos, acompanhando-os durante todo o seu processo de aprendizagem, e fará da

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mediação pedagógica uma estratégia básica para a formação de cada aluno e do grupo como inteligência coletiva. Nessa mesma direção, Pesce (2004) aponta que há diferentes possibilidades de mediação pedagógica, consideradas por ela como categorias. São elas: afetiva, praxiológica, conceitual conclusiva, conceitual que pede avanços frente ao solicitado na questão, de convite ao fórum, de convite à exploração de sites e sem intervenção. Essas escolhas ou ocorrências em ambientes virtuais de aprendizagem podem indicar que há uma dialogia digital acontecendo entre os participantes, professores e alunos. Numa aproximação entre Bakhtin e Freire, por meio dos conceitos de dialogia e interação dialógica, respectivamente, Pesce (2005) explica que para Bakhtin “a dialogia ocorre quando a interação entre os sujeitos favorece a constituição mútua de ambos, em devir; por isso, constrói-se numa relação horizontal, que refuta a diretividade de um sobre o outro”. Para Freire, a interação dialógica acontece na constituição mútua entre formador e formando, construída por meio das etapas metodológicas de investigação temática, da tematização do conhecimento articulada à realidade vivida e da problematização do conhecimento. Pesce (2004) enfatiza que nos cursos de formação de educadores em AVAs é importante que a interação digital privilegie a reflexão do educador sobre os conceitos trabalhados e sobre o próprio percurso no curso. É importante, também, que ele reflita sobre o contexto educacional onde exerce suas funções e sobre a influência desse contexto na atribuição de significado ao objeto do conhecimento em questão, em uma estreita articulação entre conceitos e vivências de cada sujeito. Bruno (2008) propõe que a mediação seja partilhada, construindo-se uma parceria entre o formador-pesquisador e os alunos-pesquisadores iniciantes, sem, contudo, perder de vista a especificidade do papel que cada um dos atores possui no processo de aprendizagem. Esse tipo de mediação permitirá que os alunos, em certos momentos, principalmente nos casos em que há a emergência de uma liderança, tornem-se também mediadores, ampliando e fortalecendo o próprio papel do mediador. Bruno (2008) ressalta a importância da linguagem emocional: aliada ao estilo de mediação, ela dá o tom às conversas que acontecem por meio da escrita, contagia os sujeitos que participam desse ato comunicativo, é condutora de reações.

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O mediador, em sua interatividade com os participantes, pode ser mais afetuoso, ou mais objetivo, dependendo do grupo e da sua sensibilidade. Nesse sentido, a mediação partilhada requer não só que o mediador esteja atento às necessidades do grupo, mas que esteja disposto a reconstruir constantemente sua mediação.
As estruturas do pensamento emergem a partir de ações e reflexões que acontecem como resultado de uma cooperação global do organismo, na qual a emoção desempenha um papel fundamental na reconfiguração da aprendizagem, como potencializadora de dinâmicas operacionais que influenciam a qualidade e da ação desenvolvida. (MORAES, 2008, p.49).

Por tudo o que foi discutido, considera-se que em uma realidade considerada ecologicamente constituída, a aprendizagem, como construção individual e coletiva, tende a ser o resultado das emergências surgidas por meio da interatividade e do diálogo das subjetividades em suas relações com os objetos do conhecimento. Nessa perspectiva, acredita-se que os operadores cognitivos da complexidade podem contribuir para que todas essas relações e produções aconteçam de forma mais natural. No próximo capítulo serão apresentados os dados sobre o curso e as categorias de análise a serem utilizadas, e no capítulo V os resultados da pesquisa.

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CAPÍTULO IV

A PESQUISA

4.1. AS CATEGORIAS DE ANÁLISE SELECIONADAS Nesta pesquisa, os operadores cognitivos propostos por Morin foram utilizados como categorias de análise, numa tentativa de compreender as práticas docentes como mediação pedagógica em um ambiente virtual de aprendizagem, à luz da complexidade e do pensamento ecossistêmico. É oportuno lembrar que, segundo o modelo misto proposto por Laville e Dionne (1999), essas categorias definidas a priori poderiam ser modificadas, ampliadas ou reduzidas, como resultado das emergências e das descobertas de outros elementos significativos durante a análise do caso. Como a mediação pedagógica em cursos on-line acontece, prioritariamente, por meio do computador e de suas ferramentas comunicacionais, o desenho do ambiente de aprendizagem com suas interfaces também foi observado, assim como os materiais didáticos e objetos do conhecimento disponibilizados no ambiente. As interações entre os sujeitos participantes e a dialogicidade foram estudadas por meio da análise de alguns fóruns escolhidos dentre os vários que aconteceram. Como dito na delimitação da pesquisa, o foco central foi a maneira como a mediação pedagógica foi realizada dentro de ambiente virtual de aprendizagem. Contudo, o enfoque ecossistêmico indica que, ao isolarmos as partes do todo, os elementos perdem o seu significado. Portanto, outros componentes do curso, apesar de não terem sido estudados detalhadamente, precisaram ser abordados para uma melhor compreensão do processo.

4.2. PROCEDIMENTOS PARA OBTENÇÃO DOS DADOS Utilizou-se basicamente a análise documental, que incluía reflexões sobre o planejamento e sobre as atividades que aconteceram na plataforma e que estavam registradas em arquivos.

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Inicialmente, com o objetivo de compreender quais foram as bases ontológicas, epistemológicas e metodológicas que definiram as escolhas procedimentais do curso, analisou-se o projeto que foi apresentado pelos gestores ao órgão estadual responsável pela capacitação de professores. Esse material foi importante como fonte para avaliação da coerência do planejamento e para verificar se os pressupostos teóricos foram concretizados no decorrer do desenvolvimento da ação, atendendo ao princípio hologramático que indica a necessidade de que os posicionamentos teóricos estejam refletidos no planejamento e de que as informações possam ser acessadas por todos os participantes. Finalizada essa etapa, foram analisados os registros das apresentações feitas pelos professores/cursistas nos fóruns, tentando identificar seus perfis profissionais e pessoais, suas expectativas e necessidades, além dos seus conhecimentos prévios, relativos, principalmente, à metodologia utilizada, ao uso do computador e da internet, e ao conteúdo teórico do curso. Essas ações procuraram atender ao operador cognitivo hologramático que integra o indivíduo, a sociedade e a natureza, reconhecendo que cada elemento contém o todo e que o todo está contido em cada elemento. Da mesma forma, respeita o princípio da reintrodução do sujeito cognocente no processo de construção do conhecimento, pois considera sua história de vida e sua capacidade de imaginar, mas também de objetivar. Os fóruns de discussão também foram utilizados como fontes de análise, pois são espaços criados em cursos a distância justamente para que os diálogos e a mediação didática e cognitiva possam acontecer. As falas e as interações ocorridas nesses espaços comunicacionais podem indicar se as ações de mediação foram, ou não, sustentadas nos operadores cognitivos da complexidade. As conversas podem levar aos momentos de retroatividade, recursividade e auto-organização individual e do sistema como um todo complexo. Todos esses procedimentos foram realizados com a intenção de atender aos objetivos propostos pela pesquisa, quais sejam: identificar os operadores cognitivos da complexidade presentes, ou não, no planejamento do curso, no tipo de plataforma virtual, nas interações que ocorrerem em fóruns e chats, nas atividades propostas pelos orientadores e na mediação pedagógica; verificar de que maneira tais princípios podem enriquecer os olhares nos processos de construção do conhecimento; e verificar limites e possibilidades de utilização dos operadores cognitivos em todas as

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fases do curso. Tudo isso, com o objetivo maior de verificar a possibilidade de os operadores cognitivos do pensamento complexo propiciarem condições para a ressignificação do processo de mediação pedagógica em ambientes virtuais de aprendizagem.

4.3. ANÁLISE DOS DADOS OBTIDOS A ideia inicial era analisar um curso que, apesar de já ter sido finalizado, oferecesse em arquivo (backup) o material completo (como textos, vídeos, chats e todos os fóruns ocorridos). No entanto, parte desse material, incluindo alguns fóruns que poderiam oferecer excelentes dados para análise, foi perdida. Ainda assim, após uma avaliação inicial, foi possível perceber a riqueza do curso, o preparo de algumas mediadoras com relação aos conteúdos, além da presença clara dos operadores cognitivos permeando seus discursos e suas ações, ainda que não de forma constante. Diante disso, optou-se pela continuidade do trabalho, de acordo com o pressuposto de que o método é um processo de construção consciente, de caráter dinâmico, processual e inacabado, que, diante da percepção de emergências surgidas, admite a possibilidade de mudanças e avança de forma recursiva e autoorganizacional. É importante ressaltar que o curso foi planejado para acontecer na modalidade híbrida, ou seja, com encontros presenciais ao longo do período, os quais, certamente, enriqueceram e ampliaram as possibilidades de aprendizagem individual e de interação entre os participantes do curso. Como não foi possível ter acesso à documentação completa dos encontros, as observações basearam-se somente nos registros disponíveis na plataforma de aprendizagem e em alguns outros documentos, gentilmente cedidos pela coordenadora do curso.

4.3.1. Do projeto do curso de formação (Anexo1) Na metodologia proposta para o curso, foi possível perceber o cuidado em permear de emoção, além de informação, os processos de ensino e de

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aprendizagem, considerando-os aspectos da inteireza humana e, portanto, vendo-os como concomitantes, entrelaçados e interdependentes. O posicionamento teórico que considera o sujeito em sua integralidade e a aprendizagem como um processo coeso, indissociável, que valoriza o diálogo e a aprendizagem colaborativa, pode ser observado nas afirmações abaixo, constantes do projeto:
Na metodologia do curso, tanto em atividades presenciais como a distância, estão previstos trabalhos que permitam a incorporação da dimensão emocional junto à cognitiva e à pragmática. Apropriação e manipulação de diferentes linguagens, valendo-se de elementos imagéticos, musicais, expressões cênicas, de modo a proporcionar interfaces mais adequadas de criação e comunicação. Leitura, análise, discussão e elaboração de um artigo, com base no texto “O que é um grupo?”, de Madalena Freire. (atividade proposta para o primeiro encontro presencial). [...] nos fóruns do Moodle: conversa sobre as expectativas e discussão sobre o texto “O que é um grupo?” (atividade proposta para o módulo 2).

Os fóruns de discussão para todos os módulos foram concebidos e propostos como espaços de integração, reflexão e formação de comunidades colaborativas. A ambientação com a plataforma moodle (ambiente virtual de aprendizagem) foi prevista para acontecer somente no módulo II, assim como as oficinas de Windows e internet, o que talvez tenha prejudicado o andamento do curso, principalmente em seu início. Teria sido interessante planejar um tempo adicional, anterior ao início do curso propriamente dito, para discutir com os professores cursistas a dinâmica do uso da internet e para incentivá-los em sua autonomia na busca do conhecimento. Esse período serviria para capacitá-los técnica e pedagogicamente para a utilização dos fóruns e tudo o mais que fosse percebido como necessário para facilitar os processos de ensino e de aprendizagem tanto de cursistas quanto de formadoras. Se mediar é facilitar e criar condições para que a aprendizagem aconteça de forma natural e prazerosa, é preciso oferecer “conforto” ao aprendiz para que ele se sinta motivado a continuar e a superar os momentos mais turbulentos. Nesse sentido, teria sido interessante fazer um diagnóstico sobre os conhecimentos prévios dos cursistas relativos ao uso do computador e da internet.

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A percepção dos diferentes estilos de aprendizagem, que poderia contribuir para um maior entrosamento com os participantes e consequente individualização (não confundir com individualismo) do curso, não foi mencionada. Contudo, houve previsão para o uso de diferentes recursos semióticos e didáticos, por parte tanto do mediador como do aprendiz. Foram previstos vídeos, áudios, textos didáticos e poéticos, os quais, de certa forma, poderiam possibilitar o atendimento a esses diversos estilos:
[...] objetivando propiciar o comprometimento com a educação para a vida, através de recursos e estratégias multissensoriais, oferecidos pelas mídias e tecnologias da informação e comunicação, de modo que a palavra seja enriquecida com imagens, músicas e expressões corporais, bem como processos mais adequados e desafiantes de aprendizagem.

Parece ter havido intenção, também, de compartilhar e co-construir com os alunos os objetivos, os conteúdos e as estratégias didático-pedagógicas do curso, como demonstrado pelo texto retirado do planejamento do curso:
Pretende-se elaborar o planejamento conjunto de ações, para vivência com os alunos, discussão e análises, através do ambiente digital, proporcionando a troca de experiências entre professores-alunos, das escolas dos diferentes estados do Brasil.

Contraditoriamente, no item 8 do planejamento para o primeiro encontro presencial − “dinâmica da atividade e proposta preliminar dos módulos” − não houve menção à possibilidade de discussão do curso de forma mais ampla, como, por exemplo, dos objetivos desejados, das expectativas e das necessidades dos próprios professores/cursistas, mas tão somente a apresentação da proposta. Essas práticas caracterizariam o princípio da reintegração do sujeito no processo de construção individual e coletiva do conhecimento a partir de suas histórias, de seus objetivos, de suas realidades. As atividades previstas foram as seguintes:
Presencial (aula inaugural): - abertura com a apresentação do Projeto Sentipensar; - apresentação dos participantes e da proposta do curso; - formação do grupo – vínculos para a parceria; - criação de e-mails.

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A distância: - utilização do ambiente colaborativo de aprendizagem Moodle, para registro da apresentação dos participantes; - leitura, análise, discussão e elaboração de um artigo, com base no texto “O que é um grupo?”, de Madalena Freire.

No projeto, para todos os módulos foram propostas atividades que contemplassem tanto as aprendizagens individuais quanto grupais, enfatizando a troca de experiências entre os participantes, inclusive de diferentes estados, o que demonstra a intenção de ampliar as discussões e as vivências dos professores envolvidos no curso. O próprio tema a ser discutido no fórum, “aprendizagem integrada”, demonstra essa intenção, como pode ser observado a seguir:
elaboração (em grupo) de mapas conceituais, representação de conceitos através da imagem visual; registro, no diário de bordo, dos avanços e dificuldades encontradas durante o presente módulo; discussão, no fórum, sobre “aprendizagem integrada”; levantamento, por meio de documento(s), de atividades desenvolvidas pelos professores que contemplem a aprendizagem integrada; planejamento, juntamente com os alunos, de atividades ou miniprojetos que tenham como base o Sentipensar (criação de cenários) e contemplem as mídias e TICs; intercâmbio entre os professores de Sergipe e Mato Grosso, utilizando o ambiente digital de aprendizagem Moodle.

A elaboração de mapas conceituais de forma colaborativa enfatiza o princípio dialógico, pois pode propiciar o contraste de ideias, a análise e síntese dos pontos comuns e divergentes, tentando com isso atingir o terceiro incluído, ou seja, uma possibilidade nova, emergente das próprias contradições. O intercâmbio entre professores de diferentes estados e, portanto, de realidades diversas, promove a alteridade e incita o princípio ético, de respeito ao outro. O diário de bordo foi proposto, em todos os módulos, como um espaço em que os cursistas registrariam as dificuldades e os avanços conseguidos. Segundo o planejamento, esse tipo de atividade subsidiaria posterior elaboração de artigos

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coletivos e colaborativos, com o propósito de desenvolver a criatividade e autoria dos professores participantes na formação. Poderia propiciar, também, por meio da autoavaliação, a reflexão ativa sobre os processos matemagênicos individuais, o que acaba por produzir a auto-organização. A atividade de elaboração do miniprojeto, que requer a aplicação dos conceitos aprendidos sobre o Sentipensar e o uso das tecnologias, evidencia o princípio sistêmico-organizacional, uma vez que integra as partes ao todo. Foi possível perceber, no planejamento, a intenção de unir a prática e a teoria em um caminhar contínuo, pois, frequentemente, a todo material apresentado para leitura ou observação, segue-se uma discussão voltada à produção de um projeto ou de um relato de experiências. Assim, pode-se concluir que, pelo menos no planejamento, os operadores cognitivos foram evidenciados, embora nem todos fossem atendidos com a mesma intensidade.

4.3.2. Das Informações iniciais sobre a metodologia do curso A primeira mensagem enviada pela coordenação do curso esclareceu para os professores/aprendizes que o curso teria uma carga horária total de 100 horas, compostas por um encontro presencial por mês, de quatro horas, acompanhando a mudança de módulos. Seriam, assim, totalizadas 28 horas presenciais e 72 horas a distância com atendimento on-line via Messenger. Ainda nesse texto, recomendou-se que os cursistas tivessem quatro horas semanais de estudo, divididas em 20 minutos diários. Aqui, percebe-se, novamente, certa desatenção com relação às possíveis realidades dos cursistas. Não houve, pelo menos pelos documentos analisados, um espaço para que cada cursista procurasse definir seu próprio tempo, que poderia ser diferente daquele proposto pelos professores mediadores. Por meio desse espaço e do decorrente diálogo, os mediadores já poderiam ter feito algumas alterações iniciais. Será que todos os cursistas dispunham do tempo indicado? Será que 20 minutos diários seriam suficientes para todos, ao invés de 40 minutos em dias alternados, ou de alguma outra solução?

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A avaliação seria feita com base na interação dos participantes, nas atividades individuais e colaborativas propostas, nos recursos do ambiente e na apresentação dos trabalhos solicitados. Nessa mensagem inicial, a coordenação procurou criar um clima solidário e valorizar a formação de uma comunidade como fator facilitador da aprendizagem:
Acreditando que o clima de parceria favorece a aprendizagem, nos vem a certeza de que ergueremos aqui uma comunidade virtual naturalmente caracterizada pela solidariedade, onde a liberdade de expressão de nossos pontos de vista prevalecerá, pensando no convívio harmonioso e saudável entre os participantes. Desejamos, enfim, sucesso a todos nesta nova jornada e um grande abraço! (coordenação)

Até esse momento, a turma contava com 60 alunos. A primeira atividade, que fazia parte do que a coordenação chamou de “introdução”, foi incentivar os cursistas a se apresentarem no fórum geral “Quem somos nós?” e a criar o perfil individual. Também foram criados os fóruns “café”, indicado para papos informais, o “tira dúvidas” e o “suporte técnico”. Feito isso, a turma inicial foi dividida em duas e dentro de cada uma delas formaram-se cinco grupos para a realização da primeira tarefa proposta para o módulo I:
ATIVIDADE 1 Leitura do texto e participação no bate-papo, no fórum O que é um grupo?. Saiba que sua opinião contribuirá para a compreensão dos conceitos abordados no texto, além de ampliar a interação entre os parceiros. Prazo da atividade: até 23/03/2006. ATIVIDADE 2 A partir da leitura do mesmo artigo e das idéias que surgiram no bate-papo da Atividade 1, vamos exercitar a elaboração da escrita colaborativa, construindo em equipe um texto sobre “grupo”, a ser apresentado no fórum indicado. Para isso, no entanto, procurem conversar no fórum, para que todos nós possamos acompanhar as discussões. Prazo da atividade: de 24 a 30/03/2006. ATIVIDADE 3

Queiram reconstruir o texto "O que é um grupo?", com imagens (desenhos, fotografias etc.), utilizando os recursos tecnológicos de sua afinidade ou domínio, como o PaintBrush e outros editores de imagens. Prazo da atividade: 31/03 a 06/04.

Percebe-se que houve a intenção de conectar as três atividades, sempre alinhavadas pela participação nos fóruns, começando pela leitura do material, depois pela discussão, seguida da ação realizada por meio da construção de um texto. Essa

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proposta finaliza com a oportunidade de recriar aquele conhecimento, agora de forma diferenciada, por meio de outros sentidos e de outras linguagens, como a icônica. Essas estratégias demonstram que os operadores cognitivos estão presentes. A leitura individual do texto, aliada à discussão e à produção individual e coletiva, evidencia a presença de vários operadores cognitivos, principalmente o princípio auto-eco-organizacional, pois cada cursista poderia autoproduzir-se não só a partir das suas próprias reflexões sobre o texto, mas também da convivência com os outros, isso tudo acontecendo de forma recursiva e dialógica. O encontro presencial aconteceu no dia 7 de março. A partir desse dia - e até o dia 31 - os alunos precisaram realizar todas as atividades listadas, incluindo o contato inicial com a plataforma e a familiaridade com a metodologia. Destaca-se que já no primeiro módulo encontravam-se tarefas que requeriam certa experiência no uso da ferramenta “fórum”, de programas de autoração, assim como motivação e gosto para trabalhar em equipe. Estaria o grupo preparado técnica e emocionalmente para tudo isso? No módulo II são propostas aos cursistas as seguintes atividades:
ATIVIDADE I (de 18 a 24 de abril) Leia a carta-convite que introduz nossa 'metodologia' especial para este módulo; leia o texto de Maria Cândida Moraes - Sentir, pensar e educar, e participe do fórum: Questionamentos sobre o sentipensar. ATIVIDADE II (de 25 de abril a 02 de maio) Discussão dos fundamentos do sentipensar. No fórum Questionando o Sentipensar, através dos questionamentos de vocês, vou apresentar alguns dos fundamentos do Sentipensar. Por isso, continuem participando, lendo e comentando as opiniões/questões dos colegas, acrescentando seus próprios pensamentos, práticas, experiências. Assim, buscamos em conjunto a compreensão dos conceitos contidos no texto lido. Nova leitura: Diálogo entre o Sentir e o Pensar, escrito por Saturnino de la Torre, professor da Universidade de Barcelona. Esta leitura deverá incrementar nossa conversa no fórum Questionando o Sentipensar. ATIVIDADE III (de 03 a 09 de maio) Leitura do texto O ser vivo. Produção de um texto individual com suas reflexões sobre o texto lido, que será enviado através do Fórum Produção Individual – “O ser vivo”. O fórum Dúvidas - O ser vivo está aberto para esclarecimentos sobre o texto.

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ATIVIDADE IV (de 10 a 17 de maio) Análise do texto O ser vivo. Elaboração de um mapa conceitual no Word (individualmente ou em equipe), com base nos conceitos observados no texto “O ser vivo”, conforme estudamos no 3º encontro presencial. Após o mapa construído, anexem o arquivo no fórum intitulado Mapas conceituais.

Ao se estabelecerem as tarefas com datas rígidas para cada atividade, impediu-se, de certa forma, o fluxo de tempo necessário a cada participante do curso, os seus tempos kairóticos. Os cursistas eram, em sua maioria, professores que atuam em tempo integral, os quais, além de estarem realizando o curso, continuavam com seus afazeres docentes. Por outro lado, não se pode esquecer que havia um curso a ser gerenciado, que recebeu financiamento do Estado e que tinha um prazo para acontecer, pois era necessário prestar contas do mesmo até uma data previamente fixada. Como se vê, o tempo cronológico também precisa ser cumprido nos eventos de formação docente. Assim, o estabelecimento de metas é fundamental para o compromisso do grupo como tal, mas poderia ter sido mais negociado, já que a proposta apresenta um caráter dialógico como sendo fundamental? Ainda sob o olhar do operador dialógico, seria possível conciliar esses tempos tão distanciados? Quanto ao módulo III, foram solicitadas as atividades especificadas a seguir.
ATIVIDADE 1: Então? Vamos nos deliciar com a leitura e reflexão dos textos de Saturnino: O Festival dos sentidos e o Mar da Bahia? E agora? Podemos continuar refletindo sobre os textos através dos dois fóruns indicados abaixo? Vamos em frente... ATIVIDADE 2 A partir de agora vamos nos dedicar à escrita do Projeto que será aplicado em sala de aula. Os textos lidos, até o momento, serão o suporte para a elaboração da atividade, eles fundamentarão a proposta de vocês. Lembrem-se: trata-se de um trabalho a ser desenvolvido em grupo; portanto, leiam, discutam, conversem bastante, pesquisem, perguntem... e mãos à obra. Os grupos deverão ser formados espontaneamente, de acordo com as afinidades pessoais e temáticas. Por favor, enviem para o fórum (Elaboração do mini-projeto), com certa urgência, os nomes dos componentes das equipes. O modelo para a elaboração do mini-projeto encontra-se [...] Para esclarecimentos de todas as dúvidas e orientação para a produção do trabalho, dirijam-se ao fórum “Elaboração do mini-projeto”. Teremos tempo suficiente para providenciar a proposta. O prazo para entrega do projeto será até dia 19 de junho. Estamos torcendo pelo sucesso de vocês! Vamos lá!

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ATIVIDADE 3 Após sessão do filme-documentário "Quem somos nós?", projetado no encontro presencial de 21 de junho, vamos agora dar continuidade ao bate-papo conduzido, utilizando o fórum do mesmo nome.

Nos fóruns do módulo III continuaram as discussões acerca de um dos textos trazidos no módulo II, mas as atenções já estavam voltadas para a construção dos miniprojetos a serem apresentados pelos grupos. Ressalte-se que todas as atividades foram permeadas pela necessidade de participação dos cursistas nos fóruns, tanto nos fóruns comuns a toda a turma quanto naqueles intragrupos. Houve a introdução de uma nova linguagem de comunicação por meio do vídeo “Quem somos nós”, e sobre ele também foi criado um fórum. Os princípios hologramático, recursivo e dialógico certamente estavam presentes, interligando as atividades. O fato de se permitir aos cursistas que formassem seus grupos, no curso que analisado, demonstrou a confiança que as mediadoras neles depositavam, ao mesmo tempo em que incitava a autonomia desses alunos/professores que, apesar da sobrecarga do trabalho docente cotidiano, procuram participar de processos de formação continuada que contribuam para uma ação pedagógica de real qualidade. Para os módulos IV e V foram propostos, no planejamento, discussões sobre o tema aprendizagem integrada, planejamento das atividades ou miniprojetos, além do registro no diário de bordo do andamento dos trabalhos de cada um. Mas, infelizmente, esses arquivos não foram recuperados.

4.3.3. Impressões a partir dos fóruns iniciais “Tira dúvidas” e “Quem somos nós” A análise desses fóruns foi realizada como estratégia para melhor conhecer o perfil dos cursistas, seus conhecimentos prévios sobre os assuntos abordados e suas competências com relação ao uso do computador e da internet. Essa análise fez-se necessária em face da impossibilidade de acesso às fichas de inscrição preenchidas pelos professores/cursistas ou de outras fontes de informação a esse respeito. Todavia, ainda que tivesse visto essas fichas, elas não seriam tão esclarecedoras, pois pelo modelo que me foi fornecido, não constavam itens que procurassem contextualizar a experiência dos cursistas com relação à navegação na internet, ao uso do computador ou ao tipo de conexão de que cada um dispunha.

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Para um formador, ter habilidade e acesso à internet seriam pré-requisitos para poder participar no curso, no entanto, parece que esse critério não foi de todo atendido. Afinal, habilidade e acesso são palavras que podem ter diferentes significados, dependendo da realidade experimentada por cada pessoa e, em especial, por cada cursista. Boa parte dos professores/cursistas trabalhava nos laboratórios de informática de suas escolas. Alguns estavam em sala de aula, outros não. Ainda assim, pelo que foi colocado no fórum de apresentação “Quem somos” e no fórum “Tira-dúvidas”, com experiências bastante distintas. Houve considerável variação com relação às habilidades e às competências no uso do computador e da internet, o mesmo acontecendo com o acesso ao próprio computador e à internet, já que alguns cursistas possuíam conexão banda-larga, enquanto outros tinham a do tipo discada, como exemplificado a seguir:
Quando descobri que poderia utilizar o computador como uma ferramenta pedagógica, fiquei maravilhada. Comecei a buscar conhecimentos12 nesta área e nunca mais parei. Trabalhei na FUTUREKIDS, que é uma franquia internacioanal de informática educativa, tive - com meu pai - uma escola de informática básica em N. S. da Glória, já fiz diversos cursos, inclusive uma disciplina isolada de mestrado na UFS - As Novas Tecnologias na Educação. Ultimamente estava (estou trabalhando) com o software livre - LINUX. Está sendo um novo desafio e novos aprendizados” (Prof. S). Tenho trabalhado com inovações tecnológicas na educação desde o início da década de 90, tem sido uma experiência muito rica uma vez que me permitiu conhecer possibilidades pedagógicas com uso da televisão e do computador, com maior ênfase no computador numa perspectiva construtivista, vislumbrando possibilidades de aprendizagem altamente significativas para a construção do conhecimento. Participei do Proinfo (Programa Nacional de Informática na Educação) do MEC, como Multiplicador e Técnico de Suporte do NTE de Aracaju ligado a DITE/DED/SEED, atualmente estou prestando serviço a SEMED Aracaju no Setor de Tecnologia Educacional. (Prof. N)

Em 2004 e 2005 trabalhei na sala de informática desenvolvendo vários projetos, um deles inclusive foi apresentado no Workshop "Comunicar é aprender". Mas infelizmente os projetos foram interrompidos ano passado devido ao roubo de 14 computadores. È muito triste e revoltante a falta de providência das autoridades competentes, pois são conscientes da realidade que caracteriza o bairro Santa Maria. Hoje só temos o espaço físico da sala de informática que está se transformando em uma biblioteca. Mas a diretora já conseguiu dez computadores faltando apenas agora investir em segurança. (Prof. Su)
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Os equívocos datilográficos, gramaticais e ortográficos ocorridos nas falas dos participantes do curso serão preservados com o intuito de manter a fidelidade ao perfil e ao discurso de cada um.

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A escola não possui um laboratório de informática, mas já estamos trabalhando com um micro na secretaria. Isso é um começo bem interessante. (Prof. W). Minha expectativa com relação ao curso, é que eu aprenda a utilizar esse meio de comunicação e consiga passar minhas experiências para meus alunos. (Prof. MJ).

A falta de experiência anterior com essa metodologia, que tem no uso do computador e na interação por meio de fóruns de discussão suas principais ferramentas de aprendizagem e de comunicação, também pareceu ter sido um ponto prejudicial ao sucesso dos participantes, apesar de alguns deles, mesmo com dificuldades, estarem empenhados em aprender, pelo menos no início do curso. Exemplos dos estados emocionais dos cursistas retirados do fórum “Tira Dúvidas”, no primeiro mês:
Eu não tô conseguindo entender como estou me saindo no curso, pois eu não tenho computador e não consigo participar sempre. (Prof. I, 25 março 2006) Estou me sentindo perdida nesse mundo virtual. No 1º dia que acessei, copiei o texto, li e não entendi o que era para fazer. Devo ressaltar que gostei muito do texto. A medida que eu ia lendo, eu o achava muito familiar, pois sempre nos deparamos com pessoas em grupos que convivemos, com características bem semelhantes as que são colocadas no texto. Bem, parece que eu também sou uma representante do silêncio. Estou me sentindo um peixe fora d'água e eu não gosto de me senti assim. Porém, estou gostando da experiência, porque assim, estou sentindo na "pele", o que meus alunos devem senti quando não estão entendendo as minhas explicações e os meus objetivos em sala de aula. (Prof. ML, 28 março) Estou sentindo muitas dificuldades, nos debates, na comunicação com os demais, não sou conhecida entre os participantes, estou mim sentindo neste grupo um representante do silêncio, mas não gosto disso, quero ser parte integrante de alguns papeis que constitui um grupo. Mas com ajuda de voces sei que chego lá.(Prof. ED, 28 março). Estou me sentindo perdida no labirinto do mundo virtual, gostaria que você me desse algum toque com relação ao desempenho das atividades; estou me sentindo disconectada do meu grupo, necessitando portanto de subsídio para construção do texto proposto. (Prof. MS, 30 março). É o primeiro curso que faço com recurso das midias digitais, por isso as vezes fico meio sem saber como desenvolver certos trabalhos como o deste 2 modulo. Meus acessos são feitos do lab da universidade e só poderei retornar na 2. feira dia 3, quando ja deveria estar fechado o texto

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final. Gostaria que vc me ajudasse a entender coisas como qual o tamanho do texto ? (Prof. IF, 31 março).

É preciso destacar a prontidão do atendimento e a afetividade com que as mediadoras procuraram esclarecer as dúvidas. Nas respostas dadas, ofereceram feedback às questões colocadas por cada cursista, analisando os pontos positivos e sugerindo modificações. Atenderam, assim, aos princípios da retroatividade e dialógico. Não foi possível identificar, contudo, o movimento espiral do princípio recursivo, pois os cursistas não retornaram ao fórum, volitivamente, após as intervenções feitas pela mediadora ou pelos colegas, ou incentivados pelos questionamentos propostos. O feedback indicado pelo princípio retroativo, como dito anteriormente, pode manter o estado existente ou, se realizado com intenção transformadora, competências. Talvez, esse fosse o momento para fazer uma parada obrigatória, para escutar o que silencia, para recolocar o barco no trajeto imaginado. Pelo princípio sistêmicoorganizacional, quando o sistema desequilibra-se e alguns elementos do conjunto não estão produzindo os efeitos necessários, é preciso retroagir e reorganizar, para poder equilibrar, e caberia ao mediador orientar essa reorganização. No caso do curso ora analisado, as dificuldades com a tecnologia parecem ter sido uma peça importante que precisava de atenção. No fórum “Tira dúvidas” houve, em alguns momentos, a oportunidade para que as mediadoras buscassem a interatividade e um fluxo dialógico entre os próprios cursistas. A partir do momento em que alguns professores expuseram-se emocionalmente, a mediadora, sob o olhar do princípio ecológico da ação, poderia ter solicitado aos demais participantes que dessem seus depoimentos. Esse seria um bom caminho para a construção do grupo. Ainda assim, a mediadora procurou agir de acordo com as emergências e expectativas dos participantes. Suas respostas foram, por vezes, tranquilizadoras, como no primeiro exemplo; sintetizadoras, como no segundo; ou, ainda, questionadoras e provocativas, como no terceiro depoimento, no qual a mediadora remete à cursista as mensagens dos demais participantes. Em todas essas respostas, apresentadas a seguir, a mediadora incentiva a participação dos cursistas pode levar à auto-eco-organização, que produzirá novas

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nos fóruns e a busca pelas mensagens dos colegas. Com essas estratégias, evidencia-se o princípio da auto-eco-organização.

Você vem interagindo muito bem. Inclusive cumprindo as tarefas. Calma, está tudo Ok. (Mediadora, resposta ao prof I., 26 março 2006). Você fez na mensagem anterior exatamente o que está sendo proposto nas atividades do Módulo 1: apresentou uma reflexão com base na sua experiência de vida e uma análise praxiológica, isto é, resultante da observação de sua prática em sala de aula. Parabéns! Percebe agora que não há mistérios? A diferença entre a atividade 1 e a 2 é que a segunda deverá ser elaborada a várias mãos, a partir de diversos olhares, em equipe. Teremos aí um duplo e delicioso desafio: construir a distância um texto colaborativo, com pontos de vista diversificados. Vá em frente. Um abraço e grata pela contribuição. (Mediadora, resposta ao prof. ML). O segredo para bons "desempenhos" em cursos a distância é participar, interagir, falar, conversar até esgotar o debate. Análises nesse sentido foram apresentadas por nossos colegas em outros fóruns, lembra-se? E então, diga-nos: o que você entendeu do texto O que é um grupo? Quais os pontos apresentados pela autora que mais chamaram sua atenção? Você concorda com todas as idéias? O que acrescentaria ou excluiria? Pense nessas questões e outras mais... e exponha-as no fórum de sua equipe. Estamos lhe aguardando. Um abraço. (Mediadora, resposta a MS). Sim, I, você está indo muito bem. Continue assim. Se o texto ficar fragmentado, todos os componentes poderão opinar ou, se a equipe quiser, poderá designar um relator ou relatora. A escolha é livre. Teremos tempo até segunda-feira para providenciar o texto, vamos relaxar . Sugerimos que o texto não ultrapasse uma lauda/página e que seja elaborado utilizando a fonte ou Times New Roman ou Arial, tamanho 12, com espaços entre linhas de 1,5 com as configurações superior e esquerda: 3 cm; e inferior e direita: 2 cm. Bom final de semana. Um abraço. (Mediadora, resposta IF)

Ressalte-se que a intenção desses fóruns iniciais em cursos a distância é, em geral, aparar arestas e incentivar algum tipo de exposição pessoal. A identificação de realidades conduz ao diálogo, que propicia a formação da comunidade de aprendizagem e de vínculos afetivos. Ao mesmo tempo, tais fóruns podem servir como um campo de treinamento em que os cursistas têm a oportunidade de familiarizar-se com o ambiente e com a metodologia, esclarecendo dúvidas. Ainda por meio desses fóruns, é possível, ao mediador, fazer um diagnóstico inicial sobre os aprendentes e suas expectativas. No caso do curso em análise, parece que faltou à mediadora perceber os momentos nos quais ela poderia ter

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interferido, promovendo um real diálogo dos professores/cursistas entre si. O tempo destinado tanto ao planejamento como à própria realização do curso parece ter sido insuficiente para conhecer os professores cursistas e identificar suas características, potencialidades, dificuldades e experiências pessoais, ou seja, as diferentes realidades existentes. Esse período poderia ter auxiliado na acomodação e familiaridade tanto dos cursistas quanto das formadoras no uso da plataforma e dos fóruns de discussão. Desses fóruns participariam todos os 60 cursistas, quantidade essa que, em princípio, pode ser considerada demasiadamente grande. Para o mediador, esse seria o momento de, sob o olhar dos princípios hologramático e dialógico, identificar as expectativas, as afinidades e os conhecimentos prévios dos cursistas para a formação da comunidade. Ele poderia, também, identificar aqueles cursistas que por algum motivo não tivessem participado das discussões, para tentar trazê-los ou reconhecê-los em suas idiossincrasias.

4.3.4. Sobre outros fóruns de discussão 4.3.4.1. Uma visão geral Os fóruns “Café”, destinado a constituir o ponto de encontro informal; “Tutores”, reservado para as formadoras; “Informações gerais”, “Suporte técnico” e TCC (Trabalho de Conclusão do Curso) foram utilizados durante todo o curso como meios de comunicação e de reflexão. Foram criados, também, os fóruns específicos para dialogar sobre os conteúdos abordados pelos materiais didáticos disponibilizados. Como havia uma atividade inicial que deveria ser elaborada em grupo, as formadoras abriram um fórum para cada um desses conteúdos. Embora, aparentemente, o grupo inicial de 61 tenha sido dividido em duas turmas com 30 alunos cada uma, o mesmo não aconteceu para os fóruns nos quais todos poderiam participar. Pelas mensagens enviadas no fórum “Suporte técnico”, os problemas ocorridos são os mais comumente encontrados em cursos on-line: dificuldade de acesso, página fora do ar, impossibilidade de baixar arquivo, dúvidas sobre como enviar arquivos etc.

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Nos fóruns formados para construção do texto colaborativo, atividade relativa ao módulo 1, vários cursistas justificaram suas faltas por problemas no computador, como, por exemplo, um aprendiz que morava no campo e não tinha acesso à internet. Segundo os relatórios sobre os encontros presenciais, além da falta de tempo para interagir e da pouca participação dos colegas nos fóruns, os problemas técnicos permaneceram durante o segundo módulo como principais reclamações dos cursistas. Dentre tais problemas, destacaram-se: dificuldades de diversas naturezas relacionadas ao uso do computador; dificuldades de navegar pelo ambiente (apesar do envio do manual aos cursistas); falta de tempo para interagir; dificuldades de entender o acesso discado e a estruturação dos fóruns por tópicos. 4.3.4.2. Fórum de tutores O fórum de tutores, com participação exclusiva das formadoras e da coordenação, forneceu alguns indicadores importantes com relação às formadoras e possibilitou a percepção de uma mediação pedagógica guiada pelas perspectivas ecossistêmica e complexa, de acordo, portanto, com a proposta e fundamentos do Projeto Sentipensar. Nesse fórum, em especial, ficou claro que os operadores cognitivos permearam a atuação da mediadora, coordenadora geral do projeto (CP), que demonstrou ter grande conhecimento tanto com relação aos conteúdos do Sentipensar, quanto das estratégias metodológicas de EAD. Houve atenção às emergências, prontidão para fazer modificações durante o percurso, momentos de afagos e reconhecimento do bom funcionamento do sistema e momentos de desconstrução e reconstrução do sistema com o objetivo de restabelecer o equilíbrio. A formulação de perguntas provocativas foi uma prática constante nesse processo. Tudo isso indica que todos os operadores cognitivos da complexidade estavam presentes em suas intervenções. Parece que houve intencionalidade em utilizá-los em cada fala, embora o princípio sistêmico-organizacional tenha sobressaído. Além disso, a mediadora procurava visualizar papéis, compreender realidades e organizar atividades a partir das situações vivenciadas pelos próprios cursistas, que foram expressas durante a realização de outros fóruns.

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Como exemplo, apresento alguns trechos das falas da coordenadora do projeto para as tutoras, nos quais ela buscava direcionar as atividades de mediação, sempre por meio de questões provocativas, ao mesmo tempo em que permitia que as tutoras se colocassem diante das questões.

Sei que vocês devem estar com muitas atribulações por aí. [...] Por isso, gostaria de colocar para vocês alguns detalhes com relação ao andamento do curso. Alguns alunos já se manifestaram no café, comentando a ansiedade com relação ao início do curso. Será que é importante nos manifestarmos, dizendo a eles algo sobre o início, por exemplo para se apresentarem? Já pensamos qual o ritmo que o curso vai seguir? Por último, queria que vocês se sentissem a vontade para dizerem como esperam que eu colabore. Não quero avançar no espaço de vocês. (CP, início do módulo 1) [...] este fórum, possibilitando tantos tópicos, nos faz pensar no texto, nos diferentes papéis, nos porta-vozes, nos silenciosos, concordam? Alguns papéis neste grupo que se forma vão se mostrando. Aqueles que comentam as intervenções dos colegas, aqueles que colocam seus comentários e aparentemente somem depois. Há os que ajudam a tecer a rede, há os que aproximam-se e timidamente colocam seu 'nozinho'. Será que conseguimos identificar, a partir deste fórum, elementos que podem ser dispersos nos grupos para serem articuladores? (CP, meados do módulo 1).

O princípio retroativo e o princípio da ecologia da ação ficaram claros na próxima sequência de diálogos ocorridos no fórum de tutores, entre a coordenadora do projeto (CP), a coordenadora do curso (CC) e outras duas mediadoras, (MC) e (CG). As falas e as ações demonstraram nitidamente a importância de se ter consciência de como determinados momentos precisam ser percebidos como críticos para a definição de novas estratégias de ação, assim como as emoções positivas podem ser desencadeadas a partir dessas ações. Houve um crescente entusiasmo e desejo de agir em direção a uma solução, em direção à alegria.
Bem não começamos e já temos algumas desistências declaradas. [...] alguns disseram que não têm tempo para elaborar os trabalhos e outros que estão sem acesso à internet. Há aqueles que nem chegaram a dar um "oi". Estudar a distância não é moleza... Meninas, por favor, falem, digam alguma coisa sobre as reflexões [...] e como vcs estão vendo o movimento dos professores. (AC) Como jardineiros, revolvemos a terra, plantamos as sementes, as regamos, arrancamos as ervas daninhas e adicionamos adubo. Mas não podemos fazer o trabalho da terra. Somente a terra pode manter as sementes e produzir os frutos do nosso trabalho. O mais importante é a confiança de que a terra germinará as sementes que foram plantadas." (autor: Thich Nhat Hanh - livro Transformações na Consciência, p.94) (RA)

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Olá, formiguinhas amigas... Estou um pouco apreensiva quanto ao andar do curso por conta do silêncio de muitos. Às vezes fico a pensar que é devido a estranheza do trabalho em equipe virtual e/ou da construção do texto coletivo. Lembro que quando realizei esta tarefa pela primeira vez, fiquei super curiosa e impressionada com a construção. Mas acho que não ocorreu com os nossos colegas participantes, ou o medo de errar os deixa na retaguarda; ou ainda estão na espreita aguardando o decorrer da atividade e que alguém dê o pontapé inicial. Isso por serem professores e acharem que não podem errar. [...] Diante do já discutido e dos problemas surgidos, realmente temos que pensar em algo que os faça reanimar e chegar mais junto das atividades e da participação em grupo. (CG) Preciso pensar, mas lá vai uma sugestão: Os encontros presenciais poderão ser em um intervalo menor. Creio que algo deve estar acontecendo e o pior, não sei como intervir. Será que devemos abrir um debate ? Promover um grande encontro presencial com todos? Definir a quantidade de horas do encontro presencial, o que vamos discutir.... não sei, estou cheia de interrogações. Viu não estou tão diferente dos demais.... (MC) Oi meninas! Acho que passado o entusiasmo da inscrição em um curso em que não é necessário "estar lá" toda semana, a realidade é sempre dura. Curso a distância dá muito trabalho e o impacto é este mesmo. Também, [...], há a cultura... nem todos se animam a entrar no ambiente e deixar sua participação registrada. É como se doesse. A insegurança é grande. Às vezes esperamos tanto para ter certeza do que queremos dizer que o tempo passa e o comentário não é feito. E aí simplesmente largamos... Ninguém vê nossa ausência (eis porque a planilha de acompanhamento é tão importante... torna as ausências visíveis e as presenças também) (RA) Se temos 27, vamos trabalhar com eles, entusiasmá-los. Vamos conversar. Vocês lembram de Vygotsky e sua zona de desenvolvimento proximal? Se a atividade em grupo está muito difícil, o que podemos fazer para auxiliá-los? Podemos pegar na mão mesmo, como quem auxilia um aluno a escrever as primeiras letras. No primeiro momento, acho que tudo isto é válido, enquanto amadurecemos como grupo. Depois as coisas se desenrolam, com os que aceitarem o desafio do trabalho conjunto. Como dizia Madalena Freire: vida de grupo dá muito trabalho..., mas também muito prazer. Só que um não vem sem o outro... (RA) As interações começaram a fluir.... Então?? Vamos que vamos com os que interagem como falou a Rosinha. Coragem e ânimo para todos nós. (CG) Fiquei feliz com o resultado do encontro presencial (manhã) temos uma boa turma (MC)

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Adorei tuas entradas entusiasmando os grupos a concluírem. É incrível como consegues, na distância, mostrar um sorriso através de palavras. (RA) Oi querida mestra! Obrigada, pelo incentivo, mas as vezes fico a questionar se o que escrevi é o que eu gostaria de receber, em outros momentos fico preocupada por saber que a distância o cuidado no que estamos escrevendo deve ser redobrado, pois um pequeno deslize podemos perder alguns participantes. Mas confesso que às vezes, fico a ouvir a tua voz e ver o teu sorriso e daí vem a inspiração. (CG) HAHAHAHAHAHAHAHA. Ops... desculpa, mas não resisti...

Contudo, decorridos mais 15 dias, a coordenadora geral percebeu a necessidade de interferir novamente de forma mais efetiva, demonstrando que tem consciência do princípio da enação, de Varela. Durante todo o tempo, observou as emergências que surgiam do próprio sistema, e cuidou para não deixá-lo à deriva, pois os efeitos negativos por ele produzidos podem retroagir sobre o próprio sistema, prejudicando-o. E, se não forem percebidos a tempo, terminam por estagná-lo. Diante do quadro, a mediadora, numa visão sistêmica, trouxe à tona alguns problemas sistêmico-organizacionais que estavam interferindo negativamente em relação ao sucesso do curso, e que precisavam ser corrigidos. A seguir, trechos da mensagem enviada às formadoras pela coordenadora do projeto (RA) indicam que ela procurou alcançar o aprendiz em todas as suas dimensões. Nessa mensagem, que não será reproduzida em sua totalidade por ser muito extensa, a coordenadora geral fez uma análise, ao mesmo tempo em que sintetizou a situação na qual se encontravam naquele momento, incluindo tarefas a serem realizadas em seguida.
Vamos fazer uma retomada do que temos até aqui? Penso que estamos com algumas pendências e isto reflete nos alunos e no próprio comprometimento deles com o curso. Eles fazem parte dos fundamentos de ações a distância. [...]1. Planilha quantitativa: retorno aos alunos (feedback) - cada atividade, encerrado o prazo, precisa ter uma manifestação dos formadores. [...] Isto sinaliza que o curso não é um oba-oba e que estamos atentas à movimentação e participação de todos. 2. Síntese qualitativa: na síntese destacamos as participações. É importante que cada aluno se veja um pouco na síntese. É trabalhoso fazer isto, mas é necessário. É na síntese que sistematizamos uma discussão, possibilitando depois o fechamento.

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3. Extensão de atividades a alunos: podemos, em outros fóruns e/ou atividades, solicitar a alunos que façam a síntese. Mas o modelo deve ser nosso. Eles aprenderão sobre o que estamos falando com nossa ação. 4. Próximo módulo: Amanhã acredito que precisamos dar continuidade. Coloquei uma sugestão neste fórum, em outro tópico. Acho que juntamente com o próximo módulo, poderíamos posicionar os alunos sobre o que já aconteceu até agora, numa espécie de retrospectiva. Contem comigo para o que precisarem, certo? (RA, final do segundo mês e do segundo módulo)

Uma das mediadoras responde a essa intervenção, reconhecendo a importância da interferência no momento oportuno e demonstrando que houve uma auto-eco-organização por parte da mediadora:
Estávamos, precisando dessa chamada (rs, rs, rs), mas acredito que foi tudo culpa do feriadão.... Já estamos providenciando o relatório que encaminharemos ainda hoje, as planilhas de avaliação e a síntese também estaremos encaminhando dentro de 24 horas. (CG)

4.3.4.3. Fóruns de avaliação e autoavaliação Do primeiro fórum para avaliação do curso e autoavaliação do módulo 1, participaram somente 21 (vinte e uma) pessoas. O texto foi muito elogiado e alguns cursistas demonstraram ter começado a compreender as teorias propostas. Contudo, pelas falas no fórum, foi possível identificar as dificuldades iniciais deles, principalmente com as questões técnicas. Dos 21 (vinte e um) participantes do fórum, somente 6 (seis) não relataram problemas técnicos. É interessante registrar que nesse fórum não houve mediação, apenas falas individuais. Alguns exemplos:
Em relação as questões discutidas no módulo 1 do curso, foram muito interessantes e enriquecedoras, pois todo o conhecimento adquirido transforma o homem em um ser cada vez melhor. Quanto a minha participação no primeiro momento foi um pouco difícil, pois tive problemas com a senha, depois tive problema com o meu computador e a escola que leciono não dispõe no momento de computadores. Então fiquei muito angustiada quando percebi que as atividades tinham prazo e eu não conseguia realizá-las em tempo hábil. Mas rezo que agora no módulo 2, não aconteça nenhum imprevisto. (ES) Parabéns aos formadores do Curso a Distância Sentipensar. Esta é uma grande possibilidade de enriquecer meus conhecimentos através deste curso. Ele veio de muitas espectativas e descobertas. Em relação ao módulo 1 foi enriquecedor e muito proveitoso. Porém minha dificuldade

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maior é que ainda não tenho computador e na escola que trabalho ainda não foi instalado a internet. Daí tenho que me deslocar do bairro que moro e trabalho para a DITE. (GS) No início do curso aconteceram momentos de grandes dificuldades, principalmente por falta de paciência, de tempo e até mesmo de entendimento. Espero que o curso traga algum benefício nesse sentido, principalmente da impaciência. Mas de forma geral é muito bom criar laços afetivos, de entendimento, de discordância e de trabalho, ou seja, tentar viver e trabalhar coletivamente é mais produtivo.

Demorei muito para interagir com meu grupo mas consegui. E agora estou adorando esse ambiente de troca de informações e conhecimentos e por isso mesmo me empenharei mais. Estou tendo algumas dificuldades mas vou superá-las. (MC) Considerei bastante proveitoso o Módulo I, o texto base, bem como as discussões em grupo. Senti apenas que meu grupo não interagiu muito. Apenas duas pessoas expressaram seus sentimentos, mas não conseguimos construir um texto nosso. Talvez precisemos saber de fato quais as dificuldades e os problemas que enfrentaram, mas de toda forma valeu a pena! (JA)

O módulo um foi bom, o que dificultou foi a falta de interação entre os componentes do grupo. Não houve muita troca de idéias, principalmente no grupo 1. Mas é normal, pois creio que foi por motivos que dificultaram o acesso de alguns componentes. (GS)

No fórum para avaliação do módulo II, não mais se falou de problemas técnicos (pelo menos aqueles 17 cursistas não falaram). Os professores já demonstraram mais domínio teórico, utilizando termos específicos nas falas a seguir:
Oi tudo bem? Eu me identifiquei mais com o segundo módulo. Finalmente consegui me situar. No primeiro módulo fiquei totalmente perdida sem saber o que fazer ou o que é pior como fazer Confesso que quando li pela primeira vez achei que seria uma brincadeira da professora, então, parei e comecei a ler outra vez e pude perceber com que clareza conceitos tão complicados inicialmente pois tudo que é novo nos causa uma certa resistência . autopoiêtica ,estrutura ,determinismo otogenia acoplamento estrutural. Quando eu achava que o segundo módulo havia acabado outra novidade o mapa conceitual. Espero que tenhamos belas novidades no terceiro módulo, e que finalmente meu computador não me deixe na mão outra vez. (SM) O curso a medida que vai desenvolvendo-se torna-se cada vez mais profundo e importante através de seus conteúdos inseridos nos modulos. As estratégias vão modificando-se a cada atividade aplicada nos respectivos modulos, estratégias estas bem planejadas pelos coodenadores do curso. Eu posso falar assim devido as colocações dos

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colegas nas reuniões presenciais como tambem na participação da interação. No modulo 2 encontrei certa dificuldade na parte teórica e técnica com relação a elaboração do mapa conceitual, mas consegui sana-las com orientação dos colegas. (GS) Antes de iniciar minha avaliação, gostaria de lhe agradecer pela imensa contribuição que as suas palavras têm dado à minha vida. Palavras de carinho que fazem com que pensemos e/ou repensemos a nossa vida pessoal e profissional. Tenha certeza de que este curso será um divisor de águas em minha vida. Bem, em relação ao módulo 2, devo dizer que, após a leitura do Sentir, pensar e educar, passei a entrar em minha sala de aula, com outra postura, tentando ver o "outro" lado de meus alunos, me preocupando, não só com os conteúdos a serem ministrados, mas com os "conteúdos" de meus alunos, e têm dado certo, eles passaram a produzir muito mais. (CL) Gostei muito dos textos para mim é algo novo pois eu nunca tinha se quer nem imaginado que a vida de cada ser vivo num âmbito biológico está atrelada a uma estrutura organizacional enquanto ser social a depender das suas realizacões para atender os objetivos que vão surgindo. Enfim todo o material deste módulo serviu de ampliação para os meus conhecimentos. Além disso, estou gostando do curso pela estratégia do envolvimento dos sentimentos algo que todos seres vivos deveriam buscar antes de chegar a qualquer determinação.

Esses depoimentos indicam que houve mudança de perspectiva teórica e prática diante dos textos lidos. Contudo, mais uma vez, não houve mediação pedagógica. Ela aconteceu somente nos fóruns diretamente relacionados aos textos lidos. Os fóruns de avaliação poderiam ter se tornado ótimas oportunidades para estabelecer um debate mais amplo sobre o curso. As demais mediadoras poderiam também ser instigadas a participar. Esse espaço de debates poderia promover a correção de rumos advinda do feedback, ação proposta pelo princípio da recursividade próprio dos sistemas complexos. Um debate teria sido propício para a harmonização do grupo e otimização dos processos de auto-eco-organização. A não participação das mediadoras nesses fóruns de avaliação foi percebida como uma falha pela coordenadora geral e pelas próprias mediadoras, como pode ser visto em falas retiradas do fórum de tutores:
Estive pensando nos espaços de avaliação. Não seria interessante dar um retorno aos que fizeram avaliação e auto-avaliação? Eles devem estar aguardando um alô das formadoras. (CG) Tens razão e por diversas vezes prometi dar retorno as auto-avaliações e nada concretizei, mas vou colocar a mão na massa... (CG)

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Não há registro de fóruns de avaliação dos demais módulos. 4.3.4.4. Fóruns temáticos No primeiro fórum temático sobre o texto “O que é um grupo”, criado para a turma, toda houve a participação de 27 cursistas, quase 50% do total. comentários estavam sendo basicamente teóricos, impessoais, sem Os um

endereçamento direto, embora oferecessem algumas opiniões, até o momento em que um participante trouxe o tom da experiência pessoal dele com grupos. Essa postura desencadeou, pelo menos por um tempo, uma real interatividade entre os participantes, que passaram a fazer suas observações relativas às falas de outros participantes, o que gerou um diálogo mais rico. A mediadora parece que percebeu essa conquista dos cursistas e passou a interferir menos, apenas pinçando de certas falas algo que não havia sido mencionado anteriormente, indicando que ela estava disposta a compartilhar o comando. Nesse caso, o princípio da ecologia da ação ficou bem caracterizado. O segundo módulo começou com a leitura de um texto que era uma carta (anexo 2) aos cursistas, na qual a mediadora (CP) os convidava a fazer um “gesto de interrupção” proposto por Jorge Larrosa. O outro texto lido foi sobre a relação existente entre sentir, pensar e educar, de Maria Cândida Moraes, que explica o vínculo existente entre razão, emoção e ação, e fala da importância de se criar ambientes favoráveis, alegres, propícios à reflexão e à solidariedade. Nesse momento, introduz-se um novo conceito, que é a biologia de Maturana. O fórum sobre esses dois textos foi conduzido pela coordenadora geral do projeto, autora de alguns dos textos estudados no curso, mas teve a presença, também, de outra mediadora. Dessa vez não houve uma pergunta específica, mas um chamado para que os alunos lançassem suas dúvidas. Esse fórum foi iniciado no período previsto para o módulo II, mas continuou durante o módulo III. Após ler a Carta-convite e o texto Sentir, pensar e educar, que questionamentos (de qualquer natureza) surgiram após a leitura? Vamos conversar a partir dos questionamentos de vocês? Aguardo-os, com carinho. (Mediadora CP) Três dias depois, não obtendo resposta dos cursistas, o que demonstra que nem sempre as pessoas já estão prontas para agir, a mediadora utilizou o diário de

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bordo, uma das ferramentas individuais de aprendizagem disponibilizadas para os professores. Nele, o educando registraria seus progressos e suas dificuldades, seus sentimentos. Por meio da utilização do diário, a mediadora procurou sensibilizar os cursistas, emocioná-los, mais do que ensiná-los. O diário de bordo, quando bem utilizado, agrega sentido aos conteúdos aprendidos e possibilita a ligação dos saberes teóricos às experiências cotidianas de vida. Assim, expressar-se por esse meio foi uma forma de mostrar, na prática, como utilizá-lo para provocar desconstruções e reconstruções pessoais que fazem parte do processo de auto-eco-organização e incitam a autonomia. Querido diário: Hoje acordei assim , assustada, pensando, pensando... E se o pessoal não gostou do convite, não aceitou-o e resolveu PARAR DE RESPIRAR????? E agora? Como vou saber se isto foi só um susto numa manhã de feriado? Oh! Dúvida!!!!!!!Será que alguém pode me ajudar???? Um beijinho, querido diário. (Mediadora CP) No dia seguinte, a mediadora do módulo CG também se apresentou, instigando os cursistas:
Olá parceiros e parceiras! Será que ainda não encontramos tempo para o nosso gesto de interrupção? Que não conseguiremos parar para inspirar - expirar, por alguns segundos? De pensar, ler e escrever, como sugerido na Carta-convite proposta pela Professora? Segundo Larossa, para o gesto de interrupção precisamos parar para pensar, parar para olhar, parar para escutar, pensar mais devagar, olhar mais devagar, e escutar mais devagar, parar para sentir, sentir mais devagar, demorar-se nos detalhes..... Vamos nessa? Coragem! Quem entrará primeiro? (Mediadora CG)

Interessante foi perceber o princípio da ecologia da ação por meio do impacto causado pela ação da mediadora, que fez com que as pessoas deixassem um pouco de lado os textos que foram propostos para leitura e discussão e tivessem suas atenções voltadas para a imagem acima, do gato passando pelos cachorros. Por vezes uma imagem pode falar realmente mais que mil palavras. Um único gesto provocou uma avalanche de sensações, emoções e reflexões, gerando também

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dessa forma a aprendizagem significativa, pois estaria baseada em conhecimentos prévios e nas experiências individuais. Tanto foi assim que até uma cursista percebeu o referido impacto sobre os colegas professores:
Este curso está ficando cada vez melhor, estou impressionada como você captou o sentimento da professora Rosinha no feriado do dia 21/04 e "jogou" esta imagem que mexeu com tanta gente, você conseguiu nos instigar e nos levar a intensificar os diálogos, adorei. Beijos, (T)

Essa mesma cursista, mais adiante, pareceu incomodar-se com o rumo da conversa, como se estivesse fugindo do que seria o tema principal do fórum, o texto sobre o Sentipensar, de Maria Cândida Moraes. Percebe-se nessa fala, também, a necessidade da cursista em falar sobre o seu agir profissional diário. Assim ela escreveu:
Concordo plenamente que o agir é consequência da emoção, posso observar isso diariamente na minha prática enquanto orientadora educacional quando me são encaminhadas crianças ditas problemáticas, ao ouvi-las a respeito de suas vidas [...] Já nos adultos por serem capazes de analisar as consequências de seus atos é esperado que suas ações não sejam apenas reações imediatas às suas emoções, daí a importância de além de sentir, parar, respirar, pensar, refletir para agir. Na sala de aula, cabe a nós professores criarmos um ambiente agradável, de confiança recíproca, que estimule a aprendizagem dos alunos e que favoreça o seu amadurecimento emocional. (T)

Talvez fosse interessante, no contexto apresentado, uma intervenção da professora mediadora, que poderia abordar de forma conceitual conclusiva a exposição feita pela referida cursista, ou seja, aproveitando o momento para fazer um breve resumo ou fechamento dos conceitos surgidos até então. Como essa mediação não aconteceu, a coordenadora retomou o assunto, fez um comentário sobre a intervenção da cursista e continuou o diálogo sobre o tema. A questão da imagem se manteve, mas extrapolou as fronteiras e desencadeou outras possibilidades, como o uso didático da linguagem icônica das histórias. Em um determinado momento, as mediadoras trouxeram a questão para as experiências em sala de aula, procurando integrar o sujeito com suas experiências de vida. Da mesma forma, foi possível perceber como as palavras são ecologicamente impactantes e derivam por caminhos inesperados, mas nem por isso desinteressantes. Assim, é preciso estar atento às emergências para delas fazer fluírem outras idéias e emoções. Mais uma vez, eclode o princípio ecológico

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da ação, auxiliando os sujeitos a auto-eco-organizar-se como indivíduos e como um grupo. Mais adiante, outra cursista expressou o seu pensamento sobre a influência do meio. A coordenadora aproveitou o “gancho” para resgatar expressões utilizadas pelos autores nos textos apresentados e em outros futuros. Com isso, incentivou outros cursistas a aprofundarem suas observações sobre esses mesmos conceitos e continuou nessa linha, utilizando as emergências surgidas do diálogo entre todos para auxiliar os aprendentes a irem além do que estava escrito. Participaram desse fórum 25 cursistas, além das duas mediadoras. Foi possível perceber que houve um diálogo mais intenso entre os próprios alunos, embora as mediadoras tenham estado presentes o tempo todo. Em três oportunidades, a coordenadora chamou os outros alunos para entrarem na discussão e, em todas as vezes, pelo menos um professor novo chegou ao ambiente. Foi um fórum temático, mas aberto a todos os cursistas. Será que se a turma tivesse sido dividida em dois grupos menores, mais pessoas teriam participado? Do fórum sobre o filme “Quem somos nós”, atividade relativa ao módulo III, somente 15 cursistas participaram. Contudo, esse não deve ser um dado considerado em termos absolutos, pois a apresentação do filme aconteceu presencialmente, seguida de uma discussão. Nesse fórum, chamou a atenção o fato de que, com exceção de dois cursistas que se dirigiram aos colegas e um que fez menção à mensagem de outra professora, os demais se dirigiram sempre à mediadora e não aos colegas. A mediadora, muito cuidadosa, providenciou retorno individualizado, mas naquele espaço coletivo, respeitando o princípio hologramático pelo qual a informação deve circular entre todos. Durante esse fórum, a mediadora precisou se afastar por duas semanas e foi imediatamente substituída pela coordenadora do curso, que conduziu o fórum no mesmo caminho deixado pela mediadora, demonstrando coerência entre os formadores. Para o módulo III foram propostos dois textos retirados do livro “Sentipensar: fundamentos e estratégias para reencantar a educação”, de Moraes e Torre (2004), que abordam estratégias para a realização de projetos com base no sentir e no pensar, na aprendizagem integrada. São textos sobre a necessidade de associarem-

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se os diferentes sentidos humanos, as emoções, a razão e a consciência em um processo imbricado em si mesmo, mas que propicie a complexidade do pensamento. Para esses textos foram criados dois fóruns, sendo que um deles estava mais diretamente relacionado ao saber teórico, enquanto o outro solicitava aos cursistas que pensassem em estratégias de ensino que já utilizavam ou que poderiam utilizar em sala de aula. Eles deveriam pensar as possibilidades de valer-se de diferentes recursos audiovisuais, procurando envolver cognição e emoção. Desses dois fóruns participaram 15 cursistas, mediados por duas facilitadoras. É interessante notar que na maior parte dos fóruns, incluindo esses dois últimos, os cursistas expressaram suas idéias apenas uma única vez, com raras exceções. Seria esse um indicativo de que não se criou um vínculo de grupo? Poderia a mediadora lançar mão de outros questionamentos, vinculando as respostas de uns às dos outros, procurando o diálogo entre idéias complementares, mas ao mesmo tempo antagônicas, como foi sugerido pelo princípio dialógico para tentar alcançar o terceiro incluído?

4.3.5. Sobre os materiais didáticos, as atividades e as ferramentas apenas planejadas ou efetivamente utilizadas Desde o início houve a intenção de formar um espírito de grupo, um vínculo entre os participantes, uma comunidade de aprendizagem, procurando-se abordar o tema tanto pelo aspecto cognitivo quanto pelo afetivo, incentivando-se as parcerias e a liberdade de expressão afetiva. Exemplos disso são os textos “O que é um grupo”, extraído do livro “Grupo: indivíduo, saber e parceria: malhas do conhecimento”, de Madalena Freire, Juliana Davini, Fátima Camargo, Miriam Celeste Martins. Série Seminários. Publicação do Espaço Pedagógico. O curso também foi permeado por materiais intencionalmente voltados para incentivar a ação, o desejo de continuar e de acreditar que se é capaz, como na apresentação em Power point “Você é capaz”.

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Reconhecendo-se que a Internet é um espaço que permite o acesso individual à grande quantidade de material e de informação de forma independente, deveria ter havido um incentivo maior à busca de informações complementares pelos próprios aprendentes, com a intenção de, sob a perspectiva da complexidade, promover a autonomia emancipadora. Isso poderia acontecer por meio da utilização das diversas ferramentas propostas no planejamento, tanto individuais quanto, principalmente, colaborativas. Os fóruns foram bastante utilizados, já a WIKI e os diários de bordo praticamente inexistiram. As WIKIS poderiam ter servido para os exercícios de síntese coletiva permitindo aos participantes, sob a perspectiva do princípio hologramático - conhecer o todo e cada um, compartilhando informações. Os diários de bordo poderiam ter auxiliado os cursistas em seus processos matemagênicos e reflexivos, propiciando assim a auto-eco-organização, um dos princípios básicos da complexidade e do pensamento ecossistêmico. Com o acesso a esse material, as formadoras teriam tido oportunidade de acompanhar o caminho percorrido pelos cursistas, o que permitiria a elas atender às demandas individuais e coletivas. Nesse movimento entre análise e síntese e entre individual e coletivo, o princípio dialógico estaria sendo aplicado. Outro ponto a ser comentado é o fato de não se ter buscado com os cursistas suas próprias experiências profissionais e partido delas para o trabalho teóricoprático-vivo. Houve um momento inicial de apresentação, no qual os cursistas falaram um pouco sobre suas histórias de vida, mas que não foi devidamente explorado. O princípio da enação, de Varela, proposto como princípio também por Moraes (2008), poderia ter sido pensado nesse momento inicial, um momento de união entre ser e fazer, entre emoção e cognição, reconhecendo-se que toda ação é ação perceptivamente guiada, ou seja, quanto mais a emoção e a ação se aproximam, mais o processo cognitivo é facilitado. Afinal, segundo Moraes e Torre (2006), os processos mentais e emocionais envolvem processos enativos e emergentes, cuja natureza não depende apenas do que acontece em sua estrutura, mas na dinâmica da relação entre seus elementos durante o movimento. Assim, as identidades poderiam ser criadas a partir do acoplamento entre os sujeitos e o ambiente virtual do qual faziam parte, e sobre o qual as potencialidades poderiam emergir.

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4.3.6. Detalhes que poderiam fazer diferença na perspectiva dos operadores cognitivos Quando pensarmos com base nos operadores cognitivos, pensamos no todo e nas partes em suas relações. Assim, neste momento, são necessárias algumas observações que, direta ou indiretamente, poderiam ter interferido, de forma geral, no produto final do curso e, particularmente, na realização da mediação pedagógica. Pela primeira planilha registrada, após o término do módulo I, dos 66 professores inscritos inicialmente, 20 já não participaram das discussões nos fóruns e nem entregaram as atividades. Não tenho informações sobre o primeiro encontro presencial, mas 33 professores participaram do segundo. Esse seria um indicador de que as condições iniciais não eram propícias para o ótimo desenvolvimento do curso. Ainda pensando no curso como um sistema e na mediação pedagógica como um elemento integrante, teria sido interessante fazer uma entrevista com os cursistas, objetivando identificar detalhes que permitiriam um diagnóstico mais detalhado das condições que permearam a mediação pedagógica. Porém, esse instrumento não pôde ser utilizado em face do grande espaço de tempo entre o término do curso e a pesquisa. apresentando-me e perguntando:
Você concluiu o curso? SIM ou NÃO? Quais os motivos que o (a) levaram a permanecer no curso até o final ou a desistir dele?

Mesmo assim, numa tentativa de compreender

melhor o percentual elevado de evasão, enviei aos cursistas um e-mail bem objetivo,

Só obtive oito respostas, pois quase todos os e-mails retornaram com a mensagem automática de que não existiam e os outros cursistas, provavelmente, não se interessaram em responder. Dentre os respondentes, quatro terminaram o curso com elogios:
[...] participei de todas as atividades e em todas as oportunidades estive logada no ambiente. Foi uma experiência extremamente proveitosa e gratificante, hoje [...] não tenho nenhum problema com a plataforma moodle, graças ao periodo em que estive do outro lado como aluna. Me perdoe o entusiasmo, é que a experiência me tocou profundamente e eu posso garantir que cresci numa proporção que não dá para mensurar, pois até hoje colho louros daquele período. [...] Foi um curso muito lindo que disponibilizou textos formidáveis, desconstruiu minha concepção de o ambiente virtual ser algo frio e distante, ao contrário fiz grandes amizades que permanecem até hoje. (IF)

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Acredito que o curso foi trabalhado com uma metodologia voltada para a aprendizagem significativa despertando uma dimensão cognitiva que nos fazia refletir a partir do próprio eu. Possibilitava desenvolver uma consciência da importância de o professor trabalhar na perspectiva de aprender e ensinar. Até hoje sinto saudades dos colegas e sobretudo dos tutores que eram tão acolhedores e capazes. O material didático fora muito bem planejado. Ainda vivencio a Teoria da Autopoiese de Maturana e Varela, Notas sobre a experiência e o saber de experiência de Jorge Larrosa, dentre outros. Foi o meu primeiro contato com a plataforma MOODLE, mas não tive dificuldades. (LT) Gostei do curso, pois foi muito interessante estudar autores como Maturana, que nos proporciona visões diferentes e aprofundadas de nós mesmos. (ES) Dentre os vários motivos posso citar as discussões sobre assuntos relevantes para a busca de uma educação mais integradora e capaz de atender as necessidades de discentes e docentes nos ambientes escolares. Um outro aspecto muito positivo desse curso é o fato do mesmo possibilitar aos seus participantes a compreensão das diferentes maneiras de se perceber como um indivíduo que tem suas limitações e ao mesmo tempo com grandes possibilidades de transformar e seu mundo e o mundo que o cerca. Tanto os textos, vídeos ou imagens, quanto às experiências de cada um dos cursistas, trabalhados no ambiente virtual puderam construir um curso muito atraente e instigante. (MA)

Por outro lado, dos cursistas que não completaram o curso, obtive respostas bem concisas, relacionadas principalmente às dificuldades pessoais e técnicas comumente ocorrentes em cursos de EAD. Entre essas respostas, destacam-se as seguintes:
Não conclui o curso. Falta de tempo para continuar os estudos, uma vez que o mesmo demandava tempo para dedicação a leitura. (NS) Já faz um bom tempo da realização do curso, não me recordo bem do fato principal que me levou a não conclui-lo, acredito que foi num momento que estava reorientado minhas atribuições trabalhisticas, mudei de setor, isto direcionou minhas ações para outro foco, distanciando-me assim do curso. (GM) Não concluí o curso porque naquele momento eu estava muito atarefada e tive que fazer escolhas priorizando o mais importante para mim naquele momento. Esperando ter contribuído com o seu trabalho, sem mais. (CC) Não terminei o curso. O motivo foi problemas técnicos com o meu micro, impossibilitando assim a continuação do mesmo. (JL)

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Não foi possível ter acesso à lista final de concludentes, mas pelo que pude inferir pela planilha geral, boa parte dos cursistas que concluíram o curso participaram dos fóruns de avaliação e autoavaliação dos dois primeiros módulos, demonstrando que estavam imbricados e interessados não só em aprender, mas em contribuir com o todo, apesar das dificuldades que boa parte deles enfrentou no início. Por exemplo:
Demorei muito para interagir com meu grupo mas, consegui. E agora estou adorando esse ambiente de troca de informações e conhecimentos e por isso mesmo me empenharei mais. Estou tendo algumas dificuldades mas vou superá-las. (MC) Quanto a minha participação neste primeiro momento foi muito difícil, pois tive problemas com o meu computador e na escola que leciono não dispõe de computadores. Quando percebi que as atividades tinham prazo e eu não conseguia realizá-las em tempo hábil, fiquei preocupado e porque não dizer com muita vergonha por minha ineficiência no cumprimento das obrigações. Agora no módulo 2, espero que não aconteca nenhum imprevisto e que eu possa colaborar com os colegas da melhor forma possível e possa superar as minhas espectativas. (EC) Avaliando o nosso trabalho até o momento percebo o quanto foi importante e produtivo, pois apesar de estarmos nos deparando a todo instante com problemas técnicos com os quais não temos muita familiaridade, enfrentá-los e resolvê-los só demonstra o nosso progresso. Considerei bastante proveitoso o Módulo I, o texto base, bem como as discussões em grupo. Senti apenas que meu grupo não interagiu muito. Apenas duas pessoas expressaram seus sentimentos, mas não conseguimos construir um texto nosso. Talvez precisemos saber de fato quais as dificuldades e os problemas que enfrentaram, mas de toda forma valeu a pena! (JA)

Por outro lado, pela fala de alguns cursistas, é possível perceber que um fator importante para que concluíssem o curso foi justamente a participação das mediadoras, como pode ser percebido pelos depoimentos a seguir:
Olá Pessoal, gostaria de dizer que o curso está sendo muito proveitoso para mim. Está me fazendo refletir sobre coisas que, com a correria do dia-a-dia, eu não parava para pensar. Sinto que estou menos exigente com os outros e comigo mesma. Estou administrando melhor uma ansiedade que teima em me acompanhar. Vocês, coordenadoras, nos tratam com tanto e carinho e respeito, que certamente nos tornará pessoas melhores. (CL) Oi tudo bem? Eu me identifiquei mais com o segundo módulo. Finalmente consegui me situar. No primeiro módulo fiquei totalmente perdida sem saber o que fazer ou o que é pior como fazer . Mas, ao iniciar o segundo módulo com o convite para dar uma parada para

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respirar, logo em seguida a deliciosa leitura do sentir, pensar e educar, como complemento o diálogo sentir pensar e por último a leitura que mexeu comigo os questionamentos e o desmembrar da "experiencia". Gostei muito das leituras fizeram repensar a minha prática em sala de aula. (SM) O curso a medida que vai desenvolvendo-se torna-se cada vez mais profundo e importante através de seus conteúdos inseridos nos modulos. As estratégias vão modificando-se a cada atividade aplicada nos respectivos modulos, estratégias estas bem planejadas pelos coodenadores do curso. Eu posso falar assim devido as colocações dos colegas nas reuniões presenciais como tambem na participação da interação. No modulo 2 encontrei certa dificuldade na parte teórica e técnica com relação a elaboração do mapa conceitual, mas consegui sana-las com orientação dos colegas. (GS)

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CAPÍTULO V

APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS

É importante, primeiramente, esclarecer que nem tudo o que foi planejado inicialmente para esta pesquisa, foi possível de ser realizado. Algumas adaptações foram necessárias diante das emergências acontecidas como impossibilidade de acesso a todos os acontecimentos do curso, pois como este já não estava mais ativo, vários registros se perderam. Sob a perspectiva dos operadores cognitivos, a metodologia - que é um caminho sujeito às incertezas e, portanto, adaptável - manteve-se, o máximo possível, fiel ao previsto, mesmo tendo passado por algumas modificações. Dentro das perspectivas didático-pedagógica, comunicacional-social e técnica propostas por Schlemmer & Saccol & Garrido (2003), os elementos constitutivos do ambiente virtual de aprendizagem foram mantidos: o projeto do curso de formação, as ferramentas disponibilizadas e efetivamente utilizadas, os materiais didáticos disponibilizados, as atividades propostas para os cursistas, alguns fóruns de discussão e outros detalhes que poderiam fazer diferença. Os operadores cognitivos da complexidade também foram mantidos como categorias de análise, o que permitiu uma visão abrangente, mas ao mesmo tempo particular sobre a mediação pedagógica, objeto de estudo desta pesquisa. Assim, a análise dos dados, apesar de ter sido consubstanciada pelos demais conceitos apresentados nos capítulos I, II e III foi realizada sob o olhar, principalmente, desses princípios propostos por Edgar Morin. Coadunados com as idéias de Moraes e Valente (2008), precisamos esclarecer como os operadores cognitivos, além de serem utilizados como categorias de análise, envolveram a pesquisadora e o objeto pesquisado. Pelo princípio sistêmico-organizacional, procuramos contextualizar as partes para poder perceber o todo, sem, contudo, ignorar as qualidades inerentes a cada parte. O princípio hologramático guiou nosso olhar sobre as falas dos sujeitos, procurando identificar em que momentos os conteúdos teóricos aprendidos e as próprias individualidades se fizeram presentes e mutantes.

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Os princípios retroativo e recursivo permearam a atenção dispensada às emergências surgidas dos processos em sinergia entre sujeitos aprendentes e sujeitos formadores e entre aqueles e seus objetos de estudo, e possibilitaram verificar se essas mudanças ocorreram, também, por conta da forma como a mediação aconteceu. O princípio dialógico, entremeado pelo princípio da reintrodução do sujeito cognocente, está presente a partir do momento em que nós reconhecemos que estamos impregnados de nossas próprias experiências com o objeto pesquisado e as utilizamos, consciente ou inconscientemente, em um diálogo constante com esse objeto. Tal princípio pode ser tão convincente que, por vezes, acaba por influenciar o viés da observação. O princípio da ecologia da ação embasa o fato de que algumas das intenções iniciais acabaram por ser modificadas pelas relações acontecidas durante a pesquisa entre nós e nosso objeto de pesquisa, assim como pelas situações encontradas ao longo do percurso. O princípio da enação nos fez perceber que muitas das nossas conclusões foram influenciadas por uma simbiose entre emoção e cognição e, por isso, precisam ser analisadas, também, sob essa perspectiva. Por fim, o princípio da ética, que aconteceu por meio do respeito aos participantes do curso analisado e aceitação da alteridade, foi o manto de todo o processo. Complementando, lembramos o que Moraes e Torre (2006) consideram como características mais relevantes de uma metodologia de pesquisa baseada na complexidade e no pensamento ecossistêmico, e que também serviram de norte para as ações realizadas: a mudança, a abertura, o caráter dinâmico, processual e inacabado, o avanço mediante a percepção consciente do que acontece em determinados momentos, a recursividade, a auto-organização, sua finalidade formativa, autoformadora e inovadora. Dessa forma, procurar pensar certo, de maneira ecossistêmica e complexa, proporcionou-me condições para adaptar-me à situação e para manter a qualidade do trabalho. Retornando ao problema de pesquisa proposto, ou seja, “de que maneira os operadores cognitivos constitutivos da complexidade, presentes tanto no pensamento complexo como no pensamento ecossistêmico, podem propiciar

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condições para a ressignificação dos processos de mediação pedagógica em ambientes virtuais de aprendizagem?”, podemos considerar a existência de três

Complexidade e pensamento ecossistêmico Educação a distância Mediação Pedagógica

construtos

interdependentes

entre

si:

a

complexidade

e

o

pensamento

ecossistêmico, a educação a distância e a mediação pedagógica, que podem ser assim representados: Sendo a complexidade e os operadores cognitivos do pensamento complexo a base epistemológica desta pesquisa, considera-se que a mediação pedagógica precisava também ser vista, com essa lupa, ou seja, como sendo um dos elementos constitutivos de um sistema complexo, que é o curso de formação de professores. Sistema esse que precisa ser considerado em sua autonomia, mas, ao mesmo tempo, em sua dependência ao contexto no qual se insere. Como a mediação pedagógica acontece em estreita relação com os demais elementos do sistema, parece que as ações realizadas pelas mediadoras não foram capazes de corrigir os desvios causados pela não utilização dos operadores cognitivos como referência para o sistema como um todo, ou seja, para as diversas etapas constitutivas do curso. . Dos 60 alunos inscritos originalmente, somente 19 concluíram o curso, o que pode ser considerado um elevado percentual de evasão. Contudo, de acordo com o princípio da recursividade, como os produtos e efeitos retroagem sobre as causas e

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as modificam, não se pode afirmar que um acontecimento foi consequência direta, única e exclusivamente, de outro anterior. O fato de não conhecer as realidades dos participantes e outros detalhes importantes do curso relacionados ás fases de planejamento e operacionalização impossibilitou inferir o grau de influência dos diferentes fatores que poderiam ter contribuído para esse resultado. Nos fóruns, procurou-se perceber o movimento dialógico por meio da presença de momentos de contradições, de oposição, para saber como agiriam as mediadoras e os cursistas. Contudo, nos diálogos neles acontecidos pareceu que todos convergiram para uma mesma idéia. Não houve, então, a possibilidade de confirmar, ou não, se o dialogismo proposto por Morin - pelo qual idéias contraditórias podem, na realidade, ser complementares - aconteceu em termos de conteúdos teóricos. Mas, como processo, foi uma prática constante. Houve um foco de conflito percebido no momento da formação dos grupos para a elaboração da atividade coletiva. Como esses grupos foram formados logo no início do curso, alguns cursistas reclamaram da ausência dos colegas, outros participaram tardiamente por não saber como postar no fórum, ou por problemas técnicos, e isso talvez tenha retroagido de forma negativa sobre os ânimos de alguns participantes. Mesmo tendo a consciência dessa condição, foi necessário fazer um corte sobre a mediação em suas especificidades, e isso aconteceu por meio da análise dos fóruns. Essa análise, feita no capítulo anterior, demonstrou que a mediação pedagógica realizada no curso pesquisado teve forte influência dos operadores cognitivos para um pensar complexo, embora o sistema, como um todo, não tenha sido concebido nessa perspectiva, o que pode ter produzido um resultado diferente do esperado, revelando assim que o todo pode ser menor ou maior do que a soma de suas partes. Quer dizer, se olharmos os números finais relativos à evasão, ou seja, relativos ao grupo como um todo, podemos considerar que o produto resultante do todo foi menor do que a soma de suas partes, pois houve mais desistência do que conclusão em relação ao curso. Por outro lado, se olharmos para as falas de cada participante nos fóruns e para as suas declarações, o resultado pode ser considerado o oposto, ou seja, cada cursista que permaneceu até o fim do curso aprendeu, transformou seu fazer pedagógico, o que nos leva a crer que também transformou seu ser, já que ser e o fazer estão imbricados, segundo Maturana.

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Pela fala dos cursistas, como explicitado no capítulo anterior, parece que os textos modificaram a maneira como eles percebiam a sala de aula, o seu aluno e a sua rotina. Ao expressarem suas idéias a respeito dos conceitos estudados, os professores/cursistas mostraram estar conscientes desses conhecimentos. Nesse sentido, a mediação pode ter tido papel fundamental, pois as ações pedagógicas realizadas mostraram que houve intenção, por parte das mediadoras, de promover nos educandos uma aprendizagem significativa, o desejo de aprender, a busca pela autonomia. Houve respeito às suas experiências como adultos e como profissionais. Procurou-se unir razão, emoção e ação, ou seja, os cursistas foram vistos como sujeitos integrais. Tentando, então, responder ao problema de pesquisa proposto, é possível afirmar que, nesse caso especificamente, os operadores cognitivos do pensamento complexo e do pensamento ecossistêmico permitiram a ressignificação dos processos de mediação pedagógica no ambiente virtual de aprendizagem, pois pautaram tanto o planejamento do curso, quanto as ações e as estratégias de mediação que produziram os efeitos desejados, pelo menos naqueles que concluíram o curso. Quanto aos objetivos propostos, pode-se dizer que: Por meio das interações que ocorreram nos fóruns, os operadores cognitivos permearam o planejamento do curso, o tipo de plataforma virtual, as interações e as atividades propostas pelos orientadores, e a mediação pedagógica. Os operadores cognitivos enriqueceram o olhar não só dos mediadores como também dos formandos, propiciando a construção do conhecimento individualmente, mas com o apoio da comunidade de aprendizagem formada. Houve limitações à aplicabilidade de todos os operadores em todas as fases do curso. Isso pode ter ocorrido em função da vinculação do curso a outras instâncias, como a Secretaria de Educação do Estado, que determinou prazos, fez a seleção dos alunos e disponibilizou recursos materiais e financeiros , independente dos critérios e orientações das referidas mediadoras.

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CONSIDERAÇÕES FINAIS

Nesta pesquisa, buscou-se verificar de que maneira os operadores cognitivos da complexidade propostos por Edgar Morin poderiam criar condições para a ressignificação da mediação pedagógica em um ambiente virtual de aprendizagem. Foi feita uma análise e leitura interpretativa de um caso, tendo como categorias de análise os operadores cognitivos do pensamento complexo e o modelo misto proposto por Laville & Dionne (1999). Os elementos constitutivos do ambiente virtual de aprendizagem observados foram escolhidos com base nas dimensões propostas por Schlemmer, Saccol & Garrido (2003). Embora o aporte teórico tenha sido construído por meio da leitura de vários autores e teóricos, com certeza, os citados a seguir constituem os pilares desta pesquisa como um todo. A Complexidade de Edgar Morin e o Pensamento Ecossistêmico de Maria Cândida Moraes constituíram a base teórica perpassando todo o trabalho. A leitura das obras de Humberto Mariotti e de Pedro Demo contribuiu, sobremaneira, para a melhor compreensão do próprio conceito de Complexidade. Pierre Lévy, Otto Peters, André Lemos e Adriana Bruno formaram a base teórica para a definição dos conceitos de tecnologia e de ambiente virtual de aprendizagem (AVA). Para a formulação dos conceitos de aprender e conhecer, utilizou-se António Damásio, Carl Rogers, David Ausubel, Francisco Varela, Humberto Maturana, Jean Piaget e Malcom Knowles. Os conceitos de mediação Pedagógica e de mediação pedagógica em AVA foram construídos com base em Maria Cândida Moraes, Paulo Freire, Francisco Gutiérrez,Otto Peters, José Manuel Moran, Philippe Perrenoud, Lucila Pesce, Pierre Lévy. Assim, como demonstrado ao longo de toda a dissertação, sabe-se que estudar a distância exige determinadas atitudes, habilidades e competências do próprio aprendiz. Ele precisa ser disciplinado, motivado, autônomo na busca da construção de seu conhecimento. Mas como essas qualidades, geralmente, não são condições exigidas quando da aceitação do aprendiz para um curso, precisam

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ser desenvolvidas ao longo do curso. E esse é um trabalho a ser realizado por aquele que faz a mediação pedagógica. Contudo, se o aluno não tem acesso fácil à internet e ao computador, meios sem os quais não é possível realizar o curso, se não tem tempo disponível para dedicar-se aos estudos, não tem experiência com trabalhos colaborativos, com as metodologias próprias da EAD e nem com as ferramentas que precisa utilizar para comunicar-se, prejudicada. Nesse sentido, não se pode considerar a mediação pedagógica como um elemento isolado, capaz de corrigir distorções causadas pelos outros elementos do sistema, ainda que exercida sob o olhar da complexidade. Como sistema, todo o processo está sujeito às emergências resultantes dos processos interativos e que produzem efeitos que, recursivamente, sob influência também do meio e das circunstanciais iniciais, retornarão sobre o sistema que se auto-organizará para adaptar-se ao novo. Mas, para que esse sistema equilibre-se como um todo, é preciso dedicar atenção especial também às suas partes. Por esse motivo, o planejamento deve ser claro, detalhado, esmiuçado, porém deve prever, também, a possibilidade de mudanças ao longo do trajeto. É necessário cuidado especial com o sujeito, seja ele formador ou formando, em suas objetividades e subjetividades. Indo um pouco além, os cursos a distância precisam ser construídos e desenhados a partir dos sujeitos e de suas realidades, e não como um conjunto uniforme, massificado. A diversidade deve ser considerada como fonte de inspiração à inclusão e, como tal, não pode ser ignorada como base para a construção das condições dos projetos. Sem dúvida, a mediação pedagógica é primordial para o sucesso do aprendiz e, sob o ponto de vista da complexidade, implica capacitação e preparo teóricoemocional dos mediadores para lidar com as incertezas, com as emergências. Não é simples, pois exige abertura epistemológica, disposição para a mudança, respeito à alteridade, planejamento e flexibilidade, pois envolve subjetividades e objetividades, e acima de tudo, é preciso ter consciência intelectual e espiritual (BARRETO, 2005) de tudo isso. Finalizando, queremos enfatizar que, ao longo do caminho percorrido nesta dissertação, muita coisa aconteceu. Precisei de um tempo maior para aprofundar o a realização da mediação pedagógica fica profundamente

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aporte teórico, mais do que o previsto, não para compor a dissertação, mas para esclarecer minhas próprias dúvidas e gerar algumas poucas certezas. E, ao final do trabalho, posso afirmar, com emoção e razão, que o pensamento complexo e o paradigma ecossistêmico devem permear todos os projetos de educação a distância. Não se pretende generalizar as conclusões tiradas nesse caso, contudo alguns indicadores foram observados e podem ser aplicados em cursos de formação on-line que tenham características próximas às encontradas nesta pesquisa. Recomendamos, então, fortemente, que novas experiências em EAD sejam desenhadas e efetivadas sob a perspectiva da complexidade e do pensamento ecossistêmico, o que significa um olhar global e ao mesmo tempo particular, do início ao fim, com ênfase, contudo, no preparo dos mediadores para assumir de forma integral esse novo paradigma e agir sob a perspectiva dos operadores cognitivos. Na realidade, é preciso pensar na perspectiva da complexidade a educação como um todo, como um projeto gerador da melhoria das condições de vida da população. Os operadores cognitivos devem ser usados como um ponto de partida para um fazer complexo, transdisciplinar. Pensar e agir na direção da complexidade é ressignificar não só os processos de mediação pedagógica, mas também o olhar daquele que ensina e daquele que aprende sobre a vida, sobre os educandos e sobre a educação. Entretanto, é preciso valorizar o professor o que permitirá que ele queira ser um renovador, em suas dimensões pessoais e sociais, procurando religar os saberes com a vida, tentando ser ele mesmo um sujeito integral, mais flexível e, dessa forma, resgatando a integralidade de seus alunos e da comunidade. Mas é preciso ir além. É preciso que todos os sujeitos compromissados com a educação de qualidade tenham consciência do momento pelo qual estamos passando e da necessidade de mudança urgente de paradigma. Enfim, pensar complexo é pensar em transformar, em melhorar as condições de vida do ser humano, da sociedade e da natureza na qual estão inseridos.

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_______.

10

novas

competências

para

ensinar.

Porto

Alegre.

Artmed,

2000.

PERRENOUD, P. et alli. Formando professores profissionais. Quais estratégias? Quais competências? Porto Alegre: Artmed, 2001.
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ANEXOS

ANEXO 1 O CURSO PESQUISADO UM BREVE HISTÓRICO13 O projeto Sentipensar materializou-se na forma de um curso de formação docente desenvolvido em rede virtual visando a atender de forma diferenciada o ensino e aprendizagem da escola pública do estado de Sergipe. O vocábulo Sentipensar, concebido pelo professor-pesquisador Dr. Saturnino de La Torre, vai além de um delicado neologismo: significa a combinação de duas maneiras de interpretar a realidade, a partir das dimensões afetiva e cognitiva, mesclando a ação de sentir e pensar num mesmo processo de conhecimento. A proposta do curso de formação teve a finalidade de experienciar e analisar situações didáticas fundamentadas no Sentipensar e Aprendizagem Integrada, utilizando-se das mídias e das tecnologias da informação e comunicação (TIC). Para a sua realização, foram previstos trabalhos que permitissem a incorporação da dimensão emocional junto à cognitiva e à pragmática, com a intenção de propiciar o comprometimento com a educação para a vida, através de recursos e estratégias multissensoriais, oferecidos pelas mídias digitais e tecnologias da informação e comunicação. A idéia consistiu na apropriação e manipulação de diferentes linguagens, valendo-se de elementos imagéticos, musicais, expressões cênicas, de modo a proporcionar interfaces mais adequadas de criação e comunicação. ESTRUTURA DO CURSO Instituição executora: Núcleo de Tecnologia Educacional (NTE) Coordenação do curso: Profª Drª A Ministrantes: quatro professoras

Objetivos

13

Informações extraídas da dissertação de doutorado da professora Acássia Araújo Barreto, coordenadora do curso analisado.

• discutir e refletir sobre o paradigma eco-sistêmico e a complexidade, que fundamentam o projeto Sentipensar; • desenvolver, com professores-alunos, situações didáticas

fundamentadas no Sentipensar e Aprendizagem Integrada (Torre, 2004), utilizando as diferentes linguagens (mídias) e as tecnologias de informação e comunicação; • planejar situações de aprendizagem para serem vivenciadas com os alunos e implementar discussões sobre elas, por meio de ambiente digital, entre os professores-alunos das escolas dos diferentes estados do Brasil; • relatar as experiências das atividades desenvolvidas em sala de aula, visando à escrita de artigos coletivos de maneira colaborativa, como produto do curso, utilizando como meio de interação e construção coletiva a ferramenta Wiki, do ambiente digital Moodle.

Público Alvo Este trabalho destina-se a professores de escolas públicas, do Ensino

Fundamental e Médio, , a realizar-se na modalidade semipresencial. • Metodologia Na metodologia do curso, tanto em atividades presenciais como a distância, estão previstos trabalhos que permitam a incorporação da dimensão emocional junto à cognitiva e à pragmática. Objetiva propiciar o comprometimento com a educação para a vida, através de recursos e estratégias multissensoriais oferecidos pelas mídias e tecnologias da informação e comunicação, de modo que a palavra seja enriquecida com imagens, músicas e expressões corporais, bem como processos mais adequados e desafiantes de aprendizagem. Pretende-se elaborar o planejamento conjunto de ações, para vivência com os alunos, discussão e análises, através do ambiente digital, proporcionando a troca de experiências entre professores-alunos das escolas dos diferentes estados do Brasil. Cada grupo de professores-alunos terá módulos de formação presencial nas dependências da Divisão de Tecnologia de Ensino, com as professoras formadoras,

e as interações a distância ocorrerão através do ambiente digital: o diário de bordo ou outra ferramenta similar deverá ser utilizada para registro de informações e reflexão do processo vivido, com vistas a subsidiar posterior elaboração de artigos coletivos e colaborativos, com o propósito de desenvolver a criatividade e autoria dos professores participantes na formação.

Carga horária O curso havia sido programado, inicialmente, para ter 100 horas, mas em

função do tempo necessário à conclusão dos trabalhos dos professores/cursistas, passou para 120 horas, sendo computadas em sete encontros quinzenais de quatro horas cada, totalizando assim 28 horas presenciais e 92 a distância, com atendimento on-line, via Messenger ou outro canal virtual que possibilite a comunicação sincrônica.

Dinâmica da atividade e proposta preliminar dos módulos O curso apresenta-se dividido em seis módulos, com atividades presenciais e

a distância.
MÓDULOS / CARGA HORÁRIA CONTEÚDO ATIVIDADES Presencial (aula inaugural): - abertura com a apresentação do projeto Sentipensar,; - apresentação dos participantes e da proposta do curso; - formação do grupo – vínculos para a parceria; - criação de e-mails. A distância: - utilização do ambiente colaborativo de aprendizagem Moodle, para registro da apresentação dos participantes; - leitura, análise, discussão e elaboração de um artigo, com base no texto “O que é um grupo?”, de Madalena Freire. Presencial: - oficina básica do Windows (criação de pastas etc); - oficina de internet – reconhecendo as ferramentas do Moodle; - canais de busca. A distância: - nos fóruns do Moodle: conversa sobre as expectativas e discussão sobre o texto “O que é um grupo?”; - registro, no diário de bordo, dos avanços e dificuldades encontradas durante o presente módulo. Presencial: - apresentação do filme/documentário em DVD “Quem somos nós?”; - conversa sobre mapas conceituais e fundamentos do Sentipensar; RECURSOS Material impresso; computador - CD-Rom, internet e editor de textos.

1º Módulo – 8 horas

Texto: “O que é um grupo?, de Madalena Freire.

Computador Windows, internet.

-

2º Módulo – 8 horas

Moodle - ferramentas do ambiente digital de aprendizagem.

Computador - internet; CMap; PaintBrush e outros editores de imagens. DVD

3º Módulo – 30 horas

Conceitos Fundamentos Sentipensar Pensamento sistêmico Complexidade.

e do Ecoe

4º Módulo – 12 horas

Cenários Sentipensar Aprendizagem Integrada.

do e

5º Módulo – 30 horas

Prática projetada vivenciando e refletindo os cenários elaborados.

- oficina sobre o uso do CMap; - exercício prévio para elaboração de mapas conceituais. A distância: - discussão no fórum acerca dos conceitos e fundamentos do Sentipensar - o Sentipensar em sala de aula; - elaboração (em grupo) de mapas conceituais; representação de conceitos através da imagem visual; - análise sobre o documentário “Quem somos nós?”; - registro, no diário de bordo, dos avanços e dificuldades encontradas durante o presente módulo. A distância: - discussão no fórum sobre “aprendizagem integrada”; - levantamento de atividades desenvolvidas pelos professores, que contemplem a aprendizagem integrada, por meio de documento; - planejamento de atividades ou mini-projeto, juntamente com os alunos, tomando como base o Sentipensar (criação de cenários), contemplando as mídias e TICs; - intercâmbio entre os professores de Sergipe e Mato Grosso, utilizando o ambiente digital de aprendizagem Moodle; - registro, no diário de bordo, dos avanços e dificuldades encontradas durante o presente módulo. Presencial: - apresentação do vídeo “O Ponto de Mutação”; - relato e reflexão em torno das atividades que serão desenvolvidas em sala de aula. A distância: - análise sobre o vídeo “O Ponto de Mutação”; - intercâmbio entre as escolas envolvidas na capacitação (professores e alunos), para discutir sobre os trabalhos realizados; - relato das ações desenvolvidas nas escolas, utilizando o portfólio do Moodle; - debate no fórum sobre as atividades realizadas; - registro, no diário de bordo, dos avanços e dificuldades encontradas durante o presente módulo. Presencial: - conversa sobre os trabalhos desenvolvidos com os alunos, pontuando avanços e dificuldades. A distância: - polinização escrita e publicação dos artigos individuais e coletivos no Moodle, com reflexão sobre a prática, fundamentada no pensamento Eco-sistêmico e Complexidade e no Sentipensar; - registro, no diário de bordo, dos avanços e dificuldades encontradas durante o presente módulo, correspondendo à auto-avaliação e avaliação do curso. Presencial: - apresentação final dos trabalhos, nas instituições envolvidas no curso. A distância: acompanhamento às equipes durante a escrita do TCC e do artigo. Presencial: seminário de apresentação dos TCC.

Computador - internet.

Computador – internet e outros recursos

Computador - internet

6º Módulo – 12 horas

Resultado dos trabalhos produzidos durante o curso.

7° módulo – 20 horas

* Elaboração do Trabalho de conclusão do curso (TCC); * elaboração do artigo.

Computador – PowerPoint e internet

Cronograma de execução – 2006 / 2007
Período: 2006 – 2007 Julho Agosto Setembro

Módulos / atividades 1º 2º 3º 4º 5º 6º 7º Seminário Organização / escrita do artigo

Março

Abril

Maio

Junho

Nov/Dez

Abr

junho/Dez

Avaliação A avaliação será processual, através do acompanhamento tanto das

atividades presenciais como a distância, culminando com os trabalhos de conclusão do curso (TCC) e um artigo coletivo-colaborativo, que serão escritos ao final do curso.

ANEXO 2 CARTA CONVITE Carta-convite... O propósito do Módulo 2 é iniciarmos a discussão dos fundamentos do sentipensar, para que possamos, posteriormente, planejar ações educacionais envolvendo tais fundamentos. Mas antes de discutirmos, gostaria que este módulo não se restringisse a uma discussão teórica, mas que pudéssemos vinculá-lo a uma prática que nos permitisse pensar em inteireza humana . Para tanto, faço uma sugestão... ou melhor, um convite: Durante este módulo, antes mesmo de ler o texto proposto para iniciarmos nossa conversa, e a cada vez que entrar no ambiente para ler e/ou comentar algo, pare um pouco... Feche os olhos e respire... Simplesmente respire conscientemente um certo número de vezes (3, 5, 10 – você escolherá quantas vezes). Para auxiliar na concentração, pode ir dizendo mentalmente, acompanhando o movimento da respiração: • inspiro – expiro (um); • inspiro – expiro (dois)... • ... Agora, preparado(a), pense na comunidade que se formou neste curso e lance-se à atividade/leitura/escrita. Afinal, ao chegarmos a este ambiente, temos um encontro! ☺ Qual o efeito? Qual o significado de unir o pensamento a uma ação mecânica de nosso corpo, tornando-a consciente? Vamos, depois de estudarmos um pouco, conversar sobre isto? Por enquanto, fica o convite à respiração consciente. Será fácil? Será difícil? Será possível? Será confortável? Será um absurdo? Respostas que só obteremos se tentarmos... vamos lá? ☺ Com esta proposta, introduzimos no curso uma parte prática... propondo um gesto de interrupção14 na corrida diária para nos aprofundarmos em idéias, conceitos, refletindo também sobre nossa própria forma de ser, sentir, pensar. Eis a carta... Eis o convite... Aguardo vocês... Com carinho CG
Segundo Jorge Larrosa, o gesto de interrupção nos faz ser sujeitos da experiência, permitindo que a experiência nos aconteça e, consequentemente, que aprendamos com ela. Segundo este autor, para o gesto de interrupção precisamos parar para pensar, parar para olhar, parar para escutar, pensar mais devagar, olhar mais devagar, e escutar mais devagar; parar para sentir, sentir mais devagar, demorar-se nos detalhes, suspender a opinião, suspender o juízo, suspender a vontade, suspender o automatismo da ação, cultivar a atenção e a delicadeza, abrir os olhos e os ouvidos, falar sobre o que nos acontece, aprender a lentidão, escutar aos outros, cultivar a arte do encontro, calar muito, ter paciência e dar-se tempo e espaço. (Nota inserida na própria carta) (Observação: a íntegra deste texto está na Biblioteca, em Textos complementares)
14

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