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Multideia Editora Ltda.

Alameda Princesa Izabel, 2215


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Conselho Editorial
André Viana Custódio (Unisc/Avantis) Marli Marlene M. da Costa (Unisc)
Carlos Lunelli (UCS) Neuro José Zambam (IMED)
Clovis Gorczevski (Unisc) Nuria Bellosso Martín (Burgos/Espanha)
Danielle Annoni (UFSC) Orides Mezzaroba (UFSC
Denise Fincato (PUC/RS) Sandra Negro (UBA/Argentina)
Fabiana Marion Spengler (Unisc) Salete Oro Boff (Unisc/IESA/IMED)
Liton Lanes Pilau (Univalli) Wilson Engelmann (Unisinos)
Luiz Otávio Pimentel (UFSC)

Coordenação Editorial: Fátima Beghetto


Capa: Sônia Maria Borba

Realização: Curso de Mestrado em Direitos Humanos da UNIJUÍ


Coordenação e Organização do Evento:
Coordenador Geral: Prof. Gilmar Antonio Bedin
Coordenadores Ajuntos: Prof. Doglas Cesar Lucas
Prof. Daniel Rubens Cenci
Profª. Fabiana Marion Spengler

CPI-BRASIL. Catalogação na fonte


Seminário Internacinal de Direitos Humanos e Demoracia (1.:2013: Ijuí, RS)
S471 Os direitos humanos e a sua proteção / Gilmar Antonio
Bedin (Coord). - Curitiba: Multideia, 2013.
1.156p.
Versão digital
ISBN 978-85-86265-64-8
1 . Direitos humanos. 2. Democracia. I. Bedin, Gilmar Antonio
(coord.). II. Unijuí – Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio
Grande do Sul. III. Título.
CDD 342(22.ed)
CDU 342.7

Distribuição gratuita - Uso não comercial


Permitida a reprodução de partes, desde que citada a fonte.
O presente trabalho foi realizado com o apoio da CAPES, entidade do Governo brasileiro
voltada para a formação de recursos humanos.
I Seminário Internacional de Direitos Humanos
e Democracia
Os Direitos Humanos e a sua Proteção
25 a 26 de abril de 2013

Anais do Evento

I Seminário Internacional de Direitos Humanos da UNIJUÍ

Os Direitos Humanos e a sua Proteção

Unijuí, RS

Curitiba

2013
O I Seminário Internacional de Direitos Humanos e Demo-
cracia tem como proposta central transformar-se num espaço
institucional aberto para o debate sobre a luta pelo reconheci-
mento dos direitos humanos, seus fundamentos e sua efetivi-
dade nas sociedades democráticas. Na estrutura do Evento,
estão previstos um conjunto de palestras e debates que colo-
cam em destaque os problemas e desafios dos direitos huma-
nos na atualidade.

Objetivos:
a) Investigar os meios de garantir a aplicação eficaz dos
direitos humanos nas sociedades democráticas naci-
onal e internacional, como meio de assegurar o de-
senvolvimento seguro e adequado aos seus cidadãos,
promovendo reflexão, debates e apresentação de tra-
balhos de pesquisa em forma de palestras.
b) Delimitar os fundamentos e os meios de concretiza-
ção dos Direitos Humanos no Brasil e no mundo;
c) Investigar a internacionalização dos direitos humanos
e a sua contribuição para o estabelecimento de uma
sociedade mais democrática e equitativa;
d) Analisar a contribuição dos Direitos humanos como
suporte para a proteção ambiental e a garantia de um
desenvolvimento sustentável.

Prof. Gilmar Antonio Bedin


Coordenador Geral
I SEMINÁRIO INTERNACIONAL
DE DIREITOS HUMANOS E
DEMOCRACIA

Tema: Os Direitos Humanos e a sua Proteção


I MOSTRA DE TRABALHOS CIENTÍFICOS
Campus Ijuí - Salão de Atos da UNIJUÍ

Programação
25.04.2013 (quinta-feira) 08h30min - Abertura do evento

9h30min às 11h30min
Painel I - Direitos Humanos, Relações Internacionais e Desenvolvimento.

Palestra: "Direitos Humanos e Nova Conformação Política da Esfera Mundi-


al: Pensando desde o Sul".
Palestrante: Prof. Eduardo Devés - Doutor em filosofia pela Universidade de
Louvian/Bélgica e em Estudos Latinoamericanos pela Universidade de Pa-
ris III/França e pós-doutor pela Universidade de Louvain/Bélgica. É tam-
bém pesquisador do Instituto de Estudos Avançados - IDEA - da Universi-
dade de Santiago do Chile e professor do Curso de Doutorado em Estudos
Latinoamericanos da mesma universidade.

Palestra: "Direitos Humanos, Integração Regional e Desenvolvimento"


Palestrante: Profã. Gisele Ricobom - Doutora em Direitos Humanos e De-
senvolvimento pela Universidade Pablo de Olavide e professora da Univer-
sidade Federal da Integração Latino-Americana -UNILA. Coordenadora do
Curso de Relações Internacionais e Integração da mesma Instituição.
Mediador: Prof. Gilmar Antonio Bedin (UNIJUÍ/Brasil)

Das 14 horas às 17h30min - Apresentação de Trabalhos


8

Painel II - Globalização e Sociedade Cosmopolita.

Das 19h30min às 22h30min


Palestra: "Estado, Globalização e Direitos Humanos"
Palestrante: Prof. Raimundo Baptista dos Santos Júnior - Doutor em Ciência
Política pela Universidade de Campinas - UNICAMP, professor da Universi-
dade Federal do Piauí e do Curso de Mestrado em Ciência Política da mes-
ma Universidade.

Palestra: "Direitos Humanos e Múltiplas Identidades"


Palestrante: Prof. Doglas Cesar Lucas - Doutor em Direito pela Universida-
de do Vale do Rio dos Sinos - UNISINOS - e Pós-Doutor pela Università degli
Studi di Roma Tre/Itália. Professor dos Cursos de Graduação em Direito e
do Mestrado em Direitos Humanos da UNIJUÍ e professor do Instituto Ce-
necista de Ensino Superior Santo Ângelo - IESA.

Palestra: "Os Direitos Humanos na sociedade cosmopolita"


Palestrante: Prof. Vicente de Paulo Barretto - Livre docente pela Pontifícia
Universidade Católica do Rio de Janeiro (1976). Professor visitante da Facul-
dade de Direito da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, professor da
UNESA/RJ e professor colaborador da Universidade do Vale do Rio dos Sinos.
Foi professor visitante na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra.
Mediador: Prof. Daniel Rubens Cenci (UNIJUÍ/Brasil)

26.04.2013 (sexta-feira) Das 08h30min às 11h30min

Painel III - Direitos Humanos e Meio Ambiente.

Palestra: "Direitos Humanos, Cidadania Ambiental e Desenvolvimento"


Palestrante - Profâ. Milena Petters Melo - Doutora em Direito, Università degli
Studi di Lecce (Itália, 2004) e professora da Universidade de Blumenau FURB.
Coordenadora da área lusófona e anglófona do Centro Didático Euro-
Americano sobre Políticas Constitucionais da Universidade do Salento Itália.

Palestra: "Direito da Sociobiodiversidade e Sustentabilidade"


Palestrante: Prof. Jerônimo Siqueira Tybusch - Doutor em Ciências Huma-
nas pela Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC e professor da
Universidade Federal de Santa Maria - UFSM. Integra o corpo docente do
Curso de Mestrado em Direito da mesma Universidade.

Palestra: "Ecologia Política, Direitos Humanos e Meio Ambiente"


Palestrante: Prof. Luiz Ernani de Bonesso de Araujo - Doutor em Direito
pela Universidade Federal de Santa Catarina e professor do Curso de Gra-
duação da Universidade Federal de Santa Maria -UFSM. Coordenador do
Curso de Mestrado em Direito da mesma Universidade.
9

Palestra: "Direitos Humanos, Política e Meio Ambiente no Mundo Globali-


zado"
Palestrante: Prof. Fernando Estenssoro Saavedra - Doctor en Estudios
Americanos pela Universidade de Santiago do Chile e professor do Curso
de Mestrado e de Doutorado em Estudos Americanos da mesma Universi-
dade. Integra o grupo de pesquisadores do Instituto de Estudos Avançados
-IDEA/Chile.
Mediadora: Profâ. Elenise Felzke Schonardie (UNIJUÍ/Brasil)

Das 14 horas às 17h30min - Apresentação de Trabalhos

26.04.2013 (sexta-feira)
Das 19h30min às 22h30min

Painel IV - Os Direitos Humanos na Atualidade: Brasil, América Latina e


Europa.

Palestra: "Direitos Humanos e o Neoliberalismo"


Palestrante: Prof. Alfredo Copetti Neto - Doutor em Teoria do Direito e da
Democracia pela Università degli Studi Roma Tre (UNIROMATRE, 2010
Revalidado UFPR). Professor Visitante na Universitá di Roma (La Sapienza)
e professor do Curso de Mestrado em Direitos Humanos da UNIJUÍ.

Palestra: "Direitos Humanos e Violência na América Latina"


Palestrante: Prof. André Leonardo Copetti Santos - Doutor em Direito pela
Universidade do Vale do Rio dos Sinos UNISINOS e professor da Universi-
dade Regional Integrada - URI e da Universidade Regional do Noroeste do
Estado do Rio Grande do Sul - UNIJUÍ. Professor do Curso de Mestrado em
Direitos Humanos e coordenador executivo do Curso de Mestrado em Direi-
to da URI.

Palestra: "Direitos Humanos na União Europeia"


Palestrante: Prof. Álvaro Sanchez Bravo - Doutor em direito pela Universi-
dade de Sevilha/Espanha e professor do Instituto Andaluz de Criminologia -
IAIC e da Universidade de Sevilha. Presidente da Associação Andaluza de
Direito, Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável.
Mediadora: Profâ. Fabiana Marion Spengler (UNIJUÍ/Brasil)
SUMÁRIO

Políticas públicas de enfrentamento à delinquência juvenil: Uma


análise a partir do âmbito escolar ....................................................... 17
Ademar Antunes da Costa & Rodrigo Cristiano Diehl
A democracia participativa na implementação das políticas
públicas de saúde no espaço local ...................................................... 35
Adriane Medianeira Toaldo & Ricardo Hermany
O sistema de justiça e os direitos humanos: O panprincipiologismo
como debilitador na aplicação dos direitos humanos........................ 49
Alessandra Liani Prates
A educação ambiental como meio para manutenção do meio
ambiente e sua sustentabilidade com base na Constituição Federal
de 1988 ................................................................................................... 63
Alessandra Staggemeir Londero & Deise Scheffer
Gestão pública e desenvolvimento sustentável: Considerações
sobre a racionalidade econômica como fator de insustentabilidade 77
Alexandre Nicoletti Hedlund
O reconhecimento de identidades culturais para a efetivação de
direitos ................................................................................................... 95
Aline Andrighetto
O trabalho doméstico e a desigualdade: Avanços e desafios na
sociedade brasileira contemporânea................................................... 111
Aline Damian Marques & Roberta da Silva

Para além da liberdade dos antigos e da liberdade dos modernos:


A democracia como regime dos direitos humanos ............................ 129
Ana Righi Cenci & Gilmar Antônio Bedin
O projeto VER-SUS e o debate à saúde pública ................................. 145
Andressa Carine Kretschmer & Liamara Denise Ubessi
A concretização do direito dos idosos à saude no Brasil através da
esfera privada: Os planos de saúde como adimplemento ao artigo
12 do Pacto Internacional sobre os direitos economicos, sociais e
culturais de 1966 ................................................................................... 155
Angela Venturini Benedetti; Geanluca Lorenzon &
Isabel Christine Silva De Gregori
12

Adolescentes em conflito com a lei: Relatos de uma pesquisa ........ 173


Anna Paula Bagetti Zeifert; Camila Eichelberg Madruga &
Tatiele Camargo
Dignidade humana da criança nascida a partir do útero de
substituição ........................................................................................... 187
Astrid Heringer & Adriane Damian Pereira
Direitos humanos e imunidade de jurisdição do Estado estrangeiro:
Um antigo instituto, um novo entendimento ..................................... 205
Camila Vicenci Fernandes
O novo plano diretor participativo do município de Santos:
As perspectivas lançadas para a garantia da qualidade de vida e
desenvolvimento sustentável ............................................................... 221
Cristiane Elias de Campos Pinto
Direitos humanos, políticas públicas e erradicação da violência
doméstica contra as mulheres: Uma análise a partir do município
de Santa Rosa/RS .................................................................................. 237
Daniel Rubens Cenci; Laila Letícia Falcão Poppe &
Lurdes Aparecida Grossmann
Veículos elétricos: Uma alternativa para a melhoria da mobilidade
urbana de forma sustentável ............................................................... 255
Daniel Corrente de Moraes; Marcelo Loeblein dos Santos &
Luciano Bonato Baldissera
A questão indígena no Brasil e a relevância das previsões, insertas
nos documentos internacionais, no tocante à efetividade dos
direitos indigenistas ............................................................................. 273
Denise Tatiane Girardon dos Santos
A fundamentação dos direitos humanos ............................................ 291
Eliane Spacil de Mello & Argemiro Luis Brum
A Segunda Guerra Mundial e a memória internacional sobre
direitos humanos................................................................................... 309
Eliete Vanessa Schneider; Luís Carlos Schneider &
Priscila Gadea Lorenz
Direitos humanos e escola: Por uma política pública educacional
promotora da inclusão social ............................................................... 319
Elisa Mainardi & Eldon Henrique Mühl
Conflitos ético-jurídicos da reprodução assistida na terceira idade . 335
Fabiane da Silva Prestes & João Batista Monteiro Camargo
13

Delinquência juvenil e justiça restaurativa: Um olhar


interdisciplinar ...................................................................................... 347
Fabiano Rodrigo Dupont & Ana Paula Arrieira Simões
A justiça restaurativa como política de prevenção à violência na
escola ..................................................................................................... 359
Fernando Oliveira Piedade & Cristiano Cuoso Marconatto
O enfrentamento do racismo ambiental em busca da justiça
ambiental ............................................................................................... 377
Francieli Formentini
A universalidade dos direitos humanos e a dignidade humana:
Elementos e perspectivas de cidadania .............................................. 393
Francielli Silveira Fortes
O direito fundamental à privacidade na internet sob a tutela do
Estado: Uma análise da Lei Carolina Dieckmann sob a ótica do
Leviatã, de Thomas Hobbes ................................................................. 411
Giancarlo Montagner Copelli & Marcelo Dias Jaques
Crianças e adolescentes: (Des)construções do sujeito através da
imagem .................................................................................................. 429
Gilberto Natal Maas
A contribuição das universidades na promoção do direito humano à
alimentação adequada ......................................................................... 441
Ivete Maria Kreutz
Direito humano à alimentação adequada, com segurança e
soberania alimentar .............................................................................. 455
Ivete Maria Kreutz
O século XXI e o desafio de repensar as políticas públicas:
O Estado e sua necessidade de promover inclusão social ................ 473
Janaína Machado Sturza & Taise Rabelo Dutra Trentin

A saúde e seus determinantes sociais: Um diálogo com a teoria do


direito fraterno ....................................................................................... 493
Janaína Machado Sturza & Taise Rabelo Dutra Trentin
O direito à identidade genética e a violação do sigilo de doador de
material genético na reprodução humana medicamente assistida . 513
Janaine Machado dos Santos Bertazo Vargas &
Taciana Marconatto Damo Cervi
Justiça restaurativa, redução de danos e reflexos sociais ................. 527
João Batista Monteiro Camargo & Fabiane da Silva Prestes
14

Direitos humanos e a sociedade internacional: Uma abordagem


histórica sobre o direito internacional dos direitos humanos ........... 541
Joice Graciele Nielsson & Gilmar Antonio Bedin
Direitos humanos: A construção de valores universais direitos e
garantias das pessoas com deficiência ............................................... 561
Joyce Monique de Aguiar
A união homoafetiva como entidade familiar no ordenamento
jurídico brasileiro................................................................................... 579
Júlia Francieli Neves de Oliveira
A família em um (novo) cenário de mudanças ................................... 595
Laila Letícia Falcão Poppe
Homofobia: Um debate necessário aos direitos humanos ................ 609
Leonardo Silveira Farias da Silva & Lucineide Orsolin
Direitos humanos: O respeito ao outro em sua dignidade ................ 623
Letícia Rieger Duarte & Noli Bernardo Hahn
O direito humano a ter direitos fundamentais ................................... 645
LetíciaThomasi Jahnke & Mauro Gaglietti
Desenvolvimento sustentável e função ambiental da propriedade
sob a perspectiva dos direitos humanos ............................................. 663
Letícia Thomasi Jahnke & Isabel Christine De Gregori
Bioética e o fim da vida: Em busca de uma morte digna .................. 675
Liana Maria Feix Suski; Fernanda Michels Müller & Janice Demozzi
Hannah Arendt: Direitos humanos e cidadania em tempos de
ausência de mundo............................................................................... 689
Lizandra Andrade Nascimento & Gomercindo Ghiggi
Direitos humanos e pessoa privada de liberdade............................... 703
Luana Rambo Assis & Lucineide Orsolin
A flexibilização dos direitos trabalhistas no contexto da efetivação
dos direitos humanos ............................................................................ 725
Lucena Cavalheiro Pletsch & Iásin Schäffer Stahlhöfer
A cidade como instrumento para a formação de uma cidadania
participativa .......................................................................................... 741
Luciana Borella Camara & Elenise Felzke Schonardie
Um estudo das relações entre a pobreza e a globalização ................ 755
Luiz Fernando Fritz Filho; Karen Beltrame Becker Fritz &
Elenise Felzke Schonardie
15

Aspectos do terceiro setor frente ao estado democrático de direito . 771


Luiz Raul Sartori & Francisco Luis Rui Júnior
Comissão da Verdade: Um local de memória da verdade factual da
violação dos direitos humanos no Brasil ............................................. 783
Maisa Machado Saldanha
O acesso ao meio ambiente equilibrado e a àgua enquanto recurso
natural como direitos fundamentais ................................................... 799
Elenise Felzke Schonardie & Marcos Paulo Scherer
O Estado brasileiro e a cidadania: Contradições paradigmáticas na
construção dos Direitos Humanos. ...................................................... 815
Mariane D. Martins
Educação ambiental: Um estudo a partir das políticas públicas
concretizadoras do meio ambiente como um direito humano .......... 835
Marli Marlene Moraes da Costa & Rodrigo Cristiano Diehl
Projeto Rondon: Uma experiência além da universidade .................. 853
Moisés dos Santos Dutra; Isaque dos Santos Dutra &
Jonatas Medeiros Soares
A busca da efetivação do direito à cidadania pelos povos indígenas
latino-americanos ................................................................................. 863
Monia Peripolli Dias
O instituto mediação como política pública de inclusão social e
facilitadora do acesso à justiça ............................................................ 881
Nadja Caroline Hendges & Janete Rosa Martins
Uma análise da sociedade de risco e do meio ambiente frente a
questão da proteção das águas subterrâneas .................................... 897
Natacha John; Rachel Cardone & Sergionei Correa

As violações de direitos humanos no contexto dos megaeventos


esportivos em países periféricos: Apontamentos desde a
colonialidade do poder ......................................................................... 915
Natalia Martinuzzi Castilho & Alex Silveira Filho
Os custos humanos da pirataria marítima.......................................... 935
Nelson Speranza Filho
O Brasil e a proteção aos direitos humanos na esfera regional ........ 953
Patricia Grazziotin Noschang
16

A Lei 11.977, de 07 de julho de 2009, como instrumento para a


regularização fundiária sustentável em áreas de proteção
permanente ........................................................................................... 969
Patrícia Andreola & Iásin Schäffer Stahlhöfer
Memória e tempo: A razoável duração do processo pós-Emenda
Constitucional nº 45/2004 .................................................................... 987
Queli Cristiane Schiefelbein da Silva & Fabiana Marion Spengler
A participação democrática pelo voto nas Constituições federais
brasileiras .............................................................................................. 1013
Renê Carlos Schubert Junior
Perfil socieconômico e educacional das mulheres do Programa
Mulheres Mil do IF Farroupilha – campus Panambi ......................... 1027
Rogéria Fatima Madaloz
Mediação como qualidade de vida: Democratização e autonomia
para tratar dos conflitos judiciais e extrajudiciais sob a luz da teoria
do discurso ............................................................................................. 1043
Sheila Marine Uhlmann Willani & Ana Paula Cacenotti
Controle da informação: Uma ameaça à democracia na Argentina,
no Brasil e na Venezuela ...................................................................... 1061
Talita Mazzola & Vera Raddatz
Democracia e participação como meio de concretizar o direito à
cidade sustentável ................................................................................ 1075
Tatiane Kessler Burmann & Daniel Rubens Cenci
Mediação de conflitos como meio eficaz para compreensão da
diversidade cultural nas relações familiares ...................................... 1093
Thaís Kerber De Marco & Júlia Francieli Neves de Oliveira
Entre a anemia estatal e a anomia política: Ensaio sobre as
ressignificações do Estado e do sujeito face os desafios à
conformação dos discursos em torno de uma sociedade [que se
pretende] cosmopolita e democrática ................................................. 1109
Thaisy Perotto Fernandes
A origem das penas restritivas de liberdade há prestação de
serviços à comunidade ......................................................................... 1145
Vagner Poerschke
POLÍTICAS PÚBLICAS DE
ENFRENTAMENTO À DELINQUÊNCIA
JUVENIL : UMA ANÁLISE A
PARTIR DO ÂMBITO ESCOLAR

Ademar Antunes da Costa


Advogado. Mestre em Direito pela Universidade de Caxias do Sul – UCS.
Professor em Direito Civil e Introdução ao Estudo do Direito pela Universi-
dade de Santa Cruz do Sul – UNISC. Integrante do Grupo de Pesquisa: “Di-
reito, Cidadania e Políticas Públicas” do Programa de Pós-Graduação em
Direito – Mestrado e Doutorado da UNISC, certificado pelo CNPq, coorde-
nado pela professora Pós-Doutora Marli Marlene Moraes da Costa.
(aac.adv@gmail.com)
Rodrigo Cristiano Diehl
Acadêmico do curso de Direito da Universidade de Santa Cruz do Sul –
UNISC. Integrante dos grupos de pesquisa: “Direito, Cidadania e Políticas
Públicas”, coordenado pela professora Pós-Doutora Marli Marlene Moraes
da Costa; “Direitos Humanos”, coordenado pelo professor Pós-Doutor
Clovis Gorczevski e; “Teorias do Direito”, coordenado pela professora
Doutora Caroline Mueller Bitencourt, ambos do Programa de Pós-
Graduação em Direito – Mestrado e Doutorado da UNISC e certificados
pelo CNPq. Bolsista da Fundação de Amparo a Pesquisa do Estado do Rio
Grande do Sul – FAPERGS no projeto de pesquisa “O direito de proteção
contra a exploração do trabalho infantil e as políticas públicas de saúde no
Brasil”, coordenado pela Pós-Doutora. Marli Marlene Moraes da Costa.
(rodrigocristianodiehl@live.com)

Resumo
O presente trabalho tem por objetivo central analisar as políticas públicas desde a
percepção do problema na sociedade, seguindo pela sua elaboração, passando pela
concepção e implementação, até chegar a sua etapa final que seria a avaliação de
sua eficácia e o próprio controle. Após esta profunda análise, pretende-se levar o
leitor a uma profunda reflexão sobre a necessidade urgente de se trabalhar, de for-
ma preventiva, os aspectos referentes à delinquência juvenil. Sendo assim, preferiu-
se trabalhar este problema dentro do âmbito escolar, visto que, o ser humano não
pode ser considerado um ser isolado, pois vive, cresce e se desenvolve a partir de
um contexto interativo e dinâmico. E por fim, de forma sucinta, analisou-se a eficácia
das políticas públicas existentes e os desafios que deverão ser encarados devido a
globalização principalmente da juventude.
Palavras-chave: Delinquência. Escola. Juventude. Políticas Públicas.
18
Ademar Antunes da Costa & Rodrigo Cristiano Diehl

Abstract
The present study is aimed to analyze public policy from the perception of the prob-
lem in society by following its development, through conception and implementa-
tion, until reach the final step that would be to evaluate their own effectiveness and
control. After this profound analysis, it is intended to lead the reader to a deeper
reflection on the urgent need to work in a preventive manner, aspects related to
juvenile delinquency. Therefore, was preferred to work this problem within the
school, since human beings can not be considered an isolated being, because he
lives, grows and develops from an interactive and dynamic context. And finally, suc-
cinctly analyzed the effectiveness of existing policies and the challenges that must be
faced due to globalization mainly youth.
Keywords: Delinquency; Public Policy; School; Youth.

CONSIDERAÇÕES INICIAIS
A proposta de pensar os fatores determinantes da delin-
quência e da criminalidade em nosso país na atualidade, leva-
nos a refletir sobre uma série de fatos que denunciam haver
uma falha no laço social. Partindo do pressuposto de que o
Brasil possui uma das maiores populações carcerárias jovens
do mundo segundo dados do Departamento Penitenciário Na-
cional (DEPEN), tendo como determinantes do crescimento dos
índices que refletem a violência, o desemprego, sobretudo en-
tre os jovens, o apelo ao consumismo, a ética do imediatismo, o
aumento do tráfico de drogas e do uso de armas pela popula-
ção, a maioria delas aliadas à corrupção, à impunidade e à fal-
ta de políticas públicas estruturais de prevenção.
Neste sentido, o presente trabalho visa, em um primeiro
momento, contribuir com o desenvolvimento e a concretização
de políticas públicas de combate à delinquência juvenil. Para
isso, fez-se necessária toda uma análise de conceitos que en-
volvam essas ações, desde a identificação do problema, pas-
sando por toda a elaboração e execução, até desembocar no
controle, tanto administrativo quanto judicial, destas políticas
públicas.
Considerando, a visão acadêmica de que o Estado Con-
temporâneo passa por uma série de transformações e evolução
a proposta é desafiar estas situações trazendo elementos para
fundamentar e argumentar, junto ao poder público e a socie-
dade civil, sobre possibilidades e/ou alternativas concretas e

I Seminário Internacional de Direitos Humanos e Democracia


Os Direitos Humanos e a sua Proteção
25 e 26 de abril de 2013
19
Políticas públicas de enfrentamento à delinquência juvenil

fundamentais de garantia e aplicação de princípios constituci-


onais, bem como conceitos do Direito. Busca-se demonstrar
que políticas públicas efetivas de combate à delinquência ju-
venil implementadas no seio de uma comunidade, restabele-
cem e fortalecem os direitos básicos para o exercício de uma
juventude plena.

POLÍTICAS PÚBLICAS: CONCEITOS GERAIS


A Constituição Federal de 1988 representou o início da re-
forma Estatal, para colocar em prática a democratização do
acesso à serviços e à participação cidadã. Assim, ocorreu nes-
se período, um deslocamento para o foco das políticas públicas
no Brasil, partindo-se para a produção de políticas que se des-
tinassem a examinar as verdadeiras necessidades sociais. E,
nesse sentido, a capacidade delas acabarem afetando as estra-
tégias dos gestores públicos na tomada de decisões1.
Nesta perspectiva, Hochman, Arretche e Marques desta-
cam que essa forma “mais inclusiva” de participação social
levaram a uma agenda de pesquisa que buscou, dentre outras
coisas, “interpretar as políticas estatais sob a ótica de seu po-
tencial de transformação da cultura política e das relações en-
tre o Estado e os cidadãos”. Aduzem os autores que, no Brasil,
os estudos voltaram-se, principalmente, para as transforma-
ções que vinham ocorrendo, dentre elas a descentralização, a
reforma política e a emergência de novos formatos de partici-
pação política2.
Com o avanço do processo democrático e a redefinição
das políticas públicas no país, tornou-se imprescindível uma
melhor compreensão sobre a temática, especialmente por par-
te dos agentes políticos, dos grupos de interesse e dos cida-
dãos de maneira geral, que são os indiscutíveis destinatários
dos serviços públicos. No mesmo sentido, Schmidt ensina que:

1
HOCHMAN, G.; ARRETCHE, M.; MARQUES, E. (Orgs.) Políticas Públi-
cas no Brasil. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 2007, p. 15.
2
Idem.

Programa de Pós-graduação em Direito


Curso de Mestrado em Direitos Humanos
20
Ademar Antunes da Costa & Rodrigo Cristiano Diehl

Para o cidadão, é muito relevante que conheça e entenda


o que está previsto nas políticas que o afetam, quem a
estabeleceu, de que modo foram estabelecidas, como es-
tão sendo implementadas, quais são os interesses que
estão em jogo, quais são as principais forças envolvidas,
quais são os espaços de participação existentes, os pos-
síveis aliados e os adversários, entre outros elementos.3

Em razão dessa nova conjuntura, a compreensão de al-


guns conceitos que perfazem o universo das políticas públicas
revela-se a chave-mestra para a promoção e efetivação de di-
reitos e garantias sociais, especialmente por parte dos gesto-
res públicos e das organizações estaduais. Ademais o estudo
sobre as políticas públicas deve ser feito de forma integrada
com a compreensão do papel do Estado e da própria socieda-
de, nos dias atuais.
Diante disso, de maneira objetiva, Schmidt destaca que o
termo “políticas públicas” é utilizado com diferentes significa-
dos, ora indicando uma determinada atividade, ora um “propó-
sito político”, e em outras vezes “um programa de ação ou os
resultados obtidos por um programa”. Assim, para entender as
políticas públicas, o autor, utilizando-se de conceitos de estu-
diosos da área, ensina que as políticas públicas são um con-
junto de ações adotadas pelo governo, a fim de produzir efeitos
específicos, ou de modo mais claro, a soma de atividades do
governo que acabam influenciando a vida dos cidadãos4.
A doutrina, por sua vez, é responsável por diferenciar os
distintos modelos de políticas, assim, de modo geral, os estu-
diosos da temática seguem a classificação de Theodore Lowy,
qual se utiliza de quatro tipos distintos de políticas públicas:
as distributivas, as redistributivas, as regulatórias e as consti-
tutivas ou estruturadas.

3
SCHMIDT, João Pedro. Para entender as políticas públicas: aspectos
conceituais e metodológicos. In.: REIS, Jorge R.; LEAL, Rogério G. Direi-
tos Sociais e Políticas Públicas: desafios contemporâneos. Tomo 8. San-
ta Cruz do Sul: Edunisc, 2008, p. 2308.
4
SCHMIDT, et al. op. cit., p. 2311.

I Seminário Internacional de Direitos Humanos e Democracia


Os Direitos Humanos e a sua Proteção
25 e 26 de abril de 2013
21
Políticas públicas de enfrentamento à delinquência juvenil

As políticas distributivas são aquelas responsáveis pela


distribuição de recursos para a sociedade, regiões ou segmen-
tos específicos. Normalmente são “fragmentadas, pontuais e
de caráter clientelista”, portanto é imprescindível o controle
das mesmas através de conselhos/espaços de participação
popular5.
Ainda, de acordo com Bryner, esse tipo de política inclui
determinados subsídios capazes de conferir proteção a certos
interesses, assegurando determinados benefícios. As “deci-
sões-chaves”, ou seja, os critérios para definir quem deve re-
ceber o benefício e quando devem receber, ficam a cargo dos
legisladores, que têm um certo interesse em deixar claro aos
receptores as origens dos benefícios concedidos6.
Por outro lado, as políticas redistributivas deslocam re-
cursos das camadas sociais mais abastadas para as menos
privilegiadas, são as chamadas políticas “Robin Hood”, ou
ainda, políticas sociais universais, como a seguridade social.
As regulatórias assumem a tarefa de regulamentar e
normatizar o funcionamento de serviços públicos, nas palavras
de Schmidt, elas:
[...] regulam e ordenam, mediante ordens, proibições, de-
cretos, portarias. Criam normas para funcionamento de
serviço e instalação de equipamentos públicos. Podem
tanto distribuir benefícios de forma equilibrada entre
grupos e setores sociais, como atender a interesses par-
ticulares. Em geral, seus efeitos são de longo prazo, sen-
do por isso difícil conseguir a mobilização e a organiza-
ção dos cidadãos no processo de formulação e implemen-
tação. Às vezes atingem interesses localizados, provo-
cando reações.7

Bryner ensina que essa modalidade de política tem por fi-


nalidade “alterar diretamente o comportamento individual im-
pondo padrões às atividades reguladas”, em razão dessa ca-
5
Ibidem, p. 2314.
6
BRYNER, et al. Op.cit, p. 320.
7
SCHMIDT, et al. op. cit., p. 2314.

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22
Ademar Antunes da Costa & Rodrigo Cristiano Diehl

racterística é possível que gerem mais controvérsias. Nas pa-


lavras do autor, “ações reguladoras podem restringir significa-
tivamente interesses particulares e impor-lhes custos de acei-
tação”8.
Por fim, as constitutivas ou estruturadas definem proce-
dimentos gerais de uma determinada política; de modo geral, é
possível afirmar que elas “determinam as regras do jogo, as
estruturas e os processos da política”, afetando as condições
com as quais são negociadas as demais políticas. Para melhor
compreensão dessa modalidade, Schmidt traz como exemplo
de política constitutiva “a definição do sistema do governo, do
sistema eleitora; as reformas políticas e administrativas”9.
Torna-se evidente que as políticas são o meio de ação do
Estado, através delas, a União, os Estados e os Municípios
conseguem concretizar direitos e garantias fundamentais, por
isso saber diferenciar esses aspectos metodológicos é impres-
cindível para a compreensão da dimensão e importância das
fases que definem uma política, desde a sua criação até a ava-
liação de seus resultados.
Nessa conjuntura, o processo de elaboração de uma polí-
tica inicia-se com a “percepção e definição de problemas”, sem
essa avaliação inicial a política não adquire nenhuma razão de
existir, conforme destaca Schmidt, não basta apenas o reco-
nhecimento de uma dificuldade ou situação problemática é
preciso transformá-la em um problema político10. É preciso
também que tal questão desperte o interesse não só do gover-
no, mas principalmente da sociedade, e como geralmente a
comoção dessa acontece primeiro, ela acaba se tornando o ór-
gão propulsor para que determinada situação ocupe o rol de
prioridades do governo.
Após a identificação do problema, faz-se necessária a in-
serção de sua demanda na agenda política. Isso significa que
determinado assunto chama a atenção não só dos cidadãos

8
BRYNER, et al. op. cit., p. 321.
9
SCHMIDT, et al. Op.cit., p. 2314.
10
SCHMIDT, et al. op. cit., p. 2314.

I Seminário Internacional de Direitos Humanos e Democracia


Os Direitos Humanos e a sua Proteção
25 e 26 de abril de 2013
23
Políticas públicas de enfrentamento à delinquência juvenil

como, especialmente, do governo. Nas palavras de Schmidt,


trata-se de um “rol das questões relevantes debatidas pelos
agentes públicos e sociais, com forte repercussão na opinião
pública”. A construção de uma agenda envolve discussão
permanente e uma forte disputa política, vez que a “influência
política” também adquire a capacidade de “controlar a agen-
da” de acordo com os interesses daqueles que a manipulam11.
Destaca-se, para melhor compreensão desse processo, os
apontamentos de Schmidt:
Entre os agentes que influenciam a construção da agen-
da governamental destacam-se os atores governamentais
e não governamentais. Esses atores podem ser visíveis
(políticos, mídia, partidos) ou invisíveis (pesquisadores,
consultores, funcionários). São os guardiões da agenda
pública (agenda setters), e outros não o sejam, bem como
para que nela se mantenham ou não.12

Em seguida, deve iniciar o processo de formulação da po-


lítica pública, nesse momento define-se a maneira como o pro-
blema será solucionado, quais os elementos e alternativas que
serão adotadas. Trata-se de uma fase de negociações e confli-
tos entre os agentes públicos e os grupos sociais interessados.
Segundo Schmidt, “a formulação de uma política nunca é pu-
ramente técnica. É sempre política, ou seja, orientada por inte-
resses, valores e preferências, apenas parcialmente orientada
por critérios técnicos. Cada um dos atores exibe sua preferên-
cia e recursos de poder”13.
A implementação compreende a quarta fase de uma polí-
tica, trata-se da concretização da formulação, é o momento de
executar aquilo que foi planejado. Nesse instante, geralmente
acabam acontecendo adaptações e adequações, por isso um
elemento imprescindível é a articulação entre o momento de
formulação e de implantação de uma política, os agentes res-

11
Ibidem, p. 2316.
12
Ibidem, p. 2317.
13
Ibidem, p. 2318.

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24
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ponsáveis por essas duas fases devem estar entrosados, com-


partilhar informações e participar ativamente desses processos.
De acordo com os estudiosos, a implementação é um pro-
cesso difícil, pois muitas vezes essa fase não chega a alcançar
seus objetivos em função da falta de vontade ou de acordo po-
lítico. Do mesmo modo, Bryner enfatiza que “a implementação
é a continuação da formulação de políticas, mas com novos
atores, procedimentos e ambientes institucionais”14. Assim, o
posicionamento que está ganhando força nos dias de hoje é a
“noção de redes”, por isso é importante a integração dos dife-
rentes organismos envolvidos em uma determinada política, e
nesse caso, mais uma vez, o papel fundamental dos gestores
públicos para o incentivo a essa aproximação, vez que, não
obstante, o comum é o distanciamento e um espírito de com-
petição presente também nos organismos governamentais.
Por último, e quem sabe a fase mais importante, tem-se a
avaliação de uma política, não basta apenas criá-la, implemen-
tá-la, sem se estar disposto a fazer uma análise minuciosa dos
seus resultados obtidos, dos êxitos e das dificuldades apresen-
tadas, do estudo de sua efetividade e eficiência. O ideal, nesse
processo de avaliação, é justamente delinear se a política atin-
giu aos objetivos ao qual se propôs, assim como determinar se
é conveniente que determinada política se mantenha ou se
modifique.
No Brasil, ainda é muito frágil o processo de avaliação de
uma política, geralmente esse momento se resume em massa
de manobra para políticos utilizarem-se de pseudo-resultados
com o propósito de campanha para novas eleições a fim de se
manterem no poder. Por isso que muitas vezes os processos
avaliativos atuais acabam tendo pouca credibilidade junto a
sociedade. Importante trazer à baila o posicionamento de Sch-
midt:
Um governante que não tem mecanismos apropriados de
acompanhamento das ações do seu governo, capazes de
detectar até que ponto o governo está conectado com as

14
BRYNER, et al. Op.cit., p. 319.

I Seminário Internacional de Direitos Humanos e Democracia


Os Direitos Humanos e a sua Proteção
25 e 26 de abril de 2013
25
Políticas públicas de enfrentamento à delinquência juvenil

expectativas dos cidadãos e até que ponto sua energia


política está sendo canalizada para a resolução de pro-
blemas importantes da sociedade, está fechada ao fra-
casso. Na eleição seguinte, os eleitores entusiasmados
de ontem levarão apoio a outro candidato, que aponte
perspectivas de mudanças.15

Diante do exposto, a compreensão sobre o tema políticas


públicas, torna-se mais contundente quando aliada ao cenário
da administração pública. Vislumbra-se, no contexto atual, que
à medida que as políticas públicas são direcionadas a progra-
mas sociais, de modo a garantir direitos, especialmente das
classes menos privilegiadas, os desafios à gestão das organi-
zações públicas aumentam. Sendo assim, uma das principais
linhas de atuação das políticas públicas na garantia de direitos
é na área da segurança pública, e principalmente, do objeto de
estudo deste trabalho, no que diz respeito à delinquência ju-
venil, o que será abordado na sequencia.

PREVENÇÃO DA DELINQÜÊNCIA JUVENIL A PARTIR DA ESCOLA


Historicamente, as políticas públicas preventivas sobre
delinquência, estão embasadas em diferentes abordagens: as
dirigidas diretamente aos indivíduos considerados em risco de
serem delinquentes, e as que buscam modificar as condições
sociais que envolvem estes jovens. Nos últimos anos esta dife-
renciação tem se mostrado muito mais evidente ao situar-se no
mesmo centro de atuação político-social, a discussão a cerca
da efetividade de uma ou de outra16.
A prevenção estrutural fundamenta as causas da delin-
quência no mau funcionamento das instituições sociais (famí-
lia, escola, o mercado de trabalho, etc.). A obtenção de condi-
ções favoráveis no sentido de o jovem agir de forma madura e

15
SCHMIDT, et al. Op.cit., p. 2320.
16
FARRINGTON, D. P. Contribuições psicológicas para la exlicación,
prevención e tratamento de la delinqcuencia. n. 1/12, 5-34 – 1998, p.
17.

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Curso de Mestrado em Direitos Humanos
26
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equilibrada, passa pela implementação de políticas públicas


preventivas e pelo exercício contínuo de climas positivos no
contexto de todas as instituições envolvidas no processo de
desenvolvimento.
A obtenção destes ambientes estimulantes e criativos se
consegue criando atmosferas motivadoras em sala de aula e
conseguindo escolas que não sejam estigmatizantes e impes-
soais, que mantenham uma direção efetiva, que plantem alter-
nativas estimulantes em cada disciplina, que envolva os alu-
nos em atividades curriculares e extracurriculares, e que en-
volvam a família na política escolar. Junto a este clima geral, é
de extrema importância que os professores apesar de terem a
difícil tarefa de ensinar trabalhando também os limites, gostem
daquilo que fazem, sejam simpáticos, compreensivos, respon-
sáveis e respeitosos, e adaptem seus métodos as necessidades
e interesses de seus alunos. Para isso, deve reduzir-se o stress
dos professores que trabalham com crianças e adolescentes de
alto risco, diminuindo suas turmas, para que o profissional
possa compreender como funcionam mentalmente os infantes
de risco que estão sob sua responsabilidade17.
Num contexto educativo, estimulante e atrativo tanto pa-
ra os professores como para os alunos, os mesmos podem ob-
servar as distorções de seu sistema de funcionamento e atua-
rem com mais simetria de forma a obter melhores resultados
para todos.
Por sua vez, a prevenção individual não nega que os fato-
res ecológicos podem afetar negativamente a todos os sujeitos,
porém reconhece que alguns jovens tem uma maior probabili-
dade de tornarem-se delinquentes do que outros. Isso se deve
as características dos indivíduos e do desenvolvimento de su-
as capacidades e habilidades que resultam necessárias para
uma adequada integração social. A prevenção individual cen-
tra-se, portanto, naqueles jovens que apresentam dificuldades
de adaptação social, com tendências a delinquir, geralmente
17
MILLIS, R. G. P. Working with highrisk youth in prevention and early
intervention programas: Toward a comprehensive wellness model.
Adolescence. Vol. XXIII, n. 91, 643-660.1997, p. 654.

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Os Direitos Humanos e a sua Proteção
25 e 26 de abril de 2013
27
Políticas públicas de enfrentamento à delinquência juvenil

como consequência de ter crescido em ambientes sociais de


miséria, hostilidade e maus tratos.18
Fica evidente que os dois tipos de prevenção, longe de
ser excludentes, se complementam. Os programas de inter-
venção podem modificar a organização e funcionamento insti-
tucional e, ao mesmo tempo, centrar-se mais naqueles alunos
com alto risco de cometer delitos.
Sendo assim, de acordo com Costa19, têm demonstrado
que a grande maioria dos delinquentes juvenis são fracassados
escolares. Outro dado consistente é que as condutas perturba-
doras na escola se relacionam com uma conduta delitiva poste-
rior. Não resulta claro, no entanto, se o fracasso escolar é uma
das causas da delinquência, se a conduta perturbadora em
sala de aula é a que provoca o fracasso escolar, ou se ambos
são manifestações de um padrão desviante anterior20.
Estas dúvidas continuam suscitando reflexões e discus-
sões sobre o papel que diferentes teorias outorgam para a es-
cola em sua relação com a delinquência juvenil. Uma das mais
relevantes teorias é a da tensão e frustração de Cloward21 a
referida teoria contempla a escola como uma instituição de
classe média em que as crianças e adolescentes de classe bai-
xa possuem menos oportunidades de competir com êxito. Por
não poder dispor de uma das grandes vias legítimas de acesso
as metas culturalmente estabelecidas, estes jovens cometeriam
delitos para compensar suas frustrações e elevar sua autoes-
tima.

18
NOVAIS, Maria H. O “maior interesse” da criança e do adolescente face
às suas necessidades biopsicossociais: uma questão psicológica. In:
PEREIRA. Tânia da S.. O Melhor Interesse da Criança: um debate Inter-
disciplinar. Renovar. Rio de Janeiro: 2001, p. 24.
19
COSTA, Antônio Carlos Gomes da. Infância, Juventude e política social
no Brasil. Brasil criança urgente. A lei 8.069/90. Coleção Pedagogia So-
cial. São Paulo: Columbus Cultural. 1990, p. 87.
20
GUIMARÃES, Aurea Maria. Vigilância, punição e depredação escolar.
Papirus, Campinas: 2003, p. 96.
21
CLOWARD, R. Ohlin, L. Delinquency and oppotunity. N.Y. Free
Press.1997, p. 145.

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28
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Temos a teoria do etiquetado, que segundo Bernfeld22, a


etiqueta que se impõe a crianças e adolescentes de difícil
comportamento propicia que o sistema escolar lhes trate de
um modo hostil, sem importar a realidade objetiva de suas
ações, contribuindo para que os jovens assumam tal etiqueta
e, consequentemente, a que se impliquem em atividades an-
tissociais e posteriormente delitivas.
Segundo Hawkins23 a explicação mais interessante seria
aquela que se refere a teoria do desenvolvimento social. Esta
teoria identifica a família, a escola e o grupo de pares como as
unidades mais importantes no desenvolvimento do ser huma-
no, de modo que quanto maior for o grau de envolvimento que
a criança e o adolescente mantenha com elas, mais possibili-
dades existirão para prevenir o surgimento da delinquência
juvenil.
No que se refere a escola, a teoria do desenvolvimento
social define três condições necessárias para formar e reforçar
o vínculo social entre o infante e a instituição socializadora. A
primeira condição se refere ao fato de que o jovem deve expe-
rimentar as oportunidades para envolver-se na vida da escola.
A segunda é quando o jovem tem habilidades sociais, cogniti-
vas e de conduta necessárias para atuar de forma equilibrada
e dinâmica nas atividades e interações sociais. E por fim,
quando os jovens são reconhecidos e elogiados consistente-
mente por seu desempenho correto, assim, desenvolvem uma
relação positiva e frutífera com a escola, o que dificultará sua
participação em atos delitivos24.
Considerando que o ser humano não pode ser considera-
do como algo isolado, pois vive, cresce e se desenvolve dentro
de um contexto interativo e dinâmico, é aí que a escola assume

22
BERNFELD, S. Psicoanálisis Y educación antiautoritária. Barral, Barce-
lona: 1983, p. 123.
23
HAWKINS, Y Weis, Delinquency e Prevention. J. Of. Primary Preven-
tion, 6:73-1997, p. 61
24
ZIGLER, E; TAUSSIG, C. y Black, Early Childhood Intervention. A
Promising Preventative for Juvenile Delinquency. American Psycholo-
gist, Vol. 47, n. 8,997-1006 – 1997, p. 653.

I Seminário Internacional de Direitos Humanos e Democracia


Os Direitos Humanos e a sua Proteção
25 e 26 de abril de 2013
29
Políticas públicas de enfrentamento à delinquência juvenil

papel importante, devendo ser mais uma das unidades que


formam o processo de socialização, devendo levar em conta as
outras unidades como a família, o grupo de pares e a comuni-
dade. Estas instituições acabam fazendo um trabalho interli-
gado e de extrema importância no desenvolvimento do ser
humano, lembrando que, as influências de cada uma delas não
tem o mesmo peso em todas as etapas do desenvolvimento
social, seguindo a teoria de Hawkins25, deve-se desenvolver
técnicas de intervenções específicas através de políticas pú-
blicas eficazes juntamente com aquela unidade socializadora
que está afetada.

A BUSCA POR UMA EFETIVA CONSOLIDAÇÃO DE DIREITOS ATRAVÉS


DE POLÍTICAS PÚBLICAS VOLTADAS À JUVENTUDE
Tratando de política pública, esta “faz parte do conheci-
mento denominado policy science”. Conhecimento este que
vai além de governo, “visto que, para sua existência, a socie-
dade também exerce papel ativo e decisivo”. Assim, entende-
se por política pública a “ação pública, na qual, além do Esta-
do, a sociedade se faz presente, ganhando representatividade,
poder de decisão e condições de exercer o controle sobre a sua
própria reprodução e sobre os atos e decisões do governo”26.
No entanto, a existência da política pública implica na
existência de direitos sociais, pois, se a política deve atender
as necessidades dos cidadãos, é preciso saber quais são essas
necessidades e declará-las em forma de lei. Porém, “assegurar
direitos, implica ir além da legislação. As leis são as ferramen-
tas de exigibilidade e, ao mesmo tempo, resultam da articula-
ção e lutas sociais”27. Assim, é possível definir que o Estado
tem o papel de executar as políticas públicas, ou seja, presta

25
HAWKINS. Op.cit., p. 48.
26
PEREIRA, T. D. Política nacional de assistência social e território: um
estudo à luz de David Harvey. Tese (Doutorado) - Universidade Federal
do Rio de Janeiro, 2009, p. 14.
27
TEJADAS, Silvia da Silva. Juventude e ato infracional: as múltiplas
determinações da reincidência. Porto Alegre : EDIPUCRS, 2007, p. 19.

Programa de Pós-graduação em Direito


Curso de Mestrado em Direitos Humanos
30
Ademar Antunes da Costa & Rodrigo Cristiano Diehl

um serviço à sociedade, e os cidadãos exercem a função de


recomendá-las e acompanhá-las em sua construção, execução
e avaliação.
Para o Serviço Social, as necessidades sociais são com-
preendidas como questão social, a qual é resultado do embate
político entre capital e trabalho, originando assim contradições
– necessidades sociais. Em outras palavras, “a questão social
diz respeito ao conjunto das expressões das desigualdades
sociais engendradas na sociedade capitalista madura, impen-
sáveis sem a intermediação do Estado”28. Nesses termos a polí-
tica pública exerce a importante função de defesa, proteção
dos direitos sociais, tendo em vista a justiça social.
Todavia, os jovens também são sujeitos de direitos, bem
como as crianças, adolescentes, mulheres, idosos, pessoas
portadoras de necessidades especiais, enfim, todos os cida-
dãos. A propósito, é importante mencionar as políticas públi-
cas para as crianças, adolescentes (e jovens) enquanto garan-
tia de seus direitos através do Estatuto da Criança e do Ado-
lescente.
Em 1990, designadamente em 13 de julho, é criado o Es-
tatuto da Criança e do Adolescente – ECA, o qual protege in-
tegralmente a criança até doze anos de idade incompletos, e o
adolescente entre doze e dezoito anos de idade. O ECA consti-
tui uma política importante, onde a família, o governo e a soci-
edade tornam-se legalmente responsáveis por esta faixa etária
de zero a dezoito anos, tendo o dever de assegurar-lhe seus
direitos. Neste contexto, vale reportar à Constituição Federal
de 1988, a qual, como eixo norteador das políticas públicas, é
que primeiro veio a garantir os direitos das crianças e dos ado-
lescentes. Contudo, a juventude em si, como faixa etária pró-
pria e demandante, não estava sendo atendida nestas políti-
cas. Corroborando, Cury registra que:
Até pouco tempo a juventude era vista, no Brasil, apenas
como uma fase de transição da adolescência para a vida

28
IAMAMOTO, Marilda Vilela. A questão social no capitalismo. In. Revis-
ta Temporalis. n. 03 Jan-Jun. 2001. Brasília. 2001, p. 16.

I Seminário Internacional de Direitos Humanos e Democracia


Os Direitos Humanos e a sua Proteção
25 e 26 de abril de 2013
31
Políticas públicas de enfrentamento à delinquência juvenil

adulta. Em função do próprio Estatuto da Criança e do


Adolescente (ECA) as políticas para o segmento estavam
restritas ao universo de jovens com idade até dezoito
anos29

Se a maioridade (após completar 18 anos) significa “li-


berdade” para muitos jovens, não é em vão, pois de fato a pro-
teção social e a garantia de direitos tendo como base o Estatu-
to da Criança e do Adolescente só ampara até esta idade, dei-
xando a outra parcela da juventude a mercê da sociedade. Por
outro lado, completar 18 anos para os jovens das gerações an-
teriores, significava estar livre de “um período de privações,
com pouca autonomia e constrangidos pelas convenções soci-
ais”30. As razões a estas mudanças de comportamentos e tam-
bém a necessidade de colocar em pauta na agenda pública a
faixa etária de jovens (15 a 29 anos) está atrelada às transfor-
mações sociais.
Neste sentido, existe, em fase final, no Congresso Nacio-
nal um projeto de lei que cria o Estatuto da Juventude, que
basicamente servirá como um norte para as políticas públicas
de Juventude. Pois, o mesmo proporcionará uma série de bene-
fícios à jovens de 15 a 29 anos, entre os quais, estão meia pas-
sagem nos transportes interestaduais e intermunicipais,
transporte público gratuito, além de descontos em ingressos
para eventos culturais.
Sendo assim, para o pesquisador José Jair Ribeiro,
a aprovação do Estatuto da Juventude é um passo muito
importante para olhar as juventudes como sujeito de di-
reitos e não mais como problema, como portadora de uma
pauta de políticas públicas próprias e não mais a mercê

29
CURY, Beto. Os muitos desafios da política nacional de juventude. In:
AVRITZER, Leonardo (Org.). Experiências nacionais de participação
social. São Paulo. Cortez, 2009, p. 90.
30
ABAD, Miguel. Crítica Política das Políticas de Juventude. In: FREITAS,
Maria V.; PAPA, Fernanda de. Políticas Públicas: Juventude em Pauta.
São Paulo: Cortez. 2003, p. 25.

Programa de Pós-graduação em Direito


Curso de Mestrado em Direitos Humanos
32
Ademar Antunes da Costa & Rodrigo Cristiano Diehl

de decisões somente partidárias. Enfim, é um marco de-


cisório para todas as juventudes do Brasil31.

A partir desta análise, verifica-se que existe uma defici-


ência das políticas públicas no Brasil, as quais decorrem desde
a elaboração do Estatuto da Criança e do Adolescente, na me-
dida em que durante este período (1988 e 2000) pouco se dis-
cutiu a questão da delinquência juvenil na agenda pública32.
Entretanto, mesmo deficientes diante das transformações so-
ciais, fruto do fenômeno da globalização, da revolução tecnoló-
gica, etc. é imprescindível o debate, construção e implementa-
ção de políticas públicas eficazes ao jovem no Brasil contem-
porâneo.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
O que se desenvolveu ao longo do presente trabalho, fora
uma reflexão bem pontual a respeito da necessidade de políti-
cas públicas para a juventude, em especial aquelas voltadas
para a não inserção do jovem no mundo da criminalidade. O
que se percebe sobre o tema que isso representa um dos
grandes desafios da sociedade contemporânea, pois é signifi-
cativo e fundamental que os atores sociais (a comunidade, a
sociedade civil e o Estado) se articulem, de maneira a propor
que políticas para essa parcela populacional sejam elaboradas
e efetivadas.
Considerando outro ponto tratado no texto, é que a au-
sência de políticas públicas para juventude pode estimulá-lo à
criminalidade. Portanto, repensar com mais afinco e responsa-
bilidade a importância do jovem para a sua comunidade repre-
senta considerá-lo prioridade absoluta, tratando da sua condi-
ção de sujeito de direitos, logo, do seu melhor interesse. Sendo
assim, a fomentação de políticas públicas que afastem o jovem

31
RIBEIRO, José J. Observatório Juventudes. Disponível em:
<http://maristas.org.br/institucional/rede-marista-apoia-aprovacao-do-
estatuto-da-juventude> Acesso em 08 abril 2013.
32
Idem.

I Seminário Internacional de Direitos Humanos e Democracia


Os Direitos Humanos e a sua Proteção
25 e 26 de abril de 2013
33
Políticas públicas de enfrentamento à delinquência juvenil

da delinquência, sem sombra de dúvida, considerada uma polí-


tica de prevenção à criminalidade adulta.

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I Seminário Internacional de Direitos Humanos e Democracia


Os Direitos Humanos e a sua Proteção
25 e 26 de abril de 2013
A DEMOCRACIA PARTICIPATIVA NA
IMPLEMENTAÇÃO DAS POLÍTICAS PÚBLICAS
DE SAÚDE NO ESPAÇO LOCAL

Adriane Medianeira Toaldo


Doutoranda e Mestre em Direito pela Universidade de Santa Cruz do Sul,
RS, UNISC. Professora na Universidade Luterana do Brasil, ULBRA – Cam-
pus Santa Maria. Advogada. Integrante do grupo de pesquisa Gestão Local
e Políticas Públicas, coordenado pelo professor Pós-Doutor Ricardo Her-
many do Programa de Pós-Graduação em Direito- Mestrado/Doutorado
da UNISC. (adrianetoaldo@terra.com.br.)
Ricardo Hermany
Pós-Doutorado em Direito Administrativo Municipal pela Universidade de
Lisboa/Portugal. Chefe do Departamento de Direito da Universidade de
Santa Cruz do Sul – UNISC. Advogado. (hermany@unisc.br.)

Resumo
Em nível local, a população sofre com a precariedade dos serviços de saúde ofereci-
dos, resultado da falta de investimentos e de uma organização que não atende às
suas necessidades e direitos, previstos na Constituição. O presente artigo apresenta
uma análise do problema da saúde a partir da ideia de empoderamento local em
uma sociedade que vivencia o Estado Democrático de Direito e as possíveis soluções
baseadas na ideia de subsidiariedade e solidariedade. Nesta perspectiva, o empode-
ramento local aliado à solidariedade irão fortalecer a gestão pública no segmento de
saúde. A articulação dos atores sociais no espaço local também contribui para a
formação da cidadania e, sem dúvida, para a descentralização do serviço de saúde
consolidado no princípio da subsidiariedade.
Palavras-chave: Democracia participativa. Empoderamento local. Políticas Públicas.
Sistemas de saúde.

Abstract
At the local level, the population suffers from poor quality of health services offered
as a result of lack of investment and an organization that does not meet their needs
and rights provided for in the Constitution. This article presents an analysis of the
problem of health from the idea of local empowerment in a society that experiences
the democratic rule of law and possible solutions based on the idea of subsidiarity
and solidarity. In this perspective, local empowerment allied solidarity will strength-
en public management in the healthcare segment. The articulation of social actors in
the local space also contributes to the formation of citizenship and, undoubtedly, to
the decentralization of health services consolidated on the principle of subsidiarity.
36
Adriane Medianeira Toaldo & Ricardo Hermany

CONSIDERAÇÕES INICIAIS
Quando o cidadão se dirige a uma instituição pública de
saúde, deseja ver o seu problema solucionado de maneira rá-
pida e eficaz, não importando qual unidade da federação ou
que parcerias o agente estatal firmou para resolver sua de-
manda. Ao ficar horas em uma fila ou esperar semanas e me-
ses pelo atendimento, culpa a corrupção dos políticos pelo não
atendimento.
No entanto, não é somente do desvio de verbas que de-
corre a falta de atenção à saúde necessária. Muitos dos pro-
blemas têm origem na estrutura de saúde que é dividida entre
a União, os Estados e os municípios, que poderiam ser resolvi-
das se houvesse uma maior descentralização. Também há
maior possibilidade de eficácia de houver uma relação de soli-
dariedade entre o poder público e a sociedade civil.
O presente artigo procura encaminhar reflexões neste
sentido, observando os princípios de subsidiariedade e solida-
riedade como propostas para melhorar o atendimento de saúde
no município.

O ESTADO DEMOCRÁTICO DE DIREITO NA ATUALIDADE


Antes de entrar na esfera da questão democrática e da
formação de um capital social que promova a implantação de
políticas de saúde locais, é necessário que se entenda as
transformações pelas quais passaram o Estado na atualidade.
Diversas formas de organização deste Estado, como o Liberal,
o Estado de Bem-Estar Social e o Estado Neoliberal não conse-
guiram responder aos anseios de uma sociedade democrática,
seja por uma questão de princípios, seja por uma questão social
e real de interesses que demonstraram sua ineficiência.
Resulta disso que se apresenta, para o presente século a
ideia de um Estado Democrático de Direito, pautado na legiti-
midade de sua atuação, garantidor da ordem constitucional e
propenso a estabelecer políticas públicas que estão direta-
mente ligadas à atuação da sociedade, estabelecendo elos co-
muns com esta, rumo à democratização de todas as suas
I Seminário Internacional de Direitos Humanos e Democracia
Os Direitos Humanos e a sua Proteção
25 e 26 de abril de 2013
37
Democracia participativa e políticas públicas de saúde no espaço local

ações. É o que postula José Luiz Bolzan de Morais1, para quem


o Estado, na atualidade, não constitui apenas um dispositivo
técnico de poder, mas uma concepção de organização social
que cria liberdades públicas, zela pela democracia e atribui ao
Estado um conteúdo. Continua sendo um Estado naturalmente
intervencionista, afirma o autor, fruto do desenvolvimento eco-
nômico e técnico-científico, aumento dos centros urbanos e
surgimento de diversos estamentos sociais. Este intervencio-
nismo, na visão de Dalmo de Abreu Dallari2, constitui função do
Estado, dada pela sociedade civil e que deriva de necessida-
des sociais, pois o poder público se assume como garantidor
das condições mínimas de existência para as pessoas. Estas
condições, no Estado Brasileiro, tem origem constitucional no
princípio da dignidade humana e se estende a toda uma gama
de direitos humanos que inclui, no caso do tema aqui proposto,
a assistência à saúde de forma integral e com qualidade. No
entanto, compreende-se que a garantia destes direitos somen-
te será possível mediante o aperfeiçoamento dos mecanismos
de cidadania.
A democracia, a partir desta ótica, constituiria uma situa-
ção de constante aperfeiçoamento, pois o Estado Democrático
de Direito possui como fundamento a participação efetiva e
operante do povo na coisa pública, indo muito além da simples
formação de instituições representativas. Traduzindo este en-
tendimento, afirma-se um dos objetivos primordiais do Estado
consiste em superar as desigualdades sociais e regionais e
instaurar um regime democrático que realize a justiça social,
fundamentado no constitucionalismo, democracia, sistema de
direitos fundamentais, justiça social, divisão dos poderes, lega-
lidade e segurança jurídica.
Esta opinião é compartilha por Perry Anderson3, que con-
sidera que o Estado atual, classificado pelo autor como pós-

1
MORAIS, José Luís Bolzan de et al. O Estado e suas crises. Porto Alegre:
Livraria do Advogado, 2005. p. 71.
2
DALLARI, Dalmo de Abreu. Elementos de Teoria Geral do Estado. São
Paulo: Saraiva, 1989. p.54.
3
ANDERSON, Perry. Pós-neoliberalismo: as políticas sociais e o estado
democrático. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1995. p. 62.

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Curso de Mestrado em Direitos Humanos
38
Adriane Medianeira Toaldo & Ricardo Hermany

neoliberal, tem a obrigação de garantir valores como a propri-


edade e a democracia, procurando fornecer a cada cidadão
uma vida de forma plena segundo o padrão de sua escolha, o
que pressupõe uma igualdade baseada na diversidade, como
paradigma de uma sociedade verdadeiramente livre. A propri-
edade, neste sentido, deve ter uma função social e promover
maior inclusão social. Perry Anderson também defende um
reposicionamento da democracia representativa, interligando
atores sociais e criando uma sociedade que priorize o bem-
estar de todos.
Este pensamento caminha em direção a uma maior parti-
cipação social, que deve ser entendida pela sociedade civil
como necessária e deve ser estimulada pelo Estado, que se
tornará corresponsável pela gestão da coisa pública. Pierre
Rosanvalon4 chama esta nova situação de crise do Estado Pro-
vidência, que está dando lugar a um novo Tipo de Estado, que
se pauta por uma combinação de elementos articulada na so-
cialização, descentralização e transferência. No entender deste
autor, três palavras-chaves identificam as novas funções do
Estado: desburocratização, remodelação e transferência. A
desburocratização racionaliza a gestão das grandes estruturas
e funções coletivas. A remodelação prepara os serviços públi-
cos para torná-los mais próximos dos usuários através da des-
centralização. A transferência implica em delegar poder e as
tarefas inerentes a este para organizações da sociedade civil,
constituindo a via da autonomização. Esta nova realidade, po-
rém, só pode ser efetivada em nível local, pois é neste patamar
que o poder público tem mais condições de se aproximar da
população.

POLÍTICAS PÚBLICAS E CAPITAL SOCIAL


O debate em torno da efetivação da democracia leva ao
conceito de políticas públicas, que constitui o instrumento pelo
qual o Estado age em favor da cidadania. Maria Paula Dallari

4
ROSANVALLON, Pierre. A crise do estado providência. Goiânia: UFG;
Brasília: UnB, 1997. p. 23.
I Seminário Internacional de Direitos Humanos e Democracia
Os Direitos Humanos e a sua Proteção
25 e 26 de abril de 2013
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Democracia participativa e políticas públicas de saúde no espaço local

Bucci5 entende que as políticas públicas constituem um pro-


grama ou quadro de ação governamental compostas por um
conjunto de medidas articuladas, cujo escopo consiste em mo-
vimentar a máquina estatal no sentido de realizar algum obje-
tivo de ordem pública ou concretização de direitos. Entende-
se, interpretando esta autora, que o público assume uma di-
mensão mais ampla do que o Estado, em um patamar que su-
pera as simples decisões dos governos, envolvendo também as
ações dos sujeitos individuais ou coletivos e as influências de-
correntes dos movimentos sociais na definição destas políti-
cas. Ou seja, as políticas públicas não constituem apenas uma
decorrência da intervenção do Estado, mas de uma atuação
conjunta de todo o corpo social, que promove a afirmação dos
direitos humanos, a defesa do meio ambiente, a erradicação da
pobreza e ampliação da liberdade, em direção a uma socieda-
de mais justa e equilibrada, entre outras ideias.
Estas ideias constituem, como foi dito anteriormente, em
um novo patamar de entendimento, no qual o desenvolvimento
econômico caminha lado a lado com o desenvolvimento social.
Desta forma, as políticas públicas e sociais assumem uma po-
sição determinante no conjunto de atuação estatal e não-
estatal, o que gera a necessidade de uma intervenção conjunta
de todas as instituições públicas no sentido de aprimorar os
índices de desenvolvimento humano em áreas cruciais como
saúde e educação.
Tal postulado encontra ressonância nas palavras de João
Pedro Schmidt6, o qual afirma que, após a febre do neolibera-
lismo, há um relativo consenso de que as perspectivas de de-
senvolvimento passam pela inclusão social e pelo fortaleci-
mento da atuação do Estado em favor da igualdade, com maior

5
BUCCI, Maria Paula Dallari. O conceito de política pública em direito. In:
_____. (Org.) Políticas públicas: reflexões sobre o conceito jurídico. São
Paulo: Saraiva, 2006. p. 38.
6
SCHMIDT, João Pedro. Gestão de políticas públicas: elementos de um
modelo pós-burocrático e pós-gerencialista. In: REIS, J. R.; LEAL, R. G.
Direitos sociais e políticas públicas: desafios contemporâneos. Santa
Cruz do Sul, Edunisc, 2007. p.76.

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Curso de Mestrado em Direitos Humanos
40
Adriane Medianeira Toaldo & Ricardo Hermany

participação popular e combate à corrupção. Para tanto, se-


gundo este autor, o Estado deve incorporar uma alta capaci-
dade gerencial, aos moldes dos administradores privados, que
incorpora um novo estilo gerencial público, que se relaciona
ativamente com todos os atores que estão envolvidos no pro-
cesso, devendo possuir maior autonomia e flexibilidade, sendo
capaz de assumir metas e atingir resultados. Naturalmente
que a sociedade civil deve compreender os novos valores que
estão sendo disseminados constituindo o que o autor chama
de capital social.
O capital social pode ser entendido como a contrapartida
da população, ou seja, o conjunto dos elementos culturais e
sociais que, como afirma João Pedro Schmidt, atua em deter-
minado meio incluindo atitudes, normas, costumes, organiza-
ções, redes sociais e relações informais. A atuação do capital
social melhora o desempenho da gestão pública e possibilita
maiores perspectivas de crescimento. Ou seja, a participação
no processo deliberativo e na organização das tarefas de inte-
resse público enriquece a cidadania.
A importância do capital social está no fato de, como res-
salta Robert Putnam7, haver uma mobilização da capacidade
cooperativa das pessoas que possibilita que as habilidades
econômicas sejam desenvolvidas, centrada na valorização da
confiança interpessoal. Este autor observou, na Itália, um mai-
or desenvolvimento de algumas regiões em detrimento de ou-
tras, cujos governos estavam mais próximos da população, po-
dendo atender melhor suas demandas. Robert Putnam também
enfatiza que um dos elementos essenciais para o fortalecimen-
to do capital social é a confiança social, pois “quanto mais ele-
vado o nível de confiança numa comunidade, maior é a proba-
bilidade de haver cooperação”. Ressalta-se, porém, que a con-
fiança social exige uma regra de reciprocidade, em que Estado
e sociedade se comprometem, mutuamente, a cumprir deter-

7
PUTNAM, Robert D. Comunidade e democracia: a experiência da Itália
Moderna. Tradução de Luiz Alberto Monjardin. Rio de Janeiro: Editora
FGV, 2000. p. 173.
I Seminário Internacional de Direitos Humanos e Democracia
Os Direitos Humanos e a sua Proteção
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41
Democracia participativa e políticas públicas de saúde no espaço local

minadas tarefas que sejam fundamentais para o desenvolvi-


mento social e econômico.
Reforçando esta ideia, Maria Celina Soares Araújo8 enfati-
za que o capital social define-se por três fatores interrelacio-
nados: confiança, normas e cadeias de reciprocidade e siste-
mas de participação cívica, que permitem que as pessoas coo-
perem, ajudem-se mutuamente, zelem pelo bem público e
promovam a prosperidade.
Do que foi dito acima, depreende-se que o capital social
constitui uma mudança de paradigma da cultura instituída,
pois até então havia uma dependência e uma acomodação por
parte da população em relação ao Estado, esperando-se que
este providenciasse seus direitos. O Brasil constitui um caso
típico de gestão paternalista do Estado, em que o sujeito esta-
belece com o poder uma relação de troca de favores, fruto da
herança portuguesa, na qual o clientelismo tornou o ente esta-
tal ativo e a população passiva.
No entanto, ao ampliar consideravelmente os direitos, a
Constituição Federal de 1988 também abriu a possibilidade da
administração conjunta do que é bem público, através da par-
ticipação da população e dos instrumentos de controle social.
Também é importante afirmar que a ampliação dos direitos
sociais criou um problema para o Estado, que se viu diminuído
diante da atuação neoliberal, pois não há uma estrutural esta-
tal suficiente, nem administrativa nem financeiramente, para
atender a todas as demandas da população.
Assim, compreende-se que o capital social é muito mais
do que uma política pública coerente com o processo de demo-
cratização do Estado, pois constitui uma necessidade imperio-
sa para que as políticas públicas tenham efeito, tanto no as-
pecto cultural quanto operacional da sua execução. O Estado
depende da sociedade para que as politicas públicas sejam
eficazes no seu intento. Assim, reforça-se o sentimento de per-
tencimento que é necessário para que as soluções sejam corre-

8
ARAÚJO, Maria Celina Soares D´. Capital Social. Rio de Janeiro: Jorge
Zahar Ed, 2003. p. 19-20.

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Adriane Medianeira Toaldo & Ricardo Hermany

tamente implantadas. E nada melhor para a confiança social


do que saber que é a população a corresponsável pelo sucesso
da melhoria social.

CAPITAL SOCIAL NO EMPODERAMENTO LOCAL


E NA PROMOÇÃO DA SAÚDE
O capital social ressignificou a noção de cidadania, fa-
zendo com que, como afirmam Ricardo Hermany e Claudine
Freire Rodembusch9, os agentes sociais passem a participar de
forma atuante na busca de soluções para os problemas sociais,
aumentando o seu espaço discursivo e participando das trans-
formações sociais.
O espaço adequado para a concretização do capital social
está no plano local, que oferece maior aproximação entre o go-
vernante e a população. Este entendimento decorre do princí-
pio da subsidiariedade, que contribui para a definição das
competências de cada ente da federação, além de modificar as
relações da sociedade com o Estado. De acordo com Ricardo
Hermany e Diogo Frantz10, o incremento da competência das
esferas locais determina, também, segundo estes autores, uma
nova lógica relacional no próprio espaço local, a partir da in-
serção dos atores sociais como autores do processo de cons-
trução das decisões públicas, através da cooperação entre Es-
tado e Sociedade, visando ao atendimento de ambos interesses.
Martonio Mont´Alvern e Barreto Lima Lima11 explicam
que o fortalecimento das competências do governo local não

9
HERMANY, Ricardo; RODEMBUSCH, Claudine Freire Rodembusch. O
empoderamento dos setores da sociedade brasileira no plano local na
busca da implementação de políticas públicas sociais. In: HERMANY,
Ricardo (Org.). Empoderamento social local. Santa Cruz do Sul: Editora
IPR, 2010. p. 79.
10
HERMANY, Ricardo; FRANTZ, Diogo. As políticas públicas na perspec-
tiva do princípio da subsdiariedade: uma abordagem municipalista. In:
HERMANY, Ricardo (Org.). Gestão local e políticas públicas. Santa Cruz
do Sul, IPR, 2010. pp. 191-201.
11
LIMA, Martonio Mont´Alverne Barreto Lima. Autonomia do município e
cultura sobre o poder local. In: HERMANY, Ricardo (Org.). Gestão local e
políticas públicas. Santa Cruz do Sul, IPR, 2010. p. 73.
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Os Direitos Humanos e a sua Proteção
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43
Democracia participativa e políticas públicas de saúde no espaço local

significa, como muitos poderiam pensar, o enfraquecimento do


Estado, mas justamente o seu oposto, pois a atuação da auto-
ridade dirigente e democrática chegará a todos os cantos do
país por meio do governo local, o que confirma a chega da
Constituição também nos espaço municipais, por mais distan-
tes que se localizem. Segundo este autor, a utilização e a acei-
tação da plenitude do município como entidade da federação
representa fonte de fortalecimento da Constituição dirigente e
não de sua fraqueza.
Para Ricardo Hermany e Claudine Freire Rodembusch12, a
descentralização e a municipalização são estratégias de pro-
moção da democracia, mostrando que a participação local
constitui a força do município, pois é nele que o cidadão nasce,
constrói a sua história, fiscaliza e exercita o controle social.
Segundo estes autores, o município é, de fato, a entidade polí-
tico-administrativa que oferece as melhores condições para a
prática da participação popular na gestão da vida pública, pois
a proximidade possibilita maior comunicação e interação, ao
mesmo tempo em que as ações e intenções do governo são
acompanhadas diretamente pela população.
Quanto ao espaço local, é fundamental destacar a relação
entre a idéia de subsidiariedade13 e a noção de autonomia. Isso
porque, conforme Martins14, tal princípio “é incompatível com
uma administração centralizada ou com autarquias não autô-
nomas, pois, na sua essência, pressupõe que a atuação caiba a
entidades distintas, capazes e eficazes, sendo a medida da
capacidade e eficácia de cada entidade verificada a nível das
possibilidades da sua atuação.
12
HERMANY, Ricardo; RODEMBUSCH, Claudine Freire Rodembusch. Op.
cit. p. 86.
13
“[...] princípio pelo qual as decisões, legislativas ou administrativas,
devem ser tomadas no nível político mais baixo possível, isto é, por
aquelas que estão o mais próximo possível das decisões que são defini-
das, efetuadas e executadas.” BARACHO, José Alfredo de Oliveira. O
princípio da subsidiariedade. Conceito e evolução. Rio de Janeiro: Fo-
rense, 1996. p. 92.
14
MARTINS, Maria Margarida do Rego Costa Salema D’ Oliveira. O princí-
pio da solidariedade em perspectiva jurídico política. Tese (Doutorado)
– Universidade de Lisboa, Lisboa, v. 2, 2001. p. 617.

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Adriane Medianeira Toaldo & Ricardo Hermany

Nesta ótica, a idéia de subsidiariedade mostra-se absolu-


tamente incompatível com a centralização, haja vista que um
poder centralizado atua sempre a título principal, não garan-
tindo a autonomia para as demais esferas.
No espaço local a sociedade exerce poder fundamental
para corporificar o direito social a partir do momento que ocor-
re “[...] a articulação dos atores sociais com uma ordem estatal
democrática.”15
Um dos gargalos que asfixia o município na sua gestão
das políticas públicas locais é a questão da saúde. Decorre da
nova ordem constitucional estabelecida em 1988 o fato de saú-
de tem alcançado o patamar de direitos fundamentais, fazendo
com que o Estado tenha a obrigação de garanti-la, conferindo
competências ao poder público para legislar, administrar e
atuar diretamente aos cidadãos para obter receitas e imple-
mentar uma política pública de saúde.
Diversos artigos da Carta Magna impõe ao Estado esta
obrigação. Entre estes, pode-se citar o art. 6º, que prevê ser a
saúde um direito social e o art. 196, que preceitua ser a saúde
um direito de todos e dever do Estado. Relativamente às com-
petências para cuidar da saúde, deve-se ressaltar que tanto a
União como o Estado e o Município possuem competências
comuns e concorrentes para cuidar da saúde (arts. 23 e 24).
Ainda é necessário citar o art. 227, que determina ser dever da
família, da sociedade e do Estado, assegurar, por exemplo, o
direito à saúde das crianças e adolescentes.
Interpretando estes dispositivos da Constituição Federal
de 1988, verifica-se que, de uma forma geral, todos os entes da
federação e mais a sociedade são responsáveis pela promoção
da saúde, resultado da aplicação dos princípios da subsidiari-
edade e da solidariedade. O primeiro princípio, já explicado
acima, impõe que o poder local seja autônomo para definir su-
as políticas, notadamente as de saúde. O princípio da solidari-
edade, por sua vez, conforme explicam Grace Kellen de Freitas
15
HERMANY, Ricardo. (RE)Discutindo o espaço local: uma abordagem a
partir do direito social de Gurvich. Santa Cruz do Sul: UNISC, 2007. p.
363.
I Seminário Internacional de Direitos Humanos e Democracia
Os Direitos Humanos e a sua Proteção
25 e 26 de abril de 2013
45
Democracia participativa e políticas públicas de saúde no espaço local

Pellegrini e Júlia Bagatini16, surgiu pela necessidade de sociali-


zar as relações e vincular a sociedade a um dever de ajuda mú-
tua, pois sendo o homem um ser social, a consciência de uma
sociabilidade sempre esteve presente, pois o homem depende
da sociedade e esta desse. Aplicando o princípio aos desafios
enfrentados pelo município em suas demandas, notadamente a
da saúde, percebe-se, como enfatizam as autoras acima, que a
solidariedade implica em um meio de conceder igual dignida-
de para todos os membros da sociedade, permitindo que direi-
tos intrínsecos, irrenunciáveis e inalienáveis possam ser real-
mente alcançados, pois a dignidade “implica em uma obriga-
ção geral de respeito pela pessoa, traduzida num feixe de de-
veres e direitos correlativos”, que proporciona a todos o mes-
mo nível de igualdade e direito.
Resta, então, definir que ações e políticas públicas podem
ser implementadas a partir da noção de subsidiariedade e so-
lidariedade no quesito saúde. Com relação ao primeiro princí-
pio, a lógica seria a de que os serviços públicos passem intei-
ramente a serem realizados pelo município, deixando de haver
a concorrência com o Estado e a União.
O que se vê é justamente o contrário. Nos municípios, os
serviços de saúde, dependendo do porte e das instituições fi-
nanciadores, são realizados concomitantemente pela União,
estados e municípios, através de estruturas diferentes que plu-
ralizam o atendimento, geram gastos excessivos e ainda con-
fundem a população em suas demandas. Esta estrutura é he-
rança de uma centralização excessiva que existiu no Brasil a
partir do Estado e Novo e se confirmou com os regimes milita-
res. Desta forma, as competências comuns e concorrentes, que
ainda foram preservadas na Constituição Federal de 1988,
acabam sendo prejudiciais ao atendimento do cidadão, pois
todas as despesas e esforços poderiam ser concentrados na
16
PELLEGRINI, Grace Kellen de Freitas; BAGATINI, Júlia. A solidariedade
como um elemento fundamental para o conceito de serviço público no
constitucionalismo contemporâneo: uma abordagem inicial e reflexiva a
partir da teoria pragmático-sistêmica. In: GORCZEVSKI, Clovis (Org.).
Constitucionalismo contemporâneo: novos desafios. Curitiba: Multi-
deia, 2012. p. 202.

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Curso de Mestrado em Direitos Humanos
46
Adriane Medianeira Toaldo & Ricardo Hermany

esfera local, possibilitando maior planejamento e economia de


esforços.
A solidariedade, por seu turno, viria complementar esta
descentralização, na medida em que possibilitaria ao cidadão
participar mais efetivamente das políticas públicas em nível
local, através da incorporação das organizações da sociedade
civil no planejamento e nas ações de saúde. Deve-se salientar
que estas organizações de caráter não-governamental surgi-
ram exatamente para suprir lacunas de ineficiência do Estado,
quando do surgimento de governos neoliberais. Muitas destas
entidades se qualificaram no atendimento e estão aptas a par-
ticipar de governos que tenham sua perspectiva democrática.
Assim, desta forma, com a descentralização e a participação
das ONGs, é possível haver um empoderamento local que irá
fortalecer a atuação em prol da saúde local.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
O Estado Democrático de Direito é uma construção per-
manente, que se renova em cada eleição, nas diretrizes públi-
cas, na participação das entidades civis e no compartilhamen-
to das responsabilidades entre o Estado e a Sociedade. A me-
lhor forma de fortalecer este tipo de Estado é a descentraliza-
ção combinada com decisões compartilhadas com os muníci-
pes, os verdadeiros interessados no assunto. Para isto, é ne-
cessário romper com uma herança centralizadora e com uma
cultura de acomodação, que espera do Estado que a solução
venha em uma bandeja, pronta para ser degustada.
A cidadania prevê justamente o contrário, a participação
ativa do cidadão nas decisões que afetam o seu dia a dia, pas-
sando a democracia de representativa para participativa.

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SCHMIDT, João Pedro. Gestão de políticas públicas: elementos de
um modelo pós-burocrático e pós-gerencialista. In: REIS, J. R.; LEAL,
R. G. Direitos sociais e políticas públicas: desafios contemporâneos.
Santa Cruz do Sul, Edunisc, 2007. p. 1988-2032.

Programa de Pós-graduação em Direito


Curso de Mestrado em Direitos Humanos
O SISTEMA DE JUSTIÇA
E OS DIREITOS HUMANOS :
O PANPRINCIPIOLOGISMO COMO
DEBILITADOR NA APLICAÇÃO
DOS DIREITOS HUMANOS

Alessandra Liani Prates


Mosaico teórico sobre os princípios jurídicos. Trabalho de conclusão de
curso de graduação em direito - UDC – União Dinâmica de Faculdades Ca-
taratas - Foz do Iguaçu – PR- 2012 (alessandrali28@hotmail.com)

Resumo
Este ensaio aborda os novos princípios jurídicos no ramo do Constitucionalismo
brasileiro, desde sua concepção e atual aplicação no ordenamento jurídico. Perpas-
sa, assim, pela origem de tais institutos, a inclusão pela comunidade jurídica e sua
influência na doutrina e jurisprudência. Trata de questões sobre a interpretação e
aplicação do Direito, e a contemporânea forma de pensar, decodificar e construir
doutrina no cenário das leis. Esclarece, através de análise, a vulgarização dos princí-
pios criados de forma exacerbada, de cunho recorrente e nada inovadores quando
empregados. Apresenta breve histórico sobre a revolução nos paradigmas ocorridos
no século XX, a influência filosófica e linguística, o neoconstitucionalismo e sucintos
exemplos do fenômeno denominado panprincipiologismo. Por derradeiro, em apre-
ciação crítica salienta o decisionismo judicial e as conseqüências danosas culminan-
do na debilidade no instante da efetivação dos direitos humanos.
Palavras-chave: princípios – panprincipiologismo – direitos humanos – decisionismo
judicial.

Abstract
This essay discusses the new legal principles in the Brazilian branch of Constitucion-
alism, since its designd and implementation in current Law. Permeates thus the
origin of such institutes, including the legal community and its influence on doctrine
and jurisprudence. It addresses issues concerning the interpretation an application
of law, and contemporary thinking, decode and build doctrine in legal scenario. Clari-
fies, through analysis, the vulgarization of principles created so exacerbated die
when appellant and nothing innovate employees. Presents brief history of the revo-
lution in paradigms occurred in the twenthieth century, the philosophical and lin-
guistic influence, the neoconstitucionalism and succinct examples of the phenome-
non called panprincípiologism. For the ultimate in assessing the critical stresses deci-
sionism judicial and harmful consequences culminating in the weakness at the mo-
ment of realization of human rights.
Keywords: principles – panprincipiologism – human rights – decisionism court.
50
Alessandra Liani Prates

CONSIDERAÇÕES PRELIMINARES
Com o surgimento do Constitucionalismo moderno, e a
inclusão de princípios constitucionais, o Direito sofreu algumas
influências da filosofia e da linguagem. Contudo, não foi sufici-
ente para revolucionar de forma relevante o mundo jurídico.
Nesse sentido, é analisada de forma sucinta a interpretação e
aplicação do Direito, desde as transformações que o século
antecessor provocou no mundo, embora no Direito pouco se
notou em termos inovadores. Haja vista, a extraordinária quan-
tidade de princípios com caráter recorrente e inúteis, criados
por juristas desatualizados. Abordar-se-á, como a concepção
exorbitante de princípios afeta a efetivação dos direitos huma-
nos, tendo como pano de fundo a tese do panprincipiologismo
de Lênio Streck. E para encerrar, como o panprincipiologismo
pode ser fatal quando manipulado por operadores do Poder
Judiciário.

O PANPRINCIPIOLOGISMO: AVANÇO OU RETROCESSO


A cadeia de neoprincípios constitucionais, mencionados
no Direito atual brasileiro, é pauta de diversas teses e interpre-
tações pela comunidade jurídica. Conforme, Lênio Streck1 ex-
põe, os princípios são despidos de normatividade, a menos que
estejamos descompromissados com a deontologia do Direito.
Tais espécies de princípios foram erigidos por juristas des-
comprometidos, com o escopo de facilitar réplicas e ampliar
horizontes na seara jurídica. O que se verifica, porém, é que
estes novos recursos “filosófico-linguísticos” carecem de den-
sidade normativa.
O sistema de justiça brasileiro traz em si, velhas formas
de interpretar e aplicar o direito. Isto se deve também ao fato
de o ensino jurídico arraigado em leituras superficiais, cultura
parca e desinteresse de aprofundamento tanto das instituições

1
STRECK, Lênio Luiz. Verdade e consenso. Constituição, Hermenêutica
e Teorias Discursivas. Da Possibilidade à necessidade de respostas em
Direito. 3.ed. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2009. p.475.
I Seminário Internacional de Direitos Humanos e Democracia
Os Direitos Humanos e a sua Proteção
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O sistema de justiça e os direitos humanos

de ensino, como dos que recebem a carga conteudística. O que


se presencia é que o ensino jurídico não seguiu a guinada pro-
vocada pela Constituição de 1988, tanto que a doutrina nacio-
nal permaneceu reproduzindo a dogmática jurídica tradicional,
assinalada pela herança dos paradigmas liberal-individualista-
normativista e da filosofia da consciência, impedindo, o pro-
cesso de filtragem e de constitucionalização do direito. Nesse
ínterim, em uma das fases do constitucionalismo, Streck ex-
plana:
A fase da ressaca pode ser caracterizada como o período
sucessivo à promulgação da Constituição – em que a cri-
se do direito é resultado desta dificuldade de se compre-
ender o novo paradigma que institui o estado democráti-
co de direito, de maneira que grande parte das inovações
trazidas pela Constituição restaram encobertas, especi-
almente no que diz respeito aos mecanismos de controle
de constitucionalidade e ao catálogo de direitos funda-
mentais.2

Com a introdução do constitucionalismo contemporâneo,


em meados da década de 90 no século XX, que trouxe novos
paradigmas, ou uma esperança de estes fossem estabelecidos,
é de se espantar que parcela considerável de juristas perma-
neça ainda, nos modelos arcaicos de interpretação e aplicação
do direito. Assombra a quantidade excessiva de sinopses, ma-
nuais e teorias esquematizadas, como se o direito fosse uma
fórmula das ciências exatas, encontradas em livrarias, bancas
de jornal e pasmem, em bibliotecas. O moderno constituciona-
lismo promove um retorno aos valores, reaproximando ética e
Direito, iniciando sua trilha com deferência ao ordenamento
positivo, mas reinserindo ideias de justiça e legitimidade.
A fim de beneficiarem-se do vasto instrumental do Direi-
to, saindo da filosofia para o mundo jurídico, tais valores com-
partilhados consubstanciam-se em princípios que passam a
estar amparados na Constituição de forma explícita ou implíci-
ta. Uns já se inseriam nela, como por exemplo, o da liberdade e
2
STRECK, Lênio Luís. Op. cit., p. 216.

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52
Alessandra Liani Prates

o da igualdade, outros clássicos sofreram reformulações como


a separação dos poderes e o estado democrático de direito.
A justiça prêt-à-porter é disseminada de forma natural e
sem questionamento, em parte, pela sociedade jurídica. Aliado
a isso, os novos princípios jurídicos constitucionais, que fazem
parte de uma dogmática de baixa densidade científica, que
apresentados com nova roupagem, soam como perspectiva,
para alguns, de que se está pensando o Direito de forma revo-
lucionária e consistente. Esta visão embaçada revela idéias
arcaicas, com o intuito de facilitar a solução de casos comple-
xos ou mesmo prosaicos, sendo coadjuvante no enfraqueci-
mento no momento instrumental do Direito e, por conseguinte
e não menos importante, os direitos humanos. A celeuma con-
siste em que, tais standarts são genuínos opositores da auto-
nomia do Direito e da democracia, sendo idealizados em cará-
ter ilimitado e sem sentido.
Esse fenômeno, alvo deste trabalho, denominado por
Streck de panprincipiologismo, constitui um conjunto de crité-
rios aplicativos, que os juristas nomearam de “princípios”, que
em grande parte possuem inequívocas aspirações de meta-
regras, além da descomunal prolixidade. A intenção do reno-
mado autor é de que não olvidemos que princípios e leis se
tem em abundante arcabouço em nosso ordenamento, portanto
que se interprete e aplique estes de forma eficaz, sem disper-
sões com neoestatutos de cunho performático, aparência mo-
derna, mas que em suma, são meros embustes e deixam de ser
um avanço para a doutrina.

NEOPRINCÍPIOS OU NEOFALÁCIAS
As revoluções que o século XX trouxe e a conseqüente
guinada no Direito Constitucional, decorrente de diversas
constituições, produziram um grau superior de autonomia do
Direito. Com a incursão da filosofia pela linguagem, ocasio-
nando um novo modo de compreender o mundo, o pensamento
metafísico é superado, e os sentidos que se relacionavam às
coisas, passam a interagir na e pela linguagem. Como Streck
I Seminário Internacional de Direitos Humanos e Democracia
Os Direitos Humanos e a sua Proteção
25 e 26 de abril de 2013
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O sistema de justiça e os direitos humanos

bem reporta: “As conseqüências dessa revolucionária viragem-


linguístico-ontológica são incomensuráveis para a interpreta-
ção do direito.”3
Desse modo, a linguagem passa à condição de possibili-
dade e a hermenêutica filosófica abre caminho para se com-
preender o direito e o novo constitucionalismo, ultrapassando
objetivismos e subjetivismos, trazendo a concretude ou a pro-
babilidade desta, evoluindo da fundamentação para a compre-
ensão.
O Direito como sistema intricado que representa, é vulga-
rizado pela doutrina e jurisprudência brasileira, que insistem
em torná-lo de fácil acesso e entendimento, por meio de racio-
cínio do senso comum, não com a finalidade de favorecer a
aplicação dos direitos humanos, e sim de privilegiar àqueles
que detêm o poder na sociedade.
Apesar das transformações do século passado, o Direito
ficou imune às modificações de suma relevância, resultado da
doutrina que se apegou a conceitos senis no tocante à herme-
nêutica e aplicação, mesmo com a novidade princípiológica,
nada de novo trouxe a este.
Outra falsidade percebida é a respeito da palavra “consti-
tucional” no Brasil, em que a própria etimologia é aviltada,
pois se constitucional é depreendido como algo que constitui,
o que se tem observado é que está mais para ser constituído
do que constituir. Por certo que não se pode congelar no tempo
e estagnar os ideais, mas a Constituição no Brasil é vítima de
toda e qualquer mudança a favor de uma elite política e pode-
rosa que manipula ao bel-prazer, quando na realidade o objeti-
vo seria beneficiar a coletividade, ou seja, promover os direitos
humanos com objetividade e de maneira eficaz. Enquanto hou-
ver a cultura do “jeitinho brasileiro”, a banalização do sistema
jurídico, da Constituição Federal e dos direitos humanos, esta-

3
STRECK, Lênio Luiz. O direito de obter respostas constitucionalmente
adequadas em tempos de crise do direito: a necessária concretização
dos direitos humanos. p. 94. Disponível em: http://www.periodicos.
ufpa.br/index.php/hendu/article/viewFile/374/603. Acesso em 09 abr.
2013.

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Curso de Mestrado em Direitos Humanos
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Alessandra Liani Prates

rá nosso país longe de ser uma nação. Quanto à efetivação dos


direitos humanos, José Luiz Bolzan de Morais, infere:
[...] A implementação dos conteúdos de direitos huma-
nos, em particular os positivos, implicam a necessária
compreensão da ação jurídica fundamentada em uma
prática comprometida e assente em uma teoria engajada,
onde a constituição não seja percebida como uma folha
de papel. De outro lado, é preciso, ainda que se pense na
concretização dos direitos humanos a partir do prisma da
jurisdição, atribuindo-lhe expressão fundamental quando
estejamos frente aos direitos de terceira geração, o que
não afasta da problemática ora enfrentada.4

A partir da promulgação da Constituição de 1988, houve o


chamado constitucionalismo democrático brasileiro. A Consti-
tuição brasileira, ao seguir a mesma trilha das demais consti-
tuições do segundo pós-guerra, é um marco, pois ela pode ser
vista como o resultado de um processo lento e gradual que se-
pulta a ditadura, com a abertura à redemocratização, contan-
do, inclusive, com expressiva participação popular em sua ela-
boração, bem como, inaugura um novo modelo de Estado. Em-
bora a Constituição de 1988, tenha adquirido a supremacia
formal, material e axiológica, sendo inválida toda e qualquer
disposição contrária a ela, com a introdução dos neoprincípios
aqui já tão criticados, colidem estes com os já existentes.
A utilização extensa de enunciados normativos, enrusti-
dos sob a carapaça de princípios com o fim de juridicizar alter-
nativas valorativas políticas e de viés ideológico. De forma cor-
riqueira, se depara na CF de 88, preceitos estabelecendo pro-
teção à pessoa humana, como no princípio da dignidade da
pessoa humana, sendo uma das pilastras inserido no art. 1º,
inciso III da CF. Ao revés disso, o que verifica é a exacerbada
valoração ao patrimônio, ao poder e a política e não à vida, dos
quais fazem parte os direitos humanos. Tendo em vista que a

4
MORAIS, José Luiz Bolzan de. Direitos humanos, globalização econô-
mica e integração regional. Direitos humanos “globais (universais)” de
todos, em todos os lugares, São Paulo: Max limonada, 2002, p.528.
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Os Direitos Humanos e a sua Proteção
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O sistema de justiça e os direitos humanos

experiência de um ser humano não se resume em apenas exis-


tir, mas diversos fatores que compõe e promovem a preserva-
ção do cidadão de forma básica: alimentação, saúde, moradia,
educação, bem como os direitos civis, políticos, sociais, cultu-
rais, ambientais, etc., reconhecidos na atualidade.
Os direitos humanos foram concebidos com o intento de
garantir uma sociedade livre, justa e solidária, uma sociedade
onde as pessoas desfrutem das liberdades com justiça e equi-
líbrio. Outro alvo dos direitos humanos é o desenvolvimento
social com melhora qualitativa na atividade estatal e na vida
das pessoas. Para tanto, é necessário que a sociedade seja de-
senvolvida e viva com dignidade, onde os direitos fundamen-
tais sejam garantidos e as desigualdades sociais atenuadas.
Assim sendo, o objetivo do Estado é o da promoção do bem de
todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e
quaisquer discriminação, assegurada a dignidade da pessoa
através de sua simples condição humana. Os direitos humanos
são foco essencial de toda e qualquer ordem jurídica, a razão
de ser do Direito, não podendo ser acolhido um estado demo-
crático de direito sem que haja o reconhecimento de direitos
básicos à sociedade.
E conforme assevera, Rodrigo César Rebello Pinho os di-
reitos humanos como o próprio nome sugere:
[...] São considerados indispensáveis à pessoa humana,
necessários para assegurar a todos uma existência dig-
na, livre e igual. Não basta ao Estado reconhecê-los for-
malmente; deve buscar concretizá-los, incorporá-los no
dia-a-dia dos cidadãos e de seus agentes.5

O que se deseja arrazoar é que se o Estado não possibili-


ta os direitos básicos para uma vida digna à população, não
pode se desenvolver de forma eficaz, pois do Estado depende o
povo e vice-versa. E nas palavras de Bobbio:

5
PINHO, Rodrigo César Rebello. Teoria geral da constituição e direitos
fundamentais, v.17. São Paulo, Saraiva, 2002, p.65.

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Alessandra Liani Prates

Os direitos humanos, por mais fundamentais que sejam,


são direitos históricos, ou seja, nascem de certas circuns-
tâncias, caracterizados por lutas em defesa de novas li-
berdades contra velhos poderes, e nascidos de modo
gradual, ou seja, a cada luta. Nascem quando devem
nascer.6

Paralelo a isto, surge à questão do decisionismo judicial,


que se valendo de suas prerrogativas inseridas pelos princí-
pios em seu Código de Ética, decidem os hard-cases ou até
uma causa mais trivial, de acordo com sua conveniência.
De forma irracional, a Reforma no Judiciário e a EC nº
45/2004 os princípios auferidos pelo rol da magistratura, repre-
sentam outras ferramentas que colaboram para o enfraqueci-
mento na consagração dos direitos humanos. Consoante o
princípio da persuasão racional do juiz, que se traduz no livre
convencimento do magistrado, mesmo ele devendo vincular-se
à lei e as provas do processo, ele não encontra óbice para de-
cidir conforme seu entendimento. Diante da carga numerosa
de processos que abarrotam os tribunais diariamente, a moro-
sidade do sistema jurídico, a preguiça mental e institucional
generalizada de juristas e juízes e todo corpo de funcionários
públicos envolvidos, aliado aos neoprincípios prolixos que
mais se assemelham a frases de livros de auto-ajuda, tudo co-
labora para a debilidade na interpretação e aplicação dos direi-
tos humanos. E que não se olvide, os interesses políticos estão
intimamente ligados ao cerne da questão.
Canotilho, na revisão das constituições expressou: de
quantas Constituições é composta a Constituição?7 E o que se
deve indagar é simples: de quantos princípios é formada a
Constituição de 88? E quantos ainda serão inventados indis-
criminadamente, a fim de satisfazer pretensões meramente
retóricas?

6
BOBBIO, Norberto. A era dos direitos. Rio de Janeiro, Campus, 1992, p.5.
7
CANOTILHO, José Joaquim Gomes. Direito Constitucional e Teoria da
Constituição. 4.ed. Coimbra: Almedina, 1997. p. 207.
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O sistema de justiça e os direitos humanos

Pois bem, no Direito hodierno e com o advento dos princí-


pios constitucionais, os novos textos constitucionais e o boom
paradigmático ocorrido no mundo das leis, grande parte da
sociedade jurídica, assentiu em considerar os princípios cons-
titucionais como substitutos dos princípios gerais do Direito e
até como lastro dos valores sociais. Com a proclamação dos
princípios constitucionais como meio de positivação de valo-
res, que deu azo a invenção de toda espécie de princípio, sen-
do o modelo de estado democrático de direito, o legitimador
princípiológico e do qual seria possível retirar tantos princípios
fossem necessários para solucionar demandas complicadas ou
somente dirimir ambigüidades na compreensão do texto de
uma norma. O que se pretende evocar é que tais neoprincípios,
constituem nítida ambição retórico-corretiva, se prestando
apenas ao papel de apoio para os que se veem carentes de ar-
gumentos para fundamentar respostas, tanto nos tribunais
como na doutrina.
Não se exporá todos os princípios aqui, apenas alguns
como os da efetividade e outros a seguir, que demonstra clara
redundância: no modelo de constitucionalismo contemporâneo,
a efetividade das normas constitucionais, a hermenêutica já
acolhe como proposição fundamental, pois não há norma cons-
titucional sem expectativa de efeito. Portanto, verifica-se a au-
sência de novidade em um “neoprincípio”. Outros exemplos de
neoprincípios:
 princípio da precaução: tem sido usado pelos Tribunais
para se exigir precaução na tomada de decisões que
sejam capazes de gerar danos graves ou irreversíveis
sem a constatação cientifica irrestrita dos seus resul-
tados. A crítica aqui reside em que tal princípio é ape-
nas e tão somente uma reafirmação de que se deve ter
prudência no instante de decidir uma questão jurídica.
 princípio da não surpresa: consoante a doutrina e a ju-
risprudência tal princípio afirmaria a segurança do ci-
dadão contra uma surpresa inesperada. Princípio far-
tamente utilizado em Tribunais brasileiros. Mas a dú-
vida que surge é: por qual motivo fundamentar uma

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decisão com fulcro em princípio como esse? Pois, antes


da infração de tal princípio, não teria ocorrido a trans-
gressão de uma determinada regra processual?
 princípio da confiança: traduz-se no poder-dever de vi-
giar o equilíbrio decorrente de uma relação de confian-
ça mútua no plano institucional. Mas a repreensão que
se faz neste, é que o caráter histórico do Direito já traz
essa compreensão ao intérprete, não necessitando pa-
ra isso a criação de tal princípio. Ocupa nada mais que
um espaço no estrado performático de argüição jurídi-
ca.
 princípio do processo tempestivo: este prenuncia a ga-
rantia de uma tutela jurisdicional dentro de um prazo
sem dilações indevidas, isto é, aceitáveis. Princípio em
conflito com o disposto art. 5°, inciso LXXVIII da Cons-
tituição Federal, o qual dispõe:
Art. 5º. Todos são iguais perante a lei, sem distinção de
qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos
estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direi-
to à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à pro-
priedade, nos termos seguintes:
LXXVIII a todos, no âmbito judicial e administrativo, são
assegurados a razoável duração do processo e os meios
que garantam a celeridade de sua tramitação. (Incluído
pela Emenda Constitucional nº 45, de 2004).

Este princípio institui a garantia de que os processos ju-


diciais devam ser julgados dentro de um prazo razoável. Trata-
se de mais uma amostra de uma princípiologia ad hoc e sem
limites que embaraça meros argumentos com princípios jurídi-
cos ou constitucionais. O que prevê tal princípio, não proporci-
ona per si, a extensão concreta do que seja tempestividade.
Inegavelmente, o jurista posto à prova para dar uma res-
posta nova e/ou convincente elabora princípios interpretativos
assemelhados a topoi com almejo dedutivista, isto é, nada
mais são em grande parte construções pragmatistas e de apli-
cação genérica.
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O sistema de justiça e os direitos humanos

A heterogeneidade de tais princípios e insuficiência de


parâmetros para oferecer-lhes sentido, esclarece a dimensão
da crise que a doutrina enfrenta. Enfim, a banalização dos
princípios é oriunda da crise paradigmática, que representada
pelos “neoprincípios” constitui uma velha falácia com aspecto
enganoso de modernidade doutrinária.

O PANPRINCIPIOLOGISMO SOB A ÉGIDE DOS MAGISTRADOS


O juiz, com o poder que lhe é conferido, no ato decisório, é
posto a prova quando tem de solucionar uma contenda judicial.
A dúvida de estar agindo de forma certa ou errada paira em
todo ato de julgamento, e é neste momento que ele pode se
valer da utilização dos neoprincípios (panprincipiologismo).
Por mais complicado que seja a opção de um “sim” ou um
“não”, sua apreciação, convencimento e motivação não deve
ser fulcrada em princípios tão banais como os expostos de mo-
do breve neste esboço.
Os moldes do processo no ordenamento jurídico brasileiro
possuem o caráter do perde-ganha, onde a decisão do magis-
trado se dá por sua inclinação para um dos lados da lide, me-
diante os argumentos fáticos, jurídicos e o seu convencimento
desprovido de amarras. E no último requisito para decidir é
que reside o perigo. Pois, se ele decide segundo sua noção de
razão, a fragilidade em que os direitos humanos repousa é as-
sustadora. Assim sendo, se os juízes fundamentam embasados
em critérios superficiais, pleonásticos e sem amparo legal, po-
de se considerar que o Direito beira o caos paradigmático. Em
indignação, Bobbio expõe junto ao dito popular:
De boas intenções, o inferno está cheio, na defesa da va-
lidação dos direitos humanos, é o foco da discussão nos
dias atuais. A exigibilidade dos direitos humanos através
do Poder Judiciário é hoje um imperativo na teoria e na
prática dos direitos humanos. Ele ainda questiona: um di-
reito cujo reconhecimento e cuja efetiva proteção são
adiados sine die, além de confinados à vontade de sujei-
tos cuja obrigação de executar o “programa” é apenas

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60
Alessandra Liani Prates

uma obrigação moral ou, no máximo política, pode ainda


ser chamando corretamente de “direito”? [...] a figura do
direito tem como correlato a figura da obrigação.8

À guisa de cerrar o tema, encontra-se em Dworkin9, co-


mento perfeito sobre a influência política nas decisões dos
magistrados: segundo ele, toda decisão seja judicial ou não irá
calhar no cunho político. Ele parte da hipótese que o magistra-
do, igualmente a qualquer pessoa é constituída por uma série
de pré-conceitos, pré-compreensões e visões do mundo. Sendo
assim, não há decisão indiferente ou justa e ao enunciar uma
sentença e em decorrência eleger uma das partes, estará cum-
prindo uma decisão política.
Desta maneira, desejando ou não, deve ele se posicionar
e fundamentar sua posição, sendo que esta concerne à lógica
binária do certo ou errado é formada por uma bagagem de pré-
conceitos próprios de todas as pessoas. Segundo Dworkin,
existe uma zona cinzenta de imprecisão no sistema de normas
que possibilita ao juiz uma margem ao uso do poder discricio-
nário, vácuo que ocorre no instante em que a lei silencia sobre
determinado fato.
E ainda, como preleciona Canotilho aludido por Rafael
Oliveira:
O Direito do Estado de Direito do século XIX e da primei-
ra metade do século XX, é o direito das regras dos códi-
gos; o Direito do Estado constitucional e democrático de
Direito leva a sério os princípios. O tomar a sério implica
uma mudança profunda na metódica de concretização do
Direito e, por conseguinte na atividade jurisdicional dos
juízes.10

8
BOBBIO, Norberto. Op. cit., p.64.
9
DWORKIN, Ronald. Uma questão de princípio. São Paulo: Martins Fon-
tes, 2001.p.105.
10
CANOTILHO, José Joaquim Gomes citado por OLIVEIRA, Rafael Tomaz.
O conceito de princípio entre a otimização e a resposta correta: apro-
ximações sobre o problema da fundamentação e da discricionariedade
das decisões judiciais a partir da fenomenologia hermenêutica. Disser-
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O sistema de justiça e os direitos humanos

No que concerne o panprincipilogismo sob a toga dos juí-


zes, observa-se que estes em sua grande maioria, se defendem
com o argumento de que, se é permitido o amplo uso de dou-
trina, lei, jurisprudência, suas experiências como ser humano
que é, e os ditos neoprincípios, nada de errado se encontra em
suas ações. Ficando os direitos humanos a cargo de suas apre-
ciações, ao sabor da política e do poder que a lei lhes atribuiu.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Apesar das mutações na história mundial e no cenário ju-
rídico, não foram satisfatórias para acarretar combustões signi-
ficativas no sistema de normas brasileiro. Pouca variação se
notou, embora com alguns pensadores importantes que se
destacam, o Brasil tem muito a trilhar na seara do Direito.
Mesmo com a reviravolta das Eleições Diretas e a Constituição
de 1988, dentre outras alterações que o limite de conteúdo im-
pede de citar, nosso país engatinha em vários sentidos e no
Direito não é diverso. Os novos princípios ou “neoprincípios”
que culminaram no panprincipiologismo de Streck, demonstra
claramente isso, pois ao invés de se criar algo novo, relevante,
mascara-se velhos conceitos com títulos diversos. Não será
revisitando conceitos arcaicos que a evolução surgirá. É la-
mentável que o retrocesso esteja presente em outros setores,
como a educação, as relações humanas e a condição humana
no que tange ao respeito e bem viver. O panprincipiologismo
debilita a efetiva concretude dos direitos humanos, pois con-
funde, inibe a realização destes em prol da sociedade. E quan-
do os neoprincípios são utilizados por aqueles que deveriam
defender a aplicação destes direitos, afasta-se cada vez mais o
ideal que outrora foi tão cobiçado, que corresponde à liberda-
de, igualdade e fraternidade da era iluminista.

tação (mestrado). Universidade do Vale do Rio dos Sinos, Programa de


Pós-Graduação em Direito, São Leopoldo, 2007. p. 50.

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REFERÊNCIAS
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CANOTILHO, José Joaquim Gomes. Direito Constitucional e Teoria
da Constituição. 4. ed. Coimbra: Almedina, 1997.
DWORKIN, Ronald. Uma questão de princípio. São Paulo: Martins
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MORAIS, José Luiz Bolzan de. Direitos humanos, globalização eco-
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sais)” de todos, em todos os lugares, São Paulo: Max Limonada,
2002.
OLIVEIRA, Rafael Tomaz. O conceito de princípio entre a otimiza-
ção e a resposta correta: aproximações sobre o problema da funda-
mentação e da discricionariedade das decisões judiciais a partir da
fenomenologia hermenêutica. Dissertação (mestrado). Universidade
do Vale do Rio dos Sinos, Programa de Pós-Graduação em Direito,
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I Seminário Internacional de Direitos Humanos e Democracia


Os Direitos Humanos e a sua Proteção
25 e 26 de abril de 2013
A EDUCAÇÃO AMBIENTAL COMO MEIO
PARA MANUTENÇÃO DO MEIO AMBIENTE E
SUA SUSTENTABILIDADE COM BASE NA
CONSTITUIÇÃO FEDERAL DE 1988

Alessandra Staggemeir Londero


Pós-graduanda em Perícia, Auditoria e Gestão Ambiental – IMBEC;
Graduada em Direito UNIFRA (alessandraslondero@gmail.com)
Deise Scheffer
Pós-graduanda em Gestão Pública – UFSM; Graduada em Ciências Econô-
micas UFSM. Scheffer (deise@gmail.com)

Resumo
O direito ambiental vem se tornando um direito do mundo, com a propriedade de
ser por si só o berço de esperança das futuras gerações, tendo como aliado nesta
insistente guerra de preservação, a educação ambiental. A Constituição Federal de
1988 tutela um meio ambiente ecologicamente equilibrado e preservado, sugerindo
um desenvolvimento sustentável, crescimento econômico e utilização dos recursos
naturais de forma consciente. É de fundamental importância um investimento pesa-
do na formação de cidadãos fiscalizadores e conscientes, a fim de colaborar com a
harmonização entre preservação e sustentabilidade. O presente estudo foi embasa-
do em uma metodologia bibliográfica, onde através de livros, artigos e revistas bus-
cou aprofundar a pesquisa. Desta forma, conclui-se que, o direito de um meio ambi-
ente ecologicamente equilibrado surge como direito essencial de todo cidadão, logo,
um direito que necessita ter uma base forte de consciência ambiental que passa por
uma educação.
Palavras-chave: Meio ambiente; Direitos Humanos; Constituição Federal; Políticas
Públicas.

Abstract
Environmental law is becoming a law in the world, with the property of being itself
the cradle of hope for. The 1988 Federal Constitution tutelage one ecologically bal-
anced environment and preserved, suggesting sustainable development, economic
growth and natural resource use consciously. It is vital a heavy investment in the
training of enforcers and citizens aware in order to collaborate with the harmoniza-
tion between future generations, and as an ally in this war insistent preservation,
environmental education preservation and sustainability. This study was based on a
methodology literature, where through books, articles and journals sought further
research. Thus, we conclude that the right of an ecologically balanced environment
emerges as essential right of every citizen, so a right that needs to have a strong
base of environmental consciousness that passes for an education.
Keywords: Environment, Human Rights, Constitution, Public Policy.
64
Alessandra Staggemeir Londero & Deise Scheffer

INTRODUÇÃO
No mundo atual faz-se presente a preocupação com os di-
reitos humanos que todos têm direito. Ademais no âmbito na-
cional, a Constituição garante nos seus dispositivos os direitos
fundamentais, com suas garantias e deveres. Conforme o arti-
go 225 da Constituição Federal brasileira assegura a todos os
humanos o direito e proteção ao meio ambiente ecologicamen-
te equilibrado como bem coletivo, indicando ainda o dever de
defesa deste meio para as presentes e futuras gerações.
O direito ambiental devido a sua importância no mundo
aparece com um direito fundamental na vida das pessoas, au-
mentando seu nível de esclarecimento e propagação. Sendo
assim, surge um meio muito eficaz de divulgação das necessi-
dades do ecossistema para a nossa sustentabilidade, a educa-
ção ambiental, que se apresenta de várias formas e com dife-
rentes métodos, disposto em leis específicas e sob garantia de
política pública.
Salienta-se a importância da educação ambiental para o
desenvolvimento do Brasil e do mundo. Pois é considerado um
artifício pródigo e muito importante, já que alimenta a consci-
entização das pessoas. Ainda se relata as competências ambi-
entais, que dizem respeito aos poderes e limites dos entes fe-
derados.
Contudo faz-se necessário e análise subjetiva do que o
curso de direito implica no fato de exercer a sua educação am-
biental, pois além de ser um formador de pessoas, forma pen-
samentos e também maneiras de sobrevivência, principalmen-
te no que envolve a sociedade que vai se utilizar dos acadêmi-
cos formados e suas prestações para desenvolver suas teses
em casos e processos. Fazendo do advogado uma peça para a
proteção dos direitos do homem, entre eles o direito ao meio
ambiente e à sua sustentabilidade.
Para este trabalho o método aplicado é o indutivo, partin-
do do pensamento particular para o âmbito geral, colocando o
conhecimento de educação ambiental sobre o patamar da
Constituição Federal e os demais feitos legais, tanto os nacio-

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Os Direitos Humanos e a sua Proteção
25 e 26 de abril de 2013
65
A educação ambiental e sua sustentabilidade

nais, quanto os mundiais. Além disso, o método histórico traz


um relato da evolução dos direitos humanos, e o comparativo
colocando a eficiência da educação ambiental sob os dispositi-
vos legais.

METODOLOGIA
O método utilizado neste trabalho foi a fundamentação
teórica que tem uma grande importância para um trabalho
acadêmico.
A fundamentação teórica possui três funções principais.
Em primeiro, ajuda a sustentar o problema de pesquisa,
ou seja, demonstra que o problema faz sentido e que as
variáveis que se pretende de alguma forma arrolar são
passíveis de relacionamento. Em segundo lugar, consti-
tui-se na opção teórica do autor e, portanto, não pode ser
uma mera revisão de literatura [...]. Em outras palavras, a
fundamentação teórica representa o argumento do autor
sobre o tema que resolveu pesquisar. Sua terceira função
é dar sustentação à análise de dados, ou seja, permitir
sua interpretação.1

Dessa forma, desenvolveu-se um estudo bibliográfico


através de livros, revistas e artigos, a fim de coletar informa-
ções a cerca do tema. Uma pesquisa bibliográfica remete às
contribuições de diferentes autores sobre um determinado as-
sunto, atentando para fontes secundárias, ou seja, represen-
tando quaisquer dados que já foram coletados para outros fins.
Enquanto que a pesquisa documental recorre a materiais que
ainda não receberam tratamento analítico e publicação, isto é,
são as fontes primárias2.

1
VIEIRA, M. M. F.; ZOUAIN, D. M. Pesquisa qualitativa em administração
- Rio de Janeiro: Editora FGV, 2004, p.19.
2
JUNG, C. F. Metodologia para pesquisa e desenvolvimento: aplicada a
novas tecnologias, produtos e processos. Rio de Janeiro: Axcel Books,
2004.

Programa de Pós-graduação em Direito


Curso de Mestrado em Direitos Humanos
66
Alessandra Staggemeir Londero & Deise Scheffer

Baseado nestes métodos buscou-se aprofundar como a


educação ambiental é importante para e necessária para o
meio ambiente e para a sustentabilidade, baseado na Consti-
tuição Federal de 1988.

REFERENCIAL TEÓRICO
Conforme o objetivo escolhido, o estudo teórico busca
demonstrar o quanto a educação ambiental é eficaz para o
meio ambiente e para a sustentabilidade baseado na Carta
Magna de 1988.

O DIREITO AMBIENTAL COMO DIREITO HUMANO


O direito humano e/ou fundamental trata-se do direito
dos homens, que rege sobre as garantias que lhes são devidas,
como a dignidade, a vida, inclusive o direito ao meio ambiente.
O direito do homem num contexto histórico deriva do Direito
de Deus, que permeia de um modo geral que tudo que é retira-
do da natureza deve ter um meio de recompensa para a garan-
tia da sustentabilidade. Para tanto nesse contexto entra um
jogo de regras, que tem origem em costumes da sociedade, e
também são oriundas de pactos e tratados internacionais, mas
em âmbito nacional principalmente da Constituição Federal de
1988.
Não há que se falar somente em regra geral e punição aos
maus seguidores, precisaram ser específicos nos pontos de
abrangência e a sua competência. Já que esse direito traz con-
sigo garantias, que devem ser cobradas e prestadas, que estão
expressas nas normas, e dizem respeito principalmente ao di-
reito à vida e sua manutenção saudável. E, está previsto na
Constituição Federal de 1988, em seu artigo 4º, inciso II3.

3
Art. 4º. A República Federativa do Brasil rege-se nas suas relações in-
ternacionais pelos seguintes princípios: [...]
II – prevalência dos direitos humanos; [...]
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Os Direitos Humanos e a sua Proteção
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67
A educação ambiental e sua sustentabilidade

Portanto, como conceito subjetivo entende-se por Direitos


Humanos, os direitos ligados à pessoa humana, com intuito de
proporcionar garantias físicas e psicológicas, para assim man-
ter a qualidade de vida e os meios para proporcionar tal quali-
dade. Destarte se faz a importância do equilíbrio ecológico pa-
ra a manutenção da sustentabilidade. Então há que se falar do
meio ambiente, sob o aspecto de que para manter a qualidade
de vida ele se torna o fator principal, pois está ligada à saúde,
e à sustentabilidade das pessoas. Fazendo assim o direito am-
biental como um direito humano. Assim, baseados em uma
educação ambiental consistente, os membros desta sociedade
devem entender que o Direito do amanhã deve ser ético e le-
galmente protegido sendo um direito fundamental para as pró-
ximas gerações. Destarte os Direitos Humanos começam a se
aliar com a ecologia4.

EDUCAÇÃO AMBIENTAL E A CONSTITUIÇÃO FEDERAL DE 1988


A constituição da República refere em seus dispositivos
que o cidadão na constância dos seus deveres, é parte legítima
para propor ação em defesa do meio ambiente, assim tem-se o
nexo dos deveres sociais com a Carta Magna Brasileira. O de-
ver social começa no pensamento individual, para depois for-
mar ideais com grupos de pessoas que cultivam o mesmo pen-
samento, e no contexto do trabalho está a preservação ecológi-
ca do meio e a garantia da sustentabilidade.
Para tanto o fator mais relevante para a realização dos
deveres sociais está na educação ambiental, das crianças e
dos adultos. Implantar o pensamento de responsabilidade so-
bre o meio ambiente é a forma mais eficaz, pois não se trata só
do presente, mas também do futuro, ensinar a respeitar os re-
cursos naturais, usufruir da água com mais responsabilidade,
controlar os gastos com energia, não incentivar o desmata-
mento, não poluir o solo perto dos aqüíferos, isto não está es-
crito em nenhum artigo da Constituição, mas não precisar ser

4
WARAT, L. A. Por quem cantam as sereias. Porto Alegre: Síntese, 2000,
p.8.

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Curso de Mestrado em Direitos Humanos
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Alessandra Staggemeir Londero & Deise Scheffer

expresso, quando a mídia retrata cada vez mais a situação na-


cional e mundial do meio ambiente. E parte do dever do indiví-
duo com ele mesmo para viver num mundo melhor e ter uma
vida mais saudável.
A importância da educação ambiental possui muitos ar-
gumentos além da preservação da natureza, e muitos ligados
com o direito e com a legislação em si. Como por exemplo, a
fiscalização pessoal dos recursos naturais, a preocupação com
a sustentabilidade das gerações futuras e as sanções aplica-
das às empresas poluidoras.
Mas a educação nesse caso é diferenciada do preceito
que temos de educação sinônimo de ensino. O ensino é com-
preendido como aquilo que aprendemos no âmbito de escola-
ridade, de profissionalização. E como educação faz entender o
que se aprende com a sociedade, sendo essa sociedade o meio
familiar, escolar, do trabalho, etc. É o aprendizado que mobili-
za o bem estar entre as pessoas, são os modos, os costumes, o
que realmente forma a essência do ser humano. Portanto é al-
go que não é esquecido, e se transpõem nas atitudes e nas
habilidades das pessoas, dela com a sociedade e com o meio
que vive, inclusive o meio ambiente.
A Constituição Federal traz medidas protetivas para pu-
nir empresas e consumidores, mas não populariza um interes-
se em soluções que previnam o desgaste ambiental. Posto que
a educação ambiental se propagada, o papel de regradora-
fiscal teria origem cultural da sociedade, enfatizando o que é
prejudicial para a sustentabilidade e para a menutenção da
vida. A prática tem demonstrado que na guerra pelo meio am-
biente ecologicamente equilibrado – direito disposto na Cons-
tituição Federal – as armas mais efetivas não serão encontra-
das no Direito e sim na Educação (TESSMANN E SANGOI,
2007, p.156).
Para tanto, cabe aos educadores demonstrar a razão de
se propagar à sustentabilidade. E a manutenção dos recursos
naturais pode ser uma tarefa que transmite característica pro-
tetiva, mas, além disso, de caráter prazeroso, pois tudo aquilo
que se aprende e que na hora da prática nos proporciona lazer
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Os Direitos Humanos e a sua Proteção
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A educação ambiental e sua sustentabilidade

tem a maior tendência de ser cultivado e melhor ainda de ser


disseminado. E isso é o que mais importa quando estamos
numa fase de tanta urgência em se retratar com o meio ambien-
te. A educação ambiental está estritamente conectada ao saber
ambiental, que por sua vez baseia em um referencial empírico
que é a realidade social, a qual é construída com base em juízos
de valores e na interdisciplinaridade do conhecimento5.
Em conformidade com o aprendizado para a progressão
do meio ambiente, existem no país projetos de cooperativas,
ou grupos comunitários que realizam trabalho de reciclagem,
tirando deste seu sustento, assim como são movidos projetos
de preservação das zonas marginais aos rios, também se tem
uma política dos poderes públicos de realizarem tratamentos
de água e esgoto, difundindo a higiene e evitando o desperdí-
cio de água e a despoluição do esgoto que volta à rios e mares.
E assim por diante, mostrando que é possível o desenvolvi-
mento inteligente, que consegue dar às pessoas uma qualida-
de de vida e à devida importância ao meio ambiente.
O grande obstáculo de se implantar meios de cuidado com
a natureza é a política econômica dos países. Esta política nutre
uma falsa impressão de que tudo pode ser remediado, passando
uma visão de que o caos pertence ao futuro, quando na verdade
já é um colapso atual e mundial. Já se conhecem leis, pactos, e
tratados internacionais que versam sobre a preservação do meio
e a divulgação da educação ambiental. Em âmbito nacional, te-
mos o início de uma nova forma de pensar e agir, que foi a
Agenda 21, realizada durante a ECO92 no Rio de Janeiro, que
consiste em diretrizes com base nos textos da ONU, mas ampa-
radas no direito, trazendo capítulos que versam sobre desenvol-
vimento econômico, desenvolvimento sustentável e demais dis-
positivos sobre a qualidade do ecossistema.
Através destes argumentos se torna possível a aplicação
da educação ambiental, pois, além da acessibilidade popular
5
HAMMARSTRON ; CENCI, D. R. . DIREITOS HUMANOS E MEIO
AMBIENTE: a educação ambiental como forma de fortalecer a interrela-
ção. Revista Eletrônica em Gestão, Educação e Tecnologia Ambiental, v.
5, p. 825-834, 2012.

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Curso de Mestrado em Direitos Humanos
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que se tem, mais o poder público construindo regramentos e


propondo políticas educativas à crianças e adultos deve se
chegar à um resultado positivo, portanto vale ressaltar a im-
portância da educação ambiental, para a sustentabilidade, pa-
ra a sobrevivência , e os demais desenvolvimentos, como eco-
nômico, social e cultural.
A educação ambiental se torna realmente eficaz com a
sua propagação, pois quanto mais gente conseguir alcançar,
melhor será o seu resultado, tendo a garantia de que se um
grupo de pessoas tomarem sentido o bem da educação ambi-
ental e possibilidade de se espalhar é muito melhor. Claro que
os recursos de mídia fazem uso de energia elétrica, de papel
no caso de impresso e precisam de muitas propagandas para
poder se manter, mas o que conta é tirar a diferença do que é
utilizado para tal propagação e o quanto as pessoas aprende-
ram para usufruir no dia a dia, como a separação do lixo, o con-
trole da água, o uso da coletivização do transporte e demais
institutos dotáveis de grande eficiência na manutenção da na-
tureza. Sendo que um pequeno gesto praticado por muitos
causa grande efeito além de aprendizado pode significar a
chance que o mundo está pedindo de poder se reconstruir com
a ajuda do homem.
Pois além da teoria, a prática acontece já nos dias de hoje
e além da punição pelo dano causado, mas na possibilidade de
não deixá-lo acontecer, o que serve de motivo para a amplia-
ção da aplicabilidade da educação focada na preservação do
ecossistema mundial, pois se mostra como previsto, de forma
efetiva e de simples aplicação. E sua eficácia não vem somente
dos projetos das políticas públicas, mas dos cidadãos, que
conscientizados passam a proteger, fiscalizar e manter o meio
ambiente para uma vida saudável e um ecossistema equilibrado.

FISCALIZAÇÃO COMO FORMA DE EDUCAÇÃO AMBIENTAL


A fiscalização não se trata apenas do serviço prestado pe-
los fiscais admitidos somente para esse serviço, se trata do
objetivo de cuidar, proteger, manter, que é realizado por todos
na sociedade e pelas entidades públicas administrativas.
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Os Direitos Humanos e a sua Proteção
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71
A educação ambiental e sua sustentabilidade

Fiscalizar tem a finalidade de proteger, sob a forma de


outros atos. Qualquer pessoa pode participar disso, não preci-
sa ser alguém delegado para tanto, isto claro se levado em
conta o ato de fiscalizar como um ato de proteção, não somente
o auto realizado pelo servidor responsável. Como exemplo de
uma fiscalização não formal, é a atitude de uma pessoa defen-
der a fauna, quando denuncia uma caça ilegal, o objetivo de
proteção, o interesse social sobressalta o interesse individual
da prática esportiva, isso é claro salvaguardando as hipóteses
onde a lei permite tal prática. O ato fiscal não é somente a di-
lação da pessoa feita ao ato de outrem, mas a finalidade de
proteção que se encontra no momento.
Mas além do ato cívico, vai para o lado moral e ético, pois
é de todos o meio ambiente que garante a sustentabilidade e a
sobrevivência, portanto cabe à todos a sua manutenção. Por
isto faz-se tão importante a realização dos projetos de educa-
ção ambiental, para colocar em alerta para a população o quão
importante é a preservação da natureza, e a fiscalização moral,
vem destas mentes orientadas para tanto.
A fiscalização feita pelo Poder Público tem sua compe-
tência nos entes administrativos, a União, os Estados, o Distri-
to Federal e os Municípios. Cada um com sua devida finalidade
e também em setores compartilhados, onde os dois entes
exercem juntos o poder de policiamento e de segurança. Essa
divisão de competência está disposta nos artigos 25 6 e 307, e

6
Art. 25. Os Estados organizam-se e regem-se pelas Constituições e lei
que adotarem, observados os princípios desta Constituição. § 1º São re-
servados aos Estados as competências que não lhes sejam vedadas por
esta Constituição. § 2º Cabe aos Estados explorar diretamente, ou medi-
ante concessão, os serviços locais de gás canalizado, na forma da lei,
vedada a edição de medida provisória para a sua regulamentação.
§ 3º Os Estados poderão, mediante lei complementar, instituir regiões
metropolitanas, aglomerações urbanas e microrregiões, constituídas por
agrupamentos de Municípios limítrofes, para integrar a organização, o
planejamento e a execução de funções públicas de interesse comum.
7
Art. 30. Compete aos Municípios: I – legislar sobre assuntos de interes-
se local; II – suplementar a legislação federal e a estadual no que cou-
ber; VII – prestar, com a cooperação técnica e financeira da União e do
Estado, serviços de atendimento à saúde da população; [...]

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seus parágrafos, da Constituição Federal. O disposto nos arti-


gos referidos sobre as instituições federadas para com o ecos-
sistema faz parte da educação ambiental politicamente correta
e com base na legislação nacional.
Sendo assim, as competências são classificadas em duas
formas distintas, a natureza e a extensão, e dentro desta clas-
sificação existe uma subclassificação. Em se tratando da refe-
rência da natureza, as outras classes são, a executiva, a admi-
nistrativa e a legislativa.
A primeira refere-se ao poder de formar diretrizes, e políti-
cas ligadas ao ecossistema, a segunda classe remete ao poder
de polícia com o objetivo de preservação ambiental, e a última
classe menciona o poder de legislar sobre questões ambientais.
Agora quanto à classe da extensão, a subdivisão tem a classe
das exclusivas, que exclui os demais entes federativos, a classe
das privativas, que apesar de ser federativa admite delegação e
suplementação dos outros entes, também tem a classe dos co-
muns, onde o poder é distribuído de forma igualitária a todos,
também se faz presente a classe dos concorrentes, onde mais
de um ente federativo pode ter disposição diversa sobre deter-
minado assunto, e por último a classe dos suplementares, que
possibilita a edição das diretrizes existentes, ou suplementar a
ausência ou omissão de uma delas. 8
É importante constar que uma diferenciação não anula a
outra. Isto significa, dizer que a compreensão se uma não vai
fazer a outra competência não surtir o efeito esperado, ainda
mais quando as duas realizarão algo que vai melhorar o quadro
da situação. E com esta organização expressa fica obstinado
além dos controles, os deveres e obrigações, a fiscalização que
é implementada para o controle de preservação do ecossiste-
ma. Fiscais estes que além dos profissionais, tem como parti-
cipantes pessoas que queiram contribuir para a qualidade de
vida, própria e alheia.

8
CANOTILHO, José Joaquim Gomes; LEITE, José Rubens Morato (orga-
nizadores). Direito constitucional ambiental brasileiro. São Paulo: Sarai-
va, 2007, p 215.
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73
A educação ambiental e sua sustentabilidade

SUSTENTABILIDADE
O termo sustentabilidade ou desenvolvimento sustentá-
vel, podemos mencionar o conceito trazido por Barral e Ferrei-
ra: “Desde já, pode-se definir desenvolvimento sustentável
como o desenvolvimento que responde às necessidades do
presente sem comprometer as possibilidades das gerações
futuras de satisfazer suas próprias necessidades.”9
No Direito do Ambiente, como também na gestão ambi-
ental, a sustentabilidade deve ser abordada sob vários pris-
mas:o econômico, o social, o cultural, o político, o tecnológico,
o jurídico e outros. Na realidade, o que se busca, consciente-
mente ou não, é um novo paradigma ou modelo de sustentabi-
lidade, que supõe estratégias bem diferentes daquelas que
têm sido adotadas no processo de desenvolvimento, sob a égi-
de de ideologias reinantes desde o início da Revolução Indus-
trial, estratégias estas que são responsáveis pela insustentabi-
lidade do mundo de hoje, tanto no que se refere ao planeta
Terra quanto no que interessa à família humana em particular.
Em última análise, vivemos e protagonizamos um modelo de
desenvolvimento autofágico que, ao devorar os recursos finitos
do ecossistema planetário, acaba por devorar-se a si mesmo10.
A sustentabilidade possui relação com diversas ciências.
Sem dúvida, uma das mais importantes é o Direito Ambiental.
Por meio de uma visão sistêmica e globalizante, o meio ambi-
ente deve ser interpretado como um bem jurídico unitário,
abarcando os elementos naturais, o ambiente artificial (meio
ambiente construído) e o patrimônio histórico-cultural, pressu-
pondo-se uma interdependência entre todos os elementos que
integram o conceito, inclusive o homem11.

9
BARRAL, Welber; FERREIRA, Gustavo A. Direito ambiental e desenvol-
vimento. In. BARRAL, Weber; PIMENTEL, Luiz Otávio (Org.). Direito
ambiental e desenvolvimento. Florianópolis: Fundação Boiteux, p. 13.
10
MILARÉ, Édis. Direito do Ambiente: doutrina, jurisprudência, glossário.
5. ed. atual. e ampl. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2007. p.70.
11
MARCHESAN, Ana Maria Moreira; STEIGLEDER, Annelise Monteiro;
CAPPELLI, Sílvia. Direito Ambiental. 4. ed. Porto Alegre: Verbo Jurídi-
co, 2007.

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Curso de Mestrado em Direitos Humanos
74
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CONCLUSÃO
Posto que então para a sobrevivência é necessário colocar
em prática deveres sociais. Mas não somente em escala de
grandes acontecimentos em massa, mas na individualização
da conscientização, para logo se alastrar, vigorar como deve.
Com este fator entra a questão mais importante para tal efeito,
a educação ambiental.
E se tratando de educação faz-se posto do que seja tal
instituto, tão presente na vida de qualquer pessoa. Então além
da sua pessoalidade, entende-se por tal, aquilo que oferece o
aprendizado, conhecimento, sendo utilizado e adquirido nas
suas diversas formas, trazendo além do ensino, o modo de lidar
com os acontecimentos nos dia a dia de qualquer um. Com os
seus objetivos, de alcançar um desenvolvimento da personali-
dade das pessoas, de desenvolvimento econômico, cultural e
de tamanha importância o desenvolvimento do meio ambiente.
Com isto chega-se a importância de se educar com a fina-
lidade de preservação ambiental, da importância desta atitude
na sobrevivência da espécie humana, e das demais espécies-
vítimas habitantes do mundo. Como se torna simples a divul-
gação do instituto que se torna bem para a humanidade, como
seus meio de propagação podem tornar fácil a conscientização
dos cidadãos, indiferente de idade, credo, cor e religião, aces-
sível à qualquer um que queria contribuir para a propagação
do bem estar e da sustentabilidade do ecossistema, sendo es-
tes, gestos pessoais, sem incluir ainda as políticas governa-
mentais específicas para tanto. Mesmo que tão importantes e
constantes na Constituição Federal de 1988.
Portanto conclui-se que no quadro dos direitos humanos e
fundamentais, o direito ambiental evolui à medida que é mais
visível a necessidade e a facilidade para a ação deste. Além
dos poderes públicos, acreditamos que a grande engrenagem
da sociedade é a pessoa que se empenha em preservar os re-
cursos naturais e fazer pelo coletivo o possível para que cada
vez mais a educação se torne humana e ambiental num mesmo
contexto.

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Os Direitos Humanos e a sua Proteção
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75
A educação ambiental e sua sustentabilidade

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Programa de Pós-graduação em Direito


Curso de Mestrado em Direitos Humanos
76
Alessandra Staggemeir Londero & Deise Scheffer

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I Seminário Internacional de Direitos Humanos e Democracia


Os Direitos Humanos e a sua Proteção
25 e 26 de abril de 2013
GESTÃO PÚBLICA E DESENVOLVIMENTO
SUSTENTÁVEL : CONSIDERAÇÕES SOBRE
A RACIONALIDADE ECONÔMICA COMO
FATOR DE INSUSTENTABILIDADE

Alexandre Nicoletti Hedlund


Mestre em Desenvolvimento – UNIJUÍ, Advogado, Coordenador do curso
de Direito da UNIGUAÇU – União da Vitória – Paraná
(hedlund81@gmail.com)

Resumo
O presente trabalho versa sobre a gestão pública e as perspectivas de sua atuação,
assim como o panorama do desenvolvimento no século XX e XXI, principalmente a
partir da abordagem do caráter econômico do desenvolvimento na elaboração e
instauração de uma hegemonia econômica global, denominada de racionalidade
econômica. Essa configuração aumenta os riscos ambientais e sociais operando basi-
camente em nome do crescimento econômico, desconhecendo muitas vezes os
efeitos locais e limitando a capacidade de solução dos problemas por parte da ges-
tão pública. A partir disso, aponta-se para a racionalidade mercadológica econômica
como o fator preponderante na dificuldade de alcançar os patamares de sustentabi-
lidade que se espera do desenvolvimento no século XXI.
Palavras-chave: Desenvolvimento – Gestão pública – Racionalidade econômica –
Sustentabilidade;

Abstract
This paper focuses on the governance and the prospects for its operations, as well as
the development landscape in XX and XXI century and mainly from the approach of
an economic development in the design and establishment of a global economic
hegemony, called economic rationality. This configuration increases the environ-
mental and social risks operating primarily in the name of economic growth, often
ignoring the local effects and limiting the ability to solve problems on the part of
public management. From this, pointing to the market economic rationality as the
most important factor in the difficulty of achieving the levels expected sustainability
of development in the XXI century.
78
Alexandre Nicoletti Hedlund

INTRODUÇÃO
As mudanças ocorridas ao longo do último século confi-
guram um cenário preocupante e complexo que resume em si
as contradições da sociedade contemporânea, desde a organi-
cidade de suas instituições até as relações interindividuais
que determinam novos espaços públicos e privados de convi-
vência. Essas contradições podem ser compreendidas como a
síntese decorrente das transformações produzidas ao longo
dos últimos três séculos que o precederam, provocando uma
complexa gama de fragmentações e rupturas internas que de-
notam a crise do paradigma civilizatório moderno.
A crise que se instala na sociedade contemporânea tem
como principal característica a complexidade com que se vin-
cula a diversos campos de atuação do ser humano, na dimen-
são política, econômica e social, além da dimensão ambiental
que, ao contrário das demais, não consegue ser limitada a um
determinado espaço geográfico. Apesar da relevância que a
crise ambiental apresenta, as proposições dos projetos de de-
senvolvimento baseiam-se nas concepções da economia capi-
talista que passa a determinar todos os âmbitos da existência
humana. A partir disso, este pequeno trabalho pretende anali-
sar a consolidação do desenvolvimento como projeto sustentá-
vel e ao mesmo tempo apresentar alguns aspectos que indi-
cam a insustentabilidade destes projetos diante da hegemonia
da racionalidade econômica global.
O século XX sinalizou avanços tecnológicos incomensurá-
veis, mas, foi marcado também pelos níveis de desigualdade1,
uma vez que muita riqueza foi gerada, mas persistem elevados
níveis de pobreza e desigualdade social, evidenciando-se o
desiquilíbrio entre transformação produtiva e equidade social,
competitividade e coesão social, eficiência e solidariedade,
crescimento e distribuição de resultados.

1
SCHOMMER, P. C. Investimento social das empresas: cooperação orga-
nizacional num espaço compartilhado. In: FISCHER, T. (Org.) Gestão do
Desenvolvimento e Poderes Locais: marcos teóricos e avaliação. Salva-
dor, BA: Casa da Qualidade, 2002.p. 91.
I Seminário Internacional de Direitos Humanos e Democracia
Os Direitos Humanos e a sua Proteção
25 e 26 de abril de 2013
79
Gestão pública e desenvolvimento sustentável

APONTAMENTOS SOBRE A GESTÃO PÚBLICA E A GESTÃO SOCIAL2


A Reforma do Aparelho do Estado, iniciada no Brasil na
década de 903, teve como objetivos principais: a) diminuir o
nível de intervenção do Estado na atividade econômica, como
produtor de bens para o consumo, e aumentar o seu papel de
formulador e implementador de políticas públicas e de regula-
dor das relações entre os agentes econômicos; e b) aumentar
os níveis de eficiência e de eficácia da administração pública.
No entendimento de Tenório e Saraiva4, deve-se reconhe-
cer que, apesar das reformas e modernizações, das “reformas
do Estado”, dos inúmeros seminários e treinamentos sobre a
temática, as prestações do Estado não ocorrem na quantidade
e qualidade que permitiriam atender as inúmeras carências
suportadas por grande parte da população do país.
No que diz respeito à concepção de gestão, pode-se com-
preender, conforme Fischer5, como um ato relacional que se
estabelece entre pessoas, em espaços e tempos relativamente
delimitados, objetivando realizações e expressando interesses
de indivíduos, grupos e coletividades. Ainda, Fischer destaca
que a gestão adjetivada como social, orienta-se para a mudan-
ça e pela mudança, seja de microunidades organizacionais,
seja de organizações com alto grau de hibridização, como são
as interorganizações atuantes em espaços territoriais micro ou
macro escalares.

2
Nesse sentido, Tenório e Saraiva (2006) defendem que o importante não
é diferenciar gestão pública de gestão social, mas resgatar a função bá-
sica da administração pública, que é atender os interesses da sociedade
como um todo. Gestão social seria uma adjetivação da gestão pública,
não um substituto.
3
BRASIL. Ministério da Administração e Reforma do Estado. Plano Diretor
da Reforma do Aparelho do Estado. Brasília: Ministério da Administra-
ção e Reforma do Estado, 1995 a.
4
TENÓRIO, F. G.; SARAIVA, E. J. Escorços sobre gestão pública e gestão
social. In. MARTINS, Paulo Emílio Matos; PIERANTI, Octávio Penna
(Orgs.) Estado e Gestão Pública: visões do Brasil contemporâneo. Rio de
Janeiro: Editora FGV, 2006.
5
FISCHER, T. (Org.) Gestão do desenvolvimento e poderes locais: marcos
teóricos e avaliação. Salvador, BA: Casa da Qualidade, 2002.p. 29.

Programa de Pós-graduação em Direito


Curso de Mestrado em Direitos Humanos
80
Alexandre Nicoletti Hedlund

O campo da gestão social ou de gestão do desenvolvi-


mento social é reflexivo das práticas e do conhecimento cons-
truído por múltiplas disciplinas, delineando-se uma proposta
paradigmática, que está sendo formulada como agenda de
pesquisa e ação por muitos grupos e centros de pesquisa no
Brasil e no exterior, bem como por instituições de diferentes
naturezas6 que atuam no desenvolvimento local.
Porém, como bem sinaliza Tenório7, a ineficiência do apa-
relho burocrático brasileiro não será resolvida só por meio de
modernizações, reformas ou de adjetivações, como a de gestão
social idealizada a partir dos anos 1990, mas sim pela redefini-
ção da importância da administração pública como vetor ne-
cessário ao desenvolvimento nacional e à equitativa redistri-
buição – social e regional – da renda.
Na visão de Bresser Pereira8, reformar a administração
pública não significa apenas transformar subsistemas organi-
zacionais técnicos, o que requer, fundamentalmente, um plane-
jamento adequado de modernização tecnológica e disponibili-
dade financeira. A transformação organizacional só se efetiva
quando se consegue mudar seus padrões de comportamento,
ou seja, seu subsistema social, o que torna a mudança um pro-
cesso muito mais cultural do que tecnológico ou mecânico.
Nessa mesma linha de raciocínio, Motta9 entende que, mesmo
que as dimensões técnicas e organizacionais – produtos, servi-
ços, protótipos, análises, estruturas, sistemas e métodos este-

6
Destacam-se as organizações filantrópicas, as ONG’s (Organizações
Não-Governamentais) e as fundações de cunho social, principalmente
como resultantes do crescimento da consciência de cidadania e, muitas
vezes, por consequência de crises dos governos.
7
TENÓRIO, F. G.; SARAIVA, E. J. Escorços sobre gestão pública e gestão
social. In. MARTINS, Paulo Emílio Matos; PIERANTI, Octávio Penna
(Orgs.) Estado e Gestão Pública: visões do Brasil contemporâneo. Rio de
Janeiro: Editora FGV, 2006.p. 122.
8
BRESSER PEREIRA, Luiz Carlos. Gestão do setor público: estratégia e
estrutura para um novo Estado. In: Bresser Pereira, Luiz Carlos & Spink,
Peter K. (orgs.). Reforma do Estado e administração pública gerencial. 2.
ed. Rio de Janeiro: Editora Fundação Getúlio Vargas, 1998. p. 21-38.
9
MOTTA, Paulo Roberto. Gestão Contemporânea: a ciência e a arte de ser
dirigente. Rio de Janeiro: Record, 1995.
I Seminário Internacional de Direitos Humanos e Democracia
Os Direitos Humanos e a sua Proteção
25 e 26 de abril de 2013
81
Gestão pública e desenvolvimento sustentável

jam preparadas para a mudança, esta resultará em fracasso se


os valores da mesma não estiverem contidos na perspectiva
gerencial e a cultura organizacional não for propensa à mu-
dança.
A gestão pública deve ser praticada como originalmente
foi tencionada: voltada para a res publica10. Para tanto, é indis-
pensável que o Estado, através do governo em seus diferentes
níveis decisórios (federal, estadual ou municipal), atue como
sujeito do desenvolvimento socioeconômico, por um lado, e, de
outro, que o servidor público seja valorizado por meio de con-
dições de trabalho e salariais que lhe deem condições de exer-
cer uma gestão pública coerente com o seu desígnio original, a
prática de um conceito substantivo do Estado.
Assim, a gestão social11 não deve ser apenas a prática de
uma gestão pública voltada para a solução de problemas soci-
ais, como muitos idealizam, mas uma prática gerencial que
incorpore a participação da sociedade no processo de plane-
jamento e implementação de políticas públicas. Não basta agir
para o social, mas agir com o social, podendo-se afirmar que a
gestão social é o meio para qual a gestão pública é o fim.

PANORAMA DO DESENVOLVIMENTO
A organização da sociedade político-jurídica moderna é
marcada por um movimento de ruptura com as tradições, com
a história e com a estagnação medieval em favor de novas tra-
dições e de sua própria história em constante reconstrução,
ocorrendo em todos os campos da atividade humana.
Nesse sentido, o crescimento econômico assume lugar de
destaque na sociedade moderna, principalmente em decorrên-
cia do papel que a classe burguesa – em ascensão – passa a
ocupar, fortalecendo uma nova economia, não mais baseada na
10
TENÓRIO, F. G.; SARAIVA, E. J. Escorços sobre gestão pública e gestão
social. In. MARTINS, Paulo Emílio Matos; PIERANTI, Octávio Penna
(Orgs.) Estado e Gestão Pública: visões do Brasil contemporâneo. Rio de
Janeiro: Editora FGV, 2006.p. 126.
11
Idem, Ibidem.

Programa de Pós-graduação em Direito


Curso de Mestrado em Direitos Humanos
82
Alexandre Nicoletti Hedlund

agricultura de troca e subsistência, mas nas relações de mer-


cado. As bases da economia de mercado passam a ser deter-
minadas por uma nova atitude12 em relação à atividade econô-
mica, na qual os indivíduos gozam de liberdade para buscar o
lucro.
Capella13 aponta para a crença do progresso iluminista e
do crescimento econômico como expressões da nova realidade
que utiliza como combustível a soma do conhecimento e a ca-
pacidade de inovação. O quadro geral dessa nova sociabilida-
de será o avanço dos meios de produção, o crescimento eco-
nômico impulsionado fortemente pela industrialização e uma
considerável mudança na vida de grande parte da população.
Por conseguinte, o “desenvolvimento” passará a ser sinônimo
de crescimento econômico.
Porém, é necessário compreender que o período pós-
revolução industrial é marcado, do mesmo modo, pela pobreza
e pela escassez, fatores que determinam a impossibilidade de
se aumentar a produção a ponto de contemplar a todos. Esse
impasse, segundo Heilbroner14, só é resolúvel pelo acúmulo de
capital através da exploração da mão-de-obra, das inovações
tecnológicas constantes e principalmente pelo investimento
dado a esse capital na obtenção de mais capital, razão pela
qual o capitalismo se afirma como peça fundamental.
A partir do exame destas características que afirmam os
avanços econômicos de um Estado é possível determinar seu
desenvolvimento, e, além disso, identificar um conjunto de pa-
íses que não conseguem alcançar os patamares de evolução
tecnológica, industrial, econômica e política, sendo relegados a
condição de “subdesenvolvimento” em razão de seu posicio-
namento marginal no sistema capitalista. Constata-se, a partir

12
Como bem lembra Heilbroner “os homens devem cumprir suas tarefas
não por serem obrigados a elas, mas porque nelas ganharão dinheiro.”
(1972. p.61).
13
CAPELLA, Juan Ramón. Fruta Prohibida: una aproximación histórico-
teorética al estudio del derecho y del estado. Madrid: Trotta, 1997.
14
(HEILBRONER, Robert L. A Formação da Sociedade Econômica. 2. ed.
rev. e atual. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1972.
I Seminário Internacional de Direitos Humanos e Democracia
Os Direitos Humanos e a sua Proteção
25 e 26 de abril de 2013
83
Gestão pública e desenvolvimento sustentável

disso, que o capitalismo promove-se como o único15 elemento


capaz de melhorar a vida dos indivíduos, seja pelo esforço in-
dividual ou através da atuação do Estado. Essa identificação é
tão marcante no discurso capitalista que o desenvolvimento
social, político e cultural são referenciados apenas enquanto
reflexos do desenvolvimento econômico.
Assim, o processo de modernização confunde-se com o
processo de crescimento econômico que alude a nova roupa-
gem do “desenvolvimento”, ou seja, o desenvolvimento distin-
gue e determina a condição daqueles países que ainda não
alcançaram os patamares de modernidade e industrialização16.
Os processos17 que se seguem após 1945 confirmam-se
pela reafirmação do progresso e do Desenvolvimento econômi-
co a qualquer custo. Desta vez, trata-se de um novo fortaleci-
mento do capitalismo que passa a utilizar os recursos estatais
para financiar as novas estruturas de poder. Tal processo con-
solida na década de 1970 a inserção de políticas neoliberais de
não intervenção estatal, que sustentará um novo processo de
homogeneização mundial – denominado globalização da eco-
nomia e de afirmação da superioridade da racionalidade eco-
nômica.
No mesmo contexto, a ciência começa a questionar a fini-
tude dos recursos naturais como pedra angular da discussão

15
RIVERO, Oswaldo de. O mito do desenvolvimento: os países inviáveis no
século XXI. Trad. de Ricardo Aníbal Rosenbusch. Petrópolis, RJ: Vozes,
2002.
16
Nesse sentido, as representações teóricas sobre o desenvolvimento ten-
dem a compreender o fenômeno como sendo um conjunto de estágios
evolutivos sobre os quais os países transitariam de uma condição pré-
moderna (subdesenvolvida) para a Era Industrial (desenvolvida).
17
Sachs, em referência às transformações da sociedade contemporânea do
século XX, refere que “graças ao poderio tecnológico multiplicado ao
longo do século, a economia mundial conheceu crescimento sem prece-
dentes, alcançando elevados níveis de produção de bens materiais. Po-
rém, a parte maldita do produto não para de crescer, engolida pelo au-
mento dos custos das transações e dos custos embutidos para o funcio-
namento do capitalismo e esterilizada nos circuitos de especulação fi-
nanceira, gerando uma riqueza virtual, sem esquecer as despesas béli-
cas.” (1998, p.2-3, grifo do autor).

Programa de Pós-graduação em Direito


Curso de Mestrado em Direitos Humanos
84
Alexandre Nicoletti Hedlund

sobre os limites do desenvolvimento e as finalidades do cres-


cimento econômico desregulado. Os desastres ambientais ob-
servados ao longo do século XX e a fragilidade da questão
atômica proporcionam a inversão de perspectivas necessária
para que se abandone a lógica meramente interna dos Esta-
dos, para uma conscientização regional e global sobre os pro-
blemas.
Conforme o entendimento de Morin & Wulf18, o que ocorre
na metade do século XX é que, pela primeira vez, os mais di-
versos segmentos da humanidade encontram-se vivendo um
destino comum19, caracterizado por uma ameaça de destruição
da biosfera, pela proliferação atômica, pelas catástrofes eco-
nômicas ou demográficas.
É nesse cenário que surgirá a Conferência de Estocolmo
em 1972, firmando as bases para o entendimento a respeito
das relações entre o meio ambiente e o desenvolvimento. Do
conflito existente entre os partidários do crescimento selva-
gem e dos vitimados pela absolutização dos critérios ecológi-
cos que defendiam o crescimento zero surge uma nova con-
cepção de desenvolvimento – o ecodesenvolvimento20.
A proposta do ecodesenvolvimento, por seu turno, pre-
tende uma nova modalidade de desenvolvimento, tanto em
relação aos seus fins, quanto aos seus instrumentos, tendo
como compromisso básico valorizar as contribuições locais nas
transformações dos recursos do seu meio. O avanço dessa dis-

18
MORIN, Edgar; WULF, Christoph. Planeta: a aventura desconhecida. São
Paulo: Editora UNESP, 2003.
19
Parece correto afirmar que essa mudança de paradigmas tenha ocorrido
pelo temor da autodestruição provoca a discussão de um novo projeto
de Desenvolvimento que além do aspecto econômico começa a trabalhar
com outras categorias como a política, a religião, a cultura, a sociologia,
a filosofia, sendo que a centralidade da discussão passa a ser em torno
da questão ambiental.
20
É importante compreender que a posição de muitos países periféricos,
naquele momento histórico, não afirmava ainda a defesa do meio ambi-
ente, mas, pelo contrário, defendia o direito de aceleração industrial que
promovesse nestes países os avanços alcançados pelas economias cen-
trais.
I Seminário Internacional de Direitos Humanos e Democracia
Os Direitos Humanos e a sua Proteção
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85
Gestão pública e desenvolvimento sustentável

cussão dará força, para na década de 1980, o surgimento do


termo “desenvolvimento sustentável” no documento chamado
de Estratégia de Conservação Mundial, produzido pela UICN e
World Wildlife Fund (hoje World Wide Fund for Nature) por
solicitação do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambi-
ente – PNUMA.
Conforme o relatório, uma estratégia mundial para a con-
servação da natureza deve alcançar os seguintes objetivos: 1)
manter os processos ecológicos essenciais e os sistemas natu-
rais vitais necessários à sobrevivência e ao desenvolvimento
do Ser Humano; 2) preservar a diversidade genética; e 3) asse-
gurar o aproveitamento sustentável das espécies e dos ecos-
sistemas que constituem a base da vida humana.
Como conseqüência dessas proposições, a Assembléia
Geral da ONU constitui em 1983 a Comissão Brundtland que
objetiva: a) propor estratégias ambientais de longo prazo para
obter um desenvolvimento sustentável por volta do ano 2000 e
daí em diante; b) recomendar maneiras para que a preocupa-
ção com o meio ambiente se traduza em maior cooperação en-
tre os países em desenvolvimento e entre países em estágios
diferentes de desenvolvimento econômico e social e leve à
consecução de objetivos comuns e interligados que conside-
rem as inter-relações de pessoas, recursos, meio ambiente e
desenvolvimento; c) considerar meios e maneiras pelos quais a
comunidade internacional possa lidar mais eficientemente com
as preocupações de cunho ambiental; d) ajudar a definir no-
ções comuns relativas a questões ambientais de longo prazo e
os esforços necessários para tratar com êxito os problemas da
proteção e da melhoria do meio ambiente21.
Os resultados dessa Comissão são expressos em 1987
com o relatório denominado Nosso Futuro Comum, confirman-
do o desenvolvimento sustentável como um processo de trans-
formação no qual a exploração dos recursos, a direção dos in-
vestimentos, a orientação do desenvolvimento tecnológico e a

21
LEFF, Enrique. Racionalidade Ambiental: a reapropriação social da natu-
reza. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2006.

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86
Alexandre Nicoletti Hedlund

mudança institucional se harmonizam e reforçam o potencial


presente e futuro, a fim de atender às necessidades e aspira-
ções humanas. Muito além da questão ambiental, o objetivo do
relatório é recomendar políticas de erradicação da pobreza,
melhorando a qualidade do crescimento, tornando-o mais jus-
to, eqüitativo e menos intensivo em matérias-primas e energia,
atendendo as necessidades humanas essenciais de emprego,
de alimentação, de energia, de água e de saneamento, além de
manter um nível populacional sustentável; conservar e melho-
rar a base de recursos; reorientar a tecnologia e administrar os
riscos e incluir o meio ambiente e a economia no processo de-
cisório.
A proposta de desenvolvimento sustentável sugere um
legado ético e político permanente de uma geração a outra,
para que todas possam prover suas necessidades, e, por esse
motivo, a qualidade daquilo que é considerado “sustentável”
incorpora o significado de manutenção e conservação eterna
dos recursos naturais. Para isto, conforme enuncia Sen22 neces-
sita-se de avanços tecnológicos e científicos que ampliem
permanentemente a capacidade de utilizar, recuperar e con-
servar esses recursos, bem como novos conceitos de necessi-
dades humanas para aliviar as pressões da sociedade sobre
eles.

A RACIONALIDADE ECONÔMICA COMO FATOR DE


(IN)SUSTENTABILIDADE
A homogeneização da racionalidade econômica pode ser
compreendida como decorrente da nova fase do capitalismo ao
longo do século XX, estimulada principalmente pela inserção
de políticas neoliberais a partir da década de 1970 e pela glo-
balização que promove uma economia e um mercado consumi-
dor globais.

22
SEN, Amartya. Desenvolvimento como liberdade. São Paulo: Companhia
das letras, 2000, 411p.
I Seminário Internacional de Direitos Humanos e Democracia
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25 e 26 de abril de 2013
87
Gestão pública e desenvolvimento sustentável

A racionalidade mercadológica23 expande-se de forma


global e procura homogeneizar tudo a partir de um ponto de
vista econômico, não respeitando nem mesmo os limites ambi-
entais, sendo que os grandes desastres ambientais do século
XX apenas servem para frear por um tempo a corrida rumo ao
crescimento econômico.
O que ocorre é que existe uma crise de percepção que
não consegue visualizar nada além das questões meramente
econômicas, ou seja, uma percepção fragmentada das relações
existentes na sociedade e que por falta de amplitude não con-
segue dar respostas eficientes para os problemas apresenta-
dos. Capra24 defende que existe solução para grande parte dos
problemas presentes na atualidade, mas a resolução destes
exige uma mudança radical de concepções, pensamento e va-
lores.
Ao mesmo tempo, a focalização da racionalidade econô-
mica procura atacar a consolidação de valores e de necessida-
des dos indivíduos, promovendo constantemente novos valo-
res e novas necessidades, todas disponíveis a serem adquiri-
das. Assim, inova-se tudo a procura de novos consumidores,
mas principalmente, a inovação procura criar necessidades ao
público consumidor. Bauman25 muito bem indica que os “cida-
dãos do Estado” deram lugar aos “consumidores do mercado”

23
Concorda-se com Faria ao identificar algumas ações dessa racionalida-
de, como sendo: “a desregulação dos capitais, a geração de formas coo-
perativas de interdependência econômica, a unificação monetária, a fle-
xibilização dos sistemas de produção, a padronização e a homogeneiza-
ção dos mercados, criação de grandes blocos comerciais, a emergência
do Leste Europeu como novo mercado consumidor e a defesa dos cortes
drásticos nos gastos públicos dos Estados nacionais, acompanhado da
desformalização de muitas de suas obrigações funcionais, e da privati-
zação de determinados serviços públicos essenciais, como estratégia de
neutralização da crise fiscal e restauração das condições ‘mínimas’ de
governabilidade.” FARIA, José Eduardo (org.). Direito e Globalização
Econômica: implicações e perspectivas. São Paulo: Malheiros, 1996.
p.134.
24
Capra, Fritjof. A Teia da Vida. São Paulo: Cultrix. 1996.
25
BAUMAN, Zygmunt. Globalização: as conseqüências humanas. Rio de
Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1999. 145 p.

Programa de Pós-graduação em Direito


Curso de Mestrado em Direitos Humanos
88
Alexandre Nicoletti Hedlund

que, ao contrário dos primeiros, estabelecem relações basea-


das em poder de compra das mercadorias oferecidas26.
Essa diretriz proporciona uma decisão privatizada e des-
politizada que não necessita de legitimação por parte dos ci-
dadãos por não haver vínculos entre as carências, os direitos
almejados e as leis estabelecidas. As fronteiras27 de um espaço
monetário parecem ser mais importantes do que as fronteiras
territoriais da unidade política.
Leff28 lembra que essa racionalidade encontra-se infiltra-
da até mesmo no discurso do desenvolvimento sustentável,
sendo difícil se desvincular da ideologia salvacionista aprego-
ada pelo mercado. Essa perspectiva está presente em algumas
teorias que pretendem suavizar os efeitos maléficos causados
pela industrialização e pelo crescimento econômico desmedi-
dos através de tecnologias “verdes” ou “mais limpas”.
Lustosa29 muito bem assinala que a tecnologia em si não
é a causadora dos males ambientais, mas sim os efeitos da
tecnologia produzida em escala, a partir de uma lógica de ex-
propriação dos elementos da natureza, visto que o aumento da

26
Conforme Faria, o Estado perde a centralidade do poder para os meca-
nismos de auto-regulação da economia, o que torna as decisões políticas
condicionadas por equilíbrios macroeconômicos que representam “um
verdadeiro princípio normativo responsável pela fixação de rigorosos li-
mites às intervenções reguladoras dos Estados nacionais.” (FARIA,
1996.p.142).
27
ALTVATER, Elmar. Os desafios da globalização e da crise ecológica. In.:
Crise dos paradigmas em estudos sociais e os desafios para o século
XXI. HELLER, Agnes. et al., 1a. reimpressão. Rio de Janeiro: Contrapon-
to, 2000. p.109 –125.
28
“a teoria e as políticas econômicas procuram eludir o limite e acelerar o
processo de crescimento, montando um dispositivo ideológico e uma es-
tratégia de poder para capitalizar a natureza. Daí emergem o discurso
neoliberal e a geopolítica do desenvolvimento sustentável, reafirmando
o livre mercado como mecanismo mais clarividente e eficaz para ajustar
os desequilíbrios ecológicos e as desigualdades sociais”Leff.(2006,
p.225).
29
LUSTOSA, Maria Cecília. Industrialização, Meio Ambiente, Inovação e
competitividade. In: MAY, Peter; LUSTOSA, Maria Cecília; VINHA, Valé-
ria da. (orgs). Economia do meio ambiente. Rio de Janeiro: Elsevier,
2003.
I Seminário Internacional de Direitos Humanos e Democracia
Os Direitos Humanos e a sua Proteção
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Gestão pública e desenvolvimento sustentável

população provoca o aumento da demanda por bens, que por


sua vez faz aumentar a produção que requer então uma maior
quantidade de recursos naturais e joga mais dejetos no meio
ambiente. Ou seja, a organização voraz da racionalidade eco-
nômica compromete os elementos naturais seja por seus me-
canismos de produção, seja por suas estratégias de propaga-
ção de bens a serem consumidos por novos mercados.
Nesse sentido, Capella30 lembra que ao mesmo tempo em
que o processo de mundialização materializou um cenário eco-
nômico mundial, rompendo fronteiras e fomentando fluxos fi-
nanceiros, de bens e serviços de forma incessante, fomentou
por outro, o estabelecimento de relações de interdependência
entre todos os países, através da qual se reitera uma dispari-
dade entre economias avançadas e periféricas e uma relação
de dependência de instâncias transnacionais como o FMI, por
exemplo.
Os reflexos da desigualdade econômica expressam os ín-
dices crescentes de desemprego estrutural, de pobreza, de
violência e de miséria, todos relegados a externalidade do sis-
tema capitalista, ou seja, como elementos necessários a reali-
zação do desenvolvimento. Mais que isso, a análise é fragmen-
tada e ineficaz, pois a pobreza e a miséria são avaliadas me-
ramente como um índice econômico que constata o baixo nível
de renda e de consumo31.
Acompanhando essa lógica, identifica-se o problema
crescente do desemprego estrutural que se relaciona direta-
mente com a terceira revolução industrial – através do empre-
go de novos materiais químicos, bioquímicos e genéticos, além
da produção generalizada da informática e de novas formas de
organização dos processos de gestão32.

30
CAPELLA, Juan Ramón. Fruta Prohibida: una aproximación histórico-
teorética al estudio del derecho y del estado. Madrid: Trotta, 1997.
31
SEN, Amartya. Desenvolvimento como liberdade. São Paulo: Companhia
das letras, 2000, 411p.
32
CAPELLA, Juan Ramón. Fruta Prohibida: una aproximación histórico-
teorética al estudio del derecho y del estado. Madrid: Trotta, 1997.

Programa de Pós-graduação em Direito


Curso de Mestrado em Direitos Humanos
90
Alexandre Nicoletti Hedlund

As inovações tecnológicas constantes subtraem o indiví-


duo do processo produtivo a ponto de torná-lo parte insignifi-
cante deste processo do qual é criador, o que provoca uma no-
va relação de dependência que o instrumentaliza e, por conse-
guinte, o condiciona a um quadro de incerteza de continuar no
mercado de trabalho e na sociedade de consumo. Em outras
palavras, estabelece-se um cenário no qual a única certeza é
de que tudo é transitório, e as certezas, as regras e os valores
de hoje podem ser substituídos a qualquer tempo pelas deci-
sões e interesses econômicos transnacionais.
O que se comprova é que o mercado e a racionalidade
econômica podem permear todos os aspectos da vida humana,
tanto em condições presentes como em eventos futuros, ou
como sinaliza Forrester33, é uma questão de acomodar-se a um
regime planetário permanentemente organizado em torno des-
se lucro que é oficialmente lícito e prioritário.
Sachs34 identifica nesse aspecto a produção de arquipéla-
gos industriais de alta produtividade nas economias periféri-
cas, imersas em verdadeiros oceanos de atividades de produ-
tividade baixa ou muito baixa. Aponta que a maioria das pes-
soas tenta sobreviver nadando em torno desses arquipélagos
na esperança de salvação.
Essa nova geografia permite a coerção econômica que, ao
menor movimento, coloca em xeque-mate um rol de direitos
adquiridos em épocas anteriores.
Com efeito, Bonavides35 assinala que esse conjunto de
ações pautadas por essa racionalidade poderá significar nova
servidão, fundada no colonialismo tecnológico e informático,
que fará os fortes mais fortes e os fracos mais fracos.

33
FORRESTER, Viviane. Uma estranha ditadura. São Paulo: editora
UNESP, 2001. p.27.
34
SACHS, Ignacy. Desenvolvimento: includente, sustentável e sustentado.
Rio de Janeiro: Garamond, 2004.
35
BONAVIDES, Paulo. A Constituição Aberta: temas políticos e constituci-
onais da atualidade, com ênfase no Federalismo das regiões. 2. ed., São
Paulo: Malheiros, 1996. p. 283.
I Seminário Internacional de Direitos Humanos e Democracia
Os Direitos Humanos e a sua Proteção
25 e 26 de abril de 2013
91
Gestão pública e desenvolvimento sustentável

O que se pretende afirmar é a necessidade de construção


de uma agenda alternativa que não se paute exclusivamente
pela racionalidade econômica, mas que utilize a razão – o co-
nhecimento adquirido – para reverter os processos de escravi-
dão existentes e para focalizar novamente o homem como cen-
tro da existência, principalmente diante do fato de que a glo-
balização econômica não compensa a destruição dos ecossis-
temas e a possibilidade cada vez mais concreta de destruição
do próprio ser humano.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
A proposição da gestão pública decorre da vontade de
cuidado com a res publica e com os interesses dos cidadãos,
principalmente quando se afirma o caráter democrático de um
Estado. Não se trata de exigir que o aparelho burocrático esta-
tal se atualize e se modernize, mas, antes disso, que a agenda
de discussão seja focada em temas como a saúde, o combate a
fome e a redistribuição de renda.
É nesse contexto que a gestão deve acompanhar as pro-
posições de um do desenvolvimento, justamente em função do
compromisso ético e político permanente deste, o que eviden-
cia que a racionalidade econômica constitui-se como um en-
trave a tais processos de desenvolvimento. Por isso, a proposi-
ção de um projeto sustentável deve ser avaliada com muita
cautela, para que não se confirme como apenas outra estraté-
gia de apropriação dos recursos naturais direcionadas para o
fortalecimento da globalização econômica, pois sob a bandeira
do desenvolvimento sustentável pode haver inscritas diretrizes
de exploração da natureza e acumulação desmedida de recur-
sos que não guardam sentido com qualquer necessidade de
sobrevivência da humanidade, mas apenas de acumulação de
riqueza.
O cenário que se apresenta, de grandes dificuldades de
sustentabilidade diante das forças do mercado global é, acima
de tudo, um cenário a ser modificado, requerendo a sensibili-
dade na identificação das necessidades humanas, dos limites

Programa de Pós-graduação em Direito


Curso de Mestrado em Direitos Humanos
92
Alexandre Nicoletti Hedlund

que o meio ambiente oferece, acompanhados de uma análise


crítica sobre os processos estabelecidos historicamente pelo
paradigma moderno de civilização que tem se pautado por
uma racionalidade que desvincula o sentido humano das cons-
truções políticas e sociais produzidas.
Nesse sentido resta clara a incapacidade dessa racionali-
dade em gerenciar as políticas de desenvolvimento em conso-
nância com a preservação dos recursos naturais em busca de
padrões sustentáveis que proporcionem condições de sobrevi-
vência para as gerações futuras. Necessita-se reafirmar o com-
promisso ético da economia, procurando proporcionar a orga-
nização social sem a necessidade de privação de condições
matérias para grande parte da população. A racionalidade
econômica, promovida pelas políticas neoliberais, acelera um
processo que deveria ter sido interrompido a partir das crises
ambientais, mas que hoje se soma aos grandes problemas que
a modernidade não conseguiu superar, como a fome, a pobre-
za, a violência e a escravidão, conformando assim o cenário de
dificuldades para a sustentabilidade do planeta.
Há, portanto, um descompasso entre o crescimento eco-
nômico e a preservação do meio ambiente, colocando de um
lado a melhoria das condições de vida pela aquisição de novos
bens e serviços e de outro os problemas ambientais que reque-
rem soluções imediatas, sob pena de serem irreversíveis. Esse
descompasso não permite a sustentabilidade do desenvolvi-
mento, por direcionar os avanços da ciência visando o lucro e
fortalecer a desigualdade atual, além de comprovar a ineficácia
da racionalidade econômica em gerir os complexos assuntos
da existência humana.

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I Seminário Internacional de Direitos Humanos e Democracia


Os Direitos Humanos e a sua Proteção
25 e 26 de abril de 2013
O RECONHECIMENTO DE IDENTIDADES
CULTURAIS PARA A
EFETIVAÇÃO DE DIREITOS

Aline Andrighetto
Bacharel em Direito e pós-graduada em Direito Ambiental pela Universi-
dade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul (Unijuí); Mes-
tre em Direito e Multiculturalismo pela Universidade Regional Integrada
do Alto Uruguai e das Missões (URI) Santo Ângelo.
(alineandrighetto@gmail.com)

Resumo
A identidade cultural, assim como o multiculturalismo, as nacionalidades e a cidada-
nia transformam-se em objeto de análise não apenas por sua relevância, mas pela
necessidade de estudo e abordagem dos fenômenos políticos e históricos nos quais
atuam. Entendida como valores, representações, símbolos e patrimônio, assimilados
e compartilhados por comunidades, a identidade se encontra no centro dos questio-
namentos das ciências humanas. Noções de cultura, tradicionalmente, aplicam-se a
realidades específicas. Há necessidade de identificar a cultura como parte importan-
te do reconhecimento humano e da luta pela identidade do ser como pessoa para a
efetivação de seus direitos.
Palavras-chave: Identidade. Cultura. Reconhecimento. Diferenças.

Abstract
Cultural identity, and multiculturalism, nationality and citizenship become the object
of analysis not only for its relevance, but by the need to study and address the politi-
cal and historical phenomena in which they operate. Understood as values, repre-
sentations, symbols and heritage, assimilated and shared by communities, identity is
at the heart of questions of the human sciences. Notions of culture traditionally
apply to specific circumstances. There is need to identify the culture as an important
part of human recognition and the struggle for identity as a person for the realiza-
tion of their rights.
Keywords: Identity. Culture. Recognizing. Differences.

CONSIDERAÇÕES INICIAIS
Os recentes debates intelectuais sobre o multiculturalis-
mo e sobre o direito à diferença expressam um caráter polêmi-
co porque remetem à noção de integração de várias culturas.
Ou seja, duas concepções se encontram em jogo com a ideia
de universalismo e de tolerância à diversidade. Para que se
96
Aline Andrighetto

possa realizar um estudo sobre as diferenças e fazer algumas


considerações faz-se necessário o estudo de alguns pontos
primordiais sobre cultura, no sentido de identidade, de identi-
ficação da pessoa para que possa verificar suas qualidades
dentro de determinado grupo social.
A identidade cultural, assim como o multiculturalismo, as
nacionalidades e a cidadania transformam-se em objeto de
análise não apenas por sua relevância, mas pela necessidade
de estudo e abordagem. Entendida como valores, representa-
ções, símbolos e patrimônio, assimilados e compartilhados por
comunidades, a identidade se encontra no centro dos questio-
namentos das ciências humanas. Noções de cultura, tradicio-
nalmente, aplicam-se a realidades específicas. Há necessidade
de identificar a cultura como parte importante do reconheci-
mento humano e da luta pela identidade do ser como pessoa.
Busca-se desvendar estilos de vida que remetam à noção
de cultura de minorias, como: grupos étnicos, religiosos e tam-
bém de identidades. Hall afirma que “a identidade somente se
torna uma questão quando existe crise, quando algo que se
supõe fixo, coerente e estável é deslocado pela experiência da
dúvida e da incerteza”1.
O aparecimento da cultura opera uma mudança de órbita
na evolução. “São as culturas que se tornam evolutivas, por
inovações, absorção do aprendido, reorganizações; são as téc-
nicas que se desenvolvem; são as crenças e os mitos que mu-
dam [...]”2. A cultura seria, pois, a maneira como se manifestam
saberes.

SOBRE O TEMA “CULTURA”


A cultura é constituída pelo conjunto de hábitos, costu-
mes, práticas, saberes, normas, interditos, estratégias, cren-
1
HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. 11. ed. Trad.
de Tomaz Tadeu da Silva e Guacira Lopes Louro. Rio de Janeiro: DP&A,
2006. p. 9.
2
MORIN, Edgar. O método 5: a humanidade da humanidade. Trad. de
Juremir Machado da Silva. 4. ed. Porto Alegre: Sulina, 2007. p. 35.
I Seminário Internacional de Direitos Humanos e Democracia
Os Direitos Humanos e a sua Proteção
25 e 26 de abril de 2013
97
O reconhecimento de identidades culturais para a efetivação de direitos

ças, ideias, valores, mitos que perpetuam de geração em gera-


ção, se reproduzindo em cada indivíduo e gerando uma com-
plexidade social. Martinazzo menciona que “o homem consti-
tui-se na complexidade da organização biológica e da integra-
ção sociocultural onde as instâncias biológica, cerebral, indivi-
dual, social, cultural, ecológica e política estão em contínua
interação”3. A cultura acumula o que é conservado, transmitin-
do o aprendido e comportando vários princípios de aquisição e
programas de ação. Em cada sociedade a cultura é protegida e
mantida para que possa haver o reconhecimento da identidade
do grupo. Neste sentido menciona Taylor:
[...] a importância do reconhecimento foi-se modificando
e aumentando com a nova compreensão da identidade
individual que surgiu no final do século XVIII. Podemos
falar de uma identidade individualizada, ou seja, aquela
que é especificamente minha, aquela que eu descubro
em mim. Esta noção surge juntamente com um ideal: o de
ser verdadeiro para comigo mesmo e para com a minha
maneira própria de ser.4

A necessidade de reconhecimento das identidades faz


com que a pessoa descubra o seu próprio ser. O termo “identi-
dade” foi promovido a um dos conceitos-chave das ciências
humanas dos últimos tempos, e um número considerável de
estudos em ciências políticas consagrou-se à questão das
identidades comunitárias ou nacionais.
Taylor menciona ainda que:
Consideremos o significado de identidade: é aquilo que
nós somos, de onde nós provimos. Assim definido, é o
ambiente no qual os nossos gostos, desejos, opiniões e
aspirações fazem sentido. Se algumas das coisas a que
eu dou mais valor estão ao meu alcance apenas por cau-

3
MARTINAZZO, Celso José. A utopia de Edgar Morin: da complexidade
à concidadania planetária. 2. ed. Ijuí, RS: Ed. Unijuí, 2004. p. 76 (Coleção
Educação).
4
TAYLOR, Charles. Multiculturalismo. Trad. de Marta Machado. Lisboa:
Instituto Piaget, 1994. p. 48.

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Curso de Mestrado em Direitos Humanos
98
Aline Andrighetto

sa da pessoa que eu amo, então ela passa a fazer parte


da minha identidade.5

Fala-se então que identidade, em seu conceito de dife-


rença, contém elementos inclusivos e excludentes, pois ao
mesmo tempo em que integra um indivíduo a um grupo, ela o
exclui em razão da provável diferença entre as pessoas de uma
comunidade. A reivindicação da identidade pode exprimir um
sentimento de ser, de saber diferente.
Na atualidade, a cultura pode traduzir uma resposta ao
sentimento de perda de identidade do homem, assim como
uma nova função atribuída à noção da cultura implica em ou-
tras abordagens e novos deslocamentos. Ela não pode mais
definir-se como um domínio exclusivamente estético, intelec-
tual e antropológico, pois sua concepção se expande vindo a
designar, igualmente, saber, escolha de existência, domínio de
análise, prática de comunicação e de interação, por isso a bus-
ca pela identidade. Segundo menciona Bertaso:
[...] a problemática que o multiculturalismo nos coloca
envolve a necessidade de redefinição e de reinterpreta-
ção da cidadania na sua ambivalência e complexidade
para que possa sustentar a convivência humana, respei-
tando as diferenças próprias de cada cultura, sem prejuí-
zo da manutenção da ideia de igualdade que encerra um
avanço social e político, e que revestiu a todos de uma
couraça de direitos gerais, independentemente das con-
dições étnicas de cada cidadão.6

A história cultural substitui a ambígua história das men-


talidades. Pode-se dizer que os conceitos de cidadania trouxe-
ram realidades diferentes à pessoa que preza muito mais pelos
ideais de igualdade e interessa-se por outros níveis de análise,
como algumas noções de comunicação distintas que implicam:

5
Id., ibid., p. 54.
6
BERTASO, João Martins (Org). Cidadania e interculturalidade: produ-
ção associada ao projeto de pesquisa “Cidadania e interculturalidade”.
Santo Ângelo: FURI, 2010. p. 58.
I Seminário Internacional de Direitos Humanos e Democracia
Os Direitos Humanos e a sua Proteção
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99
O reconhecimento de identidades culturais para a efetivação de direitos

a transmissão, a aquisição, o dito, o pensado, o imaginado e o


criado.
Taylor afirma nesse sentido que:
[...] todas as culturas humanas que dinamizaram socie-
dades inteiras, durante um considerável espaço de tem-
po, têm algo de importante a dizer sobre todos os seres
humanos. Exprimo-me desta maneira para excluir contex-
tos culturais parciais no seio de uma sociedade, assim
como pequenas fases de uma grande cultura.7

O reconhecimento da existência de exclusões de minorias


étnicas no seio das democracias ocidentais é a grande razão
do aparecimento do multiculturalismo. A correção de injustiças
pressupõe uma definição dos meios que permitem a coexistên-
cia de culturas diferentes dentro de uma sociedade democráti-
ca. Na perspectiva dos multiculturalistas, a concepção liberal
de cidadania não passa de uma ficção, uma vez que o universa-
lismo, reivindicado por ela, não seria senão um etnocentrismo
camuflado. Assim, longe de pretender enfraquecer a democra-
cia, o reconhecimento das minorias seria a legitimidade social.
No que concerne ao contexto brasileiro, à questão cultural
e às interrogações inerentes aos efeitos da globalização, tem-
se que o fenômeno da globalização acentua o sentimento de
perda de identidade, ou seja, em um mundo de metamorfoses,
se a globalização proporciona novas solidariedades planetá-
rias, como ecologia e direitos humanos, elas devem reforçar as
necessidades de reconhecimento das diferenças. Num mundo
sem fronteiras e sem referências, a busca por identidades se
acelera, favorecendo múltiplas solidariedades, portadoras de
identidades de substituição, em níveis nacional, local e indivi-
dual, podendo modificar os modos de vida das pessoas e a
própria cultura, ou seja, a globalização provoca uma fragmen-
tação e uma uniformização. Deste sentimento de instabilidade,
que conduz o indivíduo a incessantes tomadas de riscos, resul-

7
TAYLOR, Charles. Op. cit., 1994, p. 87.

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Curso de Mestrado em Direitos Humanos
100
Aline Andrighetto

tam os “mal-estares” da identidade contemporânea, como bem


constata Giddens8.

VALORIZAÇÃO DAS IDENTIDADES CULTURAIS


No sentido de verificar identidades culturais há de se fa-
lar em nacionalismo, que aparece como revelador de tempos
de crises e de imprevisibilidades. Sem dúvida, o nacionalismo
e suas variantes, como racismos, canalizam reações e senti-
mentos distintos. O retorno às origens culturais e suas reações
por parte das nações podem traduzir a perda das certezas na
ideia de progresso, ou seja, o sentimento de perda de um futu-
ro. Hall expressa:
As identidades nacionais, como vimos, representam vín-
culos a lugares, eventos, símbolos, histórias particulares.
Elas representam o que algumas vezes é chamado de
uma forma particularista de vínculo ou pertencimento.
Sempre houve uma tensão entre essas identificações e
identificações mais universalistas – por exemplo, uma
identificação maior com a “humanidade” do que com a
“inglesidade” (english-ness).9

O estudo sobre o passado das origens das nações e o re-


torno às reivindicações culturais dos povos tiveram por conse-
quência junto às ciências humanas, a revalorização do para-
digma das identidades. O culto do passado predispôs a própria
disciplina história a se mobilizar na construção de memórias e
de identidades particulares. Esse fato adquiriu uma dimensão
inédita no mundo onde se inventam entidades nacionais que
encontram na construção de um passado.
Neste sentido menciona Caldera:
A identidade, por outra parte, é condição da universali-
dade. Identidade e universalidade são termos indissociá-

8
GIDDENS, Anthony. As consequências da modernidade. São Paulo: Ed.
Unesp, 1991.
9
HALL, Stuart. Op. cit., 2006, p. 76.
I Seminário Internacional de Direitos Humanos e Democracia
Os Direitos Humanos e a sua Proteção
25 e 26 de abril de 2013
101
O reconhecimento de identidades culturais para a efetivação de direitos

veis. Somente se tem identidade na medida em que as


expressões particulares se integram na universalidade
das culturas. Somente se alcança a universalidade quan-
do esta se forma pela convergência de múltiplas deter-
minações, pelo que chamamos de unidade na diversida-
de.10

A identidade cultural é uma construção ou uma recons-


trução feita a partir de elementos e tem uma finalidade eviden-
te: é uma máquina de sobrevivência, que utiliza o passado e o
futuro para reconfortar o presente, a partir de questões vincu-
ladas à ideia de soberania e de diversidade cultural. “A desco-
berta da minha identidade não significa que eu me dedique a
ela sozinho, mas, sim, que eu negocie, em parte, abertamente,
em parte, interiormente, com os outros”11
Não há como refrear a suposta homogeneidade cultural
construída ao longo do desenvolvimento da humanidade pelos
diversos grupos étnicos e, neste sentido, a heterogeneidade
tem se constituído predominante da sociedade contemporâ-
nea. Por isso há que se reconhecer que muitas são as dificul-
dades que se verificam perante essa realidade irrevogável e
irreversível.
Um dos obstáculos percebidos na busca pela convivência
pacífica e tolerante relaciona-se à visão de que, não raro, a di-
ferença é associada à inferioridade e desigualdade, e o outro
se torna inferior e passa a representar uma ameaça aos pa-
drões de determinados grupos. Padrões fixados nas culturas
ocidentais brancas, letradas, masculinas, heterossexuais e
cristãs, estão arraigados no imaginário social e naturalizados
cotidianamente nos diversos espaços de convivência humana,
afetando tanto os grupos minoritários como os pertencentes a
grupos diferentes. São padrões culturais definidos e impostos
a grupos ocidentais brancos que se dizem mais capazes e me-

10
CALDERA, Alejandro Serrano. A ética entre a mundialização e a identi-
dade. In: SIDEKUM, Antônio (Org.). Alteridade e multiculturalismo. Ijuí,
RS: Ed. Unijuí, 2003. p. 355.
11
TAYLOR, Charles. Op. cit, 1994, p. 54.

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102
Aline Andrighetto

lhores que os demais existentes, tornando os diferentes alvos


de exclusão, discriminação e preconceito.
Segundo Canclini:
As teorias do étnico e do nacional são, em geral, teorias
das diferenças. Por outro lado, o marxismo e outras cor-
rentes macrossociológicas (tais como as que se ocupam
do imperialismo e da dependência) dedicam-se à desi-
gualdade. Em alguns autores encontram-se combinações
de ambos os enfoques, como certos enfoques do nacional
em estudos sobre o imperialismo ou contribuições à
compreensão do capitalismo em especialistas da questão
indígena. Quanto aos estudos sobre conectividade e des-
conexão, concentram-se nos campos comunicacional e in-
formático, com escasso impacto nas teorias sociocultu-
rais.12

Algumas ideologias, como a do branqueamento, estão


centradas numa visão etnocêntrica de mundo, isto é, na cultu-
ra do próprio grupo como a única aceitável e correta, conforme
as identidades projetadas de si mesmos e reproduzidas como
uma espécie de repressão, afetando a vivência social de todos
os grupos culturais, sejam os ditos superiores ou inferiores.
Por isso, torna-se difícil, muitas vezes, situar quem é
quem no jogo das diferenças, nas relações de poder desiguais,
de quem se posiciona na condição de dominante ou de domi-
nado, uma vez que em todos os grupos culturais existem aque-
les que são discriminados e discriminadores.
Cabe aqui mencionar o exemplo de um sujeito negro que
é discriminado por outro branco, mas que maltrata a mulher
em casa; ou de um praticante do candomblé que é alvo de pre-
conceito dos católicos, porém combate os evangélicos ou a
união estável entre pessoas do mesmo sexo; ou mesmo o caso
de um gay ou lésbica que sofre na pele o preconceito pela sua
condição sexual, mas que não deixa de assumir posição racista
diante de uma pessoa negra. Percebem-se muitos atos discri-
12
CANCLINI, Néstor Garcia. Diferentes, desiguais e desconectados: ma-
pas da interculturalidade. 3. ed. Rio de Janeiro: Ed. da UFRJ, 2009. p. 55.
I Seminário Internacional de Direitos Humanos e Democracia
Os Direitos Humanos e a sua Proteção
25 e 26 de abril de 2013
103
O reconhecimento de identidades culturais para a efetivação de direitos

minatórios que não são bem reproduzidos devido ao desco-


nhecimento cultural ou uma não aceitação. No entendimento
de McLaren:
As primeiras tendências do multiculturalismo conserva-
dor podem ser encontradas naquelas visões coloniais em
que as pessoas afro-americanas são representadas como
escravos e escravas, como serviçais e como aqueles que
divertem os outros, visões que estiveram fundamentadas
nas atitudes profundamente autoelogiosas, autojustifica-
tórias e profundamente imperialistas dos europeus e nor-
te-americanos [...] as pessoas africanas eram compara-
das, pela sociedade branca, aos animais selvagens ou às
crianças cantantes e dançantes de corações dóceis.13

Nas sociedades contemporâneas ocidentais as lutas pelo


poder não se desenrolam somente no espaço político e econô-
mico, mas ampliam-se para o terreno cultural e, também, para
um cenário de interdependência global e de intercâmbios cul-
turais, contribuindo para promover discriminações, atingindo
grupos economicamente mais fragilizados. Assim, a mobiliza-
ção de esforços vai se tornando urgente e inadiável no sentido
de solucionar e combater a opressão ou, em última instância,
aliviar as tensões, conter a propagação dos racismos, bem co-
mo reafirmar os direitos humanos, garantindo o direito à plura-
lidade e às diferenças culturais a fim de evitar abalos mais pro-
fundos nos alicerces da ordem vigente.
Em virtude de tantas mudanças que vêm acontecendo
com a globalização mundial, as agências internacionais como a
Organização das Nações Unidas (ONU), via Organização das
Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura
(UNESCO), juntamente com o Fundo das Nações Unidas para a
Infância (UNICEF) e o Banco Mundial acionaram seus países-
membros para que fossem intensificadas as discussões sobre

13
McLAREN, Peter. Multiculturalismo crítico. Prefácio de Paulo Freire.
Apresentação de Moacir Gadotti. Trad. de Bebel Orofino Schaefer. 3. ed.
São Paulo: Cortez/Instituto Paulo Freire, 2000 (Coleção Prospectiva, v. 3).
p. 111.

Programa de Pós-graduação em Direito


Curso de Mestrado em Direitos Humanos
104
Aline Andrighetto

educação, tolerância e respeito à diversidade cultural, já que


este representa um problema indistinto para pobres e ricos,
negros e brancos, mulheres e homens, independente de classe
ou grupo social14.
Nesse sentido são traçadas metas, definidas propostas e
promovidos eventos como conferências para manter o controle
dos antagonismos sociais e culturais. Por meio desses eventos
o Brasil pode assumir o compromisso de reformular os discur-
sos e implementar reformas nos sistemas educacionais e curri-
culares oficiais, articulando princípios de educação para a tole-
rância, cultura e respeito às diferenças culturais entre povos,
etnias, nações.
Touraine menciona sobre este tema:
Os direitos culturais não visam apenas à proteção de
uma herança ou da diversidade das práticas sociais;
obrigam a reconhecer, contra o universalismo abstrato
das luzes e da democracia política, que cada um indivi-
dual ou coletivamente pode construir condições de vida e
transformar a vida em social ou coletivamente, pode
construir condições de vida e transformar a vida social
em função de sua maneira de harmonizar os princípios
gerais da modernização com as ‘identidades’ particula-
res.15

Levar em conta culturas simples e de educação implica


repensar formas de reconhecer, valorizar e incorporar as iden-
tidades plurais em políticas e práticas curriculares. É estimular
na educação práticas sobre respeito e igualdade as quais le-
vam à civilidade. Refletir sobre mecanismos discriminatórios
que tanto negam voz a diferentes identidades culturais, silen-
ciando manifestações e conflitos culturais, bem como buscan-

14
SILVA, Maria José Albuquerque da; BRANDIM, Maria Rejane Lima. Mul-
ticulturalismo e educação: em defesa da diversidade cultural. Disponí-
vel em: <http://www.fit.br/home/ link/texto/Multiculturalismo.pdf >.
Acesso em: 01 abr. 2012.
15
TOURAINE, Alain. Um novo paradigma para compreender o mundo
hoje. Petrópolis, RJ: Vozes, 2006. p. 171.
I Seminário Internacional de Direitos Humanos e Democracia
Os Direitos Humanos e a sua Proteção
25 e 26 de abril de 2013
105
O reconhecimento de identidades culturais para a efetivação de direitos

do homogeneizá-las. Tais reflexões constituem o alicerce para


se situar o multiculturalismo no terreno educacional.

GLOBALIZAÇÃO E CULTURALISMOS
A globalização se faz pelos modos de comportamento e
se coloca como reivindicação de diferentes tipos de identida-
des: nacional, étnica e religiosa. Na realidade, a globalização
dissolve as fidelidades cívicas e nacionais, enquanto as rela-
ções transnacionais, das quais ela se alimenta, favorecem as
múltiplas solidariedades portadoras de identidades de substi-
tuição. Castells fala que “[...] em um mundo cada vez mais sa-
turado de informações, as mensagens mais eficientes são tam-
bém as mais simples e mais ambivalentes, de modo a permitir
que as pessoas arrisquem suas próprias projeções”16. Desse
modo, as forças de protesto em novas identidades insurgem
contra uma ordem internacional que elas não conseguem do-
minar, mediante múltiplas engrenagens, frustração e ressen-
timento, contribuindo para que o espectro dos fantasmas do
passado se erga contra esse movimento.
Com tantos estudos sobre fatores interligados à identida-
de cultural, tão importante quanto a identidade vinculada ao
passado é aquela que se projeta para o futuro: é dela que pro-
vavelmente virão as respostas aos novos desafios e é ela quem
deve merecer particular atenção. No tocante ao pensamento de
evolução de conceitos pode-se mencionar os museus como
exemplos de memorização de culturas. É preciso levar em con-
ta que os museus são por excelência os depositários da identi-
dade que já se cristalizou, que goza de um consenso forjado
nas instituições culturais do país.
O amparo às identidades culturais nos novos meios ele-
trônicos tem como resultado benefícios evidentes já configura-
dos em países que avançaram nesse campo, na forma de ativi-
dade econômica em geral, pois geram novos empregos, maior

16
CASTELLS, Manuel. O poder da identidade. Trad. de Klaus Brandini
Gerhardt. São Paulo: Paz e Terra, 1999. p. 370.

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Curso de Mestrado em Direitos Humanos
106
Aline Andrighetto

arrecadação de impostos e ainda o desenvolvimento da cida-


dania. Estes são componentes da capacidade de governo de
forma geral, meta por excelência da consciência política de um
povo. Segundo Morin:
[...] o conhecimento pertinente é o que é capaz de situar
qualquer informação em seu contexto e, se possível, no
conjunto em que está inscrita. Podemos dizer até que o
conhecimento progride não tanto por sofisticação, forma-
lização e abstração, mas, principalmente, pela capacida-
de de contextualizar e englobar.17

O conhecimento é que leva o homem a crescer dentro de


seu grupo, o que de certo modo faz com que se crie uma inte-
gração cultural, melhorando as relações e buscando sanar dife-
renças com respeito às exigências e potencialidades de um
povo.

MULTICULTURALISMO E RECONHECIMENTO
O multiculturalismo tem se constituído num movimento
de afirmação e resistência de identidades culturais, situando-
se na dinâmica dos acontecimentos mundiais a partir de mo-
vimentos sociais. Tem sido alvo de análise de formas diferen-
tes, resultando em múltiplas tentativas de mapeamento do
campo cultural, por meio do qual a diferença é tanto construída
como negada.
A noção de identidade e de autenticidade introduziu uma
nova dimensão na política de reconhecimento igualitário, que
agora funciona como algo parecido a um conceito próprio de
autenticidade. Deve-se pensar que as pessoas são reconheci-
das pelas identidades únicas.
Segundo Taylor:

17
MORIN, Edgar. A cabeça bem-feita: repensar a reforma, reformar o pen-
samento. Trad. de Eloá Jacobina. 8. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil,
2003. p. 15.
I Seminário Internacional de Direitos Humanos e Democracia
Os Direitos Humanos e a sua Proteção
25 e 26 de abril de 2013
107
O reconhecimento de identidades culturais para a efetivação de direitos

Em relação à política de igual dignidade, aquilo que se


estabelece visa à igualdade universal, um cabaz idêntico
de direitos e imunidades; quanto à política de diferença,
exige-se o reconhecimento da identidade única deste ou
daquele indivíduo ou grupo, do caráter singular de cada
um.18

Nas discussões acerca do multiculturalismo torna-se pri-


mordial mencionar o reconhecimento como arma para a busca
das igualdades. O reconhecimento se faz necessário no sentido
de identificar cada cultura como diferença humana para que
todos tenham direitos fundamentais legalmente reconhecidos.
Algumas posições multiculturalistas existentes indicam
vertentes conservadoras, as quais sustentam a ideia de que o
déficit cultural dos grupos não brancos pode ser superado com
a ajuda dos grupos culturais brancos, em prol de uma cultura
comum, padronizada. Tal postura acaba contribuindo para a
desmobilização dos grupos dominados em suas lutas pela
afirmação do seu capital cultural19. A pluralidade de ideias
acerca do multiculturalismo só adquire significado quando in-
serida numa política de justiça e de transformação social. De
nada adianta realizar estudos, intensificar a consciência global
advinda com o fenômeno da globalização e realizar mudanças
na esfera legislativa educacional se não forem mudadas as
concepções de cultura impostas à sociedade. As compreen-
sões neste sentido são facilmente demonstradas com os frutos
de lutas históricas e sociais, sendo definidas mediante as
transformações nas relações sociais, culturais e institucionais,
no interior das quais os significados são gerados. A grande
meta a ser atingida é a equidade.
O reconhecimento de culturas diferentes é visto como um
fator de integração e, dentro desta perspectiva, uma democra-
cia para ser reconhecida deve se transformar em cultural, a fim
de garantir os direitos universais e a diversidade das identida-
des individuais.

18
TAYLOR, Charles. Op. cit., 1994, p. 58.
19
McLAREN, Peter.Op. cit., 2000.

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Curso de Mestrado em Direitos Humanos
108
Aline Andrighetto

Pode-se afirmar então que o paradoxo das identidades


culturais reside na própria indeterminação de suas acepções e
na fragilidade de suas construções. Uma identidade cultural
constitui um coeficiente de crenças e necessita que estas per-
tençam a um povo, a um sistema de valor, a uma instituição
que a submeterá à ideologia. A globalização parece ter produ-
zido efeito – o chamado de mundialização –, que fortaleceu o
sentimento de uma identidade entre os homens.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
As diferenças e as desigualdades deixam de ser fraturas
a serem superadas. O Humanismo menciona hoje que muitos
fatores vêm contribuindo para que o reconhecimento de cultu-
ras seja cada vez mais trabalhado de maneira intensa no mun-
do. A unificação globalizada dos mercados não se sente per-
turbada pela existência de diferentes e desiguais, o que é mais
uma prova de que o multiculturalismo tem tomado proporções
no sentido de melhorar as relações entre as pessoas e busca
dirimir os conflitos. A sociedade, antes concebida em termos
de estratos e níveis, ou distinguindo-se segundo identidades
étnicas ou nacionais, agora é pensada como uma sociedade de
rede, onde as culturas são exploradas e cuidadosamente re-
descobertas. A identidade cultural, assim como o multicultura-
lismo, as nacionalidades e a cidadania transformam-se em ob-
jeto de análise não apenas por sua relevância, mas pela neces-
sidade de estudo e abordagem dos fenômenos políticos e his-
tóricos nos quais atua.
Algumas noções de cultura, tradicionalmente, aplicam-se
a realidades específicas, e ainda à necessidade de identificar a
cultura como parte importante do reconhecimento humano e
da luta pela identidade do ser como pessoa. Assim, pode-se
afirmar que o intenso estudo sobre as culturas é de suma im-
portância para se chegar à identificação de um Estado iguali-
tário que busca dirimir desigualdades e sabe lutar pelas dife-
renças de maneira a proteger aqueles que fazem parte de um
grupo minoritário da sociedade.

I Seminário Internacional de Direitos Humanos e Democracia


Os Direitos Humanos e a sua Proteção
25 e 26 de abril de 2013
109
O reconhecimento de identidades culturais para a efetivação de direitos

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dução associada ao projeto de pesquisa “Cidadania e interculturali-
dade”. Santo Ângelo: FURI, 2010.
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identidade. In: SIDEKUM, Antônio (Org.). Alteridade e multicultura-
lismo. Ijuí, RS: Ed. Unijuí, 2003. p. 355.
CANCLINI, Néstor Garcia. Diferentes, desiguais e desconectados:
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2009.
CASTELLS, Manuel. O poder da identidade. Trad. de Klaus Brandini
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GIDDENS, Anthony. As consequências da modernidade. São Paulo:
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dade à concidadania planetária. 2. ed. Ijuí, RS: Ed. Unijuí, 2004. 112
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McLAREN, Peter. Multiculturalismo crítico. Prefácio de Paulo Frei-
re. Apresentação de Moacir Gadotti. Trad. de Bebel Orofino Schaefer.
3. ed. São Paulo: Cortez/Instituto Paulo Freire, 2000 (Coleção Pros-
pectiva, v. 3).
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pensamento. Trad. de Eloá Jacobina. 8. ed. Rio de Janeiro: Bertrand
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______. O método 5: a humanidade da humanidade. Trad. de Juremir
Machado da Silva. 4. ed. Porto Alegre: Sulina, 2007. 309 p.
TAYLOR, Charles. Multiculturalismo. Trad. de Marta Machado. Ins-
tituto Piaget: Lisboa, 1994.
TOURAINE, Alain. Um novo paradigma para compreender o mun-
do hoje. Petrópolis, RJ: Vozes, 2006. 261 p.
SILVA, Maria José Albuquerque da; BRANDIM, Maria Rejane Lima.
Multiculturalismo e educação: em defesa da diversidade cultural.
Disponível em: <http://www.fit.br/home/link/texto/Multiculturalis
mo.pdf >. Acesso em: 01 abr. 2012.

Programa de Pós-graduação em Direito


Curso de Mestrado em Direitos Humanos
O TRABALHO DOMÉSTICO E A
DESIGUALDADE : AVANÇOS E DESAFIOS NA
SOCIEDADE BRASILEIRA CONTEMPORÂNEA

Aline Damian Marques


Advogada. Especialista em Direito do Tributário e Mestranda em Direitos
Humanos pela UNIJUÍ. Bolsista FAPERGS (alined.marques@terra.com.br)
Roberta da Silva
Bacharela em Direito pelo Instituto Cenecista de Ensino Superior de Santo
Ângelo – IESA. Mestranda em Direitos Humanos pela UNIJUÍ. Bolsista
CAPES (roberta.h.s_@hotmail.com)

Resumo
Falar em igualdade em relação ao empregado doméstico na sociedade brasileira
contemporânea supõe enfrentar desafios que não se cansam de acentuar. A promo-
ção da igualdade e a eliminação de toda forma de preconceito, discriminação e abu-
so na relação de trabalho doméstico são primordiais ao desenvolvimento, à inclusão
social e à redução das desigualdades, tendo em vista que ao longo da história foram
precariamente protegidas pela legislação. Dessa forma, torna-se imperioso a dimi-
nuição das distâncias entre as classes sociais, por meio da valorização social do tra-
balho e do respeito ao princípio da dignidade da pessoa humana, sendo isso o que se
propõe a PEC 72/2013, apesar de haver muito ainda a ser feito para a superação das
desigualdades.
Palavras-chave: Trabalho doméstico. Desigualdade social. Alterações legislativas.

Abstract
Speaking of equality in relation to domestic workers in Brazilian society contempo-
rary means facing challenges never tire of emphasizing. The promotion of equality
and elimination of all forms of prejudice, discrimination and abuse in relation to
domestic work are paramount to the development , social inclusion and reducing
inequalities, considering that throughout history were poorly protected by law. Thus,
it is imperative to decrease the distances between the social class, through the social
valorization of work the respect to the principle of human dignity, and what it
intends to PEC 72/2013 , although there is still much to be done to overcome
inequalities.
Keywords: Domestic work. Social inequality. Legislative changes.
112
Aline Damian Marques & Roberta da Silva

CONSIDERAÇÕES INICIAIS
As relações históricas, sociais e culturais que envolveram
o direito dos empregados domésticos constantemente foram
marcadas por injustiças sociais, discriminações e abusos de
poder, fazendo com esses profissionais estivessem pratica-
mente às margens do Direito, em situação de absoluta desi-
gualdade frente aos demais trabalhadores, sendo violado o
princípio da dignidade da pessoa humana.
Com as recentes alterações legislativas as distorções his-
tóricas dos direitos desses profissionais são corrigidas, porém
às visões pessimistas, isso já gera muita preocupação em rela-
ção ao futuro dessa categoria, tudo isso devido a maneira como
essa ocupação é preconceituosamente percebida na sociedade
brasileira.
Sabe-se que essa é uma exigência civilizatória, tendo em
vista que o trabalho doméstico, no Brasil, também se confunde
com a própria história da escravidão. Dessa forma, a expectati-
va é de significativos avanços e desafios com a valorização do
trabalho doméstico. Este quadro parece desesperador para
alguns, mas essa mudança já era esperada.
Essa mudança tornou-se uma demonstração de evolução
para uma sociedade mais justa e mais equilibrada, ao contrário
do caos anunciado aos quatro ventos pelos pessimistas. Dessa
forma, considerando tais aspectos, o presente artigo pretende
trazer uma compreensão melhor das condições de existência
dessa categoria na sociedade brasileira, bem como as altera-
ções legislativas quanto a sua proteção, a qual é de extrema
importância quando se pretende reduzir as desigualdades so-
ciais, a busca pela valorização da dignidade da pessoa huma-
na e de uma sociedade mais humana e democrática.

OS EMPREGADOS DOMÉSTICOS E A EXCLUSÃO SOCIAL: PERSPECTIVA


HISTÓRICA, SOCIAL E CULTURAL
Para que seja possível falar com legitimidade acerca de
trabalho doméstico, é imprescindível que se faça uma breve

I Seminário Internacional de Direitos Humanos e Democracia


Os Direitos Humanos e a sua Proteção
25 e 26 de abril de 2013
113
O trabalho doméstico e a desigualdade

retrospectiva histórica acerca do trabalho humano, bem como


um estudo um pouco mais aprofundado acerca da construção
social e cultural desse ramo de atividade da seara trabalhista,
para a compreensão do tratamento discriminatório dispensado
a ela e as constantes violações a dignidade da pessoa humana.
Inicialmente é importante situar que a palavra “trabalho”
tem sua origem num instrumento de tortura utilizado, como um
chicote, com três astes de couro, contendo nas pontas das tiras
espinhos, com o qual eram chicoteados os escravos para que
trabalhassem ou então fossem punidos ao tentarem fugir. Era o
“tripalium”, do latim, significando “três paus”, ou seja, o “tri-
paliare” era o ato de impor castigo físico aos escravos com o
“tripalium”. Daí derivou a palavra trabalho.
Ainda hoje os dicionários registram o significado da pala-
vra trabalho, traz palavras como esforço, fadiga, inquietação,
aflições sendo sinônimas de trabalho1. Alguns estudiosos, em
especial os do Direito do Trabalho, entendem que o trabalho
humano se originou na própria entidade familiar, com a coope-
ração entre os membros da família. Mas, com a movimentação
das pessoas pelos lugares habitados do planeta, em busca de
melhorias de vida, muitos invadiam as propriedades dos se-
nhores feudais e eram aprisionados, mortos, devorados ou fei-
tos escravos e postos a trabalhar no campo, na agricultura ou
na pecuária.
Nesse viés, a origem do trabalho doméstico é bastante
controvertida. Há duas principais teses tratando desse tema,
possuindo direcionamento absolutamente contrário. A primeira
alude que o trabalhador doméstico provém de uma circunstân-
cia em que era exaltado por seus senhores com honrarias e
privilégios; já a segunda, o que parece numa análise criteriosa,
mais sensata, identifica seu aparecimento com a prática escra-
vocrata, dessa forma explicaria os abusos sofridos pelos traba-
lhadores domésticos ao longo da história.

1
BUENO, Francisco da Silveira. Dicionário escolar da língua portuguesa.
11. ed. Rio de Janeiro: FAE, 1991.

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Curso de Mestrado em Direitos Humanos
114
Aline Damian Marques & Roberta da Silva

Imprescindível se faz observar que a escravidão já che-


gou a ser justificada e aceita, a ponto do filósofo Aristóteles
afirmar que, para adquirir cultura era imperativo ser rico e oci-
oso à custa da escravidão dos incautos2. Nesses termos, na
atualidade, quer dizer que se não fossem os empregados do-
mésticos, as classes mais privilegiadas teriam que se privar de
alguns privilégios, mas com os empregados domésticos traba-
lhando em suas casas, ganham tempo para se ocupar com tra-
balho produtivo, estudo, preparação, lazer, em busca da reali-
zação de seus mais diversos projetos pessoais. Dessa forma, a
otimização do tempo torna-se, numa sociedade desigual, chave
para os índices de sucesso e fracasso.
Ao longo da história, foi realmente essa uma das finalida-
des do trabalho escravo. Foram usados nos trabalhos do cam-
po, igualmente destacados para realizar trabalhos ligados ao
ambiente familiar dos senhores feudais, em suas residências,
para que estes pudessem se ocupar com trabalhos intelectuais
como administração de seus bens. Nas residências a mão-de-
obra era composta praticamente por mulheres, a maioria ne-
gra, recebendo diversos nomes como mucama, criada, serva.
Nesse mesmo sentido, entende Melo3:
O trabalho doméstico é uma responsabilidade da mulher,
culturalmente definida do ponto de vista social como do-
na de casa, mãe ou esposa. Esse trabalho dirigido para
as atividades de consumo familiar é um serviço pessoal
para o qual cada mulher internaliza a ideologia de servir
aos outros, maridos e filhos. O trabalho realizado para a
sua própria família é visto pela sociedade como uma si-
tuação natural, pois não tem remuneração e é condicio-
nado por relações afetivas entre a mulher e os demais
membros familiares, gratuito e fora do mercado. Quando
uma mulher contrata uma terceira para executar essas
tarefas, isto é, prestar tais serviços para uma família dife-

2
ARISTÓTELES. A política. Tradução de Therezinha Monteiro Deustch.
São Paulo: Nova Cultural, 1999, p. 148-149
3
MELO, Hildete Pereira de. O serviço doméstico remunerado no Brasil: de
criadas a trabalhadoras. Rio de Janeiro, junho de 1998, p. 2-3.
I Seminário Internacional de Direitos Humanos e Democracia
Os Direitos Humanos e a sua Proteção
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115
O trabalho doméstico e a desigualdade

rente da sua, esse trabalho doméstico converte-se em


serviço doméstico remunerado.

Nesse viés, o fato é que o trabalho doméstico é uma ativi-


dade estigmatizada em nossa sociedade, além de herdar o
anátema da escravidão, em sua maioria, compunham-se de
mulheres, o que inelutavelmente colabora para o seu esqueci-
mento. Pois, se as mulheres sempre foram discriminadas por
uma sociedade eminentemente machista, muito mais facilmen-
te se discriminaria contra as empregadas domésticas, que
além de mulheres, a maioria ainda é negra.
A luta pelos direitos da mulher vem sendo travada há
tempos, de um passado em que elas não eram respeitadas,
chega-se a um presente de garantias e novos direitos, sendo
possível vislumbrar-se um futuro de igualdade de direitos en-
tre homens e mulheres. Mas a evolução dos direitos femininos
vem galgando degraus dia após dia, concretizando-se em um
vasto trabalho realizado por elas na busca de igualdade e dig-
nidade. A partir do momento que as mulheres foram adquirin-
do espaço por força dos movimentos feministas é que as em-
pregadas domésticas teriam conquistado pelo menos uma par-
cela de seus anseios de alforria e de dignidade da pessoa hu-
mana.
Nesse viés, a dignidade humana é um direito fundamen-
tal de todos, inclusive das mulheres e dos negros, já que todos
são iguais, sem distinção de qualquer natureza, e é um dever
do Estado, do Direito, da sociedade assegurar uma vida digna
a todas as pessoas. Sendo a dignidade algo irrenunciável e
inalienável que qualifica a pessoa humana. Dallari 4 discorre
que:
O respeito pela dignidade da pessoa humana deve existir
sempre, em todos os lugares e de maneira igual para to-
dos. O crescimento econômico e o progresso material de
um povo têm valor negativo se forem conseguidos à cus-

4
DALLARI, Dalmo de Abreu. Direitos humanos e cidadania. São Paulo:
Moderna, 1998, p. 09.

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116
Aline Damian Marques & Roberta da Silva

ta de ofensas à dignidade de seres humanos. O sucesso


político ou militar de uma pessoa ou de um povo, bm co-
mo o prestígio social ou a conquista de riquezas, nada
disso é válido ou merecedor de respeito se for consegui-
do mediante ofensas à dignidade e aos direitos funda-
mentais dos seres humanos [...]
[...] Se houver respeito aos direitos humanos de todos e
se houver solidariedade, mais do que egoísmo, no relaci-
onamento entre as pessoas, as injustiças sociais serão
eliminadas e a humanidade poderá viver em paz.

Assim sendo, a dignidade da pessoa humana é um direito


fundamental inerente a toda a pessoa, inclusive para a mulher
e trabalhadora doméstica devendo ser respeitada e exigida, a
fim de que a humanidade tenha as mínimas condições de so-
breviver em paz, inclusive com a valorização social do traba-
lho. Brandt acredita que o emprego não é intrinsecamente de-
gradante, mas assume esse caráter devido à divisão sexual do
trabalho e à ideologia do gênero (como as mulheres são inferio-
rizadas em nossa sociedade, o trabalho que elas executam,
remunerado ou não, é desvalorizado) e pela construção históri-
ca da relação entre empregada e empregador que é baseada
na hierarquia (criado e senhor) 5. Denota-se, portanto, que o
surgimento do trabalho doméstico identifica-se com a própria
origem do trabalho humano e com a sociedade escravocrata.
Nesse sentido, o campo do Direito sempre se interessou
pelas relações humanas, ao serem criadas regras de condutas,
permitindo uma convivência harmônica e pacífica entre os in-
divíduos. Sendo assim, o trabalho humano não poderia ficar
alheio ao Direito, tendo em vista que nas relações trabalhistas
há constantemente conflitos de interesses e estando o trabalho
doméstico inserido na seara trabalhista, exige que o Direito
venha tutelar-lhe as relações.

5
BRANDT, Maria Elisa A. O emprego doméstico na cidade de São Paulo:
como é vivido e representado. 2002. 203 fl. Tese (Doutorado em Sociolo-
gia) – Universidade de São Paulo, São Paulo, 2002, p. 3.
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117
O trabalho doméstico e a desigualdade

Porém, no contexto do direito trabalhista houve esse apa-


rente relegar do trabalho doméstico a segundo plano, sendo
justificado por visões discriminatórias, pelo fato da prestação
de serviço doméstico não fazer parte da seara do interesse
econômico, das atividades produtivas a que pertencem o tra-
balhador comum, mas sim, por pertencer ao âmbito íntimo das
famílias, em suas residências. É com se a esse trabalhador não
fosse dado direitos em razão de estar excluído da seara eco-
nômica, essa sendo uma justificativa para discriminações soci-
ais e abusos.
Nesse ínterim, o espaço social do trabalho doméstico po-
de ser visto como o lugar por excelência da desigualdade, pois
nele é encontrado a fusão das diversas opressões, desigualda-
des e discriminações sociais, violador do princípio da dignida-
de da pessoa humana. As hierarquias e preconceitos de gêne-
ro, raça, classe, se sobrepõem entre si fazendo o empregado
vivenciar visceralmente no local de trabalho, nas relações so-
ciais estabelecidas entre empregados e empregadores. Ainda,
esse espaço é definido e definidor da feminilidade, o doméstico
é o espaço também onde mulheres se diferenciam, em sua de-
sigualdade, como patroas e empregadas domésticas.
Devido à tamanha força da subalternidade que a condição
de empregado doméstico impõe, é possível identificar alguns
aspectos perversos dessa relação, visto que as denúncias con-
tra os empregadores não se resumem tão somente ao descum-
primento da legislação trabalhista, mas elas envolvem também
a questão do reconhecimento, pois, ainda que em menor nú-
mero e frequência, há por parte dos empregados acusações de
assédio moral e de exposição à situações humilhantes
e vexatórias, restando claro o reflexo da herança escravista e
da desigualdade social.
Para Hegel há a afirmação de que o trabalho é uma forma
de se obter reconhecimento: no universo das relações de troca,
mediado pelo mercado, os sujeitos se reconhecem reciproca-
mente como seres privados e autônomos, que estão ativos uns

Programa de Pós-graduação em Direito


Curso de Mestrado em Direitos Humanos
118
Aline Damian Marques & Roberta da Silva

para os outros, mantendo suas vidas por meio das contribui-


ções sócias de seu trabalho6.
O conflito cultural vivido nas relações de trabalho, ou se-
ja, a vivência tensa, em certos momentos, estabelecida com
um meio cultural e social diferente do de origem do emprega-
do, além do caráter fatigante, aprisionante e a vida controlada
são dificuldades físicas e emocionais vivenciadas pelo empre-
gado doméstico. Mas, é de se ressaltar, que esse conflito traz
não só malefícios, como também benefícios ao retirar a profis-
sional da zona de conforto, tornando-se mediadora entre dois
mundos opostos.
É fato, que as diferenças culturais são estímulos para no-
vas aprendizagens e desafios, não seria diferente com os em-
pregados domésticos. Estes convivem e participam de um
mundo onde valores e organização doméstica são outros dos
de onde provém, sofrendo influências dessas situações no per-
curso de suas vidas, essas diferenças implicam necessaria-
mente em mudança dos horizontes, dos sonhos, das perspecti-
vas de vida, como por exemplo a possibilidade de busca do
emprego desejado.
Ao se falar em emprego desejado torna-se imperioso
mencionar que por falta de qualificação profissional, geralmen-
te por ausência de oportunidade, muitos profissionais são
obrigados a recorrer ao serviço doméstico como única alterna-
tiva de trabalho, não como uma vontade individual, mas exclu-
sivamente por falta de escolha. Tanto isso ocorre na prática,
que não é incomum os empregados domésticos desejarem a
seus filhos outra ocupação, é a chamada inserção no mercado
de trabalho por necessidade. E isso acaba trazendo para a re-
lação de emprego doméstica ainda mais obstáculos, dificul-
tando a convivência harmoniosa, já que há insatisfação de uma
das partes.
Como já trazido há o viés cultural oriundo da época da
escravidão quanto ao trabalho doméstico. Dessa forma, outro

6
HEGEL; Georg Wilhelm Friedrich. Princípios da Filosofia do Direito. São
Paulo: Martins Fontes, 2000, p. 167-185.
I Seminário Internacional de Direitos Humanos e Democracia
Os Direitos Humanos e a sua Proteção
25 e 26 de abril de 2013
119
O trabalho doméstico e a desigualdade

fato que merece ser levado em consideração é de que até mui-


to pouco tempo os projetos arquitetônicos das casas e aparta-
mentos da classe mais favorecida economicamente eram cons-
truídos com o famigerado “quartinho da empregada”, eram
quase celas escondidas nos confins da casa ou do apartamen-
to, podendo ser consideradas modernamente como senzalas
ajustadas numa sociedade pós-abolicionista.
Nesse sentido, tendo em vista o caráter histórico, cultural
e social que sempre acompanhou o trabalho doméstico e con-
siderando todos os avanços, não só da legislação, que já houve
e ainda há de se ter, torna-se imperioso considerar a possibili-
dade de o mercado se reinventar frente às mudanças, adap-
tando-se as novas realidades, sendo que as questões que en-
volvem o mundo do trabalho devem ser entendidas a partir de
uma noção ampliada de justiça social, a ser efetivadas por ati-
tudes de reconhecimento7 Já que modernamente, recorrer ao
serviço de um empregado doméstico, é mais uma necessidade
prática do que um sinal de status ou capricho. Agora, com as
alterações legislativas esse profissional terá pelo menos um
pouco de visibilidade social, de reconhecimento e de respeito a
sua dignidade.

O RECONHECIMENTO DO TRABALHO DOMÉSTICO E AS ALTERAÇÕES


LEGISLATIVAS – PEC 72/2013
Os direitos trabalhistas das empregadas domésticas po-
dem ser vistos como uma leve e lenta forma de evolução até o
século passado. A CLT (Consolidação das leis Trabalhistas),
instituída em 1942 no Brasil, ignorava até então, as emprega-
das domésticas, alegando de que elas não constituíam uma
categoria profissional, desrespeitando o princípio da dignidade
da pessoa humana.

7
ARCANJO. Aline Soares; Reconhecimento e trabalho: a teoria do reco-
nhecimento de Axel Honneth no âmbito do trabalho. In: BARZOTTO, Lu-
ciane Cardoso; Trabalho e igualdade: tipos de discriminação no ambien-
te de trabalho, Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2012, p. 78.

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Curso de Mestrado em Direitos Humanos
120
Aline Damian Marques & Roberta da Silva

Contudo, em 1972 através da Lei 5.859, o Brasil reconhece


e regulamenta a profissão em condições ainda bem diferentes
e desproporcionais dos trabalhadores em geral. A lei previa a
assinatura da carteira de trabalho e férias de 20 dias, mas era
omissa com relação a jornada de trabalho, fundo de garantia
por tempo de serviço, férias, seguro-desemprego e tantos ou-
tros benefícios. Mesmo assim, a legislação brasileira era con-
siderada uma das mais avançadas da América Latina ficando
atrás do Uruguai, o qual desde 2006 já equiparou os direitos
das domésticas aos dos demais trabalhadores.
Neste sentido é de extrema relevância o objeto de estudo
deste trabalho, partindo do pressuposto que o trabalho domés-
tico é uma das atividades/profissões mais antigas em diversos
países, como já abordado na parte histórica acima, caracteri-
zando-se como uma significativa fonte de ocupação para mui-
tas mulheres no mundo, e também uma forma de acesso no
mercado de trabalho para as mulheres mais pobres, tornando-
se uma atividade laboral essencial não apenas para o funcio-
namento dos lares, como também para as economias estatais.
Entretanto, a insuficiência de políticas públicas eficazes
as quais poderiam gerar uma relação de equilíbrio entre em-
pregado e empregador e assim então proporcionar conciliações
entre o trabalho e a vida familiar, trouxeram grande crise do
modelo tradicional desta relação de trabalho, tornando-se as-
pecto fundamental marcante dessa mudança significativa da
recente alteração legislativa, marcada pela valorização dos
desiguais e da dignidade da pessoa humana.
Com o escopo de conservar a ordem social, a igualdade é
segundo Bobbio um valor que tem por base o tratamento igual
entre os iguais e desigual entre os desiguais, sendo que o pro-
pósito da doutrina igualitária não é somente estabelecer quan-
do duas coisas devem ser consideradas equivalentes, mas sim
promover a justiça entre os indivíduos8. Já que o trabalho do-

8
BOBBIO, Norberto. Igualdade e liberdade. Tradução de Carlos Nelson
Coutinho. 3. ed. Rio de Janeiro: Ediouro, 1997, p. 20.
I Seminário Internacional de Direitos Humanos e Democracia
Os Direitos Humanos e a sua Proteção
25 e 26 de abril de 2013
121
O trabalho doméstico e a desigualdade

méstico é caracterizado por extremas desigualdades de gêne-


ro, raça e situações de precariedade e informalidade.
As novas regras, de extrema importância conquistada
neste momento da história pela classe dos trabalhadores do-
mésticos, tem a intenção de fornecer subsídios para os avan-
ços necessários à superação das desigualdades e ao fortaleci-
mento do trabalhador doméstico, possibilitando, assim, o exer-
cício dessa importante atividade profissional em condições
dignas, justas e humanitárias.
Mas ao se falar em recentes alterações, é importante es-
clarecer alguns aspectos históricos e objetivos fundamentais
da OIT (Organização Internacional do Trabalho) como forma de
introdução a recente Convenção nº 189 que deu origem aos
novos direitos dos empregados domésticos. A OIT foi criada
em 1919, é a única das agências do órgão das Nações Unidas
que é composta por representantes do governo, de organiza-
ções de empregados e também de trabalhadores, e sobre a
convicção primordial de que a paz universal e permanente so-
mente pode estar baseada na justiça social. Sua principal res-
ponsabilidade e objetivos é a formulação e aplicação das nor-
mas internacionais do trabalho, dentre elas as convenções, que
uma vez ratificadas por decisão soberana de um país passam a
fazer parte do ordenamento deste9.
No cenário atual mundial, onde direitos fundamentais in-
dividuais são violados diariamente, principalmente em face da
precarização das relações de trabalho, um dado nos difere dos
demais países. O Brasil está entre os membros fundadores da
OIT e participa da Conferência Internacional do Trabalho des-
de sua primeira reunião.
Cumpre ainda esclarecer que a OIT é a agência das Na-
ções Unidas que tem por missão promover oportunidades para
que homens e mulheres possam ter acesso a um trabalho ca-
racterizado como decente e produtivo, em condições de liber-
dade, equidade, segurança e dignidade humana, sendo consi-

9
Disponível em http://www.oit.org.br/content/hist%C3%B3ria. Acesso em
09 de abril de 2013.

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Curso de Mestrado em Direitos Humanos
122
Aline Damian Marques & Roberta da Silva

deradas condições fundamentais para a erradicação da pobre-


za e a consequente redução das desigualdades sociais, assim
como desenvolver um governo democrático e desenvolvimento
sustentável.
Assim, surgem os novos direitos aos trabalhadores do-
mésticos, em Genebra, pela OIT. A Conferência Internacional
do Trabalho da OIT adotou, em 17 de junho de 2011, a Conven-
ção nº 189 e a Recomendação nº 201 sobre as trabalhadoras e
trabalhadores domésticos, que estabelecem direitos e princí-
pios básicos para essa categoria e exigem que os Estados to-
mem uma série de medidas com a finalidade de tornar o traba-
lho decente para as trabalhadoras e trabalhadores domésticos.
Entre os novos direitos assegurados pela recente legisla-
ção destacam-se a limitação da duração do trabalho a 8 horas
diárias e 44 horas semanais, equiparando-se às demais catego-
rias, com possibilidade de pagamento e compensação de horas
extras, garantia de intervalos diários e semanais, redução da
hora noturna e pagamento de adicional noturno. Os domésti-
cos passam também a ter direito à organização sindical e à
celebração de acordos e convenções coletivas, importante
meio de articulação por melhores condições de trabalho.
A Convenção contém normas de proteção à saúde e segu-
rança do trabalhador, com possibilidade de pagamento de adi-
cionais de insalubridade e periculosidade, o que demandará
trabalho legislativo e superação de resistências culturais, se
ocupou também de estabelecer normas para o trabalhador
doméstico migrante, realidade que já começa a mostrar sua
face perversa no País. Foi ratificada pelo Brasil, com a finalida-
de de afastar as desigualdades históricas e garantir a efetivi-
dade dos direitos. O tratado constitui importante passo na luta
por reconhecimento de direitos dos trabalhadores domésticos
na busca da vida digna. Importante referir a justificativa da
proposta apresentada de Emenda a Constituição do Deputado
Carlos Bezerra10, no ano de 2010:

10
Disponível em: http://www.camara.gov.br/proposicoesWeb/fichadetra
mitacao?idProposicao=473496. Acesso em 09 de abril de 2013.
I Seminário Internacional de Direitos Humanos e Democracia
Os Direitos Humanos e a sua Proteção
25 e 26 de abril de 2013
123
O trabalho doméstico e a desigualdade

Desde 2008, está sendo elaborada, no âmbito no Poder


Executivo, uma Proposta de Emenda à Constituição para
estabelecer um tratamento isonômico entre os trabalha-
dores domésticos e os demais trabalhadores urbanos e
rurais brasileiros. A tarefa foi entregue a um grupo multi-
disciplinar que envolveu a Casa Civil e os Ministérios do
Trabalho e Emprego, da Previdência Social, da Fazenda e
do Planejamento, Orçamento e gestão.
As mudanças pretendidas no regime jurídico dos domés-
ticos beneficiarão 6,8 milhões de trabalhadores, permi-
tindo-lhes acesso ao FGTS, ao Seguro desemprego, ao
pagamento de horas extras e ao benefício previdenciário
por acidente de trabalho, prerrogativas que estão excluí-
das do rol dos direitos a eles assegurados no parágrafo
único do art. 7º da Constituição Federal.
Infelizmente, os trabalhos iniciados em 2008, no Governo
Federal, foram interrompidos e permanecem inconclusos.
A principal dificuldade encontrada pelos técnicos para a
conclusão dos trabalhos é o aumento dos encargos finan-
ceiros para os empregadores domésticos. Sabemos que,
seguramente, equalizar o tratamento jurídico entre os
empregados domésticos e os demais trabalhadores ele-
vará os encargos sociais e trabalhistas.
Todavia, o sistema hoje em vigor, que permite a existên-
cia de trabalhadores de segunda categoria, é uma verda-
deira nódoa na Constituição democrática de 1988 e deve
ser extinto, pois não há justificativa ética para que pos-
samos conviver por mais tempo com essa iniquidade.
A limitação dos direitos dos empregados domésticos,
permitida pelo já citado parágrafo único do art. 7º, é uma
excrescência e deve ser extirpada.
Nesse sentido, apresentamos esta Proposta de Emenda à
Constituição e pedimos o necessário apoio para a sua
aprovação.

Dessa forma, passamos a análise prática da recente alte-


ração legislativa a Emenda Constitucional 77, que iguala os
direitos trabalhistas dos trabalhadores domésticos com os dos

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124
Aline Damian Marques & Roberta da Silva

outros trabalhadores: sendo publicada na quarta-feira, dia 03


de abril de 2013, no Diário Oficial da União11.
EMENDA CONSTITUCIONAL Nº 72, DE 2 DE ABRIL DE 2013
Altera a redação do parágrafo único do art. 7º da Consti-
tuição Federal para estabelecer a igualdade de direitos
trabalhistas entre os trabalhadores domésticos e os de-
mais trabalhadores urbanos e rurais.
As Mesas da Câmara dos Deputados e do Senado Fede-
ral, nos termos do § 3º do art. 60 da Constituição Federal,
promulgam a seguinte Emenda ao texto constitucional:
Artigo único. O parágrafo único do art. 7º da Constituição
Federal passa a vigorar com a seguinte redação:
“Art. 7º. [...]
Parágrafo único. São assegurados à categoria dos traba-
lhadores domésticos os direitos previstos nos incisos IV,
VI, VII, VIII, X, XIII, XV, XVI, XVII, XVIII, XIX, XXI, XXII,
XXIV, XXVI, XXX, XXXI e XXXIII e, atendidas as condi-
ções estabelecidas em lei e observada a simplificação do
cumprimento das obrigações tributárias, principais e
acessórias, decorrentes da relação de trabalho e suas pe-
culiaridades, os previstos nos incisos I, II, III, IX, XII, XXV
e XXVIII, bem como a sua integração à previdência social.”
(NR)
Brasília, em 2 de abril de 2013.

Com a publicação da emenda, os trabalhadores domésti-


cos, empregadas, babás, motoristas, caseiros, passam a ter os
seguintes direitos já regulamentados e em vigor: garantia de
salário, nunca inferior ao mínimo; proteção do salário na forma
da lei, constituindo crime sua retenção; jornada de trabalho de
até oito horas diárias e 44 semanais; hora extra de, no mínimo,
50% acima da hora normal; redução dos riscos inerentes ao
trabalho, por meio de normas de saúde, higiene e segurança;
reconhecimento dos acordos coletivos de trabalho; proibição
de diferença de salários, de exercício de funções e de critério

11
Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/Emen
das/Emc/emc72.htm. Acesso em 09 de abril de 2013.
I Seminário Internacional de Direitos Humanos e Democracia
Os Direitos Humanos e a sua Proteção
25 e 26 de abril de 2013
125
O trabalho doméstico e a desigualdade

de admissão por motivo de sexo, idade, cor ou estado civil; pro-


ibição de qualquer discriminação do trabalhador deficiente;
proibição de trabalho noturno, perigoso ou insalubre a meno-
res de 18 anos e de qualquer trabalho e a menores de 16 anos,
exceto aprendizes com idade de 14 anos.
Algumas das novas regras, porém, não vão vigorar de
imediato porque ainda precisam de regulamentação dos Minis-
térios do Trabalho e da Previdência Social. Segundo o ministro
do Trabalho Manoel Dias, direitos como o recolhimento de
FGTS (Fundo de Garantia por Tempo de Serviço), adicional no-
turno, auxílio-creche e auxílio família só vão vigorar depois da
regulamentação12.
Em síntese, independente das alterações que ainda de-
pendem de regulamentação, abre-se para o Brasil uma oportu-
nidade histórica de resgate dos direitos do trabalhador domés-
tico que, dado o contingente de mulheres trabalhadoras, as-
sume também o significado de afirmação de igualdade de gê-
nero que colocam a dignidade da pessoa humana como tema
central na garantia de direitos humanos e direitos trabalhistas
fundamentais aos trabalhadores domésticos.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
A pesquisa delineou um breve estudo sobre a origem e a
evolução do trabalho doméstico, conectando a atual discrimi-
nação social desse labor com o processo de evolução histórico
e cultural, que identificou o labor doméstico com o trabalho
escravo e feminino. O ano de 2013 será considerado um marco
para essa categoria, apesar de alguns críticos considerarem
aparentemente a existência desse serviço fadada ao fim. A
emenda é a reparação de uma “injustiça histórica” e o fim de
um resquício escravagista. Inicialmente, será natural haver
certo desconforto e muitas dúvidas, mas as partes deverão

12
Disponível em http://www12.senado.gov.br/noticias/infograficos/2013
/03/info-entenda-o-que-muda-com-a-pec-das-domesticas. Acessado em
09 de abril de 2013.

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Curso de Mestrado em Direitos Humanos
126
Aline Damian Marques & Roberta da Silva

chegar a um consenso sobre a melhor forma de se adaptar às


mudanças legais.
Com isso, é possível acreditar numa mudança cultural na
relação entre empregados e empregadores na medida em que
se igualam os direitos dos empregados domésticos aos demais
trabalhadores comuns. Esse, apesar das fortes críticas, é um
momento histórico, que o povo brasileiro vai reconhecer como
um momento necessário para o país, representando a conquis-
ta efetiva de direitos que já eram concedidos aos demais traba-
lhadores e, injustamente, não o eram aos trabalhadores do-
mésticos.
A promoção da igualdade de oportunidades e a elimina-
ção de toda forma de discriminação nas relações de trabalho
são primordiais ao desenvolvimento e inclusão social, cum-
prindo-se os preceitos da nossa Carta Magna fundada na valo-
rização social do trabalho e na dignidade da pessoa humana,
objetivos esses alcançados pela PEC 72/2013, garantindo a
inclusão social e o reconhecimento dos trabalhadores domésti-
cos. Este é o objetivo do presente artigo: investigar, refletir e
lançar luzes sobre o problema da discriminação no trabalho
que, no fundo, é uma questão de desvio do princípio da igual-
dade e, por consequência, um desafio ao Estado Democrático e
de Direito.

REFERÊNCIAS
ARISTÓTELES. A política. Tradução de Therezinha Monteiro Deus-
tch. São Paulo: Nova Cultural, 1999.
ARCANJO. Aline Soares; Reconhecimento e trabalho: a teoria do
reconhecimento de Axel Honneth no âmbito do trabalho. In:
BARZOTTO, Luciane Cardoso; Trabalho e igualdade: tipos de dis-
criminação no ambiente de trabalho, Porto Alegre: Livraria do Advo-
gado, 2012.
BRANDT, Maria Elisa A. O emprego doméstico na cidade de São
Paulo: como é vivido e representado. 2002. 203 fl. Tese (Doutorado
em Sociologia) – Universidade de São Paulo, São Paulo, 2002.
BUENO, Francisco da Silveira. Dicionário escolar da língua portu-
guesa. 11. ed. Rio de Janeiro: FAE, 1991.
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Os Direitos Humanos e a sua Proteção
25 e 26 de abril de 2013
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O trabalho doméstico e a desigualdade

DALLARI, Dalmo de Abreu. Direitos humanos e cidadania. São Pau-


lo: Moderna, 1998.
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2013/03/info-entenda-o-que-muda-com-a-pec-das-domesticas. Aces-
sado em 09 de abril de 2013.
Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/
Emendas/Emc/emc72.htm. Acesso em 09 de abril de 2013.
Disponível em: http://www.camara.gov.br/proposicoesWeb/fichade
tramitacao?idProposicao=473496. Acesso em 09 de abril de 2013.
Disponível em http://www.oit.org.br/content/hist%C3%B3ria. Acesso
em 09 de abril de 2013.
HEGEL; Georg Wilhelm Friedrich. Princípios da Filosofia do Direito.
São Paulo: Martins Fontes, 2000.
MELO, Hildete Pereira de. O serviço doméstico remunerado no
Brasil: de criadas a trabalhadoras. Rio de Janeiro, junho de 1998.
BOBBIO, Norberto. Igualdade e liberdade. Tradução de Carlos Nel-
son Coutinho. 3. ed. Rio de Janeiro: Ediouro, 1997.

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Curso de Mestrado em Direitos Humanos
PARA ALÉM DA LIBERDADE DOS ANTIGOS
E DA LIBERDADE DOS MODERNOS :
A DEMOCRACIA COMO REGIME
DOS DIREITOS HUMANOS

Ana Righi Cenci


Bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais e em Sociologia. Mestranda em
Direitos Humanos pela Universidade Regional do Noroeste do Estado do
Rio Grande do Sul – UNIJUI, vinculada à Linha de Pesquisa “Direitos Hu-
manos, Relações Internacionais e Equidade”. Bolsista do Programa de
Apoio à Pós-Graduação – PROAP – da Coordenação de Aperfeiçoamento
de Pessoal de Nível Superior – CAPES. (anarc1@gmail.com)
Gilmar Antônio Bedin
Doutor em Direito do Estado pela Universidade Federal de Santa Catarina
– UFSC. Professor permanente do Curso de Mestrado em Direito Humanos
da Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul –
UNIJUÍ – e professor colaborador do Curso de Mestrado em Direito da
Universidade Regional Integrada – URI. É autor, entre outras obras, de Os
Direitos do Homem e o Neoliberalismo e A Idade Média e o Nascimento
do Estado Moderno. (gilmarb@unijui.edu.br)

Resumo
A democracia é um tema frequentemente discutido pelas ciências sociais. Entre suas
diferentes dimensões, o Direito comumente privilegia o aspecto institucional, anali-
sando a organização do poder estatal sob a forma democrática de governo. Nesse
sentido, costuma-se distinguir entre a democracia antiga, marcada pela participação
direta dos cidadãos e a democracia moderna, caracterizada pela participação social
mediante mecanismos de representação. Tais paradigmas apresentam, atualmente,
importantes limitações, o que conduz alguns autores a apontarem para uma “crise
de representação”. O significado da democracia, no entanto, extrapola a dimensão
institucional, implicando, também, uma dimensão simbólica e social. O presente
artigo pretende lembrar que a democracia, mais do que um regime de governo, é
condição imprescindível para a garantia de direitos humanos.
Palavras Chave: Direitos humanos. Participação. Representação.

Abstract
The democracy is a subject frequently discussed by social sciences. Between its dif-
ferent dimensions, the Law usually privileges the institutional aspect, analyzing the
state power organization in the democratic form of government. In this sense, we
accustom to discern between antique democracy, marked by direct participation of
130
Ana Righi Cenci & Gilmar Antônio Bedin

the citizens and the modern democracy, characterized by social participation


through representative mechanisms. These paradigms present, nowadays, important
limitations, what conduce some authors to identify a “representation crisis”. The
meaning of democracy, however, extrapolates the institutional dimension, involving
also a symbolical and social dimension. This article pretends to remember that the
democracy, more than a regime of government, is an indispensable condition to
safeguard human rights.
Keywords: Human rights. Participation. Representation.

INTRODUÇÃO
A democracia é um conceito que possui uma trajetória de
aproximadamente 2.500 anos. Apesar do longo período, sua
história está marcada por diversos períodos de interrupção e,
principalmente, por importantes revisões conceituais, de modo
que o significado da democracia na Antiguidade (especifica-
mente na Grécia, embora também existam importantes contri-
buições da civilização romana) e na modernidade possuem
dimensões bastante distintas.
Comumente, a democracia clássica é vinculada à noção
de participação direta, enquanto a democracia moderna é sin-
tetizada pela ideia de representação. O contexto político atual,
no entanto, põe em xeque a eficácia da representatividade pa-
ra garantir o governo das leis e assegurar o exercício da liber-
dade pelos indivíduos – cabendo questionar, inclusive, sobre o
significado desse conceito na atualidade.
A democracia deve ser pensada, contudo, a partir de um
viés não exclusivamente institucional, pois “parte significativa
da vida política” é constituída por “ações que escapam aos
contornos da legalidade formal”, como destaca Newton Big-
notto1. Tal destaque vale, sobretudo, para sociedades periféri-
cas, cuja trajetória institucional é de pouca estabilidade em
termos de regras de conduta e o avanço em termos de liberda-
des individuais ainda é tímido. A análise da liberdade política
– conceito que justifica, inclusive, a discussão sobre a demo-

1
BIGNOTTO, Newton. Problemas atuais da teoria republicana. In:
CARDOSO, Sérgio (org.). Retorno ao republicanismo. Belo Horizonte:
Editora UFMG, 2004, p. 17-43, p. 28.
I Seminário Internacional de Direitos Humanos e Democracia
Os Direitos Humanos e a sua Proteção
25 e 26 de abril de 2013
131
Para além da liberdade dos antigos e da liberdade dos modernos

cracia – exige, portanto, que se leve em conta elementos não


institucionais.
No que tange à relação entre democracia e direitos hu-
manos, não há dúvida quanto ao fato de que os direitos associ-
ados à geração de direitos políticos (sintetizados nos direitos
de participar e de ser votado) garantem o acesso do cidadão ao
poder público. Tal movimento, por sua vez, é fundamental para
reforçar a institucionalização de direitos humanos, bem como
para a garantia dos mesmos. Ocorre que, para além disso, a
democracia deve ser vista, hoje, em si mesma, como um valor
universal, tendo em vista que é somente numa organização
política que asseguradora da liberdade que os seres humanos
podem se desenvolver plenamente.
Com a finalidade de contribuir para esse debate, o pre-
sente trabalho retoma, de forma breve, as duas principais di-
mensões da democracia institucional (direta e indireta) e tece
alguns comentários sobre as importantes relações construídas,
na contemporaneidade, entre o sistema democrático e os direi-
tos humanos.

A DEMOCRACIA ATENIENSE
Etimologicamente, o significado de democracia remete às
expressões gregas demos (povo) + kratein (governar), corres-
pondendo, portanto, à ideia de “governo do povo”. Historica-
mente, a democracia esteve associada à igualdade de partici-
pação, no sentido de que todos os cidadãos de um determina-
do Estado possuiriam o mesmo direito de participar de deci-
sões relativas a questões da coletividade, sendo que o voto de
cada um teria o mesmo peso. Tal lógica, embora com importan-
tes ressalvas, é válida para todos os períodos históricos em
que a democracia vigeu como regime político2.
A experiência democrática de Atenas, na Grécia, nos sé-
culos V e IV a.C., primeiro regime democrático de que se tem

2
OUTHWAITE, William; BOTTOMORE, Tom. Dicionário do pensamento
Social do Século XX. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1993.

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Curso de Mestrado em Direitos Humanos
132
Ana Righi Cenci & Gilmar Antônio Bedin

notícia, assegurava que todos os cidadãos atenienses pudes-


sem votar nos fóruns locais as questões relativas à cidade a
que pertenciam. A participação, nesse caso, era direta – e não
mediante representação-, havendo, contudo, significativas res-
trições ao conceito de cidadania, já que entre os cidadãos ate-
nienses não se incluíam, por exemplo, as mulheres e as crian-
ças. Logo, pessoa e cidadão não eram condições equivalentes,
sendo esta, segundo Outhwaite e Bottomore3, prerrogativa de
aproximadamente 6 mil pessoas apenas, entre uma população
de 30.000 a 40.000 habitantes.
A filósofa Marilena Chauí4 destaca que o surgimento da
própria política deve ser atribuído à civilização grega – e tam-
bém à romana -, pelo fato de que aí se produz a separação dos
elementos de poder da esfera privada com relação ao âmbito
das decisões políticas. Para a filósofa,
[...] o nascimento da política – a “invenção da política”,
como escreveu Moses Finley – foi um acontecimento que
distinguiu para sempre a Grécia e Roma em face dos
grandes impérios antigos. A política nasceu ou foi inven-
tada quando o poder público, por meio da invenção do di-
reito e da lei (isto é, a instituição dos tribunais) e da cria-
ção de instituições públicas de deliberação e decisão (is-
to é, as assembleias e os senados), foi separado de três
autoridades tradicionais: a do poder privado ou econômi-
co do chefe de família, a do chefe militar e a do chefe re-
ligioso (figuras que, nos impérios antigos estavam unifi-
cadas numa chefia única, a do rei ou imperador). A políti-
ca nasceu, portanto, quando a esfera privada da econo-
mia, a esfera da guerra e a esfera do sagrado ou do saber
foram separadas e o poder político, na expressão de
Claude Lefort, foi desincorporado, isto é, deixou de iden-
tificar-se com o corpo místico do governante como pai,

3
Idem.
4
CHAUÍ, Marilena. Retorno do teológico-político. In: CARDOSO, Sérgio
(org.). Retorno ao republicanismo. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2004,
p. 93-133.
I Seminário Internacional de Direitos Humanos e Democracia
Os Direitos Humanos e a sua Proteção
25 e 26 de abril de 2013
133
Para além da liberdade dos antigos e da liberdade dos modernos

comandante e sacerdote, representante humano de po-


deres divinos transcendentes. (grifo nosso).5

A fundamentação teórica da democracia clássica reside,


sobretudo, nas obras de Platão e Aristóteles. No entanto, ne-
nhum dos filósofos atenienses defendeu o regime democrático.
Platão, por entender que o povo não está suficientemente pre-
parado para tomar decisões políticas (tarefa que deve ser atri-
buída exclusivamente aos “reis filósofos”), e Aristóteles por
definir a democracia como a forma corrompida da politeia – ou
seja, a forma tirana do “governo dos muitos”.
Platão inaugura a discussão sobre o vínculo entre poder e
saber, que é materializada na concepção de organização social
adotada em Atenas. Para o filósofo, a política precisa estar
respaldada pelo conhecimento exato das coisas, razão pela
qual a cidade deveria dividir-se em três grupos distintos, que
integrariam a Callipolis – a “cidade bela”, por ele idealizada. O
primeiro grupo seria responsável por satisfazer as necessida-
des materiais da coletividade, tendo em vista que a “virtude”
de seus integrantes, para Platão, era trabalhar (materialmente)
e obedecer. A segunda classe seria responsável pela defesa do
território e por garantir a segurança interna, eis que caracteri-
zada pela disciplina, impetuosidade e coragem. O terceiro gru-
po, por sua vez, seria formado por filósofos, aptos a comandar
os demais, em decorrência do seu acúmulo de saber. A um fi-
lósofo-rei incumbiria, finalmente, selecionar os cidadãos de
acordo com suas características, destinando-os a uma das três
classes.
Aristóteles assume uma postura mais pragmática diante
da política grega, no sentido de que, ao invés de idealizar um
modelo de cidade, trabalha com os elementos práticos da rea-
lidade social ateniense – o que o leva, inclusive, a admitir a
escravidão, devido a contingências do momento histórico. Nem
mesmo a lei, que é o único “senhor dos cidadãos”, segundo o
filósofo grego – ou seja, a referência à qual todos devem obedi-

5
Idem, p. 113.

Programa de Pós-graduação em Direito


Curso de Mestrado em Direitos Humanos
134
Ana Righi Cenci & Gilmar Antônio Bedin

ência – pode ser conceituada como construção artificial, tam-


pouco como um dado estritamente racional, uma vez que é a
“expressão política da ordem natural”, ilustrando, portanto, a
situação da cidade e a sua história, bem como a composição da
sociedade6.
Outro importante elemento da democracia grega é a in-
fluência dos sofistas, professores de retórica que ensinaram
aos gregos a arte do discurso, mediante técnicas de persua-
são. Diferentemente de Platão e Aristóteles, os sofistas parti-
am do pressuposto de que os indivíduos eram iguais, inclusive
na capacidade de julgar o bem comum, de modo que todos po-
deriam fazê-lo. Se todos estavam aptos a pensar e construir
opiniões sobre os assuntos coletivos, as decisões – a serem
tomadas pela maioria – dependeriam exclusivamente da capa-
cidade de persuasão de seus pares. Nesse sentido, a oratória e
a utilização de bons argumentos são capazes de conduzir à
vitória em um debate político cuja decisão depende do con-
vencimento da maioria. Não há, portanto, “um conhecimento
exato das coisas” a ser atingido, cabendo ao homem a argu-
mentação e a construção de motivações. A conhecida declara-
ção de Protágoras – um dos mais reconhecidos sofistas – de
que “o homem é a medida de todas as coisas” bem ilustra a
lógica segundo a qual a argumentação pode conduzir ao con-
vencimento da maioria e à tomada de decisões.
A organização política ateniense confere à democracia,
portanto, uma conotação participativa. O cidadão ateniense
livre é aquele que pode participar dos negócios da cidade. Daí
a explicação formulada por Benjamin Constant de que a “liber-
dade dos antigos” correspondia à “liberdade de participar co-
letivamente do governo e da soberania, era a liberdade de de-
cidir na praça pública os negócios da República: era a liberda-
de do homem público”7.

6
CHÂTELET, François; DUHAMEL, Oliver; PISIER-KUOCHNER, Evelyne.
História das Ideias Políticas. Trad. Carlos Nelson Coutinho. 2 ed. Rio de
Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1990.
7
CARVALHO, José Murilo de. Entre a liberdade dos antigos e a dos mo-
dernos: a república no Brasil. In: CARVALHO, José Murilo de. Pontos e
I Seminário Internacional de Direitos Humanos e Democracia
Os Direitos Humanos e a sua Proteção
25 e 26 de abril de 2013
135
Para além da liberdade dos antigos e da liberdade dos modernos

Após seu surgimento, em Atenas, “la palabra ‘democra-


cia’ adquirió una mala reputación y ya en Roma desapareció
del uso”, como destaca Adam Przeworski8. Durante o longo
período medieval, o termo desapareceu do cenário político,
sendo retomado apenas na modernidade – onde, conforme
lembra o mesmo autor, “seguía teniendo una connotación ne-
gativa, de manera que tanto en Estados Unidos como en Fran-
cia el nuevo sistema se caracterizaba como ‘gobierno repre-
sentativo’ o ‘república’”. Somente na metade do século XIX é
que a democracia retoma uma conotação positiva.

A DEMOCRACIA MODERNA
Embora a modernidade tenha retomado, no cenário políti-
co, a ideia de democracia, deve-se ter cuidado ao compará-la
com o funcionamento político das sociedades antigas, por-
quanto estes guardam poucas semelhanças. Agora, há igual-
dade formal entre os indivíduos, mas a participação política
não mais ocorre se forma direta. A democracia moderna não
refuta a dimensão da participação política, mas a concretiza
mediante mecanismos de representação. Norberto Bobbio9, ao
analisar o surgimento da democracia moderna destaca a con-
cepção individualista de sociedade que a fundamenta – a qual
contraria diametralmente a “concepção orgânica, dominante
na idade antiga e na idade média, segundo a qual o todo pre-
cede as partes”. A sociedade política, com a modernidade,
passa a ser um “produto artificial da vontade dos indivíduos”.
Tal concepção fundamenta todas as teorias contratualistas
modernas, independente das importantes diferenças que estas
guardam entre si. A noção de que os indivíduos contratam a

bordados: escritos de história e política. Col. Humanitas. Belo Horizonte:


Editora UFMG, 1999.
8
PRZEWORSKI, Adam. Qué esperar de la democracia: límites e posibili-
dades del autogobierno. Buenos Aires: Siglo Veintiuno Editores, 2010, p.
37.
9
BOBBIO, Norberto. O futuro da democracia: uma defesa das regras do
jogo. Trad. Marco Aurélio Nogueira. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1986, p.
22).

Programa de Pós-graduação em Direito


Curso de Mestrado em Direitos Humanos
136
Ana Righi Cenci & Gilmar Antônio Bedin

formação da sociedade é comum à Hobbes, Locke e Rousseau


(ainda que os mesmos divirjam sobre as razões que conduzem
os sujeitos a fazê-lo, bem como sobre os efeitos que tal “con-
trato” repercute sobre o poder do Estado soberano após sua
constituição).
A modernidade implica, de acordo com Bobbio, um pro-
cesso de submissão do poder político ao direito (daí adviria,
inclusive, a ideia de “estado de direito”, cujo princípio inspira-
dor é justamente a submissão de qualquer poder – indepen-
dente da intensidade – à regulamentação e à decisão jurídica).
A vantagem do sistema democrático é, portanto, a regulação
do poder, impedindo – ou, ao menos, dificultando – a instaura-
ção de formas políticas arbitrárias. Para Bobbio, a democracia
pode ser compreendida como um conjunto de “regras do jogo”
para o exercício do poder político em um estado democrático.
Tal concepção fica evidente a partir da seguinte conclusão do
autor:
O governo das leis celebra hoje o próprio triunfo da de-
mocracia. E o que é a democracia se não um conjunto de
regras (as chamadas regras do jogo) para a solução dos
conflitos sem derramamento de sangue? e em que con-
siste o bom governo democrático se não, acima de tudo,
no rigoroso respeito a essas regras? Pessoalmente, não
tenho dúvidas sobre a resposta a essas questões. E exa-
tamente porque não tenho dúvidas, posso concluir tran-
quilamente que a democracia é o governo das leis por
excelência. 10

A ideia de governo do povo parece ser substituída pela


noção de governo das leis – cuja elaboração, é verdade, é feita
em nome do povo e, portanto, indiretamente, também conduz a
uma ideia de vontade geral. A mais importante ideia que per-
meia a democracia moderna é, contudo, a noção de representa-
ção, a qual tem como objetivo concretizar a liberdade moderna
– que não se confunde com a liberdade de participação grega.
De acordo com Carvalho, para Constant, a liberdade dos mo-
10
Idem, p. 171, grifo nosso.
I Seminário Internacional de Direitos Humanos e Democracia
Os Direitos Humanos e a sua Proteção
25 e 26 de abril de 2013
137
Para além da liberdade dos antigos e da liberdade dos modernos

dernos não é a liberdade do homem público, mas a “liberdade


do homem privado, a liberdade dos direitos de ir e vir, de pro-
priedade, de opinião, de religião11“ – cuja concretização se via-
bilizaria simplesmente pela observância das leis e pela não
intervenção estatal sobre a esfera privada. É importante des-
tacar que o instituto da representação não possui apenas um
significado, sendo possível distinguir ao menos dois sentidos
relevantes para a presente análise.
De acordo com Dominique Leydet12, diferenciam-se, na
modernidade, duas formas de representação política, quais
sejam, a representação-eminente e a representação mandato.
Analisando principalmente a realidade política francesa, a au-
tora entende que a noção de representação eminente estaria
carregada de uma conotação republicana, uma vez que, nesse
paradigma, os representantes seriam representantes da nação,
como um todo. Isso repercute no fato de que a assembleia na-
cional não representa, em tese, qualquer tipo de interesse par-
ticular, ocorrendo, assim, uma ruptura entre a esfera política e
a sociedade civil – sendo a primeira caracterizada como lugar
do público, do interesse geral, e a segunda como espaço do
interesse particular. É como se a representação ocorresse,
aqui, pela inviabilidade material da participação direta de to-
dos os cidadãos. Leydet explica:
[...] o representante não representa os interesses, prefe-
rências ou convicções de seus comitentes, não recebe de-
les um mandato específico; ele os representa mais no
sentido de estar presente no lugar deles, para debater
em seu nome grandes questões que interessam ao con-
junto da nação porque todos não poderiam estar presen-
tes à Assembleia.13

11
CARVALHO, 1999, p. 83.
12
LEYDET, Dominique. Crise da representação: o modelo republicano em
questão. In: CARDOSO, Sérgio (org.). Retorno ao republicanismo. Belo
Horizonte: Editora UFMG, 2004, p. 67-92.
13
Idem, p. 71, grifo nosso.

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Curso de Mestrado em Direitos Humanos
138
Ana Righi Cenci & Gilmar Antônio Bedin

A ideia de representação-mandato, por outro lado, é pró-


pria da concepção liberal, que, em oposição à republicana,
aceita que os interesses particulares estejam representados na
esfera pública. Não aqui, portanto, uma dimensão de ruptura
das esferas pública e privada, mas sim uma ideia de continui-
dade. O constitucionalismo liberal somente concebe os repre-
sentantes como representantes da nação como um todo, no
momento fundador do Estado, ou seja, quando se estabelece
uma nova política constitucional. No “tempo ordinário da polí-
tica”, contudo, quando “as regras fundamentais” já foram
promulgadas, “os homens políticos não podem mais se vanglo-
riar do estatuto de representantes no sentido eminente”, de-
vendo “se satisfazer com o papel de delegados14“.
Cada um desses paradigmas de representação possui, de
acordo com a mesma autora, uma vantagem diferente. A re-
presentação-eminente, na qual o sujeito representado é a na-
ção como um todo, confere uma importante solidez à ideia de
autogoverno, ao passo que a representação-mandato constrói
uma conotação relevante de sociedade civil participante, cien-
te de seus direitos, etc. Por outro lado, a representação emi-
nente tem como déficit o fato de não deixar espaço para um
contrapoder legítimo, capaz de conter abusividades por parte
dos representantes, enquanto a representação-mandato possui
como desvantagem uma noção extremamente fraca da ideia de
autogoverno.
A noção de representação, base da democracia moderna,
sofre hoje, conforme Leydet, uma dupla crise, porquanto tanto
a representação-eminente quanto a representação-mandato.
Isso porque os sujeitos representados não se sentem nessa
condição, seja na figura de “povo”, seja no sentido de ter seus
interesses privados representados no parlamento. A “radicali-
zação da exigência de presença/de identidade”, característica
da “democracia contemporânea, conduz ao questionamento da

14
LEYDET, Dominique. Crise da representação: o modelo republicano em
questão. In: CARDOSO, Sérgio (org.). Retorno ao republicanismo. Belo
Horizonte: Editora UFMG, 2004. p. 75.
I Seminário Internacional de Direitos Humanos e Democracia
Os Direitos Humanos e a sua Proteção
25 e 26 de abril de 2013
139
Para além da liberdade dos antigos e da liberdade dos modernos

capacidade dos parlamentos para assegurar adequadamente


essa segunda forma de representatividade15“.
Isso decorre do fato de que, contemporaneamente, o sen-
tido da representação democrática é, mais fortemente, o senti-
do de representação-mandato. A reivindicação constante por
presença das pessoas, dos representados, nos sistemas repre-
sentativos contém não só uma demanda por poder, mas tam-
bém – ou sobretudo – uma demanda por reconhecimento, re-
sultante de uma juridicização das lutas políticas (as lutas soci-
ais não visam mais somente espaços de poder, mas também
reconhecimento legal).
A crise da representação num duplo sentido, somada a
outros elementos disfuncionais do regime democrático indicam
a existência de importantes limitações, e exige uma maior re-
flexão sobre as razões pelas quais devemos apostar neste co-
mo sendo o melhor regime de governo.

DEMOCRACIA COMO REGIME DOS DIREITOS HUMANOS


O contexto de crise da representação – sintetizado na au-
sência de identificação entre representantes e representados –
somado a um contexto físico que inviabiliza a participação po-
lítica direta (considerando-se o tamanho das populações que
compõe os Estados atuais), leva ao questionamento sobre
quais as formas mais adequadas de organização do poder polí-
tico. A democracia, apesar dessas disfunções, parece ter se
tornado a forma de governo por excelência do mundo ociden-
tal, constituindo-se um elemento imprescindível para a institu-
cionalização e, principalmente, para a concretização de direi-
tos humanos.
O cenário político atual incorpora à democracia uma outra
dimensão – rompendo, num certo sentido, com a polarização
existente entre participação e representação ou, noutros ter-

15
LEYDET, Dominique. Crise da representação: o modelo republicano em
questão. In: CARDOSO, Sérgio (org.). Retorno ao republicanismo. Belo
Horizonte: Editora UFMG, 2004. p. 81.

Programa de Pós-graduação em Direito


Curso de Mestrado em Direitos Humanos
140
Ana Righi Cenci & Gilmar Antônio Bedin

mos, entre democracia direta e indireta/formal. A contempora-


neidade atribui à democracia, para além de um viés instrumen-
tal, uma dimensão constitutiva, que a torna, por si só, um valor
relevante – ou, como aqui se pretende defender, um direito
humano.
Amartya Sen destaca que a democracia deve ser compre-
endida atualmente como um “valor universal” (o que não equi-
vale, nas palavras do autor, a um valor consensual), por ter se
estabelecido, ao longo do século XX, como a “única forma de
governo aceitável16“. A democracia, no entanto, para Sen, não
corresponde exclusivamente à forma de governo da maioria
(que o autor compara a uma simples operação mecânica), im-
plicando operações complexas que, para além do voto e do
respeito ao resultado das eleições, “implica la protección de
las libertades, el respeto a los derechos legales y la garantía de
la libre expresión y distribución de información y crítica17“.
Sen atribui à democracia três valores distintos: um valor
instrumental, um valor intrínseco e um valor construtivo. À
primeira dimensão o autor relaciona a expressão das deman-
das políticas no cenário institucional, ou seja, a participação
política em si, enquanto meio para a conquista de determinada
finalidade. Ao valor intrínseco da democracia, Sen vincula a
dimensão da liberdade humana, por entender que “la libertad
política se inscribe dentro de la libertad humana en general, y
el ejercicio de los derechos civiles y políticos es una parte cru-
cial de la vida de los individuos”, razão pela qual qualquer ten-
tativa “de impedir la participación en la vida política de la co-
munidad constituye una privación capital18“. Finalmente, o va-
lor construtivo atribuído à democracia diz respeito ao diálogo
entre os cidadãos, que contribui para a formação dos valores e
prioridades da sociedade (é a partir dessa interação, por

16
SEN, Amartya. La democracia como valor universal. Disponível em:
<http://www.istor.cide.edu/archivos/num_4/dossier1.pdf.>. Acesso em
6 abr 2013, p. 11.
17
Idem, p. 19.
18
Idem, p. 19-20
I Seminário Internacional de Direitos Humanos e Democracia
Os Direitos Humanos e a sua Proteção
25 e 26 de abril de 2013
141
Para além da liberdade dos antigos e da liberdade dos modernos

exemplo, que as sociedades determinam o que compreendem


como “necessidade” econômica, etc.).
Nesse sentido, Sen destaca que, em que pese a impor-
tância das instituições democráticas, elas não podem ser vis-
tas como dispositivos mecânicos para o desenvolvimento – de
modo que não são, portanto, suficientes para tanto. O uso das
instituições é condicionado pelos valores e prioridades, bem
como pelo aproveitamento, ou não, das oportunidades de arti-
culação e participação social19. À concretização da justiça soci-
al não são suficientes, portanto, apenas bons desenhos institu-
cionais, sendo imprescindível a efetivação dos direitos e o de-
senvolvimento de uma forte virtude cívica, nas palavras do ex-
presidente filipino Fidel Valdez Ramos, citado por Amartya
Sen20. O mesmo político afirmou, em 1988, referindo-se à dita-
dur ocorrida em seu País, que, em um regime ditatorial, as
pessoas não precisam pensar, não precisam escolher, tomar
decisões ou consentir com atos políticos: precisam apenas
obedecer. Na democracia, por outro lado, os indivíduos preci-
sam agir – razão pela qual o desafio mundial seria, mais do que
substituir regimes autoritários por regimes democráticos, “fa-
zer a democracia funcionar para as pessoas comuns”.
Outra questão pertinente refere-se ao fato de que, por ter
ressurgido, na modernidade, através da teoria política liberal –
com o intuito de pôr fim aos Estados absolutistas-, a democra-
cia é muitas vezes associada ao liberalismo econômico, enten-
dendo-se que estaria, portanto, na contramão de qualquer pro-
posta de igualdade econômica. Nesse sentido, frequentemente
liberdade e igualdade são apresentadas como valores opostos,
entre os quais se deve escolher um, em detrimento do outro. É
como se os Estados precisassem escolher entre investir em
políticas que ataquem a desigualdade econômica ou, por outro
lado, adotar uma postura de maior abstenção, deixando aos
indivíduos uma maior margem de liberdade. Evidentemente,

19
SEN, Amartya. Desenvolvimento como liberdade. Trad. Laura Teixeira
Motta. São Paulo: Ed. Companhia das Letras, 2000, p. 186.
20
Idem.

Programa de Pós-graduação em Direito


Curso de Mestrado em Direitos Humanos
142
Ana Righi Cenci & Gilmar Antônio Bedin

tal discussão pressupõe um debate prévio sobre a própria con-


cepção de liberdade.
Nesse sentido, Sen adota uma concepção de liberdade
substantiva, vinculando tal conceito à ideia de capacidade
“para escolher a vida que se tem razão para valorizar21“. A
concretização desse tipo de liberdade exige, contudo, condi-
ções políticas, econômicas e sociais favoráveis e, nesse caso, a
não intervenção do Estado, por exemplo, seria totalmente insu-
ficiente para garanti-la. Assim, a conquista de da liberdade
individual é também uma questão coletiva e caminha, neces-
sariamente, ao lado da superação das necessidades econômi-
cas. Sen22 exemplifica que “nossa conceituação de necessida-
des econômicas depende crucialmente de discussões e deba-
tes públicos abertos, cuja garantia requer que se faça questão
da liberdade política e de direitos civis básicos”. Logo, somen-
te indivíduos livres podem opinar politicamente sobre a resolu-
ção de problemas coletivos (dentre os quais os econômicos), ao
mesmo tempo em que somente com a superação das desigual-
dades coletivas é que se pode formar indivíduos efetivamente
livres.
Em sentido semelhante, Luis Eduardo Hoyos articula a
ideia de direitos socioeconômicos e a ideia de liberdade nega-
tiva típica do liberalismo clássico (ou a “liberdade dos moder-
nos”, como afirmou Constant):
[...] la defensa de las llamadas libertades básicas, asocia-
das al concepto de derechos humanos fundamentales, no
puede oponerse a la defensa de la libertad negativa del
liberalismo clásico. Libertades básicas y derechos hu-
manos fundamentales –entre los cuales han de ser in-
cluidos los derechos socioeconómicos- amplían, extien-
den y no niegan los ideales –presuntamente formales-
del liberalismo clásico. La libertad individual –
presuntamente formal- del liberalismo clásico, asociada
conceptualmente a la idea de derechos humanos uni-
versales – también presuntamente formales- es una base
21
Idem, p. 94-95.
22
Idem, p. 175.
I Seminário Internacional de Direitos Humanos e Democracia
Os Direitos Humanos e a sua Proteção
25 e 26 de abril de 2013
143
Para além da liberdade dos antigos e da liberdade dos modernos

normativa indispensable para pensar el sistema políti-


co democrático como adecuado a la búsqueda humana
del bienestar y del mayor florecimiento social.23

A democracia exige, portanto, não uma escolha entre li-


berdade e igualdade, e sim uma postura que não abdique de
nenhuma delas, compreendendo-as como elementos indissoci-
áveis. A liberdade dos sujeitos (bem supremo nas sociedades
modernas), frise-se, só pode ser efetivamente alcançada medi-
ante a superação, por exemplo, de condições degradantes de
pobreza.
Assim, a democracia emerge como o sistema político que
permite a concretização dos direitos humanos e, nesse sentido,
possui um valor em si mesma. Alain Touraine24 destaca o forte
vínculo existente entre a democracia e os direitos humanos.
Para o sociólogo francês, a solução da “crise social” atual de-
pende de um “caminho, que se estende do princípio dos direi-
tos fundamentais às instituições e às leis” e
[...] passa essencialmente pela democracia, cujas condi-
ções de existência são da mesma natureza – mas sob ou-
tra forma – do respeito prioritário aos direitos fundamen-
tais. Se não reconhecemos para cada indivíduo os direi-
tos de origem não sociais, já que eles são universais, não
podemos garantir nem o respeito às leis nem à democra-
cia.

Os direitos humanos – sejam eles civis, políticos, sociais


ou culturais – não podem ser exigidos em um Estado no qual –
utilizando-se novamente dos termos de Sen- as pessoas não
estejam em primeiro lugar e não tenham a possibilidade de
interferir, institucionalmente e socialmente, de forma geral,

23
HOYOS, Luis Eduardo. Dos conceptos de libertad, dos conceptos de
democracia. In: ARANGO, Rodolfo. (editor acad.) Filosofía de la demo-
cracia: fundamentos conceptuales. Bogotá: Siglo del Hombre Editores,
Universidad de los Andes, 2007.
24
TOURAINE, Alain. Após a crise: a decomposição da vida social e o sur-
gimento de atores não sociais. Trad. Francisco Morás. Petrópolis/RJ: Vo-
zes, 2011, p. 161.

Programa de Pós-graduação em Direito


Curso de Mestrado em Direitos Humanos
144
Ana Righi Cenci & Gilmar Antônio Bedin

nas decisões coletivas. A única organização política que pode,


se bem constituída, permitir que os sujeitos sejam livres para
escolher aquilo que desejam fazer, é a democracia.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
As ideias apresentadas neste trabalho conduzem a uma
postura de defesa da democracia como valor universal. Não só
em termos jurídicos e políticos a democracia merece ser de-
fendida – mas, também, em função de seus valores sociais,
culturais e simbólicos.
Embora seja relevante reconhecer a necessidade de re-
pensar alguns elementos da racionalidade política democráti-
ca, tal fato não conduz à conclusão de que não se deve apostar
no bom funcionamento desse regime. A democracia é, sem dú-
vidas, o regime de governo que, na história da humanidade,
garantiu o exercício da liberdade de forma mais eficaz – ainda
que conviva com importantes contextos de desigualdade social,
sobretudo em países periféricos no cenário econômico global.
O potencial dos sistemas democráticos para se consolida-
rem como espaços de efetivação da liberdade humana merece
ser considerado. Isso não significa ignorar a dimensão institu-
cional característica dos Estados democráticos. Muito pelo
contrário, significa assumir uma postura que reforce essa di-
mensão, mas que a ela não se restrinja. Um governo que segue
“as regras do jogo”, por melhor que o faça, não consegue, ex-
clusivamente por esse fato, garantir que os sujeitos que dele
fazem parte sejam realmente livres.
A conquista da liberdade só é possível em lugares nos
quais a democracia é, por si só, um valor importante, e onde se
constitui como um aparelho apto a capacitar os sujeitos para
fazerem aquelas que consideram ser as melhores escolhas.

I Seminário Internacional de Direitos Humanos e Democracia


Os Direitos Humanos e a sua Proteção
25 e 26 de abril de 2013
O PROJETO VER-SUS E O
DEBATE À SAÚDE PÚBLICA

Andressa Carine Kretschmer


Estudante de Nutrição, Departamento de Ciências da Saúde do Centro de
Educação Superior Norte do Rio Grande do Sul da Universidade Federal de
Santa Maria – CESNORS/Universidade Federal de Santa Maria – UFSM, in-
tegrante do Coletivo Social de Mudanças em Saúde – COSMUS.
Liamara Denise Ubessi
Psicóloga, Enfermeira, mestre em Educação nas Ciências pela Universida-
de Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul – Unijuí, douto-
randa em Enfermagem pela Universidade Federal de Pelotas – UFPel, pro-
fessora na educação à distância em curso de Pós-Graduação Lato sensu
em Gestão de Organização Pública em Saúde, Departamento de Ciências
da Saúde do Centro de Educação Superior Norte do Rio Grande do Sul da
Universidade Federal de Santa Maria – CESNORS/Universidade Federal de
Santa Maria – UFSM, integrante do Coletivo Social de Mudanças em Saúde
– COSMUS.

Resumo
O Ministério da Saúde resolveu retomar as atividades do VER-SUS/BRASIL (Vivências
e Estágios na Realidade do Sistema Único de Saúde do Brasil), no ano de 2012. O
programa visa promover o contato dos acadêmicos na realidade dos serviços da rede
pública de saúde. O presente relato refere-se à turma de estudantes que participou
do VER-SUS entre os dias 13/01 e 23/01/2013 na área programática da 6ª coordena-
doria de saúde, o grupo durante o decorrer dos dias passou a compreender o pro-
cesso de trabalho dentro dos municípios correspondentes a 6ª coordenadoria e das
unidades visitadas, houve assim a liberdade para realizar observações nos sistemas,
com o intuito de realizar reflexões do papel do estudante na realidade social, estimu-
lar discussões, práticas de educação permanente e interações entre educação, e
trabalho. A maior parte dos graduandos relatou a busca pelo projeto devido ao inte-
resse em utilizá-lo como subsídio para a formação acadêmica complementar no que
se refere a SUS, uma vez que poucos são os currículos que trabalham de maneira
satisfatória o tema. Conforme os alunos participantes, o SUS é um sistema que tem
muito a melhorar, no sentido de que na teoria o mesmo é ideal, mas que na prática
as coisas não funcionam tão bem. Quanto as dificuldades houve; cansaço para a
realização das atividades propostas, falta de contato com os hospitais e unidades de
saúde desde o início da vivência, quantidade insuficiente de profissionais do NASF
(Núcleo de Apoio a Saúde da Família). O grupo acredita que a vivência atingiu seus
objetivos, deu aos estudantes que não teriam suas trajetórias acadêmicas nenhum
contato com o SUS a oportunidade de conhecê-lo, além de ter confirmado e alguns e
despertado em outros o interesse de direcionar o seus estudos para a Saúde Coletiva.
Palavras-chave: Estágios, Formação Complementar, Sistema Único de Saúde.
146
Andressa Carine Kretschmer & Liamara Denise Ubessi

Abstract
The Ministry of Health decided to resume activities VER-SUS/BRASIL (Internship
Experiences and Reality of Health System of Brazil), in 2012. The program aims to
promote contact of academics in reality the services of public health. This report
refers to the class of students who attended the SEE-SUS between 13/01 and
23/01/2013 in the program area of 6th of the health, group during the course of the
days started to understand the process of work within municipalities corresponding
to 6th coordinating body and the units visited, there was therefore free to make
observations on the systems, in order to perform reflections of the role of student in
social reality, stimulating discussions, permanent education practices and interac-
tions between education and work. Most undergraduates reported on the search for
the project due to the interest in using it as a resource for academic supplement
regarding the SUS, since there are few curricula that work satisfactorily theme. As
students participating the NHS is a system that has a lot to improve, in the sense that
in theory it is ideal, but in practice things do not work so well. As there were difficul-
ties; fatigue to carry out the proposed activities, lack of contact with hospitals and
healthcare facilities since the beginning of the experience, insufficient professional
NASF (Center of Support for Family Health). The group believes that the experience
achieved its objectives, given to students who would not have their academic trajec-
tories no contact with the SUS the opportunity to know him, and have confirmed
and some and aroused the interest of other direct their studies to health.
Keywords: Internship, Complementary Training, Unified Health System.

INTRODUÇÃO
As atividades do VER-SUS Brasil(Vivências e Estágios na
Realidade do Sistema Único de Saúde do Brasil) foram retoma-
das no ano de 2012 pelo Ministério da Saúde. A finalidade do
programa é promover o contato e aproximar os acadêmicos da
realidade nos serviços da rede pública de saúde. Ao estimular
a participação dos alunos no programa, o Ministério da Saúde
pretende garantir uma experiência integrada dos diversos se-
tores do SUS, fugindo do isolamento de estágios restritos às
áreas vinculadas ao exercício de cada profissão, é uma iniciati-
va que aumenta os espaços de contato e provoca o crescimen-
to contínuo. A vivência visa provocar mudanças nas gradua-
ções, estimular um maior apoio à extensão. Ministério da Saú-
de (2004).
Este relato refere-se à experiência da turma de estudan-
tes que participou do VER-SUS entre os dias 13/01 e
23/01/2013 na área programática da 6ª coordenadoria do mu-
nicípio do Passo Fundo. A turma foi composta por 21 graduan-

I Seminário Internacional de Direitos Humanos e Democracia


Os Direitos Humanos e a sua Proteção
25 e 26 de abril de 2013
147
O projeto VER-SUS e o debate à saúde pública

dos(as) de 9 diferentes cursos de graduação(biomedicina, bio-


logia, nutrição, fonoaudiologia, psicologia, odontologia, medi-
cina, direito, enfermagem) em 4 diferentes Instituições de En-
sino Superior, Universidade Federal de Santa Maria(UFSM),
Universidade Luterana Brasileira(ULBRA), UPF(Universidade
de Passo Fundo e Faculdade Especializada na área da Saúde
do Rio Grande do Sul(FASURGS), todos durante a vivência fo-
ram abrigados no ginásio de esportes da Universidade de Pas-
so Fundo Campus São José.
Durante as vivências, o grupo procurou compreender os
processos de trabalho dentro dos municípios que correspon-
dem a 6ª coordenadoria de Saúde representada pela cidade
polo de Passo Fundo, e das unidades visitadas, e também, as
conjecturas políticas e econômicas que influenciam nos pro-
cessos de gestão. Assim, houve a liberdade para realizar as
observações a partir das vivências, tendo orientação pelos ei-
xos temáticos Gestão, Educação em Saúde, Controle Social e
Atenção Básica. A partir da vivência obtém-se embasamento
para participar da construção do mesmo e questionar sua efi-
ciência que para muitos futuramente fará parte do cotidiano.

OBJETIVOS
Realizar reflexões acerca do papel do estudante como
agente transformador da realidade social; Sensibilizar gesto-
res, trabalhadores e formadores da área da saúde, estimulando
discussões e práticas relativas à educação permanente e às
interações entre educação, trabalho e práticas sociais, utilizar
o projeto como subsídio para a formação acadêmica uma vez
que poucos são os currículos que trabalham de maneira satis-
fatória o ensino de saúde pública.

MÉTODO
O Projeto VER-SUS/BRASIL destina-se aos estudantes
universitários brasileiros dos cursos da área da saúde e demais
áreas que visam obter uma formação complementar em saúde

Programa de Pós-graduação em Direito


Curso de Mestrado em Direitos Humanos
148
Andressa Carine Kretschmer & Liamara Denise Ubessi

coletiva. Realizam-se dias de vivência multiprofissional em um


sistema de saúde municipal ou estadual. Trata-se da interação
dos estudantes entre si, com gestores, trabalhadores da saúde,
usuários e instituições de Ensino Superior. Uma interação que
propicia o debate e o conhecimento sobre aspectos de gestão
do sistema, as estratégias de atenção, o exercício do controle
social e os processos de educação na saúde. Durante o período
da vivência, os estudantes têm suporte pedagógico e suas
despesas de alimentação, hospedagem e transporte custeadas
pelo Ministério da Saúde. Secretarias Municipais de Saúde,
Secretarias Estaduais de Saúde e Instituições de Ensino Supe-
rior são parceiras do projeto. Para participar da construção do
VER-SUS/BRASIL em determinada localidade, o estudante uni-
versitário deve procurar o seu diretório acadêmico ou o centro
acadêmico mais próximo. As executivas Nacionais de Estudan-
tes das profissões da área da saúde que compõem a Coorde-
nação Nacional do VER-SUS/BRASIL também estão à disposi-
ção para colaborar nesse processo descentralizado de constru-
ção. O VER-SUS realizado na região programática correspon-
dente a 6a coordenadoria, foi organizado pelos alunos integran-
tes do coletivo COESA(Coletivo dos Estudantes pela Saúde).
As imersões pelas quais o grupo passou incluíram rodas
de conversa com gestores e profissionais locais; visitas a di-
versas unidades de saúde da região; debate e atividades de
Práticas Integrativas e Complementares à Saúde; Visita Domi-
ciliar para cadastramento de famílias cobertas pela Saúde da
Família; Roda de Terapia Comunitária; Rede de Vigilância em
saúde.

RESULTADOS
Os resultados se reportaram à desinibição do grupo para
questionamentos, posicionamentos, e opiniões, impactou-se
para a real importância da observação e anotação daquilo que
foi representado na vivencia para assim compor o relato. Con-
forme os alunos participantes o SUS é um sistema que tem
muito para melhorar, os sentidos atribuídos a ele e que per-

I Seminário Internacional de Direitos Humanos e Democracia


Os Direitos Humanos e a sua Proteção
25 e 26 de abril de 2013
149
O projeto VER-SUS e o debate à saúde pública

meiam a população e muitos dos profissionais de saúde atre-


lam-se para a ideia de que na teoria este sistema é o ideal, mas
que na prática as coisas não funcionam tão bem quanto deve-
riam funcionar, um sistema enfraquecido, que não possui re-
cursos suficientes para atender toda a demanda da população.
Quanto às dificuldades houve; Cansaço para a realização das
atividades propostas; Identificação precária: Crachá e Trans-
porte; Tempo insuficiente para apresentação de uma vivência
de 10 dias; O modo como a pobreza é vista pelos atores do sis-
tema; A ineficiência da intersetorialidade; Informações inade-
quadas do papel dos Apoiadores e Facilitadores; Falta de in-
tercâmbio com os Hospitais desde o início do VER-SUS; Falta
de tempo para articulação junto a rede privada, Estrutura La-
boratorial; Referência e Contra Referência; Quantidade insufi-
ciente de Profissionais do NASF(Núcleo de apoia a saúde da
família); Infraestrutura; Papel regulador da população e do ges-
tor municipal em relação as Organizações Sociais; Precarização
do Trabalho. Potencialidades indicadas pelos versusianos.
O grupo acredita que a vivência atingiu seus objetivos.
Deu a estudantes que não teriam em suas trajetórias acadêmi-
cas nenhum contato com uma formação voltada para o SUS a
oportunidade de conhecerem, interessarem-se e engajarem-se
na luta em defesa de uma Saúde Pública de qualidade para
todos. Além disso, confirmou em alguns (as) e despertou em
outros (as) o interesse em direcionar estudos e profissão para o
campo da Saúde Coletiva. Por fim, deve-se citar ainda quebrou
preconceitos frente à Saúde Pública.

DISCUSSÃO
O Sistema Único de Saúde, apoiado no princípio geral de
que saúde é direito do cidadão e dever do Estado, foi instituído
pela Constituição Federal de 1988 e regulamentado por leis
ordinárias de 1990 (BARROS, 1995).
Além desse aparato jurídico-institucional, indispensável à
sua concretização e à direção única do sistema pelo Ministério
da Saúde, concretamente, o SUS corresponde a uma organiza-

Programa de Pós-graduação em Direito


Curso de Mestrado em Direitos Humanos
150
Andressa Carine Kretschmer & Liamara Denise Ubessi

ção dos serviços de saúde de forma hierarquizada, de acordo


com os graus de complexidade, pressupondo uma destinação
constante e sistemática de verbas federais, estaduais e muni-
cipais, definidas por leis. Pretende-se que todo o atendimento
prestado aos usuários seja de caráter universal, gratuito, de
qualidade, resolutivo e sob o controle da população. Na pers-
pectiva do Sistema Único de Saúde, os serviços privados de
atendimento à saúde teriam um caráter apenas complementar.
(L’ABBATE,S et al. 1995).
A maior parte dos graduandos relatou que buscou parti-
cipar do projeto, para utiliza-lo como subsídio para a formação
acadêmica complementar no que diz a respeito do SUS, uma
vez que a maior parte dos currículos não contemplava de ma-
neira satisfatória a abordagem do eixo saúde coletiva.
Os projetos que tem a finalidade de complementar a for-
mação através de estágios de vivência não são recentes, nem
mesmo exclusivos da área da saúde, o Ver-Sus possui influên-
cia de outros estágios realizados anteriormente como exemplo
pode-se citar os estágios de vivência realizados nos assenta-
mentos rurais que foram a princípio organizados pela
FEAB(Federação dos Estudantes de Agronomia) no final dos
anos 80, (Ceccim & Bilibio, 2004).
O projeto Ver-Sus surgiu no Rio Grande do Sul, em julho
de 2002, agregando os cursos da área da saúde, mantendo a
característica da interdisciplinaridade, em 2003 houve o apoio
do Ministério da Saúde e do movimento estudantil e planejou-
se a realização do projeto em todos os estados brasileiros com
a implantação do projeto VER–SUS/BRASIL.
Os objetivos propostos do Ver-Sus, tem por base as mu-
danças sociais e produzir reflexões na mudança dos currículos
dos futuros profissionais da saúde e das formas de ensino-
aprendizagem, o projeto apresenta-se como possibilidade de
ampliar a formação por favorecer a unidade do que foi apreen-
dido em sala de aula com a experimentação do cotidiano de
trabalho no SUS.
O grande desafio dos estudantes da área da saúde que
visam atuar no SUS, tem sido os currículos das universidades
I Seminário Internacional de Direitos Humanos e Democracia
Os Direitos Humanos e a sua Proteção
25 e 26 de abril de 2013
151
O projeto VER-SUS e o debate à saúde pública

elaborados pelos docentes que instrumentalizam a técnica, a


ciência e a política. Experiências como a do VER-SUS podem
desencadear o processo de mudança de mentalidade nos ato-
res sociais das universidades, com consequente mudança de
atitude profissional. CANONICO, (2008).
A formação de profissionais competentes para atuar no
SUS implica em um processo de revisão paradigmática, pauta-
do no compromisso com a saúde enquanto direito de todos e
dever do Estado. As universidades com cursos na área da saú-
de devem adequar a realidade a prática do ensino, poucos são
os currículos que trabalham de maneira satisfatória o ensino
de saúde pública.
A vivência é uma alternativa viável para contribuir com o
processo de formação, mesmo não sendo a única que incorpora
questões em torno do eixo SUS, a mesma aproxima o acadêmi-
co com a realidade da saúde da região abordada, para que
quando profissionais formados possam compreendê-lo e, as-
sim, colaborar para seu desenvolvimento. É preciso ter em
mente que a formação na área da saúde é, antes de tudo, um
instrumento para transformações no setor saúde.
As vivências que foram realizadas, antes do período de
abandono do projeto VER-SUS, principalmente as ocorridas em
2002 (Rio Grande do Sul), 2004/2005 (nacional) e 2008 (Espírito
Santo), resultaram na publicação de materiais nas mais distin-
tas áreas. Nestas publicações discute-se a mudança de postu-
ras, olhares, concepções e práticas sobre o SUS.(Mendes et al.,
2008; Riquinho & Capoane, 2002)
Em cada encontro, foram apresentados e discutidos os
conteúdos por professores e profissionais da área da saúde
que militam no SUS e que se engajaram na construção do Pro-
jeto VER–SUS em outros lugares do país, por exemplo; gesto-
res e trabalhadores da saúde e da assistência social. Durante
as discussões que ocorriam a noite havia a exposição dos pon-
tos de vista dos participantes, após realizava-se a elaboração
do relatório do dia.
Entre os versusianos participantes desta edição do proje-
to VER-SUS realizado na 6ª coordenadoria de saúde em 2013,
Programa de Pós-graduação em Direito
Curso de Mestrado em Direitos Humanos
152
Andressa Carine Kretschmer & Liamara Denise Ubessi

foi unânime constatação de que houve mais sentido na forma-


ção acadêmica, novas reuniões do grupo estão sendo progra-
madas, na busca de problematizar e manter a continuação do
projeto para outros alunos.

CONCLUSÃO
Houve a desmistificação de que o SUS é apenas um sis-
tema de baixa qualidade, ocorreu a possibilidade de diferentes
olhares partindo do ponto da multidisciplinariedade, a experi-
ência foi uma troca de saberes entre os versusianos, e também
com os profissionais, gerando um olhar mais amplo das políti-
cas de saúde. Considerando alguns aspectos inerentes à orga-
nização, aponta-se: logística, informação, intercomunicação e
informática. Sugere-se uma melhor distribuição do tempo de
forma a possibilitar uma execução mais eficiente do projeto,
uma divulgação mais eficaz do VER-SUS nos locais de ensino e
o site da OTICS mais objetivo, prático e acessível, os alunos
participantes relatam seu interesse no programa devido carên-
cia existente no ensino de saúde pública e coletiva nos seus
respectivos programas pedagógicos de graduação, muitos dos
participantes obtiveram grande interesse pela área manifes-
tando interesse em buscar posteriormente a graduação uma
formação complementar em saúde coletiva.

REFERÊNCIAS
CANONICO, Rhavana Pilz; BRETAS, Ana Cristina Passarella. Signifi-
cado do Programa Vivência e Estágios na Realidade do Sistema Úni-
co de Saúde para formação profissional na área de saúde. Acta paul.
enferm., São Paulo, v. 21, n. 2, 2008 . A
Ministério da Saúde. Secretaria de Gestão do Trabalho e da Educa-
ção na Saúde. Departamento de Gestão da Educação na Saúde.
(2004b). Política de educação e desenvolvimento para o SUS: cami-
nhos para a Educação Permanente em saúde: pólos de Educação
Permanente em saúde. Brasília, DF: Autor.
MENDES, Flavio Martins de Souza et al . Ver-Sus: relato de vivências
na formação de Psicologia. Psicol. cienc. prof., Brasília, v. 32, n. 1,

I Seminário Internacional de Direitos Humanos e Democracia


Os Direitos Humanos e a sua Proteção
25 e 26 de abril de 2013
153
O projeto VER-SUS e o debate à saúde pública

2012 . Available from <http://www.scielo.br/scielo.php?script=


sciarttext&pid=S1414-98932012000100013&lng=en&nrm=iso>.
Access on 30 Jan. 2013.
http://dx.doi.org/10.1590/S1414-98932012000100013.
RIQUINHO, D. L., & Capoane, D. S. (2002). VER-SUS/RS: um olhar de
estudantes universitárias sobre o Sistema Único de Saúde no Rio
Grande do Sul. Boletim da Saúde, 16(1), 147-152.
CECCIM, R. B., & Bilibio, L. F. S. (2004). Articulação com o segmento
estudantil da área de saúde: uma estratégia de inovação na forma-
ção de recursos humanos para o SUS. In Ministério da Saúde
(Org.), VER-SUS/BRASIL: Cadernos de Textos (pp. 4-19). Brasília, DF:
Gráfica Universitária.
BARROS, E. Política de Saúde: a complexa tarefa de enxergar a mu-
dança onde tudo parece permanência. Curitiba,1995. [Texto prepa-
rado para o Iº Congresso Brasileiro de Ciências Sociais em Saúde.]
L’ABBATE,S. Agentes de trabalho/Sujeitos? Repensando a capacita-
ção de Recursos Humanos em Saúde Coletiva. In: CANESQUI.
A.M.(0rg.) Dilemas e desafios das Ciências Sociais na Saúde Coleti-
va. São Paulo: Hucitec,1995 a, p. 141/61.

Programa de Pós-graduação em Direito


Curso de Mestrado em Direitos Humanos
A CONCRETIZAÇÃO DO DIREITO DOS
IDOSOS À SAUDE NO B RASIL ATRAVÉS DA
ESFERA PRIVADA : OS PLANOS DE SAÚDE
COMO ADIMPLEMENTO AO ARTIGO 12
DO P ACTO I NTERNACIONAL SOBRE OS
DIREITOS ECONOMICOS , SOCIAIS E
CULTURAIS DE 1966

Angela Venturini Benedetti


Acadêmica do Curso de Direito da Universidade Federal de Santa Maria
(angelavbenedetti@gmail.com)
Geanluca Lorenzon
Acadêmico do Curso de Direito da Universidade Federal de Santa Maria
(gean.lorenzon@gmail.com)
Isabel Christine Silva De Gregori
Professora Doutora do Curso de Graduação e Mestrado de Direito da Uni-
versidade Federal de Santa Maria (isabelcsdg@gmail.com)

Resumo
O idoso, principal cidadão no atual cenário econômico, e a saúde, direito garantido
pelo Pacto Internacional dos Direitos Econômicos, Sociais e Culturais e pela legisla-
ção pátria, devem ser aliados no plano material, frente à uma perspectiva de equilí-
brio contratual, no que se refere aos planos de saúde. A diminuição ou perda de
determinadas aptidões físicas ou intelectuais, necessidade e catividade em relação a
determinados produtos ou serviços, coloca o consumidor idoso em uma posição
contratualmente mais vulnerável e este deve ser protegido de forma especial pelo
Poder Público. O presente trabalho vislumbra as normas aplicáveis, e analisa se a
legislação e resoluções normativas conseguem regular possíveis situações contratu-
almente abusivas, que são reforçadas pela vulnerabilidade potencializada do idoso.
Palavras-chave: direito à saúde; hipervulnerabilidade; idosos; planos de saúde;

Abstract
The elderly, main citizen in the current economic scenario, and health, right guaran-
teed by the International Covenant on Economic, Social and Cultural Rights and by
national legislation shall be allied in the material plan towards a perspective of con-
tractual balance, in which concerns health care insurances. A decrease or loss of
certain physical or intellectual abilities, necessity and captivity in relation to certain
products or services, puts the elder consumer in a contractually more vulnerable
156
Angela Venturini Benedetti; Geanluca Lorenzon & Isabel C. Silva De Gregori

position, and they shall be specially protected by the State. This essay aims to ana-
lyse if law and normative resolutions have been able to regulate possible abusive
contractual situations which are reinforced by the hypervulnerability of the elderly.
Keywords: elderly; health care insurances; hypervulnerability; right to health;

INTRODUÇÃO
O Pacto Internacional dos Direitos Econômicos, Sociais e
Culturais estabelece que seus estados-membros reconhecem o
direito de toda a pessoa desfrutar o mais elevado nível possível
de saúde física e mental, devendo ser consideradas as pré-
condições biológicas e socioeconômicas dos indivíduos. Para o
adimplemento da referida norma, devem ser considerados qua-
tro pontos: a disponibilidade, acessibilidade, aceitabilidade e
qualidade, pontos os quais vão ao encontro direto do trabalho
desenvolvido pela ANS e pelo Congresso Nacional.
Devido às vulnerabilidades e transformações decorrentes
do processo de envelhecimento, o crescimento populacional
dos idosos no Brasil, a deficiência do Sistema Único de Saúde,
muitos idosos recorrem a planos privados de assistência à sa-
úde. A diminuição ou perda de determinadas aptidões físicas
ou intelectuais e necessidade e catividade em relação a deter-
minados produtos ou serviços, coloca o consumidor idoso em
uma relação de dependência em relação aos seus fornecedo-
res, logo, esse necessita de maior apoio e assistência do Poder
Público, para garantir o conhecimento de seus direitos, evitar
abusividades contratuais, adimplir efetivamente do que foi
contratado e efetivar sua cidadania.

O PACTO DOS DIREITOS SOCIAIS, ECONÔMICOS E CULTURAIS DE


1966
A Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948)1
trouxe ao ambiente jurídico internacional um novo paradigma
de proteção individual entre os países envolvidos. A concreti-
1
UN. Declaração Universal dos Direitos Humanos, The Universal Decla-
ration of Human Rights. Paris, 1948. Disponível em: <http://www.un.
org/en/documents/udhr/>. Acesso em: 11 mar. 2013.
I Seminário Internacional de Direitos Humanos e Democracia
Os Direitos Humanos e a sua Proteção
25 e 26 de abril de 2013
157
A concretização do direito dos idosos à saude no Brasil...

zação através das Covenants vinculantes que seguiram, ICCPR


(Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos)2 e ICESCR
(Pacto Internacional dos Direitos Econômicos Sociais e Cultu-
rais)3, trouxeram determinadas obrigações aos Estados, e tam-
bém resultantes conflitos em relação a suas respectivas apli-
cações.
Especificamente, o artigo 12 do Pacto Internacional dos
Direitos Econômicos, Sociais e Culturais (doravante denomina-
do ‘ICESCR’)4 estabeleceu que “Os Estados Partes do presente
Pacto reconhecem o direito de toda pessoa de desfrutar o mais
elevado nível possível de saúde física e mental.”
De acordo com o Committee on Economic, Social and Cul-
tural Rights (doravante simplesmente denominado ‘Conselho’),
estabelecido sob a exegese do ICESCR, expressou através de
seu General Comment on Article 12,5 emitido em 11 de Agosto
de 2000, a noção do referido “mais elevado nível de saúde”,
mencionado no artigo 12.1, o qual, segundo o Conselho, deve
considerar ambas as pré-condições biológicas e socioe
Em um estado em que o setor privado cumpre essencial
papel para a saúde dos indivíduos, em que se ache considera-
do uma necessidade de small budget6, necessariamente se tem
uma modificação estrita no papel do governo, resultando em
uma noção diferente da aplicação do referido direito à saúde.
De fato, consoante se denota das crises financeiras atu-
ais, o excessivo papel do estado na economia resultou em con-
sideráveis modificações nas condições de vida de seus habi-

2
Decreto n° 592, de 6 de julho de 1992.
3
Decreto n° 591, de 6 de julho de 1992.
4
Em vigor no Brasil desde 24 de abril de 1992.
5
COMMITTEE ON ECONOMIC, SOCIAL AND CULTURAL RIGHTS. Subs-
tantive issues arising in the implementation of the International Cove-
nant on Economic, Social and Cultural Rights, General Comment No. 14
(2000). Geneva: PUBLICAÇÃO?, 2000.
6
Salientam-se as limitações orçamentarias dos países Europeus no atual
quadro mundial, o que leva a um aumento da importância do setor pri-
vado, resultando na diminuição de preços e maior acessibilidade.

Programa de Pós-graduação em Direito


Curso de Mestrado em Direitos Humanos
158
Angela Venturini Benedetti; Geanluca Lorenzon & Isabel C. Silva De Gregori

tantes7, passo em que um Estado menor passou a ser preferível


como prevenção à manipulação do mercado financeiro, feita
pelos governos, motivados tradicionalmente por valores sociais.
Através de seu dever estabelecido pelo expressamente
pelo ICESCR, o Conselho apontou que para o adimplemento do
artigo 12, quatro pontos devem ser considerados, os quais ser-
vem como orientação na aplicação, quais sejam de disponibili-
dade, acessibilidade, aceitabilidade e qualidade.
Especificamente, o ponto de acessibilidade engloba não-
discriminação, acessibilidade física, econômica e informacio-
nal. Estes, consoante será abordado, vão ao encontro direto do
trabalho desenvolvido pela ANS e pelo Congresso Nacional,
com relação ao desempenho do setor privado.
A saber, o Judiciário brasileiro tem exercido um impor-
tante papel no que se refere ao fator de acessibilidade de in-
formação, apontado pelo Conselho. De fato, a interpretação da
Covenant inclui o direito a buscar, receber e estar ciente de in-
formações e idéias concernentes a assuntos de saúde8. Soma-se
a isso o importante papel do princípio da informação, forjado
no Código de Defesa do Consumidor de 1990.
No que concerne a natureza das obrigações, tem-se que o
Estados-partes devem, inter alia, dar reconhecimento suficien-
te ao direito à saúde em suas políticas nacionais e seus siste-
mas legais, o que parece ser concretizado no Brasil, consoante
expresso no art. 183 da Constituição Federal.

7
O Reino Unido parece ser um exemplo interessante, passo em que o
National Health Service (NHS) está sofrendo consideráveis cortes orça-
mentários pela Câmara dos Comuns (House of Commons). Os anos em
que o partido trabalhista britânico (Labour Party) ficou à frente do cabi-
net, parece ter destoado da estabilidade que o Governo Thatcher deu à
saúde no Reino Unido.
8
Ipsis litteris: “[A]ccessibility includes the right to seek, receive and im-
part information and ideas concerning health issues. However, accessibil-
ity of information should not impair the right to have personal health da-
ta treated with confidentiality.” Ademais, o referido General Comment
menciona ao final, expressamente, que o mesmo “gives particular em-
phasis to access to information because of the special importance of this
issue in relation to health”.
I Seminário Internacional de Direitos Humanos e Democracia
Os Direitos Humanos e a sua Proteção
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159
A concretização do direito dos idosos à saude no Brasil...

Assim sendo, uma vez que o setor privado passa a ter


fundamental importância para a concretização do direito à sa-
úde, e o consequente adimplemento do Brasil à ICESCR, pas-
sa-se a analisar as medidas adotadas pelas instituições oficiais
brasileiras.

O DIREITO E GARANTIA À SAÚDE NA LEGISLAÇÃO BRASILEIRA E A


HIPERVULNERABILIDADE DOS IDOSOS.
Direito fundamental à pessoa humana presente no artigo
5º da Constituição Federal de 1988, o direito a saúde revela-se
obrigação do Estado, e a promoção desta deve ocorrer, em to-
dos os seus níveis, pouco importando a condição econômico-
financeira do cidadão.
Outrossim, no que se refere à saúde, o Estatuto do Idoso
tem a intenção de garantir o cuidado e a atenção integral pelo
Sistema Único de Saúde – SUS -, ou seja, a função do Estado
brasileiro tem um caráter prestativo, no sentido de agir para se
evitar e combater enfermidades9, como se vê no art. 15, caput
do Estatuto do Idoso que garante o acesso universal e igualitá-
rio ao Sistema Único de Saúde “para a prevenção, promoção,
proteção e recuperação da saúde”.
Contudo, muitos ainda não têm acesso integral aos servi-
ços de saúde, e o atendimento pelo Sistema Único de Saúde
mostra-se deficiente, pois há um número insuficiente de agen-
tes domiciliares voltados exclusivamente para idosos, de equi-
pes multiprofissionais e interdisciplinares com conhecimento
especializado no envelhecimento e saúde da pessoa idosa e,
principalmente, de leitos hospitalares10.

9
PEREIRA, Tânia da Silva; OLIVEIRA, Guilherme de. Cuidado e Vulnera-
bilidade. Rio de Janeiro: Atlas, 2009.
10
FALTA de leitos e de estrutura de atendimento agravam crise na rede
pública. Conselho Federal de Medicina, Brasília, 24 de outubro de 2011.
Disponível em:
<http://portal.cfm.org.br/index.php?option=com_content&view=article
&id=22337:falta-de-leitos-e-de-estrutura-de-atendimento-agravam-
crise-na-rede-publica&catid=3>. Acesso em: 9 abr. 2013.

Programa de Pós-graduação em Direito


Curso de Mestrado em Direitos Humanos
160
Angela Venturini Benedetti; Geanluca Lorenzon & Isabel C. Silva De Gregori

Essa deficiência leva os idosos a recorrerem, muitas ve-


zes, a planos privados de saúde e, considerando às debilida-
des naturais que a idade causa ao organismo do ser humano,
os mesmos possuem maiores necessidades de utilização dos
serviços prestados por esses entes privados, sendo que do
uso, percebem-se várias abusividades contratuais, não sendo
exclusividade da presente espécie.
Inicialmente, faz-se necessário definir o conceito de plano
de saúde, a fim de que seja possível avaliar suas consequên-
cias e implicações no presente plano. Para o espectro legal,
insere-se como o negócio jurídico derivado de qualquer contra-
to que envolva a prestação de serviços de saúde, ou a cobertu-
ra dos custos desses serviços, através do qual se paga uma
mensalidade.
Ademais, confirma-se a aplicação do Código de Defesa do
Consumidor aos contratos de plano de saúde, com a Súmula
469 editada pelo Supremo Tribunal de Justiça, no ano de 201011.
A promoção da defesa do consumidor pelo Estado tem
por fim coibir abusos e/ou excessos praticados pelos fornece-
dores contra os consumidores em decorrência do desequilíbrio
da relação consumerista. Logo, o meio jurídico tem consolida-
do uma interpretação uníssona de que o idoso é, por suas ca-
racterísticas frente ao cenário atual, um consumidor vulnerável.
Devido a essas características, mostrou-se de interesse
ao ordenamento jurídico oferecer a esse grupo uma tutela es-
pecial, concretizando os princípios norteadores da relação de
consumo estabelecidos pelo Código de Defesa do Consumidor
(CDC).
Apesar de não haver menção expressa sobre os idosos no
CDC, o art. 39, IV refere-se a “fraqueza” relacionada à idade,
de forma semelhante ao que ocorre ao mencionar as crianças
como um consumidor especial no art. 37. A jurisprudência bra-
sileira já identificou que a igualdade teórica de direitos e de

11
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Súmula nº 469. Aplica-se o Código
de Defesa do Consumidor aos contratos de plano de saúde. In: ______.
Súmulas. Brasília: RSTJ vol. 220 p. 727.
I Seminário Internacional de Direitos Humanos e Democracia
Os Direitos Humanos e a sua Proteção
25 e 26 de abril de 2013
161
A concretização do direito dos idosos à saude no Brasil...

chances, quando consumidores “jovens” ou consumidores


“idosos”, não estaria sendo realmente alcançada na contrata-
ção e na execução de contratos de consumo, surge assim a
preocupação em proteger de forma especial este grupo ‘hiper-
vulnerável” ou de “vulnerabilidade potencializada”12.
O consumidor idoso, considerado para todos os efeitos le-
gais qualquer pessoa com 60 anos ou mais (art. 1° do Estatuto do
Idoso), possui vulnerabilidade fática e técnica potencializada,
pois se supõe leigo frente a um sistema de fornecimento de ser-
viços, não compreendendo a complexidade desses contratos
cativos de longa duração. Para Bruno Miragem, a vulnerabilida-
de do consumidor idoso demonstra-se a partir de dois aspectos
principais: a diminuição ou perda de determinadas aptidões físi-
cas ou intelectuais; e a necessidade e catividade em relação a
determinados produtos ou serviços que o coloca em uma relação
de dependência em relação aos seus fornecedores.
Assim, conclui-se que a hipervulnerabilidade revela-se
um critério jurídico a ser utilizado no exame das relações de
consumo dos idosos no compromisso de tutela da dignidade
da pessoa humana, conforme a Constituição Federal. Ante a
fragilidade pressuposta em razão da idade, considera-se o ido-
so, se comparado às demais pessoas, ainda mais vulnerável
porque não se mostra raro este ser atingido por práticas co-
merciais abusivas, que, em muitos casos, causam lesões que
superam a esfera patrimonial.
Por fim, conforme o entendimento do Superior Tribunal de
Justiça13, o Código de Defesa do Consumidor protege todos os
consumidores, contudo não é insensível à realidade da vida e
do mercado. Logo, não se homogeniza o tratamento e desco-

12
MARQUES, Claudia Lima. Solidariedade na doença e na morte: sobre a
necessidade de “ações afirmativas” em contratos de planos de saúde e
de planos funerários frente ao consumidor idoso. In: Constituição, direi-
tos fundamentais e direito privado. Organização de Ingo Sarlet. Porto
Alegre: Livraria do advogado, 2003, p. 194.
13
BRASIL. Superior Tribunal de Justiça. Recurso Especial nº 586.316/MG,
da 4ª Turma do Supremo Tribunal de Justiça, Brasília, DF, 4 de junho de
2009. Diário da Justiça Eletrônico: 20 ago. 2009.

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Curso de Mestrado em Direitos Humanos
162
Angela Venturini Benedetti; Geanluca Lorenzon & Isabel C. Silva De Gregori

nhece-se que existem consumidores que possuem uma vulne-


rabilidade potencializada, como as crianças, os idosos, os por-
tadores de deficiência e os analfabetos, que necessitam de
maior apoio e assistência para garantir o conhecimento e a efe-
tivação de seus direitos.

PLANOS DE SAÚDE E O PODER REGULADOR DA ANS


Historicamente, os planos de saúde surgiram na década
de 60. Entretanto, somente no início dos anos 80 houve sua
consolidação no mercado como alternativa de assistência a
saúde, junto com uma tendência mundial econômica, que pos-
sibilitou que países que tinham sua economia estagnada pelo
excesso de regulação do mercado pudessem criar empregos e
gerar renda.
O desenvolvimento desse setor infelizmente não foi
acompanhado pelo Poder Público brasileiro e, sem fiscalização
no âmbito contratual, as empresas consolidadas previamente
atuavam “livremente” (dentro de um Estado altamente buro-
crático e economicamente restritivo), impondo uma série de
restrições e aumentos injustificáveis aos consumidores, sem
que houvesse uma verdade concorrência.
Nem a Constituição Federal de 1988, nem o Código de
Defesa do Consumidor de 1991 conseguiram frear os abusos
cometidos, o que gerou uma enorme quantidade de ações judi-
ciais questionando tais excessos contratuais. Antes da Lei no
9.656/98, não havia cobertura mínima obrigatória definida e
tratamentos de alto custo, doenças crônico-degenerativas, do-
enças infecciosas, dentre outras, eram excluídas dos contratos
pelas operadoras.
Contudo, embora tenha gerado grandes esperanças, a Lei
dos Planos de Saúde avançou muito pouco na proteção dos
consumidores, sendo que as frequentes críticas das entidades
de defesa dos usuários e dos profissionais de saúde não foram
ouvidas e manteve-se o desequilíbrio contratual.
Atualmente, o órgão normatizador, regulador, controlador
e fiscalizador de planos privados de saúde é a Agência Nacio-
I Seminário Internacional de Direitos Humanos e Democracia
Os Direitos Humanos e a sua Proteção
25 e 26 de abril de 2013
163
A concretização do direito dos idosos à saude no Brasil...

nal de Saúde Suplementar. Prerrogativa essencial atribuída às


Agências Reguladoras para o atendimento de seus fins regula-
tórios, pois lhes garantem autonomia para disciplinar as ações
de seu mercado regulado de maneira ágil e eficiente, sem a
necessidade de aguardar a normatização legislativa. Desta
forma, a ANS adotou diversas Resoluções Normativas, em vista
da regulação do mercado de saúde suplementar, consta garan-
tir, a população coberta por planos de saúde, cobertura assis-
tencial integral e regular as condições de acesso.

COBERTURA ASSISTENCIAL MÍNIMA OBRIGATÓRIA


Desde 1998, a Agência Nacional de Saúde Suplementar
define um “Rol de Procedimentos e Eventos em Saúde”14 atua-
lizado que visa garantir e tornar pública a cobertura assisten-
cial mínima obrigatória. Este rol, revisado a cada dois anos,
constitui a referência básica para cobertura assistencial nos
planos privados de assistência à saúde, contratados a partir de
1º de janeiro de 1999. Em 2011 houve nova atualização que en-
trou em vigor a partir do dia 01/01/2012 e incluiu a cobertura
para cerca de 60 novos procedimentos15.
As revisões promovem a discussão técnica sobre o rol e
conta com a participação de órgãos de defesa do consumidor,
representantes de operadoras e de conselhos profissionais e
sociedade em geral. Em 2011, por exemplo, 70% das contribui-
ções foram feitas diretamente pelos consumidores16.

14
O primeiro rol de procedimentos estabelecido pela ANS foi o definido
pela Resolução de Conselho de Saúde Suplementar - Consu 10/98, atua-
lizado em 2001 pela Resolução de Diretoria Colegiada – RDC 67/2001, e
novamente revisto nos anos de 2004, 2008, 2010 e 2011, pelas Resolu-
ções Normativas 82, 167, 211 e 262, respectivamente.
15
ANS. Resolução Normativa nº 262. Rio de Janeiro, 1 de Agosto de 2011.
16
ROL de Procedimentos e Eventos em Saúde: o que seu plano deve co-
brir. Agência Nacional de Saúde Suplementar, Rio de Janeiro. Disponí-
vel em: <http://www.ans.gov.br//index.php/aans/central-de-atendimen
to/index.php/750-central-de-atendimento-o-que-o-seu-plano-deve-
cobrir>. Acesso em: 7 abr. 2013.

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Ademais, em 27 de fevereiro de 2013, houve um processo


de revisão do Rol de Procedimentos e Eventos em Saúde, reali-
zando-se a primeira reunião do Grupo Técnico a fim de debater
o tema e formular uma proposta de Resolução Normativa, que
será submetida a consulta pública ainda no ano de 201317.

PRAZOS PARA SERVIÇOS E PROCEDIMENTOS TRATADOS


Embora, a ANS tenha publicado, no dia 20 de junho de
2011, uma resolução normativa18 que garante ao beneficiário de
convênio médico o atendimento com prazos máximos para o
acesso a serviços e procedimentos contratados que deviam
variar entre três e vinte dias úteis no máximo, dependendo da
especialidade e de recomendações médicas, diversas operado-
ras de planos de saúde não vem seguindo essas normas, ou
burlando-a através do oferecimento de médicos disponíveis a
uma distância absurda.
Devido à excessiva dificuldade do beneficiário ao adim-
plemento eficaz do contratado, no dia 10 de julho de 2012, a
Agência Nacional de Saúde Suplementar, suspendeu a venda
de 268 planos de saúde de 37 operadoras, as quais tiveram
três meses para se adequarem aos prazos, que variam confor-
me a especialidade médica19. Novamente, em 11 de janeiro de
2013, a ANS puniu 225 planos de saúde de 28 operadoras por
descumprimento das regras de atendimento aos usuários. Es-

17
ANS realiza primeira reunião do GT do Rol de Procedimentos e Eventos
em Saúde. Agência Nacional de Saúde Suplementar, Rio de Janeiro, 28
de fevereiro de 2013. Disponível em: <http://www.ans.gov.br/a-
ans/sala-de-noticias-ans/participacao-da-sociedade/1942-ans-realiza-
primeira-reuniao-do-gt-do-rol-de-procedimentos-e-eventos-em-saude>.
Acesso em: 7 abr. 2013.
18
ANS. Resolução Normativa nº 259. Rio de Janeiro, 11 de Junho de 2011.
19
THOMÉ, Clarissa. ANS suspende venda de 268 planos de saúde de 37
operadoras; veja lista completa. Estadão, Rio de Janeiro, jul. 2011. Seção
Saúde. Disponível em: <http://www.estadao.com.br/noticias/vidae,ans-
suspende-venda-de-268-planos-de-saude-de-37-operadoras-veja-lista-
completa,898388,0.htm>. Acesso em: 08 abr. 2013.
I Seminário Internacional de Direitos Humanos e Democracia
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165
A concretização do direito dos idosos à saude no Brasil...

tas estiveram impedidas de comercializar esses planos até


março de 201320.
Essa resolução e medida punitiva posterior visam estimu-
lar as operadoras de planos de saúde a promover o credencia-
mento de prestadores de serviços nos municípios que sejam
integrantes da área geográfica de abrangência e de atuação do
plano. As operadoras devem oferecer pelo menos um serviço
ou profissional em cada área contratada, contudo, destaca-se
que, estas não garantem que a alternativa para atendimento
seja a de escolha do beneficiário, pois por vezes o profissional
já está em sua capacidade máxima. Os médicos, hospitais, la-
boratórios e clínicas não são obrigados a obedecer os prazos
para atendimento estabelecidos, logo, se o contratante desejar
ser atendido exclusivamente por um destes de sua preferência,
deverá aguardar o período determinado.
Outrossim, frisa-se que em casos de urgência e emergên-
cia a operadora deve oferecer o atendimento no município on-
de foi demandado ou se responsabilizar pelo transporte do be-
neficiário idoso, e seu possível acompanhante, até o seu cre-
denciado.
Por fim, caso não haja alternativas para o atendimento,
deve haver o reembolso dos custos assumidos pelo beneficiá-
rio em até 30 (trinta) dias.
Igualmente, insta constar que – no que diz respeito aos
procedimentos tratados – tem-se diversas intervenções reali-
zadas pelo Poder Judiciário, no sentido de garantir extensões
em relação aos tratamentos cobertos.
Um dos litígios mais comuns, presentes no Tribunal de
Justiça do Rio Grande do Sul, diz respeito à pretensão de reali-
zar a cirurgia de redução de estômago por videolaparoscopia,
em detrimento da previsão de cirurgia mais incisiva prevista
originariamente (única existente há alguns anos), tendo em
vista que aquele método oferece menos riscos ao paciente. As-
sim, a mais alta Corte gaúcha tem entendido que, independen-

20
ANS proíbe 28 operadoras de comercializar 225 planos de saúde até
março de 2013. Jornal do Commercio, Amazonas, p. 7, 21 jan. 2013.

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temente do previsto, o novo procedimento deve ser coberto


pelo plano de saúde, se assim houver recomendação médica.

REAJUSTE DE MENSALIDADE
Destaca-se, inicialmente, que a ANS não estipula preços
a serem praticados pelas operadoras, apenas estabelece limi-
tes, e o reajuste de mensalidade do plano de saúde depende
do tempo em que se contratou o serviço.
Em relação ao reajuste anual, os planos de saúde contra-
tados antes da vigência da Lei dos Planos de Saúde (1999),
desde agosto de 2003, com o acolhimento de uma Ação Direta
de Inconstitucionalidade pelo STF, passaram a ser considera-
dos atos jurídicos perfeitos. Logo, os reajustes de mensalidade
determinados nos contratos, variados pela irrestrição legal na
formação do contrato, possuem validade, desde que não ex-
cessivamente onerosos a parte21.
Quando contratados após a vigência da Lei 9.626, os pla-
nos têm reajuste anual aprovado pela Agência Nacional de
Saúde Suplementar. Esta determina um índice máximo de rea-
juste desses planos, logo, se houver aumento, não poderá ser
superior ao índice divulgado.
Em relação ao reajuste por faixa etária, o Estatuto do Ido-
so (2004) prevê que não poderá haver um aumento das mensa-
lidades em razão da idade após serem atingidos 60 anos de
idade. Ademais, a ANS determina que o valor fixado para a
última faixa etária (59 anos ou mais) não pode ser superior a
seis vezes o valor da primeira faixa (0 a 18 anos). Contudo, isso
apenas se aplica aos contratos firmados após a entrada em
vigor do Estatuto, ou seja, dia 1 de janeiro de 2004.
Nos contratos concluídos entre 2 de janeiro de 1999, en-
trada em vigor da Lei dos Planos de Saúde, e 1 de janeiro de
2004, somente os consumidores com 60 anos ou mais que pos-

21
NORONHA, Fernando. O direito dos contratos e seus princípios fun-
damentais: autonomia privada, boa-fé, justiça contratual. São Paulo:
Saraiva, 1994, p. 82.
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A concretização do direito dos idosos à saude no Brasil...

suem o plano há dez anos ou mais não sofreram alteração na


mensalidade por mudança de faixa etária. E nos contratos fir-
mados antes de 2 de janeiro de 1999, o aumento deverá seguir
a estipulação contratual.

ACESSO DE IDOSOS
A liberdade de escolha de planos fica restrita em razão da
idade e, se portadores de doenças crônicas preexistentes, jus-
tifica-se a ausência de cobertura por abrangência por carência.
O Código de Defesa do Consumidor justifica a limitação de rea-
justes para idosos, baseado nas maiores dificuldades na troca
de planos ou a recusa da operadora de contratar planos novos
com idosos. No entanto, segundo a ANS, a aquisição e o aces-
so aos serviços dos planos de saúde não podem ser dificulta-
dos ou impedidos em razão da idade ou condição de saúde do
consumidor22. Essa restrição ao acesso dos idosos vai de en-
contra ao Estatuto do Idoso, ao Código de Defesa do Consumi-
dor, a Lei dos Planos de Saúde e a Súmula Normativa n° 19, de
28 de julho de 2011, da ANS, podendo a operadora ser multada
em cinquenta mil reais, por cada infração verificada.

RESPONSABILIDADE PELOS SERVIÇOS PRESTADOS PELOS


PROFISSIONAIS CREDENCIADOS
O Recurso Especial 866.371-RS julgado em 27 de março
de 2012 pelo Superior Tribunal de Justiça23, reiterou o entendi-
mento de que a operadora de plano de saúde é solidariamente
responsável pela sua rede de serviços médico-hospitalar cre-

22
OPERADORAS de planos de saúde não podem impedir ou dificultar
acesso de idosos. Agência Nacional de Saúde Suplementar, Rio de Ja-
neiro. Disponível em: <http://www.ans.gov.br//index.php/aans/central-
de-atendimento/index.php/1396-operadoras-de-planos-de-saude-nao-
podem-impedir-ou-dificultar-acesso-de-idosos>. Acesso em: 08 abr.
2013.
23
BRASIL. Superior Tribunal de Justiça. Recurso Especial nº 866.371/RS, da
2ª Turma do Supremo Tribunal de Justiça, Brasília, DF, 27 de março de
2012. Diário da Justiça Eletrônico: 04 jun. 2012.

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denciada; e, logo, possui legitimidade passiva para figurar na


ação indenizatória movida por segurado. Assim, ao selecionar
médicos para prestar assistência em seu nome, o plano de sa-
úde se compromete com o serviço, assumindo a obrigação e,
por isso, possui responsabilidade objetiva, podendo em ação
regressiva averiguar a culpa do médico ou do hospital.

ENCERRAMENTO DO CONTRATO
Existem certas hipóteses em que poderá ocorrer a resci-
são ou suspensão do contrato, quais sejam, por fraude com-
provada por parte do consumidor ou por não pagamento da
mensalidade por mais de sessenta dias, consecutivos ou não,
durante os últimos doze meses de vigência do contrato, desde
que o consumidor tenha sido comprovadamente notificado até
o 50º dia do atraso. Contudo, segundo o Recurso Especial
958.900-SP, julgado em 17 de novembro de 201124, comprovado
o atraso superior a 60 dias e feita a notificação do consumidor,
é permitida a rescisão unilateral do contrato de plano de saúde
nos termos do art. 13, parágrafo único, II, da Lei n. 9.656/1998.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Na tentativa de concretizar o direito humano à saúde, o
Estado brasileiro acaba impondo uma complexa série de regu-
lações em relação aos planos de saúde privados, muitas vezes
almejando consertar mazelas que não existem em ambientes
de livre-mercado.
De todo o exposto, conclui-se que os planos de saúde na
federação brasileira vivem um momento regulatório e prestati-
vo, no sentido de alcance à demanda qualitativa, o que é so-
bretudo influenciado pelo cenário econômico positivo dos últi-
mos anos. Com a atual crise mundial, questiona-se se a saúde
deveria ser considerada como um direito, ou como um bem.
24
BRASIL. Superior Tribunal de Justiça. Recurso Especial nº 957.900/SP, da
4ª Turma do Supremo Tribunal de Justiça, Brasília, DF, 17 de novembro
de 2011. Diário da Justiça Eletrônico: 25 nov. 2012.
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A concretização do direito dos idosos à saude no Brasil...

Independente da discussão, no Brasil tem-se uma crescente


tendência de responsabilização do Estado pelas escolhas dos
indivíduos, o que é resultado direto de políticas reguladoras
mascaradas em todos os pequenos detalhes da prestação do
serviço.
Se aceitarmos que vivemos em um Estado de Direito, em
que as pessoas são livres para estabelecer e forçar o adimple-
mento de obrigações voluntariamente contraídas, é imperioso
que – em razão da natureza humana – tenha-se uma diferente
consideração quanto ao aspecto civil de capacidade fática das
pessoas idosas, que possuem vulnerabilidades biológicas para
exercer suas liberdades negociais, daí a justificativa político-
filosófica do conceito de hipervulnerabilidade apresentado, a
qual aparece estar mais relacionada com uma capacidade civil
humana, do que com um “direito especial”.
Trata-se de uma defesa da liberdade, já que não se pode
considerar os idosos como minoria, uma vez que todos os cida-
dãos eventualmente chegarão à terceira idade. O presente arti-
go buscou demonstrar a visão regulatória e prática do assunto,
a qual deve ser indubitavelmente considerada na avaliação que
o Brasil deve fazer, de suas obrigações internacionais.

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Nacional de Saúde Suplementar. Brasília: 2005. Disponível em: <
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Programa de Pós-graduação em Direito


Curso de Mestrado em Direitos Humanos
ADOLESCENTES EM CONFLITO COM A LEI :
RELATOS DE UMA PESQUISA

Anna Paula Bagetti Zeifert


Mestre em Desenvolvimento, Gestão e Cidadania pela Universidade Re-
gional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul. Professora do Depar-
tamento de Ciências Jurídicas e Sociais. UNIJUÍ.
(annazeifert@yahoo.com.br)
Camila Eichelberg Madruga
Bolsista PIBIC/Unijuí. Acadêmica do Curso de Serviço Social da Universida-
de Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul.
(Camila.madruga@hotmail.com)
Tatiele Camargo
Bacharel em Serviço Social pela Universidade Regional do Noroeste do Es-
tado do Rio Grande do Sul. (tathydsc@hotmail.com)

Resumo
O presente artigo apresenta um relato das atividades desenvolvidas a partir do pro-
jeto de pesquisa “As políticas sociais de atendimento ao adolescente autor de ato
infracional e as condições de execução das medidas socioeducativas, em meio aber-
to, no município de Ijuí/RS”, bem como, os dados coletados no período de 2011 a
Março de 2013. Com o intutito de oferecer uma melhor compreensão acerca dessa
temática, faz-se, inicialmente, um estudo sobre o Estatuto da Criança e do Adoles-
cente e as medidas socioeducativas em meio aberto – prestação de serviço à comu-
nidade (PSC) e liberdade assistida (LA) – disciplinadas na referida legislação. Será
objeto de analise, ainda, a pesquisa de campo realizada no Centro de Referência
Especializado em Assistência Social, local responsável pela aplicação das medidas
socioeducativas no município de Ijuí/RS, através do Serviço de Atendimento a Medi-
das Socioeducativas. A metodologia proposta está alicerçada na articulação entre a
abordagem quantitativa e qualitativa, construídas a partir da aplicação de questioná-
rios e, também, da coleta de informações em banco de dados.
Palavras-chave: Adolescente. Ato Infracional. Medida Socioeducativa. Políticas
Sociais.

Abstract
This paper presents an account of the activities developed from the research project
“Social policies attendance adolescent author of offense and the conditions of im-
plementation of educational measures, in an open environment, in the municipality
of Ijuí / RS”, as well as the data collected from 2011 to March 2013. With intutito to
offer a better understanding of this issue, it is an initial study on the Status of Chil-
dren and Adolescents and educational measures in an open environment – providing
service to the community (PSC) and probation (LA) – governed by that legislation. It
will be the object of analysis, yet, the field research conducted at the Reference
174
Anna Paula Bagetti Zeifert; Camila Eichelberg Madruga & Tatiele Camargo

Center Specializing in Social Welfare, responsible for the local implementation of


educational measures in the municipality of Ijuí / RS through the Service Measures
Socioeducational. The proposed methodology is based on the relationship between
the quantitative and qualitative approach, built from the questionnaires and also the
collection of information in the database.
Keywords: Adolescents. Offense. Socio measure. Social Policies.

INTRODUÇÃO
Objetivando identificar, compreender e analisar as condi-
ções concretas de execução das medidas socioeducativas em
meio aberto, notadamente as de prestação de serviço à comu-
nidade e de liberdade assistida, bem como, os programas de
atendimento aos jovens infratores, este artigo volta-se para a
apresentação dos dados coletados no período de 2011 a Março
de 2013 no município de Ijuí/RS.
Nesse sentido, o estudo busca compreender as transfor-
mações em curso na sociedade contemporânea e as políticas
públicas como lócus privilegiado de ação do Estado e da soci-
edade civil, com atenção especial para as políticas de atendi-
mentos na área da infância e da juventude.
A temática em análise ganha destaque quando se obser-
va um amplo debate sobre as formas de violência presentes na
sociedade. Tais discussões colaboram para uma tentativa de
compreensão da violência como um ato de excesso, que se ve-
rifica no exercício do poder presente nas relações sociais de
produção social.
Sabe-se que a maioria dos conflitos existentes não neces-
sitaria chegar à alçada jurídica, ou mesmo estando neste espa-
ço, poderiam ser tratados com estratégia de informalização em
que as intervenções podem ser através da mediação, concilia-
ção, entre alternativas de resolução de conflitos, criando as
condições de diálogo entre os sujeitos, de forma a expressarem
seus interesses, procurando entendimento para chegar a uma
decisão equitativamente.
No entanto o que se verifica é que na atualidade para di-
minuir e até mesmo coibir a violência muitas ações partem da
ordem jurídico-estatal, outras das iniciativas das políticas pú-

I Seminário Internacional de Direitos Humanos e Democracia


Os Direitos Humanos e a sua Proteção
25 e 26 de abril de 2013
175
Adolescentes em conflito com a lei

blicas do Estado e por fim de organizações da sociedade civil.


No entanto, persistem dúvidas sobre a legitimidade, a efetivi-
dade, os critérios aplicáveis, a natureza alternativa das san-
ções e da justiça informal diante dos papéis do Estado e das
relações Estado e sociedade.
A violência, no Brasil, ainda é tratada sob a ótica puniti-
va. E no que se refere à adolescência, tal situação agrava-se
ainda mais. Os adolescentes que praticam atos infracionais, de
forma geral, são estigmatizados, vistos como delinquentes,
trombadinhas e menores infratores. Representam uma parcela
da sociedade exposta às violações de direito tanto pela família,
como pelo Estado e pela sociedade. A criança e o adolescente
são concebidos como pessoas em peculiar situação de desen-
volvimento, sujeitos de direitos e destinatários da proteção
integral.
Essa condição peculiar do adolescente, de ser pessoa em
desenvolvimento, coloca aos agentes envolvidos na operacio-
nalização das medidas de proteção e socioeducativas na mis-
são de proteger, no sentido de garantir o conjunto de direitos e
educar oportunizando a inserção do adolescente na vida social.
É responsabilidade do Estado, da sociedade e da família ga-
rantir o desenvolvimento integral da criança e do adolescente.
Estas medidas constituem-se em condição especial de acesso
aos direitos sociais, políticos e civis e assim devem estar arti-
culadas em rede, assegurando a atenção integral aos direitos
e, ao mesmo tempo, o cumprimento de seu papel específico.
O trabalho educativo deve visar à educação para o exer-
cício da cidadania, trabalhando os eventos da transgressão às
normas legais contribuindo para a sua inclusão social. Sabe-se
que as medidas socioeducativas têm se mostrado eficazes
quando adequadamente aplicadas e supervisionadas.
Nesse sentido, tendo em vista a pouca produção sobre as
políticas de medidas socioeducativas em meio aberto e a mu-
nicipalização do atendimento, por ser este um processo ainda
recente, é relevante que sejam desenvolvidos estudos sobre
essa temática a fim de colaborar para a qualificação da rede de
atendimento das políticas sociais da infância e juventude. Ou

Programa de Pós-graduação em Direito


Curso de Mestrado em Direitos Humanos
176
Anna Paula Bagetti Zeifert; Camila Eichelberg Madruga & Tatiele Camargo

seja, analisar se as medidas de proteção e as práticas socioe-


ducativas emancipam, garantem direitos e preservam a cida-
dania dos envolvidos, informações trazidas pelo presente tra-
balho.

O ESTATUTO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE E AS MEDIDAS


SOCIOEDUCATIVAS EM MEIO ABERTO
O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), de 1990,
trouxe importantes avanços em relação ao atendimento à po-
pulação infanto-juvenil. Dentre estes avanços, destaca-se “a
mudança do enfoque doutrinário da ‘situação irregular’ para o
da ‘proteção integral’ à criança e ao adolescente”1, trazendo a
perspectiva da criança e do adolescente como pessoas em de-
senvolvimento e sujeitos de direitos, sendo sua efetivação um
dever da família, da sociedade e do poder público.
Em seu texto estão previstos, além dos direitos funda-
mentais, a colocação em família substituta, a adoção nacional
e internacional, a rede de proteção, as medidas protetivas, a
prática do ato infracional, dentre outros, e os procedimentos
legais que regem estes processos.
Conforme o Art. 103 do Estatuto da Criança e do Adoles-
cente, “considera-se ato infracional a conduta descrita como
crime ou contravenção penal”2 praticado por sujeito com idade
inferior a dezoito (18) anos. De acordo com o Art. 1123, com a
constatação da prática do ato infracional poderão ser aplicadas
ao adolescente as medidas socioeducativas, entre elas: adver-
tência, obrigação de reparar o dano, prestação de serviço à
comunidade, liberdade assistida, inserção em regime de semi-
liberdade e internação.

1
VOLPI, Mário (Org.). O adolescente e o ato infracional. 6 ed. São Paulo:
Cortez, 2006, p. 48.
2
BRASIL. Lei N° 8.069 de 13 de julho de 1990. Dispõe sobre o Estatuto da
Criança e do Adolescente e dá outras providências. Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L8069.htm>. Acesso em: 20
Mar. 2013. p. 27.
3
Id. 2013, p.28.
I Seminário Internacional de Direitos Humanos e Democracia
Os Direitos Humanos e a sua Proteção
25 e 26 de abril de 2013
177
Adolescentes em conflito com a lei

Ressalta-se que, para a determinação das medidas socio-


educativas devem ser consideradas a gravidade da infração e
a capacidade do adolescente para realizar seu cumprimento.
Dar-se-á ênfase as medidas socioeducativas em meio aberto: a
prestação de serviços à comunidade (PSC) e a liberdade assis-
tida (LA).
Compreende-se que o objetivo principal das medidas so-
cioeducativas em meio aberto, além da responsabilização, é a
manutenção do adolescente em seu meio, uma vez que a rein-
serção social do adolescente ocorre a partir da convivência fa-
miliar e comunitária e do acesso à educação e à profissionali-
zação.
Dessa forma, a medida socioeducativa de internação
(meio fechado) assume uma característica temporária e excep-
cional, aplicada em decorrência da gravidade do ato infracio-
nal. A lei reitera ainda que, havendo outra medida adequada,
não será aplicada a internação.
Conforme o Art. 117 do Estatuto da Criança e do Adoles-
cente, a medida socioeducativa de prestação de serviços à co-
munidade consiste na realização de atividades de interesse
geral, de maneira gratuita, por um período de até seis (06) me-
ses. A lei prevê ainda que o desenvolvimento dessas ativida-
des deve considerar as aptidões do adolescente, além de não
prejudicar a frequência escolar do mesmo, fixando um limite
máximo de oito (08) horas semanais.
Em relação à liberdade assistida, o adolescente terá o
acompanhamento de um orientador pelo período mínimo de
seis (06) meses. De acordo com o ECA, compete ao orientador
de LA: orientar o adolescente e sua família, supervisionar a
frequência e aproveitamento escolar do adolescente, apoiar e
contribuir para a profissionalização e inserção no mercado de
trabalho e apresentar relatórios deste acompanhamento.
Considera-se que a aplicação de medida socioeducativa
em meio aberto “tem maior potencial para “ressocializar” a
criança e/ou adolescente autor de ato infracional”4, uma vez

4
CAMARGO, Tatiele. As políticas sociais de atendimento ao adolescen-
te autor de ato infracional e as condições de execução das medidas

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Curso de Mestrado em Direitos Humanos
178
Anna Paula Bagetti Zeifert; Camila Eichelberg Madruga & Tatiele Camargo

que além da responsabilização, estas medidas possuem aspec-


tos educativos. O viés educativo deve ter prevalência, propor-
cionando as condições necessárias para que o adolescente te-
nha acesso aos seus direitos tais como saúde, educação e pro-
fissionalização.

PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS: INSTRUMENTOS DE PESQUISA


A metodologia proposta está alicerçada na articulação
entre a abordagem quantitativa e qualitativa. Quantitativa, ao
trabalhar com dados primários e secundários obtidos a partir
da pesquisa de amostragem que se pretende realizar, de in-
formações coletadas na secretaria municipal responsável pelas
políticas públicas da infância e juventude. Qualitativa, ao ma-
nusear documentos e referenciais bibliográficos já produzidos
a respeito da temática, procurando entender o contexto, com-
preender as diversas abordagens e construir um referencial
para a análise dos dados e fenômenos constatados.
Utiliza-se como método de abordagem o dialético crítico,
que permite captar a materialidade e a historicidade dos fe-
nômenos na constante tensão entre continuidade e mudança, o
conflito de interesses entre os atores, a contradição interna e
externa. Essa compreensão é essencial no momento em que se
busca conhecer quais são as práticas socioeducativas demo-
cráticas desenvolvidas pela rede de atendimento das políticas
públicas da infância e juventude do município de Ijuí, RS, vi-
sando identificar suas possibilidades e limites enquanto me-
canismos de garantia de direitos e preservação da condição de
cidadania destes sujeitos.
A pesquisa tem como local de estudo o Centro de Refe-
rência Especializado de Assistência Social – CREAS – da cida-
de de Ijuí, unidade pública e estatal, que oferta serviços espe-
cializados e continuados a famílias e indivíduos em situação de
ameaça ou violação de direitos (violência física, psicológica,

socioeducativas, em meio aberto, em Ijuí, RS. 2012, 89 p. Trabalho de


Conclusão de Curso. Curso de Graduação em Serviço Social. Universida-
de Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul, Ijuí, 2012.
I Seminário Internacional de Direitos Humanos e Democracia
Os Direitos Humanos e a sua Proteção
25 e 26 de abril de 2013
179
Adolescentes em conflito com a lei

sexual, tráfico de pessoas, cumprimento de medidas socioedu-


cativas em meio aberto, etc.). Essa atenção especializada tem
como foco o acesso da família a direitos socioassistenciais, por
meio da potencialização de recursos e capacidade de proteção.
Os sujeitos do estudo são adolescentes em conflito com a
lei submetidos a medidas socioeducativas em meio aberto –
prestação de serviços à comunidade (PSC) e a liberdade assis-
tida (LA) – no período de 2011 a Março de 2013.
O instrumento de coleta dos dados é composto por um
questionário quali-quantitativo com perguntas fechadas que
possibilitam respostas objetivas, e abertas, com uma aborda-
gem mais ampla dos resultados, direcionado aos adolescentes
infratores atendidos pela rede e preenchidos pelos pesquisa-
dores de acordo com as respostas dos entrevistados. Salienta-
se, ainda que a coleta de dados só teve inicio após a aprovação
do projeto pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade
Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul, seguin-
do o que preconiza a Resolução 196/1996 do Conselho Nacional
de Saúde5, quando a pesquisa é desenvolvida com seres hu-
manos.

A PESQUISA DE CAMPO: APRESENTAÇÃO DOS DADOS


Tendo em vista colocar em prática os objetivos do projeto
de pesquisa, o qual é base desse artigo, iniciou-se a pesquisa
documental e de campo no primeiro semestre de 2012. O lócus
de realização do referido estudo vem sendo o SAMSE – Serviço
de Atendimento às Medidas Socioeducativas, responsável pela
coordenação, atendimento e execução das medidas socioedu-
cativas em meio aberto no município de Ijuí/RS, estando este
serviço localizado junto ao CREAS – Centro de Referência Es-
pecializado de Assistência Social. A seguir, são apresentadas

5
BRASIL. Ministério da Saúde. Conselho Nacional de Saúde. Resolução n.
196 de 10 de outubro de 1996.Diretrizes e normas regulamentadoras
sobre pesquisa envolvendo seres humanos. Brasília: Conselho Nacional
de Saúde, 1996. Disponível em: <http://conselho.saude.gov.br/comissao
/conep/resolucao.html>. Acesso em: 20 Mar. 2013.

Programa de Pós-graduação em Direito


Curso de Mestrado em Direitos Humanos
180
Anna Paula Bagetti Zeifert; Camila Eichelberg Madruga & Tatiele Camargo

as principais informações coletadas até o momento, as quais


compreendem o período de 2011 a Março de 2013.
Em relação ao número e gênero dos adolescentes em con-
flito com a lei, foram atendidos aproximadamente 57 adoles-
centes, sendo 36 no período de 2011 ao primeiro semestre de
2012. Ao longo do segundo semestre de 2012 e início de 2013,
mais 21 adolescentes foram encaminhados para cumprimento
de medida socioeducativa. Do total, a maioria (48 adolescen-
tes) pertence ao gênero masculino. No que diz respeito à faixa
etária dos adolescentes, a maioria possui entre 16 e 18 anos
em ambos os gêneros. O gráfico 1 apresenta as informações
coletadas em relação ao número e ao gênero dos adolescentes
em conflito com a lei de acordo com os períodos de coleta de
dados.

GRÁFICO 1: COMPARATIVO EM RELAÇÃO AO GÊNERO DOS


ADOLESCENTES

28

20 Ano de 2011 à Junho


de 2012
Agosto de 2012 à
8 Março de 2013

Meninos Meninas

Na variável escolaridade, em ambos os períodos de coleta


de dados (2011/1º-2012 e 2°-2012/março-2013), nota-se que a
grande parte dos adolescentes frequenta o ensino fundamen-
tal. Nesse sentido, destaca-se os diversos casos de evasão es-

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Os Direitos Humanos e a sua Proteção
25 e 26 de abril de 2013
181
Adolescentes em conflito com a lei

colar e de repetência, o que leva alguns adolescentes a opta-


rem pelo EJA – Educação de Jovens e Adultos.
Em relação à situação de drogadição, há uma visível mu-
dança entre os períodos de coleta de dados. Entre o ano de
2011 e o primeiro semestre de 2012, a maioria dos adolescen-
tes declarou fazer uso de algum tipo de substância química
ou etílica, enquanto no segundo semestre de 2012 e início de
2013, a grande parte dos adolescentes se declararam não
usuários.
No que diz respeito à espécie de infração praticada, os
danos ao patrimônio (no qual se enquadram os furtos, destrui-
ções e estragos de bens) foi a principal infração praticada pe-
los adolescentes no período de 2011/1º-2012, enquanto infra-
ções de trânsito (geralmente, a condução de veículo sem pos-
suir a habilitação, havendo ainda casos de acidentes de trânsi-
to), foram os principais atos infracionais praticados no período
de 2°-2012/março-2013.
A medida socioeducativa mais aplicada em ambos os pe-
ríodos é a prestação de serviços à comunidade (PSC), seguida
pela liberdade assistida (LA). Destaca-se também que há ado-
lescentes que recebem ambas as medidas (PSC e LA), o que
reforça a perspectiva do Estatuto da Criança e do Adolescente
de proporcionar a inserção social dos adolescentes em conflito
com a lei.
Outra informação importante diz respeito ao cumprimento
das medidas socioeducativas. No período de 2011/1º-2012, a
maioria dos adolescentes não cumpria a medida, enquanto no
período de 2°-2012/março-2013, 17 dos 21 adolescentes que
iniciaram a medida socioeducativa concluíram ou estão cum-
prindo a medida. Ressalta-se que estes números são aproxi-
mados, uma vez que há adolescentes que cumprem parcial-
mente a carga horária determinada ou deixam de cumprir por
algum período, concluindo-a posteriormente. Abaixo, o gráfico
2 ilustra os dados coletados em relação ao cumprimento das
medidas socioeducativas.

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182
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GRÁFICO 2: CUMPRIMENTO DAS MEDIDAS SOCIOEDUCATIVAS EM


MEIO ABERTO

Em relação aos dados coletados na pesquisa de campo


qualitativa, foi realizada a aplicação de nove (09) formulários
com adolescentes atendidos pelo SAMSE, mediante o conhe-
cimento e assinatura do TCLE – Termo de Consentimento Livre
e Esclarecido. Os questionamentos buscam conhecer a com-
preensão dos adolescentes sobre a finalidade das medidas so-
cioeducativas (MSE) e como analisam a aplicação destas me-
didas no município de Ijuí/RS.
Com base nos formulários, pode-se afirmar que, entre os
adolescentes entrevistados, há a compreensão de que a medi-
da socioeducativa é uma consequência de seus atos e objetiva
evitar que este venha a cometer novas infrações. Ressalta-se,
ainda, que alguns adolescentes demonstram desconhecer os
objetivos da medida socioeducativa.
Em relação à aplicação das medidas socioeducativas, a
análise dos adolescentes é geralmente relacionada às ativida-
des (“trabalho”) realizadas durante o cumprimento da medida
(PSC). Nesse sentido, alguns adolescentes utilizam a expres-
são “trabalho leve” ou “pesado” referindo-se ao tipo de traba-
lho, o que pode estar relacionado ao fato de diversos adoles-
centes terem desempenhado ou ainda desempenharem ativi-
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Os Direitos Humanos e a sua Proteção
25 e 26 de abril de 2013
183
Adolescentes em conflito com a lei

dades laborativas, estando inseridos no mercado de trabalho


através de atividades como servente de obras e ajudante.
Apenas um adolescente se referiu ao envolvimento de várias
instituições (rede) no atendimento ao adolescente e às medi-
das socioeducativas, durante a entrevista.
Outro importante dado coletado através da pesquisa de
campo é sobre os locais de cumprimento da medida socioedu-
cativa de prestação de serviços à comunidade (PSC). Na gran-
de maioria, os locais que acolhem os adolescentes são espaços
públicos, como secretarias e coordenadorias municipais, Corpo
de Bombeiros e escolas estaduais. No que diz respeito à liber-
dade assistida (LA), constata-se que há um número reduzido
de orientadores.
Assim, ao decorrer desta pesquisa fica a certeza de que
para além das inovações e dos avanços no sentido da proteção
e da garantia de direitos (principalmente quanto à garantia
dos direitos fundamentais), afirmados pela Constituição Fede-
ral de 1988 e pelo Estatuto da Criança e do Adolescente, per-
siste ainda uma estigmatização por grande parte da sociedade
em relação ao adolescente em conflito com a lei, bem como,
prossegue a retrógrada compreensão de que as medidas socio-
educativas deveriam ter viés punitivo; o que contribui no posici-
onamento de muitos a favor da redução da maioridade penal.
Tais fatos, muitas vezes, dificultam a materialização do
cumprimento da medida socioeducativa, o acompanhamento
dos adolescentes autores de atos infracionais pela equipe téc-
nica municipalizada, a concretização das políticas sociais de
atendimento, etc., ou seja, há muito ainda para ser feito, prin-
cipalmente no que diz respeito à concretização dos direitos e
deveres estabelecidos nessas legislações.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Tendo como principal objetivo evidenciar as políticas so-
ciais de atendimento desenvolvidas aos adolescentes autores
de atos infracionais e as condições de execução das medidas
socioeducativas, em meio aberto, no município de Ijuí/RS, a ida

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184
Anna Paula Bagetti Zeifert; Camila Eichelberg Madruga & Tatiele Camargo

a campo, possibilitou o diagnóstico dos seguintes problemas:


a) os sujeitos de direitos, em peculiar situação de desenvolvi-
mento, não têm seus direitos assegurados e/ou tem seus direi-
tos violados quando a instituição responsável pela aplicação
das medidas, que também deveria lhe acompanhar, e ser o
meio para a inserção desses jovens em políticas publicas e so-
ciais objetivando a prevenção e a não reincidência, acaba não
o fazendo, por falta de espaço físico e equipe técnica limitada.
B) contatou-se o fato de que a maioria dos adolescentes, no
município de Ijuí/RS, acaba não cumprindo a medida socioe-
ducativa aplicada.
Assim sendo, percebe-se que a garantia dos direito fun-
damentais – à vida, à liberdade, à igualdade, à educação, ao
lazer, à cultura, ao respeito, à profissionalização, à dignidade,
ao respeito, à atenção integral e a convivência familiar e co-
munitária, estabelecidos em lei, bem como, a materialização do
cumprimento da medida socioeducativa, do acompanhamento
dos adolescentes autores de atos infracionais pela equipe téc-
nica, das políticas sociais de atendimento à esses adolescen-
tes e a melhora nas condições de execução das medidas socio-
educativas, continuam sendo um desfio aos profissionais.
Com a pesquisa, desenvolvida junto ao Centro de Refe-
rência Especializado em Assistência Social (CREAS) de Ijuí/RS
foi possível conhecer mais aprofundadamente a realidade local
dos adolescentes em conflito com a lei, as principais práticas
infracionais cometidas por estes e as condições de execução
das medidas socioeducativas nesse município.
Assim, a título de considerações, fica a certeza de que pa-
ra além das inovações trazidas pela Constituição Federal de
1988 e pelo Estatuto da Criança e do Adolescente, faz-se ne-
cessário a qualificação da rede de atendimento aos adolescen-
tes infratores e do local de cumprimento das medidas, com
vistas a contemplar um dos objetivos principais da aplicação
das medidas socioeducativas em meio aberto que é a reinser-
ção social do adolescente a partir da convivência familiar e
comunitária, possibilitando o acesso à educação e à profissio-
nalização, para um pelo exercício da cidadania.
I Seminário Internacional de Direitos Humanos e Democracia
Os Direitos Humanos e a sua Proteção
25 e 26 de abril de 2013
185
Adolescentes em conflito com a lei

REFERÊNCIAS
BRASIL. Lei N° 8.069 de 13 de julho de 1990. Dispõe sobre o Estatu-
to da Criança e do Adolescente e dá outras providências. Disponí-
vel em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L8069.htm>.
Acesso em: 20 Mar. 2013.
______. Ministério da Saúde. Conselho Nacional de Saúde. Resolução
n. 196 de 10 de outubro de 1996.Diretrizes e normas regulamenta-
doras sobre pesquisa envolvendo seres humanos. Brasília: Conselho
Nacional de Saúde, 1996. Disponível em: <http://conselho.saude.
gov.br/comissao/conep/resolucao.html>. Acesso em: 20 Mar. 2013.
CAMARGO, Tatiele. As políticas sociais de atendimento ao adoles-
cente autor de ato infracional e as condições de execução das me-
didas socioeducativas, em meio aberto, em Ijuí, RS. 2012. 89 p.
Trabalho de Conclusão de Curso. Curso de Graduação em Serviço
Social. Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande
do Sul, Ijuí, 2012.
SILVA, Enio. Sociologia da Violência. Ijuí: Unijuí, 2010.
VOLPI, Mário (Org.). O adolescente e o ato infracional. 6 ed. São
Paulo: Cortez, 2006.

Programa de Pós-graduação em Direito


Curso de Mestrado em Direitos Humanos
DIGNIDADE HUMANA DA CRIANÇA
NASCIDA A PARTIR DO
ÚTERO DE SUBSTITUIÇÃO 1

Astrid Heringer
Mestre em Integração Latino-americana (UFSM). Pesquisadora do grupo
de Pesquisa Cidadania e Novas Formas de Solução de Conflitos, do curso
de Direto da Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Mis-
sões, campus de Santiago, RS. Lattes: http://lattes.cnpq.br/368151950
7518562. (astrid.heringer@gmail.com.)
Adriane Damian Pereira
Mestre em Direito (UNISC). Professora do curso de Direito da Universida-
de Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões, campus de Santiago,
RS. Lattes: http://lattes.cnpq.br/8665180185269267.
(adriane@urisantiago.br)

Resumo
O artigo tem por finalidade conhecer a figura do útero de substituição, verificando a
sua possibilidade jurídica no Brasil e em alguns outros países, notadamente daqueles
que mais registram a prática, tais como Estados Unidos e Índia. O interesse na abor-
dagem aprofunda-se pelo fato de que a criança que nasce através deste processo
inicia a vida com um intrincado ramo de parentesco, que pode decorrer de raízes
biológicas ou não, bem como poderá ser de nacionalidade diversa, uma vez que é
cada vez mais frequente a busca de tal procedimento em outros países. Diante de
toda essa gama de relações complexas, questiona-se sobre a real proteção da digni-
dade humana da criança nascida em tais circunstâncias. Em que pese a escassa bibli-
ografia, o texto foi realizado a partir de fontes atuais e renomadas.
Palavras-chave: bioética, dignidade humana, direito internacional, mãe de substitui-
ção.

Abstract
This article aims to know the figure of the replacement uterus and the multiple rela-
tionships that are present in this type of assisted human reproduction. The interest
in the approach gets deeper by the fact that the child born through this process
begins life with an intricate branch of kinship, which may be due to biological roots
or not, and he/she may be of different nationality, since the search for such proce-
dure is increasingly common in other countries. Faced with this whole range of com-
plex relations, it is asked about the real protection of human dignity of the child born
in such circumstances. Despite the scarce biography, the text was conducted from
current and reputable sources.

1
Artigo científico resultante do Projeto de Iniciação Científica Mães de
substituição no Direito Internacional, coordenado pelas autoras, na Uni-
versidade Regional Integrada, campus de Santiago, RS.
188
Astrid Heringer & Adriane Damian Pereira

INTRODUÇÃO
O útero de substituição, ou mãe de substituição, vem
sendo difundida ao longo dos tempos, acompanhando o avan-
ço da medicina e das novas técnicas de reprodução assistida,
pois é lançada como a saída para aqueles pais que não têm
condições biológicas para gerar um filho apenas com o mero
processo de reprodução natural.
O tema da mãe substituta é permeado de contornos que
merecem, cada um por si só, larga observação jurídica. Em que
pese o ato de uma criança ser gerada no ventre de outra mãe,
e de que o próprio nascimento, em si mesmo, representar um
momento esplêndido de vida, há rechaços éticos, jurídicos e
também religiosos.
No que tange ao aspecto psicológico, não há como negar
a dificuldade de explicação dos pais, bem como de compreen-
são, para os filhos que nascem a partir de um útero que não
seja da sua verdadeira mãe2. Do ponto de vista social, restam
dúvidas sobre a aceitação de uma criança que, a princípio, po-
de ter duas mães (aquela que tem a intenção de ter um filho
com o seu marido ou companheiro, e aquela que efetivamente
carrega a criança durante o período de gestação).
Será de todo muito complexo para uma criança adminis-
trar psicologicamente esta intrincada rede de relações que a
cerca. Se para os pais o útero de substituição pode ser a solu-
ção para a impossibilidade biológica da reprodução, o mesmo
não se pode dizer em relação ao filho gerado que, no futuro,
poderá apresentar dificuldades de entender e conviver com
esta situação. Infelizmente, os futuros pais e mães não medem
esforços para atingir a finalidade almejada: ter um filho seu. No
entanto, não se questiona as consequências deste processo,
em chegando ao conhecimento da criança, adolescente ou
adulto, gerará na sua formação e em possíveis abalos psicoló-
gicos que ferem a dignidade humana.

2
Caberá análise sobre o que se entende por mãe, uma vez que a mãe
biológica pode ser a doadora do óvulo, ou então aquela que empresta o
útero para a fertilização.
I Seminário Internacional de Direitos Humanos e Democracia
Os Direitos Humanos e a sua Proteção
25 e 26 de abril de 2013
189
Dignidade humana da criança nascida a partir do útero de substituição

QUEM SÃO AS MÃES?


A questão da mãe de substituição tem trazido inúmeras
indagações quanto a quem é a mãe, quais são os seus direitos,
se existentes, e também quanto aos direitos do nascituro.
Afinal, quem é a mãe? Desde os tempos bíblicos o tema já
suscitava discussões. Em Gênesis 16, Sara, mulher de Abrão,
não tendo condições de procriar, pede a Abrão que lhe propor-
cione a maternidade por meio de sua escrava Agar. Em Gêne-
sis 30, Raquel, esposa de Jacó, suplica a este que, por inter-
médio de sua serva Bala, realize seu desejo de maternidade3.
A princípio, entre nós, mãe é aquela que dá a luz, confor-
me preconiza o aforisma latino “mater semper certa est”4, do
qual deriva que a filiação é sempre determinada pelo parto.
Este conceito, no entanto, tem se transformado, em virtude das
modernas técnicas de engenharia genética, que embala os do-
ces sonhos de futuros “pais” e “mães” constituírem uma ver-
dadeira família.
O empréstimo do útero ocorre em situações bem determi-
nadas: quando há uma má formação do útero da pretensa mãe
ou esta não possui útero, ou ainda quando a gravidez implica
em risco de vida para a mulher5. Nestas situações, para levar a
cabo o desejo de ter um filho, a mulher poderá recorrer ao
chamado útero de substituição.
O procedimento para a realização da técnica de fertiliza-
ção é bastante simplificado, consistindo na implantação de
embriões, resultantes da fecundação entre a união do óvulo
com o espermatozóide, no útero emprestado6. Embora, a prin-
cípio, a técnica seja bastante simples, as suas consequências
3
OTERO, Marcelo Truzzi. Contratação da barriga de aluguel gratuita e
onerosa – legalidade, efeitos e o melhor interesse da criança. In: Revista
Brasileira de Direito das Famílias e Sucessões. Porto Alegre: Magister; Be-
lo Horizonte: IBDFAM, 2007. p. 21.
4
A mãe é sempre certa.
5
MACHADO, Maria Helena. Reprodução humana assistida: controvérsias
éticas e jurídicas. Curitiba: Juruá, 2006.
6
GONÇALVES, Fernando David de Melo. Novos métodos de reprodução
assistida e conseqüências jurídicas. Curitiba: Juruá, 2011. p. 24.

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Curso de Mestrado em Direitos Humanos
190
Astrid Heringer & Adriane Damian Pereira

são devastadoras, pois não são raras as vezes em que a mulher


que se submeteu ao tratamento resolve não entregar a criança
à família que a encomendou, seus pais genéticos7. Não é difícil
prever, também, que nem a gestante, nem os pais biológicos,
tenham interesse em ficar com a criança após o nascimento,
pelo fato de esta apresentar alguma anomalia. Ou se se verifi-
car, antes do parto, alguma anomalia, como a anencefalia, que
levem seus pais biológicos a solicitar o aborto terapêutico e
este ser negado pela gestante. Ou, então, que o casal solicitan-
te se divorcie durante o período de gestação. Por último, a mor-
te da gestante, por consequência do parto, poderá gerar uma
situação difícil de reparar8.
Contudo, nem sempre é assim: a mulher que encomenda
o procedimento pode ser a doadora genética, o que não gera
maiores transtornos; há situações em que a mãe de substitui-
ção também é a mãe genética, caso ela venha a fornecer tam-
bém o óvulo. Nesta última hipótese a mãe de substituição é
também a mãe genética e geradora da criança. Ainda, pode
ocorrer concomitantemente o fato de que o pai não seja o ma-
rido ou companheiro da mulher solicitante, e sim um doador
anônimo, situação que gera o aparecimento de criança com
laços biológicos totalmente distintos dos pais solicitantes.
Se no aspecto da engenharia genética a prática da mãe
de substituição não traz grandes dificuldades, o mesmo não se
pode afirmar no que tange ao seu reconhecimento e conse-
quências jurídicas, bem como a sua compreensão ética e moral.

7
Para exemplificar esta situação, é bastante utilizado pela doutrina o
caso Baby M, no qual um casal contratou uma mãe de substituição atra-
vés do “Infertility Center for New York”, cuja mulher também era casa-
da. Depois de três dias do nascimento, o casal Stern, que havia contra-
tado a barriga de aluguel, busca a filha. No entanto, dias depois, a filha é
reavida pela mãe de aluguel. CARCABA FERNÁNDEZ, María. Problemas
jurídicos planteados por las técnicas de procreación humana. Barcelona:
J. M. Bosche Editor S.A., 1995. p. 167.
8
CARCABA FERNÁNDEZ, María. Problemas jurídicos planteados por
las técnicas de procreación humana. Barcelona: J. M. Bosche Editor
S.A., 1995. p. 167-168.
I Seminário Internacional de Direitos Humanos e Democracia
Os Direitos Humanos e a sua Proteção
25 e 26 de abril de 2013
191
Dignidade humana da criança nascida a partir do útero de substituição

DAS RELAÇÕES EXISTENTES NESTA MATERNIDADE ESPECIAL


Como o processo de geração da criança se inviabiliza pelo
processo natural, ou seja, que deveria contar com a participa-
ção do pai e da mãe biológicos, há a necessidade de interven-
ção de outras pessoas.
Assim, em primeiro plano, tem-se a participação da mu-
lher que deverá ceder o óvulo, pelo fato de a mãe solicitante
estar impedida, por problemas biológicos ou de saúde, de ge-
rá-lo. Esta mulher será inseminada com o espermatozóide do
marido ou companheiro da solicitante, ou, ainda, de doador
anônimo ou voluntário, na ausência ou impossibilidade daque-
le. Ao final do período gestacional, a mulher que empresta o
útero terá, como compromisso em relação à mãe ou casal soli-
citante, de entregar a criança gerada. Portanto, além de doar o
óvulo, a mãe substituta deverá desenvolver o período gestaci-
onal de acordo com os parâmetros estabelecidos pelo “contra-
to”, no qual se pode prever uma série de cuidados médicos,
como abstenção de consumo de bebidas alcoólicas ou tabaco.
Lembra Maria Helena Machado que a mãe substituta di-
verge da mãe portadora. A primeira deve doar o óvulo e de-
senvolver a gravidez, ou seja, “a criança é filha do seu óvulo e
do seu útero”. “Reúne-se na mãe substituta a derivação bioló-
gica e a gestação, sendo essa mulher a mãe.”9 Já a mãe porta-
dora receberá de antemão o óvulo fecundado.
Nesse segundo caso, a pessoa interveniente é aquela que
desenvolverá a gestação, recebendo, para isto, o embrião fe-
cundado in vitro e implantado em seu útero. O embrião, por-
tanto, não tem qualquer ligação genética com a portadora, mas
tão somente do casal ou mulher interessada que realizaram o
processo de fertilização em laboratório, cujo material genético,
o embrião, foi implantado no útero da mulher portadora. Aqui
emerge a difícil questão a ser respondida pelos juristas: afinal,
quem é a mãe? Aquela que produz o embrião ou a que gesta?
A biológica ou a portadora? Ou ambas devem ser consideradas
9
MACHADO, Maria Helena. Reprodução humana assistida: controvér-
sias éticas e jurídicas. Curitiba: Juruá, 2006. p. 53.

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192
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mães e a partir daí o direito deve criar outra categoria para


regular essas relações?
Apesar de o tema abrigar diversos contornos, a melhor in-
terpretação é que estabelece a maternidade para aquelas mu-
lheres que estiveram envolvidas no processo de criação e nas-
cimento da criança, o que compreende tanto a mãe ovular
quanto a mãe uterina. Seria até mesmo imoral e antiético não
reconhecer a participação de cada uma delas nesse processo:
de um lado aquela que possui a iniciativa de ter um bebê, mas
que não pode realizá-lo sem a participação de outra, daquela
que cederá seu útero para a consecução do nascimento. A mãe
ovular contribui com a carga genética, enquanto que a mãe
portadora é responsável por todas as formações nervosas,
hormonais e psíquicas desenvolvidas durante o período da
gestação, e também importantíssimas para a formação e equi-
líbrio da criança por toda a sua vida.
Porém, a situação de maior complexidade surge quando o
embrião é implantado em uma terceira mulher. Assim, se há a
mãe solicitante, aquela que doa o material genético, e ainda
uma terceira, que deverá desenvolver a gestação, que relações
surgem a partir daí? Quem é aquela que melhor assume a con-
dição de mãe? A social, a biológica ou a portadora?
Levando-se em conta a máxima “mater semper certa est”,
ou seja, de que a mãe é aquela que dá a luz a criança, pode-se
afirmar que somente há uma mãe, a que gestou e que pôs a
criança no mundo. Embora muito paradoxal, há interpretações
tanto no sentido de as três mulheres serem consideradas mãe,
porque qualquer uma delas teve participação na “produção”
da criança, ou de que nenhuma delas reúne todas as condições
para ser considerada como mãe, na verdadeira acepção da pa-
lavra. Neste compasso, segundo Maria Helena Machado,
Poderão existir também seres sem mãe, visto que a mãe
social não é a mãe por não se beneficiar de nenhum crité-
rio de atribuição de maternidade; a mãe biológica não é
mãe, porque se constitui em mera doadora de gametas; e

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Os Direitos Humanos e a sua Proteção
25 e 26 de abril de 2013
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Dignidade humana da criança nascida a partir do útero de substituição

a mãe portadora não é mãe, visto não se constituir a ges-


tação em título de atribuição de maternidade.10

Situações como essas são de difícil solução para o jurista.


Bastante complicada será também a situação de “pais” e filhos
advindos desse tipo de reprodução, que deverão lidar com as
mais difíceis situações psicológicas e éticas. Quanto a este
último aspecto, Eduardo de Oliveira Leite ressalta que “o pro-
cesso cria um problema ético desde a sua origem: a reprodu-
ção fica, aqui, completamente dissociada da gestação e do
nascimento”11. O que é certo em todo esse processo de repro-
dução é a existência de muitas perguntas sem respostas, tais
como: quem é a mãe ou pai? Qual a responsabilidade de cada
um deles diante da criança? E há mesmo responsabilidade?
Quais os direitos da criança em relação à mãe de substituição
ou até mesmo em relação ao pai doador?
Essas dúvidas podem ser diluídas pela superação do con-
ceito de família como instituição, conforme entende Marcelo
Truzzi Otero. Embora essa ideia ainda estivesse presente na
Constituição Federal de 1988, as transformações na engenha-
ria genética e todas as novidades surgidas por novos proces-
sos, exigem uma leitura a partir do conceito de família-
instrumento. Esse novo paradigma objetiva a valorização do
conceito de filiação, voltado para tutelar a dignidade da pessoa
humana, a solidariedade, a afetividade e a proteção integral,
valores estes que superam a mera preservação dos traços bio-
lógicos12.
No mesmo passo dos princípios que regem a adoção, as
novas formas de filiação visam valorizar o querer daqueles que

10
MACHADO, Maria Helena. Reprodução humana assistida: controvér-
sias éticas e jurídicas. Curitiba: Juruá, 2006. p. 54.
11
LEITE, Eduardo de Oliveira. Procriações artificiais e o Direito. Aspectos
médicos, religiosos, psicológicos, éticos e jurídicos. São Paulo: Revista
dos Tribunais, 1995. p. 188.
12
OTERO, Marcelo Truzzi. Contratação da barriga de aluguel gratuita e
onerosa – legalidade, efeitos e o melhor interesse da criança. In: Revista
Brasileira de Direito das Famílias e Sucessões. Porto Alegre: Magister;
Belo Horizonte: IBDFAM, 2007. p. 20.

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194
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pretendem conviver com a criança, que se preparam afetiva-


mente para a vinda daqueles que escolheram amar como filho,
mesmo que isso signifique a valoração menor daqueles que
doam o material genético ou que contribuem com o útero de
aluguel. Na família-instrumento, a verdade biológica será des-
considerada em proveito da verdade afetiva.
Esse entendimento é reforçado por Maria Berenice Dias:
A identificação dos vínculos de parentalidade não pode
mais se buscar exclusivamente no campo genético, pois
situações fáticas idênticas ensejam soluções substanci-
almente diferentes. As facilidades que os métodos de re-
produção assistida trouxeram permitem a qualquer um
realizar o sonho de ter um filho. Para isso não precisa ser
casado, ter um par ou mesmo manter uma relação sexual.
Assim, não há como identificar o pai com o cedente do
espermatozóide. Também não dá para dizer se a mãe é a
que doa o óvulo, a que cede o útero ou aquela que faz uso
do óvulo de uma mulher e do útero de outra para gestar
um filho, sem fazer parte do processo procriativo. Subme-
tendo-se a mulher a qualquer desses procedimentos tor-
na-se mãe, o que acaba com a presunção de que a ma-
ternidade é sempre certa.13

Esse entendimento é bastante presente na doutrina bra-


sileira, embora não se possa falar em unanimidade, e tem como
objetivo, sobretudo, a preservação dos direitos da criança e
seu bem-estar. No que tange ao direito comparado, contudo,
vê-se uma diversidade de entendimentos, conforme se verá a
seguir.

NOTAS SOBRE A LEGISLAÇÃO BRASILEIRA

No Brasil não há uma regulação satisfatória da gestação


de substituição. Aliás, existe apenas a Resolução n. 1.358, de
19 de novembro de 1992, do Conselho Federal de Medicina,

13
DIAS, Maria Berenice. Manual de direito das famílias. São Paulo: Revis-
ta dos Tribunais, 2007. p. 321.
I Seminário Internacional de Direitos Humanos e Democracia
Os Direitos Humanos e a sua Proteção
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195
Dignidade humana da criança nascida a partir do útero de substituição

que dispõe, de maneira bem sucinta, sobre o assunto. A reso-


lução em si trata de aspectos da Reprodução Humana Assisti-
da, dispondo sobre “Normas éticas para a utilização das técni-
cas de reprodução assistida”, tratando de princípios gerais,
dos usuários das técnicas, aos procedimentos de clínicas e
centros que utilizem a RA, doação de gametas ou pré-embriões
e sua criopreservação, diagnóstico e tratamento de pré-
embriões e, por fim, na seção VII, sobre a gestação de substi-
tuição ou empréstimo temporário de útero. Essa última seção
enuncia que:
As Clínicas, Centros ou Serviços de Reprodução Humana
podem usar técnicas de RA para criarem a situação iden-
tificada como gestação de substituição, desde que exista
um problema médico que impeça ou contraindique a ges-
tação na doadora genética.
1. As doadoras temporárias do útero devem pertencer à
família da doadora genética, num parentesco até o se-
gundo grau, sendo os demais casos sujeitos à autoriza-
ção do Conselho Regional de Medicina.
2. A doação temporária do útero não poderá ter caráter
lucrativo ou comercial.14

Vale destacar que as únicas limitações impostas pela re-


solução é a existência de grau de parentesco entre a doadora e
a mãe de substituição, até o segundo grau, e, também, a ine-
xistência de qualquer exigência econômica por parte desta
última. Dessa forma exige-se a gratuidade do ato.
Apesar de a resolução ter quase 20 anos, ainda são pou-
cos os registros dessa modalidade de reprodução assistida no
Brasil. Um desses casos envolveu o casal Veridiana e Fabiano.
Em virtude da impossibilidade de a mulher engravidar, a su-
gestão médica foi no sentido de que optassem pela mãe de
substituição. A equipe médica realizou a fertilização in vitro

14
Resolução do Conselho Federal de Medicina n. 1.358/92. Disponível em:
http://www.ghente.org/doc_juridicos/resol1358.htm. Acesso em: 02
maio 2012.

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196
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(FIV) e implantou o embrião no útero de Elisabeth, mãe de Fa-


biano. A criança, de nome Bianca, nasceu e foi entregue aos
pais15. Outro registro de mãe de substituição resultou no julga-
do da 2ª Vara de Registro Público de São Paulo (n. 66/00) que
determinou o registro de trigêmeos nascidos por via de gesta-
ção de substituição em nome da doadora do óvulo. O proces-
so ocorreu de forma não contenciosa já que a portadora era
sobrinha doadora, suscitado pelo Cartório de Registro de Nas-
cimento, uma vez que o oficial não sabia em nome de quem
registrar as crianças, visto que a mãe genética requeria o re-
gistro como tal e o documento da maternidade apontava a so-
brinha como mãe. O juiz entendeu tratar-se de paternidade de
intenção e não “comércio carnal”. Lima Neto chama essa pater-
nidade de intenção como adoção brasileira por via judicial16.
A Constituição Federal de 1988, em seu artigo 226, § 7º,
contempla como direito exclusivo do casal o planejamento fa-
miliar para compor a família da forma que melhor convier, com
ou sem filhos. Para tanto, o Estado se obriga, conforme se pode
interpretar do texto do parágrafo, a dar suporte aos recursos
educacionais e científicos para que essa autodeterminação do
casal seja respeitada.
O texto da norma constitucional está regulamentado pela
Lei n. 9.263/96, no art. 9º, que reforça a subjetividade da deci-
são quanto ao planejamento familiar, definindo que “para o
exercício do direito ao planejamento familiar, serão oferecidos
todos os métodos e técnicas de concepção e contracepção
cientificamente aceitos e que não coloquem em risco a vida e a
saúde das pessoas, garantida a liberdade de opção”. Dessa
forma, a legislação nacional alberga o direito do casal de optar
por uma gestação de substituição, se esta também for a indi-
cação médica prescrita.

15
Fantástico, Avó-mãe, 06.06.2004, apud CRUZ, Ivelise Fonseca da. Efei-
tos da Reprodução Humana Assistida. São Paulo: SRS Editora, 2008. p.
36-37.
16
KRELL, Olga Jubert Gouveia. Reprodução humana assistida e filiação
civil: princípios éticos e jurídicos. Curitiba: Juruá, 2006. p. 195.
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197
Dignidade humana da criança nascida a partir do útero de substituição

Diante desses preceitos legais, a doutrina brasileira é


concorde quanto à licitude da opção dos pais de eleger a bar-
riga de substituição, desde que presentes o consentimento e a
informação, o interesse legítimo, a gratuidade e o anonimato17.
Importante ainda destacar no caso brasileiro, a valoriza-
ção da afetividade e da intenção para criar o vínculo de filia-
ção. Esta presunção é referida no art. 1.597, V, do Código Civil
de 2002, ao prever os filhos havidos pela utilização das técni-
cas de inseminação artificial heteróloga, desde que com prévia
autorização do marido. Dessa maneira, conforme Ana Carolina
Brochado Teixeira, “abre espaço para vínculos socioafetivos,
desvinculando-se do liame eminentemente biológico”18.
Essas novas interpretações, que conduzem a aceitar os
vínculos familiares de criança concebida mesmo sem qualquer
vínculo biológico com os pais afetivos, constituem-se em ver-
dadeira novidade e inovação presente no direito brasileiro e
ausente, quando não atos criminalizados, na legislação de ou-
tros países.

17
Neste sentido, LIMA, Taísa Maria Macera de. Filiação e biodireito: uma
análise das presunções em matéria de filiação em face da evolução das
ciências biogenéticas. In: Revista Brasileira de Direito de Família. Porto
Alegre: IBDFAM, Síntese, v. 13, n. 4, abr./jun. 2002. p. 147; OTERO, Mar-
celo Truzzi. Contratação da barriga de aluguel gratuita e onerosa – lega-
lidade, efeitos e o melhor interesse da criança. In: Revista Brasileira de
Direito das Famílias e Sucessões. Porto Alegre: Magister; Belo Horizonte:
IBDFAM, 2007. p. 27-28; TEIXEIRA, Ana Carolina Brochado. Conflito po-
sitivo de maternidade e a utilização de útero de substituição. In: ROMEO
CASABONA, Carlos María; QUEIROZ, Juliane Fernandes (coord). Bio-
tecnologia e suas implicações ético-jurídicas. Belo Horizonte: Del Rey,
2004. p. 313; DIAS, Maria Berenice. Manual de direito das famílias. São
Paulo: Revista dos Tribunais, 2007. p. 321. Estes autores, dentre outros,
acreditam que a maternidade de substituição só é lícita se presente a
gratuidade do ato da gestante.
18
TEIXEIRA, Ana Carolina Brochado. Conflito positivo de maternidade e a
utilização de útero de substituição. In: ROMEO CASABONA, Carlos Ma-
ría; QUEIROZ, Juliane Fernandes (coord). Biotecnologia e suas implica-
ções ético-jurídicas. Belo Horizonte: Del Rey, 2004. p. 318.

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198
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O OLHAR DA DIGNIDADE HUMANA SOBRE A CRIANÇA NASCIDA DE


ÚTERO DE SUBSTITUIÇÃO
O ser humano, detendo a qualidade de pessoa, é portador
de dignidade ética e titular de direitos inatos, inalienáveis e
imprescritíveis, a que o Estado e a comunicada científica de-
vem respeito, por serem os meios naturais para o reto cumpri-
mento de seus fins comuns. A dignidade é reconhecida a todo
o ser humano na medida em que ele é um sujeito individual,
isto é, um ser que possui a potencialidade de determinar-se,
por intermédio da razão, para a ação em liberdade.
Segundo Maria Celina Bodin de Moraes19, a raiz etimoló-
gica da palavra dignidade provém do latim: dignus é “aquele
que merece estima e honra, aquele que é importante.”
A vida humana, mesmo a vida em gestação, é um bem de
primeira ordem cuja defesa se impõe originariamente à consci-
ência de toda a pessoa responsável, independentemente das
suas convicções éticas ou religiosas. O respeito à vida é o fun-
damento de todos os demais direitos humanos, já que se consti-
tui em pré-requisito à existência e exercícios de todos os demais
direitos. A vida humana, que é o objeto do direito assegurado
no art. 5º, caput, da Constituição Federal, integra-se de elemen-
tos materiais (físicos e psíquicos) e imateriais (espirituais).
Hoje muitas técnicas inovadoras no campo das manipula-
ções genéticas estão surgindo. Os avanços biotecnológicos
estão, cada vez mais, integrando a nossa vida, seja por meio
da prevenção de doenças, novas formas de tratamento, novos
medicamentos, clonagem humana, utilização de embriões ex-
cedentes, aborto eugênico, genética molecular, células tronco,
dentre outros. Mas, no que tange ao útero de substituição,
qual a preocupação que os pais e o direito possuem em relação
a criança nascida deste processo, notadamente quando a
“mãe” é contratada para gerar a criança? Assim, o princípio da

19
MORAES, Maria Celina Bodin de. O conceito de dignidade humana:
substrato axiológico e conteúdo normativo. In: COUTINHO, Adalcy Ra-
chid, et al. Constituição, Direitos Fundamentais e Direito Privado. Org.
Ingo Wolgang Sarlet. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2003. p.110.
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Os Direitos Humanos e a sua Proteção
25 e 26 de abril de 2013
199
Dignidade humana da criança nascida a partir do útero de substituição

dignidade humana, tem que se fazer presente para que a vida


do ser humano seja respeitada, para que se garanta a existên-
cia digna do ser humano.
Embora não suficiente, a legislação brasileira, neste as-
pecto, se manifesta através da Resolução n. 1.358, de 19 de
novembro de 1992, do Conselho Federal de Medicina que ad-
mite a prática desta técnica de reprodução assistida somente
entre parentes até o segundo grau. Mesmo que as intenções
desta resolução sejam elogiáveis, ela ainda é insatisfatória,
uma vez que é omissa no que se refere a filho havido através
de mãe substituta fora do que prevê em seu texto, e mais ain-
da, no que tange aos filhos havidos por mãe contratada em
país estrangeiro.
É tarefa do biodireito manifestar-se sobre as técnicas que
possam vir a causar limitações ou danos à dignidade humana.
Nesse sentido, Andréia Haas20 advoga que, “[...] o princípio da
dignidade humana é a base ou o fundamento de todo o pen-
samento, no que diz respeito aos direitos humanos tutelados,
constituindo o ponto de partida para a formulação das ideias
de Biodireito, Bioética, direito de morrer e viver dignamente”.
María Clemencia Ramírez, in Boaventura De Souza San-
tos,21 aduz que a luta pelo “direito a terem direitos” se refere
como os direitos deixam de ser uma condição dada e começam
a ser solicitados. São os cidadãos que têm que defender os
seus direitos e, nomeadamente, o direito a não serem excluí-
dos dos direitos que lhes são outorgados pela comunidade, e,
sobretudo, pela cidadania.
O dano à dignidade humana se reveste de gravidade
maior quando se direciona a um ser que ainda não nasceu e,
quando nascer, poderá sofrer consequências nefastas no seu

20
HAAS, Andréia. O princípio da dignidade humana como máxima do di-
reito fundamental à vida e da dignidade de morrer. In: Direito, cidada-
nia e políticas públicas. Org. Marli M. M. da Costa. Porto Alegre: Im-
prensa Livre, 2006. p.179.
21
SANTOS, Boaventura de Souza. Democratizar a democracia: os caminhos
da democracia participativa. Organizador. 2 ed. Rio de Janeiro: Civiliza-
ção Brasileira, 2003. p.199.

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Curso de Mestrado em Direitos Humanos
200
Astrid Heringer & Adriane Damian Pereira

direito de viver dignamente. Nesse contexto social e cultural,


em que o avanço da engenharia genética necessita urgente-
mente de regulamentação jurídica, é que o Estado tem elevada
importância, através de seus diversos mecanismos, em seus
diferentes níveis e poderes, para não permitir que os cidadãos
tenham restringido, devido àquelas práticas inovadoras, seus
direitos básicos outorgados pela Constituição e que lhe pro-
porcionam uma vida digna.
Como menciona Marli Marlene M. da Costa,22 uma socie-
dade de democracia aparente não garante a todos o pleno
acesso a seus direitos. O Estado deve atender aos cidadãos de
forma igualitária, permitindo que todos tenham acesso aos os
direitos que lhes são garantidos. E, através das práticas de
engenharia genética, a maior preocupação deverá ser a de ga-
rantir o direito constitucional à dignidade humana a todos,
sem distinção, priorizando o bem comum e a harmonia da so-
ciedade. Por isso, deverá o Estado, por meio do Direito e numa
visão de universalização de direito sociais, administrar e im-
plementar políticas públicas eficazes que garantam o verda-
deiro e digno direito à vida, limitando práticas de reprodução
assistida que ameacem este princípio fundamental.

CONCLUSÃO
O tema da mãe de substituição pode ser colocado ao lado
de outros grandes temas que dividem opiniões ao longo dos
tempos, tais como morte digna, aborto, pena de morte, provo-
cando discussões acaloradas e apaixonadas, pela sua permis-
são ou proibição. Essa, contudo, não foi a nossa intenção neste
trabalho. Objetivou-se conhecer o instituto e relacioná-lo à pre-
servação da dignidade humana da criança que nascerá a partir
deste processo.

22
COSTA, Marli Marlene M. da. Políticas Públicas e Violência Estrutural.
In: Direitos sociais e políticas públicas. Desafios Contemporâneos.
LEAL, Rogério Gesta; REIS, Jorge Renato. Tomo 5. Santa Cruz do Sul:
EDUNISC, 2005. p. 1263.
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201
Dignidade humana da criança nascida a partir do útero de substituição

As legislações do mundo globalizado, dentro dos parâme-


tros do Estado Democrático de Direito, deverão oferecer res-
postas às demandas desta técnica de reprodução assistida,
baseados no valor da dignidade da pessoa humana, atendendo
aos direitos e proporcionando o bem-estar das crianças nasci-
das a partir de mães de substituição.
As novas práticas de engenharia genética devem estar
alicerçadas nos direitos fundamentais da dignidade da pessoa
humana e na inviolabilidade do direito à vida, devendo as con-
dutas eticamente incompatíveis com a condição humana se-
rem descartadas, lembrando que um dos fundamentos básicos
da bioética é a prudência e a responsabilidade diante das ino-
vações.
Nesse contexto, uma normatização mínima faz-se neces-
sária, tendo em vista a urgência da proteção do ser humano
nos seus aspectos mais caros de dignidade humana, para que
a geração de bebês não se transforme apenas em uma questão
de necessidades e possibilidades, notadamente econômicas,
mas sim de atos de amor e solidariedade.

REFERÊNCIAS
ABELLÁN, Fernando; SÁNCHES-CARO, Javier. Bioética y ley en
reprodución humana asistida: manual de casos clínicos. Granada:
2009. p. 215.
ALKORTA IDIAKEZ, Itziar. Regulación jurídica de la medicina re-
productiva. Derecho español y comparado. Madrid: Aranzadi, 2003.
BERIAIN, Íñigo de Miguel. El embrión y la biotecnologia: un análi-
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Programa de Pós-graduação em Direito


Curso de Mestrado em Direitos Humanos
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I Seminário Internacional de Direitos Humanos e Democracia


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Programa de Pós-graduação em Direito


Curso de Mestrado em Direitos Humanos
DIREITOS HUMANOS E IMUNIDADE DE
JURISDIÇÃO DO E STADO ESTRANGEIRO :
UM ANTIGO INSTITUTO ,
UM NOVO ENTENDIMENTO

Camila Vicenci Fernandes


Mestre em Direito pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e Dou-
toranda da Università degli Studi di Milano (Renato Treves International
PhD Program in Law and Society). (camila.vicenci@yahoo.com.br)

Resumo
O presente trabalho busca analisar um dos temas de maior relevância no âmbito do
direito internacional na atualidade: o conflito entre a necessidade de proteção dos
direitos humanos e a impossibilidade das vítimas lograrem reparações cíveis em
casos envolvendo Estados estrangeiros em razão da imunidade de jurisdição dos
mesmos. Assim, na primeira parte deste artigo, examinar-se-á inicialmente a confi-
guração do instituto da imunidade de jurisdição do Estado estrangeiro, os princípios
que a sustentam e sua evolução histórica, para, na segunda parte, analisar as teorias
mais importantes acerca da prevalência dos direitos humanos sobre imunidade de
jurisdição do Estado estrangeiro perante os tribunais nacionais.
Palavras-chave: Direitos Humanos – Direito Internacional- Imunidade – Reparações.

Abstract
This paper aims to analyze one of the most relevant topics in international law to-
day: the conflict between the need to protect human rights and the impossibility of
victims to obtain civil redress in cases involving foreign states on grounds of their
immunity from adjudication. Thus, the first part of this article will examine the initial
configuration of the institute of state immunity, the principles sustaining it and its
historical evolution. In the second part, this paper shall address the most important
theories regarding the prevalence of human rights over state immunity before do-
mestic courts.
Keywords: Human Rights – International Law-Immunity – Redress.

INTRODUÇÃO
A importância conferida ao papel do indivíduo no cenário
no Direito Internacional Público, especialmente após a Segun-
da Guerra Mundial, e a consequente ênfase concedida à prote-
ção dos direitos humanos hoje em dia tem uma forte influência
sobre muitos institutos tradicionais desta área, e, neste senti-
206
Camila Vicenci Fernandes

do, os últimos anos testemunharam o nascimento de muitas


teorias que defendem a restrição ou mitigação da imunidade
de jurisdição do Estado estrangeiro perante os tribunais do-
mésticos do Estado-fórum quando as reivindicações envolvem
violações aos direitos humanos. Países de todo o mundo estão
atualmente lidando com a questão da imunidade do Estado
estrangeiro em violações de direitos humanos diante de suas
cortes domésticas, e a importância e atualidade do tema po-
dem ser constatadas na decisão de 2012 da Corte Internacio-
nal de Justiça no caso Jurisdictional Immunities (Alemanha
versus Itália, com intervenção da Grécia), no qual discutiu-se
precisamente tal tema1. Desta forma, é importante não só en-
tender o instituto da imunidade de jurisdição do Estado es-
trangeiro2, mas também as teorias que advogam pela sua miti-
gação em favor da proteção dos direitos humanos. Este artigo,
portanto, abordará tais questões, explicando inicialmente a con-
figuração do instituto da imunidade de jurisdição do Estado es-
trangeiro, os princípios que a sustentam e sua evolução históri-
ca, para depois examinar as teorias mais importantes acerca da
prevalência dos direitos humanos sobre imunidade de jurisdição
do Estado estrangeiro perante os tribunais nacionais.

IMUNIDADE DE JURISDIÇÃO DO ESTADO ESTRANGEIRO: PRINCÍPIOS


E DESENVOLVIMENTO HISTÓRICO
De acordo com Bröhmer, a imunidade de jurisdição teria o
poder de evitar que os tribunais do Estado-fórum pudessem
determinar a responsabilidade dos Estados estrangeiros por
suas ações3, ou seja, considerando que a jurisdição de um Es-
tado é, inicialmente, ilimitada, e que a competência é a medida
de este poder, a imunidade seria capaz de excluir a jurisdição,
operando como uma exceção. O autor complementa sua expli-

1
Disponível em: http://www.icj-cij.org/.
2
Para os fins deste trabalho, abordar-se-á somente a imunidade de juris-
dição, e não a de execução.
3
BROHMER, Jurgen. State Immunity and the Violation of Human Rights.
Amsterdã: Martinus Nijhoff, 1997.
I Seminário Internacional de Direitos Humanos e Democracia
Os Direitos Humanos e a sua Proteção
25 e 26 de abril de 2013
207
Direitos humanos e imunidade de jurisdição do Estado estrangeiro

cação, dizendo que a imunidade constitui um conjunto negati-


vo de regras que estabelece quando um tribunal não pode jul-
gar um caso4, e, nesse sentido, a próxima parte deste trabalho
examinará os princípios que sustentam o instituto da imunida-
de de jurisdição do Estado estrangeiro e seu desenvolvimento
histórico.

SOBERANIA5
Cassese lista, entre os poderes e deveres inerentes à so-
berania, o direito de imunidade do Estado estrangeiro perante
os tribunais internos de outros países por atos praticados no
exercício de sua capacidade soberana6. A imunidade é, para o
renomado autor, uma obrigação que deve ser respeitada pelo
Estado-fórum e um direito do Estado estrangeiro a não ser
submetido a julgamento em um tribunal de outro país, sendo
ao mesmo tempo a expressão e limitação da soberania7. A re-
lação entre a imunidade de jurisdição do Estado estrangeiro e
a soberania é, portanto, de um caráter muito íntimo, e pode-se
4
BROHMER, Jurgen. Op. cit.
5
Jean Bodin é considerado o pensador responsável pela primeira siste-
matização da soberania, vista em sua obra “Seis Livros da República”
como o sumo poder do rei sobre seus súditos, prerrogativa a ser exerci-
da de forma livre dos limites estabelecidos pelas leis. No contexto de
grande instabilidade da França do século XVII, Bodin acreditava que
somente um poder forte e de caráter centralizado e ilimitado evitaria
tragédias como a fatídica Noite de São Bartolomeu. A visão absolutista
de Bodin cedeu lugar, no transcorrer da História, a uma concepção de
soberania não mais irrestrita e una, e sim de um instituto multifacetado,
que possui vários aspectos. Assim, Bröhmer afirma que, de uma maneira
extrínseca, a soberania descreve a relação entre Estados como sujeitos
principais do direito internacional, e a relação entre os Estados e o pró-
prio direito internacional, enquanto seu viés intrínseco diz respeito à
habilidade dos Estados, enquanto entidades organizadas de indivíduos,
de cumprir seus propósitos e objetivos.
6
CASSESE, Antonio. International Law. New York: Oxford Press, 2005.
7
Cassese afirma: “A soberania estatal não é ilimitada. Muitas regras in-
ternacionais a restringem. Além das normas de tratados, que obviamen-
te variam de Estado para Estado, normas costumeiras impõem limita-
ções sobre a soberania estatal. Elas são a conseqüência legal natural da
obrigação de respeitar a soberania de outros Estados”. Ibidem, p. 98.

Programa de Pós-graduação em Direito


Curso de Mestrado em Direitos Humanos
208
Camila Vicenci Fernandes

dizer que “a imunidade estaria estritamente ligada a este valor


substantivo, sendo sua operação necessária para adequar a
conduta dos Estados e de seus órgãos para a independência
dos Estados em suas relações internacionais”8.

INDEPENDÊNCIA
De acordo com Brownlie, outro princípio em que se baseia
a imunidade é precisamente aquele da não-interferência nos
assuntos internos de outros Estados, nomeadamente o princí-
pio da independência9. O respeito a este princípio prevê que os
Estados não devem intervir nos atos, negócios, no governo e
em outras expressões de outro Estado, e, portanto, devem abs-
ter-se de submeter tais atos à análise de seu sistema judiciá-
rio. A imunidade de jurisdição, portanto, também deriva deste
princípio, inicialmente refletido no fato de que os Estados não
podem interferir nos atos públicos de Estados estrangeiros em
razão do respeito à sua independência10 e, também, que os tri-

8
MASSICCI, Carlos. Inmunidad del estado y derechos humanos. Navarra:
Civitas, 2007, p.55.
9
BROWNLIE, IAN. Principles of international public law. Londres: Oxford,
2008.
10
O princípio da independência foi consagrado em duas importantes deci-
sões: o caso Underhill v. Hernandez nos Estados Unidos da América, e a
decisão The Parlement Belge, da House of Lords inglesa. Na primeira de-
cisão – um caso que buscava reparação por prejuízos morais e materiais
alegadamente causados pelo comandante das forças revolucionárias da
Venezuela, Hernandez, a Underhill, um engenheiro contratado para
construir o sistema hidráulico de uma cidade do país -, a opinião do juiz
Fuller consagrou a posição de que “todo o Estado soberano é obrigado a
respeitar a independência de todos os outros Estados soberanos, e as
cortes de um não julgarão os atos do governo de outro realizados em seu
próprio território. Reparações por danos ocorridos em função de tais atos
devem ser obtidas pelos meios abertos a serem auxiliados pelos poderes
soberanos entre eles.” ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA. Suprema Cor-
te. Underhill v. Hernandez, 168 U.S. 250 (1897). Disponível em:
<http://supreme.justia.com/us/168/250/in
dex.html>. Acesso em 02.04.2013. O segundo caso é The Parlement Bel-
ge que, na Inglaterra, consolidou o princípio da independência como
uma das bases da imunidade soberana. O caso era relativo a um navio
de correspondência possuído e controlado pelo rei da Bélgica e tripulado
I Seminário Internacional de Direitos Humanos e Democracia
Os Direitos Humanos e a sua Proteção
25 e 26 de abril de 2013
209
Direitos humanos e imunidade de jurisdição do Estado estrangeiro

bunais nacionais não devem interferir na condução da política


externa nacional ou estrangeira, em razão do o princípio da
separação de poderes11. Assim, a “independência implica que
os Estados têm direitos exclusivos para determinar sua própria
política e decidir a forma mais adequada para gerenciá-lo pu-
blicamente”12.

IGUALDADE
Este princípio é cristalizado na máxima latina par in pa-
rem non habet imperium, afirmando a impossibilidade de que
um Estado seja julgado por um sujeito de direito internacional
da mesma posição hierárquica. De acordo com Massicci, apoiar
a imunidade soberana sob a base do princípio da igualdade é
“uma justificação muito forte, que busca o respeito dos Esta-
dos como sujeitos de direito internacional, a segurança jurídi-
ca, pois cria um mínimo de previsibilidade na alocação de po-
der jurisdicional entre os Estados”13. A influência do princípio
da igualdade14 na instituição da imunidade de jurisdição do

pela Marinha Real Belga, no qual a Corte de Apelação sustentou não


possuir jurisdição “sobre a pessoa do soberano de qualquer outro Esta-
do, ou sobre a propriedade pública de qualquer Estado que seja desti-
nada a uso público”. HILLIER, Tim. Sourcebook on public international
Law. Londres: Cavendish, 1998. p. 289-290.
11
CASSESE, Antônio. Op.Cit.
12
MASSICI, Carlos. Op.Cit. p. 49.
13
MASSICI, Carlos. Op.Cit. p. 49.
14
Já em 1812, ao julgar o caso Escuna Exchange v. McFaddon, o juiz
Marshall, da Suprema Corte dos Estados Unidos da América, afirma:
“esta perfeita igualdade e absoluta independência dos soberanos, e este
interesse comum os impelindo a um relacionamento mútuo, e um inter-
câmbio de bons ofícios uns com os outros, fez surgir uma classe de ca-
sos nos quais entende-se que todo o soberano deve renunciar ao exercí-
cio de parte daquela jurisdição territorial completa e exclusiva, que se
diz ser o atributo de toda nação.[...]. Não se entende que um soberano
estrangeiro pretenda submeter-se a uma jurisdição incompatível com
sua dignidade e com a dignidade de sua nação, e para evitar esta subje-
ção é que a licença é obtida. AMERICAN SOCIETY OF
INTERNATIONAL LAW. The Schooner “Exchange” v. M'Faddon et al.
The American Journal of International Law, Washington DC, v. 3, n. 1, p.
227-237, jan. 1909, p. 229.

Programa de Pós-graduação em Direito


Curso de Mestrado em Direitos Humanos
210
Camila Vicenci Fernandes

Estado estrangeiro torna-se evidente quando se considera a


possibilidade de um Estado para manifestar a sua aquiescência
em ser processado perante os tribunais de outro país. Portanto,
de acordo com Brownlie, o consentimento dado reafirma o sta-
tus da igualdade e a paridade hierárquica dos Estados permite
que um voluntariamente submeta-se à jurisdição de outro15.

DIGNIDADE
A evolução histórica da imunidade de jurisdição, em ge-
ral, está intrinsecamente ligada ao princípio da dignidade que,
ao estabelecer o reconhecimento da alta distinção para os che-
fes de Estados estrangeiros, os seus agentes diplomáticos e
outros representantes, levou à concessão da imunidade de ju-
risdição, um privilégio posteriormente estendido para a nação
como uma entidade estatal. Assim, a fim de não interferir no
desempenho das atividades conduzidas por um Estado es-
trangeiro, o Estado-fórum se abstém de julgar tais atos16. É cla-
ro, portanto, que “o fundamento de imunidade de jurisdição
também é baseado na dignidade de uma nação estrangeira,
seus órgãos e representantes, e na necessidade funcional de
não impedir a prossecução da sua missão”17.

EVOLUÇÃO HISTÓRICA
A imunidade do Estado estrangeiro foi concedida por um
longo tempo de maneira similar à imunidade uma vez concedi-

15
É importante referir aqui a consagração jurisprudencial de tal princípio
no notório caso I Congresso del Partido, no qual a House of Lords afirmou
que “a base sobre a qual um Estado é considerado imune à jurisdição
territorial das cortes de outro Estado é aquela do “par in parem”, que
efetivamente significa que os atos soberanos ou governamentais de um
Estado não são matérias sobre as quais as cortes de outro Estado pos-
sam julgar”. REINO UNIDO DA GRÃ-BRETANHA E IRLANDA DO
NORTE. House of Lords. I Congreso del Partido, 1983. Disponível em:
<http://www.i-law.com/ilaw/doc/view.htm?id=148441>. Acesso em:
02/04/2013.p. 262.
16
BROWLIE, Ian. Op.Cit.
17
BROWNLIE, Ian. Op.Cit. p 247.
I Seminário Internacional de Direitos Humanos e Democracia
Os Direitos Humanos e a sua Proteção
25 e 26 de abril de 2013
211
Direitos humanos e imunidade de jurisdição do Estado estrangeiro

da à pessoa do soberano, ou seja, de forma absoluta e pratica-


mente irrestrita, o que significa que os atos praticados por um
Estado não poderiam, portanto, ser submetido à apreciação
dos tribunais internos de outros países18. Assim, a chamada
“regra de imunidade” foi baseada puramente no status, sendo
suficiente para o réu provar sua condição de Estado ou de go-
verno para que sua imunidade fosse concedida. No entanto, as
mudanças ocorridas no papel do Estado também levaram a
uma mudança na concepção de imunidade jurisdicional. Ao
longo do século XIX, os Estados também apresentaram-se co-
mo grandes empresários comerciais19 e, além das ações tradi-
cionais de governo, executadas em suas prerrogativas sobera-
nas, os Estados cada vez mais praticavam atos de natureza
comercial, os quais foram realizadas com base em sua capaci-
dade privada, como pessoas jurídicas de direito privado20. Este
novo papel dos Estados no cenário internacional então levou à
necessidade de um tratamento jurídico diferente para os atos
praticados por estas entidades. Assim, surge a distinção entre
atos de jure imperii e atos de iure gestionis ou privatorum, que
foi registrada inicialmente, de acordo com Cassese, na juris-
prudência dos tribunais italianos e belgas, que começaram a
se recusar a concessão de imunidade soberana por atos come-
tidos por Estados estrangeiros em sua capacidade privada,
inaugurando uma nova tendência no direito internacional21.

18
Segundo Arroyo, “A imunidade de jurisdição foi estabelecida na época
das monarquias absolutas, quando a pessoa do soberano se confundia e
identificava com o Estado mesmo, critério que reinou pacificamente em
todo o mundo e foi mantido em virtude do princípio de DIP par in parem
non habet imperium, sustentando-se na igualdade e soberania própria
dos Estados” ARROYO, Diego Fernández. Derecho internacional privado
de los estados del Mercosur : Argentina, Brasil, Paraguay, Uruguay. Bue-
nos Aires: Zavalia, 2003, p. 143).
19
BROWNLIE, Ian. Op.Cit
20
CASSESE, Antonio. Op.Cit.
21
BELSKY, Adam; MERVA, Mark; ROHT-ARRIANZA, Naomi. Implied
Waiver under the FSIA: A Proposed Exception to Immunity for Violations
of Peremptory Norms of International Law. California Law Review, v. 77,
1989.

Programa de Pós-graduação em Direito


Curso de Mestrado em Direitos Humanos
212
Camila Vicenci Fernandes

Assim, pouco a pouco a idéia de que os Estados gozava de


imunidade absoluta começou a dar lugar a uma visão mais res-
tritiva do instituto. No entanto, apesar do progresso evidente
sobre a questão em direção a uma perspectiva restritiva da
imunidade soberana no cenário internacional, deve-se notar que
este processo não foi concluído e, de acordo com Karagiannakis,
apesar da existência de um consenso de que uma norma inter-
nacional de imunidade absoluta não existe mais, esta afirmação
não conduz necessariamente à suposição de que há uma regra
de imunidade restritiva de direito internacional22.
Se no passado foi possível identificar uma “regra” de
concessão de imunidade ao Estado estrangeiro perante os tri-
bunais do Estado-fórum, hoje o quadro é bastante diferente, e
existem muitas vozes que agora defendem uma mitigação des-
se chamada “regra”, particularmente para ações relacionadas
a violações de direitos humanos. Esta tendência no direito in-
ternacional, que vem ganhando crescente relevância, tanto na
doutrina e na jurisprudência, será o assunto da próxima parte
deste trabalho.

TEORIAS SOBRE VIOLAÇÕES AOS DIREITOS HUMANOS E A


IMUNIDADE DE JURISDIÇÃO DO ESTADO ESTRANGEIRO
A dinâmica do direito internacional faz novas tendências
surgirem no horizonte ao lado das visões tradicionais, privile-
giando-se cada vez mais o papel do indivíduo dentro do con-
texto do cenário internacional. Neste sentido, são muitos os
que defendem uma nova transição baseada na dignidade hu-
mana e na proteção dos Direitos Humanos, o que permitiria um
avanço na teoria da imunidade do Estado estrangeiro que seria
condizente com a importância dada pelo Direito para a prote-
ção desses valores. A recusa em conceder imunidade aos Es-
tados em casos de violações aos direitos humanos perante as
cortes domésticas do Estado-fórum é uma tendência que está
ganhando força e que conta com várias teorias para justificá-la,

22
Ibidem.
I Seminário Internacional de Direitos Humanos e Democracia
Os Direitos Humanos e a sua Proteção
25 e 26 de abril de 2013
213
Direitos humanos e imunidade de jurisdição do Estado estrangeiro

além de se manifestar nas decisões de tribunais nacionais com


freqüência cada vez maior. Assim, este novo conceito no cam-
po da imunidade soberana é o objeto de estudo neste ponto,
que irá abordar as principais teorias sobre o assunto.

A TEORIA DA RENÚNCIA IMPLÍCITA


Esta teoria é uma proposta de Belsky, Merva e Roht-
Arrianza23 de uma interpretação evolutiva do artigo 1.605 (a)
(1)24 da Lei de Imunidade Soberana Estrangeira de 1976, o es-
tatuto dos Estados Unidos da América sobre o assunto
(Foreign Sovereign Immunities Act ou FSIA). Segundo os auto-
res, os Direitos Humanos alcançaram o status de normas de jus
cogens25, e sua violação constitui uma renúncia implícita do

23
KARAGIANNAKIS, Magdalini. State Immunity and Fundamental Human
Rights. Leiden Journal of International Law, Holanda, v. 11, p. 9-43, 1998.
24
Article 1605. General exceptions to the jurisdictional immunity of a for-
eign State (a) A foreign State shall not be immune from the jurisdiction
of courts of the United States or of the States in any case – (1) in which
the foreign State has waived its immunity either explicitly or by implica-
tion, notwithstanding any withdrawal of the waiver which the foreign
State may purport to effect except in accordance with the terms of the
waiver;
25
As normas de jus cogens, também conhecidas como normas peremptó-
rias de Direito Internacional, foram previstas pela Convenção de Viena
de 1969 sobre Direito dos Tratados, que determina: Artigo 53-Tratado
em Conflito com uma Norma Imperativa de Direito Internacional Geral
(jus cogens):
É nulo um tratado que, no momento de sua conclusão, conflite com uma
norma imperativa de Direito Internacional geral. Para os fins da presente
Convenção, uma norma imperativa de Direito Internacional geral é uma
norma aceita e reconhecida pela comunidade internacional dos Estados
como um todo, como norma da qual nenhuma derrogação é permitida e
que só pode ser modificada por norma ulterior de Direito Internacional
geral da mesma natureza.
Artigo 64 Superveniência de uma Nova Norma Imperativa de Direito In-
ternacional Geral (jus cogens):
Se sobrevier uma nova norma imperativa de Direito Internacional geral,
qualquer tratado existente que estiver em conflito com essa norma tor-
na-se nulo e extingue-se.
A dificuldade de utilização prática desde conceito é muito bem explica-
da por Dinah Shelton:

Programa de Pós-graduação em Direito


Curso de Mestrado em Direitos Humanos
214
Camila Vicenci Fernandes

Estado violador a sua imunidade de jurisdição, configurando,


portanto uma exceção presente no referido artigo do FSIA26. A
teoria da renúncia implícita é criticada por muitos autores por-
que presume uma renúncia, ou seja, uma expressão de vonta-
de de ser julgado, em situações onde não há nenhuma, e em
muitas ocasiões o Estado violador chega mesmo a declarar a
sua vontade de usar o privilégio da imunidade soberana.
Jurisprudencialmente, esta teoria apareceu pela primeira
vez no voto dissidente da juíza Patricia Wald no caso Princz
versus Alemanha, nos Estados Unidos da América (a demanda
referia-se a um pedido de indenização por Hugo Princz, judeu
americano, em função de ter sido vítima do regime nazista),
mas sua consagração deu-se, de fato, nas cortes gregas, no
caso Prefeitura de Voiotia e outros versus Alemanha, no qual
vítimas de um massacre perpetrado pelas forças alemãs na
vila grega de Distomo buscavam reparações pelos danos sofri-
dos27.

“Neither the International Law Commission nor the Vienna Conference


on the Law of Treaties developed an accepted list of peremptory norms,
although both made reference in commentaries and discussion to the
norms against genocide, slave trading, and use of force other than in
self-defense.[...]. The different theories as to the source of peremptory
norms affect the contents; those who adhere to the voluntarist approach
generally see the content as limited to a few rules that states have rec-
ognized as not being subject to derogation, reservation, or denunciation.
Natural law proponents would subscribe to an even stricter list of immu-
table principles of justice. In contrast, theories based on community val-
ues result in a longer list of evolving norms.[...] Proponents have argued
for the inclusion of all human rights, all humanitarian norms (human
rights and the laws of war), or singly, the duty not to cause transbound-
ary environmental harm, freedom from torture, the duty to assassinate
dictators, the right to life of animals, self-determination, the right to de-
velopment, free trade, and territorial sovereignty (despite legions of
treaties transferring territory from one state to another)”. SHELTON, Di-
nah. Normative Hierarchy in International Law. The American Journal of
International Law, Washington DC, v. 100, n. 2, abr. 2006. p.302-303.
26
BELSKY, Adam; MERVA, Mark; ROHT-ARRIANZA, Naomi. Op.Cit.
27
Os principais argumentos da Corte grega para descartar a imunidade de
jurisdição da Alemanha são trazidos por Batenkas: a) Quando um Esta-
do viola normas de jus cogens, ele não pode esperar de boa-fé a conces-
I Seminário Internacional de Direitos Humanos e Democracia
Os Direitos Humanos e a sua Proteção
25 e 26 de abril de 2013
215
Direitos humanos e imunidade de jurisdição do Estado estrangeiro

TEORIA DA HIERARQUIA NORMATIVA


Desenvolvida por Mathias Reimann28 com base na decisão
Princz contra Alemanha (Estados Unidos da América), esta
teoria parte de uma visão sistemática da ordem jurídica inter-
nacional, em que as normas de jus cogens (e os Direitos Hu-
manos assim considerados) estariam no topo de uma pirâmide
hierárquica, e poderiam, portanto, derrogar as normas inferio-
res que se opõem a elas, incluindo a regra de imunidade sobe-
rana, que tem apenas um caráter costumeiro29. Os críticos a

são do privilégio da imunidade. Portanto, assume-se que ele tacitamente


renuncia ao privilégio (renúncia construtiva por operação do direito in-
ternacional)
b) Os atos de um Estado que violam normas de jus cogens não possuem
caráter soberano. Nestes casos considera-se que o Estado acusado não
agiu dentro do âmbito de sua capacidade como soberano.
c) Atos contrários ao jus cogens são nulos, e não podem constituir uma
fonte de direitos ou privilégios legais, tais quais pedidos de imunidade,
em respeito ao princípio ex injuria non oritur jus.
d) O reconhecimento da imunidade por uma corte nacional a um ato que
é contrário ao jus cogens seria o equivalente a colaborar com um ato que
é fortemente condenado pela comunidade internacional.
e) A invocação da imunidade para atos ilegais perpetrados em violação
às normas de jus cogens constituiria um abuso deste direito.
f) Como o princípio da soberania territorial é superior ao princípio da imu-
nidade estatal, um Estado que viola o primeiro ao ocupar ilegalmente
um território não pode invocar o princípio da imunidade soberana para
atos cometidos durante a ocupação ilegal. BATENKAS, Ilias. Prefecture
of Voiotia v. Federal Republic of Germany. Case No. 137/1997. The
American Journal of International Law, Washington DC, v. 92, n. 4,out.
1998, p. 769 e 770).
28
REIMANN,Mathias. A Human Rights Exception to Sovereign Immunity-
Some Thoughts on Princz v. Federal Republic of Germany. Michigan
Journal of International Law, St. Anne Arbor, MI, v.16, p. 403-432, 1994.
29
No âmbito jurisprudencial, a teoria da hierarquia normativa foi utilizada
no pleito de Al-Adsani v. Government of Kuwait, que buscava repara-
ções no Reino Unido por tortura e outras violações realizadas pelo go-
verno do Kuwait. Tendo sua demanda indeferida pela corte inglesa, Al-
Adsani ingressou perante a Corte Européia de Direitos Humanos, agora
contra o Reino Unido, sob o artigo 6º da Convenção (direito a um proces-
so equitativo ou acesso à justiça), e mais uma vez utilizou o argumento
de que a superioridade hierárquica do jus cogens significa a sua preva-
lência sobre as regras “inferiores”, tais como a imunidade de jurisdição

Programa de Pós-graduação em Direito


Curso de Mestrado em Direitos Humanos
216
Camila Vicenci Fernandes

esta teoria indicam que ela atribui funções e poderes às nor-


mas jus cogens que vão muito além do âmbito da Convenção
de Viena sobre o Direito dos Tratados, de 1969. Além disso,
esta teoria foi elaborada com base na decisão Princz contra
Alemanha, que lida com um fato que ocorreu muitos anos an-
tes da previsão normativa do jus cogens.

JURISDIÇÃO UNIVERSAL
Esta teoria foi formulada pela primeira vez no campo do
direito penal, em uma tentativa de julgar os crimes de pirata-
ria, que, devido ao seu caráter extraterritorial, são muito difí-
ceis serem julgados. Mais tarde, essa teoria começou também
a ser aplicada a processos cíveis, e seus defensores afirmam
que, devido à natureza das violações dos Direitos Humanos, e
considerando que toda a humanidade tem interesse em punir
tais delitos, cada Estado teria jurisdição para se pronunciar
sobre violações a tais direitos e, portanto, as cortes domésticas
do Estado-fórum poderiam ultrapassar o escudo da imunidade
de jurisdição do Estado estrangeiro em tais casos. A aplicação
desta teoria é, no entanto, é bastante controversa, e críticos
discutem não só a pertinência de sua aplicação no âmbito da
reparação civil, mas também a possibilidade de tal prerrogati-
va para ser usada para fins políticos pelos Estados30.

do Estado estrangeiro (norma costumeira). Analisando o pleito, a Corte


Européia de Direitos Humanos decidiu, por 9 votos a 8, que o Reino Uni-
do não violara os diretos do autor sob o artigo 6º da Convenção, mas a
pouca diferença de votos e as opiniões expressas nos votos divergentes
sinalizam um certo reconhecimento da teoria da hierarquia normativa.
30
Conforme explica Carlo Focarelli, o caso Ferrini versus Alemanha (Corte
di Cassazione da Itália), envolvendo o pedido de indenização de um ju-
deu italiano vítima no nazismo, notabilizou a utilização da jurisdição
universal para justificar a não outorga de imunidade de jurisdição de um
Estado estrangeiro violador de Direitos Humanos. Entre os diversos ar-
gumentos utilizados pela Corte di Cassazione, merece destaque a men-
ção da jurisdição universal como mecanismo para estabelecer a jurisdi-
ção das cortes domésticas em casos de graves violações aos Direitos
Humanos, afastando-se, conseqüentemente, a imunidade de jurisdição
do Estado estrangeiro em demandas que buscam reparações cíveis.
I Seminário Internacional de Direitos Humanos e Democracia
Os Direitos Humanos e a sua Proteção
25 e 26 de abril de 2013
217
Direitos humanos e imunidade de jurisdição do Estado estrangeiro

TEORIA DA OPÇÃO E DA CALCULABILIDADE DO RISCO


Criada por Jürgen Bröhmer, esta teoria inicialmente afir-
ma que o Estado tem sempre a opção de não violar os direitos
humanos (ao contrário de outras situações de responsabiliza-
ção, como nas transações comerciais, em que o Estado poderia
ser “forçado” a agir de uma forma prejudicial, como celebrar
um contrato para a compra de grãos para evitar a fome de seus
nacionais), mas, por outro lado, ao contrário da maioria das
atividades privadas, o risco da responsabilização do Estado
não pode ser precisamente calculado em casos de violações
dos direitos humanos e, portanto, coberto por seguro, por
exemplo31. Assim, um critério simplesmente “compensa” o ou-
tro, equilibrando a equação “opção versus calculabilidade do
risco” de violações dos direitos humanos para a mesma soma
resultante de outras atividades comerciais do Estado, exceção
já consagrada, o que justificaria a negativa da imunidade so-
berana também nestes casos.
A aplicação desta teoria seria mitigada pela natureza das
violações, já que o autor argumenta que apenas as violações
de caráter individual e pessoal – e não as que ocorrem em um
contexto geral, como uma guerra ou o extermínio étnico – seri-
am susceptíveis de tornar responsável o Estado agressor sem
comprometer a sua soberania funcional com o valor total das
reparações, ou até mesmo abrir a porta para a questão das
possíveis reconvenções32. Em relação a violações localizadas
em uma zona intermediária entre as individuais e as de caráter
geral, a teoria de Bröhmer argumenta que o Estado que desejar
fazer uso do privilégio da imunidade de jurisdição deve demos-
trar que a responsabilidade por tais violações implicaria um
encargo financeiro que seria quase insuportável para o Estado
violador33. A crítica mais óbvia a esta teoria reside em sua dis-

FOCARELLI, Carlo. The Ferrini Decision. International and Comparative


Law Quarterly, n. 54, p. 951-958, 2005.
31
BRÖHMER,Jurgen. Op.Cit.
32
Ibidem.
33
Ibidem.

Programa de Pós-graduação em Direito


Curso de Mestrado em Direitos Humanos
218
Camila Vicenci Fernandes

tinção artificial entre as violações de caráter individual ou ge-


ral, uma vez que ambas implicam conseqüências semelhantes
para os indivíduos, e não há evidências de que determinar a
responsabilização do Estado violador nestes casos pudesse
levar à sua “falência”.

TEORIA DO BENEFÍCIO COLETIVO


O autor desta teoria, Lee Caplan, afirma que a imunidade
é o resultado do embate entre o princípio da jurisdição territo-
rial exclusiva do Estado no seu território e a igualdade sobera-
na dos Estados, cada um embasando uma visão diferente so-
bre a imunidade de jurisdição34. Segundo esta teoria, a imuni-
dade é entendida hoje de maneira errônea, sendo vista como
um “direito fundamental” do Estado, quando na verdade ela é
uma exceção ao princípio da jurisdição territorial exclusiva, e
não a regra35. A igualdade soberana dos Estados significa, de
fato, que eles possuem uma igual capacidade de desfrutar de
certos direitos, e a mera condição de Estado não concede o
direito à imunidade de jurisdição, porque a regra é o monopólio
jurisdicional do Estado-fórum. Essa competência, no entanto,
limita-se à presença de elementos de conexão para justificar o
seu exercício de forma razoável. A teoria afirma que a conces-
são de imunidade é a conseqüência de um acordo que resulta
no benefício coletivo dos Estados envolvidos, o que permite o
exercício eficiente das suas funções públicas, garantindo que
as relações internacionais sejam conduzidas corretamente, o
que não acontece, por exemplo, quando um Estado viola os
direitos humanos de cidadãos de outro Estado36. A crítica a
esta teoria reside na questão da prevalência dos interesses
dos Estados sobre os dos indivíduos, e também na evasão da
definição do âmbito de aplicação das normas de jus cogens.

34
CAPLAN, Lee. State Immunity, Human Rights, and Jus Cogens: A Cri-
tique of the Normative Hierarchy Theory. The American Journal of Inter-
national Law, Washington DC, v. 97, n. 4, p. 741-781, out. 2003.
35
CAPLAN, Lee. Op.Cit.
36
Ibidem.
I Seminário Internacional de Direitos Humanos e Democracia
Os Direitos Humanos e a sua Proteção
25 e 26 de abril de 2013
219
Direitos humanos e imunidade de jurisdição do Estado estrangeiro

CONCLUSÃO
O estudo das teorias acima leva à formulação de uma
perspectiva capaz de reafirmar a primazia da jurisdição do-
méstica e a proteção jurídica dos Direitos Humanos. O exercí-
cio da jurisdição do Estado pode ser vista como a regra, a ser
excetuada através da concessão de imunidade apenas de
acordo com os interesses do Estado-fórum. Neste sentido, é
importante que os tribunais domésticos ao redor do mundo
percebam que a promoção e proteção dos Direitos Humanos é
um dos mais altos valores da comunidade internacional – algo
que todas as nações possuem interesse em preservar, e que
permitir às vítimas acesso aos tribunais nacionais em busca de
reparações é um passo necessário a fim de tornar a proteção
dos Direitos Humanos realmente efetiva.
A imunidade de jurisdição do Estado estrangeiro tem sido
atenuada em muitos casos nos últimos anos, tais como em atos
comerciais ou ações trabalhistas, e é chegada a hora do Direito
Internacional, mais uma vez, reformular a perspectiva sobre
este campo, desta vez em favor das vítimas de violações aos
Direitos Humanos em todo o mundo.

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Camila Vicenci Fernandes

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I Seminário Internacional de Direitos Humanos e Democracia


Os Direitos Humanos e a sua Proteção
25 e 26 de abril de 2013
O NOVO PLANO DIRETOR PARTICIPATIVO
DO MUNICÍPIO DE SANTOS :
AS PERSPECTIVAS LANÇADAS
PARA A GARANTIA DA QUALIDADE
DE VIDA E DESENVOLVIMENTO
SUSTENTÁVEL

Cristiane Elias de Campos Pinto


Advogada e Professora Universitária. Pós-graduada em Direito pela Uni-
versidade Católica de Santos e pela Pontifícia Universidade Católica de Be-
lo Horizonte. Mestranda em Direito Ambiental pela Universidade Católica
de Santos. (cristiane.e.c.pinto@gmail.com)

Resumo
Os planos diretores municipais aprovados após o advento do Estatuto da Cidade
receberam maior importância na medida em que foi estabelecida a participação
popular como requisito da elaboração do referido instrumento. Os princípios inseri-
dos nas normas municipais atendem as diretrizes gerais da lei federal, muito embora
na prática não haja a efetiva garantia da consecução de tais objetivos. O artigo trata
do caso do município de Santos, que não é muito diferente da maior parte dos mu-
nicípios brasileiros em se tratando do processo de revisão e aprovação do plano
diretor, ainda que se considere a existência de um verdadeiro incremento na partici-
pação social especialmente representada pelos conselhos municipais e entidades de
classe. A análise feita dos planos anteriores é interessante para se estabelecer e
refletir sobre o avanço do comportamento legislativo municipal nessa matéria. O
fato revelado pelo presente artigo é que o atual plano, ainda que tenha contempla-
do diferentes e abrangentes diretrizes, ainda não garante a efetiva adoção de políti-
cas públicas tendentes a melhorar a qualidade de vida das pessoas no município
tampouco o pretendido desenvolvimento sustentável.
Palavras-chave: plano diretor; planejamento; desenvolvimento sustentável.

Abstract
The municipal master plans approved after the advent of the City Statute received
greater importance in that popular participation was established as a requirement of
the development of this instrument. The principles embedded in municipal stand-
ards meet the general guidelines of federal law, although in practice there is no
guarantee of the effective achievement of such goals. The article discusses the case
of Santos, which is not much different from most of the municipalities in the case of
the review process and approval of the master plan, even if it was the existence of a
real increase in social participation especially represented by municipal councils and
associations. The analysis of previous plans is interesting to settle down and reflect
222
Cristiane Elias de Campos Pinto

on the progress of municipal legislative behavior in this matter. The fact revealed by
this article is that the current plan, although it contemplated different guidelines and
comprehensive, yet ensures the effective implementation of public policies aimed at
improving the quality of life of people in the municipality nor the desired sustainable
development.
Keywords: master plan, planning, sustainable development.

INTRODUÇÃO
O presente trabalho pretende demonstrar através da análi-
se dos conceitos doutrinários sobre plano diretor e da fundamen-
tação legal do mesmo no contexto da atual política urbana naci-
onal, a relevância do tema para o planejamento das cidades.
O estudo do processo de revisão do plano diretor nos mu-
nicípios pode subsidiar a análise dos futuros gestores públicos
na condução das políticas e metas de desenvolvimento eco-
nômico e social a garantir a desejada qualidade de vida das
pessoas e o desenvolvimento sustentável.
Sendo assim, pretende-se estudar a fundamentação legal
do plano diretor baseada também nos conceitos doutrinários
sobre o tema e para tanto, vamos mencionar os princípios nor-
teadores do atual plano diretor, para entender como se deu o
referido processo de revisão e elaboração, comparando-o com
os planos diretores anteriores.
Com essa análise, será possível verificar se de fato, os
princípios adotados pela norma em comento foram incorpora-
dos no texto, especialmente no tocante aos planos e vetores de
desenvolvimento, a permitir que o texto final seja o resultado
do planejamento negociado com a sociedade e que cumpra
finalidade social.

FUNDAMENTAÇÃO LEGAL DOS PLANOS DIRETORES NA POLÍTICA


URBANA NACIONAL
O plano diretor encontra respaldo em nosso ordenamento
jurídico no parágrafo 1º do artigo 182 da Constituição Federal
de 1988 no capítulo que trata da política urbana.

I Seminário Internacional de Direitos Humanos e Democracia


Os Direitos Humanos e a sua Proteção
25 e 26 de abril de 2013
223
O novo plano diretor participativo do município de Santos

Sendo assim, o legislador fez previsão sobre o conteúdo


mínimo do referido instrumento, especialmente para discipli-
nar a obrigatoriedade em municípios com mais de 20 mil habi-
tantes, tratando inclusive de mencionar sua finalidade de or-
denar o pleno desenvolvimento das funções sociais da cidade
e garantia do bem-estar de seus habitantes.
O Estatuto da Cidade também fez previsão expressa so-
bre o plano diretor no artigo 41 e ampliou o rol da obrigatorie-
dade do plano, nos incisos I, II, III, IV e V, o que desde logo,
suscitou a discussão sobre sua constitucionalidade.
A alegação de inconstitucionalidade trazida pela inter-
pretação de tais dispositivos teve como premissa, na opinião
Eremberg1 a seguinte questão:
Seria essa ampliação inconstitucional, à luz do princípio
da autonomia dos municípios, configurando indevida in-
vasão de competência, por parte da União ou dos Esta-
dos, ao impor a tais entes federados uma exigência que
desborda o quanto determinado de forma expressa na
Constituição Federal?

A discussão sobre a inconstitucionalidade do dispositivo


41 do Estatuto da Cidade assim como da Constituição Estadu-
al de outros estados, com disposições ainda mais abrangentes
sobre o tema, chegaram ao Supremo Tribunal Federal que de-
cidiu em Ação Direta de Inconstitucionalidade especialmente
no caso da Constituição Estadual do Amapá que segue:
DIREITO CONSTITUCIONAL E ADMINISTRATIVO.
MUNICÍPIOS COM MAIS DE 5 MIL HABITANTES:
PLANO DIREITOR. ART. 195, “CAPUT”, DO ESTADO DO
AMAPÁ. ARTIGOS 25, 29, 30, I E VIII, 182 parágrafo 1.o,
DA CONSTITUIÇÃO FEDERAL E 11 DO A.D.C.T. 1. O
“caput” do art. 195 da Constituição Estadual do Amapá
estabelece que “o plano diretor, instrumento básico da
política de desenvolvimento econômico e social e de ex-

1
EREMBERG, Jean Jacques. Função Social da Propriedade Urbana.
Municípios sem plano diretor.São Paulo: Letras Jurídicas, 2008, p.

Programa de Pós-graduação em Direito


Curso de Mestrado em Direitos Humanos
224
Cristiane Elias de Campos Pinto

pansão urbana, aprovado pela Câmara Municipal, é obri-


gatório para os Municípios com mais de 5 mil habitan-
tes”.2. Essa norma constitucional estendeu, aos municí-
pios com número de habitantes superior a cinco mil, a
imposição que a Constituição Federal só fez àqueles com
mais de vinte mil (art. 182, p.1.o). 3. Desse modo, violou o
princípio da autonomia dos municípios com mais de cin-
co mil e até vinte mil habitantes, em face do que dispõem
os artigos 25, 29, 30, I e VIIII da C.F. e 11 do A.D.C. T. 4.
Ação Direita de Inconstitucionalidade julgada proceden-
te, nos termos do voto do Relator. 5. Plenário: decisão
unânime. STF, ADIn n. 826/9, AP, Rel. Min. Sydney San-
ches, j. em 17.09.1998,DJ de 12.03.1999.

Contudo e como obtempera o mesmo autor, sobre a com-


petência da União em estabelecer normas gerais sobre a atua-
ção dos municípios em matéria urbanística, a lei federal pode
ampliar o rol de municípios sujeitos ao plano diretor, senão
vejamos:
Nessa ordem de ideias, a rigor não se aplica às disposi-
ções do artigo 41 do Estatuto da Cidade a postura adota-
da pelo Egrégio Supremo Tribunal Federal no sentido da
inconstitucionalidade da ampliação do rol de município
sujeitos à obrigatoriedade de edição de plano diretor. Em
outras palavras, não há inconstitucionalidade na previsão
legal do artigo 41 do Estatuto da Cidade.

Dito isto, entendemos que os municípios podem dispor da


utilização de planos diretores como meio de ordenamento e
planejamento urbano, em razão de competência municipal,
tendo em vista que o mandamento constitucional prevê ape-
nas as regras e diretrizes gerais.
Considerando o aparato legal do referido instrumento, fa-
remos na próxima seção a análise conceitual do plano diretor.

I Seminário Internacional de Direitos Humanos e Democracia


Os Direitos Humanos e a sua Proteção
25 e 26 de abril de 2013
225
O novo plano diretor participativo do município de Santos

ANÁLISE CONCEITUAL DO INSTRUMENTO DO PLANO DIRETOR


Ressaltada, pois, a importância do plano diretor para as
cidades, cumpre-nos destacar algumas definições sobre esse
instrumento.
Segundo Granziera2,
[...] o plano diretor é o instrumento catalizador das condi-
ções de vida desejadas pelos habitantes. Trata-se do
produto de uma negociação pública, em que os habitan-
tes definem o que desejam para a cidade. Deve, pois, o
Plano Diretor ser entendido não apenas como um instru-
mento de gestão urbana e ambiental, mas sobretudo co-
mo o processo compreensivo e participativo no qual pode
se dar o enfrentamento dos diversos conflitos existentes
acerca do uso e ocupação do solo urbano e de seus recur-
sos

A nosso ver, essa é a melhor definição doutrinária sob o


tema, tendo em vista que analisa o instrumento sob o ponto de
vista social e ambiental, levando em conta ainda o próprio pro-
cesso de implementação e aprovação, na medida em que refor-
ça vários aspectos da produção do instrumento, em especial, a
participação popular para a construção de uma política pública
para o planejamento municipal.
Desse modo, o plano diretor elaborado sob essa premissa,
ou seja, plano diretor construído com a real participação dos
maiores interessados terá maior chance de garantia de sua
efetividade.
Outras definições doutrinárias devem ser mencionadas
tendo em vista a possibilidade de diferentes abordagens sobre
o mesmo instrumento, de forma que, o plano diretor também
pode ser definido sob o aspecto relacionado com o crescimento
e o funcionamento da cidade e nesse ponto define SILVA3 :

2
85GRANZIERA, Maria Luiza Machado. Direito Ambiental. São Paulo:
Atlas, 2009, p. 469.
3
SILVA, Carlos Henrique Dantas. Plano Diretor. Teoria e Prática. São
Paulo: SARAIVA, 2008.

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Curso de Mestrado em Direitos Humanos
226
Cristiane Elias de Campos Pinto

Segundo a Constituição de 1988, o plano diretor é o ins-


trumento básico da política de desenvolvimento e de ex-
pansão urbana. Sendo instituído na forma de lei comple-
mentar, dispõe sobre a política urbana do município, or-
ganizando o funcionamento e o crescimento da cidade”

Nessa linha Machado4 destaca o plano diretor sob o ponto


de vista de normativa municipal levando em considerando a
regra de competência legislativa:
[...] conjunto de normas obrigatórias, elaborado por lei
municipal específica, integrando o processo de planeja-
mento municipal, que regula as atividades e os empre-
endimentos do próprio Poder Público Municipal e das
pessoas físicas ou jurídicas, de Direito Privado ou Públi-
co, a serem levados a efeito no território municipal.

Por fim, a definição legal do plano diretor inserida no arti-


go 40 do Estatuto da Cidade, que dispõe o mesmo como ins-
trumento básico da política de desenvolvimento e expansão
urbana.
As definições apresentadas acima, denotam a relevância
e complexidade do planejamento urbano, tendo como base a
aprovação desse conjunto de normas inseridas em um único
instrumento jurídico.
Destarte, e diante das conceituações doutrinárias acima
apontadas, veremos a seguir, os princípios inseridos no atual
plano diretor e a respectiva relação do mesmo com diversas
normativas internacionais, para melhor compreender seu pro-
cesso de revisão e elaboração.

DOS PRINCÍPIOS NORTEADORES DO ATUAL PLANO DIRETOR


Os princípios informados no artigo 1º da Lei.731 de 2011,
que instituiu o atual plano diretor do município, são referenci-
ados em diversos diplomas internacionais e nacionais e por

4
MACHADO, Paulo Affonso Leme. Direito Ambiental Brasileiro. São
Paulo: SARAIVA, 2008.
I Seminário Internacional de Direitos Humanos e Democracia
Os Direitos Humanos e a sua Proteção
25 e 26 de abril de 2013
227
O novo plano diretor participativo do município de Santos

isso vale destacar o referido dispositivo nesse momento do


trabalho:
Art. 1.º Fica instituído o Plano Diretor de Desenvolvimen-
to e Expansão Urbana do Município de Santos, cujos
princípios básicos são a melhoria da qualidade de vida
da população e o pleno desenvolvimento das funções so-
cial e econômica do Município, conforme determina a Lei
Orgânica.

Vale destacar algumas normativas internacionais que tra-


tam do assunto, dentre elas, pode-se dizer que o grande marco
de proteção ambiental, nesta considerando-se a preservação
do bem estar humano e da sadia qualidade de vida foi a Confe-
rência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente em Estocol-
mo em 1972, que preconizou no Princípio Primeiro:
O homem é ao mesmo tempo criatura e criador do meio
ambiente, que lhe dá sustento físico e lhe oferece a opor-
tunidade de desenvolver-se intelectual, moral, social e
espiritualmente. A longa e difícil evolução da raça huma-
na no planeta levou-a a um estágio em que, com o rápido
progresso da Ciência e da Tecnologia, conquistou o po-
der de transformar de inúmeras maneiras e em escala
sem precedentes o meio ambiente. Natural ou criado pelo
homem, é o meio ambiente essencial para o bem-estar e
para gozo dos direitos humanos fundamentais, até mes-
mo o direito à própria vida.

O princípio segundo da referida Conferência aduz que a


proteção e melhoria do meio ambiente devem constituir a preo-
cupação de todos os Governos por afetar o bem estar dos povos.
Ainda na esfera internacional, a Declaração sobre o Direi-
to ao Desenvolvimento adotada pela Resolução nº. 41/128 da
Assembléia Geral das Nações Unidas de 4 de dezembro de
19865, reafirma em seu texto o ser humano como objeto e des-
tinatário principal de proteção das normas para o desenvolvi-
mento, que deve ter como baliza o respeito aos direitos huma-

5
Resolução 41/128 da Assembléia Geral das Nações Unidas

Programa de Pós-graduação em Direito


Curso de Mestrado em Direitos Humanos
228
Cristiane Elias de Campos Pinto

nos, e ainda que os Estados têm o dever de formular políticas


objetivando o bem estar de toda a população.
A Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e
Desenvolvimento na Declaração Rio de Janeiro de 1992, adotou
no princípio 1 que os seres humanos têm direito a vida saudável.
Diante desse panorama, há que se refletir sobre o signifi-
cado de bem estar social e qualidade de vida no contexto das
cidades brasileiras, na que medida os planos municipais ten-
dem a alcançar tal objetivo, visto como um dos princípios nor-
teadores do plano, considerando o estado de bem estar como
atributo da qualidade de vida e meta do Poder Estatal.
Segundo Daniela Di Sarno6,
[...] qualidade de vida engloba muito mais que a mera
sobrevivência da espécie. Refere-se à vivência em sua
plenitude, na qual o ser usufrua de tudo o que for neces-
sário para, além da sobrevivência física, obter a realiza-
ção de suas finalidades

A Constituição Federal de 1988 também consagrou o di-


reito à qualidade de vida no artigo 225 com um atributo antes
não mencionado, qual seja – direito à sadia qualidade de vida.
Verifica-se, pois, do texto legal que a diretiva municipal
atende, pelo menos sob o ponto de vista conceitual, as diretri-
zes do Estatuto da Cidade para elaboração dos planos munici-
pais, de sorte que cabe agora, verificar como se deu o processo
de elaboração dos planos diretores anteriores apenas para tra-
çar a respectiva relação com o atual.

DO PROCESSO DE ELABORAÇÃO E APROVAÇÃO DOS PLANOS


DIRETORES DE 1968 A 2011
Para Gonçalves7, três momentos foram importantes para
estudo desse período: em 1968 quando da promulgação da Lei
6
DI SARNO, Daniela Campos Libório. Elementos de Direito Urbanístico.
São Paulo: Manole, 2004.
7
GONÇALVES, Alcindo. Plano Diretor. Planejamento e Legislação Ur-
bana.Santos: Revista da Procuradoria Geral do Município de Santos,
2009, p. 26-37
I Seminário Internacional de Direitos Humanos e Democracia
Os Direitos Humanos e a sua Proteção
25 e 26 de abril de 2013
229
O novo plano diretor participativo do município de Santos

3.529, que institui o Plano Diretor Físico do Município de San-


tos, em 1998, para o processo de revisão dessa lei para dar ori-
gem a Lei Complementar nº. 311, que instituiu o Plano Diretor
Desenvolvimento e Expansão Urbana do Município de Santos e
em 2009 quando começa novo processo de revisão dando ori-
gem ao atual plano diretor.
Ademais e como bem assevera Nunes8 “a participação da
sociedade civil se retraiu e os espaços democráticos para o
debate sobre o desenvolvimento urbano se reduziram”, levan-
do em conta o momento político nacional a partir de 1964.
Em relação ao plano de 1998, houve diferença no que se
refere à participação popular e quanto à elaboração do plano,
com a participação de entidades de classe e elaboração do
plano por técnicos municipais.
No processo de revisão do plano de 2009, pode-se dizer que
houve grande participação popular, notadamente pelos órgãos
de classe e setores da construção civil, por conta dos fatores de
desenvolvimento previstos para a região e do mesmo modo, a
elaboração do plano foi feita pelas secretarias municipais.

DO PROCESSO DE REVISÃO E APROVAÇÃO DO ATUAL PLANO


DIRETOR DE SANTOS
Os processos de revisão e aprovação dos planos diretores
são antecedidos pela coleta de dados sócio-econômicos da ci-
dade, a subsidiar as propostas de revisão de qualquer plano.
Com esse levantamento será possível estabelecer prioridades
e metas com base em um sistema de planejamento municipal
devidamente articulado além da necessária comunicação com
os seguimentos sociais.
O processo de revisão e aprovação do atual plano diretor
teve início em novembro de 2008 e término em junho de 2009,
cujo cronograma apresentamos na figura abaixo, sendo mar-
cado notadamente pela realização de oito audiências públicas
e com a apresentação de 508 propostas.

8
NUNES, Luiz Antonio de Paula. Tese de Doutorado. São Paulo: Universi-
dade de São Paulo, 2005, p.62.

Programa de Pós-graduação em Direito


Curso de Mestrado em Direitos Humanos
230
Cristiane Elias de Campos Pinto

PREFEITURA MUNICIPAL DE SANTOS

Cronograma prévio da revisão de 10 anos


Plano Diretor , Uso e Ocupação do Solo – Áreas Insular e Continental

2009

11/03 - CDES / CMDU - Apresentação e discussão das propostas consolidadas


25/03 - Deliberação da pré proposta a ser encaminhada para as Audiências Setoriais
08/04 - Audiência Pública Zona Leste
15/04 - Audiência Pública Zona Noroeste
22/04 - Audiência Pública Morros
29/04 - Audiência Pública Área Continental
13/05 - CDES / CMDU - Análise e discussão das propostas apresentadas nas Audiências
...............Públicas
27/05 – Audiência Pública Geral
24/06 - CMDU - Deliberação das minutas dos projetos a serem encaminhadas ao Executivo

As propostas encaminhadas pelos diversos seguimentos sociais fo-


ram resumidas no quadro abaixo para melhor sistematização, tendo sido
elaborada pela Secretaria de Planejamento Urbano9.

Resumo das propostas encami- REPRESENTANTE‐CON- INCLUSÃO


nhadas ao processo de Revisão do SELHO/ÓRGÃO
Plano Diretor PROPOSTA
Reconhecimento da Ilha Diana CDES/SEAS A ser tratado na revisão
como bairro da Lei de Uso e Ocupa-
ção do solo

9
Disponível em: <www.santos.sp.gov.br/planejamento/planodir/apres/re
s_pro.pdf>. Acesso em 10.02.13
I Seminário Internacional de Direitos Humanos e Democracia
Os Direitos Humanos e a sua Proteção
25 e 26 de abril de 2013
231
O novo plano diretor participativo do município de Santos

Criação de um oitavo eixo (vetor) ‐CDES/UNISANTOS Incluído em todos os


com o objetivo de “Busca de uma Planos de Ação Integra-
Cidade Justa” da como Diretriz “Pro-
mover a Inclusão Social”,
além da inclusão no
calendário de revisão do
Plano, as capacitações
setoriais
Criação do vetor Inclusão Social Comitê do Plano Diretor Incluído em todos os
Participativo do Fórum Planos de Ação Integra-
da Cidadania de Santos da como Diretriz “Pro-
mover a Inclusão Social”
Inclusão de Audiência Pública na Comitê do Plano Diretor Inseridos no calendário a
Região do Centro Participativo do Fórum Capacitação e Audiência
da Cidadania de Santos Pública da Zona Central
Separação da Audiência Pública da Comitê do Plano Diretor Inseridos no calendário a
Zona Leste em: Zona da Orla e Zona Participativo do Fórum Capacitação e Audiência
Intermediária da Cidadania de Santos Pública das Zonas da
Orla e Intermediária
Que às diretrizes e objetivos que Comitê do Plano Diretor Serão definidas após a
forem definidos ao final desse Participativo do Fórum conclusão das ações de
processo de revisão do Plano Dire- da Cidadania de Santos cada Programa.
tor sejam associadas a respectivas
e indispensáveis Metas e Indicado-
res
Que sejam incorporados a este Comitê do Plano Diretor Além das audiências
processo de revisão do Plano Dire- Participativo do Fórum públicas, estão sendo
tor as orientações e parâmetros da Cidadania de Santos propostas (GT Unisan-
metodológicos recomendados pelo tos) oficinas de capacita-
Ministério da Cidade, no que se ção e diagnóstico.
refere à efetiva participação da
Sociedade
Que os Conselhos Municipais, o Comitê do Plano Diretor Além das audiências
Poder Público e a Câmara Munici- Participativo do Fórum públicas, estão sendo
pal assumam a responsabilidade de da Cidadania de Santos propostas (GT Unisan-
ampliar o debate sobre a revisão tos) oficinas de capacita-
do Plano Diretor, envolvendo, ção e diagnóstico.
mobilizando e estendendo o pro-
cesso participativo ao conjunto dos
Conselhos Municipais, Sociedades
de Bairros, Associações Civis, Meios
de Comunicação e outras instâncias
interessadas

Estabeleceram-se os setores prioritários, em relação os


quais os planos de desenvolvimento foram traçados, conforme
figura a seguir:

Programa de Pós-graduação em Direito


Curso de Mestrado em Direitos Humanos
232
Cristiane Elias de Campos Pinto

Uso e Ocupação do Solo


E Porto
Circulação e Transporte
S Comércio e Serviço
SETORES
DIRETRIZES Econômica Social
T
PRIORITÁRIOS
Turismo
Ambientais
R Pesca
Habitação
U
T Gestão Ambiental SEPLAN
Desenvolvimento Turístico
U Demanda Habitacional
CMDU

R
PLANOS DE SISTEMA DE Audiências Públicas
AÇÃO PLANEJAMENTO
Trânsito e Transporte
A
INTEGRADA
Fundo de Desenv. Urbano
Sist. Integr. da Informação
Fundo p/ Pres. e Recuperação
Integração Porto x Cidade do Meio Ambiente

Sendo assim, porto, comércio e serviço, turismo e pesca


foram eleitos como setores prioritários, assim como se fixou as
diretrizes gerais baseadas nas questões relativas ao uso e
ocupação do solo, circulação e transporte, economia social,
questões ambientais e habitação.
Consta no plano diretor, a previsão de implementação dos
seguintes planos de desenvolvimento:
I - Plano de Sustentabilidade Ambiental;
II -Plano de Desenvolvimento Urbano;
III - Plano de Desenvolvimento Turístico;
IV - Plano de Pesquisa e Desenvolvimento;
V - Plano de Desenvolvimento Energético;
VI - Plano de Desenvolvimento Portuário, Retroportuário e
de Logística;
VII - Plano de Desenvolvimento de Pesca e da Aquicultura.
I Seminário Internacional de Direitos Humanos e Democracia
Os Direitos Humanos e a sua Proteção
25 e 26 de abril de 2013
233
O novo plano diretor participativo do município de Santos

A sistematização das propostas foi feita pelo Sistema de


Planejamento Municipal composto pela articulação dos seguin-
tes órgãos e conselhos municipais: Secretaria de Planejamento
Urbano, Conselho Municipal de Desenvolvimento Urbano –
CMDU e também pelo Conselho de Desenvolvimento de San-
tos, local onde as propostas foram apresentadas e discutidas.
Segundo dados disponíveis no site da Prefeitura Munici-
pal de Santos10 sobre os órgãos de planejamento, composição e
competências, o CMDU foi criado através da Lei nº. 1776/1999
e realizou discussões importantes sobre vários setores relacio-
nados ao desenvolvimento urbano da cidade e tem como com-
petência a articulação dos diversos setores da sociedade na
participação das políticas de planejamento urbano em especial
das que foram destinadas à discussão do atual plano diretor
santista.
O texto final foi aprovado no mês de julho de 2011, sem
que de fato as principais questões sociais tenham merecido
maior ênfase, ao contrário das questões relativas ao desenvol-
vimento econômico do município.
Sendo assim, não é possível afirmar que houve de fato
acolhimento das propostas apresentadas, considerando que o
atual plano diretor tem diretrizes bastante genéricas, especi-
almente se levarmos em conta o atual estágio de desenvolvi-
mento econômico do município evidenciado pelas perspectivas
lançadas pela exploração do pré-sal e dos investimentos no
porto santista.
Não nos parece assim, muito favorável o estabelecimento
de planos e vetores de desenvolvimento sem metas específicas
e prazos definidos de execução, ademais é importante asseve-
rar que os planos de desenvolvimento não foram efetivamente
implementados até o momento deste artigo.
Para o município de Santos que aguarda as projeções e
perspectivas de desenvolvimento econômico capitaneadas pe-
la exploração do pré-sal, a falta ou demora na execução de pro-
jetos a nosso ver, em especial a falta de execução de projetos

10
Disponível em: <www.santos-sp.gov>. Acesso em 10.02.13.

Programa de Pós-graduação em Direito


Curso de Mestrado em Direitos Humanos
234
Cristiane Elias de Campos Pinto

relativos à mobilidade urbana, poderá causar o agravamento


das questões urbanas que a cidade precisa solucionar, afinal
esse deveria ser o objetivo do plano diretor.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Ao longo do presente artigo, demonstramos que os pla-
nos diretores municipais ainda que tenham o devido aparato
legal e doutrinário para sua consecução, ainda guardam relati-
vo distanciamento com as reais necessidades dos municípios.
A análise do processo de revisão e aprovação do atual
plano diretor de Santos revelou a maior preocupação da gestão
municipal com aspectos relativos ao desenvolvimento econô-
mico na contramão com a preocupação sócio-ambiental.
Por outro lado, verificou-se um incremento na participa-
ção popular, especialmente representada por entidades de
classe e pelos Fóruns de Cidadania do município, o que revela
uma mudança de paradigma em relação aos planos anteriores.
É inegável também que o atual plano diretor, do mesmo
modo como ocorreu com os anteriores, preocupou-se mais com
as questões de ordem urbanísticas, o que por si só, prejudica a
efetiva participação popular no processo de revisão, maior in-
teressada no debate de questões sociais, ou seja, interessada
em discutir o planejamento de forma mais ampla.
Dessa forma, a pretendida garantia da qualidade vida das
pessoas nas cidades pelo estabelecimento de planos e metas
para o desenvolvimento sustentável, objetivo da construção do
referido instrumento de política urbana, recebeu mais uma vez
conotação de menor importância.

REFERÊNCIAS
EREMBERG, Jean Jacques. Função Social da Propriedade Urbana.
Municípios sem plano diretor. São Paulo: Letras Jurídicas, 2008
GRANZIERA, Maria Luiza Machado. Direito Ambiental. São Paulo:
Atlas, 2009

I Seminário Internacional de Direitos Humanos e Democracia


Os Direitos Humanos e a sua Proteção
25 e 26 de abril de 2013
235
O novo plano diretor participativo do município de Santos

SILVA, Carlos Henrique Dantas. Plano Diretor. Teoria e Prática. São


Paulo: SARAIVA, 2008
MACHADO, Paulo Affonso Leme. Direito Ambiental Brasileiro. São
Paulo: SARAIVA, 2008
Assembléia Geral das Nações Unidas. Resolução 41/128
DI SARNO, Daniela Campos Libório. Elementos de Direito Urbanís-
tico. São Paulo: Manole, 2004
GONÇALVES, Alcindo. Plano Diretor. Planejamento e Legislação
Urbana.Santos: Revista da Procuradoria Geral do Município de San-
tos, 2009.
NUNES, Luiz Antonio de Paula. Tese de Doutorado. A construção da
esfera pública no planejamento urbano. Um percurso histórico: San-
tos, 1945-2000. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2005
SANTOS, Prefeitura Municipal de Santos. Disponível em: <www.
santos-sp.gov>. Acesso em 10.02.13.

Programa de Pós-graduação em Direito


Curso de Mestrado em Direitos Humanos
DIREITOS HUMANOS ,
POLÍTICAS PÚBLICAS E ERRADICAÇÃO
DA VIOLÊNCIA DOMÉSTICA CONTRA AS
MULHERES : UMA ANÁLISE A PARTIR DO
MUNICÍPIO DE SANTA ROSA/RS

Daniel Rubens Cenci


Professor, Mestre em Direito, Doutor em Meio Ambiente e Desenvolvi-
mento, Atua junto ao Mestrado em Direitos Humanos da UNIJUI URI. Co-
ordenador da Linha de Pesquisa Direitos Humanos, Meio Ambiente e No-
vos Direitos, e o projeto de pesquisa junto ao CNPq, com o mesmo nome.
(danielr@unijui.edu.br)
Laila Letícia Falcão Poppe
Bacharel em Direito, Especialista em Direito do Trabalho, Mestranda em
Direitos Humanos na UNIJUI, Pesquisadora do grupo de pesquisa Direitos
Humanos, Meio Ambiente e Novos Direitos. Bolsista CAPES.
(lailapoppe@hotmail.com)
Lurdes Aparecida Grossmann
Professora, Mestre em Direito, atua na área do Direito Penal na UNIJUI.
Participante do conselho de políticas para Mulheres do Município de San-
ta Rosa. (lurdesgrossmann@unijui.edu.br.)

Resumo
A discussão referente a discriminação e a violência de gênero é das mais candentes
quando referimos aos direitos humanos. Tal ênfase decorre da persistente situação
de segregação da mulher ao longo da história, mas também como realidade que
revela grandes diferenças, nas relações sociais, especialmente, nas relações familia-
res e que prolongam-se nos diferentes espaços sociais. A temática de gênero e direi-
tos humanos nos remete a problemas como a discriminação, a violência e a opressão
contra as mulheres, presentes no dia a dia de diferentes maneiras, desde a violência
física e moral, até as situações de dificuldades de acesso ao trabalho, à educação, a
cargos e funções políticas, entre outras, sempre situações reveladoras da exclusão
de gênero. Será este um tema apenas para o direito? As respostas buscadas da expe-
riência do município de Santa Rosa, aqui analisadas, apontam para a necessidade de
construir e fortalecer redes de proteção às mulheres, como efetivação de seus direi-
tos humanos fundamentais e a defesa de sua dignidade.
Palavras-chave: Cidadania. Direitos humanos. Igualdade de gênero. Violência de
gênero.
238
Daniel Rubens Cenci; Laila Letícia Falcão Poppe & Lurdes A. Grossmann

Abstract
The discussion regarding discrimination and gender-based violence is the hottest
when referring to human rights. This emphasis stems from the persistent situation of
segregation of women throughout history, but as a reality that reveals large differ-
ences in social relationships, especially family relationships and extend in different
social spaces. The theme of gender and human rights leads us to problems such as
discrimination, violence and oppression against women, present in life everyday in
different ways, from the physical and moral violence, until the situations of difficult
access to employment, education, jobs and political functions, and others, always
revealing situations of exclusion of gender. Is this a just theme to the right? Answers
sought the experience of Santa Rosa city, analyzed here, point to the need to build
and strengthen safety necessity for women, as realization of their fundamental hu-
man rights and the defense of their dignity.
Keywords: Citizenship. Human rights. Gender equality. Gender violence.

INTRODUÇÃO
O desafio de desenvolver o tema dos Direitos humanos na
perspectiva de gênero nos coloca a repensar o lugar da mulher
na sociedade, seu espaço na família, no trabalho doméstico e
no mercado, seu papel de mãe, de educadora, de provedora, de
esposa, enfim da cidadã que ao longo da história acumulou em
seu entorno papéis fundamentais para a sociedade e que, ain-
da assim, é segregada e alvo de violência. Neste trabalho se
priorizará a temática da violência doméstica.
Nesta perspectiva, a questão de gênero, que expõe as di-
ferenças construídas social e culturalmente entre sexo mascu-
lino e feminino, mas que são apresentadas como se fossem
meras apresentações das estruturas biológicas, conduziram a
uma naturalização dos papeis exercidos por homens e mulhe-
res na sociedade, sendo, inclusive, internalizadas pelas mulhe-
res que em alguns casos de violência domésticas aceitam o
papel de agentes causadoras da agressão e no da sociedade
que rotineiramente julga e condena severamente a mulher vi-
timada, em comparação com seu agressor, na maioria das ve-
zes o próprio companheiro.
O estudo busca assim estabelecer uma análise das políti-
cas públicas para mulheres ao longo da história e concomitan-
temente, analisar a efetividade das mesmas. A temática da
violência doméstica não é isolada dos demais campos da vio-

I Seminário Internacional de Direitos Humanos e Democracia


Os Direitos Humanos e a sua Proteção
25 e 26 de abril de 2013
239
Direitos humanos, políticas públicas e erradicação da violência doméstica...

lência contra a mulher, entretanto, neste artigo reflete-se críti-


ca e teoricamente sobre o tema, e na sequência, aproxima-se a
metodologia de estudo de caso, porquanto as análises refletem
a caminhada, as estruturas, as políticas desenvolvidas no mu-
nicípio de Santa Rosa – Rio Grande do Sul, no âmbito da prote-
ção a mulher. Busca-se descrever a caminhada da luta por di-
reitos, sintetizada na busca da igualdade de gênero, enten-
dendo o papel do movimento social, dos poderes públicos, nas
diferentes estruturas do Estado, o papel do direito, especial-
mente após a publicação da Lei Maria da Penha.
Por derradeiro, alguns apontamentos e considerações que
se nos apresentam importantes para a emancipação da mu-
lher, especialmente a partir da experiência analisada.

DIREITO HUMANOS E CIDADANIA NA PERSPECTIVA DE GÊNERO


O debate referente à temática de gênero e direitos huma-
nos nos remete a graves problemas na sociedade atual, como a
discriminação, a violência e a opressão contra as mulheres,
sendo que os mesmos se manifestam no dia a dia de diferentes
maneiras, desde a violência física e moral, até as situações de
dificuldades de acesso ao trabalho, à educação, a cargos e fun-
ções políticas, entre outras, sempre situações reveladoras da
exclusão de gênero. Embora as duas últimas décadas nos reve-
lem que as mulheres venham exercendo influência sem prece-
dentes na família e na sociedade, conseguindo espaços no
campo profissional e na política, na maioria dos países elas
ainda não desfrutam de igualdade de direitos com os homens,
no aceso à educação, no preparo profissional, nos salários, nas
oportunidades de trabalho e nos postos de destaque. No Brasil
particularmente, há uma disparidade entre os Direitos Huma-
nos que as mulheres possuem perante a lei e a possibilidade
real de desfrutá-los.
Por questões estruturais, o presente trabalho faz um re-
corte priorizando o enfoque da violência contra a mulher, ainda
que os diferentes campos da exclusão e discriminação sejam
sempre conexos.

Programa de Pós-graduação em Direito


Curso de Mestrado em Direitos Humanos
240
Daniel Rubens Cenci; Laila Letícia Falcão Poppe & Lurdes A. Grossmann

A discussão referente ao tema de gênero é das mais can-


dentes quando referimos aos direitos humanos. Tal ênfase de-
corre da persistente situação de segregação da mulher ao longo
da história, mas também como realidade que revela grandes
diferenças, nas relações sociais, especialmente, nas relações
familiares e que prolongam-se nos diferentes espaços sociais.
Debater Direitos Humanos na perspectiva de gênero signi-
fica muito mais que um recorte teórico, mas exige compromisso
e reflexão capazes de propor e articular políticas públicas de
enfrentamento da discriminação social vivida pelas mulheres
em pleno século XXI. Por seu turno a perspectiva de gênero não
significa dividir a questão humana, mas sim, redefinir o espaço
enquanto seres humanos com direitos iguais, fortalecendo a
feminilidade e a masculinidade promovendo a igualdade.
Direitos humanos na perspectiva de gênero nos coloca
como desafio repensar o lugar da mulher na sociedade, seu
espaço na família, no trabalho doméstico e no mercado, seu
papel de mãe, de educadora, de provedora, de esposa, enfim
da cidadã que ao longo da história acumulou em seu entorno
papéis fundamentais para a sociedade e que, ainda assim, é
segregada e alvo de violência.
Quando Chauí1, define a violência como “processo de re-
dução de um sujeito à condição de coisa” estabelece um crité-
rio universal aplicável a situações particulares. A coisificação
de uma pessoa sempre é resultado de uma conjugação de fato-
res e, via de regra, da imposição da força. A violência pode ser
física ou moral, ou andarem juntas, como se revela com fre-
quência. O entendimento do tema da violência passa, pois por
compreender o estilo de violência a que está sendo submetida,
sobre o qual desenvolvem-se as políticas públicas em busca de
cidadania, porquanto esta é totalmente incompatível com o
tema da violência.
Conforme recomenda Santos2, trata-se de democratizar os
direitos, através da participação, da presença de cada sujeito,

1
CHAUÍ, Marilena. O que é ideologia. São Paulo: Brasiliense, 1980.
2
SANTOS, Boaventura de Sousa (Org.) Reconhecer para libertar. Os Ca-
minhos do cosmopolitismo cultural. Porto: Afrontamento, 2004.
I Seminário Internacional de Direitos Humanos e Democracia
Os Direitos Humanos e a sua Proteção
25 e 26 de abril de 2013
241
Direitos humanos, políticas públicas e erradicação da violência doméstica...

pois a participação é interação, e interação é agir na alterida-


de, é emancipar, é permitir que cada ser humano seja humano
com os demais humanos. Participação é democracia e integra-
ção, pois o ser humano se faz com os humanos, e é a forma his-
tórica mais adequada para tornar a democracia efetiva.
Enquanto persistirem violência e discriminação, e en-
quanto estas não forem abolidas e condenadas, permanecerá a
necessidade de organizações que trabalhem para esclarecer e
orientar a população nessa direção.
Como desafio cabe resgatar a construção de relações so-
lidárias que tornem efetiva a proclamação da solene Declara-
ção Universal dos Direitos Humanos, de que todos nascem li-
vres em dignidade e direitos. Tal enunciado torna-se mais en-
fático na Conferência Mundial sobre Direitos Humanos, reali-
zada em Viena, no ano de 1993, foi reafirmada a igualdade de
direitos de direitos de homens e mulheres considerando qual-
quer forma de discriminação sexual como ação criminosa.
A educação para os direitos humanos e a igualdade de
gênero, exige mudanças profundas. A desinformação sobre os
direitos da mulher se soma à falta de orientação de como pro-
ceder e de como denunciar casos de violação de seus direitos
básicos, temas que hoje dispõem de previsão legal e de políti-
cas próprias, exigindo também uma forma mais incisiva e de-
cidida no agir do conjunto da sociedade, constituindo verda-
deiras redes de proteção da mulher e da defesa da igualdade e
dos seus direitos.
Ao longo da história das políticas para mulheres, identifi-
cam-se diferentes fases, sendo até recentemente caracteriza-
das por ações isoladas e pontuais, hoje compreendidas como
insuficientes para o desenvolvimento de políticas públicas ca-
pazes de proteger a sociedade e construir novos contextos so-
ciais. Assim a política de combate a violência contra as mulhe-
res apresenta-se como desafio para a democracia e a cidada-
nia. Há, todavia experiências alentadores que permitem vis-
lumbrar processos sociais mais integradores e emancipatórios
para as mulheres, como é o caso de Santa Rosa/RS que se ana-
lisa a seguir.

Programa de Pós-graduação em Direito


Curso de Mestrado em Direitos Humanos
242
Daniel Rubens Cenci; Laila Letícia Falcão Poppe & Lurdes A. Grossmann

REFLEXÕES E APRENDIZADOS A PARTIR DA EXPERIÊNCIA DO


MUNICÍPIO DE SANTA ROSA/RS
A violência contra as mulheres constitui-se em uma das
principais formas de violação dos seus direitos humanos, atin-
gindo-as em seus direitos à vida, a saúde e à integridade3.
A Constituição Federal4 determinou no § 8º do art. 226, a
criação de uma legislação que erradicasse a violência domésti-
ca, mas, apesar desta previsão e do fato do Brasil ser signatá-
rio de Convenções internacionais sobre o tema, como a de Bei-
jin e a de Belém do Pará, somente em 2006 foi criada uma le-
gislação específica para enfrentar a violência doméstica.
A Lei nº 11.340/06, Lei Maria da Penha, se caracteriza por
trazer um arcabouço normativo que procura não somente en-
frentar a violência, mas prevenir sua ocorrência através de uma
série de ações que passam desde medidas protetivas à mulher
vitimada, mas também tratam de questões relevantes como a
educação, fundamental para mudar a matriz patriarcal que
ainda é o paradigma de nossa sociedade e a principal razão da
violência praticada contra a mulher.
Para dar eficácia a este objetivo de prevenir e erradicar a
violência doméstica, a Lei Maria da Penha traz diversos dispo-
sitivos que determinam a criação de políticas públicas direcio-
nadas a violência, saúde, educação, geração de renda e outras.
Nesse contexto, para Dias
Necessária a existência órgãos, instrumentos e procedi-
mentos capazes de fazer com que as normas jurídicas se
transformem de exigências abstratas à vontade humana
em ações concretas. Assim, indispensável a implementa-
ção de uma Ação de Políticas Públicas voltada a alcançar
os direitos sociais fundamentais de todos os cidadãos,

3
BRASIL, Presidêcia da República. Secretaria Especial de Políticas para
as Mulheres. II Plano Nacional de Políticas para as Mulheres. Brasília:
Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres, 2008. 236 p. 1.
4
BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil. 45.ed. São
Paulo: Saraiva, 2011.
I Seminário Internacional de Direitos Humanos e Democracia
Os Direitos Humanos e a sua Proteção
25 e 26 de abril de 2013
243
Direitos humanos, políticas públicas e erradicação da violência doméstica...

incluindo, em especial, as mulheres vítimas de violência


doméstica...5

Até o advento da Constituição de 88 e da Lei Maria da


Penha, as Políticas Públicas que envolviam as mulheres, mui-
tas vezes não tinham como finalidade o seu protagonismo ou a
proteção de seus interesses, mas as tinham apenas como obje-
to de determinada política governamental, como por exemplo,
a questão do controle da natalidade. Além disso, não aborda-
vam a questão de gênero, fundamental para a alteração do pa-
radigma machista que ainda orienta culturalmente toda a nos-
sa sociedade e que está no cerne da violência doméstica.
Nesta perspectiva, a questão de gênero, que expõe estas
diferenças construídas social e culturalmente entre os sexos e
que são apresentadas como se fossem biológicas, conduziram
a uma naturalização dos papeis exercidos por homens e mu-
lheres na sociedade, sendo, inclusive, internalizadas pelas mu-
lheres que em alguns casos de violência domésticas se colo-
cam de no papel de agentes causadoras da agressão e no da
sociedade que rotineiramente julga mais severamente a mu-
lher vitimada do que o homem agressor. Baratta, alerta que:
Como escreveu Simone de Beauvoir,”não se nasce mu-
lher, torna-se. A mesma regra vale para o gênero mascu-
lino. É a construção social do gênero, e não a diferença
biológica do sexo, o ponto de partida para a análise críti-
ca da divisão social do trabalho entre mulheres e homens
na sociedade moderna, vale dizer, da atribuição aos dois
gêneros de papeis diferenciados (sobre ou subordinado)
nas esferas de produção, da reprodução e da política e,
também, através da separação entre o público e o priva-
do. A própria percepção da diferença biológica no senso
comum e no discurso científico depende, essencialmente,
das qualidades que, em uma determinada cultura e soci-

5
DIAS, Maria Berenice. A Lei Maria da Penha na Justiça: a efetividade
da Lei 11.340-006 de combate à violência doméstica e familiar contra a
mulher/ Maria Berenice Dias – 2 ed. rev. atual e ampl. – São Paulo: Edito-
ra dos Tribunais, 2010, P. 197.

Programa de Pós-graduação em Direito


Curso de Mestrado em Direitos Humanos
244
Daniel Rubens Cenci; Laila Letícia Falcão Poppe & Lurdes A. Grossmann

edade, são atribuídas aos dois gêneros, e não ao contrá-


rio.6

A questão de gênero somente será ressignificada através


de políticas públicas que assegurem ações afirmativas que
efetivem uma igualdade material entre homens e mulheres.
Neste sentido, Dias, pondera que
O modelo conservador da sociedade, que coloca a mulher
em situação de inferioridade e submissão, é que a torna
vítima da violência masculina. A lei atenta para esta rea-
lidade. Ainda que homens possam ser vítimas de violên-
cia doméstica, tais fatos não decorrem de razões de or-
dem social e cultural. Aliás, é exatamente para dar efeti-
vidade ao princípio da igualdade que se fazem necessá-
rias equalizações por meio de ações afirmativas. Daí o
significado da lei: assegurar à mulher o direito à sua in-
tegridade física, psíquica, sexual, moral e patrimonial.7

Para Luiz8 é necessário saber como homens e mulheres se


relacionam enxergam a si mesmos e ao outro na relação, e as
relações de poder aí envolvidas, a fim de compreender as cau-
sas, os processos, as conseqüências e, ainda, as resistências
em questão.
Desta Perspectiva da desconstrução dos papeis sociais
atribuídos aos homens e as mulheres, vislumbram-se as razões
que levam as mulheres a ser a maioria esmagadora das vítimas
dos casos de violência doméstica no país e no mundo e a ne-
cessidade de transformação destes papeis para erradicar esta

6
BARATTA, Alessandro. O paradigma do gênero: da questão criminal à
questão humana. In: CAMPOS, Carmen Hein (Org.) Criminologia e Fe-
minismo. Porto Alegre: Editora Sulina, 1999, p. 21.
7
DIAS, Maria Berenice. A efetividade da Lei Maria da Penha. Revista
Brasileira de Ciências Criminais, RBCCRIM. Nº 64 – 2007. São Paulo: RT,
p. 298.
8
LUIZ, Cristiana dos Santos. et al. Santa Rosa e Região por Uma Rede de
Proteção á Mulher. 172, p.: 15x22cm. 1. Santa Rosa e Região por Uma
Rede de Proteção à Mulher. I. Título. Dinâmicos Desenvolvimento Sus-
tentável, 2012, p. 25.
I Seminário Internacional de Direitos Humanos e Democracia
Os Direitos Humanos e a sua Proteção
25 e 26 de abril de 2013
245
Direitos humanos, políticas públicas e erradicação da violência doméstica...

forma de violência. A necessidade da criação deste novo para-


digma igualitário passa, necessariamente, pela educação.
A mudança do papel exercido pela mulher na sociedade
transformou-se ao longo dos anos, mas, apesar desta evolução,
ainda temos muito que avançar. Apesar de termos uma Presi-
denta da República, a participação das mulheres no parlamen-
to brasileiro é uma das baixas do mundo. Segundo PINHEIRO
No cenário internacional, o Brasil, se foi um dos primeiros
países a garantir os direitos políticos às mulheres, atual-
mente integra o grupo de 60 países com o pior desempe-
nho quanto a presença das mulheres no Parlamento: 8,8%
na Câmara dos Deputados e 12,3% no Senado Federal.9

Ainda, no mesmo contexto


O resultado mais concreto da assinatura da Plataforma
de Beijing foi a instituição de um sistema de cotas para
as eleições proporcionais brasileiras, por meio de legisla-
ção específica.10

A participação nas instâncias de poder ainda é pequena


também na esfera privada. Apesar de muitas empresas possuí-
rem um número maior de mulheres em seus quadros gerais,
poucas estão em cargos de gerência ou presidência. Além dis-
so, de acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística11, o salário médio das mulheres é em média 28% in-
ferior ao dos homens nos mesmos cargos.
Estas desigualdades de representatividade nas instân-
cias de poder pública e privada refletem uma sociedade em

9
PINHEIRO, Luana Simões. Vozes femininas na política: uma análise
sobre as mulheres parlamentares no pós-Constituinte. Brasília: Secreta-
ria Especial de Políticas para as Mulheres, 2007. (Série Documento). 224
p. 1. Política. 2. Mulheres na Política. 3. Congresso Nacional. I. Título,
p.66.
10
Idem, p. 67.
11
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Salário das mulheres per-
manece 28% inferior aos dos homens nos últimos três anos. Disponível
em < http://saladeimprensa.ibge.gov.br/noticias?view=noticia&id=1&
busca=1&idnoticia=2096> Data de acesso 07/04/2013.

Programa de Pós-graduação em Direito


Curso de Mestrado em Direitos Humanos
246
Daniel Rubens Cenci; Laila Letícia Falcão Poppe & Lurdes A. Grossmann

que as mulheres ainda são colocadas em um papel de inferio-


ridade em relação aos homens e esta submissão está na base
da violência doméstica que as atinge.
Entende-se por violência doméstica aquelas condutas
ofensivas realizadas nas relações de afetividade ou conjugali-
dade hierarquizadas entre os sexos, cujo objetivo é a submis-
são ou subjugação, impedindo o outro do livre exercício da ci-
dadania12.
Para prevenir e erradicar esta forma de violência, a Lei
Maria da Penha prevê uma atuação conjunta e articulada de
órgãos governamentais, não-governamentais e da comunidade
no enfrentamento à violência doméstica, prevendo uma atua-
ção em Rede.
Neste sentido, o Município de Santa Rosa conta com di-
versos órgãos previstos na Lei Maria da Penha e que compõe a
Rede de Proteção à Mulher municipal.
No ano de 2007 foi criado pela Lei Municipal nº 4.308, o
Conselho Municipal dos Direitos da Mulher, CONDIM, compos-
to de uma série de entidades governamentais e não-
governamentais, dos mais diversos setores da comunidade,
como Universidade, Sindicatos, Clubes de Mães, Cooperativas,
Conselho Tutelar, Fundação Municipal da Saúde, etc.
O CONDIM tem atribuição fiscalizadora, deliberativa e
propositiva nas questões ligadas às mulheres no Município de
Santa Rosa e acompanha as políticas públicas destinas a elas
no Município, seja pelo poder municipal, estadual ou federal,
fiscalizando e propondo ações que implementam os direitos
previstos na Lei Maria da Penha e na Constituição Federal pa-
ra as mulheres.
Além disso, o CONDIM atua na divulgação dos direitos
das mulheres através de reuniões itinerantes em escolas, sin-
dicatos, encontros de trabalhadoras rurais e outros e pela rea-
lização de palestras e oficinas em diversos locais da cidade e
da região, informando os direitos contidos na Constituição Fe-

12
CAMPOS, Carmen Hein, org. Criminologia e Feminismo. Porto Alegre:
Sulina, 1999, p. 57.
I Seminário Internacional de Direitos Humanos e Democracia
Os Direitos Humanos e a sua Proteção
25 e 26 de abril de 2013
247
Direitos humanos, políticas públicas e erradicação da violência doméstica...

deral e na Lei Maria da Penha em relação às mulheres, a evo-


lução da cidadania feminina e a necessidade de empodera-
mento das mulheres, bem como os locais de atendimento da
Rede de Proteção à Mulher do Município.
Dentro da Rede criada no Município, uma das mais impor-
tantes conquistas foi a criação, 2011, do Centro de Referência
Regional à Mulher Dirce Grosz, CRRM13. Neste local as mulhe-
res possuem atendimento psicológico, social e jurídico gratuito
e recebem informações e orientações sobre seus direitos. O
Centro também acompanha as mulheres em relação a questões
como recolocação no mercado de trabalho, necessidade de en-
caminhamento para a Casa Abrigo, situação escolar dos filhos,
etc.
Dos atendimentos realizados pelo CRRM (2013), desde a
sua criação, foi identificado que 46% das mulheres sofreram
violência psicológica, 32% violência física, 15% violência patri-
monial, 6% violência sexual e 1% outros tipos de violência.
O maior número de mulheres vitimadas está na faixa etá-
ria dos 30 a 40 anos, cerca de 53% dos casos. Em relação as
profissões das mulheres vitimadas atendidas, 26% trabalham
em serviços gerais, 16% são aposentadas e pensionistas, 14%
são do setor de comércio, 10% são do lar, 8% são desemprega-
das, 8% são do setor da saúde, 8% são da agricultura, 5% são
servidoras pública e 5% são estudantes. Além disso, 14% delas
são da cidade de Santa Rosa e 86% são do interior do município.
Em relação a renda das mulheres atendidas em 2012, 59%
das vítimas arrecadam 1 salário mínimo mensal, 15% arreca-
dam R$ 1.000,00 por mês, 10% arrecadam R$ 300,00, 5% arreca-
dam 10% arrecadam R$ 300,00, 5% arrecadam R% 2.000,00, 3%
13
A denominação do CRRM, Dirce Grosz, é uma homenagem a profissional
e militante das políticas de igualdade de gênero Dirce Margarete Grosz,
que contribuiu decisivamente para as políticas de Gênero da região de
Santa Rosa. Natural de Boa Vista do Buricá/RS, dedicou-se de 2003 a
2008, as políticas nacionais de igualdade de gênero na Secretaria Espe-
cial de Políticas para as Mulheres da Presidência da República. Dirce era
Mestre em Educação pela UnB e faleceu em 2008 em acidente de trânsi-
to, quando retornava da região de Santa Rosa, para seu trabalho em
Brasília.

Programa de Pós-graduação em Direito


Curso de Mestrado em Direitos Humanos
248
Daniel Rubens Cenci; Laila Letícia Falcão Poppe & Lurdes A. Grossmann

arrecadam R$ 500,00, 3% arrecadam R$ 3.000,00, 4% arrecadam


R$ 150,00 e 1% arrecada R$ 5.000,00. Quanto ao nível de esco-
laridade, em 2012, o maior número de mulheres vitimadas
atendidas estava principalmente entre aquelas com fundamen-
tal incompleto (44%), médio completo (24%), fundamental com-
pleto (17%), médio incompleto (6%), superior incompleto (4%),
semi analfabeto (2%), técnico (1%), pós-graduação (1%) e mes-
trado (1%).
Também foi verificado que em 2012, 38% das mulheres
chegaram de forma espontânea ao CRRM e 62% das mulheres
chegaram de forma encaminhada. Do total de mulheres rece-
bidas, 33% foram encaminhadas para a Delegacia Especializa-
da de Atendimento a Mulher e 67% foram encaminhadas para
outros órgãos.
A procura espontânea das mulheres pelo Centro de Refe-
rência é fruto do trabalho desencadeado pelas entidades que
compõem a Rede de Proteção no sentido de divulgar a atuação
do CRRM. De igual forma, o encaminhamento das mulheres
vitimadas pela Delegacia Especializada de Atendimento à Mu-
lher e outros órgãos também resulta desta atuação articulada
da Rede no Município, em que as mulheres que procuram auxí-
lio em diversos locais como postos de saúde, hospitais, esco-
las, sindicatos e empresas são informadas deste trabalho de-
senvolvido pelo Centro de Referência e orientadas a procurar
este local.
Constatou-se que havia no Município e região diversas
mulheres em situação de perigo de vida ou risco quanto a sua
integridade física em função da violência doméstica a que
eram submetidas. Por esta razão, foi criado no ano de 2012, a
Casa de Passagem/Casa Abrigo, local destinado a abrigar es-
tas mulheres e também seus filhos, quando constatada a situ-
ação de risco. A casa fica em local sigiloso da cidade e conta
com serviço de vigilância, apoio psicológico, jurídico e social.
A Rede de Proteção é composta ainda de órgãos de ou-
tras esferas, como as do Estado. Dentre eles, um dos mais sig-
nificativos é a Delegacia de Atendimento às Mulheres. Em

I Seminário Internacional de Direitos Humanos e Democracia


Os Direitos Humanos e a sua Proteção
25 e 26 de abril de 2013
249
Direitos humanos, políticas públicas e erradicação da violência doméstica...

Santa Rosa, a Delegacia especializada foi implantada em junho


de 2011.
No que tange as estatísticas da Delegacia Estadual de
Atendimento às Mulheres (2013) verifica-se também um núme-
ro elevado de ocorrências desde a sua abertura. Denota-se que
a ameaça é o crime de maior incidência visto que englobam
um total de 373 registros, no período compreendido de junho
de 2011 até março de 2013. Em seguida, aparecem outros cri-
mes diversos, como, por exemplo, vias de fato, apresentando
um total de 296 casos. Logo, segue o crime de lesão corporal
com um total de 285 registros. De março de 2011 até o presen-
te ano foram registradas 306 solicitações de medidas proteti-
vas por parte das mulheres atendidas por este órgão.
Nos vários aspectos em que a violência traz conseqüên-
cias severas às mulheres vitimadas, um dos mais relevantes
são as questões que afetam a saúde da mulher.
Atualmente esta questão aparece de forma clara na dis-
cussão sobre a descriminalização do aborto consentido em que
é ignorado o direito da mulher sobre seu corpo e as discussões
sobre o tema pautam-se por questões religiosas numa clara
ofensa a uma Constituição Federal de um estado laico e que
traz como uma das suas diretrizes a promoção da dignidade da
pessoa humana.
A formação de profissionais que atuam na área da saúde
para atender as mulheres vítimas de violência é fundamental
para a prevenção e erradicação da violência doméstica. Por
todas as questões culturais e sociais envolvidas muitas vezes
a mulher vitimada tem vergonha em procurar auxílio ou em
verbalizar para terceiros o que está acontecendo com ela. Mas,
em virtude da sistematização e continuidade das diferentes
formas de violência a que é submetida, esta mulher normal-
mente apresenta, além dos sinais físicos da violência, a sinto-
matização das agressões sofridas, as quais podem ser detec-
tadas por profissionais treinados.
Neste sentido, Dominguez e Machado apontam que:

Programa de Pós-graduação em Direito


Curso de Mestrado em Direitos Humanos
250
Daniel Rubens Cenci; Laila Letícia Falcão Poppe & Lurdes A. Grossmann

Além de causar lesões, traumas e, em último caso, morte,


a violência está associada a muitas doenças. Minayo se
apoia em estudos para afirmar que 35% das queixas das
mulheres aos serviços de saúde estão associadas a al-
gum tipo de agressão. Pesquisa com 100 mulheres nas
clínicas de Dor da Uerj e da UFRJ, procuradas quando a
dor não tem causa palpável, detectou que mais de 90%
das atendidas tinham sofrido ou continuavam sofrendo
violência dentro de casa; 43% tinham sofrido ou sofriam
violência sexual. Os profissionais de saúde, diz a sanita-
rista, precisam ser preparadas para atender pessoas
agredidas, de modo a associar sinais e sintomas.14

Alertam, ainda que, esta dificuldade de diagnosticar a vi-


olência doméstica como causa dessas doenças pode levar a
atenuação dos sintomas, mas que estes se manifestaram pos-
teriormente porque ainda estarão latentes.
Williams e Pinheiro apontam que dentre as principais
conseqüências à saúde física e mental das mulheres vítimas
de violência, encontram-se:
Doenças sexualmente transmissíveis, lesões, inflama-
ções, pélvicas, gravidez não desejada, aborto espontâ-
neo, dor pélvica crônica, dores de cabeça, problemas gi-
necológicos, abuso de drogas/álcool, asma, síndrome do
intestino irritável, condutas nocivas à saúde (fumar, sexo
inseguro), deficiência física permanente ou parcial. A sa-
úde mental poderia ser prejudicada pro desordens como:
o transtorno do estresse pós-traumático, depressão, an-
siedade, disfunção sexual, desordens de alimentação, en-
tre outros problemas. Há, também, para os autores, evi-
dências que sugerem que a violência pode estar associa-
da a efeitos físicos tardios, em especial, artrite, hiperten-
são e doenças cardiovasculares.15

14
DOMINGUEZ, Bruno e MACHADO, Katia. Lei Maria da Penha: limites
ou possibilidades? Revista Radis. Fundação Oswaldo Cruz. Nº 92.
Abril/2010. Ediouro: São Paulo, p. 12.
15
PINHEIRO, Luana Simões. Vozes femininas na política: uma análise
sobre as mulheres parlamentares no pós-Constituinte. Brasília: Secreta-
I Seminário Internacional de Direitos Humanos e Democracia
Os Direitos Humanos e a sua Proteção
25 e 26 de abril de 2013
251
Direitos humanos, políticas públicas e erradicação da violência doméstica...

Por todo este contexto, a criação de políticas públicas es-


pecíficas para a capacitação dos profissionais de saúde tam-
bém foi elencada como uma das metas para o ano de 2013, pe-
lo Conselho Municipal dos Direitos da Mulher de Santa Rosa,
CONDIM (Ata nº 01/2013). Nos debates realizados pelo
CONDIM verificou-se que os agentes municipais de saúde, que
visitam e acompanham as famílias de determinada localidade
semanalmente, reportavam casos freqüentes de indícios de
violência doméstica.
Além disso, esta proximidade destes profissionais com as
conseqüências da violência, fez com que no mês de março de
2013, por iniciativa do Hospital Vida e Saúde do Município de
Santa Rosa, fosse convocada uma reunião com diversos seg-
mentos da comunidade e proposta a criação de um Comitê de
Enfrentamento à Violência na cidade.
Nesta reunião foram apresentados dados oriundos de no-
tificações do Sistema de Informações de Agravos de Notifica-
ção, SINAN, do Município, que apontam um crescimento dos
números de violência detectados. Em 2010 foram 58 casos, em
2011 aumentou para 236 casos e em 2012 cresceu novamente,
foram 238 casos. Deste total de casos do último ano citado re-
gistrou que 75% das notificações foram referentes à violência
doméstica, ou seja, 178 casos vitimaram mulheres.
A partir destes dados, houve o indicativo da instalação do
Comitê de Enfrentamento à Violência do Município de Santa
Rosa, que deverá ser composto de entidades governamentais,
não-governamentais e representantes da comunidade para
articular ações de enfrentamento para esta questão. Em virtu-
de da maioria das vítimas ser de mulheres, várias entidades
que compõem a Rede de Proteção do Município, como o Conse-
lho Municipal dos Direitos da Mulher, Delegacia Especializada
no Atendimento à Mulher, por exemplo, irão integrar o Comitê
(Ata nº 01/2013).

ria Especial de Políticas para as Mulheres, 2007. (Série Documento). 224


p. 1. Política. 2. Mulheres na Política. 3. Congresso Nacional, p. 311.

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Curso de Mestrado em Direitos Humanos
252
Daniel Rubens Cenci; Laila Letícia Falcão Poppe & Lurdes A. Grossmann

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Direitos Humanos pela perspectiva de gênero significam
ações políticas para exterminar a discriminação, a violência e a
opressão de mulheres. Não se pode conceber mecanismos de
direitos humanos que excluam as mulheres, da mesma forma
que gênero não significa dividir a questão humana, mas sim
redefinir esse ser humano, estudando o desenvolvimento só-
cio-cultural da feminilidade e da masculinidade.
Conclui-se que as desigualdades não acontecem por aca-
so ou pela natureza humana, e sim são construídas pela socie-
dade com o objetivo de atender interesses de determinados
grupos.
Ao longo da história das políticas para mulheres, identifi-
cam-se diferentes fases, sendo até recentemente caracterizadas
por ações isoladas e pontuais, hoje compreendidas como insufi-
cientes para o desenvolvimento de políticas públicas capazes
de proteger a sociedade e construir novos contextos sociais.
Pelo exposto, verifica-se que o Município de Santa Rosa
avançou muito em termos da implantação da Rede de Proteção
à Mulher, bem como na criação de políticas públicas específicas
para as mulheres, em especial as que tratam do enfrentamento
à violência doméstica. Mas muito ainda deve ser feito para que
se erradique esta forma de violência em nossa comunidade.
Somente com os esforços de todos os segmentos da soci-
edade e da compreensão que violar os direitos das mulheres é
a violar os direitos humanos e por, conseqüência, de todos, é
que avançaremos rumo a uma cultura de paz. Não é possível a
concepção de uma sociedade não violenta quando esta violên-
cia inicia dentro dos lares e se naturaliza como algo aceitável.
Mudarmos de um paradigma da supremacia patriarcal
para uma sociedade igualitária é fundamental para a concreti-
zação do Estado Democrático Direito preconizado pela nossa
Constituição Federal, em que a dignidade da pessoa humana
seja uma realidade para todos, independentemente de raça,
religião, faixa etária ou de gênero.

I Seminário Internacional de Direitos Humanos e Democracia


Os Direitos Humanos e a sua Proteção
25 e 26 de abril de 2013
253
Direitos humanos, políticas públicas e erradicação da violência doméstica...

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Paulo: Editora dos Tribunais, 2010.
DIAS, Maria Berenice. A efetividade da Lei Maria da Penha. Revista
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DOMINGUEZ, Bruno e MACHADO, Katia. Lei Maria da Penha: limi-
tes ou possibilidades? Revista Radis. Fundação Oswaldo Cruz. Nº
92. Abril/2010. Ediouro: São Paulo.
DOURADOS, Agora. Feministas apóiam decisão do CFM pela des-
criminalização do aborto. Disponível <http://www.douradosagora.
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m-pela-descriminalizacao-do-aborto> Data de acesso em 7 de abril
de 2013.

Programa de Pós-graduação em Direito


Curso de Mestrado em Direitos Humanos
254
Daniel Rubens Cenci; Laila Letícia Falcão Poppe & Lurdes A. Grossmann

HERMANN, Leda Maria. Maria da Penha Lei com nome de mulher:


considerações à Lei nº 11.340/06: contra a violência doméstica e fa-
miliar, incluindo comentários artigo por artigo/ Leda Maria Hermann
– Campinas, SP: Servanda Editora, 2008.
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Salário das mulheres
permanece 28% inferior aos dos homens nos últimos três anos. Dis-
ponível em < http://saladeimprensa.ibge.gov.br/noticias?view=noti
cia&id=1&busca=1&idnoticia=2096> Data de acesso 07/04/2013.
LUIZ, Cristiana dos Santos. et al. Santa Rosa e Região por Uma Re-
de de Proteção á Mulher. 172, p.: 15x22cm. 1. Santa Rosa e Região
por Uma Rede de Proteção à Mulher. I. Título. Dinâmicos Desenvol-
vimento Sustentável, 2012.
PIMENTAL, Sílvia. Experiências e Desafios: Comitê sobre a Elimina-
ção de Todas as Formas de Discriminação contra a Mulher
(CEDAW/ONU) – relatório bienal de minha participação. Brasília:
Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres, 2008 (série docu-
mentos).
PINHEIRO, Luana Simões. Vozes femininas na política: uma análise
sobre as mulheres parlamentares no pós-Constituinte. Brasília: Se-
cretaria Especial de Políticas para as Mulheres, 2007. (Série Docu-
mento). 224 p. 1. Política. 2. Mulheres na Política. 3. Congresso Naci-
onal. I. Título.
WILLIANS, Lúcia Cavalcanti de Albuquerque. PINHEIRO, Fernanda
Martins França. Efeitos da denúncia da mulher na reincidência da
violência física do parceiro. Revista Brasileira de Ciências Crimi-
nais. Nº 63. Novembro-dezembro, 2006. São Paulo: RT.

I Seminário Internacional de Direitos Humanos e Democracia


Os Direitos Humanos e a sua Proteção
25 e 26 de abril de 2013
VEÍCULOS ELÉTRICOS :
UMA ALTERNATIVA PARA A
MELHORIA DA MOBILIDADE URBANA
DE FORMA SUSTENTÁVEL

Daniel Corrente de Moraes


Acadêmico do Curso de Direito da Unijuí – Universidade Regional do No-
roeste do Estado do Rio Grande do Sul, Departamento de Ciências Jurídi-
cas e Sociais. (daniel.corrente@bol.com.br)
Marcelo Loeblein dos Santos
Mestre em Direito pela UCS – Universidade de Caxiais do Sul, Graduado
em Direito e Letras pela Unijuí – Universidade Regional do Noroeste do Es-
tado do Rio Grande do Sul. Professor do Curso de Direito da Unijuí.
(marceloloeblein@yahoo.com.br)
Luciano Bonato Baldissera
Graduado em Engenharia Elétrica pela Unijuí – Universidade Regional do
Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul. Mestrando pela UFSM – Uni-
versidade Federal de Santa Maria. Professor do Curso de Eletrotécnica na
Escola Técnica Estadual 25 de Julho. (lucianobonato@bol.com.br)

Resumo
O crescimento populacional das cidades aliado ao uso de meios de transporte inade-
quados, que poluem em demasia, tem direcionado a mobilidade urbana em sentido
oposto ao da busca por cidades sustentáveis. Assim, o presente estudo destina-se a
apresentar os veículos elétricos como uma alternativa para a implementação de uma
mobilidade urbana de forma sustentável. Desta forma, apresenta a concepção e
evolução do conceito de desenvolvimento sustentável, passando pela abordagem
histórica da invenção dos veículos elétricos, para, desta forma, chegar à problemáti-
ca atual da mobilidade urbana, para a qual é sugerida a utilização de veículos elétri-
cos como forma de atenuar tais problemas. Deste modo, é sugerido o fomento a
fabricação de tais veículos, para que, de forma gradativa, sejam colocados no mer-
cado.
Palavras-chave:Mobilidade urbana, sustentabilidade, veículos elétricos.

Abstract
The high growth of the world population allied with the use of inappropriate means
of transportation which pollute a lot the environment has directed the urban mobili-
ty in an opposite way when talking about sustainable cities. The following study
shows how electrical vehicles can be an alternative to introduce a urban mobility in a
sustainable way. Like this it presents the conception and evolution of the sustainable
256
Daniel Corrente de Moraes; Marcelo L. dos Santos & Luciano B. Baldissera

development passing through the history of the creation of the electrical vehicles,
then finally to get to the urban mobility problem, which is the main suggestion for
using electrical vehicles as a way to reduce that kind of problem. For all it is suggest-
ed to encourage the development and production of this kind of vehicle and put
them in the market.

INTRODUÇÃO
O crescimento desordenado das cidades é um problema
que afeta toda a sociedade, uma vez que esta falta de plane-
jamento acaba por interferir na forma como vivem os indiví-
duos que compõe tal grupo. Deste modo, o estudo destes pro-
blemas, bem como a busca por soluções para os mesmos, têm
grande relevância, pois a manutenção de um meio ambiente
saudável e equilibrado1, só será possível com a resolução de
tais questões.
Neste contexto, um dos aspectos mais pertinentes a ser
abordado quanto à problemática que envolve o planejamento
das cidades diz respeito à mobilidade urbana. Muito se tem
discutido sobre as forma de se proporcionar meios para que as
pessoas possam se locomover dentro das cidades sem que pa-
ra isso sejam formados grandes congestionamentos, com veí-
culos que emitem grande quantidade de gases prejudiciais a
natureza.
Assim, surgem inovações como a utilização de veículos
elétricos, a fim de amenizar os problemas supracitados. Neste
sentido, ganha força a ideia da fabricação de carros elétricos
de pequeno porte, que gradativamente substituiriam os carros
atualmente utilizados, que poluem em demasia além de ter um
tamanho exagerado com relação à finalidade a qual são desti-
nados, que é, na maioria das vezes, o transporte de uma única
pessoa. Salienta-se que a finalidade do estudo não é a de pro-
por a utilização do transporte individual em detrimento ao
transporte coletivo, mas sim oferecer a alternativa do carro elé-
trico em substituição aos modelos atuais.

1
BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil. 1988. Dispo-
nível em: <www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.
htm>. Acesso em 12 mar. 2013.
I Seminário Internacional de Direitos Humanos e Democracia
Os Direitos Humanos e a sua Proteção
25 e 26 de abril de 2013
257
Veículos elétricos

Deste modo, o presente estudo busca demostrar como es-


tes veículos podem funcionar como um meio de promoção de
uma mobilidade urbana ecologicamente sustentável, utilizan-
do uma fonte de energia limpa e ao mesmo tempo viável do
ponto de vista técnico. Para tanto foi realizada uma análise
crítica da doutrinária relacionada ao tema, abordando o histó-
rico dos veículos elétricos, bem como a concepção do conceito
de desenvolvimento sustentável, para posteriormente dissertar
sobre a utilização dos veículos supramencionados como alter-
nativa para promover a mobilidade urbana de forma sustentá-
vel e, desta forma, apresentar as conclusões sobre a temática
ora discutida.

A EVOLUÇÃO DO CONCEITO DE DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL


A discussão em torno dos problemas ambientais ganha a
cada dia um contorno mais alarmante. Esta preocupação se
deve às consequencias da degradação ambieltal, que aos pou-
cos começam a surtir efeito sobre a vida do ser humano, cau-
sando impacto na saúde e bem estar dos indivíduos, fazendo
com que gradativamente às atitudes humanas tenham resquí-
cios de uma conduta ambientalmente correta.
Contudo, as questões ambientais já são alvo da preocu-
pação da comunidade internacional há algumas décadas. Em
1972, era realizada em Estocolmo na Suíça, a Conferência das
Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Humano que, segundo
a ONU Brasil, tinha como finalidade discutir temas vinculados
ao desenvolvimento e o meio ambiente2. Assim, de acordo com
Guerra, foram abordadas questões fundamentais na evolução
do entendimento sobre o tema ambiental no plano internacio-
nal, bem como no âmbito interno dos países participantes3.

2
ONU Brasil. A ONU e o meio ambiente. 2010. Disponível em: <http://
www.onu.org.br/a-onu-em-acao/a-onu-e-o-meio-ambiente>. Acesso em:
29 jan. 2013.
3
GUERRA, Sidney. Desenvolvimento sustentável nas três grandes confe-
rências internacionais de ambiente da ONU In: GOMES, Eduardo B.;

Programa de Pós-graduação em Direito


Curso de Mestrado em Direitos Humanos
258
Daniel Corrente de Moraes; Marcelo L. dos Santos & Luciano B. Baldissera

Alguns anos após a Conferência de Estocolmo surge o


conceito de desenvolvimento sustentável, elaborado por meio
do “Programa das Nações Unidas para o meio ambiente”, que
criou a Comissão Brundtland, chefiada pela então primeira-
ministra da Noruega, Gro Harlem Brundtland. De acordo com a
ONU Brasil, tal programa visava discutir meios alternativos de
desenvolvimento4 e deste modo, no ano de 1987, divulgou o
relatório “Nosso futuro comum”, o qual traz a seguinte concei-
tuação: “Desenvolvimento sustentável é atender às necessida-
des do presente sem comprometer a possibilidade de as gera-
ções futuras atenderem as suas próprias necessidades”5.
(COMISSÃO…).
Posteriormente, no ano de 1992, a “Conferência das Na-
ções Unidas sobre o meio ambiente e desenvolvimento”, a
ECO 92, realizada no Rio de Janeiro, que, segundo Nusdeo,
introduziu o conceito de desenvolvimento sustentável no âmbi-
to do direito internacional, pois na oportunidade foram estabe-
lecidos direitos e obrigações individuais e coletivos, no tocante
ao meio ambiente e ao desenvolvimento, os quais integraram a
“Declaração do Rio de Janeiro sobre meio ambiente e desen-
volvimento”6.
Anos mais tarde, em dezembro de 1997, ocorreu assinatu-
ra do Protocolo de Quioto, outro evento histórico na busca pelo
desenvolvimento sustentável. Conforme Milaré, os países sig-
natários do referido protocolo se comprometem a reduzir gra-
dativamente a emissão dos gases causadores do efeito estufa.
No entanto, o tratado passou a vigorar somente em 16 de feve-
reiro de 2005, após a ratificação da Rússia. Cabe salientar que

BULZICO, Betina (org). Sustentabilidade, desenvolvimento e democra-


cia. Ijuí: Unijuí, 2010.
4
ONU Brasil, op. cit.
5
COMISSÃO MUNDIAL SOBRE MEIO AMBIENTE E DESENVOLVI-
MENTO. Nosso Futuro Comum. Rio de Janeiro: Editora da Fundação
Getúlio Vargas, 1991. p. 7.
6
NUSDEO, Ana Maria de Oliveira; Desenvolvimento sustentável do Brasil
e o Protocolo de Quioto In: MILARÉ, Édis; BENJAMIN, Antônio Herman
V. (org) Revista de direito ambiental. São Paulo: Revista dos Tribunais,
2005.
I Seminário Internacional de Direitos Humanos e Democracia
Os Direitos Humanos e a sua Proteção
25 e 26 de abril de 2013
259
Veículos elétricos

os Estados Unidos, maior emissor de gazes poluentes na épo-


ca, não ratificou o Protocolo7.
Já em junho de 2012, foi realizada, tendo mais uma vez o
Rio de Janeiro como sede, a Conferência das Nações Unidas
sobre Desenvolvimento Sustentável, a qual ficou conhecida
como “Rio+20”. Conforme a ONU Brasil, o evento objetivou a
reafirmação do comprometimento político por um desenvolvi-
mento sustentável, avaliando o progresso já alcançado, sem
esquecer, contudo, dos problemas surgidos com o passar dos
anos8.
Tais eventos não tinham o objetivo de solucionar os pro-
blemas ambientais do planeta com atitudes radicais, no entan-
to serviram para delinear as estratégias utilizadas pela maioria
das nações em busca da manutenção do equilíbrio ambiental
do planeta, fator este indispensável para que o ser humano
viva de forma saudável. Assim, apesar da relutância de alguns
países em aceitar as limitações impostas em nome da susten-
tabilidade, houve avanços neste sentido.
A partir das discussões supracitadas surgiram novos
conceitos e ideias explicitados nos compromissos firmados
entre diversos países do globo terrestre. Tais resultados vão
aos poucos sendo postos em prática, exemplo disto é a legisla-
ção brasileira, que muito embora tenha sinais claros da in-
fluência de certos grupos com interesse exclusivamente eco-
nômico, caminha, aos poucos em direção das práticas susten-
táveis, como é o caso de dispositivos como o Estatuto da Cida-
de, que estabelece explicitamente em seu texto a garantia a
cidades sustentáveis.
Desta forma, o legislador busca promover iniciativas sus-
tentáveis no meio urbano, as quais possam proporcionar o de-
senvolvimento da cidade de forma que promover a inclusão

7
MILARÉ, Édis. Direito ambiental: a gestão ambiental em foco. 7. ed. São
Paulo: Revista dos Tribunais, 2011.
8
ONU Brasil. Rio+20: Conferência das Nações Unidas sobre desenvolvi-
mento sustentável. 2012. Disponível em: <http://www.onu.org.br/rio20
/sobre/>. Acesso em: 10 fev. 2013.

Programa de Pós-graduação em Direito


Curso de Mestrado em Direitos Humanos
260
Daniel Corrente de Moraes; Marcelo L. dos Santos & Luciano B. Baldissera

social sem que para isto ocorra a degradação dos recursos na-
turais. Neste contexto, um grande paradoxo a ser enfrentado
diz respeito a mobilidade urbana, pois de um lado há o desafio
de transportar de maneira rápida e eficiente uma grande quan-
tidade de pessoas e de outro, a imensa quantidade de poluição
e os congestionamentos causados pelo aumento da frota de
veículos com motor de combustão interna.

PROBLEMÁTICA RELACIONADA A MOBILIDADE URBANA

As preocupações em relação a mobilidade urbana ga-


nham a cada dia mais atenção, este fato se deve em muito a
dificuldade que o poder público tem de equacionar o aumento
da frota de veículos, com a manutenção de um meio ambiente
saudável. Neste contexto, o direito a uma cidade sustentável
está diretamente relacionado com a capacidade de desenvol-
vimento de um sistema de mobilidade urbana amparado em
iniciativas ecologicamente limpas.
Porém, caos é a palavra que melhor descreve o trânsito
de uma metrópole brasileira. Esta é uma realidade cada vez
mais comum nas grandes cidades e, devido ao aumento da
frota automotiva, é um problema que passa a ser conhecido
também pelas cidades de menor porte. As mazelas do trans-
porte urbano não se limitam apenas ao trânsito caótico, pas-
sam também pela forma como este foi concebido e como é
mantido, uma vez que dá preferência a veículos com enorme
potência e peso, que em geral carregam uma única pessoa.
Neste sentido, é fator relevante na questão abordada os
altos custos do transporte. Segundo Larica, as famílias de clas-
se média acabam por gastar cerca de 15% a 20% de toda a sua
renda em transporte, seja em passagens ou em combustíveis.
Desta forma, considerando a utilização dos automóveis por
apenas um ou dois indivíduos, situação que abrange a maioria
absoluta dos casos, o rendimento do automóvel fica em torno
de 40%, verificando-se, assim, que ocorre um enorme desperdí-

I Seminário Internacional de Direitos Humanos e Democracia


Os Direitos Humanos e a sua Proteção
25 e 26 de abril de 2013
261
Veículos elétricos

cio de recursos energéticos e financeiros no tocante ao trans-


porte urbano9.
Porém o maior problema proveniente deste uso abusivo
de recursos energéticos de fontes não renováveis não é o mero
desperdício e sim a degradação ambiental, já que os veículos
utilizados atualmente são, em sua absoluta maioria, equipados
com motor a combustão interna, tendo como característica a
grande quantidade de poluentes que produzem, trazendo ain-
da mais malefícios ao meio urbano onde trafegam. Assim, as
grandes quantidades de monóxido de carbono lançadas na
atmosfera acabam por provocar sérias consequências ao meio
ambiente.
Considerando a ineficiência dos transportes públicos no
Brasil, uma alternativa ecologicamente sustentável para os
problemas da mobilidade urbana seria a utilização de carros
elétricos. No entanto, há um grande entrave na utilização des-
ta tecnologia, pois existe uma grande variedade de tecnologias
relacionadas aos modelos elétricos sem, contudo, haver uma
padronização de modelos, potências, capacidades e métodos
de abastecimento, o que contribui para a falta de regulamen-
tação para estes veículos.
Ocorre que na maioria das vezes se dá a fabricação isola-
da de veículos com características ímpares, com o objetivo de
sua utilização em uma finalidade específica, ou mesmo na ela-
boração de um veículo conceito, servindo apenas de vitrine
para certas empresas. Contudo, o que pode ser dito com toda a
certeza é que o uso de veículos elétricos é uma das melhores
opções de transporte limpo, sendo viável de maneira técnica e
econômica, faltando somente incentivos e normas que estabe-
leçam critérios para sua fabricação e utilização.
Outro fator a ser analisado quando se pensa na utilização
maciça de veículos elétricos diz respeito ao suprimento de
energia pois, a substituição de toda uma frota em determinada

9
LARICA; Neville Jordan. Design de transportes: arte em função da mo-
bilidade. Rio de Janeiro: 2AB editora, 2003.

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262
Daniel Corrente de Moraes; Marcelo L. dos Santos & Luciano B. Baldissera

região geraria um grande impacto no na demanda elétrica, so-


brecarregando alimentadores e sistemas de distribuição e,
desta forma, sendo inviável tecnicamente. Deste modo, seria
oportuna a inserção de tais veículos no mercado de modo gra-
dativo, por meio de incentivos a fabricação e a comercialização
dos mesmos paralelamente aos veículos a combustão, possibi-
litando, desta maneira, a adaptação do sistema elétrico em
longo prazo.
Existem várias empresas interessadas em fabricar veícu-
los elétricos, sendo que a opção mais viável para o Brasil, se-
gundo Bueno, são os veículos elétricos convencionais. Estes
últimos são a base para a fabricação de veículos híbridos, os
que operam com células a combustível. Assim, com a grande
oferta de energia elétrica limpa que há no Brasil, aparece um
grande nicho de mercado a ser explorado10. No entanto, a ten-
tativa de utilizar carros elétricos ao invés dos modelos conven-
cionais, já é conhecida há muito tempo, sem contudo ter acei-
tação dos consumidores.

HISTÓRICO DOS VEÍCULOS ELÉTRICOS

Não há certeza sobre o inventor do primeiro carro elétrico,


de acordo com Bellis, no ano de 1828, Anyos Jedlik fabricou um
veículo de pequeno porte o qual era tracionado por um motor
elétrico, já em 1832, Robert Anderson criou um veículo elétrico
que era movido por meio de baterias de ferro-zinco. Posterior-
mente, em 1835, um ferreiro chamado Thomas Davenport pro-
jetou uma locomotiva elétrica, sendo o primeiro americano a
construir um motor elétrico de corrente contínua11.
Verifica-se que a fabricação de veículos elétricos vem de
longa data, sendo que, conforme Goldemberg, Lebensztajn e
Lorenzetti Pellini, no ano de 1900 foram produzidos 1575 veícu-

10
BUENO, Alexandre Garcia. A tração elétrica como alternativa para o
transporte urbano. 2004. Disponível em: <http://hdl.handle.net/10183
/5689>. Acesso em: 25 mar. 2013.
11
BELLIS, Mary. History of Electric Vehicles. [S.l.: s.n.], 2009.
I Seminário Internacional de Direitos Humanos e Democracia
Os Direitos Humanos e a sua Proteção
25 e 26 de abril de 2013
263
Veículos elétricos

los elétricos contra apenas 936 a gasolina12. De acordo com o


documentário Who killed the electric car, até então os veículos
elétricos eram mais populares que os veículos movidos com
motores a combustão interna, pois não emitiam ruídos, nem
possuíam a necessidade de uma manivela de arranque, bem
como em sua utilização não se necessitava a troca de marchas13.
Porém esta tendência se inverteu, de acordo com Legey e
Baran, já em 1903 havia mais de quatro mil veículos registra-
dos na cidade de Nova York, destes 53% eram a vapor, 27%
eram a gasolina e apenas 20% elétricos14. De acordo com Gol-
demberg, Lebensztajn e Lorenzetti Pellini, o aumento da oferta
de petróleo barateou o custo da gasolina, fazendo com que os
carros movidos com este combustível passassem a ser mais
atrativos15.
Posteriormente, em 1913, conforme relata Trinakria, a fá-
brica de veículos Ford começa a produzir carros movidos a ga-
solina utilizando uma linha de montagem industrial em série,
fator este que aliado a invenção do motor elétrico de arranque
alavancou o uso de veículos movidos com motores à combus-
tão16. Desta forma, gradativamente os carros movidos a gasoli-
na dominaram o mercado automotivo, enquanto os veículos
elétricos foram largados ao ostracismo, em razão de sua baixa
autonomia quando comparados aos movidos a gasolina, bem
como seu investimento inicial e o seu custo operacional maior.

12
GOLDEMBERG, Clovis; LEBENSZTAJN, Luiz; PELLINI, Eduardo Loren-
zetti. A evolução do carro elétrico. 2005. Disponível em:
<http://www.lps.usp.br/lps/arquivos/conteudo/grad/dwnld/CarroEletri
co2005.pdf>. Acesso em: 12 fev. 2013.
13
WHO killed the electric car? Direção: Chris Paine. [S.l.]: Sony Pictures,
2006.
14
BARAN, Renato; LEGEY, Luiz Fernando Loureiro. Veículos elétricos:
história e perspectivas no Brasil. 2010. Disponível em: <http://www.ab
ve.org.br/downloads/Veiculos_eletricos_perspectivas_Brasil_BNDES.pdf>.
Acesso em: 10 mar. 2013.
15
GOLDEMBERG; LEBENSZTAJN; PELLINI, op. cit.
16
TRINAKRIA, Mario. Carros elétricos ou não? 2012. Disponível em:
<http://topartigos.com/?p=29980>. Acesso em: 3 abr. 2013.

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264
Daniel Corrente de Moraes; Marcelo L. dos Santos & Luciano B. Baldissera

Goldemberg, Lebensztajn e Lorenzetti Pellini, relatam


que após um longo período de esquecimento, os carros elétri-
cos voltam a ser alvo de interesse do mercado, em razão da
preocupação com poluição produzida pelos automóveis nas
áreas urbanas. Neste contexto, em 1967, o governo dos EUA
elabora regulamentação no sentido de impor restrições a polu-
ição automobilística17. No entanto, mais uma vez a autonomia
reduzida e a baixa velocidade afastaram os consumidores, que
mantiveram a preferência pelos veículos convencionais, fazendo
com que a utilização dos automóveis a gasolina prevalecesse.
De acordo com Trinakria, em 1997, surgem novas tecno-
logias que são utilizadas em carros como a Ford Ranger elétri-
ca, a RAV4 da Toyota, o EV1 da GM, dentre outros veículos18.
Da mesma forma são desenvolvidos veículos híbridos, que
unem o motor a combustão com o motor elétrico, em razão da
deficiência existente nas baterias dos veículos elétricos que
em relação a outras fontes combustíveis, possuem densidade
de energia com valor muito baixo se comparados a densidade
energética de combustíveis como a gasolina, por exemplo.
Mais recentemente, no ano de 2010, quase 50 anos após o
lançamento do Comuta e do GM512, Oliveira relata que Ford e
a General Motors voltaram a lançar veículos com tecnologia
elétrica, os quais, se comparados aos modelos de 1960, obtive-
ram uma considerável evolução19. Conforme descreve Baldisse-
ra, agregaram novas tecnologias, como freios regenerativos,
controle eletrônico de tração e baterias de lítio, que atuam em
conjunto com sistemas que operam buscando o melhor de-
sempenho possível, elevando de modo significativo a sua au-
tonomia20.
17
GOLDEMBERG; LEBENSZTAJN; PELLINI, op. cit.
18
TRINAKRIA, op. cit.
19
OLIVEIRA, Jáder de. Energia renovável, coragem escassa. 2011. Dispo-
nível em: <http://jornambientalunifor.blogspot.com.br/2011/11/e
nergia-renovavel-coragem-escassa.html>. Acesso em: 27 mar. 2013.
20
BALDISSERA, Luciano Bonato. Desenvolvimento de um protótipo de
um veículo elétrico. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em
Engenharia Elétrica)–Departamento de Ciências Exatas e Engenharias,
I Seminário Internacional de Direitos Humanos e Democracia
Os Direitos Humanos e a sua Proteção
25 e 26 de abril de 2013
265
Veículos elétricos

No momento em que as atenções do mundo se voltam pa-


ra as questões ambientais, mais uma vez os carros elétricos
começam a aparecer, porém desta vez com mais força, utili-
zando tecnologias de ponta que amenizam os problemas de
autonomia e velocidade, começam a ser uma maneira de pro-
mover a mobilidade urbana de uma forma sustentável. Junta-
mente com os fatores ambientais, a opção por carros elétricos
aparece como alternativa ao uso de combustíveis fósseis.

MOBILIDADE URBANA DE FORMA SUSTENTÁVEL


Durante o século XX, houve no Brasil um grande fluxo de
pessoas que deixaram o campo e passaram a residir no meio
urbano, em busca de prosperidade e melhoraria nas condições
de vida até então enfrentadas. Este êxodo rural, acompanhado
do aumento populacional ao longo dos anos, culminou com o
crescimento de forma desordenada da maioria das cidades
brasileiras.
Esta realidade trouxe consequências sociais nefastas,
pois a falta de planejamento propiciou problemas em razão da
indisponibilidade de meios estruturais adequados para aten-
der as necessidades básicas dos indivíduos. Assim, boa parte
da população do meio urbano foi submetida a condições soci-
ais precárias. Neste sentido, Sparemberger, Santos e Noll afir-
mam o seguinte:
Observa-se que, diante do crescimento desordenado dos
espaços urbanos, surgiram inúmeros problemas e riscos
para a própria sociedade. Os mais evidentes concentram-
se na degradação dos espaços verdes, poluição das
águas, do ar, do solo, as inundações, deslizamentos, den-
tre outros [...] Essa perspectiva ocasionou nas últimas
décadas a crise das cidades, sede de crime, violência,
degradação paisagística e ambiental, decadência de in-
fraestruturas, carência habitacional declínio do emprego

Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul, Ijuí,


2012.

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Curso de Mestrado em Direitos Humanos
266
Daniel Corrente de Moraes; Marcelo L. dos Santos & Luciano B. Baldissera

formal, estrangulamento da mobilidade e poluição atmos-


férica.21

Tal problemática fez surgir à necessidade da concepção


de políticas públicas voltadas para o planejamento urbano.
Desta forma, o Estatuto da Cidade – Lei Federal 10.257, de 10
de julho de 2001 – surge, tendo como foco a acessibilidade ur-
bana, a sustentabilidade ambiental e a inclusão social, estabe-
lecendo as diretrizes gerais da política de desenvolvimento
urbano, conforme destaca Guimaraens22.
Assim, o Estatuto da Cidade tem em seu texto a previsão
legal do direito a cidades sustentáveis23, garantia esta que se
coloca como um direito coletivo, uma vez que busca fugir do
processo de urbanização capitalista, poluidor e desordenado,
enfrentado até então pelas cidades brasileiras, partindo em
direção ao atendimento das funções sociais que devem ser ofe-
recidas aos cidadãos, conforme destaca Alfonsin. Dentre tais
funções está inserida a mobilidade urbana, que tem papel fun-
damental no desenvolvimento urbano.
A Lei 12.587 de 2012 instituiu as Diretrizes da Politica
Nacional de Mobilidade Urbana, trazendo em seu Art. 4º, II, a
definição do que seria mobilidade urbana, descrevendo esta
como a “condição em que se realizam os deslocamentos de
pessoas e cargas no espaço urbano” 24, trazendo como um de

21
SPAREMBERGER, Raquel Fabiana Lopes; SANTOS, Marcelo Loeblein
dos; NOLL, Patrícia. Risco urbano: cidadania e sustentabilidade na ci-
dade dos homens In: SPAREMBERGER, Raquel Fabiana Lopes;
AUGUSTIN, Sérgio (Org.). O direito na sociedade de risco: dilemas e
desafios socioambientais. Caxias do Sul: Plenum, 2009. p. 232
22
GUIMARAENS, Maria Etelvina Bargamaschi. O Estatuto da Cidade apli-
cado: diretrizes gerais de mobilidade urbana e o plano diretor de Porto
Alegre In: SULZBACH, César Emílio et al. (Org.). Congresso de direito
urbano ambiental, 1., 2006. Anais.. Porto Alegre: ESDM, 2006.
23
BRASIL. Estatuto da Cidade. Lei n. 10.275, de 10 de julho de 2001. Esta-
belece diretrizes gerais da política urbana. Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/leis_2001/l10257.htm>.
Acesso em: 2 abr. 2013.
24
BRASIL. Lei n. 12.587, de 3 de janeiro de 2012. Institui as diretrizes da
política nacional de mobilidade urbana. Disponível em: <http://www.
I Seminário Internacional de Direitos Humanos e Democracia
Os Direitos Humanos e a sua Proteção
25 e 26 de abril de 2013
267
Veículos elétricos

seus fundamentos o desenvolvimento sustentável das cidades,


abrangendo as dimensões socioeconômicas e ambientais. As-
sim, há a intenção de conciliar estas condições de deslocamen-
to com a proteção ambiental.
Seguindo este raciocínio logicamente o transporte coleti-
vo tem prioridade no que diz respeito aos investimentos feitos
pelo poder público, no entanto a rede de mobilidade de uma
cidade é muito complexa, exigindo uma diversidade de alter-
nativas.Neste sentido Silveira e Balassiano afirmam que a “re-
de integrada em um sistema de mobilidade organizado e hie-
rarquizado onde cada modo desempenha uma função específi-
ca é determinante para que o usuário disponha de boas alter-
nativas”. 25
Assim, devem ser oferecidas alternativas para que se
atendam as diversas demandas por transporte. Deste modo, a
necessidade de utilização de veículos não desaparecerá repen-
tinamente, ocorrendo à possibilidade de substituir os modelos
de veículos com motores convencionais por outros, com moto-
res elétricos, uma vez que estes, em seu funcionamento, não
emitem qualquer tipo de poluição. Neste sentido, Campos
afirma que existe a preocupação quanto ao tipo de combustível
a ser utilizado nos meios de transporte, visando a redução no
consumo de combustíveis fósseis que provocam a emissão de
dióxido de carbono (CO2)26.
Com isso, apesar de limitados pela autonomia e potencia,
a utilização de motores elétricos surge como alternativa inclu-
sive para veículos utilizados no transporte público coletivo.

planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2012/lei/l12587.htm>. Acesso
em: 4 abr. 2013.
25
SILVEIRA, Mariana Oliveira da; BALASSIANO, Ronaldo. A bicicleta e a
redução de consumo de energia no setor de transportes. 2009. Dispo-
nível em: <http://redpgv.coppe.ufrj.br/arquivos/bicicleta%20e%20ener
gia_mariana_oliveira_rona.pdf>. Acesso em: 25 mar. 2013. p. 9.
26
CAMPOS, Vânia Barcellos Gouvêa. Uma visão da mobilidade urbana
sustentável. 2009. Diponível em: <http://portal.ime.eb.br/~webde2/
prof/vania/pubs/(3)UMAVISAODAMOBILIDADE.pdf>. Acesso em: 20
mar. 2013.

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Curso de Mestrado em Direitos Humanos
268
Daniel Corrente de Moraes; Marcelo L. dos Santos & Luciano B. Baldissera

Esta prática já existe, sendo exemplificada por Goldemberg,


Lebensztajn e Lorenzetti Pellini, que citam as locomotivas hí-
bridas, com motores diesel-elétricos e os metrôs urbanos, que
utilizam tão somente a energia elétrica27.
O fato é que o atual estágio de degradação do meio ambi-
ente exige o uso de energias mais limpa, isto é facilmente per-
cebido nas cidades, nas quais um dos grandes vilões da quali-
dade do ar é a queima de combustíveis fósseis pelos veículos.
Contudo, a produção de energia elétrica também deve obede-
cer às práticas sustentáveis, pois de nada adiantará deixar de
poluir com os veículos e passar a poluir com a queima de com-
bustíveis fósseis em termelétricas.
Outro aspecto a ser abordado diz respeito ao tamanho
dos veículos. Atualmente, ocorre a utilização de carros dema-
siadamente grandes para sua finalidade. Não há a real neces-
sidade de fabricar veículos com espaço interno para cinco pes-
soas, quando este leva, na maioria absoluta dos casos, um úni-
co indivíduo. Na verdade, só que ganha com este conceito de
veículo é a indústria automobilística, que atribui preços em
proporção ao tamanho do veículo, auferindo grandes lucros e
ignorando os problemas ambientais e de mobilidade enfrenta-
dos pelas cidades.
Verifica-se que outro o problema em relação a esta tecno-
logia está nas baterias, as quais que possuem uma capacidade
de armazenamento limitada e um tempo de recarga elevado.
Baldissera afirma que mesmo com o desenvolvimento de bate-
rias com elevadas densidades energéticas como as de íons de
lítio, o custo destas ainda é um fator limitador na sua utilização
em veículos elétricos, pois sistemas que possuem este tipo de
tecnologia são muito mais caros quando comparados com o
custo benefício de motores a combustão, fazendo com que os
consumidores optem pelos veículos tradicionais, mesmo sendo
estes extremamente poluentes28.

27
GOLDEMBERG; LEBENSZTAJN; PELLINI, op. cit.
28
BALDISSERA, op. cit.
I Seminário Internacional de Direitos Humanos e Democracia
Os Direitos Humanos e a sua Proteção
25 e 26 de abril de 2013
269
Veículos elétricos

CONCLUSÃO
A tentativa de implementar uma cidade sustentável é
bastante complexa, sendo uma das práticas que necessaria-
mente precisam estar presentes na consolidação da mesma, é
a mobilidade urbana de forma sustentável. Para tanto, a elimi-
nação da poluição produzida pelos veículos que trafegam nas
vias urbanas se torna fundamental. Assim, a alternativa de
motores elétricos para estes veículos mostra-se uma alternati-
va viável, devendo receber incentivos de políticas públicas que
fomentem sua fabricação, para que não sejam esquecidos, co-
mo foram no passado.
Verifica-se também, que há a necessidade da mudança
dos padrões de tamanho dos veículos convencionais individu-
ais, que devem ser adaptados a sua finalidade. A diminuição
do tamanho dos veículos só tem a contribuir com a trafegabili-
dade nas cidades, bem como na utilização otimizada dos espa-
ços destinados a estacionamentos, o que por si só já acarreta-
ria uma melhora significativa na mobilidade urbana.
Apesar dos consumidores possuírem interesse em adqui-
rir um veículo elétrico pelo fato destes não serem poluentes,
acabam por rejeitá-los quando percebem as limitações impos-
tas em relação à potência, autonomia, velocidade e tempo de
carga que possuem estes veículos acabam desistindo da com-
pra e adquirem veículos a combustão. Com isso, a opção criada
pelas montadoras objetivando a inserção dos veículos elétricos
no mercado foi à tecnologia dos veículos híbridos, que combi-
nam veículos elétricos puros com veículos movidos com moto-
res à combustão, atingindo assim, elevadas autonomias e po-
tências consideráveis, além de proporcionarem uma menor
emissão de poluentes.
Contudo, salienta-se que não há como substituir a frota
automotiva brasileira em curto prazo, em razão do aumento de
demanda elétrica para a qual o sistema elétrico brasileiro não
está preparado. Sendo assim, a solução para este problema
seria uma inserção destes veículos no mercado de modo gra-
dativo, por meio de incentivos à fabricação e a comercialização

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Curso de Mestrado em Direitos Humanos
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Daniel Corrente de Moraes; Marcelo L. dos Santos & Luciano B. Baldissera

dos mesmos paralelamente aos veículos a combustão, possibi-


litando a adaptação do sistema elétrico em longo prazo.

REFERÊNCIAS
BARAN, Renato; LEGEY, Luiz Fernando Loureiro. Veículos elétricos:
história e perspectivas no Brasil. 2010. Disponível em:
<http://www.abve.org.br/downloads/Veiculos_eletricos_perspectiv
as_Brasil_BNDES.pdf>. Acesso em: 10 mar. 2013.
BELLIS, Mary. History of Electric Vehicles. [S.l.: s.n.], 2009.
BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil. 1988. Dis-
ponível em: <www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constitui
cao.htm>. Acesso em 12 mar. 2013.
BRASIL. Estatuto da Cidade. Lei n. 10.275, de 10 de julho de 2001.
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Programa de Pós-graduação em Direito


Curso de Mestrado em Direitos Humanos
A QUESTÃO INDÍGENA NO BRASIL E
A RELEVÂNCIA DAS PREVISÕES , INSERTAS
NOS DOCUMENTOS INTERNACIONAIS , NO
TOCANTE À EFETIVIDADE
DOS DIREITOS INDIGENISTAS

Denise Tatiane Girardon dos Santos


Advogada. Mestranda no Curso de Mestrado em Direitos Humanos,
UNIJUÍ – Bolsista CAPES (girardon_15@hotmail.com)

Resumo
O Direito Indigenista, historicamente, apresentou vários pontos polêmicos, mormen-
te, em relação a temas como ocupação, pelos índios, das terras, destinadas para
esse fim, reconhecimento da autonomia da cultura indígena, discriminação racial e
de gênero, autonomia econômica, social e cultural, saúde, dentre tantas outras
questões, todas com importância incomensurável, se revelando como problemáticas
que clamam por soluções efetivas, a fim de que os Direitos Indígenas sejam, efeti-
vamente, assegurados. Ressalta-se que essas problemáticas são globais, haja vista a
existência de aborígenes em um número considerável de países, de modo que o
Direito Indigenista se insere no rol de direitos coletivos e universais; logo, verifica-se
a premente necessidade de se promover o estudo das previsões legais de caráter
internacional, como Tratados, Acordos e Atos – mormente, os ratificados pelo Brasil
-, a fim de se identificar as previsões legais dedicadas à tutela dos cidadãos brasilei-
ros de origem indígena, o efetivo respeito à dignidade da pessoa humana, haja vista
que os índios brasileiros são cidadãos, e, portanto, todos os Tratados e demais Do-
cumentos, de natureza semelhante, que foram ratificados pelo Brasil, devem ser
observados também na defesa de seus direitos.
Palavras-Chave: Proteção. Índio. Tratados Internacionais. Efetividade. Direito.

Abstract
The Indian law has historically presented several controversial points, particularly in
relation to issues such as occupation by Indians of lands intended for this purpose,
recognition of the autonomy of indigenous culture, gender and racial discrimination,
economic independence, social and cultural , health, among many other issues, all
with immeasurable importance, as if revealing problems that call for effective solu-
tions, so that the Indigenous rights are effectively guaranteed. It is emphasized that
these problems are global, given the existence of Aborigines in a considerable num-
ber of countries, so that the Indian law falls on the list of collective rights and univer-
sal, therefore there is the urgent need to promote the study of the legal provisions
of international character, as Treaties, Agreements and Acts – especially, those rati-
fied by Brazil – in order to identify the legal provisions dedicated to the protection of
Brazilian citizens of Indian origin, the effective respect for human dignity, consider-
ing that the Brazilian Indians are citizens, and therefore all treaties and other docu-
274
Denise Tatiane Girardon dos Santos

ments of a similar nature, which have been ratified by Brazil, should be observed
also in defense of their rights.
Keywords: Protection. Indian. International Treaties. Effectiveness. Right.

INTRODUÇÃO
Em razão da premente necessidade de se tutelar os direi-
tos das minorias sociais, dentre elas, as tribos indígenas, este
trabalho visa a promover uma abordagem em relação às previ-
sões, contidas nos Documentos Internacionais, ratificados pelo
Brasil, no sentido de buscar a proteção e a preservação dos
aborígenes, tendo em vista que o Direito Indígena possui natu-
reza de direito coletivo, tutelado internacionalmente.
Tal estudo se revela crucial para a melhor compreensão
dos direitos e garantias assegurados aos povos indígenas, de
modo que as normatizações internacionais, que influenciam,
de alguma forma, sobre o direito indigenista pátrio, asseguram
a presciência de direitos protetivos indigenistas no âmbito na-
cional, e legitimam os povos indígenas e re3ivindicarem pela
efetividade de seus direitos.
Delimitado o assunto, acredita-se que o estudo sobre as
previsões legais, com viés protetivo ao Direito Indigenista,
possa contribuir, de modo significativo, para a compreensão
desse tema relevante, e, com isso, favorecendo a eficácia das
medidas protetivas indigenistas.

A ESSENCIALIDADE DO RECONHECIMENTO DOS DIREITOS NATURAIS


DO HOMEM PARA A EFETIVAÇÃO DE SEUS DIREITOS NATURAIS
Destaca-se, inicialmente, que é uma característica constan-
te, na História da humanidade, as lutas e as conquistas em rela-
ção ao reconhecimento e à efetivação dos direitos naturais, com
o efetivo respeito à dignidade da pessoa humana e a pretensão
da abolição das várias formas de discriminação e atos reprová-
veis. Insta resslatar, nesse ínterim, que os índios brasileiros são
cidadãos, e, portanto, todos os Tratados e demais Documentos,
de natureza semelhante, que foram ratificados pelo Brasil, de-
vem ser observados também na defesa de seus direitos.

I Seminário Internacional de Direitos Humanos e Democracia


Os Direitos Humanos e a sua Proteção
25 e 26 de abril de 2013
275
A questão indígena no brasil e a relevância das previsões, insertas...

Coletivamente, o ser humano buscou, durante muitos sé-


culos, a proteção e o respeito dos seus direitos, tendo sido a
Inglaterra a precursora na edição de documentos constitucio-
nais que possuíam natureza de declaração de direitos, tais
como a Magna Carta, de 1215, o Ato de Habeas Corpus, de
1679 e a Petição de Direitos, de 16881.
Tais manifestações levaram à elaboração das primeiras
Declarações de Direitos firmadas, que foram a Declaração da
Virgínia, de 1776 (que precedeu e, fortemente, influenciou a De-
claração de Independência do Estados Unidos da América) e a
Declaração dos Direito do Homem e do Cidadão, de 1789, essas
que deram azo à assinatura de outras, não menos importantes2.
O que se buscou, principalmente, foi proteger, nessas du-
as Declarações (e nas seguintes) os direitos naturais que toda
pessoa humana possui, estes que antecedem, inclusive, ao
Estado. De acordo com Teixeira3 “os direitos naturais são inali-
enáveis da pessoa humana preexistem ao Estado e a este se
sobrepõe, corolários que são, como vimos, dos próprios atribu-
tos da pessoa humana, da natureza essencial desta”.
Logo, de acordo com o mencionado autor, tais Declara-
ções se constituíram em verdadeiras afirmações da liberdade
como direito dos cidadãos, oponíveis erga omnes, pelo seu pro-
fundo espírito filosófico, político, e, ainda, pelas excepcionais
circunstâncias históricas a que ditaram.
O resultado de tais Declarações foi a criação, ou a organi-
zação, de algumas garantias, que se constituíram em remédios
jurídicos, gerais ou específicos, com a finalidade de proporcio-
nar adequada proteção de tais liberdades, protetivas ou repa-
radoras, sendo que, até os dias atuais, essas Declarações in-
fluenciam os sistemas constitucionais dos modernos Estados
Democráticos4.

1
TEIXEIRA, 1991, p. 683.
2
JÚNIOR, 2007, p. 370.
3
Op. Cit. p. 681.
4
Ibidem. pp. 681, 683, 684 e 688.

Programa de Pós-graduação em Direito


Curso de Mestrado em Direitos Humanos
276
Denise Tatiane Girardon dos Santos

Dessa forma, nasce o conceito de Direitos Humanos, que,


segundo Yamada5, “são os direitos fundamentais inerentes a
todos os seres humanos independentemente de sua nacionali-
dade, sexo, origem étnica ou nacional, cor, religião, ou qual-
quer outro status”.
A Declaração Universal dos Direitos do Homem e do Ci-
dadão, de 1789, foi a precursora da Declaração Universal de
Direitos Humanos, de 1948, sendo que aquela previa princípios
de respeito, igualdade, liberdade, fraternidade e dignidade.
Nas palavras de Almeida e Perrone-Moisés6:
A Declaração Universal dos Direitos do Homem e do Ci-
dadão, de 1789, criou o moderno conceito decidadão: a
Declaração Universal de Direitos Humanos, de 1948, ao
declarar que todas as pessoas nascem livres e iguais,
preserva esse conceito e amplia-o. Essa ampliação reali-
za-se por meio do reconhecimento da inerente dignidade
do ser humano, o que significa dizer que o reconhecimen-
to da dignidade surge com o fato do nascimento de um
ser humano. Esse imanente respeito – sinônimo de dig-
nidade – propicia-lhe o exercício dos direitos de liberda-
de, igualdade e fraternidade e acompanha-o, de modo in-
separável e incondicional, no decorrer de sua existência.
[...].

De acordo com os mencionados autores, a Declaração


Universal dos Direitos do Homem e do Cidadão, de 1948, objeti-
vava instaurar uma ordem pública mundial fundada no respeito
à igualdade humana, pois a condição de pessoa era o requisito
único e exclusivo para a titularidade de direitos7. Logo, tal Do-
cumento se constituiu em um marco histórico, representando
as conquitas da humanidade para assegurar a previsão, obser-
vância e efetividade dos direitos naturais, inerentes a todos os
seres humanos, e, nesse ínterim, igualmente, aos índios.
5
Disponível em http://ccr6.pgr.mpf.gov.br/documentos-e-publicacoes/ju-
risprudencia-1/crimes/trf-3/RC%202002.03.99.016415-4%20-%20MS.pdf.
Acesso no dia 03.10.2011, as 11h30min.
6
2002, p. 16.
7
Op. Cit. p. 131.
I Seminário Internacional de Direitos Humanos e Democracia
Os Direitos Humanos e a sua Proteção
25 e 26 de abril de 2013
277
A questão indígena no brasil e a relevância das previsões, insertas...

O DESENVOLVIMENTO DO DIREITO INTERNACIONAL DOS DIREITOS


HUMANOS E A AQUIESCÊNCIA, DE SUAS PREVISÕES, PELO BRASIL
No tocante às Cartas Magnas brasileiras, todas elas, de
um modo ou outro, trouxeram previsões de direitos humanos de
ordem natural, consoante a enumeração, elencada por Teixeira8:
As Constituições brasileiras, desde a Carta de 1824, vêm
contento, invariavelmente, uma Declaração de Direitos,
embora sob denominações levemente diversas: “Garanti-
as dos Direitos Civis e políticos dos Cidadãos Brasilei-
ros”, na Carta de 1824 (arts. 173 e segs.); “Declaração de
Direitos” 9arts. 72 e segs.), na Constituição de 1891; “Da
Declaração de Direitos”, na Constituição de 1934 (arts.
106 e segs.); “Dos Direitos da Garantias Individuais, na
Carta de 1937 (arts. 122 e segs.); “Dos Direitos e Garanti-
as Individuais” (arts. 141 e 144), na Constituição de 1946
[...].

Yamada destaca que, devido à vital importância dos Direi-


tos Humanos, eles são parte integrante de inúmeras normas,
nacionais e internacionais, constituindo os princípios que as re-
gem. Com isso, houve a criação do Direito Internacional dos Di-
reitos Humanos, que visa a orientar os Estados a promoverem a
observância e o respeito aos direitos fundamentais de todos9.
Dada a relevância e universalidade dos direitos humanos,
eles são mencionados com frequência e garantidos por
leis na forma de tratados, direito costumeiro internacio-
nal, princípios e outras fontes de direito internacional.
Assim, o Direito Internacional dos Direitos Humanos es-
tabelece deveres aos Estados para agirem de maneira a
respeitar, promover e proteger os direitos humanos e as
liberdades fundamentais de indivíduos e coletividades.

8
1991, p. 689.
9
Disponível em http://ccr6.pgr.mpf.gov.br/documentos-e-publicacoes/ju
risprudencia-1/crimes/trf-3/RC%202002.03.99.016415-4%20-%20MS.pdf.
Acesso no dia 03.10.2011, as 11h30min

Programa de Pós-graduação em Direito


Curso de Mestrado em Direitos Humanos
278
Denise Tatiane Girardon dos Santos

A Autora mencionada destaca que todos os cidadãos são


detentores de direitos, sem nenhuma distinção, e que são inti-
tulados de direitos humanos os direitos voltados à garantia da
dignidade humana, sendo universais, inalienáveis, interde-
pendentes e indivisíveis, eis que a melhora de um direito eclo-
de no avanço de outros, e, por outro lado, a privação de um
direito afeta e, consequentemente, viola todo o conjunto dos
direitos humanos10.
Atualmente, consoante lecionam Bastos e Martins, os
Tratados internacionais se constituem em um “acordo de von-
tades celebrado entre dois ou mais Estados a fim de criar, mo-
dificar, resguardar ou extinguir entre eles uma relação de direi-
to”11. Portanto, tais nações devem possuir um interesse em
comum, que possa ser regularizado por intermédio de um
acordo, qual seja, o Tratado.
A Constituição de 1988, conforme discorre Satilli, “é a
primeira Constituição brasileira a elencar o princípio da preva-
lência dos direitos humanos, como o princípio fundamenta a
reger o Estado nas relações internacionais”12. Os Direitos Hu-
manos se aplicam aos povos indígenas da mesma forma como
se aplicam a todos os cidadãos, com a indivisibilidade de seus
direitos como meio de garantir a continuidade de suas tradi-
ções, e autodeterminação. Yamada destaca que13:
No caso dos povos indígenas, como em qualquer outro, a
interdependência e a indivisibilidade entre os diretos
fundamentais se mantêm. Por exemplo, não é possível
garantir o desenvolvimento dos povos indígenas sem
lhes garantir o direito à autodeterminação ou o direito à
manutenção de suas culturas e tradições. Embora o reco-
nhecimento aos direitos indígenas sejam competência
dos Estados-Nação, um discreto conjunto de leis e pa-

10
Op. cit. 2010.
11
2002, p. 106.
12
2005, p. 37.
13
Disponível em http://ccr6.pgr.mpf.gov.br/documentos-e-publicacoes/ju
risprudencia-1/crimes/trf-3/RC%202002.03.99.016415-4%20-%20MS.pdf.
Acesso no dia 03.10.2011, as 11h30min.
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Os Direitos Humanos e a sua Proteção
25 e 26 de abril de 2013
279
A questão indígena no brasil e a relevância das previsões, insertas...

drões internacionais relativos aos direitos humanos têm


se desenvolvido rapidamente nos últimos tempos ofere-
cendo um novo norte ao tratamento dos direitos dos po-
vos indígenas.

Sendo assim, o desenvolvimento, a evolução dos povos


indígenas, somente pode se concretizar com o respeito às suas
particularidades, o que se consegue a partir do momento em
que os Estados passarem a assegurar a observência de todos
os seus direitos, sendo que, quanto a essa questão, os Trata-
dos e Acordos Internacionais são documentos relevantes para
se alcançar tal proteção.
A autora menciona que o Direito Internacional sempre vi-
sou à normatização das relações entre diferentes povos, inici-
almente, com viés colonialista, com fins de legitimar as ações
de apossamento dos colonizadores sobre as terras dos habi-
tantes originais. Entretanto, com a evolução, o Direito Interna-
cional passou a atender às demandas dos povos indígenas a
partir do Direito Internacional dos Direitos Humanos e do prin-
cípio da não discriminação, garantindo o respeito e a preserva-
ção de suas culturas, terras tradicionais e auto-governo indí-
genas, incorporando no modelo político dos Estados soberanos
tais, com natureza de direitos humanos14.

OS DOCUMENTOS INTERNACIONAIS, QUE TRATAM DE QUESTÕES


RELACIONADAS AO DIREITO INDÍGENA, RATIFICADOS PELO BRASIL
As principais Declarações e Pactos Internacionais que o
Brasil ratificou, e que possuem implicância direta na questão
indigenista (até mesmo pelo fato de os indígenas serem consi-
derados cidadãos brasileiros, iguais perante a lei em relação
ao restante da sociedade, de acordo com a deteminação do
artigo 5º, caput, da Carta Magna), serão discorridos adiante.
Entretanto, importante destacar que os instrumentos ratifica-
dos pelo Brasil, assim como pelos demais Membros, possuem
caráter obrigacional no tocante à garantia dos direitos reco-

14
Op. Cit. 2010.

Programa de Pós-graduação em Direito


Curso de Mestrado em Direitos Humanos
280
Denise Tatiane Girardon dos Santos

nhecidos, por todos os níveis e Entes da Federação. Yamada


pontua que15:
Cada instrumento ratificado estabelece obrigações de di-
reito internacional ao Estado brasileiro para garantir os
direitos declarados e reconhecidos, sem usurpar os dis-
positivos e obrigações do direito doméstico. Estes deve-
res e obrigações internacionais pertencem aos Estados e
se direcionam a todos os níveis de governo: federal, esta-
dual e municipal; e a todas as esferas de Poderes: execu-
tivo, judiciário e legislativo.

A Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de


Discriminação Racial (CERD), em seu artigo 1º, parágrafo 1º,
delimita os sujeitos a que pretente tutelar, ou seja, aqueles que
sofrem preconceito devido à sua raça, cor ou etnia16. Em seu
artigo 1º, consta que:
Para fins da presente Convenção, a expressão 'discrimi-
nação racial' significará toda distinção, exclusão, restri-
ção ou preferência baseada em raça, cor, descendência
ou origem nacional ou étnica que tenha por objeto ou re-
sultado anular ou restringir o reconhecimento, gozo ou
exercício em um mesmo plano (em igualdade de condi-
ção) de direitos humanos e liberdades fundamentais nos
campos político, econômico, social, cultural ou em qual-
quer outro campo da vida pública.

Denota-se, pela leitura do artigo retro transcrito, que o su-


jeito tutelado por essa Convenção é descrito, objetivamente,
considerando o sentido originário do preconceito repudiado, ou
seja, a fobia à outra etnia. Almeida e Perrone-Moisés17 desta-
cam que:
Com base nessa definição, é possível identificar alguns
elementos que remetem aos valores e forma de percep-

15
Ibidem, 2010.
16
Disponível em: http://www.onu-brasil.org.br/. Acesso no dia 05.11.2011,
as 16h30min.
17
2002, p. 29.
I Seminário Internacional de Direitos Humanos e Democracia
Os Direitos Humanos e a sua Proteção
25 e 26 de abril de 2013
281
A questão indígena no brasil e a relevância das previsões, insertas...

ção do problema que permeiam esse documento. Em


primeiro, lugar, fica claro que o sujeito da convenção está
especificamente em seu sentido estrito e originário, ou
seja, relaciona-se à fobia àquele que percente á outra et-
nia. [...]

Após delimitar o sujeito a ser tutelado, a Convenção so-


bre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial
buscou adotar medidas repressivas e punir as violações a seus
preceitos, devendo os Estados-Membros praticarem atos de
erradicação das formas de racismo. Nas palavras dos mencio-
nados autores18:
Entre as medidas repressivas estão os compromissos de
não promover e legalizar a discriminação racial, bem co-
mo de punir as violações dos direitos previstos pela Con-
venção. Assim, o Estado, além de condenar a segregação
e abster-se de validar uma legislação discriminatória ou
apoiar movimentos racistas deve também proibir propa-
gandas e organizações dessa natureza, declarando-as
ilegais, a fim de evitar a disseminação de idéias basea-
das na superioridade racial, bem como os atos de violên-
cia e de incitação à intolerância étnica. Ao lado disso, o
Estado compromete-se a garantir uma resposta jurídica
ao racismo por meio de seu judiciário, que deve ser
igualmente acessível a toda a população.

Quanto a essa Convenção, em relação às medidas prote-


tivas nele contidas, voltadas aos povos indígenas, Yamada19
destaca os principais tópicos:
[...] o respeito às culturas, histórias, línguas e modos de
vida indígenas como forma de enriquecer a identidade
cultural dos Estados e promover sua preservação; que os
membros dos povos indígenas sejam livres e iguais em
dignidade e direitos e estejam livres de qualquer discri-
minação, em especial da discriminação fundada na sua
origem ou identidade indígena; a garantia aos povos in-
18
Op. Cit. 2002, p. 30.
19
Op. Cit. 2010.

Programa de Pós-graduação em Direito


Curso de Mestrado em Direitos Humanos
282
Denise Tatiane Girardon dos Santos

dígenas das condições que permitam o desenvolvimento


econômico e social sustentável e compatível com suas
características culturais; que os membros dos povos in-
dígenas tenham direitos iguais no tocante à efetiva parti-
cipação na vida pública e que nenhuma decisão relacio-
nada a seus direitos e interesses seja tomada sem o seu
consentimento informado; que as comunidades indígenas
exercitem seu direito de praticar e revitalizar suas tradi-
ções culturais e costumes, e preservem e usem suas lín-
guas.

Denota-se, assim, que a CERD visou a proteger vários as-


pectos importantes para a preservação das tradições, usos e
costumes dos indígenas, de uma forma em geral, como, por
exemplo, assegurou o direito à dignidade, liberdade e igualda-
de, condições que propiciem o seu natural e saudável desen-
volvimento, a participação na vida pública e social de sua na-
ção, além de garantir a manutenção de suas línguas.
O Pacto Internacional de Direitos Econômicos, Sociais e
Culturais, do ano de 16.12.1966, por sua vez, é um documento
que já instituiu regras obrigacionais de políticas públicas para
os Estados-Membros, sendo que estes deveriam efetivá-los.
Assim, sua previsões atingem o plano interno de cada Estado,
de acordo com as nuances de cada um, estas que possuem
influência direta na consecução de suas previsões20.
Os direitos assegurados por esse Pacto são a autodeter-
minação dos povos e liberdade de cada Estado de dispor, li-
vremente, de suas riquezas naturais; igualdade entre homens
e mulheres; trabalho livremente escolhido e capacidade para
exercê-lo; direitos trabalhistas condições justas de tabalho;
sindicalização; previdência e seguro social; alimentação, ves-
timenta e moradia; saúde física e mental; educação e cultura21.
A Convenção Sobre a Eliminação de Todas as Formas de
Discriminação Contra a Mulher, de 18.12.1979, visou a tutelar

20
ALMEIDA e PERRONE-MOISÉS, 2002, p. 47.
21
Disponível em: http://www.onu-brasil.org.br/. Acesso no dia 05.11.2011,
as 16h30min.
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A questão indígena no brasil e a relevância das previsões, insertas...

as mulheres vítimas de discriminação baseada pelo fator sexu-


al, visando à igualdade de direitos entre o homem e a mulher,
em todas as esferas e campos sociais22.
Por intermédio dessa Convenção, que, diga-se de passa-
gem, foi uma conquista das mulheres, que lutavam pelo reco-
nhecimento de seus direitos desde a Idade Moderna, restou
estabelecido que os direitos das mulheres estariam posiciona-
dos no mesmo patamar que os dos homens, o que, consequen-
temente, afasta a ideia de exclusão de inferiorização do sexo
feminino. Nas palavras de Almeida e Perrone-Moisés23:
Considerar os direitos das mulheres como categoria indi-
visível aos direitos humanos é uma atitude recente, que
evidencia uma evolução, em face de uma realidade de
exclusão e postergação da mulher, historicamente mar-
cada. Essa situação de postergação da mulher tem mu-
dado, produto das lutas reivindicatórias que diversas mu-
lheres empreenderam no decorrer da história da humani-
dade. Estas adquirem considerável força na Idade Mo-
derna, atingindo conquistas estruturais somente durante
o século XX.

Souza24 destaca o trabalho que o Comitê da Convenção


Sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Con-
tra a Mulher (ou CEDAW, em inglês) vem desempenhado no
sentido de fiscalizar a aplicação das previsões de tal documen-
to no Brasil, com destaque à insistente desigualdade de direi-
tos entre homens e mulheres, entre elas, as índias; bem como,
a pobreza, que as marginaliza da sociedade.
Na data de 1989 foi aprovada a Convenção Nº 169 sobre
Povos Indígenas e Tribais em Estados Independentes, da Or-
ganização Internacional do Trabalho (OIT), estabelecendo que
os povos indígenas possuem o direito de serem consultados
pelos Poderes Executivo e Legislativo acerca de questões, te-
mas, projetos e programas que lhes dizem respeito ou ao que

22
Op. Cit, 2011.
23
2002, p. 52.
24
2009, pp. 16 e 22. OBRA - BRASIL, 2010, pp.17 e 18.

Programa de Pós-graduação em Direito


Curso de Mestrado em Direitos Humanos
284
Denise Tatiane Girardon dos Santos

possam vir a lhes causar quaisquer inteferências, afetando su-


as vidas, terras e as culturas25.
A Convenção nº 169 da OIT, apresenta avanços importan-
tes no tocante ao reconhecimento dos direitos indígenas cole-
tivos, significativamente, aspectos de direitos econômicos, so-
ciais e culturais, sendo tal Convenção, atualmente, o instru-
mento internacional, de caráter vinculante, mais atualizado e
abrangente em se tratando de condições de vida e trabalho
dos índios26.
Os artigos 14 e 15 da Convenção nº 169, da OIT, prescre-
vem que os índios possuem direito de consulta e participação,
tanto no uso, gestão, controle de acesso e conservação de seus
territórios; bem como, o direito à indenização por eventuais
danos, além de proteção contra despejos e remoções de suas
terras tradicionais27.
Já a Convenção contra a Tortura e Outras Penas ou Tra-
tamentos Cruéis, Desumanos ou Degradantes, entrou em vigor
em 26 de junho de 1987, visou a restringir, em sua área de ju-
risdição, práticas cometidas por funcionários públicos ou outra
pessoa no exercício de funções públicas que violem a integri-
dade física e a dignidade daqueles sob custódia do Poder Pú-
blico28.
Os autores mencionados afirmam que tal Convenção visa
que os Estados-Partes passem a adotar medidas de fiscaliza-
ção e de criminalização dos atos de tortura, desde que cometi-
dos em seu território, contra seus nacionais, por estrangeiros
em seu território. Também, tratam da extradição dos agentes
praticantes de atos considerados tortura, determinando a sua
25
Disponível em http://ccr6.pgr.mpf.gov.br/documentos-e-publicacoes/ju
risprudencia-1/crimes/trf-3/RC%202002.03.99.016415-4%20-%20MS.pdf.
Acesso no dia 03.10.2011, as 11h30min.
26
OBRA - BRASIL, 2010, pp.17 e 18.
26
Disponível em http://ccr6.pgr.mpf.gov.br/documentos-e-publicacoes/ju
risprudencia-1/crimes/trf-3/RC%202002.03.99.016415-4%20-%20MS.pdf.
Acesso no dia 03.10.2011, as 11h30min.
27
Disponível em: http://www.onu-brasil.org.br/. Acesso no dia 05.11.2011,
as 16h30min.
28
ALMEIDA e PERRONE-MOISÉS, 2002, p. 65.
I Seminário Internacional de Direitos Humanos e Democracia
Os Direitos Humanos e a sua Proteção
25 e 26 de abril de 2013
285
A questão indígena no brasil e a relevância das previsões, insertas...

extradição, salvo quando haver riscos de ele ser submetido à


tortura no País extraditando29.
Inicialmente, estabelece que os Estados deverão adotar
medidas eficazes para impedir o uso da tortura, não po-
dendo invocar situações excepcionais. Uma dessas me-
dias, explicitadas pela Convenção, consiste na criminali-
zação da tortura. Os crimes de tortura podem, de acordo
com a Convenção, ser processados e julgados por um Es-
tado-parte: (i) quando cometidos em qualquer território
sob sua jurisdição ou a bordo de navio ou aeronave regis-
trada no Estado em questão; (ii) quando supostamente
cometidos por ou contra nacionais desse Estado; (iii)
quando cometidos por pessoa que se encontre em qual-
quer território sob jurisdição desse Estado, caso esse Es-
tado não a extradite para os Estados indicados em (i) ou
em (ii). Desse modo, tanto o Estadeo onde foi cometido o
crime, quanto os Estados da nacionalidade do autor ou
da vítima poderão pedir a extradição do suspeito. Entre-
tanto, a convenção determna que não poderá haver a ex-
pulsão, a extradição ou a devolução de uma pessoa a um
Estado onde haja motivos substanciais para acreditar
que ela estará em perigo de ser submetida á tortura.

Outrossim, no ano de 1989, houve a assinatura da Con-


venção dos Direitos da Criança, de 20 de novembro de 1989,
este que, de acordo com os autores aludidos acima, “é o mais
importante instrumento internacional cujo objeto é a proteção
dos Dieitos Humanos Infantis.”30
Para fins de aplicabilidade da Convenção, são considera-
das crianças todas as pessoas com idade inferior a dezoito
anos, salvo se o sistema legal do País em que a criança esteja
preveja uma idade distinta; bem como, resta proibido o recru-
tamento nas Forças Armadas ou a participação direta em con-
flitos armados a menores de quinze anos31.

29
Op. Cit. 2002, pp. 66 e 67.
30
Ibidem, 2002, p. 76.
31
Disponível em: http://www.onu-brasil.org.br/. Acesso no dia 05.11.2011,
as 16h30min

Programa de Pós-graduação em Direito


Curso de Mestrado em Direitos Humanos
286
Denise Tatiane Girardon dos Santos

Tal Convenção procura tutelar quatro questões basilares,


a fim de buscar a efetivação da proteção do Estado às crianças
(inclusive, às indígenas), quais sejam, a não discriminação, e,
com isso, a garantia de ela desenvolver, amplamente, seu po-
tencial; a sua proteção como questão priotorária; o desenvol-
vimento pleno, por intermédio da igualdade entre as crianças e
a garantia delas aos serviços básicos, além de assegurar suas
opiniões. Consoante disposição no site da Unicef32:
[...] a não discriminação, que significa que todas as crian-
ças têm o direito de desenvolver todo o seu potencial –
todas as crianças, em todas as circunstâncias, em qual-
quer momento, em qualquer parte do mundo. o interesse
superior da criança deve ser uma consideração prioritária
em todas as acções e decisões que lhe digam respeito. a
sobrevivência e desenvolvimento sublinha a importância
vital da garantia de acesso a serviços básicos e à igual-
dade de oportunidades para que as crianças possam de-
senvolver-se plenamente. a opinião da criança que signi-
fica que a voz das crianças deve ser ouvida e tida em
conta em todos os assuntos que se relacionem com os
seus direitos.

Em 1993, a ONU proclamou o Ano Internacional das Po-


pulações Indígenas do Mundo, cogitando a criação de um Fó-
rum Permanente encarregado das questões relacionadas aos
povos indígenas. Em 2002, houve a inauguração do primeiro
período de sessões do Fórum Permanente da ONU para Assun-
tos Indígenas. Atualmente, um dos mandatos do Fórum Per-
manente é subsidiar o trabalho do Relator Especial da ONU
sobre direitos humanos e liberdades fundamentais indígenas,
além de monitorar a implementação da Declaração sobre os
direitos dos povos indígenas no mundo33.

32
Disponível em: http://www.unicef.org.br/. Acesso no dia 23.10.2011, as
10h30min.
33
Disponível em http://ccr6.pgr.mpf.gov.br/documentos-e-publicacoes/
jurisprudencia-1/crimes/trf-3/RC%202002.03.99.016415-4%20-%20MS.pdf.
Acesso no dia 03.10.2011, as 11h30min.
I Seminário Internacional de Direitos Humanos e Democracia
Os Direitos Humanos e a sua Proteção
25 e 26 de abril de 2013
287
A questão indígena no brasil e a relevância das previsões, insertas...

No ano de 2007, a Assembléia Geral da ONU promulgou a


Declaração das Nações Unidas sobre Direitos dos Povos Indí-
genas no mundo todo, esta que reconhece os direitos territori-
ais, culturais e a diversidade étnica dos povos e enfatiza que
os Estados-Membros respeitem as diferenças e se constituam
em estdos pluriculturais ou pluriétnicos34.
Tal Declaração trouxe à apreciação das nações as princi-
pais reivindicações dos povos indígenas, mormente no tocante
à sua relação com o Estado latu sensu, a fim de torná-la mais
proveitosa e promissora; bem como, ressaltou os princípio da
igualdade e autodeterminaçãoe indo de encontro à discrimina-
ção, vinculando, com isso, demais normatizações nacionais e
estragneiras. Nesse sentido, Yamada (2010) destaca que:
O texto, extremamente avançado, reflete o conjunto das
reivindicações atuais dos povos indígenas em todo o
mundo acerca da melhoria de suas relações com os Esta-
dos nacionais e serve para estabelecer parâmetros míni-
mos para outros instrumentos internacionais e leis nacio-
nais. Na declaração constam princípios como a igualdade
de direitos e a proibição de discriminação, o direito à au-
todeterminação e a necessidade de fazer do consenti-
mento e do acordo de vontades o referencial de todo o re-
lacionamento entre povos indígenas e Estados [...].

Assim, restou determinado que os índios possuem direito


de poder determinar status político em relação à nação onde se
encontrem, a fim de preservarem a forma como desenvolvem
sua sociedade, em respeito a sua cultura; que o Estado deve
questioná-los sobre normas, em geral, que inclua eles, ou os
recursos por eles usufruidos; que o Estado tem obrigação de
ressarci-los no caso de subtração de qualquer propriedade,
material ou imaterial. Com isso, o direito em manter sua cultu-
ra, sendo ela reconhecida nos procedimentos adotados pelo
Estado, além de garantir aos indígenas a comunicação entre
eles, com suas línguas e meios próprios, bem como, de acessar

34
OBRA - BRASIL, 2010, p.14.

Programa de Pós-graduação em Direito


Curso de Mestrado em Direitos Humanos
288
Denise Tatiane Girardon dos Santos

tais meios não indígenas, que também devem conter material


democrático, tratando de questões relacionadas ao índio.
Também, a Convenção da Diversidade Biológica reconhe-
ce, em seu preâmbulo, a estreita e tradicional dependência de
recursos biológicos de muitas comunidades locais e popula-
ções indígenas com estilos de vidas tradicionais, e, no artigo
8º, alíena “j”, estabelece a necessidade de perservação da di-
versidade biológica dos territórios ocupados pelos indígenas35.
Reconhecendo a estreita e tradicional dependência de
recursos biológicos de muitas comunidades locais e po-
pulações indígenas com estilos de vida tradicionais, e
que é desejável repartir eqùitativamente os benefícios
derivados da utilização do conhecimento [...] Em confor-
midade com sua legislação nacional, respeitar, preservar
e manter o conhecimento, inovações e práticas das co-
munidades locais e populações indígenas com estilo de
vida tradicionais relevantes à conservação e à utilização
sustentável da diversidade biológica e incentivar sua
mais ampla aplicação com a aprovação e a participação
dos detentores desse conhecimento, inovações e práti-
cas; e encorajar a repartição eqùitativa dos benefícios
oriundos da utilização desse conhecimento, inovações e
práticas [...]

No tocante à observância dos Tratados e Convenções re-


tro referidos, em relação aos indígenas, estas normas já estão
expressas na Constituição Federal Brasileira, como por exem-
plo, a previsão para a demarcação e proteção das terras, a pro-
teção das identidades culturais, as políticas de assistência di-
ferenciada, a preservação do meio ambiente, entre outros,
sendo que as normas ratificadas coexisem, em harmonia, com
as leis internas36.

35
Disponível em: http://www.onu-brasil.org.br/. Acesso no dia 05.11.2011,
as 16h30min.
36
OBRA - BRASIL, 2010, p.19. Mestranda em direitos humanos. UNIJUI-
Universidade do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul; es-
mel29@yahoo.com.br
I Seminário Internacional de Direitos Humanos e Democracia
Os Direitos Humanos e a sua Proteção
25 e 26 de abril de 2013
289
A questão indígena no brasil e a relevância das previsões, insertas...

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Consoante acima discorrido, verificou-se o quão impor-
tante são as normas legais de abrangência internacional, tanto
voltadas à proteção dos direitos do cidadão, quanto as que tra-
tam, especificamente, do Direito Indigenista, posto que, ao
mesmo tempo em que tutelam, efetivamente, também, os direi-
tos concernentes aos índios, ainda influenciaram o Direito Bra-
sileiro dedicado às questões aborígenes, dispostos na Carta
Magna Brasileira.
Tais disposições, ao preverem, principalmente, que a cul-
tura indígena deve ser preservada, com a oportunidade de
crescimento e evolução, asseguram, legalmente, a defesa des-
ses direitos, mormente, quando constatadas violações, inclusi-
ve, com a possibilidade de as comunidades indígenas pleitea-
rem seus direitos. Contudo, para a completa efetivação dessa
previsões, imprescindível que a sociedade não indígena reco-
nheça os índios como cidadãos brasileiros dotados de cultura
diversa, e que sejam respeitados pelas suas particularidades,
mesmo que, naturalmente, sua cultura evolua e transcenda,
misturando-se à comunhão nacional, gradativa e naturalmente.
A ratificação, pelo Brasil, desses documentos internacionais
possibilitam aos indígenas, face a não observância das normas
destacadas, postularem em juízo a tutela de seus direitos, a
fim de preservá-los.

REFERÊNCIAS
ALMEIDA, Guilherme de Assis de; PERRONE-MOISÉS, Cláudia (co-
ordenadores). Direito Internacional dos Direitos Humanos: Instru-
mentos Básicos. Ed. Atlas. São Paulo – SP, 2002.
BASTOS, Celso Ribeiro; MARTINS, Ives Gandra. Comentários à
Constituição do Brasil: Promulgada em 05 de Outrubro de 1988.
Vol 4, Ed. Saraiva. São Paulo – SP, 2002.
Comissão de Cidadania e Direitos Humanos. Coletivos Guarani no
Rio Grande do Sul – Terrotorialidade, Interetnicidade, Sobreposi-
ções e Direitos Específicos. Porto Alegre – RS, 2010.

Programa de Pós-graduação em Direito


Curso de Mestrado em Direitos Humanos
290
Denise Tatiane Girardon dos Santos

SATILLI, Juliana. Socioambientalismo e Novos Direitos: Proteção


Jurídica à Diversidade Biológia e Cultural. Ed. Peirópolis. Peirópolis
– SP, 2005.
SOUZA, Mércia Cardo de. Artigo “A Convenção sobre a Eliminação
de Todas as Formas de Discriminação Contra as Mulheres e suas
Implicações para o Direito Brasileiro”. Revista Eletrônica de Direito
Internacional, Vol. 5, 2005.
TEIXEIRA, Gil Ulhôa (coordenador editorial). Missões: Passado –
Presente – Futuro. Ed. Talento Editorial Ltda. Porto Alegre –
RS,1990.
YAMADA, Érica M. O Que são Direitos Humanos? Texto publicado
em http://ccr6.pgr.mpf.gov.br/documentos-e-publicacoes/jurispru
dencia-1/crimes/trf-3/RC%202002.03.99.016415-4%20-%20MS.pdf.
Acesso no dia 03.10.2011, as 11h30min.
http://www.funai.gov.br/. Acesso no dia 01.10.2011, as 19h30min.
http://www.onu-brasil.org.br/. Acesso no dia 05.11.2011, as
16h30min.
http://www.unicef.org.br/. Acesso no dia 23.10.2011, as 10h30min.
http://www4.planalto.gov.br/legislacao. Acesso no dia 28.10.2011,
as 09h00min.

I Seminário Internacional de Direitos Humanos e Democracia


Os Direitos Humanos e a sua Proteção
25 e 26 de abril de 2013
A FUNDAMENTAÇÃO
DOS DIREITOS HUMANOS

Eliane Spacil de Mello


Mestranda em direitos humanos. UNIJUI- Universidade do Noroeste do
Estado do Rio Grande do Sul. (esmel29@yahoo.com.br)
Argemiro Luis Brum
Orientador. Doutor em Economia. UNIJUI- Universidade do Noroeste do
Estado do Rio Grande do Sul. (argelbrum@unijui.edu.br)

Resumo
Este trabalho visa tratar da questão da fundamentação dos Direitos Humanos, defi-
nindo a sua origem no tempo e no espaço, sua implantação e seu desenvolvimento,
bem como seus elementos de estruturação. Além disso, trata das liberdades funda-
mentais e da democracia. Nesse sentido, discute possíveis soluções para o Estado
Democrático, como alternativas que possam garantir a dignidade da pessoa humana
através de uma análise dos Direitos Humanos no Brasil e finaliza com um breve co-
mentário sobre o seu processo de internacionalização, demonstrando a obrigação de
cada Estado com a proteção e efetivação dos mesmos.
Palavras-chave: Direitos Humanos; efetivação; fundamentação; liberdades e prote
ção.

Abstract
This paper aims to address the issue of justification of Human Rights, in order to
define its origin in time and space, its development and its implementation, as well
as its structuring elements. Moreover, these fundamental freedoms and democracy.
Accordingly, discusses possible solutions for the state Democratic alternatives that
ensure the dignity of the human person through an analysis of human rights in Brazil
and ends with a brief commentary on its internationalization process, demonstrating
the obligation of each State with the protection and enforcement of same.
Keywords: Enforcement, freedoms, Human Rights; reasons and protection.

INTRODUÇÃO
O presente trabalho trata da fundamentação dos direitos
humanos, situando-os na história, comentando o seu desenvol-
vimento, que, aos poucos foi delineando os direitos e deveres
que, apesar de serem inerentes à pessoa, não encontrava res-
paldo nas regras de convivência social, até se transformarem
em normas codificadas.
292
Eliane Spacil de Mello & Argemiro Luis Brum

Além disso, trata os direitos humanos como liberdades


fundamentais, faz uma relação com a democracia, definindo
conceitos e demonstrando como se instaurou o Estado Demo-
crático. Faz um fecho com uma breve análise do processo de
internacionalização dos Direitos Humanos, destacando como
deve ser realizada sua proteção e efetivação, traduzida em tra-
tados e convenções internacionais bem como na legislação
ordinária dos Estados.
Além disso, cabe enfatizar o respeito aos direitos huma-
nos para que se possa alcançar uma soberania universal, a
qual permita que todos os povos possam interagir entre si ten-
do em mente as questões mundiais como um todo. Assim, pre-
tende-se alcançar a total garantia e proteção dos direitos hu-
manos, os quais ainda têm um longo caminho a seguir para
atingir esse objetivo.

ORIGEM DOS DIREITOS HUMANOS


Raramente se percebe, mas a ideia de que os homens
possuem direitos é uma invenção da modernidade, a qual sur-
giu e se institucionalizou no decorrer do século XVIII. Além do
que, se faz necessário destacar que o seu surgimento na histó-
ria representa uma verdadeira ruptura com o passado. (BEDIN,
2002, p.19).
Nesse sentido, afirma Bedin
O caráter de ruptura com o passado presente na emer-
gência da ideia de direitos do homem, deve-se ao fato de
que a figura deôntica originária é o dever e não o direito.
Com efeito, conforme nos dizem Celso Lafer (1991) e Nor-
berto Bobbio (1992), os grandes monumentos legislativos
da Antiguidade, como as Leis Eschunna, o Código de
Hamurabi, os Dez Mandamentos e a Lei das XII Tá-
buas,estabelecem deveres e não direitos.1

1
BEDIN, Gilmar Antonio. Os Direitos do Homem e o Neoliberalismo. 3.
ed. Ver. E ampl. Ijuí: Ed. Unijui, 2002, p.19.
I Seminário Internacional de Direitos Humanos e Democracia
Os Direitos Humanos e a sua Proteção
25 e 26 de abril de 2013
293
A fundamentação dos direitos humanos

Para marcar a inversão da perspectiva de deveres para


direitos, ou melhor, essa “revolução copernicana”, pode-se ci-
tar como marcos as declarações de direitos, quais sejam, De-
claração da Virgínia em 1776 e Declaração da França em 1789.
Conforme Bedin :
(...) o centro do mundo político a partir dos séculos XVII e
XVIII não é mais o Estado (o todo), como fora durante vá-
rios séculos, mas sim os indivíduos (as partes). [...] essa
“revolução copernicana”entre o Estado e os indivíduos
traz consigo a ideia de desigualdade e a ideia da igual-
dade entre os homens.[...] a inversão entre o Estado e os
indivíduos conduz também ao câmbio entre a crença na
origem natural do Estado e a crença na sua origem con-
tratual. O Estado passa a ser compreendido não mais
como sendo o resultado do desdobramento de comuni-
dades menores, mas sim de um acordo entre os indiví-
duos [...]a inversão entre o Estado e os indivíduos deslo-
ca ainda o fundamento do poder. Até os séculos XVII e
XVIII o fundamento do poder residia em Deus ou na tra-
dição. A partir desse período passa a ser alicerçado no
consenso dos indivíduos, ou seja, o poder somente será
legitimo quando oriundo da nação. [...] todas essas inver-
sões na representação do mundo político conduzem a
uma profunda mudança no mundo jurídico. Deixa-se, a
partir desse momento, de privilegiar os deveres para de-
clarar os direitos. Daí, portanto, o surgimento das Decla-
rações de Direitos. 2

Quanto à concepção contemporânea dos direitos indivi-


duais, percebe-se um desenvolvimento histórico muito marca-
do pela influência do cristianismo e consagrado pelas revolu-
ções liberais dos séculos XVIII, alcançando o mundo globaliza-
do da atualidade pela efetivação dos direitos sociais como
primazia ao bem comum. Moraes apud, Ribeiro (2007, p.14,).
Porém, conforme já afirmava Kant não existe uma origem
exata da conjuntura jurídica em algum momento específico
2
BEDIN, Gilmar Antonio. Os Direitos do Homem e o Neoliberalismo. 3.
ed. Ver. E ampl. Ijuí: Ed. Unijui, 2002, p. 20-21.

Programa de Pós-graduação em Direito


Curso de Mestrado em Direitos Humanos
294
Eliane Spacil de Mello & Argemiro Luis Brum

dentro da história. Documentos históricos como a Virginia Bill


of Rights de 1776, a Declaração Universal dos Direitos Huma-
nos, das Nações Unidas, de 1948, possuem importância como
pontos de referência histórica a cerca de Direitos Humanos,
que sem esses momentos ficaria solto e sem sentido, porém,
não pode sustentar-se na história e em seus feitos, pois a his-
tória humana, assim como todas as ações humanas, sempre
está permeada de contradições. (BIELEFELDT, 2000, p. 101).
O processo de fundamentação dos direitos humanos, con-
forme Bobbio apud Bertaso (2003, p. 19), “tem início com as
Declarações da Virginia em 1776 e a Francesa de 1789”, onde
os direitos civis estabeleceram a base sobre a qual os demais
direitos foram se afirmando e o indivíduo passou a ser conside-
rado pela norma como sujeito de direitos.
Assim, os direitos civis, emanados das Revoluções Ame-
ricana e Francesa nos anos 1776 e 1789, trouxeram a afirmação
das liberdades, o que marcou o século XVIII. Primeiramente os
direitos civis foram contra o Estado, determinando que este
não poderia intervir no âmbito das liberdades individuais.
No século XIX, surgiram os direitos considerados políticos
ou “de liberdades públicas”, momento em que não se conce-
beu a liberdade apenas negativamente, mas de forma positiva,
possibilitando, inclusive, a transformação do individuo em ci-
dadão. Posteriormente, os direitos políticos permitiram a parti-
cipação dos cidadãos no poder, estabelecendo as condições
para isso.
Além disso, deu-se o surgimento do direito social, eco-
nômico e cultural que, de acordo com Bobbio apud Berta-
so,(2003, p.19), “são direitos de liberdade através ou por meio
do Estado, direitos da coletividade ou dos grupos sociais.” A
partir daí pode-se dizer que o indivíduo se insere concretamen-
te na sociedade, “indo para além das garantias individuais
fundamentais, reconhecendo-o como sujeito coletivo de direi-
tos”.
Os direitos solidários surgiram com a Declaração Univer-
sal dos Direitos Humanos de 1948 e as posteriores. Entre eles
pode-se citar: o direito ao desenvolvimento, ao meio ambiente
I Seminário Internacional de Direitos Humanos e Democracia
Os Direitos Humanos e a sua Proteção
25 e 26 de abril de 2013
295
A fundamentação dos direitos humanos

sadio, à paz universal e à autodeterminação dos povos que


considera os direitos do homem no âmbito internacional e bus-
ca sua proteção efetiva, destinando-se principalmente à prote-
ção dos grupos humanos como as famílias, os povos, as na-
ções.”. Ademais, os direitos humanos de solidariedade tam-
bém buscam a segurança da coletividade.
Porém, atualmente se observa uma lacuna deixada nessa
classificação, que é a respeito de não ter abrangido, e nem po-
deria, pela época em que foi sistematizada, os direitos do ho-
mem no aspecto internacional. (BEDIN, 2002, p.42).
Assim, teríamos além desses, os direitos de solidariedade
ocupando a quarta geração.
Bedin parafraseando Bonavides, afirma a respeito dos di-
reitos do homem no âmbito internacional, que:
Não se destinam especificamente à proteção dos interes-
ses de um individuo, de um grupo ou de um grupo ou de
um determinado Estado. Têm primeiro por destinatário o
gênero humano mesmo num momento expressivo de sua
afirmação como valor supremo em termos de existencia-
lidade concreta. 3

Assim, pode-se dizer que se tratam de direitos “sobre o


Estado”, o que demonstra uma profunda mutação quanto ao
conceito de soberania, a qual, conforme Bedin (2002, p.73):
“deixa der compreendida de forma absoluta, como fora desde o
inicio da Idade Moderna, para ser pensada de forma integrada
e coordenada em um sistema de jurisdição internacional”.
Outra questão que merece destaque é que somente um
século e meio depois da primeira declaração de direitos huma-
nos foi possível alcançar a igualdade dos direitos civis das mu-
lheres e homens: na Inglaterra e na Alemanha, após a Primeira
Guerra Mundial; na França, Bélgica e Itália, somente após a
Segunda guerra. (BIELEFELDT, 2000, p.106).
Na sequência desses direitos, Bertaso comenta:

3
BEDIN, Gilmar Antonio. Os Direitos do Homem e o Neoliberalismo. 3.
ed. Ver. E ampl. Ijuí: Ed. Unijui, 2002, p.73.

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Curso de Mestrado em Direitos Humanos
296
Eliane Spacil de Mello & Argemiro Luis Brum

Obedecendo a uma ordem histórica, surgiram os direitos


de manipulação genética que são relacionados à biotec-
nologia e à bioengenharia. Esses direitos tratam da vida
e da morte, da questão da cópia de seres humanos e re-
querem uma discussão ética prévia para se efetivarem.
Já os direitos que tratam da realidade virtual, aparece-
ram a partir do desenvolvimento da cibernética e abrem
uma problemática a respeito da desconsideração das
fronteiras tradicionais dos Estados e geram conflitos en-
tre países de realidades diferentes, como por exemplo
ocorre com a comunicação e as relações via satélite e in-
ternet. 4

Essa quarta geração se refere aos direitos à democracia


direta, à informação e ao direito ao pluralismo.
Em vista disso, pode-se afirmar que historicamente, os di-
reitos civis surgiram no século XVIII, os direitos políticos no
século XIX e os direitos sociais no século XX e, conforme aduz
Bertaso, (2003,p.22,). “Surgiram a favor e contra os avanços do
Estado e do mercado”.
Com a globalização, o mundo vem se transformando fa-
zendo surgir os chamados “novos direitos”, principalmente no
que se refere ao meio ambiente, ao patrimônio histórico e cul-
tural e ao consumidor. Conforme Bertaso, (2003, p.45): “Essas
novas realidades acabam sendo juridicizadas, constituindo um
novo rol de direitos, que se colocam no contexto de avanço dos
direitos sociais e até mesmo dos ecológicos, tratando-se assim,
de interesses transindividuais”.
Nesse sentido, Morais apud, Bertaso enfatiza que:
Da confluência de fatores próprios à sociedade contem-
porânea emergem interesses que, além de escaparem à
tradição individualística, se põe como indispensáveis à
vida das pessoas. São interesses que atinam a toda a co-
letividade, são interesses ditos transindividuais, pois não

4
BERTASO, Candice Nunes. A Cidadania no Âmbito dos Novos Direitos
Sociais. Trabalho de Conclusão de Curso. Universidade de Cruz alta -
Cruz Alta – RS, 2003, p.21.
I Seminário Internacional de Direitos Humanos e Democracia
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25 e 26 de abril de 2013
297
A fundamentação dos direitos humanos

estão acima ou além dos indivíduos, mas perpassam a


coletividade de indivíduos e estes isoladamente. São in-
teresses que se referem a categorias inteiras de indiví-
duos e exigem uma intervenção ativa, não somente uma
negação, um impedimento de violação – exigem uma ati-
vidade. 5

Assim, percebe-se o predomínio do coletivo e do difuso,


de forma a inserir o indivíduo em uma dimensão global.

O DESENVOLVIMENTO E A FUNDAMENTAÇÃO DOS DIREITOS


HUMANOS
Analisando os direitos humanos quanto ao seu desenvol-
vimento, constata-se que se tratam de direitos históricos em
duplo sentido, ou seja, de um lado estão condicionados e ex-
postos de muitas maneiras à crítica, por outro, seu conteúdo
altera-se através dessa crítica bem como pelas alterações so-
ciais, econômicas e políticas. Como causa de novas reivindica-
ções no campo desses direitos pode-se citar várias, de acordo
com Bielefeldt (2000, p.107 a 109):

a) Novas e diferentes formas de repressão e discrimina-


ção tornam necessária a diferenciação da proteção aos
direitos humanos. Também direitos culturais de mino-
rias estão contemplados naquela Constituição pela
primeira vez Alterações no campo socioeconômico das
condições de vida podem trazer novas formas de ame-
aça à vida condigna que devem ser suplantadas atra-
vés de mecanismos jurídicos e políticos e que podem
ter, como consequência, o deslocamento do foco em
assuntos ligados aos direitos humanos.
b) A crítica universalista aos direitos humanos também
apresenta conseqüências na estrutura dos mesmos.

5
BERTASO, Candice Nunes. A Cidadania no Âmbito dos Novos Direitos
Sociais. Trabalho de Conclusão de Curso. Universidade de Cruz alta
Cruz Alta -Cruz Alta – RS, 2003, p.45-46.

Programa de Pós-graduação em Direito


Curso de Mestrado em Direitos Humanos
298
Eliane Spacil de Mello & Argemiro Luis Brum

O processo de crescente globalização traz alterações no


debate sobre direitos humanos. Levando-se em conta as alte-
rações ocorridas nos direitos humanos, pressupõe-se que nun-
ca haverá um rol completo e imutável de direitos. Os direitos
humanos somente se desenvolvem e se tornam legítimos por
meio do debate publico de opiniões divergentes. Torna-se im-
portante garantir de forma critica a reivindicação normativa
dos direitos humanos a fim de que eles não se percam numa
retórica difusa e passem a ser aplicados arbitrariamente con-
forme a vontade de cada um.
De acordo com Bielefeldt, (2000,p.110), os direitos huma-
nos têm o perfil normativo de reivindicar sua universalidade e
tornar suas metas jurídicas. A isso se liga o lema da revolução
de 1789: “Liberdade, Igualdade e Fraternidade”, o que se re-
torna sempre que se quer dar conteúdo aos direitos humanos,
porém, o elemento fraternidade, atualmente deveria ser substi-
tuído por solidariedade (no sentido de partilha, participação ou
co-determinação). Ao se usar os elementos liberdade, igualda-
de e solidariedade para a estruturação dos direitos humanos,
surge a hipótese de que se estão definindo três tipos diferen-
tes de direitos .
Quanto aos direitos à solidariedade, foi dada maior cono-
tação na declaração da conferência sobre direitos humanos da
Federação Luterana Mundial, realizada em Dar-es-Salam em
1977. Esta declaração defendeu a unificação desses diferentes
tipos de direitos, porém, não esclareceu como se daria a inter-
ligação interna dos mesmos. (BIELEFELDT, 2000, p.111).
No decorrer do desenvolvimento histórico atingiu-se gra-
dativo equilíbrio entre os três tipos de direitos, talvez por
conscientização ou pelo reconhecimento de injustiças pratica-
das. Combinando esses direitos com as três gerações de direi-
tos humanos, poder-se-ia dizer que a primeira geração definiu
os direitos civis e políticos da liberdade no século XVIII; no
decorrer do século XIX, a segunda geração englobou os direi-
tos sociais e econômicos da igualdade, e que, no final do sécu-
lo XX esta em pauta o alcance dos direitos à solidariedade pa-
ra a terceira geração. Salienta-se que Bielefeldt apud Brugger,
I Seminário Internacional de Direitos Humanos e Democracia
Os Direitos Humanos e a sua Proteção
25 e 26 de abril de 2013
299
A fundamentação dos direitos humanos

(2000, p.112), em seu ensaio “A Figura Humana dos Direitos


Humanos”de 1995, afirma que o ser humano ideal seria aquele
que “tem conduta de vida independente, consciente e respon-
sável”.
De acordo com a filosofia jurídica de Kant, liberdade e
igualdade somente adquirem força crítica e sistemática se não
forem apenas consideradas aditivas ou contrapostas entre si,
mas de forma unida a ponto de se explicarem reciprocamente,
ou seja, deve haver um acordo de equilíbrio entre elas
(BIELEFELDT, 2000, p.114).
Assim, a tríade liberdade, igualdade e solidariedade for-
ma uma estrutura onde os três componentes não estão apenas
juntos aditivamente ou, até, em contraposição, mas esclare-
cem-se reciprocamente.
Como garantia política e jurídica das condições básicas
de um agir livre solidário e com direitos iguais, todos os direi-
tos humanos são, em sentido próprio, liberdades básicas. Por
caber à política a configuração concreta da livre convivência, a
liberdade à manifestação de opinião política “é, em certo sen-
tido, a base de toda a liberdade”, como destaca a Suprema
Corte Constitucional. Os direitos humanos básicos podem ser
enumerados continuamente sem nunca formar uma lista com-
pleta dentro de uma perspectiva histórica evolutiva.
(BIELEFELDT, 2000, p.118).
Considerando-se que os diferentes tipos de direitos pos-
suem suas respectivas áreas de proteção, eles não podem ser
simplesmente sobrepostos. Mesmo assim, possuem uma uni-
dade normativa interna que faz com que sirvam como conjunto
de liberdades básicas para a concretização de uma ordem de
liberdade nos direitos humanos que remete à dignidade igual
de cada ser humano como sujeito moral autônomo.
Nem todos os direitos humanos adquirem força jurídica
positiva. Os direitos civis, políticos, sociais e econômicos arro-
lados na Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948
foram, posteriormente, normatizados nas seguintes conven-
ções: Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos e no
pacto Internacional sobre Direitos Econômicos, Sociais e Cultu-
Programa de Pós-graduação em Direito
Curso de Mestrado em Direitos Humanos
300
Eliane Spacil de Mello & Argemiro Luis Brum

rais, ambos aprovados em 1966 e em vigência desde 1976. Po-


rém, a listagem de direitos básicos da Lei Fundamental não
reconhece os direitos sociais, sua normatização concreta cabe
ao legislador que, concomitantemente, deve se pronunciar
quanto à forma de implementação de padrões sociais dos direi-
tos constitucionais.
Muitos Estados Constitucionais modernos fazem diferen-
ciação entre direitos fundamentais garantidos constitucional-
mente (primeira geração de direitos – direitos liberais e políti-
cos) e os direitos sociais e econômicos (segunda geração de
direitos) simplesmente normatizados por meio de legislação.
De acordo com Bielefeldt apud Rawls, (2000, p.122) essa dife-
renciação consiste em dois níveis hierárquicos de justiça, onde
o primeiro corresponde a um sistema de máxima liberdade
fundamental para todos, e o segundo regulamenta questões
básicas da justiça social, limitando desigualdades sociais e
econômicas, o que somente se justifica se na impedirem a ho-
nesta igualdade de chances na disputa por cargos e posições e
se oferecerem vantagens aos menos favorecidos dentro da so-
ciedade.
Assim, tudo o que for estabelecido para cada Estado in-
dividualmente, vale, por analogia, no plano internacional. Para
que se garanta a unidade de conteúdo dos diversos instrumen-
tos como elementos de uma ordem pacífica nos direitos huma-
nos, seria razoável positivá-los também internacionalmente,
através de diferentes modos políticos e jurídicos de garantia
de entendê-los concomitantemente dentro da tradição da De-
claração Universal de 1948.

A FUNDAMENTAÇÃO DOS DIREITOS HUMANOS E A DEMOCRACIA


Constata-se que o ponto de partida da ideia moderna de
Estado Democrático teve suas raízes no século XVIII, através
da afirmação de determinados valores fundamentais do ho-
mem e da exigência de organização e funcionamento dos
mesmos bem como a busca de sua proteção.

I Seminário Internacional de Direitos Humanos e Democracia


Os Direitos Humanos e a sua Proteção
25 e 26 de abril de 2013
301
A fundamentação dos direitos humanos

Quanto à relação existente entre direitos humanos e de-


mocracia, surge a questão de que estando os direitos humanos
ancorados em direitos fundamentais constitucionais pode re-
presentar uma restrição à democracia, bem como a expressão
“todo o poder do estado emana do povo” não é ilusória.
Bielefeldt apud Schmitt (2000, p.128), define a democracia
como “expressão da ilimitada soberania coletiva”. Considera
também que a capacidade de ação do soberano democrático
depende de substancial homogeneidade do sujeito coletivo
político, que ele observa estar ameaçado de duas formas pela
universalidade dos direitos humanos: enquanto o individua-
lismo e o privatismo de reivindicações libertarias liberais re-
presentam interna ameaça à coesão política do todo, o univer-
salismo dos direitos humanos questiona, externamente a uni-
dade de um grupo popular em particular.
Ainda Bielefeldt apud Schmitt, comenta da formulação de
um conceito de democracia, ao mesmo tempo, antiliberal e an-
tiuniversalista, cujo principio não é a liberdade geral, mas
apenas a igualdade dentro de um coletivo particular:
[...] como princípios democráticos, igualdade e liberdade
são frequentemente arrolados lado a lado, quando na
verdade são diferentes e muitas vezes antagônicos em
seus pressupostos, seu conteúdo e em sua eficácia. Cor-
retamente, apenas a igualdade pode vigorar como prin-
cipio democrático, com eficácia interna. 6

Bielefeldt apud Schmitt faz uma analogia entre a sobera-


nia popular democrática e a soberania da nobreza absolutista
ao afirmar que:
[...] o povo é soberano em uma democracia, pode desfazer
todo o sistema de normas constitucionais e decidir em
um processo, como o rei fazia através de processos na

6
BIELEFELDT, Heiner. Filosofia dos Direitos Humanos; tradução de
Dankuart Bernsmuller. São Leopoldo. UNISINOS, 2000, p. 129.

Programa de Pós-graduação em Direito


Curso de Mestrado em Direitos Humanos
302
Eliane Spacil de Mello & Argemiro Luis Brum

monarquia absoluta. O povo é juiz supremo, como o é o


supremo legislador. 7

Ainda segundo Bielefeldt apud Schmitt, (2000, p.130)


quando a política se subordina às ligações jurídicas, perde a
qualidade de autêntica democracia, numa estrutura de divisão
de poderes onde instituições e procedimentos controlam-se e
equilibram-se mutuamente.
De acordo com Bielefeldt apud Kaltenbrunner (2000,
p.131), democracia significa domínio do povo, ou melhor: do-
mínio da maioria com base em igualdade de direitos civis. Ela
determina que quem deverá dominar é a maioria dos cidadãos
politicamente iguais, seja pessoalmente ou através de repre-
sentante eleito por determinado período.
Portanto, não se pode ter liberdade sem correr seus ris-
cos, pois apesar de todas as garantias institucionais, direitos
humanos e democracia, dependem, em ultima analise, da li-
berdade e do engajamento democrático das pessoas.

A FUNDAMENTAÇÃO DOS DIREITOS HUMANOS NO BRASIL


O Brasil foi o primeiro país a concretizar juridicamente os
direitos do homem através de suas Constituições, desde a do
Império em 1824, posteriormente na de 1891, depois na de
1934, sendo que na de 1937 teve um capitulo destinado aos
Direitos e Garantias individuais, porém com muitas restrições
e desrespeito aos direitos do homem por ser do período ditato-
rial.
Posteriormente, na Constituição de 1946 vieram algumas
inovações, visto que já possuía um conjunto de direitos e ga-
rantias individuais.
Já a Constituição de 1967, a qual foi marcada pelo ato ins-
titucional n. 5, elencava medidas severas, tendo sido conside-
rado o período em que ocorreram diversos casos de tortura a
agentes políticos, os quais eram muitas vezes presos de forma

7
Idem, p. 130.
I Seminário Internacional de Direitos Humanos e Democracia
Os Direitos Humanos e a sua Proteção
25 e 26 de abril de 2013
303
A fundamentação dos direitos humanos

arbitrária e ilegal, que, conforme aduz Alvarenga apud Ribeiro,


(2007, p.14). “vindo a culminar na Emenda de 1969, que apesar
de sua extensão foi frustrada, pois jamais conseguiu alcançar a
efetividade de seu vasto elenco de direitos e garantias indivi-
duais”.
Em 1988, com a atual Constituição Federal, composta de
245 artigos se estabeleceu o Estado Democrático de Direito, de
forma a confirmar o conteúdo estabelecido pela Declaração
Universal dos Direitos do Homem de 1948.
Nesse sentido, Mazzuoli apud Ribeiro, destaca que:
A Constituição de 1988 foi o marco fundamental para o
processo da institucionalização dos direitos humanos no
Brasil. Erigindo a dignidade da pessoa humana a princi-
pio fundamental, pelo qual a República Federativa do
Brasil deve se reger no cenário internacional instituiu a
Carta de 1988 um novo valor que confere suporte axioló-
gico a todo sistema jurídico brasileiro e que deve ser
sempre levado em conta quando se trata de interpretar
qualquer das normas constantes do ordenamento jurídico
pátrio. [...] a Carta da República de 1988, veio ampliar
significativamente o elenco dos direitos e garantias fun-
damentais estabelecido pelas anteriores Constituições
brasileiras,inovando o preceito com a referência aos Tra-
tados Internacionais em que a República Federativa do
Brasil seja parte [...]. 8

Assim, se pode observar que a Constituição Federal de


1988 estabeleceu os princípios destinados a concretizar seus
objetivos dando garantias para a consolidação do Estado De-
mocrático.
Constata-se que o autoritarismo estatal esteve quase
sempre presente na sociedade brasileira, o que se confirma
diante do fato de que o povo, na maioria das vezes, foi manipu-

8
RIBEIRO, Valdir. Igualdade e Dignidade nos Direitos Humanos. Traba-
lho de Conclusão de Curso. Universidade de Cruz alta- Cruz Alta- RS,
2007, p. 15.

Programa de Pós-graduação em Direito


Curso de Mestrado em Direitos Humanos
304
Eliane Spacil de Mello & Argemiro Luis Brum

lado pela elite nacional quanto aos processos políticos decisó-


rios na história do país.
Como no Brasil houve desde o início uma divisão de clas-
ses entre pobres e ricos, estes, como classe dominante, sempre
conseguiram impor seus interesses de forma a manipular o
poder econômico, sendo que para isso, faziam uso inclusive, da
violência institucional, trazendo como consequência que os
direitos de cidadania fossem deixados de lado, em um plano
secundário. Por isso que a igualdade prevista na Constituição,
na prática, não iguala os cidadãos, visto que não tem como
haver igualdade diante de condições financeiras desproporcio-
nais.
Apesar de a democracia perdurar até os dias atuais, ain-
da se vive uma desestruturação econômica no país onde os
ricos ficam cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais po-
bres, o que fere um dos princípios constitucionais que é o da
igualdade democrática.
Todavia, a sociedade deve manter firme seus propósitos
da busca de direitos, para que assim possa construir um Esta-
do Democrático de Direito que consiga concretizar e vigorar os
direitos Fundamentais, podendo ser através de políticas públi-
cas eficientes que possibilitem essa realização. (GELLER
2003,p.28-29)

A INTERNACIONALIZAÇÃO DOS DIREITOS HUMANOS


Pode ser considerado como o antecedente que mais con-
tribuiu para a formação do Direito Internacional dos Direitos
Humanos: a Organização Internacional do Trabalho (OIT), a
qual foi criada pra estabelecer critérios de proteção ao traba-
lhador, desde a determinação de sua condição no plano inter-
nacional, objetivando garantir melhores condições de dignida-
de e de bem estar social.
Conforme estabelece Pereira, (2005, p.6-7): “o Direito In-
ternacional dos Direitos Humanos, a Liga das Nações Unidas e
a Organização Internacional do Trabalho, contribuíram para o

I Seminário Internacional de Direitos Humanos e Democracia


Os Direitos Humanos e a sua Proteção
25 e 26 de abril de 2013
305
A fundamentação dos direitos humanos

processo de internacionalização dos direitos humanos, cada


qual a seu modo”.
Foi justamente com o objetivo de construir uma normati-
vidade internacional que proporcionasse eficácia e proteção
efetiva aos direitos humanos que os Estados se viram obriga-
dos a desenvolver essa ideia tendo se tornado um dos princi-
pais objetivos da comunidade internacional.
Após o surgimento da organização das Nações Unidas em
1945 e, posteriormente, da aprovação da Declaração Universal
dos Direitos Humanos em 1948, O Direito Internacional dos
Direitos Humanos se solidifica definitivamente, ocasionando a
adoção de diversos tratados internacionais destinados a pro-
teger os direitos fundamentais. Anteriormente, a proteção dos
direitos do homem encontrava-se restritamente a algumas le-
gislações internas dos países, tais como comenta Pereira,
(2005, p.9) “a inglesa de 1648, a americana de 1778 e a france-
sa de 1789.” Fora isso, apenas se suscitava as questões huma-
nitárias quando ocorria alguma guerra, porém, com aquiescên-
cia dos Estados houve a normatização internacional da maté-
ria, de forma que, conforme aduz Pereira, (2005, p.10) “locali-
zou-se o ser humano num dos pilares até então reservados aos
Estados, alcançando-o à categoria de sujeito de direito inter-
nacional”.
Nesse viés, manifesta-se Mazzuoli apud Pereira:
Paralelamente o direito internacional feito pelos Estados
e para os Estados começou a tratar da proteção interna-
cional dos direitos humanos contra o próprio Estado. As-
sim, o cidadão, antes vinculado à sua Nação, passa a tor-
nar-se, lenta e gradativamente, verdadeiro “cidadão do
mundo”. 9

Portanto, constata-se que é dever do Estado proteger os


direitos humanos internacionalmente reconhecidos, visto que
9
PEREIRA, Daiana Vargas. O Processo de Internacionalização dos Direi-
tos Humanos e a Incorporação das Normas de Proteção do Ordena-
mento Jurídico Brasileiro. Trabalho de Conclusão de Curso. Universi-
dade de Cruz alta. Cruz Alta- RS, 2005.

Programa de Pós-graduação em Direito


Curso de Mestrado em Direitos Humanos
306
Eliane Spacil de Mello & Argemiro Luis Brum

as violações aos direitos das pessoas ocorrem dentro do Esta-


do e não fora dele, de forma que as instâncias internacionais
sirvam como meios auxiliares para a efetivação da proteção
dos mesmos.

CONCLUSÃO
Tendo em vista os estudos feitos, bem como as leituras
realizadas sobre os Direitos Humanos, ficou bastante clara sua
importância para a sociedade. Também pode-se constatar que
os mesmos necessitam de proteção por parte dos Estados, das
Nações e da sociedade como um todo.
Constatou-se também, que, apesar de que a dignidade
humana seja um dos princípios previstos pela nossa Constitui-
ção Federal, assim como a igualdade seja um direito funda-
mental, não vem tendo efetividade prática, devido a vários fa-
tores, dentre eles, as injustiças derivadas do atual contexto
político em que vivemos e, como não poderia deixar de menci-
onar, pelas profundas diferenças econômicas, e demais pro-
blemas sociais. Temos que trabalhar em prol da distribuição
justa de renda, por uma maior democratização do sistema polí-
tico, entre outras políticas públicas para solucionar a questão.
Além disso, pode-se concluir que para haver a verdadeira
concretização da democracia precisamos ter uma mentalidade
social aberta e voltada para os valores de liberdade, igualdade
e fraternidade, além de manobras políticas que tornem o Esta-
do ainda mais democrático. Todavia, de nada adianta uma
Constituição repleta de princípios composta por inúmeros di-
reitos se a sociedade os desconhecer.
Por outro lado, ao analisar o processo de internacionaliza-
ção dos direitos humanos, observou-se que apesar do Brasil ter
ratificado vários tratados, no âmbito da proteção dos direitos
humanos, ainda temos um longo caminho até a completa efeti-
vidade dos mesmos.
Portanto, para resolver o problema da fundamentação dos
direitos humanos de forma que os direitos mínimos do ser hu-
mano sejam garantidos e respeitados, além da conscientização
I Seminário Internacional de Direitos Humanos e Democracia
Os Direitos Humanos e a sua Proteção
25 e 26 de abril de 2013
307
A fundamentação dos direitos humanos

da sociedade, deve haver a implantação de políticas públicas


eficientes, conforme já mencionado, que permitam que os Di-
reitos Humanos saiam da mistificação para o mundo real. As-
sim, havendo o respeito para com a dignidade da pessoa hu-
mana, poderá se verificar a grandiosidade dos benefícios que
uma democracia é capaz de trazer.

REFERÊNCIAS
ALVARENGA, Lucia Barros Freitas. Direitos Humanos, Dignidade e
Erradicação da Pobreza: uma Dimensão Hermenêutica para a Reali-
zação Constitucional. Brasília. Brasília Jurídica, 1998.
BEDIN, Gilmar Antonio. Os Direitos do Homem e o Neoliberalismo.
3. ed. Ver. E ampl. Ijuí: Ed. Unijui, 2002.
BERTASO, Candice Nunes. A Cidadania no Âmbito dos Novos Di-
reitos Sociais. Trabalho de Conclusão de Curso. Universidade de
Cruz Alta -Cruz Alta – RS, 2003.
BIELEFELDT, Heiner. Filosofia dos Direitos Humanos; tradução de
Dankuart Bernsmuller. São Leopoldo. UNISINOS, 2000.
BOBBIO, Norberto. A Era dos Direitos. Rio de Janeiro. Campos, 1992.
MORAIS, José Luis Bolzan. Do Direito Social aos Interesses Tran-
sindividuais: O Estado e Direito na Ordem Contemporânea. Porto
Alegre. Livraria do Advogado, 1996.
PEREIRA, Daiana Vargas. O Processo de Internacionalização dos
Direitos Humanos e a Incorporação das Normas de Proteção do
Ordenamento Jurídico Brasileiro. Trabalho de Conclusão de Curso.
Universidade de Cruz alta. Cruz Alta- RS, 2005.
RIBEIRO, Valdir. Igualdade e Dignidade nos Direitos Humanos.
Trabalho de Conclusão de Curso. Universidade de Cruz alta- Cruz
Alta- RS, 2007.

Programa de Pós-graduação em Direito


Curso de Mestrado em Direitos Humanos
A SEGUNDA G UERRA MUNDIAL
E A MEMÓRIA INTERNACIONAL SOBRE
DIREITOS HUMANOS

Eliete Vanessa Schneider


Bacharel em Direito pela UNIJUÍ – Universidade Regional do Noroeste do
Estado do Rio Grande do Sul, e Mestranda em Direitos Humanos pela
mesma instituição. Advogada. (elieteadvogada@yahoo.com.br)
Luís Carlos Schneider
Ms. Em desenvolvimento Unijuí – Docente do Curso de Administração Se-
trem – Sociedade Educacional Três de Maio.
(luis@proempreendedor.com.br)
Priscila Gadea Lorenz
Ms. Em Desenvolvimento Unijuí – Docente do Curso de Pedagogia Setrem
– Sociedade Educacional Três de Maio (priscilalorenz@gmail.com)

Resumo
O presente trabalho resgata a trajetória histórica de proteção dos direitos do ho-
mem na sociedade internacional a partir da Segunda Guerra Mundial, enfatizando a
contribuição de fatos ocorridos durante esse importante marco, que auxiliaram na
configuração da memória coletiva internacional sobre esses direitos. Além disso,
trata de alguns documentos internacionais publicados após e por influência dos fatos
marcantes da Segunda Guerra Mundial, como a Declaração dos Direitos do Homem
e após a sua publicação, da formação de um sistema internacional de proteção, que
foram o resultado do anseio da comunidade internacional pela garantia dos direitos
humanos, evidenciando a importante contribuição que tiveram a história e a memó-
ria coletiva neste processo.
Palavras-chave: História, Internacionalização dos Direitos Humanos, Memória, Se-
gunda Guerra Mundial.

Abstract
This work captures the historical trajectory of protection of human rights in interna-
tional society since the Second World War, emphasizing the contribution of events
during this important milestone, which helped in shaping collective memory about
international human rights. Moreover, this is some international documents pub-
lished after and influence of the striking facts of World War II, as the Declaration of
the Rights of Man and after its publication, the formation of an international sys-
tem of protection, which were the result of the desire of international community
for ensuring human rights, highlighting the important contribution that had history
and collective memory in this process.
Keywords: History, Internationalization of Human Rights, Memory, World War II.
310
Eliete Vanessa Schneider; Luís Carlos Schneider & Priscila Gadea Lorenz

A Segunda Guerra Mundial, sem questionamentos ou


contradições, é o marco histórico mais valoroso no que tange à
história, e pode-se dizer, à memória dos direitos humanos. Um
acontecimento ímpar, ápice da desconsideração da dignidade
da vida humana que culminou com a morte de milhões de pes-
soas. Verdadeiras atrocidades cometidas, fatos que se tornam
incrédulos aos olhos do bom senso, pela frieza e maldade com
que foram premeditados e realizados:
“A doutrina racista sobre a “pureza ariana” serviu de jus-
tificativa para perseguições, cárceres e execuções em massa
de judeus, eslavos e outras populações pelo exército de Hitler,
resultando no extermínio de milhões de pessoas”1. Alguns de-
cretos e Leis publicados na “era Hitler”, como a proibição de
casamentos entre judeus e alemães2, a proibição dos judeus de
embandeirar com as cores de Reich seus estabelecimentos3, e
de, a partir dos 7 anos de idade aparecerem publicamente sem
a estrela judaica4, trazem à baila a discussão e a constatação
de que realmente, quando se caracteriza este período da histó-
ria como “obscuro”, “degradante”, “desumano”, “de atrocida-
des”, não se está utilizando força de expressão, por conta de
que se trata de uma dura realidade pela qual milhares de pes-
soas de outras gerações passaram, sendo que o eco pedagógi-
co de situações experimentadas restará transpassado a muitas
gerações futuras pela história5.
O sadismo nazista atingiu mesmo o seu clímax com as
experiências médicas realizadas com as cobaias humanas. A
relação dos absurdos realizados incluía enxertos de ossos, inje-
tar doses mortais de bacilos de icterícia e tifo, praticar esterili-
zação, retirar pele de prisioneiros para fazer cúpulas de abajur:
1
GUERRA, Sidney, Direitos Humanos na Ordem Jurídica Internacional
e Reflexões na Ordem Constitucional Brasileira. Rio de Janeiro: Lumen
Juris, 2008.
2
Lei para proteção do sangue e da honra alemãs, 15 de dezembro de
1935, Op cit, p. 39.
3
Lei da Cidadania do Reich, 15 de setembro de 1935, Op Cit, p. 39.
4
Parágrafo 1º do Decreto Policial de 1º e setembro de 1941, sobre a identi-
ficação dos Judeus na Alemanha.
5
História, considerada em seu sentido científico, do Estudo da História.
I Seminário Internacional de Direitos Humanos e Democracia
Os Direitos Humanos e a sua Proteção
25 e 26 de abril de 2013
311
A Segunda Guerra Mundial e a memória internacional sobre direitos

As experiências eram variadas. Colocavam-se os prisio-


neiros em câmaras de pressão, onde eram submetidos a
testes de grande altitude. Muitos eram vítimas de gás
mostarda e de balas envenenadas, além de serem sub-
metidos a baixas temperaturas para testar a sua resis-
tência. Um dos experimentos, praticado em polonesas
conhecidas como coelhinhas, consistia em provocar gan-
grena com gás. Em outras cobaias, eram feitos enxertos
de ossos. Nos campos de Dachau e Buchenwald, ciganas
tomavam água salgada com o objetivo de avaliar quanto
tempo conseguiam viver sob semelhante dieta. A esteri-
lização foi largamente praticada, tanto em homens como
mulheres.6
A Guerra de Hitler não era travada apenas no campo de
batalha. Era uma luta em que ele atacava os inimigos
onde quer que os encontrasse. Sendo uma ideologia tota-
litarista, o nazismo tinha qualquer um na mira, e seus
oponentes mais óbvios e ameaçadores não estavam se-
não em sua própria casa. Se a Alemanha deveria ser re-
novada, como acreditava Hitler, ele deveria eliminar pri-
meiro as forças internas que culpava pela catastrófica
derrota da nação em 1918.7

Isto significava, acima de tudo, judeus, bolcheviques, so-


cialistas, liberais, democratas. Estes, que foram atores neste
triste cenário, viram suas famílias sendo separadas, mortas...
países inteiros destruídos, pessoas desoladas, desamparadas,
sem perspectivas de sobrevivência. Sentimentos de mágoa,
dor, sofrimento, medo... Até onde chegariam os atos de barbá-
rie? Qual seria o valor da vida humana?
O mundo, perplexo com os acontecimentos, estava ansio-
so por respostas. A Segunda Guerra havia deixado um rastro
incomensurável de destruição, tanto física, quanto psicológica.

6
Experiências Médicas. II Guerra Mundial – 60 anos. Coleção Almanaque
Abril, volume 2, São Paulo, 2005, p. 38-39, IN Direitos Humanos na Or-
dem Jurídica Internacional e reflexos na Ordem Constitucional Brasilei-
ra, Sidney Guerra, Lumen Iuris, Rio de Janeiro, 2008, p. 40.
7
STAFFORD, David. Fim de Jogo, 1945. Rio de Janeiro: Objetiva, 2012, p.
55.

Programa de Pós-graduação em Direito


Curso de Mestrado em Direitos Humanos
312
Eliete Vanessa Schneider; Luís Carlos Schneider & Priscila Gadea Lorenz

Horrores inimagináveis praticados levaram à reflexão e à ne-


cessidade de resgate de valores essenciais ao ser humano que
haviam sido afrontados. Sem dúvida, os engendros bárbaros
cometidos na Segunda Guerra Mundial, foram o estopim para
que mudanças ocorressem. Assim, o movimento de internacio-
nalização dos direitos humanos desenvolveu-se extraordinari-
amente depois da segunda guerra mundial, em resposta às
atrocidades cometidas ao longo do Nazismo8. Com esse pro-
cesso, a pessoa passou a ser o foco da atenção internacional e
a dignidade da pessoa humana, até certo ponto, tornou-se um
princípio universal e absoluto9.
O convívio dos Estados em uma comunidade juridicamen-
te organizada e a intensificação das relações entre os povos
deu vida a um ordenamento jurídico internacional preocupado
com os direitos da pessoa humana10. Verifica-se então que, a
partir da segunda metade do Século XX, a análise da dignida-
de humana ganha âmbito internacional, consolidando a idéia
de limitação da soberania nacional e reconhecendo que os in-
divíduos possuem direitos inerentes à sua existência que de-
vem ser protegidos11.
Nesse sentido, as atrocidades cometidas contra a huma-
nidade fizeram nascer a consciência da necessidade de impe-
dir novas crueldades, resgatando os valores humanitários abo-
lidos com a guerra. Acredita-se que, nessa mudança de para-
digma, teve influência, a memória coletiva que, nas palavras
de Silva12 é “composta pelas lembranças vividas pelo indivíduo

8
GOMES, Luiz Flávio. O Sistema Interamericano de Proteção dos Direi-
tos Humanos e o Direito Brasileiro. São Paulo: Editora Revista dos Tri-
bunais, 2000, p. 63;
9
Sidnei Guerra. Direitos Humanos na Ordem Jurídica Internacional e
Reflexões na Ordem Constitucional Brasileira. Editora Lumen Juris,
2008, Rio de Janeiro, p. 40.
10
REZEK, Francisco. Direito Público Internacional. São Paulo: Editora
Saraiva, 2010, p. 32;
11
MÉNDEZ, Isel Rivero. Las Naciones Unidas Y Los Derechos Humanos.
50 aniversario de La declaracion Universal de Derechos Humanos;
12
SILVA, kalinda Vanderlei e Silva, Maciel Henrique. Dicionários de con-
ceitos históricos. São Paulo: Contexto, 2005, p. 276.
I Seminário Internacional de Direitos Humanos e Democracia
Os Direitos Humanos e a sua Proteção
25 e 26 de abril de 2013
313
A Segunda Guerra Mundial e a memória internacional sobre direitos

ou que lhe foram repassadas, mas que não lhe pertencem so-
mente, e são entendidas como propriedade de uma comunida-
de, um grupo.”
A memória coletiva faz parte das grandes questões das
sociedades desenvolvidas e das sociedades em vias de desen-
volvimento, das classes dominantes e das classes dominadas,
lutando todas pelo poder ou pela vida, pela sobrevivência e
pela promoção13. Através da memória, é que sobrevivem certos
acontecimentos, repassados de uma geração à outra. E quando
se fala na Segunda Guerra Mundial, embora não sejam aconte-
cimentos agradáveis, muito pelo contrário, onde certamente
milhares de pessoas viveram as situações mais dolorosas, hor-
ríveis de suas vidas, há que se concordar que a memória teve
papel fundamental. Tanto no plano individual, embora se acre-
dite que somente quem viveu naquele cenário pode ter a exata
compreensão de sua gravidade, como no plano da memória
coletiva, uma vez que até hoje, esse triste acontecimento é
lembrado, e, muito provavelmente, por várias centenas de
anos, ainda o será.
Neste ponto, tem destaque a contribuição da história, por
meio de seus vários mecanismos, como documentos, monu-
mentos entre outros, que possibilitam a construção e recons-
trução do conhecimento, do estudo acerca do tema, utilizado
por todos nós para a vida comum, e no qual operamos com a
“memória” – construção individual realizada a partir de refe-
rências culturais coletivas14.
Dessa maneira, entende-se que tanto a história, quanto à
memória, ambas com suas particularidades e nuances, têm
papel fundamental na construção do conhecimento e reflexão
acerca do acontecimento que foi a Segunda Guerra Mundial.

13
GOFF, Jacques. História e Memória. Campinas, São Paulo: Editora da
Unicamp, 1996, p. 474.
14
NORA, P. Entre memória e história. A problemática dos lugares. Projeto
História. Revista do Programa de Estudos Pós-Graduados em História
do Departamento de História, São Paulo: n.10. 1993,p. 53;

Programa de Pós-graduação em Direito


Curso de Mestrado em Direitos Humanos
314
Eliete Vanessa Schneider; Luís Carlos Schneider & Priscila Gadea Lorenz

A memória é um fenômeno sempre atual, um elo vivido


no eterno o presente; a história, uma representação do
passado. A história, porque operação intelectual e laici-
zante demanda análise e discurso crítico. A memória ins-
tala a lembrança no sagrado, a história a liberta, e a torna
sempre prosaica. A memória emerge de um grupo que
ela une, o que quer dizer como Halbwachs o fez, que há
tantas memórias quantos grupos existem; que ela é, por
natureza, múltipla e desacelerada, coletiva, plural e indi-
vidualizada. A história, ao contrário, pertence a todos e a
ninguém, o que lhe dá uma vocação para o universal. A
memória se enraíza no concreto, no espaço, no gesto, na
imagem, no objeto. A história só se liga às continuidades
temporais, às evoluções e às relações das coisas. A me-
mória é um absoluto e a história só conhece o relativo.15

Ademais, se o tema direitos humanos atualmente é um


dos aspectos jurídicos que mais se desenvolve, trazendo in-
fluência sobre os mais variados aspectos da vida humana, so-
mente o é em função da necessidade que foi perceptível após
esta triste era, a era “Hitler”. A necessidade de preservação da
dignidade humana, e de instituição de valores éticos mínimos,
direcionados a todas as pessoas, pelo cunho humano de sua
existência. Neste sentido, lembra Flávia Piovesan16 que se a
segunda guerra significou a ruptura com os direitos humanos,
o pós – guerra deveria significar a reconstrução desses direi-
tos. Sob esse prisma, a violação dos direitos humanos não po-
de ser concebida como questão doméstica do estado, e sim
como problema de relevância internacional como legítima pre-
ocupação da comunidade internacional.
Dessa maneira, esta “consciência” coletiva por parte dos
Estados, fez surgir ao longo dos anos, alguns documentos que
hoje são a base, o norte no que diz respeito à proteção dos Di-

15
MONTEIRO, Ana Maria. Ensino de História: entre história e memória.
RJ: Editora da UFRJ, 2010, p. 11.
16
PIOVESAN, Flávia. Direitos Humanos e o Direito Constitucional Inter-
nacional. São Paulo: Max Limonad, 2004, p. 118;
I Seminário Internacional de Direitos Humanos e Democracia
Os Direitos Humanos e a sua Proteção
25 e 26 de abril de 2013
315
A Segunda Guerra Mundial e a memória internacional sobre direitos

reitos Humanos. Afirma Comparato17 que o horror engendrado


pelo surgimento de Estados totalitários, verdadeiras máquinas
de destruição de povos inteiros, suscitou em toda parte a
consciência de que, sem o respeito aos Direitos Humanos, a
convivência pacífica das nações tornava-se impossível.
Iniciou-se então, uma maratona de criação de documen-
tos históricos internacionais, que fizeram com que várias mu-
danças ocorressem na legislação nacional dos países que os
ratificaram. Através do acordo de Londres, em 1945, por exem-
plo, instituiu-se o Tribunal Militar Internacional de Nuremberg,
responsável pelo julgamento dos crimes de guerra contra a
humanidade cometidos pelas autoridades políticas e alemãs
da Alemanha Nazista. Com este Tribunal, a comunidade inter-
nacional passou a conhecer crimes de direito, que até então
eram conhecidos apenas de fato: o crime que lesa a humani-
dade, os crimes de guerra e os crimes de agressão18.
Além deste Tribunal, houve a publicação da Declaração
Universal dos Direitos Humanos, de 1948, que é o marco mais
lembrado até hoje no que tange à proteção internacional des-
ses direitos. A importância da Declaração Universal dos Direi-
tos do Homem ultrapassa em muito os direitos que protege,
uma vez que possui uma dimensão simbólica extraordinária: é
uma espécie de pacto jurídico-político global. Esta é a sua di-
mensão mais importante e mais duradora.
Adotada e proclamada na terceira sessão da Assembléia
Geral das Nações Unidas, realizada em Paris, em 10 de de-
zembro de 1948, a Declaração Universal estabelece, em seus
trinta artigos, os direitos essenciais de todos os seres humanos.
Por isso, a Declaração se alicerça na busca da justiça e da paz no
mundo, e cristaliza 150 anos de luta pelos Direitos Humanos19.

17
COMPARATO, Fábio Konder. A afirmação histórica dos Direitos Hu-
manos. São Paulo: Saraiva, 2001, p. 215;
18
GUERRA, Sidney. Direitos Humanos na Ordem Jurídica Internacional
e Reflexos na Ordem Constitucional Brasileira. Rio de Janeiro: Editora
Lumen Juris, 2008, p. 86;
19
HUNT, Lynn. A Invenção dos Direitos Humanos. São Paulo: Companhia
das Letras, 2009, p. 45;

Programa de Pós-graduação em Direito


Curso de Mestrado em Direitos Humanos
316
Eliete Vanessa Schneider; Luís Carlos Schneider & Priscila Gadea Lorenz

Após a Declaração, diversos outros documentos, tratados


internacionais foram firmados, com o objetivo de promover a
proteção internacional dos Direitos Humanos. Portanto, o cená-
rio internacional de proteção desses direitos, começou a ser
construído após os horrores mencionados, ocorridos durante a
Segunda Guerra Mundial. Formou-se então um sistema norma-
tivo global de proteção dos direitos humanos, no âmbito das
nações Unidas. Este sistema normativo, segundo Gomes20 é
integrado por normas de alcance geral (como os Pactos Inter-
nacionais de Direitos Civis e Políticos e de Direitos Econômicos
Sociais e Culturais, de 1966), e por instrumentos de alcance
específico, como as grandes convenções internacionais que
protegem contra a tortura, a discriminação racial, a discrimina-
ção contra as mulheres, a violação dos direitos das crianças.
Estas convenções formam um sistema de proteção específica.
Ao lado do sistema normativo global, surgiu também um
conjunto de sistema regional de proteção aos direitos humanos
(europeu, americano, africano). Cada um dos sistemas regio-
nais possui peculiaridades próprias e mecanismos jurídicos
específicos. O Sistema Europeu conta com a Convenção Euro-
péia de Direitos Humanos, de 1950, que estabelece a Corte Eu-
ropéia de Direitos Humanos. Já o Sistema Africano apresenta
como principal instrumento a Carta Africana de Direitos Hu-
manos, de 1981. Finalmente, o Sistema Americano tem como
principal instrumento a Convenção Americana de Direitos Hu-
manos de 1969.
Além destes, diversos outros documentos internacionais
foram criados com o objetivo de garantir a proteção dos direi-
tos humanos, no âmbito externo às jurisdições nacionais. Mas
o que se busca com o presente trabalho, não é uma caracteri-
zação de cada documento publicado21, mas sim, evidenciar a
importância que tiveram a história e a memória neste proces-

20
GOMES, Luiz Flávio. O Sistema Interamericano de Proteção dos Direi-
tos Humanos e o Direito Brasileiro. São Paulo: Editora Revista dos Tri-
bunais, 2000, p. 45;
21
Obviamente não está se buscando com esta afirmação, menosprezar ou
desconsiderar a importância de cada um destes documentos.
I Seminário Internacional de Direitos Humanos e Democracia
Os Direitos Humanos e a sua Proteção
25 e 26 de abril de 2013
317
A Segunda Guerra Mundial e a memória internacional sobre direitos

so, bem como a importância da existência de um sistema in-


ternacional de proteção aos Direitos humanos.
Sem dúvida, o avanço no reconhecimento e na proteção
dos direitos humanos tem sido significativo nas últimas déca-
das, apesar de ainda muitas violações ocorrerem nas diversas
regiões do mundo. Por isso, a existência de um sistema inter-
nacional de proteção dos direitos humanos é fundamental: seja
na proteção do ser humano em sua universalidade ou em sua
especificidade. E esse sistema, como foi possível demonstrar
com as reflexões presentes, foi construído com a influência das
lembranças trazidas pela Segunda Guerra Mundial. A memória
coletiva fez nascer a consciência de que mudanças deveriam
ocorrer, para que os mesmos erros praticados durante este
triste acontecimento mundial, não fossem repetidos.
Assim, a proteção dos direitos humanos foi se consoli-
dando no interior dos Estados e na sociedade internacional
(mesmo com as violações que muitas vezes verificamos no dia
a dia da vida). O importante, contudo, é não perder a esperan-
ça e continuar a lutar pela proteção dos direitos humanos. Isto
permitirá a construção de uma cultura da paz e da busca de
solução pacífica dos conflitos. Neste sentido, o respeito e a
proteção dos direitos humanos representam uma conquista
civilizatória e estabelecem um patamar diferenciado para a
evolução humana. E as conquistas no que diz respeito aos di-
reitos humanos, uma vez documentados, por meio dos diversos
documentos internacionais, deverá ser gravado na história pe-
las próximas centenas de anos.
Nesse sentido, é que o presente trabalho se propôs a ana-
lisar a contribuição dada pela memória coletiva no processo de
internacionalização dos direitos humanos. Conclui-se que, tan-
to a memória, quanto a história, como já citado, levando em
consideração as particularidades de cada uma, tiveram papel
fundamental nesta construção. E certamente, continuam re-
produzindo conhecimento e lembranças deste período de pe-
numbra sob o qual viveu a humanidade. Que a Segunda Guerra
Mundial, transpassada às novas gerações pela história e pela
memória, sirva de eco pedagógico, para que situações de des-

Programa de Pós-graduação em Direito


Curso de Mestrado em Direitos Humanos
318
Eliete Vanessa Schneider; Luís Carlos Schneider & Priscila Gadea Lorenz

respeito à dignidade e à vida humana, não tornem a ocorrer. E


que sejam respeitados e garantidos, os Direitos Humanos.

REFERÊNCIAS
GOFF, Jacques. História e Memória. Campinas, São Paulo: Editora
da Unicamp, 1996;
GOMES, Luiz Flávio. O Sistema Interamericano de Proteção dos
Direitos Humanos e o Direito Brasileiro. São Paulo: Editora Revista
dos Tribunais, 2000;
GUERRA, Sidney. Direitos Humanos na Ordem Jurídica Internaci-
onal e Reflexos na Ordem Constitucional Brasileira. Rio de Janeiro:
Editora Lumen Juris, 2008;
HUNT, Lynn. A Invenção dos Direitos Humanos. São Paulo: Compa-
nhia das Letras, 2009.
NORA, P. Entre memória e história. A problemática dos lugares.
Projeto História. Revista do Programa de Estudos Pós-Graduados em
História do Departamento de História, São Paulo: n.10. 1993.
PIOVESAN, Flávia. Direitos Humanos e o Direito Constitucional
Internacional. São Paulo: Max Limonad, 2004;
REZEK, Francisco. Direito Público Internacional. São Paulo: Editora
Saraiva, 2010, p. 32;
SILVA, Kalinda Vanerlei & Silva, Maciel Henrique. Dicionário de
conceitos históricos. São Paulo: Contexto, 2005;
STAFFORD, David. Fim de Jogo, 1945. Rio de Janeiro: Objetiva,
2012, p. 55;

I Seminário Internacional de Direitos Humanos e Democracia


Os Direitos Humanos e a sua Proteção
25 e 26 de abril de 2013
DIREITOS HUMANOS E ESCOLA :
POR UMA POLÍTICA PÚBLICA EDUCACIONAL
PROMOTORA DA INCLUSÃO SOCIAL 1

Elisa Mainardi
Doutor em Educação; professor do Programa de Pós-Graduação em Edu-
cação da Faculdade de Educação da Universidade de Passo Fundo.
(eldon@upf.br)
Eldon Henrique Mühl
Doutoranda em Educação nas Ciências pela Unijuí, professora da Faculda-
de de Educação da Universidade de Passo Fundo. (emainardi@upf.br)

Resumo
A educação têm sido desafiada a promover a cidadania, o que requer, não somente
o domínio de conceitos ou de técnicas pedagógicas, mas um repertório de saberes
que nos permita perceber e compreender a realidade de violação de direitos, a ne-
cessidade de sensibilizar-se e de agir-se na defesa e na promoção dos direitos dos
indivíduos e o desenvolvimento de práticas sociais realizadoras de tais direitos. Nes-
se sentido o texto aponta para a importância e a necessidade da constituição de uma
cultura em e para os direitos humanos na escola. Para tanto, vale-se do estudo dos
registros sistematizados em discussões pedagógicas construídas por professores
envolvidos na elaboração do projeto político pedagógico escolar, no qual foi possível
observar as concepções e práticas em educação em direitos humanos e a importân-
cia das políticas públicas educacionais na orientação e animação deste processo.
Palavras Chave: direitos humanos; escola; política pública educacional.

Abstract
the school has been challenged to promote citizenship, which requires not only the
domain of concepts or pedagogical techniques, but a repertoire of knowledge that
allows us to perceive and understand the reality of violation of rights, the need to
raise awareness and to act in the defence and promotion of the rights of individuals
and the development of enterprising social practices of such rights. In this sense the
text points to the importance and the need for the establishment of a culture in and
for human rights in school. For this, it is used of organized records in pedagogical
discussions built by teachers involved in preparing the school pedagogical political
project, in which it was possible to observe the conceptions and practices in human
rights education and the importance of public educational policies in the guidance
and animation of this process.
Keywords: human rights; school; public educational policy.

1
Artigo de sistematização de pesquisa.
320
Elisa Mainardi & Eldon Henrique Mühl

INTRODUÇÃO
A escola de hoje está sendo desafiada a promover a inte-
gração social pelo desenvolvimento de uma cultura centrada
no respeito e na vivência dos direitos humanos. Tal desafio
encontra-se expresso em diversos documentos e, de forma ex-
plícita, na Resolução Nº 1 de 30 de maio de 2012, que estabele-
ce as Diretrizes Nacionais para a Educação em Direitos Huma-
nos. O documento propõe como principal diretriz o desenvol-
vimento de “concepções e práticas educativas fundadas nos
Direitos Humanos e em seus processos de promoção, proteção,
defesa e aplicações na vida cotidiana e cidadã de sujeitos de
direitos e de responsabilidades individuais e coletivas.” 2 Cabe
destacar que embora as diretrizes tenham sido publicadas re-
centemente, o tema vem preocupando educadores, militantes
e autoridades mundiais há muitos anos. No Brasil, no entanto,
percebe-se que ainda é um tema pouco debatido e os professo-
res, em geral, continuam mostrando-se indiferentes ou resis-
tentes a tal desafio, não conseguindo perceber a importância
da educação em direitos humanos para a sociedade atual. Nes-
te sentido, nos indagamos: o que tem provocado a resistência
da escola e de seus professores na implementação das políti-
cas e diretrizes do Plano Nacional de Educação em Direitos
Humanos? Quais as limitações e as possibilidades que per-
meiam o processo de construção da prática pedagógica em
direitos humanos nas escolas? Que iniciativas devem ser to-
madas pelas escolas para desenvolver o comprometimento dos
professores com a educação em e para os direitos humanos? É
possível pensar a introdução de tal discussão no contexto es-
colar sem que os cursos de formação de professores insiram
esta discussão em seus currículos?
Motivados por tais inquietações, valemo-nos da investi-
gação dos registros sistematizados das discussões pedagógi-
cas construídas pelos professores envolvidos na elaboração do
projeto político pedagógico, bem como, nas concepções e prá-
ticas em educação em direitos humanos, destacando o papel
2
BRASIL, CNE, 2012, Art. 2º
I Seminário Internacional de Direitos Humanos e Democracia
Os Direitos Humanos e a sua Proteção
25 e 26 de abril de 2013
321
Direitos humanos e escola

da escola na implementação de um projeto voltado aos diretos


humanos3.
Cabe destacar que a investigação constitui-se num des-
velamento dos desafios da escola na condução e promoção do
processo dialógico acerca dos direitos humanos em um contex-
to social marcado pelo preconceito, pela exclusão, desigualda-
de social e muitas resistências em relação à educação em di-
reitos humanos. O objetivo é trazer a discussão alguns fatores
que se apresentam como limitadores da ação educativa volta-
da à construção de uma cultura em direitos humanos e apontar
para possíveis alternativas de enfrentamento destes desafios.
Afinal, a educação em direitos humanos implica na transfor-
mação de uma cultura que tradicionalmente vem marcada pelo
preconceito e pelo desrespeito aos direitos humanos.

CONTEXTUALIZANDO OS DIREITOS HUMANOS


Destacamos, inicialmente, que nossa compreensão de di-
reitos humanos aproxima-se à concepção que o Plano Nacional
de Educação em Direitos Humanos (PNEDH) de 2008 apresenta:
[...] direitos humanos incorpora os conceitos de cidadania
democrática, cidadania ativa e cidadania planetária, por
sua vez inspiradas nos valores humanistas e embasadas
nos princípios da liberdade, da igualdade, da equidade e
da diversidade, afirmando sua universalidade, indivisibi-
lidade e interdependência.4

A história dos direitos humanos vem marcada por inúme-


ras conquistas, mas que só foram possíveis graças às lutas
sustentadas por homens e mulheres que tiveram a coragem de
3
A pesquisa centrou-se na observação dos registros sistematizadores das
discussões pedagógicas realizadas com um grupo de professores da re-
de municipal de ensino, de um município de abrangência da Universi-
dade de Passo Fundo, no período de 2008-2009. As discussões que se
estabeleceram foram fruto do processo de construção de um Projeto Po-
lítico Pedagógico para as escolas, tendo por princípio fundamental a
constituição de uma escola para a cidadania.
4
PNEDH, 2008:23.

Programa de Pós-graduação em Direito


Curso de Mestrado em Direitos Humanos
322
Elisa Mainardi & Eldon Henrique Mühl

defender os seus direitos e os direitos dos outros. Desde a an-


tiguidade, passando pela idade média e pela modernidade,
encontramos iniciativas de lutas em prol dos direitos humanos.
A luta contra a discriminação dos estrangeiros, a luta contra o
trabalho servil, a luta contra os governos despóticos, a luta
contra a discriminação religiosa, a luta pela democracia e pelo
direito a liberdade, são algumas manifestações que deram ori-
gem ao que hoje constituem os direitos humanos.
Nos tempos contemporâneos, identificamos outras inicia-
tivas que vão dar sustentação para reconhecimento internaci-
onal dos direitos humanos: a luta contra os domínios do impe-
rialismo, a luta contra a barbárie nazista e de outros regimes
autoritários, a luta pelos direitos das mulheres, a luta contra a
discriminação racial, a luta pela regulamentação das relações
de trabalho, a luta contra a exploração indiscriminada do capi-
talismo, a luta pelos direitos das crianças e dos idosos, a luta
contra a escravidão, e muitas outras.
Nestes últimos anos, vivemos assombrados pelo neolibe-
ralismo, pela globalização mundial, que nos inseriu num con-
texto de conquistas tecnológicas, como a cibernética, a robóti-
ca, a clonagem de seres vivos, as estações espaciais, o trans-
porte supersônico, o transplante de órgãos humanos, a fibra
ótica que conecta ao mundo todo, a genética que promete mu-
dar a vida no planeta e criar um novo parque humano. Ao
mesmo tempo, continuamos convivendo com a fome, a miséria,
a poluição descontrolada, o desequilíbrio ambiental, as doen-
ças cujas curas são de fácil solução, a escassez da água potá-
vel, o desenvolvimento de novas armas químicas, biológicas e
nucleares, com muitas pessoas jogadas nas ruas, sem casa e
sem destino.
Vivemos num tempo e num espaço marcado por grandes,
rápidas e avançadas transformações no campo tecnológico
que, por mais paradoxal que pareça, não consegue reverter a
situação da grande desigualdade social e violação de direitos
em que estamos imersos. É impossível contabilizar em núme-
ros a quantidade de pessoas que continuam morrendo em ra-
zão da pobreza e da violência causada pelas mais diferentes

I Seminário Internacional de Direitos Humanos e Democracia


Os Direitos Humanos e a sua Proteção
25 e 26 de abril de 2013
323
Direitos humanos e escola

formas de intolerância: ideológica, étnica, racial, sexual e reli-


giosa. Ainda existem muitos homens, mulheres e crianças que
continuam não podem exercer seu direito fundamental do di-
reito a vida. Os genocídios de diferentes matizes continuam
sendo fenômenos normais em nossa sociedade moderna. No
Brasil essa situação não é diferente. Mesmo já distantes 40
anos dos denominados “anos de chumbo” da ditadura militar e
a 22 anos da Constituição Federal de 1988 que restabeleceu os
direitos civis e sociais do povo brasileiro, continuamos presen-
ciando diariamente situações de violações graves dos mais
elementares direitos dos cidadãos. Se de um lado, comemora-
mos a conquista da liberdade de expressão, a possibilidade de
livre organização dos grupos e movimentos sociais, o direito de
expressão sem qualquer tipo de censura, a retomada da esco-
lha democrática de nossos dirigentes pela eleição direta, a al-
ternância do poder, do outro lado, convivemos, ainda, com os
extermínios de líderes sindicais e de organizações sociais legí-
timas, com a exploração do trabalho escravo e do trabalho in-
fantil, com a exploração da prostituição, com muitos casos de
violência contra a mulher e a criança, com situações de abuso
de poder nas prisões, com tortura, com homofobias, com o cri-
me organizado que se propaga e se mantêm de forma endêmi-
ca nas cidades e no campo. Embora vivendo num estado de
direito democrático, no qual a idéia de participação é impor-
tante, a democracia ainda permanece, em grande parte, no
plano formal, visto que, por si só, não assegura que os direitos
sejam, de fato, uma realidade e a participação um direito de
todos. Ao contrário do que muitos esperam e desejam, as vio-
lações dos direitos humanos continuam presentes no nosso
cotidiano.
A violência contra o homem do campo, violência contra
indígenas, crianças, adolescentes e mulheres (incluindo vio-
lência doméstica e prostituição forçada), situações de trabalho
forçado e de escravatura, condições degradantes e perigosas
das prisões (inclusive os massacres nelas cometidos por forças
policiais), a demora ou a ausência de justiça no atendimento
das populações mais carentes, revelam algumas situações de
violação dos direitos humanos no Brasil.

Programa de Pós-graduação em Direito


Curso de Mestrado em Direitos Humanos
324
Elisa Mainardi & Eldon Henrique Mühl

Dados apresentados no relatório de 2007 do Human


Rights Watch indicam que o Brasil continua sendo um país em
que ocorrem muitas situações de violação dos direitos huma-
nos, como é caso de assassinatos que chegam a cerca de 500
casos por ano5. Mesmo diante deste quadro, o tema dos direi-
tos humanos raramente faz parte da pauta das escolas ou cur-
sos de formação docente. Os debates e analises pontuais que
eventualmente acontecem são, em geral, preconceituosos e,
pior, em muitas análises e ponderações os próprios direitos
humanos são apontados como causas da violência. Além disso,
os fatos históricos da violação dos direitos humanos, quando
tratados em disciplinas, são abordados, de maneira geral, co-
mo “fatos históricos”, sem que se reflita sobre seus atores e as
circunstâncias de sua realização.
A história da humanidade revela que foram variadas às
formas do homem compreender e produzir sua existência e,
consequentemente, variadas foram as relações sociais que se
estabeleceram. As relações sociais que se estabelecem de-
pendem da compreensão do passado e da interpretação dos
acontecimentos que marcaram a história de cada indivíduo e
de cada sociedade. Disso surge a necessidade da reconstrução
da memória dos fatos e dos processos de cada povo, de cada
cultura, de cada grupo e de cada indivíduo. É preciso recons-
truir nossa memória para não esquecermos as razões que têm
causado a violência e o desrespeito à vida dos seres humanos.
Este é um dos principais papéis da educação para a cidadania
e para os direitos humanos.
Queremos dizer com isso que os acontecimentos passa-
dos nos servem de experiências para o presente e base para a
construção do futuro. Acreditamos que a reconstrução da
consciência histórica da violação dos direitos humanos possi-
bilita evitar malogros futuros e reinventar nossas ações e in-
tenções, de modo consciente, tendo como cenário o contexto
real e concreto do hoje.
Conforme afirma Bittar “a consciência histórica é aquela
que aponta que o passado retorna, e que, sem consciência do

5
Dimenstein, 1996:51.
I Seminário Internacional de Direitos Humanos e Democracia
Os Direitos Humanos e a sua Proteção
25 e 26 de abril de 2013
325
Direitos humanos e escola

passado, se torna impossível agir no presente com vistas à


mudança no futuro.”6 Esta concepção histórico-crítica do co-
nhecimento nos leva considerar que para uma educação em
direitos humanos possa ocorrer, não basta a escola acenar pa-
ra dados, datas e fatos que marcaram a trajetória da conquista
dos direitos humanos. Para tal, é preciso criar uma cultura dos
direitos humanos pelo desenvolvimento da nossa consciência
histórica, em que os fatos e os acontecimentos mais importantes
de nossas conquistas e tragédias são registradas como referên-
cias para o desenvolvimento de uma educação humanizadora.

EDUCAÇÃO E DIREITOS HUMANOS NO BRASIL: A CARÊNCIA DE


POLÍTICAS PÚBLICAS DE EDUCAÇÃO PARA OS DIREITOS HUMANOS
Ao abordar esta temática nos fundamentamos no Plano
Nacional de Educação e Direitos Humanos que conceitua edu-
cação em direitos humanos “como processo sistemático e mul-
tidimensional que orienta a formação do sujeito de direitos
[...].”7 Segundo Candau (2003), a discussão acerca de educação
e direitos humanos é recente no Brasil. Ela surge no período
pós-ditadura militar, em meados dos anos de 1980, no proces-
so de redemocratização do país, impulsionado pelo desejo e
necessidade da mobilização e afirmação da social civil que
procura neste momento assegurar a construção de um Estado
e um sujeito de direitos. O final da década de 80 e o inicio dos
anos de 90 são marcados por duas conquistas fundamentais: a
Constituição Brasileira de 1988, a “Constituição Cidadã” – co-
mo a definia Ulisses Guimarães- e o Estatuto da Criança e
Adolescente (ECA) de 1990.
Mais especificamente, podemos pontuar como marco de
referência o Curso Interdisciplinar de Direitos Humanos, ocor-
rido na Costa Rica em 1985, promovido pelo Instituto Interame-
ricano de Direitos Humanos, no qual o Brasil teve representati-
vidade de diversas áreas do país. A partir deste evento cria-
ram-se no Brasil três pólos de referência na discussão acerca

6
Bittar, 2003:321.
7
BRASIL, 2008:25.

Programa de Pós-graduação em Direito


Curso de Mestrado em Direitos Humanos
326
Elisa Mainardi & Eldon Henrique Mühl

deste tema, localizados no nordeste, sob a coordenação da


Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e Gabinete de Asses-
soria Jurídica às Organizações Populares (GAJOP), outro no
Rio de Janeiro, coordenado pela Pontifícia Universidade Cató-
lica (PUC) e, outra em São Paulo sob a coordenação da Comis-
são de Justiça e Paz da Arquidiocese de São Paulo. Os primei-
ros eventos, ocorridos em Recife e Petrópolis, procuraram pon-
tuar indicadores de atuação para o Brasil que pudessem orien-
tar especialmente as secretarias de educação. Em 1994, ocorre
no Rio de Janeiro o Seminário sobre Direitos Humanos onde se
fortifica e consolida o propósito de construir a Rede Brasileira
de Educação em Direitos Humanos, a qual promoveu ativida-
des importantes neste tema.
A década de 1990 é marcada por outros movimentos im-
portantes, valendo destacar o 1º Congresso Brasileiro de Edu-
cação em Direitos Humanos e Cidadania, em 1997, a elabora-
ção de documentos sistematizadores de conceitos e fundamen-
tação histórica e teórica e referencial metodológico sobre o te-
ma educação e direitos humanos, a elaboração do Programa
nacional de direitos humanos que, entre outras propostas,
aponta para a necessidade de criar e fortalecer na escola o
respeito aos direitos humanos. Nesse sentido, os Parâmetros
curriculares nacionais para o Ensino Fundamental, propõe os
temas transversais na estruturação, organização e desenvol-
vimento curricular. A lei federal 9394/96, de 1996, também as-
sinala para indicadores importantes dos direitos humanos, rea-
firmando o princípio da base nacional comum a ser comple-
mentada por uma parte diversificada e assegura também a
possibilidade da escola organizar-se por ciclos.
Enquanto experiências decorrentes desses movimentos,
podemos citar a Escola cidadã (Secretaria Municipal de Porto
Alegre-RS), a Escola Plural (Belo Horizonte – MG) e, a proposta
de Freire em integrar as questões referentes aos direitos hu-
manos como conteúdos indispensáveis à elaboração de um
novo currículo, antecipando-se a Lei Federal 9394/96 (LDB) e
os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs). Neste campo
tivemos também a contribuição de Ongs, como a Novamérica,

I Seminário Internacional de Direitos Humanos e Democracia


Os Direitos Humanos e a sua Proteção
25 e 26 de abril de 2013
327
Direitos humanos e escola

que promove um programa intitulado Direitos Humanos, Edu-


cação e Cidadania, o qual promove formação, e as experiências
em ensino superior, destacando, especificamente, a Universi-
dade Federal da Paraíba, que cria em 1995, o curso latu-sensu
em Direitos Humanos, a criação da Cátedra UNESCO de Edu-
cação para a Paz, Direitos Humanos, Democracia e Tolerância,
em 1997 pela Universidade de São Paulo (USP) e disciplinas
sobre direitos humanos que foram inseridas em cursos de gra-
duação em diversas universidades. Em 2003, teve início a ela-
boração do Plano Nacional de Educação e Direitos Humanos
(PNEDH), divulgado e debatido no ano seguinte e concluído
em 2006. O PNEDH “está apoiado em documentos internacio-
nais e nacionais, demarcando a inserção do Estado brasileiro na
história da afirmação dos direitos humanos e na Década da
Educação em Direitos Humanos”8. Esta discussão vem sendo
intensificada e fortalecida, tímida e gradativamente, nos mo-
vimentos sociais, nas ongs, nas universidades, nas instituições
de ensino em geral, sendo pauta de discussão em eventos im-
portantes de educação e pesquisa, como o ocorrido em 2008,
na 31ª Reunião da Associação Nacional de Pós-Graduação e
Pesquisa em Educação (Anped), que abordou o tema Consti-
tuição Brasileira, Direitos Humanos e Educação, e em 2009, no
XXIV Simpósio Brasileiro e III Congresso Interamericano de
Políticas e Administração na Educação (ANPAE) que discutiu
o tema Direitos Humanos e Cidadania: desafios para a política e
a gestão democrática de educação. O debate acerca da educa-
ção para os direitos humanos vêm se destacando no cenário
das pesquisas educacionais, como potencial relevante e signi-
ficativo, produzindo referenciais que fundamentam e propõe
ações de educação em direitos humanos. É possível perceber
neste contexto propostas pedagógicas que asseguram o res-
peito e consideração à diferenças e á dignidade humana e é
possível constatar também experiências escolares que materi-
alizam situações de exclusão encortinando a realidade social
com propostas conteudistas.

8
PNDEH,2008:24.

Programa de Pós-graduação em Direito


Curso de Mestrado em Direitos Humanos
328
Elisa Mainardi & Eldon Henrique Mühl

O DESAFIO: TORNAR A ESCOLA LUGAR DE PROMOÇÃO DA CULTURA


EM DIREITOS HUMANOS
A tarefa de educar em direitos humanos tem ocupado
muitos educadores e pesquisadores do campo educacional. O
desafio que se coloca transcende em muito a simples concep-
ção de transmissão de certos conhecimentos e informações
sobre a questão dos direitos humanos, e envolve uma dimen-
são de formação que implica na construção de uma nova forma
de ser, pensar e agir do ser humano em relação a si mesmo e
em relação aos outros. Segundo Emir Sader
[...] educar é um ato de formação da consciência – com
conhecimentos, valores, com capacidade de compreen-
são. Nesse sentido, o processo educacional é muito mais
amplo do que a chamada educação formal, que se dá no
âmbito dos espaços escolares. Educar é assumir a com-
preensão do mundo, de si mesmo, da inter-relação entre
os dois.9

Embora a educação aconteça em todos os espaços e a to-


dos os momentos (Brandão, 1988), é a escola enquanto espaço
formal e oficial que, tendo a responsabilidade de promover a
construção do conhecimento sistematizado pela humanidade,
carrega a grande possibilidade de contribuir na formação de
sujeitos sensíveis e atuantes ao que se refere a questões soci-
ais, a intervenção consciente na realidade. Nesse sentido Frei
Betto faz referência ao método de Paulo Freire, salientando que
“Graças ao seu método de alfabetização, eles aprenderam que
“Ivo viu a uva” e que a uva que Ivo viu e não comprou é cara
porque o país não dispõe de política agrícola adequada e nem
permite que todos tenham acesso à alimentação básica.”10 Este
indicativo reforça a ideia de que, essencialmente no que se
refere aos direitos humanos a educação não pode se limitar aos
manuais escolares. Na perspectiva de educação em direitos
humanos não se trata apenas de compreender conceitos, mas

9
SADER (2003:80)
10
Contra capa de FREIRE, 2006.
I Seminário Internacional de Direitos Humanos e Democracia
Os Direitos Humanos e a sua Proteção
25 e 26 de abril de 2013
329
Direitos humanos e escola

assumir opções e desenvolver ações em defesa dos direitos


humanos.
Se por um lado, hoje temos uma considerável experiência
na fundamentação da educação em direitos humanos, por ou-
tro, está fortemente presente na escola e em muitos centros
acadêmicos, a ideia de que tal temática não cabe no currículo
escolar. os documentos analisados nos possibilitaram perceber
as limitações acerca das concepções e das representações de
direitos humanos na formação do educador e no desenvolvi-
mento do trabalho docente e, consequentemente, na constitui-
ção do contexto escolar, bem como, a importância da gestão na
condução do processo de planejamento democrático e reflexi-
vo, pensado na perspectiva da promoção dos direitos huma-
nos. Nesse sentido, é oportuno e necessário destacarmos o
papel da escola como lugar fundamental na perspectiva de
constituir uma cultura em e para os direitos humanos. Para
tanto é preciso identificar e analisar as dificuldades, limitações
e resistências que a escola e seu quadro docente e administra-
tivo vêm apresentando. Das observações e análises que reali-
zamos, podemos destacar três aspectos fundamentais que têm
implicado na discussão e implementação do tema direitos hu-
manos na escola, conforme indica as Diretrizes Nacionais para
os Direitos Humanos:

FALTA DE CONHECIMENTO SOBRE O TEMA:


Grande parte dos professores manifestam uma visão pre-
conceituosa sobre o tema dos direitos humanos e revelam, em
suas muitas de suas falas a idéia de que direitos humanos é
“diretos de bandido”, que “a escola têm que promover cidada-
nia, mas direitos humanos fica sob responsabilidade de outros
setores”, ou ainda, “direitos humanos é coisa do direito” ou “é
coisa de partido político e a escola não deve abordar proposta
de nenhum partido.”
O que se pode constatar, de outra parte, é que nenhum
processo de planejamento escolar nega a perspectiva de edu-
car em direitos humanos. No entanto, a representação que a

Programa de Pós-graduação em Direito


Curso de Mestrado em Direitos Humanos
330
Elisa Mainardi & Eldon Henrique Mühl

maioria do professores possui de direitos humanos é que se


trata de direito dos bandidos e dos marginais. Percebe-se que
mesmo aqueles profissionais que vivem sobre a opressão, que
possui seus direitos negados, manifestam preconceito a esta
temática. Neste sentido, evidenciaram-se também, as dificul-
dades de organização de grupos que se ocupem deste tema e
procurem dar sustentação a práticas fundamentadas no traba-
lho coletivo, na contextualização e no desenvolvimento de co-
nhecimentos e sensibilização sobre os direitos humanos. Fato
decorrente, na maioria das vezes, pela falta de conhecimento
teórico e metodológico, mas apresenta-se também a falta de
propostas pedagógicas nesta perspectiva por opção teórica.

OPÇÃO TEÓRICA:
Outro indicador de relevância pode ser percebido nas fa-
las que expressam a idéia que “sei o que é direitos humanos,
mas acredito que a escola não deva se envolver com isso. O
papel da escola é ensinar conteúdos.” “Se a escola se preocu-
par em trabalhar direitos humanos e até outros temas da mo-
da, quem ensina ler e escrever?”, “ O ensino no Brasil sempre
é mal classificado por que a escola é sobrecarregada naquilo
que deve ensinar e deixa de ensinar o que é importante.” “Es-
cola é lugar de aprender a ciência.”
Há quem acredita que a escola deve se ocupar da cons-
trução do conhecimento que instrumentalize o sujeito a se in-
serir no mercado de trabalho e que questões sociais fogem a
temáticas que a escola deve e precisa desenvolver. Assim, a
constituição de grupos que organizam, definem, e sustentam
práticas fundadas numa perspectiva transformadora, na maio-
ria dos casos, passam a ser assumido como posições pessoais
e não como proposta de escola. É visível que a escola que te-
mos está ainda muito enraizada numa perspectiva conservado-
ra de educação, onde se acredita que o sujeito só será capaz
de compreender a realidade social a partir da apreensão de
alguns instrumentos como a leitura, a escrita, as operações
matemáticas, etc., sem os quais se torna impossível ler o mun-

I Seminário Internacional de Direitos Humanos e Democracia


Os Direitos Humanos e a sua Proteção
25 e 26 de abril de 2013
331
Direitos humanos e escola

do. Temáticas de relevância social, como a escravidão no Brasil


no passado e no presente, é tema secundário, restrito a um
grupo e a um momento e, para estes, o tema dos direitos hu-
manos tornar-se-ia impossível de ser discutido na educação
infantil, ideia que discordamos.

FALTA DE REFERENCIAL METODOLÓGICO PARA ABORDAR O TEMA:


Muitos professores, em experiências isoladas, tentam rea-
lizar alguma prática na perspectiva da promoção dos direitos
humanos. Há falas que registram a preocupação em como
construir esse processo pedagógico já que não há muitas ex-
periências registradas. Falas como:
“Eu tento fazer do meu jeito por que eu acho importante.
Acho que não dá pra falar em cidadania sem falar em di-
reitos humanos.”, “ a gente busca um pouco de cada his-
tória de outras escolas e vai tentando...mas não tem muita
coisa que explicite como é possível fazer!”

Evidenciamos também iniciativas significativas de elabo-


ração do Projeto Pedagógico escolar e do trabalho docente,
que se estabeleceram enquanto processo, não se apresentan-
do como prática concluída. Neste caso, com o tempo, foram
construindo-se elaborações que apresentam a escola que que-
remos e que é possível. Uma escola onde o aprendizado deve
estar ligado à vivência do valor da igualdade em dignidade e
direitos para todos e deve propiciar o desenvolvimento de sen-
timentos e atitudes de solidariedade e cooperação. Um apren-
dizado de possibilite perceber as consequências pessoais e
sociais de cada escolha, que leve á formação do sujeito de di-
reitos consciente desta condição e que possa exercer sua ci-
dadania de forma comprometida com a mudança de práticas
da sociedade onde os direitos humanos são negados ou viola-
dos; sujeitos que possam lutar não só por seus direitos, mas
pelos direitos dos outros. Os professores, neste sentido, apon-
tam para a necessidade de assumir práticas pedagógicas vin-
culadas á realidade concreta dos sujeitos. Para que a prática

Programa de Pós-graduação em Direito


Curso de Mestrado em Direitos Humanos
332
Elisa Mainardi & Eldon Henrique Mühl

em educação para os direitos humanos seja construída na es-


cola, é preciso compreender que as relações que se estabele-
cem no seu cotidiano, formam a base cultural que necessita
atenção na organização da ação pedagógica. Nesse sentido, a
educação em direitos humanos não pode ser um tema episódi-
co e articulado, apenas, a algumas disciplinas ou atividades.
Para se incorporar como uma prática constante de formação é
fundamental constituí-la como de eixo gerador e como prática
articuladora da ação pedagógica, o que demanda, necessaria-
mente, a opção teórico-metodológica por uma prática baseada
no princípio da dialogicidade e da formação de coletivos com-
prometidos com a educação em direitos humanos.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
As experiências de educação em direitos humanos têm
apresentado alguns avanços e revelado muitos problemas. Os
avanços indicam para as conquistas de um progressivo reco-
nhecimento de diferentes esferas e instâncias sociais que já
admitem que a solução de muitos problemas sociais e as pers-
pectivas futuras de uma sociedade melhor depende de uma
educação orientada pelos princípios da educação em direitos
humanos. Do ponto de vista dos desafios, um dos problemas a
ser enfrentado diz respeito aos procedimentos que devem ser
desenvolvidos para se possa implementar uma prática de edu-
cação que promova a formação de uma nova concepção sobre
a condição humana, orientada pelos princípios que fundamen-
tam a educação em direitos humanos. a educação em direitos
humanos não pode implicar apenas no acúmulo de algumas
informações, mas deve promover efetivamente a vivência diá-
ria dos direitos humanos, o que implica na construção de uma
sociedade orientada por uma nova cultura: a cultura dos direi-
tos humanos. Entendemos, contudo, que as lacunas deixadas
pelos cursos de formação de professores, no que se refere a
educação em direitos humanos, têm contribuído para o distan-
ciamento e a indiferença da escola com referência a esta temá-
tica. Se de fato é este o cenário escolar que se efetiva, temos

I Seminário Internacional de Direitos Humanos e Democracia


Os Direitos Humanos e a sua Proteção
25 e 26 de abril de 2013
333
Direitos humanos e escola

que repensar a escola que queremos e a formação de professo-


res que necessitamos para tanto. Ficarmos apáticos frente a
esta temática é negar o compromisso que a escola tem com a
humanização do homem.

REFERÊNCIAS
ARANHA, Maria Lúcia Arruda. História da educação. São Paulo:
Moderna, 1996.
BITTAR. Eduardo C. B. Educação e metodologia para os direitos hu-
manos: cultura democrática, autonomia e ensino jurídico. In:
SILVEIRA. Rosa Maria Godoy. (Org.) Educação em Direitos Huma-
nos: Fundamentos teórico-metodológicos. João Pessoa: Editora Uni-
versitária, 2007.
BRANDÃO, Carlos Rodrigues. O que é educação? São Paulo: Cortez,
1988
BRASIL. Comitê Nacional de Educação em Direitos Humanos. Plano
Nacional de Educação e Direitos Humanos. Brasília: Secretaria Es-
pecial de Direitos Humanos, Ministério da Educação/Ministério da
Justiça e Unesco, 2008.
BRASIL. Ministério da Educação. Conselho Nacional de Educação.
Resolução Nº 1/2012. Estabelece Diretrizes Nacionais para Educação
em Direitos Humanos. Diário Oficial da União. Brasília-DF,
30/05/2012.
CANDAU. Vera Maria. Educação em direitos Humanos no Brasil:
realidades e perspectivas. In: CANDAU, Vera Maria; SACAVINO,
Suzana. (Orgs.) Educar em Direitos Humanos: construir democracia.
2 ed., Rio de Janeiro: DP&A, 2003.
DIMENSTEIN. Gilberto. Democracia em Pedaços: Direitos Humanos
no Brasil. 2 ed., São Paulo: Companhia da Letras,1996.
FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia. São Paulo: Paz e Terra,
2006.
SADER, Emir. Contexto histórico e educação em direitos humanos no
Brasil: da ditadura à atualidade. In: SILVEIRA, Rosa Maria Godoy.
(Org.) Educação em Direitos Humanos: Fundamentos teórico- me-
todológicos. João Pessoa: Editora Universitária, 2007.

Programa de Pós-graduação em Direito


Curso de Mestrado em Direitos Humanos
CONFLITOS ÉTICO - JURÍDICOS DA
REPRODUÇÃO ASSISTIDA NA
TERCEIRA IDADE

Fabiane da Silva Prestes


A autora é bacharel em Direito e especialista em Direito Civil e Processual
Civil pela Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões.
Mestranda em Direitos Humanos na Universidade Regional do Noroeste
do Estado do Rio Grande do Sul e bolsista da Capes.
(fabianeprestes@gmail.com)
João Batista Monteiro Camargo
O co-autor é bacharel em Direito pela Universidade Regional da Campa-
nha, e Mestrando em Direitos Humanos na Universidade Regional do No-
roeste do Estado do Rio Grande do Sul e bolsista da FIDENE/UNIJUÍ.
(camargojoao@hotmail.com)

Resumo
O presente artigo destina-se a analisar as questões éticas e jurídicas da reprodução
assistida no Brasil frente à Dignidade da pessoa humana, desde a ausência de legis-
lação específica até os argumentos contrários e favoráveis a limitação de idade para
uma mulher engravidar por intermédio da medicina, com forma de analisar o impac-
to das novas tecnologias no direito de família.
Palavras-chave: Dignidade humana, novas tecnologias, bioética.

Abstract
The present article aims to analyze the ethical and legal issues of assisted reproduc-
tion in Brazil against the Dignity of the human person, since the absence of specific
legislation to arguments against and in favor of limiting age for a woman to become
pregnant through medicine, with a way to analyse the impacto f new technologies
on family law.

CONSIDERAÇÕES INICIAIS
Quase trinta anos após o nascimento do primeiro bebê
brasileiro, concebido por meio da medicina, a falta de discipli-
na e tutela legal dos conflitos e conseqüências da utilização de
tais técnicas pode ser sentida em diversas áreas do direito.
Hodiernamente, a gravidez de mulheres sexagenárias re-
ascendeu o debate ético sobre fertilização, em 2012, pelo me-
336
Fabiane da Silva Prestes & João Batista Monteiro Camargo

nos três idosas geraram e deram a luz após serem submetidas


a procedimentos de reprodução assistida.
Sobre a matéria há apenas duas resoluções do Conselho
Federal de Medicina, as quais representam a forma de controle
de tais métodos de reprodução, entretanto, no que tange a
idade da mulher, a única restrição é em relação ao número de
embriões a serem transferidos para a receptora.

BIOÉTICA E REPRODUÇÃO ASSISTIDA


Os avanços da medicina, biologia e genética permitiram o
surgimento da Bioética, a qual traz novos antagonismos entre
imperativos e incoerências éticas. Este ramo do conhecimento
surgiu na década de 1970, com a publicação de obras do pes-
quisador e professor Van Rensselaer Potter, o qual proporcio-
nou um pensar sobre as implicações positivas e negativas dos
avanços da medicina, e seu reflexo, em especial na vida humana.
Neste alinhamento, Leone1 conceitua a bioética como a
ciência:
[...] que tem como objetivo indicar os limites e as finali-
dades da intervenção do homem sobre a vida, identificar
os valores de referência racionalmente proponíveis, de-
nunciar os riscos das possíveis aplicações.

No mesmo sentido Screccia2 considera:


A bioética ai está como tentativa de reflexão sistemática
a respeito de todas as intervenções do homem sobre os
seres vivos, uma reflexão que se propõe um objeto espe-
cífico e árduo: o de identificar valores e normas sobre a
própria vida e sobre a biosfera.

1
LEONE, S.; PRIVITERA, S.; CUNHA, J.T. (Coordenadores.). Dicionário de
bioética. Aparecida: Editorial Perpétuo Socorro/Santuário, 2001.
2
SGRECCIA, Elio. Manual de bioética I: fundamentos e ética biomédica.
Trad. Orlando Soares Moreira. São Paulo: Loyola, 1996, p.57.
I Seminário Internacional de Direitos Humanos e Democracia
Os Direitos Humanos e a sua Proteção
25 e 26 de abril de 2013
337
Conflitos ético-jurídicos da reprodução assistida na terceira idade

Assim sendo, percebe-se que a bioética representa o limi-


te entre os avanços da ciência e as finalidades de intervenção
na vida humana, já que, o conhecimento científico desenvol-
veu-se rapidamente, distanciando-se da subjetividade humana.
No que tange as contradições éticas no campo da tecno-
logia, Maturana3, acrescenta que:
Penso que a questão que nós seres humanos devemos
enfrentar é sobre o que queremos que nos aconteça, não
uma questão sobre o conhecimento ou o progresso. A
questão que devemos enfrentar não é sobre a relação en-
tre a biologia e a tecnologia, ou sobre a relação entre a
arte e a tecnologia, nem sobre a relação entre o conheci-
mento e a realidade, nem mesmo sobre se ao metadesing
molda ou não nosso cérebro. Penso que a questão que
precisamos enfrentar nesse momento de nossa história é
sobre nossos desejos e sobre se queremos ou não sermos
responsáveis por nossos desejos.

Nesse sentido, nota-se que o progresso da medicina trou-


xe os problemas da bioética que revelaram novos antagonis-
mos, representando um paradoxo entre os avanços científicos
e a subjetividade humana. Dessa forma, qualquer ação huma-
na que tenha algum reflexo sobre as pessoas deve aludir o re-
conhecimento de valores e uma estimativa de como estes po-
derão ser afetados.
Ademais, os avanços tecnológicos, bem como o progresso
apresentaram novas possibilidades de interferência na vida
humana. Neste contexto, sabe-se que o desejo de ter filhos é
um sentimento primitivo, estando estritamente relacionado
com a realização pessoal.
Dessa forma, a Reprodução Assistida é um conjunto de
técnicas laboratoriais que visa obter a gestação substituindo
ou facilitando uma etapa deficiente do processo reprodutivo.
De acordo com Maria Helena Diniz4:
3
MATURANA, Humberto. Cognição, ciência e vida cotidiana. Organiza-
ção e tradução de Cristina Magro e Victor Paredes. Belo Horizonte:
UFMG, 2001, p. 173.

Programa de Pós-graduação em Direito


Curso de Mestrado em Direitos Humanos
338
Fabiane da Silva Prestes & João Batista Monteiro Camargo

Essa nova técnica para criação de ser humano em labora-


tório, mediante a manipulação dos componentes genéri-
cos da fecundação, com o escopo de satisfazer o desejo
de procriar de determinados casais estéreis e a vontade
de fazer nascer homens no momento em que se quiser e
com os caracteres que se pretender, entusiasmou a Em-
briologia e a Engenharia Genética, constituindo um
grande desafio para o Direito e para a Ciência Jurídica
pelos graves problemas jurídicos que gera; sendo im-
prescindível não só impor limitações legais às clínicas
médicas que se ocupam da reprodução humana assisti-
da, mas também estabelecer normas sobre responsabili-
dade civil por dano moral e patrimonial, que venha cau-
sar.

A possível solução às criticas quanto às técnicas de re-


produção assistida é essencialmente norteada por quatro prin-
cípios éticos, quais sejam: não maleficência, consentimento,
justiça e dignidade da pessoa humana.

A AUSÊNCIA DE LEGISLAÇÃO ESPECÍFICA PARA REGULAR A MATÉRIA


No Brasil não existe uma legislação que regulamente, de
modo especifico, a reprodução assistida. O Código Civil de
2002 limita-se a regular os efeitos da inseminação artificial
(homóloga, heteróloga e post mortem) no reconhecimento da
paternidade (art. 1.597) e de efeitos sucessórios (art. 1.799).
A única lei que traz a baila o assunto, ainda que de forma
superficial, é a Lei da Biossegurança, de 2005. Criada para
normatizar as atividades que envolvem organismos genetica-
mente modificados e a pesquisa com células-tronco embrioná-
rias, a referida lei menciona a prática da medicina reprodutiva
ao dispor sobre a doação para pesquisas clínicas dos embriões
gerados pela fertilização in vitro – quando o óvulo é fecundado
em laboratório.

4
DINIZ, Maria Helena. A ectogênese e seus problemas jurídicos. Dispo-
nível em: http://www.egov.ufsc.br/portal/sites/default/files/anexos/
7225-7224-1-PB.pdf. Acesso em 30 de outubro de 2012.
I Seminário Internacional de Direitos Humanos e Democracia
Os Direitos Humanos e a sua Proteção
25 e 26 de abril de 2013
339
Conflitos ético-jurídicos da reprodução assistida na terceira idade

Em 2006, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária, cri-


ou uma resolução a fim de estabelecer as condições técnicas
de funcionamento de bancos de sêmen, óvulos e embriões.
Atualmente, no Brasil, encontram-se vigentes as Resolu-
ções nº. 1.931/2009 e 1.597/2010, ambas do Conselho Federal
de Medicina (CFM), nº. 196/1996, 246/1997 e 303/2000, todas
do Conselho Nacional de Saúde (CNS).
Em que pese à resolução do Conselho Federal de Medici-
na considere que todas as pessoas capazes5, que tenham soli-
citado o tratamento, podem ser receptoras de reprodução as-
sistida, diante, da ausência de especificação quanto a idade e
do silêncio do ordenamento jurídico, quanto essas técnicas,
novos questionamentos passam a ser levantados, já que, no
que tange a idade da mulher, a única restrição é em relação ao
número de embriões a serem transferidos para a receptora.
Reitera-se que as técnicas de biotecnologia desenvolve-
ram-se rapidamente nos últimos anos, entretanto, grande par-
te destes avanços científicos, não foram regulamentados, ou
foram de forma deficiente, por um lado, pela imprevisibilidade
das descobertas científicas, e por outro, pelo entendimento de
que a legalização da matéria, não será medida suficiente para
a pacificação dos conflitos.
Existem diferentes tipos de normativas legais vigentes
em diversos países, em especial nos países europeus, que pos-
suem decretos, normativas e recomendações médico-éticas. Os
países desenvolvidos colocam a reprodução assistida entre os
tratamentos com amparo governamental. Na America Latina
dois países já o fazem, Chile e Argentina6.

5
Dispõe a Resolução CFM nº 1.957/2010: “As técnicas de RA podem ser
utilizadas desde que exista probabilidade efetiva de sucesso e não se in-
corra em risco grave de saúde para a paciente ou o possível descendente”
(art. I, inc. 2º).
6
BUSSO, Newton Eduardo. Reprodução Assistida: como ampliar o aces-
so? Disponível em: http://xa.yimg.com/kq/groups/13447241/1440041270
/name/Dossi%C3%AA+Reprodu%C3%A7%C3%A3o+Assistida.pdf aces-
so em 30 de março de 2013.

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Curso de Mestrado em Direitos Humanos
340
Fabiane da Silva Prestes & João Batista Monteiro Camargo

A Espanha foi pioneira na promulgação de lei específica,


aprovando em 1988, a Lei 35/1988, e mais tarde insere em seu
ordenamento jurídico a Lei 14/2006, a qual revoga a lei anteri-
or, devido aos avanços das técnicas de reprodução.

DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA


A dignidade da pessoa humana foi reconhecida pela De-
claração Universal dos Direitos dos Direitos Humanos, em 10
de dezembro de 1948.
Nesse sentido Dallari7 considera que as pessoas que re-
digiram a nova Declaração de Direitos estavam:
Preocupados não somente com a afirmação dos Direitos,
como também com a sua aplicação prática, os autores da
Declaração não se limitaram a fazer a enumeração desses
Direitos. Indicaram, com pormenores, algumas exigên-
cias que devem ser atendidas para que a dignidade hu-
mana seja respeitada, para que as pessoas convivam em
harmonia, para que uns homens não sejam explorados e
humilhados por outros, para que nas relações entre as
pessoas exista justiça, sem a qual não poderá haver paz.

Assim sendo, percebe-se que a Declaração Universal dos


Direitos Humanos, aprovada pela Organização das Nações
Unidas, foi um documento escrito por estudiosos do mundo
inteiro, e que teve como objetivo proclamar direitos fundamen-
tais da pessoa humana.
A dignidade é um direito personalíssimo da pessoa hu-
mana e Sarlet8 faz referencia que:
A dignidade vem sendo considerada (pelo menos para
muitos e mesmo que não exclusivamente) qualidade in-
trínseca e indissociável de todo e qualquer ser humano e

7
DALLARI, Dalmo de Abreu. Direitos humanos e cidadania. São Paulo:
Moderna, 1998, p 72.
8
SARLET, Ingo Wolfgang. Dignidade da Pessoa Humana e Direitos Fun-
damentais na Constituição Federal de 1988. Porto Alegre: Livraria do
Advogado, 2001, p.27
I Seminário Internacional de Direitos Humanos e Democracia
Os Direitos Humanos e a sua Proteção
25 e 26 de abril de 2013
341
Conflitos ético-jurídicos da reprodução assistida na terceira idade

certos de que a destruição de um implicaria a destruição


do outro, é que o respeito e a proteção da dignidade da
pessoa (de cada uma e de todas as pessoas) constituem-
se (ou, ao menos, assim o deveriam) em meta permanen-
te da humanidade, do Estado e do Direito.

Assim sendo, verifica-se que a dignidade humana é um


direito fundamental de todos, já que todos são iguais, sem dis-
tinção de qualquer natureza, e é um dever do Estado, do Direi-
to, da sociedade assegurar uma vida digna a todas as pessoas.
Sendo a dignidade algo irrenunciável e inalienável que qualifi-
ca a pessoa humana.
Nesse sentido, verifica-se que a dignidade da pessoa
humana é um direito personalíssimo e fundamental, que afasta
a concepção transpessoalista, por se tratar de um princípio
absoluto que deve prevalecer sobre qualquer outro princípio, já
que a pessoa humana tem valor em si mesma, sendo titular de
direito, reconhecidos e respeitados

DIREITO FUNDAMENTAL À REPRODUÇÃO ASSISTIDA


A pessoa humana tem liberdade na sua decisão de ter um
filho, ademais, sabe-se que a infertilidade é um problema de
saúde, com reflexos psicológicos, e que é legitimo o anseio de
superá-la, já que os avanços do conhecimento científico permi-
tem solucionar vários problemas de reprodução humana.
Percebe-se que, o acesso à reprodução assistida localiza-
se na categoria dos direitos fundamentais que não possuem
previsão no ordenamento jurídico, ou seja, aqueles que decor-
rem do regime e dos princípios adotados pelo texto constituci-
onal.
A outorga do caráter de direito fundamental à reprodução
assistida, encontra suporte em princípios e valores constituci-
onais, entre os quais, pode-se destacar: liberdade, tutela cons-
titucional a entidade familiar, direito à saúde.
Dessa forma, por meio de uma leitura sistemática, perce-
be-se a existência de um direito fundamental à reprodução as-

Programa de Pós-graduação em Direito


Curso de Mestrado em Direitos Humanos
342
Fabiane da Silva Prestes & João Batista Monteiro Camargo

sistida, o qual não possui caráter absoluto, devendo ser relati-


vizado frente aos princípios da dignidade da pessoa humana,
melhor interesse da criança, e paternidade responsável.

ARGUMENTOS CONTRÁRIOS E FAVORÁVEIS A LIMITAÇÃO DE IDADE


PARA UMA MULHER ENGRAVIDAR POR INTERMÉDIO DA MEDICINA
Os novos recursos científicos disponíveis são capazes de
transcender os limites temporais da biologia, enquanto que no
passado a capacidade de gestação se encerrava com a meno-
pausa, atualmente pode ser estendida por muitos anos após.
Ademais, destaca-se que a reprodução não se exaure na
satisfação do desejo de ter filhos, mas constitui sinônimo de
um projeto paternal responsável, situação que demanda a con-
sideração dos interesses daquele que irá nascer, inclusive em
momento anterior à sua concepção.
Neste campo de considerações Pegoraro9 traz as seguin-
tes indagações:
[...] continuaremos a transmitir a vida por via natural ou
poderemos, livremente, substituí-la por técnicas de re-
produção in vitro, barriga de aluguel, clonagem etc? Ha-
verá órgãos tão importantes – o cérebro – cujo transplan-
te mudaria a identidade do sujeito? O transplante de vá-
rios órgãos poderia reduzir as pessoas a um corpo meca-
nizado? As técnicas estão disponíveis. Por que usá-las?
Por que não usá-las? Ou em que circunstância usá-las?
Que destino daremos ao lixo atômico? Devemos parar
com a produção de energia nuclear? São problemas que
extrapolam a competência da tecnociência e se tornam
problemas éticos globais. Todas estas questões são
questões de ética; não visam combater a tecnologia, mas
definir a melhor maneira de viver com os outros no ambi-
ente tecnológico.

9
PEGORARO, Olinto A. Ética e bioética: da subsistência à existência.
Petrópolis , RJ: Vozes, 2002, p. 24.
I Seminário Internacional de Direitos Humanos e Democracia
Os Direitos Humanos e a sua Proteção
25 e 26 de abril de 2013
343
Conflitos ético-jurídicos da reprodução assistida na terceira idade

Nesse sentido, nota-se que, a existência humana está


vinculada ciência e esta, por sua vez, deve ser pautada sob o
ponto de vista ético. Assim, questiona-se quais as implicações
de uma pessoa idosa ser submetida as técnicas de reprodução
assistida, já que, se tais técnicas estão disponíveis, quais os
argumentos para usá-las ou não.
Enfatiza-se que, somente no ano de 2012, três idosas brasi-
leiras deram a luz por meio da reprodução assistida, o fato ex-
traordinário já ocorreu em outros países, reascendendo o amplo
debate sobre os limites éticos do emprego de tais técnicas.
Nota-se que as opiniões se dividem quanto à gravidez de
idosas por intermédio da medicina, destacando-se que ter um
filho com essa idade pode ser visto como a realização de um
sonho, ou por outro lado, como um ato de egoísmo.
No que tange aos argumentos favoráveis a limitação de
idade, percebe-se a mulher idosa submetida à Reprodução As-
sistida corre riscos de parto prematuro, hipertensão, diabetes.
É de bom alvitre destacar que devido à expectativa de vida da
mãe, ou dos pais, a relação familiar será limitada, estar-se-ia
planejando a gestação de um órfão em potencial.
Por outro lado, percebe-se como argumentos contrários a
limitação de idade, pelo fato de que, o impedimento jurídico de
uma mulher ser mãe após os sessenta anos de idade é uma
forma de violar os direitos especiais assegurados pelo femi-
nismo, além de reascender a distinção de gênero, é uma práti-
ca discriminatória contra a mulher, no que concerne a sua de-
cisão de ser mãe.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Pelo exposto, percebe-se, contudo que a questão está
longe de ser considerada pacífica há, pois, um longo caminho a
ser percorrido, desde a criação de legislação sobre a matéria,
até o rompimento de barreiras morais, éticas e culturais. Em-
bora se tenha percorrido um grande caminho em direção ao
progresso, sabe-se que o mesmo, não eliminou as indagações
transcendentais e morais, muito menos produziu harmonia.
Programa de Pós-graduação em Direito
Curso de Mestrado em Direitos Humanos
344
Fabiane da Silva Prestes & João Batista Monteiro Camargo

Destaca-se a necessidade de uma analise mais refletida,


a qual revela que é necessário construir soluções jurídicas vol-
tadas a justa satisfação dos interesses humanos, a partir de
uma visão objetivada fundamentalmente na salvaguarda da
dignidade da pessoa humana, e a efetivação da mais legítima
escala de valores.

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de outubro de 2012.

Programa de Pós-graduação em Direito


Curso de Mestrado em Direitos Humanos
DELINQUÊNCIA JUVENIL E
JUSTIÇA RESTAURATIVA :
UM OLHAR INTERDISCIPLINAR 1

Fabiano Rodrigo Dupont


Graduando em Direito pela Universidade de Santa Cruz do Sul – UNISC.
Ana Paula Arrieira Simões
Graduanda em Direito pela Universidade de Santa Cruz do Sul – UNISC,
Bolsista PUIC e integrante dos grupos de pesquisa: “Direito, Cidadania e
Políticas públicas”, coordenado pela professora Pós-Doutora Marli Marle-
ne Moraes da Costa e “Teorias do Direito” coordenado pela professora
Doutora Caroline Müller Bitencourt.

Resumo
Em face ao crescente e alarmante número de crianças e adolescentes que são inicia-
dos no mundo do crime e da consequente necessidade de encontrar uma diretriz
dentro do Direito contemporâneo para sua diminuição – e, quiçá, sua erradicação -,
este trabalho vem como uma proposta para permitir à Justiça Restaurativa a oportu-
nidade de, quando cometido o ato infracional, dar ao jovem infrator a chance de se
ver através dos olhos da sociedade – tendo uma maior compreensão da repercussão
de seus atos -, de receber orientação e a atenção de que fora privado durante seu
desenvolvimento e de, então, restaurar laços que o ajudarão a criar uma identidade
saudável com a qual atuará no mundo legal. Uma vez entendido que para que tal
metamorfose ocorra deve-se poder trabalhar através da implementação de políticas
públicas na área da educação e da segurança, este estudo analisará as características
da delinquência juvenil e as peculiaridades e práticas restaurativas procurando, as-
sim, expor as consequências de se levar essa teoria à prática através de uma aborda-
gem interdisciplinar.
Palavras-chave: Delinquência juvenil; Justiça Restaurativa; Interdisciplinaridade.

Abstract
Due to the growing and alarming number of children and youth who are initiated
into the world of crime and the consequence need to find a guideline within the Law
to this contemporary decline – and perhaps its eradication – this paper is a proposal
to allow Restorative Justice at the opportunity when committing the offense, to give
young offenders a chance to see through the eyes of society -having a greater un-
derstanding of the impact of their actions – to receive guidance and attention that
had been deprived during his development and then restore ties that will help to

1
Este artigo é resultado dos estudos realizados pelo grupo de pesquisa:
Direito, Cidadania e Políticas Públicas, sob a coordenação da professora
Pós-Doutora Marli Marlene Moraes da Costa.
348
Fabiano Rodrigo Dupont & Ana Paula Arrieira Simões

create a healthy identity with which will act in the legal world. Once it's understood
that for such a metamorphosis occurs must be able to works through the implemen-
tation of public policies in education and security, this study will examine the charac-
teristics of juvenile delinquency and the peculiarities and restorative practices seek-
ing, thereby, expose the possibilities to bring this theory into a practice through an
interdisciplinary approach.
Keyboards: Juvenile delinquency; Restorative Justice; Interdisciplinarity.

NOTAS INTRODUTÓRIAS
A delinquência juvenil é um fenômeno estudado por di-
versas áreas, entre as quais, cite-se a Criminologia. Com a
abertura do pensamento criminológico para as ciências huma-
nas, ficou claro compreender o sentido do delito e o contexto
que se encontra o sujeito (seja adolescente ou adulto) como
aquele que rompe com a norma social e jurídica. O criminólogo
Edwin Sutherland, como um dos precursores sobre a delin-
quência com a teoria da associação diferencial, identificou que
as gangues juvenis constituem um sistema hierárquico, de
chefia e de territorialidade. Observa-se com isso que, mesmo
dentro do espaço de marginalização e de transgressão, novas
regras surgem com o propósito de manter o grupo como uni-
dade e do processo de dominação se fazer presente.
Ao relacionar com a realidade brasileira, desloca-se para
o foco do presente trabalho o problema social dos inúmeros
adolescentes que, cada vez mais cedo, ingressam na crimina-
lidade, por diversos fatores – sendo o mais presente deles a
drogadição -, fomentando um fenômeno que pode ser compre-
endido como a busca pela sua sobrevivência e inclusão social.
Para chegar a tal entendimento, necessita-se ter flexibilidade
para reorganizar os conceitos e preconceitos a respeito do te-
ma, pois o adolescente que comete um ato infracional não cria
o ato delinquencial, ele aprende a prática criminosa.
Partindo desses pressupostos, o que se propõe com o
presente artigo é refletir sobre a metodologia dos círculos de
diálogo da justiça restaurativa com adolescentes autores de
ato infracional. Ao encontro disso, questiona-se: a justiça res-
taurativa é eficiente no tratamento de adolescentes enquanto
alternativa de tratamento de conflitos?
I Seminário Internacional de Direitos Humanos e Democracia
Os Direitos Humanos e a sua Proteção
25 e 26 de abril de 2013
349
Delinquência juvenil e justiça restaurativa

Abordar-se-á, em um primeiro momento, o enfoque da


criminologia sobre a delinquência juvenil, tratando de suas
causas e vinculações, percebidas por seus estudiosos, e, em
um segundo instante, explorar-se-á as características da Justi-
ça Restaurativa que a levam a ser cotada como uma resposta
viável à reintegração do, ainda passível de regeneração, jovem
delinquente.

ENFOQUES CRIMINOLÓGICOS SOBRE A DELINQUÊNCIA JUVENIL

Existem várias escolas e teorias criminológicas elabora-


das com o fito de explicar os comportamentos delituosos e al-
gumas possibilidades de prevenção, porém, apenas utilizar-se-
á de três delas: a teoria de Chicago, a teoria das subculturas e
a teoria da associação diferencial.
Edwin Sutherland foi um dos grandes criminólogos do sé-
culo XX. Para esse pensador os delitos não estavam somente
relacionados com as classes mais pobres, o que demonstrava
que a tendência delituosa estava presente em grande escala
nas classes mais altas. Sua teoria das associações diferenciais
revelava que o individuo somente se associa ao crime a partir
do momento em que em seu meio há mais definições para in-
fringir a lei. E isso também acontecia entre as classes de maior
vulnerabilidade social. Os criminosos da classe alta formam os
chamados de criminosos de colarinho branco2.
A delinquência juvenil passou a ser estudada, observan-
do-se atentamente as características do jovem criminoso e as
inúmeras influências que pudessem levá-lo ao mundo do cri-
me. Os jovens delinquentes eram indisciplinados, componen-
tes de gangues que buscavam o crime pelo prazer, tentando,
dessa forma, buscar uma válvula de escape que os fizessem
ser ouvidos, ou seja, queriam chamar à atenção da sociedade,

2
ANITUA, Gabriel Ignacio. Histórias dos pensamentos criminológicos.
Tradução de Sérgio Lamarão. Rio de Janeiro: Revan: Instituto Carioca de
Criminologia, 2008, p. 397.

Programa de Pós-graduação em Direito


Curso de Mestrado em Direitos Humanos
350
Fabiano Rodrigo Dupont & Ana Paula Arrieira Simões

essa mesma sociedade que os havia excluído e da qual se re-


cusavam a fazer parte3.
A teoria da associação diferencial, apesar de ser utilizada
para explicar os chamados “crimes de colarinho branco”, con-
tribui significativamente com seus conceitos para o estudo da
delinquência juvenil. A primeira e mais importante delas vem
de Gabriel Tarde ao afirmar que o criminoso ou o delinquente
aprende a prática criminosa ou o ato delinquente e não o cria,
necessitando de um substrato social que lhe dê base para a
prática do delito, como exemplo disso se tem os crimes juvenis
relacionados ao tráfico de drogas e a organizações criminosas
tais como PCC ou Comando Vermelho4.
A criminologia é uma ciência transdisciplinar que tem por
finalidade estudar o delito e o delituoso, bem como o espaço
social que se desenvolvem os fatos que implicam no compor-
tamento do indivíduo em romper com as regras sociais e tam-
bém as normas sociais. Depois do século XVIII, a criminologia
abriu espaço para as outras ciências humanas, rompendo com
a visão exclusiva e tradicional de Cesare Lombroso, Ferri e Ra-
fale Garfalo. Esses criminólogos contribuíram muito com a
concepção contemporânea que se tem do sujeito que comete
delitos, mas quanto à forma de pensamento que tinham enten-
de-se que está apenas parcialmente superada.
Logo, com a abertura de outras interpretações sobre o de-
lito e o delinquente, por meio da Criminologia crítica, que tam-
bém recebeu influência da Escola de Chicago, pode-se consta-
tar que a delinquência não se opera de forma isolada e nem é
criação do indivíduo. Ela decorre das implicações do capita-
lismo na vida das pessoas. Para ilustrar, basta lembrar a déca-
da de 1960, quando se deu, nos Estados Unidos da América, o
movimento fordista. Com o avanço das fábricas de automóveis

3
ANITUA, Gabriel Ignacio. Histórias dos pensamentos criminológicos.
Tradução de Sérgio Lamarão. Rio de Janeiro: Revan: Instituto Carioca de
Criminologia, 2008.
4
LIMA, Cauê Nogueira de. A delinqüência juvenil sob o enfoque crimino-
lógico. In: SHECAIRA, Salomão; DE SÁ, Alvino Augusto (Orgs.). Crimino-
logia e os problemas da atualidade. São Paulo: Atlas, 2008, p. 13.
I Seminário Internacional de Direitos Humanos e Democracia
Os Direitos Humanos e a sua Proteção
25 e 26 de abril de 2013
351
Delinquência juvenil e justiça restaurativa

em cidades americanas como Detroit, ocorreu o desenvolvi-


mento das cidades, mas em contrapartida aumentaram os ín-
dices de exclusão social, imigração e formação de guetos. O
que levou aos estudiosos e sociólogos da Escola de Chicago a
estudar a degeneração do controle social informal dessas
grandes cidades5. Percebe-se até hoje as consequências ocasi-
onadas pelo capitalismo, quando no entorno das cidades se
visualizam cinturões de pobreza.
Vinculada a isso, está a exclusão social. Conceituada pelo
sociólogo francês Robert Castel6, a exclusão social foi definida
como o ponto máximo atingível no decurso da marginalização,
sendo este, um processo no qual o indivíduo se vai progressi-
vamente afastando da sociedade através de rupturas consecu-
tivas com a mesma. Essas rupturas podem se dar em diferen-
tes níveis e por diferentes fatores tais como raça, credo, orien-
tação sexual, poder aquisitivo.
A delinquência juvenil pode, então, ser reconhecida como
uma inadaptação social, cujos representantes – que, como já
fora dito, não estão agrupados em uma única camada da soci-
edade – são aqueles que não atuam de forma respeitosa para
com as normas acordadas para a garantia da boa convivência
social. O motivo de seu afastamento dos parâmetros definidos
se dá por não terem se identificado e socializado, substituindo
normas e valores por regras próprias, que estão manifestada-
mente contra o estabelecido nas leis7.

5
BRAGA, Ana Gabriela Mendes; BRETAN, Maria Emília Accioli Nobre.
Teoria e Prática da Reintegração Social: o relato de um trabalho crítico no
âmbito da execução penal. In: SHECAIRA, Salomão; DE SÁ, Alvino Au-
gusto (Orgs.). Criminologia e os problemas da atualidade. São Paulo: A-
tlas, 2008, p. 13.
6
CASTEL, Robert (1990). Extreme Cases of Marginalisation, from Vulnera-
bility to Desaffiliation, comunicação apresentada no European Seminar
on Social Exclusion, realizado em Alghero (Itália), em Abril de 1990, p.
42.
7
TRINDADE, Jorge - Delinqüência juvenil: uma abordagem transdiscipli-
nar/Jorge Trindade. 2.Ed. - Porto Alegre: Livraria do Advogado, 1996, p.
40.

Programa de Pós-graduação em Direito


Curso de Mestrado em Direitos Humanos
352
Fabiano Rodrigo Dupont & Ana Paula Arrieira Simões

JUSTIÇA RESTAURATIVA
Ao falar em delinquência está-se falando de desamparo
do ser humano, das crianças, dos jovens, dos pais e da socie-
dade como um todo e, principalmente, da família. Diante dessa
realidade, é visível como a descrença nas instituições e a intro-
jeção de valores distorcidos se mostraram muito mais eficazes
do que os padrões morais de direito e respeito por si mesmos e
pelos outros. Torna-se imprescindível, então, encontrar meios
de religar os laços com criança e adolescente, contribuindo
para a construção de um futuro que lhes seja adequado, se não
ideal.
Pensando-se em alcançar os problemas internos, de re-
percussão externa, com o qual as crianças e adolescentes en-
volvidas com a prática de ato infracional convivem diariamen-
te, onde quer que elas estejam, e suplantá-los, chegou-se à
ideia da aplicação de práticas restaurativas, em especial a do
Círculo de Construção de Paz, devido à sua composição estru-
tural, que visa o empoderamento do indivíduo e sua relação
com o meio comum.
Seguindo essa linha, diz-se do Círculo de Construção de
Paz que este é nada menos que um processo que busca a iden-
tificação e compreensão das causas e necessidades subjacen-
tes aos conflitos através do diálogo e que, em meio a um local
cuja atmosfera seja de segurança e respeito, criada e mantida
tanto pelos conciliadores quanto pelos indivíduos participan-
tes, objetiva a transformação desses mesmos conflitos em
ações positivas mediante soluções criativas. Assim, com a
promoção da fala e da escuta qualificada, seu método vem
sendo utilizado nos mais variados espaços de convivência so-
cial, ajudando tanto adultos quanto crianças e adolescentes.
As aplicações de Justiça Restaurativa são perceptivas no que
diz respeito ao favorecimento do senso de pertencimento e de
autorresponsabilização, além do fortalecimento do senso de
comunidade e promoção da Cultura de Paz.
Portanto, para a sua aplicabilidade às crianças e aos ado-
lescentes infratores, esta prática – que se apresenta com pou-

I Seminário Internacional de Direitos Humanos e Democracia


Os Direitos Humanos e a sua Proteção
25 e 26 de abril de 2013
353
Delinquência juvenil e justiça restaurativa

ca formalidade -, mostra-se útil na medida em que dá a esses o


espaço e a atenção que necessitam para que haja uma desin-
toxicação mental – originada do contato com ambientes noci-
vos que esses frequentem ou com personalidades problemáti-
cas que os cerquem – e a troca de percepções que forem errô-
neas por valores necessários à edificação de uma identidade
saudável, ou seja, habilitada a reconhecer a importância conti-
da em conceitos como diálogo, respeito, responsabilidade,
obrigação, direito, solidariedade, empatia, individualidade,
atenção e cooperação. Valores capazes de dar o sentido e o
rumo extremamente necessários à vida desses indivíduos fren-
te sua condição de ser em pleno desenvolvimento.
A credibilidade dada à prática restaurativa, nesse caso,
justifica-se, segundo Kay Pranis, pela sua própria essência,
uma vez que:
Os Círculos partem do pressuposto de que existe um de-
sejo humano universal de estar ligado aos outros de for-
ma positiva. Os valores do Círculo advêm desse impulso
humano básico. Portanto, valores que nutrem e promo-
vem vínculos benéficos com os outros são o fundamento
do Círculo.8

Ao fim, por tratar-se de uma ação que denota grande


aprofundamento e envolvimento de diversas ciências, chama-
se a atenção para a necessidade, e por que não falar em van-
tagem, de se superar a fragmentação do conhecimento acumu-
lado em diversas áreas de estudo e pesquisa, posto que tal
medida traria a otimização das práticas restaurativas e, assim,
alcançaria maior número de indivíduos cujas chances de se
voltarem para o caminho do que é direito, diminuem a cada
instante a mais que permanecem em meio aos estímulos nega-
tivos do mundo do crime.

8
PRANIS, Kay. Processos Circulares/ Kay Pranis; tradução de Tônia Van
Acker. - São Paulo: Palas Athena, 2010, p. 39.

Programa de Pós-graduação em Direito


Curso de Mestrado em Direitos Humanos
354
Fabiano Rodrigo Dupont & Ana Paula Arrieira Simões

A INTERDISCIPLINARIDADE EM QUESTÃO
Desde o começo do séc. XX, a comunicação aberta entre
as matérias está sendo cada vez mais defendida, dada sua
qualidade potencializadora e elucidativa sobre questões que
antes continham um grande abismo entre suas origens e suas
consequências. Distanciando a questão da teoria, sua evolução
natural. A interdisciplinaridade, assim sendo, constrói a ponte
que revela o nexo necessário a toda teoria, acabando com os
vácuos do saber e aumentando a amplitude e profundidade do
conhecimento humano sobre tudo aquilo que o cerca.
No contexto em questão, envolvendo delinquência juvenil
e Justiça Restaurativa, a interdisciplinaridade se faz presente
na troca de informações entre os ramos da ciência como Socio-
logia, Antropologia, Psicologia, Criminologia, Direito, cuja coo-
peração na difusão de pesquisas e ideias acarreta numa maior
assertividade na procura das causas desses fenômenos, suas
características, consequências, atores envolvidos e, seguindo
essa linha de raciocínio, dando vez ao encontro de suas formas
de prevenção e/ou erradicação.
De maneira mais específica, no que se refere à delinquên-
cia, a interdisciplinaridade atua, primeiramente, de forma a
permitir uma visão do ato infracional muito mais ampla do que
seria possível, rompendo, assim, com preconceitos acerca do
jovem transgressor, refutando e evitando sua estigmatização
na sociedade. Seu “etiquetamento”, segundo conceito trazido
pela Criminologia. Posteriormente, ao tratar mais especifica-
mente da definição de círculos restaurativos, cuja filosofia cer-
ne é difundida de forma mais célere e eficaz por esse movi-
mento, tal como é observado por Raffaella da Porciuncula Pal-
lamolla quando declara que:
Esta concepção, de certa forma, afasta-se das demais,
pois concebe a justiça restaurativa como uma forma de
vida a ser adotada e rejeita qualquer hierarquia entre os
seres humanos (ou entre os outros elementos do meio
ambiente): “para viver um estilo de vida de justiça res-
taurativa, devemos abolir o eu (como é convencionalmen-

I Seminário Internacional de Direitos Humanos e Democracia


Os Direitos Humanos e a sua Proteção
25 e 26 de abril de 2013
355
Delinquência juvenil e justiça restaurativa

te compreendido na sociedade contemporânea) e ao in-


vés, entender a nós mesmos como intrinsecamente co-
nectados e identificados com outros seres e mundo 'ex-
terno'.9

Tendo em vista a vasta gama de estudos reunidos poten-


cialmente compatíveis com os temas aqui tratados, a interdis-
ciplinaridade é, portanto, a ferramenta necessária para aquisi-
ção de reconhecimento da necessidade de que haja a imple-
mentação de política pública eficaz ao tratamento aos casos já
abordados, devido à possibilidade de uma ação incisiva na raiz
destes. Lembra-se aqui que a aprovação de tal medida deve
ser tratada com urgência, uma vez que a implementação des-
tas políticas públicas ainda pode modificar, de forma positiva,
o futuro de todos pela mera apreciação da necessidade do res-
gate de valores morais e sociais, tão injustamente postos em
desuso pela sociedade.

NOTAS CONCLUSIVAS
A criminologia destaca-se como uma disciplina, uma ci-
ência, que se aplica na conceituação de infração, delinquência,
crime, posto que o fenômeno da delinquência juvenil reclama
uma visualização estendida do pensamento. A conduta huma-
na é algo de grande complexidade e por isso não pode ser ana-
lisada de forma unilateral, focada por apenas um ângulo. É
preciso reconhecer que cada ação individual possui uma rea-
ção que afeta o todo, razão explicada devido ao fato de estar-
mos todos interligados, componentes que somos de um todo
comum, a sociedade.
Uma vez tratadas as distorções entre os pesquisadores e
a sociedade, traz a Justiça Restaurativa, com o Círculo de
construção de Paz, o meio propício para que os jovens tenham
contato com outras formas de percepção da realidade, de suas

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PALLAMOLLA, Raffaella da Porciuncula, 1982 - Justiça restaurativa: da
teoria à prática / Raffaella da Porciuncula Pallamolla - 1. ed. - São Paulo :
IBCCRIM, 2009, p. 59.

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Curso de Mestrado em Direitos Humanos
356
Fabiano Rodrigo Dupont & Ana Paula Arrieira Simões

ações, novas ideias e experiências que lhes propiciem os estí-


mulos positivos que lhes faltavam durante seu amadurecimen-
to emocional e psíquico para encontrar sua voz, seu lugar no
mundo e explorar seu potencial para o que é verdadeiramente
humano.
Assim, se não se souber reconhecer o valor do outro, res-
peitá-lo e se colocar em seu lugar, permitindo uma aproxima-
ção livre de parcialidades, pouco se poderá fazer a respeito dos
problemas que, em um momento ou outro, a todos atingem.
Em outras palavras, é preciso ser capaz de abrir a mente para
o aprendizado puro, venha ele de uma ou de mais ciências,
para que crianças e adolescentes, que foram privados de um
futuro a que teriam direito, por motivos que não lhes cabia de-
finir, possam escolher um estilo de vida adequado à sua condi-
ção de ser em pleno desenvolvimento, podendo e sabendo es-
colher o que lhes é benéfico, construir uma identidade forte e
ter relacionamentos saudáveis, que mais tarde, serão caracte-
rísticas que iremos apreciar observar em nossa sociedade.

REFERÊNCIAS
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I Seminário Internacional de Direitos Humanos e Democracia


Os Direitos Humanos e a sua Proteção
25 e 26 de abril de 2013
357
Delinquência juvenil e justiça restaurativa

PRANIS, Kay. Processos Circulares/ Kay Pranis; tradução de Tônia


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Curso de Mestrado em Direitos Humanos
A JUSTIÇA RESTAURATIVA
COMO POLÍTICA DE PREVENÇÃO
À VIOLÊNCIA NA ESCOLA