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COMENIUS E A EDUCAÇÃO AMBIENTAL: CONSIDERAÇÕES TEÓRICAS


E FILOSÓFICAS PARA A EDUCAÇÃO ATUAL.

Texto completo/Comunicação oral. Eixo 4: Fundamentos da Educação


LIMA, Laís Leni Oliveira UFG/CAJ
laisleni@yahoo.com.br

Introdução:
No primeiro momento, será observada a concepção de natureza humana tratada
pelo autor. Em seguida, destacaremos a finalidade e o papel da educação e da sociedade.
Abordaremos as concepções de ensino-aprendizagem e as bases epistemológicas do método
de ensino exposto. Mostraremos porque esse autor pode ser considerado atual.
A pedagogia do século XVII sofre influências de duas grandes correntes
filosóficas: empírica (representada por Bacon) e idealista (representada por Descartes).
Nenhum deles escreveu diretamente sobre a educação, mas suas idéias repercutiram
grandemente na educação. Comenius, ainda que contraditório às idéias desses pensadores,
sua concepção filosófica parte das contradições entre empirismo e idealismo, dando lugar à
pedagogia realista, a qual caracteriza essa época e está representada por personalidades
como Rathe, Comenius e Locke. Essa pedagogia trata de substituir a pedagogia verbalista
anterior pelo conhecimento das coisas. Aspira criar uma nova didática. Encara a
individualidade do educando, diferente das anteriores.

Objetivos
Este ensaio objetiva-se expor as idéias de Comenius, relacionadas às questões
ambientais e seu processo de ensino. A pedagogia de Comenius é a conjunção de idéias
religiosas e realistas. Pode-se dizer: a corrente religiosa da Reforma e a empirista da
Renascença. A parte religiosa refere-se aos fins da educação e a realista aos meios. O fim
da educação é a salvação – felicidade eterna –. Essa educação não está enquadrada em
determinada concepção religiosa, antes é religiosidade extraconfessional, íntima. Para
Comenius, os fins da vida e da educação são três: o saber, que compreende o conhecimento
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de todas as coisas, artes e línguas; a virtude, que inclui não só as boas maneiras como o
domínio das paixões; e a piedade ou religião, veneração interna pela qual a alma humana do
homem se une a do Ser supremo. Segundo esse autor, há três espécies de vida: a vegetativa,
a animal e a intelectual ou espiritual. A primeira nunca deixa o corpo, a segunda estende-se
às coisas por meio das ações sensoriais e motoras e a terceira pode existir separadamente.
A concepção de natureza humana para o autor, em princípio, é de matéria
informe e bruta; depois, começa a sentir e assumir o contorno de um pequeno corpo,
posteriormente manifestar-se o intelecto, apreendendo as diferenças entre as coisas e
finalmente à vontade, dirigindo-se a alguns objetos e fugindo de outros. Ele compara a vida
a uma escada em que estamos subindo sempre mais, alcançamos degraus mais altos, porém
nunca chegaremos ao topo, isto é, não é possível atingir o fim último das coisas (p. 44).
Considera igualmente que há três espécies de vida para cada pessoa: o útero
materno, a terra e o céu. Sendo que uma prepara para outra. Da primeira entra para a
segunda pelo nascimento; da segunda na terceira, pela morte e pela ressurreição; da terceira
nunca sai, por toda eternidade. Ambas as passagens de uma vida para outra são dolorosas.
A primeira e a segunda vida são como oficinas, em que estamos sempre nos preparando.
Essa vida é uma preparação para a vida espiritual, entretanto, o homem em si já é sábio e
precisa somente desenvolver suas capacidades para essa preparação (p. 47). Isso significa
que temos por natureza as sementes da instrução, das virtudes e da religião; entretanto,
poderíamos fazer algumas objeções ao autor quando ele afirma que o homem nada recebe
do exterior, mas só precisa expandir e desenvolver as coisas que já traz implícitas em si.
Segundo nosso entendimento, além do desenvolvimento das capacidades interiores, o
desenvolvimento do ser humano recebe influências e modifica conforme relações do
ambiente onde se encontra inserido (p. 59).
Outra questão muito significativa é quando o autor fala sobre o poder ilimitado
da mente humana. Segundo ele, todo homem nasceu com capacidade de aprender, por mais
dificuldades que tenha, porém, àqueles a quem caberiam a capacidade de proporcionar o
desenvolvimento, muitas vezes estão inibindo e atrofiando essa aprendizagem (p. 60). A
capacidade da mente é grande e sequiosa de coisas, estando sempre aberta para explorar e
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aprender tudo, desde que não seja ofuscada por grande quantidade de coisas, mas que tudo
seja apresentado numa devida ordem (p. 64).
Para Comenius, a educação a de se aplicar a todos, visto que o homem tem
naturalmente possibilidade de aprender, mas só se torna homem se se educa, e isso é
adquirido com muito esforço pessoal (p. 71). Quanto mais educado, mais se eleva acima
dos outros. A educação prepara o indivíduo na idade jovem até 24 anos, ao velho, compete
realizar-se. A educação deve ser ministrada a todos, indistintamente, de estirpe nobres ou
comuns, ricos e pobres, meninos e meninas, em todas as cidades aldeias e vilarejos. Ele
compara o rico sem a sabedoria como porcos engordados com farelos; e os pobres, como
burros de carga. Continua o autor: um homem de bom aspecto, mas ignorante é como um
papagaio de bela plumagem, ou como uma bainha de ouro com um punhal de chumbo.
Assim sendo, a todos que nasceram homem, a educação é necessária (p. 76).
É importante que em cada comunidade construam-se escolas. Nesse sentido, em
cada casa deve haver uma escola maternal; em cada povoação, uma escola pública; em cada
cidade, um ginásio e em cada província maior, uma academia. É necessário também que
existam pessoas instruídas com capacidade para ensinar. Com isso Comenius se adianta ao
tempo e antecipa a idéia de escola democrática. Segundo ele os pais raramente têm tempo
para educar seus filhos; dessa forma, é preciso ter pessoas que exerçam apenas essa
profissão. Além disso, é importante que tenham estudos em grupo mais numerosos, para
haver troca de aprendizagens. Isso era inovador para a época.
O autor também chama a atenção para a importância dos exemplos de quem
ensina, pois, o que é visto fica gravado de maneira muito mais forte do que aquilo que é
ensinado através de regras.
Para Comenius, a mulher também deveria ser instruída. Ele faz duras críticas
aos apóstolos e estudiosos que até àquele momento não haviam defendido essa
oportunidade às mulheres. Consideramos que a discussão dessa questão naquela época foi
um grande avanço.
A concepção de ensino-aprendizagem para Comenius propõe ensinar a toda
juventude, todas as coisas que podem tornar o homem sábio e que esta formação seja
preparação para a vida.
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Deve-se buscar na natureza a forma de ensinar e o porquê ensinar (p. 129). Se


seguirmos a orientação da natureza, observando como ela procede para fazer qualquer coisa
e tendo-a como guia, não é possível errar (p. 131). O professor deve dominar todos os
saberes, porém deve valorizar o conhecimento do aluno e aprender com ele. Em várias
passagens do texto o autor chama a atenção para que o ensino aconteça de maneira
prazerosa. Ele observa que muitas vezes aquilo que poderia ser ensinado de maneira doce e
clara – em um só ano –, é ensinado de forma violenta, atochada, amontoada, obscura,
incerta, intricado e por meio de enigmas, levando até cinco anos para essa aprendizagem;
além disso, essa aprendizagem não passa de vãs papagaiadas e com opiniões que têm
consistência de palha e de fumaça (p. 106). Esse “desperdício” – de tempo, ensino-
aprendizagem –, pode advir dos métodos utilizados. Que as crianças sejam educadas com
um método mais fácil, não só para que não se afastem da escola, mas, ao contrário, para
que se sintam seduzidas pelo estudo, e tenham prazer ao estarem ali.
Com a modificação das escolas é possível que todos sejam educados para uma
cultura não vistosa, mas verdadeira, não superficial, mas sólida, de maneira que o homem
seja guiado por si e não pelos outros e assim sendo, penetrar na raiz das coisas e delas
extrair autêntico conhecimento e utilidade. É certo que se pode conduzir qualquer pessoa a
qualquer altura, dispondo de degraus bem feitos, íntegros, sólidos e seguros. Portanto, a arte
de ensinar não exige mais que uma disposição tecnicamente bem feita do tempo, das coisas
e do método.
A base epistemológica do método de ensino-aprendizagem de Comenius deve
ser inspirada na natureza, pois seu modo de proceder serve como exemplo para o ser
humano. Seu método de ensino é ensinar a todos a conhecer os fundamentos, as razões – o
porquê –, e os objetivos de tudo o que é principal, que existe ou existirá (p. 95). Dessa
forma, é preciso ensinar a todos todas as coisas que digam respeito ao homem, ainda que
depois uma delas venha a ser mais útil a um, e outra ao outro.
No plano da prática didática, Comenius trabalhou com a pesquisa e a
valorização de todas as metodologias. Elaborou o Orbis pictus (mundo ilustrado), manual
concebido como Atlas científico ilustrado, com o objetivo de que junto com as palavras, as
crianças percebessem as imagens das coisas, e chegar por meio das impressões sensíveis
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aos conhecimentos gerais; e da Schola ludus, texto que utiliza a didática da dramatização,
fazendo as crianças recitarem ativamente os personagens da história. Escreveu também
Janua Linguarum (A porta aberta das línguas), na qual se une a aprendizagem das palavras
com o conhecimento dos objetos ou coisas que se referem. Foi considerada uma verdadeira
enciclopédia do conhecimento humano. Essas referências nos propõem a pensar que estava
aí lançado o primeiro esboço do livro didático.
O homem é ator e não só espectador. É preciso garantir que ninguém no mundo
jamais depare com alguma coisa que lhe seja tão desconhecida, que não consiga emitir um
juízo moderado sobre ela ou dela fazer uso adequado, sem erros nocivos1. A essência da
alma é composta por três faculdades: intelecto, vontade e memória. Para que essas
faculdades cumpram suas tarefas, faz-se necessário instruí-las nas coisas que iluminam o
intelecto, dirigem a vontade e estimulam a consciência. A base da educação deve ser
teológica.
Consideramos que retornar a Comenius é progredir porque os vários
fundamentos propostos por ele mostram sua contemporaneidade. Ao abordar alguns
requisitos para alcançar os objetivos ao ensinar e aprender, ele aborda assuntos
diferenciados, tais como: diferentes métodos para ensinar, fracasso escolar, atenção, castigo
e recompensas, importância das imagens, espaço físico entre outras. Dentre suas inovações,
as que mais se destacaram foram as considerações das capacidades de adequação às
questões infantis, visto que caracterizava a especificidade do ensino para a infância, a
preocupação com a noção de ensino para as crianças e a sistematização do conhecimento.
Ele divide os anos de desenvolvimento, de sei anos cada, em quatro períodos: infância,
puerícia, adolescência e juventude. Faz referência que em cada período necessita de uma
forma de educação própria. Comenius indica programa adequado de matérias e de
exercícios para cada uma das instituições educacionais... Quanto a escola primária, afirma
que além de aprender leitura, escrita, cálculo, medição; aprendam a cantar melodias . Na
ordem econômica e política, o principal da cosmografia e o mais geral das artes mecânicas.
Isso significa que era necessário aprender o que era útil para a vida inteira.

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O acidente com o césio, em Goiânia, é uma prova disso: caso os catadores de lixo conhecessem o símbolo
de radioatividade, a tragédia poderia ter sido evitada.
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O autor aponta nove princípios em relação ao ato de aprender e ensinar,


comparando-os à natureza, tais como:
• observar a natureza a qual aguarda o momento propício e gradual para que as
coisas aconteçam. Dessa forma, a escola também precisa saber o momento certo
para ensinar. A criança não pode ser instruída enquanto for pequena demais, porque
a raiz de sua inteligência ainda se encontra escondida, e nem o homem na velhice,
pois é tardio demais e a inteligência e a memória começam a arrefecer. Assim
sendo, a formação do homem deve ser durante a infância, a juventude e a
virilidade;
• a natureza prepara a matéria antes de começar a introduzir-lhe a forma. As escolas
contrariam esse princípio, pois não cuidam previamente do material a ser utilizado.
É preciso observar a ordem natural dos livros escolares e ter prontos todos os
instrumentos didáticos. As palavras são ensinadas antes das coisas, isto é, as
mentes ficam empenhadas nas artes dissertativas, e só depois, são lhes apresentadas
as ciências reais, como a matemática, a física entre outras. Que o intelecto seja
formado antes da língua (p. 150). No ensino das línguas é preciso apresentar
autores apropriados e não começar a partir da gramática. As artes deverão vir em
primeiro lugar, e as ciências e as aplicações seguem a certa distância. Os exemplos
devem preceder as regras;
• a natureza toma um indivíduo apto e prepara-o antes, oportunamente. As escolas
devem aceitar todas as crianças e que não saiam delas antes que a educação se
complete. Quem ingressar deve ser perseverante. É preciso predispor as mentes
para os estudos e devem ser afastados dos estudantes todos os tipos de obstáculos;
• a natureza não procede de modo confuso, mas claro. A escola não pode preocupar
somente com a quantidade dos conteúdos que for trabalhar com os estudantes, isto
é, abarrotar as mentes dos alunos com muitos conhecimentos ao mesmo tempo.
Erram os instrutores que queiram levar a cabo a formação da juventude ditando
muitas coisas e obrigando a decorá-las, sem uma cuidadosa explicação (p. 154);
• a natureza começa todas as operações das partes mais internas. Portanto, o
educador tem que cuidar, sobretudo da raiz da ciência, ou seja, do intelecto, o vigor
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passará facilmente pelo tronco, que é a memória: a seguir nascerão as flores e os


frutos, o uso fluente da língua e a prática das coisas;
• a natureza inicia todas as suas formações pelas coisas mais gerais e acaba pelas
mais particulares. O ensino da ciência será mal conduzido se for particularizado.
Não é possível instruir ninguém perfeitamente numa única ciência sem relacioná-la
com as outras. Desde o primeiro momento as bases dos estudos devem ser
universais. Que qualquer língua possa ser ensinado através de rudimentos simples,
para se ter uma idéia geral e depois se aprimorar o estudo através de regras;
• a natureza não procede por saltos, mas gradualmente. As matérias de ensino
devem ser divididas de forma que uma sucede naturalmente a outra. Que as
primeiras aplanem e iluminem o caminho das seguintes. O tempo também deve ser
bem distribuído para que a cada período seja atribuído uma tarefa particular, e nada
seja esquecido;
• depois de iniciada uma obra, a natureza não interrompe, mas conclui. É preciso
aprofundar com seriedade nos estudos e freqüentar a escola até a formação
necessária. A escola deve ser lugar tranqüilo, distante das distrações e barulhos.
Não deve permitir a distração durante as aulas;
• a natureza está sempre atenta para evitar as coisas contrárias e nocivas. Não se
devem dar livros diferentes do usado pelo aluno. Esses livros devem ser bem feitos,
para que possam despertar sabedoria, virtude e piedade. Não devem ser toleradas as
más amizades na escola ou nas suas imediações.
A principal contribuição de Comenius foi sobre seu método. Mesmo
seguindo a tradição humanista realista, aperfeiçoou-a e estruturou-a de maneira insuperável.
Estabelece nove regras para o ensino das ciências. O que se ensine deve ensinar o que
cumpre saber: como coisas presentes de uso determinado; diretamente e sem rodeio algum;
tal como é, a saber, por suas causas; apresentar-se primeiramente de modo geral e, depois,
por partes; examinar todas as partes do objeto, ainda as mais insignificantes, sem omitir
qualquer uma, levadas em conta a ordem, lugar e relação de uma com as outras; deter em
cada coisa até compreendê-la; uma por vez, sucessivamente; explicar bem as diferenças das
coisas, para obter conhecimento claro e evidente de todas.
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Em relação às Artes, isto é, à prática, estabelece também uma série de normas:


o que se deve fazer deve-se aprender fazendo; deve haver sempre forma e norma
determinada para o que se deve fazer; o emprego de ferramentas deve-se ensinar com
ferramentas, não com palavras. O homem é ator e não só espectador. Os exercícios devem
começar com rudimentos, não com trabalhos sérios; os alunos devem exercitar-se em
matérias conhecidas; a imitação deve, a princípio, muito fiel, depois poderá ser mais livre;
deve cuidar-se seja a forma do que se fizer mais perfeita possível.
Quanto às línguas, também estabeleceu algumas regas: ser paralelo ao
conhecimento das coisas, não se deve aprender vocábulos separados; para formar a um
tempo o entendimento e a linguagem, deverão propor-se às crianças coisas infantis,
deixando para a idade adulta o próprio dela; toda língua deve aprender-se mais pelo uso que
por meio de regras.
São abordados dez princípios fundamentando a facilidade de ensinar e
aprender. Dentre eles destacaremos alguns que consideramos muito contemporâneos.
• é indispensável despertar nas crianças o amor pelo saber e pelo aprender. Um bom
método de estudo diminui o cansaço do aprendizado, e este deve ser, sobretudo
natural, pois o que é natural progride espontaneamente. O amor pelos estudos deve
ser despertado pelos pais, pelos professores, pela escola, pelas próprias coisas, pelo
método, pelas autoridades. Fica explícito a responsabilidade de todos no ato de
educar;
• valorizar o professor e o professor aos alunos. Percebemos a importância da
relação professor-aluno;
• o ambiente físico da escola deve ser agradável, bonito e envolvente;
• toda arte deve encerrar-se de maneira breve, mas exata. As regras devem ser claras
e exemplificadas para melhor esclarecimento de seu uso;
• o tempo de estudo não pode ser estressante para o estudante, mas proporcional à
capacidade e a idade. Cada coisa em seu tempo. Deve-se tolerar a fraqueza
enquanto o vigor não chega;
• fazer o máximo uso dos sentidos – sentir, pensar e fazer –;
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• não se deve abandonar um assunto enquanto esse não estiver bem entendido. O
que for mais importante da matéria ensinada, que seja apresentada nas paredes da
sala de aula.
Comenius não deixou de enfocar sobre o fracasso escolar. Ele afirma que não
pode encontrar os remédios se não tiver encontrado as causas dos males, e essa é uma das
questões que têm contribuído para o retardo do progresso da escola, a tal ponto que muitos
que passam a vida sentados nos bancos escolares, não têm sido capazes de penetrar a fundo
nas ciências e nas artes. Segundo ele, uns poucos saem da escola com instrução sólida,
enquanto a maioria sai apenas com verniz superficial. Observamos, atualmente, a
preocupação das instituições governamentais em elevar os índices de aprovação nas
estatísticas, sem perceber que esses estudantes, muitas vezes, têm saído da escola com um
conhecimento superficial. A escola não pode se perder em coisas supérfluas, porém, sua
finalidade é ocupar os jovens com coisas sérias.
Outra questão abordada pelo autor é a importância do aprofundamento em um
autor estudado. É preciso mostrar as coisas como são por si e em si, e não ficar saltando de
um autor para outro, respingando frases, máximas, opiniões de muitos acerca de muitas
coisas. Faz-se necessário ensinar os estudantes ver com seus próprios olhos. É preciso ter
metas no ensino e saber onde se quer chegar.

Conclusão
As mudanças da Era Moderna se deram em dois contextos fundamentais – a
Reforma e Contra-reforma –, e conseqüentemente a nova forma de pensar interferiu na
concepção de educação, mudando muitos aspectos no processo educacional, visto que até
então a visão de mundo e de mentalidade do contexto educacional era marcado pela tirania
do cristianismo católico. Nesse bojo de mudanças, surgem as “novas mentalidades”, que
sistematizam essas mudanças. Dentre elas, Comenius foi considerado um marco nesse
contexto. Ele enfatiza a reforma da condição humana e alerta para não separar o problema
da cultura e da educação do problema da política e da religião. Mesmo sendo religioso,
Comenius vai além dos preceitos religiosos estabelecidos na época. Seus pensamentos são
autônomos e muitas vezes opostos aos da Igreja, além de ter compromisso com o método
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científico, quando aborda sobre o livre-arbítrio, dizendo que as pessoas não são moldadas.
Dessa forma ele tira das mãos da Igreja e do professor e autoridade e a condição de moldar
plenamente o indivíduo. Mesmo trabalhando e falando para as massas, ele tinha
preocupação com a construção reconstituição do indivíduo.
Foi por meio de seus estudos, sobre o desenvolvimento cumulativo que se inicia
a interação com a abordagem cerebral, o que na época, era completamente novo.
Acreditamos que Comenius não é apenas um didata ou um pedagogo, porém
um pensador e reformador. Foi considerado revolucionário porque acreditava na idéia da
difusão do conhecimento para a emancipação do sujeito, acreditava no conhecimento como
serviço de transformação da realidade. Sua idéia era chegar a à harmonia e fraternidade dos
homens, à superação das diferenças políticas e religiosas. Lançou bases para a educação
nova, mesmo sendo, suas idéias, consideradas tradicionais, representam um grande avanço
para o ensino daquela época, bem como nos dias atuais. Seu projeto foi enriquecido com
temas práticos, deixando de ser somente “livresco”. Rejeitava as “especulações aéreas”,
trabalhava com a experimentação concreta das coisas, o uso mecânico e prático das
ciências, e com sugestões para freqüentar os estaleiros navais e até os lugares do comércio
de câmbio, visando não somente pensar, falar, mas também agir e negociar. Para analisar
sua obra é preciso também analisar a pedagogia da teologia, visto que propõe integrar a
ciência e a fé. Mesmo que toda proposta de Comenius estava submetida a uma visão de
Deus, afirmamos que seus esforços não podem, de modo algum, serem desprezados.

Referência

COMENIUS, Jan Amós. A Didática Magna: tratado da arte universal de ensinar tudo a
todos. São Paulo: Martins Fontes, 2002. p. 390.