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1. Igualdade de quê?

1.1. Por que igualdade? Que igualdade?


1.2. Imparcialidade e igualdade
1.3. Diversidade humana e igualdade basal
1.4. Igualdade versus Liberdade?
1.5. Pluralidade e o alegado vazio de conteúdo
1.6. Meios e liberdades
1.7. Distribuição de renda, bem-estar e igualdade
2. Liberdade, realização e recursos
2.1. Liberdade e escolha
2.2. Renda real, oportunidades e seleção
2.3. Liberdade distinguida de recursos
3. Funcionamentos e capacidades
3.1. Conjuntos capacitários
3.2. ‘Objetos-valor’ e espaços de avaliação
3.3. Seleção e ponderação
3.4. Incompletude: fundamental e pragmática
3.5. Capacidade ou funcionamentos?
3.6. Utilidade vis-à-vis capacidade
4. Liberdade, condição de agente e bem-estar
4.1. Bem-estar vis-à-vis condição de agente
4.2. Condição de agente, instrumentalidade e efetivação
4.3. A liberdade pode conflitar com o bem-estar?
4.4. Liberdade e escolhas desvantajosas
4.5. Controle e liberdade efetiva
4.6. Estar livre da fome, malária e outras enfermidades
4.7. A relevância do bem-estar
5. Justiça e capacidade
5.1. A base informacional da justiça
5.2. Justiça rawlsiana e a concepção política
5.3. Bens primários e capacidades
5.4. Diversidades: fins e características pessoais
6. Economia do bem-estar e desigualdade
6.1. Escolha do espaço e propósito da avaliação
6.2. Insuficiências, aproveitamentos e potenciais
6.3. Desigualdade, bem-estar e justiça
6.4. Avaliação da desigualdade baseada no bem-estar
7. Pobreza e afluência
7.1. Desigualdade e pobreza
7.2. A natureza da pobreza
7.3. Nível baixo vis-à-vis inadequação de rendas
7.4. Os conceitos fazem diferença?
7.5. Pobreza em países ricos
8. Classe, sexo e outros grupos
8.1. Classe e classificação
8.2. Sexo e desigualdade
8.3. Contrastes inter-regionais
9. As exigências da igualdade
9.1. Perguntas sobre a igualdade
9.2. Igualdade, espaço e diversidade
9.3. Pluralidade, incompletude e avaliação
9.4. Dados, observações e liberdades efetivas
9.5. Agregação, igualitarismo e eficiência
9.6. Defesas alternativas da desigualdade
9.7. Incentivos, diversidade e igualitarismo
9.8. Sobre a igualdade como uma consideração social
9.9. Responsabilidade e eqüidade
9.10. Capacidade, liberdade e motivação
1. Igualdade de quê?

1.1. Por que igualdade? Que igualdade?


As duas questões fundamentais, distintas mas interdependentes.
A pergunta (1) nesta análise assemelha-se muito com a pergunta ‘mais ordinária’ (2)
Mas há aqui uma questão mais substantiva:
Toda teoria normativa do ordenamento social que tenha resistido ao teste do tempo parece exigir a
igualdade de algo.
Ex:
Filosofia política:
Rawls (igual liberdade e igualdade na distribuição de ‘bens primários’)
Dworkin (‘tratamento como iguais’, ‘igualdade de recursos’)
Nagel (‘igualdade econômica’)
Scanlon (‘igualdade’)
Utilitaristas modernos: ‘dar peso igual a interesses iguais de todas as partes’ (Hare) ou ‘atribuir sempre o
mesmo peso aos interesses de todos os indivíduos’ (Harsanyi)
Mas,
Há até nos anti igualdade e justiça redistributiva
Ex:
Nozick, ‘igualdade de direitos libertários’, ie, nenhuma tem mais direito à liberdade que outra.
Buchanan, tratamento político e legal iguais.

- O que dizer do utilitarismo?


Certamente,
Não querem a igualdade das utilidades desfrutadas por diferentes pessoas
Porque: fórmula utilitarista: ‘maximização da soma total das utilidades de todas as pessoas tomadas em
conjunto, e isso não é igualitário.
A igualdade está em: assumir a forma do tratamento igual dos seres humanos no espaço de ganhos e
perdas de utilidades; há pesos iguais dos ganhos de utilidade.
Portanto, o fundamento igualitário é parte bastante central do exercício utilitarista inteiro.

- conclusões até aqui:


a) ser igualitário não é realmente uma característica unificadora; as diferenças estão em que o termo
‘igualdade’ é definido como igualdade num espaço particular.
b) querer a igualdade de alguma coisa é, sem dúvida, uma semelhança de algum tipo, mas esta
semelhança não coloca os grupos combatentes do mesmo lado. Só mostra que a batalha não é, num
sentido importante, sobre ‘por que a igualdade?’, mas sobre ‘igualdade de que?’.

- limite do uso do termo ‘igualitarismo’:


É importante reconhecer o alcance limitado de seu uso e também o fato de que exigir a igualdade num
espaço pode fazer com que seja antiigualitário em algum outro espaço, cuja importância comparativa na
avaliação global tem de ser apreciada criticamente.

1.2. Imparcialidade e igualdade

- Podemos ainda perguntar:


Há necessidade de haver uma exigência de igualdade em algum espaço importante ou outro?
Bem,
A pergunta não é tanto se deve haver, por razões estritamente formais (tais como a disciplina da
‘linguagem da moral’), igual consideração por todos, em algum nível, em todas as teorias éticas do
ordenamento social.
O interesse é mais na questão de se as teorias éticas devem ter este traço básio de igualdade para serem
substantivamente plausíveis no mundo em que vivemos.
- resposta:
Creio ser possível sustentar que...
Para possuir algum tipo de plausibilidade, o raciocínio ético sobre problemas sociais deve envolver a
igual consideração elementar por todos em algum nível visto como crítico. A ausência de tal igualdade
faria uma teoria ser arbitrariamente discriminatória e difícil de ser defendida.
Talvez isso se deva ao fato de que...
O raciocínio ético, especialmente sobre ordenamentos sociais, tenha de ser, em algum sentido, acreditável
ao ponto de vista dos outros – potencialmente todos os outros.
(existem alguns elementos kantianos nesta linha de raciocínio, ainda que a igualdade exigida não necessite ter uma estrutura
estritamente kantiana)

- conseqüência disso tudo é:


Aceitar a necessidade de justificar vantagens disparatadas de diferentes indivíduos em coisas que
importam. Essa justificação consiste com freqüência em mostrar a conexão integral dessa desigualdade
com a igualdade em algum outro espaço importante – alegadamente mais importante. (núcleo vs periferia)

1.3. Diversidade humana e igualdade basal

- diferença entre os humanos:


Características externas (ambientais e sociais) e circunstanciais (características pessoas, ex. idade, sexo,
aptidões físicas e mentais)
Vantagens e desvantagens relativas
- problema da escolha do ‘espaço de avaliação:
Devido à pluralidade de variáveis focais. Assim, a escolha do espaço de avaliação é a seleção das
variáveis focais relevantes.
- As diferenças de foco são particularmente importantes devido à diversidade humana generalizada.
Pois, fossem as pessoas exatamente similares, a igualdade num espaço coincidiria com as igualdades de
outros.
Uma das conseqüências da ‘diversidade humana’ é que a igualdade num espaço tende a andar, de fato,
junto com a desigualdade noutro.
- a questão importante aqui é a da natureza da estratégia para justificar a desigualdade por meio da
igualdade. (isso por que a pretensão à desigualdade ser correta é defendida razoavelmente, por
argumentos)
Ie, os argumentos cruciais têm de ser sobre a razoabilidade das ‘bases’ escolhidas.
Assim....
Igualdade de quê? = ‘qual é o espaço correto para a igualdade basal?’

1.4. Igualdade versus Liberdade?

- de fato, a posição de alguém no suposto conflito entre igualdade e liberdade tem sido vista amiúde como
um bom indicador da sua atitude geral com respeito à filosofia política ou à economia política:
Ex.; Pensadores libertários vs pensadores igualitários
- mas, é errado.
Libertários: consideram importante ter liberdade
Daí: quem, quanta, distribuída como, quão igual?
E assim, o problema da igualdade aparece imediatamente como um complemento da afirmação da
importância da liberdade. ‘liberdade igual’
- liberdade vs igualdade é um ‘erro de categoria’. Elas não são alternativas
A liberdade está entre os possíveis campos de aplicação da igualdade, e a igualdade está entre os
possíveis padrões de distribuição da liberdade.

1.5. Pluralidade e o alegado vazio de conteúdo

- o reconhecimento da pluralidade de espaços faz com que a igualdade, como idéia política, seja menos
robusta ou imperativa? Se é possível que a igualdade fale por meio de tantas vozes, podemos levar a sério
alguma de suas exigências?
- a tese do vazio de conteúdo é errônea. Porque:
a) o requisito geral da necessidade de valorar a igualdade em algum espaço que é visto como
particularmente importante não é uma exigência vazia, pois é no mínimo um requisito de escrutínio da
base do sistema de avaliação proposto. A igualdade é um requisito substantivo e substancial
b) uma vez fixado o contexto, a igualdade pode ser uma exigência rigorosa e vigorosa, pois uma vez o
espaço esteja fixado, impõem-se um ranking. Embora não nos leve necessariamente a uma única
caracterização precisa das exigências de igualdade que seja importante em todos os contextos, em cada
contexto as exigências de igualdade podem ser tanto distintas quanto forçosas.
c) a diversidade de espaços nos quais a igualdade pode ser exigida realmente reflete uma diversidade mais
profunda, que é a dos diferentes diagnósticos dos objetos portadores de valor – visões diferentes sobre as
noções apropriadas da vantagem individual nos contextos em questão.
- essa mesma pluralidade se reflete em visões diferentes não só da igualdade mas também de qualquer
outra noção social, em cuja base informacional a vantagem individual ingresse substancialmente.
Ex.: noção de eficiência: a vantagem da pessoa tem que ser definida, daí necessária escolha do espaço, da
variável focal.
- a pluralidade de espaços em que a igualdade pode ser considerada reflete uma questão mais profunda,
que é a da pluralidade relativa à noção apropriada de vantagem individual em comparações sociais.

1.6. Meios e liberdades


- a relação entre bens primários, de um lado, e liberdade assim como bem-estar, de outro, pode variar com
as variações interpessoais e intergrupais de características específicas.
- as desigualdades em diferentes ‘espaços’ podem ser bastante diferentes umas das outras, dependendo
das variações interpessoais nas relações entre variáveis distintas mas interconectadas. (a pessoa 1 pode ter
mais utilidade que 2 e 3, enquanto que 2 tem mais renda que 1 e 3, e 3 é livre para fazer muitas coisas que
1 e 2 não podem).
- alguns dos problemas do igualitarismo surgem precisamente por causa do contraste entre a igualdade
nos diferentes espaços.
Ie, a ética da igualdade tem que levar em conta adequadamente nossas diversidades generalizadas, que
afetam as relações entre os diferentes espaços. A pluralidade das variáveis focais pode fazer uma grande
diferença precisamente devido à diversidade dos seres humanos.

1.7. Distribuição de renda, bem-estar e igualdade

- problema importante surge da discussão sobre a desigualdade de rendas como o foco primário da
atenção na análise da desigualdade.
Ora, a extensão da desigualdade real de oportunidades não pode ser prontamente deduzida da magnitude
da desigualdade de rendas
- isso se deve...
Não somente ao fato de que.. a renda é somente um meio para fins a que na realidade visamos
Mas (1) da existência de outros meios importantes e (2) das variações interpessoais na relação entre
meios e nossos vários fins.
Tem que se avaliar a capacidade da pessoa de converter a renda em bem-estar e liberdade (conversão de
recursos).
- há informações sobre outros espaços a serem incluídas, e isso...
Tanto para (1) o propósito de avaliar a desigualdade nesses espaços mesmos; qto para (2) avaliar a
desigualdade de renda num esquema mais amplo, considerando a presença de outras influências sobre o
objetivo.

2. Liberdade, realização e recursos

2.1. Liberdade e escolha


- duas formas de julgar a posição de uma pessoa num ordenamento social:
1) pela realização de fato conseguida
2) pela liberdade para realizar
A realização liga-se ao que conseguimos fazer ou alcançar, e a liberdade, à oportunidade real que temos
para fazer ou alcançar aquilo que valoramos.
- realização:
Podemos julgar a realização por diferentes modos, como:
a) por meio da utilidade (prazeres obtidos ou desejos satisfeitos)
b) pela opulência (rendas ganhas ou consumos usufruídos)
c) por meio da qualidade de vida (medidas de padrão de vida)
independente do que se escolha, há uma questão principal:
distinção entre (1) extensão da realização e (2) a liberdade para realizar.
- utilitarismo:
Tem tratado apenas da realização, atribuindo à liberdade para realizar apenas uma importância
instrumental – como meio para realizações de fato conseguidas.
Caracteriza-se então por:
(1) limitar as comparações interpessoais para a avaliação social a realizações apenas
(2) identificar as realizações com as utilidades realizadas.
Funções de Bergson-Samuelson:
Atribuem valor à liberdade individual apenas indiretamente, como meio para realizações.
Arrow (teoria da escolha social):
Igualmente, direcionando-se para as preferências individuais sobre estados de coisas, em vez de
considerar a liberdade de escolha dentre estados de coisas. Mas muito depende de como os estados são
caracterizados – em particular se as escolhas disponíveis para mover-se a outros estados são tomadas
como parte de cada estado particular.

-crítica ao foco exclusivo nas realizações:


A favor de basear-se na avaliação política nos meios para realização (Rawls, Dworkin)...
E isso pq os meios na forma de recursos aumentam a liberdade para realizar, indo em direção portanto da
apreciação da liberdade.

- problema da conversão:
Igualar a propriedade de recursos ou parcelas de bens primários não necessariamente iguala as liberdades
substantivas usufruídas por pessoas diferentes.
Assim, problema da conversão é importante, ainda mais quando as realizações em questão são
influenciadas por intricadas relações e interações intragrupais.

- problema da extensão da liberdade:


Passagem do enfoque na realização para o dos meios para realização não é suficiente para abarcar o
problema da extensão da liberdade.
Assim...
Se
Nossa preocupação é com a liberdade como tal
Então
Não existe saída senão procurar uma caracterização da liberdade na forma de conjuntos alternativos de
realizações que temos o poder de realizar.

Mas antes, tratemos de outro aspecto da distinção realização-liberdade relacionados com a teoria
econômica padrão.

2.2. Renda real, oportunidades e seleção

-análise da renda real:


Duas interpretações:
1) a avaliação da renda pode ser vista como a avaliação do benefício que uma pessoa recebe de um pacote
particular de mercadorias que adquire: ‘x é um pacote melhor para essa pessoa do que y?’
A comparação é diretamente da natureza dos pacotes selecionados, e assim podemos chama-la de ‘visão
da seleção’
2) o foco pode não estar somente sobre os pacotes particulares comprados, mas sobre o conjunto de todos
os pacotes que a pessoa poderia ter comprado com aquela renda: ‘o conjunto orçamentário A dá a essa
pessoa um conjunto melhor de opões do que o conjunto orçamentário B?’
Esta pode ser denominada de ‘visão das opções’

- o uso da visão das opções:


Toma forma na seguinte afirmação: ‘escolher x de um conjunto A é superior a escolher y de um conjunto
B se A oferecer inter alia, a possibilidade de escolher y também.’
Esta é uma abordagem de ‘preferência revelada’ nas comparações de renda real.

- o uso da visão de seleção:


Comparação dos pacotes x e y, e isso é feito pressupondo-se uma estrutura particular de preferências
(especificamente e convexidade – em essência, taxas marginais não crescentes de substituição).

- as duas abordagens dão resultados similares em comparações de rendas reais sob hipóteses usuais, mas
(1) envolvem estratégias bem diferentes; (2) conduzem a resultados diferentes quando as hipóteses usuais
(ex.: mercados competitivos) são omitidas.
Mas aqui,
Estamos interessados nas diferenças entre as duas estratégias... em particular entre comparar opções e
comparar diretamente a bondade de pacotes selecionados.
- é possível estender a análise lógica das comparações de opções usada pela abordagem da preferência à
atribuição de importância intrínseca à liberdade de escolha em si mesma
Assim...
Visão da seleção  a bondade dos pacotes de mercadoria selecionados
Visão da opção  compara extensões da liberdade de escolha

2.3. Liberdade distinguida de recursos

- liberdade vs meios para a liberdade:


Comecemos vendo a distinção no contexto do consumo de mercadorias:
O ‘conjunto orçamentário’ representa a extensão da liberdade da pessoa neste espaço, ie, a liberdade de
lograr o consumo de vários pacotes alternativos de mercadorias.
Este conjunto é derivado com base nos recursos da pessoa.
Recursos do conjunto orçamentário (meios para a liberdade) vs conjunto orçamentário (extensão da
liberdade)
- de fato, é válido o enfoque no controle individual de recursos (Rawls)
Mas o hiato entre recursos que nos auxiliam a conseguir a liberdade e a extensão da liberdade em si é
importante em princípio e pode ser crucial na prática.
Assim
A liberdade tem de ser distinguida não apenas da realização mas também de recursos e meios para a
liberdade.

- no momento em que desvaimos a atenção do espaço de mercadorias para o espaço daquilo que uma
pessoa pode, de fato, fazer ou ser (ou que tipo de vida uma pessoa pode levar), o mais importante, as
fontes de variações interpessoais na conversão, podem ser numerosas e potentes.

Se estamos interessados na liberdade de escolha, então temos de considerar as escolhas que uma pessoa
de fato tem, e necessitamos pressupor que os mesmos resultados seriam obtidos levando-se em conta os
recursos sobre os quais essa pessoa tem controle.