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ABIM 005 JV Ano XI - Nº 91 - Nov/17

“Embora os caminhos sejam diversos, não são


poucas as pessoas que os confundem com atalhos,
na esperança de encurtar a jornada e... vão se
perder em cerrados abrolhos”.
JHS
Editorial
M
ais do que difundir a cultura maçônica aos
nossos diletos quase 29 mil leitores, através
da publicação de artigos, criteriosamente,
selecionados, nossa Revista tem tido um papel
importantíssimo, no que se refere ao estímulo ao
estudo e à pesquisa. Em meio a esses dedicados
pesquisadores, muitos vêm se descobrindo na
arte de escrever e nos brindado com matérias de
extrema relevância, colaborando com a excelência da
produção deste periódico.

Vimos recebendo diversas mensagens


expressando considerações e críticas quanto aos
textos publicados, assim como elogios pelo altruísmo Já da lavra do Nobre Irmão Rogério Vaz de
desse nobre trabalho de livrar os irmãos dos grilhões Oliveira, Relações Públicas e Especialista da História
da ignorância. À guisa de uma gota no oceano, da Maçonaria, membro das Academias Maçônicas de
temos, humildemente, feito nossa parte, certos de Letras, do Rio Grande do Sul, e do leste de Minas,
que estamos fazendo parte da solução e não do apresentamos um artigo de pesquisa histórica, sobre
problema. o “Herói dos Dois Mundos”, Giuseppe Garibaldi.
Diante de um volume expressivo de matérias Compilamos um texto, que recebeu o título
que nos são enviadas, buscamos, após prévia “As Cordas e os Nós na Maçonaria Simbólica”,
seleção, publicá-las a cada edição. Com isso, temos com base no artigo “A Corda de 81 Nós – Uma
enriquecendo consideravelmente nossa Revista com Visão Operativa”, de autoria dos Irmãos Lincoln
abordagens de diferentes óticas sobre os temas mais Gerytch, Sérgio K. Jerez e Ulisses Pereira da Silva
diversos. Desde o Irmão com mais tempo, graus e Massad, membros da Loja Nova Esperança, 132 –
títulos em nossa Ordem, até o mais novo Aprendiz Oriente de São Paulo – GLESP, publicado no site
recebem a mesma atenção, desde que seu texto www.bibliot3ca.wordpress.com que, em muito, irá
seja relevante e possa influenciar, positivamente, na enriquecer o conhecimento de todos sobre o tema.
aquisição de conhecimento para os nossos leitores.
Confirmando com o que acima dissemos
Com isso, nesta edição, como de praxe, sobre a forma com que selecionamos as matérias,
selecionamos as matérias entendendo que as apresentamos um artigo intitulado “A Origem da
mesmas possam auxiliar nossos leitores em sua Maçonaria”, um trabalho de pesquisa, muito bem
caminhada maçônica, na busca de ensinamentos. A elaborado, uma síntese do trabalho original, que
exemplo, apresentamos um trabalho de autoria do nos foi enviada por seu autor, nosso Irmão Aprendiz
irmão Lindomar Furniel, da Loja Maçônica Alpha e Maçom Leonardo Becker Pavani, do Oriente de
Ômega nº 3402, do Oriente Uberlândia – GOB-MG, Araranguá-SC, pertencente à Loja Perseverança e
com base em compilações da entrevista da jornalista Fidelidade nº 2968 – GOB-SC.
da Assessoria de Imprensa da EMOP – Empresa de
Obras Públicas do Estado do Rio de Janeiro, Sheila Agradecemos, penhoradamente, a
Sacks, ao ilustre Irmão Leon Zeldis, intitulado “A participação de todos e continuem nos ajudando a
Maçonaria na Terra Santa”. fazer a nossa Revista Arte Real!

A Revista Arte Real é um periódico maçônico virtual, fundado em 24 de fevereiro de 2007, de periodicidade
mensal, distribuído, gratuitamente, pela Internet, atualmente, para 33.154 e-mails de leitores cadastrados,
no Brasil e no exterior, com registro na ABIM - Associação Brasileira de Imprensa Maçônica, sob o nº 005
JV, tendo como Editor Responsável o Irmão Francisco Feitosa da Fonseca, 33º - Jornalista MTb 19038/MG.
www.revistaartereal.com.br - redacao@revistaartereal.com.br - Facebook RevistaArteReal -  (35) 99198-7175 Whats App.
A Origem da Maçonaria Leonardo Pavani

A
constituição do Grande Oriente do Brasil, Maçonaria Especulativa, pela formação da primeira
no “caput”, de seu artigo primeiro, conceitua potência maçônica do mundo, a Grande Loja da
a Maçonaria como sendo uma “instituição Inglaterra.
essencialmente iniciática, filosófica, filantrópica,
Para alguns, a linha de raciocínio para a origem
progressista e evolucionista”. Entre os incisos do
da Ordem é simples: ela é tão antiga quanto sua
parágrafo único, consta que a Maçonaria “proclama
história documentada. Da fundação da Grande Loja da
a prevalência do espírito sobre a matéria. Pugna
Inglaterra, em 1717 em diante, a Ordem tem sido franca
pelo aperfeiçoamento moral, intelectual e social da
em relação a sua existência, apenas, os métodos de
humanidade, por meio do cumprimento inflexível do
reconhecimento mútuo têm sido afastado do olhar do
dever, da prática desinteressada da beneficência e da
investigação constante da verdade (CONSTITUIÇÃO,
2007:3).” Seus fins supremos são: “Liberdade,
Igualdade e Fraternidade”.

A Inglaterra atingiu o auge do seu


desenvolvimento durante o Século XVII, sendo
favorecido pela monarquia, e pela unificação do país,
realizada por Henrique VIII e Elizabeth I. A Inglaterra
influenciou, em diversos setores, os demais países,
não diferentemente aconteceu com a Maçonaria. A
origem da Maçonaria Moderna que, segundo a escola
do pensamento maçônico, chamada autêntica, deu-se
na Inglaterra, em duas fases: a Maçonaria Operativa,
formada pelas corporações, ou guildas de profissionais
da arte da construção, depois, transformando-se na
Maçonaria Especulativa, formada por Maçons Aceitos,
os quais eram profissionais de outros setores da
sociedade, na época, como filósofos, artistas, livres
pensadores. Podemos citar, ainda, a influencia da
Inglaterra na Maçonaria: a institucionalização da Henrique VIII da Inglaterra (1491 - 1547)

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público, mas podemos afirmar, através de documentos É entendimento generalizado, quase que
encontrados, que a instituição que, hoje, chamamos de consensual no meio maçônico, que a Maçonaria que
Maçonaria, já era uma sociedade secreta antes do meio conhecemos hoje, dita Especulativa, teve sua origem
do século XVII, no entanto, as sociedades secretas, por através das corporações de ofício medievais, ou,
definição, não publicam histórias oficiais. guildas operativas dos pedreiros livres, os construtores
responsáveis pelas grandes catedrais, mais
Na literatura maçônica encontramos várias
especificamente, da Inglaterra e da Europa Ocidental.
versões concretas para a origem da Ordem, juntamente
É fato que muitos autores reforçam essa tese, a qual se
com teorias e explicações fantasiosas, em meu
acredita que os construtores das catedrais góticas e de
entendimento, como a Maçonaria teria surgido através
outros importantes edifícios da Europa organizavam-
Adão, e, até mesmo, que Jesus era maçom. O que
se em confrarias, possuíam rituais secretos e que
entendo e pude notar ser de comum acordo entre a
guardavam, zelosamente, os segredos da arte da
maioria dos pesquisadores e escritores maçons, é que a
construção. A partir daí o ingresso dos Maçons Aceitos
Maçonaria tomou para si, em relação a sua simbologia
deu-se em grande número, em tal modo que passaram
e ritualística, diversos elementos de culturas antigas,
a ser em maior número que os de Maçons Operativos,
como a Mesopotâmia (sumérios, caldeus, babilônicos),
estes, que com o tempo deixaram de existir. Em
egípcia, persa e hebraica, e dos antigos mistérios:
consequência à esse processo, teriam surgido, no
egípcios e gregos. Uma forte teoria que encontramos
século XVII, ou mesmo em fins do século XVI, lojas da
na literatura maçônica, especificamente no livro “A
Maçonaria Especulativa, cujos membros não possuíam
Chave de Hiram”, dos autores Christopher Knight e
nenhuma relação com a arte da construção, tendo
Robert Lomas, é que a Maçonaria e seus rituais se
seu ápice na fundação da Grande Loja Simbólica de
originam através da Ordem dos Pobres Soldados
Londres, através da união de quatro lojas londrinas.
Companheiros de Cristo, hoje, conhecidos como
Cavaleiros Templários. Acredita-se que parte do ritual O verdadeiro maçom é aquele que, de fato,
maçônico tem influencia da Ordem dos Templários, busca a verdade e se esforça, ao máximo, dentro suas
especialmente a iniciação. limitações física e intelectual, para lutar contra suas
paixões, suas imperfeições e seus vícios, para aí sim,
De fato, a verdadeira origem da Maçonaria,
tornar-se um homem justo e ser reflexo de luz para a
onde e quando iniciou é desconhecida.
sociedade.

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A Maçonaria

na Terra Santa Lindomar Furniel

V
ivendo em Israel há mais de quarenta anos, Maçônica de judeus, é uma demonstração de que
Leon Zeldis, cônsul honorário do Chile, em existe uma luz no final do túnel, e que a paz entre
Tel Aviv, já ocupou o mais alto cargo da palestinos e judeus é possível sim! E não, somente,
Maçonaria Israelense. Ele assinala que não existe a paz, mas a fraternidade pode reinar entre árabes e
impedimento entre o Judaísmo e a Maçonaria. E judeus, como ocorre na Grande Loja de Israel.
mais: rabinos e hazanim (oficiantes cantores das
A prova maior do compromisso dessa Grande
sinagogas) pertencem à Ordem, e, na cidade de
Loja, com os princípios de “Liberdade, Igualdade e
Eilat, no extremo Sul do país, na fronteira com o
Fraternidade”, pode ser vista no Selo (emblema) da
Egito, uma loja maçônica chegou a funcionar em uma
mesma: a Cruz, a Lua quarto crescente e a Estrela
sala da Yeshivah (escola religiosa para formação
de Davi estão juntas, simbolizando o Cristianismo,
de rabinos). “A Maçonaria Israelense é um exemplo
o Islamismo e o Judaísmo. Da mesma forma, a
de convivência e tolerância”, destaca Zeldis, “o que
Bíblia, o Alcorão e a Torah estão no Altar das Lojas,
procuramos mostrar é que é possível conviver, judeus
comprovando que todos os Irmãos, independente
e árabes, como irmãos.”
da fé professada, estão imbuídos do objetivo de
Nadim Mansour, árabe palestino, de religião trabalhar pela felicidade da humanidade.
cristã ortodoxa, foi empossado, em Tel Aviv, como A Grande Loja do Estado de Israel foi
o Grão-Mestre da Grande Loja do Estado de Israel, instalada em 20 de outubro de 1953, em Jerusalém.
cargo que ocupou até o ano 2013. A Grande Loja de
Israel teve já dois Grão-Mestres palestinos: Yakob
Nazih, de 1933 a 1940, e Jamil Shalhoub, de 1981
a 1982. O Grão-Mestre Mansour nasceu em Haifa e
se mudou para Acre, aos cinco anos de idade. Foi
iniciado em 1971 na Loja “Akko”, da qual seu pai
foi um dos fundadores, e, em 1980, tornou-se seu
Venerável.
Nadim Mansour é, também, Grau 33 do Rito
Escocês Antigo e Aceito. A presença de um maçom
de origem árabe como Grão-Mestre, de uma Loja

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Leon
Zeldis
como membro honorário dos Supremos Conselhos
da Turquia, Itália, França e Argentina.
Em seu livro “Antigas Letras”, Zeldis defende
alguns aspectos que devem mobilizar a atenção
da Maçonaria no século XXI, no tocante a sua
importante função na sociedade contemporânea.
A ênfase na educação (laica e maçônica) é vital,
segundo Zeldis, para melhorar a sociedade e
o indivíduo. “A importância da educação está,
precisamente, em adquirir a capacidade de julgar,
categorizar, classificar e avaliar a qualidade da
informação recebida, não somente pelo seu conteúdo
textual, mas, também, do ponto de vista ético e
teleológico”. A simples transferência de informações
pode se constituir, na maioria das vezes, um
armazenamento de conhecimentos que oprime e
sobrecarrega o ser humano, impedindo-o de analisar
Porém, sua sede fica em Tel Aviv. A primeira Loja e refletir sobre o essencial, escreve Zeldis. E cita
na região foi a Loja Rei Salomão Nº 293, filiada o filósofo alemão Friedrich Krause (1781-1832),
à Grande Loja do Canadá, e teve sua primeira para quem a educação é algo que a grande parte
reunião realizada nas chamadas pedreiras do Rei das pessoas recebe, muitos transmitem, mas muito
Salomão, no dia 07 de maio de 1873. Cinco anos poucos têm. “O que equivale a dizer que muitíssimas
antes havia ocorrido uma reunião no mesmo local, pessoas sabem ler, porém são incapazes de
porém sem existir uma Loja regularmente constituída. reconhecer o que vale a pena ler”, conclui o autor.
Posteriormente a isso, houve outras Lojas na região,
filiadas à extinta Grande Loja da Palestina.
Por um mundo melhor, existem várias
maneiras de ajudar ao próximo. Ser maçom é uma
delas. Para Leon Zeldis Mandel, 82 anos, Ex Grão-
Mestre, Ex Soberano Grande Comendador, Grau 33
do Rito Escocês Antigo e Aceito, a Maçonaria não
melhora o mundo, mas os maçons, sim. Nascido
na Argentina, Zeldis viveu no Chile, formou-se Grande
engenheiro têxtil nos Estados Unidos e fundou, em Loja de
1970, a primeira Loja Maçônica de Israel de língua Israel
espanhola. Escritor, poeta e conferencista, é autor
de 15 livros e de mais de 150 artigos e ensaios Com dois mil membros, a Maçonaria em
publicados em diversos idiomas. Seus livros, “As Israel foi oficializada em 1953, mas desde o século
Pedreiras de Salomão”, “Estudos Maçônicos” e XIX os maçons estão na Terra Santa. Em 1873 foi
“Antigas Letras” foram traduzidos para o português. instalada a primeira Loja regular em Jerusalém.
Já, em 1890, outra loja foi constituída em Jaffa.
Residindo em Israel desde 1960, suas Atualmente, setenta lojas funcionam em Israel,
atividades como conferencista e profundo conhecedor desde Naharía, ao norte, até Eilat, no extremo Sul do
da história da Maçonaria o levaram às principais país, com um número apreciável de irmãos árabes
cidades da Europa e do continente americano. No (cristãos e muçulmanos), funcionando em seis
Brasil, participou do Congresso Internacional de idiomas, além do hebraico e do árabe.
História e Geografia Maçônica, realizada em Goiana,
Compilação extraída da entrevista realizada por Sheila Sacks, jornalista
em 1995. Também, é membro honorário da Academia da Assessoria de Imprensa da Empresa de Obras Públicas do Estado do
Maçônica de Letras de Pernambuco. Foi distinguido Rio de Janeiro (Emop). Também, escreve para o NOSSO JORNAL - RIO,
uma publicação voltada para a comunidade judaica. Rio de Janeiro, RJ

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Giuseppe Garibaldi

“Herói de Dois Mundos”


“O Leão da Liberdade” Rogério Vaz de Oliveira

G
iuseppe Garibaldi não nasceu na Itália, mas África e a Ásia só tinham dado uma fraca ideia, fiquei
em Nice, na França, em 4 de julho de 1807, maravilhado com o espetáculo esplêndido que meus
31 anos após a Declaração da Independência olhos contemplavam”. Acompanharemos seus passos
Americana. Não haveria local mais apropriado, um porto em três momentos históricos – Garibaldi no Brasil, no
marítimo na costa mediterrânea, que sob as bênçãos Uruguai e na Itália.
de Poseidon, serviu de berço para o homem que iria
O Império Brasileiro estava em ebulição, em
viajar pelo mundo levando a mensagem de liberdade
especial a Província de São Pedro do Rio Grande
para os povos. Seus pais, genoveses, optaram pela
do Sul, onde havia eclodido, há poucos meses, a
nacionalidade italiana para o filho, em virtude da “jus
Revolução Farroupilha. Enquanto na sua terra natal o
sanguinis” (direito de sangue).
movimento dos carbonários crescia, no Brasil, estava
É, mundialmente, conhecido como “Herói de chegando a Maçonaria, com seus membros atuando
Dois Mundos”, por ter participado de conflitos na Itália e e influenciando as lutas da humanidade por liberdade,
na América do Sul, dedicando sua vida à luta contra a como na Revolução Francesa e na independência de
tirania. Ainda menino, tornou-se marinheiro e conheceu vários países latino-americanos, inclusive Estados
a vida no mar. Aos 25 anos era capitão da Marinha Unidos e Brasil. Os maçons tremulavam a bandeira
Mercante. A proximidade com as ideias republicanas de dos movimentos abolicionistas. Ouve-se que, ao norte
Mazzini, um Carbonário, que acenava com o projeto de dos Estados Unidos, montaram uma rede de fuga de
unificação da Itália, fizeram com que o jovem marinheiro escravos negros para o Canadá. Eram vagidos que
iniciasse um flerte com os movimentos revolucionários, ecoaram, também, por todas as províncias brasileiras.
para a liberdade dos povos. Sua estreia não foi a
Garibaldi chegou pouco depois da fundação
melhor das experiências e lembranças. O fracasso da
da primeira Loja Maçônica no Rio Grande do Sul, que
insurreição de Gênova, fez com que sua cabeça fosse
ocorreu no dia 23 de novembro de 1831, em Porto
posta à prêmio, obrigando sua fuga da Europa.
Alegre, com o nome de Loja Philantropia e Liberdade,
A bordo do navio Nautonnier, Garibaldi aportou, tendo como seu primeiro Venerável Mestre, Bento
no final de 1835, no Rio de Janeiro. À sua frente estava Gonçalves da Silva, líder farrapo e com quem iria
o Pão de Açúcar, a Pedra da Gávea e o Corcovado, que guerrear e entrar para história como Comandante da
mereceu registro em seu diário “[...] quando apareceu Frota Naval Farrapa.
em volta de mim esta natureza luxuriante de que a

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Garibaldi foi “convocado” para unir-se aos papado, os liberais italianos marcharam contra aquela
revolucionários gaúchos e, conhecedor dos segredos cidade e a tomaram. Garibaldi participou da campanha
dos mares, foi o “Almirante Farrapo”. Foi dele a com um corpo de voluntários e foi eleito deputado na
façanha de transportar lanchões por terra, enganando assembleia constituinte da República Romana.
os imperiais. Como empreendimento semelhante ao
Em março de 1862, surge como Soberano
que preparavam os farrapos nos campos da costa
Grande Comendador do REAA do Grande Oriente de
rio-grandense, recorda a história antiga o que fez
Palermo e, depois, pela unificação dos três Orientes
Antônio, depois da batalha de Actium. E, em tempos
existentes na Itália (Nápoles, Turim e Palermo), foi
mais próximos, no século XV, o que praticou o sultão
nomeado Grão-Mestre do Grande Oriente da Itália, na
Mohamed II, quando fez transportar suas naves de
reunião de Florença, realizada no período de 21 a 24
Coregia ao Bósforo, numa extensão de dez milhas,
de maio de 1864. Em 1872, é nomeado Grão-Mestre
através dos vales de Delma-Bagdgê.
Honorário “Ad Vitam” do Grande Oriente da Itália.
As fontes sobre a sua iniciação e percurso
Contudo, os franceses e os napolitanos
maçônico são contraditórias. Segundo alguns, foi
cercaram a cidade, visando a restabelecer a autoridade
iniciado na Itália, filiando-se depois, em 1837, na loja
papal. A cidade capitulou em 1º de julho de 1849. Foi
irregular “Asilo (ou Refúgio) da Virtude”, do Rio de
perseguido pelos exércitos franceses, espanhóis e
Janeiro; outros defendem que teria sido iniciado numa
napolitanos e, na fuga, morre sua amada Anita.
loja do Rio Grande do Sul, com o mesmo nome da
loja do Rio de Janeiro (a loja “Asilo da Virtude”, do Rio Caronte o barqueiro de Hades, responsável
Grande do Sul, foi fundada em 1833 e regularizada em por levar as almas dos recém-mortos para o mundo
1840); outros, ainda, consideram que foi iniciado em dos mortos, acompanhou Garibaldi durante mais de
1844, em Montevidéu, na loja “Asilo de la Virtud”, loja setenta anos, carregou seus melhores amigos, seus
irregular criada por norte-americanos exilados, sendo, filhos, porém a carga mais preciosa que o filho de Nix
depois, regularizado em 18 de agosto de 1844, na loja transportou, sem dúvida foi Anita. Sua pena é o exílio,
francesa “Les Amies de la Patrie”, fundada em 1827, em várias partes do mundo, a começar pela África,
regularizada pelo Grande Oriente de França, em 1844, depois, nos Estados Unidos e no Peru.
e depois integrada ao Grande Oriente do Uruguai).
Sua missão de Paladino da Liberdade não
Mesmo em tempos de guerra, Eros - o Deus estava encerrada. Em 1854, voltou à Itália e participou
do Amor, lançou sua flecha, fazendo com que Garibaldi da Segunda Guerra de Independência contra os
arrebatasse do pequeno povoado de Laguna, a jovem austríacos. A Itália do Norte foi unificada. Seguiu para o
Ana Maria de Jesus Ribeiro, mulher guerreira, mãe e Sul, onde conquistou a Sicília e o reino de Nápoles.
enfermeira, lutou, sempre, ao seu lado na América do
Sul e na Europa; entrou para a história com o nome de Vencedor, Garibaldi retira-se para sua casinha
Anita Garibaldi. com algumas bolsas de sementes, na Ilha de Caprera,
no Mar Mediterrâneo. Porém, nem mesmo a sua morte
Pouco antes do fim da Guerra de Farrapos, o desliga deste mundo. Em seus pedidos, deixou claro
foi dispensado por Bento Gonçalves de suas missões que gostaria de ser cremado, e que suas cinzas fossem
e mudou-se para o Uruguai e, em 1842, foi nomeado misturadas à terra, simbolizando o nascimento de uma
capitão da frota uruguaia, na luta contra o ditador nova Itália.
argentino Juan Manoel Rosas. No ano seguinte,
exerceu papel fundamental na defesa de Montevidéu, Seu desejo, porém, foi ignorado, pois julgou-se
impedindo que a cidade fosse tomada pelos argentinos. que um líder tão importante não poderia sumir, mesmo
após sua morte, em 1882, aos 74 anos. Foi enterrado
A guerra era o seu destino e sua vocação o no próprio jardim e sua casa entrou no mapa de
transforma em “O Leão da Liberdade”. peregrinos. Mas acredita-se que alguns seguidores mais
Em 1848, Garibaldi voltou à Itália para combater radicais, determinados a seguir sua vontade, tiraram o
os exércitos austríacos, na Lombardia, norte da Itália, corpo do caixão e o cremaram.
e dar início à luta pela unificação italiana. Fracassou Surgindo, então, a Lenda que é contada pelos
na tentativa de expulsar os austríacos e foi forçado ilhéus, que nem mesmo Caronte e Nix juntos puderam
a refugiar-se, primeiro na Suíça e, depois, em Nizza, apagar o “Herói de Dois Mundos” e “O Leão da
hoje, Nice, sua terra natal. Visando conquistar Roma ao Liberdade”.

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As Cordas
e os Nós na
Maçonaria
Simbólica*

O
maçonólogo e escritor belga Jean van Win uma corda ornada com nós de amor, terminada em
acredita que a corda que utilizamos na borlas pendentes. Isso – acrescido de uma eventual
decoração dos templos tenha sido introduzida associação com o termo “filhos da viúva”, surgido nos
na Maçonaria Simbólica devido a um engano. Segundo rituais na mesma época – teria bastado para que se
ele, o uso a corda de nós espalhou-se pelo mundo, a passasse, por extensão, a associar a Borla Dentada de
partir da França, por um erro de tradução do abade Pérau a uma corda com nós e borlas em torno da Loja.
Pérau, que, em 1742, publicou um livro intitulado “O
Segredo dos Franco-Maçons”, baseado na obra “A De todo modo, o fato é que as cordas com nós
Maçonaria Dissecada”, de Samuel Prichard, editada em vêm sendo usadas, desde então, como ornamento
1730. Nela, Prichard afirma que dentre os equipamentos nos templos, quadros ou tapetes de Loja maçônicos.
da Loja há o “Pavimento Mosaico, que é o piso da Algumas Lojas utilizam nos seus quadros ou tapetes
Loja, a Estrela Flamígera, que é seu Centro, e a Orla o número de nós conforme o grau representado. A
Dentada, que é a borda em torno dela”. Acontece que maioria delas, no entanto, especialmente na Europa e
o abade traduziu, do inglês original para o francês, América do Norte, adota a corda de 12 nós, que, como
Pavimento Mosaico como Palácio Mosaico, Estrela já mostramos, tem um significado relevante na história
Flamígera como Dossel Constelado de Estrelas e Orla da geometria. Aqui cabe uma consideração: aceita-
Dentada por Borla Dentada. Com isso, as potências se, por seu caráter simbólico, que a corda maçônica,
maçônicas que, por qualquer motivo, inspiraram-se mesmo sendo aberta, tenha 12 nós, embora uma
direta ou indiretamente na tradição francesa, teriam
assimilado o termo Borla Dentada.

Ainda, segundo Jean van Win, a adoção da


corda como elemento na decoração dos templos
teria vindo de uma tradição diferente: a partir do
século XVI, era costume das mulheres nobres, ao
enviuvarem, encimarem o brasão de seus maridos com

Revista Arte Real nº 91 - Nov/17 - Pg 09


corda assim crie apenas 11 intervalos ou medidas e a Câmara do Meio”, de 1872, o seguinte: “Ao redor
entre os nós, o que não permitiria a representação de toda a parede, logo abaixo do teto, está pintada,
de um triângulo retângulo. Ou seja, a rigor, a corda nas Lojas francesas, um cordão ou corda com nós (la
aberta em torno do templo, quadro ou tapete de Loja houppe dentelèe) de, aproximadamente, seis polegadas
deveria ter 13 nós, perfazendo 12 medidas, para, desta de diâmetro, com borlas pendendo em cada canto. Os
forma, poder representar o triângulo pitagórico. Assim, nós são em número de oitenta e um. Não é usada nesta
quando fechada, os nós das extremidades poderiam ser jurisdição.”
sobrepostos, criando as condições para a criação do
Quanto às borlas, nenhum documento foi
triângulo.
encontrado que justificasse seu uso maçônico. Se
Diferentemente de outros países, no entanto, foram, de fato, inspiradas no brasão das viúvas,
as potências do Brasil fizeram uma opção peculiar, serviriam, apenas, de arremate e adorno e, do ponto de
adotando em suas Lojas a Corda de 81 nós, que, vista operativo, não teriam qualquer significado.
quando fechada, sobrepondo-se os extremos, formaria Há, porém, uma hipótese plausível de que
80 intervalos. Logo, a ser observado o mesmo critério tenham existido marcadores de distância atados nas
utilizado pelas Lojas do hemisfério Norte, dissociando cordas junto aos nós ou em substituição a eles. Essa
a realidade do simbolismo, a corda maçônica brasileira hipótese decorre da constatação de que algumas
poderia conter, apenas, 80 nós. Correntes de Gunter adotavam pingentes de metal
A exemplo da corda de 13 nós, a Corda de
81 nós, também, presta-se à criação de um triângulo
retângulo. Seus catetos correspondem aos intervalos
formados, respectivamente, por 16 e 30 nós, e, a
hipotenusa, por intervalos de 34 nós (16+30+34=80 e
presos em cada elo, de modo que o agrimensor
16²+30²=34²). Também, da mesma forma que a corda
soubesse, ao olhar um pingente, a que distância se
de 13 nós, a de 81 pode ser usada para criar triângulos
encontrava com relação ao início da corrente. Isso
equiláteros e isóceles e, assim sendo, quer sejam de 12
evitava, especialmente nas distâncias maiores, o
ou 80 nós quando fechadas, ou 13 e 81 quando abertas,
trabalho de contagem e recontagem de elos, que
geometricamente ambas as cordas expressariam o
poderia levar a erros.
mesmo significado.
Os documentos históricos da maçonaria Ora, se é sabido que as cordas de nós foram
anteriores à criação da Grande Loja da Inglaterra, em aperfeiçoadas durante dezenas de séculos, é razoável
1717, denominados genericamente de Antigos Deveres, imaginar-se que a solução dos pingentes fosse anterior
não fazem alusão a cordas e nós. à invenção das Correntes de Gunter. Assim sendo,
da mesma forma que adotou as cordas com nós, não
Já os rituais de 1904, publicados pelo Grande seria de se estranhar que a Maçonaria Simbólica tenha
Oriente e Supremo Conselho do Brazil[6], mencionam incorporado, também, os pingentes, transformando-os
apenas um cordão que forma, de distância em distância, em borlas. Mas isso é, apenas, um palpite.
nós emblemáticos (e) termina em uma borla pendente
em cada um dos lados da porta de entrada. Conclui-se, Para concluir, mesmo considerando que o uso
desta forma, que o número de nós foi estipulado em da corda de nós pela Ordem possa, de fato, ter advindo
data posterior à publicação dos rituais. do erro de tradução de Pérau, é inegável que essa
“coincidência” foi extraordinariamente feliz, já que, à
Não obstante, além das evidentes conotações
exceção da Pedra, nenhum outro utensílio operativo
geométricas, algumas referências podem ter sido
poderia ser considerado mais importante e tradicional.
determinantes para que o número de nós da corda
adotada pela maçonaria brasileira fosse 81, quais Mas esses são, apenas, aspectos exotéricos
sejam: o número mínimo de meses estipulado para relacionados à Corda de 81 nós. Muito mais se poderia
que um maçom chegue ao grau 33; o total de graus da falar sobre ela ao analisá-la sob outros prismas. É o que
maçonaria francesa, em 1784; a quantidade de atributos pretendemos fazer oportunamente…
da divindade, para o intendente dos edifícios; a idade do
vigilante do perfeito e sublime maçom.
*Compilação de trecho do trabalho “A Corda de 81 Nós – Uma Visão
Além dessas, a inspiração para a adoção dos Operativa”, de autoria dos Irmãos Maçons Lincoln Gerytch, Sérgio K.
81 nós pelas lojas brasileiras, talvez, possa ter advindo Jerez e Ulisses Pereira da Silva Massad, membros da Loja Maçônica
de Albert Pike, que escreveu em seu livro “O Pórtico Nova Esperança, 132 – Oriente de São Paulo – GLESP.

Revista Arte Real nº 91 - Nov/17 - Pg 10