GRUPO DE PESQUISA EM LITERATURA COMPARADA

Leonardo Rodrigo de Oliveira Ferreira/ UFMA Campus III Bacabal-Ma

RESUMO

Nossa apresentação toma por base o poema “Antiode”, do livro Psicologia da
composição, de João Cabral de Melo Neto. Nessa obra, o autor defende uma poesia
pautada na antilirica, ou seja, numa escrita que fuja da subjetividade que certas obras
poéticas costumam apresentar. Toda presença de amor e de sentimentalismo, encontrável
nesse tipo de poesia, é evitada por João Cabral. A leitura de “Antiode” nos ajuda a
compreender nele a razão de tantos temas incomuns à poesia, a exemplo dos “cemitérios”,
assunto corrente em certo período da produção de Cabral, sobretudo aquele em que se
encontram os livros Paisagens com figuras e Quaderna.

PALAVRAS-CHAVE

João Cabral de Melo Neto, antilírica, “Antiode”.

Análise de “Antiode” de João Cabral de Melo Neto.

O poema antiode já começa revelando seu objetivo principal mediante sua leitura que é
(NETO, p.98, 1947) “contra a poesia dita profunda”, todo o sentimentalismo encontrado
em uma obra lírica será substituído pelo antilirismo em Antiode.

Nos trechos I e II da obra, João Cabral atribui um nome chulo a flor:

“Poesia, te escrevia: flor! Conhecendo que és fezes. Fezes como qualquer, gerando
cogumelos (raros, frágeis cogumelos) no úmido calor de nossa boca” (Neto, p.98, 1947).
João Cabral chama a flor de fezes atribuindo a ela a capacidade de gerar outro vegetal, o

cogumelo. 1947). p. 1947). suas intestinações. que é de maneira delicada e sem “ninguém” está observando ele: “por seu tão delicado pudor de flor. João Cabral ainda diz que o cogumelo não é qualquer flor: “Flor não de todo flor” (NETO. evitava o estrume do poema. transparentes florações. Esperava as puras. quando as fezes se decompõem elas viram adubo vindo a contribuir na plantação de vegetais. 1947). teremos a descoberta de que João Cabral poderia chamar o cogumelo de flor e etc.98. frutas e etc.) ” (NETO. Nesses dois trechos João Cabral dá sentido à flor como ela sendo uma espécie de cogumelo. 1947).98. Nos trechos V e VI. 1947). Nos trechos III e IV. flor não de todo flor.99. de certa forma ambos são vegetais. Sabe-se que.: “ Depois. p. seu ovário. 1947).98. p99. ele explica os fatores que o levaram a atribuir esse nome ao vegetal: ”vossas iguais circunstâncias? Vossas gentis substâncias? ” (NETO. espécie extinta de flor. p. Um ser humano depois . ou seja. que só se abre quando a esquece o sono do jardineiro?) (NETO.99. João Cabral afirma qual é a “flor” de sua preferência: “Delicado. Já na VI estrofe. bolha aberta no maduro.98. 1947). transparentes florações” (NETO. João Cabral faz a seguinte indagação: “Delicado. o fator que provocou essa adaptação do nome flor ao cogumelo foi a “semelhança” nas substâncias e circunstâncias encontrada entre elas. No trecho V pode-se ver que João Cabral evita o contato de maneira delicada com a “fezes do poema” e tudo que vinha dela: “Evitava o estrume do poema” (NETO. Temos nos trechos XIII e XIV o duplo emprego da flor como ela sendo uma boca que come defunto e uma boca que decora o defunto com outro defunto. p. seu caule.98. Nos trechos de VII a X. mas o cogumelo não possui flores.98. mas flor. 1947). p. que só se abre quando a esquece o sono do jardineiro? (NETO. ele esperava e desejava as flores originadas de forma natural: “Esperava as puras. Nos trechos VII e VIII João Cabral além de chamar o cogumelo de flor. nascidas do ar. p. eu descobriria que era lícito te chamar: flor! (Pelas vossas iguais circunstâncias? Vossas gentis substâncias? Vossas doces carnações? Pelos virtuosos vergéis de vossas evocações? Pelo pudor do verso -pudor de flor. escrevia: flor! (Cogumelos serão flor? Espécie estranha. Nos versos IX e X tem a caracterização de como o cogumelo se abre. p.por seu tão delicado pudor de flor. 1947) e constrói uma imagem do cogumelo: “bolha aberta no maduro” (NETO. p. como as brisas” (NETO. no ar.

“O dia? Árido. Já na estrofe XVIII fala do sentido natural do dia e da noite. Venha. No trecho XVII dá se entender que o desejo de morte. como de algum cinema. a frequentação dela. O trecho XIX tem um pedido inusitado. Nos trechos XVI e XVII temos a presença tanto da morte quanto da noite. “Venha.) (NETO. Nesse trecho tem o objeto de vício da poesia. 1947) . 1947). Quando João Cabral fala “orna o defunto com outro defunto. então. p. dá se a entender que o defunto será o alimento da flor “a boca que come defunto” (NETO.100. p. p. Venha. 1947). p. o sono” (NETO. à noite. pois ele precisa de uma análise minuciosa para se poder entende-lo. frequentação da morte. era tão intenso. parece até um paradoxo se comparado com o poema em questão. p. 1947). 1947). 1947). temos uma das utilidades da flor. p. o sono.99. que é usada para ornamentar túmulos e caixões dos mortos. Em todos esses trechos se tem a predominância de características do romantismo: a presença noturna. 1947). Nos trechos de XVI a XVIII temos uma volta ao romantismo: “ (Ao ar de águas mortas. p. o poema. p. (NETO.100. com flores” (NETO. (NETO. 1947). “Fome de vida? Fome de morte. “Fome de vida? Fome de morte. 1947).100. à noite. mas o fator morte nesses trechos chamam a atenção quando João Cabral fala que as águas mortas ou infecção da noite contaminam o dia “ (Ao ar de águas mortas. como ele sendo quente “O dia? Árido” (NETO. como se o corpo fosse uma espécie de “droga” para o ar de versos. que era como frequentar qualquer cinema). objeto bastante utilizado em inúmeros poemas ao longo da história. então. corpo esse que gera um ar vicioso. (NETO.100. p. como de algum cinema.100. talvez de mulher. esperança em um ambiente fúnebre. 1947) e da noite como sendo o período de descansar depois de um dia quente “Venha.100. mais fácil e portátil na memória. (NETO. uma forma de dar vida. por isso a flor. injetando na carne do dia a infecção da noite.100. Na estrofe de número XV se tem o vício da poesia: “Como não invocar o vício da poesia: o corpo que entorpece ao ar de versos? ” (NETO.100. p. a presença da morte.100. um corpo. 1947). com base nisso. injetando na carne do dia a infecção da noite.que morre pode se transformar em adubo natural.) (NETO. p.99. do dia. frequentação da morte. para que o poema possa vir mais fácil e portátil a ponto de ser levado na memória. flor no colete da lembrança”.

verso inscrito no verso. p. como da flor.100. sobretudo. palavra leve” (NETO. Nos trechos de XXVI a XXVIII se pode observar o “poema de verdade”. p. (NETO. o exercício do poema. uma jarra de flores”. 1947). palavras impossíveis de poema. temáticas como o amor. porque ao longo de toda a Antiode o antilírico se destaca. palavras essas que João Cabral diz que são impossíveis de se inserir em um poema. fezes. como uma máquina. 1947). Nesses trechos o termo flor ganha significações muito diferente das utilizadas anteriormente. 1947).101. . p. as fezes vivas que és. creio que deve ser porque na grande maioria dos poemas a caridade passa é longe de ser uma temática a ser tratada. 1947). “Flor é o salto da ave para o voo. Os trechos XXIX e XXX tem a retomada da palavra chula fezes para denominar a flor. 1947). pelo fato de muitos poemas terem a flor como objeto principal de suas obras: “Como não invocar. O trecho XXI evidencia as várias fases que um poema possui e sua semelhança de fases com a flor e com o amor dos cães: “Pois estações há. como as manhãs no tempo” (NETO. p. do poema. p. A virtude em questão é a caridade. uma fuga total do sentimentalismo presente na maioria das obras poéticas. 1947) como se o poeta estivesse escrevendo para a flor mais ela não seria o verdadeiro destinatário do poema: “Flor! Não uma flor. Te escrevo.101. sua lânguida horticultura? ” (NETO. João Cabral pergunta como usa-la.102. 1947). te escrevo agora: fezes. nem aquela flor- virtude — em disfarçados urinóis. a natureza tende a ser o tema-mor para as poesias. sua prática. No último trecho tem a pergunta “Como usá-la num poema? A terceira das virtudes teologais ” (NETO.) ” (NETO. ou como no amor dos cães.O trecho XX mostra a prática poética horticultura. sendo que a palavra fezes foi um termo “leve” para denominar a palavra flor: “Poesia. p. é uma explosão posta a funcionar. outras palavras de baixo calão poderiam ser aderidas a flor. p.101.101. Sei que outras palavras és. não será esse o sentido em que ainda te escrevo: flor! (Te escrevo:)” (NETO.101. o salto fora do sono quando seu tecido se rompe. ” Nos trechos XXIV e XXV tem a evidência de que poesia não seria o sentido original do poema para a flor: “Poesia. por isso. não será fezes ou boca que come defunto e sim: “Flor é a palavra flor.