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© desta ediyáo, Boitempo, 201 G

© Editions La Découvenc, París, France, 2009, 2010

Tí mio original: La Nouvdle raisM du mond~. Esraí sur la société rtéolihérale

Coordenardo editorial lwma Jinlúngs


EdirJo lsabella Matcatti
Arristfncia editorial lhaisa Burani
Coordenardo de produrJo Livia Campos SUMÁRIO
Tradurdo Mariana Echalar
Preparafáo l;rederico Ventura
&visdo lhais RimktiS
Capa Ronaldo Alves
sobre foto de Tracy Olson (2005)
Diagramafáo Antonio Kehl
Equipe de apoio
Allan Jones, Ana Yumi Kajiki, Arrur Rcnzo, Bibiana Lcme, Eduardo Marques, Elaine Ramos, Giselle Porto, Ivam Oliveira,
K.im Doria, Leonardo Fabri, Marlene Baptista, .Maurício Barbosa, Renato Soarcs, Thaís Barros, 'Ihlio Candiotto

CIP-BRASIL. C.J\TALOGAC::ÁO NA PUBLICAC::ÁO


SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ Prefácio aedic;:áo brasileira ............................ ;.......................................... 7
D229n
Dardot, Pierre
Agradecimentos .................................................................................... 11
A nova razáo do mundo : ensaio sobre a sodedade neoliberal/ Pierre Dardot ; lntrodus:ao aedis:ao inglesa (2014) ....................................................... 13
Christian Laval; traduc;.áo Mariana Echalar.- l. cd.- Sáo Paulo: Boitempo, 2016.
(Estado de sido)
Tradw;:áo de: La nouvelle raison du monde: essai sur la société néolibérale l A REFUNDAyÁO INTELECTUAL .................................................... 35
Indui índice
ISBN 978-85-7559-484-1 ' 1' Crise do liberalismo· e nascimento do neo liberalismo ...................... 37
l. Filosofia marxista. 2. Comunismo. l. Laval, Christian. II. Echalat, Mariana. III. Série.
t 2 O Colóquio Walter Lippmann ou a reinvens:ao do liberalismo ......... 71
16-30315 CDD: 320.ül
3 O ordoliberalismo entre "política económica'' e "política
CDU: 321.01
de sociedade" ................................................................................ 1O1
4 O hornero empresarial ................................................................... 133
Evedada a reproduc;:áo de qualquet parte deste livro sem a expressa autoriza,:ao da editora.
5 Estado forre, guardiao do direito privado ...................................... 157
Cet ouvrage a bénéficié du soutien a
Cet ouvrage, publié dans le cadte du Programrne d'Aide la Publication
a
des Programmes d'.Aide la Publication 2014 Carlos Drummond de Andrade de la médiath&quc, bénélicie du soutien du II A NOVA RACIONALIDAD E ........................................................... 187
de l'Institut franc;ais. Ministere franc;a.is des Affaires ÉtrangCres et du Développemem international.
Este livro comou com o apoio do Este livro, publicado no ámbito do Programa de Apoio aPublicayáo 2014 6 A grande virada ............................................................................. 189
Programa de Apoio aPublicao;áo do Carlos Drummond de Andrade da mediatcca; como u com o apoio do .Minlstério
Instituto Franci:s. france.s das Relayócs Exteriores e do Desenvolvimenro InternacionaL 7 As origens ordoliberais da constru~ao da Europa ........................... 245
8 O governo empresarial .................................................................. 271
.41l\ MéDJaTHtQUe
W MaisondePr:ance 9 A fábrica do sujeito neoliberal ....................................................... 321

Conclusáo- O esgotamento da democracia liberal ............................. 377


1' edi,:ao: abril de 2016

BOITEMPO EDITORIAL
Índice onomástico .............................................................................. 403
Jinkings Editores Assodados Ltda. Índice analítico ................................................................................... 409
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1

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PREFÁCIO ÁEDigAO BRASILEIRA

U m sistema pós-democrático
O neo liberalismo tem urna história e urna coerencia. Combate-lo exige
náo se deixar iludir, fazer urna análise lúcida dele. O conhecimento e a
crítica do neoliberalismo sáo indispensáveis. A esquerda radical e alternativa
'Páo' pode contentar-se com denúncias e slogans, muitas vezes confusos,
Parciais o u at~mporai~: Assim; é errado dizer ··que estamos lidando com
o "capitalismo", sempre igual a ele mesmo, e com suas co:rltradi<;:óes, que
inevitavelmente levariam a ruína final. Eficácia política pressupóe urna
análise precisa, documentada, circunstanciada e atualizada da situayáo.
{:· O capitalismo é indissociável da história de suas metamorfoses, de seus
descarrilhamentos, das lutas que o transformam, das estratégias que o
renovam. O neoliberalisrno transforrnou profundamente o capitalismo,
transformando profundamente as sociedades.
Nesse sentido, o neoliberalisrno náo é apenas urna ideologia, urn tipo
de política econOrnica. É urn sistema normativo que amplio u sua influencia
ao mundo inteiro, estendendo a lógica do capital a todas as relayóes sodais
e a todas as esferas da vida.
A obra que voce lerá, e que finalmente está disponível em portugues gra-
a
yas editora Boitempo, foi escrita no periodo de gestayáo da crise financeira
mundial de 2008. Foi publicada no momento ern que se podia constatar
a arnplidáo dos estragos causados pelo neoliberalisrno. A convicyáo que
tínhamos ao escreve-la posstÚa fundamento: a crise náo foi suficiente para
fazer o neoliberalismo desaparecer. Muito pelo conirário, a crise apareceu
para as classes dominantes como urna oportunidade inesperada. Melhor,
como um modo de governo. Ficou demonstrado q~e o neoliberaliSmo,
8 Q A nova razáo do mundo Prefácio aedi¡;:áo brasileira @ 9

apesar dos desastres que engendra, possui urna notável capacidade de au- Além dos fatores sociológicos e políticos, os própri_os móbeis subjetivos
tofortalecimento. Ele fez surgir um sistema de normas e instituiyóes que da mobilizayáo sáo enfráquecidos pelo sistema neoliberal: a ayáo coletiva
comprime as sociedades como um nó de Jorca. As crises náo sáo para ele urna se tornou mais difí_cil, porque os indivíduos sáo subinetidos a um regime
ocasiáo para limitar-se, como aconteceu em meados do século XX, mas um de concorréncia em. todos os níveis. As formas de gestáo na empresa, o de-
meio de prosseguir cada vez com mais vigor sua trajetória de ilimitaráo. O semprego e a precariedade, a dívida e a avaliayáo, sáo poderosas alavancas
capitalismo, com ele, náo parece mais capaz de encontrar compensayóes, de concorrénda interindividual e-definem novas modos de subjetivayáo. A
contrapartidas, compromissos. A maneira como a crise de 2008 foi provi- polarizayáo entre os que desistem e os que sáo bem-sucedidos mina a solida-
soriamente superada, com urna inundayáo de moeda especulativa emitida riedade e a cidadania. Absten<_;:áo eleitoral, dessindicalizayáo, racismo, tuda
pelos bancos centrais, mostra que a lógica neoliberal escapa de maneira a
parece conduzir destruityáo das condiyóes do coletivo e, por consequéncia,
extraordinariamente perigosa. ao enfraquecimento da capacidade de agir contra o neoliberalismo.
O acúmulo de tensóes e problemas náo resolvidos, o refor<_;:o de ten- O sofrimento causado por essa subjetivayáo neo liberal, a mutilayáo que
déncias desigualitárias e desequilíbrios especulativos preparam dias cada ela opera na vida comum, no trabalho e fora dele, sáo tais que náo. podemos
vez mais difíceis para as populayóes. No entamo, o caráter sistémico do excluir a possibilidade de urna revolta antineoliberal de grande amplitude
dispositivo neoliberal torna qualquer inflexáo das políticas conduzidas ern -muitos paíseS. Mas náo devemos ignorar as mutayóes subjetivas pro-
muito difícil, ou mesmo impossível, no próprio ámbito do sistema. Com- vocadas pelo neoliberalismo que operarn no sentido do egoísmo social, da
preender politicamente o neoliberalismo pressupóe que se compreenda a' nega<_;:áo da solidariedade e da redistribuiyáo e que podern desembocar em
natureza do pro jeto social e político que ele representa e promove desde rnovimentos reacionários ou até mesmo neofascistas. As condiyóes de um
os anos 1930. Ele traz em si urna ideia multo particular da democraciai¡. ~onfronto de grande ~plitude-entre lógicas contrárias e foryas adversas em
que, sob muitos aspectos, deriva de um antidemocratismo: o direito pri;, escala mundial estáo se avolumando.
vado deveria ser isentado de qualquer deliberayáo e qualquer controleú A esquerda somente poderá tirar partido disso se souber remediar a
mesmo soba forma do sufrágio universal. Essa é a razáo pela qual a lógica pane de imaginaráo que vem sofrendo. A faléncia histórica do comunismo
náo controlada de autofortalecimento e radicalizayáo do neoliberalismct;, de Estado contribuiu em multo para sua ruína. Se quisermos ultrapassar o
obedece, hoje, a um cenário histórico que náo é o dos anos 1930, quando neo liberalismo, abrindo urna alternativa positiva, ternos de desenvolver urna
ocorreu urna revisáo das do u trinas e das políticas do "laissez-foire". Esse capacidade coletiva que ponha a imaginayáo política para trabalhar a partir
sistema fechado impede qualquer autocorreyáo de trajetória, em particular ~das experimentayóes e das lutas do presente. O princípio do comum que ema-
em razáo da desativa<_;:áo do jogo democrático e até mesmo, sob certos as- na hoje dos movimentos, das lutas e das experiéncias remete a um sistema
pectos, da política como atividade. O sistema neoliberal está nos fazendo a
de práticas diretamente contrárias racionalidade neoliberal e capazes de
entrar na era pós-democrática. revolucionar o conjunto das relayóes sociais. Essa nova razáo que emerge das
Na auséncia de margens de manobra, o confronto político com o práticas faz prevalecer o uso comum sobre a propriedade privada exclusiva,
sistema neo/ibera! enquanto tal é inevitável. -Mas esse confronto taffibém o autogoverno democrático sobre o comando hierárquico e, acima de tuda,
é problemático, porque é difícil reunir as condiyóes em que ele se dá. O torna a coatividade indissociável da codecisáo - náo há obriga<_;:áo política
sistema neoliberal é instaurado por for<_;:as e poderes que se apoiam uns nos sem participayáo em urna mesrna atividade. Como escrevemos nas últimas
outros em nível nacional e internacional. Oligarquias burocráticas e polí- linhas deste livro, precisamos trabalhar por urna outra razáo do mundo.
ticas, multinacionais, atores financeiros e grandes organismos econ6micos
Pierre Dardot e Christian Lava!
internacionais formam urna coalizayáo de poderes concretos que exercem
Fevereiro de 2016
certa funyáo política em escala mundial. Hoje, a relayáo de fon;:as pende
inegavelmente a favor desse bloca oligárquico.
AGRADEClMENTOS

Este livro é devedor, em prirneiro lugar, de todas aquelas e todos aqueles


que participaram nos últimos anos do seminário "Question Marx", no qual
foram apresentadas e discutidas nossas pesqUisas sobre o neoliberalismo.
Queremos agradecer especialmente aos participantes que enriqueceram
nossa reflexio coletiva com suas apresentayóes, em particular Gilles Dostaler,
Agnes Labrousse, Dominique Plihon, Pascal Petit e Isabelle Rochet. Deve-
mos· muito a nosso editor, Hugues Jallon, que acompanha d€sde o início a
pequena aventura do seminário "Question Marx'' e nos ajudou enormemente
com seus conselhos para a composiyáo da obra. Agradecernos igualmente a
Bruno Auerbach, pela releitura atenta e paciente do original.
Mas nada disso teria sido possível serna amizade fiel e o apoio intelectual
de El Mouhoub Mouhoud, que se associou desde o início a redayáo deste
livro, tampouco sem a ajuda táo constante quanto preciosa deAnne Dardot,
que várias vezes releu e organizo u o original, sem nunca medir esforyos.
INTRODUgÁO Á EDI<;;ÁO INGLESA (2014) *

''Ainda náo terminamos com o neo liberalismo" era a primeira frase da


Introduyáo aprimeira ediyáo francesa deste livro, publicada em janeiro de
2009. Na época, ·queríamos dissipar o quanto antes as ilusóes que surgiram
coma falencia do banco Lehman Brothers, em setembro de 2008. Muitos
pensavam, na Europa e nos Estados Unidos, que a crise financeira soara as
bad~adas finai~ do neoliberalisrno e que seria. a vez do "retorno do Estado"
e da regulayáo dos mercados. Jos~ph Stiglitz perc~rria o mundo anunciando
"o fim do neoliberalismo", e autoridades políticas, como o presidente frances
Nicolas Sarkozy, proclamavam a reabilitayáo da intervenyáo governamental
na econornia.
Perigosas, urna vez que poderiam suscitar urna desmobilizayáo política,
essas ilusóes náo tinham razóes para nos deixar admirados: baseavam-se
num erro de diagnóstico amplamente compartilhado, o qual nossa obra
tinha o objetivo de combater. Engarrar-se sobre a verdadeira natureza do
neoliberalismo, ignorar sua história, náo enxergar suas profundas motivac;:óes
sociais e subjetivas era condenar-se acegueira e continuar desarmado diante
do que náo ia demorar a acontecer: longe de provocar o enfraquecimento
das políticas neoliberais, a crise conduzíu a seu brutal fortalecimento, na
forma de planos de austeridade adotados por Estados cada vez mais ativos

* Originalmente publicado na Franqa, ero 2009, este livro teve runa ediyáo inglesa,
reduzida e adaptada em 2013 e revista em 2014. Embora a presente traduc;áo tenha
sido feita a partir do original frances, a ediyáo que ora se apiesenta ao leitor brasileiro
incorporou, por meio de cotejo e coma supervisáo dos autOres, a reduyáo, as adap-
tayóes e as correqóes da ediyáo inglesa de 2014, entre elas, esta introduyáo revista e
ampliada. (N. E.)
Introdw;:áo aedis:áo inglesa (2014) • 15
14 ~ A nova razáo do mundo

na promo~o da lógica da concorréncia dos mercados financeiros. Parecia- Se admitirmos que sempre há "intervenc;:áo", esta é unicamente no
-nos, e boje nos parece mais do que nunca, que a análise da génese e do sentido de urna ac;:áo pela qual o Estado mina os alicerces de sua própria
funcionamento do neoliberalismo é condiyáo para urna resisténcia eficaz existéncia, enfraque~~~_do a missáo do servic;:o público previamente confiada
em escala europeia e mundial. Ainda que pretenda respeitar os critérios da a ele. "Intervencionismo" exclusivamente negativo, poderíamos dizer, que
pesquisa científica, este livro nao é académico no sentido tradicional do nada mais é que a face política ativa da preparayáo da retirada do Estado
termo, mas pretende-se primeiro, e acima de tuda, urna obra de esdareci- por ele próprio, portante, de um-anti-intervencionismo como prindpio.
mento político sobre essa lógica normativa global que é o neoliberalismo. Náo é nossa intenc;:áo contestar a existéncia e a difusáo dessa ideologia,
Ero urna palavra, a compreens:lo do neoliberalismo é, a nosso ver, urna tampouco negar que ela tenha alimentado as políticas económicas impulsio-
questao estratégica universal. nadas macic;:amente a partir dos anos Reagan e Thatcher e encontrado emAlan
Greenspan, o "maestro de Wall Street", seu adepto mais fervoroso - com as
consequéncias que todos conhecemos3• O que Joseph Stiglitz chamou com
U m erro de diagnóstico justic;:a de "fanatismo do mercado" é, aliás, o que os periódicos Wáll Street
A partir do fim dos anos 1970 e do início dos anos 1980, o neoliberalismo ]ournal, Ihe Economist e todos os equivale.rites ao redor do mundo sabem
foi interpretado em geral como se fosse ao mesmo tempo urna ideologia e fomentar melhor entre seus leitoreé. Mas o neoliberalismo está muito dis-
urna política económica diretamente inspirada nessa ideologia. O núcleo duro tante de se resumir a um ato de fé fanático na naturalidade do mercado. O
dessa ideo logia seria constituído por urna identificac;:áo do mercado coro., grande erro cometido por aqueles que anunciam a "morte do liberalismo" é
urna realidade natural 1 • Segundo essa ontologia naturalista, bastada deixar · c.<;mfundir a rep~·esentay:lo ideológica que aconipanha a implantac;:áo· das po-
essa realidade por sua própria canta para ela alcanc;:ar equilíbrio, estabilida-',.· líticas neoliberals coma ~ormatividade prática que caracteriza propriamente
de e crescimento. Qualquer intervenyáo do governo só poderia desregulan o neoliberalismo. Por isso, o relativo descrédito que atinge h~je a ideologia
e perturbar esse curso espondneo, logo convinha estimular urna atitude ~;_ do /aissez:foire náo impede de forma alguma que o neoliberalismo predomine
abstencionista. O neo liberalismo compreendido dessa forma apresen ta-se. mais do que nunca enquanto sistema normativo dotado de cena eficiéncia,
como reabilitas;áo pura e simples do laissezjaire. Considerado do ponto de Í; isto é, capaz de orientar internamente a prática efetiva dos governos, das em-
vista de sua implantac;:áo política, foi analisado de pronto de forma muito presas e, para além deles, de milhóes de pessoas que náo tém necessariamente
estreita, segundo a perspicaz observac;:áo de Wendy Brown: consciénda disso. Este é o ponto principal da questáo: como é que, apesar
das consequéncias catastróficas a que nos conduziram as políticas neoliberais,
Como instrumento da política económica do Estado, como desmantelamen-
essas políticas sáo cada vez mais ativas, a ponto de afundar os Estados e as
to dos auxílios sociais, da progressividade do imposto e out~as ferramentas
de redistribuü;:áo de riquezas de um lado e como estÍmulo da atividade sem sociedades em crises políticas e retrocessos sociais cada vez mais graves? Como
entraves ao capital mediante a desregulamenta<;:áo do sistema de saúde, do é que, há mais de trinta anos, essas mesmas políticas vém se desenvolvendo
trabalho e do meio ambiente de ourro. 2 e se aprofundando, sem encontrar resisténcias suficientemente substanciais
para colocá-las em xeque?

Esse credo naturalista, que era o de Jean-Baptiste Say e Frédéric Bastiat, foi per-
feitamente formulado nos seguintes termos pelo ensaísta francCs Alain Mine: "O
3
capitalismo nao pode ruir, ele é o estado natural da sociedad e. A democracia náo é A lei, de Frédérlc Bastiat [trad. Ronaldo da Silva Legey, 2. ed., Rio de Janeiro,
o estado natural da sociedade. O mercado, si m" (Cambio 16, Madri, 5 dez. 1994). Instituto Liberal, 1991], era o livro de cabeceira de Ronald Reagan no início dos
2 anos 1960. Ver Alain Laurent, Le libéralísme amérícaín- (Paris, Les Belles Lettres,
Wendy Brown, Les habits neufi de la polítíque mondíale, néolibéralisme et néoconser-
2006), p. 177.
vatísme (trad. Christine Vivier, Philippe Mangeot e lsabelle Saint-Saens, Paris, Les
4
Prairies Ordinaires, 2007), p. 37. Esse ensaio incisivo nos ajudou muito a formular }oseph Stiglitz, Un autre monde: contre le fonatísme du marché (trad. Paul Chemla,
nossa própria compreensio do neoliberalismo. Paris, Fayard, 2006).
16 • A nova razáo do mundo Introdu!Táoaedls;áoinglesa(2014) • 17

A resposta náo é e náo pode ser limitada apenas aos aspectos "negativos" O neoliberalismo como racionalidade
das políticas neoliberais, isto é, a destrui¡;:áo programada das regularnentayóes
A tese defendida por esta obra é precisamente que o neoliberalisrllo,
e das instituiyóes. O neoliberalisrno náo destrói apenas regras, instituiyóes,
antes de ser urna ideologia ou urna política económica, é em primeiro lugar
direitos. Ele tambérn produz certos tipos de relayóes sociais, certas maneiras
e fundamentalmente urna raciona!idade e, como tal, tende a estruturar e
de viver, certas subjetividades. Em outras palavras, Corn Oneoliberalismo,
organizar náo apenas a a¡;:áo dos govequntes, mas até a própria conduta dos
o que está ern jogo é nada mais nada menos que a forma de nossa existéncia,
governados. A racionalidade neoliberal tem como característica principal a
isto é, a forma como somos levados a nos comportar, a nos relacionar corn
generalizayáo da concorréncia como norma de conduta e da. empresa como
os outros e com nós mesmos. O neoliberalismo define certa norma de vida
modelo de subjetivayáo. O termo racionalidade náo é ernpregado aqui como
nas sociedades ocidentais e, para além dela, em todas as sociedades que as
uro eufemismo que nos permite evitar a palavra "capitalismo". O neolibera-
seguern no caminho da "modernidade". Essa norma impóe a cada um de
lismo é a razáo do capitalismo contemporáneo, de um capitalismo desimpedido
nós que vivamos num nniverso de cornpetiyáo generalizada, intima os assa-
de suas referéncias arcaizantes e plenamente. assumido como construyáo
lariados e as populayóes a entrar erri luta econürnica uns contra os outros,
histórica e norma geral de vida. O neo liberalismo pode ser definido como
ordena as relayóes sociais segundo o modelo do mercado, abriga a justificar
o conjunto de discursos, práticas e dispositivoS que determinam urn novo
desigualdades cada vez mais proflUldas, muda até o indivíduo, que é instado a
modo de governo dos homens segundo o princípio universal da concorréncia.
conceber a si mesmo e a comportar-se corno urna empresa. Há quase um teryo
O conceito de "racionalidade políticá' foi elaborado por Michel Foucault
de século, essa norma de vida rege as políticas públicas, comanda as relayóes .,
econümicas mundiais, transforma a sociedade, rernodela a subjetividade. & .
ern rela,<;io direta coro as pesquisas que dedicou a.questio da "governamen-
tali,tlade". Assim, ~·ncontram'üs na explanayáo do CU,!-'SO dado no College de
circunstáncias desse sucesso normativo foram descritas inúmeras vezes. Ora,,
France em 1978-1979 - publicado com o título de Nascimento'da biopolí-
sob seu aspecto político (a conquista do poder pelas foryas neoliberais), ora sob
ticé - urna apresentayio do "plano de análise" escolhido para o estudo do
seu aspecto económico (o rápido crescimento do capitalismo financeiro glo-
neoliberalismo: trata-se, diz Foucault, ern resumo, "de um plano de análise
balizado), ora sob seu aspecto social (a individualizayáo das relayóes sociais
possível- o da 'razio governarnental', isto é, dos tipos de racionalidade que
as expensas das solidariedades coletivas, a polarizayáo extrema entre ricos e J'
sao empregados nos procedirnentos pelos quais se dirige, através de urna
pobres), ora sob seu aspecto subjetivo (o surgirnento de um novo sujeito,
adrninistrayáo de Estado, a conduta dos homens" 7• Urna racionalidade
o desenvolvimento de novas patologias psíquicas). Tuda isso sao dimensóes
política é, nesse sentido, urna racionalidade "governarnental".
complementares da nova razáo do mundo. Devemos entender, por isso, que
essa razáo é global, nos dais sentidos que pode ter o termo: é "mlUldial", no
sentido de que vale de lmediato para o mundo todo; e, ademais, longe de
limitar-se a esfera económica, tende a totalizayáo, isto é, a "fazer o ffilUldo" obra dedicada ao caráter "relativo" e "impessoal" do amor ao próximo no calvinis-
por seu poder de integrayáo de todas as dimensóes da existéncia humana. mo, encontramos a expressio "configuras;áo racional do cosmo social" (ibidem,
p. 175). Nesse sentido, e desde que o social náo seja reduzido a apenas ma.is urna das
Razáo do rnnndo, mas ao mesmo tempo urna "razáo-mundo" 5 •
dimensóes da existénda humana, poderíamos dizer que a razáo neoliberal é muito
precisamente a raza o de nosso "cosmo social".
6
5
A ideia de urna razáo configuradora do mundo encontra-se em Max Weber, embota Michel Foucault, Naissance de la biopolitique (Paris, Seuil!Gallimard, 2004) [ed.
se refira essencialmente a ordem económica capitalista, esse "imenso cosmo" que bras.: Nascimento da biopolitica, trad. Eduardo Brandáo, Sáo Paulo, Martins Fontes,
"impóe ao indivíduo pego nas armadilhas do mercado as normas de sua atividade 2008]. Esse curso constitui a referéncia central pela qua! se ordena toda a análise do
económica" (L'éthique protestante et !'esprit du capitalisme, trad. Isabel! e Kalinowski, neoliberalismo ensaiada nesta obra. -
7
Paris, Champs Flammarion, 2000, p. 93-4 [ed. bras.: A ética protestante e o espírito Ibidem, p. 327; reproduzido em Dits etécrits JI (1976-1988) (Paris, Gallimard, 2001),
do capitalismo, trad. José Marcos Mariani de Macedo, ed. AntOnio Flávio Pierucd, p. 823. Sobre a nos;áo de racionalidade política, ver ainda esta última obra, p. 818
Sáo Paulo, Companhia das Letras, 2012]). Contudo, numa passagem dessa mesma e L645-6,
Introdw;:áo aedi<;:áo inglesa (2014) " 19
18 o A nova razáo do mundo

nder ainda sobre o sentido dessa no'tio de "governo": requer liberdade como condi'táO de possibilidade: governar náo é governar
D evemos noS este
" 'rata-se [... J na~ 0 da instituic;áo 'governo', mas da atividade que consiste em contra a liberdade o u a despeito da libetdade, mas governar pela liberdade,
1
reger a Conduta dos homens no interior de um quadro e com instrumentos de isto é, agir ativamente-no espa'to de liberdade dado aos indivíduos para que
Estado"s. Foucault retoma várias vezes essa ideia do governo como atividade, estes venham a conformar-se por si mesmos a certas normas.
e náo como institui'táo. Assim, no resumo do curso do College de France Abordar a questáo do neoliberalismo pela via de urna reflexáo política
intitulado Do governo dos vivos*, essa no'táo é "entendida no sentido amplo sobre o modo de governo modifica necessariamente a compreensáo que se
de técnicas e procedimentos destinados a dirigir a conduta dos homens" 9• tem dele. Em primeiro lugar, permite refutar análises simplistas em termos de
Ou entáo, no prefácio a História da sexualidade**, há este esclarecimento "retirada do Estado" diante do mercado, já que a oposiyáo entre o mercado
retrospectivo de sua análise das práticas punitivas: ele se diz interessado, e o Estado aparece como um dos principais obstáculos i caracteriza'táo exata
acima de rudo, nos procedimentos do poder, ou seja, "na elaborayáo e na do neo liberalismo. Ao contrário de certa percepyáo imediata, e de certa ideia
implantayáo desde o século XV1I de técnicas para 'governar' os indivíduos, demasiado simples, de que os mercados conquistaram a partir de fora os
isto é, para 'conduzir sua conduta', e isso em domínios táo diferentes quanto Estados e ditam a política que estes devem seguir, foram antes os Estados,
a escala, o Exército, a fábrica'' 10 . O termo "governamentalidade" foi intro- e os mais poderosos em primeiro lugar, que introduziram e universalizaram
duzido precisamente para significar as múltiplas formas dessa atividade pela na economia, na sóciedade e até neles próprios a lógica da concorrencia e
qual homens, que podem o u náo pertencer a um governo, buscam conduzir o modelo de empresa. Náo podemos esquecer jamais que a expansáo das
a conduta de o u tras homens, isto é, governá-los. ' _finan'tas de mercado, assirn como o financiamento da divida pública nos
É certo que o governo, longe de remeter adisciplina para alcan'tar o mais ni'ácados de titul9s, s~o fruto de políticas deliberadas. Como se vé até mesmo
íntimo do indivíduo, visa na verdade a obter um autogoverno do indivíduq,; na atual crise na Europa, os EstadOs adotam políti~as altamente "interven-
isto é, produzir cerro tipo de relayáo deste consigo mesmo. Em 1982, Foucaul,t cionistas", que visam a alterar profundamente as relayóes sociais, mudar o
dirá que se interessa cada vez mais pelo "modo de ayáo que um indivídu~ papel das institui'tóes de proteyáo social e educayáo, orientar as condutas
exerce sobre si mesmo por meio das técnicas de si", a ponto de ampliar sua criando urna concorrencia generalizada entre os sujeitos, e isso porque eles
primeira concep'táo de governamentalidade, excessivamente centrada na~ próprios estáo inseridos num campo de concorréncia regional e mundial que
técnicas de exercício do poder sobre os otltros: "Chamo de 'governamenta- os leva a agir dessa forma. Mais urna vez, comprovamos as grandes análises
lidade' o encontro entre as técnicas de domina~o exercidas sobre os outros e de Marx, Weber ou Polanyi segundo as quais o mercado moderno náo atua
as técnicas de si" 11 • Assim, governar é conduzir a conduta dos homens, desde sozinho: ele foi sempre amparado pelo Estado. Em segundo lugar, a via da
que se especifique que essa conduta é tanto aquela que se tem para consigo reflexáo política permite compreender que é urna rnesma lógica normativa
mesmo quanto aquela que se tem para com os outros. É nisso que o governo que rege as rela'tóes de poder e as maneiras de governar em níveis e domínios
muitos diferentes da vida econ6mica, política e social. Ao contrário de urna
leitura do mundo social que o divide em campos aut6nomos, o fragmenta em
s Michel Foucault, Naissance de la bíopolitíque, cit., p. 324; reproduzido em Dits et
microcosmos e tribos separadas, a análise em termos de governamentalidade
écrits JI, cit., p. 819.
destaca o caráter transversal dos modos de poder exercidos no interior de
* Trad. Eduardo Brandáo, Sáo Paulo, Martins Fontes, 2014. (N. E.)
urna sociedade numa mesma época.
'! Michel Foucault, Dits et écrits JI, cit., p. 944.
** Trad. Maria Thereza da CostaAlbuquerque, Rio de Janeiro, Paz e Terra, 2014-2015,
3 v. (N. E.)
Os limites do marxismo
10 Michel Foucault, Dits etécrits JI, cit., p. 1.401.
11 Idem, "Les techniques de soi", em Dits et écríts JI, cit., p. 1.604. É nesse sentido Enfatizando o regime disciplinar imposto a todos pela lógica normativa
amplo que será tomado aqui o termo "govcrnamentalidade". que se encarno u ern instituiyóes e dispositivos de poder cujo alcance boje é
il
20 " A nova razáo do mundo
Introduc_;:.áo aedis:áo inglesa (20 14) • 21

mundial, nosso pensamento difere um pouco de muitas das interpretayóes a f6rceps a lei táo pouco natural da concorréncia e o modelo da empresa.
do neo liberalismo dadas até o momento. Náo contestamos que as políticas Para isso, é preciso en&aqÚecer as institui'tóes e· os direit?s que o movimento
neoliberais foram impostas primeiro pela rnais crirninosa das violéncias no operário conseguiu implantar a partir do fim do século XIX, o que pressupóe
Chile, na Argentina, na Indonésia e em outros lugares, corno apoio decisi- urna guerra langa, contínua e muitas vezes silenciosa, qualquer que seja a
vo dos países capitalistas, a comeyar pelos Estados Unidos. O trabalho de amplidáo do "choque" que sirva de pretexto para determinada ofensiva.
Naomi Klein, muito bern documentado a respeito desse ponto, continua Portante, é fundamental compieender como se exerce hoje a violéncia
obrigatório 12 • Nesse aspecto, há urna frase de Marx que náo envelheceu: comum, rotineira, que pesa sobre os indivíduos, amaneira de Marx tal vez,
"Na história real, corno se sabe, o papel principal é desernpenhado pela quando observava que a dominayáo do capital sobre a· trabalho recorria
conquista, a subjugayáo, o assassínio para roubar, ern suma, a violéncia" 13 • apenas excepcionalmente a violéncia extraeconómica-- e exercia-se mais
Esse parto na violéncia revela, em prirneiro lugar, o fato de que se trata de comumente na forma de urna "coeryáo muda'' inserida nas palavras e nas
urna guerra que se trava por todos os meios disponíveis, inclusive o terror; coisas 14 . Todavia, náo se trata mais de se perguntar como, de maneira geral,
e que se aproveita de todas as ocasióes possíveis para implantar o novo as relayóes capitalistas impóem-se aconsciéncia operária como "leis naturais
regime de poder e a nova forma de existéncia. Por isso, se reduzíssernos o evidentes"; trata-se de compreender, mais especificamente, corno a gover-
neo liberalismo aaplicayáo do programa económico da Escala de Chicago namentalidade neoliberal escora-se num quadro normativo global que, em
pelos métodos da ditadura militar, enveredaríarnos pelo caminho errado. no me da liberdade e apoiando-se nas rnargens de manobra concedidas aos
Convém náo confundir estratégia geral corn métodos particulares. Esú:~s indivíduos, orienta de maneira nova as condutas, as escolhas e as práticas
dependem das circunstancias locais, das relayóes de foryas e das fases desses indivídwps.
históricas: podern tanto empregar a brutalidade do putsch militar cornq' a Assirn, náo 'podernos nos coütentar com as 'liyóes de Karl Marx nem
seduyáo eleitoreira das dasses rnédias; podem usar e abusar da chantagem de Rosa Luxemburgo para desvelar o segredo dessa estranha faculdade do
do ernprego e do crescimento e aproveitar os déficits e as dívidas como pré- neoliberalismo de se estender por toda a parte, apesar de suas crises e das
texto para as "reformas estruturais", como fazern há muito ternpo o Fun4o revoltas que suscita em todo o mundo. Por razóes teóricas básicas, a inter-
Monetário Internacional (FMI) e a Uniáo Europeia. O questionamento pretayáo marxista, por mais atual que seja, revela-se de urna insu:ficiéncia
da democracia toma caminhos diversos, que nem sernpre tém a ver corn gritante nesse caso. O neoliberalisrno emprega técnicas de poder inéditas
a "terapia de choque", mas, sirn, e sobretudo, com o que Wendy Brown sobre as condutas e as subjetividades. Ele náo pode ser reduzido aexpansáo
chamou, corn justiya, de processo de "desdemocratizayáo", que consiste espontánea da esfera mercantil e do campo de acumulayáo do capital. Náo
ern esvaziar a democracia de sua substincia sem a extinguir formalmente. que se deva defender, contra o determinismo monocausal de certo marxismo,
Náo há dúvida de que há urna guerra senda travada Pelos grupos oligár- a relativa autonomia da política, simplesmente porque o neoliberalismo,
quicos, na qual se rnisturarn de forma específica, a cada ocasiáo, os interesses por muitos de seus aspectos doutrinais e nas políticas que desenvolve, náo
da alta administrayáo, dos oligopólios privados, dos economistas e das rnídias separa "a economia" do quadro jurídico-institucional que determina as
(sem mencionar o Exército e a Igreja). Mas essa guerra visa náo aPenas a práticas próprias da "ordem concorrencial" mundial e nacional.
mudar a economia para "purificá-la'' das más ingeréncias públicas, como Embora tenham previsto a crise financeira de 2008, as interpretayóes
também a transformar profundamente a própria sociedade, impondo-lhe marxistas nem sempre conseguem captar a novidade do capitalismo neo li-
beral: fechando-se numa concepyáo que faz da "lógica do capital" um motor
aut6nomo da história, elas reduzem a história a urna repeti'táo dos mesmos
12
Nao mi Klein, The Shock Doctrine: The Rise ofDisaster Capitalism (Londres, Penguin,
roteiros, com as mesmas personagens vestidas com 'novas figurines e as
2008).
13 Karl Marx, O capitaL crítica da economía política, Livro I: O processo de produráo do
capital (trad. Rubens Enderle, Sáo Paulo, Boitempo, 2013), cap. 24, p. 786. 14
Ibídem, p. 808.
22 s A nova razáo do mundo Introdw;:áo aedis:áo inglesa (2014) o 23

mesmas intrigas situadas em novas cenários. Em o u tras palavras, a história a


ou seu foco genuíno e como se o recurso intencionalidade de um su jeito
do capitalismo nunca é rnais do que o desenvolvimento de urna mesma fosse o princípio último de toda inteligibilidade histórica.
esséncia sempre idéntica a si mesma, aquém de suas formas fenomenais e Mas, se a expl~c_ayáC? ~ sedutora, é justamente porque, contrariando as
fases, e, no fundo, leva de crise em crise até a ruína final. O neo liberalismo, liyóes de Marx, ela toma os resultados históricos de wn processo por objetivos
entendido desse modo, é a um só tempo a más-Cara e o instrumento das decididos lago de início com plena consciéncia. A incontestável polarizayio
finanyas, as quais sáo o sujeito histórico real. Para Gérard Duménil e Domi- de riqueza e pobreza a que levou a implantayao das políticas neoliberais basta
nique Lévy, o neoliberalismo "restaurou as regras mais estritas do capitalismo" por si só para explicar sua natureza. Esta, no fundo, seria apenas a eterna
("Neoliberalism has restored the strictest rules of capitalism")15, permitindo tendéncia do capital de se autovalorizar mediante a expansio da mercado tia.
ao poder do capital continuar sua marcha multissecular sob formas que Nio teria acontecido nada de muito diferente desde 1867, quando Marx
se renovam por meio das crises. O próprio David Harvey, embora muito exp6s o jogo das leis da acwnulayio capitalista, fazendo a mercado da, forma
mais cuidadoso com a novidade do neoliberalismo, continua a aderir a um elementar da riqueza burguesa, remontar aacumulayáo original que produz
esquema explicativo muito pouco original 16 • Para ele, a crise da acumulayáo as condiyóes históricas da transformayio da rnercadoria e do dinheiro em
nos anos 1960, marcada pela estagflayao e pela diminuiyáo dos lucros, teria capital. Na medida em que a análise de Marx faz da relayáo salarial como
incitado a burguesia a ir a"desforra", empregando por ocasiáo dessa crise, relayio mercantil sui generis o corayáo do capitalismo, essa crítica tende
e para sair dela, o projeto social formulado pelos teóricos da Sociedade logicamente a privilegiar a relayáo mercantil como modelo de toda relayao
Mont-Pelerin. O Estado neoliberal, para além de seus trayos específicos., e social - o neoliberalismo equivaleria, assim, a mercantilizayio implacável
a despeito de seu intervencionismo, continua a ser visto como um simple>s de;}oda a socied~de. É o q1:1e Duménil e Lévy silstentam quando esc'revem:
instrumento nas maos de urna classe capitalista desejosa de restaurar u~a "Final/y neoliberalism is indeed the bearer ofa processofgeneral commodification
relayao de forya favorável vis-lt-vis aos trabalhadores e, desse modo, aumeG-- ofsocial relationships" ["em última análise, o neoliberalismo é ~ portador de
tar sua parte na distribuiyao de renda. O aumento das desigualdades e ·b um processo de mercantilizayio generalizada das relayóes sociais"] 19 •
crescimento da concentrayao de renda e patrimOnio que podernos constatar David Harvey concorda largamente com essa tese. O que ele designa
hoje confirmam a existéncia dessa vontade inicial 17 • No fundo, rudo resick corno "acumulayio por despossessáo", expressio que sob sua caneta reme-
na resposta de Duménil e Lévy a perguma "Quem lucra com o crime?" te ao significado mais profundo de "neoliberalizayáo" da sociedade, tem
("W'ho benefits from the crime?") 18 : como sao as finanyas que lucram, sao como efeito a expansáo a priori ilimitada da rnercantilizayáo20 • Contudo,
elas que desde o princípio estio no comando da manobra. Ternos aqui um ele acrescenta urna pincelada ao quadro- mérito que lhe deve ser reconhe-
paralogismo recorrente que consiste em confundir o beneficiário do crime cido - quando sublinha que os métodos da "suposta acumulayáo original"
com seu autor, como se O surgimento de wna nova fofrna social devesse perduraram muito além do surgimento do capitalismo industrial e quando
ser reconduzido a consciéncia de um o u mais estrategistas como sua fonte considera Karl Polanyi o historiador do capitalismo mais pertinente para
se compreender como, ainda hoje, a intervenyio pública é necessária para
construir mercados e criar "mercadorias fictícias". Mas o verdadeiro motor
15
Ver Gérard Duménil e Dominique Lévy, Capital Resurgent: Roots of the Neo/ibera! da história continua a ser o poder do capital, que subordina o Estado e a
Revolution (trad. DerekJeffers, Cambridge, Harvard University Press, 2004), p. l. sociedade, colocando-os a serviyo de sua acurnulayio cega.
¡r, Ver David Harvey, ABriefHistory ofNeoliberalísm (Oxford, Oxford University Press,
2005) [ed. bras.: O neoliberalismo: história e implicapóes, Sáo Paulo, Loyola, 2008].
17
Harvey toma amplamente esse quadro explicativo de Dwnénil e Lévy, utilizando os
19
gráficos construídos pelos autores para mostrar a evolw;:áo da distribuis:áo de renda lbidem, p. 2.
no capitalismo neoliberal. 20
Ver a ses:áo intitulada "The Commodificacion of Everything", em David Harvey, A
18
Título do capítulo 15 de Gérard Dum~nil e Dominique Lévy, Capital Resurgent, cit. BriefHistory ofNeoliberalism,. cit., p. 165 e seg.
Imrodw;:áo aedi!;:áo inglesa (2014) • 25
24 .. A nova razio do mundo

Esse esquema, amplamente compartilhado pelo movimento altermun- económico a partir de dentro. "O inconsciente dos economistas", como diz
dialista, rem algumas fraquezas. Além de fazer da economia a única dimeri- Foucault, que é na verdad~ o inconsciente de todo econopücismo, seja liberal,
sáo do neoliberalismo, pressupóe que a burguesia é um sujeito histórico seja marxista, é preci:¡:a_mente a instituiyáo, e é justamente a institui~o que
que perdura no tempo, que preexiste as relayóes de Juta que engaja coro as o neoliberalismo, em particular em sua versáo ordoliberal, quer reconduzir
outras dasses e que semente preciso u alertar, influenciar e corromper os a wna posiyáo determinante21 •
políticos para que estes abandonassem as políticas keynesianas e as fórmu- Tocamos aqui num ponto fund3mental, cuja implicayáo política tem a
las de compromisso entre o trabalho e o capital. Em Harvey, esse cenário ver com a questáo da possibilidade de sobrevivencia do capitalismo alérn de
entra em contradiyáo com o reconhecimenro de que as dasses mudaram suas crises, urna possibilidade que, como bem sabemos, fOi discutida nova-
profundamente ao longo do processo de neoliberalizayáo- a ponto de novas mente no auge da crise de novembro de 2008. Se nos Colocarmos sob urna
burguesias terem surgido diretamente dos aparelhos comunistas em certos perspectiva marxista, a lógica única e necessária da acumulayáo do capital
países (oligarcas na Rússia, príncipes vermelhos na China)- e é incoerente determina a unicidade do capitalismo: "Há na verdade apenas um capitalis-
coro a análise bastante precisa das formas específicas de intervenyáo do mo, porque há apenas uma lógica do capital", como observa Foucaul-f2 • As
Estado neoliberal. contradiyóes que a sociedade capitalista manifesta em todas as épocas sáo as
Na realidade, náo houve um grande compló nem urna doutrina pré- contradiyóes do capitalismo tout court. Por exemplo, se seguirmos a análise
-fabricada que os políticos teriam aplicado com cinismo e determinayáo para do Livro I de O capital, a consequencia da lei geral da acumulayáo capitalista
satisfazer as expectativas de seus poderosos amigos do mundo dos negócios.''A é uma tendéncia acentralizayáo dos capitais, da qual a concorrencia, junta-
lógica normativa que acabo u se impendo constituiu-se ao longo de batalhas mepte como cré<;lito, é a p,dncipal alavanca. A tendéncia acentralizayáo está,
inicialmente incertas e de políticas frequentemente tateantes. A sociedad-e portante, na prÓpria lógica da cüncorréncia com.O urna "lei natural",. a da
neoliberal em que vivemos é fruto de wn processo histórico que náo ~oi "atrayáo do capital pelo capital" 23 • Mas se pensarmos como os ordoliberais-
integralmente programado por seus pioneiros; os elementos que a compóe.Q-l e, depois deles, como os economistas "regulacionistas" 24 - que a figura atual
reuniram-se pouco a pouco, interagindo uns com os outros, fortalecendo do capitalismo, longe de poder se deduzir diretamente da lógica do capital,
uns aos ourros. Da mesma forma como náo é resultado direto de Ulll:<l náo passa de "urna figura económico-institucional" historicamente singular,
doutrina homogenea, a sociedade neoliberal náo é reflexo de urna lógica do devemos convir, entáo, que a forma do capitalismo e os mecanismos da crise
capital que suscita as formas sociais, culrurais e políticas que Ihe convém a sáo efeito contingente de certas regras jurídicas, náo consequencia neces-
medida que se expande. A explicayáo marxista clássica esquece que a crise sária das leis da acumulayáo capitalista. Por conseguinte, sáo suscetiveis de
de acumulayáo a que o neoliberalismo supostamente responde, Ionge de ser ser superadas acusta de transformayóes jurídico-institucionais. Ern última
urna crise de um capitalismo sernpre igual a si mesmo, terh a particularidade análise, o que justifica o intervencionismo jurídico reivindicado pelo neo-
de estar ligada as regras institucion~s que até entáo enquadravam cerro tipo liberalismo é que, quando se lida com um capitalismo singular, é possível
de capitalismo. Consequentemente, a originalidade do neoliberalismo está
no fato de criar um novo conjunto de regras que definem náo apenaS outro 21
Paremos aqui urna observas:áo que tem sua importánda. Muitos críticos do neolibe-
"regime de acumulayáO'', mas também, mais amplamente, outra sodedade. ralismo tratam com enorme desprezo o objeto de seus ataques, como se náo tivessem
Tocamos aqui num ponto fundamental. Na concepyáo marxista, o capita- nada para aprender com seus adversários teóricos. Evidentemente, essa é urna atitude
m nito contrária aque Marx adotou em rela¡¡áo aos defensores do capitalismo liberal,
lismo é, antes de rudo, um "modo de produyáo" económico que, corno tal,
assim como a de Foucault coro relayio aos neoliberais.
é independente do direito e gera a ordern jurídico-política de que necessita 22
Michel Foucault, Naíssance de la biopolitique, cit., p. 170.
a cada estágio de seu autodesenvolvimenro. Ora, longe de pertencer a urna 23 Karl Marx, O capital, Livro I, cit., cap. 23, p. 702.
"superestrutura'' condenada a exprimir o u obstruir o económico, o jurídico 2
,¡ Ver Robert Boyer e Yves Saillard, Regulation 1heory: lhe State of the Art (Londres,
pertence de imediato as relayóes de produyáo, na medida em que molda o Roudedge, 2002).
26 ~ A nova razáo do mundo lntrodw;:áo aediqáo inglesa (2014) ~ 27

intervir nesse conjunto de maneira a inventar outro capitalismo, diferente do termo. E é precisamente o que se pode observar por- toda a parte. A
do primeiro, o qual constituirá urna configurayáo singular determinada por exigéncia de "competitividade" torno u-se um. princípio político geral que
wn conjunto de regras jurídico-políticas. Em vez de um modo econ6mico comanda as reformas em todos os domínios, mesmo os mais distantes dos
de prodw;:áo cujo desenvolvimento é comandado por urna lógica que age enfrentamentos conierdais no mercado mundial. Ela é a expressáo mais clara
a maneira de urna "leí natural" implacável, o capitalismo é um "complexo de que estamos lidando náo coro urna "mercantilizayio sorrateira'', mas com
económico-jurídico" que admite urna multiplicidade de figuras singulares. urna expansáo da racionalidade de_ mercado a toda a· existéncia por meio da
É por isso também que devemos falar de sociedade neo liberal, e náo apenas generalizayáo da forma-empresa. É essa "racionalizayáo da existéncia" que,
de política neoliberal o u economia neo liberal - embora seja inegavelmente afinal, como dizia Margaret Thatcher, pode "mudar a alma e o corayáo".
urna sociedade capitalista, essa sociedade diz respeito a urna figura singular Nesse sentido, basta pensarmos nos profundos estragos subjetivos que vinte
do capitalismo que exige ser analisada como tal em sua irredutível espedfi- anos de "berlusconismo" produziram na Itália para termos urna ideia bastante
cidade. Vemos, pois, que a análise da governamentalidade neoliberal atinge precisa dessas transformayóes. Embora se distinga de um marxismo estreito,
indiretamente, como que por tabela, a concepyáo marxista do capitalismo essa análise vai ao encontro de urna das intuiyóes mais profundas de Marx,
ero seu essencialismo. que compreendeu muito bem que um sistema econ6mico de produc;:áo era
Náo é só isso. A interpretayáo marxista do neoliberalismo nem sempre também um sistema antropológico de produyio.
compreendeu que a crise dos anos 1960-1970 náo era redutível a urna "crise
econ6mica'' no sentido clássico. Nesses termos, ela é estreita demais paia
captar a extensáo das transformayóes sodais, culturais e subjetivas intro-
A crise generalizada de um modo de governar os homens
duzidas pela difusáo das normas neoliberais em toda a sociedade. Porqu~, o , Enfatizan:do/ a di'ffie~~áo produtora do neo liberalismo, essa análise nos
neoliberalismo nio é apenas urna resposta a urna crise de acumulayáo, ~le permite pensar a crise atual náo mais como consequéncia de u'm "excesso de
é urna resposta a urna crise de governamentalidade. É, na verdade, nes~e finanyas", um efeito da "ditadura dos mercados" ou, entáo, urna "colonizayáo"
contexto muito específico de contestayáo generalizada que Foucault situa dos Estados pelo capital. A crise que arravessamos aparece como aquilo que
o advento de urna nova maneira de conduzir os indivíduos que preten~e é: urna crise global do neoliberalismo como modo de governar as sociedades.
satisfazer a aspirayáo de liberdade em todos os domínios, tanto sexual e cul- A crise atual do euro náo é urna simples crise "monetária", as crises dos
tural como econ6mico. Para resumirmos, ele teve a intui<;:áo de que o que se países do sul da Europa náo sáo simples crises "oryarnentárias", assim como a
decidia naqueles anos era urna crise aguda das formas até entáo dominantes crise mundial que comeyou no outono de 2008 náo é urna simples crise "eco-
de poder. Compreendeu, contra o economicisrno, que nio se podem isolar nO mica''. Considerada isoladamente, a primeira pode aparecer como urna es-
as lutas dos trabalhadores das lutas das mulheres, dos estudantes, dos artis- pécie de réplica atrasada da crise dos subprimes, urna transiyáo entre runa crise
tas e dos doentes, e pressentiu que a reformulayáo dos modos de governo da dívida privada e urna crise da dívida pública, sob o efeito de mercados
dos indivíduos nos diversos setores da sociedade e as respostas dadas as especulativos náo controlados. Mas essa visáo é estreita, ou mesmo engano-
lutas sociais e culturais estavam encontrando, com o neoliberalismÓ, urna sa. A crise mundial é urna crise geral da "governamentalidade neoliberal",
possível coeréncia teórica e prática. Interessando-se de perta pela história isto é, de um modo de governo das economias e das sociedades baseado na
do governo liberal, ele mostra que aquilo que chamamos desde o século generalizayáo do mercado e da concorréncia. A crise financeira está profun-
XVIII de "economía'' está no fundamento de um conjunto de dispositivos damente ligada as medidas que, desde o fim dos anos 1970, introduziram
de controle da populayáo e de orientayáo das condutas (a "biopolítica") na esfera das finanyas norte-americanas e mundiais novas regras baseadas na
que váo encontrar no neoliberalismo urna sistematizayáo inédita. Coro generalizayáo da concorréncia entre as instituiyóes bari,cárias e os fundos de
este último, a concorréncia e o modelo empresarial constituem um ~odo investirnentos, o que os levo u a aumentar os níveis de risco e espalhá-los pelo
geral de governo, muito além da "esfera económica'' no sentido habitual resto da economía para embolsar lucros especulativos colossais.
28 ~ A nova razáo do mundo lntrodw;:áo aedi~áo inglesa (2014) e 29

Tornou-se comum relacionar a crise ao "novo regime de acumula~áo nível dos descontos compulsórios. Enquanto princípio geral de governo, a
financeira", caracterizado por urna instabilidade crónica que assiste a for- "competitividade" representa precisamente a extensáo da norma neoliberal
mayáo sucessiva de "bolhas especulativas" e a seu esto uro, mas é raro que se a todos os países, a todos os seto res da ayáo pública, a todos os domínios da
diga que a financeirizayáo do capitalismo em escala mundial é apenas um vida social, e é a iiñplementayáo dessa norma que leva a diminuiyáo _da
dos aspectos de um conjunto de norffias que envolverarn progressivamente demanda por toda parte simultaneamente, sob o pretexto de tornar a
todos os aspectos da atividade económica, da vida social e da política dos oferta mais "competitiva'', e aconcorréncia entre Os assalariados dos países
Estados desde o fim dos anos 1970. A autonomia e o inchayo da esfera europeas e dos outros países do mundo, o que acarreta deflayáo salarial e
financeira náo sáo as causas primeiras e espontáneas de um novo modo de desigualdades crescentes. A atitude da Renault na Espanh~ é muito esclare-
acumulayáo capitalista. A hipertrofia financeira é antes o efeito historicamen- cedora nesse sentido: apesar de elogiar a competitividade dos funcionários
te identificável de políticas que estimularam a concorréncia entre os atores espanhóis diante dos funcionários franceses, na Espanha a direyáo do grupo
nacionais e mundiais das finanyas. Acreditar que os mercados financeiros náo hesita em exaltar o exemplo da Roménia para pedir aos funcionários
escaparam um belo dia da influéncia política é puro e simples conto da que trabalhem de gra10a aos sábados 25 •
carochinha. Foram os Estados e as organizayóes económicas mundiais, em Como explicar essa corrida suicida para ver quem será o campeáo da
estreita conivéncia com os atores privado?, que criaram as regras favoráveis austeridade? Devem:os culpar a falta de lucidez ou, mais profundamente,
a esse rápido crescimento das financ;:as de mercado. vé-la como consequéncia de urna engrenagem concorrencial? No interior
Se a crise financeira norte-americana m ostro u sobre que bases instáveis de um sistema europeu baseado na concorréncia e numa moeda única, a
e desigualitárias funcionava o novo capitalismo mundial (especulayáo cínica pr~ssáo especula~iva dos investidores privados. sobre o mercado da dívida
das finanyas de mercado, sucessáo de bolhas cada vez maiores, polarizac;:&o p~blica e a pressio da:s agéricias de classificayáo de.risco, sem falar da impos-
crescente entre as classes, submissáo a dívida bancária das populayóes d~s sibilidade de desvalorizayáo da moeda, sio todos aspectos de urna mesma
dasses pobres e dos países periféricos etc.), a atual crise europeia most;í¡l lógica disciplinadora com urna temível eficácia para rebaixar os salários e
que os fundamentos da conúruyáo europeia ("a ordem da concorrénd~ diminuir a proteyáo social.
livre e náo distorcida") conduzem a assimetrias cada vez maiores enrie É incompreensível a obstinayáo, ou mesmo o fanatiSmo, com que os
países mais o u menos "competitivos". Porque é exatamente o imperativ~ especialistas dos governos, da Uniáo Europeia e do FMI perseguem essa tal
da "competitividade", enaltecida por toda a parte como o único "remédio", política de "austeridade", se náo levarmos em canta que eles estáo presos a
que explica a especificidade da atual crise europeia. A corrida acompetitivi- um quadro normativo, tanto europeu como mundial, composto de regras
dade, na qual a Alemanha se lanyou no início dos anos 2000 com sucesso de direito públicas e privadas e "consensos" com valor de compromisso para
crescente, nada mais é do que o efeito da implementayáo de um princípio o futuro que eles próprios construíram ativamente durante décadas. Náo
inserido na "Constituiyáo europeia": a competiyáo entre as economias eu- paciendo e náo querencia romper com esse quadro, sáo empurrados para
ropeias, combinada com a existéncia de urna moeda única gerida por um adaptar-se cada vez mais aos efeitos de sua própria política anterior. Nesse
banco central que garante a estabilidade dos prec;:os, constitui na vérdade sentido, os planos de austeridade que diminuem a renda da grande massa da
a própria base do edifício comunitário e o eixo dominante das políticas populayáo sáo inseparáveis da vontade de gerir as economias e as sociedades
nacionais. Isso significa que todo país-membro é livre para usar o dumping como empresas "lanyadas na competiyáo mundial".
fiscal mais agressivo a fim de atrair as multinacionais e os contribuintes Aqui e ali, nos espayos ande a crítica ainda é possível, condenam-se os
mais ricos, é livre para diminuir os salários e a proteyáo social a fim de criar "erras" das políticas europeias de austeridade, que, repetindo os equívocos
empregos a custa de seus vizinhos, é livre para tentar baixar os custos de
produc;:áo deslocando toda o u parte de sua produyáo e é livre para redúzir 25 Ver "En France, Renault veut une compétitivité espagnole", Le Monde, Paris, 8 nov.
as despesas públicas, inclusive com saúde e educayáo, a fim de reduzir o 2012.
30 " A nova razáo do mundo Introdu¡;:áo aedi¡;:áo inglesa (2014) • 31

dos anos 1930, agravam a depressáo onde quer que sejam adoradas e lev'am de indivíduos: o movimento dos estudantes do Québec pós em evidéncia a
sociedades inteiras a urna regressáo social que até pouco tempo atrás era lógica infernal do endividamento para toda a vida que -seria imposto pela
inimaginável. Paul Krugman aconselha há anos um aumento da despesa alta brutal das taxas de matrícula. O que está em jogo nesses exemplos é a
pública para pór a máquina novamente em movimento26 . Mas devemos ir construyáo de urna-nova subjetividade, o que chamamos de "subjetivayáo
mais longe na análise para compreender por quais encadeamentos fatais contábil e financeira", que nada mais é do que a forma mais bem-acabada
os governos "técnicos" da Grécia, da Espanha, de Portugal ou da Itália, da subjetivayáo capitalista. Trata-se, na verdade, de 'produzir urna relayáo
mas também o governo "socialista" da Franya, foram levados a implantar do sujeito individual com ele mesmo que seja homóloga a relayáo do ca-
políticas táo contrárias ao "bom senso", já que reduzem a demanda e ani- pital com ele mesmo ou, mais precisamente, urna relayáo do sujeito com
quilamos empregos quando deveriam ser expansionistas e gerar atividade. ele mesmo como um "capital humano" que deve crescer indefinidamente,
Boas almas keynesianas ou pós-keynesianas podem até alegar que essas isto é, um valor que deve valorizar-se cada vez mais. Como podemos ver,
políticas violentamente aplicadas no sul da Europa sáo náo apenas contrá- náo sáo tanto as teorias falsas que devem ser combatidas, ou as condutas
rias ao bem-estar da maioria, como fatais para o crescimento e até para a imorais que devem ser denunciadas, mas é todo um quadro normativo
sobrevivéncia da construyáo europeia, mas náo conseguiráo convencer com que deve ser desmantelado e substituído potoutra "razáo do mundo". Esse
simples argumentos os dirigentes europeus, os meios financeiros e todos é o desafio das luras sociais atuais, que decidiráo a continuayáo - ou até
os especialistas e os jornalistas que se encarregaram de justificar o suicídio mesrno a radicalizayáo - dessa lógica neoliberal o u, ao contrário, seu fim.
coletivo. Continuar a acreditar que o neoliberalismo náo passa de urna Quanto ao Estado, coro o qual alguns ainda contam ingenuamente
"ideologia", urna "crenya", um "estado de espírito" que os fatos objetivos, . "fJa.ra '-'controlar", os mercados, a crise m ostro u até que ponto ele se fez o
devidamente observados, bastariam para dissolver, como o sol dissip<:l a coProdutor volu:'ntário dás normas de competitividade, acusta de todas as
névoa matinal, é travar o combar~ errado e condenar-se a impoténcia.''.o considerayóes de salvaguarda das condiyóes mínimas de bem-estar,.saúde
neoliberalismo é um sistema de normas que hoje estáo profundame~Í:e e educayáo da populayáo. Mas a crise mostrou também que o Estado, pela
inscritas nas práticas governamentais, nas políticas institucionais, nos ~~­ defesa incondicional que fazia do sistema financeiro, era parte interessada
tilos gerenciais. Além disso, devemos deixar claro que esse sistema é ran;so nas novas formas de sujeiyáo do assalariado ao endividamento de massa
mais "resiliente" quanto excede em muito a esfera mercantil e financefi·a que caracteriza o funcionamento do capitalismo contempodneo. O Estado
em que reina o capital. Ele estende a lógica do mercado muito além das neoliberal náo é, portante, um "instrumento" que se possa utilizar indi-
fronteiras estritas do mercado, em especial produzindo urna subjetividade ferentemente para finalidades contrárias. Enquanto "Estado-estrategista",
"conrábil" pela criayáo de concorréncia sistemática entre os indivíduos. codecididor dos investimentos e das normas, ele é urna peya da máquina
Pense-se em particular na generaliza<;áo dos métodos de avalia<;áo no ensino que se deve cornbater.
público oriundos da empresa: a longa greve dos professores de Chicago Atingindo a Europa, a crise mundial agiu como um indicador brutal
em setembro de 2012 obsrruiu, ao menos momentaneamente, um projeto e impiedoso. Pós a nu as ilusóes sobre as quais a Europa se construiu até
de avaliayáo dos professores de acordo com o desempenho de seus al unos hoje: a crenya de que se podia construir a Europa política sobre o éxito
em testes elaborados sob medida para permitir a avaliayáo dos professores econümico e a prosperidade material, "constitucionalizando" as normas
por meio da avaliayáo dos alunos, coro a possibilidade de demissáo do do equilíbrio oryamentário, da estabilidade monetária e da concorrencia.
professor cujos alunos náo apresentassem resultados satisfatórios. Pense-se A crise da EUropa é urna crise de seus fundamentos. Náo basta "reorientar"
igualmente como o endividamento crOnico é produtor de subjetividade e a Europa em dire<;áo ao crescimento, ou "resolver o déficit democrático"
acaba se tornando um verdadeiro "modo de vida" para centenas de milhares da Europa, comando o grande mercado com a superestrutura institucional
de um Estado federal sem mexer em suas fundayóes. NáÜ é o telhado da "casa
26
Paul Krugman, End this Depression Now (Nova York, W. W Norton & Co., 2012). Europa" que é frágil, mas suas fundayóes, que estáo rachando de todos os
32 " A nova razáo do mundo Imrodw;ao aedis:ao inglesa (2014) 33

lados. É preciso compreender quáo íntimamente os tres aspectos da Europa por definic;áo a- ou antiliberal, é um dever apoiá-la, sem levar em canta
atual estáo ligados entre si: constitucionalizayáo da concorrencia e da regia seu conteúdo o u, pior airida, prejulgando favoravelmente esse conteúdo28 •
de ouro orc;amentária, "federalismo executivo" consagrando a supremacia O "primeiro ~ib_e:r?lismo", aquel e que toma carpo no século XVIII,
do intergovernamental e a importancia secundária dos direitos sociais27• Em caracteriza-se pela elaborac;áo da questáo dos limites do governo. O governo
particular, o fato de que o Parlamento náo tenha nenhum poder de iniciativa liberal é enquadrado por "leis", mais ou menos conjugadas: leis naturais
no campo legislativo, que a Comissáo Europeia, instancia náo eleita, seja a que fazem do homem o que ele é ''naturalmente" e devem servir de marco
única habilitada a propor leis e disponha de poder de veto em matéria de para a ac;áo pública; leis económicas, igualmente "naturais", que devem
legislac;áo e que essa mesma Comissáo Europeia e o Conselho dos Ministros circunscrever e regular a decisáo política. Contudo, por mais finas e Bexíveis
(que náo tem nenhuma responsabilidade ern relac;áo ao Parlamento) sejam que sejam as do u trinas do direito natural e da dogmática do laissez-faire, as
considerados órgáos independentes, encarregados de promover o "interesse técnicas utilitaristas do governo liberal tentam orientar, estimular e combinar
geral", náo é em absoluto um concurso fortuito de circunstancias; ao contrá- os interesses individuais para faze-Ios servir ao bem geral. Ernbora nesse
rio, existe nisso wna coerencia institucional fone, que repousa no prindpio primeiro liberalismo haja cena concepc;áo comum do homem, da sociedade
antidemocrático seglUldo o qual a independencia em relac;áo aos cidadáos é a e da história, e a questáo da limitac;áo da a~áo governamental seja central,
melhor garantia para perseguir o interesse geral. Assim, é preciso refundar a unidade do liberalismo "clássico" será cada vez mais problemática, como
a Europa, isto é, no sentido exato do termo, dar a ela novas fundac;óes. A mostram os camihhos divergentes que os liberais seguiráo no século XIX,
diferenc;a dos tratados precedentes, esse ato náo pode ser negociado e im- entre o dogmatismo do laissez-faire e ceno reformismo social, urna diver-
plantado por urna instancia intergovernamental, nem mesmo depender do g~p.cia que resultará num~ crise cada vez mais triar cada das amigas ceftezas29 •
rnonopólio de um Parlamento. Ele só pode ser um ato dos cidadáos europ~us. A primeira p~rte &~sta obra mostra que, desde s·eu registro de nascimento,
na grande crise dos anos 1930, o neoliberalismo introduziu ~ma distáncia,
o u até um claro rompimento, em relac;áo aversáo dogmática do liberalismo
Liberalismo clássico e neoliberalismo que se impós no século XIX. A gravidade da crise desse dogmatismo forc;ava
Para além da questáo política, abordar o estudo do neo liberalismo pela wna revisáo explícita e assumida do velho laissez-faire. Combater o socialismo
governamentalidade náo deixa de levar a certos desvíos em relac;áo as aborda- e todas as versóes do "totalitarismo" exigía um trabalho de refundac;áo das
gens dominantes o u as linhas de divagem estabelecídas. Esta obra propóe-se bases intelectuais do liberalismo. É nessa conjuntara de crise económica,
examinar os caracteres diferenciais que especificam a governamentalidade política e doutrinal que se opera urna refundac;áo "neoliberal" da doutrina
neoliberal. Portanto, náo se trata aqui de procurar restabelecer urna simples que também náo conduz a urna doutrina completamente unificada. Duas
continuidade entre liberalismo e neoliberalismo, coffio se costuma fazer, grandes correntes váo se esboc;ar a partir do Colóquio Walter Lipprnann,
mas sublinhar o que constitui propriamente a novidade do neoliberalismo, em 1938: a corrente do ardo liberalismo alemáo, representada sobretudo por
o que implicar ir contra a tendencia que consiste em apresentar o neolibe- Walter Eucken e Wilhelm R6pke, e a corrente austro-americana, represen-
raJismo como um "retorno" ao liberalismo original ou urna "rest~urac;áo" tada por Ludwig von Mises e Friedrich A. Hayek.
a
deste último após o longo eclipse que se seguiu crise dos anos 1890-1900. A segunda parte do livro nos permitirá estabelecer que a racionalidade
As consequencias políticas dessa confusáo para a esquerda sáo facilmente neo liberal que realmente se desenvolve nos anos 1980-1990 náo é a simples
discerníveis. Como toda regulamentac;áo da vida económica é considerada
28
Esse füi um dos argumentos mais invocados pelos líderes sodalistas que tomaram a
defesa daracifica~áo do Tratado Europeu durante a campanha do referendo na Franya.
27
Lembramos que o Artigo 210-2 da Parte III do Tratado de lisboa proíbe que os 19
A edi~áo francesa desea obra tem quatro capítulos iniciais, que foram exduídos das
Estados tornero medidas que váo no sentido de urna harmonizayáo social. ediyóes inglesa e brasileira, dedicados ao primeiro liberalismo ..
34 • A nova razáo do mundo

implementa~táo da doutrina elaborada nos anos 1930. Náo passamos com


ela da teoria para a prática. Urna espécie de filtro, que náo se deve a urna
sele~táo consciente e deliberada, retém alguns elementos em detrimento do
resto, em fun~táo de seu valor operatório ou estratégico em dada situa~táo
histórica. Trata-se aqui náo da ac;:áo de urna monocausalidade (da ideologia
para a economia ou vice-versa), mas de urna multiplicidade de processos
heterogeneos que resultaram, em razáo de "fenómenos de coagulac;:áo,
apoio, reforc;:o recíproco, coesáo, integrac;:áo", nesse "efeito global" que
é a implantac;:áo de urna nova racionalidade governamental, no sentido
definido anteriormente30 .
O neoliberalismo, portanto, náo é o herdeiro natural do primeiro libera-
lismo, assim como náo é seu extravio nem sua traiyáo. Náo retoma a questáo
dos limites do governo do ponto em que ficou. O neoliberalismo náo se
pergunta mais sobre que tipo de limite dar ao governo político, ao mercado
1
(Adam Smith), aos direitos Qohn Locke) o u ao cálculo da utilidade Qeremy A REFUNDAQÁO INTELECTUAL
Bentham), mas, sim, sobre como fazer do mercado tanto o princípio do
governo dos homens corno o do governo de si (Parte I). Considerado urna
racionalidade governamental, e náo urna doutrina mais o u menos heteróclip,
o neo liberalismo é precisamente o_ desenvolvimento da lógica do merca~o
como lógica normativa generalizada, desde o Estado até o rnais íntimo da
subjetividade (Parte II). É essa coerencia prática e normativa, mais do q~e
a das fontes históricas e das teorias de referencia, que fundamenta nos~o
argumento. Este último, esclarecendo a forma como se irnpóe e funciona
em todos os níveis um certo sistema de normas, náo tem outro objetivo
além de contribuir para a renovayáo do pensamento crítico e a reinvenyáo
das formas de !uta.

30
Michel Foucault, Sécurité, territoire, population (Paris, Seuil/Gallimard, 2004, Coleo;:áo
Hautes Études), p. 244. Nessa passagem, o autor substitui a questáo da atribuio;:áo
de urna causa ou urna fome única pela da constituio;:áo o u da composio;:áo dos efeitos
globais como meio privilegiado de estabeledmento da inteligibilidade na história.
1
CRTSE DO LffiERALISMO E NASCIMENTO
DO NEOLIBERALISMO

O liberalismo é um mundo de tensóes. Sua unidade, desde o princípio, é


problemática. O direito natural, a liberdade de comércio, a propriedade privada
e as virtudes do e(¡uilíbrio do mercado sáo certamente alguns dos dogmas
do pensamento liberal dominante em meados do século XIX. Modificar os
- -princfpios seria quebrar a máquina do progresso e romper o equilíbrio social.
Mas esse whiggiSmo triunfante n~o será o único a. ocupar terreno nos países
ocidentais. & críticas mais variadas floresceráo, tanto no plano doutrinal
como no político, ao langa do século XIX. Isso porque em nenhuma parte, e
em nenhum os domínio, a "sociedade" se deixa reduzir a urna soma de tracas
contratuais entre indivíduos. A sociologia francesa náo cansará de repetir isso,
ao menos desdeAuguste Comte, sem mencionar o socialismo que denuncia a
mentira de urna igualdade apenas ficticia. Na Inglaterra, o radicalismo, depois
de inspirar as reformas mais liberais de assistenda aos pobres e ajuda promo- a
<ráo do livre-cirnbio, alimentará certa contestayáo dessa metafísica naturalista
e até estimulará as reformas democráticas e sociais em favor da maioria.
A crise do liberalismo é também urna crise interna, o que é esquecido
de bom grado quando se assume a tarefa de fa?"'r a história do liberalismo
como se se tratasse de um corpo nnificado. A partir de meados do século XIX,
o liberalismo expóe linhas de fratura que váo se aprofnndando até a Primeira
Guerra Mnndial e o entreguerras. A tensáo entre dais tipos de liberalismo, o
dos reformistas sociais que defendem um ideal de bem comum e o dos parti-
dários da liberdade individual como fim absoluto, na realidade nnnca cessou 1.

1
Para a apresentayáo dessas duas formas de liberalismo, ver Michael Freeden, Liberalism
Divided: A Study in British Political1hought 1914-1939 (Oxford, Clarendon, 1986).
1

Crise do liberalismo e nascimento do neoliberalismo 9 39


38 e A nova razáo do mundo

Essa dilacerayáo que reduz a unidade do liberalismo a um simples mito re- internacionais é que póe "em crise" o liberalismo dogmático 4 • Solidarismo
troativo consritui propriamente essa langa "crise do liberalismo" que vai dos e radicalismo na Franya, fabianismo e liberalismo social na Inglaterra, nas-
anos 1880 aos anos 1930 e que pouco a pouco vé a revisáo dos dogmas em cimento do "liberalismo" no sentido norte-americanO do termo sáo tanto
todos os países industrializados ande os reformistas sociais ganham terreno. os sintomas dessa cdse do modo de governo como 'algwnas das respostas
as
Essa revisáo, que vezes parece conciliar-se comas ideias socialistas sobre a que foram dadas para enfrentá-la.
direyáo da economia, forma o contexto intelectual e político do nascimento
do neoliberalismo na primeira metade do século XX.
Urna ideología muito estreita
Qual é a natureza dessa "crise do liberalismo"? Marcel Gauchet
certamente tem raz:lo de identificar entre seus aspectos um problema Muito antes da Grande Depressáo dos anos 1930, a doutrina do livre
eminente: como a sodedade que se libertou dos deuses para descobrir- mercado náo conseguia incorporar os novas dados do capitalismo tal como
-se plenamente histórica poderia abandonar-se a um curso fatal e, assim, este se desenvolvera durante a langa fase de industrializayáo e urbanizayáo,
perder o controle de seu futuro? Como a autonomia humana poderia ser ainda que alguns "velhos liberais" náo quisesse desistir de suas proposiyóes
sinónimo de impoténcia coletiva? Como pergunta Marcel Gauchet: "O mais dogmáticas.
que é urna autonomia que náo se comanda?". O sucesso do socialismo se A constatayáo· da "débdcle do liberalismo" ia muito além dos meios so-
deveria precisamente ao fato de que ele soube aparecer, senda nisso um cialistas ou readónários mais hostis ao capitalismo. Todo um conjunto de
digno sucessor do liberalismo, como a encarnayáo da vontade otimista' de tendéncias e realidades novas exigiram urna revisáo a fundo da representayáo
construir o futuro 2 • Mas isso somente é verdade se reduzirmos o liberalismo d:;¡ eéonomia e da política. O "capitalismo histórico" correspondia cada vez
acrenya nas virtudes do equilíbrio espontáneo dos mercados e situar111os menos aos esqtiemas teó.ricos da:s escalas liberais, quando elas inventavam
as contradiyóes na esfera das ideias. Ora, já no século XVIII, a questáo histórias em torno da idealizayáo das "harmonias económic~". Em outras
da ayáo governamental apresentou-se de forma muito mais complexa. ·Na palavras, o triunfo liberal de meados do século XIX náo duro u. Os capita-
realidade, o que se costurna chamar de "crise do liberalismo" é urna crise lismos norte-americano e alemáo, as duas poténcias emergentes da segunda
da governamentalidade liberal, segundo o termo de Michel Foucault, metade do século XIX, demonstravam que o modelo atomístico de agentes
isto é, urna crise que apresenta essencialmente o problema prático da económicos independentes, isolados, guiados pela preocupayáo com seus
intervenyáo política em matéria econ6mica e social e o da justificayáo próprios interesses, é claro, e cujas decisóes eram coordenadas pelo mercado
doutrinal dessa intervenyáo 3 . concorrencial quase náo correspondia mais as estruturas e as
práticas do
O que era pasto como urna limitayáo externa a essa ayáo, em particular sistema industrial e financeiro realmente existente. Este último, cada vez
os direitos invioláveis do indivíduo, tornou-se um pu~o e simples fator de mais concentrado nos ramos principais da economia, dominado por wna
bloqueio da "arte do governo", num momento em que este último se vé oligarquia estreitamente imbricada com os dirigentes políticos, era regido por
confrontado precisamente com questóes económicas e sociais novas e ao mes- "regras do jogo" que náo tinham nada a ver comas concepyóes rudimentares
roo tempo prementes. A necessidade prática da intervenyáo goverr{amental da "leida oferta e da procura'' dos teóricos da economia ortodoxa. O reinado
para fazer frente as mutayóes organizacionais do capitalismo, aos conflitos de uns poucos autocratas a frente de empresas gigantescas, controlando o
de classe que ameayam a "propriedade privada" e as novas relayóes de forya setor das ferrovias, do petróleo, dos bancos, do ayo e da química nos Estados
Unidos - os que foram qualifi.cados na época de "baróes ladróes" (robber
2
Ver Marcel Gauchet, La crise du libéralisme: l'avenement de la démocratíe, v. 2 (Paris,
Gallimard, 2007), p. 64 e seg. e 306. Cada país teve, segundo suas tradi;yóes políticas, seu própirio modo de restauraqáo
3
Ver Michd Foucault, Naissance de la biopolitique (Paris, Seuil/Gallimard, 2004), do liberalismo. A Franc;a certamente tomou do republicanismo jin-de-siecle e das
p. 71. doutrinas solidaristas sua forma singular de repensar as tare~s governamentais.
40 o A nova razáo do mundo Crise do liberalismo e nasdmento do neoliberalismo o 41

barons) - fez surgir talvez a mitologia do selfmade man, mas ao rnesrno partir das primeiras reformas de Bismarck, no firn dos apos 1870 e início
ternpo desacreditava a ideia de urna coordenayáo harrnoniosa de interesses dos anos 1880, assistiu-se· na Europa a um movimento ascendente de
particulares 5• Multo antes da elaborayáo da "con correncia irnperfeita", da dispositivos, regula~en_t~y!)es, leis destinadas a consolidar a condiyáo dos
análise das estratégias de empresa e da teoria dos jogos, o ideal do mercado assalariados e a evitar tanto quanto possível que eles continuassem a cair
perfeitarnente concorrencial já parecia multo longe das realidades do novo no pauperismo que afligiu todo o século XIX: legislayáo sobre o rrabalho
capitalismo de grande escala. infantil, lirnitayáo da jornada de-- trabalho, direito de greve e associayáo,
O que o liberalismo dássico náo incorporou adequadarnente foi preci- indenizayáo por acidente, aposentadoria para operários. Essa pobreza nova,
samente o fenOrneno da empresa, sua organizayáo, suas formas jurídicas, gerada no ciclo dos negócios, deveria ser baldada por medidas de proteyáo
a concentrayáo de seus recursos, as novas formas de cornpetiyáo. fu novas coletiva e seguranya social. Cada vez mais, a ideia de que a relayáo salarial
necessidades da produyáo e de vendas exigiam urna "gestáo científica", que era um contrato entre duas vontades in dependen tes e iguais aparecia corno
mobilizasse exércitos industriais enquadrados num modelo hierárquico urna ficyáo absolutamente distante das realidades sociais naquela época de
de tipo militar por pessoal qualificado e dedicado. A empresa moderna, grandes concentrayóes industriais e urbanas. O movimento operário, ern
integrando múltiplas divisóes, gerida por especialistas em organizayáo, pleno desenvolvimento tanto no plano sindical como no plano político,
tornara-se urna realidade que a ciencia económica dominante ainda constituía nesse sentido urna advertencia constante da dimensáo coletiva
náo conseguia cornpreender, mas que rnuitos espíritos menos preocupa- e ao rnesrno ternpo conflituosa da relayao salarial, um desafio a concepyáo
dos com os dogmas, ern particular entre os economistas "institucionalis.:. _estritamente individual e "harrn6nica'' do contrato de trabalho tal corno o
tas", comeyaram a examinar. pen?aVa a dogmá~ica libe~~·
O surgirnento dos grandes grupos cartelizados rnarginalizava o capitalis.;- No plano inte·rnaci~nal, o fim do século XIX ·náo se parecia multo com
mo de pequenas unidades; o desenvolvimento das técnicas de venda debilita,_, essa grande sociedade universal e pacífica, organizada segundo ¿s prindpios
va a fé na soberania do consumidor; e os acordos e as práticas dominadoras e: racionais da divisáo do trabalho, que Ricardo irnaginava no início do sécu-
manipuladoras dos oligopólios e dos monopólios sobre os preyos destruíarn lo. Proteyáo alfandegária e crescimento dos nacionalismos, imperialismos
as representayóes de urna concorréncia leal, que beneficiava a todos. Parte dq: rivais e crise do sistema monetário internacional apareciam como violayóes
opiniáo pública comeyava a ver os homens de negócios como escroques de da ordem liberal. Nem parecia mais verdade que o livre-cárnbio deveria
alto gabarito, náo como heróis do progresso. A democracia política parecia ser a fórmula da prosperidade universal. As teses de Friedrich List sobre a
definitivamente comprometida pelos fen6menos rnaciyos de corrupyáo em "proteyao educadora'' pareciam ser mais confiáveis e corresponder melhor
todos os escalóes da vida política. Os políticos faziam sobretudo o papel de as novas realidades: tanto a Alemanha como os Estados Unidos ofereciam
marionetes nas máos dos que detinharn o poder do dinheifo. A "máo visível" igualmente a face de um capitalismo de grandes unidades protegidas por
dos empresários, dos financistas e dos políticos ligados a eles enfraqueceu barreiras alfandegárias elevadas, enquanto a Inglaterra via serem postas em
formidavelmente a crenya na "máo invisível" do mercado. questao suas próprias posiyóes industriais.
A inadequayáo das fórmulas liberais as necessidades de regulayáo d~ con- A concep~áo do Estado "vigia no turno", difundida na Inglaterra pela
diyáo salarial e sua própria incompatibilidade corn as tentativas de reformas Escala de Manchester e na Franya pelos economistas doutrinários que
sociais realizadas aqui ou ali constituírarn outro fator de crise no liberalis- sucederam a Jean-Baptiste Say, dava urna visáo singularmente estreita das
mo dogmático. Desde meados do século XIX, com certa intensificayáo a funyóes governamentais (manutenyáo da ordem, cumprimento dos con-
tratos, eliminayáo da violencia, proteyáo dos bens e das pessoas, defesa do
território contra os inimigos externos, concepyáo individUalista da vida social
5 Ver sobre esse ponto Marianne Debouzy; Le capitalisme "sauvage" aux États-Unis,
e económica). O que no século XVIII constittúa urna crítica as diferentes
1860-1900 (Paris, Seuil, 1991) [ed. port.: O capitalismo "selvagem" nos Estados Uni-
dos, 1860-1900, trad. Maria de Lurdes Almeida Mela, Lisboa, Estudios Cor, 1972]. formas possíveis do "despotismo" tornara-se progressivamente urna defesa
Crise do liberalismo e nascimento do neoliberalismo ~ 43
42 • A nova razao do mundo

conservadora dos direitos de propriedade. Essa concep¡;;:áo, fortemente res- Essas ideias, elaboradas por Tocqueville durante a viagem a Inglaterra,
tritiva até mesmo em rela¡;;:áo aos campos de intervenyáo das "leis de polícia'; encontram-se desenvolvidas no seglllldo volume de A democracia na Amé-
imaginadas por Adam Smith e aos domínios de administrayáo do Estado rica, de 1840, e em _I?<l!ticular no capítulo 2 do Livro IV: "Que as ideias
benthamiano, parecia cada vez mais defasada em relayáo as necessidades de dos povos democd.tic.os em matéria de governo sáo naturalmente favoráveis
organizayáo e regulayáo da nova sociedade urbana e industrial do :fim do a concentrayáo dos poderes". Partindo da constatayáo de que os pavos
século XIX. Em outras palavras, os liberais náo dispunham de urna teoria democráticos apreciam as "ideias simples e gerais", de deduz a preferéncia
das práticas governamentais que haviam se desenvolvido desde meados do por um poder único e central e urna legislayáo uniforme. A igualdade das
século. Pior, eles se isolavam, parecencia conservadores obtusos e incapazes condiyóes leva os indivíduos a querer um poder central forte, oriundo da
de compreender a sociedade de seu tempo, embora pretendessem encarnar forya do pavo, que os conduza pela máo ern todas as circunstancias. Urna
seu movimento. das características dos poderes políticos modernos é, portanto, a auséncia
de limite da ayáo governamental, é o "direito de fazer tuda". A sociedade,
representada pelo Estado, é todo-poderosa, em detrimento dos direitos do
A preocupa1=áo precoce de Tocqueville e Mili indivíduo. Os próprios soberanos acabam ·compreendendo que "a forya
central que repres~nram pode e deve administrar por si mesma, e num plano
Essa "crise do liberalismo" no :fim do século, que foi chamada por al-
uniforme, todos os assuntos e todos os homens". É assim que, sejam quais
guns de sentimento de "paraíso perdido do liberalismo", náo estourou de
forem suas oposiyóes políticas, "todos concebem o governo sob a imagern
repente. Aparte socialistas ou defensores declarados do conservadoris~o,
d~, urn poder ú~co, simples, providencial e criador" 8 •
houve, no próprio interior da grande corrente liberal, espíritos suficiente-
E.Ssa forya se,.creta·-·im.Pele o Estado a apoderar-se de todos os domínios,
mente preocupados para desde cedo pór em dúvida a crenya nas virnides
aproveitando-se do recolhimento dos indivíduos a seus negóéios privados.
da harmonia natural dos interesses e no livre desabrochar das ayóes e das
Consequentemente, aumenta a demanda de cada um por proteyáo, educa-
faculdades individuais.
¡;;:áo, auxüios, adrninistrayáo da justiya, do mesmo modo que coma indústria
A correspondéncia intelectual entre Alexis de Tocqueville e John Stuart
crescem a regulamentayáo das tracas e das atividades e a necessidade de pro-
Mili, para citar apenas um exemplo, ilustram essa lúcida preocupayáo. Erlhe
duzir obras públicas. Esse novo despotismo, como o denomina Tocqueville,
1835 e 1840, esses dais homens conversaram sobre as tendéncias profun-
esse "poder imenso e tutelar", mais amplo e mais brando ao mesmo rempo,
das das sociedades modernas e, em particular, a tendéncia de o governo
é rolerável do ponto de vista do indivíduo, porque é exercido em no me de
intervir de forma mais extensa e detalhada na vida social. Mais talvez do
todos e provérn da soberania do pavo. Esse instinto da centralizayáo e esse
que a viagem aos Estados Unidos, foram os contaros. que Tocqueville fez
na viagem a Inglaterra em 1835 que lhe permitiram estabelecer a relayáo
a
avanyo do domínio da administrayáo cusra da esfera daliberdade individual
náo derivam de urna perversáo ideológica qualquer, mas dizem respeito a
entre democracia, centralizayáo e uniformidadé. Para ele, essa relayáo está
ligada a sociedade democrática, ainda que, em sua opiniáo, cert()S países
urna tendéncia inscrita no movimento geral das sociedades rumo igualdade. a
É sobre esse ponto que John Stuart Mili manifesta sua concord:lncia,
como Inglaterra oü Estados Unidos pudessem resistir melhor em razáo da
embora formule algumas obje<;óes. A rea¡;áo de J. S. Mill marca certa inflexáo
vitalidade das liberdades locais7

6 Ver Alexis de Tocqueville, Voyage en Angleterre et en Irlande de 1835, em CEuvres I os pobres é precisamente, para ele, um modelo dessa pondera0o entre o Estado e as
(Paris, Gallimard, 1991, Coles:ao La Pléiade), p. 466 e seg. comunas (ibidem, ap~ndice II, p. 597).
8 Alexis de Tocqueville, De la démocratie enAmérique, v. 2, livl'o N, cap. 2, em CEuvres
7 Aliás, Tocqueville apela para um jogo de ponderas:ao entre o centro e o loe~, para
urna neutralizas:ao recíproca dos dois prindpios opostos, o da centralizas:ao dos Es- JI (Paris, Gallimard, 1992, Coles:ao La Pléiade), p. 810 e seg. [ed. bras.: A democracia
tados modernos e o da liberdade local. A lei inglesa de 14 de agosto de 1834 sobre na América, trad. Eduardo Brandao, Sao Paulo, Martins Font.es, 2000].
44 • A nova razáo do mundo Crise do liberalismo e nascimento do neoliberalismo ~ 45

em relac;:áo as perspectivas militaristas de seu pai, James Mili, e do próprio Com Tocqueville e Mill, concebe-se melhor a dúvida que tomou canta
Jeremy Bentham quando imaginavam urna democracia representativa ca- do campo liberal desde cedo e, sobretudo, a partir de dentro. Que os po-
paz de corrigir a si mesma9 • Ele sustenta ainda, obviamente, que os perigos deres governamen~ai?__ ~~!llentem com a civilizac_;:áo mefcantil, essa é urna
concebidos por Tocqueville encontram fundamento numa ideia errünea da observayáo que atesta o fato de que os dogmas do laissezjaire náo eram
democracia. Esta náo é o governo direto do povo: mas a garantia de que o objeto de urna crenc;:a un;lnime. Muito pelo contrário, náo entenderíamos
povo será governado em conformidade com o bem de todos, o que supóe nada do século XIX se nos contentássemos preguiyosamente em ler apenas
o controle dos governantes por eleitores capazes de julgar sua ayáo. Mas a triunfante história intelectual e política das virtudes do livre-cámbio e da
acusa Tocqueville sobretudo de ter confundido a igualdade das condi,óes e propriedade privada absoluta. Foi precocemente que o otirnismo no advento
a marcha para urna "civilizac;:áo mercantil", na qual a aspirayáo aigualdade da sociedade da liberdade individual, do progresso e da paz foi objeto de
é apenas um dos aspectos. Para Mili, é em primeiro lugar o progresso eco- grandes ressalvas. Mas foi desde cedo também que a tradiyáo do radicalismo
nO mico e a "multiplicayáo dos que ocupam as posiyóes intermediárias" que abriu brechas no dogma da náo intervenc;:áo. A trajetória de Mili é em si
constituem a tendéncia fundamenta1 10 • mesma significativa dessa evoluc;:áo.
Mas essa igualdade crescente é so mente um dos elementos do movimento Mili, em On Socialism, texto tardio de 1869, publicado postumamente,
da civilizas;áo; um dos efeitos acidentais do progresso da indústria e da embora fizesse urna crítica severa ao ideal socialista do controle total da eco-
riqueza: um efeito dos mais importantes, e que, como mostra nosso autor, nomia, sustentava· igualmente, num capítulo com um título muito fiel ao
age de volta sobre os ounos de mil maneiras, mas náo deve ser confundido . espírito de Bentham ("The Idea ofPrivate Property not Fixed but Variable"
com a causa. 11
[Aideia da propriedade privada nao fixa, mas variável]), que "as leis de pro-
Para Mili, a principal transformac;:áo reside na predominincia da bu-5ca priedade devem ·depende·; de considerayóes de natureza pública'' 14 • Para ele,
12
da riqueza , princípio do dedínio de cerros valores intelectuais e morais. a sociedade tem plena justificayáo para mudar ou até mesmo allular direitos
Fazendo eco de cerro modo as preocupac;:óes de um Thomas Carlyle, ele de propriedade que, após o devido exame, náo sejam favoráveis ao bem
deplora o esmagamento do indivíduo de valor sobo peso da opiniáo pública, público 15 . Encontramos o que, desde o fim do século XVIII, já era motivo
descreve a charlatanice generalizada que toma o comércio, denuncia a des- debate. Deve-se considerar o direito de propriedade como um direito natural
valorizayáo de rudo que há de mais elevado e nobre na arte e na literatura. sagrado ou é preciso vé-lo de acordo com os efeitos que tem sobre a felicidade
Se o novo estado da sociedade é marcado pelo irreversível poder das massas do maior número de indivíduos, isto é, segundo sua utilidade relativa?
e pela extensáo das interferéncias políticas, entáo é preciso examinar quais O fato de que o utilitarismo tenha podido desembocar numa justificac_;:áo
poderiam ser os meios de remediar a impoténcia do indivíduo. Ele vislumbra da intervenyáo política e até numa relativizac_;:áo do direito de propriedade
dois meios principais: um, já promovido por 10cqueviÜe, é a "combinayáo" foi logo ressaltado, e de forma polémica, por Herbert Spencer. Sua violenta
dos indivíduos formando associac;:óes para adquirir a forya que falta a cada reac;:áo, no fim do século XIX, contra o intervencionismo económico e social,
átomo isolado; o outro é urna educayáo concebida para revigorar o caráter e contra o "utilitarismo empírico" que, segundo ele, era seu fundamento
pessoal a fim de resistir a opiniáo da massa 13 • " doutrinal, é um sinroma maior dessa crise da governamentalidade liberal. Seu
evolucionismo é também urna primeira tentativa de refundayáo filosófica do
9
Ver John Stuart Mill, Essais sur Tocqueville et la société américaine (Paris, Vrin, 1994). liberalismo que náo poderla ser negligenciada, apesar do esquecimento em que
10
Ibidem, p. 195. soc;:obrou. O "spencerismo" introduziu alguns dos temas mais importantes do
11
Idem. neoliberalismo, em particular a primazia da concorréncianas relac;:óes sociais.
12
John Stuart Mill, "Civilization'', em .ESsays on Politics and Culture (Gloucester,·Peter
Smith, 1973), p. 45 e seg. 14
John Stuart Mili, On Socialism (Buffalo, Prometheus Books, 1987), p. 56.
13
Ibidem, p. 63. " Ibidem, p. 145-6.
46 o A nova razáo do mundo Crise do liberalismo e nascimento do neoliberalismo e 47

A defesa do livre mercado corpos de inspetores e controles nas usinas de gás, as que sancionam pro-
O spencerismo faz parte de urna contraofensiva dos "individualistas" prietários de minas que émpregam crianyas Com menos de doze anos, as
que denunciam como traidores e acusam de "socialismo" os defensores das que ajudam rende_i_rQ~ irlandeses a comprar sementes, todas essas leis que ele
reformas sociais que visam ao bem-estar da populas:áo 16 • Por volta de 1880, considera exemplos do que náo se deve fazer tém de ser revogadas, porque
os velhos liberais sentem que o triunfo de 1860 ficou para trás, levado por querem fazer o bem diretamente, organizando a coopera<ráo de mandra
um vasto movimento contra o laissezfaire. Reunidos na Liberty and Property coerciva. Seu caráter obrigatório-é-·retrógrado e insuportáveP 9• A lista das
Defence League, fundada em 1882, perderam rnuito da inRuéncia intelectual "leis de coeryáo" denunciadas por ele é em si muito significativa, já que se
e política que tinham em meados da era vitoriana. refere aos domínios sociais, médicos e educacionais: trabalho, moradia,
Spencer acredita ser necessário refundar o utilitarismo sobre novas bases saúde, higiene, educayáo, pesquisa científica, museus, -bibliotecas etc. 20 •
para enfrentar os desvios do "utilitarismo empírico". É sabido que a @osofia Spencer explica essa traiyáo pela infeliz precipitayáo em querer socorrer
spenceriana foi extremamente popular na Inglaterra e nos Estados Unidos os pobres. Tomaram o carninho errado. De fato, há duas maneiras de obter
no fim do século XIX17 . Para Émile Durkheim, Spencer, que foi seu grande um bem: o u pela diminuiyáo da coer<ráo, isto é, indiretamente, ·o u pela
adversário nos planos teórico e político, é o protótipo do utilitarista. Mas coers:áo, ou seja, diretamente.
de qual utilitarismo se trata? Spencer reivindica um utilitarismo muito mais Sendo a aquisic;áo de uro bem para o pavo o trayo externo visível comum
evolucionista e biológico do que jurídico e econ6mico 18 . Suas consequéncias nas medidas liberais nos tempos antigos (e esse bem consistia essencialmente
numa diminuiyáo da coen;:áo), resultou que os liberais viram o bem do
políticas sáo explícitas: trata-se de mudar as bases teóricas do utilitarismo
povo náo conio um objetivo que era necessário atingir indiretamente·pela
para opor-se a tendéncia reformadora do benthamismo. Spencer procura,
diminuü;::io da coen;:á'O, mas como o objetivo .que era necessário atingir
na verdade, baldar a "trais:áo" dos reformadores que querem tomar medidas direrameme. E, procurando atingi-lo diretamente, empregaram métodos
coercitivas cada vez rnais nwnerosas apelando para o bem do povo. E~ses intrinsecamente contrários aos que haviam sido empregados originalmente. 21
falsos liberais apenas atravancam a marcha da história rumo a urna sociecÍide
Respondendo ademanda de melhoria social das populayóes necessitadas,
em que deveria prevalecer a cooperas:áo voluntária de tipo contratualista, em
esses liberais reformistas destruíram o sistema de liberdade e responsabilidade
detrimento das formas militares de coordenayáo. ·"'
que os old whigs quiseram implantar22 • Isso é particularmente visível no que
É em funyáo de urna "lei de evolus:áo" que Spencer se ergue contra toda
diz respeito ao auxílio aos pobres, contra o qual Spencer náo poderia ter
intervenyáo do Estado, mesmo quando feita por responsáveis do Estado que
sido mais duro.
proclamam seu liberalismo. Elevé as disposiyóes legislativas e as instituis:óes
públicas que estendem as proteyóes da lei aos mais fracos apenas como
19
Patrick Tort, Spencer et l'évolutionnisme philosophique, cit., p. 13.
"ingeréncias" e "restris:óes" que atravancam a vida dos cidadáos. As leis que
20
Ibidem, p. 13-9. Karl Polanyi dará grande importancia a essa lista, julgando-a parti-
limitam o trabalho de mullieres e crianyas nas manufaturas de tingimenro o u
cularmente indicativa do "contramovimento" que se desenhou a partir de 1860 (La
nas lavanderías, as que impóem a vacinayáo obrigatória, as que estabelec;em grande transformatíon, Paris, Gallimard, 1983, p. 197) [ed. bras.: A grande transfor-
mardo: as origens da nossa época, trad. Fanny Wrobel, 2. ed., Rio de Janeiro, Elsevier,
2012]. Esse ponto é desenvolvido adiante, p. 64.
16
Michael W Taylor, Men versus the State: Herbert Spencer and Late Victorian Individ- 21
Herbert Spencer, L'individu contre l'État (Paris, Alean, 1885), p. 10. Distinc;áo que
ualism (Oxford, Clarendon, 1992), p. 13.
confirma amplamente a diferenya entre liberdade positiva e liberdade negativa que
17
Ver Patrick TOrt, Spencer et l'évolutionnisme philosophique (Paris, PUF, 1996). Isaiah Berlin popularizará e que vimos em ac;áo na obra do próprio Bentham.
18
Aliás, o próprio Spencer observa como ele "evoluiu" em relac;áo a Bemham, por efeito 22
Encontramos o mesmo esquema de explicayáo ("a impai::i~ncia das massas") em
dos progressos da ciéncia da natureza. Poderíamos acrescemar que a dout'rina de Friedrich Hayek, O caminho da serviddo (trad. Anna Maria Capovilla, José Ítalo
Spencer deve muito a Saim-Simon e Comte, ainda que tenha mudado suas doutrinas Stelle e Liane de Morais Ribeiro, Rio de Janeiro, Biblioteca do Exérdto/Instituto
e invertido as consequéndas políticas que eles tiravam delas. Liberal, 1994).
48 ,. A nova razáo do mundo Crise do liberalismo e nasdmento do neo liberalismo • 49

Ele retoma os argumentos malthusianos contra esse tipo de auxílio: Contra a superstis;áo do Estado
querem lastimar "as misérias dos pobres meritórios, em vez de representá:..
Urna das fontes da deriva socialista do utilitarismo empírico é a crenya
-las- o que na maioria dos casos seria mais correto- como as misérias dos
metafísica na instancia- soberana. O Estado e as categorias políticas que
pobres demeritórios" 23 • Ele propóe, ainda, como regra de conduta, um ditado
fundam sua legitimidade sáo urna "grande superstiyáo política". Assim,
"cristáo" que tem apenas urna rela¡;:áo distante com o dever de caridade:
Spencer mostra o quanto Hobbes -~-' depois, Austin tentaram justificar a
Ero minha opiniáo, pode-se considerar que uro ditado cuja verdade é soberania sobre a base do direito divino. O que significa que esses filósofos
aceita igualmente pela crenya comum e pela crenya da ciéncia goza de
foram incapazes de fundar a soberania sobre si mesma, isto .é, sobre a ftmyáo
urna autoridade incontestável. Pois bem! O mandamento: "Se urna pessoa
n:io deseja trabalhar, n:io deve comer" é simplesmente o enunciado crist:io que ela deveria cumprir. Todavia, é toda a teoria política que visa a fundar a
dessa lei da natureza sob império da qua! a vida atingiu seu grau atual, a democracia moderna que deve ser revisada. A onipoténcia governamental,
lei segundo a qual urna criatura que náo é suficientemente enérgica para que a caracteriza, repousa sobre a superstiyio de um direito divino dos
se bastar deve perecer. parlamentos que é também um direito divino das maiorias, o qual so mente
Mas essa assisténcia aos pobres é apenas um aspecto dos malefícios da prolonga o direito divino dos reis 25 •
ingeréncia do Estado sem limites, se ela tenciona remediar todos os males Náo nos causará surpresa, portanto, ver Spencer atacar Bentham e seus
da sociedade. Essa tendéncia quase automática a ilimitayáo da intervenyáo discípulos a propóSito da criayáo dos direitos pelo Estado. Spencer lembra
do Estado é reforyada pela educayáo, que intensifica os desejos inacessíveis o teor dessa teoria, mostrando que ela implica urna criayáo ex nihilo de
a grande massa, e pelo sufrágio universal, que impele as promessas políti- · ·d~reitps, a náo ser que ela apenas queira dizer .que, antes da forma((áO do
cas. Spencer quer ser o profeta da desgraya dessa "escravidáo futura'' gue gÜVe-rno, o povo: nán ·po·ssuía a t9talidade dos direitos de forma indivisa.
é o socialismo. Tenciona impedir seu advento por urna obra de socioiQgia Para Spencer, a teoria benthamiana e austiniana da criayáo dos direitos é
científica que exporá as verdadeiras leis da sociedade. Porque a socied~de falsa, ilógica e perigosa, porque utiliza urnafallacj6 • O Estado, na verdade,
tem leis fundamentais, como rudo na natureza. Os militaristas, o u melli~r, apenas molda o que já existe.
os "falsos militaristas", ignoram as leis do contrato, da divisáo do trabalho, A referéncia ao "direito natural", portante, náo tem mais o sentido que
da limitayáo ética da ayáo. Por ignodncia e superstiyáo, tomam a via do tinha no jusnaturalismo dos séculas XVII e XVIII. Como vimos, o direito
socialismo sem saber. Esses falsos militaristas conservaram-se empiristas de é fundado, a partir de enrio, tanto nas condiyóes da vida individual como
visáo muito curta. Sua compreensáo empírica da utilidade "impede que nas condiyóes da vida social, que dependem da mesma necessidade vital.
partam dos fatos fundamentais que ditam os limites da legislayáo". A ciéncia Com respeito a estas últimas, lembramos que é a "experiéncia das vantagens
sociológica, ao contrário, poderá dizer o que é a verdadeira utilidade, isto é, possíveis da coopera<;:áo" que impele os primeiros homens a viver em grupos.
fundamentada em leis exatas: ''Assim, a utilidade, náo avaliada empiricamen- Ora, essa cooperayáo, atestada por Spencer pelos costumes das sociedades
te, mas, determinada racionalmente, prescreve a manutenyáo dos direitos selvagens, tero como condiyáo de existéncia contratos tácitos que a partes
individuais e, por implica¡;:áo, proíbe rudo que lhes pode ser contfirio" 24 • se comprometem a respeitar. A "evoluyáo" testemunha aqui a favor da an-
terioridade imemorial do direito dos contratos em relayáo a toda legislayio
positiva. A missáo do Estado é, por isso, estreitamente circunscrita: ele apenas
garante a execuyáo de contratos livremente consentidos; náo cria de modo
algum novas direitos ex nihilo.

23
Herbert Spencer, L'individu contre l'État, cit., p. 26 (em ediqáo mais recente: Le droit
d'ignorer l'État, París, Les Belles Lettres, 1993, p. 43-4). " Ibidem, p. 116 e 122 (ibidem, p. 121 e 132).
" Ibidem, p. 156 (ibidem, p. 201). " Ibidem, p. 132 (ibidem, p. 153).
Crise do liberalismo e nascimento do neo liberalismo ~ 51
50 '" A nova razáo do mundo

A funyáo do liberalismo no passado foi p6r wnlimite aos poderes dos Com essa última ideia da passagem observável por toda parte do homogéneo
reis. A funyáo do liberalismo no futuro será limitar o poder de parlamentos para o heterogéneo29 , Spencer estende o princípio da divisáo do trabalho ao
submetidos apressáo impaciente das massas incultas27 . Atacando Bentham, conjunto das realidad~s __f~sicas, biológicas e humanas; ele o transforma num
Spencer vai araiz teórica das tendencias intervencionistas do liberalismo e princípio da marcha universal da matéria e da própria vida.
do radicalismo ingles oriundo do utilitarismo. Ele ataca urna interpretayáo Comte, assim como mais tarde Darwin, ressaltou a especificidade da
que consiste em fazer do bem-estar do povo o fim supremo da intervenyáo espécie humana, e ambos demostraram, por caminhos diferentes, o que
do Estado, sern levar suficientemente ern coma as leis naturais, isto é, as Comte chamou de "inversáo radical da economia individual", que fazia
relayóes de causalidade entre os fatos. prevalecer os motivos simpáticos sobre o instinto egoísta. Embora retome a
ideia da diferenciayáo das funyóes económicas, Spencer recusa-se a admitir
A questáo essenciallevantada diz respeito averdade da teoria utilitária, tal
como é geralmente recebida, e a res posta a contrapor aqui é que, tal como a necessidade, para a espécie humana, de um centro político dedicado a
é geralmente recebida, ela náo é verdadeira. Pelos tratados dos moralistas regulayáo das atividades diferenciadas. É claro que, quando examina a
utilitários, e pelos atas dos homens políticos que consciente ou inconscien- evoluyáo do espírito humano, comparando as "rayas superiores" e as "rayas
temente seguem a orientayáo deles, está implicado que a urilidade deve ser inferiores", ele náo se esquece da liyáo comtiana que fazia do altruísrno
determinada diretamente pela simples ~nspeyáo dos fatos presentes e pela urna reayáo ao avanyo egoísta da economia liberal30 , mas se nega a tirar
avaliay:io dos resultados prováveis; ao passo que o utilitarismo, se bem
disso a conclusáo de que o governo tem cerro dever regulador. Parece-lhe,
compreendido, implica que nos guiemos pelas conclusóes gerais fornecidas
pela análise experimental dos fatos já observados. 28 _ao contrário de Comte e mais tarde de Durkheim, que a "cooperayáo
vol~ntária", tal como se desenvolve nas sociedades mais evoluídas sob a
Essa carreta compreensáo da utilidade no imbito de urna sociologia
forma do contrato, asseg~ra urna· dependencia rn-útua entre as unidades
evolucionista permitirá evitar a e~cravidáo socialista, que nunca é rnais . .do
suficientemente consistente para manter o "superorganisrno s'ocial". Essa
que um retrocesso a um estado anterior da evoluyáo, a era militar. Pira
" premissa vai levá-lo a reinterpretar, aprópria maneira, a teoria darwiniana
evitá-la, o liberalismo deve afastar-se da lógica mortal das leis sociais aqiial da seleyáo natural e integrá-la a sua síntese evoludonista31 .
o levou urn reformismo benthamiano cientificamente inepto.
Darwin publicara em 1859 A origem das espécies*, fazendo da sele1=áo na-
tural, corno todos sabemos, o princípio da rransformayáo das espécies. Alguns
anos depois, prestando homenagem a Darwin, Spencer criará em seus Principies
O nascimento do concorrencialismo fin-de-siecle
ofBiology [Princípios de biologia] (1864) afamosaexpressáo "sobrevivénciados
O evolucionismo biológico de Spencer, ernbora pareya muito datado a
cerros neoliberais, a ponto de frequenternente "se esquecerern'' de mencioná-lo
29
entre suas fontes de referéncia, exceto para rejeitá-lo, deixou wna marca pro- Ver Herbert Spencet, "Progress: lts Law and Causes", The Westminster Review, v. 67,
funda no curso posterior da doutrina liberal. Podernos até mesmo dizer que o 1857.
00
spencerismo representa urna verdadeira virada. Dissemos antes o quanto Spencer, · ldem, "Esquisse d'une psychologie comparée de l'homme", Revue Philosophique de
la France et de lÉtranger, t. 1, 1876.
por intermédio de Comte, fez da divisáo fisiológica do trabalho urna das pe<;as
31
Sobre todos esses pontos, ver a tese clássica do historiador norte-americano Richard
principais de sua "síntese filosófica". Num prirneiro momento, a evoluyáo é
Hofstadter, escrita em 1944, Social Darwinism in American Thought (Bastan, Beacon,
explicada como um fenómeno geral que obedece a dois processos: a integrayáo 1992). Foi essa obra que popularizou o termo "darwinismo social", raramente utilizado
a wn "aglomerado" e a diferenciayáo das partes mutuamente dependentes. até enrio. Notemos que essa expressáo surgiu em 1.879 num artigo da revista Popular
Science, soba pluma de Osear Schmidt, e foi utilizado por um anarquista, Émile Gautier,
num texto publicado em Paris, em 1880, intitulado Le darwin4me social.
" Ibidem, p. 158 (ibidem, p. 206). * Trad. Aulyde Soares, Sáo Paulo/Brasília, Melhoramentos/Editora da UnB, 1982.
" Ibidem, p. 154 (ibidem, p. 198). (N. E.)
52 " A nova razáo do mundo Crise do liberalismo e nascimento do neoliberalismo " 53

mais aptos" (survival ofthe jittest) 31 , que será retornada por Darwin na quinta vital geral, que é preciso deixar que se desenvolva para _que a evolu¡;:áo náo
ediyáo de A origem das espécies, na qual ele a apresenta corno equivalente da seja interrompida; daí as principais consequencias que examinamos antes,
expressáo "seleyáo natural". Sem detalhar as razóes desses cruzamentos e dos em especial as que -~~n4enavam a ajuda aos mais necessitados, que deveriam
mal-entendidos mútuos que os caracterizam, notaremos que, para Spencer, a a
ser abandonados própria sorte.
teoria darwiniana parecia corroborar a teoria do laissez-faire da qual ele se fez Spencer vai deslocar, assim, o centro de gravidade do pensamento li-
arauto, como indica o paralelo entre a evoluyáo económica e a evoluyáo das beral, passando do modelo da divisáo do trabalho para o da concorrencia
espécies em geral que ele estabelece em seus Princípios de biología. Para ele, como necessidade vital. Esse naturalismo extremo, além de satisfazer inte-
a prirneira é apenas urna variedade da "luta pela vida", que faz prevalecer as resses ideológicos e explicar lutas comerciais ferozes entre empresas e entre
espécies mais bem adaptadas a seu meio. Esse paralelo conduzia diretarnente econornias nacionais, faz a concepyáo do motor do progresso passar da
a urna deformayáo profunda da teoria da seleyáo, na medida em que náo era especializaráo para a seleráo, que náo tem as mesmas consequencias, como
rnais a heranya seletiva das características rnais adaptadas asobrevivencia da bem podemos imaginar.
espécie que importava, mas a luta direta entre rayas e entre classes que era No prirneiro modelo, que encontramos de forma exemplar em Smith e
interpretada ern termos biológicos. A problemática da competiyáo levava a Ricardo, mas é muito anterior a eles, a livre· troca favorece a especializayáo
rnelhor sobre a da reproduyáo, dando origem, assim, ao que foi charnado de das atividades, a divisáo das tarefas nas oficinas, assim como a orienta¡;:áo
rnaneira muito imprópria de "darwinismo social". Corno mostrou Patrick da produyáo nacional. O mercado, nacional ou internacional, com seu jogo
Tort, Darwin, de sua parte, sustentava que a civilizayáo se caracterizavasobre- próprio, é a mediayáo necessária entre as atividades, o mecanismo de sua
tudo pela prevaléncia de "instintos sociais" capazes de neutralizar os aspectos coordenayáo. A ~onsequéncia primeira desse modelo comercial e mercantil
eliminatórios da seleyáo natural e acreditava que o sentirnento de simpatia é que, pelo aumento gerai da produtividade média que decorre da especiali-
estava destinado a estender-se indefinidamente33 • zayáo, todo mundo ganha na troca. Essa náo é urna lógica elfminatória do
Convérn sublinhar a virada que o pensarnento de Spencer represen~a na pior dos sujeitos económicos, mas urna lógica de complementaridade que
história do liberalismo. O ponto decisivo que permite a passagern da lei da melhora a eficácia e o bem-estar do pior dos produtores. É claro que aquele
evoluyáo biológica para suas consequencias políticas é a prevaléncia na, vida que náo quiser obedecer a essa "regra do jogo" deve ser entregue aprópria
social da luta pela sobrevivéncia. Sern dúvida, a referéncia a Malthus ainda é sorte, mas aquele que participa do jogo náo pode perder. No segundo mo-
rnuito importante em Spencer: nem todos os homens sáo convidados para o delo, ao contrário, nada garante que aquele que participa da grande lutada
grande "banquete da natur~za''. Aessa influencia, porérn, sornou-se a ideia seleyáo natural irá sobreviver, apesar de seus esforyos, de sua boa vontade,
de que a cornpetiyáo entre os indivíduos constituía para a espécie humana, de suas capacidades. Os menos aptos, os mais fracos, seráo eliminados por
as
que nisso é assimilável outras espécies, o próprio princípio do progresso aqueles que sáo mais adaptados, mais fortes na luta. Náo se trata mais de
da humanidade. Daí a assimilayáo da concorréncia econümica a urna luta urna lógica de promoyáo geral, mas de urn processo de eliminayáo seletiva.
Esse modelo náo faz mais da troca um meio de se fortalecer, de melhorar; ele
faz dela urna prova constante de confronto e sobrevivéncia. A concorrencia
32
Na parte 3, capítulo 12, de Principies ofBíology, v. 1 (Londres/Edimburgo, Williams/
náo é considerada, entáo, corno na econornia ortodoxa, clássica o u neoclás-
Northgate, 1864), § 165, p. 445, Spencer escreve que: "Jhis survival ofthe jittest [... ]
ís that whích Mr. Darwín has called 'natural selection, or the preservatíon offavoured sica, urna condiyáo para o bom funcionamento das rrocas no mercado; ela
races in the struggle for lije"' ["Essa sobrevivénda dos mais aptos (... ) é o que o sr. é a lei irnplacável da vida e o mecanismo do progresso por elirninayáo dos
Darwin chamou de 'sele~áo natural, ou preserva~áo das ras:as favorecidas na luta pela mais fracos. Profundamente marcado pela "lei da populayáo" de Malthus,
vida'"] (ed. fr.: Príncipes de biologie, Paris, Germer Baillitre, 1880, t. 1, p. 539).
o evolucionismo spenceriano conclui bruscamente qtie o progresso da so-
33 Ver Patrick Tort, Spencer et l'évolutíonnísme philosophique, cit. Remeto o'leitor ao
ciedade e, rnais amplamente, da humanidade supóe a destruiyáo de alguns
esdarecimento completo dessa questáo em Patrick Tort, L'ejfet Darwin: sélection
naturelle et naissance de la civilísatíon (Paris, Seuil, 2008). de seus componentes.
54 • A nova razáo do mundo Crise do liberalismo e nascimento do neoliberalismo e 55

Sem dúvida, esses dois modelos continuaráo a sobrepor-se nas argu- os primeiros botóes que brotam em torno dela. O mesrpo acontece na
mentafóes do liberalismo ulterior. No próprio Spencer, a delimitayáo vida económica. lsso é apeüas a aplicayáo de urna leida natureza e de urna
entre a cooperayáo voluntária que caracteriza a sociedade industrial e a lei lei de Deus. 36

da selefáO náo é simples. De todo modo, a "reafáo" de Spencer a crise do Essa ideo logia concorrencialista renovou o dogffiatismo do laíssezfaire,
liberalismo, com o deslocamento que ele faz do inodelo da traca para o da com prolongamentos políticos significativos nos Estados Unidos, que pu-
concorréncia, constitui um evento teórico que terá efeitos múltiplos e du- seram em questáo algumas leis de ptótec;:áo dos assalariados.
radouros. O neoliberalismo, em seus diferentes ramos, será profundamente No plano teórico, foi o sociólogo norte-americano e professor do Yale
marcado por esse evento, mesmo quando o evolucionismo biológico for College William Graham Sumner (1840-1910) quem estabeleceu mais
abandonado. Será evidente que a concorréncia é, como luta entre rivais, o explícitamente as bases desse concorrencialismo 37 • No ensaio Ihe Cha!lenge
motor do progresso das sociedades e que todo entrave que se coloca a ele, ofFacts [O desafio dos fatos], dirigido contra o socialismo e todas as tenta-
em particular pelo amparo as empresas, aos indivíduos o u mesmo aos países yóes do pensamento social "sentimental", Sumner tenciona lembrar que o
mais fracos, deve ser considerado um obstáculo a marcha contínua da vida. homem, desde o prindpio dos tempos, está em luta por sua existéncia e pela
Infelizes dos vencidos na competifáo económica! existéncia de sua mulher e seus filhos. Essa l~ta vital contra urna natureza
O táo mal denominado "danvinismo social" está mais para um "con- que distribuí com parcimónia os meios de subsisténcia abriga os homens a
correncialismo social" 3\ que instituí a competiyáo como norma geral da trabalhar, a disciplüiar-se, a moderar-se sexualmente, a fabricar ferramentas,
existénda individual e coletiva, tanto da vida nacional como da vida inter- _a constituir um capital. A escassez é a grande educadora da humanidade. Mas
nacionaP5. A adaptafáo a urna situas:áo de concorréncia vista como natural a·humá.nidade tetp tendén,cia a reproduzir-se além de suas capacidades de
torno u-se, assim, a palavra de ordem da conduta individual, assimilada a l¡lffi subsisténcia. A lu!a contra a natureZa é ao mesmo tehlpo, .e inev~tavelmente,
combate pela sobrevivéncia. Prolongando o malthusianismo que, na graqde LUlla luta dos homens entre si. Essa tendéncia está na origem do progresso.
época vitoriana, fazia da pobreza um efeito fatal da fecundidade irresponsá~el É próprio da sociedade civilizada, caracterizada pelo reino das liberdades
das classes populares, esse concorrencialismo fez muito sucesso na Europa civis e da propriedade privada, transformar essa luta numa competis:áo livre
e, sobretudo, nos Estados Unidos. Respondendo as acusas:óes de preda9áo e pacífica, da qual resulta urna distribuiyáo desigual das riquezas, que, por
e pilhagem, grandes industriais norte-americanos como Andrew Carnegie sua vez, produz necessariamente ganhadores e perdedores. Náo há razáo
ou John D. Rockefeller usaram essa retórica selecionista para justificar para deplorar as consequéncias desigualitárias dessa luta, como fazem desde
o crescimento dos grupos capitalistas gigantes que vinham construindo. Rousseau os filósofos sentimentais, sublinha Sumner. A justis:a nada mais
Rockefeller resumiu a ideologia, declarando: é do que a justa recompensa do mérito e da habilidade na luta. Os que
A variedade de rosa "American Beauty" só pode ser produzida coro o es- fracassam devem isso apenas a sua fraqueza e a seu vício. Um dos ensaios
plendor e o perfume que entusiasmam quem a contempla sacrificando-se mais significativos de Sumner afirma que
a propriedade privada, que como vimos é característica de urna sociedade orga-
34
Patrick Tort rnostrou de maneira definitiva que a teoria da1winiana era o oposto exato nizada segundo as condiyóes naturais da luta pela existéncia, tarnbém produz
desse concorrencialismo, runa vez, que, para o hornero social, a sele~o biol6gica é desigualdades entre os homens. A luta pela existéncia é dirigida contra a natu-
substitllida por "tecnologías de compensas:áo" que reduzem artificialmente as causas de reza. Devernos conseguir os rneios de satisfazer nossas necessidades a despeito
debilidade dos indivíduos menos favorecidos (Patrick Tort, L'effit Darwin, cit., p. 11 O).
o polémico termo "darwinismo social", empregado por seus oponentes, contérn ern si
urna falsificas:áo. A repeti<yáo das expressóes "luta pela vida'' ou "sobrevivéncia dos inais 36
Rockefdler citado ern John Kenneth Galbraith, "Derritre la fatalité, 1' épuration
aptos" náo é suficiente para lhe garantir um fundamento s6lido na teoria de Darwin. social. Lart d'ignorer les pauvres", Le Monde Diplomatique, Púis, ·out. 2005.
3
5 Mike Hawkins, Social Darwínism in European andAmerican Thought, 1860-1945: 37
Ver William Graham Sumner, The Challenge ofFacts and Other .E"ssays (org. Albert
Nature as Model and Nature as Threat (Cambridge, Cambridge University Press, 1997). Galloway Keller, New Haven,.Yale University Press, 1914).
56 "' A nova razáo do mundo Crise do liberalismo e nascimento do neoliberalismo e 57

de sua avareza, mas nossos companheiros sáo nossos competidores no dispar muitos, o Estado aparecia como wn interventor náo sornente legítimo, mas
dos parcos recursos que ela nos oferece. A competi~áo, por consequencia, é também necessário na ecünomia e na sociedade. Em todo caso, a questáo
urna leida natureza. A natureza é inteiramente neutra, sub mete-se iquele que
da "organizayáo" ~-o-~~pitalismo e da melhoria da condic;:áo dos pobres,
a ataca de forma mais enérgica e resoluta. Ela concede suas recompensas aos
que náo erarn todos p.reguic;:osos e cheios de vícios, tornara-se urna questáo
mais aptos, lago, sem atentar para ourras considera~óes de qualquer espécie
que sejam. Portanto, se existe liberdade, o que os homens obtém dela está na central desde o fim do século XIX.
exata propor~áo de seus trabalhos, e aquilo de que tem a posse e o gozo está A Primeira Guerra Mundial. e -as crises que vieram depois dela apenas
na exata propor~áo do que sáo e fazem. Talé o sistema da natureza. Se náo a aceleraram urna revisáo geral dos dogmas liberais do século XIX. O que
amamos e se tentamos corrigi-la, existe apenas um meio de fazé-lo. Podemos fazer com as velhas imagens idealizadas da livre rroca, quando todo o equi-
tomar do melhor e dar ao piar. Podemos desviar as puni~óes dos que fizeram
líbrio social e económico parece abalado? As repetidas crises económicas,
mal para os que fizeram bem. Podemos tomar as recompensas dos que fizeram
bem e dá-las aos que fizeram menos bem. Desse modo, diminuiremos as de- os fenómenos especulativos e as desordens sociais e políticas revelavam a
sigualdades. Favoreceremos a sobrevivencia dos mais inaptos [the survival of fragilidade das democracias liberais. O período de crises múltiplas gerava
the unjittest] e faremos isso destruindo a liberdade. É preciso compreender que urna ampla-desconfianya em relac;:áo a urna doutrina económica que pregava
náo podemos escapar da alternativa: liberdade, igualdade, sobrevivencia dos liberdade total aos atores no mercado. O laiSsezjaire foi considerado ultra-
mais aptos [survival of the jittest]; náo liberdade, igualdade, sobrevivencia
passado, até mesmo no campo dos que reivindicavam o liberalismo. Afora
dos mais inaptos [survival ofthe unjittest]. O primeiro caminho leva a sociedade
um núcleo de economistas universitários irredutíveis, aferrados adoutrina
para a frente e favorece seos melhores membros. O segundo caminho leva a
sociedade para trás e favorece seos piares membros. clássica e essencialmente hostis a intervenc;:áo do Estado, cada vez mais
·aU-tores esperavam urna transformac;:áo do sistema liberal capitalista, náo
Ternos aqui urna síntese perfeita desse "darwinismo social", q"!le de
pa~a destruí-io, bas par~·salvá-ln. O Estado parecia o único em condic;:óes
darwiniano só tem o no me que atribuíram a ele. Mas náo foi apenas 'nesse
de recuperar urna situac;:áo económica e social dramática. Dé acordo com
sentido que o liberalismo mudo u para sair da crise. .,
a fórmula proposta por Karl Polanyi, a crise dos anos 1930 soou a hora de
uro "reencastramento" do mercado em disciplinas regulamentares, quadros
legislativos e prindpios morais.
O "novo liberalismo" e o "progresso social"
Se a Grande Depressáo foi ocasiáo para urna revisáo mais radical da
Por mais importante que tenha sido essa reayáo violenta do spence- representayao liberal, nos países anglo-saxóes, como vimos, a dúvida já
rismo, significativa por si mesma das mudanc;:as em curso e prenhe das era oportuna muito antes. O New Deal foi preparado por um trabalho
transformac;:óes ulteriores do liberalismo, na segunda metade do século XIX crítico considerável, que foi muito além dos meios tradicionalmente hostis
muitos deram razáo as observayóes de Tocqueville quando ele descreveu o ao capitalismo. Aliás, desde o fim do século XIX, nos Estados Unidos, o
crescimento da intervenc;:áo governamental e aos argumentos económicos significado das palavras liberalism e liberal comec;:ava a mudar para designar
e sociológicos de John Stuart Mill. Muitos também, inclusive nas fileiras urna doutrina que rejeitava o laissezfaire e visava a reformar o capitalismo-19 •
dos que reivindicavam o liberalismo, fizeram dos instintos de "simpatia e U m "novo liberalismo" mais consciente das realidades sociais e económicas
solidariedade a mais alta expressáo da civilizac;:áo, prolongando Comte ou procurava definir havia muito tempo urna nova maneira de compreender
Darwin. Num livro famoso na época, John Atkinson Hobson fez do cresci- os prindpios do liberalismo, que emprestaria certas críticas do socialismo,
mento das funyóes governamentais wn dos temas principais de sua reflexáo, mas para melhor realizar os fins da civilizac;:áo liberal.
assim como, na Alemanha, o "socialista de cátedra" AdolfWagner38 . Para

39
Alguns autores veem esse deslocamento como urna trai~áo oll um "desvirtuamento"
38
Ver John Atkinson Hobson, The Evolution ofModern Capitalism (Londres, The Walter do liberalismo. É o caso de Alain Laurent, Le libéralisme américain: histoire d'un
Scott Publishing Co., 1894). détournement (Paris, Les Belles Lettres, 2006).
58 ., A nova razáo do mundo Crise do liberalismo e nascimento do neoliberalismo ~ 59

O "novo liberalismo" repousa sobre a constatayáo da incapacidade dos seria conceber, dentro do quadro democrático, formas de governo que fossem
42
dogmas liberais de definir novos limites para a intervenyáo governamentai. capazes de p6r as agendas em execuyáo.
Em nenhum outro lugar le-se melhor essa incapacidade dos dogmas amigos Keynes náo deseja-P_Ór em questáo todo o liberalismo, mas sua deriva
do que no pequeno ensaio de John Maynard Keynes cujo título já é por si dogmática. Assim, quando propóe que "o essencial para um governo náo
só urna indica~áo do espirito da época: O fim do "laissezfoire"* (1926). Se é fazer um pouco melhor o u um pouco pior o que os indivíduos já fazem, mas
Keynes se tornará mais tarde o alvo preferido dos neoliberais, náo devemos nos fazer o que atualmente náo é feito· dé"-maneira alguma'' 43 , náo se poderla ser
esquecer de que keynesianismo e neoliberalismo compartilharam as mesmas mais claro sobre a natureza da "crise do liberalismo": como reformular teórica,
preocupayóes durante algum tempo: como salvar do próprio liberalismo o moral e politicarnente a distinyáo entre agenda e ndo agenda? Isso significava
que é possível do sistema capitalista? Esse questionamento interessa a todos retornar urna questáo antiga, sabendo que a resposta náo poderla mais ser a
os países, com variayóes notáveis conforme o peso da tradiyáo do liberalismo dos fundadores da economía liberal, em particular a de Adarn Smith.
a
econOmico. Obviamente, a moda estava procura de uma terceira via entre Keynes quer estabelecer a distinyáo entre o que os economistas disseram
o puro liberalismo do século anterior e o socialismo, mas seria um engano de fato e o que a propaganda respondeu. Para ele, o laissezfoire é um dogma
imaginar essa "terceira via'' como o "justo meio". Na realidade, essa procura social simplista que atnalgamou tradiyóes e épocas diferentes, sobretudo a
adquire todo sentido quando a reinserimos no ámbito da questáo central da apologia da livre cdncorrencia do século XVIII e o "darwinismo social" do
época: sobre que fundamentos deve-se repensar a interven<;á-o governamental40 ? século XIX.
Toda a forya de Keynes proveio justamente de ter sabido colocar esse
Os_ economistas ensinavam que a riqueza, o comércio e a indústria eram
problema da época em termos de governamentalidade, como fará pouco
'· fiuto da livre ¿oncqrrencia - que a livre concorrencia fundara Londres.
depois, allás, seu amigo Walter Lippmann, embora num sentido diferepte. Mas os darwirlistas iam mais longe: a livre concoriencia criara o homem.
Após lembrar as palavras de Edmund Burke' 1 e a distin~áo de Bent\¡am A humanidade náo era mais fruto da Criaqáo, ordenando milagfosamente
entre agenda e ndo agenda, Keynes escreve o seguinte: todas as coisas para o melhor, mas fruto, supremo, do acaso submetido as
condiyóes da livre concorrencia e do laissezfaire. O princípio mesmo da
A tarefa essencial dos economistas hoje, sem dúvida, é repensar a distinyáo
sobrevivencia do mais bem adaptado podia ser considerado, assim, wna
entre agenda do governo e náo agenda. O complemento político dessa tarefa, 44
vasta generaliza<;áo dos prindpios económicos ricardianos.

Keynes sublinha que essa creny:t dogmática é largamente rejeitada pela


* EmJohn Maynard Keynes, Keynes (org. Tamás Szmrecsányi, 2. ed., Sáo Paulo, Ática, maioria dos economistas desde meados do século XIX, embora continue a
1984, Coleqáo Economia). (N. E.)
ser apresentada aos estudantes como propedeutica. Ainda que talvez exagere
40 Gilles Dostaler apresenta da seguinte maneira a visáo política de Keynes: ''A visáo
a extensáo da revisáo, omitindo a constituiyáo da economia de inspirayáo
política de Keynes se delineia, nwn primeiro momento, em termos negativos. Ela é
mais clara naquilo que rejeita do que no que prega. De um lado, Keynes trava urna
"marginalista'' que faz da concorréncia a condiyáo mais perfeita do funcio-
luta contra o liberalismo dássico, que se tornou apanágio de wn conservadorismo e narnento ideal dos mercados, ele aponta um momento de refnndayáo da
que, em sua forma extrema, pode rransformar~se em fascismo. Por ourro; ele rejeita doutrina que foi chamada de "novo liberalismo" e que ele próprio reivindica
as formas radicais do socialismo, que ele denomina ora leninismo, ora bolchevismo,
para si. Esse novo liberalismo visava a controlar as foryas econOrnicas para
ora comunismo. Trata~se, portanto, de navegar entre a reayáo e a revoluyáo. Essa é a
missáo de uma 'terceira via', alternadamente denominada novo liberalismo, liberalismo
evitar a anarquia social e política, reapresentando a questáo da agenda e
social e socialismo liberal, do qual ele se faz propagandista''. Gilles Dostaler, Keynes a
da náo agenda em sentido favorável intervenyáo política. O Estado se ve
et ses combats (París, Albin Michel, 2005), p. 166.
41
Edmund Burke considerava que "wn dos problemas mais sutis do direito" era "a 42 John Maynard Keynes, The End oJLaísserjaíre (Marselha, Agone, 1999), p. 26.
definiyáo exata do que o Estado deve tomar a seu encargo e gerir segundo b desejo
da opiniáo pública e do que deve ser deixado para a iniciativa privada, resguardado, 43 Ibidem, p. 31.
tanto quanto possível, de qualquer ingerencia". 44
lbidem, p. 9.
60 ~ A nova razáo do mundo Crise do liberalismo e nascimento do neoliberalismo • 61

encarregado de um papel regulador e redistribuidor fundamental naquilo é necessária para que essa realizayáo pessoal seja efetiva: cada indivíduo
que se apresenta também como um "socialismo liberal"4 5. deve ter condiyóes de participar da instaurac;:áo das regras que asseguraráo
Como mostra Gilles Dostaler, isso significava sobretudo reatar com o sua liberdade efetiva47 . É que a liberdade ganha urna concepyáo nova
radicalismo inglés, que sempre defendeu a intervenc;:áo do Estado quando e mais concreta c¿~_-a-legislayáo protetora dos trabalhadores. Segundo
esta era necessária. É nessa tradiyáo que se inseriam, no fim do século XIX Hobhouse, no século XIX pareceu necessário reequilibrar as tracas sociais
e no início do século XX, autores como John Hobson e Leonard Hobhouse. em benefício dos mais fracos mediante urna intervenyáo da legislayáo: "O
Estes últimos defendiam urna democracia social, vista como o prolonga- verdadeiro consentimento é um consentimento livre, e a plena liberdade
mento normal da democracia política. Na pluma desses partidários das do consentimento implica igualdade das duas partes comprometidas na
reformas sociais, os princípios da liberdade de comércio e de propriedade transayáo" 48 • Cabe ao Estado assegurar essa forma real de liberdade que o
tornavam-se wn meio como outro qualquer, e náo rnais urn firn ern si, o velho liberalismo náo concebera; cabe a ele garantir essa "liberdade social"
que evidentemente náo deixa de lembrar Bentham e Mili. Mais ainda, esse a
(socialfteedom), que ele opóe "liberdade náo social" (unsocialfteedom) dos
movimento pretendia travar urna luta doutrinal contra o individualismo na mais fortes. Ainda de forma bentharniana, Hobhouse explica que a liberdade
compreensáo dos mecanismos económicos e sociais, criticando frontalmente real somente pode ser assegurada pela coer~áo exercida sobre aquele que
a ingenuidade dogmática do velho liberalismo, que conduzia aconfusáo do é mais ameayador para a liberdade dos outros. Essa coeryáo, longe de ser
Estado moderno corn o Estado monárquico despótico. atentatória a liberdáde, proporciona a cornunidade um ganho de liberdade
Hobhouse propós em 1911 urna releitura sistemática da história do ·_ em todas as condutas, evitando a desarmonia social49 • Liberdade náo é o
liberalismo46. Esse movimento lento e progressivo de libertac;:áo do indi- Cqptrário de coeryáo, antes é a combinayáo das· coeryóes exercidas sobre os
víduo em relac;:áo as dependéncias pessoais era, para ele, um fenórp.eno que sáo forres cÓm aS- proÚyóes.dos que sáo mais fracos.
eminentemente histórico e social. Este levou a certa forma de organi:z;ac;:áo Dessa perspectiva, a lógica liberal auténtica pode ser faci'lmente resu-
que é irredutível a reuniáo imaginária de indivíduos inteirarnente formados mida: a sociedad e moderna multiplica as relayóes contratuais, náo apenas
fora da sociedade. Essa organizac;:áo social visa a produzir coletivamente as no campo econ6mico, mas em toda a vida social. Portanto, convém
condi<;óes de pleno desabrochar da personalidade, inclusive no plano,eco- multiplicar as ayóes de reequilíbrio e proteyáo para garantir a liberdade
nómico. Isso somente é possível se as relayóes múltiplas que cada indivíduo de todos, sobretudo dos mais fracos. O liberalismo social assegura, assim,
mantém com os outros obedecem a regras coletivamente estabelecidas. A por sua legislayáo, urna extensáo máxima da liberdade ao maior número
democracia mais completa, baseada na proporcionalidade da representayáo, de indivíduos. Filosofia plenamente individualista, esse liberalismo dá ao
Estado o papel essencial de assegurar a cada indivíduo os meios de realizar
45 seu próprio projeto 50 .
Gilles Dostaler descreve esse "novo liberalismo" da seguinte maneira: "Trata-se, em
última análise, de transformar profundamente um liberalismo económico que havia
custado socialmente muito caro no período vitoriano e corría o risco de provocar urna 47
Pode-se notar que esse novo liberalismo é um movimento fundamentalmente demo-
revolta da dasse operária. O novo liberalismo apresenta-se como urna alternativa ao
crático, que deixa de lado a desconfianya que ainda se encontrava em Mili acerca da
socialismo coletivista e marxista. Os novas liberais rejeitam a luta de dasses como
"tirania da maioria". Mais próximo de Bentham nesse aspecto, ele tem mais receio
motor de transformao;:áo social. Aderem de preferencia a urna forma de socialismo
da reconstituiyáo das oligarquías do que do poder das massas.
liberal que podemos qualificar de social-democrata, ao menos no sentido que tomará a
48
expressáo após as dsóes nos partidos operários no início da Segunda Guerra Mundial. LeÜnard Hobhouse, Liberalism and Other Writings, cit., p. 43.
49
Naturalmente, esse novo liberalismo é o exato oposto daquilo que boje chamamos de Ibidem, p. 44.
neoliberalismo, que é, em primeiro lugar, urna reao;:áo ultraliberal contra o interven- 50
Evidentemente, essa "retomada'' liberal deve ser articulada atradiyáo republicana no
cionismo keynesiano". Gilles Dostaler, Keynes et ses combats, cit., p. 179. mundo euro-atlántico. Seu equivalente na Frano;:a é o projeto republicano moderno,
4
G Ver Leonard Hobhouse, Liberalism and Other Writings (org. James Meadowcroft, escudado por Jean-Fabien Spitz, Le moment républicain en France (Paris, Gallimard,
Cambridge, Cambridge University Press, 1994). 2005, Coleo;:áo NRF Essais).
62 ., A nova razáo do mundo Crise do liberalismo e nascimento do neoliberalismo o 63

No enrreguerras, esse novo liberalismo terá desdobramentos impor- queria "um novo utilitarismo em que as satisfayóes físicas, intelectuais e
tantes nos Estados Unidos 51 . John Dewey, nas conferencias que fez erri morais teráo seu lugar justo" 54.
1935, reunidas em Liberalismo e al{áo social, mostrou a impotencia do Ver nisso um "desvirtuamento" do verdadeiro liberalismo seria, eviden-
liberalismo clássico para realizar seu.projeto de liberdade pessoal no século temente, um erro ba:s-eado no postulado de urna identidade fundamental do
XIX, sendo incapaz de passar da crítica das formas antigas de dependencia liberalismo 55 • É esquecer que, desde o início do século XIX, o radicalismo
para urna organizacráo social inteiramente fundada sobre os princípios li- benthamiano teve suas zonas de cantata com o movimento socialista nas-
berais. Reconhece em Bentham o mérito de ter visto a grande ameacra que cente, tanto na Inglaterra como na Franya. É esquecer que, anos depois, o
pesava sobre a vida política nas sociedades modernas. A democracia que ele utilitarismo doutrinal foi progressivamente.conduzido a opor urna lógica
queria implantar era pensada como forma de impedir os políticos de usar hedonista pura a urna ética da maior felicidade para o maior número de
seu poder em interesse próprio. Mas Dewey acusa-o, a ele e ao conjunto pessoas, como em Henry Sidgwick. Mas também é desconhecer o sentido
dos liberais, de náo ter reconhecido que o mesmo mecanismo agiria na das inflexóes aparentes dadas por John Stuart Mil! a sua própria doutrina,
economia e, consequentemente, de náo ter previsto "travas" para evitar como lembramos antes.
esse desvirtuamento 52 . Em suma, para Dewey, assim como anos antes
para Hobhouse, o liberalismo do século XX náo poderia mais contentar-
-se com os dogmas que permitiram a crítica da ordem antiga, mas deve
A dupla a~áo do Estado segundo Karl Polanyi
colocar-se imperativamente o problema da construcráo da ordem social e A questáo da natureza da interVenyáo governamental deve ser distinguida
da ordem econ6mica. É exatamente a isso que se dedicaráo- em sentido d~ questáo das fronteiras entre o Estado e o mercado. Essa distinyáo permite
oposto - os neoliberais modernos. apre~nder melhor:' um 'problema apresentado em A grande transformal{áo,
Hobhouse, Keynes o u Dewey encarnam urna corren te, ou melhor, !J-ffi livro em que Karl Polanyi afirma que o Estado liberal conduziu·urna dupla
meio difuso do fim do século XIX e inicio do século XX, no cruzamento ayáo com sentidos contrários no século XIX. De um lado, agiu em favor da
do radicalismo com o socialismo, que se empenha em pensar a reforma do criayáo dos mecanismos de mercado e, de outro, implantou mecanismos que
capitalismo53 • A ideia de que a política é guiada por um bem comum e deve o límitaram; de um lado, apoiou o "movimento" na direyáo da sociedade de
ser submetida a finalidades morais coletivas é fundamental nessa corrente , o mercado e, de outro, levou em considerayáo e reforyou o "contramovimento"
que explica as intersecyóes possíveis com o movimemo socialista. O fabia- de resistencia da sociedade aos mecanismos de mercado.
nismo, por intermédio de círculos e revistas, constitui um dos polos desses Polanyi mostra que a entrada no mercado dos fatores económicos é
encontros. Mas esse novo liberalismo deve ser situado sobretudo na história a condiyáo para o crescimento capitalista. A Revoluyáo Industrial teve
do radicalismo inglés. Hobson deve ser levado a sério 'quando declara que como condiyáo a constituiyáo de um sistema mercantil em que os homens
devem conceber-se, "sobo aguilháo da fome", como vendedores de serviyos
51 para poder adquirir recursos vitais para a traca monetária. Para tanto, é ne-
Segundo Alain Laurent, os "liberais modernos" conduzidos por John Dewey teriam
realizado urna operayáo muito semelhante nos anos 1920 nos Estados Unidos, o que cessário que a natureza e o trabalho se tornero mercadorias, que as relayóes
teria sido determinante para o significado que adquiriu o termo "liberal' no léxico que o hornero mantém com seus semelhantes e com a natureza tomem
político norte-americano. a forma da relayáo mercantil. Para que a sociedade inteira se organize de
52
Ver John Dewey, "Liberalism and Social Action", em The Later Works (1935-1937), acordo coro a ficyáo da mercadoria, para que se constitua como urna grande
v. 11 (Carbondale, Southern Illinois University Press, 1987), p. 28 [ed. bras.: "Libe-
ralismo e ayáo social", em Liberalismo, liberdade e cultura, trad. Anísio Teixeira, Sáo
54
Paulo, Editora Nacional, 1970]. John A. Hobson, Wealth and Lije, citado em Michael FreedeD., Liberalism Divided,
5
·' Ver Peter Clarke, Liberals and Social Democrats (Cambridge, Cambridge University cit., extraído de John A. Hobson, Wealth and Life (Londres, Macmillan, 1929).
Press, 1978). 5
5 Ver Alain Laurem, Le libéralisme américain, cit.
64 .. A nova razáo do mundo Crise do liberalismo e nascimento do neoliberalismo " 65

máquina de prodw;:áo e traca, a intervenyáo do Estado é indispensável, náo autodefesa espontánea, como diz Polanyi, prava que a sociedade de mercado
apenas no plano legislativo, para fixar o direito de propriedade e contrato, total é impossível, que os sofi:imentos que acarreta sao tals que os poderes
mas tambérn no plano administrativo, para instaurar nas relayóes sociais públicos sáo abrigados a estabelecer "diques" e "muralhas':.
regras múltiplas necessárias ao funcionamento do mercado concorrencial Todo desequilíbl'icn-¡gado ao funcionamento do mercado ameaya a
e fazer com que sejam respeitadas. O mercado autorregulador é fruto de sociedade submetida a ele. Inflayáo, desemprego, crise de crédito inter-
urna ayáo política deliberada, da qual um dos principais teóricos foi, segun- nacional, crash financeiro, todos ess_es fenómenos económicos atingem
do Polanyi, precisamente Bentham. Citamos aqui um trecho decisivo de diretamente a sociedade e, portanto, exigem defesas políticas. Porque náo
A grande transformariío: compreenderam essa liyáo que poderia ter sido tirada do p~ríodo anterior
O laissezfaire náo tinha nada de natural; os mercados livres nunca poderiam aPrimeira Guerra Mundial, os responsáveis políticos que surgiram após o
ter nascido se as coisas tivessem sido simplesmente abandonadas a si mes mas. fundas hostilidades quiseram reconstruir urna ordem liberal mundial muito
[... ]Entre 1830 e 1850, vi u-se náo apenas uma explosáo de leis ab-rogando frágil, acumulando tensóes entre o movimento de reconstruyáo do mercado
regulamenros restritivos, mas também um enorme aumento das funyóes (em particular no nível mundial, com o desejo de restaurayáo do sistema
administrativas do Estado, que é entáo dorado de uma burocracia central
do padráo-ouro) e o movimento de autodefesa social. Essas tensóes, que
capaz de cumprir as tarefas estabelecidas pelos partidários do liberalismo.
Para o utilitarista típico, o liberalismo econ6mico é um projeto social que
tém a ver com a contradiyáo interna a "sociedade de mercado", passaram
deve ser posta em ayáo para a maior felicidade do maior número de pessoas; da esfera económica para a social, e desta para a política, da cena nacional
o laissez-faire náo é um método que permite realizar urna coisa, ele é a coisa para a internacional e vice-versa, o que, por fim, provoco u a reayáo fascista
que se deve realizar.5 6 é á ~egunda Guerra Mundial.
Es.se Estado administrativo, criador e regulador da economia e da,¡so- A "grande trarlsforma'~áo" que caracteriza os_ anos 1930 e 1940 é
ciedade de mercado, é imediatamente, sem que se possa distinguir bem o urna resposta de grande envergadura ao "desaparecimento da·civilizayáo
alcance das intervenyóes, um Estado ad~inistrativo que reprime a dinámica de mercado" 58 e, mais precisamente, urna reayáo a tentativa derradeira e
espondnea do mercado e protege a sociedade. Esse é o segundo paradoxo desesperada de restabelecer o mercado autorregulador nos anos 1920: "O
da demonstrayao de Karl Polanyi, formulado da seguinte maneira por ele: liberalismo económico fez um lance alto para restabelecer a autorregulayáo
"Enquanto a economia do laissez-faire era produzida pela ayáo deliberada do sistema, eliminando todas as políticas intervencionistas que comprome-
do Estado, as restriyóes posteriores principiaram espontaneamente. O tiam a liberdade dos mercados de terra, trabalho e moeda'' 59 • Desse lance
laissez-foire era planejado, a planificariío niío" 57 Após 1860, e para o pesar de alto, em que a moeda desempenhou o papel principal, a grande transfor-
Herbert Spencer, um "contramovimento" generalizou-se em todos os países mayáo, a consequencia é direta. O imperativo da estabilidade monetária e
capitalistas, tanto na Europa como nos Estados UnidOs. Inspirando-se nas da liberdade do comércio mundiallevou a melhor sobre a preservayáo das
ideologias mais diversas, ele respondia a wna lógica de "proteyáo da socieda- liberdades públicas e da vida democrática. O fascismo foi o sintoma de
de". Esse movimento de reayao contra as tendencias destruidoras do mercado urna "sociedade de mercado que se recusava a funcionar" 60 e o sinal do fim
autorregulador tomou duas formas: o protecionismo comercial na¿ional e o do capitalismo liberal tal como fora inventado no século XIX. A grande
protecionismo social que se instalou no fim do século XIX. Portanto, a história reviravolta política dos anos 1930 manifesta-se como urna ressocializayáo
deve ser lida segundo wn "duplo movimento" de sentido contrário: o que violenta da economia61 • Por toda parte, a tendencia é a mesma: subtraem-se
leva acriayáo do mercado e o que tende a resistir a ele. Esse movimento de
58
lbidem, p. 285.
59
lbidem, p. 299.
56 60
Karl Polanyi, La grande transformation, cit., p. 189; grifo nosso. lbidem, p. 308.
57 61
lbidem, p. 191; grifo nosso. Ver Prefádo de Louis Dumont, em ibidem, p. l.
66 .. A nova razáo do mundo Crise do liberalismo e nascimento do neo liberalismo ., 67

do mercado concorrencial as regras de fixayáo dos preyos do trabalho, da a fon;:a da lei, ele pode até mesmo recorrer a violéncia, a guerra civil, para
terra e da moeda para submete-las a lógicas políticas que visam a "defesa instaurar as condiyóes prévias para um mercado autorregulador. 63
da sociedade". O que Polanyi chama de "grande transformayáo" é, para
Essa passagem 111,Ui_tQ_p_quco citada, notável pelo fato de antecipar certas
ele, o fim da civilizayáo do século XIX, a morte do liberalismo económico
"cruzadas" recentes, distancia-nos da "disjunyáo" entre Estado e mercado que
e de sua utopia.
é vista como típica do liberalismo. A realidad e histórica é muito diferente,
Polanyi, todavia, precipitou-se acreditando na morte definitiva do
como mostra Polanyi quando cita -a guerra que o Norte travou contra o Sul
liberalismo. Por que cometeu esse erro de diagnóstico? Podemos avanyar
para unificar as regras de funcionamento do capitalismo norte-americano.
a hipótese de que subestimo u um dos principais aspectos do liberalismo,
Essa forma constante de intervenyáo para "manutenyáo" do mercado
embora ele mesmo o tenha posta em evidencia. Vimos antes que, entre
lanya urna nova luz sobre o erro de P~lanyi, bem como sobre os que vieram
as diferentes formas de intervencionismo do Estado, havia duas que se
depois dele. Ela é apenas a presunyáo otimista de um fim ardentemente
contrariavam: as intervenyóes de criaráo do mercado e as de proteráo da
desejado ou apenas o resultado de urna confusáo de pensamento, cujo risco
sociedade, o "movimento" e o "contramovimento". Mas existe um terceiro
foi identificado pelo próprio Polanyi64 • O liberalismo económico náo se
tipo, do qual ele fala mais brevemente: as intervenyóes de funcionamento
confunde como !aissezfaire, náo é contrário ao "intervencionismo", como
do mercado. Embora indique que estas náo sáo facilmente distinguíveis
ainda se pensa com frequencia.
das outras, ele as menciona como urna constante da ayáo do governo
Na realidade, é' entre os diferentes tipos de intervenyóes do Estado
liberal. Essas intervenyóes destinadas a assegurar a autorregulayáo do
qtJe é preciso fazer urna distinyáo. Elas podem dizer respeito a princípios
mercado tentam fazer com que o princípio de concorrencia que deve
heteróiwmos a mercantil~~ayáo e obedecer a piindpios de solidariedade,
regé-lo seja respeitado. Polanyi cita como exemplos as leis antitrust:s e
compartilhament6, respeito a tradii;:óes o u normaS i'eligiosas. N~sse sentido,
a regulamentayáo das associayóes sindicais. Nos dois casos, trata-se d,~ ir
participam do "conrramovimento" atendencia principal do grande merCado.
contra a liberdade (na situayáo em questáo, a liberdade de coalizáo) p~ra
Mas também podem ser da ordem de um programa que visa a estender a
fazer funcionar melhor as regras concorrenciais. Polanyi cita, aliás, esses
insen:;:áo no mercado (o u quasi-mercado) de seto res inteiros da produyáo e da
"liberais consequentes com eles mesmos", entre os quais Walter Lippmann,
vida social, mediante certas políticas públicas ou certas despesas sociais que
que náo hesitam em sacrificar o laissezfaire em benefício do mercado
vem proteger o u apoiar o desenvolvimento das empresas capitalistas. Polanyi,
concorrencial62 • Isso porque estes últimos termos náo sáo sinónimos,
quando se quis "profeta", ficou como que fascinado coma contradiyáo entre
apesar da linguagem comum que os confunde. Citamos urna passagem
esse movimento mercantil e esse contramovimento social, contradiyáo que,
particularmente eloquente:
para ele, levou afinal a"explosáo" do sistema. Mas esse fascínio, explicável
Estritamente falando, o liberalismo econOmico é o princípio diretor de tanto pelo contexto como pelas intenyóes demonstrativas de sua obra, fez
urna sociedade em que a indústria é baseada na instituiyáo de um mercado
com que ele se esquecesse das intervenyóes públicas para o funcionamento
autorregulador. É verdade que, urna vez que esse sistema esteja mais ou
menos realizado, necessita-se de menos intervenc;:áo de certo tipo. Confudo,
do mercado autorregulador que, no entamo, ele pusera em evidencia.
isso náo quer dizá, longe disso, que o sistema de mercado e a intervenc;:áo Esse erro de Polanyi é importante porque tende a obscurecer a na-
sejam termos que se exduam mutuamente. Pois, enquanto esse sistema tureza específica do neoliberalismo, que náo é simplesmente urna nova
náo é implantado, os partidários da economia liberal devem exigir- e n:io reayáo a "grande transformayáo", urna "reduyáo do Estado" que prece-
hesitaráo em fazé-lo - que o Estado intervenha para estabelecé-lo e, urna deria um "retorno do Estado". Ele se define melhor como certo tipo de
vez estabelecido, que intervenha para mamé-lo. O partidário da economia
liberal pode portanto, sem nenhuma incoeréncia, pedir ao Estado que utilize

63 Ibidem, p. 20 l.
61
lbidem, p. 200. 64
ldem.
68 o A nova razáo do mundo Crise do liberalismo e nascimento do neoliberalismo o 69

intervencionismo destinado a moldar politicamente relayóes económicas em reexaminar o conjunto dos meios jurídicos, morais, políticos, econó-
e sociais regidas pela concorrencia. micos e sociais que permitiam a realizayáo de urna "sociedade de liberdade
individual", em prov~_!~g_de todos. Duas propostas poderiam resumi-lo: 1)
as agendas do Estado devem ir além dos limites que o dogmatismo do laíssez-
O neoliberalismo e as discordáncias do liberalismo -foire impós a elas, se se deseja salvaguardar o essencial dos benefícios de urna
A "crise do liberalismo" revdou a insuficiéncia do princípio dogmático sociedade liberal; 2) essas novas_agendas devem pór em questáo, na prática,
do laíssez-faire para a conduyáo dos negódos governamentais. O caráter fixo a confianya que se depositou até entáo nos mecanismos autorreguladores
das "leis naturais" tornou-as incapazes de guiar um governo cujo objetivo do mercado e a fé na justiya dos contratos entre indivíduos supostos iguais.
declarado é assegurar a maior prosperidade possível e, ao mesmo tempo, Em outras palavras, a realizayáo dos ideais do liberalismo exige que se saiba
a ordem social. utilizar meios aparentemente alheios ou opostos aos princípios liberais para
Entre os que permanecem apegados aos ideais do liberalismo dássico, defender sua implementas:ao: leis de protes:áo do trabalho, impostos pro-
foram formulados dois tipos de resposta que devem-se distinguir, ainda gressivos sobre a renda, auxílios sociais obrigatórios, despesas oryamentárias
que, historicamente, elas tenham se misturado algumas vezes. A primeira ativas, nacionalizayóes. Mas, se esse reformismo aceita restringir os interesses
em ordem cronológica é a do "novo liberalismo", a segunda é a do "neo- individuais para proteger o interesse coletivo, ele o faz apenas para garantir
liberalismo". Os no mes dados a essas duas vias náo se impuseram de ime- as condiyóes reais de realizayáo dos fins individuais.
diato, como se pode imaginar. Foi o uso que se fez delas, os conteúdos que O "neoliberalismo" vem mais tarde. Em certos aspectos, aparece como
foram elaborados, as linhas políticas que se destacaram pouco a pouco ütna·decantayáo do "novo liberalismo" e, em mitras, como urna alternativa
que nos permitem distingui-las retroativamente. A proximidade dos nemes aos tipos de in!etienyáo ec~nómica e reformismo social pregados pelo "novo
traduz, em primeiro lugar, urna comunidade de projeto: trata-se nos,dois liberalismo". Ele compartilhará amplamente a prirneira proPosiyáo com
casos de responder a urna crise do modo de governo liberal, de superar as este último. Mas, ainda que admitam a necessidade de urna intervenyáo do
dificuldades de todos os tipos que surgiram das mutayóes do capitalismo, Estado e rejeitern a pura passividade governamental, os neoliberais opóern-
dos conflitos sociais, dos confrontas internacionais. Trata-se até, mais -se a qualquer ayáo que entrave o jogo da concorrénda entre interesses
fundamentalmente, de fazer frente ao que apareceu em dado momento privados. A intervenyáo do Estado tern até urn sentido contrário: trata-se
como o "fim do capitalismo", fim esse que foi encarnado pela ascensáo náo de limitar o mercado por urna ayáo de correyáo ou cornpensayáo do
dos "totalitarismos" após a Primeira Guerra Mundial. Essas duas corren tes Estado, mas de desenvolver e purificar o mercado concorrencial por um
descobriram progressivamente que tinham em comum, dito brutalmente, enquadramento jurídico cuidadosamente ajustado. Náo se trata rnais de
um inimigo: o totalitarismo, isto é, a destruiyáo da sociedade liberal. postular urn acordo espond.neo entre os interesses individuais, mas de
Sem dúvida, foi isso que as levou a criar um discurso ao mesmo tempo produzir as condiyóes ótirnas para que o jogo de rivalidade satisfaya o in-
teórico e político que dá razáo, forma e sentido aintervenyáo governamen- teresse coletivo. A esse respeito, rejeitando a segunda das duas proposiyóes
tal, um discurso novo, que produz urna nova racionalidade gover~amental. mencionadas antes, o neoliberalismo combina a reabilitayáo da intervenyáo
O que supunha revisar, de um lado e de outro, o naturalismo liberal tal pública com urna concepyáo do mercado centrada na concorréncia, cuja
como fora transmitido ao longo do século XIX. fonte, como vimos, encontra-se no spencerismo da segunda rnetade do
A distinyáo dos nomes, "novo liberalismo" e "neoliberalismo", por mais século XIX65 • Ele prolonga a virada que deslocou o eixo do liberalismo,
discreta que seja na aparéncia, traduz urna oposiyáo que náo foi percebida de
imediato, as vezes nem mesmo pelos atores dessas formas de renova,yáo da 65
Michel Foucault apontou essa passagem da traca para a concotrénda, que caracteriza
arte do governo. O "novo liberalismo", do qual urna das expressóes tardías o neoliberalismo em rela~áo ao liberalismo dássico. Ver Michel Foucault, Naissance
e mais elaboradas no plano da teoria económica foi a de Keynes, consistiu de la biopolítique, cit., p. 121-2.
70 ., A nova razáo do mundo

fazendo da concorrf:ncia o princípio central da vida social e individual,


mas, em oposiyáo a fobia spenceriana de Estado, reconhece que a ordein
de mercado náo é um dado da natureza, mas um produto artificial de urna
2
história e de urna construyáo política.
O COLÓQUIO WAL:TER LIPPMANN OU
A REII\V'ENgAO DO LIDERALISMO

Se é verdade que a crise do liberalismo teve como sintoma wn· refor-


mismo social cada vez mais pronunciado a partir do fim do século XIX,
o neoliberalismo é ·urna resposta a esse sintoma, ou ainda, urna tentativa
de entravar essa orientayáo as políticas redistributivas, assistenciais, plani-
-ficadoras, reguladoras e protecionistas que se desenvolveram desde o fim
d~:·séc~lo XIX, u~a orientayáo vista como urna degradayáo que coriduzia
diretamente ao coletivismo.
A criayáo da Sociedade Mont-Pelerin, em 1947, é citada com frequen-
cia, e erroneamente, como o registro de nascimento do neoliberalismo 1 •
Na realidade, o momento fundador do neoliberalismo situa-se antes,
no Colóquio Walter Lippmann, realizado durante· cinco dias em Paris,
a partir de 26 de agosto de 1938, no ambito do Instituto Internacional
de Cooperayáo Intelectual (antecessor da Unesco), na rue Montpensier,
no centro de Paris2 • A reuniáo de Paris distingue-se pela qualidade de
seus participantes, que, na maioria, marcaráo a história do pensamento
e da política liberal dos países ocidentais após a guerra, quer se trate de
Friedrich Hayek, Jacques Rueff, Raymond Aron, Wilhelm Ropke, quer
se trate de Alexander van Rüstow.

1
A respeito da história da Sociedade Mont-Pelerin, ver Ronald Max Hartwell, A History
ofthe Mont Pelerin Society (Indianápolis, Liberty Fund, 1995).
2
Para mais detalhes, ver Franyois Denord, "Aux origines du néolibérahsme en France:
Louis Rougier et le Colloque Walter Lippmann de 1938", Le Mouvement Social,
n. 195, 2001, p. 9-34, e, mais recente, o livro abundantemente documentado de
Serge Audier, Le Colloque Lippmann: aux origines du néolibéralisme (Latresne, Le
Bord de l'Eau, 2008).
72 @ A nova razáo do mundo
O Colóquio Walter Lippmann ou a reinvent¡áo do liberalismo ~ 73

Escolher urna dessas duas datas como momento fundador náo é in-
Todavia, o "novo liberalismo" náo é o principal eixo.do colóquio, que
diferente, como veremos adianre. A análise que se faz do neoliberalismo
é muito rnais o momento em que é decantado um modo diferente de re-
depende dessa escolha.
construyáo, que ter~ ~m comum com o "novo liberalismo" a aceitayáo da
Esses dois acontecimentos, allás, estáo correlacionados. O Colóquio Walter
intervens:áo, mas tentará dar a ela urna nova definiyáo e, por conseguinte,
Lippmann encerrou-se com a declaras:áo de cria<;:áo de um Centro Interna-
novos limites. Isso, porérn, é simplificar as coisas. Outras divergencias dizem
cional de Estudos para a Renovayáo do Liberalismo, cuja sede acabou sendo
respeito ao próprio sentido desse -"neOliberalismo" que se deseja construir:
o Museu Social, na rue Las Cases, em Paris, instituiyáo que foi concebida
trata-se de transformar o liberalismo, dando-lhe um novo fundamento, ou
na época como urna sociedade intelectual internacional que deveria realizar
ressuscitar o liberalismo clássico, isto é, operar um "retorno ao verdadeiro
sessóes regulares sempre em países diferentes. Os acontecimentos na Europa
liberalismo" contra os desvios e as heresias que o perverteram? Em face dos
decidiram o contrário. Sob esse ángulo, a Sociedade Monr-Pelerin aparece
inimigos comuns (o coletivismo em suas formas comunista e fascista, mas
como wn prolongamento da iniciativa de 1938. Um de seus pontos em co-
também as tendencias intelectuais e as correntes políticas reformistas que
mum, que náo foi de pouca importáncia para a difusáo do neoliberalismo, é
supostamente levavam a ele nos países ocideritais, a corneyar pelo keynesia-
seu cosmopolitismo. O Colóquio Walter Lippmann é a primeira tentativa de
nismo), essas divergencias váo parecer secundárias, sobretudo quando vistas
crias:áo de urna "internacional" neoliberal que se prolongou em curros orga-
de fora. Durante a travessia do deserto político e intelectual dos neoliberais,
nismos, entre os quais, nas últimas décadas, a Comissáo Trilateral e o Fórum
0 que importa, na verdade, é o por um front unido ao "intervencionismo
Económico Mundial de Davos. Ourro ponto em comum é a importJ.ncia que
_de Estado" e a"escalada do coletivismo". Foi essa oposiyáo que a Sociedade
se dá ao trabalho intelectual de refunda<;:áo da doutrina para melhor assegurar
1Yf'0n:t~Pelerin copseglliu ,encarnar, reunindo as diferentes correntes do
sua vitória contra os prindpios adversários. A reconstruyáo da do u trina liperal
neoliberalisrno, a: corren te norte-ainericana (forterilente influe?ciada pelos
vai beneficiar meios academicos bem financiados e de prestígio, comeyé"\lldo
"neoaustríacos" Friedrich Hayek e Ludwig von Mises) e a corrente alerná e
nos anos 1930 pelo Institut Universitaire des Hautes Études Internationales
permitindo, desse modo, que se apagassem as linhas divergentes tais como
[Instituto Universitário de Altos Estudos lnternacionais], fundado em 1927, em
haviam se firmado antes da guerra. Sobretudo, essa juns:áo dos neolibe-
Genebra, pela London School ofEconomics e pela Universidade de Chicago,
rais ocultou um dos aspectos principais da virada que se deu na história
para mencionarmos apenas os mais famosos, e destilando-se em seguida em
do liberalismo moderno: a teorizayáo de um intervencionismo propriamente
algumas centenas de think tanksque difundiráo a doutrina ao redor do mWldo.
a
liberal. Era precisamente isso que trazia luz o Colóquio Walter Lippmann.
O neoliberalismo vai desenvolver-se segundo várias linhas de forya,
Nesse sentido, este último náo é somente um registro de nasdmento, mas
submetendo-se a tensóes das quais devemos reconhecer a importáncia. O
um elemento revelador.
colóquio de 1938 revelou discordáncias que, desde d prindpio, dividiram
os intelectuais que reivindicavam para si o neoliberalismo. Aliás, ele mostra
bem as divergencias que, após a Segunda Guerra Mundial, continuaráo a Contra o naturalismo liberal
agir de forma cada vez mais patente. Essas divergencias sáo de vários tipos
O colóquio realizou-se de 26 a 30 de agosto de 1938. O organizador
e náo devem ser confundidas. O Colóquio Walter Lippmann mostra, em
dessa reuniáo internacional com 26 economistas, @ósofos e funcionários
primeiro lugar, que a exigencia comum de reconstruyáo do liberalismo ainda
do alto escaláo de vários países foi Louis Rougier, filósofo hoje esquecido.
náo permite, em 1938, distinguir completamente as tendencias do "novo
Na época, ele era professor de filosofia em Besanyon, adepto do positivismo
liberalismo" e as do "neoliberalismo". Corno rnostrou Serge Audier, alguns
lógico, membro do Círculo de Viena e já havia escrito várias obras e artigos
participantes franceses sáo tipicarnente da prirneira corrente quand? se re-
que pregavam wn "retorno do liberalismo" sobre novas bases. ·Essa reuniáo foi
ferern a um "liberalismo social", como Louis Marlio, ou a um "socialismo
urna dupla ocasiáo para o lan~arnento da tradu~áo francesa do livro de Walter
liberal", como Bernard Lavergne.
Lippmann, An Inquiry into the Principies ojthe Good Society[Uma investiga9\o
74 '" A nova razáo do mundo O Colóquio Walter Lippmann ou a reinvenyáo do liberalismo " 75

sobre os princípios da Grande Sociedade], como título de La cité líbrt}, e a


Rougier pretendia dar reuniáo da qual fora o promotor, sublinhando que
para a presenya do autor em Paris. O livro é apresentado pelo organizador do a ambiyáo do colóquio era condensar um movimento intelectual difuso 6• Ao
colóquio como wn manifesto de reconstruyáo do liberalismo, em torno do mesmo tempo, esse c?l~g_l}-io é para ele o ato inaugural de Urna organizayáo
qual podem reunir-se espíritos diferentes trabalhando na mesma dire¡;:áo. A internacional destinada a construir e difundir urna doutdna liberal de novo
ideia que anima Rougier é bastante simples: náo haverá "retorno do liberalis- género: o Centro Internacional de Estudos para a Renovayáo do Liberalismo,
mo" se náo houver urna refundayáo teórica da doutrina liberal e se dela náo o qual mencionamos anteriormente.--Esse centro ainda organizará algumas
se deduzir urna política liberal ativa, que evite os efeitos negativos da crenya reunióes temáticas, mas desaparecerá em consequéncia da dispersáo de seus
metafisica no laíssezjaíre. A linha que Rougier deseja estabelecer no colóquio membros causada pela guerra e pela ocupayáo.
é wn prolongamento da convic¡;:áo que Lippmann afirma firmemente em sua Em seu discurso de abertura, Rougier lembra também a importancia
obra quando define a "agenda'' do liberalismo a ser reinventado: da tese de Lippmann, segundo a qual o liberalismo náo se identifica com
o laíssezjaíre. De fato, essa assimilayáo demonstrou todas as suas conse-
A agenda prova que o liberalismo náo é a apologética estéril em que se trans-
quéncias negativas, já que, diante da evidéncia dos males do laíssezjaíre,
a
formo u durante sua sujei¡;áo ao dogma do laissezjaire e incompreensáo
dos economistas clássicos. Ela demonstra, acredito eu, que o liberalismo é a opiniáo pública lago conclui que apenas a· socialismo pode salvar do
náo urna justificayáo do status quo, mas urna lógica de reajustamento social fascismo ou, invers~ente, apenas o fascismo pode salvar do socialismo,
que se tornou necessária pela Revoluyáo Industrial. 4 embora um e outro sejam variedades de urna mesma espécie. Ele enfatiza
Rougier, no discurso que abriu os trabalhos do colóquio, assinala que igualmente a crítica de Lippmann ao naturalismo da do u trina "manches-
esse esforyo de refundayáo ainda náo tem um nome oficial: deve-se falar tefia.t-:li'·. La cité libre possuía o grande mérito, em sua opiniáo, de lembrar
em "liberalismo construtor", "neocapitalismo" o u "neo liberalismo", termo que o regime libefal é res~Ítado de urna ordem legal que pressupóe um
que, segundo ele, parece prevalecer no uso corrente5? Refundar o liberalismo intervencionismo jurídico do Estado. Ele resume da seguinte 'maneira a
para melhor combater a grande ascensáo dos totalitarismos é a meta que tese central da obra:
A vida econ6mica acorre dentro de um quadro jurídico que estabelece o
regime da propriedade, dos contratos, das patentes, da faléncia, o estatuto
3 Walter Lippmann, La cité libre (trad. Georges Blumberg, Paris, Librairie de Médicis,
das associa¡;óes profissionais e das sociedades comerciais, o dinheiro e os
1938). Lippmann, jornalista e editorialista norte-americano, famoso pelas análises
bancos, todas as coisas que náo sáo dadas pela natureza, como as leis do
de opiniáo pública e política estrangeira norte-americana, esteve entre as duas
equilibrio econ6mico, mas sáo criayóes contingentes do legislador?
guerras no cruzamento do "novo liberalismo" como neoliberalismo. Em Drift and
Mastery (1913), ele se pronuncia a favor de um controle científico da economia e da Essa é a expressáo da linha dominante do colóquio, que será objeto de
sociedade. Mais tarde, seus escritos sobre a Grande Depressáo e o New Deal daráo
ressalva, ou até mesmo de contestayáo, por parte de alguns convidados,
continuidade a sua tese de que náo existem liberdades sem intervenyáo governamental.
Em The New Imperative (1935), salienta que o "novo imperativo" político, que foi em particular dos "neoaustríacos" Van Mises e, deceno, Hayek, que, em-
posta em prática comas políticas de resposta acrise, consiste em o Estado "assumir bora náo se manifeste durante as discussóes, concorda com aquele que
a responsabilidade pela condiyáo de vida dos cidadáos". Ero sua opiniáo, essas polí-
ticas, adoradas tanto por Hoover como por Roosevelt, inauguraram uro "New Deal
6
permanente" em ruptura coma ideologia do laissez{aire anterior a 1929, dando Louis Rougier vé as discussóes do colóquio como a continuayáo de urna série de
ao governo uma nova funyáo, que consiste em "usar de todos os seus poderes para trabalhos já publicados que se identificavam como liberalismo e cujo tema em ca-
regular o ciclo dos negócios". Se o governo da economia moderna é indispensável, muro era a "crise do capitalismo". Ele menciona as obras de Jacques Rueff, La crise du
resta determinar a melhor política possível. Todos os seus esforyos visaráo a repensar capitalisme (1935), Louis Marlio, Le sort du capitalisme (1938), e Bernard Lavergne,
um modo de governo liberal. Ver Ronald Steel, Walter Lippmann and the American Grandeur et déclin du capitalisme (1938).
Century (Boston, Little Brown, 1980). 7
Travaux du Centre Internacional d'Études pour la Rénovation: du Libéralisme, Le
4 Colloque Lippmann (Paris, Librairie de Médids, 1939), p. 15. A ata do colóquio foi
Walter Lippmann, La cité libre, cit., p. 272.
Aexpressio jáhaviasido utilizada antes do colóquio, em particular por Gaetan Pirou. publicada recentemente por Serge Audier, Le Colloque Lippmani-1,, cit.
76 o A nova razao do mundo O Colóquio Walter Lippmann ou a reinvens;áo do liberalismo o 77

considera seu mestre. Mas todos os participantes compartilham incontes- Para os primeiros, os fatores principais do caos devem ser buscados na
tavelmente da rejei~áo dos "neoaustríacos" ao coletivismo, ao planismo e rrais:áo progressiva dos prindpios do liberalismo clássico (Robbins, Rueff,
ao totalitarismo, em suas formas comunista e fascista. Há também urna Hayek, Von Mises); para os segundos) as causas da crise- sáo encontradas
rejei~:lo amplamente compartilhada as reformas de esquerda que visam a no próprio liberalismo-d~ssico (Rougier, Lippmann e Os teóricos alemáes
r~distribui~áo de renda e a prote~:lo
social, como aquelas adoradas pela do ordoliberalismo 11 ).
8
Frente Popular na Fran~a • Mas o que fazer para combater essas tenden- Em La Grande Dépression, 1929c1934, Robbins explica também que
cias? Reatualizar o liberalismo dentro de um novo contexto ou revisá-lo a crise é consequé:ncia das intervens:óes políticas que desregularam o me-
profundamente? Essa alternativa está estreitamente ligada ao diagnóstico canismo autocorretivo dos pre~os. Como sublinha Rueff no prefácio que
da "grande crise" e suas causas. fez ao livro, foram as boas intens:óes dos reformistas sociais que levaram ao
fu divergencias manifestadas entáo rem rela~áo com urna diferen~a desastre. A rea~áo de Robbins e Rueff revela urna nostalgia de um mercado
importante de interpreta~áo dos fen6menos econ6micos, políticos e sociais espontaneamente autorregulado que teria funcionado em urna era dourada
do entreguerras, que alguns autores de diferentes horizontes políticos e das sociedades ocidentais. É o que Rueff traduz muito bem no opúsculo
doutrinais pensam como urna "crise do capitalismo". Resta pouca dúvida, La crise du capitalisme, quando opóe o quase equilíbrio do período anterior
como vimos anteriormente, que a situa~áo mudou profundamente com a Primeira Guerra Mundial ao caos da grande crise 12 • Antes, escreve ele:
rela~áo a "be !le époque do liberalismo", táo bem descrita por Karl Polanyi. Os homens agiam 'independentemenre uns dos outros, sem nunca se preo-
Duas interpreta~óes radicalmente opostas do "caos" do capitalismo cupar com as repercussóes de seus atos sobre o estado geral dos mercados.
conflitam durante esses dias. Allás, elas dividem mais amplamente os meios E, no entanto, dq caos das trajetórias individuais nasce essa ordem coletiva
liberais na Europa nessa época. Para uns, a doutrina do laissez-faire el-eve tiaduzida pelo qllase equilíbrio que_ os fatos revelava_rp_. 13
ser renovada, sem dúvida, mas deve sobretudo ser defendida daqueles que Mas, depois, as interven¡;:óes públicas, todas as formas de 'dirigisino,
pregam a ingerencia do Estado. Destes últimos, Lionel Robbins na Ingla- as taxa~óes, as planificas:óes e as regulamenta~óes "possibilitaram a alegre
terra e Jacques Rueff na Fran~a, juntamente com os "austríacos" Von Mises queda da prosperidade" 14 • O postulado desses autores, que encontramos
e Hayek, estáo entre os autores mais conservadores em matéria doutrinal9• também em Von Mises ou Hayek, é que a intervens::lo política é um pro-
Para outros, o liberalismo deve ser integralmente refundado e favorecer o cesso cumulativo. Urna vez iniciada, leva necessariamente a coletiviza~áo
que já é chamado de "intervencionismo liberal", segundo o termo utiliza- total da economia e ao regime policial totalitário, já que é preciso adaptar
do por Von Rüstow e Henri Truchy10 • fu divergencias sobre as análises da os comportamentos individuais aos mandamentos absolutos do programa
grande crise sao particularmente significativas dessas duas op~óes possíveis. de gest:lo autoritária da economia. A conclusáo é clara: náo se pode falar de
falencia do liberalismo, porque foi a política intervencionista que gerou a
crise. O mecanismo dos pre~os, quando funciona livremente, resolve todos
O consenso em torno desse ponto nao é geral. Prava da "complexidade do neoli-
os problemas de coordena~áo das decisóes dos agentes económicos.
beralismo francé:s", segundo Serge Audier, é que alguns participantes do~Colóquio
Walter Lippmann sao partidários dos "progtessos sociais" e do "liberalismo social". Rueff, por exemplo, na sessáo de domingo, 28 de agosto, dedicada as
É o caso já citado de Louis Marlio e Bernard Lavergne. Serge Audier, Le Colloque relas;óes entre o liberalismo e a questáo social, sustenta da maneira mais
Lippmann, cit., p. 140-57 e 172-80.
9 Veremos mais adiante o quanto autores como Von Mises e, sobretudo, Hayek desen-
volveram refiexóes originais que nao podem ser simplesmente assimiladas ao velho 11
Fazemos wna apresentas;áo destes últimos no capítulo 3.
laissez-foire. 12
Jacques Rueff, La crise du capitalisme (Paris, Éditions de la Rev1re Bleue, 1936).
10
Henri Truchy, "Libéralisme économique et économie dirigée", L'Année Politique 13
Frantaise et Étrangtre, dez. 1934, p. 366, citado em Frans;ois Denord, ''Aux origines Ibidem, p. 5.
14
du néolibéralisme en France", cit. Ibidem, p. 6.
78 ., A nova razáo do mundo O Colóquio Walter Lippmann ou a reinvenyáo do liberalismo " 79

ortodoxa que a inseguranya social sofrida pelos trabalhadores deve-se a causa do mal: "Náo foi o livre jogo das foryas económicas, mas a política
aos desequilíbrios económicos periódicos contra os quais nada se pode antiliberal dos governos que ériou as condiyóes favoráveis ao estabelecimento
fazer, e que eles náo sáo táo graves quanto parecem, na medida em que dos monopólios. Foi _ª- legislayáo, foi a política que criou a tendencia ao
há automaticamente um retorno ao equilíbrio quando o mecanismo dos monopólio" 19 •
preyos náo é desregulado. Por outro lado, o Estado, se intervérn, emperra Essa linha de náo intervenyáo absoluta que se expressa no colóquio revela
a máquina automática: nesse plano a persistencia de urna ortOdoxia aparentemente intocada. Mas
O sistema liberal tende a assegurar as classes mais necessitadas o máximo de o que Foucauh: acertadamente chamará de "fobia do Estado" náo resume o
bem-estar. Todas as intervenyóes do Estado no plano económico tiveram o mais inovador propósito do colóquio.
efeito de empobrecer os trabalhadores. Todas as intervenc;óes dos governos
pareceram melhorar as condic;óes da maioria, mas para isso náo há outro
meio senáo aumentar a massa dos produtos que devem ser partilhados. 15 A originalidade do neoliberalismo
Ao questionarnento cético de Lippmann sobre os benefícios sociais da Através do discurso dos numerosos participantes, irnpóe-se urna redefi-
liberdade de mercado ("é possível aliviar o sofrimento que a mobilidade de niyáo do liberalismo que deixa os ortodoxos particularmente desarmados.
um sistema de mercados privados comporta? Se o equilíbrio deve ser d~ixado Essa liriha de for~a do colóquio une a perspectiva de Rougier, de ordem
sernpre por conta própria, isso comporta grandes sofrimentos" 16), Rueff essencialmente epistemológica, a de Lippmann, que lembra a importáncia
responde pouco depois com a sentenya definitiva: "O sistema liberal dá ao da_ construyáo jurídica no funcionarnento da econornia de mercado, e, por
sistema económico urna flexibilidade que permite lutar contra a inseguran- fiffi',:aq_Uela, muito.:próxima. .dos "sociólogos liberais" alemáes ROpke e Von
ya''17. Von Mises ainda lembrará, a propósito do seguro-desemprego, que Rüstow, que enfatizam a sustenta~io social do merCado, que pqr si só náo
o desemprego, enquanto fenómeno macic;o e duradouro, é consequéncia:' é capaz de assegurar a integrayáo de todos.
de urna política que visa a manteros salários em um nível mais elevado do Aparentemente, os participantes do colóquio tinham plena consciencia
que aquele que resultaria do estado do mercado. O abandono dessa política das clivagens que os dividiarn. Assim, Von Rüstow afirma:
redundaria muito rapidamente numa diminuiyáo considerável do número
de desempregados. 18 É inegável que aqui, em nosso círculo, estáo representados dais pontos de
vista diferentes. Uns náo veem nada de essencial para criticar ou mudar no
Na véspera, a pergunta "o declínio do liberalismo é devido a causas en- liberalismo tradicional [... ]. Outros, como nós, procuram a responsabilidade
dógenas?" também mostrava a tensáo. Para o pensador ordoliberal ROpke, a pelo declínio do liberalismo no próprio liberalismo; e, consequentemente,
concentrayáo industrial que destrói a concorrencia deve-se a causas técnicas procuram a saída numa renovas:áo fundamental do liberalismo. 20
(peso do capital fixo), ao passo que Von Mises sustefita que os cartéis sáo Sáo sobretudo Rougier e Lippmann que definem durante o colóquio
produto do protecionismo, que fragmenta o espayo económico mundial, o que se deve entender, segundo eles, por "neoliberalismo" e quais tarefas
freia a concorrencia entre países e, portanto, favorece os acordos ern nível lhe competem. Ambos os autores haviam desenvolvido antes, ern suas
nacional. Segundo ele, seria absurdo, portanto, pregar a interv~n<;:áo do
a
Estado em relayáo concentrayáo, porque é precisamente essa intervenyáo
19
Ibidem, p. 37.
2
° Franyois Denord comenta essas palavras da seguime maneira: "Em público, Rüstow
15 SergeAudier, Le Colloque Lippmann, cit., p. 69. respeita as regras do decoro universitário, mas, em particular, confessa a Wilhelm
16
Idem. Rüpke a péssima opiniáo que tem de Friedrich Hayek e Ludwíg van Mises: o lugar
deles é no museu, conservados em formol. Sáo pessoas desse tipo que sáo responsáveis
17
Ibidem, p. 71.
pela grande crise do século XX". Frans:ois Denord, "Aux origines du néolibéralisme
18
Ibidem, p. 74. en France", cit., p. 88.
80 " A nova razáo do mundo O Colóquio Walter Lippmann ou a reinvenr;:áo do liberalismo 0 81

respectivas obras, ideias bastante semelhantes e, sobretudo, a mesma von- desenvolvida por Lippmann22 , mas também consta no famoso livro que
tade de reinventar o liberalismo. Para compreender melhor a natureza dessa Hayek publicará após a gÚerra, O caminho da Servidáo*.
reconstruyáo, convém examinarmos um pouco mais de perta os escritos de A ideia decisiv_~ _d_9__c:olóquio é que o liberalismo clássico é o principal
Rougier e, principalmente, de Lippmann. responsável pela crise- por que ele passava. Os erras de governo aos quais ele
O "retorno ao liberalismo" pregado por Rougier é, na verdade, urna conduziu favoreceram o planismo e o dirigismo. De que natureza eram esses
refundayáo das bases teóricas do liberalismo e a definiyáo de urna nova erros? Consistiam essencialrnente-efil confundir as regras de funcionamento
política. Rougier parece guiado sobretudo por sua rejeicráo a metafísica de um sistema social coro leis naturais intangíveis. Rougier, por exemplo,
naturalista. O importante para ele é afirmar de saída a distincráo entre ve na fisiocracia francesa a expressáo mais clara desse tipo·de confusáo 23 • O
um naturalismo liberal de estilo antigo e um liberalismo ativo, que visa que charna de "mística liberal", o u crenya numa natureza imutável, que ele
a criacráo consciente de urna ordem legal no interior da qual a iniciativa pretende distinguir cuidadosamente da ciencia econ6mica verdadeira, deriva
privada, submetida a concorrencia, possa desenvolver-se com toda a da passagem da observayáo das características científicas de urna ordem
liberdade. Esse intervencionismo jurídico do Estado contrapóe-se a um regida pela livre concorrencia para a ideia de que essa ordern é intocável e
intervencionismo administrativo, que estorva ou impede a liberdade de perfeita, urna vez que é obra de Deus 24 • O se.gundo erro metodológico, que
acráo das empresas. O quadro legal, ao contrário da gestáo autoritária da está ligado a essa confusáo, é a crenya na "primazia do económico sobre o
economia, deve deixar que o consumidor arbitre no mercado entre os político". Esse duplo erro pode ser resumido, segundo Rougier, na seguinte
produtores concorrentes. sentencra: "O melhor legislador é aquele que sempre se abstém de intervir no
A grande diferencra entre esse neoliberalismo e o liberalismo antigo, -jógo ·das forc;:as ~conómi~as e subordina a elas todos os problemas inorais,
segundo Rougier, é a concepcráo que eles tem da vida econümica e social. sociais e polítiCos". Essa subrnis"sáo a urna ordetn supostamente natural,
Os liberais tendiam a ver a ordem estabeledda como wna ordem natural, o que está no princípio do laissezfaire, é urna ilusáo baseada n~ ideia de que
que os levava a sistematicamente tomar posicróes conservadoras, tendendo a economia é um domínio a parte, que náo seria regido pelo direito. Essa
a manter os privilégios existentes. Náo intervir era, em resumo, respeitar a independencia da economia corn relacráo as instituicróes sociais e políticas é
natureza. Para Rougier, o erro básico da mística liberal que leva ao náo reconhecimento do caráter
ser liberal náo é em absoluto ser conservador, no sentido da manutenyáo construído do funcionamento do mercado.
dos privilégios de fato resultante da legislayáo anterior. É, ao contrário, ser Lippmann, em La cité libre, fez urna análise muito semelhante dos
essencialmente "progressista'', no sentido de urna contínua adaptayáo da erras dos "últimos liberais", como os denomina. O "laissez-faire", do qual
ordem legal as descobertas científicas, aos progressos da organizayáo e da ele recorda a origern ern Gournay, era urna teoria negativa, destruidora,
técnica econ6mica, as mudanyas de estrutura da sociedade, as exigencias
revolucionária, que por sua própria natureza náo poderia guiar a política
da consdéncia contemporánea. Ser liberal náo é, como o "manchesteria-
no", deixar os automóveis circularem em todos os sentidos, seguindo seus dos Estados. Tratava-se náo de um programa, mas de urna palavra de
caprichos, donde resultariam incessantes engarrafamentos e acidentes; náo
é, como o "pianista'', estabelecer para cada automóvel urna hora de saída e 22
Lippmann explica em La cité libre (cit., p. 335-6) que os funcionários públicos existem
um itinerário; é impar um código de trdnsito, admitindo ao mesmo tempo para fazer o código de tránsito ser respeitado, náo para dizer aonde devemos ir.
que ele náo é na época dos transportes rápidos o mesmo que era na época * Trad. Anna Maria Capovilla, José halo Stdle e Liane de Morais Ribeiro, 5. ed., Rio
das diligéncias. 21 de Janeiro, Instituto Liberal, 1994. (N. E.)
23
Essa metáfora com o código de tdnsito é urna das imagens mais usa- Ver Louis Rougier, Les mystiques économiques: comment l'on passe des démocraties
libérales aux États totalitaires (Paris, Librairie de Médicis, -1938).
das pelo neoliberalismo, é quase urna assinatura oficial. Ela é longamente
24
Segundo Rougier, a crenya naturalista é um misticismo, porém menos grosseiro
que a doutrina coletivista, que é pura crenc;a mágica nos poderes absolutos da razáo
21
Serge Audier, Le Colloque Lippmann, cit., p. 15-6. humana sobre os processos ~ociais e políticos. Logo, existem graus no misticismo.
82 "' A nova razáo do mundo O Colóquio Walter Lippmann ou a reinven:;:áo do liberalismo ~ 83

ordem, que "náo passava de urna objeyáo histórica a leis caducas" 25 • Essas Todas essas transac;óes dependiam de urna lei qualquer, da disposic_;:áo do
Estado de fazer valer certos·direitos e proteger cenas garantias. Consequen-
ideias inicialmente revolucionárias, que permitiram derrabar os vestígios
temente, significava náo ter nenhum senso de realidade perguntar-se ande
do regime social e político antigo e instaurar urna ordem de mercado, se situavam os limites-do domínio do Estado.2 8
"transformaram-se ero uro dogma obscurantist~ e pedantesco" 26 • O natu-
ralismo que impregnava as teorias jurídico-políticas dos primeiros liberais Os direitos de propriedade, os contratos mais variados, os estatutos ju-
estava destinado a essa mutayáo dogmática e conservadora. Se ero cena rídicos das empresas, enfim, todo o enorme edifício do direito comercial e do
época os direitos naturais foram ficyóes liberais que permitiram garantir direito do trabalho era uro desmentido em ato da apologética do laissezjaire
a propriedade e, portanto, favorecer os comportamentos acumuladores, dos "últimos liberais", que se tornaram incapazes de refletir a,cerca da prática
esses mitos se fixaram em dogmas inalteráveis que impediram qualquer efetiva dos governantes e do significado da obra legisladora. O eqllivoco é até
reflexáo sobre a utilidade das leis, explica ele. Vetando a reflexáo sobre o mais profundo. Esses liberais foram incapazes de compreender a dimensáo
alcance das leis, esse respeito absoluto a "natureza" fortalecia a situayáo institucional da organizayáo social:
adquirida pelos privilegiados. Apenas reconhecendo que os direitos legais sáo proclamados e aplicados pelo
Essa análise náo deixa de ter certo parentesco coma posiyáo dos funda- Estado é que se pode sub meter a um exame raCional o valor de um direito
particular. Os últimos liberais náo se deram coma disso. Cometeram 0 grave
dores franceses da sociologia do século XIX. O grande defeito do liberalis-
erro de náo ver qu~ a propriedade, os contratos, as sociedades, assim como os
mo económico, como Auguste Comte m ostro u ero sua época, derivava da governos, os parlamentos e os tribunais, sáo criaturas da lei e existem apenas
impossibilidade de se construir urna ordem social viável a partir de urna enq_uanto urna pilha de direitos e dcveres cuja aplicac;áo pode ser exigida. 29
teoria essencialmente negativa. A novidade do neoliberalismo "reinven-
'vemos por ess~s senten·~as como a crítica neoliberal de Lipprnann resgata
tado" reside no fato de se poder pensar a ordem de mercado como urna
o solo 'da governamentalidade tal corno foi pensada por Bentham, aquém
ordem construída, portanto, te.r condiyóes de estabelecer um verdadeiro
das fórmulas naturalistas que haviam invadido a literatura apologética do
programa político (urna "agenda") visando a seu estabelecimento e sua
mercado. Sem estabelecer completamente o elo entre a crítica que faz a
conservayáo permanente.
ilusáo jusnaturalista e a maneira como Bentham pensava as relayóes entre a
A ideia mais equivocada dos "últimos liberais", como John Stuart Mill
liberdade de a~áo e a ordem jurídica, Lippmann analisa a evolu~áo doutrinal
ou Herbert Spencer27 , consiste em afirmar que existem domínios em que há
como urna degradat¡áo que ocorreu entre o fim do século XVIII e o fim do
urna lei e outros em que náo há lei nenhuma. Foi essa crenya na existencia
XIX, entre Bentham e Spencer.
de esferas de ayáo "naturais", regióes sociais de náo direito, como seria, na
A ignorancia demonstrada pelos liberais tardios com rela~áo ao traba-
opiniáo deles, a econornia de mercado, que deturpo u a inteligencia do curso
lho dos juristas para definir, enquadrar, melhorar o regime dos direitos e
histórico e impediu o prosseguimento das políticas necessárias. Como ainda
obriga~óes referentes apropriedade, as tracas e ao trabalho tem razóes que
observa Lippmann, no século XIX a dogmática liberal descolou-se pouco
Lippmann pretende explicar. Esse náo reconhecimento do fato de que "todo
a pouco das práticas reais dos governos. Enquanto os liberais discutiam
o regime da propriedade privada e dos contratos, da empresa individual, da
sentenciosamente a extensáo do laissezjaire e a lista dos direitos ~aturais, a
associa<;áo e da sociedade anónima faz parte de um conjunto jurídico do qual
realidade política era a da invenyáo de leis, instituiyóes e normas de todos
ele é inseparável" é explicado pelo modo de fabrico do direito ern questáo.
os tipos, indispensáveis para a vida económica moderna:
Segundo ele, é porque esse direito é mais o produto da jurisprudencia que
sanciona os usos do que urna codificayáo feita conforme. as regras que eles
25 Walter Lippmann, La cité libre, cit., p. 221 e seg.
26 Ibidem, p. 228.
28
27
Walter Lippmann, La cíté libre, cit., p. 230.
Lippmann náo faz dlstim;:áo entre esses dais autores porque náo leva em canta as
29
dúvidas e nem as inflexóes de Mili. Ibidem, p. 293.
84 " A nova razáo do mundo O Colóquio Walter Lippmann ou a reinveno:;:áo do liberalismo o 85

puderam ve-lo erronearoente como expressáo de urna "espécie de direito do direito que reinava nesse domínio. Tornaram-se, assim, apologistas reco-
natural fundado na natureza das coisas e coro um valor, por assim dizer, nhecidos de todos os abusos e de todas as misérias que ele continha. Tendo
admitido que náo existiam leis, mas urna ordem natural- vinda de Deus,
supra-humano". Essa ilusáo naturalista levo u-os a ver em cada disposi<;áo
só podiam ensinar- a --alegre adesáo ou a resignac;:áo" estoica. Na realidade,
jurídica que náo lhes agradava urna ingerencia intolerável do Estado, urna defendiam uro sistema composto de vestÍgios jurídicos do passado e inova-
violayáo inadmissível do estado de natureza30 • N-áo reconhecer o trabalho da o:;:óes interesseiras, introduzidas pelas classes mais afortunadas e poderosas
criayáo jurídica é o erro inaugural que se encontra no princípio da retórica da sociedade. Além do mais, tendo presumido a náo existencia de urna lei
de denúncia da intervenyáo do Estado: humana regendo os direitos de propriedade, os contratos e as sociedades,
naturalmente náo puderam interessar-se em saber se essa l~i era boa ou
O tÍtulo de propriedade é urna criac;:áo da lei. Os contratos sao instrumentos ruim nem se podia ser reformada ou melhorada. Foi com toda razáo que
jurídicos. As sociedades sáo criaturas do direito. Consequentemente, co- se ridicularizou o conformismo desses liberais. Eles tinham provavelmente
mete-se um erro quando se considera que elas possuem existencia fora da tanta sensibilidade quanto os outros, mas o cérebro deles parara de funcionar.
lei e depois se pergunta se é lícito "intervir" nelas [... ].Toda propriedade, Afirmando em bloca que a economia de traca era "livre", isto é, situada fora
todo contrato e toda sociedade existem so mente porque existem direitos e daal¡;ada da jurisdic;:áo do Estado, meteram-se num impasse. [... ] É por isso
garantias cuja aplicac;:ao pode ser assegurada, quando sáo sancionados pela que perderam o domínio intelectual das grandes nao:;:óes, e o movimento
lei, apelando para o poder de coerc;:ao do Estado. Quando se fala em nao progressista viro u as costas para o liberalismo. 33
mexer em nada, fala-se para náo dizer nada. 31
Náo somente liberalismo e progressismo separaram-se, como se viu,
Urna fonte adicional de erro consistiu em ver as simplificayóes neces-
s_obretudo, o surgimento de urna contestayáo cada vez mais forte do
sárias da ciencia econ6mica como uro modelo social a ser aplicado. Para
capitalismo libet~l e das desigualdades que ele engendrava. o socialismo
Lippmann, assim como para Rougier, é normal que o trabalho científico
desenvolveu-se aProv~ltando o empedernimento conservador da doutrina
elimine os resíduos e as hibridayóes da realidade das sociedades para deCluzir
liberal, a serviyo dos interesses econ6micos dos grupos dominan' tes. O C¡ues-
por abstrayáo relayóes e regularidades. Mas os liberais viram essas leis como
tionamento da propriedade é, para Lippmann, particularmente sintomático
criayóes naturais, urna imagem exata da realidade, e aquilo que escapava ao
desse desvio: "Se a propriedade privada está táo gravemente comprometida
modelo simplificado e depurado era tido por eles apenas como imperfeiyóes
no mundo moderno, é porque as classes favorecidas, resistindo a qualquer
ou aberrayóes32 • A conjunyáo dessa interpretayáo epistemológica equivocada
mudanya em seus direitos, provocaram um movimento revolucionário que
coro essa ilusáo naturalista explica a forya duradoura do dogmatismo liberal
tende a aboli-las" 34 •
até o início do século XIX.
O liberalismo que continha o ideal de emancipayao humana no século
XVIII transformou-se progressivamente num conservadorismo estreito, A agenda do liberalismo reinventado
contrário a qualquer avanyo das sociedades em no me do respeito absoluto
Os "últimos liberais" náo entenderaro que, "longe de ser abstencionista,
aordem natural: a economia liberal pressupóe urna ordem jurídica ativa e progressista'' que
k consequencias desse erro foram catastróficas. Porque, imaginando esse a
visa adaptac;áo permanente do hornero a condiyóes sempre cambiantes.
domínio daliberdade inteiramente hipotético e ilusório, em que os homens
É necessário um "intervencionismo liberal", um "liberalismo construtor",
supostamente trabalham, compram e vendem, fazem contratos e possuem
bens, os liberais renunciaram a qualquer crítica e tornaram-se defensores LUn dirigismo do Estado que convém distinguir de um intervencionismo
coletivista e pianista. Apoiado na evidéncia dos benefícios da competiyáo,

30
Ver ibidem, p. 252.
33
31
lbidem, p. 320-1. Ibidem, p. 234-5.
34
32
lbidem, p. 244. Ibidem, p. 329.
86 @ A nova razáo do mundo O Colóquio Walter Lippmann ou a reinven-;áo do liberalismo o 87

esse intervencionismo abandona a fobia spenceriana do Estado e combina Para Rougier, existem foryas na sociedade que induzem ao desvirrua-
a heranya do concorrencialismo social e a promoyáo da ayáo do Estado. Seu mento do jogo da concor~encia em proveito próprio, a comeyar pelas
objetivo é restabelecer incessantemente as condiyóes da livre concorrencia fon;as políticas, qw::_Jlª.r.a__ conquistar o voto dos eleitores nao hesitam em
ameayada por lógicas sociais que tendem a reprimi-la para garantir a "vitória praticar políticas demagógicas. A Frente Popular francesa é em si mesma
dos mais aptos". um exemplo perfeito. Existem também lógicas sociais que induzem a essas
O dirigismo do Estado liberal implica que ele seja exercido de maneira que deturpayóes, que náo sáo levadas ertl--conta por um pensamento económi-
a liberdade seja protegida, náo sub jugada; de maneira que a conquista do co limitado: "[ ... ] nós náo somos moléculasde gás, mas seres pensantes
benefício seja o resultado da vitória dos mais aptos numa comperi<;:áo leal, e sociais; nós coligamos nossos interesses, somos submetidos a práticas
náo 0 privilégio dos mais protegidos ou dos mais ricos, em consequencia gregárias, sofremos pressóes externas de grupos organizados (sindicatos,
do apoio hipócrita do Estado. 35 organizac;:óes políticas, Estados estrangeiros etc.)" 38 . Um Estado forre,
Esse liberalismo "mais bem compreendido", esse "liberalismo verdadei- protegido das chantagens e pressóes, é necessário para garantir igualdade
ro", depende da reabilitayáo do Estado como fonte de autoridade imparcial de tratamento diante da lei.
sobre os particulares. Ele também sustenta outro argumento. O Estado nao deve proibir-se

Quem quiser retornar ao liberalismo terá de dar autoridade suficiente aos de intervir para fazer as engrenagens da economia funcionarem melhor. O
governos para que resistam aascensáo dos interesses privados sindicalizados, liberalismo consrrutor significa
e essa autoridade lhes será dada por meio de reformas constitucionais apenas lubrificar a máquina econ6mica, desengripar os farores autorreguladores
na medida em que o espírito público for reerguido através da denúncia dos ·dO ~quilíbrio; p·ermitir que pw;os, taxas de juro, disparidades ajustem a
malefícios do intervencionismo, do dirigismo e do planismo, que em ge~al produyáo as neCessidades reais do cOnsumo, tornadas Solventes; a poupanya,
sáo apenas a arte de desregular ~istematicamente o equilíbrio económico em as necessidades de investimento dali em diante justificadas pela demanda;
detrimento da grande massa dos cidadáos-consumidores para o benefício o comércio exterior, adivisáo natural do trabalho internacional; os salários,
momentáneo de um pequeno número de privilegiados, como se ve com as possibilidades técnicas e a rentabilidade das empresas. 39
extrema abundáncia na experiencia russa. 36
Essa ingerencia adaptadora chega ao ponto de induzir cerros comporta-
Sem dúvida, náo é simples distinguir a intervenyáo que mata a con-
mentos desejáveis nos agentes a fim de restabelecer equilíbrios que, embora
correncia daquela que a fortalece. Em todo caso, quando se constata que
"naturais", nao se constituiriam por si sós.
a
existem foryas políticas e sodais que induzem desregulayáo da máquina,
deve-se aceitar que urna forya contrária visa a devolver-lhe o devido lugar O intervencionismo liberal deve preocupar-se, em períodos de supero-
37 ferta, em estimular o consumo, que é a única coisa que permite valorizar
e poder por "gasto do risco e da responsabilidadC:' . Rougier rem duas
a produ-;áo, pois, se o volume da produyáo é funs:áo do preyo de custo,
posiyóes diferentes, na verdade. Na primeira, o intervencionismo do Estado apenas a demanda solvente determina seu valor comercial e social; e isso
deve ser essencialmente jurídico. Trata-se de impor regras universais a todos náo pelos procedimentos esterilizan tes da venda a crédito, mas distribuin-
os agentes económicos e resistir a todas as intervenyóes que deturpam a do a maior parte dos benefícios de urna empresa na forma de dividendos
concorrencia, dando vantagens ou concedendo privilégios e proteyóes a para os acionistas e salários para os operários. Com isso, o Estado náo terá
como objetivo criar equilíbrios artificiais, mas restabelecer os equilíbrios
determinadas categorias. O perigo é que o Estado fique na mao de grupos
naturais entre a poupanya e os investimentos, a produyáo e o consumo, as
coligados, seja dos mais ricos, seja das massas pobres. exportayóes e as imporrayóes. 40

35 Louis Rougier, Les mystiques économiques, cit., p. 84. 3R Idem.


36 39 Ibidem, p. 194.
Ibidem, p. 10.
37 Ibidem, p. 192. .Jo Ibidem, p. 85.
O Colóquio Walter Lippmann ou a reinvenyáo do liberalismo ., 89
88 ., A nova razio do mundo

Neoliberalismo e revoluyáo capitalista


O capitalismo concorrencial nao é um produto da natureza: ele é
urna máquina que exige vigiláncia e regulayáo constantes. Percebe-se, no Lippmann, por sua vez, vai desenvolver urna argumentac;:J_o rnuito diferente
entamo, a falta de clareza em torno do "intervencionismo liberal" na ver- e, sem dúvida, mais consistente para justificar o neoli-beralismo e explicar seu
sáo dada por Rougier, que só poderia inquieta,r os liberais mais próximos significado histórico. A seu ver, o coletivismo é wna "contrarrevoluyao", urna
da ortodoxia. Rougier mistura rrés dimensóes diferentes na legitimayáo da "reayáo" a revoluyáo verdadeira, surgida nas sociedades ocidentais. Porque,
política pública: o estabelecimento de um Estado de direito, wna política de para ele, a verdadeira revoluyáo é a da economia capitalista e comercial esten-
adaptayáo as condiyóes cambiantes e urna política que auxilia a realizayao dos dida a todo o planeta, a do capitalismo que altera continuamente os modos
"equilíbrios naturais". Elas náo sáo da mesma ordem. Urna coisa é romper de vida, transformando o mercado no "regulador soberano dos especialistas
com a "fobia do Estado", tal como esta se manifestava exemplarmente em numa economia baseada nwna divisáo do trabalho muito ·especializada''43 .
Spencer, outra é estabelecer o limite que separará a intervenc;áD legítima É o que os últimos liberais esqueceram e que torna obrigatória urna
da ilegítima. Como evitar cair nos vícios dos "políticos demagogos" e dos "redescoberta do liberalismo". O liberalismo, na verdade, náo é urna ideo-
"doutrinários ihuninados"? O critério absoluto é o respeito aos princípios logia semelhante as outras, e menos ainda esse "enfeite descarado" do
da concorréncia. Ao contrário de todos aqueles que explicam que "a con- conservadorismo social no qual se transformou pouco a pouco. Ele é, para
corréncia mata a concorréncia", Rougier sustenta- como todos os liberais, Lippminn, a única filosofia que pode conduzir a adaptayáo da sociedade e
aliás - que as distoryóes da concorréncia sáo consequéncia sobretudo das dos hornens que a compóem a mutayáo industrial e comercial baseada na
ingeréncias do Estado, náo de um processo endógeno. Desde o protecio- divisao do trabalho e na diferenciayáo dos interesses. É a única doutrina
nismo alfandegário até a instaurayáo de wn monopólio, é sempre o Estado que';--,be'm compre~ndida, pode construir a "Grande Sociedade" e fazé-la
que, exclusivamente ou náo, está na origem da limitayáo ou da supressáo funcionar com ha~monia: "O liberálismo náo é, colno o coletiv,ismo, urna
do regime concorrendal, em d-etrimento dos interesses do maior número rea<;:áo a Revolu<;:áo Industrial; ele é a própria @osofia dessa Revoluyáo In-
de indivíduos. O que, todavia, introduz urna diferenya entre essas posiyóes dustrial"44. O caráter necessdrio do liberalismo, sua inseryáo no movimento
é que, para Rougier, a concorréncia só pode ser estabelecida pela ingeréncia das sociedades, acaba aparecendo como o correspondente da tese marxiana
do Estado. Esse é também o principal eixo do neo liberalismo alemáo, como que faz do socialismo outra necessidade da história.
indica Von Rüstow durante o colóquio: A economia baseada na divisáo do trabalho e regulada pelos mercados
Náo é a concorrénda que mata a concorréncia. É antes a fraqueza intelectual é um sistema de produyáo que nao pode ser fundamentalmente modifica-
e moral do Estado, que primeiro ignora e negligencia seus deveres de poli- do. Trata-se de wn dado da história, urna base histórica, da mesma forma
cial do mercado e deixa a concorréncia degenerar e depois deixa cavaleiros que o sistema económico dos cayadores-coletores. Mais ainda, trata-se de
rapinadores abusarem dos direitos dessa concorrénci.l degenerada para lhe urna revoluyao muito semelhante aquela por que passou a humanidade no
dar o golpe de misericórdia. 41
período Neolítico. O erro dos coletivistas é acreditar que se pode anular
Para Rougier, o "retorno ao liberalismo" somente tem sqnido pelo essa revoluyáo social pelo domínio total dos processos económicos; o erro
valor que se dá a !'vida liberal", que náo é a selva dos egoísmos, mas o jogo dos manchesterianos é pensar que esse é um estado natural que náo exige
regulado da realizayáo de si mesmo. Por isso ele prega o "gasto da vida que intervenyóes políticas.
resulta do fato de ela comportar wn risco, mas dentro do quadro ordenado A palavra mais importante na reflexáo de Lippmann é adaptaráo. A
de um jogo cujas regras sáo conhecidas e respeitadas" 42 • agenda do neoliberalismo é guiada pela necessidade de urna adaptayáo

43
Walter Lippmann, La cité libre, cit., p. 209.
41 Serge Audier, Le Colloque Lippmann, cit., p. 41.
« Ibidem, p. 28 5.
42 Louis Rougier, Les mystiques économiques, cit., p. 4.
O Colóquio Walter Lippmann ou a reinvenc;iio do liberalismo ~ 91
90 .. A nova razáo do mundo

homens e das instituiróes a urna ordem econ6mica intrin- nocas comerciaís. Longe de negar a necessidade de um quadro social, moral e
permanen te dos Y A • • ,

secamente variável, baseada numa concorrenc1a generalizada e sem tregua~ ·político para melhor deixar funéionarem os mecanismos supostameme naturaís
A política neo liberal é requerida para favorecer esse funcionamento, comba- da economia de mercadp, o neoliberalismo deve ajudar a redefinir um novo
renda os privilégios, os monopólios ~os rentistas. Ela visa a criar e preservar quadro que seja compatível com a nova estrurura econ6mica.
as condiyóes de funcionamento do sistema conCOrrenCial. Mais ainda, a política neoliberal deve mudar o próprio homem. Numa
A revoluyáo permanente dos métodos e das estruturas de produyáo economia em constante movimento;·a·adaptayáo é urna tarefa sempre atual
deve corresponder igualmente a adaptayáo permanente dos modos de vida para que se posSa recriar urna harmonia entre a maneira como ele vive e
e das mentalidades. O que torna obrigatória urna intervenyáo permanente pensa e as condicionantes econ6micas as quaís deve se submeter. Nascido
da forya pública. Foi o que entenderam claramente os primeiros liberais, num estado antigo, herdeiro de hábitos, modos de consciéncia e condicio-
inspirados pela necessidade de reformas sodais e políticas, mas foi também namentos inscritos no passado, o homem é um inadaptado cr6nico que
o que esqueceram os "últimos liberais", mais preocupados com a manuten- deve ser objeto de políticas específicas de readaptayáo e modernizayáo. E
¡;áo do que com a adapta¡;áo. A bem da verdade, os adeptos do laissez-foire essas políticas devem chegar ao ponto de mudai a própria maneira conio o
supunham que esses problemas de adaptayáo se resolviam por magia ou, homem concebe sua vida e seu destino a fim de eVitar os sofrimentos morais
melhor, que nem existiam. e os conflitos inter ou intraíndividuais:
O neoliberalismo repousa sobre a dupla constatayáo de que o capitalismo Os verdadeiros problemas das socieclades modernas colocaro-se em qualquer
inauguro u um período de revoluyáo permanente na ordem econ6mica, mas , l~gar ande a ordem social náo seja compatível comas necessidades da divisáo
que os homens náo se adaptam espontaneamente a essa ordem de mercado do· ~rabalho. Um exame dos problemas atuais náo seria mais do que um
cambiante, porque se formaram num mlUldo diferente. Essa é a justi~ca­ catáÍogü dessas incÓmpatibiÚdades. O catálogo come~atia pela hereditade-
dade, enumerada todos os costumes, as leis, as institui<róes e as políticas e
~0 de urna política que deve visar a vida individual e social como um todo,
someme terminada após tratar da no<ráo que o hornero tern de sen destino
como diráo os ordoliberaís alemáes depois de Lippmann. Essa política de sobre aTerra, de suas ideias sobre sua alma e a de todos os outros homens.
adaptayáo da ordem social a divisáo do trabalho é urna tarefa imensa, diz Pois todo conflito entre a heran<ra social e a forma como os homens devem
a
ele, que consiste em "dar humanidade um novo tipo de vida'' . Lippmann
45
ganhar a vida acarreta necessadamente urna desordem em seus negócios
é particularmente explícito acerca do caráter sistemático e completo da e urna divisáo ern seus espíritos. Quando a heran¡;;:a social e a economia
náo formam um todo homogftneo, há necessariaroeme revolta contra o
transfotmayáo social que se deve operar:
mundo ou renúncia ao mundo. Por isso, em épocas como a nossa, em que
A má adapta<ráo se deve ao fato de que houve urna revolu<ráo no modo de a sociedade se encomra em conflito com as condi¡;;:óes de sua existéncia, o
produ<ráo. Como essa revolu<ráo se deu entre homens que herdaram um tipo descontentamento leva alguns a violéncia, e outros ao ascetismo e ao culto
de vida radicalmente diferente, o reajuste necessário deve estender-se a toda do além. Quando os tempos sáo conturbados, uns erguem barricadas e
a ordem social. Provavelmente, ele deve prosseguir enquanto durar a própda outros entrampara o convento. 47
Revolu<ráo Industrial. Náo pode haver um momento nele em que a "nova
ordem" esteja realizada. Pela natureza das coisas, urna economia din~mica Para evitar essas crises de adaptayáo, convém pOr em prática um conjunto
.
deve necessanamente estar alop . 46
. da numa ordem soct'al progress1sta. de reformas sociais, que sáo urna verdadeira política da condiráo humana
nas sociedades ocidentais. Lippmann aponta dais aspectos propriamente
É precisamente ao Estado e a legislayáo produzida o u garantida por ele que
cabe inserir as atividades produtoras e comerciais em relayóes evolutivas, enqua-
a
humanos dessa política global de adaptayáo competiyá'o: a eugenia e a edu-
cayáo. A adaptayáo exige novas homens, dotados de qualidades náo apenas
drá-las em normas harm6nicas coma especializayáo produtiva e a ex:tensáo das
diferentes, mas também superiores das que dispunham os· amigos homens:

45 Ibidem, p. 272.
47
46 Ibidem, p. 256. Ibidem, p. 256-7.
90 o A nova razáo do mundo O Colóquio Walcer Lippmann ou a reinvenc;áo do liberalismo 91

permanente dos homens e das instituiyóes a urna ordem económica intrin- rrocas comerciais. Longe de negar a necessidade de um quadro social, moral e
secamente variável, baseada nwna concorré:nda generalizada e sem trégua. pOlítico para melhor deixar fundo harem os mecanismos supostamente naturais
A política neoliberal é requerida para favorecer esse funcionamento, comba- da economia de mercado, o ?~?_liberalismo deve ajudar a redefinir um novo
renda os privilégios, os monopólios e os rentistas. Ela visa a criar e preservar quadro que seja compadvel .com a nova estrutura económica.
as condiyóes de funcionamento do sistema concori-encial. Mais ainda, a política neoliberal deve mudar o próprio homem. Numa
A revolw;áo permanente dos métodos e das estrururas de produyáo economia em constante movimento, aadaptayáo é urna tarefa sempre atual
deve corresponder igualmente a adaptayáo permanente dos modos de vida para que se possa recriar urna harmonia entre a maneira como ele vive e
e das mentalidades. O que torna obrigatória urna intervenyáo permanente pensa e as condicionantes económicas as quais deve se submeter. Nascido
da forya pública. Foi o que entenderam claramente os primeiros liberais, num estado antigo, herdeiro de hábitos, modos de consciencia e condicio-
inspirados pela necessidade de reformas sociais e políticas, mas foi também namentos inscritos no passado, o homem é um inadaptado crónico que
o que esqueceram os "últimos liberais", mais preocupados coma manuten- deve ser objeto de políticas específicas de readaptayáo e modernizayáo. E
s:áo do que com a adaptas:iio. A bem da verdade, os adeptos do laissez-foire essas políticas devem chegar ao ponto de mudar a própria maneira como o
supunham que esses problemas de adaptayáo se resolviam por magia ou, homem concebe sua vida e seu destino a fim de evitar os sofrimentos morais
melhor, que nem existiam. e os conflitos inter ou i~traindividuais:
O neoliberalismo repousa sobre a dupla constatayáo de que o capitalismo Os verdadeiros problemas das sociedades modernas colocam-se em qualquer
inaugurou um período de revoluyáo permanente na ordem económica, mas lugar ande a ordem social náo seja co~pativel com as necessidades da divisáo
que os homens náo se adaptam espontaneamente a essa ordem de mercado d6 t~:abalho. U m exame dos problemas atuais náo seria mais do que um
cambiante, porque se formaram num mundo diferente. Essa é a justific<;I-- catál~go dessas incoÚJpatibilid'ades. O catálogo comec;aria pela hereditarie-
dade, enumeraría todos os costumes, as leis, as instituic;óes e as polítkas e
yáo de urna política que deve visar -a vida individual e social como um todo,
somente terminaria após tratar da noyáo que o homem tem de seu destino
como diráo os ordoliberais alemáes depois de Lippmann. Essa política de
sobre aTerra, de suas ideias sobre sua alma e a de todos os outros homens.
a
adaptayáo da ordem social divisáo do trabalho é urna tarefa imensa, diz Pois todo conflito entre a herans;a social e a forma como os homens devem
a
ele, que consiste em "dar humanidade um novo tipo de vida'' 45 • Lippmann ganhar a vida acarreta necessariamente urna desordem em seus negócios
é particularmente explícito acerca do caráter sistemático e completo da e urna divisáo em seus espíritos. Quando a heranya social e a economia
transformayáo social que se deve operar: náo formam um todo homogéneo, há necessariamente revolta contra o
mundo o u renúncia ao mundo. Por isso, em épocas como a nossa, em que
A má adaptac;áo se deve ao fato de que houve urna revolw;:ao no modo de a sociedade se encomra em conflito com as condic;óes de sua existéncia, o
prodw;:áo. Como essa revolw;:áo se deu entre homens que herdaram um tipo descontemamento leva alguns avioléncia, e outros ao ascetismo e ao culto
de vida radicalmente diferente, o reajuste necessário deve estender-se a toda do além. Quando os tempos sáo conturbados, uns erguem barricadas e
a ordem social. Provavelmente, ele deve prosseguir enquanto durar a própria outros entrampara o convento. 47
Revolw;:áo Industrial. Náo pode haver um momento nele em que a "nova
ordem" esteja realizada. Pela natureza das coisas, urna economia dinin;üca Para evitar essas crises de adaptayáo, convém pór em prática um conjunto
deve necessariameme estar alojada numa ordem social progressista. 46 de reformas sociais, que sáo urna verdadeira política da condiráo humana
nas sociedades ocidentais. Lippmann aponta dais aspectos propriamente
É precisamente ao Estado e alegisla<;áo produzida ou garantida por ele que
cabe inserir as atividades produtoras e comerciais em relayóes evolutivas, enqua-
a
humanos dessa política global de adaptas:iio competis:iio: a eugenia e a edu-
cayáo. A adaptayáo exige novas homens, dotados de qualidades náo apenas
drá-las em normas harmónicas coma especializac;-áo produtiva e a extensáo das
diferentes, mas também superiores das que dispunham os -a~tigos homens:

45
Ibidem, p. 272.
46 47
lbidem, p. 256. Ibidem, p. 256-7.
92 .. A nova razáo do mundo O Colóquio Walter Lippmann ou a reinven!Táo do liberalismo ~ 93

A economia necessita náo apenas que a qualidade da espécie humana, que de homens, tirando-os de seus lares ancestrais e juntando-os em grandes su-
o equipamento dos homens diante da vida, seja mantida num grau mínimo búrbios sombrios e anónimOs, repletos de casebres superpovoados"52. Assim
de qualidade, mas também que essa qualidade seja progressivamente melho-
como os ordoliberais__al~_máes do pós-guerra, Lippmann náo ve contradic;:áo
rada. Para viver com sucesso num mundo de interdependéncia crescente do
trabalho especializado, é preciso um crescimento contínuo das faculdades de entre o tipo de economia que deseja ver perdurar, na medida em que a
adapta!Tao, da inteligencia e da compreensáo esclarecida dos direitos e dos considera um dado histórico insuperável, e as consequtncias sociais que ela
deveres recíprocos, dos benefícios e das possibilidades desse tipo de vida. 48 pode gerar. A seu ve1~ a defesa de urna -sociedade integrada e estabilizada é da
É preciso, em particular, urna grande política de educas:áo das massas alc;:ada da política social, exatamente da mesma maneira como a luta contra
que prepare os homens para as funt;:óes econümicas especializadas que os o coletivismo das grandes holdings é necessária para mantera concorrtncia.
aguardam e para o espírito do capitalismo a que devem aderir para viver "em Sob certos aspectos, esse neoliberalismo, que se pretende urna política de
paz numa Grande Sociedade de membros interdependentes" 49 : adaptat;:áo, leva a certa hostilidade em relas:áo as formas adquiridas pelo
capitalismo das grandes unidades. É desse modo que podemos compreender
Educar grandes massas, equipar os homens para urna vida em que devem
a vontade de lutar contra a manipulac;:áo dos monopólios e o desejo de ver
especiali7..ar-se, mas ao mesmo tempo ainda ser capazes de mudar de especia-
lidade, eis o imenso problema ainda nao resolvido. A economia da divisáo do ampliada a vigil:lncia sobre as transac;:óes comerciais e financeiras: "Numa
trabalho exige que esses problemas de eugeniae educa\áO sejam efetivamente sociedade liberal, o aprimoramento dos mercados deve ser objeto de estudo
tratados, e a economia clássica supóe que eles o sejam. 50 incessante. Trata-se de um vasto domínio de reformas necessárias"53
Náo devemos nos esquecer, porém, que essa reinvenc;:áo do liberalismo
O que torna necessária essa grande política de educayáo praticada em
náo·.~e deixa iludir.,.:sobre as _necessidades políticaS ligadas ao funcionainen-
benefício das massas, e náo mais apenas de urna pequena elite cultivada,
to dos mercados, em particular no ·plano da mobilizac;:áo, da format;:áo da
é que os homens teráo de mudar de cargo e empresa, adaptar-se as rlovas
fon;:a de trabalho e de sua reprodw;:áo em estruturas sociais e in~titucio'nais
técnicas, enfrentar a concorrtncia generalizada. A educayáo, em Lippmann,
estáveis e eficazes. Essa é, sem dúvida, a principal preocupac;:áo de La cité
náo é da ordem da argumentac;:áo republicana tradicional, mas da ordem da
lógica adaptativa, que é a única coisa que justifica o custo escolar: "É para
libre, como indica a justificac;:áo do imposto progressivo destinado, entre
outras coisas, a educac;:áo dos produtores, mas também a SUa indeniZa((áO,
tornar os homens aptos ao novo tipo de vida que o liberalismo pretende
51 em caso de demissáo, afim de ajudá-los a reciclar-se e reposicionar-se: "Náo
consagrar parte considerável do orc;:amento público a educayáo" •
há nenhuma razáo para que um Estado liberal náo assegure e náo indenize
A política que Lippmann promove tem outros aspectos que a aproxi-
os homens contra os riscos do progresso dele próprio. Ao contrário, ele tem
mam, como veremos adiante, dos temas da sociologia ordoliberal de Rüpke
todas as razóes em faze-lo''5 4 •
e Von Rüstow: protes:áo do contexto de vida, da natureza, dos bairros e das
cidades. Os homens devem ter mobilidade eco nO mica, mas náo devem viver
como nümades sem raízes, sem passado. A questáo da integrayáo social nas
O império da lei
comunidades locais, muito presente na cultura norte-americana, faz parte
dos contrapesos necessários ao desenvolvimento da economia mercantil: Dissemos anteriormente como a crítica neoliberal de Lippmann ao na-
"Náo há dúvida de que a Revoluyáo Industrial descivilizou grandes massas turalismo ia ao encontro da concept;:áo benthamiana do papel criador da lei,
em particular no campo da as:áo económica. A ideia de que a propriedade

os lbidem, p. 258.
49
Ibidem, p. 285. 52
lbidem, p. 260.
50
Ibidem, p. 258. s-J lbidem, p. 268.
51 54
Ibidem, p. 285. Ibidem, p. 270.
i
94 o A nova razio do mundo O Colóquio Walter Lippmann o u a reinvens:áo do liberalismo ,. 95

náo está inscrita na natureza, mas é produto de um entroncamento de di- se esforya para definir o que um homem pode esperar dos outros, inclusive
reitos complicado, variável, diferenciado, é incontestavelmente comuin a dos funcionários do Estado, e assegurar a realizayáo dessa expectativa."56
ambos. Encontramos a mesma preocupayáo coma mudanya do arcabouyo Essa concepyáo das relayóes sodais define o único modo de governo pos-
legal em funyáo das evoluyóes sociais e económicas, contra as concepyóes sível de urna cidade--livre-que limita a arbitrariedade e rtáo pretende dirigir
conservadoras do jusnaturalismo. Num sistema económico em permanen- os indivíduos.
te evoluyáo, a lei deve ser modificada quando necessário. Mas Lippmann Urna lei é urna regra geral das rdayóes entre indivíduos privados, ela
demonstra muito mais simpatia que Bentham pela prática jurisprudencia! expressa apenas as relayóes gerais dos homens entre si. Náo é nern ernanayáo
da Common Law e muito mais desconfianya acerca da criayáo parlamentar de urna poténcia transcendente nern propriedade natural do jndivíduo. É um
da lei. Mostra, muito antes de Hayek, que há urna afinidade de espírito modo de organizayáo dos direitos e dos deveres recíprocos dos indivíduos
entre o modo de criayáo da lei na prática anglo-saxá e as necessidades de em relayáo uns aos outros, objetos de mudanyas contínuas em funyáo da
coordenayáo dos indivíduos nas sociedades modernas. evolus:áo social. O governo liberal pela lei comum, explica Lippmann, "é
A questáo da arte do governo é central. Os adeptos do coletivismo e os o controle social exercido náo por urna autoridade superior que dá ordens,
do laissez-foire equivocam-se por razóes contrárias sobre a ordem política mas por urna lei comum que define os direitos e os deveres recíprocos das
correspondente a um sistema de divisáo do trabalho e traca. Uns querem pessoas e as convida a fazer cumprir a lei, subiuetendo seus casos específi-
administrar todas as relayóes dos homens entre eles, e os outros gostariam cos a um tribunal"~ 7 . Essa concepyáo da lei estende o campo dos direitos
de acreditar que essas relayóes sáo livres por natureza. A democracia é o -_privados ao conjunto do direito como instituiyáo das obrigayóes relativas
império da lei para todos, é o governo pela lei comum feita pelos homens: dO$. indivíduos em relayáo uns aos outros.
"Nurna sociedade livre, o Estado náo administra os negócios dos homens. Üppmann i:et6ma·a cóilcepyáo. relacional da lei~ que era a dos primeiros
Ele administra a justiya entre os homens, que conduzem eles mesmos seus liberais. Explica que náo somos pequenas soberanias in dependen tes, como
próprios negócios" 55 • É verdade que náo se chegou facilmente a essa con- Robinsons Crusoés numa ilha; somos ligados a um conjunto denso de obri-
cepyáo, como atestam os debates desde o fim do século XVIII. gayóes e direitos, que estabelecem cena redprocidade em nossas relayóes.
Como organizar o Estado numa época em que o pavo é o detentor Esses direitos náo sáo copiados da natureza, tampouco deduzidos de um
legítimo do poder para faze-lo servir aos interesses das massas? Esse é o dogma proclamado de urna vez por todas, e menos ainda urna produyáo
grande problema da constituiyáo que os founding fathers impuseram a si de um legislador onisciente. Eles sáo produto de urna evoluyáo, de urna
mesmos - e é igualmente o dos republicanos franceses e dos demacraras experiéncia coletiva das necessidades de regulamentayáo surgidas da multi-
radicais ingleses. Segundo Lippmann, o modo de governo liberal náo tem plicayáo e da modificayáo das transayóes interindividuais. Muito antes de
relayáo coma ideologia, mas coma necessidade de estrutura, como dissemos Hayek, Lippmann, herdeiro dos escoceses Hume e Ferguson, apresenta a
anteriormente. Ele resulta da própria natureza dos layas sociais dentro da formayáo da sociedade civil como resultado de urn processo de descoberta
sociedade mercantil. da regra geral que deve governar as relayóes recíprocas dos homens e, por isso
A divisáo do ttabalho impóe ceno tipo de política liberal e veda a mesmo, contribui para civilizd-los, no sentido de que a aplicayáo do direito
arbitrariedade de um poder ditatorial que dispóe dos indivíduos como civil obedece ao princípio geral e simples da rejeiyáo da arbitrariedade em
suas relayóes. Esse princípio de civilizayáo assegura a cada urn urna esfera
1

bem entende. No plano político, urna sociedade civil composta de agentes


económicos é impossível de ser dirigida por ordens e decretos, como se se de liberdade, fruto de restriyóes no exercício do poder arbitrário do hornero
tratasse de urna organizayáo hierarquizada. O que se pode fazer é ~onciliar sobre o homem. O desenvolvimento da lei, que é a negayáo da possibilidade
interesses diferenciados, determinando urna lei comum. "O sistema liberal
56
lbidem, p. 343.
57
55 Ibidem, p. 318. Ibidem, p. 316.
96 • A nova razáo do mundo O Colóquio Walter Lippmann ou a reinvem;:áo do liberalismo e 97

de agressáo do outro, é o que permite liberar as faculdades produtoras e as O ponto essencial em Lippmann é, sern dúvida, que náo se podem
energías criadoras. · pensar independentemente a economía e o sistema normativo. A implicac;:áo
Para Lippmann, a nova governamentalidade é essencialmeme judiciária: recíproca entre eles parte da considerac;:áo da interdependencia generalizada
a
mais do que curvar-se forma de administrac;:áo da justiya em toda a sua do~ interesses na soCíidade Civil. A descoberta progressiVa dos princípios do
extensáo e todos os seus procedimentos, ela cumpre urna operac;:áo integral- direito é sirnultaneamente produto e fator dessa "Grande Sociedade", na
mente judiciária em seu conteúdo e seu alcance. A oposic;:áo simplista entre qual cada um é ligado aos outros para a satisfac;:áo de seu próprio interesse:
intervenc;:áo e náo intervenc;:áo do Estado, táo pregnante na tradic;:áo liberal,
Os homens tornados dependentes uns dos outros pela troca de trabalho
impediu a compreensáo do papel efetivo do Estado na criac;:áo jurídica e especializado em mercados cada vez mais estendidos deram-se como ar-
inibiu as possibilidades de adaptac;:áo. O conjunto de normas produzidas cabow;o jurídico um método de controle social que consiste em definir,
pelos costumes, pela interpretac;:áo dos juízes e pela legislac;:áo, com a ga- julgar e corrigir direitos e obrigayóes recíprocos, e náo mandar por decreto. 58
rantia do Estado, evolui por um trabalho constante de adaptac;:áo, por urna
O exercício desse novo modo de governo acabo u aumentando o campo
reforma permanente que faz da política liberal urna func;:áo essencialmente de interdependéncia, fazendo entrar cada vez mais indivíduos e povos na
judiciária. Náo há diferenc;:a de natureza nas operac;:óes dos poderes Executivo,
rede de transac;:óes e competis:óes, a ponto de ser possível imaginar urna
Legislativo ou propriamente Judiciário: todos devem julgar, em cenários "Grande Sociedade" em escala planetária, resultado lógico da divisáo mundial
diferentes e de acordo com procedimentos distintos, reivindicac;:óes muitas do trabalho. Longe de constituir urn governo mundial o u um império, a nova
vezes contraditórias de grupos e indivíduos com interesses diferentes. A lei S~ciedade civil estabelecerá relac;:Óes pacíficas entre povos independentes,
como regra geral visa a assegurar obrigac;:óes equitativas entre indivíduos com
gtay~s a:o fortalecitp-ento d~, divisáo mundial do tfabalho, ela própria ligada
interesses particulares. Todas as instituic;:óes liberais exercem um julga~ento a "aceit:as:áo crescellte no mundo inteiro dos princíp'íos essenciais de urna lei
sobre os interesses. Adorar urna lei é decidir entre interesses em conflito.
comum que todos os parlamentos representantes das diferentes c~letividades
O legislador náo é urna autoridade que ordena e impóe, mas um juiz que
a
humanas respeitam e adaptam diversidade de suas condic;:óes" 59 •
decide entre interesses. O modelo mais puro é, pois, o da Common Law, em
oposic;:áo ao direito romano, do qual provém a teoria moderna da soberania.
A administrac;:áo da justic;:a, essencialmente comutativa, tem um lugar U m governo das elites
vital num universo social em que os conflitos de interesse sáo inevitáveis.
O que distingue o coletivismo do Estado forre liberal? Os coletivistas
Porque os interesses particulares se diferenciaram na "Grande Sociedade",
se iludem a respeito de sua capacidade de dominar o conjunto das relac;:óes
urna imagem cara aos primeiros liberais, é que o modo de governo deve
econümicas numa sociedade táo diferenciada como a sociedade moderna.
mudar, passando do "método autoritário" para o "método recíproco" do
A experiencia da Primeira Guerra Mundial e da Revolus:áo de 1917 levou
controle social. Os arranjos normativos servem para tornar compatíveis
as reivindicac;:óes individuais pela definic;:áo e pelo respeito das obrigac;:óes
a crenc;:a na possibilidade de urna gestáo direta e total das relayóes econ6-
micas. No entanto, os homens náo podern dirigir a ordem social, dadas a
recíprocas, de acordo com urna lógica essencialmente horizontal. O so-
complexidade e a sobreposic;:áo dos interesses: "Quanto mais complexos
berano náo governa por decreto, náo é a expressáo de um fim coletivo
os interesses que se devem dirigir, menos possível é dirigi-los mediante a
nem mesmo o da "maior felicidade para o maior número de pessoas".
coeryáo exercida por urna autoridade superior" 60 •
A regra liberal do governo consiste em confiar na ac;:áo privada dos indi-
víduos e náo apelar para a autoridade pública para determinar o que é
melhor fazer o u pensar. Esse é o prindpio do limite da coerc;:áo do Estado. 58
Ibidem, p. 385.
O que, como veremos adiante, pressupóe urna desconfianc;:a com.relac;:áo 59
Ibidem, p. 383.
ao poder do povo pelo pavo. 60
Ibidem, p. 57.
98 " A nova razáo do mnndo O Colóquio Walter Lippmann ou a reinvens:áo do liberalismo 0 99

Mas náo nos engarremos. Náo se trata de diminuir a for~a dessa auto- de um governo das elites64 . Encontraremos essa redefiniyáo da democracia
ridade. Trata-se de mudar o tipo de autoridade, seu campo de exercício. na concepc;:áo hayekiana de·"demarquia'' 65 . Muito antes de La cité libre,. em
Ela terá de se satisfazer em ser fiadora de urna lei comum que governará textos sobre a opiniáo pública e os problemas de governO nas democracias,
indiretamente os interesses. Apenas um Estado forte terá condi~óes de fazer Lippmann examinOU--IOllg~mente a impossibilidade de conciliar um siste-
respeitar essa lei comum. Como sublinha Lippinann em todas as suas pu- ma imparcial de regras do jogo e o princípio efetivo da soberania popular
blica~óes, é preciso voltar atrás na ilusáo de um poder governamental fraco, segundo o qual as massas poderiam ditar seus desejos aos governantes.
tal como esta se difundiu durante o século XIX. Essa grande cren~a liberal A opiniáo pública, objeto de duas obras importantes de Lippmann nos
no Estado discreto, supérfluo, náo é mais admissível desde 1914 e 191.7: anos 1920, impede os governantes de tomar as medidas que se impóem,
especialmente com relac;:áo aguerra o u apaz. o fato de. que os pavos tem
Enguanto a paz parecia assegurada, o bem público residia no agregado de influencia demais por intermédio da opiniáo pública e do sufrágio universal
transas:óes privadas. Náo havia necessidade de um poder que excedesse os constitui a fraqueza congenita das democracias. Esse dogma democrático
interesses particulares e os mantivesse nwna ordem dada, dirigindo-os. considera que os governantes devem seguir a opiniáo majoritária, os inte-
Isso, como sabemos agora, era apenas um sonho de um dia excepcionalmente
resses do maior número de indivíduos, o que é ir no sentido do que é mais
ensolarado. O sonho acabo u quando estourou a Primeira GuerraMundial. 61
agradável e menos penoso. É preciso, ao contrário, deixar os governantes
A tese do Estado forte leva os neoliberais a reconsiderar o que se entende a
governarem e limitar o poder do povo nomea~áo dos governantes, segundo
por democracia e, mais particularmente, por "soberanía do pavo". O Estado ·_uma linha "jeffersoniana". O ess"encial é proteger o governo executivo das
forte semente pode ser governado por urna elite competente, cujas quali- irit~rferencias cap.dchosas da popula~áo, que é a causa do enfraquecimento
dades sáo o exato oposto da mentalidade mágica e impaciente das massas: e da,instabilidadeidos fegiffi~s democráticos. O pavo deve nomear quemo
É preciso que as democracias se reformulem constitucionalmente de maneira dirigirá, e náo dizer a cada instante o que deve ser feito. Essa é a condic;:áo
que aqueles aos quais elas confiam as responsabilidades do poder considerem- para evitar que o Estado seja conduzido a urna intervenyáo generalizada e
-se náo os representantes dos interesses económicos e dos apetites populares, ilimitada. Daí a necessidade de urna tecnologia política que o impeya de ser
mas os garantidores do interesse geral contra os interesses particulares; náo submetido aos interesses particulares, como é o caso do parlamentarismo.
instigadores de promessas eleitorais, mas moderadores das reivindicas:óes
sindicais; atribuindo-se como tarefa fazer todos respeitarem as regras co- Lippmann, do qual já se disse que em política era "plat6nico", em todo caso
muns da competis:áo individual e das expectativas coletivas; impedindo que tero o mérito da coerencia66.
minorias ativas ou maiorias iluminadas desvirtuem a seu favor a lealdade do O quadro geral do neoliberalismo foi esbos:ado nos anos 1930, antes
combate que deve assegurar, para o benefício de todos, a seles:áo das elites. de Friedrich Hayek tomar a frente do movimento na esteira de O caminho
É preciso que elas inculquem nas massas, pela voz dos novas professores, da servidáo. & relac;:óes entre essa fase inaugural e a evoluyáo do neoli-
o respeito das competencias, a honra de colaborar numa obra comum. 62
beralismo após 1947 e a crias:áo da Sociedade Mont-Pelerin náo podem
Esse é um tra~o comum entre as teses políticas de Rougier, que as desen-
volveu em La mystique démocratiqu! 3, e as posi~óes de Lippma"nn a favor 6
~ Ver Francis Urbain Clave, "Walcer Lippmann et le néolibéralisme de La cité libre",
Cahiers d'Économie Politique, v. 48, 2005, p. 79-110.
65
Ver capítulo 4 deste volume.
66
6J Walter Lippmann, Crépuscule des démocraties? (trad. Maria Luz, Paris, Fasquelle, Sua admiras:áo e amizade por Charles de Gaulle baseavam-se nessa encarnas:áo do
1956), p. 18. Estado acimados interesses particulares. Notaremos, aliás, que muitos outros liberais,
62 em especial na Frans:a, consideravam De Gaulle um modelo' político tipicamente
Louis Rougier, Les mystiques économiques, cit., p. 18-9.
neoliberal, de Jacques Rueff a Raymond Barre, passando por Raymond Aran. Ver
6
3 Idem, La mystique démocratique (ses origines, ses illusions) [1929] (Paris, Albatros, Francis Urbain Clave, "Walcer Lippmann et le néolibéralisme de La cité libre", cit.,
1983). p. 91.
100 " A nova razáo do mundo

ser compreendidas apenas em termos de "radicalizayao" ou "retorno ao


liberalismo clássico" em oposiyao aos desvios intervencionistas surgidos em
1938 67 • O desenvolvimento do pensamento de Hayek, em particular, nao
pode ser entendido simplesmente como urna "reafirmayao" dos princípios
3
antigos, já que integrará de forma singular a crítíca do velho laíssezfaire e a
O ORDOLIBERAUSMO ENTRE "POLÍTICA
necessidade de um "código de trinsito" firme e rigoroso. Esse pensamento, ECONÓMICA" E "POLÍTICA DE SOCIEDADE"
que pode ser visto como urna resposta original aos problemas pastos pela
redefiniyao do liberalismo, tenta articular as posiyóes da maioria e da minoria
do Colóquio Walter Lippmann, permitindo ao menos por um tempo que
ordoliberais alemaes e austro-americanos se mantenham na mesma corrente.

Nascido nos anos 1930 em Freiburg im Br.eisgau pela aproximayao de


economistas como Walter Eucken (1891-1950) e juristas como Franz Bohm
(1895-1977) e Hans Grossman-Doerth (1884-1944), o ordoliberalismo é a
forma alema do neoliberalismo, a.que vai impor-se após a guerra na Repú-
hlica Federal da Alemanha. O termo "ordoliberalismo" resulta da énfase em
comám desses teóri,tos na ordem constitucional e procedmal que se encontra
na base de urna sociedad e e de urna. economia de mercado.

A "ordem'' ( Ordo) como tarefa política


A própria palavra "ordem" deve ser entendida em dois sentidos: um
sentido propriamente epistemológico o u sistemico, que é da alyada da análise
dos diferentes "sistemas" económicos, e um sentido normativo, que acaba
determinando certa política económica. No último capítulo dos Grund-
lagen der Nationalokonomie [Fundamentos da economia nacional] (1940),
Eucken distingue entre "ordem económica" ( Wirtschafisordnung) e "ordem
da economia'' ( Ordnung der Wirtschaft): o primeiro conceito se insere numa
tipologia das "formas de organizayáo"; o segundo tem um alcance normativo
a a
na medida em que remete realizayáo e defesa de urna ordem económica
capaz de superar os múltiplos aspectos da crise da vida moderna, a saber, a
ordem da concorrencia (Wettbewerbsordnung) 1• Dessa· última perspectiva, se

67 Essa é a interpretac;:áo equivocada de Alain Laurent em Le libéralisme américain: histoire


1
d'un détournement (Paris, Les Bdles Lettres, 2006), p. 139 e seg. O erro de Laurent, Rainer Klump, "On the Phenomenological Roots ofGerman Or'dnungstheorie: W'hat
como o erro simétrico dos "antiliberais", reside na incompreensáo da natureza do Walter Eucken Owes to Edmund Husserl", em Patricia Commun (org.), L'oTtioli-
"intervencionismo liberal", o que os impede de compreender a maneira como Hayek béralisme allemand aux sources de l'économie sociale de marché (Cergy-Pontoise, Cirac/
prolonga e muda a orientaoyáo do neoliberalismo. Cicc, 2003), p. 158.
102 ~ A nova razáo do mundo O ordoliberalismo entre "política económica" e "política de sociedade" 103

revela que a ordem da concorrénda, longe de ser urna ordem natural, deve essa análise: a "ordem liberal" é testemunha da capacidacj_e humana de criar
ser constituída e regulada por urna política "ordenadora'' o u "de ordenayáo" de forma voluntária e conSciente urna ordem social justa, condizente com
(Ordnungspolitik) 2 • O objeto próprio dessa políticaé o quadro institucional, a dignidade do homem. A cria<;áo de um Estado de direito (Rechtsstaat)
que é o que pode assegurar o bomfuncionamento dessa "ordem econümica" é a condic;:áo dessa ¿-rdem -liberal. Isso significa que o estabelecimento e- o
específica. De fato, na auséncia de um quadio institucional adequado, as funcionamento do capitalismo náo sáo predeterminados: eles dependem
medidas de política econümica, mesmo as mais bem-intencionadas, estáo das ac;:óes políticas e das instituiyóes-jurídicas. Michei Foucault insiste com
a
condenadas ineficáda. toda razáo na importáncia de confrontar essa concepc;:áo com a concepc;:áo
Num artigo de 1948 intitulado "Das ordnungspolitische Problem" [O marxista da história do capitalismo domininte na época~. De fato, o or-
problema político da ordena<;ao], Eucken toma o exemplo daAlemanha pós- doliberalismo rejeita com vigor toda forma de reduyáo do jurídico a urna
-guerra para ressaltar a importáncia decisiva desse quadro. Em 1947, leis de simples "superestrutura'', assim como a ideia correlativa da economía como
dissoluyáo de cartéis foram promulgadas para desconcentrar o poder econO- "infraestrutura''. É particularmerite testemunha disso este trecho do artigo
mico. Mas essas leis foram instauradas quando o controle do processo eco- de 1948 que acabamos de mencionar:
nümico estava nas máos das agéncias do governo central. No contexto dessa
Falsa seria a visáo segundo a qual a ordem econ6mica seria como a infraes-
"ordem econürnica'', o de wna economía dirigida, essas medidas náo tiveram trutura (der Unterbau) sobre a qual se ergueriam as ordens ·da sociedade,
efeito algum: produtos como cimento, ac;:o, carváo ou cauro continuaram do Estado, do direito e as o u tras ordens. A história dos tempos modernos
a ser repartidos por intermédio do governo, de modo que a direc;:áo da eco- ensina táo claramente quamo as épocas mais antigas que as ordens do
nomía continuou essencialmente inalterada. Mas, se a "ordem econümica'' , Est_ado ou as ordens jurídicas também tem influencia sobre a formayáo.da
· ordem econ6mica.
fosse diferente, ou seja, se os prec;:os servissem corno reguladores, náo há
dúvida de que o resultado da-lei antimonopólio teria sido completamente Eucken esclarece suas palavras referindo-se de novo asituác;:áo da Ale-
diferent¿. Assirn, a tarefa política do momento era estabelecer urna ordem de manha após 1945. De um lado, a transformac;:áo da ordem eco nO mica por
concorréncia baseada no mecanismo dos prec;:os e, para isso, criar um quadro causa do surgimento de grupos monopólicos de poder pode influenciar de
institucional específicamente adaptado a urna economía de concorréncia. modo considerável a tomada de decisáo no Estado; de outro) a formayáo
Nascido nos círculos intelectuais contra o nazismo, o ordoliberalismo de monopólios pode ser encorajada pelo próprio Estado, em especial
é urna doutrina de transforrnac;:áo social que apela para a responsabilidade por intermédio de sua política de patentes, de sua política comercial, de
dos homens. Como agir para refundar urna ordem social liberal depois dos sua política de taxas, como aconteceu regularmente nos últimos tempos,
erras do estadismo totalitário? Essa foi a pergunta que se fizeram, desde o aponta Eucken:
início, os principais representantes do ordoliberalismo. Para des, trata-se Primeiro o Estado favorece a formayáo do poder econ6mico privado e depois
de reconstruir a economía de mercado com base numa análise científica da se torna parcialmente dependente dele. Assim, náo há urna dependencia
sociedade e da história4 • Mas certa dimensáo moral é consubstancial com unilateral das outras ordens em relayáo a ordem econ6mica, mas urna de-
pendencia recíproca, urna "interdependencia das ordens" (Interdependenz
der Ordnungen). 6
2
O termo alemáo Ordnung deve ser entendido em sentido ativo: náo o arranjo dos
elementos que dá a um sistema já constituído urna coeréncia própria, mas a ativi- Essa análise comporta wna consequénda decisiva: o devir do capitalismo
dade de pór em ordem ou mesmo de estabelecer urna ordem. Traduzimos o sentido
náo é inteiramente determinado pela lógica econümica de acumulac;:áo do
sistémico por "ordem" e o sentido político ativo por "ordenat;:áo".
3 Walter Eucken, "Das ordnungspolitische Problem", Ordo-jahrbuch für die Ordnung
5
dcr Wirtschaft und Gcsel&chaft, v. 1 (Freiburg,]. B. C. Mohr, 1948), p. 65. Michel Foucault, Naissance de la biopolitique (Paris) Seuil/Gallimard, 2004), p. 169
4
Ver Jean-Frant;:ois Poncet, La politique économique de !'Allemagne occidentale (Paris, e seg.

Walter Eucken, "Das ordnun~politische Problem", cit., p. 72.


6
Sirey, 1970), p. 58.
104 " A nova razáo do mundo O ordoliberalismo entre "política económica'' e "política de sociedade" e 105

capital, ao contrário do que dizia um discurso marxista amplamente difundido autorrealiza~áo da ordem natural era grande demais (Das Vertrauen auf die
na época. Desse último ponto de vista, "existe na verdade apenas um capi- Selbstverwirklichung der natürlichen Ordnung war zu groj?). 8
talismo, já que existe apenas urna lógica do capital"; mas, do ponto de vista De forma aind_a_mais -categórica, Rüpke resume bem o espírito da
ordoliberal, que já era o de Rougier, "a história do capitalismo so mente pode doutrina em Civitas humana, em que recupera, fazendo eco ao Colóquio
ser urna história económico-institucional", o que significa que o capitalismo Lippmann, a rejeiyáo do laissezjaire:
tal como o conhecemos depende da "singularidade histórica de urna figura
Náo é empenhando-nos em náo fazer nada que suscitaremos urna economia
económico-institucional", e náo da figura que dita a lógica da acumulayáo
de mercado vigorosa e satisfatória. Muito pelo contrário, essa economia é
do capital. A implicayáo política dessa considera<;:á_o é manifesta: longe de o urna forma~áo academica, um artifício da civiliza~áo; ela tem ero comwn
impasse dessa figura do capitalismo ser o impasse do "capitalismo tout couri', coma democracia política o fato de ser particularmente difícil e pressupor
abre-se todo um campo de possibilidades diante deJa, desde que trabalhe em muitas coisas que devemos nos esfor~ar obstinadamente para atingir. Isso
favor de certas transformayóes económicas e políticas7. constitui um amplo programa de rigorosa política económica positiva, com
urna lista que impóe tarefas a ser cumpridas. 9
Obra da vontade, e náo produto de urna evoluyáo cega, a ordem de mer-
cado é, pois, parte de um conjunto coerente de instituiyóes conformes coma Particularmente eloquente aqui é a aprüximayáo que se faz entre eco-
moral. Os ordoliberais náo sáo os únicos na época a romper com a.: perspec- nomia de mercado e democracia política- tanto urna como a outra fazem
tiva naturalista do velho free trade, mas caracterizam-se por ter sistematizado parte do domínio· do artifício, náo da narureza.
teoricamente esse rompimento, mostrando que toda atividade de produ<;:áo e Mas esse amplo acordo sobre a crítica as ilusóes naturalistas da econo-
troca exercia-se no quadro de urna constituiyáo económica específica e de urna ··ruiapolítica clássica náo consegue dissimular certas diferenyas, ou mesmo
estrutura social construída. A crítica da economia política clássica é formulada di~ergéncias, sobre a na1:~·reza do remédio que se deve dar aos males que
de maneira particularmente clara por Eucken em 1948, no artigo citado: atingem a sociedade moderna. É com razáo, portante, que os Comentadores
Os dássicos reconheceram claramente que o processo económico da divisáo chamaram muitas vezes atenyáo para o fato de que a unidade da corrente
do trabalho impóe wna tarefa difícil e diversificada de diw;:áo. Isso já foi era problemática. É possível distinguir esquemaricamente dois grupos prin-
um resultado eminente, em rela~áo ao qual a época ulterior ficou para trás. cipais: de um lado, o dos economistas e dos juristas da Escola de Freiburg,
Viram também que esse problema sornen te poderia ser resolvido por urna entre os quais os mais importantes eram Walter Eucken e Franz Bühm; de
ordem económica (Wirtschaftsordnung) adequada. Esse foi outro reconhe-
outro lado, o de um liberalismo de inspirayáo "sociológica", cujos principais
cimento novo e de grande alcance, que também se perdeu posteriormente.
Apesar disso, a política económica, por mais que tenha sido influenciada representantes foram Alfred Müller-Armack, Wilhelm Ropke e Alexander
pelos dássicos, náo foi suficientemente orientada para o problema da or- von Rüstow10 • Os fundadores da Escola de Freiburg transformam o quadro
dena~áo (Ordnungsproblem). Os dássicos viam a solw;:áo do problema de jurídico-político em principal fundamento da economia de mercado e ob-
dire~áo na ordem "natural", na qual os pre~os de concorrencia condliZem jeto da constituiyáo econ6mica. fu "regras do jogo" institucionais parecem
automaticamente o processo. Acreditavam que a ordem natural se realiza monopolizar sua atenyáo. Os autores do segundo grupo, que náo tinham
espontaneamente e que o carpo da sociedade náo precisa de um "regime
menos inRuéncia do que os primeiros sobre as autoridades políticas, daráo
alimentar rigorosamente determinado" (Smith), portanto, de urna política
determinada de ordena~áo da economia (Wirtschaftsordnungspolitik), para
prosperar. Chegaram, a partir daí, a urna polícica do "laissez-faire" e, com
ela, ao nascimento de formas de ordem dentro das quais a dire~áo do 8 Walter Eucken, "Das ordnungspolitische Problem", cit., p. 80.
processo económico deixou aparecer danos importantes. A confianya na 9 Wilhelm Rnpke, Civitas humana ou les questions fondamentales de la réforme économique
et sociale (trad. Paul Bastier, Paris, Librairie de Médicis, I946), p. 65.
10
Já falamos dos dois últimos autores no capítulo precedente, com rela¡;áo ao papel
7 Sobre todo esse desenvolvimento, ver Michel Foucault, Naissance de la biopolitique, que tiveram nos debates do Colóquio Walter Lippmann; qUamo ao terceiro, nós o
cit., p. 170-1. apresentaremos adiante neste capítulo.
106 e A nova razao do mundo O ordoliberalismo entre "política económica'' e "política de sociedade" " 107

muito mais énfase ao quadro social em que a atividade econümica deve Estado e, desse modo, permite-se voltar contra ele a crítica que ele sempre
desenvolver-se. É o caso dos economistas com preocupa<;óes sociológicaS a
dirigiu sociedade burguesa individualista- segundo os ordoliberais, náo é
mais pronunciadas, assim como religiosas e morais, como ROpke e Von de fato a economia de ~erc~4o que é responsável pela disscilw;áo dos la<;os
Rüstow. Em poucas palavras, enquanto o primeiro grupo dá prioridade ao orgiDicos tradicionais e pela atornizayáo dos indivíduos, mas, sim, o cresci-
crescimento econ6mico, que supostamente traz em si mesmo o progresso mento do poder do Estado, cujo efeito foi destruir os lac;:os de cornunidade
social, o segundo é multo mais atento aos efeitos de desintegrayáo social entre os indivíduos 14 . É ainda a Rüpke--que caberá fornecer um fundamento
do processo do mercado e, consequentemente, atribui ao Estado a tarefa filosófico a essa crítica ao nazismo: do ponto de vista do ordoliberalismo, o
de instaurar um "rneio social" (soziale Umwelt) próprio para reintegrar os nazismo apenas levo u ao extremo a aplicac;:áo na economia e na.sociedade do
indivíduos nas comunidades. O prirneiro grupo enuncia os princípios de tipo de racionalidade que valia nas ciéncias da natureza. O coletivismo eco-
urna "política econümica'' (Wirtschaftspolitik); o segundo tenta elaborar urna n6mico aparece nessa perspectiva corno a extensáo da "eliminayao dentística
verdadeira "política de sociedade" ( Gesellschaftspolitik) 11 • a
do hornero'' prática econümica e política. Esse "napoleonismo econ6rnico"
"a
so mente pode prosperar sombra da corte rnarcial" 15 , na medida ern .que
busca o dornínio total da sociedade por intermédio de um planejamento ao
A legitimayáo do Estado pela economía qual cada indivíduo é. constrangido a obedecer. Coletivismo econ6rnico e
e seu "suplemento social" coeryáo tiriDica do Estado estáo ligados, como está.o economia de mercado e
O ordoliberalismo forneceu a justificativa doutrinal da reconstru<;áo liberdade individual. A economia de mercado é, ao contrário, um obstáculo
política alemá ocidental, fazendo da economia de mercado a base de um redibitório aqualquer "politizac;:áo da vida econ6mici'; ela impede que o poder
Estado liberal-democrático. Essa justificayáo comporta dois aspectos, um ne- polític~ decida p~lo ~onswnid~r. O princípio da "livre escolha'' aparece aqui
gativo e outro positivo. náo apenas como um princípio de eficácia econ6rnica, mas tambtrn como
Ern primeiro lugar, e esse é o aspecto negativo, a crítica ordoliberal ao wn antídoto contra qualquer desvio coercitivo do Estado.
nazismo faz deste último o resultado natural e a verdade da econornia plani- Considerada agora sob seu aspecto positivo, a originalidade doutrinal
ficada e dirigida. Longe de constituir urna "monstruosidade" ou um "carpo do ordoliberalismo, no contexto histórico da reconstruyáo das instituiyóes
estranho", o nazismo foi corno o fator revelador de urna espécie de invariante políticas alemás após a guerra, é operar, segundo a expressao de Foucault,
que une necessariamente certos elementos entre eles: economia protegida, um "duplo circuito" entre o Estado e a econornia. Se o primeiro fornece
econornia de assisténcia, economia planificada, economia dirigid~12 • Significa- o quadro de um espas:o de liberdade dentro do qua! os indivíduos podem
tivamente, Rüpke chegará a designar a economia planificada como "economia buscar seus interesses particulares, o livre jogo econ6rnico criará e legitimará
de comando" (Kommandowirtschaft) 13 ! Mas essa crítica vai ainda mais longe. em outro sentido as regras de direito público do Estado. Em outras palavras,
Ela denuncia no nazismo wna lógica de crescirnento infinito do poder do "a economia produz legitirnidade para o Estado que é fiador dela'' 16 • Nesse
sentido, o problema dos ordoliberais é rigorosamente o inverso daquele
que enfrentavam os liberais do século XVIII: nao é o de abrir espac;:o para a
11
É o que sublinha Michel Senellart, que discerne na superestimaqáo da homogeneida- liberdade econ6rnica dentro de um Estado existente que já tem legitimidade
de do discurso ordoliberal urna das limitaqóes do trabalho de Michel Foucault. Ver própria, mas, sim, o de fazer um Estado existir a partir do espa<;o preexis-
Michel Senellart, "Michel Foucault: la critique de la Gesellschaftspolitik ordolibéralc",
em Patricia Commun (org.), L'ordolibéralisme allemandaux sources de l'économie socíale
de marché, cit., p. 48.
11
Michel Foucault, Naissance de la biopolitíque, cit., p. 113.
1
' Michel Foucault, Naissance de la biopolitique, cit., p. 117.
15
10
Patricia Commun (org.), L'ordolibéralisme a!lemand aux sources de l'économie sociale Wilhelm Rüpke, Civitas humana, cit., p. 51.
de marché, cit., p. 196, nota 59. 16
Michel Foucault, Naissance de la biopolitique, cit., p. 86.
108 " A nova razáo do mundo O ordoliberalismo entre "política económica'' e "política de sociedade" • 109

ten te da liberdade econ6mica17 . Para ser compreendida, a importáncia dessa que influencio u diretamente Erhard foi Rüpke. De volta ~ Alemanha ero
legitimac;:áo do Estado mediante o crescimento econ6mico e o aumento dO 1947, depois de doze anos de exílio, ele faz a mesma análise que Eucken:
padráo de vida deve evidentemente ser reinserida na história política da o principal problema da economia alemá é a "perda da fun~áo dos pre~os
Alemanha e, ero particular, na experiencia traumatizan te do Terceiro Reich. como indicadores de escassez" 20 Em abril de 1948, Erhard visita Ropke,
Para Foucault, é isso que explica o arnplo e constante "consenso" em torno que na época residía em Genebra e, segundo urn de seus biógrafos, tomo u
dos objetivos econ6micos apresentados pelas autoridades alernás ocidentais a decisáo de fazer a reforma monetária assim que voltou da Suíc;:a21 •
em 1948. De fato, em abril de 1948, o Conselho Científico criado junto Contado, por sisó a promoc;:áo da economia ainstancia de legitimac;:áo
ao departamento de economía alernáo na zona anglo-americana- do qual náo resolve a questáo de qual exatarnente deve ser a forma da organizac;:áo
faziam parte ern especial Eucken, Bührn e Müller-Armack- envia a esse política do Estado por reconstruir. A instituic;:áo do mercado náo é suficiente
departamento uro relatório que afirma que a direc;:áo do processo econ6- para determinar a forma da construc;:áo constitucional. Embora possamos
rnico deve ser feita pelo mecanismo de prec;:os. Alguns dias depois, Ludwig admitir a tese proposta por Foucault de urna legitimac;:áo do Estado pela eco-
Erhard18 , responsável pela adrninistrac;:áo econ6mica da "bizona'', toma nomia, náo podemos nos esquecer de que no ordoliberalismo, o u ao menos
esse prindpio para si e pede que a economía seja liberada das restric;:óes do no segundo dos dais grupos discernidos antes, há também urna tentativa de
Estado. De fato, a liberalizac;:áo dos prec;:os vai ser atrelada a urna reforma legitimac;:áo da autoridade política por sua "missáo social". Considerac;:óes
rnonetária a partir de junho de 1948. Essa decisáo política vai contra a tanto morais como sociais váo permitir que se mude significativamente a
corrente do clima dirigista e intervencionista que prevalecía na época em O_rientac;:áo da doutrina. Isso porque náo se trata apenas de dizer quais sáo
toda a Europa, principalmente ero virtude das exigencias da reconstruc;:áo. os di~eitos e as libe~dades dos indivíduos; é preciso situar também as raízes
Dais homens tiveram um papel decisivo na conversáo de Erhard, e o meio concreto dos deve~~s que -eles teráo de cumprir.
reticente a esse tipo de medida-. O primeiro foi ninguém menos que o Rüpke sublinhou particularmente o fato de que wna das dinlensóes da
próprio Eucken. Em 1947, ele publica um texto com um título significa- grande crise civilizacional que levou ao totalitarismo adquire o aspecto de crise
tivo: "A rniséria econ6rnica alerná" ("Die deutsche Wirtschaftsnot"). Ele de legitimidade do Estado. Sobre o que repousar a legitimidade política? U m
mostra no artigo como a economia dirigida conduz a desintegrac;:áo do Estado legítimo é uro Estado que se indina ao direito, respeita o princípio de
sistema produtivo e aponta a responsabilidade dos Aliados nesse estado liberdade de escolha, é claro, mas tambérn é um Estado que obedece ao princí-
de coisas. A seu ver, a política aliada aparece corno continuac;:áo direta da pio de subsidiaridade, tal como defendido pela doutrina católica, isto é, respeita
política nazista: controle de prec;:os e distribuic;:áo, desmontes, confiscas o rneio de integrac;:áo dos indivíduos em esferas naturais hierarquizadas. O
etc. Ele preconiza que o sistema de economía dirigida seja revogado, atre- fundamento da ordem política náo é somente econ6mico, mas é também
lando a reforma monetária a liberalizac;:áo dos prec;:~s. Manifestamente, sociológico. Se é preferível adatar um Estado descentralizado de tipo federal,
o trabalho de persuasáo de Eucken ao longo de 1947 explica em grande que respeita o princípio de subsidiaridade baseado na ideia dessa hierarquia
parte a rapidez de execuc;:áo da reforma monetária 19 • O segundo I?ensador de "comunidades naturais", é porque apenas essa forma institucional fornece
aos indivíduos uro quadro social estável, seguro, mas também moralizante.
É essa integrac;:áo na família, na vizinhanc;:a, no bairro o u na regiáo que lhes
17
Ibidem, p. 88. dará o sentido de suas responsabilidades, o sentimento de suas obrigac;:óes
18
Ludwig Erhard, que se tornará ministro da Economia de Adenauer em 1951, é
considerado o pai do "milagre económico alemáo".
19
reabsorver o excedente do poder de compra, aumentar a veloddade da drculac;:áo da
Patricia Commun (org.), L'ordolibéralisme allemand aux sources de l'économie sociale de
moeda e restabelecer um padrao monetário de tracas (ibidem, p·, 207 -8).
marché, cit., p. 194. Iniciadaern 20 de junho de 1948, essareformamonetáriasllbstitui
20
o anrigo Reichsmark pelo Deutsche Mark e estabelece o Bank Deutscher Linder na Ibidem, p. 195.
fun~áo de banco de emissáo. Ela tem tres objetivos: diminuir a massa monetária para 21
Idem.
11 O ., A nova razáo do mundo O ordoliberalismo entre "política econOmica" e "política de sodedade" e 111

para com o outro, o gosto pelo cumprimento de seus deveres, sem os quais respeitosa da dimensáo moral do hornero, wna "organizay:io capaz de
nao há nem layo social nem felicidade verdadeira. Como veremos adiante, é funcionar e digna do Ho1Ílem" 23 . Essa organizayáo só pode ser a de urna
necessária urna política específica, de tipo "sociológico", para assegurar essa economia de mer~a~o: ?~b esse aspecto, a Ordnungspolitik visa, acima de
base moral e social do Estado, de modo que podemos falar, também nesse rudo, por meio de urna legislac_;:áo econ6mica apropriada, a determinar um
caso, em uro "duplo circuito" entre a sociedade e o Estado. A descentralizayáo "quadro" estável em que poderá desenvolver-se de modo ótimo um "proces-
a
é integrada aqui doutrina liberal de limita<;áo do poder do Estado. Ropke so" econ6mico baseado na livre concorrencia e na coordenayáo dos "planos"
explica da seguinte maneira o "princípio da hierarquia'': dos agentes econ6micos pelo mecanismo de prec;:os. Em consequencia, ela
a
Partindo de cada indivíduo e retornando central estatal, o direito original en- faz da soberania do consumidor e da concorrencia livre e náo distorcida os
contra-se no escaláo inferior, e cada escaláo superior entra em jogo subsidiaria- princípios fundamentais de toda "constituic_;:áo econ6mica''. O que funda,
mente, no lugar do escaláo imediatamente inferior, apenas quando urna tarefa entáo, a superioridade a um só tempo econ6mica e moral da economia de
ultrapassa o domínio deste último. Constitui-se, assim, um escalonamento mercado em relac_;:áo as outras ordens econ6micas possíveis?
do indivíduo, além da talha e da comuna, até o cantáo e, finalmente, até
A superioridade da economia de mercado deve-se, segundo eles,.ao fato
o Estado central, um escalonamento que, ao mesmo tempo, limita o próprio
Estado ao qual ele contrapóe o direito dos escalóes inferiores, com sua esfera
de que ela é a única forma suscetível de superar a escassez de bens (primeiro
inviolável de liberdade. Portanto, nesse sentido largamente entendido da critér-io, o u critério.da "capacidade de funcionamento") e, ao mesmo tempo,
"hierarquii', o prindpio da descentraliza~o política já implica o programa do deixar os indivíduos livres para conduzir a própria vida como bem entende-
liberalismo em seu sentido mais estendido e mais geral, um programa que, rem (segundo critério, ou critér!o da "clignidade do homern''). O princípio
desse modo, faz parte das condiyócs essenciais de um Estado sáo, de um
que, se encontra no
'
cerne ' dessa
. ordem econ6mica náo é outro senáo o prin-
Estado que estabelece para si mesmo as limitayóes necessárias e, respeitando
cípio .da concorré:ncia, e é precisamente por isso que essa ordem é superior a
as esferas livres do Estado, adquire sua saúde, forya e estabilidade. 22
todas as outras. Segundo as palavras de Bühm, o sistema concOrrencial é "o
Que ninguém se engane, portanto, como sentido que Rüpke dá a qualifi- único que dá chance total aos planos espontineos do indivíduo" e consegue
cayáo dessa base social como "natural"- o adjetivo está aí apenas para significar "conciliar os milhóes de planos esponrJ.neos e livres com os desejos dos
seu caráter de condiy:io para urna "integrac;:ao sá" do indivíduo em seu meio. consumidores", isso sem comando nem coerc;:ao legal24 • Como vimos ante-
A evoluyao das sociedades ocidentais desde o século XIX engendrou urna riormente, essa promoyao do princípio da concorrencia acaba introduzindo
desintegrac_;:áo patológica crescente dessas comunidades. Consequentemente, uro deslocamento importante coro relac_;:áo ao liberalismo clássico, na medida
compete ao Estado operar urna adaptac_;:áo permanente desses quadros sociais em que o mercado náo é mais definido pela traca, mas pela concorréncia. Se
mediante urna política específica, a qual tem dois objetivos, apresentados por a troca funciona pela equivalencia, a concorrencia implica desigualdade 25 •
Rüpke como conciliáveis e complementares: a consolidac;:ao social da economia O mais importante, porérn, é a atitude essencialrnente antinaturalista
de mercado e a integrac_;:áo dos indivíduos em comunidades locais. e antifatalista que decorre desse reconhecimento da lógica da concorrencia

A ordem da concorréncia e a "constituis:áo económica"


23
Walter Eucken, Grundsiitze der Wirtschaftspolitik (6. ed., Tübingen, J. C. B. Mohr
[Paul Siebeck], 1952), p. 239, citado por Laurence Simonin, "Le choix des regles
Assim como vimos, em seu sentido propriamente normativo, ~'ordo" constitutionnelles de la concurrence: ordolibéralisme et théorie contractualiste de
designa urna organizayáo economicamente eficaz e, ao mesmo tempo, l'État", em Patricia Commun (org.), L'ordolibéralisme allemand aux sources de l'éco-
nomie socia/e de marché, cit., p. 71.
24
Franz Bühm, "Die Idee des Ordo im Denken Walter EuCkens", Ordo, v. 3, 1950,
22
Wilhelm Rüpke, Civitas humana, cit., p. 161. Sabemos que lugar a constrúyáo euro- p. 15, citado por Laurence Simonin, "Le choix des regles constitutionnelles de la
peia reservou ao prindpio de subsidiaridade. Sobre a relayáo dessa construyáo com concurrence", cit., p. 71.
25
o ordoliberalismo, ver capítulo 7 deste volume. Ver capítulo 1 deste volume.
112 ~ A nova razáo do mundo O ordoliberalismo entre "política económica" e "política de sociedade" " 113

que rege a economia de mercado: enguanto os velhos economistas liberais experts que elaboram seus "princípios constituintes" (konstituierende Prinzi-
concluíram pela necessidade de urna náo intervenc;:áo do Estado, os ordoll- pien). Como já indica o no me·, esses princípios téni a func;:áo de constituir a
berais transformaram a livre concorréncia em objeto de urna escolha política ordem como estrutura {2_~q¡al. Sáo seis: prindpio da estabilidade da política
fundamental. É porque, para eles, a concorréncia náo é um dado natural, econ6mica, prindpio da. estabilidade monetária, princípio dos mercados
mas urna "esséncia" evidenciada pelo método da "abstrac;:áo isolante" 26 • abertos, princípio da propriedade privada, princípio da liberdade dos con-
A "reduc;:áo eidética" elaborada por Husserl é posta em prática no campo tratos e princípio da responsabilidade-dos agentes econ6micos30 •
da ciéncia económica. O objetivo é extrair o necessário do contingente,
fazendo um objeto qualquer variar pela imaginac;:áo, até que seja isolado
um predicado que náo pode ser separado dele: o invariante obtido revela Política de "ordenas:áo" e política "reguladora"
a esséncia ou eidos do objeto examinado, daí o nome de "eidética" dado Postas as regras institucionais, como definir precisamente a política
ao método. Assim, longe de repousar sobre a observac;:áo de fatos naturais, que compete ao governo conduzir? Essa política deve ser exercida em dais
o liberalismo rompe coro qualquer atitude de "ingenuidade naturalista" 27 , níveis de import<lncia: num primeiro nível, por um sólido enquadramento
justifica sua preferéncia por cena organizac;:áo económica através de urna ou mesmo por urna educac;:áo da sociedade pela 'legislac;:áo e, num segundo
argumentac;:áo racional que convida aconstruc;:áo jurídica de um Estado de nível, pela ayáo vigilante de urna "polícia dos mercados".
direito e urna ordem de mercado. Os neoliberais alemaes estáo muito distantes de urna hostilidade de
Na realidade, a política ordoliberal depende inteiramente de urna decisáo pri11cípio a qualquer intervenc;:áo do Estado. Em compensac;:áo, preten-
constituinte: trata-se de institucionalizar a economia de mercado na forma deffi'distlnguir as b9as intetvenc;:óes das más, de acordo como critério' de
de urna "constituic;:áo económica'', ela própria parte integrante do direito conformidade destds ao "modelo" proposto pela constituic;:áo. A .distinc;:áo
constitucional positivo do Estado, de maneira a desenvolver a forma de ordoliberal entre ac;:óes "conformes" e ac;:óes "náo conformes" a ordem de
mercado mais completa e mais coerente 28 • Como explicamos economistas mercado náo deve ser assimilada adistinc;:áo benthamiana de agendas e náo
e os juristas de Freiburg, o direito económico da concorréncia é urna das agendas. O critério discriminador náo é o resultado da ayáo, mas o respeito
partes importantes do sistema jurídico estabelecido pelo legislador e pela o u náo das "regras do jogo" fundamentais da ordem concorrencial. A lógica
jurisprudéncia. Eucken e Erhard chamaráo essa constituic;:áo económica de é mais procedural do que consequencialista.
"decisáo de base" o u "decisáo fundamental". Seu princípio é simples: ''A A distinc;:áo fundamental entre o "quadro" e o "processo" fundamenta
realizac;:áo de um sistema de prec;:os de concorréncia perfeita é o critério para a distinc;:áo entre os dois níveis da política ordoliberal, a saber, a política
qualquer medida de política económica'' 29 • de "ordenayáo" e a política "reguladora": as ac;:óes conformes podem per-
Todos os artigos da legislac;:áo económica devem corltribuir para assegurar tencer ao "quadro" e, nesse caso, definem urna política "ordenadora", o u
o bom funcionamento dessa lógica da "concorréncia perfeita". As diferentes de "ordenac;:áo", mas podem também pertencer ao "processo" e, nesse caso,
pec;:as do modelo ajustam-se urnas as o u tras grac;:as ao trabalho dos ~ientistas correspondem a urna política "reguladora''. Segundo Eucken, o "quadro" é
o produto da história dos homens, de modo que o Estado pode continuar
a moldá-lo por urna política ativa de "ordenac;:áo"; o "processo" da atividade
26
O original alemáo diz exatamence: "pointiert hervorhebende Abstraktion".
2
a
pertence ayáo individual, por exemplo, a iniciativa privada no mercado,
7 De acordo com a expressáo husserliana utilizada muito a propósito por Michel
Foucault, Naissance de la biopolitique, cit., p. 123.
28
Ver Fran¡_;.ois Bilger, La pemée économique libérale dans l'Allemagne contemporaine 30
Sylvain Broyer, "Ordnungstheorie et ordolibéralisme: les les:ons Cle la tradition. Du
(Poris, LGDJ, 1964), cap. 2. caméralisme al'ordolibéralisme: ruptutes et continuités?", em Patricia Commun
29
Ver Jean-Fran¡_;.ois Poncet, La politique économique de l'Allemagne occidentale, cit., (org.), L'ordolibéralisme allemand aux sources de l'économie sociale de marché, cit.,
p. 60. p. 98, nota 73.
114 e A nova razáo do mundo O ordoliberalismo entre "política económica'' e "política de sociedade" "' 115

e deve ser exclusiva e estritamente regida pelas regras da concorréncia na como func;:áo "regular" as estruturas existentes de maneira a fazé-las evoluir
economia de mercado. ·no sentido da ordem da concórréncia ou garantir -sua conformidade a essa
A política de "ordenac;:áo" visa a criar as condic;:óes jurídicas de urna or- ordem contra qualqu~~- desvi9. Consequentemente, longe -de contrariar a
dem concorrencial que funcione com base em ~m sistema de prec;:os livres. lógica da concorrénda, ela tema tarefa de afastar todos os ~bstáculos ao livre
Para retomarmos urna expressáo de Eucken, convém moldar os "dados" jogo do mercado por intermédio do exercício de urna verdadeira polícia dos
globais, aqueles que se impóem ao indivíduo e escapam ao mercado, a fim mercados, da qual é um exemplo a lura -contra os cartéis. A política conjun-
de construir o quadro da vida económica de tal forma que o mecanismo tural náo é descartada, portanto, mas deve obedecer a regra constitucional
de prec;:os possa funcionar regular e espontaneamente. Esses dados sáo as suprema da estabilidade dos prec;:os e do controle da infla~áo; e nao causar
condic;:óes de existéncia do mercado nas quais o governo deve intervir. Eles dan o a livre fixac;:áo dos prec;:os. Nema preservac;:áo do poder de compra nem
podem ser divididos em dais tipos: dados da organizac;:áo social e econó- a manuten~áo do pleno emprego nem o equilíbrio da balanc;:a comercial
mica e dados materiais. Os primeiros sáo as regras do jogo que devem ser poderiam ser os principais objetivos, necessariamente subordinados aos
impostas aos atores económicos individuais. O livre-d.mbio mundial é um "princípios constituintes".
exemplo desse tipo de dado. Também devemos incluir entre eles a ac;:áo sobre Alei de 1957 sobre a crias;áo do Bundesbanké um exemplo perfeito dessa
a mente, o u mesmo o condicionamento psicológico (o que foi chamada por orientac;:á-o, quando especifica que o Banco Central é independente e náo se
Erhard de "Seelen Massage" 11 ). Os dados materiais compreendem, de um sub mete as diretivas do governo e que sua missao principal é salvaguardar a
lado, as infraestruturas (os equipamentos) e, de outro, os recursos humanos m9eda. É preciso, portante, negar-se a intervir no "processo", em particular
(demográficos, culturais, morais e escolares). O Estado tarnbém pode agir por'iin)a política mor:tetária laxista, que se aproveitaria abusivamente da baixa
sobre as técnicas, favorecendo o ensino superior e a pesquisa, assim como dos juros para obter b pleno e~prego. Por princípio, éf política ativa de tipo
pode estimular a poupanc;:a pessoal grac;:as a sua ac;:áo sobre o sistema fiscal keynesiano é incompatível com os princípios ordoliberais. Ela favo~ece a in-
e social. Rüpke dirá que essa política de enquadramento, típica do "inter- flac;:áo e enrijece os mercados, ao passo que a política estrutural deve visar, ao
vencionismo liberal", apoia-se em contrário, a flexibilidade de salários e prec;:os. De maneira geral, seráo vedados
a
instituis:óes e disposis:óes que garantem concorréncia esse quadro, essas todos os instrumentos aos quais recorre a planificac;:áo, como fixac;:áo de prec;:os,
regras do jogo e esse aparelho de vigilllicia imparcial das regras do jogo, das apoio a dado setor do mercado, criac;:áo sistemática de empregos e investi-
quais a concorréncia tem tanta necessidade quanto um torneio, sob pena de mento público. Além de se subordinar as leis da constituic;:áo económica, a
transformar-se numa rixa feroz. De fato, urna ordenas:áo de concorréncia política reguladora é comandada por alguns princípios específicos, definidos
genuína, justa, leal, flexível em seu funcionamento, náo pode existir sem
precisamente como "reguladores" (regulierende Prinzipien): criac;:ao de urna
um quadro moral e jurídico bem concebido, sem urna: vigilancia constante
das condis:óes que permitem aconcorréncia produzir seus efeitos enquanto agéncia de controle dos cartéis, política fiscal direta e progressiva, controle
verdadeira concorréncia de rendimento. 32 dos efeitos náo desejados susceptíveis de serem causados pela liberdade de
planejamento concedida aos agentes económicos, vigilancia específica do
Quanto mais eficaz é essa política de ordenac;:áo, menos import-ante deve
mercado de trabalho 34 • Para resumirmos, a política de ordenac;:áo intervém
ser a política reguladora do processo 33 . De fato, a política "reguladora" tem
diretamente no "quadro" ou nas condic;:óes de existéncia do mercado de
modo a realizar os princípios da constituic;:áo económica; a política reguladora
31
intervém náo diretamente no "processo" em si, mas por intermédio de um
Literalmente, "massagem das almas"!
32
controle e de urna vigilancia cujo intuito é afastar todos oS obstáculos ao
Wilhelm Rüpke, Civitas humana, cit., p. 66.
livre jogo da concorréncia e, assim, facilitar o "processo".
33
Como escreveu Jean-Franyois Poncet: "Quanto mais ativa e esclarecida for á política
ordenadora, menos a política reguladora terá de se manifestar" (La politique écono-
mique de l'Allemagne occídentale, cit., p. 61). 34
Sylvain Broyer, "Ordnungstheorie et ordolibéralisme: les le~ons del~ tradition", cit.
116 • A nova razáo do mundo O ordoliberalismo entre "política económica'' e "política de sociedade" $ 117

O cidadao-consumidor e a "sociedade de direito privado" para todos uniformemente. Ao contrário, os interesses dos indivíduos
· como consumidores sáo consénsuais e comuns, mesmo que se concentrem
O ordoliberalismo visa a fundar urna ordem social e política sobre
em mercados difere~~~s: to9.os os consumidores tém, e~quanto tais, 0
um tipo determinado de relayáo social: a concorréncia livre e leal entre
mesmo interesse pelo processo concorrencial e pelo respeito as regras da
indivíduos perfeitamente soberanos de suas- vidas.- Qualquer distoryáo concorréncia. Desse ponto de vista, a "constituic;:áo econümica'' da ordem
da concorréncia traduz urna dominayáo ilegítima do Estado ou de um da concorréncia parece estar ligada -a urna espécie de contrato entre 0
grupo de interesses privados sobre o indivíduo. Ela pode ser assimilada a
consumidor-eleitor e o Estado, na medida em_ que consagra o interesse
tirania e a explorayáo. geral consagrando a soberania do consumidor3G. ·
A principal questáo para o ordoliberalismo é a do poder: a do poder Evidentemente, o Estado deve cornec;:ar por respeitar- a igualdade de
de direito de que cada indivíduo dispóe sobre sua vida - nesse sentido, a
chances no jogo concorrencial, suprimindo tuda que possa parecer privi-
propriedade privada é compreendida como um meio de independéncia -
légio ou protec;:áo concedidos a tal interesse particular ern detrimento de
e, ao mesmo tempo, a do poder ilegítimo de todos os grupos de interesses
outros37 • U m dos principais argumentos da doutrina, que encontramos em
susceptíveis de causar dano a esse poder dos indivíduos mediante práticas outras correntes liberais, diz que um dos princif,ais vieses do capitalismo,
anticoncorrenciais. O ideal social -_as vezes extremamente arcaizante,
a concentrayáo excessiva e a cartelizayáo da indústria, náo é de natureza
como em Rüpke - remete simultaneamente a urna sociedade de pequenos
endógena, mas se origina em políticas de privilégio e protec;:áo praticadas
empreendedores dos quais nenhum tem coildiyóes de exercer um poder
p~l? Estado quando se encontra sobo controle de alguns grandes interesses
exclusivo e arbitrário sobre o mercado e a urna democracia de consumidores
priVadps.'Por isso é qecessári?, um "Estado forre", cipaz de resistir a todoS os
que exercem diariamente seu poder individual de escolha. A ordem política
grupos de pressáo, livre dos dogmas-"inanchesterianoS" do Estado mínimo.
mais perfeita parece ser a que satisfaz urna multidáo de soberanos individuais
Erhard resumiu muito bem o espírito dessa doutrina ern La Prospérité
que teriam a última palavra tanto na política como no mercado. Erhard
pour tous [A prosperidade para todos]. O Estado tem um papel essencial a
ressaltava que "a liberdade de consumo e a liberdade de produyáo sáo, no
desempenhar: ele é o protetor supremo da concorréncia e da estabilidade
35
espírito do cidadáo, direitos fundamentais intangíveis" . monetária, considerada um "direito fundamental do cidadáo". O direito
Devemos notar que essa promoyáo política do consumidor, longe de
fundamental de gozar da igualdade de direitos e chances e de um "quadro
ser anódina, deve ser diretamente vinculada ao princípio constitucional estável" - sern os quais a concorréncia seria distorcida -legitima e orienta a
da concorréncia. Obviamente, os indivíduos sáo ligados entre si por ayóes
intervenc;:áo pública. A seu ver, a política consiste ern ater-se a regras gerais,
económicas nas quais intervém tanto corno produtores quanto como
sem jamais privilegiar um grupo em particular, porque isso seria introduzir
consumidores. A diferenya é que o indivíduo como produtor procura
distorc;:óes graves na destinac;:áo dos rendimentos o u na alocac;:áo dos recursos
satisfazer urna demanda da sociedade - portanto, de certo modo ele é o no conjunto da economia. Esta última é um todo cujas partes sáo ligadas
"criado" -, ao passo que como consumidor ele está em posiyáo de "co-
entre si de maneira coerente.
mandar". A tese dos ordoliberais é que existem "interesses constitucionais
Os interesses particulares e o apoio a grupos bem definidos devem ser
comuns" nos consumidores que náo exisrem nos produtores. De fato, os
proscritos, nem que seja por causa da interdependéncia de todo os fen6~
interesses dos indivíduos como produtores sáo do tipo protecionista, na menos econ6micos. Toda medida especial tero repercussóes em domínios
medida em que visam a obter um tratamento particular para pessoas ou
grupos determinados, o u seja, um "privilégio", e náo regras que valham
36 Par.a o desenvolvimento inteiro, ver Laurence Simonin, "Le choix des regles consti-
tunonnelles de la concurrence", cit., p. 70.
35 Ludwig Erhard, La prospérité pour tous (trad. Francis Briere, Paris, PloÓ, 1959),
p. 7 [ed. bras.: Bem-estar para todos, trad. Ana de Freitas, Rio de Janeiro, Livros de
37
Ve.r V~tor ~an,berg, ''LÉcole de Freiburg", em Philippe Nemo eJean Petitot (orgs.),
Portugal, 1984]. Htstozre du lzberalisme en Europe (Paris, PUF, 2006), p. 928 e seg.
118 " A nova razáo do mundo O ordoliberalismo entre "política econbmica" e "política de sociedade" " 119

que poderiam parecer absolutamente distintos, nos quais jamais se poderia É particularmente importante ressaltar esse ponto na medida em que o
imaginar que pudessem ocorrer tais incidéncias. 38
· funcionamento do sistema de 'direyáo da economi-a de mercado pressupóe-a
Mas é no ensaio hoje clássico de Bühm, "Privatrechtsgesellschaft und existencia de urna socie9,ade 9-e direito privado43 • Nessas co~diyóes, a tarefa
Marktwirtschaft" 39 [Sociedade de direito privado e economia de mercado], do governo limita-se "a estabelecer a ordem-quadro (die Rahmenordnung),
que encontramos a legitima((áO teórica mais bem-acabada e original da "pre- velar por ela e foryar sua observáncia'' 44 • O mais notável é que Bühm náo
feréncia constitucional" pela ordem da concorréncia. O autor ataca a ideia hesita em retomar por sua conta, em-bota distorcendo seu sentido, a distin-
preconcebida dos juristas de que o indivíduo, no plano do direito, é imedia- ((á.o rousseauniana de "vontade geral" e "vontade particular"45 . Cumprindo
tamente confrontado como Estado. Mostra que a Revolu((áO Francesa, longe sua missáo, o Estado age de forma imparcial e garante que a "vontade geral"
de emancipar o indivíduo da sociedade, na-realidade o "deixou na sociedade'': náo será sacrificada no altar das diferentes vontades particulares. De um
a sociedade é que foi transformada de sociedade feudal de privilégios "em lado, há todos os grupos de pressáo organizados com base em interesses
pura sociedade de direito privado" (in eine reine Privatrechtsgesel/schaft) 40 • Ele profissionais que tentam enfraquecer o mandato constitucional do Estado,
esclarece o que se deve entender por "sociedade de direito privado": "Urna fazendo prevalecer um interesse particular em detrimento da generalidade
sociedade de direito privado náo é em absoluto um simples avizinhamento de das regras do direito privado; de outro, há o lnteresse geral de todos os
indivíduos sem liga':(áo, mas urna multídáo de homens que estáo submetidos membros da sociedade pela instaurayáo e pela conservayáo de urna ordem
a urna ordem unitária (eínheitlíchen Ordnung) e, a bem dizer, a urna ordem de con correncia regida pelo direito privado. Dessa perspectiva, a "vontade
de direito (Rechtsordnung)". Essa ordem de direito privado náo estabelece geral" é a vontade de defender a generalidade das regras do direito privado,
apenas as regras a que todos os membros da sociedade sáo sub metidos quando e a "vqntade particq1ar" é a .\ontade profissional" pela qual um grupo' de
contraem contratos entre si, adquirem bens e títulos uns dos outros, coope- interesses age a firri de obter isenyó'es da lei ou urria lei específica a seu
ram uns com os outros ou trocam serviyos etc.; acima de tudo, ela outorga a favor. Enquanto em Rousseau a vontade geral constitui, como r~layáo do
todas as pessoas que se situam sob sua jurisdi((áo urna enorme liberdade de povo com ele mesmo, o fundamento do direito público, em Bühm ela tem
movimento, urna competéncia para conceber planos e conduzir a própria vida por objeto o estabelecimento e a manutenyáo do direito privado. Desse
em relayáo com os próximos, um status no interior da sociedade de direito modo, o governo é o guardiáo da "vontade geral", sen do o guardiáo das
privado que náo é um "dom da natureza'', mas um "direito civil social"; náo regras do direito privado 46 •
um "poder natural", .mas urna "permissáo social". A realidade do direito é,
pois, náo que o indivíduo enfrente diretamente o Estado, mas que se ligue a
seu Estado "pela intermediayáo da sociedade de direi~o privado" 41 • A "economia social de mercado": as ambiguidades do "social"
Inegavelmente, há nisso urna forma de reabilitayáo da "sociedade civil" Para os ordoliberais, o termo "social" remete a urna forma de sociedade
contra certa propensáo do pensamento alemáo a subordiná-la ao Estado 42 • baseada na concorréncia como um tipo de vínculo humano, urna forma
de sociedade que se deve construir e defender pela ayáo deliberada de urna
38 Gesellschaftspolitik ("política de sociedade"), como a batizaram Van Rüstow e
Ludwig Erhard, La prospérité pour tous, cit., p. 85.
Müller-Armack. Objeto de urna política deliberada, esse tipo de sociedade de
39
Franz Bühm, "Privatrechtsgesellschaft und Markrwirtschaft", Ordo jahrbuch, v. 17,
1966, p. 75-151.
40 43
Ibidem, p. 84-5. Franz Bühm, 'Privatrechtsgesellschaft nnd Marktwirtschaft", cit.,_ p. 98.
44
41
Ibídem, p. 85. Ibidcm, p. 138.
45
42
Basta pensar na maneira como Hegel faz do Estado o verdadeiro fundainento da Ibidem, em especial p. 140-1.
sociedade civil em seus Princípios da jilosojia do direito [trad. Orlando Vitorino, Sáo 46
Veremos no capítulo 5 todo o proveito que um Hayek tira dessa delimita¡;:áo do papel
Paulo, Martins Fontes, 2009]. do governo.
120 • A nova razáo do mundo O ordoliberalismo entre "política económica" e "política de sodedade'' ~ 121

indivíduos soberanos em suas escolhas é também o fundamento último de um lado, e as necessidades sociais de urna sociedade d~ massa industrial
um Estado de direito, como acabamos de ver. moderna, de outro." 49
Esse mesmo termo designa também, em sentido mais clássico, certa fé • A econornia soci¿z/.de m~rcado opóe-se a econornia liberal de mercado. A
no resultado benéfico do processo econ6mico de ~ercado, urna fé que o economia de mercado é urn desejo da sociedade, é wna escolha coletiva
título do famoso livro de Erhard já citado resume bem: La prospérité pour irrevogável. Urna ordem de mercado é urna "ordem artificial", determi-
tous [A prosperidade para todos]. Müller-Armack47 , propagador da expres- nada por objetivos da sociedade. -É- urna máquina social que necessita de
sáo "economia social de mercado", explica que a economia de mercado era regulagem, é um artifício, urn meio técnico que deve produzir resultados
chamada "social" porque obedecia as escolhas dos consumidores, realizava benéficos, desde que nenhuma lei viole as regras de mercado.
urna democracia de consumo através da concorréncia, fazendo pressáo sobre O sentido de "social", portanto, é ambíguo: ora reniete diretamente a
as empresas e os assalariadÜs para melhorar a produtividade: "Essa orien- urna realidad e construída pela ayáo política, ora procede de urna crenya nos
tayáo ao consumo equivale, na verdade, a urna prestayáo de serviyo social benefícios sociais do sistema de concorrencia perfeita. Também é muito
da economia de mercado"; acrescenta que "o aumento da produtividade, abrangente. Para Müller-Armack, urna econo,mia social de mercadO com-
garantida e imposta constantemente pelo sistema concorrencial, age do preende a política cultural, a educayáo e a política científica. O investimento
mesmo modo que urna fonte de progresso social" 48 • no capital humano,. o urbanismo, a política ambiental fazern parte dessa
Antes de se renderem, os socialistas alemáes criticaram esse conceito, política de enquadramento sociaJ_.
sob o pretexto de que a economia de mercado náo podia ser social, que Em seu sentido ordoliberal, a expressáo "economia social de mercado"
até por prindpio ela era contrária a qualquer economia baseada na so- {&Fet~ente op9sta J._ expressáo Estado de bem-estar ou Estado social. A
lidariedade e na cooperayáo social. Müller-Armack responde com dois "prosperidade para todos" é urna cÜnsequencia da economia dy mercado e
argumentos: apenas dela, ao passo que os seguros sociais e as indenizayóes de todos os
• U m sistema de economia de mercado é superior a qualquer outra forma tipos pagos pelo Estado social- um mal necessário, sern dúvida, mas pro-
de economia quando se trata de garantir o bem-estar e a seguranya visório, que tanto quanto possível deve ser limitado- podern desmoralizar
econ6mica. "É a busca de urna síntese entre as regras do mercado, de os agentes económicos. A responsabilidade individual e a caridade ern suas
diferentes formas sáo os únicos remédios verdadeiros para a pobreza.
Os ordoliberais, embora tenham influenciado muito o poder político na
17 Depois de Erhard, Müller-Armack foi o economista ordoliberal alemáo que mais se Alernanha desde o fim da guerra, náo conseguiram livrar-se de urn sistema
envolveu na implantayáo de políticas económicas. Também foi um dos homens mais
de seguros sociais que datava de Bismarck nem interromper seu crescirnento
e6cazes para fazer valer as condiyóes alemás no processo de construyáo da Europa.
Professor de economía e responsável pelo Ministério das Finanyas, faz a ponte entre como desejavam. Do rnesmo modo, tiveram de se conformar com a coges-
a teoria e a prática. Em 1946, lanya a expressáo "economia social de mercado" numa táo das empresas, urna espécie de compromisso com os sindicatos alemáes
obra intitulada Wírtschaftslenkung und Marktwirtschaft [Economia planificada e no pós-guerra. No entanto, é um completo contrassenso identificar esse
economia de mercado]. Na Universidade de ColOnia, foi sobretudo Úm dos nego-
intervencionismo social com o ordoliberalismo 50 • Segundo essa doutrina,
ciadores do Tratado de Roma de 1957 e artífice do compromisso que assegurará a
dupla assinatura. Depois disso, foi subsecretário de Estado dos Assuntos Europeus, a "política social" deveria limitar-se a urna legislayáo protetora mínima dos
a partir de 1958, e foi com grande frequénda o representante alemáo em diversas trabalhadores e a urna redistribuü;:áo fiscal muito moderada, que permitisse
negociayóes ligadas aconstruyáo europeia.
48 Alfred Müller-Armack, citado em Hans Tietmeyer, Économie socia/e de marché et 19
' Alfred Müller-Armack, Auf dem Weg nach Europa. Erin1m:ungen und Ausblícke
stabílíté monétaire (trad. Sylvain Broyer, Paris/Frankfurt, Économica/Bundesbank,
(Tübingen/Stuttgart, Rainer Wnnderlich/C. E. Poeschel, 1971), citado cm Hans
1999), p. 6. Note-se que a expressáo foi criada um ano antes de Müller-Armack
Tietmeyer, Économie socíale de marché et stabilité monétaire, cit., p. 207.
aderir a Sociedade Mont-Pelerin de Hayek e Rüpke (ele foi um dos dez primeiros
alemáes da sociedade). "
0
Ver a esse respeito o capítulo 7 deste volume, dedicado aconstr~tyáo da Europa.
122 ~ A nova razáo do mundo O ordoliberalismo entre "política económica" e "política de sociedade" e 123

a cada indivíduo continuar a participar do "jogo do mercado". Deveria de urna "máquina económica'' (Müller-Armack). A econornia de mercado
a
ater-se, assim, luta contra a exclusáo, tema que permite unir a doutrina · só pode funcionar se estiver apoiada nwna sociedade que lhe proporcione as
cristá da caridade e a filosofia neoliberal da integrayáo de todos no merca- maneiras de ser, os val?~es, os _desejos que lhe sáo necessários. A lei náo basta,
do por intermédio da "responsabilidade individual". Ropke enfatizou que sáo necessários também os costumes. Esse, sem dúvida, é o significado mais
também era tarefa do "intervencionismo liberal;'-garan1:ir aos indivíduos urn profundo da expressáo "economia social de mercado", se considerarmos que
quadro de vida estável e seguro, o que supunha náo tanto "intervenyóes de essa econornia é urna entidade global dotada de coeréncia54 .
conservayáo", mas intervenc;:óes de adapta¡;:áo, as únicas capazes de proteger O ordoliberalismo concebe a sociedade a partir de cena ideia do vínculo
os mais fracos contra a dureza das mudanc;:as econürnicas e tecnológicas. entre os indivíduos. Em matéria de relayáo social, a concorréncia é norma.
O progresso social passa pela constituic;:áo de urn "capitalismo popular", Ela caminba de máos dadas com a liberdade. Nao há liberdade sem con-
a
baseado no estímulo responsabilidade individual mediante a constitui¡;:áo corréncia, náo há concorréncia sem liberdade. A concorréncia é o modo
de "reservas" e a formac;:áo de um patrimOnio pessoal obtido gra¡;:as ao traba- de relayáo interindividual mais conforme com a eficácia econümica e, ao
lho. Erhard explica sern nenhuffia ambiguidade: "Os termos livre e social se mesmo tempo, mais conforme com as exigéncias morais que se podem
sobrepóem [... ]; quanto mais livre a econornia, rnais social ela é, e maior é o esperar do hornero, na medida em que ela perrrlite que ele se afirme como
ganho para a economia nacional" 51 . É da livre competic;:io que nascerá todo ser autónomo·, livre e responsável por seus aros.
o progresso social: "Bem-estar para todos e bem-estar pela concorréncia'' Essa concorréncia·é leal quando envolve indivíduos capazes de exercer
sáo sin6nimos 52 . Em matéria de política social, portanto, deve-se recusar o sua capacidade de julgamento e escolha. Essa capacidade depende de es-
princípio indiscriminado da proteyáo de todos. O valor ético está na luta trutu~~s jurídicas, ~as tam~~m de estruturas sociais. Surge daí a ideia' de
concorrencial, náo na prote¡;:áo generalizada do Estado de bem-estar, "em urna "política de sodedade", que logicamente completa os considerandos
que cada um enfia a máo no bolso de seu vizinho" 53 . constitucionais da doutrina. Para evitar qualquer confusáo, por!anto, de-
vemos ter o cuidado de sempre traduzir Gesellschaftspolitik por "política de
sociedade", e náo por "política social", pois o genitivo objetivo tern urna
A "política de sociedade" do ordoliberalismo funyáo essencial aqui, na medida em que significa que a sociedade é o objeto
Como vimos anteriormente, um dos aspectos importantes da doutrina é e o alvo da ac;:áo governamental, de forma alguma que essa ac;:áo deva ter o
a afirmac;:áo da interdependéncía de todas as institui¡;:óes, assim como de todos propósito de transferir as rendas mais altas para as rendas mais baixas. É por
os níveis da realidade hrnnana. Aordern política, os fundamentos jurídicos, os isso que Foucault tem toda a razáo de falar aqui de "governo de sociedade",
valores e as mentalidades fazern parte da ordem global, e todos térn efeito sobre em oposiyáo ao "governo económico" dos fisiocratas 55.
o processo económico. Os objetivos da política comp~eenderáo logicamente Rüpke é incontestavelmente um dos que mais teorizaram essa especifi-
rnna ayáo sobre a sociedade e o quadro de vida, com o intuito de conciliá- cidade da política de sociedade. Para defender a economia de mercado
-los com o bom funcionamento do mercado. A doutrina leva, P?rtanto, a contra o veneno mortal do coletivismo, é importante, escreve ele em suas
reduc;:áo da separa¡;:áo entre Estado, economia e sodedade, tal como existia muitas e copiosas obras, criticar o capitalismo histórico, isto é, a forma
no liberalismo clássico. Ela embaralha as fronteiras, considerando que todas concreta que o princípio de ordem da economía de mercado tomo u 56.
as dimensóes do hornero sáo COJ;llO pec;:as indispensáveis ao funcionamento

Remeter-se aesse respeito aleirura de Michel Foucault emNaissance_de la biopolitíque,


54

51 Ludwig Erhard, citado em Hans Tietmeyer, Économie sociale de marché et stabilité cit., p. 150. Ver também o artigo de Michel Senellart, "Mtch,el Foucaulr", cit.,
monétaire, cit., p. 6. p. 45-8.
52 55
Ludwig Erhard, La prospérité pour tous, cit., p. 3. Michel Foucault, Naissance de la biopolitíque, cit., p. 151; grifo nosso.
53 56
Ibidem, p. 133. Ver Wilhelm Rüpke, Civitas humana, cit., p. 26.
124 ~ A nova razao do mundo O ordoliberalismo entre "política económica" e "política de sociedade" ~ 125

Esta última continua a ser o melhor sistema económico e, como vimos, o política de sociedade que repouse sobre urna nova base" 61 . Essa política que
único sustentáculo de um Estado genuinamente liberal. Mas a economía de pretende produzir indivíduos capazes de escolhas responsáveis e ponderadas
mercado "foi distorcida e desfigrnada pelo monopolismo e pelas usurpac;:óes deve procurar descentralizar as instituic;:óes políticas, descongestionar as
irracionais do Estado" 57, a tal ponto que o capitalismo, em sua forma atual, cidades, desproletailZJ.r e -desagregar as esrruturas sociais, desmonopolizar
tornou-se urna "forma conspurcada, adulterada da economia de mercado" 58• a economía e a sociedade- em suma, ela deve procurar fazer urna "econo-
O "humanismo económico'', alnda denominado "terceira via", apoia-se num mía humana'', segundo a expressáo que ROpke tanto aprecia, e da qual vé
liberalismo sociológico (soziologische Liberalismus) "contra o qua! perdem o exemplos nas aldeias do cantáo de Berna, compostas de pequenas e médias
gume as armas forjadas para atacar o antigo liberalismo puramente econO- fazendas e empresas artesanais.
mice" 59. ROpke admite que o antigo liberalismo ignorava a sociedade ou O aspecto arcaizante e nostálgico desse liberalismo sociológico náo conse-
supunha que ela se adaptava espontaneamente aordem de mercado. Isso era gue esconder o fato de que o conjunto dos neoliberais deve responder a um
urna cegueira culpada, produzida pelo racionalismo otimista das Luzes, que problema crucial. Como reabilitar a economía de mercado, como continuar
ignorava o lac;:o social, a divers'idade de suas formas, os contextos "naturais" a acreditar na soberanía plena do indivíduo no contexto do gigantismo.da ci-
em que desabrochava. Convém definir, entáo, as condic;:óes sociais de fun- vilizac;:áo capitalista industrial e urbana? O problema apresentou-se a Hayek,
cionamento do sistema concorrencial e considerar as reformas que devem e ele foi abrigado a distinguir entre a "ordem espontinea'' das interac;:óes
ser feitas para obré-las. É isso que especificará essa "terceira via'' como a via individuais e a "organizac;:áo" que repousa sobre urna concertac;:áo deliberada,
do "liberalismo construtor" e do "humanismo eco nO mico", táo estranhos em particular a da produc;:áo moderna, tanto nas empresas capitalistas como
ao coletivismo como ao capitalismo monopolista, dois tipos de economía nÜs:?-parelhos administrativos do Estado 62 • Em que medida ainda se pode
que favorecem o comando, o despotismo, a dependéncia. fazer' do indivídud indepelldente,_ consumidor e produtor, a entidade de
A questáo que se coloca na-obra de ROpke é esta, portante: de que tipo referéncia da ordem eco nO mica de mercado? ROpke tem o méi-ito de náo
deve ser a sociedade na qual o consumidor poderá exercer plena e conti- se esquivar do problema. Se quisermos evitar a "sociedade de formigas"
nuamente seu direito de escolher, com toda a independéncia, os bens e os do capitalismo das grandes unidades e do coletivismo, devemos tratar de
servic;:os que mais o satisfac;:am? fazer com que as estruturas sodais fornec;:am aos indivíduos as bases de sua
Essa "terceira via", que se distingue do constitudonalísmo mais estrita- independencia e sua dignidade.
mente jurídico dos fundadores da Escala de Freiburg por urna dimensáo Foucault vi u claramente o equívoco dessa "política de sociedade" 63. Ela
moral mais pronunciada, deve responder a um desafio muito mais vasto do deve evitar que a sociedade seja inteiramente tomada pela lógica de mercado
que os desregramentos econümicos. Ela deve remediar urna "crise total de (prindpio de heterogeneidade da sociedade e da economía), mas deve fazer
nossa sociedade". O que explica que essa "política de estrutura'' 60 seja mals igualmente com que os indivíduos se identifiquem com microempresas,
bem definida como urna "política de sociedade", isto é, urna política que visa permitindo a realizac;:áo de urna ordem concorrencial (prindpio de homo-
a urna transformac;:áo completa da sociedade, num sentido evidentemente geneidade da sociedade e da economía). "Economía de mercado e sociedade
muito diferente do coletivismo. A fórmula decisiva é dada em C{vitas huma-
na: "Mas a própria economía de mercado só pode durar por meio de urna
61
Ibidem, p. 74. Modificamos a traduyáo, traduzindo Gesellschaftspolitik por "políti-
ca de sociedade", e náo "política social", pelas razóes explicadas anteriormente. A
frase alemá é a seguinte: "Die Marktwirtschaft selbst ist aber nur zu halten bei einer
57
Ibidem, p. 37. widergelagerten Gesellschaftspolitik" (Civitas humana. Grundfragen der Gesellschaftund
58
Ibidem, p. 65. Wirtschaftsrefonn, Erlenbach/Zurique, Eugen Rentsch, 1944, 85). p.
9 62
" Ibidem, p. 43. Ver capítulo 5 deste volume.
63
60
Ibidem, p. 69. Michel Foucault, Naíssance de la biopolitique, cit., p. 246-7.
1.26 ., A nova razáo do mundo O ordoliberalismo entre "política económica" e "política de sociedade" "' 127

náo comercializada completam-se e amparam-se mutuamente. Com¡)reen- cidadáos da coisa pública, seres de carne e sangue, com pensamentos e
dem-se mutuamente como espayo vazio e quadro, como urna lente convexa sentimemos eternamente humanos pendendo para a jusüya, a honra, a
ajuda mútua, o sentido do interesse geral, a paz, o trabalho bem feito, -
e outra cóncava que juntas criam a objetiva fotográfica'' 64 .
a beleza e a paz cl__a_natureza. A economia de mercado. é sornente urna
Esse ponto merece ser examir~ado com atenyáo. Devemos enquadrar organizaifáO determinada e, como vimos, absolutamente indispensável
a economia de mercado, situá-la firmemerite no -"quadro sociológico- dentro de um estreito domínio em que ela encontra seu lugar devido e
-antropológico" do qual ela se nutre, mas jamais perder de vista que ela náo deformado; entregue a si me~ma, seria perigosa e ·até insustentável,
deve também se distinguir dele. porque reduziria os homens·a urna existCncia totalmente antinatural, e
eles, cedo ou tarde, rejeitariam tanto essa organizayáo como a economia
A economia de mercado náo é tuda. N urna sociedade viva e saudável, ela de mercado, que entáo lhes seria odiosa. 67
tem lugar marcado ande náo se pode prescindir dela, e ande é preciso que
seja pura e límpida. Mas ela degenera infalivelmente, apodrece e envenena A principal causa da grande crise social e moral do Ocidente que conduz
com seus germes pútridos todas as outras fra¡;:óes da sociedade se, ao lado direto ao coletivismo deve-se ao fato de que o quadro social náo é suficiente-
desse setor, náo houver outros: os seto res do abastecimento individual, da mente sólido. Náo foi a economia de mercado que náo funcionou, foram as
economia de Estado, do planismo, da dedica¡;:áo e da simples e náo comercial
estruturas de enquadramento que cederam. R6pke pensa a crise social como
humanidade. 65
um rompimento dos diques que deveriam "conter'' o mercado: "As bordas
O mercado deve encontrar seus limites nas esferas livres da lógica mer- carunchosas trouxeram a ruína da economia liberal dos tempos passados e,
cantil: a autoprodw;áo, a vida familiar, o setbr público sáo indispensáveis a ao mesmo tempo, de todo o sistema social do liberalismo" 68 •
exisréncia social66 . Essa exigéncia de pluralidade das esferas sodais náo está - · Qual é o reméd~o, entáo? Se a economia de mercado é como um vazio,
a
ligada a urna preocupac;áo de eficácia o u justiya, mas, sim, natureza plural con~em consolidai novamerite as bordas, adotar urna política que "visa a
do hornero, coisa que o "velho _liberalismo económico" náo compreendeu. urna maior solidez do quadro sociológico-antropológico" 69 •
O layo social náo pode reduzir-se a urna relac;áo comercial. Esse "programa sociológico" compreende diversas vias- descentralizayáo,
Perdera-se de vista que a economia de mercado é urna seifao estreita da desproletarizayáo, desurbanizayáo -,todas tendendo a um objetivo comum:
vida social, que é enquadrada e mantida por um domínio bem mais am- urna sociedade de pequenas unidades familiares de habitayáo e produyáo,
plo: campo exterior em que os homens náo sao concorrentes, produtores, independentes e concorrendo urnas com as ourras. Cada indivíduo deve
comerciantes, consumidores, membros de sociedades de explorayao,
ser inserido profissionalmente num quadro de trabalho que lhe garanta
acionistas, poupadores, mas simplesmente homens que náo vivem só de
páo, membros de famílias, vizinhos, correligionários, colegas de profiss:io, independencia e dignidade. Em urna palavra, cada indivíduo deve gozar das
garantias oferecidas pela pequena empresa o u, melhor, cada indivíduo deve
funcionar como uma pequena empresa. Vemos aqui o equívoco apontado por
64
Wilhehn Rópke, Civitas humana, cit., p. 74. Essa imagem do quadro e do vazio, da Foucault: o que deveria funcionar como um Jora do mercado que o limita
borda e do oco, nao deixa de lembrar a temática do encastramento (embeddedness) do exterior é pensado precisamente sobo modelo de um mercado atomístico,
de Karl Polanyi. Dos mesmos sintomas da crise da civilizayáo capitalista, Rópke e
composto de múltiplas unidades independentes.
Polanyi extraem consequencias políticas diametralmente apostas.
65
Ibidem, p. 72.
66
Em La crise de notre temps (trad. Hugues Faesi e Charles Reichard, Paris, Payot,
1962), p. 136, Rópke afirma nessamesma linha: "O prindpio do mercado pressupóe
certos limites e, se a democracia deve ter esferas livres da influénda do Estado para
nao cair no despotismo desmedido, a economia de mercado deve ter esferas que nao 6
7 Wilhelm Rópke, Civitas humana, cit., p. 71-2.
sejam submetidas as leis de mercado, sob pena de tornar-se intolerável: a esfera do
68
autoabastecimento, a esfera das condiyóes de vida por mais simples e modestas que Ibidem, p. 73.
69
seja, a esfera do Estado e da economia planificada''. lbidem, p. 74.
128 ~ A nova raz:lo do mundo O ordoliberalismo entre "política económica'' e "política de sociedade" " 129

A pequena empresa como remédio para a proletariza~ao depender de subsídios coletivos. O grande perigo é que o desenraizamento
Examinemos mais de perta a crítica de Rüpke aproletariza¡;áo, principal proletário e a perda de toda propriedade pessoal que caracterizam essa
fator do coletivismo. A sociedade industrial conduziu a um desenraizamento situayáo levem a essa nova escravidáo do Estado de bem-estar: "Quanto
urbano e a um nomadismo sem precedentes de massas assalariadas: "É um mais se estende a prOletariza¡;áo, mais impetuosamente' afirma-se o desejo
estado patológico como nunca existiu antes, em tal amplitude, no curso da dos desenraizados de fazer o Estado lhes garantir o necessário e a seguranya
história'' 70 . Resgatando acentos que pouco se ouviam na sociologia desde económica e mais desaparecem ()S restos da responsabilidade pessoal"74 •
Auguste Comte, Rüpke mostra que esse nomadismo proletário ligado ades- Desproletarizar as massas desenraizadas pelo capitalismo industrial náo é
truiyáo do campesinato e do artesanato pela grande explorayáo concentrada torná-las seguradas socialmente, mas proprietárias, poupadoras, produto-
criou um grande vazio na existéncia de milhóes de trabalhadores, privados ras independentes. Para Rüpke, a propriedade é o único meio de enraizar
de seguranya e estabilidade, "assalariados urbanizados, sem independéncia, de novo os indivíduos em um meio, dar a eles a seguranya que desejam,
sem propriedade, inseridos em explorayóes gigantescas da indústria e do motivá-los para o trabalho: "NossO dever é conservar e aumentar com todas
comércio" 71 • Em razáo do vazio que criou, a proletarizayáo é analisada como as nossas foryas o número de camponeses, artesáos, pequenos industriais e
urna perda de autonomia da existéncia e um isolamento social: comerciantes, em resumo, todos os indivíduos·independentes, munidos de
propriedade de prodm;:áo e habitayáo" 75 . A economia de mercado precisa
A proletariza~:io significa que homens caem numa situa~:io sociolügica
desse "sustentáculo humano", desses "homens solidamente ancorados na
e antropológica perigosa, caracterizada por falta de propriedade, falta
de reservas de toda natureza (inclusive la~os familiares e de vizinhanqa), "':ida, grayas a seu tipo de trabalhü e vida'' 76 •
dependencia económica, desenraizamento, alojamentos de massas seme- · ~ssa idealiza¡;~o da explorayáo familiar que inspira a política de
lhantes a casernas, militarizac;::io do trabalho, distanciamento da natureza, resta~rayáo da prbpriedade individual, vista como ponto essencial da
mecanizac;::io da atividade produtora, em resumo, urna desvitalizac;::io e reforma social, nunca dá a entender, porém, que todos os a'ssalariados
despersonaliza~:io gerais. 72
se tornaráo de fato pequenos danos de empresa. Trata-se antes de um
A política de sociedade deve ter como prioridade "preencher o fosso que modelo social, do qual cada indivíduo poderá aproximar-se e apreciar os
separa os proletários da sociedade burguesa, desproletarizando-os, fazendo- benefícios morais e materiais, gra'faS apropriedade de sua casa e ao cultivo
-os, no verdadeiro e nobre sentido da palavra, burgueses, cidadáos, isto é, de sua harta: "Ternos convicyá~ de que a horra nos fundos de casa fará
auténticos membros da civitas" 73 . Essa política de integra¡;io, cujo campo já milagres", exclama Rüpke 77 . Com a harta, grayas a autoproduyáo que
fora esboyado por Von Rüstow durante o Colóquio Lippmann, passa pelo poderá realizar, o assalariado será seu mestre, como um empreendedor
desenvolvimento da pequena exploras:áo familiar e pela difusáo da proprie- que teria sobre os próprios ombros toda a responsabilidade pelo processo
dade num contexto de pequenas cidades ou aldeiaS, nas quais se podem de produ'fáO. Tornando-se proprietário e produtor familiar, o indivíduo
estabelecer layas de conhecimento mútuo. Tal política opóe-se, portanto, recuperará as virtudes da prudéncia, da seriedade e da responsabilidade,
ao Estado social, que apenas diminui um pouco mais o homem, fazendo-o táo indispensáveis a economia de mercado. Esta última necessita que as
estruturas sociais lhe forneyam homens independentes, corajosos, hones-
70
tos, trabalhadores, rigorosos, sem os quais ela só pode degenerar num
Ibidem, p. 228.
hedonismo egoísta. Essa dimensáo moral da pequena empresa constitui
71
lbidem, p. 229.
71 lbidem, p. 230 74
73
Ibidem, p. 231.
Ibidem, p. 167. Note-se que Rüpke joga deliberadamente coma ambiguidade da 75
palavra Bürger, que significa tanto "hurgues" como "cidad:io". Esse jogo diz nmito Ibidem, p. 257.
7
a respeito da tendencia do neoliberalismo de diluir a distiny:io entre o económico r, Wilhelm ROpke, La crise de notre temps, cit., p. 198.
e o político. 77
Ibidem, p. 152.
130 " A nova razáo do mundo O ordoliberalismo entre "política económica" e "política de sociedade" ., 131

o que ele charna significativamente de "núcleo carnpones da econornia da guerra83, nos quais rejeita as oposiyóes radicais entre as "soluyóes totais"
política'' 78 • So mente quando o "código da honestidade", a ética do traba- dos fanáticos:
lho e a preocupayáo corn a liberdade estáo suficientemente enraizados no Por que continuar a R_Ü!_ ~ll_l formaqáo de batalha, urn em f~ce do outro, o
indivíduo é que se pode desenvolver no mercado urna concorrencia leal e liberalismo e o intervencionismo, se ern verdade pode tratar-se apenas de
sadia e que o equilíbrio social pode ser recuperado. Ern urna palavra, os urn pouco rnais ou um pouco menos de liberalismo, e náo um brutal sim
"diques" rnorais que perrnitern que os indivíduos "se rnantenharn de pé" ou náo, já que o liberalismo integral_~-uma irnpossibilidade e o interven-
cionismo integral extingue-se por si mesmo e torna-se puro comunismo? 84
sáo identicos aos que perrnitern "rnanter de pé" a econornia de mercado.
a
Eles repousarn sobre a generalizayáo efetiva do modelo de empresa escala Contudo, em outros textos, o discurso é-muito mais ambicioso. A "ter-
da sociedade corno urn todo. A empresa pequena ou rnédia é a rnuralha ceira via'' define um liberalismo sociológico "construtor" que tem como
contra os desregrarnentos introduzidos pelo capitalismo, exatarnente objetivo urna remodelayáo social completa, indispensável para remediar a
do rnesrno modo corno as comunidades naturais, dentro do princípio grande crise de nossa época. Ele define a Gesellschafispolitik como
federalista de subsidiaridade, constituern os limites do poder do Estado. urna política que perseguirá em uníssono a restauraqáo da liberdade
econ6mica, a hurnanizaqáo das condiqóes de tfabalho e vida, a supressáo
da proletarizaqáo, da despersonalizaqáo, do desenquadramento social, da
A "terceira via'' formaqáo em massa, do gigantismo e do privilégio, e outras degeneraqóes
patológicas do capitalismo, tal política é mais do que urna simples reforma
O neoliberalisrno de Rüpke é urn projeto social que visa a urna "orga- econ6mica e social. [... ]Todas as desordens econ6micas de nosso ternpo
nizayáo econ6rnica de hornens livres" 79 • Segundo ele, so mente se é livre ~áo apenas os simomas s~p,erficiais de urna crise total de nossa sociedade,
quando se é proprietário, rnernbro de urna cornunidade natural familiar, e é corno tal qu~ devemos tratá-la e CUl'á-la. Assini,- urna reforma econó-
empresarial e local, podendo contar corn solidariedades próximas (farnília, mica eficaz e duradoura deve ser, ao mesmo tempo, urna reformd radical
amigos, colegas) e tendo energia para enfrentar a concorr€:ncia geral. Essa da sociedade. 85
"terceira via'' situa-se entre o "darwinisrno social" do laissezjaire e o Estado É talvez por essa énfase no aspecto moral do "espírito de empresa'', da
a
social que cuida do indivíduo do beryo sepultura80 • Ela deve fundar-se "responsabilizayáo individual", da "ética da competiyáo", que o liberalismo
na ideia da "responsabilidade individual": "Quanto rnais o Estado cuidar sociológico de Rüpke esclarece táo bem os esfon;:os feitos para transformar
de nós, menos inclinayáo terernos para agir por nossas próprias foryas" 81 • a
a empresa numa espécie de forma universal que dá autonomia de escolha
A propriedade e a empresa sáo, pois, os quadros sociais dessa autonornia dos indivíduos o poder de se exercer.
da vontade econ6rnica: ''O carnpones sern dívidas, que possua urna terra É provável que a exaltayáo das virtudes da vida camponesa nos fa<;:a rir
suficientemente grande, é o hornern rnais livre do n'osso planeta" 82 • hoje por seu romantismo e seu vitalismo um tanto antiquados. A contri-
Essa terceira via tern vários rostos. Poderíarnos ver nela apenas urna a
buic;áo fundamental de Ropke governamentalidade neoliberal reside, na
fórmula de cornprornisso, urna espécie de via média entre o liberalismo e verdade, no fato de recentrar a interven<;:áo governamental no indivíduo para
o planismo. É o que Rüpke dá a entender em cenos textos escfitos antes conseguir que ele organize sua vida, o u seja, a rela<;:áo que tem com sua pro-
priedade privada, sua família, seu c6njuge, seus seguros e sua aposentadoria,

78 Wilhelm Rüpke, Civitas humana, cit., p. 290.


79 Idem, La críse de notre temps, cit., p. 201. 83
Como, por exemplo, em Wilhelm Rüpke, Explication économique du monde moderne
80
Ibidem, p. 183 (trad. Paul Bastier, Paris, Librairie de Médicis, 1940), p, 281.
84
81
ldem. Ibidem, p. 282.
8
82
lbidem, p. 227. " Ibidem, p. 284-5.
132 • A nova razáo do mundo

de modo que essa vida faya dele "urna espécie de empresa permanente e
múltipla'' 86 • Devemos ressaltar aqui a que ponto essa promoyáo do modelo de
empresa auniversalidade nos distancia de Locke. Para este último, o sentido
amplo da nos:áo de "propriedade" tinha a funs:áo de legitimar a propriedade
4
dos bens exteriores como extensáo da propriedade de si mesmo realizada pelo
O HOMEM EMPRESARIAL
trabalho. Para alguns neoliberais contemporáneos, tanto a relayáo consigo
mesmo como a relayáo com os bens exteriores devem tomar como modelo
a lógica da empresa como unidade de produyáo em concorréncia com os
outros. Em outras palavras, náo é o resultado do trabalho que é anexado a
pessoa, como um prolongamento dela, mas é o governo que o indivíduo
tem de si que deve interiorizar as regras de funcionamento da empresa; náo
é o exterior (ou seja, o resultado do trabalho) que é levado para o interior, Náo captaríamos a originalidade do neolibüalismo se náo víssemos seu
masé o exterior (ou seja, a empresa) que fornece ainterioridade da relayáo ponto focal na relayáo entre as instituiyóes e a ayáo individual.- De fato,
consigo mesmo a norma de sua própria reorganizayáo. quando-se deixa de considerar natural a conduta econúmica maximizado-
Em última análise, ainda que a coeréncia de conjunto da doutrina seja ra, condiyáo absoluta do equilíbrio geral, convérn explicar os fatores que a
problemática, o legado político que os dais ramos do ordoliberalismo alemáo in~uenciam, a rnaneira como ela se aproxima de certo grau de eficiéncia,
deixaram ao neoliberalismo contemporáneo consiste em duas coisas essen- seái'ijwica consegq_ir alcans;ar a perfeiyáo. fu diferenyas entre os autóres
ciais. Em primeiro lugar, a promoyáo da concorréncia a urna norma cujo neoliberais estáo ligadas, ern parte, -a soluyáo que eles dáo a esse problema.
intuito é orientar urna "política de ordenayáo": embora a epistemologia de Enquanto os principais responsáveis pelo "renascimenro neoliberal" -
Eucken tenha caído amplamente no esquecimento, salvo em certos círculos Rougier, Lippmann e os ordoliberais alemáes - destacam a necessidade
de especialistas, os princípios da "constituiyáo eco nO mica'' continuam a ser da intervenyáo governamental, Von Mises se recusa a definir a funyáo das
invocados para avaliar medidas de política eco nO mica, ainda que isso termine instituiyóes em termos de intervencionismo. E até proclama em alto e bom
muitas vezes numa lenga-lenga formal. Em segundo lugar, a atribuiyáo de som o apego que tem ao princípio do "laíssezjaire": "Dentro da economia
um objeto absolutamente específico aayáo política, a saber, a "sociedade" de mercado, um tipo de organizayáo social centrado no laíssez-faire, existe
até ern sua trama mais fina e, portanto, o indivíduo como foco do governo um domínio no qual o indivíduo é livre para escolher entre diversos modos
de si mesmo e ponto de apoio do governo da conduta. É nisso, de fato, que de agir, sem ser tolhido pela ameaya de ser punido" 1 • Lendo tais passagens,
devemos situar o sentido profundo da universalizayáü da lógica da empresa ternos a impressáo de que com Von Mises - como, aliás, observou Von
preconizada pela "política de sociedade" em sua forma mais bem-acabada. Rüstow ern 1938 - voltamos as apologias mais dogmáticas do laissezfaire
como fonte de prosperidade para todos e cada wn.
Seria precipitado concluir a partir daí que essa corren te de pensarnento
náo traz nada de novo e contenta-se com um simples retorno ao liberalismo
dogmático. Significada, sobretudo, desprezar urna mudanya importante na
argumentayáo, que reside na valorizayáo da concorréncia e da empresa como

1
Ludwig van Mises, L'action humaine: traité d'économie (trad. Raüul Audouin, Paris,
PUF, 1985), p. 297 [ed. bras.: A ardo humana: um tratado de economia, 2. ed., Rio
s6 Michel Foucault, Naissance de la biopolitique, cit., p. 247. de Janeiro, Instituto Liberal, 1995].
134 " A nova razáo do mundo O homem empresarial o 135

forma geral da sociedad e. Obviamente, o ponto comum com o liberalismo modo, como diz muito apropriadarnente Thomas Lemke em seu comentário
clássico é ainda a exigéncia de que se justifique a limitattáo do Estado em sobre Michel Foucault, o neoliberalismo apresenta-se como wn "projeto
no me do mercado, sublinhando o papel da liberdade económica na eficdcia político que tenta criar urna realidade social que supostámente já existe" 5.
da máquina econ6mica e no prosseguimento do processo de mercado. Daí É precisamente es.Sa--diffiensáo antropológica do homero-empresa que,
certa confusáo que leva a entender que Von Mises ou Hayek sáo apenas de um modo diferente daquele da sociologia ordoliberal, será a principal
"fantasmas" do velho liberalismo manchesteriano. contribuiyáo dessa corrente.
O que pode engarrar na atitude austro-americana2 é seu "subjetivismo" 3 Os caminhos estratégicos promovidos pelo neoliberalismo - criayáo de
mais ou menos pronunciado, que chegou a levar certos discípulos de Von situattóes de mercado e produttáo do sujeito empresarial- devem-se muito mais
Mises, como Murray Rüthbard, ao "anarcocapitalismo", isto é, negattáo a a
a ela do que economia neoclássica. No programa neoclássico, a concorrencia
radical de qualquer legitimidade da entidade estatal. Sem ignorar o que resta sempre remete a certo estado e, nesse sentido, tem muito mais a ver com urna
ainda de bastante "clássico" nessa orientayáo, que a coloca longe da inspira- estática do que coro urna dinámica. É, mais especificamente, um cánone pelo
yáo construtivista do neo liberalismo, é importante destacar a contribuiyáo qual é possível julgar diversas situayóes em que se encontra um mercado e, ao
original do pensarnento desses autores. Esse pensamento é inteiramente mesmo tempo, o quadro em que a ayao racional dos agentes pode idealmente
estruturado pela oposiyáo de dois tipos de processo: um de des~ruiyáo e conduzir ao equilíbrio. Toda situayá.o que náo corresponde as condiyóes da
outro de construyáo. O primeiro, que Von Mises chamou de "destrucionis- concorrénda pura e perfeita é considerada urna anomalia que impossibilita
mo", tem como agente principal o Estado. Repousa sobre o encadeamento a realizay<'io da harmonia preconCebida entre os agentes económicos. Desse
perverso de ingerencias do Estado que levam ao totalitarismo e regressáo a . m~_do; a teoria neoclássica é levada a prescrever um "retorno" as condiyóes
económica. O segundo, que corresponde ao capitalismo, tem como agente da ~onCorréncia ~stabdeddas a priori como "normais". Se é certo que o
o empreendedor, isto é, potencialmente qualquer sujeito económico. programa neoclássico deu ao discrnso do livre mercado urna firme cauyao
a
Dando enfase ayáo individual e ao processo de mercado, os autores academica, em particular sob a forma do "mercado eficiente" das finanyas
austro-americanos visam, em primeiro lugar, a produzir urna descriyáo globais, é errado pensar que a racionalidade neoliberal repousa exclusiva o u
realista de urna máquina económica que tende ao equilíbrio, quando náo principalmente sobre o programa walrasiano-paretiano do equilíbrio geral.
é perturbada por moralismos ou intervenyóes políticas e sociais destruido- Urna concepyáo muito diferente da concorréncia- que tem apenas o no me
ras. Em segundo lugar, visam a mostrar como se constrói na concorréncia em comurn coma versáo neoclássica- constitui o fundamento específico do
geral certa dimensáo do hornero, o entrepreneurship\ que é o princípio de concorrencialismo neoliberal. O grande passo adiante dado pelos austría-
a
conduta potencialmente universal mais essencial ordem capitalista. Desse cos Von Mises e Hayek consiste em ver a concorréncia no mercado como
um processo de descoberta da informayáo pertinente, como certo modo
de conduta do sujeito que tenta superar e ultrapassar os outros na deseo-
2
O adjetivo "austro-americano" designa aqui os economistas que imigraram para os berta de novas oportunidades de lucro. Em outras palavras, radicalizando
Estados Unidos ou os norte-americanos que se alinharam aescoJa austríaca moderna,
e sistematizando numa teoria coerente da ayáo humana alguns aspectos
cujas duas figuras te6ricas e ideol6gicas mais importantes sáo Ludwig von Mises e
Friedrich Hayek. Além das teorías destes últimos, daremos realce mais particularmente já presentes no pensamento liberal clássico (desejo de melhorar a própria
aos desenvolvimentos da doutrina produzidos por Israel Kirzner. sorte, fazer melhor do que o outro etc.), a doutrina austríaca privilegia urna
3 Em The Counter-Revolution ofScience (Nova York, The Free Press, 1955, p. 31), Frie- dimensao agonística: a da competiyáo e da rivalidJ.de. A partir da lutados
drich Hayek escreve que todo avans:o importante na teoria económica nos últimos
cem anos foi um passo adiante na aplicas:áo coerente do subjetivismo. Nesse ponto,
faz urna homenagem clara a Von Mises, a quem considera seu mestre. 5 Thomas Lemke, "The Birth ofBio-Politics: Michel Foucault's Lecture at the CoW:ge
4 Esse termo é traduzido em francés por entrepreneurialité. [Em portugués, traduz-se de France on Neo-Liberal Governmentality", Economy and Society, v. 30, n. 2, 2001,
por "empreendedorismo"- N. T.] p. 203.
136 o A nova raz:áo do mundo O homem empresarial " 137

agentes é que se poderá descrever náo a formac;áo de um equilíbrio definido diminá-las, e assim sucessivamente até se instaurar um soc~alismo totalitário.
por condiyóes formais, mas a própria vida económica, cujo ator real ·é o Essa cadeia de reayóes é faCilitada pela ideologia da democracia ilimit~da,
empreendedor, movido pelo espírito empresarial que se encontra em graus baseada no mito da soberania do pavo e da justiya social.
diferentes em cada um de nós e cujo único freio é o Estado, quando este Desse ponto de--~ista-, ~áo existe urna terceira via possível entre o free
trava o u suprime a livre competiyáo. market e o controle do Estado. Para Von Mises, a intervenyáo é, por defi-
Essa revoluyáo na rnaneira de pensar inspirou inúmeras pesquisas, niyáo, um entrave aeconomia de mercado. Por isso, náo poupa críticas aos
como aquelas, em plena expansáo, sobre inovayáo e informayáo. Mas, ordoliberais, esses "intervencionistas que procuram soluyóes 'ern cima do
sobretudo, ela exige urna política que vai muito além dos mercados de muro"' 7 • Sem temer o exagero, Von Mises vé esses teóricos romo capachos-
bens e serviyos e diz respeito a totalidade da ayáo humana. Embora se involuntários, sem dúvida - da ditadura. Eles náo se dáo canta, segundo
considere típica de urna política neo liberal a construyáo de urna situayáo ele, que váo na direyáo do despotismo económico absoluto do governo,
económica que a aproxime do cinone da concorréncia pura e perfeita, náo da soberania absoluta do consumidor sobre as escolhas de produyáo; e
há outra orientayáo, talvez mais disfaryada ou menos imediatamente nisso sáo dignos herdeiros do "socialismo aalemá, modelo Hindenburg" 8 • O
perceptível, que visa a introduzir, restabelecer ou sustentar dimensóes de governo deve content~r-se em assegurar as cohdiyóes da cooperayáo social,
rivalidade na ayáo e, mais fundamentalmente, moldar os sujeitos para sem intervir. "O controle é indivisível": o u é todo privado o u é todo estatal;
torná-los empreendedores que saibam aproveitar as oportunidades de ou ditadura do Estado ou soberania do consumidor. Náo existe meio-termo
lucro e estejam dispostos a entrar no processo permanente da concorrén- entre o totalitarismo de Estado e o mercado definido como urna "demo-
cia. Foi particularmente no campo do management que essa orientayáo tra.cia ·de consumidores" 9 • Essa posiyáo radical; que proíbe qualquer tipo
encontrou sua expressáo rnais forte. de intervenyáo, b~seia-se ~a disjunyáo de dais processos autogeradores e de
sentido contrário: o processo negativo do Estado que cria sereS assistidos e
o processo de mercado que cria empreendedores criativos.
Crítica do intervencionismo O que perturba a perfeita democracia do consumidor e abre o caminho
Recordarnos que, durante o Colóquio Walter Lippmann, Von Mises foi para o despotismo totalitário é a intrusáo de princípios éticos, heterogéneos
um dos que rnais vilipendiararn qualquer nova legitimayáo da intervenyáo ao processo do mercado, que náo sejam o do interesse.
do Estado, a ponto de ser visto por outros participantes como um old liberal
bastante deslocado no encontro. De fato, ele náo suporta o socialismo nem 7 Ludwig von Mises, L'action humaine, cit., p. 858.
tolera a intervenyáo do Estado 6• Aliás, para ele, es~a é o germe daquele. A 3 Ibidem, p. 761. Van Mises acrescenta: "Os partidários da mais recente variante do
interferéncia do Estado pode destruir a economia de mercado e arruinar a intervencionismo, a Soziale Marktswirtschafi [economia social de mercado], afirmam
prosperidade, alterando a informac;áo transmitida pelo mercado. Os preyos em alto e bom som que consideram a economia de mercado o melhor e mais dese-
orientam temporalmente os pro jetos individuais e permitem co~rdenar suas jável dos sistemas de organiza~áo económica da sociedade e rejeitam a onipot~ncia
governamental dos socialistas. Evidentemente, porém, todos esses defensores de
ayóes. A manipulayáo dos preyos ou da moeda perturba o conhecimento
urna política de cerceira via frisam com o mesmo vigor a rejeü;:io do liberalismo
dos desejos dos consumidores e impede que as empresas deem urna respos- manchesteriano e do laissez-faire. Dizem que é necessário que o Estado intervenha
ta conveniente e a tempo. Esses efeitos negativos, resultado dos entraves nos fenómenos de mercado todas as vezes e em todos os lugares onde o 'livre jogo
a adaptayáo, desencadeiam um processo cada vez mais nefasto. Quanto das for~as económicas' resulte em situa~óes que pare~am 'socialmente' indesejáveis.
Sustentando essa tese, consideram evidente que compete ao. governo decidir, em
mais o Estado intervém, mais provoca perturbayóes e mais intervém para
cada caso particular, se tal ou qual fato económico deve ser' considerado repreensível
do ponto de vista 'social' e, consequentemente, se a sicua~áo do mercado requer ou
náo, da parte do governo, um ato especial de interven~áo".
6 Stéphane Longuet, Hayek et l'École autrichienne (Paris, Nathan, 1998). ' Ibídem, p. 856.
138 " A nova razáo do mundo O homem empresarial " 139

[A economia] náo se interessa cm saber se os lucros devem ser aprovados ou todos os indivíduos é assegurada pelo funcionamento do n:tercado. A so-
condenados do ponto de vista de urna pretensa lei natural ou de um pretenso ciedade náo diz a alguém o que deve fazer. Náo há necessidade de tornar a
código eterno e imutável da moralidade, a respeito do qual a intuü;:áo pessoal cooperayáo obrigatória por ordens e proibi!Tóes. A náo coopera!Táo penaliza
ou a revela!Táo divina supostamente fornecem urna informa!Táo precisa. A a si mesma. O ajus-tamento·as exigéncias do esforyo prüdutivo na sociedade
economia simplesmente estabelece o fato de que os lucros e as perdas sáo e a busca dos objetivos próprios do indivíduo náo conflitam. Isso, portanto,
fen6menos essenciais da economia de mercado. 10 náo requer arbitragem. O sistema pode funcionar e desempenhar seu papel
sem interven!Táo de urna autoridade qüe emite ordens e interdiyóes e pune
O mesmo vale para os julgamentos de valor dos intelectuais: sendo os recalcitrantes. 13
a
heterogéneos lógica económica, náo respeitam a democracia absoluta do
consumidor e, portanto, o funcionamento do mercado. Nao se poderia ser mais explícito na exaltayáo das virtudes do livre
mercado e do papel do interesse individual no funcionamento da economia
Os moralistas e os pregadores fazem críticas ao lucro que erram o alvo. Náo é
capitalista. Isso significa que vol tamos aSrnith, o u até mesrno aMandeville?
culpa dos empreendedores que os consumidores, o povo, o hornero comum,
prefiram o aperitivo a Bíblia.e os romances policiais aos livros sérios nem
que os governos prefiramos canhóes amanteiga. o empreendedor náo lucra
mais venciendo coisas "ruins" em vez de coisas "boas". Seus lucros sáo tanto Urna nova concep<;áo do mercado
maiores quanto mais consegue proporcionar aos consumidores o que estes
Se o pensamento·austro-americano atribui um papel central ao merca-
exigem mais intensamente. 11
do, é porque o vé como urn processo subjetivo. A palavra-chave, mercado,
O exercício da autoridade chama seu próprio reforyo. Diante do fracasso aif}da é a mesma do pensamento liberal tradicional, mas o conceito que ela
dessas intervenyóes, o Estado vai sempre mais longe nos aros de autoridade, desiiua ~udou; N%o é mais,o de Adam Smith o u o ~os neoclássicos. É um
questionando as liberdades individuais de forma cada vez mais patente. processo de descoberta e aprendizado que modifica os sujeitos, ajustando-os
É importante lembrar que a intervenyáo do governo significa sempre ayáo uns aos outros. A coordenayáo nao é estática, náo une seres sempre iguais
violenta ou ameaya de recorrer a ela. [... ] Em última análise, governar é a si mesmos, mas produz urna realidade cambiante, um movimento que
servir-se de homens armados, policiais, guardas, soldados, carcereiros e afeta os meios nos quais os sujeitos evoluem e os transforma também. O
executores. O aspecto fundamental do poder é que ele pode impar suas
processo de mercado, urna vez instaurado, constitui urn quadro de as:áo
vontades usando o cassetete, prendendo e matando. Os que exigem mais
que náo necessita mais de intervenyóes- estas só poderiam ser um entrave,
govemo exigem, no fim das cantas, mais coer<;áo e menos liberdade. 12
urna fonte de desrruiyao da economia. Contudo, o mercado nao é mais
Essa condenayáo inapelável da intervenyáo repousa sobre urna acusayáo o "ambiente" natural no qual as mercadorias circulam livremente. Náo é
de usurpayáo. O Estado acredita saber, no lugar dos i!ldivíduos, o que é bom um "rneio" dado de urna vez por todas, regido por leis naturais, governado
para eles. Ora, para Von Mises e Hayek, a particularidade e a superioridade por urn princípio misterioso do equilíbrio. É um processo regulado que
da economia de mercado é que o indivíduo deve ser o único a decidir a utiliza motiva¡;;óes psicológicas e competéncias específicas. É urn processo
finalidade de suas ayóes, porque semente ele sabe o que é bom para ele. menos autorregulador (isto é, que conduz ao equilíbrio perfeito) do que
Na economia de mercado, o indivíduo é livre para agir dentro da órbita da autocriador, capaz de se autogerar no tempo. E, se náo necessita de poderes
propriedade privada e do mercado. Suas escolhas sáo inapeláveis. Para seus reguladores externos, é porque tem sua própria dinJ.mica. Urna vez instau-
semelhantes, suas ayóes sáo fatos que devem ser levados em considerayáo rado, poderia prosseguir em perfeito movimento perpétuo, autopropulsivo,
por eles em sua própria atividade. A coordenayáo das a!TÓes aut6nomas de
se nao fosse desacelerado ou pervertido por entraves éticos e estatais que
constituem atritos nocivos.
10
Ibidem, p. 315.
11
Ibidem, p. 316.
12
Ibidem, p. 756-7. B lbidem, p. 762.
140 ~ A nova raz:io do mw1do O hornero empresarial " 141

O mercado é concebido, portante, corno urn processo de autoforrna~áo a


ligado governamentalidade neoliberal: a criayáo de sittJ-ayóes de mercado
do sujeito econürnico, urn processo subjetivo autoeducador e autodisdpli- que perrnitem esse aprendizado constante e progressivo. Essa ciencia da
nador, pelo qual o indivíduo aprende a se conduzir. O processo de mercado escolha em situayáo de concorrencia é, na realidade, a teÜria do modo como
constrói seu próprio sujeito. Ele é autoconstru_tivo. o indivíduo é cond~zid~ ~ governar a si rnesmo no mercado.
Von Mises ve o homern corno um ser ativo, um· homo agens. O motor A economia é rnais questáo de escolha do que de cálculo de maxirnizayáo;
inicial é urna espécie de aspira~áo vaga a urna condi~áo rnelhor, um impulso mais especificamente, este último é apenas urn momento, ou urna dimensáo
para agir a fim de melhorar a própria situa~áo. Von Mises náo define a a~áo da ayáo, que náo é capaz de resumi-la inteirarnente. O cálculo pressupóe
humana por um cálculo de rnaximiza~áo propriamente diro, mas por urna dados, e pode-se considerar até que é determinado pelos dados, como é o
racionalidade mínima que impele o homern a destinar recursos a urn objetivo caso nas doutrinas do equilíbrio geral. A escolha é rnais-dinimica, implica
de rnelhoria da situa~áo. A a~áo humana tem urna finalidade. Esse é o ponto criatividade e indeterminayáo. É o elemento propriarnente humano da
de partida, e é essencial: a partir do impulso para realizar essa finalidade, conduta econ6rnica. Como diz Kirzner, urna máquina pode calcular, mas
ele náo vai trocar aquilo que por acaso tem a mais - peles de coelho ou náo pode escolher. A economia é urna teoria da escolha 15 . E, em primeiro
peixes com os quais náo sabia o que fazer -, corno supunharn os primeiros lugar, a dos consumidores, novas soberanos a'tivos que procuram o rnelhor
teóricos da ordem do mercado, mas vai empreender e, ao empreender, vai negócio, o melhor produto que corresponderá a sua própria construyáo de
aprender. Vai estabelecer uro plano individual de aráo e se lanyar em empre- fins e _rneios, isto é; seu plano. A contribuiyáo do subjetivismo para a qual
sas, vai eleger objetivos e destinar recursos a eles, vai construir, corno diz o _~pelam Von Mises e Kirzner é ter "transformado a teoria dos preyos de
discípulo e continuador de Von Mises, Israel Kirzner, "sistemas fins-meios" me,rcado ern urna teoria geral da escolha hurnarta" 16 .
em fun~áo de suas próprias aspirayóes, e estas orientaráo sua energia. O ser Esse ponto é fundam~~tal. Se o opus magnurfl de Von Mises intitula-se
referencial desse neoliberalisrno náo é primeiro e essencialmente o hornern A ardo humana, convém levar muito a sério o título. Trata-se d'e urna rede-
da traca que faz cálculos a partir dos dados disponíveis, mas o hornero da fini~io do homo oeconomicus sobre bases mais amplas:
empresa que escolhe um objetivo e pretende realizá-lo. Von Mises deu a A teoriageral da escolha e da preferéncia [... ] émuito mais do que urna sim-
fórmula desse hornero: "Ero toda economia real e viva, todo atar é sernpre ples teoria do "lado económico" das iniciativas do homem, de seus esfot'ros
ernpreendedor" 14 • para proporcionar-se coisas úteis e aumentar seu bem-estar material. Ela
Coro essa corrente de pensarnento austro-americana, pode parecer que é a ciéncia de todos os géneros do agir humano. O ato de escolher determina
todas as decisóes do hornero. Fazendo sua escolha, o homem n:io opta apenas
saímos da problemática da governamentalidade neoliberal. Náo é nada isso.
entre os diversos objetos e senriyos materiais. Todos os valores humanos
É corno se ela atribuísse ao processo de mercado a responsabilidade exclusiva oferecem-se a sua escolha. Todos os fins e os meios, as considerayóes tanto
de construir o sujeito empresarial. materiais como morais, o sublime e o ordinário, o nobre e o ignóbil, sáo
Ao contrário dos ordoliberais alemáes, que deixarn a cargo do quadro ordenados numa série única e submetidos a urna decis:io que pega urna
da sociedade o cuidado de limitar as a~óes humanas, os austro-americanos coisa e descarta outra. Nada do que os homens desejam obter ou evitar fica
seguem o caminho do "subjetivismo", isto é, do autogoverno d~ sujeito. O fora desse ordenamento numa única gama de gradayóes e preferéncias. A
teoria moderna do valor recua o horizonte científico e expande o campo dos
hornero sabe se conduzir náo por "natureza", mas grayas ao mercado, que
estudos económicos. Assim, da economia política da escala clássica emerge
constitui um processo de forma~áo. Pasto cada vez rnais frequentemente
ern situayáo de mercado, o indivíduo pode aprender a conduzir-se racio-
nalmente. Esbo~a-se assirn, dessa vez de maneira indireta, o tipo de a~áo l'l Israel Klrzner, The Meaning of Market Process, cit., p. 123. A famosa definiy:io de
Lionel Robbins ("economia é o es rudo do comportamento humano como urna relay:io
entre fins e meios raros que tém usos mutuamente excludentes") foi influenciada
14
Ludwig von Mises citado em Israel Kirzner, The Meaning ofMarket Process: Essays in pelos economistas austríacos, segundo Israel Kirzner.
16
the Development ofModern Austrian Eeonomics (Londres, Routledge, 1992), p. 30. Ludwig von Mises, L'action humaine, cit., p. 3.
O homem empresarial 143
142 ~ A nova razio do mundo

urna teoria geral do agir humano: a praxeologia. Os problemas económic~s A teoria hayekiana do conhecimento é particularmepte significativa a
ou catalácticos 17 estáo enraizados numa ciéncia mais geral e náo podem ma.ts respeito desse ponto 20 • Hayek compartilha com Von Mises a ideia de que
se separar dessa concxidade. Nenhum esrndo de problemas propriamen~e o indivíduo náo é um ator onisciente. Talvez seja raciorial, como sustenta
económicos pode dispensar-se de partir dos aros de cscolha; a economta Von Mises, masé, sóbreffido, ignorante. É por isso, aliás, que existern regras
torna-se urna parte- ainda que a inais bem elahorada até o momento- de
18 que ele segue sem pensar. Ele sabe o que sabe por meio das regras, das nor-
urna ciénda mais universal, a praxeologia.
mas de conduta, dos esquemas de percepyáo que a ciVilizac;:áo desenvolveu
progressivamente2 1•
O mercado e o conhecimento o problema do conhecimento náo é periférico com .relac;:áo teoria a
econ6mica, ele é central, embota durante muito ternpo tenha sido negli-
Náo há meio-termo: ou democracia do consumidor ou ditadura do
genciado em favor da análise da divisáo do trabalho. O objeto económico
Estado. Os princípios éticos ou estéticos náo valem nada na esfera do
por excelencia era o problema da coordenayáo das tarefas especializadas e
mercado, como dissemos. Náo pode haver economia de mercado sem a
da alocas:áo dos recursos. Ora, diz Hayek, o problema da "divisáo do co-
primazia absoluta do interesse, excluídos quaisquer outros motivos da ayáo.
nhecimento" é o "principal problema da económia e até rnesmo das ciencias
A única razáo por que economia d~ mercado pode funcionar sem que sociais" 22 • N urna sociedade estruturada pela divisáo do trabalho, ninguém
ordens governamentais digam a todos e qualquer um o que devcm fa~er, e sabe tuda. A informac;:áo é estruturalrnente dispersa. No en tanto, ainda que
como devem fazer, é que ela náo pede a ninguém que se afaste das hnhas
o primeiro reflexo seja querer "centralizar" a informayáo- que é o que tenta
de conduta mais convenientes aos próprios interesses. O que assegura a
integrac;áo das ayóes individuais no conjunto do sistema social d~ produ- - fiz~r o socialismo, como mostram os teóricos que elogiarn a superioridade
yáo é a busca de cada indivíduo por seus próprios objetivos. Segmndo sua do ''cálculo socialista""~, Hayek, seguindo Von Mises, mostra que essa ten-
"avidez", cada atar dá sua contribuiyáo para o melhor arranjo possível das tativa está fadada ao fracasso, por causa da dispersáo insuperáVel do saber.
atividades de produyáo. Assim, na esfera da propriedade privada e das leis Náo se trata aqui de conhecimento científico. Para Hayek, que foi o
que a protegem contra os ataques de ayóes violentas ou fraudulentas, náo há
19 prirneiro a teorizá-lo, "know!edge" significa certo tipo de conhecimento
nenhum antagonismo entre os interesses do indivíduo e os da sociedade.
diretarnente utilizável no mercado, relacionado as circunstancias de tempo
A limitayáo do poder governamental encontra seu fundamento náo e lugar - o conhecimento que se refere náo ao porque, mas ao quanto; o
nos "direitos naturais" nem na prosperidade gerada pela livre iniciativa conhecimento que um indivíduo pode adquirir em sua prática, e cujo valor
privada, mas nas próprias condiyóes de funcionamento da máquina eco- só ele pode avaliar; o conhecirnento que ele pode utilizar de maneira pro-
nómica. Obviamente, há conciliayóes possíveis, mas a essencia repousa na veirosa para vencer os outros na competiyáo. Esse conhecimento específico
ideia de que a economia de mercado tem como condiyáo a mais completa e disperso, muito frequentemente desprezado e negligenciado, tem tanto
liberdade individual. Esse é um argumento mais funcional do que ético: valor quanto o conhecimento dos especialistas e dos administradores. Nesse
a condiyáo de funcionamento do mecanismo de mercado é a livre esco- sentido, para Hayek, é natural que um agente de cámbio ou um agente
lha nas decisóes em funyáo das informac;:óes que cada indivíduo possui.
O mercado é um desses instrumentos que andam sozinhos, justamente 20
Essa teoria está contida, em essénda, em dais textos importantes: o de 1935, intitu-
porque coordena os trabalhos especializados utilizando otimamente os lado "Economics and Knowledge", e o de 1945, "The Use ofKnowledge in Society",
conhecimentos dispersos. ambos publicados em Friedrich Hayek, Individualism and Economic Order (Chicago,
The University ofChicago Press, 1948).
21
Ibidem, p. 88. Hayek cita Alfred Whitehead; para o qual."a civilizac;:áo avanc;:a
17 Sobre o sentido exato desse termo, ver o próximo capítulo. aumentando o número de operac;:óes importantes que podemos realizar sem ter de
pensar nelas" (idem).
18 Ludwig von Mises, L'action humaine, cit., p. 3-4.
22
19
Ibidem, p. 50.
Ibidem, p. 763.
O homem empresarial 9
143
142 " A nova razáo do mundo

urna tcoria geral do agir humano: a praxeologia. Os problemas econOmic~s


A teoria hayekiana do conhecimemo é particularmente significativa a
ou catalácticos 17 estáo enraizados numa ciéncia mais geral e n:'io podem ma1s respeito desse ponto 20 • Hayek compartilha com Van Mises a ideia de _que
se separar dessa conexidade. Nenhum estudo de problemas propriamen~e o indivíduo nao é um atar onisciente. Talvez seja raciollal, como sustenta
econ6micos pode dispensar-se de partir dos atas de escolha; a economta Van Mises, masé, sÜb-r~!udo, ignorante. É por isso, aliá.s, que existem regras
torna-se urna parte- ainda que a mais bem elaborada até o momento- de
18
que ele segue sem pensar. Ele sabe o que sabe por meio das regras, das nor-
urna ciéncia mais universal, a praxeologia.
mas de conduta, dos esquemas <:l_e percepyáo que a civilizas;áo desenvolveu
progressivamente21 •
O mercado e o conhecimento o problema do conhecimento nao é periférico com .relayáo a teoria
econ6mica, ele é central, embora durante muito tempo tenha sido negli-
Náo há meio-termo: ou democracia do consumidor ou ditadura do
genciado em favor da análise da divisáo do trabalho. O objeto econ6mico
Estado. Os princípios éticos ou estéticos náo valem nada na esfera do por excelencia era o problema da coordenayáo das tarefas especializadas e
mercado, como dissemos. Náo. pode haver economia de mercado sem a da alocayao dos recursos. Ora, diz Hayek, o problema da "divisáo do co-
primazia absoluta do interesse, exduídos quaisquer outros motivos da as;áo. nhecimento" é o "principal problema da econümia e até mesmo das ciencias
A única raz:'io por que economía de mercado pode funcionar sem que sociais" 22 • Numa sociedade estruturada pela divisáo do trabalho, ninguém
ordens governamentais digam a todos e qualquer um o que devem fa~e-r, e sabe rudo. A informas;áo é estruturalmente dispersa. No en tanto, ainda que
como devem fazer, é que ela náo pede a ninguém que se afaste das lmhas
, o primeiro reflexo seja querer "centralizar" a informayáo- que é o que renta
de conduta mais convenientes aos próprios interesses. O que assegura a
integrayáo das ayóes individuais no conjunto do sistema social de produ-
fXz.er o socialismo~ como mostram os teóricos que elogiam a superioridade
yáo é a busca de cada indivíduo por seus próprios objetivos .. Segui~do sua do ;,cálculo sociaÚsta'' ·-, Hayek, seguindo Van Mises, mostra que essa ten-
"avidez" cada atar d:i sua comribuiyáo para o melhor arraOJO poss1vel das tativa está fadada ao fracasso, por causa da dispersáo insuperáVel do saber.
atividad~s de produyáo. Assim, na esfera da propriedade privada e da: lei~ Náo se trata aqui de conhecimento científico. Para Hayek, que foi o
que a protegem contra os ataques de ayóes violentas o u fraudulentas, nao ha
19 primeiro a teorizá-lo, "knowledge" significa cerro tipo de conhecimento
nenhum antagonismo entre os interesses do indivíduo e os da sociedade.
diretamente utilizável no mercado, relacionado as circunstáncias de tempo
A limitas;áo do poder governamental encontra seu fundamento náo e lugar - o conhecimento que se refere náo ao porque, mas ao quanto; o
nos "direitos naturais" nem na prosperidade gerada pela livre iniciativa conhecimento que um indivíduo pode adquirir em sua prática, e cujo valor
privada, mas nas próprias condis;óes de funcionamento da máquina eco- só ele pode avaliar; o conhecimento que ele pode utilizar de maneira pro-
n6mica. Obviamente, há conciliayóes possíveis, mas a essencia repousa na veitosa para vencer os outros na competiyáo. Esse conhecimento específico
ideia de que a economia de mercado tem como condis;áo a mais completa e disperso, muito frequentemente desprezado e negligenciado, tem tanto
liberdade individual. Esse é um argumento mais funcional do que ético: valor quanto o conhecimemo dos especialistas e dos administradores. Nesse
a condis;áo de funcionamento do mecanismo de mercado é a livre esco- sentido, para Hayek, é natural que um agente de cámbio ou um agente
lha nas decisóes em funs;áo das informas;óes que cada indivíduo possui.
O mercado é um desses instrumentos que andam sozinhos, justamente 20 Essa teoria está contida, em esséncia, em dois textos importantes: o de 1935, intitu-
porque coordena os trabalhos especializados utilizando otimamente os lado "Economics and Knowledge", e o de 1945, "The Use ofKnowledge in Society",
ambos publicados em Friedrich Hayek, Individualism andEconomic Order (Chicago,
conhecimentos dispersos.
The University ofChicago Press, 1948).
21
Ibidem, p. 88. Hayek cita Alfred Whitehead, para o qtial, "a civilizas:áo avanc;:a
17 Sobre 0 sentido exato desse termo, ver o próximo capítulo. aumentando o número de operayóes importantes que podemos realizar sem ter de
pensar nelas" (idem).
18 Ludwig von Mises, L'actíon humaíne, cit., p. 3-4.
22
Ibidem, p. 50.
l9 Ibidem, p. 763.
144 ~ A nova razáo do mundo O hornero empresarial .. 145

imobiliário ganhe muito mais que um engenheiro, um pesquisador ou um mercado puro e perfeito. O subjetivismo reivindicado pelos austro-america-
professor; todos ganham, inclusive essas últimas categorias, quando possi- nos lhes permite nao pagar úm preyo politicamente alto por um resultado
bilidades de lucro sao efetivamente realizadas no mercado. teórico táo duvidoso como o equilíbrio geral, que nao é dé grande interesse
Esses conhecimentos individuais e particulares sáo uns dos mais im- para o conhecimentO-d~ fUn-cionamento das economias reais. Trata-se antes
portantes ou, em todo caso, sao mais eficazes que os dados estatísticos de compreender corno o sujeito age realmente, como se conduz quando está
agregados, na medida em que permitem a realizayáo de todas as pequenas nurna situayao de mercado. É a pa_rtir-desse funcionarnento que se poderá
mudanyas permanentes as quais o indivíduo deve adaptar-se no mercado. colocar a questao do modo de governo de si.
Daí a importáncia de urna descentralizayáo das decisóes para que cada Esse autogoverno tem tun no me: entrepreneurship. Essa dirnensao pre-
indivíduo possa agir com as informayóes que tem. É inútil e até perigoso valece sobre a capacidade calculadora e rnaxirnizadora da teoria económica
exigir um "controle consciente" dos processos económicos: a superioridade padráo. Todo indivíduo tem algo de empreendedorístico dentro dele, e
do mercado deve-se justamente ao fato de ele poder prescindir de qualquer é característica da economia de mercado liberar e estimular esse "em-
tipo de controle. Em contrapartida, é preciso facilitar a comunicayao das preendedorismo" humano. Kirzner define essa dimensao fundamental do
informayóes para completar os fragmentos cognitivos que cada indivíduo seguinte modo: "O elemento empresarial do comportamento económico
possui. O preyo é um meio de comunicayao de inforniayáo pelo q~al os dos participantes consiste [... ] na vigilincia das mudanyas de circunstán-
indivíduos váo poder coordenar suas ayóes. A economia de mercado é urna cias, anteriormente despercebidas, que lhes permitem tornar a troca mais
economia de informayáo que permite prescindir do controle centralizado. proveitosa do que era antes" 23 •
Apenas as motivayóes individuais impelem os indivíduos a fazer o que - Q puro espíriro· de mercado nao necessita de dotayao inicial, porque se
devem fazer, sem que ninguém tenha de lhes dizer para fazé-lo, utilizando trata '¿e explorar urha pOssibiÜdade de vender mais caro um bem já compra-
conhecimentos que eles sao os únicos a deter ou buscar. do: "Segue-se disso que cada um de nós é um empreendedor potenCial, já que
O mercado é um mecanismo social que permite mobilizar essa infor- o papel empresarial puro náo pressupóe urna boa sorte inicial, na forma de
mayao e comunicá-la ao outro via preyo. O problema da economia náo é, ativos de valor" 24 • O empreendedor náo é um capitalista o u um produtor nem
pois, o do equilíbrio geral. É saber como os indivíduos vao poder tirar o mesmo o inovador schumpeteriano que muda incessantemente as condiyóes
melhor partido da informayáo fragmentária de que dispóem. da produyáo e constitui o motor do crescimento. É um ser dotado de espírito
comercial, aprocura de qualquer oportunidade de lucro que se apresente e
ele possa aproveitar, grayas as informayóes que ele tem e os Outros nao. Ele
O empreendedorismo como modo do governo de si
se define unicamente por sua intervenyáo específica na circulayáo dos bens.
Nao se pode compreender essa defesa da liberdade de mercado sem a Para Von Mises, assim como para Kirzner, o empreendedorismo náo é
relacionar ao postulado que a acompanha necessariamente: nao há neces- apenas um comportamento "economizante", isto é, que visa a maximiza-
sidade de intervenyáo porque os indivíduos sáo os únicos capazes de fazer yac dos lucros. Ele também comporta a dimensáo "extraeconomizante" da
cálculos a partir das informayóes que possuem. É esse postulado" da ayao atividade de descobrir, detectar "boas oportunidades". A liberdade de as;áo
humana racional que arruína previamente as pretensóes do dirigismo. Daí a é a possibilidade de testar suas faculdades, aprender, corrigir-se, adaptar-se.
importancia do esforyo de Von 1'Viises para fazer a ciéncia económica repousar O mercado é um processo de formaráo de si.
sobre urna teoria geral da ayao humana, a "praxeologia".
A economia neoclássica padráo deixa aberra a possibilidade de urna 23
Israel Kirzner, Concurrence et esprit d'entreprise (trad. Raoul Audouin, Paris, Eco no-
intervenyáo corretiva do Estado. De fato, construindo modelos de ~quilí­
mica, 2005), p. 12 [ed. bras.: Competirdo e atividade empresarial, trad. Ana Maria
brio sobre hipóteses irrealistas (como o conhecimento pleno dos dados), os Sarda, Rio de Janeiro, Instituto Liberal, 1986].
marginalistas apenas mostraram, por seu próprio irrealismo, a irrealidade do 24
Ibidem, p. 12; grifo nosso.
O homem empresarial a 147
146 s A nova razáo do mundo

Para Van Mises, o empreendedor é o hornero que age para melhorar ignorantes isolados, ao interagir, pouco a pouco revelam uns aos outros as
sua sorte, utilizando as diferenyas de preyo entre os fatores de produyáo e oportunidades que vao melhorar a situayao de cada um. Se todo mundo
os produtos. O espírito que ele desenvolve é o da especulayáo, que mistura soubesse rudo, haveri~ .um ajuste irnediato e tuda pararia27 • O mercado é
um processo de aprendizagem contínua e adaprayao permanente.
risco e previsáo:
O que importa nesse processo é a reduyáo da ignorancia, o learning by
Como todo homem na posiy:io de atar, o empreendedor é sempre um
discovery, oposta tanto ao saber total- do planejador corno ao saber total do
especulador. Ele preve agir em funyáo de situayóes futuras e incertas. Seu
sucesso o u seu fracasso dependem da exatidáo com que preve acontecimen- equilíbrio geral. Por ignorar as decisóes do outro, os empreendedores nem
tos incertos. [... ]A única fonte de ande saem os lucros do empreendedor é sempre fazem as melhores escolhas. No entarito, podern conhecer a natureza
sua aptidáo para prever melhor do que os outros qual será a demanda dos dos planos do outro pelo confronto comercial, pelo próprio jogo da concor-
consumidores. 25 rencia. Descobrir oportunidades de compra e venda l: descobrir empresas
Ao contrário de Lionel Robbins, que pressupóe que o hornero está rivais que possam perturbá-las. Portanto, é também adaptar a oferta ou a
sempre numa situayáo em que deve maximizar suas vantagens para atingir demanda aos concorrentes. O mercado define-se precisamente por seu caráter
urna série de objetivos que lhe sáo dados náo se sabe como, o homo agens intrinsecamente concorrencial. Cada participante renta superar os outros
de Von Mises e Kirzner, que deseja melhorar sua sorte, deve constituir os numa luta incessante:·para tornar-se líder e assim permanecer. Essa lura tem
"quadros de fins e meios" em que deverá efetuar suas escolhas. Náo é um a virtude do contágio: todos imitam os melhores, tornam-se cada vez mais
maximizador passivo, mas um construtor de situayóes proveitosas, que ele vigilantes e, progressivamente, adc]_uirem entrepreneurship. O ernpreendedor
descobre mediante vigilancia (alertness) e poderá explorar. Porque o hornero qde:~rocura vende~ pelos métodos da persuasáo riwderna obtérn os efeitos
é um su jeito ativo, criativo, construtor, náo se deve interferir em suas esco- mais pOsitivos s¿br~ os cons~midores. Conscientizando-os das possibilidades
lhas, ou se correria o risco de destruir essa capacidade de vigiláncia e esse de compra, o esforyo do empreendedorvisa a "proporcionar aos co~surnidores
espírito comercial táo essencial para o dinamismo da economia capitalista. o empreendedorismo do qual foram privados, ao menos parcialmente" 28 •
Aprender a procurar informayáo torna-se urna competencia vital no mundo Estamos muito distantes de Schumpeter, que acreditava única e ex-
competitivo descrito por esses autores. Se náo podemos conhecer o futuro, clusivamente no desequilíbrio introduzido pela inovayáo. A concorréncia
podemos, grayas ao processo concorrencial e empresarial, adquirir a infor- e o aprendizado que ela permite equilibra oferta e procura em razao da
mayáo que favorece a ayáo. informayáo circulando29 •
A pura dimensáo do empreendedorismo, a vigilancia em busca da o a
desequilíbrio económico se deve ignorancia mútua dos participantes
oportunidade comercial, é urna rela[áo de si para si mesmo que se en contra potenciais do mercado. Estes últimos náo veem de saída as oportunidades
a
na base da crítica interferencia. Somos todos empreendedores, o u melhor, de ganhos múruos, mas urna hora o u outra acabam por descobri-las. Igno-
todos aprendemos a ser empreendedores. Apenas pelo jogo do mercado nós ram as oportunidades, mas estao dispostos a descobri-las. O processo de
nos educamos a nos governar como empreendedores. Isso significa também mercado náo é nada mais do que a sequéncia de descobertas que os tiram
que, se o mercado é visto como um livre espayo para os empreéndedo~es,
todas as relayóes humanas podem ser afetadas por essa dimensáo empresanal, 27
Israel Kirzner, no prefácio a edi~áo francesa de Concurrence et esprit d'entreprise (cit.,
26 p. ix), sublinha que a teoria padráo difere da abordagem miseniana na medida em
constitutiva do humano •
que se concentra no equilibrio de mercado, e n:io no processo de mercado, e ignora
A coordenayáo do mercado tem como princípio a descoberta mútua
o papel do empreendedor no processo de concorrtncia composto de urna sucessáo
dos planos individuais. O processo de mercado é como um cenário em que de descobertas empresariais, preferindo meditar sobre as colidi,s:óes hipotéticas do
equilíbrio a estudar os processos reais do mercado.
28
Ibidem, p. 117.
25 Ludwig von Mises, L'action humaine, cit., p. 307 ·
29
Sobre todos esses pontos, ver Israel Kirzner, 7he Meaning ofMarket Process, cit.
26 Israel Kirzner, C'oncurrence et esprit d'entreprise, cit., p. 12.
148 " A nova razáo do mundo
O hornero empresarial • 149
desse estado de ignorincia. Esse processo de descoberta é um processo de
Formar o novo empreendedor de massa
equilibrac;:áo. No fim do processo, quando restam apenas bolsóes residua:is
de ignorincia, surge um novo estado de equilíbrio. lsso, claro, é um estado Ná~ há co~scié~~ia es~ond.nea da natureza do espírito humano para
hipotético, na medida em que há incessantemente mudanc;:as de todos os Van Mtses, ass1m como para Hayek náo ha' co nsctencta d as regras a que
·A · •

tipos que alteram as oportunidades: ''& forc;:as a favor- da mútua deseo berta obede~e~os. A ac;:áo humana desenrola-se sempre sob cena névoa. Essa é,
e da eliminac;:áo da ignoráncia estáo sempre em ac;:áo" 30 • sern ~uvrd~, urna de suas qualidades __ mais eminentes e menos conhecidas.
O processo de descoberta no mercado altera o próprio conceito do A
fi
racronalrdade efetiva que ela atesta - a adaptaráo eficaz d
. .,.
·
os mews aos
que devemos entender por conhecimento e ignoráncia. A deseo berta daqui- ns ~ ~xclm qualqu.er racionalismo que fac;:a da reflexáo sobre a ac;:áo urna
lo que náo se sabia náo se confunde coma busca deliberada de conhecimento, condtyao. do b~m agrr. Essa inconsciencia é também urna &aqueza explorada
que pressupóe que se saiba previamente aquilo que náo se sabe. A deseo berta pelos racwnalrstas demagogos, que pretendem substituir a coordenayáo do
que nos permite experimentar o mercado repousa no fato de que náo sabía- mercado- fonte de anarquia e injustic;:a para eles_ pelo controle consciente
mos que ignorávamos, ou ignorávamos que ignorávamos. Se a descoberta da econ~mia. Permitir que todos se tornero verdadeiros sujeitos de mercado
pertinente está ligada a urna ignoráncia que ignora a si mesma como tal, pres~upoe combater os que criticam o capitalismo. Essa batalha transferida
entáo podemos avaliar a dificuldade dos planejadores que, ignorando que aos rntelectuais é indispensável na medida em que as id eo 1ogtas
• A •
· tem• urna
ignoram, nada podem encontrar. Essa ignoráncia náo sabida como tal é o enorme Influencia sobre as orientayóes da ac;:áo individual. Van Mises, Hayek
ponto de partida da análise do mercado. A surpresa, a deseo berta fortuita, e_,.
seus sucessores
. . convenceram-se rapidamente disso . Em sua graneara d b
desencadeia a reac;:áo dos mais "alertas", isto é, os "empreendedores". Se cunea, J.-e soctalzsme, Van Mises defende que náo há nada · · d
:··, "b .: . , _ mars lillportante 0
descobrimos por acaso, durante um passeio, que um comerciante vende a que a - atalha de tdetas · entre capitalismo e socialismo-'33. Acredit d
·al· lh an oqueo
um dólar as frutas que compramos de outro a dais dólares, o espírito de soct
_ rsmo es garantirá um nível mais alto de bem-estar, as, massas, · que
empreendimento que nos mantém alertas fará com que nos desviemos do nao pensam, aderem a ele34 •
mais caro. O sujeito de mercado entra numa experiencia de descoberta na ~on Mises náo esconde a influencia possível e desejável da ciencia eco-
A

qual o que ele descobre primeiro é que náo sabia que ignorava. no~uca sobre a~ políticas económicas. fu políticas liberais nunca fizeram
Como vemos, Kirzner fez urna síntese entre a teoria hayekiana da infor- mats do que por em prática a ciencia económica. Aliás, foi esta última
mac;:áo e a teoria miseniana do empreendedor que renova a argumentac;:áo que conseguiu eliminar alguns entraves que impediam 0 desenvolvim t
· al"1smo:
do caplt en o
a favor do livre mercado. O mercado precisa da liberdade individual como
um de seus componentes fundamentais 31 • Essa liberdade individual consiste
menos em definir sua própria escala de preferencias dO que fazer suas próprias 33 Ludwig von Mises, Socialisme (trad. Paul Bastier et aL Paris Libra¡"r¡"e d M'd· .
1938), p. 507. ' ' e e IClS,
descobertas empresariais: "O indivíduo livre possui a liberdade de decidir
o que quer" 32 • A liberdade sem objetivo náo é nada, so mente adquire valor 34 Von Mises escreve o seguinte: "É fato que as massas náo pensam M ' .
t ~ · as e prectsa-
pelo sistema que lhe dá objetivos concretos, isto é, oportunidades ~de lucro! O ;~n e por essa razao que seguem os que pensam. A dires:áo espiritual da humani-
a e pertence ao pequeno número de homens que pensam por si mesmos· esses
homens exercem sua a<;:áo primeiro sobre o círculo capaz de acolher e compr~ender
capitalismo náo tira suas vantagens do livre contrato entre intercambiado res
que sabem com antecedencia o que querem. O que o m ove é o processo de 0
pensamento elaborado por outros; por esse caminho, as ideias se espalh ¡
massas nas quais d . am pe as
deseo berta "competitivo-empresarial". é 'o . . se c~n ensam poupo a pouco para formar a opiniáo pública da
poca. sooahsmo nao s~ tornou a ideia dominante dos nossos tempos porque as
:ass~ ~~abo~aram e d~pors transmitiram as camadas intelectuais superiores a ideia
30
Ibidem, p. 45. . a soc1 rzas:ao dos metos de produyáo;_ o próprio materialismo' histórico por mais
31
Ibidem, p. 52. Impregnado que seja do 'espirito popular' do romantismo e daescolahistórica nu
32
lbidem, p. 53.
o~sou fazer tal afirmas:áo. A alma das multidóes nunca produziu por si mes~a n:~
alero de massacres coletivos, atos de devastas;áo e destruis;áo" (ibidem, p. 510).
O homem empresarial • 151
150 "' A nova razáo do mundo
aprendidos desde a escala, do mesmo modo que as vantagens do capitalismo
Foram as ideias dos economistas clássicos que afastaram os obstácul.os
erguidos por leis seculares, preconceitos e hábitos co~tra as melhonas sobre qualquer outra organiÍaifáO económica. O combate ideológico é parte
tecnológicas, libertaram 0 genio dos reformadores e dos movadores, presos integrante do boro f~ncionamento da máquina.
até entáo na camisa de forqa das corporayóes, da tutela gov~rn~~ntal e
das pressóes sociais de toda espécie. Foram essas idelas que dtmmUlr~ o
prestígio dos conquistadores e dos espoliado res e demonstraram os beneftctos A universalidade do homero-empresa
sociais decorrentes da atividade econ6mica privada. Nenhuma das grand~s
invenyóes modernas teria sido posta em prática se a mentalidade da era_rre- Essa valoriZayáo do empreendedorismo e a ideia de que essa faculdade só
-capitalista náo tivesse sido inteiramente desmantelada pelos economistas. pode se formar no meio mercantil sáo partes interessadas ná redefiniyáo do
0 que se denomina comumente "Revoluq~o Industrial" fo~ um !~bento da sujeito referencial da racionalidade neoliberal. Com Von Mises, acorre um
revolus.:áo ideológica realizada pelas doutnnas dos economistas.
claro deslocamento do tema. Trata-se menos dafunc;:.áo específica do empreen-
É 0 que Van Mises e Hayek tentará_o fazer, por sua vez, para c~~bater dedor dentro do funcionamento económico do que dafoculdade empresarial
os novas perigos que ameayani. a plena liberdade do mercado e cnncar as tal como existe em todo sujeito, da capacidade de se tornar empreendedor
diferentes formas de intervenyáo do Estado 36 • No caso de George Stigler nos diversos aspectos de sua vida ou até mesmo de ser o empreendedor de
e Milton Friedman, sabemos que eles foram náo apenas economistas de sua vida. Em reswno, trata-se de fazer com que cada individuo se torne o
renome, mas também "empreendedores ideológicos" temíveis, náo s.e mais "enterprisini' possivel.
eximindo de militar da forma mais constante e declarada a favor do capi- Essa proposiyáo genérica, de natureza antropológica, de cerro ~oda
talismo de livre empresa contra todos os que, de um modo ou de outro, rede&enha a figv.ra.:do homem económico, dá a ele urna a!lure ainda mais
conformaram-se coma intervenyáo reformadora do Estado. Esses autores dinimica e ativa do que no passado. A importancia que é at.ribuída ao
até mesmo teorizaram a luta ideológica: se as massas náo pensam, como papel do empreendedor náo é nova. Desde o século XVIII, o homem de
Von Mises gasta de dizer, cabe aos círculos estritos dos intelectuais travar projetos (projector) já aparece como o verdadeiro herói moderno para al-
frontalmente 0 combate contra todas as formas de progressismo e reforma guns, como Daniel Defoe. Segundo Richard Cantillon, que sublinhará a
social, germe do totalitarismo. Donde a extrema atenyáo que os neol~berais fun~áo económica específica do empreendedor, foi sobretudo Jean-Baptiste
norte-americanos davam a difusáo de suas ideias na mídia e ao ensmo da Say que, querendo distinguir-se de Adam Smith, dividiu a noyáo de
37
economia nas escalas e faculdades dos Estados Unidos . Se o mercado é trabalho - homogénea demais em sua opiniáo - em trés funyóes: a do
um processo de aprendizado, se o fato de aprenderé um fator fundamental especialista que produz os conhecimentos, a do empreendedor que póe os
do processo subjetivo de mercado, o trabalho de educayáo realizado p~r conhecimentos em prática para produzir novas utilidades e a do operário
economistas pode e deve contribuir para a acelerayio dessa autoformayao que executa a operayáo produtiva38 • O empreendedor é um mediador entre
do sujeito. A cultura de empresa e o espirito de empreendimento podem ser o coilhecimento e a execuyáo: "O empreendedor aproveita as mais elevadas
e as mais humildes faculdades da humanidade. Recebe as orientayóes do
especialista e as transmite ao operário" 39 • O empreendedor que aplica os
35 Ludwigvon Mises, L'action humaine, cit., p. 9.
conhecimentos tero wn papel importante. Repousa sobre ele o sucesso da
36 A praxeologia é conscientemente destinada a servir de base teórica para as novas
empresa e, generalizando, a prosperidade de um país. -Por mais que a Franya
políticas liberais. .
37 Urna das prindpais mobilizas.:óes públicas dos autores neoliberais foi runa ngorosa
contesta<;:áo do relató do da Task Force, encarregada em 1961 de estab~lecer um pro- 38
Ver Jean-Baptiste Say; Traité d'économie politique (6. ed., Paris, Guillaumin, 1841),
grama de ensino em economia para as high schools, descritivo demats. para o g?sto livro I, cap. 6, p. 78 e seg.; ídem, Cours·complet d'économie politique pratique (París,
deles e muito pouco positivo em relayáo aeconomia c_ap~talista. Ludw1g von ~~lls.es, Guillaumin, 1848), parte 1, cap. 6, p. 93 e seg.
"The Objectives ofEconomic Education", emEconomtc Freedom andlnterventtontsm. 39
Idem, Cours tomplet d'économie politique pratique, cit., p. 94.
(Nova York, The Foundation for Economic Education, 1990), P· 167.
152 <> A nova razáo do mundo
O homem empresarial <> 153

tivesse os melhores especialistas, a Inglaterra a superou na indústria pelo aperfeic;:oamento de novos -procedimentos, utilizayáo de novas matérias-
talento de seus empreendedores e pela habilidade de seus operários40 . Eril -primas e estabelecirnento de modos diferentes de organizac;:áo.
que essa funyáo é táo importante? Esse ponto de vist~-d~námico, que privilegia as descontinuidades, irnpóe
O empreendedor da indústria é -o principaL.agente_ da prodlll;:áo. As urna redefinic;:áo de conceitos: a empresa é o lugar da execuc;:áo dessas novas
outras opera<;óes sáo indispensáveis para a cria<;áo dos produtos, mas é combinayóes, do mesmo modo que o empreendedor é o personagem ativo
o empreendedor que as implementa, que lhes dá um impulso útil e tira e criativo cuja func;:áo é pó-las em prática. Por definiyáo, o empreendedor
valor delas. É ele que julga as necessidades e, sobretudo, os meios de
schumpeteriano é um inovador que se opóe ao personagem rotineiro que
satisfazé-las e compara o objetivo coro esses meios; assim, sua principal
se contenta em explorar os métodos tradicionais 45 . Sua func;:áo é central
qualidade é o julgamentoY
na explicayáo da evoluyáo e·conómica, a qual funciona por rompimentos
Para ter um julgamento carreta, o empreendedor deve ter também a cien- sucessivos dos "estados económicos".
cia da prática, que so mente se aprende pela experiencia. Além disso, deve ser Para Schumpeter, nem todos sáo empreendedores. Apenas os "conduto-
dotado de certas virtudes que faráo dele mn verdadeiro chefe, capaz de manter res" (Führer) sáo capazes de empreender. Sua tarefa, contudo, náo é dominar,
o rumo: audácia criteriosa e perseveran<;a tenaz42 • Mas essas qualidades, táo mas realizar possibilidades que existem em estado latente na situayáo46. O
necessárias nas incertezas dos negócios, náo sáo igualmente distribuídas na empree:ndedor é um chefe que possul vontade e autoridad e e náo tem medo
populayáo. Sáo mérito dos empreendedores bem-sucedidos, que justificam seus ~e ir contra a corre~ te: cria, desarranja, rompe o curso ordinário das coisas47_
lucros. Comeya aqui a grande lenda dos empreendedores que acompanhará ,E o homem do "plus ultra", o homem da "destruic;:áo criadora"18 • Náo é um
a Revoluyáo Industrial, urna lenda para cuja propagac;:áo os saint-simonianos indt;ríduo calcula~or, hed~nista; é um combatente, um competidor, que
contribuíram enormemente na Franc;:a43 . gasta de lutar e vericer, e cujo sucesso financeiro é apenas um símbolo de seu
A valorizac;:áo teórica do empreendedor terá um novo impulso com sucesso como criador. A atividade económica deve ser entendid.a como um
Joseph Schumpeter e sua Teoría do desenvolvimento económico (1911) 44 . esparte, urna impiedosa e perpétua luta de boxe49 . A inovayáo é inseparável
Para o economista austríaco, o fato fundamental que a teoria deve levar em da con correncia, é sua forma principal, porque a concorrencia diz respeito
considerac;:áo é a mudanc;:a dos estados históricos, que impede que se raciocine náo apenas aos preyos, mas também, e sobretudo, a estruturas, estratégias,
como se o circuito fosse pura repetic;:áo. Em outras palavras, urna ciencia procedimenros e produtos.
económica que privilegia a imobilidade em detrimento do movimento, o Schumpeter náo é um militante neoliberal. Numa obra escrita quase
equilíbrio em detrimento do desequilíbrio, passa ao largo do essencial. A trinta anos depois, Capitalismo, socialismo e democracia, demonstrará seu
evoluyáo económica resulta de rompimentos ligados a novas combinac;:óes pessimismo predizendo o "crepúsculo da func;:áo de empreendedor"so, 0
produtivas, técnicas e comerciais, a inovac;:óes de mlíltiplos tipos, desde a que nos conduzirá a um estado estacionário. A inovac;:áo tornou-se ro tina,
criac;:áo de novas produtos até a abertura de novas mercados, passando pelo náo provoca mais rompimentos. Burocratiza-se, automatiza-se. De modo

45
4o Idem, Traité d'économie politique, cit., p. 82. lbidem, p. 106.
46
4! Idem, Cours completd'économie politique pratique, cit., p. 97. Ibidem, p. 125.

42 Ibidem, cap. 12. " Ibidem, p. 126.


4
43 Ver Dimitri Uzunidis, La légende de l'entrepreneur: le capital social, ou comment vient H Título do capítulo 7 de Joseph Alois Schmnpeter, Capitalisme, socialisme etdémocratie
l'espritd'entreprise (Paris, Syros, 1999). (trad. Gael Fain, Paris, Payot, 1990) [ed. bras.: Capitalismo, Socialismo e democracia,
trad. Sérgio Góes de Paula, Rio de Janeiro, Zahar, 1984].
44 JosephAlois Schumpeter, Ihéorie de l'évolution économique (trad. Jean-JacquesAnstett, 49
Paris, Dalloz, 1999) [ed. bras.: Teoria do desenvolvimento económico, trad. Maria Sílvia lbidem, p. 135.
Possas, Sáo Paulo, Nova Cultural, 1997]. su Ibidem, p. 179.
154 ., A nova razáo do mundo
O hornero empresarial "' 15 5

mais geral, o capitalismo, náo tendo mais o benefício das condiyóes sociais pensamento, entre as quais a "praxeologia" de Von Mises e a difusáo de um
e políticas que o protegiam, está ameayado. modelo de gestáo empresarial que aspira a urna validade prática universal.
Distante desse pessimismo, um neoschumpeterismo vai difundir- Essa dimensáo do discurso neo liberal se manifestará sob múltiplas for~as,
-se nos anos 1970 e 1980, em consequencia das crises do petróleo e das das quais trataremOS -na última parte desta obra. A edúcayáo e a imprensa
novas regras de funcionamento do capitalismo: A referencia a figura do seráo requeridas para desempenhar um papel determinante na difusáo desse
empreendedor-inovador delineada por Schwnpeter ganhará um alcance novo modelo humano genérico. Vinte ou trinta anos depois, as grandes
nitidamente apologético, tornando-se até mesmo um dos elementos da vul- organizayóes internacionais e intergovernamentais teráo um poderoso papel
gata gerencial. Mais importante ainda, esse neoschumpeterismo contribuirá de estímulo nesse sentido. É interessante constatar que a Organizayáo para a
para a concepyáo da "sociedade empresarial". Peter Drucker, grande figura Cooperayáo e Desenvolvimento Econ6mico (OCDE) e a Uniáo Europeia,
do management, vai reabilitar essa figura heroica, anunciando o advento sem se referir explicitamente aos focos de elaborayao desse discurso sobre
da nova sociedade de empreendedores e fazendo votos pela difusáo do o indivíduo-empresa universal, seráo continuadoras poderosas deles, por
espírito de empreendimento em toda a sociedade51 . A gestáo empresarial exemplo, tornando a formac;:áo dentro do "espírito de empreendimento"
será a verdadeira fonte do progresso, a nova onda tecnológica que porá a urna prioridade dos sistemas educacionais nos países ocidentais. Que cada
economia novamente em movimento.- Segundo Drucker, a grande inova- indivíduo seja empreendedor por si mesmo e dele mesmo, essa é a grande
yáo "schumpeteriana'' foi, mais do que a informática, a gestáo empresarial: inflexáo que a corren te austro-americana e o discurso gerencial neoschum-
''A gestáo empresarial é a nova tecnologia que, melhor do que qualquer -_peteriano daráo afigura do hornero econ6mico. Obviamente, com respeito
ciencia ou invenyáo, fez a economia norte-americana passar para o estágio as-.f~rmas conternpodneas da governarnentalidade neoliberal, a principal
da economia de empreendedores, e está transformando os Estados Unidos lirnitayáo dessi córrente párece residir numa fobia do Estado que multo
numa sociedade de empreendedores" 52 • Essa sociedade é caracterizada por frequentemente a conduz a resumir a atividade de governar a imposiyáo
sua "adaptabilidade" e sua norma de funcionamento, a mudan ya perpétua: de urna vontade pela coeryáo. Essa atitude impede que se compreenda que
"O empreendedor vai buscar a mudanya, ele sabe agir sobre ela e explorá-la o governo do Estado poderia articular-se positivamente com o governo de
como urna oportunidade" 53 . A nova "gestáo de empreendedores", tal como si do sujeito individual, em vez de contrariá-lo ou de algum modo criar-
o define Drucker, pretende espalhar e sistematizar o espírito de empreen- -lhe obstáculos. Contudo, ater-se a isso seria desmerecer a originalidade de
dimento em todos os domínios da ayáo coletiva, em particular no serviyo Hayek: ter legitimado abertamente o recurso acoeryáo do Estado quando
público, fazendo da inovayáo o princípio universal de organizayao. Todos se trata de fazer respeitar o direito do mercado ou o direito privado.
os problemas sáo solucionáveis dentro do "espírito da gestáo" e da "atitude
gerencial"; todos os trabalhadores devem olhar para Sua funyáo e seu com-
promisso com a empresa com os olhos do gestor.
A concepyáo do indivíduo como um empreendedor inovador, que
sabe explorar as oportunidades, é resultado, portante, de várias~ linhas de

51
Peter Drucker, Les entrepreneurs (Paris, Hachette, 1985) [ed. bras.: Inovar;áo e espírito
empreendedor, trad. Carlos J. Malferrari, 5. ed., Sáo Paulo, 1bompson Pioneira,
1998]. Drucker náo concorda inteiramente coma visáo romil.ntica de Schumpeter.
Ser empreendedor é iuna profissáo e pressupóe urna disciplina.
52
lbidem, p. 41.
53
Ibidem, p. 53.
5
ESTADO FORTE, GUARDIAO DO DIREITO PRNADO

Friedrich Hayek ten de com frequencia a subestimar retrospectivamente


o papel determinante do Colóquio Walter Lippmann na "renovayáo" do
liberalismo. Essa tendencia revela-se de rnaneira particularmente clara
numa nota acrescentada posteriormente a um artigo de 1951, intitulado
''A·.-transrnissáo dos ideais de liberdade econümica". No momento de
apre;entar o "grupb alemiiu" dos ordoliberais (Walter Eucken, Wilhelm
Ropke), Hayek escreve o seguinte:
Na versáo original deste artigo, imperdoavelmente, esqueci~me de citar um
princípio promissor desse renascimento liberal que, se bem que interrom-
pido pelo estouro da guerra em 1939, permitiu muitos contaros pessoais
que formaram a base de um esfon;:o renovado, em escala internacional, após
a guerra. Em 1937, Walter Lippmann arrebatou e encorajou os liberais
com a publicar.;:ilo de sua brilhante reafirmaráo dos ideais fundamentais do
liberalismo clássico em 7he Good Society. 1

Vimos anteriormente o que foi essa suposta "reafirma~o", que preren-


dia ser, na realidade, uma verdadeira "revisáo" 2• A confissáo contida nessa
nota diz muito sobre a vontade de negar qualquer descontinuidade entre
liberalismo e neoliberalismo. Contudo, seria um equívoco concluir disso
que Hayek teria pura e simplesmente ignorado a contribuü;áo do Co-
lóquio Lippmann. Na realidade, ele sempre demonstrará preocupac;áo em

1
Friedrich Hayek, "La transmission des idéaux de la liberté économique", em Essais
de philosophie, de science politique et d'économie (Paris, les Belles lettres, 2007),
p. 300, nota 3; grifo nosso.
2
Ver capítulo 2 deste volume.
Estado forte, guardiáo do direito privado '" 159
15 8 ., A nova razio do mnndo

desvincular-se do velho liberalismo manchesteriano, diretamente alinhado ponto esse termo consegue materializar urna divergencia irredutível com
3 o ordoliberalismo alemao. Para Hayek, o erro dessa corren te é alimentar
coma crítica esboc;:ada em agosto de 1938 •
Por conseguinte, o liberalismo "renovado", longe de condenar por urna confusáo conceitual entre as condic;:óes da ordem de mercado e as
princípio a intervenc;:ao do Estado c;omo tal, teve a originalidade de subs- exigencias "rnorais" dajustic;:a. Na realidade, os promotores da "econo-
tituir a alternativa da "intervenc;:ao ou nao interVenc;:a6" pela quest:io sobre mia social de mercado" sempre tiveram certa preocupac;:ao com a '_'justic;:a
qua! deve ser a natureza de suas intervenc;:óes. Mais precisamer:te ainda, a social" 7 - pudemos constatar que_ tal pretensáo satura a palavra "social"
quest:io é diferenciar as intervenc;:óes legítimas das ilegítimas. E o que diz de todos os equívocos 8 •
de maneira absolutamente explícita O caminho da servidáo: "O Estado deve Por isso, Hayek continuará a bater na mesma tecla. Além do ensaio de
ou nao 'agir' ou 'intervir'? - apresentar a alternativa dessa forma é desviar 1957, dois outros textos váo exatamente na mesrna direc;:ao. Em prirneiro
a questáo. O termo laissezjaire é extremamente ambíguo e serve apenas lugar, a conferéncia intitulada "Tipos de racionalismo" (1964), que retoma
4 a mesrna crítica básica contra "unía das palavras mais enganadoras e mais
para deformar os princípios sobre os quais repousa a política liberal" • Em
resumo, "o que importa é mais o caráter da atividade do governo do que daninhas de nosso tempo", na medida em que
seu volume"S. A repetic;:ao dessas formulac;:óes permite verificar que certa a palavra "social" priva de qualquer conteúdo preciso os termos com os
crítica das insuficiencias do "velho liberalismo", esboi;:ada pelo C?lóquio quais é combinada.(corno nas expressóes alemás "soziale Marktwirtschaft'
o u "sozialer Rechtssúta-1') [... ]. Em consequencia, sen ti-me abrigado a tomar
Lippmann, foi ampla e duradouramente compartilhada por aquel e que veio
posiyáo contra a palavra "social" e demonstrar, em particular, que o con-
a ser o principal artífice do "renascimento liberal" após a guerra.
ceito_de justiya social náo possuía o menor signific:ado e criava urna ilusáo
enganadora que Pesso_as de.ideias claras devem evitar. 9

Nem laissezjaire... nem "fins sociais" Em segundo lugar, um desenvolvimento dedicado ao sentido' da palavra
"social" no segundo volume de Direito, legislaráo e liberdade (1973):
Todavia, nao devemos nos deixar engarrar por essa proximidade entre
as críticas. Com efeito, ela nao implica em absoluto urna plena comunhao Fala-se náo apenas de "justiya social", mas também de "democracia social",
"economia social de mercado" e "Estado de direito social" (ou soberania
de visóes sobre a natureza das intervenc;:óes que o Estado deve levar a cabo
social da lei- em alemáo, sozialer Rechtsstaat); e, embora justiya, democra-
e o critério de legitimidade destas últimas. O melhor indício de que há um cia, economía de mercado e Estado de direito sejam expressóes de sentido
desacorde persistente nessas crÍticas é dado por algo que, primeira vista, a absolutamente claro, a adiyáo do adjetivo "social" as torna susceptÍveis de
parece ligado a urna discordancia puramente terminológica. O que está designar quase qualquer coisa que se queira. 10
em quest:io é o sentido de urna palavrinha: "social". U m ensaio de Hayek,
"Social? O que quer dizer isso?" 6, publicado em 1'957, evidencia a que 7
Ou, em todo caso, o desejo de atribuir "objetivos sociais'' ao governo (ver capítulo
3 deste volwne).
8
3 Ver, em particular, Friedrich Hayek, La route de la servitude (Paris, PUF, 2902), p. 33. Ver capítulo 3 deste volume.
9
Ibidem, p. 64; grifo nosso. Friedrich Hayek, "Des sones de rationalisme", em Essais de philosophie, de science
5 Friedrich Hayek, La constitution de la liberté (Paris, Litec, 1994), P: 223 [ed. bras.: politique et d'économie, cit., p. 141.
10
Os fundamentos da liberdade, trad. Anna Maria Capovilla e José Italo Stelle, Sáo Idem, Droit, législation et liberté, v. 2, cit., p. 96. A nota que acompanha a frase citada
Paulo, Visáo, 1983]. No mesmo sentido, ver ibidem, p. 231, e Friedrich Hayek, merecer ser reproduzida: "Deploro esse uso, ainda que, recorrendo a ele, cenos amigos
Droit, législation et liberte, v. 1 (Paris, PUF, 1980), p. 73 [ed. bras.: Direito, legtslaráo meus na Alemanha (e, mais recentemente, também na Ingl!ltetra) aparentemente
e liberdade, trad. Maria Luiza X. de A. Borges, Sáo Paulo, Visio, 1985]. tenham conseguido tornar aceitável para círculos amplos o tipo de ordem social que
6 Título original: "What is 'Social'? What Does it Mean?". Em frances, publicado defendo" (ibidem, p. 207). Se entendemos bem, a única justifiC:ac;iio para o uso do
em Friedrich Hayek, Essais de philosophie, de science poli tique et d'économie, cit., termo "social" pelos neoliberais alemáes é que ele permite aclimatar ao "espírito da
época" a pr6pria doutrina de Hayek.. ,
p. 353-66.
160 " A nova razáo do mundo
Estado forre, guardiáo do direito privado ~ 161

Compreende-se melhor, a partir daí, que a posiyáo de Hayek sobre a o que resulta de urna vontade humana e o que independe dela. Hayek defende
espinhosa quesdo da legitimidade da intervenyáo governamental deva ser que isso é fonte de confusáo: o que independe da vontade humana náo é
situada no quadro que acabamos de delimitar de forma inteiramente negativa: necessariamente independente da ayáo humana; alguns- resultados da ~yáo
de um lado, urna crítica das insuficiéncias do liberalismo manchesteriano, humana podem náo ter sido desejados por si mesmos·e, ainda assim, fazer
cuja funyáo é justificar certo tipo de intervenyáo-, a quaJ tudo leva a entender surgir urna forma de ordem o u regularidade.
que se torno u indispensável por causa do papel fundamental do "arcabouyo Assim, convém inrroduzir entre-o artificial (o que procede diretamente
jurídico" para o bom funcionamento do mercado; de outro lado, urna rejeiyáo de urna vontade humana) e o natural (o que é independente da a¡;áo humana)
de princípio a qualquer forma de atribuiyáo ao governo de objetivos "sociais", urna "categoría intermediária": a de urna classe de fenómenos correspondente
pelo motivo fundamental de que tais objetivos implicam urna concepyáo a todas as estruturas que sáo independentes de qualquer intenyáo e, ainda
artificialista da sociedade segundo a qual esta poderia ser conscientemente assim, sáo resultantes da ayáo humana. Na sistematizayáo que posteriormente
dirigida para fins coletivos susceptíveis de ser positivamente definidosn. se deu a essa divisáo tripartite, ternos: taxis, termo grego que designa urna or-
Em última análise, a questáo é como legitimar certo tipo de interven- dem construída pelo homem, segundo um desígnio claramente estabelecido,
yáo governamemal (contra a doutrina do laissezjaire), sem admitir que na maiorla das vezes por meio de urn plano (essa ordem será denominada
a ordem de mercado que cria, segundo Hayek, a coesáo da socieda~e é urna "ordem fabricada'' ou "artificial", o que Hayek designará com frequéncia
ordem artificial (em particular contra os neoliberais alemáes, visto que essa pelo termo "organizayáo"- pode ser urna habitayáo, urna instituiyáo o u um
é urna de suas teses principais). Responder a essa questáo implica esclarecer _código de regras); kosmos, termo grego que designa urna ordem independente
a
o status do próprio arcabouyo jurídico (pertence ele ordem do artifício da.ro.ntade huma~a, na medida em que en contra em si mesma seu próprio
ou, ao contrário, a certa forma de "naturalidade"?) e, mais amplamente, princípio motor (essa Ordeín será. denominada "ordern natural" ou "ordem
examinar a concepyáo alternativa de sociedade que Hayek contrapóe a amadurecida" - um organismo, por exemplo, é urna ordem riatural); por
qualquer concepyáo artificialista. último, o terceiro tipo de ordem, que Hayek denominará "ordem espon-
t:inea" (spontaneous order) e que escapa da alternativa entre o artificial e 0
natural na medida em que agrupa todos os fenómenos que resultam da ayáo
A "ordem espontinea do mercado" ou "catalaxia"
humana, mas nem por isso sáo resultado de um desígnio (design) humano.
Num artigo muito pouco conhecido qUe marca urna virada na elabora- O ganho conceitual obtido com essa tripartiyáo é decisivo porque permite
yáo de seu pensamento, significativamente intitulado "O resultado da ayáo pensar a 01·dem específica que constitui o mercado: a ordem de mercado é,
humana, mas náo de um desígnio humano" 12 , Hayek complica a oposiyáo na realidade, urna ordem espontinea, de forma algwna wna ordem artificial.
clássica entre "natural" e "convencional", elaborando urna divisáo tripartite Essa tese, que ocupa um lugar central no pensamento de Hayek, comporta
entre trés tipos de fenómenos. Na verdade, o principal inconveniente da vários aspectos. O primeiro é que náo se deve confundir a ordem do mercado
oposiyáo clássica que herdamos dos sofistas gregos entre o qu~ é phusei e com urna "economia''. No sentido estrito do termo, urna "economía" (por
o que é thesei ou nomó é que ela pode significar tanto a diferenya entre o exernplo, um lar, urna fazenda, urna empresa) é urna "organizayáo" ou um
que resulta da aráo humana e o que independe dela como a diferenya entre "arranjo" deliberado de alguns recursos a serviyo de um mesmo fim ou "ordern
unitária de fins'.', que, como tal, pertence aesfera da taxis 13 • Ao contrário de
urna economia, a ordem do mercado é independente de qualquer objetivo
11
Dessa vez, Hayek mostra-se bastante reservado sobre a pertinencia prática da distinc;:.áo
em particular, por isso "pode ser utilizada para persegu~r inúmeros objetivos
de Rüpke entre a¡;:óes conformes e a¡;:óes náo conformes. Ver idem.
11 O tirulo original, ''1he Results ofHumanAction but not ofHuman Design", retoma
13
urna frase de Adam Ferguson, An Essay on the History oj Civil Society. Ver Friedrich Friedrich Hayek, .E'ssais de philosophie, de science politíque et d'économie, cit., p. 252
Hayek, Essais de philosophie, de science politique et d'économie, cit., p. 159-72. (ver também idem, Droit, législation et liberté, v. 2, cit., p. 129-';30).
162 ~ A nova razáo do mundo
Estado forte, guardiio do direito privado .. 163

individuais divergentes e até apostas". Em resumo, repousa náo sobre ob- que na estrutura de conjunto dessa sociedade existam, indubitavelmente,
jetivos comuns, "mas sobre a reciprocidade, isto é, sobre a conciliayáo de relaífÓes que náo sejam econ6micas, "é a ordem de mer~ado que possibi-
diferentes objetivos, em beneficio mútuo dos participantes" 14 • lita a conciliayáo de projetos divergentes" - mesmo quando esses projetos
O segundo aspecto é que a coesáo da ordem de mercado é possibilitada perseguem fins náO ·eCOñ.Orñicos 19 • Esse aspecto da posiyáo de Hayek náo
por regras formais que valem precisamente em fazáo de sua generalidade: é suficientemente ressaltado: a ordem de mercado náo é uma "economia'',
toda regra que derive de determinado fim seria nociva, porque, ao prescrever mas é constituída de "relaífóes económicas" (nas quais a competiyáo entre
urna conduta (a que corresponde a determinado fim e a nenhum outro), projetos divergentes opera a distribuiyáo de todos os meios disponíveis), e
apenas perturbada o funcionamento de urna ordem que é, por principio, essas relaífóes econ6micas se encomram na base do vínculo socia/ 20•
independente de qualquer fim particular. Tais regras, portanto, náo podem Tal concepífáo da ordem do mercado como ordem espondnea é solidária
estabelecer o que as pessoas devem fazer, mas so mente o que náo devem fazer: de outra tese, igualmente central no pensamento de Hayek: a da "divisáo
consistem "unicarriente em interdiyóes de invasáo do domínio protegido do do conhecimento". Essa noyáo, elaborada muito cedo 21 , é construída por
outro" 15. Hayek chama essas regras de leis para distingui-las das prescriyóes analogia com a noyáo smithiana de "divisáo do trabalho". Os indivíduos
positivas paniculares (também conhecidos como mandamentos16 ), de modo possuem conhecimentos limitados e fragmentários (constituídos mais de
que a ordem de mercado pode ser caracterizada como nomocracia (regida informayóes práticas e savoirjairedo que de conhecimentos racionais), por
pela lei), náo como teleocracia (regida por um fim ou fins) 17 isso ninguém pode afirmar que derém, em dado momento, o conjunto dos
O terceiro aspecto é que a própria sociedade deve ser compreendida como ~onhecimentos dispersos entre os milhóes de indivíduos que compóem a
urna ordem espont;lnea. Obviamente, a sociedade náo é redutível ordem do a sod~dade. No entanto, grayas ao mecanismo do mercado, a combinayáo
mercado, aindaque se encontrem nela tanto ordens espontaneas (o mercado, desseS fragmentos ~spalhadós geraresultados em toda a sociedade que náo
a moeda) como organizayóes ou ordens construídas (as famílias, as empresas, poderiam ser gerados de forma deliberada pela via de urna direyáo Consciente.
as instituiyóes públicas, entre as quais o próprio governo). Náo obstante, lsso somente é possível na medida em que, numa ordem de mercado, os
nessa ordem de conjunto que constitui urna sociedade, a ordem do mercado preyos desempenham o papel de vetares de transmissáo da informayáo22•
ocupa um lugar fundamental. Em primeiro lugar, na medida em que a ex- No nível da doutrina económica, tal visáo opóe-se irredutivelmente a
tensáo dessa ordem do mercado no decorrer da história teve como resultado reoria do equilíbrio geral (Léon Walras): enquanto esta última pressupóe
a ampliayáo da sociedade para além das organizayóes estreitas da horda, do agentes perfeitarnente informados de todos os dados capazes de fundamentar
clá e da tribo, até fazer surgir o que Hayek chama de "Grande Sociedade" a
suas decisóes, a concepyáo hayekiana dá enfase situayáo de incerteza em
o u "Sociedade Aberta" 18 • Em segundo lugar, porque "os layes que mantem que o mercado póe os agentes econ6micos 23 • Mais urna vez, Hayek retoma
o conjunto de urna Grande Sociedade sáo puramente econ6micos": ainda
19
Friedrich Hayek, Droit, législation et liberté, v. 2, cit., p. 135.
14 Idem, Essais de phílosophie, de science polítique et d'économíe, cit., p. 251. 20
Hayek vai m~to além do liberalismo dássico que, na pessoa de seus primeiros repre-
15 Ibidem, p. 253 (ver também idem, Droit, législatíon et liberté, v. 2, cit.,"p. 148). sentantes (Smrth, Ferguson), sempre se recusou a fundamentar o vínculo social apenas
!6 Sobre a distin<;:áo de lei e mandamento, ver Friedrich Hayek, La constítution de la sobre o vínculo económico. Urna nota de Droit, législatíon et liberté (cit., cap. 10, p. 212,
liberté, cit., p. 148-9. ~ota 12) cita.a favor dessa tese a afirm~:ío deAntoine-Louis-Claude Destutt de Tracy:
17 Idem, Essais de philosophie, de science politíque et d'économie, cit., p. 251. Commerce 1S thewhole ofSodety'' [0 comércio é o todo da Sociedade _N. T].
21

18 Idem. Desse modo, Hayek acaba renovando urna das grandes ideias de Ferguson: Sobre esse ponto, remetemos ao capítulo precedente.
22
a da "sociedade civil" como motor do progresso histórico (entendido que o conceito Friedrich Hayek, Droit, législation et liberté, v. 2, cit., p. 141.
23
de "ordem do mercado" náo coincide exatamente como de "sociedade civiF'). Assim, Sobre o vínculo entre ordem espontanea de mercado e divisio do conhecimento, ver
náo causa muita sorpresa que tenha sempre se desvinculado de qualquer forma de a apresenta<;:io clara e informada de Gilles Dostaler, Le libéralisme de Hayek (Paris,
"conservad.orismo". La Découverte, 2001), p. 31-2 e 50-1. Ver também o capítulo 4 ~este volume.
Estado forte, guardiáo do direito privado Q 165
164 • A nova razáo do mundo

de maneira original urna das ideias-foryas do liberalismo smithiano, já que e abstratas que se impóem a todo indivíduo, tanto independentemente
a metáfora da "máo invisível" significa em esséncia a impossibilidade de da busca de um fim partkular como independentemente de qualquer
urna totalizayáo do processo económico, portanto, urna espécie de incog- circunstáncia particular27 . Essas regras formais de _condllta constituem o
4 arcabouyo do direito }rivad~ e do direito penal. A mais dan osa das confu-
noscibilidade benéfica' .
O termo com que Hayek pretende condensar sua -concepyáo da ordem sóes seria identificá-las corn as regras do direito público. Estas últimas náo
de mercado é "catalaxia": sáo regras de conduta, mas regras _de--organizaráo, que tem como funyáo
definir a organizayáo do Estado e dáo a urna autoridade o poder de agir de
Proponho denominarmos essa ordem espontánea do mercado cat~tm:ia,
por analogia coro o termo "catalaxiá', que foi pro posta pa~a substltUH. o determinada maneira, "a luz de objetivos específicos". Hayek observa que
de "ciéncias económicas". Catalaxia vem do verbo grego anngo kata/atem, a progressiva insinuayáo do direito público no direito privado no decorrer
q ue, significativamente, quer dizer" náo só "trocar" e "intercambiar", como do século anterior fez com que o termo "lei", que originalmente designava
"C d •• ·
também "admitir na comunidade e 1azer e um mrmrgo um aJmgo .
• "25
apenas as regras de conduta aplicáveis a todos, viesse a designar "toda regra
Devemos prestar atenyáo, acima de tuda, ao duplo sentido do verbo de organizayáo o u mesmo toda ordem particular aprovada pela legislatura
grego, que dá a entender que a traca está na base do vínculo social, na constitucionalmente instituída'' 28 •
medida em que cria urna ordem por ajuste mútuo das ayóes dos diferentes O liberalismo só podia opor-se a essa evoluyáo: a ordem que ele preten-
de promover pode ser definida como urna "sociedade de direito privado"
indivíduos.
a
Hayek vincula essa noyáo de ordem espontánea grande filosofia esco- (Privatrechtsgesellschaft), segundo expressáo do ordoliberal alemáo Franz
cesa do século XVIII, aquela mesma ilustrada por nomes como Ferguson, B-Oh~ que Hayek ~ama para si29 . Precisamente porque toda regra de or-
Smith e Hume. No artigo "Tipos de racionalismo" (1965), ele contrapóe ganizayáo é ordenada para uÍn objetivo, e é característico de urna regra de
dais racionalismos: um "racionalismo ingénuo" e um "racionalismo críti- conduta ser independente de todo objetivo, é que se deve tomar~ cuidado
co". O primeiro (de Bacon, Descartes e Hobbes) afirma que todas as ins- de distingui-las nominalmente. Lernbramos que os gregos distinguiam
tituiyóes humanas sáo "criayóes deliberadas da razáo consciente": convém judiciosarnente nomos e thesis: apenas o direito privado é nomos, o direito
a esse primeiro racionalismo, que ignora os limites dos poderes da razáo, a público é thesis, o que significa que o direito público é "ditado" ou "cons-
denominayáo "construtivismo" 26 . O segundo, ao contrário, define-se pela truído" e, nesse sentido, constitui urna ordem "fabricada'' ou "artificial", ao
consciéncia desses limites, e é precisamente essa consciéncia que lhe permite passo que o direito privado é essencialmente urna ordem "espontinea''. As
arranjar lugar para ordens que náo procedem de urna deliberayáo consciente. regras de conduta que possibilitam a formayáo de urna ordem espond.nea
do mercado sáo oriundas, portanto, náo da vontade arbitrária de uns poucos
hon:ens, mas de um processo espondneo de seleyáo que age em longo prazo.
A "esfera garantida de liberdade" e o direito dos indivíduos E nesse ponto que o pensamento de Hayek se inspira diretamente na

Vimos que a ordem espontánea deve ser caracterizada como ':nomocrá-


a
teoria darwiniana de evoluyáo, e náo é toa que se pOde falar dela como
"evolucionismo cultural". Do modo como Hayek a compreende, a noyáo
tica", náo como "teleocrática''. Para compreender o lugar que Hayek reserva
de evollll;:áo designa um "processo de adaptayáo contínua a acontecimentos
a
ao direito, convém voltarmos brevemente noyáo de "lei" (nomos). De
fato, esse termo deveria designar, stricto sensu, apenas as regras impessoais
27
Friedrich Hayek, Droit, légíslation et liberté, v. 2, cit., p. 42. Por "abstrata'' entende-se
que "a regra deve aplicar-se a um número indeterminado de instándas futuras".
24 Michel Foucault, Naissance de la biopolitique (Paris, Seuil/Gallimard, 2004), p. 285. 28
Idem, Essais de philosophie, de science politique et d'économie, cit., p. 258-9.
29
25 Friedrich Hayek, Essais de philosophie, de science politique et d'économie, cit., p. 252-3. Ibídem, p. 258 (ver também Friedrich Hayek, Droit, législation et liberté, v. 2, cit.,
p. 37). Para esse conceito, ver capítulo 3 deste volwne.
26 Ibidem, p. 143.
Estado forte, guardiáo do direito privado • 167
166 • A nova razáo do mundo
30
imprevisíveis, a circunstáncias aleatórias que náo poderiam ser previstas" • focit legem" 33 , Hobbes definiu a lei como "o mandamento. daquele que detém
É essa ideia que permite a analogia entre a evoluyáo biológica e a evoluy:io o poder Legislativo"34 . NáO se poderia exprimir tnelhor a confusáo entre lei e
das regras do direito na escala das sociedades humanas. Assim como o mandamento critica4a por _Hayek, tanto mais que, para HÜbbes, o soberano- e
mecanismo da seleyáo natural assegura a sobrevivencia das espécies mais apenas ele- é o legislador. Em segundo lugar, Bentham: se o direito ingles é
adaptadas a seu ambiente e a extinyáo das o u traS, a seleyáo inconsciente de dividido em dais ramos, apenas a lei foita pelo legislador merece ser designada
regras de "conduta justa" (ou regras de direito privado) favorece a adaptayáo como direito real (statute law), "todos· os arranjos que supostamente sáo feitos
das sociedades a um ambiente com frequencia hostil. Com o tempo, esse pelo outro ramo[ ... ] deveriam ser distinguidos pelas denominayóes de direito
processo de seleyáo das regras "por tentativa e erro" permitiu a ampla difusáo irreal, náo realmente existente, imaginário, facdcio, ilegítimo, direito Jeito pelo
das regras mais eficazes, segundo urna lógica de "evoluyáo convergente"; juii'35 • Esse direito "feito" pelo juiz é a common law, ou lei náo escrita, que
portante, sem que fosse necessário postular uma imitayáo consciente de Bentham se dedica a desacreditar, na medida em que náo é "a vontade de
certas sociedades por outras •
31 mandamento de um legislador", que é propriamente a lei36 • Na opiniáo
Seja qual for a pertinencia dessa referencia a Darwin, o que está em de Hayek, John Austin e Hans Kelsen apenas prolongam essa tradi<;áo inte-
questáo é a ideia de que a seleyáo das regras de conduta justa está na base lectual que reduz o direito a vontade de um legislador, em oposiyáo tradiyáo a
do progresso das sociedades. De fato, foi por meio dela que a humanidade liberal, que afirma a anterioridade do direito sobre a legislas;áo.
conseguiu sair das primeiras sociedades tribais e libertar-se de urna ordem Contudo, o reconhecimento dessa anterioridade da justiya sobre qualquer
baseada no instinto, na proxirnidade e na cooperayáo direta, até formar os - legislayáo e sobre qualquer Estado organizado náo significa adesáo a doutrina
la<;os da "Grande Sociedade". O ponto fundamental é que esse progresso náo d0..direito natur~. Haye~ evita a alternativa entre positivismo e naturalismo:
se deve a urna criayáo consciente por parte de legisladores particularmente as regras da jusclc;a náo sio deduzidas abstratarhente pela razáo "natural"
inventivos: essas regras de direito privado (em particular as do direito comer- (jusnaturalismo) nem sáo fruto de um desígnio deliberado (positivismo),
cial) foram incorporadas as tradiyóes e aos costurnes muito antes de serem mas sáo um "produto da experiéncia prática da espécie hwnana'' 37 , isto é,
codificadas pelos juízes, os quais, no fim das cantas, apenas as descobriram, o "resultado imprevisto de um processo de crescimento" 38 • Para Hayek,
nunca tiveram de faze-las. Aliás, é isso que justifica que essas regras sejam portanto, está fora de cogitayáo invocar, como Locke, urna "lei natural"
distinguidas das regras "postas" (thesis). Como Hayek observa explicitamente, inscrita por Deus na criatura sob a forma de um mandamento da razáo 39 •

a
o emprego do adjetivo "positivo" aplicado Iei deriva do latim, que traduzia
por positus (que é posta) o u positivus a expressáo grega thesei, que designava 33 Thomas Hobbes, Leviatá, 1651, cap. 26, citado em Friedrich Hayek, Droit, ligislation
algo criado deliberadamente por urna vontade humana, em oposiy:io aoque et liberté, v. 2, cit., p. 53: "Náo é a verdade, mas, a autoridade, que faz a lei".
32
náo foi inventado, mas produzido physei, pela natureza. 34
Thomas Hobbes, Dialogue on the Common Laws (1681), citado em Friedrich Hayek,
É nesse ponto que Hayek se opóe diretamente a toda tradiyáo do posi- Droit, législation et liberté, v. 2, cit., p. 54.
tivismo jurídico. Ele visa a dais autores em particular. Em pri~eiro lugar,
35 Bentham, citado em Friedrich Hayek, Droit, législation et liberté, v. 2, cit., p. 54;
grifo nosso.
Hobbes: fazendo suas as palavras do ditado latino "non verítas sed auctoritas
36 Bentham, citado em Friedrich Hayek, Droit, législation et liberté, v. 2, cit., p. 197,
nota 35: "The primitive sense of the word law, and the ordinary meaning of the
word, is [... ] the will of command of a legislator" [O Sentido primitivo da palavra
lei, e o significado comum dessa palavra, é (... ) a vontade de mandamento de um
30 Friedrich Hayek, La présomption Jatale: les erreurs du soci.alisme (Paris, PUF, 1993),
legislador- N. E.].
p. 38, citado em Gilles Dostaler, Le libéralisme de Hayek, cit., p. 86.
37 Friedrich Hayek, Essais de philosophie, de science politique et d'économie, cit., p. 180.
Jt Friedrich Hayek, Droit, législation et liberté, v. 2, cit., p. 48.
38
Ibidem, p. 167.
32 Ibidem, p. 53 (ver também Friedrich Hayek, Essais de philosophie, de science politique
39 Ibidem, p. 162-3, nota 7.
et d'économie, cit., p. 169, nota 21).
168 o A nova razáo do mundo Estado forre, guardiiio do direito privado 6 169

Se ainda se insiste em falar de "lei da natureza'', é no sentido de Hume que definis:áo de liberdade é enganosa, seja a "liberdade polítid' cornpreendida
devemos compreendé-la: as regras de justiya náo sáo conclusóes da razáO, como participayáo dos homens na escolha do_ governo ou na elaboqyáo
que é absolutamente impotente para formá-las; podemos dizer que sáo da legislas:áo, seja até a "liberdade interior" ráo exalradá pelos filósofos (o
"artificiais" (no sentido em que náo sáo inatas), mas náo "arbitrárias", na a
controle de si mesmO em Oposiyáo escravidáo das paixóes) 45 . Da coeryáo
medida em que foram elaboradas progressivamefne, assim como os idiomas como o conrrário da liberdade, Hayek dá a seguinte definiyáo:
e o dinheiro, a partir da experiencia repetida dos inconvenientes causados Por coen;áo entendemos o fato.de qlie urna pessoa seja dependenre de um
por sua transgressáo 40 . Todas essas regras se resumem a trés leis funda- ambiente e de circunstáncias tilo controlados por outra pessoa que, para
mentais: ''A da estabilidade das posses, a da transferéncia destas mediante evitar um dano maior, é abrigada a agir náO ero conformidade com seu
consentimento e a d o cumpnmento. d as promessas"41 : ou sep,
. o conteu'do próprio plano, mas a servit;:o dos objetivos dessa outra pessoa. 46
essencial de todos os sistemas de direito privado: "a liberdade de contrato, a Essa definiyáo da coeryáo como imposiyáo a um indivíduo dos objetivos
inviolabilidade da propriedade e o dever de compensar o outro pelos danos de um o u vários outros indivíduos parece situar Hayek na linha de um John
que lhe sáo causados" 42 • Stuart Mill. Em todo caso, a distinyáo entre is ayóes que afetam apenas seu
Essa identificayáo do núcleo fundamental das regras de conduta justa ce
autor e as que afetam os interesses de outro sabemos a importancia que
acarreta urna reelaborayáo da questáo da liberdade e dos direitos individuais, Mill dava a essa distinyáo) parece pouco operante em si mesma ao autor de
tal como fora estabelecida pelas principais correntes do liberalismo clássico. Os fundamentos da liberdadé-7• Aliás, Hayek considera excessivo o violento
De fato, sáo essas regras que, tomando carpo progressivamente, possibilitam, ataque de Mil! ao "despotismo do costume" no capítulo 3 de Sobre a liber-
a
em paralelo formayáo da ordem espontánea do mercado, urna extensáo dadr,_: ·etn sua críti~a a "coer~áo moral", "levo u prüvavelmente longe demais
do "domínio" da liberdade individual. Esse domínio coincide coma "esfera a defesa da liberdáde", na medida-em que a pressáó.da opiniáo pública náo
de decisáo privada'' da qual o indivíduo dispóe quando situa sua ayáo no poderia ser identificada com urna "coeryáo" 48 • Apenas urna defi~iyáo estrita
quadro formal das regraE. Isso mostra a que ponto a liberdade, longe de da coeryáo, que implica urna instrumentalizayáo da pessoa a serviyo dos
ser um dado natural ou wna invenyáo da razáo, é resultado de urna langa objetivos de outrem, parece capaz de "trayar os limites da esfera protegida''.
evoluyáo cultural: ''Ainda que a liberdade náo seja um estado de natureza, Na medida em que as "regras-leis" rema funyáo de proteger o indivíduo da
mas um bem fabricado pela civilizayáo, ela náo nasceu de um desígnio" 43 • coeryáo exerdda por outro, ficará estabelecido que, nwn regime de liberdade,
Mais urna vez, nem naturalismo nem voluntarismo tém razáo. A liberdade "a esfera livre do indivíduo compreende toda ayáo que náo é explicitamente
náo é o "poder de fazer o que se quer"; ela é indissociável da existéncia de restringida por urna lei geral" 49 • Somente depois de feita essa delimitayáo
regras morais transmitidas pelo costume e pela tradiyáo que, em razáo é que se pode ter esperanya de fundamentar os direitos individuais. A
de sua generalidade, proíbem a todo indivíduo o exÚcício de urna coayáo originalidade de Hayek é vincular esses direitos náo a urna lei da natureza
qualquer sobre outrem. Consequentemente, a única definiyáo de liberdade prescrita por Deus (Locke) o u a lei geral da vida (Spencer), mas as regras de
aceirável para Hayek é "negativa'': liberdade é a "auséncia desse obstáculo condura justa: "Há wn sentido da palavra 'direito' segundo o qual toda regra
muito preciso que é a coeryáo exercida por outrem" 44 • Qual<iuer outra de conduta justa cria um direito correspondente dos indivíduos", de modo que,

40 45
Ibidem, p. 183. lbidem, p. 13-6. Hayek denuncia a confusáo de pensamemo que cerca o conceito
~~ David Hume, citado em Friedrich Hayek, Essaís de philosophie, de science politíque et filosófico de "liberdade da vomade" (/reedom of the wil/J.
46
d'économie, cit., p. 183 (ver também idem, La constitution de la liberté, cit., p. 157). Ibídem, p. 21.
47
42 Friedrich Hayek, Droit, législatíon et liberté, v. 2, cit., p. 48. Ibídem, p. 145.
4
43 Idem, La constítution de la liberté, cit., p. 53. H Ibídem, p. 146.
44 Ibidem, p. 19. ~~ Ibidem, p. 215.
170 "' A nova razáo do mundo Estado forte, guardiáo do direito privado 1.71

na medida em que essas regras "delimitam domínios pessoais", "o indivíduo Contudo, devemos ver que, se Hayek recupera o conceito lockeano de
terá direito a esse domínio" • 50 "propriedade", é deduzindci-o de sua própria ideia da lei cofia regra geral
Podemos ver aqui que tuda depende do prévio reconhecimento de derivada de um "crescimento inconsciente", portanto, desvinculando-a de
urna "esfera privada'', ou "reservada", garantida pelas regras gerais: "O seu fundamento juS~atu~aÜsta.
caráter 'legítimo' das expectativas de alguém, oli os 'direitos' do indivíduo,
51
é resultado do reconhecimento da esfera privada considerada'' • Assim, a
O "domínio legítimo das atividades governamentais"
definic;:áo da coerc;:áo como "violayao dos direitos individuais" semente é
lícita se esse reconhecimento foi consentido, já que o reconhecimento efe- e a regra do Estado de direi to
tivo da esfera privada equivale ao reconhecimento dos direitos concedidos Os contornos da esfera protegida parecem estabelecer por si mesmos
pelas regras que delimitam essa esfera. Portante, as regras gerais sáo, em os limites da intervenyá_o do Estado: toda intromissao deste último nessa
primeiro lugar e acima tudo, regras de composiyao das esferas protegidas e, esfera constituirá um atentado arbitrário aos direitos do indivíduo, de
como tais, garantem a cada indivíduo direitos cuja extensao é estritamente modo que se teda aqui o critério que permite discriminar as intervenyóes
a
proporcional de sua esfera própria. o
erro seria restringir essa extensao a legítimas das ilegítimas. De fato, devemos insistir neste ponto: a questao
dos bens materiais que pertencem a um indivíduo: principal para Hayek é a da legitimidade, náo a da ejicdcia. O argumento
Náo devemos imaginar essa esfera como constituída exclusivamente, nem da ineficácia prática ou dos efeitos nocivos da intervens:áo governamental
rnesmo principalmente, de bens materiais. É claro que o principal objetivo .p_.arece-lhe propenso a obscurecer a "distinyáo fundamental entre medidas
das regras de composü;:áo das esferas é repartir as coisas que nos cercam cátnpatíveis e me~idas incpmpatíveis com um sistema de liberdade" 54 •
entre 0 que é meu e o que náo é, mas essas regras também nos garantem
Basta lembrar :a maneira como Mill tenta deterillinar os lim,ites da as;ao
vários outros "direitos", como a segurantra em certos usos dos objetos o u
governamental no capítulo 5 de Sobre a liberdade para mensurar a distáncia
simplesmente a proteyáo cont~a as intromissóes em nossas atividades.
52

que separa sua tentativa da de Hayek. Mill nao deriva a doutrina do livre-
Mais amplamente, a noc;:ao de "propriedade" ganhará um sentido am- -cámbio do princípio da liberdade individual: as restriyóes impostas ao
pliado, que recobre o que Locke já dera ao termo genérico de "propriedade" comércio sao coeryóes, sem dúvida, mas, "se sao condenáveis, é unicamente
no Segundo tratado do governo: porque náo produzem os resultados esperados", náo é em absoluto porque a
Desde a época de John Ladee, é costume denominar esse domínio pro- sociedade náo temo direito de coerc;:ao 55 • Hayek tem conscü~ncia da insufi-
tegido "propriedade" (o que o próprio Ladee definiu como "a vida, a ciéncia do ponto de vista de Mili sobre essa questao. Na nota 2 do capítulo
liberdade e as posses de um homem"). No en tanto, esse termo sugere urna
15 de Os fondamentos da liberdade, ele sublinha que, como os economistas
conceptráo demasiado estreita e puramente material do domínio protegido,
tém o hábito de considerar rudo sob o ángulo da oportunidad e, "náo admira
que indui náo apenas os bcns materlais, mas também os rec~rsos diver~os
contra os outros, assim como certas expectativas. Se, todavla, o concelto que tenham perdido de vista os critérios mais gerais". Segue-se imediatamen-
de propriedade é interpretado (corno cm Locke) em sentido a.n;pliado, re urna referéncia a Mili: "John Sruart Mili, admitindo ( On Liberty, 1946,
é verdade que a lei, no sentido de regras de justitra, e a instituitráo da p. 8) que 'nao há de fato nenhum prindpio que permita julgar de maneira
·¿
propne a e¿sao· mseparavers.
···53 geral a legitimidade da intervenc;:ao do poder', já dera a impressáo de que

so Friedrich Hayek, Droit, législation etliberté, v. 2, cit., p. 121; grifo nosso.


5
SJ Idem, La constitution de la liberté, cit., p. 139. ~ Idem, La constitution de la liberté, cit., p. 222.
55
52
Ibidem, p. 140. John Stuart Mili, De la liberté (Paris, Gallimard, 2005), p. 209 [ed. bras.: Sobre a
53 Friedrich Hayek, Essais de philoso?hie, de scíence politique et d'économie, cit., p. 257. liberdade, trad. Ari Ricardo Tank Brito, Sáo Paulo, Hedra, 2010].
172 ., A nova razáo do mundo Estado forte, guardláo do direito privado o 173

tuda era questáo de oportunidade" 56 , O gue Hayek pretende enunciar é extensáo ao domínio da ética da ideia base da supremacia do direito 60 . Em
justamente es.se princípio geral de legitimidade. 1963, essa inversáo ganha urila formulayáo mais clara no texto da confer~n­
Para chegar a esse princípio, primeiro é preciso compreender que a a
cia dedicada "A filosofia do direito e a filosofia política de David Hume":
constitui-;:áo da esfera de ayáo reservada ao indivíduo procede inteira e Diz-se as vezes que Kant desenvolveu sua teoria do Estado de direito apli-
exclusivamente da existéncia das regras gerais de cÜnduta justa. Consequen- cando aos assumos públicos seu conceito moral de imperativo categórico.
temente, rudo que ponha em causa essas regras só pode ser urna amea-;:a O que aconteceu foi provavelmente o-inverso, isto é, Kallt desenvolveu sua
a própria liberdade individuaL Por isso, é necessário que se estabeleya em teoria do imperativo categórico aplicando a moral o conceito de Estado de
direito (Rule of Law), que ele encomrou pronto para usar. 61
princípio que nenhuma intervenyáo do Estado, por mais bem-intencionada
que seja, deve eximir-se do respeito devido as regras gerais. Em outras A equivaléncia postulada aqui entre a expressáo alemá "Estado de direito"
palavras, o Estado deve aplicar a si mesmo as regras que valem para toda e a expressáo inglesa "império da lei" permite a Hayek ir ainda mais longe:
pessoa privada. Podemos ver agora como se deve entender a proposiyáo de ele afirma no mesmo texto que "o que Kant tinha a dizer a esse respeito
que a ordem liberal forma urna "sociedade de direito privado", segundo a parece derivar diretamente de Hume"62 •
expressáo de Bühm adotada por Hayek: as regras do direito privado devem Para precisar a implicayáo teórica e política dessa questáo, devemos lem-
prevalecer universalmente, inclusive para as "organizayóes" que dependem brar, seguindo Foucault63, que a norma do Estado de direito constituiu-se
náo da ordem espontánea do mercado, mas do Estado. Ternos aqui, em na Alemanha a partir de urna dupla oposiyáo: ao despotismo, de um lado,
cerro sentido, a consequéncia jurídica da ideia de que a sociedade inteira -~ ao Estado de polícia (Polizeistaat), de outro. Essas duas noyóes náo sáo
("the whole ofSociety") 57 repousa sobre "relayóes eco nO micas" (urna vez que cbin~identes. O d~spotismo torna a vontade do soberano o prindpio da
estas sáo estruturadas pelo direito privado). Para Hayek, foi esse princípio obriga<;áo de todos de obed~cer asinjun<;óes da poténcia pública. O Estado
da autoaplicaráo pelo Estado dds regras gerais do direito privado que recebeu de polícia, por sua vez, caracteriza-se pela auséncia de diferen'ya entre as
historicamente na Alemanha a denominayao de "Estado de direito" (Re- prescriyóes gerais e permanentes da poténcia pública (o que se convencio-
chtsstaat). Daí a tese segundo a qual "o Estado de direito é o critério que nou denominar "leis") e os atos particulares e conjunturais desse mesmo
nos permite fazer a distinyao entre as medidas que sáo compatíveis com um a
poder público (que estáo diretamente ligados esfera dos "regulamentos").
sistema de liberdade e as que náo o sáo" 58 . Segue-se disso urna dupla defini<;áo do Estado de direito: em primeiro lugar,
De ande vem essa "tradi-;:áo alemá do Rechtsstaat", cuja importfulcia deci-
siva para todo o movimento liberal posterior é ressaltada em Os fundamentos 60
Obviamente, na arquitetura do sistema, a "Doutrina do direito" precede a "Doutrina
da liberdade? Se acreditarmos em Hayek, essa tradiyáo deve o essencial de da virtude", mas ambas sáo precedidas pela Fundamenta¡;:áo da metafísica dos costu-
a
sua inspirayáo teórica influéncia da filosofia do direito. de Kant. Invertendo mes, a qual incumbe extrair em toda a sua pureza o princípio supremo da moralidade.
61
a ordem dedutiva em que o próprio Kant articulou moralidade e direito, Friedrich Hayek, "La philosophie juridique et poli tique de David Hume", em Essais
Hayek interpreta livremente o famoso "imperativo categórico" 59 como urna de philosophie, de science politique et d'économie, cit., cap. 7, p. 188. Se é verdade que
o problema da "aplica¡;áo" da moralidade pura é, nitidamente, um problema delicado
no kantismo, nada justifica a afirmac;:áo de que Kant teria "aplicado" o dlreito amoral
para chegar ao conceito do imperativo categórico.
56 Friedrich Hayek, La constitution de la liberté, cit., p. 484. 62
ldem. Mais urna vez, só podemos desmentir a possibilidade de tal "derivac;:áo": em
57 Ver nota 20 deste capítulo. Hume, as "leis da natureza'' sáo fruto de urna experiéncia progressiva, ao passo que
58 Friedrich Hayek, La constitution de la liberté, cit., p. 223. em Kant a "lei moral" é inteiramente a priori e, como tal, independente de qualquer
59 "Age apenas segundo urna máxima tal que possas ao mesmo tempo querer que ela se experiénda, o que é confirmado pelo caráter puramente formal dessa lei (por contraste
torne lei universal", Immanuel Kant, Fondation de la métaphysique des mceurf (Paris, como conteúdo determinado das trés regras evidenciadas por Hume: estabilidade das
Flammarion, 1994), p. 97 Ied. port.: Fundamentacdo da metafísica dos costumes, trad. posses, transferéncia das posses mediante consentimento, cumprimento das promessas).
Paulo Quintela, 2. ed., Lisboa, Edic;óes 70, 2009]. 63
Michel Foucault, Naissance de la biopolitique, cit., p. 173-4.
174 ~ A nova razáo do mundo Estado forte, guardiáo do direito privado • 175

ele enquadra os atos da poténcia pública por meio de leis que os limitam legal, que é o da legislayáo entendida no sentido da detenpinayáo de novas
de antemáo, de modo que náo é a vontade do soberano, mas a forma da regras gerais de conduta; teréeiro e último, o nível governamental, que é o
lei que constitui o princípio da obrigayáo; em segundo lugar, o Estado da promulgayáo do~ ~e~r~t?s e regulamentos específicos. Vemos que, nessa
de direito faz urna distinyáo de princípio entre ~ leis, que valem por sua hierarquizayáo, a regra do Estado de direito é a que deve presidir elaborayáo a
validade universal, e as decisóes específicas o u medidas administrativas64 . de todas as regras gerais o u leis. O que importa é compreender o verdadeiro
Um pouco mais tarde, na segunda metade do século XIX, a elaborayáo alcance desse princípio: constituir _"urna limitayáo dos poderes de todo go-
dessa noyáo de Estado de direito foi aprofundada ern um sentido que fez verno, inclusive os poderes do legislador" 67 • Essa funyáo impede que ele seja
o problema dos "tribunais administrativos" aparecer como um problema resumido a urna simples exigéncia de legalidade; a conformidade das ayóes
central. Com efeito, seguindo essa elaborayáo, o Estado de direito náo tem do governo as leis existentes náo garante por sisó que o.poder de agir do
apenas como característica restringir sua ayáo ao quadro geral da lei; ele é governo seja limitado (urna lei poderia dar ao governo o poder de agir como
um Estado que oferece a cada cidadáo vias de recursos jurídicos contra a bem entende); o que é exigido pela regra do Estado de direito é que todas
poténda pública. Disponibilizar tais vias implica a existéncia de instáncias as leis existentes "se conformem a cerros princípios" 68 •
judiciais responsáveis por arbitrar as relayóes entre os cidadáos e a poténcia Isso conduzirá, por consequéncia, a distihyáo de "Estado de direito
pública. É precisamente sobre o status desses tribunais que as controvérsias formal" (jórmeller Rechtsstaat) e "Estado de direito material"" (materieller
váo se cristalizar na Alemanha no decorrer do século XIX65 • Rechtsstaat): o Estado de direito, tal como Hayek o entende, corresponde
Retendo a ideia de que o Estado tem de poder ser levado diante de um ~ao "Estado de direito material", que exige que a ayáo coercitiva do Estado
tribunal por qualquer cidadáo, bem como por qualquer pessoa privada, na a
seja,~stritamente limitada aplicayáo de regras uniformes de conduta justa,
medida em que está sujeito as mesmas regras de direito que toda pessoa ao passo que o "Es'tado"de direito formal" requer apenas alegalidade, isto é,
privada, Hayek dá a essa noyáo de Estado de direito urna amplidáo inédita, "exige simplesmente que cada ayáo do Estado seja autorizada pela legislayáo,
fazendo-a desempenhar o papel de regra para toda legislaráo. Urna passagem quer essa lei consista numa regrageral de conduta justa, quer náo" 69• Dessa
de Os fondamentos da /iberdade diz isso de maneira muito explícita: forma, a crítica a concepyáo integralmente artificialista da legislayáo de um
Sendo o Estado de direito urna limita<;áo de toda legisla;áo, segue-se que Bentham adquire todo o seu sentido. Estabelecer que tuda, até os direitos
ele náo pode ser urna lei no mesmo sentido das leis feitas pelo legislador reconhecidos do indivíduo, procede da "fábrica'' do legislador é consagrar
[... ]. O Estado de direito, por conseguinte, háo é uma regra estabelecida teoricamente a "onipoténcia do poder Legislativo" 70 • Inversamente, reco-
pela lei, mas urna regra que diz respeito ao que devcria ser a lei, urna regra
nhecer que a extensáo dos direitos individuais caminha de máos dadas com
metalegal o u um ideal político. 66
a elaborayáo das regras do direito privado é fazer dessas regras o modelo
Obtém-se desse modo trés níveis distintos que s.ó teriam a ganhar se ao qual o próprio poder Legislativo deve conformar-se em sua atividade,
fossem sempre cuidadosamente hierarquizados: primeiro, o nível metale- portanto, impor-lhe de antemáo limites intransponíveis.
gal, que é o da regra do Estado de direito; segundo, o nível propriamente Entáo, quais sáo, mais precisamente, as condiyóes que todalei deve satisfa-
a
zer para conformar-se regra metalegal do Estado de direito? Hayek enumera
trés "atributos da lei verdadeira", isto é, da lei no sentido "substancial" ou
64 lbidem, p. 174-5. Foucault se refere a obra pioneira de KarlTheodor Welcker, Die "material" que acabamos de especificar. O primeiro atributo dessas regras
Letzen Gründe von Recht, Staat und Straje [Os últimos fUndamentos do direito, do Estado
e da punirá,] (1813). 67
Ibidem, p. 205.
65 Sobre essas controvérsias, ver Friedrich Hayek, La constitution de la liberté, cit.,
68
p. 201-4, bem como o comentário de Michel Foucault, Naissance de la biopolitique, Idem.
69
cit.• p. 175-6. Friedrich Hayek, Essais de philosophie, de sciencepolitique et d'économie, cit., p. 197 e 254.
70
66 Friedrich Hayek, La constitution de la liberté, cit., p. 206. Idem, Droit, législation et libert~, v. 2, cit., p. 63.
176 ~ A nova razáo do mundo Estado forte, guardiáo do direito privado " 177

é, obviamente, sua generalidade: náo devem fazer referéncia "a nenhuma algum que as leis decretadas pela autoridade legislativa devem conformar-se
pessoa, nenhum espayo ou nenhum objeto em particular", "devem sempre ao modelo das regras do diréito privado, tampouco confunde tais leis com
visar ao futuro e jamais ter efeito retroativo" 71 . O que implica que a lei autén- as regras de justiya ql!e sáo_ as "leis de natureza" (estabiÜdade das posses,
tica se abstém de visar a um fim particular, por mais desejável que pareya a transferéncia consentida. da propriedade, obrigayáo das promessas). A mesmi
primeira vista. O segundo atributo é que essas- regras "devem ser conhe- observayáo vale para Locke. Direito, legíslaráo e liberdade faz urna referén-
cidas e indubitáveis" 72 • Se Hayek enfatiza particularmente essa condiyáo, cia elogiosa ao Segundo tratado do.governo, citando em nota78 o início do
é porque a certeza da lei, assim como a previsibilidade de suas decisóes, parágrafo 142: o poder Legislativo, explica Locke, "deve governar segundo
garantem ao indivíduo- que está fadado a agir num contexto de incerteza !eis estdveis e promu!gadds (promu!gated established Laws), que náo devem
em virtude da ordem espont<lnea do mercado- esse mínimo de estabilidade variar ao sabor dos casos particulares; deve ter apenas urna regra para o rico
sem o qual ele teria urna enorme dificuldade para levar a cabo seus próprios e para o pobre, para o favorito na Corte e para o camponés no arado" 79 .
projetos: ''A questáo é saber se o indivíduo pode prever a ayáo do Estado, Mais urna vez, devemos observar que a argumentayáo de Locke se insere
e se esse conhecimento lhe forrtece pontos de referéncia para adequar seus numa problemática da limitayáo do poder Legislativo que náo equivale a
próprios projetos" 73 • Enfim, o terceiro atributo de urna lei verdadeira náo trayar o ideal de urna "sociedade de direito privado". Urna coisa é abrigar o
é outro senáo a igualdade, o que significa que "toda lei deve ser aplicada poder a fazer as leis segundo a regra formal da esrabilidade e da igualdade,
igualmente a todos" 74 • Essa última exigéncia é "incornpatível como favo- outra coisa é exigir dessas leis que se alinhem em sua "substancia'' regras as
recirnento ou o desfavorecimento previsível de determinadas pessoas" 75 • do direito privado, como sustenta· Hayek. Isso é suficientemente mostrado
Consequentemente, implica que o Estado "se conforme a mesma lei que pelO .~ato de que, e~ Locke,_ trata-se de imperativo 'de igualdade sornen te na
todos e, desse modo, encontre-se limitado em seus atos, da mesma forma medida em que esÚ: concer~e a aplicayáo da lei a indlvíduos definidos por
que qualquer pessoa natural" 76 .- sua situayáo social (rico e pobre, cortesáo e campones), náo da aut~aplicayáo
Desses trés atributos da lei (generalidade, certeza, igualdade), o terceiro por parte do Estado de urna regra de direito privado.
é inegavelmente o que evidencia melhor que, no pensamento de Hayek, o Que consequéncias devemos tirar dessa extensáo do direito privado a
ideal do Estado de direito confunde-se com o ideal de uma sociedade de direito "pessoa" do Estado? A primeira, e sem dúvida a mais importante do ponto
privado. É nesse ponto que o pensamento do neoliberalismo vai muito além de vista de Hayek, é que, num Estado de direito, "o poder político so mente
do princípio do controle da autoridade política enunciado por toda urna pode intervir na esfera privada e protegida de urna pessoa para punir urna
corrente do liberalismo clássico. Hume faz das leis "gerais e iguais" as quais infrayáo cometida contra urna regra promulgada" 80 • lsso significa que náo
os órgáos do governo devem conformar-se o princípio de urna limitayáo que compete ao Executivo dar "ordens" ou "mandamentos" ao indivíduo (isto
impede que a autoridade se torne absoluta77 , mas náo' afirma em momento é, prescriyóes particulares relativas a um fim determinado, como devemos
lembrar); ele deve apenas velar pelo respeito as regras de conduta justa que
71
Idem, La constitution de la liberté, cit., p. 208.
sáo igualmente válidas para todos, e é justamente esse dever de proteyáo
72 da esfera privada de todos os indivíduos que, em caso de violayáo das
Idem.
73 Friedrich Hayek, La route de la servitude, cit., p. 64.
74 Idem, La constitution de la liberté, cit., p. 209. 78
Friedrich Hayek, Droit, législation et liberté, cit., p. 201, nota 60.
7.S lbidem, p. 210. 79
John Locke, Second traité du gouvernement (Paris, PUF, 1994), p. 104 [ed. bras.:
76
Idem. Segundo tratado do governo e outros escritos, trad. Magda Lopes·e Marisa Lobo da
77 David Hume, Essais moraux, politiques et littéraires (Paris, Vrin, 1999),'p. 100 Costa, 4. ed., Petrópolis/Braganya Paulista, Vozes/Editora Universitária Sáo Fran-
[ed. bras.: Ensaios morais, políticos e literdrios, trad. Luciano Trigo, Rio de Janeiro, cisco, 2006.]
Topbooks, 2004]. ° Friedrich Hayek, La constitution de la liberté, cit., p. 206.
8
17 8 ~ A nova razáo do mundo
Estado forte, guardiio do direito privado "' 179

regras por parte de um indivíduo, autoriza o Executivo a intervir na esfera para o Estado, o das atividades náo coercitivas. O liberalismo, tal como o
privada desse indivíduo a fim de lhe aplicar urna sanyáo penal. Afora tais compreende Hayek,
situac;:óes, deve-se esclarecer amplamente que "as autoridades governamen-
pede uma distiny~o_dara entre os poderes de coerrdo do Estado, em cujo
tais náo devem ter nenhum poder discricionário que permita esse género a
exercício suas ayóes sáo limitadas aplicayio de regras de conduta justa, das
de invasao" na esfera privada de um cidadao 81 . b contrário equivaleria a quais se exclui qualquerarbitrariedade, e a prestardo de serviros pelo Estado, no
considerar a pessoa privada e sua propriedade como um simples meio a decorrer da qual ele pode empregar_ os..recursos postas a slla disposiyáo para
disposiyáo do governo. Por isso, sempre se deve dar a essa pessoa a pos- esse fim, para a qual n:io possui nem poder de coeryáo nem de monopólio,
mas pode usar largamente seus recursos sob seu arbítrio. 84
sibilidade de recorrer a tribunais independentes, habilitados a decidir se
o governo se conformou em sua ayáo ao estrito quadro das regras gerais O problema é que o finandamento das atividades de "puro serviyo"
a
ou se o excedeu arbitrariamente (donde se retorna questáo do lugar dos implica a intervenc;:ao de cena coerc;:ao na forma de impostos85 . Esse aspecto
"tribunais administrativos"). Mais urna vez, o ponto fundamental "é que coercitivo das atividades de servic;:o somente se justifica se o Estado nao se
toda ayao coercitiva do poder político deve ser definida sem ambiguidade arroga o direito exclusivo de fornecer cerros serviyos, o que equivaleria ipso
dentro de wn quadro jurídico permanente, que permita ao indivíduo gerir a
jacto constituic;:ao de um monopólio (o qual significada a violac;:ao da con-
com confianya seus projetos e reduza tanto quanto poSsível as incertezas dü;io de igualdade lenibrada anteriormente). "O que é contestável nao é a
inerentes aexisténcia humana'' 82
• empresa de Estado, mas o monopólio de Estado." 36 De todas as atividades
O que está em jogo aqui é exatamente a preservafáO da eficiéncia da ~e servic;:o que podem concernir legitimamente ao Estado, as mais impor-
ordem do mercado, já que o elemento decisivo da confianc;:a reside no fato tarit~s sao as que "dependem de seu esforc;:o para criar um quadro favorável
de que o indivíduo possa contar com a aptidáo do Estado para fazer com as de~isóes indiVidJais": insramac;:io e manutenc;:ao de·um sistema monetário
que as regras gerais sejam respeitadas e, ao mesmo tempo, com o respeito eficaz, definic;:ao de pesos e medidas, disponibilizac;:ao de informa~óes para o
das regras gerais pelo próprio Estado. Em resumo, a certeza proporcionada estabeledmento de estatísticas, organizac;:áo da educa¡;ao sob urna o u outra
a
pelo quadro jurídico deve compensar a incerteza inerente situayáo do 87
forma etc. . Convém acrescentar a essas atividades "todos os servic;:os que
indivíduo dentro de urna ordem espontánea tal como a ordem do mercado. sao nitidamente desejáveis, porém nio sáo fornecidos pela empresa concor-
Isso mostra a importáncia da ayao coercitiva do Estado quando se trata de rencial porque seria impossível o u difícil fazer os beneficiários pagarem",
cuidar da puniy:io das infrayóes cometidas contra as regras de condura: servi~os entre os quais se encontram "o grosso dos servic;:os sanitários e de
garantir a seguranya dos agentes econümicos é a verdadeira justificayáo do saúde pública, a construc;:io e a manutenc;:ao das estradas e a maioria dos
monopólio do uso da coeryao que se encontra nas máos do Estado. O que equipamentos urbanos criados pelos municípios para os seus habitantes" 83 •
implica "que ele nao tenha outro monopólio além deSse e que, de todos os Em contrapartida, há medidas que a regra do Estado de direito exclui por
outros pontos de vista, opere nas mesmas condic;:óes que todo mundo" 83 princípio. Trata-se de todas aquelas cuja execuc;:ao implica urna discriminac;:áo
(condi<;áo de igualdade reinterpretada por Hayek).
A segunda consequéncia da necessária subordinac;:ao do poder gover-
84
namental ao princípio do Estado de direito é de ordem positiva dessa vez: Friedrich Hayek, Essais de philosophie, de science politique et d'économie, cit., p. 254;
grifo nosso.
na medida em que esse princípio constitui urna limitayao apenas para as
85
ac;:óes coercitivas do governo, um campo inteiro de atividades é deixado Idem, La constitution de la liberté, cit., p. 223.
86
Ibidem, p. 225.
87
81
Ibidem, p. 224.
Ibidem, p. 213. 88
82 Idem. Hayek se refere logo cm seguida afamosa reRexáo de Smith sobre "essas obras
Ibidem, p. 223.
públicas que [...] sáo de urna natureza tal que o ganho jamais poderia compensar 0
83
Ibidem, p. 224. gasto que representariam para um indivíduo ou um grupo pouco,numeroso".
180 '" A nova razáo do mundo Estado forre, guardiáo do direito privado " 181

arbitrária entre as pessoas, porque visam aobtenyáo de resultados particulares ninguém deve cair", náo implica por si só "urna restriyáo de liberdade o u
para pessoas particulares, ern vez de se ater aaplicayáo das regras gerais válidas um conflito corn a soberani<i do direito". Problemático é que a remunera_¡;:áo
indistinta e uniformemente para todas as pessoas. Aqui, sáo particularmen- dos serviyos prestad?s_seja fixada pela autoridade9 3•
te visadas as "medidas que térn por objetivo regular o acesso aos diversos Agora podemos ver claramente que, em sua versáo ·hayekiana, o neoli-
negócios e profissóes, os termos das transayóes e as quantidades produzidas beralismo náo somente náo exclui, como pede a intervenyáo do governo.
ou comercializadas" 89 . Todo controle de preyos e quantidades de produyáo Porque a concepyáo da lei como "regra do jogo econ6mico" que prevalece
deve, portanto, ser abolido, na medida em que é necessariamente "arbitrá- nesse caso determina necessariamente o que Foucault chama de "crescirnento
rio e discricionário" e impede o mercado de funcionar corretamente (náo da demanda judicial", a ponto de falar de um "intervencionismo judicidrio,
deixando que os preyos cumpram seu papel de transmitir a informayáo). que deverá ser praticado comb arbitragern no quadro das regras do jogo" 94 • É
Pelas rnesmas razóes de fundo, exclui-se qualquer intervenyáo do governo preciso avaliar a extensáo da transformay;lo relativa ao lugar do Judiciário no
para reduzir as inevitáveis diferenyas de situayáo material que resultam do pensamento do liberalismo clássico. No século XVIII, a ideia da primazia da
jogo de catala:xia. Portanto, a busca de objetivos relacionados a urna dis- lei implicava urna "reduyáo considerável do Judiciário ou do jurisprudencia!":
tribuiyáo justa de renda (o que é designado em geral pelos termos "justiya o Judiciário destinava-se, em princípio, aaplica~áo pura e simples da lei, o que
social" ou "justiya distributiva'') está em contradiyáo formal com a_regra em grande parte explica que o Segundo tratado náo fale do poder Judiciário,
do Estado de direito. Com efeito, urna remunerayáo e urna distribuiyáo ao lado dos poderes Legislativo, Executivo e Federativo. Depois, quando a lei
"justas" somente tém sentido num sistema de "fins comuns" ("teleocracia''), ,nada mais é do que "regra de jogo para um jogo no qual cada um é mestre,
ao passo que na ordern espond_nea do mercado nenhum firn desse tipo pa.F\lc si ·e de sua parte", o Judiciário adquire "urna nova autonornia e· urna
poderia prevalecer, consequenternente, nela, a "distribuiyáo" de renda náo nova importáncia'; 95 . PÜrq~e, nesse-"jogo de catalaxia'', o verdadeiro sujeito
é nem "justa'' nern "injusta" 90 . Em última análise, "todas as tentativas para econ6mico é a empresa. Quanto mais. é estimulada a jogar corno b'em entende
garantir urna distribuiyáo 'justa' devem ser orientadas para a conversáo da no quadro das regras formais, mais ela estabelece livrernente para si rnesma
ordem espontánea do mercado em urna organizayáo o u, em outros termos, seus objetivos, estando entendido que náo existem fins comuns impostas e
em ordem totalitária'' 91 • Assim, o que é condenado por princípio é a ideia a própria empresa constitui urna "organizayáo" (no sentido técnico dado a
de que a justiya distributiva faz parte das atribuiyóes do Estado: "Se ele re- esse termo por Hayek). Assim, quanto mais numerosas as ocasióes de con-
pausa sobre a justiya comutativa, o Estado de direito exclui a busca de urna flito e litígio entre os sujeitos económicos, maior a demanda de arbitragem
justiya distributiva'' 92 . Por outro lado, o fato de o governo se ernpenhar para por parte das instáncias judiciais; em outras palavras, quanto menor a ayáo
assegurar "forado mercado" urna proteyáo contra a miséria extrema de todos administrativa, rnaior o campo de intervenyáo da ayáo judiciária.
aqueles que sáo incapazes de ganhar seu sustento no 'mercado, "na forma Essa autonornizayáo do Judiciário náo é casual: ela forma um sistema
de urna renda mínima garantida ou de um nível de recursos abaixo do qual corn outras diferenyas importantes corn relayáo ao liberalismo clássico.
Em última análise, podemos apontar trés diferenyas principais. A primeira
39
Ibidem, p. 227. consiste em fazer das relayóes econ6micas internas ao jogo do mercado
90 Diferentemente dos libertários, que, lembremos, consideram essa ordem imrinse- o fundamento de "toda a sociedade". A segunda consiste em retirar da
camente justa. Devemos acrescentar que Hayek recusa até a pertinéncia do termo alternativa entre direito natural e criayáo deliberada o arcabouyo jurídico
"distribui~áo" aplicado a urna ordem espontánea, preferindo "dispersáo", que tema
constitutivo dessa ordern: as regras jurídicas se identificam corn as regras
vantagem de náo sugerir urna a~áo deliberada. Ver Friedrich Hayek, Essais de philo-
sophie, de science politique et d'économie, cit., p. 261.
93
91
Idem. Idem, Droit, législation et liberté, cit., p. 105.
92 Friedrich Hayek, La constitution de la liberté, cit., p. 232. Desde Aristóteles, a expressáo ~ 4
Michel Foucault, Naissance de la biopolitique, cit., p. 180; grifo nosso.
95
"justi~a comutativa'' designa a justiqa nas tracas. Idem.
182 ~ A nova razáo do mundo Estado forte, guardiáo do direito privado " 183

do direito privado e penal (em especial as do direito comercial), que sáo de Locke na questáo fundamental da funs:áo do poder político náo deriva
oriundas de um processo inconsciente de sele<:(áO. Essa segunda diferen<:(a · de uns poucos ajustes sem grandes consequéncias. Na re~lidade, o que está
já permite esbo((ar, por vias indiretas, o ideal de urna "sociedade de direito em jogo é um profundo questionamento da democracia !íbera!. Basta pegar
privado", do qual nada autoriza que se diga que e_ra o ideal do liberalismo trés das noyóes-chave que permitem a Locke definir o "governo limitado"
clássico. A terceira mudan((a coroa as duas outras e representa o remate dessa (o "bem comum", o Legislativo como poder supremo, o consentimento da
doutrina: o Estado deve aplicar a si mesmo as regras do direito privado, o maioria do pavo) para se convencer de que se trata de um rompimento. Em
que significa que náo só ele tem de se considerar igual a qualquer pessoa primeiro lugar, como vimos, Locke faz do "bem comum'' ou "bem do pavo",
privada, como também deve se impor, em sua própria atividade legislativa, positivamente definido, o objetivo pelo qual toda a atividade governamental
a
a promulgayáo das leis fiéis lógica desse mesmo direito privado. Estamos deve ordenar-se. Hayek, por sua vez, esvazia a nos:áo de "bem comum'' de
longe, muito longe, de urna simples "reafirmayáo" do liberalismo clássico. qualquer conteúdo positivo assinalável: por náo corresponder a um "fim",
a
o "bem comum" reduz-se "ordem abstrata do conjunto", tal como é pos-
sibilitada pelas "regras de conduta justa'', o que equivale exatamente a fazer
Antes Estado forte que democracia o "bem comum" consistir num simples "meio", já que essa ordem abstrata
Hayek está muito distante, por fini, da "reabilita<:(áO do laissezjaire" vale apenas "como meio facilitador da busca de urna grande diversidade de
intenyóes individuais" 97.
a que o neoliberalismo é frequentemente resumido. De resto, Hayek vé a
Em segundo lugar, como também já vimos, Locke considera o poder
doutrina do laissezfaire como profundamente estranha atese dos "econo-
Legislativo o "poder supremo" do governo, o que deve ser entendido em
mistas clássicos ingleses", a qual reivindica para si:
sentido forre: cabe a ele faZer leis, o que náo pode. resumir-se ratificas:áo a
Na verdade, a tese deles nunca foi orientada contra o Estado nem foi
das variayóes do "costume". Hayek, de sua parte, denuncia a coúfusáo entre
próxima do anarquismo, que é a conclusáo lógica da doutrina racionalista do
laissez-faire; foi uma tese que levou em considerayáo, ao mesmo tempo, as governo e legislas:áo, entre elaborayáo dos decretos e das regulamentayóes
funyóes próprias do Estado e os limites de sua ayáo. 96 particulares, de um lado, e ratificas:áo das leis ou das "regras gerais de con-
dura'', de outro. Isso o leva a atribuir essas duas funyóes a duas assembleias
lsso mostra que, para ele, está fora de cogita((:'iO aceitar a concepyio
libertarista do "Estado mínimo" defendida por Robert Nozick (segundo a
a
diferentes: assembleia governamental, o poder Executivo; assembleia a
legislativa, o poder de determinar as novas regras gerais. Essa última assem-
qual urna agéncia de seguran((a que conseguisse outorgar-se o monopólio da
bleia escapa a qualquer controle democrático: os nomótetas seriam homens
forya ao cabo de um processo de concorréncia faria perfeitamente o ofício
maduros (de 45 anos no mínimo), escolhidos por eleitores da mesma idade
de Estado), sem mencionar as posiyóes muito mais radicais do anarcocapi-
para um período de quinze anos. A fim de evitar a palavra "democracia'',
talismo (David Friedman) a favor da privatizayio de todas as fun-;:óes que o
"conspurcada por um longo abuso", Hayek inventa o termo "demarquia''98 •
liberalismo clássico atribui ao Estado (Exército, polícia, justiya, educa-;:io).
Em terceiro lugar, e aqui chegamos realmente ao fundo do problema,
No entamo, ao contrário da apresenta((:'iü que faz de sua relayáo com
Locke faz do consentimento da maioria do pavo a regra a que estáo sub-
o liberalisrrío clássico, Hayek náo é um simples "continuador" que teria
metidos todos os membros do carpo político. Chega a afirmar que "sempre
apenas revigorado as teses dessa corrente. A énfase que dá aos direitos dos
indivíduos náo autoriza de modo algum que seja visto como um herdeiro de
Locke, do mesmo modo que o construtivismo assumido do ordoliberalismo 97 Idem, Droit, législation et liberté, v. 2, cit., p. 6.
alemáo náo permite vé-lo como um herdeiro de Bentham. O que o separa 98
lbidem, p. 48. Enquanto a "democracia'' pode degenerar em coen;áo praticada pela
maioria sobre a minoria, a "demarquia" somente outorga poder de sujeiyáo avontade
da maioria do maior número de indivíduos se a maioria se compromete a seguir a
96 Friedrich Hayek, La constitution de la liberté, cit., p. 59; grifo nosso. regra geral.
184 @ A nova razio do mnndo Estado forte, guardiio do direito privado "' 18 5

subsiste no pavo um poder supremo de destituir ou mudar o Legislativo, liberdade, em particular as que visam ao combate da "coerc;:áo" praticada pelos
quando se dá conta de que este age em contradü;:áo com a missáo que sindicatos, inspiraram diretimente os programas de Thatcher e Reagan !Dl.
lhe foi dada" 99 • Ao contrário dele, Hayek se recusa a conferir a maioria No entanto, se roma_rq10s _c~mo critério náo mais a influérlcia política direta,
do povo o poder absoluto de abrigar todos os seus membros. O que lhe mas a contribuis:áo para. a instauras:áo da racionalidade neoliberal (no sentido
parece formar o conteúdo do conceito de "soberallia po"pular" é que a regra de Foucault), impóe-se urna reavaliac;:áo. Seguramente devemos a Hayek a
majoritária náo seja limitada nem limitável 100 • Ora, a funyáo desse conceito amplitude inédita dada a temas que-já fazíam parte do fundo original (os
é legitimar urna "democracia ilimitada", sempre suscetivel de degenerar que Rougier e Lippmann estabeleceram, sublinhando a importáncia das
numa "democracia totalitária". O que significa que a democracia náo é uro regras jurídicas e a necessidade de um "Estado forte liberal"). Devemos a
fim em si, mas um meio que somente tem valor como método de seleyáo ele também, e talvez sobretudo, o aprofundamento da ideia avanyada por
dos dirigentes. Assim, Hayek teve o mérito da franqueza quando declarou Bühm de um governo guardiáo do direito privado, até fazé-lo significar ex-
a um jornal chileno durante a ditadura de Pinochet, mais exatamente em plicitamente a exigCncia de urna aplicayáo desse direito ao próprio governo.
1981: "Minha preferéncia pende a favor de urna ditadura liberal, náo a um Por último, na ordem da teoria económica, devemos a ele a elaborac;:áo da
governo democrático em que náo haja nenhum liberalismo" 101 • Essa crítica noc;:áo de "divisáo do conhecimento". Contudo, sobre a questáo decisiva
a a
"soberania popular" e "democracia ilimitada" está ligada a urna preo- da construriio da ordem do mercado, somos abrigados a reconhecer que hoje,
cupayáo fundamental: trata-se, em última análise, de isentar as regras do na prática do neoliberalismo, tende a prevalecer urna atitude construtivista,
direito privado (o da propriedade e da troca comercial) de qualquer espécie ~uito distante do evolucionismo cultural hayekiano.
de controle exercido por urna "vontade coletiva''. Tudo isso é muito lógico,
se recordarmos o que implica o ideal de urna "sociedade de direito privado":
um Estado que adota por prindpio a submissáo de sua ayáo as regras do
direito privado náo pode assumir o risco de urna discussáo pública sobre
o valor dessas normas, a fortiori náo pode aceitar entregar-se vontade do a
povo para decidir essa discussáo.
Como avaliar a contribuiyáo de Hayek para a elaborayáo do neolibera-
lismo? Náo há dúvida de que sua influéncia intelectual e política foi deter-
minante a partir da fundas:áo da Sociedade Mont-Pelerin (1947). Muitas
das pro postas políticas formuladas na terceira parte de Os fundamentos da

99 John Locke, Second traité du gouvernement, cit., p. 108.


10
° Friedrich Hayek, La constítution de la liberté, cit., p. 104.
101
Idem, citado em Stéphane Longuet, Hayek et l'École autrichienne (Paris, Nathan,
1998), p. 175. O texto em ingles da entrevista de abril de 1981, pelo jornal El
J\1ercurío, tal como foi publicado pelo Instituto Hayek, diz exatamente: "As you
will understand, it is possible for a dictator to govern in a liberal way. And it is also
possible for a democracy to govern with a totallack ofliberalism. Personally I prefer 102
Margaret Tharcher declaro u em 5 de janeiro de 1981 aCamara-das Comuns: "Sou
a liberal dictator to demacrarle government lacking liberalism" [Entenda, é possível urna grande admiradora do professor Hayek. Seria bom que os honoráveis membros
para um ditador governar de forma liberal. E também é possível para urna demo- desta casa lessem alguns de seus livros, Ihe Constitution of Lib'erty, os trés volumes
cracia governar sem liberalismo nenhum. Pessoalmente, prefuo um ditador liberal a de Law, Legislation and Liberty" (citado em Gilles Oostaler, Le libéralisme de Hayek,
um governo democrático sem liberalismo - N. T.]. cit.• p. 24).
II
A NOVA RACIONALIDAD E
6
A GR<\NDE VIRADA

Os anos 1980 foram marcados, no Oci4ente, pelo triunfo de urna


política qualificada, ao mesmo tempo, de "conservadora'' e "neoliberal".
Os norhes de Ronald Reagan e Margaret Thatcher simbolizam esse rom-
pirnento corn o "welfarismo" da social-democracia e a implementac;áo de
novas políticas que supostamente poderiam superar a inflayáo galopante, a
q~eda dos lucros ~·a desacelerac;áo do crescimento. Os slogans frequente-
mente simplistas dessa nova direitci. Üddental sáo co~hecidos: as.sociedades
as
sáo sobretaxadas, super-regulamentadas e submetidas múltiplas pressóes
de sindicatos, corporayóes egoístas e funcionários públicos. A política con-
servadora e neoliberal pareceu, sobrerudo, constituir urna resposta política
a crise econ6mica e social do regime "fordista'' de acumulayáo do capital.
Esses governos conservadores questionaram profundamente a regulayáo
keynesiana macroeconümica, a propriedade pública das empresas, o sistema
fiscal progressivo, a proteyáo social, o enquadrarnento do setor privado por
regulamentayóes estritas, especialmente em matéria de direito trabalhista e
representayJ.o dos assalariados. A política de demanda destinada a sustentar o
crescimento e realizar o pleno emprego foi o principal alvo desses governos,
para os quais a inflayáo se tornara o problema prioritário 1 •

Para termos wna visáo sintética dessas políticas, basta considerarmos o manifesto de
1979 do Partido Conservador, como qual Margaret Thatcher se elegeu. O programa
previa controle da inflas:áo, diminui<;áo do poder dos sindicatos, recupera<;áo dos
incentivos ao trabalho e ao enriquecimento, fortalecimento do. Parlamento e da lei,
auxílio afamilia por urna política mais eficaz dos servis:os sociais, refor<;o da Defesa.
Ver Andrew Gamble, 1he Free Economy and the Strong State: 1he Politics of 1hatcherism
(Durham, Duke University Press, 1988).
190 ~ A nova razáo do mundo A grande virada ~ 191

Mas será que basta situar as políticas neoliberais em certa conjuntura his- diminuir o gasto público (inclusive enquadrando seu crescimento em regras
tórica para compreender sua natureza e definir suas relayóes com o esforyo constitucionais), transferir -as empresas públicas para o Setor privado, res-
de refundayáo teórica do liberalismo? Como explicar a continuidade dessas tringir a proteyáo social, privilegiar "soluyóes individuais?' diante dos ris-cos,
políticas durante décadas? Sobretud?, como justificar que algumas des- controlar o crescimeilto da massa monetária para reduzir a inflayáo, possu_ir
sas políticas tenham sido adoradas tanto pela "nova direita'' 2 quanto pela urna moeda forre e estável e desregulamentar os mercados, em particular o do
"esquerda moderna''? trabalho. No fLmdo, se o "compromisso social-democrata'' era sinúnimo de
Na realidade, essas novas formas políticas exigem urna mudanya muito intervencionismo do Estado, o "compromisso neo liberal" era sin6nimo de
maior do que urna simples restaurayáo do "puro" capitalismo de antigamente livre mercado. O que se destaco u menos foi o caráter disciplinar dessa nova
e do liberalismo tradicional. Elas tém como principal característica o fato política, que dá ao governo um papel de guardiáo das regras jurídicas, mo-
de alterar radicalmente o modo de exercício do poder governamental, assim netárias, comportamenrais, atribui-lhe a funyáo oficial de vigia das regras de
como as referéncias doutrinais no contexto de urna mudan ya das regras de concorréncia no contexto de um conluio oficioso com grandes oligopólios
funcionamento do capitalismo. Revelam urna subordinayáo a ceno tipo e, talvez mais ainda, confere-lhe o objetivo de criar situayóes de mercado
de racionalidade política e social articulada a globalizayáo e a financeirizayáo e formar indivíduos adaptados as lógicas de mercado. Em outras palavras,
do capitalismo. Em urna palavra, só há "grande virada'' mediante a implan- a atenyáo exclusiva ·que se deu a ideologia do laissezjaire nos desviou do
tayáo geral de urna nova lógica normativa, capaz de incorporar e reorfentar exame das práticas . e dos dispositivos encorajados pelos governos ou dire-
duradouramente políticas e comportamentos nUma nova direyáo. Andrew tamente implantados por eles. Por consequéncia, a dimensáo estratégica das
Gamble resumiu esse novo rumo na frase: "Economia livre, Estado forte". , po,l~ticas neoliber;üs foi paradoxalmente negligenciada pela crítica "antili-
A expressáo tem o mérito de destacar o fato de que náo estamos lidando ber.ál" padráo, na:· medida ·em que_ essa dimensáo entra de imediato numa
com urna simples retirada de cena do Estado, mas com um reengajamento racionalidade global que permaneceu despercebida.
político do Estado sobre novas bases, novas métodos e novas objetivos. O O que devemos de fato entender por "estratégia''? No sentido mais co-
que exatamente quer dizer essa frase? Naturalmente, podemos enxergar nela mum, o termo designa a "escolha dos meios empregados para chegar a um
o que as correntes conservadoras querem que ela contenha: um papel maior fim"'- É inegável que a virada dos anos 1970-1980 mobilizou todo um leque
da defesa nacional contra os inimigos externos, da polícia contra os inimigos de meios para se alcanyar no melhor prazo cerros objetivos bem determina-
internos e, de modo mais geral, dos controles sobre a populayáo, sem esque- dos (desmantelamento do Estado social, privatizayáo das empresas públicas
cer o desejo de restaurayáo da autoridade estabelecida, das instituiyóes e dos etc.). Portante, estamos muito bem embasados para falar, nesse sentido, de
valores tradicionais, em particular os "familiares". Contudo, há muito mais urna "estratégia neoliberal": entenda-se o conjunto de discursos, práticas,
do que essa linha de defesa da ordem instituída, classicamente conservadora. dispositivos de poder visando a instaurayáo de novas condiyóes políticas, a
É sobre esse ponto preciso que persistem os mal-entendidos. Alguns modificayáo das regras de funcionamento econ6mico e a alterayáo das relayóes
autores preferiram ver apenas um "retorno do mercado" nas políticas eco- sociais de modo a impar esses objetivos. Contudo, por mais legítimo que
n6micas e sociais conduzidas pela nova direita e pela esquerda moderna. seja, esse uso do termo "estratégia'' poderia levar a entender que o objetivo da
Lembram com razáo que esse tipo de política sempre se apoiou na ideia de concorréncia generalizada entre empresas, economias e Estados foi elaborado
que, para os mercados funcionarem bem, é necessário reduzir os impostos, a partir de um projeto longamente amadurecido, como se tivesse sido objeto
de urna escolha táo racional e controlada quanto Os meios pastos a serviyo

2
A expressáo "nova direita'' é a traduc;áo da expressáo inglesa new right, que designa
precisamente as formas:óes políticas, as associas:óes e as mídias que apoiaram o dis- 3 Hubert L. Dreyfus e Paul Rabinow, Michel Foucault: un parcours philosophique (Paris,
curso neoliberal e conservador a partir dos anos 1980. Portanto, náo deve sugerir Gallimard, 1984), p. 318-9 [ed. bras.: Miche!Foucault: uma trajetóriafi.Wsófica, trad.
um parentesco qualquer como movimento que recebeu esse nome na Frans:a. Vera Portocarrero e Gilda Gomes Carneiro, 2. ed. rev., Rio de Janeiro, Forense, 2013].
J 92 " A nova razáo do mundo A grande virada ~ 19 3

dos objetivos inicíais. Daí para pensar a virada em termos de um "compl6" é também mostrar o caráter estratégico (no segundo s~ntido do mesmo
é uro passo - que alguns se apressaram ero dar, em particular na esquerda. termo) do objetivo da concorréncia generalizada que permitiu dar a todos
O que nos parece, ao contrário, é que o objetivo de urna nova regula~áo pela esses meios urna coeréncia global.
concorréncia náo existia antes da luta contra o Estado de bem-estar na qual Neste capítulo, -nos ¡)rÜpomos examinar na ordem os quatro pontos
se engajaram, alternada o u simultaneamente, círculos· imelectuais, grupos seguintes. Ü primeiro diz respeito a_ refafáO de apoio recíproco gra~as aqual
profissionais, for((as sociais e políticas, muitas vezes por motivos bastante as políticas neoliberais e as transforma((óes do capit~ismo ampararam-se
heterogéneos. A virada come~ou por pressáo de cenas condi~óes, sero que mutuamente para produzir o que denominamos "a grande virada''. Contudo,
ninguém sonhasse ainda com um novo modo de regula~áo em escala mun- essa virada náo se deve apenas acrise do capitalismo nem su,rgiu de repente.
dial. Nossa tese é que esse objetivo tenha se constituido ao longo do próprio Ela foi precedida e acompanhada por urna !uta ideológica, que foi sobretodo
confronto, se imposto a for~as muito diferentes em razáo da própria lógica urna crítica sistemática e duradoura de ensaístas e políticos contra o Estado
do confronto e, a partir desse momento, feito o papel de catalisador, ofe- de bem-estar. Essa ofensiva alimento u diretamente a a~áo de cerros governos
recendo uro ponto de encontro a for~as até entáo relativamente dispersas. e contribuiu enormemente para a legitimayáo da nova norma quando esta
Para tentar explicar esse surgimento do objetivo a partir das condi~óes por fim surgiu. Esse é o segundo ponto. No 'entanto, apenas a conversáo
de um confronto já iniciado, devemos recorrer a outro sentido do termo dos espíritos náo teria sido suficiente - foi necessária urna mudan~a de
"estratégia'', um sentido que náo a faz proceder da vontade de um estrategista comportamento. Isso foi obra, em grande parte, de técnicas e dispositivos
nem da inten~áo de um sujeito. Essa ideia de urna "estratégia sem sujeito" de disciplina, isto é, de sistemas de coa~áo, tamo económicos como sociais,
ou "sem estrategista'' foi elaborada por Foucault. Tomando o exemplo do ~uJ-?. .fun~;áo era abrigar os indivíduos a governar a si mesmos sob a pressáo
objetivo estratégico de moraliza~áo da classe operária nos anos 1830, ele da c¿mpeti~áo, segundO os Pfincípios do cálculo maximizador e urna lógica
defende que esse objetivo produziu a burguesia como o agente de sua ins- de valoriza~áo de capital. Esse é o terceiro ponto. Finalmente, a 'progressiva
taura~áo, e náo que a classe burguesa, como sujeito pré-constituído, é que amplia~áo desses sistemas disciplinares, assim como sua codifica~áo insti-
tenha concebido esse objetivo a partir de urna ideologia já elaborada4 • O que tucional, levaram ainstaura~áo de urna racionalidade geral, urna espécie de
se trata de pensar aqui é certa "lógica das práticas": primeiro, há as práticas, novo regime de evidéncias que se impós aos governantes de todas as linhas
frequentemente díspares, que instauram técnicas de poder (entre as quais, como único guadro de inteligibilidade da conduta humana.
em primeiro lugar, as técnicas disciplinares) e sáo a multiplica~áo e a gene-
raliza~áo de todas essas técnicas que impóem pouco a pouco urna dire~áo
global, sem que ninguém seja o instigador desse "impulso na dire((áo de Urna nova regulayáo pela concorréncia6
um objetivo estratégico"\ Náo conseguiríamos expressar melhor a maneira Há duas maneiras de se enganar a respeito do sentido da "grande virada''.
como a concorréncia se constituiu como nova norma mundial a partir de A primeira consiste em fazé-la proceder exclusivamente de transforma~óes
certas rela~óes entre as for~as sociais e certas condi~óes económicas, sem econ6micas internas ao sistema capitalista. Desse modo, a dimensáo de
que tenha sido "escolhida" de forma premeditada por um "Estado-maior" reafáo-adaptat¡áo a urna situa((áo de crise é artificialmente isolada. A segun-
qualquer. Fazer aparecer a dimensáo estratégica das políticas neoliberais é, da consiste em ver a "revolu~áo neoliberal" como a aplicac;:áo deliberada e
portanto, náo apenas revelar em que elas dizem respeito a escolha de cer- concertada de urna teoria econOmica, privilegiando-se na maioria das vezes
ros meios (de acordo com o primeiro sentido do termo "estratégia''), mas

6
O conteúdo desta se((á_o retoma em parte a apresenta<;ao feita por El Mouhoub
1
Michel Foucault, "Le jeu de Michel Foucault", em Dits et écríts JI (Paris, Gallimard, Mouhoud e Dominique Plihon no seminário "Question Marx". Ele foi inteiramen-
2001), p. 306-7. te revisto pelos autores para a presente publicac_;:io, com a ajuda de El Mouhoub
Hubert L. Dreyfus e Paul Rabinow, Michel Foucault, cit., p. 268-9. Mouhoud.
194 @ A nova razáo do mundo A grande virada " 19 S

a de Milton Friedman7 . Nesse caso, é a dimensáo da revanche ideológica dos primeiros teóricos neoliberais, pediam que se reconhecesse que "há
que é supervalorizada. Na realidade, a instaurayáo da norma mundial da. um limite desejável para a á.mpliayáo indefinida da democracia política" 11 .
concorréncia ocorreu pela conexdo de um projeto político a urna dinámica Esse apelo a que se pusessem "limites as reivindié::ayóes" traduzia a
endógena, a um só tempo tecnológica: comercial e produtiva. Pretendemos, própria maneira o -¡¡;ício d-a crise da amiga norma fordista. Esta conciliava
nesta seyáo e na seguinte, evidenciar os principaís tra~os dessa din:lmica, os princípios do taylorismo com as regras de divisáo do valor adicionado
reservando a análise específica da segunda dimensáo as seyóes posteriores, favoráveis a alta regular dos salários reais (por indexayáo pelos preyos e pelos
dedicadas a ideologia e a disciplina. ganhos de produtividade). Além disso, essa articula,áo da produ,áo e do
O programa político de Margaret Thatcher e Ronald Reagan, imitado consumo de massa apoiava-se no caráter relativamente aurocentrado 12 desse
por um grande número de governos e continuado pelas grandes organizayóes modelo de crescimento que garantia certa "solidariedade" macroeconómica
internacionais, como o FMI e o Banco Mundial, apresen ta-se primeiro como entre salário e lucro. As características da demanda (fraca diferenciayáo dos
um conjunto de respostas a urna situayáo que se considera "ingerível". Essa produtos, alta elasticidade da demanda em relayáo ao preyo 13 , progressáo da
dimensáo propriamente reativa é-patente no relatório da Comissáo Trilate- renda) correspondiam asatisfayáo progressiva das necessidades das famílias
raF, intitulado 7he Crisis of Democracy, um documento-chave que m ostra em termos de bens de consumo e equipameflto. Assim, esse crescimento
a consciénda da "ingovernabilidade" d~s democracias compartilhada por sustentado da rend;:t) assegurado pelo aumento dos ganhos de produtivi-
muitos dos dirigentes dos países capitalistas 9• Os especialistas convidados dade, permiria escoar a produyáo de massa em mercados essencialmente
a formular seu diagnóstico em 1975 constataram que os governantes eram -_domésticos. Setores industriais pouco expostos aconcorrtncia internacional
incapazes de governar em razáo do excessivo envolvimento dos governados na dV~ram um papel de motor do crescimento. A organizayáo da atividade
vida política e social. Ao contrário de Tocqueville o u Mili, que lamentavam a produtiva repous~va sobn::-uma divisáo do trabalho bastante aprofundada)
apatia dos mode~nos, os trés relatores da Comissáo Trilateral, Michel Crozier, urna automatizayáo incrementada, porém rígida) um ciclo dé produyáo/
Samuel Huntington e Joji Watanuki, queixavam-se do "excesso de demo- consumo longo, que possibilitava a obtenyáo de economias de escala sobre
cracia" que surgiu nos anos 1960, isto é, em sua opiniáo, do aumento das bases nacionais o u mesmo internacionais, já ligadas a deslocalizayáo maciya
reivindicayóes igualitárias e do desejo de panicipayáo política ativa das dasses de segmentos de montagem em países asiáticos. Entendia-se que, no plano
mais pobres e mais marginalizadas. Para eles, a democracia política sornente político e social, tais condiyóes possibilitavam arranjos que até certo ponto
pode funcionar normalmente com certo grau "de apatia e náo participayáo articulavam a valorizayáo do capital e um aumento dos salários reais (o que
da parte de certos indivíduos e grupos" 10 • Alinhando-se aos temas clássicos foi chamada de "compromisso social-demacrara").
No en tanto, no fim dos anos 1960, o modelo "virtuoso" do crescimento
fordista depara com limites endógenos. fu empresas sofreram urna baixa
7 Esse aspecto é sublinhado muito unilateralmente na última obra de Naomi Klein, sensível em suas taxas de lucro 14 • Essa queda da "lucratividade" explica-se
La stratégie du choc: la montée d'un capitalisme du désastre (trad. Leméac/Actes Sud,
2008) [ed. bras.: A doutrina do choque: ascensáo do capitalismo de desastre, trad. Vania
Cury, Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 2008]. /
11
Como indica sua cana inaugural, a Comissáo Trilateral, fundada em 1973 por David Ibidem, p. 115, citado cm Serge Halimi, Le Grand Bond en arriire (Paris, Fayard,
Rockefeller, reúne duzentos "cidadáos distintos", isto é, membros selecionadíssimos da 2004), p. 249.
12
elite política e econ6micamundial provenientes da "tríade" (Estados Unidos, Europa, O termo permite definir um circuito macroecon6mico centrado na base territorial
Japáo) que se dedicaráo a "desenvolver propostas práticas para uma aqáo conjunta". do Estado-naqáo.
9 Michel Crozier, Samuel Huntington e Joji Watanuki, 1he Crisis ofDemocracy: Report u A elasticidade-prec;o da demanda designa, em linguagem ec0n6mica, a sensibilidade
on the Governability ofDemocracies to the Trilateral Commission (Nova York, Ney¡ York da demanda avariaqáo dos preqos.
University Press, 1975). 14
Ver Gérard Duménil e Dominique Lévy; Crise et sortie de crise, ordre et désordres
10
Ibídem, p. 114. néolibéraux (Paris, PUF, 2000).
196 " A nova razáo do mundo A grande virada <> 197

pela desacelera¡;áo dos ganhos de produtividade, pela rela¡;áo das for¡;as urna remunerayáo real mais elevada e impondo-lhes condiyóes políticas
sociais e da combatividade dos assalariados (o que deu aos "anos 1968" sua e sociais muito desfavoráveis 16 • Essa disciplina rnonetária e oryamentária
característica histórica), pela alta inflayáo amplificada pelas duas crises do torna-se a nova norma das políticas anti-inflacionárias- no conjunto dos
petróleo, em 1973 e 1979. A estagfla<;áo parece assinar o atestado de óbito países da OCDE e nos países do Sul, que dependem do crédito do Banco
da arte keynesiana de "pilotar a conjuntara", que ¡)ressupunha a arbitragem Mundial e do apoio do FMI.
entre inflayáo e recessáo. A coexisténcia desses dais fenómenos- alta taxa de Desse modo, progressivarnente _urna nova orientayáo tomo u carpo em
inflayáo e taxa elevada de desemprego - parecia desabonar as ferramentas dispositivos e mecanismos econürnicos que rnudaram profundamente as
da política econümica, em particular a ayáo benéfica do gasto público sobre "regras do jogo" entre os diferentes capitalismos nadonais, assirn corno
o nível da demanda e o nível de atividade, lago, sobre o nível do emprego. entre as classes sociais em cada um dos espayos nacionais. As mais famosas
A desregulayáo do sistema internacional instaurada após a Segunda das medidas adoradas forarn a grande onda de prívatizaróes de empresas
Guerra Mundial constituirá um fator suplementar de crise. A flutuayáo públicas (na maioria das vezes vendidas a preyo de banana) e o movimento
geral das moedas a partir de 1973 abre caminho para urna maior influén- geral de desregulamenta¡¡áo da economia. A ideia diretriz dessa orientayáo
cia dos mercados sobre as políticas económicas e, num contexto novo, a é que a liberdade que se dá aos atores privados - que. conhecem melhor a
abertura crescente das economias mina -as bases do circuito autocentrado situayáo dos negócios e seus próprios interesses - é sempre mais eficaz do
de "produ¡;áo-renda-demanda''. que a intervenyáo direta ou a regulayáo pública. Se a ordem económica
A nova política monetarista esforya-se precisamente para responder aos ~ceynesiana e fordista repousava sobre a ideia de que a concorréncia -entre
dais problemas prindpais, que sáo a estagflayáo e o poder de pressáo das empresas e entre econornias capitalistas deveria ser enquadrada por regras
organizayóes de assalariados. O que se fez foi interromper a indexayáo dos fixasccomuns no clue diz reSpeiro a-taxas de cámbio, políticas comerciais e
salários pelos preyos e, assim, transferir a sangria causada pelas duas crises do divisáo de renda, a nova norma neo liberal instaurada no fim doS anos 1980
petróleo para o poder de compra dos assalariados em benefído das empre- erige a concorréncia ern regra suprema e universal de governo.
sas. Os dais eixos principais da mudanya de direyáo da política económica Esse sistema de regras definiu o que poderíarnos chamar de sistema dis-
foram a luta contra a inflayáo galopante e a recuperayáo dos lucros no fim ciplinar mundial. Como mostraremos adiame, a elaborayáo desse sistema
dos anos 1970. O aumento brutal das taxas de juros a custa de urna grave representa o desfecho de um processo de experimentayáo de dispositivos
recessáo e de um aumento do desemprego permitiu lanyar rapidamente disciplinares polidos desde os anos 1970 pelos governos atraídos para o
urna série de ofensivas contra o poder sindical, baixar os gastos sociais e dogma do rnonetarismo. Encontrou sua formulayáo mais condensada na-
os impostas e facilitar a desregulamentayáo. No início dos anos 1980, os quilo que John Williarnson chamou de "Consenso de Washington''. Esse
próprios governos de esquerda se converteram a essa política monetarista, consenso se estabeleceu na comunidade financeira internacional corno
como mostra exemplarmente o caso da Franya 15 • wn conjunto de recornendayóes que todos os países deveriarn seguir para
Através de outro "círculo virtuoso", a elevayáo das taxas de juros levaram conseguir ernpréstimos e auxílios 17 •
a crise do endividamento dos países latino-americanos, em partiéular do
México, em 1982, dando ocasiáo para que o FMI impusesse, em traca da
negociayáo das condiyóes de pagamento, planos de ajuste estrutural que 16
Ver Dominique Plihon, Le nouveau capitalisme (Paris, La Découverte, 2003, Coler;:áo
pressupunham reformas profundas. O aumento das taxas de juros para o Rephes).
17
dobro nos Estados Unidos, em 1979, e suas consequéncias internas e externas Entre as dez recomendar;:óes da nova norma mundial, encontramos: disciplina or-
váo devolver aos credores cerro poder sobre os devedores, exigindo, deles r;:amentária e fiscal (respeito ao equilíbrio orr;:amentário e diminuir;:áo dos descontos
obrigatórios e taxas de impostos), liberalizar;:áo comercial, com suprei;sáo das barreiras
alfandegárias e fixar;:áo de taxas de dmbio competitivas, abertura a movimentar;:áo
15 Coma virada da política de austeridade do governo Delors em 1983. de capitais estrangeiros, privatizar;:áo da economía, desregulame'l?-tao;:áo e criao;:áo de
198 ° A nova razáo do mundo A grande virada o 199

As organiza¡;:óes internacionais tiveram um papel bastante ativo na difusáo os rendimentos do capital e os grupos mais favorecidos, disciplinar a máo
dessa norma. O FMI e o Banco Mundial viram o sentido de sua missáo mudar de obra, baixar o custo do trabalho e aumentar a produtividade.
radicalmente nos anos 1980, em consequéncia da adesáo dos governos dos Os Estados tornaram-se elementos-chave dessa concorréncia exacer-
países mais poderosos a nova racionalidade governamental. k economias mais bada, procurando atfaír -uina parte maior dos investimentos estrangeiros
frágeis tiveram, em sua maioria, de obedecer as recoinenda¡;:óes desses organis- pela criacráo de condiyóes fiscais e sociais mais favoráveis a valorizayáo do
mos para conseguir ajuda ou, ao menos, "aprovayáo", a fim de melhorar sua capital. Assim, contribuíram ampla]Tiente para a criacráo de urna ordem que
imagem diante dos credores e dos investidores internacionais. Dani Rodrik, os sub mete a novas restriy6es que, por sua vez, levam a comprimir salários e
economista de Harvard que trabalhou muito como Banco Mundial, náo teve gastos públicos, reduzir "direitos adquiridos" considerados .muito onerosos
dúvidas em dizer que se trato u de urna "hábil estratégia de marketing": "O e enfraquecer os mecanismos de solidariedade que escapam a lógica assis-
ajuste estrutural foi apresentado como urna iniciativa que os paises deveriam tencial privada. Ao mesmo tempo atores e objetos da concorréncia mundial,
tomar para salvar suas economias da crise" 18• Na realidade, como bem m ostro u construtores e colaboradores do capitalismo financeiro, os Estados sáo cada
Joseph Stiglitz, os resultados dos planos de ajuste foram bastante destrutivos vez mais sub metidos alei férrea de urna dinimica da globalizayáo ql,le lhes
na maioria das vezes. k "terapias de choque" sufocaram o crescimento com escapa largamente. Os dirigentes dos governos e dos organismos internacio-
taxas de juro muito elevadas, arruinaram a produyáo local expondo-a sem nais (financeiros e comerciais) podem sustentar, assim, que a globalizayáo
cautela a concorréncia dos países mais desenvolvidos, muitas vezes agravaram a é um Jatum que ao: mesmo tempo trabalha continuamente para a criacráo
desigualdade e aumentaram a pobreza, reforyaram a instabilidade económica e · dessa pretensa "fatalidade".
social e submeteram essas economias "aberras" avolatilidade dos movimentos
de capitais. A intervenyáo do FMI e do Banco Mundial visava a impor o qua-
O crescimento do capitalismo financeiro
dro político do Estado concorrencial, ou seja, do Estado cujas ayóes tendero
a fazer da concorréncia a lei da economia nacional, seja essa concorréncia a Em nível mundial, a difusio da norma neoliberal encontra um veículo
dos produtores estrangeiros, seja a dos produtores nacionais. privilegiado na liberalizayáo financeira e na globalizacráo da tecnologia. U m
De maneira mais geral, as políticas seguidas pelos governos tanto do mercado único de capitais instala-se por intermédio de urna série de reformas
Norte como do Sul consistiram em buscar no aumento de suas parcelas de legislativas, das quais as mais significativas foram a liberayáo total do cámbio,
mercado em nível mundial a soluyáo para seus problemas internos. Essa a privatizayáo do setor bancário, a abertura dos mercados financeiros e, em
corrida a exporta¡;:áo, a conquista de mercados estrangeiros e acaptayáo de nível regional, a criayáo da moeda única europeia. Essa liberayáo política
poupanya criou um contexto de concorréncia exacerbada que levo u a urna das finanyas é fundamentada numa necessidade de financiamento da dívida
"reforma'' permanente dos sistemas institucionais e s6ciais, apresentada a pública, que seria paga recorrendo-se aos investidores internacionais. No
populayáo como urna necessidade vital. fu políticas económicas e sociais in- plano teórico, é justificada pela superioridade da concorréncia entre os
tegraram essa "adaptayáo" aglobalizayáo como dimensáo principal, tentando atores financeiros na administrayáo do crédito, naquilo que diz respeito
aumentar a capacidade de reayáo das empresas, diminuir a pressáo fisCal sobre ao financiamento de empresas, lares e Estados endividados 19 • Foi facilitada
por uma revisáo progressiva da política monetária norte-americana, que
abandonou os cinones estritos do monetarismo doutrinal.
mercados concorrenciais e prote¡;áo aos direitos de propriedade, em particular a As financras mundiais sofreram urna expansáo considerável durante quase
propriedade intelectual dos oligopólios internadonais. duas décadas. O volume das transayóes a partir dos anos· 1980 mostra que
JH Dani Rodrik citado em Naomi Klein, La stratégie du choc, cit., p. 202. Diga-se de
passagem, ternos aqui mna ilustra<;áo muito boa do primeiro sentido do termo "es-
19
tratégia" como escolha dos meios que permitem alcan¡_;.ar um objetivo previamente Ver Dominique Plihon, "LÉtat et les marchés financiers", Les Cahiers Frantais,
determinado. n. 277, 1996.
200 o A nova razáo do mundo A grande virada o 201

a
o mercado financeiro se autonomizou em rela<ráo esfera da produ<ráo e acionistas. O principal efeito que tiveram essas práticas de ~ontrole foi tornar
das tracas comerciais, aumentando a instabilidade já cr6nica da economia o aumento da cotayáo em bólsa o objetivo comum de acionistas e dirigentes.
mundiaF 0• Desde que a "globaliza<ráo" comeyou a ser pm:ada pelas finan <ras, O mercado finance!r? fo! c:onstituído em agente discipli.fzante para todos os
a maioria dos países vi u-se na impossibilidade de tomar medidas que iriam atores da empresa, desde o dirigente até o assalariado de base: todos devem
de encontro aos interesses dos detento res do capital. Por isso, eles náo impe- a
submeter-se ao princípio de accountability, isto é, necessidade de "prestar
diram nem a forma<ráo das bolhas especulativas nem o esto uro del as. Mais cantas" e ser avaliado em funyao dos· resultados obtidos.
ainda, por urna política monetária que se afastou do monetarismo clássico, O fortalecimento do capitalismo financeiro teve outras consequéncias
contribuíram para sua formayáo- como os Estados Unidos a partir de 2000. importantes, sobretudo sociais. A concentra<ráo de renda e patrimOnio
A unificayáo do mercado mundial do dinheiro veio acompanhada de urna acelero u-se coma financeirizayáo da economia. A deflayáo salarial traduziu
homogeneiza<ráo dos critérios contábeis, de urna uniformizayáo das exigén- um poder maior dos detentares dos capitais, o que llies permitiu atrair wn
cias de rentabilidade, de um mimetismo das estratégias dos oligopólios, de acréscimo importante de valor, impondo seus critérios de rendimento finan-
ondas de recompras, fusóes e restruturayóes de atividades. a
edro toda a esfera produtiva e fazendo as foryas de trabalho competirem em
A passagem do capitalismo fordista ao capitalismo financeiro foi marcada escada mundial. Ela levo u muitos assalariados a recorrer ao endividamento,
também por urna sensível modifica<ráo das regras de controle das empresas. que o ativismo monetário do Federal Reserve Bank torno u mais fácil depois
Coma privatizayáo do setor público, o peso cada vez maior dos investid ores do crash de 2000. O empobrecimento relativo e muitas vezes absoluto desses
institucionais e o aumento dos capitais estrangeiros na estrutura da pro- -_assalariados submeteu-os desse modo ao poder das finanyas.
priedade das empresas, urna das principais mudanyas do capitalismo foram ,~m segundo ly_gar, a rel~yáo do sujeito com ele mesmo foi profundamen-
os objetivos perseguidos pelas empresas sob pressáo dos acionistas. De fato, te afetada. Em raiáo dos impostas mais atrativos e do estímulo dos poderes
o poder financeiro dos proprietários da empresa conseguiu dos gestores que públicos, o patrimOnio financeiro e imobiliário de muitas famíÚas de classe
estes exercessem pressáo constante sobre os assalariados com o intuito de média e alta aumento u consideravelmente a partir dos anos 1990. Apesar de
aumentar os dividendos e as cotayóes na bolsa. Segundo essa lógica, a "criayáo longe do sonho thatcheriano de populayóes ocidentais compostas de milhóes
de valor acionário", isto é, a produyáo de valor em proveito dos acionistas de pequenos capitalistas, a lógica do capital financeiro teve efeitos subjetivos
como determinam os mercados de ayóes, torna-se o principal critério de significativos. Cada sujeito foi levado a conceber-se e comportar-se, em todas as
gestáo dos dirigentes. O comportamento das empresas é profundamente dimensóes de sua vida, como um capital que devia valorizar-se: estudos univer-
afetado. Elas desenvolveráo todos os tipos de meios para aumentar essa sitários pagos, constitui<rao de urna poupan<ra individual para a aposentadoria,
"cria<ráo de valor" financeiro: fusóes-aquisiyóes, recentralizayáo no foco compra da casa própria e investimentos de longo prazo em títulos da bolsa sáo
do negócio, terceirizayáo de cenos segmentos da prciduyao, redu<ráo do a
aspectos dessa "capitalizayáo da vida individual" que, medida que ganhava
tamanho da empresa21 • A governan<ra da empresa (corporate governance) está terreno na classe assalariada, erodia um pouco mais as lógicas de solidariedadt?2 •
a
diretamente ligada vontade dos acionistas de assumir o controle da gestáo O advento do capitalismo financeiro, ao contrário do que anunciaram
das empresas. O controle "indicial", determinado unicamente pela Variayao na época alguns analistas, náo nos fez passar do capitalismo organizado do
do índice da bolsa, visa a reduzir a autonomia dos objetivos dos gestores, século XIX para um "capitalismo desorganizado" 23 • É mais adequado dizer
que supostamente tém interesses diferentes, o u até mesmo apasto aos, dos

22
Sobre esse ponto, ver Randy Martin, 1he Fínancialization of Dai/y Life (Filadélfia,
20 Ver Franc_;:ois Chesnais (org.), A finanra mundíalizada: raízes sociais epolíticas, confi- Temple University Press, 2002). Sobre o que chamaremos de "subjetiva~áo financeira'',
gurar;áo, consequincias (trad. Rosa Marques e Paulo Nakatani, Sáo Paulo, Boitempo, ver capítulo 9 deste volume.
2005). 23
Scott Lasch e John Urry, 1he End ofOrganized Capitalism (Cambridge, Polity Press,
2r Dominique Plihon, Le nouveau capitalisme, cit., p. 67 e seg. 1987).
202 ~ A nova razáo do mundo A grande virada ~ 203

que o capitalismo se reorganizo u sobre novas bases, cuja mola é a instaura~áo bom exemplo dessa transforma~io. Os governos francese~ come~aram a pór
da concorréncia generalizada, inclusive na esfera da subjetividade. O que a
fim gestio administrada dó crédito: supressio do limite de crédito, retirada
aprouve chamar de "desregulamemayáo", termo ambíguo que poderia dar a do controle de cámbi_o e privatiza~io das institui~óes bancárias e financeiras.
entender que o capitalismo náo conhece nenhum ?utro modo de regulayáo, Essas medidas permitil;-arn a cria~áo de um grande mercado único de capi-
é na realidade urna nova ordenar;do das atividades económicas, das relayóes tais e encorajaram o desenvolvimento de conglomerados que misturavam
sociais, dos comportamentos e das subjetividades. atividades de banco, seguro e consultoria. Paralelamente, a gestáo da dívida
Nada é mais indicativo disso do que o papel dos Estados e das organizayóes pública, em pleno crescimento no início dos anos 1990, foi profundamente
económicas internacionais no estabelecimento do novo regime de acumulayáo modificada para que se pudesse recorrer aos investido res internadonais, de
predominantemente financeiro. Há, de fato, urna falsa ingenuidade no fato modo que, por esse meio, os Estados conrribuíram arnpla e diretamenre
de se lamentar a forya do capital financeiro em oposiyáo aforya declinante para o crescimento das finan~as globalizadas. Por urna espécie de "efeito
dos Estados. O novo capitalismo está profundamente ligado a constru~áo reflexo" de sua própria a~áo, o Estado foi abrigado a "adaptar-se" pressas as
política de urna finan~a global regida pelo princípio da concorréncia generali- a nova situa~io financeira internacional. Quanto maior foi a transferéncia
zada. Nisso, a "rnercadorizayáo"* (marketization) das finanyas é filha da razáo de renda para os usurários, por meio de impósto, mais se teve de diminuir
neoliberal. Portante, convérn náo tomar o efeito pela causa, identificando o número de funcicinários e baixar os salários e mais foi preciso transferir
sumariamente neoliberalismo com capitalismo financeiro. para o setor privado-segmentos inteiros do setor público. & privatiza~óes, da
É claro que nem tudo vern pela máo do Estado. Se, a princípio, um dos .mesma forma que o estímulo a poupan~a individual, acabaram por conferir
objetivos da liberalizayáo dos mercados financeiros consistia em facilitar as um. poder consid~rável a bancos e seguradoras.
necessidades crescentes de financiamento dos déficits públicos, a expansáo O aumento d'o tama~ho dos· mercados, a abertura dos mercados e a
das finanyas globais é resultado também de múltiplas inova~óes ern procintos cria~áo do mercado de produtos derivados foram sistematicamtnte enCora-
financeiros, práticas e tecnologias que náo haviam sido previstas inicialmente. jados pelos poderes públicos para enfrentar a concorréncia de outras pra~as
Em todo caso, foi o Estado que nos anos 1980, por suas reformas de financeiras (em particular as mais poderosas: Londres e Nova York). Nos
liberalizayáo e privatiza~áo, constituiu uma finanya de mercado, em vez Estados Unidos, nos anos 1990, assistiu-se ao fim da compartimentaliza-
de urna gestáo mais administrada dos financiamentos bancários das empresas ~io do setor bancário coma supressáo do Glass-Steagall Act de 1933 e o
e das famílias. Lembremos que, dos anos 1930 aos 1970, o sistema financeiro surgimento paralelo de grandes conglomerados multifuncionais (one-stop
era enquadrado por regras que visavarn a protegé-lo dos efeitos da concorréncia. shopping). A securitizayáo de créditos, iniciada nos Estados Unidos nos
A partir dos anos 1980, ele continua a ser submetido a regras, mas estas anos 1970, favoreceu um quadro legal na maioria dos países (na Fran~a em
mudam radicalmente, já que visam a regulamentar a co~corréncia geral entre 1988)2 5• Enfim, em outro campo, coube ainda ao Estado criar o elo entre
todos os atores financeiros em escala internacional24 • A Franya oferece um o poder do capital financeiro e a gestáo empresarial: ele deu um quadro
legal as normas da governan~a empresarial que consagrava os direitos dos
26

acionistas e instaurava um sistema de remunerayáo dos dirigentes baseado


* No original, "mise en marché". Náo se trata apenas de transformar algo em mercadoria,
no aumento do valor das ayóes (stock-options)2 7 .
mas de inscrever a lógica concorrencial do mercado nos comportamentos ou nas
relac;óes e nos processos que náo foram e náo necessariamente seráo transformados
em mercadorias. (N. E.) 25
Ibidem, p. 18-9.
2
~ Como escrevem Dominique Plihon, Jézabel Couppey-Soubeyran e Dhafer Saldine,
26
"consequentemente, o objetivo da regulamentac;áo náo foi afastar a atividade bancária Como na Franc;a a "lei sobre as novas regulac;óes econ6micas", de maio de 200 l.
27
da concorréncia, mas criar condic;óes legais e leais de atividade (leve! playingfield)". Ver Lembramos que essas medidas favoráveis ao capitalismo financeiro foram consenso
Les banques, acteurs de la globalisation jinanciere (Paris, La Documentation Franc;aise, entre as elites políticas e econ6micas. Na Franc;a, coube a um governo de esquerda
2006), p. 113. implantá-las.
204 ~ A nova razáo do mundo A grande virada ~ 205

Obviamente, o FMI e o Banco Mundial prosseguiram essa construs:áo de bilhóes de dólares. Ao contrário do que afirmaram certos analistas,
política das finanyas de mercado pelos governos. As políticas públicas evidentemente náo é de "Socialismo" que se trata, tampouco de urna -nova
ajudaram ativa e fortemente os "investidores institucionais" a instaurar a "Revoluyáo de Outubro", mas de urna extensáo forrada eforrosa do papel ativo
norma do máximo valor acionário, captar fluxos de renda cada vez maiores, do Estado neoliberá!. Construtor, vetor e parceiro do capitalismo financeito,
a
alimentar urna especulas:áo desenfreada grayas extrayáÜ de renda financeira. a
o Estado neoliberal deu um passo frente, tornando-se efetivamente, grayas
A concentras:áo das instituiyóes financeiras, agora situadas no centro dos a crise, a instituiyáo financeira de úl-tima instJ.ncia. Isso é táo verdadeiro que
novos dispositivos económicos, permitiu atrair de modo sólido a poupanya esse "salvamento" conseguiu transformá-lo provisoriamente nwna espécie
das famílias e das empresas, o que lhes deu ao mesmo tempo mais poder de Estado corretor, que compra tirulos na baixa para tentar revende-los na
sobre todas as esferas econOmicas e sociais. Porranto, aquilo que se deno- alta. A ideia de que após a "retirada do Estado" assistiríamos a um "retorno
mina "liberalizayáo" das finanyas - que é mais propriamente a construyáo do Estado" deve ser seriamente rediscutida.
de mercados financeiros internacionais - engendrou urna "criatura'' com
urna forya ao mesmo tempo difusa, global e incontrolável.
Paradoxalmente, esse papel ativo dos Estados favoreceu a derrapagem Ideologia (!): o "capitalismo livre"
das instituis:óes de crédito em meados- dos anos 2000. Foi precisamente a O fato de essa ilusáo ser táo corriqueira deve-se em grande parte a urna
concord:ncia exacerbada entre instituiyóes de crédito "multifuncionais" estrarégia eficaz de conversáo de mentalidades que, a partir dos anos 1960
que as levou a assumir riscos cada vez maiores a fim de manter a própria e 1970, tomou a dupla forma de urna luta ideológica contra o Estado e as
rentabilidade28 • Mas elas so mente poderiam assumir esses riscos se o Estado polítiCas públicas, de urn lado, e de urna apologia despudorada do capita-
continuasse a ser o fiador supremo do sistema. O salvamento das caixas lismo mais desbfidado, de outru. Criou-se toda uina vulgata ~obre o tema
económicas nos anos 1990 nos Estados Unidos mostrou que o Estado náo da necessária "desobrigayáo do Estado" e a incomparável "eficiéncia dos
poderia permanecer indiferente ao desmoronamento dos grandes bancos, mercados". Poi assim que, na virada dos anos 1980, o mito do mercado
segundo o princípio do "too big to foil" ["grande dernais para quebrar"]. Na autorregulador pareceu estar de volta, a despeito das políticas neoliberais
realidade, há rnuito ternpo o governo neoliberal faz o papel de credor de que visavam a urna construrdo mais ativa dos mercados.
última instáncia, corno m ostra a prática de compra de créditos de bancos e Essa conquista política e ideológica foi objeto de numerosos trabalhos.
securitizayáo nos Estados Unidos29 • De modo que náo é de admirar que os Alguns autores desenvolveram urna estratégia muito consciente de !uta
governos tenham aumentado as intervenyóes de "salvamento" de instituiyóes ideológica. Hayek, Von Mises, Stigler e Friedrnan de fato rejletiram sobre a
bancárias e seguradoras desde o desencadeamento da crise em 2007: essas importáncia da propaganda e da educayáo, um tema que ocupa parte notável
interven<;:óes apenas ilustram em grande escala o princípio da "nadonalizayáo de suas obras e intervenyóes. Tentaram até mesmo dar urna forma popular
dos riscos e da privatizayáo dos lucros". O governo brid.nico de Gordon a suas teses para que tocassem, se náo a opiniáo pública diretamente, ao
Brown nacionalizo u quase 50% de seu sistema bancário e o governo norte menos os formadores de opiniáo, e isso desde muito cedo, como mostra o
-americano recapitalizou os bancos de Wall Street a um custo de" centenas sucesso mundial de O caminho da servic&io, de Hayek. O que explica tambérn
a constituiyáo dos think tanks (o mais famoso, a Sociedade Mont-Pelerin,
fundada ern 1947 em Vevey, na Suí1:a, por Hayek e Ropke, náo foi mais do
28 Sobre os mecanismos da crise financeira, ver Paul Jorion, Vers la crise du capitalisme que a "ponta de rede" de um vasto conjunto de associa<;:óes e círculos mili-
américain (Paris, La Découverte, 2007), e Frédéric Lardan, ]usqu'a quand? Pour en
tantes em todos os países). A historiografia descreve como os think tanks dos
finir avec les crises financifres (Paris, Raisons d'Agir, 2008).
29
"evangelistas do mercado" permitiram lanyar o assalto a~s grandes partidos
Nos Estados Unidos, os créditos hipotecários foram macic;:amente garantidos pelas
duas ag~ncias públicas encarregadas dos empréstimos residenciais, Fannie Mae e de direita, apoiando-se numa imprensa dependen te dos meios empresariais,
Freddie Mac. e como, pouco a pouco, as "ideias modernas" do mercado~ da globalizayáo
206 e A nova razio do mundo A grande virada o 207

fizeram refluir e definhar os sistemas ideológicos contrários, a come':(ar pela Náo podemos esquecer, todavia, que náo foi apenas· a fon;a das ideias
social-democracia. neoliberais que garantiu slla hegernonia. Elas se impll:seram a partir do
Evidentemente, do ponto de vista histórico, esse aspecto das coisas é funda- enfraquecimento d_~~ doutrinas de esquerda e do desabamento de qualquer
mental. Foi precisamente pela fixa((áo e;_ pela repetü;:áo dos mesmos argumentos alternativa ao capitalismo. Elas se afirmararn sobretudo num contexto de
que certa vulgata acabo u impondo-se por toda a parte, em particular nas mídias, crise dos antigos modos de regulayáo da economia capitalista, no momento
na universidade e no mundo político. Nos Estados Unidos, Milton Friedman, ern que a economia mundial era afetada pelas crises do petróleo. Isso explica
em conjunto com seus trabalhos académicos, teve um papel importante na por que, diferentemente dos anos 1930, a crise do capitalismo fordista
reabilita((áO do capitalismo com urna prodw;:áo excepcional de artigos, livros resultou numa saída favorável náo a menos capitalismo, mas, sirn, a mais
e programas de televisáo. Ele foi o único economista de sua época a aparecer capitalismo. O principal terna dessa guerra ideológica foi a crítica do Estado
na capa da Time Magazine (1969). Perfeitamente consciente da imporclncia a
corno fonte de todos os desperdícios e freio prosperidade.
dessa propaga((áo das ideias pró-capitalistas, dizia que, na maioria das vezes, a O sucesso ideológico do neoliberalismo foi possível, em primeiro lugar,
legisla((áo apenas acompanha um movimento da opiniáo pública que aconteceu gra¡_;as ao novo crédito que se deu a críticas antiquíssimas contra o Estado.
vinte o u trinta anos atrás30 : a virada da opiniáo pública contra o laissezfairedos Desde o século XIX, o.Estado inspiro u as mais virulentas diatribes. Frédéric
anos 1880 só se traduziu em políticas no início do século XX:.. Para Friedman, Bastiat, precedendo ·SPencer nesse quesito, sobressaiu-se em suas Harmonies
urna nova mudanya a favor do capitalismo concorrencial ocorrera por volta économiques. Os ser:Vi¡_;os públicos, dizia ele, alimentam a irresponsabilidade,
dos anos 1960 e 1970, após o fracasso das políticas de regulas:áo keynesiana, _a incompeténcia, a injustiya, a espolia¡_;áo e o imobilismo: "Tudo que caiu
de luta contra a pobreza e de redistribuiyáo de renda, e em consequéncia da rto,qomínio do fupcioq_aliS!lJO é quase estacionádo", por falta do incentivo
rejeiyáo cada vez maior ao modelo soviético. Para ele, a revolta dos contribuintes indispensável da C:oncorrencia32 . Náo nos surpreende, portantor que sejam
californianos em 1978, que se estendeu progressivamente a todos os Estados requentados ternas parcamente renovados por um novo vocabulário: o
Unidos e a um grande número de países ocidentais, testemunhou essa nova Estado é muito caro, desregula a frágil máquina da economia, "desestimula"
a
aspira<;áo da populas:áo redus:áo dos gastos públicos e dos impostas. Fried- a produ¡_;áo. Nos últimos trinta anos, o "custo do Estado" e o peso excessivo
man, consciente desses ciclos e dos efeitos retardados da opiniáo pública sobre dos impostas foram constantemente alegados para legitimar urna primeira
a política e a legislayáo, acerta quando anuncia em 1981 que aquela era urna virada no plano fiscal. Outras críticas se junraram a essa, ampliando a ideia
grande virada que se traduziria em medidas governamentais. do desperdício burocrático: o caráter inRacionário dos gastos do Estado, o
No momento certo, todos os países tiveram seus best-sellers elogiando tamanho insuportável da dívida acumulada, o efeito dissuasivo de impostas
a revol uyáo conservadora norte-americana e o retorno do mercado, e muito pesados e a fuga de empresas e capitalistas do espayo nacional, que
denunciando com veeméncia os custosos abusos da funyáo pública e do se tornou "náo competitivo" por causa do peso dos encargos sobre os ren-
"Estado de bem-estar''. Essa imensa onda de novas evidéncias fabricou um dimentos do capital. Friedman sonhava com urna sociedade pouco taxada:
consentimento, se náo da populayáo, ao menos das "elites" que tinham o Minha dcfini~áo seria a seguinte: é "liberal" uma sociedade ero que os
monopólio da palavra pública, e permitiu que aqueles que ainda Óusavam gastos públicos, todas as coletividades juntas, nio ultrapassam lOo/o a 15%
31 do produto nacional. Estamos muito longe disso. Exisrem, evidentemente,
opor-se fossem estigmatizados como "arcaicos" •
outros critérios, como o grau de prote~io da propriedade privada, a presen~a
de mercados livres, o respeiro aos contratos etc. Mas tudo isso é medido
pelo peso global do Estado. Dez por cento era a porcentagem na Inglaterra
30 Ver a conferencia de Milton Friedman, The Invisible Hand in Economics and Politics
(Singapura, Institute of Southeast Asian Studies, 1981) .
.'ll Por exemplo, nos Estados Unidos, George Gilder, Wealth and Poverty (Nova Yor!c,
Bantam Books, 1981), ou, na Fran~a, Henri Lepage, Demain le capitalisme (Parts,
32
Frédéric Bastiat, CEuvres économiques (apres. Florin Aftalion, Paris, PUF, 1983,
Hachette, 1978, Cole~io Pluriel). Coles:io Libre Échange), p. 207.
208 .. A nova razáo do mundo A grande virada .. 209

no apogeu do reinado da rainha Vitória, no fim do século XIX. Na era e "novas economistas" participaram simultaneamente da, rnesma denúncia
dourada das colónias, Hong Kong chegou a menos de 15%. Todos os dados do grande Leviatá. Mais aillda, houve urna reviravolta na crítica social: até
empíricos e históricos mostram que 10% a 15% é o tamanho ótimo. Hoje,
os anos 1970, dese~prego, desigualdades sociais, inflac;:áÜ e alienayao eram
os governos europeus chegam em média a quatro vezes mais. Nos Estados
"patologias sociais" atribuídas ao capitalismo; a partir dos anos 1980, os
Unidos, chegamos apenas a tres ve:tes. 33
mesmos males foram sistematicamente atribuídos ao Estado. O capitalismo
Essa argumentas:áo recupera de certo modo o velho tema do "governo deixou de ser o problema e se tornou a solus:ao universal. Essa era a men-
frugal", que deve evitar retirar riquezas excessivas para náo prejudicar a sagem das obras de Friedman a partir dos anos 196034 •
atividade dos agentes econ6micos, privando-os de recursos e arrasando Foi em norne dos "fracassos do mercado" (market failures) que a in-
suas motivac;:óes. Von Mises e Hayek a reforc;:aram nos anos 1930 com tervenyao pública foi justificada nos anos 1920 e estendida após a guerra.
suas análises a respeito da ineficácia burocrática, que, para eles, devia-se Essa inversáo da crítica foi perfeitamente resumida por Friedman ern Livre
a
essencialmente impossibilidade de cálculo nas economias dirigidas e a para escolher:
ausencia de qualquer arbitragem possível entre soluc;:óes alternativas. Os
O governo é um dos meios pelos quais podemos tentar compensar os "defei-
argumentos elaborados por esses autores contra a "burocracia'' e o "Estado
tos do mercado" e utilizar nossos recursos de forma mais eficaz para produzir
o ni potente", que no momento em q11e foram formulados iam contra a a quantidade de ar; água e terra própria que aceitamos pagar. Infelizmente, os
corrente, fizeram um enorme sucesso na imprensa cinquenta anos depois, próprios fatores que produzem o "defeito de mercado" impedem o governo de
e, muito além da direita, o desmoronamento da Uniáo Soviética parecia ser chegar a urna solw;áo satisfatória. Via de regra, é táo difícil para o governo
co~o é para os participantes do mercado identificar quem foi prejudicado e
a demonstrac;:áo em ato do fracasso das economias centralizadas. Finalmen-
':quem foi benefiCiado e avaliar o volume exato dos prejuízos e dos benefícios.
te, o amálgama entre a burocracia de tipo stalinista e as diferentes formas
Tentar usar o gÜverno para corrigir um "defeito de mercado" é, muitas vezes,
de intervenc;:áo na economia - que Hayek e Von Mises náo hesitaram em trocar um "defeito de mercado" por um "defeito de governo". 35 '
fazer- tornou-se comum na nova vulgata. Os fracassos da regulac;:áo key-
nesiana, as dificuldades encontradas pela escolarizas:áo em massa, o peso Ronald Reagan transformo u isso em slogan: "O governo nao é i soluyao,
é o problerna'' 36 .
dos impostos, os diferentes déficits das caixas públicas de auxílio social, a
incapacidade relativa do Estado social de eliminar a pobreza ou reduzir as
desigualdades, tudo foi pretexto para reconsiderar as formas institucionais
Ideología (2): o "Estado de bem-estar"
que, após a Segunda Guerra Mnndial, asseguraram um compromisso entre
e a desmoraliza<;áo dos indivíduos
as grandes foryas sociais. Mais ainda, todas as reformas sociais desde o fim
do século XIX foram postas em dúvida, em no me da liberdade absoluta dos Urn grande número de teses, relatórios, ensaios e artigos tentará avaliar
contratos e da defesa incondicional da propriedade privada. Reprovando a a balanya de custos e benefícios do Estado para terminar com um veredito
tese polanyiana da "grande transformac;:áo", os anos 1980 caracterizam-se inapelável: o seguro-desernprego e a renda mínima sao os responsáveis pelo
no campo ideológico como urna época "spenceriana''.
Tuda isso foi misturado, com um conteúdo um pouco diferente, é claro, 34
Ver Milton Friedman, Capítalisme et libertés [1962] (Paris, Robert Laffont, 1971) [ed.
mas ainda de acorde com o método empregado por Hayek em O caminho bras.: Capitalismo e líberdade, trad. Manso C. C. Serra, Rio de Janeiro, LTC, 2014].
da servidáo. No fundo, o gulag e os impostos eram apenas dois elementos de 35
Milton Friedman e Rose Friedman, La liberté du choix (trad. Paris, Belfond, 1980),
um mesrno continuum totalitário. Na Frans:a, por exemplo, "novos filósofos" p. 204 [ed. bras.: Lívrepara escolher, trad. Ligia Filgueiras, Rio de Janeiro, Record, 20 15].
36
Outros argumentos vieram apoiar esse questionamento da irl.terven~áo pública. A
escala económica norte-americana conhecida como Public Choice desenvolveu um
33 Entrevista com Henri Lepage, "Milton Friedman: le triomphe du libéralisme", ponto de vista mais elaborado, aplicando as atividades públicas a lógica do cálculo
Politique Internatíonale, n. 100, 2003. económico individuaL Examinaremos essa doutrina no capítulo 9.
210 " A nova razáo do mundo A grande virada $ 211

desemprego; os gastos com saúde agravarn o déficit e provocam a inflayáo Urna das constantes do discurso neo liberal é a crítica da "dependéncia a
dos custos; a gratuidade dos estudos incentiva a vadiagem e o nomadis- assisténcia'' gerada pela cobertura generosa dos riscos concedida pelos siste-
mo dos estudantes; as políticas de redistribuiyáo de renda náo reduzem as desi- mas de assisténcia social. Os reformadores neoliberais náo 'só se servirarn do
gualdades, mas desestimulam o esforyo; as políticas urbanas náo eliminaram a argumento da eficádJ.-e."dO Custo, corno tarnbém alegaram a superloridade
segregayáo, mas tornararn mais pesada a taxayáo local: Em resumo, tratava-se de moral das soluyóes dadas o u inspiradas pelo mercado.
fazer a respeito de tudo a pergunra decisiva acerca da utilidade da interferéncia Essa crítica repousa sobre um postulado que diz respeito a relayáo do
do Estado na ordem do mercado e mostrar que, na maior parte dos casos, as indivíduo com o risco. O "Estado de bem-estar", querendo promover o
"soluyóes" dadas pelo Estado causavam mais problema do que resolviarn37 . bem-estar da populayáo por meio de mecanismos de solidadedade, eximiu
Mas a questáo do custo do Estado social está longe de se drcunscrever os indivíduos de suas responsabilidades e dissuadiu-os de procurar trabalho,
a dimensáo contábil. Na realidade, é no campo moral que a ayáo pública estudar, cuidar de seus filhos, prevenir-se contra doenyas causadas por práti-
pode ter os efeitos mais negativos, dependendo do número de polemistas. cas nocivas. A soluyáo, portanto, é pór em ayáo, ern todos os domínios e ern
Mais precisamente, é pela desrnoralizayáo que se é capaz de provocar na todos os níveis, sobretudo no nível microeconómico do comportamento dos
populayáo a opiniáo de que a política do "Estado de bem-estar" se tornou indivíduos, os mecanismos do cálculo económico individual. O que deveria
particularmente onerosa. O grande terna neoliberal afirma que o Estado ter dois efeitos: a rnoralizayáo dos comportamentos e uma maior eficiéncia
burocrático destrói as virtudes da sociedade civil: a honestidade, o sentido dos sistemas sociais.· Foi assim que, nos anos 1970, nos Estados Unidos, o
do trabalho bem feito, o esforyo pessoal, a civilidade, o patriotismo. Náo auxilio as familias com filhos dependen tes (Aid ro Families with Dependent
é o mercado que destrói a sociedade civil com sua "sede de lucro", porque Children) tornou-se o símbolo dos efeitos nefastos do welfare State, por
ele náo poderia funcionar sem essas virtudes da sociedade civil; é o Esta- enco,rajar a dissolu'yáo dos Llyos familiares, multiplicar as farnílias assistidas
do que corrói as molas da moralidade individual. Corno mostrou Albert e desestimular as we!fare mothers de trabalhar. O que será confirmado, no
O. Hirschman, o argumento náo era novo: tratava-se de um dos trés esquemas registro académico, pela demonstrayáo de Gary Becker em A Treatise on
fundamentais da "retórica reacionária", o que ele chama de "efeito perverso". Family, baseada no cálculo dos custos e das vantagens para as jovens máes
Buscar o bem da maioria por meio de políticas de proteyáo e redistribuiyáo em permanecer solreiras40 . O "Estado de bern-estar" terno efeito perverso de
resulta infalivelmente em fazer sua desgra¡;:a38 • Essa foi a tese amplamente incitar os agentes económicos a preferir o ócio ao trabalho. Essa argumenta-
difundida por Charles Murray em Losing Ground [Perdendo terreno], obra yáo, repetida até fartar, associa a seguranya dada aos indivíduos perda do a
lanyada em plena era Reagan39 • A luta generosa contra a pobreza fracassou senso de responsabilidade, ao abandono dos deveres familiares, perda a
porque dissuadiu os pobres de rentar progredir, o contrário do que fizeram do gosto pelo esforyo e do amor ao trabalho. Em urna palavra, a proteyáo
várias gerayóes de imigrantes. Manteros indivíduos em c3tegorias desvaloriza- social destrói valores sem os quais o capitalismo náo poderia funcionar 41 •
das, fazé-los perder dignidade e autoestima, homogeneizar a classe pobre sáo O ensaísta norte-americano George Gilder, no best-seller Wealth and
alguns dos efeitos náo desejados do auxílio social. Para Murray, existe apenas Poverty, publicado no momento em que Reagan chegava ao poder, foi sern
uma soluyáo: a supressáo do we/fare State e a recuperayáo da solid~riedade dúvida quem insistiu com mais eloquéncia na relayáo entre valores e capi-
entre parentes e vizinhos, que obriga o indivíduo a assumir suas responsabi- talismo42. Para ele, o futuro repousa sobre a fé no capitalismo, tal como é
lidades, a recuperar certo status, cerro orgulho, para manter a honra. expressa por Walter Lippmann em Ihe Good Society:

37
Ver um dos primeiros dossits acusatórios produzidos na Fran~a: Henri Lepage, 40
Gary S. Becker, A Treatise on Family (Cambridge, Harvard U~iVersity Press, 1981).
"LÉtat-providence démystifié", em Demain le capitalísme, cit., cap. 6. 41
U m exemplo dessa argumenta~áo encontra-se em Philippe Bénéton, Le jléau du bien:
3
~ Albert O. Hirschman, Deux siecles de rhétorique réactionnaire (Paris, Fayard, 1995). essai sur les politiques sociales occidentales (Paris, Robert Laffont, 1983), p. 287.
42
39
Charles Murray, LosingGround:American SocialPolicy (Nova York, Basic Books, 1984). George Gilder, Richesse et pauvretés (Paris, Albin .Miehel, 1981).
212 • A nova razáo do mundo A grande virada @ 213

A fé no homem, no futuro, a fé no retorno cada vez maior do dom, a fé representayáo e considerar o indivíduo plenamente responsável. Respon-
nas vantagens mútuas do comércio, a fé na providéncia de Deus sáo fun- sabilizar o indivíduo é responsabilizar a família48 • Esse será, entre outros,
damentais para o éxito do capitalismo. Todas sáo necessárias para encorajar
o objetivo da livte escolha da escola pelos pais e da liberdade que terao de
a paixáo no trabalho e o espírito de empresa contra todos os fracassos e as
financiar em parte a escolaridade dos filhos. Se o enriquedmento deve ser
frustrayóes inevitáveis de um mundo perdido; par:a inspirar a confianya e a
solidariedade numa economia em que elas muitas vezes seráo traídas; para um valor supremo, é porque é visto como a razáo mais eficaz para incentivar
encorajar a renúncia aos prazeres imediatos em nome de um futuro que os trabalhadores a aumentar o esforyo e o desempenho, da mesma forma que
corre o risco de virar fumaya; e, finalmente, para estimular o gasto pelo a propriedade privada da residencia dos trabalhadores o u da empresa é vista
risco e pela iniciativa num mundo em que os lucros evaporam quando os como condiyáo para a responsabilidade individual. Por isso, deve-se vender
. 43
outros se recusam a entrar no Jogo.
os conjuntos habitacionais para favorecer urna "democracia de proprietários"
Se a riqueza repousa sobre essas virtudes, a pobreza é encorajada por e um "capitalismo popular". Da mesma forma, deve-se sub meter a direyáo
a
políticas duplamente dissuasivas em relayáo ao trabalho e fortuna: ''A ajuda das empresas aos acionistas por intermédio da privatizayáo, porque eles seráo
social e outras subvenyóes apenas prejudicam o trabalho. Os pobres escolhem exigentes coma gestáo de seu patrimOnio. De modo mais geral, é preciso pór
o ócio náo por fraqueza moral , mas porque sao• pagos para esco lh'e-l o"44 . E o cliente na posiyáo de árbitro entre vários operadores para que pressione a
tirar dos ricos para dar aos pobres por meio dos impostas é dissuadir os ricos empresa e seus agentes a servi-lo melhor. A concorrencia introduzida pelos
de enriquecer: "O imposto progressivo é o principal perigo que ameaya esse consLUUidores é a principal alavanca para a "responsabilizac;:áo", portante,
45
sistema e desencoraja os ricos a arriscar seu dinheiro" • _para o bom desempenho dos assalariados nas empresas.
O remédio que se deve dar a essa situayáo é evidente: diminuir as transfe- ..u a
m novo dis~mso de yalorizayáo do "risco"' inerente vida individual
rencias de uns para os outros. A única guerra contra a pobreza que se sustenta e coletiva tenderá a fazer pensar- que os dispositivos do Estado social sáo
é a volta aos valores tradicionais: "Trabalho, família e fé sáo os únicos remédios profundamente nocivos a criatividade, a inovayáo, a realizayá¿ pessoal. Se
para a pobreza''46 . Esses tres rneios estáo ligados, já que é a família que trans- o indivíduo é o único responsável por seu destino, a sociedade náo lhe deve
mite o sentido do esforyo e a fé. Casamento monogimico, crenya em Deus nada; em compensac;:áo, ele deve mostrar constantemente seu valor para
e espírito de empresa sáo os tres pilares da prosperidade, urna vez que nos merecer as condiyóes de sua existencia. A vida é urna perpétua gestáo de
livramos da ajuda social, que apenas destrói a família, a coragem e o trabalho. riscos que exige rigorosa abstenyáo de práticas perigosas, autocontrole per-
Mil ton Fríedman e sua esposa, Rose, váo no mesmo sentido, conside- manente e regulayáo dos próprios comportamentos, misturando ascetismo
rando que "a expansáo do Estado ao longo das últimas décadas e o cresci- e flexibilidade. A palavra-chave da sociedade de risco é "autortegula~áo".
mento da criminalidade no mesmo período constituem duas faces de urna Essa "sociedade de risco" tornou-se urna daquelas evidencias que acompa-
mesma evoluyáo" 47 . Isso acontece porque a lnterven¡;:áo do Estado repousa nham as mais variadas pro postas de protec;:áo e seguro privados. U m imenso
sobre urna concepc;:áo do indivíduo como "produto de seu meio, logo, náo mercado de seguranya pessoal, que vai do alarme doméstico aos planos de
podendo ser considerado responsável por seus atos". É preciso inv~rter essa aposentadoria, desenvolveu-se proporcionalmente ao enfraquecimento dos
dispositivos de seguros coletivos obrigatórios, reforyando por um efeito de
circuito-fechado o sentimento de risco e a necessidade de se proteger indi-
4J Ibidem, p. 85-6.
vidualmente. Por urna espécle de ampliayáo dessa problemática do risco,
44 Ibidem, p. 81.
algLUUas atividades foram reinterpretadas como meios de proteyáo pessoal.
45 lbidem, p. 72. É o caso, por exemplo, da educayáo e da formayáo pro_fissional, vistas como
46 lbidem, p. 81; grifo de Gilder. escudos que protegem do desemprego e aumentam a "empregabilidade".
~7 Mil ton Friedman e Rose Friedman, La tyrannie du statu quo (trad. Patrice Hoffmann,
Paris, Lattes, 1984), p. 211 [ed. bras.: Tirania do status quo, trad. Ruy Jungmann,
48
Rio de Janeiro, Record, 1984]. Ibidem, p. 214-5.
214 6 A nova razáo do mundo A grande virada 4
215

Para compreender essa nova moral, devemos ter em mente a "revolu- Becker formula urna nova teoria da família, considerando-a urna firma que
t;:áo" que os economistas norte-americanos pretenderam fazer a partir dos emprega certa quantidade de recursos em moeda e tempo para produzir
anos 1960. A razáo econ6mica aplicada a todas as esferas da at;:áo privada e "bens" de diferentes_ natur_ezas: competencias, saúde, autoestima e o u tras
pública permite eliminar as linhas de separat;:áo entre política, sociedade e "mercadorias", como filhos, prestígio, cobiya, prazer sensorial etc. 50 .
economia. Sendo global, deve estar na base de tOdas as decisóes individuais, O fundamento da iniciativa de Becker consiste em estender a funyáo
permite a inteligibilidade de todos os comportamentos e deve ser a única a de utilidade empregada na análise·económica de modo que o indivíduo
estruturar e legitimar a ayáo do Estado 19 • seja considerado um produtor e náo um simples consumidor. Ele produz
É o que mostram os chamados "novos" economistas. Eles tentaram mercadorias que váo satisfazé-lo, utilizando bens e servi:yos comprados
estender o campo de análise da teoria padráo a novos objetos. Náo se trata nos mercados, tempo pessoal e ourros "inputs'' que possuem valor, preyos
aqui, corno era o caso com os teóricos austro-americanos, de dar novas bases ocultos, mas calculáveis. Em resumo, trata-se de escolher entre diferentes
a ciencia econ6mica por urna teoria do empreendedorismo; para eles, trata-se "fun~óes de produ~áo", su pondo que todo bem é "produzido" pelo indiví-
-e já é muito- de sair dos dorníriios tradicionais da análise económica para duo, que por sua vez mobiliza recursos variados: dinheiro, tempo, capital
generalizar a análise de custo-benefício a todo o cornportamento humano. humano e até mesmo as relayóes sociais assimÜadas a um "capital social" 51 •
Obviamente, há multas pontes entre essas corren tes, mas as lógicas sáo he- O que- coloca, evidentemente, o problema da .identificayáo dos "inputs'',
terogeneas. O próprio Von Mises ambicionava urna ciencia total da escolha mas também o da quantificayáo de todos os aspectos náo monetários que
humana. Mas acreditava que tinha de elaborá-la refundando os conceitos entram no cálculo e levam a um~ decisáo.
e os métodos da economia. Tentava desse modo distinguir a at;:áo humana ,1).. qliestáo prin.cipal, m;~se reinvestimento das ·regióes externas do campo
ern geral como criayáo de sistemas meios-fins (estudada pela praxeologia) e classicamente delí'mitado da ciencia económica, é dar, ou melhor, devolver
a economia monetária e comercial específica (que é da ordem da catalaxia). consistencia teórica aantropologia do homem neoliberal, náo só, como diz
Os economistas norte-americanos adeptos da economia padráo que- Becker, coma intenyáo de perseguir um objetivo científico desinteressado,
rem estabelecer que as ferramentas mais tradicionais de análise podem ser a
mas para fornecer apoios discursivos indispensávels governamentalidade
amplamente estendidas em seus usos, mostrando desse modo que se pode neoliberal da sociedade. Por mais influente que tenha sido por si só essa
fazer a economia de urna revoluyáo paradigmática e conservar as velhas concepyáo do homem como capital- o que é propriamente o significado do
ferramentas do cálculo de maximizayáo. A familia, o casamento, a delin- conceito de "capital humano" -, ela náo conseguiu produzir as mutayóes
quencia, o desemprego, mas também a at;:áo coletiva, a decisáo política e a subjetivas de massa que se podem constatar hoje. Para isso, foi necessário que
legislayáo tornam-se objetos do raciocínio económic~. É assim que Gary ela tomasse carpo materialmente pela instaurayáo de dispositivos múltiplos,
diversificados, simultJ.neos ou sucessivos, que moldaram duradouramente
a conduta dos sujeitos.
49 Para Gary S. Becker, toda ayáo humana é económica: "The economic approach
provides a valuable unified framework for understanding all human beh~vior" [''A
abordagem económica fornece uro quadro único valioso para a compreensáo de todo
0 comportamento humano"], escreve o autor em The Economic Approach to Human
Disciplina (1): um novo sistema de disciplinas
Behavior (Chicago, University of Chicago Press, 1976), p. 14. O que significa que
todos os aspectos do comportamento humano sáo traduzíveis ero pres;os (p. 6). Ele O próprio conceito de governamentalidade, como ayáo sobre as ayóes
comeyou sua obra com urna tese, The Economics ofDiscrimination (1957), que trata de indivíduos supostamente livres em suas escolhas, permite redefinir a
dos fenómenos de discriminayáo no mercado de trabalho dos Estados Unidos.·Deu
prosseguimento a essa tese com urna análise dos efeitos da educayáo em seu livro
50
sobre o capital humano (Human Capital: A Theoretical and EmpiricalAnalysis with Gary S. Becker, A Treatise on Family, cit., p. 24.
51
Special Rejerence to Education, 1964) e teoriwu seu método ero Economic Theory Como ele faz em Gary S. Becker e Kevin M. Murphy, Social Economics: Market
(1971) e Economic Approach to Human Behavior (1976). Behavior in a Social Environment (Cambridge, Harvard University Press, 2000).
216 " A nova razáo do mundo A grande virada .. 217

disciplina co_mo técnica de governo próprio das sociedades de mercado. Devemos distinguir trés aspectos das disciplinas neoliberais. A liberdade
O termo discíplina poderá surpreender nesse caso. Ele implica, ao menoS dos sujeitos económicos préssupóe, em primeiro lugar, a seguranya dos
aparentemente, certa inflexáo com relayáo ao sentido que Foucault lhe dá contratos e o estabelecimento de um quadro estável. A' disciplina neoli-
em Vigiar e punir*, quando o aplica as técnicas de distribuiyáo espacial, beral conduz a esteiid~r o cJ.mpo de ayáo que se deve estabilizar mediante
classificayáo e adestramento dos carpos individu~is. O ffiodelo da disciplina regras fixas. A constituiyáo de um quadro náo sornente legal, mas também
era, para ele, o panóptico benthamiano. Contudo, longe de opor "disciplina'', oryamentário e monetário, deve impedir os sujeitos de prever variayóes de
"normalizayáo" e "controle", corno defendem certas exegeses, a reflexáo de política económica, isto é, fazer dessas variayóes objetos de antecipayáo.
Foucault fez transparecer de modo cada vez mais nítido a matriz dessa nova Isso significa que o cálculo individual deve poder apoiar-se numa ordem de
forma de "conduta das condutas", que pode diversificar-se, conforme o caso, mercado estável, o que exclui fazer do próprio quadro um objeto de cálculo.
desde o encarceramento dos prisioneiros até a vigilancia da qualidade dos A estratégia54 neoliberal consistirá, entáo, em criar o maior número
produtos vendidos no mercado52 • Se "governar é estruturar o campo de ayáo possível de situayóes de mercado, isto é, organizar por diversos meios (pri-
eventual dos outros", entáo a disciplina pode ser redefinida, de forma mais vatizayáo, criayáo de concorréncia dos serviyos públicos, "mercadorizayáo"
ampla, como urn conjunto de técnicas de estruturayáo do campo de ayáo de escola e hospital, solvéncia pela dívida privada) a "obrigayáo de escolher"
que variam conforme a situayáo ern que se encontra o indivíduo 53 • para que os indivíduos aceitero a situayáo de mercado tal como lhes é imposta
Desde a era clássica das disciplinas, portanto: o poder náo pode exercer-se como "realidade", isto é, como única "regra do jogo", e assim incorporem a
por pura coeryáo sobre um corpo; ele deve acompanhar o desejo individual necessidade de realizar um cálculO de interesse individual se náo quiserem
e orientá-lo, pondo em ayáo aquilo que Bentham chama de "influéncia''. O pÚd~r "no jogo" e, inais ainda, se quiserem valorizar seu capital pessoal num
que pressupóe que ele penetre no cálculo individual- e até participe dele- univ~rso em que a ,.·acuriml~~áo parece ser a lei geral-da vida.
para agir sobre as antecipayóes imaginárias dos indivíduos: para reforyar o Por fim, dispositivos de recompensas e puniyóes, sistemas de 'estímulo e
desejo (pela recompensa), para enfraquece-lo (pela puniyao), para desviá-lo "desestímulo" substituiráo as sanyóes do mercado para guiar as escolhas e a
(pela substituiyao de objeto). conduta dos indivíduos quando as situayóes mercantis o u quase mercantis
Essa lógica que consiste em dirigir indiretamente a conduta é o horizonte náo sáo inteiramente realizáveis 55 . Seráo construídos sistemas de controle e
das estratégias neoliberais de promoyáo da "liberdade de escolher". Nem avaliayáo de conduta cuja pontuayáo condicionará a obtenyáo das recom-
sempre distinguimos a dimensáo normativa que necessariamente lhes per- pensas e a evitayáo das puniyóes. A expansáo da tecnologia avaliativa como
tence: a "liberdade de escolher" identifica-se com a obrigayáo de obedecer modo disciplinar repousa sobre o fato de que quanto mais livre para escolher
a urna conduta maximizadora dentro de um quadro legal, institucional, é supostamente o indivíduo calculador, mais ele deve ser vigiado e avaliado
regulamentar, arquitetural, relacional, que deve ser Construído para que para obstar seu oportunismo intrínseco e foryá-lo a conjuntar seu interesse
o indivíduo escolha "corn toda a liberdade" o que deve obrigatoriamen- ao da organizayáo que o emprega.
te escolher para seu próprio interesse. O segredo da arte do poder, dizia Friedman é um dos principais pensadores dessa nova forma de disciplina.
Bentham, é agir de modo que o indivíduo busque seu interesse Como se Falamos anteriormente do papel que ele teve na difusáo de massa dos ideais
fosse seu dever, e vice-versa.
4
'i O termo deve ser entendido aqui em seu sentido primeiro (ver no texto a distinyáo
entre os dois sentidos de "estratégii').
* Trad. Raquel Ramalhete, 42. ed., Petrópolis, Vozes, 2015. (N. E.) 55
Da mesma forma, mas num contexto muito diferente, Bentham distinguiu a estru-
"
2
Esse é o sentido que se deve dar afrase: "O panóptico é a própria fórmula de um turayáo normalizadora das ayóes espontilneas no mercado, de um lado, e a vigilánda
governo liberal", Michel Foucault, Naissance de la biopolitique (Paris, Seuil/Gallimard, mais sutihnente construída das condutas nas instituiyóes destinadas a educar ou
2004), p. 69. reeducar os que náo conseguiam funcionar sozinhos no espayo das nocas mercantis,
53 de outro.
Idem, "Le sujet et le pouvoir", Dits et Écrits lL 1976-1988, cit., p. 1.056 e seg.
218 • A nova razáo do mundo A grande virada " 219

· do livre mercado e da livre empresa. Muito mais conhecido do público que da economia por urna diminuiyáo das taxas de juros o u p_or um incentivo
Hayek e, sem dúvida, mais influente que ele nas políticas norte-americanas, · a
. oryamentário tem exito cada Vez menor medida que é utilizada, porque _OS
Friedman fez conjuntamente urna carreira academica- consagrada com um agentes económicos "aprendem" que essas medidas náo tein os efeitos reais
prémio No be! de Economia como figura principal da Escala de Chicago e proclamados. A "teori~ das expectativas racionais" é um caso particular da
fundador do monetarismo- e urna carreira de propagandista dos benefícios explicayáo pelos efeitos náo desejados. As inten'Tóes políticas sáo frustradas
da liberdade económica. em seu resultado em razáo da náo _considerayáo das capacidades de cálcu-
Friedman distinguiu-se fazendo do prindpio monetarista o correspon- lo sofisticado dos agentes, que, ao cabo de urna série de experiéncias das
dente, no plano estritamente económico, das regras formais tais como foram consequendas dessas políticas, náo se deixam mais enganar pelas ilusóes
pensadas pelos neoliberais nos anos 1930. Esse princípio particular pode ser da moeda abundante o u das diminuiyóes de impostas. Disso resulta que o
enunciado da seguinte maneira: para coordenar suas atividades no mercado, governo náo pode mais considerá-los seres passivos, que reagem por reflexo
os agentes económicos devem conhecer de antemáo as regras simples e está- aos stimuli monetários e or~Tamentários. De cerro modo, o cálculo maximi-
veis que presidem suas tracas. O que é verdadeiro em matéria jurídica deve zador incorpora as próprias políticas como um dos parimetros que devem
ser verdadeiro a fortiori no plano das políticas econümicas. Estas devem ser ser levados em considerayáo. Essa "interioriza~áo" da política no cálculo
automáticas, estáveis e perfeitamente conhecidas56 . A moeda faz parte dessa individual permite repensarmos a forma como evoluiu progressivamente
estabilidade indispensável aos agentes económicos para que possam desen- o próprio neoliberalismo.
volver suas atividades. Contudo, estabelecer esse quadro estável significa que O monetarismo, tal como foi teorizado por Friedman, teve urna difu-
os agentes económicos teráo de se adaptar a ele e modificar seu comporta- sán t~pida, aaltura,da situayáo criada pelo colapso do sistema monetário
mento. O intervencionismo de Friedrnan consiste em implantar coerróes de inter~acional após:' a guerr~: a través da implantayáo de taxas de dmbio
mercado que foryam os indivíduos a adaptar-se a ele. Em outras palavras, flutuantes e do papel dos capitais voláteis, que podiam ameayai qualquer
trata-se de pOr os indivíduos em situayóes que os obriguem a"liberdade de divisa que náo fosse gerida de acordo com as novas normas de disciplina
escolher", isto é, a manifestar na prática sua capacidade de cálculo e governar monetária. Esta última tornou-se, em suma, urna disciplina imposta pelos
a si próprios como indivíduos "responsáveis". Esse intervencionismo especial mercados financeiros, como se viu na Grá-Bretanha em 1976, na Franya
consiste em abandonar um grande número de instrumentos antigos de gestáo em 1991 e na Suécia em 1994. Assim, a luta contra a infla'Táo constituiu
(despesas oryamentárias ativas, política de renda, controle de preyos e cimbio) a prioridade das políticas governamentais, enguanto a taxa de desemprego
e ater-se a uns poucos indicadores-chave e a objetivos limitados, como taxa transformava-se em simples "variável de ajuste". A luta pelo pleno empre-
de inflayáo, taxa de crescimento da massa monetária, déficit oryamentário go tornou-se suspeita de ser um fator de inflayáo sem efeito duradouro.
e endividamento do Estado, a fim de restringir os atoreS da economia a um A teoria friedmaniana da "taxa de desemprego natural" foi amplamente
sistema de coeryóes que os abriga a comportar-se como exige o modelo. aceita por autoridades políticas de rodas as cores.
Seguindo Friedman, cuja teoria monetária se fundamenta no prindpio O próprio oryamento tornou-se um instrumento de disciplina dos
da ineficácia das políticas monetárias ativas, economistas norte-américanos comportamentos. A diminuiyáo dos impostas sobre empresas e rendas mais
desenvolveram nos anos 1970 a ideia de que as polít~cas de regulayáo ma- elevadas foi apresentada muitas vezes como um meio de refor~Tar o estímulo
croeconómicas semente perderiam eficácia em consequencia dos compor- ao enriquecimento e ao investimento. Na realidade, de forma muito mais
tamentos de aprendizado dos agentes económicos. A tentativa de retomada dissimulada, o objetivo da diminuiyáo da pressáo fiscal, assim como a recusa
de aumentar as cotiza~Tóes sociais, foram meios- mais o u menos eficazes, con-
forme a situayáo das relayóes de forya- de impor redu~Tóes 'do gasto público
56 Bernard Élie, "Milton Friedman et les politiques économiques", em Marc Lavoie
e dos programas sociais em no me do equilíbrio e da limita~Táo da dívida do
e Mario Seccarecda (orgs.), Milton Friedman et son a:uvre (Montreal, Presses de
Estado. O melhor exemplo dessa estratégia fiscal é, sem dúvida, o de Ronald
l'Université de Montreal, 1993), p. 55.
220 .. A nova razáo do mundo A grande virada "' 221

Reagan, que em 1985 aprovou urna lei que exigia a reduyáo automática dos a máo de obra e a eficiencia económica. Essa ideia náo é nova. Jacques
gastos públicos até o restabelecimento do equilíbrio oryamentário em 1995 Rueff, já nos anos 1920, criticava o dole 58 británico como a principal causa
(Balanced Budget and Deficit Reduction Act), logo depois de ter criado um do desemprego do lado de lá do canal da Mancha. O que é novidade é
déficit considerável. Conseguindo que se esquecesse que a diminuiyáo dos a concep~áo disciplinar-"de encargo dos desernpregados. De fato, náo se
descontos obrigatórios de uns acarretava necessad3mente urna contrapartida trata de suprimir pura e simplesrnente toda assistencia aos desempregados,
para os outros, os governos neoliberais instrumentalizaram os "huracos" mas de fazer corn que essa ajuda leve. a urna maior dodlidade por parte dos
criados nos oryamentos para demonstrar o custo "exorbitante" e "intolerável" trabalhadores privados de ernprego. Trata-se de fazer do mercado de emprego
da proteyáo social e dos servi~os públicos. Por um encadeamento mais ou um mercado muito mais conforme com o modelo de pura concorréncia,
menos intencional, o racionamento que se impós aos programas sociais e náo simplesmente por preocupa~áo dogmática, mas para disciplinar melhor
aos servi~os públicos, degradando o atendimento, gerou frequentemente o a máo de obra, ordenando-a pelos imperativos de recupera~áo da rentabi-
descontentamento dos usuários e a adesáo ao menos parcial destes as críticas lidade. Trata-se de recuperar, sob urna nova forma, urna política que visa a
de ineficácia que se dirigiam contra aqueles 57 • penalizar o trabalhador sem emprego para que, de alguma maneira, ele seja
Essa dupla restri~áo monetária e or~amentária foi utilizada como urna levado a encontrar o mais rápido possível urn novo trabalho porque náo
disciplina social e política "macroeconómica'' que supostamente dissuadia- pode arranjar-se muito ternpo com o auxílio que recebe. Lembramos que,
pela inflexibilidade das regras estabelecidas- qualquer política que procurasse em outras época_<;, a reforma da assistencia social na Inglaterra perseguiu
priorizar o emprego, quisesse atender as reivindica~óes salaríais o u visasse a objetivos semelhantes. A Leidos Pobres de 1834, promulgada por instiga-
retomada da economía por intermédio do gasto público. É como se, por essas ~áó,~e Nassau Senjor e Edwin Chadwick, seguindo o espírito da economía
regras, o Estado se impusesse interdi~óes definitivas com respeito ao uso de clássÍca e do prilldPio de udiidade, traduziu-se na·imposi~áo de um regime
certas alavancas de a~áo sobre o nível de atividade, mas ao mesmo tempo, de trabalho quase penitenciário aos residentes das workhouses, algo verdadei-
constrangendo os agentes a interiorizá-las, desse a si próprio os meios de ramente repugnante para os que zelavam por sua liberdade e sua dignidade.
agir permanentemente sobre eles através de urna "corrente invisível" (para Esse é o espirito das políticas de "we/fore to work" ("passar da ajudasocial
empregarmos a expressáo de Bentham) que os obrigava a comportar-se para o trabalho"), que tambérn sáo construídas sobre o postulado da escolha
como indivíduos em competi~áo uns com os outros. racional. No terreno da política de emprego, a disciplina neo liberal consistiu
Se era difícil convencer as popula~óes de que deviam aceitar urna co- em "responsabilizar" os desempregados utilizando a armada puni~J.o contra
bertura social menor sobre doen~as e velhice, na medida em que se trata de aqueles que náo aceitavam dobrar-se as regras do mercado. o desemprego
"riscos universais", era rnais fácil culpar os desempregados e pór em fun- traduzia urna preferencia do agente econ6mico pelo ócio quando este é
cionamento um princípio de divisáo entre os trabalhadores bons e sérios, subvencionado pela coletividade, portanto, o ócio seria "voluntário". Querer
que eram bem-sucedidos, e todos aqueles que fracassavarn por sua própria reduzi-lo por meio de políticas de refla~áo é inútil, e até nefasto, segundo a
culpa, que náo conseguiam "dar a volta por cima'' e, alérn do mais, viviam dourrina da taxa de desernprego natural. A indeniza~áo dos desempregados
nas costas da coletividade. O tharcherismo explorou largamente" o script equivale a criar "armadilhas de desemprego". A primeira tarefa prática foi
da culpa individual, desenvolvendo a ideia de que a sociedade náo deveria atacar tudo que pudesse contribuir para que essa suposta rigidez fosse a
nunca mais ser considerada responsável pela sorte dos indivíduos. causa do desemprego. A segunda visava a construir um sistema de "volta ao
Um dos principais argumentos das políticas neoliberais consistiu em emprego" muito mais restritivo para os assalariados sem emprego.
denunciar a excessiva rigidez do mercado de trabalho. A ideia-diretriz, nesse Os sindicatos e a legisla~áo trabalhista foram os primeiros alvos dos go-
caso, é a da contradi~áo que existiría entre a prote~áo da qua! desfrutaría vernos que adotaram o neo liberalismo. A dessindicaliza~áo na maioria dos

58
57 Analisaremos adiante a argumenta¡_;:áo da Escola do Public Choice. Dole é o nome que se dá ao seguro pago aos desempregados na Grá-Bretanha.
222 "' A nova razáo do mundo A grande virada ,. 223

países capitalistas desenvolvidos reve causas objetivas, sem dúvida, como a Essas medidas de "responsabilizac;:áo" dos "buscadores de emprego" náo
desindustrializa~io e a deslocaliza~io de fábricas em regióes e países com sáo exclusividade dos governos conservadores. Elas encontraram alguns de
baixos salários, sem tradi~io de lutas sociais ou submetidos a um regime seus melhores defensores na esquerda europeia, como tende a comprovar
despótico. Mas foi resultado também de urna vontade política de enfraque- a "corajosa" Agenda 2010 do chanceler alernáo Gerhard Schroder, que
cimento da for~a sindical que, nos Estados Unidos e na Gri-Bretanha em condiciona rigorosamente a ajuda que o Estado concede aos que procuram
especial, traduziu-se por urna série de medidas e dispositivos legislativos emprego a docilidade destes em aceitar o emprego 'que lhes é proposto,
que limitaram o poder de interven~io e mobiliza~io dos sindicatos 59 • Con- assim como ao nível de renda e aos bens da família:
sequentemente, a legisla~io social mudou de forma muito mais favorável Todo beneficiário do dinheiro dos contribuintes deve estar disposto a limitar
aos empregadores: revisio dos salários para baixo, supressio da indexa~áo tanto quanto possível o encargo que ele representa para a coletividade, o
da remunera~áo pelo custo de vida, maior precariza~áo dos empregos 60 • A que significa que todas as rendas e os bens próprios devem ser os primeiros
a ser utilizados para prover suas necessidades dementares. 62
orienta~áo geral dessas políticas reside no desmantelamento dos sistemas que
protegiam os assalariados contra as varia~óes cíclicas da atividade económica Como vemos, essa política disciplinar póe radicalmente em questáo
e sua substitui~áo por novas normas de flexibilidade, o que permite que os os prindpios de solidariedade as eventuais vídmas dos riscos económicos.
empregadores ajustem de forma ótima suas necessidades de máo de obra
ao nível de atividade, ao mesmo tempo que reduz ao máximo o custo da
for~a de trabalho. Disciplina (2): a obriga~áo de escolher
Essas políticas visam também a "ativar" o mercado de trabalho modi- · ··:¡;.JáO há um úpico do~ínio em que a concOrréncia náo seja enaltecida
ficando o comportamento dos desempregados. O "buscador de emprego" como meio de aurhentar a satisfac;:áó do cliente, gr<ic;:ás ao estímulo que dá aos
deve tornar-se ator de sua empregabilidade, um ser selfentreprising, que produtores. A "liberdade de escolha'' é urn terna fundamental das ~ovas normas
se encarrega de si mesmo. Os direitos a prote~áo social sáo cada vez mais de conduta dos sujeitos. Parece que é impossível conceber um sujeito que náo
subordinados aos dispositivos de estímulo e puni~áo que obedecem a urna seja ativo, calculista, a espreita das melhores oportunidades. Esquecendo todos
interpreta~áo económica do comportamento dos indivíduosG 1 . os limites de seus benefídos, mostrados pela teoria económica há pelo menos
um século (diferenciac;:áo dos produros, monopólio natural etc.), a nova doxa
reconhece apenas a pressáo que o consumidor é capaz de exercer sobre o for-
59 Lembramos aqui da brutalidad e com que Reagan demitiu todos os controladores
necedor de bens e servic;:os. Em resumo, trata-se de construir novas exigéncias
de voo após a greve de 1981, substituindo-os por trabalhadores náo sindicaliza-
dos. Esse foi apenas um sinal da ofensiva generalizada ~ontra os compromissos que ponham os indivíduos em situa~6es em que sáo obrigados a escolher entre
sociais que vieram como New Deal. Aconteceu o mesmo na Grá-Bretanha, ande ofertas alternativas e incitados a maximizar seus próprios interesses.
Thatcher travou urna batalha frontal contra os sindicatos e domino u sua ayáo com A "liberdade de escolher", que para Friedrnan resume todas as qualidades
restric;:óes drásticas.
que se tem o direito de esperar do capitalismo concorrencial, é urna das
60 Para urna análise da evoluyáo da legislac;:áo social nos Estados Unidos, ver Isabelle
principais missóes do Estado. É tarefa sua náo apenas reforyar a concorréncia
Richet, Les dégdts du libéralisme. États-Unis: une société de marché (Paris, Textuel, 2002).
nos mercados existentes, mas também criar concorréncia onde ela ainda náo
61 Sobre esse ponto, ver Mark Considine, Enterprising States: 1he Publíc Management
ofWe/fare-to-Work (Cambridge, Cambridge University Press, 2001). Foi assim que existe. Isso porque o capitalismo é o único sistema capaz de proteger a liber-
foram endurecidas pouco a panco, e em toda a parte, as condiyóes de concessio de dade individual em todos os domínios, em panicular no político. Trata-se,
auxílio. Na Franc;:a, por exemplo, foi implantado em 2005 um sistema de penalidade
que reduz 20% o seguro-desemprego na primeira recusa a urna proposta de empre-
go, 50% na segunda e 100% na terceira. Em 2008, essa política punitiva'--- que já
62
permitira o aumento do número de exclusóes de inscritos na Agenda Nacional para Gerhard Schrüder, Ma vie et la po!itique (trad. Genevieve Bégou et al., Paris, Odile
o Emprego (Anpe) - foi reforc;:ada. Jacob, 2006), p. 295.
224 " A nova razáo do mundo A grande virada " 225

portanto, de introduzir dispositivos de mercado e estímulos mercantis, ou Na realidade, o sistema de "cheques-educac;:áo" tem dais objetivos associa-
quase mercantis, para conseguir que os indivíduos se tornero ativos, em- dos: pretende transformar as famílias em "consumidoras de escala'' e visa a
preendedores, "protagonistas de suas escolhas", "arrojados". introduzir a concorréncia entre os esrabelecimentos escolates, o que elevará o
Sem dúvida, deveríamos lembrar aqui que certo ethos da escolha su- nível dos mais medíócreS. -ESse sistema combina wn financiamento público,
postamente livre encontra-se no centro das mensagens publicitárias e das considerado legítimo para a "educac;:áo primária'' por seus efeitos positivos
estratégias de marketing, e essa disposic;:áo adquirida aos poucos foi facilitada em toda a sociedade, e urna administrac;:áo de tipo empresarial do estabe-
pelos desenvolvimentos tecnológicos que ampliaram a gama de produtos e lecimento escolar, posta em situac;:áo de competiyáo com os outros. Essa
canais de difusáo da mass media. O consumidor deve tornar-se previdente. orientac;:áo a favor de um "mercado escolar" domino u as políticas de reforma
Como vimos anteriormente, ele deve m unir-se individualmente de todas as escolar no mundo a partir dos anos 1990, em graus diferentes conforme o
garantias (cobertura de seguros privados, casa própria, conservac;:áo de sua país. Isso náo deixou de ter consequencias para a fragmentac;:áo dos sistemas
empregabilidade). Deve escolher racionalmente, em todos os domínios, os educacionais e a diferenciac;:áo dos locais e dos modos de escolaridade, de
melhores produtos e, cada vez mais, os melhores prestadores de servic;:os (o acordo com as classes sociais.
modo de entrega de seu correio, o fornecedor de sua eletricidade etc.). E,
como cada empresa amplia a gama dos produtos que fornece, o sujeito deve
"escolher" de forma cada vez mais sutil a oferta comercial mais vantajosa Disciplina (3): a gestáo neoliberal da empresa
(por exemplo, a hora e a data da viagem de aviáo ou trem, o produto de A disciplina neoliberal náo se llmita a essa maneira "negativa'' de orientar
seguro ou poupanc;:a etc.). Essa "privatizac;:áo" da vida social náo se limita ascqndutas por regi-as imutáveis no plano "macroecon6mico" que os agentes
ao consumo privado e ao lazer de massa. O espac;:o público é construído racio~ais devem in:'~orpora~ 'em seu próprio cálculo. -Também náo se reduz a
cada vez mais pelo modelo do "global shopping center", segundo a expressáo instaurac;:áo de situac;:óes de concorrencia que obrigam o indivíduÜ a escólher
empregada por Drucker para designar o universo em que vi vemos hoje. multo além da esfera do consumo de bens e servic;:os comerciais. A extensáo
U m dos casos exemplares da construc;:áo de situac;:áo de mercado pela qual e a intensificac;:áo das lógicas de mercado tiveram efeitos multo patentes na
os neoliberais se mobilizaram multo no terreno político é o da educac;:áo. organizas:áo do trabalho e nas formas de emprego da fors:a de trabalho. O
Também nesse domínio, Friedman foi pioneiro. Diante da degradac;:áo do que a lógica do poder financeiro fez foi apenas acentuar o disciplinamenro
setor público educacional nos Estados Unidos, ele prop6s nos anos 1950 dos assalariados sub metidos a urna exigéncia de resultados cada vez maiof 4 .
a implantayáo de um sistema de concord:ncia entre os estabelecimentos A busca obsessiva de mais-valor na bolsa implicou náo apenas a garantia
escolares baseado no "cheque-educac;:áo" 63 . O sistema consiste em deixar de aos proprietários do capital de um crescimento contínuo de seus rendi-
financiar diretamente as escalas e dar a cada familia um "cheque" represen- mentos, a custa dos assalariados- o que ocasionou urna malar divergéncia
tando o custo médio da escolaridade; a família é livre para urilizá-lo na escala entre a evoluc;:áo dos salários e a evoluc;:áo dos ganhos de produtividade e,
de sua escolha e ainda acrescentar a quantia que quiser, de acordo com suas como dissemos, urna acentuac;:áo ainda mais marcada das desigualdades
prioridades em matéria de escolarizac;:áo. Mais urna vez, o raciocínio baseia- na distribuic;:áo de renda65 -, como também e, sobretudo, traduziu-se pela
-se no comportamento supostamente racional do consumidor, que deve
poder arbitrar e.iltre várias possibilidades e escolher a melhor oportunidade.
64
Catherine Sauviat fala com muita justü;:a do capital financeiro como urna "máquina de
disciplinar os assalariados". Ver "Os fundos de pensáo e os fundos mútuos: principais
63 Milton Friedman, "The Role ofGovernment in Education" (1955), em Capitalism atores da finaw;:a mundializada e do novo poder acionário"; e-\11 Franyois Chesnais
and Freedom (Chicago, Universiry of Chicago Press, 1962). A ideia foi retomada e (org.), A jinanra mundializada, cit., p.118.
65
desenvolvida por John E. Chubb e Terry M. Moe, Politics, Markets and America's Michel Aglietta e Laurent Berrebi, Désordres dans le capitalisme mondial (Paris, O dile
Schools (Washington, 1he Brookings Institution, 1990). Jacob, 2007), p. 34.
226 ., A nova razáo do mundo
A grande virada "' 227

iinposií;:áo de normas de rentabilidade mais elevadas em todas as economias, assalariados, náo apenas execurivos, mas também operários e funcionários
em todos os setores e em todos os escalóes da empresa. Assim, cada vez mais de escritório. Isso náo resulto u numa diminuü;:áo dos controles hierárquicos,
assalariados foram sub metidos a sistemas de estímulo e puniyáo que visavam mas na modificayáo progressiva desses controles no contextO de urna "nova
a atingir o u a superar os objetivos de qiayáo de valor acionário, objetivos gestáo" que póde apoiar.:se em- modos de organizayáo, novas tecnologias de
que eram eles próprios definidos por métodos de ajUste a partir das normas contabilidade, registro, comunicayáo etc. 66 .
internacionais de rentabilidade. Assim, toda urna disciph'na do valor aciondrio Essa "nova gestáo" tomo u formas muito diversas, como o desenvolvi-
tomou forma em técnicas contábeis e avaliativas de gestáo da máo de obra mento da contratualizayáo das relayóes sociais, a descentralizayáo das nego-
cujo princípio consiste em fazer de cada assalariado urna espécie de "centro ciayóes entre assalariados e patronato no plano da empresa, a concorréncia
de lucro" individual. É que o princípio da gestáo neoliberal- que cerros das unidades da empresa entre si o u coro unidades externas, a normalizayáo
autores chamam de "autonomia controlada'', "coeryáo flexível", "autocontro- pela imposiyáo generalizada de padróes de qualidade e o crescimento da
le"- visa a "interiorizar" as coeryóes da rentabilidade financeira na própria avaliayáo individualizada dos resuhados 67 . As fronteiras entre o dentro
empresa e, ao mesmo tempo, fazer os assalariados interiorizarem as novas e o fora da empresa tornaram-se mais vagas com o desenvolvimento da
normas de eficiéncia produtiva e desempenho individual. subcontratayáo, da autonomizayáo das entidades dentro da empresa, do
Fazer com que os indivíduos ajam no sentido desejado supóe que se recurso ao emprego temporário, das estruturas de projetos, do trabalho
criem as condiyóes particulares que os obrigam a trabalhar e se comportar dividido ero "missóes" e do apelo a consultores externos.
como agentes racionais. A alavanca do desemprego e da precariedade foi, Essas novas formas de organizayáo do rrabalho e da gestáo permitem
sem dúvida, um meio poderoso de disciplina, em particular em matéria de defirlk-.. um novo mo4elo de empresa que Thomas Coutrot chama de "em-
taxas de sindicalizayáo e reivindicayáo salarial. Mas essa alavanca "negativa'', presa néoliberal"GR'. AimaiOr aul:onomia das equipes ou-indivíduos, a poliva-
cujo motor é o medo, sem dúvida estava longe de ser suficiente para a reor- léncia, a mobilidade entre "grupos de projeto" e unidades descentralizadas
ganizayáo das empresas. Outros instrumentos de gestáo foram necessários traduzem-se por um enfraquecimento e urna instabilidade dos coletivos de
para reforyar a pressáo da hierarquia sobre os assalariados e aumentar seu trabalho. fu novas formas de disciplina da empresa neoliberal sao exerci-
comprometimento. Assim, a gestáo das empresas privadas desenvolveu das a urna maior distáncia, de maneira indireta, antes ou depois da ayáo
práticas de gestáo de máo de obra cujo princípio é a individualizayáo de produtiva. O controle é feito por registro de resultados, por rastreabilidade
objetivos e recompensas coro base em avalias:óes quantitativas repetidas. dos diferentes momentos da produyáo, por wna vigillncia mais difusa dos
Essa orientayáo, com frequéncia identificada coro o questiollamento do comportamentos, das maneiras de ser, dos modos de relacionamento com os
modelo burocrático tal como seu tipo ideal foi es boyado por Max Weber, outros, em especial em todos os locais de produyáo de serviyos que tenham
também consistiu em inverter o sentido da obediéncia. 'Em vez de obede- cantata coro a clientela e em todas as organizayóes em que a operay;io do
cer aos procedimentos formais e as ordens hierárquicas vindas de cima, os trabalho pressupóe cooperayáo e troca de informayóes. Essa gestáo mais
assalariados foram levados a curvar-se as exigéncias de prazo e qualidade "personalizada'' e mais difusa joga com a concorréncia entre assalariados e
impostas pelo "cliente", alyado a fonte exclusiva de restriyóes inelutáveis. Em
todo caso, a individualizayáo do desempenho e das gratificayóes permitiu
66
que a concorréncia entre os assalariados fosse dada como um tipo normal Ver Michel Gollac e Serge Volkoff, "Citius, Altius, Fortius. Lintensification du travail",
de relayáo dentro da empresa. É como se o mundo do trabalho tivesse Actes de la Recherche en Sciences Sociales, n. 114, set. 1996.
67
"interiorizado" a lógica da competiyáo exacerbada que existe ou deveria Sobre esse ponto, ver Michel Lallement, "Transformation des relations du travail et
nouvelles formes d' action politique", em Pepper D. Culpepper, Pet¡;;r A. Hall e Bruno
existir entre as empresas, assim como a lógica concorrencial para captar e
Palier (orgs.), La France en mutation, 1980-2005 (Paris, Presses de Sciences Po, 2006).
manter o capital dos acionistas que leva a "criayáo de valor" em benefício 68
Thomas Coutrot, L'entreprise néo-libérale, nouvelle utopie capitaliste: enquéte sur les
deles. Isso pós sob pressáo mais direta dos mercados um número maior de modes d'organisation du travail (Paris, La Découverte, 1998).
228 .. A nova razáo do mundo
A grande virada • 229
'entre segmentos da empresa para constrange-los, mediante urna comparayáo Esse autocontrole também é econ6mico, porque permite a reduyáo
de métodos e resultados (benchmarking) 69 , a alinhar-se aos desempenhos da pirámide hierárquica, e Inais eficaz, na medida em que o trabalho náo
máximos e as "melhores práticas" num processo sem fim. A concorrencia depende mais de u~a- necessidade externa, mas de urna 'coery:io interna:
torna-se, assirn, um modo de interiori:z;ayáo das exigencias de rentabilidade
Ele substitui o controle feito de fora pelo controle feito de dentro, muito
do capital que permite o afrouxarnento das linhas -hierárquicas e dos con- mais estrito, exigente e eficaz. Leva o executivo a agir náo porque alguém
troles permanentes realizados pelo pessoal interrnediário, introduzindo urna lhe disse o que era preciso fazer, ou- o obrigou a faze-lo, mas porque as
pressáo disciplinar ilimitada. necessidades objetivas de sua tarefa assim o exigem. Esse homem agirá náo
A terceirizayáo de cenas atividades e a descentralizayáo em unidades mais porque otltro quis desse modo, mas porque ele próprio decidiu que deveria
faze-lo- em outras palavras, ele agirá como um homem livr~. 71
autO nomas aurnentam a necessidade de avaliay:io para coordenar as atividades.
A avaliay:io torna-se a chave da nova organizay:io, o que acaba por cristalizar Essa "filosofia da liberdade", que tem aplicayáo universal, "assegura o
tensóes de todos os tipos, ainda que seja a que diz respeito a contradiyao desempenho, transformando necessidades objetivas em objetivos pessoais.
a
entre a injunyáo a criatividade e tomada de riscos e o julgamento social Essa é a própria definil'áo da liberdade- a liberdade no quadro da lei''".
que surja como lembrete das relayóes efetivas de poder dentro da empresa. Assim, o gestor renta captar as energias individuais, náo de acordo com
Esse novo modo de organizayao da empresa teve consequencias_ im- urna ló_gica "artista"_·ou "hedonista", mas segundo um regime de autodis-
portantes para o trabalho e o emprego. Traduziu-se em intensificayao do ciplina que manipula as instáncias psíquicas de desejo e culpa. Trata-se de
trabalho, diminuiy:io dos prazos e individualizay:io dos salários. Esse último mobilizar a aspirayáo a "realizayao pessoal" a serviyo da empresa, transfe-
método, vinculando remunerayáo a desempenho e competencia, ampliou .ri-il,~o exclusivame;nte para o indivíduo, contudo, a responsabilidade pelo
o poder da hierarquia e reduziu todas as formas coletivas de solidariedade. cunlprimento 'doS obJetiVós. O que, evidentemente, tem um alto custo
Mas é coextensivo a urna nova prática de governo dos assalariados baseada psíquico para os indivíduos 73 .
no "autocontrole", que é pretensarnente muito mais eficaz do que a coeryáo Esse autogoverno nao é obtido espontaneamente por simples efeito de
externa. Essa "filosofia da gestáo" foi formulada por Peter Drucker. Ele ex- um discurso sedutor de gesrao que manipula a aspirayao de cada indivíduo
plica que, na nova economia do saber, náo se trata mais de gerir estruturas, a autonomia. Esse controle da subjetividade sornente é operado de maneira
mas, sim, de "guiar" pessoas que tém saberes para que produzam o máximo eficaz dentro de um contexto de mercado de trabalho flexível, em que a
possível. Gestáo por metas, avaliayáo de desempenhos e autocontrole dos ameaya de desemprego está no horizonte de todo assalariado. Ele também
resultados sao os métodos empregados por essa gest:io dos indivíduos: é resultado de técnicas de gestáo que tentaram objetivar as exigencias de
A principal vantagem da gestáo por metas é que ela permite aos executivos mercado e de rentabilidade financeira na forma de indicadores nwnéricos
medir seu próprio desempenho. O autocontrole refon;:a a m'otivas:áo, o desejo de metas e resultados e, mediante a individualizayáo dos desempenhos
de fazer melhor, de náo se encostar. [... ] Embora náo seja indispensável medidos e discutidos em entrevistas pessoais, fazer com que os assalariados
para dar unidade de rumo e esfors:o aequipe dirigente, a gestáo por metas interiorizem a necessidade vital para eles de melhorar continuamente sua
é indispensável para permitir o autocontrole?0
"empregabilidade". O cúmulo do autocontrole, que também m ostra o me-
canismo perverso que transforma cada um em "instrumento de si mesmo",
69
O benchmarking é muito precisamente um método de gestáo que consiste em sele- ocorre quando o assalariado é convidado a definir nao so mente as metas que
cionar referéncias padráo de desempenho para comparar com os resultados de urna ele deve atingir, mas também os critérios pelos quais ele quer ser julgado.
emidade produtiva (filial, departamento, empresa), determinar as "boas práticas" e
estabelecer metas mais elevadas de desempenho.
71
70 Ibidem, p. 127.
Peter Drucker, Devenez managn! Les meilleurs textes de P Drucker (Paris, Village Mon-
72
dial, 2006), p. 122 [ed. bras.: O melhorde Peter Drucker: o homem, a administrafdO, Idem.
a sociedade, trad. Maria Lúcia Leite Rosa, Sáo Paulo, Nobel, 2002]. 73
Ver Nicole Auben e Vincent Gaulejac, Le coitt de l'excellence (Paris, Seuil, 1991).
A grande virada o 231
230 ., A nova razáo do mundo

que cada indivíduo se considere detentar de uro "capital humano" que ele
Racionalidade (1): a prática dos especialistas
deve fazer frutificar, daí a· instaura'táo de dispositivos que sáo destinados
e dos administradores
a "ativar" os indiví~~os, abrigando-os a cuidar de si mesmos, educar-se,
Náo se trata roais, como no "welfarismo", de redistribuir bens de acordo encontrar uro emprego.
com certo regime de direitos universais a vida, isto é, a saúde, a educayáo, É importante, sob esse aspecto, náo confundir a ideologia triunfante
aintegra'táo social e aparticipa'táo política, mas de apelar acapacidade de da nova direita e a racionalidade governamental que a sustenta. A grande
cálculo dos sujeitos para fazer escolhas e alcanyar resultados estabelecidos ofensiva ideológica contra a intervem;:áo do Estado náo precedeu apenas as
como condiyóes de acesso a cerro bem-estar. O que pressupóe que os su- reorientayóes práticas, ela as acompanhou. E o mais importante na virada
jeitos, para "ser responsáveis", disponham dos elementos desse cálculo.' dos neo liberal náo foi tanto a "retirada do Estado", mas a modifica'táo de suas
indicadores comparativos, da traduyáo contábil de suas a'tóes, ou amda, modalidades de interven'táo em nome da "racionalizayáo" e da "moder-
mais radicalmente, da monetarizayáo de suas "esco lhas" : deve-se "respon- niza'táo" das empresas e da administra'táo pública. Desse ponto de vista,
sabilizar" os doentes, os estudantes e suas famílias, os universitários, os que talvez náo tenham sido tanto os intelectuais midiáticos e os jornalistas
a
estáo procura de emprego, fazendo-os arcar coro urna parte crescente do convertidos que tiveram o papel mais importante, mas os especialistas e os
"custo" que eles representam, exatame1_1te do mesmo modo como se deve administradores pqblicos dóceis, que, nos diferentes campos em que deve-
"responsabilizar" os assalariados individualizando as recompensas e·as pu- riam intervir, instauraram os novas dispositivos e modos de gestáo próprios
niyóes ligadas a seus resultados. . do neoliberalismo, apresentandO-os como técnicas políticas novas, guiadas
Esse trabalho político e ético de responsabilizayáo está associado a un.icamente pela busca de resultados benéficos para todos. Esses "intelectuais
numerosas formas de "privatizayáo" da conduta, já que a vida se apresenta oriánicos" do nebliberalÚffio, afirmando-se ora de direita, ora de esquerda,
somente como resultado de escolhas individuais. O obeso, o delinquente o u sucessivamente uro e outro75 , tiveram uro papel-chave na ~aturaliZayáo
ou 0 mau aluno sáo responsáveis por sua sorte. A doenya, o desemprego, dessas práticas, ero sua neutralizayáo ideológica e, por fim, ero sua implan-
a pobreza, o fracasso escolar e a exclusáo sáo vistos como consequéncia de tayáo prática. Células de pesquisa, inúmeros colóquios, amplas operayóes
cálculos errados. A problemática da saúde, da educas;áo, do emprego e da de formas;áo de quadros da funs;áo pública, produs:áo e difusáo macis:a de
velhice confluern numa visáo contábil do capital que cada indivíduo acumu- uro léxico homogéneo, verdadeira lingua franca das elites modernizadoras,
laria e geraria ao longo da vida. As dificuldades da existéncia, a desgra'ta, a acabaram por impor o discurso ortodoxo da gestáo. Mas náo nos engane-
doenya e a miséria sáo fracassos dessa gestáo, por falta de previsáo, prudéncia, mos: as políticas neoliberais náo foram implantadas ero nome da "religiáo
seguro contra riscos74. Daí o trabalho "pedagógico" que se deve fazer para do mercado", mas ero no me de imperativos técnicos de gestáo, ero no roe da
eficácia, ou até mesmo da "democratizayáo" dos sistemas de a'táo pública.
a
As elites convertidas racionalizaráo das políticas públicas deseropenharam
7<i Lembramos que a transforma<;áo dos indivíduos em "risc~filos" era a base da "r~u~­
o papel principal, coro a ajuda, evidentemente, do conjunto dos aparelhos
da<¡áo social" desejada pelo Movimento das Empresas da Franya (Medef) · ~ oposwao
entre duas espécies de seres humanos- os "riscófilos", dominantes corajo_sos: e os
"riscófobos", dominados temerosos- foi teorizada em 2000 por Fran<¡ots Ewald
e Denis Kessler, "Les noces du risque et de la politique", Le Débat, n. 109, 2000.
futuro radiante que o capitalismo de amanhá prepara para nós. Isso é discurso de
Robert Castellhes deu urna resposta mordaz no jornal Le Monde (Robert Castel,
dominantes para dominantes".
"'Risquophiles', 'risquophobes': l'individuselonle Medef', Le Monde,. 6 jun. 20?1):
75
"Antigamente, os 'maus pobres' só podiam culpar a si mesmos por seu d~stmo, Sobre esse ponto, convém considerar a trajetória pessoal dosato!es dessa implanta<¡áo
porque eram indolentes, imoderados, lascivos, sujos e maus. Versáo mo~erm~adar e prática dos esquema.s neoliberais. Podemos nos perguntar, por exemplo, se a "segunda
um tanto eufemizada da mesma boa consciencia moral, boje merecem a mvahdas:ao esquerda'' na Franya náo foi, para alguns, uma "passarela'' que facilitou a passagem
social os riscófobos, os temerosos e todos aqueJes que permanecem táo estupidamente de um engajamento político ou sindical para urna partidpa<;:iio ativa na "reforma''
aferrados as conquistas do passado que sáo incapazes de participar do advento desse dos dispositivos do Estado social e educador.
232 ° A nova razáo do mundo A grande virada @ 233

de fabricayáo do consentimento que retransmitiram seus argumentos a Racionalidade (2): a "terceira via" da esquerda neoliberal
favor da "modernidade".
O longo sucesso do neoliberalismo foi assegurado ná0-apenas pela adesáo
Tanto a direita como a esquerda, algumas figuras pioneiras sobressaíram-
das grandes formayóes po-líticas de direita a um ilovo projeto político de
-se precocemente na Franya, como Raymond Barre em 1978 o u, alguns anos
concorrencia mundial, mas também pela porosidade da "esquerda moderna''
depois, Jacques Delors: ambos seguiam o mesmo scrip-t do "realismo", do
aos grandes temas neoliberais, a ponto de termos a· impressáo em cerros
"rigor" e da "modernidade". Na verdade, em poucos anos, todas as elites
casos - pensamos sobretudo no "blairismo" 77 - de uma submissáo total a
políticas e econ6micas passaram de um modo de gestáo "keynesiano" para
racionalidade dominante. Encontraríamos a mesma tendencia nos Estados
um modo "neoliberal", carregando com elas grande parte dos quadros ad-
Unidos, ondeos "!iberals'' comeyaram a falar, pensar e agir ~omo os "conser-
ministrativos e partidários. Como Bruno Jobert disse com razáo,
vatives"78. O mais mareante nessa institucionalizayáo do neoliberalismo foi
os vetares dessas mudam;:as sáo menos as novas elites do que as elites
a aceitayáo por parte da esquerda moderna da visáo neo liberal do mercado
amigas que procuraram, muitas vezes coro sucesso, eternizar sua influén-
de trabalho flexível e da política de recolocas:iio dos desempregados. Isso foi
cia, ainda que tivessem de mudar suas orientayóes. Os promotores do
neoliberalismo sáo, na maioria vezes, gente arrependida, tocada pela graya acompanhado, no plano doutrinal, de um abandono de qualquer referencia
desse novo verbo? 6 a Keynes e, a fortiori, de urna renúncia a qualquer elaborayáo de um novo
keynesianismo adaptado a mudanya de escala provocada pela construyáo
O que é verdade para os amigos países do Leste, onde os apparatchiks
da Europa e pela globalizas:iio.
stalinistas tornaram-se os novos mestres do capitalismo restaurado, é ver-
- _-,. N~da ilustra melhor a virada neo liberal da esquerda do que a mudanya
dade também, sem dúvida de forma menos evidente, para o Oeste, onde os
de'·significado del. política social, _rompendo co111: toda a tradic;:áo social-
especialistas, as vezes de esquerda, e os administradores, formados muitas
-democrata que tinha como linha diretriz um modo de partilha de bens
vezes no culto do serviyo público, converteram-se ao léxico do management
sociais indispensáveis a plena cidadania. A luta contra as desigualdades, que
e da performance.
era central no antigo projeto social-democrata, foi substituída pela "luta
A virada neo liberal das práticas dos altos funcionários é um desmentido
contra a pobreza'', segundo urna ideologia de "equidade" e "responsabilidade
da tese da Escala do Public Choice, que afirma que estes últimos nunca
individual" teorizada por alguns intelectuais do blairismo, como Anthony
deixaram de expandir a intervenyáo e o volume dos recursos da burocracia.
Giddens. A partir daí, a solidariedade é concebida como um auxílio dirigi-
Na realidad e, o modo neoliberal de ayáo pública constitui muito mais urna
do aos "excluídos" do sistema, visando aos "bolsóes" de pobreza, segundo
virada na racionalizac;:áo burocrática do que um desengajamento do Estado.
uma visáo cristá e puritana. Esse auxílio dirigido a "populayóes específicas"
O que importa aos altos funcionários náo é necessariamente o aumento de
("pessoas com deficiencia'', "aposentadorias mínimas", "idosos", "máes sol-
impostas e o aumento do número de seus subordinados, como pensavam
teiras" etc.), para náo criar dependencia, deve ser acompanhado de esforc;:o
os economistas da "escolha racional". O que lhes interessa é o aumento de
pessoal e trabalho efetivo. Em outras palavras, a nova esquerda tomo u para
seu poder e de sua legitimidade, como m ostro u, aliás, Weber, o que pressu-
póe tornar-se adepto da "mudanya'', da "reforma'' ou até mesmo do "fim"
da burocracia de Estado, ao menos quando essa reorientayáo náo póe em 77 Houve muitos outros, entre os quais a política de Gerhard Schrüder e a grande alian~
questáo o domínio que eles exercem. entre direita e esquerda naAlemanha e, na Frans;a, o ~xito da política de abertura de
Nicolas Sarkozy a algumas "personalidades" do Partido Socialista, que mostraram a
que ponto o novo rumo ideol6gico decompós o arcabous;o intelectual e político da
social~democrada. ,
78
Para_u~a análise do "fasdnio" da esquerda norte~americana pela maneira de pensar
76 Bruno Jobert (org.), Le tournant néo-libéral en Europe: idées et recettes dans les pratiques da dtrelta, ver James K. Galbraith, The Predator State: How Conservatives Abandonned
gouvernementales (Paris, LHarmattan, 1994), p. 15. the Free Market and Why Liberals Should Too (Nova York, The ~ree Press, 2008).
234 " A nova razáo do mundo A grande virada " 23 5

si a matriz ideológica de seus oponentes tradicionais, abandonando o ideal Esse "quadro", objeto da "nova política da oferta da esquerda", opóe-se
da construyáo de direitos sociais para todos. aos "últimos vinte anos de.laissez-faire [em frano?s no texto] neoliber:al",
No entanto, náo conseguiríamos compreender o neoliberalismo de que sáo qualificado~ _~e "ultrapassados". Vemos aqui coino a interpretayáo
esquerda, essa nova forma política que sucedeu a~ocial-_democracia, se nos equivocada do neolibe.ralismo permite a construyáo de urna falsa oposiyáo
contentássemos em vé-la como urna simples adesáo a ideologia neoliberal. e compreendemos também que, com essa premissa, o manifesto desenvolve
Aliás, essa "esquerda moderna" se defende da acusayáo tomando distáncia na prática o conjunto da argumentayáo autenticamente neoliberal: custo
do que acredita ser o neoliberalismo, isto é, para ela, um puro e simples excessivamente elevado do trabalho, gastos públicos muito grandes, primazia
retorno ao !aissez-faire. Mas, embota ataque essa "ideologia selvagem" perigosa dos direitos sobre as obrigayóes e confianya excessiva na gestáo da
para distinguir-se da direita, ela aceita, assume e reproduz urna forma de economia pelo governo.
pensamento, urna maneira de apresentar os problemas e, com isso, um sis- Esse manifesto da esquerda moderna traduz particularmente bem o que
tema de respostas que constitui urna racionalidade abrangente, isto é, um chamamos aqui de "racionalidade neoliberal". Comeya questionando as
tipo de discurso normativo no qual toda a realidade é tornada inteligível velhas soluyóes da esquerda arcaica:
e pelo qual sáo prescritas como "evidentes por si mesmo" determinadas O desafio da justi~a.social era confundido ií.s vezes coma palavra de ordem
políticas. Em urna palavra, e talvez de forma paradoxal, nada manjfesta da igualdade de renda. A consequencia era a pouca aten~áo que se clava a
melhor a natureza da racionalidade neoliberal do que a evoluyáo das práti- recompensa pessoal pelo esfor~o e pela responsabilidade; além disso, havia o
cas dos governos que há trinta anos se dizem de esquerda, mas conduzem risco de que "social-democracia'' fosse associada a "conformidade e mediocri-
dade~', em vez d~ encarnar a criatividade, a diversidade e o bom desempenho.
urna política muito semelhante ada direita79 • Todo discurso "responsável",
"moderno" e "realista'', isto é, que participa dessa racionalidade, caracteriza-se É preciso, ao: contrário, reforyar a responsabilidade individual como
pela aceitayáo prévia da economia de mercado, das virtudes da concorréncia, princípio geral das políticas públicas: "Os sociais-democr~tas querem
das vantagens da globalizayáo dos mercados e das exigéncias inelutáveis da transformar a boia salva-vidas dos direitos sociais em um trampolim para
"modernizayáo" financeira e tecnológica. A prática disciplinar do neolibe- a responsabilidade individual", segundo a expressáo tipicamente blairista.
ralismo impós-se como um dado de fato, urna realidade diante da qual náo Também é preciso flexibilizar os mercados de trabalho:
se pode fazer nada, a náo ser adaptar-se. fu empresas devem ter margens de manobra suficientes para agir e apro-
O melhor exemplo dessa identificayáo é, sem dúvida, o "manifesto" veitar as oportunidades que se apresentam: náo devem ser entravadas por
assinado por Tony Blair e Gerhard Schroder em 1999, por ocasiáo das elei- um excesso de regras. Os mercados de trabalho, capital e bens devern ser
yóes europeias, e intitulado A terceira vía e O novo centro ( Ihe Ihird Uíáyl flexíveis: náo se pode aceitar rigidez num setor da economia e abertura e
Das neue Mitte). O objetivo da esquerda moderna, afiÚna-se ali, é oferecer dinamismo em outro. A adaptabilidade e a flexibilidade sáo vantagens cada
vez rnais rentáveis nurna economia baseada no conhecimento.
um quadro sólido para urna economia de mercado competitiva. A livre
competiyáo entre os agentes de produc;:áo e a livre traca sáo essenciais para É preciso ainda diminuir os impostas, em particular os que possam
estimular a produtividade e o crescimento. Por essa razáo, é necessário prejudicar a competitividade das empresas, e reduzir o papel do Estado:
dotar-se de um quadro que permita ií.s foryas do mercado funcionar conve-
O custo do trabalho estava senda sobrecarregado por encargos cada vez
nientemente~ isso é essencial para o crescimento económico e é condic;:áo
mais elevados. A crenya de que o Estado devia atacar todas as falhas ou as
prévia de urna política eficaz em prol do emprego.
!acunas do mercado levou muito frequentemente a urna ampliayáo des-
medida da missáo da administrayáo pública e a urna burocracia cada vez
79 Náo podemos esquecer, no entanto, que os partidos de esquerda foram atravessados maior. O equilíbrio entre as ac;:óes individuais e a ayáo cÜlo¡¡tiva foi rompido.
por Jutas incernas mais ou menos virulentas. É for~oso constatar que os opoSitores Valores importantes para os cidadáos- construyáo autónoma de si mesmo,
dessa orienw;:áo neoliberal ficaram na defensiva, sob a acusa~áo de serem partidários sucesso pessoal, espírito de empreendimento, responsabilidade individual e
da antiga gestáo administrativa, custosa, ineficaz e desmoralizante.
236 • A nova razáo do mundo A grande virada • 237

sentimento de pertencimento a urna comunidade- foram muito frequen- Esse manifesto nos permite compreender melhor a natureza do "realismo"
temente subordinados as garantias sociais universais. da esquerda moderna, cuj6 principal promotor na cena europeia foi Tony
Muito frequentemente, os direitos foram erguidos acima das obrigas:óes,
Blair. A característic~ mais importante do blairismo, desde que conquisto u
mas náo podemos jogar nossas responsabilidades, conosco, com a nossa
o Partido Trabalhista em 1994, é a retomada da herans:a thatcheriana, con-
família, com a nossa vizinhans:a o u ·com o conjunto da_ sociedade, sobre
o Estado e nos colocar inteiramente em suas máos. Se deixamos de lado o siderada náo urna política que se deveria derrubar, mas um fato consumado80 •
prindpio da obrigas:áo mútua, o sentimento de pertencimento coletivo Em A terceira via, livro escrito em conjunto, Anthony Giddens e Tony
enfraquece, as responsabilidades para coma família o u os vizinhos desapare- Blair teorizam essa virada. A missáo do New Labour, afirmam, é apresentar
cem, a delinquencia e o vandalismo aumentam, e o nosso aparato legal náo respostas de "centro-esquerda'' dentro do novo quadro imposto pelo neo-
pode mais se manter. A capacidade dos governos de regular com precisáo a
liberalismo, visto como um ·dado irreversível. A palavra mestra dessa linha
economia nacional, como intuito de favorecer o cresdmento e o emprego,
foi superestimada. A import:lncia das empresas e dos atores econ6micos na a
política é a adaptaráo dos indivíduos nova realidade, náo sua prote<;:áo
crias:áo de riquezas foi subestimada. Na verdade, exageramos as fraquezas do contra as vicissitudes de um capitalismo globalizado e financeirizado. A
mercado e subestimamos suas qualidades. "nova esquerda:' é aquela que aceita o quadro da globalizas:áo liberal e exalta
todas as oportunidades que podem ser tiradas disso para o benefício do
As propostas dessa nova política da oferta que deve substituir a polí-
cresdmento e da competitividade das economias 81 • O comissário europeu
tica ultrapassada da demanda, isto é, o -keynesianismo, repousam sobre o
para o Comércio, Peter Mandelson, apresenta urna formulas:áo muito clara
princípio geral da primazia da empresa privada na economia e sobre a
_do "consenso" quando elogia o "boom de abertura dos mercados" em todo
importancia dos "valores" que ela é capaz de difundir na sociedade. O que
O :tl.l;_Urrdo, o que, a seu ver, impede que se volte atrás em matéria de política
a
leva definis:áo de urna nova maneira de governar, mais moderna: "O
econümica e socilll, cOisa ·que náo ·seria possível nem, aliás, desejável, urna
Estado náo deve remar, mas mantero leme- apenas o estrito necessário de
vez que a prosperidade de todos depende dessa abertura econo'mica82 •
controle, esse é o desafio". O que significa que o combate ao crescimento
A esquerda moderna é também aquela que admite que a principal fonte
da administras:áo pública e dos gastos públicos torna-se prioridade nessa
de riqueza e crescimento, se náo a única, é a empresa privada, e conclui que,
nova política da oferta: "No setor público, a burocracia deve diminuir em
em todas as suas as:óes, o poder público deve promové-la e, no que diz res-
todos os níveis; metas de resultados Concretos devem ser formuladas; a
peito ao fornecimento de servis:os públicos, deve desenvolver parcerias com
qualidade dos serviyos públicos deve ser permanentemente avaliada, e os
desempenhos ruins, erradicados". Mas essa nova maneira de "pilotar" deve
apoiar-se em um "estado de espírito" e valores que náo tém mais nada que 80
Sobre esse ponto, ver a demonstras:áo de Keith Dixon, Un digne héritier: Blair et le
ver com os da velha esquerda: thatchérisme (Paris, Raisons d'Agir, 1999).
81
Para o pleno exito das novas políticas públicas, é necessário promover Tony Blair dá urna excelente definü;:áo numa entrevista: "Eu diria que as atividades
de um governo náo devem ter o objetivo de entravar a competis:áo entre as empresas
urna mentalidade de vencedor e um novo espírito de empreendimento
no mercado global. Isso náo é urna resposta apropriada e náo funcionará, porque
em todos níveis da sociedade. Isso requer: urna máo de obra competep.te e
o mercado nos domina. Se tentarmos proteger as empresas dos efeitos do mercado
bem formada, que queira assumir novas responsabilidades; um sistema de
global, o que acontece é que elas váo sobreviver alguns anos, depois váo desaparecer,
seguridade social que de urna nova chance, encorajando ao mesmo tempo
porque a pressáo da competis:áo global é tamanha que isso acontecerá necessariamen-
o espírito de iniciativa, a criatividade e o desejo de enfrentar novas desa:fios; te. Em compensayáo, o que se pode fazer é equipar essas empresas, assim como os
e um clima favorável aos empreendedores, sua independencia e seu espírito indivíduos que trabalham para elas, para que eles possam enfrentar os rigores desse
de iniciativa. É necessário fazer com que a cria\áO e a sobrevivencia das mercado global. Essa é, a me u ver, a terceira via". Citado em Philippe MarW:re, Essais
pequenas empresas sejam facilitadas; queremos urna sociedade que honre sur Tony Blair et le New Labour: la troisieme voie dans !'impasSe (Paris, Syllepse, 2003),
seus empresários, como faz com os artistas e os jogadores de futebol, e volte p. 97-8.
a valorizar a criatividade ero todos os domínios da vida. 82
Peter Mandelson, "Europe's Openness and the Politics ofGlohalisation", 7he Alcuin
Lecture, Cambridge, 8 fev. 2008.
238 * A nova razáo do mundo A grande virada .. 239

esse importante agente da econornia. Urna das prirneiras batalhas travadas Giddens resume a política da terceira via no slogan: "Náo há direitos sem
por Tony Blair foi a supressáo do Artigo 4 dos estatutos do Labour Parry-, responsabilidades", o que, :Segundo ele, significa que é preciso aumentar as
que se atribuía como objetivo a socializayáo dos rneios de produyáo. De fato, obrigayóes individuais no mercado de trabalho 85 • SegundO ele, o Estado é wn
o New Labour nunca voltou atrás na grande onda de privatizayóes realizada "investidor social" -q~e, m~is do que proteger, ajuda as pessoas a adaptar-se:
por Margaret Thatcher, envolvendo mais de qli~ent~ grandes empresas e Os sociais-democratas devem modificar a concepyao da relayao entre risco e
representando quase 1 milháo de assalariados, do rnesrno modo, aliás, que a seguranya que herdou do Estado de bem-estar e esforyar-se para desenvolver
"esquerda plural" na Franya, entre 1997 e 2002, náo suspendeu o processo urna sociedade de pessoas arrojadas e responsáveis, tanto na esfera do Estado
iniciado em meados dos anos 1980. quanto na gestao empresarial e no mercado de trabalho. 86
A concepyáo de sociedade e indivíduo que serve de apoio para essa polí- A cidadania náo é mais definida como participayáu ativa na definiyáo
tica é muito semelhante aque estrutura as orientayóes da direita neoliberal. de um bem comum próprio de urna comunidade política, mas corno urna
Primazia da concorrencia sobre a solidariedade, capacidade de aproveitar as mobilizayáo permanente de indivíduos que devem engajar-se em parcerias
oportunidades para ser bem-sucedido e responsabilidade individual sáo vistas e contratos de todos os tipos com empresas e associayóes para a produyáo
como os principais fundamentos da justiya social83 . A política da esquerda de bens locais que satisfac;:am os consumidores. A ayáo pública deve visar,
moderna deve ajudar os indivíduos aajudar a si mesmos, isto é, a "dar a volta acima de tuda, ainstaurayáo de condiyóes favoráveis aas:áo dos indivíduos,
por cima" numa cornpetiyáo geral que náo é questionada em si mesma. Isso orientac;:áo que teride a dissolver o Estado no conjunto dos produtores de
se traduz num discurso amparado na reintroduyáo das categorias típicas do . "bens públicos". Giddens define o papel da as:ao pública da seguinte maneira:
esquema concorrencial do vínculo social: o capital humano, a igualdade de
'<ó Estado náo ,.pode. mais se contentar em assegurar proteyao social. Deve
oportunidades, a responsabilidade individual etc., em detrimento de urna
assumir um papel mais amplo, mas também mais. flexível, de :t;egulador,
concepyáo alternativa do vínculo social que se basearia ern urna rnaior so- contribuindo para a criayáo de urna esfera pública eficiente e bens públicos
lidariedade e em objetivos de igualdade real. Foi, no fundo, partindo dessa satisfatórios. Ele nao é o único ator nesse domínio, muito pelo contrário.
concepyáo "arcaica" da sociedade defendida pela "velha'' esquerda que a Assim, a distribuiyao de géneros alimentícios a armazéns, supermercados
doutrina da "esquerda moderna'' se construiu. Jacques Delors, no prefácio etc. representa um bem público. Cabe ao Estado criar o marco de regulayáo
dessa atividade. 87
aediyáo francesa, resume bem o objetivo dos dais autores:
Os sociais-democratas adeptos da terceira via nao defendem mais a ideia de Ern que consiste exatamente essa "regulayáo" que deve levar a "boa''
que o cidadao deve ser protegido pelo Estado, alimentado, alojado e vestido sociedade, segundo os próprios termos de Giddens? Trata-se de fazer com
desde o nascimento até a morte, como dizia Hobhouse; ao contrário, seu que o indivíduo tenha sernpre a escolha de arbítrio entre produtos e servü;os.
objetivo é criar condic;:óes que permitam aos indivídubs alcanyar um alto Sern grande originalidade, o princípio da concorrencia deve ser universal,
nível de vida decente, grayas aos próprios esfon;:os. 84
inclusive para os serviyos públicos. A única diferenc;:a é que as normas que
os competidores devem seguir náo sáo definidas da mesma maneira e pelos
83
Michael Freeden, "True Blood or False Genealogy: New Labour and Brltish Social rnesrnos atores em todos os casos. Segundo Giddens,
Democratic Thought", em Andrew Gamble e Tony Wright (orgs.), 7he New Social
Democracy (Oxford, Blackwell, 1999), p. 163.
84 Tony Blair e Anthony Giddens, La troisieme voíe: le renouveau de la social-démocratie no lmbito dessa terceira via. Seu Livro Branco de 1993, publicado pela Comissáo
(Paris, Seuil, 2002), p. 10. Jacques Delors retoma os argumentos e o léxico dássico Europeia (Croissance, compétitivité, emploi) retoma suas grandes linhas.
dos adversários do welfarismo quando afirma que "as políticas tradicionais de prote):ao 85
Tony Blair e Anchony Giddens, La troisibne voie, cit., p. 78. ,
social geraram com frequénda urna cultura de dependéncia e irresponsabilidade"
86
(ibidem, p. 12). É inreressante notar- nem que seja para descartar as hi¡)ocrisias Ibidem, p. 111.
87
de um socialismo francés ou de urna consttu):áO europeia que teriam escapado por Anthony Giddens, Le nouveau modele européen (Paris, Hachette Littératures, 2007),
milagre das garras da racionalidade neoliberal- que Delors insere seu projeto europeu p. 147.
240 .. A nova razáo do mundo A grande virada ., 241

nos campos em que as foryas do mercado sáo exercidas livremente, pode- A do u trina da "terceira via'' expressa muito bem o aba.ndono dos pilares
damos dizer que o indivíduo se comporta como cidadáo-consumidor. As
fundamentais da social-democracia (e do trabalhismo). O Estado social
normas derivam principal e diretamcnte da concorréncia. Um televisor
e as políticas de redi_su:_i~u_iyáo de renda sáo concebidoS como obstáculos
de má qualidade, oferecido pelo mesmo preyo dos outros, náo terá urna
presenya muito langa no mercado. O papel do .Estado e das outras autori- ao crescimento, e náo mais como elementos centrais do compromisso
dades públicas limita-se a fiscalizar o quadro geral, impedindo a formayáo social. O New Labour prolongou e legitimou a crítica as políticas sociais
de monopólios e oferecendo meios de garantir os contratos. Nas esferas construídas sobre direitos e conquistas, exaltou o sucesso individual com
náo mercantis - o Estado e a sociedade civil -, o consumidor deveria ter tons moralizantes que Malthus ou Spencer náo teriam renegado94 . Obvia-
escolha. Mesmo que os prindpios reguladores do mercado tenham nisso
mente, o blairismo manteve certas diferenyas com relayáo apura ortodoxia
apenas uro papel menor. No setor público, por exemplo, o indivíduo deveria
poder escolher entre vários clínicos, escalas ou serviyos sociais. Entretanto, económica de tipo monetarista: implantayáo do salário -mínimo, políticas
as normas náo podern ser garantidas pela concorréncia como acorre Ik'l oryamentárias anticíclicas, reinvestimento nos serviyos públicos de saúde e
esfera do mercado. Elas devem ser fiscalizadas diretamente por profissionais educayáo coro a ajuda do setor privado. No entanto, a verdade é que, por
e autoridades públicas. Digamos que, nessas esferas, o indivíduo seja um mais inegáveis que sejam, essas diferenyas políticas inserem-se num mesmo
consumidor-cidadáo - ele tem o direito de esperar que as normas sejarn
quadro fundamental: o da racionalidade política e das práticas disciplinares
rigorosamente aplicadas por urna aut9ridade externa. 88
características do neoliberalismo.
Giddens retoma a argumentayáo dos teóricos da Escala do Public Choice A propósito do New Labour, Keith Dixon fala de um "neoliberalismo de
e da "nova gestáo pública'' 89 . Contra o egoísmo dos funcionários públicos, _s_egunda gerayáo" 95 . Se deixarmos de lado a ideia de que o neoliberalismo
"é preciso encorajar diversidade de fornecedores e criar estímulos eficazes" sigfJ;ifica a retirad~ do Est~~o, podemos distingUir no ativismo reformador
em todos os domínios, em particular na saúde e na educayáo90 • Criayáo e centralizador d6 blairismo essa -dimensáo estruturante da nova forma de
de concorrencia e obrigayáo de escolha sáo os caminhos da reforma do governo dos indivíduos 96 • É exatamente o que mostram certos 'analistas da
Estado: ''A possibilidade de escolha e, mais em geral, o reconhecimento política do New Labour quando tentam fazer seu balans:o:
de um maior poder do usuário contribuem para estimular a eficiencia e o O programa de reformas foi realizado com a mobilizayao e o desenvolvi-
controle dos custos" 91 , porque levam o prestador a melhorar o serviyo 92 ; "os mento das capacidades de controle e direyáo do governo. Prosseguindo e
sociais-democratas devem inspirar-se na crítica que dizque as instituiyóes adaptando o quadro legado pelos conservadores, modernizando a heranya
públicas, náo usufruindo da disciplina do mercado, tornam-se preguiyosas
e seus serviyos acabam senda de má qualidade" 93 • 94
Florence Faucher-King e Patrick Le Gales sublinham bem: "O New Labour adora urna
visáo que valoriza os ganhadores, os empreendedores (seja qual for sua cor, origem,
88
Ibídem, p. 158-9. Note-se de passagem que a expressáo "fiscalizar o quadro geral" é idade), a seguranya dos bens e das pessoas; os desafios da integras;áo na sodedade,
de inspirayáo ordoliberal. da redistribuiyáo ou do discurso da solidariedade, do espayo público, sáo deixados
89
Ibidem, p. 163. Sobre a "nova gestáo pública'', ver capítulo 8 deste vol~me. de lado". Ver Tony Blair, 1997-2007(Paris, Presses de Sdences Po, 2007), p. 18.
95
90
Giddens toma como exemplo a privatizayáo das escalas na Suécia e os cheques- Keith Dixon, Un abécédaire du blairisme (Bellecombe-en-Bauges, Le Croquant,
2005), p. 15.
-educayáo nos Estados Unidos (ibidem, p. 166-7).
96
91
Ibidem, p. 165-6. Encontramos sua manifestayáo na forma faladosa do "nem isso nem aquilo", que
92
náo dá razáo nem ao laissezjaire nem ao amigo compromisso social-democrata.
lbidem, p. 165. Giddens pretendia distinguir o que chama de "democratizayáo do co-
Blair fonnulava a situayáo da seguinte maneira, antes de subir ao poder: "Se rejeito
tidiano", que refon;a o poder do usuário, e o puro e simples "consumismo" neoliberal.
o rompan te de laissez-faire dos que dizem que o governo náo tero nenhum papel a
Mas náo está claro o que os distingue. Por exemplo, em matéria de ensino médio e
desempenhar, rejeito também o retorno a um modelo de Estado corporativista, que
superior, Giddens manifesta o novo consenso entre a esquerda moderna e a nova direita
já teve sua época. O papel do governo náo é o de grande comendador da economia,
de que os universitários financiem eles próprios seus es rudos, recorren do a empré>timos.
mas de companheiro de estrada''. Ver Tony Blair, La nouvelle Grande-Bretagne: vers
93
Anthony Giddens citado em Keith Dixon, Un digne héritier, cit., p. 77. une société de partenaires (La Tour-d'Aigues, LAube, 1996), p. 101.
242 ° A nova razáo do mundo A grande virada "' 243

utilitarista (náo existe confian<ya nasociedade), os neotrabalhistas reformaram "adaptas:ao a globalizas:ao". No decorrer desse período de maturidade, os
sistematicamente o governo e seus modos de opera<fáo. Os governos Blair amigos opositores tiveram de abjurar grande parte de sua velha crítica_ao
intensificaram macis:amente a centralizas:áo da Grá-Bretanha, deixando
capitalismo; tiveram fi_fl:~_!mente de reconhecer a "economia de mercado"
mais autonomia aos indivíduos e as organizas:óes no interior de um sistema
de coers:óes e controles refors:ados, um sistema de_~'condura das condutas", como o meio mais eficaz de coordenas:ao das atividades econ6micas. Em
diria Michel Foucault, que nem sempre escapa a um desvio burocrático o u resumo, a grande vitória ideológica do neo liberalismo consistiu em "desideo-
até mesmo autoritário. 97 logizar" as políticas seguidas, a ponto de nao serem sequer objeto de debate.
Ternos aqui urna das causas do completo desmoronamento doutrinal da
Portanto, aquilo que as vezes é chamada impropriarnente de "conversao
esquerda ao longo dos anos 1990. Se admitimos que os dispositivos práticos
neoliberal da esquerdi' náo pode ser explicado apenas pelas campanhas
da gestao neoliberal dos indivíduos sáo os únkos eficazes, ou mesmo os
ideológicas da direita ou pela capacidade de persuasao desta última. Essa
únicos possíveis, ou em todo caso os únicos que conseguimos imaginar, é
conversáo é mais fundamentalmente explicada pela difusáo de urna racio-
difícil ver como é possível opor-se aos princípios que os fundamentam (a
nalidade global que funciona como urna evidencia amplamente comparti-
hipótese das escolhas racionais, por exemplo) ou questionar efetivamente
lhada, que é da ordem nao de urna lógica de partido, mas de urna técnica
os resultados a que chegam (urna maior exposiyáo aconcorrencia e aos "aci-
de governo dos homens supostamente neutra do ponto de vista ideológico.
dentes" da conjuntura mundial). Náo resta nada além da lógica da persuasao
O mais importante nao é tanto o triunfo da vulgata neoliberal, mas a
retórica, que consiste em denunciar em alto e bom som o que se aceita a
maneira como o neoliberalismo é traduzido ern políticas concretas, as quais
~eia-voz. Foi o que as autoridades de esquerda mais "hábeis" souberam
afinal é subrnetida urna parte da populac;:ao assalariada, e esta as vezes até
fazer, quando nece~sário 98 • Mais ainda, o neoliberalismo político, tal como
as aceita, mesmo quando essas políticas visam explicitarnente ao retrocesso
se desenvolveu, te-\re conse.ciuencias· importantes nas condutas efetivas dos
de direitos adquiridos, de solid~riedade entre grupos e entre gerac;:óes, e
indivíduos, incitando-os a "cuidar deles mesmos", a nao contar inais co'm a
levam grande parte dos sujeitos sociais a dificuldades e ameayas crescentes,
solidariedade coletiva e a calcular e maximizar seus interesses, perseguindo
inserindo-os sistemática e explícitamente numa lógica de "riscos". O neoli-
lógicas mais individuais nwn contexto de concorrencia mais radical entre
beralismo é muito mais do que urna ideo logia partidária. A.liás, em geral as
eles. Em outras palavras, a estratégia neoliberal consistiu e ainda consiste
autoridades políticas que adotam as práticas neoliberais recusam-se a admitir
em orientar sistematicamente a condura dos indivíduos como se estes esti-
qualquer ideología. O neoliberalismo, quando inspira políticas concretas,
vessem sempre e em toda a parte comprometidos com relayóes de transac;:ao
nega-se como ideología, porque ele é a própria razáo.
e concorrencia no mercado.
Assim, políticas muito semelhantes podem moldar-se nas mais diversas
retóricas (conservadoras, tradicionalistas, modernistas, republicanas, confor-
me a situac;:ao e o caso), manifestando desse modo sua extrema plasticidade.
Dito de outra maneira, a dogmática neo liberal apresenta-se como urna prag-
mática geral, indiferente as origens partidárias. A modernidade o u a eficácia
náo sáo nem de direita nem de esquerda, segundo dizem os que "nao fazem
política''. O essencial é que "funciona'', como dizia com frequencia Tony
Blair. É isso tarnbém que nos permite avaliar as diferenc;:as entre o período
militante do neoliberalismo político de Thatcher e Reagan e' o período
gestionário, no qual se trata apenas de "boa governanya'', "boas práticas" e
98
A Franc;:a "socialista'' de Mitterrand mergulhou num banho retórico extremamente
hostil ao neoliberalismo, embora, muito antes do blairismo, já tiv6se adorado diversos
97 Florence Faucher-King e Patrick Le Gales, Tony Blair, 1337-2007, cit., p. 16. dos métodos neoliberais.
7
&e; ORIGENS ORDOLIBERATS DA
CONSTRUQAO DA EUROPA

Agrande virada mundial que ocorreu nos anos 1980 e 1990 seguiu a po-
derosa onda conservadora que veio da Grá-Bretanha e dos Estados Unidos.
Como consequencia, surgí u urna espécie de lenda encantada da construyáo
europeia vista com'o bastiáo contra o "ultraliberalismo" anglo-saxáo. Essa
(urna_ das cantilenas do neoliberalismo de esquerda. A história é muito
miis complexa, n.ienos linear e, ao_mesmo tempo, _menos maniqueísta. Na
realidade, como mostram com toda razáo os universitários norte.americanos
do coletivo Retort, "a noyáo de urna Europa politicamente aut6noma, de
urna Europa que se opóe a 'barbárie' norte-americana e ocupa Um lugar
relativamente positivo no capital e na modernidade é largamente ilusória".
Mirando-se em urna "imagem que se satisfaz a si mesrna" com urna pre-
tensa "excecráo" europeia, "a esquerda abandona qualquer possibilidade de
resisténcia real" 1• Porque, se é verdade que essa construcráo da Europa é
fruto de várias tradicróes, entre as quais a poderosa tradiyao da democracia
cristá, ela está ligada tarnbém a urna das rnais antigas estratégias neoliberais,
cujos principais fundamentos teóricos forarn vistos nos capítulos anteriores,
quando analisamos o ordoliberalismo. Essa estratégia original, que coro
frequéncia náo é reconhecida como tal, é anterior a difusáo da ideologia
a
neoliberal nos anos 1970 e crise de regulayáo do capitalismo fordista.
O neoliberalismo europeu náo esperou seu triunfo no plano das ideias
para progressivamente institucionalizar-se, grayas· a políticas conduzidas
com um grande espírito de continuidade. A construyao jurídica e política

1 Retort, "Note aux lecteurs de la traduction fran~aise", em Des ímages et des bombes:
politique du spectacle et néolibéralisme mílítaire (trad. Rémy Toulouse e Nicolas
Vieillescazes, Paris, Les Prairies Ordinaires, 2008), p. 8-9.
246 ~ A nova razáo do mundo k origens ordoliberais da constrw;:áo da Europa o 247

de um mercado concorrencial ocorreu pouco a pouco, enquanto conti- económica: "O encorajamento que a Corte deu a Coqlissáo a propósito
nuava a predominar certa racionalidade administrativa e burocrática e, ria da determinayáo por esta última das condiyóes de integrayáo do mercado
prática, prevalecia o intervencionismo keynesiano o u, como na Fran<;a, as conferiu urna nan~r~~~ g~ase constitucional as regras de concorréncia do
diferentes formas de "colbertismo". Náo se trata em absoluto de transfor- tratado", ressalta a OCDE5
mar a Europa em um laboratório de urna exP~rién¿ia neoliberal que em Esse neoliberalismo político náo surgiu do nada. O ordoliberalismo cons-
seguida teria contagiado o resto do mundo; trata-se simplesmente de dar tituiu a parte mais importante do fundamento doutrinal da atual construyáo
o devido lugar a lógica ordoliberal, que desde muito cedo orientou certo europeia, antes mesmo de ela ser sub metida anova racionalidade mundial.
rumo a constrw;:áo europeia. Como notava em 1967 um observador dos Para os neoliberais europeus declarados, a filiayáo entre o·ordoliberalismo
primeiros passos dessa constrw;:áo, "o concorrencialismo está substituindo e o espírito que governou a implanta<;áo do Mercado Comum Europeu e,
o liberalismo de antigamente". Essa é, acrescentava, a "ideia de base do depois, da Uniáo Europeia náo deixa margem a dúvida. Essa filiayáo é até
neoliberalismo contemporáneo" 2• reivindicada por alguns deles. Um dos testemunhos mais convincentes a
A constrw;:áo do "mercado comum" na Europa é um exemplo parti- esse respeito é a conferéncia de Frits Bolkestein no Walter Eucken lnstitut
cularmente interessante da implantayáo desse "concorrencialismo" neoli- em Freiburg, em 10 de julho de 2000. O orador, que se apresentava na
beral. O Tratado da Comunidade Europeia do Carváo e do A<;o (Ceca) época como o "responsável pelo mercado interno e pelo sistema fiscal" da
em 1951 e, depois, o Tratado de Roma em1957 comeyaram a instaurar Comissáo Europeia, deu o seguinte título a sua conferénda: "Construindo a
regras estritas para evitar que a concorréncia fosse desvirtuada por práticas · Europa liberal do século XXI"'. Depois de lembrar o papel dos ordoliberais
discriminatórias, abusos de posiyáo dominante e subsídios governamentais. napolítica económica
:
e monetária
' ,
da República Federal daAlemanha (RFA)
A partir de entáo, a Comissáo Europeia, fortemente amparada na Corte e, mais particulai-mente, o papel eminente de Walter Eucken na doutrina,
de Justiya Europeia, elaborou um conjunto de instrumentos que, segun- Bolkestein afirmava:
do um relatório da Organizayáo para a Cooperayáo e Desenvolvimento Nwna visáo da Europa do futuro, a ideia de liberdade, como era defendida
Económico, formo u a base de urna verdadeira "constituiyáo económica'' 3 . por Eucken, deve seguramente ocupar urna posi<;:áo central. Na prática eu-
Essa política da concorréncia, que continuou a ampliar-se e aprofundar- ropeia, essa ideia é concretizada pelas quatro liberdades do mercado interno,
-se\ é considerada, aliás, urna das alavancas mais poderosas da integrayáo a saber: a livre circulac;:áo de pessoas, bens, servic;:os e capitais.

E acrescentava:
2 Louis Franck, La libre concurrence (París, PUF, 1967). Franck especificava: ''Admite-
-se a partir de agora que as interven~óes públicas sáo necyssárias para a preserva~io
de certas formas de livre concord~ncia, que essa livre concorréncia nio faz parte ou em controlar as condi~óes de concorréncia no setor privado, a partir dos anos 1980 a
náo faz mais parte da natureza das coisas, que as no~óes de livre concorréncia e de Cornissio e a Corte come~aram a atacar os rnonopólios das empresas públicas no setor
laissezjaire devem ser dissociadas- esse é, como sabernos, um dos ensinamentos do das telecomunicayóes. Em 1988, a Comissio, generalizando seus objetivos de luta contra
novo liberalismo, mas, em rela~io aescala clássica, ele é wn poúco revolucionário" as distorc;:óes da concorréncia, iniciou seu longo combate a favor da liberalizas:áo dos
(ibidem, p. 7). servic;:os públicos por urna diretiva que visa a eliminar todos os monopólios públicos
3 OCDE, Droit et politique de la concurrence en l'Union Européenne (Paris, OCDE, que violem o direito de concorrénda. Energía, transpones, seguros, servi~os postais,
2005), p. 12. radiodifusáo: sáo vastos os domínios ern que as empresas públicas sio intimadas a
alinhar-se ao direito de concorrénda que se aplica ao setor privado.
4 A concorréncia livre e nio desvirtuada, vista como wn rneio de eficácia económica,
5
fundamenta a legitimidade das diretivas extremamente normativas e a jurisprudéncia OCDE, Droit et politique de la concurrence en l'Union Européenne, cit., p. 12.
das institui~óes europeias. k normas jurídicas definidas pelaDim;:áo Geral da Concor- 6
Bolkestein é urn político holandés, líder do Partido Popular '(liberal) durante anos,
réncia, sustentadas pela jurisprudéncia da Corte de Justi~a, correspondem a'objetivos presidente da Internacional Liberal de Londres entre 1996 e 1999, autor da diretiva
económicos de bem-estar e competitividade. Sobre esse ponto, a Comissio continuou sobre "Servis:os", elaborada por ele durante seu mandato na Comissio Europeia,
absolutamente fiel ao programa neoliberal. Empenhando-se num primeiro momento entre 1999 e 2004.
248 "' A nova razáo do mundo As otigens ordoliberais da constrw;:io da Europa .. 249

De fato, está claro que ainda resta muito a fazer para que essas liberdades portanto, é transmitir, por meio de seu trabalho, os valores fundadores da
sejam garantidas. A Comissáo Europeia e o Conselho tém consciéncia desse sociedade livre ou, em todo caso, combater as ideias que visam a pór em
desafio e o assumiram, adotando um programa ambicioso de desregula- risco esse tipo de sociedade".
mentayáo e flexibilizayáo resumido na ata final da conferéncia de cúpula
Bolkestein náo escoridia que, para ele, a construyáo da Europa era desde
de Lisboa, realizada em maryo. A im¡}lantayáo do- -conjunto de medidas
propostas em Lisboa representará um progresso considerável na realizayáo o princípio um projete antissocialista ou, até mesmo, um projeto voltado
de urna Europa em conformidade com as ideias "ordoliberais". contra o Estado social. Lembrava que, "para Eucken, o sodalismo era urna
visáo do horror, um modelo náo só ineficaz, mas também, e sobretudo, de
A continuayáo é ainda mais explícita:
falta de liberdade".
O ambicioso pro jeto de uniáo econ6mica e monetária é, sob esse aspecto, A "Europa liberal", portante, é um programa claramente desenhado,
um desafio particular. Esse projeto tem náo apenas o objetivo de fortalecer como Bolkestein teve o grande mérito de lembrar. Também estava certo ao
as liberdades do cidadáo, como também constitui um dos principais ins-
sublinhar que essa construc;áo se inseria na linhagem do ordoliberalismo
trumentos políticos que permitiráo a estabilizayáo da enorme economia de
mercado que é a Europa. Portanto, por essa razáo, ele é puro produto do a
alemáo, indo de encontro, portante, ideia de que a Europa encarna um
pensamento "ordoliberal". a
"modelo social" contrário globalizayáo "ultraliberal" dos anglo-saxóes.
A confusáo, largamente intencional, diz respeito ao sentido da expressáo
Bolkestein detalhava o programa de reformas que deveria permitir a tea-
tipicamente ordoliberal "econornia social de mercado", dada por muitos
lizayáo integral dessa Europa "ordoliberal". Quatro pontos eram destacados.
co~o sinónimo de "Europa social'·'. Nwna entrevista de 2005, quando
1) A flexibilizayáo de salários e preyos mediante a reforma do mercado
perguD:tado por um j9fnalista "como o novo tratado permitirá que se lute
de trabalho: "É absolutamente necessário avanc;ar no campo da flexibilizayáo
contra ~s pervers6es do merc<idü?", Jacques Delors deu a seguinte resposta:
do mercado de emprego"; "um de nossos principais desafios, portanto, é
melhorar a flexibilidade do mercado de trabalho e do mercado de capitais". Em 1957, os países europeus consideraram que tinham um mercado co-
mum: eles aumentariam a eficácia e a solidariedade entre eles. Náo foi fácil
2) A reforma do sistema de aposentadorias mediante o estímulo a fazer isso. Sáo esses mesmos prindpios que sáo retomados pelo tratado.
poupanya individual: "Se quisermos evitar a detonayáo da bomba-relógio Ele náo é inovador nesse sentido. O que é novo é o progresso espetacular
que sáo as aposentadorias, é urgente enfrentarmos seriamente a reforma das fon;:as políticas que rejeitam a intervenyáo do Estado e das instituiy6es
da legislayáo sobre as aposentadorias. Os fundos de pensáo devem poder para equilibrar as foryas do mercado. Em nome de um monetarismo que
aproveitar as novas possibilidades de investimento oferecidas pelo euro". sempre combati, rejeita-se o reequilíbrio entre o económico e o monetário
[... ]. O tratado náo resolve isso. Ele dá as foryas políticas a possibilidade
3) A promoc;áo do espírito de empreendimento: "Os europeus parecem
de seguirem numa direyáo ou noutra. Sem o tratado, dispomos de menos
dar mostras de pouco espírito de empreendimento. O pr:oblema da Europa trunfos para defender os interesses legítimos da Franya e seguir na direyáo
náo é tanto a falta de capital de risco para o lanyamento de novos pro jetos dessa economia social de mercado, renovada, que é urna resposta aglobalizayáo
de negócios. Dinheiro náo falta. Em cornpensayáo, pouquíssirnas pessoas e ao poder financeiro.Y
estáo dispostas a criar sua própria empresa. Portante, as reformas estruturais
Essa resposta é bastante característica de certa leitura da história europeia
devem vir acompanhadas de urna mudanya de rnentalidade no cidadáo".
que tende a ocultar o fato de que essa "economia social de mercado" era a
4) A defesa do ideal de civilizas:áo de urna sociedade livre contra o
fórmula do neoliberalismo alemáo antes de se tornar a do neoliberalisrno
"niilismo": "O relativismo moral e epistemológico dessa corrente ameaya
europeu. Jacques Delors náo é o único a alimentar e:Ssa ocultayáo. Quase
os valores essenciais do projeto liberal, como o espírite crítico e racional e a
todos os partidários do Tratado Constitucional Europeu (TCE) defenderarn
crens:a na dignidade fundamental do indivíduo livre"; "o advento da Europa
interpretayóes semelhantes. Jacques Chirac, numa coluna publicada por
liberal de arnanhá pode ser abalado pela educas:áo que se dá hoje aos jovens
europeus nas escalas e nas universidades [...].A tarefa dos universitários,
7 Jacques Delors, "E11trevista", Nord-ÉC!air, 14 maio 2005; grifo nosso.
250 '" A nova razáo do mundo As origens ordoliberais da constrm;:áo da Europa e 251

26 jornais europeas as vésperas da cúpula de Hampton Court, em 27 de proibindo todas as práticas que possam desvirtuar a concorréncia no mer-
outubro de 2005, declarava que o modelo da Europa "é a economia social cado interno, assim como todas aquelas que sejam consideradas abuso de
de mercado. Seu contrato é a alianya entre a liberdade e a solidariedade, posi~áo dominante. O Artigo III-167 proíbe, mais especialmente, ajudas
é o poder público garantindo o interesse geral". E continuava: "Por isso a do Estado que poss-aill_-dlstorcer a concorréncia.
Franya jamais aceitará ver a Europa reduzida a -urna Simples zona de livre A estabilidade da moeda é o segundo princípio decisivo. Na Parte I, título
troca'', "por isso devemos relanyar o projeto de urna Europa política e social, III, sobre "As competéncias da Uniáo", encontramos no Artigo 29 a definiyáo
fundada sobre o princípio da solidariedade". das miss6es e do estatuto do Banco Central Europea. O parágrafo 2 declara:
Essas poucas citayóes ressaltam a necessidade de um esclarecimento, O Sistema Europeu de Bancos Centrais é dirigido pelos órgáos de decisao
tanto a respeito das fontes do neoliberalismo europeu como dos caminhos do Banco Central Europeu. O objetivo principal do Sistema Europeu de
pelos quais ele se imp6s. Bancos Centrais é manter_ a estabilidade dos preyos. Sem prejuízo do
objetivo de estabilidade dos preyos, dá seu apoio as políticas econ6micas
gerais na Uniáo como intuito de contribuir para a realizas:áo dos objetivos
Arqueologia dos princípios do Tratado Constitucional Europeu da Uniao.

Reporteroo-nos um breve instante -a "Constituiyáo Europeia", em cuja E o parágrafo 3 .especifica:


elaborayáo os partidos liberais e democratas cristáos europeas tiveram O Banco Central Europeu é urna instituiyáo dotada de personalidade ju-
papel fundamental. A campanha referendária que ocorreu na Franya em rídica. É o único apto a autorizar a emissáo do euro. No exercício de seus
,. poderes e ero sq_as finanyas, ele é independente. _& institui<;:óes e os órgáos
2005 levantou o problema da "constitucionalizayáo" de cenas orientayóes
.li:i Uniáo, bem.:'Como os governos ~os Estados-mem~ros, comprometem-se
de política económica: o monetarismo do Banco Central Europeu (BCE),
a respeitar esse princípio.
a concorréncia como princípio da atividade económica e o papel reduzido
e secundário dos "serviyos económicos de interesse geral". Essas opyóes le- Esses princípios náo sáo novos. Em 1992, ao criar a Uniáo Europeia, o
vantavam a questáo da natureza da "economia social de mercado", fórmula Tratado de Maastricht já introduzia pelo Artigo 3 o objetivo de um "regime
oficial de referéncia da nova constituiyáo para toda a Uniáo. que assegura que a concorrencia náo seja desvirtuada no mercado interno";
O tratado, que após urna revisáo sumária em 2007 se tornará o Tratado pelo Artigo 3A, que náo era secundário, estabelecia como objetivo a "ins-
de Lisboa, continha urna série de princípios fundamentais a respeito da taurayáo de urna política económica fundamentada na estreita coordenayáo
natureza da economia europeia, prindpios esses que eram apresentados das políticas económicas dos Estados-membros, no mercado interno e na
na Parte III. Em especial, a partir do Artigo 3, havia urna formulayJ.o do definiyáo de objetivos comuns", conduzida em conformidade como respeito
objetivo que se deveria perseguir, supostamente cla'ro para todos: "Urna ao prindpio de urna "economia de mercado aberra, na qual a con correncia
economia social de mercado altamente competitiva''. Toda a política eco- é livre". Essa última frase, que foi utilizada depois como um verdadeiro
nómica definida na Parte III visa a organizar a Europa em torno de alguns slogan, é repetida inúmeras vezes no Tratado de Maastricht, como o será
prindpios fundamentais de urna "economia de mercado aberta, "na qual a também no Tratado Constitucional.
concorréncia é livre", como repetem constantemente as partes e os artigos No entanto, o Tratado de Maastricht está inserido numa lógica mais
da Constituiyáo. Esta consagra os dois pilares dessa "economia social de antiga. O Tratado de Roma de 1957 afirmava a necessidade do "estabeleci-
mercado": o princípio supremo da concorrénda nas atividades económicas mento de um regime que assegura que a con correncia náo seja desvirtuada
e a estabilidade de preyos, garantida por um Banco Central independente. no mercado comum" (I-3). O Artigo 29 especificava que-a Comissáo seguia
A Uniáo dispóe, assim, de urna competéncia exclusiva para o "esqheleci- a "evoluyáo das condiyóes de concorrencia no interio-r da Comunidade, na
mento das regras de concorréncia necessárias ao funcionamento do mercado medida em que essa evoluyáo tivef como efeito o aumento da forya com-
interno" (Artigo I-13). Os artigos III-162 e Ill-163 aplicarn esse princípio petitiva das empresas".
252 " A nova razáo do mundo As origens ordoliberais da constrw;:áo da Europa " 253

a
A terceira parte, dedicada política da Comunidade, definia com cuidado A partir de 1957, a lógica de "constitucionalizayáo" da economia social de
as "regras da concorréncia''. Lia-se no Artigo 85: mercado torno u-se cada vez ·mais patente. Assim, ficou vÍsível que a linha
Sáo incompatíveis com o mercado comum e proibidos todos os acordos de fors:a principal da construs:áo europeia náo era a cooperayáo setorial nem
entre empresas, todas as decisóes de associayóes de empresas e todas as a organizayáo de políticas específicas, mas a integrayáo dos princípios fun-
práticas concertadas que possam afetar o comérci6 entr¿Estados-membros damentais da economia social de mercado ao direito constitucional 10 • Sob
e tenham por objeto ou consequencia impedir, restringir ou desvirtuar o esse aspecto, o TCE representa o apogeu de um lento movimento a favor
jogo da concorrencia no interior do mercado comum.
de urna norma econümica suprema vista como um componente essencial
O Artigo 86 desenhava a imagem de urna economia de concorréncia da constituiyáo política no sentido mais amplo do termo.
sem monopólios privados ou públicos: Essa "constitucionalizayáo" das liberdades econümicas corresponde muito

É incompatível coro o mercado comum e proibido, na medida em que o


a
amplamente realizayáo dos princípios fundamentais do ordoliberalismo
comércio entre Estados-membros possa ser afetado, o fato de urna o u várias como foram definidos entre 1932 e 1945 e, de modo mais geral, do neoli-
empresas explorarem de forma abusiva urna posiyáo dominante no mercado beralismo europea 11 • Foi com plena consciéncia que parte das autoridades
comum o u em parte substancial deste último. políticas e dos economistas de inspirayáo liberal, em especial na Franya e na
Eram proibidos, na mesma ocasiáo,-as práticas de dumping e os auxílios ltália, encorajaram essa construyáo, a qual eles viam como a implementayáo
de Estado. O Artigo 92 indicava: dos prindpios do concorrencialismo. O caso de Jacques Rueff, sobre cujo
papel na contestayáo das políticas intervencionistas de tipo keynesiano
Salvo derrogayóes previstas pelo presente tratado, sáo incompatíveis como
ÉalilJ!l-OS· antes, é muito esclarecedor a esse respeito.
mercado comum, na medida em que afetam as tracas entre Estados-mem-
bros, as ajudas concedidas pelos Estados ou por intermédio de recursos de :Em 1958, Rueff niostiava qll-e o Tratado de Roma, assinado meses
Estado sob qualquer forma que seja, que desvirtuem ou ameacem desvirtuar antes, tinha a particularidade de criar um "mercado institucional", que
a concorrencia, favorecendo certas empresas o u certas produyóes. deveria ser cuidadosamente distinguido do "mercado manchesteriano".
Embora esse mercado institucional possuísse as mesmas qualidades de
O Tratado de Roma, instituindo uma Comunidade Econümica Europeia
equilíbrio do outro, e "embora fosse também urna zona de 'laissez-passer',
(CEE), já continha o essencial da do u trina da consttu~áo europeia. Ern 1957,
ele náo era urna zona de 'laissezjaire"' 12 • O poder público era convidado a
as liberdades eco nO micas fundamentais (as "quatro liberdades de circulayáo
de pessoas, mercadorias, serviyos e capitais") ganham um valor constitucio-
nal, reconhecido como tal pela Corte Europeia de Justiya, enquanto direitos o fim dessa abordagem monolítica e diversifica a ambiyáo da Comunidade Europeia:
fundamentais dos cidadáos europeus8 • O que é confi~mado pelo TCE em além dos direitos sociais dos cidadáos, ele consagra o modelo europeu de sociedade,
ten do em seu centro o modelo de justir;a social- a 'economia social de mercado', aqual
seus numerosos artigos sobre os "princípios de urna economia de. mercado
somos táo apegados" ("Il faut ratifier le Traité'', Le Monde, 3 jul. 2004).
aberta na qual a concorréncia é livre" 9 • 10
Aliás, isso é perfeitamente reconhecido por especialistas que defendem alegitimidade
e a necessidade dessa "constitucionalizaqáo". Francesco Martucci escreveu a respeito
8
Ver Laurence Simonin, "Ordolibéralisme et intégration économique européenne", do que chamou de "constituiqáo económica europeia'': ''A Comunidade Europeia
Revue d'Allemagne et des Pays de Langue Allemande, v. 33, n. 1, 2001, p. 66. dispóe de urna constituiyáo económica fundamentada numa economia de mercado",
e detalha seus objetivos, instrumentos e prindpios ("La Constitution Européenne
Os socialistas franceses favoráveis a ratifica~o, cuja prática de negayáo da realidade
est-elle libérale?", La Lettre, Supplément, Fondation Roben Schuman, n. 208, 25
foi particularmente visível no episódio do referencia, defendiam ao contrário que esse
abr. 2005; disponfvel em: <www.robert-schuman.eu/fr/supplements-lettre/0208-la-
tratado marcava o fim do "tudo é econOmico", mostrando com isso a que ponto náo
constitution-europeenne-est-elle-liberale>; acesso em: 28 fev. 2"016).
entendiam, o u náo queriam entender, a lógica "ordoliberal" do processo em andamento.
11
Assim, para citarmos apenas um exemplo, Dominique Strauss-Kahn e Bertrand Delanoe Ver o capítulo 3 deste volume.
11
escreveram numa coluna do jornal Le Monde: "Até aqui, a história da Uniáo Europeia Jacques Rueff, "Le marché institutionnel des communautés européennes", Revue
foi largamente escrita em torno da constrw;:áo econbmica. [...] O novo tratado marca d'Économie Politique, jan.-fev. 1958, p. 7.
254 ~ A nova razáo do mundo k origens ordoliberais da constru~áo da Europa '" 255

intervir para proteger o mercado contra os "interesses privados", que rapi- liberal, tomou progressivamente consciencia de suas aspirayóes e seus mé-
damente teriam tratado de criar acordes e control