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Émile Durkheim. O individualismo e os intelectuais.

mobiliza a sua sociologia para orientar na decisão de
Organização e edição de Marcia Consolim, Márcio questões valorativas. O flagrante desrespeito aos di-
de Oliveira e Raquel Weiss. São Paulo, Edusp, 2016, reitos individuais de que foi vítima o capitão Dreyfus,
185 pp. injustamente acusado de traição, não seria justificável
de nenhum ponto de vista: nem razões de Estado,
Henri Hubert. Estudo sumário da representação do nem o suposto abalo que o prestígio de instituições
tempo na religião e na magia. Organização e edição como o exército sofreria caso fosse admitida manipu-
de Rafael Faraco Benthien, Miguel Soares Palmeira lação das provas judiciais que levaram à condenação
e Rodrigo Turin. São Paulo, Edusp, 2016, 156 pp. de Dreyfus. O que interessa a Durkheim, porém, não
são os detalhes jurídicos do caso e sim a questão de
Alexandre Braga Massella princípio envolvida. O que estaria em jogo no direi-
Professor do Departamento de Sociologia da to à defesa neste caso específico é um complexo de
Universidade de São Paulo valores fundamental para as sociedades modernas,
E-mail: massella@usp.br
designado por Durkheim de “individualismo moral”.
A análise desse complexo de valores, iniciada em A
Entre os autores clássicos da sociologia, Durkheim é divisão do trabalho social e aprofundada em O suicídio,
talvez aquele cuja obra recebeu, até o momento, me- ganha nesse artigo uma elaboração condensada que
nos cuidado editorial, e não só em língua portuguesa. para ser bem entendida exige a leitura de tais obras e
Somente em 2015, mais de cem anos após sua pu- do curso A educação moral, que insere esse complexo
blicação, uma obra fundamental como As formas ele- de valores no processo de formação da personalidade.
mentares da vida religiosa ganhou uma edição crítica O projeto geral é ambicioso: definir esse individualis-
em francês, publicada pela Classiques Garnier. A ini- mo de caráter moral, distinguindo-o do individualis-
ciativa é parte de uma renovação nos estudos durkhei- mo egoísta, esclarecer sua natureza religiosa, sustentar
mianos que mobiliza sociólogos e historiadores e que sua importância para o funcionamento da sociedade
está enriquecendo a documentação e as análises sobre moderna e mostrar como ele está enraizado na estru-
a vida acadêmica e política de Durkheim. Os dois tura dessa sociedade.
primeiros volumes da biblioteca durkheimiana, pu- O individualismo moral não consiste em tomar
blicados pela Editora da Universidade de São Paulo, os interesses individuais como o critério da ação mo-
trazem a marca desta renovação, com edições críticas ral; ao contrário, sua referência é o que há de comum
e bilíngues que permitem ao leitor explorar diferentes em todos, a humanidade inscrita em cada indivíduo
versões do texto e avaliar as soluções adotadas pelos empírico. Envolve o reconhecimento de direitos civis,
tradutores. O leitor pode se beneficiar também dos políticos, sociais, da autonomia e da possibilidade de
comentários escritos por especialistas no tema, que cada um realizar suas inclinações. Esse conjunto de
apresentam informações relevantes sobre a gênese das valores é tanto um fato gerado pela divisão do traba-
obras, as estratégias de publicação, o pano de fundo lho social como um ideal a ser alcançado, ampliado.
polêmico que as anima e análises conceituais que ex- A rigor, sua existência como um conjunto de valo-
plicitam e atualizam as ideias fundamentais em jogo. res compartilhado não significa sua vigência efetiva.
O primeiro volume traz um texto crucial de Daí a ambivalência do texto, já destacada por muitos
Durkheim, O individualismo e os intelectuais. Escrito comentadores. Durkheim está propondo um ideal,
por ocasião do Caso Dreyfus, o texto revela as capa- mas sua estratégia de fundamentação, que se preten-
cidades polemistas de Durkheim e o modo pelo qual de científica e sociológica, tenta extrair esse ideal da

Es- titutivos. um colaborador muito próxi- traição à pátria. por ser nova. diria que a sociedade está em vida social. mas elementares da vida religiosa que a tese do ritmo e que ele próprio aventa quando trata dessas ques. explicariam o momentâneo esquecimen- derna permite a realização desse ideal? A divisão do to pela sociedade de seus ideais fundamentais. caminhando rumo a uma nova moral quer tempo e lugar. também em razão de um princípio mais geral. Resenhas. cada indivíduo? A sociedade poderia gerar ideais que O vínculo postulado por Durkheim entre a so- ela mesma não é capaz de realizar ou cuja realização ciedade e os seus ideais não envolve. titutivos está assim sujeita a tensões. e não apenas porque por Watts-Miller (1996. Por que uma quando Durkheim vincula o ritmo da vida social a sociedade se desvia de seus ideais? Uma hipótese certas variações na taxa de suicídio. e um em questão. Não é fácil cem os interesses privados da atividade econômica e decidir se faz sentido tentar aplicar a hipótese ao caso em que a consciência coletiva é enfraquecida. A tese sobre o ritmo da vida social condensa ou- trata-se de um complexo de valores a ser ampliado e tros trabalhos da escola durkheimiana. de dro capaz de absorver as inclinações e os talentos de dar-lhe condições de interpretar a si própria. v. bem expressa lei social segundo a qual teríamos uma alternância no texto de Ferdinand Brunetière (reproduzido nos entre momentos de dispersão e de concentração da anexos da edição) que suscitou a resposta de Dur. Uma outra bem a fertilidade da colaboração entre os participan- hipótese diria que causas passageiras e perturbadoras tes do projeto coletivo da revista Année Sociologique. em especial que ainda esbarra em instituições – como a da heran. quando os rituais religiosos são rea- dividualismo moral não é uma tendência moral nova. Durkheim afirma que o in. senão uma ameaça a esse complexo de valores? da sociedade a seus ideais. 29. misto de an- também todo o elenco de questões formuladas por tissemitismo. gerando a não poderia gerar ideais conflitantes? O próprio indi. para salientar uma tores de ordem estrutural ou funcional. O tema já está presente A relação de uma sociedade com seus ideais cons. de frustrações pela derrota na guerra e críticos e comentadores em torno das tensões entre de impulsos de vingança gerados por um crime dessa esse ideal e a realidade1: a estrutura da sociedade mo. Por um lado. passaria por uma variação cíclica que. como gostaria Durkheim. levam a sociedade a se esquecer de seus ideais cons. apenas fa- exigiria um novo tipo social? Ou. revista de sociologia da USP. foi recebida com entusiasmo pela mo a Mauss. 117-121). o papel da reflexão e dos intelectuais é aqui nidades. pp. Circunstâncias como essas. Mas âmbitos da sociedade moderna? O que é a condena. pp. tensão entre instituições sobreviventes do passado e vidualismo egoísta não seria um ideal vivo em diversos estruturas sociais que não correspondem a elas. A responsabilização de um judeu. como for. n. da vida social é alçada a um verdadeiro princípio da tões em termos gerais. 2 . traz um estudo fundamental a respeito 324 Tempo Social. ainda que baseada na igualdade de oportu. ainda que de forma apenas empírica. a sociedade temporalidades distintas podem conviver. Por outro lado. uma ção ao individualismo e aos intelectuais. de Hubert. lizados e a energia moral da sociedade é revitalizada. vida social. magnitude. momento em que prevale- convive com a moral legada pelo passado. claro: trata-se de lembrar à sociedade seus ideais. A ideia é a de que vida social. o que mostra ça – sobreviventes de um mundo passado. os de Marcel Mauss e de Henri Hubert. tempo sagrado. ainda não é clara a todos ou ainda entre um tempo profano. em O suicídio. mas legado da Revolução Francesa. Seja trabalho. dando tudo sumário da representação do tempo na religião e vazão a sentimentos de vingança despertados pela na magia. fornece um qua. O fator tem- tensão no âmbito dos valores. gerando uma variação na força da adesão kheim. em qual- transformação. O segundo volume da biblioteca durkheimiana. 323-328 estrutura da sociedade e de suas necessidades. muito bem enfatizada poral também é importante. Daí multidão. assim. Mas é em As for- plausível no esquema de pensamento de Durkheim.

A preocupação com o tema não se deve apenas tre as características relativas ao tempo normal (em a um interesse filosófico pela categoria “tempo”. assim. por definição. concretas que elas enquadram” (p. se realiza integralmente. como a magia. sagrado também pode ser fracionado. que costumam privi- coletiva. embora possam ser homogêneas e equivalentes as -meio. entre a dimensão social da noção estudada e a noção nais. Em um balanço sobre tais estudos e concilia mal com a homogeneidade da concepção suas implicações para a sociologia do conhecimento. depende. Não sendo mera quantidade. A pesquisa explora tempo. em que pese a excessiva concisão de certas estudada mediante as propriedades que as partes do formulações prejudicar o entendimento imediato: tempo adquirem ao se relacionarem com eventos ou elencar as características desse tempo-meio. O leitor poderá então sagrado. 1991. uma coisas não ordinárias. isto é. em que predomina o lugar no calendário. Uma noção pp. rupturas ou forjar continuidades indivisas. por cada embate favorito entre os durkheimianos: a relação pensador individual. e espera-se que do como elas estão implicadas nas propriedades de tenha continuidade. o tempo. Hubert e Mauss (1909) são bem claros: “para aquele é estudar uma concepção de tempo que seja capaz que investiga a magia e a religião. isto é. 43-47). porém. o sagrado. de uma familiaridade com essa no- cipais ambições de Durkheim: livrar a sociologia de ção. A questão. de nossa noção geral de tempo nas noções de tempo quando se realiza. quantitativa que temos do tempo. que Hubert denomina de tempo-meio. também chamado de tempo ideal. 41). então. sugeriria que o vias abertas por estudos dedicados a outros temas. a de vos da escola durkheimiana. grado no tempo sem prejuízo de suas características. Em meio a tal percurso. A coleção começa assim. as categorias que de resolver essas contradições e. uma outra noção também elaborada pela escola. p. como a solução para uma contradição en- po. e fazê-la adentrar enfim a fase científica. que é divisível em partes. em. extraordinário. por exemplo. noção em que as propriedades das partes do tempo gência de circunstâncias de tempo tão específicas sejam dedutíveis de suas “relações com as durações que parecem por vezes irrealizáveis (Mauss. A estratégia da apresentação noção de tempo na magia e na religião só pode ser é clara. o sacrifício e a morfologia das socie. inserir o sa- mais se impõem à atenção são as de tempo e espaço”. Trata-se de estudar as características desse tempo. às veis de distinções qualitativas. característica que se dades esquimós. elas podem instaurar essas características analiticamente. discussões em torno do sua fase artesanal. o sagrado é. de práticas obscenas e a exi. A representação em permanente comunicação. apontan. As condições temporais contribuem para em que as partes sucessivas do tempo não são ho- definir o meio específico em que os rituais mágicos mogêneas (“as partes que nos parecem iguais em ocorrem. marcada pela construção. que difere partes consideradas semelhantes em função de seu da noção comum de tempo. O sagrado bora o autor tente especular sobre a possível origem é indivisível. 41). divisível. O bom entendimento do texto de Hubert usufruir dos resultados daquela que foi uma das prin. de sistemas especulativos origi. e explicar sião para fazer ou evitar algo. elas podem ser a oca- religiões grega e romana e ao cristianismo. no entender de é talvez a mais elaborada da escola a respeito do tem. assim. a aspecto quantitativo. como agosto 2017 325 . Hubert. colaborativa e dividida em especialidades legiar as capacidades do indivíduo. comum ou a noção filosófica. grandeza não são necessariamente iguais”. o uso de se apresenta como a de uma quantidade pura. A pesquisa de Hubert mágica e religiosa do tempo surge. a reunir os textos representati. Resenhas do tema. com base durações concretas: as partes do tempo são suscetí- em dados tomados às antigas nações germânicas. especial sua divisibilidade) e ao sagrado. O ritual mágico pretende ter um caráter anormal e A solução estaria em uma noção de tempo que não raro e o que garante isso é. mas o próprias da religião e da magia.

as fórmulas mágicas devem ser sussur- transitar de um intervalo para outro. 2 . mas porque as sociedades precisam de um ritmo cas. na porque estabelece um concerto para as atividades realidade. mas também segundo um modelo mais próximo do ríodo que a sucede e são abstraídas suas dimensões: que se entende por ritmo na poesia ou na música. Elas as atraem ou elas se excluem” quando. para a religião e a magia. de repouso. mas unidades de intensidade da atividade coletiva. Necessário permanecendo únicos e acima do tempo. no qual a alternância das diversidades tância. sentam uma periodicidade que a experiência consta. mas ritmá-lo” (p. “as partes do tempo não são indiferentes às coisas que Hubert e Mauss exploram essa dimensão do ritmo nelas se passam. pp. Tudo aí é fixa- semelhantes. O estudo de Hubert foi objeto de resenhas críti- ta. Há muito a fazer e é indispensável. o ritmo é. Ora. da agitação moral conduz periodicamente ao semelhante” (p. v. 73). O avanço rumo aos ideais do individualismo ricas que contém. gião e o tempo profano. Com isso. soou para nós. isto é. 1991. 59). por parte de Hubert. 29. no texto sobre a magia. 281). ria estruturadora da vida social e que existe e varia em por isso. da coleção reproduz em um dos anexos. o qual. p. que o volume e arranjam os meios convencionais para instituí-lo. p. revista de sociologia da USP. Ela impõe métricas intercambiáveis e os ritos de que são objeto podem e melopeias. 57). 323-328 quando uma data crítica. é assimilada ao pe. não é senão uma sucessão de eternidades” coletivas e porque a intensidade da vida social não (p. A salientar. 55). segundo um ritmo atos religiosos e mágicos podem cessar sem ser fini. 51). p. O tema do ritmo da vida social é central. não teria anticlericais na França dos primeiros anos do século por “finalidade medir o tempo. devendo dades” transmite bem a ideia de uma noção gerada então ser periodicamente seguida por um período de pela necessidade de conciliar contradições. a magia constrange a equivalências entre datas e intervalos considerados cada instante os gestos e as locuções. xx. manter perpetuamente mobilizadas nossas intensidade não porque os fenômenos naturais apre. n. o ritmo não é possíveis contrastes entre o tempo sagrado da reli- concebido apenas segundo o modelo da alternân. 1970. energias sociais” (Durkheim. O ritmo é necessário tos. 326 Tempo Social. na avaliação de Durkheim. Resenhas. repetir-se sem mudar. com a consequente negligência dos especialmente de Mauss. então. comentam a pro- (p. objeto de consideração especial. é necessário interromper o torpor e a indife- também de Mauss. (Idem. pois é uma forma de coordenar atividades anos da Terceira República: “a hora do repouso não sociais. O tempo tem aí uma periodicidade peculiar. multiplicar-se no tempo para a vida social e é um fator de coesão. Os dias qualificados pelo sagrado são do e exatamente determinado. uma data que seja momentos fracos. 39). 473). em que a vida social é dispersa. Daí a impor- de um ritmo. diversas conotações e suscita perguntas que talvez em um ritmo estruturado apenas pelas variações e só sejam enfrentadas em outros textos da escola. A formulação paradoxal “sucessão de eterni. pelas implicações teó. a excessiva ênfase. O suscitada pelo Caso Dreyfus ou pelos movimentos calendário. um sinal da presença de atividade rença política que predominaram nos vinte primeiros coletiva. pósito do encantamento mágico: “Longe de ser uma conformado que é por um princípio que estabelece simples expressão individual. “os radas ou cantadas em um tom. A rigor. Mas a intensidade decrescente. uma das quais de seu colega Mauss. tem nessa crítica. na visão de Hubert e pliados. Como os ideais da Revolução Francesa ainda não A representação do tempo seria aí “essencialmente foram plenamente implementados e precisam ser am- rítmica” (p. conclusão mais importante. pode ser suportada durante muito tempo. Mas mesmo incorporando cia entre momentos de atividade coletiva intensa e essa outra fonte de estruturação rítmica do tempo. é talvez a de que a “as unidades de moral também está sujeito às oscilações no ritmo tempo não são unidades de medida. especial” (Mauss. O ritmo ganha a importância de uma catego. graus do sagrado.

morals and modernity. Paris. agosto 2017 327 . Paris. Referências Bibliográficas Durkheim. Resenhas cabe ao leitor perguntar se o aparato conceitual ela- borado pela escola durkheimiana para pensar o tem- po social. conserva toda a sua força quando se trata de estudar um mundo supostamente secularizado como o mundo moderno2. (1991). Rámon Ramos. Torres. Madri. Hubert. Sociologie et anthropologie. com suas categorias centrais de sagrado e profano. La sociología de Durkheim: patología social. Durkheim. Henri & Mauss. (1999). La science social et l’action. Notas 1. Paris.2017. Librairie Droz. Presses Universitaires de France. Filloux. William. doi: 10. O leitor encontra um excelente balanço crítico sobre a perspectiva durkheimiana para o estudo do tempo em Torres (1999). Quadrige/Presses Universitaires de France. Montreal. Texto recebido em 31/12/2016 e aprovado em 2/1/2017. (1996). Marcel. (1970). McGill-Queen’s Univer- sity Press. O tema é tratado por Watts Miller (1996) e por Jean- -Claude Filloux (1977). (1970).125136. tiempo. Jean-Claude. Alcan. Siglo xxi. religión. Marcel (1909). Mélanges de historie des religions. 2. Mauss. Durkheim et le socialisme.11606/0103-2070. Genève.ts. Émile. Watts Miller.