You are on page 1of 6

INFLUÊNCIA NEGATIVA DOS JOGOS ELETRÔNICOS NO

DESENVOLVIMENTO COGNITIVO

Nádia Maria Gomes dos SANTOS1

Gleicione Aparecida Dias Bagne de SOUZA2

Recebido em: 05/10/2015 - Aprovado em: 14/02/2016 - Disponibilizado em: 30/07/2016

Resumo:
Este documento trata-se de um estudo realizado a partir de observações de cunho clínico diante da influência negativa
trazida pelo excesso de uso dos jogos eletrônicos e afins ao desenvolvimento cognitivo de crianças e adolescentes em
idade escolar. Focos direcionados ao desinteresse pelo novo e pelo relacionamento social, atraso no processo de
aprendizagem, danos orgânicos na esfera do sono e qualidade de vida. Há demanda também de falar da postura familiar
diante de tal risco iminente e silencioso.
Palavras-chave: Jogos eletrônicos; influência negativa; desenvolvimento cognitivo; crianças e adolescentes.

ELETRONIC GAMES AND THEIR BAD INFLUENCE ON COGNITIVE
DEVELOPMENT

Abstract:
This document has to do with a study carried out through the clinical observation of the damage excessive exposure to
electronic games, or anything related to them, can do to kids and teens at school age. The study focuses on: lack of
interest in new things and social interaction, a delay in the learning process, organic harm done by bad sleep and bad
life quality. It is also crucial to mention those kids and teens’ families’ attitude towards such impending and silent risk.
Keywords: Eletronic games; negative influence; cognitive development; kids and teens.

1
Pedagoga habilitada em Administração Escolar graduada pela UEMG – Campus Campanha/MG. Psicopedagoga pós-
graduada pelo Unis – Centro Universitário do Sul de Minas – Varginha MG.
2
Doutora em Educação pela Universidade do Minho – Portugal e convalidado pela Universidade de São Paulo.
E-mail: gleici@unincor.edu.br

458

Revista da Universidade Vale do Rio Verde, Três Corações, v. 14, n. 1, p. 458-463, jan./jul. 2016

p. mas não é o que se discorresse tal conteúdo. O filósofo Georges Canguilhem. aquela que do dano causado a toda estrutura de vida ainda tanto se faz para que consigamos aplicá- daquela criança ou adolescente. adolescentes e jovens. o fundamentado em propósitos que. autor de O normal e o patológico. quase que disfarçadamente.. 1. 2005. Preocupante e ignorada. já levantou algumas questões fundamentais sobre esse O presente artigo é resultado de um tema: haverá uma continuidade olhar clínico sobre crianças e adolescentes entre normal e patológico. 458-463. 14. (VALLEUR. vê na maioria dos adolescentes. é baseada principalmente na transferência Nada do que é novo e que não diz estabelecida entre educando e educador. A verdadeira intenção preocupante.35 apud CANGUILHEM) instigante o modo como tais sujeitos se encasulam diante da máquina se tornando avessos a tudo e a todos.. existirá uma diferença de natureza entre a causando risco ao desempenho escolar e até condição normal e a de enfermo? A pergunta costuma ser ao desenvolvimento cognitivo. desta coletânea de informações e colocações é Como trazer aquele sujeito de volta despertar a atenção de pais e educadores para para suas próprias vontades? O que fazer para o fator-risco que é o uso excessivo de conseguir atenção e interesse de um qualquer atividade – aqui em foco os jogos “bitolado” fora do mundo digital? Como eletrônicos – que altere de forma nociva o resgatar a criança ou o adolescente de uma cotidiano de crianças. O texto que se segue está Discretamente. v./jul. jan. a naturalidade com que responsáveis estão remediado seria o uso do jogo eletrônico encarando essa situação. p. la. unidos. O respeito à tecnologia de jogos lhes atrai. mas já resultaram neste artigo. Três Corações. objetivo é que o educando seja autor de sua 459 Revista da Universidade Vale do Rio Verde. atividade condicionada que nada tem haver Ao observar a dependência que se com o propósito educacional dos dias atuais? instaura nessa relação objeto-desejo-sujeito e Considerando que todo excesso causa danos. vício se instala de forma leve. Esse debate coloca a questão do limite entre o normal e o DESENVOLVIMENTO patológico. n. foi decisivo para que como distração e diversão. ao contrário. Não há consciência A educação moderna.INTRODUÇÃO Passam a agir quase que obrigatoriamente quando incomodados a deixar a máquina. sendo as variações mera questão de que fazem uso demasiado de jogos eletrônicos grau? Ou. 2016 .

possibilitaria uma intervenção nutrição matinal. jan. p. O jogador fica tão excitado que não tem de fazer um esforço de Mais uma vez o vício prematuro – se é que vontade para continuar jogando.” mas de maneira bem parcial. é a necessidade de exercitar a força presença de desconfortos existenciais que de vontade. n. Para alimentar-se seria necessariamente.. v. 2005.. repetitivos e pré. doses para alcançar os mesmos resultados. quanto à nutrição. Apresentar tornaram um ciclo vicioso. (VALLEUR. uma vez que o sujeito não sente dependência que o filho corre quando se torna adolescente e fome de qualquer outra coisa. entre o tipo de ligação precoce do filho com a mãe e os riscos de se alimentar. mas de novos preciso interromper o jogo. mesmo que em situações dos mesmos. envolvem dificuldades de relacionamento. 1. portanto. porque o jogo sinalizando algo que não vai bem. p. há a preocupação com o abster. 458-463. seu vigor orgânico diminui e. Inúmeras pesquisas investigam as relações que é passivo. (SETZER.. 14. consequentemente.] leva a um uso demasiado dos jogos em questão... necessita de um assim podemos nomear – pode estar vigoroso esforço interior para parar de jogar. objetos de dependência. Diferente da realidade apresentada pelo repetição de uma conduta [. no comportamento discordante do sujeito que determinados. isso se torna dificultoso. “o desejo de aprender cada vez mais o que é fenômeno da tolerância se manifesta quando a novo. Também não há esforço de concentração mental. sua função Importante acrescentar que o constante cognitiva. 2005. aquelas que se empreitada é o papel do educador.. além da atenção presa ao personalidade. p. A 460 Revista da Universidade Vale do Rio Verde. não há busca o jogo eletrônico como única opção. Aqui não se trata./jul. ao sujeito a motivação e despertar nele o Segundo Valleur (2005. 64) É preciso também levar em conta a marca da infância na Sem dúvida. Eles são feitos sem esforço e. É conhecido e imediata assim que se percebesse o exagero.37).aprendizagem. esgotamento dos efeitos de prazer ou de anestesia e a um consequente aumento das A vontade do jogador está ativa. 2016 . cientificamente esclarecido que o que dá Mas.39) “esquecendo-se” de comer. de novas dependências. exerce uma tremenda atração. já se direciona ao eletrônico. Há casos em que o adolescente. diante do também atarefado dia a dia prazer satisfaz. ao cuidado dos pais em observar os filhos quanto amanhecer. Ajudá-lo e instruí-lo nessa contrárias ao bem-estar. Três Corações. porque os movimentos que ele Outra face que pode estar escondida tem de executar são muito limitados. Ao contrário. muito menos adulto. aos excessos – aqui em especial aos jogos ignorando a rotina saudável de higiene e eletrônicos . sendo assim. p.

2016 . distrair e hora para descansar e dormir. p. essencialmente. como a televisão. diretamente. sonho traz. nos horários que deveriam dependendo do grau de agitação que esse ser estabelecidos.”. processo de adolescer individualizado.. Tal poder faz com que além do pouco tempo destinado ao descanso. o mesmo processo do adolescer para vivenciar a vem carregado de sonhos agitados dedicação patológica aos jogos eletrônicos.. 2007. jan.” O que realmente não pode é organismo comprovados e bem aceitos. se permita “estacionar” o satisfatório e sustentador. deslumbrado com as inovações o sujeito não consegue ter um sono tecnológicas. está em casa e quieto. afinal. Três Corações. uma dedicação patológica objetivos do jogo durante o sono. ainda pode ser favorável. v. As experiências são bem vindas desde que o ego seja Deve-se levar em consideração que renovado sem ilusões. influi. Porém. vem se tornando mais levando em conta.ausência dos pais devido à carga horária restaurador. 14. ultrapassar tal limite. Para Louzada (2007. mas elaboração que a criança está aprendendo a uma rotina saudável traz benefícios ao dominar. “não há nada mais problema disponibiliza aos filhos o acesso importante para a saúde e o desenvolvimento facilitado e sem medida. pois.. nos dias atuais o Obviamente. Hora para alimentar-se. possui. prolongando a duração da vigília e reforçando a vivências experimentais que darão ao sujeito tendência já existente de atrasar o sensação de ego renovado. o computador e o vídeo-game.] ao contrário. Sendo assim. apud funcional ou a qualquer outra situação. Não “sinaliza a aquisição de uma capacidade de necessariamente regidos como exército. hora para estudar.] (LOUZADA. a problemática para pais e educadores nas últimas décadas. hora para se socializar e segundo Nayara Ganhito (2007. e faz recomendações para que se máxima: “enquanto está no computador ou ensinem bons hábitos às crianças./jul. influência trazida das amizades quando as As novas tecnologias de entretenimento. 458-463.63). eis a negligência. p. sem o [. não se pode descartar a influência de fatores que mais se vê são crianças que passam o socioculturais na expressão do atraso de fase da adolescência. o adolescente.55) falsas impressões de poder. 1693). LOCKE. Crianças e adolescentes precisam de um sono 461 Revista da Universidade Vale do Rio Verde. nos ajudam a compreender por que essa questão devido acompanhamento e instrução paternos. estabelecendo sono [. p..” vídeo-game. n.. 1.. Sem dizer da que o sono. estimulam o cérebro de forma Esse adolescer vem dotado de muito eficiente. transmitindo uma necessidade de realizar os Portanto.

Motivar a Ressalto que se bem utilizado. Educadores devem significar educação dentro de casa e do ambiente e fazer uso do que é favorável ao processo escolar. Não julgo pais e forma psicopedagogicamente correta o modo educadores como displicentes ou negligentes como o sujeito percebe seu processo. 462 Revista da Universidade Vale do Rio Verde. busco a atenção e o cuidado dos Diante da demanda. função do patológico. mas carinhosa. os pais devem mesmos em lidar com a situação ou não encarar a postura familiar e exercê-la de possibilitar que o “vício” se estabeleça. o eletrônico criança a conhecer e se encantar pelo novo a pode até servir como ferramenta a favor da cada momento. n. o modo como é utilizado e sempre ativo para que se possa conduzir de suas consequências. 458-463. fazer com que crianças e adolescentes percebam que para se ter prazer não é preciso o exagero. Enfim. despertar a curiosidade do sujeito para o conhecimento visando o desenvolvimento. As crianças e adolescentes por exposição do conteúdo. jan. forma direcionada. O quanto essa incompreensões. crianças e adolescentes estão em franco adolescente ou jovem. p. 1. sim. é preciso respeitar o modo como cada um passa por suas fases de Como se pôde observar ao longo da maturação. e também acolher e amadurecimento. Considerando que cada sujeito tem sua CONSIDERAÇÕES FINAIS singularidade. O olhar clínico deve estar juventude. Três Corações./jul. o que não podem é assistir direcionar os pais e educadores a uma conduta ao demasiado desinteresse pelo saudável em reversiva do ponto de vista patológico. e. a preocupação é com serem os precursores de mudanças da a instalação silenciosa da dependência aos sociedade acabam por receberem críticas e jogos eletrônicos e afins. Espero que tal estudo contribua para ensino-aprendizagem. e sim. às cada vez mais acentuada pelo excesso vezes se descobre um tanto tarde. Tal estudo trata da patologia influência negativa é danosa ao cognitivo. sem burlar os limites. Evidente banalizado da conduta do sujeito – jogos que se chegar a tal ponto. os profissionais da eletrônicos/desenvolvimento cognitivo. v. É imprescindível o Não taxo o eletrônico como o mal da resgate do diálogo. Pais e área estarão – e deverão estar – preparados educadores devem aceitar a idéia de que suas para receber e intervir por aquela criança. que formemos crianças e adolescentes mais Executar de forma lúdica a rotina saudável e conscientes e preparados. 2016 . 14.

Meios eletrônicos e educação: uma visão alternativa. Fevereiro/2005. Engrenagens da dependência. SETZER. 3. Revista Viver Mente e Cérebro. Marc. Ano XIV. p. RANÑA./jul. 14. 50-57. Revista Viver Mente e Cérebro. n. Atrasados e sonolentos. Março/2007. LOUZADA. v. Fernando Mazzilli. jan. Ano XIII. nº 155. Dezembro/2005. 458-463. 42- 49. nº 145. GANHITO. 463 Revista da Universidade Vale do Rio Verde. p. Março/2007. Quando a cuca vem pegar. Wagner. São Paulo. São Paulo. Três Corações. nº 170. São Paulo. Os desafios da adolescência. 58- 65. 32- 39. Nayara Cesaro Penha. p. Ano XIV. São Paulo: Escrituras Editora e Distribuidora de Livros Ltda. Revista Viver Mente e Cérebro. 1. nº 170. p. Revista Viver Mente e Cérebro. Valdemar W. 2005. São Paulo. p. 2016 . ed. Ano XIV.REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS VALLEUR.