Cálculo Infinitesimal

Gabriela Chaves
versão de Agosto de 2004
ii
Índice
Índice iii
1 Propriedades básicas dos números 1
1.1 Operações de adição e multiplicação . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 1
1.2 Relação de ordem . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 1
1.3 Princípio de indução . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 6
2 Funções (reais de variável real) 9
2.1 Generalidades sobre funções . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 9
2.2 Soma, multiplicação e composição de funções . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 14
2.3 Monotonia, máximos e mínimos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 16
2.4 Gráficos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 20
3 Limites e continuidade 27
3.1 Limites . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 27
3.2 Continuidade . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 35
4 Derivadas 41
4.1 Motivação e interpretação . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 41
4.2 Definição e propriedades básicas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 42
4.3 Teoremas de Rolle, Lagrange e Cauchy . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 51
4.4 Resolução de alguns exercícios . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 63
5 Integrais e Primitivas 71
5.1 Motivação e interpretação geométrica . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 71
5.2 Integrais . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 71
5.3 Primitivas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 85
5.3.1 Definição e primitivas elementares . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 85
5.3.2 Primitivação por partes . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 88
5.3.3 Primitivação por substituição . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 89
5.3.4 Primitivação de funções racionais . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 91
5.4 Resolução de alguns exercícios . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 97
5.5 Integrais impróprios . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 98
5.6 Cálculo de comprimentos, volumes e áreas de superfície . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 104
5.6.1 Comprimentos de gráficos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 104
5.6.2 Volumes de sólidos de revolução . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 105
5.6.3 Áreas de superfície de sólidos de revolução . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 106
6 Polinómios de Taylor 111
6.1 Polinómios de Taylor . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 111
6.2 Máximos e mínimos locais . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 121
6.3 Cálculo de valores aproximados de funções . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 123
7 Sucessões e séries 129
7.1 Sucessões . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 129
7.2 Séries . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 134
iii
iv ÍNDICE
8 Sucessões e séries de funções 149
8.1 Sucessões de funções . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 149
8.2 Séries de funções . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 156
8.3 Séries de potências . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 163
9 Curvas em R
n
171
A Coordenadas polares 199
B Funções exponenciais e logaritmos 211
C Funções trigonométricas 221
Índice alfabético 231
Capítulo 1
Propriedades básicas dos números
O objectivo deste capítulo não é a construção dos números reais; supõe-se conhecida a existência destes e far-se-á
apenas um resumo das propriedades mais importantes das operações e da relação de ordem.
1.1 Operações de adição e multiplicação
O conjunto dos números reais R, munido da adição e da multiplicação (designadas respectivamente por + e .), verifica
as seguintes propriedades:
1. ∀x, y, z ∈ R (x +y) +z = x + (y +z) (associatividade da adição)
2. ∀x ∈ R x + 0 = 0 +x = x (0 é elemento neutro para a adição)
3. ∀x ∈ R ∃x

∈ R x +x

= x

+x = 0 (existência de inverso para a adição)
4. ∀x, y ∈ R x +y = y +x (comutatividade da adição)
5. ∀x, y, z ∈ R (x.y).z = x.(y.z) (associatividade da multiplicação)
6. ∀x, y ∈ R x.y = y.x (comutatividade da multiplicação)
7. ∀x, y, z ∈ R x.(y +z) = x.y +x.z (distributividade da multiplicação relativamente à adição)
8. ∀x ∈ R x.1 = 1.x = x (1 é elemento neutro para a multiplicação)
9. ∀x ∈ R`¦0¦∃x

∈ R x.x

= x

.x = 1 (existência de inverso para a multiplicação para qualquer elemento diferente
de 0)
Por (R, +) satisfazer às propriedades 1-3 diz-se que se trata de um grupo; por satisfazer às propriedades 1-4 diz-se
que se trata de um grupo comutativo. Por (R, +, .) satisfazer às propriedades 1-8 diz-se que se trata de um anel
comutativo com elemento unidade; por satisfazer às propriedades 1-9 diz-se que se trata de um corpo.
1.2 Relação de ordem
A relação ≤ em R verifica as seguintes propriedades:
1. ∀x ∈ R x ≤ x (reflexividade)
2. ∀x, y, z ∈ R (x ≤ y e y ≤ z) ⇒ x ≤ z (transitividade)
3. ∀x, y ∈ R (x ≤ y e y ≤ x) ⇒ x = y (anti-simetria)
4. ∀x ∈ R (x ≤ y ou y ≤ x)
5. ∀x, y ∈ R (0 ≤ x e 0 ≤ y) ⇒ 0 ≤ x +y
6. ∀x, y, z ∈ R x ≤ y ⇒ x +z ≤ y +z
7. ∀x, y ∈ R (0 ≤ x e 0 ≤ y) ⇒ 0 ≤ x.y
1
2 CAPÍTULO 1. PROPRIEDADES BÁSICAS DOS NÚMEROS
Observação: As propriedades 1-4 envolvem apenas ≤; 5-6 relacionam ≤ e +; 7 relaciona ≤ e ..
Por (R, ≤) satisfazer às propriedades 1-4 diz-se que se trata de um conjunto totalmente ordenado; por (R, +, ≤)
satisfazer às propriedades 1-6 diz-se que se trata de um grupo comutativo ordenado. Por (R, +, ., ≤) satisfazer às
propriedades 1-7 diz-se que se trata de um corpo ordenado.
Definição 1.2.1 Para cada x ∈ R, chama-se valor absoluto (ou módulo) de x a [x[ =

x se x ≥ 0
-x se x ≤ 0
.
Proposição 1.2.2 1. ∀x, y ∈ R : [x +y[ ≤ [x[ +[y[.
2. ∀x, y ∈ R : [x −y[ ≥ [[x[ −[y[[.
3. ∀x, y ∈ R : [xy[ = [x[[y[.
4. ∀x ∈ R : −[x[ ≤ x ≤ [x[.
5. ∀x ∈ R, a ∈ R
+
: [x[ ≤ a ⇔ −a ≤ x ≤ a.
Demonstração:
1. Se x ≥ 0 e y ≥ 0, então x + y ≥ 0 e [x[ + [y[ = x + y, portanto [x + y[ = [x[ + [y[. Se x ≤ 0 e y ≤ 0, então
x + y ≤ 0, [x + y[ = −x −y, [x[ +[y[ = −x −y e [x + y[ = [x[ +[y[. Se x < 0 < y e [x[ < [y[, então x + y ≥ 0,
[x +y[ = x +y e [x[ +[y[ = −x +y; ora neste caso x +y < −x +y, uma vez que x < 0. Analogamente se trata
o caso x < 0 < y e [x[ > [y[.
2. Da alínea anterior, conclui-se que
[x[(= [x −y +y[) ≤ [x −y[ +[y[
[y[(= [y −x +x[) ≤ [y −x[ +[x[ = [x −y[ +[x[.
Então [x −y[ ≥ [x[ −[y[ e [x −y[ ≥ [y[ −[x[, portanto [x −y[ ≥ [[x[ −[y[[.
3. Trivial.
4. Trivial.
5.
[x[ ≤ a ⇔ (x ≥ 0 e x ≤ a) ou (x ≤ 0 e −x ≤ a)
⇔ 0 ≤ x ≤ a ou −a ≤ x ≤ 0
⇔ −a ≤ x ≤ a.
Definição 1.2.3 Seja A ⊂ R.
1. Diz-se que A é majorado (ou limitado superiormente) sse existe M ∈ R tal que ∀x ∈ A x ≤ M. Um número
M nestas condições diz-se um majorante de A.
2. Diz-se que A é minorado (ou limitado inferiormente) sse existe m ∈ R tal que ∀x ∈ A m ≤ x. Um número
m nestas condições diz-se um minorante de A.
3. Diz-se que A é limitado sse existe l ∈ R tal que ∀x ∈ R [x[ ≤ l.
Observações:
1. O conjunto dos majorantes de um conjunto não vazio, A, é minorado (por qualquer elemento de A).
2. O conjunto dos minorantes de um conjunto não vazio, A, é majorado (por qualquer elemento de A).
3. O conjunto A é limitado sse é majorado e minorado.
Definição 1.2.4 1. Chama-se máximo (ou último elemento) de um conjunto A a um majorante de A que
pertence a A.
2. Chama-se mínimo (ou primeiro elemento) de um conjunto A a um minorante de A que pertence a A.
Observações:
1.2. RELAÇÃO DE ORDEM 3
1. Um conjunto majorado pode não ter máximo e um conjunto minorado pode não ter mínimo.
2. Um conjunto não pode ter mais de um máximo nem mais de um mínimo.
Propriedades de N e Z:
1. Qualquer parte não vazia de N tem primeiro elemento.
2. Qualquer parte majorada não vazia de N tem último elemento.
3. Qualquer parte minorada não vazia de Z tem primeiro elemento.
4. Qualquer parte majorada não vazia de Z tem último elemento.
Definição 1.2.5 Seja A ⊂ R.
1. Diz-se que M é o supremo de A sse M for o mínimo do conjunto dos majorantes de A. Notação: M = sup A.
2. Diz-se que m é o ínfimo de A sse m for o máximo do conjunto dos minorantes de A. Notação: m = inf A.
Propriedade de R: Qualquer parte majorada de R tem supremo.
Observação: Esta propriedade de R, assim como as propriedades de N e Z mencionadas acima, não serão aqui
demonstradas. Demonstrá-las só teria sentido no contexto de uma construção ou descrição axiomática dos números,
o que está para alem dos objectivos deste curso.
Lema 1.2.6 1. Seja A uma parte majorada de R e seja ´ o conjunto dos majorantes de A. Então o conjunto
−A = ¦−a, a ∈ A¦ é minorado e o conjunto dos minorantes de −A é −´.
2. Seja A uma parte minorada de R e seja ´ o conjunto dos minorantes de A. Então o conjunto −A = ¦−a, a ∈ A¦
é majorado e o conjunto dos majorantes de −A é −´.
Demonstração:
1. Seja x ∈ −´. Então x = −x em que x é um majorante de A, isto é ∀a ∈ A a ≤ −x. Resumindo,
∀x ∈ −´∀a ∈ A x ≤ −a, de onde ∀a ∈ A x ≤ −a, isto é, ∀x ∈ −´∀a ∈ A x ≤ a, portanto qualquer
elemento de −´ é um minorante de −A. Reciprocamente, seja x um minorante de −A. Então ∀a ∈ A x ≤ −a,
de onde ∀a ∈ A a ≤ −x, portanto −x é um majorante de A, isto é, −x ∈ ´, ou seja, x ∈ −´.
2. Demonstração análoga.
Proposição 1.2.7 Qualquer parte minorada de R tem ínfimo.
Demonstração: Seja A uma parte minorada de R. Então, pelo lema anterior, sabemos que −A é majorado; pela
propriedade de R enunciada acima, existe sup(−A), designemo-lo por s. Então s é o mínimo do conjunto M dos
majorantes de −A, e é imediato que −s é o máximo de −M, mas, pelo lema anterior, −M é o conjunto dos minorantes
de A, logo −s é o ínfimo de A.
Proposição 1.2.8 (trivial) Se sup A ∈ A então sup A é o máximo de A; se inf A ∈ A então inf A é o mínimo de A.
Proposição 1.2.9 Seja A um conjunto não vazio e M um majorante de A. Então
M = sup A sse ∀ > 0 ∃a ∈ A : M − < a.
Demonstração: 1. Suponhamos que M = sup A e seja > 0. Por definição de supremo, M − não é um majorante de
A (porque o supremo de A é o menor dos majorantes de A). Então existe um elemento a de A tal que a > M −.
2. Suponhamos que M é um majorante de A tal que ∀ > 0 ∃a ∈ A : M − < a.
Seja M

um número menor do que M e seja = M −M

. Tem-se > 0, portanto existe a ∈ A tal que a > M −,
mas M− = M

, portanto M

não é majorante de A. Conclui-se que nenhum número M

menor do que M é majorante
de A, logo M é o supremo de A.
Proposição 1.2.10 Seja A um conjunto não vazio e m um minorante de A. Então
m = inf A sse ∀ > 0 ∃a ∈ A : a < m+.
Demonstração: análoga à anterior
4 CAPÍTULO 1. PROPRIEDADES BÁSICAS DOS NÚMEROS
Proposição 1.2.11 1. Se B é majorado (resp. minorado) e A ⊂ B, então A é majorado (resp. minorado).
2. Se A e B são majorados (resp. minorados) então A∩ B e A∪ B são majorados (resp. minorados).
Demonstração: trivial.
Proposição 1.2.12 Sejam A e B dois conjuntos limitados não vazios.
1. A ⊂ B ⇒ inf B ≤ inf A ≤ sup A ≤ sup B
2. sup(A∪ B) = max¦sup A, sup B¦
3. Se A∩ B = ∅ então sup(A∩ B) ≤ min¦sup A, sup B¦
4. inf(A∪ B) = min¦inf A, inf B¦
5. Se A∩ B = ∅ então inf(A∩ B) ≥ max¦inf A, inf B¦
6. Se A e B forem intervalos e A∩B = ∅ então sup(A∩B) = min¦sup A, sup B¦ e inf(A∩B) = max¦inf A, inf B¦.
7. Se ∀a ∈ A∀b ∈ B a ≤ b então sup A ≤ inf B, e sup A = inf B sse ∀ > 0 ∃a
0
∈ A, b
0
∈ B : b
0
−a
0
< .
Demonstração:
1. Seja m um minorante de B. Então ∀b ∈ B m ≤ b. Como ∀a ∈ A : a ∈ B, tem-se ∀a ∈ A m ≤ a. Conclui-se que
todos os minorantes de B são minorantes de A, logo inf B (que é um minorante de B) é um minorante de A e
portanto é menor ou igual do que inf A (que é o maior dos minorantes de A).
Mostra-se analogamente que sup A ≤ sup B.
É trivial que inf A ≤ sup A (porque A = ∅, portanto ∃a ∈ A, e então inf A ≤ a ≤ sup A).
2. De A ⊂ A∪B e B ⊂ A∪B conclui-se, pela alínea anterior, que sup A ≤ sup(A∪B) e sup B ≤ sup(A∪B), logo
max¦sup A, sup B¦ ≤ sup(A ∪ B). Por outro lado, max¦sup A, sup B¦ ≥ sup A e max¦sup A, sup B¦ ≥ sup B,
portanto max¦sup A, sup B¦ é um majorante de A e um majorante de B, ou seja, é um majorante de A ∪ B e
portanto é maior ou igual do que sup(A∪ B).
3. De A ∩ B ⊂ A e A ∩ B ⊂ B, conclui-se, pela alínea 1., que sup(A ∩ B) ≤ sup A e sup(A ∩ B) ≤ sup B, logo
sup(A∩ B) ≤ min¦sup A, sup B¦.
4. Análoga à demonstração de 2.
5. Análoga à demonstração de 3.
6. Sejam a
1
e a
2
os extremos do intervalo A e b
1
e b
2
os extremos do intervalo B. Então sup A = a
2
, inf A = a
1
,
sup B = b
2
e inf B = b
1
. Por outro lado, A ∩ B é um intervalo de extremos max¦a
1
, b
1
¦, min¦a
2
, b
2
¦, portanto
inf(A∩ B) = max¦a
1
, b
1
¦ e sup(A∩ B) = min¦a
2
, b
2
¦.
7. Seja a ∈ A. Como ∀b ∈ B a ≤ b, conclui-se que a é um minorante de B, logo a ≤ inf B. Então ∀a ∈ A a ≤ inf B,
isto é, inf B é um majorante de A, portanto sup A ≤ inf B.
Suponhamos que sup A = inf B, sejam α = sup A = inf B e δ > 0. Por se ter α = sup A, existe a
0
∈ A tal que
a
0
> α − δ; por se ter α = inf B, existe b
0
∈ B tal que b
0
< α + δ. Então b
0
− a
0
< 2δ. Seja agora > 0;
aplicando o raciocínio anterior a δ = /2, vemos que existem a
0
∈ A, b
0
∈ B tais que b
0
−a
0
< .
Por outro lado, se sup A < inf B, então ∀a ∈ A, b ∈ B, tem-se b−a ≥ inf B−sup A, portanto, se < inf B−sup A,
não existem a
0
∈ A, b
0
∈ B tais que b
0
−a
0
< .
Proposição 1.2.13 Se A = ∅ é tal que ∀x, y ∈ A : [x −y[ < l, então existe um intervalo fechado, I, de comprimento
l, tal que A ⊂ I.
Demonstração: Seja a ∈ A; para todo o x ∈ A, tem-se [x−a[ < l, logo a−l < x < a+l, portanto A é limitado. Sejam
α = inf A, β = sup A e I = [α, β]; tem-se obviamente A ⊂ I, portanto basta mostrar que β −α ≤ l.
l l
l
2 2
1.2. RELAÇÃO DE ORDEM 5
Suponhamos que β −α > l, e seja =
β−α−l
2
; existem a
1
∈ A tal que a
1
< α + e a
2
∈ A tal que a
2
> β −, isto
é, a
1
<
α+β−l
2
e a
2
>
β+α+l
2
. Mas então a
2
−a
1
>
β+α+l
2

α+β−l
2
= l, o que contradiz a hipótese sobre A. Conclui-se
que β −α ≤ l.
Observação: não existe necessariamente um intervalo aberto I, de comprimento l, tal que A ⊂ I.
Teorema 1.2.14 (do encaixe de intervalos) Para cada n ∈ N seja I
n
= [a
n
, b
n
] um intervalo. Se ∀n ∈ N I
n+1

I
n
então
¸
n∈N
I
n
= ∅.
Demonstração: De I
n+1
⊂ I
n
conclui-se que se k < l então I
l
⊂ I
k
e portanto a
l
≥ a
k
e b
l
≤ b
k
. Seja A = ¦a
i
, i ∈ N¦
e B = ¦b
j
, j ∈ N¦, e sejam n ∈ N e m ∈ N. Se p designar o máximo de ¦n, m¦ temos a
n
≤ a
p
≤ b
p
≤ b
m
,
portanto ∀x ∈ A ∀y ∈ B x ≤ y. Conclui-se da alínea 7 da proposição 1.2.12 que sup A ≤ inf B. É imediato que
∀n ∈ N [sup A, inf B] ⊂ I
n
, portanto ∅ = [sup A, inf B] ⊂
¸
n∈N
I
n
.
Exemplos
1. A =]2, 3[
¦majorantes de A¦ = [3, +∞[; ¦minorantes de A¦ =] −∞, 2]
sup A = 3; inf A = 2; A não tem máximo nem mínimo.
2. A = ¦2¦∪]
5
2
, 3[
¦majorantes de A¦ = [3, +∞[; ¦minorantes de A¦ =] −∞, 2]
sup A = 3; inf A = 2; A não tem máximo; min A = 2.
3. A = ¦
1−n
n
; n ∈ N¦
¦majorantes de A¦ = [0, +∞[; ¦minorantes de A¦ =] −∞, −1]
sup A = 0; inf A = −1; max A = 0; A não tem mínimo.
4. A = ¦x ∈ Q : x
2
≤ 3¦
¦majorantes de A¦ = [

3, +∞[; ¦minorantes de A¦ =] −∞, −

3]
sup A =

3; inf A = −

3; A não tem máximo nem mínimo.
5. A = ¦x ∈ R ` Q : x
2
≤ 3¦
¦majorantes de A¦ = [

3, +∞[; ¦minorantes de A¦ =] −∞, −

3]
sup A =

3; inf A = −

3; max A =

3; min A = −

3
6. A = ¦5¦
¦majorantes de A¦ = [5, +∞[; ¦minorantes de A¦ =] −∞, 5]
sup A = 5; inf A = 5; max A = 5; min A = 5
Observação: ∀A ⊂ R : inf A = sup A ⇔ A é constituido por um único elemento.
7. A = ¦2, 3¦; B = [2, 3]
max A = sup A = 3; max B = sup B = 3
min A = inf A = 2; min B = inf B = 2
Neste caso, A ⊂ B, A = B e sup A = sup B, inf A = inf B.
8. A = ¦0, 1, 2¦; B =] −1, 5]
max A = sup A = 2; max B = sup B = 5
min A = inf A = 0; inf B = −1; B não tem mínimo
Neste caso, A ⊂ B, A = B e sup A < sup B, inf A > inf B.
9. A = [1, 2[∪¦6¦; B = [0, 2[∪¦4¦
max A = sup A = 6; max B = sup B = 4
min A = inf A = 1; min B = inf B = 0
A∩ B = [1, 2[; sup(A∩ B) = 2; min(A∩ B) = inf(A∩ B) = 1; A∩ B não tem máximo
Neste caso sup(A∩ B) < min¦sup A, sup B¦; inf(A∩ B) = max¦inf A, inf B¦.
6 CAPÍTULO 1. PROPRIEDADES BÁSICAS DOS NÚMEROS
10. A = ¦
1
n
, n ∈ N¦; B = ¦1 −
1
n
, n ∈ N¦
max A = sup A = 1; sup B = 1; B não tem máximo
A não tem mínimo; inf A = 0; min B = inf B = 0
A∩ B = ¦
1
2
¦; max(A∩ B) = sup(A∩ B) = min(A∩ B) = inf(A∩ B) =
1
2
Neste caso sup(A∩ B) < min¦sup A, sup B¦; inf(A∩ B) > max¦inf A, inf B¦.
11. A = [0, 1]; B = ¦2¦
max A = sup A = 1; max B = sup B = 2
min A = inf A = 0; min B = inf B = 2
Neste caso ∀a ∈ A∀b ∈ B : a < b e sup A < inf B
12. A = ¦0, 1¦; B = ¦1 +
1
n
2
, n ∈ N¦
max A = sup A = 1; max B = sup B = 2;
min A = inf A = 0; inf B = 1; B não tem mínimo
Neste caso ∀a ∈ A∀b ∈ B : a < b e sup A = inf B
1.3 Princípio de indução
Seja A um conjunto de números naturais tal que 1 ∈ A e ∀n ∈ N (n ∈ A ⇒ n + 1 ∈ A). Então A = N.
Exemplos de demonstração por indução
1. ∀n ∈ N : 1 +
1
3
+
1
9
+ +
1
3
n
=
3
n+1
−1
2.3
n+1
Demonstração: Seja A = ¦n ∈ N; 1 +
1
3
+
1
9
+ +
1
3
n
=
3
n+1
−1
2.3
n
¦
Tem-se 1 ∈ A porque 1 +
1
3
=
9−1
2.3
.
Suponhamos que m ∈ A, isto é, que 1 +
1
3
+
1
9
+ +
1
3
m
=
3
k+1
−1
2.3
m
. Então
1 +
1
3
+
1
9
+ +
1
3
m
+
1
3
m+1
=
3
m+1
−1
2.3
m
+
1
3
m+1
=
(3
m+1
−1).3 + 2
2.3
m+1
=
3
m+2
−3 + 2
2.3
m+1
=
3
m+2
−1
2.3
m+1
isto é, m+ 1 ∈ A.
De 1 ∈ A e m ∈ A ⇒ m+ 1 ∈ A conclui-se que A = N.
2. ∀n ∈ N :
n
¸
k=0
C
n
k
= 2
n
, em que C
n
k
= (
n
k) =
n!
k!(n −k)!
.
Demonstração: Comecemos por verificar que ∀k ∈ ¦1, 2, . . . , n¦ se tem C
n+1
k
= C
n
k
+C
n
k−1
. Com efeito, tem-se
C
n
k
+C
n
k−1
=
n!
k!(n −k)!
+
n!
(k −1)!(n −k + 1)!
=
n!(n + 1 −k) +n!k
k!(n + 1 −k)!
=
n!(n + 1)
k!(n + 1 −k)!
= C
n+1
k
Seja agora A = ¦n ∈ N :
¸
n
k=0
C
n
k
= 2
n
¦.
Tem-se 1 ∈ A, porque C
1
0
+C
1
1
= 1 + 1 = 2
1
.
1.3. PRINCÍPIO DE INDUÇÃO 7
Suponhamos que m ∈ A, isto é, que
¸
m
k=0
C
m
k
= 2
m
. Então
m+1
¸
k=0
C
m+1
k
= C
m+1
0
+
m
¸
k=1
C
m+1
k
+C
m+1
m+1
= 1 +

m
¸
k=1
(C
m
k
+C
m
k−1
)

+ 1
= C
m
0
+
m
¸
k=1
C
m
k
+
m
¸
k=1
C
m
k−1
+C
m
m
=
m
¸
k=0
C
m
k
+
m
¸
k=0
C
m
k
= 2
m
+ 2
m
porque m ∈ A
= 2
m+1
De 1 ∈ A e m ∈ A ⇒ m+ 1 ∈ A conclui-se que A = N.
3. Seja (x
n
)
n
a sucessão definida por

x
1
= 1
x
n+1
=
x
2
n
2
∀n > 1
Então ∀n ∈ N : x
n
< 2.
Demonstração: Seja A = ¦n ∈ N : x
n
< 2¦. Tem-se 1 ∈ A porque x
1
= 1 < 2.
Suponhamos que m ∈ A, isto é, que x
m
< 2. É fácil ver que ∀n ∈ N : x
n
> 0, portanto de x
m
< 2 conclui-se que
x
2
m
< 4, logo x
2
m
/2 < 2, isto é, x
m+1
< 2. Portanto m+ 1 ∈ A.
Conclui-se que A = N.
4. ∀n ∈ N : n(n
2
+ 5) é múltiplo de 6.
Demonstração: Seja A = ¦n ∈ N; n(n
2
+5) é múltiplo de 6¦. Tem-se 1 ∈ A porque 1.(1
2
+5) = 6, e 6 é múltiplo
de 6.
Suponhamos que m ∈ A, isto é, que m(m
2
+5) é múltiplo de 6, ou seja, que existe k ∈ N tal que m(m
2
+5) = 6k.
Então
(m+ 1)((m+ 1)
2
+ 5) = m((m+ 1)
2
+ 5) + (m+ 1)
2
+ 5
= m(m
2
+ 5 + 2m+ 1) +m
2
+ 2m+ 6
= m(m
2
+ 5) + 3m
2
+ 3m+ 6
= 6k + 3m(m+ 1) + 6
= 6(k + 1) + 3m(m+ 1).
Mas m(m + 1) é par (porque m é par ou m é ímpar e neste caso m + 1 é par), portanto 3m(m + 1) é múltiplo
de 6. Tem-se então que (m+ 1)((m+ 1)
2
+ 5) é a soma de dois múltiplos de 6, portanto é múltiplo de 6, isto é,
m+ 1 ∈ A.
Conclui-se que A = N.
5. ∀n ∈ N : 2
n
< 3n!
Demonstração: Seja A = ¦n ∈ N : 2
n
< 3n!¦. Tem-se 1 ∈ A porque 2
1
= 2 < 3 = 3.1!.
Suponhamos que m ∈ A, isto é, que 2
m
< 3m!. Então 2
m+1
= 2.2
m
< 2.3m! ≤ (n + 1).3m! = 3(m + 1)!, isto é,
m+ 1 ∈ A. Conclui-se que A = N.
Exemplos de subconjuntos de R que verificam 1 ∈ A e ∀x ∈ R (x ∈ A ⇒ x + 1 ∈ A) e tais que A = R
N, Z, Q, N ∪ (R ` Q), [1, +∞[, ] −2, +∞[, ¦x ∈ R : 6x ∈ Z¦, ∪
n∈N
[n, n +
1
2
[
8 CAPÍTULO 1. PROPRIEDADES BÁSICAS DOS NÚMEROS
Capítulo 2
Funções (reais de variável real)
O objectivo principal deste curso é o estudo de funções reais de variável real, isto é, em que o domínio e o conjunto
de chegada são partes de R. No entanto, uma grande parte das noções e resultados vistos neste capítulo aplicam-se a
funções definidas em quaisquer conjuntos.
2.1 Generalidades sobre funções
Seja f : A −→ B uma função de domínio A e conjunto de chegada B (a não confundir com contradomínio).
Definição 2.1.1 Chama-se contradomínio de f ao conjunto das imagens por f de elementos de A, isto é, ¦f(a); a ∈
A¦, ou ainda ¦b ∈ B; ∃a ∈ A : f(a) = b¦. Notação: f(A) ou Im(f).
Definição 2.1.2 1. Diz-se que f é sobrejectiva sse f(A) = B, isto é, sse ∀b ∈ B ∃a ∈ A : f(a) = b.
2. Diz-se que f é injectiva sse elementos distintos de A têm sempre imagens distintas, isto é, sse
∀a
1
, a
2
∈ A : f(a
1
) = f(a
2
) ⇒ a
1
= a
2
.
3. Diz-se que f é bijectiva sse f é sobrejectiva e injectiva, isto é, sse ∀b ∈ B ∃
1
a ∈ A : f(a) = b.
Exemplos:
1. f: R −→ R
x → 2x + 5
f é bijectiva porque para cada y ∈ R,
f(x) = y ⇔ 2x + 5 = y ⇔ x =
y −5
2
,
portanto existe um único x ∈ R tal que f(x) = y.
2. f: ] −∞, 0[∪[2, +∞[ −→ R
x → 2x + 5
f não é sobrejectiva, uma vez que, por exemplo, não existe x ∈] −∞, 0[∪[2, +∞[ tal que f(x) = 7.
f é injectiva, pois f(x
1
) = f(x
2
) ⇒ 2x
1
+ 5 = 2x
2
+ 5 ⇒ x
1
= x
2
.
3. f: R −→ R
x → x
2
−6x + 4
f não é injectiva, pois f(2) = f(4) = −4.
f(R) = [−5, +∞[
Se y < −5, não existe x ∈ R tal que x
2
− 6x + 4 = y (porque 6
2
− 4(4 − y) < 0). Se y ≥ −5 então
f(3 +

y + 5) = f(3 −

y + 5) = y, portanto y ∈ f(R).
Observações: 1. f não é sobrejectiva
2. Se y = −5 existe um único x ∈ R tal que f(x) = y; trata-se de x = 3. Se y > −5 existem duas soluções da
equação f(x) = y, pois 3 +

y + 5 = 3 −

y + 5.
9
10 CAPÍTULO 2. FUNÇÕES (REAIS DE VARIÁVEL REAL)
4. f: ]4, +∞[ −→ [−5, +∞[
x → x
2
−6x + 4
f é injectiva. De facto, suponhamos que f(x
1
) = f(x
2
) = y. Então x
1
= 3 +

y + 5 ou x
1
= 3 −

y + 5 e
x
2
= 3+

y + 5 ou x
2
= 3−

y + 5. Mas x
1
∈]4, +∞[, x
2
∈]4, +∞[ e 3−

y + 5 ≤ 3. Logo x
1
= x
2
= 3+

y + 5.
f(]4, +∞[) =] −4, +∞[
Demonstração: Se y > −4, então 3 +

y + 5 > 4 e f(3 +

y + 5) = y, portanto y ∈ f(]4, +∞[). Se y ≤ −4,
então não existe x ∈]4, +∞[ tal que f(x) = y, porque ou y < −5, caso em que já vimos não existir x ∈ R tal que
x
2
−6x+4 = y, ou −5 ≤ y ≤ −4, caso em que as soluções em R de x
2
−6x+4 = y são 3 +

y + 5 e 3 −

y + 5,
mas 3 +

y + 5 ≤ 4 e 3 −

y + 5 ≤ 4.
5. f: ]2, +∞[ −→ [−5, +∞[
x → x
2
−6x + 4
f não é injectiva, porque f(
5
2
) = f(
7
2
) = −
19
4
.
f é sobrejectiva, porque para y ∈ [−5, +∞[ existe x ∈]2, +∞[ tal que f(x) = y. Basta tomar x = 3 +

y + 5.
6. f: [0, 1] −→ [−1, 4]
x → x
2
−6x + 4
f é bijectiva.
Demonstração: Seja y ∈ [−1, 4]. A equação x
2
− 6x + 4 = y tem como soluções reais x = 3 +

y + 5 e
x = 3 −

y + 5. Ora 3 +

y + 5 ∈ [0, 1] e 3 −

y + 5 ∈ [0, 1], portanto a equação f(x) = y tem uma e uma só
solução.
Definição 2.1.3 1. Seja f : A −→ B e A

⊂ A. Chama-se restrição de f a A

à função f
|A
: A

−→ B
x → f(x)
.
2. Seja f : A −→ B e A

⊃ A. Diz-se que g : A

−→ B é um prolongamento de f a A

sse ∀a ∈ A : g(a) = f(a)
(isto é, se f = g
|A
).
Observação: Em geral existe mais de um prolongamento de f a A

.
Exemplo : f: [1, 4] −→ R
x → x −3
, g
1
: R −→ R
x → x −3
, g
2
: R −→ R
x →

x −3, se x ∈ [1, 4]
1, se x ≥ 4
−2, se x ≤ 1
,
g
3
: [0, 10] −→ R
x →

x −3, se x ≥ 1
−x
2
−1, se x ≤ 1
, g
4
: R −→ R
x →

x −3, se x ∈ [1, 4]
x
2
−3, se x ≤ 1
x
3
, se x > 4
g
1
, g
2
, g
3
e g
4
são prolongamentos de f.
f é a restrição a [1, 4] de g
1
, de g
2
, de g
3
e de g
4
.
Definição 2.1.4 Sejam f : A −→ B, A
1
⊂ A, B
1
⊂ B.
1. Chama-se imagem de A
1
por f ao contradomínio de f
|A
1
(=¦f(a); a ∈ A
1
¦ = ¦b ∈ B; ∃a ∈ A
1
: f(a
1
) = b¦)
Notação: f(A
1
)
2. Chama-se imagem recíproca de B
1
por f ao conjunto ¦a ∈ A : f(a) ∈ B
1
¦. Notação: f
−1
(B
1
).
Observação: f
−1
(B) = A.
Exemplos:
1. f: R −→ R
x → 3
f(R) = f(¦0¦) = f([2, 3]) = f(Q) = ¦3¦
Qualquer que seja A
1
⊂ R, A
1
= ∅, tem-se f(A
1
) = ¦3¦.
f
−1
(¦0¦) = f
−1
([−5, −1[) = f
−1
(¦π¦) = f
−1
(¦0¦ ∪ ¦4¦) = ∅
f
−1
(¦3¦) = f
−1
(Q) = f
−1
(R) = f
−1
([0, 4]) = f
−1
(] −∞, 3]) = R
Para cada B
1
⊂ R tem-se

f
−1
(B
1
) = R, se 3 ∈ B
1
f
−1
(B
1
) = ∅, se 3 ∈ B
1
2.1. GENERALIDADES SOBRE FUNÇÕES 11
2. f: ] −10, 10[ −→ R
x →
x
2
f([0, 1]) = [0,
1
2
]; f(Q∩] −10, 10[) = Q∩] −5, 5[; f(¦5¦) = ¦
5
2
¦
f
−1
(]3, 4[) =]6, 8[; f
−1
(]0, +∞[) =]0, 10[; f
−1
(]3, 7]) =]6, 10[; f
−1
([−8, 2]) =] −10, 4]
3. f: R −→ R
x → x
2
−8x
f(]2, 6[) = [−16, −12[; f(R) = [−16, +∞[;f([4, +∞[) = [−16, +∞[; f(¦0, 3, 5, 8¦) = ¦−15, 0¦
f
−1
(¦0¦) = ¦0, 8¦; f
−1
(¦−7¦) = ¦1, 7¦; f
−1
(] −∞, −16]) = ¦4¦; f
−1
(R
+
) =] −∞, 0[∪]8, +∞[;f
−1
(R

) =]0, 8[
4. f: R −→ R
x →

x + 3, se x < −5
x
2
, se x ∈ [−5, 0]
1
x
, se x > 0
f(R) =] −∞, −2[∪[0, +∞[; f(] −1, 1[) = [0, 1[∪]1, +∞[; f([−6, −1]) = [−3, −2[∪[1, 25]; f({-1,1})={1}
f
−1
(]−∞, 4]) =]−∞, −5[∪[−2, 0]∪[
1
4
, +∞[; f
−1
([0, 1]) = [−1, 0]∪[1, +∞[;f
−1
(¦2¦) = ¦−

2,
1
2
¦; f
−1
(]−2, 0[) =

5. id
A
: A −→ A
x → x
(função identidade em A)
∀A
1
⊂ A : id
A
(A
1
) = A
1
∀A
1
⊂ A : id
−1
A
(A
1
) = A
1
6. Seja A ⊂ R.
χ
A
: R −→ R
x →

1 se x ∈ A
0 se x ∈ A
(função característica de A)
χ
A
(A
1
) =

¦1¦ se A
1
⊂ A
¦0¦ se A
1
∩ A = ∅
¦0, 1¦ se A
1
∩ A = ∅ e A
1
⊂ A
χ
−1
A
(B
1
) =

R se ¦0, 1¦ ⊂ B
1
A se 1 ∈ B
1
, 0 ∈ B
1
R ` A se 1 ∈ B
1
, 0 ∈ B
1
∅ se 1 ∈ B
1
, 0 ∈ B
1
Proposição 2.1.5 Seja f : A −→ B.
1. Qualquer que seja A
1
⊂ A tem-se A
1
⊂ f
−1
(f(A
1
)).
2. f é injectiva sse ∀A
1
⊂ A : A
1
= f
−1
(f(A
1
)).
3. Qualquer que seja B
1
⊂ B tem-se f(f
−1
(B
1
)) ⊂ B
1
.
4. f é sobrejectiva sse ∀B
1
⊂ B : f(f
−1
(B
1
)) = B
1
.
5. A
1
⊂ A
2
⇒ f(A
1
) ⊂ f(A
2
)
6. B
1
⊂ B
2
⇒ f
−1
(B
1
) ⊂ f
−1
(B
2
)
Demonstração:
1. Seja A
1
⊂ A. Se a ∈ A
1
, então, por definição de f(A
1
) tem-se f(a) ∈ f(A
1
). Mas, por definição de f
−1
(f(A
1
)),
isso quer dizer que a ∈ f
−1
(f(A
1
)).
2. Suponhamos que f é injectiva e seja A
1
⊂ A. Pela alínea anterior, tem-se A
1
⊂ f
−1
(f(A
1
)). Seja x ∈ f
−1
(f(A
1
)),
isto é f(x) ∈ f(A
1
). Então existe a ∈ A
1
tal que f(a) = f(x), por definição de f(A
1
). Mas f é injectiva, portanto
a = x, isto é, x ∈ A
1
.
Suponhamos agora que ∀A
1
⊂ A : A
1
= f
−1
(f(A
1
)). Sejam x
1
, x
2
∈ A tais que f(x
1
) = f(x
2
) e ponhamos
X
1
= ¦x
1
¦. Tem-se X
1
= f
−1
(f(X
1
)); mas f(x
2
) = f(x
1
) ∈ f(X
1
), portanto x
2
∈ f
−1
(f(X
1
)) = X
1
= ¦x
1
¦,
isto é, x
1
= x
2
.
12 CAPÍTULO 2. FUNÇÕES (REAIS DE VARIÁVEL REAL)
3. Sejam B
1
⊂ B e y ∈ f(f
−1
(B
1
)). Então existe x ∈ f
−1
(B
1
) tal que y = f(x); mas x ∈ f
−1
(B
1
), logo f(x) ∈ B
1
,
isto é, y ∈ B
1
.
4. Suponhamos que f é sobrejectiva. Seja B
1
⊂ B. Pela alínea anterior, tem-se f(f
−1
(B
1
)) ⊂ B
1
. Seja y ∈ B
1
.
Como f é sobrejectiva, existe x ∈ A tal que f(x) = y. Mas y = f(x) ∈ B
1
, isto é, x ∈ f
−1
(B
1
), portanto
y ∈ f(f
−1
(B
1
)).
Suponhamos agora que ∀B
1
⊂ B : f(f
−1
(B
1
)) = B
1
. Seja y ∈ B. Então f(f
−1
(¦y¦)) = ¦y¦, isto é, por definição
de f(f
−1
(¦y¦)) existe x ∈ f
−1
(¦y¦) tal que f(x) = y.
5. trivial
6. trivial
Proposição 2.1.6 Seja f : A −→ B.
1. ∀A
1
, A
2
⊂ A : f(A
1
∪ A
2
) = f(A
1
) ∪ f(A
2
)
2. ∀A
1
, A
2
⊂ A : f(A
1
∩ A
2
) ⊂ f(A
1
) ∩ f(A
2
)
3. ∀B
1
, B
2
⊂ B : f
−1
(B
1
∪ B
2
) = f
−1
(B
1
) ∪ f
−1
(B
2
)
4. ∀B
1
, B
2
⊂ B : f
−1
(B
1
∩ B
2
) = f
−1
(B
1
) ∩ f
−1
(B
2
)
Demonstração:
1. De A
1
⊂ A
1
∪ A
2
e A
2
⊂ A
1
∪ A
2
conclui-se que f(A
1
) ⊂ f(A
1
∪ A
2
) e f(A
2
) ⊂ f(A
1
∪ A
2
). Então
f(A
1
) ∪ f(A
2
) ⊂ f(A
1
∪ A
2
).
Por outro lado, se y ∈ f(A
1
) (resp. f(A
2
)) então existe x ∈ A
1
(resp. A
2
) tal que f(x) = y; mas tem-se
A
1
(resp. A
2
) ⊂ A
1
∪ A
2
, portanto x ∈ A
1
∪ A
2
, logo y ∈ f(A
1
∪ A
2
).
2. De A
1
∩ A
2
⊂ A
1
e A
1
∩ A
2
⊂ A
2
conclui-se que f(A
1
∩ A
2
) ⊂ f(A
1
) e f(A
1
∩ A
2
) ⊂ f(A
2
), portanto
f(A
1
∩ A
2
) ⊂ f(A
1
) ∩ f(A
2
)
3. Dizer que x ∈ f
−1
(B
1
∪B
2
) é equivalente a dizer que f(x) ∈ B
1
∪B
2
, o que é equivalente a dizer que f(x) ∈ B
1
ou f(x) ∈ B
2
, o que é equivalente a dizer que x ∈ f
−1
(B
1
) ou x ∈ f
−1
(B
2
), o que é equivalente a dizer que
x ∈ f
−1
(B
1
) ∪ f
−1
(B
2
).
4. análoga à anterior.
Exemplos:
1. f: R −→ R
x → x
4
+ 1
f
−1
(f(¦0¦)) = ¦0¦
f
−1
(f(¦1¦)) = f
−1
(¦2¦) = ¦−1, 1¦ = ¦1¦
f
−1
(f([−1, 3])) = f
−1
([1, 82]) = [−3, 3] = [−1, 3]
f(f
−1
(¦2¦)) = ¦2¦
f(f
−1
(R)) = f(R) = [1, +∞[= R
f(f
−1
(¦0¦)) = f(∅) = ∅ = ¦0¦
2. f: R −→ R
x → x
2
A
1
= [0, +∞[; A
2
=] −∞, 0]; A
1
∩ A
2
= ¦0¦
f(A
1
) = f(A
2
) = [0, +∞[; f(A
1
∩ A
2
) = ¦0¦ = [0, +∞[= f(A
1
) ∩ f(A
2
)
A

1
= ¦1, 2¦; A

2
= ¦2, 3¦; A

1
∩ A

2
= ¦2¦
f(A

1
) = ¦1, 4¦; f(A

2
) = ¦4, 9¦; f(A

1
∩ A

2
) = ¦4¦ = f(A

1
) ∩ f(A

2
)
2.1. GENERALIDADES SOBRE FUNÇÕES 13
3. f: R ` ¦0¦ −→ R
x →
1
x
2
A
1
= ¦1¦; A
2
= ¦1, 2¦;
f(A
1
) = ¦1¦; f(A
2
) = ¦1,
1
4
¦;
A

1
= ¦1¦; A

2
= ¦−1, 1¦;
f(A

1
) = ¦1¦; f(A

2
) = ¦1¦;
Neste caso A

1
⊂ A

2
, A

1
= A

2
e f(A

1
) = f(A

2
).
Definição 2.1.7 Seja f : R −→R
1. Diz-se que f é par sse ∀x ∈ R : f(−x) = f(x).
2. Diz-se que f é ímpar sse ∀x ∈ R : f(−x) = −f(x).
3. Diz-se que f é periódica sse existe p ∈ R ` ¦0¦ tal que
∀x ∈ R : f(x +p) = f(x); (*)
um número p ∈ R que verifica a condição (*) diz-se um período de f.
Observações:
1. Se f é ímpar, então f(0) = 0.
2. Se f é par e ímpar, então f é a função nula.
3. Se p é um período de f, então ∀n ∈ Z, np tambem é um período de f.
4. Se f é periódica, contínua (ver capítulo 3) e não constante, o conjunto ¦p ∈ R
+
; p é um período de f¦ tem
mínimo; em geral, a expressão “o período def” refere-se a este mínimo do conjunto dos períodos positivos de f.
Exemplos:
1. f: R −→ R
x → x
n
, n ∈ N
f é par se n for par; f é ímpar se n for ímpar.
2. f: R −→ R
x → 2x
f é ímpar.
3. f: R −→ R
x → x −5
f nem é par nem ímpar.
4. f: R −→ R
x → x −[x]
f é periódica; o período de f é 1.
5. f: R −→ R
x →

0 se x ∈ Q
1 se x ∈ Q
f é periódica; qualquer número racional diferente de 0 é um período de f.
6. f: R −→ R
x → sen x
f é ímpar; f é periódica; o período de f é 2π.
7. f: R −→ R
x → cos(5x + 2)
f é periódica; o período de f é

5
.
8. f: R −→ R
x → sen 4x cos(6x −1)
f é periódica; o período de f é π.
14 CAPÍTULO 2. FUNÇÕES (REAIS DE VARIÁVEL REAL)
2.2 Soma, multiplicação e composição de funções
Dadas duas funções f, g : A −→ B, designa-se por f + g a função A −→ B
x → f(x) +g(x)
e por f.g a função
A −→ B
x → f(x).g(x)
Se g nunca se anular designa-se por
f
g
a função A −→ B
x →
f(x)
g(x)
Seja f : A −→ B e g : B −→ C. Define-se a composta g ◦ f : A −→ C por g ◦ f(x) = g(f(x)).
Exemplos:
1. f: R −→ R
x →

x, se x > 1
x −1, se x ≤ 1
g: R −→ R
x →

x, se x ≥ 0
x
2
, se x < 0
f +g: R −→ R
x →

x −1 +x
2
, se x < 0
x −1 +

x, se 0 ≤ x ≤ 1
x +

x, se 1 < x
f.g: R −→ R
x →

(x −1)x
2
, se x < 0
(x −1)

x, se 0 ≤ x ≤ 1
x

x, se 1 < x
2. f: R −→ R
x →

x
2
, se x ≤ 0
x −3, se x > 0
g: R −→ R
x →

2x, se x ≥ 1
−x + 3, se x < 1
g(f(x)) =

2f(x), se f(x) ≥ 1
−f(x) + 3, se f(x) < 1
=

2x
2
, se x ≤ 0 e f(x) ≥ 1
2(x −3), se x > 0 e f(x) ≥ 1
−x
2
+ 3, se x ≤ 0 e f(x) < 1
−(x −3) + 3, se x > 0 e f(x) < 1
=

2x
2
, se x ≤ 0 e x
2
≥ 1
2(x −3), se x > 0 e x −3 ≥ 1
−x
2
+ 3, se x ≤ 0 e x
2
< 1
−(x −3) + 3, se x > 0 e x −3 < 1
=

2x
2
, se x ∈] −∞, −1]
2(x −3), se x ∈ [4, +∞[
−x
2
+ 3, se x ∈] −1, 0]
−x + 6, se x ∈]0, 4[
g ◦ f: R −→ R
x →

2x
2
, se x ∈] −∞, −1]
2(x −3), se x ∈ [4, +∞[
−x
2
+ 3, se x ∈] −1, 0]
−x + 6, se x ∈]0, 4[
Proposição 2.2.1 Sejam f : A −→ B e g : B −→ C.
1. Se f é injectiva e g é injectiva então g ◦ f é injectiva.
2. Se f é sobrejectiva e g é sobrejectiva então g ◦ f é sobrejectiva.
3. Se g ◦ f é injectiva e f é sobrejectiva então g é injectiva.
4. Se g ◦ f é sobrejectiva e g é injectiva então f é sobrejectiva.
5. Se g ◦ f é injectiva então f é injectiva.
6. Se g ◦ f é sobrejectiva então g é sobrejectiva.
Demonstração:
1. Sejam x
1
, x
2
∈ A tais que (g ◦ f)(x
1
) = (g ◦ f)(x
2
), isto é, g(f(x
1
)) = g(f(x
2
)). Como g é injectiva conclui-se
que f(x
1
) = f(x
2
); mas f é injectiva, portanto isso implica que x
1
= x
2
.
2. Seja z ∈ C. Como g é sobrejectiva, existe y ∈ B tal que g(y) = z; como f é sobrejectiva, existe x ∈ A tal que
f(x) = y. Mas então (g ◦ f)(x) = g(f(x)) = g(y) = z.
3. Sejam y
1
, y
2
∈ B tais que g(y
1
) = g(y
2
). Como f é sobrejectiva, existem x
1
, x
2
∈ A tais que f(x
1
) = y
1
e
f(x
2
) = y
2
. Então (g ◦ f)(x
1
) = g(y
1
) = g(y
2
) = (g ◦ f)(x
2
), e de g ◦ f ser injectiva deduz-se que x
1
= x
2
,
portanto y
1
= y
2
.
4. Seja y ∈ B e seja z = g(y). Como g ◦ f é sobrejectiva, existe x ∈ A tal que (g ◦ f)(x) = z = g(y). Mas como g é
injectiva tem-se então f(x) = y.
2.2. SOMA, MULTIPLICAÇÃO E COMPOSIÇÃO DE FUNÇÕES 15
5. Sejam x
1
, x
2
tais que f(x
1
) = f(x
2
). Então (g ◦ f)(x
1
) = (g ◦ f)(x
2
); mas g ◦ f é injectiva, portanto x
1
= x
2
.
6. Seja z ∈ C. Como g ◦ f é sobrejectiva, existe x ∈ A tal que (g ◦ f)(x) = z. Então z = g(y), em que y = f(x).

Exemplos:
1. f: R −→ R
x →

1
1−x
, se x ≤ 0
x + 1, se x > 0
; g: R −→ R
x → x
2
g ◦ f: R −→ R
x →

1
(1−x)
2
, se x ≤ 0
(x + 1)
2
, se x > 0
Neste caso g ◦ f é injectiva, f é injectiva mas g não é injectiva.
2. f: ] −∞, 2] −→ R
x → 1 −x
; g: R −→ R
+
0
x → [x + 1[
g ◦ f: ] −∞, 2] −→ R
+
0
x → [2 −x[
Neste caso g ◦ f é sobrejectiva, g é sobrejectiva mas f não é sobrejectiva.
3. f: [0, 1] −→ [−5, 5]
x → 2x
; g: [−5, 5] −→ [−5, 5]
x → x
g ◦ f: [0, 1] −→ [−5, 5]
x → 2x
Neste caso g é sobrejectiva mas g ◦ f não é sobrejectiva.
4. f: ] −10, 10[ −→ R
+
x → [x[
; g: R
+
−→ R
x →

x
g ◦ f: ] −10, 10[ −→ R
x →

[x[
Neste caso g é injectiva mas g ◦ f não é injectiva.
Definição 2.2.2 Seja f : A −→ B.
1. Diz-se que g : B −→ A é inversa à direita de f sse f ◦ g = id
B
.
2. Diz-se que g : B −→ A é inversa à esquerda de f sse g ◦ f = id
A
.
3. Diz-se que g é inversa de f sse g é inversa à direita e inversa à esquerda de f. Notação: f
−1
Exemplos:
1. f: R −→ R
x → x
3
; f
−1
: R −→ R
x →
3

x
2. f: R −→ R
+
0
x → x
2
; g
1
: R
+
0
−→ R
x →

x
g
2
: R
+
0
−→ R
x → −

x
; g
3
: R
+
0
−→ R
x →

x, se x ∈ Q


x, se x ∈ Q
g
1
, g
2
e g
3
são inversas à direita de f; nenhuma é inversa à esquerda de f; f não tem inversa à esquerda.
3. f: ] −∞, 1] −→ R
x → x
2
−4x
g
1
: R −→ ] −∞, 1]
x →

2 −

x + 4, se x ≥ −3
0, se x < −3
; g
2
: R −→ ] −∞, 1]
x →

2 −

x + 4, se x ≥ −4
x, se x < −4
g
1
e g
2
são inversas à esquerda de f; nenhuma è inversa à direita de f; f não tem inversa à direita.
16 CAPÍTULO 2. FUNÇÕES (REAIS DE VARIÁVEL REAL)
4. f: R −→ ] −∞, 5[
x →

2x + 4 se x ≤ −2
x
2
+ 1 se x ∈] −2, 0]
x
x+1
se x > 0
; f
−1
: ] −∞, 5[ −→ R
x →

x−4
2
se x ≤ 0
x
1−x
se x ∈]0, 1[


x −1 se x ∈ [1, 5[
Observação: f não pode ter mais do que uma inversa. De facto, se g
1
e g
2
são inversas de f, tem-se
g
1
= g
1
◦ (f ◦ g
2
) = (g
1
◦ f) ◦ g
2
= g
2
.
Proposição 2.2.3 Seja f : A −→ B.
1. f tem inversa à direita sse f é sobrejectiva.
2. f tem inversa à esquerda sse f é injectiva.
3. f tem inversa sse f é bijectiva
Demonstração:
1. Suponhamos que g é inversa à direita de f; então f ◦ g = id
B
é sobrejectiva, logo f é sobrejectiva.
Por outro lado, se f é sobrejectiva, para cada x ∈ B escolha-se um elemento a
x
de f
−1
(¦x¦) (f
−1
(¦x¦) não é
vazio porque f é sobrejectiva); seja g a função definida por g: B −→ A
x → a
x
Então ∀x ∈ B : f(g(x)) = x, isto
é, g é uma inversa à direita de f.
Observação: g não é necessariamente determinada por f, uma vez que para cada x ∈ B se pode escolher como
g(x) qualquer dos elementos de f
−1
(¦x¦) e este conjunto pode ter mais de um elemento.
2. Suponhamos que g é uma inversa à esquerda de f; então g ◦ f = id
A
é injectiva, logo f é injectiva.
Por outro lado, se f é injectiva, seja a
0
um elemento qualquer de A e seja g a função definida por
g : B −→ A
x →

o único elemento a ∈ A tal que f(a) = x, se x ∈ f(A)
a
0
, se x ∈ f(A)
Seja a ∈ A e b = f(a). Então g(f(a)) = g(b) e g(b) é o único elemento a

de A tal que f(a

) = b; ora f(a) = b,
portanto a

= a. Conclui-se que g ◦ f(a) = a, isto é, g é uma inversa à esquerda de f.
Observação: g não é necessariamente determinada por f, uma vez que as imagens por g de elementos que não
pertencem ao contradomínio de f não interferem com o facto de g ser ou não inversa à esquerda de f.
3. Do que foi visto em 1. e 2. conclui-se que se f tem inversa então f é bijectiva. Suponhamos que f é bijectiva e
seja g a função definida por g: B −→ A
x → o único elemento a de A tal que f(a) = b
Então é fácil verificar que g é a inversa de f.
Observação: Se f : A −→ B é uma função injectiva, então a função f: A −→ f(A)
x → f(x)
é bijectiva e portanto tem
inversa. Por abuso de notação designa-se frequentemente por f
−1
a função f
−1
: f(A) −→ A.
2.3 Monotonia, máximos e mínimos
Definição 2.3.1 Seja f : A −→ B.
1. Diz-se que f é crescente sse ∀x
1
, x
2
∈ A : x
1
< x
2
⇒ f(x
1
) ≤ f(x
2
).
2. Diz-se que f é estritamente crescente sse ∀x
1
, x
2
∈ A : x
1
< x
2
⇒ f(x
1
) < f(x
2
).
3. Diz-se que f é decrescente sse ∀x
1
, x
2
∈ A : x
1
< x
2
⇒ f(x
1
) ≥ f(x
2
).
4. Diz-se que f é estritamente decrescente sse ∀x
1
, x
2
∈ A : x
1
< x
2
⇒ f(x
1
) > f(x
2
).
5. Diz-se que f é monótona sse f é crescente ou decrescente.
6. Diz-se que f é estritamente monótona sse f é estritamente crescente ou estritamente decrescente.
2.3. MONOTONIA, MÁXIMOS E MÍNIMOS 17
Observação: “f é monótona” não é equivalente a ∀x
1
, x
2
∈ A : (f(x
1
) ≤ f(x
2
) ou f(x
2
) ≤ f(x
1
)).
Exemplos:
1. f: R −→ R
x → x + 5
f é estritamente crescente, crescente, estritamente monótona e monótona.
2. f: R

−→ R
x → x
2
f é estritamente decrescente, etc.
3. f: R −→ R
x →

1
x
, se x = 0
0, se x = 0
f não é crescente (por exemplo 1 < 2 e f(1) > f(2)).
f não é decrescente (por exemplo −1 < 1 e f(−1) < f(1)).
4. f: R −→ R
x →

0, se x < 0
x
3
+ 3, se x ≥ 0
f é crescente mas não estritamente crescente.
Proposição 2.3.2 Se f : A −→ B é uma função bijectiva estritamente crescente (resp. estritamente decrescente) en-
tão f
−1
: B −→ A tambem é estritamente crescente (resp. estritamente decrescente).
Demonstração: Seja f : A −→ B uma função bijectiva estritamente crescente e sejam y
1
, y
2
∈ B tais que y
1
< y
2
;
queremos mostrar que f
−1
(y
1
) < f
−1
(y
2
). Como f
−1
é bijectiva, não se pode ter f
−1
(y
1
) = f
−1
(y
2
). Por outro lado,
se f
−1
(y
1
) > f
−1
(y
2
), como f é estritamente crescente, ter-se-ia f(f
−1
(y
1
)) > f(f
−1
(y
2
)), isto é, y
1
> y
2
, o que é
contrário à hipótese. Conclui-se que f
−1
(y
1
) < f
−1
(y
2
).
Demonstra-se analogamente o caso em que f é estritamente decrescente.
Definição 2.3.3 Se A
1
⊂ A diz-se que f é crescente (resp. estritamente crescente, decrescente, estritamente
decrescente) em A
1
sse f
|A
1
é crescente (resp. estritamente crescente, decrescente, estritamente decrescente).
Observação: De f ser crescente (resp. estritamente crescente, decrescente, estritamente decrescente) em A
1
e em
A
2
não se pode concluir que f é crescente (resp. estritamente crescente, decrescente, estritamente decrescente) em
A
1
∪ A
2
.
Exemplo: f: R −→ R
x →

1
x
, se x = 0
0, se x = 0
f é decrescente em ] −∞, 0[ e em ]0, +∞[ e não é decrescente em ] −∞, 0[∪]0, +∞[.
Definição 2.3.4 Seja f : A −→ B.
1. Diz-se que f é limitada sse f(A) é limitado (isto é, sse ∃l ∈ R ∀a ∈ A : [f(a)[ ≤ l).
2. Diz-se que f é majorada sse f(A) é majorado (isto é, sse ∃M ∈ R ∀a ∈ A : f(a) ≤ M).
3. Diz-se que f é minorada sse f(A) é minorado (isto é, sse ∃m ∈ R ∀a ∈ A : f(a) ≥ m).
4. Chama-se max(f) ao máximo de f(A) (caso exista).
5. Chama-se min(f) ao mínimo de f(A) (caso exista).
6. Chama-se sup(f) ao supremo de f(A) (caso exista).
7. Chama-se inf(f) ao ínfimo de f(A) (caso exista).
8. Diz-se que f tem um máximo global em a sse f(a) = max(f) (isto é ∀x ∈ A : f(x) ≤ f(a)).
9. Diz-se que f tem um mínimo global em a sse f(a) = min(f) (isto é ∀x ∈ A : f(x) ≥ f(a)).
18 CAPÍTULO 2. FUNÇÕES (REAIS DE VARIÁVEL REAL)
10. Diz-se que f tem um máximo estrito global em a sse f(a) = max(f) e ∀x ∈ A, x = a : f(x) < f(a).
11. Diz-se que f tem um mínimo estrito global em a sse f(a) = max(f) e ∀x ∈ A, x = a : f(x) > f(a).
12. Diz-se que f tem um máximo local em a sse existe algum intervalo aberto I contendo a tal que f
|I∩A
tenha
um máximo global em a.
13. Diz-se que f tem um mínimo local em a sse existe algum intervalo aberto I contendo a tal que f
|I∩A
tenha um
mínimo global em a.
14. Diz-se que f tem um máximo estrito local em a sse existe algum intervalo aberto I contendo a tal que f
|I∩A
tenha um máximo estrito global em a.
15. Diz-se que f tem um mínimo estrito local em a sse existe algum intervalo aberto I contendo a tal que f
|I∩A
tenha um mínimo estrito global em a.
Proposição 2.3.5 Se f, g : A −→R são funções majoradas (resp. minoradas), então f + g é majorada (resp. mino-
rada) e sup(f +g) ≤ sup(f) + sup(g) (resp. inf(f +g) ≥ inf(f) + inf(g)).
Demonstração: Suponhamos f e g majoradas. Tem-se ∀x ∈ A : f(x) ≤ sup(f) e g(x) ≤ sup(g). Então (f + g)(x)(=
f(x) +g(x)) ≤ sup(f) + sup(g), logo f +g é majorada por sup(f) + sup(g), portanto sup(f +g) ≤ sup(f) + sup(g).
A demonstração é análoga para o ínfimo.
Exemplos:
1. f: R −→ R
x → x
2
−2x + 1
f não é majorada; f é minorada; min(f) = 0; f tem um mínimo estrito global em 1.
2. f: R −→ R
x → sen x
f é limitada; max(f) = 1; min(f) = −1; para cada k ∈ Z, f tem um máximo global (e um máximo estrito local)
em 2kπ +
π
2
; f tem um mínimo global (e um mínimo estrito local) em 2kπ −
π
2
; f não tem máximo estrito global
nem mínimo estrito global em nenhum ponto.
3. f: R −→ R
x →

0, se x ≤ 0
−x, se x ≥ 0
f não é minorada; f é majorada; max(f)=0; para cada x ≤ 0 f tem um máximo global em x; f não tem máximo
estrito global nem local em nenhum ponto; para cada x < 0 f tem um mínimo local em x.
4. f: R −→ R
x → x
3
−3x
f não é majorada nem minorada; f tem um máximo estrito local em −1 e um mínimo estrito local em 1.
5. f: [1, 5] −→ R
x → 3x
f é limitada; max(f) = 15; min(f) = 3; f tem um máximo estrito global em 5 e um mínimo estrito global em 1.
6. f: R −→ R
x →

−2x, se x < 0
2x + 1, se x ≥ 0
f não é majorada; f é minorada; f não tem mínimo; inf(f)=0.
7. f: [0, 1] −→ R
x → x
, g: [0, 1] −→ R
x → 1 −x
, f +g: [0, 1] −→ R
x → 1
inf(f) + inf(g) = 0 < 1 = inf(f +g); sup(f +g) = 1 < 2 = sup(f) + sup(g).
Definição 2.3.6 Seja f : A −→ B e a ∈ A.
2.3. MONOTONIA, MÁXIMOS E MÍNIMOS 19
1. Diz-se que f é crescente em a sse existe um intervalo aberto I contendo a tal que

∀x ∈ I ∩ A, x > a ⇒ f(x) ≥ f(a)
∀x ∈ I ∩ A, x < a ⇒ f(x) ≤ f(a)
2. Diz-se que f é decrescente em a sse existe um intervalo aberto I contendo a tal que

∀x ∈ I ∩ A, x > a ⇒ f(x) ≤ f(a)
∀x ∈ I ∩ A, x < a ⇒ f(x) ≥ f(a)
3. Diz-se que f é estritamente crescente em a sse existe um intervalo aberto I contendo a tal que

∀x ∈ I ∩ A, x > a ⇒ f(x) > f(a)
∀x ∈ I ∩ A, x < a ⇒ f(x) < f(a)
4. Diz-se que f é estritamente decrescente em a sse existe um intervalo aberto I contendo a tal que

∀x ∈ I ∩ A, x > a ⇒ f(x) < f(a)
∀x ∈ I ∩ A, x < a ⇒ f(x) > f(a)
Observações:
1. f ser crescente (resp. decrescente, estritamente crescente, estritamente decrescente) em a não é equivalente a f
ser crescente (resp. decrescente, estritamente crescente, estritamente decrescente) em ¦a¦; f é sempre crescente
(resp. decrescente, estritamente crescente, estritamente decrescente) em ¦a¦.
2. Se f é crescente (resp. decrescente, estritamente crescente, estritamente decrescente) num intervalo aberto,
então é crescente (resp. decrescente, estritamente crescente, estritamente decrescente) em qualquer ponto desse
intervalo, mas f pode ser crescente (resp. decrescente, estritamente crescente, estritamente decrescente) num
ponto a e não ser crescente (resp. decrescente, estritamente crescente, estritamente decrescente) em nenhum
intervalo aberto contendo a.
Exemplos:
1. f: R −→ R
x →

−2, se x ∈ Q e x > 0
−1, se x ∈ Q e x > 0
0, se x = 0
1, se x ∈ Q e x < 0
2, se x ∈ Q e x < 0
f é estritamente decrescente em 0 e no entanto não existe nenhum intervalo aberto I contendo 0 tal que f seja
decrescente em I; f não é decrescente em nenhum outro ponto de R.
2. f: R −→ R
x →

2x +xsen
1
x
, se x = 0
0, se x = 0
f é contínua (ver capítulo 3) e estritamente crescente em 0 mas não existe nenhum intervalo aberto I contendo
0 tal que f seja crescente em I.
Proposição 2.3.7 Seja f : [a, b] −→R.
1. f é crescente (resp. decrescente, estritamente crescente, estritamente decrescente) em a sse f tem um mínimo
(resp. máximo, mínimo estrito, máximo estrito) local em a.
2. f é crescente (resp. decrescente, estritamente crescente, estritamente decrescente) em b sse f tem um máximo
(resp. mínimo, máximo estrito, mínimo estrito) local em b.
Demonstração: Se f é crescente em a existe um intervalo aberto I =]a −δ, a +δ[ tal que
∀x ∈ I ∩ [a, b]

x > a ⇒ f(x) ≥ f(a)
x < a ⇒ f(x) ≤ f(a)
Mas I ∩ [a, b] = [a, a +δ[, portanto ∀x ∈ I ∩ [a, b] : f(x) ≥ f(a), logo f tem um mínimo local em a.
20 CAPÍTULO 2. FUNÇÕES (REAIS DE VARIÁVEL REAL)
Reciprocamente, se f tem um mínimo local em a, então existe um intervalo aberto I =]a − δ, a + δ[ tal que
∀x ∈ I ∩ [a, b] : f(x) ≥ f(a). Mas I ∩ [a, b] = [a, a +δ[, portanto
∀x ∈ I ∩ [a, b]

x > a ⇒ f(x) ≥ f(a)
x < a ⇒ f(x) ≤ f(a)
de onde se conclui que f é crescente em a.
Os outros casos demonstram-se de maneira análoga.
2.4 Gráficos
Dados dois conjuntos não vazios A e B, define-se o produto cartesiano AB por
AB = ¦(a, b); a ∈ A, b ∈ B¦.
Seja f : A −→ B.
Definição 2.4.1 O gráfico de f é o subconjunto de AB
Gr(f) = ¦(a, f(a)); a ∈ A¦ = ¦(a, b) ∈ AB; b = f(a)¦.
Seja X ⊂ A B. Dizer que X é o gráfico de alguma função f : A −→ B, equivale a dizer que qualquer “recta
vertical” (isto é, qualquer conjunto Y
a
= ¦(a, y); y ∈ B¦, a ∈ X) intersecta X num e num só ponto. Se f : A −→ B e
a ∈ A, então
¦(a, y); y ∈ B¦ ∩ Gr(f) = ¦(a, y); y = f(a)¦ = ¦(a, f(a))¦.
Portanto qualquer recta vertical intersecta Gr(f) num único ponto.
Supondo agora que X ⊂ AB e que qualquer recta vertical intersecta X num único ponto, seja f a função definida
por f: A −→ B
x → o único ponto b de B tal que (x, b) ∈ X
. Então Gr(f) = X.
Proposição 2.4.2 1. f é sobrejectiva sse qualquer “recta horizontal” (isto é, qualquer conjunto X
b
= ¦(x, b); x ∈
A¦, b ∈ Y ) intersectar Gr(f).
2. f é injectiva sse nenhuma recta horizontal intersectar Gr(f) em mais do que um ponto.
3. f é bijectiva sse qualquer recta horizontal intersectar Gr(f) num único ponto.
Demonstração:
1. f é sobrejectiva sse ∀b ∈ B∃a ∈ A : f(a) = b, isto é, sse ∀b ∈ B∃a ∈ A : (a, b) ∈ Gr(f), isto é, sse qualquer recta
horizontal intersecta Gr(f).
2. f é injectiva sse ∀x
1
, x
2
∈ A : f(x
1
) = f(x
2
) ⇒ x
1
= x
2
, isto é, sse ∀x
1
, x
2
∈ A, y ∈ B : (x
1
, y) ∈
Gr(f) e (x
2
, y) ∈ Gr(f) ⇒ x
1
= x
2
, ou ainda, sse ∀y ∈ B : ¦(a, y); a ∈ A¦ ∩ Gr(f) não tem mais de um
elemento, o que acontece sse qualquer recta horizontal intersecta Gr(f) no máximo num ponto.
3. consequência trivial de 1. e 2.
Se A e B são dois conjuntos não vazios, chama-se projecção de A B em A (resp. de A B em B) à função
p
1
: AB −→ A
(x, y) → x
(resp. p
2
: AB −→ B
(x, y) → y
).
Proposição 2.4.3 Seja f : A −→ B, A
1
⊂ A, B
1
⊂ B.
1. f(A
1
) é a projecção sobre B de Gr(f) ∩ (A
1
B).
2. f
−1
(B
1
) é a projecção sobre A de Gr(f) ∩ (AB
1
).
Demonstração:
1. Se y ∈ f(A
1
) então existe x ∈ A
1
tal que f(x) = y, portanto (x, y) ∈ Gr(f) ∩ (A
1
B), ou seja, y pertence à
projecção sobre B de Gr(f) ∩ (A
1
B).
Reciprocamente, se y pertence à projecção sobre B de Gr(f) ∩ (A
1
B), então existe um x ∈ A tal que
(x, y) ∈ Gr(f) ∩(A
1
B). De (x, y) ∈ A
1
B conclui-se que x ∈ A
1
, e de (x, y) ∈ Gr(f) conclui-se que y = f(x),
logo y ∈ f(A
1
).
2.4. GRÁFICOS 21
2. Se x ∈ f
−1
(B
1
), então f(x) ∈ B
1
, portanto (x, f(x)) ∈ Gr(f) ∩ (AB
1
), ou seja, x pertence à projecção sobre
A de Gr(f) ∩ (AB
1
).
Reciprocamente, se x pertence à projecção sobre A de Gr(f) ∩ (A B
1
), então existe y ∈ B tal que (x, y) ∈
Gr(f) ∩ (A B
1
). De (x, y) ∈ A B
1
conclui-se que y ∈ B
1
, e de (x, y) ∈ Gr(f) conclui-se que y = f(x), logo
f(x) ∈ B
1
, isto é, x ∈ f
−1
(B
1
).
Proposição 2.4.4 1. f é par sse o gráfico de f é simétrico em relação ao eixo dos yy.
2. f é ímpar sse o gráfico de f é simétrico em relação à origem.
Demonstração:
1. f é par sse ∀x ∈ R : f(−x) = f(x), isto é, sse ∀x ∈ R : (x, y) ∈ Gr(f) ⇔ (−x, y) ∈ Gr(f), mas isto quer dizer
que o gráfico de f é simétrico em relação ao eixo dos yy.
2. f é ímpar sse ∀x ∈ R : f(−x) = −f(x), isto é, sse ∀x ∈ R : (x, y) ∈ Gr(f) ⇔ (−x, −y) ∈ Gr(f), mas isto quer
dizer que o gráfico de f é simétrico em relação à origem.
Proposição 2.4.5 Seja f : A −→ B uma função bijectiva. Então o gráfico de f
−1
: B −→ A é o simétrico do gráfico
de f relativamente à recta de equação y = x.
Demonstração: Tem-se
(a, b) ∈ Gr(f) ⇔ b = f(a)
⇔ f
−1
(b) = a
⇔ (b, a) ∈ Gr(f
−1
)
Ora (a, b) e (b, a) são pontos simétricos em relação à recta de equação y = x, de onde se conclui que os pontos do
gráfico de f
−1
são os simétricos dos pontos do gráfico de f relativamente à recta de equação y = x.
Exemplos:
1. f: [0, 7] −→ R
x → x
2
−6x + 4
; g: [−2, 2] −→ R
x → x
4
+ 1
1 2 3 4 5 6 7
f
-5
-2.5
2.5
5
7.5
10
-2 -1 1 2
g
0.5
1
1.5
2
2.5
2. f: [1, 4] −→ R
x → x −3
; g
1
: [0, 6] −→ R
x →

x −3 se x ≥ 1
−x
2
−1 se x < 1
; g
2
: [0, 6] −→ R
x →

x −3 se x ∈ [1, 4]
x
2
−3 se x ≤ 1
x
2
10
se x > 4
g
1
e g
2
são prolongamentos de f; f é a restrição de g
1
e de g
2
.
22 CAPÍTULO 2. FUNÇÕES (REAIS DE VARIÁVEL REAL)
1 2 3 4 5 6
f
-4
-2
0
2
4
1 2 3 4 5 6
g1
-2
-1
1
2
3
1 2 3 4 5 6
g2
-3
-2
-1
1
2
3
3. f
1
: [−3, 3] −→ R
x → x −[x]
; f
2
: [−4, 4] −→ R
x → cos(5x + 2)
; f
3
: [−4, 4] −→ R
x → sen 4x cos(6x −1)
f
1
, f
2
e f
3
são periódicas; os respectivos períodos são 1, 2π/5 e π.
-3 -2 -1 1 2 3

0.2
0.4
0.6
0.8
1
-4 -2 2 4
f2
-1
-0.5
0.5
1
-4 -2 2 4
f3
-1
-0.5
0.5
1
4. f: [−3, 3] −→ R
x → x
4
/2 −3x
2
+ 1
; g: [−2, 2] −→ R
x → x
3
−x
f é par; g é ímpar.
-3 -2 -1 1 2 3
f
-2
2
4
6
-2 -1 1 2
g
-1.5
-1
-0.5
0.5
1
1.5
5. f: [−3, 6] −→ R
x →

x
2
se x ≤ 0
x −3 se x > 0
; g: [−3, 6] −→ R
x →

2x se x ≥ 1
−x + 3 se x < 1
;
g ◦ f: [−3, 6] −→ R
x →

2x
2
se x ∈ [−1, 0]
2x −6 se x ∈]0, 4]
−x
2
+ 3 se x < −1
−x + 6 se x ≥ 4
2.4. GRÁFICOS 23
-2 2 4 6
f
-2
2
4
6
8
-2 2 4 6
g
2
4
6
8
10
12
-2 2 4 6
gof
-6
-4
-2
2
6. f: [−4, 4] −→ [0, 16]
x → x
2
; g
1
: [0, 16] −→ [−4, 4]
x →

x
; g
2
: [0, 16] −→ [−4, 4]
x →

x se [x] par


x se [x] ímpar
g
1
e g
2
são inversas à direita de f.
-4 -2 2 4
f
2.5
5
7.5
10
12.5
15
2.5 5 7.5 10 12.5 15
g1
1
2
3
4
2.5 5 7.5 10 12.5 15
g2
-4
-2
2
4
7. f: [−1, 1] −→ [−6, 5]
x → x
2
−4x
; g
1
: [−6, 5] −→ [−1, 1]
x →

2 −

x + 4 se x ≥ −3
1
2
se x < −3
;
g
2
: [−6, 5] −→ [−1, 1]
x →

2 −

x + 4 se x ≥ −4
x se x < −4
g
1
e g
2
são inversas à esquerda de f.
-1-0.5 0.5 1
f
-2
2
4
-6 -4 -2 2 4
g1
-1
-0.5
0.5
1
-6 -4 -2 2 4
g2
-6
-4
-2
2
8. f: [−4, +∞[ −→ [−4, 5[
x →

2x + 4 se x ∈ [−4, −2]
x
2
+ 1 se x ∈] −2, 0]
x
x+1
se x > 0
; f
−1
: [−4, 5[ −→ [−4, +∞[
x →

x−4
2
se x ∈ [−4, 0]
x
1−x
se x ∈]0, 1[


x −1 se x ∈ [1, 5[
24 CAPÍTULO 2. FUNÇÕES (REAIS DE VARIÁVEL REAL)
-4 -2 2 4 6
f
-4
-2
2
4
-4 -2 2 4
-1
f
-4
-2
2
4
6
9. f: [−6π, 6π] −→ R
x →

2x +xsen
1
x
se x = 0
0 se x = 0
-0.1-0.05 0.05 0.1
f
-0.2
-0.1
0.1
0.2
10. Os exemplos seguintes mostram casos em que f
−1
(f(C)) = C e f(f
−1
(D)) = D.
f(C)
C
-1
f (f(C))
-1
f (D)
D
-1
f( f (D))
Observações:
1. Dada uma função f : A −→R e a ∈ R, o gráfico da função g: ¦x : x −a ∈ A¦ −→ R
x → f(x −a)
é o translatado
do gráfico de f de [a[ unidades na horizontal (para a direita se a > 0, para a esquerda se a < 0).
2.4. GRÁFICOS 25
2. Dada uma função f : A −→R e a ∈ R, o gráfico da função g: A −→ R
x → f(x) +a
é o translatado do gráfico
de f de [a[ unidades na vertical (para cima se a > 0, para baixo se a < 0).
Exemplo
f: R −→ R
x →
x
2
2
; f
1
: R −→ R
x →
(x−2)
2
2
; f
2
: R −→ R
x →
x
2
2
−1
; f
3
: R −→ R
x →
(x+1)
2
2
+ 2
;
-3 -2 -1 1 2 3
f
1
2
3
4
-1 1 2 3 4 5
f1
1
2
3
4
-3 -2 -1 1 2 3
f2
-1
1
2
3
-4 -3 -2 -1 1 2
f3
1
2
3
4
5
6
26 CAPÍTULO 2. FUNÇÕES (REAIS DE VARIÁVEL REAL)
Capítulo 3
Limites e continuidade
3.1 Limites
As figuras seguintes mostram gráficos de funções que ilustram o significado geométrico da existência de lim
x→a
f(x).
f1
a
l
f1(a)
f2
a
l1
l2
f2(a)
f3
a
f3(a)
f4
a
f5
a
f5(a)
Tem-se lim
x→a
f
1
(x) = l = f(a); lim
x→a
+
f
2
(x) = l
2
; lim
x→a

f
2
(x) = l
1
; não existe lim
x→a
f
2
(x); lim
x→a
f
3
(x) = f
3
(a); não existe
lim
x→a
+
f
4
(x) nem lim
x→a

f
4
(x); lim
x→a
f
5
(x) = f
5
(a).
Definição 3.1.1 1. Diz-se que a é um ponto de acumulação (resp. ponto de acumulação à direita, ponto
de acumulação à esquerda) de um conjunto A sse para qualquer δ > 0 existe x ∈]a − δ, a + δ[∩(A ` ¦a¦),
(resp. x ∈]a −δ, a[∩A, x ∈]a, a +δ[∩A).
2. Diz-se que a é um ponto de acumulação bilateral de A sse a é um ponto de acumulação à direita de A e a
é um ponto de acumulação à esquerda de A.
Seja f : A −→ B.
Observação: Sempre que se escrever f(x), supõe-se que x pertence ao domínio de f, embora isso por vezes não
seja explicitamente mencionado, para não sobrecarregar a exposição.
Definição 3.1.2 1. Diz-se que l é limite de f quando x tende para a sse a é ponto de acumulação de A e
∀ > 0 ∃δ > 0 : 0 < [x −a[ < δ ⇒ [f(x) −l[ < .
27
28 CAPÍTULO 3. LIMITES E CONTINUIDADE
2. Diz-se que l é limite à esquerda de f quando x tende para a sse l for limite de f
|A∩]−∞,a[
quando x tende
para a.
3. Diz-se que l é limite à direita de f quando x tende para a sse l for limite de f
|A∩]a,+∞[
quando x tende
para a.
Proposição 3.1.3 Se l
1
e l
2
são limites de f quando x tende para a então l
1
= l
2
.
Demonstração: Suponhamos que l
1
= l
2
; então [l
1
−l
2
[ > 0. Seja δ
1
> 0 tal que 0 < [x−a[ < δ
1
⇒ [f(x)−l
1
[ < [l
1
−l
2
[/2
(existe tal δ
1
porque l
1
é limite de f quando x tende para a). Seja δ
2
> 0 tal que 0 < [x−a[ < δ
2
⇒ [f(x)−l
2
[ < [l
1
−l
2
[/2
(existe tal δ
2
porque l
2
é limite de f quando x tende para a). Seja agora δ = min¦δ
1
, δ
2
¦ e seja x ∈]a −δ, a +δ[`¦a¦.
Então
0 < [x −a[ < δ ⇒ [f(x) −l
1
[ < [l
1
−l
2
[/2 e [f(x) −l
2
[ < [l
1
−l
2
[/2
⇒ [(l
1
−f(x)) + (f(x) −l
2
)[ ≤ [l
1
−f(x)[ +[f(x) −l
2
[ < [l
1
−l
2
[/2 +[l
1
−l
2
[/2 = [l
1
−l
2
[
⇒ [l
1
−l
2
[ < [l
1
−l
2
[
o que é impossível. Conclui-se que l
1
= l
2
.
Notação: Se l é (o único) limite de f quando x tende para a, escreve-se lim
x→a
f(x) = l; se l é (o único) limite à esquerda
de f quando x tende para a, escreve-se lim
x→a

f(x) = l; se l é (o único) limite à direita de f quando x tende para a,
escreve-se lim
x→a
+
f(x) = l.
Proposição 3.1.4 1. Seja a um ponto de acumulação bilateral de A. Então lim
x→a
f(x) = l sse lim
x→a
+
f(x) = l e
lim
x→a

f(x) = l.
2. Seja a um ponto de acumulação à esquerda mas não à direita (resp. à direita mas não à esquerda) de A. Então
lim
x→a
f(x) = l sse lim
x→a
+
f(x) = l (resp. sse lim
x→a

f(x) = l).
Demonstração:
1. Para um ponto de acumulação bilateral a de A, é trivial que se l é limite de f quando x tende para a então l é
limite à direita de f quando x tende para a e l é limite à esquerda de f quando x tende para a.
Suponhamos que lim
x→a
+
f(x) = l e lim
x→a

f(x) = l e seja > 0. Sejam δ
1
> 0 e δ
2
> 0 tais que
a < x < a +δ
1
⇒ [f(x) −l[ < e a −δ
2
< x < a ⇒ [f(x) −l[ < .
Se δ = min¦δ
1
, δ
2
¦, então
0 < [x −a[ < δ ⇒ a < x < a +δ ou a −δ < x < a
⇒ a < x < a +δ
1
ou a −δ
2
< x < a
⇒ [f(x) −l[ <
Logo ∀ > 0 ∃δ > 0 : 0 < [x −a[ < δ ⇒ [f(x) −l[ < .
2. demonstração trivial
Proposição 3.1.5 Existe l ∈ R tal que lim
x→a
f(x) = l sse a é ponto de acumulação de A e ∀ > 0 ∃δ > 0 ∀x, x


]a −δ, a +δ[`¦a¦ : [f(x) −f(x

)[ < .
Demonstração: Suponhamos que l = lim
x→a
f(x) e seja > 0; existe então δ > 0 tal que 0 < [x−a[ < δ ⇒ [f(x)−l[ < /2.
Sejam x, x

∈]a−δ, a+δ[`¦a¦; então tem-se 0 < [x−a[ < δ e 0 < [x

−a[ < δ, portanto [f(x)−l[ < /2 e f(x

)−l[ < /2,
de onde
[f(x) −f(x

)[ = [f(x) −l +l −f(x

)[ ≤ [f(x) −l[ +[l −f(x

)[ < /2 +/2 = .
Suponhamos agora que ∀ > 0 ∃δ > 0 ∀x, x

∈]a−δ
n
, a+δ
n
[`¦a¦ : [f(x) −f(x

)[ < . Para cada n ∈ N, seja δ
n
> 0
tal que ∀x, x

∈]a−δ, a+δ[`¦a¦ : [f(x) −f(x

)[ < 1/n e tal que δ
n
< δ
n−1
se n > 1. Seja x
n
um ponto do domínio de f
tal que [x
n
−a[ < δ
n
. Então, para x ∈]a−δ
n
, a+δ
n
[`¦a¦ tem-se [f(x) −f(x
n
)[ < 1/n, portanto f(]a−δ
n
, a+δ
n
[`¦a¦)
3.1. LIMITES 29
está contido no intervalo [f(x
n
) −1/n, f(x
n
) +1/n], que tem comprimento 2/n. Daqui podemos concluir a existência
de uma sucessão decrescente de intervalos fechados I
n
, tal que
1. ∀n ∈ N comprimento de I
n
≤ 2/n;
2. ∀n ∈ N : f(]a −δ
n
, a +δ
n
[`¦a¦) ⊂ I
n
.
Basta pôr I
1
= [f(x
1
) −1, f(x
1
) + 1] e I
n+1
= I
n
∩ [f(x
n+1
) −
1
n+1
, f(x
n+1
) +
1
n+1
] para n ≥ 1.
Pelo teorema do encaixe de intervalos, existe l ∈
¸
n∈N
I
n
; tem-se mesmo
¸
n∈N
I
n
= ¦l¦, visto que o comprimento
de I
n
tende para 0. Vejamos que l é limite de f quando x tende para a. Para todo o > 0 sejam n ∈ N tal que
n > 3/, δ = δ
n
e a
n
= a tal que [a
n
−a[ < δ e a
n
pertence ao domínio de f; se 0 < [x −a[ < δ então
[f(x) −l[ ≤ [f(x) −f(a
n
)[ +[f(a
n
) −l[ < 1/n +[f(a
n
) −l[.
Ora f(a
n
) e l pertencem a I
n
, logo [f(x
n
) − l[ ≤ 2/n, portanto [f(x) − l[ < 1/n + 2/n = 3/n < . Conclui-se que
lim
x→a
f(x) = l.
Exemplos:
1. f: R −→ R
x → 3x + 1
lim
x→5
f(x)=16
Demonstração: Seja > 0. Queremos mostrar que existe δ > 0 tal que 0 < [x −5[ < δ ⇒ [f(x) −16[ < . Mas
[f(x) − 16[ = [3x + 1 − 16[ = [3x − 15[ = 3[x − 5[. Então [x − 5[ < /3 ⇒ [f(x) − 16[ < , isto é, basta tomar
δ = /3.
2. f: R −→ R
x →

x se x ≤ 0
2x + 2 se x > 0
Não existe lim
x→0
f(x); lim
x→0
+
f(x)=2; lim
x→0

f(x)=0
Demonstração: Para x > 0 tem-se f(x) > 2 e para x < 0, f(x) < 0. Então, se δ > 0 tem-se f(δ/2) > 2 e
f(−δ/2) < 0, logo f(δ/2) − f(−δ/2) > 2. Conclui-se que se = 1 então ∀δ > 0 ∃x = δ/2, x

= −δ/2 : 0 <
[x[, [x

[ < δ e [f(x) −f(x

)[ > . Logo não existe lim
x→0
f(x).
Para x > 0, tem-se f(x) − 2 = 2x + 2 − 2 = 2x. Logo se 0 < x < δ, então [f(x) − 2[ < 2δ. Conclui-se que
∀ > 0 ∃δ > 0 : 0 < x < δ ⇒ [f(x) −2[ < (para cada > 0 basta tomar δ = /2). Logo lim
x→0
+
f(x)=2.
Para x < 0 tem-se f(x) = x. Logo se −δ < x < 0 então [f(x)[ = [x[ < δ. Conclui-se que ∀ > 0 ∃δ > 0 : −δ <
x < 0 ⇒ [f(x)[ < (para cada > 0 basta tomar δ = ). Logo lim
x→0

f(x)=0.
3. f: R −→ R
x → x
2
; a ∈ R
lim
x→a
f(x)=a
2
Demonstração: Suponhamos a ≤ 0 (a demonstração para a > 0 é análoga). Seja > 0. Queremos mostrar que
existe δ > 0, tal que 0 < [x − a[ < δ ⇒ [x
2
− a
2
[ < . Ora [x
2
− a
2
[ = [x − a[[x + a[. Se [x − a[ < 1 então
−1 < x − a < 1, de onde 2a − 1 < x + a < 2a + 1, e, portanto, [x + a[ < max¦[2a − 1[, [2a + 1[¦, que é 1 − 2a
porque a < 0; logo [x +a[ < 1 −2a. Então, se δ = min¦1,

1−2a
¦ tem-se, para todo o x tal que [x −a[ < δ,
[x
2
−a
2
[ = [x −a[[x +a[
< [x −a[(1 −2a) (porque [x −a[ < 1)
<

1 −2a
(1 −2a) (porque [x −a[ <

1−2a
).
=

4. f: R ` ¦0¦ −→ R
x → cos(1/x)
Não existe lim
x→0
+
f(x) nem lim
x→0

f(x).
Demonstração: Para qualquer inteiro k = 0 tem-se f(
1
2kπ
) = 1 e f(
1
2kπ
) = −1, isto é, arbitrariamente próximo
de 0 dos dois lados temos pontos cuja imagem é 1 e pontos cuja imagem é −1. Mais precisamente, sejam = 1,
30 CAPÍTULO 3. LIMITES E CONTINUIDADE
δ > 0. e k um número inteiro positivo tal que 2kπ > 2/δ (então tambem 2kπ + π > 2/δ); para x
1
=
1
2kπ
e
x
2
=
1
2kπ
, tem-se [x
1
− x
2
[ ≤ [x
1
[ + [x
2
[ < δ e [f(x
1
) − f(x
2
)[ = 1 − (−1) = 2 > . Então existe > 0 tal que
para todo o δ > 0 existem x
1
=
1
2kπ
e x
2
=
1
2kπ+π
maiores do que 0 tais que [x
1
−x
2
[ < δ e [f(x
1
) −f(x
2
)[ > .
Conclui-se da proposição anterior que não existe lim
x→0
+
f(x). De maneira análoga se conclui que não existe
lim
x→0

f(x).
5. f: R ` ¦0, 1¦ −→ R
x →
x
2
x−1
sen
1
x
lim
x→0
f(x)=0
Demonstração: Para x tal que 0 < [x[ < 1/2 tem-se [x−1[ > 1/2, portanto [x
2
/(x−1)[ < 2[x
2
[. Por outro lado,
para qualquer x = 0 tem-se [ sen(1/x)[ ≤ 1.
Seja agora > 0. Ponhamos δ = min¦1/2, /2¦ e seja x tal que 0 < [x[ < δ; por se ter δ ≤ 1/2, deduz-se que
0 < [x[ < 1/2, portanto [f(x)[ = [x
2
/(x−1)[[ sen(1/x)[ < 2[x[
2
≤ 2[x[;e por se ter δ ≤ /2 deduz-se que [x[ < /2.
Conclui-se pois que se 0 < [x[ < δ então [f(x)[ < .
6. f: R ` ¦2¦ −→ R
x →
1
x−2
lim
x→3/2
f(x)=-2
Demonstração: f(x) −(−2) =
1
x−2
+ 2 =
2x−3
x−2
=
2(x−3/2)
x−2
Se [x −3/2[ < 1/4, então [x −2[ > 1/4, portanto
2(x−3/2)
x−2
< 8[x −3/2[. Para cada > 0, seja δ = min¦1/4, /8¦
e consideremos x tal que [x −3/2[ < δ. Por se ter δ ≤ 1/4, conclui-se que [f(x) −(−2)[ < 8[x −3/2[; por se ter
δ ≤ /8 conclui-se que 8[x −3/2[ < . Então, para x tal que 0 < [x −3/2[ < δ, tem-se [f(x) −(−2)[ < .
Sejam f : A −→ B, l ∈ R, a ∈ R.
Definição 3.1.6 1. Diz-se que lim
x→+∞
f(x) = l sse A não é majorado e ∀ > 0 ∃R ∈ R : x > R ⇒ [f(x) −l[ < .
2. Diz-se que lim
x→−∞
f(x) = l sse A não é minorado e ∀ > 0 ∃R ∈ R : x < R ⇒ [f(x) −l[ < .
3. Diz-se que lim
x→a
f(x) = +∞ sse a é ponto de acumulação de A e ∀R ∈ R ∃δ > 0 : 0 < [x −a[ < δ ⇒ f(x) > R.
4. Diz-se que lim
x→+∞
f(x) = +∞ sse A não é majorado e ∀M ∈ R ∃R ∈ R : x > R ⇒ f(x) > M.
Observações:
1. Define-se de maneira semelhante: lim
x→a
f(x) = −∞, lim
x→a
+
f(x) = +∞, lim
x→a

f(x) = +∞, lim
x→a
+
f(x) = −∞,
lim
x→a

f(x) = −∞, lim
x→+∞
f(x) = −∞, lim
x→−∞
f(x) = +∞, lim
x→−∞
f(x) = −∞.
2. As notações utilizadas nas definições anteriores pressupõem a prévia demonstração da unicidade do limite em
cada caso, demonstração essa que não será aqui feita por ser semelhante à demonstração da unicidade do limite
de f(x) quando x tende para a ∈ R.
Exemplos:
1. lim
x→+∞
3x + cos x
x
= 3
Demonstração: Para x > 0 tem-se [
3x+cos x
x
−3[ = [
cos x
x
[ ≤ [
1
x
[ =
1
x
. Para cada > 0 seja R = 1/; para x > R
tem-se
1
x
< , portanto [
3x+cos x
x
−3[ < .
2. lim
x→−∞
x
2
+ 5
3x
2
−2x
=
1
3
Demonstração: Tem-se

x
2
+ 5
3x
2
−2x

1
3

=

3x
2
+ 15
3(3x
2
−2x)

3x
2
−2x
3(3x
2
−2x)

=

2x + 15
9x
2
−6x

.
3.1. LIMITES 31
Para x < 0 tem-se

2x + 15
9x
2
−6x

=

2 + 15/x
9x −6


2
[9x −6[
+

15/x
9x −6

;
ora [9x −6[ = 6 −9x,
1
6−9x
<
1
6
, e
1
6−9x
< −
1
9x
, portanto
2
[9x −6[
+

15/x
9x −6

=
2
6 −9x
+
[15/x[
6 −9x
< −
2
9x

15
6x
.
Então, se −
2
9x
< /2 e −
15
6x
< /2, tem-se

x
2
+5
3x
2
−2x

1
3

< . Mas x < −
4
9
⇒ −
2
9x
< /2 e x < −
5

⇒ −
15
6x
< /2.
Conclui-se que, para cada > 0, existe R ∈ R (R = min¦−
4
9
, −
5

¦) tal que x < R ⇒

x
2
+5
3x
2
−2x

1
3

< .
3. lim
x→1

1
x
2
−1
= −∞
Demonstração: Para x tal que 0 < x < 1, tem-se 1 < x + 1 < 2, portanto
1
2
<
1
x+1
< 1, de onde
1
x
2
−1
<
1
2(x−1)
.
Seja R ∈ R; se R ≥ 0, pondo δ = 1, tem-se −δ < x −1 < 0 ⇒ 1/2(x −1) < 0 ≤ R, portanto 1/(x
2
−1) < R.
Se R<0, pondo δ = min¦1, −1/(2R)¦, tem-se
−δ < x −1 < 0 ⇒
1
x
2
−1
<
1
2(x −1)
(porque 0 < x < 1)

1
2(x −1)
< −
1

(porque −δ < x −1 < 0)

1
2(x −1)
< R (porque δ < −
1
2R
⇒ −
1

< R)

4. f: R −→ R
x → xcos x
Não existe lim
x→+∞
f(x)
Demonstração: Suponhamos que lim
x→+∞
f(x) = l ∈ R. Então existe R ∈ R tal que x > R ⇒ [f(x) −l[ < 1. Seja
k ∈ Z tal que 2kπ > [l[ +1 e 2kπ > R. Então, para x = 2kπ, tem-se f(x) = 2kπ > [l[ +1, portanto [2kπ −l[ > 1,
o que é absurdo.
Por outro lado, se lim
x→+∞
f(x) = +∞, então existe R ∈ R tal que x > R ⇒ f(x) > 1, mas se k ∈ Z é tal que
kπ +π/2 > R, então para x = kπ +π/2 tem-se x > R e f(x) = 0.
Analogamente se mostra que não se tem lim
x→+∞
f(x) = −∞.
5. lim
x→+∞
x
n
= +∞, para todo o n ∈ N.
Demonstração: Para cada M ∈ R, seja R = max¦1, M¦. Então
x > R ⇒ x
n
≥ x (porque x > 1)
⇒ x > M (porque R ≥ M)
⇒ x
n
> M

6. lim
x→−∞
x
n
=

+∞ se n par
−∞ se n ímpar
Demonstração: Se n é par, então
x < −1 ⇒ −x > 1
⇒ (−x)
n
≥ −x
⇒ x
n
≥ −x
32 CAPÍTULO 3. LIMITES E CONTINUIDADE
Para cada M ∈ R seja R = min¦−1, −M¦. Então
x < R ⇒ x < −1
⇒ x
n
≥ −x
⇒ x
n
> M
Se n é ímpar, então
x < −1 ⇒ −x > 1
⇒ (−x)
n
≥ −x
⇒ −x
n
≥ −x
⇒ x
n
≤ x
Para cada M ∈ R seja R = min¦−1, M¦. Então
x < R ⇒ x < −1
⇒ x
n
≤ x
⇒ x
n
< M

Proposição 3.1.7 Seja a ∈ R ∪ ¦−∞, +∞¦, c, l
1
, l
2
∈ R.
1. lim
x→a
c = c
2. lim
x→a
x = a
3. Se lim
x→a
f(x) = l
1
e lim
x→a
g(x) = l
2
, então lim
x→a
(f +g)(x) = l
1
+l
2
.
4. Se lim
x→a
f(x) = l
1
e lim
x→a
g(x) = l
2
, então lim
x→a
(f.g)(x) = l
1
l
2
.
5. Se lim
x→a
f(x) = l
1
= 0 então lim
x→a
1/f(x) = 1/l
1
.
Demonstração: A demonstração só será feita no caso de a ∈ R; nos outros casos o raciocínio é análogo.
1. Seja > 0; para qualquer δ > 0, em particular, por exemplo para δ = 1, tem-se 0 < [x −a[ < δ ⇒ [c −c[ < .
2. Seja > 0; se tomarmos δ = , então 0 < [x −a[ < δ ⇒ [x −a[ < .
3. Seja > 0; sejam δ
1
, δ
2
> 0 tais que
0 < [x −a[ < δ
1
⇒ [f(x) −l
1
[ < /2 e 0 < [x −a[ < δ
2
⇒ [g(x) −l
2
[ < /2.
Se tomarmos δ = min¦δ
1
, δ
2
¦, tem-se 0 < [x − a[ < δ ⇒ [(f + g)(x) − (l
1
+ l
2
)[ = [f(x) − l
1
+ g(x) − l
2
[ ≤
[f(x) −l
1
[ +[g(x) −l
2
[ < /2 +/2 = .
4. Seja > 0; tem-se
[(fg)(x) −l
1
l
2
[ = [f(x)g(x) −l
1
l
2
[ = [f(x)g(x) −l
1
g(x) +l
1
g(x) −l
1
l
2
[ ≤ [g(x)[[f(x) −l
1
[ +[l
1
[[g(x) −l
2
[.
Se [g(x)[[f(x)−l
1
[ < /2 e [l
1
[[g(x)−l
2
[ < /2, então [(fg)(x)−l
1
l
2
[ < . Mas [l
1
[[g(x)−l
2
[ ≤ max¦1, [l
1
[¦[g(x)−
l
2
[, portanto
[g(x) −l
2
[ <

2 max¦1, [l
1

⇒ [l
1
[[g(x) −l
2
[ <
[l
1
[
2 max¦1, [l
1

< /2.
Por outro lado, [g(x)−l
2
[ < 1 ⇒ l
2
−1 < g(x) < l
2
+1 ⇒ [g(x)[ < [l
2
[+1. Se [g(x)−l
2
[ < 1 e [f(x)−l
1
[ <

2(|l
2
|+1)
,
então [g(x)[[f(x) −l
1
[ < ([l
2
[ + 1)

2(|l
2
|+1)
= /2. Ora existem δ
1
, δ
2
, δ

2
tais que 0 < [x −a[ < δ
1
⇒ [f(x) −l
1
[ <

2(|l
2
|1+)
, 0 < [x−a[ < δ
2
⇒ [g(x) −l
2
[ <

2(max{1,|l
1
|})
, 0 < [x−a[ < δ

2
⇒ [g(x) −l
2
[ < 1. Se δ = min¦δ
1
, δ
2
, δ

2
¦,
então 0 < [x −a[ < δ ⇒ [f(x)g(x) −l
1
l
2
[ <

2
+

2
= .
3.1. LIMITES 33
5. Se f(x) = 0 então

1
f(x)

1
l
1

=
|f(x)−l
1
|
|f(x)||l
1
|
. Mas, se [f(x)[ > [l
1
[/2 então
1
|f(x)||l
1
|
<
2
|l
1
|
2
. Como l
1
= 0, existe
δ
1
> 0 tal que 0 < [x − a[ < δ
1
⇒ [f(x) − l
1
[ < [l
1
[/2; então 0 < [x − a[ < δ
1
⇒ l
1
− [l
1
[/2 < f(x) <
l
1
+ [l
1
[/2 ⇒ [f(x)[ > [l
1
[/2 (o que implica, em particular, f(x) = 0). Seja agora > 0; do que vimos resulta
que, para x tal que 0 < [x − a[ < δ
1
, se tem

1
f(x)

1
l
1

<
2|f(x)−l
1
|
|l
1
|
2
. Mas, por outro lado, existe δ
2
> 0 tal que
0 < [x −a[ < δ
2
⇒ [f(x) −l
1
[ <

|l
1
|
2
= [l
1
[
2
/2. Para δ = min¦δ
1
, δ
2
¦, tem-se então
0 < [x −a[ < δ ⇒

1
f(x)

1
l
1

<
2[l
1
[
2
2[l
1
[
2
= .
Observação: Os n.os 3,4,5 da proposição anterior são válidos quando l
1
ou l
2
são infinitos, se convencionarmos as
seguintes regras: se l ∈ R então l +(+∞)=(+∞) +l = +∞, l/(+∞) = l/(−∞) = 0, l +(−∞)=(−∞) +l = −∞; se l ∈
R ` ¦0¦, l.(+∞) = (+∞).l = (sinal de l)∞, l.(−∞) = (−∞).l = (sinal contrário ao de l)∞, (+∞)/l = (sinal de l)∞,
(−∞).l = (sinal contrário ao de l)∞, (+∞).(+∞) = (−∞).(−∞) = +∞, (+∞).(−∞) = (−∞).(+∞) = −∞, (+∞)+
(+∞) = +∞, (−∞) + (−∞) = −∞.
Exemplos:
1. lim
x→1
x
2
+ 3x
x
3
−5x
2
= −1
2. lim
x→+∞
x
2
+ 1
x + 1
= +∞
Neste caso, lim
x→+∞
x
2
+ 1 = +∞ e lim
x→+∞
x + 1 = +∞, portanto não se pode concluir nada sobre o limite do
quociente directamente a partir da proposição anterior. Mas, para x = 0,
x
2
+1
x+1
=
x+
1
x
1+
1
x
. Ora lim
x→+∞
x +
1
x
=
lim
x→+∞
x+ lim
x→+∞
1
x
= +∞+
1
lim
x→+∞
x
= +∞+
1
+∞
= +∞+0 = +∞. Analogamente se conclui que lim
x→+∞
1 +
1
x
=
1. Então lim
x→+∞
x
2
+ 1
x + 1
= lim
x→+∞
x +
1
x
1 +
1
x
=
+∞
1
= +∞.
3. lim
x→+∞
x + 1
x
2
+ 1
=0
Com efeito, para x = −1,
x + 1
x
2
+ 1
=
1
x
2
+1
x+1
e lim
x→+∞
x
2
+ 1
x + 1
= +∞.
4. lim
x→3
x
2
−9
(x −3)
3
= +∞
Para x = 3, tem-se
x
2
−9
(x−3)
3
=
x+3
(x−3)
2
. Ora lim
x→3
x + 3 = 6 e lim
x→3
(x −3)
2
= 0, portanto lim
x→3
x
2
−9
(x −3)
3
= +∞.
5. lim
x→3
(x
2
−9)
3
(x −3)
2
= 0
Para x = 3, tem-se
(x
2
−9)
3
(x−3)
2
= (x −3)(x + 3)
3
, de onde lim
x→3
(x
2
−9)
3
(x −3)
2
= 0.6
3
= 0.
6. lim
x→3
x
2
−9
(x −3)(x + 1)
= 3/2
Com efeito, para x = 3 tem-se
x
2
−9
(x−3)(x+1)
=
x+3
x+1
, portanto lim
x→3
x
2
−9
(x −3)(x + 1)
= 6/4 = 3/2.
7. lim
x→0

1
x
2

1
x
4

= −∞
Tem-se lim
x→0
1
x
2
= +∞ e lim
x→0
1
x
4
= +∞, portanto não se pode concluir nada sobre o limite da diferença direc-
tamente a partir da proposição anterior. Mas
1
x
2

1
x
4
=
x
2
−1
x
4
, lim
x→0
(x
2
−1) = −1 e lim
x→0
1
x
4
= +∞, portanto
lim
x→0

1
x
2

1
x
4

= lim
x→0
x
2
−1
x
4
= (−1).(+∞) = −∞.
34 CAPÍTULO 3. LIMITES E CONTINUIDADE
8. lim
x→0
+

1 +x
2
x

1
x(x + 1)

= 1
lim
x→0
+
1 +x
2
x
= +∞ e lim
x→0
+
1
x(x + 1)
= +∞; não se pode concluir nada sobre o limite da diferença directamente
a partir da proposição anterior. Mas, para x = 0,

1 +x
2
x

1
x(x + 1)

=
(1 +x
2
)(x + 1) −1
x(x + 1)
=
x
3
+x
2
+x
x(x + 1)
=
x
2
+x + 1
x + 1
,
e lim
x→0
+
x
2
+x + 1
x + 1
= 1.
9. lim
x→+∞
sen x
x
=0
Tem-se

sen x
x

1
x

. Para cada > 0 seja R = 1/. Então x > R ⇒
1
x
< .
Observação: Neste caso não existe limite do numerador mas existe limite do quociente.
Proposição 3.1.8 Sejam f : A −→ B e a um ponto de acumulação de A.
1. Seja α > 0. Então lim
x→a
f(x) = l sse lim
x→a
f
|A∩]a−α,a+α[
(x) = l.
2. Seja A
1
⊂ A tal que a é ponto de acumulação de A
1
. Se lim
x→a
f(x) = l então lim
x→a
f
|A
1
(x) = l (o recíproco não é
verdadeiro).
3. Se lim
x→a
f(x) = l e existe α > 0 tal que ∀x ∈]a − α, a + α[`¦a¦ : f(x) ≥ 0 (resp. f(x) ≤ 0) então l ≥ 0 (resp.
l ≤ 0).
Demonstração:
1. consequência imediata da definição.
2. consequência imediata da definição.
3. Suponhamos que l < 0; então existia δ > 0 tal que
0 < [x −a[ < δ ⇒ [f(x) −l[ < −l
⇒ f(x) < 0.
Mas 0 < [x −a[ < α ⇒ f(x) ≥ 0, portanto se β = min¦α, δ¦, então 0 < [x −a[ < β ⇒ (f(x) ≥ 0 e f(x) < 0), o
que é absurdo.
Proposição 3.1.9 Se f, g e h são funções de A em B tais que para todo o x ∈ A` ¦a¦, f(x) ≤ g(x) ≤ h(x), se fe g
têm limite em a e lim
x→a
f(x)=lim
x→a
h(x), então existe lim
x→a
g(x) e lim
x→a
g(x)=lim
x→a
f(x).
Demonstração: Seja l = lim
x→a
f(x) = lim
x→a
h(x) e seja > 0; Existem δ
1
, δ
2
> 0 tais que 0 < [x−a[ < δ
1
⇒ [f(x) −l[ <
e 0 < [x − a[ < δ
2
⇒ [h(x) − l[ < . Então, para x tal que 0 < [x − a[ < min¦δ
1
, δ
2
¦, tem-se l − < f(x) < l + e
l − < h(x) < l +, de onde l − < g(x) < l + (porque f(x) ≤ g(x) ≤ h(x)), portanto [g(x) −l[ < .
Exemplos:
1. f: R ` ¦0¦ −→ R
x → [x[
Neste caso tem-se ∀x ∈ R ` ¦0¦ : f(x) > 0. No entanto não se tem lim
x→0
f(x) > 0
2. f: R −→ R
x →

1 se x ∈ Q
0 se x ∈ Q
Tem-se lim
x→

2
f
|R\Q
(x) = 0, mas não existe lim
x→

2
f(x).
3.2. CONTINUIDADE 35
Proposição 3.1.10 1. Se f : A −→R é monótona e a é um ponto de acumulação à esquerda de A (resp. ponto de
acumulação à direita de A), então existe lim
x→a

f(x) (resp. lim
x→a
+
f(x)).
2. Se f : A −→R é monótona e A não é majorado (resp. minorado) então existe lim
x→+∞
f(x) (resp. lim
x→−∞
f(x)).
Demonstração:
1. Seja f : A −→R crescente e suponhamos primeiro que f
|A∩]−∞,a[
não é majorada. Seja R ∈ R; existe x
0

A∩] −∞, a[ tal que f(x
0
) > R. Como f é crescente, x > x
0
⇒ f(x) ≥ f(x
0
) > R, ou seja, fazendo δ = a −x
0
,
0 < a −x < δ ⇒ x > x
0
⇒ f(x) > R
logo lim
x→a

f(x) = +∞.
Suponhamos agora que f
A∩]−∞,a[
é majorada e seja s o seu supremo. Seja > 0; existe x
0
∈ A∩] − ∞, a[ tal
que f(x
0
) > s − ; como f é crescente, x > x
0
⇒ f(x) ≥ f(x
0
) > s − . Então, fazendo δ = a − x
0
, tem-se
0 < a −x < δ ⇒ f(x) > s −; como f(x) ≤ s, conclui-se que lim
x→a

f(x) = s.
A demonstração da existência de limite à direita é semelhante.
2. análoga à anterior.
3.2 Continuidade
Seja f : A −→ B.
Definição 3.2.1 1. Diz-se que f é contínua em a ∈ A sse a não é ponto de acumulação de A ou lim
x→a
f(x) = f(a),
isto é, sse
∀ > 0 ∃δ > 0 : [x −a[ < δ ⇒ [f(x) −f(a)[ <
2. Diz-se que f é contínua sse f for contínua em todos os pontos de A.
Proposição 3.2.2 Se f e g são duas funções de domínio A, ambas contínuas em a então f + g e f.g são contínuas
em a; se, para alem disso, g(a) = 0, então f/g é contínua em a.
Demonstração: consequência imediata da proposição 3.1.7
Proposição 3.2.3 Se f é contínua em a e f(a) > 0 (resp. f(a) < 0), então existe δ > 0 tal que ∀x ∈]a − δ, a + δ[:
f(x) > 0 (resp. f(x) < 0).
Demonstração: Suponhamos f(a) > 0. Existe δ > 0 tal que [x −a[ < δ ⇒ [f(x) −f(a)[ < f(a). Mas [f(x) −f(a)[ <
f(a) ⇒ 0 < f(x) < 2f(a), portanto [x −a[ < δ ⇒ f(x) > 0.
Proposição 3.2.4 Se f : A −→ B é contínua em a e a ∈ A
1
⊂ A, então f
|A
1
é contínua em a.
Demonstração: Consequência da proposição 3.1.8.
Proposição 3.2.5 Se f, g e h são funções de A em B tais que para todo o x se tem f(x) ≤ g(x) ≤ h(x), e se a ∈ A
é tal que f(a) = h(a) e f e h são contínuas em a, então g é contínua em a.
Demonstração: consequência da proposição 3.1.9
Exemplo: f: R −→ R
x →

−1 se x = 1
1 se x = 1
Tem-se f(1) > 0, mas qualquer que seja δ > 0 existe x ∈]1 −δ, 1 +δ[ (por exemplo x = 1 +δ/2) tal que f(x) < 0
(f não é contínua em 1).
Proposição 3.2.6 Se f : A −→ B é contínua em a e g : B −→ C é contínua em f(a) então g ◦ f é contínua em a.
36 CAPÍTULO 3. LIMITES E CONTINUIDADE
Demonstração: Seja > 0; por g ser contínua em f(a), existe δ
1
> 0 tal que [y − f(a)[ < δ
1
⇒ [g(y) − g(f(a))[ < .
Por f ser contínua em a, para aquele δ
1
> 0 existe δ > 0 tal que [x −a[ < δ ⇒ [f(x) −f(a)[ < δ
1
. Mas então
[x −a[ < δ ⇒ [f(x) −f(a)[ < δ
1
⇒ [g(f(x)) −g(f(a))[ <
Portanto ∀ > 0 ∃δ > 0 : [x −a[ < δ ⇒ [(g ◦ f)(x) −(g ◦ f)(a)[ < .
Proposição 3.2.7 Se f é contínua em a então existe algum intervalo aberto I contendo a tal que f
|I∩A
é limitada.
Demonstração: Existe δ > 0 tal que [x − a[ < δ ⇒ [f(x) − f(a)[ < 1. Então, se x ∈ I =]a − δ, a + δ[ tem-se
f(a) −1 < f(x) < 1 +f(a), portanto f
|I∩A
é majorada (por 1 +f(a)) e minorada (por f(a) −1), logo é limitada.
Teorema 3.2.8 Se f : [a, b] −→ B é contínua, então f é limitada e f tem máximo e mínimo.
Demonstração: Seja L = ¦x ∈ [a, b]; f
|[a,x]
é limitada¦. O conjunto L é não vazio, visto que a ∈ L; é limitado, visto
que L ⊂ [a, b]; portanto tem supremo, que designaremos pos s. Suponhamos que s < b. Como f é contínua em s,
existe δ > 0 tal que f é limitada em ]s −δ, s +δ[. Mas por s ser o supremo de L, existe s
0
∈]s −δ, s] tal que f
[a,s
0
]
é
limitada. Então f é limitada em [a, s
0
] e em ]s −δ, s +δ[, portanto f é limitada em [a, s
0
]∪]s −δ, s +δ[= [a, s +δ[, que
implica, por exemplo, s + δ/2 ∈ L, e isto contradiz a hipótese de s ser majorante de L. Conclui-se assim que s = b.
Resta ver que b ∈ L. Por f ser contínua em b, existe δ > 0 tal que f é limitada em ]b −δ, b]. Por b ser o supremo de
L, existe s
0
∈]b −δ, b] tal que s
0
∈ L, isto é, tal que f
[a,s
0
]
é limitada. Então f é limitada em [a, s
0
]∪]b −δ, b], isto é f
é limitada em [a, b].
Vejamos agora que f tem um máximo. Seja s = sup f (sabemos que existe, pois já vimos que f é limitada). Se
s não pertencesse ao contradomínio de f, isto é, se ∀x ∈ [a, b] : f(x) < s, então a função g: [a, b] −→ R
x →
1
s−f(x)
seria uma função contínua não limitada (∀M ∈ R
+
∃x ∈ [a, b] : f(x) > s − 1/M, mas f(x) > s − 1/M equivale a
1
s−f(x)
> M); ora já vimos que uma função contínua num intervalo fechado (neste caso g) é limitada. Conclui-se que
existe x tal que f(x) = s, isto é, que f tem um máximo.
Analogamente se mostra que f tem um mínimo.
Exemplos:
1. f: ] −π/2, π/2[ −→ R
x → tg x
f não é limitada.
2. f: [−1, 1] −→ R
x →

1/x
2
se x = 0
0 se x = 0
f não é limitada (f não é contínua em 0).
3. f: ] −2, 2[ −→ R
x → x
f é contínua e limitada mas não tem máximo nem mínimo.
4. f: [−2, 2] −→ R
x →

x se [x[ = 2
1 se [x[ = 2
f é limitada mas não tem máximo nem mínimo (f não é contínua em −2 nem em 2).
Teorema 3.2.9 Seja f : [a, b] −→R contínua tal que f(a).f(b) < 0. Então existe x
0
∈]a, b[ tal que f(x
0
) = 0.
Demonstração: Suponhamos que não existe nenhum zero de f em [a, b]. Vamos construir uma sucessão de intervalos
I
n
= [a
n
, b
n
] com as seguintes propriedades:
1. ∀n ∈ N : I
n+1
⊂ I
n
2. comprimento de I
n
=
b−a
2
n−1
3. f(a
n
)f(b
n
) < 0 (isto é, f(a
n
) e f(b
n
) têm sinais opostos).
Ponhamos I
1
= [a, b]. Dado I
n
= [a
n
, b
n
], seja c =
a
n
+b
n
2
; então, de f(a
n
)f(b
n
) < 0 conclui-se que f(a
n
)f(c) < 0
ou f(b
n
)f(c) < 0. Se f(a
n
)f(c) < 0, seja I
n+1
= [a
n
, c] = [a
n+1
, b
n+1
]; se f(b
n
)f(c) < 0, seja I
n+1
= [c, b
n+1
] =
3.2. CONTINUIDADE 37
[a
n+1
, b
n+1
]. Tem-se obviamente I
n+1
⊂ I
n
e f(a
n
)f(b
n
) < 0. Por outro lado, para todo o n ∈ N tem-se (comprimento
de I
n+1
)=(comprimento de I
n
)/2, e o comprimento de [a, b] é b−a, portanto (comprimento de I
n
)=
b−a
2
n−1
. Pelo teorema
do encaixe de intervalos,conclui-se que existe x
0
∈ ∩
n∈N
I
n
. Suponhamos que f(x
0
) > 0; então existe δ > 0 tal que
x ∈]x
0
− δ, x
0
+ δ[∩[a, b] ⇒ f(x) > 0. Se n for tal que
b−a
2
n−1
< δ, então x
0
∈ I
n
e (comprimento de I
n
)< δ. Então
a
n
, b
n
∈]x
0
− δ, x
0
+ δ[; mas f(a
n
)f(b
n
) < 0, o que contradiz x ∈]x
0
− δ, x
0
+ δ[∩[a, b] ⇒ f(x) > 0. Se se supuser
que f(x
0
) < 0, chega-se a uma contradição análoga. Conclui-se que f(x
0
) = 0, contrariamente à hipótese que fizemos
sobre f.
Logo existe x
0
∈]a, b[ tal que f(x
0
) = 0.
Corolário 3.2.10 1. (Teorema dos valores intermédios) Se f : [a, b] −→ R é contínua e c ∈ R é tal que f(a) <
c < f(b) ou f(a) > c > f(b), então existe x
0
∈]a, b[ tal que f(x
0
) = c.
2. Se f, g : [a, b] −→ R são contínuas e tais que f(a) < g(a) e f(b) > g(b) (ou f(a) > g(a) e f(b) < g(b)), então
existe x
0
∈]a, b[ tal que f(x
0
) = g(x
0
).
Demonstração:
1. Seja h: [a, b] −→ R
x → f(x) −c
. Trata-se de uma função contínua tal que h(a)h(b) < 0. Logo existe x
0
∈]a, b[
tal que h(x
0
) = 0; mas h(x
0
) = 0 equivale a f(x
0
) = c.
2. Seja h: [a, b] −→ R
x → f(x) −g(x)
. Trata-se de uma função contínua tal que h(a)h(b) < 0. Logo existe x
0
∈]a, b[
tal que h(x
0
) = 0; mas h(x
0
) = 0 equivale a f(x
0
) = g(x
0
).

Proposição 3.2.11 Se f : R −→R é contínua tal que lim
x→−∞
f(x) = −∞ e lim
x→+∞
f(x) = +∞ (ou lim
x→−∞
f(x) = +∞
e lim
x→+∞
f(x) = −∞) então f é sobrejectiva.
Demonstração: Seja y ∈ R; como lim
x→−∞
f(x) = −∞, existe a ∈ R tal que f(a) < y; como lim
x→+∞
f(x) = +∞, existe
b ∈ R, b > a tal que f(a) > y. Da continuidade de f, e de f(a) < y < f(b), conclui-se que existe x ∈]a, b[ tal que
f(x) = y.
Exemplos:
1. f: [0, 2] −→ R
x →

1 se x ≥ 1
−1 se x < 1
Não existe x
0
∈ [0, 2] tal que f(x
0
) = 0 (f não é contínua).
2. Existe uma solução positiva da equação
x
2
= sen x.
Sejam f: R −→ R
x → x/2
e g: R −→ R
x → sen x
; f e g são funções contínuas. Tem-se f(π/2) = π/4 < 1 =
g(π/2) e f(π) = π/2 > 0 = g(π). Portanto existe x
0
∈]π/2, π[ tal que f(x
0
) = g(x
0
).
3. Existe uma e uma só solução da equação 1 −x = tg x em ] −π/2, π/2[.
Sejam f: ] −π/2, π/2[ −→ R
x → 1 −x
e g: ] −π/2, π/2[ −→ R
x → tg x
; f e g são funções contínuas. Tem-se
f(0) = 1 > 0 = g(0) e f(π/4) = 1−π/4 < 1 = g(π/4), logo existe x
0
∈]0, π/4[ tal que f(x
0
) = g(x
0
). Como, alem
disso, f é estritamente decrescente e g é estritamente crescente, para x < x
0
tem-se 1−x > 1−x
0
= tg x
0
> tg x,
e para x > x
0
tem-se tg x > tg x
0
= 1 −x
0
> 1 −x, portanto x = x
0
⇒ 1 −x = tg x.
4. Qualquer função polinomial de grau ímpar de R em R tem pelo menos um zero.
Demonstração: Seja f: R −→ R
x → a
n
x
n
+a
n−1
x
n−1
+ +a
1
x +a
0
em que n é ímpar e a
n
= 0. Então
f(x) = 0 ⇔ g(x) = 0, em que g(x) = x
n
+
a
n−1
a
n
x
n−1
+ +
a
1
a
n
x +
a
0
a
n
. Para x = 0, tem-se g(x) = x
n
(1 +
a
n−1
a
n
x
+
+
a
1
a
n
x
n−1
+
a
0
a
n
x
n
). Ora
lim
x→+∞
1 +
a
n−1
a
n
x
+ +
a
1
a
n
x
n−1
+
a
0
a
n
x
n
= lim
x→−∞
1 +
a
n−1
a
n
x
+ +
a
1
a
n
x
n−1
+
a
0
a
n
x
n
= 1
e lim
x→+∞
x
n
= +∞ e lim
x→−∞
x
n
= −∞, portanto lim
x→+∞
g(x) = +∞ e lim
x→−∞
g(x) = −∞. Conclui-se que f é
sobrejectiva, portanto tem pelo menos um zero.
38 CAPÍTULO 3. LIMITES E CONTINUIDADE
5. Qualquer função polinomial de grau par ≥ 2 de R em R tem um máximo ou um mínimo (tem um máximo (resp.
mínimo) se o coeficiente do termo de maior grau for negativo (resp. positivo)).
Demonstração: Seja f: R −→ R
x → a
n
x
n
+a
n−1
x
n−1
+ +a
1
x +a
0
, em que n é par ≥ 2 e a
n
= 0. Supo-
nhamos que a
n
< 0 e vejamos que f tem um máximo. Dizer que f tem um máximo, é equivalente a dizer que
g: R −→ R
x → x
n
+
a
n−1
a
n
x
n−1
+ +
a
0
a
n
tem um mínimo. Ora, para x = 0,
g(x) = x
n
(1 +
a
n−1
a
n
x
+ +
a
1
a
n
x
n−1
+
a
0
a
n
).
Mas lim
x→+∞
x
n
= lim
x→−∞
x
n
= +∞, e
lim
x→+∞
(1 +
a
n−1
a
n
x
+ +
a
1
a
n
x
n−1
+
a
0
a
n
) = lim
x→−∞
(1 +
a
n−1
a
n
x
+ +
a
1
a
n
x
n−1
+
a
0
a
n
) = 1,
portanto lim
x→+∞
g(x) = lim
x→−∞
g(x) = +∞. Seja M > 0 tal que x > M ⇒ g(x) > a
0
/a
n
e x < −M ⇒ g(x) >
a
0
/a
n
. A função g é contínua em [−M, M], portanto tem um mínimo em [−M, M]; esse mínimo é menor ou igual
do que g(0) = a
0
/a
n
, visto que 0 ∈ [−M, M]. Então esse mínimo é o mínimo de g, pois [x[ > M ⇒ g(x) > a
0
/a
n
.
O raciocínio é análogo no caso de se supor que a
n
> 0.
6. Qualquer que seja a ∈ R
+
existe um único a
1
∈ R
+
tal que a
2
1
= a.
Demonstração: Seja a ∈ R
+
. Como lim
x→+∞
x
2
= +∞, existe M ∈ R tal que x > M ⇒ x
2
> a. A função f:
R −→ R
x → x
2
é contínua e 0 = f(0) < a < f(M + 1), portanto existe a
1
∈]0, M + 1[ tal que f(a
1
) = a, isto é,
a
2
1
= a. Como f
|R
+ é estritamente crescente, a
1
é único.
Proposição 3.2.12 Se f : [a, b] −→R é contínua e injectiva, então f é estritamente monótona.
Demonstração: Por f ser injectiva, conclui-se que f(a) = f(b). Vamos ver que se f(a) < f(b) então f é estritamente
crescente; mostra-se de maneira análoga que se f(a) > f(b) então f é estritamente decrescente. Suponhamos então que
f(a) < f(b) e que f não é estritamente crescente, isto é, que existem x
1
, x
2
∈ [a, b] tais que x
1
< x
2
e f(x
1
) ≥ f(x
2
);
como f é injectiva tem-se f(x
1
) > f(x
2
). Se f(x
2
) < f(b) seja c ∈]f(x
2
), f(b)[∩]f(x
2
), f(x
1
)[; pelo teorema dos
valores intermédios, conclui-se que existe a
1
∈]x
1
, x
2
[ tal que f(a
1
) = c e existe a
2
∈]x
2
, b[ tal que f(a
2
) = c, o que
contradiz a hipótese de que f é injectiva. Se f(b) < f(x
2
), então f(a) < f(b) < f(x
2
) < f(x
1
), logo f(a) < f(x
1
);
seja c ∈]f(a), f(x
1
)[∩]f(x
2
), f(x
1
)[. Pelo teorema dos valores intermédios, conclui-se que existe a
1
∈]a, x
1
[ tal que
f(a
1
) = c e existe a
2
∈]x
1
, x
2
[ tal que f(a
2
) = c, o que contradiz a hipótese de que f é injectiva. Logo f é estritamente
crescente.
Proposição 3.2.13 Se f : [a, b] −→R é contínua, então existem c, d ∈ R tais que f([a, b]) = [c, d].
Demonstração: Sejam c = min(f), d = max(f) e x
1
, x
2
∈ [a, b] tais f(x
1
) = c, f(x
2
) = d (que c, d, x
1
, x
2
existem
é consequência do teorema 3.2.8); então f([a, b]) ⊂ [c, d]; o teorema dos valores intermédios permite concluir que
qualquer ponto de ]c, d[ pertence ao contradomínio de f, portanto f([a, b]) = [c, d].
Proposição 3.2.14 Se f : [a, b] −→ [c, d] é bijectiva e contínua, então f
−1
: [c, d] −→ [a, b] é contínua.
Demonstração: Pela proposição 3.2.12, f é estritamente monótona. Suponhamos que f é estritamente decrescente e
seja y
0
∈]c, d[ (então x
0
= f
−1
(y
0
) ∈]a, b[); vamos ver que f
−1
é contínua em y
0
. Seja > 0 tal que ]x
0
−, x
0
+[⊂ [a, b];
então f(]x
0
−, x
0
+[) =]f(x
0
+), f(x
0
−)[ (porque f é estritamente decrescente e contínua) e y
0
∈]f(x
0
+), f(x
0
−)[.
Para δ = min¦f(x
0
−) −y
0
, y
0
−f(x
0
+)¦, tem-se
0 < [y −y
0
[ < δ ⇒ f(x
0
+) < y < f(x
0
−)
⇒ f
−1
(f(x
0
−)) < f
−1
(y) < f
−1
(f(x
0
+))
( porque f estritamente decrescente implica f
−1
estritamente decrescente)
⇒ x
0
− < f
−1
(y) < x
0
+
⇒ [f
−1
(y) −x
0
[ <
Conclui-se que para qualquer > 0 tal que ]x
0
−, x
0
+[⊂ [a, b], existe δ > 0 tal que [y−y
0
[ < δ ⇒ [f
−1
(y)−f
−1
(y
0
)[ <
. Se > 0 é tal que ]x
0
− , x
0
+ [⊂ [a, b], consideremos

< tal que ]x
0

, x
0
+

[⊂ [a, b]. Existe δ > 0 tal que
3.2. CONTINUIDADE 39
[y − y
0
[ < δ ⇒ [f
−1
(y) − f
−1
(y
0
)[ <

< . Logo f
−1
é contínua em y
0
. Analogamente se prova que f
−1
é contínua
em c e d. Da mesma maneira se prova que se f é estritamente crescente então f
−1
é contínua.
Exemplos:
1. f: [0, 3] −→ R
x →

x se x ∈ ¦1, 2¦
2 se x = 1
1 se x = 2
f é injectiva mas não é monótona (f não é contínua em 1 nem em 2).
2. f: [0, 1] ∪ [2, 3] −→ R
x →

x se x ∈ [0, 1]
x −5 se x ∈ [2, 3]
f é injectiva e contínua, mas f não é monótona (f é estritamente crescente em [0,1] e em [2,3]).
3. f: R −→ R
x →

(x + 1)/2 se ∃n ∈ N : x = 2n + 1
1/x se ∃n ∈ N : x = 2n
1/(2n + 1) se ∃n ∈ N : x = 1/n
x nos outros casos
; f
−1
: R −→ R
x →

2x −1 se ∃n ∈ N : x = n
1/x se ∃n ∈ N : x = 1/2n
1/n se ∃n ∈ N : x = 1/(2n + 1)
x nos outros casos
f é bijectiva, f é contínua em 0, mas no entanto f
−1
não é contínua em f(0)(=0).
4. f: R
+
−→ R
+
x → x
n
; f
−1
: R
+
−→ R
+
x →
n

x(= x
1
n
)
f é contínua e bijectiva, logo f
−1
é contínua.
40 CAPÍTULO 3. LIMITES E CONTINUIDADE
Capítulo 4
Derivadas
4.1 Motivação e interpretação
Para medir a variação de uma função f numa vizinhança de um ponto a do seu domínio, é natural considerar a
diferença entre f(a) e o valor de f num ponto x próximo de a. Essa diferença só tem significado se se entrar em conta
com a distância de a a x: uma diferença de 50 entre f(0) e f(1/10) indica a priori uma variação mais rápida de f
perto de 0 do que uma diferença de 100 entre f(0) e f(30). É então natural considerar quocientes do tipo
f(x)−f(a)
x−a
;
mas, por muito próximo que x esteja de a, este quociente só dá informação sobre a variação média de f no intervalo
[a, x]. Se o que queremos é obter uma medida da rapidez da variação de f em a (que portanto não pode depender de
um intervalo), somos levados a analisar o limite de
f(x)−f(a)
x−a
quando x tende para a.
f
a x
f(a)
f(x)
f
a
f(a)
O quociente
f(x)−f(a)
x−a
é o declive da recta que passa pelos pontos de abcissa a e x do gráfico de f. Dir-se-á que f
é derivável em a se quando x tende para a, essa recta “tender” para uma recta não vertical, à qual se chamará recta
tangente ao gráfico de f em (a, f(a)).
Exemplos:
1.
f
f não é derivável em 0, embora seja derivável à esquerda e à direita em 0.
41
42 CAPÍTULO 4. DERIVADAS
2.
f
f não é derivável em 0; quando x tende para 0, a recta que passa por (0, 0) e por (x, f(x)) não tende para
nenhuma recta, mas oscila entre as rectas de equação y = x e y = −x.
4.2 Definição e propriedades básicas
Seja f : A −→ B e a ∈ A.
Definição 4.2.1 1. Diz-se que f é derivável em a sse existe l ∈ R tal que l = lim
x→a
f(x) −f(a)
x −a
. Notação:
l = f

(a).
2. Diz-se que f é derivável à direita em a sse existe l ∈ R tal que l = lim
x→a
+
f(x) −f(a)
x −a
. Notação: l = f
+
(a).
3. Diz-se que f é derivável à esquerda em a sse existe l ∈ R tal que l = lim
x→a

f(x) −f(a)
x −a
. Notação: l = f

(a).
4. Se f é derivável em pelo menos um ponto, chama-se função derivada de f à função
f

: ¦pontos onde f é derivável¦ −→ R
x → f

(x)
.
Observação:
1. Se f é derivável em a e a é um ponto de acumulação bilateral de A, então f é derivável à esquerda e à direita
em a e f
+
(a) = f

(a) = f

(a).
2. Se f é derivável à esquerda e à direita em a e f
+
(a) = f

(a), então f é derivável em a e f

(a) = f
+
(a) = f

(a).
3. f

(a) é o declive da recta tangente ao gráfico de f em (a, f(a)).
Notação: Designa-se por f

a função derivada da função f

, por f

ou f
(3)
a função derivada da função f

,. . . , por
f
(n+1)
a função derivada da função f
(n)
.
Exemplos:
1. f: R −→ R
x → c
f

(a) = lim
x→a
f(x) −f(a)
x −a
= lim
x→a
c −c
x −a
= 0.
f

: R −→ R
x → 0
2. f: R −→ R
x → cx
f

(a) = lim
x→a
f(x) −f(a)
x −a
= lim
x→a
cx −ca
x −a
= lim
x→a
c = c.
f

: R −→ R
x → c
4.2. DEFINIÇÃO E PROPRIEDADES BÁSICAS 43
3. f: R −→ R
x → x
2
f
a
f(a)
f

(a) = lim
x→a
f(x) −f(a)
x −a
= lim
x→a
x
2
−a
2
x −a
= lim
x→a
(x −a)(x +a)
x −a
= lim
x→a
x +a = 2a.
f

: R −→ R
x → 2x
A recta tangente ao gráfico de f em (a, a
2
) tem declive 2a, portanto é a recta de equação y − a
2
= 2a(x − a).
Esta recta não intersecta o gráfico de f em mais nenhum ponto: o sistema

y = 2ax −a
2
y = x
2
tem como única
solução x = a, y = a
2
.
4. f: R −→ R
x → x
3
+ 1
f
a
f(a)
f

(a) = lim
x→a
f(x) −f(a)
x −a
= lim
x→a
x
3
+ 1 −(a
3
+ 1)
x −a
= lim
x→a
(x −a)(x
2
+ax +a
2
)
x −a
= lim
x→a
x
2
+ax +a
2
= 3a
2
.
f

: R −→ R
x → 3x
2
A recta tangente ao gráfico de f em (a, a
3
+1) tem declive 3a
2
, portanto é a recta de equação y−a
3
−1 = 3a
2
(x−a).
Esta recta intersecta o gráfico de f em (a, a
3
+1) e (−2a, −8a
3
+1), pois o sistema

y = x
3
+ 1
y = 3a
2
x −2a
3
+ 1
tem
como soluções x = a, y = a
3
+ 1 e x = −2a, y = −8a
3
+ 1. Este exemplo mostra que uma recta tangente ao
gráfico pode intersectar o gráfico em mais pontos para além do ponto de tangência.
5. f: R
+
−→ R
x → 1/x
f

(a) = lim
x→a
f(x) −f(a)
x −a
= lim
x→a
1/x −1/a
x −a
= lim
x→a
a −x
xa(x −a)
= lim
x→a
−1
xa
= −1/a
2
.
f

: R
+
−→ R
x → −1/a
2
44 CAPÍTULO 4. DERIVADAS
6. f: R
+
−→ R
x →

x
f

(a) = lim
x→a
f(x) −f(a)
x −a
= lim
x→a

x −

a
x −a
= lim
x→a
1

x +

a
=
1
2

a
.
f

: R
+
−→ R
x → 1/(2

x)
7. f: R −→ R
x →
3

x
Se a = 0, f

(a) = lim
x→a
f(x) −f(a)
x −a
= lim
x→a
3

x −
3

a
x −a
= lim
x→a
(
3

x −
3

a)(
3

x
2
+
3

xa +
3

a
2
)
(x −a)(
3

x
2
+
3

xa +
3

a
2
)
= lim
x→a
x −a
(x −a)(
3

x
2
+
3

xa +
3

a
2
)
=
1
3
3

a
2
.
E lim
x→0
f(x) −f(0)
x −0
= lim
x→0
1
3

x
2
= +∞, portanto f não é derivável em 0.
f

: R ` ¦0¦ −→ R
x → 1/(3
3

x
2
)
8. f: R −→ R
x → [x[
Se a > 0, então, para x numa vizinhança suficientemente pequena de a, tem-se f(x) = x, portanto f

(a)(=
lim
x→a
f(x) −f(a)
x −a
) = lim
x→a
x −a
x −a
= 1.
Se a < 0, então, para x numa vizinhança suficientemente pequena de a, tem-se f(x) = −x, portanto f

(a)(=
lim
x→a
f(x) −f(a)
x −a
) = lim
x→a
−x +a
x −a
= −1.
Como lim
x→0
+
f(x) −f(0)
x −0
= 1 e lim
x→0

f(x) −f(0)
x −0
= −1, conclui-se que não existe lim
x→0
f(x) −f(0)
x −0
.
f

: R ` ¦0¦ −→ R
x →

1 se x > 0
−1 se x < 0
9. f: R −→ R
x →

x
2
sen
1
x
se x = 0
0 se x = 0
f
Tem-se lim
x→0
f(x) −f(0)
x −0
= lim
x→0
x sen
1
x
= 0, logo f é derivável em 0 e f

(0) = 0. A recta tangente ao gráfico de
f em (0, 0) é, portanto, a recta de equação y = 0; esta recta intersecta o gráfico de f em (0, 0) e em todos os
pontos (1/(kπ), 0), em que k ∈ Z` ¦0¦, ou seja, a recta tangente ao gráfico de f em (0, 0) intersecta o gráfico de
f numa infinidade de pontos arbitrariamente próximos de (0, 0).
Proposição 4.2.2 Se f é derivável em a, então f é contínua em a.
4.2. DEFINIÇÃO E PROPRIEDADES BÁSICAS 45
Observação: O recíproco não é verdadeiro, como mostra o exemplo 8.
Demonstração:
De lim
x→a
(x −a)=0 e lim
x→a
f(x) −f(a)
x −a
=f

(a), conclui-se que existe lim
x→a
(x −a)(
f(x) −f(a)
x −a
) e é igual a 0.f

(a) = 0.
Então lim
x→a
(f(x) −f(a))=0, ou seja, lim
x→a
f(x) = f(a), isto é, f é contínua em a.
Exemplo: f: R −→ R
x →

x
2
se x ∈ Q
−x
2
se x ∈ Q
Tem-se

f(x) −f(0)
x −0

= [x[, portanto lim
x→0
f(x) −f(0)
x −0
= 0, isto é, f

(0) = 0; f é contínua em 0, mas f não é
contínua em mais nenhum ponto.
Proposição 4.2.3 Se f e g são deriváveis em a, então f +g e f.g são deriváveis em a, (f +g)

(a) = f

(a) +g

(a) e
(f.g)

(a) = f

(a)g(a) +f(a)g

(a); se g(a) = 0, então
1
g
é derivável em a e (
1
g
)

(a) =
−g

(a)
(g(a))
2
.
Demonstração: De f

(a) = lim
x→a
f(x) −f(a)
x −a
e g

(a) = lim
x→a
g(x) −g(a)
x −a
, conclui-se que
f

(a) +g

(a) = lim
x→a
f(x) −f(a)
x −a
+
g(x) −g(a)
x −a
,
ou seja, f

(a) +g

(a) = lim
x→a
f(x) +g(x) −(f(a) +g(a))
x −a
, isto é, f +g é derivável em a e (f +g)

(a) = f

(a) +g

(a).
Para x = a, tem-se
f.g(x) −f.g(a)
x −a
=
f(x)g(x) −f(x)g(a) +f(x)g(a) −f(a)g(a)
x −a
= f(x)
g(x) −g(a)
x −a
+
f(x) −f(a)
x −a
g(a).
Ora lim
x→a
f(x) = f(a) (porque f é contínua em a, visto que f é derivável em a), lim
x→a
g(x) −g(a)
x −a
= g

(a) e
lim
x→a
f(x) −f(a)
x −a
= f

(a), portanto lim
x→a
f.g(x) −f.g(a)
x −a
= f(a)g

(a) +f

(a)g(a).
Como g é derivável em a, g é contínua em a, portanto de g(a) = 0 conclui-se que para x suficientemente próximo
de a se tem g(x) = 0. Nesse caso, e para x = a,
1
g
(x) −
1
g
(a)
x −a
=
g(a) −g(x)
(x −a)g(x)g(a)
.
Como lim
x→a
g(a) −g(x)
x −a
= −g

(a) e lim
x→a
g(x) = g(a), conclui-se que lim
x→a
1
g
(x) −
1
g
(a)
x −a
= −
g

(a)
(g(a))
2
.
Proposição 4.2.4 Se f e g são n vezes deriváveis em a, então fg é n vezes derivável em a e (fg)
(n)
(a) =
¸
n
k=0
(
n
k
)f
(n−k)
(a)g
(k)
(a) (em que f
(0)
(a) designa f(a)).
Demonstração (por indução): Para n = 1, esta afirmação já foi demonstrada na proposição anterior.
Seja agora m ∈ N e suponhamos que o produto de quaisquer duas funções ϕ e ψ, m vezes deriváveis em a é m vezes
derivável em a e (ϕψ)
(n)
(a) =
¸
m
k=0
(
m
k )ϕ
(m−k)
(a)ψ
(k)
(a). Sejam f e g funções m+ 1 vezes deriváveis em a; então fg
é m vezes derivável em a e (fg)
(m)
(a) =
¸
m
k=0
(
m
k )f
(m−k)
(a)g
(k)
(a). Ora, para k entre 0 e m, as funções f
(m−k)
e g
(k)
são deriváveis em a logo o seu produto tambem o é e (f
(m−k)
g
(k)
)

(a) = f
(m−k+1)
(a)g
(k))
(a) + f
(m−k)
(a)g
(k+1)
(a).
Conclui-se que (fg)
(m)
é derivável em a (isto é, fg é m+ 1 vezes derivável em a), e
(fg)
(m+1)
(a) = ((fg)
(m)
)

(a) =
m
¸
k=0
(
m
k )(f
(m−k+1)
(a)g
(k))
(a) +f
(m−k)
(a)g
(k+1)
(a))
=
m
¸
k=0
(
m
k )f
(m−k+1)
(a)g
(k)
(a) +
m
¸
k=0
(
m
k )f
(m−k)
(a)g
(k+1)
(a)
=
m
¸
k=0
(
m
k )f
(m−k+1)
(a)g
(k)
(a) +
m+1
¸
k=1
(
m
k−1)f
(m+1−k)
(a)g
(k)
(a)
46 CAPÍTULO 4. DERIVADAS
= (
m
0 )f
(m+1)
(a)g
(0)
(a) +
m
¸
k=1
((
m
k ) + (
m
k+1))f
(m+1−k)
(a)g
(k)
(a) + (
m
m)f
(0)
(a)g
(m)
(a)
= (
m
0 )f
(m+1)
(a)g
(0)
(a) +
m
¸
k=1
(
m+1
k ))f
(m+1−k)
(a)g
(k)
(a) + (
m
m)f
(0)
(a)g
(m)
(a)( porque (
m
k ) + (
m
k−1) = (
m+1
k ))
=
m+1
¸
k=0
(
m+1
k )f
(m+1−k)
(a)g
(k)
(a).

Exemplos:
1. Para cada n ∈ N, a função f: R −→ R
x → x
n
é derivável e ∀x ∈ R : f

n
(x) = nx
n−1
.
Demonstração (por indução): Já foi visto que f
1
é derivável e que ∀x ∈ R : f

1
(x) = 1.
Seja agora m ∈ N e suponhamos que f
m
é derivável e que ∀x ∈ R : f

m
(x) = mx
m−1
. Tem-se f
m+1
= f
m
f
1
,
portanto, pela proposição anterior, f
m+1
é derivável e
∀x ∈ R : f

m+1
(x) = f

m
(x)f
1
(x) +f
m
(x)f

1
(x) = mx
m−1
.x +x
m
.1 = mx
m
+x
m
= (m+ 1)x
m
como queríamos demonstrar.
2. Para cada n ∈ N, a função g
n
: R ` ¦0¦ −→ R
x →
1
x
n
é derivável e g

n
(x) = −
n
x
n+1
.
Demonstração: Tem-se g
n
=
1
f
n
, em que f
n
: R ` ¦0¦ −→ R
x → x
n
. Pelo exemplo anterior, já se sabe que f
n
é
derivável e f

n
(x) = nx
n−1
. Pela proposição anterior conclui-se que g
n
é derivável
g

n
(x) = −
f

n
(x)
(f
n
(x))
2
= −
nx
n−1
x
2n
= −
n
x
n+1
.

3. Se f : A −→R é derivável em a e c ∈ R, então c.f é derivável em a e (c.f)

(a) = c.f

(a).
Demonstração: A funcão g: A −→ B
x → c
é derivável e a sua derivada é constante nula. Conclui-se que c.f,
que é igual a g.f, é derivável em a e (g.f)

(a) = g

(a)f(a) +g(a)f

(a) = cf

(a).
4. f: R −→ R
x → a
n
x
n
+a
n−1
x
n−1
+ +a
1
x +a
0
f é derivável e f

(x) = na
n
x
n−1
+ (n −1)a
n−1
x
n−2
+ + 2a
2
x +a
1
.
5. Se f e g são deriváveis em a e g(a) = 0, então
f
g
é derivável em a e (
f
g
)

(a) =
f

(a)g(a) −f(a)g

(a)
(g(a))
2
Proposição 4.2.5 Se f : A −→ B é derivável em a e se g : B −→ C é derivável em f(a), então g ◦ f é derivável em
a e (g ◦ f)

(a) = g

(f(a))f

(a).
Demonstração: Seja h: A −→ R
x →

g(f(x))−g(f(a))
f(x)−f(a)
se f(x) = f(a)
g

(f(a)) se f(x) = f(a)
Vejamos que h é contínua em a. Seja > 0;
como g é derivável em f(a), existe δ
1
> 0 tal que 0 < [y − f(a)[ < δ
1
implica

g(y) −g(f(a))
y −f(a)
−g

(f(a))

< . Por
outro lado, existe δ > 0 tal que 0 < [x−a[ < δ implica [f(x) −f(a)[ < δ
1
, pois f é derivável em a, portanto é contínua
em a. Então, se 0 < [x − a[ < δ, ou f(x) = f(a), caso em que g(f(x)) = g(f(a)), ou f(x) = f(a), caso em que
0 < [f(x) −f(a)[ < δ
1
, e portanto

g(f(x)) −g(f(a))
f(x) −f(a)
−g

(f(a))

< ; em ambos os casos se tem [h(x) −h(a)[ < .
4.2. DEFINIÇÃO E PROPRIEDADES BÁSICAS 47
Ora
g(f(x)) −g(f(a))
x −a
= h(x)
f(x) −f(a)
x −a
, portanto
lim
x→a
g(f(x)) −g(f(a))
x −a
= lim
x→a
h(x) lim
x→a
f(x) −f(a)
x −a
= h(a)f

(a) = g

(f(a))f

(a).

Exemplos:
1. f: R −→ R
x → sen(2x + 5)
-6 -4 -2 2 4 6
f
-1
-0.5
0.5
1
f = g ◦ h, em que g: R −→ R
x → sen x
e h: R −→ R
x → 2x + 5
f

(x) = g

(h(x))h

(x) = 2 cos(2x + 5)
2. f: R −→ R
x → cos((4x + 3)
3
)
-1.5 -1.25 -1 -0.75 -0.5 -0.25
f
-1
-0.5
0.5
1
f = g
1
◦ g
2
◦ g
3
em que g
1
: R −→ R
x → cos x
, g
2
: R −→ R
x → x
3
, g
3
: R −→ R
x → 4x + 3
f

(x) = g

1
(g
2
◦ g
3
(x))(g
2
◦ g
3
)

(x) = g

1
(g
2
(g
3
(x)))g

2
(g
3
(x))g

3
(x)
= −sen(4x + 3)
3
.3(4x + 3)
2
.4 = −12(4x + 3)
2
sen(4x + 3)
3
3. f: R −→ R
x →
1
1+sen
2
x
48 CAPÍTULO 4. DERIVADAS
-4 -2 2 4
f
0.2
0.4
0.6
0.8
1
f = g ◦ h, em que g: R −→ R
x →
1
1+x
2
e h: R −→ R
x → sen x
f

(x) = g

(h(x))h

(x) = −
2h(x)
(1 + (h(x))
2
)
2
cos x = −
2 sen xcos x
(1 + sen
2
x)
2
4. f: R −→ R
x → e
x cos x
-6 -4 -2 2 4 6
f
5
10
15
20
25
30
f

(x) = (cos x −xsen x)e
x cos x
Proposição 4.2.6 Sejam f, g e h funções definidas num intervalo aberto contendo a tais que
1. para algum δ > 0 se tem ∀x ∈]a −δ, a +δ[: f(x) ≤ g(x) ≤ h(x);
2. f(a) = h(a);
3. f e h são deriváveis em a.
Então g é derivável em a e f

(a) = g

(a) = h

(a).
Demonstração: Tem-se f(a) ≤ g(a) ≤ h(a) e f(a) = h(a), portanto g(a) = f(a)(= h(a)); então, para x ∈]a −δ, a +δ[
tem-se f(x) −f(a) ≤ g(x) −g(a) ≤ h(x) −h(a). Para x > a, tem-se
f(x) −f(a)
x −a

g(x) −g(a)
x −a

h(x) −h(a)
x −a
e, para x < a, tem-se
f(x) −f(a)
x −a

g(x) −g(a)
x −a

h(x) −h(a)
x −a
.
Então f
+
(a) ≤ h
+
(a) e h

(a) ≤ f

(a); mas f
+
(a) = f

(a) = f

(a) e h
+
(a) = h

(a) = h

(a), portanto
f
+
(a) = h
+
(a) = f

(a) = h

(a) = f

(a) = h

(a).
De
f(x)−f(a)
x−a

g(x)−g(a)
x−a

h(x)−h(a)
x−a
para x ∈]a − δ, a + δ[, e por existirem e serem iguais lim
x→a
+
f(x) −f(a)
x −a
e
lim
x→a
+
h(x) −h(a)
x −a
, conclui-se que existe lim
x→a
+
g(x) −g(a)
x −a
e é igual a f
+
(a) = h
+
(a). Analogamente se conclui que g
é derivável à esquerda e que g

(a) = f

(a) = h

(a). Então g é derivável em a e g

(a) = f

(a) = h

(a).
Exemplos:
4.2. DEFINIÇÃO E PROPRIEDADES BÁSICAS 49
1. f: R −→ R
x →

x
2
se x ∈ Q
−x
2
/4 se x ∈ Q
Para x ∈ R tem-se −x
2
≤ f(x) ≤ x
2
, logo f é derivável em 0 e f

(0) = 0.
2. f: R −→ R
x → (terceiro algarismo na expressão decimal de x).(x −1)
4
Para x ∈ R tem-se 0 ≤ f(x) ≤ 9(x −1)
4
, logo f é derivável em 1 e f

(1) = 0.
3. f: R −→ R
x →

x
2
−(2x
2
−4x + 2)[ cos(
10
x−1
)[ se x = 1
1 se x = 1
-0.5 0.5 1 1.5 2 2.5
f
-2
-1
1
2
3
4
5
Para x ∈ R tem-se x
2
−(2x
2
−4x + 2) ≤ f(x) ≤ x
2
, isto é, −x
2
+ 4x −2 ≤ f(x) ≤ x
2
, logo f é derivável em 1 e
f

(1) = 2.
4. f: R −→ R
x →

x
4
se x ∈ Q
x
2
se x ∈ Q
Para x ∈] −1, 1[, tem-se 0 ≤ f(x) ≤ x
2
, portanto f é derivável em 0 e f

(0) = 0
Proposição 4.2.7 Sejam f : [a, b] −→R uma função injectiva contínua, x
0
∈ [a, b]. Se f for derivável em x
0
e
f

(x
0
) = 0, então f
−1
: f([a, b]) −→ [a, b] é derivável em f(x
0
), e (f
−1
)

(f(x
0
)) =
1
f

(x
0
)
.
Demonstração: Seja y
0
= f(x
0
); quer-se mostrar que lim
x→y
0
f
−1
(x) −f
−1
(y
0
)
x −y
0
=
1
f

(x
0
)
. Como f é derivável em x
0
e
f

(x
0
) = 0, tem-se lim
x→x
0
f(x) −f(x
0
)
x −x
0
= f

(x
0
) = 0, de onde lim
x→x
0
x −x
0
f(x) −f(x
0
)
=
1
f

(x
0
)
. Seja > 0; existe δ
1
> 0
tal que
0 < [x −x
0
[ < δ
1

x −x
0
f(x) −f(x
0
)

1
f

(x
0
)

< .
Então
0 < [f
−1
(x) −x
0
[ < δ
1

f
−1
(x) −x
0
f(f
−1
(x)) −f(x
0
)

1
f

(x
0
)

< ,
isto é,
0 < [f
−1
(x) −x
0
[ < δ
1

f
−1
(x) −f
−1
(y
0
)
x −y
0

1
f

(x
0
)

< .
Mas f é contínua em [a, b], portanto f
−1
tambem é contínua; em particular, f
−1
é contínua em y
0
= f(x
0
), logo existe
δ > 0 tal que [x−y
0
[ < δ ⇒ [f
−1
(x) −f
−1
(y
0
)[ < δ
1
. Por outro lado, f
−1
é injectiva, portanto x = y
0
⇒ f
−1
(x) = x
0
.
Então
0 < [x −y
0
[ < δ ⇒ 0 < [f
−1
(x) −f
−1
(y
0
)[ < δ
1
⇒ 0 < [f
−1
(x) −x
0
[ < δ
1

f
−1
(x) −f
−1
(y
0
)
x −y
0

1
f

(x
0
)

< .

Observação:
50 CAPÍTULO 4. DERIVADAS
1. Note-se que para uma função injectiva f : [a, b] −→R, quer ela seja ou não contínua no intervalo, é muito simples
concluir que se f
−1
e f são deriváveis respectivamente em f(x
0
) e x
0
, então (f
−1
)

(f(x
0
)) = 1/f

(x
0
). De facto,
tem-se f
−1
◦ f = id
|[a,b]
, portanto (f
−1
◦ f)

(x
0
) = (f
−1
)

(f(x
0
))f

(x
0
). Como id

|[a,b]
= 1, conclui-se que
(f
−1
)

(f(x
0
))f

(x
0
) = 1, isto é, (f
−1
)

(f(x
0
)) = 1/f

(x
0
).
2. Se f
−1
é derivável em y
0
= f(x
0
), então f

(x
0
) = 0, pois (f
−1
)

(f(x
0
))f

(x
0
) = 1.
Exemplos:
1. f: R
+
−→ R
+
x → x
n
; f
−1
: R
+
−→ R
+
x →
n

x = x
1/n
f é derivável e f

não tem zeros.
(f
−1
)

(x
n
) =
1
f

(x)
=
1
nx
n−1
(f
−1
)

(x) =
1
f

(f
−1
(x))
=
1
n(x
1/n
)
n−1
=
1
nx
1−1/n
=
1
n
x
(1/n)−1
2. f: R
+
−→ R
+
x → x
α
, onde α = m/n.
Tem-se f = g ◦ h em que g(x) = x
m
e h(x) = x
1/n
. Então
f

(x) = g

(h(x))h

(x) = m(h(x))
m−1
1
n
x
1
n
−1
= m(x
1
n
)
m−1
1
n
x
1
n
−1
=
m
n
x
m
n
−1
= αx
α−1
.
3. Existe uma função derivável f : R −→R tal que ∀x ∈ R : f(x)
9
+ f(x)
3
+ f(x) + x = 0. Tem-se f

(x) =

1
9f(x)
8
+3f(x)
2
+1
.
Demonstração:
f(x)
9
+f(x)
3
+f(x) +x = 0 ⇔ −f(x)
9
−f(x)
3
−f(x) = x
⇔ g(f(x)) = x, em que g : R −→ R
x → −x
9
−x
3
−x
-1 -0.5 0.5 1
g
-3
-2
-1
1
2
3
-3 -2 -1 1 2 3
-1
g
-1
-0.5
0.5
1
Ora lim
x→−∞
g(x) = +∞, lim
x→+∞
g(x) = −∞ e g é contínua, portanto g é sobrejectiva; por outro lado, g

(x) =
−9x
8
−3x
2
−1 < 0, portanto g é estritamente decrescente, logo g é injectiva. Como g é derivável e g

não tem
zeros, g
−1
: R −→R é derivável. Pondo f = g
−1
, tem-se ∀x ∈ R : f(x)
9
+f(x)
3
+f(x) +x = 0.
Tem-se f

(x) = (g
−1
)(x) =
1
g

(g
−1
(x))
=
1
g

(f(x))
= −
1
9f(x)
8
+3f(x)
2
+1
.
4. Seja f : R −→R bijectiva, duas vezes derivável e tal que f

não tem zeros. Então f
−1
é duas vezes derivável e
(f
−1
)

(x) −
f

(f
−1
(x))
(f

(f
−1
(x)))
3
.
Demonstração: Como ∀x, f

(x) = 0, tem-se (f
−1
)

: R −→ R
x →
1
f

(f
−1
(x))
. Seja g: R −→ R
x → f

(f
−1
(x))
; g é a
composta de duas funções deriváveis, portanto derivável e g

(x) = f

(f
−1
(x))(f
−1
)

(x) = f

(f
−1
(x))
1
f

(f
−1
(x))
;
como g nunca se anula,1/g, isto é, (f
−1
)

é derivável e (f
−1
)

(x) = −
g

(x)
(g(x))
2
= −
f

(f
−1
(x))
(f

(f
−1
(x)))
3
.
4.3. TEOREMAS DE ROLLE, LAGRANGE E CAUCHY 51
4.3 Teoremas de Rolle, Lagrange e Cauchy
Definição 4.3.1 Diz-se que x
0
é um ponto crítico de f sse f

(x
0
) = 0, isto é, se o gráfico de f em (x
0
, f(x
0
)) tiver
uma tangente horizontal.
Um ponto x
0
é interior a um intervalo I se existir um δ > 0 tal que ]a −δ, a +δ[⊂ I.
Proposição 4.3.2 Se f : I −→R é derivável num ponto x
0
interior a I e se f tem um máximo ou um mínimo local
em x
0
, então x
0
é um ponto crítico de f.
Demonstração: Suponhamos que f tem um máximo local em x
0
e que δ

> 0 é tal que ]a − δ

, a + δ

[⊂ I; então
existe δ > 0 tal que δ < δ

e ∀x ∈]x
0
− δ, x
0
+ δ[: f(x) ≤ f(x
0
). Para x ∈]x
0
− δ, x
0
[, tem-se f(x) − f(x
0
) ≤ 0 e
x − x
0
< 0, portanto
f(x)−f(x
0
)
x−x
0
≥ 0; conclui-se que f

(x
0
)(= lim
x→x

0
f(x) −f(x
0
)
x −x
0
) ≥ 0. Para x ∈]x
0
, x
0
+ δ[, tem-se
f(x) − f(x
0
) ≤ 0 e 0 < x − x
0
, portanto
f(x)−f(x
0
)
x−x
0
≤ 0; conclui-se que f
+
(x
0
)(= lim
x→x
+
0
f(x) −f(x
0
)
x −x
0
) ≤ 0. Mas
f

(x
0
) = f
+
(x
0
) = f

(x
0
), portanto f

(x
0
) = 0.
Observação: O recíproco da proposição 4.3.2 não é verdadeiro, como mostra o exemplo 3 a seguir.
Exemplos:
1. f: [−1, 1] −→ R
x → x
2
f tem um máximo local em −1 e em 1, mas f

(−1) = 0 e f

(1) = 0; f tem um mínimo local em 0 e f

(0) = 0.
2. f: [−2, 5] −→ R
x → [x −3[
f tem um mínimo local em 3, mas não se tem f

(3) = 0 (f não é derivável em 3).
3. f: R −→ R
x → x
3
−3x
2
+ 3x −1
-2 -1 1 2 3
f
-1
-0.75
-0.5
-0.25
0.25
0.5
0.75
f

(1) = 0 mas f não tem máximo local nem mínimo local em 1.
4. f: [−3, 2] −→ R
x → [x
3
−x[
-3 -2 -1 1 2
f
0.2
0.4
0.6
0.8
52 CAPÍTULO 4. DERIVADAS
f(x) =

x
3
−x se x ∈ [−1, 0] ∪ [1, 2]
−x
3
+x se x ∈ [−3, −1] ∪ [0, 1]
f

: [−3, 2] ` ¦−1, 0, 1¦ −→ R
x →

3x
2
−1 se x ∈] −1, 0[∪]1, 2]
−3x
2
+ 1 se x ∈ [−3, −1[∪]0, 1[
Os pontos críticos de f são 1/

3 e −1/

3; f não é derivável em −1, 0, 1. Como f é uma função contínua num
intervalo fechado, f tem máximo e mínimo; os pontos onde f pode atingir o máximo e o mínimo são os extremos
do intervalo, os pontos críticos e os pontos onde f não é derivável. O cálculo dos valores de f nestes pontos
permite concluir que f(−1) = f(0) = f(1) = min f e f(−3) = max f; f tem ainda um máximo local em 2, em
1/

3 e em −1/

3.
Teorema 4.3.3 (Rolle) Se f : [a, b] −→R é uma função contínua que é derivável em ]a, b[, e se f(a) = f(b), então
existe x
0
∈]a, b[ tal que f

(x
0
) = 0 (isto é, existe um ponto do gráfico onde a recta tangente é horizontal).
f
a b x0
Demonstração: Como f é contínua, f tem máximo e mínimo. Ou f é constante, e a conclusão é óbvia, ou não e
existe então c ∈]a, b[ tal que f(c) = f(a). Se f(c) < f(a), existe x
0
∈]a, b[ tal que f(x
0
) = min f, e se f(c) > f(a),
existe x
0
∈]a, b[ tal que f(x
0
) = max f; em ambos os casos se conclui, pela proposição anterior, que f

(x
0
) = 0.
Teorema 4.3.4 (Lagrange) Se f : [a, b] −→R é uma função contínua que é derivável em ]a, b[, então existe x
0
∈]a, b[
tal que f

(x
0
) =
f(b)−f(a)
b−a
(isto é, existe um ponto do gráfico em que a recta tangente é paralela à recta que une (a, f(a))
a (b, f(b))).
f
a b
f(a)
f(b)
x0
g
a b x0
Demonstração: Seja g: [a, b] −→ R
x → f(x) −
f(b)−f(a)
b−a
x
. Então g é uma função contínua que é derivável em ]a,b[.
Tem-se g(a) = f(a)−
f(b)−f(a)
b−a
a =
bf(a)−af(b)
b−a
e g(b) = f(b)−
f(b)−f(a)
b−a
b =
−af(b)+bf(a)
b−a
, portanto, pelo teorema de Rolle,
existe x
0
∈]a, b[ tal que g

(x
0
) = 0. Mas g

(x) = f

(x) −
f(b)−f(a)
b−a
, logo g

(x
0
) = 0 é equivalente a f

(x
0
) =
f(b)−f(a)
b−a
.

Corolário 4.3.5 Se f : [a, b] −→R tem derivada nula em todos os pontos, então f é constante.
Demonstração: Sejam x
1
, x
2
∈ [a, b] com x
1
< x
2
. Pelo Teorema de Lagrange, existe x
0
∈]x
1
, x
2
[ tal que f

(x
0
) =
f(x
2
)−f(x
1
)
x
2
−x
1
. Como f tem derivada nula em todos os pontos, tem-se
f(x
2
)−f(x
1
)
x
2
−x
1
= 0, ou seja, f(x
1
) = f(x
2
). Logo f é
constante.
Corolário 4.3.6 Se f, g : [a, b] −→R são tais que ∀x ∈ [a, b] : f

(x) = g

(x), então existe c ∈ R tal que ∀x ∈ [a, b] :
f(x) = g(x) +c.
4.3. TEOREMAS DE ROLLE, LAGRANGE E CAUCHY 53
Demonstração: Basta aplicar o corolário anterior à função f −g.
Corolário 4.3.7 Se f : [a, b] −→R é tal que para todo o x ∈ [a, b] se tem f

(x) ≥ 0 (resp. f

(x) > 0, f

(x) ≤ 0,
f

(x) < 0), então f é crescente (resp. estritamente crescente, decrescente, estritamente decrescente).
Demonstração: Sejam x
1
, x
2
∈ [a, b] com x
1
< x
2
. Pelo teorema de Lagrange, existe x
0
∈]x
1
, x
2
[ tal que f

(x
0
) =
f(x
2
)−f(x
1
)
x
2
−x
1
. Como f

(x
0
) ≥ 0, tem-se
f(x
2
)−f(x
1
)
x
2
−x
1
≥ 0, de onde f(x
1
)−f(x
2
) ≤ 0, isto é f(x
1
) ≤ f(x
2
). A demonstração
é análoga nos outros casos.
Exemplos:
1. f: [1, 2] ∪ [5, 6] −→ R
x →

1 se x ∈ [1, 2]
−1 se x ∈ [5, 6]
2 3 4 5 6
f
-1
-0.5
0.5
1
∀x ∈ [1, 2] ∪ [5, 6] : f

(x) = 0, mas f não é constante.
2. f: [−2, −1] ∪ [1, 2] −→ R
x →

−x −2 se x ∈ [−2, −1]
−x + 2 se x ∈ [1, 2]
-2 -1 1 2
f
-1
-0.5
0.5
1
∀x ∈ [−2, −1] ∪ [1, 2] : f

(x) = −1 < 0, mas f não é decrescente.
3. f: [−5, 5] −→ R
x →

x
2
se x ∈ [0, 5]
−x
2
se x ∈ [−5, 0]
f

: [−5, 5] −→ R
x →

2x se x ∈ [0, 5]
−2x se x ∈ [−5, 0]
f

(0) = 0 mas f é estritamente crescente.
4. f: R ` ¦0¦ −→ R
x →
1
x
; g: R ` ¦0¦ −→ R
x →

1
x
+ 1 se x < 0
1
x
−1 se x > 0
Tem-se ∀x ∈ R ` ¦0¦ : f

(x) = g

(x), mas não existe c ∈ R tal que ∀x ∈ R ` ¦0¦ : f(x) = g(x) +c.
54 CAPÍTULO 4. DERIVADAS
Proposição 4.3.8 Se f : A −→R é derivável em x
0
e f

(x
0
) > 0 (resp. f

(x
0
) < 0), então f é estritamente crescente
(resp. estritamente decrescente) em x
0
.
Demonstração: De lim
x→x
0
f(x) −f(x
0
)
x −x
0
> 0, conclui-se que existe δ > 0 tal que x ∈]x
0
− δ, x
0
+ δ[⇒
f(x)−f(x
0
)
x−x
0
> 0.
Então para x ∈]x
0
, x
0
+ δ[, tem-se
f(x)−f(x
0
)
x−x
0
> 0 e x − x
0
> 0, portanto f(x) − f(x
0
) > 0, isto é, f(x) > f(x
0
);
para x ∈]x
0
− δ, x
0
[, tem-se
f(x)−f(x
0
)
x−x
0
> 0 e x − x
0
< 0, portanto f(x) − f(x
0
) < 0, isto é, f(x) < f(x
0
). Logo f é
estritamente crescente em x
0
. (Observação: A demonstração aplica-se mesmo que x
0
não seja ponto de acumulação
bilateral de A).
Exemplos:
1. f: [−1, 1] −→ R
x → x
2
Tem-se f

(0) ≥ 0, mas f não é crescente em 0.
2. f: R −→ R
x →

−x/2 +x
2
sen
10
x
se x = 0
0 se x = 0
; f

: R −→ R
x →

−1/2 + 2xsen
10
x
−10 cos
10
x
se x = 0
−1/2 se x = 0
;
-0.6 -0.4 -0.2 0.2 0.4 0.6
f
-0.4
-0.3
-0.2
-0.1
0.1
0.2
0.3
0.4
f

(0) < 0, portanto f é estritamente decrescente em 0.
Proposição 4.3.9 Se f : [a, b] −→R é derivável e f é crescente (resp. decrescente) então ∀x ∈ [a, b] : f

(x) ≥ 0
(resp. ∀x ∈ [a, b] : f

(x) ≤ 0).
Demonstração: Como f é crescente, para x = x
0
tem-se sempre
f(x)−f(x
0
)
x−x
0
≥ 0, portanto lim
x→x
0
f(x) −f(x
0
)
x −x
0
≥ 0.
Proposição 4.3.10 Se f : [a, b] −→R é derivável, x
0
∈ [a, b] e ∀x ∈ [a, b] ` ¦x
0
¦ : f

(x) > 0 (resp. ∀x ∈ [a, b] ` ¦x
0
¦ :
f

(x) < 0), então f é estritamente crescente (resp. estritamente decrescente).
Demonstração: Sejam x
1
, x
2
∈ [a, b] tais que x
1
< x
2
. Se x
2
≤ x
0
ou x
0
≤ x
1
, então ∀x ∈]x
1
, x
2
[ : f

(x) > 0; o
teorema de Lagrange permite então concluir que f(x
1
) < f(x
2
). Se x
1
< x
0
< x
2
, pelo que foi dito antes conclui-se
que f(x
1
) < f(x
0
) e f(x
0
) < f(x
2
), portanto f(x
1
) < f(x
2
).
Corolário 4.3.11 Se f : [a, b] −→R é derivável, x
1
, . . . , x
n
∈ [a, b] e ∀x ∈ [a, b] ` ¦x
1
, . . . , x
n
¦ : f

(x) > 0 (resp.
∀x ∈ [a, b] ` ¦x
1
, . . . , x
n
¦ : f

(x) < 0), então f é estritamente crescente (resp. estritamente decrescente).
Exemplos:
1. f: R −→ R
x → −x
3
f

(x) = −3x
2
; tem-se f

(x) < 0 para todo o x ∈ R ` ¦0¦, logo f é estritamente decrescente em R.
2. f: R −→ R
x → x
3
−3x
4.3. TEOREMAS DE ROLLE, LAGRANGE E CAUCHY 55
-3 -2 -1 1 2 3
f
-8
-6
-4
-2
2
4
6
8
f

(x) = 3x
2
− 3; para x ∈] − ∞, −1[∪]1, +∞[ tem-se f

(x) > 0; para x ∈] − 1, 1[ tem-se f

(x) < 0. Conclui-se
que f é estritamente crescente em ] −∞, −1] e em [1, +∞[ e que f é estritamente decrescente em [−1, 1].
3. f: R −→ R
x → (x −1)
6
+ (x −1)
2
−x + 5
-1-0.5 0 0.5 1 1.5 2 2.5 3
f
1
2
3
4
5
6
7
f

: R −→ R
x → 6(x −1)
5
+ 2(x −1) −1
Como f

(1) = −1 < 0, conclui-se que f não é crescente em nenhum intervalo que contenha 1. Como f

(11) =
600019 > 0, conclui-se que f não é decrescente em nenhum intervalo que contenha 11.
4. f: R ` ¦1¦ −→ R
x →
1
x−1
-6 -4 -2 2 4 6
f
-8
-6
-4
-2
2
4
6
8
f

: R ` ¦1¦ −→ R
x → −
1
(x−1)
2
Para qualquer x ∈ R` ¦1¦, tem-se f

(x) < 0. Conclui-se que f é estritamente decrescente em qualquer intervalo
contido no seu domínio, portanto f é estritamente decrescente em ] − ∞, 1[ e em ]1, +∞[. No entanto f não é
decrescente.
5. f: R ` ¦kπ +π/2; k ∈ Z¦ −→ R
x → tg x
56 CAPÍTULO 4. DERIVADAS
-6 -4 -2 2 4 6
f
-8
-6
-4
-2
2
4
6
8
f

: R ` ¦kπ +π/2; k ∈ Z¦ −→ R
x → sec
2
x
Para qualquer x ∈ R ` ¦kπ + π/2, k ∈ Z¦, tem-se f

(x) > 0. Conclui-se que f é estritamente crescente em
qualquer intervalo contido no seu domínio, portanto f é estritamente crescente em ]kπ − π/2, kπ + π/2[, para
qualquer k ∈ Z. No entanto f não é crescente.
6. f: R ` ¦kπ; k ∈ Z¦ −→ R
x → cosec x
-6 -4 -2 2 4 6
f
-8
-6
-4
-2
2
4
6
8
f

: R ` ¦kπ; k ∈ Z¦ −→ R
x → −
cos x
sen
2
x
Se existe k ∈ Z tal que x ∈]2kπ − π/2, 2kπ + π/2[, então cos x > 0, portanto f

(x) < 0; se existe k ∈ Z tal que
x ∈]2kπ + π/2, 2kπ + 3π/2[, então cos x < 0, portanto f

(x) > 0. Conclui-se que f é estritamente decrescente
em todos os intervalos do tipo [2kπ − π/2, 2kπ[ e ]2kπ, 2kπ + π/2]; f é estritamente crescente em todos os
intervalos do tipo [2kπ + π/2, (2k + 1)π[ e ](2k + 1)π, 2kπ + 3π/2]. Mas f não é decrescente nos conjuntos do
tipo [2kπ −π/2, 2kπ +π/2] ` ¦kπ¦ e f não é decrescente nos conjuntos [(2k + 1)π, 2kπ + 3π/2] ` ¦(2k + 1)π¦.
Proposição 4.3.12
1. Se f : ]a, b[−→R é derivável, f

(x
0
) = 0, e existe δ > 0 tal que

f

(x) > 0 para x ∈]x
0
−δ, x
0
[
f

(x) < 0 para x ∈]x
0
, x
0
+δ[
, então f tem
um máximo estrito local em x
0
.
2. Se f :]a, b[−→R é derivável, f

(x
0
) = 0, e existe δ > 0 tal que

f

(x) < 0 para x ∈]x
0
−δ, x
0
[
f

(x) > 0 para x ∈]x
0
, x
0
+δ[
, então f tem
um mínimo estrito local em x
0
.
Demonstração:
1. Pela proposição 4.3.10 conclui-se que f é estritamente crescente em ]x
0
−δ, x
0
], portanto para x ∈]x
0
−δ, x
0
] tem-
se f(x) < f(x
0
); f é estritamente decrescente em [x
0
, x
0
+δ[, portanto para x ∈ [x
0
, x
0
+δ[ tem-se f(x) < f(x
0
).
Mas isto implica que f tem um máximo estrito local em x
0
.
2. Demonstração análoga à de 1.
Proposição 4.3.13 Se f : ]a, b[−→R é derivável, f

(x
0
) = 0, e f

(x
0
) < 0 (resp. f

(x
0
) > 0), então f tem um
máximo estrito local (resp. um mínimo estrito local) em x
0
.
4.3. TEOREMAS DE ROLLE, LAGRANGE E CAUCHY 57
Demonstração: De f

(x
0
) < 0 conclui-se que f

é estritamente decrescente em x
0
, isto é, que existe δ > 0 tal que para
x ∈]x
0
−δ, x
0
[ se tem f

(x) > f

(x
0
) e para x ∈]x
0
, x
0
+δ[ se tem f

(x) < f

(x
0
). Como f

(x
0
) = 0, deduz-se que para
x ∈]x
0
−δ, x
0
[ se tem f

(x) > 0 e para x ∈]x
0
, x
0
+δ[ se tem f

(x) < 0. A proposição anterior permite concluir que f
tem um máximo estrito local em x
0
.
Observação: De f

(x
0
) = f

(x
0
) = 0, não se pode concluir nada, como mostram os três exemplos seguintes.
Exemplos:
1. f: R −→ R
x → (x −2)
3
f

(2) = f

(2) = 0; f não tem máximo nem mínimo local em 2.
2. f: R −→ R
x → (x −2)
4
f

(2) = f

(2) = 0; f tem um mínimo local em 2.
3. f: R −→ R
x → −(x −2)
4
f

(2) = f

(2) = 0; f tem um máximo local em 2.
4. f: R
+
−→ R
x → cos(1/x)
; f

: R
+
−→ R
x →
1
x
2
sen
1
x
f

: R
+
−→ R
x → −
2
x
3
sen
1
x

1
x
4
cos(
1
x
)
Como f é derivável em R
+
, os pontos onde f tem máximo ou mínimo local são pontos críticos de f. Ora
f

(x) = 0 sse existe k ∈ Z tal que x = 1/(kπ). Como f

(1/(kπ) = −
1
(kπ)
4
cos
1

, conclui-se f

(1/(kπ) > 0 se
k é ímpar e f

(1/(kπ) < 0 se k é par. Então f tem um máximo estrito local em cada ponto do tipo 1/(2kπ),
com k ∈ N e f tem um mínimo estrito local em cada ponto do tipo 1/((2k −1)π), com k ∈ N; f não tem mais
nenhum máximo nem mínimo local.
5. f: R −→ R
x →
1
1+x
2
; f

: R −→ R
x →
−2x
(1+x
2
)
2
-3 -2 -1 1 2 3
f
0.2
0.4
0.6
0.8
1
O único zero de f

é 0; como f

(x) > 0 para x < 0 e f

(x) < 0 para x > 0, conclui-se que f tem um máximo
local em 0. Como f é derivável em R, conclui-se que f não tem mais nenhum máximo nem mínimo local.
Proposição 4.3.14 Sejam f : ]a, b[−→R e x
0
∈]a, b[.
1. Se f é derivável em ]x
0
, b[, se existe lim
x→x
+
0
f

(x) e f é contínua à direita em x
0
, então f é derivável à direita em
x
0
e f
+
(x
0
) = lim
x→x
+
0
f

(x).
2. Se f é derivável em ]a, x
0
[, se existe lim
x→x

0
f

(x) e f é contínua à esquerda em x
0
, então f é derivável à esquerda
em x
0
e f

(x
0
) = lim
x→x

0
f

(x).
58 CAPÍTULO 4. DERIVADAS
3. Se f é derivável em ]a, b[`¦x
0
¦, se existe lim
x→x
0
f

(x) e f é contínua em x
0
, então f é derivável em x
0
e f

(x
0
) =
lim
x→x
0
f

(x).
Demonstração:
1. Seja l = lim
x→x
+
0
f

(x). Para cada x ∈]x
0
, b[, existe c
x
∈]x
0
, x[ tal que f

(c
x
) =
f(x)−f(x
0
)
x−x
0
. Quando x tende para
x
0
, c
x
tambem tende para x
0
e f

(c
x
) tende para l, portanto
f(x)−f(x
0
)
x−x
0
tende para l. Mais precisamente, seja
> 0; existe δ > 0 tal que x ∈]x
0
, x
0
+δ[⇒ [f

(x) −l[ < . Então
x ∈]x
0
, x
0
+δ[ ⇒ c
x
∈]x
0
, x
0
+δ[
⇒ [f

(c
x
) −l[ <

f(x) −f(x
0
)
x −x
0
−l

< .
Logo lim
x→x
+
0
f(x) −f(x
0
)
x −x
0
= l, isto é, f é derivável à direita em x
0
e f
+
(x
0
) = l.
2. Demonstração análoga.
3. Demonstração análoga.
Exemplos:
1. f: R −→ R
x →

x
2
sen
1
x
se x = 0
0 se x = 0
; f

: R −→ R
x →

2xsen
1
x
−cos
1
x
se x = 0
0 se x = 0
.
f

não é contínua em 0, visto que não existe lim
x→0
f

(x).
2. f: R −→ R
x →

x
2
+ 3 se x ≤ 1
−x + 5 se x ≥ 1
; f

: R −→ R
x →

2x se x < 1
−1 se x > 1
.
Como lim
x→1

f

(x) = lim
x→1

2x = 2 e f é contínua em 1, conclui-se que f é derivável à esquerda em 1 e f

(1) = 2.
Como lim
x→1
+
f

(x) = lim
x→1
+
−1 = −1 e f é contínua em 1, conclui-se que f é derivável à direita em 1 e f
+
(1) = −1.
Logo f não é derivável em 1.
3. f: R −→ R
x →

x
2
−4x + 5 se x ≥ 1
−6
3

x + 7 se x ≤ 1
; f

: R −→ R
x →

2x −4 se x > 1
−2/
3

x
2
se x < 1
.
Tem-se lim
x→1
+
f

(x) = −2 = lim
x→1

f

(x) e f é contínua em 1; portanto f é derivável em 1 e f

(1) = −2. Em
particular f

é contínua em 1.
f

: R −→ R
x →

2x −4 se x ≥ 1
−2/
3

x
2
se x ≤ 1
; f

: R −→ R
x →

2 se x > 1
4/(3x
3

x
2
) se x < 1
.
Tem-se lim
x→1
+
f

(x) = 2, logo f
+
(1) = 2; lim
x→1

f

(x) = 4/3, portanto f

(1) = 4/3. Então f

não é derivável
em 1.
Proposição 4.3.15 (Teorema dos valores intermédios para derivadas) Seja f : [a, b] −→R uma função deri-
vável; se f

(a) < c < f

(b) ou se f

(b) < c < f

(a), então existe x
0
∈]a, b[ tal que f

(x
0
) = c
Demonstração: Suponhamos primeiro que f

(a) < 0 < f

(b). Então f é estritamente decrescente em a e estritamente
crescente em b, logo f não tem um mínimo em a nem em b. Mas f é contínua, portanto existe algum ponto x
0
∈]a, b[
tal que f(x
0
) = min f, logo x
0
é um ponto crítico de f, isto é, f

(x
0
) = 0.
Suponhamos agora que f

(a) < c < f

(b) e consideremos a função g: [a, b] −→ R
x → f(x) −cx
. Tem-se g

(a) =
f

(a) −c < 0 e g

(b) = f

(b) −c > 0, portanto existe x
0
∈]a, b[ tal que g

(x
0
) = 0, isto é, tal que f

(x
0
) = c.
Observação: Se f

é contínua, este resultado é tambem uma consequência imediata do teorema dos valores intermédios
para funções contínuas.
4.3. TEOREMAS DE ROLLE, LAGRANGE E CAUCHY 59
Definição 4.3.16 Diz-se que f é convexa (resp. côncava) em [a, b] sse para quaisquer x
1
, x
2
∈ [a, b] com x
1
< x
2
o
gráfico de f entre x
1
e x
2
está abaixo (resp. acima) da recta que une (x
1
, f(x
1
)) a (x
2
, f(x
2
)) isto é, se para qualquer
x ∈]x
1
, x
2
[ se tiver f(x) <
f(x
2
)−f(x
1
)
x
2
−x
1
(x −x
1
) +f(x
1
) (resp. f(x) >
f(x
2
)−f(x
1
)
x
2
−x
1
(x −x
1
) +f(x
1
)).
Proposição 4.3.17 Se f é derivável em [a, b] e f

é estritamente crescente (resp. estritamente decrescente) então f
é convexa (resp. côncava) em [a, b].
Demonstração: Sejam x, x
1
, x
2
∈ [a, b] tais que x
1
< x < x
2
. Pelo teorema de Lagrange existem a
1
∈]x
1
, x[ e
a
2
∈]x, x
2
[ tais que f

(a
1
) =
f(x)−f(x
1
)
x−x
1
e f

(a
2
) =
f(x
2
)−f(x)
x
2
−x
. Como f

é estritamente crescente e a
1
< a
2
, conclui-se
que
f(x)−f(x
1
)
x−x
1
<
f(x
2
)−f(x)
x
2
−x
, de onde
(x
2
−x
1
)f(x) < x(f(x
2
) −f(x
1
)) +x
2
f(x
1
) −x
1
f(x
2
),
isto é f(x) <
f(x
2
)−f(x
1
)
x
2
−x
1
(x −x
1
) +f(x
1
), como queríamos demonstrar.
Corolário 4.3.18 Se f é duas vezes derivável em [a, b] e ∀x ∈ [a, b] `¦x
1
, . . . , x
n
¦ : f

(x) > 0 (resp. f

(x) < 0) então
f é convexa (resp. côncava).
Exemplos:
1. f: R −→ R
x → x
5
−3x
3
+ 2x
-3 -2 -1 1 2 3
f
-6
-4
-2
2
4
6
-3 -2 -1 1 2 3
f’
-6
-4
-2
2
4
6
-3 -2 -1 1 2 3
f’’
-6
-4
-2
2
4
6
f

(x) = 5x
4
− 9x
2
+ 2, f

(x) = 20x
3
− 18x; f

(x) < 0 sse x ∈] − ∞, −3/

10[∪]0, 3/

10[ e f

(x) > 0
sse x ∈] − 3/

10, 0[∪]3/

10, +∞[. Logo f é côncava em [−3/

10, 0] e em [3/

10, +∞[; f é convexa em
] −∞, −3/

10] e em [0, 3/

10]
2. f: R ` ¦kπ; k ∈ Z¦ −→ R
x → cosec x
-6 -4 -2 2 4 6
f
-8
-6
-4
-2
2
4
6
8
-6 -4 -2 2 4 6
f’
-8
-6
-4
-2
2
4
6
8
-6 -4 -2 2 4 6
f’’
-8
-6
-4
-2
2
4
6
8
f

(x) = −
cos x
sen
2
x
, f

(x) =
1 + cos
2
x
sen
3
x
; nos intervalos do tipo ]2kπ, (2k + 1)π[, k ∈ Z, f

é positiva, portanto f é
convexa; nos intervalos do tipo ](2k −1)π, 2kπ[, k ∈ Z, f

é negativa, portanto f é côncava.
Proposição 4.3.19 Se f : [a, b] −→R é derivável e convexa (resp. côncava), então
1. para quaisquer x, x
0
∈ [a, b] tem-se f(x) > f

(x
0
)(x −x
0
) +f(x
0
), (resp. f(x) < f

(x
0
)(x −x
0
) +f(x
0
)) isto é,
o gráfico de f está acima (resp. abaixo) de qualquer tangente ao gráfico;
60 CAPÍTULO 4. DERIVADAS
2. f

é estritamente crescente (resp. estritamente decrescente) em [a, b].
Demonstração:
1. Sejam x
0
, x
1
, x
2
∈ [a, b] tais que x
0
< x
1
< x
2
. Então f(x
1
) <
f(x
2
)−f(x
0
)
x
2
−x
0
(x
1
−x
0
)+f(x
0
), de onde
f(x
1
)−f(x
0
)
x
1
−x
0
<
f(x
2
)−f(x
0
)
x
2
−x
0
. Conclui-se que, para cada x
0
∈ [a, b[, a função g: ]x
0
, b] −→ R
x →
f(x)−f(x
0
)
x−x
0
é estritamente crescente;
além disso, lim
x→x
+
0
g(x) = f

(x
0
), portanto ∀x ∈]x
0
, b], tem-se f

(x
0
) < g(x). Mas isto significa que f

(x
0
) <
f(x)−f(x
0
)
x−x
0
, ou ainda f(x) > f

(x
0
)(x −x
0
) +f(x
0
).
A demonstração é análoga para x < x
0
.
2. Sejam x
1
, x
2
∈ [a, b] tais que x
1
< x
2
. Por 1., como o gráfico de f está acima da tangente ao gráfico em x
1
,
tem-se f(x
2
) > f

(x
1
)(x
2
− x
1
) + f(x
1
). Como o gráfico de f está acima da tangente ao gráfico em x
2
, tem-se
f(x
1
) > f

(x
2
)(x
1
−x
2
) +f(x
2
). Então f

(x
1
) <
f(x
2
)−f(x
1
)
x
2
−x
1
< f

(x
2
).
Definição 4.3.20 Se f é derivável em x
0
, diz-se que f tem um ponto de inflexão em x
0
sse a tangente ao gráfico
de f em x
0
atravessar o gráfico em (x
0
, f(x
0
)) (isto é, se existe δ > 0 tal que

x ∈]x
0
−δ, x
0
[⇒ f(x) < f

(x
0
)(x −x
0
) +f(x
0
)
x ∈]x
0
, x
0
+δ[⇒ f(x) > f

(x
0
)(x −x
0
) +f(x
0
)
ou

x ∈]x
0
−δ, x
0
[⇒ f(x) > f

(x
0
)(x −x
0
) +f(x
0
)
x ∈]x
0
, x
0
+δ[⇒ f(x) < f

(x
0
)(x −x
0
) +f(x
0
)
.
f
x0
Lema 4.3.21 Sejam f : [a, b] −→R derivável e x
0
∈]a, b[ um ponto de inflexão de f tal que f(x
0
) = f

(x
0
) = 0. Se
existir f

(x
0
), então f

(x
0
) = 0.
Demonstração: Como f tem um ponto de inflexão em x
0
e a recta tangente ao gráfico de f em x
0
é o eixo dos xx,
conclui-se que existe δ > 0 tal que

x ∈]x
0
−δ, x
0
[⇒ f(x) < 0
x ∈]x
0
, x
0
+δ[⇒ f(x) > 0
ou

x ∈]x
0
−δ, x
0
[⇒ f(x) > 0
x ∈]x
0
, x
0
+δ[⇒ f(x) < 0
. Suponhamos que
se verifica o primeiro caso. Tem-se f

(x
0
) = lim
x→x
0
f

(x)
x −x
0
. Se para x suficientemente perto de x
0
à direita, f

(x) < 0,
então f seria decrescente perto de 0 à direita, o que contradiz a hipótese x ∈]x
0
, x
0
+δ[⇒ f(x) > 0. Verifica-se então
uma e uma só das seguintes possibilidades:
1. para x suficientemente perto de x
0
à direita, f

(x) > 0; neste caso,
f

(x)
x−x
0
> 0, portanto lim
x→x
0
f

(x)
x −x
0
≥ 0, isto é,
f
+
(x
0
) ≥ 0;
2. arbitrariamente próximo de x
0
, existem pontos onde f

é positiva e pontos onde f

é negativa; isso implica que
lim
x→x
0
f

(x)
x −x
0
= 0.
Conclui-se que f
+
(x
0
) ≥ 0. Analogamente se mostra que f

(x
0
) ≤ 0, portanto f

(x
0
) = 0
Proposição 4.3.22 Sejam f : [a, b] −→R derivável e x
0
∈]a, b[ um ponto de inflexão de f; se existir f

(x
0
), então
f

(x
0
) = 0.
Demonstração: Seja g: [a, b] −→ R
x → f(x) −f

(x
0
)(x −x
0
) −f(x
0
)
. Então g

(x) = f

(x), g(x
0
) = g

(x
0
) = 0 e x
0
é um ponto de inflexão de g. Pelo lema anterior conclui-se que g

(x
0
) = 0, portanto f

(x
0
) = 0.
4.3. TEOREMAS DE ROLLE, LAGRANGE E CAUCHY 61
Proposição 4.3.23 Se a < x
0
< b e f : [a, b] −→R é convexa em [a, x
0
] e côncava em [x
0
, b] (ou vice versa) então f
tem um ponto de inflexão em x
0
.
Demonstração: Como f é convexa em [a, x
0
], o gráfico de f em [a, x
0
[ está acima da tangente ao gráfico em (x
0
, f(x
0
));
como f é côncava em [x
0
, b], o gráfico de f em ]x
0
, b] está abaixo da tangente ao gráfico em (x
0
, f(x
0
)). Conclui-se
que a tangente ao gráfico em (x
0
, f(x
0
)) atravessa o gráfico, portanto f tem um ponto de inflexão em x
0
.
Corolário 4.3.24 Se f é duas vezes derivável, se existe f

(x
0
) e f

(x
0
) = 0, então f tem um ponto de inflexão em
x
0
.
Exemplos
1. f: R −→ R
x → arctg(x −1)
f

(x) =
1
1+(x−1)
2
; f

(x) =
−2(x−1)
(1+(x−1)
2
)
2
; em ] −∞, 1[, f

é positiva, portanto f é convexa em ] −∞, 1]; em ]1, +∞[,
f

é negativa, portanto f é côncava em [1, +∞[; logo f tem um ponto de inflexão em 1.
2. f: R −→ R
x → x
5
−2x
3
+x
f

(x) = 5x
4
−6x
2
+1; f

(x) = 20x
3
−12x; f

é positiva em ] −

3/5, 0[∪]

3/5, +∞[, portanto f é convexa em
[−

3/5, 0] e em [

3/5, +∞[; f

é negativa em ]−∞, −

3/5[∪]0,

3/5[, portanto f é côncava em ]−∞, −

3/5]
e em [0,

3/5]; −

3/5 e

3/5 são pontos de inflexão de f.
3. f: R −→ R
x → (x + 2)
6
f

(x) = 6(x + 2)
5
; f

(x) = 30(x + 2)
4
; f

(−2) = 0, mas f não tem ponto de inflexão em −2.
Teorema 4.3.25 (Cauchy) Sejam f, g : [a, b] −→R funções contínuas que são deriváveis em ]a, b[. Então existe
x
0
∈]a, b[ tal que (f(b) −f(a))g

(x
0
) = (g(b) −g(a))f

(x
0
).
Demonstração: Seja h: [a, b] −→ R
x → (f(b) −f(a))g(x) −(g(b) −g(a))f(x)
. Então h é contínua e h é derivável
em ]a, b[; por outro lado, h(a) = f(b)g(a) − f(a)g(b) e h(b) = f(b)g(a) − f(a)g(b). Portanto, pelo teorema de
Rolle, conclui-se que existe x
0
∈]a, b[ tal que h

(x
0
) = 0. Mas h

(x) = (f(b) − f(a))g

(x) − (g(b) − g(a))f

(x), logo
0 = h

(x
0
) = (f(b) −f(a))g

(x
0
) −(g(b) −g(a))f

(x
0
), isto é, (f(b) −f(a))g

(x
0
) = (g(b) −g(a))f

(x
0
).
Observação: Se considerarmos o movimento de um objecto no plano cuja posição no instante t é (f(t), g(t)) e cuja
velocidade nunca se anula, o teorema de Cauchy diz-nos que existe algum instante em que a tangente à trajectória é
paralela ao segmento que une a posição inicial à posição final.
(f(a),g(a))
(f(b),g(b))
Teorema 4.3.26 Sejam f e g funções deriváveis em ]a, b[ e x
0
∈]a, b[ tal que lim
x→x
0
f(x) = lim
x→x
0
g(x) = 0. Se g

(x) = 0
numa vizinhança de x
0
e existir l ∈ R tal que lim
x→x
0
f

(x)
g

(x)
= l, então existe lim
x→x
0
f(x)
g(x)
é igual a l.
62 CAPÍTULO 4. DERIVADAS
Demonstração: Podemos supor que f e g são contínuas em x
0
; se não forem, basta considerar f
1
e g
1
definidas
por f
1
(x) =

f(x) se x = x
0
0 se x = x
0
e g
1
(x) =

g(x) se x = x
0
0 se x = x
0
, que são contínuas em 0 e têm exactamente o mesmo
comportamento que f e g relativamente à existência de limites.
Suponhamos que lim
x→x
0
f

(x)
g

(x)
= l e seja α > 0 tal que g

|]x
0
−α,x
0
+α[\{x
0
}
não tem zeros. Então g tambem não tem
zeros em ]x
0
−α, x
0
+α[`¦x
0
¦: se x ∈]x
0
−α, x
0
+α[`¦x
0
¦, pelo teorema de Lagrange existe x
1
∈]x
0
−α, x
0
+α[`¦x
0
¦
tal que
g(x)−g(x
0
)
x−x
0
= g

(x
1
); ora g(x
0
) = 0 e g

(x
1
) = 0, portanto g(x) −0 = 0, isto é g(x) = 0.
Conclui-se que f(x)/g(x) está definido em ]x
0
− α, x
0
+ α[`¦x
0
¦. Pelo teorema de Cauchy, para cada x ∈]x
0

α, x
0
+ α[`¦x
0
¦, existe c
x
entre x
0
e x tal que (f(x) − f(x
0
))g

(c
x
) = (g(x) − g(x
0
))f

(c
x
), o que, como g(x) = 0
e f(x
0
) = g(x
0
) = 0, implica f(x)/g(x) = f

(c
x
)/g

(c
x
). Mas quando x tende para x
0
, c
x
tambem tende para
x
0
, portanto f

(c
x
)/g

(c
x
) tende para l, logo f(x)/g(x) tende para l. Mais precisamente, queremos mostrar que
∀ > 0 ∃δ > 0 : 0 < [x − x
0
[ < δ ⇒ [f(x)/g(x)[ < . Seja então > 0; como lim
x→x
0
f

(x)/g

(x) = l, existe δ > 0
tal que 0 < [x − x
0
[ < δ ⇒ [f

(x)/g

(x) − l[ < . Mas se 0 < [x − x
0
[ < δ, tem-se 0 < [c
x
− x
0
[ < δ, portanto
[f

(c
x
)/g

(c
x
) −l[ < , isto é [f(x)/g(x) −l[ < .
Teorema 4.3.27 (regra de l’Hôpital) Sejam f e g funções deriváveis definidas em intervalos abertos. Se g

(x) = 0
para x = α, lim
x→α
f(x) = lim
x→α
g(x) = β e se lim
x→α
f

(x)/g

(x) = γ, então lim
x→α
f(x)/g(x) = γ, em que α pode ser
x
0
, x
+
0
, x

0
, +∞ ou −∞, β pode ser 0, +∞ ou −∞ e γ pode ser um número real, +∞ ou −∞.
A demonstração é semelhante à do caso particular visto no teorema anterior.
Observação: De facto a hipótese g

(x) = 0 para x = α é desnecessária; basta que exista alguma vizinhança de α tal
que g

(x) = 0 para x pertencente a essa vizinhança; considera-se como vizinhança de +∞ a qualquer conjunto que
contenha um intervalo não majorado e vizinhança de −∞ qualquer conjunto que contenha um intervalo não minorado.
Exemplos
1. lim
x→+∞
4x + 5
2x −3
Sejamf: R −→ R
x → 4x + 5
, g: R −→ R
x → 2x −3
; tem-se lim
x→+∞
f(x) = lim
x→+∞
g(x) = +∞e lim
x→+∞
f

(x)/g

(x) =
2, portanto lim
x→+∞
4x + 5
2x −3
= 2.
2. lim
x→1
e
x−1
−x
x
2
−2x + 1
Sejam f: R −→ R
x → e
x−1
−x
, g: R −→ R
x → x
2
−2x + 1
; tem-se lim
x→1
f(x) = lim
x→1
g(x) = 0; tem-se ainda
lim
x→1
f

(x) = lim
x→1
g

(x) = 0; mas lim
x→1
f

(x)/g

(x) = lim
x→1
e
x−1
2
= 1/2, portanto lim
x→1
f

(x)/g

(x) = 1/2, logo
lim
x→1
f(x)/g(x) = 1/2.
3. lim
x→+∞
x
log x
Sejam f: R
+
−→ R
x → x
, g: R
+
−→ R
x → log x
; tem-se lim
x→+∞
f(x) = lim
x→+∞
g(x) = +∞ e lim
x→+∞
f

(x)/g

(x) =
lim
x→+∞
1
1/x
= +∞, portanto lim
x→+∞
x
log x
= +∞
4. lim
x→0
sen x −tg x
x
3
Sejam f: ] −π/2, π/2[ −→ R
x → sen x −tg x
e g: ] −π/2, π/2[ −→ R
x → x
3
; tem-se lim
x→0
f(x) = lim
x→0
g(x) = 0,
lim
x→0
f

(x) = lim
x→0
(cos x −sec
2
x) = 0, lim
x→0
g

(x) = lim
x→0
3x
2
= 0, lim
x→0
f

(x) = lim
x→0
−sen x −2 sec
2
x tg x = 0,
lim
x→0
g

(x) = lim
x→0
6x = 0 e lim
x→0
f

(x)
g

(x)
lim
x→0
−cos x −4 sec
2
x tg
2
x −2 sec
4
x
6
= −1/2, portanto lim
x→0
f

(x)/g

(x) =
−1/2, logo lim
x→0
f

(x)/g

(x) = −1/2, de onde se deduz que lim
x→0
f(x)/g(x) = −1/2.
4.4. RESOLUÇÃO DE ALGUNS EXERCÍCIOS 63
5. lim
x→−1
2x
2
+ 1
5x + 3
Sejam f: R −→ R
x → 2x
2
+ 1
e g: R −→ R
x → 5x + 3
; tem-se lim
x→−1
f

(x)/g

(x) = −4/5, mas lim
x→−1
f(x)/g(x) =
−3/2.
4.4 Resolução de alguns exercícios
1. Esboçar o gráfico de f: R ` ¦0¦ −→ R
x →
x
2
−3
x
3
.
Os zeros de f são

3 e −

3.
lim
x→0
+
f(x) = lim
x→0
+
x
2
−3
x
3
= lim
x→0
+
(−
1
x
3
(3 −x
2
)) = −∞; lim
x→0

f(x) = lim
x→0

x
2
−3
x
3
= lim
x→0

(−
1
x
3
(3 −x
2
)) =
+∞; logo a recta de equação x = 0 é uma assímptota vertical do gráfico de f (à esquerda e à direita).
lim
x→+∞
f(x) = lim
x→−∞
f(x) = 0; logo a recta de equação y = 0 é uma assímptota horizontal do gráfico de f.
f é derivável em todos os pontos do domínio, e f

(x) =
−x
2
+9
x
4
; os pontos críticos de f são 3 e −3 e tem-se
f(3) = 2/9 e f(−3) = −2/9.
f

(x) > 0 ⇔ x ∈] − 3, 0[∪]0, 3[; f

(x) < 0 ⇔ x ∈] − ∞, −3[∪]3, +∞[; conclui-se que f é estritamente crescente
em [−3, 0[ e em ]0, 3]; f é estritamente decrescente em ] −∞, −3[ e em ]3, +∞[ (atenção: f não é crescente em
] −3, 0[∪]0, 3[ e f não é decrescente em ] −∞, −3[∪]3, +∞[).
f

é derivável em todos os pontos do domínio, e f

(x) =
2x
2
−36
x
5
.
f

(x) > 0 ⇔ x ∈] −

18, 0[∪]

18, +∞[; f

(x) < 0 ⇔ x ∈] −∞, −

18[∪]0,

18[; conclui-se que f é convexa em
[−

18, 0[ e em [

18, +∞[ e f é côncava em ] − ∞, −

18[ e em ]0,

18[; f tem dois pontos de inflexão:

18 e


18; f(

18) = 5

2/36, f(−

18) = −5

2/36.
Como f

(−3) > 0 e f

(3) < 0, f tem um mínimo local em −3 e um máximo local em 3.
-10 -7.5 -5 -2.5 2.5 5 7.5 10
f
-0.6
-0.4
-0.2
0.2
0.4
0.6
2. Esboçar o gráfico de f: R ` ¦1¦ −→ R
x →
2x
2
−4x+3
x−1
.
f não tem zeros, porque o discriminante do numerador é negativo.
lim
x→1
+
f(x) = +∞; lim
x→1

f(x) = −∞; logo a recta de equação x = 1 é uma assímptota vertical do gráfico de f (à
esquerda e à direita).
lim
x→+∞
f(x)/x = lim
x→−∞
f(x)/x = 2; lim
x→+∞
(f(x) −2x) = lim
x→−∞
(f(x) −2x) = −2; logo a recta de equação
y = 2x −2 é uma assímptota do gráfico de f.
f é derivável em todos os pontos do domínio, e f

(x) = 2 −
1
(x−1)
2
; os pontos críticos de f são 1 − 1/

2 e
1 + 1/

2.
64 CAPÍTULO 4. DERIVADAS
f

(x) > 0 ⇔ x ∈] −∞, 1 −1/

2[∪]1 +1/

2, +∞[; f

(x) < 0 ⇔ x ∈]1 −1/

2, 1[∪]1, 1 +1/

2[; conclui-se que f
é estritamente crescente em ] −∞, 1 −1/

2] e em [1+1/

2, +∞[; f é estritamente decrescente em [1 −1/

2, 1[
e em ]1, 1 + 1/

2]; conclui-se que f tem um mínimo local em 1 + 1/

2 e um máximo local em 1 −1/

2.
f

é derivável em todos os pontos do domínio, e f

(x) =
2
(x−1)
3
.
f

(x) > 0 ⇔ x > 1; f

(x) < 0 ⇔ x < 1; conclui-se que f é convexa em ]1, +∞[ e côncava em ] −∞, 1[.
-6 -4 -2 2 4 6
f
-7.5
-5
-2.5
2.5
5
7.5
3. Esboçar o gráfico de f: R ` ¦2, 4¦ −→ R
x →
1
(x−2)(x−4)
.
f não tem zeros.
lim
x→2

f(x) = lim
x→4
+
f(x) = +∞; lim
x→2
+
f(x) = lim
x→4

f(x) = −∞; logo as rectas de equações, respectivamente,
x = 2 e x = 4 são assímptotas verticais do gráfico de f.
lim
x→+∞
f(x) = lim
x→−∞
f(x) = 0; logo a recta de equação y = 0 é uma assímptota horizontal do gráfico de f.
f é derivável em todos os pontos do domínio, e f

(x) =
−2x+6
(x−2)
2
(x−4)
2
; o único ponto crítico de f é 3.
f

(x) > 0 ⇔ x < 3; f

(x) < 0 ⇔ x > 3; conclui-se que f é estritamente crescente em ] − ∞, 2[ e em ]2, 3]; f é
estritamente decrescente em [3, 4[ e em ]4, +∞[; conclui-se que f tem um máximo local em 3; f(3) = −1.
f

é derivável em todos os pontos do domínio, e f

(x) =
6(x−3)
2
+2
(x−2)
3
(x−4)
3
.
f

(x) > 0 ⇔ x ∈] −∞, 2[∪]4, +∞[; f

(x) < 0 ⇔ x ∈]2, 4[; conclui-se que f é convexa em ] −∞, 2[ e em ]4, +∞[
e f é côncava em ]2, 4[.
-1 1 2 3 4 5 6 7
f
-4
-3
-2
-1
1
2
3
4
4. Um objecto desloca-se numa recta e a sua posição no instante t (t ≥ 0) é
1
t
2
−2t+2
.
(a) Qual é a velocidade do objecto em cada instante?
(b) Existe algum instante em que a distância à origem é máxima? e mínima?
a) v(t) =
2−2t
(t
2
−2t+2)
2
.
4.4. RESOLUÇÃO DE ALGUNS EXERCÍCIOS 65
b) A distância do objecto à origem no instante t é
1
t
2
−2t+2
, uma vez que
1
t
2
−2t+2
> 0. Queremos então averiguar
se a função f: [0, +∞[ −→ R
x →
1
x
2
−2x+2
tem máximo e mínimo. Como ∀x : f(x) > 0 e lim
x→+∞
f(x) = 0,
conclui-se que f não tem mínimo e tem máximo.
f

: [0, +∞[ −→ R
x →
2−2x
(x
2
−2x+2)
2
; o único ponto crítico de f é 1; como f(1) = 1 e f(0) = 1/2, o máximo de f é
1. Então a distância máxima à origem é 1, e ocorre para t = 1.
5. Está a ser despejada água para dentro de um recipiente cílindrico de raio 2cm a uma velocidade de 12π cm
3
/min.
A que velocidade sobe a altura da água?
h(t)
2cm
Sejam V (t) o volume de água no cilindro no instante t e h(t) a altura da água no instante t. Tem-se V (t) =
πr
2
h(t) = 4πh(t); então V

(t) = 4πh

(t). Ora V

(t) = 12π, portanto h

(t) = 3, logo a água sobe a 3cm/min.
6. Um balão esférico está a ser enchido de ar.
(a) Sabendo que no instante em que o raio é 3cm, o raio está a aumentar 0, 5 cm/min, a que velocidade está a
aumentar o volume nesse instante?
(b) Sabendo que no instante em que a área de superfície é 64π, o volume está a aumentar a uma velocidade de
16π cm
3
/min, a que velocidade estão a aumentar o raio e a área de superfície do balão?
O volume de uma esfera de raio r é 4πr
3
/3 e a sua área de superfície é 4πr
2
. Sejam V (t) o volume do balão
no instante t, A(t) a área da superfície do balão no instante t e r(t) o raio do balão no instante t; tem-se
V (t) = 4π(r(t))
3
/3 e A(t) = 4π(r(t))
2
.
a) Seja t
0
o instante em questão; tem-se r(t
0
) = 3 e r

(t
0
) = 0, 5. Por outro lado, V

(t) = 4π(r(t))
2
r

(t), portanto
V

(t
0
) = 4π.9.0, 5 = 18π. O volume está a aumentar a 18π cm
3
/s.
b) Seja t
0
o instante em questão; tem-se A(t
0
) = 64π (logo r(t
0
) = 4) e V

(t
0
) = 16π. Por outro lado,
V

(t) = 4π(r(t))
2
r

(t) = A(t)r

(t) e A

(t) = 8πr(t)r

(t); como V

(t
0
) = 16π, conclui-se que r

(t
0
) = 1/4, e, como
r(t
0
) = 4, tem-se A

(t
0
) = 8π.
O raio está a aumentar a 0, 25 cm/s e a área de superfície está a aumentar a 16π cm
2
/s.
7. Num determinado instante, um carro está 30km a norte de um ponto P, a deslocar-se para norte a uma velocidade
de 50km/h e um outro carro está 40km a leste de P, a deslocar-se para leste a 20km/h. A que velocidade está
a aumentar a distância entre os dois carros?
Sejam d(t), x(t) e y(t) respectivamente a distância entre os dois carros, a distância do segundo carro ao ponto
P e a distância do primeiro carro ao ponto P no instante t. Tem-se então d(t)
2
= x(t)
2
+ y(t)
2
, portanto
2d(t)d

(t) = 2x(t)x

(t) + 2y(t)y

(t). No instante t
0
considerado, x(t
0
) = 40, y(t
0
) = 30 (portanto d(t
0
) = 50),
x

(t
0
) = 20, y

(t
0
) = 50 , portanto 2.50.d

(t
0
) = 2.40.20 + 2.30.50, de onde d

(t
0
) = 46.
A distância entre os carros está a aumentar a 46km/h.
8. Um monte de areia em forma de cone está a ser formado por areia que é despejada no vértice; o cone está a
aumentar de maneira que a altura é sempre igual ao raio da base. Sabendo que a areia cai a uma velocidade de
2cm
3
/s, a que velocidade está a aumentar a altura do cone no instante em que essa altura é 10cm?
r=h(t)
h(t)
O volume de um cone com base de raio r e altura h é πr
2
h/3. Sejam V (t) o volume do cone no instante t e h(t)
a altura do cone no instante t. Então V (t) = π(h(t))
3
/3, logo V

(t) = π(h(t))
2
h

(t). Seja t
0
o instante em que a
altura é 10. Então V

(t
0
) = π.100.h

(t
0
); como V

(t
0
) = 2, conclui-se que h

(t
0
) = π/50.
A altura está a aumentar a π/50 cm/s.
66 CAPÍTULO 4. DERIVADAS
9. Quais são as dimensões do rectângulo de perímetro p que tem maior área?
2x+2y=p
y
x
Se um rectângulo tem perímetro p, então qualquer dos lados tem comprimento menor do que p/2. Consideremos
a função A: ]0, p/2[ −→ R
x →
área do rectângulo de perímetro
p com altura x
Se o perímetro do rectângulo é p e um dos lados
tem comprimento x, o outro lado tem comprimento p/2 − x, portanto A(x) = x(p/2 − x). Como lim
x→0
A(x) =
lim
x→p/2
A(x) = 0, A só toma valores positivos e A é uma função contínua, A tem um máximo; ora A é derivável,
portanto o(s) ponto(s) onde A atinge o máximo corresponde(m) a ponto(s) crítico(s) de A. Tem-se A

(x) =
−2x +p/2, portanto o único ponto crítico de A é p/4, logo é o ponto onde A atinge o máximo.
O rectângulo de perímetro p que tem maior área é o quadrado de lado p/4.
10. Quer-se dividir um fio de comprimento l em dois pedaços e construir com esses pedaços um quadrado e um
círculo. Existe alguma maneira de dividir o fio de maneira a que a soma das áreas do quadrado e do círculo seja
mínima? e máxima?
2
l-x
r=
r x/4
l-x x
l
Seja A(x) a soma das áreas do quadrado e do círculo que se obtêm formando um quadrado de perímetro x e um
círculo de perímetro l−x. A área de um quadrado de perímetro x é (x/4)
2
e a área de um círculo de perímetro l−x
é π(
l−x

)
2
=
(l−x)
2

. Então A(x) =
x
2
16
+
(l−x)
2

. Consideremos a função A: ]0, l[ −→ R
x →
x
2
16
+
(l−x)
2

. Queremos
averiguar se A tem máximo e mínimo; determinemos os pontos críticos de A. Como A

(x) = x/8 −(l −x)/(2π),
o único ponto crítico de A é x
0
= 8l/(2π + 8); por outro lado, lim
x→0
A

(x) = −l/(2π) < 0 e lim
x→l
A

(x) = l/8 > 0,
portanto A tem um mínimo em ]0, l[. Conclui-se que o mínimo de A ocorre em x
0
. Como A não tem mais pontos
críticos, conclui-se que A não tem máximo. Calculando lim
x→0
A(x) = l
2
/(4π) e lim
x→l
A(x) = l
2
/16, vemos que a
área máxima corresponderia a não dividir o fio e construir apenas um círculo com a totalidade.
11. Um objecto desloca-se no plano, e a sua posição no instante t (t ≥ 0) é (2 cos t, sen t); existe algum instante em
que a distância à origem é máxima? e mínima?
A distância do objecto à origem no instante t é

4 cos
2
t + sen
2
t =

3 cos
2
t + 1. Essa distância é má-
xima (resp. mínima) quando o seu quadrado for máximo (resp. mínimo). Consideremos então a função f:
[0, +∞[ −→ R
x → 3 cos
2
x + 1
; esta função é periódica de período π, e é contínua, portanto tem máximo e mí-
nimo. Tem-se f

(x) = −6 cos x sen x = −3 sen 2x; os pontos críticos de f em [0, π] são 0, π/2, π; entre estes têm
de estar incluidos os pontos onde f atinge o máximo e o mínimo. Ora f(0) = f(π) = 4 e f(π/2) = 1. Conclui-se
que a distância à origem é máxima em todos os instantes kπ, k ∈ Z e é mínima em todos os instantes kπ +π/2,
k ∈ Z.
12. A altura, ao fim de t segundos, de um objecto atirado verticalmente para cima com velocidade inicial 9, 8 m/s é
9, 8t −4, 9t
2
m. Qual é a altura máxima atingida pelo objecto e quanto tempo leva até o objecto voltar ao solo?
O objecto volta ao solo no instante em que a altura é 0, isto é, quando 9, 8t − 4, 9t
2
= 0, ou seja, t = 2.
Consideremos a função f : [0, 2] −→ R
t → 9, 8t −4, 9t
2
, que nos dá a altura do objecto no instante t. A altura
máxima atingida pelo objecto é o máximo de f. Ora f(0) = 0 = f(2), e f só toma valores positivos, portanto f
4.4. RESOLUÇÃO DE ALGUNS EXERCÍCIOS 67
atinge o máximo em ]0, 2[, logo num ponto crítico. Ora o único ponto crítico de f é 1, portanto o máximo de f
é f(1) = 4, 9.
A altura máxima atingida pelo objeccto é 4, 9m e o objecto leva 2s a voltar ao solo.
13. Dados uma recta e dois pontos P
1
e P
2
do mesmo lado da recta, qual é o caminho mais curto do ponto P
1
ao
ponto P
2
que passa por algum ponto da recta?
O caminho mais curto é obviamente formado por um segmento de recta que une P
1
a um ponto P da recta e
pelo segmento de recta que une P a P
2
. Tambem é óbvio que P é um ponto entre as projecções P

1
e P

2
de P
1
e
P
2
sobre a recta.
2
1
P
2
1
l
d
d
1
P
P
2
2
P
P
1
Consideremos então a função d: [0, l] −→ R
x →
comprimento do caminho deter-
minado pelo ponto P a uma dis-
tância x de P

1
. Queremos determinar o mí-
nimo de d; tem-se d(x) =

x
2
+d
2
1
+

(l −x)
2
+d
2
2
e d

(x) =
x

x
2
+d
2
1

l−x

(l−x)
2
+d
2
2
. Ora d

(0) =
−l

l
2
+d
2
2
< 0
e d

(l) =
l

l
2
+d
2
1
> 0, portanto o mínimo de d é atingido em ]0, l[. Os pontos críticos de d são as soluções
da equação
x

x
2
+d
2
1
=
l−x

(l−x)
2
+d
2
2
, x ∈ [0, l]; a única nessas condições é x =
ld
1
d
1
+d
2
. Note-se que a condição
x

x
2
+d
2
1
=
l−x

(l−x)
2
+d
2
2
é equivalente a dizer que cos θ
1
= cos θ
2
, ou seja, o caminho mais curto é aquele em que o
ângulo θ
1
é igual ao ângulo θ
2
.
Observação: Um raio de luz que se reflecte numa superfície segue sempre este caminho (lei da reflexão).
14. Se um objecto se desloca à velocidade v
1
de um lado da recta r e à velocidade v
2
do outro lado de r, qual é a
maneira mais rápida para se deslocar de um ponto P
1
para um ponto P
2
, se P
1
e P
2
estiverem de lados opostos
de r?
l
l-x x P
2
1
P
P
1
2
Consideremos a função f: [0, l] −→ R
x →
tempo que leva a percorrer os
segmentos P
1
Pe PP
2
. Tem-se f(x) =

x
2
+d
2
1
v
1
+

(l−x)
2
+d
2
2
v
2
e quer-se determinar o mínimo de f. Ora f

(x) =
x
v
1

x
2
+d
2
1

l−x
v
2

(l−x)
2
+d
2
2
; f

(0) =
−l
v
2

l
2
+d
2
2
< 0 e f

(l) =
l
v
1

l
2
+d
2
1
> 0, logo o mínimo de f é atingido em ]0, l[, portanto num ponto crítico de f. Ora f não tem mais de
um ponto crítico, visto que x →
x
v
1

x
2
+d
2
1
é estritamente crescente e x →
l−x
v
2

(l−x)
2
+d
2
2
é estritamente decrescente
(ver o sinal da derivada). O mínimo de f corresponde ao ponto x
0
tal que
x
0
v
1

x
2
0
+d
2
1
=
l−x
0
v
2

(l−x
0
)
2
+d
2
2
, ou seja,
tal que (sen θ
1
)/v
1
= (sen θ
2
)/v
2
.
Observação: Um raio de luz que vai de P
1
a P
2
atravessando meios em que as velocidades de propagação da luz
são respectivamente v
1
e v
2
segue este caminho (lei da refração).
15. Se um objecto se desloca à velocidade v
1
fora de uma recta, e à velocidade v
2
ao longo da recta, qual é a maneira
mais rápida para se deslocar de um ponto P
1
fora da recta para um ponto P
2
na recta?
68 CAPÍTULO 4. DERIVADAS
P x l-x
l
2
1
P
P
d
Consideremos a função f: [0, l] −→ R
x →
tempo que leva a percorrer os
segmentos P
1
P e PP
2
. Tem-se f(x) =

d
2
+x
2
v
1
+
l−x
v
2
, e
quer-se determinar o mínimo de f. Ora f

(x) =
x
v
1

d
2
+x
2

1
v
2
; f

(0) = −1/v
2
< 0, portanto o mínimo de f é
atingido em ]0, l]. Os pontos críticos de f são as soluções da equação
x
v
1

d
2
+x
2
=
1
v
2
pertencentes a ]0, l], isto
é, de x
2
(v
2
2
− v
2
1
) = v
2
1
d
2
. Se v
2
≤ v
1
, ou v
2
> v
1
e
v
1
d

v
2
2
−v
2
1
≥ l, esta equação não tem soluções em [0, l[, logo
f

é sempre negativa em [0, l[, isto é, f é estritamente decrescente, portanto o seu mínimo é atingido em l. Se
v
2
> v
1
e
v
1
d

v
2
2
−v
2
1
< l, então v
2
1
d
2
< l
2
(v
2
2
−v
2
1
), de onde
l
v
1

d
2
+l
2
>
1
v
2
, isto é, f

(l) > 0; conclui-se então, que,
neste caso, o mínimo de f é atingido em ]0, l[, logo num ponto crítico, portanto em
v
1
d

v
2
2
−v
2
1
.
16. Quer-se imprimir um livro em que cada página tem uma área de 500 cm
2
, uma margem de 6 cm em cima e uma
margem de 4 cm de cada lado e em baixo. Quais são as dimensões da página que correspondem a uma área
impressa máxima?
6cm
4cm
4cm 4cm
Sejam x e y a largura e a altura da página respectivamente. Então xy = 500, ou seja y = 500/x. A área impressa
é A(x) = (x−8)(500/x−10). Por outro lado, tem-se obviamente x > 8 e y > 10, portanto 8 < x < 50. Queremos
então encontrar o ponto em que tem máximo a função derivável A: ]8, 50[ −→ R
x → (x −8)(500/x −10)
. Tem-se
A(x) = 580 − 4000/x − 10x, logo A

(x) = 4000/x
2
− 10, isto é, A

(x) = 0 sse x = 20. A função A é derivável,
toma sempre valores maiores ou iguais a 0, e lim
x→8
A(x) = lim
x→50
A(x) = 0, portanto A tem um máximo que é
atingido num ponto crítico. Como o único ponto crítico é 20, conclui-se que esse máximo é atingido para x = 20.
As dimensões que correspondem a uma área impressa máxima são uma largura de 20 cm e uma altura de 25 cm.
17. Duas fontes de calor A e B estão situadas a 7 m uma da outra e a razão entre as intensidades respectivas é 64/27.
Sabendo que o calor recebido num ponto é directamente proporcional á intensidade da fonte e inversamente
proporcional ao quadrado da distância do ponto à fonte, qual é o ponto do segmento de recta que une as duas
fontes em que a intensidade de calor é mínima?
Seja A a fonte mais forte e seja f(x) a intensidade de calor no ponto situado a uma distância x de A. Se I
A
e I
B
designarem respectivamente as intensidades das fontes A e B, então f(x) = kI
A
/x
2
+ kI
B
/(7 − x)
2
, para
algum k. Como lim
x→0
f(x) = lim
x→7
f(x) = +∞, a função f tem um mínimo, que é atingido num ponto crítico. Ora
f

(x) = −2kI
A
/x
3
+ 2kI
B
/(7 −x)
3
, e f

(x) = 0 sse
x
3
(7−x)
3
=
I
A
I
B
=
64
27
, isto é,
x
7−x
= 4/3, de onde x = 4.
O ponto em que a intensidade de calor é menor é o ponto situado a 4 m de A.
18. Uma empresa fabrica um determinado produto e os custos de produção de uma quantidade x desse produto
são 50x + 10000. Se for estabelecido um preço p para esse produto, a empresa consegue vender a quantidade
100(100 −p). Qual deve ser o preço escolhido para conseguir o lucro máximo?
Seja f(p) o lucro que a empresa obtem se fixar o preço do produto em p. Ao preço p consegue vender a quantidade
100(100 − p), portanto recebe 100(100 − p)p; por outro lado os custos de produzir a quantidade 100(100 − p)
4.4. RESOLUÇÃO DE ALGUNS EXERCÍCIOS 69
são 50(100(100 − p)) + 10000; então o lucro é 100(100 − p)p − (50(100(100 − p)) + 10000). Tem-se então
f(p) = −100p
2
+ 15000p −490000. O ponto onde f atinge o máximo é o ponto p
0
tal que −200p
0
+ 15000 = 0,
isto é, p
0
= 75.
O preço que corresponde a um lucro máximo é 75.
19. Uma empresa contata um motorista para fazer uma entrega de mercadoria; a viagem é de 120 km, a gasolina
custa 150$00/litro, o carro consome 2 + v
2
/1500 litros por hora se for à velocidade v e o motorista é pago a
1000$00 por hora. Supondo que a velocidade é constante ao longo do trajecto, qual deve ser essa velocidade de
maneira a tornar mínimo o custo para a empresa?
Seja f(v) o custo da viagem feita à velocidade v. Como a distância é 120 km, a duração é 120/v horas, portanto
o motorista recebe 120000/v escudos. A gasolina consumida é (2 + v
2
/1500).(120/v) litros, o que custa (2 +
v
2
/1500).(120/v).150 escudos. Tem-se então f(v) = 120000/v + 36000/v + 12v = 156000/v + 12v. Queremos
encontrar o mínimo de f (que existe e é atingido num ponto crítico, uma vez que lim
v→0
f(v) = lim
v→+∞
f(v) = +∞);
ora f

(v) = −156000/v
2
+ 12, portanto o único ponto crítico de f é v =

13000 · 114. A velocidade que torna
mínimo o custo para a empresa é v · 114 km/h.
20. Considere as funções f
t
: R −→ R
x → t
2
cos t x
3
+
t
t
2
+1
(x −7)
, t ∈ R. Determine os valores de t para os quais o
ângulo do gráfico de f
t
com o eixo dos yy é mínimo.
O ângulo do gráfico de f
t
com o eixo dos yy é o ângulo da recta r
t
tangente ao gráfico em (0, f
t
(0)), com o
eixo dos yy; logo, esse ângulo será tanto menor quanto maior for o módulo do declive de r
t
. Ora o declive de
r
t
é f

t
(0) = t/(t
2
+ 1); queremos portanto determinar o máximo de ¦[x[/(x
2
+ 1); x ∈ R¦, isto é, o máximo da
função g: R −→ R
x →
x
x
2
+1
. Como g é par, basta determinar o máximo em [0, +∞[ (que existe, e é atingido
num ponto crítico de g, uma vez que g(0) = 0 e lim
x→+∞
g(x) = 0 e g só toma valores positivos). Ora, para x ≥ 0,
g

(x) =
1−x
2
(x
2
+1)
2
, portanto o único ponto crítico é 1. Os valores de t pedidos são portanto 1 e −1.
21. Considere todas as rectas que intersectam as semirectas positivas dos dois eixos, e que juntamente, com os eixos,
limitam um triângulo de área fixa α. Qual é o raio da maior circumferência de centro na origem que é tangente
a uma dessas rectas?
r
x
2
x
Seja r(x) o raio da circumferência tangente à recta que passa pelo ponto (x, 0); para que o triângulo tenha
área α, essa recta tem de passar pelo ponto (0, 2α/x). Então r(x)/x = sen θ e r(x)/(2α/x) = cos θ, portanto
(r(x)/x)
2
+(r(x)/(2α/x))
2
= 1, isto é, r(x)
2
=

2
x
2

2
+x
4
. Como r é máximo quando r
2
é máximo, basta determinar
o máximo de f: ]0, +∞[ −→ R
x →

2
x
2

2
+x
4
; ora esta função tem máximo e atinge o máximo num ponto crítico,
uma vez que lim
x→0
f(x) = lim
x→+∞
f(x) = 0. Tem-se f

(x) =
32α
4
x−8α
2
x
5
(4α
2
+x
4
)
2
; o único ponto crítico é, portanto,

2α.
A maior circumferência nas condições pedidas tem portanto raio

α. Note que este valor de x corresponde a
θ = π/4, isto é, a um triângulo isósceles.
70 CAPÍTULO 4. DERIVADAS
Capítulo 5
Integrais e Primitivas
5.1 Motivação e interpretação geométrica
A noção de integral de uma função está ligada à ideia de área: se f é uma função positiva limitada num intervalo
[a, b], em certos casos vamos associar a f um número,

b
a
f (integral de f entre a e b), que mede a área limitada pelo
gráfico de f, pelas rectas verticais de equações x = a e x = b, e pelo eixo dos xx:
f
b a
f
b
a
De facto,

b
a
f estará definido mesmo quando f não toma apenas valores positivos; nesse caso a área abaixo do
eixo dos xx contribui para

b
a
f com sinal negativo:
1 3 2
= A -A +A
b
a
f
f
a b
3
2
1
A
A
A
Põe-se então o problema de como calcular áreas de regiões deste tipo (e para que funções é que fará sentido falar
na área limitada pelo gráfico da função). O método que vamos usar é tentar aproximar a área da região limitada pelo
gráfico pela soma das áreas de rectângulos de lados paralelos aos eixos.
Dada uma função f, chama-se primitiva de f a qualquer função cuja derivada seja f. A priori não parece haver
relação entre o cálculo de integrais e a determinação de primitivas de funções; neste capítulo veremos qual é a relação
que existe e como determinar primitivas de algumas funções.
5.2 Integrais
Definição 5.2.1 Chama-se partição de [a, b] a um subconjunto finito de [a, b] que contem a e b.
Notação: Representamos em geral uma partição por P = ¦t
0
, t
1
, . . . , t
n
¦, em que t
0
< t
1
< . . . < t
n
(e, portanto,
t
0
= a e t
n
= b).
Sejam f : [a, b] −→R uma função limitada e P = ¦t
0
, t
1
, . . . , t
n
¦ uma partição de [a, b]; para cada i ∈ ¦1, . . . , n¦,
sejam m
i
= inf f
|[t
i−1
,t
i
]
(= inf¦f(x); x ∈ [t
i−1
, t
i
]¦) e M
i
= sup f
|[t
i−1
,t
i
]
(= sup¦f(x); x ∈ [t
i−1
, t
i
]¦).
71
72 CAPÍTULO 5. INTEGRAIS E PRIMITIVAS
Definição 5.2.2
1. Chama-se soma inferior de f associada à partição P e designa-se por
¸
(f, P) a soma
¸
n
i=1
m
i
(t
i
−t
i−1
).
2. Chama-se soma superior de f associada à partição P e designa-se por
¸
(f, P) a soma
¸
n
i=1
M
i
(t
i
−t
i−1
).
As áreas sombreadas nas figuras seguintes representam respectivamente
¸
(f, P),
¸
(f, P) e
¸
(f, P) −
¸
(f, P), em
que P é a partição ¦t
0
, t
1
, t
2
, t
3
, t
4
, t
5
¦ de [a, b].
0 5 4 3 2 1
t =a t =b t t t t
0 5 4 3 2 1
t =a t =b t t t t
0 5 4 3 2 1
t =a t =b t t t t
Exemplos:
1. f: [−1, 5] −→ R
x → −x + 6
P
1
= ¦−1, 5¦; P
2
= ¦−1, 0, 5¦; P
3
= ¦−1, 0,
3
2
, 4,
9
2
, 5¦; P
4
= ¦−1, −
1
2
, 0,
1
3
,
2
3
, 1,
8
7
,
3
2
, 2,
5
2
, 3, 4, 5¦.
¸
(f, P
1
) = 1(5 −(−1)) = 6;
¸
(f, P
1
) = 7(5 −(−1)) = 42.
¸
(f, P
2
) = 6(0 −(−1)) + 1(5 −0) = 11;
¸
(f, P
2
) = 7(0 −(−1)) + 6(5 −0) = 37.
¸
(f, P
3
) = 6(0 −(−1)) +
9
2
(
3
2
−0) + 2(4 −
3
2
) +
3
2
(
9
2
−4) + 1(5 −
9
2
) = 19;
¸
(f, P
3
) = 7(0 −(−1)) + 6(
3
2
−0) +
9
2
(4 −
3
2
) + 2(
9
2
−4) +
3
2
(5 −
9
2
) = 29.
7
6
5
4
3
2
1
5 4 3 2 1 -1
7
6
5
4
3
2
1
5 4 3 2 1 -1
¸
(f, P
4
) =
13
2
(−
1
2
− 1) + 6(0 − (−
1
2
) +
17
3
(
1
3
− 0) +
16
3
(
2
3
− 0) + 5(1 −
2
3
) +
34
7
(
8
7
− 1) +
9
2
(
3
2

8
7
) + 4(2 −
3
2
) +
7
2
(
5
2
−2) +3(3 −
5
2
) +2(4 −3) +1(5 −4) = 22
79
588
;
¸
(f, P
4
) = 7(−
1
2
−1) +
13
2
(0 −(−
1
2
) +6(
1
3
−0) +
17
3
(
2
3
−0) +
16
3
(1 −
2
3
) + 5(
8
7
−1) +
34
7
(
3
2

8
7
) +
9
2
(2 −
3
2
) + 4(
5
2
−2) +
7
2
(3 −
5
2
) + 3(4 −3) + 2(5 −4) = 25
509
588
.
2. f: [2, 5] −→ R
x → x
2
−6x + 11
P
1
= ¦2, 5¦; P
2
= ¦2, 4, 5¦; P
3
= ¦2,
5
2
, 3, 4,
49
10
, 5¦;
¸
(f, P
1
) = 2(5 −2) = 6;
¸
(f, P
1
) = 6(5 −2) = 18.
¸
(f, P
2
) = 2(4 −2) + 3(5 −4) = 7;
¸
(f, P
2
) = 3(4 −2) + 6(5 −4) = 12.
¸
(f, P
3
) =
9
4
(
5
2
−2) + 2(3 −
5
2
) + 2(4 −3) + 3(
49
10
−4) +
561
100
(5 −
49
10
) = 7
193
500
;
¸
(f, P
3
) = 3(
5
2
−2) +
9
4
(3 −
5
2
) +
3(4 −3) +
561
100
(
49
10
−4) + 6(5 −
49
10
) = 11
137
500
.
5.2. INTEGRAIS 73
6
5
4
3
2
1
5 4 3 2 1
6
5
4
3
2
1
5 4 3 2 1
3. f: [a, b] −→ R
x → c
Seja P = ¦t
0
, t
1
, . . . , t
n
¦ uma partição qualquer de [a, b]. Então ∀i ∈ ¦1, . . . , n¦, inf f
|[t
i−1
,t
i
]
= sup f
|[t
i−1
,t
i
]
= c.
Logo
¸
(f, P) =
¸
n
i=1
c(t
i
−t
i−1
) = c
¸
n
i=1
(t
i
−t
i−1
) = c(t
n
−t
0
) = c(b −a) e
¸
(f, P) =
¸
n
i=1
c(t
i
−t
i−1
) =
c(b −a).
4. f: [a, b] −→ R
x → x
Seja P
n
= ¦t
0
, . . . , t
n
¦ em que t
i
= a+i
b−a
n
(isto é, P
n
divide o intervalo [a, b] em n subintervalos de comprimento
igual). Como f é crescente, inf f
[t
i−1
,t
i
]
= t
i−1
e sup f
[t
i−1
,t
i
]
= t
i
. Então
¸
(f, P
n
) =
n
¸
i=1
t
i−1
(t
i
−t
i−1
) =
n
¸
i=1
(a + (i −1)
b −a
n
)
b −a
n
=
b −a
n
(
n
¸
i=1
(a + (i −1)
b −a
n
)) =
b −a
n
(
n
¸
i=1
a +
b −a
n
n
¸
i=1
(i −1))
=
b −a
n
(na +
b −a
n
n(n −1)
2
) = (b −a)a +
(b −a)
2
(n −1)
2n
=
b
2
−a
2
2

(b −a)
2
2n
e
¸
(f, P
n
) =
n
¸
i=1
t
i
(t
i
−t
i−1
) =
n
¸
i=1
(a +i
b −a
n
)
b −a
n
=
b −a
n
(
n
¸
i=1
(a +i
b −a
n
)) =
b −a
n
(
n
¸
i=1
a +
b −a
n
n
¸
i=1
i)
=
b −a
n
(na +
b −a
n
n(n + 1)
2
) = (b −a)a +
(b −a)
2
(n + 1)
2n
=
b
2
−a
2
2
+
(b −a)
2
2n
b a
b
a
74 CAPÍTULO 5. INTEGRAIS E PRIMITIVAS
5. f: [0, 2] −→ R
x →

3 se x ∈ Q
−2 se x ∈ Q
Se P = ¦t
0
, . . . , t
n
¦ é uma partição qualquer de [0, 2], então
¸
(f, P) =
¸
n
i=1
−2(t
i
− t
i−1
) = −2(t
n
− t
0
) =
−2(2 −0) = −4 e
¸
(f, P) =
¸
n
i=1
3(t
i
−t
i−1
) = 3(t
n
−t
0
) = 3(2 −0) = 6.
6. f: [a, b] −→ R
x →

−x se x ∈ Q
0 se x ∈ Q
, em que 0 ≤ a.
Seja P
n
= ¦t
0
, . . . , t
n
¦ em que t
i
= a + i
b−a
n
; então ∀i ∈ ¦1, . . . , n¦, inf f
|[t
i−1
,t
i
]
= −t
i
e sup f
|[t
i−1
,t
i
]
= 0,
portanto
¸
(f, P) = 0 e
¸
(f, P) =
¸
i = 1
n
−t
i−1
(t
i
−t
i−1
) = −(
b
2
−a
2
2
+
(b−a)
2
2n
) (os cálculos são análogos no
caso em que não se tem 0 ≤ a; se b ≤ 0, então
¸
(f, P) = 0 e
¸
(f, P) =
b
2
−a
2
2
+
(b−a)
2
2n
; se a < 0 < b, então
¸
(f, P) = −
b
2
2

b
2
2n
e
¸
(f, P) =
a
2
2
+
a
2
2n
).
Proposição 5.2.3 1. Se P é uma partição de [a, b], então
¸
(f, P) ≤
¸
(f, P).
2. Se P
1
e P
2
são partições de [a, b] tais que P
1
⊂ P
2
, então
¸
(f, P
1
) ≤
¸
(f, P
2
) ≤
¸
(f, P
2
) ≤
¸
(f, P
1
).
3. Qualquer soma inferior é menor ou igual do que qualquer soma superior, isto é, se P
1
e P
2
são partições de [a, b]
então
¸
(f, P
1
) ≤
¸
(f, P
2
).
4. O conjunto de todas as somas inferiores é majorado, o conjunto de todas as somas superiores é minorado e
sup¦
¸
(f, P); P partição de [a, b]¦ ≤ inf¦
¸
(f, P); P partição de [a, b]¦.
5. Se ∀x ∈ [a, b] : m ≤ f(x) ≤ M, então, qualquer que seja a partição P de [a, b], tem-se m(b − a) ≤
¸
(f, P) e
¸
(f, P) ≤ M(b −a).
Demonstração:
1. Seja P = ¦t
0
, . . . , t
n
¦; para cada i, tem-se m
i
≤ M
i
, logo m
i
(t
i
−t
i−1
) ≤ M
i
(t
i
−t
i−1
), portanto
¸
n
i=1
m
i
(t
i

t
i−1
) ≤
¸
n
i=1
M
i
(t
i
−t
i−1
).
2. Sejam P
1
= ¦t
0
, . . . , t
n
¦ e q
1
, . . . , q
m
pontos distintos dos t
i
e distintos entre si tais que P
2
= P
1
∪ ¦q
1
, . . . , q
m
¦.
Comecemos por ver que se pusermos Q = P
1
∪ ¦q
1
¦, então
¸
(f, P
1
) ≤
¸
(f, Q) ≤
¸
(f, Q) ≤
¸
(f, P
1
). Seja
j ∈ ¦1, . . . , n¦ tal que q
1
∈]t
j−1
, t
j
[; então
¸
(f, Q) =
j−1
¸
i=1
inf f
|[t
i−1
,t
i
]
(t
i
−t
i−1
)+inf f
|[t
j−1
,q
1
]
(q
1
−t
j−1
)++inf f
|[q
1
,t
j
]
(t
j
−q
1
)+
n
¸
i=j+1
inf f
|[t
i−1
,t
i
]
(t
i
−t
i−1
).
Ora inf f
|[t
j−1
,q
1
]
≥ inf f
|[t
j−1
,t
j
]
e inf f
|[q
1
,t
j
]
≥ inf f
|[t
j−1
,t
j
]
, portanto inf f
|[t
j−1
,q
1
]
(q
1
−t
j−1
)+inf f
|[q
1
,t
j
]
(t
j
−q
1
) ≥
inf f
|[t
j−1
,t
j
]
(q
1
−t
j−1
+t
j
−q
1
) = inf f
|[t
j−1
,t
j
]
(t
j
−t
j−1
). Conclui-se que
¸
(f, Q) ≥
j−1
¸
i=1
inf f
|[t
i−1
,t
i
]
(t
i
−t
i−1
) + inf f
|[t
j−1
,t
j
]
(t
j
−t
j−1
) +
n
¸
i=j+1
inf f
|[t
i−1
,t
i
]
(t
i
−t
i−1
) =
¸
(f, P).
Então
¸
(f, P
1
) ≤
¸
(f, P
1
∪ ¦q
1
¦) ≤
¸
(f, P
1
∪ ¦q
1
¦ ∪ ¦q
2
¦) ≤ ≤
¸
(f, P
2
).
j
1 j j-1 q t t
inf f
|[t ,t ]
j-1
j 1
|[q ,t ]
inf f
1 j j-1 q t t
inf f
|[t ,q ]
j-1 1
Analogamente se mostra que
¸
(f, P
2
) ≤
¸
(f, P
1
).
5.2. INTEGRAIS 75
3. Seja Q = P
1
∪ P
2
. Pela alínea anterior, tem-se
¸
(f, P
1
) ≤
¸
(f, Q) e
¸
(f, Q) ≤
¸
(f, P
2
). Como, por 1.,
¸
(f, Q) ≤
¸
(f, Q), conclui-se que
¸
(f, P
1
) ≤
¸
(f, P
2
).
4. Pela alínea anterior, conclui-se que qualquer soma superior é um majorante do conjunto das somas inferiores,
portanto é maior ou igual ao supremo s desse conjunto; mas então s é um minorante do conjunto das somas superi-
ores, portanto é menor ou igual ao ínfimo desse conjunto, o que implica que sup¦
¸
(f, P); P partição de [a, b]¦ ≤
inf¦
¸
(f, P); P partição de [a, b]¦.
5. Sejam P = ¦t
0
, . . . , t
n
¦ uma partição de [a, b], m
i
= inf f
|[t
i−1
,t
i
]
e M
i
= sup f
|[t
i−1
,t
i
]
. Por se ter ∀x ∈ [a, b] :
m ≤ f(x), conclui-se que ∀i ∈ ¦1, . . . , n¦ : m ≤ m
i
; por se ter ∀x ∈ [a, b] : f(x) ≤ M, conclui-se que
∀i ∈ ¦1, . . . , n¦ : M
i
≤ M. Então
¸
(f, P) =
n
¸
i=1
m
i
(t
i
−t
i−1
) ≥
n
¸
i=1
m(t
i
−t
i−1
) = m(t
n
−t
0
) = m(b −a)
e
¸
(f, P) =
n
¸
i=1
M
i
(t
i
−t
i−1
) ≤
n
¸
i=1
M(t
i
−t
i−1
) = M(t
n
−t
0
) = M(b −a).

Definição 5.2.4 Se f : [a, b] −→R é limitada, diz-se que f é integrável sse sup¦
¸
(f, P); P partição de [a, b]¦ =
inf¦
¸
(f, P); P partição de [a, b]¦; se f é integrável designa-se esse número por integral de f em [a, b]; notação:

b
a
f
ou

b
a
f(x) dx.
Observações:
1. Se f é integrável, então o único número α ∈ R tal que para qualquer partição P de [a, b] se tem
¸
(f, P) ≤ α ≤
¸
(f, P) é α =

b
a
f.
2. Se f é integrável em [a, b] e ∀x ∈ [a, b] : m ≤ f(x) ≤ M, então m(b −a) ≤

b
a
f ≤ M(b −a).
Exemplos:
1. f: [a, b] −→ R
x → c
Para qualquer partição P de [a, b] tem-se
¸
(f, P) =
¸
(f, P) = c(b −a), portanto
sup¦
¸
(f, P); P partição de [a, b]¦ = sup¦c(b −a)¦ = c(b −a)
e
inf¦
¸
(f, P); P partição de [a, b]¦ = inf¦c(b −a)¦ = c(b −a).
Conclui-se que f é integrável e

b
a
f =

b
a
c dx = c(b −a).
2. f: [a, b] −→ R
x → x
Consideremos as partições P
n
= ¦t
0
, . . . , t
n
¦ em que t
i
= a +i
b−a
n
. Já foi visto que
¸
(f, P) =
b
2
−a
2
2

(b−a)
2
2n
e
que
¸
(f, P) =
b
2
−a
2
2
+
(b−a)
2
2n
. Então
sup¦
¸
(f, P
n
); n ∈ N¦ = sup¦
b
2
−a
2
2

(b −a)
2
2n
; n ∈ N¦ =
b
2
−a
2
2
e
inf¦
¸
(f, P
n
); n ∈ N¦ = inf¦
b
2
−a
2
2
+
(b −a)
2
2n
; n ∈ N¦ =
b
2
−a
2
2
.
Para mostrar que f é integrável, temos de considerar
sup¦
¸
(f, P); P partição de [a, b]¦ e inf¦
¸
(f, P); P partição de [a, b]¦.
76 CAPÍTULO 5. INTEGRAIS E PRIMITIVAS
Ora ¦
¸
(f, P
n
); n ∈ N¦ ⊂ ¦
¸
(f, P); P partição de [a, b]¦ e ¦
¸
(f, P
n
); n ∈ N¦ ⊂ ¦
¸
(f, P); P partição de [a, b]¦,
portanto
sup¦
¸
(f, P
n
); n ∈ N¦ ≤ sup¦
¸
(f, P); P partição de [a, b]¦ ≤
≤ inf¦
¸
(f, P); P partição de [a, b]¦ ≤ inf¦
¸
(f, P
n
); n ∈ N¦.
Como sup¦
¸
(f, P
n
); n ∈ N¦ = inf¦
¸
(f, P
n
); n ∈ N¦ =
b
2
−a
2
2
conclui-se que f é integrável e

b
a
f =

b
a
xdx =
b
2
−a
2
2
.
3. f: [0, 2] −→ R
x →

3 se x ∈ Q
−2 se x ∈ Q
Já foi visto que, para qualquer partição P de [0, 2], se tem
¸
(f, P) = −4 e
¸
(f, P) = 6. Então
sup¦
¸
(f, P); P partição de[0, 2]¦ = sup¦−4¦ = −4 e inf¦
¸
(f, P); P partição de[0, 2]¦ = inf¦6¦ = 6;
conclui-se que f não é integrável.
4. f: [3, 5] −→ R
x →

−x se x ∈ Q
0 se x ∈ Q
Seja P = ¦t
0
, . . . , t
n
¦; tem-se
¸
(f, P) = 0 e
¸
(f, P) =
¸
n
i=1
−t
i
(t
i
− t
i−1
); ora 3 ≤ t
i
, portanto −t
i
≤ −3,
logo
¸
(f, P) ≤
¸
n
i=1
−3(t
i
− t
i−1
) = −3(5 − 3) = −6. Então sup¦
¸
(f, P); P partição de[3, 5]¦ ≤ −6 < 0 e
inf¦
¸
(f, P); P partição de[3, 5]¦ = 0, portanto f não é integrável.
Proposição 5.2.5 Seja f : [a, b] −→R uma função limitada; f é integrável sse para cada > 0 existe uma partição
P de [a, b] tal que
¸
(f, P) −
¸
(f, P) < .
Demonstração: Suponhamos que f é integrável e seja > 0; existem partições P
1
e P
2
de [a, b] tais que
¸
(f, P
1
) > (

b
a
f) −

2
e
¸
(f, P
2
) < (

b
a
f) +

2
.
Seja então P = P
1
∪ P
2
; tem-se

b
a
f −

2
<
¸
(f, P
1
) ≤
¸
(f, P) ≤
¸
(f, P) ≤
¸
(f, P
2
) <

b
a
f +

2
,
o que implica
¸
(f, P) −
¸
(f, P) < (

b
a
f) +

2
−((

b
a
f) −

2
) = .
Suponhamos agora que f não é integrável. Então
sup¦
¸
(f, P); P partição de [a, b]¦ < inf¦
¸
(f, P); P partição de [a, b]¦;
designaremos este supremo e este ínfimo respectivamente por α e β; seja = β −α (tem-se > 0). Qualquer que seja
a partição P de [a, b], tem-se
¸
(f, P) ≤ α e
¸
(f, P) ≥ β, de onde
¸
(f, P) −
¸
(f, P) ≥ β − α = . Então existe
> 0 tal que, para qualquer partição P de [a, b], se tem
¸
(f, P) −
¸
(f, P) ≥ .
Proposição 5.2.6 Sejam a < c < b e f : [a, b] −→R uma função limitada; então
1. f é integrável sse f é integrável em [a, c] e em [c, b] (isto é, sse f
|[a,c]
e f
|[c,b]
são integráveis);
2. se f é integrável então

b
a
f =

c
a
f +

b
c
f.
b a
=
b c a
+
b c a
5.2. INTEGRAIS 77
Demonstração:
1. Suponhamos que f é integrável; vejamos que f é integrável em [a, c]. Seja > 0; pela proposição anterior sabemos
que existe uma partição P de [a, b] tal que
¸
(f, P)−
¸
(f, P) < ; consideremos a partição P
1
= (P ∪¦c¦)∩[a, c]
do intervalo [a, c]; sejam q
0
< q
1
< . . . < q
m
os pontos de P
1
e q
m+1
< . . . < q
n
tais que P ∪¦c¦ = ¦q
0
, q
1
, . . . , q
n
¦.
Tem-se
¸
(f, P) ≤
¸
(f, P ∪ ¦c¦) e
¸
(f, P ∪ ¦c¦) ≤
¸
(f, P), portanto
(
¸
(f, P
1
)−
¸
(f, P
1
))+(
¸
(f, P
2
)−
¸
(f, P
2
)) =
¸
(f, P ∪¦c¦)−
¸
(f, P ∪¦c¦) ≤
¸
(f, P)−
¸
(f, P) < ;
logo
¸
(f, P
1
) −
¸
(f, P
1
) < e
¸
(f, P
2
) −
¸
(f, P
2
) < .
Deduz-se que existe uma partição P
1
de [a, c] e uma partiç ão P
2
de [c, b] tais que
¸
(f, P
1
) −
¸
(f, P
1
) < e
¸
(f, P
2
) −
¸
(f, P
2
) < .
Suponhamos agora que f é integrável em [a, c] e em [c, b] e seja > 0. Então existem partições P
1
= ¦t
0
, . . . , t
m
¦
de [a, c] e P
2
= ¦t
m
, . . . , t
n
¦ de [c, b], tais que
¸
(f, P
1
) −
¸
(f, P
1
) < /2 e
¸
(f, P
2
) −
¸
(f, P
2
) < /2.
Consideremos a partição P = P
1
∪ P
2
= ¦t
0
, . . . , t
n
¦ de [a, b]. Tem-se
¸
(f, P) −
¸
(f, P) =
¸
(f, P
1
) −
¸
(f, P
1
) +
¸
(f, P
2
) −
¸
(f, P
2
) < /2 +/2 =
2. Seja P uma partição de [a, b]; consideremos as partições P
1
= (P ∪¦c¦) ∩[a, c] de [a, c] e P
2
= (P ∪¦c¦) ∩[c, b] de
[c, b] e Q = P
1
∪ P
2
de [a, b]. Tem-se
¸
(f, P) ≤
¸
(f, Q) =
¸
(f, P
1
) +
¸
(f, P
2
) ≤

c
a
f +

b
c
f; por outro lado,
¸
(f, P) ≥
¸
(f, Q) =
¸
(f, P
1
) +
¸
(f, P
2
) ≥

c
a
f +

b
c
f. Então, para qualquer partição P de [a, b], tem-se
¸
(f, P) ≤

c
a
f +

b
c
f ≤
¸
(f, P). Mas o único número real α tal que, para qualquer partição P de [a, b], se
tem
¸
(f, P) ≤ α ≤
¸
(f, P) é α =

b
a
f. Conclui-se que

b
a
f =

c
a
f +

b
c
f.
Proposição 5.2.7 1. Se f e g são integráveis em [a, b], então f +g é integrável em [a, b] e

b
a
(f +g) =

b
a
f +

b
a
g.
2. Se f é integrável em [a, b] e c ∈ R, então cf é integrável em [a, b] e

b
a
cf = c

b
a
f.
3. Se f e g são integráveis em [a, b], então f.g é integrável em [a, b].
4. Se f é integrável em [a, b] então [f[ é integrável em [a, b] e [

b
a
f[ ≤

b
a
[f[.
Demonstração:
1. Comecemos por notar que, para qualquer partição P = ¦t
0
, . . . , t
n
¦, pondo l
i
= inf f
|[t
i−1
,t
i
]
, k
i
= inf g
|[t
i−1
,t
i
]
,
L
i
= sup f
|[t
i−1
,t
i
]
, K
i
= sup g
|[t
i−1
,t
i
]
, m
i
= inf f + g
|[t
i−1
,t
i
]
, M
i
= sup f + g
|[t
i−1
,t
i
]
, se tem l
i
+ k
i
≤ m
i
e
M
i
≤ L
i
+K
i
, e portanto
¸
(f +g, P) =
n
¸
i=1
m
i
(t
i
−t
i−1
) ≥
n
¸
i=1
(l
i
+k
i
)(t
i
−t
i−1
) =
¸
(f, P) +
¸
(g, P)
e
¸
(f +g, P) =
n
¸
i=1
M
i
(t
i
−t
i−1
) ≤
n
¸
i=1
(L
i
+K
i
)(t
i
−t
i−1
) =
¸
(f, P) +
¸
(g, P).
Seja > 0; existem partições P
1
e P
2
de [a, b] tais que
¸
(f, P
1
) −
¸
(f, P
1
) < /2 e
¸
(g, P
2
) −
¸
(g, P
2
) < /2.
Aplicando as desigualdades anteriores a Q = P
1
∪ P
2
, conclui-se que
¸
(f +g, Q) −
¸
(f +g, Q) ≤
¸
(f, Q) +
¸
(g, Q) −
¸
(f, Q) −
¸
(g, Q)
=
¸
(f, Q) −
¸
(f, Q) +
¸
(g, Q) −
¸
(f, Q) < /2 +/2 = ,
o que mostra que f +g é integrável.
Os cálculos feitos mostram que dada uma partição P qualquer de [a, b], se tem
¸
(f, P) +
¸
(g, P) ≤
¸
(f +g, P) ≤

b
a
(f +g) ≤
¸
(f +g, P) ≤
¸
(f, P) +
¸
(g, P).
78 CAPÍTULO 5. INTEGRAIS E PRIMITIVAS
Então, se P
1
e P
2
são partições de [a, b], tem-se
¸
(f, P
1
) +
¸
(g, P
2
) ≤
¸
(f, P
1
∪ P
2
) +
¸
(g, P
1
∪ P
2
) ≤
¸
(f +g, P
1
∪ P
2
) ≤

b
a
(f +g)
e

b
a
(f +g) ≤
¸
(f +g, P
1
∪ P
2
) ≤
¸
(f, P
1
∪ P
2
) +
¸
(g, P
1
∪ P
2
) ≤
¸
(f, P
1
) +
¸
(g, P
2
).
Conclui-se
sup¦
¸
(f, P); P partição de [a, b]¦ + sup¦
¸
(g, P); P partição de [a, b]¦ ≤

b
a
(f +g)
e

b
a
(f +g) ≤ inf¦
¸
(f, P); P partição de [a, b]¦ + inf¦
¸
(g, P); P partição de [a, b]¦,
de onde

b
a
f +

b
a
g ≤

b
a
(f +g) ≤

b
a
f +

b
a
g, logo

b
a
(f +g) ≤

b
a
f +

b
a
g.
2. A proposição é óbvia para c = 0. Suponhamos agora c > 0 e seja P = ¦t
0
, . . . , t
n
¦ uma partição de [a, b]. Se
m
i
= inf f
|[t
i−1
,t
i
]
e M
i
= sup f
|[t
i−1
,t
i
]
, então inf(cf)
|[t
i−1
,t
i
]
= cm
i
e sup(cf)
|[t
i−1
,t
i
]
= cM
i
, portanto
¸
(f, cP) =
c
¸
(f, P) e
¸
(f, cP) = c
¸
(f, P). Então, sup¦
¸
(cf, P); P partição de [a, b]¦ = sup¦c
¸
(f, P); P partição de [a, b]¦ =
c sup¦
¸
(f, P); P partição de [a, b]¦ = c

b
a
f, e analogamente inf¦
¸
(cf, P); P partição de [a, b]¦ = c

b
a
f, por-
tanto cf é integrável e

b
a
cf = c

b
a
f.
Se c < 0, então inf(cf)
|[t
i−1
,t
i
]
= c sup f
|[t
i−1
,t
i
]
e sup(cf)
|[t
i−1
,t
i
]
= c inf f
|[t
i−1
,t
i
]
. Tem-se portanto
sup¦
¸
(cf, P); P partição de [a, b]¦ = sup¦c
¸
(f, P); P partição de [a, b]¦ =
= c inf¦
¸
(f, P); P partição de [a, b]¦ = c

b
a
f
e
inf¦
¸
(cf, P); P partição de [a, b]¦ = inf¦c
¸
(f, P); P partição de [a, b]¦ =
= c sup¦
¸
(f, P); P partição de [a, b]¦ = c

b
a
f,
e a conclusão é a mesma.
3. Seja P = ¦t
0
, . . . , t
n
¦ uma partição de [a, b]; sejam l
i
= inf f
|[t
i−1
,t
i
]
, k
i
= inf g
|[t
i−1
,t
i
]
, L
i
= sup f
|[t
i−1
,t
i
]
, K
i
=
sup g
|[t
i−1
,t
i
]
, m
i
= inf(f.g)
|[t
i−1
,t
i
]
, M
i
= sup(f.g)
|[t
i−1
,t
i
]
e R ∈ R tal que ∀x ∈ [a, b] : [f(x)[ < R e [g(x)[ < R.
Para x, y ∈ [t
i−1
, t
i
], tem-se
[f(x)g(x) −f(y)g(y)[ = [(f(x) −f(y))g(x) +f(y)(g(x) −g(y))[
≤ [g(x)[[(f(x) −f(y))[ +[f(y)[[(g(x) −g(y))[
≤ R(K
i
−k
i
) +R(L
i
−l
i
),
portanto M
i
−m
i
≤ R(K
i
−k
i
) +R(L
i
−l
i
). Então
¸
(f.g, P) −
¸
(f.g, P) =
n
¸
i=1
(M
i
−m
i
)(t
i
−t
i−1
)

n
¸
i=1
(R(K
i
−k
i
) +R(L
i
−l
i
))(t
i
−t
i−1
)
= R(
¸
(f, P) −
¸
(f, P) +
¸
(g, P) −
¸
(g, P)).
Seja agora > 0; para qualquer

> 0, existem partições P
1
e P
2
tais que
¸
(f, P
1
) −
¸
(f, P
1
) <

e
¸
(g, P
2
) −
¸
(g, P
2
) <

. Para P = P
1
∪ P
2
tem-se ainda
¸
(f, P) −
¸
(f, P) <

e
¸
(g, P) −
¸
(g, P) <

,
portanto
¸
(f.g, P) −
¸
(f.g, P) < R(
¸
(f, P) −
¸
(f, P) +
¸
(g, P) −
¸
(g, P)) ≤ R

+ R

= 2R

. Em
particular, escolhendo

= /(2R), conclui-se a existência de uma partição P tal que
¸
(f.g, P) −
¸
(f.g, P) < .
Logo fg é integrável.
5.2. INTEGRAIS 79
4. Seja P = ¦t
0
, . . . , t
n
¦ uma partição de [a, b]; sejam l
i
= inf f
|[t
i−1
,t
i
]
, m
i
= inf [f[
|[t
i−1
,t
i
]
, L
i
= sup f
|[t
i−1
,t
i
]
,
M
i
= sup [f[
|[t
i−1
,t
i
]
. Para quaisquer x, y ∈ [t
i−1
, t
i
], tem-se [[f(x)[ −[f(y)[[ ≤ [f(x) −f(y)[ ≤ L
i
−l
i
, portanto
M
i
−m
i
≤ L
i
−l
i
, logo
¸
([f[, P) −
¸
([f[, P) ≤
¸
(f, P) −
¸
(f, P). Ora para cada > 0, existe uma partição
P tal que
¸
(f, P) −
¸
(f, P) < ; para essa partição tem-se tambem
¸
([f[, P) −
¸
([f[, P) < . Conclui-se
que [f[ é integrável. Por outro lado, ∀x ∈ [a, b] : −[f[(x) ≤ f(x) ≤ [f[(x), logo a proposição seguinte permite
concluir que −

b
a
[f[ ≤

b
a
f ≤

b
a
[f[, isto é, que [

b
a
f| ≤

b
a
[f[.
Proposição 5.2.8 Se f, g : [a, b] −→R são funções integráveis tais que ∀x ∈ [a, b] se tem f(x) ≤ g(x), então

b
a
f ≤

b
a
g.
Demonstração: Pelos números 1 e 2 da proposição anterior, sabemos que g −f é integrável e

b
a
(g −f) =

b
a
g −

b
a
f.
Mas, como ∀x ∈ [a, b] : 0 ≤ (g −f)(x), conclui-se que 0 ≤

b
a
(g −f), portanto

b
a
f ≤

b
a
g.
Para a demonstração do teorema seguinte, precisaremos de utilizar um resultado sobre funções contínuas que
não provaremos no curso. Esse resultado exprime que a continuidade de uma função f num intervalo fechado [a, b] é
uniforme no sentido seguinte: para qualquer > 0, existe δ > 0 tal que ∀x, x
0
∈ [a, b] : [x−x
0
[ < δ ⇒ [f(x)−f(x
0
)[ < .
Note-se que a continuidade de f apenas traduz a existência, para cada x
0
, de um δ
x
0
naquelas condições, mas que
a priori, esse δ
x
0
pode depender do x
0
. O que se prova é que se o domínio de f é um intervalo fechado, é possível
encontrar um δ que sirva para todos os pontos x
0
.
Teorema 5.2.9 Se f : [a, b] −→R é contínua, então f é integrável.
Demonstração: Seja > 0; queremos mostrar que existe uma partição P de [a, b] tal que
¸
(f, P) −
¸
(f, P) < . Se
P = ¦t
0
, . . . , t
n
¦ é uma partição de [a, b], m
i
= inf f
|[t
i−1
,t
i
]
, M
i
= sup f
|[t
i−1
,t
i
]
, então
¸
(f, P)−
¸
(f, P) =
¸
n
i=1
(M
i

m
i
)(t
i
−t
i−1
). Se existir c ∈ R tal que ∀i ∈ ¦1, . . . , n¦ se tem M
i
−m
i
< c, então
¸
(f, P) −
¸
(f, P) <
¸
n
i=1
c(t
i

t
i−1
) = c(b −a). Então, para que
¸
(f, P) −
¸
(f, P) < , basta que P seja tal que ∀i ∈ ¦1, . . . , n¦ se tenha M
i
−m
i
<
/(b−a). Ora como f é contínua, existe δ > 0 tal que ∀x
1
, x
2
∈ [a, b] : [x
1
−x
2
[ < δ ⇒ [f(x
1
)−f(x
2
)[ < /(b−a). Então
se [α, β] é um intervalo de comprimento menor do que δ, tem-se max f
|[α,β]
−min
|[α,β]
< /(b −a). Se P = ¦t
0
, . . . , t
n
¦
for uma partição em que cada intervalo [t
i−1
, t
i
] tem comprimento menor do que δ, então
¸
(f, P) −
¸
(f, P) < .
Basta, pois, escolher n > (b −a)/δ e tomar, por exemplo, a partição P = ¦t
0
, . . . , t
n
¦ em que t
i
−t
i−1
= (b −a)/n.
Exemplos:
1.

b
a
(2x +t) dx = 2

b
a
xdx +t

b
a
1 dx = 2(b
2
/2 −a
2
/2) +t(b −a)
2.

b
a
(2x +t)dt = 2x

b
a
1dt +

b
a
tdt = 2x(b −a) + (b
2
/2 −a
2
/2)
3.

b
a
(

d
c
xy dy)dx =

b
a
(x

d
c
y dy)dx =

b
a
x(d
2
/2 −c
2
/2)dx = (d
2
/2 −c
2
/2)

b
a
xdx = (d
2
/2 −c
2
/2)(b
2
/2 −a
2
/2).
4.

b
a
(

d
c
(x + y) dy)dx =

b
a
(x(d − c) + d
2
/2 − c
2
/2)dx = (d − c)

b
a
xdx + (d
2
/2 − c
2
/2)

b
a
1 dx = (d − c)(b
2
/2 −
a
2
/2) + (d
2
/2 −c
2
/2)(b −a).
5. f: [0, 2] −→ R
x →

0 se x = 1
1 se x = 1
Seja P = ¦t
0
, . . . , t
n
¦ uma partição de [0, 2] tal que 1 ∈ P e seja j tal que t
j−1
< 1 < t
j
. Então
¸
(f, P) = 0 e
¸
(f, P) = t
j
−t
j−1
.
(f,P) (f,P)-
2 1
j j-1
t t
80 CAPÍTULO 5. INTEGRAIS E PRIMITIVAS
Seja agora > 0; para mostrar que existe uma partição P de [a, b] tal que
¸
(f, P) −
¸
(f, P) < , basta
escolher P = ¦t
0
, . . . , t
n
¦, tal que 1 ∈ P e t
j
− t
j−1
< (em que j é tal que t
j−1
< 1 < t
j
). A partição
P = ¦0, 1 −/3, 1 +/2, 2¦ está nestas condições.
Por outro lado, como qualquer soma inferior é 0, conclui-se que

2
0
f = 0.
6. f: [a, b] −→ R
x →

0 se x = x
0
1 se x = x
0
, em que x
0
∈ [a, b].
Suponhamos primeiro que x
0
∈]a, b[ (os casos x
0
= a e x
0
= b são análogos). Seja P = ¦t
0
, . . . , t
n
¦ uma partição
de [a, b] tal que x
0
∈ P e seja j tal que t
j−1
< x
0
< t
j
. Então
¸
(f, P) = 0 e
¸
(f, P) = t
j
−t
j−1
. Seja agora > 0;
para mostrar que existe uma partição P de [a, b] tal que
¸
(f, P) −
¸
(f, P) < , basta escolher P = ¦t
0
, . . . , t
n
¦,
tal que x
0
∈ P e t
j
− t
j−1
< (em que j é tal que t
j−1
< x
0
< t
j
). A partição P = ¦a, x
0
− α, x
0
+ α, b¦, em
que α = min¦x
0
− a, b − x
0
, /3¦, está nestas condições. Conclui-se que f é integrável;

b
a
f = 0, uma vez que
todas as somas inferiores são iguais a 0.
7. f: [a, b] −→ R
x →

0 se x ∈ ¦x
1
, x
2
. . . , x
n
¦
α
1
se x = x
1
α
2
se x = x
2

α
n
se x = x
n
, em que x
1
, x
2
, . . . , x
n
são pontos de [a, b] e α
1
, α
2
, . . . , α
n
são
números reais quaisquer.
Para cada i ∈ ¦1, . . . , n¦, seja f
i
: [a, b] −→ R
x →

0 se x = x
i
1 se x = x
i
. Então, como foi visto no exemplo anterior, f
i
é
integrável e

b
a
f
i
= 0. Como f = α
1
f
1
+ +α
n
f
n
, conclui-se que f é integrável e

b
a
f = α
1

b
a
f
1
+ +α
n

b
a
f
n
=
0.
8. f: [2, 4] −→ R
x → 3x −5
f é integrável e

4
2
f =

4
2
3x −5 dx = 3

4
2
xdx −

4
2
5 dx = 3(
4
2
2

2
2
2
) −5(4 −2) = 8.
9. f: [a, b] −→ R
x → cx +k
f é integrável e

b
a
f =

b
a
cx +k dx = c

b
a
xdx +

b
a
k dx = c(
b
2
2

a
2
2
) +k(b −a).
Proposição 5.2.10 Se f : [a, b] −→R é integrável e g : [a, b] −→R é tal que ∀x ∈ [a, b] ` ¦x
1
, . . . , x
n
¦ : g(x) = f(x),
então g é integrável e

b
a
g =

b
a
f.
Demonstração: Seja h: [a, b] −→ R
x →

0 se x ∈ ¦x
1
, . . . , x
n
¦
g(x
i
) −f(x
i
) se x ∈ ¦x
1
, . . . , x
n
¦
Então, como foi visto no exemplo ante-
rior, h é integrável e

b
a
h = 0. Por outro lado, g = f + h, portanto g é a soma de duas funções integráveis, logo
integrável e

b
a
g =

b
a
f +

b
a
h =

b
a
f.
Proposição 5.2.11 Se f : [a, b] −→R é limitada e f é contínua em [a, b] ` ¦x
1
, . . . , x
n
¦, então f é integrável.
Demonstração: Vamos supor que a e b não pertencem a ¦x
1
, . . . , x
n
¦ (a demonstração é análoga no caso de pertence-
rem). Seja l tal que ∀x ∈ [a, b] : [f(x)[ < l. Existe δ > 0 tal que os intervalos [x
1
−δ, x
1
+δ], [x
2
−δ, x
2
+δ],. . . ,[x
n

δ, x
n
+δ] são disjuntos e estão todos contidos em [a, b]. Então para qualquer i ∈ ¦1, . . . , n¦
(sup f
[x
i
−δ,x
i
+δ]
−inf f
[x
i
−δ,x
i
+δ]
)(x
i
+δ −(x
i
−δ)) < 2δ.2l = 4δl,
5.2. INTEGRAIS 81
portanto
n
¸
i=1
(sup f
[x
i
−δ,x
i
+δ]
−inf f
[x
i
−δ,x
i
+δ]
)(x
i
+δ −(x
i
−δ)) < 4nδl.
Então, fixado > 0, se δ < /(8nl), aquela soma é menor do que /2. Por outro lado, f é contínua em [a, x
1
− δ],
[x
1
+δ, x
2
−δ],. . . ,[x
n
+δ, b], logo é integrável em cada um destes intervalos e portanto existem partições P
1
, P
2
,. . . ,P
n+1
respectivamente de [a, x
1
− δ], [x
1
+ δ, x
2
− δ],. . . ,[x
n
+ δ, b], tais que
¸
(f, P
i
) −
¸
(f, P
i
) <

2n
. Para a partição de
[a, b] P = P
1
∪ . . . ∪ P
n
, tem-se
¸
(f, P) −
¸
(f, P) =
n
¸
i=1
(
¸
(f, P
i
) −
¸
(f, P
i
)) +
+(sup f
[x
i
−δ,x
i
+δ]
−inf f
[x
i
−δ,x
i
+δ]
)(x
i
+δ −(x
i
−δ))
< n

2n
+

2
= .

Notação: Convenciona-se que, para qualquer função f,

a
a
f = 0 e que, se f : [a, b] −→R é integrável, então

a
b
f
designa −

b
a
f. Com estas convenções ainda se tem :
1.

b
a
f =

c
a
f +

b
c
f, mesmo que não se tenha a < c < b;
2. se f tomar apenas valores menores em módulo do que l, então [

b
a
f[ ≤ l[b −a[.
Seja f : [a, b] −→R uma função integrável; então para qualquer x ∈ [a, b], f é integrável em [a, x] e podemos
portanto considerar a função F: [a, b] −→ R
x →

x
a
f
(para qualquer a
0
∈ [a, b] podemos tambem considerar a função
G: [a, b] −→ R
x →

x
a
0
f
).
Exemplos
1. f: [−2, 3] −→ R
x → 2
F: [−2, 3] −→ R
x →

x
−2
2dt
F(x) = 2(x −(−2)) = 2x + 4
f
4 2 -2
9
10
8
7
6
5
4
3
2
1
F
4 2 -2
9
10
8
7
6
5
4
3
2
1
Observação: F é derivável e F

= f.
2. f: R −→ R
x → −1
F
1
: R −→ R
x →

x
1
−1dt = −1(x −1) = −x + 1
F
2
: R −→ R
x →

x
−3
−1dt = −1(x −(−3)) = −x −3
82 CAPÍTULO 5. INTEGRAIS E PRIMITIVAS
f
-1
1
1
1
F
-1
-3
-2
2
1
1
F
-1
Observação: F
1
e F
2
são deriváveis e F

1
= F

2
= f.
3. f: [−1, 3] −→ R
x →

−2 se x < 1
3 se x ≥ 1
F
1
: [−1, 3] −→ R
x →

x
−1
f
; F
2
: [−1, 3] −→ R
x →

x
0
f
Se x ≤ 1, então

x
−1
f(t)dt =

x
−1
−2dt = −2x − 2; se x > 1, então

x
−1
f(t)dt =

1
−1
f(t)dt +

x
1
f(t)dt =
−4 +

x
1
3dt = −4 + 3(x −1) = 3x −7.
Se x ≤ 1, então

x
0
f(t)dt =

x
0
−2dt = −2x; se x > 1, então

x
0
f(t)dt =

1
0
f(t)dt +

x
1
f(t)dt = −2 +

x
1
3dt =
3x −5.
F
1
: [−1, 3] −→ R
x →

−2x −2 se x < 1
3x −7 se x ≥ 1
; F
2
: [−1, 3] −→ R
x →

−2x se x < 1
3x −5 se x ≥ 1
.
F
1
(x) = F
2
(x) +

0
−1
f = F
2
(x) −2
4
3
2
1
-4
-3
-2
-1
f
3 2 1 -1
1
F
4
3
2
1
-4
-3
-2
-1
3 2 1 -1
2
F
4
3
2
1
-4
-3
-2
-1
3 2 1 -1
Observação: f é descontínua em 1; F é contínua; F é derivável em todos os pontos excepto em 1, e, para x = 1,
tem-se F

(x) = f(x).
4. f: [−3, −1] −→ R
x →

−1 se x = −2
3 se x = −2
F: [−3, −1] −→ R
x →

x
−3
f = −x −3
5.2. INTEGRAIS 83
-1
f
3
2
1
-3 -2 -1
-2
-1
F
3
2
1
-3 -2 -1
Observação: f é descontínua em -2; F
1
e F
2
são contínuas; F
1
e F
2
são deriváveis e, para x = −2, tem-se
F

1
(x) = F

2
(x) = f(x).
5. f: [0, 5] −→ R
x →

−x se x ≤ 2
x/2 −3 se x ≥ 2
Se x ≤ 2, então

x
0
f =

x
0
−tdt = −x
2
/2; se x > 2, então

x
0
f =

2
0
f +

x
2
f(t)dt = −2 +

x
2
(
t
2
−3)dt
= −2 +
1
2

x
2
tdt −3

x
2
1dt
= −2 +
1
2
(
x
2
2
−2) −3(x −2) =
x
2
4
−3x + 3.
F: [0, 5] −→ R
x →

x
0
f =

−x
2
/2 se x ≤ 2
x
2
/4 −3x + 3 se x ≥ 2
f
-6
5 4 3 2 1
-5
-4
-3
-2
-1
F
-6
5 4 3 2 1
-5
-4
-3
-2
-1
Observação: F é derivável e, para x ∈ [0, 5], tem-se F

(x) = f(x).
6. f: [−2, 4] −→ R
x → [x]
Para x ≤ −1, tem-se

x
−2
f =

x
−2
−2dt = −2x − 4. Para −1 < x ≤ 0, tem-se

x
−2
f =

−1
−2
f +

x
−1
(−1)dt =
−2 −(x + 1) = −x −3. Para 0 < x ≤ 1, tem-se

x
−2
f =

0
−2
f +

x
0
0dt = −3. Para 1 < x ≤ 2, tem-se

x
−2
f =

1
−2
f +

x
1
1dt = −3 +(x −1) = x −4. Para 2 < x ≤ 3, tem-se

x
−2
f =

2
−2
f +

x
2
2dt = −2 +2(x −2) = 2x −6.
Para 3 < x ≤ 4, tem-se

x
−2
f =

3
−2
f +

x
3
3dt = 0 + 3(x −3) = 3x −9.
F: [−2, 4] −→ R
x →

x
−2
f =

−2x −4 se −2 ≤ x ≤ −1
−x −3 se −1 ≤ x ≤ 0
−3 se 0 ≤ x ≤ 1
x −4 se 1 ≤ x ≤ 2
2x −6 se 2 ≤ x ≤ 3
3x −9 se 3 ≤ x ≤ 4
84 CAPÍTULO 5. INTEGRAIS E PRIMITIVAS
-2 -1
f
3
2
1
4 3 2 1
-3
-2
-1
-2 -1
F
3
2
1
4 3 2 1
-3
-2
-1
Observação: F é contínua; F é derivável em todos os pontos excepto em −1, 0, 1, 2, e 3, que são os pontos de
descontinuidade de f.
Teorema 5.2.12 Se f : [a, b] −→R é integrável, então F: [a, b] −→ R
x →

x
a
f
é contínua.
Demonstração: Seja l tal que ∀x ∈ [a, b] : [f(x)[ < l e seja x
0
∈ [a, b]. Queremos mostrar que lim
x→x
0
F(x) = F(x
0
),
ou seja, que lim
x→x
0
(F(x) −F(x
0
)) = 0. Ora F(x) − F(x
0
) =

x
a
f −

x
0
a
f =

x
x
0
f, e [

x
x
0
f[ ≤ l[x − x
0
[. Como
lim
x→x
0
l[x −x
0
[ = 0, conclui-se que lim
x→x
0
F(x) −F(x
0
) = 0, portanto lim
x→x
0
F(x) = F(x
0
).
Teorema 5.2.13 (Teorema Fundamental do Cálculo) : Se f : [a, b] −→R é integrável e f é contínua em x
0
,
então F: [a, b] −→ R
x →

x
a
f
é derivável em x
0
e F

(x
0
) = f(x
0
).
Demonstração: Vamos fazer a demonstração para x
0
∈]a, b[; os casos x
0
= a e x
0
= b são análogos. Para cada
x ∈ [x
0
, b] seja M
x
= sup f
|[x
0
,x]
e m
x
= inf f
|[x
0
,x]
. Tem-se
F(x)−F(x
0
)
x−x
0
=

x
x
0
f
x−x
0
; como, para t ∈]x
0
, x], se tem
m
x
≤ f(t) ≤ M
x
, tem-se m
x
(x − x
0
) ≤

x
x
0
f ≤ M
x
(x − x
0
), portanto m
x

x
x
0
f
x−x
0
≤ M
x
. Mas, por f ser contínua
em x
0
, tem-se lim
x→x
+
0
M
x
= f(x
0
) = lim
x→x
+
0
m
x
, portanto lim
x→x
+
0
F(x) −F(x
0
)
x −x
0
= f(x
0
). Analogamente se mostra que
lim
x→x

0
F(x) −F(x
0
)
x −x
0
= f(x
0
).
Corolário 5.2.14 Se f : [a, b] −→R é contínua e g : [a, b] −→R é tal que g

= f, então

b
a
f = g(b) −g(a).
Demonstração: Consideremos F: [a, b] −→ R
x →

x
a
f
. Como f é contínua, F é derivável e ∀x ∈ [a, b] : F

(x) = f(x).
Mas g

= f, isto é, g

= F

, logo g e F diferem por uma constante, isto é, existe k ∈ R tal que ∀x ∈ [a, b] : F(x) =
g(x) +k; como F(a) = 0, tem-se k = −g(a). Ora

b
a
f = F(b) = g(b) +k = g(b) −g(a).
Um resultado mais forte que este corolário obtem-se impondo apenas como hipótese sobre f a integrabilidade.
Teorema 5.2.15 Se f : [a, b] −→R é integrável e g : [a, b] −→R é tal que g

= f, então

b
a
f = g(b) −g(a).
Demonstração: Sejam P = ¦t
0
, . . . , t
n
¦ uma partição qualquer de [a, b], m
i
= inf f
|[t
i−1
,t
i
]
, M
i
= sup f
|[t
i−1
,t
i
]
.
Então g(b) −g(a) =
¸
n
i=1
(g(t
i
) −g(t
i−1
)); para cada i ∈ ¦1, . . . , n¦, existe u
i
∈ [t
i−1
, t
i
] tal que
g(t
i
) −g(t
i−1
) = g

(u
i
)(t
i
−t
i−1
) = f(u
i
)(t
i
−t
i−1
);
mas m
i
≤ f(u
i
) ≤ M
i
, portanto m
i
(t
i
−t
i−1
) ≤ f(u
i
)(t
i
−t
i−1
) ≤ M
i
(t
i
−t
i−1
), logo
¸
(f, P) ≤ g(b)−g(a) ≤
¸
(f, P).
Como f é integrável conclui-se que g(b) −g(a) =

b
a
f.
Exemplos:
1. F: R −→ R
x →

x
0
e
t cos t
dt
F

(x) = e
x cos x
5.3. PRIMITIVAS 85
2. F: R −→ R
x →

x
2
(t
3
+ 1) log(t
2
+ 3)dt
F

(x) = (x
3
+ 1) log(x
2
+ 3)
3. F: R −→ R
x →

x
2
0
sen
3
tdt
Tem-se F = g ◦ h, em que g: R −→ R
x →

x
0
sen
3
tdt
e h: R −→ R
x → x
2
, portanto F

(x) = g

(h(x))h

(x) =
sen
3
x
2
.2x.
4. F: R −→ R
x →

x
4
1
cos tdt
0
cos
2
udu
Tem-se F = g
1
◦ g
2
◦ g
3
, em que g
1
: R −→ R
x →

x
0
cos
2
udu
, g
2
: R −→ R
x →

x
1
cos tdt
e g
3
: R −→ R
x → x
4
,
portanto F

(x) = g

1
(g
2
(g
3
(x)))g

2
(g
3
(x))g

3
(x) = cos
2
(

x
4
1
cos tdt) cos x
4
.4x
3
.
5.3 Primitivas
5.3.1 Definição e primitivas elementares
Definição 5.3.1 Diz-se que F é uma primitiva de f sse F

= f
Observações:
1. Se F é uma primitiva de f então, para qualquer c ∈ R, F +c é uma primitiva de f.
2. Se F
1
e F
2
são primitivas de f, e f está definida num intervalo, então F
1
e F
2
diferem por uma constante.
Exemplos
1. F: R −→ R
x → x
2
; f: R −→ R
x → 2x
F é uma primitiva de f.
2. F: R −→ R
x → x
3
; f: R −→ R
x → 3x
2
F é uma primitiva de f.
3. F
1
: R ` ¦0¦ −→ R
x → log [x[
; F
2
: R ` ¦0¦ −→ R
x →

log x se x > 0
3 + log(−x) se x < 0
;
F
3
: R ` ¦0¦ −→ R
x →

log x −5 se x > 0
log(−x) +π se x < 0
; f: R ` ¦0¦ −→ R
x → 1/x
Note que estas funções não diferem entre si por uma constante.
F
1
, F
2
e F
3
são primitivas de f.
4. F
1
: R −→ R
x → sen x
2
; F
2
: R −→ R
x → sen x
2
+ 3
; f: R −→ R
x → 2xcos x
2
F
1
e F
2
são primitivas de f.
5. F
1
: R
+
−→ R
x → log(x
2
)
; F
2
: R
+
−→ R
x → 2 log 5x
; f: R
+
−→ R
x → 2/x
F
1
e F
2
são primitivas de f.
6. F
1
: ] −π/2, π/2[ −→ R
x → tg
2
x
; F
2
: ] −π/2, π/2[ −→ R
x → sec
2
x
; f: ] −π/2, π/2[ −→ R
x → 2 tg xsec
2
x
F
1
e F
2
são primitivas de f.
86 CAPÍTULO 5. INTEGRAIS E PRIMITIVAS
7. F
1
: R −→ R
x → e
−x
; F
2
: R −→ R
x →
1+5e
x
e
x
; f: R −→ R
x → −1/e
x
F
1
e F
2
são primitivas de f.
Note que estes três últimos exemplos não contradizem a segunda observação acima.
Notação:
1. Na notação tradicional,

f ou

f(x) dx representa (com alguma ambiguidade) “uma primitiva geral” de f. A
razão desta notação está ligada ao facto de, no caso de f ser integrável e o domínio D de f ser um intervalo, a
função D −→ R
x →

x
a
f
ser uma primitiva de f para qualquer a ∈ D (ver o teorema 5.2.13). Assim, escreve-se,
por exemplo,

2xdx = x
2
, ou

1
x
dx = log x, x > 0, e isto significa que a função x → x
2
é uma primitiva
da função x → 2x, e que a função x → log x é uma primitiva de x →
1
x
, x > 0. O inconveniente principal
desta notação é que, se F
1
e F
2
são duas primitivas diferentes de f, ao escrevermos F
1
(x) =

f(x)dx e F
2
(x) =

f(x)dx, deveríamos poder concluir (e não podemos) que F
1
= F
2
. Por exemplo, escrevemos

2xdx = x
2
e

2xdx = x
2
−1, mas as funções x → x
2
e x → x
2
−1 não coincidem. Uma solução poderia consistir em designar
por

f o conjunto de todas as primitivas de f, mas, então, se F
1
é uma dessas primitivas, deveríamos escrever
F
1

f e não F
1
=

f.
Apesar deste inconveniente que vamos analisar em seguida, como esta é uma notação frequentemente usada, será
tambem a que usaremos aqui; em particular, neste contexto, as igualdades

1
x
dx = log x, x > 0 e

1
x
dx = log 2x
estão ambas correctas.
Convem ainda observar que F: D −→ R
x →

x
a
f(t) dt
, primitiva de f, é uma função de x (e não de t), pelo que
a notação

f(x) dx para representar F(x) pode provocar uma confusão suplementar, se não fôr encarada como
uma notação simbólica definida independentemente da noção anteriormente associada a

.
2. O teorema 5.2.15 diz-nos que se F é uma primitiva de f e f é integrável, então

b
a
f = F(b) − F(a); a notação
habitualmente usada para F(b) −F(a) é [F(x)]
b
a
. Por exemplo, escreve-se

b
a
3x
2
dx = [x
3
]
b
a
= b
3
−a
3
. No caso
de haver ambiguidade, escreve-se por vezes [F(x)]
x=b
x=a
. Por exemplo, pode-se escrever

b
a
xt dx = [x
2
t/2]
x=b
x=a
=
b
2
t/2 − a
2
t/2, e

b
a
xt dt = [xt
2
/2]
t=b
t=a
= xb
2
/2 − xa
2
/2. Se se escrevesse apenas [xt
2
/2]
b
a
, não seria claro se se
tratava de b
2
t/2 −a
2
t/2 ou de x
2
b/2 −x
2
a/2.
Vamos agora indicar algumas primitivas elementares, e depois ver como conseguir, a partir dessas, obter primitivas
de funções mais complicadas. Ao contrário do que acontece para as derivadas, não temos nenhuma regra para encontrar
primitivas do produto de funções em termos de primitivas de cada um dos factores, nem para encontrar primitivas de
g ◦ f em termos de primitivas de f e de g. Embora qualquer função contínua definida num intervalo tenha primitiva
(se f é contínua, então para qualquer a no domínio de f, a função x →

x
a
f é uma primitiva de f), nem sempre
é possível exprimir uma primitiva dessa função em termos de funções racionais, trigonométricas, exponencial, suas
inversas e compostas. Por exemplo, a função x → e
−x
2
não tem uma primitiva que se possa exprimir dessa maneira,
embora tenha primitivas (por exemplo x →

x
1
e
−t
2
dt), visto que se trata de uma função contínua.
Observações:
1. Uma função pode ser integrável e não ter primitiva, como mostra o exemplo a seguir.
2. Uma função pode ter primitiva e não ser integrável, mas um exemplo de uma tal função é bastante complicado
de construir.
Exemplo: f: [0, 2] −→ R
x →

0 se x = 1
1 se x = 1
Já foi visto que f é integrável. Suponhamos que F era uma primitiva de f. Então ter-se-ia lim
x→1
F

(x) = lim
x→1
f(x) =
0 = 1 = F

(1), o que é impossível (proposição 4.3.14).
Que as funções seguintes são primitivas das funções indicadas pode ser facilmente verificado por derivação directa.


k dx = kx; isto é, x → kx é uma primitiva de x → k; as outras são x → kx +c, c ∈ R.


x
r
dx =
x
r+1
r+1
, r = −1; isto é, x →
x
r+1
r+1
é uma primitiva de x → x
r
; note que, se r < 0, o domínio não é um
intervalo, pelo que, nesse caso, nem todas as primitivas são da forma x →
x
r+1
r+1
+c, c ∈ R.
5.3. PRIMITIVAS 87


1
x
dx = log [x[


e
x
dx = e
x


cos xdx = sen x


sen xdx = −cos x


tg
2
xdx = tg x −x


cotg
2
xdx = −cotg x −x


sec
2
xdx = tg x


cosec
2
xdx = −cotg x


sec xtg xdx = sec x


cosec xcotg xdx = −cosec x


1

1−x
2
dx = arcsen x


1
1+x
2
dx =
arctgx
Proposição 5.3.2 1.

(f +g)(x)dx =

f(x)dx+

g(x)dx (isto é, se F é uma primitiva de f e G é uma primitiva
de g, então F +G é uma primitiva de f +g).
2.

(cf)(x)dx = c

f(x)dx (isto é, se F é uma primitiva de f, então cF é uma primitiva de cf).
Demonstração:
1. Se F

= f e G

= g, então (F +G)

= F

+G

= f +g.
2. Se F

= f, então (cF)

= cF

= cf.

Exemplos
1. f: [0, 2] −→ R
x →

1 se x = 1
0 se x = 1
; f: [0, 2] −→ R
x →

2 se x = 1
3 se x = 1
; f +g: [0, 2] −→ R
x → 3
Nem f nem g têm primitiva, mas

(f +g) =

3dx = 3x.
2.

(x +x
3
+x
4
)dx =

xdx +

x
3
dx +

x
4
dx = x
2
/2 +x
4
/4 +x
5
/5.
3.

xdx =

x
1/2
dx =
2x
3/2
3
= 2x

x/3.
4.

1
5

x
3
dx =

x
−3/5
dx = 5
5

x
2
/2.
5.

(e
x
+ sen x)dx =

e
x
dx +

sen xdx = e
x
−cos x.
6.

(x+1)(x+3)(x−1)
x
2
dx =

x
3
+3x
2
−x−3
x
2
dx =

(x + 3 −
1
x

3
x
2
)dx =

xdx + 3

1 dx −

1
x
dx −3

1
x
2
dx = x
2
/2 +
3x −log [x[ + 3/x.
7.

cos
2
(x/2) dx =

1+cos x
2
dx = x/2 −(sen x)/2.
8.

e
x+t
2
dx =

e
x
e
t
2
dx = e
t
2

e
x
dx = e
t
2
e
x
= e
x+t
2
.
9.

sen(x/2) cos(x/2)dx =
1
2

sen xdx = −(cos x)/2.
10.

cos 2x
cos
2
x
dx =

cos
2
x−sen
2
x
cos
2
x
dx =

1 −tg
2
xdx = x −(tg x −x) = 2x −tg x.
11.

3+sen x
1−sen
2
x
dx =

3+sen x
cos
2
x
dx =

(3 sec
2
x + sec x tg x)dx = 3 tg x + sec x.
88 CAPÍTULO 5. INTEGRAIS E PRIMITIVAS
5.3.2 Primitivação por partes
Embora não disponhamos de nenhuma regra para determinar primitivas de um produto de funções, a regra de derivação
do produto dá-nos um método que em certos casos nos permite calcular primitivas de alguns produtos.
Proposição 5.3.3

fg

= fg −

f

g, isto é, se h é uma primitiva de f

g, então fg −h é uma primitiva de fg

.
Demonstração: Tem-se (fg)

= f

g +fg

, portanto, se h

= f

g, então (fg −h)

= f

g +fg

−f

g = fg

.
Exemplos
1.

x.e
x
dx = xe
x

1.e
x
dx = xe
x
− e
x
; isto é, uma primitiva de x → e
x
pode ser obtida tomando a diferença
entre x → xe
x
e uma primitiva de x → e
x
, portanto tomando, por exemplo, x → xe
x
−e
x
.
2.

x
2
.e
x
dx = x
2
e
x

2x.e
x
dx = x
2
e
x
−2(xe
x
−e
x
) = x
2
e
x
−2xe
x
+ 2e
x
.
3.

x
2
. cos xdx = x
2
sen x −

2xsen xdx = x
2
sen x −2(−xcos x −

1.(−cos x)dx) = x
2
sen x +2xcos x −2 sen x.
Por vezes, embora à primeira vista não se tenha um produto, é prático considerar o produto por 1.
4.

log xdx =

log x.1 dx = (log x)x −

x/xdx = xlog x −x.
5.

log
2
xdx =

log xlog xdx = log x(xlog x − x) −

1
x
(xlog x − x)dx = xlog
2
x − xlog x −

(log x + 1)dx =
xlog
2
x −xlog x −(xlog x −x) +x = xlog
2
x −2xlog x + 2x.
6.

xlog xdx =

(log x)xdx = (log x)x
2
/2 −

1
x
.
x
2
2
dx =
x
2
log x
2

x
2
4
.
7.

e
x
sen xdx = −e
x
cos x −

e
x
(−cos x)dx = −e
x
cos x +

e
x
cos xdx = −e
x
cos x +e
x
sen x −

e
x
sen xdx.
Chamando g à função x → −e
x
cos x+e
x
sen x e f à função x → e
x
sen x, esta igualdade escreve-se

f = g−

f,
isto é, uma primitiva de f pode-se obter subtraindo a g uma primitiva F de f. Por outras palavras, F e g −F
têm a mesma derivada, de onde g e 2F têm a mesma derivada, ou seja, g é uma primitiva de 2f, logo g/2 é
uma primitiva de f:

f = g/2, ou

e
x
sen xdx = (e
x
sen x −e
x
cos x)/2.
8.

log x
x
dx =

log x
1
x
dx = log
2
x −

1
x
log xdx; 2

log x
x
dx = log
2
x;

log x
x
dx = (log
2
x/2).
Proposição 5.3.4 Se F é uma primitiva de f, então, para c, k ∈ R, c = 0, a função x →
1
c
F(cx+k) é uma primitiva
de x → f(cx +k).
Demonstração: Seja G definida por G(x) =
1
c
F(cx +k). Então G

(x) =
1
c
F

(cx +k).c = F

(cx +k) = f(cx +k).
Exemplos:
1.

cos(2x + 5)dx =
1
2
sen(2x + 5)
2.

1
(3x+1)
2
+1
dx =
1
3
arctg(3x + 1)
3.

1
x
2
+2x+5
dx =

1
(x+1)
2
+4
dx =
1
4

1
(
x+1
2
)
2
+1
dx =
1
2
arctg
x+1
2
4.

1

x(8−16x)
dx =

1

8x−16x
2
dx =

1

1−(4x−1)
2
dx =
1
4
arcsen(4x −1)
5.

1

−27+72x−36x
2
dx =

1

36(−3/4+2x−x
2
)
dx =

1

36(1/4−(x−1)
2
)
dx =

1

9(1−(2x−2)
2
)
dx =
1
6
arcsen(2x −2)
6.

1
3x+5
dx =
1
3
log [3x + 5[
7.
1
(2x+3)
4
dx = −
1
6(2x+3)
3
8.
1

x+1−

x−1
dx =


x+1+

x−1
2
dx =
2
3
(x + 1)

x + 1 +
2
3
(x −1)

x −1
5.3. PRIMITIVAS 89
5.3.3 Primitivação por substituição
Se F e g são funções deriváveis, então F ◦ g é derivável e (F ◦ g)

(x) = F

(g(x))g

(x). Se quisermos calcular uma
primitiva de uma função h que seja do tipo f ◦ g.g

, com f contínua e g derivável, e se conhecermos uma primitiva F
de f, então F ◦ g é uma primitiva de h.
Exemplos:
1.

sen
5
x cos xdx
sen
5
x cos x = f(g(x))g

(x), em que f(x) = x
5
e g(x) = sen x, logo

sen
5
x cos xdx =
sen
6
x
6
.
2.

(2x + 1)

x
2
+x + 3 dx
(2x + 1)

x
2
+x + 3 = f(g(x))g

(x), em que f(x) =

x e g(x) = x
2
+ x + 3, logo

(2x + 1)

x
2
+x + 3 dx =
2
3
(x
2
+x + 3)

x
2
+x + 3.
3.

2x
x
4
+2x
2
+2
dx
2x
x
4
+2x
2
+2
= f(g(x))g

(x), em que f(x) =
1
x
2
+1
e g(x) = x
2
+ 1, logo

2x
x
4
+2x
2
+2
dx =
arctg(x
2
+ 1).
4.

3x
2
e
x
3
dx
3x
2
e
x
3
= f(g(x))g

(x), em que f(x) = e
x
e g(x) = x
3
, logo

3x
2
e
x
3
dx = e
x
3
.
5.

1
x
2
cos(
1
x
)dx
1
x
2
cos(
1
x
) = f(g(x))g

(x), em que f(x) = −cos x e g(x) = 1/x, logo

1
x
2
cos(
1
x
)dx = −sen(
1
x
).
6.

x

1−x
2
dx
x

1−x
2
= f(g(x))g

(x), em que f(x) = −
1
2

x
e g(x) = 1 −x
2
, logo

x

1−x
2
dx =

1 −x
2
.
7.

x
1+x
2
dx
x
1+x
2
= f(g(x))g

(x), em que f(x) =
1
2x
e g(x) = 1 +x
2
, logo

x
1+x
2
dx =
1
2
log(1 +x
2
).
8.

tg xdx =

sen x
cos x
= −log [ cos x[.
9.

cotg xdx =

cos x
sen x
= log [ sen x[.
10.

tg
2
x sec
2
xdx =
1
3
tg
3
x.
11.

sen
5
x cos
4
xdx =

sen x(1 − cos
2
x)
2
cos
4
xdx =

sen x(cos
4
x − 2 cos
6
x + cos
8
x)dx =

sen xcos
4
xdx −
2

sen xcos
6
xdx +

sen xcos
8
xdx = −
1
5
cos
5
x −
2
7
cos
7
x −
1
9
cos
9
x.
12.

sen
6
x cos
6
xdx =
1
2
6

sen
6
2xdx =
1
2
6

(sen
2
2x)
3
dx =
1
2
6

(
1−cos 4x
2
)
3
dx =
1
2
9

1 − 3 cos
4
x + 3 cos
2
4x −
cos
3
4xdx =
1
2
9

1−3 cos
4
x+3(
1+cos 8x
2
)−cos 4x(1−sen
2
4x)dx =
1
2
9
(x−
3 sen 4x
4
+
3x
2
+
3 sen 8x
16

sen 4x
4
+
sen
3
4x
12
).
13.

sen
2
x cos
4
xdx =
1
2
2

sen
2
2x
1+cos 2x
2
dx =
1
2
3

sen
2
2x+sen 2x cos 2xdx =
1
2
3

1−cos 4x
2
+
sen 4x
2
dx =
1
2
6
(4x−
sen4x −cos 4x).
14.

sen 2x cos 6xdx =

sen 8x+sen(−4x)
2
dx = −
cos 8x
16
+
cos 4x
8
.
15.

sen 5x sen 7xdx =

cos(−2x)−cos 12x
2
dx =
sen 2x
4

sen 12x
24
.
16.

cos 3x cos 4xdx =

cos x+cos 7x
2
dx =
sen x
2
+
sen 7x
14
.
17.

sen
2
2xcos xdx =

4 sen
2
x cos
3
xdx = 4

sen
2
x(1 − sen
2
x) cos xdx = 4

sen
2
x cos x − sen
4
x cos xdx =
4 sen
3
x
3

4 sen
5
x
5
.
18.

sec xdx =

1
cos x
dx =

cos x
cos
2
x
dx =

cos x
1−sen
2
x
dx =
1
2

(
cos x
1+sen x
+
cos x
1−sen x
)dx =
1
2
log [1 + sen x[ −
1
2
log [1 −
sen x[ = log

1+sen x
1−sen x
= log

(1+sen x)
2
1−sen
2
x
= log [
1+sen x
cos x
[ = log [ sec x + tg x[.
19.

cosec xdx =

1
sen x
dx =

sen x
sen
2
x
dx =

sen x
1−cos
2
x
dx =
1
2

(
sen x
1+cos x
+
sen x
1−cos x
)dx =
1
2
(−log [1 + cos x[ + log [1 −
cos x[ = log

1−cos x
1+cos x
= log

(1−cos x)
2
1−cos
2
x
= log [
1−cos x
sen x
[ = log [ cosec x −cotg x[.
90 CAPÍTULO 5. INTEGRAIS E PRIMITIVAS
20.

arcsen xdx =

(arcsen x).1 dx = xarcsen x −

x

1−x
2
dx = xarcsen x +

1 −x
2
.
21.

x
arctgxdx =

(
arctgx)xdx =
x
2
2
arctgx −

x
2
2(1+x
2
)
dx =
x
2
2
arctgx −
1
2
(

1+x
2
1+x
2
dx −

1
1+x
2
dx) =
x
2
2
arctgx −
x
2
+
arctg x
2
.
22.

1
(1+x
2
)
2
dx =

1+x
2
−x
2
(1+x
2
)
2
dx =

1
1+x
2
dx −

x
2
(1+x
2
)
2
dx =
arctgx −
1
2

x
2x
(1+x
2
)
2
dx =
arctgx −
1
2
(
−x
1+x
2

−1
1+x
2
dx) =
1
2
arctgx +
x
2(1+x
2
)
.
23.

1
(1+x
2
)
3
dx =

1+x
2
−x
2
(1+x
2
)
3
dx =

1
(1+x
2
)
2
dx−

x
2
(1+x
2
)
3
dx =

1
(1+x
2
)
2
dx+
x
2(1+x
2
)

1
2

x
2x
(1+x
2
)
2
dx =

1
(1+x
2
)
2
dx−
1
2
(
−x
2(1+x
2
)
2

−1
2(1+x
2
)
2
dx) =
3
4

1
(1+x
2
)
2
dx +
x
4(1+x
2
)
2
=
x
4(1+x
2
)
2
+
3x
8(1+x
2
)
2
+
3
8
arctgx.
24.

1
(4x
2
−8x+40)
3
dx =

1
((2x−2)
2
+36)
3
dx =
1
36
3

1
((
x−1
3
)
2
+1)
3
dx =
3
36
3
(
3
8
arctg
x−1
3
+
3
x−1
3
8(1+(
x−1
3
)
2
)
+
x−1
3
4(1+(
x−1
3
)
2
)
2
) =
arctg
x−1
3
41472
+
x−1
13824(x
2
−2x+10)
+
x−1
2304(x
2
−2x+10)
.
25.

arctg x
1+x
2
dx =
arctg
2
x
2
.
26.

log(log x)
x log x
dx =
log
2
(log x)
2
.
Por vezes quer-se calcular uma primitiva de uma função que não está escrita de maneira óbvia na forma (f ◦ g).g

,
mas que, com algumas transformações, se pode escrever sob esta forma.
Exemplos:
1.

1
x+

x
dx =

2

x
x+

x
.
1
2

x
dx =

2

x+1
.
1
2

x
dx =

f(g(x))g

(x)dx, em que f(x) =
2
x+1
e g(x) =

x. Então

1
x+

x
dx = 2 log(

x + 1).
2.

4e
x
+1
e
x
+1
dx =

4e
x
+1
e
x
+1
.
1
e
x
.e
x
dx =

f(g(x))g

(x)dx, em que f(x) =
4x+1
x
2
+x
e g(x) = e
x
. Ora

f(x)dx =

4x+1
x
2
+x
dx =

3x+x+1
x(x+1)
dx =

(
3
x+1
+
1
x
)dx = 3 log [x+1[ +log [x[. Então

4e
x
+1
e
x
+1
dx = 3 log(e
x
+1)+log(e
x
) = 3 log(e
x
+1)+x.
Seja f uma função da qual se quer determinar uma primitiva. Suponhamos que para alguma função injectiva g,
derivável e com inversa derivável, se conhece uma primitiva H de f ◦ g.g

; então
(H ◦ g
−1
)

(x) = H

(g
−1
(x)).(g
−1
)

(x) = f(g(g
−1
(x))).g

(g
−1
(x))(g
−1
)

(x) = f(x),
isto é, H ◦ g
−1
é uma primitiva de f. Uma mnemónica para estes cálculos consiste em substituir x por g(u) e dx por
g

(u)du, o que dá

f(x) dx =

f(g(u))g

(u) du,
isto é, uma primitiva H de f ◦ g.g

; tendo determinado H, substitui-se u por g
−1
(x) (isto é, compõe-se H com g
−1
).
Observação: Com as notações anteriores, tem-se

b
a
f(x)dx =

g
−1
(b)
g
−1
(a)
f(g(u))g

(u)du.
Nos primeiros dois exemplos serão escritos os cálculos segundo a exposição mais detalhada e fazendo directamente
a substituição. Nos exemplos seguintes só serão apresentados os cálculos fazendo directamente a substituição.
Exemplos:
5.3. PRIMITIVAS 91
1.

1 −x
2
dx

1 −x
2
dx
f(x) =

1 −x
2
; g(x) = sen x Fazendo a substituição x = sen u,
H(x) =

f(g(x))g

(x) dx =

1 −sen
2
x cos xdx dx = cos udu, temos
=

cos
2
xdx =

1+cos 2x
2
dx

1 −sen
2
ucos udu =

cos
2
udu
x
2
+
sen 2x
4
=
x
2
+
sen x cos x
2
=
u
2
+
sen 2u
4

f(x)dx =

1 −x
2
dx = H(g
−1
(x)) =

1 −x
2
dx =
arcsen x
2
+
sen(2arcsenx)
4
=
=
arcsen x
2
+
x

1−x
2
2
=
arcsen x
2
+
x

1−x
2
2
2.

2e
2x
+e
x
e
2x
+e
x
+3
dx =

2e
x
+1
e
2x
+e
x
+3
e
x
dx

2e
2x
+e
x
e
2x
+e
x
+3
dx
f(x) =
2e
x
+1
e
2x
+e
x
+3
; g(x) = log x Fazendo a substituição x = log u,
H(x) =

f(g(x))g

(x) dx =

2x+1
x
2
+x+3
dx = dx =
1
u
du, temos
= log(x
2
+x + 3)

2u
2
+u
u
2
+u+3
1
u
du =
2u+1
u
2
+u+3
du =

f(x)dx = H(g
−1
(x)) = log(e
2x
+e
x
+ 3). = log(u
2
+u + 3).

2e
2x
+e
x
e
2x
+e
x
+3
dx = log(e
2x
+e
x
+ 3)
3.

1

x
2
−1
dx
Fazendo x = sec u, dx = sec u tg udu, vem

1
tg u
sec utg udu =

sec udu = log [ sec u + tg u[

1

x
2
−1
dx = log [x +

x
2
−1[
4.

1
x

1−x
2
dx
Fazendo x = sen u, dx = cos udu, vem

1
sen u cos u
cos udu =

cosec udu = log [ cosec u −cotg u[

1
x

1−x
2
dx = log [
1
x


1−x
2
x
[
5.

log(

1 +x
2
)dx
Fazendo x = tg u, dx = sec
2
udu, vem

log [sec u[. sec
2
udu = log(sec u). tg u −

sec utg u
sec u
tg udu = log(sec u). tg u −

tg
2
u = log(sec u). tg u +u −tg u

log(

1 +x
2
)dx = xlog(

1 +x
2
) +
arctgx −x
6.

1

1+e
x
dx
Fazendo u =

1 +e
x
, x = log(u
2
−1), dx =
2u
u
2
−1
du vem

1
u
.
2u
u
2
−1
du =

2
(u−1)(u+1)
du =

(
1
u−1

1
u+1
)du = log [
u−1
u+1
[

1

1+e
x
dx = log

1+e
x
+1

1+e
x
−1
7.


16−x
2
x
4
dx
Fazendo x = 4 sen u, dx = 4 cos u, vem

4 cos u
4
4
sen
4
u
.4 cos udu =
1
16

cotg
2
ucosec
2
udu = −
cotg
3
u
48


16−x
2
x
4
dx = −
(

16−x
2
)
3
48x
3
5.3.4 Primitivação de funções racionais
Vamos agora ver como calcular primitivas de funções racionais, isto é, de funções que são o quociente de duas funções
polinomiais. Observemos primeiro que dados dois polinómios P e Q, com Q não nulo, existem polinómios P
1
e R,
R polinómio nulo ou então grau de R menor do que o grau de Q, tais que P = P
1
Q + R. Então

P(x)
Q(x)
dx =

(P
1
(x) +
R(x)
Q(x)
)dx =

P
1
(x) dx +

R(x)
Q(x)
dx. Uma vez que já vimos como se determinam primitivas de funções
polinomiais, basta agora ver o modo de calcular primitivas de funções racionais em que o grau do numerador é menor
do que o grau do denominador.
Vejamos primeiro alguns casos particulares.
Exemplos:
92 CAPÍTULO 5. INTEGRAIS E PRIMITIVAS
1.

1
x+5
dx = log [x + 5[
2.

1
(x−1)
4
dx = −
1
3(x−1)
3
3.

1
(x−a)
n
dx =

log [x −a[ se n = 1

1
(n−1)(x−a)
n−1
se n > 1
4.

1
x
2
+4
dx =
1
4

1
(x/2)
2
+1
dx =
1
2
arctg
x
2
5.

1
x
2
−2x+10
dx =

1
(x−1)
2
+9
dx =
1
9

1
(
x−1
3
)
2
+1
dx =
1
3
arctg
x−1
3
6.

1
x
2
−4x+6
=

1
(x−2)
2
+2
dx =
1
2

1
(
x−2

2
)
2
+1
dx =
1

2
arctg
x−2

2
7. Se a
2
−4b < 0, então

1
x
2
+ax+b
dx =

1
(x−a/2)
2
+b−a
2
/4
dx =
1
b−a
2
/4

1
(
x−a/2

b−a
2
/4
)
2
+1
dx =
1

b−a
2
/4
arctg(
x−a/2

b−a
2
/4
)
8. Para n > 1,

1
(x
2
+ 1)
n
dx =

x
2
+ 1 −x
2
(x
2
+ 1)
n
dx =

(
1
(x
2
+ 1)
n−1

x
2
(x
2
+ 1)
n
)dx
=

1
(x
2
+ 1)
n−1
dx −

x
2
.
2x
(x
2
+ 1)
n
dx
=

1
(x
2
+ 1)
n−1
dx −(
x
2
.
−1
(n −1)(x
2
+ 1)
n−1

1
2
.
−1
(n −1)(x
2
+ 1)
n−1
dx)
=

1
(x
2
+ 1)
n−1
dx +
x
(2n −2)(x
2
+ 1)
n−1

1
2(n −1)(x
2
+ 1)
n−1
dx
=
2n −3
2n −2

1
(x
2
+ 1)
n−1
dx +
x
(2n −2)(x
2
+ 1)
n−1
(isto é, a partir de uma primitiva de x →
1
(x
2
+1)
n−1
, podemos obter uma primitiva de x →
1
(x
2
+1)
n
; repetindo o
processo n −2 vezes, podemos obter uma primitiva de x →
1
(x
2
+1)
n
a partir de uma primitiva de x →
1
x
2
+1
).
9.

1
(x
2
+4x+5)
3
dx =

1
((x+2)
2
+1)
3
dx
Fazendo a substituição x = u −2, obtemos

1
(u
2
+ 1)
3
du =
3
4

1
(u
2
+ 1)
2
du +
u
4(u
2
+ 1)
2
=
3
4
(
1
2

1
u
2
+ 1
du +
u
2(u
2
+ 1)
) +
u
4(u
2
+ 1)
2
=
3
8
arctgu +
3u
8(u
2
+ 1)
+
u
4(u
2
+ 1)
2
Então

1
(x
2
+4x+5)
dx =
3
8
arctg(x + 2) +
3(x+2)
8((x+2)
2
+1)
+
(x+2)
4((x+2)
2
+1)
2
10. Se a
2
−4b < 0,

1
(x
2
+ax+b)
n
dx =

1
((x+a/2)
2
+b−a
2
/4)
n
dx =
1
(b−a
2
/4)
n

1
((
x+a/2

b−a
2
/4
)
2
+1)
n
dx. Fazendo uma substi-
tuição u =
x+a/2

b−a
2
/4
, obtemos
1
(b−a
2
/4)
n

b −a
2
/4

1
(u
2
+1)
n
du, que se pode calcular como foi visto nos exemplos
anteriores.
11.

2x+3
x
2
+3x+5
dx = log(x
2
+ 3x + 5)
12.

2x−5
(x
2
−5x+10)
3
dx =
−1
2(x
2
−5x+10)
2
13.

2x+5
x
2
−2x+3
dx =

2x−2
x
2
−2x+3
dx + 7

1
x
2
−2x+3
, dx = log(x
2
− 2x + 3) + 7

1
x
2
−2x+3
, dx, e 7

1
x
2
−2x+3
, dx pode-se
calcular como foi visto no exemplo 7.
5.3. PRIMITIVAS 93
14.

2x+7
(x
2
+3x+8)
4
dx =

2x+3
(x
2
+3x+8)
4
dx +

4
(x
2
+3x+8)
4
dx =
−1
3(x
2
+3x+8)
3
+ 4

1
(x
2
+3x+8)
4
dx e

1
(x
2
+3x+8)
4
dx pode-se
calcular como foi visto no exemplo 10.
15. Se a
2
− 4b < 0 e c = 0,

cx+d
(x
2
+ax+b)
n
dx =
c
2

2x+2d/c
(x
2
+ax+b)
n
dx
=
c
2
(

2x+a
(x
2
+ax+b)
n
dx +

2d/c−a
(x
2
+ax+b)
n
). Ora

2x+a
(x
2
+ax+b)
n
dx =

log [x
2
+ax +b[ se n = 1
−1
(n−1)(x
2
+ax+b)
n−1
se n > 1
e

2d/c−a
(x
2
+ax+b)
n
dx pode-se calcular como foi visto no exem-
plo 10.
Pelos exemplos anteriores, vemos como se podem calcular primitivas de funções do tipo x →
1
(x−α)
n
e x →
cx+d
(x
2
+ax+b)
n
, em que a
2
−4b < 0. Resta ver que o cálculo de uma primitiva de qualquer função racional se pode reduzir
a estes casos. Para isso, vamos usar alguns teoremas sobre polinómios que não demonstraremos aqui.
Teorema 5.3.5 Se Q é um polinómio não nulo de coeficientes reais, existem
r, s ∈ N ∪ ¦0¦, a, b
1
, . . . , b
r
, c
1
, . . . , c
s
, d
1
, . . . , d
s
∈ R, β
1
, . . . , β
r
, γ
1
, . . . , γ
s
∈ N,
tais que
Q(x) = a(x −b
1
)
β
1
. . . (x −b
r
)
β
r
(x
2
+c
1
x +d
1
)
γ
1
. . . (x
2
+c
s
x +d
s
)
γ
s
,
em que os b
i
são distintos dois a dois os pares (c
i
, d
i
) são distintos dois a dois e c
2
i
− 4d
i
< 0, i = 1, . . . , s. Esta
representação é única (a menos da ordem dos factores).
Exemplos:
1. x
4
−5x
3
+ 9x
2
−7x + 2 = (x −1)
3
(x −2)
2. x
5
−x
4
−x
3
−11x
2
−8x −12 = (x −3)(x
2
+x + 2)
2
3. x
11
−3x
10
+ 11x
9
−5x
8
+ 29x
7
+ 239x
6
−639x
5
+ 1465x
4
−2184x
3
+ 2808x
2
−2160x + 1296 =
= (x
2
+ 4)
2
(x
2
−2x + 3)
3
(x + 3)
Teorema 5.3.6 Se Q(x) = (x − b
1
)
β
1
. . . (x − b
r
)
β
r
(x
2
+ c
1
x + d
1
)
γ
1
. . . (x
2
+ c
s
x + d
s
)
γ
s
, nas condições do teorema
anterior, e se P é um polinómio de grau menor do que o grau de Q, existem u
i,j
∈ R, 1 ≤ i ≤ r, 1 ≤ j ≤ β
i
e
v
i,j
, w
i,j
∈ R, 1 ≤ i ≤ s, 1 ≤ j ≤ γ
s
, tais que
P(x)
Q(x)
=
u
1,1
x −b
1
+
u
1,2
(x −b
1
)
2
+ +
u
1,β
1
(x −b
1
)
β1
+ +
u
r,1
x −b
r
+ +
u
r,β
r
(x −b
r
)
β
r
+
+
v
1,1
x +w
1,1
x
2
+c
1
x +d
1
+ +
v
1,γ
1
x +w
1,γ1
(x
2
+c
1
x +d
1
)
γ
1
+ +
v
s,1
x +w
s,1
x
2
+c
s
x +d
s
+ +
v
s,γ
s
x +w
s,γ
s
(x
2
+c
s
x +d
s
)
γ
s
.
Esta representação é única (a menos da ordem das parcelas).
Uma vez que já vimos como calcular primitivas de cada uma destas parcelas, está visto como calcular primitivas
de qualquer função racional, desde que se saiba decompor o denominador na forma indicada no teorema 5.3.5.
Exemplos:
1. Existem a, b, c, d ∈ R, tais que
2x
2
+ 3
(x + 1)
3
(x −3)
=
a
x + 1
+
b
(x + 1)
2
+
c
(x + 1)
3
+
d
x −3
.
2. Existem a, b, c, d, e, f, g, h ∈ R, tais que
x
5
+ 3x
2
+ 3
(x
2
+ 2x + 5)
2
(x + 3)
2
(x −1)
2
=
ax +b
x
2
+ 2x + 5
+
cx +d
(x
2
+ 2x + 5)
2
+
e
x + 3
+
f
(x + 3)
2
+
g
x −1
+
h
(x −1)
2
.
3. Existem a, b, c, d, e, f, g, h, i, j, k ∈ R, tais que
x
7
+ 5x + 6
(x
2
+ 1)
3
(x
2
−8x + 19)
2
(x −3)
=
ax +b
x
2
+ 1
+
cx +d
(x
2
+ 1)
2
+
ex +f
(x
2
+ 1)
3
+
gx +h
x
2
−8x + 19
+
ix +j
(x
2
−8x + 19)
2
+
k
x −3
.
94 CAPÍTULO 5. INTEGRAIS E PRIMITIVAS
4. Existem a, b, c, d ∈ R, tais que
x
3
+ 3
x
3
(x + 1)
=
a
x
+
b
x
2
+
c
x
3
+
d
x + 1
.
Resta ver como determinar estes coeficientes.
Exemplos:
1. Existem a, b ∈ R, tais que
4x −9
(x −2)(x −3)
=
a
x −2
+
b
x −3
,
de onde
4x −9
(x −2)(x −3)
=
a(x −3) +b(x −2)
(x −2)(x −3)
=
(a +b)x −3a −2b
(x −2)(x −3)
.
Então

a +b = 4
−3a −2b = −9
, logo a = 1 e b = 3.
4x −9
(x −2)(x −3)
=
1
x −2
+
3
x −3
2. Existem a, b, c, d, e, f, g ∈ R, tais que
5x
6
+ 11x
5
+ 30x
4
+ 33x
3
−62x
2
−220x + 20
(x
2
+ 2x + 5)
2
(x −1)
3
=
ax +b
x
2
+ 2x + 5
+
cx +d
(x
2
+ 2x + 5)
2
+
e
x −1
+
f
(x −1)
2
+
g
(x −1)
3
,
isto é,
5x
6
+ 11x
5
+ 30x
4
+ 33x
3
−62x
2
−220x + 20
(x
2
+ 2x + 5)
2
(x −1)
3
=
=
(a +e)x
6
+ (−a +b + 2e +f)x
5
+ (2a −b +c + 7e + 3f +g)x
4
+ (−10a + 2b −3c +d −4e + 10f + 4g)x
3
(x
2
+ 2x + 5)
2
(x −1)
3
+
+
(13a −10b + 3c −3d −e + 6f + 14g)x
2
+ (−5a + 13b −c + 3d −30e + 5f + 20g)x −5b −d + 25e −25f + 25g
(x
2
+ 2x + 5)
2
(x −1)
3
,
de onde

a +e = 5
−a +b + 2e +f = 11
2a −b +c + 7e + 3f +g = 30
−10a + 2b −3c +d −4e + 10f + 4g = −33
13a −10b + 3c −3d −e + 6f + 14g = −62
−5a + 13b −c + 3d −30e + 5f + 20g = −220
−5b −d + 25e −25f + 25g = 20
, o que implica

a = 0
b = 1
c = 3
d = 0
e = 5
f = 0
g = −4
5x
6
+ 11x
5
+ 30x
4
+ 33x
3
−62x
2
−220x + 20
(x
2
+ 2x + 5)
2
(x −1)
3
=
1
x
2
+ 2x + 5
+
3x
(x
2
+ 2x + 5)
2
+
5
x −1

4
(x −1)
3
3. Cálculo de

−2x
6
−54x
4
−485x
2
−x −1458
(x
2
+ 9)
3
(3x −3)
dx.

−2x
6
−54x
4
−485x
2
−x−1458
(x
2
+9)
3
(3x−3)
dx =
1
3

−2x
6
−54x
4
−485x
2
−x−1458
(x
2
+9)
3
(x−1)
dx
Existem a, b, c, d, e, f ∈ R tais que
−2x
6
−54x
4
−485x
2
−x−1458
(x
2
+9)
3
(3x−3)
=
ax+b
x
2
+9
+
cx+d
(x
2
+9)
2
+
ex+f
(x
2
+9)
3
+
g
(x−1)
. Então −2x
6

54x
4
−485x
2
−x−1458 = (ax+b)(x
2
+9)
2
(x−1)+(cx+d)(x
2
+9)(x−1)+(ex+f)(x−1)+g(x
2
+9)
3
. Para x = 1,
o primeiro membro é −2000 e o segundo é 1000g, logo g = −2. Então (ax+b)(x
2
+9)
2
+(cx+d)(x
2
+9)+ex+f =
(−2x
6
−54x
4
−485x
2
−x−1458+2(x
2
+9)
2
)/(x−1) = x. O coeficiente de x
5
no primeiro membro é a, portanto
a = 0; logo o coeficiente de x
4
no primeiro membro é b, portanto b = 0; logo o coeficiente de x
3
no primeiro
membro é c, portanto c = 0; logo o coeficiente de x
2
no primeiro membro é d, portanto d = 0; conclui-se que
ex +f = x, isto é, e = 1 e f = 0.
Queremos então calcular
1
3

(
x
(x
2
+ 9)
3

2
x −1
)dx,
que é igual a
1
3

(
1
2
.
2x
(x
2
+ 9)
3

2
x −1
)dx = −
1
12
1
(x
2
+ 9)
2

2
3
[x −1[.
5.3. PRIMITIVAS 95
4. Cálculo de

x
4
−x
3
−5x
2
+ 13x −4
x
3
−x
2
−x + 1
dx.

x
4
−x
3
−5x
2
+13x−4
x
3
−x
2
−x+1
dx =

(x +
−4x
2
+12x−4
(x−1)
2
(x+1)
)dx
Existem a, b, c ∈ R tais que
−4x
2
+12x−4
x
3
−x
2
−x+1
=
a
x−1
+
b
(x−1)
2
+
c
x+1
. Então −4x
2
+ 12x −4 = a(x
2
−1) +b(x + 1) +
c(x
2
−2x + 1), de onde

a +c = −4
b −2c = 12
−a +b +c = −4
, logo a = 1, b = 2 e c = −5.

x
4
−x
3
−5x
2
+ 13x −4
x
3
−x
2
−x + 1
dx =

(x +
1
x −1
+
2
(x −1)
2

5
x + 1
)dx =
x
2
2
+ log [x −1[ −
2
x −1
−5 log [x + 1[
Exemplos variados
1.

1
(

x −1)
6
dx
Fazendo a substituição x = u
2
, dx = 2udu, vem

2u
(u−1)
6
du. Existem a, b, c, d, e, f ∈ R tais que
2u
(u−1)
6
=
a
u−1
+
b
(u−1)
2
+
c
(u−1)
3
+
d
(u−1)
4
+
e
(u−1)
5
+
f
(u−1)
6
; esta igualdade implica 2u = a(u − 1)
5
+ b(u − 1)
4
+ c(u −
1)
3
+d(u−1)
2
+e(u−1) +f. Analisando sucessivamente os coeficientes de x
5
, x
4
, x
3
e x
2
do segundo membro,
concluimos que a = b = c = d = 0. É fácil então de ver que e = 2 e f = 2.

2u
(u−1)
6
dx =

2
(u−1)
5
du +

2
(u−1)
6
du = −
2
4(u−1)
4

2
5(u−1)
5

1
(

x −1)
6
dx = −
2
4(

x −1)
4

2
5(

x −1)
5
2.

x
1 + sen x
dx

x(1−sen x)
1−sen
2
x
dx =

(
x
cos
2
x
− x tg x sec x) dx =

x sec
2
xdx −

x tg x sec xdx = x tg x −

tg xdx − (x sec x −

sec x) = x tg x + log [ cos x[ −x sec x + log [ sec x + tg x[.
3.

xlog x

1 +x
2
dx

x log x

1+x
2
dx = (log x)

1 +x
2


1+x
2
x
dx
Fazendo a substituição x = tg t, dx = sec
2
t dt, vem

sec t
tg t
sec
2
t dt =

cosec t sec
2
tdt = cosec t tg t −

−cosec t cotg t tg t dt
= cosec t tg t +

cosec t dt = cosec t tg t + log [ cosec t −cotg t[

xlog x

1 +x
2
dx = (log x)

1 +x
2

1 −x
2
+ log [x[ −log(

1 +x
2
−1)
4.

log
2
xdx
Fazendo a substituição x = e
u
, dx = e
u
du, vem

u
2
e
u
du = u
2
e
u

2ue
u
du = u
2
e
u
−2(ue
u

e
u
du) = u
2
e
u
−2ue
u
+ 2e
u

log
2
xdx = xlog
2
x −2xlog x + 2x
5.

1
e
x
+e
−x
dx
Fazendo a substituição x = log u, dx =
1
u
du, vem

1
u+
1
u
.
1
u
du =

1
u
2
+1
du =
arctgu

1
e
x
+e
−x
dx =
arctge
x
96 CAPÍTULO 5. INTEGRAIS E PRIMITIVAS
6.

1
(x
2
−1)
3/2
dx
Fazendo a substituição x = sec t, dx = sec t tg t dt, vem

1
tg
3
t
. sec t tg t dt =

sec t
tg
2
t
dt =

cosec t cotg t =
−cosec t

1
(x
2
−1)
3/2
dx =
−x

x
2
−1
7.

x
5
arctgx
2
dx
Fazendo a substituição x =

u, dx =
1
2

u
du, vem

u
2

u(
arctgu)
1
2

u
du =
1
2

u
2
arctgudu =
u
3
6
arctgu −
1
6

u
3
1 +u
2
du
=
u
3
6
arctgu −
1
6

u −
u
1 +u
2
du =
u
3
6
arctgu −
u
2
12
+
1
6
log(1 +u
2
)

x
5
arctgx
2
dx =
x
6
6
arctgx
2

x
4
12
+
1
12
log(1 +x
2
)
8.

1
x −x
3/5
dx
Fazendo a substituição x = u
5
, dx = 5u
4
du, vem

1
u
5
−u
3
.5u
4
du = 5

u
u
2
−1
du.
Existem a, b ∈ R tais que
u
u
2
−1
=
a
u−1
+
b
u+1
; esta igualdade implica a +b = 1 e a −b = 0, de onde a = b = 1/2.
Então 5

u
u
2
−1
du =
5
2

(
1
u−1
+
1
u+1
) du =
5
2
(log [u −1[ + log [u + 1[).

1
x −x
3/5
dx =
5
2
(log [
5

x −1[ + log [
5

x + 1[)
9.


x
3
−2
x
dx
Fazendo a substituição x =
3

u + 2, dx =
1
3
3

(u+2)
2
du, vem


u
3(u+2)
du; fazendo a substituição u = t
2
, du =
2t dt, vem

t
3(t
2
+ 2)
2t dt =
2
3

t
2
t
2
+ 2 dt =
2
3

1 −
2
t
2
+ 2
dt
=
2t
3

2
3

1
(t/

2)
2
+ 1
dt =
2t
3


2
arctg
t

2
5.4. RESOLUÇÃO DE ALGUNS EXERCÍCIOS 97
Então


u
3(u+2)
du =
2

u
3

2

2
3
arctg

u/2.


x
3
−2
x
dx =
2
3

x
3
−2 −
2

2
3
arctg

x
3
−2
2
10.

arcsen
2
xdx
Fazendo a substituição x = sen u, dx = cos udu, vem

u
2
cos udu = u
2
sen u −

2usen udu = u
2
sen u −2(−ucos u −

−cos udu)
= u
2
sen u + 2ucos u −2 sen u

arcsen
2
xdx = x arcsen
2
x + 2

1 −x
2
arcsen x −2x
5.4 Resolução de alguns exercícios
1. Calcular a área dos seguintes conjuntos.
(a) A região limitada pelo gráfico da função x → x
2
+ 1, as rectas de equações x = −3 e x = 3 e o eixo das
abcissas.
(b) A intersecção das regiões limitadas pelo gráfico da função x → x
3
−3x
2
+3x −2 e o eixo das abcissas com
o conjunto ¦(x, y) ∈ R
2
; 0 ≤ x ≤ 3¦.
(c) A intersecção das regiões entre os gráficos das funções x → sen x e x → cos x −1 com o conjunto ¦(x, y) ∈
R
2
; 0 ≤ x ≤ 2π¦.
(d) O interior da elipse de equação x
2
/a
2
+y
2
/b
2
= 1.
(e) ¦(x, y) ∈ R
2
; 0 ≤ x, 1 ≤ xy, x +y ≤ 5/2¦
(f) ¦(x, y) ∈ R
2
; x ≤ 1, 1 ≤ x +y, y ≤ 2
x
¦
a)

3
−3
(x
2
+ 1) dx = [
x
3
3
+x]
3
−3
= 24
b) −

2
0
(x
3
−3x
2
+ 3x −2) dx +

3
2
(x
3
−3x
2
+ 3x −2) dx = −[x
4
/4 −3x
3
/3 + 3x
2
/2 −2x]
2
0
+ [x
4
/4 −3x
3
/3 +
3x
2
/2 −2x]
3
2
= 19/4
c)

3π/2
0
sen x−(cos x−1) dx+


3π/2
cos x−1−sen xdx = [−cos x−sen x+x]
3π/2
0
+[sen x−x−cos x]

3π/2
= 4+π
d) 2

a
−a
b

1 −x
2
/a
2
dx = 2b/a

a
−a

a
2
−x
2
dx
Cálculo de

a
2
−x
2
dx: fazendo a substituição x = a sen u, dx = a cos udu, vem

a cos u.a cos udu =
a
2

1+cos 2u
2
du = a
2
(
u
2
+
sen 2u
4
)

a
−a

a
2
−x
2
dx = a
2
[
1
2
arcsen
x
a
+
x
2a

1 −x
2
/a
2
]
a
−a
= πa
2
/2
área = πab
e)

2
1/2
(
5
2
−x −
1
x
) dx = [
5x
2

x
2
2
−log x]
2
1/2
=
15
8
−log 4
f)

1
0
(2
x
−1 +x) dx =

1
0
(e
x log 2
−1 +x) dx = [
1
log 2
2
x
−x +x
2
/2]
1
0
=
1
log 2

1
2
a)
12
10
8
6
4
2
4 3 2 1 -4 -3 -2 -1
b)
7
6
5
4
3
2
1
-2
-1
4 3 2 1
c)
2 0
98 CAPÍTULO 5. INTEGRAIS E PRIMITIVAS
d)
b
a
e)
2
1
2 1
f)
1
2
3
4
1 2
2. Um objecto parte de um ponto numa recta e durante um segundo desloca-se com velocidade dada por v(t) =
v
0
−(2v
0
−2 −2sen (πv
0
))t, em que v
0
é a velocidade inicial e 0 < v
0
≤ 1.
a) Qual é a distância percorrida até ao instante t?
b) Para que velocidade inicial é que a distância total percorrida é máxima?
a) A velocidade é sempre positiva, portanto a distância percorrida no instante t é x(t) =

t
0
v(u) du = v
0
t −(v
0

1 −sen (πv
0
))t
2
.
b) A distância total percorrida é x(1) = 1 +sen (πv
0
); é máxima quando sen (πv
0
) = 1, isto é, quando v
0
= 1/2.
3. Um objecto desloca-se numa recta e a sua velocidade no instante t é v(t) = sen t. Qual é a
a) posição do objecto no instante t?
b) a distância percorrida até ao instante t?
a)

t
0
v(u) du =

t
0
sen udu = 1 −cos t.
b)

t
0
[v(u)[ du =

t
0
[ sen u[ du = 2k + 1 −(−1)
k
cos t, em que k = [
t
π
].
4. Um objecto deslocando-se com velocidade inicial v
0
tem uma aceleração constante de a no sentido contrário ao
do movimento. Qual é a distância percorrida até o objecto parar?
Tem-se v(t) = v
0
−at, logo o objecto para no instante t = v
0
/a. Então a distância percorrida é

v
0
/a
0
v(t) dt =

v
0
/a
0
v
0
−at =
v
2
0
a
−a
v
2
0
2a
2
=
v
2
0
2a
5.5 Integrais impróprios
Quando foi introduzida a noção de integral, foi-o apenas para funções limitadas cujo domínio é um intervalo limitado.
Vamos agora ver como a podemos generalizar a funções definidas em intervalos não limitados e não necessariamente
limitadas.
Definição 5.5.1 1. Seja f : [a, +∞[−→R uma função que é integrável em qualquer intervalo [a, b], b ∈ [a, +∞[.
Diz-se que o integral impróprio

+∞
a
f(x) dx existe (ou que converge), sse existir e for finito lim
x→+∞

x
a
f(t) dt;
nesse caso, escreve-se

+∞
a
f(x) dx = lim
x→+∞

x
a
f(t) dt.
2. Seja f :] −∞, b] −→R uma função que é integrável em qualquer intervalo [a, b], a ∈]−∞, b]. Diz-se que o integral
impróprio

b
−∞
f(x) dx existe (ou que converge), sse existir e for finito lim
x→−∞

b
x
f(t) dt; nesse caso, escreve-se

b
−∞
f(x) dx = lim
x→−∞

b
x
f(t) dt.
3. Seja f : R −→R uma função que é integrável em qualquer intervalo limitado. Diz-se que o integral impróprio

+∞
−∞
f(x) dx existe (ou que converge) sse convergirem ambos os integrais impróprios

0
−∞
f(x) dx e

+∞
0
f(x) dx;
nesse caso, escreve-se

+∞
−∞
f(x) dx =

+∞
0
f(x) dx +

0
−∞
f(x) dx.
Proposição 5.5.2 (trivial)
5.5. INTEGRAIS IMPRÓPRIOS 99
1.

+∞
−∞
f(x) dx converge sse existe a ∈ R tal que

a
−∞
f(x) dx e

+∞
a
f(x) dx convergem, e, nesse caso, tem-se

+∞
−∞
f(x) dx =

a
−∞
f(x) dx +

+∞
a
f(x) dx.
2.

+∞
−∞
f(x) dx converge sse para qualquer a ∈ R,

a
−∞
f(x) dx e

+∞
a
f(x) dx convergem, e, nesse caso, tem-se

+∞
−∞
f(x) dx =

a
−∞
f(x) dx +

+∞
a
f(x) dx.
Exemplos:
1. f: [1, +∞[ −→ R
x → 1/x
2
lim
x→+∞

x
1
1
t
2
dt = lim
x→+∞
(1 −1/x) = 1

+∞
1
f(x) dx = 1
2. f: [−1, +∞[ −→ R
x → xe
−x
lim
x→+∞

x
−1
te
−t
dt = lim
x→+∞
[−te
−t
−e
−t
]
x
−1
= lim
x→+∞
(−x/e
x
−1/e
x
−(e −e)) = 0

+∞
−1
f(x) dx = 0
3. f: ] −∞, −4] −→ R
x → 1/

−x
lim
x→−∞

−4
x
1

−t
dt = lim
x→−∞
[−2

−t]
−4
x
= lim
x→−∞
(2

−x −2) = +∞

−4
−∞
f(x) dx não converge.
4. f: [1, +∞[ −→ R
x → 1/x
Para x pertencente a qualquer intervalo do tipo [2
n
, 2
n+1
], tem-se 1/2
n+1
≤ 1/x; conclui-se que

2
n+1
2
n
1
t
dt ≥
(2
n+1
−2
n
)/2
n+1
= 1/2. Então,

2
n
1
1
t
dt ≥ n/2, logo lim
x→+∞

x
1
1
t
dt = +∞, portanto

+∞
1
1
x
dx não converge.
5. f: R −→ R
x → sen x

x
0
sen t dt = 1 − cos x, portanto não existe lim
x→+∞

x
0
f(t) dt; conclui-se que

+∞
0
f(x) dx não converge, logo

+∞
−∞
f(x) dx não converge.
Observação: Para qualquer x ∈ R, tem-se

x
−x
sen t dt = 0, logo lim
x→+∞

x
−x
f(t) dt = 0, mas, apesar disso,

+∞
−∞
f(x) dx não converge.
6. f: R −→ R
x →

x + 4 se x ≤ 0
−x + 4 se x ∈ [0, 4]
x −4 se x ≥ 4
lim
x→+∞

x
0
f(t) dt =

4
0
(−t + 4)dt + lim
x→+∞

x
4
(t −4)dt = lim
x→+∞
(8 +x
2
/2 −4x + 8) = +∞; conclui-se que

+∞
0
f(x) dx não converge, portanto

+∞
−∞
f(x) dx não converge.
Observação:
lim
x→+∞

x
−x
f(t) dt = lim
x→+∞
(

0
−x
(t + 4)dt +

4
0
(−t + 4)dt +

x
4
(t −4)dt) = lim
x→+∞
−x
2
/2 + 4x + 8 +x
2
/2 −4x + 8 =
16, mas, apesar disso,

+∞
−∞
f(x) dx não converge.
100 CAPÍTULO 5. INTEGRAIS E PRIMITIVAS
7. f: R −→ R
x →
1
1+x
2
lim
x→+∞

x
0
1
1 +t
2
dt = lim
x→+∞
arctgx = π/2; lim
x→−∞

0
x
1
1 +t
2
dt = lim
x→−∞
−arctgx = π/2.
Então

+∞
0
1
1+x
2
dx = π/2 e

0
−∞
1
1+x
2
dx = π/2, portanto

+∞
−∞
1
1+x
2
dx = π.
8. f: [1, +∞[ −→ R
x → x
r
, r = −1

x
1
t
r
dt =
x
r+1
r+1

1
r+1
Se r > −1, então lim
x→+∞
(
x
r+1
r + 1

1
r + 1
) = +∞, portanto

+∞
1
x
r
dx não converge;
se r < −1, então lim
x→+∞
(
x
r+1
r + 1

1
r + 1
) =
−1
r+1
, logo

+∞
1
x
r
dx converge para
−1
r+1
.
9. f: [2, +∞[ −→ R
x →
1
x log x
lim
x→+∞

x
2
1
t log t
dt = lim
x→+∞
[log(log t)]
x
2
= lim
x→+∞
(log(log x) −log(log 2)) = +∞, logo

+∞
2
1
x log x
dx não con-
verge.
Proposição 5.5.3
1. Se

+∞
a
f(x) dx (resp.

a
−∞
f(x) dx,

+∞
−∞
f(x) dx) e

+∞
a
g(x) dx (resp.

a
−∞
g(x) dx,

+∞
−∞
g(x) dx) conver-
gem, então

+∞
a
(f + g)(x) dx (resp.

a
−∞
(f + g)(x) dx,

+∞
−∞
(f + g)(x) dx) converge, e

+∞
a
(f + g)(x) dx =

+∞
a
f(x) dx+

+∞
a
g(x) dx (resp.

a
−∞
(f+g)(x) dx =

a
−∞
f(x) dx+

a
−∞
g(x) dx,

+∞
−∞
(f+g)(x) dx =

+∞
−∞
f(x) dx+

+∞
−∞
g(x) dx).
2. Se

+∞
a
f(x) dx (resp.

a
−∞
f(x) dx,

+∞
−∞
f(x) dx) e

+∞
a
g(x) dx (resp.

a
−∞
g(x) dx,

+∞
−∞
g(x) dx) convergem,
então

+∞
a
(cf)(x) dx (resp.

a
−∞
(cf)(x) dx,

+∞
−∞
(cf)(x) dx) converge, e

+∞
a
(cf)(x) dx = c

+∞
a
f(x) dx (resp.

a
−∞
(cf)(x) dx = c

a
−∞
f(x) dx,

+∞
−∞
(cf)(x) dx = c

+∞
−∞
f(x) dx).
Demonstração: trivial
Proposição 5.5.4 Sejam f, g : [a, +∞[−→R funções integráveis em qualquer intervalo limitado, tais que ∀x ∈ [a, +∞[:
0 ≤ f(x) ≤ g(x) ou ∀x ∈ [a, +∞[: g(x) ≤ f(x) ≤ 0. Então, se

+∞
a
g(x) dx converge, tambem converge

+∞
a
f(x) dx.
(Tem-se os resultados análogos para f, g :] −∞, a] −→R e f, g : R −→R.)
Demonstração: Vamos supor que ∀x ∈ [a, +∞[: 0 ≤ f(x) ≤ g(x); a demonstração é análoga se ∀x ∈ [a, +∞[: g(x) ≤
f(x) ≤ 0. Sejam F: [a +∞[ −→ R
x →

x
a
f(t) dt
e G: [a +∞[ −→ R
x →

x
a
g(t) dt
; como se tem 0 ≤ f(t) e 0 ≤ g(t),
∀t ∈ [a, +∞[, as funções F e G são crescentes; como ∀t ∈ [a, +∞[, f(t) ≤ g(t), tem-se ∀x ∈ [a, +∞[, F(x) ≤ G(x).
Do facto de G ser crescente e de lim
x→+∞
G(x) =

+∞
a
g(t) dt, conclui-se que ∀x ∈ [a, +∞[: G(x) ≤

+∞
a
g(t) dt, logo
∀x ∈ [a, +∞[: F(x) ≤

+∞
a
g(t) dt. Então F é crescente e majorada, logo existe lim
x→+∞
F(x) e esse limite é finito, isto
é,

+∞
a
f(x) dx converge.
Exemplos:
1.

+∞
2
x
2
+1
x
4
+3
dx converge, porque, para x ≥ 2, tem-se 0 ≤
x
2
+1
x
4
+3

2x
2
x
4
=
2
x
2
; ora

+∞
2
2
x
2
dx converge.
2.

+∞
2
1
x

x log x
dx converge, porque, para x ≥ e, tem-se 0 ≤
1
x

x log x

1
x

x
, e

+∞
e
1
x

x
dx converge; conclui-se
que

+∞
e
1
x

x log x
dx converge, portanto

+∞
2
1
x

x log x
dx converge.
3.

+∞
1
4

x
3

x
2
+
5

x
3
dx não converge, uma vez que
4

x
3

x
2
+
5

x
3

1
3

x
2
+
5

x
3

1
2
3

x
2
e

+∞
1
1
2
3

x
2
não converge.
De maneira análoga, pode-se considerar funções que estão definidas em intervalos limitados mas não são limitadas.
5.5. INTEGRAIS IMPRÓPRIOS 101
Definição 5.5.5 Seja f :]a, b] −→R uma função não limitada tal que para qualquer > 0 f
|[a+,b]
é limitada e
integrável. Diz-se que o integral impróprio

b
a
f(x) dx converge, sse existir e for finito lim
→0
+

b
a+
f(x) dx. Nesse caso
escreve-se

b
a
f(x) dx = lim
→0
+

b
a+
f(x) dx.
(Tem-se a definição análoga para uma função não limitada f : [a, b[−→R.)
Observações:
1. Note que, para uma função limitada ]a, b] −→ R, tal que para qualquer > 0 f
|[a+,b]
é limitada e integrável,
existe sempre lim
→0
+

b
a+
f(x) dx. Este limite é representado por

b
a
f(x) dx.
2. Quando f não é limitada,

b
a
f(x) dx só representa algo quando há o limite indicado. Se aquele limite não
existir, na terminologia tradicional diz-se que “o integral impróprio

b
a
f(x) dx não converge”, embora, nessa
caso,

b
a
f(x) dx não tenha significado.
Exemplos:
1. f: ]0, 8] −→ R
x → 1/
3

x
lim
→0
+

8

1
3

x
dx = lim
→0
+
3
2
(4 −
3

2
) = 6, logo

8
0
1
3

x
dx = 6
2. f: ]0, 1] −→ R
x → 1/x
Uma vez que, para x ∈ [1/2
n+1
, 1/2
n
], se tem 1/x ≥ 1/2
n
, tem-se

1/2
n
1/2
n+1
1
x
dx ≥ 1/2; então

1
1/2
n
1
x
dx ≥ n/2,
logo lim
→0
+

1

1
x
dx = +∞; conclui-se que

1
0
1
x
dx não converge.
3. f: ]0, 1] −→ R
x → x
r
, r = −1

1

x
r
dx =
1
r+1


r+1
r+1
Se r > −1, então lim
→0
+

r+1
r+1
= 0, portanto

1
0
x
r
dx =
1
r+1
. Se r < −1, então lim
→0
+

r+1
r+1
= −∞, portanto

1
0
x
r
dx não converge.
Proposição 5.5.6 Sejam f, g :]a, b] −→R ou f, g : [a, b[−→R e c ∈ R; se

b
a
f(x) dx e

b
a
g(x) dx convergem, então

b
a
(f +g)(x) dx e

b
a
(cf)(x) dx convergem,

b
a
(f +g)(x) dx =

b
a
f(x) dx +

b
a
g(x) dx e

b
a
(cf)(x) dx = c

b
a
f(x) dx.
Demonstração: trivial.
Proposição 5.5.7 Sejam f, g :]a, b] −→R funções tais que ∀x ∈]a, b] : 0 ≤ f(x) ≤ g(x) ou ∀x ∈]a, b] : g(x) ≤ f(x) ≤
0. Então, se

b
a
g(x) dx converge, tambem converge

b
a
f(x) dx. (Tem-se um resultado análogo para f, g : [a, b[−→R.)
Demonstração: Análoga à do caso de funções definidas num intervalo não limitado.
Definição 5.5.8 Sejam A =]a
0
, a
1
[∪]a
1
, a
2
[∪. . . ∪]a
n−1
, a
n
[ em que a
i
∈ R ∪ ¦−∞, +∞¦, e f : A −→R tais que f é
limitada e integrável em qualquer intervalo [a, b], a, b ∈ R contido em A; sejam b
1
, . . . , b
n
, tais que b
i
∈]a
i−1
, a
i
[. Diz-se
que o integral

a
n
a
0
f(x)dx existe sse existirem todos os integrais

b
1
a
0
f(x)dx,

a
1
b
1
f(x)dx,. . . ,

b
n
a
n−1
f(x)dx

a
n
b
n
f(x)dx.
Nesse caso escreve-se

a
n
a
0
f(x)dx =

b
1
a
0
f(x)dx +

a
1
b
1
f(x)dx + +

a
n
b
n
f(x)dx.
Exemplos:
102 CAPÍTULO 5. INTEGRAIS E PRIMITIVAS
1. f: ]0, +∞[ −→ R
x →

1/

x se x ≤ 1
1/x
2
se x ≥ 1

+∞
1
f(x)dx = lim
x→+∞

x
1
1
t
2
dt = 1;

1
0
f(x)dx = lim
→0
+

1

1

x
dx = 2
Logo

+∞
0
f(x)dx = 3.
2. f: R ` ¦−1, 1¦ −→ R
x →

1
x
2

−x−1
se x < −1
1

1−x
2
se −1 < x < 1
1
x
2

x−1
se 1 < x

+∞
−∞
f(x)dx converge sse convergirem

−2
−∞
1
x
2

−x−1
dx,

−1
−2
1
x
2

−x−1
dx,

0
−1
1

1−x
2
dx,

1
0
1

1−x
2
dx,

2
1
1
x
2

x−1
dx
e

+∞
2
1
x
2

x−1
dx.
Para x ≤ −2, tem-se −x − 1 > 1, logo 0 ≤
1
x
2

−x−1

1
x
2
; como

−2
−∞
1
x
2
dx converge, conclui-se que

−2
−∞
1
x
2

−x−1
dx converge. Para −2 ≤ x ≤ −1, tem-se 0 ≤
1
x
2

−x−1

1

−x−1
; como

−1
−2
1

−x−1
dx, converge,
conclui-se que

−1
−2
1
x
2

−x−1
dx, converge. Como lim
→0
+

0
−1+
1

1 −x
2
dx = lim
→0
+
(−arcsen (−1+)) = π/2, conclui-
se que

0
−1
1

1−x
2
dx converge. De maneira análoga se conclui que

1
0
1

1−x
2
dx,

2
1
1
x
2

x−1
dx e

+∞
2
1
x
2

x−1
dx
convergem; portanto

+∞
−∞
f(x)dx converge.
3. Sejam a > 0 e f: ]0, +∞[ −→ R
x → e
−x
x
a−1
. Vamos ver que

+∞
0
f(x)dx converge.
Suponhamos primeiro que a ≥ 1. Tem-se e
−x
x
a−1
=
x
a−1
e
x/2
e
x/2
; como lim
x→+∞
x
a−1
/e
x/2
= 0, existe R > 0 tal que
x > R ⇒ x
a−1
/e
x/2
< 1, de onde x > R ⇒ x
a−1
/e
x
< 1/e
x/2
; como

+∞
R
e
−x/2
dx converge, conclui-se que

+∞
R
e
−x
x
a−1
dx converge, e, portanto,

+∞
0
e
−x
x
a−1
dx tambem converge.
Suponhamos agora que 0 < a < 1; é preciso verificar que

+∞
1
e
−x
x
a−1
dx converge e que

1
0
e
−x
x
a−1
dx converge.
Para x ≥ 1, e
−x
x
a−1
≤ e
−x
, e

+∞
1
e
−x
dx converge, portanto

+∞
1
e
−x
x
a−1
dx converge. Para 0 < x ≤ 1, tem-se
e
−x
x
a−1
≤ x
a−1
/e, e

1
0
x
a−1
/e dx converge, portanto

1
0
e
−x
x
a−1
dx converge.
Observação: Pode-se então definir uma função Γ : ]0, +∞[ −→ R
a →

+∞
0
e
−x
x
a−1
dx
. Integrando por partes,
vamos ver que Γ(a + 1) = aΓ(a):
Γ(a + 1) =

+∞
0
e
−x
x
a
dx =

1
0
e
−x
x
a
dx +

+∞
1
e
−x
x
a
dx
= lim
→0
+

1

e
−x
x
a
dx + lim
x→+∞

x
1
e
−t
t
a
dt
= lim
→0
+
([−e
−x
x
a
]
1

1

−ae
−x
x
a−1
dx) + lim
x→+∞
([−e
−t
t
a
]
x
1

x
1
−ae
−t
t
a−1
dt)
= −1/e + lim
→0
+

1

ae
−x
x
a−1
dx + 1/e + lim
x→+∞

x
1
ae
−t
t
a−1
dt
= a

1
0
e
−x
x
a−1
dx +a

+∞
1
e
−x
x
a−1
dx = a

+∞
0
e
−x
x
a−1
dx = a Γ(a)
Por outro lado, Γ(1) =

+∞
0
e
−x
dx = 1; conclui-se que, para n ∈ N,
Γ(n) = (n −1)Γ(n −1) = (n −1)(n −2)Γ(n −2) = . . . = (n −1)!.
4. f: R
+
−→ R
x →
log x
x
5.5. INTEGRAIS IMPRÓPRIOS 103

log x
x
dx =
log
2
x
2
lim
x→+∞

x
1
log t
t
dt = lim
x→+∞
log
2
x
2
= +∞
lim
→0
+

1

log t
t
dt = lim
→0
+

log
2

2
= −∞
Conclui-se que

+∞
1
log x
x
dx não converge e

1
0
log x
x
dx não converge;

+∞
0
log x
x
dx não converge.
5. f: R
+
−→ R
x →
log x
x

x
Para x < 1/e, tem-se log x < −1, logo
log x
x

x
<
−1
x

x
<0. Como

1/e
0
−1
x

x
dx não converge, conclui-se que

1/e
0
log x
x

x
dx não converge, e, portanto,

1
0
log x
x

x
dx não converge.
Por outro lado, lim
x→+∞
log x
4

x
= 0, portanto existe M > 0 tal que x ≥ M ⇒ 0 <
log x
4

x
< 1. Para x ≥ M,
tem-se então 0 <
log x
x

x
<
1
x
4

x
. Como

+∞
M
1
x
4

x
dx converge, conclui-se que

+∞
M
log x
x

x
converge, e, portanto,

+∞
1
log x
x

x
dx converge.

+∞
0
log x
x

x
dx não converge.
6. f: R
+
−→ R
x → x
r
log x
, r = −1
Suponhamos primeiro que r > −1; para x ≥ e, x
r
log x > x
r
> 0, e

+∞
e
x
r
dx não converge, portanto

+∞
e
x
r
log xdx não converge, logo

+∞
1
x
r
log xdx não converge.
Por outro lado, se r > −1, tomemos um α tal que r + 1 > α > 0. Então lim
x→0
+
x
α
log x = 0, e, para x < 1,
tem-se x
α
log x < 0, portanto existe δ > 0 tal que 0 < x < δ ⇒ −1 < x
α
log x < 0. Para x ∈]0, δ[, tem-se então
−x
r−α
< x
r−α
x
α
log x < 0, isto é, −x
r−α
< x
r
log x < 0. Como r −α > −1,

δ
0
−x
r−α
dx converge. Conclui-se
que

δ
0
x
r
log xdx converge, portanto

1
0
x
r
log xdx converge.
Se r < −1, vê-se de maneira análoga que

+∞
1
x
r
log xdx converge e que

1
0
x
r
log xdx não converge.
Conclui-se que

+∞
0
x
r
log xdx não converge, seja qual for o valor de r.
Observação:

+∞
1
x
r
log xdx converge sse

+∞
1
x
r
dx converge;

1
0
x
r
log xdx converge sse

1
0
x
r
dx converge.
104 CAPÍTULO 5. INTEGRAIS E PRIMITIVAS
5.6 Cálculo de comprimentos, volumes e áreas de superfície
5.6.1 Comprimentos de gráficos
Seja f : [a, b] −→R uma função; para cada partição P = ¦t
0
, . . . , t
n
¦ de [a, b], consideremos
c(f, P) =
n
¸
i=1

(f(t
i
) −f(t
i−1
))
2
+ (t
i
−t
i−1
)
2
;
c(f, P) é o comprimento do caminho de (a, f(a)) a (b, f(b)) formado pelos segmentos de recta que unem (t
i−1
, f(t
i−1
))
a (t
i
, f(t
i
)), i = 1, . . . , n (chamaremos a este caminho o caminho poligonal associado a P).
5 4 3 2 1 0
b=t t t t t a=t
O comprimento do gráfico de f entre a e b é, por definição, o supremo (se existir) do conjunto dos comprimentos
de tais caminhos, isto é, c
f
= sup¦c(f, P); P partição de [a, b]¦.
Observação: Da desigualdade triangular conclui-se facilmente que, se P
1
e P
2
são duas partições tais que P
1
⊂ P
2
,
então c(f, P
1
) ≤ c(f, P
2
).
Vamos agora ver que, se f é derivável e tem função derivada contínua, então aquele supremo existe.
Seja P = ¦t
0
, . . . , t
n
¦ uma partição de [a, b]. Então
c(f, P) =
n
¸
i=1

(f(t
i
) −f(t
i−1
))
2
+ (t
i
−t
i−1
)
2
=
n
¸
i=1
(t
i
−t
i−1
)

f(t
i
) −f(t
i−1
)
t
i
−t
i−1

2
+ 1;
existem x
1
, . . . , x
n
, com x
i
∈]t
i−1
, t
i
[, tais que
f(t
i
)−f(t
i−1
)
t
i
−t
i−1
= f

(x
i
), portanto c(f, P) =
¸
n
i=1

(f

(x
i
))
2
+ 1.(t
i

t
i−1
), logo
¸
(

1 + (f

)
2
, P) ≤ c(f, P) ≤
¸
(

1 + (f

)
2
, P). Dada qualquer partição P de [a, b], tem-se
¸
(

1 + (f

)
2
, P) ≤ c(f, P) ≤ c
f
, portanto

b
a

1 + (f

(x))
2
dx ≤ c
f
. Por outro lado, dadas quaisquer partições P, Q,
de [a, b], tem-se c(f, P) ≤ c(f, P∪Q) ≤
¸
(

1 + (f

)
2
, P∪Q) ≤
¸
(

1 + (f

)
2
, Q), portanto c
f

b
a

1 + (f

(x))
2
dx.
Conclui-se que o comprimento do gráfico de f entre a e b existe e é

b
a

1 + (f

(x))
2
dx.
Exemplos:
1. f: [−1/2, 1/2] −→ R
x → x
2
−1
c
f
=

1/2
−1/2

1 + 4x
2
dx =

π/4
−π/4
1
2
sec
3
tdt

sec
3
t dt =

sec t sec
2
t dt = sec t tg t −

sec t tg
2
t dt
= sec t tg t −

sec t(sec
2
t −1)dt
= sec t tg t −

sec
3
t dt +

sec t dt
= sec t tg t −

sec
3
t dt + log [ sec t + tg t[
2

sec
3
t dt = sec t tg t + log [ sec t + tg t[
c
f
=

π/4
−π/4
1
2
sec
3
tdt =
1
4
[sec t tg t + log [ sec t + tg t[]
π/4
−π/4
=

2
2
+
1
4
log

2+1

2−1
5.6. CÁLCULO DE COMPRIMENTOS, VOLUMES E ÁREAS DE SUPERFÍCIE 105
2. f: [4, 8] −→ R
x → x
3/2
−2
c
f
=

8
4

1 + 9x/4 dx = [
9
27
(1 + 9x/4)
3/2
]
8
4
=
8
27
(19

19 −10

10)
3. f: [1, 2] −→ R
x →
x
3
6
+
1
2x
c
f
=

2
1

1 + (
x
2
2

1
2x
2
)
2
dx =

2
1

1 +
x
4
4
+
1
4x
4

1
2
dx
=

2
1
(
x
2
2
+
1
2x
2
) dx =
¸
x
3
6

1
2x

2
1
=
17
12
4. f: [1,

3] −→ R
x →
1
x
c
f
=


3
1

1 +
1
x
2
dx =


3
1

x
2
+ 1
x
dx =

π/3
π/4
sec t
tg t
sec
2
t dt
=

π/3
π/4
sec
2
t cosec t dt = [tg t cosec t]
π/3
π/4
+

π/3
π/4
cosec t dt
= 2 −

2 −[log(cosec t + cotg t)]
π/3
π/4
= 2 −

2 −log(

3) + log(

2 + 1)
5.6.2 Volumes de sólidos de revolução
Na secção anterior, partimos de uma noção de comprimento de linhas poligonais, e estendemo-la a gráficos de funções.
Nesta secção, partiremos de uma noção de volume de uma reunião finita de cilindros de revolução, de interiores
disjuntos, todos com o mesmo eixo, e vamos estendê-la a sólidos de revolução.
Consideremos a região do plano entre o gráfico de uma função positiva f : [a, b] −→R e o eixo dos xx e seja S o
sólido de revolução gerado por essa região rodando em torno do eixo dos xx. Sejam P = ¦t
0
, . . . , t
n
¦ uma partição de
[a, b], m
i
= inf f
|[t
i−1
,t
i
]
e M
i
= sup f
|[t
i−1
,t
i
]
, c
i
o maior cilindro contido na porção de S entre t
i−1
e t
i
, e C
i
o menor
cilindro que contem a porção de S entre t
i−1
e t
i
, como indicados na figura.
i
c
i i-1
t t
i C
i i-1
t t
Se sup¦
¸
n
i=1
volume(c
i
), P partição de [a, b]¦ = inf¦
¸
n
i=1
volume(C
i
), P partição de [a, b]¦, tomamos este valor
como definição do volume V de S.
Para qualquer partição P = ¦t
0
, . . . , t
n
¦, temos então
¸
n
i=1
volume(c
i
) ≤ V ≤
¸
n
i=1
volume(C
i
). Como c
i
tem
raio m
i
e altura t
i
−t
i−1
e C
i
tem raio M
i
e altura t
i
−t
i−1
, conclui-se que
n
¸
i=1
πm
2
i
(t
i
−t
i−1
) ≤ V ≤
n
¸
i=1
πM
2
i
(t
i
−t
i−1
).
Ora m
2
i
= inf f
2
|[t
i−1
,t
i
]
e M
2
i
= sup f
2
|[t
i−1
,t
i
]
, portanto π
¸
(f
2
, P) ≤ V ≤ π
¸
(f
2
, P). Se supusermos f contínua, f
2
tambem o é, logo é integrável, de onde se conclui que existe o volume de S e esse volume é V =

b
a
π(f(x))
2
dx.
Observação: A “definição” dada para volume é bastante artificial; uma definição geral e precisa de volume, para
sólidos quaisquer (de revolução ou não), está fora do âmbito deste curso.
Exemplos:
1. f: [0, 5] −→ R
x → x
2
V = π

5
0
x
4
dx = π[x
5
/5]
5
0
= 625π
106 CAPÍTULO 5. INTEGRAIS E PRIMITIVAS
2. f: [0, a] −→ R
x → rx/a
(volume de um cone de raio r e altura a)
V = π

a
0
r
2
x
2
a
2
dx =
πr
2
a
2
.
a
3
3
=
πr
2
a
3
3. f: [−r, r] −→ R
x →

r
2
−x
2
(volume de uma esfera de raio r)
V = π

r
−r
(r
2
−x
2
) dx = π[r
2
x −x
3
/3]
r
−r
=
4πr
3
3
4. f: [0, π] −→ R
x → sen x
V = π

π
0
sen
2
xdx = π

π
0
1−cos 2x
2
dx =
π
2
2
5. f: [1, 3] −→ R
x → 1/x
V = π

3
1
1
x
2
dx =

3
Observação: Se considerarmos a função f: [1, +∞[ −→ R
x → 1/x
, já vimos que

+∞
1
f(x) dx não converge, isto
é, a área limitada pelo gráfico de f e pelo eixo dos xx é infinita; no entanto,

+∞
1
πf(x)
2
dx = π

+∞
1
1
x
2
dx = π,
ou seja, o volume do sólido de revolução gerado pelo gráfico de f
|[1,x]
tende para π quando x tende para +∞; a
esse limite (finito) é ainda natural chamar o volume do sólido de revolução gerado pelo gráfico de f.
Proposição 5.6.1 Seja f :]a, b[−→R uma função contínua tal que o integral impróprio converge. Então, para qual-
quer x
0
∈ [a, b] a função F: [a, b] −→ R
x →

x
x
0
f(t)dt
é contínua.
Demonstração: O teorema 5.2.13 garante que F é contínua em ]a, b[; resta verificar que é contínua em a e em b.
Ora o integral impróprio

b
a
f(t)dt converge, portanto o integral impróprio

x
0
a
f(t)dt tambem converge, logo existe
lim
→0

x
0
a+
f(t)dt, e este limite (por definição) é igual a

x
0
a
f(t)dt. Mas isso é precisamente o que significa dizer que
F é contínua em a.
Analogamente se verifica que F é contín ua em b.
5.6.3 Áreas de superfície de sólidos de revolução
Comecemos por ver alguns resultados suplementares sobre integrais, de que necessitaremos mais adiante nesta secção.
Proposição 5.6.2 Seja f : [a, b] −→R uma função contínua; para qualquer > 0 existe δ > 0 tal que se P =
¦t
0
, t
1
, . . . , t
n
¦ é uma partição de [a, b] com t
i
−t
i−1
< δ (i = 1, . . . , n), então para quaisquer x
1
, . . . , x
n
, x
i
∈ [t
i−1
, t
i
],
tem-se
[

b
a
f(x)dx −
n
¸
i=1
f(x
i
)(t
i
−t
i−1
)[ < .
Demonstração: Seja > 0; na demonstração de que qualquer função contínua é integrável, foi visto que existe δ > 0
tal que se P = ¦t
0
, t
1
, . . . , t
n
¦ é uma partição de [a, b] com t
i
−t
i−1
< δ (i = 1, . . . , n), então
¸
(f, P) −
¸
(f, P) < .
Sejam P = ¦t
0
, t
1
, . . . , t
n
¦ uma partição nessas condições e x
1
, . . . , x
n
tais que x
i
∈ [t
i−1
, t
i
]; sejam m
i
= inf f
|[t
i−1
,t
i
]
,
M
i
= sup f
|[t
i−1
,t
i
]
. Tem-se m
i
≤ f(x
i
) ≤ M
i
, portanto
¸
(f, P) ≤
n
¸
i=1
f(x
i
)(t
i
−t
i−1
) ≤
¸
(f, P);
por outro lado,
¸
(f, P) ≤

b
a
f(x)dx ≤
¸
(f, P).
De
¸
(f, P) −
¸
(f, P) < conclui-se que
[

b
a
f(x)dx −
n
¸
i=1
f(x
i
)(t
i
−t
i−1
)[ < .
5.6. CÁLCULO DE COMPRIMENTOS, VOLUMES E ÁREAS DE SUPERFÍCIE 107
Observação: É fácil de ver que se x

1
, . . . , x

n
são tambem tais que x

i
∈ [t
i−1
, t
i
], então
[
n
¸
i=1
[f(x
i
) −f(x

i
)[(t
i
−t
i−1
)[ < .

Proposição 5.6.3 Sejam f, g : [a, b] −→R funções contínuas; para qualquer > 0, existe δ > 0 tal que se P =
¦t
0
, t
1
, . . . , t
n
¦ é uma partição de [a, b] com t
i
− t
i−1
< δ (i = 1, . . . , n), então para quaisquer u
1
, v
1
. . . , u
n
, v
n
,
u
i
, v
i
∈ [t
i−1
, t
i
], tem-se
[

b
a
f(x)g(x)dx −
n
¸
i=1
f(u
i
)g(v
i
)(t
i
−t
i−1
)[ < .
Demonstração: Sejam P = ¦t
0
, t
1
, . . . , t
n
¦ uma partição de [a, b], u
1
, v
1
. . . , u
n
, v
n
tais que u
i
, v
i
∈ [t
i−1
, t
i
], e M =
max [f[. Então
[

b
a
f(x)g(x)dx −
n
¸
i=1
f(u
i
)g(v
i
)(t
i
−t
i−1
)[ =
= [

b
a
f(x)g(x)dx −
n
¸
i=1
f(u
i
)g(u
i
)(t
i
−t
i−1
) +
n
¸
i=1
f(u
i
)g(u
i
)(t
i
−t
i−1
) −
n
¸
i=1
f(u
i
)g(v
i
)(t
i
−t
i−1
)[
≤ [

b
a
f(x)g(x)dx −
n
¸
i=1
f(u
i
)g(u
i
)(t
i
−t
i−1
)[ +[
n
¸
i=1
f(u
i
)g(u
i
)(t
i
−t
i−1
) −
n
¸
i=1
f(u
i
)g(v
i
)(t
i
−t
i−1
)[
≤ [

b
a
f(x)g(x)dx −
n
¸
i=1
f(u
i
)g(u
i
)(t
i
−t
i−1
)[ +[
n
¸
i=1
f(u
i
)(g(u
i
) −g(v
i
))(t
i
−t
i−1
)[
≤ [

b
a
f(x)g(x)dx −
n
¸
i=1
f(u
i
)g(u
i
)(t
i
−t
i−1
)[ +M
n
¸
i=1
[g(u
i
) −g(v
i
)[(t
i
−t
i−1
)[
Seja agora > 0; pela proposição anterior, existe δ
1
> 0 tal que se P = ¦t
0
, t
1
, . . . , t
n
¦ é uma partição de
[a, b] com t
i
− t
i−1
< δ
1
(i = 1, . . . , n), então para quaisquer u
1
, . . . , u
n
, u
i
∈ [t
i−1
, t
i
], se tem [

b
a
f(x)g(x)dx −
¸
n
i=1
f(u
i
)g(u
i
)(t
i
−t
i−1
)[ < /2; existe δ
2
> 0 tal que se P = ¦t
0
, t
1
, . . . , t
n
¦ é uma partição de [a, b] com t
i
−t
i−1
< δ
2
(i = 1, . . . , n), então para quaisquer u
1
, v
1
. . . , u
n
, v
n
, u
i
, v
i
∈ [t
i−1
, t
i
], se tem [
¸
n
i=1
[g(u
i
) − g(v
i
)[(t
i
− t
i−1
)[[ <
/(2M). Seja δ = min¦δ
1
, δ
2
¦; se P = ¦t
0
, t
1
, . . . , t
n
¦ é uma partição de [a, b] com t
i
− t
i−1
< δ (i = 1, . . . , n), então
para quaisquer u
1
, v
1
. . . , u
n
, v
n
, u
i
, v
i
∈ [t
i−1
, t
i
], tem-se
[

b
a
f(x)g(x)dx −
n
¸
i=1
f(u
i
)g(v
i
)(t
i
−t
i−1
)[ < /2 +M/(2M) = .

Consideremos uma função continuamente derivável f : [a, b] −→R
+
0
e a superfície de revolução S gerada pelo gráfico
de f quando roda em torno do eixo dos xx; queremos dar sentido à sua área A e saber calculá-la.
Para uma partição P = ¦t
0
, . . . , t
n
¦ de [a, b], consideremos o caminho poligonal associado a P, e seja (P) =
max¦t
i
−t
i−1
, i = 1, . . . , n¦. Quando (P) tende para 0, o comprimento do caminho poligonal tende para o comprimento
da curva (prop. 5.6.2). Cada um dos segmentos desse caminho poligonal, quando roda em torno do eixo dos xx, gera
um cone truncado; o que vamos agora ver, é que a soma das áreas desses cones truncados tende para um certo número
real quando (P) tende para 0; é a esse número que chamaremos a área da superfície de revolução.
i C
i i-1
t t
A área da superfície de um cone truncado em que os raios das bases são r
1
e r
2
e a altura é a, é π(r
2
+
r
1
)

(r
2
−r
1
)
2
+a
2
(basta partir do conhecimento da área de um cone de raio R e altura A – πR

R
2
+A
2
; a
108 CAPÍTULO 5. INTEGRAIS E PRIMITIVAS
área de um cone truncado de altura a e em que os raios das bases são r
1
e r
2
, com r
1
< r
2
, é a área de um cone de
raio r
2
e altura a +a

menos a área de um cone de raio r
1
e altura a

, em que a

/r
1
=
a
r
2
−r
1
).
A área do cone C
i
é então π(f(t
i
) + f(t
i−1
))

(f(t
i
) −f(t
i−1
))
2
+ (t
i
−t
i−1
)
2
. A cada partição P = ¦t
0
, . . . , t
n
¦
associamos a soma das áreas dos cones truncados C
i
, isto é,
A(f, P) =
n
¸
i=1
π(f(t
i
) +f(t
i−1
))

(f(t
i
) −f(t
i−1
))
2
+ (t
i
−t
i−1
)
2
.
Então
A(f, P) = π
n
¸
i=1
(f(t
i
) +f(t
i−1
))(t
i
−t
i−1
)

f(t
i
) −f(t
i−1
)
t
i
−t
i−1

2
+ 1
e existem x
1
, . . . , x
n
, com x
i
∈]t
i−1
, t
i
[ tais que
f(t
i
)−f(t
i−1
)
t
i
−t
i−1
= f

(x
i
), portanto
A(f, P) = π
n
¸
i=1
(f(t
i
) +f(t
i−1
))

(f

(x
i
))
2
+ 1(t
i
−t
i−1
)
= π
n
¸
i=1
f(t
i
)

(f

(x
i
))
2
+ 1(t
i
−t
i−1
) +π
n
¸
i=1
f(t
i−1
)

(f

(x
i
))
2
+ 1(t
i
−t
i−1
).
Observação: Poder-se-ia pensar que (analogamente ao que acontece com os comprimentos), se P
1
⊂ P
2
então
A(f, P
1
) ≤ A(f, P
2
), mas isso não acontece necessariamente.
A soma A(f, P) não é necessariamente
¸
(2πf

f
2
+ 1, P) nem
¸
(2πf

f
2
+ 1, P), nem sequer tem de estar
entre estes valores. No entanto, usando a proposição 5.6.3, vemos que, para partições suficientemente finas, se tem
[

b
a
2πf(x)

f

(x)
2
+ 1 dx −A(f, P)[ tão pequeno quanto se quiser. De facto, seja > 0; pela proposição 5.6.3, existe
δ > 0 tal que se P = ¦t
0
, . . . , t
n
¦ é uma partição de [a, b] em que t
i
−t
i−1
< δ, então para quaisquer u
1
, v
1
, . . . , u
n
, v
n
com u
i
, v
i
∈ [t
i−1
, t
i
] se tem
[
n
¸
i=1
f(u
i
)

(f

(v
i
))
2
+ 1(t
i
−t
i−1
) −

b
a
f(x)

(f

(x))
2
+ 1 dx[ < /2.
Portanto
[A(f, P) −2π

b
a
f(x)

(f

(x))
2
+ 1 dx[ ≤

n
¸
i=1
f(t
i
)

(f

(x
i
))
2
+ 1(t
i
−t
i−1
) −π

b
a
f(x)

(f

(x))
2
+ 1 dx[ +
+[π
n
¸
i=1
f(t
i−1
)

(f

(x
i
))
2
+ 1(t
i
−t
i−1
) −π

b
a
f(x)

(f

(x))
2
+ 1 dx[
< /2 +/2 = .
Tem-se,pois, A =

b
a
2πf(x)

(f

(x))
2
+ 1 dx.
Observações:
1. Se tivessemos pretendido definir a área de uma superfície regular qualquer (de revolução ou não) por um método
análogo ao utilizado para as curvas regulares, seríamos naturalmente levados a considerar triângulos de vértices
na superfície, como os equivalentes aos segmentos de extremos na curva. Só que esta ideia não funciona (sem
cuidados acrescidos), porque enquanto que nas curvas regulares o comprimento dos caminhos poligonais se
aproxima de um valor (que vai ser o comprimento da curva), quando os comprimentos dos segmentos tendem
para 0, no caso das superficies, mesmo simples como um cilindro, não basta exigir que os comprimentos dos
lados dos triângulos tendam para 0 para que as somas das respectivas áreas tendam para algum valor.
2. Para aproximar a área de uma superfície de revolução, utilizámos superfícies de cones truncados e não superfícies
de cilindros; o motivo, intuitivamente, é que a “direcção” da superfície dos cones truncados se aproxima da
“direcção” da superfície, enquanto que isso não acontece com os cilindros (que foram utilizados para aproximar o
volume). Utilizar as áreas de cilindros seria o equivalente a tomar segmentos de recta horizontais para aproximar
5.6. CÁLCULO DE COMPRIMENTOS, VOLUMES E ÁREAS DE SUPERFÍCIE 109
o comprimento do gráfico (ver a figura); ora, qualquer que seja a partição considerada, a soma dos comprimentos
de tais segmentos é b −a.
5 4 3 2 1 0
b=t t t t t a=t
Exemplos:
1. f: [−π/2, π/2] −→ R
x → cos x
A = 2π

π/2
−π/2
cos x

1 + sen
2
xdx = 2π

1
−1

1 +u
2
du
= 2π

π/4
−π/4
sec
3
t dt = π[sec t tg t + log [ sec t + tg t]
π/4
−π/4
= 2

2π +π log

2 + 1

2 −1
2. f: [3, 8] −→ R
x → 2

x
A = 2π

8
3
2

x

1 + 1/xdx = 4π

8
3

x + 1 dx
= [

3
(x + 1)
3/2
]
8
3
= 152π/3
3. f: [1, 2] −→ R
x →
x
3
6
+
1
2x
A = 2π

2
1
(
x
3
6
+
1
2x
)(
x
2
2
+
1
2x
2
) dx = 2π

2
1
(
x
5
12
+
x
4
+
x
12
+
1
4x
3
)dx
= 2π[
x
6
72
+
x
2
6

1
8x
2
]
2
1
= 47π/16
4. f: [1,

3] −→ R
x → 1/x
A = 2π


3
1
1
x

1 +
1
x
2
dx = 2π


3
1

1 +x
2
x
2
dx = 2π

π/3
π/4
sec t
tg
2
t
sec
2
t dt
= 2π

π/3
π/4
sec t cosec
2
t dt = 2π[sec t (−cotg t)]
π/3
π/4
−2π

π/3
π/4
sec t tg t (−cotg t)dt
= 2π[−cosec t]
π/3
π/4
+ 2π

π/3
π/4
sec t dt = 2π(

2 −2/

3 + [log(sec t + tg t)]
π/3
π/4
)
= 2π(

2 −2/

3 + log(2 +

3) −log(

2 + 1)) = 2π(

2 −2/

3 + log
2 +

3

2 + 1
)
Observação: O integral

+∞
1

x

1 + 1/x
2
dx não converge, portanto, sendo f: [1, +∞[ −→ R
x → 1/x
, a área
da superfície de revolução gerada pelo gráfico de f
|[1,x]
tende para +∞ quando x tende para +∞, pelo que é
110 CAPÍTULO 5. INTEGRAIS E PRIMITIVAS
natural dizer que a área da superfície de revolução gerada pelo gráfico de f é infinita, embora, como já vimos, o
volume do sólido correspondente seja finito.
Capítulo 6
Polinómios de Taylor
Como pode ser facilmente constatado a partir das definições rigorosas das funções trigonométricas, exponencial e
logaritmo, dadas em apêndice, o cálculo de valores concretos destas funções é bastante difícil. Em contrapartida, dada
uma função polinomial, é fácil calcular o seu valor em qualquer ponto: trata-se apenas de efectuar um certo número
de multiplicações e somas de números reais. Neste capítulo, veremos como, em certos casos, uma função pode ser
aproximada por polinómios, e veremos como utilizar isso para calcular valores aproximados de funções em pontos do
seu domínio.
6.1 Polinómios de Taylor
Seja f uma função n vezes derivável.
Definição 6.1.1 Chama-se polinómio de Taylor de ordem n em a, da função f, ao polinómio
P
n,a,f
(x) =
n
¸
k=0
a
k
(x −a)
k
,
em que a
k
=
f
(k)
(a)
k!
(no caso de não haver ambiguidade, designaremos este polinómio por P
n,a
).
Observação: O polinómio de Taylor de ordem n em a de f não tem necessariamente grau n, como será visto em
alguns dos seguintes exemplos.
Exemplos:
1. f: R −→ R
x → 3x + 1
P
0,2
(x) = 7; P
0,−1
(x) = −2, P
0,a
(x) = 3a + 1 = f(a); P
1,1
(x) = 3(x − 1) + 4 = 3x + 1; P
1,0
(x) = 3x + 1;
P
1,a
(x) = 3(x − a) + 3a + 1 = f(x); para k ≥ 2, f
(k)
(a) = 0, qualquer que seja a, logo, para n ≥ 1, P
n,a
(x) =
3(x −a) + 3a + 1 = f(x)
2. f: R −→ R
x → x
2
−3x + 5
P
0,0
(x) = 5; P
0,2
(x) = 3; P
0,a
(x) = a
2
−3a+5; P
1,a
(x) = (2a−3)(x−a)+a
2
−3a+5 = (2a−3)x−a
2
+5; P
2,a
(x) =
(x−a)
2
+(2a−3)(x−a)+a
2
−3a+5 = f(x); para n ≥ 2, P
n,a
(x) = (x−a)
2
+(2a−3)(x−a)+a
2
−3a+5 = f(x).
3. f: R −→ R
x → sen x
f

(x) = cos x; f

(x) = −sen x; f

(x) = −cos x; f
(4)
(x) = sen x; . . .
P
1,0
(x) = x; P
2,0
(x) = x; P
3,0
(x) = x −x
3
/6;
P
n,0
(x) =

x −x
3
/3! +x
5
/5! − + (−1)
(n−1)/2
x
n
/n! se n é ímpar
x −x
3
/3! +x
5
/5! − + (−1)
n/2−1
x
n−1
/(n −1)! se n é par
(isto é, P
2n+1,0
(x) = x −x
3
/3! +x
5
/5! − + (−1)
n
x
2n+1
/(2n + 1)! e P
2n+2,0
(x) = P
2n+1,0
(x)).
111
112 CAPÍTULO 6. POLINÓMIOS DE TAYLOR
-6 -4 -2 2 4 6
Polinomios de Taylor do seno de ordens 1 a 3 em 0
-4
-2
2
4
-6 -4 -2 2 4 6
Polinomios de Taylor do seno de ordens 7 a 9 em 0
-4
-2
2
4
P
1,π/4
(x) =

2/2 +

2(x −π/4)/2 = 1 −π/(4

2) +x/

2;
P
4,π/4
(x) =

2/2 +

2(x −π/4)/2 −

2(x −π/4)
2
/4 −

2(x −π/4)
3
/12 +

2(x −π/4)
4
/48 =
=

2
6144−1536π−192π
2
+16π
3

4
12288
+

2
384+96π−12π
2
−π
3
768
x +

2
π
2
+8π−32
128
x
2


2
π+4
48
x
3
+

2
x
4
48
.
-4 -2 2 4 6
Polinomios de Taylor do seno de ordens 1 a 3 em Pi/4
-4
-2
2
4
-4 -2 2 4 6
Polinomios de Taylor do seno de ordens 4 a 5 em Pi/4
-2
-1
1
2
3
4
4. f: R −→ R
x → cos x
f

(x) = −sen x; f

(x) = −cos x; f

(x) = sen x; f
(4)
(x) = cos x; . . .
P
3,0
(x) = 1 −x
2
/2; P
6,0
(x) = 1 −x
2
/2 +x
4
/24 −x
6
/720
P
n,0
(x) =

1 −x
2
/2 +x
4
/4! − + (−1)
n/2
x
n
/n! se n é par
1 −x
2
/2 +x
4
/4! − + (−1)
(n−1)/2
x
n−1
/(n −1)! se n é ímpar
(isto é, P
2n,0
(x) = 1 −x
2
/2 +x
4
/4! − + (−1)
n
x
2n
/(2n)! e P
2n+1,0
(x) = P
2n,0
(x)).
-6 -4 -2 2 4 6
Polinomios de Taylor do cosseno de ordens 1 a 4 em 0
-4
-2
2
4
-6 -4 -2 2 4 6
Polinomios de Taylor do cosseno de ordens 8 a 10 em 0
-2
-1
1
2
3
4
P
5,π/2
(x) = −(x − π/2) + (x − π/2)
3
/6 − (x − π/2)
5
/120 =
1920 π−80 π
3

5
3840
+
−384+48 π
2
−π
4
384
x +
−24 π+π
3
96
x
2
+
8−π
2
48
x
3
+
π
48
x
4

1
120
x
5
;
6.1. POLINÓMIOS DE TAYLOR 113
P
3,π/3
(x) = 1/2 −

3(x − π/3)/2 − (x − π/3)
2
/4 +

3(x − π/3)
3
)/12 =
1
2
+
π
2

3

π
2
36

π
3
108

3
+ (


3
2
+
π
6
+
π
2
12

3
)x + (−
1
4

π
4

3
)x
2
+
1
4

3
x
3
-4 -2 2 4 6
Polinomio de Taylor do cosseno de ordem 5 em Pi/2
-4
-2
2
4
-4 -2 2 4 6
Polinomio de Taylor do cosseno de ordem 3 em Pi/3
-4
-2
2
4
5. f: R −→ R
x → e
x
f
(k)
(x) = e
x
P
n,0
(x) = 1+x+x
2
/2+x
3
/6+ +x
n
/n!; P
n,1
(x) = e+e(x−1) +e(x−1)
2
/2+e(x−1)
3
/6+ +e(x−1)
n
/n!;
P
n,−1
(x) = 1/e + (x + 1)/e + (x + 1)
2
/(2e) + (x + 1)
3
/(6e) + + (x + 1)
n
/(n!e)
-3 -2 -1 1 2 3
Polinomios de Taylor da exponencial de ordens 1 a 3 em 0
-2
2
4
6
8
-3 -2 -1 1 2
Polinomios de Taylor da exponencial de ordens 1 a 4 em -1
1
2
3
6. f: R
+
−→ R
x → log x
f
(k)
(x) = (−1)
k−1
(k −1)!/x
k
P
n,1
(x) = x −1 −
(x−1)
2
2
+
(x−1)
3
3
− +
(−1)
n−1
(x−1)
n
n
;
0.5 1 1.5 2 2.5
Polinomios de Taylor do logaritmo de ordens 3 a 5 em 1
-2
-1
1
0.5 1 1.5 2 2.5
Polinomios de Taylor do logaritmo de ordens 10 a 12 em 1
-2
-1
1
2
114 CAPÍTULO 6. POLINÓMIOS DE TAYLOR
P
n,1/2
(x) = −log 2 + 2(x −1/2) −2(x −1/2)
2
+
8
3
(x −1/2)
3
+ +
(−1)
n−1
2
n
n
(x −1/2)
n
0.5 1 1.5 2 2.5
Polinomios de Taylor do logaritmo de ordens 1 a 4 em 1/2
-4
-3
-2
-1
1
2
3
2 4 6 8
Polinomios de Taylor do logaritmo de ordens 5 a 8 em 3
-2
-1
1
2
3
4
5
7. f: ] −1, +∞[ −→ R
x → log(1 +x)
f
(k)
(x) =
(−1)
k−1
(k−1)!
(1+x)
k
P
n,0
(x) = x −x
2
/2 +x
3
/3 − + (−1)
n−1
x
n
/n
-2 -1 1 2 3
Polinomios de Taylor de log(x+1) de ordens 1 a 12 em 0
-3
-2
-1
1
2
3
8. f: ] −∞, 1[ −→ R
x →
1
1−x
f
(k)
(x) =
k!
(1−x)
k+1
P
n,0
(x) = 1 +x +x
2
+ +x
n
6.1. POLINÓMIOS DE TAYLOR 115
-2 -1.5 -1 -0.5 0.5
Polinomios de Taylor de 1/(1-x) de ordens 1 a 5 em 0
-2
-1
1
2
3
4
2 3 4 5 6
Polinomios de Taylor de 1/(1-x) de ordens 1 a 5 em 3
-2
-1.5
-1
-0.5
0.5
9. f: R −→ R
x →

e
−1/x
2
se x = 0
0 se x = 0
-1.5 -1 -0.5 0.5 1 1.5
0.2
0.4
0.6
0.8
Vamos ver que ∀n ∈ N : f
(n)
(0) = 0.
Comecemos por ver que ∀k ∈ N : lim
x→0
e
−1/x
2
/x
k
= 0.
De facto, lim
x→0
[e
−1/x
2
/x
k
[ = lim
x→0
e
−1/x
2
/[x[
k
= lim
y→+∞
y
k
e
−y
2
= lim
y→+∞
y
k
/e
y
2
, e, usando a regra de
l’Hôpital, vê-se facilmente que lim
y→+∞
y
k
/e
y
2
= 0.
Vamos mostrar agora, por indução, que ∀n ∈ N existe um polinómio P
n
tal que
f
(n)
(x) =

P
n
(1/x)e
−1/x
2
se x = 0
0 se x = 0
.
Tem-se f

(x) =


2
x
3
e
−1/x
2
se x = 0
lim
x→0
e
−1/x
2
x −0
= 0 se x = 0
, portanto a afirmação é verdadeira para n = 1. Suponhamos
agora que é verdadeira para m, isto é, que existem a
0
, a
1
, . . . , a
p
, tais que
f
(m)
(x) =

(a
0
+a
1
/x +a
2
/x
2
+ +a
p
/x
p
)e
−1/x
2
se x = 0
0 se x = 0
;
então, para x = 0, tem-se f
(m+1)
(x) = (−a
1
/x
2
− 2a
2
/x
3
− − pa
p
/x
p+1
)e
−1/x
2

2
x
3
(a
0
+ a
1
/x + a
2
/x
2
+
+a
p
/x
p
)e
−1/x
2
= Q(1/x)e
−1/x
2
, em que Q(x) = −a
1
x
2
−(2a
2
+2a
0
)x
3
−(3a
3
+2a
1
)x
4
+ −2a
p
x
p+3
. Por
outro lado, f
(m+1)
(0) = lim
x→0
f
(m)
(x) −f
(m)
(0)
x −0
= lim
x→0
¸
p
i=0
a
i
x
i
e
−1/x
2
x
=
¸
p
i=0
lim
x→0
a
i
e
−1/x
2
x
i+1
= 0. Conclui-se que
a afirmação é verdadeira para m+ 1.
Como para qualquer n ∈ N se tem f
(n)
(0) = 0, deduz-se que, para qualquer n ∈ N, P
n,0,f
é o polinómio nulo.
116 CAPÍTULO 6. POLINÓMIOS DE TAYLOR
Observações:
1. O gráfico de P
1,a,f
é a recta tangente ao gráfico de f em (a, f(a)).
2. Para k ≤ n, tem-se P
(k)
n,a,f
(a) = f
(k)
(a), isto é, as derivadas de ordem menor ou igual a n de P
n,a,f
em a coincidem
com as derivadas de ordem menor ou igual a n de f em a.
Lema 6.1.2 Se f é uma função polinomial de grau ≤ n, a ∈ R e c
0
, c
1
, . . . , c
n
são tais que f(x) = c
0
+ c
1
(x − a) +
c
2
(x −a)
2
+ +c
n
(x −a)
n
, então, para k ≤ n tem-se P
k,a
(x) = c
0
+c
1
(x −a) +c
2
(x −a)
2
+ +c
k
(x −a)
k
Demonstração: Resulta imediatamente de f(a) = c
0
, f

(a) = c
1
, . . ., f
(k)
(a) = k!c
k
.
Lema 6.1.3 Se f é uma função polinomial de grau ≤ n, então ∀a, x ∈ R : f(x) = P
n,a
(x).
Demonstração: Seja a ∈ R. Existem c
0
, c
1
, . . . , c
n
∈ R tais que f(x) = c
0
+c
1
(x−a)+c
2
(x−a)
2
+ +c
n
(x−a)
n
. Mas
f(a) = c
0
, f

(a) = c
1
, . . ., f
(k)
(a) = k!c
k
,. . . , f
(n)
(a) = n!c
n
, isto é, P
n,a
(x) = c
0
+c
1
(x−a)+c
2
(x−a)
2
+ +c
n
(x−a)
n
.

Observação: Os polinómios de Taylor de uma função f em a podem por vezes ser obtidos por métodos que não são o
da determinação directa das derivadas de f em a; nesse caso, as derivadas de ordem ≤ n em a podem ser determinadas
a partir do polinómio de Taylor de ordem n em a de f, como nos exemplos seguintes.
Exemplos:
1. Seja f tal que P
5,0
(x) = 1 +x+x
2
+x
3
+x
4
+x
5
; então f(0) = 1, f

(0) = 1, f

(0) = 2, f

(0) = 6, f
(4)
(0) = 24
e f
(5)
(0) = 120.
2. Seja f tal que P
3,1
(x) = 2 −(x −1) + (x −1)
3
/2; então f(1) = 2, f

(1) = −1, f

(1) = 0 e f

(1) = 3.
3. Seja f tal que P
4,−1
(x) = 5 − x + x
2
/2 + x
4
/4; então f(−1) = P
4,−1
(−1) = 27/4, f

(−1) = P

4,−1
(−1) = −3,
f

(−1) = P

4,−1
(−1) = 4, f

(−1) = P

4,−1
(−1) = −6 e f
(4)
(−1) = P
(4)
4,−1
(−1) = 6.
4. Seja f tal que P
3,2
(x) = 2 − (x − 1) + (x − 1)
3
/2; então f(2) = P
3,2
(2) = 1/2, f

(2) = P

3,2
(2) = −5/2,
f

(2) = P

3,2
(2) = −4 e f

(2) = P

3,2
(2) = −3.
Observações:
1. O polinómio de Taylor de ordem n em a de f não permite determinar o valor de f nem das suas derivadas em
pontos distintos de a (quando muito, em alguns casos, permitirá calcular valores aproximados de f).
2. O polinómio de Taylor de ordem n em a de f não permite determinar o valor de derivadas de ordem superior a
n em a; por exemplo, as funções exponencial e x −→ 1 +x +x
2
/2 +x
3
/6 +x
4
−x
7
têm os mesmos polinómios
de Taylor de ordem 3 em 0 mas as suas derivadas de ordem ≥ 4 não coincidem.
Definição 6.1.4 Seja n ∈ N ∪ ¦0¦; diz-se que f e g são tangentes de ordem n em a sse lim
x→a
f(x) −g(x)
(x −a)
n
= 0 e
f(a) = g(a).
Proposição 6.1.5 1. Se f e g são tangentes de ordem n em a, então, para qualquer k < n, f e g são tangentes
de ordem k em a.
2. Se f e g são tangentes de ordem n em a, e g e h são tangentes de ordem n em a, então f e h são tangentes de
ordem n em a.
3. Se f e g são funções polinomiais de grau ≤ n e f e g são tangentes de ordem n em algum ponto a, então f e g
coincidem.
Demonstração:
1. Se lim
x→a
f(x) −g(x)
(x −a)
n
= 0 e k < n, então lim
x→a
f(x) −g(x)
(x −a)
k
= lim
x→a
f(x) −g(x)
(x −a)
n
(x −a)
n−k
=
lim
x→a
f(x) −g(x)
(x −a)
n
lim
x→a
(x −a)
n−k
= 0.
6.1. POLINÓMIOS DE TAYLOR 117
2. De lim
x→a
f(x) −g(x)
(x −a)
n
= 0 e lim
x→a
g(x) −h(x)
(x −a)
n
= 0, conclui-se que lim
x→a

f(x) −g(x)
(x −a)
n
+
g(x) −h(x)
(x −a)
n

= 0, isto é,
lim
x→a
f(x) −h(x)
(x −a)
n
= 0.
3. Como já foi visto, f(x) =
n
¸
k=0
b
k
(x−a)
k
e g(x) =
n
¸
k=0
c
k
(x−a)
k
, em que b
k
= f
(k)
(a)/k! e c
k
= g
(k)
(a)/k!. Como
f e g são tangentes de ordem n em a, tem-se lim
x→a
f(x) −g(x)
(x −a)
k
= 0, para k = 0, . . . , n. De lim
x→a
f(x) −g(x) = 0,
conclui-se que lim
x→a
n
¸
k=0
(b
k
−c
k
)(x −a)
k
= 0, isto é b
0
= c
0
. Então f(x) − g(x) =
¸
n
k=1
(b
k
− c
k
)(x − a)
k
. De
lim
x→a
f(x) −g(x)
x −a
= 0, conclui-se que lim
x→a
n
¸
k=1
(b
k
−c
k
)(x −a)
k−1
= 0, isto é b
1
= c
1
. Continuando este processo,
conclui-se que para k ≤ n se tem b
k
= c
k
, isto é f e g coinciddem.
Corolário 6.1.6 Dada uma função f e um ponto a do seu domínio, existe no máximo um polinómio de grau ≤ n que
lhe é tangente de ordem n em a.
Demonstração: trivial
Proposição 6.1.7 Se f é n vezes derivável em a, então f e P
n,a
são tangentes de ordem n em a.
Demonstração: Quer-se mostrar que lim
x→a
f(x) −P
n,a
(x)
(x −a)
n
= 0. Usando n − 1 vezes a regra de l’Hôpital, conclui-
se que basta mostrar que lim
x→a
f
(n−1)
(x) −P
(n−1)
n,a
(x)
n!(x −a)
= 0. Ora lim
x→a
f
(n−1)
(x) −f
(n−1)
(a)
n!(x −a)
= f
(n)
(a)/n!; por ou-
tro lado, lim
x→a
P
(n−1)
n,a
(x) −f
(n−1)
(a)
n!(x −a)
= lim
x→a
P
(n−1)
n,a
(x) −P
(n−1)
n,a
(a)
n!(x −a)
= P
(n)
n,a
(a)/n!; logo lim
x→a
f
(n−1)
(x) −P
(n−1)
n,a
(x)
n!(x −a)
=
f
(n)
(a)−P
(n)
n,a
(a)
n!
= 0.
Das duas proposições anteriores conclui-se que, quando f é n vezes derivável em a, o polinómio de Taylor de ordem
n em a de f é o único polinómio de grau ≤ n que é tangente de ordem n a f em a.
Observações: Em particular, conclui-se que se f é derivável em a, f é tangente em a a um único polinómio de grau
≤ 1 (isto é, o gráfico de f é tangente em (a, f(a)) a uma única recta passando por a: a que tem declive f

(a)). É fácil
de ver que as duas condições anteriores são equivalentes: f é derivável em a sse f é tangente de ordem 1 em a a um
polinómio de grau ≤ 1; no entanto, “f duas vezes derivável em a” é uma condição estritamente mais forte do que “f
é tangente de ordem 2 em a a um polinómio de grau ≤ 2”.
Proposição 6.1.8 Seja f uma função n vezes derivável.
1. Se g é a função definida por g(x) = f(cx), c ∈ R, então P
n,a,g
(x) = P
n,ca,f
(cx).
2. Se g é a função definida por g(x) = f(x
k
), k ∈ N, então P
kn,0,g
(x) = P
n,0,f
(x
k
).
Demonstração:
1. Tem-se g
(k)
(a) = c
k
f
(k)
(ca), portanto
P
n,a,g
(x) =
n
¸
k=0
g
(k)
(a)
k!
(x −a)
k
=
n
¸
k=0
f
(k)
(ca)
k!
c
k
(x −a)
k
=
n
¸
k=0
f
(k)
(ca)
k!
(cx −ca)
k
= P
n,ca,f
(cx).
2. Tem-se lim
x→0
f(x) −P
n,0,f
(x)
x
n
= 0; conclui-se que lim
x→0
f(x
k
) −P
n,0,f
(x
k
)
(x
k
)
n
= 0, uma vez que lim
x→0
x
k
= 0. Seja
P(x) = P
n,0,f
(x
k
); então g e P são tangentes de ordem nk em 0, portanto P = P
kn,0,g
.
Proposição 6.1.9 Sejam f e g funções n vezes deriváveis.
1. P
n,a,f+g
= P
n,a,f
+P
n,a,g
118 CAPÍTULO 6. POLINÓMIOS DE TAYLOR
2. Sejam c
0
, c
1
, . . . , c
2n
tais que P
n,a,f
(x).P
n,a,g
(x) =
¸
2n
k=0
c
k
(x −a)
k
; então P
n,a,f.g
=
¸
n
k=0
c
k
(x −a)
k
3. P
n−1,a,f
(x) = P

n,a,f
(x)
4. Se F é uma primitiva de f, então P
n,a,F
é a primitiva de P
n−1,a,f
que toma o valor F(a) em a.
Demonstração: Seja P
n,a,f
(x) =
¸
n
k=0
a
k
(x −a)
k
e P
n,a,g
(x) =
¸
n
k=0
b
k
(x −a)
k
.
1. Tem-se P
n,a,f
(x) + P
n,a,g
(x) =
¸
n
k=0
(a
k
+ b
k
)(x − a)
k
; ora a
k
=
f
(k)
(a)
k!
e b
k
=
g
(k)
(a)
k!
, portanto a
k
+ b
k
=
f
(k)
(a)
k!
+
g
(k)
(a)
k!
=
(f+g)
(k)
(a)
k!
, isto é, P
n,a,f
+P
n,a,g
é o polinómio de Taylor de ordem n em a de f +g.
2. P
n,a,f
(x).P
n,a,g
(x) =
¸
2n
k=0
c
k
(x−a)
k
, em que c
k
=
¸
i+j=k
a
i
b
j
; para k ≤ n,
¸
i+j=k
a
i
b
j
=
¸
k
i=0
a
i
b
k−i
(isto já
não é necessariamente verdade para k > n (por exemplo, c
n+2
=
¸
i+j=n+2
a
i
b
j
=
¸
n
i=2
a
i
b
n+2−i
). Então, para
k ≤ n, c
k
=
¸
k
i=0
f
(i)
(a)
i!
.
g
(k−i)
(a)
(k−i)!
=
1
k!
¸
k
i=0
k!
i!(k−i)!
f
(i)
(a)g
(k−i)
(a); ora (f.g)
(k)
(a) =
¸
k
i=0
k!
i!(k−i)!
f
(i)
(a)g
(k−i)
(a),
logo conclui-se que c
k
=
fg
(k)
(a)
k!
, isto é,
¸
n
k=0
c
k
(x −a)
k
é o polinómio de Taylor de ordem n em a de f.g.
3. Tem-se (f

)
(k)
(a) = f
(k+1)
(a) = (k +1)!a
k+1
, logo P
n−1,a,f
(x) =
¸
n−1
k=0
(f

)
(k)
(a)
k!
(x−a)
k
=
¸
n−1
k=0
(k+1)!a
k+1
k!
(x−
a)
k
=
¸
n
k=1
ka
k
(x −a)
k−1
= P

n,a,f
(x).
4. Pela alínea anterior, tem-se P
n−1,a,f
(x) = P

n,a,F
(x), portanto P
n,a,F
é uma primitiva de P
n−1,a,f
; por outro
lado, por definição, P
n,a,F
(a) = F(a).
Exemplos:
1. g: R −→ R
x → e
x
3
g(x) = f(x
3
), em que f(x) = e
x
; como P
n,0,f
(x) =
¸
n
k=0
x
k
/k!, conclui-se que P
3n,0,g
(x) =
¸
n
k=0
x
3k
/k!; por
exemplo, P
12,0,g
(x) = 1 +x
3
+x
6
/2 +x
9
/6 +x
12
/24.
2. g: R −→ R
x → cos 5x
g(x) = f(5x), em que f(x) = cos x; como P
2n,0,f
(x) = 1−x
2
/2+ +(−1)
n
x
2n
/(2n)!, conclui-se que P
2n,0,g
(x) =
1 −25x
2
/2 + + (−1)
n
5
2n
x
2n
/(2n)!.
3. f: R −→ R
x →
1
1+x
2
Determinação de P
6,0
(x)
método I
1 = (1 +x
2
)(1 −x
2
+x
4
−x
6
) +x
8
, logo
1
1+x
2
= 1 −x
2
+x
4
−x
6
+
x
8
1+x
2
. Seja P(x) = 1 −x
2
+x
4
−x
6
; tem-se
lim
x→0
1
1+x
2
−P(x)
x
6
= lim
x→0
x
8
x
6
(1 +x
2
)
= 0. Como o único polinómio de grau ≤ 6 que é tangente de ordem 6 a f
em 0 é P
6,0
, conclui-se que P
6,0
= P, isto é, P
6,0
(x) = 1 −x
2
+x
4
−x
6
.
método II
Sejam a
0
, a
1
, a
2
, a
3
, a
4
, a
5
, a
6
tais que P
6,0
(x) =
¸
6
k=0
a
k
x
k
. O polinómio de Taylor de ordem 6 em 0 de x → 1+x
2
é 1 +x
2
; como f(x)(1 +x
2
) = 1, conclui-se que a soma dos termos de grau ≤ 6 de (1 +x
2
)P
6,0
(x) é o polinómio
de Taylor de ordem 6 em 0 da função constante igual a 1, isto é, a
0
+ a
1
x + (a
0
+ a
2
)x
2
+ (a
1
+ a
3
)x
3
+ (a
2
+
a
4
)x
4
+ (a
3
+ a
5
)x
5
+ (a
4
+ a
6
)x
6
= 1, de onde a
0
= 1, a
1
= 0, a
2
= −1, a
3
= 0, a
4
= 1, a
5
= 0, a
6
= −1, ou
seja, P
6,0
(x) = 1 −x
2
+x
4
−x
6
.
Observação: Analogamente se mostra que P
2n,0
(x) = 1 −x
2
+x
4
− + (−1)
n
x
2n
e P
2n+1,0
(x) = P
2n,0
(x).
4. g: R −→ R
x →
1
1+4x
4
g(x) = f(2x
2
), em que f(x) =
1
1+x
2
; como P
2n,0,f
(x) = 1 −x
2
+x
4
+ +(−1)
n
x
2n
, conclui-se que P
4n,0,g
(x) =
1 −4x
4
+ 16x
8
+ + (−1)
n
2
2n
x
4n
; por exemplo, P
8,0,g
(x) = 1 −4x
4
+ 16x
8
.
6.1. POLINÓMIOS DE TAYLOR 119
5. f: R −→ R
x → arctg x
Determinação de P
2n+1,0
(x)
método I
f é a primitiva de g : x →
1
1+x
2
que toma o valor 0 em 0. Então P
2n+1,0,f
(x) é a primitiva de P
2n,0,g
(x)
que toma o valor 0 em 0; como P
2n,0,g
(x) = 1 − x
2
+ x
4
− + (−1)
n
x
2n
, conclui-se que P
2n+1,0,f
(x) =
x −x
3
/3 +x
5
/5 − + (−1)
n
x
2n+1
/(2n + 1).
método II
arctg x =

x
0
1
1 +t
2
dt
=

x
0
(1 −t
2
+t
4
− + (−1)
n
t
2n
+
(−1)
n+1
t
2n+2
1 +t
2
)dt
=

x
0
(1 −t
2
+t
4
− + (−1)
n
t
2n
) dt +

x
0
(−1)
n+1
t
2n+2
1 +t
2
dt
= x −x
3
/3 +x
5
/5 − + (−1)
n
x
2n+1
/(2n + 1) +

x
0
(−1)
n+1
t
2n+2
1 +t
2
dt
Seja P(x) = x −x
3
/3 +x
5
/5 − + (−1)
n
x
2n+1
/(2n + 1). Tem-se
[f(x) −P(x)[ = [

x
0
(−1)
n+1
t
2n+2
1 +t
2
dt[
≤ [

x
0
t
2n
dt[ (porque
t
2n+2
1 +t
2
≤ t
2n+2
)
=
[x[
2n+3
2n + 3
.
Como lim
x→0
x
2n+3
(2n + 3)x
2n+2
= 0, conclui-se que lim
x→0
f(x) −P(x)
x
2n+2
= 0, isto é, f e P são tangentes de ordem 2n +2
em 0, logo P = P
2n+2,0,f
.
P
2n+2,0,f
(x) = x −x
3
/3 +x
5
/5 − + (−1)
n
x
2n+1
/(2n + 1);
P
2n+1,0,f
(x) = x −x
3
/3 +x
5
/5 − + (−1)
n
x
2n+1
/(2n + 1).
-1 -0.5 0.5 1
Polinomios de Taylor de arctg de ordens 1 a 5 em 0
-1
-0.5
0.5
1
-1 -0.5 0.5 1
Polinomios de Taylor de arctg de ordens 11 a 15 em 0
-2
-1
1
2
120 CAPÍTULO 6. POLINÓMIOS DE TAYLOR
-1 1 2 3 4 5
Polinomios de Taylor de arctg de ordens 9 a 13 em 2
1
2
3
-1 1 2 3
Polinomios de Taylor de arctg de ordens 5 a 8 em 1
-1
-0.5
0.5
1
1.5
2
Observações:
a) O segundo método tem a vantagem de dar uma estimativa da diferença f(x) −P(x).
b) A partir dos polinómios de Taylor de arctg em 0, concluimos que
arctg
(k)
(0) =

0 se k é par
(−1)
(k−1)/2
(k −1)! se k é ímpar
6. f: R −→ R
x → e
x
sen x
Determinação de P
3,0
(x)
Sejam P e Q os polinómios de Taylor de ordem 3 em 0 da exponencial e do seno respectivamente. Tem-se
P(x) = x−x
3
/6, Q(x) = 1+x+x
2
/2+x
3
/6 e PQ(x) = x+x
2
+x
3
/3−x
5
/12−x
6
/36, logo P
3,0
(x) = x+x
2
+x
3
/3.
Observação: Não é verdade que P
6,0
(x) = x +x
2
+x
3
/3 −x
5
/12 −x
6
/36.
7. f: R ` ¦0¦ −→ R
x → 1/x
Determinação de P
4,1
(x)
método I
Tem-se f(x) =
1
1+x−1
= 1 −(x −1) +(x −1)
2
−(x −1)
3
+(x −1)
4
−(x −1)
5
/x. Seja P(x) = 1 −(x −1) +(x −
1)
2
−(x −1)
3
+ (x −1)
4
; tem-se lim
x→1
f(x) −P(x)
(x −1)
4
= lim
x→1
−(x −1)
x
= 0, portanto P
4,1
(x) = P(x).
método II
Sejam a
0
, a
1
, a
2
, a
3
, a
4
tais que P
4,1
(x) =
¸
4
k=0
a
k
(x −a)
k
; o polinómio de Taylor de ordem 4 em 1 de x → x é
Q(x) = 1 + (x − 1). Ora P
4,1
(x)Q(x) = a
0
+ (a
0
+ a
1
)(x − 1) + (a
1
+ a
2
)(x − 1)
2
+ (a
2
+ a
3
)(x − 1)
3
+ (a
3
+
a
4
)(x −1)
4
+a
4
(x −1)
5
; então a
0
+ (a
0
+a
1
)(x −1) + (a
1
+a
2
)(x −1)
2
+ (a
2
+a
3
)(x −1)
3
+ (a
3
+a
4
)(x −1)
4
é o polinómio de Taylor de ordem 4 em 1 de x → 1, isto é, a
0
= 1, a
1
= −1, a
2
= 1, a
3
= −1, a
4
= 1.
8. f: R ` ¦3¦ −→ R
x →
1
x−3
Determinação de P
5,1
(x)
f(x) =
1
(x −1) −2
=
−1
2 −(x −1)
=
−1
2(1 −
x−1
2
)
= −
1
2

1 +
x −1
2
+ (
x −1
2
)
2
+ (
x −1
2
)
3
+ (
x −1
2
)
4
+ (
x −1
2
)
5
+
(
x−1
2
)
6
1 −
x−1
2

Seja P(x) = −
1
2

1 +
x−1
2
+ (
x−1
2
)
2
+ (
x−1
2
)
3
+ (
x−1
2
)
4
+ (
x−1
2
)
5

; então lim
x→1
f(x) −P(x)
(x −1)
5
= lim
x→1
−(x −1)
2
7
(1 −
x−1
2
)
=
0. Conclui-se que P
5,1
(x) = P(x).
6.2. MÁXIMOS E MÍNIMOS LOCAIS 121
Determinação de P
4,−2
(x)
f(x) =
1
(x + 2) −5
=
−1
5 −(x + 2)
=
−1
5(1 −
x+2
5
)
= −
1
5

1 +
x + 2
5
+ (
x + 2
5
)
2
+ (
x + 2
5
)
3
+ (
x + 2
5
)
4
+
(
x+2
5
)
5
1 −
x+2
5

Seja P(x) = −
1
5

1 +
x+2
5
+ (
x+2
5
)
2
+ (
x+2
5
)
3
+ (
x+2
5
)
4

; então lim
x→−2
f(x) −P(x)
(x + 2)
4
= lim
x→−2
−(x + 2)
5
6
(1 −
x+2
5
)
= 0.
Conclui-se que P
4,−2
(x) = P(x).
9. f: ] −1, +∞[ −→ R
x →

x
0
log(1 +t) dt
Determinação de P
5,0,f
(x)
f é a primitiva de g: ] −1, +∞[ −→ R
x → log(1 +x)
que toma o valor 0 em 0. Como P
4,0,g
(x) = x − x
2
/2 +
x
3
/3 −x
4
/4, conclui-se que P
5,0,f
(x) = x
2
/2 −x
3
/6 +x
4
/12 −x
5
/20.
10. f: R −→ R
x →

x
0
sen
2
t dt
Determinação de P
6,0,f
(x)
Como P
5,0,sen
(x) = x −x
3
/6 +x
5
/120, conclui-se que P
5,0,sen
2(x) = x
2
−x
4
/3, logo P
6,0,f
(x) = x
3
/3 −x
5
/15.
Determinação de P
6,π,f
(x)
Como P
5,π,sen
(x) = −(x−π) +(x−π)
3
/6−(x−π)
5
/120, conclui-se que P
5,π,sen
2(x) = (x−π)
2
−(x−π)
4
/3, logo
P
6,π,f
(x) = f(π)+(x−π)
3
/3+(x−π)
5
/15 =

π
0
sen
2
t dt+(x−π)
3
/3+(x−π)
5
/15 = π/2+(x−π)
3
/3+(x−π)
5
/15.
11. f: R −→ R
x → x
2
e
x
+ 3
Determinação de P
4,0,f
, P
4,0,f
e P
4,0,F
, em que F é a primitiva de f que toma o valor 2 em 0.
Tem-se P
6,0,f
(x) = 3 +x
2
(1 +x +x
2
/2 +x
3
/6 +x
4
/24) = 3 +x
2
+x
3
+x
4
/2 +x
5
/6 +x
6
/24, logo P
5,0,f
(x)(=
P

6,0,f
(x) = 2x+3x
2
+2x
3
+5x
4
/6+x
5
/4 (de onde P
4,0,f
(x) = 2x+3x
2
+2x
3
+5x
4
/6), e P
4,0,f
(x)(= P

5,0,f
(x) =
2 + 6x + 6x
2
+ 10x
3
/3 + 5x
4
/4.
P
4,0,F
(x) = F(0) +

x
0
P
3,0,f
(t) dt = 2 + 3x +x
3
/3 +x
4
/4.
12. f: R −→ R
x → e
x
cos x
2
Determinação de P
4,0,f
e de P
4,0,f
.
Seja g(x) = cos x
2
; tem-se P
5,0,exp
(x) = 1 + x + x
2
/2 + x
3
/6 + x
4
/24 + x
5
/120 e P
5,0,g
(x) = 1 − x
4
/2, logo
P
5,0,f
(x) = 1 + x + x
2
/2 + x
3
/6 −11x
4
/24 −59x
5
/120 (de onde P
4,0,f
(x) = 1 + x + x
2
/2 + x
3
/6 −11x
4
/24), e
P
4,0,f
(x) = P

5,0,f
(x) = 1 +x +x
2
/2 −11x
3
/6 −59x
4
/24.
6.2 Máximos e mínimos locais
No capítulo 4 foi visto que, se f

(x
0
) = 0 e f

(x
0
) > 0, então f tem um mínimo local em x
0
, enquanto que, se
f

(x
0
) = 0 e f

(x
0
) < 0, então f tem um máximo local em x
0
. Vamos agora ver uma generalização deste resultado.
Proposição 6.2.1 Sejam f :]a, b[−→R e x
0
∈]a, b[ tais que f

(x
0
) = f

(x
0
) = = f
(n−1)
(x
0
) = 0 e f
(n)
(x
0
) = 0.
1. Se n é par e f
(n)
(x
0
) > 0, então f tem um mínimo local estrito em x
0
.
2. Se n é par e f
(n)
(x
0
) < 0, então f tem um máximo local estrito em x
0
.
3. Se n é ímpar, então f não tem um máximo nem um mínimo local em x
0
:
a) se f
(n)
(x
0
) > 0, então f é estritamente crescente em x
0
b) se f
(n)
(x
0
) < 0, então f é estritamente decrescente em x
0
.
122 CAPÍTULO 6. POLINÓMIOS DE TAYLOR
Demonstração: Tem-se P
n,x
0
(x) = f(x
0
)+
f
(n)
(x
0
)
n!
(x−x
0
)
n
; como f e P
n,x
0
são tangentes de ordem n em x
0
, conclui-se
que lim
x→x
0
f(x) −f(x
0
) −
f
(n)
(x
0
)
n!
(x −x
0
)
n
(x −x
0
)
n
= 0, isto é, lim
x→x
0
f(x) −f(x
0
)
(x −x
0
)
n
=
f
(n)
(x
0
)
n!
.
1. Como
f
(n)
(x
0
)
n!
, lim
x→x
0
f(x) −f(x
0
)
(x −x
0
)
n
> 0; então existe δ > 0 tal que 0 < [x − x
0
[ < δ ⇒
f(x)−f(x
0
)
(x−x
0
)
n
> 0; como n é
par, (x −x
0
)
n
> 0, portanto 0 < [x −x
0
[ < δ ⇒ f(x) > f(x
0
), isto é, f tem um mínimo local estrito em x
0
.
2. análoga à anterior.
3. Suponhamos que f
(n)
(x
0
) > 0 (a demonstração é análoga no caso de f
(n)
(x
0
) < 0). Então lim
x→x
0
f(x) −f(x
0
)
(x −x
0
)
n
>
0, portanto existe δ > 0 tal que 0 < [x −x
0
[ < δ ⇒
f(x)−f(x
0
)
(x−x
0
)
n
> 0; como n é ímpar, x < x
0
⇒ (x −x
0
)
n
< 0 e
x > x
0
⇒ (x − x
0
)
n
> 0. Então 0 < x − x
0
< δ ⇒ f(x) − f(x
0
) > 0 e −δ < x − x
0
< 0 ⇒ f(x) − f(x
0
) < 0,
portanto f é estritamente crescente em x
0
.
Exemplos:
1. f: R −→ R
x → x
2
sen x
2
f

(x) = 2xsen x
2
+ 2x
3
cos x
2
; f

(0) = 0
f

(x) = 2 sen x
2
+ 10x
2
cos x
2
−4x
4
sen x
2
; f

(0) = 0
f

(x) = 4xcos x
2
−20x
3
sen x
2
− ; f

(0) = 0
f
(4)
(x) = 4 cos x
2
−8x
2
sen x
2
+ ; f
(4)
(0) = 4 > 0
Logo f tem um mínimo local em 0.
2. f: R −→ R
x → −x
6
+ 12x
5
−60x
4
+ 160x
3
−240x
2
+ 192x + 1
f

(x) = −6x
5
+ 60x
4
−240x
3
+ 480x
2
−480x + 192; f

(2) = 0
f

(x) = −30x
4
+ 240x
3
−720x
2
+ 960x −480; f

(2) = 0
f

(x) = −120x
3
+ 720x
2
−1440x + 960; f

(2) = 0
f
(4)
(x) = −360x
2
+ 1440x −1440; f
(4)
(2) = 0
f
(5)
(x) = −720x + 1440; f
(5)
(2) = 0
f
(6)
(x) = −720; f
(6)
(2) < 0
Logo f tem um máximo local em 2.
3. f: R −→ R
x → e
x
3
f

(x) = 3x
2
e
x
3
; f

(0) = 0
f

(x) = 6xe
x
3
+ 9x
4
e
x
3
; f

(0) = 0
f

(x) = 6e
x
3
+ 18x
3
e
x
3
+ 36x
3
e
x
3
+ 27x
6
e
x
3
; f

(0) = 6
Logo f não tem máximo nem mínimo local em 0.
4. f: R −→ R
x →

e
−1/x
2
se x = 0
0 se x = 0
Neste caso tem-se f
(n)
(0) = 0, para qualquer n, e f tem um mínimo estrito local em 0.
5. f: R −→ R
x →

−e
−1/x
2
se x = 0
0 se x = 0
Neste caso tem-se f
(n)
(0) = 0, para qualquer n, e f tem um máximo estrito local em 0.
6.3. CÁLCULO DE VALORES APROXIMADOS DE FUNÇÕES 123
6. f: R −→ R
x →

e
−1/x
2
se x > 0
0 se x = 0
−e
−1/x
2
se x < 0
Neste caso tem-se f
(n)
(0) = 0, para qualquer n, e f não tem um mínimo local nem um máximo local em 0; de
facto, f é estritamente crescente em 0.
7. f: R −→ R
x →

−e
−1/x
2
se x > 0
0 se x = 0
e
−1/x
2
se x < 0
Neste caso tem-se f
(n)
(0) = 0, para qualquer n, e f não tem um mínimo local nem um máximo local em 0; de
facto, f é estritamente decrescente em 0.
6.3 Cálculo de valores aproximados de funções
O facto de, para cada n fixo, f e P
n,a,f
serem tangentes de ordem n em a, significa que, quando x tende para a, a
diferença entre f e o seu polinómio de Taylor de ordem n em a tende para 0 mais depressa do que (x −a)
n
; nada diz
sobre o grau de aproximação de f pelos polinómios de Taylor num ponto fixado, vizinho de a. Vamos agora ver o que
se passa, quando, para um valor de x = a, consideramos polinómios de Taylor de ordem variável em a.
Definição 6.3.1 Seja f uma função n vezes derivável; o resto de ordem n em a de f é a função R
n,a,f
definida
por R
n,a,f
(x) = f(x) −P
n,a,f
(x).
R
n,a,f
(x) representa o erro que se comete quando se toma P
n,a,f
(x) como aproximação de f(x); o nosso objectivo
agora é ver como podemos majorar esse erro.
Teorema 6.3.2 Seja f uma função n + 1 vezes continuamente derivável e a um ponto do domínio de f. Então
R
n,a,f
(x) =

x
a
f
(n+1)
(t)(x −t)
n
n!
dt.
Demonstração: Como f é uma primitiva de f

, tem-se

x
a
f

(t) dt = f(x) − f(a). Mas

x
a
f

(t) dt =

x
a
−φ(t)ψ

(t) dt,
em que φ(t) = f

(t) e ψ(t) = x −t; integrando por partes, vem
[−f

(t)(x −t)]
t=x
t=a

x
a
−f

(t)(x −t) dt = f

(a)(x −a) +

x
a
f

(t)(x −t) dt.
Então
f(x) −f(a) −f

(a)(x −a) =

x
a
f

(t)(x −t) dt,
isto é, f(x) −P
1,a,f
(x) =

x
a
f

(t)(x −t) dt; ora o primeiro membro é R
1,a,f
(x), portanto está provada a fórmula para
n = 1. Suponhamos agora que f(x) −P
m,a,f
(x) =

x
a
f
(m+1)
(t)(x−t)
m
m!
dt. Integrando por partes, temos

x
a
f
(m+1)
(t)(x −t)
m
m!
dt =
¸
−f
(m+1)
(t)
(x −t)
m+1
(m+ 1)!

t=x
t=a

x
a

f
(m+2)
(t)(x −t)
m+1
(m+ 1)!
dt
=
f
(m+1)
(a)(x −a)
m+1
(m+ 1)!

x
a

f
(m+2)
(t)(x −t)
m+1
(m+ 1)!
dt
Então
f(x) −P
m,a,f
(x) −
f
(m+1)
(a)(x −a)
m+1
(m+ 1)!
=

x
a
f
(m+2)
(t)(x −t)
m+1
(m+ 1)!
dt.
Ora o primeiro membro é R
m+1,a,f
(x), portanto deduzimos a fórmula para n = m+ 1, partindo da sua validade para
n = m.

Exemplos:
124 CAPÍTULO 6. POLINÓMIOS DE TAYLOR
1. f: R −→ R
x → sen x
P
2n+1,0
(x) = P
2n+2,0
(x) = x −x
3
/6 +x
5
/120 + + (−1)
n x
2n+1
(2n+1)!
R
2n+2,0
(x) =

x
0
f
(2n+3)
(t)(x−t)
2n+2
(2n+2)!
dt
Ora [f
(2n+3)
(t)[ = [ cos t[ ≤ 1, portanto [

x
0
f
(2n+3)
(t)(x−t)
2n+2
(2n+2)!
dt[ ≤ [

x
0
(x−t)
2n+2
(2n+2)!
dt[ = [[−
(x−t)
2n+3
(2n+3)!
]
t=x
t=0
[ =
|x
2n+3
|
(2n+3)!
. Como lim
n→+∞
[x
2n+3
[
(2n + 3)!
= 0, conclui-se que R
2n+2,0
(x) se pode tornar tão pequeno quanto se quiser
desde que n seja suficientemente grande.
Cálculo de um valor aproximado de sen(1,5) com erro inferior a 0,001: basta usar um polinómio de Taylor de
ordem 2n + 1 na origem desde que 1,5
2n+3
/(2n + 3)! < 0,001; como, por exemplo, n = 3 está nestas condições,
conclui-se que sen(1,5) = P
7,0
(1,5) +, em que [[ < 0,001; ora P
7,0
(1,5) = 1,5 −1,5
3
/6 + 1,5
5
/120 −1,5
7
/5040,
portanto sen(1,5) = 0,9974 +, com [[ < 0,001.
Cálculo de sen(2) com uma precisão de 0,01: basta usar um polinómio de Taylor de ordem 2n+1 na origem desde
que 2
2n+3
/(2n+3)! < 0,01; como, por exemplo, n = 3 está nestas condições, conclui-se que sen(2) = P
7,0
(2) +,
em que [[ < 0,01; como P
7,0
(2) = 2 −2
3
/6 + 2
5
/120 −2
7
/5040, tem-se sen(2) = 0,908 +, com [[ < 0,01.
Observação: para garantir a mesma precisão, quanto maior em módulo é módulo de x, maior tem de ser n; seja
qual for x, P
n,0
(x) tende para sen x quando n tende para infinito, mas pode-se mostrar que “tende tanto mais
devagar” quanto maior for [x[.
2. f: R −→ R
x → cos x
P
2n,0
(x) = P
2n+1,0
(x) = 1 −x
2
/2 +x
4
/4! − + (−1)
n
x
2n
/(2n)!
R
2n+1,0
(x) =

x
0
f
(2n+2)
(t)(x−t)
2n+1
(2n+1)!
dt
Ora [f
(2n+2)
(t) = [ cos t[ ≤ 1[, portanto [R
2n+1,0
(x)[ ≤ [

x
0
(x−t)
2n+1
(2n+1)!
dt[ = [[−
(x−t)
2n+2
(2n+2)!
]
t=x
t=0
[ =
|x|
2n+2
(2n+2)!
. Como
lim
n→+∞
|x|
2n+2
(2n+2)!
= 0, conclui-se que R
2n+1,0
(x) se pode tornar tão pequeno quanto se quiser, desde que n seja
suficientemente grande.
Cálculo de um valor aproximado de cos(−0,1) com erro inferior a 2 10
−10
: basta usar um polinómio de Taylor
de ordem 2n, desde que 0,1
2n+2
/(2n + 2)! < 2 10
−10
; por exemplo, n = 3 está nestas condições, portanto
cos(−0,1) = 1 −0,1
2
/2 + 0,1
4
/24 −0,1
6
/720 + = 0,9950041653 +, em que [[ < 2 10
−10
.
3. f: R −→ R
x → e
x
P
n,0
(x) = 1 +x +x
2
/2 +x
3
/6 + +x
n
/n!
R
n,0
(x) =

x
0
f
(n+1)
(t)(x−t)
n
n!
dt =

x
0
e
t
(x−t)
n
n!
dt
Para x < 0, tem-se 0 < e
t
< 1, portanto [R
n,0
(x)[ ≤ [

x
0
(x−t)
n
n!
dt[ =
|x|
n+1
(n+1)!
.
Para x > 0, como e < 3, tem-se e
t
< 3
t
< 3
x
, portanto 0 ≤ R
n,0
(x) ≤

x
0
3
x
(x−t)
n
n!
dt =
3
x
x
n+1
(n+1)!
.
Como lim
n→+∞
|x|
n+1
(n+1)!
= 0, conclui-se que se pode tornar R
n,0
(x) tão pequeno quanto se quiser desde que se
tome n suficientemente grande.
Cálculo de um valor aproximado de e com erro inferior a 10
−4
: basta calcular P
n,0
(1) em que n é tal que
3/(n+1)! < 10
−4
, por exemplo, n = 7. Então e = 1+1+1/2+1/6+1/24+1/120+1/720+1/5040+ = 2,71825+,
em que 0 < < 10
−4
.
Cálculo de um valor aproximado de e
2
com erro inferior a 10
−4
: basta calcular P
n,0
(2) em que n é tal que
2
n+1
.9/(n + 1)! < 10
−4
, por exemplo, n = 11. Então e = 1 + 2 + 4/2 + 8/6 + 16/24 + 32/120 + 64/720 +
128/5040 + 256/40320 + 512/362880 + 1024/3628800 + 2048/39916800 + = 7,38905 +, em que 0 < < 10
−4
.
Observação: Para garantir a mesma precisão, foi necessário um polinómio de ordem 11 para e
2
e de ordem 7
para e; pode-se mostrar que quanto maior é x, maior terá de ser a ordem do polinómio de Taylor usado para
garantir, apenas a partir das considerações sobre a fórmula do resto, a mesma precisão no cálculo de e
x
.
6.3. CÁLCULO DE VALORES APROXIMADOS DE FUNÇÕES 125
4. f: R
+
−→ R
x →
3

x
Cálculo de um valor aproximado de
3

9 com erro inferior a 10
−5
: uma vez que conhecemos os valores de f
e das suas derivadas em 8, vamos utilizar os polinómios de Taylor em 8 e determinar n tal que [R
n,8
(9)[ =
[
3

9 −P
n,8
(9)[ < 10
−5
.
f

(x) =
1
3
3

x
2
; f

(x) = −
2
9
3

x
5
; f

(x) =
10
27
3

x
8
;. . . ; f
(k)
(x) =
(−1)
k−1
2.5.8.....(3k−4)
3
k
3

x
3k−1
Queremos determinar n tal que [R
n,8
(9)[(= [

9
8
f
(n+1)
(t)(x−t)
n
n!
dt[) < 10
−5
. Para t entre 8 e 9, tem-se
[f
(n+1)
(t)[ ≤
2.5.8 . . . (3n −1)
3
n+1
3

8
3n+2
=
2.5.8 . . . (3n −1)
3
n+1
2
3n+2
;
então
[R
n,8
(9)[ ≤
2.5.8 . . . (3n −1)
3
n+1
2
3n+2

9
8
(9 −t)
n
n!
dt =
2.5.8 . . . (3n −1)
3
n+1
2
3n+2
1
(n + 1)!
=
2.5.8 . . . (3n −1)
3
n+1
2
3n+2
(n + 1)!
Para n = 4 tem-se
2.5.8...(3n−1)
3
n+1
2
3n+2
(n+1)!
· 1,8 10
−6
< 10
−5
. Então
3

9 = P
4,8
(9) + , em que [[ < 10
−5
; como
P
4,8
(x) = f(8) + f

(8)(x − 8) + f

(8)(x − 8)
2
/2 + f

(8)(x − 8)
3
/6 + f
(4)
(8)(x − 8)
4
/24, tem-se P
4,8
(9) =
2 + 1/12 −2/(9.32.2) + 10/(27.256.6) −70/(81.2048.24) · 2,08008. Logo
3

9 = 2,08008 +, com [[ < 10
−5
.
5. f: R
+
−→ R
x →
4

x
Cálculo de um valor aproximado de
4

83 com erro inferior a 3 10
−6
: uma vez que conhecemos os valores
de f e das suas derivadas em 81, vamos utilizar os polinómios de Taylor de f em 81 e determinar n tal que
[R
n,81
(83)[ < 3 10
−6
.
f

(x) =
1
4
4

x
3
; f

(x) = −
3
16
4

x
7
; f

(x) =
21
64
4

x
1
1
;. . . ; f
(k)
(x) =
(−1)
k−1
3.7...(4k−5)
4
k
4

x
4k−1
.
Queremos determinar n tal que [R
n,81
(83)[ = [

83
81
f
(n+1)
(t)(83−t)
n
n!
[ < 3 10
−6
. Para t entre 81 e 83, tem-se
[f
(n+1)
(t)[ ≤
3.7...(4n−1)
4
n+1
4

81
4n+3
=
3.7...(4n−1)
4
n+1
3
4n+3
; então
[R
n,81
(83)[ ≤
3.7 . . . (4n −1)
4
n+1
3
4n+3

83
81
(83 −t)
n
n!
dt =
3.7 . . . (4n −1)2
n+1
4
n+1
3
4n+3
(n + 1)!
.
Para n = 2, tem-se
3.7...(4n−1)2
n+1
4
n+1
3
4n+3
(n+1)!
< 3 10
−6
, portanto
4

83 = P
2,81
(83) + em que [[ < 3 10
−6
. Ora
P
2,81
(x) = f(81) +f

(81)(x −81) +f

(81)(x −81)
2
/2, de onde P
2,81
(83) = 3 +
2
4.27

3.2
2
16.3
7
.2
= 3,018347.
6. f: R −→ R
x →
1
1+x
2
Já foi visto que P
2n,0
(x) = P
2n+1,0
(x) = 1 −x
2
+x
4
− +(−1)
n
x
2n
; neste caso, a fórmula do resto, R
n,0
(x) =

x
0
f
(n+1)
(t)(x−t)
n
n!
, não é muito útil, uma vez que não temos uma maneira simples de majorar [f
(n+1)
(t)[. No
entanto, sabemos que R
2n+1,0
(x) =
(−1)
n+1
x
2n+2
1+x
2
. Como [R
2n+1,0
(x)[ ≤ [x
2n+2
[ e lim
n→+∞
[x
2n+2
[ = 0 se [x[ < 1,
conclui-se que, se [x[ < 1, então P
2n+1,0
(x) pode ser tornado tão próximo de f(x) quanto se quiser, desde que n
seja suficientemente grande. Em contrapartida, se [x[ ≥ 1, então não se tem lim
n→+∞
R
2n+1,0
(x) = 0. Portanto
os polinómios de Taylor de f em 0 só aproximam f em ] −1, 1[.
7. f: R −→ R
x → arctg x
Já foi visto que P
2n+1,0
(x) = P
2n+2,0
(x) = x − x
3
/3 + x
5
/5 − + (−1)
n
x
2n+1
/(2n + 1); neste caso a fór-
mula do resto, R
n,0
(x) =

x
0
f
(n+1)
(t)(x−t)
n
n!
, tambem não é muito útil, uma vez que não temos uma maneira
simples de majorar f
(n+1)
(t). No entanto, sabemos que R
2n+2,0
(x) =

x
0
(−1)
n+1
t
2n+2
1+t
2
dt, logo [R
2n+2,0
(x)[ ≤
[

x
0
(−1)
n+1
t
2n+2
dt[ =
|x|
2n+3
2n+3
, portanto, se [x[ ≤ 1, lim
n→+∞
R
2n+2,0
(x) = 0. Em contrapartida, se x > 1,
tem-se

x
0
t
2n+2
1+t
2
dt ≥

x
0
t
2n+2
1+x
2
dt =
x
2n+3
(1+x
2
)(2n+3)
, e lim
n→+∞
x
2n+3
(1+x
2
)(2n+3)
= +∞ (analogamente para x < −1).
Conclui-se que os polinómios de Taylor só aproximam f em [−1, 1].
126 CAPÍTULO 6. POLINÓMIOS DE TAYLOR
Observações:
1. Para x fixo, quando n tende para infinito, R
2n+1,0,arctg
(x) tende para 0 muito mais devagar do que por
exemplo R
2n+1,0,sen
(x), o que está relacionado com o facto de 1/(2n + 3) tender para 0 muito mais devagar do
que 1/(2n + 3)!.
2. Uma vez que os polinómios de Taylor de arctg só aproximam arctg em [−1, 1], não podemos utilizá-los
directamente para calcular valores aproximados de arctg x se [x[ > 1. No entanto, se quisermos calcular arctg x
com [x[ > 1, podemos escrever arctg x como uma soma arctg x
1
+ arctg x
2
+ + arctg x
n
, em que [x
i
[ ≤ 1.
De facto, de tg(arctg a + arctg b) =
a+b
1−ab
, para ab = 1, conclui-se que arctg(
a+b
1−ab
) = arctg a + arctg b. Então
arctg x = arctg a + arctg b em que
a+b
1−ab
= x, isto é, arctg x = arctg a + arctg
x−a
1+ax
, se ax = −1. Se escolhermos,
por exemplo, a = x/2, vem arctg x = arctg(x/2) + arctg
x
2(1+x
2
/2)
(note que
x
2(1+x
2
/2)
≤ x/2); repetindo o
processo um número suficiente de vezes, obtem-se arctg x = arctg x
1
+arctg x
2
+ +arctg x
n
, em que [x
i
[ ≤ 1.
3. Mesmo que se tenha [x[ ≤ 1, pode ser conveniente escrever arctg x = arctg a +arctg b, com [a[, [b[ < [x[, como
vamos ver no exemplo seguinte.
Cálculo de um valor aproximado de π com um erro inferior a 10
−4
: como se tem π/4 = arctg 1, para calcular
π com um erro inferior a 10
−4
, basta calcular π/4 com um erro inferior a 2,5 10
−5
. Vamos então determinar
n por forma a que R
n,0
(1) < 2,5 10
−5
. Como [R
2n+2,0
(1)[ ≤ 1/(2n + 3), basta calcular P
2n+1,0
(1) em que
1/(2n+3) < 2,510
−5
, ou seja, por exemplo n = 19999. Então arctg 1 = P
39999,0
(1)+, em que [[ < 2,510
−5
.
Para calcular arctg 1 com a mesma precisão, mas com polinómios de Taylor de ordem menor, vamos usar a
igualdade arctg 1 = arctg(1/2) + arctg(1/3) e calcular arctg(1/2) e arctg(1/3) com uma precisão de 10
−5
.
De [R
2n+2,0
(1/2)[ ≤
1
2
2n+3
(2n+3)
e [R
2n+2
(1/3)[ ≤
1
3
2n+3
(2n+3)
, conclui-se que R
12,0
(1/2) < 10
−5
e [R
8,0
(1/3)[ <
10
−5
. Então arctg(1/2) =
1
2

1
3.2
3
+
1
5.2
5

1
7.2
7
+
1
9.2
9

1
11.2
1
1
+
1
e arctg(1/3) =
1
3

1
3.3
3
+
1
5.3
5

1
7.3
7
+
2
,
em que [
1
[, [
2
[ < 10
−5
; logo π = 3,14152 +, com [[ < 10
−4
.
8. f: ] −1, +∞[ −→ R
x → log(1 +x)
Já foi visto que P
n,0
(x) = x −x
2
/2 +x
3
/3 − + (−1)
n−1
x
n
/n; tambem foi visto que R
n,0
(x) =

x
0
(−1)
n
t
n
1+t
dt.
Para x > 1, tem-se

x
0
t
n
1+t
dt ≥

x
0
t
n
1+x
dt =
x
n+1
(1+x)(n+1)
; R
n,0
(x) não tende para 0 quando n tende para infinito,
portanto os polinómios de Taylor não aproximam f. Se 0 < x ≤ 1, então
t
n
1+t
≤ t
n
, portanto [

x
0
(−1)
n
t
n
1+t
dt[ ≤

x
0
t
n
dt =
x
n+1
n+1
; como lim
n→+∞
x
n+1
n+1
= 0, conclui-se que os polinómios de Taylor aproximam f. Se −1 < x < 0,
como
1
1+t

1
1+x
, conclui-se que [

x
0
t
n
1+t
dt[ ≤
1
1+x
[

x
0
t
n
dt[ =
|x|
n+1
(1+x)(n+1)
; como lim
n→+∞
|x|
n+1
(1+x)(n+1)
= 0,
conclui-se que os polinómios de Taylor aproximam f.
9. Cálculo de

1
0
e
x
2
dx com erro inferior a 10
−4
: para qualquer x ∈ R tem-se e
x
= 1+x+x
2
/2+ +x
n
/n!+R
n
(x),
em que R
n
(x) =

x
0
e
t
(x−t)
n
n!
dt; então e
x
2
= 1 + x
2
+ x
4
/2 + + x
2n
/n! + R
n
(x
2
), de onde

1
0
e
x
2
dx =

1
0
(1 + x
2
+ + x
2n
/n!)dx +

1
0
R
n
(x
2
)dx. Ora R
n
(x
2
) =

x
2
0
e
t
(x
2
−t)
n
n!
dt ≤ e
x
2

x
2
0
(x
2
−t)
n
n!
dt =
e
x
2
x
2n+2
(n+1)!
,
portanto

1
0
R
n
(x
2
)dx ≤

1
0
e
x
2
x
2n+2
(n + 1)!
dx

1
0
e x
2n+2
(n + 1)!
dx (porque x ∈ [0, 1] ⇒ e
x
2
≤ e)
=
e
(2n + 3)(n + 1)!
Para calcular

1
0
e
x
2
dx com erro inferior a 10
−4
, basta então calcular

1
0
(1 + x + x
2
+ + x
2n
/n!) dx, em que
n é tal que
e
(2n+3)(n+1)!
< 10
−4
; como n = 6 está nestas condições, conclui-se que

1
0
(1 + x
2
+ x
4
/2 + x
6
/6 +
x
8
/24 +x
10
/120 +x
12
/720) dx = 1,48764 é um valor aproximado de

1
0
e
x
2
dx com um erro inferior a 10
−4
.
10. f: R −→ R
x →

sen x
x
se x = 0
1 se x = 0
Cálculo de

2
0
f(x) dx com erro inferior a 10
−3
: para qualquer x ∈ R, tem-se sen x = x − x
3
/6 + +
(−1)
n
x
2n+1
/(2n + 1)! +R
2n+2
(x), em que R
2n+2
(x) =

x
0
sen
(2n+3)
(t)(x−t)
2n+2
(2n+2)!
dt, portanto [R
2n+2
(x)[ ≤
|x|
2n+3
(2n+3)!
.
6.3. CÁLCULO DE VALORES APROXIMADOS DE FUNÇÕES 127
Então, para x = 0, tem-se
sen x
x
= 1 − x
2
/6 + + (−1)
n
x
2n
/(2n + 1)! +
R
2n+2
(x)
x
, e [
R
2n+2
(x)
x
[ ≤
|x|
2n+2
(2n+3)!
.
Seja S
n
(x) = f(x) − (1 − x
2
/6 + + (−1)
n
x
2
n/(2n + 1)!); tem-se então [S
n
(x)[ ≤
|x|
2n+2
(2n+3)!
, para todo o
x ∈ R, de onde se conclui que [

2
0
S
n
(x)dx[ ≤

2
0
x
2n+2
(2n+3)!
dx =
2
2n+3
(2n+3)!(2n+3)
. Como

2
0
f(x) dx =

2
0
(1 − x
2
/6 +
+ (−1)
n
x
2n
/(2n + 1)!) dx +

2
0
S
n
(x) dx, e como, para n = 3 se tem
2
2n+3
(2n+3)!(2n+3)
< 10
−3
, conclui-se que

2
0
1 −x
2
/6 +x
4
/120 −x
6
/5040 dx = 1,605 é um valor aproximado de

2
0
f(x)dx com erro inferior a 10
−3
.
11. f: R −→ R
x →

1−cos x
x
2
se x = 0
1/2 se x = 0
Cálculo de

2
0
f(x)dx com erro inferior a 10
−4
Para x ∈ R, tem-se 1 − cos x = x
2
/2 − x
4
/4! + + (−1)
n
x
2n
/(2n)! + R
2n+1
(x), em que R
2n+1
(x) =

x
0
(1−cos)
(2n+2)
(t)(x−t)
2n+1
(2n+1)!
dt, portanto [R
2n+1
(x)[ ≤
|x|
2n+2
(2n+2)!
. Então, para x = 0, tem-se
1 −cos x
x
2
= 1/2 −x
2
/4! + +
(−1)
n
x
2n−2
(2n)!
+
R
2n+1
(x)
x
2
,
e [
R
2n+1
(x)
x
2
[ ≤
|x|
2n
(2n+2)!
. Seja S
n
(x) = f(x) −(1/2 −x
2
/4 + +
(−1)
n
x
2n−2
(2n)!
); então, para x ∈ R, tem-se [S
n
(x)[ ≤
|x|
2n
(2n+2)!
. Conclui-se que

2
0
f(x)dx =

2
0
(1/2 − x
2
/4 + +
(−1)
n
x
2n−2
(2n)!
)dx +

2
0
S
n
(x) dx, com [

2
0
S
n
(x) dx[ ≤

2
0
x
2n
(2n+2)!
dx =
2
2n+1
(2n+1)(2n+2)!
. Para n = 4, tem-se
2
2n+1
(2n+1)(2n+2)!
< 10
−4
, portanto

2
0
(1/2 − x
2
/4! + x
4
/6! −
x
6
/8!)dx = 0,8973 é uma aproximação de

2
0
f(x)dx com erro inferior a 10
−4
.
12. Cálculo de valores aproximados da única solução positiva de x
2
= cos x utilizando os polinómios de Taylor de
ordem 3 e 5 do cosseno em 0; majoração do erro.
É óbvio que x
2
= cos x não tem soluções em ]1, +∞[; por outro lado, em [0, 1], a função x → x
2
é estritamente
crescente e a função cosseno é estritamente decrescente, logo x
2
= cos x não pode ter mais de uma solução em
[0, +∞[; que tem uma solução em [0, 1] é consequência de cos 0 = 1 > 0
2
e cos 1 < 1 = 1
2
. Podemos obter
uma melhor aproximação observando que cos 0,9 = 1 −0,9
2
/2 +R
3,0
(0,9) = 0,595 +R
3,0
(0,9) e 0 ≤ R
3,0
(0,9) ≤
0,9
4
/24 · 0,02734, isto é, cos 0,9 < 0,62234 e, por outro lado, 0,9
2
= 0,81(> cos 0,9).
Seja x
c
a solução positiva de x
2
= cos x e x
0
a solução positiva de x
2
= 1 − x
2
/2. Então tem-se x
2
c
=
1−x
2
c
/2+R
3,0
(x
c
), com 0 ≤ R
3,0
(x
c
) < 0,9
4
/24; deduz-se portanto que x
0
=

2/3 e x
c
=

2/3

1 +R
3,0
(x
c
),
logo [x
c
− x
0
[ =

2/3[

1 +R
3,0
(x
c
) − 1[; ora 0 ≤ R
3,0
(x
c
) ≤ 0,0274, de onde 1 <

1 +R
3,0
(x
c
) < 1,014,
portanto [x
c
−x
0
[ <

2/3.0,014 = 0,01143.
Conclui-se que

2/3 · 0,816 é um valor aproximado da solução positiva da equação x
2
= cos x com um erro
inferior a 0,0115.
0.2 0.4 0.6 0.8

0.2
0.4
0.6
0.8
1
0.76 0.78 0.82 0.84 0.86 0.88 0.9

0.575
0.625
0.65
0.675
0.7
0.725
x
0
x
c
2
y= x
y=cos x
2
x
y=1 - --
2
Obtem-se uma aproximação melhor calculando a solução de x
2
= 1 − x
2
/2 + x
4
/24 que está em ]0, 9/10[. Seja
x
c
a solução positiva de x
2
= cos x e x
0
a solução em ]0, 9/10[ de x
2
= 1 − x
2
/2 + x
4
/24. Então tem-se
x
2
c
= 1−x
2
c
/2+x
4
c
/24+R
5,0
(x
c
), com −0,9
6
/6! < R
5,0
(x
c
) < 0, e x
4
0
−36x
2
0
+24 = 0, de onde x
0
=

18 −10

3.
Como x
2
c
= 1−x
2
c
/2+x
4
c
/24+R
5,0
(x
c
), tem-se x
c
=

18 −

300 −24R
5,0
(x
c
); então [x
c
−x
0
[ =

18 −10

3−

18 −

300 −24R
5,0
(x); de −0,00074 < R
5,0
(x) < 0, conclui-se que [x
c
−x
0
[ < 3,12 10
−4
.
128 CAPÍTULO 6. POLINÓMIOS DE TAYLOR
Conclui-se que

18 −10

3 · 0,8243 é um valor aproximado da solução positiva da equação x
2
= cos x com um
erro inferior a 3,12 10
−4
.
Capítulo 7
Sucessões e séries
7.1 Sucessões
Definição 7.1.1 Uma sucessão real é uma função N −→R
Notação: Se a é uma sucessão, designa-se geralmente por a
n
e não por a(n) a imagem de n por a; designa-se tambem
geralmente a sucessão a por (a
n
)
n∈N
o
, ou, mais simplesmente, por (a
n
)
n
.
Definição 7.1.2 Chama-se sucessão parcial de uma sucessão (a
n
)
n
à composta a ◦ ϕ em que ϕ : N −→ N é uma
função estritamente crescente.
Observação: Se ϕ : N −→N é estritamente crescente, então lim
n→+∞
ϕ(n) = +∞ e ∀n ∈ N, ϕ(n) ≥ n.
Proposição 7.1.3 Qualquer sucessão parcial de uma sucessão majorada (resp. minorada, crescente, decrescente,
estritamente crescente, estritamente decrescente) é majorada (resp. minorada, crescente, decrescente, estritamente
crescente, estritamente decrescente).
Definição 7.1.4 Diz-se que a sucessão (a
n
)
n
converge para l sse l = lim
n→+∞
a
n
, isto é, sse
∀ > 0 ∃n
0
∈ N : n > n
0
⇒ [a
n
−l[ < .
Observações:
1. Por vezes consideram-se funções N
0
−→R ou, para n ∈ N
0
, funções ¦n ∈ N; n ≥ n
0
¦ −→R, às quais tambem se
chama sucessões; a notação usada habitualmente é respectivamente (a
n
)
∈N
0
e (a
n
)
n≥n
0
.
2. Usando a notação acima mencionada, a uma sucessão (a
n
)
n∈N
e a um número n
0
∈ N podemos associar a
sucessão (a
n
)
n≥n
0
(restrição de (a
n
)
n∈N
a ¦n ∈ N; n ≥ n
0
¦); (a
n
)
n∈N
é limitada (resp. majorada, minorada,
convergente) sse existe n
0
∈ N tal que (a
n
)
n≥n
0
é limitada (resp. majorada, minorada, convergente), o que é
ainda equivalente a dizer que ∀n
0
∈ N, (a
n
)
n≥n
0
é limitada (resp. majorada, minorada, convergente).
3. Conclui-se de resultados anteriores sobre funções reais de variável real, que, se (a
n
)
n∈N
converge para l
1
e (b
n
)
n∈N
converge para l
2
, então
• (a
n
+b
n
)
n∈N
converge para l
1
+l
2
;
• (a
n
b
n
)
n∈N
converge para l
1
l
2
;
• se l
2
= 0, então existe n
0
tal que n ≥ n
0
⇒ b
n
= 0, e (a
n
/b
n
)
n≥n
0
converge para l
1
/l
2
.
Proposição 7.1.5 Se (a
n
)
n∈N
é convergente, então (a
n
)
n∈N
é limitada.
Demonstração: Seja l = lim
n→∞
a
n
; existe n
0
tal que n > n
0
⇒ [a
n
−l[ < 1, de onde ¦a
n
; n > n
0
¦ é limitado. Como, por
outro lado, ¦a
n
; n ≤ n
0
¦ é finito, é limitado, logo ¦a
n
; n ∈ N¦ é a reunião de dois conjuntos limitados, logo limitado.

Proposição 7.1.6 Se (a
n
)
n∈N
, (b
n
)
n∈N
e (c
n
)
n∈N
são tais que
• ∃ n
0
∈ N : n > n
0
⇒ a
n
≤ b
n
≤ c
n
;
• (a
n
)
n∈N
e (c
n
)
n∈N
são convergentes para um mesmo limite
129
130 CAPÍTULO 7. SUCESSÕES E SÉRIES
então (b
n
)
n∈N
tambem converge para esse limite.
Demonstração: Sejam l = lim
n→∞
a
n
= lim
n→∞
c
n
e > 0; existe n
1
> n
0
tal que n > n
1
⇒ [a
n
−l[ < e [c
n
−l[ < . Mas
então,
n > n
1
⇒ l − < a
n
≤ b
n
≤ c
n
< l +
⇒ [b
n
−l[ <
Conclui-se que (b
n
)
n∈N
converge para l.
Proposição 7.1.7 Se (a
n
)
n∈N
é tal que lim
n→∞
a
n
= l, com l ∈ R ∪ ¦+∞, −∞¦, e (b
n
)
n∈N
é uma sucessão parcial de
(a
n
)
n∈N
, então lim
n→∞
b
n
= l.
Demonstração: Vamos supor que l ∈ R; a demonstração é análoga nos outros casos. Sejam ϕ tal que b
n
= a
ϕ(n)
e
> 0; existe n
0
∈ N tal que n > n
0
⇒ [a
n
−l[ < . Ora
n > n
0
⇒ ϕ(n) > n
0
⇒ [a
ϕ(n)
−l[ <
⇒ [b
n
−l[ <

Observação: Se (a
n
)
n∈N
é uma sucessão tal que as duas sucessões parciais (a
2n
)
n∈N
e (a
2n−1
)
n∈N
convergem para
l, então (a
n
)
n∈N
converge para l. Com feito, seja > 0; existem n
1
, n
2
∈ N tais que m > n
1
⇒ [a
2n−1
− l[ < e
m > n
2
⇒ [a
2n
−l[ < . Se n é ímpar, então (n+1)/2 > n
1
⇒ [a
n
−l[ < , e se n é par, então n/2 > n
2
⇒ [a
n
−l[ < .
Sejam n
0
= 2 max¦n
1
, n
2
¦ + 1 e n > n
0
; então, ou n é ímpar, e (n + 1)/2 > (n
0
+ 1)/2 = max¦n
1
, n
2
¦ + 1 > n
1
, ou n
é par, e n/2 > n
0
/2 = max¦n
1
, n
2
¦ + 1/2 > n
2
. Em qualquer dos casos, [a
n
−l[ <
Definição 7.1.8 1. Diz-se que a sucessão (a
n
)
n∈N
é quase constante sse existe c ∈ R tal que ¦n ∈ N : a
n
= c¦
é finito (o que é equivalente a existir c ∈ R tal que ∃n
0
∈ N : n > n
0
⇒ a
n
= c).
2. Diz-se que as sucessões (a
n
)
n∈N
e (b
n
)
n∈N
são quase iguais sse ¦n ∈ N : a
n
= b
n
¦ é finito (o que é equivalente
a existir n
0
∈ N tal que n > n
0
⇒ a
n
= b
n
).
Proposição 7.1.9 Sejam (a
n
)
n∈N
e (b
n
)
n∈N
sucessões quase iguais; então (a
n
)
n∈N
converge sse (b
n
)
n∈N
converge.
Demonstração: O enunciado é simétrico em relação a (a
n
)
n∈N
e (b
n
)
n∈N
; suponhamos, por exemplo, que (a
n
)
n∈N
converge e seja > 0; existe n
0
∈ N tal que n > n
0
⇒ [a
n
− l[ < . Por outro lado existe n
1
∈ N tal que
n > n
1
⇒ a
n
= b
n
; então para n > max¦n
0
, n
1
¦ tem-se [a
n
−l[ < e a
n
= b
n
, logo [b
n
−l[ < .
Proposição 7.1.10 Qualquer sucessão majorada e crescente (resp. minorada e decrescente) é convergente.
Demonstração: Sejam (a
n
)
n∈N
uma sucessão majorada e crescente e s = sup¦a
n
; n ∈ N¦; vamos ver que (a
n
)
n∈N
converge para s. Seja > 0; existe n
0
∈ N tal que a
n
0
∈]s − , s]; como (a
n
)
n∈N
é crescente, para n > n
0
tem-se
a
n
≥ a
n
0
, logo a
n
∈]s −, s], de onde [a
n
−s[ < .
Proposição 7.1.11 Seja (a
n
)
n∈N
uma sucessão tal que ([a
n
[)
n∈N
converge para 0; então (a
n
)
n∈N
converge para 0.
Demonstração: trivial.
Proposição 7.1.12 Qualquer sucessão tem uma sucessão parcial monótona.
Demonstração: Sejam (a
n
)
n∈N
uma sucessão e A = ¦n ∈ N : m > n ⇒ a
m
< a
n
¦.
Se A é infinito sejam n
1
< n
2
< n
3
< os elementos de A. Então a sucessão a
n
1
, a
n
2
, a
n
3
, . . . é uma sucessão
parcial decrescente de (a
n
)
n∈N
.
Se A é finito, seja n
1
∈ N um número maior do que qualquer elemento de A; então n
1
∈ A, portanto existe n
2
> n
1
tal que a
n
2
≥ a
n
1
; por sua vez, n
2
∈ A, portanto existe n
3
> n
2
tal que a
n
3
≥ a
n
2
. . . Continuando este processo,
obtemos uma sucessão parcial crescente a
n
1
, a
n
2
, a
n
3
, . . . de (a
n
)
n∈N
.
Corolário 7.1.13 Qualquer sucessão limitada tem uma sucessão parcial convergente.
7.1. SUCESSÕES 131
Demonstração: Seja (a
n
)
n∈N
uma sucessão limitada; pela proposição anterior, (a
n
)
n∈N
tem uma sucessão parcial
monótona, sucessão parcial essa que tambem é limitada, portanto convergente.
Exemplos:
1. a
n
= (−1)
n
+
(−1)
n
n
(a
n
)
n∈N
é limitada; não é monótona nem convergente; a sucessão parcial (a
2n
)
n∈N
(respectivamente (a
2n−1
)
n∈N
)
é decrescente e convergente para 1 (respectivamente crescente e convergente para −1).
2. a
n
= n/2
n
(a
n
)
n∈N
é decrescente:
n+1
2
n+1

n
2
n
=
1−n
2
n+1
≤ 0; (a
n
)
n∈N
é minorada: todos os termos da sucessão são positivos;
logo (a
n
)
n∈N
é convergente.
Demonstração de que lim
n→∞
a
n
=0: tem-se
a
n+1
a
n
=
n+1
n

1
2
; para n ≥ 2, tem-se a
n+1

3
4
a
n
, de onde a
n

(
3
4
)
n−2
a
2
= (
3
4
)
n−2 1
2
. Como lim
n→∞
(
3
4
)
n−2 1
2
= 0, conclui-se que lim
n→∞
a
n
≤ 0; por outro lado, ∀n, a
n
≥ 0, logo
lim
n→∞
a
n
≥ 0.
3. a
n
= n/x
n
, x > 1 (Observação: o exemplo anterior é um caso particular deste)
Demonstração de que lim
n→∞
a
n
=0: tem-se
a
n+1
a
n
=
n+1
n

1
x
; sejam s ∈]1/x, 1[ e n
0
tais que n > n
0

n+1
n

1
x
< s.
Então, para n > n
0
, tem-se a
n
=
a
n
a
n−1

a
n−1
a
n−2

a
n
0
+1
a
n
0
a
n
0
< s
n−n
0
a
n
0
. Ora lim
n→∞
s
n−n
0
a
n
0
= 0, portanto
lim
n→∞
a
n
=0.
4. a
n
= x
n
/n, x ∈ R
+
(a
n
)
n∈N
é decrescente sse x ≤ 1; para x > 1, (a
n
)
n≥n
0
com n
0

1
x−1
é crescente. Se x ≤ 1, então lim
n→∞
x
n
n
= 0
(basta notar que, nesse caso, x
n
/n ≤ 1/n); se x > 1, então lim
n→∞
x
n
n
= +∞ (basta notar que, para x > 1,
lim
n→∞
n
x
n
= 0 e a
n
é sempre positivo).
5. a
n
=
x
n
n!
, x ∈ R
+
(a
n
)
n∈N
é decrescente sse x ≤ 2 (mais geralmente, (a
n
)
n≥n
0
é decrescente desde que n
0
seja maior ou igual a
x −1).
Demonstração de que lim
n→∞
a
n
=0: seja > 0; existe n
0
∈ N tal que n > n
0
→ x/n < 1/2 (basta tomar n
0
> 2x).
Para n > n
0
, tem-se
x
n
n!
=
x
n
0
n
0
!

x
n
0
+ 1

x
n
0
+ 2

x
n
. .. .
n−n
0
factores
,
logo
x
n
n!
<
x
n
0
n
0
!

1
2
n−n
0
. Como lim
n→∞
1
2
n−n
0
= 0, e, por outro lado, se tem∀na
n
≥ 0, conclui-se que lim
n→∞
x
n
n!
=
0.
6. a
n
=
(−6)
n
n!
(a
n
)
n∈N
não é monótona; lim
n→∞
[a
n
[ = 0 (ver o exemplo anterior), portanto (a
n
)
n∈N
converge para 0.
(a
4+2n
)
n∈N
é uma sucessão parcial decrescente de (a
n
)
n∈N
; (a
3+2n
)
n∈N
é uma sucessão parcial crescente de
(a
n
)
n∈N
.
7. a
n
=

n + 1 se n é ímpar
n −1 se n é par
lim
n→∞
a
n
= +∞; (a
n
)
n∈N
não é monótona; (a
2n
)
n∈N
e (a
2n−1
)
n∈N
são duas sucessões parciais crescentes de
(a
n
)
n∈N
; (a
n
)
n∈N
não tem nenhuma sucessão parcial decrescente.
8. a
n
=

1 + 1/n se n + 2 é múltiplo de 3
1/n
2
se n + 1 é múltiplo de 3
2 +
2+(−1)
n
n
se n é múltiplo de 3
(a
n
)
n∈N
não é monótona; (a
3n−2
)
n∈N
, (a
3n−1
)
n∈N
, (a
6n−3
)
n∈N
, (a
6n
)
n∈N
são sucessões parciais decrescentes de
(a
n
)
n∈N
(convergentes respectivamente para 1, 0, 2 e 2); (a
n
)
n∈N
não tem nenhuma sucessão parcial crescente.
132 CAPÍTULO 7. SUCESSÕES E SÉRIES
9. a
n
= (−1)
n
(2 + 1/n)
(a
n
)
n∈N
não é monótona; (a
2n
)
n∈N
(respectivamente (a
2n−1
)
n∈N
) é uma sucessão parcial decrescente (respecti-
vamente crescente) convergente para 2 (respectivamente para −2); (a
n
)
n∈N
não é convergente, embora ([a
n
[)
n∈N
seja convergente para 2.
10. a
n
=
1
2n
+
1
2n+1
+ +
1
3n
Tem-se
1
2n + 1
+
1
3n

3n
2n
1
x
dx ≤
1
2n
+
1
2n + 1
+ +
1
3n −1
(ver a figura).
3n-1 3n
. . .
. . .
(2n+1) 2n 3n-1 3n
. . .
. . .
(2n+1) 2n
Então

3n
2n
1
x
dx+
1
3n
≤ a
n

3n
2n
1
x
dx+
1
2n
; mas

3n
2n
1
x
dx = log(3n)−log(2n) = log
3
2
; conclui-se que log
3
2
+
1
3n

a
n
≤ log
3
2
+
1
2n
, logo (a
n
)
n∈N
converge para log
3
2
.
11. Mais geralmente, sejam p, q ∈ N com p < q, e seja a
n
=
1
pn
+
1
pn+1
+ +
1
qn
.
Tem-se
1
pn + 1
+ +
1
qn

qn
pn
1
x
dx ≤
1
pn
+ +
1
qn −1
,
e

qn
pn
1
x
dx = log(qn)−log(pn) = log
q
p
, de onde log
q
p
+
1
qn
≤ a
n
≤ log
q
p
+
1
pn
, o que implica que (a
n
)
n∈N
converge
para log
q
p
.
12. a
n
=
n
n
2
+1
+
n
n
2
+2
2
+
n
n
2
+3
2
+ +
n
n
2
+n
2
=area tracejada
n
a
1
n
n-1
n
3
n
2
n
1
2
1+x
1
y=
. . .
Tem-se a
n
=
1
n
(
1
1+(1/n)
2
+
1
1+(2/n)
2
+ +
1
1+(n/n)
2
), logo a
n

1
0
1
1+x
2
dx; por outro lado, a
n

1/n
1+(n/n)
2
+
1
n

1
0
1
1+x
2
dx. Como

1
0
1
1+x
2
dx = arctg 1 = π/4, e lim
n→∞
(
1
n

1/n
2
) = 0, conclui-se que (a
n
)
n∈N
converge para
π/4.
13. a
n
=
1
n
3
+1
+
1
n
3
+2
3
+ +
1
n
3
+n
3
Tem-se 0 ≤ a
n

n
n
3
+1
; como (
n
n
3
+1
)
n∈N
converge para 0, conclui-se que (a
n
)
n∈N
converge para 0.
14.

a
1
= 3
a
n+1
=
3+a
2
n
2a
n
7.1. SUCESSÕES 133
a
3
1 2
a a
-1
-2
-3
1 2 3
A figura mostra uma interpretação geométrica da sucessão: a
n+1
obtem-se considerando o ponto de intersecção
com o eixo dos xx da recta tangente ao gráfico de x → x
2
−3 em (a
n
, a
2
n
−3).
Tem-se
3 +a
2
n
2a
n


3 =
3 +a
2
n
−2a
n

3
2a
n
=
(a
n


3)
2
2a
n
≥ 0;
conclui-se que ∀n ∈ N : a
n+1


3 (como, alem disso, a
1
≥ 3, de facto tem-se ∀n ∈ N : a
n


3).
Vejamos agora que (a
n
)
n∈N
é decrescente. Tem-se
a
n+1
a
n
=
3+a
2
n
2a
2
n
=
3
2a
2
n
+
1
2
, e
3
2a
2
n
+
1
2
≤ 1, porque a
2
n
≥ 3.
Então (a
n
)
n∈N
é minorada e decrescente, logo é convergente; seja l o seu limite. Como lim
n→∞
a
n+1
=
lim
n→∞
a
n
, conclui-se que l =
3+l
2
2l
, ou seja , l =

3.
15.

a
1
= 2
a
n+1
=
1
a
2
n
a
2
= 1/4 e a
2n+2
= a
4
2n
; conclui-se que (a
2n
)
n∈N
é decrescente e convergente para 0; a
1
= 2 e a
2n+1
= a
4
2n−1
;
conclui-se que (a
2n−1
)
n∈N
é crescente e tende para +∞; logo (a
n
)
n∈N
não converge.
Definição 7.1.14 Diz-se que uma sucessão (a
n
)
n∈N
é uma sucessão de Cauchy sse ∀ > 0 ∃n
0
∈ N : m, n > n
0

[a
m
−a
n
[ < .
Notação: a condição ∀ > 0 ∃n
0
∈ N : m, n > n
0
⇒ [a
m
−a
n
[ < escreve-se por vezes lim
m,n→∞
(a
m
−a
n
) = 0.
Proposição 7.1.15 1. Qualquer sucessão de Cauchy é limitada.
2. Se uma sucessão de Cauchy tem uma sucessão parcial convergente, então é convergente.
Demonstração:
1. Seja (a
n
)
n∈N
uma sucessão de Cauchy; existe n
0
∈ N tal que m, n > n
0
⇒ [a
m
− a
n
[ < 1. Em particular,
n > n
0
⇒ [a
n
− a
n
0
+1
[ < 1; conclui-se que o conjunto ¦a
n
; n > n
0
¦ é limitado; como ¦a
n
; n ≤ n
0
¦ é finito,
tambem é limitado, logo a sucessão é limitada.
2. Sejam (a
n
)
n∈N
uma sucessão de Cauchy, (a
ϕ(n)
)
n∈N
uma sua sucessão parcial convergente para l e > 0. Existe
n
1
tal que n > n
1
⇒ [a
ϕ(n)
− l[ < /2; por outro lado, existe n
2
tal que n, m > n
2
⇒ [a
m
− a
n
[ < /2. Seja
agora n
0
= max¦n
1
, n
2
¦; por um lado tem-se [a
ϕ(n
0
+1)
− l[ < /2, uma vez que n
0
+ 1 > n
0
; por outro, para
n > n
0
, como ϕ(n
0
+ 1) ≥ n
0
+ 1 > n
0
≥ n
2
, tem-se [a
n
− a
ϕ(n
0
+1)
[ < /2; então, para n > n
0
, tem-se
[a
n
−l[ ≤ [a
n
−a
ϕ(n
0
+1)
[ +[a
ϕ(n
0
+1)
−l[ < /2 +/2 = , de onde se conclui que (a
n
)
n∈N
converge para l.
Teorema 7.1.16 Uma sucessão é convergente sse é uma sucessão de Cauchy.
134 CAPÍTULO 7. SUCESSÕES E SÉRIES
Demonstração: Seja (a
n
)
n∈N
uma sucessão convergente para l e seja > 0; existe n
0
∈ N tal que n > n
0
⇒ [a
n
−l[ < /2.
Então, para m, n > n
0
, tem-se [a
m
− l[ < /2 e [a
n
− l[ < /2, de onde [a
m
− a
n
[ < /2 + /2 = , isto é, (a
n
)
n∈N
é
uma sucessão de Cauchy.
Suponhamos agora que (a
n
)
n∈N
é uma sucessão de Cauchy. Pela proposição anterior sabemos que (a
n
)
n∈N
é
limitada; logo tem uma sucessão parcial convergente. Mas então (a
n
)
n∈N
é uma sucessão de Cauchy com uma sucessão
parcial convergente, logo é convergente.
Proposição 7.1.17 Seja f : A −→R uma função contínua em a ∈ A e (a
n
)
n∈N
uma sucessão em A convergente para
a. Então a sucessão (f(a
n
))
n∈N
converge para f(a).
Demonstração: Seja > 0; queremos mostrar que existe n
0
∈ N tal que n > n
0
⇒ [f(a
n
) −f(a)[ < . Ora, como f é
contínua em a, existe δ > 0 tal que [x −a[ < δ ⇒ [f(x) −f(a)[ < ; como (a
n
)
n∈N
converge para a, existe n
0
∈ N tal
que n > n
0
⇒ [a
n
−a[ < δ; mas então n > n
0
⇒ [f(a
n
) −f(a)[ < , como queríamos demonstrar.
Proposição 7.1.18 Seja f : A −→R uma função e a ∈ A; se, para qualquer sucessão (a
n
)
n∈N
de elementos de A,
convergente para a, a sucessão (f(a
n
))
n∈N
convergir para f(a), então f é contínua em a.
Demonstração: Suponhamos que f não é contínua em a ∈ A. Então existe > 0 tal que ∀δ > 0 ∃x
δ
∈]a −δ, a +δ[∩A
com [f(x
δ
)−f(a)[ ≥ . Em particular, para cada n ∈ N, existe a
n
∈]a−1/n, a+1/n[ ∩A com [f(a
n
)−f(a)[ ≥ . Como,
∀n : a
n
∈]a−1/n, a+1/n[, conclui-se que a sucessão (a
n
)
n∈N
converge para a; por outro lado, ∀n : [f(a
n
) −f(a)[ ≥ ,
logo a sucessão (f(a
n
))
n∈N
não converge para f(a). Então existe uma sucessão (a
n
)
n∈N
de elementos de A, convergente
para a e tal que a sucessão (f(a
n
)
n∈N
) não converge para f(a).
7.2 Séries
Definição 7.2.1 1. Chama-se série a um par de sucessões ((a
n
)
n∈N
, (s
n
)
n∈N
) em que ∀n ∈ N : s
n
=
¸
n
k=1
a
k
;
diz-se que a série é gerada por (a
n
)
n∈N
; à sucessão (s
n
)
n∈N
chama-se sucessão das somas parciais da série.
2. Diz-se que uma série converge sse a sua sucessão das somas parciais converge.
Notação:
1. A série ((a
n
)
n∈N
,(s
n
)
n∈N
) designa-se habitualmente por
¸

n=1
a
n
. Quando a série converge, tambem se designa
habitualmente por
¸

n=1
a
n
o limite da sucessão das somas parciais, o que pode levar a ambiguidade; quando
for usada numa igualdade a notação
¸

n=1
a
n
, significará sempre o limite de (s
n
)
n∈N
.
2. Seja n
0
∈ N; dada uma sucessão (a
n
)
n≥n
0
, chama-se série gerada por essa sucessão ao par de sucessões
((a
n
)
n≥n
0
, (s
n
)
n∈N
) em que s
n
=
¸
n−1
k=0
a
n
0
+k
; dir-se-à que
¸

n=n
0
a
n
converge sse (s
n
)
n∈N
convergir.
3. Todos os critérios de convergência que veremos em seguida para séries geradas por uma sucessão (a
n
)
n∈N
têm
generalizações óbvias para séries geradas por sucessões (a
n
)
n≥n
0
.
Proposição 7.2.2 Seja (a
n
)
n∈N
uma sucessão; então as condições seguintes são equivalentes:
1.
¸

n=1
a
n
converge;
2. ∀n
0
∈ N :
¸

n=n
0
a
n
converge;
3. ∃n
0
∈ N :
¸

n=n
0
a
n
converge.
Demonstração: 2 ⇒ 1 trivial
1 ⇒ 3 trivial
3 ⇒ 2 Sejam n
0
∈ N tal que
¸

n=n
0
a
n
converge e m
0
∈ N; queremos mostrar que
¸

n=m
0
a
n
converge. Consi-
deremos então as sucessões (s
n
)
n∈N
e (t
n
)
n∈N
em que s
n
=
¸
n−1
k=0
a
m
0
+k
e t
n
=
¸
n−1
k=0
a
n
0
+k
. Se m
0
< n
0
, tem-se
s
n
= t
n+n
0
−m
0
−a
m
0
−a
m
0
+1
−a
m
0
+2
− −a
n
0
−1
; se m
0
> n
0
tem-se s
n+m
0
−n
0
= t
n
+a
n
0
+a
n
0
+1
+ +a
m
0
−1
;
como, por hipótese, (t
n
)
n∈N
converge, conclui-se que (s
n
)
n∈N
converge, isto é,
¸

n=m
0
a
n
converge.
Observação: Conclui-se da demonstração que, se
¸

n=n
0
a
n
converge e m
0
> n
0
, então
¸

n=n
0
a
n
=
¸
m
0
−1
n=n
0
a
n
+
¸

n=m
0
a
n
.
Proposição 7.2.3 Se as séries geradas pelas sucessões (a
n
)
n∈N
e (b
n
)
n∈N
convergirem, então:
1. a série gerada por (a
n
+b
n
)
n∈N
converge e
¸

n=1
(a
n
+b
n
) =
¸

n=1
a
n
+
¸

n=1
b
n
;
7.2. SÉRIES 135
2. para qualquer c ∈ R a série gerada por (ca
n
)
n∈N
converge, e
¸

n=1
ca
n
= c
¸

n=1
a
n
.
Demonstração:
1. Sejam (s
n
)
n∈N
, (t
n
)
n∈N
e (u
n
)
n∈N
as sucessões das somas parciais das séries geradas respectivamente por (a
n
)
n∈N
,
(b
n
)
n∈N
e (a
n
+b
n
)
n∈N
. Então é fácil de ver que u
n
= s
n
+t
n
; como, por hipótese, (s
n
)
n∈N
e (t
n
)
n∈N
convergem,
conclui-se que (u
n
)
n∈N
converge, e lim
n→∞
u
n
= lim
n→∞
s
n
+ lim
n→∞
t
n
.
2. análoga à anterior.
Proposição 7.2.4 Se a série gerada por (a
n
)
n∈N
converge, então lim
n→∞
a
n
=0.
Demonstração: Seja l = lim
n→∞
s
n
; então, lim
n→∞
s
n+1
= l, de onde lim
n→∞
(s
n+1
−s
n
) = l −l = 0; mas s
n+1
−s
n
=
a
n+1
, portanto lim
n→∞
a
n+1
= 0, logo (a
n
)
n∈N
converge para 0.
Observação: o recíproco não é verdadeiro.
Proposição 7.2.5 Para cada r ∈ R, a série
¸

n=1
r
n
(série geométrica de razão r) converge sse [r[ < 1, e, nesse
caso, a sua soma é
r
1−r
.
Demonstração: Para r tal que [r[ ≥ 1, não se tem lim
n→∞
r
n
= 0, portanto, pela proposição anterior,
¸

n=1
r
n
não
converge.
Seja r = 1 e (s
n
)
n∈N
a sucessão das somas parciais de o
r
. Então
s
n
= r +r
2
+ +r
n−1
+r
n
rs
n
= r
2
+r
3
+ +r
n
+r
n+1
,
logo s
n
(1 −r) = r −r
n+1
, isto é, s
n
=
r−r
n+1
1−r
. Se [r[ < 1, então lim
n→∞
r
n+1
= 0, portanto s
n
converge para
r
1−r
.
Exemplos:
1. a
n
=
1
n(n+1)
s
n
=
¸
n
k=1
1
k(k+1)
=
¸
n
k=1
(
1
k

1
k+1
) = 1 −
1
n+1
lim
n→∞
s
n
= 1, logo
¸

n=1
1
n(n+1)
= 1
2. a
n
= (−1)
n
s
n
=

−1 se n é ímpar
0 se n é par
(s
n
)
n∈N
não converge, isto é,
¸

n=1
(−1)
n
não converge.
3. a
n
=
1
n
s
n
=
¸
n
k=1
1
k
; para todo o m ∈ N, tem-se
a
2
m
+1
+a
2
m
+2
+ +a
2
m+1
. .. .
2
m+1
−2
m
=2
m
parcelas
=
1
2
m
+ 1
+ +
1
2
m+1
>
2
m
2
m+1
=
1
2
.
Conclui-se que
s
2
n =
2
n
¸
k=1
1
k
= 1 +
1
2
+
2
2
¸
k=3
1
k
+
2
3
¸
k=2
2
+1
1
k
+ +
2
n−1
¸
k=2
n−2
+1
1
k
+
2
n
¸
k=2
n−1
+1
1
k
> 1 +
n
2
,
logo lim
n→∞
s
2
n = +∞, isto é, a sucessão parcial (s
2
n)
n∈N
de (s
n
)
n∈N
tende para +∞, logo (s
n
)
n∈N
não
converge. Conclui-se que
¸

n=1
1
n
não converge (embora lim
n→∞
1
n
= 0).
4. a
n
=
(−1)
m
m+1
, em que m é o único número de N ∪ ¦0¦ tal que
m(m+1)
2
< n ≤
(m+1)(m+2)
2
;
Observação: os primeiros 15 termos da sucessão (a
n
)
n∈N
são: 1, −
1
2
, −
1
2
,
1
3
,
1
3
,
1
3
, −
1
4
, −
1
4
, −
1
4
, −
1
4
,
1
5
,
1
5
,
1
5
,
1
5
,
1
5
.
s
1
= 1, s
3
= 0, s
6
= 1, s
10
= 0, . . .; tem-se s2n(2n+1)
2
= 0 e s2n(2n−1)
2
= 1, isto é, (s
n
)
n∈N
tem duas sucessões
parciais convergentes para limites diferentes, portanto (s
n
)
n∈N
não é convergente, ou seja
¸

n=1
a
n
não converge
(apesar de se ter lim
n→∞
a
n
=0).
136 CAPÍTULO 7. SUCESSÕES E SÉRIES
5. a
n
=
1
3
n−1
s
n
=
1−
1
3
n
1−
1
3
;
¸

n=1
1
3
n−1
=
3
2
6. a
n
=
1
5
n
s
n
=
1
5

1
5
n+1
1−
1
5
=
1
4
(1 −
1
5
n
);
¸

n=1
1
5
n
=
1
4
7. a
n
= r
n
, n ≥ 0, r ∈ R
¸

n=0
a
n
converge sse [r[ < 1, isto é, sse r ∈] −1, 1[; nesse caso
¸

n=0
a
n
=
1
1−r
.
8. a
n
= x
2n
, n ≥ 0, x ∈ R
¸

n=0
a
n
converge sse [x
2
[ < 1, isto é, sse x ∈] −1, 1[; nesse caso,
¸

n=0
a
n
=
1
1−x
2
(
¸

n=1
a
n
=
x
2
1−x
2
).
9. a
n
= (x + 3)
3n
, x ∈ R
¸

n=1
a
n
converge sse [x + 3[
3
< 1, isto é, sse x ∈] −4, −2[; nesse caso,
¸

n=1
a
n
=
1
1−(x+3)
3
=
−1
x
3
+3x
2
+9x+26
.
10. Para x ∈] −2, 2[, tem-se
x
2
2 +x
=
x
2
2

1
1 +x/2
=
x
2
2

1
1 −(−x/2)
=
x
2
2

¸
n=0


x
2

n
=

¸
n=0
(−1)
n
x
n+2
2
n+1
.
Para x ∈] −2, 6[, tem-se
x
2
2 +x
=
x
2
3 + (x −1)
=
x
2
3

1
1 −
1−x
3
=
x
2
3

¸
n=0

1 −x
3

n
=
((x −1)
2
+ 2(x −1) + 1)
3

¸
n=0
(−1)
n

x −1
3

n
=

¸
n=0
(−1)
n
3
n+1
((x −1)
n+2
+ 2(x −1)
n+1
+ (x −1)
n
).
11. Para x ∈] −

3, −1[∪]1,

3[, tem-se
x
3 −x
2
=
x
1 −(x
2
−2)
= x

¸
n=0
(x
2
−2)
n
=

¸
n=0
x(x
2
−2)
n
.
Para x ∈] −

3,

3[, tem-se
x
3 −x
2
=
x
3

1
1 −x
2
/3

=
x
3

¸
n=0

x
2
3

n
=

¸
n=0
x
2n+1
3
n+1
.
12. a
n
=
n
2
n
s
n
=
1
2
+
2
4
+
3
8
+ +
n −1
2
n−1
+
n
2
n
=
1
2
+
1
4
+
1
8
+ +
1
2
n−1
+
1
2
n
+
1
4
+
1
8
+ +
1
2
n−1
+
1
2
n
+
1
8
+ +
1
2
n−1
+
1
2
n

+
1
2
n−1
+
1
2
n
+
1
2
n
=
1
2

1
2
n+1
1
2
+
1
2

1
2

1
2
n
1
2

+
1
4

1
2

1
2
n−1
1
2

+
1
8

1
2

1
2
n−2
1
2

+ +
1
2
n−2

1
2

1
2
3
1
2

+
1
2
n−1

1
2

1
2
2
1
2

= 1 −
1
2
n
+
1
2

1
2
n
+
1
4

1
2
n
+
1
8

1
2
n
+ +
1
2
n−1

1
2
n
= −
n
2
n
+
1 −
1
2
n
1
2
= 2 −
n + 2
2
n
Como lim
n→∞
(2 −
n+2
2
n
) = 2, conclui-se que
¸

n=1
n
2
n
= 2.
7.2. SÉRIES 137
13. a
n
= nr
n
, [r[ < 1
Procedendo como no exemplo anterior, pode-se mostrar que
¸
n
k=1
a
n
=
r−r
n+1
−nr
n+1
+nr
n+2
(1−r)
2
, de onde se conclui
que
¸

n=1
nr
n
=
r
(1−r)
2
.
14. a
n
=
5
n
+3
n
10
n
¸

n=1
5
n
+3
n
10
n
=
¸

n=1
5
n
10
n
+
¸

n=1
3
n
10
n
=
¸

n=1
(
1
2
)
n
+
¸

n=1
(
3
10
)
n
=
1
2
1−
1
2
+
3
10
1−
3
10
=
10
7
15. a
n
=
4
5
n
¸

n=1
4
5
n
= 4
¸

n=1
1
5
n
= 4
1
5
1−
1
5
= 1
16. a
n
=
1
n!
, n ≥ 0
Tem-se
¸
n
k=0
a
k
= P
n,0,exp
(1), logo
¸

n=0
1
n!
= e.
Observação: mais geralmente, para x ∈ R, tem-se
¸

n=0
x
n
n!
= e
x
.
17. a
n
=
(−1)
n
x
2n+1
(2n+1)!
, n ≥ 0, x ∈ R
s
n
=
¸
n
k=0
(−1)
k
x
2k+1
(2k+1)!
= P
2n+1,0,sen
(x);
¸

n=0
(−1)
n
x
2n+1
(2n+1)!
= sen x
18. a
n
=
(−1)
n
x
2n
(2n)!
, n ≥ 0, x ∈ R
s
n
=
¸
n
k=0
(−1)
k
x
2k
(2k)!
= P
2n,0,cos
(x);
¸

n=0
(−1)
n
x
2n
(2n)!
= cos x
19. a
n
=
(−1)
n
x
2n+1
2n+1
, n ≥ 0, x ∈ [−1, 1]
s
n
=
¸
n
k=0
(−1)
k
x
2k+1
2k+1
= P
2n+1,0,arctg
(x);
¸

n=0
(−1)
n
x
2n+1
2n+1
= arctg x
20. a
n
=
(−1)
n−1
x
n
n
, x ∈] −1, 1]
s
n
=
¸
n
k=0
(−1)
k−1
x
k
k
= P
n,0,f
(x) em que f: ] −1, +∞[ −→ R
x → log(1 +x)
;
¸

n=1
(−1)
n−1
x
n
n
= log(1 +x)
Observações:
1. Se
¸

n=1
a
n
converge e
¸

n=1
b
n
não converge, então
¸

n=1
(a
n
+ b
n
) não converge; no entanto, se
¸

n=1
a
n
e
¸

n=1
b
n
não convergem, pode acontecer que
¸

n=1
(a
n
+b
n
) seja convergente ou não; por exemplo,
¸

n=1
1
n
não
converge e
¸

n=1
(
1
n
+
1
n
) não converge, mas
¸

n=1
1
n
não converge,
¸

n=1
(
1
n
2

1
n
) não converge e
¸

n=1
(
1
n
+
1
n
2

1
n
)
converge.
2. O exemplo 4 é um caso em que (a
n
)
n∈N
converge para 0, existem sucessões parciais de (s
n
)
n∈N
que convergem,
mas (s
n
)
n∈N
não converge; na proposição seguinte vamos ver que a convergência de uma sucessão parcial de
um certo tipo de (s
n
)
n∈N
, juntamente com a convergência de (a
n
)
n∈N
para 0, são suficientes para assegurar a
convergência de (s
n
)
n∈N
.
Proposição 7.2.6 Seja (a
n
)
n∈N
uma sucessão convergente para 0 e ∀n, s
n
=
¸
n
k=1
a
k
. Se existir m ∈ N tal que
(s
nm
)
n∈N
converge para l, então (s
n
)
n∈N
converge para l.
Demonstração: Seja > 0; queremos ver que existe n
0
∈ N tal que n > n
0
⇒ [s
n
−l[ < . Para cada n > m, tem-se
[s
n
−l[ = [s
n
−s
m[n/m]
+s
m[n/m]
−l[ ≤ [s
n
−s
m[n/m]
[ +[s
m[n/m]
−l[.
Ora s
m[n/m]
é um termo da sucessão (s
nm
)
n∈N
, logo para n suficientemente grande, a distância de s
m[n/m]
a l é
menor do que /2. Por outro lado, s
n
−s
m[n/m]
é a soma de quando muito m−1 termos da sucessão (a
n
)
n∈N
; como
(a
n
)
n∈N
converge para 0, para n suficientemente grande, s
n
−s
m[n/m]
é menor do que /2. Mais precisamente existe
n
1
∈ N tal que [n/m] > n
1
⇒ [s
m[n/m]
− l[ < /2, de onde n > mn
1
+ m ⇒ [n/m] > n
1
⇒ [s
m[n/m]
− l[ < /2.
Por outro lado, ou n = m[n/m], caso em que s
n
− s
m[n/m]
= 0, ou n > m[n/m], caso em que [s
n
− s
m[n/m]
[ =
[a
m[n/m]+1
+ a
m[n/m]+2
+ + a
n
[ ≤ [a
m[n/m]+1
[ + [a
m[n/m]+2
[ + + [a
n
[ (soma com, no máximo m− 1 parcelas).
Então, se cada [a
m[n/m]+k
[ for menor do que

2m
, tem-se [s
n
− s
m[n/m]
[ <
(m−1)
2m
<

2
; mas existe n
2
∈ N tal
que n > n
2
⇒ [a
n
[ <

2m
, logo, se m[n/m] > n
2
, tem-se [a
m[n/m]+k
[ <

2m
; em particular, se n > n
2
+ m,
tem-se m[n/m] > n
2
, logo, para todo o k, m[n/m] + k > n
2
, portanto [a
m[n/m]+k
[ <

2m
. Conclui-se que para
n
0
= max¦n
1
, n
2
¦, se tem n > n
0
⇒ [s
n
−l[ < .
138 CAPÍTULO 7. SUCESSÕES E SÉRIES
Observação: Seja (b
n
)
n∈N
uma sucessão parcial de (a
n
)
n∈N
e (s
n
)
n∈N
a sucessão das somas parciais da série gerada
por (a
n
)
n∈N
. A sucessão das somas parciais de
¸

n=1
b
n
não é, em geral, uma sucessão parcial de (s
n
)
n∈N
; da
convergência de
¸

n=1
a
n
não se pode concluir a convergência de
¸

n=1
b
n
.
Exemplo: a
n
=
(−1)
n−1
n
; b
n
= a
2n−1
; (b
n
)
n∈N
é uma sucessão parcial de (a
n
)
n∈N
; a sucessão das somas parciais de
¸

n=1
b
n
, (1+1/3+ +1/(2n−1))
n∈N
não é uma sucessão das somas parciais de
¸

n=1
a
n
, (1+1/2+ +1/n)
n∈N
;
¸

n=1
a
n
converge mas
¸

n=1
b
n
não converge.
Lema 7.2.7 Sejam (a
n
)
n∈N
e n
0
∈ N tais que ∀n ≥ n
0
: a
n
≥ 0 (resp. a
n
≤ 0). Então
¸

n=1
a
n
converge sse a
sucessão das somas parciais é majorada (resp. minorada).
Demonstração: Sejam (s
n
)
n∈N
a sucessão das somas parciais e n
0
tal que n ≥ n
0
⇒ a
n
≥ 0. Se (s
n
)
n∈N
não é majorada,
não é convergente. Por outro lado se for majorada, como é crescente a partir de n
0
, conclui-se que é convergente.
Observação: Todos os critérios de convergência que serão vistos para séries geradas por sucessões de números positivos
se generalizam de maneira óbvia para séries geradas por sucessões de números negativos.
Proposição 7.2.8 (primeiro critério de comparação) Sejam (a
n
)
n∈N
, (b
n
)
n∈N
e n
0
∈ N tais que ∀n ≥ n
0
: 0 ≤
a
n
≤ b
n
. Então
¸

n=1
b
n
converge ⇒
¸

n=1
a
n
converge.
Demonstração: Sejam s
n
=
¸
n
0
+n
k=n
0
a
k
e t
n
=
¸
n
0
+n
k=n
0
b
k
; como b
k
≥ 0, t
n
é crescente; por outro lado, (t
n
)
n∈N
converge
para
¸

n=n
0
b
n
, portanto, para todo o n, t
n

¸

n=n
0
b
n
. De a
n
≤ b
n
para n ≥ n
0
, conclui-se que para todo o n
s
n
≤ t
n
; então (s
n
)
n≥n
0
é majorada (por
¸

n=n
0
b
n
), logo converge (pelo lema anterior).
Observação: Claro que as somas
¸

n=1
a
n
e
¸

n=1
b
n
são em geral diferentes.
Exemplos:
1. a
n
=
1
n
2
Já foi visto que
¸

n=1
1
n(n+1)
converge; como ∀n ∈ N : 0 ≤
1
(n+1)
2

1
n(n+1)
,
¸

n=1
1
(n+1)
2
converge, isto é,
¸

n=2
1
n
2
converge, logo
¸

n=1
1
n
2
converge.
2. a
n
=
1
n
p
, p ∈ [2, +∞[
Como p ≥ 2, tem-se n
p
≥ n
2
, logo
1
n
p

1
n
2
; conclui-se que
¸

n=1
1
n
p
converge.
3. a
n
=
1
2n−1
Já foi visto que
¸

n=1
1
n
não converge, logo
¸

n=1
1
2n
tambem não converge; como ∀n ∈ N :
1
2n−1

1
2n
, conclui-se
que
¸

n=1
1
2n−1
não converge.
4. a
n
=
1
n
p
, 0 < p ≤ 1
Como p ≤ 1, tem-se n
p
≤ n, logo
1
n
p

1
n
; conclui-se que
¸

n=1
1
n
p
não converge.
5. a
n
=
1
log n
, n ≥ 2
Como log n ≤ n, tem-se
1
log n

1
n
, logo
¸

n=2
1
log n
não converge.
6. a
n
=
1

n
2
+1
Como

n
2
+ 1 ≤

n
2
+n
2
=

2n, conclui-se que
1

n
2
+1

1

2n
, logo
¸

n=1
1

n
2
+1
não converge.
7. a
n
=
1
n
2
log n
, n ≥ 2
Para n ≥ 3, tem-se
1
n
2
log n

1
n
2
, logo
¸

n=2
1
n
2
log n
converge.
Proposição 7.2.9 (segundo critério de comparação) Sejam (a
n
)
n∈N
e (b
n
)
n∈N
tais que para todo o n a
n
, b
n
> 0
e lim
n→∞
a
n
b
n
= c ∈ R ` ¦0¦. Então
¸

n=1
a
n
converge sse
¸

n=1
b
n
converge.
Demonstração: Suponhamos que
¸

n=1
b
n
converge, e seja n
0
∈ N tal que n ≥ n
0
⇒ a
n
/b
n
< c + 1. Então
n ≥ n
0
⇒ a
n
< (c + 1)b
n
; por hipótese
¸

n=1
b
n
converge, logo
¸

n=n
0
(c + 1)b
n
converge, portanto (pelo critério
anterior)
¸

n=n
0
a
n
converge. Conclui-se que
¸

n=1
a
n
converge.
Suponhamos agora que
¸

n=1
a
n
converge. De lim
n→∞
a
n
b
n
= c, conclui-se que lim
n→∞
b
n
a
n
= 1/c, e o resto da
demonstração é análoga.
Observações:
7.2. SÉRIES 139
1. Se lim
n→∞
a
n
b
n
= 0, então
¸

n=1
b
n
converge ⇒
¸

n=1
a
n
converge (de facto, a demonstração dessa implicação
não utilizou o facto de c ser diferente de 0) mas o recíproco não é verdade (basta ver o que se passa, por exemplo,
para (a
n
)
n∈N
= (
1
n
2
)
n∈N
, (b
n
)
n∈N
= (
1
n
)
n∈N
).
2. Se lim
n→∞
a
n
b
n
= +∞, então lim
n→∞
b
n
a
n
= 0, portanto
¸

n=1
a
n
converge ⇒
¸

n=1
b
n
converge, mas o recíproco
não é verdade.
Exemplos
1. a
n
=
5n
2
−3
n
3
+1
lim
n→∞
5n
2
−3
n
3
+1
1
n
= lim
n→∞
5n
3
−3n
n
3
+1
= 5; como ∀n ∈ N : a
n
> 0 e
¸

n=1
1
n
não converge, conclui-se que
¸

n=1
5n
2
−3
n
3
+1
não converge.
2. a
n
=
6n
3n
4
−2
lim
n→∞
6n
3n
4
−2
1
n
3
= lim
n→∞
6n
4
3n
4
−2
= 2; como como ∀n ∈ N : a
n
> 0 e
¸

n=1
1
n
3
converge, conclui-se que
¸

n=1
6n
3n
4
−2
converge.
3. a
n
=
log n
n
3
lim
n→∞
log n
n
3
1
n
2
= lim
n→∞
log n
n
= 0; como como ∀n > 1 : a
n
> 0 e
¸

n=1
1
n
2
converge, conclui-se que
¸

n=1
log n
n
3
converge.
4. a
n
=
1
3

n−
4

n
lim
n→∞
1
3

n−
4

n
1
3

n
= lim
n→∞
3

n
3

n −
4

n
= lim
n→∞
1
1 −n
1/4−1/3
= 1; como ∀n ∈ N : a
n
> 0 e
¸

n=1
1
3

n
não converge,
conclui-se que
¸

n=1
1
3

n−
4

n
não converge.
5. a
n
=
1

n log n
, n ≥ 2
lim
n→∞
1

n log n
1
n
= lim
n→∞

n
log n
= +∞; como ∀n > 1 : a
n
> 0 e
¸

n=1
1
n
não converge, conclui-se que
¸

n=2
1

n log n
não converge.
6. a
n
=
1

5n
5
−2
lim
n→∞
1

5n
5
−2
1

n
5
= lim
n→∞

n
5

5n
5
−2
=
1

5
; como ∀n ∈ N : a
n
> 0 e
¸

n=1
1

n
5
converge, conclui-se que
¸

n=1
1

5n
5
−2
converge.
7. a
n
=
1
(log n)
p
, n ≥ 2, p > 0
lim
n→∞
1
(log n)
p
1
n
= lim
n→∞
(
n
1/p
log n
)
p
= +∞; como ∀n ∈ N : a
n
> 0 e
¸

n=1
1
n
não converge, conclui-se que
¸

n=2
1
(log n)
p
não converge.
8. a
n
=
(−1)
n

n
+
1
n
; b
n
=
(−1)
n

n
Tem-se lim
n→∞
a
n
b
n
= 1; no entanto
¸

n=1
a
n
não converge (porque é a soma de uma série convergente com uma
série não convergente) e
¸

n=1
b
n
converge (não existe nenhuma ordem a partir da qual a
n
, b
n
> 0).
Proposição 7.2.10 (critério de Cauchy) A série gerada por (a
n
)
n∈N
converge sse
∀ > 0 ∃n
0
∈ N∀m, n ∈ N : m > n > n
0
⇒ [a
n+1
+a
n+2
+ +a
m
[ < .
Demonstração: Seja s
n
= a
1
+ +a
n
. A série gerada por (a
n
)
n∈N
converge sse (s
n
)
n∈N
convergir, isto é, sse (s
n
)
n∈N
for uma sucessão de Cauchy, o que é equivalente a ∀ > 0 ∃n
0
: m, n > n
0
⇒ [s
n
− s
m
[ < , ou ainda (uma vez que
[s
n
−s
m
[ = [s
m
−s
n
[), a ∀ > 0 ∃n
0
: m > n > n
0
⇒ [s
n
−s
m
[ < . Ora para m > n, [s
m
−s
n
[ é [a
n+1
+a
n+2
+ +a
m
[.

140 CAPÍTULO 7. SUCESSÕES E SÉRIES
Proposição 7.2.11 (terceiro critério de comparação) Sejam (a
n
)
n∈N
, (b
n
)
n∈N
e (c
n
)
n∈N
tais que ∀n ∈ N : a
n

b
n
≤ c
n
. Se
¸

n=1
a
n
e
¸

n=1
c
n
convergem, então
¸

n=1
b
n
converge (observação: não é necessário que
¸

n=1
a
n
=
¸

n=1
c
n
).
Demonstração: Seja > 0; existe n
0
∈ N tal que m > n > n
0

[a
n+1
+ +a
m
[ <
[c
n+1
+ +c
m
[ <
; como ∀n : a
n
≤ b
n
≤ c
n
,
tem-se
− < a
n+1
+ +a
m
≤ b
n+1
+ +b
m
≤ c
n+1
+ +c
m
< ,
o que implica [b
n+1
+ +b
m
[ < . Pelo critério de Cauchy conclui-se que
¸

n=1
b
n
converge.
Exemplos
1. a
n
=
(−2)
n
+cos n
3
n
Tem-se
(−2)
n
−1
3
n
≤ a
n

(−2)
n
+1
3
n
; como
¸

n=1
(−2)
n
−1
3
n
e
¸

n=1
(−2)
n
+1
3
n
convergem (a soma destas séries é
respectivamente −9/10 e 1/10) conclui-se que
¸

n=1
a
n
converge.
2. a
n
=
sen
n
n
n
2
Tem-se −1/n
2
≤ a
n
≤ 1/n
2
; como
¸

n=1

1
n
2
e
¸

n=1
1
n
2
convergem, conclui-se que
¸

n=1
a
n
converge.
3. a
n
=
2
n
cos n
2
+n
2
3
n
(n+1)
2
Tem-se
−2
n
+n
2
3
n
(n+1)
2
≤ a
n

2
n
+n
2
3
n
(n+1)
2
; como
¸

n=1
−2
n
+n
2
3
n
(n+1)
2
e
¸

n=1
2
n
+n
2
3
n
(n+1)
2
convergem (o que se pode facilmente
mostrar usando os critérios de comparação anteriores) conclui-se que
¸

n=1
a
n
converge.
Proposição 7.2.12 (critério da razão) Seja (a
n
)
n∈N
uma sucessão de números positivos tal que (
a
n+1
a
n
)
n∈N
con-
verge para r. Se r < 1, então
¸

n=1
a
n
converge; se r > 1, então (a
n
)
n∈N
não converge para 0 (portanto
¸

n=1
a
n
não
converge).
Demonstração: Suponhamos primeiro r < 1 e seja s ∈]r, 1[; como lim
n→∞
a
n+1
a
n
= r, existe n
0
∈ N tal que n ≥ n
0

a
n+1
a
n
< s. Então a
n
0
+1
< sa
n
0
, a
n
0
+2
< sa
n
0
+1
< s
2
a
n
0
, . . ., a
n
0
+k
< s
k
a
n
0
. Como s < 1,
¸

k=1
s
k
a
n
0
converge,
portanto
¸

k=1
a
n
0
+k
converge (pelo primeiro critério de comparação). Conclui-se que
¸

n=1
a
n
converge.
Suponhamos agora que r > 1 e seja s ∈]1, r[; como lim
n→∞
a
n+1
a
n
= r, existe n
0
tal que n ≥ n
0

a
n+1
a
n
> s. Então,
para k ∈ N, tem-se a
n
0
+k
> s
k
a
n
0
; como s > 1, lim
k→∞
s
k
a
n
0
= +∞, portanto lim
n→∞
a
n
= +∞, logo (a
n
)
n∈N
não
converge para 0.
Observações:
1. Se lim
n→∞
a
n+1
a
n
= +∞, (a
n
)
n∈N
não converge para 0, logo
¸

n=1
a
n
não converge.
2. De lim
n→∞
a
n+1
a
n
= 1, ou da não existência de lim
n→∞
a
n+1
a
n
, não se pode concluir nada quanto à convergência da série
gerada por (a
n
)
n∈N
.
Exemplos
1. a
n
=
2
n
n!
lim
n→∞
a
n+1
a
n
= lim
n→∞
2
n+1
(n + 1)!

n!
2
n
= lim
n→∞
2
n + 1
= 0; logo
¸

n=1
a
n
converge.
Observação: mais geralmente, para x ∈ R,
¸

n=1
|x|
n
n!
converge.
2. a
n
=
n
2
3
n
lim
n→∞
a
n+1
a
n
= lim
n→∞
(n + 1)
2
3
n+1

3
n
n
2
=
1
3
; logo
¸

n=1
a
n
converge.
Observação: mais geralmente, para quaisquer α ∈]0, 1[, p ∈ N, a série
¸

n=1
n
p
α
n
converge; de facto, tem-se
lim
n→∞
(n + 1)
p
α
n+1
n
p
α
n
= α < 1.
7.2. SÉRIES 141
3. a
n
=
n!
n
n
lim
n→∞
a
n+1
a
n
= lim
n→∞
(n + 1)!
(n + 1)
n+1

n
n
n!
= lim
n→∞
(
n
n + 1
)
n
= lim
n→∞
(
1
1 + 1/n
)
n
= 1/e < 1; logo
¸

n=1
a
n
converge.
4. a
n
=
1
n
2
lim
n→∞
a
n+1
a
n
= lim
n→∞
n
2
(n + 1)
2
= 1; neste caso, não se pode concluir nada pelo critério da razão, mas já foi visto
que
¸

n=1
a
n
converge.
5. a
n
=
1
n
lim
n→∞
a
n+1
a
n
= lim
n→∞
n
n + 1
= 1; neste caso não se pode concluir nada pelo critério da razão, mas já foi visto que
¸

n=1
a
n
não converge.
6.

a
1
= 1
a
n+1
= a
n
/3 se n ímpar
a
n+1
= a
n
/4 se n par
Neste caso, não existe lim
n→∞
a
n+1
a
n
, uma vez que
a
n+1
a
n
=

1/3 se n ímpar
1/4 se n par
; no entanto, é fácil de ver que
∀n ∈ N : a
n

1
3
n−1
, portanto
¸

n=1
a
n
converge (primeiro critério de comparação).
7. a
n
=
x
2n
n
2
+1
, x ∈ R ` ¦0¦
lim
n→∞
a
n+1
a
n
= lim
n→∞
x
2n+2
(n + 1)
2
+ 1

n
2
+ 1
x
2n
= x
2
; pelo critério da razão, conclui-se que, para x tal que x
2
< 1,
¸

n=1
a
n
converge, e, para x tal que x
2
> 1,
¸

n=1
a
n
não converge. O critério da razão não permite concluir
nada se x
2
= 1, mas nesse caso a
n
=
1
n
2
+1

1
n
2
, logo
¸

n=1
a
n
converge.
8. a
n
=
16
n
x
4n
n
, x ∈ R ` ¦0¦
lim
n→∞
a
n+1
a
n
= lim
n→∞
16
n+1
x
4n+4
n + 1

n
16
n
x
4n
= 16x
4
; pelo critério da razão conclui-se que, se 16x
4
< 1, isto é, se
[x[ < 1/2, então
¸

n=1
a
n
converge, e se 16x
4
> 1, isto é, se [x[ > 1/2, então
¸

n=1
a
n
não converge; o critério da
razão não permite concluir nada se [x[ = 1/2, mas, nesse caso, a
n
= 1/n, e já foi visto que
¸

n=1
1
n
não converge.
9. a
n
=
x
2n
n!
n
n
, x ∈ R ` ¦0¦
lim
n→∞
a
n+1
a
n
= lim
n→∞
x
2n+2
(n + 1)!
(n + 1)
n+1

n
n
x
2n
n!
= lim
n→∞
x
2
(1 + 1/n)
n
= x
2
/e; pelo critério da razão, conclui-se que
¸

n=1
a
n
converge se x
2
< e e não converge se x
2
> e. Para x
2
= e, tem-se a
n
=
e
n
n!
n
n
; neste caso,
a
n+1
a
n
=
e
(1+1/n)
n
; ora a sucessão ((1+1/n)
n
)
n∈N
é estritamente crescente e converge para e (para ver que esta sucessão é
estritamente crescente, basta notar que (1 +1/n)
n
=
¸
n
k=0
C
n
k
1
n
k
e (1 +1/(n+1))
n+1
=
¸
n+1
k=0
C
n+1
k
1
(n+1)
k
; ora
C
n
k
/n
k
=
(n−1)(n−2)...(n−k+1)
k!n
k−1
e C
n+1
k
/(n +1)
k
=
n(n−1)...(n−k)
k!(n+1)
k
; como para i = 1, . . . , k −1 se tem
n−i
n
<
n+1−i
n+1
,
conclui-se que, para k = 0, . . . , n, C
n
k
/n
k
< C
n+1
k
/(n + 1)
k
, de onde (1 + 1/n)
n
< (1 + 1/(n + 1))
n+1
). Logo
∀n : (1+1/n)
n
< e, portanto
a
n+1
a
n
> 1, isto é (a
n
)
n∈N
é estritamente crescente. Mas então (a
n
)
n∈N
não converge
para 0, portanto
¸

n=1
a
n
não converge.
10. a
n
=
(n!)
2
(2n)!(1+nx
2
)
, x ∈ R
lim
n→∞
a
n+1
a
n
= lim
n→∞
(n + 1)
2
(1 +nx
2
)
(2n + 2)(2n + 1)(1 + (n + 1)x
2
)
= 1/4, logo
¸

n=1
a
n
converge.
Proposição 7.2.13 (critério do integral) Seja f : [1, +∞[−→R
+
uma função decrescente integrável e (a
n
)
n∈N
tal
que ∀n ∈ N : a
n
= f(n). Então
¸

n=1
a
n
converge sse

+∞
1
f(x) dx converge.
Demonstração:
142 CAPÍTULO 7. SUCESSÕES E SÉRIES
1
a a
1
+ ... + area sombreada=
. . .
n-2 n-1 n 4 3 2 1
4
3
2
a
a
a
n-2 a
a
1
a n-1
a n
n-1 a + ... + area sombreada=
. . .
n-2 n-1 n 4 3 2 1
4
3
a
a
n-2 a
a
1
a n-1
a
2
n a
2
a a n f(x) dx
n
1
area tracejada=
. . . n-2 n-1 n 4 3 2 1
4
3
a
a
n-2 a
a
1
a n-1
a
2
n a
Sejam b
n
=

n
1
f(x)dx e s
n
= a
1
+ + a
n
. A sucessão (b
n
)
n∈N
é crescente, uma vez que f só toma valores
positivos. Por outro lado, como f é decrescente, tem-se ∀m ∈ N : a
m+1
(= f(m + 1)) ≤

m+1
m
f(x)dx ≤ f(m) = a
m
,
de onde a
2
+ +a
n
≤ b
n
≤ a
1
+ +a
n−1
, isto é, b
n
≤ s
n−1
e s
n
≤ b
n
+a
1
.
Se

+∞
1
f(x) dx converge, então (b
n
)
n∈N
converge, logo (s
n
)
n∈N
é majorada, portanto convergente.
Se (s
n
)
n∈N
converge, então (b
n
)
n∈N
é majorada, logo convergente, isto é existe lim
n→∞

n
1
f(x)dx. Como f só toma
valores positivos, isso implica que existe lim
R→+∞

R
1
f(x)dx, ou seja, o integral impróprio

+∞
1
f(x)dx converge.
Exemplos:
1. a
n
=
1
n
p
, p > 0 (já foi visto que
¸

n=1
a
n
converge se p ≥ 2 e não converge se p ≤ 1)
Seja f: [1, +∞[ −→ R
+
x → 1/x
p
; então a
n
= f(n), f é decrescente e é integrável. Ora

+∞
1
1
x
p
dx converge sse
p > 1; conclui-se
¸

n=1
a
n
converge sse p > 1.
2. a
n
=
1
n(log n)
p
, n ≥ 2, p > 0
Seja f: [2, +∞[ −→ R
+
x →
1
x(log x)
p
; então a
n
= f(n), f é decrescente e é integrável. Ora

R
2
f(x)dx =

R
2
1
x(log x)
p
dx =

1
(log x)
p−1
(1−p
]
R
2
se p = 1
log [ log x[]
R
2
se p = 1
=

1
(log R)
p−1
(1−p)

1
(log 2)
p−1
(1−p)
se p = 1
log(log R)) −log [ log 2[ se p = 1
.
Ora lim
R→+∞
log(log R) = +∞ e lim
R→+∞
1
(log R)
p−1
(1−p)
=

0 se p > 1
+∞ se p < 1
, logo

+∞
2
f(x)dx converge sse
p > 1; conclui-se que
¸

n=2
a
n
converge sse p > 1.
Definição 7.2.14 Diz-se que a série gerada por (a
n
)
n∈N
é absolutamente convergente sse a série gerada pela
sucessão ([a
n
[)
n∈N
é convergente.
Proposição 7.2.15 Qualquer série absolutamente convergente é convergente.
Demonstração: Resulta imediatamente de ∀n ∈ N : −[a
n
[ ≤ a
n
≤ [a
n
[ e da proposição 7.2.11.
Observação: O recíproco não é verdadeiro.
Exemplos
1. a
n
=
sen(2n)
n
2
Tem-se [a
n
[ ≤
1
n
2
, logo
¸

n=1
[a
n
[ converge, portanto
¸

n=1
a
n
converge absolutamente.
2. a
n
=
(−1)
n
n
3
Tem-se [a
n
[ =
1
n
3
, logo
¸

n=1
[a
n
[ converge, portanto
¸

n=1
a
n
converge absolutamente.
3. a
n
=
(−1)
n
n
2
n
4
+3
Tem-se [a
n
[ =
n
2
n
4
+3

1
n
2
, logo
¸

n=1
a
n
converge absolutamente.
4. a
n
=
x
n
n
2
, x ∈ R
Para x tal que [x[ ≤ 1, tem-se [a
n
[ ≤ 1/n
2
, logo
¸

n=1
a
n
converge absolutamente; para x tal que [x[ > 1,
(x
n
/n
2
)
n∈N
não converge para 0, portanto
¸

n=1
a
n
não converge.
7.2. SÉRIES 143
Proposição 7.2.16 (critério de Leibniz) Seja (a
n
)
n∈N
uma sucessão decrescente de números positivos tal que
lim
n→∞
a
n
= 0. Então
¸

n=1
(−1)
n−1
a
n
converge.
Demonstração:
5
5 4
4
3 2
3
2
1 1
s s s s
s = a
a
a
a
a
Seja s
n
=
¸
n
j=1
(−1)
j−1
a
j
; para qualquer k ∈ N, tem-se s
2k+1
= s
2k−1
−a
2k
+a
2k+1
e s
2k+2
= s
2k
+a
2k+1
−a
2k+2
;
como (a
n
)
n∈N
é decrescente, a
2k+1
− a
2k
≤ 0, e a
2k+1
− a
2k+2
≥ 0, logo a sucessão (s
2k−1
)
k∈N
é decrescente e a
sucessão (s
2k
)
k∈N
é crescente. Por outro lado, para k par e l ímpar, tem-se s
k
≤ s
l
(basta observar que, se m é par e
m > k, l, então s
k
≤ s
m
≤ s
m+1
≤ s
l
). Conclui-se que (s
2k−1
)
k∈N
(respectivamente (s
2k
)
k∈N
) é minorada e decrescente
(respectivamente majorada e crescente), portanto (s
2k−1
)
k∈N
e (s
2k
)
k∈N
são convergentes; sejam α e β respectivamente
os seus limites. É óbvio que β ≤ α. Se β < α, então existe n
0
∈ N, n
0
par, tal que n > n
0
⇒ a
n
< α −β; mas então
s
n
0
≤ β ≤ α ≤ s
n
0
+1
, isto é, s
n
0
+1
− s
n
0
≥ α − β, e a
n
0
+1
< α − β, o que é absurdo. Conclui-se que α = β, logo
(s
n
)
n∈N
é convergente, isto é,
¸

n=1
(−1)
n−1
a
n
converge.
Observações:
1. Na realidade, basta que (a
n
)
n∈N
seja decrescente e positiva a partir de certa ordem.
2. Tem-se obviamente um resultado análogo para sucessões crescentes de números negativos.
Exemplos
1. a
n
=
(−1)
n−1
n
Como (1/n)
n∈N
é uma sucessão de números positivos decrescente e convergente para 0, conclui-se que
¸

n=1
a
n
converge. No entanto,
¸

n=1
[a
n
[ não converge;
¸

n=1
(−1)
n−1
n
é, portanto, uma série convergente que não é
absolutamente convergente.
2. a
n
=
(−1)
n−1
log n
, n ≥ 2
Como (
1
log n
)
n∈N
é uma sucessão de números positivos decrescente e convergente para 0, conclui-se que
¸

n=1
a
n
converge. No entanto,
¸

n=1
[a
n
[ não converge;
¸

n=1
(−1)
n−1
log n
é, portanto, uma série convergente que não é
absolutamente convergente.
3. a
n
=
(−1)
n−1

n
Como (
1

n
)
n∈N
é uma sucessão de números positivos decrescente e convergente para 0, conclui-se que
¸

n=1
a
n
converge. No entanto,
¸

n=1
[a
n
[ não converge;
¸

n=1
(−1)
n−1

n
é, portanto, uma série convergente que não é
absolutamente convergente.
4. a
n
=
(−1)
n
n
1+n
2
Como (
n
1+n
2
)
n∈N
é uma sucessão de números positivos decrescente e convergente para 0, conclui-se que
¸

n=1
a
n
converge. No entanto,
¸

n=1
[a
n
[ não converge;
¸

n=1
(−1)
n−1 n
1+n
2
é, portanto, uma série convergente que não
é absolutamente convergente.
5. a
n
=

1/n se n par
2/n se n ímpar
(a
n
)
n∈N
é uma sucessão de números positivos convergente para 0; no entanto, pondo s
n
=
¸
n
k=1
(−1)
n−1
a
n
, tem-
se s
2n+1
= 2+
¸
n
k=1
(−a
2k
+a
2k+1
) = 2+
¸
n
k=1
(
2
2k+1

1
2k
) = 2+
¸
n
k=1
2k−1
2k(2k+1)
. Ora lim
n→∞
n
¸
k=1
2k −1
2k(2k + 1)
= +∞,
uma vez que
¸

n=1
2n−1
2n(2n+1)
não converge, logo (s
n
)
n∈N
não converge ((a
n
)
n∈N
não é decrescente).
Seja (a
n
)
n∈N
uma sucessão de números reais; designa-se por (a
+
n
)
n∈N
(respectivamente (a

n
)
n∈N
) a sucessão definida
por a
+
n
=

a
n
se a
n
≥ 0
0 se a
n
< 0
(respectivamente a

n
=

a
n
se a
n
≤ 0
0 se a
n
> 0
); tem-se obviamente a
n
= a
+
n
+a

n
.
144 CAPÍTULO 7. SUCESSÕES E SÉRIES
Proposição 7.2.17 A série gerada por (a
n
)
n∈N
converge absolutamente sse as séries geradas por (a
+
n
)
n∈N
e (a

n
)
n∈N
convergem.
Demonstração: Tem-se a
n
= a
+
n
+a

n
e [a
n
[ = a
+
n
−a

n
, portanto a
n
+[a
n
[ = 2a
+
n
e a
n
−[a
n
[ = 2a

n
. Suponhamos que a
série gerada por (a
n
)
n∈N
converge absolutamente. Então
¸

n=1
a
n
converge e
¸

n=1
[a
n
[ converge, logo
¸

n=1
(a
n
+[a
n
[)
converge, e
¸

n=1
(a
n
−[a
n
[) converge, isto é
¸

n=1
2a
+
n
e
¸

n=1
2a

n
convergem.
Suponhamos agora que
¸

n=1
a
+
n
e
¸

n=1
a

n
convergem. Então
¸

n=1
(a
+
n
−a

n
) converge, mas como a
+
n
−a

n
= [a
n
[,
isto implica que
¸

n=1
[a
n
[ converge, isto é, a série gerada por (a
n
)
n∈N
converge absolutamente.
Definição 7.2.18 Diz-se que a sucessão (b
n
)
n∈N
é uma reordenaçãode (a
n
)
n∈N
sse existe uma bijecção ϕ : N −→N
tal que ∀n : b
n
= a
ϕ(n)
.
Proposição 7.2.19 1. Se
¸

n=1
a
n
converge absolutamente e (b
n
)
n∈N
é uma reordenação de (a
n
)
n∈N
, então
¸

n=1
b
n
converge absolutamente e
¸

n=1
b
n
=
¸

n=1
a
n
.
2. Se
¸

n=1
a
n
converge mas não converge absolutamente, para qualquer α ∈ R existe uma reordenação (b
n
)
n∈N
de
(a
n
)
n∈N
tal que
¸

n=1
b
n
= α.
Demonstração:
1. Sejam l =
¸

n=1
a
n
, ϕ : N −→N uma bijecção tal que b
n
= a
ϕ(n)
, (s
n
)
n∈N
e (t
n
)
n∈N
as sucessões das somas
parciais das séries
¸

n=1
a
n
e
¸

n=1
b
n
. Para quaisquer n e m tem-se [t
m
−l[ ≤ [t
m
−s
n
[ +[s
n
−l[. Seja agora
> 0; existe n
1
∈ N tal que n > n
1
⇒ [s
n
−l[ < /2. Por outro lado, seja n
0
> n
1
, tal que (
¸

n=1
[a
n
[) −([a
1
[ +
[a
2
[ + + [a
n
0
[) < /2; vamos ver que, para m suficientemente grande, se tem [t
m
− s
n
0
[ < /2. Com efeito,
seja m
0
tal que ¦1, . . . , n
0
¦ ⊂ ¦ϕ(1), . . . , ϕ(m
0
)¦; então, para m > m
0
, tem-se ¦1, . . . , n
0
¦ ⊂ ¦ϕ(1), . . . , ϕ(m)¦,
logo as parcelas [a
1
[, . . . , [a
n
0
[ aparecem na soma [a
ϕ(1)
[ + +[a
ϕ(m)
[ = [b
1
[ + +[b
m
[; ora,
[t
m
−s
n
0
[ =

m
¸
k=1
b
k

n
0
¸
k=1
a
k

=

m
¸
k=1
a
ϕ(k)

n
0
¸
k=1
a
k

= [
¸
k∈{ϕ(1),...,ϕ(m)}\{1,...,n
0
}
a
k
[

¸
k∈{ϕ(1),...,ϕ(m)}\{1,...,n
0
}
[a
k
[


¸
n
0
+1
[a
n
[ = (

¸
n=1
[a
n
[) −([a
1
[ + +[a
n
0
[) < /2
Conclui-se que, para m > m
0
, se tem [t
m
−l[ < /2 +/2 = , de onde
¸

n=1
b
n
converge para l.
Falta ver que
¸

n=1
b
n
converge absolutamente. Ora ([b
n
[)
n∈N
é uma reordenação de ([a
n
[)
n∈N
e
¸

n=1
a
n
converge absolutamente; pelo que já foi visto conclui-se que
¸

n=1
[b
n
[ converge e que a sua soma é
¸

n=1
[a
n
[.
2. Como
¸

n=1
a
n
não converge absolutamente, conclui-se que uma das séries
¸

n=1
a
+
n
e
¸

n=1
a

n
não converge;
mas então, como
¸

n=1
a
n
converge e a
n
= a
+
n
+a

n
, conclui-se que nenhuma das duas converge. Sejam (p
n
)
n∈N
a
sucessão parcial de (a
n
)
n∈N
constituida pelos termos maiores ou iguais a 0 e (q
n
)
n∈N
a sucessão parcial de (a
n
)
n∈N
constituida pelos termos menores do que 0. Como
¸

n=1
a
+
n
não converge,
¸

n=1
p
n
tambem não converge, e
como
¸

n=1
a

n
não converge,
¸

n=1
q
n
tambem não converge, isto é, as somas parciais de
¸

n=1
p
n
não são
majoradas e as somas parciais de
¸

n=1
q
n
não são minoradas.
Seja agora α ∈ R; existe n ∈ N tal que
¸
n
k=1
p
k
> α; sejam n
1
o primeiro número natural nestas condições
e s
1
=
¸
n
1
k=1
p
k
. Existe m tal que s
1
+
¸
m
k=1
q
k
< α; sejam m
1
o primeiro número natural nestas condições
e t
1
= s
1
+
¸
m
1
k=1
q
k
. Podemos continuar este processo: sejam n
2
o primeiro número natural a satisfazer
t
1
+
¸
n
2
k=n
1
+1
p
k
> α, s
2
= t
1
+
¸
n
2
k=n
1
+1
p
k
, m
2
o primeiro número natural a satisfazer s
2
+
¸
m
2
k=m
1
+1
q
k
< α,
t
2
= s
2
+
¸
m
2
k=m
1
+1
q
k
, etc. Para k > 1 tem-se
s
k
−p
n
k
≤ α < s
k
e t
k
< α ≤ t
k
−q
m
k
;
ora
¸

n=1
a
n
converge, logo (a
n
)
n∈N
converge para 0, portanto (p
n
)
n∈N
e (q
n
)
n∈N
convergem para 0; mas então
(s
k
)
k∈N
e (t
k
)
k∈N
convergem para α.
Consideremos a sucessão (u
n
)
n∈N
cujos termos são
p
1
, p
2
, . . . , p
n
1
, q
1
, . . . , q
m
1
, p
n
1
+1
, . . . , p
n
2
, q
m
1
+1
, . . . , q
m
2
, . . .
7.2. SÉRIES 145
e seja (v
n
)
n∈N
a sucessão das somas parciais da série gerada por (u
n
)
n∈N
. Tem-se então
v
1
≤ ≤ v
n
1
= s
1
t
1
= v
n
1
+m
1
≤ ≤ v
n
1
+1
≤ s
1
t
1
= v
n
1
+m
1
≤ ≤ v
n
1
+m
1
+n
2
= s
2

t
k
= v
n
1
+m
1
+···+n
k
+m
k
≤ ≤ v
n
1
+m
1
+···+n
k
= s
k
.
de onde se conclui que (v
n
)
n∈N
converge para α. Ora (u
n
)
n∈N
é uma reordenação de (a
n
)
n∈N
.
Observação: Tambem é possível construir reordenações que geram séries cujas somas parciais tendem para +∞
(respectivamente para −∞).
Exemplos
1. Já foi visto que log 2 = 1 −
1
2
+
1
3

1
4
+ ; seja s
n
=
¸
n
k=1
(−1)
k
k
. Consideremos a reordenação (b
n
)
n∈N
de
(1/n)
n∈N
em que um termo de ordem ímpar alterna com dois de ordem par:
1, −
1
2
, −
1
4
,
1
3
, −
1
6
, −
1
8
,
1
5
, −
1
10
, −
1
12
,
1
7
, −
1
14
, . . .
e seja t
n
a sucessão das somas parciais da série gerada por (b
n
)
n∈N
. Então t
2
=
1
2
, t
3
=
1
2

1
4
, t
5
=
1
2

1
4
+
1
6
,
t
6
=
1
2

1
4
+
1
6

1
8
; mais geralmente, para k ≥ 1 tem-se t
3k−1
=
1
2
s
2k−1
, t
3k
=
1
2
s
2k
; por outro lado, para k > 1,
tem-se t
3k−2
= t
3k−3
+
1
2k−1
. É fácil de ver, então, que (t
n
)
n∈N
converge para
1
2
lim
n→∞
s
n
=
1
2
log 2.
2. Sejam a
n
=
(−1)
n−1
n
e b
n
=

0 se n ímpar
(−1)
n/2+1
n
se n par
; (os primeiros termos de (b
n
)
n∈N
são 0,
1
2
, 0, −
1
4
, 0,
1
6
). Tem-se
¸

n=1
a
n
= log 2 e
¸

n=1
b
n
=
1
2
log 2; a
n
+b
n
=

1/n se n ímpar
−2/n se n é múltiplo de 4
0 se n + 2 é múltiplo de 4
. Seja (c
n
)
n∈N
a sucessão que se
obtem de (a
n
+b
n
)
n∈N
eliminando os termos nulos:
a
n
+b
n
: 1, 0,
1
3
, −
1
2
,
1
5
, 0,
1
7
, −
1
4
,
1
9
, 0,
1
11
, −
1
6
, . . .
c
n
: 1,
1
3
, −
1
2
,
1
5
,
1
7
, −
1
4
,
1
9
,
1
11
, −
1
6
, . . .
Então
¸

n=1
c
n
=
¸

n=1
(a
n
+b
n
) =
3
2
log 2; por outro lado, (c
n
)
n∈N
é obviamente uma reordenação de (a
n
)
n∈N
(que se obtem alternando dois termos de ordem ímpar com um termo de ordem par).
3. Seja a
n
=
(−1)
n−1
n
; consideremos a reordenação (b
n
)
n∈N
de (a
n
)
n∈N
em que três termos de ordem ímpar alternam
com dois termos de ordem par:
1,
1
3
,
1
5
, −
1
2
, −
1
4
,
1
7
,
1
9
,
1
11
, −
1
6
, −
1
8
,
1
13
,
1
15
,
1
17
, . . . ;
seja (s
n
)
n∈N
a sucessão das somas parciais da série gerada por (b
n
)
n∈N
. Então
s
5
=
6
¸
k=1
(−1)
k−1
k
+
1
6
s
10
=
12
¸
k=1
(−1)
k−1
k
+
1
10
+
1
12
s
15
=
18
¸
k=1
(−1)
k−1
k
+
1
14
+
1
16
+
1
18
. . .
s
5n
=
6n
¸
k=1
(−1)
k−1
k
+
1
2
3n
¸
k=2n+1
1
k
=
6n
¸
k=1
(−1)
k−1
k
+

1
2
3n
¸
k=2n
1
k


1
2n
.
Mas
¸
6n
k=1
(−1)
k−1
k
converge para log 2; já foi visto que (
¸
3n
k=2n
1
k
)
n∈N
converge para log
3
2
; conclui-se que (s
5n
)
n∈N
converge para log 2 +
1
2
log
3
2
. Pela proposição 7.2.6, (s
n
)
n∈N
converge para log 2 +
1
2
log
3
2
.
146 CAPÍTULO 7. SUCESSÕES E SÉRIES
Proposição 7.2.20 Sejam (a
n
)
n∈N
, (b
n
)
n∈N
e (u
n
)
n∈N
sucessões tais que existe uma bijecção ϕ : N N −→N com
u
ϕ(i,j)
= a
i
b
j
(isto é, (u
n
)
n∈N
é constituida pelos produtos de um termo de (a
n
)
n∈N
por um termo de (b
n
)
n∈N
). Se
¸

n=1
a
n
e
¸

n=1
b
n
convergem absolutamente, então
¸

n=1
u
n
converge absolutamente e
¸

n=1
u
n
= (
¸

n=1
a
n
)(
¸

n=1
b
n
).
Demonstração: Para quaisquer m, n ∈ N tem-se


¸
k=1
a
k

¸
k=1
b
k

n
¸
k=1
u
k


¸
k=1
a
k

¸
k=1
b
k

m
¸
k=1
a
k
m
¸
k=1
b
k

+

m
¸
k=1
a
k
m
¸
k=1
b
k

n
¸
k=1
u
k

. .. .
S
n,m
.
Fixado m, existe um n tal que ¦1, . . . , m¦¦1, . . . , m¦ ⊂ ϕ
−1
(¦1, . . . n¦), (isto é, ¦u
1
, . . . , u
n
¦ contém todos os produtos
a
i
b
j
, com i, j ≤ m); para tais n e m seja I
n,m
= ϕ
−1
(¦1, . . . n¦) ` (¦1, . . . , m¦ ¦1, . . . , m¦). Então
S
n,m
=

¸
(i,j)∈I
n,m
a
i
b
j


¸
(i,j)∈I
n,m
[a
i
[[b
j
[.
Seja agora > 0. Como
¸

n=1
[a
n
[ e
¸

n=1
[b
n
[ convergem, conclui-se que a sucessão ((
¸
n
k=1
[a
k
[)(
¸
n
k=1
[b
k
[))
n∈N
converge, logo é uma sucessão de Cauchy, em particular existe p
0
∈ N tal que
p > p
0
⇒ [
p
¸
k=1
[a
k
[
p
¸
k=1
[b
k
[ −
p
0
¸
k=1
[a
k
[
p
0
¸
k=1
[b
k
[ < /2,
de onde se conclui que qualquer soma finita
¸
k,l
[a
k
[[b
l
[ com k, l > p
0
é menor do que /2; em particular, m > p
0

S
n,m
< /2 (para n tal que ¦1, . . . , m¦ ¦1, . . . , m¦ ⊂ ϕ
−1
(¦1, . . . n¦)). Existe m
0
> p
0
tal que


¸
k=1
a
k

¸
k=1
b
k

m
0
¸
k=1
a
k
m
0
¸
k=1
b
k

< /2
(porque a sucessão (
¸
n
k=1
a
k
¸
n
k=1
b
k
)
n∈N
converge para
¸

k=1
a
k
¸

k=1
b
k
). Então, para n, tal que ¦1, . . . , m
0
¦
¦1, . . . , m
0
¦ ⊂ ϕ
−1
(¦1, . . . n¦), tem-se


¸
k=1
a
k

¸
k=1
b
k

n
¸
k=1
u
k


¸
k=1
a
k

¸
k=1
b
k

m
0
¸
k=1
a
k
m
0
¸
k=1
b
k

+S
n,m
0
< /2 +/2 = .
Do facto de a ordem dos termos da sucessão (u
n
)
n∈N
não interferir no valor de
¸

n=1
u
n
, conclui-se que
¸

n=1
u
n
converge absolutamente.
Definição 7.2.21 Dadas duas sucessões (a
n
)
n∈N
e (b
n
)
n∈N
, chama-se produto de Cauchy das séries geradas por
estas sucessões à série gerada pela sucessão (c
n
)
n∈N
, em que c
n
=
¸
n
k=1
a
k
b
n+1−k
.
Corolário 7.2.22 Se
¸

n=1
a
n
e
¸

n=1
b
n
convergem absolutamente, então o produto de Cauchy das duas séries
converge absolutamente e a sua soma é (
¸

n=1
a
n
)(
¸

n=1
b
n
).
Demonstração: Sejam (c
n
)
n∈N
tal que c
n
=
¸
n
k=1
a
k
b
n+1−k
, ϕ a bijecção N N −→ N
(i, j) →
(i+j−1)(i+j−2)
2
+i
e (u
n
)
n∈N
a sucessão tal que u
ϕ(i,j)
= a
i
b
j
(os 10 primeiros termos de (u
n
)
n∈N
são a
1
b
1
, a
1
b
2
, a
2
b
1
, a
1
b
3
, a
2
b
2
, a
3
b
1
, a
1
b
4
, a
2
b
3
,
a
3
b
2
, a
4
b
1
). Pela proposição anterior,
¸

n=1
u
n
converge absolutamente e
¸

n=1
u
n
= (
¸

n=1
a
n
)(
¸

n=1
b
n
). Sejam
(s
n
)
n∈N
e (t
n
)
n∈N
as sucessões das somas parciais das séries geradas por (u
n
)
n∈N
e (c
n
)
n∈N
respectivamente. Tem-se
t
1
= s
1
, t
2
= a
1
b
1
+ a
1
b
2
+ a
2
b
1
= s
3
, t
3
= a
1
b
1
+ a
1
b
2
+ a
2
b
1
+ a
1
b
3
+ a
2
b
2
+ a
3
b
1
= s
6
, t
n
= s
n(n+1)/2
, e, por
outro lado,
¸
n
k=1
[c
k
[ ≤
¸
n(n+1)/2
k=1
[u
k
[. Como
¸

n=1
u
n
converge absolutamente, conclui-se que
¸

n=1
c
n
converge
absolutamente; da convergência de (s
n
)
n∈N
para (
¸

n=1
a
n
)(
¸

n=1
b
n
) conclui-se a convergência de (s
n(n+1)/2
)
n∈N
, e,
portanto, de (t
n
)
n∈N
, para o mesmo limite.
Exemplos
1. a
n
= b
n
=
(−1)
n−1

n
;
¸

n=1
a
n
e
¸

n=1
b
n
convergem, mas não absolutamente.
c
n
=
¸
n
k=1
a
k
b
n+1−k
=
¸
n
k=1
(−1)
k−1

k
(−1)
n+1−k−1

n+1−k
=
¸
n
k=1
(−1)
n−1

k

n+1−k
= (−1)
n−1
¸
n
k=1
1

k

n+1−k
; ora, para
k ∈ ¦1, . . . n¦, tem-se
1

k

1

n
e
1

n+1−k

1

n
, logo [c
n
[ =
¸
n
k=1
1

k

n+1−k
≥ n
1

n
1

n
= 1; conclui-se (c
n
)
n∈N
não converge para 0, logo
¸

n=1
c
n
não converge.
7.2. SÉRIES 147
2. a
n
= b
n
= x
n
, x ∈] −1, 1[
c
n
=
¸
n
k=1
a
k
b
n+1−k
=
¸
n
k=1
x
k
x
n+1−k
=
¸
n
k=1
x
n+1
= nx
n+1
; como
¸

n=1
a
n
e
¸

n=1
b
n
convergem absolu-
tamente (para
x
1−x
), conclui-se que
¸

n=1
c
n
converge absolutamente para
x
2
(1−x)
2
, isto é,
¸

n=1
nx
n+1
=
x
2
(1−x)
2
.
3. a
n
=
x
n
n!
, b
n
= x
n
, x ∈] −1, 1[
c
n
=
¸
n
k=1
a
k
b
n+1−k
=
¸
n
k=1
x
k
k!
x
n+1−k
=
¸
n
k=1
x
n+1
k!
= x
n+1
¸
n
k=1
1
k!
; como
¸

n=1
a
n
e
¸

n=1
b
n
convergem
absolutamente (respectivamente para e
x
−1 e
x
1−x
) conclui-se que
¸

n=1
c
n
converge absolutamente para
x(e
x
−1)
1−x
,
isto é,
¸

n=1
(
¸
n
k=1
1
k!
)x
n+1
=
x(e
x
−1)
1−x
.
148 CAPÍTULO 7. SUCESSÕES E SÉRIES
Capítulo 8
Sucessões e séries de funções
8.1 Sucessões de funções
Definição 8.1.1 Uma sucessão de funções reais de domínio A é uma função N −→ ¦funções de A em R¦
A notação usada é análoga à usada para sucessões reais: (f
n
)
n∈N
, em que para todo o n f
n
: A −→R
Exemplos
1. f
n
: R −→ R
x → nx
2. f
n
: R −→ R
x → cos(nx)
3. f
n
: R
+
−→ R
x →
n

x
Definição 8.1.2 Seja (f
n
)
n∈N
uma sucessão de funções de domínio A.
1. Diz-se que a sucessão (f
n
)
n∈N
converge pontualmente para f : A −→R sse para qualquer x ∈ A se tiver
lim
n→∞
f
n
(x) = f(x). Mais geralmente, se A
1
⊂ A e A
1
⊂ A
2
, diz-se que (f
n
)
n∈N
converge pontualmente em A
1
para f : A
2
−→R sse (f
n|A
1
)
n∈N
converge pontualmente para f
A
1
.
2. Chama-se domínio de convergência da sucessão (f
n
)
n∈N
ao conjunto ¦x ∈ A : (f
n
(x))
n∈N
converge ¦.
3. Diz-se que (f
n
)
n∈N
converge uniformemente para f : A −→R sse
∀ > 0 ∃n
o
∈ N : n > n
0
⇒ ∀x ∈ A : [f
n
(x) −f(x)[ < .
Mais geralmente, se A
1
⊂ A e A
1
⊂ A
2
, diz-se que (f
n
)
n∈N
converge uniformemente em A
1
para f : A
2
−→R
sse (f
n|A
1
)
n∈N
converge uniformemente para f
A
1
.
Proposição 8.1.3 Se (f
n
)
n∈N
converge uniformemente para f, então (f
n
)
n∈N
converge pontualmente para f.
Demonstração: trivial.
Proposição 8.1.4 A sucessão (f
n
)
n∈N
converge uniformemente para f em A sse existe uma ordem a partir da qual
f
n
−f é limitada e lim
n→∞
sup
x∈A
[f
n
(x) −f(x)[ = 0.
Demonstração: Suponhamos que (f
n
)
n∈N
converge uniformemente para f em A e seja > 0; existe n
0
∈ N tal que
∀n > n
0
, ∀x ∈ A : [f
n
(x) −f(x)[ < ; logo, para qualquer n > n
0
, o conjunto D = ¦[f
n
(x) −f(x)[, x ∈ A¦ é majorado
e sup D ≤ . Mas isto implica que lim
n→∞
sup
x∈A
[f
n
(x) −f(x)[ = 0.
Suponhamos agora que lim
n→∞
sup
x∈A
[f
n
(x) −f(x)[ = 0 e seja > 0. Existe n
0
∈ N tal que n > n
0
⇒ sup
x∈A
[f
n
(x) −
f(x)[ < ; mas então, para n > n
0
e x ∈ A, tem-se [f
n
(x) −f(x)[ ≤ sup
x∈A
[f
n
(x) −f(x)[ < . Logo (f
n
)
n∈N
converge
uniformemente para f.
149
150 CAPÍTULO 8. SUCESSÕES E SÉRIES DE FUNÇÕES
Observação: Se (f
n
)
n∈N
converge pontualmente para f, então, para cada x, a partir de certa ordem o ponto do
gráfico de f
n
de abcissa x está arbitrariamente próximo do ponto do gráfico de f de abcissa x; no entanto, essa ordem
pode ter de depender de x, caso em que os gráficos dos f
n
não estão globalmente próximos do gráfico de f. Pelo
contrário, se a convergência for uniforme, a partir de certa ordem o gráfico de f
n
está globalmente arbitrariamente
próximo do gráfico de f.
Exemplos
1. f
n
: R −→ R
x → 1/n
-2 -1 1 2
0.2
0.4
0.6
0.8
1
f
1
f
2
f
3
Para qualquer x ∈ R tem-se lim
n→∞
f
n
(x) = lim
n→∞
1
n
= 0, portanto (f
n
)
n∈N
converge pontualmente para a fun-
ção nula, f
0
: R −→ R
x → 0
. Como [f
n
(x) − f
0
(x)[ = 1/n, tem-se sup
x∈A
[f
n
(x) − f
0
(x)[ = 1/n, isto é,
(sup
x∈R
[f
n
(x) −f
0
(x)[)
n∈N
converge para 0, logo (f
n
)
n∈N
converge uniformemente para a função nula.
2. f
n
: R −→ R
x → e
−n(1+x
2
)
-1.5 -1 -0.5 0 0.5 1 1.5
0.05
0.1
0.15
0.2
0.25
0.3
0.35
f
1
f
2
f
3
Para qualquer x ∈ R, lim
n→∞
e
−n(1+x
2
)
= 0, portanto (f
n
)
n∈N
converge pontualmente para a função nula, f
0
:
R −→ R
x → 0
. Tem-se [f
n
(x) − f
0
(x)[ = e
−n(1+x
2
)
≤ e
−n
. Seja > 0; como existe n
0
∈ N tal que n > n
0

e
−n
< (uma vez que (e
−n
)
n∈N
converge para 0), conclui-se que ∀n > n
0
, ∀x ∈ R : [f
n
(x) − f
0
(x)[ < , logo
(f
n
)
n∈N
converge uniformemente para a função nula.
3. f
n
: R −→ R
x → x/n
8.1. SUCESSÕES DE FUNÇÕES 151
-4 -2 2 4
-4
-2
2
4
f
1
f
2
Para qualquer x ∈ R, tem-se lim
n→∞
x/n = 0, portanto (f
n
)
n∈N
converge pontualmente para a função nula f
0
:
R −→ R
x → 0
. No entanto, para cada n ∈ N, lim
x→+∞
f
n
(x) = +∞. Então, para qualquer n
0
∈ N existe x ∈ R
(por exemplo x = n
0
) tal que [f
n
0
(x) − f
0
(x)[(= [x/n
0
[) ≥ 1. Conclui-se que existe > 0 (por exemplo = 1)
tal que ∀n
0
∈ N ∃x ∈ R : [f
n
(x) −f
0
(x)[ ≥ . Logo (f
n
)
n∈N
não converge uniformemente para a função nula.
No entanto, (f
n
)
n∈N
converge uniformemente para f
0
em qualquer conjunto limitado; com efeito, se A é um
conjunto limitado e M é tal que ∀x ∈ A : [x[ < M, então x ∈ A ⇒ [f
n
(x) − f
0
(x)[(= [x[/n) < M/n, de onde
sup
x∈A
[f
n
(x) −f
0
(x)[ ≤ M/n, logo lim
n→∞
sup
x∈A
[f
n
(x) −f
0
(x)[ = 0.
4. f
n
: R −→ R
x → x
n
-1 -0.5 0.5 1
Grafico de f2
-1
-0.75
-0.5
-0.25
0.25
0.5
0.75
1
-1 -0.5 0.5 1
Grafico de f11
-1
-0.75
-0.5
-0.25
0.25
0.5
0.75
1
-1 -0.5 0.5 1
Graficos de fn, n=1,...,7
-1
-0.75
-0.5
-0.25
0.25
0.5
0.75
1
-1
1
1 -1
Para x ∈] − ∞, −1]∪]1, +∞[, (x
n
)
n∈N
não converge; para x=1, (x
n
)
n∈N
converge para 1 e para x ∈] − 1, 1[,
(x
n
)
n∈N
converge para 0. Então em ] − 1, 1] a sucessão (f
n
)
n∈N
converge pontualmente para a função f:
] −1, 1] −→ R
x →

0 se x = 1
1 se x = 1
. Como, para cada n ∈ N, lim
x→1+
f
n
(x) = 1, dado qualquer < 1, para todo o
n
0
∈ N existe x ∈]0, 1[ tal que x
n
0
> (por exemplo
n
0

1+
2
); isto é, existe > 0 tal que para qualquer n
0
∈ N
existe x ∈]0, 1[ tal que x
n
0
> . Portanto (f
n
)
n∈N
não converge uniformemente para f em ] −1, 1]. No entanto,
(f
n
)
n∈N
converge uniformemente para f em qualquer intervalo [−r, r] com r ∈]0, 1[; com efeito, para x ∈ [−r, r],
tem-se [f
n
(x) −f(x)[ = [x
n
[ ≤ r
n
, e como lim
n→∞
r
n
= 0, conclui-se que lim
n→∞
sup
x∈[−r,r]
[f
n
(x) −f(x)[ = 0.
152 CAPÍTULO 8. SUCESSÕES E SÉRIES DE FUNÇÕES
Observação: este exemplo mostra que uma sucessão de funções contínuas pode convergir pontualmente para uma
função que não é contínua.
5. f
n
: [0, 1] −→ R
x →

1 se x ∈ ¦k/2
n
; 1 ≤ k ≤ 2
n
¦
0 no caso contrário
1
f
1
1 1 7/8 3/4 5/8 1/2 3/8 1/4 1/8
3
f
1
Seja x ∈ [0, 1]; se existe n ∈ N tal que 2
n
x ∈ N, então lim
n→∞
f
n
(x) = 1, caso contrário lim
n→∞
f
n
(x) = 0. Então
(f
n
)
n∈N
converge pontualmente para f: [0, 1] −→ R
x →

1 se ∃n ∈ N : 2
n
x ∈ N
0 se ∀n ∈ N : 2
n
x ∈ N
. A sucessão (f
n
)
n∈N
não
converge uniformemente para f; com efeito, dado qualquer n
0
∈ N, tem-se, por um lado f
n
0
(
1
2
n
0
+1
) = 0, e por
outro f(
1
2
n
0
+1
) = 1, isto é, [f
n
0
(
1
2
n
0
+1
) −f(
1
2
n
0
+1
)[ = 1. Existe, portanto, > 0 (qualquer ∈]0, 1[ serve) tal que
para todo o n
0
∈ N existe x ∈ [0, 1] com [f
n
0
(x) −f(x)[ > .
Observação: este exemplo mostra que uma sucessão de funções integráveis pode convergir pontualmente para
uma função não integrável (de facto f não é integrável, uma vez que, para qualquer partição P de [0, 1] se tem
¸
(f, P) = 0 e
¸
(f, P) = 1).
6. f
n
: [0, 1] −→ R
x →

2n
2
x se x ∈ [0,
1
2n
]
2n −2n
2
x se x ∈ [
1
2n
,
1
n
]
0 se x ∈ [
1
n
, 1]
1/5 1/10
5
Grafico de f
1
7
6
5
4
3
2
1
, n=1,...,7
n
Graficos de f
1
7
6
5
4
3
2
1
Para cada x ∈]0, 1], a sucessão (f
n
(x))
n∈N
é quase constante (igual a 0), mais precisamente, se n
0
é tal que
1/n
0
< x, então ∀n ≥ n
0
: f
n
(x) = 0; como a sucessão (f
n
(0))
n∈N
é a sucessão constante nula, conclui-se
que ∀x ∈ [0, 1] (f
n
(x))
n∈N
converge para 0, logo a sucessão (f
n
)
n∈N
converge pontualmente para a função nula
f
0
: [0, 1] −→ R
x → 0
. No entanto, (f
n
)
n∈N
não converge uniformemente para f
0
. De facto, dados quaisquer
> 0 e n
0
∈ N, existem n > n
0
e x ∈ [0, 1] tais que [f
n
(x) − f
0
(x)[ > : basta escolher n tal que n > e
x =
1
2n
, pois f
n
(
1
2n
) = n. (uma maneira alternativa de ver que a convergência não é uniforeme é notar que
sup
x∈[0,1]
[f
n
(x) −f
0
(x)[ = n, e (n)
n∈N
não converge para 0).
Observações:
(a) Para qualquer n ∈ N, tem-se

1
0
f
n
(x)dx = 1/2, logo lim
n→∞

1
0
f
n
(x)dx = 1/2 = 0 =

1
0
f
0
(x)dx; este
exemplo mostra que quando uma sucessão de funções integráveis (f
n
)
n∈N
definidas num intervalo [a, b]
converge pontualmente para uma função f em [a, b], o integral do limite,

b
a
f(x)dx, não é necessariamente
igual ao limite dos integrais, lim
n→∞

b
a
f
n
(x)dx.
(b) Para qualquer δ > 0, a sucessão (f
n
)
n∈N
converge uniformemente para a função nula em [δ, 1]; basta notar
que, desde que 1/n < δ, a função f
n[δ,1]
é a função nula.
8.1. SUCESSÕES DE FUNÇÕES 153
7. f
n
: [0, 1] −→ R
x →

2n
3
x se x ∈ [0,
1
2n
]
2n
2
−2n
3
x se x ∈ [
1
2n
,
1
n
]
0 se x ∈ [
1
n
, 1]
Este exemplo é análogo ao exemplo anterior, mas neste caso lim
n→∞

1
0
f
n
(x)dx = lim
n→∞
n/2 = +∞
8. f
n
: R −→ R
x → (cos x)
2n
-6 -4 -2 2 4 6
Graficos de fn, n=1,3,5,40
-1
-0.75
-0.5
-0.25
0.25
0.5
0.75
1
1
-6 -4 -2 6 4 2
Para x tal que [ cos x[ = 1, tem-se lim
n→∞
(cos x)
2n
= 1; para x tal que [ cos x[ < 1, tem-se lim
n→∞
(cos x)
2n
= 0. Logo
(f
n
)
n∈N
converge pontualmente para a função f: R −→ R
x →

1 se x ∈ ¦kπ, k ∈ Z¦
0 se x ∈ ¦kπ, k ∈ Z¦
. A sucessão (f
n
)
n∈N
não
converge uniformemente para f. Com efeito, para qualquer n ∈ N e k ∈ Z, lim
x→kπ
f
n
(x) = 1. Logo, para
qualquer ∈]0, 1[, e para todo o n
0
∈ N existe x ∈ R (por exemplo x = arccos
2n
0

1+
2
) tal que [f
n
0
(x)−f(x)[ >
(uma vez que [f
n
0
(arccos
2n
0

1+
2
) −f(x)[ =
1+
2
> ).
Observações:
(a) Para qualquer δ > 0, (f
n
)
n∈N
converge uniformemente para f em R ` ∪
k∈Z
]kπ −δ, kπ +δ[.
(b) Este exemplo mostra que existe uma sucessão de funções deriváveis que converge pontualmente para uma
função que não é contínua.
9. f
n
: R −→ R
x →

x
2
+ 1/n
2
-1 -0.5 0.5 1
Graficos de fn, n=1,2,3,4,30
0.2
0.4
0.6
0.8
1
1.2
1.4
Para qualquer x ∈ R, lim
n→∞

x
2
+ 1/n
2
=

x
2
= [x[; logo (f
n
)
n∈N
converge pontualmente para a função f:
R −→ R
x → [x[
. Por outro lado,
[f
n
(x) −f(x)[ =

x
2
+ 1/n
2
−[x[ =

x
2
+ 1/n
2


x
2
=
x
2
+ 1/n
2
−x
2

x
2
+ 1/n
2
+

x
2
=
1/n
2

x
2
+ 1/n
2
+

x
2

1/n
2
1/n
=
1
n
.
154 CAPÍTULO 8. SUCESSÕES E SÉRIES DE FUNÇÕES
Como (1/n)
n∈N
converge para 0, conclui-se que (f
n
)
n∈N
converge uniformemente para f.
Observação: este exemplo mostra que exite uma sucessão de funções deriváveis que converge uniformemente
para uma função não derivável.
10. f
n
: R −→ R
x →
sen nx
n
-6 -4 -2 2 4 6
Graficos de fn, n=1,2,3
-1
-0.75
-0.5
-0.25
0.25
0.5
0.75
1
-6 -4 -2 2 4 6
Graficos de fn, n=1,8,20
-1
-0.75
-0.5
-0.25
0.25
0.5
0.75
1
Tem-se [
sen nx
n
[ ≤ 1/n, de onde se conclui que a sucessão (f
n
)
n∈N
converge uniformemente para a função nula f
0
:
R −→ R
x → 0
.
Observação: cada f
n
é derivável (f

n
(x) = cos nx) e f
0
tambem é derivável. No entanto, para alguns valores de x
(por exemplo x = π) não existe lim
n→∞
f

n
(x), e, para alguns valores de x (por exemplo x = 0), existe lim
n→∞
f

n
(x)
mas este limite é diferente de f

(x).
11. f
n
: R −→ R
x →
sen n
2
x
n
Esta sucessão de funções tambem converge uniformemente para a função nula f
0
: R −→ R
x → 0
. No entanto,
tem-se lim
n→∞
f

n
(0) = +∞: não se tem f

0
(0) = lim
n→∞
f

n
(0).
12. f
n
: R
+
−→ R
x → n(

x + 1/n −

x)
0 0.2 0.4 0.6 0.8 1
Graficos de f e de fn, n=1,2,3,4
0.5
1
1.5
2
2.5
3
Tem-se lim
n→∞
f
n
(x) = lim
n→∞
n(x + 1/n −x)

x + 1/n +

x
= lim
n→∞
1

x + 1/n +

x
=
1
2

x
, logo (f
n
)
n∈N
converge pontual-
mente para f: R
+
−→ R
x →
1
2

x
. Como
[f
n
(x) −f(x)[ =
1
2

x

1

x + 1/n +

x
=

x + 1/n −

x
2

x(

x + 1/n +

x)
=
1/n
2

x(

x + 1/n +

x)
2
e, para qualquer n, lim
x→0
+
1/n
2

x(

x + 1/n +

x)
= +∞, conclui-se que (f
n
)
n∈N
não converge uniformemente
para f.
8.1. SUCESSÕES DE FUNÇÕES 155
13. f
n
: [0, 1] −→ R
x →

(nx−1)
2
n
se x ∈ [0, 1/n]
0 se x ∈ [1/n, 1]
0 0.2 0.4 0.6 0.8 1
Graficos de fn, n<=8
0.2
0.4
0.6
0.8
1
Tem-se [f
n
(x)[ ≤ 1/n, portanto (f
n
)
n∈N
converge uniformemente para a função nula f
0
: [0, 1] −→ R
x → 0
. Todas
as funções f
n
são deriváveis e f

n
(x) =

2(nx −1) se x ∈ [0, 1/n]
0 se x ∈ [1/n, 1]
; (f

n
)
n∈N
converge pontualmente (mas não
uniformemente) para a função g: [0, 1] −→ R
x →

−2 se x = 0
0 se x = 0
. No entanto, f

0
(0) = 0 = −2 = lim
n→∞
f

n
(0).
Teorema 8.1.5 Se (f
n
)
n∈N
é uma sucessão de funções integráveis de domínio [a, b], que converge uniformemente para
f : [a, b] −→R, então f é integrável e

b
a
f(x)dx = lim
n→∞

b
a
f
n
(x)dx.
Demonstração: Seja α > 0; existe n
0
tal que ∀x ∈ [a, b] : [f
n
0
(x) −f(x)[ < α. Como f
n
0
é integrável, é limitada, logo
f tambem é limitada. Por outro lado, é fácil de ver que, dada qualquer partição P de [a, b], se tem
¸
(f
n
0
, P) −α(b −a) ≤
¸
(f, P) ≤
¸
(f, P) ≤
¸
(f
n
0
, P) +α(b −a),
de onde
¸
(f, P) −
¸
(f, P) ≤
¸
(f
n
0
, P) −
¸
(f
n
0
, P) + 2α(b −a).
Sejam agora > 0 e n
0
tal que ∀x ∈ [a, b] : [f
n
0
(x) − f(x)[ <

4(b−a)
; como f
n
0
é integrável, existe uma partição
P
0
de [a, b] tal que
¸
(f
n
0
, P
0
) −
¸
(f
n
0
, P
0
) < /2. Tem-se então, aplicando a desigualdade anterior com α =

4(b−a)
,
¸
(f, P
0
) −
¸
(f, P
0
) < /2 +
2(b−a)
4(b−a)
= ; conclui-se que f é integrável.
Por outro lado,
[

b
a
f(x)dx −

b
a
f
n
(x)dx[ = [

b
a
(f(x) −f
n
(x))dx[

b
a
[f(x) −f
n
(x)[dx
≤ (b −a) sup
x∈[a,b]
[f(x) −f
n
(x)[.
Como (sup
x∈[a,b]
[f(x) −f
n
(x)[)
n∈N
converge para 0, conclui-se que lim
n→∞
(

b
a
f(x)dx −

b
a
f
n
(x)dx) = 0.
Teorema 8.1.6 Se (f
n
)
n∈N
é uma sucessão de funções contínuas de domínio A que converge uniformemente para
f : A −→R, então f é contínua.
Demonstração: Seja x
0
um ponto de A Para quaisquer n ∈ N e x ∈ A, tem-se
[f(x) −f(x
0
)[ = [f(x) −f
n
(x) +f
n
(x) −f
n
(x
0
) +f
n
(x
0
) −f(x
0
)[
≤ [f(x) −f
n
(x)[ +[f
n
(x) −f
n
(x
0
)[ +[f
n
(x
0
) −f(x
0
)[.
Seja > 0; existe n
0
∈ N tal que ∀x ∈ A : [f
n
0
(x) −f(x)[ < /3; mas f
n
0
é contínua em x
0
, portanto existe δ > 0 tal
que [x −x
0
[ < δ ⇒ [f
n
0
(x) −f
n
0
(x
0
)[ < /3. Conclui-se que [x −x
0
[ ⇒ [f(x) −f(x
0
)[ < /3 +/3 +/3 = , logo f é
contínua em x
0
.
156 CAPÍTULO 8. SUCESSÕES E SÉRIES DE FUNÇÕES
Teorema 8.1.7 Seja (f
n
)
n∈N
uma sucessão de funções deriváveis em [a, b] tais que
• ∀n ∈ N, f

n
é integrável;
• (f
n
)
n∈N
converge pontualmente para uma função f : [a, b] −→R;
• (f

n
)
n∈N
converge uniformemente para uma função contínua g : [a, b] −→R.
Então f é derivável e f

(x) = g(x)(= lim
n→∞
f

n
(x)).
Demonstração: Pelo teorema 8.1.5, tem-se, para x ∈ [a, b],

x
a
g(x)dx = lim
n→∞

x
a
f

n
(x)dx = lim
n→∞
(f
n
(x) −f
n
(a)) = f(x) −f(a).
Como g é contínua, conclui-se que x →

x
a
g(x)dx é derivável, de derivada x → g(x), portanto f é derivável e
f

(x) = g(x).
8.2 Séries de funções
Definição 8.2.1 1. Chama-se série de funções a um par de sucessões de funções ((f
n
)
n∈N
, (σ
n
)
n∈N
), em que para
todo o n, σ
n
= f
1
+ + f
n
; diz-se que a série é gerada pela sucessão (f
n
)
n∈N
; chama-se sucessão das somas
parciais à sucessão (σ
n
)
n∈N
. A notação usada é análoga à que é usada para séries reais.
2. Diz-se que
¸

n=1
f
n
converge pontualmente para f sse a sucessão das somas parciais convergir pontualmente
para f.
3. Diz-se que
¸

n=1
f
n
converge uniformemente para f sse a sucessão das somas parciais convergir uniformemente
para f.
4. Chama-se domínio de convergência da série
¸

n=1
f
n
ao conjunto ¦x ∈ R :
¸

n=1
f
n
(x) converge¦.
Teorema 8.2.2 Seja I um intervalo e (f
n
)
n∈N
uma sucessão de funções I −→R.
1. Se, para todo o n, f
n
for contínua e
¸

n=1
f
n
convergir uniformemente para f, então f é contínua.
2. Se I = [a, b], para todo o n f
n
for integrável e
¸

n=1
f
n
convergir uniformemente para f, então f é integrável e

b
a
f(x)dx =
¸

n=1

b
a
f
n
(x)dx.
3. Se, para todo o n, f
n
for derivável e alem disso
• f

n
for integrável,

¸

n=1
f
n
convergir pontualmente para f,

¸

n=1
f

n
convergir uniformemente para uma função contínua g,
então f é derivável e, para x ∈ I, tem-se f

(x) = g(x)(=
¸

n=1
f

n
(x)).
Demonstração: Seja (σ
n
)
n∈N
a sucessão das somas parciais da série gerada por (f
n
)
n∈N
.
1. Como cada f
n
é contínua, σ
n
(que é uma soma de funções contínuas) é contínua, logo, pelo teorema 8.1.6, f é
contínua.
2. Para qualquer n ∈ N, σ
n
é integrável (porque é a soma de funções integráveis) e

b
a
σ
n
(x)dx =

b
a
(f
1
(x) + +f
n
(x))dx =
n
¸
k=1

b
a
f
k
(x)dx.
Pelo teorema 8.1.5, f é integrável e

b
a
f(x)dx = lim
n→∞

b
a
σ
n
(x)dx = lim
n→∞
n
¸
k]1

b
a
f
k
(x)dx
=

¸
n=1

b
a
f
n
(x)dx
8.2. SÉRIES DE FUNÇÕES 157
3. Para qualquer n ∈ N, σ
n
é derivável e σ

n
(x) = f

1
(x) + +f

n
(x). Como (σ

n
)
n∈N
converge uniformemente para
g, o teorema 8.1.7 permite concluir que f é derivável e f

(x) = lim
n→∞
σ

n
(x) =

¸
n=1
f

n
(x).
Exemplos:
1. f
n
: ] −1, 1[ −→ R
x → x
n
, n ≥ 1
-1 -0.5 0.5 1
Graficos das somas parciais de ordens 1 a 5
-1
1
2
3
4
5
-1 -0.5 0.5 1
Grafico da soma parcial de ordem 9
-1
1
2
3
4
5
-1 -0.5 0.5 1
f
-1
1
2
3
4
5
Tem-se
¸

n=1
f
n
(x) =
x
1−x
, logo a série
¸

n=1
f
n
converge pontualmente para f: ] −1, 1[ −→ R
x →
x
1−x
. Como,
para cada n,
¸
n
k=1
f
k
é limitada e f não é limitada, conclui-se que
¸

n=1
f
n
não converge uniformemente para
f.
Observação: Para todo o r ∈]0, 1[,
¸

n=1
f
n
converge uniformemente para f em [−r, r]; isso será demonstrado
mais tarde num contexto mais geral.
2. f
n
: R −→ R
x → (2(x −[x]))
n
, n ≥ 0
-1 0 1 2 3
Somas parciais de ordem <10
2
4
6
8
10
-1 -0.5 0 0.5 1 1.5 2 2.5 3
f
2
4
6
8
10
¸

n=0
f
n
(x) converge sse [2(x − [x])[ < 1; nesse caso
¸

n=0
f
n
(x) =
1
1−2(x−[x])
. Como [2(x − [x])[ < 1 ⇔ x ∈

k∈Z
[k, k + 1/2[, conclui-se que
¸

n=0
f
n
converge pontualmente para f: ∪
k∈Z
[k, k + 1/2[ −→ R
x →
1
1−2(x−[x])
.
Observação: a convergência não é uniforme.
3. f
n
: R −→ R
x → e
nx
, n ≥ 0
158 CAPÍTULO 8. SUCESSÕES E SÉRIES DE FUNÇÕES
-2 -1.5 -1 -0.5 0
Somas parciais de ordem <12
2
4
6
8
10
-2 -1.5 -1 -0.5 0
f
2
4
6
8
10
¸

n=0
e
nx
converge sse [e
x
[ < 1, isto é, sse x < 0; nesse caso
¸

n=0
e
nx
=
1
1−e
x
;
¸

n=0
f
n
converge pontualmente
para f: ] −∞, 0[ −→ R
x →
1
1−e
x
.
Observação: a convergência não é uniforme, embora seja uniforme em qualquer intervalo ] −∞, −δ], com δ > 0.
4. f
n
: R −→ R
x →
1
1+n
2
x
2
, n ≥ 0
-2 -1 0 1 2
Somas parciais de ordem <12
2
4
6
8
10
¸

n=0
f
n
(0) não converge; para x = 0, como lim
n→∞
1
1+n
2
x
2
1
n
2
=
1
x
2
, e
¸

n=1
1
n
2
converge, conclui-se que
¸

n=0
f
n
(x)
converge. O domínio de convergência da série é portanto R ` ¦0¦.
5. f
n
: R −→ R
x →
1
1+n
2
(x−1)
2
(x−2)
2
(x−3)
2
1 2 3 4
Somas parciais de ordem <=11
2
4
6
8
10
12
Este exemplo é análogo ao anterior; o domínio de convergência da série
¸

n=1
f
n
é R ` ¦1, 2, 3¦.
6. f
n
: R −→ R
x →
(sen x)
n
n
8.2. SÉRIES DE FUNÇÕES 159
-6 -4 -2 2 4 6
Somas parciais de ordem <=8
-1
-0.5
0.5
1
1.5
2
2.5
-6 -4 -2 2 4 6
f
-1
-0.5
0.5
1
1.5
2
2.5
¸

n=1
f
n
(x) converge sse sen x ∈ [−1, 1[; conclui-se que o domínio de convergência da série é R`¦2kπ+π/2, k ∈ Z¦
(de facto,
¸

n=1
f
n
converge para a função f: R ` ¦2kπ +π/2, k ∈ Z¦ −→ R
x → −log(1 −sen x)
).
7. f
n
: R −→ R
x →
1
n+n
2
(sen x)
2n
-6 -4 -2 2 4 6
Somas parciais de ordem <=8
0.5
1
1.5
2
2.5
¸

n=1
f
n
(x) converge sse [ sen x[ = 1; de facto, se [ sen x[ < 1, tem-se lim
n→∞
1
n+n
2
(sen x)
2n
1
n
= lim
n→∞
1
1 +n(sen x)
2n
=
1, e
¸

n=1
1
n
não converge. O domínio de convergência da série
¸

n=1
f
n
é ¦kπ +π/2; k ∈ Z¦.
8. f
n
: R −→ R
x →
(1+x
2
)
n
n
2
+(1+x
2
)
n
-6 -4 -2 2 4 6
Somas parciais de ordem <=8
2
4
6
8
Tem-se f
n
(x) =
1
1+
n
2
(1+x
2
)
n
; se x = 0, lim
n→∞
f
n
(x) = 1, portanto
¸

n=1
f
n
(x) não converge; por outro lado,
f
n
(0) =
1
n
2
+1
, portanto
¸

n=1
f
n
(0) converge. O domínio de convergência de
¸

n=1
f
n
é {0}.
160 CAPÍTULO 8. SUCESSÕES E SÉRIES DE FUNÇÕES
9. f
n
: R −→ R
x →
(1+(x−1)
2
(x−2)
2
(x+1)
2
)
n
n
2
+(1+(x−1)
2
(x−2)
2
(x+1)
2
)
n
-2 -1 1 2 3
Somas parciais de ordem <=8
2
4
6
8
Procedendo como no exemplo anterior, conclui-se que o domínio de convergência de
¸

n=1
f
n
é ¦−1, 1, 2¦.
10. f
n
: R ` ¦−1, 1¦ −→ R
x →
x
2
n
1−x
2
n+1
, n ≥ 0
-2 -1 1 2 3
Somas parciais de ordem <=6
-6
-4
-2
2
4
6
-2 -1 1 2 3
f
-6
-4
-2
2
4
6
Se [x[ < 1, tem-se f
0
(x) = x+x
3
+x
5
+x
7
+ ; f
1
(x) = x
2
+x
6
+x
10
+x
14
+ ; f
2
(x) = x
4
+x
12
+x
20
+x
28
+ ;
f
3
(x) = x
8
+x
24
+x
40
+x
56
+ ; . . .; f
k
(x) = x
2
k
+x
2
k
+2
k+1
+x
2
k
+2.2
k+1
+x
2
k
+3.2
k+1
.
Vamos ver que, para x tal que [x[ < 1, se tem
¸

n=0
f
n
(x) =
x
1−x
. Para quaisquer x ∈]−1, 1[, l ∈ N, n
0
, . . . n
l
∈ N,
tem-se

l
¸
k=0
f
k
(x) −
x
1 −x

l
¸
k=0
(f
k
(x) −(x
2
k
+x
2
k
+2
k+1
+ +x
2
k
+n
k
2
k+1
)

+
+

l
¸
k=0
(x
2
k
+x
2
k
+2
k+1
+ +x
2
k
+n
k
2
k+1
) −
x
1 −x

.
Sejam > 0 e m
0
tal que n > m
0
⇒ [x
m
0
+1
[ + + [x
n
[ < /2; como, se 2
l
> m
0
e n
0
, n
1
, . . . n
l
>
m
0
−1
2
, as
parcelas x, x
2
, x
3
, . . . , x
m
0
estão “incluidas” entre as parcelas da soma
¸
l
k=0
(x
2
k
+x
2
k
+2
k+1
+ +x
2
k
+n
k
2
k+1
),
tem-se

¸
l
k=0
(x
2
k
+x
2
k
+2
k+1
+ +x
2
k
+n
k
2
k+1
) −
x
1−x

< /2. Sejam agora n
0
, . . . , n
l
tais que, para todo o i,
n
i
>
m
0
−1
2
, e para k = 0, . . . , l se tenha [(f
k
(x) −(x
2
k
+ x
2
k
+2
k+1
+ + x
2
k
+n
k
2
k+1
)[ <

2(l+1)
; conclui-se que,
para l tal que 2
l
> m
0
, se tem [
¸
l
k=0
f
k
(x) −
x
1−x
[ < , isto é,
¸

n=0
f
n
(x) =
x
1−x
.
Por outro lado, se [x[ > 1, tem-se [
1
x
[ < 1, e f
n
(x) =
1
x
2
n
1
x
2
n+1
−1
= −f
n
(
1
x
), logo
¸

n=0
f
n
(x) tambem converge
e
¸

n=0
f
n
(x) = −
¸

n=0
f
n
(1/x) = −
1/x
1−1/x
=
1
1−x
. Conclui-se que
¸

n=0
f
n
converge pontualmente para f:
8.2. SÉRIES DE FUNÇÕES 161
R ` ¦−1, 1¦ −→ R
x →

1
1−x
se x ∈] −∞, −1[∪]1, +∞[
x
1−x
se x ∈] −1, 1[
.
11. f
n
: R −→ R
x →
x
2n+1
2n+1

x
n+1
2n+2
, n ≥ 0
-0.4 -0.2 0.2 0.4 0.6 0.8 1
Somas parciais de ordem <=8
-0.2
0.2
0.4
0.6
-0.4 -0.2 0.2 0.4 0.6 0.8 1
f
-0.4
-0.2
0.2
0.4
0.6
Para x tal que [x[ > 1, como f
n
(x) = x
n+1
(
x
n
2n+1

1
2n+2
), conclui-se que (f
n
(x))
n∈N
não converge para 0, logo
¸

n=0
f
n
(x) não converge. Seja agora x tal que [x[ < 1. Então

¸
n=0
x
2n+1
2n + 1
=

¸
n=0

x
2n+1
2n + 1
+
x
2n+2
2n + 2



¸
n=0
x
2n+2
2n + 2
=

¸
n=1
x
n
n

1
2

¸
n=0
(x
2
)
n+1
n + 1
= −log(1 −x) +
1
2
log(1 −x
2
) =
1
2
log(1 +x) −
1
2
log(1 −x)
= log

1 +x
1 −x

.
Por outro lado,
¸

n=0
x
n+1
2n+2
=
1
2
¸

n=1
x
n
n
= −
1
2
log(1−x). Conclui-se que, se [x[ < 1,
¸

n=0
f
n
(x) =
1
2
log(1+x).
Como
¸

n=0
(−1)
2n+1
2n+1
não converge e
¸

n=0
(−1)
n+1
2n+2
converge, conclui-se que
¸

n=0
f
n
(−1) não converge; final-
mente,
¸

n=0
f
n
(1) = 1 −1/2 + 1/3 −1/4 + 1/5 − = log 2.
Então
¸

n=0
f
n
converge para f: ] −1, 1] −→ R
x →

1
2
log(1 +x) se x = 1
log 2 se x = 1
.
Teorema 8.2.3 (teste M de Weierstrass) Sejam (f
n
)
n∈N
uma sucessão de funções de domínio A e (M
n
)
n∈N
uma
sucessão real, tais que ∀x ∈ A : [f
n
(x)[ ≤ M
n
. Se
¸

n=1
M
n
converge, então para todo o x ∈ A, a série
¸

n=1
f
n
(x)
converge absolutamente, e
¸

n=1
f
n
converge uniformemente para a função f: A −→ R
x →
¸

n=1
f
n
(x)
.
Demonstração: Pelo primeiro critério de comparação, conclui-se que, para cada x ∈ A,
¸

n=1
[f
n
(x)[ converge, isto é,
¸

n=1
f
n
(x) converge absolutamente.
Seja f: A −→ R
x →
¸

n=1
f
n
(x)
. Para quaisquer x ∈ A, n ∈ N, tem-se

f(x) −
n
¸
k=1
f
k
(x)

=


¸
k=n+1
f
k
(x)



¸
k=n+1
[f
k
(x)[ ≤

¸
k=n+1
M
k
.
Seja > 0; existe n
0
∈ N tal que n > n
0

¸

k=n
M
k
< , uma vez que
¸

n=1
M
n
converge; logo n > n
0

[f(x) −
¸
n
k=1
f
k
(x)[ < . Conclui-se que
¸

n=1
f
n
converge uniformemente para f.
Exemplos:
162 CAPÍTULO 8. SUCESSÕES E SÉRIES DE FUNÇÕES
1. f
n
: R −→ R
x →
n
2
n
+x
2
-4 -2 2 4
Somas parciais de ordem <=9
0.5
1
1.5
2
-4 -2 2 4
Somas parciais das derivadas de ordem <=9
-0.4
-0.2
0.2
0.4
Para qualquer x ∈ R, tem-se
n
2
n
+x
2

n
2
n
; como
¸

n=1
n
2
n
converge, conclui-se que
¸

n=1
f
n
converge unifor-
memente para f: R −→ R
x →
¸

n=1
n
2
n
+x
2
. Por outro lado, ∀n : f
n
é derivável e f

n
(x) =
−2nx
(2
n
+x
2
)
2
; ora é fácil
de verificar que [f

n
(x)[ ≤
2n
2
2n
, portanto
¸

n=1
f

n
converge uniformemente para g: R −→ R
x →
¸

n=1
−2nx
(2
n
+x
2
)
2
;
conclui-se que f é derivável e f

= g.
2. f
n
: R`] −δ, δ[ −→ R
x → e
−nx
2
, δ > 0, n ≥ 0
Para qualquer x ∈ R`] − δ, δ[, tem-se e
−nx
2
< e
−nδ
2
; ora
¸

n=0
e
−nδ
2
converge, logo
¸

n=0
f
n
converge unifor-
memente para f: R`] −δ, δ[ −→ R
x →
¸

n=0
e
−nx
2
=
1
1−e
−x
2
.
Por outro lado, cada f
n
é derivável e f

n
(x) = −2nxe
−nx
2
;
¸

n=0
f

n
converge uniformemente em qualquer
conjunto do tipo ¦x ∈ R : δ < [x[ < M¦, δ > 0, M > 0, uma vez que, num tal conjunto, se tem [f

n
(x)[ <
2Mne
−nδ
2
, e
¸

n=0
2Mne
−nδ
2
converge; conclui-se que f

(x) =
¸

n=0
−2nxe
−nx
2
, isto é,
¸

n=0
−2nxe
−nx
2
=

2xe
−x
2
(1−e
−x
2
)
2
.
3. f
n
: R −→ R
x →
(arctg x)
n

n
Para qualquer x ∈ R tem-se [
(arctg x)
n

n
[ <
1
n2
n
; ora
¸

n=1
1
n2
n
converge, logo
¸

n=1
f
n
converge uniformemente
para f : R −→ R
x →
¸

n=1
(arctg x)
n

n
= −log(1 −
arctg x
π
)
.
4. f
n
: R −→ R
x →
(cos x)
n
n!
, n ≥ 0
-7.5 -5 -2.5 2.5 5 7.5
Somas parciais de ordem <=10
0.5
1
1.5
2
2.5
-7.5 -5 -2.5 2.5 5 7.5
f
0.5
1
1.5
2
2.5
8.3. SÉRIES DE POTÊNCIAS 163
Para qualquer x ∈ R tem-se [
(cos x)
n
n!
[ ≤
1
n!
; como
¸

n=0
1
n!
converge, conclui-se que
¸

n=0
f
n
converge uniforme-
mente para f: R −→ R
x →
¸

n=0
(cos x)
n
n!
= e
cos x
.
8.3 Séries de potências
Definição 8.3.1 Chama-se série de potências centrada em a a uma série de funções
¸

n=0
f
n
em que ∀n ∈ N
0
,
existe a
n
∈ R tal que f
n
: R −→ R
x → a
n
(x −a)
n
.
Observação: Se
¸

n=0
f
n
é uma série de potências centrada em a, então a pertence ao domínio de convergência da
série.
Definição 8.3.2 Se f é infinitamente derivável em a, chama-se série de Taylor de f em a à série de potências
¸

n=0
f
(n)
(a)
n!
(x −a)
n
.
Observação: para x = a não se tem necessariamente f(x) =
¸

n=0
f
(n)
(a)
n!
(x −a)
n
, mesmo que
¸

n=0
f
(n)
(a)
n!
(x −a)
n
seja convergente; basta ver o que se passa, por exemplo, com a função f: R −→ R
x →

e
−1/x
2
se x = 0
0 se x = 0
, em que
a série
¸

n=0
f
(n)
(0)
n!
x
n
é a série nula, portanto converge para qualquer x, mas, para todo o x = 0 tem-se f(x) =
¸

n=0
f
(n)
(0)
n!
x
n
.
Exemplos
1.
¸

n=0
x
n
n!
Domínio de convergência: R;
¸

n=0
x
n
n!
= e
x
2.
¸

n=0
n!x
n
Para x = 0, tem-se lim
n→∞
[(n + 1)!x
n+1
[
[n!x
n
[
= lim
n→∞
(n + 1)[x[ = +∞. Conclui-se
¸

n=0
n!x
n
converge sse x = 0.
Domínio de convergência=¦0¦
3.
¸

n=0
(x−2)
n
2
n
Para x = 2, tem-se lim
n→∞
[x −2[
n+1
2
n+1

2
n
[x −2[
n
=
[x −2[
2
; logo, para x tal que
|x−2|
2
< 1,
¸

n=0
(x−2)
n
2
n
converge
absolutamente, e para x tal que
|x−2|
2
> 1,
¸

n=0
(x−2)
n
2
n
não converge. Se
|x−2|
2
= 1, então (
(x−2)
n
2
n
)
n∈N
não
converge para 0, logo
¸

n=0
(x−2)
n
2
n
não converge.
Domínio de convergência: ]0, 4[; para x ∈]0, 4[,
¸

n=0
(x−2)
n
2
n
=
1
1−
x−2
2
.
4.
¸

n=1
(−1)
n
(x−3)
n
n
Para x = 3, tem-se lim
n→∞
[x −3[
n+1
n + 1

n
[x −3[
n
= [x − 3[; logo, se [x − 3[ < 1,
¸

n=1
(−1)
n
(x−3)
n
n
converge
absolutamente, e se [x −3[ > 1
¸

n=1
(−1)
n
(x−3)
n
n
não converge. Se [x −3[ = 1, então ou x = 4, e
¸

n=1
(−1)
n
n
converge, ou x = 2 e
¸

n=1
1
n
não converge.
Domínio de convergência: ]2, 4]; para x ∈]2, 4],
¸

n=1
(−1)
n
(x−3)
n
n
= log(x −2).
5.
¸

n=1
(−1)
n
(x+1)
2n
n.3
n
Para x = −1, lim
n→∞
(x + 1)
2n+2
(n + 1)3
n+1

3
n
n
(x + 1)
2n
=
(x + 1)
2
3
. Se
(x+1)
2
3
< 1, então
¸

n=1
(−1)
n
(x+1)
2n
n.3
n
converge
absolutamente, e se
(x+1)
2
3
> 1,
¸

n=1
(−1)
n
(x+1)
2n
n.3
n
não converge. Se
(x+1)
2
3
= 1, temos
¸

n=1
(−1)
n
n
, que
converge.
Domínio de convergência: [−1 −

3, −1 +

3]; para x ∈ [−1 −

3, −1 +

3] tem-se
¸

n=1
(−1)
n
(x+1)
2n
n.3
n
=
−log(1 +
(x+1)
2
3
).
164 CAPÍTULO 8. SUCESSÕES E SÉRIES DE FUNÇÕES
6.
¸

n=1
(x+2)
n
n
3
5
n
Para x = −2, lim
n→∞
[x + 2[
n+1
(n + 1)
3
5
n+1

n
3
5
n
[x + 2[
n
=
[x + 2[
5
. Se
|x+2|
5
< 1, então
¸

n=1
(x+2)
n
n
3
5
n
converge absolutamente,
se
|x+2|
5
> 1,
¸

n=1
(x+2)
n
n
3
5
n
não converge. Se
|x+2|
5
= 1, a série
¸

n=1
|x+2|
n
n
3
5
n
é a série
¸

n=1
1
n
3
, que converge,
logo
¸

n=1
(x+2)
n
n
3
5
n
converge absolutamente.
Domínio de convergência=[−7, 3].
7.
¸

n=2
(x−1/2)
n
log n
Para x = 1/2, tem-se lim
n→∞

(x −1/2)
n+1
log(n + 1)

log n
(x −1/2)
n

= [x − 1/2[. Se [x − 1/2[ < 1,
¸

n=2
(x−1/2)
n
log n
converge
absolutamente; se [x −1/2[ > 1,
¸

n=2
(x−1/2)
n
log n
não converge. Se [x −1/2[ = 1, então ou x = 3/2 e
¸

n=2
1
log n
não converge, ou x = −1/2 e
¸

n=2
(−1)
n
log n
converge.
Domínio de convergência: [−1/2, 3/2[.
8.
¸

n=0
(n!)
3
x
n
(3n)!5
n
Para x = 0, tem-se lim
n→∞
((n + 1)!)
3
[x[
n+1
(3(n + 1))!5
n+1

(3n)!5
n
(n!)
3
[x[
n
= lim
n→∞
(n + 1)
3
[x[
5(3n + 1)(3n + 2)(3n + 3)
=
[x[
135
. Se [x[ < 135,
¸

n=0
(n!)
3
x
n
(3n)!5
n
converge absolutamente; se [x[ > 135,
¸

n=0
(n!)
3
x
n
(3n)!5
n
não converge. Se [x[ = 135,

(n!)
3
x
n
(3n)!5
n

=
27
n
(n!)
3
(3n)!
.
Pondo a
n
=
27
n
(n!)
3
(3n)!
, tem-se
a
n+1
a
n
=
27(n+1)
3
(3n+1)(3n+2)(3n+3)
=
n+1
n+1/3

n+1
n+2/3
> 1. Conclui-se que (a
n
)
n∈N
é crescente,
logo não converge para 0, e portanto, se [x[ = 135,
¸

n=0
(n!)
3
x
n
(3n)!5
n
não converge.
Domínio de convergência: ] −135, 135[.
9.
¸

n=0
(x+2)
n
3
n

n!
Para x = −2, tem-se lim
n→∞
[x + 2[
n+1
3
n+1

(n + 1)!

3
n

n!
[x + 2[
n
= lim
n→∞
[x + 2[
3

n + 1
= 0.
Domínio de convergência=R.
Teorema 8.3.3 Sejam ∀n ∈ N
0
a
n
∈ R, f
n
(x) = a
n
(x −a)
n
,
¸

n=0
f
n
a correspondente série de potências centrada
em a, D o seu domínio de convergência e f: D −→ R
x →
¸

n=0
a
n
(x −a)
n
. Seja [a − δ, a + δ] um intervalo (não
reduzido a um ponto) centrado em a; se
¸

n=0
f
n
converge em a −δ ou em a +δ, e se δ
0
∈]0, δ[, então
1. •
¸

n=0
f
n
converge uniformemente para f em [a −δ
0
, a +δ
0
];

¸

n=0
f

n
converge uniformemente em [a −δ
0
, a +δ
0
].
2. f é derivável em ]a −δ, a +δ[ e f

(x) =
¸

n=1
na
n
x
n−1
.
Demonstração:
1. Sejam x
0
um dos extremos de [a−δ, a+δ] no qual a série converge e δ
0
∈]0, δ[. Como, por hipótese,
¸

n=0
a
n
(x
0

a)
n
converge, a sucessão (a
n
(x
0
− a)
n
)
n∈N
converge para 0, logo é limitada; seja M tal que ∀n ∈ N
0
: [a
n
(x
0

a)
n
[ < M. Então, ∀n ∈ N
0
, ∀x ∈ [a −δ
0
, a +δ
0
], tem-se
[f
n
(x)[ = [a
n
(x −a)
n
[ =
[a
n
(x −a)
n
[
[x
0
−a[
n
[x
0
−a[
n
≤ M

x −a
x
0
−a

n
≤ M

δ
0
x
0
−a

n
.
Como δ
0
< [x
0
− a[, conclui-se que
¸

n=0
M

δ
0
x
0
−a

n
converge, portanto, pelo teste M de Weierstrass, ∀x ∈
[a−δ
0
, a+δ
0
] :
¸

n=0
f
n
(x) converge absolutamente, e
¸

n=0
f
n
converge uniformemente para f em [a−δ
0
, a+δ
0
].
Para n ≥ 1 tem-se f

n
(x) = na
n
(x − a)
n−1
(para n = 0, f

n
(x) = 0). Então, para quaisquer n ∈ N
0
, x ∈
[a −δ
0
, a +δ
0
], tem-se
[f

n
(x)[ = [na
n
(x −a)
n−1
[ ≤ [na
n
δ
n−1
0
[ =
na
n
[x
0
−a[
n
δ
0

δ
0
x
0
−a

n

nM
δ
0

δ
0
x
0
−a

n
.
Como

δ
0
x
0
−a

< 1, a série
¸

n=0
M
n
, em que M
n
=
nM
δ
0

δ
0
x
0
−a

n
, converge, portanto conclui-se que ∀x ∈
[a −δ
0
, a +δ
0
],
¸

n=1
f

n
(x) converge absolutamente e
¸

n=1
f

n
converge uniformemente em [a −δ
0
, a +δ
0
].
8.3. SÉRIES DE POTÊNCIAS 165
2. Seja x ∈]a − δ, a + δ[; existe δ
0
∈]0, δ[ tal que x ∈]a − δ
0
, a + δ
0
[. Em [a − δ
0
, a + δ
0
],
¸

n=0
f
n
converge
uniformemente para f e
¸

n=1
f

n
converge uniformemente para uma função g que é contínua, uma vez que todas
as f

n
são contínuas. Conclui-se do teorema 8.1.7 que f
|[a−δ
0
,a+δ
0
]
é derivável e f

|[a−δ
0
,a+δ
0
]
= g; logo f é derivável
em ]a −δ
0
, a +δ
0
[ e f

(x) = g(x) =
¸

n=0
f

n
(x) =
¸

n=1
na
n
(x −a)
n−1
.
Corolário 8.3.4 O domínio de convergência de uma série de potências centrada em a é R, ¦a¦ ou um intervalo
limitado centrado em a.
Demonstração: Seja D o domínio de convergência de
¸

n=0
a
n
(x − a)
n
. Se D = R, seja x
0
∈ D; nesse caso D é
limitado: com efeito, se x é tal que [x − a[ > [x
0
− a[, então
¸

n=0
a
n
(x − a)
n
não converge, pois, caso contrário,
deduzia-se do teorema anterior que
¸

n=0
a
n
(x
0
−a)
n
convergia, isto é, que x
0
∈ D.
Seja M = sup D e m = a −(M −a); vê-se facilmente a partir do teorema anterior que ]m, M[⊂ D e que, se x < m
então
¸

n=0
a
n
(x −a)
n
não converge. Conclui-se que se verifica um dos casos seguintes:
D =]m, M[, D =]m, M], D = [m, M[, D = [m, M].
Observação: no caso em que M = a, tem-se D = ¦a¦.
Definição 8.3.5 Se o domínio de convergência D de uma série de potências
¸

n=0
a
n
(x −a)
n
é limitado, chama-se
raio de convergência da série a sup¦r ≥ 0 : [a − r, a + r] ⊂ D¦; caso contrário diz-se que a série tem raio de
convergência infinito.
Exemplo: os raios de convergência das séries de potências vistas nos exemplos deste capítulo são respectivamente
+∞, 0, 2, 1,

3, 5 ,1, 135 e +∞.
Seja f: I −→ R
x →
¸

n=0
a
n
(x −a)
n
, em que I é um intervalo aberto contido no domínio de convergência da
série. Pelo teorema 8.3.3 sabemos que f é derivável e f

(x) =
¸

n=1
na
n
(x − a)
n−1
; mas então, ainda pelo teorema
8.3.3, conclui-se que f

é derivável, f

(x) =
¸

n=2
n(n − 1)a
n
(x − a)
n−2
, etc. Isto é, f é infinitamente derivável
e f
(k)
(x) =
¸

n=k
n(n − 1)(n − 2) . . . (n − k + 1)a
n
(x − a)
n−k
. Conclui-se tambem que, para qualquer k ≥ 1,
f
(k)
(a) = k(k −1)(k −2) . . . 2.1a
k
= k!a
k
, isto é, qualquer série de potências centrada em a convergente num intervalo
aberto contendo a, é a série de Taylor em a da função definida nesse intervalo por essa série de potências.
Do facto de a
k
=
f
(k)
(a)
k!
, e, portanto, de os coeficientes da série de potências serem determinados pelas derivadas
de f em a, conclui-se que a representação de f como série de potências centrada em a é única (isto é, se em algum
intervalo aberto se tiver
¸

n=0
a
n
(x −a)
n
=
¸

n=0
b
n
(x −a)
n
, então ∀n ∈ N
0
: a
n
= b
n
).
Exemplos
1. f: ] −1, 1[ −→ R
x →
¸

n=1
x
n
n
2
f

(x) =
¸

n=1
nx
n−1
n
2
=
¸

n=1
x
n−1
n
; se x = 0, f

(x) =
1
x
¸

n=1
x
n
n
= −
log(1−x)
x
. f

(x) =


log(1−x)
x
se x = 0
1 se x = 0
.
Como f(0) = 0, conclui-se que f(x) = −

x
0
log(1−t)
t
dt, isto é,
¸

n=1
x
n
n
2
= −

x
0
log(1−t)
t
dt.
2.
¸

n=0
(
α
n)x
n
, n ≥ 0, em que α ∈ R, e (
α
n) =

α(α−1)(α−2)...(α−n+1)
n!
se n = 0
1 se n = 0
Se α ∈ N, tem-se (
α
n) = 0 para n > α, logo
¸

n=0
(
α
n)x
n
=
¸
α
n=0
(
α
n)x
n
= (1 +x)
α
.
Suponhamos agora α ∈ N; então tem-se (
α
n) = 0, para qualquer n. Para x = 0 tem-se
lim
n→∞

(
α
n+1)x
n+1

(
α
n)x
n

=

α(α−1)...(α−(n+1)+1)
(n+1)!
α(α−1)...(α−n+1)
n!
x

= lim
n→∞

α −n
n + 1
x

= [x[.
Conclui-se que a série converge absolutamente se [x[ < 1 e não converge se [x[ > 1. Consideremos a função f:
] −1, 1[ −→ R
x →
¸

n=0
(
α
n)x
n
. Então
f

(x) =

¸
n=1
(
α
n).nx
n−1
=

¸
n=1
(
α
n−1)(α −n + 1)x
n−1
166 CAPÍTULO 8. SUCESSÕES E SÉRIES DE FUNÇÕES
=

¸
n=1
(
α
n−1)αx
n−1


¸
n=1
(
α
n−1)(n −1)x
n−1
= αf(x) −

¸
n=1
(
α
n)nx
n
= αf(x) −xf

(x).
Conclui-se que (1 + x)f

(x) = αf(x). Vamos ver que f(x) = (1 + x)
α
. Seja g(x) =
f(x)
(1+x)
α
. Então g

(x) =
f

(x)(1+x)
α
−f(x)α(1+x)
α−1
(1+x)

=
f

(x)(1+x)−αf(x)
(1+x)
α+1
= 0. Conclui-se que g é constante; como g(0) = 1, deduz-se que,
para todo o x ∈] −1, 1[, se tem g(x) = 1, isto é, f(x) = (1 +x)
α
.
3. f: ] −1, +∞[ −→ R
x →
1

1−x
Pelo exemplo anterior conclui-se que, para x ∈] − 1, 1[, f(x) =
¸

n=0
(
−1/2
n )(−x)
n
. Então, para x ∈] − 1, 1[,
1

1−x
2
=
¸

n=0
(
−1/2
n )(−1)
n
x
2n
, e arcsen x(=

x
0
1

1−t
2
dt) =
¸

n=0
(
−1/2
n )(−1)
n x
2n+1
2n+1
. Conclui-se que a série de
Taylor de arcsen em 0 é
¸

n=0
(
−1/2
n )(−1)
n x
2n+1
2n+1
.
4. f: R −→ R
x → e
−x
2
Prova-se que não é possível exprimir em termos de funções elementares uma primitiva de f; no entanto, sabemos
que f(x) =
¸

n=0
(−1)
n
x
2n
n!
, portanto uma primitiva de f é a função F: R −→ R
x →
¸

n=0
(−1)
n
x
2n+1
(2n+1)n!
.
5. f: R −→ R
x → sen x
5
Tem-se f(x) =
¸

n=0
(−1)
n
x
5(2n+1)
(2n+1)!
=
¸

n=0
(−1)
n
x
10n+5
(2n+1)!
. Então

x
0
f(t) dt =

¸
n=0

x
0
(−1)
n
t
10n+5
(2n + 1)!
dt =

¸
n=0
(−1)
n
x
10n+6
(10n + 6)(2n + 1)!
.
Conclui-se que uma primitiva de f é F: R −→ R
x →
¸

n=0
(−1)
n
x
10n+6
(10n+6)(2n+1)!
.
6. f: ] −1, 1[ −→ R
x →
¸

n=1
x
4n
4n−3
Tem-se f(x) = x
3
¸

n=1
x
4n−3
4n−3
. Seja g: ] −1, 1[ −→ R
x →
¸

n=1
x
4n−3
4n−3
; então g é derivável e g

(x) =
¸

n=1
x
4n−4
=
¸

n=0
x
4n
=
1
1−x
4
. Conclui-se que g é a primitiva de x →
1
1−x
4
que toma o valor 0 em 0, isto é,
g(x) =

x
0
1
1 −t
4
dt =

x
0
1
2

1
1 −t
2
+
1
1 +t
2

dt
=
1
2

x
0

1
2

1
1 −t
+
1
1 +t

+
1
1 +t
2

dt
= −
1
4
log(1 −x) +
1
4
log(1 +x) +
1
2
arctg x.
Logo f(x) = x
3
arctg x +
x
3
4
log

1+x
1−x

.
7. f: ] −
5

2,
5

2[ −→ R
x →
¸

n=1
x
5n
5n.2
n
Tem-se
f

(x) =

¸
n=1
x
5n−1
2
n
= x
4

¸
n=1
x
5n−5
2
n
=
x
4
2

¸
n=0
x
5n
2
n
=
x
4
2

1
1 −x
5
/2
=
x
4
2 −x
5
,
logo f(x) =
log 2
5

1
5
log(2 −x
5
).
8.3. SÉRIES DE POTÊNCIAS 167
8.
¸

n=1
a
n
x
n−1
, em que a
1
= a
2
= 1 e a
n+1
= a
n
+a
n−1
para n ≥ 2.
É óbvio que (a
n
)
n∈N
é crescente. Por outro lado, para todo o n, [a
n+1
/a
n
[ ≤ 2; então, se [x[ < 1/2, sendo
r ∈][x[, 1/2[, tem-se

a
n+1
x
n
a
n
x
n−1

(=
a
n+1
a
n
[x[) < 2r < 1, de onde se conclui que
¸

n=1
a
n
x
n−1
converge.
Consideremos f: ] −1/2, 1/2[ −→ R
x →
¸

n=1
a
n
x
n−1
; tem-se
f(x) = a
1
+a
2
x +a
3
x
2
+a
4
x
3
+a
5
x
4
+
xf(x) = a
1
x +a
2
x
2
+a
3
x
3
+a
4
x
4
+
x
2
f(x) = a
1
x
2
+a
2
x
3
+a
3
x
4
+
Como, para n ≥ 2, se tem a
n+1
= a
n
+a
n−1
, conclui-se que f(x) = xf(x) +x
2
f(x) + 1, isto é, f(x) =
1
1−x−x
2
.
Ora
1
1 −x −x
2
=
1

5

1
x +
1+

5
2

1

5

1
x +
1−

5
2
=
1

5

2
1 +

5

1
1 +
x
(1+

5)/2

1

5

2
1 −

5

1
1 +
x
(1−

5)/2
=
1

5

2
1 +

5

¸
n=0
(−1)
n
(
1+

5
2
)
n
x
n

1

5

2
1 −

5

¸
n=0
(−1)
n
(
1−

5
2
)
n
x
n
=
1

5

¸
n=0
(−1)
n
x
n

2
n+1
(1 +

5)
n+1

2
n+1
(1 −

5)
n+1

=
1

5

¸
n=0
(−1)
n
x
n

2
n+1
(1 −

5)
n+1
−2
n+1
(1 +

5)
n+1
(−4)
n+1

=

¸
n=0
1

5

¸

1 +

5
2

n+1

1 −

5
2

n+1
¸

x
n
Conclui-se que a
n
=

1+

5
2

n

1−

5
2

n

5
.
9. Determinação das funções f : R −→R que se podem exprimir como uma série de potências centrada em 0, tais
que ∀x ∈ R, f

(x) = 1 + 2xf(x).
Seja f(x) =
¸

n=0
a
n
x
n
. Então, f

(x) =
¸

n=1
na
n
x
n−1
=
¸

n=0
(n + 1)a
n+1
x
n
; como 1 + 2xf(x) = 1 +
2x
¸

n=0
a
n
x
n
= 1 +
¸

n=0
2a
n
x
n+1
= 1 +
¸

n=1
2a
n−1
x
n
, a condição ∀x ∈ R, f

(x) = 1 + 2xf(x) é equivalente
a

a
1
= 1
(n + 1)a
n+1
= 2a
n−1
, n ≥ 1
, isto é,

a
2k+2
=
2
2k+2
=
a
2k
k+1
a
2k+1
=
2
2k+1
a
2k+1
, portanto

a
2k
=
a
0
k!
a
2k+1
=
2
k
3.5.7···(2k+1)
.
Consideremos as séries de potências
¸

n=0
2
n
3.5.7···(2n+1)
x
2n+1
e
¸

n=0
a
0
n!
x
2n
, para a
0
∈ R. Pelo critério da razão
é fácil de ver que ambas convergem para qualquer x ∈ R; alem disso sabemos que
¸

n=0
a
0
n!
x
2n
= a
0
e
x
2
. Seja
f
0
(x) =
¸

n=0
2
n
3.5.7···(2n+1)
x
2n+1
. Conclui-se que as funções nas condições descritas são as funções do tipo f:
R −→ R
x → f
0
(x) +a
0
e
x
2
, com a
0
∈ R.
Observação: a função g: R −→ R
x → e
−x
2
verifica ∀x ∈ R, g

(x) = 2xg(x).
10. f: R −→ R
x →

cos x−1
x
2
se x = 0
−1/2 se x = 0
Para x = 0 tem-se
f(x) =

¸

n=0
(−1)
n
x
2n
(2n)!

−1
x
2
=
¸

n=1
(−1)
n
x
2n
(2n)!
x
2
=

¸
n=1
(−1)
n
x
2n−2
(2n)!
;
168 CAPÍTULO 8. SUCESSÕES E SÉRIES DE FUNÇÕES
é trivial verificar que para x = 0 ainda se tem f(x) =
¸

n=1
(−1)
n
x
2n−2
(2n)!
. Conclui-se que f é infinitamente
derivável em 0 e que a sua série de Taylor em 0 é
¸

n=1
(−1)
n
x
2n−2
(2n)!
.
11. f: R −→ R
x →

sen x
x
se x = 0
1 se x = 0
Para x = 0 tem-se
f(x) =
¸

n=0
(−1)
n
x
2n+1
(2n+1)!
x
=

¸
n=0
(−1)
n
x
2n
(2n + 1)!
;
é trivial de verificar que para x = 0 ainda se tem f(x) =
¸

n=0
(−1)
n
x
2n
(2n+1)!
. Conclui-se que f é infinitamente
derivável em 0 e que a sua série de Taylor em 0 é
¸

n=0
(−1)
n
x
2n
(2n+1)!
.
Proposição 8.3.6 Seja
¸

n=0
a
n
x
n
uma série de potências que converge quando x = 1 (isto é,
¸

n=0
a
n
converge);
então a convergência é uniforme em [0, 1].
Demonstração: Seja > 0; como
¸

n=0
a
n
converge, existe n
0
∈ N tal que p > q > n
0
⇒ [a
q
+ a
q+1
+ + a
p
[ < .
Sejam m > n > n
0
; para x ∈ [0, 1] tem-se
[a
n
x
n
+a
n+1
x
n+1
+ +a
m
x
m
[ =
= [a
n
(x
n
−x
n+1
) + (a
n
+a
n+1
)(x
n+1
−x
n+2
) + (a
n
+a
n+1
+a
n+2
)(x
n+2
−x
n+3
) + +
+(a
n
+ +a
m−1
)(x
m−1
−x
m
) + (a
n
+ +a
m
)x
m
[
≤ [a
n
[(x
n
−x
n+1
) +[a
n
+a
n+1
[(x
n+1
−x
n+2
) +[a
n
+a
n+1
+a
n+2
[(x
n+2
−x
n+3
) + +
+[a
n
+ +a
m−1
[(x
m−1
−x
m
) +[a
n
+ +a
m
[x
m
< (x
n
−x
n+1
+x
n+1
−x
n+2
+x
n+2
−x
n+3
+ +x
m−1
−x
m
+x
m
)
= x
n
≤ .
Pondo f(x) =
¸

n=0
a
n
x
n
, tem-se então, para x ∈ [0, 1], [f(x) −
¸
n
0
n=0
a
n
x
n
[ ≤ , logo a convergência é uniforme.
Corolário 8.3.7 Seja
¸

n=0
a
n
(x −a)
n
uma série de potências que converge quando x = x
0
> a (resp. x = x
0
< a);
então a convergência é uniforme em [a, x
0
] (resp. [x
0
, a]).
Corolário 8.3.8 Seja
¸

n=0
a
n
(x − a)
n
uma série de potências que converge em [a, a + r] e f : [a, a +r] −→R a
função definida por f(x) =
¸

n=0
a
n
(x −a)
n
; f é contínua em a +r.
Observação: Seja
¸

n=0
a
n
(x −a)
n
uma série de potências que converge em [a, a +r] e f : [a, a +r] −→R a função
definida por f(x) =
¸

n=0
a
n
(x − a)
n
; já foi visto que f é derivável em [a, a + r[ e que nesse intervalo f

(x) =
¸

n=1
na
n
(x − a)
n−1
. Pode acontecer que f seja derivável em a + r, mesmo que
¸

n=1
na
n
r
n−1
não convirja (por
exemplo, f: [0, 1] −→ R
x →
¸

n=0
(−1)
n x
2n+1
2n+1
= arctg x
; f é derivável em 1, f

(x) =
1
1+x
2
, embora
¸

n=0
(−1)
n
x
2n
não convirja quando x = 1). No entanto, tambem pode acontecer que f não seja derivável em a+r. Por exemplo, seja
f: [0, 1] −→ R
x →
¸

n=1
x
n+1
n(n+1)
. Para x ∈ [0, 1[, tem-se f

(x) =
¸

n=1
x
n
n
= −log(1 −x), logo lim
x→1
+
f

(x) = +∞; pelo
teorema dos valores intermédios para as derivadas, conclui-se que f não é derivável em 1 (com efeito, suponhamos que
f era derivável em 1 e f

(1) = α; como existe δ > 0 tal que 1 −δ ≤ x < 1 ⇒ f

(x) > α + 1, logo em [1 −δ, 1] f

não
tomaria nenhum dos valores intermédios entre f

(1 −δ) (> α + 1) e f

(1) (= α).
Se
¸

n=1
na
n
r
n−1
convergir, então a convergência das derivadas é uniforme em [a, a + r], portanto f é derivável
em a +r e f

(a +r) =
¸

n=1
na
n
r
n−1
.
Exemplos
1. Cálculo de
¸

n=1
1
n(2n+1)
Consideremos a série de potências
¸

n=1
x
2n+1
n(2n+1)
, que converge para x ∈ [−1, 1], e seja f : [−1, 1] −→R a função
definida por f(x) =
¸

n=1
x
2n+1
n(2n+1)
; tem-se
¸

n=1
1
n(2n+1)
= f(1). Em ] −1, 1[ f é derivável e f

(x) =
¸

n=1
x
2n
n
=
−log(1 −x
2
) = −log(1 −x) −log(1 +x). isto é, em ] −1, 1[, f(x) = (1 −x) log(1 −x) −(1 +x) log(1 +x) +2x.
Mas f é contínua em 1, portanto f(1) = lim
x→1

f(x) = 2 −2 log 2.
8.3. SÉRIES DE POTÊNCIAS 169
2. Cálculo de
¸

n=1
1
n(n+1)(n+2)
Consideremos a série de potências
¸

n=1
x
n+2
n(n+1)(n+2)
, que converge para x ∈ [−1, 1], e seja f : [−1, 1] −→R
a função definida por f(x) =
¸

n=1
x
n+2
n(n+1)(n+2)
; tem-se
¸

n=1
1
n(n+1)(n+2)
= f(1). Em ] − 1, 1[ f é derivável,
f

(x) =
¸

n=1
x
n+1
n(n+1)
e f

(x) =
¸

n=1
x
n
n
= −log(1−x). Conclui-se que em ] −1, 1[, f

(x) = (1−x) log(1−x)+x
e f(x) = −
(1−x)
2
2
log(1 −x) +
x
2
2
+
(1−x)
2
4

1
4
. Mas f é contínua em 1, portanto f(1) = lim
x→1

f(x) = 1/4.
Proposição 8.3.9 Sejam
¸

n=0
a
n
e
¸

n=0
b
n
duas séries convergentes e
¸

n=0
c
n
o seu produto de Cauchy; então,
se
¸

n=0
c
n
converge, tem-se
¸

n=0
c
n
= (
¸

n=0
a
n
)(
¸

n=0
b
n
).
Demonstração: Sejam f, g, h : [0, 1] −→R definidas por f(x) =
¸

n=0
a
n
x
n
, g(x) =
¸

n=0
b
n
x
n
e h(x) =
¸

n=0
c
n
x
n
(observação:
¸

n=0
c
n
x
n
é o produto de Cauchy das séries
¸

n=0
a
n
x
n
e
¸

n=0
b
n
x
n
). Para x ∈ [0, 1[, as séries
¸

n=0
a
n
x
n
e
¸

n=0
b
n
x
n
convergem absolutamente, portanto
¸

n=0
c
n
x
n
converge absolutamente e
¸

n=0
c
n
x
n
=
(
¸

n=0
a
n
x
n
)(
¸

n=0
b
n
x
n
), isto é, h(x) = f(x)g(x). Mas f, g, e h são contínuas em 1, portanto h(1)(=
¸

n=0
c
n
) =
lim
x→1

h(x) = lim
x→1

f(x)g(x) = lim
x→1

f(x) lim
x→1

g(x) = f(1)g(1) = (
¸

n=0
a
n
)(
¸

n=0
b
n
).
Proposição 8.3.10 Seja
¸

n=0
a
n
x
n
uma série de potências, convergente em algum ponto x
0
> 0, e tal que a
0
= 0
(isto é, a função f: D −→ R
x →
¸

n=0
a
n
x
n
, em que D é o domínio de convergência da série, é tal que f(0) = 0).
Então existe δ > 0 e uma série de potências
¸

n=0
b
n
x
n
, convergente em ] − δ, δ[, tal que para x ∈] − δ, δ[ se tem
(
1
f
)(x) =
¸

n=0
b
n
x
n
(isto é, numa vizinhança de 0,
1
f
pode-se escrever como uma série de potências centrada em 0).
Demonstração: Podemos supor sem perda de generalidade que a
0
= 1, isto é, f(0) = 1 (se não, consideremos ϕ
definida por ϕ(x) =
f(x)
a
0
; se
¸

n=0
β
n
x
n
é a série de potências que representa
1
ϕ
,
1
a
0
¸

n=0
β
n
x
n
é a série de potências
que representa
1
f
). Suponhamos primeiro que existe uma série de potências
¸

n=0
b
n
x
n
nas condições indicadas e
determinemos os coeficientes b
n
. Seja ξ > 0 tal que
¸

n=0
a
n
x
n
e
¸

n=0
b
n
x
n
convergem em ] −ξ, ξ[; então, se [x[ < ξ,
o produto de Cauchy das duas séries converge, e a sua soma é f(x)
1
f(x)
= 1, isto é,
¸

n=0
c
n
x
n
converge, em que
∀n, c
n
=
¸
n
k=0
a
k
b
n−k
e ∀x,
¸

n=0
c
n
x
n
= 1. Conclui-se que

c
0
= 1
c
n
= 0, n = 0
. Então
b
0
= 1, b
1
+a
1
b
0
= 0, b
2
+a
1
b
1
+a
2
b
0
= 0, . . . , b
n
+a
1
b
n−1
+a
2
b
n−2
+ +a
n
b
0
= 0, . . .
isto é, b
0
= 1 e, para n ≥ 1, b
n
= −
¸
n−1
k=0
b
k
a
n−k
, o que determina de maneira única os coeficientes b
n
.
Basta-nos agora mostrar que a série
¸

n=0
b
n
x
n
(em que os b
n
são os coeficientes determinados acima), converge em
algum intervalo aberto contendo 0. Sejam x
0
= 0 tal que
¸

n=0
a
n
x
n
0
converge e M > 1 tal que ∀n ∈ N, [a
n
x
n
0
[ < M.
Vamos ver que se tem [b
n
x
n
0
[ < 2
n−1
M
n
. Com efeito, para n = 1, tem-se [b
1
x
0
[ = [a
1
x
0
[ < M = 2
0
M
1
. Suponhamos
agora que [b
p
x
p
0
[ < 2
p−1
M
p
, para p = 1, . . . , m. Tem-se
[b
m+1
x
m+1
0
[ = [ −
m
¸
k=0
a
m+1−k
b
k
x
m+1
0
[ ≤
m
¸
k=0
[a
m+1−k
x
m−k
0
b
k
x
k
0
[
= a
m+1
x
m+1
0
+
m
¸
k=1
[a
m+1−k
x
m+1−k
0
b
k
x
k
0
[ < M +
m
¸
k=1
M.2
k−1
M
k
< M
m+1
+
m
¸
k=1
M
m+1
2
k−1
= M
m+1
(1 + 1 + 2 + 2
2
+ + 2
m−1
) = 2
m
M
m+1
.
Para qualquer x tem-se então
[b
n
x
n
[ = [b
n
x
n
0
(
x
x
0
)
n
[ ≤ 2
n−1
M
n

x
x
0

m

2Mx
x
0

n
;
logo, se [
2Mx
x
0
[ < 1 (isto é, se [x[ < [
x
0
2M
[),
¸

n=0
b
n
x
n
converge.
170 CAPÍTULO 8. SUCESSÕES E SÉRIES DE FUNÇÕES
Capítulo 9
Curvas em R
n
Definição 9.0.1 Chama-se curva (parametrizada) a uma aplicação c : I −→R
n
, em que I é um intervalo de R.
Chama-se traço da curva ao seu contradomínio.
c(t)
t
c
n
R I
I
Uma curva pode ser vista como a descrição do movimento de uma partícula em R
n
: c(t) representa a posição da
partícula no instante t.
Exemplos
1. c
1
: [0, 2π] −→ R
2
t → (cos t, sen t)
1
1
1 1
1
1
1
c (11 /6)
c (3 /2)
c ( /2)
c ( /4)
c (0)=c (2 )
c
2 0
c (2 /3)
1
c ( )
1
c
2
: [−8

π, 8

π] −→ R
2
t → (cos t
2
, sen t
2
)
c
2 2
2
2
2
c (-1)=c(1)
c (- /4)=c ( /4)
c (- 2 )=c(0)=c ( 2 )
R I
2
t < 0
t > 0
O traço de c
1
e o traço de c
2
são ambos a circunferência de centro (0, 0) e raio 1. No primeiro caso a circunferência
é percorrida uma vez no sentido directo; no segundo é percorrida 32 vezes no sentido dos ponteiros de um relógio
e 32 vezes no sentido directo.
2. c
1
: R −→ R
2
t → (t
2
+ 1, 3t
2
+ 4)
171
172 CAPÍTULO 9. CURVAS EM R
N
1
7
4
1
4 3 2 1
R I
c
c (-2)=c (2)
c (-1)=c (1)
c (0)
1
1
1 1
1
O traço de c
1
é a semi-recta ¦(x, y) ∈ R
2
: y = 3x + 1 e x ≥ 1¦; é percorrida duas vezes, uma no sentido
descendente (para t < 0) e outra no sentido ascendente (para t > 0).
c
2
: R −→ R
2
t → (t, 3t + 1)
7
4
1
4 3 2 1
2
2
2
R I
c (0)
c (1)
c (2)
c2
O traço de c
2
é a recta de equação y = 3x + 1; é percorrida uma vez, no sentido ascendente.
c
3
: R −→ R
2
t → (
t
2
t
2
+1
,
4t
2
+1
t
2
+1
)
O traço de c
3
é o segmento de recta ¦(x, y) ∈ R
2
: y = 3x + 1 e 0 ≤ x < 1¦; é percorrido duas vezes, uma no
sentido descendente (para t ≤ 0) e outra no sentido ascendente (para t ≥ 0).
3
7
4
1
4 3 2 1
R I
c
3. c: [0, π] −→ R
2
t → (4 sen 2t, 2 cos 2t)
O traço de c é a elipse de equação (x/4)
2
+ (y/2)
2
= 1; é percorrida uma vez no sentido dos ponteiros de um
relógio.
c
c( /2)
0
c(0)
4. c: I −→ R
2
t → (t, f(t))
, em que f é uma função I −→R.
173
O traço de c é o gráfico de f; o gráfico de f é percorrido de tal maneira que em cada unidade de tempo, a
distância horizontal percorrida é de uma unidade.
c(t)
f(t)
t
I
c
5. c: R −→ R
2
t → (t, sen t)
(caso particular do anterior).
c
c(5 /6)
R c
6. c: R −→ R
3
t → (2 cos t, 2 sen t, t)
Ao traço de c chama-se hélice.
c
R I
-2
-1
0
1
2
x
-2
-1
0
1
2
y
-5
0
5
z
-2
-1
0
1
2
y
Observação: se c é uma função I −→ R
n
, existem funções c
1
, c
2
, . . . , c
n
: I −→ R (únicas) tais que ∀t ∈ I c(t) =
(c
1
(t), c
2
(t), . . . , c
n
(t)).
Definição 9.0.2 Sejam c : I −→R
n
, t
0
um ponto de acumulação de I e l ∈ R
n
; diz-se que lim
t→t
0
c(t) = l sse
∀ > 0 ∃δ > 0 : 0 < [t −t
0
[ < δ ⇒ |c(t) −l| <
Diz-se que c é contínua em t
0
∈ I sse lim
t→t
0
c(t) = c(t
0
).
Proposição 9.0.3 Sejam c: I −→ R
n
t → (c
1
(t), c
2
(t), 1 . . . , c
n
(t))
uma curva, t
0
um ponto de acumulação de I e
l = (l
1
, l
2
, . . . , l
n
) ∈ R
n
; então lim
t→t
0
c(t) = l sse ∀i ∈ ¦1, . . . , n¦, lim
t→t
0
c
i
(t) = l
i
.
Demonstração: Suponhamos que lim
t→t
0
c(t) = l, e seja > 0; existe δ > 0 tal que 0 < [t − t
0
[ < δ ⇒ |c(t) − l| < .
Ora
|c(t) −l| =

n
¸
k=1
(c
i
(t) −l
i
)
2
≥ [c
i
(t) −l
i
[, ∀i ∈ ¦1, . . . , n¦,
174 CAPÍTULO 9. CURVAS EM R
N
portanto |c(t)−l| < ⇒ ∀i ∈ ¦1, . . . , n¦, [c
i
(t)−l
i
[ < ; conclui-se que ∀i ∈ ¦1, . . . , n¦, 0 < [t−t
0
[ < δ ⇒ [c
i
(t)−l
i
[ < ,
de onde, ∀i ∈ ¦1, . . . , n¦, lim
t→t
0
c
i
(t) = l
i
.
Suponhamos agora que ∀i ∈ ¦1, . . . , n¦, lim
t→t
0
c
i
(t) = l
i
, e seja > 0. Para cada i ∈ ¦1, . . . , n¦, existe δ
i
> 0 tal
que 0 < [t −t
0
[ < δ
i
⇒ [c
i
(t) −l
i
[ < . Pondo δ = min δ
i
, tem-se
0 < [t −t
0
[ < δ ⇒ |c(t) −l|

¸
=

n
¸
k=1
(c
i
(t) −l
i
)
2
¸

n
¸
k=1

2
=

n.
Conclui-se que lim
t→t
0
c(t) = l.
Corolário 9.0.4 Sejam c: I −→ R
n
t → (c
1
(t), . . . , c
n
(t))
e t
0
∈ I; c é contínua em t
0
sse ∀i ∈ ¦1, . . . , n¦, c
i
é contínua
em t
0
.
Definição 9.0.5 Sejam c : I −→R
n
e t
0
∈ I; diz-se que c é derivável em t
0
sse existe lim
t→t
0
c(t)−c(t
0
)
t−t
0
Observação: Vendo c como a descrição do movimento de uma partícula em R
n
, c

(t) é a velocidade da partícula
no instante t. Se c

(t
0
) = 0, então c

(t
0
) determina uma recta que passa por c(t
0
) e tem a direcção de c

(t
0
), a que se
chama recta tangente à curva no instante t
0
. Se a curva for injectiva (isto é, a partícula não passa mais de uma vez
por cada ponto), pode-se mostrar que a recta tangente depende apenas do traço da curva e do ponto c(t
0
), portanto
fala-se da recta tangente ao traço da curva em p
0
= c(t
0
).
0
0
0
0
c (t )
c(t)-c(t )
c(t)
c(t )
t
I
c
A menos de menção explícita em contrário, as curvas consideradas serão sempre supostas continuamente deriváveis.
Notação:
1. Designaremos por vezes c

(t) por v(t) e |c

(t)| por v
e
(t) (velocidade escalar no instante t).
2. Utiliza-se por vezes a notação
dc
dt
em vez de c

.
Corolário 9.0.6 Sejam c: I −→ R
n
t → (c
1
(t), . . . , c
n
(t))
e t
0
∈ I; c é derivável em t
0
sse ∀i ∈ ¦1, . . . , n¦, c
i
é derivável
em t
0
; nesse caso c

(t
0
) = (c

1
(t
0
), . . . , c

n
(t
0
)).
Em algumas das figuras deste capítulo, em vez do traço da curva será indicado um conjunto finito de pontos do
traço, ¦c(t
q
)¦, com t
q
−t
q−1
constante. Pontos mais afastados no traço correspondem, pois, a maior velocidade escalar,
e pontos mais próximos correspondem a menor velocidade escalar.
Exemplos
1. c: [0, 2π] −→ R
2
t → (2 cos t, 2 sen t)
c

(t) = (−2 sen t, 2 cos t)
-2 -1 1 2
-2
-1
1
2
-3 -2 -1 1 2 3
-3
-2
-1
1
2
3
175
2. c: [−

8π, 0] −→ R
2
t → (sen
t
2
4
, cos
t
2
4
)
c

(t) = (
t
2
cos
t
2
4
, −
t
2
sen
t
2
4
)
-2 -1 1
-2
-1.5
-1
-0.5
0.5
1
-3 -2 -1 1 2
-2.5
-2
-1.5
-1
-0.5
0.5
1
1.5
3. c: R −→ R
2
t → (t
2
−1, t(t
2
−1))
c

(t) = (2t, 3t
2
−1)
-2 -1 1 2 3
-4
-2
2
4
-2 -1 1 2 3
-4
-2
2
4
4. c: R −→ R
3
t → (cos t, sen t, t/2)
c

(t) = (−sen t, cos t, 1/2)
-1
0
1
x
-1
0
1
y
-2
0
2
z
-1
0
1
y
176 CAPÍTULO 9. CURVAS EM R
N
Definição 9.0.7 Diz-se que a curva c : I −→R
n
é regular sse c é derivável e c

(t) nunca se anula.
Proposição 9.0.8 Sejam f, g : I −→R
n
e ϕ : I −→R funções deriváveis; Então f + g, ϕf e f g são deriváveis e
∀t ∈ I
1. (f +g)

(t) = f

(t) +g

(t)
2. (ϕf)

(t) = ϕ

(t)f(t) +ϕ(t)f

(t)
3. (f g)

(t) = f

(t) g(t) +f(t) g

(t).
Se n = 3, (f g) é derivável e (f g)

(t) = f

(t) g(t) +f(t) g

(t).
Demonstração:
1. Sejam f: I −→ R
n
t → (f
1
(t), . . . , f
n
(t))
e g: I −→ R
n
t → (g
1
(t), . . . , g
n
(t))
; como f e g são deriváveis, para todo
o i ∈ ¦1, . . . , n¦, f
i
e g
i
são deriváveis, logo, para todo o i ∈ ¦1, . . . , n¦, f
i
+ g
i
é derivável, e ∀t ∈ I, tem-
se (f
i
+ g
i
)

(t) = f

i
(t) + g

i
(t). Conclui-se que a função f +g: I −→ R
n
t → (f
1
(t) +g
1
(t), . . . , f
n
(t) +g
n
(t))
é
derivável e (f +g)

(t) = (f

1
(t) +g

1
(t), . . . , f

n
(t) +g

n
(t)) = f

(t) +g

(t).
2. Sejam f: I −→ R
n
t → (f
1
(t), . . . , f
n
(t))
e ϕ : I −→R
n
. Como f é derivável, para todo o i ∈ ¦1, . . . , n¦, f
i
é
derivável, logo, para todo o i ∈ ¦1, . . . , n¦, ϕf
i
é derivável, e ∀t ∈ I, (ϕf
i
)

(t) = ϕ

(t)f
i
(t) +ϕ(t)f

i
(t). Conclui-se
que a função ϕf: I −→ R
n
t → (ϕ(t)f
1
(t), . . . , ϕ(t)f
n
(t))
é derivável e
(ϕf)

(t) = (ϕ

(t)f
1
(t) +ϕ(t)f

1
(t), . . . , ϕ

(t)f
n
(t) +ϕ(t)f

n
(t)) = ϕ

(t)f(t) +ϕ(t)f

(t).
3. Sejam f: I −→ R
n
t → (f
1
(t), . . . , f
n
(t))
e g: I −→ R
n
t → (g
1
(t), . . . , g
n
(t))
; como f e g são deriváveis, para todo
o i ∈ ¦1, . . . , n¦, f
i
e g
i
são deriváveis, logo, para todo o i ∈ ¦1, . . . , n¦, f
i
g
i
é derivável, e ∀t ∈ I, tem-se
(f
i
g
i
)

(t) = f

i
(t)g
i
(t) + f
i
(t)g

i
(t). Conclui-se que a função f g: I −→ R
t → f
1
(t)g
1
(t) +. . . +f
n
(t)g
n
(t)
é
derivável e (f g)

(t) = f

(t) g(t) +f(t) g

(t).
A demonstração para f g é análoga às anteriores.
Corolário 9.0.9 Se c : I −→R
n
é derivável e tal que |c(t)| é constante, então, ∀t, c(t) e c

(t) são ortogonais.
Demonstração: Seja f: I −→ R
t → |c(t)|
2
; como |c(t)| é constante, f é constante, portanto ∀t ∈ I, f

(t) = 0. Mas
f(t) = c(t) c(t), portanto f

(t) = c

(t) c(t) +c(t) c

(t) = 2c(t) c

(t). Conclui-se que c(t) c

(t) = 0, isto é, c(t) e c

(t)
são ortogonais.
Definição 9.0.10 Sejam c : I −→R
n
e γ : J −→R
n
duas curvas; diz-se que γ é uma reparametrização de c sse
γ = c ◦ ϕ para alguma função contínua ϕ : J −→ I.
Observações:
1. Se γ é uma reparametrização de c, então o traço de γ está contido no traço de c, mas o recíproco não é verdade.
2. Seja γ uma reparametrização de c; vendo c como a descrição do movimento de uma partícula, ou seja, como
uma maneira de percorrer o traço de c, pode-se ver γ como uma outra maneira de percorrer uma parte do traço
de c (por exemplo no sentido oposto, com velocidade diferente, repetindo partes do trajecto, etc).
Exemplos
177
1. c: R −→ R
2
t → (3 cos t, 3 sen t)
c corresponde a percorrer a circunferência de raio 3 centrada na origem no sentido directo, passando em (3,0)
no instante 0, e com velocidade escalar constante igual a 3.
ϕ
1
: R −→ R
x → x/3
; c ◦ ϕ
1
: R −→ R
2
t → (3 cos(t/3), 3 sen(t/3))
c ◦ ϕ
1
corresponde a percorrer a mesma circunferência no sentido directo, passando em (3, 0) no instante 0, e
com velocidade escalar constante igual a 1.
ϕ
2
: R −→ R
2
x → π/3 −x/2
; c ◦ ϕ
2
: R −→ R
2
t → (3 cos(π/3 −t/2), 3 sen(π/3 −t/2))
c◦ϕ
2
corresponde a percorrer a circunferência no sentido dos ponteiros de um relógio, passando em (3/2, 3

3/2)
no instante 0, e com velocidade escalar constante igual a 3/2.
ϕ
3
: R −→ R
x →
π
x
2
+1
; c ◦ ϕ
3
: R −→ R
2
t → (3 cos
π
t
2
+1
, 3 sen
π
t
2
+1
)
c◦ϕ
3
corresponde à semi-circunferência percorrida uma vez no sentido directo e uma vez no sentido dos ponteiros
de um relógio; a velocidade escalar no instante t é
6|t|
(t
2
+1)
2
.
-4 -2 2 4
c
-3
-2
-1
1
2
3
4
-4 -2 2 4
c1
-3
-2
-1
1
2
3
4
-4 -2 2 4
c2
-3
-2
-1
1
2
3
4
-6 -4 -2 2
c3,t<0
-4
-3
-2
-1
1
2
3
-2 0 2 4 6
c3,t>0
1
2
3
4
5
6
7
-4 -2 2 4
c3,t>0
-1
1
2
3
4
5
2. c
1
: [0, 2π] −→ R
2
t → (cos t, sen t)
; c
2
: [0, 2π] −→ R
2
t → (cos 2t, sen 2t)
c
1
é uma reparametrização de c
2
: c
1
= c
2
◦ ϕ em que ϕ: [0, 2π] −→ [0, 2π]
x → x/2
No entanto, c
2
não é uma reparametrização de c
1
. Com efeito, suponhamos que existia ψ : [0, 2π] −→ [0, 2π]
contínua tal que ∀t ∈ [0, 2π], c
2
(t) = c
1
(ψ(t)), isto é, (cos 2t, sen 2t) = (cos(ψ(t)), sen(ψ(t))). Como se tem

cos x = cos y
sen x = sen y
⇒ ∃k ∈ Z : y = x+2kπ, conclui-se que existiria uma função k : [0, 2π] −→Z tal que ∀t, ψ(t) =
2t + 2k(t)π; da continuidade de ψ, conclui-se a continuidade de k, logo k teria de ser constante. Mas não existe
nenhum k ∈ Z tal que ∀t ∈ [0, 2π], 2t + 2kπ ∈ [0, 2π].
Observação: este exemplo mostra que duas curvas com o mesmo traço não são necessariamente reparametri-
zações uma da outra.
Lema 9.0.11 Se γ = c ◦ ϕ, e c e ϕ são deriváveis, então γ é derivável e γ

(t) = c

(ϕ(t))ϕ

(t).
Demonstração: Sejam c
1
, . . . , c
n
: I −→R tais que ∀t, c(t) = (c
1
(t), . . . , c
n
(t)). Então γ(t) = (c
1
(ϕ(t)), . . . , c
n
(ϕ(t)));
como c é derivável, cada c
i
é derivável, logo γ é derivável e γ

(t) = (ϕ

(t)c

1
(ϕ(t)), . . . , ϕ

(t)c

n
(ϕ(t))) = ϕ

(t)c

(ϕ(t)).
178 CAPÍTULO 9. CURVAS EM R
N
Seja c : [a, b] −→R
n
uma curva continuamente derivável; para cada partição P = ¦t
0
, . . . , t
m
¦ de [a, b], consideremos
l(c, P) =
¸
m
i=1
|c(t
i
)−c(t
i−1
)|; trata-se do comprimento do caminho poligonal de c(a) a c(b) formado pelos segmentos
de recta que unem c(t
i−1
) a c(t
i
), i = 1, . . . , m.
5
c
5
4
3
2
1
0
3 2 1 0
c(t )
c(t )
c(t )
c(t )
c(t )
c(t )
t t t t t 4 t
Definição 9.0.12 O comprimento da curva entre a e b é l
c
= sup¦l(c, P); P partição de [a,b]¦.
Proposição 9.0.13 Sejam f
1
, . . . , f
m
: [a, b] −→R
+
0
funções contínuas; para todo o > 0 existe δ > 0 tal que, se
P = ¦t
0
, . . . , t
q
¦ é uma partição de [a, b] com max
i∈{1,...,m}
¦t
i
− t
i−1
¦ < δ, e u
ij
, 1 ≤ i ≤ q, 1 ≤ j ≤ m são tais que
u
ij
∈ [t
i−1
, t
i
], então

b
a

f
1
(x) + +f
m
(x)dx −
q
¸
i=1
(t
i
−t
i−1
)

f
1
(u
i1
) + +f
m
(u
im
)

< .
Demonstração: análoga à demonstração da proposição 5.17.
Proposição 9.0.14 Se c : I −→R
n
é uma curva continuamente derivável, então l
c
=

b
a
|c

(t)|dt
Demonstração: Sejam c
1
, . . . , c
n
: [a, b] −→R tais que ∀t, c(t) = (c
1
(t), . . . , c
n
(t)) e P = ¦t
0
, . . . , t
m
¦ uma partição de
[a, b]. Tem-se
l(c, P) =
m
¸
i=1
|c(t
i
) −c(t
i−1
)| =
m
¸
i=1

n
¸
j=1
(c
j
(t
i
) −c
j
(t
i−1
))
2
=
m
¸
i=1
(t
i
−t
i−1
)

n
¸
j=1

c
j
(t
i
) −c
j
(t
i−1
)
t
i
−t
i−1

2
Para cada i ∈ ¦1, . . . , m¦, j ∈ ¦1, . . . , n¦, existe u
ij
∈]t
i−1
, t
i
[ tal que
c
j
(t
i
)−c
j
(t
i−1
)
t
i
−t
i−1
= c

j
(u
ij
). Então l(c, P) =
¸
m
i=1
(t
i
−t
i−1
)

¸
n
j=1
(c

j
(u
ij
)
2
. Pela proposição anterior, conclui-se que para qualquer > 0 existe δ > 0 tal que
max¦t
i
−t
i−1
¦ < δ ⇒

l(c, P) −

b
a

n
¸
j=1
(c

j
(t))
2
dt

< ,
de onde se conclui que l
c
=

b
a

¸
n
j=1
(c

j
(t))
2
dt =

b
a
|c

(t)|dt.
Observações:
1. O comprimento de c entre a e b corresponde à distância efectivamente percorrida entre os instantes a e b, e não
necessariamente à “distância entre c(a) e c(b) medida ao longo do traço de c”.
2. O comprimento de c entre a e b depende apenas da velocidade escalar, e não da direcção da velocidade.
Exemplos
1. c: [0, π/2] −→ R
t → (cos t +t sen t, sen t −t cos t)
c

(t) = (t cos t, t sen t); |c

(t)| = [t[; l
c
=

π
0
[t[dt = π
2
/2
179
-1 -0.5 0.5 1 1.5
0.5
1
1.5
2
2.5
3
2. c: [−2, 2] −→ R
2
t → (t
2
, t
3
/3)
c

(t) = (2t, t
2
); |c

(t)| = [t[

4 +t
2
l
c
=

2
−2
[t[

4 +t
2
dt = 2

2
0
t

4 +t
2
dt = [
2
3
(4 +t
2
)
3/2
]
2
0
=
16
3

8 −
16
3
.
1 2 3 4
-2
-1
1
2
3. c: [0, 2π] −→ R
2
t → (e
t
cos t, e
t
sen t)
c

(t) = (e
t
cos t −e
t
sen t, e
t
sen t +e
t
cos t); |c

(t)| = e
t

2; l
c
=


0
e
t

2dt = e


2 −

2
100 200 300 400 500
-175
-150
-125
-100
-75
-50
-25
4. c: [0, π/2] −→ R
3
t → (cos
3
t, sen
3
t, 2 cos
2
t)
c

(t) = (−3 cos
2
t sen t, 3 sen
2
t cos t, −4 cos t sen t); |c

(t)| = [ sen t cos t[

9 cos
2
t + 9 sen
2
t + 16 = 5 sen t cos t =
5
2
sen 2t.
l
c
=

π/2
0
5 sen t cos t dt = −
5 cos 2t
4
]
π/2
0
= 5/2
180 CAPÍTULO 9. CURVAS EM R
N
0
0.25
0.5
0.75
1
x
0
0.25
0.5
0.75
1
y
0
0.5
1
1.5
2
z
0
0.25
0.5
0.75
1
y
Proposição 9.0.15 Sejam σ : [a, b] −→R
n
e γ : [c, d] −→R
n
duas curvas deriváveis e ϕ : [a, b] −→ [c, d] uma aplica-
ção bijectiva, derivável, tal que σ = γ ◦ ϕ. Então l
σ
= l
γ
.
Demonstração: Como ϕ é bijectiva, ou se tem ϕ(a) = c (e ϕ(b) = d) ou ϕ(a) = d (e ϕ(b) = c). Suponhamos primeiro
que ϕ(a) = c; então ϕ é crescente, logo a sua derivada é sempre ≥ 0. Tem-se
l
σ
=

b
a

(t)|dt =

b
a

(ϕ(t))ϕ

(t)|dt =

b
a

(ϕ(t))|ϕ

(t)dt,
o que, fazendo a substituição u = ϕ(t), dá
l
σ
=

ϕ(b)
ϕ(a)

(u)|du =

d
c

(u)|du = l
γ
.
Suponhamos agora ϕ(a) = d; então ϕ é decrescente, logo a sua derivada é sempre ≤ 0. Tem-se
l
σ
=

b
a

(t)|dt =

b
a

(ϕ(t))ϕ

(t)|dt =

b
a
−|γ

(ϕ(t))|ϕ

(t)dt,
o que, fazendo a substituição u = ϕ(t), dá
l
σ
=

ϕ(b)
ϕ(a)
−|γ

(u)|du =

c
d
−|γ

(u)|du =

d
c

(u)|du = l
γ
.

Observação: Pode-se provar que, se σ : [a, b] −→R
n
e γ : [c, d] −→R
n
são duas curvas injectivas, regulares, com o
mesmo traço, então cada uma é uma reparametrização da outra por uma função bijectiva derivável; logo l
σ
= l
γ
. Isto
é, nesse caso, “o comprimento de um caminho não depende da maneira como é percorrido”.
Seja c : I −→R
n
uma curva regular e t
0
∈ I; consideremos a função l: I −→ R
t →

t
t
0
|c

(u)|du
, e seja J = l(I)
(como l é contínua, J é um intervalo). Uma vez que c é regular, |c

(t)| é sempre = 0; como l

(t) = |c

(t)|, conclui-se
que l : I −→ J é bijectiva e a inversa é derivável.
Definição 9.0.16 Seja c : I −→R
n
uma curva regular.
1. Chama-se função comprimento de arco com origem em t
0
à função
l : I −→ J
t →

t
t
0
|c

(u)|du
.
2. Se l : I −→ J é uma função comprimento de arco, diz-se que c ◦ l
−1
é uma reparametrização de c pelo
comprimento de arco.
181
Proposição 9.0.17 Sejam c : I −→R
n
uma curva regular, t
0
∈ I, l : I −→ J a função comprimento de arco com
origem em t
0
e c = c ◦ l
−1
. Então ∀s ∈ J, |c

(s)| = 1.
Demonstração: Tem-se
|c

(s)| = |c

(l
−1
(s))(l
−1
)

(s)| = |c

(l
−1
(s))
1
l

(l
−1
(s))
| = |
c

(l
−1
(s))
|c

(l
−1
(s))|
| = 1.

Definição 9.0.18 Diz-se que c : I −→R
n
está parametrizada pelo comprimento de arco sse ∀t ∈ I, |c

(t)| = 1
Observações:
1. Esta terminologia é obviamente coerente com a anterior; com efeito, se c é uma reparametrização pelo com-
primento de arco de uma curva regular c, então c é uma curva que está parametrizada pelo comprimento de
arco.
2. (interpretação geométrica da parametrização pelo comprimento de arco): Consideremos uma curva regular
c : I −→R
n
, seja l o comprimento de arco com origem em t
0
e c : J −→R
n
a correspondente parametrização
pelo comprimento de arco.
A curva c associa a cada ponto s ∈ J um dos pontos do traço de c que está a uma distância [s[ de c(t
0
) (medida
“ao longo do traço de c”); a s > 0 correspondem os pontos que são imagem por c de t > t
0
e a s < 0 correspondem
os pontos que são imagem por c de t < t
0
. Referir-nos-emos por vezes a c(l
−1
(s)) como o ponto do traço de c a
distância s de c(t
0
); o sinal de s determina “de que lado” de c(t
0
) é que está o ponto em questão.
-1
l l
0
0
0
s
c(l (s))=c(s)
c(t )
c
c
s 0=l(t )
l (s) t
J
I
-1
-1
3. Se c : I −→R
n
está parametrizada pelo comprimento de arco e t
0
∈ I, então a função comprimento de arco
com origem em t
0
é l : t −→ t −t
0
, e a reparametrização de c pelo comprimento de arco com origem em t
0
é c:
¦x ∈ R : x +t
0
∈ I¦ −→ R
n
t → c(t +t
0
)
.
4. Se c : I −→R
n
é uma curva regular, l
1
: I −→ J
1
e l
2
: I −→ J
2
são as funções comprimento de arco com origem
em t
1
e t
2
respectivamente, é fácil de ver que c ◦ l
−1
2
(s) = c ◦ l
−1
1
(s +s
0
), em que s
0
é a distância de c(t
1
) a c(t
2
).
Com efeito, c ◦ l
−1
2
(s) é o ponto do traço de c “a distância s” de c(t
2
) e c ◦ l
−1
1
(s + s
0
) é o ponto do traço de c
“a distância s +s
0
de c(t
1
)”. Ora s
0
é “a distância” de c(t
1
) a c(t
2
), portanto os dois pontos coincidem.
s
0
s
2
0 1
2
1
2 1
(l (s)) c
c (l (s+s )=
c(t )
c(t )
t t
c
-1
-1
Tem-se portanto, ∀k, (c◦l
−1
2
)
(k)
(s) = (c◦l
−1
1
)
(k)
(s+s
0
). Como l
1
(t) = s
0
+l
2
(t), conclui-se que (c◦l
−1
2
)
(k)
(l
2
(t)) =
(c ◦ l
−1
1
)
(k)
(l
1
(t)), ou seja, se c = c ◦ l
−1
: J −→R
n
é uma reparametrização de c pelo comprimento de arco, as
derivadas de qualquer ordem de c em l(t) só dependem de t, isto é, são independentes da origem para a função
comprimento de arco.
5. Mais geralmente, pode-se provar que se σ : I −→R
n
e γ : J −→R
n
são duas curvas injectivas parametrizadas
pelo comprimento de arco (logo regulares), com o mesmo traço, então existe α ∈ R tal que ∀t ∈ J, σ(t) = γ(t+α)
ou ∀t ∈ J, σ(t) = γ(−t +α).
Exemplos
182 CAPÍTULO 9. CURVAS EM R
N
1. c: [0, 2π] −→ R
2
t → (2 sen t, 2 cos t)
; determinação da reparametrização de c pelo comprimento de arco com origem
em π/2: tem-se c

(t) = (2 cos t, −2 sen t), logo

t
π/2
|c

(u)|du = 2t −π. Conclui-se que a função comprimento de
arco com origem em π/2 é l: [0, 2π] −→ [−π, 3π]
t → 2t −π
, logo a reparametrização de c pelo comprimento de arco
com origem em π/2 é c ◦ l
−1
: [−π, 3π] −→ R
2
s → (2 sen(
s+π
2
), 2 cos(
s+π
2
))
2. c: R −→ R
3
t → (cos(t
3
+t), sen(t
3
+t), t
3
+t)
; determinação da reparametrização de c pelo comprimento de arco
com origem em 0: tem-se c

(t) = (−(3t
2
+1) sen(t
3
+t), (3t
2
+1) cos(t
3
+t), 3t
2
+1), |c

(t)| = (3t
2
+1)

2, logo

t
0
|c

(u)|du =

2

t
0
(3u
2
+ 1)du =

2(t
3
+t).
Conclui-se que a função comprimento de arco com origem em 0 é l: R −→ R
t →

2(t
3
+t)
, logo a reparametri-
zação de c pelo comprimento de arco com origem em 0 é c ◦ l
−1
: R −→ R
3
s → (cos
s

2
, sen
s

2
,
s

2
)
.
3. c: ]0, +∞[ −→ R
3
t → (t,
2

2
3
t
3
2
, t
2
/2)
; determinação da reparametrização de c pelo comprimento de arco com
origem em 1: tem-se c

(t) = (1,

2t, t), |c

(t)| =

1 + 2t +t
2
= 1 + t, logo

t
1
|c

(u)|du = t + t
2
/2 − 3/2.
Conclui-se que a função comprimento de arco com origem em 1 é l: ]0, +∞[ −→ ] −3/2, +∞[
t → t
2
/2 +t −3/2
, logo l
−1
:
] −3/2, +∞[ −→ ]0, +∞[
s → −1 +

4 + 2s
, portanto a reparametrização de c pelo comprimento de arco com origem
em 1 é
c ◦ l
−1
: ] −3/2, +∞[ −→ R
3
s → (−1 +

4 + 2s,
2

2
3
(−1 +

4 + 2s)
3/2
,
1
2
(−1 +

4 + 2s)
2
)
.
0
1
2
3
4
x
0
2
4
6
y
0
2
4
6
8
z
0
1
2
3
4
x
0
2
4
6
y
Seja c : I −→R
n
uma curva regular e c = c ◦ l
−1
: J −→R
n
uma reparametrização pelo comprimento de arco.
Notação: A notação tradicional é algo ambígua, mas permite exprimir com grande simplicidade formal algumas
propriedades, por exemplo a regra da derivação da função inversa. Assim, s representa, conforme os casos, l(t) ou
a variável independente do intervalo J; e analogamente, t tanto representa l
−1
(s) como a variável independente do
intervalo I. Usando então a notação alternativa para as derivadas,
ds
dt
em vez de l

(t), a regra de derivação da função
inversa, (l
−1
)

(s) =
1
l

(l
−1
(s))
escreve-se
dt
ds
=
1
ds
dt
. Deixa-se ao leitor o cuidado de dissecar o significado de s e t nos
dois membros, e de analisar quais os pontos envolvidos.
Relativamente à composição de funções, um abuso de notação frequente consiste em escrever
dc
ds
em vez de
dc
ds
. A
regra de derivação da composta de duas funções escreve-se neste caso
dc
ds
=
dc
dt
dt
ds
.
183
Definição 9.0.19 Chama-se vector tangente unitário à curva c no instante t ao vector
c

(t)
c

(t)
; designaremos por
T
c
a função
I −→ R
n
t →
c

(t)
c

(t)
Observações:
1. (relação entre T
c
e T
c
): sejam t
1
∈ I e s
1
∈ J tais que s
1
= l(t
1
). Então
T
c
(s
1
) = c

(s
1
) = (c ◦ l
−1
)

(s
1
) = c

(l
−1
(s
1
))(l
−1
)

(s
1
) = c

(t
1
).
1
l

(l
−1
(s
1
))
=
c

(t
1
)
|c

(t
1
)|
= T
c
(t
1
),
isto é, o vector tangente unitário a c em s
1
é o vector tangente unitário a c em t
1
(T
c
= T
c
◦ l
−1
).
2. Frequentemente escreve-se apenas T em vez de T
c
(t),
dT
dt
em vez de T

c
(t) e
dT
ds
em vez de T

c
(s).
3. Mais geralmente, se γ é uma reparametrização de c por ϕ, (i.e., c = γ ◦ ϕ), e c e γ são regulares, então
T
γ
(t) = T
c
(ϕ(t)) ou T
γ
(t) = −T
c
(ϕ(t)), conforme ϕ

(t) seja positivo ou negativo.
4. Se c é duas vezes derivável, T
c
e T
c
são deriváveis (consequência do lema seguinte).
5. Usando a notação mencionada acima, tem-se T =
dc
ds
=
dc
dt
dt
ds
=
c

(t)
c

(t)
.
Lema 9.0.20 Seja c : I −→R
n
uma curva regular duas vezes derivável; então a função v
e
é derivável, e v

e
(t) =
c

(t)·c

(t)
c

(t)
(= c

(t) T).
Demonstração: v
e
(t) = |c

(t)| =

c

(t) c

(t); como c

(t) nunca se anula, v
e
é a composta de duas funções deriváveis,
logo derivável. A expressão para v

e
(t) obtem-se a partir da regra de derivação da função composta.
Seja c : I −→R
n
uma curva duas vezes derivável. Tem-se c

(t) = v
e
(t)T
c
(t), portanto c

(t) = v

e
(t)T
c
(t)+v
e
(t)T

c
(t);
estas duas parcelas são ortogonais, uma vez que, pelo corolário 9.0.9, T

c
(t) T
c
(t) = 0.
Definição 9.0.21 Chama-se aceleração no instante t a c

(t), aceleração tangente no instante t a a
T
(t) =
v

e
(t)T
c
(t) e aceleração normal no instante t a a
N
(t) = v
e
(t)T

c
(t).
A aceleração tangente mede a variação da velocidade escalar, enquanto que a aceleração normal mede a variação
da direção da velocidade.
Lema 9.0.22 a
T
(t) =
c

(t)·c

(t)
c

(t)
2
c

(t)(= (c

(t) T)T) (isto é, a aceleração tangente é a projecção da aceleração sobre o
vector tangente unitário).
Demonstração: consequência imediata do lema 9.0.20.
Sejam c = c ◦ l
−1
: J −→R
n
uma reparametrização de c pelo comprimento de arco. Como a velocidade escalar de
c é constante, a sua aceleração tangente é nula, logo c

(s) = a
N
(s).
Definição 9.0.23 Chama-se curvatura de c em s ∈ J e designa-se por k
c
(s) o número |c

(s)|; se k
c
= 0, chama-se
vector normal principal unitário em s a
c

(s)
c

(s)
; designa-se por N
c
(ou só N) a função
J ` ¦s : k
c
(s) = 0¦ −→ R
n
s →
c

(s)
c

(s)
.
Como c

(s) = T

c
(s) =
dT
ds
, tem-se N =
dT
ds

dT
ds

.
É consequência da observação 4 na página 181 que k
c
(l(t)) e N
c
(l(t)) não dependem da escolha da função com-
primento de arco l e da correspondente reparametrização pelo comprimento de arco, o que dá sentido à definição
seguinte.
Definição 9.0.24 1. Chama-se curvatura de c em t e designa-se por k
c
(t) a curvatura de qualquer reparametri-
zação pelo comprimento de arco c = c ◦ l
−1
em l(t). Chama-se vector normal principal unitário de c em t
a N
c
(t) = N
c
(l(t)).
2. Se k
c
(t) = 0, chama-se raio de curvatura de c em t a
1
k
c
(t)
.
184 CAPÍTULO 9. CURVAS EM R
N
Observações:
1. Tem-se N
c
= N
c
◦ l
−1
e k
c
= k
c
◦ l
−1
.
2. Pode-se provar que a recta tangente, o vector normal principal e a curvatura não dependem da parametrização,
dependem apenas do traço da curva. A curvatura mede a variação da direcção da tangente.
3. Se k
c
(t) = 0, a circunferência de centro c(t) +
1
k
c
(t)
N
c
(t) e raio
1
k
c
(t)
é a única circunferência “tangente de ordem
2” ao traço de c no ponto c(t).
c(t)
N/k(t)
Proposição 9.0.25 1. T

c
(t) = v
e
(t)k(t)N
c
(t)
2. a
N
(t) = v
2
e
(t)k
c
(t)N
c
(t)
Demonstração: Sejam c = c ◦ l
−1
uma reparametrização de c pelo comprimento de arco e s
0
, t
0
tais que l(t
0
) = s
0
.
1. Tem-se
T

c
(t) = (T
c
◦ l)

(t) = T

c
(l(t))l

(t)
= v
e
(t)T

c
(l(t)) = v
e
(t)c

(l(t))
= v
e
(t)k
c
(l(t))N
c
(l(t)) = v
e
(t)k
c
(t)N
c
(t).
2. Tem-se a
N
(t) = v
e
(t)T

c
(t) = v
2
e
(t)k
c
(t)N
c
(t).
(a
N
= v
e
T

=
ds
dt
dT
dt
= (
ds
dt
)
2 dT
ds
= v
2
e
kN).

Observação: De 2., decorre que a
N
(t) e N
c
(t) têm a mesma direção e sentido, portanto, como N
c
(t) é unitário,
tem-se N
c
(t) =
a
N
(t)
a
N
(t)
.
Exemplos
1. c: R −→ R
3
t → (2t −1, t + 3, −2t + 5)
c

(t) = (2, 1, −2); função comprimento de arco com origem em 1: s = l(t) =

t
1
3du = 3t−3; reparametrização pelo
comprimento de arco com origem em 1: l
−1
: R −→ R
s → s/3 + 1
, c: R −→ R
3
s → (2s/3 + 1, s/3 + 4, −2s/3 + 3)
.
T
c
(t) = (2/3, 1/3, −2/3); T
c
(s) = (2/3, 1/3, −2/3); como ∀s, c

(s) = (0, 0, 0), conclui-se que ∀s, k
c
(s) = 0, logo
∀t, k
c
(t)(= k
c
(l(t))) = 0.
O traço de c é a recta de equações

x +z = 4
2y +z = 11
.
2. c: R −→ R
2
t → (5 cos t, 5 sen t)
c

(t) = (−5 sen t, 5 cos t); função comprimento de arco com origem em 0: s = l(t) =

t
0
5du = 5t; reparame-
trização pelo comprimento de arco com origem em 0: c: R −→ R
2
s → (5 cos
s
5
, 5 sen
s
5
)
; T
c
(t) = (−sen t, cos t),
T
c
(s) = (−sen
s
5
, cos
s
5
); c

(s) = (−
1
5
cos
s
5
, −
1
5
sen
s
5
); k
c
(s) = |c

(s)| =
1
5
; k
c
(t) = k
c
(l(t)) =
1
5
; N
c
(s) =
(−cos
s
5
, −sen
s
5
); N
c
(t) = (−cos t, −sen t); c

(t) = (−5 cos t, −5 sen t).
185
Como |c

(t)| é constante, a aceleração tangente é nula; a
N
(t) = c

(t).
-4 -2 2 4
-4
-2
2
4
6 c’(t)
c’’(t)
-4 -2 2 4
-4
-2
2
4
6
T
N
3. c: R −→ R
2
t → (t, t
2
)
c

(t) = (1, 2t); T =
1

1+4t
2
(1, 2t); c

(t) = (0, 2);
a
T
(t) =
c

(t)·c

(t)
c

(t)
2
c

(t) =
4t
1+4t
2
(1, 2t); a
N
(t) = c

(t) −a
T
(t) = (
−4t
1+4t
2
,
2
1+4t
2
);
N
c
(t) =
a
N
(t)
a
N
(t)
=
1

1+4t
2
(−2t, 1); k
c
(t) =
a
N
(t)
v
2
e
(t)
=
2

(1+4t
2
)
3
.
-3 -2 -1 1 2 3
2
4
6
8
c’(t)
c’’(t)
a
T
a
N
T N
-3 -2 -1 1 2 3
grafico da curvatura
0.5
1
1.5
2
4. c: R −→ R
3
t → (t, t
2
, 2t
3
/3)
c

(t) = (1, 2t, 2t
2
); |c

(t)| = 1 + 2t
2
; T =
1
1+2t
2
(1, 2t, t
2
); c

(t) = (0, 2, 4t)
a
T
=
4t+8t
3
(1+2t
2
)
2
(1, 2t, 2t
2
) =
4t
1+2t
2
(1, 2t, 2t
2
); a
N
= (0, 2, 4t) −
4t
1+2t
2
(1, 2t, 2t
2
) =
2
1+2t
2
(−2t, 1 −2t
2
, 2t);
N =
1
(1+2t
2
)
(−2t, 1 −2t
2
, 2t); k =
2
(1+2t
2
)
2
.
5. c: R −→ R
2
t → (t cos t, t sen t)
c

(t) = (cos t −t sen t, sen t +t cos t); |c

(t)| =

1 +t
2
; T =
1

1+t
2
(cos t −t sen t, sen t +t cos t);
c

(t) = (−2t sen t − t cos t, 2 cos t − t sen t); a
T
=
t
1+t
2
(cos t − t sen t, sen t + t cos t); a
N
=
2+t
2
1+t
2
(−sen t −
t cos t, cos t −t sen t);
N =
1

1+t
2
(−sen t −t cos t, cos t −t sen t); k =
2+t
2
(

1+t
2
)
3
.
186 CAPÍTULO 9. CURVAS EM R
N
-10 -5 5 10
-10
-7.5
-5
-2.5
2.5
5
7.5
c’(t)
c’’(t) a
N
T
N
-6 -4 -2 2 4 6
velocidade escalar
1
2
3
4
5
6
-10 -5 5 10
grafico da curvatura
0.5
1
1.5
2
-3 -2 -1 1 2 3
vectores (1/k)N em varios pontos
-3
-2
-1
1
6. c: R −→ R
2
t → (e
t
cos t, e
t
sen t)
c

(t) = (e
t
cos t − e
t
sen t, e
t
cos t + e
t
sen t) =

2e
t
(cos(t + π/4), sen(t + π/4)); |c

(t)| =

2e
t
; T = (cos(t +
π/4), sen(t +π/4))
c

(t) = (−2e
t
sen t, 2e
t
cos t); a
T
= (e
t
cos t − e
t
sen t, e
t
cos t + e
t
sen t); a
N
= (−e
t
cos t − e
t
sen t, e
t
cos t −
e
t
sen t) =

2e
t
(−sen(t +π/4), cos(t +π/4)); N = (−sen(t +π/4), cos(t +π/4)); k(t) =

2e
t
(

2e
t
)
2
=
1

2e
t
.
100 200 300 400 500
velocidade
-200
-150
-100
-50
100 200 300 400 500
Aceleracao
-150
-100
-50
50
100
150
100 200 300 400 500
Aceleracao tangente e normal
-200
-100
100
7. c: R
+
0
−→ R
2
t → (cos t +t sen t, sen t −t cos t)
187
-1 -0.5 0.5 1 1.5
-1
-0.5
0.5
1
1.5
2
2.5
c(t)
t
Consideremos um fio enrolado à volta da circunferência de raio 1 centrada em (0, 0) (no sentido dos ponteiros de
um relógio) de maneira a que a ponta está em (1, 0). Ao desenrolar o fio, mantendo-o sempre esticado, a ponta
descreve o traço e c. Mais precisamente, c(t) é a posição da ponta do fio depois de ter sido desenrolado até ao
ponto da circunferência correspondente ao ângulo t.
c

(t) = (t cos t, t sen t); |c

(t)| = t; para t = 0, tem-se T = (cos t, sen t);
c

(t) = (cos t − t sen t, sen t + t cos t); para t = 0, tem-se a
T
= T; a
N
= (−t sen t, t cos t); N = (−sen t, cos t);
k(t) = 1/t.
-5 -2.5 2.5 5 7.5 10
Velocidade e aceleracao
-6
-4
-2
2
-4 -3 -2 -1 1
vectores (1/k)N em varios pontos
-6
-4
-2
2
8. c: R −→ R
2
t → (t −sen t, 1 −cos t)
Consideremos uma circunferência de raio 1, que rola sem deslizar ao longo do eixo dos xx, e que no instante
t = 0 é tangente ao eixo dos xx em (0, 0). Seja P o ponto da circunferência que , no instante t = 0 está em
contacto com o eixo dos xx. Então c(t) é a posição do ponto P no instante em que P tiver rodado um ângulo t
em relação ao centro da circunferência (a esta curva chama-se cicloide).
C
P
t
t
1
c(t)
P
188 CAPÍTULO 9. CURVAS EM R
N
2 4 6 8 10 12
0.5
1
1.5
2
c

(t) = (1 − cos t, sen t); |c

(t)| =

2 −2 cos t; comprimento de um arco da cicloide:


0

2 −2 cos udu =


0
2 sen
u
2
du = 8; c

(t) = (sen t, cos t)
Observação: c não é regular; c

(t) = (0, 0) quando cos t = 1.
Para t tal que c

(t) = (0, 0), tem-se T =
1

2−2 cos t
(1 − cos t, sen t); a
T
=
sen t
2−2 cos t
(1 − cos t, sen t); a
N
=
1
2
(sen t, cos t −1); N =
1

2−2 cos t
(sen t, 1 −cos t); k(t) =
1
2

2−2 cos t
.
0 1 2 3 4 5 6
0.25
0.5
0.75
1
1.25
1.5
1.75
2
1 2 3 4 5 6
vectores (1/k)N em varios pontos
-2
-1
1
2
0 2 4 6 8 10 12
curvatura
0.5
1
1.5
2
2.5
3
3.5
4
Mais geralmente, podemos considerar um círculo de raio a, com uma haste de comprimento b fixa ao centro,
rolando ao longo do eixo dos xx, e o trajecto descrito pelo extremo P da haste (o caso que foi visto corresponde
a a = b = 1).
189
b<a
P
a<b
P
Nesse caso, a posição de P quando o círculo tiver rodado de um ângulo t é (at −b sen t, a −b cos t).
Exemplo de um caso com b < a:
2 4 6 8 10 12
0.5
1
1.5
2
P
0 2 4 6 8 10 12
0.25
0.5
0.75
1
1.25
1.5
1.75
2
2 4 6 8 10 12
curvatura
2
4
6
Exemplo de um caso com a < b:
2 4 6 8 10 12
0.5
1
1.5
2
P
2 4 6 8 10 12
-0.5
0.5
1
1.5
2
2.5
2 4 6 8 10 12
curvatura
2
4
6
8
190 CAPÍTULO 9. CURVAS EM R
N
9. c: R −→ R
2
t → (2 cos t + cos 2t, 2 sen t + sen 2t)
Consideremos uma circunferência de raio 1, (, que rola sem deslizar em torno de uma circunferência de raio 1
centrada em (0, 0), (
0
, de tal maneira que no instante t = 0 ( é tangente a (
0
em (1, 0). A curva c descreve o
trajecto do ponto P de ( que no instante 0 está em (3, 0); mais precisamente, c(t) é a posição de P quando o
ponto de tangência entre ( e (
0
é (cos t, sen t). A esta curva chama-se cardioide.
P
P’
P
P’
t t
t
t
t
-1 1 2 3
-2
-1
1
2
3
P
P
c

(t) = (−2 sen t −2 sen 2t, 2 cos t + 2 cos 2t); |c

(t)| =

8 + 8 sen t sen 2t + 8 cos t cos 2t =

8 + 8 cos(2t −t) =

8

2 cos
2
t
2
= 4[ cos
t
2
[;
Observação: c não é regular: c

(t) = 0 quando t ∈ ¦(2k + 1)π, k ∈ Z¦.
comprimento da cardioide:


0
4[ cos
u
2
[du =

π
0
4 cos
u
2
du −


π
4 cos
u
2
du = 16.
-1 1 2 3
vectores (1/k)N
-2
-1
1
2
0 1 2 3 4 5 6
1
2
3
4
5
6
7
Mais geralmente, podemos considerar um círculo de raio b, com uma haste de comprimento c fixa ao centro,
rolando em torno de uma circunferência de raio a centrada em (0, 0), de tal maneira que no instante t = 0 o
extremo da haste está em (a + b + c, 0). Nesse caso, o trajecto do extremo da haste é descrito pela curva c:
R −→ R
2
t → ((a +b) cos t +c cos(t +
at
b
), (a +b) sen t +c sen(t +
at
b
))
(o caso que foi visto corresponde a a =
b = c = 1).
Exemplo com a = 2, b = 4/3, c = 1.7
191
-4 -2 2 4
-4
-2
2
4
-4 -2 2 4
vectores (1/k)N
-4
-2
2
4
Exemplo com a = 2, b = 2/3, c = .5
-2 -1 1 2 3
-3
-2
-1
1
2
3
-4 -2 2
vectores (1/k)N
-6
-4
-2
2
Proposição 9.0.26 Seja c : I −→R
n
uma curva regular; o traço de c está contido numa recta sse ∀t ∈ I, k
c
(t) = 0
Demonstração: Suponhamos primeiro que o traço de c está contido numa recta. Então é óbvio que T é constante, logo
T

é nulo, portanto a curvatura é sempre nula.
Reciprocamente, suponhamos que a curvatura é nula, e seja c = c◦l
−1
uma reparametrização de c pelo comprimento
de arco. Como k
c
é nula, k
c
tambem é nula, isto é, c

é nula, logo c

é constante, de onde se conclui que c é da forma
s → p + sv, em que p, v ∈ R
n
. Portanto, o traço de c está contido numa recta, de onde se conclui que o traço de c
tambem está contido na mesma recta.
Exemplo c: ]0, π/4[ −→ R
3
t → (3 cos
2
t, sen
2
t, −cos 2t)
c

(t) = (−6 cos t sen t, 2 sen t cos t, −2 sen 2t) = (−3 sen 2t, sen 2t, −2 sen 2t); c

(t) = (−6 cos 2t, 2 cos 2t, −4 cos 2t).
Como c

(t) e c

(t) são sempre colineares, conclui-se que a aceleração normal é nula, portanto a curvatura é nula.
Conclui-se que o traço de c está contido numa recta. Para obter equações da recta, basta determinar dois dos seus
pontos, ou então notar que (3 cos
2
t, sen
2
t, −cos 2t) = (3 cos
2
t, 1 −cos
2
t, 1 −2 cos
2
t) = (0, 1, 1) + cos
2
t(3, −1, −2).
Proposição 9.0.27 Seja c : I −→R
n
uma curva regular de traço plano. O traço de c está contido numa circunferência
de raio r sse ∀t ∈ I, k
c
(t) = 1/r.
Demonstração: Comecemos por ver que no caso de uma curva plana se tem N

c
(t) = −v

e
(t)k
c
(t)T
c
(t). Com efeito,
como N tem norma constante, N e N’ são ortogonais, logo N

é múltiplo de T. Por outro lado, de T N = 0, deduz-se
T

N +T N

= 0, ou seja, T N

= −T

N = −v
e
kN N = −v
e
k. Conclui-se que N

= −v
e
kT.
Suponhamos agora em primeiro lugar que o traço de c está contido na circunferência de centro ( e raio r; tem-
se então, ∀t, |c(t) − (| = r, isto é, (c(t) − () (c(t) − () = r
2
. Derivando, obtem-se 2c

(t) (c(t) − () = 0 e
c

(t) (c(t) −() = −|c

(t)|
2
. De c

(t) (c(t) −() = 0, conclui-se que c(t) −( e T são ortogonais, logo c(t) −( é sempre
múltiplo de N, isto é, c(t) −( = α(t)N. Para determinar α(t), basta notar que de α(t)N c

(t) = −|c

(t)|
2
, se conclui
que α(t)N (v

e
T + v
2
e
kN) = −v
2
e
, ou seja α(t) = −1/k. Tem-se então c(t) − ( = −
1
k
c
(t)
N
c
(t). Como, por um lado,
|c(t) −(| = r e por outro |c(t) −(| =
1
k
c
(t)
, conclui-se que k
c
é constante =
1
r
.
Suponhamos reciprocamente que a curvatura de c é constante =
1
r
, e consideremos a função
( : I −→ R
n
t → c(t) +rN
c
(t)
.
192 CAPÍTULO 9. CURVAS EM R
N
Tem-se
(

(t) = c

(t) +rN

c
(t) = c

(t) +r(−v
e
1
r
T) = c

(t) −v
e
T = 0.
Conclui-se que ( é constante; seja p ∈ R
n
a sua imagem. Tem-se então, ∀t, c(t) + rN = p, logo c(t) − p = −rN, de
onde |c(t) −p| = r, isto é, ∀t, c(t) pertence à circunferência de centro p e raio r.
Curvas em R
3
Vamos considerar agora curvas em R
3
, e suporemos sempre que são infinitamente deriváveis. Curvas em R
2
serão
vistas como um caso particular, considerando a inclusão natural de R
2
em R
3
((x, y) → (x, y, 0)).
Proposição 9.0.28 k
c
(t) =
c

(t)×c

(t)
c

(t)
3
Demonstração: Tem-se c

(t) = v

e
T + v
2
e
kN, portanto c

(t) c

(t) = v
e
T (v

e
T + v
2
e
kN) = v
3
e
k(T N), logo
|c

(t) c

(t)| = v
3
e
k. Conclui-se que k =
c

(t)×c

(t)
v
3
e
=
c

(t)×c

(t)
c

(t)
3
.
Seja c : I −→R
3
uma curva regular com curvatura não nula em todos os pontos. Temos então as funções
T
c
: I −→R
3
e N
c
: I −→R
3
.
Definição 9.0.29 Chama-se vector binormal no instante t ao vector B
c
(t) = T
c
(t) N
c
(t).
Definição 9.0.30 Chama-se triedro de Frenet à base ortonormal de R
3
formada por T, N e B.
Seja c : I −→R
3
e seja c = c ◦ l
−1
uma reparametrização pelo comprimento de arco. Tem-se
dT
c
ds
= k
c
N
c
. Como
N
c
e
dN
c
ds
são ortogonais,
dN
c
ds
é combinação linear de T
c
e B
c
, logo existem funções α e τ
c
(de l(I) em R) tais que
dN
c
ds
= αT
c

c
B
c
(observação: α =
dN
c
ds
T
c
e τ
c
=
dN
c
ds
B
c
, logo α e τ
c
são deriváveis).
Definição 9.0.31 Chama-se torção de c em s a τ
c
(s).
Lema 9.0.32 Para todo o s, tem-se α(s) = −k
c
.
Demonstração: Tem-se ∀s, T
c
(s) N
c
(s) = 0; derivando, obtem-se
dT
c
ds
N
c
+ T
c

dN
c
ds
= 0, de onde k
c
N
c
N
c
+ T
c

(αT
c

c
B
c
) = 0, isto é, k
c
+α = 0.
Para definir a torção de c em t, basta notar que τ
c
(l(t)) não depende da escolha da função comprimento de arco,
nem da correspondente reparametrização pelo comprimento de arco, uma vez que é definida a partir de T, N e das
suas derivadas.
Definição 9.0.33 Chama-se torção de c em t (τ
c
(t)) a τ
c
(l(t)), em que c = c ◦ l
−1
é qualquer reparametrização de c
pelo comprimento de arco.
Proposição 9.0.34
dB
c
ds
= −τ
c
N
c
.
Demonstração: Tem-se B
c
= T
c
N
c
, logo
dB
c
ds
=
dT
c
ds
N
c
+T
c

dN
c
ds
= −k
c
N
c
N
c
+T
c
(−k
c
T
c

c
B
c
) = τ
c
T
c
B
c
= −τ
c
N
c
.

As fórmulas
dT
ds
= kN
dN
ds
= −kT +τB
dB
ds
= −τN
chamam-se fórmulas de Frenet.
Observação: Tem-se
dT
dt
= v
e
kN,
dN
dt
= −v
e
kT +v
e
τB,
dB
dt
= −v
e
τN.
193
Proposição 9.0.35 τ
c
(t) =
c

(t)·(c

(t)×c

(t))
c

(t)×c

(t)
2
Demonstração: De c

(t) = v
e
T, conclui-se que c

(t) = v

e
T + v
2
e
kN, de onde c

(t) = v

e
T + v

e
dT
dt
+ (v
2
e
k)

N +
v
2
e
k
dN
dt
= v

e
T + v

e
v
e
kN + (v
2
e
k)

N − v
3
e
k
2
T + v
3
e
kτB. Por outro lado, c

(t) c

(t) = v
e
T v
2
e
kN = v
3
e
kB, de onde
|c

(t) c

(t)| = v
3
e
k. Logo c

(t) (c

(t) c

(t)) = v
6
e
k
2
τ = |c

(t) c

(t)|
2
τ.
Exemplos
1. c: R −→ R
3
t → (t, t
2
,
2t
3
3
)
(ver o exemplo 4 na página 185)
-2
-1
0
1
2
x
0
1
2
3
4
y
-5
-2.5
0
2.5
5
z
0
1
2
3
4
y
B =
1
2(1+2t
2
)
2
(1, 2t, 2t
2
) (−4t, 2 −4t
2
, 4t) =
1
2(1+2t
2
)
2
(4t
2
+ 8t
4
, −8t
3
−4t, 2 + 4t
2
) =
1
1+2t
2
(2t
2
, −2t, 1)
τ(t) =
(0,0,4)·(4t
2
,−4t,2)
4(1+2t
2
)
2
=
2
(1+2t
2
)
2
2. c: R −→ R
3
t → (4 cos t, 4 sen t, 3t)
-4
-2
0
2
4
x
-4
-2
0
2
4
y
-10
0
10
z
-4
-2
0
2
4
y
c

(t) = (−4 sen t, 4 cos t, 3); c

(t) = (−4 cos t, −4 sen t, 0); c

(t) = (4 sen t, −4 cos t, 0)
T = (−
4
5
sen t,
4
5
cos t,
3
5
); a
T
= 0; a
N
= c

(t); B = (
3
5
sen t, −
3
5
cos t,
4
5
).
k(t) =
c

(t)×c

(t)
c

(t)
3
(=
c

(t)c

(t)
c

(t)
3
porque c

(t) e c

(t) são ortogonais) =
4
25
τ(t) =

4 sen t −4 cos t 0
−4 sen t 4 cos t 3
−4 cos t −4 sen t 0

c

(t)
2
c

(t)
2
=
48
25.16
=
3
25
.
194 CAPÍTULO 9. CURVAS EM R
N
Mais geralmente, dada a curva c: R −→ R
3
t → (a cos t, a sen t, bt)
, a curvatura é constante =
a
a
2
+b
2
e a torção é
constante =
b
a
2
+b
2
.
Observação: este exemplo mostra que “a curvatura ser constante” não é uma condição suficiente para o traço
estar contido numa circunferência.
3. c: R −→ R
2
t → (a cos t, b sen t)
c

(t) = (−a sen t, b cos t); c

(t) = (−a cos t, −b sen t)
k(t) =
(−a sen t,b cos t,0)×(−a cos t,−b sen t,0)

(a
2
sen
2
t+b
2
cos
2
t)
3
=
ab

(a
2
sen
2
t+b
2
cos
2
t)
3
.
Caso a = 2 e b = 1:
-2 -1 1 2
velocidade e aceleracao
-1
-0.5
0.5
1
-2 -1 1 2
(1/k)N
-3
-2
-1
1
2
-2 -1 1 2
aceleracao tangente e normal
-1
-0.5
0.5
1
0 1 2 3 4 5 6
velocidade escalar
0.25
0.5
0.75
1
1.25
1.5
1.75
2
1 2 3 4 5 6
grafico da curvatura
0.5
1
1.5
2
4. c: R −→ R
2
t → (e
t
+e
−t
, e
t
−e
−t
)
c

(t) = (e
t
−e
−t
, e
t
+e
−t
); c

(t) = (e
t
+e
−t
, e
t
−e
−t
);
k(t) =
(e
t
−e
−t
,e
t
+e
−t
,0)×(e
t
+e
−t
,e
t
−e
−t
,0)
(e
t
−e
−t
,e
t
+e
−t
,0)
3
=
4

(2e
2t
+2e
−2t
)
3
.
Tem-se (e
t
+ e
−t
)
2
= e
2t
+ e
−2t
+ 2 e (e
t
− e
−t
)
2
= e
2t
+ e
−2t
− 2, de onde se conclui que o traço de c está
contido na hiperbole de equação x
2
−y
2
= 4. De facto, é fácil de ver que o traço de c é o ramo dessa hiperbole
correspondente a x > 0.
195
1 2 3 4 5 6
T
-4
-2
0
2
4
2 4 6 8 10 12
(1/k)N
-6
-4
-2
0
2
4
6
5. c: R −→ R
3
t → (e
t
, e
−t
,

2t)
c

(t) = (e
t
, −e
−t
,

2); |c

(t)| =

e
2t
+e
−2t
+ 2 = e
t
+e
−t
; T =
1
e
t
+e
−t
(e
t
, −e
−t
,

2).
c

(t) = (e
t
, e
−t
, 0); a
T
= (e
t
− e
−t
)T =
e
t
−e
−t
e
t
+e
−t
(e
t
, −e
−t
,

2); a
N
=
1
e
t
+e
−t
(2, 2, −

2(e
t
− e
−t
)); |a
N
| =

2;
N =
a
N
a
N

=
1
e
t
+e
−t
(

2,

2, e
−t
−e
t
); B =
1
e
t
+e
−t
(−e
−t
, e
t
,

2);
k(t) =
a
N

v
2
e
=

2
(e
t
+e
−t
)
2
; τ(t) =
(e
t
,−e
−t
,0)·(−

2e
−t
,

2e
t
,2)
(−

2e
−t
,

2e
t
,2)
2
=


2
(e
t
+e
−t
)
2
.
0
2
4
6
x
0
2
4
6
y
-2
0
2
z
0
2
4
6
x
0
2
4
6
y
-2 -1 1 2
curvatura
0.05
0.1
0.15
0.2
0.25
0.3
0.35
-2 -1 1 2
torcao
-0.35
-0.3
-0.25
-0.2
-0.15
-0.1
-0.05
6. c: R −→ R
3
t → (t cos t, t sen t, t)
196 CAPÍTULO 9. CURVAS EM R
N
-10
-5
0
5
10
x
-10
-5
0
5 y
-10
0
10
z
-10
-5
0
5 y
-10 -5 5 10
curvatura
0.2
0.4
0.6
0.8
1
-10 -5 5 10
torcao
0.1
0.2
0.3
0.4
0.5
0.6
0.7
7. c: R −→ R
3
t → (4 cos t, 4 sen t, 2 cos 5t)
-4
-2
0
2
4
x
-4
-2
0
2
4
y
-2
0
2
z
-4
-2
0
2
4
x
1 2 3 4 5 6
curvatura
0.5
1
1.5
2
2.5
3
1 2 3 4 5 6
torcao
-2
-1
1
2
Proposição 9.0.36 Seja c : I −→R
3
uma curva regular tal que ∀t, k(t) = 0. Então o traço de c está contido num
plano sse a torção é constante nula.
197
Demonstração: Suponhamos primeiro que o traço de c está contido num plano. Então, T e N são paralelos ao plano,
logo B é um vector unitário ortogonal ao plano, portanto, por continuidade, B é constante. Conclui-se que
dB
ds
= 0,
de onde, pela terceira fórmula de Frenet, τ = 0.
Suponhamos agora que a torção é constante nula. Então
dB
ds
= 0, isto é, B é constante. Consideremos a função f
definida por f(t) = c(t) B; tem-se f

(t) = c

(t) B + c(t) B

= c

(t) B = v
e
T B = 0, logo f é constante. Seja α a
imagem de f; o traço de c está contido no plano ¦u ∈ R
3
: u B = α¦.
Exemplos
1. c: R −→ R
3
t → (6 + 3

2 cos t −

6 sen t, 6 −3

2 cos t −

6 sen t, 6 + 2

6 sen t)
c

(t) = (−3

2 sen t −

6 cos t, 3

2 sen t −

6 cos t, 2

6 cos t); |c

(t)| = 6;
T = (−
1

2
sen t −
1

6
cos t,
1

2
sen t −
1

6
cos t,

2

3
cos t)
c

(t) = (−3

2 cos t +

6 sen t, 3

2 cos t +

6 sen t, −2

6 sen t); como a
T
= 0, tem-se N =
c

(t)
c

(t)
=
1
6
c

(t) e
k(t) =
1
6
; B = (−
1

3
, −
1

3
, −
1

3
); como B é constante, a torção é nula, e a curva é plana.
Por o traço da curva estar contido num plano e a curvatura ser constante =
1
6
, conclui-se que o traço da curva
está contido numa circunferência de raio 6. O centro da circunferência é dado por c(t) +
1
6
N = (6, 6, 6). Para
determinar uma equação do plano no qual está contida, basta notar que o vector B = (−
1

3
, −
1

3
, −
1

3
) lhe é
ortogonal, portanto uma equação do plano é (−
1

3
, −
1

3
, −
1

3
) (x −6, y −6, z −6) = 0, ou seja, x +y +z = 18.
0
2.5
5
7.5
10
x
0
2.5
5
7.5
10 y
0
2.5
5
7.5
10
z
0
2.5
5
7.5
10
x
0
2.5
5
7.5
10 y
2. c: R −→ R
3
t → (t, 2t, sen t)
c

(t) = (1, 2, cos t); c

(t) = (0, 0, −sen t); c

(t) = (0, 0, −cos t); k(t) =

5| sen t|

5+cos
2
t
;
τ(t) =
(0,0,−cos t)·(−2 sen t,sen t,0)
(

5 sen t)
3
= 0.
Como a torção é nula, a curva é plana; é fácil de ver que o traço de c está contido no plano de equação
y = 2x. Seja u = (
1

5
,
2

5
, 0) e v = (0, 0, 1). O traço de c é o conjunto ¦

5tu + (sen t)v¦, isto é, o conjunto
¦xu +yv : y = sen
x

5
¦.
0
2
4
6
x
0
5
10
y
-1
-0.5
0
0.5
1
z
0
2
4
6
x
1 2 3 4 5 6
grafico da curvatura
0.2
0.4
0.6
0.8
1
198 CAPÍTULO 9. CURVAS EM R
N
x
y
z
u
v
z
v
u
Apêndice A
Coordenadas polares
Seja P um ponto de R
2
`¦(0, 0)¦. A posição de P pode ser determinada a partir de um número ρ que mede a distância
de P à origem e de um número θ a que está associado o ângulo que o segmento OP faz com o eixo dos xx.
P
A distância ρ é determinada pelo ponto P, mas θ é apenas determinado a menos de um múltiplo de 2π. As
coordenadas cartesianas de P são obviamente (ρ cos θ, ρ sen θ).
Por outro lado, se P é a origem, a distância de P à origem é 0; neste caso não faz sentido falar no ângulo θ do
segmento OP com o eixo dos xx, mas a informação ρ = 0 é suficiente para caracterizar P (P fica completamente
determinado pela condição distância(P, O) = 0).
Definição A.0.1 Diz-se que (ρ, θ), com ρ ≥ 0, é um par de coordenadas polares do ponto P = (x, y) sse

x = ρ cos θ
y = ρ sen θ
. Nesse caso escrever-se-á P = (ρ, θ)
p
.
Observações:
1. Embora faça sentido falar do ponto com coordenadas polares (ρ, θ) (uma vez que ρ e θ determinam um único
ponto), rigorosamente não faz sentido falar nas coordenadas polares (ρ, θ) de um ponto, uma vez que cada ponto
tem uma infinidade de pares de coordenadas polares. No entanto, por abuso de linguagem, usa-se muitas vezes
a designação “as coordenadas polares de P” quando se quer dizer “um par de coordenadas polares de P”.
2. A qualquer par de números reais (ρ, θ) podemos associar o ponto (ρ cos θ, ρ sen θ), mesmo que ρ seja negativo
(nesse caso, a distância à origem seria dada por [ρ[). Pode-se portanto considerar coordenadas polares em que a
primeira coordenada pode ser negativa, e essa opção é feita em alguns textos; aqui consideraremos sempre ρ ≥ 0.
Exemplos:
(1, 1) = (

2, π/4)
p
= (

2, 9π/4)
p
= (

2, −7π/4)
p
; (−5, −5) = (5

2, 5π/4)
p
= (5

2, −3π/4)
p
; (−2, 2

3) =
(4, 2π/3)
p
= (4, 8π/3)
p
= (4, −16π/3)
p
.
Exemplos de subconjuntos do plano determinados por condições sobre as coordenadas polares.
Em todos os exemplos seguintes limitamo-nos a justificar que as condições expressas em termos das coordenadas
polares implicam as condições expressas em termos das coordenadas cartesianas. Para alguns dos exemplos, o recíproco
tambem é verdadeiro, embora não seja dada nenhuma justificação.
1. ρ = 5
199
200 APÊNDICE A. COORDENADAS POLARES
-4 -2 2 4
-4
-2
2
4
Em coordenadas cartesianas: x
2
+y
2
= 25.
2. θ =

6
-3 -2.5 -2 -1.5 -1 -0.5
0.25
0.5
0.75
1
1.25
1.5
1.75
Em coordenadas cartesianas: y = −
x

3
, x ≤ 0.
3. 1 ≤ ρ ≤ 2, −

4
≤ θ ≤ −
π
4
-1 -0.5 0.5 1
-2
-1.5
-1
-0.5
0.5
-1 -0.5 0.5 1
-2
-1.5
-1
-0.5
0.5
Em coordenadas cartesianas: 1 ≤ x
2
+y
2
≤ 4, y ≤ −[x[.
4. ρ =
2
cos θ
0.5 1 1.5 2 2.5 3
-3
-2
-1
1
2
3
Em coordenadas cartesianas: x = 2.
5. ρ = −
3
sen θ
-4 -3 -2 -1 1 2 3 4
-3
-2.5
-2
-1.5
-1
-0.5
0.5
Em coordenadas cartesianas: y = −3.
6. ρ =
3
3 cos θ−sen θ
201
0.5 1 1.5 2
-3
-2
-1
1
2
3
Em coordenadas cartesianas: 3ρ cos θ −ρ sen θ = 3, 3x −y = 3.
7. ρ = 3 sen θ
-1.5 -1 -0.5 0.5 1 1.5
0.5
1
1.5
2
2.5
3
Em coordenadas cartesianas:

x = ρ cos θ = 3 cos θ sen θ =
3
2
sen 2θ
y = ρ sen θ = 3 sen
2
θ =
3
2

3
2
cos 2θ
; x
2
+ (y −
3
2
)
2
=
9
4
.
8. ρ = −2 cos θ
-2 -1.5 -1 -0.5
-1
-0.5
0.5
1
Em coordenadas cartesianas:

x = ρ cos θ = −2 cos
2
θ = −1 −cos 2θ
y = ρ sen θ = −2 cos θ sen θ = −sen 2θ
; (x + 1)
2
+y
2
= 1.
9. ρ = 2 cos θ + sen θ
ρ =

5(
2

5
cos θ +
1

5
sen θ) =

5 cos(θ −arccos
2

5
0.5 1 1.5 2
-0.5
0.5
1
1.5
Em coordenadas cartesianas: ρ
2
= 2ρ cos θ +ρ sen θ; x
2
+y
2
= 2x +y, (x −1)
2
+ (y −
1
2
)
2
=

5
2
.
10. ρ =
2
1+cos θ
-15 -10 -5
-7.5
-5
-2.5
2.5
5
7.5
Em coordenadas cartesianas:

x =
2 cos θ
1+cos θ
y =
2 sen θ
1+cos θ
; y
2
=
2 sen
2
θ
(1+cos θ)
2
=
2(1−cos
2
θ)
(1+cos θ)
2
=
2(1−cos θ)
1+cos θ
= 2(1 −
2 cos θ
1+cos θ
); y
2
=
2(1 −x).
11. ρ =
5
3+2 sen θ
202 APÊNDICE A. COORDENADAS POLARES
-2 -1 1 2
-5
-4
-3
-2
-1
1
Em coordenadas cartesianas:

x =
5 cos θ
3+2 sen θ
y =
5 sen θ
3+2 sen θ
; (y + 2)
2
=
(9 sen θ+6)
2
(3+2 sen θ)
2
=
81 sen
2
θ+108 sen θ+36
(3+2 sen θ)
2
; x
2
=
25 cos
2
θ
(3+2 sen θ)
2
;
(y+2)
2
9
+
x
2
5
= 1.
12. ρ =
3
1+2 cos θ
-6 -4 -2
-15
-10
-5
5
10
15
Em coordenadas cartesianas:

x =
3 cos θ
1+2 cos θ
y =
3 sen θ
1+2 cos θ
; (x −2)
2

y
2
3
= 1.
Observação: neste caso, a equação cartesiana indicada representa um conjunto maior do que o dado pela equação
em coordenadas polares.
13. ρ = 1 −sen t
-1 -0.5 0.5 1
-2
-1.5
-1
-0.5
14. a) ρ = cos 2θ; b) ρ = [ cos 2θ[
-1 -0.5 0.5 1
-0.2
-0.1
0.1
0.2
-1 -0.5 0.5 1
-1
-0.5
0.5
1
15. ρ = 1 + cos
θ
2
-1 -0.5 0.5 1 1.5 2
-1.5
-1
-0.5
0.5
1
1.5
16. a) ρ
2
= cos θ; b) ρ
2
= [ cos θ
203
0.2 0.4 0.6 0.8 1
-0.6
-0.4
-0.2
0.2
0.4
0.6
-1 -0.5 0.5 1
-0.6
-0.4
-0.2
0.2
0.4
0.6
17. a) ρ
2
= 4 sen 5θ; b) ρ
2
= 4 [ sen 5θ[
-2 -1 1 2
-1.5
-1
-0.5
0.5
1
1.5
2
-2 -1 1 2
-2
-1
1
2
18. a) ρ = θ; b) ρ =
1
θ
; c) ρ = e
θ/10
.
-15 -10 -5 5 10 15
-15
-10
-5
5
10
0.5 1 1.5
-0.2
0.2
0.4
0.6
0.8
-4 -2 2
-3
-2
-1
1
2
3
4
Dadas duas funções ρ : I −→R
+
0
, θ : I −→R, existe uma única curva c : I −→R
2
tal que para t ∈ I se tem
c(t) = (ρ(t), θ(t))
p
; a continuidade (resp. derivabilidade) de ρ e θ implicam a continuidade (resp. derivabilidade) de c.
Proposição A.0.2 Seja c: I −→ R
2
` ¦(0, 0)¦
t → (x(t), y(t))
uma curva contínua, t
0
∈ I, e θ
0
∈ R uma segunda coordenada
polar de c(t
0
). Então existem funções contínuas (únicas) ρ : I −→R
+
0
e θ : I −→R tais que θ(t
0
) = θ
0
e, para todo o
t, c(t) = (ρ(t), θ(t))
p
(isto é, c(t) = (ρ(t) cos θ(t), ρ(t) sen θ(t))).
Omitiremos a demonstração desta proposição.
Observação: ρ(t) é determinado por ρ(t) =

x(t)
2
+y(t)
2
, e a função ρ está definida mesmo que o traço de c
contenha a origem. No entanto, se o traço de c contiver a origem, não se pode garantir a existência de θ contínua,
como mostra o seguinte exemplo.
Exemplo: c: R −→ R
2
t → (t, t
2
)
Suponhamos que existe θ : R −→R
2
contínua tal que c(t) = (ρ(t), θ(t))
p
(isto é, c(t) = (ρ(t) cos θ(t), ρ(t) sen θ(t))).
Então, para t = 0, tem-se cos θ(t) =
t

t
2
+t
4
. Como lim
t→0
+
t

t
2
+t
4
= 1, conclui-se que lim
t→0
+ θ(t) é um múltiplo
de 2π; como lim
t→0

t

t
2
+t
4
= −1, conclui-se que lim
t→0
− θ(t) é da forma 2nπ + π; mas isso é incompatível com a
continuidade de θ.
Exemplos
1.

ρ(t) = 2 sen
2 4t
3
θ(t) = t
, t ∈ R
204 APÊNDICE A. COORDENADAS POLARES
-1.5 -1 -0.5 0.5 1 1.5
-1.5
-1
-0.5
0.5
1
1.5
2.

ρ(t) = 3 + sen 5t
θ(t) = t
, t ∈ R
-4 -2 2 4
-3
-2
-1
1
2
3
4
3.

ρ(t) = t
θ(t) = cos t
, t ≥ 0
5 10 15 20 25 30
-20
-10
10
20
4.

ρ(t) = t
θ(t) = t sen 3t
, t ≥ 0
-6 -4 -2 2 4 6 8
-7.5
-5
-2.5
2.5
5
7.5
5.

ρ(t) = 2 + cos(8t −
π
4
)
θ(t) = sen t
, t ∈ R
205
1.5 2 2.5 3
-2
-1
1
2
A cada ponto do plano, P = (ρ, θ)
p
, com ρ = 0, vamos associar os vectores E
ρ
(P) = (cos θ, sen θ) e E
θ
(P) =
(−sen θ, cos θ) (observação: embora θ apenas esteja determinado a menos de um múltiplo de 2π, E
ρ
(P) e E
θ
(P) ficam
perfeitamente determinados pelo ponto P, e não dependem da escolha da segunda coordenada polar). Frequentemente
escreve-se apenas E
ρ
e E
θ
em vez de E
ρ
(P) e E
θ
(P).
-4 -2 2 4
-4
-2
2
4
E
E
E E
E
E
E
E
E
E
E
E
E
E
0-
0-
0-
0-
0-
0-
0-
Podemos ver E
ρ
e E
θ
como funções de θ. Tem-se então
dE
ρ

= E
θ
e
dE
θ

= −E
ρ
.
Vamos ver agora como podemos exprimir a velocidade e a aceleração de uma curva c: I −→ R
2
` ¦(0, 0)¦
t → (ρ(t), θ(t))
p
no
instante t em termos dos vectores E
ρ
(c(t)) e E
θ
(c(t)).
E
E
E
E
E
E
E
E
0-
0- 0-
0-
c’(t)
Observação: se c é derivável, então ρ e θ são deriváveis.
Para cada t, tem-se c(t) = ρ(t)E
ρ
(c(t)); derivando, temos
c

(t) = ρ

(t)E
ρ
+ρ(t)
dE
ρ
dt
= ρ

(t)E
ρ
+ρ(t)
dE
ρ


dt
= ρ

(t)E
ρ
+ρ(t)θ

(t)E
θ
(de onde se conclui, em particular, que v
e
(=

c

(t) c

(t)) =

(t))
2
+ (ρ(t)θ

(t))
2
). Derivando mais uma vez,
206 APÊNDICE A. COORDENADAS POLARES
temos
c

(t) = ρ

(t)E
ρ

(t)
dE
ρ
dt

(t)θ

(t)E
θ
+ρ(t)θ

(t)E
θ
+ρ(t)θ

(t)
dE
θ
dt
= ρ

(t)E
ρ

(t)
dE
ρ


dt

(t)θ

(t)E
θ
+ρ(t)θ

(t)E
θ
+ρ(t)θ

(t)
dE
θ


dt
= ρ

(t)E
ρ

(t)θ

(t)E
θ

(t)θ

(t)E
θ
+ρ(t)θ

(t)E
θ
+ρ(t)(θ

(t))
2
(−E
ρ
)
= (ρ

(t) −ρ(t)(θ

(t))
2
)E
ρ
+ (2ρ

(t)θ

(t) +ρ(t)θ

(t))E
θ
Observação: Seja c: I −→ R
2
t → (ρ(t), θ(t))
p
uma curva tal que ρ e θ são funções contínuas.
1. Se ρ(t
0
) = 0, não estão definidos os vectores E
ρ
(c(t
0
)) e E
θ
(c(t
0
)). No entanto, pondo E
t
ρ
= (cos θ(t), sen θ(t))
e E
t
θ
= (−sen θ(t), cos θ(t)), temos vectores definidos para todo o t e que coincidem com os anteriormente
definidos quando ρ(t) = 0. Se ρ e θ são suficientemente deriváveis, tem-se ainda c

(t) = ρ

(t)E
ρ
+ ρ(t)θ

(t)E
θ
,
v
e
=

(t))
2
+ (ρ(t)θ

(t))
2
e c

(t) = (ρ

(t) −ρ(t)(θ

(t))
2
)E
ρ
+ (2ρ

(t)θ

(t) +ρ(t)θ

(t))E
θ
.
2. Se ρ(t
0
) = 0, então ρ tem um mínimo local em t
0
(uma vez que ∀t, ρ(t) ≥ 0), logo, se ρ é derivável em t
0
, tem-se
ρ

(t
0
) = 0.
Exemplos
1.

ρ(t) = 2 −2 cos t
θ(t) = t
, 0 ≤ t ≤ 2π
-4 -3 -2 -1
-2
-1
1
2
c

(t) = 2 sen tE
ρ
+(2−2 cos t)E
θ
; c

(t) = (4 cos t−2)E
ρ
+4 sen E
θ
; v
e
=

(2 −2 cos t)
2
+ 4 sen
2
t =

8 −8 cos t =

16 sen
2
t
2
= 4[ sen
t
2
[.
comprimento=


0
4[ sen
t
2
[ dt =


0
4 sen
t
2
dt = 16
2.

ρ(t) = t
θ(t) = log t
, 1 ≤ t ≤ e

100 200 300 400 500
-175
-150
-125
-100
-75
-50
-25
c

(t) = E
ρ
+E
θ
; c

(t) = −
1
t
E
ρ
+
1
t
E
θ
; v
e
=

2
comprimento=

e

1

2dt =

2(e

−1)
3.

ρ(t) = cos
3 t
3
θ(t) = t
, −

2
≤ t ≤

2
207
-0.2 0.2 0.4 0.6 0.8 1
-0.6
-0.4
-0.2
0.2
0.4
0.6
c

(t) = −cos
2 t
3
sen
t
3
E
ρ
+ cos
3 t
3
E
θ
; v
e
=

cos
4
t
3
sen
2
t
3
+ cos
6
t
3
= [ cos
2 t
3
[;
comprimento=

2


2
cos
2 t
3
dt =
1
2

2


2
cos
2t
3
+ 1 dt
1
2
[
3
2
sen
2t
3
+t]

2


2
=

2
Cálculo de áreas
Consideremos a região do plano definida por ρ ≤ f(θ), a ≤ θ ≤ b, em que f : [a, b] −→R
+
0
é uma função contínua
e b −a ≤ 2π.
a
b
Para calcular a área A dessa região vamos considerar partições P = ¦θ
0
, . . . , θ
n
¦ de [a, b]; para cada i, sejam
m
i
= inf
θ∈[θ
i−1

i
]
f(θ), M
i
= sup
θ∈[θ
i−1

i
]
f(θ), S
i
a região definida por ρ ≤ m
i
, θ
i−1
≤ θ ≤ θ
i
e T
i
a região definida
por ρ ≤ M
i
, θ
i−1
≤ θ ≤ θ
i
(ver a figura).
S
i
i
i-1
0-
0-
T
i
i
i-1
0-
0-
A área de S
i
é
m
2
i
2

i
−θ
i−1
) e área de T
i
é
M
2
i
2

i
−θ
i−1
). Tem-se portanto
n
¸
i=1
m
2
i
2

i
−θ
i−1
) ≤ A ≤
n
¸
i=1
M
2
i
2

i
−θ
i−1
);
como m
2
i
= inf
θ∈[θ
i−1

i
]
f
2
(θ) e M
2
i
= sup
θ∈[θ
i−1

i
]
f
2
(θ), conclui-se que A =

b
a
f(θ)
2
2
dθ.
Exemplos
1. ρ ≤ 2 −2 cos θ
208 APÊNDICE A. COORDENADAS POLARES
-4 -3 -2 -1
-2
-1
1
2
-4 -3 -2 -1
-2
-1
1
2
A =


0
(2−2 cos θ)
2
2
dθ =


0
(2 −4 cos θ + 2 cos
2
θ) dθ = 6π.
2. ρ ≤ [ sen 3θ[
-0.75 -0.5 -0.25 0.25 0.5 0.75
-1
-0.5
0.5
1
-0.75 -0.5 -0.25 0.25 0.5 0.75
-1
-0.5
0.5
1
A =


0
sen
2

2
dθ =


0
1−cos 6θ
4 dθ
=
π
2
3. ρ ≤ 2 cos θ, ρ ≤ 2 sen θ
-1 -0.5 0.5 1 1.5 2
-1
-0.5
0.5
1
1.5
2
A =

π/4
0
4 cos
2
θ
2
dθ +

π/2
π/4
4 sen
2
θ
2
dθ =

π/4
0
1 + cos 2θ dθ +

π/2
π/4
1 −cos 2θ dθ = 1 +π/2
4. ρ ≤ 1, ρ ≤ 2 sen θ
-1 -0.5 0.5 1
-1
-0.5
0.5
1
1.5
2
-1 -0.5 0.5 1
-1
-0.5
0.5
1
1.5
2
-1 -0.5 0.5 1
-1
-0.5
0.5
1
1.5
2
+
-1 -0.5 0.5 1
-1
-0.5
0.5
1
1.5
2
-1 -0.5 0.5 1
-1
-0.5
0.5
1
1.5
2
A =

π/6
0
4 sen
2
θ
2
dθ +

5π/6
π/6
1
2
dθ +

π
5π/6
4 sen
2
θ
2
dθ =

π/6
0
2 sen
2
θ dθ +
π
3
+

π
5π/6
2 sen
2
θ dθ =

3


3
2
5. ρ ≤ sen
θ
4
, θ ∈ [0, π] ∪ [3π, 4π]
209
-0.75 -0.5 -0.25 0.25 0.5 0.75 1
-0.75
-0.5
-0.25
0.25
0.5
0.75
-0.75 -0.5 -0.25 0.25 0.5 0.75 1
-0.75
-0.5
-0.25
0.25
0.5
0.75
A =

π
0
sen
θ
4
2
dθ +



sen
θ
4
2
dθ =

π
0
1−cos
θ
4
4
dθ +



1−cos
θ
4
4
dθ =
π
2
−1.
6. ρ = sen
θ
5
; cálculo da área da região sombreada
-1 -0.5 0.5 1
-0.75
-0.5
-0.25
0.25
0.5
0.75
1
-1 -0.5 0.5 1
-0.75
-0.5
-0.25
0.25
0.5
0.75
1
-1 -0.5 0.5 1
-0.75
-0.5
-0.25
0.25
0.5
0.75
1
-1 -0.5 0.5 1
-0.75
-0.5
-0.25
0.25
0.5
0.75
1
+
-1 -0.5 0.5 1
-0.75
-0.5
-0.25
0.25
0.5
0.75
1
-1 -0.5 0.5 1
-0.75
-0.5
-0.25
0.25
0.5
0.75
1

-1 -0.5 0.5 1
-0.75
-0.5
-0.25
0.25
0.5
0.75
1
-1 -0.5 0.5 1
-0.75
-0.5
-0.25
0.25
0.5
0.75
1
A =

3π/2
π/2
sen
2 θ
5
2
dθ +

9π/2
7π/2
sen
2 θ
5
2
dθ −

π/2
0
sen
2 θ
5
2
dθ −


9π/2
sen
2 θ
5
2
dθ = [
θ
4

5
8
sen

5
]
3π/2
π/2
+ [
θ
4

5
8
sen

5
]
9π/2
7π/2

[
θ
4

5
8
sen

5
]
π/2
0
−[
θ
4

5
8
sen

5
]

9π/2
=
π
4

5
4
sen

5
+
5
2
sen
π
5
.
210 APÊNDICE A. COORDENADAS POLARES
Apêndice B
Funções exponenciais e logaritmos
Dado a ∈ R e n ∈ N, define-se a
n
como sendo o produto a a a
. .. .
n vezes
. Verifica-se facilmente que para quaisquer
números naturais m e n se tem a
m+n
= a
m
a
n
(de onde se conclui que para quaisquer números naturais m e n se
tem (a
m
)
n
= a
mn
). O objectivo deste apêndice é mostrar como se pode, no caso de a > 0, definir a
x
para qualquer
número real x de modo que se tenham ainda aquelas propriedades e que a função exp
a
: R −→ R
x → a
x
seja contínua
e derivável.
Seja então a ∈ R
+
.
Definição B.0.1 a
1
= a e ∀n ∈ N a
n+1
= a
n
a
Lema B.0.2 Sejam a, b ∈ R
+
. Então
1. ∀n, m ∈ N a
m+n
= a
m
a
n
;
2. ∀n, m ∈ N (a
m
)n = a
mn
;
3. ∀n ∈ N (ab)
n
= a
n
b
n
.
Demonstração:
1. Fixemos m ∈ N. Por definição tem-se a
m+1
= a
m
a e a = a
1
, logo, para p = 1 tem-se a
m+n
= a
m
a
p
. Suponhamos
que a
m+p
= a
m
a
p
; então
a
m+(p+1)
= a
(m+p)+1
= a
m+p
a = (a
m
a
p
)a = a
m
(a
p
a) = a
m
a
p+1
.
Está então demonstrado por indução que para qualquer n ∈ N se tem a
m+n
= a
m
a
n
.
2. Fixemos m ∈ N. É trivial que para p = 1 se tem (a
m
)
p
= a
mp
. Suponhamos que (a
m
)
p
= a
mp
; então
(a
m
)
p+1
(a
m
)
p
a
m
= a
mp
a
m
= a
mp+m
= a
m(p+1)
.
Está então demonstrado por indução que para qualquer n ∈ N se tem (a
m
)
p
= a
mp
.
3. Para p = 1 é trivial que (ab)
p
= a
p
b
p
. Suponhamos que (ab)
p
= a
p
b
p
; então
(ab)
p+1
= (ab)
p
(ab) = a
p
b
p
ab = a
p
ab
p
b = a
p+1
b
p+1
.
Está então demonstrado por indução que para qualquer n ∈ N se tem (ab)
n
= a
n
b
n
.
Seja agora n ∈ Z; queremos definir a
n
de modo que para quaisquer m, n ∈ Z se tenha a
m+n
= a
m
a
n
. Em particular,
ter-se-á a
0
= a
0+0
= a
0
a
0
e, para n ∈ N, a
0
= a
−n+n
= a
−n
a
n
. É então natural a seguinte definição.
Definição B.0.3 1. a
0
= 1;
2. se n ∈ N, a
−n
=
1
a
n
(observação: tem-se a
n
> 0, ∀n ∈ N).
Lema B.0.4 1. ∀n ∈ Z (ab)
n
= a
n
b
m
; (em particular (
1
a
)
n
=
1
a
n
)
2. ∀m, n ∈ Z a
m+n
= a
m
a
n
;
211
212 APÊNDICE B. FUNÇÕES EXPONENCIAIS E LOGARITMOS
3. ∀m, n ∈ Z (a
m
)
n
= a
mn
.
Demonstração:
1. Para n > 0 o resultado já foi demonstrado; para n = 0 é trivial a partir da definição de a
0
. Se n < 0 então
(ab)
n
=
1
(ab)
−n
=
1
a
−n
b
−n
=
1
a
−n
1
b
−n
= a
n
b
n
.
2. Para m, n > 0 o resultado j’a foi demonstrado; se m = 0 ou n = 0 o resultado é trivial.
Suponhamos primeiro que m < 0 e n < 0; então a
m+n
= a
−(−m−n) 1
a
−m+(−n)
=
1
a
−m
a
−n
=
1
a
−m
1
a
n
= a
m
a
n
.
Suponhamos agora que m < 0 en > 0. Se n ≥ −m, tem-se a
n
(= a
m+n−m
) = a
m+n
a
−m
(uma vez que
m + n ≥ 0 e −m > 0), logo a
m+n
= a
n 1
a
−m
= a
n
a
m
; se n ≤ −m, tem-se
1
a
−m
(=
1
a
−m−n+n
) =
1
a
−m−n
a
n
, logo
a
m+n
=
1
a
−m−n
= a
n 1
a −m
= a
n
a
m
. Analogamente se trata o caso m > 0 e n < 0.
3. Para m, n > 0 o resultado já foi demonstrado; se m = 0 ou n = 0 é trivial.
Suponhamos primeiro m > 0 e n < 0; então
(a
m
)
n
=
1
(a
m
)
−n
=
1
a
m
(−n)
=
1
a
−mn
= a
mn
.
Suponhamos agora m < 0 e n > 0; então
(a
m
)
n
= (
1
a
−m
)
n
= ((
1
a
)
−m
)
n
= (
1
a
)
−mn
=
1
a
−mn
= a
mn
.
Suponhamos finalmente m < 0 e n < 0. Tem-se
(a
m
)
n
=
1
(a
m
)
−n
=
1
a
−mn
= a
mn
.

Sejam agora a ∈ R
+
e x =∈ Q, x =
p
q
com p ∈ Z, q ∈ N. Queremos definir a
x
de modo que seja verdade que para
quaisquer x, y ∈ Q se tem a
x+y
= a
x
a
y
e (a
x
)
y
= a
xy
. Então ter-se-á (a
p
q
)
q
= a
p
; torna-se portanto natural definir a
p
q
como
q

a
p
. É no entanto necessário verificar que se
p
q
=
m
n
(p, m ∈ Z, q, n ∈ N, então
q

a
p
=
n

a
m
. Ora de
p
q
=
m
n
conclui-se que pn = mq, de onde
(
q

a
p
)
qn
= ((
q

a
p
)
q
)
n
= (a
p
)
n
= a
p
n = a
m
q = (a
m
)
q
= ((
n

a
m
)
n
)
q
= (
n

a
m
)
qn
,
portanto
q

a
p
=
n

a
m
.
Definição B.0.5 Para x ∈ Q, x =
p
q
com p ∈ Z, q ∈ N define-se a
p
q
como
q

a
p
; em particular a
1
q
=
q

a.
Observação: a
x
> 0, ∀x ∈ Q.
Proposição B.0.6 Sejam a, b ∈ R
+
.
1. ∀x ∈ Q (ab)
x
= a
x
b
x
;
2. ∀x, y ∈ Q a
x+y
= a
x
a
y
;
3. ∀x, y ∈ Q a
xy
= (a
x
)
y
.
Demonstração:
1. Sejam p ∈ Z e q ∈ N tais que x =
p
q
; então
((ab)
p
q
)
q
= (
q

(ab)
p
)
q
= (ab)
p
= a
p
b
p
= (
q

a
p
)
q
(
q

b
p
)
q
= (
q

a
p
q

b
p
)
q
= (a
p
q
b
p
q
)
q
.
Conclui-se que (ab)
p
q
= a
p
q
b
p
q
.
2. Sejam p, m ∈ Z, q, n ∈ N tais que x =
p
q
e y =
m
n
; então
a
x+y
= a
p
q
+
m
n
= a
pn+mq
qn
=
qn

a
pn+mq
.
Conclui-se que (a
x+y
)
qn
= a
pn+mq
. Por outro lado,
(a
x
a
y
)
qn
= (a
x
)
qn
(a
y
)
qn
= ((a
x
)
q
)
n
((a
y
)
n
)
q
= ((
q

a
p
)
q
)
n
((
n

a
m
)
n
)
q
= (a
p
)
n
(a
m
)
q
= a
pn
a
mq
= a
pn+mq
,
isto é, (a
x
a
y
)
qn
= (a
x+y
)
qn
, logo a
x+y
= a
x
a
y
.
213
3. Sejam p, m ∈ Z, q, n ∈ N tais que x =
p
q
e y =
m
n
. Tem-se
((a
x
)
y
)
qn
= (((a
p
q
)
m
n
)
n
)
q
= ((
n

(a
p
q
)
m
)
n
)
q
= ((a
p
q
)
m
)
q
= (a
p
q
)
mq
= ((a
p
q
)
q
)
m
= ((
q

a
p
)
q
)
M
= (a
p
)
m
= a
pm
.
Conclui-se que (a
x
)
y
=
qn

a
p
m = a
pm
qn
= a
xy
.
Corolário B.0.7 Para quaisquer a ∈ R
+
e x ∈ Q tem-se
1
a
x
= a
−x
.
Demonstração: Tem-se a
x
a
−x
= a
0
= 1.
Lema B.0.8 Se c > −1, então, para qualquer n ∈ N, tem-se (1 +c)
n
≥ 1 +nc.
Demonstração: O resultado é trivial para n = 1. Suponhamos (1 + c)
p
≥ 1 + pc; então, como 1 + c > 0, tem-se
(1 +c)
p+1
≥ (1 +pc)(1 +c) = 1 +pc +c +pc
2
≥ 1 +(p +1)c. Está portanto demonstrado que para qualquer n ∈ N se
tem (1 +c)
n
≥ 1 +nc.
Proposição B.0.9 Seja a > 0 e ϕ: Q −→ R
x → a
x
.
1. Se a > 1 (resp. a < 1) então ϕ é estritamente crescente (resp. estritamente decrescente);
2. Se a > 1 (resp. a < 1) então lim
x→+∞
ϕ(x) = +∞ (resp. 0) e lim
x→−∞
ϕ(x) = 0 (resp. +∞);
3. lim
x→0
ϕ(x) = 1;
4. ϕ é contínua.
Demonstração:
1. Sejam a > 1 e x =
p
q
∈ Q. Se x > 0, i.e., p > 0, tem-se a
p
> 1 e portanto
q

a
p
> 1, de onde a
x
> 1.
Sejam agora x
1
, x
2
∈ Q tais que x
1
< x
2
; então x
2
− x
1
> 0, logo a
x
2
−x
1
> 1, portanto a
x
2
(= a
x
2
−x
1
+x
1
=
a
x
2
−x
1
a
x
1
) > a
x
1
.
Se a < 1, então
1
a
> 1, e o resultado é consequência do que se acabou de ver e de a
x
=
1
(
1
a
)
x
.
2. Comecemos por ver que lim
n→∞
a
1
n
= 1. Seja a > 1; tem-se, para qualquer n ∈ N,
n

a > 1. Por outro lado
n

a = 1 +
n

a −1, de onde
a = (1 +
n

a −1)
n
> 1 +n(
n

a −1),
ou seja,
n

a <
a−1
n
+ 1. Como lim
n→∞
a −1
n
= 0, conclui-se de 1 <
n

a < 1 +
a−1
n
que lim
n→∞
n

a = 1.
Seja agora a < 1; então
lim
n→∞
a
1
n
= lim
n→∞
1
1
a
1
n
= lim
n→∞
1
(
1
a
)
1
n
=
1
lim
n→∞
(
1
a
)
1
n
=
1
1
= 1.
Seja agora a > 1 e vejamos que lim
x→0
a
x
= 1. Seja > 0; existe n
0
∈ N tal que [a
1
n
−1[ < (porque lim
n→∞
a
1
n
= 1).
Então, para x ∈]0,
1
n
0
[∩Q, tem-se 1 < a
x
< a
1
n
0
< 1+. Por outro lado, se x ∈]−
1
n
0
, 0[∩Q, tem-se −x ∈]0,
1
n
0
[∩Q,
portanto 1 < a
−x
< 1 + , logo
1

<
1
a
−x
< 1, isto é,
1
1+
<
1
a
x
< 1, logo 1 − < a
x
< 1 (porque 1 − <
1
1+
.
Conclui-se que lim
x→0
a
x
= 1.
Se a < 1, então lim
x→0
a
x
= lim
x→0
1
a
−x
= lim
x→0
(
1
a
)
−x
= 1.
Se a = 1, ϕ é a função constante que toma sempre o valor 1, logo lim
x→0
a
x
= 1.
3. Seja a > 1; então a
n
= (1 +a−1)
n
≥ 1+n(a−1). Como lim
n→∞
1+n(a−1) = +∞, conlui-se que lim
n→∞
a
n
= +∞.
De ϕ ser estritamente crescente conclui-se que lim
x→+∞
ϕ(x) = +∞.
Por outro lado, lim
x→−∞
ϕ(x) = lim
x→+∞
ϕ(−x) = lim
x→+∞
1
ϕ(x)
= 0.
Se a < 1, tem-se
1
a
> 1, logo lim
x→+∞
(
1
a
)
x
(= lim
x→+∞
1
a
x
) = +∞, de onde lim
x→+∞
a
x
= 0. De lim
x→−∞
(
1
a
)
x
(=
lim
x→+∞
1
a
x
) = 0 e de a
x
> 0, ∀x ∈ Q, conclui-se que lim
x→−∞
a
x
= +∞.
214 APÊNDICE B. FUNÇÕES EXPONENCIAIS E LOGARITMOS
4. Seja x
0
∈ Q e vejamos que ϕ é contínua em x
0
. Seja > 0; queremos encontrar δ > 0 tal que [x − x
0
[ < δ ⇒
[a
x
− a
x
0
[ < . Ora [a
x
− a
x
0
[ = [a
x
0
(a
x−x
0
− 1)[ = a
x
0
[a
x−x
0
− 1[. Como lim
x→0
a
x
= 1, existe δ > 0 tal que
[x −x
0
[ < δ ⇒ [a
x−x
0
−1[ <
1
a
x
0
; então [x −x
0
[ < δ ⇒ [a
x
−a
x
0
[ < a
x
0

a
x
0

Vamos em seguida ver como, dado a > 0, se pode prolongar a aplicação ϕ: Q −→ R
x → a
x
de maneira contínua a
uma função exp
a
: R −→R A ideia é a seguinte: se isso for possível e (x
n
)
n∈N
for uma sucessão de números racionais,
convergente para x
0
, a sucessão (a
x
n
)
n∈N
terá de convergir para exp
a
(x
0
). Pode-se tentar então definir exp
a
(x
0
) como
o limite de (a
x
n
)
n∈N
, em que (x
n
)
n∈N
é qualquer sucessão de números racionais convergente para x
0
. No entanto, é
preciso começar por verificar que esta definição faz sentido, isto é, que dada uma sucessão (x
n
)
n∈N
convergente para
x
0
, (a
x
n
)
n∈N
converge, e que o seu limite não depende da escolha da sucessão.
Proposição B.0.10 Seja a ∈ R
+
e seja (x
n
)
n∈N
uma sucessão de números racionais convergente para x
0
∈ R; então
(a
x
n
)
n∈N
converge. Se (y
n
)
n∈N
também é uma sucessão de números racionais convergente para x
0
, então (a
x
n
)
n∈N
e
(a
y
n
)
n∈N
têm o mesmo limite.
Demonstração: Suponhamos a > 1 (a demonstração é análoga para a < 1 e trivial para a = 1); vamos ver que
(x
n
)
n∈N
é uma sucessão de Cauchy. Como (x
n
)
n∈N
converge, (x
n
)
n∈N
é limitada, logo existe M ∈ Q tal que para
qualquer número natural n se tem [x
n
[ < M. Para quaisquer m, n ∈ N tem-se [a
x
n
− a
x
m
[ = a
x
m
[a
x
n
−x
m
− 1[ <
a
M
[a
x
n
−x
m
− 1[. Como (x
n
)
n∈N
converge, (x
n
)
n∈N
é uma sucessão de Cauchy, portanto podemos tornar [x
n
− x
m
[
arbitrariamente pequeno, desde que n e m sejam suficientemente grandes. Seja então > 0; como lim
x→0
ϕ(x) = 0, existe
δ > 0 tal que [x[ < δ ⇒ [a
x
−1[ <

a
M
, portanto [x
n
−x
m
[ < δ ⇒ a
M
[a
x
n
−x
m
−1[ < . Como (x
n
)
n∈N
é uma sucessão
de Cauchy, existe n
0
∈ N tal que n > n
0
⇒ [x
n
− x
m
[ < δ. Então, se n > n
0
, tem-se a
M
[a
x
n
−x
m
− 1[ < , de onde
[a
x
n
−a
x
m
[ < . Conclui-se que (a
x
n
)
n∈N
úma sucessão de Cauchy, logo converge.
Sejam agora (x
n
)
n∈N
, (y
n
)
n∈N
duas sucessões de números racionais convergentes para x
0
; pelo que acabámos de
ver, as sucessões (a
x
n
)
n∈N
e (a
y
n
)
n∈N
convergem. A sucessão definida por

z
2n
= x
n
z
2n−1
= y
n
ainda converge para x
0
,
portanto (a
z
n
)
n∈N
também converge. A sucessão (x
n
)
n∈N
é uma sucessão parcial de (z
n
)
n∈N
, portanto (a
x
n
)
n∈N
é
uma sucessão parcial de (a
z
n
)
n∈N
, logo lim
n→∞
a
x
n
= lim
n→∞
a
z
n
. Por outro lado, (y
n
)
n∈N
também é uma sucessão parcial
de (z
n
)
n∈N
, logo lim
n→∞
a
y
n
= lim
n→∞
a
z
n
. Conclui-se que lim
n→∞
a
x
n
= lim
n→∞
a
y
n
.
Definição B.0.11 Seja a ∈ R+ e x ∈ R; define-se a
x
como lim
n→∞
a
x
n
, em que (x
n
)
n∈N
é qualquer sucessão de números
racionais que converge para x
0
. À função exp
a
: R −→ R
x → a
x
chama-se função exponencial de base a.
Observação: A proposição anterior garante que esta definição faz sentido e que para x ∈ Q coincide com a anterior.
Proposição B.0.12 Sejam a, b ∈ R
+
.
1. ∀x ∈ R a
x
> 0;
2. ∀x, y ∈ R a
x+y
= a
x
a
y
(portanto a
−x
=
1
a
x
);
3. ∀x ∈ R (ab)
x
= a
x
b
x
(portanto

1
a

x
=
1
a
x
);
4. se a > 1 (resp. a < 1) então exp
a
é estritamente crescente (resp. estritamente decrescente);
5. exp
a
é contínua;
6. ∀x, y ∈ R (a
x
)
y
= a
xy
;
7. se a > 1 (resp. a < 1) então lim
x→+∞
exp
a
(x) = +∞ (resp. 0) e lim
x→−∞
exp
a
(x) = 0 (resp. +∞).
Demonstração: Só serão feitas as demonstrações no caso a > 1; o caso a < 1 é semelhante.
1. Seja x ∈ R e (x
n
)
n∈N
uma sucessão de números racionais convergente para x; como (x
n
)
n∈N
é limitada, existe
M ∈ Q tal que para qualquer n se tem −M < x
n
< M. Então para qualquer n tem-se a
−M
< a
x
n
< a
M
;
conclui-se que lim
n→∞
a
x
n
≥ a
−M
; como M ∈ Q, já foi visto que a
−M
> 0, portanto lim
n→∞
a
x
n
> 0, isto é, a
x
> 0.
2. Sejam x, y ∈ R, (x
n
)
n∈N
e (y
n
)
n∈N
sucessões de números racionais convergentes respectivamente para x e y;
então (x
n
+y
n
)
n∈N
converge para x +y. Tem-se portanto
a
x+y
= lim
n→∞
a
x
n
+y
n
= lim
n→∞
(a
x
n
a
y
n
) = lim
n→∞
a
x
n
lim
n→∞
a
y
n
= a
x
a
y
.
215
3. Seja (x
n
)
n∈N
uma sucessão de números racinoais convergente para x; tem-se
(ab)
x
= lim
n→∞
(ab)
x
n
= lim
n→∞
(a
x
n
b
x
n
) = lim
n→∞
a
x
n
lim
n→∞
b
x
n
= a
x
b
x
.
4. Sejam x, y ∈ R tais que x < y, (x
n
)
n∈N
, (y
n
)
n∈N
sucessões de números racionais convergentes respectivamente
para x e y e r
1
, r
2
∈ Q tais que x < r
1
< r
2
< y; existe n
0
∈ N tal que para n > n
0
se tem x
n
< r
1
e r
2
< y
n
.
Tem-se então a
x
n
< a
r
1
< a
r
2
< a
y
n
, portanto lim
n→∞
a
x
n
≤ a
r
1
< a
r
2
≤ lim
n→∞
a
y
n
, de onde a
x
< a
y
.
5. Vejamos primeiro que exp
a
é contínua em 0. Seja > 0; exp
a|Q
é contínua, portanto existe δ > 0 tal que
[x[ < δ e x ∈ Q → [a
x
− 1[ < . Mas se [x[ < δ, existem r
1
, r
2
∈ Q tais que −δ < r
1
< r
2
< δ; então
a
r
1
< a
x
< a
r
2
, [a
r
1
−1[ < e [a
r
2
−1[ < . Conclui-se que [a
x
−1[ < e exp
a
é contínua em 0.
Seja agora x
0
∈ R; vejamos que exp
a
é contínua em x
0
; tem-se [a
x
− a
x
0
[ = a
x−0
[a
x−x
0
− 1[. Seja > 0;
existe δ > 0 tal que [x[ < δ ⇒ [a
x
− 1[ <

a
x
0
, porque exp
a
é contínua em 0. Mas então [x − x
0
[ < δ implica
[a
x−x
0
−1[ <

a
x
0
, o que implica [a
x
−a
x
0
[ < . Conclui-se que exp
a
é contínua em x
0
.
6. Suponhamos primeiro que y ∈ Q e seja (x
n
)
n∈N
uma sucessão de números racionais convergente para x. Então
para qualquer n ∈ N, (a
x
n
)
y
= a
x
n
y
. Por um lado lim
n→∞
a
x
n
y
= a
xy
, porque x, y ∈ Q e lim
n→∞
x
n
y = xy; por outro
lado, como (a
x
n
)
n∈N
converge para a
x
e a função f: R
+
−→ R
+
x → x
y
é contínua, tem-se lim
n→∞
(a
x
n
)
y
= (a
x
)
y
.
Conclui-se que (a
x
)
y
= (a
x
)
y
.
Sejam agora x, y ∈ R quaiquer e (y
n
)
n∈N
uma sucessão de números racionais convergente para y; tem-se
(a
x
)
y
= lim
n→∞
(a
x
)
y
n
= lim
n→∞
a
xy
n
= a
xy
(a segunda igualdade é consequência do que foi visto anteriormente e a terceira é consequência de a sucessão
(xy
n
)
n∈N
convergir para xy).
7. Consequência imediata da monotonia, de lim
x→+∞,x∈Q
a
x
= +∞ e de lim
x→−∞,x∈Q
a
x
= 0

Corolário B.0.13 Se a ∈ R
+
e a = 1, então exp
a
: R −→ R+
x → a
x
é bijectiva.
Demonstração: A função exp
a
é estritamente monótona, logo é injectiva. Se a > 1 (resp. a < 1), lim
x→+∞
exp
a
(x) = +∞
(resp. 0) e lim
x→−∞
exp
a
(x) = 0 (resp. +∞); como exp
a
é contínua, conclui-se da proposição 3.2.11 que exp
a
é sobrejectiva.

Definição B.0.14 Seja a ∈ R
+
` ¦1¦; chama-se função logaritmo na base a à função log
a
: R −→R
+
que é a inversa
de exp
a
: R −→ R
+
x → a
x
.
Observação: para qualquer a ∈ R ` ¦1¦ tem-se log
a
1 = 0.
Proposição B.0.15 Sejam a, b ∈ R ` ¦1¦.
1. ∀x, y ∈ R + log
a
(xy) = log
a
x + log
a
y;
2. ∀x ∈ R, y ∈ R + log
a
(x
y
) = y log
a
x;
3. ∀x ∈ R
+
log
a
x =
log
b
x
log
b
a
;
4. (log
a
b)(log
b
a) = 1;
5. Se a > 1 (resp. a<1) então log
a
é estritamente crescente (resp. estritamente decrescente);
6. Se a > 1 (resp. a<1) então lim
x→+∞
log
a
(x) = +∞ (resp. −∞) e lim
x→0
+
log
a
(x) = −∞ (resp. −∞).
Demonstração:
1. Tem-se a
log
a
x+log
a
y
= a
log
a
x
a
log
a
y
= xy, logo log
a
(xy) = log
a
x + log
a
y.
216 APÊNDICE B. FUNÇÕES EXPONENCIAIS E LOGARITMOS
2. Tem-se a
y log
a
x
= (a
log
a
x
)
y
= x
y
, portanto log
a
(x
y
) = y log
a
x.
3. Tem-se b
log
a
x log
a
b
= (b
log
b
a
)
log
a
x
= a
log
a
x
= x, portanto log
b
x = log
a
xlog
b
a, logo log
a
x =
log
b
x
log
b
a
.
4. Tem-se a
(log
a
b)(log
b
a)
= (a
log
a
b
)
log
b
a
= b
log
b
a
= a = a
1
; conclui-se que (log
a
b)(log
b
a) = 1.
5. Consequência da continuidade de exp
a
.
6. Consequência da propriedade análoga para exp
a
.
7. Consideremos o caso a > 1 (o caso a < 1 é análogo) e vejamos primeiro que lim
x→+∞
log
a
x = +∞. Seja M ∈ R;
queremos mostrar que existe L ∈ R tal que x > L ⇒ log
a
x > M. Ora log
a
x > M ⇔ x > a
M
, logo basta
tomar L = a
M
. Vejamos agora que lim
x→0
+
log
a
x = −∞. Seja M ∈ R; queremos mostrar que existe δ > 0 tal que
0 < x < δ ⇒ log
a
x < M. Ora log
a
x < M ⇔ 0 < x < a
M
, logo basta tomar δ = a
M
.
Vamos mostrar em seguida que para qualquer a ∈ R
+
a função exp
a
é derivável, começando por alguns resultados
preliminares.
Lema B.0.16 Seja a ∈ R
+
.
1. A sucessão (
a
1
n −1
1
n
)
n∈N
é decrescente;
2. A função Q` ¦0¦ −→ R
x →
a
x
−1
x
é crescente;
3. A função f
a
: R ` ¦0¦ −→ R
x →
a
x
−1
x
é crescente e existe lim
x→0
f
a
(x).
Demonstração:
1. Queremos mostrar que, para qualquer n ∈ N, se tem
a
1
n+1
−1
1
n+1

a
1
n −1
1
n
. Ora
a
1
n+1
−1
1
n+1

a
1
n
−1
1
n
⇔ (n + 1)(a
1
n+1
−1) ≤ n(a
1
n
−1)
⇔ (n + 1)(a
1
n+1
−a
1
n
) −n −1 ≤ −a
1
n
−n
⇔ (n + 1)(a
1
n+1
−a
1
n
) ≤ 1 −a

1
n
⇔ (n + 1)(a
1
n+1

1
n
−1) ≤ a

1
n
−1
⇔ a

1
n
≥ 1 + (n + 1)(a
1
n+1

1
n
−1)
⇔ a
1−
n+1
n
≥ 1 + (n + 1)(a
1
n+1

1
n
−1)
⇔ a
(
1
n+1

1
n
)(n+1)
≥ 1 + (n + 1)(a
1
n+1

1
n
−1)
⇔ (a
1
n+1

1
n
)
n+1
≥ 1 + (n + 1)(a
1
n+1

1
n
−1)
e (a
1
n+1

1
n
)
n+1
≥ 1 + (n + 1)(a
1
n+1

1
n
−1)
(basta aplicar o lema B.0.8 com c = a
1
n+1

1
n
−1.
2. Sejam a, a
1
∈ R
+
; pela alínea anterior deduz-se que para qualquer b ∈ R
+
e p, q ∈ N, q ≥ p ⇒ q(b
1
q
− 1) ≤
p(b
1
p
− 1). Em particular, para b = a
p
1
vem q(a
p
q
− 1) ≤ p(a
1
− 1), isto é,
a
p
q
1
−1
p
q
≤ a
1
− 1. Conclui-se que, para
qualquer a

R
+
e r ∈ Q∩]0, 1],
a
r
1
−1
r
≤ a
1
−1. (B.1)
Vamos mostrar agora que, para r
1
, r
2
∈ Q
+
,
r
1
≤ r
2

a
r
1
−1
r
1

a
r
2
−1
r
2
,
ou seja,
r
1
≤ r
2

a
r
1
−1
r
1
r
2
≤ a
r
2
−1,
217
ou ainda
r
1
r
2
≤ 1 ⇒
(a
1
r
2
)
r
1
r
2
−1
r
1
r
2
≤ (a
1
r
2
)
r
2
−1;
mas isso resulta da equação (B.1).
Sejam agora r
1
, r
2
∈ Q

com r
1
≤ r
2
; então −r
2
≤ −r
1
e tem-se
a
r
1
−1
r
1
= −
(
1
a
)
−r
1
−1
−r
1
e
(
1
a
)
−r
1
−1
−r
1

(
1
a
)
−r
2
−1
−r
2
,
portanto
a
r
1
−1
r
1
≤ −
(
1
a
)
−r
2
−1
−r
2
=
a
r
2
−1
r
2
.
Falta ver o que se passa se r
1
< 0 < r
2
. Como r
2
− r
1
≥ −r
1
≥ 0, tem-se
a
r
2
−r
1
−1
r
2
−r
1

1−a
r
1
−r
1
, ou ainda
−r
1
a
r
2
+r
1
a
r
1
≥ r
2
−r
1
−r
2
a
r
1
+r
1
a
r
1
, logo r
2
(a
r
1
−1) ≥ r
1
(a
r
2
−1), de onde se conclui que
a
r
1
−1
r
1

a
r
2
−1
r
2
.
3. Sejam x, y ∈ R tais que x < y e (x
n
)
n∈N
(resp. (y
n
)
n∈N
) uma sucessão de números racionais convergente para x
(resp. y). Como f
a
é contínua, tem-se f
a
(x) = lim
n→∞
f
a
(x
n
) e f
a
(y) = lim
n→∞
f
a
(y
n
); como x < y, existe n
0
∈ N tal
que n > n
0
⇒ x
n
< y
n
, logo f
a
(x
n
) < f
a
(y
n
); então lim
n→∞
f
a
(x
n
) ≤ lim
n→∞
f
a
(y
n
), isto é, f
a
(x) ≤ f
a
(y), logo f
a
é
crescente.
De f
a
ser crescente , conclui-se que existe lim
x→0
+
f
a
(x) e lim
x→0

f
a
(x); resta verificar que estes limites são iguais.
Ora
lim
x→0

a
x
−1
x
= lim
x→0
+
a
−x
−1
−x
= lim
x→0
+
a
−x
(1 −a
x
)
−x
= lim
x→0
+
1
a
x
lim
x→0
+
a
x
−1
x
,
e lim
x→0
+
1
a
x
=
1
lim
x→0
+
a
x
= 1
Proposição B.0.17 Para qualquer a ∈ R
+
, a função exp
a
: R −→R
+
é derivável e para qualquer x ∈ R tem-se
exp

a
(x) = exp

a
(0) exp
a
(x).
Demonstração: Seja x
0
∈ R. Tem-se
a
x
−a
x
0
x−x
0
=
a
x
0
(a
x−x
0
−1)
x−x
0
. Já foi visto que existe lim
h→0
a
h
−a
0
h
(= lim
h→0
a
h
−1
h
), logo
exp
a
é derivável em 0; tem-se então
lim
x→x
0
a
x
−a
x
0
x −x
0
= a
x
0
lim
x→x
0
a
x−x
0
−1
x −x
0
= a
x
0
lim
x−x
0
→0
a
x−x
0
−1
x −x
0
= a
x
0
exp

a
(0).

Corolário B.0.18 Afunção exp
a
: R −→R
+
é indefinidamente derivável.
Observação: Se exp

a
(0) = 0, então para qualquer x ∈ R se tem exp

a
(x) = 0, logo exp
a
é constante. Se exp

a
(0) > 0
(resp. < 0), então para qualquer x ∈ R se tem exp

a
(x) > 0 (resp. < 0), logo exp
a
é estritamente crescente (resp.
estritamente decrescente). Como já foi visto que exp
a
é estritamente crescente (resp. estritamente decrescente) quando
a > 1 (resp. a < 1) conclui-se que exp

a
(0) > 0 (resp. exp

a
(0) < 0) quando a > 1 (resp. a < 1); exp

a
(0) = 0 quando
a = 1.
Lema B.0.19 Sejam a ∈ R
+
, b ∈ R
+
` ¦1¦; exp

a
(0) = exp

b
(0) log
b
a.
Demonstração: Para a = 1, o resultado é consequência da observação anterior. Suponhamos então a = 1. Tem-se
a
x
−1
x
=
b
x log
b
a
−1
x
= log
b
a
b
x log
b
a
−1
xlog
b
a
.
Então
lim
x→0
a
x
−1
x
= log
b
alim
x→0
b
x log
b
a
−1
xlog
b
a
= log
b
a exp

b
(0),
portanto exp

a
(0) = exp

b
(0) log
b
a.
Proposição B.0.20 A função g : R
+
−→ R
a → exp

a
(0)
é contínua, estritamente crescente e bijectiva.
Demonstração: Fixemos a
0
∈]1, +∞[; tem-se g(a) = exp

a
0
(0) log
a
0
a. Como a > 1, tem-se exp
a
0
(0) > 0; por outro
lado, lim
a→0

log
a
0
a = −∞ e lim
a→0
+
log
a
0
a = +∞, portanto lim
a→0

g(a) = −∞ e lim
a→0
+
g(a) = +∞. Como log
a
0
é
estritamente crescente, conclui-se que g é estritamente crescente, portanto injectiva; como log
a
0
é contínua, conclui-se
que g é contínua, logo, de lim
a→0

g(a) = −∞ e lim
a→0
+
g(a) = +∞ deduz-se que é sobrejectiva.
218 APÊNDICE B. FUNÇÕES EXPONENCIAIS E LOGARITMOS
Definição B.0.21 Designa-se por e o único número de R
+
tal que exp

e
= exp
e
(isto é, tal que exp

e
(0) = 1).
Notação: Escreve-se geralmente e
x
ou exp x em vez de exp
e
(x) e log x em vez de log
e
(x).
Observações:
1. Para qualquer a ∈ R
+
tem-se a
x
= e
x log a
e log
a
x =
log x
log a
;
2. Para qualquer a ∈ R
+
tem-se exp

a
(0) = exp

(0) log a, logo exp

a
(x) = a
x
log a.
Proposição B.0.22 Para qualquer a ∈ R
+
` ¦1¦, log
a
é derivável e log

a
(x) =
1
x log
a
(em particular, log

(x) =
1
x
).
Demonstração: Uma vez que log
a
é a inversa de exp
a
e exp
a
é uma funç ao derivável cuja derivada nunca se anula,
conclui-se que log
a
é derivável e
log

a
(x) =

=
1
(log
−1
a
)

(log
a
x)

=
1
exp

a
(log
a
x)
=
1
(log a)a
log
a
x
=
1
xlog a
.

Proposição B.0.23 Para qualquer z ∈ R, tem-se e
z
= lim
x→+∞
(1 +
z
x
)
x
(em particular, e = lim
x→+∞
(1 +
1
x
)
x
).
Demonstração: Tem-se (1+
z
x
)
x
= e
x log(1+
z
x
)
= e
log(1+
z
x
)
1
x
(desde que x seja suficientemente grande para que 1+
z
x
> 0).
Ora, usando a regra de l’Hôpital, concluimos que lim
y→0
log(1 +zy)
y
= lim
y→0
z
1+zy
1
= z, portanto lim
x→
1
x
log(1 +
z
x
= z. Como
exp é uma função contínua, tem-se lim
x→+∞
e
log(1+
z
x
)
1
x
= e
lim
x→+∞
log(1+
z
x
)
1
x
= e
z
.
Observação: Da proposição anterior conclui-se que para qualquer z ∈ R a sucessão ((1 +
z
n
)
n
)
n∈N
converge e o
seu limite é e
z
; em particular, e = lim
n→∞
(1 +
1
n
)
n
.
Seguem-se os gráficos de exp
a
e log
a
, para vários valores de a.
-2 -1.5 -1 -0.5 0 0.5 1 1.5 2
exp
0.5
1
1.5
2
2.5
3
3.5
4
0.5 1 1.5 2 2.5 3 3.5 4
log
-2
-1.5
-1
-0.5
0
0.5
1
1.5
2
-2 -1.5 -1 -0.5 0 0.5 1 1.5 2
exp
10
0.5
1
1.5
2
2.5
3
3.5
4
0.5 1 1.5 2 2.5 3 3.5 4
log
10
-2
-1.5
-1
-0.5
0
0.5
1
1.5
2
219
-2 -1.5 -1 -0.5 0 0.5 1 1.5 2
exp
1.2
0.5
1
1.5
2
2.5
3
3.5
4
0.5 1 1.5 2 2.5 3 3.5 4
log
1.2
-2
-1.5
-1
-0.5
0
0.5
1
1.5
2
-2 -1.5 -1 -0.5 0 0.5 1 1.5 2
exp
1.5
0.5
1
1.5
2
2.5
3
3.5
4
0.5 1 1.5 2 2.5 3 3.5 4
log
1.5
-2
-1.5
-1
-0.5
0
0.5
1
1.5
2
-2 -1.5 -1 -0.5 0 0.5 1 1.5 2
exp
0.5
0.5
1
1.5
2
2.5
3
3.5
4
0.5 1 1.5 2 2.5 3 3.5 4
log
0.5
-2
-1.5
-1
-0.5
0
0.5
1
1.5
2
-2 -1.5 -1 -0.5 0 0.5 1 1.5 2
exp
0.8
0.5
1
1.5
2
2.5
3
3.5
4
0.5 1 1.5 2 2.5 3 3.5 4
log
0.8
-2
-1.5
-1
-0.5
0
0.5
1
1.5
2
220 APÊNDICE B. FUNÇÕES EXPONENCIAIS E LOGARITMOS
O par de gráficos seguinte compara no mesmo sistema de eixos os gráficos de exp
a
e log
a
, para vários valores de a.
-2 -1.5 -1 -0.5 0 0.5 1 1.5 2
0.5
1
1.5
2
2.5
3
3.5
4
0.5 1 1.5 2 2.5 3 3.5 4
-2
-1.5
-1
-0.5
0
0.5
1
1.5
2
Apêndice C
Funções trigonométricas
As funções seno e cosseno são geralmente “definidas” de um modo geométrico pouco rigoroso; o objectivo deste apêndice
é mostrar como podem ser definidas rigorosamente de maneira a corresponder à ideia geométrica.
Começa-se em geral por definir o seno de um ângulo e não o seno de um número real. Um ângulo é determinado
por um par ordenado de semi-rectas com origem comum; dado um referencial ortonormado do plano, com origem em
O pode-se escolher como primeira semi-recta a “metade positiva” do primeiro eixo; há então uma bijecção entre os
ângulos e as semi-rectas com origem em O. Como há uma bijecção entre o conjunto das semi-rectas com origem em
O e os pontos da circunferência ( de raio 1 centrada em O (a cada semi-recta associa-se o seu ponto de intersecção
com a circunferência), conclui-se que cada ponto dessa circunferência determina um ângulo e, reciprocamente, a cada
ângulo corresponde um ponto da circunferência. Define-se o seno de um ângulo como a segunda coordenada do ponto
correspondente na circunferência.
sen
1
Queremos agora definir o seno de um número real; para isso vamos associar a cada número real um ponto de ( (o
que é equivalente a associar a cada número real um ângulo). Consideremos a aplicação
r : R −→ (
x → o ponto de ( obtido percorrendo uma distância de

x no sentido directo se x ≥ 0
−x no sentido inverso se x < 0
sen x
P=r(x)
x
O seno do número real x será o seno do ângulo determinado pelo ponto r(x); teremos então uma função R −→
[−1, 1]. A restrição dessa função a [−c, c], em que c é o comprimento de um quarto de ( é bijectiva; a inversa (arcsen)
será a função que a y ∈ [0, 1] (resp. y ∈ [−1, 0]) associa o comprimento (resp. o simétrico do comprimento) do arco de
circunferência entre (1, 0) e (

1 −y
2
, y).
221
222 APÊNDICE C. FUNÇÕES TRIGONOMÉTRICAS
arcsen(y)
y
Ora, se y > 0, esse comprimento é o comprimento do gráfico da função ϕ: [−1, 1] −→ R
t →

1 −t
2
entre 0 e y;
ϕ é derivável em [0, 1[ e ϕ

(t) =
−t

1−t
2
, portanto, para y < 1, esse comprimento é

y
0

1 + (
−t

1−t
2
)
2
dt, que é igual a

y
0
1

1−t
2
dt. Analogamente, se y < 0, o simétrico daquele comprimento é tambem

y
0
1

1−t
2
dt. O integral impróprio

1
0
1

1−t
2
dt converge, pois
1

1−t
2
=
1

1−t

1+t

1

1−t
e

1
0
1

1−t
converge; analogamente se verifica que o integral
impróprio

0
−1
1

1−t
2
dt converge.
Observações:
1. É consequência da proposição 5.6.1 que a função ψ : [−1, 1] −→ R
y →

y
0
1

1−t
2
dt
é contínua; alem disso ψ é
derivável em ] −1, 1[ e ψ

(y) =
1

1−t
2
para y ∈] −1, 1[. Conclui-se que ψ é estritamente crescente.
2. Como [−1, 1] −→ R
t →

1 −t
2
é uma função par, ψ é uma função ímpar; em particular,

1
0
1

1−t
2
dt =

0
−1
1

1−t
2
dt.
Definição C.0.1 π = 2

1
0
1

1−t
2
dt (=

1
−1
1

1−t
2
dt)
(isto é, π é o comprimento de uma semi-circunferência de raio 1).
Observação: É consequência desta definição que ψ([−1, 1]) = [
π
2
,
π
2
].
As considerações feitas motivam a seguinte definição.
Definição C.0.2 A função arcsen é definida por arcsen: [−1, 1] −→ [−
π
2
,
π
2
]
x →

x
0
1

1−t
2
dt
.
Observação: Resulta do que foi visto anteriormente que arcsen é uma função ímpar, contínua, estritamente crescente,
bijectiva derivável em ] −1, 1[, e que para x ∈] −1, 1[ se tem arcsen

(x) =
1

1−X
2
.
-1 -0.5 0.5 1
arcsen
-1.5
-1
-0.5
0.5
1
1.5
Definição C.0.3 A função seno, sen : R −→R é definida por

sen
|[−
π
2
,
π
2
]
é a inversa da função arcsen : [−1, 1] −→ [−
π
2
,
π
2
];
sen(x +π) = −sen x, para qualquer x ∈ R
Observações:
1. A restrição da função seno ao intervalo [−
π
2
,
π
2
] é injectiva, estritamente crescente e o seu contradomínio é [−1, 1]
(portanto o contradomínio do seno tambem é [−1, 1]).
223
2. A função seno é periódica; com efeito sen(x + 2π) = sen(x +π +π) = −sen(x +π) = sen x.
3. A função seno é ímpar (resulta do facto de arcsen ser ímpar e da periodicidade do seno).
4. Para qualquer x ∈ R tem-se sen(π−x) = sen x; com efeito, sen(π−x) = −sen(x−π) = −(−sen(x−π+π)) = sen x.
5. A função seno é estritamente crescente nos intervalos [2kπ−
π
2
, 2kπ+
π
2
] e estritamente decrescente nos intervalos
[2kπ +
π
2
, 2kπ +

2
], k ∈ Z (é estritamente crescente em [−
π
2
,
π
2
] uma vez que aí é a inversa de uma função
estritamente crescente; os outros intervalos são fáceis de analizar usando a propriedade sen(x +π) = −sen x e a
periodicidade). Conclui-se que a função seno tem um máximo (resp. mínimo) local estrito nos pontos 2kπ +
π
2
(resp. 2kπ −
π
2
), k ∈ Z.
6. Como arcsen 0 = 0, tem-se sen 0 = 0, e 0 é o único zero da função seno no intervalo [−
π
2
,
π
2
]; conclui-se que o
zeros da função seno são os elementos do conjunto ¦kπ, k ∈ Z¦.
7. Da análise dos zeros e dos intervalos de monotonia da função seno conclui-se que ela é estritamente positiva nos
intervalos ]2kπ, 2kπ +π[, k ∈ Z e que é estritamente negativa nos intervalos ]2kπ −π, 2kπ[, k ∈ Z.
8. Como arcsen 1 =
π
2
(resp. arcsen(−1) = −
π
2
) tem-se sen
π
2
= 1 (resp. sen(−
π
2
) = −1); alem disso,
π
2
(resp. −
π
2
) é
o único elemento de [−
π
2
,
π
2
] no qual a função seno toma o valor 1 (resp. −1). Se x ∈ [
π
2
,

2
], sen x = −sen(x−π),
portanto sen x = 1 (resp. −1) sse sen(x −π) = −1 (resp. 1); como x −π ∈ [−
π
2
,
π
2
], isto quer dizer que sen x = 1
(resp. −1) sse x − π = −
π
2
(resp.
π
2
), ou seja x =
π
2
(resp.

2
). O único valor de [−
π
2
,

2
] onde o seno toma o
valor 1 (resp. −1) é portanto
π
2
(resp.

2
. A periodicidade do seno permite concluir que os pontos onde o seno
toma o valor 1 (resp. -1) são os elementos de ¦2kπ +
π
2
, k ∈ Z¦ (resp. ¦2kπ −
π
2
, k ∈ Z¦).
9. O seno não tem nenhum período inferior a 2π, como se pode concluir, por exemplo, a partir do conjunto dos
pontos onde ela toma o valor 1.
Proposição C.0.4 A função seno é contínua e derivável.
Demonstração: Como arcsen é contínua, conclui-se que a restrição do seno a [−
π
2
,
π
2
] é contínua, ou seja, que o seno
é contínuo em ] −
π
2
,
π
2
[, contínua à esquerda em −
π
2
e contínua à direita em
π
2
. Da condição sen(x + π) = −sen x
conclui-se que a restrição do seno a qualquer intervalo [kπ −
π
2
, kπ +
π
2
, k ∈ Z é contínua.
Vejamos agora que o seno é contínuo em
π
2
; para isso basta ver que lim
x→
π
2

sen x = lim
x→
π
2
+
sen x. Ora
lim
x→
π
2
+
sen x = lim
x→
π
2
+
(−sen(x −π) = − lim
x→
π
2
+
sen(x −π)
= − lim
x−π→−
π
2
+
sen(x −π) = − lim
x→−
π
2
+
sen x = −sen(−
π
2
) = 1 = sen
π
2
= lim
x→
π
2

sen x
Analogamente se verifica que o seno é contínuo em −
π
2
.
O seno é portanto contínuo em ] −

2
, −
π
2
[, em ] −
−pi
2
,
π
2
[, em ]
pi
2
,

2
[, em −
π
2
e em
π
2
, portanto é contínua em
] −

2
,

2
[. Como este intervalo tem amplitude superior a 2π e 2π é um período da função, conclui-se que esta é
contínua em R.
Estudemos agora a derivabilidade do seno. Como arcsen é derivável em ] −1, 1[, conclui-se que o seno é derivável
em ] −
π
2
,
π
2
[. Alem disso, para x ∈] −
π
2
,
π
2
[,
sen

x =
1
arcsen

(sen x)
=
1
1

1−sen
2
x
=

1 −sen
2
x.
Então lim
x→
π
2
sen

(x) = lim
x→
π
2

1 −sen
2
x = 0, e lim
x→−
π
2
sen

(x) = lim
x→−
π
2

1 −sen
2
x = 0. Conclui-se da proposição 4.3.14
que o seno é derivável à esquerda (resp. á direita) em
π
2
(resp. em −
π
2
) e ambas as derivadas são iguais a 0.
Por outro lado, em ]
π
2
,

2
[, (resp. em ] −

2
, −
π
2
[) o seno é derivável e
sen

(x) = −sen

(x −π) = −

1 −sen
2
(x −π) = −

1 −sen
2
x
(resp.
sen

(x) = −sen

(x +π) = −

1 −sen
2
(x +π) = −

1 −sen
2
x)
224 APÊNDICE C. FUNÇÕES TRIGONOMÉTRICAS
portanto lim
x→
π
2
+
sen

(x) = lim
x→
π
2
+
(−

1 −sen
2
x) = 0 e lim
x→−
π
2

sen

(x) = lim
x→−
π
2

(−

1 −sen
2
x) = 0. Conclui-se da
proposição 4.3.14 que o seno é derivável à direita (resp. à esquerda) em
π
2
(resp. −
π
2
e sen

(
π
2
) = sen

(−
−π
2
) = 0.
Então o seno é derivável em ] −

2
,

2
[; como este intervalo tem amplitude superior a 2π e 2π é um período da função,
conclui-se que esta é derivável em R.
Observação: Conclui-se da demonstração anterior que se tem sempre sen
2
+(sen

)
2
x = 1. Deduz-se que os zeros de
sen

são os elementos de ¦x ∈ R : sen
2
x = 1¦, isto é, ¦kπ +
π
2
, k ∈ Z¦.
-6 -4 -2 2 4 6
sen
-1
-0.5
0.5
1
Vamos em seguida definir a função cosseno. O cosseno de um ângulo é a primeira coordenada do ponto correspon-
dente na circunferência de centro (. Analogamente ao que foi feito para o seno, para x ∈ R, o cosseno de x será o
cosseno do ângulo determinado pelo ponto r(x).
cos 1 cos x
P=r(x)
x
Podíamos, como foi feito para o seno, começar por definir a função arccos à custa do comprimento de um arco da
circunferência. Vamos, no entanto definir o cosseno à custa do seno; os desenhos seguintes dão a motivação geométrica
para a definição.
sen x
cos x
x
- x
2
- x
2
2
- x sen( )
x
Definição C.0.5 Define-se a função cosseno por cos: R −→ R
x → sen(
π
2
−x)
.
Tem-se cos(
π
2
−x) = sen(
π
2
−(
π
2
−x)) = sen x.
Observação: Das propriedades vistas para o seno deduzem-se imediatamente as seguintes propriedades para o cosseno.
1. A restrição do cosseno ao intervalo [0, π] é injectiva, estritamente decrescente, e o seu contradomínio é [−1, 1]
(portanto o contradomínio do cosseno é [−1, 1]); define-se a função arccos : [−1, 1] −→ [0, π] como a inversa de
cos
|[0,π]
: [0, π] −→R.
225
2. O cosseno periódico; de facto, cos(x + 2π) = sen(
π
2
−(x + 2π)) = sen(
π
2
−x).
3. O cosseno é uma função par: tem-se cos(−x) = sen(
π
2
−(−x)) = −sen(−x−
π
2
) = sen(−x−
π
2
+π) = sen(
π
2
−x) =
cos x.
4. Para qualquer x ∈ R tem-se cos(π − x) = −cos x; de facto cos(π − x) = sen(
π
2
− (π − x)) = sen(x −
π
2
) =
−sen(
π
2
−x) = −cos x.
O facto de a função seno não ter nenhum período inferior a 2π implica obviamente que a função cosseno tambem
não tem.
5. O cosseno é estritamente crescente (resp. estritamente decrescente) nos intervalos [2kπ − π, 2kπ], k ∈ Z (resp.
[2kπ, 2kπ + π], k ∈ Z).Conclui-se que o cosseno tem um máximo (resp. mínimo) local estrito nos pontos 2kπ
(resp. 2kπ +π), k ∈ Z.
6. Tem-se
cos x = 0 ⇔ sen(
π
2
−x) = 0
⇔ existe k
1
∈ Z :
π
2
−x = k
1
π
⇔ existe k
1
∈ Z : x = −k
1
π +
π
2
.
Os zeros do cosseno são portanto os elementos de ¦kπ +
π
2
, k ∈ Z¦.
7. Dos zeros e dos intervalos de monotonia ddo cosseno conclui-se que é estritamente positiva (resp. estritamente
negativa) nos intervalos ]2kπ −
π
2
, 2kπ +
π
2
[ (resp. ]2kπ +
π
2
, 2kπ +

2
[), k ∈ Z.
8. Tem-se cos x = 1 sse sen(
π
2
− x) = 1, isto é, sse existe k
1
∈ Z tal que
π
2
− x = 2k
1
π +
π
2
, ou ainda, sse existe
k
1
∈ Z tal que x = −2k
1
π. Os pontos onde o cosseno toma o valor 1 são portanto os elementos de ¦2kπ, k ∈ Z¦.
Tem-se cos x = −1 sse sen(
π
2
− x) = −1, isto é, sse existe k
1
∈ Z tal que
π
2
− x = 2k
1
π −
π
2
, ou ainda, sse
existe k
1
∈ Z tal que x = −2k
1
π + π. Os pontos onde o cosseno toma o valor 1 são portanto os elementos de
¦2kπ +π, k ∈ Z¦.
9. Da continuidade e derivabilidade do seno resultam a continuidade e a derivabilidade do cosseno.
-6 -4 -2 2 4 6
cos
-1
-0.5
0.5
1
Proposição C.0.6 Para qualquer x ∈ R, sen
2
x + cos
2
x = 1.
Demonstração: Comecemos pela demonstração no caso em que x ∈ [0,
π
2
]; neste caso tambem
π
2
−x ∈ [0,
π
2
]. Tem-se
π
2
−x =
π
2
−arcsen(sen x) =
π
2

sen x
0
1

1 −t
2
dt =

1
0
1

1 −t
2
dt −

sen x
0
1

1 −t
2
dt =

1
sen x
1

1 −t
2
dt.
Por outro lado,
π
2
−x = arcsen(sen(
π
2
−x)) =

sen(
π
2
−x)
0
1

1 −t
2
dt =

cos x
0
1

1 −t
2
dt
=

1

1−cos
2
x
1

1 −u
2
du (fazendo a substituição t =

1 −u
2
).
Então

1
sen x
1

1−t
2
dt =

1

1−cos
2
x
1

1−u
2
du, de onde se conclui que sen x =

1 −cos
2
x, logo sen
2
x + cos
2
= 1.
226 APÊNDICE C. FUNÇÕES TRIGONOMÉTRICAS
Para x ∈ [
π
2
, π], tem-se
sen
2
x + cos
2
x = sen
2
(x −π) + cos
2
(x −π) (porque sen(x −π) = sen x e cos(x −π) = cos x)
= 1 (porque x −π ∈ [0,
π
2
]
Para x ∈ [π, 2π], tem-se sen
2
x + cos
2
x = sen
2
(x −π) + cos
2
(x −π) = 1 (x −π ∈ [0, π]).
O facto de 2π ser um período da função seno e da função cosseno permite conclui que para qualquer x ∈ R se tem
sen
2
x + cos
2
x = 1.
Proposição C.0.7 1. ∀x ∈ R sen

x = cos x
2. ∀x ∈ R cos

x = −sen x
Demonstração:
1. Já foi visto que, para x ∈ [0,
π
2
] se tem cos x =

1 −sen
2
x e sen

x =

1 −sen
2
x, logo sen

x = cos x. Para
x ∈ [−
π
2
, 0], deduz-se de sen x = −sen(−x) e x ∈ [0,
π
2
] que sen

x = −−sen

(−x) = sen

(−x) = cos(−x) = cosx;
para x ∈ [
π
2
,

2
], deduz-se de sen x = −sen(x −π) e x −π ∈ [−
π
2
,
π
2
]que sen

x = −sen

(x −π) = −cos(x −π) =
cos x. Da periodicidade do seno (que implica a periodicidade de sen

) e da periodicidade do cosseno deduz-se
que, para qualquer x ∈ R, sen

x = cos x.
2. De cos x = sen(
π
2
−x) deduz-se que cos

x = −sen

(
π
2
−x) = −cos(
π
2
−x) = −sen x.
Observações:
1. Deduz-se da proposição anterior que as funções seno e cosseno são indefinidamente deriváveis.
2. Para x ∈ [−1, 1] tem-se arcsen x + arccos x =
π
2
; de facto, x = cos(arccos x) = sen(
π
2
− arccos x), portanto
arcsen x = arcsen(sen(
π
2
−arccos x)) =
π
2
−arccos x.
3. De cos

= −sen deduz-se que a derivada do cosseno não se anula em ]0, π[, portanto arccos é derivável; tem-se
arccos

x =
1
cos

(arccos x)
=
−1
sen(arccos x)
. Ora sen
2
(arccos x) + cos
2
(arccos x) = 1, isto é, sen
2
(arccos x) = 1 − x
2
;
para x ∈] − 1, 1[, arccos x ∈]0, π[, portanto sen(arccos x) > 0, logo sen(arccos x) =

1 −x
2
. Conclui-se que
arccos

x =
−1

1−x
2
.
4. As funções seno e cosseno são soluções da equação (funcional) f

+f =função nula, visto que sen

= cos

= −sen
e cos

= (−sen) = −cos.
Proposição C.0.8 Se f : R −→R é uma função duas vezes derivável e

f +f

é a função nula
f(0) = 0
f

(0) = 0
, então f é a
função nula.
Demonstração: De f +f

=função nula, deduz-se que ff

+f

f

=função nula; mas 2ff

é a derivada de f
2
e 2f

f

é a derivada de (f

)
2
, portanto (f
2
+ (f

)
2
)

(que é 2ff

+ 2f

f

) é a função nula. Conclui-se daqui que f
2
+ (f

)
2
é
constante, isto é, existe c ∈ R tal que, para qualquer x ∈ R, (f(x))
2
+ (f

(x))
2
= c; ora como f(0) = 0 e f

(0) = 0,
tem-se c = 0, ou seja, para qualquer x ∈ R, (f(x))
2
+(f

(x))
2
= 0. Então, para qualquer x ∈ R, f(x) = 0 e f

(x) = 0,
portanto f é a função nula.
Proposição C.0.9 1. ∀x, y ∈ R sen(x +y) = sen xcos y + cos xsen y;
2. ∀x, y ∈ R sen(x −y) = sen xcos y −cos xsen y;
3. ∀x, y ∈ R cos(x +y) = cos xcos y −sen xsen y;
4. ∀x, y ∈ R cos(x −y) = cos xcos y + sen xsen y.
Demonstração:
1. Fixemos um número real qualquer, y, e consideremos a função ϕ: R −→ R
x → sen(x +y) −sen xcos y −cos xsen y.
Tem-se ϕ

(x) = cos(x + y) − cos y cos x + sen y sen x e ϕ

(x) = −sen(x + y) + cos y sen x + sen y cos x, por-
tanto, para qualquer x ∈ R, ϕ

(x) + ϕ(x) = 0. Por outro lado, ϕ(0) = sen y − sen 0 cos y − sen y cos 0 e
ϕ

(0) = cos y − cos y cos 0 + sen y sen 0 = 0. Pela proposição anterior, conclui-se que ϕ é a função nula, isto é,
para qualquer x ∈ R, sen(x +y) = sen xcos y + cos xsen y.
227
2. sen(x −y) = sen(x + (−y)) = sen xcos(−y) + cos xsen(−y) = sen xcos y −cos xsen y.
3. cos(x +y) = sen(
π
2
−x −y) = sen(
π
2
−x) cos y −cos(
π
2
−x) sen y = cos xcos y −sen xsen y.
4. cos(x −y) = cos(x + (−y)) = cos xcos(−y) −sen xsen(−y) = cos xcos y + sen xsen y.
Corolário C.0.10 1. ∀x ∈ R cos 2x = cos
2
x −sen
2
x = 1 −2 sen
2
x = 2 cos
2
x −1
2. ∀x ∈ R sen 2x = 2 sen xcos x
Demonstração:
1. cos 2x = cos(x + x) = cos xcos x − sen xsen x = cos
2
x − sen
2
x = cos
2
x − (1 − cos
2
x) = 2 cos
2
x − 1 =
2(1 −sen
2
x) −1 = 1 −2 sen
2
x.
2. sen 2x = sen(x +x) = sen xcos x + cos xsen x = 2 sen xcos x.
Definição C.0.11 A função tangente (resp. cotangente é definida por tg: R ` ¦kπ +
π
2
, k ∈ Z¦ −→ R
x →
sen x
cos x
(resp. cotg: R ` ¦kπ, k ∈ Z¦ −→ R
x →
cos x
sen x
).
Observações:
1. As funções tangente e cotangente s˜contínuas e deriváveis.
2. As funções tangente e cotangente são ímpares: tg(−x) =
sen(−x)
cos(−x)
= −
sen x
cos x
= −tg x; cotg(−x) =
cos(−x)
sen(−x)
=

cos x
sen x
= −cotg x.
3. As funções tangente e cotangente são periódicas e o mínimo dos períodos é π. Com efeito, por um lado,
tg(x + π) =
sen(x+π)
cos(x+π)
=
−sen x
−cos x
= tg x. Por outro lado, os únicos zeros da tangente são os zeros do seno: kπ,
k ∈ Z; como não há dois zeros a uma distância inferior a π, não existe nenhum período inferior a π. A verificação
é análoga para a cotangente.
4. As funções tangente e cotangente são estritamente positivas (resp. estritamente negativas) nos pontos onde o
seno e o cosseno têm o mesmo sinal (resp. sinais opostos), ou seja, nos intervalos ]kπ, kπ+
π
2
[ (resp. ]kπ−
π
2
, kπ[),
k ∈ Z.
5. A função tangente (resp. cotangente) é estritamente crescente (resp. estritamente decrescente) em qualquer
intervalo em que esteja definida. De facto tg

x =
cos x cos x+sen x sen x
cos
2
x
=
1
cos
2
x
, logo para qualquer x ∈ R ` ¦kπ +
π
2
, k ∈ Z¦ tem-se tg

x > 0; analogamente, cotg

x = −
1
sen
2
x
, logo para qualquer x ∈ R` ¦kπ, k ∈ Z¦, cotg

x < 0.
Atenção: A função tangente (resp. cotangente) não é crescente (resp. decrescente).
6. Para qualquer k ∈ Z tem-se lim
x→kπ+
π
2
+
tg x = lim
x→kπ

cotg x = −∞ e lim
x→kπ+
π
2

tg x = lim
x→kπ
+
cotg x = +∞.
7. Para qualquer k ∈ Z, tg
|]kπ−
π
2
,kπ+
π
2
[
:]kπ −
π
2
, kπ +
π
2
[−→R e cotg
|]kπ,(k+1)π[
:]kπ, (k + 1)π[−→R são bijectivas.
8. Define-se arctg : R −→] −
π
2
,
π
2
[ como a inversa de tg
|]−
π
2
,
π
2
[
:] −
π
2
,
π
2
[−→R. Como a derivada da tangente
nunca se anula, a função arctg é derivável; tem-se arctg

x =
1
tg

(arctg x)
= cos
2
(arctg x). Ora
1
cos
2
(arctg x)
=
sen
2
(arctg x)+cos
2
(arctg x)
cos
2
(arctg x)
= tg
2
(arctg x) + 1 = x
2
+ 1; portanto, arctg

x =
1
1+x
2
.
9. Se x, y, x +y ∈ R ` ¦kπ +
π
2
, k ∈ Z¦, então tg(x +y) =
tg x+tg y
1−tg x tg y
. Com efeito,
tg(x +y) =
sen(x +y)
cos(x +y)
=
sen xcos y + cos xsen y
cos xcos y −sen xsen y
=
sen x
cos x
+
sen y
cos y
1 −
sen x sen y
cos x cos y
=
tg x + tg y
1 −tg xtg y
.
Conclui-se que tg(x −y) =
tg x+tg y
1+tg x tg y
.
10. Analogamente ao que foi feito para a tangente se mostra que, se x, y, x+y ∈ R`¦kπ, k ∈ Z¦, se tem cotg(x+y) =
cotg x cotg y−1
cotg x+cotg y
.
228 APÊNDICE C. FUNÇÕES TRIGONOMÉTRICAS
-4 -2 2 4
tg
-8
-6
-4
-2
2
4
6
8
-2 2 4 6
cotg
-8
-6
-4
-2
2
4
6
8
-7.5 -5 -2.5 2.5 5 7.5
arctg
-1.5
-1
-0.5
0.5
1
1.5
Definição C.0.12 Definem-se as funções secante (resp. cossecante) por sec: R ` ¦kπ +
π
2
¦ −→ R
x →
1
cos x
(resp.
cosec: R ` ¦kπ, k ∈ Z¦ −→ R
x →
1
sen x
.
Observações:
1. A função secante (resp. cossecante) é par (resp. ímpar).
2. As funções secante e cossecante são periódicas de período 2π, e nunca se anulam.
3. sec

x = sec xtg x e cosec

x = −cosec xcotg x.
4. Para x ∈ R`¦kπ +
π
2
, k ∈ Z¦, tem-se sec
2
x = 1+tg
2
x e cosec
2
x = 1+cotg
2
x; ambas as igualdades se deduzem
facilmente de sen
2
x + cos
2
x = 1.
-4 -2 2 4 6 8
sec
-8
-6
-4
-2
2
4
6
8
-2 2 4 6 8
cosec
-8
-6
-4
-2
2
4
6
8
Proposição C.0.13 1. sen
π
4
= cos
π
4
=

2
2
2. sen
π
3
=

3
2
; cos
π
3
=
1
2
3. sen
π
6
=
1
2
; cos
π
6
=

3
2
Demonstração:
1. Tem-se cos
π
2
= 1 − 2 sen
2 π
4
, portanto sen
2 π
4
=
1
2
; como
π
4
∈]0,
π
2
[, tem-se sen
π
4
> 0, logo sen
π
4
=

1
2
=

2
2
;
cos
π
4
= sen(
π
2

π
4
) = sen
π
4
=

2
2
.
2.
sen π = sen(

3
+
π
3
) = sen

3
cos
π
3
+ cos

3
sen
π
3
= 2 sen
π
3
cos
π
3
cos
π
3
+ (1 −2 sen
2
π
3
) sen
π
3
= 2 sen
π
3
(1 −sen
2
π
3
) + sen
π
3
−2 sen
3
π
3
= −4 sen
3
π
3
+ 3 sen
π
3
= sen
π
3
(−4 sen
2
π
3
+ 3)
229
Como sen π = 0, conclui-se que sen
π
3
= 0 ou sen
2 π
3
=
3
4
; como sen
π
3
> 0 (uma vez que
π
3
∈]0,
π
2
[), deduz-se que
sen
π
3
=

3
2
. Então cos
π
3
=

1 −sen
2
π
3
=

1 −
3
4
=
1
2
.
3. Tem-se sen
π
6
= sen(
π
2

π
3
) = cos
π
3
=
1
2
e cos
π
6
= cos(
π
2

π
3
) = sen
π
3
=

3
2
.
230 APÊNDICE C. FUNÇÕES TRIGONOMÉTRICAS
Índice alfabético
aceleração, 183
normal, 183
tangente, 183
comprimento de uma curva parametrizada, 178
conjunto
limitado, 2
inferiormente, 2
superiormente, 2
majorado, 2
minorado, 2
contradomínio, 9
coordenadas polares, 199
curva parametrizada, 171
contínua num ponto, 173
derivável num ponto, 174
pelo comprimento de arco, 181
regular, 176
curvatura, 183
domínio de convergência, 149
e, 218
função
arco seno, 222
bijectiva, 9
comprimento de arco, 180
côncava, 59
contínua, 35
convexa, 59
cossecante, 228
cosseno, 224
cotangente, 227
crescente, 16
num ponto, 19
decrescente, 16
num ponto, 19
derivável à direita num ponto, 42
derivável à esquerda num ponto, 42
derivável num ponto, 42
derivada, 42
estritamente crescente, 16
num ponto, 19
estritamente decrescente, 16
num ponto, 19
estritamente monótona, 16
exponencial de base a, 214
ímpar, 13
ínfimo de uma, 17
injectiva, 9
integrável, 75
inversa
à direita de uma, 15
à esquerda de uma, 15
inversa de uma, 15
limitada, 17
logaritmo na base a, 215
minimo de uma, 17
maximo de uma, 17
majorada, 17
minorada, 17
monótona, 16
par, 13
periódica, 13
prolongamento de uma, 10
restrição de uma, 10
secante, 228
seno, 222
sobrejectiva, 9
supremo de uma, 17
tangente, 227
funções tangentes de ordem n, 116
gráfico, 20
imagem de um conjunto, 10
imagem recíproca de um conjunto, 10
ínfimo, 3
de uma função, 17
integral, 75
impróprio, 98
inversa, 15
à direita, 15
à esquerda, 15
limite, 27
à direita, 28
à esquerda, 28
majorante, 2
máximo
de uma função, 17
estrito global, 18
estrito local, 18
global, 17
local, 18
mínimo
de uma função, 17
estrito global, 18
estrito local, 18
global, 17
231
232 ÍNDICE ALFABÉTICO
local, 18
minorante, 2
módulo, 2
partição, 71
π, 222
polinómio de Taylor, 111
ponto crítico, 51
ponto de acumulação, 27
à direita, 27
à esquerda, 27
bilateral, 27
ponto de inflexão, 60
primitiva, 85
produto de Cauchy, 146
prolongamento, 10
raio de convergência, 165
raio de curvatura, 183
reordenação, 144
reparametrização, 176
pelo comprimento de arco, 180
resto de ordem n, 123
restrição, 10
série, 134
absolutamente convergente, 142
convergente, 134
de funções, 156
pontualmente convergente, 156
uniformemente convergente, 156
de potências, 163
soma
inferior, 72
superior, 72
sucessão
convergente, 129
das somas parciais de uma série, 134
de Cauchy, 133
de funções reais, 149
pontualmente convergente, 149
uniformemente convergente, 149
parcial, 129
quase constante, 130
real, 129
sucessões quase iguais, 130
supremo, 3
de uma função, 17
torção, 192
triedro de Frenet, 192
valor absoluto, 2
vector
binormal, 192
normal principal unitário, 183
tangente unitário, 183