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ISSN 1413-389X Temas em Psicologia - 2010, Vol.

18, no 2, 283 – 293

Sensibilidade, felicidade e cultura

José Antônio Damásio Abib


Universidade Federal de São Carlos, SP e Universidade Estadual de Maringá/Fundação
Araucária, PR – Brasil

Resumo
Este ensaio revisita o conceito de sensibilidade. Argumenta-se que ele pode se referir à sensação, à
percepção e a sentimento. Argumenta-se também que a evolução legou-nos uma sensibilidade aos
acontecimentos do presente, do aqui e agora. O valor dessa sensibilidade é inegável. Mas é necessário
desenvolver projetos de educação da sensibilidade a consequências culturais remotas, com valor de
sobrevivência para os indivíduos, grupos sociais e culturas. Sugere-se que uma educação da
sensibilidade orientada pela imaginação e por uma ética da felicidade pode contribuir para
desenvolver uma sensibilidade a consequências culturais dessa natureza.
Palavras-chave: Sensação, Percepção, Sentimento, Imaginação, Ética.

Sensibility, happiness and culture

Abstract
The concept of sensibility is reviewed in this essay. Sensibility may refer to sensation, perception and
feeling. Sensibility has evolved until hedonic sensibility. Evolution has given us sensibility to events
of the present, here and now. This sensibility’s value is unquestionable. But it is necessary to develop
educative projects of sensibility to distant consequences in the future, with survival value to the
individuals, social groups and cultures. It is suggested that an education enlightened by ethics of
hapiness may contribute to develop sensibility to cultural consequences with survival value of this
kind, societies and cultures.
Keywords: Sensation, Perception, Feeling, Imagination, Ethics.

O conceito de sensibilidade é conceito de sensibilidade refere-se à sensing,


semanticamente carregado. Pode até não no sentido de sensação e percepção. E em
parecer, pois, de certo modo, tem saído de cena. seguida, que ele se refere à suscetibilidade, no
Mas isso apenas porque se esconde sob outros sentido de sentimento. Finalmente,
processos, e sob outros nomes. desenvolvemos uma reflexão sobre ética da
Houve uma transformação significativa na felicidade, sob a perspectiva do hedonismo
evolução da sensibilidade, mas essa evolução epicurista, como possível lume de um projeto
limita-se a referi-la aos acontecimentos de educação da sensibilidade
presentes, ao que acontece no aqui e agora. O
valor dessa sensibilidade é inegável. Porém, se
estivermos interessados em desenvolver
Sensing
projetos culturais, com valor de sobrevivência Skinner (1989) define sensing: “Para
para os organismos, indivíduos, grupos sociais responder efetivamente ao mundo em nosso
e culturas, precisaremos de uma sensibilidade entorno devemos ver, ouvir, cheirar, saborear,
ao não acontecimento: uma sensibilidade ou senti-lo” (p. 15, itálico nosso). Segundo
destinada a consequências remotas, distantes no Skinner, ver é comportamento. Deduzimos que,
tempo, longe, lá no futuro. A formação desse se ver é comportamento, então ouvir, cheirar,
gênero de sensibilidade pode ser o projeto de saborear, sentir o mundo em nosso entorno
uma educação da sensibilidade. também são comportamentos. Mas Skinner
Este ensaio tenta esclarecer alguns também diz que ver é somente parte do
sentidos do conceito de sensibilidade. Com essa comportamento. Deduzimos que, se ver é
finalidade, argumentamos inicialmente que o somente parte do comportamento, então ouvir,

_____________________________________
Endereço para correspondência: José Antônio Damásio Abib – E-mail: j.abib@terra.com.br.
284 Abib, J. A. D.

cheirar, saborear, sentir o mundo em nosso sensibilidade, embora seja inadequado para
entorno também é somente parte do explicar a dependência que a sensibilidade tem
comportamento. da motricidade. Isso porque a relação entre a
Afirmamos que essa parte do sensibilidade e motricidade é um circuito e não
comportamento consiste na sensibilidade. um arco.
Afirmamos também que essa parte do O que o filósofo critica é a concepção
comportamento existe em relação com outra mecanicista do arco-reflexo. De acordo com
parte do comportamento: a motricidade. Logo, essa concepção, os processos psicofísicos e
a elucidação do conceito de sensibilidade psicofisiológicos são lineares e independentes.
envolve, ao menos, duas investigações. A Dewey afirma que isso não é verdade. Não há,
primeira consiste em responder a esta pergunta: diz o filósofo, uma sequência de processos
O que é sensibilidade? A segunda consiste em lineares e independentes com início no estímulo
responder a esta outra pergunta: Como acontece físico, ou ainda, na sensação 1 , com desfecho na
a relação entre a sensibilidade e a motricidade? motricidade ou no movimento dos organismos.
O conceito de sensibilidade refere-se a O filósofo defende então uma concepção
sensações (Geldard, 1975; Piéron, 1951/1972; organicista do arco. De acordo com essa
Warren, 1934/1956). Piéron (1951/1972) concepção, a relação entre a sensação e a
escreve: “Sensibilidade emprega-se, sobretudo, motricidade é interdependente, e não linear.
em relação a um estímulo definido.... A organicidade, o circuito envolvendo a
Sensibilidade luminosa considerada em função sensação e o movimento, pode ser ilustrada
de uma variável de estímulo” (p. 390). Warren com a análise do comportamento de uma
(1934/1956) escreve isto sobre a sensibilidade: criança ao tentar pegar a chama de uma vela.
“Capacidade sensorial medida pelos atributos Segundo Dewey, ver a chama de uma vela é um
de qualidade, intensidade, extensibilidade e comportamento. Isso quer dizer que ver a
duração” (p. 327). O conceito de sensibilidade chama de uma vela não é uma sensação. Como
pode significar ainda “predisposição comportamento, ver a chama de uma vela é
psicofísica” (p. 327). uma coordenação sensório-motora. Com mais
O conceito de sensibilidade refere-se precisão, podemos dizer que é uma
também a “marcada suscetibilidade para coordenação ótico-ocular. Nessa coordenação,
experiências afetivas e emotivas” (Warren, a sensação visual ajusta os movimentos do
1934/1956, p. 327). Geldard (1975) limita o corpo, da cabeça, e dos músculos dos olhos.
estudo da sensibilidade ao exame das Por sua vez, os movimentos do corpo, da
sensações. E estuda suscetibilidade a cabeça e dos músculos dos olhos ajustam a
experiências afetivas e emotivas quando sensação visual. A coordenação ótico-ocular
examina as emoções, prática frequentemente envolve, portanto, um circuito de ajustes e
encontrada em outros autores (Baker, 1960; reajustes. Com efeito, a sensação visual ajusta
Fantino, 1973; Hilgard, 1962; Woodworth & os movimentos; os movimentos ajustam o olho
Schlosberg, 1938/1995). à chama; o olho ajusta a sensação visual. Ou
Se há uma parte do comportamento que ainda, os movimentos ajustam o olho à chama;
consiste na sensibilidade e se o conceito de o olho ajusta a sensação visual; a sensação
sensibilidade refere-se não só a sensações, mas visual ajusta os movimentos. Com razão,
também a suscetibilidade para experiências conclui o filósofo: ver é um comportamento,
afetivas e emotivas, não é evidente que não é uma sensação.
precisamos sondar como acontece a relação Podemos descrever o circuito reflexo
entre essa parte do comportamento, a
sensibilidade, e outra parte do comportamento,
1
a motricidade? Em seu livro, Psicologia da forma, Paul Guillaume
Embora seja difícil estabelecer prioridades (1979) afirma que a noção de estímulo é ambígua:
históricas, o texto canônico sobre a relação pode se referir aos estímulos físicos como, por
exemplo, energia luminosa, energia acústica, energia
entre a sensibilidade e a motricidade talvez seja
mecânica, etc., bem como aos efeitos desses
O conceito de arco reflexo na psicologia do estímulos sobre os órgãos receptores (as
filósofo pragmatista norte-americano John terminações nervosas periféricas) e as projeções
Dewey (1896). O filósofo critica o conceito de nervosas centrais, isto é, as sensações ou qualidades
arco-reflexo na psicologia. Esse conceito sensoriais (qualidades de cores, sons, pressão, dor,
explica a dependência que a motricidade tem da etc.).
Sensibilidade, Felicidade e Cultura 285

partindo da sensação ou do movimento. A sensório-motora 2 para explicar o


escolha é arbitrária. Mas é necessário cautela comportamento das bactérias.
para não designar um estatuto ontológico a tais Maturana e Varela (1987/1995) afirmam
descrições. Pois a sensação inexiste sem o que, quando um protozoário se choca com um
movimento e o movimento inexiste sem a obstáculo em um meio aquoso, uma estrutura
sensação. O que existe é o comportamento: a em forma de flagelo no interior de sua célula se
coordenação sensório-motora, a relação dobra. Ocorrem então alterações no citoplasma
orgânica entre movimento e sensação. que levam o flagelo a fazer um breve giro,
Ontologicamente, portanto, o ponto de partida é arrastando a célula em outra direção. Mais uma
o comportamento. A descrição que fazemos a vez os biólogos chilenos explicam o
partir da sensibilidade enfatiza a dimensão comportamento do protozoário em termos de
sensorial coordenada à dimensão motora. Isso coordenação sensório-motora. Além disso,
quer dizer que a dimensão sensorial inclui e ressaltam que a estrutura sensorial e a estrutura
pressupõe a dimensão motora. Já a descrição motora do protozoário ainda não se separaram.
que fazemos a partir da motricidade enfatiza a Há apenas uma estrutura que é, ao mesmo
dimensão motora coordenada à dimensão tempo, sensorial e motora. Esse exemplo
sensorial. Isso quer dizer que a dimensão mostra que, do ponto de vista evolutivo, a
motora inclui e pressupõe a dimensão sensorial. coordenação sensório-motora não é um
processo que pressupõe primeiro a separação
das superfícies sensorial e motora para só então
Outros exemplos de coordenação sensório- se desenvolver a coordenação. Ao contrário,
motora podem ser encontrados no essa coordenação é originária, primitiva 3 .
comportamento de amebas, protozoários e
bactérias (Maturana & Varela, 1987/1995). 2
Esses autores afirmam que o meio ambiente de Maturana e Varela (1987/1995) mostram que o
comportamento pode ser definido por seus aspectos
uma ameba pode ser alterado por substâncias
adaptativos ao ambiente sem envolver o movimento.
produzidas por um protozoário e que a Discutimos essa possibilidade em outro lugar (Abib,
constituição físico-química da membrana da 2007). Para os propósitos deste texto, enfatizamos a
ameba é afetada por tais substâncias. Como característica motriz do comportamento. O que,
resultado de tais alterações, ocorrem evidentemente, não nega suas funções adaptativas.
modificações protoplasmáticas que dão origem Pois, como escreve Piaget (1976/s.n.):
a um pseudópode, uma expansão ou digitação, Entendemos por comportamento o conjunto
que desloca o organismo em seu meio das ações que os organismos exercem sobre
ambiente. A posição e direção do organismo o meio exterior para modificarem os seus
são modificadas, elevando a concentração de estados ou para transformarem a sua própria
substâncias em interação com sua membrana, situação, em relação a esse meio: por
até que a ameba engole o protozoário. Os exemplo, a procura de alimentação, a
biólogos chilenos explicam o comportamento construção de um ninho, a utilização de um
da ameba referindo-se a uma coordenação instrumento, etc. (p. 5).
recorrente entre uma superfície sensorial e 3
Como a superfície sensorial e a superfície motora
outra motora. do protozoário é a mesma, Maturana e Varela
(1987/1995) afirmam que o acoplamento estrutural
do organismo ao meio é imediato. O que nos leva a
Maturana e Varela (1987/1995) afirmam crer que não é imediato nos exemplos da ameba e da
que algumas bactérias possuem flagelos em bactéria. Contudo, nos três exemplos, eles afirmam
forma de hélices propulsoras que giram fixas que a coordenação sensório-motora “se dá por meio
sobre sua base. Giram em duas direções. Em de processos no interior da célula, ou seja, por
uma, giram e tombam sem sair do lugar. Em transformações metabólicas próprias da unidade
outra, se deslocam. Se forem colocadas em um celular” (p. 179). Pode-se indagar se a coordenação
meio contendo um gradiente de açúcar, giram sensório-motora não se refere ao processo de
irritabilidade. Por um lado, sim, porque a
em sua direção. Como as membranas das
irritabilidade é “suscetibilidade a estimulação”, bem
bactérias possuem moléculas que reagem ao como “característica fundamental da matéria
açúcar, elas modificam e ajustam o giro de suas orgânica, ou (nos organismos superiores) dos
hélices conforme a quantidade de açúcar que nervos, receptores, músculos e glândulas” (Warren,
penetra em suas moléculas. Os biólogos 1934/1956, p. 190). Mas, por outro lado, não,
chilenos usam o conceito de coordenação porque a irritabilidade, no “sentido técnico é quase
286 Abib, J. A. D.

A inseparabilidade ontológica da dimensão da percepção; a sensação referindo-se às


sensível em relação à dimensão motriz foi qualidades sensoriais (qualidades de cor, som,
ressaltada por Piaget em sua crítica à teoria da pressão, etc.) e a percepção, aos objetos (a casa,
origem sensorial do conhecimento científico. O a árvore, etc.). Porém, “não se acredita mais
psicólogo suíço argumenta que, quando hoje em dia nas sensações “elementares” e
percebemos uma casa, não vemos primeiro seus preliminares” (Piaget, 1957/1978, p. 71). As
pormenores, como, por exemplo, a cor de uma observações de Piaget podem ser generalizadas
parede, a largura de um cômodo, o tamanho do para os exemplos de Maturana e Varela
pé direito, e depois a casa. Ao contrário, ele (1987/1995). Pois os microorganismos são
diz: “Percebo, imediatamente, a casa como dotados de percepção (Margulis & Sagan,
Gestalt e só depois passo à análise do 1998/2002).
pormenor” (Piaget, 1957/1978, p. 72). A Para os que concordam com Piaget, a
propósito, cita o neurologista V. Weizsäker unidade sensório-motora passa a ter o sentido
(citado em Piaget, 1957/1978): “Quando de percepção. Diriam que: ver, ouvir, cheirar,
percebo uma casa, não vejo uma imagem que saborear, sentir o mundo em nosso entorno é
entra em meus olhos; vejo, ao contrário, um percepção. Sendo assim, da perspectiva de
sólido no qual posso entrar” (p. 72). O que Piaget, seria mais correto chamar a unidade
existe de imediato são as percepções. As sensório-motora de unidade perceptual-motora.
sensações são abstrações analíticas. Piaget com Para assimilar os conceitos de unidade
a palavra: “Existe de imediato percepção como sensório-motora e perceptual-motora, podemos
totalidade e as sensações são então apenas os usar a expressão relação sensível-motora.
elementos estruturados e não mais A sensibilidade refere-se, também, como
estruturantes” (p. 71-72). disse Warren (1934/1956), a “marcada
Mas logo o psicólogo suíço se pergunta: suscetibilidade para experiências afetivas e
“A percepção constitui realidade autônoma?” emotivas” (p. 327). Nosso próximo ponto.
(Piaget, 1957/1978, p. 72). Afirma que não,
porque a percepção depende da motricidade.
Suscetibilidade
Refere-se, então, ao conceito de Gestaltkreis
(círculo Gestáltico) do neurologista V. Em um de seus exames sobre as
Weizsäker, para ressaltar o efeito da consequências do comportamento, Skinner
motricidade sobre a percepção. Piaget conclui (1987) afirma que uma “consequência
que se deve ao modelo simplista do arco- imediata”, ingestão de alimento, por exemplo,
reflexo (leia-se: mecanicista) a concepção que envolve “duas consequências, uma relacionada
vê a ação como resultado exclusivo “da à seleção natural e outra a uma suscetibilidade
percepção sobre a motricidade” (p. 72). evoluída ao reforçamento por um gosto
A dimensão sensível da ação refere-se, particular” (p. 70-71).
agora, em Piaget (1957/1978), à percepção. O Se a suscetibilidade a consequências
que existe de imediato não são as sensações, reforçadoras é evoluída, então há uma
são as percepções. A concepção sensório- suscetibilidade a consequências do
motora do comportamento fundamenta-se na comportamento que, ou não é evoluída, ou é
psicologia clássica 4 , que diferencia a sensação menos evoluída. Provavelmente, essa
suscetibilidade refere-se às consequências
naturais do comportamento. Há duas
sinônimo de sensibilidade, porém sem referência a
suscetibilidades às consequências do
uma sensação consequente” (Warren, 1934/1956, p.
190). comportamento: uma natural, outra reforçadora.
4
A psicologia clássica refere-se à psicologia À primeira vista, não temos como distinguir
introspectiva. A crítica de Piaget a essa psicologia é suscetibilidade às consequências naturais de
análoga àquela que foi feita por Köhler (1929/1970). suscetibilidade às consequências reforçadoras.
A crítica da psicologia da Gestalt à psicologia Essa dificuldade persiste até que possamos
introspectiva foi determinante para a concepção de esclarecer o que significa suscetibilidade
que o que existe de imediato é a percepção, e não a evoluída ao reforço.
sensação (Köhler). Evidentemente que nem Piaget,
nem Köhler estão a negar que as sensações existam.
Pois sem elas não há percepção. O que estão a negar sensações estruturadas. Os dados imediatos da
é que sensações isoladas sejam percebidas de percepção são sensações estruturadas e não
imediato. O que é percebido de imediato são sensações isoladas.
Sensibilidade, Felicidade e Cultura 287

Skinner (1987) refere-se ao gosto sobrevivência, se não tem necessariamente


particular do alimento. Segue-se, então, que a valor adaptativo, se certo alimento pode
suscetibilidade evoluída ao reforço pode se reforçar o comportamento, mesmo quando não
referir a ver, ouvir, cheirar e sentir coisas é saudável, se certo contato sexual pode
particulares. O acento está na expressão gosto reforçar o comportamento, mesmo quando não
particular do alimento. O que ele enfatiza é envolve procriação?
uma sensibilidade particular: ver, ouvir, Uma possibilidade consiste em retomar o
cheirar e sentir coisas particulares. Há uma hedonismo e afirmar que a suscetibilidade
passagem que fornece evidências para essa evoluída refere-se ao valor hedônico. Isso nos
conclusão: leva a dizer que o reforço fortalece o
comportamento porque produz prazer e sua
Quando o comportamento é
remoção o enfraquece porque produz desprazer,
simplesmente o produto da seleção
dor, sofrimento. Ou ainda, o reforço fortalece o
natural, o contato não necessita ser, e
comportamento porque o organismo sente
presumivelmente não é, um reforçador.
prazer e sua remoção o enfraquece porque o
Mas quando, através da evolução de
organismo sente desprazer, dor, ou
suscetibilidades especiais, alimento e
simplesmente, sofre. O comportamento pode
contato sexual tornam-se reforçadores,
ser fortalecido ou selecionado por
novas formas de comportamento podem
consequências naturais ou reforçadoras. Mas as
ser estabelecidas. (p. 53, itálicos nossos).
razões são diferentes. As consequências
Agora, Skinner (1987) usa a expressão naturais fortalecem o comportamento porque
suscetibilidades especiais. Sensibilidades têm valor de sobrevivência. As consequências
particulares e sensibilidades especiais. O que reforçadoras fortalecem o comportamento
significam? O psicólogo norte-americano porque são fonte de prazer e de eliminação de
fornece uma pista quando se refere ao desprazer, dor e sofrimento.
comportamento que pode ser reforçado com Estamos diante de outro sentido do
alimento ou sexo: “O comportamento não é conceito de sensibilidade: a sensibilidade
necessariamente adaptativo. Comem-se hedônica. Warren (1934/1956) afirma que a
alimentos que não são saudáveis. E fortalece-se teoria da sensibilidade refere-se à hedônica
comportamento sexual que não é relacionado à (hedónica). A hedônica é o “ramo da psicologia
procriação” (p. 53). Um gosto particular é que estuda os afetos agradáveis e
reforçador, outro não é. Um contato sexual é desagradáveis” (p. 159). Refere essa
reforçador, outro não é. caracterização ao francês “théorie de la
Skinner (1974) explicou a suscetibilidade sensibilité” (p. 199). E afirma que o termo
especial às consequências reforçadoras em hedônico “refere-se ao afeto ou tom afetivo” (p.
termos do seu valor de sobrevivência. 160).
Passando-lhe a palavra: “A suscetibilidade ao De acordo com Skinner (1969), sentimos
reforço é devida ao seu valor de sobrevivência” prazeres, dores e emoções. Sentimos os
(p. 47). É possível que, no curso da evolução, desprazeres das dores da fome, da bexiga cheia,
tal suscetibilidade tenha surgido devido a um do dente inflamado, bem como os prazeres que
valor de sobrevivência. Mas seria mais advêm da eliminação dessas dores. Sentimos
adequado vincular esse valor às consequências emoções: “Uma pessoa que foi atacada por
naturais. Pois, logicamente, não se concebe que outra não apenas responde agressivamente, mas
comportamentos que não são necessariamente também sente raiva” (p. 257). Sentimos o
adaptativos possam ser fortalecidos por prazer ou desprazer do gosto de determinado
consequências reforçadoras devido ao seu valor alimento ou de um contato sexual particular.
de sobrevivência. Sentimos o prazer da alegria. Sentimos o prazer
A suscetibilidade às consequências do amor. Sentimos o desprazer da raiva.
reforçadoras é especial ou particular, Sentimos o desprazer da tristeza. Sentimos
características que, aparentemente, faltam à prazeres e desprazeres mais ou menos intensos
suscetibilidade às consequências naturais. É no (Hilgard, 1962). Sentimos desprazeres mais
aspecto de ser especial ou particular que a intensos na fúria, no horror, na agonia, no luto
suscetibilidade às consequências reforçadoras é do que na raiva, no medo, na dor, na tristeza.
evoluída. Mas, ao que se refere essa Sofremos nos desprazeres mais intensos do que
suscetibilidade, se não tem valor de nos menos intensos. O sofrimento da fúria, do
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horror, da agonia e do luto é mais intenso do discutir o que pode vir a ser um projeto de
que o sofrimento da raiva, do medo, da dor, da educação da sensibilidade.
tristeza.
São prazeres, desprazeres, dores,
sofrimentos, emoções que devemos sentir para Ética da Felicidade
responder efetivamente ao mundo em nosso Um projeto de educação da sensibilidade
entorno. Se, por uma razão qualquer, não defronta-se com duas dificuldades. A primeira
formos capazes de sentir essas coisas, não refere-se à sensibilidade hedônica às
responderemos de modo efetivo ao mundo em consequências imediatas do comportamento. A
nosso entorno. E isso vale para os prazeres ou segunda refere-se à ausência de uma
desprazeres, para as emoções prazerosas ou sensibilidade às consequências remotas ou
não, para as que são fontes de dor e sofrimento ulteriores do comportamento.
ou não. Um projeto de educação da sensibilidade
Sentir é comportamento: é coordenação começa aonde termina a história natural da
afetivo-motora 5 . Mas Skinner disse: “sentir o sensibilidade. Entendemos que o conceito de
mundo em nosso entorno”. Sentir prazer, sensibilidade não deva restringir-se ao
desprazer, dor, sentir emoções, é sentir o significado que carrega vinculado ao término
mundo em nosso entorno? Sentimos o mundo dessa história. Se assim fosse, ele ficaria
em nosso entorno quando sentimos prazeres, limitado ao imediatismo e, evidentemente, um
desprazeres, dores, emoções? Evidentemente projeto de educação da sensibilidade estaria
que sim! Pois as relações entre a sensibilidade e inviabilizado por princípio.
o comportamento são mundanas: relacionam-se Um projeto de educação da sensibilidade
com o mundo. São relações que produzem visa à formação de uma sensibilidade a
consequências no mundo, que, por sua vez, as consequências remotas. Mas, para que isso
fortalecem ou as enfraquecem ou as modificam. possa ser pensado, precisamos de um conceito
Sentimos esses efeitos que vêm do mundo: mais amplo de sensibilidade. Um que vise nos
sentimos o mundo. tornar sensíveis ao não acontecimento. Pois a
As sensibilidades sensorial, perceptual e consequência remota refere-se ao não
hedônica fazem parte da história natural da acontecimento ou ao acontecimento que se
sensibilidade. Mas a evolução da sensibilidade, ocorrer pode ou não fazer uma diferença e se
conquanto sofisticada, não é suficiente para fizer uma diferença ela pode ou não ser
apoiar projetos culturais com valor de significativa. A sensibilidade ao não
sobrevivência para os organismos, indivíduos, acontecimento relaciona-se com o primeiro
grupos sociais e culturas. Para eventualmente sentido do conceito de sensibilidade, isto é, à
tratar com essa insuficiência, é necessário “capacidade de um organismo para receber
estimulações” (Warren, 1934/1956, p. 327).
Um exemplo pode ilustrar a relação entre a
5
formação da sensibilidade ao não
Não devemos esquecer que Skinner (1989) disse acontecimento e essa capacidade.
que ver é comportamento. De onde inferimos que
O cineasta Florian Henckel von
sentir (como ver, ouvir, cheirar, saborear) também é
comportamento. Skinner também disse que esses Donnersmarck, diretor e roteirista do belo filme
comportamentos são obrigatórios (pois usou o termo A vida dos outros (Von Donnersmarck, 2008),
must, que indica necessidade, obrigação, alguma diz em uma entrevista (Von Donnersmarck,
coisa indispensável) para respondermos com 2010) o seguinte: “Li em um livro de Máximo
efetividade ao mundo em nosso entorno. Gorki, que Lênin havia lhe dito”: “Não quero
Deduzimos, portanto, que, se há coordenação mais ouvir minha música favorita, Apassionata,
sensório-motora no ver, ouvir, cheirar, saborear, há de Beethoven. Ela me faz querer acariciar as
também coordenação afetivo-motora no sentir. Por pessoas e dizer-lhes coisas boas, e, desse modo,
exemplo, não sei se vou sentir, ou se devo sentir, um eu não conseguiria seguir matando-as e realizar
mal-estar em uma situação que se configura agora,
a revolução”. “Parecia o exemplo extremo de
neste preciso momento, em meu entorno, como
fortemente estressante. Mas sei que se sentir um alguém bloqueando a própria humanidade.
mal-estar, vou me movimentar, vou agir de algum Resolvi criar uma situação em que Lênin fosse
modo, vou tomar um medicamento, vou fugir da obrigado a ouvir a Apassionata. Lênin virou
situação, vou tentar modificá-la, vou evitá-la em Ulrich, e a Apassionata, a bela sonata composta
ocasiões posteriores. por Gabriel para o filme”.
Sensibilidade, Felicidade e Cultura 289

Podemos imaginar e criar situações que ser sensível a uma consequência remota. É ser
propiciem a ocorrência do não acontecimento, sensível ao não acontecimento. Como, então,
isto é, o acontecimento que não ocorreria na desenvolver essa sensibilidade? Podemos
ausência da situação imaginada e criada. Ou imaginar situações que ajudem as pessoas a se
ainda, podemos perguntar: O que é que não tornarem sensíveis a esse não acontecimento?
aconteceu que se acontecesse faria uma Situações que nos levem a querer acariciá-las,
diferença que seria uma notável diferença? O dizer-lhes coisas boas, tratá-las amigavelmente,
critério que decide o que pode ser uma mesmo quando são estranhas para nós, não
diferença notável ou não, um acontecimento pode ser uma possibilidade? E não é a
notável ou não, depende dos sentimentos que imaginação, o processo psicológico central para
possam ser despertados. No comentário de sondar novas possibilidades? Nesse sentido, um
Florian, Lênin sente que se continuar ouvindo a projeto de educação da sensibilidade é um
Apassionata, a bela sonata, ele não será capaz projeto de educação da imaginação.
de continuar matando as pessoas, e não Consequências naturais e reforçadoras
realizará a revolução. O cineasta então obriga fortalecem comportamentos. Mas, repetimos, as
Ulrich, capitão da Stasi (polícia secreta da razões pelas quais o fazem são diferentes. As
Alemanha Oriental) a ouvir a bela sonata que consequências naturais o fazem porque têm
Gabriel compôs para o filme. A humanidade de valor de sobrevivência para os organismos 7 . As
Ulrich desabrocha e suas ações subsequentes consequências reforçadoras o fazem porque
mudam completamente o curso da história. têm valor hedônico para os indivíduos e grupos
O capitão que espionava um casal de sociais. As razões pelas quais as consequências
artistas comove-se com suas vidas e faz naturais e reforçadoras fortalecem o
precisamente o contrário do que deveria fazer: comportamento dependem de uma
tenta salvá-los ao invés de denunciá-los aos sensibilidade imediata.
seus superiores, seja porque o escritor estava As consequências culturais também
envolvido com atividades subversivas, seja fortalecem o comportamento. E o fazem por
porque a atriz (e sua mulher) é obrigada a fazer razões similares. Seja porque têm valor de
favores sexuais a um chefão da Stasi. O capitão sobrevivência (medicamentos, alimentos etc.)
se torna sensível a uma consequência remota, a ou hedônico (drogas, prazeres da sociedade de
um não acontecimento, quase inimaginável consumo etc.) para os indivíduos e grupos
para um policial da Stasi. Poderíamos até dar o sociais. As consequências culturais que
seguinte título a esse filme: A Apassionta fortalecem o comportamento por razões
contra a Stasi. hedônicas frequentemente ameaçam a
Uma nova sensibilidade depende de sobrevivência dos indivíduos e grupos sociais
sensações, percepções e prazeres. Mas o
processo psicológico fundamental dessa nova lavoura. O burocrata propõe então um teste ao
sensibilidade é a imaginação. Quais são as polonês: que o leve ao choro em dez minutos
situações que podemos imaginar que nos levem fazendo uma representação baseado em suas
a querer acariciar as pessoas e dizer-lhes coisas lembranças da Europa destruída pela guerra. Se
boas ao invés de querer matá-las? Ou: como conseguir, obterá o visto. A comovente
fazer a paz e não a guerra 6 ? Ser sensível à paz é representação do ator leva o burocrata ao choro
(embora, como ele diz, não tenha entendido nada!).
Concede-lhe então o visto. Na cena final, o ator
6
O filme brasileiro Tempos de paz (Filho, 2010) continua sua representação. Sua audiência? O
encena um intenso e comovente diálogo entre um burocrata e seus colegas (além de alguns outros
imigrante polonês tentando obter um visto de personagens emblemáticos para o desenvolvimento
entrada no Brasil como lavrador em 1945 e um e desfecho da história).
7
burocrata brasileiro da Alfândega especializado em Darwin defende a seleção do organismo; Wallace,
tortura. O burocrata duvida das reais intenções do a seleção da espécie; Lorenz, a seleção da espécie e
polonês. Afinal, suas mãos não são ásperas, nem de grupo. Dawkins, a seleção do gene; Gould, a
calejadas como deveriam ser as mãos de um seleção de todas essas unidades (Continenza, 2005;
lavrador. O polonês, que fala o português muito Dawkins, 1976/1979). Skinner foi criticado por
bem, termina revelando sua real profissão: ele é um defender a seleção da espécie ou de grupo.
ator. Mas o burocrata continua duvidando de suas Respondendo a seus críticos, reconheceu que
reais intenções. Afinal, se é um ator, por que deveria ter dito que a primeira seleção refere-se à
pretende entrar no Brasil como lavrador? Porque, seleção do organismo e negou que defendesse a
diz o imigrante, o Brasil precisa de braços para a seleção de grupo (Skinner, 1984a, 1984b).
290 Abib, J. A. D.

(e, por decorrência, ameaçam também a prazer que ameaçam a sobrevivência das
sobrevivência das culturas). Essas razões estão pessoas e das comunidades, das sociedades e
relacionadas com a sensibilidade imediata. Mas das culturas. Basta pensar por um instante na
há consequências culturais que fortalecem o sociedade de consumo, que, paradoxalmente,
comportamento devido ao seu valor de mas com admirável astúcia, fomenta
sobrevivência para os indivíduos e grupos insatisfações através da satisfação instantânea
sociais (e, por decorrência, promovem também de prazeres ilimitados, à custa de tornar as
a sobrevivência das culturas). Essas pessoas fragilizadas, quer do ponto de vista
consequências dependem da formação de um físico, ou psicológico. Ou ainda, à custa de
tipo diferente de sensibilidade: a sensibilidade a esgotar os recursos do espaço vital, um dos oito
consequências remotas. pecados mortais do homem civilizado (Lorenz,
As consequências culturais são obras do 1973/1991).
homem e não da natureza (salvo, Epicuro (s.n./1997, 323-270 a. C.)
evidentemente, na medida em que o homem é escreveu uma carta a seu discípulo Meneceu. A
também uma obra da natureza e não somente de carta é sobre a felicidade. Aí ele escreve que “o
sua própria invenção). As obras do homem são prazer é o início e o fim de uma vida feliz” (p.
as tecnologias, as artes, as ciências, os 37). Mas não se trata de um prazer qualquer. Já
medicamentos, os costumes, as vestimentas, as na abertura de sua missiva ele nos diz que
regras jurídicas e morais de convivência, os “ninguém hesite em se dedicar à filosofia
governos democráticos, etc., que visam, em enquanto jovem, nem se canse de fazê-lo
princípio, promover e garantir sua depois de velho, porque ninguém é demasiado
sobrevivência individual e coletiva, bem como jovem ou demasiado velho para alcançar a
seus prazeres. Mas, seja porque os interesses saúde do espírito. Quem afirma que a hora de
individuais se sobrepõem aos da coletividade, dedicar-se à filosofia ainda não chegou, ou que
seja porque as obras do homem possuem a ela já passou, é como se dissesse que ainda não
médio e longo prazo consequências imprevistas chegou ou que já passou a hora de ser feliz” (p.
e, frequentemente, ameaçadoras, para a sua 21, itálicos nossos). Nas palavras do filósofo,
própria sobrevivência, individual e coletiva, ser feliz é alcançar a saúde do espírito. Ou
bem como para o ventre que o gerou, a mãe ainda, o prazer é a saúde do espírito. E,
natureza, a relação do homem com sua cria continua a lição de Epicuro, a saúde do espírito
pede atenção e cuidado. consiste na serenidade.
À primeira vista, a sensibilidade evoluída
poderia ajudar o ser humano nessa tarefa. Mas A felicidade refere-se também à realização
a sensibilidade hedônica, talvez a maior dos prazeres do corpo. Mas isso deve ser feito
fragilidade humana, é a que requer o maior com moderação. O Jardim de Epicuro é prova
cuidado. Pois, sequer no curto prazo, essa dessa moderação. Viviam no jardim de sua
sensibilidade mede o risco das consequências casa, acampados em barracas, mestres e
para a sobrevivência individual e coletiva. O discípulos. Nesse jardim, “vicejava uma
conceito de evolução não significa progresso. autêntica comunidade, onde mestres e
Referindo-se à teoria da evolução, Nouel- discípulos viviam de maneira quase ascética,
Rénier (2007/2009) escreve que “não há plano, consumindo apenas as hortaliças que eles
e também não há progresso: nenhuma espécie é próprios cultivavam, às quais acrescentavam
superior a outra” (p. 32). O conceito de apenas pão e água, ou ainda queijo em ocasiões
evolução significa mudança e a sensibilidade especiais” (Lorencini & Carratore, 1997, p. 10).
evoluída surge como obra da evolução. Joyau e Ribbeck (1988) comentam que, para
Portanto, a evolução dá origem a um tipo de Epicuro, o sábio é aquele que “com um pouco
sensibilidade que é diferente da sensibilidade de pão e de água rivaliza com Júpiter em
ao valor de sobrevivência. Mas como o valor felicidade” (p. XII).
hedônico não significa progresso em relação ao A serenidade do espírito, a realização
valor de sobrevivência, ele não é superior a moderada dos prazeres do corpo, a amizade que
esse valor. E, na verdade, pode ameaçá-lo. caracteriza a relação de Epicuro com seus
O valor hedônico pode ameaçar a discípulos e colegas, no jardim, um homem
sobrevivência dos indivíduos, grupos sociais e bondoso, terno e amável, que auxilia seus
culturas. Seria até mesmo ocioso fazer uma irmãos, que trata delicadamente os escravos, aí
identificação e classificação das fontes de estão os valores do hedonismo do filósofo.
Sensibilidade, Felicidade e Cultura 291

Se afastarmos a vulgata hedonista que processos psicológicos que pertencem à esfera


difunde o hedonismo como o gozo dos prazeres da sensibilidade.
do corpo e do mundo, gozo imoderado, sem A sensibilidade não existe como
limites, e assimilarmos o hedonismo no sentido interioridade fechada sobre si mesma. Ao
de Epicuro, teremos aí uma ética da felicidade contrário, ela existe em relação com o
que pode iluminar a elaboração e comportamento. E como o comportamento
desenvolvimento de um projeto de educação da existe em relação com o mundo, a sensibilidade
sensibilidade. também existe em relação com o mundo.
A ética da felicidade, no sentido de Quando sentimos emoções, estamos sentindo o
Epicuro (s.n./1997), contém algumas lições que mundo.
podemos extrair diretamente de suas páginas. Relacionados às formas imediatas de
Diz o filósofo que “há ocasiões em que sensibilidade, sejam elas sensoriais, perceptuais
evitamos muitos prazeres, quando deles nos ou afetivas, o valor de sobrevivência das
advêm efeitos o mais das vezes desagradáveis; consequências naturais e o valor hedônico das
ao passo que consideramos muitos sofrimentos consequências reforçadoras fortalecem,
preferíveis aos prazeres, se um prazer maior enfraquecem ou modificam o comportamento.
advier depois de suportarmos essas dores por Mas a evolução nos legou uma ausência.
muito tempo” (p. 39). Epicuro pensa que, por Ela não criou uma sensibilidade a
sua própria natureza, todo prazer é um bem, e consequências remotas do comportamento.
que toda dor é um mal. Mas nem por isso Essa ausência representa um notável obstáculo
escolhemos todos os prazeres e evitamos todas a projetos com a finalidade de gestar
as dores. Sendo assim, convém “avaliar todos consequências culturais com valor de
os prazeres e sofrimentos de acordo com o sobrevivência para as gerações presentes e
critério de benefícios e danos. Há ocasiões em futuras.
que utilizamos um bem como se fosse um mal Nossa sensibilidade ao não acontecimento,
e, ao contrário, um mal como se fosse um bem” ou não existe, ou é pouco desenvolvida. O
(p. 39). projeto de educação da sensibilidade é o projeto
Nem todo prazer conduz à felicidade e de desenvolvimento da sensibilidade ao não
nem todo desprazer conduz à infelicidade. Há acontecimento. Refere-se à imaginação do
prazeres que conduzem à infelicidade e há ausente. Quais são os acontecimentos e os
desprazeres que conduzem à felicidade. Essa sentimentos ausentes que se vierem a acontecer
lição está esquecida. Pensamos que todo prazer poderão contribuir para o desenvolvimento de
é felicidade e que todo desprazer é infelicidade. relações pacíficas entre as pessoas, as culturas,
Konrad Lorenz (1973/1991) escreveu no e os países?
seu livro Os oito pecados mortais do homem Com esse projeto, pode-se, eventualmente,
civilizado que “os progressos tecnológicos e esclarecer a sensibilidade hedônica através do
farmacológicos favorecem uma crescente exercício cotidiano de uma ética da felicidade
intolerância contra tudo que provoca desprazer” que ilumine a busca de prazeres e desprazeres.
(p. 112). Um dos oito pecados mortais do Que descubra ou invente, não só prazeres que
homem civilizado consiste precisamente em não ameacem a sobrevivência dos indivíduos e
que “está desaparecendo a capacidade humana dos agrupamentos humanos, mas também
de procurar aquele tipo de alegria que somente desprazeres que no longo prazo sejam fontes de
se obtém superando obstáculos ao preço de um prazeres mais intensos do que os prazeres
pesado esforço” (p. 112). Esse é o pecado, imediatos que ameacem a sobrevivência das
continua Lorenz, que nos condena aos humanidades.
sentimentos e emoções fracas. Sentimentos e Que contribua, enfim, para enfrentar um
emoções fortes ou fracas enraízam-se na dos pecados mortais do homem civilizado: a
natureza de nossas relações com o mundo. incapacidade de tolerar o desprazer.

Conclusão Referências
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Sobre o autor:
José Antônio Damásio Abib - Professor Adjunto do Departamento de Filosofia, Universidade Federal de São
Carlos, SP. Pesquisador visitante do Programa de Pós-Graduação em Psicologia. Universidade Estadual de
Maringá/Fundação Araucária, PR.